TILA 01 
ESTUDOS SOBRE – ANTROPOLOGIA 
TOTAL 1046 - PAGINA 
6 ASSUNTOS! 
A imagem de Deus 
A liberdade humana 
As conseqüências do pecado 
"...homem e mulher os criou" 
Quem Somos? 
Por que, Calabar? 
APOSTILA Nº 01 
ESTUDOS SOBRE – ANTROPOLOGIA 
SOBRE ANTROPOLOGIA 
A IMAGEM DE DEUS 
A Integridade Original da Natureza Humana 
Professor Diego Roberto 
Escola Missionaria Eclesiastica Voz no Deserto 
Introdução: Este talvez seja um dos capítulos mais importantes que estudaremos. Tentaremos 
responder perguntas como: Em que consiste a imagem de Deus no homem? Que efeito teve a queda 
do homem sobre a imagem de Deus? O que queremos dizer quando afirmamos que o homem foi 
criado à imagem e semelhança de Deus? 
O conceito de imagem de Deus é o coração da antropologia cristã. Precisamos entender bem este 
conceito.
2 
O homem distingue-se das demais criaturas de Deus, porque foi criado de uma maneira singular. 
Apenas do homem é dito que ele foi criado à imagem de Deus. Esta expressão descreve o homem na 
totalidade de sua existência, ele é um ser que reflete e espelha Deus. (Gn 1:26-28). 
Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio 
sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos 
os répteis que rastejam pela terra. 
Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. 
E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre 
os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra. (Gn 1:26-28). 
A imagem de Deus no homem não é algo acidental, mas é algo essencial à natureza humana. O 
homem não pode ser homem sem a imagem de Deus. O homem é a imagem de Deus, não 
simplesmente a possui, como se fosse algo que lhe foi acrescentado. 
"Imagem" e "Semelhança"? 
Qual o significado destas palavras? 
Aqui eu quero ver com os irmãos, os 4 estágios da imagem de Deus no homem. A imagem original, a 
imagem desfigurada, A imagem original, a Imagem desfigurada, A imagem restaurada e a Imagem 
aperfeiçoada. 
1 - A imagem de Deus no homem originalmente 
No Velho Testamento encontramos apenas três passagens que tratam de forma específica a questão da 
imagem de Deus. (Gen. 1:26-28; 5:1-3; 9:6). 
"Façamos o homem à nossa imagem e semelhança" . Sobre o significado das palavras "Imagem e 
Semelhança" entendemos que elas não se referem a coisas diferentes, embora alguns defensores da fé 
do passado tivessem crido diferente (1). 
Veja as razões porque entendemos que estes dois termos querem significar a mesma coisa: 
Em Gen. 1:26, aparecem as duas palavras "imagem e semelhan ça"; em 1:27 o autor usou apenas o 
termo "imagem"; em 5:1 ele resolve substituir o termo por outro - "semelhança", e, em 5:3, o autor 
novamente volta a usar as duas palavras , contudo em ordem diferente daquela usada em 1:26 - 
"semelhança e imagem" e em 9:6 ele volta a usar apenas um dos termos, optando agora pelo termo 
"imagem". Isto, deixa suficientemente claro para nós que "imagem e semelhança" são termos 
sinônimos, e que querem dizer a mesma coisa. Caso não fosse assim, o autor não faria estas mudanças 
alternando os termos. 
O Que Significa ser Criado á Imagem e Semelhança?
Escola Missionaria V.N.D 
3 
Mas o que entendemos por Imagem e Semelhança? Por estes dois termos queremos dizer que o 
homem foi criado para refletir, espelhar e representar Deus. Nossos primeiros pais foram criados para 
refletir as qualidades que haviam em Deus, e isto em perfeita obediência, sem pecado. Agostinho diz 
que o homem foi criado "capaz de não pecar" (2). O homem podia agir perfeitamente e 
obedientemente na adoração , no serviço a Deus, no domínio e cuidado da criação e no amor e 
companheirismo uns com os outros. 
Berkhof diz que na concepção reformada, a Imagem de Deus consiste na integridade original da 
natureza do homem, integridade esta expressa: 
a. No Conhecimento Verdadeiro - Cl 3:10 
"E vos revestistes do novo homem, que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele 
que o criou" 
b. Na Justiça - Ef. 4:24 
"E vos revestais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade" 
c. Na Santidade - Ef 4:24 
"E vos revestiais do novo homem, criado segundo Deus, em justi ça e retidão procedentes da verdade"(3) 
Van Groningen assevera que: 
Ao criar a humanidade á sua própria imagem, Deus estabeleceu uma relação na qual a 
humanidade poderia refletir, de modo finito, certos aspectos do infinito Rei-Criador. A 
humanidade deveria refletir as qualidades éticas de Deus, tais como "retidão e verdadeira 
santidade"... e seu "conhecimento" (Cl 3:10). A humanidade deveria dar expressão ás 
funções divinas em ralação ao cosmos e atividades tais como encher a terra, cultiv á-la e 
governar sobre o mundo criado. A humanidade em uma forma física, também refletiria as 
próprias capacidades do Criador: apreender, conhecer, exercer amor, produzir, controlar e 
interagir (4) 
Percebemos nas palavras do Dr. Van Groningen que ele apresenta a imagem de Deus como tendo 
uma tríplice relação: 
A. Relação com Deus, 
B. Relação com o próximo 
C. Relação com a criação. 
Iremos verificar em nosso estudo que em seu estado glorificado, os santos refletir ão esta imagem e 
semelhança restaurando no estado final, esta tríplice relação em sua perfeição. 
Antes do homem cair em pecado, ele refletia perfeitamente a imagem de Deus. Tudo estava em 
perfeita harmonia. Mas em que consistia este refletir a imagem de Deus?(5) 
1 - O homem reflete a imagem de Deus como um ser que é relacional. Ele não é um ser que vive isolado, assim 
como Deus não vive só. Deus é Tripessoal, e se relaciona entre as pessoas da Trindade (Gn 1:26 - 
"Façamos o homem ... ")
4 
O homem é uma pessoa, e como tal ele se relaciona. Foi por isto que Deus lhe fez uma companheira. 
2 - O homem reflete a imagem de Deus pela sua capacidade de dominar sobre as outras coisas criadas 
O homem foi colocado como "senhor" da terra, para governá-la e cuidar dela. (Gn 1:26-28). O 
domínio do homem sobre as coisas criadas é parte essencial de sua natureza. Nesse sentido, o homem 
imita o Seu Criador, pois Deus é o Senhor soberano e absoluto exercendo domínio sobre toda a terra. 
A Deus pertence o domínio e o poder; ele faz reinar a paz nas alturas celestes. Jó 25:2 
O teu reino é o de todos os séculos, e o teu domínio subsiste por todas as gerações. O SENHOR é fiel em 
todas as suas palavras e santo em todas as suas obras. Sl 145:13 
Dn. 4:3,25,34 
Quão grandes são os seus sinais, e quão poderosas, as suas maravilhas! O seu reino é reino sempiterno, e o 
seu domínio, de geração em geração. V. 3 
Serás expulso de entre os homens, e a tua morada será com os animais do campo, e dar-te-ão a comer 
ervas como aos bois, e serás molhado do orvalho do céu; e passar-se-ão sete tempos por cima de ti, até que 
conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer. v. 25 
Mas ao fim daqueles dias, eu, Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu, tornou-me a vir o entendimento, 
e eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é sempiterno, e 
cujo reino é de geração em geração. v. 34 
Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus; se alguém serve, faça-o na força que Deus supre, 
para que, em todas as coisas, seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo, a quem pertence a gl ória e o 
domínio pelos séculos dos séculos. Amém! I Pe 4:11 
Domine ele de mar a mar e desde o rio até aos confins da terra. Sl 72:8 
3 - O homem reflete a imagem de Deus por Ter atributo que chamamos "essenciais" nele; sem os quais ele 
não poderia continuar sendo o que é: 
a) Poder intelectual: É a faculdade de raciocinar, inteligência e outras capacidades intelectivas 
em geral, que refletem aquilo que Deus tem. 
b) Afeições naturais: É a capacidade que o homem tem de ligar-se emocionalmente e 
afetivamente a outros seres e coisas. Deus tem esta capacidade. 
c) Liberdade moral: Capacidade que o homem tem de fazer as coisas obedecendo a princípios 
morais. 
d) Espiritualidade: A Escritura diz que o homem foi criado "alma vivente" (Gn 2:7). É a 
natureza imaterial do homem. Deus é espírito, e num certo sentido, o homem tem traços 
desta espiritualidade.
5 
e) Imortalidade: Depois de criado, o homem não deixa mais de existir. A morte não é para o 
corpo, mas para o homem. Morte é separação e não cessação de existência. A imortalidade é 
essencial para Deus (I Tm 6:16). O homem, num caráter secundário derivado, passa a Ter a 
imortalidade. 
2 - A queda e a Imagem Desfigurada 
Como sabemos, este estado de integridade ("posso não pecar") não foi mantido até o fim pelos nossos 
primeiros pais. Veio a desobediência e consequentemente a queda. Nossos primeiros pais, criados 
para refletir e representar Deus não passaram no teste. Provados, caíram e deformaram a imagem de 
Deus neles. 
Podemos fazer a seguinte pergunta: Quando o homem caiu, perdeu ele totalmente a Imago Dei? 
Respondemos que em seu aspecto estrutural ou ontológico (aquilo que o homem é), não foi eliminado 
com a queda, o homem continuou homem, mas após a queda, o aspecto funcional (aquilo que o 
homem faz) da imago Dei, seus dons, talentos e habilidades passaram a ser usados para afrontar a 
Deus. 
Para Calvino, a imagem de Deus não foi totalmente aniquilada com a Queda, mas foi terrivelmente 
deformada Ele descreveu esta imagem depois da queda como "uma imagem deformada, doentia e 
desfigurada" (6). 
O homem antes criado para refletir Deus, agora após a queda, precisa ter esta condição restaurada. 
Restauração esta que se estenderá por todo o processo da redenção. Esta renovação da imagem 
original de Deus no homem significa que o homem é capacitado a voltar-se para Deus, a voltar-se para 
o próximo e também voltar-se para a criação para governá-la. 
3 - Cristo e a Imagem Renovada 
Num sentido, como já dissemos, o homem ainda é portador da imagem de Deus, mas também num 
sentido, ele precisa ser renovado nesta imagem. 
Esta restauração da imagem só é possível através de Cristo, porque Cristo é a imagem perfeita de 
Deus, e o pecador precisa agora tornar-se mais semelhante a Cristo. Lemos em Cl. 1:15 "Ele é a 
imagem do Deus invisível" e em Romanos 8:29 que Deus nos predestinou para sermos "Conforme a 
imagem de Seu Filho ..." (I Jo 3:2; II Co 3:18) 
4 - A Imagem Aperfeiçoada 
A completação da perfeição dos cristãos será a participação da final glorificação de Cristo Jesus. Não 
somos apenas herdeiros de Deus, mas também co-herdeiros com Cristo, "Se com ele sofremos, para 
que também com ele sejamos glorificados" (Rm 8:17). Não podemos pensar em Cristo separado de 
seu povo, nem de seu povo separado dele. Assim será na vida futura: a glorificação dos cristãos 
ocorrerá junto com a glorificação do Senhor Jesus . É exatamente isto que Paulo nos ensina em Cl 
3:4:
6 
"Quando Cristo que é a nossa vida, se manifestar, então vós também sereis manifestados com 
ele, em glória" 
A glorificação é voltar à perfeição com a qual fomos criados por Deus, é voltar a imagem de Deus. Este é o 
propósito último de nossa redenção. Esta perfeição da imagem será o auge, a consumação do plano 
redentivo de Deus para o seu povo. E isto só é possível em Cristo. 
Em Cristo, o eleito não apenas volta ao que era Adão antes de pecar, mas vai um pouco mais à frente: 
Note as palavras de Anthony Hoekema: 
Devemos ver o homem à luz de seu destino final (...) Adão ainda podia perder a 
impecabilidade e bem aventurança, mas aos santos glorificados isso não poderá mais ocorrer. 
Adão era "Capaz de não pecar e morrer"(posse non peccare et mori), os santos na glória, 
porém "não serão capazes de pecar e morrer" (non posse peccare et mori). Esta perfeição, 
que não se poderá perder, é aquilo para o qual o homem foi destinado e nada menos do que 
isto (7) 
Sabemos que os santos glorificados, em seu estado final não vão pecar nem morrer. Várias passagens 
das Escrituras nos garantem isto. (Is. 25:8 I Cor. 15:42,54; Ef. 5:27; Ap. 21:4) 
Paulo em sua carta aos Efésios nos ensina que o propósito de Deus para sua igreja, é apresentá-la "a si 
mesmo Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito" (cf. Ef. 5:27) 
Nesta dispensação, até a Segunda Vinda de Cristo, carregamos conosco, conforme lemos em I Cor. 
15:49, a "imagem do que é terreno", mas na glorificação, teremos plena e perfeitamente a "imagem do 
celestial", ou seja, a imagem de Cristo. No porvir, nossa vida será gloriosa, porque teremos a imagem 
de Cristo, seremos como Ele é, e Cristo sendo a imagem de Deus, teremos a imagem de Deus de 
volta em nós de forma completa e perfeita. 
Calvino comentando este texto de I Cor. 15:49 diz: 
Pois agora começamos a exibir a imagem de Cristo, e somos transformados nela diária e 
paulatinamente; porém esta imagem depende da regeneração espiritual. Mas depois seremos 
restaurados à plenitude, que em nosso corpo, quer em nossa alma, o que agora teve in ício 
será levado à completação, e alcançaremos, em realidade, o que agora esperamos(8) 
Note ainda as palavras de João: "Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que 
havemos de ser. Sabemos que quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque havemos de v ê-lo como 
ele é" I Jo. 3:2 
O que João nos diz, é que, na ocasião da Segunda Vinda de Cristo, seremos assemelhados a Ele, 
perfeita e completamente. E como Cristo é a imagem de Deus invisível, os santos glorificados terão a 
imagem de Cristo. Isto significa dizer que a nossa imagem na glorificação, será restaurada à imagem de 
Deus. Esta semelhança a Deus e a Cristo é o propósito final da nossa redenção, ou seja, a glorificação.
7 
Por enquanto, a imagem de Cristo em nós está em processo contínuo conforme nos diz Paulo em II 
Cor. 3:18 que estamos "sendo transformados de glória em glória" , mas após a nossa ressurreição, 
poderemos refletir a perfeição desta imagem, que Deus começou em nós, e assim, só então, 
poderemos ser tudo aquilo para o qual fomos destinados pelo Pai. 
Neste processo de restauração da imagem de Deus em nós, através de Cristo, chamamos de 
santificação que é a "conformidade progressiva à imagem de Cristo aqui e agora (...); a glória é a conformidade 
perfeita a imagem de Cristo lá e então, Santificação é a glória começada; glória é a santificação completada" (9) 
Gerrit C. Berkouwer, teólogo holandês, nos mostra que a verdadeira imagem de Deus se pode 
conseguir apenas em Jesus Cristo que é a imagem perfeita de Deus. Ser renovado á imagem de Deus é 
tornar-se parecido com Jesus (10). 
Todo o povo de Deus, de todas as nações, tribos, línguas, estará então com Deus por toda a 
eternidade, glorificando a Deus pela adoração, serviço e louvor. Todos nossos atos serão enfim feitos 
sem pecado com perfeição e aí o propósito que Deus estabeleceu para seus remidos terá sido 
alcançado. 
A Imagem de Deus para João Calvino (1509 - 1564) - 
Veja como Calvino responde ás seguintes questões sobre a Imagem de Deus: 
1 - Onde situa-se a imagem de Deus no homem? 
R: Segundo Calvino, ela é encontrada fundamentalmente na alma do homem. 
2 - Em que constitui originalmente a imagem de Deus? 
R: Com base em Cl 3:10 e Ef 4:24, Calvino conclui que a imagem de Deus no homem inclu ía 
originalmente o verdadeiro conhecimento, justiça e santidade. 
3 - Existe algum aspecto sob o qual o homem decaído ainda é a imagem de Deus? 
R: Antes da queda, de acordo com Calvino, o homem possuía a imagem de Deus em sua perfeição. A 
queda, contudo, teve um efeito devastador sobre esta imagem. A imagem de Deus não é totalmente 
aniquilada pela queda, mas é terrivelmente afetada, deformada. 
4 - O que a queda fez à imagem de Deus? 
R: O que aconteceu foi que quaisquer dons ou habilidades que o homem reteve, tais como raz ão e a 
vontade foram pervertidos e deturpados pela queda. Todas as suas faculdades estão viciadas e 
corrompidas. 
5 - Como a imagem de Deus é renovada no homem?
8 
R: Para Calvino, esta imagem é restaurada pela fé e começa na conversão. É a nossa conformação com 
a pessoa de Cristo. Isto é uma obra da graça de Deus que se inicia na regeneração e progressivamente 
termina na glorificação dos santos. 
6 - Quando será completada a renovação da imagem de Deus? 
R: Calvino responde: Na vida por vir. Seu explendor pleno será alcançado apenas no céu. 
NOTAS 
(1) Tertuliano (160-225); Orígenes e Clemente de Alexandria (Ver Hoekema: Criados á Imagem de 
Deus (São Paulo, Ed. Cultura Cristã, 1999), 46-8 
(2) Santo Agostinho, citado por Hoekema, op cit, p. 98 
(3) L. Berkhof, Teologia Sistemática (São Paulo: Luz para o Caminho, 1990), 206 
(4) Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho testamento (Luz para o caminho: 
Campinas) 1995 
(5) Extraído adaptado de Apostila do Dr. Héber C. de Campos. 
(6) As Institutas, I, XV, 3 
(7) Anthony Hoekema - Criados Á Imagem de Deus (São Paulo, Ed. Cultura Cristã , 1999), 108 
(8) João Calvino, Comentário de I Coríntios , (Edições Paracletos, São Paulo, 1996), 488 
(9) F. F. Bruce, citado por Geoffrey B. Wilson, Romanos - Um Resumo de Pensamento Reformado, 
(SP - PES) 130 
(10) G.C.Berkouwer, Man, The image of God, p. 107 
EXERCÍCIOS PARA FIXAÇÃO DA MATÉRIA 
1) O que significa dizer que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus? 
2) "Imagem" e "Semelhança" são termos que querem dizer a mesma coisa ou coisas diferentes? 
3) Segundo Berkhof, em que consiste a integridade original da natureza do homem? 
4) Como o homem reflete a Imagem de Deus? 
5) Com a queda, o homem perdeu a imagem de Deus? Justifique: 
6) Como a imagem de Deus é renovada no homem? 
A LIBERDADE HUMANA 
Rev. Diego Roberto 
"Deus dotou a vontade do homem de tal liberdade, que ele nem é forçado para o bem ou para o mal, nem 
a isso é determinado por qualquer necessidade absoluta da sua natureza" Confissão de Fé de 
Westminster, Capítulo IX, seção 1
9 
Quando estudamos a doutrina do Homem, torna-se inevitável enfrentarmos a questão da liberdade. 
Os teólogos reformados, os chamados calvinistas, têm sido criticados como alguém que não crê que o 
homem seja livre. Isto não é verdade, e os membros da IPO que têm acompanhados os últimos 
estudos, já perceberam isso. Nós cremos que o homem tem liberdade sim, mas a questão que 
precisamos definir muito bem é: O que é ser livre? O que entendemos por liberdade? 
Muita confusão já tem sido criada em torno do termo "livre", e isto porque ele pode ser visto em 
vários sentidos. 
A maioria dos nossos irmão na fé diz acreditar no "Livre Arbítrio" Contudo, a maioria não tem a 
menor idéia do que isto significa. 
A vontade, faculdade que todo homem tem, tem sido exaltada como a fant ástica capacidade que a 
alma tem para discutir sobre coisas, fatos da vida. 
Mas as pessoas estão dizendo que o arbítrio (vontade) é livre, precisamos perguntar: De que a vontade 
é livre? De que ela é capaz? 
Para provar que arbítrio (vontade) não é livre lanço mão de 2 proposições: 
1. O Mito da Liberdade Circunstancial: 
A vontade pode ser livre para planejar, mas não para executar. Quando se diz que a vontade é livre, 
obviamente não quer dizer que ela determina o curso da nossa vida. 
Não escolhemos doença. pobreza ou dor; Não escolhemos nossa condição social, nossa cor, ou nossa 
inteligência. 
Ninguém pode negar que o homem tem vontade, e que esta faculdade de escolher o que dizer, fazer, 
pensar, etc. ... tem nos frustrado bastante. Pensando em nossa liberdade circunstancial, podemos 
projetar um curso de ação, mas não podemos realizar o intento. Em outras palavras, nossa vontade 
tem a capacidade de tomar uma decisão, mas não o poder de realizar seu propósito. ( PV 16:9; Jr 
10:23; Lc 12:18-21) 
Sim. O homem pode escolher e planejar o que tiver vontade. Mas a sua vontade não é livre para 
realizar nada contrário à vontade de Deus. 
2. O Mito da Liberdade Ética: 
Diz-se que a vontade do homem é livre para decidir entre o bem e o mal. Mas é livre do que? É livre 
para escolher o que? 
A vontade do homem é a sua capacidade de escolher entre alternativas. A sua vontade, de fato, decide 
qual a sua ação entre um certo número de opções. 
Nenhum homem é compelido a agir contrário à sua vontade, nem forçado a dizer aquilo que não 
quer. Sua decisões não são formadas por uma força externa, mas por forças internas.
10 
A vontade toma decisões, e estas decisões tomadas não estão livres de influências. O homem escolhe 
com base nos sentimentos, gostos, entendimentos, anseios, etc. Em outras palavras, a vontade n ão é 
livre do homem mesmo. Suas escolhas são feitas pelo seu próprio caráter. Sua vontade não é 
independente de sua natureza. 
A vontade é inclinada àquilo que você sente, ama, deseja e conhece. Você sempre escolhe com base 
em sua disposição; de acordo com a condição do seu coração. 
A Bíblia diz que nossa vontade não é livre, ao contrário, ela é escrava do coração - ( Gn 6:5; Rm 3:12; 
Jr 13:23 ). 
A capacidade de escolha do coração do homem é livre para escolher qualquer coisa que o coração 
ditar; assim, não existe qualquer possibilidade de um homem escolher agradar a Deus sem que haja a 
prévia operação da Graça Divina. Note o texto bíblico: "Nós O amamos porque Ele nos amou primeiro" I 
Jo 4:19 
Se carne fresca e salada de tomate fossem colocadas diante de uma leão faminto, ele escolheria a 
carne. É a natureza que dita sua escolha ( Jr. 13:33 ) 
Por isto não existe livre arbítrio. O arbítrio humano, assim como toda a natureza humana, é inclinado 
só e continuamente para o mal. (Jr 13:23). 
Não existe livre arbítrio a menos que Deus mude o coração e crie um novo coração em submissão e 
verdade, o homem não pode decidir por Jesus para Ter a vida a vida eterna. ( Jo 3:7; Ez 11:19; 
36:26; Atos 16:14 ). 
A vontade não é livre. Pelo contrário, ela é escrava, escrava do coração pervertido; escrava da 
natureza ( Jr. 17:9; 12:2; Mc 7:6,21 ). 
Foi a vontade de escolher o fruto proibido que nos atirou na miséria. Só a vontade de Deus tem 
realmente liberdade, e se quiser pode dar vida. (Jo 1:12-13) 
A ORIGEM DA VERDADEIRA LIBERDADE 
(posse non peccare) 
Definição: Liberdade é a capacidade de fazer o que é agradável a Deus. 
Quando Adão e Eva foram criados, tinham a capacidade de escolher como a verdadeira liberdade. Nas 
palavras de Agostinho, nossos primeiros pais eram "capazes de não pecar" (posse non peccare). Eles 
poderiam permanecer no estado de tentação que a serpente lhes impôs. 
Adão tinha o Livre arbítrio, tinha a capacidade de fazer a escolha certa. Possuía a 
verdadeira liberdade. Contudo, ainda não era a liberdade perfeita; era verdadeira, porém não perfeita. Pois 
havia a possibilidade da queda. 
Note as palavras da Confissão de Fé de Westminster, Capítulo IX, seção 2
11 
"O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo 
que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que pudesse decair dessa liberdade 
e poder" 
A VERDADEIRA LIBERDADE É PERDIDA 
(non posse non peccare) 
Quando nossos primeiros pais ( Adão e Eva ) caíram em pecado, perderam aquela Liberdade que o 
Criador lhes havia dado. Perdeu não a capacidade de escolher, mas a verdadeira liberdade, 
ou seja, perdeu a capacidade de escolher aquilo que agrada a Deus. 
Novamente fazemos menção do pensamento de Agostinho. Diz ele: podemos dizer que antes da 
queda, o homem era "capaz de não pecar". Após a queda é "não ser capaz de não pecar" 
(non posse non peccare) 
As Escrituras ensinam de maneira muito clara que a humanidade decaída perdeu a sua verdadeira 
liberdade. (João 8:34; Romanos 6:6,17-20 ) 
A VERDADEIRA LIBERDADE É RESTAURADA 
(posse non peccare) 
No processo de redenção, o homem decaído começa a restaurar sua liberdade perdida na queda. 
Agostinho chamou o estado do homem regenerado de "posse non peccare" - posso não pecar, porque a 
redenção significa libertação da "escravidão vontade". 
Vamos dar um olhada em algumas passagens das Escrituras que mostram que a liberdade para fazer a 
vontade de Deus, é restaurada na regeneração, operada pelo Espírito Santo em nós. (Jo 8:34-36; Gl 
5:1,12,13; II Co 3:17-18; Rm 6:4-6; 14-18; 22 ) 
A verdadeira liberdade não é licença para pecar ; não significa fazer o que bem quiser. Segundo o 
apóstolo Pedro (I Pe 2:16), quem tem liberdade, usa-a para servir a Deus. 
O exercício de nossa liberdade envolve nossa responsabilidade neste processo que chamamos de 
santificação. 
A VERDADEIRA LIBERDADE APERFEIÇOADA 
(non posse peccare). 
Em nosso processo de santificação, que é a verdadeira liberdade no processo de redenção, ainda 
podemos pecar, mas no estado glorificado, na vida por vir, nossa liberdade ser á aperfeiçoada. Então, 
como disse Agostinho; estaremos no estado "não posso pecar" (non posse peccare). 
Quando estivermos com nossos corpos glorificados, já não seremos mais impedidos em obedecer a 
Deus com a perfeição que Ele deseja.
12 
Cf. I Co 15:42-43 ; Ap 21:4 
Esta glorificação não será apenas na alma, mas também no físico. A Imago Dei, ( Imagem de Deus ) 
antes ofuscada por causa do pecado de Adão, chegará a sua perfeição por ocasião da Segunda Vinda de 
Cristo, quando então, seremos ressuscitados e habitaremos para sempre com o Senhor (cf. I Tes. 
4:13-18). 
o estado final dos Santos Glorificados 
Na nossa glorificação, seremos restaurados novamente á perfeita imagem de Deus. Em nosso estado 
glorificado, vamos poder refletir Deus em sua plenitude. Reporto-me ao Dr. Van Groningen, que 
afirmou que Deus ao nos criar á sua imagem e semelhança nos deu três mandatos que delineiam os 
deveres pactuais de Deus com o homem: São eles: os mandatos Espiritual, o Social e o Cultural. 
A glorificação ( a imagem aperfeiçoada ) implica em que : 
A. O Homem passará a ter um relacionamento perfeito com Deus. ( Mandato espiritual 
) 
De acordo com as Escrituras, os remidos na glória vão poder desfrutar da comunhão plena com Deus; 
vão Ter uma visão de Deus na face de Cristo ( ap. 22:4 ); vão desfrutar da completa isenção do 
pecado; vão adorar plenamente o Deus verdadeiro ( Ap. 19:6,7 ). Prestarão um genuíno serviço ao 
Rei das nações ( Ap. 22:3 ). Tudo isso tinha sido perdido na Queda. 
B. O homem passará a Ter um relacionamento perfeito com o próximo (Mandato 
Social) 
No estado glorificado, ou seja, com a Imagem de Deus aperfeiçoada, os santos não mais vão se 
relacionar egoísticamente, não haverá ressentimentos, mentiras, odio ou manipulações. Amor e 
comunhão é o que marcará definitivamente o relacionamento entre todos os irmãos. As diferenças 
desaparecerão. Todos os membros desta Família estarão agora e para todo o sempre na Casa do Pai. 
C. O homem passará a Ter um relacionamento perfeito com o cosmos. ( mandato 
Cultural ). 
Paulo em Romanos 8:21 nos diz que "a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção...". Não 
apenas o ser humano será redimido, mas também toda a criação. Não apenas o homem espera por um 
novo começo, mas também a criação o espera de forma expectante (Ef 8:19). A glória por vir 
também receberá uma criação redimida da corrupção do tempo presente. Em Isaías, Deus já 
prometeu criar novos céus e uma nova terra (vv. 22 e 23) para o seu povo se regozijar. 
Se com a Queda, o homem perdeu o domínio sobre a criação, agora no estado de glória, ele vai 
exercer o domínio, o governo sobre a natureza. Vai herdar a terra. Não mais vai destruí-la como 
antes. Pelo contrário, o homem vai cumprir o mandato e governar sobre toda a terra, ( G, 1:27,28 ) 
agora redimida do cativeiro da corrupção.
13 
AS CONSEQÜÊNCIAS DO PECADO 
Rev. Diego Roberto 
A Queda dos nossos primeiros pais 
Introdução: A queda de nossos primeiros pais, trouxe conseqüências desastrosas não apenas para 
eles, mas também para toda a humanidade. Entender o que aconteceu com Adão e Eva após o 
primeiro pecado é chave para compreendermos a situação em que o homem se encontra hoje. Isto 
porque, Adão não agiu como uma pessoa particular, mas como representante de toda a humanidade. 
I - CONSEQÜÊNCIAS PARA ADÃO E EVA: 
Veja o que nos diz a Confissão de Fé de Westminster : 
"Por este pecado eles decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus, e assim se tornaram 
mortos em pecado e inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da 
alma" Capítulo VI, seção 2 
"Por este pecado", diz a Confissão de Fé de Westminster: 
1) Decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus (imagem desfigurada) 
2) Tornaram-se mortos em pecado (escravos do pecado) 
3) Inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da alma (depravação 
total) 
Ao estudar o texto de Gênesis 3:7-24, vemos as seguintes conseqüências para nossos primeiros pais: 
GÊNESIS 3:7-24 
1-) Após o pecado foram dominados por um sentimento de vergonha. V.7 
Antes tinham consciência da nudez, mas não tinham vergonha. (Gn 2:25) 
"Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram 
para si aventais". (Gn 3:7) 
Antes tinham consciência da nudez, mas não tinham vergonha. Veja o texto abaixo: 
"Ora um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonharam". 
(Gn 2:25)
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O resultado de terem comido o fruto proibido, não foi a aquisição da sabedoria sobrenatural, como 
satanás havia dito (v. 5), ao contrário, agora eles descobriram que foram reduzidos a um estado de 
miséria. 
2-) Após o pecado sentiram o peso de uma consciência culpada (Gn 3:7) 
Agora eles reconheciam que haviam pecado contra Deus, e resolveram fazer vestes de folha de 
figueira para se cobrirem. 
É interessante observar que em Gn 3:7 afirma que os "olhos de ambos foram abertos". Obviamente que 
não se trata de olhos físicos porque estes já estavam bem abertos antes, mas trata-se de olhos 
espirituais, os olhos do entendimento, os olhos da consciência, que agora passam a ver e se acusarem. 
Eles agora "percebem" que estão nús. Perderam o estado da inocência. Percebem não apenas a nudez 
física, mas a nudez da alma que é muito pior, pois esta impede o homem de perceber Deus. 
A nudez de Adão e Eva é a perda da justiça original da imagem de Deus. Todos os seres humanos 
nascem agora ( após a Queda ) nesta condição e as Escrituras dizem que é necessário que recebamos as 
"vestes brancas" - Ap 3:18; "vestes de salvação" - Is 61:10, que é a justiça original que Cristo nos traz de 
volta. 
Eles agora estavam percebendo que a sua condição física espelhava a sua condição espiritual. 
3-) Após o pecado, tiveram medo e fugiram - v.8 
"E ouviram a voz do Senhor Deus que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher 
da prsença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim. E chamou o Senhor Deus a Adão e disse-lhe: Onde estás? E 
ele disse: Ouvi a Tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me" Gn 3: 8-10 
Adão e Eva se escondem ao chamado de Deus. Consciência culpada sempre produz medo e fuga. Mas 
que tolice! Pensaram eles que poderiam se esconder de Deus? 
Pecaram e agora têm medo da sentença condenatória que Deus pode proferir contra eles. O pecado 
os separou de Deus, rompeu a comunhão com Deus. 
E é sempre assim. A menos que a obra de Cristo seja realizada em nosso favor, estaremos frente a 
frente com o juízo de Deus - Hb 2:3. 
4-) Após o pecado procuraram uma solução inútil para seu pecado. Gn 3:7. 
Eles tentam salvar as aparências, ao invés de procurar o perdão de Deus. 
Fabricando aquelas cintas de folha de figueira, eles estavam tão somente fazendo uma tentativa de 
acalmar a própria consciência.
15 
Hoje em dia também é assim. Os descendentes de Adão têm medo de serem descobertos em suas 
transgressões. Mas seu objetivo principal não é buscar o perdão, mas sim, aquietar a consciência e 
fazem isto assumindo o papel de religiosos, parecendo aos outros que est ão bem vestidos. 
Mas não obstante nossas roupas religiosas, o Espírito Santo nos faz ver a nossa nudez espiritual. Não 
adianta dar desculpas esfarrapadas. Precisamos nos humilhar diante daquele que tudo v ê. 
5-) Após o pecado, há uma fuga da responsabilidade - Gn 3:10 
"E ele disse: Ouvi a Tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me" 
Gn 3:10 
Adão tenta encobrir sua culpa, colocando a culpa em Eva (v 12), que por sua vez, culpou a serpente (v 
13). 
Eles não aceitaram a responsabilidade pelo erro. Ao contrário transferiram a responsabilidade para o 
outro. Não é assim também em nossos dias? 
6 -) Após o pecado eles tentaram arranjar uma justificativa - Gn 3:12 
"... a mulher que me deste" 
Adão chega a ser insolente. Ele não disse: "A mulher me deu do fruto e eu comi ...", mas disse: "A 
mulher que Tu me deste ...". Em outras palavras, Adão disse: "Se tu não me tivesses dado essa mulher, 
eu não teria caído". 
Hoje em dia, nós podemos estar fazendo o mesmo. Em nossos esforços de se justificar, acabamos por 
culpar a Deus dos pecados que cometemos - Pv 19:3. 
Exemplos: 
• A razão tentou eximir-se de culpa, culpando o povo Ex 32:22-24. 
• Saul fez o mesmo - I Sam 15:17-21. 
• Pilatos deu ordem para crucificar Jesus e depois atribuiu o crime aos judeus - Mt 27:24. 
7-) Após o pecado, a mulher daria a luz em meio a dores ( Gn 3:16-19) 
Nesta sentença que Deus profere contra a mulher, vemos que a maldição foi mitigada. Isto porque, a 
gravidez era uma bênção visto que a mulher daria à luz e se multiplicaria sobre a terra e o descendente 
nasceria para pisar a cabeça da serpente. Mas a dor e o desconforto do parto são conseqüências da 
queda. 
8-) Após o pecado, a Terra foi amaldiçoada. (Gn 3:17) 
A natureza sofre junto com a humanidade, compartilhando assim as conseqüências da queda.
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As Escrituras descrevem esta maldição em três maneiras: 
a) O sustento será obtido com fadiga v 17. 
Assim como a mulher terá seus filhos com dor, o homem haverá de comer o fruto da Terra por meio 
de trabalho penoso. Antes da queda, o trabalho de Adão no jardim era prazeroso e agradável, mas de 
agora em diante, seu trabalho, bem como o dos seus descendentes será seguido de cansaço e 
tribulação. 
b) A Terra produzirá cardos e abrolhos v 18. 
O cultivo da terra seria mais difícil do que antes. Cardos e abrolhos aqui significam: plantas 
indesejáveis, desastres naturais, enchentes, insetos, secas e doenças. A natureza foi subvertida com o 
pecado do homem. (Rm 8:20-21). 
c) No suor do rosto comerás v 19. 
O trabalho árduo se tornaria a porção do homem. A vida não seria fácil. 
9-) Após o pecado, a morte alcança o homem - v 19: 
A palavra "morte" ocorre na Bíblia, com 3 sentidos diferentes, embora o conceito de separação seja 
comum aos três: 
a) Morte Física: Ecl 12:7 
b) Morte Espiritual: Rm 6:23; 5:12 
c) Morte Eterna: Mt 25:46 
10-) Após o pecado, foram expulsos da presença de Deus - Gn 3:22-24. 
Estar fora do jardim era equivalente a estar fora da presença de Deus. Era a ira de Deus se revelando 
aos nossos primeiros pais pela desobediência deles. (Judas 6) 
II - AS CONSEQÜÊNCIAS PARA A RAÇA HUMANA: 
No tópico anterior vimos que a queda trouxe conseqüências desastrosas para os nossos primeiros pais. 
Mas estas conseqüências não ficaram restritas apenas ao Édem. Toda a raça humana sofre as 
conseqüências do pecado dos nossos primeiros pais. 
Assim se expressa a nossa Confissão de Fé: 
"Sendo eles ( Adão e Eva ) o tronco de toda a humanidade, o delito dos seus pecados foi imputado a seus 
filhos; e a mesma morte em pecado, bem como a sua natureza corrompida, foram transmitidas a toda a
17 
sua posteridade, que deles procede por geração ordinária" Capítulo VI, 3 (Sl 51:5; 58:3-5; Rm 
5:12, 15:19) 
Em vista da queda, o pecado tornou-se universal; com excessão do Senhor Jesus, nenhuma 
pessoa que tenha vivido sobre a terra esteve isenta de pecado. 
Esta mancha que atinge a todos os homens recebe o nome na Teologia de PECADO ORIGINAL. 
Vamos estudá-lo agora. 
O PECADO ORIGINAL 
O que é o pecado original? Usamos esta expressão por três razões: 
1ª) Porque o pecado tem sua origem na época da origem da raça humana. Em outras palavras, é 
pecado original porque ele, se deriva do tronco original da raça. 
2ª) Porque é a fonte de todos os pecados atuais que mancham a vida do homem. 
3ª) Porque está presente na vida de cada indivíduo desde o momento do seu nascimento. 
O pecado original pode ser dividido em dois elementos: Culpa original e Corrupção original. 
1-) Culpa original: Culpa real e pena real. 
A culpa é o estado no qual se merece a condenação ou de ser passível de punição pela violação de uma 
lei ou de uma exigência moral. 
Podemos falar de culpa em dois sentidos: 
• Culpa Potencial ou Culpa de Réu ( Inerente ao ser humano ) 
Esta culpa é inseparável do pecado, jamais se encontra em quem não é pecador e é permanente, de 
modo que, que uma vez estabelecida não é removida nem mesmo com o perdão. Ela faz parte da 
essência do pecado. 
Os méritos de Jesus Cristo não tiram esta culpa do pecador porque esta lhe é inerente. O fato de Cristo 
Ter morrido pelo pecador não o torna inocente, mas apenas livre da condenação, livre da penalidade da lei, 
justificado portanto. 
• Culpa (de fato) Real ou Pena do Réu: 
Esta culpa não é inerente ao homem, mas é o estatuto penal do legislador, que fixa a penalidade da 
culpa. Pode ser removida pela satisfação pessoal ou vicária das justas exigências da lei.
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É neste sentido que Jesus levou nossa culpa, isto é, pagando a penalidade da lei. Jesus não levou nossa 
culpa potencial, mas sim nossa culpa real. Em outras palavras, Jesus n ão levou nossa culpa, pagou 
nossa pena. 
2-) Corrupção original: O pecado inclui corrupção. 
Por corrupção entende-se a poluição ou contaminação inerente à qual todo pecador está sujeito. É 
uma realidade na vida de todos os homens. É o estado pecaminoso, do qual surgem atos pecaminosos. 
Enquanto a culpa tem a ver com a nossa posição perante a lei, a corrupção tem a ver com a nossa 
condição perante a lei. 
Como uma implicação necessária de nosso comprometimento com a culpa de Adão, todos os seres 
humanos nascem em um estado de corrupção. 
Esta corrupção que se propaga e afeta todas as partes da natureza humana recebe o nome de 
Depravação Total e que resulta numa incapacidade total. 
Vejamos agora em nosso próximo estudo, os dois aspectos da Corrupção original: Depravação Total 
ou Generalizada e a Incapacidade Espiritual. 
"...homem e mulher os criou" 
Pr. Gilson Aristeu de Oliveira 
"Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora que lhe seja idônea. 
Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre o homem, e este adormeceu; tomou -lhe, então, uma das 
costelas, e fechou a carne em seu lugar; e da costela que o Senhor Deus lhe tomara, formou a mulher e a trouxe ao 
homem. Então disse o homem: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; ela será chamada varoa, 
porquanto do varão foi tomada. Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e 
mulher os criou. Então Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-ado; 
m inai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra". (Gn 
2. 18, 21-23; 1.27,28) 
"Homem e mulher os criou" diz a Escritura Sagrada e nessa pequena expressão está todo o mistério de 
ser adam, o ser humano como Deus o criou. O homem e a mulher são iguais em dignidade e destino 
sobrenatural, mas tão paradoxais com respeito à natureza humana. E por conta das diferenças, aliás, 
significativas diferenças, já houve quem dissesse que eles pertencem a planetas distintos: o homem é 
da Terra, mas a mulher veio de algum outro planeta... É uma alienígena! Pensa e reage de modo tão 
diferente! Há quem seja muito ferino com a mulher. Por exemplo, Catão, pensador romano, disse: 
"Consente que a mulher, uma só vez, chegue ao pé de igualdade contigo [estava falando a um 
homem], e desse momento em diante, ela se tornará superior a ti". Vejam, porém, o que uma mulher 
disse a respeito das outras mulheres. Foi Mme. de Staél assim se expressou: "Alegro-me por não ser 
homem, já que o sendo teria que me casar com uma mulher." No entanto, Plutarco opinou: "As 
mulheres, quando amam, põem no amor algo divino. Esse amor é como o Sol que anima a Natureza." 
Que coisa linda disse ele a respeito do amor feminino!
Escola Missionaria Eclesiástica V.N.D 
19 
Nada disso invalida o relevante fato que homem e mulher têm visões diferentes do mundo, da vida, 
do amor, mas se completam. E um escritor evangélico dos nossos dias, o Pr. Jaime Kemp, também 
deu a sua opinião dizendo que "Eva foi criada para ser a peça que faltava no quebra-cabeça da vida de 
Adão" . 
COMPREENDENDO AS DIFERENÇAS 
Homem e mulher são iguais, mas são diferentes. Que contradição é essa? São iguais na mesma vida 
vegetativa e faculdades sensoriais, são iguais nos mesmos atributos intelectuais e no mesmo destino 
natural e sobrenatural, nas mesmas causas comuns. E, no entanto, são tão diversos, visto que cada 
sexo tem características próprias. Se o homem tem maior força física, e é preparado para grandes 
esforços nesse campo, a mulher tem muito mais força intrínseca, como que preparada para não gemer 
enquanto sofre, nem cansar. A mulher tem graça, tem ternura, tem feitio delicado. E se o homem se 
doa ao trabalho, e dele faz o seu centro de interesse; a mulher se doa integralmente a quem ama 
(marido, filhos), e faz do lar o seu centro de atenção. Se ele busca o exercício do poder, da chefia, da 
conquista do mundo exterior, da imposição de ideais; ela atua mais diretamente sobre aqueles a quem 
ama. É de uma presença impressionante no seu lar. Se ele tem espírito de decisão, de iniciativa, uma 
visão segura e clara dos objetivos (por isso, é "chefe de família"), ela possui delicadeza, sensibilidade, 
dedicação, beleza física, e o dom da maternidade física e espiritual (por isso é chamada "mãe de 
família"). 
As diferenças não devem se tornar obstáculo ao amor. Pelo contrário, ambos devem conhecê-las, 
identificá-las, aceitá-las e não considerá-las como barreira, como pedra-no-meio-do-caminho do amor 
e do casamento. É verdade que desentendimentos até podem surgir por conta dessas diferenças. 
Acontece, e muito. Não esqueçamos, no entanto, que para o equilíbrio do lar é fundamental que 
homem e mulher coexistam, e coabitem (mesmo que ela seja de outro planeta!), mas vivam com suas 
características. Aliás, nem devemos olhar para isso, nem devemos olhar para as divergências, senão 
para o seu aspecto de complementação. Não foi assim que o Senhor projetou?: "Não é bom que o 
homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora que lhe seja idônea". (Gn 2.18). Uma ajudadora, uma 
auxiliadora, uma complementação naquilo que o homem não sabe nem pode fazer; ajudadora que 
esteja à sua altura, "que lhe seja idônea", diz o texto. É por essa razão que temos dentro de nós forças 
poderosíssimas que agem sem que, sequer, percebamos. E uma delas é a busca do caráter oposto. É a 
necessidade da antítese, e esse é o milagre do amor: são dois necessitados que se completam. 
CONTINUANDO AS DIFERENÇAS 
Nietzche, filósofo extremamente racional do século passado, e, ao mesmo tempo, muito cínico, 
desejando expressar a natureza da mulher deixou o seguinte: "Tudo na mulher é um enigma, e tudo 
na mulher tem uma solução: chama-se gravidez." 
Há estruturas psíquicas bem distintas no homem e na mulher. Já sabemos que o homem pensa de um 
jeito, e a mulher pensa de outra maneira. Elas decorrem do fato que a natureza guiada por Deus n ão 
sobrecarrega as criaturas de atributos de que não necessitam,. Isso quer dizer que em cada ser, em 
cada criatura, uma é forte e expressiva nas qualidades de que precisa. Assim, o homem tem certas 
qualidades que não se encontram na mulher, e vice-versa. Aí se completam. Precisam disso para 
cumprir as suas tarefas, mas são fracos, razão porque um necessita do outro, completando-o. O 
homem tem tudo o que falta à mulher, e vice-versa. Ou seja, virtudes masculinas na mulher são 
defeitos, como modos femininos no homem não são convenientes
20 
Este não é um trabalho sobre psicologia científica. A ênfase há de ser não exatamente nas diferenças, 
mas em como conhecê-las e administrá-las, ou como utilizá-las adequadamente, e assim enriquecer a 
vida do casal. E sabem o quê? Nem sempre a mesma palavra ou expressão significa a mesma coisa para 
o homem e para a mulher. Por exemplo, que significado tem a expressão "lua de mel" para certos 
homens? Que significa a mesma expressão para as mulheres? Quando faço as entrevistas pré-matrimoniais, 
essa é uma das perguntas. Exatamente isso: "Que significa para você, minha filha, "lua 
de mel?" E, geralmente, vem uma idéia tão romanceada para a moça, e ela pretende ficar em lua de 
mel toda a vida. O rapaz, quantas vezes, tem outra idéia, e discutimos as duas, e chegamos a uma 
síntese. 
O traço basilar da natureza masculina é a dinâmica. E é por esse motivo que todo menino brinca 
pensando em um algo que o leve para longe. "Você quer ser o quê?" E ele fala: "Aviador (marinheiro, 
astronauta, caminhoneiro)". Isso é coisa de menino: ele foi feito para a ação, para a combatividade, 
para o trabalho pesado. Mas a mulher é delicada. É delicada mas não é fraca. É corajosa diante da dor. 
E um médico pediatra amigo meu dizia "Mãe não cansa." Mas não é uma questão de força física. É 
verdade que ela sofre variação no seu temperamento; é dada à depressão em certos momentos; tem 
alegria no outro momento. Aliás, o marido não deve se alarmar com isso, não; compreenda sua 
mulher: há momentos da vida em que ela está altamente deprimida; talvez na hora seguinte ela esteja 
diferente e o marido que não conheça e compreenda essa diferença feminina vai ter muitos problemas 
em casa, porque não vai entender a pobre da sua mulher. Conseqüências: ela espera do marido 
proteção, segurança, estabilidade, e ele não as dá. 
Por outro lado, falando em tese, o pensamento masculino é devagar, abstrato, mas tem muita lógica. 
Já perceberam que os sistemas filosóficos, que as grandes teorias científicas, as fórmulas universais 
vieram todas de homens com seus pensamentos puxando à lógica e à abstração? E aí a mulher vai 
exclamar amargurada: "Meu marido não me compreende..." É difícil mesmo!... Nicolas Berdiaeff 
deixou registrado que "existe uma profunda e trágica desinteligência, uma estranha e dolorosa 
incompreensão entre o amor do homem e da mulher." E dizem que a Esfinge propunha o seguinte 
enigma: "Decifra-me ou devoro-te" (não é de espantar que a Esfinge fosse uma mulher). 
O traço fundamental da natureza feminina é a estática. Daí que o homem, que é dinâmico, estaria 
perdido sem a mulher (como Deus fez tudo tão perfeito!) Seu pensar é intuitivo, e não é incomum, 
não é fora de comum, ouvirmos da esposa: "Sinto que é assim." E aquelas mulheres que dizem para os 
maridos: "Tome cuidado com Fulano; ele tem alguma coisa em que eu n ão confio." É muito próprio 
da mulher ser intuitiva. Desse modo, não foi por acaso que na Idade Média muitas mulheres foram 
queimadas como feiticeiras, somente porque estavam exercitando o seu poder de intui ção. Entre os 
gregos, a Sabedoria era representada como ... uma mulher: Atenas. Em Delfos, havia um oráculo, 
uma profetisa, e era... uma mulher. Quem venceu Sansão, aquele homem de força extraordinária 
debaixo do poder de Deus? Quem o venceu senão... uma mulher muito astuciosa. César levou 
dezessete anos para vencer o Norte da Europa; Cleópatra o venceu em dezessete dias... Isso é bem 
coisa de mulher. 
Pois é; são essas as filhas de Eva: sentidos mais agudos que os do homem, ouvido mais apurado que o 
do homem, e o povo até diz que "coração de mãe não dorme." E como dizia o médico nosso irmão 
em Cristo, "mãe não cansa".
21 
O homem tem visão de conjunto, mas a esposa tem visão de detalhes. E ela se influencia mais 
facilmente e decide com o coração. Quantas vezes é impulsiva, tem juízo rápido; ele usa a reflexão, 
decide com a cabeça. E como conseqüência, pela visão global das coisas, fixa normalmente os 
objetivos remotos; enquanto a esposa, pela dedicação, pelo senso do particular, pela acuidade realiza 
esses objetivos. Por isso, é preciso haver essa indissolubilidade, essa solidariedade entre ele e ela. 
AINDA AS DIFERENÇAS 
O homem está mais preocupado em conquistar do que ser conquistado, razão porque o Espírito Santo 
através de Paulo ordena aos homens: "Maridos, amai a vossas mulheres, como também Cristo amou a 
igreja, e a si mesmo se entregou por ela" (Ef 5.25). É da natureza masculina o conquistar. Está pouco 
atento aos detalhes, e até parece, apenas parece, desinteressado na esposa. 
A mulher tem afetividade como centro da sua personalidade. A mulher é um grande coração! É mais 
receptora ao amor, e o exprime através de certas coisas pequenas: a maneira como se veste, como 
coloca flores na casa, como prepara os pratos na hora do almoço (a sabedoria popular diz que "O 
coração do homem se alcança pela boca"), e outros pequenos detalhes. Meu irmão querido, observe 
essas coisinhas pequenas na sua casa porque a sua esposa está lhe dizendo não com palavras, "eu te 
amo". 
Lição: o marido deve procurar compreender essas pequenas delicadezas, e manifestar o amor. Ao 
passo que não deve a esposa armar uma tragédia grega dizendo que ele não a ama se esquecer alguma 
data. Marido é muito desligado disso mesmo, de esquecer datas! Já imaginou a data em que vocês se 
encontraram pela primeira vez, e ele se esqueceu desse dia tão importante na vida dos dois?! Em vez 
de armar um escândalo porque ele esqueceu, sugira antes, dois dias antes: "Mas que bom, n ão é, que 
daqui a dois dias vamos completar o aniversário de nosso primeiro encontro..." Faça uma sugestão de 
leve que dá muito mais resultado do que reclamar do esquecido do marido. 
Nós temos atitudes diferentes quanto ao lar e quanto à sociedade. O homem é inclinado para o 
exterior. E mais uma coisa: reclamação não prende o homem em casa! Não reclame, não: é pior; aí é 
que ele quer sair mesmo. Reclamação não vai tirar o homem do baba (como se diz Bahia), da pelada, 
ou de grupos ou de sociedades que ele freqüenta. 
Para a mulher, o centro vital é o lar, é quase como extensão de sua capacidade de ser mãe, um 
psicólogo completou dizendo que para a mulher, o lar é como se fosse uma extensão do seu útero! E 
como é doloroso descobrir no começo do casamento que você não é o mundo do seu marido. Mas sua 
religião, sua espiritualidade é muito mais sentimental e afetiva, e a prática religiosa se torna uma 
necessidade espontânea dentro de casa. No caso, a espiritualidade dele é às vezes mais fria, e, às vezes, 
mais por dever do que por servir. 
Para harmonizar essas diferenças, necessário se torna o trabalho contínuo, e o desejo de adaptação. 
Procure, portanto, não atribuir aos gestos e palavras do outro um segundo significado. Há muita gente 
que quer fazer isso: Porque ele disse uma coisa, ela lê outra; ela disse uma coisa, ele escuta outra. 
Talvez não seja isso o que ele está dizendo, não é o que ele queria dizer. Mas não use também as 
características próprias do sexo para encobrir ou justificar defeitos individuais seus. O marido é 
professor, está no sofá lendo, meditando ou estudando. A esposa chega e diz: "Já que você não está 
fazendo nada, venha me ajudar com essa pia entupida (ou com essa escada, etc.)." Pronto; matou o 
casamento! Ele está fazendo alguma coisa: está se preparando, está estudando, está se melhorando;
22 
Não é que não esteja fazendo nada. Ou no caso daquele outro que gosta de trabalhar com as m ãos, 
pegar na tinta, no pesado. Quando sai, deixa a sujeira no chão. A mulher que se identifica tanto com a 
casa que não pode ver sujeira, diz assim: "Sujou a casa, limpa depois." Ele, porque n ão compreende, 
também ridiculariza o quadro que ela começa a pintar, o tapete que começa a tecer, e diz algo que 
machuca a alma da esposa. 
Os tipos humanos são também, diferentes. Há os extrovertidos que amam sair, amam o movimento, 
são "rueiros"e festeiros. Há pessoas que são introvertidas, são tranqüilas, caseiras, mais apreciadoras 
de um livro do que de bater perna no shopping. Por instinto, um homem muito racional vai se casar 
com uma mulher muito sentimental. Isso não é problema, não. O problema é querer fazê-la entender 
a linguagem da razão, a linguagem objetiva, exata, e dizer que ela não tem lógica quando explode 
sentimentalmente. Ela, por sua vez, reclama que o tom racional do marido esteriliza os sonhos e a 
própria vida. Na verdade, uma é a linguagem das ciências exatas, outra é a linguagem das metáforas. 
Jesus até a usou. Veja Mateus 13.1-23. A metáfora está nos versos 3 a 9. Ele não disse "quem tem 
ouvidos para ouvir ouça"? Mas, nem todos tinham. Por isso, Ele explicou, e recontou-a nos versos 18 
a 23. 
Esses aparentemente díspares (os conceitos exatos e as expressões metafóricas) são perfeitos para a 
união do casal, para que se completem. Talvez o casal não saiba administrar essa união, e quando 
perderem o outro, vão dizer "Eu era feliz e não sabia". 
É verdade; há diferenças entre o homem e a mulher. Por isso se necessitam tanto, e, ao mesmo 
tempo, têm tanta dificuldade de se conhecerem. É o homem que discute o futuro, é a mulher que 
reage ao momento presente ("Deixa de conversar bobagem - diz ela - e vem ajudar o menino a fazer 
os deveres"). Creio que é esse gosto pelo presente e por detalhes que faz com que a conversa nas 
rodas de mulheres casadas seja principalmente em um desses três temas: filhos (ou netos), empregadas 
ou cirurgia que já fizeram, ou precisam fazer. São assuntos imediatos, é coisa de mulher! Já o marido 
pega o jornal, pronto, ela se sente infeliz e abandonada. 
O USO DA PALAVRA 
E o uso da palavra? Para o homem, a palavra é expressão de idéias e expressões. Mas para a mulher, é 
expressão de sentimentos e emoções, razão porque conta oito vezes a mesma história para o marido. 
Ela não quer informá-lo, não: quer descarregar a emoção. Lá fora, usam dizer que mulher fala demais, 
"Fala pelos cotovelos", e um teólogo curioso e criativo disse que no céu haverá um momento de 
grande tormento para as mulheres, descrito em Apocalipse 8.1: "Quando abriu o sétimo selo, fez-se 
silêncio no céu, quase por meia hora." Uma tortura para as mulheres essa meia hora de sil êncio! 
A mulher quer a palavra. Foi perfeitamente pertinente, então, que a palavra se tenha feito carne no 
ventre de uma mulher. E porque a palavra significa emoção, ela quer ouvir do marido (não importa se 
duzentas vezes) a expressão mágica "Eu te amo". É o carinho da palavra. E ela quer ouvir, apesar de o 
saber. Há uma historinha que diz que a esposa reclamou do marido: "Você já não diz que me ama..." 
E ele responde: "Olha, nós estamos casados há 17 anos. No dia do casamento eu disse que a amava e 
basta; não precisa dizer mais; não já disse diante das testemunhas? " Ela quer ouvir, apesar de o saber, 
porque a mulher é conquistada e seduzida pelo ouvir. Não foi assim que a nossa mãe primeira foi 
seduzida e conquistada pela palavra da serpente? (cf. Gn 3.1-6).
23 
Por outro lado, há maridos que não sabem dizer "Eu te amo", mas falam como podem ou sabem: é 
aquele vestido que dá de presente, é aquele jantar fora um dia, e assim por diante. 
CASE-SE COM ELE E TAMBÉM COM... 
Minha irmã querida, case-se com ele e também com a profissão dele. O filósofo espanhol Ortega Y 
Gasset disse que o homem é ele e suas situações de vida ("Eu sou eu e as minhas circunstâncias"). O 
médico, por exemplo, não tem hora; o pastor vive em função da igreja 24 horas no ar; o professor, da 
sala de aula; o comerciante, do seu comércio. De modo que nunca fale da profissão dele com 
desprezo; e nem fale da profissão dela, meu irmão, como coisa desnecessária. 
E mais uma coisa: não reclame se ela vai tanto ao salão de beleza. É para você que ela está se 
embelezando; é para você que ela está ressaltando essa beleza. Ela quer que você a veja e aprecie. 
Vejam que encontro bonito descrito em Gênesis 24. 63-65: 
"Saíra Isaque ao campo à tarde, para meditar; e levantando os olhos, viu, e eis que vinham camelos. Rebeca 
também levantou os olhos e, vendo a Isaque, saltou do camelo e perguntou ao servo: Quem é aquele homem que 
vem pelo campo ao nosso encontro? Respondeu o servo: É meu senhor. Então ela tomou o véu e se cobriu". 
Modéstia por um lado (a modéstia oriental, as mulheres se cobriam como o fazem ainda hoje nos 
países árabes), mas, ao mesmo tempo, ela se embelezou para Isaque. Por que não dizer para ela, 
então, no espírito do Cântico dos Cânticos: "Tu és toda formosa, amada minha, e em ti não há 
mancha. Quão doce é o teu amor, minha irmã, noiva minha! Quanto melhor é o teu amor do que o 
vinho! E o aroma dos teus ungüentos do que o de toda sorte de especiarias!" (4.7,10). Aliás, a mulher 
é por natureza vaidosa. Veja a reação das mulheres quando passam diante de um espelho. ("Espelho, 
espelho meu, existe outra mulher mais bonita do que eu?"). 
Porque nós somos iguais e diferentes; porque temos iguais e diferentes necessidades; porque a irm ã 
necessita ser protegida, acariciada e amada: porque o irmão precisa de ser igualmente elogiado, 
apreciado, é que há certas condições. Sim; a mulher quer isso mesmo: ser amada e protegida 
(necessidade é o que cada um deseja para se manter equilibrado), mas quer liberdade para exercer os 
seus papéis de mãe, esposa e profissional, e as pequenas expressões de carinho e interesse significam 
para a mulher muito mais, muito além do que nós, os homens, podemos imaginar. Ela deseja que o 
marido seja amante e companheiro, mas delicado. 
E o seu marido também, amada irmã, precisa saber que é competente, é digno de confiança, deseja 
uma esposa que cuide do lar, dos filhos, e que se interesse pelo seu trabalho, mas n ão reclame dos 
seus passatempos. Queixas e reclamações não resolvem! Pelo contrário, o que eu encontro nos 
Provérbios é até uma condenação: "As rixas da mulher são uma goteira contínua" (Pv 19.13b). 
Imagine uma goteira pingando durante toda a noite? E também: "Melhor é morar numa terra deserta 
do que com a mulher rixosa e iracunda." (Pv 21.19) Está na Escritura... Agora, só para as irmãs um 
segredinho de um homem para as mulheres (os companheiros que me perdoem): o homem cede 
muito mais (muito, muito mais) a uma suave persuasão e um tratamento sedutor que às reclamações e 
exigências. 
DIÁLOGO 
Muito ajuste de diferenças se resolve com diálogo. Palavrinha boa! Diálogo significa "através (dia) da 
palavra (logos)". É o que alguém chamou de "O dever de sentar-se". É preciso sentar para conversar,
24 
sentar para trocar idéias, porque diálogo no casamento é o encontro da psicologia masculina com a 
feminina. Diálogo é avaliação. E um pensador disse que "Ainda não nos conhecemos porque não 
tivemos ainda a coragem de nos calar juntos" (Maeterlinck). O dever de sentar-se e avaliar o 
casamento é a três: O Senhor nosso Deus e o casal; é diálogo sob o olhar de Deus. E para esse diálogo 
há condições: 
• é preciso respeitar o outro, por isso use linguagem afetuosa. 
• É preciso saber escutar, razão porque Jesus Cristo mandou que nos amássemos, e não que nos 
amassemos uns aos outros. 
• Buscar compreender as necessidades do outro. Se alguém tem sede, guaraná não serve. Se a 
esposa precisa de atenção, não adianta dar uma pulseira. Aliás, dê a pulseira e atenção! 
Dialogar não é reclamar, (pode até sê-lo), mas é, realmente, sorriso, perdão, colocar na mesa 
problemas, sucessos, alegrias e preocupações; é troca de idéias, e se insere na linha da 
comunhão. No casamento e no diálogo, marido e mulher estão em pé de igualdade; são 
companheiros ("companheiro" é aquele que come pão comigo: co+panis ), e são camaradas 
("camarada" é quem habita a mesma câmara, o mesmo quarto). Diálogo é um encontro das 
psicologias masculina e feminina, já o dissemos. Outrossim, além das palavras, a oração é 
diálogo, o passeio a dois é diálogo, o passeio com os filhos também é diálogo. 
Sim; orem juntos; escolham a melhor hora de conversar; procurem definir o problema b ásico. Onde 
há acordo? Onde está o desacordo? Ouça primeiro, e só depois responda, porque até para isso a 
Escritura tem uma recomendação: "Responder antes de ouvir, é estultícia e vergonha." (Pv 18.13; cf. 
Tg 1.19). Como você pode contribuir para resolver? 
Termino com este poema que diz: 
AMOR 
És a minha amada, 
és minha 
e eu sou teu. 
Está escrito. 
Uniremos 
nossas almas e corpos 
e ficaremos ligados 
em corpo e almas. 
Está escrito. 
E nem o vento 
que sopra do deserto, 
nem o tempo 
que desgasta, 
nem a morte 
que amedronta , 
nem os sensatos 
que falam de razão,
25 
nada destruirá 
o nosso amor, 
porque o nosso amor 
é um baluarte 
e os aguaceiros 
da vida 
não poderiam extingui-lo 
porque ele é 
uma chama de Deus, 
e o fogo de Deus 
arde para além 
de todos os dilúvios. 
Está escrito: 
amar 
é penetrar 
nas fronteiras de Deus. 
Seremos uma porta aberta: 
a quem entrar 
serviremos a Festa 
com colares 
engranzados de nuvens, 
oferecer-lhe-emos 
o nosso riso 
como presente para levar, 
abrir-lhe-emos 
as mãos 
para receber em depósito 
todos os fardos. 
Seremos 
uma só taça derramada, 
seremos 
um só corpo oferecido, 
entregar-nos-emos 
à festa da vida. 
QUEM SOMOS? 
Pr. Gilson Aristeu de Oliveira 
Nossa reflexão é sobre identidade. Que nos identifica como cristãos, salvos, regenerados, nascidos de 
novo, tornados novas criaturas? Que convocação, chamada, temos da parte de Deus Pai que faz 
diferença no mundo em que vivemos e atuamos? 
DEUS NOS CHAMA PARA QUE SEJAMOS ADORADORES 
A tarefa primordial da Igreja de Jesus Cristo é celebrar o Seu Nome, adorá-Lo, cultuá-Lo. Afirmou o 
Senhor Jesus Cristo em João 4.23,24: "Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores
26 
adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é 
Espírito, e é necessário que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade". Tudo o mais é 
decorrente do culto. 
Foi para cultuar e adorar a Deus que fomos trazidos à fé e à salvação. Deus nos convoca para a 
adoração. No entanto, em muitos casos, apenas nos divertimos. Fomos chamados para cultuar, mas 
fazemos na igreja paródia de teatro, de circo, de programa de auditório; 
somos espectadores, quantas vezes, mas não cultuantes. 
O objetivo da adoração é despertar a consciência da santidade de Deus. Um aspecto do culto é 
encontrado em Romanos 12.1: "Rogo-vos pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os 
vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional". 
O verdadeiro culto, então, é medido pela transformação de quem cultua pelo fato de estar na 
presença de Deus. Mede-se por uma nova visão de Deus, por uma compreensão que torna a 
caminhada diária, a aventura do dia a dia mais profunda com Deus na nossa vida, com Cristo no nosso 
coração, com o Espírito Santo segurando a nossa mão. O verdadeiro culto incomoda a nossa vida e o 
modo como temos vivido. Que falta em nossos dias em relação a essa reverência e temor a Deus? O 
que anda acontecendo em muitas igrejas evangélicas é mais programa de auditório que profundidade 
na palavra. 
Mas há quem prefira o raso de uma religião infantil à profundidade do culto racional, do culto em 
espírito e do culto em verdade. E deste modo, quando o crente está com a sua vida apagada e cheia de 
desobediência, e de rebeldia e de pecado, o louvor não sai 
DEUS NOS CHAMA PARA QUE SEJAMOS INTERCESSORES 
Oração é um fenômeno espiritual. Consiste numa queixa, num grito de angústia, num pedido de 
socorro. Consiste numa serena contemplação de Deus, princípio imanente e transcendente de todas as 
coisas. 
A oração é um ato de amor e adoração para com Aquele a Quem se deve a vida. Ora-se como se ama, 
ou seja, com todo o nosso ser. Não há necessidade de eloqüência para que seja atendida. Foi o caso do 
cego Bartimeu, que ao ouvir que Jesus estava passando, exclamou "Jesus, filho de Davi, tem 
misericórdia de mim!" Mc 10.46ss). Ele só tinha o grito. Nada mais. 
Oração é uma batalha. Para essa batalha, temos que vestir a armadura do crente (Ef 6.11). Nela, 
enfrentamos hostes espirituais, os poderes de Satanás. Oração é prestar atenção a Deus. Você tira 
tempo para falar com Ele, o Pai, e, também, para ouvi-Lo . 
