PARAMEL
Uma conversa de finge entre pessoas de verdade



      Junho de 1996 – aniversário da Mel
Esta estória, minha filha, é para você nos seus sete anos. Eu
aqui tomo a liberdade de usar como ponto de partida sua pergunta
de uns tempos atrás e inventar essa conversa entre eu e você. Foi
assim que começou: um dia você estava muito chateada com um
monte de coisas. Disse para mim que nem queria ir à escola porque
sentia que algo de ruim iria acontecer. Alguém iria te aborrecer,
fazendo brincadeiras que você não gosta ou, pior, poderia
acontecer de você ficar de for a das brincadeiras com suas amigas
queridas. Ficar isolada é uma coisa ruim, que deixa você muito
triste.




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Você pensou, pensou, e descobriu que a sensação que você
tinha vinha das coisas que andavam acontecendo recentemente. Aí
você disse assim:
-   Eu não queria ter a idade que eu tenho. Acho essa idade muito
    ruim, tem muitos problemas.
-   Eu sei. Só não lembro como era, mas sei que são sérios para
    quem está nessa idade.
-   Eu queria ser adolescente.
-   É mesmo, por que? – disse eu.
-   Porque deve ser muito melhor, a gente pode sair por aí quando
    quiser…




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-   Mas você pensa que adolescente não tem problema? Tem sim.
    É uma época muito difícil, em que tanta coisa muda na vida da
    gente que às vezes dá muito medo. O corpo da gente muda, se a
    gente é mulher, nossos peitos crescem e ficam sensíveis, doem.
    Depois a gente menstrua e até acostumar a lidar com
    absorvente, a se prevenir para o dia que vem a menstruação, a
    combater a cólica, tudo parece complicado e chato. Se a gente é
    menino, a voz da gente começa a engrossar e todo mundo tira
    um barato. Meninos e meninas estão virando homens e
    mulheres, os pelos crescem a pele fica cheia de espinha e o
    mundo não sabe mais como nos ver: hora nos tratam como
    crianças, hora nos cobram responsabilidades de gente grande,
    hora nos tratam como estranhos malucos. Pior ainda são os
    medos e novos sentimentos. Quando a gente é adolescente a
    gente vê um mundo muito grande, muito difícil e muito errado a
    nossa volta e tem medo e raiva. Sabe que ele tem que ser
    diferente, e sabe que a gente é que tem que achar a saída certa.
    A gente tenta se juntar a outras pessoas para ver se funciona…


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-   E você, mãe, tentou mudar o mundo?
-   Tentei, como muita gente.
-   E aí?
-   E aí que não funcionou. Mas não é só isso. Quando a gente é
    adolescente, a gente ama seriamente pela primeira vez. A gente
    ama tão forte e tão sério que às vezes parece que a gente vai
    morrer. E toda vez que se ama desse jeito, também se sofre
    muito. A gente ama muito, muito forte e muitas vezes, e cada
    vez é para sempre. É muito sentimento forte para uma pessoa
    que acabou de chegar no mundo das pessoas grandes e parece
    que a gente vai arrebentar. Os adultos são sempre incapazes de
    entender todo o nosso sofrimento e todo o nosso poder e
    capacidade. Eles nos tratam de forma estranha e a gente acaba
    achando que eles são todos nossos inimigos. Muitas vezes são
    mesmo. E o pior é que nem reagir a gente pode, porque a gente
    não tem dinheiro e nem direitos: pela lei, a gente ainda é
    criança.
-   Então não quero ser adolescente. Quero ser jovem.
-   Jovem como?
-   Jovem, que nem minhas primas.

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-   Suas primas? Você acha que a vida das suas primas é fácil?
-   Ah, elas dirigem, elas cozinham, elas saem sozinhas, elas não
    tem mais que fazer o trabalho dos macacos e ninguém canta
    “com quem será” para elas. A escola delas é muito mais legal,
    ninguém manda a gente ler o qeu a gente não quer ler, ninguém
    proibe a gente de ir ao banheiro e ninguém briga se a gente
    esquece a borracha e o apontador.
-   Você está enganada. Você vê que a Tânia está sempre cansada?
-   É.
-   E sabe por que? Porque ela está estudando para prestar
    vestibular. Prestar vestibular é uma coisa das mais difíceis da
    vida. Primeiro porque é difícil mesmo: é uma provona enorme,
    em que você tem que escrever muito bem sobre muitos assuntos
    e resolver problemas muito difíceis. Dura vários dias e todos os
    dias você fica lá várias horas escrevendo. E o pior não é isso: é
    preciso passar nessa prova para poder fazer a faculdade que
    você escolheu. Dependendo do que você escolhe é muito difícil
    ser aprovado porque muitas pessoas escolhem a mesma coisa. E
    se tiver só 50 lugares e umas 1000 pessoas quiserem entrar, 950
    vão ficar de for a. Você tem que ser um dos 50 melhores para

