O que é História? ou história?
A essa pergunta a resposta não é simples, aliás a própria pergunta já implicou num desdobramento – H ou h? Qual a
diferença que a grafia da palavra implica em termos semânticos?
Podemos perceber que a resposta a uma pergunta nos remete a condição histórica que, como sujeitos do
conhecimento, nos é atribuída. Portanto, uma primeira resposta a pergunta inicial nos remete a distinção entre
História, como uma disciplina que tem como objeto de reflexão as sociedades humanas organizadas no tempo (Marc
Bloch) e história, o próprio objeto de estudo da disciplina História, ou seja, a experiência humana projetada no tempo
social. Mas temos acesso a essa experiência passada? quão distante há de ter sido vivida essa experiência para ela
ser considerada histórica?
Pelo visto, a cada resposta que tentamos dar nos enrolamos num emaranhado de conceitos cada vez mais complexos,
como por exemplo de tempo, experiência, sociedade, etc. Sem falar o que implica o trabalho com esses conceitos.
Além dessa distinção inicial poderíamos ir mais adiante agregando outras palavras e/ou expressões, dentre as quais:
historiografia, historicidade, filosofias da história, metodo histórico, fato histórico, narrativas históricas, fontes
históricas, epistemologia da história, etc., que com certeza não servem somente para enriquecer o vocabulário, mas
que em grande medida definem um campo de conhecimento e uma atividade de produzir conhecimento.
A disciplina Introdução aos Estudos Históricos trata disso, como o conhecimento histórico é produzido hoje, como ele
foi produzido no passado e quando se começa a pensar historicamente, nas sociedades ocidentais.
Portanto vamos começar pelo sentido etimológico da palavra:
“A palavra história (em todas as línguas românicas e em inglês) vem do grego antigohistorie, em dialeto jônico. Esta
forma deriva da raiz indo-européia wid, weid, „ver‟. Daí o sânscrito vettas „testemunha‟ e o grego histor „testemunha‟
no sentido „daquele que vê‟. Esta concepção da visão como fonte essencial do conhecimento leva-nos a idéia
que histor „aquele que vê‟ é também aquele que sabe; historien em grego antigo é „procurar saber‟, „informar-
se‟. Historie significa pois „procurar‟. É este o sentido da palavra em Heródoto, no início de suas Histórias, que são
„investigações‟, „ procuras‟ Ver, logo, saber é o primeiro problema.
Man nas línguas românicas (e noutras) „história‟ exprime dois, senão três, conceitos diferentes. Significa:
1. esta procura das ações realizadas pelos homens (Heródoto) que se esforça por se constituir em ciência, a ciência
histórica; 2. O objeto de procura é o que os homens realizam. Como diz Paul Veyne, “a história é, quer uma série de
acontecimentos, quer a narração desta série de acontecimentos”. Mas a história pode ser ainda um terceiro sentido, o
de narração. Uma história é uma narração verdadeira, verdadeira ou falsa, com base na „realidade histórica‟ ou
puramente imaginária – pode ser uma narração histórica ou uma fábula. O inglês escapa a esta última confusão
porque distingue entrehistory e story (história e conto). As outras línguas européias esforçam-se para evitar essa
ambigüidade. O italiano tem tendência para designar se não a ciência histórica, pelo menos as produções desta
ciência pela palavra „storiografia‟, o alemão estabelece a diferença entre a atividade „científica‟, Geschichtschreibung,
e a ciência histórica propriamente dita Geschichteswissenchaft. [...]” (Le Goff, Jacques. Enciclopédia Einaudi, Vol.
1, Lisboa, Casa da Moeda, 1985, p.158)
Dessa primeira aproximação aos significados da palavra temos alguns desdobramentos importantes: a noção de
ciência histórica, a noção de narração e as produções dessa ciência ou ainda atividade narrativa – historiografia.
Outra ideia importante que essa primeira aproximação nos traz para o significado da palavra é a de que o própria
noção de que se busca um conhecimento que só o passado pode oferecer é também histórica, ou seja, muda de
sociedade para sociedade. Essa especificidade da palavra história confere a ela uma historicidade, ou seja, ela possui
um significado específico no tempo e no espaço.
