A estrela sobe,
 de Marques Rebelo
    Manoel Neves
A ESTRELA SOBE
                                    literatura e cotidiano
                       romance em que se fundem crítica social e sondagem psicológica
 1939          acompanha-se a trajetória de uma suburbana cujo sonho é ser cantora do rádio

                                 um romance carioca
             aspectos paisagísticos                          aspectos ideológicos

a personagem se desloca pelo RJ da década de 1930         moral relativa das personagens

   fixação da paisagem do subúrbio e do centro             bom humor e alegria de viver

 retrato de uma cidade que está em crescimento      personagens profundamente ligadas ao meio
A ESTRELA SOBE
                                  literatura e cotidiano
                                     as epígrafes
 E o Senhor me disse: toma um livro grande, e escreve nele em estilo de homem. [Isaías: 8,1]
                                   trata-se do estilo da obra
será viril [coloquial, direto, seco, conciso, objetivo, cirúrgico] mesmo tratando da alma feminina
       Oh! grandes e gravíssimos perigos!/ Oh! caminho da vida nunca certo! [Camões]
                                  trata-se do assunto da obra
          os graves perigos no caminho da protagonista e a incerteza de seu destino
TEMAS DESENVOLVIDOS
                          A estrela sobe
importância do rádio na sociedade carioca do início dos anos 1930;
condição da mulher na sociedade brasileira do início do século XX;
   miséria e falta de perspectivas da nascente sociedade carioca;
                              aborto.
O ENREDO
                                 01: agruras na infância
Dois anos depois de perder a filha Mariza, com 4 anos, Dona Manuela tem Leniza. Martim Maier,
filho de imigrantes alemães, era relojoeiro e trabalhava no centro do RJ. Havia, em sua casa, um
certo conforto. Gostava de pequenos luxos burgueses e perdia algum dinheiro no jogo. Devido à
imprevidência do pai, a família cai na miséria quando de sua morte. Manuela e a filha se mudam
para a casa de uma comadre que alugava cômodos, na Ladeira da Saúde. As três se comprimiam
 num pequeno quarto. Dona Manuela, mestiça, era filha natural de um pequeno fazendeiro. No
passado, fora cozinheira de certo deputado federal; trabalhara, depois, na casa dum comerciante;
 enfrentara vários empregos até se casar. Agora, para sobreviver, lavava a roupa dos hóspedes,
6 rapazes que alugavam cômodos da comadre. Já Leniza vai crescendo bonita, mas com um gênio
esquisito, na fala da professora. O ambiente é promíscuo [portas abertas dos jovens]; nas sessões
 de cinema, permite algumas bolinações, sem sentir grandes coisas. Quando a comadre morre,
Leniza já tem 14 anos; a mãe herda os negócios da falecida. No encerramento do primário, Leniza
canta e todos ficam seduzidos pelas suas formas. Dona Manuela passa a lugar cada cômodo para
 uma só pessoa; se, por um lado, a promiscuidade diminui, por outro, aumentam as despesas.
O ENREDO
                            02: primeiros relacionamentos
Leniza começa a trabalhar numa fábrica de balas; é assediada pelo chefe de seção, que, repelido,
faz intriga para que ela seja demitida. A autenticidade de Leniza custa sua demissão. Vai trabalhar
  num laboratório farmacêutico ganhando 125 mil réis por mês. Leniza amadurece, lê romances
proibidos, vai a festas, aceita caronas e faz concessões. Um ano depois, já ganhando 150 mil réis,
começa a namorar um hóspede da casa chamado Astério [estrela]. Leniza não quer se casar nem
 que o namorado torne pública a situação dos dois. Leniza mente para a mãe. O casal vive entre
tapas e beijos. Dona Manuela descobre a relação e aprova. No Carnaval, os namorados vão parar
 na delegacia. Astério se muda, para seu quarto vem um hóspede quarentão, por nome Alberto.
 Pacato, porteiro de uma companhia, toca violão e será o grande incentivador da garota. Com a
 mudança de dono no laboratório, Leniza passa a fazer trabalho de representante comercial para
 médicos, acaba por conhecer Oliveira, que se apaixona por ela e lhe propõe uma casa montada.
Alberto cita cantoras do rádio [Carmem Miranda e Araci Cortes] e sugere que Leniza terá uma bela
carreira. Oliveira se declara e propõe casamento. Leniza recusa; seu sonho é ser cantora de rádio.
Conhece Mário Alves e fica sabendo ser ele vendedor de rádios. Pensa que ele poderia levá-la às