Grandes intercessores na Bíblia não escolhem lugar para orar: Agar orou no deserto (Gn 21.16); 
Moisés fez acabar uma rebelião com oração (Ex 15.24,25); Ana teve um filho como resposta à oração 
(1Sm 1.27,28); Samuel derrotou uma nação inimiga pela oração (1Sm 7.9,10); Gideão provou a 
vontade de Deus através da oração (Jz 6.39,40); Elias pela fé e oração venceu os profetas de Baal (1Rs 
18.37,38); Davi pediu misericórdia (Sl 51.10ss); Salomão santificou a Casa de Deus pela oração (2Rs 
20.1,2,5); Ezequias acrescentou anos à vida pela oração (2Cr 18.3); Josafá saiu de uma situação difícil
27 
pela oração ((2Cr 18.3); Daniel pediu auxílio pela oração (9.16); Esdras recebeu orientação divina 
porque orou (Ed 8.21,22); Zacarias viu o sonho de sua vida realizado pela ora ção (Lc 1.13). 
Você pode ser intercessor em qualquer lugar: Ezequias orou na cama (2Rs 20.1); Jonas em alto mar 
(Jr 2.1); Jesus o fez no Calvário (Lc 23.34); Jairo, na rua (Lc 8.41); Pedro orou no terraço (At 10.9); 
Paulo e Silas estavam na prisão (At 16.25), e um criminoso não nomeado o fez nos seus últimos 
momentos de vida (Lc 23.42). 
Ora-se como se ama: com todo o ser. Não há necessidade de eloqüência para ser atendido, já o 
dissemos. Pedro fez uma oração com três palavras (Mt 14.30); o publicano com sete palavras (Lc 
18.13); Salomão fez uma longa oração na consagração do templo (2Cr 6.12-42). 
Mas, como orar? A Bíblia é tão clara... 
· Sem hipocrisia, exorta-nos Mateus 6.5. Hipocrisia é uma representação, uma peça de teatro; é faz-de- 
conta com extrema maldade (Mt 15.7,8). 
· Secretamente, ensina Mateus 6.6. Isso corresponde, até, a ficar a sós com Deus mesmo na multidão. 
· Com fé, atesta Hebreus (11.6). 
· De modo definido como o declara Mateus 6.7,8 e Marcos 11.24. 
· Com insistência, mesmo (Lc 18.1-7; Mt 15. 21.28). 
· Com submissão fala Romanos 8.21, aguardando o que Deus quer fazer em nós. 
· Com espírito de perdão, como expresso em Marcos 11.25,26. 
· E, por fim, em nome de Jesus(Jo 14.14). 
Muita oração deixa de ser atendida por falta desses importantes elementos ou pela presença de 
motivos indesejáveis. São orações estéreis pelo egoísmo, mentira, orgulho, falta de fé e de amor, 
teimosia e desobediência a Deus (Zc 7.12,13; Dt 1.45; Pv 28.9), Pecado (Sl 66.18; Is 59.2; 1.15; Mq 
3.4; Sl 66.18), desarmonia no lar ((1Pe 3.7); vaidade (Jó 35.12,13), falta de perdão (Mt 6. 14,15), 
indiferença (Pv 1.28), amor próprio exaltado e maus objetivos (Tg 4.3). 
De tudo isso, decorre que quem ora tem senso de incapacidade e insuficiência, compreende necessitar 
de ajuda extra e clama a Deus. Paulo disse "A nossa suficiência vem de Deus" (2Co 3.5), e Jesus 
exortou que "... sem mim nada podeis fazer" (Jo 15.5b). Quem ora tem fé (Hb 11.6). Se quer ser 
atendido, ore com fé (Mt 21.21,22; Jo 11.40). 
DEUS NOS CHAMA PARA QUE SEJAMOS FACILITADORES (1Co 16.14) 
Temos de Deus muito o que repassar aos outros: o evangelho deve ser rep assado (Mt 28.19,20). 
Porque somos facilitadores do reino de Deus, o produto da vida cristã deve ser repassado (Ef 2.8ss), o 
fruto do Espírito deve ser repassado (Gl 5.22,23). O fruto do Espírito é um programa de vida a ser 
facilitado, repassado e posto em ação: 
· AMOR (Cl 3.14). Deus é amor; o amor perdoa (1Co 13) 
· ALEGRIA (Rm 14.17). Não são sorrisos; "Alegrai-vos no Senhor"; Cuidado com a confiança mal 
colocada (deve ser posta no Senhor); 
· PAZ (Rm 12.18) 
· PACIÊNCIA (Cl 3.12,13).Mesmo na provocação; 
· BENIGNIDADE (Cl 3.12); 
· BONDADE (Gl 6.10);
28 
· FIDELIDADE (Pv 20.6) 
· MANSIDÃO e 
· DOMÍNIO PRÓPRIO (Pv 25.28) 
Sobre o amor, lembremos que no evangelho há o amor de Deus por nós; o nosso amor por Deus; o 
nosso amor pelos outros. 
Quanto ao amor de Deus por nós, conforme expresso em João 3.16; 1João 4.19. O que distingue o 
evangelho de qualquer outro sistema religioso, teológico ou filosófico é o verbo "dar". Deus deu. 
Agostinho ensinou que "Deus ama a cada um de nós como se só houvesse um de nós para amar". 
Em relação ao nosso amor por Deus, amo realmente a Deus e a Cristo? Em João 21, há uma 
expressiva pergunta de Jesus: "Simão, filho de João [ponha seu nome e sobrenome], amas-me?" Como 
podemos ser facilitadores se perdemos o primeiro amor? 
O terceiro tema é o nosso amor pelos outros. Ou colocamos em ação ou não somos facilitadores de 
coisa nenhuma. 
CONCLUSÃO 
Quem somos? Essa foi a pergunta proposta. Percebeu que responsabilidade temos? Adoradores, 
Intercessores e Facilitadores do reino de Deus. Como Ele é bom: elegeu-nos em Cristo, deu-nos uma 
comissão, sustenta-nos na obra, e espera que sejamos responsáveis. Dele dependemos; nEle 
esperamos. 
"POR QUE, CALABAR?" 
O MOTIVO DA TRAIÇÃO 
Gilson Aristeu de Oliveira 
A figura de Calabar insere-se na história pátria colonial durante a época da invasão dos holandeses no 
Nordeste (1630-1654). Morador de Porto Calvo, Alagoas, passou para o lado holandês em 1632. 
Conseqüentemente, é desprezado pela maioria das pessoas como traidor; outros, porém, acreditam 
que Calabar amava a sua terra natal e fez uma escolha sábia. Mas, afinal, por que ele teria passado para 
o outro lado? Qual a razão da traição? 
I. Contexto 
Para entendermos o drama de Calabar, temos de lembrar do contexto hist órico.1 Portugal e suas 
colônias estavam debaixo do domínio espanhol desde que Filipe II conquistara a coroa portuguesa em 
1580. Com isso, ele pode afirmar com razão que no seu império o sol nunca se punha. Somente 
sessenta anos depois, em 1640, Portugal se livraria de Castela e constituiria de novo um reino 
independente sob o governo de D. João IV. Mas a história de Calabar se desenvolveu inteiramente no 
contexto do Brasil ibérico, quando, por algum tempo, não havia previsão de mudanças políticas. 
Domingos Fernandes Calabar2 deve ter nascido durante a primeira década do século XVII, no atual 
Estado de Alagoas, na região de Porto Calvo, sendo filho de pai português e de mãe indígena, de 
nome Ângela Álvares.3 Era, assim, um mameluco,4 e foi batizado numa igreja da paróquia de Porto 
Calvo.5 O menino foi educado numa escola dos padres jesuitas e, homem feito, ainda antes da invasão
29 
batava, possuía três engenhos de açúcar naquela região.6 Então, em 1630, a segunda onda de 
invasores holandeses alcançou a costa do Nordeste. Portugal e a Holanda geralmente gozavam de um 
bom relacionamento, inclusive por causa do seu inimigo comum, a Espanha. Na época do reino unido 
ibérico (1580-1640), a invasão flamenga fazia parte da guerra dos oitenta anos que a Holanda travava 
contra o domínio espanhol sobre os sofridos Países Baixos (1568-1648).7 A Ibéria continuou tentando 
recapturar suas províncias perdidas e esmagar a reforma religiosa naqueles rincões. A Europa sempre 
se admirava de como os Filipes conseguiam colocar exércitos bem equipados tão longe das suas terras, 
e sabia que o segredo era a riqueza oriunda principalmente das colônias americanas, inclusive do 
Brasil. De lá não vinha ouro nessa época, e sim grandes caixas do apreciado açúcar, branco e mascavo. 
Eram umas 35.000 caixas de 300 quilos cada uma por ano.8 O paladar europeu estava se adaptando ao 
novo produto e o preço do açúcar estava em alta. A Holanda procurava "estancar as veias do rei da 
Espanha," pelas quais fluía tanta riqueza, e muitos holandeses apoiaram de coração os esforços da 
Companhia das Índias Ocidentais no sentido de causar "prejuízo ao inimigo comum."9 
O domínio holandês do Nordeste durou quase um quarto de um século (1630-1654) e teve três 
períodos distintos. A primeira etapa abrange os anos da resistência ibérica e do crescimento do 
poderio neerlandês (1630-1636). O segundo período compreende a resignação lusa e o florescimento 
da colônia holandesa (1637-1644). Os últimos anos compõem a insurreição dos moradores 
portugueses e o fenecimento do domínio flamengo até a expulsão final (1645-1654). São períodos de 
aproximadamente sete, oito e nove anos, respectivamente. O florescimento da colônia holandesa 
coincidiu com a presença do Conde João Maurício de Nassau-Siegen como governador do Brasil 
holandês, e deveu-se em grande parte à sua pessoa. Especialmente na época nassoviana, mas de fato 
durante todo o período holandês, o Nordeste era como que um enclave renascentista10 no Brasil 
colonial, com uma forte influência cristã reformada. A história de Calabar é parte integrante do 
primeiro período da ocupação holandesa, a da resistência ibérica contra os conquistadores recém-chegados. 
Olinda, a capital da capitania de Pernambuco, caiu nas mãos dos holandeses em fevereiro de 1630. 
Sua conquista fez parte da "primeira guerra mundial... contra o rei do planeta."11 A composição das 
tropas invasoras refletia esse aspecto global, à semelhança dos atuais Gideões Internacionais, 
incorporando holandeses, frísios, valões, franceses, poloneses, alemães, ingleses e outros. Envolvidos 
na guerra contra Madri, todos se alegraram quando os "espanhóis" bateram em retirada.12 Essa luta 
contra a Espanha tinha implicações profundamente religiosas. Embora a instrução do almirante Lonck 
estipulasse que todos os padres jesuítas e outros religiosos teriam de abandonar o país, ela reafirmava a 
"liberdade de consciência, tanto para os cristãos como para os judeus, desde que prestassem 
juramento de lealdade..., assegurando-lhes que (a Holanda) não molestaria ou investigaria as suas 
consciências, mas que a religião reformada seria publicamente pregada nos templos..."13 Foi 
instituído um governo civil; um dos membros desse Alto Conselho era o médico Servaes 
Carpentier.14 O exército ficou sob o comando do coronel Diederick van Waerdenburch, o 
governador, presbítero da Igreja Reformada, homem estimado pelas tropas. 
Em 1631, foi conquistada a Ilha de Itamaracá e construído o Forte de Orange sob a supervisão do 
capitão protestante Chrestofle Arciszewski, um nobre polonês.15 Todavia, a expansão foi lenta, e 
outras tentativas de ampliar a conquista vieram a fracassar por causa da resistência dos luso-brasileiros, 
que eram grandes conhecedores da região e haviam adotado a tática de guerrilhas ("capitanias de 
emboscada"), o que deixou os holandeses praticamente encurralados. O próprio almirante Lonck 
quase caiu numa emboscada no istmo entre o Recife e Olinda, e o pastor Jacobus Martini foi morto no
30 
mesmo trecho.16 O centro da resistência portuguesa estava localizado a uns seis quilômetros do 
litoral, em um terreno alagadiço no lugar denominado Arraial do Bom Jesus.17 A Ibéria enviou uma 
armada de mais de 50 navios para recapturar Pernambuco, sendo que a maior parte da contribuição 
dada por Lisboa veio de empréstimos compulsórios de "cristãos novos" (judeus convertidos 
compulsoriamente ao catolicismo romano).18 
Em setembro de 1631, a batalha naval de Abrolhos, no litoral pernambucano, ficou sem vencedor. 
Em seguida, as tropas espanholas, sob o comando do não muito benquisto conde napolitano Bagnuolo, 
desembarcaram em Barra Grande, no sul de Pernambuco, a cerca de cinco léguas do maior povoado 
da região, Porto Calvo, às margens do Rio das Pedras. Entre eles estava Duarte de Albuquerque 
Coelho, o novo donatário de Pernambuco, autor das famosas Memórias Diárias19 sobre os primeiros 
oito anos dessa guerra colonial. Por ora a situação era de empate, os holandeses dominando o mar, os 
portugueses as praias. 
II. História 
Essa situação de virtual equilíbrio no Nordeste continuou até 22 de abril de 1632, quando um soldado 
de nome Calabar, homem muito forte e audaz, deixou o campo português e passou para o lado dos 
holandeses. Foi apenas por um breve período, pouco mais de três anos, mas teve conseqüências para 
toda a época flamenga. Calabar não foi o único a passar para o outro lado, mas sem dúvida foi o mais 
importante entre eles. Era um homem inteligente e grande conhecedor da regi ão, que já tinha se 
distinguido e ficado ferido na defesa do Arraial sob a liderança do nobre general Matias de 
Albuquerque.20 
Inicialmente, os holandeses não confiaram muito nele.21 No entanto, dez dias depois Calabar provou 
pela primeira vez o que podia fazer, levando as tropas do coronel Van Waerdenburch a saquear 
Igaraçu, a segunda cidade de Pernambuco, para onde uma parte das riquezas de Olinda tinha sido 
transportadas. Durante os meses seguintes, muitas campanhas foram feitas pelas colunas volantes 
batavas sob a orientação de Calabar, que tornou-se amigo do coronel alemão Sigismund von Schoppe. 
Por outro lado, o general Matias tentou "por todos os meios possíveis (reduzir Calabar), assegurando-lhe 
não só o perdão, mas ainda mercês, se voltasse ao serviço de el-rei; e esta diligência repetiu por 
muitas vezes, no que se gastou algum tempo; mas vendo que nada bastava para convencê-lo, tratou de 
outros meios."22 
Em 1633, com a ajuda de Calabar, foi conquistado o litoral norte, desde Itamaracá até a fortaleza dos 
Reis Magos, e com isso o Rio Grande do Norte, o que levou a contatos amigos com os tapuias, 
indígenas antropófagos daquela região. Na parte sul, foi tomado o valioso ancoradouro do Cabo Santo 
Agostinho, o que privou os portugueses do porto mais próximo do Arraial, dificultando o 
recebimento de reforços de Lisboa e o envio de açúcar para Portugal. Nessa altura, o coronel 
Sigismund, como o mais velho dos oficiais, assumiu o comando das tropas terrestres. No mar, o 
almirante Jan Cornelis Lichthart, que falava português, tornou-se amigo de Calabar, que lhe ensinava 
as entradas dos rios. 
Do outro lado, os portugueses prosseguiam com suas tentativas de destruir Calabar. Assim, em mar ço 
de 1634, o general Matias prometeu a Antônio Fernandes, um primo irmão com quem Calabar fora 
criado, "que lhe faria mercê que o contentasse se pudesse matá-lo em algum ataque." Antônio aceitou 
a comissão mas foi morto na tentativa.23
31 
Enquanto isso, Calabar se adaptava mais e mais à sociedade dos invasores e tornou-se um indivíduo 
estimado e respeitado, inclusive na "igreja católica reformada."24 Prova disto é que, quando nasceu 
um filhinho do casal, foi batizado na Igreja Reformada do Recife. O livro de batismo dessa igreja 
registra que no dia 20 de setembro de 1634, Calabar esteve ao lado da pia batismal com o seu filho 
nos braços. O menino foi, então, batizado "Domingo Fernandus, pais Domingo Fernandus Calabara e 
Barbara Cardoza."25 Como testemunhas, ali estavam o alto conselheiro Servatius Carpentier, o 
coronel Sigismund von Schoppe, o coronel polonês Chrestofle Arciszewski, o almirante Jan Cornelisz 
Lichthart e uma senhora da alta sociedade.26 O pastor oficiante foi provavelmente o Rev. Daniel 
Schagen.27 
No final de 1634, a Paraíba também havia se rendido aos invasores. Alguns sacerdotes (exceto os 
jesuítas) inclusive tiveram a permissão de assistir aos ofícios religiosos. Houve até um padre, Manuel 
de Morais, S.J., que passou para o lado invasor. Dessa forma, os holandeses ocuparam a faixa litor ânea 
desde o Cabo Santo Agostinho até o Rio Grande do Norte. A Espanha não podia fazer muito devido 
aos grandes problemas que enfrentava na Alemanha (com o avanço do exército sueco para ajudar a 
Reforma contra as tropas do imperador), a perda de uma frota carregada de prata do México (devido 
a um furacão), problemas no Ceilão, vários anos de seca em Portugal, etc. 
Novamente orientados por Calabar, os holandeses continuaram a expansão para o sul e, em março de 
1635, atacaram Porto Calvo, a terra natal do próprio Calabar. Os defensores, liderados por Bagnuolo, 
fugiram para o sul, e com a ajuda de frei Manuel Calado do Salvador28 os moradores da regi ão 
submeteram-se aos holandeses. Dessa forma, o Arraial ficou isolado e, depois de três meses, em 
junho, Arciszewski conquistou aquela fortificação lusa, os religiosos recebendo permissão para 
levarem as suas imagens. Matias de Albuquerque havia fugido para o sul com aproximadamente 7000 
moradores que preferiram acompanhá-lo a ficar sob o domínio flamengo. A única estrada da região 
pantanosa de Alagoas que podia ser usada por carros de boi passava por Porto Calvo, e nessa altura 
estava em poder do major Picard e de Calabar, acompanhados de uns 500 homens. Matias viu -se 
forçado a atacar a praça, que teve de pedir condições de entrega. Picard tentou salvar a vida de 
Calabar e finalmente foi combinado que ele ficaria "à mercê d'el-rei."29 Porém, como disse o 
historiador De Laet, a proteção concedida foi "à espanhola" e um tribunal militar o condenou a ser 
enforcado e esquartejado como traidor.30 O frei Manuel o assistiu nas últimas horas31 e ao anoitecer 
do dia 22 de julho de 1635 a sentença foi executada. Foi também enforcado um judeu, Manuel de 
Castro, "homem de nação," que estava ali a serviço dos holandeses.32 Poucas horas depois, os 
portugueses continuavam a sua retirada em direção à Bahia, levando consigo cerca de 300 prisioneiros 
holandeses. Nenhum dos moradores cuidou de enterrar o soldado executado. Dois dias depois, 
chegaram a Porto Calvo as forças combinadas dos coronéis Sigismund e Arciszweski, que ficaram 
enfurecidos ao achar os restos mortais do seu amigo e compadre Calabar. Foram colocados num 
caixão e sepultados com honras militares. Querendo vingar-se da população lusa, foram dissuadidos 
por Calado, "o frei dos óculos," especialmente pelo fato de que os holandeses precisavam dos 
"moradores da terra" para a plantação da cana-de-açúcar e a criação do gado. 
III. Motivos 
Por que Calabar teria passado para o lado do invasor? Capistrano de Abreu pergunta: "Talvez a 
ambição ou esperança de fazer mais rápida carreira, ou desânimo, a convicção da vitória certa e fácil 
do invasor"?33 Reconheçamos que, com esta inquirição, entramos no campo da especulação histórica, 
pois não há indícios concretos nos documentos, somente alusões vagas.34 Deve ter havido motivos 
claros e outros ocultos, motivos diurnos e noturnos.35 Além disto devem ter existido forças que o
32 
empurravam para fora do círculo português e outras que o atraíam para dentro do campo holandês, 
forças centrífugas e centrípetas. Lembremos ainda que uma decisão dessas geralmente não se toma de 
um dia para o outro. Havia motivos que se cristalizaram com o tempo, até que algo levou o barril de 
pólvora a explodir. 
A. Fugitivo? 
A primeira pergunta deve ser: será que Calabar era um fugitivo? O confessor de Calabar, antes da sua 
execução, foi o frei Manuel Calado do Salvador, vigário da paróquia de Porto Calvo. Treze anos 
depois, em 1648, no auge da revolta contra os holandeses, ao escrever O Valeroso Lucideno, seu 
livro panegírico em louvor do líder João Fernandes Vieira, Calado afirmou que Calabar era um 
contrabandista, que inclusive teria cometido grandes furtos e vários crimes atrozes na paróquia de 
Porto Calvo e, temendo a justiça, fugiu com Bárbara para o campo do inimigo.36 As Memórias de 
Duarte Coelho, escritas em 1654, acompanham Calado nessa opinião.37 Vários historiadores, como 
Varnhagen e outros, mantêm esse veredito.38 Mas o cônego Pinheiro lembra que "os mais graves 
cronistas como Brito Freyre (1675), e frei José da Santa Teresa (1698), não falam nesses crimes 
atrozes atribuídos pelo Valeroso Lucideno e seu Castrioto Lusitano compilador."39 Quanto às 
Memórias do donatário Duarte de Albuquerque Coelho, temos de observar que o autor (cujo irmão 
Matias, cognominado o "terríbil,"40 era o general da resistência portuguesa), escrevendo sobre a 
traição de 1632, não mencionou motivo algum, somente se admirou de que um homem tão corajoso, 
que ficou ferido duas vezes na defesa da sua terra, não sentisse ódio dos invasores.41 Mas, depois, 
quando tratou da morte de Calabar, disse que foi um "castigo reclamado por sua infidelidade," 
acrescentando que tinha "cometido grandes crimes, e para evitar a punição fugiu passando-se para o 
inimigo."42 Será que Coelho refletia boatos do campo português depois da traição, além de referir-se 
aos crimes de guerra ocorridos nas incursões dos holandeses com Calabar entre 1632 e 1635, 
inclusive em Barra Grande e Camaragibe, ambos distritos no litoral da paróquia de Porto Calvo?43 
Quanto às informações de Calado, temos de reconhecer que elas nem sempre são muito precisas,44 e 
são às vezes romanceadas;45 além disso, conforme C. R. Boxer, elas freqüentemente eram um tanto 
caluniadoras e não necessariamente fidedignas.46 
Talvez Flávio Guerra seja o autor mais sistemático na rejeição da idéia de fuga por roubo e outras 
razões dessa natureza. Ele argumenta: a) Calabar era um homem de posses que não aceitou dinheiro 
dos holandeses; b) ele não poderia ter defraudado bens do estado no Arraial; c) não há documento 
nenhum que fale em fraude; d) essa alegação surgiu somente alguns anos depois da morte de 
Calabar.47 Reconhecemos, porém, que esse jovem inteligente e proprietário de engenhos de açúcar 
talvez não tenha herdado essas propriedades; talvez fosse mesmo um contrabandista e como tal 
pudesse ter cometido algum furto ou crime antes da traição. Entretanto, seja como for, naqueles dias 
de guerra dificilmente esse corajoso e astuto defensor do Arraial seria entregue nas m ãos da justiça 
enquanto o general Matias e o donatário Duarte estavam a seu favor. Por outro lado, depois da 
traição, depois de tantas tentativas de reconduzi-lo gentilmente, depois de tantos prejuízos e mortes 
causados na conquista de Igaraçu, Itamaracá, Rio Grande, Paraíba e boa parte do sul de Pernambuco, 
depois de tantas tramas abortadas para liquidá-lo, não havia chance nenhuma de escapar das garras dos 
seus justiceiros comandados pelo general Matias, com ou sem crimes cometidos antes da trai ção.48 
B. Teria Segurança? 
Mas, sendo fugitivo do lado português, teria realmente segurança se passasse para o outro lado? 
Inteligente como era, Calabar deve ter calculado o perigo que estava correndo. Será que ele teria tido 
medo de, no fim, ser abandonado pelos holandeses? Creio que não. Intimamente ele deve ter tido a
php 
33 
certeza de que não seria como Frei Calado sugeriu, que os holandeses "se servem (dos seus ajudantes) 
enquanto os hão mister, (mas) no tempo da necessidade e tribulação, os deixam desamparados e 
entregues à morte."49 A proteção dada posteriormente aos seus aliados judeus e índios e a resistência 
em render-se finalmente aos portugueses por causa dos mesmos (atestada pelo próprio Calado),50 
mostra que não é provável que isto tenha acontecido. Mas, pela última vez em Porto Calvo, com 
soldados relutantes, restando pouca água e munições, com lenha amontoada pelos sitiantes debaixo da 
casa forte para queimá-los,51 e depois de "mais de meio-dia no ajuste dos artigos de rendição, porque 
o inimigo insistia em levar consigo Domingos Fernandes Calabar," o próprio soldado Calabar sabia 
que era impossível escapar e, querendo poupar as vidas dos seus amigos e subordinados, "disse com 
grande ânimo estas palavras ao governador Picard: 'Não deixeis, senhor, de concordar no que se vos 
exige pelo que me diz respeito, pois não quero perder a hora que Deus quis dar-me para salvar-me, 
como espero de sua imensa bondade e infinita misericórdia'."52 Deve ter pedido, ainda, que 
cuidassem bem da sua mulher, com quem fugira para o campo holandês,53 e de seus filhos, pois ia 
entregar-se sozinho. De fato, o governo cuidou bem da família do seu nobre capitão, pois a sua viúva 
passou a receber para cada um dos seus três filhos menores o salário de um soldado, num total de 24 
florins mensais, equivalente ao salário de um mestre-escola, o que não acontecia com a família de 
pastor e capelão do exército tombado no serviço da Companhia.54 Por outro lado, o próprio major 
Alexandre Picard deve ter ficado arrasado com o triste fim do colega, e n ós o encontramos depois na 
Holanda recuperando-se na casa do seu irmão pastor em Coevorden.55 
C. Exemplos de "Traidores" 
Fugindo em busca de refúgio ou não, também temos de lembrar que a época conhecia muitos 
exemplos de "traidores," de ambos os lados. Embora Calabar fosse considerado em abril de 163 2 
como o primeiro a desertar do Arraial,56 os documentos testificam que já havia passagens dos dois 
lados. Alguns soldados franceses a serviço da Companhia das Índias Ocidentais passaram para o campo 
português devido à religião, e houve judeus que fizeram a viagem em direção oposta pelo mesmo 
motivo. Sabemos de escravos que fugiram dos seus donos para obter mais liberdade entre os 
holandeses,57 de grupos de índios tupis que deles se aproximaram,58 e também de soldados 
napolitanos que debandaram para o lado invasor. O "vira-casaca" holandês mais conhecido foi o 
capitão Dirk van Hooghstraten que, em 1645, entregou a fortaleza do Cabo Santo Agostinho aos 
portugueses por um bom dinheiro (que ainda não havia recebido quatro anos depois).59 Houve 
pessoas que trocaram de campo até duas vezes, e entraram para a história com honras, como o padre 
jesuíta Manuel de Morais e o próprio João Fernandes Vieira. O primeiro tinha liderado os índios na 
resistência contra o invasor, mas passou para o campo do inimigo depois da queda da Paraíba. Foi 
enviado à Holanda, onde casou-se com uma holandesa e, para ressarcir-se das despesas que teve, 
cobrou à Companhia das Índias Ocidentais pela ajuda prestada no Brasil. Depois de alguns anos, 
Morais deixou mulher e filhos, voltando para o Nordeste como negociante. Quando, no início da 
revolta, foi capturado pelos portugueses, salvou sua pele passando de novo para o campo cat ólico 
romano. Quando foi preso pela Inquisição, defendeu-se habilmente diante dos seus inquisidores, 
insistindo que nunca tinha quebrado seus votos sacerdotais, mas, não reconhecendo o matrimônio 
herético, somente tinha se amancebado com mulheres reformadas.60 Por sua vez, Jo ão Fernandes 
Vieira ajudou um conselheiro holandês a achar o tesouro enterrado do seu antigo patrão português e 
conseguiu créditos e mais créditos da Companhia até, em 1645, proclamar a "guerra da liberdade 
divina" para livrar o Brasil dos "heréticos," aos quais ficou devendo 300.000 florins, importância 
altíssima para a época.61 De fato, em tempo de guerra, a traição está "no ar."
34 
D. Interpretação Econômica 
Revendo esses poucos exemplos, poderíamos então postular que a interpretação mais simples para o 
caso de Calabar seria econômica. Talvez Calabar, como grande conhecedor da região e dos acessos 
pelos rios, já fosse contrabandista antes e depois da invasão,62 e teria passado para os invasores em 
busca de dinheiro. Embora tudo indique que ele não precisava disto, pois já tinha adquirido 
propriedades e gado em Alagoas, um bom dinheiro sempre teria sido bem-vindo. Mas, se foi 
contrabandista, de certo havia cúmplices, como deixou transparecer o seu próprio confessor. É que 
Calado relatou alguns detalhes da confissão de Calabar (com permissão do mesmo) ao general Matias; 
entretanto, este ordenou ao padre "que não se falasse mais nesta matéria, por não se levantar alguma 
poeira, da qual se originassem muitos desgostos e trabalhos" (sem dúvida para alguns portugueses 
importantes).63 Mas, afinal, será que este moço abastado teria passado para o inimigo por dinheiro, 
pensando em aumentar a sua fortuna? Southey o acha mais provável.64 Calado não o diz, nem 
Coelho, que somente menciona que Calabar passou a receber o soldo de um sargento-mor.65 
Também, através dos anos, não apareceu nenhum indício disto nos documentos, nem a mais ligeira 
referência como nos outros casos de peso. Ao contrário, há indicações de que ele recusou o 
suborno.66 Por outro lado, não parece muito provável que Waerdenburch teria oferecido a Calabar o 
título de capitão caso mudasse de lado, pois desconfiava dele. Se prometeu algo nesse sentido, teria 
sido mais por uma questão de honra do que por uma razão financeira.67 
E. Questão de Honra 
Uma interpretação bem mais provável é essa questão de honra; talvez de glória, mas muito mais de 
reconhecimento, respeito, bom nome, dignidade. Vivendo no século XVII, por ser mestiço e não 
português "de sangue puro," Calabar, apesar das suas qualidades, de certa forma era um inferior por 
causa da cor da sua pele, ainda que atualmente algumas pessoas tenham dificuldade em admitir esse 
fato histórico. Ainda quase um século e meio depois, o vice-rei do Brasil mandou degradar um cacique 
indígena que antes tinha recebido honras reais, pois "havia desprezado as mesmas… se baixando tanto 
que se casou com uma negra, manchando seu sangue."68 Mestiçagem aviltada num Brasil mestiço. Na 
época de Calabar a situação não era muito melhor e parece que até os holandeses sabiam da 
discriminação racial contra Calabar.69 Talvez baseando-se na história de Southey, o romancista Leal 
faz Calabar pensar em "vingança de tantos desprezos e tantas humilhações com que me têm 
amargurado os da vossa raça."70 E outro romancista, Felício dos Santos, bem pode ter razão quando 
faz o napolitano conde Bagnuolo insultar Calabar chamando-o de negro. Seria mesmo o estopim que o 
fez sair do acampamento do Arraial do Bom Jesus e passar para os holandeses.71 Anos depois, o 
próprio governador de Pernambuco (1661-1664) escreveu que Calabar buscara entre os inimigos "a 
esperança que lhe impedia entre os nossos a vileza do nascimento." E falando sobre Henrique Dias, o 
herói africano da restauração portuguesa, acrescenta: "Um negro, indigno deste nome, pelo que 
emendou ao defeito da natureza."72 Por outro lado, Calabar, o mameluco, deve ter observado como 
os holandeses tratavam melhor os seus escravos,73 e os índios até mesmo com respeito, chamando-os 
de "brasilianos" por serem os primeiros moradores do vasto Brasil.74 E quem sabe Calabar também 
fosse um tanto ambicioso e pensasse que poderia fazer carreira do outro lado,75 o que num certo 
sentido aconteceu, como Coelho lembra ao afirmar que "logo o fizeram capitão."76 Não foi tão logo, 
mas de fato aconteceu. 
F. Motivação Religiosa 
Resta ainda uma dupla de motivos que deve ser considerada, a político-religiosa. Estas são duas 
alavancas importantes da história e naquele tempo estavam entrelaçadas quase que inseparavelmente. 
Será que houve algum motivo religioso na traição de Calabar? Representantes do pensamento cristão
35 
reformado como o presbítero holandês coronel Waerdenburch, reconhecidamente um homem de 
Deus,77 ou o alemão Von Schoppe, ou o polonês Arciszewski, devem ter tido uma influência nesse 
sentido. Será que Calabar leu o livro de Carrascon, ou "O Católico Reformado" de Perkins,78 livros 
que já estavam circulando no Nordeste e sobre os quais frei Calado advertia constantemente os seus 
fiéis em Porto Calvo, berço de Calabar? Anos depois Calado se lembrava de que se não tivesse ficado 
em Porto Calvo, "os pusilânimes haviam de ter titubeado na fé, e haviam de estar envoltos em muitos 
erros e heresias. Porquanto os predicantes dos holandeses haviam derramado por toda a terra uns 
livrinhos que se intitulavam O Católico Reformado em língua espanhola, composto por Fulano 
Carrascon, cheios de todos os erros de Calvino e Lutero, e persuadiam os ignorantes (e ainda aos que 
não eram) de que a verdadeira religião era a que naqueles livros se ensinava."79 
De fato, houve uma escolha religiosa voluntária por parte de Calabar, o que não era possível na 
direção oposta.80 Ele podia ter passado para o lado holandês sem filiação à "igreja do estado" e 
Bárbara podia ter procurado um padre católico romano para o batismo do seu filho. Calabar teria sido 
considerado um aliado valioso da mesma forma que os tapuias com o seu paj é, os judeus com o seu 
rabino e os soldados franceses e napolitanos com o seu vigário católico romano. A entrada da família 
Calabar na igreja reformada foi voluntária e o batismo do seu filho na igreja reformada do Recife em 
1634 aponta para isto.81 Finalmente, dez meses depois, no dia da sua execução, Calabar reconheceu 
mais claramente os seus pecados e se mostrou tão arrependido que os religiosos que o assistiram 
acharam que "Deus por meio de tal pena o quis salvar, dando-lha no próprio lugar de seu nascimento 
e onde tanto o havia ofendido."82 Quem sabe Calabar lembrou-se, como posteriormente o índio 
Pedro Poti durante o seu suplício, das primeiras frases do Catecismo de Heidelberg, escrito em 
tempos de perseguição pela Inquisição e memorizado pelos fiéis: "Qual o teu único consolo na vida e 
morte? Que, na vida e na morte, não pertenço a mim mesmo, mas ao meu fiel Salvador, Jesus 
Cristo."83 
G. Patriotismo 
Finalmente, quanto ao aspecto político convém abordar o motivo do amor à terra natal, o 
patriotismo. José Honório Rodrigues observa que talvez tenha sido Francisco de Brito Freyre 
(almirante da armada que reconquistou o Nordeste e posteriormente governador de Pernambuco), 
"dos primeiros a manifestar, ao se referir a Calabar, sentimentos patrióticos em relação ao Brasil," 
quando diz que Calabar foi enforcado em Porto Calvo, "pátria sua."84 Recentemente, o historiador 
Flávio Guerra defendeu esse sentimento de patriotismo e, ao mesmo tempo, o ódio luso-brasileiro 
contra a opressão da Espanha. El-rei teria praticamente abandonado o Brasil e quando chegou o 
reforço sob o comando de Bagnuolo, os estrangeiros receberam, por ordem régia, tratamento melhor 
do que os "moradores da terra," dos quais alguns foram indo para suas casas, conforme Calado. Por 
outro lado, os holandeses prometiam menos impostos do que os espanhóis e tentaram trazer Calabar 
para si. "A catequização do mameluco estivera sendo trabalhada por um tal de Joer," agente dos 
invasores, católico romano, que falava muito bem o idioma do Brasil. Finalmente Calabar teria escrito 
ao governador Waerdenburch, dizendo: "Passei para essa causa sem querer recompensa, e vim para 
melhorar minha terra, que não tem liberdade de espécie alguma." Waerdenburch teria confirmado à 
Holanda que "Calabar só se colocou ao nosso lado por convicção, pois recusou as recompensas que 
vossas senhorias lhe haviam mandado. Diz estar certo de que a sua pátria irá melhor do que com os 
espanhóis e os portugueses." Guerra conclui que "convicções talvez erradas mas honestas… 
decorreram do seu idealismo… (para) melhor servir à pátria." E quando, depois, o general Matias 
acenou com anistia total na tentativa de trazê-lo de volta, Calabar teria respondido: "Tomo Deus por 
testemunha de que meu procedimento é o indicado pela minha consciência de verdadeiro patriota,
36 
não como traidor, mas como patriota." E no fim, em Porto Calvo, antes de entregar-se, teria escrito 
ao governo holandês no Recife: "Serei um brasileiro que morre pela liberdade da pátria." 
Infelizmente, não conseguimos localizar os documentos em que a informação de Guerra se baseia. 
Mesmo assim, a base histórica parece muito sólida.85 
Conclusão 
Pessoalmente, tenho a impressão de que o motivo que impulsionou Calabar foi um pouco mais 
"caleidoscópico." O fator centrífugo ou negativo mais forte talvez tenha sido a ira, ira contra o 
desprezo racial, inclusive, quem sabe, ódio contra o seu pai português (desconhecido?), uma ira 
impotente contra a primeira onda de invasores na terra dos "brasilianos." Se fosse fugitivo, a 
segurança lhe acenaria. Todavia, o fator positivo mais forte certamente teria sido o seu patriotismo, 
enfatizado por Flávio Guerra. 
A descrição intuitiva de João Felício dos Santos talvez possa estar perto da resposta que se esconde na 
névoa da história. Para Felício, esse amor à terra natal era patente em todas as fases da vida do 
soldado, quem sabe um desejo de realmente ver "ordem e progresso" no Brasil (talvez o sonho de 
servir, não a si mesmo, mas à comunidade, com justiça e paz). Como menino, o romancista faz 
Calabar estudar em um colégio de jesuítas onde se ensinava uma obediência incondicional à coroa 
católica romana de Castela, mas faz o menino responder que somente devia obediência à sua mãe e à 
terra brasileira. Como jovem, ele teria percebido que os holandeses amavam o Brasil pela construção 
e limpeza do Recife (e podia ter acrescentado: por planos de melhorias como o ensino prim ário 
generalizado, limpeza dos limpos, proibição do corte do pau-brasil e do cajueiro, etc.). Finalmente, 
Felício faz Calabar adulto dizer ao frei Calado, seu confessor, defendendo-se do epíteto de traidor: 
"São partidários dos flamengos todos os que querem esta terra farta e acarinhada, sejam eles de que 
nação forem."86 Provavelmente foi isto em essência que Chico Buarque também quis enfatizar, em 
1973, com seu musical "Major Calabar."87 
Na verdade, à pergunta "Por que Calabar passou para o outro lado?" temos de responder por 
enquanto com um "non liquet," pois, mesmo do lado holandês, nem o meticuloso cronista De Laet 
(1644) e nem o panegirista Barlaeus (1647) mencionam motivo algum. De Laet registra somente que 
"para os nossos passou um mulato, de nome Domingo Fernandes Calabar" e B arlaeus observa que esse 
"português abandonou o partido do rei (da Espanha) pelo nosso," mencionando a sua terr ível morte 
por causa da sua infidelidade.88 Talvez seja pessimista demais a conclusão de Capistrano de Abreu: 
"nunca se saberá."89 Se for localizada uma das cartas mencionadas por Flávio Guerra, teremos uma 
resposta clara e autêntica. Mas, de fato, atualmente não sabemos com certeza. Na velha Roma, os 
juízes podiam usar seu "NL" com discrição, porém sem constrangimento. Era uma placa cujas letras 
queriam dizer "non liquet," isto é, o assunto não está claro (líquido). Se, depois de ouvir as 
testemunhas, o caso ainda não estava claro, eles erguiam as suas plaquinhas "NL" na hora da votação. 
Não era um atestado de ignorância, nem prova de indecisão, mas de juízo. Era um sinal humilde de 
que estavam no limite da interpretação honesta dos dados conhecidos. Precisamos ter sabedoria e 
coragem para erguer o "NL," porque no caso do capitão Calabar por enquanto não sabemos mesmo. 
Provavelmente, ele foi movido por um misto de motivos, tendo o amor à sua terra natal como 
Leitmotiv. Porém, foi sempre uma motivação mesclada, pois "o coração tem razões que a própria 
razão desconhece" (Blaise Pascal). 
Apeldoorn, Holanda, 08-05-2000 A.D. 
Dedicado ao meu irmão e colega Rev. Klaas Kuiper (biógrafo de João Ferreira de Almeida [1628-1691], o
37 
tradutor da Bíblia para o português e pastor da "Santa Igreja Cristã Católica Apostólica Reformada" em Jakarta, 
Indonésia). 
Post Scriptum 
Quanto aos cinco documentos mencionados por Guerra (Aventura, 79 -84, 103; Calabar, 42, 69), os 
mesmos poderiam encontrar-se em Haia, no Rio ou em Recife. Os originais deviam estar no Arquivo 
Real de Haia, na Holanda (Algemeen RijksArchief), nas respectivas caixas de cartas escritas do Recife 
para os Estados Gerais dos Países Baixos (ARA-AStG 5753 e 5754; 1631-34 e 1635) ou para os 
Senhores XIX (ARA-OWIC 49 e 50; 1630-32 e 1633-35). As cópias podem estar no Brasil, pois as 
transcrições das missivas aos Estados Gerais (1854) constituem hoje a "Cole ção Caetano," no Rio de 
Janeiro; as transcrições das cartas aos Senhores XIX (1886) formam a famosa "Cole ção José Higino," 
no Recife. Os documentos procurados (originais, cópias ou traduções; principais ou anexados) devem 
ser os seguintes: 
(a) Carta de 14-11-1631 de "Aldiembert" a Holanda (Estados Gerais ou Senhores XIX). Guerra 
informa que segundo Assis Cintra "[Aldiembert] 'teria dito' que Calabar 'apesar de ter sofrido 
injustamente dos seus patrícios por ser mulato, tem recusado aceitar o nosso oferecimento de 
dinheiro e honrarias'" (Ver notas 66 e 69. Guerra, Aventura, 83). 
(b) Carta entre 22 e 30-04-1632 de Calabar (ao Governador Waerdenburch?). Guerra diz: "Conta -se 
que Calabar escreveu: '… vim para melhorar minha terra'" (Nota 85. Guerra, Aventura, 84). 
(c) Carta entre 22 e 30-04-1632 de Waerdenburch à Holanda (Estados Gerais ou Senhores XIX). 
Guerra, fazendo citação: "(Calabar) só se colocou ao nosso lado pela convicção, pois recusou-se a 
recompensas que vossas senhorias lhe haviam mandado. Diz que está certo que conosco a sua pátria irá 
melhor do que com os espanhóis e os portugueses. Envio-lhes uma carta [de certo a carta "b"] que nos 
mandou comunicando a sua adesão … Iremos atacar agora Igaraçu" (Notas 66 e 85. Guerra, Calabar, 
42). 
(d) Carta (entre 01-05-1632 e 03-1635?) de Calabar a Matias de Albuquerque. Guerra informa que a 
carta (descoberta no ARA por W. Wallitz) é uma resposta à oferta de anistia total para Calabar, 
dizendo: "Tomo Deus por testemunha de que meu procedimento é o indicado pela minha consciência 
de verdadeiro patriota… não como traidor, mas como patriota" (Nota 85. Guerra, Calabar, 44s). 
(e) Relatório do Major Picard (depois de 19-07-1635) sobre a capitulação de Porto Calvo. Guerra 
informa que no relato (traduzido do holandês por Wallitz e divulgado por Assis Cintra), Picard diz 
que Calabar insistiu que aceitassem as condições da capitulação e afirmou: "Serei um brasileiro que 
morre pela liberdade da pátria." Ao Governo no Recife Calabar escreveu: "Vós, os holandeses, 
oferecestes a liberdade ao Brasil, ao meu amado Pernambuco. Um homem como eu que recusou 
honras e proventos, não é traidor; se houve traição foi uma traição justificada pela nobreza do motivo 
…" (Nota 85. Guerra, Calabar, 69). 
Infelizmente, ainda não conseguimos localizar nenhum desses documentos em Haia (AStG ou OWIC; 
somente a tradução de um breve relato de Picard numa missiva portuguesa que n ão menciona 
Calabar, em OWIC 50), e eles não constam dos índices das coleções do Recife ou do Rio de Janeiro. 
As outras cartas de Waerdenburch em 1631 e 1632 foram seis aos Senhores XIX (07 -10 e 09-11- 
1631; 06-01, 09-05, 16-08 e 12-11-1632) e nove aos Estados Gerais (12-02, 24-03, 31-05, 03-08,
38 
07-10 e 09-11-1631; ?-01, 09-05, 16-08-1632). Porém, nelas (mormente na de 09-05-1632, ver 
nota 21) as informações procuradas não foram encontradas. Temos de reconhecer que isto às vezes 
acontece com informações históricas sólidas por perda de documentos originais, perda essa acidental 
(como em F.A. Pereira da Costa, Annais Pernambucanos, III:5) ou intencional ( óbvia pela seqüência 
de documentos referentes ao Brasil atualmente ausentes do Arquivo dos Estados Gerais; ver 
Schalkwijk, Igreja e Estado, p. 201, n. 112; 465:2.1.5; 466:2.4). Documentos extraviados são a 
frustração do historiador e apelamos aos que têm alguma pista dos documentos perdidos do Arquivo 
dos Estados Gerais que se comuniquem com o Algemeen RijksArchief, 2595BE, Den Haag, Holanda. 
Guerra menciona como sua fonte Assis Cintra. Cintra publicou sua defesa de Calabar em 1933 (A 
Reabilitação Histórica de Calabar: Estudo Documentado, Onde Prova que Calabar não Foi Traidor. 
Depoimento, Acusação, Defesa e Reabilitação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933). A sua 
tese pode ter sido mal defendida e não muda o fato da traição (Rodrigues, Bibliografia, p. 423, 
#964), mas o importante era a sua documentação. Mesmo que, em 1933, certos documentos dos 
Estados Gerais já tivessem desaparecido do arquivo de Haia, Cintra ainda teria à disposição as 
transcrições da Coleção Caetano, no Rio de Janeiro, a não ser que esses cinco documentos não 
tenham sido transcritos. Seria uma coincidência, mas tem ocorrido com outros documentos, 
mormente com anexos interessantes. Infelizmente não há condições no momento de consultar Cintra, 
Recife ou Rio de Janeiro. 
Notas 
1 Do lado português, a principal fonte de informações deste período é Duarte de Albuquerque 
Coelho, Memórias Diárias da Guerra do Brasil, 1630-1638 (Madri: 1654; Recife: Secretaria do 
Interior, 1944), que menciona Calabar em muitas páginas. Do lado holandês, Joannes de Laet, 
Iaerlijck Verhael, 4 vols. (Leiden: 1644; 's-Gravenhage: Linschoten Vereniging, 1931-1937); 
tradução portuguesa: História ou Annaes dos feitos da Companhia Privilegiada das Índias Occidentais 
desde o seu começo até o fim do ano de 1636, 2 vols. (Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1916- 
1925). 
2 J. da Silva Mendes Leal, Calabar (Rio de Janeiro: Correio Mercantil, 1863), p. 140, sugere que o 
seu nome era Domingos Fernandes, apelidado "o Calabar." Com isto parece concordar a informa ção 
do general Matias de Albuquerque, de que o "primo co-irmão" de Calabar era Antônio Fernandes, 
sendo ambos nascidos, batizados e criados na paróquia de Porto Calvo (Coelho, Memórias, 197; 31- 
03 e 01-04-1634). De igual modo, alguns dos primeiros documentos holand eses não mencionam o 
nome Calabar, mas somente "Domingo Fernando," como na carta do coronel Waerdenburch aos 
Diretores da Companhia das Índias Ocidentais, os chamados "Senhores XIX," em 12-11-1632, sobre 
a incursão contra Barra Grande: "...porque o mesmo nasceu ali e é grande conhecedor." 
3 Frei Manuel Calado do Salvador, Valeroso Lucideno e Triunfo da Liberdade (Lisboa: 1648; Recife: 
Cultura Intelectual de Pernambuco, 1942; 2 vols.), I:48; Ângela Alures Coelho, Memórias, 120: mãe 
e alguns parentes. F.A. de Varnhagen, História Geral do Brasil (Rio de Janeiro: 1854-1857; São 
Paulo: Melhoramentos, 1956, 5ª ed.), I:277: Ângela Álvares. 
4 Frei Calado chama Calabar de "mancebo mameluco, mui esfor çado e atrevido" (Lucideno, I:32). 
Por servir como pároco em Porto Calvo por alguns anos, Calado conhecia melhor o parentesco de 
Calabar. Às vezes Calado chama-o de mulato (com desprezo? Lucideno, I:48). Coelho, Mem órias, p. 
120 (o "mulato" Calabar; 20-04-1632); p. 68 (o "pardo" ferido, 14-03-1630). Laet, Verhael, III:95, 
96: "mulaet." Também depois, às vezes, chamado de mulato, como por R. Southey, História do 
Brasil (Londres: 1810-1819; São Paulo: Obelisco, 1965), II:164; mas, nas notas, o cônego J.C. 
Fernandes Pinheiro afirma que "todos os nossos cronistas qualificam a Calabar de mameluco e não de
39 
mulato" (p. 205, n. 13). Pedro Calmon, História do Brasil (Rio de Janeiro: Olympio, 1961), II:597, 
nota, julga que pelo nome africano, Calabar, de certo era negro ou mulato. No interior de 
Pernabuco, por volta de 1600, deve ter havido muitos mamelucos (mestiços índio-europeus), mulatos 
(mestiços africano-europeus) e cafuzos (mestiços índio-africanos; Alagoas: "pelos cafus," ao 
anoitecer), de sorte que um mameluco bem podia ter alguns traços africanos e ser chamado mulato. 
João Felício dos Santos, Major Calabar (São Paulo: Círculo do Livro, s.d. [1ª ed. 1960]; ed. integral): 
mameluco. Romances usam liberdades históricas (ex: Felício faz Maurício de Nassau filho do 
"stadhouder" da Holanda, etc.), mas podem ajudar na interpretação dos fatos. 
5 Coelho, Memórias, 197: "onde foram batizados" (isto é, Calabar e seu primo Antônio). Flávio 
Guerra, Uma Aventura Holandesa no Brasil (Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 1977), 78s: 
ainda menino, Calabar foi parar, "não se sabe como, nem conduzido por quem," em Olinda e 
batizado no dia 15-03-1610 na ermida do engenho N.S. da Ajuda, de Jerônimo de Albuquerque, 
sendo padrinhos Afonso Duro, rico colono de Évora, Portugal, e sua filha D. Inês Barbosa, nascida em 
Pernambuco. Flávio Guerra, Calabar: Traidor, Vilão ou Idealista (Recife: ASA Pernambuco, 1986). 
Talvez com a fórmula: "Si non baptizatus es, ego te baptizo…" 
6 Guerra, Aventura, 78: em 1628 Calabar tinha três engenhos de açúcar em Porto Calvo e participava 
da procura das lendárias minas de prata de Caramuru. Novo Dicionário de História do Brasil, 2ª ed. 
(São Paulo: Melhoramentos, 1971), s.v. "Calabar" (o artigo merece reparos). Os batavos foram os 
primeiros moradores históricos da Holanda. 
7 Naquela época, os Países Baixos, pertencentes à coroa da Espanha, englobavam Bélgica e Holanda, 
com capital em Bruxelas. A palavra "flamengos," freqüentemente usada para "holandeses," refere-se 
propriamente aos moradores do norte da atual Bélgica. Ver a história sociológica do Dr. José Antônio 
Gonçalves de Mello, Tempo dos Flamengos (Recife: Secretaria de Educa ção e Cultura, 1978). 
8 C.R. Boxer, Os Holandeses no Brasil, 1624-1654 (São Paulo: Editora Nacional, 1961; tradução de 
The Dutch in Brazil, 1624-1654 [Londres: Oxford University Press, 1957]), p. 45. Em 1630, havia 
137 engenhos de açúcar, com uma produção de 700.000 arrobas, ou seja, 10.500.000 quilos por ano. 
O livro de Boxer dá um ótimo resumo da história geral da época. Evaldo Cabral de Mello, Olinda 
Restaurada: Guerra e Açúcar no Nordeste, 1630-1654 (Rio de Janeiro/São Paulo: Forense- 
Universitária/Universidade de São Paulo, 1975). 
9 Panfleto De Portogysen goeden Buyrman (O bom vizinho português; Lisbon: Drucksael daer uyt-hangt 
het Verradich Portugael, 1649. Sic: Lisboa? Sala de impress ão com a placa Portugal Traidor? ), 
p. 13. 
10 José Honório Rodrigues, Civilização Holandesa no Brasil (Rio de Janeiro: Nacional, 1940), p. 16 9: 
"capa cultural." Ver E.van den Boogaert, ed., Johan Maurits van Nassau -Siegen, 1604-1679: A 
Humanist Prince in Europe and Brazil. Essays on the Occasion of the Tercentenary of his Death ('s- 
Gravenhage: The Johan Maurits van Nassau Stichting, 1979). 
11 C.R. Boxer, The Dutch Seaborne Empire (Londres: Hutchinson, 1965), 108. 
12 Panfleto Veroveringh van de Stadt Olinda (Conquista da cidade de Olinda; Amsterdam: J. Luyck, 
1630). Rev. J. Revius, Biechte des Conincx van Spanjen (Confiss ão do rei da Espanha mortalmente 
doente pela perda de Pernambuco; S.l.: s.e., 1630): "mea gravissima culpa." 
13 Instrução do almirante Lonck de 01-08-1629 sobre "onze rechtvaardige oorlog," nossa guerra justa 
contra a Espanha. Sobre a questão da liberdade religiosa durante esta época, ver F.L. Schalkwijk, 
Igreja e Estado no Brasil Holandês, 1630-1654, 2ª ed. (São Paulo: Vida Nova, 1989), 335-458. 
14 F.J. Moonen, Holandeses no Brasil (Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 1968), 53. 
15 E. Fischlowitz, Christoforo Arciszewski (Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1959). 
16 Laet, Verhael, III:143. 
17 Ver F.A. Pereira da Costa, Anais Pernambucanos, 10 vols. (Recife: Arquivo P úblico Estadual,
40 
1952-1966), III:12-19. 
18 Boxer, Holandeses, 63, nota 27. 
19 Ver nota 1. Somente em 1817 Alagoas tornou-se uma capitania independente de Pernambuco. 
20 Coelho, Memórias, 120 (20-04-1632). Matias era irmão do donatário Duarte de Albuquerque 
Coelho. 
21 Em 01-05-1632, Waerdenburch fez uma incursão a Igaraçu "sob a fidelidade ou infidelidade de um 
negro que me serviu de guia" (carta aos Estados Gerais, 09 -05-1632; provavelmente a primeira 
referência a Calabar nos documentos holandeses). F.A. de Varnhag en, História das Lutas com os 
Hollandezes no Brasil desde 1624 a 1654 (Lisboa: Castro Irmão, 1872), 59. Até novembro de 1632 
provavelmente surgiu certa dúvida por causa da confissão do colaborador Leendert van Lom, que 
alertou o governo a não confiar em nenhum português e que suspeitava de "Domingo Fernando," que 
joga (cartas) com capitães (de barcos) portugueses, dando-lhes dinheiro e chamando-os de primos (o 
que não são)." Porém, na hora da execução Lom hesitou em confirmar os nomes dos portugueses, de 
sorte que ficou a incerteza (Laet, Verhael, III:107). 
22 Coelho, Memórias, 138 (07-02-1633). 
23 Ibid., 197 (31-03 e 01-04-1634). 
24 Os protestantes, inclusive o pastor João Ferreira de Almeida, insistiram que não pertenciam a uma 
nova seita, mas à igreja cristã "católica reformada," não católica romana. Ver Schalkwijk, Igreja e 
Estado, 234s. 
25 No dia 20-09, não em 10-09 como foi sugerido pela edição impressa do Doopboek por ter omitido 
"Sept. 20" (Livro de Batismos da Igreja Reformada do Recife, 1633-1654, publicado por C.J. Wasch, 
Nederlandsch Familieblad, 5 e 6, 1888-1889). Frei Calado diz que Calabar travou amizade com Von 
Schoppe tomando-o "por compadre de um filho que lhe nasceu de uma mameluca, chamada B árbara, 
a qual levou consigo e andava com ela amancebado." Calado não reconheceu o matrimônio 
protestante (Calado, Lucideno, I:32, seguido por J.B.F. Gama, Memórias Históricas da Província de 
Pernambuco, 2ª ed., 2 vols. [Recife: Secretaria da Justiça/Arquivo Público Estadual, 1977], I:239). O 
colaborador Leendert van Lom afirmou (hesitando porém na hora da execução) que "a mulher de 
Domingo" falou que todos os holandeses deviam ser mortos à bala ("Domingos vrouw," Laet, 
Verhael, III:107). Em 1636, as atas do governo no Recife falam sobre "a viúva de Calabar" (Dagelijkse 
Notulen, 13-04-1636). Mameluca (Calado, Lucideno, I:14). Parece que B árbara também era natural 
de Porto Calvo, porque em março de 1635 o cunhado ("swagher") de Calabar traz notícias de que os 
grandes da povoação querem discutir (a rendição; Laet, Verhael, IV:151). Leal, no seu romance, 
desconhece Bárbara (Leal, Calabar, passim). 
26 Magtelt Daays. Engana-se o romancista Felício ao fazer Bárbara e o filho morrerem em 1631 
(Santos, Calabar, 97 e 102). Coelho, Memórias, 116. 
27 Pastores no Recife no ano de 1634: Christianus Wachtelo (1630 -1635) e Daniel Schagen (1634- 
1637), este mais ligado ao exército. 
28 Sobre Calado, ver J.A.G. de Mello, "Frei Manuel Calado do Salvador," Restauradores de 
Pernambuco (Recife: Imprensa Universitária, 1967). Era um religioso da ordem de São Paulo. 
29 Calado, Lucideno, I:46-48. "E como se havia de entender aquela promessa dos conc êrtos, que 
ficaria a mercê d'El-Rei." Calado justifica o não cumprimento do "à mercê d'el-rei," considerando o 
general Matias como representante do rei. Varnhagen, História geral, I:263, "(Calabar) esperançado 
talvez de ter algum meio de escapar-se, se em tempo de guerra andassem com ele, de uma parte para 
outra, à espera de ordens da metrópole." 
30 Enforcado, dizem Calado (Lucideno, I:47) e Coelho (Memórias, p. 264); garroteado, diz Guerra 
(Aventura, 103). João Ribeiro, História do Brasil, 19ª ed., rev. por Joaquim Ribeiro (Rio de Janeiro: 
Francisco Alves, 1966), 152: "como é próprio da fraqueza humana, vingaram-se." Mas parece que
41 
alta traição exigia este tipo de execução (ver Laet, Verhael, III:107, o traidor Leendert de Lom foi 
decapitado e esquartejado no Recife). O problema era o não cumprimento total das cláusulas (escritas 
ou orais) da rendição, pois teriam dado quartel a Calabar, "a mercê d'el-rei" (Calado, Lucideno, I:46- 
48; Carta do governo no Recife aos Senhores XIX, 23-08-1635, prometido o quartel. Laet, Verhael, 
IV:169). 
31 Calado, Lucideno, I:46-48, com Calabar durante quatro horas pela manhã e mais três horas à 
tarde; lágrimas e arrependimento. Leal se engana fazendo padre Manuel de Morais confessor de 
Calabar (Leal, Calabar, IV:135). 
32 Calado, Lucideno, I:47. Coelho, Memórias, 264 (22-07-1645), aguazil (funcionário administrativo 
e judicial) dos holandeses em Porto Calvo. Castro ou Crasto: Laet, Verhael, IV:162, Manuel de 
Crasto Fortado. 
33 J. Capistrano de Abreu, Capítulos de História Colonial, 4ª ed. (Rio de Janeiro: Briguet, 1954), 
155. 
34 J. Veríssimo qualifica os motivos, sem mencioná-los: "Foram vis e infamantes os móveis que o 
fizeram bandear-se" ("Os Hollandezes no Brazil," Revista do Instituto Arqueol ógico, Histórico e 
Geográfico Pernambucano [RIAP] 54:127). 
35 Ver Ruy dos Santos Pereira, Piso e a Medicina Indígena (Recife: Instituto Histórico Pernambucano 
e Universidade Federal de Pernambuco, 1980), 23. 
36 Calado, Lucideno, I:14, 46-48. Rodrigues diz sobre esse "saboroso livro" (no Index, Índice de 
Livros Proibidos, de 1655 até 1910) que o desejo de Calado "de ver o Brasil livre dos holandeses … 
conduziram-no muita vez ao erro, à parcialidade, à falsidade." Mas "foi uma injustiça … quando 
(Varnhagen julgou a obra) defeituosa e sem dignidade histórica"; José Honório Rodrigues, 
Historiografia e Bibliografia do Domínio Holandês no Brasil (Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 
1949), 11,12. Boxer, Holandeses, p. 68, n. 34,35. Mello, Calado, 9: "É, não uma história, mas o 
depoimento de um contemporâneo … a fim de influir sobre o Rei a favor dos insurretos …" (1648). 
37 Coelho, Memórias, 264 (22-07-1635). Guerra: Coelho precisava de um bode expiatório 
(Aventura, 79). 
38 Varnhagen, História das Lutas, 58; História Geral, I:277. H. Wätjen, O Domínio Colonial 
Hollandez no Brasil (São Paulo: Editora Nacional, 1938), 119: "um trânsfuga," sem mencionar 
motivos. 
39 Southey, História, II:212, 239, n. 1. Francisco de Brito Freyre, Nova Lusit ânia: História da Guerra 
Brasílica (Lisboa: 1675; Recife: Secretaria de Educação e Cultura, 1977). Gioseppe di S. Teresa, 
Istoria delle Guerre del Regno del Brasile (Roma: Corbelletti,1698), "compilação pouco estimável," 
conforme Rodrigues (Bibliografia, 147). Raphael de Jesus, Castrioto Lusitano (Lisboa: 1679; Recife: 
Assembléia Legislativa de Pernambuco, 1979), na sua maior parte c ópia de Calado. 
40 Guerra, Aventura, 94, 102. 
41 Coelho, Memórias, 68, 120. 
42 Ibid., 264 (22-07-1635). Nota 131: "Tradução literal do texto espanhol." A tradução (Melo 
Morais, 1855) rezava: "por sua infidelidade e crimes." Rodrigues avalia esta tradu ção como "indigna 
de apreço pelos seus erros e omissões" (Bibliografia, 223, ítem 410). Leal sugere que Calabar tentou 
organizar com uns cúmplices um desastre no Arraial para acabar com a guerra, e teria fugido depois 
de pôr fogo na barraca do general Matias (Leal, Calabar, II:104,132). 
43 Ver Laet, Verhael, III:95 (Barra Grande, 09-1632); III:112 (Camaragibe, 12-1632); II:190 
(descrição do litoral de Porto Calvo). Coelho, Memórias, 197 (Barra Grande, 04-1634). 
44 Ver Schalkwijk, Igreja e Estado, 234, n. 81. 
45 Como sobre a morte do almirante Pater envolvido na bandeira holandesa. Varnhagem, Hist ória 
Geral, I:276 (n.V).
42 
46 Boxer, Holandeses, 71, n. 38. 
47 Guerra, Aventura, 79ss. Guerra, Calabar, 36. 
48 Coelho, Memórias, 263 (19-07-1635: "o general assegurou [ao inimigo] que arriscaria a sua 
própria pessoa para não perder das mãos a de Calabar"); p. 264 (22-07-1635: "tão firme em não 
entregá-lo." Varnhagen, História Geral, I:263, "(Calabar) traidor por todos os séculos dos séculos." 
49 Calado, Lucideno (1648), I:46. Opinião copiada ao pé da letra por Diogo Lopes Santiago, História 
da Guerra de Pernambuco (1660?; Recife: Fundarpe, 1984), 92, e Raphael de Jesus, Castrioto 
Lusitano (p. 115). Assim também Varnhagen, História Geral, I:263. Mas o próprio donatário 
reconheceu que os holandeses fizeram muitos esforços para salvar a vida de Calabar: (Deus permitiu 
que) "o nosso general estivesse tão firme em não entregá-lo, a despeito de tamanhas instâncias que 
fazia o inimigo" (Coelho, Memórias, 264, 22-07-1635). 
50 Calado, Lucideno, II:241: "se não foram os judeus ..." Panfleto Portugysen, 13. 
51 Coelho, Memórias, 262 (17 e 18-07-1635). Laet, Verhael, IV:168. 
52 Coelho, Memórias, 263 (19-07-1635). Brito Freyre, Nova Lusitânia, 349: "persuadindo-os a se 
renderem, capitularam." Não há provas do engano sugerido por Freyre. Guerra, Aventura, 102, 
parafraseando: "O mameluco, ante a recusa de Picard em atender a intima ção do 'terríbil,' reagiu, e, 
com rara altivez e coragem, retorquiu para o enviado do inimigo: 'Ide e dizei ao General Matias de 
Albuquerque que o Coronel Picard aceita a proposta'." 
53 Calado, Lucideno, I:32. 
54 A Companhia reconheceu o valor de Calabar: o diretor De Laet escreveu que esse homem corajoso 
e forte "fez mui grandes serviços" (Laet, Verhael, IV:162,171). Nótulas Diárias do Governo no 
Recife, 13 de abril de 1636 (ver 24-01-1636). A viúva do pastor Stetten e seus filhos receberam uma 
ajuda provisória (Nótulas Diárias, 12-07-1647), suspensa em junho de 1650 (carta da D. Raquel à 
Stetten ao pastor P. Wittewrongel, de Amsterdam - Recife, 18-05-1652 (GAA-ACA 88, 4, p. 167- 
169). 
55 G. Groenhuis, De Predikanten (Groningen: Wolters-Noordhoff, 1977), 36. 
56 Coelho, Memórias, 120 (20-04-1632). 
57 Ver J.A.G. de Mello, "A Situação do Negro sob o Domínio Holandês," em Gilberto Freyre e 
outros, Novos Estudos Afro-Brasileiros (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1937). 
58 Informações geralmente contidas nas "cartas gerais" do governo no Recife aos Senhores XIX, 
1630-1632 (ver o índice da coleção "Brieven en Papieren" no Instituto Histórico no Recife; RIAP 
30:129-144). 
59 Pedidos de Hooghstraten ao Conselho Ultramarino em Lisboa para pagar o soldo prometido 
(Lisboa, Arquivo Histórico Ultramarino, cod. 14:88 e 278:230v, de 28-09-1647 e 25-02-1649). 
60 Boxer, Holandeses, 380-382. Muitas referências nos documentos holandeses. 
61 J.A.G. de Mello, João Fernandes Vieira, 2 vols. (Recife: Imprensa Universit ária, 1967), I:105- 
127. 
62 Abreu, Capítulos, 155. 
63 Calado, Lucideno, I:48. 
64 Southey, História, II:164. 
65 Coelho, Memórias, 264 (22-07-1635). 
66 Guerra, Aventura, 83: segundo Assis Cintra "[Aldiembert] 'teria dito' que Calabar, 'apesar de ter 
sofrido injustamente dos seus patrícios por ser mulato, tem recusado aceitar o nosso oferecimento de 
dinheiro e honrarias'." Guerra, Calabar, 42: Waerdenburch teria escrito à Holanda que "(Calabar) só 
se colocou ao nosso lado por convicção, pois recusou-se a recompensas que vossas senhorias lhe 
haviam mandado." Ver o post scriptum deste artigo. 
