LITURGIA II
AULA 1
Prof. Joachim Andrade
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CONVERSA INICIAL
Falar sobre o domingo não é tarefa das mais espinhosas por se tratar de
um tema bem visível, primeiramente na Bíblia, mormente nos quatro
Evangelhos, nas escritas dos primeiros séculos, nos diversos documentos da
Igreja e dos papas. Difícil é reunir a quantidade de autores, documentos e
escritos diversos que tratam desse dia.
As raízes desse dia em todos os seus fundamentos são bíblicas;
consequentemente esses elementos são a garantia da veracidade e da
grandiosidade do primeiro dia da semana, como é conhecido. É um dia que
interfere na programação dos compromissos de todas as modalidades e até em
nomes próprios de pessoas.
Domingo é também nome de cidades, como Santo Domingo, capital do
país chamado República Dominicana. Além disso, esse dia possui significados
diversos, pois pode ser analisado na perspectiva sociológica, antropológica,
psicológica e religiosa. O domingo é considerado o primeiro e o oitavo dias da
semana, conectando início e fim. A espiritualidade desse dia precisa ser tratada
criteriosamente por ser assunto central, já que celebramos o domingo como
suporte e alicerce para sermos novas criaturas com o Cristo que venceu a morte.
A Eucaristia demanda mais atenção por ser o acontecimento maior para celebrar
tal dia.
Por que o domingo pode ser considerado o início de uma nova criação?
Podemos chamá-lo de um dia essencialmente pascal? É preciso refletirmos
cuidadosamente a respeito do domingo como o dia do encontro por excelência
e proporcionarmos possibilidades para maiores redescobertas desse memorável
dia. Vamos tratar esses assuntos neste aula enquanto tratamos a liturgia
dominical que nos leva aos tempos de origem.
TEMA 1 – O DOMINGO E SEUS ASPECTOS: DIMENSÕES INICIÁTICAS
A celebração litúrgica do mistério de Cristo, que o torna presente no hoje
de nossas comunidades, dá-se de modo organizado na nossa experiência do
tempo. A unidade fundamental do tempo litúrgico é o domingo, celebração
semanal da páscoa do Senhor (SC 106). A prática de nos reunirmos para
celebrar a eucaristia nesse dia vem da própria comunidade apostólica, em que
a comunidade primitiva se reunia ao redor de duas mesas: da palavra e do pão.
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Para determinar a duração desse dia litúrgico, a Igreja usa a tradição judaica, de
modo que liturgicamente entendemos que o domingo tem início na tarde do
sábado.
Na Igreja primitiva, esse dia é chamado de várias maneiras, sendo as mais
comuns o primeiro dia da semana e o dia do Senhor – que, traduzido para o
latim, se tornou dominicus dies, de onde veio o italiano domenica e o português
e o espanhol domingo. Em primeiro lugar, está ligado à ressurreição do Senhor,
ocorrida no primeiro dia da semana. Essa experiência foi tão forte para os
discípulos que a importância do sábado como dia santo foi transferida no
cristianismo para o domingo.
1.1 Liturgia dominical é atualização do mistério pascal
A liturgia atualiza o mistério pascal de Cristo, como vimos repetidamente.
“Atualizar” é uma noção que tem a ver com o tempo. De fato, a liturgia tem uma
relação peculiar com o tempo, que buscaremos explicitar aqui.
A liturgia acontece em um “hoje”, o “hoje da salvação” (CIC 1165). Na
quinta-feira da ceia do Senhor, por exemplo, diz-se na oração eucarística: “Na
noite em que ia ser entregue, para padecer pela salvação de todos, isto é, hoje,
ele tomou o pão em suas mãos, elevou os olhos a vós, ó Pai, deu graças e o
partiu [...]”. No natal, cantamos: “Nasceu-nos hoje um menino”. E na páscoa, um
dos salmos que meditamos é o 117 (118): “Este é o dia que o Senhor fez para
nós”. Esse modo de se referir à festa celebrada aparece de várias maneiras no
decorrer do ano litúrgico. O Catecismo da Igreja Católica diz o seguinte:
Na liturgia da Igreja, Cristo significa e realiza principalmente o seu
mistério pascal. Durante a sua vida terrena, Jesus anunciava pelo seu
ensino e antecipava pelos seus atos o seu mistério pascal. Uma vez
chegada a sua “hora”, Jesus vive o único acontecimento da história que
não passa jamais: morre, é sepultado, ressuscita de entre os mortos e
senta-se à direita do Pai “uma vez por todas” (Rm 6, 10; Hb 7, 27; 9,
12). É um acontecimento real, ocorrido na nossa história, mas único;
todos os outros acontecimentos da história acontecem uma vez e
passam, devorados pelo passado. Pelo contrário, o mistério pascal de
Cristo não pode ficar somente no passado, já que pela sua morte, ele
destruiu a morte; e tudo o que Cristo é, fez e sofreu por todos os
homens, participa da eternidade divina, e assim transcende todos os
tempos e em todos se torna presente. O acontecimento da cruz e da
ressurreição permanece e atrai tudo para a vida. (CIC 1085)
Como entender essa afirmação? Vamos começar pela citação da Carta
aos Hebreus que aparece nesse trecho do catecismo: nela, é dito que o mistério
pascal de Cristo, isto é, a sua morte e ressurreição aconteceram “uma vez por
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todas” (ephapax, em grego) (Hb 7, 27). Com essa expressão, o autor da carta
quer contrapor a entrega de Cristo aos sacrifícios do templo: o sacrifício do
verdadeiro cordeiro é único, é suficiente, efetua realmente a nossa reconciliação
com o Pai, ao contrário daqueles que ocorriam no templo. Ao mesmo tempo, ele
diz que o sacerdócio de Cristo “permanece para sempre” (Hb 7, 24). Com isso,
explicita que a fidelidade do amor de Deus sinalizada nessa entrega permanece
eternamente.
É verdade, então, que a morte de Jesus de Nazaré aconteceu uma única
vez na história, bem como a sua ressurreição. “Ao ato exterior da crucificação
corresponde, porém, um ato interior da oferta” (Ratzinger, 2015, p. 49). Não que
a dimensão interior fosse dissociável do exterior: “Esse ato de oferta não é, de
fato, um evento só espiritual. É um ato espiritual que engloba em si o ato corporal,
que abraça o homem em sua inteireza, antes, é, ao mesmo tempo, um ato do
Filho: a obediência da vontade humana de Jesus se aprofunda no persistente
sim do Filho ao Pai” (Ratzinger, 2015, p. 49).
Assim, “o sofrimento físico está envolvido no pathos do espírito” e “o
tempo está envolvido naquilo que vai além do tempo” (Ratzinger, 2015, p. 49).
Entendido assim, o rito não é “manipulação do tempo”, mas fala da “fidelidade
de Javé, que atualiza no presente, e em cada situação, a salvação que operou
antes e que promete para o futuro” (CELAM, 2005, p. 393). “Na ponte dessa
‘única vez’, podemos lançar-nos ao ‘para sempre’ da sua misericórdia”
(Ratzinger, 2015, p. 91). Dessa forma,
A liturgia cristã não pretende, portanto, nem superar nem dominar o
tempo, mas com efeito, no tempo que é cenário da história da salvação,
“pascaliza” a história real dos seres humanos, submergindo-a no
mistério de Cristo para que os fiéis celebrem as intervenções
libertadoras de Deus como um permanente hoje de salvação. (CELAM,
2005, p. 395)
A íntima conexão existente entre a reunião da comunidade dominical, a
Ceia do Senhor e o batismo possui uma identidade muito forte e está muito
presente nos escritos bíblicos e nas primeiras narrativas de que se tem
conhecimento. O Mistério Pascal é visivelmente expresso pelo Sacramento do
Batismo, acontecendo e aumentando imensuravelmente a identidade de quem
é batizado com a pessoa de Jesus: é a páscoa de Jesus na vida do cristão
marcado ontologicamente com um sinal indelével pelo caráter sacramental. É
uma inserção indestrutível capaz de tornar a quem é batizado parte do Corpo
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Místico de Cristo, participando das dimensões sacerdotal, profética e real do
próprio Cristo.