O ENREDO
                         03: entre Oliveira, Mário e a Rádio
  rádios. Ela vê uma oportunidade de ascensão. Ele, o caminho aberto para uma nova conquista.
 Oliveira avisa que Mário é um malandro, um crápula, um canalha. Leniza e o médico discutem.
 Este quase bate o carro. Vão para o apto de Oliveira que acusa a jovem de ser contraditória. Ele
 confessa não ser rico e diz que sua clínica é pequena e encrencada. Nessa noite, o carro enguiça
  e Leniza vai para casa de táxi. Leniza vai com Mário ao cinema, mas resiste às suas investidas.
Recebe um bilhete de Oliveira, marcando um encontro. Ele diz que a estava seguindo e que ela era
 uma vagabunda. No dia seguinte, ele pede desculpas e se declara. Beijam-se e ela diz não querer
  passar daquele ponto. Mário indica Leniza para Porto, da Rádio Metrópolis. Ela escolha alguns
  sambas para cantar: “Promessa de malandro”, “Não te dou perdão”, “Chegou a aurora” e “Sou
  uma ave noturna”. Mário leva Leniza para seu apartamento e eles fazem sexo. Leniza vai para
 casa sentindo-se muito mal. Oliveira passeiam pela Tijuca. Leniza pergunta a Mário pelos filhos e
ele diz que estava se separando, a esposa estava numa fazenda. Porto oferece a Leniza um salário
de 600 mil réis p/ mês. Pensando em sua carreira, Leniza deixa o emprego. O patrão, Seu Meneses,
 tem preconceito contra os artistas em geral. Faz compras e mente para Oliveira – saíra de férias.
O ENREDO
                      04: arrivismo e ostentação de aparências
  Com ciúmes de Oliveira, Leniza espreita-o e acaba por ouvir uma conversa dele com um agiota.
  Leniza é apresentada às outras cantoras. Começa a tratar Mário de maneira seca. Tem medo de
 engravidar. Uma vizinha, Dona Antônia, que chegara a cumprimentar Leniza pelo feito, acha, no
fundo, que ser cantora de rádio é uma pouca vergonha. Oliveira acha temerário Leniza abandonar
 o emprego, posto que os vencimentos de uma cantora não eram garantidos. Leniza passa mal e é
levada ao apto de Mário ao qual se entrega pela segunda vez. Leniza ganha um aparelho de rádio;
 Porto também cobiça o corpo de Leniza. Mostra-lhe uns jornais. Leniza mostra as notícias sobre
  ela a Oliveira. Ele acha que aquilo era o fim. Leniza se entrega a Mário mais uma vez. Procura o
fotógrafo Wangel. É assediada pela cantora Dulce, que lhe dá alguns conselhos: Cada um por si, os
 outros que se danem. A falsidade do meio pode ser entrevista no relógio quebrado enfeitando o
pulso só para manter as aparências. Porto diz a Leniza que poderia apresentá-la a alguns senhores
se ela não tivesse dono. Ela se diz descompromissada e pede para ser apresentada a Amaro Santos.
Reunião no apto de Neusa – fofocas, ironias, críticas e invejas. Dulce discute com a dona da casa e
vai-se embora com Leniza [sedução]. No fim do mês, recebe apenas 200 mil réis. Dulce empresta o
O ENREDO
                                  05: ascensão ou queda?
 restante e ela chega em casa triunfal, contando vantagens, enganando, mais uma vez, sua mãe.
Paga as dívidas e muda-se para um pequeno apto na Rua Riachuelo, no centro. Rompe com Mário.
 Encontra Oliveira: ele fala de Dulce e ela de apostas. Sente vergonha da vida que leva. A falta de
 dinheiro a faz procurar Amaro. Como ele não estava na cidade, fica com o Porto, por 600 mil réis
 por um mês. Porto de mostra simpático e culto. Mesmo depois da volta de Amaro ao RJ, Leniza
   continua com Porto, mas a doença da mãe a faz procurar o ricaço. Grava seu primeiro disco.
 Seu retrato aparece nas revistas. Muda de Rádio. Agora é da Continental. A mãe lhe fala de uma
 carta anônima. Ela retruca que aquilo era inveja e liga desancando Dulce, com quem rompera há
pouco. Na nova rádio, recebe 500 limpos. A Metrópolis fecha e Porto vai a SP. Obtém boa coloção
 num concurso de cantora popular. Vai ao cinema com Seu Alberto. Descobre-se grávida. Oliveira
não a ajuda. Quem faz o aborto é uma parteira que morava em São Cristóvão, Conceição. O aborto
tem consequências graves, tanto físicas quanto morais: Leniza sofre durante mais de uma semana.
A mãe a ajuda, mas se recusa a olhar a filha. O Dr. Vasconcelos cuida da doente. A mãe sai de casa.
       Oliviera a visita. Vai a uma Igreja. Por fim, decide continuar sua vida na Continental.
SEGUNDA GERAÇÃO DO MODERNISMO
                                          A estrela sobe
         ROMANCE PSICOLÓGICO                                  ROMANCE SOCIAL

