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OSHO
MEDITAÇÃO
A ARTE DO ÊXTASE
UNIVERSALISMO
Sumário
Prefácio
Introdução: Meditação — A Arte da Celebração
PRIMEIRA PARTE
DINÂMICA DA MEDITAÇÃO
Capítulo 1 — Ioga: O Desenvolvimento da Consciência
Capítulo 2 — Não-Fazer Através do Fazer
Capítulo 3 — Meditação “Caótica”...
Capítulo 4 — ...Ou Meditação Silenciosa
Capítulo 5 — Entrando Profundamente no Conhecido
Capítulo 6 — Kundalini: O Despertar da Força da Vida
Capítulo 7 — Iluminação: Um Início Interminável
Capítulo 8 — Iniciação com um Mestre: A Técnica Definitiva
Capítulo 9 — Sannyas: Morrer Para o Passado
Capítulo 10 — Desejo Total: O Caminho Para a Indesejabilidade
SEGUNDA PARTE
PERGUNTAS E RESPOSTAS
Capítulo 11 — Que á a Alma
Capítulo 12 — LSD e a Meditação
Capítulo 13 — Intuição: Uma Não-Explanação
Capítulo 14 — Consciência, Testemunho e Percepção
Capítulo 15 — A Diferença Entre Satori e Samadhi
Capítulo 16 — A Energia Sexual e o Acordar da Kundalini
Capítulo 17 — As Manifestações de Prana nos Sete Corpos
TERCEIRA PARTE
AS TÉCNICAS
Capítulo 18 — Técnicas Tradicionais
Capítulo 19 — Técnicas Criadas por Bhagwan Shree
Um Convite
Prefácio
Muito se fala em meditação, em nossos dias, mas a confusão quanto ao que ela
é, e quanto à forma de “consegui-la”, mostra-se maior do que nunca. Pergunte-
se a qualquer grupo de pessoas, ao acaso, se algum dia meditaram, e cerca da
metade delas dirá que sim, que meditam (ou meditaram), mas, ao contrário do
que vulgarmente se supõe, meditação não é, na verdade, algo que se possa
“fazer”. É algo que acontece espontaneamente, quando nada se está fazendo,
quando se está em absoluto estado de nada fazer. O que as pessoas querem
dizer, quando afirmam que meditam, é que estão usando determinada técnica,
na esperança de criar o momento no qual a meditação possa ocorrer. Não há
técnica que seja meditação. Ela apenas cria o momento no qual a meditação
pode surgir, espontaneamente.
Existe uma quantidade confusa de técnicas de meditação entre as quais se pode
escolher: técnicas zen, técnicas tântricas, técnicas sufis (para não falar no
cristianismo e no judaísmo hasídico, que têm suas próprias técnicas). A técnica
certa para cada pessoa só pode ser determinada pela experiência. Quando algo
parece certo, sentimos isso. Quando algo funciona para nós, sabemos disso. E
não o sabemos pelo fato de experimentarmos uma sensação de paz e beatitude
durante vinte ou quarenta minutos de cada dia em que “meditamos”, mas porque
toda a nossa vida é transformada por esse fato.
Neste livro, o iluminado mestre espiritual Bhagwan Shree Rajneesh, da Índia,
fala sobre meditação e sugere certo número de técnicas de meditação que se
mostram particularmente apropriadas para os ocidentais. As técnicas se iniciam
de onde o homem está, e não de onde ele esteve um dia, nem de onde ele deseja
estar. Começam do princípio, e levam-nos do ponto em que estamos para onde
podemos estar. Quer ele esteja criando novas técnicas de meditação, que têm
início em base psicoterapêutica, quer ele esteja revivendo e atualizando antigas
técnicas, tiradas de inúmeras tradições (de forma que elas se tornem
apropriadas, novamente, para as novas necessidades do investigador moderno),
o interesse de Bhagwan Shree está em auxiliar cada um de nós a encontrar o
caminho certo. Ele não tem uma filosofia particular que deseje “impor”; não tem
dogmas nem doutrinas. Ele diz que cada indivíduo deve encontrar seu próprio e
único caminho, sua própria e única ioga.
“O fato de seguires os passos de Cristo, os passos de Buda, ou os passos de
Krishna não fará de ti um Cristo, ou um Buda, ou um Krishna”, diz ele. “Deves
encontrar teu próprio caminho”. As explanações contidas neste livro, e as
técnicas aqui apresentadas são uma tentativa para ajudar-te a encontrar o teu
caminho.
Quando a meditação acontece, toda a nossa vida torna-se uma meditação, uma
celebração. Não tens de “praticar” percepção. Cada vez mais compreenderás
que a percepção ali está: uma percepção de ti próprio, dos outros, da
complexidade da existência. Cada vez mais frequentemente estarás “aqui e
agora”. Cada vez mais frequentemente sentirás a beatitude, a jovialidade, o
absurdo da existência.
Somos todos tão sérios em relação à vida, tão sérios em relação às nossas
tentativas de crescer para além daquilo que já conhecemos, que chegamos a
perder o “aqui e agora”. Viver o momento, sem a carga dos desejos, das
expectativas, dos anseios é viver em meditação. Tomar a vida como um
espetáculo, rir dos dramas que a existência cria para nós, e dos traumas que nós
mesmos nos criamos, isso é conhecer o momento sobre o qual os videntes e
religiosos vêm falando há milhares de anos. Não temos compreendido as
palavras deles porque falaram através de símbolos que já não nos pertencem.
Bhagwan Shree fala a nossa linguagem. E o que ele tem a dizer é algo mais do
que uma provocação ao pensamento. É um desafio. É um convite à
transformação pessoal.
MA SATYA BHARTI
Introdução
Meditação: A Arte da
Celebração
Ensinamos uma criança a focalizar a mente — a concentrar-se — porque, sem
concentração, ela não poderá enfrentar a vida. A vida exige isso: a mente deve
ter capacidade para concentrar-se. Mas, desde o momento em que a mente se
torna capaz de concentrar-se, torna-se, também, menos perceptiva. A percepção
significa mente consciente, mas não focalizada. A percepção é consciência de
tudo quanto está acontecendo.
Concentração é uma escolha. Exclui tudo, menos o objeto da concentração.
Produz estreitamento. Se estás caminhando por uma rua, terás de estreitar tua
consciência para poderes caminhar. Habitualmente não te é possível estar
consciente de tudo o que está acontecendo, porque se estiveres consciente de
tudo quanto está acontecendo, não estarás focalizado. Assim, a concentração é
uma necessidade. A concentração da mente é uma necessidade para que
possamos viver — sobreviver, existir. Por isso é que toda cultura, a seu modo,
tenta estreitar a mente da criança.
Crianças, tais como são, jamais focalizam. Sua consciência está aberta para
todas as sensações. Cada sensação penetra em sua consciência. E quanta
coisa chega! Por isso é tão vacilante, tão instável. A mente não-condicionada de
uma criança é um fluxo — um fluxo de sensações — mas não lhe seria possível
sobreviver com esse tipo de mente. Ela deve aprender como estreitar sua mente,
como se concentrar.
Do momento em que estreitas tua mente tornas-te particularmente consciente
de uma coisa, e, simultaneamente, inconsciente de muitas outras coisas. Quanto
mais estreita for a mente, maior sucesso haverá. Tu te tornas um especialista, tu
te tornas um perito, mas a coisa toda consistirá em saberes mais e mais sobre
menos e menos.
O estreitamento é uma necessidade existencial. Ninguém é responsável por
isso. Assim como a vida existe, ele deve existir. Mas não é o bastante; só o ser
utilitário não é o bastante. Por isso, quando tu te tornas utilitário e a consciência
é estreitada, estarás negando à tua mente muito daquilo de que ela é capaz. Não
estás usando tua mente total. Estás usando apenas uma pequena parte dela. E
o remanescente — a porção maior — irá tornar-se inconsciente.
Na verdade, não há fronteira entre o consciente e o inconsciente. Não há duas
mentes. “Mente consciente” refere-se àquela porção da mente que tem sido
usada no processo de estreitamento. “Mente inconsciente” refere-se àquela
porção que tem sido negligenciada, ignorada, fechada. Isso cria uma divisão,
uma brecha. A porção maior da tua mente torna-se alheia a ti. Tu te tornas
alienado de teu próprio eu, tornas-te estranho à tua própria totalidade.
Uma pequena parte está sendo identificada como teu eu, e o resto é perdido.
Mas a parte inconsciente, remanescente, está sempre ali, como potencialidade
sem uso, como possibilidade sem uso, como aventura não-vivida. Essa mente
inconsciente (esse potencial, essa mente sem uso) estará sempre em luta contra
a mente consciente. Por isso é que existe sempre um conflito interior. Todos
estão em conflito por causa dessa fenda entre o inconsciente e o consciente.
Mas só o potencial, o inconsciente, estiver livre para florescer, é que poderás
sentir a beatitude da existência... Não há outra maneira.
Se a porção maior de tuas potencialidades permanecer irrealizada, tua vida será
uma frustração. Por isso é que quanto mais utilitária é uma pessoa, menos
realizada é, menos beatitude conhece. Quanto mais utilitária é a abordagem —
quanto mais a pessoa está na vida dos negócios — menos estará vivendo,
menos será tomado pelo êxtase. A parte da mente, que não pôde ser útil no
mundo utilitário, foi preterida.
A vida utilitária é necessária, mas com grande custo. Perdeste a festividade da
vida. A vida torna-se uma festividade, uma celebração, se todas as tuas
potencialidades florescerem. Então, a vida é uma solenidade. Por isso é que eu
sempre digo que religião significa vida transformada em celebração. A dimensão
da religião é a dimensão do festivo, do não-utilitário.
A mente utilitária não deve ser tomada como se fora o todo. O remanescente...
maior parte... a mente inteira... não deveria ser sacrificado. A mente utilitária não
se deve tornar um fim. Terá que permanecer ali, mas como um meio. A outra —
a remanescente, a maior, a potencial — deve tornar-se o fim. Isso é que eu
chamo uma abordagem religiosa.
Com uma abordagem não-religiosa, a mente dos negócios (a utilitária) torna-se
o fim. Quando tal coisa acontece, não há possibilidade de a mente inconsciente
realizar seu potencial. A mente inconsciente será preterida. Se a utilitária se torna
um fim, isso significa que o servo está representando o papel do senhor.
A inteligência, o estreitamento da mente, é uma forma de sobrevivência, mas
não de vida. Sobrevivência não é vida. Sobrevivência é uma necessidade — mas
o fim terá de ser, sempre, um florescimento do potencial, de tudo quanto foi
criado para ti. Se fores completamente realizado, se nada permanecer sob a
forma de semente, se tudo se faz realidade, se floresces, então e só então
poderás sentir a beatitude, o êxtase da vida.
A parte de ti que foi preterida, a parte inconsciente, pode tornar-se ativa e
criativa, só se tu acrescentares uma nova dimensão à tua vida — a dimensão do
festivo, a dimensão da jovialidade. Assim, a meditação não é um trabalho, é um
divertimento. Rezar não é um negócio, é um divertimento. A meditação não é
algo que se faz para chegar a atingir um alvo (paz, beatitude...) mas algo a ser
gozado como um fim em si mesmo.
A dimensão festiva é a parte mais importante a compreender-se... e nós a
perdemos totalmente. Por festiva, eu entendo a capacidade de gozar, momento
a momento, tudo quanto se te apresenta.
Nós nos tornamos tão condicionados e os hábitos tornaram-se tão mecânicos,
que mesmo não havendo negócio a fazer, nossas mentes estão nos negócios.
Quando não há necessidade de estreitamento, estás estreitando. Mesmo
quando te divertes, não te estás divertindo. Não estás gozando aquilo. Mesmo
quando jogas baralho, não estás desfrutando o jogo. Jogas pela vitória, e então
o jogo transforma-se em trabalho. Então, o que está acontecendo não importa,
só o resultado importa.
Nos negócios, o resultado é importante. Na festividade, o ato é importante. Se
pode praticar qualquer ato significativo em si próprio, tornas-te festivo e podes
celebrar esse ato.
Quando quer que estejas celebrando, os limites — os limites estreitadores —
são rompidos. Não mais necessários, são refugados. Sais de tua camisa-de-
força, a estreitadora camisa da concentração. Agora, não estás escolhendo.
Recebes tudo quanto vem. E, desde o momento em que permites que a
existência total venha a ti, tornas-te um com ela. Há uma comunhão.
A essa comunhão eu chamo meditação: essa celebração, essa consciência sem
escolha, essa atitude que nada tem de negocista. A festividade acontece no
momento, no ato — sem preocupação quanto aos resultados, ou à obtenção de
alguma coisa. Nada há a ser obtido, de forma que podes gozar o que está aqui,
e agora.
Podes explicar isso desta forma: eu estou falando contigo; se me preocupo com
o resultado, então a conversa passa a ser negócio, passa a ser trabalho. Mas se
converso contigo sem expectativas, sem qualquer desejo quanto ao resultado,
então a conversa torna-se um divertimento. O próprio ato, em si mesmo, é a
finalidade. Então, não é necessário o estreitamento. Posso divertir-me com as
palavras, posso divertir-me com os pensamentos. Posso divertir-me com as tuas
perguntas, e posso divertir-me com as minhas respostas. Então, nada disso é
sério, e o coração sente-se leve.
E se estiveres me ouvindo sem pensar em obter alguma coisa dessa conversa,
podes relaxar. Então podes permitir que eu me ponha em comunhão contigo, e
tua consciência não sofrerá estreitamento. Então, ela está aberta: divertindo-se,
gozando.
Todo o momento pode ser um momento de negócio; todo o momento pode ser
um momento meditativo. A diferença está na atitude. Se isso é sem escolha, se
te estás divertindo com isso, o momento é meditativo.
Há necessidades sociais e há necessidades existenciais que devem ser
cumpridas. Eu não direi: “Não condicionem as crianças”. Se as deixarem
completamente incondicionadas, tornar-se-ão selvagens. Não poderão existir. A
sobrevivência precisa de condicionamento, mas a sobrevivência não é um fim,
de modo que deves poder colocar teu condicionamento em ação e também
retirá-lo — tal como fazes com tuas roupas. Podes vesti-las, sair, tratar de teus
negócios, e tirá-las ao voltar para casa. Então, tu ÉS.
Se não te identificares com tuas roupas (com teu condicionamento), se não
disseres, por exemplo, “Eu sou a minha mente”, isso não será difícil. Então,
podes mudar facilmente, mas, se te tornas identificado com teu
condicionamento, se dizes: “Meu condicionamento sou eu”, tudo quanto não seja
teu condicionamento estará sendo renegado. Pensas: “Tudo que não está
condicionado não sou eu; o inconsciente não sou eu. Eu sou o consciente, o
focalizado, a mente”.
Essa identificação é perigosa. Não deveria acontecer. Uma educação apropriada
não é condicionada, mas condicionada “com uma condição”: a de que o
condicionamento seja uma necessidade utilitária, que podes usar ou descartar.
Quando a necessitas, fazes uso dela, e quando não a necessitas, tratas de
descartá-la. Até que seja possível educar os seres humanos de tal forma que
eles não se identifiquem com seus condicionamentos, os seres humanos não
serão, realmente, seres humanos. Serão robôs, condicionados, estreitados.
Para compreender isso é preciso ter consciência daquela parte da mente — a
parte maior — à qual foi negada a luz. E tornar-se consciente disso é tornar-se
consciente de que não se é a mente consciente. A mente consciente é apenas
uma parte. “Eu” sou ambas, e a maior parte é incondicionada. Mas está sempre
ali... e espera.
Minha definição de meditação é esta: ela é, simplesmente, um esforço para saltar
até o inconsciente. Não podes saltar através de cálculo, porque todo o cálculo
pertence ao consciente, e a mente consciente não permitiria tal coisa. Ela
advertirá: “Tu enlouquecerás. Não faças isso”.
A mente consciente está sempre temerosa do inconsciente porque, se o
inconsciente emergir, tudo quanto é claro e calmo no consciente será varrido.
Então, tudo se tornará escuro... como numa floresta.
Um exemplo. Fizeste um jardim, um jardim cercado. Limpaste um pequeno
espaço e plantaste algumas flores. Tudo está em ordem, arranjado, limpo.
Acontece, porém, que a floresta está ali sempre perto. É selvagem,
descontrolada, e o jardim está sempre temeroso. A qualquer momento a floresta
pode invadir e então o jardim desaparecerá.
Da mesma maneira tu cultivaste uma parte da tua mente. Puseste tudo em
ordem. Mas o inconsciente está sempre por perto, e a mente consciente tem
medo dele. A mente consciente diz: “Não vás para o inconsciente. Não olhes
para ele, não penses nele”.
O caminho para o inconsciente é escuro e desconhecido. À razão ele parece
irracional, à lógica parecerá ilógico. Assim, se pensas, para chegar à meditação,
jamais chegarás — porque a parte que pensa não o permitirá.
Isso torna-se um dilema. Nada podes fazer sem pensar, e com o pensamento
não podes entrar em meditação. Que fazer? Mesmo que penses: “Não vou
pensar”, isso também é pensar. É a parte que pensa da tua mente que está
dizendo: “Não permitirei a ação do pensamento”.
A meditação não pode ser feita pelo pensamento. Esse é o dilema — o maior
dos dilemas. Cada investigador terá de enfrentar esse dilema. Em algum lugar,
um dia qualquer, o dilema aparecerá. Aqueles que sabem, dizem: “Salta! Não
penses!” Mas nada podes fazer sem pensar. Por isso é que planos
desnecessários foram criados — planos desnecessários, digo eu, porque, se
saltares sem pensar, nenhum plano será necessário. Mas não podes saltar sem
pensar, de forma que um plano é necessário.
Podes pensar sobre esse plano. Tua mente que pensa pode ficar à vontade
quanto ao plano, mas não quanto à meditação. A meditação será um salto para
o desconhecido. Podes trabalhar com um plano e o plano irá atirar-te,
automaticamente, para o desconhecido. O plano é necessário apenas por causa
do treinamento da mente, de outra maneira não seria necessário.
Desde que tenhas saltado, dirás: “O plano não era necessário, eu não precisava
dele”. Mas esse é um conhecimento retrospectivo. Saberás, depois, que o plano
não era necessário (isso é o que diz Krishnamurti: “Plano algum é necessário,
método algum é necessário”. Os mestres zen dizem: “Esforço algum é
necessário, isso vem sem esforço.”) Mas isso parece absurdo para os que não
cruzaram a barreira.
Por isso digo que um plano é artificial. É apenas um estratagema para deixar tua
mente racional à vontade, de forma que possas ser levado para o desconhecido.
Por isso é que uso métodos vigorosos. Quanto mais vigoroso o método, menos
tua mente calculadora será necessária. Quanto mais vigoroso, mais total ele se
torna, porque a vitalidade não é só da mente — é do corpo, das emoções. Isso
é o teu ser integral.
Os dervixes sufis usaram a dança como técnica, como plano. Se dançares, não
podes permanecer intelectual, porque a dança é uma coisa cansativa. Todo o
teu ser é necessário, para a dança. E acaba por chegar um momento em que a
dança torna-se destituída da mente. Quanto mais vital, quanto mais vigorosa,
mais tu estás nela, menos razão haverá nela. Assim, a dança foi adotada como
plano, como técnica de empuxo. A uma certa altura não estarás dançando, mas
a dança tomou conta, apoderou-se de ti. Serás levado para a fonte
desconhecida.
Os professores zen usaram o método koan. Koans são quebra-cabeças que, por
sua própria natureza, são absurdos. Não podem ser solucionados pela razão.
Não podes pensar neles. Ostensivamente, parecem coisas que podem provocar
o pensamento: isso é a isca. Parece que algo pode ser pensado sobre os koans,
e então começas a pensar. Tua mente racional põe-se à vontade. Algo lhe foi
dado para resolver... mas a coisa dada é algo que não pode ser resolvida. A sua
própria natureza é tal que não pode ser resolvida, pelo simples fato de ser
absurda.
Há centenas de quebra-cabeças. O professor dirá: “Pensa sobre um som sem
som”. Assim falado, parece algo que pode ser pensado. Se tentares com
persistência, de alguma forma, em algum lugar, um som sem som poderá ser
encontrado. Pode ser possível. Então, a certa altura (e essa altura não pode ser
prevista, não é a mesma para todos), a mente se exaure. Não está ali. Tu és,
mas a mente — com todo o seu condicionamento, ali não está — foi-se. És como
uma criança: o condicionamento ali não está. Estás apenas consciente. A
estreitadora concentração desapareceu. Agora sabes que o plano não era
necessário, mas esse é um pensamento posterior. Não pode ser dito com
antecedência.
Não há método causal: não há método que cause a meditação. Por isso é que
tantos métodos são possíveis. Todo o método não passa de um expediente...
mas cada religião diz que seu método é o caminho e nenhum outro fará o que
ele faz. Todas elas pensam em termos de causalidade.
Se aquecermos água, o vapor evapora. O calor é a causa: sem calor a água não
evaporaria. Isso é causal. O calor é uma necessidade que deve preceder à
evaporação. A meditação, entretanto, não é causal, e, assim, qualquer método
é possível. Todo o método não passa de um expediente, e apenas cria a situação
para o acontecimento. Não o está causando.
Por exemplo: para além dos limites deste aposento está o céu, ilimitado, aberto.
Tu jamais o viste. Posso falar contigo sobre o céu, sobre o ar revigorante, sobre
o mar, sobre tudo quanto está fora deste aposento, mas tu não viste. Hás de rir,
apenas. Pensarás que estou inventando essas coisas. E dizes: “Tudo isso é
fantástico. Tu não passas de um sonhador”. Não posso convencer-te a sair lá
para fora, porque tudo aquilo de que te posso falar não tem qualquer significação
para ti.
Então, digo: “A casa está pegando fogo!” Isso tem significação para ti. Isso é algo
que podes compreender. Agora não preciso dar-te explicações. Corro, apenas.
E tu me segues. A casa não se está incendiando, mas, no momento em que
estiveres lá fora, não precisas perguntar-me por que menti. A significação está
ali. O céu está ali. Então, tu me agradeces. Qualquer mentira serve. A mentira
foi apenas um expediente, um expediente para trazer-te para fora. Eu não fui a
causa de estarem ali as coisas lá de fora.
Toda religião é baseada numa mentira-expediente. Todos os métodos são
mentiras; apenas criam uma situação. Não são causais. Novos expedientes
podem ser criados, novas religiões podem ser criadas. Os velhos expedientes
tornam-se vazios, uma velha mentira torna-se vazia, e há necessidade de
mentiras e expedientes novos. Quantas vezes te disseram que a casa se estava
incendiando, quando tal não acontecia? A mentira tornou-se inútil. Agora,
alguém criou um novo expediente.
Se alguma coisa é causa de alguma outra coisa, jamais é inútil, mas um velho
expediente é sempre inútil. Novos expedientes são necessários. Por isso é que
cada novo profeta tem de lutar contra os antigos profetas. Está fazendo o mesmo
trabalho que eles fizeram, mas terá que opor-se aos seus ensinamentos, porque
precisa negar os velhos expedientes, já que eles se tornaram vazios e sem
significação.
Todos os grandes — Buda, Cristo, Mahavira — criaram, por compaixão, grandes
mentiras, apenas para levar-te para fora de casa. Se puderes ser arrancado para
fora de tua mente, através de qualquer expediente, isso é tudo quanto se faz
necessário. Tua mente é o cárcere. Tua mente é fatal, é a escravidão.
Como eu disse, esse dilema terá de acontecer. Assim é a natureza da vida. Terás
que aprender a estreitar a mente. Esse estreitamento será de auxílio quando
saíres para fora, mas será fatal lá dentro. Será utilitário com os outros; será
suicida com a própria pessoa.
Precisas existir com os outros e contigo mesmo. Toda a vida unilateral faz-se
defeituosa. Precisas existir entre os outros com a mente condicionada, mas
deves existir contigo mesmo com uma percepção inteiramente livre de
condicionamento. A sociedade cria um estreitamento da percepção, mas a
própria percepção significa expansão. É ilimitada. Ambas as coisas são
necessárias, e ambas devem ser realizadas.
Chamo sensata a pessoa que pode realizar ambas essas necessidades.
Qualquer extremo é insensato, qualquer extremo é prejudicial. Assim, vive no
mundo com a mente, com o teu condicionamento, mas vive contigo mesmo sem
a mente, sem treinamento. Usa tua mente como um meio, não faças dela um
fim. Sai dela, no momento em que tenhas essa oportunidade. Quando estiveres
sozinho, sai dela, salta para fora dela. Então, festeja o momento, festeja a
existência em si mesma, o Ser em si mesmo.