1.2 Liturgia dominical é memorial
Qualquer celebração litúrgica deve estabelecer uma relação com o tempo
cronológico desde o fato fundante até o momento presente. Nesta forma, o hoje
da liturgia é “a ‘hora’ da páscoa de Jesus que atravessa e leva toda a história”
(CIC 1165). É assim que se entrelaçam na liturgia passado, presente e futuro;
as intervenções libertadoras de Deus na história, o hoje da assembleia em sua
situação concreta e o amanhã escatológico que é a meta da nossa esperança.
É de certa forma a aclamação da assembleia após as palavras da consagração:
“Anunciamos, Senhor, a vossa morte” – passado – “e proclamamos a vossa
ressurreição” – presente – “Vinde, Senhor Jesus!” – futuro (Buyst, 1998; Silva,
2003). Aberta ao tempo, e não se subtraindo à história, a celebração do mistério
pascal pode ser “portadora de um efeito salvífico que se situa no hoje e no aqui
da Igreja celebrante” (CELAM, 2005, p. 395), que é a própria presença do
Ressuscitado.
É essa dinâmica entre passado, presente e futuro que constitui a liturgia
como memorial. Nesse fazer memória por meio dos sinais sacramentais, o
mistério de Cristo se atualiza, torna-se acessível para nós, torna-se nosso
contemporâneo. Isso porque os sinais evocam a fidelidade de Deus, que
constitui o conteúdo da oferta de Cristo na cruz: essa fidelidade é eterna,
continua atuando e, assim como operou na vida, na morte e na ressurreição de
Jesus, atua por meio da liturgia na nossa vida, fazendo-nos passar da morte à
ressurreição.
Com base nisso, podemos nos perguntar: é necessário celebrar, isto é,
dedicar um tempo específico do dia ou da semana para fazer memória do
mistério pascal? Não pertencem a Deus todos os minutos e não está Ele em
todos os lugares?
É verdade que “todo o tempo é tempo de Deus” (Ratzinger, 2015, p. 81).
Sabemos, ao mesmo tempo, porém, que a existência cristã está situada naquele
“já” e “ainda não” escatológico. Nesse tempo, em que o Reino de Deus já teve
início, mas ainda não chegou à sua plenitude, nossa estrutura antropológica
necessita dos sinais simbólico-sacramentais para que aprendamos a desvelar a
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presença de Deus em toda a parte e em todo o tempo (Buyst, 1998, p. 26-27;
Ratzinger, 2015, p. 47-48).
A participação nos acontecimentos salvíficos se dá, assim, “através dos
sinais terrenos que o Redentor nos mostrou como espaço de sua realidade” e
que nos ensinam a “reconhecer no coração transpassado do Crucificado o
mistério de Deus”. Por isso, “a teologia da liturgia é particularmente ‘teologia
simbólica’, teologia dos símbolos que nos ligam àquele que está ao mesmo
tempo presente e escondido” (Ratzinger, 2015, p. 52-53). Percebe-se nesta
forma que toda a celebração eucarística ou dominical é uma memória da doação
que Jesus fez 2 mil anos atrás.
TEMA 2 – UM DIA ESSENCIALMENTE PASCAL
A transformação da importância do domingo na vida da comunidade cristã
surgiu com a ressurreição de Jesus Cristo. Este fato foi marcante para que esse
dia passasse a ser chamado de dia do Senhor, no qual todo cristão celebra a
Páscoa do Senhor. Esse dia passa a ser santificado e festivo, tornando-se, em
todos os tempos, conhecido por gerações, ainda que pouco familiarizadas com
o fato da ressurreição.
Ao lado da celebração dominical, a Páscoa também é celebrada pela
Igreja anualmente. Esse costume teve início ainda nas primeiras gerações
cristãs, no século II ou talvez antes. No século IV, a celebração do tríduo pascal,
o prolongamento da Páscoa por 50 dias – o tempo pascal – e o tempo penitencial
de preparação para a Páscoa – a quaresma – já estavam consolidados. Ao
mesmo tempo e de forma independente, surge no século IV a celebração do
Natal, à qual logo depois se acrescentou um tempo de preparação – o advento
(CELAM, 2004, p. 188-189).
2.1 Início do ano litúrgico
O início do ano litúrgico remete ao século V, pois nesse período já temos
os principais elementos daquilo que chamamos ano litúrgico, isto é, a celebração
do mistério pascal, expresso nos diversos mistérios da vida de Cristo e também
na memória dos santos, ao longo do ano.
Enquanto a data do Natal se fixou desde o início em 25 de dezembro –
em estreita ligação com a epifania, em 6 de janeiro –, a data da Páscoa foi motivo
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de controvérsia entre cristãos do Ocidente e do Oriente já nos primeiros séculos.
O Ocidente acabou fixando a celebração da Páscoa no domingo seguinte à
Páscoa judaica. No Concílio Vaticano II, a Igreja católica se mostrou aberta à
possibilidade de fixar a data da Páscoa em um domingo específico do calendário
comum, em nome da unidade dos cristãos (SC, apêndice). Desde então, esse é
um dos objetivos do diálogo com os cristãos do Oriente.
Como a data da Páscoa judaica depende do calendário lunar, a sua
celebração não tem um dia fixo no calendário. Dessa maneira, a nossa Sexta-
feira da Paixão é sempre a primeira sexta-feira de lua cheia após a mudança de
estação – no Hemisfério Norte, do inverno para a primavera, e no Hemisfério Sul,
do verão para o outono. Desta forma, toda a celebração dominical é vista como
essencialmente pascal, pelo fato de celebrar o mistério pascal de Jesus.
TEMA 3 – DIA DA REUNIÃO PARA A ESCUTA DA PALAVRA
Após uma melhor compreensão da importância do domingo, acontece
uma mudança de comportamento em todos: os encontros dominicais se tornam
mais especiais, demonstrando assim crescimento e amadurecimento da fé em
Cristo por todos. A dinâmica e a metodologia da Igreja, desde os primeiros
séculos, aconteceram em torno da Fração do Pão, do Ofício, do Sagrado
Mistério, da Oblação, do Sacrifício, da eucaristia, da liturgia e, muito mais tarde,
a partir do século X, da eucaristia dos cristãos no maior ato de culto chamado
missa. A missa passa ser a principal maneira do encontro com o Senhor
ressuscitado. Podemos afirmar que a Palavra foi a responsável por uma maior
compreensão da veracidade e da existência do domingo em relação aos outros
dias.
O Concílio Vaticano II buscou sublinhar a centralidade do domingo na
liturgia, que tinha sido um pouco ofuscada pela diversidade de festas ligadas a
devoções particulares – um problema que ainda persiste em nossas
comunidades, quando se dá uma importância desmedida a práticas devocionais
que acontecem no meio da semana, fazendo com que os fiéis coloquem em
segundo plano a celebração dominical. Por isso, os padres conciliares
ressaltaram que o domingo é “o principal dia de festa a propor e inculcar no
espírito dos fiéis; seja também o dia da alegria e do repouso. Não deve ser
sacrificado a outras celebrações que não sejam de máxima importância, porque
o domingo é o fundamento e o centro de todo o ano litúrgico” (SC 106).
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Assim sendo, finalmente (depois de tantos séculos!), por meio da
Constituição Sacrosanctum Concilium, que estabelece os princípios teológicos e
pastorais básicos para a reforma da liturgia, a Igreja assumiu esta importante e
decisiva tarefa, há anos sonhada pelo movimento litúrgico: resgatar o essencial
que se havia “perdido” e recolocá-lo no seu eixo central. Resgatam-se a vivência
e a compreensão da liturgia como celebração do mistério pascal, como momento
histórico da salvação. Resgata-se, portanto, a centralidade do mistério pascal na
celebração da liturgia.