67 Santos, Major Calabar, 107 (capitão Jouer de Haia, o "língua," tradutor), 113-115. Calabar era
43 
capitão, não major, ver Laet, Verhael, IV:162s, em Porto Calvo, julho de 1635, Major Picard, 
Capiteyn Langley, Capiteyn van Exel, Capiteyn Domingo Fernandes Calabar, Capiteyn Jan Muller. 
68 C.R. Boxer, Race Relations in the Portuguese Colonial Empire, 1415 -1825 (Oxford: Clarendon, 
1963), 86-130; 1771. 
69 Guerra, Aventura, 83: Calabar "(sofreu) injustamente dos seus patr ícios por ser mulato." Ver nota 
66 e o post scriptum deste artigo. 
70 Southey, História, II:164: "se o tratamento recebido dos comandantes o desgostou." Leal, 
Calabar, I:141, em um conclave com conspiradores, faz Calabar dizer: "A minha raça é outra … 
Tolerais-me quando vos sou útil" (II:100), e faz com que o futuro sogro de João Fernandes Vieira bata 
com um ferro no rosto de Calabar, marcando-o (I:146; "ansiedade de vingança, III:29; IV:104). 
Ambos, Vieira e Calabar, seriam apaixonados por Maria C ésar (I:141), sugerindo ainda outro motivo. 
Isso, porém, não é válido, pois Leal desconheceu Bárbara (nota 25). 
71 Santos, Major Calabar, 112s. Leal, no seu romance hist órico, não aproveita o desgosto geral contra 
Bagnuolo por fazê-lo chegar depois da deserção de Calabar (Leal, Calabar, IV:54). Calado, segundo 
Boxer, é um crítico muito escarninho de Bagnuolo (Boxer, Holandeses, 68, n. 35). 
72 Brito Freyre, Nova Lusitânia, 240, 254. 
73 Ver nota 57. Observe-se sobre o tratamento dos escravos, as instruções de João Fernandes Vieira e 
as de Nono Olferdi para os novos colonos no Sergipe. Schalkwijk, Igreja e Estado, 74, n. 81. 
74 Também o índio Pedro Poti, membro da igreja cristã reformada, assina a sua carta na língua tupí 
como "regedor (dos) brasilianos em Paraíba" (31-10-1645). Talvez fosse bom usar de novo este nome 
arcaico, porém honorífico, como coletivo para todas as nossas tribos indígenas em geral. 
"Brasilianen," passim nos documentos holandeses para as tribos tupis (como tupinambás, potiguaras, 
sergipes, etc.), distinguindo-os dos tapuias (nhanduis, cariris). Os (luso) "brasileiros" eram chamados 
"portugueses" ou "moradores." Calado, Lucideno, I:xvi, "brasilianos" no sentido de "moradores." 
75 Abreu, Capítulos, 155. 
76 Coelho, Memórias, 264 (22-07-1635). 
77 Carta de Dom. (Rev.) Pistorius aos Senhores XIX, Recife, 04-11-1631. 
78 Schalkwijk, Igreja e Estado, 231-235. 
79 Calado, Lucideno, I:68s. 
80 Schalkwijk, Igreja e Estado, caps. 12-15, sobre a liberdade religiosa nessa época, mormente pp. 
388-458. 
81 Ver notas 25 e 26. 
82 Coelho, Memórias, 264 (22-07-1635). Brito Freyre, Nova Lusitânia, 350: "com piedosas mostras 
de verdadeiro arrependimento e lágrimas constantes, nascidas mais do temor de Deus que do receio 
do castigo." Guerra, Aventura, 103: "firme e seguro, sem denotar arrependimento," ou seja, não se 
sabe se considerou a "traição" como pecado. 
83 O Catecismo de Heidelberg (1563) era estudado dominicalmente nas igrejas reformadas. Havia no 
Brasil uma edição em espanhol, Catechismo (s.l.: Ioris van Henghel, 1628, 135 p.), 1ª pergunta e 
resposta. Sobre Poti, Schalkwijk, Igreja e Estado, 309. 
84 Rodrigues, Bibliografia, 13. Brito Freyre (Armada: 1654; Governador: 1661 -1664), Nova 
Lusitânia, 350. 
85 Guerra, Aventura, 79-84, 103. Guerra, Calabar, 42, 69. Ver o post scriptum no fim deste artigo. 
86 Santos, Major Calabar, 99, 101 e 205. Capitão Jouer, ver nota 66. 
87 A peça "Calabar" (com subtítulo de "O Elogio da Traição" e músicas como "Bárbara"), de Chico 
Buarque de Hollanda e Ruy Guerra, foi proibida em 1973 pelo governo militar, mas liberada em 
1980. O alvo era debater a figura do "traidor" por ocasi ão do sesquicentenário da independência 
(Veja, 14-05-1980, pp. 60ss).
44 
88 Laet, Verhael, III:98. Gaspar Barlaeus, História dos feitos recentemente praticados durante oito 
anos no Brasil (Amsterdam: 1647; Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1980), 39. 
89 Abreu, Capítulos, 155. Muitos têm opinião semelhante, como Rocha Pombo, História do Brasil, 
7ª ed. (São Paulo: Melhoramentos, 1956), I:171; Southey, História do Brasil, II:164: "não se sabe"; 
Hélio Vianna, História do Brasil (São Paulo: Melhoramentos, 1961), etc. 
APOSTILA 02 
ESTUDOS SOBRE – ANJOS 
Reverendo professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
Presidente da Federação Internacional das Igrejas e Pastores no Brasil ou FENIPE 
www.fatefina.com.br 
TOTAL 21 - PAGINAS 
4 ASSUNTOS! 
Cada Crente Possui um Anjo da Guarda? 
Anjos no Novo Testamento 
Anjos: Um Serviço Secreto Muito Especial 
Espíritos ministradores 
ANJOS NO NOVO TESTAMENTO 
Professor: Reverendo ADiego Roberto 
A crença em anjos no Novo Testamento 
Os cristãos não eram o único grupo do primeiro século que acreditava na existência de anjos. A 
maioria das seitas do judaísmo, berço do cristianismo, pro-fessava a crença nesses mensageiros 
celestes, á exceção provável dos saduceus (At 23.8). 0 interesse dos judeus por anjos havia crescido de 
forma notável durante o período intertestamentario, quando o segundo templo foi construído, após o 
retorno do cativeiro babilônico. É provável que esse aumento de interesse pelos anjos tenha ocorrido 
como resultado da ênfase nesse período á idéia de que Deus havia se distanciado do seu povo, já que 
não havia mais profetas. A ausência de profetas, os mensageiros oficiais de Deus ao seu povo, 
provocava a necessidade de outros mediadores da vontade divina. Os anjos vieram ocupar esse espaço 
no judaísmo do segundo templo. 0 aumento do interesse pelo mundo celestial e pelos seus habitantes, 
os anjos, nota-se nos escritos judaicos produzidos antes ou logo após o nascimento do cristianismo. 
Exemplos desta tendência se percebem em alguns livros apócrifos (4 Esdras 2.44-48; Tobias 6.3-15; 2 
Macabeus 11.6). 0 mesmo se vê em alguns dos escritos dos sectários do Mar Morto achados nas 
cavernas do Wadi Qumran, como o rolo da Batalha entre os Filhos das Trevas e os Filhos da Luz. 
Alguns dos escritos produzidos pelo movimento apocalíptico dentro do judaísmo, mais que os escritos 
de outros movimentos, enfatizava o ministério dos anjos (1 Enoque 6. 1 ss; 9. 1 ss), 0 interesse pelos 
anjos se nota até mesmo nos escritos rabínicos datados a partir do século III (com exceção do 
Mishnah), e que possivelmente representam a linha principal do judaísmo no período do segundo 
templo. 
Fora das fronteiras do judaísmo, a crença em anjos, encontrava-se não somente nas religiões que 
fervilhavam no mundo greco-romano, mergulhado no misticismo helênico, como também nas obras 
dos filósofos e escritores gregos famosos, como Sófocles, Homero, Xenofonte, Epicteto e Platão. A 
biblioteca de Nag Hammadi, descoberta em nosso século (1945) nas areias quentes do deserto 
egípcio, apresenta material gnóstico datando do século IV, com uma elaborada angelologia, onde a 
distância entre Deus e os homens é coberta por trinta "archons", seres intermediários, possivelmente
45 
anjos, que guardam as regiões celestes. Os "Papiros Mágicos" desta coleção contém fórmulas para 
atrair os anjos. Embora datando do século IV, estes escritos possivelmente refletem crenças que já 
estavam presentes de forma incipiente no mundo greco-romano desde antes de Cristo. Em contraste 
aos escritos produzidos cm sua época, a literatura do Novo Testamento é bem mais discreta e 
reservada em seus relatos da atividade angélica. 
As palavras mais comuns para "anjos" 
no Novo Testamento 
A palavra mais usada no Novo Testamento para "anjo" é aggelos, que é a tradução regular na 
Septuaginta da palavra hebraica Mala'k. Ambas significam 'mensageiro". Aggelos é usada umas poucas 
vezes no Novo Testamento para mensageiros humanos, como por exem plo os emissários de João 
Batista a Jesus (Lc. 7.24; veja ainda Tg 2.25; Lc 9.52). Na maioria esmagadora das vezes, a palavra 
refere-se aos mensageiros de Deus, que povoam o mundo celeste e assistem em sua presen ça. Aggelos 
é usada tanto para anjos de Deus quanto para os anjos maus. 
Existe outro termo no Novo Testamento para se referir aos anjos, o qual s ó Paulo emprega: 
"principados e potestades". Em duas ocasiões é usado em referência aos demônios (Ef 6.12; Cl 2.13) 
e em três outras aos anjos de Deus (Ef 3.10; Cl 1.16; 1 Pe 3.22). Em todos os casos, refere -se ao 
poder e á hierarquia que existe entre esses espíritos. Uma outra palavra usada no Novo Testamento 
para anjos e pneuma, geralmente no plural (pneumata) , que se traduz por espíritos". Embora o termo 
seja empregado geralmente para os anjos maus e decaídos (quase sempre qualificado pelo adjetivo 
"imundo", cf. Mt 12.43; Lc 4.36; At 8.7), é usado pelo menos uma vez para os anjos de Deus, como 
sendo "espíritos administradores" (Hb 1. 14). Alguns estudiosos têm sugerido que "espíritos" 
também se refere a anjos em outras passagens onde a palavra pneumata aparece, como por exemplo 1 
Co 14.12. Neste versículo o apóstolo Paulo aprova e incentiva o desejo dos membros da igreja por 
pneumata, expressão quase que universalmente traduzida como "dons espirituais", devido ao 
contexto. De acordo com E. Earle Ellis, Paulo, na verdade, não se refere a dons espirituais, mas aos 
anjos que estavam presentes aos cultos (1 Co 11. 10). Sua tese é que existe uma relação estreita entre 
as manifestações sobrenaturais que estavam acontecendo na igreja de Corinto e o minist ério angélico. 
Tais manifestações, ou parte delas, não eram produzidas pelo Espírito Santo, e nem também por 
espíritos malignos, mas por estes espíritos bons. Outras passagens onde "espíritos" significa "anjos", 
segundo Ellis, são 1 Co 14.32; 1 Jo 4.1-3; Ap 22.6.1(1). Embora esta sugestão seja interessante e 
provocativa, fica difícil ver como "espíritos" produtores de dons espirituais se encaixam no contexto 
de 1 Co 14.12 e no ensino de Paulo de que os dons são dados pelo Espírito Santo. 0 uso de pneumata 
em 1 Co 14.12 (bem como nas demais passagens mencionadas acima) pode ser explicado á luz de 1 
Co 12.7, onde Paulo afirma que há diferentes manifestações do Espírito Santo. Ou seja, o mesmo 
Espírito manifesta-se de formas diferentes através de pessoas diferentes. Paulo refere-se a estas 
manifestações como "espíritos". Elas eqüivalem aos dons espirituais. E difícil admitir que Paulo 
aprovaria um desejo dos crentes de Corinto de buscar estas entidades celestiais. 
Anjos através dos livros do Novo Testamento 
A presença e a atividade de anjos registradas nos evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas) 
indicam invariavelmente a intervenção direta de Deus. Como mensageiros fiéis de Deus, que têm 
acesso a presença divina (Lc 1. 19; cf 12.8; Mt 10.32; Lc 15.10), a visita ou a interven ção de um deles 
eqüivale a uma manifestação divina. A encarnação e o nascimento de Jesus foram marcados pela 
presença de anjos, indicando a participação direta de Deus no nascimento do Messias (Mt 1.20; 
2.13,19; Lc 1 . 11; 1.26-38). Embora os evangelhos não registrem quase nenhuma participação direta 
dos anjos assistindo a Jesus em seu ministério (o que poderia ter ocorrido, se Jesus quisesse, Mt
46 
26.52), os anjos acompanharam o Senhor e se rejubilaram a medida em que pecadores se arrependiam 
(Lc 15.10). As poucas vezes em que se manifestaram visiv elmente tinham como propósito demonstrar 
que Ele era amado e aprovado por Deus (Mt 4.11; Lc 2143). Os anjos ainda participaram da sua 
ressurreição, da anunciação ás mulheres, e da anunciação aos discípulos de que Jesus havia de voltar 
(Mt 28.2-5; At 1.9-11). E o próprio Jesus também mencionou varias vezes que os anjos 
participariam) da sua segunda vinda e do Juízo final (Mt 13.4 1; 16.27; 24.3 l). 
Embora nos evangelhos a atividade dos anjos praticamente se concentre em tomo da pessoa de Jesus, 
ele mesmo menciona uma atividade deles relacionada aos homens, "cuidado para n ão desprezarem 
nenhum destes pequeninos. Eu afirmo que os anjos deles est ão sempre na presença do meu Pai que 
está no céu" (Mt 18. 10, NVI). Aqui Jesus fala do cuidado vigilante de Deus pelos "pequeninos ', 
através dos anjos. A quem Jesus se refere por pequeninos" tem sido debatido pelos estudiosos, j á que 
o termo pode ser tomado literalmente (crianças) ou figuradamente (os discípulos). Talvez a última 
possibilidade deva ser a preferida, já que Jesus usa regularmente pequeninos" para se referir aos 
discípulos, cf Mt 10.42; 18.6; Mc 9.42; Lc 17.2. Qualquer que seja a interpreta ção, a passagem não 
está ensinando que cada crente ou criança tem seu próprio "anjo da guarda", como era crido 
popularmente entre os judeus na época da igreja primitiva. Fazia parte desta crença que o anjo 
guardião" poderia tomar a forma do seu protegido (cf. At 12.15). Jesus est á ensinando nesta passagem 
que Deus envia seus anjos para assistir aos "pequeninos", e que, portanto, n ós não devemos desprezar 
estes "pequeninos". Esse ministério angélico para com os "pequeninos" faz parte do cuidado geral que 
os anjos desempenham, pelo povo de Deus (cf. SI 9 1.11; Hb 1. 14; Lc 16 .22). A passagem, 
portanto, não deve ser tomada como suporte á crença popular em "anjos da guarda". 
E importante notar que o Evangelho de João faz pouquíssimas referências á atividade dos anjos, 
embora, segundo João, Jesus tenha dito aos seus discípulos, no início do seu ministério, que eles 
veriam, os anjos subindo e descendo sobre si (Jo 1. 5 1 ). Possivelmente esta passagem não deva ser 
entendida literalmente no que se refere aos anjos, mas apenas como uma alusão ao sonho de Jacó (Gn 
28.12) e ao seu cumprimento na pessoa de Cristo (unindo o céu á terra). No relato de João das boas 
novas, os anjos só revelam a sua presença ao lado da sepultura de Jesus (Jo 20.12)(2). 
Estes fatos indicam que as aparições angélicas durante o período cm que Jesus esteve presente 
fisicamente entre nós foram relativamente poucas, e quase todas associadas com o seu nascimento, 
ministério, morte e ressurreição. Era conveniente que a vinda do Filho de Deus ao mundo fosse 
marcada por esta atividade angélica especial. 
Apesar de a narrativa do livro de Atos abranger um período marcado por intensa manifestação 
sobrenatural, que foi o nascimento da igreja cristã, as aparições angélicas registradas pelo autor são 
relativamente poucas. Não há aparição de anjos em grupos, á exceção dos dois homens em vestes 
resplandecentes no local da ascensão (At 1. 10- 11). Nas intervenções angélicas, é sempre um único 
anjo que aparece, o qual é chamado de "um anjo do Senhor" (At 5.19; 8.26; 12.7,15) ou "um anjo de 
Deus" (10.3; 27.23). A expressão "anjo do Senhor" não tem. em Atos a mesma conotação que no 
Antigo Testamento, onde ás vezes este anjo é identificado com o próprio Deus. Em Atos a expressão 
sempre designa um mensageiro angelical. Os anjos aparecem em Atos com a mesma função principal, 
que no Antigo Testamento e nos Evangelhos, ou seja, trazer uma mensagem oficial da parte de Deus 
(At 5.19; 10.' 10.22; 27.23). A isto se acresce a função protetora, pois por duas vezes um anjo do 
Senhor libertou apóstolos da prisão (At 5.19; 12.7). Uma outra missão de um anjo foi punir o rei 
Herodes (At 12.23) missão esta já mencionada no Antigo Testamento (cf Ex 12.13; 2 Sm 24.17) A 
atividade dos anjos em Atos, além de bastante discreta, é voltada quase que exclusivamente para o 
progresso do Evangelho. Um ponto de grande relevância para nos hoje é que ela se concentra, em 
torno dos apóstolos (At 5.19; 12.7 27.23) ou dos seus associados, como Filipe (8.26). A única 
exceção foi a aparição á Cornélio (At 10,3). Mesmo assim ocorreu una ponto crucial do nascimento
47 
da Igreja Cristã, que foi a inclusão do gentios na Igreja. Á exceção deste caso não há registro de 
aparições de anjos ao crentes em geral, nem para lhes trazer mensagens de Deus, nem para pr otege-los, 
embora certamente eles estivessem ocupados em desempenhar esta última; função, 
provavelmente de forma não perceptível aos crentes. 
0 apóstolo Paulo é bastante ponderado no que escreve sobre os anjos, se com parado com outros 
autores religiosos não cristãos da sua época. Ele emprega a palavra aggelos apenas catorze vezes em 
suas treze cartas. Ele se refere aos anjos de Deus, não tanto como mensageiro: celestes ou protetores 
dos crentes, mas como participantes do progresso do plano de Deus neste mundo, que participaram 
da entrega da Lei no Sinai (G1 3.19) e que virão com Cristo para executar juízo sobre a humanidade 
(2 Ts 1.7). Estes são os "anjos eleitos", que assistem diante de Deus (I Tm 5 .2 1; cf. Gl 4.14). Uma 
possível explicação para a atitude reservada de Paulo é que, para ele, o Senhor Jesus, é a manifestação 
suprema de Deus, que suplanta todas as demais, diante das quais as manifestações angélicas perdem 
em importância e relevância (Ef 1.21; Cl 1. 16; cf. Hb 1. 1-2). Em nenhum momento Paulo 
menciona em suas cartas encontros angélicos que porventura teve, nem encoraja os crentes a buscar 
tais encontros. Some-se a isso a preocupação que demonstra em suas cartas com aparições e visões de 
anjos. 0 apóstolo teme que anjos caídos, passando-se por anjos de Deus, manifestem-se em visões com 
o 
alvo de enganar os crentes. Ele menciona a possibilidade de que um anjo do c éu venha pregar outro 
evangelho (G1 1. S), e que Satanás apareça dissimulado de "anjo de luz" (2 Co 11.14). Ele alerta aos 
crentes de Colossos a que não se deixem arrastar para o culto aos anjos propagado pelos l íderes da 
heresia que ameaçava a igreja, e que se baseava cm visões (C1 2.18). 
Uma passagem surpreendente sobre anjos é Gl 3.19, em que Paulo diz que a Lei de Deus foi entregue 
ao povo de Israel por meio de anjos. Esse fato no é mencionado na narrativa da entrega da Lei a 
Moisés no livro de Êxodo. Sua veracidade foi aceita possivelmente durante o per íodo do segundo 
templo, quando os anjos receberam cada vez mais lugar destacado na teologia do judaísmo,. ao ponto 
de serem. reconhecidos como mediadores no Sinai, na hora da entrega da Lei a Mois és por Deus. 0 
fato foi aceito como verídico por judeus cristãos como Estêvão (At 7.53), o autor de Hebreus (Hb 
2.2), e por Paulo. Só que, enquanto que para os judeus da sua época, a presença de anjos no Sinai era 
algo que exaltava a glória da Lei, para Paulo, a presença destas criaturas era apenas um sinal da 
inferioridade da Lei em comparação ao Evangelho, que havia sido trazido pelo próprio Filho de Deus, 
sem mediação de criaturas. 
Uma outra passagem difícil de entender nas cartas de Paulo é a enigmática expressão de 1 Co 11. 10. 
"Por esta razão, e por causa dos anjos, a mulher deve ter sobre a cabeça um sinal de autoridade". 0 
que tem os anjos, a ver com o uso do véu nas igrejas de Corinto? A resposta está ligada a um aspecto 
da situação histórica específica da Igreja de Corinto no século I, que nós desconhecemos. Havia uma 
idéia estranha na época de Paulo de que Gn 6.1-2 se referia a anjos que se deixaram atrair pelos 
encantos femininos (uma tradição rabínica acrescenta que foram os longos cabelos das mulheres que 
tentaram os anjos), A falta de decoro e propriedade por parte das mulheres na igreja de Corinto 
poderia novamente provocá-los. 0 mais provável é que Paulo se refira a outro conceito corrente que 
os anjos bons eram guardiões do culto divino, o que exigiria decoro e propriedade por parte de todos 
os adoradores. Este conceito se encaixa perfeitamente no ensino do Novo Testamento de que os anjos 
observam e acompanham o desenvolvimento do evangelho no mundo (ver Ef 3. 10, 1 Tm 5.12; 1 Pe 
1. 12; Hb 1. 14). 
Não há menção de anjos cm Tiago, e nem nas três cartas de João. Pedro menciona apenas que os anjos 
anelam compreender os mistérios do Evangelho (1Pe 1. 12), e que estão subordinados a Cristo 
(3,22). Em Judas encontramos mais uma referência enigmática aos anjos, desta feita cm relação ao 
confronto do arcanjo Miguel com Satanás, em disputa pelo corpo de Moisés (Jd 9). Esse incidente não
48 
é narrado no Antigo Testamento, mas aparece num livro apócrifo que era bastante popular entre os 
judeus chamado A Ascensão de Moisés. Neste livro o autor narra que, após a morte de Moisés, 
sozinho no monte, Deus encarregou o arcanjo Miguel de dar-lhe sepultura. 0 diabo veio disputar o 
corpo, alegando que Moisés era um assassino (havia matado o egípcio), e que, portanto, seu corpo lhe 
pertencia. De acordo com a Ascensão, Miguel limitou-se a dizer que o Senhor repreendesse os 
intentos malignos de Satanás. Embora narrado num livro apócrifo, o incidente deve ter ocorrido, e 
Deus permitiu que, através de Judas, viesse a alcançar lugar no cânon do Novo Testamento. 
A carta aos Hebreus menciona os anjos nada menos que 13 vezes, 11 das quais nos dois primeiros 
capítulos, onde o autor procura estabelecer a superioridade de Cristo sobre os anjos (Hb 1.4 -7,13; 
2.2,15,16). A razão para esta abordagem foi possivelmente a exaltação dos anjos por parte de muitos 
judeus no século I. 0 autor, escrevendo a judeus cristãos sentiu a necessidade de diferenciar a 
mensagem do evangelho trazida por Cristo, e as muitas mensagens e mensageiros angelicais que 
infestavam a crendice popular judaica no século I. 
E no livro de Apocalipse que temos a maior concentração no Novo Testamento do ensino sobre anjos. 
É o livro do Novo Testamento que mais emprega a palavra aggelos (67 vezes). Aqui os anj os aparecem 
como agentes celestes que executam os propósitos de Deus no mundo, como proteger os servos de 
Deus (Ap 7.1-3) e administrar os juízos divinos sobre a humanidade incrédula e impenitente (Ap 8.2; 
15.1; 16.1). Apocalipse está cheio das visões que o apóstolo João teve do céu, e os anjos aparecem 
como habitantes das regiões celestes, ao redor do trono divino, em reverente adora ção a Deus e ao 
Cordeiro (Ap 5.11; 7.11), mediando ao apóstolo João as visões e as instruções divinas (Ap 1.1). 
Uma questão que tem atraído o interesse dos intérpretes é o sentido da palavra "anjo" em Ap 1.20, 
"os anjos das sete igrejas" (cf Ap 2.1,8,12,18; 3,1,7,14).Alguns acham que Jo ão se refere aos pastores 
das igrejas às quais endereça suas cartas, já que em Malaquias os líderes religiosos são chamados de 
anjos (MI 2.7). Ou então, aos mensageiros (aggelos) das igrejas que haveriam de levar as cartas às suas 
comunidades. 0 problema com estas interpretações é que a palavra aggelos em Apocalipse nunca é 
usada para seres humanos, mas consistentemente para anjos. Por este motivo, outros, como Origenes 
no século II, acham que João se refere a anjos reais, já que este é o uso regular que ele faz da palavra 
no livro. Estes anjos seriam os anjos de guarda de cada igreja a quem João manda uma carta. A 
dificuldade óbvia com esta interpretação é que as advertências e repreensões das cartas seriam 
dirigidas a anjos, e não aos membros da igreja. Além do mais, fica claro pelo 
fim de cada carta que elas foram endereçadas aos membros das igrejas (2.7,11,17 etc). Assim, outros 
estudiosos têm sugerido que "anjos" representam o estado real de cada igreja, o "esp írito" da 
comunidade. Esta idéia, que no deixa de ser curiosa e estranha, tem sido adotada por alguns que 
defendem que igrejas têm suas próprias entidades espirituais malignas, que se alimentam dos pecados 
não tratados das mesmas(3). Fica difícil tomar uma decisão. Mas, já que é evidente que os anjos e as 
igrejas são uma mesma coisa nestas passagens, a " interpretação que talvez traga menos dificuldades é 
que aggelos (anjos) se refere aos pastores das igrejas. 
Anjos em batalha espiritual 
Uma outra passagem cm Apocalipse que merece destaque é a que descreve uma batalha no céu entre 
Miguel e seus anjos, contra o dragão e seus anjos, onde Satanás é derrotado e lançado á terra (Ap 
12.7-9). A que evento histórico esta guerra celestial corresponde tem sido bastante discutido. Para 
alguns, refere-se á queda de Satanás no principio, quando revoltou-se contra Deus e foi expulso dos 
céus. Para outros, a vitória final de Cristo, ainda por ocorrer no fim dos tempos. 0 contexto, 
entretanto, parece favorecer outra interpretação, ou seja, que esta derrota de Satanás nas regiões 
celestiais corresponde à vitória de Cristo, ao morrer e ressuscitar, já que ela aconteceu, "por causa do 
sangue do cordeiro" (Ap 12. 10; cf. Jo 12.3 1; 16.1 l).À semelhança do Antigo Testamento, o Novo é
www.obeb.com.br / http://www.teologiagratisefenipe.com.br/page10.php 
49 
igualmente reservado em narrar estas pelejas celestiais, e limita-se a registrar dois confrontos do 
arcanjo Miguel com Satanás (Jd 9; Ap 12.7-9). Não temos condições de saber quais as razões para 
estes embates entre anjos, e nem quão freqüentemente eles ocorrem no misterioso mundo celestial. 
Digno de nota é o fato que Miguel, que no Antigo Testamento aparece como guardi ão de Israel, surge 
aqui em Ap 12.7-9 como defensor da Igreja, liderando as hostes angélicas contra Satanás e seus 
demônios, que procuram destruir a obra de Deus. Sua área de ação não e mais o território de Israel, 
mas o mundo, onde quer que a Igreja esteja. A constatação deste fato deveria moderar a fascinação de 
muitos hoje pela idéia de espíritos territoriais, maus ou bons, que seriam supostamente respons áveis 
por determinadas regiões geográficas, e que se embatem em busca da supremacia sobre aqueles locais. 
É possível que as nações ou outras regiões tenham seus príncipes angélicos, bons ou maus, mas esta 
idéia não exerce qualquer função ou influência no ensino do Novo Testamento, quanto aos anjos e á 
sua participação na luta da igreja contra os "principados e potestades, contra os dominadores deste 
mundo tenebroso" (Ef 6.12). Enquanto que em Daniel os principados e as potestades aparecem 
relacionados com determinados territórios, no Novo Testamento eles aparecem não mais relacionados 
com regiões, mas com este mundo tenebroso. 0 conflito regionalizado do Antigo Testamento tomou 
caráter universal e cósmico com a vitória de Cristo. 0 diabo e seus príncipes malignos são vistos agora 
como dominadores, não de determinadas regiões geográficas, mas "deste mundo tenebroso". E os 
anjos agora servem aos servos de Deus, em qualquer regi ão geográfica do planeta, onde se encontrem. 
Notas de rodapé 
1 Ver E. Earle Ellis, Spiritual GIffs in the Pauline Community, em New Testment Studies 20 (1973 - 
1974) 134. 
2 Existe séria dúvida da parte de muitos especialistas em manuscritologia b íblica de que a passagem de 
João 5,4, que menciona a decida de um anjo para mover a água da piscina de Betesda, seja de fato 
autêntica, visto que não aparece nos manuscritos mais antigos importantes. , 
3 Neuza ltioka, por exemplo, afirma que os anjos das cartas de Apocalipse (Ap 2 -3 são anjos literais 
que Incorporam e absorvem o estado espiritual da Igreja, e que alguns deles s ão substituídos por 
demônios, devido á decadência espiritual da comunidade que representam. Ela baseia -se nas sugestões 
(sem exegese) de Walter Wink e R. Linthicum em Ap 2-3, cf. A Igreja e a Batalha Espiritual: Você 
Está Em Guerra em Série Batalha Espiritual (São, Paulo: Editora SEPAL 1994) 36,39,40-41,67,11 
ANJOS NO NOVO TESTAMENTO 
Antony Steff Gilson de Oliveira 
A crença em anjos no Novo Testamento 
Os cristãos não eram o único grupo do primeiro século que acreditava na existência de anjos. A 
maioria das seitas do judaísmo, berço do cristianismo, pro-fessava a crença nesses mensageiros 
celestes, á exceção provável dos saduceus (At 23.8). 0 interesse dos judeus por anjos havia crescido de 
forma notável durante o período intertestamentario, quando o segundo templo foi construído, após o 
retorno do cativeiro babilônico. É provável que esse aumento de interesse pelos anjos tenha ocorrido 
como resultado da ênfase nesse período á idéia de que Deus havia se distanciado do seu povo, já que 
não havia mais profetas. A ausência de profetas, os mensageiros oficiais de Deus ao seu povo, 
provocava a necessidade de outros mediadores da vontade divina. Os anjos vieram ocupar esse espaço 
no judaísmo do segundo templo. 0 aumento do interesse pelo mund o celestial e pelos seus habitantes, 
os anjos, nota-se nos escritos judaicos produzidos antes ou logo após o nascimento do cristianismo. 
Exemplos desta tendência se percebem em alguns livros apócrifos (4 Esdras 2.44-48; Tobias 6.3-15; 2 
Macabeus 11.6). 0 mesmo se vê em alguns dos escritos dos sectários do Mar Morto achados nas
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cavernas do Wadi Qumran, como o rolo da Batalha entre os Filhos das Trevas e os Filhos da Luz. 
Alguns dos escritos produzidos pelo movimento apocal íptico dentro do judaísmo, mais que os escritos 
de outros movimentos, enfatizava o ministério dos anjos (1 Enoque 6. 1 ss; 9. 1 ss), 0 interesse pelos 
anjos se nota até mesmo nos escritos rabínicos datados a partir do século III (com exceção do 
Mishnah), e que possivelmente representam a linha principal do judaísmo no período do segundo 
templo. 
Fora das fronteiras do judaísmo, a crença em anjos, encontrava-se não somente nas religiões que 
fervilhavam no mundo greco-romano, mergulhado no misticismo helênico, como também nas obras 
dos filósofos e escritores gregos famosos, como Sófocles, Homero, Xenofonte, Epicteto e Platão. A 
biblioteca de Nag Hammadi, descoberta em nosso século (1945) nas areias quentes do deserto 
egípcio, apresenta material gnóstico datando do século IV, com uma elaborada angelologia, onde a 
distância entre Deus e os homens é coberta por trinta "archons", seres intermediários, possivelmente 
anjos, que guardam as regiões celestes. Os "Papiros Mágicos" desta coleção contém fórmulas para 
atrair os anjos. Embora datando do século IV, estes escritos possivelmente refletem crenças que já 
estavam presentes de forma incipiente no mundo greco-romano desde antes de Cristo. Em contraste 
aos escritos produzidos cm sua época, a literatura do Novo Testamento é bem mais discreta e 
reservada em seus relatos da atividade angélica. 
As palavras mais comuns para "anjos" 
no Novo Testamento 
A palavra mais usada no Novo Testamento para "anjo" é aggelos, que é a tradução regular na 
Septuaginta da palavra hebraica Mala'k. Ambas significam 'mensageiro". Aggelos é usada umas poucas 
vezes no Novo Testamento para mensageiros humanos, como por exemplo os emissários de João 
Batista a Jesus (Lc. 7.24; veja ainda Tg 2.25; Lc 9.52). Na maioria esmagadora das vezes, a palavra 
refere-se aos mensageiros de Deus, que povoam o mundo celeste e assistem em sua presen ça. Aggelos 
é usada tanto para anjos de Deus quanto para os anjos maus. 
Existe outro termo no Novo Testamento para se referir aos anjos, o qual s ó Paulo emprega: 
"principados e potestades". Em duas ocasiões é usado em referência aos demônios (Ef 6.12; Cl 2.13) 
e em três outras aos anjos de Deus (Ef 3.10; Cl 1.16; 1 Pe 3.22). Em todos os casos, refere -se ao 
poder e á hierarquia que existe entre esses espíritos. Uma outra palavra usada no Novo Testamento 
para anjos e pneuma, geralmente no plural (pneumata), que se traduz por esp íritos". Embora o termo 
seja empregado geralmente para os anjos maus e decaídos (quase sempre qualificado pelo adjetivo 
"imundo", cf. Mt 12.43; Lc 4.36; At 8.7), é usado pelo menos uma vez para os anjos de Deus, como 
sendo "espíritos administradores" (Hb 1. 14). Alguns estudiosos têm sugerido que "espíritos" 
também se refere a anjos em outras passagens onde a palavra pneumata aparece, como por exemplo 1 
Co 14.12. Neste versículo o apóstolo Paulo aprova e incentiva o desejo dos membros da igreja por 
pneumata, expressão quase que universalmente traduzida como "dons espirituais", devido ao 
contexto. De acordo com E. Earle Ellis, Paulo, na verdade, não se refere a dons espirituais, mas aos 
anjos que estavam presentes aos cultos (1 Co 11. 10). Sua tese é que existe uma relação estreita entre 
as manifestações sobrenaturais que estavam acontecendo na igreja de Corinto e o minist ério angélico. 
Tais manifestações, ou parte delas, não eram produzidas pelo Espírito Santo, e nem também por 
espíritos malignos, mas por estes espíritos bons. Outras passagens onde "espíritos" significa "anjos", 
segundo Ellis, são 1 Co 14.32; 1 Jo 4.1-3; Ap 22.6.1(1). Embora esta sugestão seja interessante e 
provocativa, fica difícil ver como "espíritos" produtores de dons espirituais se encaixam no contexto 
de 1 Co 14.12 e no ensino de Paulo de que os dons são dados pelo Espírito Santo. 0 uso de pneumata 
em 1 Co 14.12 (bem como nas demais passagens mencionadas acima) pode ser explicado á luz de 1 
Co 12.7, onde Paulo afirma que há diferentes manifestações do Espírito Santo. Ou seja, o mesmo
51 
Espírito manifesta-se de formas diferentes através de pessoas diferentes. Paulo refere-se a estas 
manifestações como "espíritos". Elas eqüivalem aos dons espirituais. E difícil admitir que Paulo 
aprovaria um desejo dos crentes de Corinto de buscar estas entidades celestiais. 
Anjos através dos livros do Novo Testamento 
A presença e a atividade de anjos registradas nos evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas) 
indicam invariavelmente a intervenção direta de Deus. Como mensageiros fiéis de Deus, que têm 
acesso a presença divina (Lc 1. 19; cf 12.8; Mt 10.32; Lc 15.10), a visita ou a interven ção de um deles 
eqüivale a uma manifestação divina. A encarnação e o nascimento de Jesus foram marcados pela 
presença de anjos, indicando a participação direta de Deus no nascimento do Messias (Mt 1.20; 
2.13,19; Lc 1 . 11; 1.26-38). Embora os evangelhos não registrem quase nenhuma participação direta 
dos anjos assistindo a Jesus em seu ministério (o que poderia ter ocorrido, se Jesus quisesse, Mt 
26.52), os anjos acompanharam o Senhor e se rejubilaram a medida em que pecadores se arrependiam 
(Lc 15.10). As poucas vezes em que se manifestaram visivelmente tinham como prop ósito demonstrar 
que Ele era amado e aprovado por Deus (Mt 4.11; Lc 2143). Os anjos ainda participaram da sua 
ressurreição, da anunciação ás mulheres, e da anunciação aos discípulos de que Jesus havia de voltar 
(Mt 28.2-5; At 1.9-11). E o próprio Jesus também mencionou varias vezes que os anjos 
participariam) da sua segunda vinda e do Juízo final (Mt 13.4 1; 16.27; 24.3 l). 
Embora nos evangelhos a atividade dos anjos praticamente se concentre em tomo da pessoa de Jesus, 
ele mesmo menciona uma atividade deles relacionada aos homens, "cuidado para não desprezarem 
nenhum destes pequeninos. Eu afirmo que os anjos deles estão sempre na presença do meu Pai que 
está no céu" (Mt 18. 10, NVI). Aqui Jesus fala do cuidado vigilante de Deus pelos "pequeninos ', 
através dos anjos. A quem Jesus se refere por pequeninos" tem sido debatido pelos estudiosos, j á que 
o termo pode ser tomado literalmente (crianças) ou figuradamente (os discípulos). Talvez a última 
possibilidade deva ser a preferida, já que Jesus usa regularmente pequeninos" para se referir aos 
discípulos, cf Mt 10.42; 18.6; Mc 9.42; Lc 17.2. Qualquer que seja a interpretação, a passagem não 
está ensinando que cada crente ou criança tem seu próprio "anjo da guarda", como era crido 
popularmente entre os judeus na época da igreja primitiva. Fazia parte desta crença que o anjo 
guardião" poderia tomar a forma do seu protegido (cf. At 12.15). Jesus está ensinando nesta passagem 
que Deus envia seus anjos para assistir aos "pequeninos", e que, portanto, n ós não devemos desprezar 
estes "pequeninos". Esse ministério angélico para com os "pequeninos" faz parte do cuidado geral que 
os anjos desempenham, pelo povo de Deus (cf. SI 9 1.11; Hb 1. 14; Lc 16.22). A passagem, 
portanto, não deve ser tomada como suporte á crença popular em "anjos da guarda". 
E importante notar que o Evangelho de João faz pouquíssimas referências á atividade dos anjos, 
embora, segundo João, Jesus tenha dito aos seus discípulos, no início do seu ministério, que eles 
veriam, os anjos subindo e descendo sobre si (Jo 1. 5 1 ). Possivelmente esta passagem n ão deva ser 
entendida literalmente no que se refere aos anjos, mas apenas como uma alus ão ao sonho de Jacó (Gn 
28.12) e ao seu cumprimento na pessoa de Cristo (unindo o céu á terra). No relato de João das boas 
novas, os anjos só revelam a sua presença ao lado da sepultura de Jesus (Jo 20.12)(2). 
Estes fatos indicam que as aparições angélicas durante o período cm que Jesus esteve presente 
fisicamente entre nós foram relativamente poucas, e quase todas associadas com o seu nascimento, 
ministério, morte e ressurreição. Era conveniente que a vinda do Filho de Deus ao mundo fosse 
marcada por esta atividade angélica especial. 
Apesar de a narrativa do livro de Atos abranger um período marcado por intensa manifestação 
sobrenatural, que foi o nascimento da igreja cristã, as aparições angélicas registradas pelo autor são 
relativamente poucas. Não há aparição de anjos em grupos, á exceção dos dois homens em vestes 
resplandecentes no local da ascensão (At 1. 10- 11). Nas intervenções angélicas, é sempre um único
52 
anjo que aparece, o qual é chamado de "um anjo do Senhor" (At 5.19; 8.26; 12.7,15) ou "um anjo de 
Deus" (10.3; 27.23). A expressão "anjo do Senhor" não tem. em Atos a mesma conotação que no 
Antigo Testamento, onde ás vezes este anjo é identificado com o próprio Deus. Em Atos a expressão 
sempre designa um mensageiro angelical. Os anjos aparecem em Atos com a mesma função principal, 
que no Antigo Testamento e nos Evangelhos, ou seja, trazer uma mensagem oficial da parte de Deus 
(At 5.19; 10.' 10.22; 27.23). A isto se acresce a função protetora, pois por duas vezes um anjo do 
Senhor libertou apóstolos da prisão (At 5.19; 12.7). Uma outra missão de um anjo foi punir o rei 
Herodes (At 12.23) missão esta já mencionada no Antigo Testamento (cf Ex 12.13; 2 Sm 24.17) A 
atividade dos anjos em Atos, além de bastante discreta, é voltada quase que exclusivamente para o 
progresso do Evangelho. Um ponto de grande relevância para nos hoje é que ela se concentra, em 
torno dos apóstolos (At 5.19; 12.7 27.23) ou dos seus associados, como Filipe (8.26). A única 
exceção foi a aparição á Cornélio (At 10,3). Mesmo assim ocorreu una ponto crucial do nascimento 
da Igreja Cristã, que foi a inclusão do gentios na Igreja. Á exceção deste caso não há registro de 
aparições de anjos ao crentes em geral, nem para lhes trazer mensagens de Deus, nem para protege-los, 
embora certamente eles estivessem ocupados em desempenhar esta última; função, 
provavelmente de forma não perceptível aos crentes. 
0 apóstolo Paulo é bastante ponderado no que escreve sobre os anjos, se com parado com outros 
autores religiosos não cristãos da sua época. Ele emprega a palavra aggelos apenas catorze vezes em 
suas treze cartas. Ele se refere aos anjos de Deus, não tanto como mensageiro: celestes ou protetores 
dos crentes, mas como participantes do progresso do plano de Deus neste mundo, que participaram 
da entrega da Lei no Sinai (G1 3.19) e que virão com Cristo para executar juízo sobre a humanidade 
(2 Ts 1.7). Estes são os "anjos eleitos", que assistem diante de Deus (I Tm 5.2 1; cf. Gl 4.14). Uma 
possível explicação para a atitude reservada de Paulo é que, para ele, o Senhor Jesus, é a manifestação 
suprema de Deus, que suplanta todas as demais, diante das quais as manifesta ções angélicas perdem 
em importância e relevância (Ef 1.21; Cl 1. 16; cf. Hb 1. 1-2). Em nenhum momento Paulo 
menciona em suas cartas encontros angélicos que porventura teve, nem encoraja os crentes a buscar 
tais encontros. Some-se a isso a preocupação que demonstra em suas cartas com aparições e visões de 
anjos. 0 apóstolo teme que anjos caídos, passando-se por anjos de Deus, manifestem-se em visões com 
o 
alvo de enganar os crentes. Ele menciona a possibilidade de que um anjo do c éu venha pregar outro 
evangelho (G1 1. S), e que Satanás apareça dissimulado de "anjo de luz" (2 Co 11.14). Ele alerta aos 
crentes de Colossos a que não se deixem arrastar para o culto aos anjos propagado pelos líderes da 
heresia que ameaçava a igreja, e que se baseava cm visões (C1 2.18). 
Uma passagem surpreendente sobre anjos é Gl 3.19, em que Paulo diz que a Lei de Deus foi entregue 
ao povo de Israel por meio de anjos. Esse fato no é mencionado na narrativa da entrega da Lei a 
Moisés no livro de Êxodo. Sua veracidade foi aceita possivelmente durante o período do segundo 
templo, quando os anjos receberam cada vez mais lugar destacado na teologia do judaísmo,. ao ponto 
de serem. reconhecidos como mediadores no Sinai, na hora da entrega da Lei a Mois és por Deus. 0 
fato foi aceito como verídico por judeus cristãos como Estêvão (At 7.53), o autor de Hebreus (Hb 
2.2), e por Paulo. Só que, enquanto que para os judeus da sua época, a presença de anjos no Sinai era 
algo que exaltava a glória da Lei, para Paulo, a presença destas criaturas era apenas um sinal da 
inferioridade da Lei em comparação ao Evangelho, que havia sido trazido pelo próprio Filho de Deus, 
sem mediação de criaturas. 
Uma outra passagem difícil de entender nas cartas de Paulo é a enigmática expressão de 1 Co 11. 10. 
"Por esta razão, e por causa dos anjos, a mulher deve ter sobre a cabeça um sinal de autoridade". 0 
que tem os anjos, a ver com o uso do véu nas igrejas de Corinto? A resposta está ligada a um aspecto 
da situação histórica específica da Igreja de Corinto no século I, que nós desconhecemos. Havia uma
53 
idéia estranha na época de Paulo de que Gn 6.1-2 se referia a anjos que se deixaram atrair pelos 
encantos femininos (uma tradição rabínica acrescenta que foram os longos cabelos das mulheres que 
tentaram os anjos), A falta de decoro e propriedade por parte das mulheres na igreja de Corinto 
poderia novamente provocá-los. 0 mais provável é que Paulo se refira a outro conceito corrente que 
os anjos bons eram guardiões do culto divino, o que exigiria decoro e propriedade por parte de todos 
os adoradores. Este conceito se encaixa perfeitamente no ensino do Novo Testamento de que os anjos 
observam e acompanham o desenvolvimento do evangelho no mundo (ver Ef 3. 10, 1 Tm 5.12; 1 Pe 
1. 12; Hb 1. 14). 
Não há menção de anjos cm Tiago, e nem nas três cartas de João. Pedro menciona apenas que os anjos 
anelam compreender os mistérios do Evangelho (1Pe 1. 12), e que estão subordinados a Cristo 
(3,22). Em Judas encontramos mais uma referência enigmática aos anjos, desta feita cm relação ao 
confronto do arcanjo Miguel com Satanás, em disputa pelo corpo de Moisés (Jd 9). Esse incidente não 
é narrado no Antigo Testamento, mas aparece num livro apócrifo que era bastante popular entre os 
judeus chamado A Ascensão de Moisés. Neste livro o autor narra que, após a morte de Moisés, 
sozinho no monte, Deus encarregou o arcanjo Miguel de dar-lhe sepultura. 0 diabo veio disputar o 
corpo, alegando que Moisés era um assassino (havia matado o egípcio), e que, portanto, seu corpo lhe 
pertencia. De acordo com a Ascensão, Miguel limitou-se a dizer que o Senhor repreendesse os 
intentos malignos de Satanás. Embora narrado num livro apócrifo, o incidente deve ter ocorrido, e 
Deus permitiu que, através de Judas, viesse a alcançar lugar no cânon do Novo Testamento. 
A carta aos Hebreus menciona os anjos nada menos que 13 vezes, 11 das quais nos dois primeiros 
capítulos, onde o autor procura estabelecer a superioridade de Cristo sobre os anjos (Hb 1.4 -7,13; 
2.2,15,16). A razão para esta abordagem foi possivelmente a exaltação dos anjos por parte de muitos 
judeus no século I. 0 autor, escrevendo a judeus cristãos sentiu a necessidade de diferenciar a 
mensagem do evangelho trazida por Cristo, e as muitas mensagens e mensageiros an gelicais que 
infestavam a crendice popular judaica no século I. 
E no livro de Apocalipse que temos a maior concentração no Novo Testamento do ensino sobre anjos. 
É o livro do Novo Testamento que mais emprega a palavra aggelos (67 vezes). Aqui os anjos a parecem 
como agentes celestes que executam os propósitos de Deus no mundo, como proteger os servos de 
Deus (Ap 7.1-3) e administrar os juízos divinos sobre a humanidade incrédula e impenitente (Ap 8.2; 
15.1; 16.1). Apocalipse está cheio das visões que o apóstolo João teve do céu, e os anjos aparecem 
como habitantes das regiões celestes, ao redor do trono divino, em reverente adoração a Deus e ao 
Cordeiro (Ap 5.11; 7.11), mediando ao apóstolo João as visões e as instruções divinas (Ap 1.1). 
Uma questão que tem atraído o interesse dos intérpretes é o sentido da palavra "anjo" em Ap 1.20, 
"os anjos das sete igrejas" (cf Ap 2.1,8,12,18; 3,1,7,14).Alguns acham que Jo ão se refere aos pastores 
das igrejas às quais endereça suas cartas, já que em Malaquias os líderes religiosos são chamados de 
anjos (MI 2.7). Ou então, aos mensageiros (aggelos) das igrejas que haveriam de levar as cartas às suas 
comunidades. 0 problema com estas interpretações é que a palavra aggelos em Apocalipse nunca é 
usada para seres humanos, mas consistentemente para anjos. Por este motivo, outros, como Origenes 
no século II, acham que João se refere a anjos reais, já que este é o uso regular que ele faz da palavra 
no livro. Estes anjos seriam os anjos de guarda de cada igreja a que m João manda uma carta. A 
dificuldade óbvia com esta interpretação é que as advertências e repreensões das cartas seriam 
dirigidas a anjos, e não aos membros da igreja. Além do mais, fica claro pelo 
fim de cada carta que elas foram endereçadas aos membros das igrejas (2.7,11,17 etc). Assim, outros 
estudiosos têm sugerido que "anjos" representam o estado real de cada igreja, o "esp írito" da 
comunidade. Esta idéia, que no deixa de ser curiosa e estranha, tem sido adotada por alguns que 
defendem que igrejas têm suas próprias entidades espirituais malignas, que se alimentam dos pecados 
não tratados das mesmas(3). Fica difícil tomar uma decisão. Mas, já que é evidente que os anjos e as
54 
igrejas são uma mesma coisa nestas passagens, a " interpretação que talvez traga menos dificuldades é 
que aggelos (anjos) se refere aos pastores das igrejas. 
Anjos em batalha espiritual 
Uma outra passagem cm Apocalipse que merece destaque é a que descreve uma batalha no céu entre 
Miguel e seus anjos, contra o dragão e seus anjos, onde Satanás é derrotado e lançado á terra (Ap 
12.7-9). A que evento histórico esta guerra celestial corresponde tem sido bastante discutido. Para 
alguns, refere-se á queda de Satanás no principio, quando revoltou-se contra Deus e foi expulso dos 
céus. Para outros, a vitória final de Cristo, ainda por ocorrer no fim dos tempos. 0 contexto, 
entretanto, parece favorecer outra interpretação, ou seja, que esta derrota de Satanás nas regiões 
celestiais corresponde à vitória de Cristo, ao morrer e ressuscitar, já que ela aconteceu, "por causa do 
sangue do cordeiro" (Ap 12. 10; cf. Jo 12.3 1; 16.1 l).À semelhança do Antigo Testamento, o Novo é 
igualmente reservado em narrar estas pelejas celestiais, e limita-se a registrar dois confrontos do 
arcanjo Miguel com Satanás (Jd 9; Ap 12.7-9). Não temos condições de saber quais as razões para 
estes embates entre anjos, e nem quão freqüentemente eles ocorrem no misterioso mundo celestial. 
Digno de nota é o fato que Miguel, que no Antigo Testamento aparece como guardião de Israel, surge 
aqui em Ap 12.7-9 como defensor da Igreja, liderando as hostes angélicas contra Satanás e seus 
demônios, que procuram destruir a obra de Deus. Sua área de ação não e mais o território de Israel, 
mas o mundo, onde quer que a Igreja esteja. A constatação deste fato deveria moderar a fascinação de 
muitos hoje pela idéia de espíritos territoriais, maus ou bons, que seriam supostamente responsáveis 
por determinadas regiões geográficas, e que se embatem em busca da supremacia sobre aqueles locais. 
É possível que as nações ou outras regiões tenham seus príncipes angélicos, bons ou maus, mas esta 
idéia não exerce qualquer função ou influência no ensino do Novo Testamento, quanto aos anjos e á 
sua participação na luta da igreja contra os "principados e potestades, contra os dominadores deste 
mundo tenebroso" (Ef 6.12). Enquanto que em Daniel os principados e as potestades aparecem 
relacionados com determinados territórios, no Novo Testamento eles aparecem não mais relacionados 
com regiões, mas com este mundo tenebroso. 0 conflito regionalizado do Antigo Testamento tomou 
caráter universal e cósmico com a vitória de Cristo. 0 diabo e seus príncipes malignos são vistos agora 
como dominadores, não de determinadas regiões geográficas, mas "deste mundo tenebroso". E os 
anjos agora servem aos servos de Deus, em qualquer região geográfica do planeta, onde se encontrem. 
Notas de rodapé 
1 Ver E. Earle Ellis, Spiritual GIffs in the Pauline Community, em New Testment Studies 20 (1973- 
1974) 134. 
2 Existe séria dúvida da parte de muitos especialistas em manuscritologia bíblica de que a passagem de 
João 5,4, que menciona a decida de um anjo para mover a água da piscina de Betesda, seja de fato 
autêntica, visto que não aparece nos manuscritos mais antigos importantes. , 
3 Neuza ltioka, por exemplo, afirma que os anjos das cartas de Apocalipse (Ap 2 -3 são anjos literais 
que Incorporam e absorvem o estado espiritual da Igreja, e que alguns deles são substituídos por 
demônios, devido á decadência espiritual da comunidade que representam. Ela baseia-se nas sugestões 
(sem exegese) de Walter Wink e R. Linthicum em Ap 2-3, cf. A Igreja e a Batalha Espiritual: Você 
Está Em Guerra em Série Batalha Espiritual (São, Paulo: Editora SEPAL 1994) 36,39,40-41,67,11
55 
ANJOS: 
UM SERVIÇO SECRETO MUITO ESPECIAL 
Antony Diego Roberto 
A partir de 1994, o Brasil começou a viver uma moda mística, a febre dos anjos. Sem dúvida, quem 
deu início a essa moda foi uma jovem senhora que antes trabalhava com orix ás e depois, através da 
Fraternidade Branca, com gnomos, duendes, silfos, ondinas, fadas e salamandras. O nome dela é 
Mônica Buonfiglio. Seus dois sucessos editoriais foram Anjos Cabalísticos e A Magia dos Anjos 
Cabalísticos. 
Mas, apesar de seu aspecto bombástico, essa moda teve um lado positivo, colocar em pauta a 
discussão sobre a existência ou não dos anjos. E é sobre isso que desejamos falar. 
Muitas pessoas, em nome da racionalidade, lançam fora a água e a criança. Negam não somente o 
misticismo eclético da Nova Era, mas também a realidade do mundo espiritual. Criticam um erro, a 
superstição, e despencam em outro, o agnosticismo racionalista. 
O maior e mais antigo tratado sobre anjos é a Bíblia. No Antigo Testamento, cujos escritos vão do 
segundo milênio aos anos quatrocentos antes de Cristo, temos 109 referências a anjos. A palavra 
hebraica para anjo é mal'akh, cuja idéia básica é de um mensageiro sagrado, humano ou sobrenatural. 
Já no Novo Testamento, cujos escritos vão dos anos 49 a 100 depois de Cristo, temos 186 referências 
a anjos. Em grego a palavra usada é ângelos, que também tem o sentido de mensageiro, de 
intermediário. 
É interessante que na Bíblia os anjos não tem nada a ver com a angelologia proposta pela Nova Era. 
Segundo Mônica Buonfiglio, por exemplo, os anjos são entidades etéreas, que não tem memória e 
nunca julgam. São como bebês...nus, com asas, bochechudos e com um sorriso maroto de criança 
arteira [Mônica Buonfiglio, Anjos Cabalísticos, São Paulo, Oficina Cultural Esotérica, 1993, p. 64]. 
INTELIGENTES E PODEROSOS 
Embora o assunto seja extenso, vejamos três aspectos da doutrina cristã sobre anjos, que responde à 
pergunta central sobre estes seres. Por que existem os anjos? 
1. Os anjos são seres espirituais. 
2. Têm atividades definidas pelo próprio Deus. 
3. Protegem os filhos de Deus. 
Em relação ao primeiro item, é interessante ver que a Bíblia nos apresenta os anjos como seres 
espirituais, geralmente invisíveis. "Então, o que são os anjos? Todos são espíritos que servem a Deus e 
são mandados para ajudar os que vão receber a salvação". Hebreus 1.14 [Nas citações bíblicas foram 
utilizadas duas versões: A Bíblia Sagrada, tradução na Linguagem de Hoje, São Paulo, Sociedade 
Bíblica do Brasil, 1988; e A Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Edições Paulinas, 1985]. 
Os anjos têm personalidade e inteligência. "Ele fez isso para resolver este caso. O senhor é sábio 
como um anjo de Deus e sabe tudo o que acontece". 2 Samuel 14.20.
56 
Têm também direito de escolha e sentimentos, e isso fica claro quando se refere a Satan ás, um anjo 
rebelado. "Você ficou ocupado, comprando e vendendo, e isso o levou à violência e ao pecado. Por 
isso, anjo protetor, eu o humilhei e expulsei do monte de Deus, do meio das pedras brilhantes. Voc ê 
ficou orgulhoso por causa da sua beleza, e a sua fama o fez perder o ju ízo". Ezequiel 28.16-17. 
E o próprio Jesus fala da alegria dos anjos. "Pois digo que assim também os anjos de Deus se alegrarão 
por causa de uma pessoa de má fama que se arrepende". Lucas 15.10. 
A primeira conclusão é de que são seres espirituais, a serviço de Deus, para ajudar aqueles que serão 
salvos. Geralmente aparecem como adultos, têm capacidades especiais, memória, uma inteligência 
aguçada e sentimentos. De certa forma, não são muito diferentes de nós. 
Esses seres ministradores tem atividades específicas. Adoram e servem a Deus. "Louvem ao Deus 
eterno todos os anjos do céu, que o adoram e fazem a sua vontade". Salmo 103.21. 
Participarão do juízo divino, conforme explica o apóstolo Paulo: "Porque Deus fará o que é justo. Ele 
trará sofrimento sobre aqueles que fazem vocês sofrerem e dará descanso a vocês e também a nós que 
sofremos. Ele fará isso quando o Senhor Jesus vier do céu e aparecer junto com seus anjos poderosos". 
2Tessalonicenses 1.6-8. 
Eles trazem importantes notícias, instruem e guiam os filhos de Deus. Segundo o escritor da carta aos 
Hebreus, os mandamentos foram entregues a Moisés por anjos. "Por isso devemos prestar mais 
atenção nas verdades que temos ouvido, para não nos desviarmos delas. Ficou provado que a 
mensagem que foi dada pelos anjos é verdadeira, e aqueles que não a seguiram nem lhe obedeceram 
receberam o castigo que mereceram". Hebreus 2.2. 
Ao contrário do que a vulgarização sobre angelologia prega, eles não estão debaixo da nossa vontade. 
Mas agem de acordo com a justiça de Deus nos julgamentos divinos. Participaram dos juízos de 
Sodoma e Gomorra, do Egito opressor, da destruição do exército de faraó na travessia do Mar 
Vermelho e em muitos outros eventos. E estarão com Cristo por ocasião do grande julgamento final. 
MISSÃO ESPECIAL 
E por fim, protegem e cuidam dos filhos de Deus. "O anjo do Deus Eterno fica em volta daqueles que 
O temem e os livra do perigo". Salmo 34.7. 
Dessa maneira, uma de suas principais tarefas, é acompanhar os filhos de Deus, em todos os 
momentos de suas vidas, mas especialmente naqueles de dificuldades. Não damos ordens aos anjos, já 
que eles são ministros de Deus, agentes secretos do Criador para proteção e guarda de seus filhos. 
É interessante que a angelologia mística da Nova Era propõe um relacionamento com os anjos através 
de práticas esotéricas, via astrologia, numerologia e ancoragem (magia branca). São utilizadas dezenas 
de invocações, velas, incensos e talismãs. Tudo para manipular os anjos. Estamos, de fato, diante de 
uma cosmovisão gnóstica e espírita. Conforme, explica o teólogo Scott Horrell, esta é "uma 
angelologia sem Deus definido, sem estrutura moral e sem explicação sobre o porque da própria 
existência dos anjos" [J. Scott Horrell, Anjos Cabalísticos, in Vox Scripturae, São Paulo, AETAL, 
1995, p. 245].
57 
Diante das modas místicas, todos aqueles que se aproximam de Deus devem se lembrar do que diz 
Paulo, o apóstolo: "Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, um homem, 
Cristo Jesus, que se deu em resgate por todos". 1Timóteo 2.5. 
ESPÍRITOS MINISTRADORES 
Professor: Diego Roberto 
"Quanto aos anjos, diz: Quem de seus anjos faz ventos, e de seus ministros labaredas de fogo. ... N ão são todos 
eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?" (Hb 1.6,7,14) 
Anjos constituem uma raridade em nossos púlpitos, por isso estas páginas foram escritas. Além disso, 
a insistência com que se explora essa temática, especialmente pelos adeptos dessa onda de misticismo 
que tem invadido as praias dos nossos dias, a ênfase dada pelo movimento da Nova Era, que tem 
levado às raias do absurdo mais absurdo o assunto do mundo angelical, e a exploração comercial em 
torno da ingenuidade e das carências emocionais e afetivas do povo, é outro bom motivo para que se 
reflita biblicamente sobre o tema. 
Muita idéia de anjos vem de cartões de Natal, de procissões da Semana Santa, de romances ou da 
mitologia grega (não fala de um anjinho, Cupido, que lança uma flecha a qual, atingindo alguém, o 
torna enamorado de outro? Muita idéia vem dessas fontes, e também do Movimento Aquariano 
colocando no mesmo cesto fadas, duendes, gnomos, ondinas e anjos. 
PRIMEIRAS IDÉIAS 
Os seguidores da atual onda mística afirmam que se pode incorporar os anjos aos programas de 
autodesenvolvimento e auto-ajuda, do mesmo modo com fazem com as fadas, os duendes e outros 
seres míticos. E se é o caso de teremos uma descrição dos anjos de acordo com a Nova Era, dirão eles 
o seguinte: "carinha linda, asas, roupas esvoaçantes e halo sobre a cabeça"(1) E completam dizendo 
que apreciam uma abordagem direta, têm grande senso de humor (gostam de rir, portanto), são 
felizes, alegres, brincalhões, amigáveis; o tempo não é um dos seus pontos fortes, e, desta maneira, 
perdem-se em divagações, ou seja, a cabeça dos anjos não funciona muito bem, não têm muita 
memória.(2) Essas afirmações não se assemelham, nem de longe, a qualquer das descrições ou 
características dos anjos de acordo com a Bíblia Sagrada. E menos ainda, quando os místicos os 
confundem com o que chamam de "elementais", e fazem a classificação dos seres no ar, na terra, na 
água e no fogo: 
No ar: fadas e silfos; 
na terra: gnomos, duendes, elfos, dríades e ninfas; 
na água: ninfas da água, náiades e ondinas; 
no fogo: salamandras.(3) 
Na verdade, essas esdrúxulas idéias e suas elaborações vêm de uma fonte chamada gnosticismo, 
movimento filosófico-teológico que já nos primeiros dias da Igreja Cristã deu muito trabalho. E isso 
porque enfatizava, como enfatiza ainda hoje, a idéia de que os anjos são expressões ou extensões de 
Deus, e pregam, também, que eram e são intermediários entre os homens e Deus.
58 
Uma coisa é certa: a Bíblia, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, trata esse assunto com 
muita seriedade, com o máximo de seriedade a ponto de dar a melhor definição de quem sejam os 
anjos, a qual se encontra em Hebreus 1.14; 
"Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?" 
Ou como diz a Bíblia na Linguagem de Hoje: 
"Então, o que são os anjos? Todos eles são espíritos que servem a Deus e são mandados para ajudar os que vão 
receber a salvação". 
Martinho Lutero, o Reformador, expressou isso parafraseando Hebreus: 
"O anjo é uma criatura espiritual sem corpo, criada por Deus para o serviço da Cristandade e da Igreja"(4) 
OUTROS CONCEITOS 
A palavra anjo não é portuguesa. Na verdade, vem da língua grega através do latim. Em grego, dizem 
aggelos, daí para o latim angelus e para o português anjo. No Antigo Testamento, o vocábulo hebraico 
correspondente é malach.(5) Significam todas elas "aquele-que-traz-mensagem", "aquele-que-é-enviado", 
"mensageiro". O Pr. Vassílios Constantinides, Diretor nacional da APEC e grego de 
origem, confirmou-nos o que havia sido lido no dicionário. Disse: "em grego, 'carteiro' é "anjo", "o-que- 
traz-uma-mensagem". Palavra, portanto, que indica uma função. E, na Bíblia, vemos que Deus 
envia profetas como seus mensageiros,(6) envia sacerdotes(7), diz que homens env iam outros 
homens(8). De sorte, que a Bíblia apresenta o fato de que anjos são personalidades com função 
determinada, ou seja, a de trazer uma mensagem de Deus para nós. 
A Bíblia não apresenta qualquer descrição detalhada dos anjos. Eu, na verdade, nunca vi um anjo 
(apesar de Ariete dizer que estou vivendo com um há 36 anos). A Bíblia menciona sua existência 
como um fato, mostrando que têm eles uma parte relevante no plano de Deus para o ser humano(9). 
Voltando à Carta aos Hebreus: "Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a 
favor dos que hão de herdar a salvação?" (1.14). Quero tomar duas palavras deste texto para servir de 
base para esta mensagem. Primeiramente, "espírito", e, em seguida, "ministradores". 
ESPÍRITOS... 
A idéia básica da palavra "espírito", por incrível que possa parecer, vem de "vento, ar". Realmente, 
tanto na língua hebraica quanto na grega, os vocábulos que se traduzem por "vento, ar, hálito, alento, 
respiração, fôlego e espírito" são os mesmos. Tanto faz dizer ruach, que é a palavra hebraica, quanto 
dizer pneuma, que é grega. Sim; o ar é algo muito real, mas não podemos vê-lo a olhos vistos, com 
perdão da redundância. Podemos? Mas ele é real: sabemos que ele nos circunda, mas não o vemos. 
Assim são os espíritos, e assim são os anjos: reais, mas não os vemos, puros espíritos. Filon de 
Alexandria os chamava de "incorpóreos" (apesar de poderem aparecer em certas ocasiões com corpos 
humanos)(10). Mas a Bíblia prefere chamá-los de "espíritos", como em hebreus 1.14, "espíritos 
ministradores".
59 
Aprendemos com a Bíblia que são superiores ao ser humano em inteligência, em vontade e em poder 
(11). Têm personalidade e responsabilidade moral como nós o temos. No entanto, apesar de sua 
inteligência ser sobre-humana, é limitada. Ou seja, não são oniscientes (só Deus o é), não conhecem o 
futuro (isso pertence a Deus), não conhecem os segredos de Deus(12). Por causa da vontade livre 
deles, alguns anjos pecaram, e a Bíblia faz referência a essa Queda de um grupo de anjos(13). O poder 
dos anjos que é delegado, nos supera em muito conforme tantos testemunhos na Escritura 
Sagrada(14). Isso quer dizer, então, que os anjos têm todos os elementos essenciais da personalidade, 
e além dos acima mencionados, possuem sensibilidade, emoções, e são capazes de adorar a Deus com 
inteligência (Sl 148.2). 