O simples fato de ser é tão grande celebração, se souberes como saltar para
fora do teu condicionamento. Esse “saltar para fora” vais aprender através da
Meditação Dinâmica. 1 Ela não será causada; virá ter contigo sem qualquer
causa. A meditação criará uma situação na qual irás ter ao desconhecido. Aos
poucos serás levado para fora de tua personalidade habitual, mecânica,
robotizada.
1. A Meditação Dinâmica, também conhecida como Meditação Caótica, será detalhadamente
explanada no cap. 3
Sê corajoso. Pratica a Meditação Dinâmica vigorosamente, e tudo o mais se
seguirá. Não será coisa que faças, será algo que acontece.
Não podes trazer o divino, mas podes embaraçar a sua vinda. Não podes trazer
o sol para a casa, mas pode fechar a porta. Negativamente, muita coisa a mente
pode fazer: positivamente, nada. Tudo quanto é positivo é uma dádiva, é uma
bênção. Tudo quanto é positivo vem ter contigo, enquanto tudo quanto é negativo
é trabalho teu.
A meditação (e todos os expedientes da meditação) pode fazer uma coisa:
afastar-te de todos os teus obstáculos negativos. Pode trazer-te para fora de teu
cárcere, que é a mente. E, quando tiveres saído, rirás. Era tão fácil sair! Tudo
estava ali mesmo! Apenas um passo se fazia necessário... mas andamos em
círculos e perdemos sempre um passo, aquele passo que poderia levar-nos ao
centro.
Tu andas em círculos (pela periferia), repetindo a mesma coisa. Em algum ponto
a continuidade precisa ser rompida. Isso é tudo quanto pode ser feito por
qualquer método de meditação. Se a continuidade for rompida, se te tornas
descontínuo com o teu trabalho, então, naquele exato momento, há a explosão!
Naquele exato momento estás centralizado, centralizado em teu ser. E então
conhecerás tudo quanto sempre foi teu, tudo quanto estava apenas esperando
por ti.
PRIMEIRA PARTE
DINÂMICA DA
MEDITAÇÃO
1
Ioga: O Desenvolvimento
da Consciência
O propósito da vida é fazer-nos conscientes. Isso não é apenas o propósito da
ioga. A própria evolução da vida, em si mesma, é tornar-se cada vez mais
consciente. Mas a ioga significa algo mais ainda.
A evolução da vida é tornar-se cada vez mais consciente, mas a consciência é
sempre orientada por outro: estás consciente de alguma coisa, de algum objeto.
A ioga pretende evoluir para a dimensão onde não há objeto; onde só a
consciência, a percepção, permanece. A ioga é o método de evoluir em direção
da percepção pura — não estar consciente de alguma coisa, mas ser a própria
consciência.
Quando estás consciente de alguma coisa, não estás consciente de estares
sendo consciente. Tua consciência tornou-se focalizada em algo; tua atenção
não está na fonte da própria consciência. Na ioga, o esforço se faz para ter
consciência de ambos: do objeto e da fonte. A percepção torna-se flecha de
dupla ponta. Deves ter noção do objeto, e deves, simultaneamente, ter noção do
sujeito. A percepção deve fazer-se uma ponta de seta dupla. O sujeito não deve
ser perdido, não deve ser esquecido, quando estás focalizado no objeto.
Esse é o primeiro passo, na ioga. O segundo passo é deixar de lado tanto o
sujeito quanto o objeto, e ser apenas perceptivo. Essa percepção, essa
consciência pura, é o alvo da ioga.
Mesmo sem a ioga o homem se desenvolve para se tornar cada vez mais
consciente, mas a ioga acrescenta algo, contribui com alguma coisa para essa
evolução da consciência. Modifica muitas coisas e transforma muitas coisas. A
primeira transformação é um conhecimento como seta de duas pontas: fazer
lembrar a ti mesmo, no momento preciso, que há alguma coisa mais de que
deves estar consciente.
O dilema é o seguinte: ou estás consciente de algum objeto ou estás
inconsciente. Se não houver objetos externos, adormeces: os objetos são
necessários para que estejas consciente. Quando ficas totalmente desocupado,
sentes-te sonolento — precisas de algum objeto do qual estejas consciente —
mas, quando tens objetos demais dos quais tens de estar consciente, podes
sentir uma certa insônia. Por isso é que a pessoa demasiado obcecada pelos
pensamentos não pode dormir. Os objetos continuam ali, os pensamentos
continuam ali. Ela não pode tornar-se inconsciente, os pensamentos estão
exigindo a sua atenção. E assim é que existimos.
Com objetos novos tornas-te mais consciente. Por isso é que há uma avidez pelo
novo, um anseio pelo novo. O velho torna-se aborrecido. Desde que viveste com
algum objeto durante certo tempo, tornas-te inconsciente dele. Aceitaste-o, a tua
atenção já não é necessária. Tornas-te aborrecido. Por exemplo, podes não ter
estado consciente da tua esposa durante anos, porque a estiveste encarando
como coisa natural. Já não lhe vês o rosto, não pode recordar de que cor são
seus olhos. Durante anos não tens estado realmente atento. Só quando ela
morre tu te tornarás de novo ciente de que ela ali estivera. Por isso é que maridos
e esposas fazem-se entediados. Qualquer objeto, que não chama
continuamente a nossa atenção, cria tédio.
Da mesma maneira, o mantra (vibração repetida do som) causa profundo sono.
Quando um mantra em particular está sendo constantemente repetido, tu te
aborreces. Nada há de misterioso naquilo. A repetição constante de uma palavra
entedia-te, não mais a podes suportar. Agora, começas a sentir sono, e
adormecerás, ficarás inconsciente. (Todo o método da hipnose, realmente,
depende do tédio. Se tua mente puder entediar-se com alguma coisa, então
adormeces: o sono pode ser induzido.)
Toda a nossa percepção depende de novos objetos. Por isso é que há tanto
desejo do novo, de novas sensações, de novos trajes, de nova casa — qualquer
coisa que seja nova, mesmo que não seja melhor. Com algo diferente tu sentes
um súbito crescer de consciência.
Já que a vida é uma evolução da consciência, isso é bom. Tanto quanto à vida
concerne, é bom. Se uma sociedade tem anseio de novas sensações, a vida
progride, mas se ela se acomoda com o velho — e nada pede de novo — estará
morta, pois, dessa forma, a consciência não se pode desenvolver.
Por exemplo: no Oriente tentamos estar satisfeitos com as coisas, tal como são.
Isso cria um tédio, porque nada jamais é novo. Então, durante séculos, tudo
continua a ser tal como é. Ficamos entediados. Naturalmente, podemos dormir
melhor (o Ocidente não pode dormir, porque a insônia existe quando há pedido
constante de coisas novas), mas não há evolução. E são essas as duas coisas
que parece acontecerem: ou toda a sociedade torna-se sonolenta e morta como
sucede no Oriente, ou, de outra forma, a sociedade torna-se insone, como tem
ocorrido no Ocidente.
Nenhuma das duas coisas é boa. Precisas de uma mente que possa estar ativa
quando não há objetos novos. Realmente, precisas de uma consciência
desligada do novo, desligada do objeto. Se ela estiver ligada ao objeto, inclina-
se a ligar-se com o novo. Precisas de uma consciência que não esteja
absolutamente ligada ao objeto, mas que esteja para além do objeto. Então, és
livre: podes dormir quando queiras, podes acordar quando quiseres. Não
precisas de objeto que te auxilie. Tornas-te livre, realmente livre do mundo
objetivo.
Desde que te coloques para além do objeto colocas-te também para além do
sujeito, porque ambos existem em conjunto. Na verdade, subjetividade e
objetividade são dois pólos de uma só coisa. Quando há um objeto — ou objetivo
— tu és o sujeito, mas se podes estar consciente sem o objeto, não há sujeito —
não há eu. Isso deve ser profundamente compreendido: quando o objeto está
perdido e podes estar consciente sem objetos — apenas consciente! — então o
sujeito também está perdido. Não pode permanecer ali. Não pode! Ambos estão
perdidos, e há simplesmente consciência, ilimitada consciência. Agora, já não
existem fronteiras. Nem o objeto é fronteira, nem o sujeito é fronteira.
Buda costumava dizer que quando se está em meditação não há eu (atman)
porque a própria consciência do próprio eu isola-nos de tudo o mais. Se estiveres
ainda ali, os objetos ainda estarão ali. “Eu sou”, mas “eu” não posso existir em
solidão total: “eu” existo em relacionamento com o mundo lá fora; “eu” é um
relata. Então o eu (o “eu sou”) é apenas algo dentro de ti, que existe em
relacionamento com algo que está fora. Mas, se o “lá fora” não estiver ali, esse
algo que está dentro se dissolve. Então, há simples e espontânea consciência.
Para isso é que existe a ioga; é isso que a ioga significa. A ioga é a ciência de
libertar-te das fronteiras do objeto e do sujeito, e, a não ser que estejas livre
dessas fronteiras, cairás no desequilíbrio do Oriente ou no desequilíbrio do
Ocidente.
Se desejas contentamento — paz mental, silêncio, sono — então é bom
permanecer continuamente com os mesmos objetos. Durante séculos e séculos
não haverá modificações visíveis. Então, estás à vontade, podes dormir melhor...
mas nada é espiritual e tu perdes muito. O próprio anseio de crescimento se
perde, o próprio anseio de aventura se perde, o próprio anseio de indagar e
encontrar se perde. Realmente, começas a vegetar, ficas estagnado.
Se mudares isso, então tornas-te dinâmico, mas também doentio; tornas-te
dinâmico, porém tenso; dinâmico, mas louco. Começas a encontrar o novo, a
indagar sobre o novo, mas estás num remoinho. O novo começa a acontecer,
porém tu estás perdido.
Se perdes tua objetividade, tornas-te demasiadamente subjetivo e sonhador,
mas se te tornas demasiadamente obcecado pelos objetos, perdes o subjetivo.
Ambas as atenções são desequilíbrio. O Oriente tentou uma, o Ocidente tentou
a outra.
E agora o Oriente se está tornando ocidental e o Ocidente se vai fazendo
oriental. No Oriente a atração é pela tecnologia ocidental, pela ciência ocidental,
pelo racionalismo ocidental. Einstein, Aristóteles e Russell tomaram conta da
mente oriental, enquanto no Ocidente está acontecendo exatamente o oposto:
Buda, Zen e Ioga tornaram-se muito importantes. Isso é um milagre. O Oriente
se está fazendo comunista, e o Ocidente começa a pensar em termos de
expansão da consciência: meditação, espiritualidade, êxtase. A roda pode girar,
e poderemos trocar as nossas cargas. Será iluminador por um momento, mas
toda a insensatez começará novamente.
O Oriente falhou num ponto e o Ocidente falhou em outro, porque ambos
tentaram negar uma parte da mente. Tu tens de transcender ambas as partes e
não te preocupares com uma enquanto renegas a outra. A mente é um todo. Se
não podes transcendê-la totalmente não a podes transcender. Se continuas a
negar a outra parte, a parte negada exercerá sua vingança. E, realmente, a parte
negada no Oriente está exercendo sua vingança sobre o Oriente, e a parte
negada no Ocidente está exercendo sua vingança sobre o Ocidente.
Jamais podes ir além do negado. Ele ali está, e vai reunindo cada vez maior
força. O exato momento em que a parte que aceitaste tem sucesso, é o momento
do fracasso. Nada falha mais do que o sucesso. Com qualquer sucesso parcial
(com o sucesso de uma parte de ti) estás propenso a cair num fracasso mais
profundo. O que ganhaste torna-se inconsciente e o que perdeste se faz
conhecimento.
A ausência é mais sentida. Se perdes um dente, tua língua se torna ciente da
ausência e vai para o dente ausente. Jamais tinha feito isso antes — jamais! —
mas agora não pára de fazê-lo. Move-se continuamente para o lugar vazio, quer
sentir o dente que já não está ali.
Da mesma maneira, quando uma parte da mente tem sucesso, tornas-te ciente
do fracasso da outra parte — a parte que podia ali estar e não está. Agora, o
Oriente tornou-se consciente da sua insensatez por não ser científico, pois essa
é a razão de sermos pobres, é a razão de sermos “ninguém”. Essa ausência está
sendo sentida agora, e o Oriente começa a voltar-se para o Ocidente, enquanto
o Ocidente está sentindo sua própria insensatez, sua falta de integração.
Ioga significa a ciência total do homem. Não é, simplesmente, uma religião. É a
ciência total do homem, a transcendência total de todas as partes. E, quando
transcendes partes, tornas-te o todo. O todo não é apenas um acúmulo de
partes, não é uma coisa mecânica na qual as partes são postas em alinhamento
e então formam um todo. Não; é mais do que uma coisa mecânica: parece-se a
algo artístico.
Podes dividir um poema em palavras, mas as palavras nada significarão. E
quando o todo ali está, é mais do que palavras. Tem sua própria identidade. Tem
intervalos, assim como tem palavras. E, às vezes, os intervalos são mais
significativos do que as palavras. Um poema torna-se poesia apenas quando diz
algo que não foi realmente dito, quando algo nele transcende todas as partes.
Se o dividires e analisares, terás apenas as partes, mas a “flor” transcendental,
que era realmente a coisa, perdeu-se.
Assim, a consciência é uma totalidade. Renegando uma parte dela tu perdes
algo — algo que é realmente importante. E nada ganhas: só ganhas extremos.
Cada extremo faz-se uma doença, cada extremo torna-se uma enfermidade,
internamente. Então entras cada vez mais no turbilhão, e passa a existir uma
anarquia interior.
A ioga é a ciência de transcender a anarquia, a ciência de fazer inteira a tua
consciência — e tu só és inteiro quando transcendes as partes. Assim, a ioga
não é religião nem ciência. É ambas as coisas. Ou antes, transcende ambas.
Podes dizer que é uma religião científica ou uma ciência religiosa. Por isso é que
a ioga pode ser usada por qualquer pessoa de qualquer religião, e pode ser
usada por qualquer pessoa com qualquer tipo de mente.
Na Índia, todas as religiões que se desenvolveram têm muito diferentes (na
verdade, antagônicas) filosofias, conceitos, percepções. Nada têm em comum.
Entre o hinduísmo e o jainismo nada há em comum, entre o hinduísmo e o
budismo não há nada em comum. Só há em comum uma coisa que essas
religiões não podem negar: ioga.
Buda diz: “Não há corpo, não há alma”, mas não pode dizer: “Não há ioga.”
Mahavira diz: “Não há corpo, mas há alma”, mas não pode dizer: “Não há ioga.”
O hinduísmo diz: “Há corpo, há alma... e há ioga.” A ioga permanece,
constantemente. Mesmo o cristianismo não a pode negar, mesmo o
maometismo não a pode negar.
Na verdade, mesmo alguém que seja ateisticamente orientado não pode negar
a ioga porque a ioga não tem como pré-condição a crença em Deus. A ioga não
tem pré-condições, a ioga é inteiramente experimental. Quando o conceito de
Deus é mencionado (e nos mais antigos livros iogues isso não é absolutamente
mencionado) é mencionado apenas como método. Pode ser usado como
hipótese —- se é de auxílio para alguém pode ser usado — mas não é uma
condição absoluta. Por isso é que Buda pode ser um iogue sem Deus, sem os
Vedas, sem qualquer crença. Sem qualquer fé (qualquer das chamadas “fé”), ele
pode ser iogue.
Assim, para os teístas, como para um ateu, a ioga pode tornar-se terreno
comum. Pode fazer-se uma ponte entre a ciência e a religião. É,
simultaneamente, racional e irracional. A metodologia é inteiramente racional,
mas através da metodologia vai-se aprofundando para o mistério do irracional.
do o processo é tão racional — cada passo é tão racional, tão científico, tão
lógico — que basta fazer isso; tudo o mais se seguirá.
Jung menciona que no século dezenove não havia ocidental preocupado com
psicologia que pudesse conceber algo que estivesse para além da mente
consciente ou abaixo da mente consciente, porque mente significa consciência.
Portanto, como pode haver mente inconsciente? É absurdo, é “não-científico.”
Então, no século vinte, conforme a ciência aprendeu mais sobre o inconsciente,
uma teoria da mente inconsciente foi desenvolvida. Quando se aprofundaram
mais, tiveram de aceitar a idéia de um inconsciente coletivo, e não apenas do
individual. Pareceu absurdo (se a mente significava algo individual, certamente
não poderia haver mente coletiva), mas agora aceitaram até mesmo esse
conceito de mente coletiva.
Essas são as três primeiras divisões da psicologia budista, da ioga budista — as
três primeiras. Buda as dividia em 160 divisões mais. Jung diz: “Antes
negávamos aquelas três. Agora, as aceitamos. Pode ser que também existam
outras. Temos apenas de continuar passo a passo, temos apenas de ir até mais
longe.” A abordagem de Jung é muito racional, uma abordagem profundamente
enraizada no Ocidente.
Com a ioga prosseguirás racionalmente — mas apenas para saltar em direção
do irracional. O fim destina-se a ser irracional. Aquilo que podes compreender —
o racional — não pode ser a fonte, já que é finita. A fonte deve ser maior do que
tu. A fonte da qual vieste, da qual tudo veio, da qual todo o universo veio — e
para a qual tudo vai e desaparece novamente — deve ser mais do que isso. A
manifestação deve ser menor do que a fonte. A mente racional pode sentir e
compreender o manifesto, mas o não-manifesto permanece para trás.
A ioga não insiste em que se deva ser racional. Ela diz: “É racional conceber algo
irracional. É racional, realmente, conceber as fronteiras do racional.” Uma mente
verdadeira, autêntica, sempre conhece as limitações da razão, sempre sabe que
a razão termina em algum ponto. Quem quer que seja autenticamente racional
tem que chegar a um ponto em que o irracional é sem sentido. Se segues com
a razão em direção do definitivo, a fronteira será sentida.
Einstein sentiu-a, Wittgenstein sentiu-a. O Tractatus de Wittgenstein é um dos
livros mais racionais que já foi escrito, e ele tem a mais racionalista das mentes.
Fala sobre a existência de uma forma muito lógica, de maneira muito racional.
Suas expressões — palavras, linguagem, tudo — são racionais, mas, então, diz
ele: “Há algumas coisas sobre as quais nada se pode dizer — para além das
quais existe algo mais; assim, devo permanecer calado a esse respeito.” Por
isso, ele escreve: “O que não pode ser dito, não deve ser dito.”
O edifício inteiro tomba: o edifício inteiro! Wittgenstein estava tentando ser
racional sobre o fenômeno completo da vida, e, de súbito, um ponto aparece e
ele diz: “Agora, para além deste ponto, nada pode ser dito.” Isso é dizer coisa
muito importante. Alguma coisa está ali, agora, e nada pode ser dito sobre ela.
Agora há um ponto que não pode ser definido, um ponto onde todas as
definições simplesmente tombam por terra.
Onde quer que haja existido uma mente autêntica, lógica, ela chega àquele
ponto. Einstein morreu como um místico... e mais místico do que os vossos
chamados místicos, porque se és um místico sem ter jamais tentado seguir o
caminho da razão, nunca poderás entrar profundamente no misticismo. Não
conheceste, realmente, as fronteiras. Sei de místicos que vão falando de Deus
como de um conceito lógico, como um argumento. Houve místicos cristãos que
tentaram “provar” Deus. Que insensatez! Se Deus pudesse ser provado, nada
mais poderia deixar de ser provado... e o não-provado é a fonte.
Quem experimentou algo da divina vontade não tenta provar tal coisa, porque o
próprio esforço de prová-la mostra que esse alguém jamais esteve em contacto
com a fonte original da vida (que não é provada, que não pode ser provada). O
todo não pode ser provado por uma parte. Por exemplo: minha mão não pode
provar a minha existência. Minha mão não pode ser mais do que eu, não me
pode cobrir. Seria loucura tentá-lo, mas, se a mão puder cobrir a si própria,
completamente, isso é o mais que bastante. Do momento em que a mão conhece
a si própria, conhece também as raízes que a ligam a algo mais, sabe que é
constantemente una com algo mais. Está ali porque aquele “mais” também está
ali.
Se eu morrer, minha mão também morre. Ela existe apenas por minha causa. O
todo permanece não-provado, só as partes são conhecidas. Não podemos
provar o todo, mas podemos senti-lo. A mão não me pode provar, mas pode
sentir-me. Pode entrar profundamente em si mesma, e, quando alcança a
profundidade, ela é eu.
Os chamados místicos, que se contrariam com a razão, não são, realmente,
místicos. Um verdadeiro místico jamais se contraria com a razão. Pode tratar
com ela. E pode tratar com a razão porque sabe que a razão não poderá destruir
o mistério da vida. Os chamados místicos e as pessoas religiosas, que temem a
razão, a lógica, o argumento, estão, na verdade, temerosos de si mesmos.
Qualquer argumento contra eles pode criar dúvidas interiores, pode ajudar o
surgimento de suas dúvidas interiores. Estão receosos de si mesmos.
O místico cristão Tertuliano, diz: “Acredito em Deus porque não o posso provar;
acredito em Deus porque é impossível acreditar.” Assim é que um verdadeiro
místico se sente: “É impossível, por isso acredito.” Se é possível, não há
necessidade de acreditar. Torna-se um conceito justo, um conceito comum.
Por isso é que os místicos sempre se revelaram pela fé, pela crença. Não se
trata de algo intelectual, não se trata de um conceito. Trata-se de um salto para
o impossível. Mas para o misterioso só podes saltar da margem da razão, nunca
antes. Como podes fazer tal coisa antes? Podes saltar apenas quando dilataste
a razão até seus extremos lógicos.
Chegaste a um ponto em que a razão não pode ir além... e o além permanece.
Agora que a razão não pode fazer nem um só passo mais e, contudo, esse passo
“mais” permanece. Mesmo que desejes permanecer com a razão, uma fronteira
é criada. Sabes que a existência está para além da fronteira da razão, de modo
que se não vais para além dessa fronteira, tornas-te um místico. Mesmo que não
dês o salto, tornas-te um místico porque soubeste alguma coisa, encontraste
alguma coisa que não era absolutamente racional.
Tudo quanto a razão pode saber tu soubeste. Agora, algo encontraste que a
razão não pode saber. Se dás o salto, tens de deixar a razão para trás; não
podes dar o salto com a própria razão. Isso é o que se define como fé. A fé não
está contra a razão, está para além dela. Não é anti-racional, é irracional.
Ioga é o método que te leva ao limite extremo da razão, e não apenas um método
para levar-te ao extremo, mas também um método para que tentes o salto.
Como dar o salto? Einstein, por exemplo, teria florescido como um Buda se
soubesse alguma coisa sobre os métodos meditativos. Ele estava bem à beira
disso. Muitas vezes, em sua vida, chegou ao ponto do qual o salto era possível.
Mas de todas as vezes perdeu a oportunidade. Estava enredado, novamente,
pela razão. E ao fim, ficou frustrado por toda a sua vida de razão.
A mesma coisa poderia ter acontecido a Buda. Também ele tinha uma mente
racional, muito racional, mas houve algo possível para ele, um método que pôde
usar. Não só a razão tem seus métodos; a irracionalidade também os tem.
A ioga está, positivamente, relacionada com métodos irracionais. Só no início os
métodos racionais podem ser usados. Servem apenas para persuadir-te, para
empurrar-te, para levar tua razão a mover-se em direção do limite. E, se chegas
ao limite, darás o salto definitivo.
Gurdjieff trabalhou, com certo grupo, em alguns métodos, profundos e
irracionais. Estava trabalhando com um grupo de investigadores e usando um
método irracional particular. Chamava a esse método de Exercício do “Pare!” Por
exemplo, se estivesses com ele e, subitamente, ele dissesse “Pare!”, então,
todos tinham de parar tal como estavam — parar totalmente. Se a mão estava
em determinado lugar, devia parar ali. Se os olhos estavam abertos, tinham de
permanecer abertos, se a boca estava aberta — tu estarias para dizer algo — a
boca deveria permanecer tal como estava. Nenhum movimento!
Esse método começa com o corpo. Se não há movimento no corpo, subitamente
deixa de haver movimento na mente. Os dois estão associados: não podes
mover teu corpo sem um movimento interior da mente, e não podes parar
totalmente teu corpo sem deter o movimento interior da mente. Corpo e mente
não são duas coisas, são uma energia. A energia é mais densa no corpo do que
na mente — a densidade difere, a frequência do comprimento da onda difere —
mas é a mesma onda, o mesmo fluxo de energia.