Com isso, resgata-se a liturgia como a fonte mais excelente de
espiritualidade cristã e supera-se, assim, a visão por demais exterior e utilitarista
da liturgia, própria do segundo milênio, em favor de uma visão eminentemente
teológica e espiritual. Resgata-se o valor da linguagem simbólico-sacramental
de toda a liturgia, pela qual o mistério de Deus comunica a seu povo a salvação
pascal, e o povo, por sua vez, comunica-se com o mistério, acolhendo a salvação
e se comprometendo com o projeto do Deus da vida.
3.1 Mística do amor
A celebração litúrgica é expressão da vida definitiva, da vida verdadeira,
em que, em Deus-Amor, estamos todos unidos em um só corpo. A celebração é
esboço da vida eterna e reconciliada; é, grosso modo, como que um microcosmo
que exprime aquilo que a vida verdadeiramente é: unidade no amor. A liturgia
expressa “a autêntica natureza da verdadeira Igreja” (SC 2), o plano de unidade
do gênero humano e de toda a criação em Deus. Dessa maneira, confere à vida
presente a sua medida (Ratzinger, 2015, p. 18-19;). Como “pausa restauradora
na caminhada rumo ao céu” (Missal Romano, convite à oração ao fim da
preparação dos dons, p. 404), a celebração não é hobby, mas presença daquela
“terra interior, sem a qual o exterior permanece inabitável” (Ratzinger, 2015, p.
18).
Na antiga aliança, o sábado desempenhava uma função semelhante.
Proibindo o trabalho nesse dia, a aliança com Deus tornava escravos e senhores
iguais. Precisamente isso é que constituía a “santificação” do sábado (Ratzinger,
2015, p. 22). A transformação do ser humano em sua individualidade, portanto,
não é suficiente. Não é o fim do processo. Aliás, sequer é verdadeira se não
transforma as suas relações, já que somos seres relacionais. A nossa reflexão
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já estava caminhando nesse sentido: o amor recebido torna-se amor vivido,
testemunhado, partilhado. Vamos explicitar isso um pouco mais.
Bento XVI diz que “a ‘mística’ do sacramento tem um caráter social” (DCE
14). Basta olhar o sinal sacramental da eucaristia: todos comem do mesmo pão,
bebem do mesmo cálice, sentam-se à mesma mesa. O horizonte da eucaristia é
mais amplo do que o da comunhão individual de cada um com Cristo no pão e
no vinho consagrados. O seu fim é a unidade do corpo, como explica Tomás de
Aquino, “Tornamo-nos ‘um só corpo’, fundidos todos numa única existência”
(DCE 14).
3.2 Vivência da unidade
É fácil achar isso muito bonito e permanecer vivendo uma união genérica,
abstrata e, a bem da verdade, falsa. A unidade não é vivida com uma Igreja
etérea, que se desmancha no ar, sem rostos e sem nomes. A unidade que Jesus
constrói é concreta. Significa recordar constantemente que Deus oferece o
mesmo pão ao refugiado, ao doutor, ao mendigo, ao gay, ao papa, à senhora da
minha comunidade que eu acho antipática, ao senador corrupto, ao pároco que
eu critico porque só pensa em dinheiro, à universitária feminista, ao rapaz
tradicionalista e até – quem diria? – a mim, pobre pecador.
O pão partido, a mesa da comunhão, edifica o Reino, onde todos são
irmãos. “Se compartilhamos os bens sobrenaturais, por que não
compartilharíamos também os bens materiais?”, diz a Didaquê (IV, 8), que
testemunha como essa consciência era viva entre os primeiros cristãos. A união
fraterna vivida na liturgia intraeclesial, por assim dizer, alarga-se ainda para
muito além das fronteiras visíveis da Igreja, porque o cristão está muito
consciente do seguinte: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão,
é um mentiroso” (1Jo 4, 20).
Porque recebemos o mesmo Senhor e Ele nos acolhe e nos atrai para
dentro de si, somos uma só coisa também entre nós. Isto deve manifestar-se na
vida. Deve mostrar-se na capacidade do perdão. Deve manifestar-se na
sensibilidade pelas necessidades do próximo. Deve manifestar-se na
disponibilidade para partilhar. Deve manifestar-se no compromisso pelo próximo,
tanto pelo que está perto como pelo que está externamente distante, mas que
nos diz sempre respeito de perto (Bento XVI, 2005).
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A “coerência eucarística” (SC 83) faz do cristão um irmão universal,
porque sabe que o pão oferecido a todos é o próprio Deus, que está próximo de
cada um e aos olhos de quem cada um é precioso. Precisamente assim, o cristão
leva o amor recebido na eucaristia para todo o mundo, comunicando Deus-Amor
à humanidade.
TEMA 4 – PRIMEIRO E OITAVO DIA
Considerado como o primeiro dia da semana ou também o oitavo, o
domingo é a Páscoa semanal dos cristãos. “A celebração dominical do dia e da
Eucaristia do Senhor constituiu o cerne da vida da Igreja” (CIC. 2177). O domingo
é o dia que abre e encerra o ciclo semanal, por isso é chamado de primeiro ou
de oitavo dia. É um dia de comemorações festivas e, principalmente, o memorial
da ressurreição de Jesus. Antes da conclusão desta abordagem sobre o
domingo, como primeiro e oitavo dia da semana, não podemos esquecer que a
centralidade do mistério pascal focaliza esse dia para celebrar o grande
acontecimento: quando Cristo, vencedor do pecado e da morte, dá início a uma
nova e eterna aliança. É, portanto, o dia de Jesus Cristo, princípio e fim, alfa e
ômega.
4.1 Relação entre o primeiro e oitavo dia
Uma boa parte das culturas e religiões do mundo consideram o domingo
como o primeiro dia da semana, outras, como final de semana. Essa confusão
se deve ao fato de o domingo ser considerado como um dia de descanso pela
cristandade e o dia mais importante, pois seria o dia do Senhor, como nos diz
sua origem etimológica. Por outro lado, há quem afirme que por ser o dia mais
importante, deve ser considerado como o último, pois seria o momento do
repouso que nos prepararia para começar a semana.
Como “primeiro dia”, o domingo também faz referência à criação, porque
a ressurreição é uma nova criação. Uma das orações da vigília pascal chega a
dizer que “o sacrifício de Cristo, nossa páscoa, na plenitude dos tempos,
ultrapassa em grandeza a criação do mundo, realizada no princípio” (Missal
Romano, p. 279). Pela mesma razão, o domingo foi chamado também de oitavo
dia: não apenas o “primeiro”, como um retorno ao início, mas o começo de um
novo tempo, a entrada no grande e eterno dia do Senhor, que já se iniciou, mas
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permanece ao mesmo tempo sempre diante de nós (CIC 1166; CELAM, 2004,
p. 187; Ratzinger, 2015, p. 85).
Como o domingo é dia litúrgico por excelência, sua celebração se
confunde com a própria celebração da eucaristia. “É evidente que pode haver
eucaristia sem domingo e domingo sem eucaristia, mas a expressão mais plena
do acontecimento pascal é o domingo com eucaristia ou a eucaristia dominical”
(Borobio, 2009, p. 60). A eucaristia só se estendeu aos outros dias da semana a
partir do século VI.
Era evidente para os primeiros cristãos a importância de se reunir aos
domingos para a eucaristia. Não havia necessidade de transpor essa
importância para um ordenamento jurídico. A primeira vez em que aparece uma
lei sobre a obrigatoriedade da participação na liturgia dominical acontece em
300, com o Sínodo de Elvira – de alcance regional –, que puniu com excomunhão
temporária quem se ausentasse da assembleia dominical três vezes. A
obrigatoriedade se expandiu como costume, e só com o Código de Direito
Canônico de 1917 é que foi formulada uma lei de alcance universal sobre o
preceito dominical (DD 47; CELAM, 2004).