NEORREALISTA OU DE TENSÃO INTERIORIZADA           NEONATURALISTA OU DE TENSÃO EXTERIORIZADA

            ambientação urbana                                    classes baixas

              análise psicológica                                arrivismo social

  discurso indireto livre e monólogo interior        poucas oportunidades de ascensão social

           fixação da alma carioca                  discutem-se o papel e a condição da mulher

        valores e costumes burgueses                           linguagem coloquial
A TRAJETÓRIA DE LENIZA
                                      A estrela sobe
                         01. decadência da família após a morte do pai
             02. flashes da memória que revelam a extorsão praticada por agiotas
                       03. consciência de que o corpo é uma mercadoria
                      04. usa o corpo, a malícia, o cálculo e a ingenuidade
                    05. ânsia de liberdade, ambição e fé num futuro melhor
            06. vê-se enredada pelo lado obscuro do rádio [intrigas, sexo, arrivismo]
          07. termina a história solitária, mas não perde a persistência e a petulância
Leniza é ambiciosa; dotada de algum talento, tem no entanto os atributos que mais podem
ajudá-la a alcançar seus objetivos: grandes olhos castanhos, seios redondos que desafiam
decotes, belas coxas morenas. De início, ainda acredita que pode vencer graças aos seus dotes
musicais; contudo, num mundo em que os homens dão as cartas, é o corpo que aos poucos se
torna sua chave para o sucesso. Quando finalmente o percebe, já está demasiado envolvida
pelo glamour da “vida de artista” para que um recuo seja possível: mora na rua do Riachuelo,
frequenta outras cantoras, recebe cartas de fãs, tem sua imagem estampada nos jornais. A essa
altura, Leniza já nada tem de ingênua; sabe o que precisa fazer para manter-se no patamar que,
a tão duras penas, alcançou – e não pode recusar-se a fazê-lo. A estrela subiu, mas a que preço?
UM ROMANCE PICARESCO?
                                   A estrela sobe
                                traços picarescos
    origem humilde              deslocamento no espaço             relativização da moral
                trapaceia para se dar bem       triunfo ao final da narrativa

                                   crítica social
   Leniza é vítima de um sistema social que obsta à mulher a realização de seus intentos
             usa o corpo como moeda de troca a fim de ascender socialmente

              Leniza: pícara, carioca ou brasileira?
              Leniza é vítima da desestruturação familiar e da inépcia do pai
               entretanto se aproveita de sua condição [beleza e juventude]
do mesmo modo como é usada pelos homens sexualmente, usa-os para sua ascensão social
     teve a oportunidade de se encaixar honrada e honestamente ao lado de Oliveira
 rejeita o papel que a sociedade tradicionalmente reserva às mulheres: casamento e filhos
A ESTRELA SOBE
                                     aspectos técnicos
                                        narrador
onisciente, apesar disso, não consegue se distanciar das personagens; apresenta-as ternamente
terceira pessoa: usa o discurso indireto livre para revelar o que pensam e sentem as personagens
presença: uso de parênteses, pontinhos, seis notas de rodapé, cronologia [17 dias após o aborto]
intromissão: relativiza sua onisciência; faz- se presente ao final da narrativa para revelar ternura