Os investigadores estiveram praticando esse exercício “Pare!” durante um mês,
continuamente. Um dia, Gurdjieff estava em sua tenda e três investigadores
caminhavam através de um canal seco que havia ali no terreno. Era um canal
seco, não tinha água alguma fluindo por ali. Subitamente, da sua tenda, Gurdjieff
gritou: “Pare!” Todos os que estavam nas margens do canal pararam. Os três
que estavam dentro do canal também pararam. (O canal estava seco, portanto
não havia problema.)
Então, de súbito, houve uma arremetida de água. Alguém abrira a torneira
fornecedora e a água corria para o canal. Quando chegou ao pescoço dos três,
um deles saltou para fora do canal, pensando: “Gurdjieff não sabe o que está
acontecendo. Está em sua tenda e não tem conhecimento do fato de que a água
veio para o canal.” O homem pensou: “Devo saltar para fora. Agora é irracional
ficar aqui.” E saltou.
Os outros dois permaneceram no canal enquanto a água se ia fazendo vez mais
alta. Finalmente, ela alcançou suas narinas e o segundo homem pensou: “Este
é o limite! Não vim aqui para morrer. Vim aqui para tomar conhecimento da vida
eterna e não para perder esta vida.” E saltou para fora do canal.
O terceiro homem permaneceu. Enfrentava o mesmo problema, também, mas
resolveu permanecer porque Gurdjieff dissera que aquele era um exercício
irracional e, se fosse feito com a razão, toda a coisa seria destruída. Pensou:
“Está bem, aceito a morte... mas não posso interromper este exercício.” E
permaneceu ali.
Agora, a água fluía por sobre a sua cabeça. Gurdjieff saltou de fora de sua tenda
para o canal e retirou dali o homem, que estava às portas da morte. Mas,
revivendo, ele era um homem transformado. Não era o mesmo que ali tinha
estado, fazendo o exercício: estava totalmente transformado. Soubera de
alguma coisa: dera o salto.
Onde está o limite? Se continuas com a razão, podes perder a oportunidade.
Continuarás a recuar. Às vezes é preciso dar o passo que leva para além. Esse
passo se torna uma transformação: a divisão é transcendida. Digas ou não que
essa divisão fica entre o consciente e o inconsciente, entre a razão e a não-
razão, entre a ciência e a religião, ou entre Oriente e Ocidente — a divisão deve
ser transcendida. Isso é ioga: uma transcendência. Então podes voltar à razão,
mas estarás transformado. Podes mesmo raciocinar sobre as coisas, mas
estarás para além da razão.
2
Não-Fazer Através
do Fazer
A meditação é sempre passiva; sua própria essência é passiva. Não pode ser
ativa porque a própria natureza dela é o não-fazer. Se estás fazendo algo esse
fato de fazeres algo perturba tudo. O fazer, em si mesmo, tua própria atividade,
cria a perturbação.
Não-fazer é meditação, mas quando digo que não-fazer é meditação não quero
dizer que nada precises fazer. Mesmo para atingir esse não-fazer precisamos
fazer muito! Mas esse fazer não é meditação. É, apenas, um degrau, um
trampolim. Todo o “fazer” não passa de um trampolim — não é meditação.
Estás exatamente à porta, nos degraus... A porta é o não-fazer, mas, para atingir
o estado de espírito do não-fazer é preciso fazer muito. Mas é preciso não
confundir esse fazer com meditação.
A energia vital trabalha com contradições. A vida existe como uma dialética: não
é um simples movimento. Não flui como um rio: é dialética. Com cada movimento
a vida cria seu próprio oposto, e através da luta com o oposto move-se para a
frente. Cada novo movimento leva a tese a criar a antítese. E isso continua
sempre: tese criando antítese, incorporando-se à antítese, e tornando-se a
síntese que, então, faz-se de novo tese. Então, vem de novo a antítese.
Quando falo em movimento dialético não quero falar de movimento simples,
direto: é um movimento dividido em si mesmo, dividindo-se em si mesmo,
criando o oposto, depois encontrando-se de novo com o oposto, e dividindo-se
de novo no oposto. E a mesma coisa se aplica à meditação, porque ela é a coisa
mais profunda da vida.
Se eu te digo: “Relaxa, apenas”, isso é impossível, porque não saberias o que
fazer. Assim, muitos dos pseudoprofessores de relaxamento continuam dizendo:
“Relaxa, apenas, não faças nada; relaxa, apenas.” Então, que vais fazer? Podes
deitar-se, mas isso não é relaxamento. Todo o remoinho interno permanece... e
agora há um novo conflito: relaxar. Algo foi acrescentado sobre e acima. Toda a
insensatez ali está, todo o remoinho ali está, com algo acrescentado: relaxar.
Uma nova tensão está, agora, acrescentada a todas as velhas tensões.
Assim, a pessoa que está tentando viver uma vida relaxada é a pessoa mais
tensa possível. Está fadada a sê-lo, porque não compreendeu o fluxo dialético
da vida. Pensa que a vida é um fluxo reto, bastando que se diga a si mesmo que
relaxe para estar relaxado.
Isso não é possível! Assim, se vieres a mim, jamais direi que apenas relaxes.
Primeiro fica tenso, tão fortemente tenso quanto puderes. Fica totalmente tenso!
Primeiro deixa que todo teu organismo fique tenso, e continue a estar tenso até
o máximo, até a tua total possibilidade. E então, subitamente, sentirás que o
relaxamento se instala. Fizeste o que te era possível: agora a energia da vida
cria o oposto.
Levaste a tensão ao auge. Agora, não há nada para além disso, não podes
continuar. Toda a energia foi devotada à tensão. Mas não podes continuar com
essa tensão indefinidamente. Ela tem de se dissolver, e depressa começará a
dissolver-se. Agora, sê uma testemunha desse acontecimento.
Através da tensão chegaste ao limiar, ao ponto de onde se salta. Por isso não
pudeste continuar. Se continuasses, poderias estourar, morrer. O ponto
excelente foi encontrado. Agora, a energia da vida relaxará a si mesma.
Ela se relaxa. Agora, fica consciente, e vê esse relaxamento instalar-se. Cada
membro do corpo, cada músculo do corpo, cada nervo do corpo vai relaxando,
inocentemente, sem que nada seja feito de tua parte. Nada estás fazendo para
relaxar, ele se está relaxando. Começarás a sentir muitos pontos no organismo
que se relaxa. Todo o organismo será uma reunião de pontos relaxados. Fica
consciente.
Essa consciência é meditação. Mas é um não-fazer. Nada estás fazendo, porque
estar consciente não é um ato. Não é absolutamente um ato, é tua natureza,
uma qualidade intrínseca de teu ser. Tu é consciência. Tua não-consciência é a
tua conquista... e a conquistaste com muito esforço.
Assim, para mim, a meditação tem dois passos: primeiro, um ativo (que não é,
realmente, de modo algum, meditação) e segundo, um completamente não-ativo
(a consciência passiva, que é, realmente, meditação). A consciência, ou
conhecimento, é sempre passiva, e, no momento em que te tornas ativo perdes
teu conhecimento. É possível estar ativo e consciente apenas quando a
consciência chegou a um tal ponto que agora já há necessidade da meditação
para conquistá-la, ou conhecê-la, ou senti-la.
Quando a meditação se torna inútil, tu, simplesmente, pões de lado a meditação.
Agora, estás consciente. Só então podes estar ao mesmo tempo consciente e
ativo — de outra maneira não é possível. Enquanto a meditação ainda for
necessária, não serás capaz de estar consciente durante a atividade. Mas,
quando a meditação já não é necessária...
Se tu te tornaste meditação, já não precisarás dela. Então, podes ser ativo, mas
mesmo nessa atividade és sempre o espectador passivo. Agora, jamais és o
ator: és, sempre, uma consciência que testemunha.
A consciência é passiva... e a meditação está fadada a ser passiva porque é
apenas uma porta para a consciência — a perfeita consciência. Assim, quando
as pessoas falam em meditação “ativa”, estão erradas. Meditação é passividade.
Podes precisar de alguma atividade, de algum “fazer” para chegar a ela — isso
pode ser compreendido — mas isso não se dá porque a meditação seja, em si,
ativa. Isso, antes, se dá, porque estiveste ativo em tantas e tantas vidas — a
atividade tornou-se de tal forma parte e parcela de tua mente — que precisas
até mesmo da atividade para alcançar a não-atividade.
Estiveste tão envolvido em atividade que não podes abandoná-la. Assim,
pessoas como Krishnamurti podem continuar a dizer: “Abandona isso”, mas
continuarás a perguntar como abandonar isso. Krishnamurti dirá: “Não perguntes
como. Estou dizendo que abandones isso! Não há um ‘como’ para tanto. Não há
necessidade de nenhum ‘como’.”
De certa forma ele está certo. Consciência passiva ou meditação passiva não
têm um “como”. Não podem ter, porque se houver algum “como” então não pode
ser passiva. Mas está certo, também, porque não leva em conta seu ouvinte.
Está falando de si próprio.
A meditação se faz sem “como”, sem tecnologia, sem qualquer técnica. Assim,
Krishnamurti está absolutamente correto, mas o ouvinte não foi levado em conta.
O ouvinte nada mais tem senão atividade; para ele, tudo é atividade. Assim,
quando dizes “A meditação é passiva, não-ativa, sem escolha. Podes apenas
estar nela. Não há necessidade de esforço, de nenhum esforço, ela é sem
esforço”, estás falando uma linguagem que o ouvinte é capaz de entender. Ele
entende a parte linguística do que dizes — e isso é que torna tudo tão difícil. Ele
diz: “Intelectualmente, compreendo tudo. Tudo o que o senhor está dizendo está
sendo inteiramente compreendido”, mas ele é incapaz de compreender o
significado.
Não há nada de misterioso nos ensinamentos de Krishnamurti. Ele é o menos
místico dos mestres. Nada há de misterioso! Tudo é obviamente claro, exato,
analisado, lógico, racional, de forma que todos podem entender. E isso tornou-
se uma das grandes barreiras, porque o ouvinte pensa que compreendeu.
Compreende a parte linguística, mas não compreende a linguagem da
passividade.
Compreende o que lhe está sendo dito — as palavras. Ouve-as, compreende-
as, conhece o sentido daquelas palavras. Faz correlações. Um quadro
inteiramente correlato vem à sua mente. O que está sendo dito é compreendido,
há uma comunicação intelectual. Mas ele não compreende a linguagem da
passividade. Não pode compreender. Só pode compreender a linguagem da
ação — da atividade.
Assim, tenho de falar sobre a atividade. E tenho de conduzir-te, através da
atividade, ao ponto de onde podes dar o salto para a não-atividade. A atividade
deve chegar ao ponto extremo, ao ponto-limite, quando se torna impossível para
ti o ser ativo (porque se a atividade ainda for possível, tu continuarás).
Tua atividade deve ser esgotada! O que quer que possas fazer, deves ter
permissão para fazê-lo. Seja o que for que possas fazer, deves ser compelido a
fazer até o ponto em que tu mesmo grites: “Agora, nada posso fazer, não há
esforço possível. Estou exausto.”
Então, eu digo: “Agora, abandona!” Esse abandono pode ser comunicado. Estás
no limite, estás pronto para abandonar. Agora, podes compreender a linguagem
da passividade. Antes disso não podias compreender. Estavas demasiado
repleto de atividade.
Jamais estiveste no ponto extremo da atividade. As coisas só podem ser
abandonadas no ponto extremo, nunca no meio. Não podes abandoná-las.
Podes abandonar o sexo — se estiveste totalmente nele, podes abandoná-lo; de
outra forma, não. Podes abandonar tudo quanto levaste até ao limite extremo,
onde não há mais para onde ir, e não há razão para retroceder. Podes abandonar
isso porque o conheceste totalmente.
Quando conheceste alguma coisa totalmente, ela se torna tediosa para ti. Podes
desejar ir adiante, mas não há adiante para ir, então apenas “pararás de todo”.
Não há retorno, e não há possibilidade de ir adiante. Estás no ponto em que tudo
termina. Então, podes abandonar, podes ser passivo. E, do momento em que és
passivo, acontece a meditação. Ela floresce. Vem ter contigo. É um “abandono
total” na passividade.
Assim, para mim, esse é o esforço que leva ao “não-esforço”, é a ação que leva
à “não-ação”, é a mente que conduz à meditação, é o próprio mundo material
que conduz à iluminação. A vida é um processo dialético, seu oposto, é a morte.
Deve ser usado, não podes abandoná-lo.
Usa-o, e serás atirado ao oposto. E, sê consciente. Quando és atirado sobre as
ondas, sê consciente. É fácil. Quando vens de um auge de tensão para o ponto
de relaxamento, é muito fácil estar consciente, muito fácil. Não é difícil, então;
porque para estar consciente tens de ser passivo, apenas uma testemunha.
Mesmo o esforço de testemunhar não deve estar presente. Não é necessário.
Estás tão exausto através da atividade, que dirás: “Leve o diabo isso tudo —
chega!” Então, a meditação É, e tu não és. E, uma vez saboreado, esse gosto
jamais será perdido. Permanece contigo onde quer que tu vás.
Permanece contigo. Então, ele penetrará todas as tuas atividades, também.
Haverá atividade, e ali — no próprio centro do teu ser — haverá um silêncio
passivo, e na circunferência — o mundo todo. No centro — o brâmane. Na
circunferência, toda a atividade; no centro, apenas silêncio. Mas um silêncio
muito fecundo, não um silêncio morto, porque desse silêncio tudo nasce, mesmo
a atividade.
Desse silêncio vem toda a criatividade. É muito fecundo... Portanto, quando quer
que eu diga “silêncio”, não estou falando do silêncio de um cemitério, do silêncio
de uma casa onde não há ninguém. Não! Falo do silêncio de uma semente, do
silêncio de um útero materno, do silêncio das raízes subterrâneas. Há muita
potencialidade oculta que logo surgirá.
A atividade ali estará, mas agora aquele que age não está, aquele que fez, já
não está. Isso é busca, isso é procura.
Há duas tradições antagônicas: a ioga e o samkhya, A ioga diz que nada pode
ser conseguido sem esforço. O todo da ioga, o todo da ioga de Patanjali (raja-
ioga) nada é senão esforço. E essa foi a corrente principal, porque o esforço foi
entendido por muitos. A atividade pode ser compreendida, por isso a ioga tem
sido a corrente principal. Às vezes, entretanto, aparecem extravagantes que
dizem: “Nada tem de ser feito”. Um Nagarjuna, um Krishnamurti, um Huang Po
— alguns extravagantes! — dizem: “Nada tem de ser feito. Não faças nada. Não
perguntes sobre o método.” Essa é a tradição do samkhya.
Há, realmente, duas únicas religiões no mundo: ioga e samkhya. O samkhya,
porém, sempre atraiu poucas pessoas, aqui e ali, por isso não se fala muito dele.
Essa é a razão que nos leva a ver em Krishnamurti alguém muito original e
moderno. Ele não é tal, mas parece ser porque o samkhya é desconhecido.
Só a ioga é conhecida. Há ashrams, centros de treinamento e iogues, por todo
o mundo. A ioga é conhecida: a tradição do esforço. O samkhya não é
absolutamente conhecido. Krishnamurti não disse uma só palavra que fosse
nova, mas, como não estamos familiarizados com as tradições do samkhya, o
que ele diz parece novo. Só por causa da nossa beatífica ignorância existem
revolucionários.
Samkhya significa “conhecimento”, conhecer. Samkhya diz: “Só o conhecimento
é bastante: só a consciência é bastante.”
Essas duas tradições, contudo, são apenas dialéticas. Para mim, não são
opostas. Para mim, são dialéticas, e uma síntese é possível. Chamo a essa
síntese de não-esforço através do esforço: ioga através de samkhya e samkhya
através de ioga... Não-fazer através de fazer. Nesta época, nenhuma dessas
duas tradições opostas, por si mesmas, pode ajudar. Podes usar a ioga para
alcançar samkhya — e terás de usar a ioga para alcançar samkhya.
Se podes compreender a dialética hegeliana, toda a coisa estará clara para ti. O
conceito do movimento dialético não tem sido usado por ninguém, desde Marx,
e ele o usou de uma forma muito não-hegeliana. Usou-o para a evolução
material, para a sociedade, para classes — para mostrar como a sociedade
progride através de classes, através da luta de classes. Marx disse: “Hegel
estava posto de cabeça para baixo e eu o coloquei novamente sobre os pés.”
Mas, realmente, o contrário foi o que se deu. Hegel estava sobre seus pés e
Marx o colocou de cabeça para baixo. E, por causa de Marx, o conceito muito
fecundo da dialética tornou-se contaminado pelo comunismo. Mas o conceito é
muito belo, muito significativo. Tem muita profundidade. Hegel diz: “O progresso
de uma idéia, o progresso da consciência, é dialético. A consciência progride
através da dialética.”
Eu digo que qualquer força vital progride através da dialética, e a meditação é o
maior fenômeno acontecido, a explosão da força da vida. Ela é mais profunda
do que uma explosão atômica, porque numa explosão atômica apenas uma
partícula de matéria explode, mas na meditação uma célula viva, uma existência
viva, um ser vivo explodem.
Essa explosão ocorre através da dialética. Assim, usa a ação, e lembra-te da
não-ação. Terás que fazer muito, mas recorda que todo esse fazer se dá apenas
para alcançar o estado no qual nada se faz.
Samkhya e ioga parecem, ambos, bastante simples. Krishnamurti não é difícil,
nem o é Vivekananda. São simples, porque escolheram uma parte da dialética.
Então, parecem muito consistentes. Krishnamurti é muito consistente,
absolutamente consistente. Em quarenta anos de palestras não articulou uma
só palavra inconsistente, porque escolheu uma parte de todo o processo, o
oposto do que é negado. Vivekananda também é consistente: ele escolheu a
outra parte.
Eu posso parecer muito inconsistente. Ou, podes dizer que eu sou consistente
em minhas inconsistências. Usa a dialética... Relaxa, através da tensão...
Medita, através da ação.
Por isso é que eu falo de jejum. Ele é ação, uma ação muito profunda. Tomar o
alimento não é uma atividade tão grande como não tomá-lo. Tu o tomas, e depois
o esqueces. Não há nisso muita atividade. Mas se não estás tomando alimento,
o ato é grande. Não o podes esquecer. Todo o corpo recorda, cada uma das
células o pede. O corpo inteiro entra num remoinho. O jejum é muito ativo —
ativo até o cerne. Não é passivo.
Dançar não é ato passivo, é muito ativo. Ao fim tu te tornas movimento. O corpo
é esquecido, só o movimento permanece. Realmente, dançar é a coisa mais
sobrenatural, a arte mais sobrenatural, porque é apenas ritmo em movimento. É
absolutamente imaterial, de forma que não podes prendê-la. Podes prender o
dançarino, mas nunca a dança. Ela só se dissolve no cosmos: ali está, e já ali
não está... não está aqui, e, de súbito, está aqui. Vem do nada e está aqui. Sai
do nada e de novo vai para o nada.
Um dançarino está sentado aqui. Não há dança nele. Mas se um poeta escrever
sentado aqui, a poesia pode estar nele. A poesia pode existir no poeta. Um pintor
está aqui; de uma forma muito sutil a pintura está presente. Antes que ele pinte,
a pintura ali está. Mas, com o dançarino, nada está presente, e se está presente,
então tratamos com um técnico e não com um dançarino. O movimento é um
fenômeno novo que vai chegando. O dançarino torna-se apenas um veículo: o
movimento domina.
Um dos maiores dançarinos deste século foi Nijinsky. Ao fim, ele enlouqueceu...
e poderia ter sido o maior dançarino de toda a história. Mas o movimento se
tornou algo demais para ele, e nele o dançarino se perdeu. Em seus últimos anos
não conseguia controlá-lo. Podia pôr-se a dançar a qualquer momento, em
qualquer lugar. E, quando estava dançando, ninguém poderia dizer quando
acabaria. A dança poderia continuar pela noite toda...
Quando amigos lhe perguntavam “Que acontece contigo? Começas, e não
terminas?”, Nijinsky dizia: “Eu sou apenas o princípio. Então, algo domina, e ‘eu’
já não sou... e nem sei quem dança.”
Enlouqueceu. Foi para um hospício; morreu num hospício.
Aceita uma atividade e vai ao limite onde existe loucura, ou meditação. A busca
morna nenhum efeito terá.
3
Meditação “Caótica”...
O homem é neurótico. Não apenas alguns homens são neuróticos, mas a
humanidade, ela toda, é neurótica. Não se trata de cura para umas tantas
pessoas, é uma questão de curar a humanidade como tal. A neurose é a
condição "normal” do homem, porque cada homem passa por um treinamento,
um condicionamento. Não lhe permitem ser apenas o que é. Tem de ser moldado
por um padrão particular. Esse padrão cria neurose.
A sociedade te dá um padrão, um molde. És cultivado dentro de certo feitio e
forma. Só um fragmento de teu ser tem permissão para se expressar, enquanto
a parte remanescente é represada. Isso cria uma divisão, uma esquizofrenia. E
a parte que é suprimida fica a lutar para expressar-se.
Assim, todo homem é esquizofrênico, dividido... dividido contra si próprio,
lutando contra si próprio. O homem, como tal, é esquizofrênico. Não pode estar
à vontade, não pode ser calado, nem pode ser expansivo. O inferno está sempre
ali. E, a não ser que te tornes inteiro, não podes livrar-te desse inferno.
Algo tem de ser feito para desprender essa neurose, para aproximar tuas partes
divididas. O que não é expresso tem de ser expresso, e essa constante
repressão do inconsciente pelo consciente tem de ser eliminada.
As velhas técnicas de meditação não levam tal coisa em consideração. Por isso
fracassaram. As técnicas de meditação existem há muito tempo, têm sido
conhecidas através das histórias, mas um Buda, um Jesus, um Mahavira, todos
foram fracassos. Não quero dizer que eles próprios não compreenderam.
Compreenderam, alcançaram sua própria iluminação, mas não puderam auxiliar
a maior parte da humanidade a alcançar a iluminação.
Por que a religião não foi mais do que um auxílio? A razão é esta: o homem foi
tomado naturalmente, e as técnicas meditativas lhes foram ensinadas tal como
ele é. Essas técnicas só podem ajudar até certo ponto; podem afetar apenas a
superfície. A divisão interior permanece, nada pode ser feito para dissolvê-la.
Há, por exemplo, as técnicas do Zen..., a Meditação Transcendental do iogue
Mahesh... e outras técnicas mais. Elas podem ajudar até certo ponto. Podem
acalmar-te, tua superfície torna-se mais tranquila. Mas nada acontece ao teu eu
interior. Não pode acontecer! E, de certa forma, a calma superficial é perigosa,
porque, mais cedo ou mais tarde, tornará a explodir. Basicamente, nada
aconteceu. Treinaste simplesmente tua mente consciente para um estado mais
calmo.
Podes acalmar facilmente tua mente através de mantras, através do cantarolar
constante, através de muitas coisas. Tudo quanto criar um tédio interior te
ajudará a obter calma. Por exemplo, se repetires constantemente Ram-Ram-
Ram, essa repetição constante cria uma sonolência, um tédio, e tua mente
começa a sentir sono. Podes sentir essa sonolência como calma, como quietude,
mas não é isso. Na verdade, isso é uma espécie de embrutecimento. Mas, pelo
menos, podes tolerar melhor tua vida, por causa desse embrutecimento. Pelo
menos superficialmente estarás mais satisfeito. E as forças, as forças neuróticas,
continuarão fervilhando em ti, por dentro. Um belo dia elas explodirão e
despedaçarão a superfície.
Tais métodos são conciliatórios. Muito poucas são as pessoas que podem ser
ajudadas através deles. E as que podem ser ajudadas através deles podem ser
ajudadas por quaisquer outras técnicas. Mas tais pessoas são raras exceções,
são os poucos afortunados que não são neuróticos. A maioria da humanidade
não tem tanta sorte.
Por isso é que minha ênfase, de início, está em dissolver tua divisão interior,
fazer-te um — uma unidade. A não ser que sejas um, nada pode ser feito. Assim,
a primeira coisa está em como dissolver a tua neurose.
Minha técnica é a da Meditação Dinâmica, que aceita a tua neurose tal como é,
e tenta liberá-la. A técnica se inicia, basicamente, com uma catarse. Tudo que
está escondido deve ser liberado. Não deves continuar reprimido. Antes, escolhe
a expressão como caminho. Não condenes a ti próprio. Aceita-te tal como és,
porque a condenação apenas cria divisão. Do momento em que aceitas, vais
além, porque a aceitação cria uma unidade, e quando estás unido interiormente,
tens energia para ir além.
Quando estás dividido interiormente, tua energia está lutando contigo mesmo.
Então, ela não pode ser usada para nenhuma transformação. Assim, deixa que
haja uma aceitação do que és. Tudo que tens estado reprimindo até agora tem
de ser liberado. E se liberas tua neurose conscientemente, dia virá em que
chegarás ao ponto em que já não és um neurótico.