TEMA 5 – ESPIRITUALIDADE E PASTORALIDADE: ALGUNS DESAFIOS
A Sagrada Liturgia é a ação da Igreja, mas a obra é da Trindade Santa. O
Pai é fonte e fim. Na liturgia, é a Ele que, pelo Filho e na fé do Espírito Santo,
tudo é oferecido, rende-se toda glória e todo louvor. Na eucaristia, o povo de
Deus se reúne em assembleia tendo Cristo como centro. Não basta se reunir no
domingo para a celebrar o passado – toda a ritualidade simbólica nos ajuda no
nosso hoje. Precisamos de referências, símbolos, gestos e palavras para nos
envolver e para compreender o mistério celebrado.
A eucaristia dominical é o maduro encontro com o Pai, o Filho e o Espírito
Santo que há de nos transformar, se deixarmos que o espírito de Jesus
ressuscitado, pela força do Espírito Santo, estabeleça conosco um encontro com
o Pai.
Cabe ressaltar a dimensão pedagógico-pastoral do ano litúrgico. Nele, os
diversos aspectos do único mistério de Cristo são “explicitados
progressivamente”, já que “não podemos perceber e compreender toda a sua
riqueza” de uma só vez (CELAM, 2004, p. 190). Uma comunidade que não
entrelaça toda a sua vida e as suas atividades pastorais com o ano litúrgico,
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restringindo-o ao momento ritual, perde um poderoso instrumento de formação.
Os diversos momentos do ano litúrgico devem interagir com a catequese, com
os círculos de reflexão, com a vida de oração na família e tudo o mais. Bem
vivido, o ano litúrgico “transforma-se numa escola de vida cristã, em mestre para
o anúncio do mistério de Cristo, em lugar de celebração e apresentação desse
mistério não segundo esquemas subjetivos, mas de acordo com o plano
sacramental da Igreja” (CELAM, 2004, p. 191).
E se resgata a compreensão dos sacramentos como celebração do
mistério pascal. Resgata-se a dimensão eclesial-comunitária da liturgia, a
importância da assembleia litúrgica (povo sacerdotal, corpo de Cristo), toda
ministerial e sujeito da celebração: é todo o povo que, presidido por seus
pastores, celebra em Cristo a sagrada liturgia! Resgata-se a prioridade da
participação plena, consciente e ativa na liturgia, como um direito e uma
obrigação do povo cristão. Resgata-se a tradição antiga de uma liturgia que sabe
se adaptar à índole dos diferentes povos.
5.1 Vida cristã como culto espiritual
“Exorto-vos, portanto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais
vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso
culto espiritual” (Rm 12, 1). Essas palavras de Paulo nos relembraram um
versículo que já vimos anteriormente: “Mas, se o meu sangue for derramado em
libação, em sacrifício e serviço da vossa fé, alegro-me e me regozijo com todos
vós” (Fl 2, 17). Aqui, como vimos, o apóstolo usa a palavra liturgia com o sentido
de oferta de si mesmo ao Pai. É o exercício do sacerdócio cristão, também
chamado sacerdócio batismal ou sacerdócio comum dos fiéis, que, já
mencionamos, é a sua participação no único sacerdócio da nova aliança, o de
Cristo.
“Os fiéis exercem seu sacerdócio batismal por meio de sua participação,
cada qual segundo sua própria vocação, na missão de Cristo, Sacerdote, Profeta
e Rei” (CIC 1546). O catecismo diz ainda que o batismo nos consagra para “o
culto religioso cristão”, que consiste na “participação viva na sagrada liturgia da
Igreja” e no “testemunho de uma vida santa e de uma caridade eficaz” (CIC
1273).
Estamos vendo que a concepção cristã de culto não se restringe à
celebração litúrgica. O sacerdócio cristão é exercido também fora da celebração:
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não em um ou outro lugar qualquer, mas na consagração da vida inteira, unida
à santidade de Cristo e feita amor e serviço ao próximo. A vida cristã é um culto
espiritual – e vice-versa: o culto verdadeiro se realiza na vida. Ressoam aqui as
palavras de Jesus à samaritana: “Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em
espírito e verdade” (Jo 4, 23).
Os discípulos de Jesus se deram conta de que ele é, sim, o novo e
definitivo sacerdote, mas ao mesmo tempo exerce o seu sacerdócio de uma
maneira completamente diferente daquela da antiga aliança. Primeiro, porque o
seu sacrifício não é substitutivo, não é o de outra coisa em seu lugar, mas é o de
si mesmo. Segundo, porque o que conta em sua oferta sacrificial não é a
destruição, a morte, a dor, mas o testemunho de amor aí manifestado. Terceiro,
porque ele não ofereceu o seu sacrifício em um contexto litúrgico-religioso-
cultual, mas na vida humana comum, em um contexto profano – até fora dos
muros de Jerusalém. Quarto, porque a sua oferta sacrificial não é um ato isolado,
mas o cume de toda a sua vida vivida sempre a serviço, a consumação de uma
existência que foi sempre existência para os outros. Esse modo de exercer o
sacerdócio é “um ministério (‘liturgia’, no grego) superior” (Hb 8, 6).
NA PRÁTICA
Refletirmos a respeito do domingo é entrarmos no maior acontecimento
de nossa itinerância de fé: a Páscoa. É nos centralizarmos na comunicação do
Mistério Pascal, dia de festa da fé, da esperança e da caridade: sem o fato
pascal, não precisaríamos de fé; aliás não haveria essa virtude, porque é no
batismo, sacramento essencialmente pascal, que recebemos o dom da fé. Neste
dia, a eucaristia é o encontro ápice dos cristãos. A fé batismal amadurece, a
energia espiritual se revigora, e o compromisso para a missão se apresenta.
Participamos ontologicamente do Corpo Místico de Cristo pelo Sacramento do
Batismo e, pelo Sacramento da Crisma, somos ungidos e enviados para o
anúncio do bem e da verdade e maduros para a denúncia da cultura do mal. O
pão partido e o vinho oferecido se tornam memorial sacrifical da Nova Aliança
que se torna definitiva.
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FINALIZANDO
Contemplamos neste capítulo a importância da celebração dominical. O
domingo é considerado como primeiro dia da semana e também como oitavo
dia. O primeiro dia da semana ultrapassa a semana, trazendo a imagem de
eternidade. Em nossa situação transitória, almejamos a eternidade, porque,
inseridos na vida com Cristo, invade-nos a esperança de vida eterna e de futuras
alegrias plenas. Mas, para que isso possa acontecer, é necessário firmarmos
compromissos sérios com Jesus vivo e ressuscitado presente na Igreja, seu
Corpo Místico, com todas e com cada pessoa.
É preciso vermos as necessidades dos irmãos, julgá-los sob a ótica da
Palavra de Deus e a misericórdia de Jesus, agirmos conforme as diretrizes da
Mãe Igreja e celebrarmos a fé, a esperança e a caridade na companhia da
Trindade Santa. Podermos celebrar o domingo é nos certificarmos a cada
semana de que somos os convidados do Senhor, para trazermos, juntamente
com nossos anseios, sofrimentos e pecados, a certeza do amor sem limite do
Pai que nos deu Jesus e da presença santificadora do Espírito Santo.
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REFERÊNCIAS
BENTO XVI. Deus Caritas Est. São Paulo: Paulinas, 2005.
Bíblia Sagrada. Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1999.
BUYST, I. Símbolos na liturgia. São Paulo: Paulinas, 1998.
CELAM. Manual de liturgia I: a celebração do mistério pascal – Introdução à
celebração litúrgica. São Paulo: Paulus, 2004.
_____. Manual de liturgia II: a celebração do mistério pascal – Introdução à
celebração litúrgica. São Paulo: Paulus, 2005.