                                      personagens
  apenas Leniza aparece dotada de profundidade psicológica; as demais são planas, previsíveis

                                           tempo
                                         década de 1930

                                           espaço
                                      Rio de Janeiro, capital
A LINGUAGEM
                                     A estrela sobe

                                 estilo brasileiro
 preferência pelo coloquialismo, gírias e expressões usadas na década de 1930 [traço moderno]
     batata [coisa certa]                  bicha [fila]                  chaleirar [bajular]
                       chepa [de esmola]                  da gema [autêntico]

                                estilo parentético
 os parêntese assinalam a onisciência do narrador, que entra no pensamento das personagens
– O que é que você quer? (Está um pouco trêmulo, emocionado. Sente vontade de mordê-la, vê-
la sofrer de amor, deixá-la exangue como uma pomba ferida...)
– O que você quiser está bem. (Leniza afundava os olhos nos olhos do companheiro – eram
escuros, fugidios...)
A LINGUAGEM
                                      A estrela sobe

                               estilo epigramático
 com poucas palavras, obtém-se grande desenvolvimento narrativo, dissertativo ou emocional
Mário viu tudo claro, claríssimo. [Estava no escuro do cinema; percebeu a intenção de Leniza]
– Quem responde tudo certo é dicionário e eu não sou dicionário.
– Leniza, você é mesmo uma charada.
Oliveira afirma que Leniza estava ancorada em outro porto. [Referência ao novo amante]
A LINGUAGEM
                                     A estrela sobe

                                   estilo erótico
Estava deliciosa. O vestido muito simples, a boina virada sobre o olho esquerda, a boca muito
pintada, a carne dos braços nus, morena, arrepiada pela friagem.
Ela encheu a pia, mergulhou o rosto demoradamente, dobrando-se, retesando as nádegas rijas.
Oliveira, encostado ao portal, olhava-a. O corpo curvado, mostrava uma elasticidade perfeita,
maravilhosa., tinha qualquer coisa de animal, de égua de corrida, de ancas duras e lustrosas –
era um perturbador convite.

Mário Alves sobe com as mãos para as coxas macias, que lhe lembrar outras coxas macias –
beijou-as. Leniza estremece. Tonta, tonta, sente Oliveira, sente as mãos dele, quentes, muito
quentes, finas, espremerem, deslizarem com a delicadeza de uma medusa no mar.
A LINGUAGEM
                                       A estrela sobe

                                 estilo poético, 01
        lirismo + sistema de símbolos [céu, estrela, aurora, lua, chama, apito dos navios]
Ia para o quarto, afinal. Apitos surdos vêm do mar como angustiosos pedidos de socorro. (É
assim nas noites de chuva ou de cerração mas jamais se acostumou com eles. O coração fica
pequeno, medroso, quando os ouve, e a imagem que lhe trazem é sempre a mesma: gente
gritando, gente de braços para o céu, implorando, querendo fingir da morte, mas morrendo
sufocada nas ondas, nas ondas, nas ondas...)
Com melancolia, despediu-se do vendeiro que trocou novos olhares com seus auxiliares, com
melancolia subiu a ladeira. (...) Ia subindo. Gatos e cães assaltavam as latas de lixo. Um caco de
lua perdia-se no céu. Um cheiro de mar, um cheiro acre de mar chegava no vento como um
convite. Partir! Tudo deixar para trás, esquecido para sempre. Tudo deixar para trás como se
nem tivesse existido.
A LINGUAGEM
                                     A estrela sobe

                                estilo poético, 02
       lirismo + sistema de símbolos [céu, estrela, aurora, lua, chama, apito dos navios]
Sentia-se miserável, imunda, escória humana, campo de todos os pecados, lama pura lama. Mas
subira. Dois ou três degraus na escada do mundo.
Suas mãos que pareciam queimar com o ferro em brasa, que davam a impressão de deixar-lhe
no corpo uma marca ignominiosa como a marca feita a fogo nos escravos e nos animais.
Que será dela no balanço da vida, se não descer do céu uma luz que ilumine o outro lado das
suas vaidades?