Os que reprimem as suas neuroses tornam-se cada vez mais neuróticos,
enquanto os que a manifestam conscientemente, livram-se dela. Assim, a não
ser que te tornes “conscientemente insano” jamais poderás tornar-te são. R.D.
Laing tem razão quando diz: “Dá a ti próprio a permissão de ser insano.” Ele é
um dos homens mais sensíveis do Ocidente.
Tu és insano, então tens que fazer algo a esse respeito. A velha tradição diz:
“Reprime a tua insanidade. Não permitas que ela se manifeste ou começarás a
agir de forma insana”, mas eu te digo: “Deixa que ela venha à tona, sê consciente
dela. Essa é a única via para a sanidade.”
Libera-a! Dentro, ela se tornará venenosa. Atira-a fora, remove-a totalmente do
teu sistema. Mas essa catarse deve ser abordada de uma forma muito
sistemática, muito metódica, porque se trata de tornar-se louco com método...
conscientemente louco.
Tens de fazer duas coisas: permanecer consciente do que estás fazendo, e nada
suprimir. Com as nossas mentes, consciência habitualmente significa supressão.
Esse é o problema. Do momento em que te tornas consciente de certas coisas
em ti próprio começas a suprimi-las. Assim, isto é o que deve ser aprendido: ser
consciente e não-supressivo... ser consciente e expressivo.
Meu sistema de Meditação Dinâmica — também conhecida como “Caótica” —
começa com a respiração, porque a respiração tem profundas raízes no ser.
Podes não ter observado isso, mas, se puderes mudar tua respiração, poderás
mudar muitas coisas. Se observares cuidadosamente tua respiração, verás que
quando te zangas tens um ritmo particular na respiração. Quando estás amando,
um ritmo totalmente diferente ocorre. Quando estás relaxado, respiras de
maneira diferente; e o mesmo acontece quando estás tenso. Não podes respirar
da forma como o fazes quando estás relaxado e ao mesmo tempo sentir cólera.
Isso é impossível.
Quando estás sexualmente excitado, tua respiração se modifica. Se não
permitires que haja essa modificação, teu entusiasmo sexual te abandonará
automaticamente. Isso significa que a respiração está profundamente
relacionada com o teu estado mental. Se mudares tua respiração, poderás
mudar o estado de tua mente. Ou, se mudares o estado de tua mente, a
respiração também mudará.
Por isso começo com a respiração e sugiro dez minutos de respiração caótica
no primeiro estágio da técnica. Entendo como respiração caótica uma respiração
rápida e vigorosa, sem qualquer ritmo. Só aspirar e exalar, aspirando e
restituindo o ar, tão vigorosamente, tão profundamente, tão intensamente quanto
possível. Aspira, e, a seguir, exala.
A respiração caótica deve criar um caos dentro de teu sistema reprimido. Seja
quem fores, tens certo tipo de respiração. Uma criança respira de forma
particular. Se estás sexualmente temeroso, respiras de maneira particular. Não
podes respirar profundamente porque cada respiração profunda toca o centro do
sexo. Se estás temeroso, não podes respirar profundamente. O medo cria a
respiração superficial.
Essa respiração caótica deve destruir todos os teus padrões passados. Essa
respiração caótica irá destruir aquilo que fizeste de ti mesmo. A respiração
caótica cria o caos dentro de ti porque, a não ser que um caos seja criado, não
podes liberar as emoções reprimidas. E essas emoções passaram, agora, para
o corpo.
Tu não és corpo e mente; tu és corpo/mente (psicossomático). És ambas as
coisas reunidas. Por isso, o que quer que seja feito com teu corpo alcança a tua
mente, e o que quer que seja feito com a mente alcança o teu corpo. Corpo e
mente são as duas extremidades da mesma entidade.
Dez minutos de respiração caótica são maravilhosos! Mas deve ser caótica. Não
é um tipo pranayama (respiração iogue). É, simplesmente, a criação do caos
através da respiração. E ela cria o caos por muitas razões.
A respiração rápida e profunda dá-te mais oxigênio. Quanto mais oxigênio
houver no corpo mais vivo tu te tornas, mais animalizado. Os animais são vivos
e o homem é semimorto, semivivo. Tens que te tornar animal, novamente. Só
então alguma coisa mais alta pode desenvolver-se em ti.
Se estás apenas semivivo, nada pode ser feito contigo. Assim, essa respiração
caótica te fará como um animal: vivo, vibrante, vital — com mais oxigênio em teu
sangue, mais energia em tuas células. As células de teu corpo tornarão mais
vivas. Essa oxigenação ajuda a criar eletricidade corporal — ou o que podes
chamar “bioenergia”. Quando há eletricidade no corpo podes ir profundamente
para o interior, para além de ti mesmo. A eletricidade trabalhará dentro de ti.
O corpo tem suas próprias fontes elétricas. Se as martelares com mais
respiração e mais oxigênio, começarão a fluir. E se te tornas realmente vivo, não
és um corpo. Quanto mais vivo ficares, mais energia flui em teu sistema e menos
te sentirás fisicamente. Irás sentir-te mais como energia e menos como matéria.
E, quando quer que aconteça estares mais vivo, não és, nesses momentos,
orientado pelo corpo. Se o sexo tem tanta atração, esta é uma das razões: se
estiveres realmente no ato, movendo-se totalmente, totalmente vivo, já não és
um corpo — és apenas energia. Sentir essa energia, estar vivo com essa energia
é muito necessário, se tens que passar além.
O segundo passo em minha técnica de Meditação Dinâmica é uma catarse. Digo-
te que sejas conscientemente insano. O que quer que te venha à mente — seja
o que for — deixa que se manifeste, coopera com isso. Não oponhas resistência
— que seja apenas um fluxo de emoções.
Se queres gritar, grita. Coopera com isso. Um grito profundo, um grito total, no
qual todo o ser fica envolvido, é muito terapêutico, profundamente terapêutico.
Muitas coisas, muitas enfermidades serão liberadas apenas pelo grito. Se o grito
for total, todo o teu ser estará nele.
Assim, nos próximos dez minutos (esse segundo passo também toma dez
minutos) permite a ti próprio a expressão através do grito, da dança, do berro,
do salto, do riso — da maluquice, como se diz.
No princípio isso pode ser forçado, um esforço, ou pode ser apenas ação. Nós
nos fizemos tão falsos que nada de real ou autêntico pode ser feito por nós. Não
temos rido, nem chorado, nem gritado, autenticamente. Tudo é apenas fachada
— máscara. Assim, quando começas esta técnica, no início podes ser forçado.
Podes precisar de esforço, podes estar apenas agindo. Mas não te preocupes
com isso. Continua. Depressa tocarás aquelas fontes onde reprimiste muitas
coisas. Tocarás aquelas fontes, e desde que elas se liberem, sentirás o alívio da
carga. Nova vida terá vindo a ti, novo nascimento tem lugar.
Esse aliviar de carga é básico... e sem ele não pode haver meditação para o
homem, tal como ele é. Insisto em que não estou falando das exceções. Elas
são irrelevantes.
Com esse segundo passo — quando as coisas são jogadas fora — ficas vazio.
E isso é o que se chama vacuidade: estar vazio de todas as repressões. Nessa
vacuidade algo pode ser feito. Pode acontecer a transformação, pode acontecer
a meditação.
Então, no terceiro passo eu uso o som “huu”. Muitos sons foram usados no
passado. Cada som tem algo específico a fazer. Por exemplo, os hindus têm
usado o som aum. Isso pode ser familiar para ti. Mas eu não sugiro aum. Aum
toca o centro do coração, mas o homem já não está centralizado no coração.
Aum bate a uma porta na qual já não há ninguém que atenda.
Os sufis usaram huu, e se dizes huu em voz alta, ele vai profundamente para o
centro do sexo. Assim, esse som pode ser usado como marteladas interiores.
Quando te fizeste vazio e drenado, esse som pode ir ter ao seu interior.
O movimento do som só é possível quando estás vazio. Se estás cheio de
repressões, nada acontecerá. E, às vezes, é até perigoso usar mantra ou som
quando estás cheio de repressões. Cada camada de repressão mudará o
caminho do som, e o resultado final pode ser algo com o qual jamais sonhaste,
jamais esperaste, jamais desejaste. Precisas de uma mente drenada, só então
um mantra pode ser usado.
Assim, jamais sugiro um mantra a alguém, tal como ele é. Antes deve haver uma
catarse. Esse mantra huu jamais deveria ser feito sem que fossem dados os dois
primeiros passos. Jamais deve ser feito sem eles. Só no terceiro passo esse huu
deve ser usado, e por dez minutos — tão alto quanto possível, concentrando
toda tua energia nisso. Tens de martelar tua energia com o som. E quando estás
vazio (quando te esvaziaste com a catarse do segundo passo) esse huu atinge
profundamente o centro do sexo.
Esse centro do sexo tem de ser atingido de duas maneiras. A primeira será
naturalmente. Quando quer que te sintas atraído por uma pessoa do sexo
oposto, o centro do sexo é atingido pelo exterior. E isso é, também, uma vibração
sutil.
Um homem é atraído por uma mulher ou uma mulher é atraída por um homem.
Por quê? Que há num homem e que há numa mulher que explique isso? Uma
eletricidade, negativa ou positiva, os atinge: uma vibração sutil. É um som, na
verdade. Por exemplo, podes ter observado que os pássaros usam o som para
o chamado sexual. Todo o seu canto é sexual. Estão repetidamente atingindo
um ao outro com sons particulares. Esses sons atingem o centro do sexo dos
pássaros do sexo oposto.
Sutis vibrações de eletricidade estão atingindo tua pessoa pelo exterior. Quando
o teu centro do sexo é atingido pelo exterior, tua energia começa a fluir para fora
— em direção do outro. Então, haverá reprodução, nascimento. Uma outra
pessoa nascerá de ti.
Huu está atingindo o mesmo centro de energia, mas interiormente. E quando o
centro do sexo é atingido interiormente, a energia começa a fluir por dentro. Esse
fluxo interior de energia, transforma-te completamente. Tu estás transformado:
dás nascimento a ti próprio.
Só te transformas quando a tua energia se movimenta em direção totalmente
oposta. Mesmo agora ela está fluindo, mas então começa a fluir por dentro.
Agora flui para baixo, mas então flui para cima. Essa onda de energia que sobe
é o que se conhece com o nome de kundalini. 2 Sentirás isso, realmente, fluindo
pela tua espinha... e quanto mais alto ela sobe, mais alto subirás com ela.
Quando essa energia atinge o brahmarandhra (o último centro em ti: o sétimo
centro, localizado no topo da cabeça), és o homem mais perfeito possível — o
que Gurdjieff chama “homem número sete.”
2. Kundalini será explanada com detalhe, no cap. 6.
Tu és “homem número um” quando tua energia está só no centro do sexo.
Quando alguma energia chega ao centro do coração, és “homem número dois”:
o homem da emoção. Quando alguma energia chega ao intelecto, és “homem
número três”: homem do intelecto. Há homens comuns — todos neuróticos à sua
maneira. Um homem é emocionalmente neurótico, outro é corporalmente
neurótico, outro é intelectualmente neurótico. Mas esses três homens não
passam de homens comuns.
“Homem número quatro” é o que está tentando mover sua energia interior: o
homem que está meditando, que está fazendo esforços para dissolver sua
neurose, suas divisões, sua esquizofrenia. Esse é o “homem número quatro.” E
conforme essa energia se move para cima, internamente, um homem mais
perfeito vai sendo criado. Quanto mais perfeito for o homem, menos neurótico
será, menos esquizofrênico, mais são.
Então chega um momento em que a energia é liberada do teu último centro, para
o cosmos. Tornas-te um super-homem. Ou, melhor, já não és um homem. E
quando chega esse momento, só então já não estás louco.
O homem é propenso a ser louco de uma forma ou outra porque não é um ser.
Ele é, antes, uma fachada. O homem não é um fim. É, antes, um processo —
algo a meio caminho. Já não é um animal, e ainda não é o que deveria ser. Está
a meio caminho entre o animal e deus. Isso é o que cria a neurose.
Já não és um animal, mas o animal ainda está dentro de ti. E continua a puxar-
te para baixo. Nada há de mau nisso, pois um animal não pode fazer outra coisa.
Puxa-te para o que lhe é natural. Por isso é que insiste em puxar-te para o teu
centro do sexo.
O sexo é o último centro para um animal e o primeiro para o homem. Assim, o
animal dentro de ti não pode fazer outra coisa. Continua a puxar-te para o centro
do sexo. Mas esse é o teu primeiro centro, não a tua possibilidade definitiva. Tua
possibilidade definitiva é o super-homem, que vai para além da humanidade,
transcendendo a humanidade. Essa possibilidade definitiva — esse super-
homem, deus dentro de ti — insiste em puxar-te para cima.
Esses dois impulsos criam a esquizofrenia. Num momento és levado para o mais
alto e pareces um santo, e no momento seguinte estás sendo puxado para baixo
e te comportas como um animal. A mente torna-se confusa. Não podes ser um
animal sinceramente — não te podes sentir à vontade com o animal dentro de ti
— porque a maior possibilidade, a semente, ali está e continua a desafiar-te. Mas
não podes remover o animal. Ele ali está; é a tua herança. Assim tu te divides
em dois. Colocas o animal, que é parte tua, no inconsciente, e, conscientemente,
tu te identificas com tua mais alta possibilidade, aquela que não és.
Essa alta possibilidade é o ideal, o fim. Conscientemente, tu te identificas com o
fim, mas, inconscientemente, permaneces com o princípio. Esses dois pontos
criam conflito. Assim, a não ser que vás além do homem, não podes ir além da
loucura. O homem é loucura.
No terceiro passo eu uso huu como um veículo para levar tua energia para cima.
Esses três primeiros passos são catárticos. Não são meditação, apenas
preparam para isso. São um “ficar pronto” para dar o salto, e não o salto
propriamente dito.
O quarto passo é o salto. No quarto passo eu te digo pára! Quando eu digo,
“Pára!”, pára completamente. Não faças absolutamente nada, porque o que quer
que faças torna-se uma distração, e perderás o ponto. Qualquer coisa até
mesmo uma tosse ou um espirro — pode fazer-te perder tudo, porque a mente
se distraiu. Então, o fluxo ascendente parará imediatamente, porque tua atenção
foi desviada.
Não faças nada. Não vais morrer. Mesmo que, vindo um espirro, tu espirres no
espaço de dez minutos, não vais morrer. Se tens vontade tossir, se sentes uma
irritação na garganta e nada fazes, não vais morrer. Deixa que teu corpo
permaneça morto, apenas, e que tua energia possa subir, num fluxo ascendente.
Quando a energia se move para cima, tu te tornas cada vez mais silencioso. O
silêncio é um subproduto da energia movendo-se para cima e a tensão é um
subproduto da energia movendo-se para baixo. Agora, todo o teu corpo se
tornará tão silencioso como se tivesse desaparecido. Não poderás senti-lo.
Ficaste destituído de corpo. E, quando estás silencioso, toda a existência está
silenciosa porque a existência não passa de um espelho. Reflete a tua pessoa.
Em milhares e milhares de espelhos ela reflete a tua pessoa. Quando estás
silencioso, toda a existência torna-se silenciosa.
Em teu silêncio eu te direi que sejas apenas uma testemunha — um vigilante
constante: sem nada fazer, apenas permanecendo como testemunha, apenas
permanecendo contigo mesmo; sem fazer nada — nenhum movimento, nenhum
desejo, apenas permanecendo ali, e então, silenciosamente testemunhando o
que ocorre.
Aquela permanência no centro, em ti mesmo, é possível por causa dos três
primeiros passos. A não ser que dês esses três primeiros passos, não podes
permanecer contigo mesmo. Podes continuar a falar sobre isso, a pensar sobre
isso, a sonhar com isso, mas não acontecerá, porque não estás preparado.
Esses três primeiros passos irão preparar-te para permanecer com o momento.
Irão tornar-te consciente. Isso é meditação. Nessa meditação algo acontece que
fica para além das palavras. E desde que isso aconteça jamais tornarás a ser o
mesmo — é impossível. Isso é um crescimento, não é uma simples experiência.
Isso é um crescimento.
Essa é a diferença entre as falsas técnicas e as técnicas verdadeiras. Com as
falsas técnicas podes experimentar alguma coisa, mas tornarás a retroceder.
Será apenas um vislumbre e não um crescimento. Isso pode acontecer com LSD.
Terás um vislumbre. Isso pode acontecer com outras técnicas: podes ter um
vislumbre, podes ter uma experiência, mas irás retroceder, porque não
cresceste. A experiência aconteceu a ti, tu não aconteceste para a experiência.
Não cresceste. Quando cresceres não poderás retroceder.
Se uma criança sonha que se tornou um rapaz, pode ter um vislumbre do que é
ser um rapaz. Mas é um sonho. O sonho será interrompido e ela será de novo
uma criança, porque não havia crescido. Mas se cresceste e te tornaste um
rapaz, não podes voltar a ser uma criança. O crescimento é verdadeiro. Assim,
esse é o critério para julgar se um método, uma técnica foram reais ou falsos.
Há técnicas falsas que são fáceis de usar. Elas jamais levam a coisa alguma. Se
o que desejas são experiências, serás presa de qualquer técnica falsa. Uma
técnica verdadeira não se preocupa com experiências pela experiência. Uma
técnica verdadeira preocupa-se com o crescimento. Experiências acontecem, e
isso é irrelevante. Minha preocupação é com o crescimento, não com as
experiências.
Deves crescer para torna-te um, para tornar-te inteiro, para tornar-te são. Essa
sanidade não pode ser forçada em ti. A sociedade tenta forçá-la em ti, mas tu
permaneces insano por dentro e a sanidade é apenas uma fachada.
Não vou forçar sanidade alguma em ti. Antes, vou trazer para fora a tua
insanidade. Quando ela for completamente extraída, atirada ao vento, a
sanidade acontecerá para ti. Crescerás. Estarás transformado. Esse é o
significado da meditação.
4
...Ou Meditação Silenciosa
PERGUNTA: “A Meditação Dinâmica é muito ativa, muito vigorosa. Não é
possível entrar em meditação apenas ficando sentado, silenciosamente?”
Podes entrar em meditação apenas ficando sentado, mas, então tens de ficar
apenas sentado. Não faças nada mais. Se podes ficar apenas sentado, isso se
torna meditação. Fica completamente naquele ato de estar sentado; o não-
movimento deve ser teu único movimento. Na verdade, a palavra zen vem da
palavra zazen, que quer dizer “apenas sentado... sem nada fazer.” Se podes ficar
apenas sentado — nada fazendo com o teu corpo, nada fazendo com a tua
mente — isso se torna meditação. Mas é difícil.
Podes sentar-te muito facilmente quando estás fazendo alguma coisa além
disso, mas no momento em que te sentas e nada fazes, a coisa se torna um
problema. Cada fibra do teu corpo começa a mover-se por dentro; cada veia,
cada músculo começa a mover-se. Começarás a sentir um tremor sutil, ficarás
consciente de muitos pontos em teu corpo, dos quais nunca estiveste consciente
antes. E quanto mais tentas ficar apenas sentado, mais movimentos interiores
sentirás. Assim, o ficar sentado só pode ser feito se fizeste outras coisas
primeiro.
Podes apenas andar, é mais fácil. Podes apenas dançar, isso é ainda mais fácil.
E depois que tiveres feito coisas que são mais fáceis, podes, então, sentar.
Sentar em postura de um Buda é a última coisa a fazer, realmente. Nunca deve
ser feito no início. Só depois que começares a te sentir totalmente identificado
com o movimento, podes começar a te sentir totalmente identificado com o não-
movimento.
Por isso, eu nunca digo às pessoas que comecem com o ato de estar apenas
sentado. Começa de onde o começo é mais fácil. De outra maneira começarás
a sentir muitas coisas desnecessariamente — coisas que ali não estão.
Se começas por sentar-te, sentirás muita perturbação interior. Quando mais
tentas sentar-te, mais perturbações sentirás. Ficarás consciente apenas de tua
mente insana, e nada mais. Isso criará depressão, tu te sentirás frustrado, não
te sentirás feliz. Pelo contrário, começarás a sentir que estás insano. E, às vezes,
poderás, mesmo, ficar insano!
Se fizeres um esforço sincero para “ficar apenas sentado”, podes, realmente,
tornar-te insano. Só porque as pessoas não tentam, na verdade, sinceramente,
é que não se tornam insanas com maior frequência. Com a postura sentada
começas a ter conhecimento de quanta loucura há dentro de ti, e, se fores
sincero e continuares, podes, realmente, tornar-te insano. Isso já aconteceu, e
muitas vezes. Portanto, não sugiro nada, nunca, que possa criar frustração,
depressão, tristeza... nada que permita tornares-te ciente de tua insanidade.
Podes não estar preparado para ter conhecimento de toda a insanidade que
existe dentro de ti. Só te deve ser permitido chegar ao conhecimento de certas
coisas paulatinamente. O conhecimento nem sempre é bom. Ele deve se
desdobrar lentamente, na medida em que cresce tua capacidade de absorvê-lo.
Eu começo com a tua insanidade, não com a tua postura sentada. Dou
permissão à tua insanidade. Se dançares loucamente, começas a ter
consciência de um ponto silencioso dentro de ti; se te sentares silenciosamente,
começas a ter consciência da loucura. O oposto é sempre o que se faz
consciente.
Começo contigo dançando loucamente, caoticamente, com o choro, com a
respiração caótica. Assim é que dou liberdade à tua loucura. Então, começas a
sentir um ponto sutil, um ponto profundo dentro de ti, ponto que é silencioso e
imóvel, em contraste com a loucura que vai pela periferia. Tu sentirás isso muito
jubiloso; em teu centro há um silêncio interior. Se estiveres apenas sentado,
então teu interior é o louco. Estás silente por fora, mas por dentro estás louco.
Se começas com alguma coisa ativa — algo positivo, vivo, movimentado — será
melhor. Então, começarás a sentir que a imobilidade interior cresce. Quanto mais
ela cresce mais te será possível usar a postura sentada, ou deitada — mais te
será possível a meditação silenciosa. Mas, a essa altura, as coisas serão
diferentes, totalmente diferentes.
Uma técnica de meditação que começa com movimento, com ação, ajuda-te,
também, em outros pontos. Torna-se uma catarse. Quando estás apenas
sentado, ficas frustrado, tua mente deseja movimento, e tu estás apenas
sentado. Cada músculo se torce, cada nervo se torce. Estás tentando forçar
alguma coisa sobre ti mesmo, e isso não é natural para ti. Então, foste dividido
entre o que está forçando e o que está sendo forçado. E, realmente, a parte que
está sendo forçada e suprimida é a parte mais autêntica. É uma parte da tua
mente maior do que a parte que está sendo suprimida, e a parte maior está
destinada a vencer.
Aquilo que estás suprimindo deve ser atirado fora, não suprimido. Tornou-se um
acúmulo dentro de ti porque tens estado a suprimi-lo constantemente. Toda a
tua criação, a civilização, a educação, é supressiva. Tens estado suprimindo
muito do que poderia ser posto fora muito facilmente com uma educação
diferente, com uma educação mais consciente, com pais mais conhecedores.
Com melhor conhecimento do mecanismo interior da mente a cultura teria
permitido que deitasses fora muitas coisas.
Por exemplo, quando uma criança está zangada nós lhe dizemos: “Não te
zangues.” Ela começa a suprimir a zanga. Aos poucos, o que era um fato
momentâneo, torna-se permanente. Agora, ela não agirá colericamente, mas
permanecerá colérica. Nos teremos acumulado tanta cólera com aquilo que não
passava de coisa momentânea. Ninguém pode estar constantemente colérico, a
não ser que a cólera tenha sido suprimida. Cólera é coisa momentânea que vem
e vai; se for expressa, então já não estás colérico. Portanto, quanto a mim,
permito que a criança esteja zangada mais autenticamente. Zanga-te, mas
zanga-te profundamente. Não suprimas a zanga.
Naturalmente, haverá problemas. Se eu digo: “Zanga-te”, tu vais zangar-te com
alguém. Mas uma criança pode ser moldada. Podemos dar-lhe um travesseiro e
dizer-lhe: “Zanga-te com este travesseiro. Sê violento com o travesseiro.” Desde
o princípio a criança pode ser educada de uma forma pela qual a cólera possa
ser desviada. Algum objeto lhe pode ser dado e ela pode atirá-lo até que a sua
cólera desapareça. Dentro de minutos, dentro de segundos, sua cólera se terá
dissipado, e não haverá acúmulo dela.