E porque o Deus Vivo e Verdadeiro é Deus de ordem e não de confusão(15), os anjos estão 
organizados em uma hierarquia. E, realmente, amado, quando fazemos o estudo dos anjos, 
distinguimos três etapas. Primeiramente, o que fala a Bíblia até o Exílio na Babilônia; em seguida, do 
Exílio ao Novo Testamento, quando veio Jesus e ministrou entre nós; e, por último, o Novo 
Testamento. 
É interessante que do início da História Sagrada até o Exílio (c. 527 a.C.), observamos que não há 
uma angelologia elaborada. O que temos são narrativas, bem lineares, até. E há uma presença 
marcante: a de uma figura chamada "o Anjo do Senhor". Vemos no Gênesis, em Êxodo e outros dessa 
primeira fase, a sua presença ostensiva e marcante. 
Do Exílio em diante, a crença, a princípio simples, vai tomar um desenvolvimento muito especial. 
Existe, inclusive o surgimento de toda uma literatura chamada pelos estudiosos do assunto de 
intertestamentária, que surgiu entre o último profeta da Antiga Aliança (Malaquias) e o primeiro da 
Nova Aliança (João, o Batista). Não são anos de tanto silêncio, como geralmente se ensina. Há uma 
literatura denominada intertestamentária, como já destacado, notadamente encontramos literatura 
dessa época nos livros de Daniel e Zacarias, livros que mencionam a presença de anjos. 
O Novo Testamento, por sua vez, reflete os principais ensinos do Antigo Testamento, e categorias e 
conceitos da literatura intertestamentária. 
Anjos são organizados como um exército. Interessante e bonito isso! No topo estão os arcanjos, anjos 
comandantes, chefes(16). Menciona em seguida tronos, dominações, principados, potestades, 
virtudes, que sejam designações hierárquicas dos anjos numa elaboração de um esquema bem 
organizado (cf. Cl 1.16; Rm 8.38; Ef 1.21). 
Paulo, em Efésios 6, coloca essas categorias ou hierarquias no exército do Maligno também (17). 
Existe o exército de Deus, mas o Maligno tem igualmente o seu com os mesmos princípios: um 
arcanjo, que é Lúcifer, encontrando-se, do mesmo modo, principados, potestades, dominações, etc. 
Paulo, mesmo, declara que Jesus Cristo já desarmou e venceu essas forças da malignidade: 
"e havendo riscado o escrito de dívida que havia contra nós nas suas ordenanças, o qual nos era contrário, 
removeu-o do meio de nós, cravando-o na cruz; e, tendo despojado os principados e potestades, os exibiu 
publicamente e deles triunfou na mesma cruz" (Cl 2.14,15). 
Na verdade, ainda sentimos os efeitos dessa força maligna porque ainda estamos nesta carne, porque 
ainda estamos no tempo, mas a Bíblia já declara a vitória do Senhor sobre as forças do Inferno. Jesus
60 
cravou na cruz a nossa malignidade, o nosso pecado! Por essa razão, os crentes não podem se 
desencaminhar pelo culto dos anjos, e Paulo fala disso também nesse mesmo capítulo: "Ninguém atue 
como árbitro contra vós, afetando humildade ou culto aos anjos, firmando-se em coisas que tenha 
visto, inchado vãmente pelo seu entendimento carnal" (v.18). Esse culto aos anjos estava sendo levado 
pelos gnósticos para dentro das igrejas, ensinando que os anjos eram intermediários entre a pessoa e 
Deus. Está, aliás, retornando com toda força como o faziam os gnósticos dos tempos apostólicos, 
como influência do platonismo, e das escolas teosóficas que desaguaram no gnosticismo, assim como 
influência da Cabala. Querem fazer os anjos superiores a Cristo e ao Espírito Santo (Ele que é o nosso 
guia, e não os anjos(18); querem elevar os anjos a divindades, mesmo que sejam divindades menores, 
os devas(19). 
E os querubins e os serafins? Falamos há pouco sobre a hierarquia, e não foram mencionados. 
Querubins e serafins não são, a rigor, anjos. Nunca são apresentados na Bíblia como portadores de 
mensagens. Querubins são símbolos dos atributos divinos. Onde há querubins, o divino está presente 
ou está perto, razão porque são guardiães do jardim(20), da arca da aliança(21), do trono de 
Deus(22). Defendem a santidade de Deus de qualquer pecado(23). 
E os serafins? A palavra serafim é interessante porque em hebraico o verbo saraph significa "arder, 
pegar fogo, queimar". O serafim é "aquele-que-queima"; o que queima purifica: é, então, "aquele-que- 
purifica". São guardiães, também, da santidade do Eterno lembrando o fogo e sua obra de 
purificação. E, realmente, só aparecem os serafins uma vez em Isaías 6, na visão do profeta, com seis 
asas. A propósito, anjo tem asas? Não; a figura das asas em anjos é para mostrar graficamente a 
presteza, a velocidade com que executam as ordens de Deus. No entanto, n ão vamos encontrar os 
mensageiros de Deus com asas em Sodoma, ou guiando Agar no deserto, ou o povo de Deus na 
peregrinação no deserto. A única menção é a dos serafins, e outra no Apocalipse a respeito de anjos 
alados(24). 
E o arcanjo? Na Bíblia só aparece o nome de um que é Miguel(25). E tem ele sempre papel 
combativo. Quem é Miguel? Qual a diferença de Miguel para Gabriel? Miguel é aquele que está 
relacionado a missões guerreiras; é quem comanda as batalhas do Senhor. Então, sempre que lerem ou 
ouvirem o nome Miguel, lembrem-se que é ele o anjo guerreiro por excelência(26). É o mensageiro 
da lei e do julgamento(27), e seu próprio nome que é, aliás, uma pergunta retórica, é um grito de 
batalha e significa "QUEM É COMO DEUS?"e tem como resposta: "Ninguém!" Quem pode ser 
como Deus? Um hineto muito apreciado em nossas igrejas canta: 
"Quem é deus acima do Senhor? 
Quem é rocha como o nosso Deus?" 
A resposta só pode ser uma: "Ninguém!" É isso o que Miguel, que sempre aponta para Deus, nos está 
lembrando! 
E Gabriel? Agora é diferente. Se Miguel é o anjo guerreiro por excelência, Gabriel é o que está 
relacionado com missões de paz. É o contrário: Gabriel é o mensageiro das boas notícias, é o 
mensageiro das mensageiro, o mensageiro da promessa de Deus, é o anjo da revelação, é quem 
explica mistérios a respeito de futuros acontecimentos, até políticos(28). É mencionado quatro vezes 
na Bíblia, e sempre como mensageiro: Daniel 8.16; 9.21, e novamente no Evangelho de Lucas,
61 
capítulo 1 notificando a Isabel e a Maria, sobretudo, que ela vai ser a mãe do Salvador(29). Gabriel é 
um nome muito sugestivo e significa "Herói de Deus", "Valente de Deus", "Campeão de Deus". 
...MINISTRADORES 
Voltemos a Hebreus 1.14: 
"Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?" 
O texto diz que, além de "espíritos", são os anjos "ministradores" a favor dos salvos. Qual é, então, o 
seu ministério? 
Há uma ministração celestial e uma ministração terrena. Há um serviço litúrgico, cultual dos anjos na 
adoração ao Criador: 
"Louvai-o, todos os seus anjos; 
louvai-o, todas as suas hostes!" (30) 
Ministério cultual, ministério de louvor. Também assistem o Senhor. Estavam presentes na 
Criação(31); estavam presentes na revelação da Lei(32); estavam no nascimento de Jesus(33); na 
tentação(34); no Getsêmani(35); na ressurreição(36); e na ascensão(37). Em todos esses eventos, os 
anjos estiveram presentes, e estarão, igualmente, na Parousia, a Segunda Vinda de Cristo(38). 
Há uma ministração aos salvos. No programa divino para nós, os anjos estão envolvidos em quatro 
tipos de atividades: proteção, transporte, comunicação e vigilância. 
Proteção ou guarda. Temos um grande conforto na Palavra Santa, que usa a abençoada expressão "O 
anjo do Senhor acampa-se ao redor daqueles que o temem e os livra"(39). Porém, não estamos nos 
referindo ao chamado "anjo da guarda". Esse é um conceito que vem da Igreja Majoritária. Basílio e 
Jerônimo, teólogos da Igreja Antiga lançaram a idéia de que quando nasce uma criança, a ela é 
atribuído um anjo para a guardar durante toda vida. Interessante é que quando Orígenes disse que, ao 
mesmo tempo que um anjo é colocado ao lado da criança, um demoniozinho também lhe é atribuído. 
De um lado fica um anjinho tomando conta e do outro lado fica um diabinho espicaçando cada um de 
nós. Essa é a razão porque nas histórias em quadrinhos ou em desenhos animados aparece, numa hora 
de tentação, o diabinho procurando tentar de todo jeito. 
Essa idéia de anjo da guarda, então, está baseada no papel de um arcanjo chamado Rafael, não 
mencionado na Bíblia, mas no livro apócrifo de Tobias. Eu não creio em "anjo da guarda", mas creio, 
sim, em um "anjo-que-guarda". Creio no anjo do Senhor que nos guarda, de acordo com o que a 
Bíblia diz no Salmo 34.7. Ou ainda em Daniel 6.22 que diz, "O meu Deus enviou o Seu anjo e fechou 
a boca dos leões, para que não me fizessem dano, porque foi achada em mim inocência diante dele; e 
também contra ti, ó rei, não cometi delito algum". 
Temos outros exemplos notáveis no Antigo Testamento. No Segundo livro dos Reis 6.15ss, há um 
exemplo dessa guarda. No Novo Testamento, no capítulo cinco de Atos, também. Nesse ponto, 
alguém pode perguntar, "Pastor, acontece hoje também essa guarda dos anjos, ou isso aconteceu 
somente nas páginas da Bíblia?" Isso ocorre ainda hoje. Na história de John Patton, missionário do 
século passado nas Novas Hébridas, há uma página onde ele conta que quando foi pregar o evangelho,
62 
era muito hostilizado. As tribos que ali havia eram canibais e tentaram mat á-lo com toda a família. 
Patton diz que cercaram a sua casa e ele e a família começaram a orar durante toda a noite. Fizeram 
uma vigília de oração porque estavam literalmente no vale da sombra da morte. E eles oraram, e 
oraram, e quando um terminava de orar o outro começava, o outro depois, o outro depois. Orou ele, 
a esposa, os filhos oraram, quando terminava voltava toda aquela corrente de ora ções. Os homens 
foram embora, saindo sem tocá-los. Cerca de um ano depois dessa noite de terror, o chefe da tribo 
converteu-se ao evangelho, e conversando com o missionário Patton, perguntou-lhe "Eu queria saber 
uma coisa: nós estivemos cercando a sua casa para matá-los. E não podíamos, porque durante a noite 
víamos aquele exército. Onde é que você escondia aqueles homens todos durante o dia? Por que só 
apareciam à noite?". E então o missionário respondeu que não havia mais ninguém, somente ele e sua 
família. O chefe disse, "Não, de jeito nenhum, havia homens, sim. Eram de grande estatura, estavam 
vestidos de branco e com espadas na mão. Os nativos ficaram com medo e fugiram..." E o Pastor 
Patton entendeu que Deus havia mandado os Seus anjos para proteger a família naquele vale da 
sombra da morte de acordo com o que diz o Salmo 23. 
Uma outra função dos anjos é de transporte. Mas não é quando há engarrafamento. Alguém pode 
pensar, "Bom, eu acho que o pastor está atrasado porque houve um engarrafamento; não vai haver 
problemas porque um anjo pega o pastor e traz para a igreja. Afinal, s ão colegas, são dois anjos..." 
Não é assim. Essa função de transporte acontece na nossa morte. Está na Bíblia, Lucas 16.19-22: 
"Havia certo homem rico que se vestia de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e 
esplendidamente. Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele, e 
desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico. Morreu o mendigo e foi levado pelos anjos para 
o seio de Abraão". 
Ele não foi acompanhado não, ele foi transportado segundo a Escritura Sagrada. 
Uma outra função é a de comunicação(40). Mas não para aumentar a Bíblia. Nada de chegar um anjo 
ensinando um novo evangelho para completar, como acontece com os mórmons que ensinam que um 
anjo chamado Moroni passou uma nova revelação a Joseph Smith. A Bíblia diz que é anátema 
(maldição), se alguém aparecer querendo pregar um novo evangelho. Por isso, não aceitamos o 
mormonismo, ou o islamismo que diz a mesma coisa, o espiritismo com um evangelho à sua moda ou 
qualquer acréscimo ao bel-prazer de qualquer tribunal canônico. Fujam de quem vem com uma 
mensagem nova. Fujam de quem vem com uma nova revelação, seja pregador, pregadora, ou um ser 
disfarçado de anjo(41). 
Há uma outra função. É a de observação. Porque os anjos observam aquilo que nós fazemos, os anjos 
são testemunhas do drama da salvação, os anjos estão interessados na conduta dos crentes. O apóstolo 
Paulo diz, "Tenho para mim que Deus a nós apóstolos, nos pôs por últimos como condenados a 
morte. Somos feitos espetáculo ao mundo, aos anjos, e aos homens"(42). Os anjos são testemunhas 
do drama da salvação; estão interessados na conduta dos crentes segundo 1Coríntios 4.9 vêem o que 
nós fazemos. Eles estão especialmente o declara. A Bíblia ensina que os anjos louvam e nos observam. 
Eles estão observando cada um de nós porque são ministradores. Não é observar para dizer, "Ah, 
fulaninho está fazendo tal coisa. Vou anotar e dizer a Deus". Anjo não é alcagüete de Deus mas são 
nossos observadores, e a Bíblia diz que são até chamados como testemunhas(43).
63 
NO FUTURO 
Há um futuro papel dos anjos. Está em Mateus 24. Diz que "Quando o Senhor vier, Ele mandará Seus 
anjos para reunir os Seus eleitos de todos os quadrantes do mundo". Onde houver um crente em Jesus 
Cristo, o anjo vai lá e o trás no momento do grande Arrebatamento. Quando isso acontecer, a palavra 
de Jesus ensina que são os anjos que virão nos buscar. 
Há valores teológicos inigualáveis nas declarações bíblicas sobre os anjos. Preciosíssimas lições: 
Ø A primeira é que a Bíblia declara que ao lado do mundo que nós vemos Deus criou um outro 
mundo de espíritos invisíveis, de seres puros que O servem. A Deus e a nós também. No Salmo 
103.20 está dito, "Bendizei ao Senhor, anjos seus, magníficos em poder, que cumpris as suas ordens, 
que obedeceis à sua voz"(44). 
Ø A segunda lição que tiramos é que Deus não perdoa a rebeldia. Que é desobediência, orgulho, e 
atentado à ordem dos Seus planos(45). Por esse motivo, Deus não perdoou os anjos que se rebelaram, 
os quais foram condenados à eterna separação Dele. Deus não perdoa a nossa rebeldia também, a 
nossa insensatez, e a nossa desobediência. E a Bíblia declara que "O salário do pecado é a morte"(46). 
Ø O ministério dos anjos na Bíblia é doutrina importante, doutrina essencial para que entendamos a 
providência de Deus e a direção soberana da Sua criação. Nós sabemos que a intervenção guiadora dos 
anjos na dispensação da Lei é substituída pela direção do Espírito Santo na dispensação do Novo 
Testamento. O Senhor não autoriza o culto aos anjos. E a idéia de anjos medianeiros também é um 
absurdo porque eles usurpam o lugar de Jesus Cristo. Os anjos são poderosos, mas não são Deus; são 
poderosos, mas não são a Trindade; são poderosos, mas não são o Espírito Santo; têm poder, mas não 
são Jesus Cristo, não são mediadores, não têm o atributos de Deus, não possuem qualquer capacidade 
de regenerar o ser humano. 
Ø O estudo dos anjos nos enche com uma nova visão e assombro pela grandeza de Deus. 
Especialmente quando pensamos que os anjos, poderosos como são, adorando a Deus, cumprindo a 
Sua vontade, são um exemplo para nós. Isso nos dá agora um senso de humildade diante de Deus e de 
gratidão porque os anjos estão ao nosso redor. 
Ø A quinta lição é que os anjos apontam para a nossa dignidade no futuro porque nós seremos iguais 
aos anjos de Deus, a Bíblia diz. 
Ø E a sexta, é que tudo isso nos encoraja e estimula a servir a Deus com a totalidade do nosso ser. 
Ø E mais: Os anjos se alegram quando alguém se volta para Cristo. A palavra de Deus acerca disso nos 
ensina em Lucas 15.10, "Há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende". 
Que Deus nos auxilie a compreender e viver a reverência, a submissão e o serviço que os anjos 
desempenham para que, deste modo, o que Jesus expressou na Oração do Senhor seja pura realidade: 
"Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu!" 
FONTES PRIMÁRIAS 
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4-9. - 2. BOUTTIER, M. Anjo (no NT) Em: VON ALLMEN, J.-J. (Org.) Vocabulário Bíblico. SP,
64 
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Universal, 2a ed. Rio, Livros Evangélicos, 1957. Trad. J. Dos S. Figueiredo. - 4. CHAFER, L. S. 
Grandes Temas Bíblicos. Ed. Revista. Grand Rapids, Portavoz Evangélico, 1976. Trad. E. A. Nuñez e 
N. Fernández. -5. COSTA, Marina Elena. Seres Angélicos, do Oriente ao Ocidente. Em: Planeta 
Especial - Anjos, p. 10-15. - 6. DATTLER, Frederico. Síntese de Religião Cristã. Petrópolis, Vozes, 
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Oxford Companion to the Bible. NY, Oxford University, 1993, p. 20-28. 
11. MICHL, Johann. Angel.Em: BAUER, J.B. (Org.). Encyclopaedia of Biblical Theology. NY, 
Crossroads, 1981, p. 20-28. - 12. NEWHOUSE, Flower A. Redescobrindo os Anjos. SP, 
Pensamento, 1994. Trad. C. G. Duarte, 131 p. - 13. SCHNEIDER, Bernard N. The World of 
Unseen Spirits. Winona Lake, BMH Books, 1975. - 14. TAYLOR, Terry Lynn. Anjos - Mensageiros 
da Luz, 11a ed. SP, Pensamento, 1995. Trad. A. Trânsito. 
15. VAN DEN BORN. Querubim. Em: VAN DEN BORN, A. (Org.) Dicionário Enciclopédico da 
Bíblia, 2a ed. Petrópolis, Vozes, 1977, p. 1248-1249. - 16. ________. Serafim. Em: VAN DEN 
BORN, A. (Org.), Op. Cit., p. 1414-1415. - 17. VAN SCHAIK, A. Anjo. Em: Van den Born, Op. 
Cit., p. 74-77. (1) ALVES, Anna Clara. In: Planeta Especial, agosto de 1992, pp. 4 -9. 
(2) TAYLOR, Terry Lynn. Anjos - Mensageiros da Luz. - (3) NEWHOUSE, Flower A. 
Redescobrindo os Anjos - (4) Cit. Por GRAHAM, Billy. Anjos. 
(5) De onde vem o nome Malaquias = "mensageiro do Senhor". 
(6) Cf. Isaías 14.32. 
(7) Cf. Malaquias 2.7. 
(8) Cf. Gn 32.3; Nm 20.14; 1Sm 11.7; 23.27. 
(9) Cf. Mt 13.41; 18.10; 26.53; Mc 8.38; 13.32; Lc 22.43; Jo 1.51; Ef 1.21; Cl 1.16; 2.18; 2Ts 1.7; 
22.9; Hb 12.22; 1Pe 3.22; 2Pe 2.11; Jd 9; Ap 12.7;. 
(10) Cf. Jz 2.1; 6.11-22; Sl 104.4; Mt 1.20; 28.30; Lc 1.26; Jo 20.12; Ap 15.6; 18.1. 
(11) Cf. 2Sm 14.17.20. 
(12) Cf. 1Co 2.11; Mt 24.36; Mc 13.32. 
(13) Cf. 2Pe 2.4; Jd 6. 
(14) Cf. Is 37.36; 2Pe 2.11; Sl 103.20; Ap 20.2; 2Ts 1.7. 
(15) Cf. 1Co 14.33. 
(16) A rigor, a Bíblia só menciona um arcanjo que é Miguel, cf. 1Ts 4.16. 
(17) Cf. Ef 2.2; Cl 2.15. 
(18) Cf. Jo 16.13; 14.26; Rm 8.14; Gl 5.18). 
(19) Palavra sânscrita que significa "deus". 
(20) Gn 3.24. 
(21) Ex 25.18,20. 
(22) Sl 80.1. 
(23) Ez 1.1-18. 
(24) Ap 4.8. 
(25) Jd 9; Dn 10.13, 21; 12.1; 1Ts 4.16: Ap 12.7. 
(26) Cf. Ap 12.7. 
(27) Cf. Ap 12.7-12. 
(28) Cf. Dn 8.16-26; 9.20-27. 
(29) Cf. vv. 19, 26.
65 
(30) Sl 148.2; cf. Ap 5.11,12; Is 6.3; Ap 4.8 
(31) Jó 38.7. 
(32) At 7.53; Gl 3.19; Hb 2.2; Ap 22.16). 
(33) Lc 2.13. 
(34) Mt 4.11. 
(35) Lc 22.43. 
(36) Mt 28.2. 
(37) At 1.10. 
(38) Cf. Mt 24.31; 25.3; 2Ts 1.7. 
(39) Sl 34.7. 
(40) Gn 19.1,12,13; Lc 1.11-13; 1.26-35; 2.8-12Mt 2.13; At 7.53; 27.22-25. 
(41) Cf. 2Co 11.4; Gl 1.7b,8; Ap 22.18. 
(42) 1Co 4.9; cf. 11.10. 
(43) Cf. 1Tm 5.21 
(44) Cf. Gn 22.11; Sl 91.11; Hb 1.14. 
(45) Cf. Jó 42.2. 
(46) Cf. Gl 3.22; Ec 7.22. 
APOSTILA - 03 
ESTUDOS SOBRE – O VELHO TESTAMENTO 
TOTAL 187 – PAGINA 
34 ASSUNTOS! 
01 - A Arca da Aliança: História e Significado 
02 - A corrida da Fé: Por que e como devemos corrê-la? 
03 - A vida nas mãos de Deus 
04 - Abraão & a aliança 
05 - Abraão, o amigo de Deus 
06 - As conseqüências do Pecado 
07 - Aspectos Messiânicos de José 
08 - Creio no amor 
09 - Creio no Dia do Senhor 
10 - Creio nos mandamentos 
11 - Creio no Reino de Deus 
12 - Da rua da amargura para a galeria da fé 
13 - Diário de Isaque 
14 - Jerusalém nos Salmos 
15 - Jonas: O profeta fujão 
16 - José, "o Fiel" 
17 - Manuscritos do Mar Morto 
18 - Na presença de Deus 
19 - o ano aceitável do Senhor" 
20 - O Deus não desiste de amar 
21 - O Espírito Santo e a salvação no Antigo Testamento
66 
22 - O Método Segundo Kaiser 
23 - O Segundo Mandamento 
24 - O triunfo da fé em tempos de crise 
25 - O Vale das Sombras 
26 - Os Levitas 
27 - "...pouco menor do que Deus" 
28 - Projeto de Vida 
· Rahab e Leviatan 
· Reflexões sobre a imortalidade da alma 
· Resposta aos Judeus não convertidos 
· Salmo 133: Interpretando o Texto Numa Perspectiva Bíblico-Teológica 
· Tipologia: Considerações Gerais 
· Tolerância Zero 
A ARCA DA ALIANÇA: 
HISTÓRIA E SIGNIFICADO 
Reverendo professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
I. História: 
A arca da aliança (também chamada "arca do Senhor", "arca de Deus", "arca da aliança do Senhor", 
"arca do testemunho" e "arca sagrada") era uma caixa retangular de madeira de ac ácia, medindo cerca 
de 1,20m de comprimento e 0,75m de largura x 0,75m de altura (Ex 25.10). Seu revestimento 
interno e sua cobertura externa eram de ouro puro batido. Na parte superior, ao redor, havia uma 
bordadura de ouro (Ex 25.11). Contudo, a tampa que cobria a arca, denominada de propiciatório (em 
hebraico kappõret, "cobertura"), era de ouro maciço (Ex 25.17). Sobre o propiciatório, também de 
ouro maciço, haviam dois querubins, um em cada extremidade da arca com as asas estendidas à frente 
um do outro, cobrindo o propiciatório (Ex 25.18-20). Do meio deles Deus se comunicava com o Seu 
povo (Ex 25.22). A arca era a única peça de mobília no Santo dos Santos do tabernáculo (e, 
posteriormente, do templo) e abrigava cópias das tábuas da lei (Ex 25.16; 2 Rs 11.12), um vaso com 
maná (Ex 16.33,34) e a vara de Arão (Nm 17.10). Mas quando, numa época posterior, foi colocada 
no lugar santíssimo do templo de Salomão, "Nada havia na arca senão só as duas tábuas de pedra, que 
Moisés ali pusera junto a Horebe, quando o Senhor fez aliança com os filhos de Israel, ao saírem da 
terra do Egito" (I Rs 8.9). 
Antes da construção do templo, a arca da aliança era carregada por sacerdotes levitas (cf. 2 Cr 35.3) 
que usavam duas varas de acácia revestidas de ouro, fixas em argolas que ficavam na parte inferior da 
arca (Ex 25.12-15). Quem tocasse na arca da aliança era passível de morte (cf. 2 Sm 6.6,7). 
Segundo o historiador Josefo, a arca da aliança provavelmente se perdeu durante a destruição de 
Jerusalém pelos caldeus, em 587 a. C., pois na construção pós-exílica do segundo templo (c. de 537 
a. C.) a arca já não fazia parte dos utensílios do santuário, o que deveras surpreendeu Pompeu quando 
em 63 a. C. insistiu, pela força, entrar no lugar santíssimo. F. F. Bruce lembra: "No lugar santíssimo 
pós-exílico a posição da arca estava marcada por uma plataforma chamada 'a pedra de fundação' (heb. 
'eben shattiyyãh)". 
Jeremias profetizou o fim da arca da aliança (como objeto e símbolo) assim: "Sucederá que, quando 
vos multiplicardes e vos tornardes fecundos na terra, então, diz o Senhor, nunca mais se exclamará: A
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arca da aliança do Senhor! ela não lhes virá à mente, não se lembrarão dela nem dela sentirão falta; e 
não se fará outra" (Jr 3.16). Comentando esta passagem de Jeremias, R. K. Harrison diz: "A presen ça 
de Deus em Sião fará desnecessária a arca e outros objetos de culto com sua majestade, porque estes 
são somente símbolos da realidade de Deus. Na Jerusalém celestial de Ap 22.5 o sol também estará 
fora de moda. Até esta época ainda precisamos de alguns lembretes materiais da atuação de Deus, para 
auxiliar a fé". 
II. Significado: 
A arca da aliança possuía dos significados distintos. O primeiro era simbolizar a presença protetora e 
orientadora de Deus no meio do Seu povo. No recôndito do santuário o Senhor revelava Sua vontade 
aos Seus servos (Moisés: Ex 25.22; 30.36; Arão: Lv 16.2; Josué: Js 7.6, etc.). Justamente por ser 
símbolo de Deus com Seu povo, a arca da aliança desempenhou um papel importantíssimo, como por 
exemplo, na travessia do rio Jordão (Js 3.4), na queda de Jericó (Js 6) e na cerimônia da memorização 
do pacto, no monte Ebal (Js 8.30-35). 
O segundo significado, que na verdade é a expressão maior do primeiro, tem a ver com Jesus Cristo. 
O Dr. D. D. Turner observa: "A arca tipificava o Senhor Jesus Cristo que intercede por nós detrás do 
véu". E ainda: "Verifica-se melhor a tipologia da arca em Números 10.33: 'A arca da aliança do 
Senhor ia adiante deles caminho de três dias, para lhes deparar lugar de descanso'. Jesus Cristo, o 
antitipo da arca, vai adiante dos Seus remidos explorando o caminho atrav és do deserto deste mundo 
pecaminoso, e levando o Seu povo até à Canaã celestial". E conclui: "Assim como a arca ficou nas 
mãos dos filisteus durante certo tempo (cf. I Sm 5 e 6), o Messias foi cativo no sepulcro, mas depois 
ressuscitou com triunfo". 
Esperamos que estas rápidas considerações sobre a arca da aliança tenham sido de alguma forma 
esclarecedoras para você. Que Deus o (a) abençoe. 
Reverendo professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
A CORRIDA DA FÉ: POR QUE E COMO DEVEMOS CORRÊ-LA? 
Estudo bíblico de Hebreus 12.1-3 
As competições olímpicas eram práticas apreciadas e admiradas no mundo antigo. Ainda hoje, eventos 
olímpicos como o de Atlanta, nos Estados Unidos, em 1996 e o de Sydney que ocorrerá na Austrália 
em 2000, respectivamente, mexeram e mexerão com a emoção de muita gente. 
Escritores bíblicos como Paulo e o autor da carta aos Hebreus fizeram constante menção das 
atividades esportivas em seus escritos. Eles eram apreciadores do esporte e dele sabiam tirar lições 
preciosas para a vida cristã. Um exemplo clássico disso é a passagem bíblica de Hebreus 12.1-3. O 
autor aos Hebreus extrai da figura de um estádio lotado, do espírito da dinâmica de uma competição 
olímpica, uma ilustração para a vida cristã. 
Após relatar a luta e a vitória dos heróis e heroínas da fé do Antigo Testamento, o autor de Hebreus 
direciona o olhar de seus leitores para o Campeão dos campeões, Jesus. Ele os mostra como aqueles
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campeões, e principalmente Jesus Cristo, venceram e porque eles (seus leitores) deveriam correr a 
corrida cristã e como esta corrida deveria ser feita. 
Mas deixemos por enquanto os leitores imediatos do autor aos Hebreus. Vamos entrar na corrida 
também! porque ela é de todo aquele que verdadeiramente corre a corrida da fé. 
I. Por que devemos participar da corrida cristã? 
Devemos participar da corrida cristã por três motivos básicos: 
1) Em primeiro lugar, porque ela é determinada por Deus. 
O texto bíblico diz: "Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de 
testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso, e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos 
com perseverança a carreira que nos está proposta" (Hb 12.1). Note que a passagem bíblica diz 
justamente: "corramos ...a carreira que nos está proposta". Não há necessidade de se especular sobre 
quem estaria propondo esta corrida para os filhos de Deus. Está claro que é o próprio Deus quem a 
propõe. Em última análise pode-se dizer, por isso mesmo, que esta corrida cristã e de fé é também a 
corrida da graça. O próprio Deus é quem a estabelece para nós e é quem nos capacita a corrê-la com 
triunfo (cf. I Co 15.10; 2 Co 3.5). 
A corrida cristã é a corrida de Deus para nós. Nela não estaremos sós e nunca seremos deixados à 
própria sorte, pois , de outro modo, estaríamos todos condenados à destruição. Quem está apto para 
correr por suas próprias forças a corrida da fé? Ninguém! A corrida que Deus nos propõe é a corrida 
da graça que nos capacita para a vitória. 
Além disso, estando determinada por Deus, ninguém, sendo cristão autêntico, ficará fora dessa 
corrida. Deus a determinou para todos nós. Semelhantemente, uma vez que corremos a corrida da 
graça de Deus, nada é tão forte que possa nos desviar do objetivo de completá-la. 
Uma obra clássica que nos ajuda a entender o triunfo de todo aquele que corre a corrida da f é é o 
Peregrino de João Bunyan (1628-1688). O Cristão, personagem principal da alegoria, alcançou, após 
lutar muito e passar por obstáculos sofríveis, seu objetivo maior que era chegar na Cidade Eterna. 
Assim será para todos nós, pois o nosso Deus não nos deixará correr sozinhos, mas nos incentivará 
sempre e nos capacitará para uma chegada triunfal. 
2) A segunda razão porque devemos correr a corrida cristã, é porque ela é incentivada pelos heróis da 
fé. 
O autor aos Hebreus nos relata que "temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas". 
Além do próprio Deus como maior interessado em que sejamos vencedores nesta corrida (porque n ós 
seremos salvos e Deus glorificado), temos a rodear-nos "tão grande nuvem de testemunhas". Esta 
grande nuvem de testemunhas significa aqueles grandes exemplos de fé que o escritor sagrado acabara 
de citar no capítulo 11. Pensemos, então, num herói como Abel que pela fé "ofereceu a Deus mais 
excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de 
Deus quanto às suas ofertas. Por meio dela (da fé), também mesmo depois de morto, ainda fala" (Hb 
11.4). E por aí segue exemplos como os de Noé, Abraão, Raabe, etc. Entretanto, em que sentido os 
homens e mulheres de Deus do Antigo Testamento são testemunhas para nós que corremos hoje? F.
www.obeb.com.br / http://www.teologiagratisefenipe.com.br/page10.php 
69 
F. Bruce responde: "Provavelmente não no sentido de espectadores, observando seus sucessores 
enquanto correm a corrida na qual entraram; mas no sentido que por sua lealdade e perseverança 
deram testemunho das possibilidades da vida da fé" (Bruce, La epístola a los hebreus, Nueva 
Creación, Buenos Aires, 1987, p. 349). 
Convém ressaltar que o escritor sagrado não está dizendo que os espíritos dos heróis da fé estariam 
conosco para nos ajudar na corrida cristã. Hebreus 9.27 dá a entender que este não era o ponto. A 
verdade é que os heróis da fé estão na presença de Deus torcendo, por assim dizer, por todos nós. 
3) O terceiro motivo porque devemos correr a corrida que nos está proposta é porque é ela uma 
corrida inspirada na vitória de Cristo. 
"Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si 
mesmo, para que não fatigueis, desmaiando em vossas almas" (Hb 12.3). Pouco antes o autor de 
Hebreus diz que Cristo "suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia" (Hb 12.2). 
Quantas e quantas vezes não somos tentados a desistir dessa corrida? Às vezes parece que a nossa linha 
de chegada nunca será alcançada. Se olhamos para trás corremos o risco de tropeçar e cair, se 
corremos de cabeça baixa arriscamos não ver quão perto possa estar a nossa chegada. A corrida cristã 
é dura, mas a chegada é certa! Portanto, ergamos os nossos olhos para o horizonte e contemplemos 
Jesus Cristo. Quanta dor, quantas aflições Ele passou , porém, que vitória espetacular! Pois Ele 
suportou tudo sem nunca deixar de correr. É isso que o autor aos Hebreus pede que façamos: "Não 
desanimem, olhem para Jesus". 
É difícil viver nesse mundo de pecado, sendo constantemente cirandado pelo diabo, pelo mundo e 
pela nossa própria carne. Contudo, Cristo venceu para nos ajudar a vencer. Ele é nosso maior 
exemplo e incentivador. Então, minha amiga e meu amigo, levante a cabeça porque você é de Deus e 
vai vencer, por maiores que sejam os obstáculos desta sua corrida. Não desanime, o Senhor está com 
você e o (a) sustentará. 
II. Como devemos correr a corrida cristã? 
Esta pergunta pode ser respondida de duas maneiras, a saber, negativa e positivamente falando. 
1. Negativamente falando: 
a. Desembaraçando-nos de todo peso 
É importante não perdermos de vista a figura dos atletas dos jogos olímpicos. Para nosso objetivo, 
trata-se daqueles atletas que praticam uma das modalidades mais antigas das olimpíadas, a prova de 
velocidade. Portanto, são velocistas correndo a prova dos 100 ou 200 metros, com barreira. 
Segundo os estudiosos dos tempos bíblicos, quando os atletas estavam treinando para as olimpíadas, 
eles costumavam vestir roupas pesadas e amarrar pequenos pesos nos tornozelos. Por ém, no dia da 
corrida propriamente dita, as roupas pesadas e as tornozeleiras eram tiradas. Isto dava a sensação de 
leveza que, dentre outras coisas, garantia a vitória.
70 
O autor aos Hebreus também fala de peso. "Desembaraçando-nos de todo peso", diz ele. Que peso é 
esse que o escritor nos pede para desembaraçar? Quais as implicações do mesmo para a corrida cristã? 
Antes de tudo, notemos que peso aqui não é o pecado, pois sobre ele (o pecado) o escritor sagrado 
fala depois. Portanto, peso significa aqui tudo aquilo que na vida cristã impede o nosso bom 
relacionamento com Deus e, conseqüentemente, com o próximo. Não é o pecado propriamente dito, 
mas pode facilmente levar a ele se não vigiarmos e orarmos. Por exemplo, namorar não é pecado, 
mas um namoro pode servir de peso na vida do casal que se descuida do compromisso com Deus e de 
Sua Palavra. Assistir TV em si não é pecado, porém, a televisão pode tomar (e como toma!) o tempo 
precioso de dedicação a Deus. E por aí vai... 
Há na sua vida alguma coisa que está roubando o tempo de Deus, a comunhão e vida de santificação 
com o Senhor? Não prossiga a leitura dessa mensagem sem antes refletir seriamente sobre isto e 
confessar seus pecados a Deus. O Senhor Deus o abençoará. 
b. E do pecado que tenazmente nos assedia 
Além do peso que devemos nos desfazer, ainda é necessário, para que corramos bem, nos 
desembaraçar do "pecado que tenazmente nos assedia". 
O pecado sempre está às portas. Não foi isso que Deus disse a Caim? (Gn 4.7). E do mesmo modo 
que a ele foi ordenado, também cumpre a nós dominá-lo. Tem que ser assim porque o pecado faz 
separação entre nós e Deus (cf. Is 59.2). Por isso devemos orar para que Deus não nos deixe cair em 
tentação. A queda rompe o bom relacionamento com o Espírito Santo que em nós habita. 
Na corrida olímpica quem não pula os obstáculos será desclassificado, mesmo se chegar em primeiro 
lugar. Na corrida cristã nunca correremos bem se tivermos o pecado como nosso treinador. 
2. Positivamente falando: 
a. Devemos correr com perseverança 
Alguém disse com acerto que "a persistência é a alma da conquista". Nada que seja verdadeiramente 
útil nesta vida é adquirido sem perseverança. Se queremos fazer bem feito e atingir os nossos objetivos 
na vida, então temos que trabalhar ao ponto de exaustão. Esta idéia de trabalho ao ponto de exaustão 
é muito comum em Paulo, veja por exemplo, I Co 9.24-27. 
Quando o atleta olímpico estava disputando a corrida com seu adversário, ele colocava toda força no 
enrijecimento de seus músculos. As dores também eram terríveis, superadas somente pelo ideal de 
vencer. Na corrida cristã, meu amigo, o lema é vencer ou vencer. Não há lugar para perdedores no 
reino dos céus. Garanta o seu lugar porque Deus não correrá por você. É verdade que Ele nos 
capacita, nos incentiva, etc., mas a corrida é nossa. Deus não correrá por mim e nem por você. O 
escritor sagrado é claro nisso quando diz com o imperativo verbal, "corramos"! Corramos com 
perseverança a carreira que nos está proposta. 
b. Olhando firmemente para Jesus 
O modo correto para se correr bem é exatamente este: "Olhando firmemente para Jesus". Eu diria 
que aqui está a parte mais importante da corrida. E por que? Porque quando nós corremos olhando 
firmemente para Jesus não há tempo para ocupações triviais da vida e muito menos tempo para pecar. 
Corremos com confiança. Além disso, voltamos o nosso olhar para Aquele que é o maior vencedor e
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maior incentivador da corrida cristã. Jesus é, por assim dizer, o torcedor principal no estádio, pois 
somente Ele é o nosso Autor e Consumador da nossa fé. E o que isso quer dizer? Quer dizer que 
como Autor Jesus "preparou o caminho da fé com triunfo diante de nós, abrindo assim um caminho 
para os que O seguem". Como Consumador da fé Ele é "o completador e aperfeiçoador; no sentido 
de levar uma obra até o fim, não por decurso de prazo". 
Enquanto estivermos correndo olhando para Jesus estaremos garantindo nossa vit ória nas olimpíadas 
da fé. 
Que Deus faça de você um grande campeão e vencedor em Cristo Jesus. Amém! 
A VIDA NAS MÃOS DE DEUS 
A mensagem do Salmo 31.15 
Rev. Professor Diego Roberto 
Durante anos e anos o livro dos Salmos tem enriquecido a vida espiritual do povo de Deus. A razão 
disso está no fato de nos identificarmos com as lutas e as vitórias dos salmistas. Muitas das 
experiências dos salmistas são, de certa forma, as nossas experiências também. Porém, o que mais 
tem fascinado os crentes através dos tempos é a vida espiritual de comunhão com Deus que os 
salmistas levavam. Um bom exemplo dessa espiritualidade é a oração de Davi no Salmo 31, em 
especial a primeira parte do verso 15 que diz: "Nas tuas mãos estão os meus dias". Permita-me 
compartilhar com você esta preciosidade dos Salmos. 
Num mundo em que as pessoas estão cada vez mais interessadas em si mesmas, auto-confiantes, 
porém (paradoxalmente) confusas e inseguras acerca do dia de amanhã, em que circunstância 
poderíamos nos aproximar de Deus e dizer-Lhe com a mesma convicção de Davi, "Nas tuas mãos 
estão os meus dias"? Consideremos três aspectos. 
1) Em primeiro lugar, podemos dizer "nas tuas mãos estão os meus dias" quando dependemos 
inteiramente de Deus. 
Somente alguém que se entrega totalmente aos cuidados de Deus é capaz de declarar ao Senhor: "Nas 
tuas mãos estão os meus dias". Somente quem vive em função do próprio Deus pode dizer e cantar: 
De ti, Senhor, careço! 
Do teu amparo, sempre! 
Oh, dá-me tua bênção! 
Aspiro a ti. 
(Dependência - NC 120) 
Uma das maiores expressões de dependência de Deus é a oração. Ao orarmos reconhecemos diante de 
Deus que somos fracos, pequenos e necessitados de Sua graça e compaixão imensuráveis. O Salmo 31 
é uma oração de Davi do começo ao fim, onde o versículo 15 é ponto alto de sua súplica. É como se 
Davi dissesse a Deus: "Nas tuas mãos estão os meus dias porque sem a tua ajuda, sem a tua proteção e 
sem a tua providência constante em minha vida eu não tenho condições de dar um passo sequer". Este 
anseio de Davi em estar ligado a Deus também é marcante nos Salmos 42 e 63. Contudo, uma das 
melhores ilustrações da oração de Davi no Salmo 31.15 está no pedido de Pedro em João 6. Depois
72 
que o Senhor Jesus acabou de proferir o sermão do pão da vida, muitos que O seguiam se 
escandalizaram e O abandonaram. Em seguida Jesus se voltou para os doze e lhes perguntou se 
também queriam deixá-lO. "Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos? Tu tens as 
palavras de vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus" (Jo 6.68). Observe 
a expressão: "Senhor, para quem iremos?". O que Pedro quis dizer foi exatamente isto: "N ão há outra 
pessoa a quem podemos ir; não há outra pessoa que satisfaça o anelo do coração" (G. Hendriksen). 
Assim oraram Davi e Pedro; assim deve orar todo aquele que crê que "a nossa suficiência vem de 
Deus" (2 Co 3.5). 
2) Em segundo lugar, podemos dizer como o salmista "nas tuas mãos estão os meus dias" quando 
confiamos verdadeiramente em Deus. 
Quem depende inteiramente de Deus com certeza confia nEle. Davi confiava no Senhor de maneira 
absoluta e incondicional. Observe que o versículo 15 do Salmo 31 é o reflexo da confiança impressa 
no versículo 14. Enquanto os inimigos de Davi confiavam nos ídolos e a eles dedicavam suas vidas, o 
salmista buscava ao Senhor dizendo: "Quanto a mim, confio em ti, Senhor. Eu disse: Tu és o meu 
Deus. Nas tuas mãos estão os meus dias...". Havia, ainda, um problema específico mas o salmista o 
entregou a Deus: "... livra-me das mãos dos meus inimigos e dos meus perseguidores" (v15b). Davi 
faz um jogo de palavras com o termo "mãos" do verso 15, como se quisesse dizer: "Livra a minha vida 
das mãos dos meus inimigos porque a minha vida está nas tuas mãos". Todavia, fosse qual fosse o 
problema, era costume de Davi confiar totalmente em Deus para solucioná-lo. 
Será que temos confiado em Deus com a mesma intensidade do salmista? Temos confiado em Deus a 
ponto de O deixarmos resolver os nossos problemas? Muitas vezes permitimos que os nossos 
problemas pareçam maiores que o nosso Deus. Não acreditamos que Ele possa resolvê-los de fato, ou 
então esperamos que Ele os resolva ao nosso modo. Não ousamos dizer-Lhe que faça a nossa vontade, 
mas Deus, que é poderoso e tremendo, sonda o nosso coração e se entristece ao ver que não 
confiamos nEle de verdade. 
"Ajuda-me, Senhor, a confiar em ti de tal maneira que eu não carregue comigo aqueles problemas que 
já entreguei ao teu cuidado" (W. Kaschel). 
3) Finalmente, mas não menos importante, podemos fazer das palavras de Davi, "nas tuas mãos estão 
os meus dias", nossas palavras, quando reconhecemos a direção de Deus em nossa vida. 
É interessante notar que Davi faz mais do que crer na existência de Deus. Ele nem ao menos pede a 
Deus: "Daqui pra frente dirige a minha vida". Ao contrário, o que ele faz no verso 15 é "relembrar" 
ao Senhor que a sua vida está nas mãos de Deus porque o Senhor já é o seu Deus! (cf. v14). Por isso 
Davi não precisaria temer os seus inimigos e perseguidores ou qualquer outra situa ção de perigo (veja 
Salmos 27.3; 46.1-3). A direção de Deus na vida de Davi fazia diferença. 
Semelhantemente, quando Deus dirige nosso destino não somos sufocados pelo desespero e ansiedade 
(cf. Mt 6.25-34; Fp 4.6; Hb 13.5,6; I Pe 5.7). Quando Deus dirige a nossa vida somos 
profundamente gratos a Ele por tudo (I Ts 5.18) e nos comportamos com maturidade em rela ção ao 
próximo. Alguns exemplos desse último: Por estar ciente da direção de Deus em sua vida foi que Davi 
poupou a vida de Saul (I Sm 24). E José do Egito? Sabendo que Deus dirigia o rumo de sua existência,
73 
José deixou para Deus as ofensas de seus irmãos ao invés de fazer justiça com as próprias mãos. José 
perdoou seus irmãos porque viu o propósito de Deus em meio à maldade deles. Davi fez o mesmo 
com Saul. Nós também podemos fazer o mesmo com o nosso semelhante se de fato reconhecemos a 
direção de Deus em nossa vida. 
Um dos piores males existentes no meio do povo de Deus hoje em dia é a falta do perdão. Esta falta 
de perdão, por sua vez, é motivada pela falta de compreensão da direção de Deus. Quando 
entendermos que é Deus quem dirige as grandes e as pequenas coisas do nosso viver e não o acaso, a 
fatalidade, a sorte ou o azar, e que "todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, 
daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Rm 8.28), então nunca mais teremos 
problemas em nosso relacionamento interpessoal porque não teremos mais dificuldade em perdoar 
quem quer que seja. As pessoas com maior dificuldade em perdoar são aquelas que não conseguem 
ver Deus na direção de suas vidas. 
Depender de Deus em tudo, confiar totalmente nEle e ser dirigidos pelas Suas m ãos deveriam ser os 
nossos maiores ideais todos os dias da nossa vida. Porque na vida o que realmente deve importar ao 
servo e à serva de Deus não é se os sonhos serão ou não realizados, se haverá ou não muito dinheiro 
no bolso e saúde para dar e vender durante o ano, mas sim, poder entrar, passar e sair de mais um a no 
com a mesma certeza de Davi: "Nas tuas mãos, Senhor, estão os meus dias"! Que Deus o (a) abençoe. 
ABRAÃO & A ALIANÇA 
Professor Diego Roberto 
A tradição bíblica apresenta os pais da humanidade e os patriarcas como monoteístas. Adão, Sete, 
Noé, Abraão e seus descendentes conheciam o Deus Eterno e guardavam seus preceitos. O politeísmo 
surge como degeneração e distanciamento desse Deus criador do universo. 
Qualquer análise do surgimento da religião de Israel deve partir do homem Abraão e de seu contexto 
histórico e social. Podemos localizar as origens do surgimento de Israel na primeira metade do 
segundo milênio a.C. (2.000-1550). Foi nesse período que Abraão migrou de Ur com destino à 
Palestina. O mundo de Abraão é um mundo objetivo, não mitológico, e a aliança com o Deus Eterno, 
conforme se encontra em Gênesis 15, é a chave para entendermos todo o Pentateuco, os cinco livros 
da Lei. 
A consolidação dessa aliança acontecerá com Moisés, descrita em Êxodo 24 e reiterada em 
Deuteronômio 5, numa das montanhas do deserto do istmo, entre o Egito e Madiã-Seir. Essa é a 
idéia-força de toda a religião de Israel: um acordo que implica em salvação. 
UM ACORDO SOLENE 
Berit, aliança, tem o sentido de obrigação, mas também de segurança. É um acordo entre duas 
pessoas, celebrado solenemente, com o derramamento de sangue. A parte mais forte fornece a 
segurança, ou a salvação, e a mais fraca se obrigava a determinados compromissos. Dessa maneira, a 
aliança impôs um relacionamento especial entre o Deus Eterno e o povo. E os mandamentos e leis, 
dados mais tarde, no deserto a Moisés, transportam de uma conotação legal e externa para uma 
perspectiva de acordo maior, de adoração e obediência. O centro da aliança está no primeiro 
mandamento do decálogo (as dez palavras, em hebraico) que proíbe a adoração de outros deuses, da 
milícia do céu e dos ídolos.
74 
UMA ALIANÇA ÉTICA 
Mas a aliança é também um pacto moral. Só que o fundamental desse pacto, que perpassa toda a 
Torah ou Pentateuco não é sua mera formalização, já que outros povos também possuíam noções 
desenvolvidas de lei e moralidade. O assassinato, o roubo, o adultério e o falso testemunho eram 
condenados não apenas pela lei moral universal, mas também duramente punidos pelos códigos de 
Ur-Nammu, de Lipit-Ishtar e de Hamurabi [León Epsztein, A Justiça Social no Antigo Oriente Médio 
e o Povo da Bíblia, SP, Paulinas, 1990, "As Leis Mesopotâmicas", pp. 11 a 26], para citar os mais 
representativos. 
Agora, no entanto, pela primeira vez a moralidade é apresentada pelo próprio Deus Eterno como 
fruto de um relacionamento entre Ele e o povo, com normas para o estabelecimento de um reino de 
novo tipo. É uma aliança com toda a nação. A consolidação que acontece centenas de anos mais tarde, 
no monte Sinai é fruto da aliança abraâmica e vai além das sabedorias babilônica e egípcia. 
A moralidade apresentada no Gênesis, por exemplo, que é individual, ganha aqui uma roupagem 
nova, passa a ser coletiva e nacional. "Yahweh não elegeu Israel para fundar um novo culto mágico em 
benefício dele; elegeu-o para ser seu povo, para realizar nele o seu arbítrio. Portanto, por sua 
natureza, também a aliança religiosa foi uma aliança moral/legal, envolvendo não apenas o culto, mas 
também a estrutura e os regulamentos da sociedade. Assim, colocou-se o alicerce da religião da tora, 
incluindo tanto o culto como a moralidade e concebendo a ambos como expressões da vontade 
divina". [Yehezkel Kaufmann, A Religião de Israel, SP, Perspectiva, 1989, p.232]. Na verdade, a 
aliança que o Deus Eterno faz com Abraão em Gênesis 15, historicamente, tem seu cumprimento em 
outras condições e em outra época, no Sinai. 
Dessa maneira, a aliança feita com Abraão não somente prepara o roteiro do Pentateuco, mas faz 
parte intrínseca dele. É bereshit, não somente como saga da origem, mas como alicerce de todos os 
cinco livros da Lei. Bereshit é uma expressão hebraica que normalmente traduzimos por "no 
princípio". É formada pela preposição B mais var, que significa cabeça, início, principal, o mais 
elevado. Na Bíblia hebraica o nome do livro de Gênesis é Bereshit, porque o primeiro versículo das 
Escrituras começa assim: "No princípio ..." 
UM CONCEITO UNIFICADOR 
A teologia de Gênesis tem por base o conceito da aliança, como descrição de um processo vivo, que 
tem origem em determinado momento histórico, numa relação entre o Deus Eterno e um homem 
historicamente definido. "A centralidade da aliança para a religião do AT já possuía defensores muito 
antes de Eichrodt [August Kayser, Die Theologie des AT in ihrer Geschichtlichen Entwicklung 
Dargestellt (Strassburg, 1886), p. 74]: "a concepção dominante dos profetas, a âncora e o alicerce da 
religião do AT em geral, é a noção de teocracia ou, utilizando a expressão do próprio AT, a noção de 
aliança" [G. F. Oehler, Theologie des AT (Tubingen, 1873), i, p. 69]: "O fundamento da religi ão do 
AT é a aliança por meio da qual Deus recebeu a tribo escolhida, a fim de realizar seu plano de 
salvação" [Gerhard Hasel, op. cit., p. 57]. 
Ao entendermos o conceito de aliança como centro unificador do livro de Gênesis e, por extensão, do 
Pentateuco, a leitura do texto bíblico passa a ter uma dinâmica real, que cresce conforme a aliança se 
transforma em osso e carne, primeiramente na vida dos patriarcas e, posteriormente, na forma ção da 
própria nação de Israel. 
O livro de Gênesis apresenta a humanidade recém formada como monoteísta [Kaufmann, op. cit.,
75 
p.220]. Até o capítulo 11 não vemos nenhum traço de idolatria. Só após Babel surge a idolatria, que 
seria contemporânea ao aparecimento das nações da antigüidade. 
A partir de Gênesis 12 temos nações idólatras e politeístas e pessoas que adoravam ao Deus Eterno. 
Entre estes estão Abraão e Melquisedeque. A compreensão desse fato é importante para tirarmos das 
costas de Abraão a responsabilidade de ter criado a primeira religião monoteísta. Ele não criou a 
religião do único e verdadeiro Deus, mas viveu uma tradição, no sentido de transmissão de 
conhecimento e cultura, que vinha em parte de seus antepassados. 
UMA REGIÃO PRÓSPERA 
Vejamos um pouco mais sobre a vida desse homem, conforme descrita em Gênesis 12:1 a 25:18. Ele 
vivia na terra formada entre os rios Tigre e Eufrates, às margens de um afluente do Eufrates, chamado 
Balique. 
A cidade de Ur, onde vivera antes de ir para Harã, é situada pelos arqueólogos na região da moderna 
Tell el-Muqayyar, a catorze quilômetros de Nasiryeh, no sul do Iraque. Segundo estudos de Sir 
Leonard Woolley, do Museu Britânico, que reconstruiu a história de Ur desde o quarto milênio até o 
ano 300 a.C., o deus-lua Nanar, que era adorado em Ur, também era a principal divindade em Harã. 
Décadas antes de Abraão, Ur era a mais importante cidade do mundo. Centro de produção 
manufatureira, agropastoril e exportador, estava situada numa região de enorme fertilidade. Daí 
partiam caravanas e navios em direção ao golfo Pérsico. Já na época de Abraão a cidade foi eclipsada 
pelo crescimento de Babilônia, mas manteve sua importância durante décadas.. A Babilônia destaca-se 
no cenário mundial a partir do governo de Hamurabi (1728-1686 a.C.). Ele venceu militarmente a 
Assíria, subjugou antigos aliados e também o reino de Mari, importante centro comercial da época. 
Durante seu governo, a Babilônia teve um impressionante florescimento cultural. 
Anos mais tarde, as águas do golfo Pérsico recuaram e o rio Eufrates mudou seu curso, correndo 16 
quilômetros para leste. Ur então foi abandonada, sendo sepultada pelas tempestades de areia do 
deserto. 
As pesquisas arqueológicas desenvolvidas pela Universidade da Pensilvânia e o Museu Britânico, numa 
expedição dirigida por Sir Woolley, entre 1922-1934, descobriram o Zigurate ou torre-templo, cujo 
modelo fora a torre de Babel. Era o edifício mais importante da época de Abraão. A torre era 
quadrangular, construída com sólidos tijolos, possuía terraços arborizados e no topo ficava um 
santuário ao deus Lua. 
A cidade tinha ainda dois templos. Um ao deus Lua, Nanar, e outro à deusa Lua, Ningal. Esses dois 
templos eram um complexo de santuários, com pequenas salas, alojamentos de sacerdotes, 
sacerdotisas e atendentes. Eram essas divindades que o pai de Abraão cultuava. 
Num bairro residencial de Ur foram descobertas casas, lojas, escolas e capelas, com milhares de 
placas, documentos de negócios, contratos, recibos, hinos, liturgias, etc. As casas eram de alvenaria, 
com dois pavimentos, no alinhamento das ruas, e com pátio interno. 
UMA ÉPOCA CONTURBADA 
Depois de sair de Ur, Abraão viveu com sua família em Harã, uma cidade também muito
76 
desenvolvida. Seus parentes, Terá, Naor, Pelegue e Serugue, tiveram seus nomes registrados nos 
documentos diplomáticos de Mari, na região e também em documentação dos assírios, como nomes 
de cidades naquelas regiões [Samuel Schultz, A História de Israel no Antigo Testamento, SP, EVN, 
1992, p. 31]. 
QUADRO CRONOLÓGICO (2050-1500 a.C.) 
EGITO PALESTINA MESOPOTÂMIA 
2050 Império médio Época do bronze (M) Renascimento sumério, dinastia de Ur. 
Amorreus 
2000 Egito reunificado Amorreus 
1950 XII dinastia Egito controla a costa 
1900 Sírio-palestina Assíria Mari Isin Larsa 
1850 Abraão 
1800 Babilônia 
1750 Invasão dos hicsos Hamurabi 
1700 Hebreus Hititas 
1650 XV dinastia 
1600 
1550 Novo Império 
1500 XVIII dinastia e Época do bronze (R) 
Expulsão dos hicsos 
PEQUENA CRONOLOGIA DE ABRAÃO (Gn 11:26-32; 12:4; At 7:2-4) 
Nascimento Quando seu pai tinha 130 anos. 
Canaã Entrou na Palestina aos 75 anos. 
Ló Libertou seu sobrinho quando tinha 80 anos. 
Ismael Tinha 86 anos quando seu primeiro filho nasceu. 
Sodoma e Gomorra As cidades foram destruídas quando tinha 99 anos. 
Isaque Nasceu quando tinha 100 anos. 
Sara Tinha 137 anos quando sua mulher morreu. 
Esaú e Jacó Quando seus netos nasceram tinha 160 anos. 
Morte Aos 175 anos de idade.
77 
ROTEIRO DE ESTUDO 
VISÃO PANORÂMICA 
1o bloco 
1. Introdução Geral: a herança de Abraão para os cristãos de hoje. 
2. Chamado: Gn 12.1-9; At 7.2-4; Hb 11.8. No Egito: Gn 12.10-20; Rt 1.1; Mt 12.14,15. 
3. A separação de Ló: Gn 13.1-18; Ef 3.18 e 4:1. 
2o bloco 
1. A derrota de Sodoma e a captura de Ló: Gn 14.1-12. 
2. Abraão resgata Ló: Gn 14.13-16. 
3. Abraão, Melquisedeque e o rei de Sodoma: Gn 14.17-24; Hb 7.2; Sl 110.4. 
3o bloco 
1. Fé e aliança: Gn15.1-21; Rm 4; Gl 3. 
a. A fé que movia Abraão. 
b. A promessa vira aliança. 
4o bloco 
1. Hagar e Ismael: Gn 16.1-16; Gl 4.22 e 29; Pv 24.3; Ex 3.2, 4; Jz 6.12-14. 
2. Sara, um novo nome: Gn 17.15-22; Rm 9.24. 
3. Abraão intercede por Sodoma: Gn 18.16-33; Is 41.8; 1Tm 3.4-5; Ex 32.32; Is 53.12. 
Conclusão: A herança de Abraão para os cristãos de hoje. 
ABRAÃO, O "AMIGO DE DEUS" 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
"Ora, o Senhor a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que eu 
te mostrarei. Eu farei de ti uma grande nação; abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome; e tu, se uma 
bênção. Abençoarei aos que te abençoarem, e amaldiçoarei aquele que te amaldiçoar; e em ti serão 
benditas todas as famílias da terra. Partiu, pois, Abrão, como o Senhor lhe ordenara, e Ló foi com ele. 
Tinha Abrão Setenta e cinco anos quando sai de Harã. Mas tu, o Israel, servo meu, tu Jacó, a quem 
escolhi, descendência de Abraão, meu amigo" 
(Gn 12,1-4; Is 41,8) 
Com a entrada de Abraão no cenário bíblico, inicia-se a história de dois mil anos do pacto de Deus 
com ele, e através dele, com toda a humanidade. Na pessoa de Abraão, Deus começa a obra de 
redenção daquele que crê (Rm 4.11). Tem início com Abraão, vai a Isaque, seu filho, a Jacó, seu 
neto, a Judá, seu bisneto, e segue até Jesus Cristo (cf. Mt 1.17; Rm 3.21,22). É ele o perfeito 
exemplo do que significa viver pela fé, ou, como designou o Dr. Page Kelley, querido ex-professor, o 
"projeto-piloto" de Deus na redenção de todos os povos.
78 
A vida de Abraão gira em torno de duas ordens de partida: 
1. " Sai-te da tua terra..." (Gn 12.1) e 
2. "Toma agora teu filho..." (Gn 22.2). 
Vamos a elas. 
"SAI-TE DA TUA TERRA..." (Gn 12.1-4) 
O fato é que Deus requer de Abraão que deixe sua terra e seus parentes idólatras. Isso acontece por 
volta de 1976 a.C. Vai com Sara (a esposa), com Ló (o sobrinho), servos e gado. 
Josué 24.2,3 diz que Abraão deixou a sua terra e seu clã para se afastar da idolatria que ali reinava (cf. 
Gn 31.19). Deus tinha uma mensagem que desejava passar a toda a humanidade. Algu ém disse que "o 
melhor meio de enviar uma mensagem e amarrá-la no mensageiro" (como um pombo correio). Foi o que 
Deus fez com Abraão, e a tarefa, ele a cumpriu com fé e obediência. A ordem para deixar sua terra, 
familiares e pais foi algo muito mais sério para ele do que teria sido para nós. Na época de Abraão, a 
paz e segurança que se conhecia era a de estar com sua família. Quando alguém deixava essa segurança 
ficava exposto a todos os perigos. 
Abraão não conhecia a Deus. Para ele, falar de religião com seus pais, irmãos, familiares e 
contemporâneos de Ur era falar do deus-lua chamado Sin, principal divindade de sua terra. Ele 
conhecia também o deus-sol, Nana, e sabia de Anu, o deus do céu dos sumerianos. 
Tudo isso significa que para Abraão sair da sua terra, da sua parentela e da casa dos seus pais era um 
apelo espiritual que lhe chegava na revelação do Deus único, verdadeiro. Apelo a uma integridade que 
ele não poderia encontrar no panteão de deuses mitológicos. E assim ele parte. Vai para Canaã. O 
escritor de Hebreus rende uma homenagem a Abraão quando diz que, " Pela fé Abraão, sendo chamado, 
obedeceu saindo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia" (Hb 11.8). 
É preciso uma "saída", uma separação radical para ser orientado pela pedagogia divina. Afinal, não 
vivemos no meio de tantos deuses da época atual? O dinheiro não é um poderoso deus? O poder não é 
um deus que apela? O prazer? A posição social? 
É preciso sair. Sair da idolatria, dos deuses falsos , de tudo o que prejudica a comunhão com o Eterno. 
Fé não é simplesmente crer num conjunto de parágrafos sobre a pessoa de Deus, mas 
comprometimento com Ele, porque fé é, primariamente, palavra de relacionamento pessoal com o 
Criador. 
A chamada de Abrão envolve uma dupla promessa: a de terra (Gn 12.7) e a de descendência (Gn 
15.5) . E foi uma chamada grande de sacrifício, para compromisso total, e para um novo sentido, 
caminho, curso na vida. Essa a razão porque Abraão recebe duas ordens: a de andar diante de 
Deus, e a de ser perfeito (Gn 17,1). A vida , na Bíblia, é descrita como um caminho por onde se 
anda; é uma peregrinação. Ser perfeito, por sua vez, é ser integro, inteiro, completo. É, portanto , 
vida de rendição total e incondicional a Deus. E Abraão o aceita (cf. Gn 17.3a). Aí, começam suas 
provas, seus testes de fé.
79 
AS PROVAS 
São, pelo menos, sete as promessas de Deus a Abraão: 
1. seria pai de uma grande nação (e nem herdeiro tinha!); 
2. Deus o abençoaria durante a vida; 
3. seria ria uma figura mundial (talvez nem precisasse citar que três grandes grupos religiosos 
derivam da fé de Abraão. E a ele rendem suas homenagens: os judeus, os cristãos e os 
muçulmanos); 
4. seria uma bênção para outras pessoas (Não é só destaque e fama: é serviço; o crente há de ser 
uma bênção sempre: seja porteiro de um edifício, industriário, bancário, pequeno 
comerciante, profissional liberal, executivo de empresa ou autoridade civil); 
5. suas bênçãos serão compartilhadas com os que o recebessem (o que significaria abertura para a 
proximidade de Deus); 
6. os que degradassem e amaldiçoassem Abraão, os insensíveis para com Deus e Suas promessas, 
trariam sobre eles a própria ira de Deus; 
7. influência universal. 
Mas as provas são pesadíssimas. Foi-lhe prometida numerosa descendência, mas não tinha 
filhos. Ele e Sara já são de idades avançadas, e ela, ainda mais, estéril. Abraão toma a providência de 
adotar um servo: Eliezer (Gn 15.3) Não era a solução de Deus (cf. Gn 15.4), e, mais ainda, Deus não 
permite que tracemos Seu programa! Sara toma a sua providência: entrega ao marido uma serva 
egípcia (Agar). Isso aconteceu onze anos depois do "projeto Eliezer", e o objetivo é que a criança 
nascida da união fosse sua. Nasceu Ismael desse "arranjo" de Sara ("projeto Agar"). Não era, porém, 
repetimos, a solução de Deus (Gn 18.10), porque, mais uma vez afirmamos, Ele não permite que 
tracemos Seu programa! Passam-se vinte anos antes que Isaque, o filho da promessa, nasça. 
A segunda prova foi a da fome em Canaã. Fome na terra prometida Sera que Deus havia se 
enganado Afinal, Abraão estava em paz com os seus, materialmente bem, mas a fome foi um teste de 
fé que lhe veio após um tempo de comunhão. 
Outra prova ocorreu no Egito. Foi uma questão de fraqueza moral. Abraão e culpado de egoísmo, 
engano e mentira; colocou a esposa em situação difícil. Sua proposta, aliás, foi: 
"Quando ele estava prestes a entrar no Egito, disse a Sara, sua mulher: Ora, bem sei que es mulher 
formosa a vista; e acontecera que,quando os egípcios te virem, dirão Esta é mulher dele. E me matarão a 
mim, mas a ti te guardarão em vida. Dize, peço-te, que és minha irmã, para que me va bem por tua 
causa, e que viva a minha alma em atenção a ti."(Gn 12.11-13). 
Usou de meia verdade (v. 13; cf. 20.12). verbalmente verdadeiro, mas falso na realidade. Abraão não 
teve consideração por Sara. Alguém poderia perguntar porque a Bíblia registrou essa história tão triste 
e escabrosa. Lembramos que a Bíblia não esconde os erros dos seus heróis porque chama o pecado de 
pecado, o mal de mal, a virtude de virtude, e a bênção de bênção. Daí um Noé e um Loó bêbados , 
um Jacó enganador, um Moisés medroso, um Davi adúltero e um Pedro mentiroso. 
E, finalmente, a grande prova: Moriá.