Análise de "A estrela sobe", de Marques Rebelo

  • 1.
    A estrela sobe, de Marques Rebelo Manoel Neves
  • 2.
    A ESTRELA SOBE literatura e cotidiano romance em que se fundem crítica social e sondagem psicológica 1939 acompanha-se a trajetória de uma suburbana cujo sonho é ser cantora do rádio um romance carioca aspectos paisagísticos aspectos ideológicos a personagem se desloca pelo RJ da década de 1930 moral relativa das personagens fixação da paisagem do subúrbio e do centro bom humor e alegria de viver retrato de uma cidade que está em crescimento personagens profundamente ligadas ao meio
  • 3.
    A ESTRELA SOBE literatura e cotidiano as epígrafes E o Senhor me disse: toma um livro grande, e escreve nele em estilo de homem. [Isaías: 8,1] trata-se do estilo da obra será viril [coloquial, direto, seco, conciso, objetivo, cirúrgico] mesmo tratando da alma feminina Oh! grandes e gravíssimos perigos!/ Oh! caminho da vida nunca certo! [Camões] trata-se do assunto da obra os graves perigos no caminho da protagonista e a incerteza de seu destino
  • 4.
    TEMAS DESENVOLVIDOS A estrela sobe importância do rádio na sociedade carioca do início dos anos 1930; condição da mulher na sociedade brasileira do início do século XX; miséria e falta de perspectivas da nascente sociedade carioca; aborto.
  • 5.
    O ENREDO 01: agruras na infância Dois anos depois de perder a filha Mariza, com 4 anos, Dona Manuela tem Leniza. Martim Maier, filho de imigrantes alemães, era relojoeiro e trabalhava no centro do RJ. Havia, em sua casa, um certo conforto. Gostava de pequenos luxos burgueses e perdia algum dinheiro no jogo. Devido à imprevidência do pai, a família cai na miséria quando de sua morte. Manuela e a filha se mudam para a casa de uma comadre que alugava cômodos, na Ladeira da Saúde. As três se comprimiam num pequeno quarto. Dona Manuela, mestiça, era filha natural de um pequeno fazendeiro. No passado, fora cozinheira de certo deputado federal; trabalhara, depois, na casa dum comerciante; enfrentara vários empregos até se casar. Agora, para sobreviver, lavava a roupa dos hóspedes, 6 rapazes que alugavam cômodos da comadre. Já Leniza vai crescendo bonita, mas com um gênio esquisito, na fala da professora. O ambiente é promíscuo [portas abertas dos jovens]; nas sessões de cinema, permite algumas bolinações, sem sentir grandes coisas. Quando a comadre morre, Leniza já tem 14 anos; a mãe herda os negócios da falecida. No encerramento do primário, Leniza canta e todos ficam seduzidos pelas suas formas. Dona Manuela passa a lugar cada cômodo para uma só pessoa; se, por um lado, a promiscuidade diminui, por outro, aumentam as despesas.
  • 6.
    O ENREDO 02: primeiros relacionamentos Leniza começa a trabalhar numa fábrica de balas; é assediada pelo chefe de seção, que, repelido, faz intriga para que ela seja demitida. A autenticidade de Leniza custa sua demissão. Vai trabalhar num laboratório farmacêutico ganhando 125 mil réis por mês. Leniza amadurece, lê romances proibidos, vai a festas, aceita caronas e faz concessões. Um ano depois, já ganhando 150 mil réis, começa a namorar um hóspede da casa chamado Astério [estrela]. Leniza não quer se casar nem que o namorado torne pública a situação dos dois. Leniza mente para a mãe. O casal vive entre tapas e beijos. Dona Manuela descobre a relação e aprova. No Carnaval, os namorados vão parar na delegacia. Astério se muda, para seu quarto vem um hóspede quarentão, por nome Alberto. Pacato, porteiro de uma companhia, toca violão e será o grande incentivador da garota. Com a mudança de dono no laboratório, Leniza passa a fazer trabalho de representante comercial para médicos, acaba por conhecer Oliveira, que se apaixona por ela e lhe propõe uma casa montada. Alberto cita cantoras do rádio [Carmem Miranda e Araci Cortes] e sugere que Leniza terá uma bela carreira. Oliveira se declara e propõe casamento. Leniza recusa; seu sonho é ser cantora de rádio. Conhece Mário Alves e fica sabendo ser ele vendedor de rádios. Pensa que ele poderia levá-la às