Compêndio do Vaticano II: Constituições, decretos e declarações. (Frei
Boaventura Koppenburg e Frei Frederico Vier). Petrópolis: Vozes, 2000.
RATZINGER, J. Introdução ao cristianismo: preleções sobre o símbolo
apostólico. São Paulo: Edições Loyola, 2015.
_____. Introdução ao espírito da liturgia. 4. ed. São Paulo: Edições Loyola,
2015.

o conhecimento litúrgico e a verdade dos Ritos

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    LITURGIA II AULA 1 Prof.Joachim Andrade
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    2 CONVERSA INICIAL Falar sobreo domingo não é tarefa das mais espinhosas por se tratar de um tema bem visível, primeiramente na Bíblia, mormente nos quatro Evangelhos, nas escritas dos primeiros séculos, nos diversos documentos da Igreja e dos papas. Difícil é reunir a quantidade de autores, documentos e escritos diversos que tratam desse dia. As raízes desse dia em todos os seus fundamentos são bíblicas; consequentemente esses elementos são a garantia da veracidade e da grandiosidade do primeiro dia da semana, como é conhecido. É um dia que interfere na programação dos compromissos de todas as modalidades e até em nomes próprios de pessoas. Domingo é também nome de cidades, como Santo Domingo, capital do país chamado República Dominicana. Além disso, esse dia possui significados diversos, pois pode ser analisado na perspectiva sociológica, antropológica, psicológica e religiosa. O domingo é considerado o primeiro e o oitavo dias da semana, conectando início e fim. A espiritualidade desse dia precisa ser tratada criteriosamente por ser assunto central, já que celebramos o domingo como suporte e alicerce para sermos novas criaturas com o Cristo que venceu a morte. A Eucaristia demanda mais atenção por ser o acontecimento maior para celebrar tal dia. Por que o domingo pode ser considerado o início de uma nova criação? Podemos chamá-lo de um dia essencialmente pascal? É preciso refletirmos cuidadosamente a respeito do domingo como o dia do encontro por excelência e proporcionarmos possibilidades para maiores redescobertas desse memorável dia. Vamos tratar esses assuntos neste aula enquanto tratamos a liturgia dominical que nos leva aos tempos de origem. TEMA 1 – O DOMINGO E SEUS ASPECTOS: DIMENSÕES INICIÁTICAS A celebração litúrgica do mistério de Cristo, que o torna presente no hoje de nossas comunidades, dá-se de modo organizado na nossa experiência do tempo. A unidade fundamental do tempo litúrgico é o domingo, celebração semanal da páscoa do Senhor (SC 106). A prática de nos reunirmos para celebrar a eucaristia nesse dia vem da própria comunidade apostólica, em que a comunidade primitiva se reunia ao redor de duas mesas: da palavra e do pão.
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    3 Para determinar aduração desse dia litúrgico, a Igreja usa a tradição judaica, de modo que liturgicamente entendemos que o domingo tem início na tarde do sábado. Na Igreja primitiva, esse dia é chamado de várias maneiras, sendo as mais comuns o primeiro dia da semana e o dia do Senhor – que, traduzido para o latim, se tornou dominicus dies, de onde veio o italiano domenica e o português e o espanhol domingo. Em primeiro lugar, está ligado à ressurreição do Senhor, ocorrida no primeiro dia da semana. Essa experiência foi tão forte para os discípulos que a importância do sábado como dia santo foi transferida no cristianismo para o domingo. 1.1 Liturgia dominical é atualização do mistério pascal A liturgia atualiza o mistério pascal de Cristo, como vimos repetidamente. “Atualizar” é uma noção que tem a ver com o tempo. De fato, a liturgia tem uma relação peculiar com o tempo, que buscaremos explicitar aqui. A liturgia acontece em um “hoje”, o “hoje da salvação” (CIC 1165). Na quinta-feira da ceia do Senhor, por exemplo, diz-se na oração eucarística: “Na noite em que ia ser entregue, para padecer pela salvação de todos, isto é, hoje, ele tomou o pão em suas mãos, elevou os olhos a vós, ó Pai, deu graças e o partiu [...]”. No natal, cantamos: “Nasceu-nos hoje um menino”. E na páscoa, um dos salmos que meditamos é o 117 (118): “Este é o dia que o Senhor fez para nós”. Esse modo de se referir à festa celebrada aparece de várias maneiras no decorrer do ano litúrgico. O Catecismo da Igreja Católica diz o seguinte: Na liturgia da Igreja, Cristo significa e realiza principalmente o seu mistério pascal. Durante a sua vida terrena, Jesus anunciava pelo seu ensino e antecipava pelos seus atos o seu mistério pascal. Uma vez chegada a sua “hora”, Jesus vive o único acontecimento da história que não passa jamais: morre, é sepultado, ressuscita de entre os mortos e senta-se à direita do Pai “uma vez por todas” (Rm 6, 10; Hb 7, 27; 9, 12). É um acontecimento real, ocorrido na nossa história, mas único; todos os outros acontecimentos da história acontecem uma vez e passam, devorados pelo passado. Pelo contrário, o mistério pascal de Cristo não pode ficar somente no passado, já que pela sua morte, ele destruiu a morte; e tudo o que Cristo é, fez e sofreu por todos os homens, participa da eternidade divina, e assim transcende todos os tempos e em todos se torna presente. O acontecimento da cruz e da ressurreição permanece e atrai tudo para a vida. (CIC 1085) Como entender essa afirmação? Vamos começar pela citação da Carta aos Hebreus que aparece nesse trecho do catecismo: nela, é dito que o mistério pascal de Cristo, isto é, a sua morte e ressurreição aconteceram “uma vez por
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    4 todas” (ephapax, emgrego) (Hb 7, 27). Com essa expressão, o autor da carta quer contrapor a entrega de Cristo aos sacrifícios do templo: o sacrifício do verdadeiro cordeiro é único, é suficiente, efetua realmente a nossa reconciliação com o Pai, ao contrário daqueles que ocorriam no templo. Ao mesmo tempo, ele diz que o sacerdócio de Cristo “permanece para sempre” (Hb 7, 24). Com isso, explicita que a fidelidade do amor de Deus sinalizada nessa entrega permanece eternamente. É verdade, então, que a morte de Jesus de Nazaré aconteceu uma única vez na história, bem como a sua ressurreição. “Ao ato exterior da crucificação corresponde, porém, um ato interior da oferta” (Ratzinger, 2015, p. 49). Não que a dimensão interior fosse dissociável do exterior: “Esse ato de oferta não é, de fato, um evento só espiritual. É um ato espiritual que engloba em si o ato corporal, que abraça o homem em sua inteireza, antes, é, ao mesmo tempo, um ato do Filho: a obediência da vontade humana de Jesus se aprofunda no persistente sim do Filho ao Pai” (Ratzinger, 2015, p. 49). Assim, “o sofrimento físico está envolvido no pathos do espírito” e “o tempo está envolvido naquilo que vai além do tempo” (Ratzinger, 2015, p. 49). Entendido assim, o rito não é “manipulação do tempo”, mas fala da “fidelidade de Javé, que atualiza no presente, e em cada situação, a salvação que operou antes e que promete para o futuro” (CELAM, 2005, p. 393). “Na ponte dessa ‘única vez’, podemos lançar-nos ao ‘para sempre’ da sua misericórdia” (Ratzinger, 2015, p. 91). Dessa forma, A liturgia cristã não pretende, portanto, nem superar nem dominar o tempo, mas com efeito, no tempo que é cenário da história da salvação, “pascaliza” a história real dos seres humanos, submergindo-a no mistério de Cristo para que os fiéis celebrem as intervenções libertadoras de Deus como um permanente hoje de salvação. (CELAM, 2005, p. 395) A íntima conexão existente entre a reunião da comunidade dominical, a Ceia do Senhor e o batismo possui uma identidade muito forte e está muito presente nos escritos bíblicos e nas primeiras narrativas de que se tem conhecimento. O Mistério Pascal é visivelmente expresso pelo Sacramento do Batismo, acontecendo e aumentando imensuravelmente a identidade de quem é batizado com a pessoa de Jesus: é a páscoa de Jesus na vida do cristão marcado ontologicamente com um sinal indelével pelo caráter sacramental. É uma inserção indestrutível capaz de tornar a quem é batizado parte do Corpo