Tu acumulaste cólera, sexo, violência, ganância — tudo! Agora, esse acúmulo é
loucura dentro de ti. Ali está, dentro de ti. Se começares com qualquer meditação
supressiva (com o estar apenas sentado, por exemplo), estarás suprimindo tudo
isso, não estás permitindo sua liberação. Por isso eu começo com uma catarse.
Primeiro, deixa que as supressões sejam atiradas ao ar. E quanto puderes atirar
tua cólera ao ar, tu amadureceste.
Se não posso amar sozinho, se posso amar apenas com alguém que eu amo,
então ainda não estou realmente amadurecido. Então, estou dependendo de
alguém, mesmo para amar. Alguém deve estar ali, então eu posso amar. Então,
tal amor só pode ser uma coisa superficial. Não é a minha natureza. Se estando
sozinho num aposento, não estou absolutamente amando, isso quer dizer que a
qualidade do amor não se aprofundou em mim, não se tornou parte do meu ser.
Tu te tornas cada vez mais maduro, à medida que te tornas menos dependente.
Se podes ficar colérico sozinho, estás mais maduro. Não precisas de objeto
algum para estar colérico. Por isso, faço da catarse inicial uma necessidade
absoluta. Precisas atirar tudo para o céu, para o espaço aberto, sem teres
consciência de qualquer objeto.
Sê colérico sem a pessoa com a qual gostarias de ficar colérico. Chora, sem
procurar causa alguma para isso. Ri, ri apenas, sem nada de que possas rir.
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  • 1. OSHO MEDITAÇÃO A ARTE DO ÊXTASE UNIVERSALISMO
  • 2. Sumário Prefácio Introdução: Meditação — A Arte da Celebração PRIMEIRA PARTE DINÂMICA DA MEDITAÇÃO Capítulo 1 — Ioga: O Desenvolvimento da Consciência Capítulo 2 — Não-Fazer Através do Fazer Capítulo 3 — Meditação “Caótica”... Capítulo 4 — ...Ou Meditação Silenciosa Capítulo 5 — Entrando Profundamente no Conhecido Capítulo 6 — Kundalini: O Despertar da Força da Vida Capítulo 7 — Iluminação: Um Início Interminável Capítulo 8 — Iniciação com um Mestre: A Técnica Definitiva Capítulo 9 — Sannyas: Morrer Para o Passado Capítulo 10 — Desejo Total: O Caminho Para a Indesejabilidade SEGUNDA PARTE PERGUNTAS E RESPOSTAS Capítulo 11 — Que á a Alma Capítulo 12 — LSD e a Meditação Capítulo 13 — Intuição: Uma Não-Explanação Capítulo 14 — Consciência, Testemunho e Percepção Capítulo 15 — A Diferença Entre Satori e Samadhi Capítulo 16 — A Energia Sexual e o Acordar da Kundalini Capítulo 17 — As Manifestações de Prana nos Sete Corpos
  • 3. TERCEIRA PARTE AS TÉCNICAS Capítulo 18 — Técnicas Tradicionais Capítulo 19 — Técnicas Criadas por Bhagwan Shree Um Convite
  • 4. Prefácio Muito se fala em meditação, em nossos dias, mas a confusão quanto ao que ela é, e quanto à forma de “consegui-la”, mostra-se maior do que nunca. Pergunte- se a qualquer grupo de pessoas, ao acaso, se algum dia meditaram, e cerca da metade delas dirá que sim, que meditam (ou meditaram), mas, ao contrário do que vulgarmente se supõe, meditação não é, na verdade, algo que se possa “fazer”. É algo que acontece espontaneamente, quando nada se está fazendo, quando se está em absoluto estado de nada fazer. O que as pessoas querem dizer, quando afirmam que meditam, é que estão usando determinada técnica, na esperança de criar o momento no qual a meditação possa ocorrer. Não há técnica que seja meditação. Ela apenas cria o momento no qual a meditação pode surgir, espontaneamente. Existe uma quantidade confusa de técnicas de meditação entre as quais se pode escolher: técnicas zen, técnicas tântricas, técnicas sufis (para não falar no cristianismo e no judaísmo hasídico, que têm suas próprias técnicas). A técnica certa para cada pessoa só pode ser determinada pela experiência. Quando algo parece certo, sentimos isso. Quando algo funciona para nós, sabemos disso. E não o sabemos pelo fato de experimentarmos uma sensação de paz e beatitude durante vinte ou quarenta minutos de cada dia em que “meditamos”, mas porque toda a nossa vida é transformada por esse fato. Neste livro, o iluminado mestre espiritual Bhagwan Shree Rajneesh, da Índia, fala sobre meditação e sugere certo número de técnicas de meditação que se mostram particularmente apropriadas para os ocidentais. As técnicas se iniciam de onde o homem está, e não de onde ele esteve um dia, nem de onde ele deseja estar. Começam do princípio, e levam-nos do ponto em que estamos para onde podemos estar. Quer ele esteja criando novas técnicas de meditação, que têm início em base psicoterapêutica, quer ele esteja revivendo e atualizando antigas técnicas, tiradas de inúmeras tradições (de forma que elas se tornem apropriadas, novamente, para as novas necessidades do investigador moderno), o interesse de Bhagwan Shree está em auxiliar cada um de nós a encontrar o caminho certo. Ele não tem uma filosofia particular que deseje “impor”; não tem dogmas nem doutrinas. Ele diz que cada indivíduo deve encontrar seu próprio e único caminho, sua própria e única ioga. “O fato de seguires os passos de Cristo, os passos de Buda, ou os passos de Krishna não fará de ti um Cristo, ou um Buda, ou um Krishna”, diz ele. “Deves
  • 5. encontrar teu próprio caminho”. As explanações contidas neste livro, e as técnicas aqui apresentadas são uma tentativa para ajudar-te a encontrar o teu caminho. Quando a meditação acontece, toda a nossa vida torna-se uma meditação, uma celebração. Não tens de “praticar” percepção. Cada vez mais compreenderás que a percepção ali está: uma percepção de ti próprio, dos outros, da complexidade da existência. Cada vez mais frequentemente estarás “aqui e agora”. Cada vez mais frequentemente sentirás a beatitude, a jovialidade, o absurdo da existência. Somos todos tão sérios em relação à vida, tão sérios em relação às nossas tentativas de crescer para além daquilo que já conhecemos, que chegamos a perder o “aqui e agora”. Viver o momento, sem a carga dos desejos, das expectativas, dos anseios é viver em meditação. Tomar a vida como um espetáculo, rir dos dramas que a existência cria para nós, e dos traumas que nós mesmos nos criamos, isso é conhecer o momento sobre o qual os videntes e religiosos vêm falando há milhares de anos. Não temos compreendido as palavras deles porque falaram através de símbolos que já não nos pertencem. Bhagwan Shree fala a nossa linguagem. E o que ele tem a dizer é algo mais do que uma provocação ao pensamento. É um desafio. É um convite à transformação pessoal. MA SATYA BHARTI
  • 6. Introdução Meditação: A Arte da Celebração Ensinamos uma criança a focalizar a mente — a concentrar-se — porque, sem concentração, ela não poderá enfrentar a vida. A vida exige isso: a mente deve ter capacidade para concentrar-se. Mas, desde o momento em que a mente se torna capaz de concentrar-se, torna-se, também, menos perceptiva. A percepção significa mente consciente, mas não focalizada. A percepção é consciência de tudo quanto está acontecendo. Concentração é uma escolha. Exclui tudo, menos o objeto da concentração. Produz estreitamento. Se estás caminhando por uma rua, terás de estreitar tua consciência para poderes caminhar. Habitualmente não te é possível estar consciente de tudo o que está acontecendo, porque se estiveres consciente de tudo quanto está acontecendo, não estarás focalizado. Assim, a concentração é uma necessidade. A concentração da mente é uma necessidade para que possamos viver — sobreviver, existir. Por isso é que toda cultura, a seu modo, tenta estreitar a mente da criança. Crianças, tais como são, jamais focalizam. Sua consciência está aberta para todas as sensações. Cada sensação penetra em sua consciência. E quanta coisa chega! Por isso é tão vacilante, tão instável. A mente não-condicionada de uma criança é um fluxo — um fluxo de sensações — mas não lhe seria possível sobreviver com esse tipo de mente. Ela deve aprender como estreitar sua mente, como se concentrar. Do momento em que estreitas tua mente tornas-te particularmente consciente de uma coisa, e, simultaneamente, inconsciente de muitas outras coisas. Quanto mais estreita for a mente, maior sucesso haverá. Tu te tornas um especialista, tu te tornas um perito, mas a coisa toda consistirá em saberes mais e mais sobre menos e menos. O estreitamento é uma necessidade existencial. Ninguém é responsável por isso. Assim como a vida existe, ele deve existir. Mas não é o bastante; só o ser utilitário não é o bastante. Por isso, quando tu te tornas utilitário e a consciência é estreitada, estarás negando à tua mente muito daquilo de que ela é capaz. Não
  • 7. estás usando tua mente total. Estás usando apenas uma pequena parte dela. E o remanescente — a porção maior — irá tornar-se inconsciente. Na verdade, não há fronteira entre o consciente e o inconsciente. Não há duas mentes. “Mente consciente” refere-se àquela porção da mente que tem sido usada no processo de estreitamento. “Mente inconsciente” refere-se àquela porção que tem sido negligenciada, ignorada, fechada. Isso cria uma divisão, uma brecha. A porção maior da tua mente torna-se alheia a ti. Tu te tornas alienado de teu próprio eu, tornas-te estranho à tua própria totalidade. Uma pequena parte está sendo identificada como teu eu, e o resto é perdido. Mas a parte inconsciente, remanescente, está sempre ali, como potencialidade sem uso, como possibilidade sem uso, como aventura não-vivida. Essa mente inconsciente (esse potencial, essa mente sem uso) estará sempre em luta contra a mente consciente. Por isso é que existe sempre um conflito interior. Todos estão em conflito por causa dessa fenda entre o inconsciente e o consciente. Mas só o potencial, o inconsciente, estiver livre para florescer, é que poderás sentir a beatitude da existência... Não há outra maneira. Se a porção maior de tuas potencialidades permanecer irrealizada, tua vida será uma frustração. Por isso é que quanto mais utilitária é uma pessoa, menos realizada é, menos beatitude conhece. Quanto mais utilitária é a abordagem — quanto mais a pessoa está na vida dos negócios — menos estará vivendo, menos será tomado pelo êxtase. A parte da mente, que não pôde ser útil no mundo utilitário, foi preterida. A vida utilitária é necessária, mas com grande custo. Perdeste a festividade da vida. A vida torna-se uma festividade, uma celebração, se todas as tuas potencialidades florescerem. Então, a vida é uma solenidade. Por isso é que eu sempre digo que religião significa vida transformada em celebração. A dimensão da religião é a dimensão do festivo, do não-utilitário. A mente utilitária não deve ser tomada como se fora o todo. O remanescente... maior parte... a mente inteira... não deveria ser sacrificado. A mente utilitária não se deve tornar um fim. Terá que permanecer ali, mas como um meio. A outra — a remanescente, a maior, a potencial — deve tornar-se o fim. Isso é que eu chamo uma abordagem religiosa. Com uma abordagem não-religiosa, a mente dos negócios (a utilitária) torna-se o fim. Quando tal coisa acontece, não há possibilidade de a mente inconsciente realizar seu potencial. A mente inconsciente será preterida. Se a utilitária se torna um fim, isso significa que o servo está representando o papel do senhor. A inteligência, o estreitamento da mente, é uma forma de sobrevivência, mas não de vida. Sobrevivência não é vida. Sobrevivência é uma necessidade — mas o fim terá de ser, sempre, um florescimento do potencial, de tudo quanto foi
  • 8. criado para ti. Se fores completamente realizado, se nada permanecer sob a forma de semente, se tudo se faz realidade, se floresces, então e só então poderás sentir a beatitude, o êxtase da vida. A parte de ti que foi preterida, a parte inconsciente, pode tornar-se ativa e criativa, só se tu acrescentares uma nova dimensão à tua vida — a dimensão do festivo, a dimensão da jovialidade. Assim, a meditação não é um trabalho, é um divertimento. Rezar não é um negócio, é um divertimento. A meditação não é algo que se faz para chegar a atingir um alvo (paz, beatitude...) mas algo a ser gozado como um fim em si mesmo. A dimensão festiva é a parte mais importante a compreender-se... e nós a perdemos totalmente. Por festiva, eu entendo a capacidade de gozar, momento a momento, tudo quanto se te apresenta. Nós nos tornamos tão condicionados e os hábitos tornaram-se tão mecânicos, que mesmo não havendo negócio a fazer, nossas mentes estão nos negócios. Quando não há necessidade de estreitamento, estás estreitando. Mesmo quando te divertes, não te estás divertindo. Não estás gozando aquilo. Mesmo quando jogas baralho, não estás desfrutando o jogo. Jogas pela vitória, e então o jogo transforma-se em trabalho. Então, o que está acontecendo não importa, só o resultado importa. Nos negócios, o resultado é importante. Na festividade, o ato é importante. Se pode praticar qualquer ato significativo em si próprio, tornas-te festivo e podes celebrar esse ato. Quando quer que estejas celebrando, os limites — os limites estreitadores — são rompidos. Não mais necessários, são refugados. Sais de tua camisa-de- força, a estreitadora camisa da concentração. Agora, não estás escolhendo. Recebes tudo quanto vem. E, desde o momento em que permites que a existência total venha a ti, tornas-te um com ela. Há uma comunhão. A essa comunhão eu chamo meditação: essa celebração, essa consciência sem escolha, essa atitude que nada tem de negocista. A festividade acontece no momento, no ato — sem preocupação quanto aos resultados, ou à obtenção de alguma coisa. Nada há a ser obtido, de forma que podes gozar o que está aqui, e agora. Podes explicar isso desta forma: eu estou falando contigo; se me preocupo com o resultado, então a conversa passa a ser negócio, passa a ser trabalho. Mas se converso contigo sem expectativas, sem qualquer desejo quanto ao resultado, então a conversa torna-se um divertimento. O próprio ato, em si mesmo, é a finalidade. Então, não é necessário o estreitamento. Posso divertir-me com as palavras, posso divertir-me com os pensamentos. Posso divertir-me com as tuas
  • 9. perguntas, e posso divertir-me com as minhas respostas. Então, nada disso é sério, e o coração sente-se leve. E se estiveres me ouvindo sem pensar em obter alguma coisa dessa conversa, podes relaxar. Então podes permitir que eu me ponha em comunhão contigo, e tua consciência não sofrerá estreitamento. Então, ela está aberta: divertindo-se, gozando. Todo o momento pode ser um momento de negócio; todo o momento pode ser um momento meditativo. A diferença está na atitude. Se isso é sem escolha, se te estás divertindo com isso, o momento é meditativo. Há necessidades sociais e há necessidades existenciais que devem ser cumpridas. Eu não direi: “Não condicionem as crianças”. Se as deixarem completamente incondicionadas, tornar-se-ão selvagens. Não poderão existir. A sobrevivência precisa de condicionamento, mas a sobrevivência não é um fim, de modo que deves poder colocar teu condicionamento em ação e também retirá-lo — tal como fazes com tuas roupas. Podes vesti-las, sair, tratar de teus negócios, e tirá-las ao voltar para casa. Então, tu ÉS. Se não te identificares com tuas roupas (com teu condicionamento), se não disseres, por exemplo, “Eu sou a minha mente”, isso não será difícil. Então, podes mudar facilmente, mas, se te tornas identificado com teu condicionamento, se dizes: “Meu condicionamento sou eu”, tudo quanto não seja teu condicionamento estará sendo renegado. Pensas: “Tudo que não está condicionado não sou eu; o inconsciente não sou eu. Eu sou o consciente, o focalizado, a mente”. Essa identificação é perigosa. Não deveria acontecer. Uma educação apropriada não é condicionada, mas condicionada “com uma condição”: a de que o condicionamento seja uma necessidade utilitária, que podes usar ou descartar. Quando a necessitas, fazes uso dela, e quando não a necessitas, tratas de descartá-la. Até que seja possível educar os seres humanos de tal forma que eles não se identifiquem com seus condicionamentos, os seres humanos não serão, realmente, seres humanos. Serão robôs, condicionados, estreitados. Para compreender isso é preciso ter consciência daquela parte da mente — a parte maior — à qual foi negada a luz. E tornar-se consciente disso é tornar-se consciente de que não se é a mente consciente. A mente consciente é apenas uma parte. “Eu” sou ambas, e a maior parte é incondicionada. Mas está sempre ali... e espera. Minha definição de meditação é esta: ela é, simplesmente, um esforço para saltar até o inconsciente. Não podes saltar através de cálculo, porque todo o cálculo pertence ao consciente, e a mente consciente não permitiria tal coisa. Ela advertirá: “Tu enlouquecerás. Não faças isso”.
  • 10. A mente consciente está sempre temerosa do inconsciente porque, se o inconsciente emergir, tudo quanto é claro e calmo no consciente será varrido. Então, tudo se tornará escuro... como numa floresta. Um exemplo. Fizeste um jardim, um jardim cercado. Limpaste um pequeno espaço e plantaste algumas flores. Tudo está em ordem, arranjado, limpo. Acontece, porém, que a floresta está ali sempre perto. É selvagem, descontrolada, e o jardim está sempre temeroso. A qualquer momento a floresta pode invadir e então o jardim desaparecerá. Da mesma maneira tu cultivaste uma parte da tua mente. Puseste tudo em ordem. Mas o inconsciente está sempre por perto, e a mente consciente tem medo dele. A mente consciente diz: “Não vás para o inconsciente. Não olhes para ele, não penses nele”. O caminho para o inconsciente é escuro e desconhecido. À razão ele parece irracional, à lógica parecerá ilógico. Assim, se pensas, para chegar à meditação, jamais chegarás — porque a parte que pensa não o permitirá. Isso torna-se um dilema. Nada podes fazer sem pensar, e com o pensamento não podes entrar em meditação. Que fazer? Mesmo que penses: “Não vou pensar”, isso também é pensar. É a parte que pensa da tua mente que está dizendo: “Não permitirei a ação do pensamento”. A meditação não pode ser feita pelo pensamento. Esse é o dilema — o maior dos dilemas. Cada investigador terá de enfrentar esse dilema. Em algum lugar, um dia qualquer, o dilema aparecerá. Aqueles que sabem, dizem: “Salta! Não penses!” Mas nada podes fazer sem pensar. Por isso é que planos desnecessários foram criados — planos desnecessários, digo eu, porque, se saltares sem pensar, nenhum plano será necessário. Mas não podes saltar sem pensar, de forma que um plano é necessário. Podes pensar sobre esse plano. Tua mente que pensa pode ficar à vontade quanto ao plano, mas não quanto à meditação. A meditação será um salto para o desconhecido. Podes trabalhar com um plano e o plano irá atirar-te, automaticamente, para o desconhecido. O plano é necessário apenas por causa do treinamento da mente, de outra maneira não seria necessário. Desde que tenhas saltado, dirás: “O plano não era necessário, eu não precisava dele”. Mas esse é um conhecimento retrospectivo. Saberás, depois, que o plano não era necessário (isso é o que diz Krishnamurti: “Plano algum é necessário, método algum é necessário”. Os mestres zen dizem: “Esforço algum é necessário, isso vem sem esforço.”) Mas isso parece absurdo para os que não cruzaram a barreira. Por isso digo que um plano é artificial. É apenas um estratagema para deixar tua mente racional à vontade, de forma que possas ser levado para o desconhecido.
  • 11. Por isso é que uso métodos vigorosos. Quanto mais vigoroso o método, menos tua mente calculadora será necessária. Quanto mais vigoroso, mais total ele se torna, porque a vitalidade não é só da mente — é do corpo, das emoções. Isso é o teu ser integral. Os dervixes sufis usaram a dança como técnica, como plano. Se dançares, não podes permanecer intelectual, porque a dança é uma coisa cansativa. Todo o teu ser é necessário, para a dança. E acaba por chegar um momento em que a dança torna-se destituída da mente. Quanto mais vital, quanto mais vigorosa, mais tu estás nela, menos razão haverá nela. Assim, a dança foi adotada como plano, como técnica de empuxo. A uma certa altura não estarás dançando, mas a dança tomou conta, apoderou-se de ti. Serás levado para a fonte desconhecida. Os professores zen usaram o método koan. Koans são quebra-cabeças que, por sua própria natureza, são absurdos. Não podem ser solucionados pela razão. Não podes pensar neles. Ostensivamente, parecem coisas que podem provocar o pensamento: isso é a isca. Parece que algo pode ser pensado sobre os koans, e então começas a pensar. Tua mente racional põe-se à vontade. Algo lhe foi dado para resolver... mas a coisa dada é algo que não pode ser resolvida. A sua própria natureza é tal que não pode ser resolvida, pelo simples fato de ser absurda. Há centenas de quebra-cabeças. O professor dirá: “Pensa sobre um som sem som”. Assim falado, parece algo que pode ser pensado. Se tentares com persistência, de alguma forma, em algum lugar, um som sem som poderá ser encontrado. Pode ser possível. Então, a certa altura (e essa altura não pode ser prevista, não é a mesma para todos), a mente se exaure. Não está ali. Tu és, mas a mente — com todo o seu condicionamento, ali não está — foi-se. És como uma criança: o condicionamento ali não está. Estás apenas consciente. A estreitadora concentração desapareceu. Agora sabes que o plano não era necessário, mas esse é um pensamento posterior. Não pode ser dito com antecedência. Não há método causal: não há método que cause a meditação. Por isso é que tantos métodos são possíveis. Todo o método não passa de um expediente... mas cada religião diz que seu método é o caminho e nenhum outro fará o que ele faz. Todas elas pensam em termos de causalidade. Se aquecermos água, o vapor evapora. O calor é a causa: sem calor a água não evaporaria. Isso é causal. O calor é uma necessidade que deve preceder à evaporação. A meditação, entretanto, não é causal, e, assim, qualquer método é possível. Todo o método não passa de um expediente, e apenas cria a situação para o acontecimento. Não o está causando.
  • 12. Por exemplo: para além dos limites deste aposento está o céu, ilimitado, aberto. Tu jamais o viste. Posso falar contigo sobre o céu, sobre o ar revigorante, sobre o mar, sobre tudo quanto está fora deste aposento, mas tu não viste. Hás de rir, apenas. Pensarás que estou inventando essas coisas. E dizes: “Tudo isso é fantástico. Tu não passas de um sonhador”. Não posso convencer-te a sair lá para fora, porque tudo aquilo de que te posso falar não tem qualquer significação para ti. Então, digo: “A casa está pegando fogo!” Isso tem significação para ti. Isso é algo que podes compreender. Agora não preciso dar-te explicações. Corro, apenas. E tu me segues. A casa não se está incendiando, mas, no momento em que estiveres lá fora, não precisas perguntar-me por que menti. A significação está ali. O céu está ali. Então, tu me agradeces. Qualquer mentira serve. A mentira foi apenas um expediente, um expediente para trazer-te para fora. Eu não fui a causa de estarem ali as coisas lá de fora. Toda religião é baseada numa mentira-expediente. Todos os métodos são mentiras; apenas criam uma situação. Não são causais. Novos expedientes podem ser criados, novas religiões podem ser criadas. Os velhos expedientes tornam-se vazios, uma velha mentira torna-se vazia, e há necessidade de mentiras e expedientes novos. Quantas vezes te disseram que a casa se estava incendiando, quando tal não acontecia? A mentira tornou-se inútil. Agora, alguém criou um novo expediente. Se alguma coisa é causa de alguma outra coisa, jamais é inútil, mas um velho expediente é sempre inútil. Novos expedientes são necessários. Por isso é que cada novo profeta tem de lutar contra os antigos profetas. Está fazendo o mesmo trabalho que eles fizeram, mas terá que opor-se aos seus ensinamentos, porque precisa negar os velhos expedientes, já que eles se tornaram vazios e sem significação. Todos os grandes — Buda, Cristo, Mahavira — criaram, por compaixão, grandes mentiras, apenas para levar-te para fora de casa. Se puderes ser arrancado para fora de tua mente, através de qualquer expediente, isso é tudo quanto se faz necessário. Tua mente é o cárcere. Tua mente é fatal, é a escravidão. Como eu disse, esse dilema terá de acontecer. Assim é a natureza da vida. Terás que aprender a estreitar a mente. Esse estreitamento será de auxílio quando saíres para fora, mas será fatal lá dentro. Será utilitário com os outros; será suicida com a própria pessoa. Precisas existir com os outros e contigo mesmo. Toda a vida unilateral faz-se defeituosa. Precisas existir entre os outros com a mente condicionada, mas deves existir contigo mesmo com uma percepção inteiramente livre de condicionamento. A sociedade cria um estreitamento da percepção, mas a
  • 13. própria percepção significa expansão. É ilimitada. Ambas as coisas são necessárias, e ambas devem ser realizadas. Chamo sensata a pessoa que pode realizar ambas essas necessidades. Qualquer extremo é insensato, qualquer extremo é prejudicial. Assim, vive no mundo com a mente, com o teu condicionamento, mas vive contigo mesmo sem a mente, sem treinamento. Usa tua mente como um meio, não faças dela um fim. Sai dela, no momento em que tenhas essa oportunidade. Quando estiveres sozinho, sai dela, salta para fora dela. Então, festeja o momento, festeja a existência em si mesma, o Ser em si mesmo. O simples fato de ser é tão grande celebração, se souberes como saltar para fora do teu condicionamento. Esse “saltar para fora” vais aprender através da Meditação Dinâmica. 1 Ela não será causada; virá ter contigo sem qualquer causa. A meditação criará uma situação na qual irás ter ao desconhecido. Aos poucos serás levado para fora de tua personalidade habitual, mecânica, robotizada. 1. A Meditação Dinâmica, também conhecida como Meditação Caótica, será detalhadamente explanada no cap. 3 Sê corajoso. Pratica a Meditação Dinâmica vigorosamente, e tudo o mais se seguirá. Não será coisa que faças, será algo que acontece. Não podes trazer o divino, mas podes embaraçar a sua vinda. Não podes trazer o sol para a casa, mas pode fechar a porta. Negativamente, muita coisa a mente pode fazer: positivamente, nada. Tudo quanto é positivo é uma dádiva, é uma bênção. Tudo quanto é positivo vem ter contigo, enquanto tudo quanto é negativo é trabalho teu. A meditação (e todos os expedientes da meditação) pode fazer uma coisa: afastar-te de todos os teus obstáculos negativos. Pode trazer-te para fora de teu cárcere, que é a mente. E, quando tiveres saído, rirás. Era tão fácil sair! Tudo estava ali mesmo! Apenas um passo se fazia necessário... mas andamos em círculos e perdemos sempre um passo, aquele passo que poderia levar-nos ao centro. Tu andas em círculos (pela periferia), repetindo a mesma coisa. Em algum ponto a continuidade precisa ser rompida. Isso é tudo quanto pode ser feito por qualquer método de meditação. Se a continuidade for rompida, se te tornas descontínuo com o teu trabalho, então, naquele exato momento, há a explosão! Naquele exato momento estás centralizado, centralizado em teu ser. E então conhecerás tudo quanto sempre foi teu, tudo quanto estava apenas esperando por ti.