“O Conceito de historicidade permite no plano teórico refutar a noção de sociedade sem história, ele obriga a inserir a
própria história numa perspectiva histórica. De acordo com Michel de Certeau “há uma historicidade da história que
implica o movimento que liga uma prática interpretativa a uma prática social”. [...] Finalmente Paul Veyne tira uma
dupla lição do fundamento do conceito de historicidade. A historicidade permite a inclusão no campo da ciência
histórica de novos objetos da história: a história rural, das mentalidades, da loucura e da procura da segurança
através das épocas. Chamaremos pois de non-événementiel (não-factual) à historicidade de que não temos
consciência enquanto tal. Por outro lado, a historicidade exclui a idealização da história, a existência da História com
H maiúsculo: “Tudo é histórico, logo a história não existe” [...]”( Idem, p.159)
A essa provocação do historiador francês Jacques Le Goff o autor da citação acima um outro historiador, mas dessa
vez alemão, Jörn Rüsen poderia revidar:
“O pensamento histórico torna-se especificamente cinetífico quando segue os princípios da metodização, quando
submete a regras todas as operações da consciência histórica, cujas pretensões de validade se baseiam nos
argumentos das narrativas nas quais tais argumentos são ampliados sistematicamente. A razão, tal como foi
reivindicada pela história como ciência, fundamenta-se nesse princípio da metodização. É com base nos princípios que
tornam o pensamento histórico racional, isto é, que definem seu caráter argumentativo-fundante, que a história se
constrói como especialidade [...]
Minha questão está, portanto, na investigação do modo pelo qual se constituem os fatores da matriz disciplinar,
quando a história é tratada como ciência. Essa constituição se dá, quando os vários fatores se orientam pelo princípio
da metodização do pensamento histórico e da ampliaçào do caráter argumentativo da sua fundamentação. Em outras
palavras: a construção da ciência histórica compreende-se como impregnação de sua matriz pelo princípio da
metodização. Não é no porquê da definição do pensamento histórico por interesses, ideias, métodos e formas que
está o ponto de partida da sua interpretação, mas sim no como isso acontece”. (Rüsen, Jörn. Reconstrução do
Passado, Brasilia: Ed. UNB, 2007, p.12-13)
É certo que Le Goff e Rüsen convergem para um ponto em comum, o pensamento histórico possui uma historicidade
que está associada a tres fatores a construção no pensamento ocidental de tres fatores: racionalidade,
intencionalidade, temporalidade .
Para concluir essa breve apresentação, podemos então afirmar que, estudar história é compreender não só como os
homens e mulheres viveram no passado, mas a forma como podemos e efetivamente reconstruimos, por meio
operações racionais (metodo), essa experência passada, não em si mesma, mas como conhecimento mediado por
documentos, registros, evidências, as chamadas fontes históricas.

O que é história

  • 1.
    O que éHistória? ou história? A essa pergunta a resposta não é simples, aliás a própria pergunta já implicou num desdobramento – H ou h? Qual a diferença que a grafia da palavra implica em termos semânticos? Podemos perceber que a resposta a uma pergunta nos remete a condição histórica que, como sujeitos do conhecimento, nos é atribuída. Portanto, uma primeira resposta a pergunta inicial nos remete a distinção entre História, como uma disciplina que tem como objeto de reflexão as sociedades humanas organizadas no tempo (Marc Bloch) e história, o próprio objeto de estudo da disciplina História, ou seja, a experiência humana projetada no tempo social. Mas temos acesso a essa experiência passada? quão distante há de ter sido vivida essa experiência para ela ser considerada histórica? Pelo visto, a cada resposta que tentamos dar nos enrolamos num emaranhado de conceitos cada vez mais complexos, como por exemplo de tempo, experiência, sociedade, etc. Sem falar o que implica o trabalho com esses conceitos. Além dessa distinção inicial poderíamos ir mais adiante agregando outras palavras e/ou expressões, dentre as quais: historiografia, historicidade, filosofias da história, metodo histórico, fato histórico, narrativas históricas, fontes históricas, epistemologia da história, etc., que com certeza não servem somente para enriquecer o vocabulário, mas que em grande medida definem um campo de conhecimento e uma atividade de produzir conhecimento. A disciplina Introdução aos Estudos Históricos trata disso, como o conhecimento histórico é produzido hoje, como ele foi produzido no passado e quando se começa a pensar historicamente, nas sociedades ocidentais. Portanto vamos começar pelo sentido etimológico da palavra: “A palavra história (em todas as línguas românicas e em inglês) vem do grego antigohistorie, em dialeto jônico. Esta forma deriva da raiz indo-européia wid, weid, „ver‟. Daí o sânscrito vettas „testemunha‟ e o grego histor „testemunha‟ no sentido „daquele que vê‟. Esta concepção da visão como fonte essencial do conhecimento leva-nos a