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    5 Místico de Cristo,participando das dimensões sacerdotal, profética e real do próprio Cristo. 1.2 Liturgia dominical é memorial Qualquer celebração litúrgica deve estabelecer uma relação com o tempo cronológico desde o fato fundante até o momento presente. Nesta forma, o hoje da liturgia é “a ‘hora’ da páscoa de Jesus que atravessa e leva toda a história” (CIC 1165). É assim que se entrelaçam na liturgia passado, presente e futuro; as intervenções libertadoras de Deus na história, o hoje da assembleia em sua situação concreta e o amanhã escatológico que é a meta da nossa esperança. É de certa forma a aclamação da assembleia após as palavras da consagração: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte” – passado – “e proclamamos a vossa ressurreição” – presente – “Vinde, Senhor Jesus!” – futuro (Buyst, 1998; Silva, 2003). Aberta ao tempo, e não se subtraindo à história, a celebração do mistério pascal pode ser “portadora de um efeito salvífico que se situa no hoje e no aqui da Igreja celebrante” (CELAM, 2005, p. 395), que é a própria presença do Ressuscitado. É essa dinâmica entre passado, presente e futuro que constitui a liturgia como memorial. Nesse fazer memória por meio dos sinais sacramentais, o mistério de Cristo se atualiza, torna-se acessível para nós, torna-se nosso contemporâneo. Isso porque os sinais evocam a fidelidade de Deus, que constitui o conteúdo da oferta de Cristo na cruz: essa fidelidade é eterna, continua atuando e, assim como operou na vida, na morte e na ressurreição de Jesus, atua por meio da liturgia na nossa vida, fazendo-nos passar da morte à ressurreição. Com base nisso, podemos nos perguntar: é necessário celebrar, isto é, dedicar um tempo específico do dia ou da semana para fazer memória do mistério pascal? Não pertencem a Deus todos os minutos e não está Ele em todos os lugares? É verdade que “todo o tempo é tempo de Deus” (Ratzinger, 2015, p. 81). Sabemos, ao mesmo tempo, porém, que a existência cristã está situada naquele “já” e “ainda não” escatológico. Nesse tempo, em que o Reino de Deus já teve início, mas ainda não chegou à sua plenitude, nossa estrutura antropológica necessita dos sinais simbólico-sacramentais para que aprendamos a desvelar a
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    6 presença de Deusem toda a parte e em todo o tempo (Buyst, 1998, p. 26-27; Ratzinger, 2015, p. 47-48). A participação nos acontecimentos salvíficos se dá, assim, “através dos sinais terrenos que o Redentor nos mostrou como espaço de sua realidade” e que nos ensinam a “reconhecer no coração transpassado do Crucificado o mistério de Deus”. Por isso, “a teologia da liturgia é particularmente ‘teologia simbólica’, teologia dos símbolos que nos ligam àquele que está ao mesmo tempo presente e escondido” (Ratzinger, 2015, p. 52-53). Percebe-se nesta forma que toda a celebração eucarística ou dominical é uma memória da doação que Jesus fez 2 mil anos atrás. TEMA 2 – UM DIA ESSENCIALMENTE PASCAL A transformação da importância do domingo na vida da comunidade cristã surgiu com a ressurreição de Jesus Cristo. Este fato foi marcante para que esse dia passasse a ser chamado de dia do Senhor, no qual todo cristão celebra a Páscoa do Senhor. Esse dia passa a ser santificado e festivo, tornando-se, em todos os tempos, conhecido por gerações, ainda que pouco familiarizadas com o fato da ressurreição. Ao lado da celebração dominical, a Páscoa também é celebrada pela Igreja anualmente. Esse costume teve início ainda nas primeiras gerações cristãs, no século II ou talvez antes. No século IV, a celebração do tríduo pascal, o prolongamento da Páscoa por 50 dias – o tempo pascal – e o tempo penitencial de preparação para a Páscoa – a quaresma – já estavam consolidados. Ao mesmo tempo e de forma independente, surge no século IV a celebração do Natal, à qual logo depois se acrescentou um tempo de preparação – o advento (CELAM, 2004, p. 188-189). 2.1 Início do ano litúrgico O início do ano litúrgico remete ao século V, pois nesse período já temos os principais elementos daquilo que chamamos ano litúrgico, isto é, a celebração do mistério pascal, expresso nos diversos mistérios da vida de Cristo e também na memória dos santos, ao longo do ano. Enquanto a data do Natal se fixou desde o início em 25 de dezembro – em estreita ligação com a epifania, em 6 de janeiro –, a data da Páscoa foi motivo
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    7 de controvérsia entrecristãos do Ocidente e do Oriente já nos primeiros séculos. O Ocidente acabou fixando a celebração da Páscoa no domingo seguinte à Páscoa judaica. No Concílio Vaticano II, a Igreja católica se mostrou aberta à possibilidade de fixar a data da Páscoa em um domingo específico do calendário comum, em nome da unidade dos cristãos (SC, apêndice). Desde então, esse é um dos objetivos do diálogo com os cristãos do Oriente. Como a data da Páscoa judaica depende do calendário lunar, a sua celebração não tem um dia fixo no calendário. Dessa maneira, a nossa Sexta- feira da Paixão é sempre a primeira sexta-feira de lua cheia após a mudança de estação – no Hemisfério Norte, do inverno para a primavera, e no Hemisfério Sul, do verão para o outono. Desta forma, toda a celebração dominical é vista como essencialmente pascal, pelo fato de celebrar o mistério pascal de Jesus. TEMA 3 – DIA DA REUNIÃO PARA A ESCUTA DA PALAVRA Após uma melhor compreensão da importância do domingo, acontece uma mudança de comportamento em todos: os encontros dominicais se tornam mais especiais, demonstrando assim crescimento e amadurecimento da fé em Cristo por todos. A dinâmica e a metodologia da Igreja, desde os primeiros séculos, aconteceram em torno da Fração do Pão, do Ofício, do Sagrado Mistério, da Oblação, do Sacrifício, da eucaristia, da liturgia e, muito mais tarde, a partir do século X, da eucaristia dos cristãos no maior ato de culto chamado missa. A missa passa ser a principal maneira do encontro com o Senhor ressuscitado. Podemos afirmar que a Palavra foi a responsável por uma maior compreensão da veracidade e da existência do domingo em relação aos outros dias. O Concílio Vaticano II buscou sublinhar a centralidade do domingo na liturgia, que tinha sido um pouco ofuscada pela diversidade de festas ligadas a devoções particulares – um problema que ainda persiste em nossas comunidades, quando se dá uma importância desmedida a práticas devocionais que acontecem no meio da semana, fazendo com que os fiéis coloquem em segundo plano a celebração dominical. Por isso, os padres conciliares ressaltaram que o domingo é “o principal dia de festa a propor e inculcar no espírito dos fiéis; seja também o dia da alegria e do repouso. Não deve ser sacrificado a outras celebrações que não sejam de máxima importância, porque o domingo é o fundamento e o centro de todo o ano litúrgico” (SC 106).