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ser aprovado. Às vezes o nervoso de não conseguir é tão grande
    que você até é um dos melhores, mas não consegue passar
    porque a cabeça fica toda confusa na hora de responder as
    perguntas.
        Vestibular só tem uma vez no ano. Você passa o ano
    inteirinho alí, naquela expectativa, todo mundo te cobrando e
    esperando que você passe e tudo depende só de você. E o medo
    de escolher errado? Fazer todo esse sacrifício e no fim você
    detesta a faculdade? É muita responsabilidade e é muito
    difícil…
-   Então eu queria ser a Cíntia, que já está na faculdade.
-   Você acha que aí está tudo bem? Que acabaram-se os
    problemas?
-   É, ela já escolheu e já passou.
-   Mas não é assim. Quando a gente escolhe, claro que acha que
    está escolhendo uma coisa bem legal. E depois de se matar, é
    justo esperar que a recompensa seja muito boa. E não é. Nem na
    melhor faculdade do país dá para ficar totalmente satisfeito.
    Em parte porque depois de toda a tensão que a gente passa, a
gente espera demais das coisas. Em parte proque é tudo cheio de

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defeito mesmo! E aí vem a decepção, parece que os seus sonhos
mais queridos estão indo privada abaixo. E o pior é que a gente é
adulto, todo mundo espera que a gente seja muito bem sucedido,
que seja muito inteligente e que ganhe muito dinheiro. E a
realidade é bem mais complicada: o curso vai chegando ao fim e a
gente vai percebendo que achar um bom emprego ou continuar
estudando uma coisa bem interessante é deficílimo. E também a
gente percebe que namorar não é mais aquela coisa de conto de
fada que era antes. Percebe que o outro, o namorado, é sempre
complicado, tão complicado quanto a gente. Percebe que é difícil
duas pessoas se entenderem sempre…
-   Então deve ser horrível ser jovem.
-   Não é, também. É bem legal ter autonomia. É legal não
    depender de pai e mãe para ir de lá pra cá. É legal também a
    gente perceber que por mais medo que dê tomar decisões, a
    gente pode acertar e fazer coisas muito legais, escolher
    atividades maravilhosas, aprender coisas fantásticas, adquirir
    um poder novo que só o conhecimento traz.




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-   Ah, não. O melhor mesmo é ter a idade da vovó.
-   A idade da vovó!?! Por que?
-   Porque a vovó está sempre contente, não tem que ficar
    trabalhando que nem você, que não me dá atenção, pode brincar
    comigo…
-   Ah, então você acha que a vida da vovó é um paraíso?
-   É bem melhor que a de todo mundo. Ela faz só o que ela quer e
    é assim que eu queria ser.
-   E de novo você se enganou. Em primeiro lugar, a gente só tem
    70 anos se antes a gente teve 14, depois 20, depois 33, depois
    muitas outras idades que têm outras dificuldades. Só então a
    gente chega aos 70 anos, com o direito de não ter que trabalhar,
    de não ter que cuidar de filho, mas com novos desafios e
    problemas.
-   Que problemas?
-   De novo tem a estória de ter o corpo mudando. Quando a gente
    fica velho, um monte de coisas no corpo da gente fica diferente:
    a gente fica menos flexível, não é mais molinha como criança.
    Aparecem dores nas costas, nas pernas, nos ombros… Dores