80 
MORIÁ (Gn 22) 
Depois dessa longuíssima espera, nasce Isaque, o filho da promessa. Está agora rapazinho com cerca de 
doze ou treze anos. E quando Abraão recebe a segunda ordem: a primeira foi a de deixar Ur dos 
Caldeus, Ur dos seus parentes, para o passado. A segunda é a de se desfazer de seu futuro: "Prosseguiu 
Deus: Toma agora teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas; vai a terra de Moriá, e oferece-o ali em 
holocausto sobre um dos montes que hei de mostrar" (Gn 22.2). 
Abraão está fadado a ser o homem do presente. Só do presente, sem passado e sem futuro. Seu futuro 
tão aguardado vai ser sacrificado. 
Dá para imaginar o sentimento de alegria que sentiu o garoto quando o pai o chamou para a viagem de 
três dias à terra de Moriá: a animação do preparo das bagagens, a partida, a chegada ao pé da 
montanha no terceiro dia. Isaque vê que tudo de que se necessita está pronto: a madeira, as correias 
de couro para amarrar a vítima, a faca, o fogo, o incenso. Mas falta o cordeiro: "Pai, não esqueceu de 
alguma coisa?" 
E o sentimento de Abraão, a sua introspecção enquanto caminhavam aqueles 120 km. Três dias de 
marcha sem uma palavra. Era tempo bastante para voltar para casa se Abraão quisesse mudar de idéia. 
Três longos dias e três frias noites! 
Finalmente, aí está Moriá, o monte da suprema provação, da prova que a linguagem humana é quase 
incapaz de analisar. Os servos e o animal ficam no sopé do monte. Abraão e Isaque o sobem. Como 
em Ur não discutira o Patriarca a ordem de sair, também aqui não o faz. Cabe nesse ponto lembrar 
que ainda existia entre os pagãos o costume de imolar os primogênitos quando se construía uma casa. 
Era o chamado "sacrifício do alicerce". No alto de Gezer, centro do paganismo foram descobertas urnas 
com esqueletos de criancinhas, de bebês. Em Megido, encontrou-se o esqueleto de uma mocinha de 
cerca de quinze anos. 
Abraão não entendera a ordem divina, mas obedeceu. É o que se requer: obediência Diz a Escritura 
que "As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, mas as reveladas nos pertencem a n ós e a nossos filhos 
para sempre, apra que observemos todas as palavras desta lei" (Dt 29.29). E, ainda: "Eis que o obedecer e 
melhor do que o sacrificar, e o tender, do que a gordura de carneiros"(1 Sm 15.22b; cf. Jr 42.5,6; Os 6.6). 
O altar vai sendo construído. Abraão olha o altar, olha o filho, olha a distância. Isaque pergunta, " Meu 
pai, e o cordeiro?" Abraão se lembra da ordem que veio num crescendo para não deixar duvidas: "Toma 
teu filho" > "(toma) o teu único filho" >toma o teu filho ( a quem amas) > "toma Isaque" . E devagar o altar 
vai sendo levantado. Pedra sobre pedra, lenha, sobre lenha. "E o cordeiro, meu pai" "Isaque, meu filho a 
quem amo, o cordeiro é... você... Mas o Senhor vai providenciar as coisas, Ele proverá. Ele dirá (o que fazer). Pois 
tanto confiava Abraão que disse aos servos, "depois de adorarmos, voltaremos a vos" (Gn 22.5b). E at é, a 
certeza, a confiança, a segurança a esperança (Hb 11.19). 
E o Senhor o fez. No momento em que a faca ia imolar a vitima, o garoto Isaque, o Senhor o fez 
porque Ele é Javé-jire, o "Senhor que providencia". E o cordeiro foi colocado ao dispor de Abra ão, 
razão porque o monte se chama Moriá: lugar da providência, de visão, da provisão. Daí porque 
cantamos,
81 
"Sei que Deus o meu futuro 
Tem na sua mão; 
Seus desvelos compassivos 
Incessantes são. 
Inda que eu mais tarde encontre 
Provações e dor 
Por detrás das negras nuvens 
Brilha o seu amor". 
(Hino n 332 CC) 
Sim. Moriá é o monte da (nova) visão de Deus, o monte da revelação. Abraão precisava aprender ou 
refinar algo: sua fé. Existe entre os teólogos judeus a idéia que no Monte Moriá, Caim e Abel 
ofereceram os primeiros sacrifícios, e que Noé ofereceu a Deus um sacrifício de gratidão. Os crentes 
da Igreja do Novo Testamento comparavam o Moriá ao Calvário: dois montes, em ambos um 
sacrifício. Como Isaque carregou a lenha, Jesus levou a cruz. Nenhum dos dois reclamou, e nisto está 
a diferença: em Moriá, o cordeiro estava providenciado; no Calvário, Jesus foi " o cordeiro de Deus que 
tira os pecados do mundo" (Jo 1.29). No terceiro dia, no entanto, ambos foram recobrados: Isaque foi 
solto no altar, Jesus ressuscitou dentre os mortos. 
O Pr. David Gomes relata que num dos retiros de senhoras onde falava, uma disse: "Pastor, sou crente 
há muitos anos, mas somente agora tive uma verdadeira visão de Deus". Não; não, chame isso de "Segunda 
Bênção" ou batismo no Espírito Santo "posterior" à sua conversão. Por outro lado, não faça de coisas 
pretensamente assombrosas meio de revelação de Deus. "Outro" deve estar querendo se revelar! 
Há lições preciosas a extrair da história de Abraão, "o amigo de Deus". A primeira é que temos de 
corrigir a teologia popular do que significa ser eleito de Deus. Não é viver do que significa 
ser eleito de Deus. Não é viver numa redoma de cristal; não é não ser atingido pela dureza e reveses 
da vida. Senão como explicaríamos Jeremias 1.5 e 20.2: 
"Antes que eu te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre te santifiquei; às nações te dei 
por profeta", 
e 
"Então feriu Pasur ao profeta Jeremias, e o meteu no cepo que está na porta superior de Benjamin, na 
casa do Senhor". 
Gálatas 1.15 e 2 Co 11.23-27, acrescentam, 
"Mas, quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou e me chamou pela sua 
graça"; 
"São ministros de Cristo? (falo como fora de mim) eu ainda mais; em trabalhos, muito mais; em pris ões, 
muito mais; em açoites, sem medida; em perigo de morte, muitas vezes; dos judeus, cinco vezes recebi 
quarenta açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri 
naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo; em viagens muitas vezes; em perigos de rios, em perigos
de salteadores, em perigos dos da minha raça, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos 
no deserto, em perigos no mar, em perigos entre os falsos irmãos; em trabalhos e fadiga, em vigílias 
muitas vezes, em fome e sede, em jejuns muitas vezes, em frio e nudez". 
82 
Na verdade, ser chamado por Deus não coloca o crente em Jesus Cristo em posição privilegiada. Pelo 
contrário, expõe o cristão a grandes provações, dificuldades e sacrifícios (como Estevão, ou Pedro, ou 
Paulo). 
Outra lição da vida de Abraão é que os bens mais queridos da vida podem, algumas vezes, se 
constituir em tentações sutis de falta de fé. Abraão amava Isaque, mas amava a Deus. O seu 
conflito é o de escolher entre um e outro. Isso nos lembra Jesus e Sua Palavra: " Quem ama o pai ou a 
mãe do que a mim, não e digno de mim. E quem ama o filho ou a 
filha mais do que a mim não e digno de mim" (Mt 10.37). 
A terceira das lições é que as mais ricas bênçãos são reservadas aos que estão totalmente e 
ser reservas à disposição do Senhor. Ele não prova os maus, prova os justos porque os quer 
"justos e perfeitos" (Gn 18,23; 17,1; 6,9). Essa é a explicação porque em virtude de sua fé) Abraão foi 
chamado "o amigo de Deus" (2 Cr 20.7; Is 41.8; Tg 2.23). 
Mais uma lição: Abraão foi um grande construtor de altares. Há pessoas que são reconhecidas 
pelas maldades e impiedades que praticaram; há quem seja conhecido pelos bens. Abraão o foi pelos 
altares. É o que na linguagem religiosa se chama "o temor do Senhor", devoção suprema, dedicação 
exclusiva a Deus. Era homem de piedade. Construiu um altar em Siquém (Gn 22.9). Numa terra pagã 
há quem invoque o Nome do Senhor, um altar foi construído. 
A propósito, o altar está armado em sua casa? Diz a Escritura em Gênesis 12.8 que "...armou a sua 
tenda... (e) edificou um altar ao Senhor". Como vai a vida religiosa de sua casa? O evangelho no lar? O 
exemplo é o de Abraão: trabalhador, obediente, piedoso, homem de fé. Por causa dessa fé, Abraão e 
chamado "pai dos crentes" (cf. Rm 4.8), num exemplo correto de fé que justifica (Gn 12.2; Hb 
11.11,12). É viver, então, por essa obediência que nasce da segurança, confiança e esperança! 
AS CONSEQÜÊNCIAS DO PECADO 
Professor Diego Roberto 
A Queda dos nossos primeiros pais 
Introdução: A queda de nossos primeiros pais, trouxe conseqüências desastrosas não apenas para 
eles, mas também para toda a humanidade. Entender o que aconteceu com Adão e Eva após o 
primeiro pecado é chave para compreendermos a situação em que o homem se encontra hoje. Isto 
porque, Adão não agiu como uma pessoa particular, mas como representante de toda a humanidade. 
I - CONSEQÜÊNCIAS PARA ADÃO E EVA: 
Veja o que nos diz a Confissão de Fé de Westminster :
83 
"Por este pecado eles decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus, e assim se tornaram 
mortos em pecado e inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da 
alma" Capítulo VI, seção 2 
"Por este pecado", diz a Confissão de Fé de Westminster: 
1) Decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus (imagem desfigurada) 
2) Tornaram-se mortos em pecado (escravos do pecado) 
3) Inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da alma (depravação 
total) 
Ao estudar o texto de Gênesis 3:7-24, vemos as seguintes conseqüências para nossos primeiros pais: 
GÊNESIS 3:7-24 
1-) Após o pecado foram dominados por um sentimento de vergonha. V.7 
Antes tinham consciência da nudez, mas não tinham vergonha. (Gn 2:25) 
"Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram 
para si aventais". (Gn 3:7) 
Antes tinham consciência da nudez, mas não tinham vergonha. Veja o texto abaixo: 
"Ora um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonharam". 
(Gn 2:25) 
O resultado de terem comido o fruto proibido, não foi a aquisição da sabedoria sobrenatural, como 
satanás havia dito (v. 5), ao contrário, agora eles descobriram que foram reduzidos a um estado de 
miséria. 
2-) Após o pecado sentiram o peso de uma consciência culpada (Gn 3:7) 
Agora eles reconheciam que haviam pecado contra Deus, e resolveram fazer vestes de folha de 
figueira para se cobrirem. 
É interessante observar que em Gn 3:7 afirma que os "olhos de ambos foram abertos". Obviamente que 
não se trata de olhos físicos porque estes já estavam bem abertos antes, mas trata-se de olhos 
espirituais, os olhos do entendimento, os olhos da consciência, que agora passam a ver e se acusarem. 
Eles agora "percebem" que estão nús. Perderam o estado da inocência. Percebem não apenas a nudez 
física, mas a nudez da alma que é muito pior, pois esta impede o homem de perceber Deus.
A nudez de Adão e Eva é a perda da justiça original da imagem de Deus. Todos os seres humanos 
nascem agora ( após a Queda ) nesta condição e as Escrituras dizem que é necessário que recebamos as 
"vestes brancas" - Ap 3:18; "vestes de salvação" - Is 61:10, que é a justiça original que Cristo nos traz de 
volta. 
84 
Eles agora estavam percebendo que a sua condição física espelhava a sua condição espiritual. 
3-) Após o pecado, tiveram medo e fugiram - v.8 
"E ouviram a voz do Senhor Deus que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher 
da prsença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim. E chamou o Senhor Deus a Adão e disse-lhe: Onde estás? E 
ele disse: Ouvi a Tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me" Gn 3: 8-10 
Adão e Eva se escondem ao chamado de Deus. Consciência culpada sempre produz medo e fuga. Mas 
que tolice! Pensaram eles que poderiam se esconder de Deus? 
Pecaram e agora têm medo da sentença condenatória que Deus pode proferir contra eles. O pecado 
os separou de Deus, rompeu a comunhão com Deus. 
E é sempre assim. A menos que a obra de Cristo seja realizada em nosso favor, estaremos frente a 
frente com o juízo de Deus - Hb 2:3. 
4-) Após o pecado procuraram uma solução inútil para seu pecado. Gn 3:7. 
Eles tentam salvar as aparências, ao invés de procurar o perdão de Deus. 
Fabricando aquelas cintas de folha de figueira, eles estavam tão somente fazendo uma tentativa de 
acalmar a própria consciência. 
Hoje em dia também é assim. Os descendentes de Adão têm medo de serem descobertos em suas 
transgressões. Mas seu objetivo principal não é buscar o perdão, mas sim, aquietar a consciência e 
fazem isto assumindo o papel de religiosos, parecendo aos outros que est ão bem vestidos. 
Mas não obstante nossas roupas religiosas, o Espírito Santo nos faz ver a nossa nudez espiritual. Não 
adianta dar desculpas esfarrapadas. Precisamos nos humilhar diante daquele que tudo v ê. 
5-) Após o pecado, há uma fuga da responsabilidade - Gn 3:10 
"E ele disse: Ouvi a Tua voz soar no jardim, e temi, porque estava n u, e escondi-me" 
Gn 3:10 
Adão tenta encobrir sua culpa, colocando a culpa em Eva (v 12), que por sua vez, culpou a serpente (v 
13).
85 
Eles não aceitaram a responsabilidade pelo erro. Ao contrário transferiram a responsabilidade para o 
outro. Não é assim também em nossos dias? 
6 -) Após o pecado eles tentaram arranjar uma justificativa - Gn 3:12 
"... a mulher que me deste" 
Adão chega a ser insolente. Ele não disse: "A mulher me deu do fruto e eu comi ...", mas disse: "A 
mulher que Tu me deste ...". Em outras palavras, Adão disse: "Se tu não me tivesses dado essa mulher, 
eu não teria caído". 
Hoje em dia, nós podemos estar fazendo o mesmo. Em nossos esforços de se justificar, acabamos por 
culpar a Deus dos pecados que cometemos - Pv 19:3. 
Exemplos: 
• A razão tentou eximir-se de culpa, culpando o povo Ex 32:22-24. 
• Saul fez o mesmo - I Sam 15:17-21. 
• Pilatos deu ordem para crucificar Jesus e depois atribuiu o crime aos judeus - Mt 27:24. 
7-) Após o pecado, a mulher daria a luz em meio a dores ( Gn 3:16-19) 
Nesta sentença que Deus profere contra a mulher, vemos que a maldição foi mitigada. Isto porque, a 
gravidez era uma bênção visto que a mulher daria à luz e se multiplicaria sobre a terra e o descendente 
nasceria para pisar a cabeça da serpente. Mas a dor e o desconforto do parto são conseqüências da 
queda. 
8-) Após o pecado, a Terra foi amaldiçoada. (Gn 3:17) 
A natureza sofre junto com a humanidade, compartilhando assim as conseqüências da queda. 
As Escrituras descrevem esta maldição em três maneiras: 
a) O sustento será obtido com fadiga v 17. 
Assim como a mulher terá seus filhos com dor, o homem haverá de comer o fruto da Terra por meio 
de trabalho penoso. Antes da queda, o trabalho de Adão no jardim era prazeroso e agradável, mas de 
agora em diante, seu trabalho, bem como o dos seus descendentes será seguido de cansaço e 
tribulação. 
b) A Terra produzirá cardos e abrolhos v 18. 
O cultivo da terra seria mais difícil do que antes. Cardos e abrolhos aqui significam: plantas 
indesejáveis, desastres naturais, enchentes, insetos, secas e doenças. A natureza foi subvertida com o 
pecado do homem. (Rm 8:20-21).
86 
c) No suor do rosto comerás v 19. 
O trabalho árduo se tornaria a porção do homem. A vida não seria fácil. 
9-) Após o pecado, a morte alcança o homem - v 19: 
A palavra "morte" ocorre na Bíblia, com 3 sentidos diferentes, embora o conceito de separação seja 
comum aos três: 
a) Morte Física: Ecl 12:7 
b) Morte Espiritual: Rm 6:23; 5:12 
c) Morte Eterna: Mt 25:46 
10-) Após o pecado, foram expulsos da presença de Deus - Gn 3:22-24. 
Estar fora do jardim era equivalente a estar fora da presença de Deus. Era a ira de Deus se revelando 
aos nossos primeiros pais pela desobediência deles. (Judas 6) 
II - AS CONSEQÜÊNCIAS PARA A RAÇA HUMANA: 
No tópico anterior vimos que a queda trouxe conseqüências desastrosas para os nossos primeiros pais. 
Mas estas conseqüências não ficaram restritas apenas ao Édem. Toda a raça humana sofre as 
conseqüências do pecado dos nossos primeiros pais. 
Assim se expressa a nossa Confissão de Fé: 
"Sendo eles ( Adão e Eva ) o tronco de toda a humanidade, o delito dos seus pecados foi imputado a seus 
filhos; e a mesma morte em pecado, bem como a sua natureza corrompida, foram transmitidas a toda a 
sua posteridade, que deles procede por geração ordinária" Capítulo VI, 3 (Sl 51:5; 58:3-5; Rm 
5:12, 15:19) 
Em vista da queda, o pecado tornou-se universal; com excessão do Senhor Jesus, nenhuma 
pessoa que tenha vivido sobre a terra esteve isenta de pecado. 
Esta mancha que atinge a todos os homens recebe o nome na Teologia de PECADO ORIGINAL. 
Vamos estudá-lo agora. 
O PECADO ORIGINAL 
O que é o pecado original? Usamos esta expressão por três razões: 
1ª) Porque o pecado tem sua origem na época da origem da raça humana. Em outras palavras, é 
pecado original porque ele, se deriva do tronco original da raça.
87 
2ª) Porque é a fonte de todos os pecados atuais que mancham a vida do homem. 
3ª) Porque está presente na vida de cada indivíduo desde o momento do seu nascimento. 
O pecado original pode ser dividido em dois elementos: Culpa original e Corrupção original. 
1-) Culpa original: Culpa real e pena real. 
A culpa é o estado no qual se merece a condenação ou de ser passível de punição pela violação de uma 
lei ou de uma exigência moral. 
Podemos falar de culpa em dois sentidos: 
• Culpa Potencial ou Culpa de Réu ( Inerente ao ser humano ) 
Esta culpa é inseparável do pecado, jamais se encontra em quem não é pecador e é permanente, de 
modo que, que uma vez estabelecida não é removida nem mesmo com o perdão. Ela faz parte da 
essência do pecado. 
Os méritos de Jesus Cristo não tiram esta culpa do pecador porque esta lhe é inerente. O fato de Cristo 
Ter morrido pelo pecador não o torna inocente, mas apenas livre da condenação, livre da penalidade da lei, 
justificado portanto. 
• Culpa (de fato) Real ou Pena do Réu: 
Esta culpa não é inerente ao homem, mas é o estatuto penal do legislador, que fixa a penalidade da 
culpa. Pode ser removida pela satisfação pessoal ou vicária das justas exigências da lei. 
É neste sentido que Jesus levou nossa culpa, isto é, pagando a penalidade da lei. Jesus não levou nossa 
culpa potencial, mas sim nossa culpa real. Em outras palavras, Jesus n ão levou nossa culpa, pagou 
nossa pena. 
2-) Corrupção original: O pecado inclui corrupção. 
Por corrupção entende-se a poluição ou contaminação inerente à qual todo pecador está sujeito. É 
uma realidade na vida de todos os homens. É o estado pecaminoso, do qual surgem atos pecaminosos. 
Enquanto a culpa tem a ver com a nossa posição perante a lei, a corrupção tem a ver com a nossa 
condição perante a lei. 
Como uma implicação necessária de nosso comprometimento com a culpa de Adão, todos os seres 
humanos nascem em um estado de corrupção. 
Esta corrupção que se propaga e afeta todas as partes da natureza humana recebe o nome de 
Depravação Total e que resulta numa incapacidade total.
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Vejamos agora em nosso próximo estudo, os dois aspectos da Corrupção original: Depravação Total 
ou Generalizada e a Incapacidade Espiritual. 
ASPECTOS MESSIÂNICOS DE JOSÉ 
Professor Diego Roberto 
Comentário bíblico de Gênesis 50.18-21 
I. TEMPO HISTÓRICO DO PERSONAGEM 
O período mais provável para José é o tempo da dinastia dos faraós hicsos, cerca da 1720-1570 a.C. 
Estes "soberanos de terras estrangeiras" (é o que significa em egípcio o nome hicsos), eram de origem 
semita. Obtiveram proeminência no Baixo Egito e depois, talvez por um repentino golpe de estado, 
conquistaram o trono egípcio, formando as dinastias XV e XVI dos hicsos que durou mais ou menos 
150 anos, quando foram expulsos pelos reis tebanos. Esta é a razão porque nos tempos de Moisés "se 
levantou novo rei sobre o Egito, que não conhecera a José" (Ex 1.8). 
Os faraós de origem semita assumiram a posição completa e o estilo da realeza tradicional egípcia. 
A princípio os hicsos empregaram na administração do governo oficiais egípcios do regime antigo. 
Porém, conforme o tempo foi passando, oficiais semitas naturalizados egípcios foram nomeados para 
altos postos administrativos. É neste contexto que José se encaixa perfeitamente. Tal como tantos 
outros, José foi um escravo semita a serviço de uma família egípcia importante: a família de Potifar, 
comandante da guarda. A corte real mostrava-se minuciosamente egípcia em questões de etiqueta (cf 
Gn 41.14; 43.32) e, no entanto, o semita José foi imediatamente nomeado para um alto ofício. A 
mistura peculiar e imediata de elementos egípcios e semitas, espalhadas na narrativa de José, adaptam-se 
perfeitamente ao período dos hicsos. Além do mais, somente entre os conquistadores hicsos um 
asiático teria possibilidade de se elevar ao mais alto posto do Estado (cf Gn 46.34). 
II. ESTRUTURA DA PASSAGEM 
José Irmãos Escravos Filhos Não Temais Deus 
V18a 
V18b 
V18c 
V18d 
V18e 
V18f 
V19a 
V19b 
V19c 
V19d 
V19e 
V20a
89 
V20b 
V20c 
V21a 
V21b 
V21c 
V21d 
V21e 
V21f 
8xs 6xs 1xs 1xs 2xs 2xs 
III. ESTRUTURA DO CONTEXTO 
1. Contexto Remoto: A Infância de José 
O que está acontecendo em Gênesis 50.18-21? Por que os irmãos de José se aproximaram dele com 
tanto medo, implorando por suas vidas e suplicando que fossem seus escravos? 
A chave para uma compreensão adequada do ocorrido em Gênesis 50.18-21 está, a priori, no relato 
da infância de José em Gênesis 37. 
O amor de Jacó pelo filho de sua velhice despertou inveja e aborrecimento nos demais, ao ponto de 
não poderem mais "falar com ele (José) pacificamente" (v4). O relacionamento entre os irmãos ficou 
mais complicado ainda quando Jacó resolveu demonstrar sua predileção por José ao fazer-lhe "uma 
túnica talar de mangas compridas".1 A túnica do caçula de Jacó era ostentosa2 ("de várias cores", cf 
VRC) e provocante. 
Os sonhos reais de José estavam associados à roupa que ganhara (Gn 37.3,7,9); portanto, a destruição 
da túnica pelos seus irmãos representava o fim do sonhador e de sua realeza (Gn 37.31-33). 
O que Jacó pretendia exatamente com este tipo de presente é difícil saber. Não podia dar os plenos 
direitos de primogenitura a José, pois esses Jacó concederia a Judá (cf Gn 49.8-12). É possível que 
alguma explicação possa ser encontrada no fato de que José era o primeiro filho de sua esposa favorita, 
Raquel. No desfecho final da história de José sabemos que, pela vontade divina, Jacó antecipara, 
embora inconscientemente, a posição elevada que seu filho teria futuramente no Egito. Mais tarde, 
agora conscientemente, reconhecendo a realeza de José o proclamaria "príncipe" entre seus irmãos 
(Gn 49.26). 
A ordem no acontecimento dos fatos é progressiva. Jacó amava mais a José. Jacó demonstrou seu 
amor pelo filho predileto dando-lhe uma túnica real (Gn 37.3). Em seguida José tem dois sonhos reais 
(vv5-9). Parece que tudo, naquela ocasião, contribuía para o aumento da inveja de seus irmãos (v11a), 
fato ignorado por José. Jacó desconfiou que sonhos daquela natureza, que engrandeciam sobremaneira 
o sonhador, não eram comuns. "Guardava este negócio no seu coração" (v11b). É possível que a 
questão da eleição divina, tão marcante na vida de Jacó (Gn 25.23,30-33;27), passasse naquele 
instante por sua mente. Diferente de seus filhos, Jacó aprendera a admitir a mão de Deus nos fatos e 
em Seu direito de escolha entre os seres humanos. 
É impressionante como os sonhos passam a ter importância essencial na vida de José. Por causa de um 
sonho José foi lançado em uma cova (V24) e vendido (v28). Por causa de um sonho foi libertado do 
cárcere (Gn 41.14) e exaltado (Gn 41.42,43). 
No acontecimento de Gênesis 50.18-21, os irmãos de José sentem o temor conseqüente do crime que
90 
cometeram, vendendo José por vinte siclos de prata aos ismaelitas (Gn 37.28), isto é, pelo preço de 
um escravo no período patriarcal. E o que passava pela cabeça de seus irmãos era: o único meio de 
consertarem o mal praticado seria fazer o que fizeram com ele, a saber, tornarem-se escravos. E 
escravos de José! 
2. Contexto Próximo: A Morte de Jacó 
Se por um lado os irmãos de José já estavam amedrontados pelo mal que haviam feito a ele, de outro 
lado tiveram a situação piorada (no pensamento deles) com a morte do patriarca Jacó. Foi sem dúvida 
um fator preocupante. Ao verem Jacó expirar (Gn 49.33) e José se atirar ao pescoço dele, chorando e 
o beijando (Gn 50.1), puderam ver que o amor do irmão pelo pai era tão forte quanto antes e que a 
separação provocada entre os dois por meio de traição e mentira resultaria numa vingança sem 
precedentes. 
Com a morte de Jacó os irmãos de José se sentiram desamparados, pois agora estavam sem aquele que 
poderia livrá-los de qualquer mal intento de José. "Vendo então os irmãos de José que seu pai já 
estava morto, disseram: Porventura nos aborrecerá José, e nos pagará certamente todo o mal que lhe 
fizemos" (Gn 50.15). Podemos imaginar que o retorno de Canaã para o Egito não deve ter sido nada 
fácil. Com exceção de Benjamim, acredito que o choro dos irmãos de José não era mais por Jacó (Gn 
50.10), mas por eles mesmos. E agora, com o pai enterrado num lugar distante, parecia ser mais f ácil 
resolver uma questão que seus irmãos achavam que ainda estava pendente. Por isso enviaram um 
representante a fim de amenizar a situação (v16). 
"Teu pai mandou, antes de sua morte" (v16). Por que não disseram "nosso pai"? É porque a esta 
altura não se achavam dignos de serem chamados filhos de Jacó e muito menos irmãos de José. Por 
outro lado, acreditamos que a ordem de perdão dada por Jacó não foi autêntica. Como o engano era 
uma agravante na família de Jacó, é provável que aqui (v16) não tenha sido diferente. O medo os 
levou a mentir. Mas não podemos negar a autenticidade do sentimento deles quando o mensageiro 
diz: "agora pois rogamos-te que perdoes a transgressão dos servos do Deus de teu pai" (v17, VRC). A 
ocasião era oportuna para apelarem à memória de Jacó. Contudo, a partícula hebraica NA' expressa 
ênfase no apelo para perdão do pecado, isto é, "rogamos-te do mais profundo coração". E isto é ainda 
comprovado pela unânime deliberação de se tornarem escravos de José (v18). Eles estavam 
verdadeiramente arrependidos, embora não houvessem compreendido ainda a dimensão do perdão de 
José. 
Não dá para saber com precisão o porque do choro de José, após ouvir o pedido de seus irmãos (v17). 
Seria por que a narração comovida sobre o medo e a desconfiança de seus irmãos o emocionara? 
Poderia ser. Seria a menção do nome de Jacó, trazendo à sua mente a lembrança do pai? Pode ser 
também. Porém, a resposta mais provável, na minha opinião, é que José não chorou porque seus 
irmãos estavam arrependidos do que fizeram com ele, mas apesar de não se lembrarem de sua prova 
de amor em outra ocasião (Gn 45.5,8,9), ainda assim eram objetos de sua compaixão e perdão. 
IV. TEOLOGIA 
ASPECTOS MESSIÂNICOS DE JOSÉ 
Nas igrejas evangélicas prevalece o consenso geral de que José foi um tipo de Cristo. É na pessoa de 
José, no Egito, que nós encontramos o cumprimento da promessa de Deus a Abraão que, por sua vez, 
alcançaria seu clímax em Cristo: "Em ti serão benditas todas as famílias da terra" (Gn 12.3). 
Acreditamos que pelo menos dois aspectos messiânicos estão claros em Gênesis 50.18-21: 1) O 
aspecto real e 2) O aspecto redentivo. Encontramos estes dois aspectos (ora mais, ora menos
91 
enfatizados) em Gênesis 37, 39-50. Mas por questão de propósito e objetividade limitaremos o 
assunto a Gênesis 50.18-21. 
1. O aspecto real da pessoa de José (vv18,19) 
No versículo 18 temos o reconhecimento da realeza de José por parte de seus irmãos. Como tipo de 
Cristo, José agora prefigurava não mais o estado de humilhação, mas de exaltação do Messias. 
Sem dúvida alguma, aqui em Gn 50.18 os súditos (os irmãos de José) tiveram uma compreensão mais 
elevada de "servidão" do que a de Gênesis 44.9,33. Isto ficou claro pela prontidão imediata: "Eis-nos 
aqui por teus escravos" (v18). A maioria das versões em português traduzem o substantivo abadim 
por "servos". Contudo, não é a melhor tradução. A idéia de escravidão do verso 18 tem a mesma 
força de Gn 44.9: "Aquele dos teus servos, com quem for achado (um copo de prata), morra; e n ós 
ainda seremos escravos do meu senhor" (itálico meu). A única diferença nesses dois textos (Gn 44.9 e 
50.18) é que no primeiro trata-se de uma hipótese. Os irmãos de José estavam certos que não 
furtaram nada dele (Gn 44.8). No segundo texto (Gn 50.18) trata-se de uma realidade. Eles se 
ofereceram como escravos do rei José e não se acharam dignos de serem comprados (ou vendidos) 
nem mesmo por vinte siclos de prata. 
Agora seus irmãos reconheciam a verdadeira realeza de José. Outrora, antes que José se desse a 
conhecer a eles, não o reverenciaram dentro de uma perspectiva teológica (Gn 42.6) como José via os 
acontecimentos (Gn 42.9). Mas agora lembravam-se dos sonhos de José (Gn 37.7,9) e que a resposta 
à pergunta: "Reinarás, com efeito, sobre nós?" (Gn 37.8) era afirmativa. Lembraram-se também da 
túnica real e principalmente do mal que lhe fizeram quando procuraram tirar-lhe a realeza com a 
destruição da túnica (Gn 37.31)3 e vendendo-o como escravo (Gn 37.28). 
Apesar de sua realeza, José reconhece que é um mortal e os adverte: "Não temais (a mim) porque 
porventura estou eu em lugar de Deus?" (v19). Quer dizer, "porventura eu tenho direit o de julgá-los?" 
4. Lembremos que esta é uma característica tipicamente messiânica (Jo 8.50; Fp 2.6,7; I Pe 
2.23). José deixa com Deus todo acerto do erro dos irmãos, antecipando, desse modo, o ensino do 
Novo Testamento (Rm 12.19; I Ts 5.15; I Pe 4.19). Da mesma maneira que Jesus Cristo, José estava 
plenamente ciente que era submisso. Não a Faraó, mas a Deus. 
2. O aspecto redentivo da pessoa de José (vv20,21) 
Este segundo aspecto está subordinado ao primeiro. 
Nos versículos 20 e 21 de Gênesis 50 encontramos a mais bela declaração do entendimento que José 
tinha da posição em que Deus o colocara. José via além do alcance. 
E porque José via o propósito divino em meio à ruindade de seus irmãos, ele os perdoou. Não os 
isentou da culpa ("Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim..." - VRA), porém, vê o bem de 
Deus mais digno de crédito do que a maldade deles. No verso 20 José reafirma o que já havia 
prometido a eles (Gn 45.5,7,8). 
O aspecto redentivo de José tipificou a missão de Jesus no mundo. Conservar "muita gente em vida" 
(v20) também foi o objetivo da obra redentora de Cristo (cf Mt 1.21; 26.28). 
Não sabemos exatamente quando José tomou ciência do propósito divino em usá-lo como redentor. É 
possível que a ascensão como primeiro ministro ou grão-vizir de Faraó fosse o ponto de partida, pois o 
nome egípcio Zafnate-Panéa significa "o salvador do mundo" (cf Jo 4.42). "E todas as terras vinham 
ao Egito, para comprar de José; porquanto a fome prevaleceu em todas as terras" (Gn 41.57 - VRC). 
Em certo sentido José foi "o pão da vida" do mundo de então. 
No verso 21 temos o que podemos chamar de "uma atitude verdadeiramente crist ã". José não 
somente paga o mal com o perdão, mas com uma demonstração prática de afeto. Se por um lado seus 
irmãos não deveriam temê-lo porque todos, inclusive José, estavam sob o senhorio de Deus (v19), 
por outro lado não deveriam temer porque todo mundo estava sob a verdadeira proteção e cuidado de 
Zafnate-Panéa, o salvador do mundo. E José promete: "Eu mesmo vos sustentarei de verdade a vós e
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a vossos filhos", enfatiza o texto hebraico.5 José repete e confirma a eles neste versículo (21) a 
promessa que fez originalmente quando os convidou a virem ao Egito (Gn 45.11,18,19). 
A palavra "sustentarei" (v21) não significa que a fome ainda prevalecia. Quando Jacó chegou no Egito 
faltavam cinco anos de fome (Gn 45.11). O patriarca estava com 130 anos de idade (Gn 47.9) e 
morreu com 147 anos (Gn 47.28); portanto, a fome não mais existia há 12 anos. E aqui (v21) temos 
um detalhe importante do aspecto redentivo da pessoa de José que aponta diretamente para Jesus: 
Cristo não só nos salvou, mas nos mantém e nos sustenta dia após dia com a Sua providência. Ele está 
conosco sempre (Mt 28.2) e intercede por nós (Hb 7.25). 
A expressão: "Eu mesmo vos sustentarei de verdade a vós e a vossos filhos", sugere que como 
estrangeiros no Egito, os filhos de Israel poderiam dispor de uma pessoa influente como Jos é para 
guardar seus interesses e representá-los diante de Faraó. Jesus Cristo, sendo um dos nossos, por assim 
dizer, também é o nosso excelentíssimo representante diante de Deus (I Tm 2.5; I Jo 2.1). 
As palavras "não temais" é a expressão do refrigério que acalma os corações atribulados. Jesus a usou 
várias vezes para tranqüilizar seus discípulos e outras pessoas (Veja, por exemplo, Mt 10.28; 14.27; 
Mc 5.36; Lc 12.32). 
"Assim os consolou, e falou segundo o coração deles" (v21). 
O Dr. Gerard Van Groningen, em seu livro Messianic Revelation in the Old Testament pp. 166,7, 
resumiu muito bem os dois aspectos messiânicos da pessoa de José (realeza e redenção). Diz ele: 
José foi um verdadeiro tipo messiânico. Ele foi considerado real, recebeu uma posição real e cumpriu 
uma tarefa real. Como uma pessoa régia, ele livrou, protegeu e enriqueceu a semente de Abraão e 
Isaque. Ele funcionou, portanto, como um redentor e provedor físico, social, moral e espiritual. (...). 
Deus preparou José, e por meio de José o soberano Senhor realizou atos salvíficos dentro do contexto 
da história do mundo. E ao preparar José e realizar atos de salvação por meio de José, o Senhor falou 
profeticamente enquanto preparava a cena para a salvação mais plena, mais completa que Jesus Cristo 
traria. Essa salvação trazida pelo Cristo real foi também o que em última instância validou a obra 
redentiva de José, cumprida por uma pessoa real, tomada de entre a semente para funcionar em favor 
da semente. 
CONCLUSÃO 
Chegamos ao término desse estudo e esperamos ter alcançado o objetivo de mostrar que a passagem 
bíblica de Gênesis 50.18-21 encerra uma das mais profundas lições tipicamente messiânicas do Antigo 
Testamento. 
Os aspectos messiânicos de realeza e redenção de José prefiguram Jesus Cristo que, como Rei dos reis 
e Senhor dos senhores (I Tm 6.15) é o Salvador do mundo (Jo 4.42). A realeza é a base da redenção 
de povos e reinos. E José, como pessoa real, salvou a povos e reinos inteiros do colapso da fome e da 
miséria. José foi o "pão da vida" do mundo antigo; Jesus Cristo é o nosso "pão da vida" (Jo 6.48) e de 
todo aquele que nEle crê. José os alimentou materialmente; Jesus nos alimenta espiritualmente e 
também nos sustenta com o pão nosso de cada dia. José, cujo nome significa aquele que faz aumentar 
foi, na verdade, o instrumento de Deus para preservar e aumentar o Seu povo. Jesus, cujo nome 
significa Salvador, "salvará o seu povo dos pecados deles" (Mt 1.21). 
De tudo que podemos aprender de José o que fica são suas lições práticas para a vida cristã. 
Considerando que José viveu cerca de 1600 anos antes de Cristo, ele antecipou para nós o verdadeiro 
sentido do adjetivo que qualifica alguém como cristão ou semelhante a Cristo. José, em uma atitude 
verdadeiramente cristã, soube deixar com Deus a ofensa de seus irmãos (v19) porque aprendeu a ver 
o propósito divino na maldade dos mesmos (v20); e além de tudo isto, perdoou não apenas com
93 
palavras, mas em demonstração prática de perdão (v21). Em outras palavras, José praticara o que 
Cristo ensinaria futuramente (Mt 18.35): perdoou "do coração (VRC) ou "do íntimo" (VRA) a seus 
irmãos. 
Eis aí um típico cristão no Antigo Testamento, com o qual o cristão do novo milênio deveria aprender 
e a ele imitar. 
NOTAS 
1. As túnicas comuns, nos tempos bíblicos, eram sem mangas e desciam até os joelhos. A de José 
descia até o calcanhar e cobria as mãos. 
2. Um traje semelhante ao que José ganhou de seu pai é denominado vestimenta real em 2 Sm 13.18. 
3. Certamente a túnica foi despedaçada (cf Gn 37.33). 
4. Para outras possíveis interpretações, veja J.F. Exell, The Pulpit Commentary, (Grand Rapids, 
Michigan, Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1980, Vol. I), p. 539. 
5. Derek Kidner observa corretamente que "José promete algo mais pessoal do que filantropia" 
(Gênesis: Introdução e Comentário, São Paulo, Vida Nova/Mundo Cristão, 1988, p. 207). 
CREIO NO AMOR 
Professor Diego Roberto 
"Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus; e todo o que ama é nascido de Deus 
e conhece a Deus. Nisto está o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos 
amou a nós, e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos 
amou, nós também devemos amar-nos uns aos outros. 
Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em n ós, e o seu amor é 
em nós aperfeiçoado. E dele temos este mandamento, que quem ama a Deus ame também a seu 
irmão." (1Jo 4.7,10-12,21) 
Aconteceu no tempo da Segunda Guerra Mundial quando, em um dos hospitais de guerra, uma 
missionária-enfermeira estava cuidando de um soldado ferido, e realizava um curativo numa ferida 
muito feia. Começou a assepsia, quando alguém que estava no leito ao lado disse: "Eu não faria isso 
nem por um milhão de dólares!" Respondeu a jovem: "Nem eu!..." Nessa simples expressão está toda 
a grandeza desses profissionais de saúde. 
Somente o amor motiva essa atividade. E, a respeito do amor, filósofos, pensadores, poetas, teólogos, 
muita gente tem se pronunciado. Alguém dizia, fazendo uma pergunta: "Que é o amor?" E a resposta 
por ele mesmo dada foi: 
"É silêncio - quando suas palavras podem ferir. 
É paciência - quando o outro é irritante. 
É ficar surdo - quando surge um escândalo. 
É sensibilidade - quando os outros estão sofrendo. 
É prontidão - quando o dever chama. 
É coragem - quando sobrevem a desventura."
94 
Outra pessoa sobre esse mesmo tema disse: "É natural amar aqueles que nos amam, mas é 
sobrenatural amar aqueles que nos odeiam". Por isso eu creio no amor! 
É, realmente, agir em nome do amor estender a todas as pessoas o que achamos ser natural com 
algumas. 
DIMENSÕES DO AMOR 
Amor, não é simplesmente essa palavra romântica que encontramos pichada nos muros da vida: 
FULANO AMA FULANA. O evangelho de Jesus Cristo apresenta, aliás, uma tríplice exigência do 
amor que o cristão precisa exercitar. Diz o evangelho que existe o amor ao irmão de fé: "Nisto são 
manifestos os filhos de Deus, e os filhos do Diabo: quem não pratica a justiça não é de Deus, nem o 
que não ama a seu irmão" (1Jo 3.10). Existe o amor do próximo, e sobre isso temos uma palavra 
expressa de Jesus Cristo: "Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua 
alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças. E o segundo é este: Amarás ao teu 
próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que esses" (Mc 12.30,31). Diria 
ainda, que há outra dimensão também mencionada por Jesus Cristo, e que vai muito além do que 
pede o nosso coração, e encontra-se nesta Palavra do Mestre: "Eu , porém, vos digo: Amai aos vossos 
inimigos, e orai pelos que vos perseguem." (Mt 5.44). Então, agir dentro dessa perspectiva é fazê-lo 
motivado pelo Espírito Santo de Deus, é agir motivado pelo fruto do Espírito, e reconhecê-lo 
basicamente como sendo o amor (Gl 5.22,23). Outra contribuição anônima diz que: 
"O fruto do Espírito é amor. 
Alegria é amor em regozijo. 
Paz é amor em repouso. 
Paciência é amor em provação. 
Benignidade é amor em sociedade. 
Bondade é amor em ação. 
Fé é amor em perseverança. 
Mansidão é amor na escola. 
Domínio-próprio é amor em disciplina" 
Quando Jesus desejou ilustrar esse assunto, contou uma história. 
AMOR AO PRÓXIMO 
Está em Lucas 10.3-35 e é a história de um homem a quem se costuma chamar "Bom Samaritano", 
embora a Bíblia o chame apenas de "Samaritano". O fato é que nossa sociedade está tão acostumada 
com a injustiça, que, quando alguém faz o que todos deveriam fazer, é chamado de "bom". 
A primeira personagem da história é uma viajante (v.30). Esse viajante tinha um problema. Vamos 
pensar no seguinte: aqui está uma estrada, na qual ninguém andava sozinho; quando as pessoas 
caminhavam por estradas como essa da antiga Palestina, faziam-no em caravanas, pois era uma 
imprudência aventurar-se a andar sozinho. Jesus colocou na história um homem descuidado, que 
resolvera ir de um lugar para outro sozinho.
95 
Ele foi atacado por salteadores: são as próximas personagens (v.30). Estes malfeitores o deixaram 
muito machucado e meio morto. 
Passa depois outra personagem: um sacerdote (v.31), que colocara os valores rituais e cerimoniais 
acima do amor. O viajante descuidado tinha sido atacado, mas o problema do sacerdote foi ver o 
homem ferido na estrada, e não ter se importado com ele, porque não cuidava de outros valores a não 
ser os cerimoniais. Não quis tocar no homem caído, e, aliás, nem se aproximou. Passou de longe 
porque havia uma norma no sacerdócio que declarava impuro o sacerdote que tocasse um morto, de 
modo que, durante uma semana, não podia render o turno. Ele ficou temeroso de perder a 
oportunidade de rodízio no templo (cf. Nm 19.11). 
Diz a parábola que havia outra personagem: um levita que até chegou perto do homem (v.32), mas 
tinha um lema: "Primeiro a minha segurança. Esse homem pode ser um malfeitor, e talvez esteja se 
fazendo de morto, e me atacar". E fora embora. 
E agora a outra personagem que se aproximou do ferido: o samaritano (v.33). 
Mas Jesus fez uma pergunta porque já sabia que todos esperavam que o samaritano fosse o vilão da 
história. Samaritanos não se davam bem com os judeus, e Jesus contou a história de um homem que 
era judeu, como também o sacerdote e o levita. O samaritano não era judeu, e havia essa inimizade 
entre as duas raças-irmãs. O que aconteceu é que, quando todos esperavam que o samaritano fosse o 
bandido da história, Jesus disse que pelo contrário era o homem que tinha boas coisas a serem ditas a 
seu respeito. 
O samaritano viu o problema do homem, passou azeite nas feridas e machucões do homem, colocou-o 
na sua montaria e seguiu com ele. Adiante, encontrou uma pousada, tendo dito ao estalajadeiro que 
tomasse conta dele, pois pagaria a despesa no retorno (v.35). 
Primeira coisa boa: era homem de bom coração; segunda, era homem de crédito. Outra coisa 
admirável: tinha uma notável capacidade de ajudar. Grande disposição em ser útil. 
QUEM É O NOSSO PRÓXIMO? 
Essa história nos fala a respeito de amor. E Jesus nos dá um ensino a esse respeito porque para o 
judeu, o próximo era o judeu. Aliás, no ensino de alguns rabinos era até proibido ajudar a uma gentia 
que estivesse dando à luz, porque isso significa ajudar a colocar no mundo mais um gentio! É triste, 
mas era a verdade, e, no entanto, Jesus Cristo mostrou que para nós o nosso próximo é o necessitado. 
Quem é o nosso próximo? Não é o que está junto de nós, nem, exatamente, o vizinho. É o 
necessitado, é aquele a quem você foi com tanto carinho e passou a mão pela cabeça, pois talvez 
aquela pessoa só precisasse do seu sorriso. Esse é o seu próximo! Então, Jesus fez isso mesmo. 
Aqui está outra situação em que a doença está implícita: Jesus chegou num lugar chamado tanque de 
Betesda (Jo 5.1-9). Ali, encontrou um homem necessitado. Havia uma tradição que dizia que em 
certos momentos um anjo vinha e mexia nas águas do tanque. Quem conseguisse entrar naquele 
instante saía curado. Estudiosos disseram que seriam águas vulcânicas, e em determinados momento, 
dava-se um movimento das águas, e gases e minerais eram agitados, favorecendo o processo de
96 
tratamento. Jesus chegou e encontrou um homem que ali estava há trinta e oito anos querendo entrar. 
Ele era coxo, e todas as vezes quando queria se aproximar, outro pulava dentro do tanque. Jesus teve 
compaixão, e viu a esperança no coração daquele homem. Perguntou-lhe queria ser curado. Era só o 
que o homem queria, mas Jesus queria ouvir dos seus lábios. E o Mestre disse: "Pode ir embora, você 
ficou bom" (v.8). Quando o homem olhou, estava bom, perfeitamente curado. A í se aplicam muito 
bem as palavras de 1 João 3.18: "Filhinhos, não amemos de Palavra, nem de língua, mas por obras e 
em verdade". Para Jesus o próximo é aquele que sofre, o que tem necessidade. 
Outro ensino desta história é que para amar é preciso ser sensível! Sensibilidade para dar ajudas 
práticas, e não somente sentir pena; sensibilidade para ajudar os outros mesmos que a culpa seja deles. 
Portanto, não podemos confundir o próximo com o nosso amigo. Meu amigo é quem eu escolhi para 
dar a minha simpatia e amizade, meu próximo é aquele a quem não escolhi, mas foi a pessoa que Deus 
me deu para ser objeto do meu amor, é o necessitado! Por isso eu creio no amor! 
Em Marcos 12.29-31, Jesus combina a exigência do amor de Deus (Dt 6.4,5) com a exigência do 
amor ao próximo (Lv 19.18), esse ser que eu não escolhi mas o Criador colocou na vida vida. O 
crente em Jesus Cristo deve amar a Deus com a totalidade do seu ser (v. 30). Jesus disse isso mesmo: 
"Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu 
entendimento" (Mt 22.37). 
Quanto ao amor ao próximo, depende da atitude que a pessoa tem para consigo mesma. Se você não 
tiver um conceito correto de valor de alguém como ser humano, é impossível ter uma atitude correta 
em relação ao seu semelhante. Isso quer dizer que não há lugar para a arrogância, para o desprezo aos 
outros; não há lugar para preconceito, se você trabalha na área de saúde, por exemplo, não pode 
escolher o paciente que deseja atender. Não; não há lugar para preconceito porque são todas essas 
coisas basicamente expressões de insegurança e de auto-estima muito baixa. 
E o teste de que amamos a Deus é: "Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso, 
pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, não pode amar a Deus, a quem não viu" (1Jo 4.20). 
CREIO NO DIA DO SENHOR 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
"Lembra-te do dia do descanso, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás todo o teu trabalho; mas o sétimo 
dia é o repouso do Senhor teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, 
nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que est á dentro Das tuas portas. Por que em 
seis dias fez o Senhor o Céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; Por isso o Senhor 
abençoou o dia do repouso e o santificou" (Ex 20.8-11) 
Creio no Dia do Senhor; creio no Dia do Descanso por duas razões, pelo menos: por Quem foi 
instituído, e para que o foi. Creio no Dia do Senhor porque a Escritura Sagrada apresenta o cuidado e 
carinho do Criador pela sua criatura, criada à Sua imagem e semelhança; creio porque o próprio Deus 
descansou; creio pelo aspecto humanitário, e pela sua dimensão altamente espiritual. Creio no Dia do 
Senhor porque todo o esquema da criação e da nova criação se explica no dia do repouso semanal. E, 
naturalmente, há um princípio que, embasando o Dia do Descanso, o torna sagrado, separado, 
santificado: é o princípio de que "a parte significa o todo" (quem se aventurou pelos estudos da 
estilística reconhece que essa é uma figura de linguagem que toma o nome de sinédoque). É altamente 
significativo esse princípio para várias práticas do Antigo Testamento, práticas e usos que encontram
97 
respaldo na Nova Aliança: no Pentateuco, encontramos o conceito de que se traziam as primícias da 
colheita para que toda a colheita fosse santificada (Ex. 19.6; Lv 20.26; 1 Pe 2.5,9; Ap 1.6); uma 
família, a de Abraão, que foi escolhida por Deus para que todas as famílias fossem abençoadas (Gn 12. 
1-3; 18.1,18; 27.29); um homem no meio dos outros homens para que todos fossem aben çoados (Ex. 
28.1; Mt 10.1 ss); o primeiro filho separado e escolhido dos outros filhos para que toda a família fosse 
abençoada (Ex 22.19b; Jo 3.16; Rm 8.29); 10% da renda para que abençoada seja toda a renda (Lv. 
27.30; M1 3.10; Mt 23.23; Lc 11.42); o conceito de um alguém que padece intensos sofrimentos, o 
"Servo Sofredor", para que todos possam ser resgatados da maldição e da dor (Is 53.1-12; Hb 9.28; 
1Pe 2.21-24). 
O mesmo acontece quanto ao Dia do Descanso, quando se reconhece que o tempo pertence a Deus, 
bem como o todo da criação (Ex 20.8-11; Dt 5.12-15; Lc 13.10-17; Hb 4.9-11)! 
O SÉTIMO DIA 
Vamos partir de um consenso: é preciso traduzir o nome do sétimo dia para tornar o conceito e seu 
ensino claro, de modo que ninguém confunda o abençoado conceito com o dia da semana em 
português que tem o mesmo nome. 
A palavra sábado não pertence à nossa língua, é uma transliteração, um aportuguesamento de uma 
palavra hebraica (Shabbath) que significa "cessação". Alguém está trabalhando e faz uma pausa no que 
está fazendo, em hebraico dirá, "vou fazer um shabbath agora"). Significa "interrupção"; é o caso de 
você estar escrevendo uma carta, o telefone toca e você interrompe o que estava fazendo. Em 
hebraico, dir-se-ia "preciso fazer um shabbat para atender o telefone". Outras traduções possíveis são 
"repouso, abstenção, desistência," e, por incrível que pareça, a palavra "greve" do hebraico 
contemporâneo se traduz por shabbath, por ser uma "cessação de trabalho". Por essas razões, no 
possível, usaremos a expressão "Dia de Descanso" que é precisamente o que significa o hebraico Yom 
haShabbath, dia de "sábado", dia de repouso. Esclareçamos que os hebreus dividiam o tempo desta 
maneira: primeiro dia, segundo dia, terceiro dia, quarto dia, quinto dia, sexto dia e Dia do Descanso. 
PARA ENTENDER... 
É necessário que se traduza para que compreendamos a revelação divina, e não nos apeguemos à 
guarda de um dia do calendário considerado imutável, além de atribuir conotações cerimoniais a uma 
lei apodítica, moral. Aliás, o dia semanal chamado sábado encontra barreiras no fuso horário. São 
11h10, o que significa que começamos o "sábado" do calendário antes de os habitantes dos Estados 
Unidos (eles mesmos separados no tempo por vários fusos horários) terem começado o "sábado" 
deles. Se o sábado é imutável, criou-se um problema! E os crentes japoneses já terminaram o culto 
desta noite e voltaram para casa porque no Japão são 23h10, e já estão dormindo ou se preparando 
para isso. O fuso horário se tornou herege: no horário de verão, adianta-se uma hora; no horário de 
inverno, nos Estados Unidos, atrasam uma hora. 
E nós aprendemos com a Palavra de Deus que a observância do Dia de Descanso é anterior à entrega 
da Lei no Sinai. Se alguém pensa que este significativo e abençoador dia foi estabelecido na entrega da 
Lei no Sinai, deve tomar conhecimento de que já era observado. 
Na realidade, quando da concessão do alimento chamado maná (Ex 16), o relato o menciona:
98 
"E ele lhes disse: Isto é o que o Senhor tem dito: Amanhã é repouso, sábado santo ao Senhor; o que 
quiserdes assar ao forno, assai-o, e o que quiserdes cozer em água; e tudo o que sobejar, ponde-o de 
lado para vós, guardando-o para amanhã. Guardaram-no, pois, até o dia seguinte, como Moisés tinha 
ordenado; e não cheirou mal, nem houve nele bicho algum. Então disse Moisés: Comei-o hoje, 
porquanto hoje é o sábado do Senhor; hoje não o achareis do campo. Seis dias o colhereis, mas o 
sétimo dia é o sábado; nele não haverá" (Ex 16.23-26). 
Já existia, portanto, o Dia de Descanso, que vinha sendo observado pelo povo de Deus. E porque o 
costume do descanso já existia, foi incorporado à Lei com essa recomendação no quarto mandamento: 
"Lembra-te do dia do descanso para o santificar". Isso nos ensina que a guarda do repouso semanal é 
marca e evidência da liberdade do ser humano, da sua liberdade individual. Essa é a dimensão 
humanitária desse dia da qual todos (escravos, estrangeiros, e, mesmo, os animais) deviam se 
beneficiar de acordo com Êxodo 20.10: "Nesse dia nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, 
nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas". E isso nos ensina que temos a 
tarefa não só de guardar, mas de "santificar" esse dia; não apenas descanso físico, mas de sustento para 
o espírito. Nosso ritmo humano de trabalho e descanso, trabalho por seis dias, e descanso em um dia, 
é reflexo da imagem de Deus porque a Bíblia diz em Gênesis 2.2: "Ora, havendo Deus completado no 
dia sétimo a obra que tinha feito, descansou nesse dia de toda a obra que fizera". 
O PRIMEIRO DIA 
Há um aspecto sagrado no descanso, não no dia da semana (Ex 20.8ss). Esse é o problema de certos 
grupos religiosos que enfatizam o dia da semana. O que é sagrado não é o dia da semana, mas o 
descanso, quem é sagrado é o ser humano, porque o próprio Senhor Jesus ensinou que o Dia do 
Descanso foi feito para o ser humano, não a pessoa para a instituição. Se assim acontecesse, seria um 
tremendo revés para o plano divino. Quem é imagem e semelhança de Deus é o irmão/a irmã, não o 
dia. Não é nosso objetivo colocar oposição entre dia e dia, entre o sábado e o domingo, até para não 
incorremos na condenação paulina que diz "...como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e 
pobres, aos quais de novo quereis servir? Guardais dias..." (Gl 4.10) e "um faz diferença entre dia e 
dia" (Rm 14.5), como também, "ninguém vos julgue... por causa de sábados" (Cl 2.16b), mas 
apresentar o aspecto sagrado do repouso da máquina humana. 
É preciso encarar esse assunto em termos de tempo e de eternidade. Estamos falando, ao discutir o 
descanso, de algo mais que contagem de tempo. Estamos falando de muito al ém que contar minutos 
para fechar a loja. Fixar-se num dia da semana é perder o senso da eternidade, mesmo porque nós não 
podemos doutrinar em cima de sombras do calendário (cf. Hb 10.1), o sábado temporal, e fazê-lo é 
perder a noção de que Jesus Cristo, Ele, sim, é o nosso Shabbath, o nosso descanso, como 
mencionado em Hebreus 4.3: "Porque nós, os que temos crido, é que entramos no descanso, tal 
como disse: Assim jurei na minha ira: Não entrarão no meu descanso; embora as suas obras estivessem 
acabadas desde a fundação do mundo". 
O QUE É ETERNO 
O acima mencionado é o outro aspecto que deve ser enaltecido: o eterno. Nos dias do minist ério 
terreno de Jesus Cristo, criou-se um extremado fanatismo quanto à questão do descanso semanal, 
pois, além de não se preparar alimento nesse dia para não acender o fogo, os utensílios usados nem 
eram removidos e lavados. Há uma explicação mais demorada, detalhada e lúcida sobre este assunto
99 
no livro A Guarda do Sábado, de autoria do Pr. Aníbal Pereira Reis. Os essênios nem iam ao 
sanitário?! Era proibido, entre outras coisas, acender e apagar candeeiro, cozinhar ovo, atar e desatar 
nó numa corda, dar pontos com uma agulha, escrever duas letras, esfregar as m ãos, andar mais que 
um certo número de passos (cf. At 1.12), e até prestar socorro a alguém que tivesse membros do 
corpo quebrados, curar, portanto. 
Contra esse tipo de mentalidade, Jesus Cristo reagiu por ter observado que haviam perdido a 
dimensão eterna pelas mesquinharias que foram chamadas de religião! E, por essa razão, curou 
doentes no dia de descanso: 
· curou um paralítico no poço de Betesda (Jo 5.1-18; cf. v. 9), razão porque foi duplamente chamado 
de herege (cf. v. 18); 
· curou uma cego de nascença (Jo 9.1-7, 13,14,16); 
· curou um homem de mão atrofiada (Mc 3.1-6; Lc 6.6-11); 
· curou uma mulher com terrível problema na coluna (Lc 13.10-17), 
· e permitiu, no dia do Shabbath, atividades que eram proibidas pela Lei porque Ele é superior à Lei e 
Senhor da mesma. Era proibido colher trigo para a alimentação, no entanto, permitiu que as espigas 
fossem colhidas (Mc 2.23-28). 
Sentiram que importante e digno é o ser humano, imagem do nosso Deus, semelhança do Criador? 
Sentiram que a Lei e as suas instituições devem ser vistas à luz da eternidade? 
Realmente, a carta aos Hebreus diz que a Lei é a sombra dos bens futuros, razão porque afirmamos 
que não se pode doutrinar em cima de sombras (cf. Hb 10.1). Portanto, com a Nova Aliança, as 
figuras e sombras da Antiga Aliança caducaram, e com elas os dias solenes dos judeus. 
· É o caso de Levítico 23.48 que registra a instituição, e regulação da Páscoa (23.4.8); encontramos, 
pelo contrário, na Nova Aliança, o apóstolo Paulo dizendo que Jesus Cristo é a nossa páscoa (1Co 
5.7). 
· O Antigo Testamento faz referência às primícias (Lv 23.9-25), e quando Paulo escreve 1Coríntios 
15.20, diz que Jesus Cristo é "as primícias dos que dormem". 
· Levítico 23.33-44, ainda, menciona a Festa dos Tabernáculos ou Festa das Tendas Sukkoth), mas o 
Evangelho de João registra que o próprio Deus tabernaculou, "armou Sua tenda", habitou no nosso 
meio (cf 1.4). 
· E sobre o Dia da Expiação, o Yom Kippur (Lv 23.26-32), verifica-se que esse Dia do Perdão 
encontra o seu lado concreto no Calvário (Hb 2.17) porque esta solene festa judaica, um dos 
chamados pelos judeus de "dias terríveis" é só uma sombra do Calvário que está projetada. 
· Assim é que também encontramos o Dia de Descanso, o Yom Shabbath (Lv 23.3), porque Jesus 
Cristo, Ele, sim, é o nosso shabbath, o nosso repouso (Hb 4.1ss). 
Oséias, o profeta, vai predizer no capítulo 2.11, que todas essa solenidades serão abolidas. "Também 
farei cessar todo o seu gozo, as suas festas, as suas luas novas, e os seus s ábados, e todas as suas 
assembléias solenes". Com a Nova Aliança, não estamos mais presos ao tempo, mas, sim, 
abençoadamente ligados à eternidade pelo sangue de nosso Senhor Jesus Cristo. E o apóstolo Paulo o 
afirma: "Ninguém, pois, vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa de dias de festa, ou de 
lua nova, ou de sábados, que são sombras das coisas vindouras; mas o corpo é de Cristo" (Cl 
2.16,17).
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CREIO NO DIA DO DESCANSO 
Creio no Dia do Senhor porque creio na Nova Aliança de Deus com a humanidade, e nas realidades 
que ela ampliou do Antigo Pacto do Sinai! 
Creio no Dia do Senhor porque creio no sangue derramado de Jesus Cristo! 
Creio que o sacerdócio da Antiga Aliança foi conservado, mas foi ampliado, e o foi com um novo 
Sumo Sacerdote que é Jesus Cristo, (Hb 2.9-17; 4.14,15; 7.1-28; 9.11ss), e o acesso a esse 
sacerdócio por todos os crentes (Hb 10.19-23; 1Pe 2.5,9; Ap 1.6; 5.10; 20.6; 1Tm 2.1; Ef 6.18). 
Creio que o crente em Jesus Cristo, o salvo pelo Seu sangue é um sacerdote no reino de Deus! 
Creio no sacrifício único e eterno de Jesus Cristo (Hb 7.26,27; 9.24-28; 10.11-14)! 
Creio nas leis morais, até mesmo naquelas mais estritas, porque Jesus Cristo vê a intenção, e não 
apenas o ato! Creio, portanto, na conservação do descanso! 
Creio no Dia do Senhor porque aprendo com meu Mestre que a ênfase deve ser dada ao conceito, e 
não ao dia em si! 
Creio no Dia do Descanso porque Jesus Cristo é o Senhor desse dia, e o ser humano é superior à 
instituição temporal: "E prosseguiu [Jesus]: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem 
por causa do sábado" (Mc 2.27). 
MAS, POR QUE O PRIMEIRO DIA DA SEMANA? 
Quando o cristão guarda o primeiro dia da semana, ele o faz no espírito de um novo mandamento, 
baseado em uma Nova Aliança, e ambos como cumprimento do antigo mandamento e da Antiga 
Aliança cumpridos na fé cristã. 
Por que o primeiro dia da semana? Porque a ressurreição de Jesus Cristo é o acontecimento 
fundamental do evangelho, e realmente tudo no evangelho olha para a ressurreição (cf. 1 Co 
15.14,17,19). Que maravilha termos como referencial o túmulo vazio! O dia da semana, em si, nada 
significa, mas, o que nele ocorreu, sim! Vejam só: o dia 2 de Julho nada significa no Ceará, ou no 
Mato Grosso, ou em Santa Catarina! Mas é significativo na Bahia porque é o Dia da Independência 
deste estado ocorrida em 1823. Fora da Bahia não tem sentido! 17 de Abril nada significa para outras 
igrejas na cidade do Salvador, mas tem mérito na Igreja Batista Sião, que foi organizada nesta data em 
1936. 
O primeiro dia da semana tem significado para o cristão porque em um primeiro dia da semana Jesus 
Cristo ressuscitou (Mt 28.1; Mc 16.1,2; Lc 24.1; Jo 20.1), e desde os tempos a postólicos, esse dia 
vem sendo reservado (At 20.7; 1Co 16.2; Ap 1.10, e escritos antigos), e Jesus ressuscitado Se 
encontrou com os discípulos no primeiro dia da semana (Mc 16.9; Mt 28.9; Lc 24.13,15,36ss; Jo 
20.19,26). 
Por que o primeiro dia da semana? Porque depois de estar debaixo de extrema humilhação num fim 
de semana, Jesus Cristo, no primeiro dia da semana, gloriosamente ressuscitou. De modo que
101 
olhamos o dia do descanso, seja ele o primeiro dia da semana (o descanso temporal), seja o descanso 
eterno, à luz da ressurreição! 
E é por essa razão que na Nova Aliança o dia de descanso se chama "Dia do Senhor", significado exato 
da palavra domingo. Quando se fala "domingo" está sendo usada uma expressão da língua latina, dies 
dominica, ou seja, "dia que pertence ao Senhor", porque nesse dia, o primeiro da semana (a prima 
feria), nossos irmãos da Igreja Apostólica descansavam. Reuniam-se para a Ceia do Senhor: "No 
primeiro dia da semana, tendo-nos reunido a fim de partir o pão, Paulo, que havia de sair no dia 
seguinte, falava com eles, e prolongou o seu discurso até a meia-noite" (At 20.7); e preparavam 
ofertas de amor: "No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder, conforme 
tiver prosperado, guardando-o, para que se não faça coletas quando eu chegar" (1 Co 16.2). 
Eles o faziam no dia da ressurreição de Jesus Cristo! E é isso exatamente o que fazemos, porque 
compreendemos que o dia do descanso é vital, não é formal, e encontra expressão numa experiência 
de crescimento, e celebra um acontecimento, e expressa e promove uma experiência transcendental 
no significado para o crente em Jesus Cristo! 
Também porque compreendemos que é um memorial de experiência, um monumento à verdade (os 
antigos hebreus comemoravam o que devia ser lembrado levantando colunas. Colocavam uma pedra, 
e outra pedra, e uma pedra mais, e assim por diante de modo que levantavam um pilar, uma coluna, 
um altar (Gn 28.18; Js 22.10) para indicar que alguma coisa importante havia sucedido). 
Compreendemos que, sendo um memorial de uma eterna experiência, no Dia do Senhor , homens e 
mulheres confessam, individual e coletivamente, sua fé na obra divina da criação de uma nova raça 
humana, obra divina que se fez em nós. Dizemos "eu compreendo a imortalidade desta pessoa por 
causa da ressurreição de Cristo" , e tudo isso lembramos neste primeiro dia da semana (cf. 1Co 
15.22). 
Compreendemos que o Dia do Descanso enfatiza a espiritualidade da vida humana, e lembramos 
Lucas 12.15: "E disse ao povo: Acautelai-vos e guardai-vos de toda espécie de cobiça; porque a vida 
do homem não consiste na abundância das coisas que possui". Não é o material, mas o espiritual que 
vale, e nós somos desafiados a considerar essas interpretações da vida, decidindo por uma posição 
materialista, aceitando essa abundância de coisas, ou uma posição espiritual, recebendo de mente e 
coração abertos essa bênção que desejamos e continuamos a desejar e praticar. 