  • 7.
    O ENREDO 03: entre Oliveira, Mário e a Rádio rádios. Ela vê uma oportunidade de ascensão. Ele, o caminho aberto para uma nova conquista. Oliveira avisa que Mário é um malandro, um crápula, um canalha. Leniza e o médico discutem. Este quase bate o carro. Vão para o apto de Oliveira que acusa a jovem de ser contraditória. Ele confessa não ser rico e diz que sua clínica é pequena e encrencada. Nessa noite, o carro enguiça e Leniza vai para casa de táxi. Leniza vai com Mário ao cinema, mas resiste às suas investidas. Recebe um bilhete de Oliveira, marcando um encontro. Ele diz que a estava seguindo e que ela era uma vagabunda. No dia seguinte, ele pede desculpas e se declara. Beijam-se e ela diz não querer passar daquele ponto. Mário indica Leniza para Porto, da Rádio Metrópolis. Ela escolha alguns sambas para cantar: “Promessa de malandro”, “Não te dou perdão”, “Chegou a aurora” e “Sou uma ave noturna”. Mário leva Leniza para seu apartamento e eles fazem sexo. Leniza vai para casa sentindo-se muito mal. Oliveira passeiam pela Tijuca. Leniza pergunta a Mário pelos filhos e ele diz que estava se separando, a esposa estava numa fazenda. Porto oferece a Leniza um salário de 600 mil réis p/ mês. Pensando em sua carreira, Leniza deixa o emprego. O patrão, Seu Meneses, tem preconceito contra os artistas em geral. Faz compras e mente para Oliveira – saíra de férias.
  • 8.
    O ENREDO 04: arrivismo e ostentação de aparências Com ciúmes de Oliveira, Leniza espreita-o e acaba por ouvir uma conversa dele com um agiota. Leniza é apresentada às outras cantoras. Começa a tratar Mário de maneira seca. Tem medo de engravidar. Uma vizinha, Dona Antônia, que chegara a cumprimentar Leniza pelo feito, acha, no fundo, que ser cantora de rádio é uma pouca vergonha. Oliveira acha temerário Leniza abandonar o emprego, posto que os vencimentos de uma cantora não eram garantidos. Leniza passa mal e é levada ao apto de Mário ao qual se entrega pela segunda vez. Leniza ganha um aparelho de rádio; Porto também cobiça o corpo de Leniza. Mostra-lhe uns jornais. Leniza mostra as notícias sobre ela a Oliveira. Ele acha que aquilo era o fim. Leniza se entrega a Mário mais uma vez. Procura o fotógrafo Wangel. É assediada pela cantora Dulce, que lhe dá alguns conselhos: Cada um por si, os outros que se danem. A falsidade do meio pode ser entrevista no relógio quebrado enfeitando o pulso só para manter as aparências. Porto diz a Leniza que poderia apresentá-la a alguns senhores se ela não tivesse dono. Ela se diz descompromissada e pede para ser apresentada a Amaro Santos. Reunião no apto de Neusa – fofocas, ironias, críticas e invejas. Dulce discute com a dona da casa e vai-se embora com Leniza [sedução]. No fim do mês, recebe apenas 200 mil réis. Dulce empresta o
  • 9.