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chatas que não vão embora facilmente. Os olhos ficam cansados
    e precisam de óculos e algumas pessoas escutam menos. Como
    na nossa sociedade as pessoas acham que bonitas são as pessoas
    jovens, tem também a parte chata de que a gente se olha no
    espelho e acha que está perdendo a beleza: a pele fica enrugada,
    o cabelo mais branco e algumas pessoas engordam. Algumas
    pessoas se gostam menos por causa disso. E aí tem o grande
    fantasma: o medo da morte. A pessoa vai ficando velha e vai se
    sentindo cda vez mais perto da hora de morrer. Quase sempre a
    gente tem medo disso. Os amigos da idade da gente vão ficando
    doentes, vão morrendo e a gente pensa que a morte está por
    perto. Não é fácil.
-   É… Eu não queria mesmo é ter a sua idade. Você está sempre
    trabalhando, não pode ficar comigo, fica de mau humor…
-   É verdade. Minha idade tem também seus problemas. Na
    minha idade a gente tem um monte de responsabilidades: tem
    que ser capaz de ganhar dinheiro para dar conforto para a
    filhinha e tem que ser bom na profissão que escolheu. Isso tudo
    porque com trinta e poucos anos todo mundo espera que você já
    tenha acertado as suas escolhas, já tenha estudado tudo que

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tinha que estudar e já tenha achado um jeito de ganhar dinheiro.
E não é bem assim. A gente sempre tem dúvidas e é difícil
ganhar dinheiro. Quando a gente tem sorte e fez uma escolha
boa de profissão, é essa a hora em que você mais tem que
mostrar que é bom, se não é passado para trás. Mas tem suas
compensações! É uma hora em que muitas das coisas difíceis e
decisões complicadas que a gente fez quando era mais jovem
mostram que foram certas.




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A gente vê o resultado do que fez e finalmente pode fazer o que
    gosta. Tem a parte legal de ver a filhinha da gente crescer e
    cada dia trazer uma coisa nova para o mundo da gente. O
    mundo do adulto é muito menos movimentado que o das
    crianças.
-   Então é legal ter a sua idade, mãe?
-   É legal ter a minha idade, filha, como também é legal ter a sua
    idade, é legal ser adolescente, é legal ser jovem e é legal ser
    velho. Lembra de adolescente? Como é difícil? Mas é demais de
    legal também. Ter melhor amiga, descobrir uma turma que
    pensa como a gente, descobrir que a gente é poderoso para
    mudar o mundo, é quase como adquirir super-poderes! É como
    sair do casulo e virar borboleta, poder voar, se encantar com a
    própria beleza. E amar… Amar como nunca mais a gente ama
    do mesmo jeito.
    Ser jovem é difícil, mas também é demais! Poder dirigir seu
    carro, tomar decisões, conseguir coisas difíceis e ter orgulho de
    ser competente. A gente é adulto, cheio de energia, com muito


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mais esperança e pique do que nunca! É a hora de conquistar
grandes coisas, medalhas, idéias, mundos!
E ser velho… Ser velho tem recompensas misteriosas. Tem a
grande recompensa da sabedoria, que eu não posso contar para
você porque também não sei. Mas quero muito viver até lá para
poder receber esse presente da vida: a paz que só vem com a
sabedoria. Deve ser bom demais viver uma hora em que
finalmente a vida faz sentido.
Todas essas fases são legais e difíceis ao mesmo tempo. E sabe
por que? Porque gente é uma coisa que está sempre mudando,
sempre crescendo. Só para de crescer quando morre. Tem fases
em que se cresce mais e fases em que se cresce menos.
Quando a gente cresce, a gente perde muita coisa. É como se a
gente mudasse de casa, para uma casa maior, cheia de novas
possibilidades, mas tivesse que deixar todas as nossas roupas,
nossos brinquedos, o cachorro que a gente ama, as comidas da
geladeira, tudo. Na nova casa a gente encontra novas roupas,
que nos servem melhor, novos brinquedos e um lindo filhote de
cachorro que a gente deve conquistar e criar. No começo é tudo
estranho, a gente sente falta de alguma coisa e nem sabe bem o

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que é. Ninguém entende essa nossa saudade. Por isso a gente
fica brava, chata, de mau humor. Crescer é terrível e fascinante.
É duro e maravilhoso. E para que no fim das contas a gente
consiga se agarrar na parte boa e até viciar na arte de crescer é
preciso que a gente conte com muito amor de quem é
importante para nós. É importante a gente olhar em volta e
saber que dá para ir em frente porque o pai e a mãe da gente
estão alí, torcendo, entendendo nosso sofrimento e curtindo
nossa alegria. É importante a gente ter os filhos alí por perto
quando chega a hora de envelhecer, de ficar com medo e às
vezes triste, mas sabendo que filhos e netos nos amam e vão nos
ajudar a atravessar mais essa fase, como a gente os ajudou
quando precisaram.
E eu amo você e vou estar sempre aqui quando sua banda de
rock fizer a primeira apresentação, quando você chorar se o seu
namorado te chatear, quando você tiver que escolher uma
faculdade e quando você for ter seu primeiro filho.