Creio no Dia do Senhor porque eu me rejubilo nele! Ah, como me alegro, e posso exclamar como o 
fez o poeta de Israel: "Este é o dia que o Senhor fez; regozigemo-nos, e alegremo-nos nele" (Sl 
118.24). Alegro-me por sua mensagem de ressurreição, e o próprio Senhor Jesus Cristo diz: "Não 
temas; eu sou o primeiro e o último, e o que vivo; fui morto, mas eis aqui estou vivo pelos séculos 
dos séculos; e tenho as chaves da morte e do hades" (Ap 1.17b,18). Creio no Dia do Senhor porque é 
um dia de culto, de descanso, de renovação da vida; é um dia de reconhecimento de Deus, de 
comunhão com Deus, de dedicação do eu em tempo e vida a Deus. 
O Dia de Descanso é um tipo dos céus. Já pensaram que toda a boa música que praticada nas igrejas é 
apenas uma sombra do que vem, quando mudaremos toda nossa atividade para o louvor? A pregação 
vai acabar, a Bíblia diz que "as profecias serão aniquiladas" (1Co 13.8) e restará o eterno louvor do 
coro dos anjos e salvos! No entanto, lembremos que aos olhos cristãos nenhum dia é mais santo que o
102 
outro. Vamos rever os conceitos: não existe dia mais santo que outro porque neles devemos 
trabalhar, e o trabalho sempre foi considerado uma santa missão. (cf. Ex 20.9). 
É assim que o Dia do Senhor dá profundidade, dimensão, altura e significado aos demais dias! Que o 
Senhor nos ajude a compreender essa tão grande realidade, e a compreender que Jesus Cristo, Ele 
sim, é o nosso eterno descanso! 
CREIO NOS MANDAMENTOS 
Professor Diego Roberto 
Texto Básico: Êxodo 20.1-17 
Creio nos mandamentos da Lei de Deus porque o moral e o espiritual têm sua fonte e valor eterno no 
Criador. Creio porque desconhecê-los significa uma perda na compreensão do que é a liberdade 
humana, do que significa a liberdade do espírito, e como essa liberdade deve ser mantida. Por esse 
motivo, os Dez Mandamentos (ou Decálogo) devem ser seriamente levados em consideração. Estudá-los 
sob o prisma do Novo Testamento e dos questionamentos de nossa época, poderá servir-nos de 
diretriz na vida pessoal e na da sociedade em que estamos inseridos. Vive -los significa firmeza de 
posição e de ética num mundo atacado pela descrença, desonestidade, imoralidade e 
irresponsabilidade. 
UM PROGRAMA DE VIDA 
Vejo nos Dez Mandamentos um programa de vida. A propósito, há outros códigos legais no Antigo 
Testamento: o Código da Aliança em Êxodo 20.22-23.33; o Pacto de Êxodo 34.10-28; o Código de 
Santidade (Lv 17-26) com o conceito de "Sede-santos-porque-Eu-sou-santo" permeando cada 
proibição e recomendação, e pontuando o senso de separação, exclusividade, reserva especial que 
deve marcar o povo de Deus; o Código Sacerdotal (Lv 1-16) regulando sacrifícios, o sacerdócio, a 
pureza e a beleza ritual e litúrgica; o Dodecálogo de Siquém em Deuteronômio 27.15-26). 
Na verdade, as leis do Antigo Testamento estão agrupadas em três blocos: leis casuísticas, 
apodíticas e cerimoniais. O primeiro tipo lida com casos: "faça", "não faça"; se cometer um erro, 
há uma penalidade fixada. É a lei civil. Um tremendo exemplo está em Levítico 20.9: "Qualquer que 
amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe, certamente será morto" numa preservação do mandamento que diz 
"Honra a teu pai e a tua mãe..." 
A lei apodítica lida com as relações espirituais. É lei sem exceções da qual um claro exemplo são os 
Dez Mandamentos como um corpo. 
A lei ritual normatiza os sacrifícios e o culto, seus aspectos e implicações. 
O Decálogo (Ex 20.1-17; Dt 5.6-21), entanto, é a fonte autêntica da Lei, e fonte de inspiração dos 
profetas, por isso que são preceitos e ordens em tom pessoal, muito individual, mesmo, dos quais 
quatro regulam as relações com Deus, e seis, as relações com o próximo. 
Os mandamentos têm o propósito de alertar as pessoas de que precisam de Deus, bem como guia-las 
para uma vida responsável na sociedade. Existem para evidenciar o que há de errado nas relações
103 
sociais e espirituais, não porque sejamos em essência patológicas, mas porque um estado moral e 
espiritual patológico se instalou em nós, e se chama Pecado. Por essa razão, em nossa época, 
responsabilidade se tem confundido com o ser bitolado; liberdade é confundida com libertinagem; 
disciplina, com freios à natureza; e autoridade é repressão. 
Os mandamentos falam do Criador, do repouso merecido pelo ser humano, que é um maquinismo 
psicossomático-espiritual. Falam de respeito aos pais, aos mais velhos, e às tradições e ensinos 
passados de geração a geração; falam da vida humana, da propriedade, da instituição do matrimônio, 
da verdade, e da personalidade humana e do respeito devido a cada faceta da existência. 
Há quem não goste do tom negativo da maioria dos mandamentos. Essa ênfase, porém, não significa 
uma atitude negativa quanto à vida. Quem advoga uma sociedade sem proibições precisa se recordar 
que em moral, como na matemática, há operações exatas: há menos e há mais; há adições e 
subtrações! Por isso, eu creio nos mandamentos! 
AS IMPORTANTES VERDADES 
Os estatutos na vida de hoje têm sido flagrantemente desobedecidos. O Decálogo, porém, é um padrão 
de referência moral, e dele ressalta um profundo senso ético: a ética divina para o ser humano. 
Importantes verdades são declaradas: 
A verdade de Deus: Deus é . Assim, os mandamentos são abertos com a declaração "Eu Sou" (Ex 
20.2a), e o hebreu confessará, como o faz com santa propriedade, "Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o 
único Senhor", ou, O Senhor é nosso Deus , o Senhor éu m " (Dt 6.4). Deus Se comunica com a pessoa 
humana; dá diretrizes para o viver com aplicações no templo, no lar, na loja, no tribunal, na 
vizinhança. Por essa razão, os mandamentos dizem não, para que eu possa dizer sim à vontade de 
Deus. Isso quer dizer que para o israelita, Deus tanto era o Senhor da Hist ória ("Eu sou o Senhor teu 
Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão" Ex 20.2), quanto o Senhor do quotidiano 
("Não matarás"; "Não adulterarás", etc.). Não é o Deus das especulações; mas o Deus Vivo (cf. Sl 14.1). 
Por isso, creio nos mandamentos! 
O Decálogo fala sobre o culto, pois que a dignidade do culto, a glória, a manifestação e a presença são 
a dimensão vertical de Deus. Porque Deus é Único, surge o culto, e deve Ele ser cultuado do modo 
digno e correto. 
Os mandamentos falam em exclusividade. Na Idade Antiga, quando alguém se mudava para outra 
região ou país, adotava o deus daquele país ou região. Se Filístia, Dagon; entre os cananeus, Baal; 
Marduque na Babilônia; Kemosh entre os moabitas. Assim se explica Rute dizendo a Noeme, sua sogra: 
"o teu Deus será o meu Deus" (Rt 1.16b); Rute era moabita. 
O que o Decálogo ensina é que quando alguém tem o Eterno como Deus, há exclusividade, 
quebrantamento e entrega; numa palavra: Consagração. É nesse quadro que se aplica a palavra de 
Jesus: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a 
um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas" (Mt 6.24), que é a versão do primeiro 
mandamento no evangelho, ou, como Jesus, ainda, enfatiza, repetindo Deuteronômio 6.5, "Amarás ao 
senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e 
primeiro mandamento" (Mt 22.37, 38).
A ética anda meio trôpega. Tem desaparecido do coração de muita gente o sentido do que é correto 
(cf. Is 59.14, 15). É o desejo de enriquecer rapidamente; são as aplicações fraudulentas à custa da 
ingenuidade ou ignorância do povo; a remessa de lucros ou de ganhos escusos para contas anônimas no 
estrangeiro. É a falta de ética, de moral, de honestidade, bastando para resolver a fórmula preconizada 
pelo jurista Capistrano de Abreu no início do século: "deveriam ser abolidas todas as leis no nosso país, e ser 
decretada uma só: q ue todo brasileiro tivesse vergonha! "(negrito nosso). 
É o ídolo do sucesso; o ídolo da raça. São vítimas dessa idolatria os indianos na Inglaterra, os turcos na 
Alemanha, os judeus que sofrem dos palestinos, os palestinos que sofrem dos judeus, brasileiros "da 
gema" em outras regiões do próprio país, índios em vários países (inclusive no nosso). É o ídolo da 
nação; o ídolo do partido. 
104 
É o uso e abuso do próximo: o seu direito de descanso não respeitado, nem por ele mesmo; é o 
desrespeito e abuso de confiança do adultério; e a vida humana tratada com desprezo nos crimes mais 
hediondos, mesquinhos, infames e impunes. 
LIÇÕES ETERNAS 
Temos muito o que aprender com os Dez Mandamentos. Sobre a vontade de Deus: a eleição de um 
povo, e padrões mais elevados para esse povo escolhido, e que isso se aplica à Igreja de Jesus Cristo, 
expressão concreta da vontade salvadora de Deus, e sem cor sectária na afirmação de Pedro: 
"Vós sois a geração eleita, o sacerdócio real; a nação santa, o povo adquirido, 
para que anuncieis as grandezas daquele vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; v ós que 
outrora nem éreis povo, e agora sois povo de Deus; vós que não tínheis alcançado misericórdia, e agora a 
tendes alcançado" (1Pe 2.9,10). 
Temos que aprender sobre o vigor, a grandeza e o exclusivismo do culto ao Deus Vivo e 
Verdadeiro, pois "Não terás outros deuses diante de mim" (Ex 20.3; cf. Mt 6.24). Não se pode dividir o 
culto com outros deuses nem os atributos divinos com "deuses" menores. 
Aprendemos que o culto ao Deus Vivo é sem imagens, anicônico, portanto (Ex 20.4; cf. Jo 
4.24). Aprendemos, outrossim, que o Eterno não pode ser manipulado através de uma 
imagem Sua (Ex 20.5), como o faziam os vizinhos de Israel com seus deuses pátrios, e há quem 
queira favorecer santos ou ameaçá-los como o fazem com a imagem de Santo Antônio de cabeça para 
baixo numa "simpatia" para atrair casamento. 
Aprendemos que o encontro com Deus é sempre decisivo, e uma decisão de vida ou de morte 
(Ex 20.5, 6). O mesmo se dá no evangelho: o encontro com Cristo é decisão de vida ou morte 
conforme João 3.36. 
Aprendemos que o Nome (haShem) , o Ser de Deus, é santo e não pode ser usado e citado, 
levianamente. "Não tomarás o nome do Senhor teu deus em vão" (Ex 20.7; Mt 5.33-36). 
Aprendemos que um dia da semana é, em termos, consagrado a Deus, e isento de 
atividades comuns: "lembra-te do dia do repouso para o santificar" (Ex 20.8-11; Mc 2.27, 28; Mt
105 
12.1-8) Na Aliança do Sinai, era o sétimo dia do calendário judaico apar lembrar o arremate da obra 
criadora; na Aliança do Calvário é o primeiro dia da semana para lembrar a ressurreição de Jesus 
Cristo, arremate da nova criação. 
Aprendemos sobre a coerência da união Deus+ser humano, ser humano+Deus, e dos 
direitos divinos sobre a Sua criatura (Ex 20.1-17). 
Aprendemos sobre o respeito aos pais, às antigas gerações, à vida conjugal e à verdade (Ex 
20.12, 14-16; cf. Mt 15.4; Ef 6.1-3; Mt 5.27, 28; Ef 5.3, 5; 4.28; Mt 5.37; Tg 5.12). 
Aprendemos a rejeitar a hostilidade e a violência, e a respeitar a propriedade alheia: "Não 
matarás" (Ex 20.13; cf. Mt 5.21, 22); "Não furtarás" (Ex 20.15; Ef 4.28). 
Aprendemos com os profetas que a religião não se prende apenas a atos de culto, mas ao 
serviço, e o Decálogo visa a regular e orientar ao respeito à vida, à reverência ao Eterno, à ordem na 
sociedade, à justiça à pessoa humana. É possível, aliás, observar que o evangelho de Jesus Cristo 
reafirma tudo isso em Mateus 25.40, "sempre que o fizestes [destes de comer, de beber, acolhestes, 
vestistes, visitastes] a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos a mim o 
fizestes". 
Aprendemos, sobretudo, que a vida é um encontro com Deus. Deus marca os lugares de 
encontro. Com Abraão, numa cidade pagã; com Jacó, num ribeiro; com Moisés, num arbusto no sopé 
de uma montanha; com o povo de Israel, no caminho do deserto, no tabernáculo, nos santuários, no 
Templo. E hoje, esse encontro acontece na alma do fiel, verdadeiro, penitente e devoto cristão, pois 
que seu corpo é o Seu santuário. Por isso, creio nos mandamentos! 
CREIO NO REINO DE DEUS 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
"Quando iam pelo caminho, disse-lhe um homem: Seguir-te-ei para onde quer que fores. Respondeu-lhe 
Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do homem não tem onde 
reclinar a cabeça. E a outro disse: Segue-me. Ao que este respondeu: Permite-me ir primeiro sepultar 
meu pai. Replicou-lhe Jesus: Deixa os mortos sepultar os seus próprios mortos; tu, porém, vai e 
anuncia o reino de Deus. Disse ainda outro: Senhor, eu te seguirei; mas deixa-me primeiro despedir-me 
dos que estão em minha casa. Jesus, porém, lhe respondeu: Ninguém que lança mão do arado e 
olha para trás é apto para o reino de Deus" (Lc 9.57-62). 
Qual a principal afirmação de Jesus? "O Sermão do Monte" em Mateus 5 a7? Realmente, sermões, 
palestras, excelentes livros têm enfocado o Sermão do Monte, destacando aspectos diversos dessa 
extraordinária pregação de Jesus Cristo. 
Seriam textos como, "Assim como quereis que os homens vos fa çam, do mesmo modo lhes fazei vós 
também" (Lc 6.31)? Ou quem sabe aquele texto que é uma impossibilidade em termos humanos, 
"Amai a vossos inimigos"? 
Todas essas expressões estão no Sermão do Monte, no entanto, nenhuma delas resume a mensagem 
como Mateus 4.17 o faz, porque foi o primeiro sermão que Jesus pregou. E foi um sermão
106 
resumidíssimo: "Arrependei-vos porque é chegado o reino dos céus". Durou apenas, 7 segundos! Sou 
capaz de dizer que os irmãos que se incomodam quando o culto passa um pouco de 11h40, ficariam 
também extremamente incomodados com um sermão que só dissesse isso: "Arrependei-vos porque é 
chegado o reino dos céus". 
Na verdade, o que encontramos em Mateus 5-7 são ensinos de Jesus que nos esclarecem o que Ele 
queria dizer em Mateus 4.17. 
Estamos familiarizados com certos ensinos de Jesus, com expressões que Ele utilizou como com as 
parábolas, tão lindas e que têm atravessado os séculos, com os relatos dos milagres que nos deixam 
abismados diante da sobrenatureza; com as narrativas da Paixão de Cristo, como Jesus Cristo sofreu 
Getsêmani, como suou sangue num fenômeno chamado hematidrose, como Jesus foi preso depois 
de receber um beijo de traição, e como vieram prendê-Lo com varas, com pedaços de pau nas suas 
mãos como se fosse um malfeitor a ponto de ser linchado, e como foi julgado, condenado, e, depois 
de uma noite de tortura, levado para o Calvário! 
Isso nos emociona, mas a idéia central que unifica tudo isso, parábolas, milagres, paixão, bem-aventuranças 
e sermões, o tema dominante, a característica do ensino de Jesus Cristo se sobressai 
numa expressão: reino de Deus. Parece até que não quer dizer muita coisa, mas há uma imensa 
riqueza nessa expressão que se tornou tão corriqueira. Reino de Deus! 
PRIMEIRAS IDÉIAS SOBRE O REINO DE DEUS 
O pensamento antigo de Israel era que o reino de Deus se manifestaria no senhorio do rei de 
Israel. Esta é a primeira idéia acerca desse tema (cf. 2Sm 7.12-16; Sl 89.36, 37). Enquanto Israel 
fosse soberano e tivesse um rei no trono, Deus também seria Senhor e Soberano. Esse foi um conceito 
primário e bem primitivo acerca do reino de Deus. Por isso, eles entendiam que o soberano faria 
justiça ao pobre, restituiria os direitos da viúva, e defenderia o órfão, libertando com esses atos o 
mundo da iniqüidade em que estava. Naturalmente que os aproveitadores (e os h á em todo lugar...) 
do tempo de Davi até perguntaram "Que parte temos nós em Davi" (1Rs 12.16). Alguns não queriam 
ter parte num reino que faria a defesa da viúva, e daria direitos ao necessitado. 
Vamos andar no tempo, e com a sua passagem, a idéia que passou a dominar em Israel era que o culto 
no templo, com os seus sacerdotes e levitas, com os sacrif ícios, normas e prescrições a respeito da 
santidade (kashrut), resolveria o assunto, porque o reino de Deus estaria no templo, e nos 
ofícios. Uma pessoa que queria ver e sentir o reino de Deus ia ao templo, e ali sacrificava, raz ão 
porque, na teologia antiga de Israel, passou o reino de Deus a ser sediado no templo e no culto 
realizado naquele local. 
No entanto, os profetas falaram contra isso, e denunciaram o culto sem convers ão. E isso era muito 
fácil: alguém teria uma vida ímpia, vil e de corrupção, e viria ao culto onde sacrificaria um animal, e, 
assim, entendia ter resolvido o seu problema. Culto sem convers ão! Sem solidariedade, e de egoísmo 
em lugar da misericórdia, motivo que leva o profeta Amós a dizer, 
"Aborreço, desprezo as vossas festas, e não me deleito nas vossas assembléias solenes. Ainda que me 
ofereçais holocaustos, juntamente com as vossas ofertas de cereais, n ão me agradarei deles; nem 
atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais cevados. Afasta de mim o estrepito dos teus
107 
cânticos, porque não ouvirei as melodias das tuas liras. Corra, porém, a justiça como as águas, e a 
retidão como o ribeiro perene" (Am 5.21-24; cf. Is 1.17; Os 6.6). 
Em lugar da misericórdia, persistia o egoísmo, e isso Deus não podia tolerar! Mas os israelitas antigos 
não entenderam que Deus reinaria no templo, sim, mas o templo de Deus é o ser humano 
restaurado, transformado, lavado pelo sangue de Jesus! 
Uma visão da era messiânica vai ser dada mais adiante pelos profetas como Isa ías (o profeta messiânico 
por excelência, onde se respira a vinda do Messias do primeiro ao último capítulo), Ezequiel, 
Malaquias. Isaías fala de um novo tempo a ser governado por Aquele que é chamado 
"Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz" (9.6); profetiza também acerca 
do Espírito do Senhor sobre o soberano do reino de Deus, e diz, "E repousar á sobre ele o Espírito do 
Senhor, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de 
conhecimento e de temor do Senhor" (Is 11.2); 
é quem fala sobre bênçãos do reino de Deus na expressão de 11.6-11, da qual destacamos: 
"Morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitar á; e o bezerro, e o leão novo e o 
animal cevado viverão juntos; e um menino pequeno os conduzirá... Naquele dia a raiz de Jessé será 
posta por estandarte dos povos, à qual recorrerão as nações; gloriosas lhe serão as suas moradas. 
Naquele dia o Senhor tornará a estender a sua mão para adquirir outra vez o resto do seu povo, que 
for deixado, da Assíria, do Egito, de Patros, da Etiópia, de Elão, de Sinar, de Hamate, e das ilhas do 
mar". 
Mas que linda reunião de todos os povos e daqueles que são salvos pelo Cordeiro de Deus! É também 
Isaías quem fala dos acontecimentos maravilhosos e extraordin ários que terão lugar no reino de Deus! 
"Naquele dia os surdos ouvirão as palavras do livro, e dentre a escuridão e dentre as trevas os olhos 
dos cegos as verão" (Is 29.18)! 
No chamado "Primeiro Poema do Servo Sofredor" (Is 42.1-9), é também mencionado o tema central 
do reino de Deus: "Eis que as primeiras coisas já se realizaram, e novas coisas eu vos anuncio; antes 
que venham à luz, vo-las faço ouvir" (42.9)! Tudo o que é novidade do reino de Deus nós teremos 
compreensão da parte do próprio Espírito de Deus! É disso que fala, e dos capítulos 40-55 Isaías vai 
falar de uma nova criação, produto do reino e da soberania de Deus. 
Ezequiel também, e ele estava na Babilônia, o povo estava no exílio, e esse profeta cantou sobre o 
Messias a quem Deus chama "meu servo Davi", e Ezequiel no capítulo 37 o expressa deste modo: 
"e Davi, meu servo, será seu príncipe eternamente. Farei com eles um pacto de paz, que ser á um 
pacto perpétuo. E os estabelecerei, e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles para 
sempre. Meu tabernáculo permanecerá com eles; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. E as 
nações saberão que eu sou o Senhor que santifico a Israel, quando estiver o meu santu ário no meio 
deles para sempre. Meu tabernáculo permanecerá com eles; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu 
povo. E as nações saberão que eu sou o Senhor que santifico a Israel, quando estiver o meu santu ário 
no meio deles para sempre" (Ez 37.25b-28).
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João 1.24 fala que o Senhor veio e armou o seu santuário, Sua tenda e "habitou entre nós". Davi já 
havia morrido há 400 anos, mas o Senhor chama a Davi "meu servo" porque Ele fez refer ência àquele 
que é a descendência de Davi (cf. Sl 96.10-13). 
Pois bem, a oração de todo judeu piedoso era pela vinda do reino de Deus, por causa desse alimento 
espiritual que recebia todo judeu, dos profetas que falaram da vinda desse reino. Foi nesse ponto que 
Jesus Cristo entrou no cenário da história humana. Pois eu creio no reino de Deus por causa de 
manchetes como estas extraídas do jornal de nossa cidade: 
"QUATRO ASSALTANTES TOMBAM EM TIROTEIO" 
"MATOU O CUNHADO COM FACADA NO CORAÇÃO" 
"LEVADO COMO REFÉM" 
"CHINA TEM 300 MIL VICIADOS EM HEROÍNA" 
Manchetes que chocam, machucam, escandalizam e fazem lamentar! Sim; creio no governo de Deus 
sobre indivíduos que se rendem, que se entregam, que se quebrantam: creio na honestidade, no 
amor, na solidariedade, no calor humano, mas sobretudo no calor do Esp írito na consciência, na alma, 
no espírito do crente! 
O QUE O REINO DE DEUS NÃO É 
Ora-se muito sem discernimento "Venha o Teu reino". Mas o que n ão é o reino de Deus? Diria, 
em primeiro lugar, que não é um domínio geográfico, um país terreno com uma capital terrena 
como um certo segmento teológico que anuncia, na sua posição mais extremada, que o reino de Deus 
vai ser estabelecido num determinado lugar (Israel) tendo como ca pital Jerusalém, e ali Jesus Cristo 
vai reinar. Essa é uma posição extrema que a Escritura Sagrada não apoia. 
Não é, também, a Igreja. Agostinho e os teólogos da Outra Igreja ensinaram e ensinam que o reino 
de Deus é a Igreja. 
Também não é uma utopia, uma sociedade ideal a ser construída pelos homens, como certos 
reformadores sociais cristãos também pregam, de modo que com a pregação do evangelho se 
espalhando cada vez mais, por fim começa o reino de Deus sem ninguém perceber. Não é isso o que 
os noticiários trazem. 
Aliás, há uma longa história de equívocos sobre o reino de Deus. Já houve, até, quem quisesse 
antecipá-lo pela violência: os zelotes, mencionados no Novo Testamento (cf. Lc 6.15b; At 1.13b), 
que eram fanáticos políticos de Israel e representavam a extrema esquerda. Isso na época em que 
Roma estava dominando aquela terra, os zelotes levavam um punhal (sicar) escondido no manto, e, 
quando encontravam um romano num lugar mais discreto, apunhalavam -no. Daí vem a palavra sicário 
(= malfeitor, facínora). Queriam trazer o reino de Deus, que, entendiam, se estabeleceria no 
momento em que os romanos saíssem de Israel. No meio dos apóstolos havia ex-zelotes (Simão, Lc 
6.15b; e, talvez, Judas Iscariotes). Um dos discípulos tomado desse espírito político até perguntou a 
Jesus: "Senhor, é neste tempo que restauras o reino a Israel?" (Atos 1.6). Esperavam que Jesus viesse 
como um zelote, um grande zelote de extrema-esquerda. 
Os fariseus queriam implantar o reino de Deus não com a violência, mas com a observância da Lei. Se
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todos observassem a Lei de Moisés o reino de Deus se implantaria, diziam. E os profetas continuaram 
proclamando, apesar de toda a pregação dos fariseus: "o reino há de vir!" (cf. Mq 5.2,4, 5a; Ml 3.1; 
Sf 3.13-15; Am 5.18; Jl 2.12, 13, 28-32). 
E o reino veio! Veio no Senhor Jesus Cristo! (cf. Mc 1.14, 15). Por isso eu creio no reino de Deus! 
O QUE O REINO DE DEUS 
Para Jesus, o reino de Deus era e é uma experiência que não se baseia na força das armas, e não tem 
dimensões de espaço nem de tempo, mas é, na verdade, um novo relacionamento entre Deus e a 
pessoa humana, entre o ser humano e o Ser Divino. Então, como já vimos, o anúncio do reino de 
Deus feito por Jesus foi o que o povo hebreu tinha ansiado por centenas de anos! Era o que Jo ão 
Batista anunciara que estava chegando (Mt 3.2,4; Mc 1.2, 3, 7, 8); foi o que Jesus havia anunciado 
quando disse: "É chegado o reino de Deus!" (Mc 1.15). E é por essa razão que o reino de Deus é 
chamado "as boas notícias"! É o significado da palavra evangelho (gr. evaggelion). 
Mas quando Cristo revelou que Seu reino era interior, espiritual, poucos O aceitaram (Jo 1.11, 12). 
O povo esperava, como os zelotes, alguém que trouxesse muitas bênçãos materiais, um grande chefe 
político. Porém Jesus exigia uma mudança interior aos que pertencessem ao Seu reino. E no "Pai 
Nosso" encontramos uma excelente explicação (Mt 6.10), porque temos o paralelismo típico do 
pensamento hebreu quando Jesus diz: "Venha o teu reino", e a expressão igual (com outras palavras) 
é: "Seja feita a tua vontade". 
Daí temos que o reino de Deus é uma sociedade no espaço-tempo, onde a vontade do Pai faz de modo 
tão perfeito como no infinito-eterno. O reino de Deus é a vida eterna que pela fé se recebe aqui e 
agora tendo efeitos imediatos enquanto eternos e permanentes. O reino de Deus é vida, é o reino dos 
céus (expressão, aliás, usada por Mateus que, sendo judeu, não queria usar o nome de Deus). 
O reino de Deus é definido por Paulo do seguinte modo: "porque o reino de Deus não consiste no 
comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no Espírito Santo." (Rm 1 4.17). O reino de 
Deus é Seu domínio sobre nós, e nossa submissão a Ele; quando nEle cremos, e fazemos a Sua 
vontade, pertencemos a esse reino. O reino de Deus é a Sua presença nos guiando, Sua 
graça/presença em nós, como a nuvem durante o dia e o fogo durante a noite guiavam o povo de 
Israel no deserto. 
ASPECTOS DO REINO 
O reino de Deus é presente ou futuro? Já está aqui ou ainda vem? Já se manifestou ou ainda há de vir? 
Há quem pregue que o reino de Deus não tem expressão hoje, e ainda há de se manifestar. Prega por 
conta própria porque Jesus ensinou "É chegado o reino de Deus" (Mc 1.15a; Mt 4.17; 1 0.7; Lc 9.2; 
10.9). 
Podemos compreender o reino de Deus olhando três etapas distintas descritas na Bíblia. A primeira é 
que ele é tão antigo quanto o próprio universo, por uma razão básica: Deus é o soberano de toda a 
criação. É um fato eterno: "O teu reino é um reino eterno; o teu domínio dura por todas as gerações" 
(Sl 145.13), e também em Mateus 6.13: "E não nos deixes entrar em tentação; mas livra-nos do mal. 
Porque teu é o reino e o poder, e a glória, para sempre. Amém" (cf. Mt 8.11): "Teu é o reino (para
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sempre); Teu é o poder (para sempre); Teu é a glória (para sempre)", conforme Jesus ensinou. 
Em segundo lugar, é uma realidade presente, uma realidade agora, já. Lucas 17.20, 21 diz: 
"Sendo Jesus interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, respondeu -lhes: O reino 
de Deus não vem com aparência exterior; nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Ei-lo ali! Pois o reino de Deus 
está dentro de vós". (Outra tradução diz: "no meio de vós"). 
Jesus veio: é Deus invadindo a história humana para derrotar o mal. Quem tivesse os olhos espirituais 
abertos poderia sentir os sinais dos tempos, e veria o reino de Deus vindo através da cruz (aparente 
derrota, é verdade, mas, como resultado, uma vitória incrível contra a malignidade deste mundo)! O 
reino de Deus veio através da ressurreição, e nesse glorioso acontecimento a morte foi morta! 
Um dos meus professores, Dr. Merval Rosa, usou certa vez uma expressão muito interessante: ele 
disse que o cristão já morreu, e agora aguarda apenas a ressurreição. É isso mesmo! Já abandonamos o 
mundo, já o deixamos para trás, os seus apelos já não nos interessam, temos agora outra visão, outra 
dimensão diante de nós. Se os nossos olhos estavam somente voltados para o aqui e agora, para o 
imediatismo, estamos agora olhando para o futuro, para o que virá, para as realidades espirituais que 
já se encontram ao nosso dispor! 
O reino de Deus já veio através do dom do Espírito Santo! 
Quando a Igreja de Jesus Cristo no dia de Pentecostes experimentou o derramamento do Esp írito (At 
2.1-13) como fato único na sua história, como o grito de "Independência ou morte!" foi dado só uma 
vez no Brasil, e não precisa cada brasileirinho que nasce ter o presidente da Rep ública tirando o 
chapéu e dizendo essas palavras para ele, e para estoutro e aqueloutro. É um fato histórico, aconteceu. 
Quando o irmão se converteu ao Senhor Jesus, recebeu o dom do Espírito Santo, que não deve ser 
confundido com "os dons", os carismas. Por isso, fazemos os crentes em Jesus Cristo, parte do reino 
de Deus, e a cruz (que foi um escândalo para os judeus, e loucura para os gentios, (cf. 1 Co 1.23) tem 
sentido para nós, e a ressurreição nos garante a salvação, e os dons do Espírito Santo são evidência do 
senhorio de Deus em nossas vidas! Por isso eu creio no reino de Deus! Mas há uma terceira etapa: o 
reino de Deus também pertence ao futuro porque ali teremos a sua consumação, e a fé cristã é 
também a esperança cristã. Cremos com a Escritura que Deus há de completar a Sua obra: no fim 
triunfará sobre o pecado, sobre o desespero e a morte (que já morreu na ressurreição de Cristo!) 
Além deste tempo, e desta era, a vida eterna na qual conheceremos o governo de Deus mais 
perfeitamente! Essa é a dimensão futura do reino de Deus. É assim que o reino pode ser uma realidade 
passada, presente e futura ao mesmo tempo porque é eterna. E, assim, o reino está perto, mas 
também está longe; está no nosso meio, mas oramos que venha; e o mistério já foi confiado a alguns, 
e, no entanto, ninguém sabe o dia nem a hora da sua vinda (cf. Lc 8.10; At 1.7). 
O CIDADÃO DO REINO 
A quem pertence o reino? Quem tem o direito ao reino dos céus? Vamos fazer a pergunta ao revés: 
quem não entra no reino de Deus? Quem não tem lugar no reino do Pai? E a Bíblia responde: 
os que vivem na carne e na corrupção não tem lugar no reino de Deus (1Co 15.59); 
os que fazem tropeçar um inocente não encontram espaço no reino de Deus (Mc 9.42, 47): 
os que se apegam aos bens materiais não têm vez no reino de Deus (Mt 19. 24);
111 
os que são convidados e não se determinam a seguir ( Lc 9.62); 
os não-convertidos (Jo 3.3,5); 
os injustos, os devassos, os idólatras, os adúlteros, os homossexuais em todas as suas nuances 
(pederastas, lésbicas, bissexuais não têm lugar no reino de Deus; 
os ladrões; os avarentos, os bêbados; 
os maldizentes; 
os que se prostituem; 
os feiticeiros (pais-de-santo, mães-de-santo, babalorixás, ialorixás, cartomantes, lançadores de 
búzios); 
os invejosos, os assassinos; os medrosos, os incrédulos, os que se recusam a graça e a bênção como 
Judas Iscariotes (cf. 1Co 6.9, 10; Gl 5.19-21; Ef 5.5; Ap 21.8; 22.15; Jo 17.12; 6.70). 
Então, a quem pertence o reino dos céus? E, também a Bíblia responde: 
no reino de Deus têm lugar os que nascem de novo, da água e do Espírito (Jo 3.3,5); 
aos inscritos no livro da vida (Ap 21. 27); 
aos que perseveram na fé e, por isso, passam por tribulações, e são perseguidos por causa da 
justiça (At 14.22; 2Ts 1.4,5; Mt 5.10); 
às crianças (Mc 10.14); 
aos que recebem o reino no espírito de uma criança (Mc 10.15); 
aos que guardam os mandamentos de Cristo (Mt 19.17); 
aos humildes de espírito (Mt 5.3); 
aos que vivem na justiça, na paz e na alegria no Espírito Santo (Rm 14.17); 
aos que tendo praticado todas as abominações que impedem a entrada no reino foram purificados 
pelo sangue de Jesus, e se tornaram limpos, lavados de suas iniq üidade, santificados, justificados em 
nome de Jesus e no Espírito de Cristo (1Co 6.11); 
aos que fazem a vontade: quem obedece está no reino, quem não obedece não está no reino (Mt 
7.21). 
Assim, o reino de Deus não tem a ver com nações, reinos e países. É um reino pessoal, é questão de 
obediência. Nasci debaixo do governo do Brasil sem querer (sou brasileiro com muito orgulho, e 
cidadão desta terra extraordinária; e o Brasil se agiganta quando estamos fora do país; é aí que vemos 
o gigante que é esta nação, mas eu não pedi para nascer no Brasil), mas no reino de Deus, só nasço se 
o desejar. Os crentes chineses oravam, "Senhor, aviva a Tua Igreja, mas come çando em mim!" E nós 
podemos dizer: "Senhor, traze o Teu reino, faze a Tua vontade, mas começando em mim!" 
Jesus Cristo revelou os princípios espirituais que governam esse reino no "Sermão do Monte" dando 
aplicação presente destes princípios a situações particulares. O Sermão da Montanha é descrição da 
cidadania do reino, e alguém o chamou de "a constituição do reino de Deus", o qual (não 
esqueçamos!) é o poder soberano e misericordioso de Deus. Deus o fez em Cristo, Deus o faz hoje, e 
Deus o fará ainda mais. 
Já imaginaram a política deste país submissa ao Senhor Jesus Cristo? Uma pessoa disse com um toque 
de tristeza, com nostalgia: "Já não se fazem homens como antigamente..." Esses homens podem ser 
feitos como no passado, mas através do milagre que se chama nova criação em Cristo (2Co 5.17). Por 
isso, o reino de Deus, o governo de Deus, Sua vontade soberana vai influenciar a esfera moral, porque 
a lei de Deus é o padrão da moralidade, e vai influenciar a esfera espiritual, o plano mais alto e mais
112 
nobre da nossa vida! E isso há de acontecer, pois a Escritura assegura a vitória final antecipada em I 
Coríntios 15.24-28: 
"Então virá o fim quando ele entregar o reino a Deus o Pai, quando houver destru ído todo domínio, e 
toda autoridade e todo poder. Pois é necessário que ele reine até que haja posto todos os inimigos 
debaixo de seus pés. Ora, o último inimigo a ser destruído é a morte. Pois se lê: Todas as coisas 
sujeitou debaixo de seus pés. Mas, quando diz: Todas as coisas lhe estão sujeitas, claro está que se 
excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas. E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então 
também o próprio Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo 
em todos". 
Por isso eu creio no reino de Deus! 
DA RUA DA AMARGURA PARA A GALERIA DA FÉ 
Professor Diego Roberto 
Josúe 2:8-13 
- de prostituta para tataravó do maior rei de Israel 
A transformação radical é conseguida através da plena confiança em Deus 
Raabe ao aceitar e esconder os espias abriu espaço para Deus promover a maior transformação que um 
ser humano pode receber. 
Raabe aceitou... 
I. V.8-9 O PLANO DE DEUS 
O Retorno ao passado é impossível 
8 Antes que os espias se deitassem, foi ela ter com eles ao eirado 
9 e lhes disse: Bem sei que o SENHOR vos deu esta terra, e que o pavor que infundis caiu sobre n ós, e 
que todos os moradores da terra estão desmaiados. 
– ouviu e creu (o passado contribuiu com o presente) 
– Mar Vermelho = 40 anos antes 
II. V.10 O PODER DE DEUS 
As Obras provam a nossa convicção 
a respeito de Deus. 
10 Porque temos ouvido que o SENHOR secou as águas do mar Vermelho diante de vós, quando 
saíeis do Egito; e também o que fizestes aos dois reis dos amorreus, Seom e Ogue, que estavam al ém 
do Jordão, os quais destruístes. 
– escondeu porque era a melhor coisa a fazer por causa do temor 
III. V. 11 A PESSOA DE DEUS 
Nossa vida tem influência sobre a vida 
dos que nos cercam.
113 
11 Ouvindo isto, desmaiou-nos o coração, e em ninguém mais há ânimo algum, por causa da vossa 
presença; porque o SENHOR, vosso Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra. 
– Deus é pessoal e se relaciona. Transcendente e Imanente 
IV. V.12-13 A PROVIDÊNCIA DE DEUS 
Deus concede privilégios espirituais 
12 Agora, pois, jurai-me, vos peço, pelo SENHOR que, assim como usei de misericórdia para 
convosco, também dela usareis para com a asa de meu pai; e que me dareis um sinal certo 
13 de que conservareis a vida a meu pai e a minha mãe, como também a meus irmãos e a minhas 
irmãs, com tudo o que têm, e de que livrareis a nossa vida da morte. 
– fio de escarlate = providência de Deus. 
– Mt 1:5 - tataravó de Davi Hb 11:31 - Galeria da fé 
– Arrebatamento = Livra da ira vindoura. 
DIÁRIO DE ISAQUE 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
"Depois [Isaque] subiu dali a Berseba. Apareceu-lhe o Senhor naquela mesma noite, e disse: Eu sou o Deus de 
Abraão, teu pai. Não temas, pois eu sou contigo; abençoar-te-ei e multiplicarei a tua descendência por amor de 
Abraão, meu servo. Então edificou ali um altar, e invocou o nome do Senhor. Armou ali a sua tenda, e os seus 
servos cavaram um poço" (Gn 26.23-25). 
Este é o diário de Isaque. Registra o que ele fez num único dia., pois, após ter acampado no vale de 
Gerar, abriu os poços cavados por Abraão, seu pai, e que haviam sido entulhados pelos filisteus (vv. 
15, 18). Tiveram seus pastores uma altercação com os colegas da região por causa de um desses poços 
de água nascente (vv. 19, 20). Outro poço foi cavado, e nova contenda (v. 21), e mais outro, desta 
vez em paz (v. 22). 
Nesse ponto, vai a Berseba, onde recebe a bênção de Deus, e, ao surgir do novo dia, erige um altar, 
arma uma tenda e abre um poço, tão indispensável à vida. Nestas três palavras, há implicações 
profundas para a vida de qualquer família. 
Invertendo a ordem, extraiamos as lições: 
"... seus servos cavaram um poço" (O POÇO) 
O poço é a representação do trabalho. Na cultura pastoril de Israel, o poço era essencialíssimo à 
existência. Aliás, não é preciso ir longe: onde não há água encanada, nas áreas rurais, poços, cacimbas 
são imprescindíveis. Do poço viria a água para dessedentar homens e gado: sem água, a vida fenece. 
Em toda a Bíblia, a água é símbolo de satisfação de sede profunda: "Tu visitas a terra, e a refrescas; tua 
enriqueces grandemente. O rio de Deus está cheio de água, para dar cereal ao povo, pois assim a tens 
preparado" (Sl 65.9). E, ainda, "O Senhor é o meu pastor; nada me faltará. Deitar-me faz em verdes 
pastos, guia-me mansamente a águas tranqüilas" (Sl 23.1,2; cf. Is 44.3,4; 55.1a; 58.11; Jo 4.10, 14;
114 
Ap 7.17). E como Deus dá os poços para as necessidades físicas, biológicas, também dá água viva para 
satisfazer as demandas espirituais (Is 55.1a; Jo 4.10,14). 
O poço representa uma circunstância em nossa vida: o trabalho, que na Escritura Sagrada significa a 
rotina pela qual nós ganhamos o pão nosso de cada dia. Aliás, o ser humano nasce destinado, e não, 
condenado ao trabalho (Gn 2.15). Sua tarefa é gerenciar o mundo, administrá-lo, melhorá-lo pelo 
labor até a plenitude prevista por Deus (Rm 8.19). 
A Bíblia não autoriza a pensar no trabalho como maldição. Gênesis 3.17-19 nos leva a ver que as más 
conseqüências, aparentemente do trabalho, o são, sim, do pecado dos primeiros pais: a dor, o 
cansaço, o sofrimento, as condições injustas e abaixo de humanas, a discriminação, os salários de 
sobrevivência. Não; a maldição foi sobre a terra. E esse pecado, e essa terra, agora maldita, trouxe 
descompasso na família entre o homem e a mulher (Gn 3.12), e entre o ser humano e outro pessoal 
(Gn 4.8). 
O trabalho, porém, é moral e espiritual. Como tudo se encaixa tão bem no plano cósmico de Deus 
(cf. Sl 104. 24, 19-23. E como valor moral e espiritual, deve ser repassado à família, e estar a serviço, 
e para a perfeição da família. Se assim é, necessário se torna pensar em compatibilizá-lo com o tempo 
dedicado aos filhos. Um jornal de nossa cidade estampou a manchete que dizia "Pais ingleses dedicam 
40 segundos por dia aos filhos". 
Há filhos que têm verdadeiramente "fome de pai", carência da figura paterna. O ator Tony Leblanc 
ponderou: "Sinceramente, penso que muitos males de que padece a sociedade, e o casal em 
particular, são conseqüência do pouco tempo que os pais dedicam aos filhos". E porque o trabalho se 
inspira nos mais profundos e expressivos valores espirituais, é convertê-lo em amor. Afinal, 
1Coríntios 16.14 o ensina muito bem: "Fazei todas as vossas obras com amor". 
É passar aos filhos a suprema lição de santificar o trabalho, santificar com o trabalho, e mais ainda, 
santificar-se no trabalho! 
"Armou ali a sua tenda" (A TENDA) 
É a vida familiar, a vida comum, as relações domésticas. A tenda representa deveres, lealdades, 
afeições, e está sob a proteção da comunhão com Deus. 
Mas, que contraste: a casa de Isaque não tinha a solidez e o nível de conforto que hoje conhecemos. 
Pelo contrário, era frágil, muito frágil. 
Pois é; nossa civilização é complexa, tecnicista e, até, desumana. Há sempre o perigo de ficarmos tão 
satisfeitos com o que possuímos, que não alcançamos a comunhão espiritual que deve caracterizar a 
vida do cristão. Com a pressa a que nos habituamos, com a correria a que nos acostumamos, h á o 
perigo de se perder as pequenas e as grandes descobertas no lar: 
· A alegria das pequenas vitórias diárias; 
· O agradecer voltar para casa ao fim do dia; 
· O crescimento dos filhos; 
· O desenvolvimento deles na escola, na vida. De repente são adolescentes, jovens, e não vimos isso 
acontecer...
115 
É; a tenda é a vida da família. 
Como é o lar ideal pela Bíblia Sagrada? Qual a receita? 
· É o que tem harmonia, e, conseqüentemente, paz (Mt 12.25); 
· Nele, a vida de piedade é uma constante (1Tm 5.4); 
· Provérbios 15.17 ("Melhor é um prato de hortaliças onde há amor, do que o boi gordo, e com ele o 
ódio") diz com clareza absoluta que o amor é mais do que necessário; 
· No lar ideal, há diligência: a preguiça não tem vez (Pv 31.27); 
· E a hospitalidade? (Hb 13.2); 
· Percebe-se claramente a presença do Espírito de Jesus Cristo, marcada pelo fruto do Espírito (Gl 
5.22,23). 
Além dessa receita, há qualidades que precisam ser repassadas às gerações mais jovens: 
· A honrar aos pais, o que leva com naturalidade à obediência (Ef 6.2,3); 
· Obediência aos pais (Cl 3.20). Quem aprende a se submeter à autoridade dos pais, aprende a se 
submeter a qualquer autoridade. O melhor modo, porém, de ensinar a honra aos pais é viver de modo 
a merecê-la. 
· A tomar decisões inteligentes, sábias, ou ter responsabilidade, a cumprir deveres, a ser pontual. 
· O valor da fé em Deus, que na Bíblia é sempre obediência. Os exemplos clássicos estão em Hebreus 
11.8, 18, 19, 24-27. 
"... edificou ali um altar" (O ALTAR) 
Com o altar, Isaque expressava o impulso que dera a Abra ão a sua grandeza. Mas vejam bem: julgadas 
pelos padrões do mundo, as vidas de muitas personagens do passado, e mesmo do presente, podem 
parecer imensamente mais importantes, mais impressionantes que as de Abraão e de Isaque. Neste 
quadro do Antigo Testamento, porém, encontramos homens que fizeram da devoção, do culto, da 
adoração o interesse primário, basilar de suas vidas. Essa a razão de o altar ter sido levantado em 
primeiro lugar. Antes, mesmo, da tenda e do poço. 
Como está o altar de sua casa? E sua aliança com o Deus das alianças? É o caso de restaurar o altar 
doméstico (1Rs 18.30; 2Cr 15.8; 33.16). E diante desse altar voc ê se entrega como Samuel, "Fala, 
(Senhor) porque o teu servo ouve"" (1Sm 3.10); ou como Paulo, "Senhor, que queres que eu faça?" 
(At 22.10), e apresenta seu corpo como sacrifício de justiça, de louvor, de ação de graças; sacrifício 
suave, contínuo, espiritual; sacrifício vivo, santo e agradável a Deus (cf. Sl 14.5; 107.22; 116; 17; Jr 
6.20; Dn 8.11; 1Pe 2.5; Rm 12.1). 
No altar, você ora pelo filho que está sendo gerado, para que Deus faça nele o que fez por Jeremias (Jr 
1.5). Ore pelo recém-nascido; ore pelo seu filho ou filha na infância; pelo pré-adolescente; pelo seu 
adolescente e pelo jovem. Ore pelo seu filho ou filha casada, por sua vida profissional, conjugal, 
emocional e espiritual. Ore pelo filho do seu filho ou de sua filha em cada etapa da vida. E abra os 
olhos do seu próprio espírito para ver como o Espírito Santo tocou nas suas vidas. 
Ore ao Deus que ama as famílias, porque Ele é o mesmo que salva as famílias. E há base bíblica para 
afirmá-lo: leia Gênesis 7.1; Atos 16.15, 31; 18.8. Mesmo uma criancinha pode crer, e tão pequena 
que Jesus pode levar no colo (Mc 10.14,16).
116 
Pense na sua função como profeta e como sacerdote, como profetisa e sacerdotisa. Vamos explicar: 
como profeta/profetisa, você apresenta o Deus Vivo a seus filhos; você lhes fala de Deus. Mas é 
preciso que seu próprio relacionamento seja pessoal, íntimo e constante com Ele. Como 
sacerdote/sacerdotisa, você apresenta seus filhos ao Deus Eterno. É a oração de intercessão já 
mencionada; é a bênção diária, a bênção nas enfermidades. É o desejo que Jesus expressou em João 
17.3, "A vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem 
enviaste". 
O altar é uma expressão da bênção de Deus sobre o poço e a tenda, o trabalho e a vida familiar, e essa 
bênção se expressa em comunhão, conforto espiritual, salvação e crescimento na graça. 
Nossa atividade de ganha-pão, a vida doméstica e a intimidade com Deus necessitam estar bem 
próximas, unidas, coesas. É o destaque dos valores do trabalho; o exercício da pedagogia de Deus, ou 
seja, o amor (cf. 1Jo 4.8): a criança obedece porque ama. Enquanto a pedagogia do Inimigo-de-nossas- 
almas é a do medo, ou seja, a criança obedece porque se sente ameaçada e está amedrontada 
(1Jo 4.18). 
É a aliança com Deus, pois Ele faz aliança com o pai (Gn 17.1ss; Ml 4.6), com a mãe (Gn 16.10ss), 
com os filhos (Ex 20.12; Ml 4.6), mas lembremos que a Nova Alian ça é feita de forma sempre 
individual, pessoal e única (Jr 31.33,34; Jo 3.16). 
JERUSÁLEM NOS SALMOS 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
Para as três maiores religiões monoteistas do mundo, Jerusalém é a Cidade Santa. Para o Judaísmo, o 
que leva à reverência é a presença das ruínas dos muros da Beth Hamikdash, o Templo, aliada ao fato de 
ter sido o local onde reinaram Davi e seus descendentes. Para o Cristianismo, ao lado da emo ção e 
sentimento dos eventos da Antiga Aliança, estão os acontecimentos da paixão de Cristo com o 
julgamento, crucificação, e a vitória sobre a morte no domingo da ressurreição. Além disso, a 
Jerusalém terrena é uma sombra e tipo da Jerusalém celeste com suas bênçãos e glória (cf. Ap 21.1- 
4). Para o Islamismo, é El-quds, "A santa" (cf. Is 52.1), porque, segundo sua tradição, Maomé subiu 
aos céus no seu garboso corcel Baraq. 
O fato é que Jerusalém, ou Sião (possivelmente da raiz syn, "proteger", de onde "fortaleza"), nunca 
foi compreendida como uma simples e secular cidade. Profetas e salmistas sempre olharam a Cidade 
Santa em termos teológicos, o que é claríssimo no Livro dos Salmos. 
Dois grupos de salmos estão especialmente ligados à "Teologia de Sião": os "Cânticos de Sião" e os 
"Cânticos Graduais" ("de degraus" ou "de romagem"). A Lei prescrevia (Ex 23.27) que todo homem 
deveria ir em peregrinação (aliyah) a Jerusalém três vezes no ano: na Páscoa (Pessach), no Pentecoste 
(Shavuot) e na Festa dos Tabernáculos (Sukkot). Nessas ocasiões, o tom festivo, alegre era bastante 
exaltado, visto que grupos se reuniam nas vilas e rumavam à Santa Cidade. Isso é refletido no Salmo 
84.1-4: 
"Quão amáveis são os teus tabernáculos, ó Senhor dos exércitos! A minha alma suspira, sim, desfalece 
pelos átrios do Senhor; o meu coração e a minha carne clamam pelo Deus vivo. Até o pardal encontrou 
casa, e a andorinha ninho para si, onde crie os seus filhotes, junto aos teus altares, ó Senhor dos
117 
exércitos, Rei meu e Deus meu. Bem-aventurados os que habitam em tua casa; louvar-te-ão 
continuamente". 
Outros na mesma linha: o 46, o 68 (cf. vv. 28ss), o 76 (cf. vv. 1, 2) e o 79. O Salmo 48 tipifica todo 
o grupo dos "cânticos de Sião", e mostra no verso 1 que só o Senhor é digno de louvor, as glórias de 
Jerusalém (vv. 2 a 11), e, do verso 12 ao fim, a exortação a rodear a cidade como oportunidade de 
meditar no seu significado e na Pessoa do Deus Eterno. 
Muitos conceitos teológicos se salientam nesses cânticos: a cidade messiânica, o sinal da presença de 
Deus no meio do Seu povo na centralização do Templo. Não podemos deixar de observar que a 
teologia de Sião ressalta que Deus a escolheu para nela habitar o Seu Nome (haShem), razão porque 
tanto o Templo quanto a cidade gozam da proteção divina (Sl 78.68, 69; cf. Ex 15.17, 18). 
Destacado tema nos salmos é a liturgia do culto do Templo, a abodah, literalmente "o trabalho, o 
serviço" porque é um 'ebed (servo) o verdadeiro cultuante. A própria peregrinação era considerada 
parte da atividade sagrada. O Salmo 122 espelha a suprema felicidade dessa ocasi ão. 
Os "Cânticos Graduais", então, retratam a entrada no santuário. Os salmos 15 e 24 provavelmente 
aludem a esse fato. Recebiam esse nome porque eram entoados na subida (mealah) por ocasi ão das 
mencionadas três peregrinações, ou, em outra hipótese, porque os levitas os cantavam nos quinze 
degraus pelos quais se subia do Átrio das Mulheres para o dos Homens. 
O Culto em Jerusalém era vivo, ruidoso, dinâmico, com seus muitos cânticos e processionais. As 
exclamações de alegria e adoração pela glória, majestade e soberania de Deus eram constantes 
("Hallelu-yah!", "Louvado seja o Eterno!", cf. os Salmos 111, 18, 135, 136, 146 -150). O Salmo 42.4 
traz à memória do poeta a sua liderança à frente dos cultuantes "com brados de louvor e júbilo". E o 47 
acrescenta outras manifestações de ritmo e harmonia (cf. Sl 95.1ss; 150). 
A descrição da bem-aventurança suprema de se temer a Deus é a espinha dorsal do Salmo 128, o qual 
acrescenta aos bens dos versos 1 a 4, duas outras graças das mãos divinas: 
• uma vida tranqüila e longa 
• numa cidade tranqüila e próspera. 
Um dos "cânticos de degraus", o Salmo 122, nos instrui a interceder pela shalom de Jerusal ém, ou 
seja, sua integridade, saúde, sucesso, plenitude, salvação e progresso. 
A sempre amada e poderosa figura de Jerusalém cantada no Salmo 46 inspirou Martinho Lutero a 
escrever "A Marselhesa da Reforma", o hino Ein' Fest Burg ("Castelo Forte é Nosso Deus"), por isso 
que é salmo que proclama a estabilidade e a segurança da cidade no meio do caos cósmico (vv. 1-3), e 
dos distúrbios internacionais (vv. 8, 9). Observe-se que este salmo começa com uma confissão de 
total confiança em Deus (v. 1). 
Por fim, o Salmo 87 ressalta o ser cidadão da Santa Cidade, pois nascer em Jerusalém concede uma 
cidadania toda especial (vv. 5, 6).
118 
Que a proteção divina sobre Jerusalém seja usada como padrão de fé em relação ao cuidado do Senhor 
por aqueles que nEle põem a confiança: nós somos cidadãos da Jerusalém Eterna. (cf. Sl 125.2; Ap 
21.3, 4, 7). 
JONAS: O PROFETA FUJÃO 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
O período histórico do ministério de Jonas é narrado com detalhes em II Reis 14 e 15. Ele viveu 
durante o reinado de Jeroboão II e, nesses tempos, a Assíria exercia seu poderio no Oriente Médio. 
Era uma nação cruel e era detestada por suas práticas desumanas. 
Jonas era o típico judeu que nunca entenderia como seria possível que Deus viesse a amar os assírios. 
Ao contrário, ele esperava que o Deus Javé se voltasse contra eles e os destruísse. 
A cidade de Nínive era a capital da Assíria, e quando Deus mandou Jonas pregar àquela cidade, ele 
recusou-se a ir, por causa do ódio que sentia pelos assírios. Jonas é um indivíduo preconceituoso e seu 
livro mostra a resistência desse profeta ao propósito divino de evangelizar a raça mais cruel do 
mundo. E o que vamos verificar é que o inexplicável amor de Deus para com Nínive não encontra eco 
no coração de Jonas. 
Foram os preconceitos de Jonas que o levaram a fugir da Missão que Deus lhe havia ordenado. 
Preconceitos políticos: pois os ninivitas eram velhos inimigos de seu povo. Preconceitos raciais: os 
ninivitas eram gentios e não pertenciam ao povo escolhido. Preconceitos religiosos: um povo t ão 
perverso, tão mau, tão grosseiro, não podia nem devia ser perdoado. 
Quantos hoje não são como Jonas. Quantas vezes os nossos preconceitos nos impedem de sermos 
úteis a Deus. Quantas vezes os nossos preconceitos sufocam o amor às pessoas; aniquila nossa 
compaixão; obscurece nossa visão; seca as fontes da nossa espiritualidade e empobrece nossa 
mensagem. 
Nós nos parecemos muito com Jonas. Podemos ver nele nossos preconceitos contra aqueles que n ão 
confessam a mesma doutrina, ou que pensam diferente de nós. Jonas é uma figura intrigante. Ele 
assiste a uma cidade inteira se converter e ao invés de se alegrar, ele se irrita. E mais do que irritado, 
ficou deprimido a ponto de desejar morrer. Jonas é uma figura desconcertante, mas veremos que 
muitos de nós agimos exatamente como ele. 
CAPÍTULO PRIMEIRO: 
FUGA INÚTIL 
"... veio a palavra do Senhor a Jonas." É assim que tudo começou: um dia estava Jonas em sua casa, lá 
peno ano 750 AC, quando Deus lhe disse: "Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e clama contra 
ela ... ". E aqui as coisas começam a se complicar, pois Jonas não tem a mínima vontade de ir àquela 
cidade. 
Por quê? Porque Jonas conhecia muito bem Nínive e a odiava, e também conhecia muito bem a Deus, 
e sabia que Ele é misericordioso e grande em benignidade (4:2) e com certeza iria dar uma 
oportunidade a Nínive de se converter. E como nosso profeta não quer a conversão desta cidade, e
119 
para evitar que tal acontecesse, "Levantou-se, mas para fugir da presença do Senhor, para Társis." (v. 
3). 
Se corremos os olhos pelo Mapa Bíblico, vamos observar que Nínive ficava diametralmente oposta a 
Társis, Nínive está no leste, Társis no oeste. Társis era o lugar mais longínquo de todo o planeta 
naqueles dias. A viagem para lá durava, pelo menos, um ano. 
Lá se vai Jonas para a sua viagem rumo a Társis. Seus planos foram bem arquitetados, no entanto, vai 
se meter em uma tremenda enrascada. Aquela enrascada em que se envolve todos os desobedientes. 
"Mas o Senhor lançou sobre o mar um forte vento, e fez no mar uma grande tempestade" (v.4). 
Deus, valendo-se da natureza, levanta uma tempestade para corrigir o profeta fuj ão. 
"Então os marinheiros cheios de medo clamavam cada um ao seu deus..." (v.5) . 
Os marinheiros conhecedores e experimentados no mar, sabem que a situa ção é perigosa. A sensação 
de medo os domina. A morte está às portas e por isso eles "clamavam cada um ao seu deus". Estes 
homens são pagãos e apegados a várias divindades. Contudo, enquanto eles dirigem suas preces aos 
seus deuses, Jonas dormia profundamente. 
Aqui temos uma lição: no processo de fuga de Deus, corremos o risco de nos tornarmos menos 
cristãos do que os pagãos. Que ironia! O único homem no navio que podia fazer uma oração de 
verdade ao Deus verdadeiro, não quer orar." Ao mesmo tempo que é triste, é deveras impressionante 
notar que não poucas as vezes, os incrédulos que não conhecem a Deus, manifestam mais respeito e fé 
em Deus do que os próprios cristãos. 
Nos versos 6 a 10 percebemos que os marinheiros pagãos têm noção da gravidade dos atos de Jonas. 
"Que fizeste? Pois sabiam os homens que Jonas estava fugindo da presen ça do Senhor, porque lhe 
havia declarado". (v.10). 
Os marinheiros sabiam que havia algo naquela tempestade, além de um fenômeno natural. Havia algo 
maior ali e por isso eles resolveram "Lançar sortes, para saberem por causa de que lhes sobreveio 
aquele mal" (v.7). 
A sorte é lançada, "e a sorte caiu sobre Jonas" (v.7). Descobriram que o homem de Deus era a causa 
da desgraça. A desobediência de Jonas estava atraindo maldição sobre todo o grupo. 
Precisamos aprender esta lição: As pessoas que desobedecem a Deus, não criam problemas apenas 
para si. Infelizmente acabam colocando os outros em suas enrascadas tamb ém. Homem de Deus em 
fuga leva problemas onde quer que vai. 
Agora algo precisa ser feito, e daí a pergunta: "Que te faremos, Jonas, para que o mar se acalme? 
(v.11). E a resposta foi: "Tomai-me e lançai-me ao mar e o mar se aquietará..." (v.12). Assim, Jonas 
assume o fato de que ele era o causa da tragédia. 
Antes de jogar Jonas no mar, os marinheiros pagãos se entregaram novamente à oração. Agora, oram 
não às divindades pagãs, mas ao Deus de Israel. Enquanto eles oram, os lábios de Jonas ainda 
permaneciam fechados (v.14). 
"E levantam a Jonas, e o lançaram ao mar, e cessou o mar da fúria" (v.15). 
Jonas é lançado ao mar, mas Deus não desiste do profeta fujão e ordenou que "um grande peixe 
engolisse a Jonas" (v.17).
120 
Poucas situações devem ter sido tão angustiosas quanto esta. Jonas está consciente. Sua esperança de 
continuar vivendo eram mínimas. Que lugar para encerrar a vida, logo na barriga de um peixe, lugar 
escuro, mal cheiroso e onde provavelmente nunca encontrariam seu corpo. Mas, embora confuso e 
teimoso, Jonas é um homem que conhece a Deus. E Jonas faz a única coisa que se pode fazer em um 
momento de angústia. Ele se entregou à oração. 
CAPÍTULO SEGUNDO: 
A ORAÇÃO NO VENTRE DO PEIXE 
"Então Jonas no ventre do peixe orou ao seu Deus" (v.1). 
É no ventre do grande peixe que Jonas começa a recuperar a saúde espiritual. "Na minha angústia 
clamei ao Senhor." (v.2). 
Jonas começa a entender que a angústia pode ser uma expressão do amor de Deus. A própria tragédia 
de ter sido "Lançado no coração dos mares" (v.3) e ter sido engolido pelo peixe, não era obra dos 
marinheiros, mas de Deus. Por trás de tudo aquilo estava a mão divina. "Quando dentro em mim 
desfalecia a minha alma, eu me lembrei do Senhor ..." (v.7). 
Quando estava para morrer, Jonas voltava seus olhos para o Senhor. Que coisa tremenda! A ora ção 
ainda é a única e suficiente resposta de que a espiritualidade continua viva. E nesse aspecto n ós nos 
parecemos muito com Jonas. Pois quase sempre deixamos para orar em momentos de extrema 
dificuldades (Conferir: 1:3, 4,5,10,11,13,14). 
A oração de Jonas foi ouvida. Ele podia ser um crente fraco e remitente, mas sua confian ça está em 
Javé e não em ídolos (v.8). É bom saber que Deus nos ouve, apesar de nossas fraquezas. 
"Falou, pois, o Senhor ao peixe, e este vomitou Jonas na terra." (v.10). 
O capítulo dois termina com mais uma ação soberana de Deus. Ele ordena e o grande peixe, 
obediente, joga Jonas na praia. 
CAPÍTULO TERCEIRO: 
PREGAÇÃO SEM COMPAIXÃO 
"Veio a palavra do Senhor segunda vez a Jonas... " (v.1). 
Pela segunda vez, Deus comissionou o profeta à sua missão de pregar aos ninivitas. Uma nova 
oportunidade é dada a Jonas. 
"Dispõe-te e vai à grande cidade de Nínive ..." (v.2) A ordem é a mesma da primeira vez. E nisso 
aprendemos que Deus não muda sua vontade só pelo fato de não gostarmos dela. 
Temos a impressão de que Jonas só pregou aos ninivitas, quando enviado pela segunda vez, porque 
não teve outra opção. Isso porque o v.3 diz que Nínive levava "três dias para percorrê-la". E no v.4 
somos informados que Jonas a percorrer só "caminho de um dia". Isto significa que o nosso profeta 
não completou a caminhada da cidade, demonstrando assim m á vontade em sua proclamação. Tipo 
coisa: "Já falei o suficiente, chega".
121 
"Ainda quarenta dias e Nínive será subvertida." (v.4). 
"Quarenta dias" é uma expressão que nos lembra o dilúvio (Gn 7:17). É uma expressão muitas vezes 
usada nas Escrituras para falar de juízo divino. 
Jonas com seus preconceitos, odiava os ninivitas. Portanto sua mensagem n ão é para salvar, mas para 
condenar. Estava obedecendo uma ordem divina, mas sem a mínima paixão. Pregava o juízo mas sem 
lágrimas nos olhos. 
Que mensagem precária a de Jonas: "Ainda quarenta dias e Nínive será subvertida". Não havia unção. 
Não havia vibração. Não havia o óleo da graça que cura e liberta. Havia apenas o tom de condenação, 
e era o que ele queria. 
Mas algo extraordinário acontece. Mesmo sendo uma pregação sem unção e sem poder, causou um 
impacto tremendo naquela cidade. E assim, surpreendentemente, Nínive "cidade mui importante 
para Deus" (v.3) é convertida. Deus é inquestionavelmente soberano. Mesmo que os nossos planos e 
projetos limitadíssimos falhem, os Dele são infalíveis. O que Deus quer fazer, Ele faz e "ninguém 
pode lhe deter a mão". 
CAPÍTULO QUATRO: 
AMANDO OS SECUNDÁRIOS DA VIDA 
"Com isso desgostou-se Jonas extremamente, e ficou irado" (v.1). 
Jonas, ao invés de se alegrar, teve um extremo desgosto, por ver a cidade se converter e saber que a 
sentença da condenação por ele pronunciada, não seria mais aplicada a Nínive. Sua pregação foi um 
sucesso, mas ele não queria a graça de Deus para aquele povo. Que mentalidade exclusivista! 
Os preconceitos de Jonas estavam tão impregnados em seu coração, que a alegria deu lugar a ira, a 
ponto de entrar num processo depressivo: "Melhor me é morrer do que viver" (v.3). 
Jonas fez uma barraca e ali ficou para "ver o que iria acontecer àquela cidade" (v.5). 
Tão duro era o coração de Jonas, que ele ainda esperava que Deus mudasse de pensamento e 
destruísse Nínive. 
Para dar uma lição no profeta, Deus fez nascer uma aboboreira para fazer sombra para ele. E esta 
planta se torna de um momento para outro o tesouro do cora ção de Jonas. No dia seguinte, Deus 
manda um verme para ferir e matar a planta (v.7). E aquela planta que dava conforto a Jonas murchou 
deixando-o exposto ao sol. O que o deixou irado novamente (v.9). 
"Tens compaixão da planta ..." (v.10). 
Que insensatez! Jonas amava mais as coisas do que as pessoas. Conseguia chorar e se sensibilizar por 
causa de uma planta, por outro lado, nutria ódio pelas pessoas. 
Jonas é um retrato de muitos hoje em dia. Hoje nossa aboboreira pode ser um carro, a casa, móveis, 
nosso conforto, etc.
122 
Devemos nos lembrar que se pusermos o coração nas coisas secundárias da vida, não devemos esperar 
que a nossa alegria seja mais duradoura do que a de Jonas. 
"Melhor me é morrer do que viver". Nisso devemos concordar com o profeta. Para quem coloca a 
vida num nível tão mesquinho, é melhor morrer do que viver. 
Jesus disse: "Ajuntai tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não consomem". 
Se o nosso coração estiver nas coisas secundárias da vida, as angústias se sucederão uma após outra, 
pois estes tesouros são falíveis e efêmeros. Ponhamos o nosso coração nas coisas imperecíveis e 
eternas. 
"... Não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive?" (v.11). 