  • 15. 1 Ioga: O Desenvolvimento da Consciência O propósito da vida é fazer-nos conscientes. Isso não é apenas o propósito da ioga. A própria evolução da vida, em si mesma, é tornar-se cada vez mais consciente. Mas a ioga significa algo mais ainda. A evolução da vida é tornar-se cada vez mais consciente, mas a consciência é sempre orientada por outro: estás consciente de alguma coisa, de algum objeto. A ioga pretende evoluir para a dimensão onde não há objeto; onde só a consciência, a percepção, permanece. A ioga é o método de evoluir em direção da percepção pura — não estar consciente de alguma coisa, mas ser a própria consciência. Quando estás consciente de alguma coisa, não estás consciente de estares sendo consciente. Tua consciência tornou-se focalizada em algo; tua atenção não está na fonte da própria consciência. Na ioga, o esforço se faz para ter consciência de ambos: do objeto e da fonte. A percepção torna-se flecha de dupla ponta. Deves ter noção do objeto, e deves, simultaneamente, ter noção do sujeito. A percepção deve fazer-se uma ponta de seta dupla. O sujeito não deve ser perdido, não deve ser esquecido, quando estás focalizado no objeto. Esse é o primeiro passo, na ioga. O segundo passo é deixar de lado tanto o sujeito quanto o objeto, e ser apenas perceptivo. Essa percepção, essa consciência pura, é o alvo da ioga. Mesmo sem a ioga o homem se desenvolve para se tornar cada vez mais consciente, mas a ioga acrescenta algo, contribui com alguma coisa para essa evolução da consciência. Modifica muitas coisas e transforma muitas coisas. A primeira transformação é um conhecimento como seta de duas pontas: fazer lembrar a ti mesmo, no momento preciso, que há alguma coisa mais de que deves estar consciente. O dilema é o seguinte: ou estás consciente de algum objeto ou estás inconsciente. Se não houver objetos externos, adormeces: os objetos são necessários para que estejas consciente. Quando ficas totalmente desocupado,
  • 16. sentes-te sonolento — precisas de algum objeto do qual estejas consciente — mas, quando tens objetos demais dos quais tens de estar consciente, podes sentir uma certa insônia. Por isso é que a pessoa demasiado obcecada pelos pensamentos não pode dormir. Os objetos continuam ali, os pensamentos continuam ali. Ela não pode tornar-se inconsciente, os pensamentos estão exigindo a sua atenção. E assim é que existimos. Com objetos novos tornas-te mais consciente. Por isso é que há uma avidez pelo novo, um anseio pelo novo. O velho torna-se aborrecido. Desde que viveste com algum objeto durante certo tempo, tornas-te inconsciente dele. Aceitaste-o, a tua atenção já não é necessária. Tornas-te aborrecido. Por exemplo, podes não ter estado consciente da tua esposa durante anos, porque a estiveste encarando como coisa natural. Já não lhe vês o rosto, não pode recordar de que cor são seus olhos. Durante anos não tens estado realmente atento. Só quando ela morre tu te tornarás de novo ciente de que ela ali estivera. Por isso é que maridos e esposas fazem-se entediados. Qualquer objeto, que não chama continuamente a nossa atenção, cria tédio. Da mesma maneira, o mantra (vibração repetida do som) causa profundo sono. Quando um mantra em particular está sendo constantemente repetido, tu te aborreces. Nada há de misterioso naquilo. A repetição constante de uma palavra entedia-te, não mais a podes suportar. Agora, começas a sentir sono, e adormecerás, ficarás inconsciente. (Todo o método da hipnose, realmente, depende do tédio. Se tua mente puder entediar-se com alguma coisa, então adormeces: o sono pode ser induzido.) Toda a nossa percepção depende de novos objetos. Por isso é que há tanto desejo do novo, de novas sensações, de novos trajes, de nova casa — qualquer coisa que seja nova, mesmo que não seja melhor. Com algo diferente tu sentes um súbito crescer de consciência. Já que a vida é uma evolução da consciência, isso é bom. Tanto quanto à vida concerne, é bom. Se uma sociedade tem anseio de novas sensações, a vida progride, mas se ela se acomoda com o velho — e nada pede de novo — estará morta, pois, dessa forma, a consciência não se pode desenvolver. Por exemplo: no Oriente tentamos estar satisfeitos com as coisas, tal como são. Isso cria um tédio, porque nada jamais é novo. Então, durante séculos, tudo continua a ser tal como é. Ficamos entediados. Naturalmente, podemos dormir melhor (o Ocidente não pode dormir, porque a insônia existe quando há pedido constante de coisas novas), mas não há evolução. E são essas as duas coisas que parece acontecerem: ou toda a sociedade torna-se sonolenta e morta como sucede no Oriente, ou, de outra forma, a sociedade torna-se insone, como tem ocorrido no Ocidente.
  • 17. Nenhuma das duas coisas é boa. Precisas de uma mente que possa estar ativa quando não há objetos novos. Realmente, precisas de uma consciência desligada do novo, desligada do objeto. Se ela estiver ligada ao objeto, inclina- se a ligar-se com o novo. Precisas de uma consciência que não esteja absolutamente ligada ao objeto, mas que esteja para além do objeto. Então, és livre: podes dormir quando queiras, podes acordar quando quiseres. Não precisas de objeto que te auxilie. Tornas-te livre, realmente livre do mundo objetivo. Desde que te coloques para além do objeto colocas-te também para além do sujeito, porque ambos existem em conjunto. Na verdade, subjetividade e objetividade são dois pólos de uma só coisa. Quando há um objeto — ou objetivo — tu és o sujeito, mas se podes estar consciente sem o objeto, não há sujeito — não há eu. Isso deve ser profundamente compreendido: quando o objeto está perdido e podes estar consciente sem objetos — apenas consciente! — então o sujeito também está perdido. Não pode permanecer ali. Não pode! Ambos estão perdidos, e há simplesmente consciência, ilimitada consciência. Agora, já não existem fronteiras. Nem o objeto é fronteira, nem o sujeito é fronteira. Buda costumava dizer que quando se está em meditação não há eu (atman) porque a própria consciência do próprio eu isola-nos de tudo o mais. Se estiveres ainda ali, os objetos ainda estarão ali. “Eu sou”, mas “eu” não posso existir em solidão total: “eu” existo em relacionamento com o mundo lá fora; “eu” é um relata. Então o eu (o “eu sou”) é apenas algo dentro de ti, que existe em relacionamento com algo que está fora. Mas, se o “lá fora” não estiver ali, esse algo que está dentro se dissolve. Então, há simples e espontânea consciência. Para isso é que existe a ioga; é isso que a ioga significa. A ioga é a ciência de libertar-te das fronteiras do objeto e do sujeito, e, a não ser que estejas livre dessas fronteiras, cairás no desequilíbrio do Oriente ou no desequilíbrio do Ocidente. Se desejas contentamento — paz mental, silêncio, sono — então é bom permanecer continuamente com os mesmos objetos. Durante séculos e séculos não haverá modificações visíveis. Então, estás à vontade, podes dormir melhor... mas nada é espiritual e tu perdes muito. O próprio anseio de crescimento se perde, o próprio anseio de aventura se perde, o próprio anseio de indagar e encontrar se perde. Realmente, começas a vegetar, ficas estagnado. Se mudares isso, então tornas-te dinâmico, mas também doentio; tornas-te dinâmico, porém tenso; dinâmico, mas louco. Começas a encontrar o novo, a indagar sobre o novo, mas estás num remoinho. O novo começa a acontecer, porém tu estás perdido. Se perdes tua objetividade, tornas-te demasiadamente subjetivo e sonhador, mas se te tornas demasiadamente obcecado pelos objetos, perdes o subjetivo.
  • 18. Ambas as atenções são desequilíbrio. O Oriente tentou uma, o Ocidente tentou a outra. E agora o Oriente se está tornando ocidental e o Ocidente se vai fazendo oriental. No Oriente a atração é pela tecnologia ocidental, pela ciência ocidental, pelo racionalismo ocidental. Einstein, Aristóteles e Russell tomaram conta da mente oriental, enquanto no Ocidente está acontecendo exatamente o oposto: Buda, Zen e Ioga tornaram-se muito importantes. Isso é um milagre. O Oriente se está fazendo comunista, e o Ocidente começa a pensar em termos de expansão da consciência: meditação, espiritualidade, êxtase. A roda pode girar, e poderemos trocar as nossas cargas. Será iluminador por um momento, mas toda a insensatez começará novamente. O Oriente falhou num ponto e o Ocidente falhou em outro, porque ambos tentaram negar uma parte da mente. Tu tens de transcender ambas as partes e não te preocupares com uma enquanto renegas a outra. A mente é um todo. Se não podes transcendê-la totalmente não a podes transcender. Se continuas a negar a outra parte, a parte negada exercerá sua vingança. E, realmente, a parte negada no Oriente está exercendo sua vingança sobre o Oriente, e a parte negada no Ocidente está exercendo sua vingança sobre o Ocidente. Jamais podes ir além do negado. Ele ali está, e vai reunindo cada vez maior força. O exato momento em que a parte que aceitaste tem sucesso, é o momento do fracasso. Nada falha mais do que o sucesso. Com qualquer sucesso parcial (com o sucesso de uma parte de ti) estás propenso a cair num fracasso mais profundo. O que ganhaste torna-se inconsciente e o que perdeste se faz conhecimento. A ausência é mais sentida. Se perdes um dente, tua língua se torna ciente da ausência e vai para o dente ausente. Jamais tinha feito isso antes — jamais! — mas agora não pára de fazê-lo. Move-se continuamente para o lugar vazio, quer sentir o dente que já não está ali. Da mesma maneira, quando uma parte da mente tem sucesso, tornas-te ciente do fracasso da outra parte — a parte que podia ali estar e não está. Agora, o Oriente tornou-se consciente da sua insensatez por não ser científico, pois essa é a razão de sermos pobres, é a razão de sermos “ninguém”. Essa ausência está sendo sentida agora, e o Oriente começa a voltar-se para o Ocidente, enquanto o Ocidente está sentindo sua própria insensatez, sua falta de integração. Ioga significa a ciência total do homem. Não é, simplesmente, uma religião. É a ciência total do homem, a transcendência total de todas as partes. E, quando transcendes partes, tornas-te o todo. O todo não é apenas um acúmulo de partes, não é uma coisa mecânica na qual as partes são postas em alinhamento e então formam um todo. Não; é mais do que uma coisa mecânica: parece-se a algo artístico.
  • 19. Podes dividir um poema em palavras, mas as palavras nada significarão. E quando o todo ali está, é mais do que palavras. Tem sua própria identidade. Tem intervalos, assim como tem palavras. E, às vezes, os intervalos são mais significativos do que as palavras. Um poema torna-se poesia apenas quando diz algo que não foi realmente dito, quando algo nele transcende todas as partes. Se o dividires e analisares, terás apenas as partes, mas a “flor” transcendental, que era realmente a coisa, perdeu-se. Assim, a consciência é uma totalidade. Renegando uma parte dela tu perdes algo — algo que é realmente importante. E nada ganhas: só ganhas extremos. Cada extremo faz-se uma doença, cada extremo torna-se uma enfermidade, internamente. Então entras cada vez mais no turbilhão, e passa a existir uma anarquia interior. A ioga é a ciência de transcender a anarquia, a ciência de fazer inteira a tua consciência — e tu só és inteiro quando transcendes as partes. Assim, a ioga não é religião nem ciência. É ambas as coisas. Ou antes, transcende ambas. Podes dizer que é uma religião científica ou uma ciência religiosa. Por isso é que a ioga pode ser usada por qualquer pessoa de qualquer religião, e pode ser usada por qualquer pessoa com qualquer tipo de mente. Na Índia, todas as religiões que se desenvolveram têm muito diferentes (na verdade, antagônicas) filosofias, conceitos, percepções. Nada têm em comum. Entre o hinduísmo e o jainismo nada há em comum, entre o hinduísmo e o budismo não há nada em comum. Só há em comum uma coisa que essas religiões não podem negar: ioga. Buda diz: “Não há corpo, não há alma”, mas não pode dizer: “Não há ioga.” Mahavira diz: “Não há corpo, mas há alma”, mas não pode dizer: “Não há ioga.” O hinduísmo diz: “Há corpo, há alma... e há ioga.” A ioga permanece, constantemente. Mesmo o cristianismo não a pode negar, mesmo o maometismo não a pode negar. Na verdade, mesmo alguém que seja ateisticamente orientado não pode negar a ioga porque a ioga não tem como pré-condição a crença em Deus. A ioga não tem pré-condições, a ioga é inteiramente experimental. Quando o conceito de Deus é mencionado (e nos mais antigos livros iogues isso não é absolutamente mencionado) é mencionado apenas como método. Pode ser usado como hipótese —- se é de auxílio para alguém pode ser usado — mas não é uma condição absoluta. Por isso é que Buda pode ser um iogue sem Deus, sem os Vedas, sem qualquer crença. Sem qualquer fé (qualquer das chamadas “fé”), ele pode ser iogue. Assim, para os teístas, como para um ateu, a ioga pode tornar-se terreno comum. Pode fazer-se uma ponte entre a ciência e a religião. É, simultaneamente, racional e irracional. A metodologia é inteiramente racional,
  • 20. mas através da metodologia vai-se aprofundando para o mistério do irracional. do o processo é tão racional — cada passo é tão racional, tão científico, tão lógico — que basta fazer isso; tudo o mais se seguirá. Jung menciona que no século dezenove não havia ocidental preocupado com psicologia que pudesse conceber algo que estivesse para além da mente consciente ou abaixo da mente consciente, porque mente significa consciência. Portanto, como pode haver mente inconsciente? É absurdo, é “não-científico.” Então, no século vinte, conforme a ciência aprendeu mais sobre o inconsciente, uma teoria da mente inconsciente foi desenvolvida. Quando se aprofundaram mais, tiveram de aceitar a idéia de um inconsciente coletivo, e não apenas do individual. Pareceu absurdo (se a mente significava algo individual, certamente não poderia haver mente coletiva), mas agora aceitaram até mesmo esse conceito de mente coletiva. Essas são as três primeiras divisões da psicologia budista, da ioga budista — as três primeiras. Buda as dividia em 160 divisões mais. Jung diz: “Antes negávamos aquelas três. Agora, as aceitamos. Pode ser que também existam outras. Temos apenas de continuar passo a passo, temos apenas de ir até mais longe.” A abordagem de Jung é muito racional, uma abordagem profundamente enraizada no Ocidente. Com a ioga prosseguirás racionalmente — mas apenas para saltar em direção do irracional. O fim destina-se a ser irracional. Aquilo que podes compreender — o racional — não pode ser a fonte, já que é finita. A fonte deve ser maior do que tu. A fonte da qual vieste, da qual tudo veio, da qual todo o universo veio — e para a qual tudo vai e desaparece novamente — deve ser mais do que isso. A manifestação deve ser menor do que a fonte. A mente racional pode sentir e compreender o manifesto, mas o não-manifesto permanece para trás. A ioga não insiste em que se deva ser racional. Ela diz: “É racional conceber algo irracional. É racional, realmente, conceber as fronteiras do racional.” Uma mente verdadeira, autêntica, sempre conhece as limitações da razão, sempre sabe que a razão termina em algum ponto. Quem quer que seja autenticamente racional tem que chegar a um ponto em que o irracional é sem sentido. Se segues com a razão em direção do definitivo, a fronteira será sentida. Einstein sentiu-a, Wittgenstein sentiu-a. O Tractatus de Wittgenstein é um dos livros mais racionais que já foi escrito, e ele tem a mais racionalista das mentes. Fala sobre a existência de uma forma muito lógica, de maneira muito racional. Suas expressões — palavras, linguagem, tudo — são racionais, mas, então, diz ele: “Há algumas coisas sobre as quais nada se pode dizer — para além das quais existe algo mais; assim, devo permanecer calado a esse respeito.” Por isso, ele escreve: “O que não pode ser dito, não deve ser dito.”
  • 21. O edifício inteiro tomba: o edifício inteiro! Wittgenstein estava tentando ser racional sobre o fenômeno completo da vida, e, de súbito, um ponto aparece e ele diz: “Agora, para além deste ponto, nada pode ser dito.” Isso é dizer coisa muito importante. Alguma coisa está ali, agora, e nada pode ser dito sobre ela. Agora há um ponto que não pode ser definido, um ponto onde todas as definições simplesmente tombam por terra. Onde quer que haja existido uma mente autêntica, lógica, ela chega àquele ponto. Einstein morreu como um místico... e mais místico do que os vossos chamados místicos, porque se és um místico sem ter jamais tentado seguir o caminho da razão, nunca poderás entrar profundamente no misticismo. Não conheceste, realmente, as fronteiras. Sei de místicos que vão falando de Deus como de um conceito lógico, como um argumento. Houve místicos cristãos que tentaram “provar” Deus. Que insensatez! Se Deus pudesse ser provado, nada mais poderia deixar de ser provado... e o não-provado é a fonte. Quem experimentou algo da divina vontade não tenta provar tal coisa, porque o próprio esforço de prová-la mostra que esse alguém jamais esteve em contacto com a fonte original da vida (que não é provada, que não pode ser provada). O todo não pode ser provado por uma parte. Por exemplo: minha mão não pode provar a minha existência. Minha mão não pode ser mais do que eu, não me pode cobrir. Seria loucura tentá-lo, mas, se a mão puder cobrir a si própria, completamente, isso é o mais que bastante. Do momento em que a mão conhece a si própria, conhece também as raízes que a ligam a algo mais, sabe que é constantemente una com algo mais. Está ali porque aquele “mais” também está ali. Se eu morrer, minha mão também morre. Ela existe apenas por minha causa. O todo permanece não-provado, só as partes são conhecidas. Não podemos provar o todo, mas podemos senti-lo. A mão não me pode provar, mas pode sentir-me. Pode entrar profundamente em si mesma, e, quando alcança a profundidade, ela é eu. Os chamados místicos, que se contrariam com a razão, não são, realmente, místicos. Um verdadeiro místico jamais se contraria com a razão. Pode tratar com ela. E pode tratar com a razão porque sabe que a razão não poderá destruir o mistério da vida. Os chamados místicos e as pessoas religiosas, que temem a razão, a lógica, o argumento, estão, na verdade, temerosos de si mesmos. Qualquer argumento contra eles pode criar dúvidas interiores, pode ajudar o surgimento de suas dúvidas interiores. Estão receosos de si mesmos. O místico cristão Tertuliano, diz: “Acredito em Deus porque não o posso provar; acredito em Deus porque é impossível acreditar.” Assim é que um verdadeiro místico se sente: “É impossível, por isso acredito.” Se é possível, não há necessidade de acreditar. Torna-se um conceito justo, um conceito comum.
  • 22. Por isso é que os místicos sempre se revelaram pela fé, pela crença. Não se trata de algo intelectual, não se trata de um conceito. Trata-se de um salto para o impossível. Mas para o misterioso só podes saltar da margem da razão, nunca antes. Como podes fazer tal coisa antes? Podes saltar apenas quando dilataste a razão até seus extremos lógicos. Chegaste a um ponto em que a razão não pode ir além... e o além permanece. Agora que a razão não pode fazer nem um só passo mais e, contudo, esse passo “mais” permanece. Mesmo que desejes permanecer com a razão, uma fronteira é criada. Sabes que a existência está para além da fronteira da razão, de modo que se não vais para além dessa fronteira, tornas-te um místico. Mesmo que não dês o salto, tornas-te um místico porque soubeste alguma coisa, encontraste alguma coisa que não era absolutamente racional. Tudo quanto a razão pode saber tu soubeste. Agora, algo encontraste que a razão não pode saber. Se dás o salto, tens de deixar a razão para trás; não podes dar o salto com a própria razão. Isso é o que se define como fé. A fé não está contra a razão, está para além dela. Não é anti-racional, é irracional. Ioga é o método que te leva ao limite extremo da razão, e não apenas um método para levar-te ao extremo, mas também um método para que tentes o salto. Como dar o salto? Einstein, por exemplo, teria florescido como um Buda se soubesse alguma coisa sobre os métodos meditativos. Ele estava bem à beira disso. Muitas vezes, em sua vida, chegou ao ponto do qual o salto era possível. Mas de todas as vezes perdeu a oportunidade. Estava enredado, novamente, pela razão. E ao fim, ficou frustrado por toda a sua vida de razão. A mesma coisa poderia ter acontecido a Buda. Também ele tinha uma mente racional, muito racional, mas houve algo possível para ele, um método que pôde usar. Não só a razão tem seus métodos; a irracionalidade também os tem. A ioga está, positivamente, relacionada com métodos irracionais. Só no início os métodos racionais podem ser usados. Servem apenas para persuadir-te, para empurrar-te, para levar tua razão a mover-se em direção do limite. E, se chegas ao limite, darás o salto definitivo. Gurdjieff trabalhou, com certo grupo, em alguns métodos, profundos e irracionais. Estava trabalhando com um grupo de investigadores e usando um método irracional particular. Chamava a esse método de Exercício do “Pare!” Por exemplo, se estivesses com ele e, subitamente, ele dissesse “Pare!”, então, todos tinham de parar tal como estavam — parar totalmente. Se a mão estava em determinado lugar, devia parar ali. Se os olhos estavam abertos, tinham de permanecer abertos, se a boca estava aberta — tu estarias para dizer algo — a boca deveria permanecer tal como estava. Nenhum movimento!
