SlideShare uma empresa Scribd logo
1 de 1
Baixar para ler offline
História – Módulo 12
Leituras: História local – memórias e sons
Leituras: História local – memórias e sons
As lembranças se apoiam nas pedras da cidade. Se o espaço, para
Merleau-Ponty, é capaz de exprimir a condição do ser no mundo, a memória
escolhe lugares privilegiados de onde retira sua seiva.
Em primeiro lugar, a casa materna; tal como aparece nas biografias, é o
centro geométrico do mundo e a cidade cresce a partir dela em todas as
direções. Dela partem as ruas, as calçadas onde se desenrolou nossa vida, o
bairro. Sons que voltam, sons que não voltam mais, pregões, cantilenas que
recolhi e procurei gravar em pauta musical.
A vida de uma rua densamente povoada é inesgotavelmente rica, se
registrarmos os seus sons e movimentos.
Podemos gravar a trilha sonora de uma rua durante 24 horas. Desde a
primeira janela que se abre de manhã, a vassoura na calçada, as portas das
lojas que se erguem, os passos de quem vai para o trabalho, conversas,
cantigas...
Sob essa diversidade há uma ordem e um ritmo cuja sequência é
portadora de um sentimento de identificação.
A sequência de movimentos na calçada segue ritmos que se aceleram e
se abrandam em horas certas e vão se extinguindo devagar quando as janelas
se iluminam e as ruas se esvaziam. Depois, as janelas vão-se apagando e
fechando, menos alguma que resiste ainda, da qual escapa um som que
finalmente silencia.
Por que definir a cidade somente em termos visuais? Ela possui um
mapa sonoro compartilhado e vital para seus habitantes que, decodificando
sons familiares, alcançam equilíbrio e segurança.

Mais conteúdo relacionado

Destaque

Pato fu maxximum - sony bmg - 2005
Pato fu   maxximum - sony bmg - 2005Pato fu   maxximum - sony bmg - 2005
Pato fu maxximum - sony bmg - 2005coletaneajovem
 
Mi entorno personal de aprendizaje
Mi entorno personal de aprendizajeMi entorno personal de aprendizaje
Mi entorno personal de aprendizajeleticiatapia
 
Editorial ruminantes n.6 (jan fev 2009)
Editorial ruminantes n.6 (jan   fev 2009)Editorial ruminantes n.6 (jan   fev 2009)
Editorial ruminantes n.6 (jan fev 2009)Roberto Arruda
 
009 10 - alteração planilha pg
009 10 - alteração planilha pg009 10 - alteração planilha pg
009 10 - alteração planilha pgProjeto Rondon
 
Actividades da AEGV
Actividades da AEGVActividades da AEGV
Actividades da AEGVVitor Silva
 
CURSOS SPED: O APAGAO DA NOTA FISCAL ELETRONICA - MATERIA JORNAL DCI - 28-0...
CURSOS SPED:   O APAGAO DA NOTA FISCAL ELETRONICA - MATERIA JORNAL DCI - 28-0...CURSOS SPED:   O APAGAO DA NOTA FISCAL ELETRONICA - MATERIA JORNAL DCI - 28-0...
CURSOS SPED: O APAGAO DA NOTA FISCAL ELETRONICA - MATERIA JORNAL DCI - 28-0...Professor Edgar Madruga
 
ONG ABRACC - Combate ao Câncer Infantil
ONG ABRACC -   Combate ao Câncer InfantilONG ABRACC -   Combate ao Câncer Infantil
ONG ABRACC - Combate ao Câncer InfantilABRACC
 
Gpn marcha
Gpn marchaGpn marcha
Gpn marchaDyment1
 
Residencia de Ancianos
Residencia de AncianosResidencia de Ancianos
Residencia de AncianosMaribelCarmen
 
Texto o aprendizado da gestão
Texto o aprendizado da gestãoTexto o aprendizado da gestão
Texto o aprendizado da gestãoflysoftrh
 

Destaque (20)

Prá gente miúda
Prá gente miúdaPrá gente miúda
Prá gente miúda
 
Pato fu maxximum - sony bmg - 2005
Pato fu   maxximum - sony bmg - 2005Pato fu   maxximum - sony bmg - 2005
Pato fu maxximum - sony bmg - 2005
 
Cómo comprar Para Obtener Una Licuadora
Cómo comprar Para Obtener Una LicuadoraCómo comprar Para Obtener Una Licuadora
Cómo comprar Para Obtener Una Licuadora
 
Mi entorno personal de aprendizaje
Mi entorno personal de aprendizajeMi entorno personal de aprendizaje
Mi entorno personal de aprendizaje
 
Editorial ruminantes n.6 (jan fev 2009)
Editorial ruminantes n.6 (jan   fev 2009)Editorial ruminantes n.6 (jan   fev 2009)
Editorial ruminantes n.6 (jan fev 2009)
 
Santiago h.
Santiago h.Santiago h.
Santiago h.
 