Finalmente Jonas aprendeu. Deus tem compaixão de pecadores. Por isso, foi que o comissionou para 
pregar em Nínive. O recado final é no sentido de que ele volte a amar as pessoas. Não coloque os 
preconceitos acima da salvação. Volte a amar, mesmo aquelas pessoas estranhas a sua volta. 
EM JONAS APRENDEMOS 
1 - Deus é soberano e sempre realiza sua vontade 
2 - É impossível qualquer tentativa para fugir de Deus 
3 - Os preconceitos nos tornam sem amor pelos incrédulos 
4 - Quando estamos em desobediência nos tornamos maldição onde quer que vamos 
5 - Quando amamos os secundários, nossa vida se torna mesquinha e sem alegria 
6 - O caminho da desobediência sempre nos coloca em enrascadas 
7 - Quão apaixonadamente Deus ama os pecadores 
JOSÉ, "O FIEL" 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
Bisneto de Abraão, "o amigo de Deus"; neto de Isaque, "o filho da promessa"; filho de Jac ó, "o 
príncipe de Deus, eis José, o "fiel". 
Tinha cerca de seis anos na ocasião de sua família sair de Padã-Harã para Siquém onde morou perto de 
oito anos. Estava aproximadamente com dezesseis anos quando Raquel, sua m ãe, faleceu ao dar à luz 
seu irmão, Benjamim. Sua história é a da evolução de uma família, havendo nesse relato um variado 
tempero onde ressaltam a ambição, a juventude, a beleza, a tentação, a mentira, o sofrimento, a 
tristeza, o ciúme, o ódio, o perdão. Todos os elementos de um grande romance. 
É deste modo que José passou à história dos judeus como figura ideal representando a fidelidade, a 
obediência e o amor que perdoa. Caráter de muitas virtudes, portanto, e exemplo recomendável, 
"uma carreira recomendável" disse H. I. Hester. Era generoso, tinha ideais elevados, vida limpa, 
altruismo e espírito de perdão. 
POÇO (Gn 37.12-28) 
Dos doze filhos de José, era o favorito,1 e esta é, ao lado de todas as já mencionadas qualidades
123 
naturais e por adquirir, a aventura de um adolescente mimado, filho de fazendeiro, rico, vendido 
como escravo pela inveja dos irmãos, e que, por fim, se sai muito bem como administrador p úblico. 
Tinha seus dezessete anos2 não era perfeito, pelo contrário, apresentava um toque de ingenuidade e 
outro de orgulho (talvez por ser dos filhos de Jacó, o único que não era das escravas, ou de Léia, a 
esposa em segundo plano). O fato é que, predileto do pai, ficava muitas vezes em casa enquanto os 
outros irmãos se esgotavam de trabalho no campo. 
Algumas situações minaram a amizade e boa vontade entre os filhos de Jac ó. Uma foi o péssimo hábito 
de José de ser o "leva-e-traz"da família.3 A túnica de várias cores, de mangas longas e que ia até os 
calcanhares dada por Jacó a José4 é roupa de nobre, de chefe tribal, e dá-la ao filho de Raquel foi 
evidente sinal de parcialidade.5 Jacó, aliás, era mestre na parcialidade: "amou a Raquel muito mais do 
que a Léia",6 assim, amava o filho mais velho de Raquel mais que os outros. Na casa de seu pai, o 
favoritismo causara problemas: Esaú era favorito de Isaque; Jacó o era de Rebeca. Por outro lado, essa 
roupa não era adequada para trabalhar no campo mas nas lides de casa. A terceira situa ção foram os 
sonhos que José tivera, e contara aos irmãos e ao pai.7 É; José não sabia mentir, e por essa razão, por 
sua ingenuidade e imprudência, perdera a amizade dos irmãos.8 
Contar um sonho não era só um passatempo entre os antigos orientais. A realidade é que quem o fazia 
era apresentado como privilegiado, conhecedor do futuro, um mestre autorizado. A rea ção dos 
irmãos, portanto, foi pertinentíssima para o povo que naquele tempo era tão afetado pelos sonhos. 
Hoje, o psicanalista lê o passado nos sonhos; na época dos patriarcas, lia-se o futuro. José foi até 
apelidado de "o Sonhador"(em hebraico se diz "o Mestre dos Sonhos", "o Senhor dos Sonhos"). 
Indo procurar os irmãos no campo (estavam em Dotã, 140 km de Hebron), repetem-se as linhas da 
história de Caim e Abel. Por intervenção de Rúben, a vida de Jacó foi poupada, mas, colocado num 
poço, terminou por ser vendido a uma caravana de ismaelitas (ou midianitas) que se dirigia ao Egito. 
Jacó foi vendido por 20 siclos de prata, o preço normal de venda de um escravo.9 
POTIFAR (Gn 39.1-19) 
Comprado por um militar, comandante do destacamento da guarda real chamado Potifar [em egípcio 
Pet-Pa-Ra = "dedicado a Ra (o deus Sol)]", vai para sua casa. Rica mans ão, muitos criados, e por 
conta de seu trabalho, chega à função de mordomo. É homem de confiança: a casa do capitão Potifar 
está em excelente mãos! José não precisava de mais nada. É observador, meticuloso, cuidadoso; 
aprende a língua e os costumes do Egito. Onde punha a mão, crescia.10 
No entanto, como "não há paraíso sem serpente", com a entrada da mulher de seu senhor em cena, a 
atmosfera muda. É uma mulher sedutora, insinuante, cheia de paixão. Mas não deixou nome na 
história; é conhecida apenas como "a mulher de Potifar". Não sabemos seu nome, aparência ou idade: 
surge anonimamente, e some anonimamente; não sabemos se tinha filhos, mas tenta seduzir o jovem 
José. Falha porque José a enfrenta com a mente, consciência e vontade. Vinga-se. Desaparece. Bem 
que Provérbios fala disso em 5.3-6, 8.20. Sem culpa, José é levado outra vez ao pó. 
PRISÃO (Gn 39.20 - 41.36) 
Não parece ser uma historia de muito futuro. Afinal, fora vendido, caluniado e, agora, encarcerado. 
As prisões no Egito tinham três funções: eram cárceres (como hoje), reservas de trabalhos forçados 
(fornecendo mão-de-obra gratuita para as construções) e casa de detenção onde aqueles em prisão
124 
preventiva esperavam o julgamento, que era o caso de José. Pois, se Abraão teve Moriá como ponto 
marcante de crescimento e amadurecimento, se Jacó teve Peniel, José tem a prisão do Egito. Ali 
passou três longos anos, pois precisava amadurecer para funções mais elevadas. Estudou o caráter dos 
criminosos, dos prisioneiros de guerra de diferentes partes do mundo; conheceu funções da corte. 
Que extraordinária escola de administração! 
Deus continua a abençoá-lo: 
"O Senhor, porém, era com José, estendendo sobre ele a sua benignidade e dando-lhe graça aos olhos 
do carcereiro,"11 
e ele recomeça sua lenta ascenção. Tornou-se imediato do comandante da prisão. É posição de 
liderança e responsabilidade: 
"E o carcereiro não tinha cuidado de coisa alguma que estava na mão de José, porquanto o Senhor era 
com ele, fazendo prosperar tudo quanto ele empreendia".12 
Nesse tempo, o copeiro-mor e o padeiro-mor do palácio são enviados para a prisão. Têm cargo de 
importância na corte, mas corrupção no governo já existia, e os dois são confiados a José. Sonham... 
O sonho do copeiro-mor está registrado em Gênesis 40.9-11, o do padeiro-mor em 40.16,17. José os 
interpreta (tudo creditando a Deus13), e os sonhos efetivamente se cumprem. 
PODER (Gn 41.37 - 50.26) 
Dois anos se passam, e agora o próprio rei tem um sonho.14 Mas os adivinhadores, os sábios, os 
mestres não sabem interpretá-lo (serão sacerdotes do deus Ra?15). O copeiro-mor lembra-se de José, 
que foi mandado buscar. O moço é preparado para ser apresentado ao Faraó: traja-se à moda egípcia, 
tira a barba (judeus a usavam), veste roupa limpa, e vai ao pal ácio. 
Interpreta o sonho,16 e recomenda ao rei que indique alguém para gerenciar a armazenagem de 
comida para os sete anos de fracas colheitas, fomes e recessão. O governante fica tão impressionado 
que o próprio José é nomeado para a função. 
MANUSCRITOS DO MAR MORTO UMA GRANDE 
FONTE DE AJUDA NA COMPREENSÃO DA BÍBLIA 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
Intrigantes, inquietantes, polêmicos e esclarecedores. Apenas um misto de palavras pode definir o que 
são os Manuscritos do Mar Morto e sua importância para os estudiosos da religião. 
Descobertos em 1947 por um garoto beduíno que pastoreava cabras ao largo das cavernas de Qumrã, 
nos arredores do Mar Morto, e vendidos pelo amigo desse pastorzinho a um estudioso judeu e um 
padre, esses rolos de pergaminho, pele e bronze achados em jarros de barro, que j á viajaram o 
mundo, passando pelas mãos de estudiosos e catedráticos, têm feito uma verdadeira revolução no 
estudo do judaísmo e do cristianismo do século I. 
Apresentados ao mundo, os Manuscritos do Mar Morto tem influênciado e esclarecido, desmistificado 
e reafirmado vários pontos do panorama bíblico.
125 
Mas, apesar disso tudo, perguntas ficam no ar sempre que esses manuscritos s ão citados, pois, 
constantemente, ouve-se muita polêmica ao seu redor. A primeira pergunta que logo se faz é qual o 
importante legado que esses pergaminhos deixaram para a estudo bíblico? Como e porque esses 
antigos escritos podem ajudar na compreensão do século I, do judaísmo e do cristianismo primitivo? 
Essa intrigantes perguntas vão aos poucos sendo respondidas quando se começa a descobrir o dia-a-dia 
da comunidade de Qumrã, seus hábitos, leis e crenças. Quando se começa a tomar conhecimento do 
que realmente se passava no panorama político, econômico e social da época dos qumramitas. 
Miraculosamente, uma novo modo de pensar é revelado quando se toma contato com esse admirável 
novo mundo bíblico. 
E mais, passa-se a ver que os Manuscritos do Mar Morto foram um descoberta de valor inestim ável, 
pois tanto confirmam a integridade e validade do texto b íblico (vide o rolo do livro de Isaías, onde, 
em todo texto, achou-se apenas sete variantes, sendo seis palavras diferentes, por ém sinônimas, e uma 
que, apesar de não ser sinômina, em nada alterava a integridade do livro) como também esclarecem o 
texto, pois tiram o véu do mistério que encobria o real modo de pensar, viver e acreditar das pessoas 
mais próximas a época do início do cristianismo. 
A Comunidade de Qumrã 
Comumente incluída na seita dos essênios, a comunidade inicial era formada de doze leigos e tr ês 
sacerdotes, que simbolicamente representavam as doze tribos de Israel e os três clãs levíticos (cf.Gn 
46:11). Provavelmente, eles acreditavam ser um novo povo de Deus e, no seio do seu país, da terra 
de Israel, o restante fiel que obedeceria perfeitamente a lei de Mois és e a todas as revelações 
particulares dadas a Levi e seus descendentes. 
E mais, criam constituir um verdadeiro templo onde poder á se desenvolver uma liturgia segundo a 
vontade de Deus. Inspirados em Isaías 28:16, acreditavam que quem quisesse viver nessa comunidade 
deveria comportar-se sempre em perfeito estado de pureza como no templo ou como no santo dos 
santos. 
Para atingir esses alvos, tinham três objetivos: estabelecer a aliança segundo os decretos eternos, 
expiar em favor do país e dar aos maus sua retribuição. 
Baseados em Isaías 40:3, uma nova comunidade partiu para o deserto, a fim de preparar o caminho 
para a vinda escatológica de Deus. Ainda almejando ser uma assembléia santa, povo consagrado a 
Deus, eles dedicavam-se ao estudo aprofundado das Lei e as suas práticas. Já no deserto de Qumrã, a 
comunidade passou a receber novos membros e, com isso, a estabelecer um código penal, no qual 
encontravam-se leis como tempo de aprovação para integrar a comunidade, excomunhão ou exclusão 
e procedimentos gerais. 
Único lugar de salvação, a comunidade de Qumrã, agora distancida do templo de Jerusalém, lugar de 
culto do jadaísmo, apegou-se a profecia de Ezequiel 44:15 e passou a considerar-se independente de 
Jerusalém. E mais, cria que o verdadeiro templo era a própria comunidade e que os sacrifícios 
agradáveis a Deus eram os espirituais. 
Nessas comunidades-templo, tornava-se necessário, tanto para os sacerdotes como para os leigos, 
viver em perfeito e constante estado de pureza ritual, por isso valorizavam os rituais purificat órios.
126 
Por isso, a água, desempenhava um papel importante na vida dos qumramitas, como testemunha a 
existência de cisternas e piscinas no recinto das construções comunitárias. 
Se por um lado a comunidade é adepta do batismo, chegando inclusive a crer que o batismo, por si s ó 
é incapaz de proporcionar uma verdadeira purificação, pois este depende essencialmente do Espírito 
de santidade, que Deus, por ocasião de sua visita, difundirá como aspersão, por outro lado obrigava 
seus membros a absterem-se de participar do culto sacrílego exercido pelo clero no templo de 
Jerusalém e, consequentemente, dos sacrifícios. Para os qumramitas, bastava a lei de Levítico 19:2: 
“Sede santos, porque eu, Javé vosso Deus, ou santo”. Além disso, eles consideravam o sacrifício de 
“louvor dos lábios”, unido a uma conduta irrepreensível, superior aos sacrifícios sangrentos. 
Com pontos teológicos comuns ao do judaísmo do Antigo Testamento, a comunidade Qumrã era 
adeptos da prática da oração, da observância do sábado, o qual era destinado para o louvor e das festas 
solenes como a de Pentecostes. 
A importância dos manuscritos do mar morto 
Diferentemente da opinião do crítico literário Robert Alter, que diz que “os rolos do Mar Morto são 
escritos de valor literário e espiritual menor, pois não oferecem qualquer conexão siginificativa entre 
o pensamento bíblico e o pensamento rabínico primitivo, e que os seus autores - os qumramitas - 
estavam fisicamente isolados do corpo político dos judeus” (“How The important are the Dead Sea 
Scrolls?”, pp. 34-41), é indiscutível o valor, a importância e a significação básica que os rolos têm para 
a real compreensão do desenvolvimento do judaísmo e do cristianismo. Como é sabido, os rolos 
“representam aspectos diversos da real condição do judaísmo durante três séculos do período 
intertestamentário - com todas as suas complexidades sectárias e heterodoxas”. 
E mais, boa parte dos manuscritos datam claramente do per íodo asmoneu, um período que, nas 
palavras de Menachem Stern, “(...)levou a independência espiritual e material da nação judaica tanto 
na Judéia quanto fora. (...) No século II a.C. um estado judaico expandiu-se sobre toda a Palestina, 
(...) que tornou-se religiosa e nacionalmente, a Grande Judéia, e esse fato imprimiu sua marca no 
caráter religioso, cultural e étnico na nação por um longo período. (...)houve um vigosoro 
desenvolvimento religioso e um fortalecimento do judaísmo nas nações da Diáspora”. 
Importantísmos, vários do rolos de Qumrã refletem claramente este desenvolvimento. 
Por outro lado, outros rolos datam do início da dominação romana (63.a.C.), a destruição da segunda 
comunidade judaica, quando outros acontecimento e mudanças abalaram a nação judaica. Nesse caso, 
os manuscritos do Mar Morto são uma rica e inesperada fonte de novos conhecimentos sobre esses 
dois períodos, onde encontra-se acontecimentos e personalidades do judaísmo palestino que até então 
desconhecidos. 
Extremamente relevantes para a história do pensamento e da espiritualidade judaica, os manuscritos 
do Mar Morto oferecem ao estudioso tanto leituras de excepcional interesse para a reconstru ção do 
texto original da Bíblia como também a história da religião bíblica será grandemente afetada e 
desmistificada. Afinal, os manuscritos colocam os estudiosos em melhor posição para, por exemplo, 
comparar os salmos do Saltério canônico com o conjunto de hinos helenísticos posteriores 
encontrados em Qumrã ou ainda poder melhor estudar das leis da escravatura na Paletina sob o 
domínio Persa, com base nos papiros de Samaria.
127 
Além de importantes, os manuscritos do Mar Morto causaram grande impacto. Um impacto que 
tanto se estendeu para uma forçosa mudança de mentalidade com relação as seitas judaicas do período 
intertestamentário. Ou seja, a partir dos rolos de Qumrã passou-se a entender mais e melhor sobre, 
por exemplo, os essênios, fariseus e saduceus. Por outro lado, o impacto dos rolos tamb ém foi 
sentido no que se refere a visão do movimento apocalíptco e o seu lugar na história dos últimos 
tempos da religião bíblica, pois até então considerado um fenômeno tardio e de vida curta no 
judaísmo (entre o séc II e I), o apocalipcismo passou a ser aceito como surgido a partir do s éculo IV 
a.C. 
Como se terá a oportunidade de ler mais adiante, os rolos do Mar Morto tamb ém foram, e ainda são, 
também muito importantes para uma melhor compreensão do Novo Testamento. Nunca deixando de 
lado a prudência nas comparações, pode-se dizer que muitas são as semelhanças nas crenças, 
instituições comunitárias, vocabulário e formas literárias dos qumramitas e dos cristãos primitivos. 
Se pegarmos, por exemplo, os apóstolos João e Paulo, encontrar-se-á muitas semelhanças entre seus 
escritos e os rolos. Em João encontramos, entre outros pontos, o dualismo-luz-trevas que também 
aparece frequentemente nos textos de Qumrã. Enquanto em João 12:35-36 lemos “Jesus lhes disse: 
Por pouco tempo a luz está entre vós. Caminhai enquanto tendes luz, para que as trevas não vos 
apreendam: quem caminha nas trevas não sabe para onde vai. Enquanto tendes luz, crede na luz, para 
vos tornardes filhos da luz”, no rolo de “Regras da Comunidade” na coluna 3 linha 19 a 25, lê-se que 
“Na morada da Luz... Nas mãos do Príncipe das Luzes está a dominação de todos os Filhos da Justiça 
— eles caminham nas vias da Luz - e nas mãos do Anjo das Trevas está a dominação dos Filhos da 
Perversidade - e eles caminham nas vias das Trevas. E é por causa do Anjo das Trevas que se dividem 
os Filhos da Justiça... e todos os espíritos de sua parcela tentam fazer cambalar os Filhos da Luz, mas o 
Deus de Israel e o Seu Anjo de verdade ajudam todos os Filhos da Luz ”. 
Quanto a Paulo, vemos várias semelhanças entre o livro de Efésios e os rolos “Regra dos Filhos da 
Luz” e “Regras da Comunidade”. Por exemplo, em Efésios 5:5 lemos “é bom que saibais que nenhum 
fornicário ou impuro ou avarento... tem herança no reino de Cristo e de Deus”, no rolo “Regra dos 
Filhos da Luz”, coluna 3, linhas 21-22, lemos “tu purificaste o espírito perverso de grande pecado, 
para que se mantenha em vigilância com o exército dos Santos e entre em comunhão com a 
Assembléia dos Filhos do Céu”. 
Em Efésios 5:12 temos outro paralelo. Enquanto na carta de Paulo lemos “Vede, pois, 
cuidadosamente como andais: não como tolos, mas como sábios”, no rolo “Regras da Comunidade”, 
coluna 4, linhas 23-24, lemos “até o presente, os Espíritos da verdade e de perversidade lutam no 
coração do homem: eles caminham na sabedoria e na loucura”. 
Nesse sentido, pode-se dizer que os manuscritos nos alargam, e mais um vez, clareiam nosso vis ão 
ainda um pouco embaçada do início do cristianismo e sua teologia. Apresentados como um dado novo 
e original, os manuscritos do Mar Morto, estão avalizando ou sugerindo um cristianização das idéias 
qumramitas, sem, todavia, sugerir que este tenha derivado da seita de Qumrã. 
Importante em todas as área do estudo bíblico, os manuscritos do Mar Morto tem feito uma 
verdadeira revolução nos conceitos e idéias pré-estabelecidas sobre um período de cerca de 2.000 
atrás, onde emergiram o cristianismo e o judaísmo rabino, como poderemos ver a seguir.
128 
Ajuda na Compreensão do Panorama 
do Judaíco do Séc. I 
Entre outras coisas foi partir deles que se passou a ter uma nova concep ção da mentalidade 
intertestamental, bem como do seu modo de viver e fé. Por outro lado, se teve de rever conceitos, 
como por exemplo o que se apregoava a respeito da língua falada nesse período. Segundo foi apurado 
nos manuscritos, três quartos dos textos, foram compostos em hebraico, desmentindo a id éia de que 
o aramaico tivesse superado o hebraico e ocupado o lugar de l íngua principal dos judeus da Palestina 
no século I a. D. 
Outra coisa relevante dos manuscritos para o judaísmo é através do rolo de Levítico e de outros 
fragmentos bíblicos e parabíblicos foi constatado que, sendo eles redigidos em escrita paleo -hebraica, 
no século II a.C., havia judeus palestinos que continuavam a usar a escrita hebraica original em textos 
do Pentateuco. E mais, esses rolos e outros fragmentos b íblicos encontrados nas cavernas, mostram 
que, na época em que os manuscritos foram escondidos, ainda não existia uma versão única e 
canonizada das escrituras, mas sim versões diferentes dos mesmos textos que circulavam entre os 
palestinos. 
Ajuda na Compreensão do Panorama 
do Novo Testamento 
Apesar de todas essas revelações do manuscritos do Mar Morto a cerca do judaísmo serem 
surpreendentes, é a relação dos documentos com o Cristianismo e o Novo Testamento que mais se 
ocupam a atenção do estudiosos. Afinal, várias idéias e práticas descritas nos rolos encontram eco nas 
idéias e práticas atribuídas aos primeiros cristãos. 
Uma das mais importantes dessas semelhanças diz respeito à refeição sagrada. Refeições comunais são 
descritas em detalhes em passagens de dois rolos, o “Manual da Disciplina” e a “Regra Messiânica”, 
onde, antes de comer, um sacerdote oficiante deveria das gra ças pelo pão e pelo vinho. No Novo 
Testamento uma cena semelhante a essa é narrada pelos primeiros cristãos: antes da sua crucificação, 
Jesus tomou o pão e o vinho da ceia pascal, os abençoa e distribui aos seus discípulos para que o 
comam (II Co 11:23-26). 
Outra afinidade entre os manuscritos e o cristianismo é o batismo. Para os cristãos primitivos, o 
batismo é um sinal de entrada na fé, talvez até um pré-requisito, aparecendo no Novo Testamento 
como algo quase imprescindível para a salvação (“Quem crêr e for batizado será salvo”). Em alguns 
rolos, principalmente no “Manual de Disciplina” existe menção do batismo, no qual é dito que 
penitentes teriam se negado a entrar nas águas. Somando-se a isso tem-se as cisternas de água achadas 
em Khirbet Qumrã. 
Somando-se ao batismo, tem-se a passagem do livro de Atos 2:44-45, que diz que os primeiros 
cristãos viviam juntos “(...) e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens, e dividiam - 
nos entre todos, segundo as necessidades de cada um”. Da mesmo forma, o “Manual de Disciplina” 
prescreve que aqueles que entrassem na comunidade deveriam ter suas riquezas colocadas num fundo 
comum para uso de todos os membros. 
Tendendo a compartilhar do mesmo cenário cultural e histórico, os manuscritos do Mar Morto e o 
Novo Testamento, demonstram preocupações idênticas, terminologias e idéias teológicas correlatas. 
Um exemplo clássico é a expressão “Filhos da Luz”, utilizada para designar o virtuoso povo de Deus,
129 
que é encontrada tanto em alguns dos rolos quanto em um dos evangelhos (Lc 16:8). Além do título 
específico “Filhos da Luz”, o dualismo luz/trevas aparece tanto em alguns dos rolos quanto em alguns 
dos livros do Novo Testamento, principalmente no evangelho e nas ep ístolas de João. Outro exemplo 
é o modo como tanto os textos do Novo Testamento e os rolos utilizam as escrituras judaicas para 
justificar suas crenças. 
Outro dado a se considerar é que tanto na maior parte dos rolos como no Novo Testamento, 
encontra-se uma crença num Deus intimamente envolvido com os assuntos humanos. Um Deus que 
pune e recompensa seu povo como Ele acha que deve. Entre Deus e a humanidade, entretanto uma 
miríades de anjos agiam como intermediários. Anjos aparecem em vários rolos; auxiliam os humanos 
na batalha, guiam suas ações e cultuam a Deus. Já no Novo Testamento, da mesma forma, os anjos 
aparecem. Em Lucas 1 e 2 os anjos tanto anunciam a vinda de Jesus como também dizem a Maria e 
José o que fazerem. Já em Apocalipse, os anjos tanto cultuam a Deus como executam as puni ções de 
Deus contra os ímpios. 
Outra semelhança a se considerar é a existente entre a doutrina dos “Dois Espíritos” encontrada tanto 
no Manual de Disciplina como em algumas passagens do Novo Testamento. De acordo com o 
“Manual de Disciplina”, as almas humanas são guiadas por dois seres espirituais ou anjos: o espírito da 
luz tenta guiar a humanidade pelos caminhos da equidade e é quem governa sobre todos os indivíduos 
justos; já os Espírito das Trevas, tenta as pessoas a agirem iniquamente e tem total dom ínios sobre os 
iníquos. No Novo Testamento, Satã aparece diversas vezes como um espírito que tenta as pessoas a 
praticar o mal, chegando a tentar inclusive a Jesus (Mt. 4:1-11). Também 1 Jo. 4:16, fala do espírito 
do anticristo que, sendo oposto ao espírito da verdade, opõe-se ao povo de Deus e tenta desviá-lo do 
bom caminho. 
Interessante também é o fato de que tanto os cristãos primitivos como os autores de alguns dos rolos 
buscarem alternativa ou substituição para o sacrifícios de sangue. Para os primeiros cristãos a 
alternativa foi o vicário sacrifício e morte de Jesus, que, diz Hebreus, foi um sacrifício por excelência 
que tornou obsoleto todos os demais. Nos rolos, essa mesma id éia aparece quando le-se no “Manual 
de Disciplina” que um indivíduo virtuoso poderia redimir os pecados do outro através do seu próprio 
sofrimento. Percebe-se que tanto o “Manual de Disciplina” como o “Novo Testamento” beberam da 
imagem do “servo sofredor” de Isaías 52 e 53. 
Encerrando, podemos citar o rolo encontrado na Caverna 4 e batizado de “O Messias Perfurado”, 
onde uma figura misseânica, geralmente identificada como o “Príncipe da Congregação”, aparece 
agindo como salvador. Seu papel era liderar as tropas de Israel na batalha contra as nações e recuperar 
a glória nacional de Israel. Um papel mais ou menos semelhante é atribuído a Jesus no Novo 
Testamento - em sua segunda vinda ele viria com os exércitos do céu para executar a vingança contra 
os inimigos do povo de Deus (Mateus 24, Apoc. 9). 
Todos esses paralelos existentes entre os manuscritos do Mar Morto e o Novo Testamento servem, 
entretanto, para demonstrar um ponto importante: eles atestam inequivocamente que diversas 
tradições cristãs registradas no Novo Testamento estavam “em casa” no universo do judaísmo antigo. 
E mais, mostram-se impregnados pelo rico legado literário de uma era de crise do povo judaico. Uma 
era que ocasionou e marcou os estágios iniciais do cristianismo.
130 
NA PRESENÇA DE DEUS 
Professor Diego Roberto 
Uma das passagens bíblicas do Antigo Testamento que sempre me fascinou est á registrada em 1 
Crônicas 17*. Um dos motivos dessa minha fascinação, que não deixa de vir acompanhada de um 
profundo sentido de reverência, será apresentado no decurso deste artigo. 
O texto de Crônicas trata da aliança do Senhor com Davi e da oração de ações de graça que este fez. 
Você poderá lê-lo na íntegra agora mesmo, para uma melhor compreensão daquilo que pretendemos 
abordar logo em seguida. 
Sucedeu que, habitando Davi em sua própria casa, disse ao profeta Natã: Eis que moro em casa de cedros, mas a 
arca da aliança do Senhor se acha numa tenda. Então Natã disse a Davi: Faze tudo quanto está no teu coração; 
porque Deus é contigo. Porém naquela mesma noite, veio a palavra do Senhor a Natã, dizendo: Vai, e dize a meu 
servo Davi: Assim diz o Senhor: Tu não edificarás casa para a minha habitação; porque em casa alguma habitei, 
desde o dia que fiz subir a Israel até ao dia de hoje; mas tenho andado de tenda em tenda, de tabern áculo em 
tabernáculo. Em todo lugar em que andei com todo o Israel, falei acaso alguma palavra com algum dos seus ju ízes, 
a quem mandei apascentar o meu povo, dizendo: Por que não me edificais uma casa de cedro? Agora, pois, assim 
dirás ao meu servo Davi: Assim diz o Senhor dos Exércitos: Tomei-te da malhada, e detrás das ovelhas, para que 
fosses príncipe sobre o meu povo Israel. Eu fui contigo, por onde quer que andaste, eliminei os teus inimigos de 
diante de ti, e fiz grande o teu nome, como só os grandes têm na terra. Preparei lugar para o meu povo Israel, e o 
plantarei, para que habite no seu lugar, e não mais seja perturbado, e jamais os filhos da perversidade o oprimam, 
como dantes; desde o dia em que mandei houvesse juízes sobre o meu povo Israel; porém abati a todos os teu 
inimigos; também te fiz saber que o Senhor te edificaria uma casa. Há de ser que, quando teus dias se cumprirem, 
e tiveres de ir para junto de teus pais, então farei levantar depois de ti o teu descendente, que ser á dos teus filhos, e 
estabelecerei o seu reino. Esse me edificará casa; e eu estabelecerei o seu trono para sempre. Eu lhe serei por pai, e 
ele me será por filho; a minha misericórdia não apartarei dele, como a retirei daquele, que foi antes de ti. Mas o 
confirmarei na minha casa e no meu reino para sempre, e o seu trono será estabelecido para sempre. Segundo todas 
estas palavras, e conforme a toda esta visão, assim falou Natã a Davi. 
Então entrou o rei Davi na casa do Senhor, ficou perante ele, e disse: Quem sou eu, Senhor Deus, e qual é a minha 
casa, para que me tenhas trazido até aqui? Foi isso ainda pouco aos teus olhos, ó Deus, de maneira que também 
falaste a respeito da casa de teu servo para tempos distantes; e me trataste como se eu fosse homem ilustre, ó Senhor 
Deus. Que mais ainda te poderá dizer Davi, acerca das honras feitas a teu servo? pois tu conhec es bem a teu servo. 
Ó Senhor, por amor de teu servo, e segundo o teu coração, fizeste toda esta grandeza, para tornar notórias todas 
estas grandes cousas! Senhor, ninguém a semelhante a ti, e não há outro Deus além de ti, segundo tudo o que nós 
mesmos temos ouvido. Quem há como o teu povo Israel, gente única na terra, a quem tu, ó Deus, foste resgatar 
para ser teu povo, e fazer a ti mesmo um nome, com estas grandes e tremendas cousas, desterrando as na ções de 
diante do teu povo, que remiste do Egito? Estabeleceste a teu povo Israel por teu povo para sempre, e tu, ó Senhor, 
te fizeste o seu Deus. Agora, pois, ó Senhor, a palavra que disseste acerca de teu servo e acerca da sua casa, seja 
estabelecida para sempre; e faze como falaste. Estabeleça-se, e seja para sempre engrandecido o teu nome, e diga-se: 
O Senhor dos Exércitos é o Deus de Israel; e a casa de Davi teu servo será estabelecida diante de ti. Pois tu, 
Deus meu, fizeste ao teu servo a revelação de que lhe edificarias casa. Por isso o teu servo se animou para fazer-te 
esta oração. Agora, pois, ó Senhor, tu mesmo és Deus, e prometeste a teu servo este bem. Sê, pois, agora servido de 
abençoar a casa de teu servo, a fim de permanecer para sempre diante de ti, pois tu, ó Senhor, a abençoaste, e 
abençoada será para sempre.
131 
Depois de receber um balde de água fria em suas boas e louváveis intenções, Davi é alentado 
novamente com a excelente notícia de que o seu reino seria estabelecido para sempre. Imediatamente 
ele esquece a tristeza e começa a louvar a Deus numa oração de ações de graça. Desta belíssima oração 
queremos destacar um dos pontos cruciais da mesma, que é a primeira parte do versículo que diz: 
"Então entrou o rei Davi na casa do Senhor, ficou perante ele, e disse..." (1 º Cr 17.16). 
Observe a expressão: "ficou perante ele". Ela é tão fundamental e imprescindível no relato bíblico 
que eu me atrevo a dizer que a oração, a adoração, o louvor, ou qualquer atitude cristã que possa ser 
definida como digna do agrado de Deus não subsiste quando não se compreende o que realmente 
significa estar na presença de Deus. Antes de começar a abrir a boca para falar, Davi se colocou na 
presença do Senhor. 
Defendo a tese de que estar na presença de Deus, com toda a implicação que ela significa, é tão 
importante quanto a oração em si ou qualquer ato cúltico propriamente dito. 
A expressão hebraica hfwoh:y y^en:pIl (perante o Senhor) que aparece apenas uma única vez na 
oração de Davi, ocorre muitas vezes no Antigo Testamento. Somente no livro de Lev ítico a 
expressão, com seus sinônimos correlatos, aparece cerca de sessenta vezes. Sua única ocorrência na 
oração de Davi é suficiente para determinar todo o conteúdo da oração do salmista. 
Antes de tratarmos acerca do que significa estar diante do Senhor, é importante tentarmos 
compreender primeiramente em que consiste a presença de Deus. 
A PRESENÇA DE DEUS 
Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento há pelo menos três sentidos básicos e essenciais onde os 
substantivos hebraico {yinfP e grego pro/swpon (rosto, face, semblante) e as preposições y^en:pIl e 
e)nw/pion (perante, diante de, em face de) são, respectivamente, utilizados para indicar a presença 
de Deus na Bíblia. Em primeiro lugar, temos a presença geral e inescapável de Deus, como aquela que 
é descrita no Salmo 139.7-12: Para onde me ausentarei do teu Espírito? para onde fugirei da tua face? Se subo 
aos céus lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e 
me detenho nos confins dos mares: ainda lá me haverá de guiar a tua mão e a tua destra me susterá. Se eu digo: As 
trevas, com efeito, me encobrirão, e a luz ao redor de mim se fará noite, até as próprias trevas não te serão escuras: 
as trevas e a luz são a mesma cousa. 
Um segundo sentido é o que podemos chamar de presença celestial de Deus. Em Eclesiastes 5.2 lemos: 
Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; 
porque Deus está nos céus, e tu, na terra; portanto, sejam poucas as tuas palavras. "C éus" aqui é o lugar da 
habitação de Deus, às vezes denominado "alturas", "alturas dos céus" ou "céus dos céus" (Sl 113.5; Jó 
22.12; 1 Rs 8.27). É, de certa forma, o lugar onde habita a glória de Deus. Digo "de certa forma" 
porque o termo "alturas", por exemplo, não é designativo de lugar, pois Deus habita a eternidade, 
mas é significativo daquilo que está além do que está criado, pois Deus já estava lá antes que houvesse 
céus e terra. Os anjos de Deus estão diante de sua presença celestial (Mt 18.10; Lc 1.19). Os ímpios, 
por sua vez, serão banidos por toda a eternidade da presença abençoadora de Deus (2 Ts 1.9), visto 
que diante do Senhor não pode haver nenhuma jactância de justiça própria (1 Co 1.29). Mas os 
crentes serão apresentados imaculados perante o Senhor pela obra que Cristo realizou em favor deles 
(Jd 24), para desfrutarem, como queria o salmista, da plenitude de alegria na presen ça de Deus (Sl 
16.11).
132 
O terceiro sentido da presença de Deus refere-se àquela presença especial do Senhor com o seu povo 
para abençoá-lo. A expressão maior dessa presença foi revelada no Emanuel, o Deus conosco, Jesus 
Cristo, nosso Senhor e Salvador. 
Acerca deste sentido específico da presença de Deus, Geoffrey W. Bromiley faz uma observação 
interessante. Diz ele: "Pode-se notar que a ênfase da Bíblia não recai na presença divina como uma 
imanência geral, daí a naturalidade com que se pode dizer que Jonas procurou fugir da presença de 
Deus (Jn 1.3), ou que os adoradores comparecem diante da presença de Deus (Sl 95.2)" (EHTIC, 
Vol. III, p. 179). E ainda: "Somos recebidos na presença eterna de Deus somente se tivermos 
recebido primeiramente a presença de Deus conosco na Pessoa de Jesus Cristo (Jo 1.12)". 
É a este terceiro sentido da presença de Deus (presença especial com o seu povo) que vamos nos 
referir daqui por diante. 
O CRISTÃO NA PRESENÇA DE DEUS 
Existe uma diferença marcante entre a presença de Deus propriamente dita e o estar na presença de 
Deus. Que Deus está no meio do seu povo para abençoá-lo é indiscutível. Vimos algumas passagens 
bíblicas que comprovam esta verdade. Temos hinos bíblicos, teológicos e doutrinários que dizem 
acertadamente que Deus está aqui. Isso é verdade. A presença de Deus é uma realidade que devemos 
cantar e crer de todo o nosso coração. A presença de Deus é essencial em nossa vida. Recomendo, 
para uma maior compreensão da presença especial de Deus, a leitura do excelente artigo de David 
Wilkerson The Power of the Lord’s Presence !. 
Entretanto, estar na presença de Deus é outra coisa. Eu posso afirmar com sinceridade e inteireza de 
coração que "Deus está aqui", mas isso não significa que necessariamente eu esteja na presença de 
Deus. Como pode ser isso? Talvez você esteja pensando: "Ora, se Deus está aqui, é evidente que 
estamos na presença dele". Repito: Que Deus está aqui é fato, porém, isto não significa que 
necessariamente estamos na presença dele. Imagine uma igreja congregada para orar, louvar e adorar 
a Deus. Deus está no meio dela (cf. Hb 2.12). Não temos dúvida alguma em relação a isto. Contudo, 
será que podemos afirmar do mesmo modo que a igreja também "está na presença dele"? Infelizmente 
não. 
Estar na presença de Deus significa se aproximar com a fé e a segurança de que verdadeiramente 
estamos perante o Senhor. Permita-me esclarecer este ponto com um comentário de R. A. Torrey 
sobre a oração. Torrey fez a seguinte colocação a respeito da expressão "a Deus" de Atos 12.5: 
A primeira coisa a ser notada neste versículo é a breve expressão "a Deus". A oração que tem poder é 
aquela oferecida a Deus. 
Alguns dirão porém, "Mas toda oração não é feita a Deus?" 
Não. Grande parte da chamada oração, tanto pública quanto particular, não é feita a Deus. Para que a 
oração possa ser realmente dirigida a Deus, é preciso primeiro uma aproximação definida e consciente de 
Deus quando oramos; devemos ter uma compreensão definida e nítida de que Deus está se inclinando e 
ouvindo quando oramos. Nossa mente está ocupada com a idéia daquilo que precisamos e não com o Pai 
poderoso e cheio de amor a quem pedimos. Freqüentemente não estamos ocupados nem com a necessidade
nem com Aquele a quem estamos orando, mas nossos pensamentos estão vagando aqui e ali, pelo mundo 
afora. (Como Orar, pp. 20,21). 
133 
Quem de nós nunca cometeu os pecados descritos por Torrey, da desconcentração e do esquecimento 
de Deus na oração? E por que vez ou outra acontece assim conosco? Exatamente porque 
freqüentemente perdemos a perspectiva da presença de Deus antes de orarmos. 
Antes de orar é preciso fazer como o salmista, se colocar diante do Senhor. Antes de orar é preciso 
estar no espírito dessa presença, e se aproximar de Deus com fé e convicção. Quando nos colocamos 
na presença de Deus, e nos encontramos face a face com Ele no lugar em que oramos, nossa ora ção 
não se perde no ar e nem falamos coisa com coisa. Se queremos orar corretamente, precisamos, antes 
de tudo, conseguir uma audiência com Deus. É preciso entrar em Sua presença. 
Agora, o mesmo princípio da oração deve ser aplicável ao louvor e adoração do crente e em sua vida 
diária com Deus. Lembremos que Jesus ensinou que os verdadeiros adoradores são aqueles que o Pai 
procura para adorá-lo em espírito e em verdade (Jo 4.23). Isto significa que Deus deseja que os seus 
adoradores estejam verdadeiramente em sua presença. E o autor aos Hebreus descreve nossa 
responsabilidade neste particular do seguinte modo: Tendo,pois irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos 
Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo v éu, isto é, pela sua carne, e 
tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o 
coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura. Guardemos firme a confissão da esperança, 
sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel. Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao 
amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e 
tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima (Hb 10.19-25). A Bíblia Almeida Revista e Atualizada dá a 
esta passagem o sugestivo título: O privilégio de acesso dos crentes à presença de Deus. 
Dentre tantas coisas boas que o autor aos Hebreus nos fala, fica evidente que para uma aproxima ção 
correta de Deus é preciso a sinceridade de um coração humilde e agradecido diante do Senhor, além 
da pureza de espírito e fé. "De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que 
se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam" (Hb 11.6). 
Viver na presença de Deus dia-a-dia deve ser o ideal cristão. O próprio Deus havia ordenado a 
Abraão: "Anda na minha presença e sê perfeito". E acerca de Enoque é dito: "Andou Enoque com Deus e 
já não era, porque Deus o tomou para si" (Gn 5.24). 
Meu irmão, minha irmã, prepare-se para estar diante de Deus. Certifique-se, antes de sua oração ou 
de qualquer ato de adoração a Deus, se você realmente está na presença do Senhor . Não ouse orar ou 
cantar louvares a Deus se ainda não estiver certo de estar na presença desse Deus que está sempre com 
você. 
Estar na presença do Senhor é muito mais que uma convicção gerada por nossos falíveis sentimentos. 
É a certeza da fé que toca o coração de Deus. 
(*)O mesmo relato também aparece, 
com pouquíssimas variações, em 2Samuel 7.
134 
"... O ANO ACEITÁVEL DO SENHOR" 
Professor Diego Roberto 
Então, pelo poder do Espirito, voltou Jesus para a Galiléia, e sua fama correu por todas as regiões 
circunvizinhas. Ele ensinava nas suas sinagogas, e por todos era louvado. Chegando a Nazaré, onde 
fora criado, entrou, num dia de sábado, na sinagoga, segundo os eu costume, e levantou-se para ler. 
Foi-lhe dado o livro do profeta Isaías. Ao abrir o livro, achou o lugar onde estava escrito: O Espirito 
do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar aos pobres. Enviou-me para apregoar 
liberdade aos cativos, dar vistas aos cegos, por em liberdade os oprimidos, e anunciar o ano aceit ável 
do Senhor. Fechando o livro, devolveu-o ao assistente, e assentou-se. Os olhos de todos na sinagoga 
estavam fitos nele. Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos." 
(Lc 4.14-21). 
Começa no versículo quatorze uma das extraordinárias narrativas de todo o evangelho. Jesus está no 
culto da sinagoga, onde lê Isaías 61.1,2 (acrescido de 58.6). Com essa narrativa, única nos 
Evangelhos, enquanto Mateus e Marcos dizem que Jesus anuncia o reino, Lucas mostra que o reino é a 
Sua realidade, é o Messias, o Cristo, o Ungido de Deus. 
UMA ANÁLISE BREVE 
Diferentes critérios podem ser utilizados passar estudar este trecho. Pode acontecer que algu ém tenha 
uma veia literária, e através dela veja apenas o aspecto poético de Isaías 61. Observe-se o 
paralelismo entre os termos apresentados, entre os versos, por exemplo: 
"Porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres", e "Restauração de vista aos cegos". 
Porque, praticamente, é a mesma coisa que está sendo dita. Quando diz: 
"enviou-me para proclamar libertação aos cativos", isso é paralelo a "para por em liberdade os oprimidos". 
É a mesma idéia, portanto. E todo esse paralelismo, encontra o seu ponto culminante na expressão 
final: "para proclamar o ano aceitável do Senhor", que é o objeto da nossa reflexão. 
Pode ser que alguém deixe de lado o aspecto literário, mas queira destacar o apelo político do que 
Jesus afirmou, o que, aliás, tem sido bastante explorado. Busca-se ver o lado político de expressões 
tão fortes como, "anunciar boas novas aos pobres", "libertação aos cativos", "restauração de vista aos cegos", 
"por em liberdade os oprimidos". O apelo político é muito do agrado dos radicais de plantão. 
Desejamos, porém, ver a extraordinária lição de apostolado que se encontra no que Jesus Cristo 
disse, aplicando a Si mesmo. Enfocamos o embasamento de um ministério que é repassado à Igreja de 
Jesus Cristo. Queremos analisar a missão quer nos foi entregue pelo Senhor, porque vejo que tudo 
começa com a unção, visto que nenhum empreendimento em nome de Jesus Cristo subsiste sem a 
unção do Espírito Santo; nenhuma empresa em nome do evangelho, nenhuma campanha, nada, 
movimento algum pode subsistir em nome de Jesus Cristo se não tiver a unção do Espirito Santo 
sobre si. Por essa razão, Jesus leu: "O Espirito do Senhor está sobre mim", e daí em diante Ele explica para 
quê.
Pedro num culto de proclamação do evangelho, na casa de um militar, um oficial do exército romano, 
refere-se ao ministério de Jesus Cristo, e afirma: "Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo 
e com poder, o qual andou fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele." (At 
10:38), o que vai nos conduzir às expressões que definem a plataforma que vai ser seguida por Jesus 
Cristo, o Seu programa. 
"O Espirito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar aos pobres. Enviou-me para apregoar 
liberdade aos cativos, dar vista aos cegos, por em liberdade os oprimidos." (Lc 4.18). 
135 
PROFUNDA CARGA EMOCIONAL 
"Pobres". falar de pobreza é uma carga emocional fortíssima. O jornal A Tarde (de Salvador) vem 
falando sobre a fome e a desnutrição no estado da Bahia. Falar de pobreza traz para nós sentimentos 
tremendamente emocionais; 
"Cativos". Falar de prisão é a mesma coisa. É pesado, é triste, traz mágoa. 
"Opressão". Há opressão demoníaca neste mundo. O crente é oprimido, mas não possuído. 
Jesus fala de cegueira, e lê essas palavras em Isaías 61, capítulo considerado como o cerne da 
mensagem desse profeta. Jesus se identifica com o fato profético descrito, e demonstra ser Ele mesmo 
as boas novas; o profeta escatológico, o proclamador do evangelho; demonstra ser Aquele que traz 
libertação para os oprimidos, função eminentemente messiânica. 
Para os pobres, para os cativos, para os cegos, e para os oprimidos que s ão, não apenas os 
desafortunados deste mundo, mas todos os que têm necessidade especial de dependência de Deus (Lc 
1.53; 6.20). Ou na expressão do comentarista de Lucas da Bíblia do Intérprete, 
"o cativeiro a que Jesus se refere (Lc 4.18, 19) é evidentemente moral e espiritual. O pensamento não se move no 
plano de abrir portas físicas, para que os presos saiam], mas livrar os homens da invisível, porém terrivelmente real 
prisão de suas almas". 
Na verdade essas palavras de tão forte carga emocional descrevem a falência espiritual à qual Jesus dá 
especial atenção. 
E no verso 19: "e para proclamar o ano aceitável do Senhor". Esse ano a ser proclamado é a era messiânica 
iniciada nele mesmo, na pessoa e na obra de Cristo. 
No verso 21, verificamos: "Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos". Os 
contemporâneos de Jesus não duvidavam que o reino de Deus viria algum dia. Todos criam no rei no 
de Deus. Mas Jesus está ensinando que Deus está agindo agora, naquele mesmo momento, no 
presente, na obra dEle mesmo. E, assim, Ele se torna o centro da Hist ória, e até a História, porque a 
partir dEle ela passou a ser antes de Cristo (a. C.) e depois de Cristo (d. C.). O propósito de Deus é tudo 
colocar sob a autoridade de Jesus Cristo. 
E aqui O temos Senhor da História, agora com a vinda do reino, exaltado, glorificado nos termos de 
Mateus 28, final do verso 18 que diz: "foi-me dado todo o poder no céu e na terra". E porque recebemos a
graça da libertação, podemos encontrar esta expressão do apóstolo Paulo: "Seja Paulo, seja Apolo, seja 
Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro, tudo é vosso" (1 Co 3.22), 
autoridade que nos é passada por Jesus Cristo. 
136 
AS LIÇÕES 
O ser humano vive preocupado com o seu salário, com a inflação que parece querer voltar; com os 
aumentos das passagens dos ônibus (verdade que agora mais espacejados), o avanço e engodo das 
seitas, com o desenvolvimento do país, com a paz mundial. Pois Jesus traz uma nova compreensão da 
vida humana, por isso que, plenamente de acordo com sua plataforma de ação, é o portador da obra 
redentora de Deus, e oferece Sua palavra e Suas ações como desafio à nossa própria fé. 
Muitos contemporâneos de Jesus criam que o reino de Deus era só comida e bebida (Rm 14.12), ou 
libertação política (Mt 27.39-44; Jo 6.14ss; At 1.6); ou, ainda, poder temporal (Lc 22.24-30; Mt 
20.20). Até os discípulos caíram nesse erro?! Mas Jesus diz que o reino de Deus já veio em Sua pessoa 
e dá prova disso (Mt 4.17; 11.1-6; 12.28; Lc 17.20ss). Pois a fraqueza de algumas pregações está na 
idéia de que o reino de Cristo ainda virá (pregação do premilenismo e dos posmilenismo ). Não é isso 
o que Jesus Cristo nos ensina, e permitam-me voltar a Lucas 17.20,21 : "Interrogado pelos fariseus sobre 
quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes: O reino de Deus não vem com aparência visível. Nem dirão: 
Ei-lo aqui! Ou: Ei-lo ali! Porque o reino de Deus está dentro de vós." (Mt 12.28; 3.2). É o reino 
inaugurado, apesar de que será plenamente cumprido na Parousia, na Segunda Vinda (Lc 22.18). É 
aquilo que C. H. Dodd chamou de "escatologia realizada", as coisas dos últimos dias já estão 
acontecendo e aconteceram na Pessoa de Jesus Cristo. 
Quais são as lições que tiramos desses fatos? A primeira é que Jesus Cristo é o cumprimento das 
antigas profecias. Apesar de Suas palavras fazerem nascer opiniões diferentes ou de admiração (Lc 
4.22), ou de repulsa (v. 28), Jesus cumpre as profecias! Apesar se quererem os Seus contemporâneos 
os sinais do shalom que Ele traz (v. 23), Jesus Cristo traz a salvação integral, o verdadeiro shalom, a 
paz. O apóstolo Paulo diz que "Ele é a nossa paz" (Ef 2.14). 
A segunda lição é que o reino de Deus é Jesus Cristo entre nós, é o Emanuel. Emanuel é toda 
uma expressão hebraica, que significa "Deus entre nós", "Deus no nosso meio", "Deus habitando no 
nosso meio", "Deus conosco". Não é libertação para o futuro, para os últimos dias, mas Jesus é hoje a 
boa notícia, a graça , a redenção dos homens. Jesus glorificado, Jesus Salvador, Jesus senhor, Jesus, o 
Cristo, é poder renovador sobre a terra, é salvação para a pessoa humana individual, razão porque o 
livro dos Atos dos Apóstolos repete até o fim que a verdade está em Cristo Jesus, e mostra o modelo 
da "Plataforma de Nazaré" na defesa/sermão de Paulo quando fala ao rei Agripa em Atos 26.17,18 : 
"Eu te livrarei deste povo, e dos gentios, a quem agora te envio, para lhes abrir os olhos, e das trevas 
coosn verter à luz, e do poder de Satanás a Deus, a fim de que recebam remissão dos pecados e herança entre 
aqueles que são santificados pela fé em mim". Tocado por isso, Agripa diz a Paulo, "Ora, Paulo quase 
que eu viro cristão" (v. 28 BLH), 
e esse foi o seu grande erro, perto do reino, mas sem salvação: "Quase aceito o evangelho". O erro de 
muita gente é um "quase".
A terceira lição a destacar é que a missão da Igreja é dada por Deus . "A missão de Cristo [é] padrão 
e modelo para missão de sua igreja", diz Grellert em Os Compromissos da Missão. 
"Disse-lhes Jesus de novo: Paz seja convosco! Assim como o pai me enviou, eu vos envio." (Jo 20.21). Isso quer 
dizer que para igrejas que têm como modelo a missão de Jesus, há necessidade de vidas modeladas 
pelo mesmo Jesus. E assim disse João em sua Primeira Carta: "aquele que diz que está nele, também deve 
andar como ele andou" (1 Jo 2.6). 
"Pois quem conheceu a mente do Senhor, para que o possa instruir? Mas n ós temos a mente de Cristo" (1 
Co 2.16); 
"De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, 
não teve por usurpação ser igual a Deus, mas a si mesmo se esvaziou, tomando a forma de servo, fazendo - 
se semelhante aos homens. E, achando na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até 
a morte, e morte de cruz." (Fp 2.5-8); 
"Pois os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conforme a imagem de seu filho, a fim 
de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos" (Rm 8.29). 
Assim, temos que moldar a nossa vida pela de Jesus Cristo. Então, se como nós afirmamos, Missões é 
o nosso braço para alcançar este mundo para o Senhor. Temos o fato de que o Deus vivo é um Deus 
que envia. Os povos pagãos, vizinhos de Israel, não tinham deuses que enviavam a qualquer lugar 
pessoas com uma mensagem. Mas o nosso Deus é um Deus que envia: Ele enviou Seu Filho ao 
mundo, diz a Bíblia; enviou os apóstolos; Jesus Cristo enviou os setenta; e envia a Igreja; ele mesmo 
manda o Espírito Santo à Igreja para a unção, e a nossos corações, por isso Ele nos envia, também ao 
mundo perdido. "Disse-lhes Jesus de novo: Paz seja convosco! Assim como o pai me enviou, eu vos envio." (Jo 
20.21) , "Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu vos enviei ao mundo." (Jo 17.18). 
137 
E aí vem, a quarta lição: é preciso redescobrir a importância da escatologia, que é o ponto de 
contato entre a teologia (aquilo que nós cremos), e a missão (aquilo que nós fazemos). É preciso 
centralizar tudo na escatologia, porque do ponto de vista da teologia, se n ão tivermos uma dimensão 
de futuro, o evangelho deixa de ser evangelho e se torna ética: um clube ético, e só. Se não olharmos 
para a Segunda Vinda de Cristo, teremos um grupo de idealistas que toda manh ã de domingo vem 
para cantar, orar, e pronto, idealismo apenas e nada mais. 
Agora do ponto de vista de Missões, a escatologia é a sua razão. O Povo de Deus não pode ter crise de 
identidade, pois sabe quem Deus é, e sabe que é o povo desse Deus maravilhoso, Vivo e Verdadeiro! 
É povo que sabe o que faz! E sabe para que vive, porque a identidade da igreja como povo de Deus é 
uma identidade missionária! 
Além disso, o povo de Deus não pode perder a memória. Quanta gente desmemoriada lá fora! De vez 
em quando é dito que "O Brasil está perdendo a memória, destruindo os seus monumentos, e seu 
passado". A nossa memória é o Novo Testamento, é a Escritura Sagrada! A nossa memória são as 
ações apostólicas, o que eles fizeram no passado! A nossa memória são os atos da Igreja Primitiva; 
como agia, assim queremos agora! O Povo de Deus há de estar padrões acima do mundo. Que história 
é essa de querermos nos igualar ao mundo?! E damos um exemplo: se o mundo vem à Igreja e ouve 
sua própria música aqui sendo tocada, onde está o fermento levedando a massa? Se nos colocamos no
138 
mesmo pé de igualdade, ou até abaixo, como vamos elevar os padrões do mundo? Mas Jesus, o Cristo 
de Deus, é decisivo e normativo para os assuntos de fé e prática. 
Afunilando o assunto um pouco mais, isso vai trazer mais uma lição: é a de que ninguém pode 
obedecer às ordens de "ir" ou de "servir" se não tiver amor. Porque a obra de expansão do 
reino de Deus não pode ser realizada com carência de amor. Aí Jesus perguntou a Pedro: "Simão, filho 
de João, [verdadeiramente] tu me amas?" (Jo 21.16). E Jesus perguntou tantas vezes porque Pedro nunca 
respondia "[verdadeiramente] eu te amo", mas tão somente "eu te amo, eu tenho significativa amizade por 
ti". Que significa isso hoje? Sem dúvida, temos três passos no compromisso nosso com Cristo. 
Quando Jesus nos pergunta, "Fulano, você verdadeiramente me ama?", temos um convite à 
autoconsciência. Você tem que tomar consciência de quem é diante de Deus, e deste mundo 
também. Você representa as mãos de Deus, os pés de Deus e os olhos de Deus; você é um 
instrumento de Deus, um agente do reino de Deus. A segunda coisa é que você tem um convite à 
consciência da Pessoa de Jesus Cristo que é o Senhor do nosso futuro, é o Messias de 
Deus, é o ungido do Pai, é o Filho de Deus, é o Senhor de nossas almas, é o Salvador de nossas vidas. 
Você tem, igualmente, um compromisso. Há um hino que diz, 
"Eis-me submisso pra teu serviço". 
Bonito, não é? Porém, há crentes que parecem que cantam assim: 
"Eis-me sumiço ...", 
quer dizer, "caio fora, desapareço, não quero compromisso com a Igreja de Cristo". Mas temos um convite 
ao compromisso com a Igreja de Cristo. Um convite ao compromisso é o que precisa acontecer 
conosco, nos termos de Romanos 5.8: "Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu p ôr 
nós, sendo nós ainda pecadores". Que o Senhor nos ajude nesses compromissos! 
O DEUS NÃO DESISTE DE AMAR 
Professor Diego Roberto 
(Exposição em Oséias) 
Oséias (seu nome significa "salvação"), profeta de Deus que viveu entre 741 e 701 AC.( datação fácil 
de ser verificada pela lista de reis do v.1) Oséias em seu livro denuncia claramente a corrupção, o 
orgulho e a idolatria do povo de Israel; a certeza do julgamento de Deus e finalmente a miseric órdia 
dEle diante de um povo arrependido. 
Os primeiros 3 capítulos fornecem a chave para a compreensão do livro todo, nos quais se vê a 
infidelidade de Israel para com Jeová durante o período de sua história. Nos caps. 1 a 3, a infidelidade 
de Israel e a paciência e longanimidade de Jeová são representadas pela analogia do casamento do 
profeta com uma prostituta. Gômer. 
UM CASAMENTO PERTURBADO 
Deus diz a Oséias "Vai, toma uma mulher de prostituições...."(1.2). Ao ler esta estranha ordem de 
Deus a um profeta, o leitor pode pensar que Oséias ao recebê-la saiu e foi a um lugar de prostituição 
daquela cidade, à procura de uma mulher de vida fácil para casar-se com ela. Mas não é bem assim. É 
mais natural aceitar que Deus tenha ordenado a seu profeta que se casasse uma jovem pura, linda, mas
139 
que, em seu pre-conhecimento sabia que posteriormente haveria ela de cair em imoralidade. O que 
seria um quadro nítido do atual relacionamento de Israel com Deus, pois o povo também traia Deus, 
como uma mulher trai o marido. Esta interpretação está igualmente de conformidade com a prática 
profética, pois os profetas se referem a Israel como nação pura no tempo de sua união com Jeová. 
Deus ama seu povo, e por isso permitiu uma tragédia na vida de Oséias para que compreendesse o 
profundo amor que existe no coração Divino. Como afirmou alguém; "DEUS ESCONDEU UM 
EVANGELHO NO CORAÇÀO DOS SOFRIMENTOS DE OSÉIAS". 
A história do casamento deste profeta com uma prostituta, é também a história sobre o amor de Deus 
pelo seu povo. Deus disse a Oséias que fizesse a última coisa que um profeta responsável poderia 
esperar. " Vai, toma uma prostituta por esposa". Mas esta é também a história de Deus com seu povo. 
Foi exatamente isso que Deus fez quando se associou a nós. 
Portanto, conhecer a história do amor de Oséias por Gômer, é conhecer o amor de Deus para com 
sua igreja, seu povo escolhido. Palavras não seriam suficientes para explicar a realidade do amor 
Divino pela sua igreja, e por isso Deus usa o casamento de Oséias, sua tragédia, seus sofrimentos, para 
transmitir o fato de Ele tem um profundo interesse por nós. Foi preciso uma representação da vida 
real, para Deus dizer o quanto nos ama. 
TRÊS FILHOS COM NOMES SINISTROS 
Desse casamento com Gômer, nasceram-lhe três filhos: 
1) JEZREEL - v.4- Era o nome de uma cidade famosa por sua atrocidades. Era como colocar hoje o 
nome de seu filho de "Vigário Real", ou " Aparecida do Norte " ou "Morro do Alemão". O 
julgamento de Deus estava chegando(v.5) 
2) LO-RUAMAH- V.6- Que significa "NÀO FAVORECIDA', Ou seja aquela que não recebe favor ou 
graça. O nome dessa criança é um quadro do divino desprazer com a apostasia de Israel. Deus diz 
"Porque eu não tornarei a favorecer a casa de Israel"(l-6). 
3) LO-AMMI v.9- Que significa. 'NÀO MEU-POVO'. Gômer engravida pela terceira vez e Oséias 
fica profundamente a balado. Sabia ele, que este filho não era fruto do seu casamento. Ele não era o 
pai daquela criança, mas sim fruto da deslealdade de sua mulher. 
Deus instruiu Oséias a dar-lhe o nome de "Não Meu- povo". A separação completa de Deus do seu 
povo; um Deus ,santo não poderia concordar com o "adultério"do seu povo. Ele diz "Porque vós não 
sois meu povo, nem eu serei vosso Deus"(v1.9) 
Depois do nascimento do terceiro filho, Gômer se afastou mais longe ainda de Oséias o profeta e seus 
filhos eram literalmente a mensagem de Deus àquele povo de espiritualidade superficial e que tratava 
a palavra de Deus levianamente. 
Em face de toda esta tragédia que acontece no lar de Oséias, existe ai, uma lição maravilhosa aplicada 
ao povo de Israel, e que pode ser aplicada ao povo de Deus em todos os tempos. A igreja é a noiva de 
Cristo, e assim deve proceder pura, em santificação, desviando-se da corrupção de qualquer espécie, 
preparando-se para o dia glorioso quando irão se encontrar para uma união perpétua. O amor de Deus 
para com sua igreja é triplicado aqui no amor de Oséias por Gômer.
140 
O CONTEXTO RELIGIOSO DE ISRAEL 
Oséias conhece bem a que nível se encontrava a espiritualidade daquele povo. 
1) Atribuía a Baal as dádivas que Jeová lhes dava(2.8) 
2) Havia muita religiosidade, mas pouco cristianismo(4: 15,6:6) 
Israel tinha uma religião, mas não tinha um amor leal. Oferecia abundantes sacrifícios mas não tinha 
conhecimento de Deus(4:6) 
Deus não se agrada da proclamação da salvação pela fé, se não há correspondente transparência de 
vida moral e social. O povo estava enganando a si mesmo. "As cãs se espalham sobre ele, e ele não o 
sabe"(7:9). Todo mundo percebe sua incoerência, menos ele. 
Foi a religião divorciada da prática que levou Oséias bradar o recado divino "Misericórdia quero, e 
não sacrifícios! O conhecimento de Deus, mais do que holocaustos"(6:6) 
3) Crentes apenas de fim-de-semana(8:1-3) 
Como Israel, a nossa sociedade quer uma religião acomodatícia , que não exija, nem imponha 
restrições à vida social , econômica ou sexual. Os Israelitas eram "crentes" fervorosos no sábado e 
domingo, mas nos outros dias da semana eram enganadores em seus desejos sexuais. Eram adoradores 
no domingo, mas durante a semana "salve-se quem puder". Quando se separava de Deus, o que só 
prevalecia era perjurar, matar, roubar, mentir e adulterar"(4:1-2) 
4) Vida cristã vazia de conteúdo (6:1-4) 
Havia confissões vazias e conversões ineficazes. O arrependimento de Israel era tão passageiro como a 
nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada. 
Esta era a situação degradante em que se encontrava o povo do Senhor. Tinha se desviado de Deus, 
abandonou a Javé para ir atrás de outros deuses, de outros amantes(2:5). 
O GRANDE AMOR DE DEUS (a analogia aplicada) 
O povo havia se prostituído espiritualmente, e como não poderia deixar de ser tornou-se escravo. 
Voltamos a Gômer. Naquele tempo, a prostituta corria o risco de se transformar em escrava, e foi 
exatamente o que aconteceu a Gômer. Sua situação se tornou tão aviltante que acabou sendo vendida 
em praça pública como escrava(3:1-2) 
Gômer se corrompera, se desviara se vendera e caíra num estado deplorável de humilhação. Repetidas 
vezes tinha ela traído os votos matrimoniais. Mas vemos na ordem de Deus a Oséias em 3:1, quando 
diz "vai outra vez, ama uma mulher, amada de seu amigo e adúltera" o persistente amor do Senhor 
pelo seu povo eleito. 
Amados, é por demais impressionante que Oséias tendo passado por esse trágico e humilhante 
episódio familiar, descobre que ainda ama sua esposa infiel e percebeu com isso que o amor de Deus 
era assim também. DEUS AMA TAMBÉM AS PIORES PESSOAS.
141 
Como nenhum outro escritor, Oséias consegue captar a força extraordinária do amor de Deus pela 
sua igreja. Deus não desiste de amar . Ele ama tais pessoas apesar de sua infidelidade, embora olhem 
eles para outros deuses. 
Oséias , que tanto sofreu no lar com a infidelidade de sua esposa, entendeu o cora ção de Deus quando 
descreveu o amor divino nestes termos "MEU CORAÇÀO ESTÁ COMOVIDO DENTRO DE 
MIM, AS MINHAS COMPAIXÒES A UMA SE ACENDEM"(11:8). 
O profeta conseguiu reconstruir seu lar com Gômer, quando a comprou no leilão de escravos por "15 
moedas de prata e um ômer e meio de cevada"(3:2). Que linda figura Oséias trás diante de nós. Seu 
nome que significa " salvação ", nos faz pensar na pessoa de Jesus, o nosso Salvador, que em 
demonstração de seu grande amor por nós, pagou o preço do nosso resgate da escravidão do pecado. 
O apóstolo Paulo escreve sobre isso quando diz em II Co 6:20 "Porque fostes comprados por 
preço", e Pedro diz o preço que foi pago "Sabendo que não foi mediante cousas 
corruptíveis, como prata ou outro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento 
que legaram vossos país, mas pelo precioso sangue de Cristo..." 
(1 Pe 1:18,19). 
Nós também estávamos escravizados pois João diz...'Todo aquele comete pecado, é escravo do 
pecado"(João 8:34). Semelhante a Gômer, nós também precisava- mos ser resgatados, o preço 
precisava ser pago. 
Em 'Oséias, o amor triunfou. O amor em Cristo ,triunfou também. Agora aonde se dizia de Israel 
"Vocês não são favorecidos"" passa-se a dizer "Vocês são amados, favorecidos". E onde se dizia de 
Israel que era chamado de "não -meu -povo ", passa a ser chamado de "Vocês são meu povo" porque 
eu vou perdoá-los e restaurá-los( 1:10,21). 
Deus tinha dado vitória ao lar de Oséias, em nome do amor inabalável. Gômer, teve o significado de 
seu nome de volta (perfeição) . 
Gômer estava de volta ao lar, e os filhos não levavam mais aqueles nomes feios. A família estava unida 
novamente, e tudo por causa do amor. 