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Paramel

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    PARAMEL Uma conversa definge entre pessoas de verdade Junho de 1996 – aniversário da Mel
  • 2.
    Esta estória, minhafilha, é para você nos seus sete anos. Eu aqui tomo a liberdade de usar como ponto de partida sua pergunta de uns tempos atrás e inventar essa conversa entre eu e você. Foi assim que começou: um dia você estava muito chateada com um monte de coisas. Disse para mim que nem queria ir à escola porque sentia que algo de ruim iria acontecer. Alguém iria te aborrecer, fazendo brincadeiras que você não gosta ou, pior, poderia acontecer de você ficar de for a das brincadeiras com suas amigas queridas. Ficar isolada é uma coisa ruim, que deixa você muito triste. 2
  • 3.
  • 4.
    Você pensou, pensou,e descobriu que a sensação que você tinha vinha das coisas que andavam acontecendo recentemente. Aí você disse assim: - Eu não queria ter a idade que eu tenho. Acho essa idade muito ruim, tem muitos problemas. - Eu sei. Só não lembro como era, mas sei que são sérios para quem está nessa idade. - Eu queria ser adolescente. - É mesmo, por que? – disse eu. - Porque deve ser muito melhor, a gente pode sair por aí quando quiser… 4
  • 5.
    - Mas você pensa que adolescente não tem problema? Tem sim. É uma época muito difícil, em que tanta coisa muda na vida da gente que às vezes dá muito medo. O corpo da gente muda, se a gente é mulher, nossos peitos crescem e ficam sensíveis, doem. Depois a gente menstrua e até acostumar a lidar com absorvente, a se prevenir para o dia que vem a menstruação, a combater a cólica, tudo parece complicado e chato. Se a gente é menino, a voz da gente começa a engrossar e todo mundo tira um barato. Meninos e meninas estão virando homens e mulheres, os pelos crescem a pele fica cheia de espinha e o mundo não sabe mais como nos ver: hora nos tratam como crianças, hora nos cobram responsabilidades de gente grande, hora nos tratam como estranhos malucos. Pior ainda são os medos e novos sentimentos. Quando a gente é adolescente a gente vê um mundo muito grande, muito difícil e muito errado a nossa volta e tem medo e raiva. Sabe que ele tem que ser diferente, e sabe que a gente é que tem que achar a saída certa. A gente tenta se juntar a outras pessoas para ver se funciona… 5
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    - E você, mãe, tentou mudar o mundo? - Tentei, como muita gente. - E aí? - E aí que não funcionou. Mas não é só isso. Quando a gente é adolescente, a gente ama seriamente pela primeira vez. A gente ama tão forte e tão sério que às vezes parece que a gente vai morrer. E toda vez que se ama desse jeito, também se sofre muito. A gente ama muito, muito forte e muitas vezes, e cada vez é para sempre. É muito sentimento forte para uma pessoa que acabou de chegar no mundo das pessoas grandes e parece que a gente vai arrebentar. Os adultos são sempre incapazes de entender todo o nosso sofrimento e todo o nosso poder e capacidade. Eles nos tratam de forma estranha e a gente acaba achando que eles são todos nossos inimigos. Muitas vezes são mesmo. E o pior é que nem reagir a gente pode, porque a gente não tem dinheiro e nem direitos: pela lei, a gente ainda é criança. - Então não quero ser adolescente. Quero ser jovem. - Jovem como? - Jovem, que nem minhas primas. 7
  • 8.
    - Suas primas? Você acha que a vida das suas primas é fácil? - Ah, elas dirigem, elas cozinham, elas saem sozinhas, elas não tem mais que fazer o trabalho dos macacos e ninguém canta “com quem será” para elas. A escola delas é muito mais legal, ninguém manda a gente ler o qeu a gente não quer ler, ninguém proibe a gente de ir ao banheiro e ninguém briga se a gente esquece a borracha e o apontador. - Você está enganada. Você vê que a Tânia está sempre cansada? - É. - E sabe por que? Porque ela está estudando para prestar vestibular. Prestar vestibular é uma coisa das mais difíceis da vida. Primeiro porque é difícil mesmo: é uma provona enorme, em que você tem que escrever muito bem sobre muitos assuntos e resolver problemas muito difíceis. Dura vários dias e todos os dias você fica lá várias horas escrevendo. E o pior não é isso: é preciso passar nessa prova para poder fazer a faculdade que você escolheu. Dependendo do que você escolhe é muito difícil ser aprovado porque muitas pessoas escolhem a mesma coisa. E se tiver só 50 lugares e umas 1000 pessoas quiserem entrar, 950 vão ficar de for a. Você tem que ser um dos 50 melhores para 8