  • 23. Esse método começa com o corpo. Se não há movimento no corpo, subitamente deixa de haver movimento na mente. Os dois estão associados: não podes mover teu corpo sem um movimento interior da mente, e não podes parar totalmente teu corpo sem deter o movimento interior da mente. Corpo e mente não são duas coisas, são uma energia. A energia é mais densa no corpo do que na mente — a densidade difere, a frequência do comprimento da onda difere — mas é a mesma onda, o mesmo fluxo de energia. Os investigadores estiveram praticando esse exercício “Pare!” durante um mês, continuamente. Um dia, Gurdjieff estava em sua tenda e três investigadores caminhavam através de um canal seco que havia ali no terreno. Era um canal seco, não tinha água alguma fluindo por ali. Subitamente, da sua tenda, Gurdjieff gritou: “Pare!” Todos os que estavam nas margens do canal pararam. Os três que estavam dentro do canal também pararam. (O canal estava seco, portanto não havia problema.) Então, de súbito, houve uma arremetida de água. Alguém abrira a torneira fornecedora e a água corria para o canal. Quando chegou ao pescoço dos três, um deles saltou para fora do canal, pensando: “Gurdjieff não sabe o que está acontecendo. Está em sua tenda e não tem conhecimento do fato de que a água veio para o canal.” O homem pensou: “Devo saltar para fora. Agora é irracional ficar aqui.” E saltou. Os outros dois permaneceram no canal enquanto a água se ia fazendo vez mais alta. Finalmente, ela alcançou suas narinas e o segundo homem pensou: “Este é o limite! Não vim aqui para morrer. Vim aqui para tomar conhecimento da vida eterna e não para perder esta vida.” E saltou para fora do canal. O terceiro homem permaneceu. Enfrentava o mesmo problema, também, mas resolveu permanecer porque Gurdjieff dissera que aquele era um exercício irracional e, se fosse feito com a razão, toda a coisa seria destruída. Pensou: “Está bem, aceito a morte... mas não posso interromper este exercício.” E permaneceu ali. Agora, a água fluía por sobre a sua cabeça. Gurdjieff saltou de fora de sua tenda para o canal e retirou dali o homem, que estava às portas da morte. Mas, revivendo, ele era um homem transformado. Não era o mesmo que ali tinha estado, fazendo o exercício: estava totalmente transformado. Soubera de alguma coisa: dera o salto. Onde está o limite? Se continuas com a razão, podes perder a oportunidade. Continuarás a recuar. Às vezes é preciso dar o passo que leva para além. Esse passo se torna uma transformação: a divisão é transcendida. Digas ou não que essa divisão fica entre o consciente e o inconsciente, entre a razão e a não- razão, entre a ciência e a religião, ou entre Oriente e Ocidente — a divisão deve ser transcendida. Isso é ioga: uma transcendência. Então podes voltar à razão,
  • 24. mas estarás transformado. Podes mesmo raciocinar sobre as coisas, mas estarás para além da razão.
  • 25. 2 Não-Fazer Através do Fazer A meditação é sempre passiva; sua própria essência é passiva. Não pode ser ativa porque a própria natureza dela é o não-fazer. Se estás fazendo algo esse fato de fazeres algo perturba tudo. O fazer, em si mesmo, tua própria atividade, cria a perturbação. Não-fazer é meditação, mas quando digo que não-fazer é meditação não quero dizer que nada precises fazer. Mesmo para atingir esse não-fazer precisamos fazer muito! Mas esse fazer não é meditação. É, apenas, um degrau, um trampolim. Todo o “fazer” não passa de um trampolim — não é meditação. Estás exatamente à porta, nos degraus... A porta é o não-fazer, mas, para atingir o estado de espírito do não-fazer é preciso fazer muito. Mas é preciso não confundir esse fazer com meditação. A energia vital trabalha com contradições. A vida existe como uma dialética: não é um simples movimento. Não flui como um rio: é dialética. Com cada movimento a vida cria seu próprio oposto, e através da luta com o oposto move-se para a frente. Cada novo movimento leva a tese a criar a antítese. E isso continua sempre: tese criando antítese, incorporando-se à antítese, e tornando-se a síntese que, então, faz-se de novo tese. Então, vem de novo a antítese. Quando falo em movimento dialético não quero falar de movimento simples, direto: é um movimento dividido em si mesmo, dividindo-se em si mesmo, criando o oposto, depois encontrando-se de novo com o oposto, e dividindo-se de novo no oposto. E a mesma coisa se aplica à meditação, porque ela é a coisa mais profunda da vida. Se eu te digo: “Relaxa, apenas”, isso é impossível, porque não saberias o que fazer. Assim, muitos dos pseudoprofessores de relaxamento continuam dizendo: “Relaxa, apenas, não faças nada; relaxa, apenas.” Então, que vais fazer? Podes deitar-se, mas isso não é relaxamento. Todo o remoinho interno permanece... e agora há um novo conflito: relaxar. Algo foi acrescentado sobre e acima. Toda a
  • 26. insensatez ali está, todo o remoinho ali está, com algo acrescentado: relaxar. Uma nova tensão está, agora, acrescentada a todas as velhas tensões. Assim, a pessoa que está tentando viver uma vida relaxada é a pessoa mais tensa possível. Está fadada a sê-lo, porque não compreendeu o fluxo dialético da vida. Pensa que a vida é um fluxo reto, bastando que se diga a si mesmo que relaxe para estar relaxado. Isso não é possível! Assim, se vieres a mim, jamais direi que apenas relaxes. Primeiro fica tenso, tão fortemente tenso quanto puderes. Fica totalmente tenso! Primeiro deixa que todo teu organismo fique tenso, e continue a estar tenso até o máximo, até a tua total possibilidade. E então, subitamente, sentirás que o relaxamento se instala. Fizeste o que te era possível: agora a energia da vida cria o oposto. Levaste a tensão ao auge. Agora, não há nada para além disso, não podes continuar. Toda a energia foi devotada à tensão. Mas não podes continuar com essa tensão indefinidamente. Ela tem de se dissolver, e depressa começará a dissolver-se. Agora, sê uma testemunha desse acontecimento. Através da tensão chegaste ao limiar, ao ponto de onde se salta. Por isso não pudeste continuar. Se continuasses, poderias estourar, morrer. O ponto excelente foi encontrado. Agora, a energia da vida relaxará a si mesma. Ela se relaxa. Agora, fica consciente, e vê esse relaxamento instalar-se. Cada membro do corpo, cada músculo do corpo, cada nervo do corpo vai relaxando, inocentemente, sem que nada seja feito de tua parte. Nada estás fazendo para relaxar, ele se está relaxando. Começarás a sentir muitos pontos no organismo que se relaxa. Todo o organismo será uma reunião de pontos relaxados. Fica consciente. Essa consciência é meditação. Mas é um não-fazer. Nada estás fazendo, porque estar consciente não é um ato. Não é absolutamente um ato, é tua natureza, uma qualidade intrínseca de teu ser. Tu é consciência. Tua não-consciência é a tua conquista... e a conquistaste com muito esforço. Assim, para mim, a meditação tem dois passos: primeiro, um ativo (que não é, realmente, de modo algum, meditação) e segundo, um completamente não-ativo (a consciência passiva, que é, realmente, meditação). A consciência, ou conhecimento, é sempre passiva, e, no momento em que te tornas ativo perdes teu conhecimento. É possível estar ativo e consciente apenas quando a consciência chegou a um tal ponto que agora já há necessidade da meditação para conquistá-la, ou conhecê-la, ou senti-la. Quando a meditação se torna inútil, tu, simplesmente, pões de lado a meditação. Agora, estás consciente. Só então podes estar ao mesmo tempo consciente e ativo — de outra maneira não é possível. Enquanto a meditação ainda for
  • 27. necessária, não serás capaz de estar consciente durante a atividade. Mas, quando a meditação já não é necessária... Se tu te tornaste meditação, já não precisarás dela. Então, podes ser ativo, mas mesmo nessa atividade és sempre o espectador passivo. Agora, jamais és o ator: és, sempre, uma consciência que testemunha. A consciência é passiva... e a meditação está fadada a ser passiva porque é apenas uma porta para a consciência — a perfeita consciência. Assim, quando as pessoas falam em meditação “ativa”, estão erradas. Meditação é passividade. Podes precisar de alguma atividade, de algum “fazer” para chegar a ela — isso pode ser compreendido — mas isso não se dá porque a meditação seja, em si, ativa. Isso, antes, se dá, porque estiveste ativo em tantas e tantas vidas — a atividade tornou-se de tal forma parte e parcela de tua mente — que precisas até mesmo da atividade para alcançar a não-atividade. Estiveste tão envolvido em atividade que não podes abandoná-la. Assim, pessoas como Krishnamurti podem continuar a dizer: “Abandona isso”, mas continuarás a perguntar como abandonar isso. Krishnamurti dirá: “Não perguntes como. Estou dizendo que abandones isso! Não há um ‘como’ para tanto. Não há necessidade de nenhum ‘como’.” De certa forma ele está certo. Consciência passiva ou meditação passiva não têm um “como”. Não podem ter, porque se houver algum “como” então não pode ser passiva. Mas está certo, também, porque não leva em conta seu ouvinte. Está falando de si próprio. A meditação se faz sem “como”, sem tecnologia, sem qualquer técnica. Assim, Krishnamurti está absolutamente correto, mas o ouvinte não foi levado em conta. O ouvinte nada mais tem senão atividade; para ele, tudo é atividade. Assim, quando dizes “A meditação é passiva, não-ativa, sem escolha. Podes apenas estar nela. Não há necessidade de esforço, de nenhum esforço, ela é sem esforço”, estás falando uma linguagem que o ouvinte é capaz de entender. Ele entende a parte linguística do que dizes — e isso é que torna tudo tão difícil. Ele diz: “Intelectualmente, compreendo tudo. Tudo o que o senhor está dizendo está sendo inteiramente compreendido”, mas ele é incapaz de compreender o significado. Não há nada de misterioso nos ensinamentos de Krishnamurti. Ele é o menos místico dos mestres. Nada há de misterioso! Tudo é obviamente claro, exato, analisado, lógico, racional, de forma que todos podem entender. E isso tornou- se uma das grandes barreiras, porque o ouvinte pensa que compreendeu. Compreende a parte linguística, mas não compreende a linguagem da passividade.
  • 28. Compreende o que lhe está sendo dito — as palavras. Ouve-as, compreende- as, conhece o sentido daquelas palavras. Faz correlações. Um quadro inteiramente correlato vem à sua mente. O que está sendo dito é compreendido, há uma comunicação intelectual. Mas ele não compreende a linguagem da passividade. Não pode compreender. Só pode compreender a linguagem da ação — da atividade. Assim, tenho de falar sobre a atividade. E tenho de conduzir-te, através da atividade, ao ponto de onde podes dar o salto para a não-atividade. A atividade deve chegar ao ponto extremo, ao ponto-limite, quando se torna impossível para ti o ser ativo (porque se a atividade ainda for possível, tu continuarás). Tua atividade deve ser esgotada! O que quer que possas fazer, deves ter permissão para fazê-lo. Seja o que for que possas fazer, deves ser compelido a fazer até o ponto em que tu mesmo grites: “Agora, nada posso fazer, não há esforço possível. Estou exausto.” Então, eu digo: “Agora, abandona!” Esse abandono pode ser comunicado. Estás no limite, estás pronto para abandonar. Agora, podes compreender a linguagem da passividade. Antes disso não podias compreender. Estavas demasiado repleto de atividade. Jamais estiveste no ponto extremo da atividade. As coisas só podem ser abandonadas no ponto extremo, nunca no meio. Não podes abandoná-las. Podes abandonar o sexo — se estiveste totalmente nele, podes abandoná-lo; de outra forma, não. Podes abandonar tudo quanto levaste até ao limite extremo, onde não há mais para onde ir, e não há razão para retroceder. Podes abandonar isso porque o conheceste totalmente. Quando conheceste alguma coisa totalmente, ela se torna tediosa para ti. Podes desejar ir adiante, mas não há adiante para ir, então apenas “pararás de todo”. Não há retorno, e não há possibilidade de ir adiante. Estás no ponto em que tudo termina. Então, podes abandonar, podes ser passivo. E, do momento em que és passivo, acontece a meditação. Ela floresce. Vem ter contigo. É um “abandono total” na passividade. Assim, para mim, esse é o esforço que leva ao “não-esforço”, é a ação que leva à “não-ação”, é a mente que conduz à meditação, é o próprio mundo material que conduz à iluminação. A vida é um processo dialético, seu oposto, é a morte. Deve ser usado, não podes abandoná-lo. Usa-o, e serás atirado ao oposto. E, sê consciente. Quando és atirado sobre as ondas, sê consciente. É fácil. Quando vens de um auge de tensão para o ponto de relaxamento, é muito fácil estar consciente, muito fácil. Não é difícil, então; porque para estar consciente tens de ser passivo, apenas uma testemunha.
  • 29. Mesmo o esforço de testemunhar não deve estar presente. Não é necessário. Estás tão exausto através da atividade, que dirás: “Leve o diabo isso tudo — chega!” Então, a meditação É, e tu não és. E, uma vez saboreado, esse gosto jamais será perdido. Permanece contigo onde quer que tu vás. Permanece contigo. Então, ele penetrará todas as tuas atividades, também. Haverá atividade, e ali — no próprio centro do teu ser — haverá um silêncio passivo, e na circunferência — o mundo todo. No centro — o brâmane. Na circunferência, toda a atividade; no centro, apenas silêncio. Mas um silêncio muito fecundo, não um silêncio morto, porque desse silêncio tudo nasce, mesmo a atividade. Desse silêncio vem toda a criatividade. É muito fecundo... Portanto, quando quer que eu diga “silêncio”, não estou falando do silêncio de um cemitério, do silêncio de uma casa onde não há ninguém. Não! Falo do silêncio de uma semente, do silêncio de um útero materno, do silêncio das raízes subterrâneas. Há muita potencialidade oculta que logo surgirá. A atividade ali estará, mas agora aquele que age não está, aquele que fez, já não está. Isso é busca, isso é procura. Há duas tradições antagônicas: a ioga e o samkhya, A ioga diz que nada pode ser conseguido sem esforço. O todo da ioga, o todo da ioga de Patanjali (raja- ioga) nada é senão esforço. E essa foi a corrente principal, porque o esforço foi entendido por muitos. A atividade pode ser compreendida, por isso a ioga tem sido a corrente principal. Às vezes, entretanto, aparecem extravagantes que dizem: “Nada tem de ser feito”. Um Nagarjuna, um Krishnamurti, um Huang Po — alguns extravagantes! — dizem: “Nada tem de ser feito. Não faças nada. Não perguntes sobre o método.” Essa é a tradição do samkhya. Há, realmente, duas únicas religiões no mundo: ioga e samkhya. O samkhya, porém, sempre atraiu poucas pessoas, aqui e ali, por isso não se fala muito dele. Essa é a razão que nos leva a ver em Krishnamurti alguém muito original e moderno. Ele não é tal, mas parece ser porque o samkhya é desconhecido. Só a ioga é conhecida. Há ashrams, centros de treinamento e iogues, por todo o mundo. A ioga é conhecida: a tradição do esforço. O samkhya não é absolutamente conhecido. Krishnamurti não disse uma só palavra que fosse nova, mas, como não estamos familiarizados com as tradições do samkhya, o que ele diz parece novo. Só por causa da nossa beatífica ignorância existem revolucionários. Samkhya significa “conhecimento”, conhecer. Samkhya diz: “Só o conhecimento é bastante: só a consciência é bastante.” Essas duas tradições, contudo, são apenas dialéticas. Para mim, não são opostas. Para mim, são dialéticas, e uma síntese é possível. Chamo a essa
  • 30. síntese de não-esforço através do esforço: ioga através de samkhya e samkhya através de ioga... Não-fazer através de fazer. Nesta época, nenhuma dessas duas tradições opostas, por si mesmas, pode ajudar. Podes usar a ioga para alcançar samkhya — e terás de usar a ioga para alcançar samkhya. Se podes compreender a dialética hegeliana, toda a coisa estará clara para ti. O conceito do movimento dialético não tem sido usado por ninguém, desde Marx, e ele o usou de uma forma muito não-hegeliana. Usou-o para a evolução material, para a sociedade, para classes — para mostrar como a sociedade progride através de classes, através da luta de classes. Marx disse: “Hegel estava posto de cabeça para baixo e eu o coloquei novamente sobre os pés.” Mas, realmente, o contrário foi o que se deu. Hegel estava sobre seus pés e Marx o colocou de cabeça para baixo. E, por causa de Marx, o conceito muito fecundo da dialética tornou-se contaminado pelo comunismo. Mas o conceito é muito belo, muito significativo. Tem muita profundidade. Hegel diz: “O progresso de uma idéia, o progresso da consciência, é dialético. A consciência progride através da dialética.” Eu digo que qualquer força vital progride através da dialética, e a meditação é o maior fenômeno acontecido, a explosão da força da vida. Ela é mais profunda do que uma explosão atômica, porque numa explosão atômica apenas uma partícula de matéria explode, mas na meditação uma célula viva, uma existência viva, um ser vivo explodem. Essa explosão ocorre através da dialética. Assim, usa a ação, e lembra-te da não-ação. Terás que fazer muito, mas recorda que todo esse fazer se dá apenas para alcançar o estado no qual nada se faz. Samkhya e ioga parecem, ambos, bastante simples. Krishnamurti não é difícil, nem o é Vivekananda. São simples, porque escolheram uma parte da dialética. Então, parecem muito consistentes. Krishnamurti é muito consistente, absolutamente consistente. Em quarenta anos de palestras não articulou uma só palavra inconsistente, porque escolheu uma parte de todo o processo, o oposto do que é negado. Vivekananda também é consistente: ele escolheu a outra parte. Eu posso parecer muito inconsistente. Ou, podes dizer que eu sou consistente em minhas inconsistências. Usa a dialética... Relaxa, através da tensão... Medita, através da ação. Por isso é que eu falo de jejum. Ele é ação, uma ação muito profunda. Tomar o alimento não é uma atividade tão grande como não tomá-lo. Tu o tomas, e depois o esqueces. Não há nisso muita atividade. Mas se não estás tomando alimento, o ato é grande. Não o podes esquecer. Todo o corpo recorda, cada uma das
  • 31. células o pede. O corpo inteiro entra num remoinho. O jejum é muito ativo — ativo até o cerne. Não é passivo. Dançar não é ato passivo, é muito ativo. Ao fim tu te tornas movimento. O corpo é esquecido, só o movimento permanece. Realmente, dançar é a coisa mais sobrenatural, a arte mais sobrenatural, porque é apenas ritmo em movimento. É absolutamente imaterial, de forma que não podes prendê-la. Podes prender o dançarino, mas nunca a dança. Ela só se dissolve no cosmos: ali está, e já ali não está... não está aqui, e, de súbito, está aqui. Vem do nada e está aqui. Sai do nada e de novo vai para o nada. Um dançarino está sentado aqui. Não há dança nele. Mas se um poeta escrever sentado aqui, a poesia pode estar nele. A poesia pode existir no poeta. Um pintor está aqui; de uma forma muito sutil a pintura está presente. Antes que ele pinte, a pintura ali está. Mas, com o dançarino, nada está presente, e se está presente, então tratamos com um técnico e não com um dançarino. O movimento é um fenômeno novo que vai chegando. O dançarino torna-se apenas um veículo: o movimento domina. Um dos maiores dançarinos deste século foi Nijinsky. Ao fim, ele enlouqueceu... e poderia ter sido o maior dançarino de toda a história. Mas o movimento se tornou algo demais para ele, e nele o dançarino se perdeu. Em seus últimos anos não conseguia controlá-lo. Podia pôr-se a dançar a qualquer momento, em qualquer lugar. E, quando estava dançando, ninguém poderia dizer quando acabaria. A dança poderia continuar pela noite toda... Quando amigos lhe perguntavam “Que acontece contigo? Começas, e não terminas?”, Nijinsky dizia: “Eu sou apenas o princípio. Então, algo domina, e ‘eu’ já não sou... e nem sei quem dança.” Enlouqueceu. Foi para um hospício; morreu num hospício. Aceita uma atividade e vai ao limite onde existe loucura, ou meditação. A busca morna nenhum efeito terá.
  • 32. 3 Meditação “Caótica”... O homem é neurótico. Não apenas alguns homens são neuróticos, mas a humanidade, ela toda, é neurótica. Não se trata de cura para umas tantas pessoas, é uma questão de curar a humanidade como tal. A neurose é a condição "normal” do homem, porque cada homem passa por um treinamento, um condicionamento. Não lhe permitem ser apenas o que é. Tem de ser moldado por um padrão particular. Esse padrão cria neurose. A sociedade te dá um padrão, um molde. És cultivado dentro de certo feitio e forma. Só um fragmento de teu ser tem permissão para se expressar, enquanto a parte remanescente é represada. Isso cria uma divisão, uma esquizofrenia. E a parte que é suprimida fica a lutar para expressar-se. Assim, todo homem é esquizofrênico, dividido... dividido contra si próprio, lutando contra si próprio. O homem, como tal, é esquizofrênico. Não pode estar à vontade, não pode ser calado, nem pode ser expansivo. O inferno está sempre ali. E, a não ser que te tornes inteiro, não podes livrar-te desse inferno. Algo tem de ser feito para desprender essa neurose, para aproximar tuas partes divididas. O que não é expresso tem de ser expresso, e essa constante repressão do inconsciente pelo consciente tem de ser eliminada. As velhas técnicas de meditação não levam tal coisa em consideração. Por isso fracassaram. As técnicas de meditação existem há muito tempo, têm sido conhecidas através das histórias, mas um Buda, um Jesus, um Mahavira, todos foram fracassos. Não quero dizer que eles próprios não compreenderam. Compreenderam, alcançaram sua própria iluminação, mas não puderam auxiliar a maior parte da humanidade a alcançar a iluminação. Por que a religião não foi mais do que um auxílio? A razão é esta: o homem foi tomado naturalmente, e as técnicas meditativas lhes foram ensinadas tal como ele é. Essas técnicas só podem ajudar até certo ponto; podem afetar apenas a superfície. A divisão interior permanece, nada pode ser feito para dissolvê-la. Há, por exemplo, as técnicas do Zen..., a Meditação Transcendental do iogue Mahesh... e outras técnicas mais. Elas podem ajudar até certo ponto. Podem
  • 33. acalmar-te, tua superfície torna-se mais tranquila. Mas nada acontece ao teu eu interior. Não pode acontecer! E, de certa forma, a calma superficial é perigosa, porque, mais cedo ou mais tarde, tornará a explodir. Basicamente, nada aconteceu. Treinaste simplesmente tua mente consciente para um estado mais calmo. Podes acalmar facilmente tua mente através de mantras, através do cantarolar constante, através de muitas coisas. Tudo quanto criar um tédio interior te ajudará a obter calma. Por exemplo, se repetires constantemente Ram-Ram- Ram, essa repetição constante cria uma sonolência, um tédio, e tua mente começa a sentir sono. Podes sentir essa sonolência como calma, como quietude, mas não é isso. Na verdade, isso é uma espécie de embrutecimento. Mas, pelo menos, podes tolerar melhor tua vida, por causa desse embrutecimento. Pelo menos superficialmente estarás mais satisfeito. E as forças, as forças neuróticas, continuarão fervilhando em ti, por dentro. Um belo dia elas explodirão e despedaçarão a superfície. Tais métodos são conciliatórios. Muito poucas são as pessoas que podem ser ajudadas através deles. E as que podem ser ajudadas através deles podem ser ajudadas por quaisquer outras técnicas. Mas tais pessoas são raras exceções, são os poucos afortunados que não são neuróticos. A maioria da humanidade não tem tanta sorte. Por isso é que minha ênfase, de início, está em dissolver tua divisão interior, fazer-te um — uma unidade. A não ser que sejas um, nada pode ser feito. Assim, a primeira coisa está em como dissolver a tua neurose. Minha técnica é a da Meditação Dinâmica, que aceita a tua neurose tal como é, e tenta liberá-la. A técnica se inicia, basicamente, com uma catarse. Tudo que está escondido deve ser liberado. Não deves continuar reprimido. Antes, escolhe a expressão como caminho. Não condenes a ti próprio. Aceita-te tal como és, porque a condenação apenas cria divisão. Do momento em que aceitas, vais além, porque a aceitação cria uma unidade, e quando estás unido interiormente, tens energia para ir além. Quando estás dividido interiormente, tua energia está lutando contigo mesmo. Então, ela não pode ser usada para nenhuma transformação. Assim, deixa que haja uma aceitação do que és. Tudo que tens estado reprimindo até agora tem de ser liberado. E se liberas tua neurose conscientemente, dia virá em que chegarás ao ponto em que já não és um neurótico. Os que reprimem as suas neuroses tornam-se cada vez mais neuróticos, enquanto os que a manifestam conscientemente, livram-se dela. Assim, a não ser que te tornes “conscientemente insano” jamais poderás tornar-te são. R.D. Laing tem razão quando diz: “Dá a ti próprio a permissão de ser insano.” Ele é um dos homens mais sensíveis do Ocidente.