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    8 Assim sendo, finalmente(depois de tantos séculos!), por meio da Constituição Sacrosanctum Concilium, que estabelece os princípios teológicos e pastorais básicos para a reforma da liturgia, a Igreja assumiu esta importante e decisiva tarefa, há anos sonhada pelo movimento litúrgico: resgatar o essencial que se havia “perdido” e recolocá-lo no seu eixo central. Resgatam-se a vivência e a compreensão da liturgia como celebração do mistério pascal, como momento histórico da salvação. Resgata-se, portanto, a centralidade do mistério pascal na celebração da liturgia. Com isso, resgata-se a liturgia como a fonte mais excelente de espiritualidade cristã e supera-se, assim, a visão por demais exterior e utilitarista da liturgia, própria do segundo milênio, em favor de uma visão eminentemente teológica e espiritual. Resgata-se o valor da linguagem simbólico-sacramental de toda a liturgia, pela qual o mistério de Deus comunica a seu povo a salvação pascal, e o povo, por sua vez, comunica-se com o mistério, acolhendo a salvação e se comprometendo com o projeto do Deus da vida. 3.1 Mística do amor A celebração litúrgica é expressão da vida definitiva, da vida verdadeira, em que, em Deus-Amor, estamos todos unidos em um só corpo. A celebração é esboço da vida eterna e reconciliada; é, grosso modo, como que um microcosmo que exprime aquilo que a vida verdadeiramente é: unidade no amor. A liturgia expressa “a autêntica natureza da verdadeira Igreja” (SC 2), o plano de unidade do gênero humano e de toda a criação em Deus. Dessa maneira, confere à vida presente a sua medida (Ratzinger, 2015, p. 18-19;). Como “pausa restauradora na caminhada rumo ao céu” (Missal Romano, convite à oração ao fim da preparação dos dons, p. 404), a celebração não é hobby, mas presença daquela “terra interior, sem a qual o exterior permanece inabitável” (Ratzinger, 2015, p. 18). Na antiga aliança, o sábado desempenhava uma função semelhante. Proibindo o trabalho nesse dia, a aliança com Deus tornava escravos e senhores iguais. Precisamente isso é que constituía a “santificação” do sábado (Ratzinger, 2015, p. 22). A transformação do ser humano em sua individualidade, portanto, não é suficiente. Não é o fim do processo. Aliás, sequer é verdadeira se não transforma as suas relações, já que somos seres relacionais. A nossa reflexão
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    9 já estava caminhandonesse sentido: o amor recebido torna-se amor vivido, testemunhado, partilhado. Vamos explicitar isso um pouco mais. Bento XVI diz que “a ‘mística’ do sacramento tem um caráter social” (DCE 14). Basta olhar o sinal sacramental da eucaristia: todos comem do mesmo pão, bebem do mesmo cálice, sentam-se à mesma mesa. O horizonte da eucaristia é mais amplo do que o da comunhão individual de cada um com Cristo no pão e no vinho consagrados. O seu fim é a unidade do corpo, como explica Tomás de Aquino, “Tornamo-nos ‘um só corpo’, fundidos todos numa única existência” (DCE 14). 3.2 Vivência da unidade É fácil achar isso muito bonito e permanecer vivendo uma união genérica, abstrata e, a bem da verdade, falsa. A unidade não é vivida com uma Igreja etérea, que se desmancha no ar, sem rostos e sem nomes. A unidade que Jesus constrói é concreta. Significa recordar constantemente que Deus oferece o mesmo pão ao refugiado, ao doutor, ao mendigo, ao gay, ao papa, à senhora da minha comunidade que eu acho antipática, ao senador corrupto, ao pároco que eu critico porque só pensa em dinheiro, à universitária feminista, ao rapaz tradicionalista e até – quem diria? – a mim, pobre pecador. O pão partido, a mesa da comunhão, edifica o Reino, onde todos são irmãos. “Se compartilhamos os bens sobrenaturais, por que não compartilharíamos também os bens materiais?”, diz a Didaquê (IV, 8), que testemunha como essa consciência era viva entre os primeiros cristãos. A união fraterna vivida na liturgia intraeclesial, por assim dizer, alarga-se ainda para muito além das fronteiras visíveis da Igreja, porque o cristão está muito consciente do seguinte: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é um mentiroso” (1Jo 4, 20). Porque recebemos o mesmo Senhor e Ele nos acolhe e nos atrai para dentro de si, somos uma só coisa também entre nós. Isto deve manifestar-se na vida. Deve mostrar-se na capacidade do perdão. Deve manifestar-se na sensibilidade pelas necessidades do próximo. Deve manifestar-se na disponibilidade para partilhar. Deve manifestar-se no compromisso pelo próximo, tanto pelo que está perto como pelo que está externamente distante, mas que nos diz sempre respeito de perto (Bento XVI, 2005).
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    10 A “coerência eucarística”(SC 83) faz do cristão um irmão universal, porque sabe que o pão oferecido a todos é o próprio Deus, que está próximo de cada um e aos olhos de quem cada um é precioso. Precisamente assim, o cristão leva o amor recebido na eucaristia para todo o mundo, comunicando Deus-Amor à humanidade. TEMA 4 – PRIMEIRO E OITAVO DIA Considerado como o primeiro dia da semana ou também o oitavo, o domingo é a Páscoa semanal dos cristãos. “A celebração dominical do dia e da Eucaristia do Senhor constituiu o cerne da vida da Igreja” (CIC. 2177). O domingo é o dia que abre e encerra o ciclo semanal, por isso é chamado de primeiro ou de oitavo dia. É um dia de comemorações festivas e, principalmente, o memorial da ressurreição de Jesus. Antes da conclusão desta abordagem sobre o domingo, como primeiro e oitavo dia da semana, não podemos esquecer que a centralidade do mistério pascal focaliza esse dia para celebrar o grande acontecimento: quando Cristo, vencedor do pecado e da morte, dá início a uma nova e eterna aliança. É, portanto, o dia de Jesus Cristo, princípio e fim, alfa e ômega. 4.1 Relação entre o primeiro e oitavo dia Uma boa parte das culturas e religiões do mundo consideram o domingo como o primeiro dia da semana, outras, como final de semana. Essa confusão se deve ao fato de o domingo ser considerado como um dia de descanso pela cristandade e o dia mais importante, pois seria o dia do Senhor, como nos diz sua origem etimológica. Por outro lado, há quem afirme que por ser o dia mais importante, deve ser considerado como o último, pois seria o momento do repouso que nos prepararia para começar a semana. Como “primeiro dia”, o domingo também faz referência à criação, porque a ressurreição é uma nova criação. Uma das orações da vigília pascal chega a dizer que “o sacrifício de Cristo, nossa páscoa, na plenitude dos tempos, ultrapassa em grandeza a criação do mundo, realizada no princípio” (Missal Romano, p. 279). Pela mesma razão, o domingo foi chamado também de oitavo dia: não apenas o “primeiro”, como um retorno ao início, mas o começo de um novo tempo, a entrada no grande e eterno dia do Senhor, que já se iniciou, mas