  • 9.
    ser aprovado. Àsvezes o nervoso de não conseguir é tão grande que você até é um dos melhores, mas não consegue passar porque a cabeça fica toda confusa na hora de responder as perguntas. Vestibular só tem uma vez no ano. Você passa o ano inteirinho alí, naquela expectativa, todo mundo te cobrando e esperando que você passe e tudo depende só de você. E o medo de escolher errado? Fazer todo esse sacrifício e no fim você detesta a faculdade? É muita responsabilidade e é muito difícil… - Então eu queria ser a Cíntia, que já está na faculdade. - Você acha que aí está tudo bem? Que acabaram-se os problemas? - É, ela já escolheu e já passou. - Mas não é assim. Quando a gente escolhe, claro que acha que está escolhendo uma coisa bem legal. E depois de se matar, é justo esperar que a recompensa seja muito boa. E não é. Nem na melhor faculdade do país dá para ficar totalmente satisfeito. Em parte porque depois de toda a tensão que a gente passa, a gente espera demais das coisas. Em parte proque é tudo cheio de 9
  • 10.
    defeito mesmo! Eaí vem a decepção, parece que os seus sonhos mais queridos estão indo privada abaixo. E o pior é que a gente é adulto, todo mundo espera que a gente seja muito bem sucedido, que seja muito inteligente e que ganhe muito dinheiro. E a realidade é bem mais complicada: o curso vai chegando ao fim e a gente vai percebendo que achar um bom emprego ou continuar estudando uma coisa bem interessante é deficílimo. E também a gente percebe que namorar não é mais aquela coisa de conto de fada que era antes. Percebe que o outro, o namorado, é sempre complicado, tão complicado quanto a gente. Percebe que é difícil duas pessoas se entenderem sempre… - Então deve ser horrível ser jovem. - Não é, também. É bem legal ter autonomia. É legal não depender de pai e mãe para ir de lá pra cá. É legal também a gente perceber que por mais medo que dê tomar decisões, a gente pode acertar e fazer coisas muito legais, escolher atividades maravilhosas, aprender coisas fantásticas, adquirir um poder novo que só o conhecimento traz. 10
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    - Ah, não. O melhor mesmo é ter a idade da vovó. - A idade da vovó!?! Por que? - Porque a vovó está sempre contente, não tem que ficar trabalhando que nem você, que não me dá atenção, pode brincar comigo… - Ah, então você acha que a vida da vovó é um paraíso? - É bem melhor que a de todo mundo. Ela faz só o que ela quer e é assim que eu queria ser. - E de novo você se enganou. Em primeiro lugar, a gente só tem 70 anos se antes a gente teve 14, depois 20, depois 33, depois muitas outras idades que têm outras dificuldades. Só então a gente chega aos 70 anos, com o direito de não ter que trabalhar, de não ter que cuidar de filho, mas com novos desafios e problemas. - Que problemas? - De novo tem a estória de ter o corpo mudando. Quando a gente fica velho, um monte de coisas no corpo da gente fica diferente: a gente fica menos flexível, não é mais molinha como criança. Aparecem dores nas costas, nas pernas, nos ombros… Dores 12
  • 13.
    chatas que nãovão embora facilmente. Os olhos ficam cansados e precisam de óculos e algumas pessoas escutam menos. Como na nossa sociedade as pessoas acham que bonitas são as pessoas jovens, tem também a parte chata de que a gente se olha no espelho e acha que está perdendo a beleza: a pele fica enrugada, o cabelo mais branco e algumas pessoas engordam. Algumas pessoas se gostam menos por causa disso. E aí tem o grande fantasma: o medo da morte. A pessoa vai ficando velha e vai se sentindo cda vez mais perto da hora de morrer. Quase sempre a gente tem medo disso. Os amigos da idade da gente vão ficando doentes, vão morrendo e a gente pensa que a morte está por perto. Não é fácil. - É… Eu não queria mesmo é ter a sua idade. Você está sempre trabalhando, não pode ficar comigo, fica de mau humor… - É verdade. Minha idade tem também seus problemas. Na minha idade a gente tem um monte de responsabilidades: tem que ser capaz de ganhar dinheiro para dar conforto para a filhinha e tem que ser bom na profissão que escolheu. Isso tudo porque com trinta e poucos anos todo mundo espera que você já tenha acertado as suas escolhas, já tenha estudado tudo que 13