009 10 - alteração planilha pg
009 10 - alteração planilha pg009 10 - alteração planilha pg
009 10 - alteração planilha pg
 
Corpo humano
Corpo humanoCorpo humano
Corpo humano
 
5
55
5
 
Os dez mandamentos
Os dez mandamentosOs dez mandamentos
Os dez mandamentos
 
Edificio 2 (1)
Edificio 2 (1)Edificio 2 (1)
Edificio 2 (1)
 
Actividades da AEGV
Actividades da AEGVActividades da AEGV
Actividades da AEGV
 
Nutrição qual é a sua
Nutrição qual é a suaNutrição qual é a sua
Nutrição qual é a sua
 
Portada u
Portada uPortada u
Portada u
 
CURSOS SPED: O APAGAO DA NOTA FISCAL ELETRONICA - MATERIA JORNAL DCI - 28-0...
CURSOS SPED:   O APAGAO DA NOTA FISCAL ELETRONICA - MATERIA JORNAL DCI - 28-0...CURSOS SPED:   O APAGAO DA NOTA FISCAL ELETRONICA - MATERIA JORNAL DCI - 28-0...
CURSOS SPED: O APAGAO DA NOTA FISCAL ELETRONICA - MATERIA JORNAL DCI - 28-0...
 
ONG ABRACC - Combate ao Câncer Infantil
ONG ABRACC -   Combate ao Câncer InfantilONG ABRACC -   Combate ao Câncer Infantil
ONG ABRACC - Combate ao Câncer Infantil
 
Gpn marcha
Gpn marchaGpn marcha
Gpn marcha
 
Ataque de pânico
Ataque de pânicoAtaque de pânico
Ataque de pânico
 
Residencia de Ancianos
Residencia de AncianosResidencia de Ancianos
Residencia de Ancianos
 
Texto o aprendizado da gestão
Texto o aprendizado da gestãoTexto o aprendizado da gestão
Texto o aprendizado da gestão
 

Mais de Andrea Cortelazzi

Mais de Andrea Cortelazzi (20)

Webpalestra avaliação multidisciplinar_dificuldades_de_aprendizagem
Webpalestra avaliação multidisciplinar_dificuldades_de_aprendizagemWebpalestra avaliação multidisciplinar_dificuldades_de_aprendizagem
Webpalestra avaliação multidisciplinar_dificuldades_de_aprendizagem
 
Conceitos estruturantes da genética
Conceitos estruturantes da genéticaConceitos estruturantes da genética
Conceitos estruturantes da genética
 
As bases da hereditariedade
As bases da hereditariedadeAs bases da hereditariedade
As bases da hereditariedade
 
Apoio 3
Apoio 3Apoio 3
Apoio 3
 
Crítica de arte
Crítica de arteCrítica de arte
Crítica de arte
 
Critica
CriticaCritica
Critica
 
Apostilapedagogica2012
Apostilapedagogica2012Apostilapedagogica2012
Apostilapedagogica2012
 
Apostilalegislacao2012
Apostilalegislacao2012Apostilalegislacao2012
Apostilalegislacao2012
 
Apostilapedagogica
ApostilapedagogicaApostilapedagogica
Apostilapedagogica
 
Conselho final
Conselho finalConselho final
Conselho final
 
Pre conselho
Pre conselhoPre conselho
Pre conselho
 
Palestras
PalestrasPalestras
Palestras
 
Semana de prevenção atividades dos alunos
Semana de prevenção   atividades dos alunosSemana de prevenção   atividades dos alunos
Semana de prevenção atividades dos alunos
 
Semana de prevenção palestras 6ª serie
Semana de prevenção   palestras 6ª serieSemana de prevenção   palestras 6ª serie
Semana de prevenção palestras 6ª serie
 
Semana de prevenção em para cii
Semana de prevenção em para ciiSemana de prevenção em para cii
Semana de prevenção em para cii
 
Semana de prevenção palestras 5ª series
Semana de prevenção   palestras 5ª seriesSemana de prevenção   palestras 5ª series
Semana de prevenção palestras 5ª series
 
Confraternização
ConfraternizaçãoConfraternização
Confraternização
 
Ação do dia das crianças
Ação do dia das criançasAção do dia das crianças
Ação do dia das crianças
 
VISITA A OSESP - 2º SEMESTRE
VISITA A OSESP - 2º SEMESTREVISITA A OSESP - 2º SEMESTRE
VISITA A OSESP - 2º SEMESTRE
 
Joaquim gonçalves
Joaquim gonçalvesJoaquim gonçalves
Joaquim gonçalves
 

His m04t26

  • 1. História – Módulo 12 Leituras: História local – memórias e sons Leituras: História local – memórias e sons As lembranças se apoiam nas pedras da cidade. Se o espaço, para Merleau-Ponty, é capaz de exprimir a condição do ser no mundo, a memória escolhe lugares privilegiados de onde retira sua seiva. Em primeiro lugar, a casa materna; tal como aparece nas biografias, é o centro geométrico do mundo e a cidade cresce a partir dela em todas as direções. Dela partem as ruas, as calçadas onde se desenrolou nossa vida, o bairro. Sons que voltam, sons que não voltam mais, pregões, cantilenas que recolhi e procurei gravar em pauta musical. A vida de uma rua densamente povoada é inesgotavelmente rica, se registrarmos os seus sons e movimentos. Podemos gravar a trilha sonora de uma rua durante 24 horas. Desde a primeira janela que se abre de manhã, a vassoura na calçada, as portas das lojas que se erguem, os passos de quem vai para o trabalho, conversas, cantigas... Sob essa diversidade há uma ordem e um ritmo cuja sequência é portadora de um sentimento de identificação. A sequência de movimentos na calçada segue ritmos que se aceleram e se abrandam em horas certas e vão se extinguindo devagar quando as janelas se iluminam e as ruas se esvaziam. Depois, as janelas vão-se apagando e fechando, menos alguma que resiste ainda, da qual escapa um som que finalmente silencia. Por que definir a cidade somente em termos visuais? Ela possui um mapa sonoro compartilhado e vital para seus habitantes que, decodificando sons familiares, alcançam equilíbrio e segurança.