    O ENREDO 05: ascensão ou queda? restante e ela chega em casa triunfal, contando vantagens, enganando, mais uma vez, sua mãe. Paga as dívidas e muda-se para um pequeno apto na Rua Riachuelo, no centro. Rompe com Mário. Encontra Oliveira: ele fala de Dulce e ela de apostas. Sente vergonha da vida que leva. A falta de dinheiro a faz procurar Amaro. Como ele não estava na cidade, fica com o Porto, por 600 mil réis por um mês. Porto de mostra simpático e culto. Mesmo depois da volta de Amaro ao RJ, Leniza continua com Porto, mas a doença da mãe a faz procurar o ricaço. Grava seu primeiro disco. Seu retrato aparece nas revistas. Muda de Rádio. Agora é da Continental. A mãe lhe fala de uma carta anônima. Ela retruca que aquilo era inveja e liga desancando Dulce, com quem rompera há pouco. Na nova rádio, recebe 500 limpos. A Metrópolis fecha e Porto vai a SP. Obtém boa coloção num concurso de cantora popular. Vai ao cinema com Seu Alberto. Descobre-se grávida. Oliveira não a ajuda. Quem faz o aborto é uma parteira que morava em São Cristóvão, Conceição. O aborto tem consequências graves, tanto físicas quanto morais: Leniza sofre durante mais de uma semana. A mãe a ajuda, mas se recusa a olhar a filha. O Dr. Vasconcelos cuida da doente. A mãe sai de casa. Oliviera a visita. Vai a uma Igreja. Por fim, decide continuar sua vida na Continental.
  • 10.
    SEGUNDA GERAÇÃO DOMODERNISMO A estrela sobe ROMANCE PSICOLÓGICO ROMANCE SOCIAL NEORREALISTA OU DE TENSÃO INTERIORIZADA NEONATURALISTA OU DE TENSÃO EXTERIORIZADA ambientação urbana classes baixas análise psicológica arrivismo social discurso indireto livre e monólogo interior poucas oportunidades de ascensão social fixação da alma carioca discutem-se o papel e a condição da mulher valores e costumes burgueses linguagem coloquial
  • 11.
    A TRAJETÓRIA DELENIZA A estrela sobe 01. decadência da família após a morte do pai 02. flashes da memória que revelam a extorsão praticada por agiotas 03. consciência de que o corpo é uma mercadoria 04. usa o corpo, a malícia, o cálculo e a ingenuidade 05. ânsia de liberdade, ambição e fé num futuro melhor 06. vê-se enredada pelo lado obscuro do rádio [intrigas, sexo, arrivismo] 07. termina a história solitária, mas não perde a persistência e a petulância Leniza é ambiciosa; dotada de algum talento, tem no entanto os atributos que mais podem ajudá-la a alcançar seus objetivos: grandes olhos castanhos, seios redondos que desafiam decotes, belas coxas morenas. De início, ainda acredita que pode vencer graças aos seus dotes musicais; contudo, num mundo em que os homens dão as cartas, é o corpo que aos poucos se torna sua chave para o sucesso. Quando finalmente o percebe, já está demasiado envolvida pelo glamour da “vida de artista” para que um recuo seja possível: mora na rua do Riachuelo, frequenta outras cantoras, recebe cartas de fãs, tem sua imagem estampada nos jornais. A essa altura, Leniza já nada tem de ingênua; sabe o que precisa fazer para manter-se no patamar que, a tão duras penas, alcançou – e não pode recusar-se a fazê-lo. A estrela subiu, mas a que preço?
  • 12.
    UM ROMANCE PICARESCO? A estrela sobe traços picarescos origem humilde deslocamento no espaço relativização da moral trapaceia para se dar bem triunfo ao final da narrativa crítica social Leniza é vítima de um sistema social que obsta à mulher a realização de seus intentos usa o corpo como moeda de troca a fim de ascender socialmente Leniza: pícara, carioca ou brasileira? Leniza é vítima da desestruturação familiar e da inépcia do pai entretanto se aproveita de sua condição [beleza e juventude] do mesmo modo como é usada pelos homens sexualmente, usa-os para sua ascensão social teve a oportunidade de se encaixar honrada e honestamente ao lado de Oliveira rejeita o papel que a sociedade tradicionalmente reserva às mulheres: casamento e filhos
  • 13.