  • 14.
    tinha que estudare já tenha achado um jeito de ganhar dinheiro. E não é bem assim. A gente sempre tem dúvidas e é difícil ganhar dinheiro. Quando a gente tem sorte e fez uma escolha boa de profissão, é essa a hora em que você mais tem que mostrar que é bom, se não é passado para trás. Mas tem suas compensações! É uma hora em que muitas das coisas difíceis e decisões complicadas que a gente fez quando era mais jovem mostram que foram certas. 14
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    A gente vêo resultado do que fez e finalmente pode fazer o que gosta. Tem a parte legal de ver a filhinha da gente crescer e cada dia trazer uma coisa nova para o mundo da gente. O mundo do adulto é muito menos movimentado que o das crianças. - Então é legal ter a sua idade, mãe? - É legal ter a minha idade, filha, como também é legal ter a sua idade, é legal ser adolescente, é legal ser jovem e é legal ser velho. Lembra de adolescente? Como é difícil? Mas é demais de legal também. Ter melhor amiga, descobrir uma turma que pensa como a gente, descobrir que a gente é poderoso para mudar o mundo, é quase como adquirir super-poderes! É como sair do casulo e virar borboleta, poder voar, se encantar com a própria beleza. E amar… Amar como nunca mais a gente ama do mesmo jeito. Ser jovem é difícil, mas também é demais! Poder dirigir seu carro, tomar decisões, conseguir coisas difíceis e ter orgulho de ser competente. A gente é adulto, cheio de energia, com muito 16
  • 17.
    mais esperança epique do que nunca! É a hora de conquistar grandes coisas, medalhas, idéias, mundos! E ser velho… Ser velho tem recompensas misteriosas. Tem a grande recompensa da sabedoria, que eu não posso contar para você porque também não sei. Mas quero muito viver até lá para poder receber esse presente da vida: a paz que só vem com a sabedoria. Deve ser bom demais viver uma hora em que finalmente a vida faz sentido. Todas essas fases são legais e difíceis ao mesmo tempo. E sabe por que? Porque gente é uma coisa que está sempre mudando, sempre crescendo. Só para de crescer quando morre. Tem fases em que se cresce mais e fases em que se cresce menos. Quando a gente cresce, a gente perde muita coisa. É como se a gente mudasse de casa, para uma casa maior, cheia de novas possibilidades, mas tivesse que deixar todas as nossas roupas, nossos brinquedos, o cachorro que a gente ama, as comidas da geladeira, tudo. Na nova casa a gente encontra novas roupas, que nos servem melhor, novos brinquedos e um lindo filhote de cachorro que a gente deve conquistar e criar. No começo é tudo estranho, a gente sente falta de alguma coisa e nem sabe bem o 17
  • 18.
    que é. Ninguémentende essa nossa saudade. Por isso a gente fica brava, chata, de mau humor. Crescer é terrível e fascinante. É duro e maravilhoso. E para que no fim das contas a gente consiga se agarrar na parte boa e até viciar na arte de crescer é preciso que a gente conte com muito amor de quem é importante para nós. É importante a gente olhar em volta e saber que dá para ir em frente porque o pai e a mãe da gente estão alí, torcendo, entendendo nosso sofrimento e curtindo nossa alegria. É importante a gente ter os filhos alí por perto quando chega a hora de envelhecer, de ficar com medo e às vezes triste, mas sabendo que filhos e netos nos amam e vão nos ajudar a atravessar mais essa fase, como a gente os ajudou quando precisaram. E eu amo você e vou estar sempre aqui quando sua banda de rock fizer a primeira apresentação, quando você chorar se o seu namorado te chatear, quando você tiver que escolher uma faculdade e quando você for ter seu primeiro filho. 18
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