idéia que histor „aquele que vê‟ é também aquele que sabe; historien em grego antigo é „procurar saber‟, „informar- se‟. Historie significa pois „procurar‟. É este o sentido da palavra em Heródoto, no início de suas Histórias, que são „investigações‟, „ procuras‟ Ver, logo, saber é o primeiro problema. Man nas línguas românicas (e noutras) „história‟ exprime dois, senão três, conceitos diferentes. Significa: 1. esta procura das ações realizadas pelos homens (Heródoto) que se esforça por se constituir em ciência, a ciência histórica; 2. O objeto de procura é o que os homens realizam. Como diz Paul Veyne, “a história é, quer uma série de acontecimentos, quer a narração desta série de acontecimentos”. Mas a história pode ser ainda um terceiro sentido, o de narração. Uma história é uma narração verdadeira, verdadeira ou falsa, com base na „realidade histórica‟ ou puramente imaginária – pode ser uma narração histórica ou uma fábula. O inglês escapa a esta última confusão porque distingue entrehistory e story (história e conto). As outras línguas européias esforçam-se para evitar essa ambigüidade. O italiano tem tendência para designar se não a ciência histórica, pelo menos as produções desta ciência pela palavra „storiografia‟, o alemão estabelece a diferença entre a atividade „científica‟, Geschichtschreibung, e a ciência histórica propriamente dita Geschichteswissenchaft. [...]” (Le Goff, Jacques. Enciclopédia Einaudi, Vol. 1, Lisboa, Casa da Moeda, 1985, p.158) Dessa primeira aproximação aos significados da palavra temos alguns desdobramentos importantes: a noção de ciência histórica, a noção de narração e as produções dessa ciência ou ainda atividade narrativa – historiografia. Outra ideia importante que essa primeira aproximação nos traz para o significado da palavra é a de que o própria noção de que se busca um conhecimento que só o passado pode oferecer é também histórica, ou seja, muda de sociedade para sociedade. Essa especificidade da palavra história confere a ela uma historicidade, ou seja, ela possui um significado específico no tempo e no espaço. “O Conceito de historicidade permite no plano teórico refutar a noção de sociedade sem história, ele obriga a inserir a própria história numa perspectiva histórica. De acordo com Michel de Certeau “há uma historicidade da história que implica o movimento que liga uma prática interpretativa a uma prática social”. [...] Finalmente Paul Veyne tira uma dupla lição do fundamento do conceito de historicidade. A historicidade permite a inclusão no campo da ciência histórica de novos objetos da história: a história rural, das mentalidades, da loucura e da procura da segurança através das épocas. Chamaremos pois de non-événementiel (não-factual) à historicidade de que não temos consciência enquanto tal. Por outro lado, a historicidade exclui a idealização da história, a existência da História com H maiúsculo: “Tudo é histórico, logo a história não existe” [...]”( Idem, p.159) A essa provocação do historiador francês Jacques Le Goff o autor da citação acima um outro historiador, mas dessa vez alemão, Jörn Rüsen poderia revidar:
  • 2.
    “O pensamento históricotorna-se especificamente cinetífico quando segue os princípios da metodização, quando submete a regras todas as operações da consciência histórica, cujas pretensões de validade se baseiam nos argumentos das narrativas nas quais tais argumentos são ampliados sistematicamente. A razão, tal como foi reivindicada pela história como ciência, fundamenta-se nesse princípio da metodização. É com base nos princípios que tornam o pensamento histórico racional, isto é, que definem seu caráter argumentativo-fundante, que a história se constrói como especialidade [...] Minha questão está, portanto, na investigação do modo pelo qual se constituem os fatores da matriz disciplinar, quando a história é tratada como ciência. Essa constituição se dá, quando os vários fatores se orientam pelo princípio da metodização do pensamento histórico e da ampliaçào do caráter argumentativo da sua fundamentação. Em outras palavras: a construção da ciência histórica compreende-se como impregnação de sua matriz pelo princípio da metodização. Não é no porquê da definição do pensamento histórico por interesses, ideias, métodos e formas que está o ponto de partida da sua interpretação, mas sim no como isso acontece”. (Rüsen, Jörn. Reconstrução do Passado, Brasilia: Ed. UNB, 2007, p.12-13) É certo que Le Goff e Rüsen convergem para um ponto em comum, o pensamento histórico possui uma historicidade que está associada a tres fatores a construção no pensamento ocidental de tres fatores: racionalidade, intencionalidade, temporalidade . Para concluir essa breve apresentação, podemos então afirmar que, estudar história é compreender não só como os homens e mulheres viveram no passado, mas a forma como podemos e efetivamente reconstruimos, por meio operações racionais (metodo), essa experência passada, não em si mesma, mas como conhecimento mediado por documentos, registros, evidências, as chamadas fontes históricas.