  • 34. Tu és insano, então tens que fazer algo a esse respeito. A velha tradição diz: “Reprime a tua insanidade. Não permitas que ela se manifeste ou começarás a agir de forma insana”, mas eu te digo: “Deixa que ela venha à tona, sê consciente dela. Essa é a única via para a sanidade.” Libera-a! Dentro, ela se tornará venenosa. Atira-a fora, remove-a totalmente do teu sistema. Mas essa catarse deve ser abordada de uma forma muito sistemática, muito metódica, porque se trata de tornar-se louco com método... conscientemente louco. Tens de fazer duas coisas: permanecer consciente do que estás fazendo, e nada suprimir. Com as nossas mentes, consciência habitualmente significa supressão. Esse é o problema. Do momento em que te tornas consciente de certas coisas em ti próprio começas a suprimi-las. Assim, isto é o que deve ser aprendido: ser consciente e não-supressivo... ser consciente e expressivo. Meu sistema de Meditação Dinâmica — também conhecida como “Caótica” — começa com a respiração, porque a respiração tem profundas raízes no ser. Podes não ter observado isso, mas, se puderes mudar tua respiração, poderás mudar muitas coisas. Se observares cuidadosamente tua respiração, verás que quando te zangas tens um ritmo particular na respiração. Quando estás amando, um ritmo totalmente diferente ocorre. Quando estás relaxado, respiras de maneira diferente; e o mesmo acontece quando estás tenso. Não podes respirar da forma como o fazes quando estás relaxado e ao mesmo tempo sentir cólera. Isso é impossível. Quando estás sexualmente excitado, tua respiração se modifica. Se não permitires que haja essa modificação, teu entusiasmo sexual te abandonará automaticamente. Isso significa que a respiração está profundamente relacionada com o teu estado mental. Se mudares tua respiração, poderás mudar o estado de tua mente. Ou, se mudares o estado de tua mente, a respiração também mudará. Por isso começo com a respiração e sugiro dez minutos de respiração caótica no primeiro estágio da técnica. Entendo como respiração caótica uma respiração rápida e vigorosa, sem qualquer ritmo. Só aspirar e exalar, aspirando e restituindo o ar, tão vigorosamente, tão profundamente, tão intensamente quanto possível. Aspira, e, a seguir, exala. A respiração caótica deve criar um caos dentro de teu sistema reprimido. Seja quem fores, tens certo tipo de respiração. Uma criança respira de forma particular. Se estás sexualmente temeroso, respiras de maneira particular. Não podes respirar profundamente porque cada respiração profunda toca o centro do sexo. Se estás temeroso, não podes respirar profundamente. O medo cria a respiração superficial.
  • 35. Essa respiração caótica deve destruir todos os teus padrões passados. Essa respiração caótica irá destruir aquilo que fizeste de ti mesmo. A respiração caótica cria o caos dentro de ti porque, a não ser que um caos seja criado, não podes liberar as emoções reprimidas. E essas emoções passaram, agora, para o corpo. Tu não és corpo e mente; tu és corpo/mente (psicossomático). És ambas as coisas reunidas. Por isso, o que quer que seja feito com teu corpo alcança a tua mente, e o que quer que seja feito com a mente alcança o teu corpo. Corpo e mente são as duas extremidades da mesma entidade. Dez minutos de respiração caótica são maravilhosos! Mas deve ser caótica. Não é um tipo pranayama (respiração iogue). É, simplesmente, a criação do caos através da respiração. E ela cria o caos por muitas razões. A respiração rápida e profunda dá-te mais oxigênio. Quanto mais oxigênio houver no corpo mais vivo tu te tornas, mais animalizado. Os animais são vivos e o homem é semimorto, semivivo. Tens que te tornar animal, novamente. Só então alguma coisa mais alta pode desenvolver-se em ti. Se estás apenas semivivo, nada pode ser feito contigo. Assim, essa respiração caótica te fará como um animal: vivo, vibrante, vital — com mais oxigênio em teu sangue, mais energia em tuas células. As células de teu corpo tornarão mais vivas. Essa oxigenação ajuda a criar eletricidade corporal — ou o que podes chamar “bioenergia”. Quando há eletricidade no corpo podes ir profundamente para o interior, para além de ti mesmo. A eletricidade trabalhará dentro de ti. O corpo tem suas próprias fontes elétricas. Se as martelares com mais respiração e mais oxigênio, começarão a fluir. E se te tornas realmente vivo, não és um corpo. Quanto mais vivo ficares, mais energia flui em teu sistema e menos te sentirás fisicamente. Irás sentir-te mais como energia e menos como matéria. E, quando quer que aconteça estares mais vivo, não és, nesses momentos, orientado pelo corpo. Se o sexo tem tanta atração, esta é uma das razões: se estiveres realmente no ato, movendo-se totalmente, totalmente vivo, já não és um corpo — és apenas energia. Sentir essa energia, estar vivo com essa energia é muito necessário, se tens que passar além. O segundo passo em minha técnica de Meditação Dinâmica é uma catarse. Digo- te que sejas conscientemente insano. O que quer que te venha à mente — seja o que for — deixa que se manifeste, coopera com isso. Não oponhas resistência — que seja apenas um fluxo de emoções. Se queres gritar, grita. Coopera com isso. Um grito profundo, um grito total, no qual todo o ser fica envolvido, é muito terapêutico, profundamente terapêutico. Muitas coisas, muitas enfermidades serão liberadas apenas pelo grito. Se o grito for total, todo o teu ser estará nele.
  • 36. Assim, nos próximos dez minutos (esse segundo passo também toma dez minutos) permite a ti próprio a expressão através do grito, da dança, do berro, do salto, do riso — da maluquice, como se diz. No princípio isso pode ser forçado, um esforço, ou pode ser apenas ação. Nós nos fizemos tão falsos que nada de real ou autêntico pode ser feito por nós. Não temos rido, nem chorado, nem gritado, autenticamente. Tudo é apenas fachada — máscara. Assim, quando começas esta técnica, no início podes ser forçado. Podes precisar de esforço, podes estar apenas agindo. Mas não te preocupes com isso. Continua. Depressa tocarás aquelas fontes onde reprimiste muitas coisas. Tocarás aquelas fontes, e desde que elas se liberem, sentirás o alívio da carga. Nova vida terá vindo a ti, novo nascimento tem lugar. Esse aliviar de carga é básico... e sem ele não pode haver meditação para o homem, tal como ele é. Insisto em que não estou falando das exceções. Elas são irrelevantes. Com esse segundo passo — quando as coisas são jogadas fora — ficas vazio. E isso é o que se chama vacuidade: estar vazio de todas as repressões. Nessa vacuidade algo pode ser feito. Pode acontecer a transformação, pode acontecer a meditação. Então, no terceiro passo eu uso o som “huu”. Muitos sons foram usados no passado. Cada som tem algo específico a fazer. Por exemplo, os hindus têm usado o som aum. Isso pode ser familiar para ti. Mas eu não sugiro aum. Aum toca o centro do coração, mas o homem já não está centralizado no coração. Aum bate a uma porta na qual já não há ninguém que atenda. Os sufis usaram huu, e se dizes huu em voz alta, ele vai profundamente para o centro do sexo. Assim, esse som pode ser usado como marteladas interiores. Quando te fizeste vazio e drenado, esse som pode ir ter ao seu interior. O movimento do som só é possível quando estás vazio. Se estás cheio de repressões, nada acontecerá. E, às vezes, é até perigoso usar mantra ou som quando estás cheio de repressões. Cada camada de repressão mudará o caminho do som, e o resultado final pode ser algo com o qual jamais sonhaste, jamais esperaste, jamais desejaste. Precisas de uma mente drenada, só então um mantra pode ser usado. Assim, jamais sugiro um mantra a alguém, tal como ele é. Antes deve haver uma catarse. Esse mantra huu jamais deveria ser feito sem que fossem dados os dois primeiros passos. Jamais deve ser feito sem eles. Só no terceiro passo esse huu deve ser usado, e por dez minutos — tão alto quanto possível, concentrando toda tua energia nisso. Tens de martelar tua energia com o som. E quando estás vazio (quando te esvaziaste com a catarse do segundo passo) esse huu atinge profundamente o centro do sexo.
  • 37. Esse centro do sexo tem de ser atingido de duas maneiras. A primeira será naturalmente. Quando quer que te sintas atraído por uma pessoa do sexo oposto, o centro do sexo é atingido pelo exterior. E isso é, também, uma vibração sutil. Um homem é atraído por uma mulher ou uma mulher é atraída por um homem. Por quê? Que há num homem e que há numa mulher que explique isso? Uma eletricidade, negativa ou positiva, os atinge: uma vibração sutil. É um som, na verdade. Por exemplo, podes ter observado que os pássaros usam o som para o chamado sexual. Todo o seu canto é sexual. Estão repetidamente atingindo um ao outro com sons particulares. Esses sons atingem o centro do sexo dos pássaros do sexo oposto. Sutis vibrações de eletricidade estão atingindo tua pessoa pelo exterior. Quando o teu centro do sexo é atingido pelo exterior, tua energia começa a fluir para fora — em direção do outro. Então, haverá reprodução, nascimento. Uma outra pessoa nascerá de ti. Huu está atingindo o mesmo centro de energia, mas interiormente. E quando o centro do sexo é atingido interiormente, a energia começa a fluir por dentro. Esse fluxo interior de energia, transforma-te completamente. Tu estás transformado: dás nascimento a ti próprio. Só te transformas quando a tua energia se movimenta em direção totalmente oposta. Mesmo agora ela está fluindo, mas então começa a fluir por dentro. Agora flui para baixo, mas então flui para cima. Essa onda de energia que sobe é o que se conhece com o nome de kundalini. 2 Sentirás isso, realmente, fluindo pela tua espinha... e quanto mais alto ela sobe, mais alto subirás com ela. Quando essa energia atinge o brahmarandhra (o último centro em ti: o sétimo centro, localizado no topo da cabeça), és o homem mais perfeito possível — o que Gurdjieff chama “homem número sete.” 2. Kundalini será explanada com detalhe, no cap. 6. Tu és “homem número um” quando tua energia está só no centro do sexo. Quando alguma energia chega ao centro do coração, és “homem número dois”: o homem da emoção. Quando alguma energia chega ao intelecto, és “homem número três”: homem do intelecto. Há homens comuns — todos neuróticos à sua maneira. Um homem é emocionalmente neurótico, outro é corporalmente neurótico, outro é intelectualmente neurótico. Mas esses três homens não passam de homens comuns. “Homem número quatro” é o que está tentando mover sua energia interior: o homem que está meditando, que está fazendo esforços para dissolver sua neurose, suas divisões, sua esquizofrenia. Esse é o “homem número quatro.” E conforme essa energia se move para cima, internamente, um homem mais
  • 38. perfeito vai sendo criado. Quanto mais perfeito for o homem, menos neurótico será, menos esquizofrênico, mais são. Então chega um momento em que a energia é liberada do teu último centro, para o cosmos. Tornas-te um super-homem. Ou, melhor, já não és um homem. E quando chega esse momento, só então já não estás louco. O homem é propenso a ser louco de uma forma ou outra porque não é um ser. Ele é, antes, uma fachada. O homem não é um fim. É, antes, um processo — algo a meio caminho. Já não é um animal, e ainda não é o que deveria ser. Está a meio caminho entre o animal e deus. Isso é o que cria a neurose. Já não és um animal, mas o animal ainda está dentro de ti. E continua a puxar- te para baixo. Nada há de mau nisso, pois um animal não pode fazer outra coisa. Puxa-te para o que lhe é natural. Por isso é que insiste em puxar-te para o teu centro do sexo. O sexo é o último centro para um animal e o primeiro para o homem. Assim, o animal dentro de ti não pode fazer outra coisa. Continua a puxar-te para o centro do sexo. Mas esse é o teu primeiro centro, não a tua possibilidade definitiva. Tua possibilidade definitiva é o super-homem, que vai para além da humanidade, transcendendo a humanidade. Essa possibilidade definitiva — esse super- homem, deus dentro de ti — insiste em puxar-te para cima. Esses dois impulsos criam a esquizofrenia. Num momento és levado para o mais alto e pareces um santo, e no momento seguinte estás sendo puxado para baixo e te comportas como um animal. A mente torna-se confusa. Não podes ser um animal sinceramente — não te podes sentir à vontade com o animal dentro de ti — porque a maior possibilidade, a semente, ali está e continua a desafiar-te. Mas não podes remover o animal. Ele ali está; é a tua herança. Assim tu te divides em dois. Colocas o animal, que é parte tua, no inconsciente, e, conscientemente, tu te identificas com tua mais alta possibilidade, aquela que não és. Essa alta possibilidade é o ideal, o fim. Conscientemente, tu te identificas com o fim, mas, inconscientemente, permaneces com o princípio. Esses dois pontos criam conflito. Assim, a não ser que vás além do homem, não podes ir além da loucura. O homem é loucura. No terceiro passo eu uso huu como um veículo para levar tua energia para cima. Esses três primeiros passos são catárticos. Não são meditação, apenas preparam para isso. São um “ficar pronto” para dar o salto, e não o salto propriamente dito. O quarto passo é o salto. No quarto passo eu te digo pára! Quando eu digo, “Pára!”, pára completamente. Não faças absolutamente nada, porque o que quer que faças torna-se uma distração, e perderás o ponto. Qualquer coisa até mesmo uma tosse ou um espirro — pode fazer-te perder tudo, porque a mente
  • 39. se distraiu. Então, o fluxo ascendente parará imediatamente, porque tua atenção foi desviada. Não faças nada. Não vais morrer. Mesmo que, vindo um espirro, tu espirres no espaço de dez minutos, não vais morrer. Se tens vontade tossir, se sentes uma irritação na garganta e nada fazes, não vais morrer. Deixa que teu corpo permaneça morto, apenas, e que tua energia possa subir, num fluxo ascendente. Quando a energia se move para cima, tu te tornas cada vez mais silencioso. O silêncio é um subproduto da energia movendo-se para cima e a tensão é um subproduto da energia movendo-se para baixo. Agora, todo o teu corpo se tornará tão silencioso como se tivesse desaparecido. Não poderás senti-lo. Ficaste destituído de corpo. E, quando estás silencioso, toda a existência está silenciosa porque a existência não passa de um espelho. Reflete a tua pessoa. Em milhares e milhares de espelhos ela reflete a tua pessoa. Quando estás silencioso, toda a existência torna-se silenciosa. Em teu silêncio eu te direi que sejas apenas uma testemunha — um vigilante constante: sem nada fazer, apenas permanecendo como testemunha, apenas permanecendo contigo mesmo; sem fazer nada — nenhum movimento, nenhum desejo, apenas permanecendo ali, e então, silenciosamente testemunhando o que ocorre. Aquela permanência no centro, em ti mesmo, é possível por causa dos três primeiros passos. A não ser que dês esses três primeiros passos, não podes permanecer contigo mesmo. Podes continuar a falar sobre isso, a pensar sobre isso, a sonhar com isso, mas não acontecerá, porque não estás preparado. Esses três primeiros passos irão preparar-te para permanecer com o momento. Irão tornar-te consciente. Isso é meditação. Nessa meditação algo acontece que fica para além das palavras. E desde que isso aconteça jamais tornarás a ser o mesmo — é impossível. Isso é um crescimento, não é uma simples experiência. Isso é um crescimento. Essa é a diferença entre as falsas técnicas e as técnicas verdadeiras. Com as falsas técnicas podes experimentar alguma coisa, mas tornarás a retroceder. Será apenas um vislumbre e não um crescimento. Isso pode acontecer com LSD. Terás um vislumbre. Isso pode acontecer com outras técnicas: podes ter um vislumbre, podes ter uma experiência, mas irás retroceder, porque não cresceste. A experiência aconteceu a ti, tu não aconteceste para a experiência. Não cresceste. Quando cresceres não poderás retroceder. Se uma criança sonha que se tornou um rapaz, pode ter um vislumbre do que é ser um rapaz. Mas é um sonho. O sonho será interrompido e ela será de novo uma criança, porque não havia crescido. Mas se cresceste e te tornaste um
  • 40. rapaz, não podes voltar a ser uma criança. O crescimento é verdadeiro. Assim, esse é o critério para julgar se um método, uma técnica foram reais ou falsos. Há técnicas falsas que são fáceis de usar. Elas jamais levam a coisa alguma. Se o que desejas são experiências, serás presa de qualquer técnica falsa. Uma técnica verdadeira não se preocupa com experiências pela experiência. Uma técnica verdadeira preocupa-se com o crescimento. Experiências acontecem, e isso é irrelevante. Minha preocupação é com o crescimento, não com as experiências. Deves crescer para torna-te um, para tornar-te inteiro, para tornar-te são. Essa sanidade não pode ser forçada em ti. A sociedade tenta forçá-la em ti, mas tu permaneces insano por dentro e a sanidade é apenas uma fachada. Não vou forçar sanidade alguma em ti. Antes, vou trazer para fora a tua insanidade. Quando ela for completamente extraída, atirada ao vento, a sanidade acontecerá para ti. Crescerás. Estarás transformado. Esse é o significado da meditação.
  • 41. 4 ...Ou Meditação Silenciosa PERGUNTA: “A Meditação Dinâmica é muito ativa, muito vigorosa. Não é possível entrar em meditação apenas ficando sentado, silenciosamente?” Podes entrar em meditação apenas ficando sentado, mas, então tens de ficar apenas sentado. Não faças nada mais. Se podes ficar apenas sentado, isso se torna meditação. Fica completamente naquele ato de estar sentado; o não- movimento deve ser teu único movimento. Na verdade, a palavra zen vem da palavra zazen, que quer dizer “apenas sentado... sem nada fazer.” Se podes ficar apenas sentado — nada fazendo com o teu corpo, nada fazendo com a tua mente — isso se torna meditação. Mas é difícil. Podes sentar-te muito facilmente quando estás fazendo alguma coisa além disso, mas no momento em que te sentas e nada fazes, a coisa se torna um problema. Cada fibra do teu corpo começa a mover-se por dentro; cada veia, cada músculo começa a mover-se. Começarás a sentir um tremor sutil, ficarás consciente de muitos pontos em teu corpo, dos quais nunca estiveste consciente antes. E quanto mais tentas ficar apenas sentado, mais movimentos interiores sentirás. Assim, o ficar sentado só pode ser feito se fizeste outras coisas primeiro. Podes apenas andar, é mais fácil. Podes apenas dançar, isso é ainda mais fácil. E depois que tiveres feito coisas que são mais fáceis, podes, então, sentar. Sentar em postura de um Buda é a última coisa a fazer, realmente. Nunca deve ser feito no início. Só depois que começares a te sentir totalmente identificado com o movimento, podes começar a te sentir totalmente identificado com o não- movimento. Por isso, eu nunca digo às pessoas que comecem com o ato de estar apenas sentado. Começa de onde o começo é mais fácil. De outra maneira começarás a sentir muitas coisas desnecessariamente — coisas que ali não estão. Se começas por sentar-te, sentirás muita perturbação interior. Quando mais tentas sentar-te, mais perturbações sentirás. Ficarás consciente apenas de tua mente insana, e nada mais. Isso criará depressão, tu te sentirás frustrado, não
  • 42. te sentirás feliz. Pelo contrário, começarás a sentir que estás insano. E, às vezes, poderás, mesmo, ficar insano! Se fizeres um esforço sincero para “ficar apenas sentado”, podes, realmente, tornar-te insano. Só porque as pessoas não tentam, na verdade, sinceramente, é que não se tornam insanas com maior frequência. Com a postura sentada começas a ter conhecimento de quanta loucura há dentro de ti, e, se fores sincero e continuares, podes, realmente, tornar-te insano. Isso já aconteceu, e muitas vezes. Portanto, não sugiro nada, nunca, que possa criar frustração, depressão, tristeza... nada que permita tornares-te ciente de tua insanidade. Podes não estar preparado para ter conhecimento de toda a insanidade que existe dentro de ti. Só te deve ser permitido chegar ao conhecimento de certas coisas paulatinamente. O conhecimento nem sempre é bom. Ele deve se desdobrar lentamente, na medida em que cresce tua capacidade de absorvê-lo. Eu começo com a tua insanidade, não com a tua postura sentada. Dou permissão à tua insanidade. Se dançares loucamente, começas a ter consciência de um ponto silencioso dentro de ti; se te sentares silenciosamente, começas a ter consciência da loucura. O oposto é sempre o que se faz consciente. Começo contigo dançando loucamente, caoticamente, com o choro, com a respiração caótica. Assim é que dou liberdade à tua loucura. Então, começas a sentir um ponto sutil, um ponto profundo dentro de ti, ponto que é silencioso e imóvel, em contraste com a loucura que vai pela periferia. Tu sentirás isso muito jubiloso; em teu centro há um silêncio interior. Se estiveres apenas sentado, então teu interior é o louco. Estás silente por fora, mas por dentro estás louco. Se começas com alguma coisa ativa — algo positivo, vivo, movimentado — será melhor. Então, começarás a sentir que a imobilidade interior cresce. Quanto mais ela cresce mais te será possível usar a postura sentada, ou deitada — mais te será possível a meditação silenciosa. Mas, a essa altura, as coisas serão diferentes, totalmente diferentes. Uma técnica de meditação que começa com movimento, com ação, ajuda-te, também, em outros pontos. Torna-se uma catarse. Quando estás apenas sentado, ficas frustrado, tua mente deseja movimento, e tu estás apenas sentado. Cada músculo se torce, cada nervo se torce. Estás tentando forçar alguma coisa sobre ti mesmo, e isso não é natural para ti. Então, foste dividido entre o que está forçando e o que está sendo forçado. E, realmente, a parte que está sendo forçada e suprimida é a parte mais autêntica. É uma parte da tua mente maior do que a parte que está sendo suprimida, e a parte maior está destinada a vencer. Aquilo que estás suprimindo deve ser atirado fora, não suprimido. Tornou-se um acúmulo dentro de ti porque tens estado a suprimi-lo constantemente. Toda a
  • 43. tua criação, a civilização, a educação, é supressiva. Tens estado suprimindo muito do que poderia ser posto fora muito facilmente com uma educação diferente, com uma educação mais consciente, com pais mais conhecedores. Com melhor conhecimento do mecanismo interior da mente a cultura teria permitido que deitasses fora muitas coisas. Por exemplo, quando uma criança está zangada nós lhe dizemos: “Não te zangues.” Ela começa a suprimir a zanga. Aos poucos, o que era um fato momentâneo, torna-se permanente. Agora, ela não agirá colericamente, mas permanecerá colérica. Nos teremos acumulado tanta cólera com aquilo que não passava de coisa momentânea. Ninguém pode estar constantemente colérico, a não ser que a cólera tenha sido suprimida. Cólera é coisa momentânea que vem e vai; se for expressa, então já não estás colérico. Portanto, quanto a mim, permito que a criança esteja zangada mais autenticamente. Zanga-te, mas zanga-te profundamente. Não suprimas a zanga. Naturalmente, haverá problemas. Se eu digo: “Zanga-te”, tu vais zangar-te com alguém. Mas uma criança pode ser moldada. Podemos dar-lhe um travesseiro e dizer-lhe: “Zanga-te com este travesseiro. Sê violento com o travesseiro.” Desde o princípio a criança pode ser educada de uma forma pela qual a cólera possa ser desviada. Algum objeto lhe pode ser dado e ela pode atirá-lo até que a sua cólera desapareça. Dentro de minutos, dentro de segundos, sua cólera se terá dissipado, e não haverá acúmulo dela. Tu acumulaste cólera, sexo, violência, ganância — tudo! Agora, esse acúmulo é loucura dentro de ti. Ali está, dentro de ti. Se começares com qualquer meditação supressiva (com o estar apenas sentado, por exemplo), estarás suprimindo tudo isso, não estás permitindo sua liberação. Por isso eu começo com uma catarse. Primeiro, deixa que as supressões sejam atiradas ao ar. E quanto puderes atirar tua cólera ao ar, tu amadureceste. Se não posso amar sozinho, se posso amar apenas com alguém que eu amo, então ainda não estou realmente amadurecido. Então, estou dependendo de alguém, mesmo para amar. Alguém deve estar ali, então eu posso amar. Então, tal amor só pode ser uma coisa superficial. Não é a minha natureza. Se estando sozinho num aposento, não estou absolutamente amando, isso quer dizer que a qualidade do amor não se aprofundou em mim, não se tornou parte do meu ser. Tu te tornas cada vez mais maduro, à medida que te tornas menos dependente. Se podes ficar colérico sozinho, estás mais maduro. Não precisas de objeto algum para estar colérico. Por isso, faço da catarse inicial uma necessidade absoluta. Precisas atirar tudo para o céu, para o espaço aberto, sem teres consciência de qualquer objeto. Sê colérico sem a pessoa com a qual gostarias de ficar colérico. Chora, sem procurar causa alguma para isso. Ri, ri apenas, sem nada de que possas rir.