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    11 permanece ao mesmotempo sempre diante de nós (CIC 1166; CELAM, 2004, p. 187; Ratzinger, 2015, p. 85). Como o domingo é dia litúrgico por excelência, sua celebração se confunde com a própria celebração da eucaristia. “É evidente que pode haver eucaristia sem domingo e domingo sem eucaristia, mas a expressão mais plena do acontecimento pascal é o domingo com eucaristia ou a eucaristia dominical” (Borobio, 2009, p. 60). A eucaristia só se estendeu aos outros dias da semana a partir do século VI. Era evidente para os primeiros cristãos a importância de se reunir aos domingos para a eucaristia. Não havia necessidade de transpor essa importância para um ordenamento jurídico. A primeira vez em que aparece uma lei sobre a obrigatoriedade da participação na liturgia dominical acontece em 300, com o Sínodo de Elvira – de alcance regional –, que puniu com excomunhão temporária quem se ausentasse da assembleia dominical três vezes. A obrigatoriedade se expandiu como costume, e só com o Código de Direito Canônico de 1917 é que foi formulada uma lei de alcance universal sobre o preceito dominical (DD 47; CELAM, 2004). TEMA 5 – ESPIRITUALIDADE E PASTORALIDADE: ALGUNS DESAFIOS A Sagrada Liturgia é a ação da Igreja, mas a obra é da Trindade Santa. O Pai é fonte e fim. Na liturgia, é a Ele que, pelo Filho e na fé do Espírito Santo, tudo é oferecido, rende-se toda glória e todo louvor. Na eucaristia, o povo de Deus se reúne em assembleia tendo Cristo como centro. Não basta se reunir no domingo para a celebrar o passado – toda a ritualidade simbólica nos ajuda no nosso hoje. Precisamos de referências, símbolos, gestos e palavras para nos envolver e para compreender o mistério celebrado. A eucaristia dominical é o maduro encontro com o Pai, o Filho e o Espírito Santo que há de nos transformar, se deixarmos que o espírito de Jesus ressuscitado, pela força do Espírito Santo, estabeleça conosco um encontro com o Pai. Cabe ressaltar a dimensão pedagógico-pastoral do ano litúrgico. Nele, os diversos aspectos do único mistério de Cristo são “explicitados progressivamente”, já que “não podemos perceber e compreender toda a sua riqueza” de uma só vez (CELAM, 2004, p. 190). Uma comunidade que não entrelaça toda a sua vida e as suas atividades pastorais com o ano litúrgico,
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    12 restringindo-o ao momentoritual, perde um poderoso instrumento de formação. Os diversos momentos do ano litúrgico devem interagir com a catequese, com os círculos de reflexão, com a vida de oração na família e tudo o mais. Bem vivido, o ano litúrgico “transforma-se numa escola de vida cristã, em mestre para o anúncio do mistério de Cristo, em lugar de celebração e apresentação desse mistério não segundo esquemas subjetivos, mas de acordo com o plano sacramental da Igreja” (CELAM, 2004, p. 191). E se resgata a compreensão dos sacramentos como celebração do mistério pascal. Resgata-se a dimensão eclesial-comunitária da liturgia, a importância da assembleia litúrgica (povo sacerdotal, corpo de Cristo), toda ministerial e sujeito da celebração: é todo o povo que, presidido por seus pastores, celebra em Cristo a sagrada liturgia! Resgata-se a prioridade da participação plena, consciente e ativa na liturgia, como um direito e uma obrigação do povo cristão. Resgata-se a tradição antiga de uma liturgia que sabe se adaptar à índole dos diferentes povos. 5.1 Vida cristã como culto espiritual “Exorto-vos, portanto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual” (Rm 12, 1). Essas palavras de Paulo nos relembraram um versículo que já vimos anteriormente: “Mas, se o meu sangue for derramado em libação, em sacrifício e serviço da vossa fé, alegro-me e me regozijo com todos vós” (Fl 2, 17). Aqui, como vimos, o apóstolo usa a palavra liturgia com o sentido de oferta de si mesmo ao Pai. É o exercício do sacerdócio cristão, também chamado sacerdócio batismal ou sacerdócio comum dos fiéis, que, já mencionamos, é a sua participação no único sacerdócio da nova aliança, o de Cristo. “Os fiéis exercem seu sacerdócio batismal por meio de sua participação, cada qual segundo sua própria vocação, na missão de Cristo, Sacerdote, Profeta e Rei” (CIC 1546). O catecismo diz ainda que o batismo nos consagra para “o culto religioso cristão”, que consiste na “participação viva na sagrada liturgia da Igreja” e no “testemunho de uma vida santa e de uma caridade eficaz” (CIC 1273). Estamos vendo que a concepção cristã de culto não se restringe à celebração litúrgica. O sacerdócio cristão é exercido também fora da celebração:
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    13 não em umou outro lugar qualquer, mas na consagração da vida inteira, unida à santidade de Cristo e feita amor e serviço ao próximo. A vida cristã é um culto espiritual – e vice-versa: o culto verdadeiro se realiza na vida. Ressoam aqui as palavras de Jesus à samaritana: “Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade” (Jo 4, 23). Os discípulos de Jesus se deram conta de que ele é, sim, o novo e definitivo sacerdote, mas ao mesmo tempo exerce o seu sacerdócio de uma maneira completamente diferente daquela da antiga aliança. Primeiro, porque o seu sacrifício não é substitutivo, não é o de outra coisa em seu lugar, mas é o de si mesmo. Segundo, porque o que conta em sua oferta sacrificial não é a destruição, a morte, a dor, mas o testemunho de amor aí manifestado. Terceiro, porque ele não ofereceu o seu sacrifício em um contexto litúrgico-religioso- cultual, mas na vida humana comum, em um contexto profano – até fora dos muros de Jerusalém. Quarto, porque a sua oferta sacrificial não é um ato isolado, mas o cume de toda a sua vida vivida sempre a serviço, a consumação de uma existência que foi sempre existência para os outros. Esse modo de exercer o sacerdócio é “um ministério (‘liturgia’, no grego) superior” (Hb 8, 6). NA PRÁTICA Refletirmos a respeito do domingo é entrarmos no maior acontecimento de nossa itinerância de fé: a Páscoa. É nos centralizarmos na comunicação do Mistério Pascal, dia de festa da fé, da esperança e da caridade: sem o fato pascal, não precisaríamos de fé; aliás não haveria essa virtude, porque é no batismo, sacramento essencialmente pascal, que recebemos o dom da fé. Neste dia, a eucaristia é o encontro ápice dos cristãos. A fé batismal amadurece, a energia espiritual se revigora, e o compromisso para a missão se apresenta. Participamos ontologicamente do Corpo Místico de Cristo pelo Sacramento do Batismo e, pelo Sacramento da Crisma, somos ungidos e enviados para o anúncio do bem e da verdade e maduros para a denúncia da cultura do mal. O pão partido e o vinho oferecido se tornam memorial sacrifical da Nova Aliança que se torna definitiva.
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    14 FINALIZANDO Contemplamos neste capítuloa importância da celebração dominical. O domingo é considerado como primeiro dia da semana e também como oitavo dia. O primeiro dia da semana ultrapassa a semana, trazendo a imagem de eternidade. Em nossa situação transitória, almejamos a eternidade, porque, inseridos na vida com Cristo, invade-nos a esperança de vida eterna e de futuras alegrias plenas. Mas, para que isso possa acontecer, é necessário firmarmos compromissos sérios com Jesus vivo e ressuscitado presente na Igreja, seu Corpo Místico, com todas e com cada pessoa. É preciso vermos as necessidades dos irmãos, julgá-los sob a ótica da Palavra de Deus e a misericórdia de Jesus, agirmos conforme as diretrizes da Mãe Igreja e celebrarmos a fé, a esperança e a caridade na companhia da Trindade Santa. Podermos celebrar o domingo é nos certificarmos a cada semana de que somos os convidados do Senhor, para trazermos, juntamente com nossos anseios, sofrimentos e pecados, a certeza do amor sem limite do Pai que nos deu Jesus e da presença santificadora do Espírito Santo.
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    15 REFERÊNCIAS BENTO XVI. DeusCaritas Est. São Paulo: Paulinas, 2005. Bíblia Sagrada. Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 1999. BUYST, I. Símbolos na liturgia. São Paulo: Paulinas, 1998. CELAM. Manual de liturgia I: a celebração do mistério pascal – Introdução à celebração litúrgica. São Paulo: Paulus, 2004. _____. Manual de liturgia II: a celebração do mistério pascal – Introdução à celebração litúrgica. São Paulo: Paulus, 2005. Compêndio do Vaticano II: Constituições, decretos e declarações. (Frei Boaventura Koppenburg e Frei Frederico Vier). Petrópolis: Vozes, 2000. RATZINGER, J. Introdução ao cristianismo: preleções sobre o símbolo apostólico. São Paulo: Edições Loyola, 2015. _____. Introdução ao espírito da liturgia. 4. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2015.