    A ESTRELA SOBE aspectos técnicos narrador onisciente, apesar disso, não consegue se distanciar das personagens; apresenta-as ternamente terceira pessoa: usa o discurso indireto livre para revelar o que pensam e sentem as personagens presença: uso de parênteses, pontinhos, seis notas de rodapé, cronologia [17 dias após o aborto] intromissão: relativiza sua onisciência; faz- se presente ao final da narrativa para revelar ternura personagens apenas Leniza aparece dotada de profundidade psicológica; as demais são planas, previsíveis tempo década de 1930 espaço Rio de Janeiro, capital
  • 14.
    A LINGUAGEM A estrela sobe estilo brasileiro preferência pelo coloquialismo, gírias e expressões usadas na década de 1930 [traço moderno] batata [coisa certa] bicha [fila] chaleirar [bajular] chepa [de esmola] da gema [autêntico] estilo parentético os parêntese assinalam a onisciência do narrador, que entra no pensamento das personagens – O que é que você quer? (Está um pouco trêmulo, emocionado. Sente vontade de mordê-la, vê- la sofrer de amor, deixá-la exangue como uma pomba ferida...) – O que você quiser está bem. (Leniza afundava os olhos nos olhos do companheiro – eram escuros, fugidios...)
  • 15.
    A LINGUAGEM A estrela sobe estilo epigramático com poucas palavras, obtém-se grande desenvolvimento narrativo, dissertativo ou emocional Mário viu tudo claro, claríssimo. [Estava no escuro do cinema; percebeu a intenção de Leniza] – Quem responde tudo certo é dicionário e eu não sou dicionário. – Leniza, você é mesmo uma charada. Oliveira afirma que Leniza estava ancorada em outro porto. [Referência ao novo amante]
  • 16.
    A LINGUAGEM A estrela sobe estilo erótico Estava deliciosa. O vestido muito simples, a boina virada sobre o olho esquerda, a boca muito pintada, a carne dos braços nus, morena, arrepiada pela friagem. Ela encheu a pia, mergulhou o rosto demoradamente, dobrando-se, retesando as nádegas rijas. Oliveira, encostado ao portal, olhava-a. O corpo curvado, mostrava uma elasticidade perfeita, maravilhosa., tinha qualquer coisa de animal, de égua de corrida, de ancas duras e lustrosas – era um perturbador convite. Mário Alves sobe com as mãos para as coxas macias, que lhe lembrar outras coxas macias – beijou-as. Leniza estremece. Tonta, tonta, sente Oliveira, sente as mãos dele, quentes, muito quentes, finas, espremerem, deslizarem com a delicadeza de uma medusa no mar.
  • 17.
    A LINGUAGEM A estrela sobe estilo poético, 01 lirismo + sistema de símbolos [céu, estrela, aurora, lua, chama, apito dos navios] Ia para o quarto, afinal. Apitos surdos vêm do mar como angustiosos pedidos de socorro. (É assim nas noites de chuva ou de cerração mas jamais se acostumou com eles. O coração fica pequeno, medroso, quando os ouve, e a imagem que lhe trazem é sempre a mesma: gente gritando, gente de braços para o céu, implorando, querendo fingir da morte, mas morrendo sufocada nas ondas, nas ondas, nas ondas...) Com melancolia, despediu-se do vendeiro que trocou novos olhares com seus auxiliares, com melancolia subiu a ladeira. (...) Ia subindo. Gatos e cães assaltavam as latas de lixo. Um caco de lua perdia-se no céu. Um cheiro de mar, um cheiro acre de mar chegava no vento como um convite. Partir! Tudo deixar para trás, esquecido para sempre. Tudo deixar para trás como se nem tivesse existido.
  • 18.
    A LINGUAGEM A estrela sobe estilo poético, 02 lirismo + sistema de símbolos [céu, estrela, aurora, lua, chama, apito dos navios] Sentia-se miserável, imunda, escória humana, campo de todos os pecados, lama pura lama. Mas subira. Dois ou três degraus na escada do mundo. Suas mãos que pareciam queimar com o ferro em brasa, que davam a impressão de deixar-lhe no corpo uma marca ignominiosa como a marca feita a fogo nos escravos e nos animais. Que será dela no balanço da vida, se não descer do céu uma luz que ilumine o outro lado das suas vaidades?