O profeta do coração quebrantado chegou a aprender que o coração de Deus é também assim. Quão 
desesperadamente Deus ama os pecadores! Quão deliberadamente ele busca os pecadores! E quão 
devotadamente Ele os atrai a Si mesmo! 
DEUS NUNCA DESISTE DE AMAR, 
POIS ELE É AMOR. 
O ESPÍRITO SANTO E A SALVAÇÃO NO ANTIGO TESTAMENTO 
Professor Diego Roberto 
O Antigo Testamento é o berço de toda doutrina bíblica. E não existe nada revelado a respeito do 
Espírito Santo no Novo testamento que não tenha sido sugerido antes no Velho.
142 
Com toda a evidência se depreende do Antigo Testamento que a origem da vida depende da ação 
soberana do Espírito Santo. Retirar o Espírito significa morte! 
Como realidade presente 
O Espírito Santo atuava como vivificador no Antigo Testamento. Mas de que maneira o Esp írito 
regenerava os crentes no Antigo Testamento? Como ele aplicaria a obra redentora de Cristo se o 
próprio Cristo não tinha vindo? Será que os crentes do Antigo Testamento foram igualmente 
regenerados e salvos como os crentes do Novo Testamento? 
Um dos motivos que nos levaria a fazer tais perguntas seria, a priori, o fato de que o Antigo 
Testamento não apresenta o Espírito Santo atuando de maneira tão proeminente na salvação de 
indivíduos como o Novo Testamento. 
A palavra "regeneração" que aparece no Novo Testamento não é encontrada em nenhum livro do 
Velho Testamento. O termo grego que designa a regeneração pelo Espírito não tem nenhum 
equivalente no hebraico. Nem mesmo na Septuaginta, a versão grega pré-cristã do Antigo 
Testamento, aparece as palavras palingenesi/a ou genna/w que traduzem a idéia bíblica de 
regeneração e novo nascimento, respectivamente. O que mais se aproxima é a forma verbal e(/wj 
pa/lin ge/nwmai, que é uma tradução livre de Jó 14.4: "Morrendo o homem, porventura tornará a 
viver?". No entanto, aqui não existe nenhum pensamento do renascimento espiritual do indivíduo 
como há no Novo Testamento. O que temos no Velho Testamento são promessas claras de uma 
renovação futura (cf. Jr 31.31-33; Ez 11.29; 36.26,27). 
Mas apesar da obra regeneradora do indivíduo não ser enfatizada no AT, não significa que o Espírito 
Santo não tenha atuado salvificamente. Mesmo assim, a possibilidade de alguém ser regenerado no 
Antigo Testamento foi totalmente descartada pelo teólogo alemão Friedrich Daniel Ernest 
Schleiermacher (1768-1834). Para ele era impossível que alguém tivesse sido regenerado na antiga 
dispensação, uma vez que Cristo não se fez Verbo encarnado e Sua obra, portanto, não podia ser 
aplicada àqueles crentes. 
Evidenciada pela fé no Messias 
Não há dúvida que os crentes do Velho Testamento foram regenerados. Seria contradição de termos 
falar de "crentes não regenerados". Eles eram crentes de fato e o autor da carta aos Hebreus no 
capítulo 11 de sua epístola atesta esta veracidade. Ele não os nomearia como heróis da fé se não 
fossem regenerados e salvos. E como o Espírito Santo os regenerava e os salvava em Cristo Jesus? 
Simplesmente aplicando a obra redentora do Messias no qual eles criam (cf. J ó 19.25). A explicação 
desta aplicação no Antigo Testamento é entendida quando vamos ao Novo e lemos sobre o "Cordeiro 
que foi morto, desde a fundação do mundo" (Ap 13.8). 
Desta maravilhosa declaração aprendemos que: 
1. A expiação de Cristo é referida como algo determinado por Deus; 
2. O princípio de sacrifício e redenção por parte de Cristo é mais antigo que o mundo; 
3. Os decretos e propósitos de Deus são tão concretos e reais como o próprio acontecimento. 
Quando a Trindade vivia na solidão da eternidade, a morte de Cristo já estava declarada como 
ocorrida antes que tudo existisse.
143 
Simbolizado no sistema sacrificial 
A ausência do fato histórico da expiação de Cristo no Antigo Testamento não anula, de forma alguma, 
o seu valor para os crentes daquela época; e muito menos a aplicação da mesma pelo Espírito Santo. 
Isto é fácil de ser percebido quando vemos os santos do Antigo Testamento oferecendo sacrifícios de 
animais a Deus e sendo perdoados e salvos. Não por causa dos sacrifícios em si, "porque é impossível 
que sangue de touros e bodes remova pecado" (Hb 10.4), mas eram perdoados e salvos porque criam 
na promessa simbolizada no sistema sacrificial. 
O Novo Testamento nos dá claras indicações, e declarações explícitas, que os sacrifícios de animais no 
Velho Testamento foram símbolos do mais excelente sacrifício de Cristo (Cl 2.17; Hb 9.23,24; 10.1; 
13.11,12). 
Donald Guthrie é verdadeiro quando diz que o "sistema sacrificial do Antigo Testamento tinha validez 
somente porque prenunciava o sacrifício supremo e definitivo de Cristo" (D. Guthrie, Hebreus: 
Introdução e Comentário, p. 191). David Martin Lloyd-Jones é ainda mais preciso quando declara que 
eles "faziam essas ofertas pela fé. Criam na palavra de Deus, que Ele um dia no porvir proveria um 
sacrifício, e pela fé se mantiveram firmes nisso. Foi a fé em Cristo que os salvou..." (D. M. Lloyd- 
Jones, A Cruz: A Justificação de Deus, p. 10). 
E era somente por causa da obra regeneradora do Espírito Santo que eles podiam "olhar" para Cristo e 
exercer fé nEle, pois, no conceito bíblico, onde há fé salvadora, houve regeneração pelo Espírito. 
O MÉTODO SEGUNDO KAISER 
Teologia do Antigo Testamento 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
Uma das primeiras preocupações de Walter Kaiser é discutir se de fato existe a possibilidade de uma 
teologia do Antigo Testamento. Para analisar esta questão, o autor faz uma apresentação das posições 
adotadas por grandes teólogos do AT neste século, como Walter Eichrodt, Theology of the Old 
Testament (Londres: SCM, 1961) e Gerhard von Rad, Teologia do Antigo Testamento, 2 vols. (SP: 
ASTE, 1986). 
Eichrodt fez um ataque violento contra o historicismo. Alegava que a coerência interior do AT e do 
NT tinha sido reduzida a um tênue fio de conexão histórica e seqüencial, causal, entre os dois 
testamentos, que resultava de uma causalidade externa. 
Já von Rad não somente negava qualquer fundamento histórico genuíno para a confissão de fé de 
Israel, como também tinha mudado o objeto do estudo teológico de uma focalização sobre a palavra 
de Deus e sua obra para os conceitos religiosos do povo de Deus. O objeto e enfoque da teologia do 
Antigo Testamento tinham sido mudados da história como evento e da palavra como revelação para 
uma abordagem tipo história da religião. 
Assim, Kaiser vai mostrar que a natureza da teologia do AT não é somente uma teologia que está em 
conformidade com a Bíblia inteira, mas é aquela que se descreve e se contém na Bíblia. Essa teologia 
expressa uma vinculação real com os períodos históricos que compreendem a história de Israel, onde 
cada contexto antecedente e mais antigo se torna a base para a teologia que vem a segu ir. Dessa 
maneira, para Kaiser, na teologia do Antigo Testamento a estrutura está colocada historicamente e seu
144 
conteúdo se encontra exegeticamente controlado. Como conseqüência, a teologia do AT em Kaiser 
tem um centro e conceitualização unificadas e traduzidas nas descrições, explanações e conexões do 
texto sagrado. 
Ao procurar identificar as teologias do AT, Kaiser vai trabalhar com quatro vari áveis: 
1. A teologia estrutural, que descreve o esboço básico do pensamento e da crença do AT em unidades 
tiradas por empréstimo da teologia sistemática, da sociologia, ou de princípios selecionados, e depois 
arma seus relacionamentos com conceitos secundários. Eichrodt e Th. C. Vriezen, An Outline of Old 
Testament Theology (Newton, Mass.: Charles T. Branford Co. 1970) pode sem enquadrados na 
teologia estrutural. Para Kaiser, essa teologia não tem autonomia, existindo apenas como função 
heurística da teologia sistemática. 
2. A teologia diacrônica que expõe a crença dos sucessivos períodos e das estratificações da história de 
Israel, colocando a ênfase sobre as tradições sucessivas da fé e da experiência da comunidade religiosa. 
Von Rad é seu grande expoente. Para Kaiser, não estamos diante de uma teologia do AT, mas diante 
de uma história da religião de Israel. 
3. A teologia lexicográfica, que limita sua investigação a um grupo ou a grupos de personalidades 
bíblicas, analisando seu vocabulário teológico especial, como por exemplo, os sábios, o eloísta, o 
vocabulário sacerdotal, etc. Gerhard Kittel, editor, G. W. Bromiley, trad., Theological Dictionary of 
the New Testament, 10 vols. (Grand Rapids: Eerdmans, 1964-74); Peter F. Ellis, The Yahwist: the 
Bible's First Theologian (Notre Dame: Fides Publishers, 1968). 
4. E por fim a teologia de temas bíblicos, que leva sua busca além do vocabulário de personagens, para 
abranger uma constelação de palavras que gira ao redor de um tema chave. Aqui se coloca o próprio 
Kaiser. 
O enquadramento da teologia do AT 
Outra questão colocada por Kaiser é a que se refere ao enquadramento da teologia do AT. Deve-se 
incluir material alheio ao cânone, como apócrifos, textos da biblioteca de Qunram ou comentários do 
Talmude? Para Kaiser a utilização de material alheio ao texto debilitariam o propósito de discutir a 
feição integral da teologia dentro de uma corrente da revelação. Toma como exemplo a pregação de 
Jesus que, considera Kaiser, trabalhou apenas com os textos enquadrados no cânone judaico. 
Assim, para Kaiser, a teologia deve ser bíblica e não precisa repetir cada detalhe do cânone para ser 
autêntica e exata. O método deve sintetizar os detalhes que parecem discrepantes, a fim de termos, 
então, uma única teologia bíblica embalada sob a etiqueta de dois testamentos. 
O que move a teologia do AT? 
O texto pede para ser entendido e colocado num contexto de eventos e significados. Os estudos 
históricos colocam o exegeta em contato com os fluxo de eventos no tempo e no espa ço. As análises 
gramaticais e sintáticas identificam a coleção de idéias no período histórico sob investigação. Assim, as 
raízes históricas da mensagem em seu desenvolvimento e o julgamento das avaliações normativas do 
texto traduzem o propósito e o papel da teologia bíblica.
145 
A motivação maior é entender o texto enquanto texto colocado num contexto de significados. É 
assim, considera Kaiser, que a teologia bíblica sua grande contribuição, especial e peculiar. 
E o centro canônico, existe ou não? 
Kaiser levanta algumas perguntas: existe uma chave para uma organização metódica e progressiva de 
assuntos, temas e ensinos do Antigo Testamento? Os escritores do AT tinham consciência dessa 
organização quando acrescentavam algo a essa corrente histórica da revelação? 
E conclui que as respostas a seus questionamentos definirão o destino e a direção da teologia do AT. 
Caso seja impossível responder positivamente as duas perguntas, então, somos obrigados a falar de 
diferentes teologias do AT, no sentido de variedade ou de linhas de continuidade que acontecem 
dentro de tendências de diversidade. Mas para Kaiser isso não acontece: os escritores bíblicos 
reivindicam a posse da intencionalidade divina na sua seletividade e interpretação daquilo que foi 
registrado e nós não podemos negar essa realidade. 
Por isso Kaiser defende a realidade do centro canônico. Considera, porém, que a maioria dos teólogos 
erra ao definir um centro apriorístico, externo, e tentar enquadrar o conteúdo do AT nele. A 
metodologia deve partir de uma exegese cuidadosa, evitando todo e qualquer encaixe precipitado. 
Até a década de 70, a maioria dos teólogos considerava que a história era o veículo da revelação divina 
no AT. Aquilo que se conhecia de Deus era conhecido através da história. Outros, no entanto, 
argumentavam que a revelação verbal tinha tanto direito quanto a história de ocupar o centro do palco 
teológico. A fé de Israel, assim como a teologia bíblica, tinha de Ter como seu objeto não os atos de 
Deus na história, mas aquilo que o povo confessava, não importa a veracidade primeira dos 
acontecimentos. A essa afirmação, um teólogo católico, Roland de Vaux, Historia antigua de Israel, 2 
vols. (Madri, Cristiandad, 1975) - id., Instituciones del Antiguo Testamento (Barcelona, Herder, 
1976) argumenta: "A interpretação da história dada é verdadeira e tem origem em Deus ou não é 
digna da fé de Israel e da nossa". 
O mais importante, para Kaiser, é a conexão entre a reivindicação divina - o ter anunciado muito 
antes de ter acontecido o curso dos eventos - e o fato de que isso estava de acordo com seu plano e 
propósito. E os escritores bíblicos tinham a palavra divina e o juramento divino de promessa. 
Esse é o centro canônico que Kaiser vai devolver em sua obra, depois de uma ampla e bem defendida 
exposição metodológica. Trabalhando a partir dessa metodologia, Kaiser constrói sua teologia bíblica, 
organizando o cânone a partir das promessas de Deus ou daquelas passagens onde considera que Deus 
acrescentou seu compromisso ou juramento. 
O SEGUNDO MANDAMENTO 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
Há um certo descompasso entre os Dez Mandamentos transcritos na Bíblia Sagrada e os relacionados 
no Catecismo da Igreja Católica (C.I.C.), 9a edição, Editora Vozes, 1998. Tal desencontro poderá 
gerar dúvidas e estranheza não só entre os católicos, mas também entre os novos evangélicos 
provindos daquela denominação. Para que a verdade prevaleça, elaborei o presente trabalho que
146 
poderá ser enriquecido com as observações dos leitores. O Decálogo no C.I.C. está assim redigido 
(páginas 548-650, itens 2083-2550): 
Primeiro Mandamento - “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fez sair da terra do Egito, da casa da 
escravidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida de nada que se 
assemelhe ao que existe lá em cima, nos céus, ou embaixo, na terra, ou nas águas que estão debaixo 
da terra. Não te prostrarás diante desses deuses e não os servirás (Ex 20.2-5)” (o grifo é meu). 
Segundo Mandamento - “Não pronunciarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão (Ex 20.7)”. 
Terceiro Mandamento - “Lembra-te do dia do sábado para santificá-lo. trabalharás durante seis 
dias e farás todas as tuas obras. O sétimo dia, porém, é o sábado do Senhor, teu Deus. Não farás 
nenhum trabalho (Ex 20.8-10)”. 
Quarto Mandamento - “Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que 
o Senhor, teu Deus, te dá (Ex 20.12)”. 
Quinto Mandamento - “Não matarás (Ex 20.13)”. 
Sexto Mandamento - “Não cometerás adultério” (Êx 20.14)”. 
Sétimo Mandamento - “Não roubarás (Êx 20.15)”. 
Oitavo Mandamento - “Não apresentarás falso testemunho contra o teu próximo (Êx 20.15)”. 
Nono Mandamento - “Não cobiçarás a casa de teu próximo, não desejarás sua mulher, nem seu 
servo, nem sua serva, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma que perten ça a teu próximo 
(Êx 20.17)”. 
Décimo Mandamento - “Não cobiçarás... coisa alguma que pertença a teu próximo (Êx 20.17)”. 
Observem que o primeiro e o segundo mandamentos foram arrolados num só, e o décimo foi dividido 
em dois. Vejamos como estão na Bíblia de Estudo Pentecostal, Almeida Revista e Corrigida, edição de 
1995, o primeiro, o segundo e o décimo mandamentos: 
Primeiro Mandamento - “Não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo 20.3; Deuteronômio 
5.7). 
Segundo Mandamento - “Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que 
há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás A 
ELAS nem AS servirás”. (as maiúsculas são nossas). (Êxodo 20.4-5; Deuteronômio 5.8-9). 
Décimo Mandamento - “Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu 
próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do 
teu próximo”(Êxodo 20.17; Deuteronômio 5.21). 
Não há razão para dividirmos em dois o mandamento de Êxodo 20.17. Trata-se de um só enunciado, 
uma proibição específica de não cobiçar pessoas, animais e objetos, e está expresso num único e 
reduzido versículo. O nono e o décimo mandamentos são iguais no Catecismo por uma razão simples: 
como o primeiro e o segundo foram unificados, ficou faltando um, o décimo. A solução foi criar dois 
mandamentos iguais. O Vaticano assim explica: 
“A divisão e a numeração dos mandamentos têm variado no decorrer da história. O presente catecismo segue a 
divisão dos mandamentos estabelecida por Sto. Agostinho e que se tornou tradicional na Igreja Cat ólica. É também 
a das confissões luteranas. Os padres gregos fizeram uma divisão um tanto diferente, que se encontra nas igrejas 
ortodoxas e nas comunidades reformadas” (C.I.C. pg. 545, item 2066).
147 
Para que não haja suspeição, vejamos os mandamentos numa Bíblia “católica”, Edição Ecumênica, 
tradução do padre Antônio Pereira de Figueiredo, com notas do Mons. José Alberto L. de Castro 
Pinto: 
Primeiro Mandamento - “Não terás deuses estrangeiros diante de mim” (Êxodo 20.3). 
Segundo Mandamento – “Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma de tudo o que 
há em cima no céu, e do que há em baixo na terra, nem de coisa, que haja nas águas debaixo da terra. 
Não as adorarás, nem lhes darás culto” (O grifo é nosso). (Êxodo 20.4-5). 
Décimo Mandamento – “Não cobiçarás a casa de teu próximo: não desejarás a sua mulher, nem o 
seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que lhe 
pertencer”(Êxodo 20.17). 
A Palavra de Deus não se altera ao longo da história, e não podemos modificá-la por nenhuma razão. 
Convém esclarecer que nas Bíblias os mandamentos não estão numerados, mas pelo enunciado é 
possível sabermos qual é o primeiro, qual o segundo, e assim por diante. Mas isto é um detalhe. O 
cerne da questão está no segundo mandamento. Incorporado o segundo mandamento ao primeiro, 
fortalece-se a idéia de que as imagens proibidas estariam se referindo, somente, aos deuses antigos. 
Daí porque o verso 5, no C.I.C., reforça essa idéia: “Não te prostrarás diante desses deuses e não os 
servirás”. 
É preciso notar que o versículo 4 refere-se especificamente a IMAGENS, e não a deuses. O versículo 
5 (“não te encurvarás/inclinarás a elas nem as servirás”) encontra-se afastado do versículo 3 (“não terás 
outros deuses diante de mim”). Os “deuses”, portanto, não são a essência da proibição do verso 4 e 
começo do verso 5. Por isso, entendo que as versões que se reportam às imagens, e não aos deuses, 
(“não as adorarás, não as servirás, não lhes darás culto”) são as mais aceitas. São exemplos: Las 
Sagradas Escrituras-1569 (“No te inclinarás a ellas, ni las honrarás”); Almeida Revista e Corrigida, 
1995 (“Não te encurvarás a elas nem as servirás”); Bíblia Linguagem de Hoje (“Não se ajoelhe diante 
de ídolos, nem os adore”). A bem da verdade, convém registrar que diversas versões, quanto ao 
versículo 5, fazem referência aos deuses, e não às imagens. Deuses e imagens estão tão associados que 
a proibição de não prestar culto a um alcança naturalmente o outro. Imagens e deuses são ídolos. 
Aprouve a Deus destinar um mandamento só para referir-se às imagens, ídolos ou estátuas, objeto de 
adoração, veneração, culto, honra, homenagens. Assim, Deus descreveu quais as imagens que não 
deveriam ser objeto de culto. Deus exemplificou para não haver dúvida. As imagens dos santos 
católicos estariam incluídas nessa proibição? 
ANÁLISE DE ÊXODO 20.4 
“Não farás para ti” – Entende-se a posse do objeto quando destinado ao culto, à homenagem, à 
prece, à veneração. Deus não condena as obras de arte, escultura ou pintura de valor histórico e 
cultural. 
“Nem alguma semelhança do que há em cima nos céus” – Não encontramos diferenças 
relevantes de tradução nas versões consultadas. A proibição não alcança apenas as imagens dos deuses, 
mas diz respeito, também, ao que existe nos céus: A Trindade (Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito 
Santo), os anjos e os salvos em Cristo. Logo, estátuas de Jesus, dos santos apóstolos, de Maria, e de 
quantos, pelo nosso julgamento, estejam no céu, não devem ser objeto de culto. 
“Não te encurvarás a elas” - Deus proíbe qualquer atitude de reverência ou respeito, tais como 
inclinar respeitosamente o corpo ou ajoelhar-se diante das imagens; prostrar-se com o rosto no chão; 
tocá-las; beijá-las; levantar os braços em atitude de adoração; tirar o chapéu; ficar em pé diante delas
148 
em estado contemplativo. Enfim, Deus proíbe fazer qualquer gesto com o corpo que expresse 
admiração, contemplação, fé, devoção, homenagem, reverência. 
“Não as servirás” - Não servi-las com flores, velas, cânticos, coroas, festas, procissões, lágrimas, 
alegria, rezas, vigílias, doações, homenagens, devoção, sacrifícios, incenso. Não lhes devotar fé, 
confiança, zelo, amor, cuidados. Não alimentar expectativas de receber delas amparo, curas e 
proteção. Não colocá-las em lugar de destaque, em redoma ou em lugares altos. 
A Igreja de Roma reconhece a proibição, mas decide por não acatá-la: 
“O mandamento divino incluía a proibição de toda representação de Deus por mão do homem. O Deuteronômio 
explica: “Uma vez que nenhuma forma vistes no dia em que o Senhor vos falou no Horebe, do meio do fogo, n ão 
vos pervertais, fazendo para vós uma imagem esculpida em forma de ídolo...”(Dt 4.15-16)... No entanto, desde o 
Antigo Testamento, Deus ordenou ou permitiu a instituição de imagens que conduziriam simbolicamente à 
salvação por meio do Verbo encarnado, como são a serpente de bronze, a Arca da Aliança e os querubins. Foi 
fundamentando-se no mistério do Verbo encarnado que o sétimo Concílio ecumênico, em Nicéia (em 787), 
justificou, contra os iconoclastas, o culto dos ícones : os de Cristo, mas também os da Mãe de Deus, dos anjos e de 
todos os santos. Ao se encarnar, o Filho de Deus inaugurou uma nova “economia ”das imagens. O culto cristão das 
imagens não é contrário ao primeiro mandamento, que proíbe os ídolos. De fato, “a honra prestada a uma imagem 
se dirige ao modelo original, e quem venera uma imagem venera a pessoa que nela está pintada. A honra prestada 
às santas imagens é uma “ veneração respeitosa”, e não uma adoração, que só compete a Deus. O culto às imagens 
sagradas está fundamentado no mistério da encarnação do Verbo de Deus. Não contraria o primeiro mandamento” 
(C.I.C. pg. 560-562, itens 2129-2132, 2141). 
ANALISANDO AS EXPLICAÇÕES 
“O mandamento divino INCLUÍA a representação de toda representação de Deus por mãos do 
homem”. 
O mandamento divino incluía? Não, mandamento inclui, está vigente. A cruz não aboliu as Dez 
Palavras. As leis cerimoniais sim, foram abolidas. O Decálogo é, no varejo, o que Jesus disse no 
atacado: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu 
pensamento”, e “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22.35-40; Deuteronômio 6.5; 
10.12; 30.6; Levítico 19.18). Num coração cheio do amor de Deus e do amor a Deus não há espaço 
para a adoração de pessoas ou de coisas. Em Mateus 5.17, Jesus afirma: “Não cuideis que vim destruir 
a lei ou os profetas; não vim ab-rogar, mas cumprir” (ARC) ou: “Não pensem que eu vim acabar com 
a Lei de Moisés e os ensinamentos dos profetas. Não vim acabar com eles, mas para dar o seu sentido 
completo.” (BLH). A seguir Jesus exemplifica o novo sentido à lei: se pensar em matar, já pecou e 
descumpriu a lei; se pensar em adulterar, já pecou. 
“No entanto, Deus ordenou... a serpente de bronze, a Arca da Aliança, os querubins”... 
A Arca da Aliança e os querubins passaram. Faziam parte de cerimônias e símbolos instituídos por 
Deus, de acordo com sua infinita sabedoria e soberana vontade, para melhor conduzir o povo em sua 
fé. Agora, vindo Cristo, temos “um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não 
desta criação, nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue...” (Hebreus 9.11). 
A serpente de bronze - símbolo tão zelosamente defendido pela Igreja de Roma – foi um remédio 
específico para um mal específico numa situação especial (Números 21.7-9). Agora, já não precisamos
de figuras para nossos males físicos e espirituais. Como disse João Ferreira de Almeida, “o poder 
vivificante da serpente de metal prefigura a morte sacrificial de Jesus Cristo, levantado que foi na cruz 
para dar vida a todos que para Ele olharem com fé”. O próprio Jesus assim se manifestou: “E, como 
Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que 
todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.14-15). Deus não recomendou 
o culto, a homenagem ou a veneração à serpente. Por isso, o rei Ezequias, temente e reto aos olhos do 
Senhor, destruiu-a ao perceber que o povo lhe prestava culto (2 Reis 18.4). Ademais, não se vê em 
Atos dos Apóstolos qualquer indício de uso de figuras, ícones ou imagens destinados a facilitar a 
compreensão e conduzir os fiéis à salvação. 
149 
“... o sétimo Concílio ecumênico, em Nicéia (em 787), justificou... o culto dos ícones : os de 
Cristo, mas também os da Mãe de Deus, dos anjos e de todos os santos. O culto cristão das imagens 
não é contrário ao primeiro mandamento, que proíbe os ídolos. De fato, “a honra prestada a uma 
imagem se dirige ao modelo original, e quem venera uma imagem venera a pessoa que nela est á 
pintada. A honra prestada às santas imagens é uma “ veneração respeitosa”, e não uma adoração, que 
só Não contraria o primeiro mandamento”. 
Ora, se o mandamento proíbe o culto aos ídolos, então o culto aos ídolos é proibido. Desculpem-me 
os leitores pelo óbvio. Portanto, o culto às imagens contraria o mandamento. Se contraria, é pecado 
cultuá-las. O Concílio de Nicéia justificou, mas são justificativas de homens. A Palavra é o padrão. A 
tradição deverá ajustar-se à Palavra. A honra ao modelo original via imagem parte de uma premissa 
falsa, porque as imagens não são em sua grande maioria cópias fiéis dos originais, exemplos de Jesus, 
Maria, José e dos santos apóstolos. Seus traços físicos não foram revelados nem por fotografias nem 
por pinturas. Jeremias foi direto: “Suas imagens são mentira” (Jr 10.14). 
“A honra prestada às santas imagens é uma “ veneração respeitosa”, e não uma adoração, que só 
compete a Deus”. 
Venerar: “Tributar grande respeito a; render culto a, reverenciar”; Culto: “Adoração ou homenagem 
à divindade em qualquer de suas formas, e em qualquer religião”. Adorar: “Render culto a 
(divindade); reverenciar, venerar, idolatrar” (Dicionário Aurélio). Como se vê, é muito tênue a linha 
entre honrar, venerar, adorar e prestar culto. Diria que não existe essa linha. Vejamos o que Deus 
afirma: “Eu sou o Senhor. Este é o meu nome. A minha glória a outrem não a darei, nem a minha 
honra às imagens de escultura” (Isaías 42.8). Na Bíblia Linguagem de Hoje: Eu sou o Deus Eterno: 
este é o meu nome, e não permito que as imagens recebam o louvor que somente eu mereço.” Na 
Bíblia ecumênica, católica: “Eu sou o Senhor, este é o meu nome: eu não darei a outrem a minha 
glória, nem consentirei que se tribute aos ídolos o louvor que só a mim pertence”. 
OUTRAS REFERÊNCIAS 
“Não fareis para vós ídolos, nem para vós levantareis imagem de escultura nem estátua, nem poreis 
figura de pedra na vossa terra para inclinar-vos diante dela. Eu sou o Senhor vosso Deus” (Levítico 
26.1). 
“No dia em que o Senhor vosso Deus falou convosco em Horebe, do meio do fogo, n ão vistes 
figura nenhuma. Portanto, guardai com diligência as vossas almas, para que não vos corrompais, 
fazendo um ídolo, UMA IMAGEM DE QUALQUER TIPO, FIGURA DE HOMEM OU DE 
MULHER...” (Deuteronômio 4.15-16). O destaque é meu.
150 
“As imagens de escultura de seus deuses queimarás no fogo. Não cobiçarás a prata nem o ouro que 
haja nelas, nem os tomarás para ti, para que não sejas iludido, pois É ABOMINAÇÃO AO SENHOR, 
TEU DEUS” (Deuteronômio 7.25). O destaque é meu. 
“As suas imagens de fundição são vento e nada” (Isaías 41.29b) 
“Eu sou o SENHOR; este é o meu nome! A minha glória a outrem não a darei, nem o meu louvor 
às imagens de escultura” (Isaías 42.8) 
“Todo homem se embruteceu e não tem ciência; envergonha-se todo fundidor da sua imagem de 
escultura, porque sua imagem fundida é mentira, e não há espírito nela” (Jeremias 10.14). 
“Arrancarei do meio de ti as tuas imagens de escultura e as tuas estátuas; e tu não te inclinarás mais 
diante da OBRA DAS TUAS MÃOS” (Miquéias 5.13). O destaque é meu. 
“Também está cheia de ídolos a sua terra; inclinaram-se perante a OBRA DAS SUAS MÃOS, 
diante daquilo que fabricaram os seus dedos” (Isaías 2.8). O destaque é meu. 
“Nada sabem os que conduzem em procissão as suas imagens de escultura, feitas de madeira, e 
rogam a um deus que não pode salvar” (Isaías 45.20). 
“Mas o nosso Deus está nos céus e faz tudo o que lhe apraz. Os ídolos deles são prata e ouro, 
OBRA DAS MÃOS DOS HOMENS. Têm boca, mas não falam; têm olhos, mas não vêem; têm 
ouvidos, mas não ouvem; nariz têm, mas não cheiram. Têm mãos, mas não apalpam; têm pés, mas 
não andam; nem som algum sai da sua garganta. Tornem-se semelhantes a eles os que os fazem e 
todos os que neles confiam” (Salmos 115.3-8). O destaque é meu. 
“Eles trocam a verdade de Deus pela mentira e ADORAM E SERVEM O QUE DEUS CRIOU, em 
vez de adorarem e servirem o próprio Criador, que deve ser louvado para sempre. Amém” (Romanos 
1.25). O destaque é meu. Anjos e espíritos humanos são criaturas de Deus. 
CONCLUSÃO 
A proibição divina abrange: 
1. Qualquer coisa (estátua, imagem, ídolo, presépio) produzida por mãos humanas. 
2. Toda a criação de Deus (anjos, pessoas, espíritos humanos, corpos celestes, animais). 
3. Imagens de qualquer uma das três Pessoas da Trindade. 
Está, portanto, contrário ao Segundo Mandamento qualquer culto de louvor, adoração, homenagem 
ou veneração prestado às imagens representativas de pessoas falecidas, qualquer que tenha sido o grau 
de santidade por elas alcançado na vida terrena. 
O TRIUNFO DA FÉ EM TEMPOS DE CRISE 
Professor Diego Roberto
151 
Na época de Habacuque, reinava Jeoaquim. Seu reinado teve a marca da violência e da ausência de 
uma justiça verdadeira. Habacuque vê a maldade social crescendo e a justiça manipulada por parte dos 
poderosos. 
No início do seu livro ele se mostra perplexo, pois a violência se alastra e Deus parece não tomar 
nenhuma providência. O justo está sendo explorado e massacrado pelo corrupto e parece que Deus se 
mostra completamente apático, indiferente a tudo. Não é de admirar que o profeta clamasse em 
profunda angústia: "Até quando Senhor ..." (1:2). 
O profeta viu Israel cair numa condição de apostasia. A nação estava se afastando de Deus. Entregara-se 
à idolatria e outras buscas destituídas de qualquer valor. 
Que quadro triste! Pecado, imoralidade e vício dominavam o povo de Israel. A lei não era aplicada 
com equidade e honestidade. A justiça era frouxa e indolente. A ilegalidade campeava solta (1:3,4). A 
nação de Israel estava em grave decadência espiritual, moral e social. 
Realmente, era um problema e não é para estranhar que Habacuque viesse a entrar em crise. Ele não 
conseguia entender porque Deus permitia tudo aquilo. Orou a Deus a esse respeito, mas Deus parecia 
não responder. Daí a sua perplexidade: "Até quando Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás?" 
(1:2) 
A questão que Habacuque levanta e que a maioria dos cristãos enfrenta é: Onde está Deus que vê tudo 
isso e não faz nada para sanar o problema? Será que Deus não vê? Não vê toda esta brincadeira 
humilhante com a vida humana, como o direito está sendo pervertido, como o justo está sendo 
massacrado? 
Vale a pena ter fé num Deus como este? Esta é a resposta que Habacuque nos dará em seu pequeno 
livro. A Fé que triunfa. 
O SILÊNCIO DE DEUS EM MOMENTOS DE CRISE 
A primeira coisa que descobrimos quando estudamos as ações de Deus em Habacuque, é que pode 
parecer que Ele esteja estranhamente silencioso e inativo em momentos de crise. 
"Até quando Senhor". É uma tremenda ousadia fazer uma indagação desta a Deus. O profeta vê a 
violência em seus dias crescer, a justiça sendo torcida, a desonestidade ganhando espaço ... e onde está 
Deus que não intervém e nada faz para cassar todo este mal? 
Não é esta a questão que muitos levantam hoje também? Por que Deus permite que certas coisas 
aconteçam? Por que Deus permite que a enfermidade entre no lar e comece a dizimar fam ílias cristãs 
e fiéis a Deus? Por que Ele permite que a idolatria e o espiritismo cresçam espantosamente? Por que 
Ele não intervém e fira de morte todos aqueles que proferem mentiras e negam a fé? 
Sempre foi difícil entender o silêncio de Deus nos assuntos humanos. Porém, não presumamos que 
esse silêncio seja indicativo de sua apatia. Longe está Deus de ser um mero espectador desinteressado 
nos assuntos dos homens. Tudo está sob o seu olhar e todas as coisas estão debaixo de suas poderosas 
mãos. Ele não se apavora nem se precipita.
152 
Deus não está com os olhos fechados, os ouvidos tapados, as mãos encolhidas, a mente alienada, e 
com os pensamentos longe dos dramas que enfrentamos na vida. A Palavra nos orienta dizendo que 
"Deus fará justiça aos seus escolhidos, embora pareça demorado em defendê-los" (Lc 18:7). E ainda 
mais, nenhum fio de cabelo cairá de nossa cabeça alheio a sua vontade. 
O cristão vive pela fé, mesmo quando não está vendo suas orações sendo respondidas. 
RESPOSTAS INESPERADAS ÀS NOSSAS ORAÇÕES 
A segunda coisa que descobrimos é que Deus, às vezes, dá respostas inesperadas às nossas orações 
(1:5-11). Isto, mais do que qualquer outra coisa, foi o que deixou Habacuque perplexo. Por um longo 
tempo Deus parecia não responder. Então, quando responde, o que diz é mais misterioso até do que 
sua aparente falha em ouvir as orações. 
Na mente de Habacuque estava claro que Deus tinha que castigar a nação e depois enviar um grande 
avivamento. Mas quando Deus disse: "Estou respondendo a sua oração suscitando o exército Caldeu 
para marchar contra suas cidades e destruí-las", o profeta não consegue acreditar no que ouviu. Mas 
foi o que Deus lhe disse, e que realmente aconteceu. 
Deus responde a oração do profeta, mas de uma forma inesperada. Habacuque levou um susto, pois 
Deus iria suscitar os caldeus (Babilônicos) uma nação pagã para julgar o seu próprio povo. Habacuque 
queria que Deus respondesse a sua oração e Deus respondeu, mas não do jeito que ele queria. 
Todos temos a tendência de prescrever as respostas às nossas orações. Freqüentemente, oramos 
dizendo a Deus exatamente como Ele tem de fazer, como se Ele fosse um Deus que não soubesse 
como agir. Tem gente que chega quase ao absurdo de ensinar a Deus como ser Deus. 
Precisamos entender que Deus é livre. Ele faz o que quer, como e quando quiser. A Fé que triunfa é 
aquela que descansa na liberdade divina. Pela fé e pelo estudo das Escrituras, o cristão sabe que Deus 
nunca erra. Suas respostas podem parecer estranhas, podem parecer sem sentido, mas é assim que Ele 
age às vezes. 
Um exemplo clássico. Os irmãos de José o venderam como escravo (Gên. 37) e assim foi ele parar no 
Egito. Muito mais tarde, porém José e seus irmãos se encontraram e ele declara que não foram eles, 
mas Deus que o enviara para lá (Gên. 45:7). Nossa Fé não é um sentimento positivo, nem um 
amontoado de conceitos moralistas e piegas. É a firme crença num Deus que tudo encaminha para o 
ponto que Ele deseja. 
Pensamos que Deus pode se manifestar somente de uma forma. Mas a Bíblia ensina que Deus, às 
vezes, responde as nossas orações permitindo que as coisas piorem muito antes que possam melhorar. 
Ele pode, às vezes, fazer o contrário do que prescrevemos. Ele pode sim, às vezes, nos colocar à 
frente de um exército caldeu. Mas é um princípio fundamental na vida e caminhar da fé que, quando 
tratamos com Deus, devemos estar sempre preparados para o inesperado. 
Certa vez li o seguinte caso em um livro: 
Havia um membro de uma determinada Igreja que era a "pedra no sapato" de toda a comunidade. Era 
criador de casos, sempre mal-humorado, era altamente personalista e sua palavra devia ser sempre a
153 
última em todos os assuntos. Numa noite de vigília, não se sabe se querendo isentar-se de culpa ou 
transferi-la para outros, orou dizendo: "Deus, remove desta Igreja aquele que a atrapalh a". No dia 
seguinte, menos de 24 horas depois, seu corpo estava sendo velado no templo daquela Igreja. 
Orar pode ser perigoso. Queremos que Deus, realmente, responda às nossas orações ou apenas que 
Ele nos beneficie? 
DEUS USA OS ÍMPIOS COMO INSTRUMENTO 
Eis agora um terceiro aspecto surpreendente dos caminhos de Deus. Ele usa, às vezes, instrumentos 
estranhos para corrigir sua Igreja. 
Os caldeus, dentre todos os povos, são os que Deus levanta para disciplinar o seu povo. Habacuque 
não podia imaginar tal coisa. Mas aqui também está um fato evidente em toda a Bíblia: Deus usa o 
instrumento que quiser. 
No curso da história, Ele tem usado toda sorte de instrumentos estranhos e inesperados, para a 
realização de seus propósitos. Usou Pilatos, usou Herodes, usou Saul, usou uma mula. O mal não é de 
sua autoria, mas Ele, às vezes, o usa para educar e corrigir os da sua Igreja. 
Quantas vezes somos acometidos por uma enfermidade, desemprego, crise conjugal, injustiças ou 
outras tragédias da vida? 
Deus é livre para usar qualquer instrumento para disciplinar o seu povo. "O Senhor corrige o que 
ama" e "Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos" (Sl 119:71). 
O TRIUNFO DA FÉ 
"Mas o justo viverá pela sua Fé" (2:4) 
Sim, o justo, o crente em Jesus, viverá pela sua fé. E esta fé no Senhor triunfante, ressuscitado e 
glorioso, transmite à vida diária uma vitalidade vibrante. 
O cristão não se abate com o presente, embora o veja muitas vezes como sendo sombrio. 
"Ainda que a figueira não floresça, nem há fruto na vide; o produto da oliveira mente e os campos não 
produzam mantimentos; as ovelhas foram arrebatadas do aprisco e nos currais n ão há gado, todavia, 
eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação. 
(Hab. 3:17, 18). 
Este texto é uma declaração de fé em um momento de crise inigualável. Faltariam figos, uvas, 
azeitonas, os campos não produziriam os alimentos. O Rebanho seria exterminado. Os currais sem 
gado. E qual é a atitude do profeta? Desespero? Inconformismo? Não. Fé!. 
Habacuque nos ensina que a resposta à crise é a fé. Sua segurança não brota de emoções, mas de uma 
fé viva. E quem crê, não se abala. "Aqueles que confiam no Senhor são como o monte de Sião, que 
não se abala, estão firmes sempre" (Sl 125:1).
154 
"Ainda que a figueira não floresça... e nos currais não há gado, todavia, eu me alegro no Senhor". 
(Hab. 3:17 ). 
Que fé! No meio da crise, alegria. Que lição para todos os cristãos aborrecidos, murmuradores, 
emburrados com Deus e com o mundo. 
Façamos como Habacuque, manter a fé em Deus mesmo que Ele se mostre indiferente às nossas 
orações; manter a fé mesmo que suas respostas sejam inesperadas; manter a fé mesmo que Ele esteja 
usando instrumentos dolorosos para nos disciplinar e educar e ainda que venhamos a perder tudo, 
todavia, devemos nos alegrar no Senhor, pois Ele é a única riqueza que vai perdurar sempre. 
Que o Senhor da Fé nos abençoe! 
O VALE DAS SOMBRAS 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
Salmo 23 
Uma história diz que o Culto se desenvolvia, e dois homens recitaram o Salmo 23. Um deles era um 
grande e aplaudido ator, dono de um jogo de cena fora do comum, magn ífica oratória, dramaticidade 
nos gestos, leu o Salmo 23. Quando terminou de fazê-lo, o auditório, nesse culto mais informal, 
quase veio abaixo de tantos aplausos. Depois, um senhor idoso, encurvado, trêmulo, frágil, apoiado 
na sua bengala foi à frente e recitou de memória o Salmo 23. Quando terminou, não houve qualquer 
aplauso. Pelo contrário, houve um profundo silêncio no santuário; e lágrimas. Nisso, o ator, foi à 
frente e, com a voz embargada, disse: "Meus amigos, há uma enorme diferença entre nós dois, declamadores. 
Eu conheço o "Salmo do Pastor", mas, este piedoso homem, conhece o Pastor do salmo". 
O Salmo 23 foi chamado de uma das criações mais sublimes de todo os tempo, como também "a 
pérola do livro dos Salmos". Houve, igualmente, quem dissesse que é um hino de louvor à 
providência divina. Não é um Salmo longo, são apenas seis versículos, e no entanto, é, sem dúvida, o 
capítulo mais amado do Antigo Testamento, senão de toda a Bíblia. É conhecido pelas crianças. Dos 
cento e cinqüenta salmos, é aquele que 90% dos leitores sabem de cor. Qualquer criança que vai à 
Escola Bíblica o conhece. E tem sido a última leitura solicitada por muitos cristãos neste mundo 
quando em seu leito de dor já encarando a morte. 
O tema do Salmo 23 é "a segurança daquele que crê em Deus", e em cada versículo, exceto o 
primeiro, que é uma introdução, apresenta duas necessidades básicas de toda pessoa, vitais, sentidas, 
porém, de um modo mais profundo, mais reflexivo, mais intimista pelo crente em Jesus Cristo. S ão 
necessidades com promessas de absoluta satisfação, visto que "o Senhor é o meu pastor", razão porque 
nada me faltará. É um cântico de confiança apresentado em linguagem simples, de beleza literária, e 
rica dos conceitos e das lições espirituais implícitos em suas expressões. Paulo, apóstolo, escreveu na 
Carta aos Filipenses uma expressão bem dentro do mesmo conceito, quando exprimiu: "Meu Deus, 
suprirá todas as vossas necessitadas segundo as suas riquezas na glória e em Cristo Jesus". É então, esse Salmo, 
um cântico de confiança numa linguagem simples, é verdade, ímpar na beleza literária, e rico nos seus 
conceitos e nas lições espirituais. 
O PASTOR
155 
Quem é o Pastor? Façamos uma exposição versículo por versículo. O primeiro versículo diz, "O 
Senhor é o meu pastor; nada me faltará". A imagem do pastor é muito encontrada na Escritura Sagrada, 
tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Largamente utilizada foi essa palavra nos livros 
proféticos.. Os Salmos, também, têm uso abundante da imagem do pastor, e o próprio Jesus Cristo 
disse sobre si próprio, "Eu sou o bom pastor". O pastor do Salmo 23 é Jesus Cristo, sem dúvida alguma, 
e disse que daria Sua vida pelas Suas ovelhas. 
O texto diz, "nada me faltará". A verdade é que ninguém precisa estar perdido no meio da multidão 
quando o Senhor é o nosso pastor. Nós temos a segurança da Sua palavra; nós temos a segurança da 
Sua presença e do Seu poder, seja na vida secular ou na espiritual, se é que alguém pode separar do 
cristão a vida secular da espiritual. E Davi mostra que esse pastor resolve, co mpleta e definitivamente, 
o problema do enfado, do cansaço; dando novas provisões de força, bem como dá solução às 
necessidades físicas de abrigo e de alimentação. Diz o Salmo 37, "Eu fui moço, e agora sou velho; mas 
nunca vi desamparado o justo, nem a sua descendência a mendigar o pão". E melhor do que qualquer 
psicoterapeuta, psicólogo ou psicanalista; ele elimina o temor, a falta de significado na vida. E sabem o 
que mais? "Nada me faltará", diz o texto. Porque nós temos dois excelentes guarda-costas, 
especialíssimos guarda-costas nominados no final do Salmo; a Bondade e a Misericórdia que nos 
perseguirão todos os dias da nossa vida. E temos também um destino santo que é, habitar na Sua casa 
por toda a eternidade. 
O SEGREDO DA VIDA 
"Nada me faltará", porque o segredo da vida espiritual, o segredo da vida cristã é o que Ele, Cristo, faz 
em nós; o que Ele faz através de nós; e o que Ele faz e fez para nós. Então, se "nada me faltará", por 
que a ansiedade? Por que a preocupação? As palavras de Jesus Cristo nos dão tanta serenidade, porque 
Ele diz: 
"Não estejais ansiosos quanto à vossa vida pelo que haveis de comer; ou pelo que haveis de beber; nem 
quanto ao vosso corpo pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do 
que o vestuário? Olhai para as aves dos céus que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros e 
vosso Pai Celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas? Portanto, não vos inquieteis 
dizendo: O que havemos de comer; ou o que havemos de beber; ou com o que nos havemos de vestir. Mas 
buscai primeiro Seu Reino e a Sua Justiça e todas essas coisas vos serão acrescentadas". 
Então, por que se afastar do Pastor de nossas vidas e buscar outros pastos que julgamos at é mais 
verdejantes? Chegamos, assim, ao verso dois "Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas 
tranqüilas". Temos aqui duas novas promessas: a de descanso e a de paz. E Ele vos conduz dia a dia 
às fontes daquilo que nós necessitamos. Mas, vamos lembrar algo. Vamos lembrar que até chegar a 
esses verdes pastos, a ovelha precisa caminhar muito; não é sair de casa e logo se chega ao pasto, não. 
Há que andar dias e dias, quilômetros e quilômetros buscando água, sombra, pasto e proteção. 
Indefesa diante das feras e dos ladrões, a ovelha, no entanto, não está só, porque a Bíblia declara: 
"Guia-me mansamente". Há um detalhe também aqui. Estamos lendo a respeito de uma paisagem 
bucólica e romântica. Mas, a vida das ovelhas não é assim. Talvez em uma situação destas, muita gente 
quisesse ser leão, ou tigre, ou um cavalo selvagem, fogoso, ou, mesmo, um pássaro livre para voar. 
Mas, ser ovelha?! Parece que são todas iguais?! Esse Salmo nada tem de romântico. Ele fala de perigos, 
de dificuldades, de penhascos, há pesares, mas, também do Senhor que guia mansamente, e Ele não
leva a águas paradas, estagnadas, infectadas, não! Ele leva a águas serenas, calmas, a águas de repouso, 
de descanso, de satisfação. 
E caímos na segunda promessa, no verso três, "Refrigera a minha alma; guia-me nas veredas da justiça, por 
amor do seu nome". Mais duas promessas: saúde e orientação. Quem escreveu este Salmo foi Davi, o 
Rei de Israel, que fora um tremendo pecador. Todos conhecem a sua hist ória com Batseba (Betsabá). 
Diz a Bíblia que ele, cobiçara a esposa de um dos seus oficiais superiores. Urias era o seu nome. Com 
ela, adulterou, e por ela, tornou-se mandante de um assassinato. Davi viveu uma horrorosa miséria 
moral, e uma ainda mais tremenda miséria espiritual. Aliás, não podemos separar uma da outra, não. 
Mas ele se arrependeu. E quando isso aconteceu, ele expressou o seu arrependimento e o seu pedido 
de perdão no Salmo 51, dizendo: 
"Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a 
multidão das tuas misericórdias. Lava-me completamente da minha iniquidade, e purifica-me do meu 
pecado. Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim". 
156 
E foi perdoado por Deus; e foi purificado; e foi resgatado, e, agora, escreve o Salmo 23. Ao escrevê-lo, 
declara que o Senhor restaura, renova e dá refrigério. E realmente, "refrigera a minha alma" é o 
mesmo que dizer: restaura minha vida; refaz o meu ser.. Quem sabe voc ê necessita ser curado, 
igualmente, de problemas íntimos tão sérios, de pecados desconhecidos dos outros mas muito diante 
dos seus olhos, como Davi também tinha o seu pecado diante dos olhos e confessou o seu próprio 
pecado. 
Então observe esse outro, "guia-me nas veredas da justiça". Sabe qual é a nossa maior necessidade? É 
conhecer a vontade de Deus. E esse "guia-me nas veredas", é completamente diferente do verso 2 que 
diz "guia-me mansamente". Porque se nos desviarmos da Sua vontade, Ele nos traz de volta. Essa é a 
razão porque os pastores usavam, como ainda hoje os pastores bascos, um cajado que te m uma ponta 
curva como um cabo de guarda-chuva. Na outra ponta há um aguilhão de metal. Esse bastão funciona 
como três coisas: com a ponta curva, se a ovelha cair num buraco, ele a puxa para cima; mas se 
começar a se desviar do grupo (não é uma vereda? se cair para o lado vai para o despenhadeiro), ele 
toca de leve e ela volta para o lugar; com a ponta de ferro, ele espanta o lobo. A í temos a restauração 
por amor do Seu Nome. Apesar de em português ser o mesmo verbo, o primeiro é uma direção 
devagarinho, é uma direção calma, é uma direção mansa, mas, o segundo é um pouquinho diferente. 
O verbo no original da língua hebraica significa um pouco mais, significa até colocar um pouquinho 
mais de pressão para que volte a ovelha para o caminho da justiça. Não é aquele toquezinho de leve 
com o bastão, não, talvez seja colocar o bastão do lado e empurrar para refazer o caminho da justiça, 
porque, se nos desviarmos da sua vontade ele nos traz de volta. E chegamos à Palavra Santa. E a 
palavra diz assim: "Confirmados pelo Senhor são os passos do homem em cujo caminho ele se deleita, ainda que 
caia não ficará prostrado; pois o Senhor lhe segura a mão." É a restauração por amor do seu nome. 
O VALE SOMBRIO 
Vamos ao verso 4, 
"Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a 
tua vara e o teu cajado me consolam".
157 
Aqui nós temos coragem e conforto; coragem e consolação. Essa expressão: "vale da sombra da 
morte", era uma expressão coloquial para os hebreus antigos e para nós. Nos Estados Unidos há um 
deserto chamado Vale da Sombra da Morte. Quase não tem vida. Com respeito aos hebreus, todos 
tinham conhecimento de um trecho da estrada entre Jerusalém e o Mar Morto, no sul da Palestina. 
Estamos falando de três mil anos atrás, quando esse Salmo foi escrito. Era um trecho tremendamente 
perigoso, por isso, era chamado de vale da sombra, como apelido. Era o vale da sombra da morte, 
era o vale da profunda escuridão, significado também, da expressão sombra da morte, proximidade da 
morte. 
Amados, há quem não goste, não tolere. Há quem não suporte falar em morte. Talvez alguém esteja 
agora, começando a se inquietar com esse assunto. Há quem fale com muita naturalidade sobre a 
morte. E não são os donos ou gerentes das casas funerárias, não. E nem são os coveiros lá do Jardim 
da Saudade ou do Campo Santo, não. Tomas Mann, ele disse: "Sem a morte haveria muito poucos poetas 
na terra". Pois é, filósofos, cantores, musicistas se expressaram sobre esse evento, sobre esse fato na 
natureza humana e ninguém ignora ou contesta que morrer faz parte do processo da vida. 
O cristão tem tudo para ser natural diante da morte. Até comemoramos, ao lado do nascimento de 
Jesus, o Natal, a Sua morte na Ceia Memorial. Mas, a morte nos incomoda, n ão é? Por quê? Um 
irmão de nossa igreja passou por experiência desse tipo; quase nos disse adeus. Ninguém desconhece 
isso, nem ele que é médico, ele sabe da depressão pela qual passou, e um médico nos informou isso 
mesmo: cirurgia de ponte de safena traz um processo de depressão logo em seguida. Por que razão 
não gostamos de falar nesse assunto? 
Há muitas opiniões sobre a vida após a morte. Aliás, será conveniente trocar a expressão para "vida 
após a vida". Os arqueólogos têm encontrado túmulos com dois mil; dois mil e quinhentos; três mil; 
quatro mil anos. Túmulos onde havia restos de comida, bebida, armas, roupas, carruagens e até 
escravos, que foram ali colocados vivos para servir aquele nobre, aquele faraó, aquele rei no outro 
mundo. Até os primitivos falam sobre a vida após a vida. E há um resquício dessa idéia primitivíssima 
em certas correntes ditas até como ciência que acreditam que os espíritos dos falecidos vagueiam pelo 
ambiente dos vivos, interferindo até nas suas vidas. 
O fato é que há em nós, em todos nós, um tremendo instinto de sobrevivência pessoal, por uma 
básica razão: é que nós não fomos criados para a morte; e sim para viver! A morte então, é um 
acidente num tremendo incidente que se chama "a Queda". É uma expressão da teologia para mostrar 
como toda a humanidade está ligada de um modo único ao representante federal nosso que é o 
primeiro pai, Adão. E a Bíblia não esconde, e chega a dizer com muita clareza: "O salário do pecado é a 
morte", mas, completa pela misericórdia de Deus, "que o dom gratuito de Deus é a vida; a vida eterna em 
Cristo Jesus nosso Senhor". Sim, nós amamos a vida! Todos nós amamos e prezamos e valorizamos 
tremendamente a vida! Nosso Deus é o Deus da vida. Ele é chamado na Escritura de o Deus Vivo. É o 
Deus que ama a vida e por isso, ele nos sustenta nesta vida e dá-nos a eternidade para a vindoura. 
INFORMAÇÕES SOBRE A VIDA APÓS A VIDA 
São difíceis as informações sobre a vida após está vida, porque quem conhece bem o assunto não 
voltou para contar. No entanto, temos no maior best seller do mundo, a B íblia Sagrada, promessas 
gloriosíssimas sobre a vida após esta vida. Aqui estão para o nosso conforto. Por exemplo, em Mateus 
há uma palavra de Jesus que diz:
"Dirá o rei no juízo aos que estiverem a sua direita: Vinde benditos do meu pai; possui por herança o 
reino que vos está preparado desta fundação do mundo". 
158 
Que promessa extraordinária! Ou, ainda, esta outra que também vem dos lábios do Senhor, 
"Quem crê no filho tem a vida eterna; o que porém desobedece ao filho", [você está levando Jesus a 
sério?] "O que desobedece ao filho não verá a vida; mas, sobre ele permanece a ira de Deus". 
Você está levando Jesus Cristo a sério? Querem ver outra? "Eu vivo; e vós vivereis". E poderíamos 
continuar pelo resto da manhã mostrando textos e textos, promessas e promessas, profecias e mais 
profecias sobre a vida depois desta vida. 
Jesus Cristo nos trouxe uma palavra tão clara, e essa palavra tão clara diz que 
"As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço; e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna, e 
jamais perecerão e ninguém as arrebatará da minha mão". 
E ele também, ainda disse essa outra, "Que todo aquele que vê o Filho e crê nele tem a vida eterna e eu o 
ressuscitarei no último dia". Pois é, Jesus , o doador da vida eterna; Jesus, a fonte da vida; o pão da vida; 
a água da vida. 
• Mas, há que não tema a morte? Creio que sim. A Segunda Guerra Mundial trouxe ao cen ário 
bélico uns idealistas com um misto de fanatismo, e eles não temem a morte. 
• Aqueles que amarram bombas no corpo e entrando numa loja ou num mercado público de 
modo que muita gente morre com aquela pessoa, que morreu por esse ideal, eles n ão tinham 
medo de morrer, não. 
• Eram os pilotos kamicaze, eles eram jovens oficiais, pilotos japoneses que tendo transformado 
o avião transformado em uma bomba, e iam pilotando diretamente para o alvo, um porta-aviões, 
por exemplo; para que não se perdesse nenhuma dessas bombas. 
• E aqueles homens que dirigem carros bomba, são islamitas, são muçulmanos da linha xiita. 
Que também, eles não temem a morte. 
• Há aqueles que são plenamente realizados e justificados por Deus. Um excelente exemplo é o 
do patriarca Abraão. Diz a Escritura Sagrada a respeito de Abraão o seguinte, "Abraão expirou, 
morrendo em boa velhice; velho e cheio de dias e foi congregado ao seu povo". Foi o caso tamb ém de 
Simeão. Quando viu Jesus nenenzinho no templo pata sua apresentação, Simeão agradecido 
orou dizendo que agora o Senhor já podia levá-lo com as seguintes palavras, "despedes em paz o 
teu servo, pois os meus olhos já viram a tua salvação". 
• Há os que foram e voltaram. A revista Vinde trouxe há algum tempo uma reportagem sobre 
o tema da ressuscitação, tendo dado à matéria o título seguinte: Quando o céu pode esperar. Foi 
quase o título de um filme a respeito da reencarnação, doutrina intranqüila, e que não se 
encontra na Bíblia Sagrada. O jornalista falou do Pastor João de Oliveira, que em 1966, em 
Pindamonhangaba, São Paulo, foi declarado morto e voltou; Dona Luzanira Barbosa, em 
Maceió, em 1974; um médico, ou seja, um homem de ciência, o Dr. Joannis Garakis, em 
Brasília, em 1986; Dona Hortência Conceição dos Santos, em São Gonçalo, em 1990; o 
administrador de empresas Renato Liro, no Rio; e também um outro, filho da nossa igreja, a 
Igreja Batista Sião, o Dr. Samuel Figueira, por duas vezes em 1949 e em 1964. Hoje, aprouve 
a Deus levá-lo de vez depois de ele ter percebido que acontecia do outro lado.
Todos acharam e acham dificuldade em exprimir o inexprimível. Exatamente como o apóstolo Paulo 
quando 1Coríntios 2.9 disse "As coisas que olhos não viram, nem ouvidos ouviram, nem penetraram o coração 
do homem; são as que Deus preparou para os que os amam". Nesse mesmo sentido, o ap óstolo Paulo 
declarou em seguida que fora arrebatado ao Paraíso, tendo ouvido palavras inefáveis, as quais não é 
lícito ao homem referir (cf. 2Co 12.4). Mas todos têm a santa capacidade de exclamar com o apóstolo 
Paulo dizendo o seguinte, "Onde está ó morte a tua vitória, onde está ó morte o teu aguilhão; mas, graças a 
Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo". E mesmo Jó, no Antigo Testamento, também 
disse: "Eu sei que o meu Redentor vive e que por fim se levantará sobre a terra e depois de consumida esta minha 
pele, então, fora da minha carme eu verei a Deus". 
159 
Como temos passado pelo vale sombrio e frio do desânimo, da tristeza, da dor, da necessidade, da 
doença incurável, do paciente terminal da sombra da morte! No entanto, pela presença do Bom 
Pastor esse vale se torna esplendidamente iluminado e o senso de absoluta e perfeita segurança, bem 
como o senso de objetivo, de propósito, de finalidade, de destino, se apresenta com tanta definição! 
No verso 5, mais duas promessas: de proteção e de provisão. E o verso cinco diz: "Preparas uma 
mesa perante mim na presença dos meus inimigos; ungis com óleo a minha cabeça, o meu cálice trasborda". 
A primeira figura, foi a de um pastor que protege, guia, cuida e orienta a ovelha. Agora, eu temos 
uma outra imagem, a de um acampamento de beduínos, de pastores, naquelas planícies do Oriente 
Médio, armaram suas tendas, e já caindo a noite, ou mesmo no sol inclemente do meio dia, um 
viajante aparece naquele acampamento. E então, um dos beduínos, recebe o viajante, e o coloca casa, 
e não permite que um fio de cabelo de seu hóspede seja tocado. Até hoje, ainda é assim. Se alguém vai 
ao Oriente próximo, descobre que a hospitalidade é uma verdade ali entre eles. A escassa água é 
tornada disponível para a ablução, para que ele lave o rosto, para que lave as mãos, para que os pés 
sejam também lavados. O perfume vem em forma de um óleo, que aliás, é símbolo de alegria festiva 
na Bíblia, de cura. E a proteção, a imunidade contra os inimigos é garantida. Se o caso for, o 
hospedeiro chega a ponto de perder a vida para resguardar a do seu hóspede na tenda. Ele é muito 
bem recebido e é isso que diz a expressão, "Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos; 
unge com óleo a minha cabeça e meu cálice trasborda". 
Mas, quem são esses inimigos? O primeiro grande inimigo é Satanás, o inimigo das nossas almas, 
atazanando a vida do crente por todos os lados com enfermidades, impiedade alheia e com 
perturbação. São pessoas que oprimem, são os que se levantam contra Deus, é a família iníqua, são os 
injustos. 
Outro inimigo é a ansiedade, é o medo da morte, é o medo do futuro. 
Mas, sabem quem é o último inimigo nosso? É a morte. Está em 1Coríntios 15.26: "O último inimigo 
a ser destruído é a morte". Mas nós temos proteção e provisão bem definidas da parte do Senhor. 
E no verso 6, "Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei 
na casa do Senhor por longos dias". Que coisa maravilhosa, porque temos tudo o que foi dito acima e o 
céu também! Temos amor e vida! Foi dito no começo que temos dois guarda-costas especiais, a 
bondade e a misericórdia. O texto sagrado diz, "me seguirão", no original, porém, a palavra é 
"perseguir". Os inimigos perseguem, mas, a bondade e a misericórdia nos seguem bem de perto, isto 
é, somos perseguidos. É exatamente o que o autor quis colocar, nós temos bondade, tov, e temos a
misericórdia, hesed. Que lindas palavras na língua hebraica. Tov, é de onde vem o nome próprio 
Tobias, que quer dizer, "Deus é bom". E, na verdade, Davi quer falar de algo que sobrepuja toda a 
nossa compreensão. Ele quer falar da paz de Deus que excede todo o entendimento. E como n ão 
encontra palavras para falar da eternidade, ele declara: "Habitarei na casa do Senhor por longos dias". 
160 
Se Enoque e Elias foram arrebatados pelo Senhor, porque não seremos levados com alegria no rosto e 
serenidade no coração à presença do Pai quando chegar a hora da nossa morte? E Jesus não falou sobre 
isso? E não contou Ele a história do rico e do Lázaro em Lucas 16.22? 
"Aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o rico, e foi 
sepultado". 
"Levado pelos anjos", que outra promessa extraordinária na palavra de Deus... Jesus não disse nessa 
história que o mendigo foi levado pelos anjos, arrebatado pelos anjos para o s eio de Abraão? Paulo não 
menciona isso, o arrebatamento, em 1Tessalonicenses 4.17? Pois é, bondade e misericórdia, tov e hesed. 
Aliás, essa palavrinha é, até, mais que só misericórdia, porque ela é lealdade, a lealdade de Deus, é 
bondade, é salvação, é a fidelidade do Pai, é a justiça, é a verdade. E a fidelidade de Deus está aí, até 
cantamos, "Tu es fiel Senhor, meu Pai celeste". Por isso que emoções e sentimentos perturbados serão 
acalmados pelo Senhor, temor, pavor, espanto, medo, serão tranqüilizados por Deus e perdão sempre 
"e habitarei na casa do Senhor". 
Estamos falando de segurança, de segurança para a vida eterna. E Jesus disse, "Na casa de meu pai há 
muitas moradas; senão fosse assim eu vo-lo teria tido". E agora, ele assegura, "Vou prepara-vos lugar". Nós 
estamos falando de segurança eterna, de segurança verdadeira, porque nada nos arrebatará da mão de 
Jesus, porque nós somos parte da casa do Senhor, da família de Deus. 
Vou lhe dizer o que fazer, e vou fazê-lo com a palavra de Deus. Nós vamos encerrar, mas, o amigo já 
observou que houve um uso constante da primeira pessoa do singular? Porque esse é um Salmo 
pessoal, esse é um Salmo para você recitar: "O Senhor é o meu pastor". O Senhor é o seu pastor? Você 
tem certeza de que nada vai lhe faltar? 
Que é que você pode fazer para ter este Bom Pastor na sua vida? A primeira coisa é ter fé. Creia que 
só Jesus Cristo pode lhe dar soluções. Confesse a Jesus como seu Salvador. E a ênfase é no Deus que 
conhece a cada um de nós, é no Deus que conhece a você, porque você não é um anônimo diante de 
Deus. É o Deus que cuida de você, é o Deus que busca ajudá-lo e você acabou de conhecer o Salmo 
do Pastor comentado por este pastor. Mas, conhece o Pastor deste Salmo e de todo o rebanho de 
Deus? Que pode você fazer para ter este bom Pastor na sua vida? E eu vejo que Jesus coloca tudo na 
base da fé, da confiança, na fé-adesão, na fé-compromisso com ele. Você precisa, então, crer. Essa é a 
primeira coisa, fé. 
Você precisa confessar, confessar a Jesus Cristo, o passado, o seu pecado, deixá-lo para trás e 
obedecer-Lhe e andar com Ele. E este pastor extraordinário lhe oferece provisões abundantíssimas 
porque Ele faz a vida transbordar. Nós temos o Seu óleo, nós temos a Sua unção, nós temos a Sua 
bênção, a Sua revelação, as Suas visões, a visão do céu, a visão de Deus, a visão da eternidade, a visão 
do mais além, a visão da vida após esta vida. Portanto, creia, confesse, e obedeça. E eu gostaria de ler 
este poema que está na capa do boletim porque ele diz o seguinte:
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161 
O Senhor mostrou-me a vida verdadeira, 
mudou meu modo de ser, 
minha maneira de viver 
e fez-me enxergar bem clara a vida 
e na fonte do amor sua jazida 
fez-me encontrar o tesouro imperecível 
que as traças não destroem o combustível 
para a minha viagem rumo ao céu. 
Hoje, louvo ao Senhor, meu Pai, meu Deus que me disse 
que eu era um ramo de Sua vinha. 
Nesta hora a minha alma se aninha nos braços do Senhor, 
sou filha sua; e vivo em torno dele 
como a lua que vira sempre em redor do sol. 
Jesus é o meu guia, o meu farol, 
com a Sua luz ilumino, me projeto sem direção, 
eu alcanço rumo certo, 
pois, sigo o meu Jesus que é meu caminho. 
Na Sua paz, busco fazer o meu ninho, 
um dia assumirei o viver sã, 
um dia cantarei também um canto feito de paz, 
de amor, e de alegria. 
Eu quero agora, ser oferta, 
colocar-me no altar do Senhor, 
falar-me do meu imenso amor 
e abandonar-me humildemente em Suas mãos. 
Acolhei e ajudai os meus irmãos 
a seguir os passos Santos de Jesus, 
a assumir com muito amor a minha cruz 
até chegar ao alto do Calvário. 
Até que ao pé do santuário 
eu deposite a minha vida, o meu ser, 
e diga ao Pai: 
Valeu a pena o meu viver. 
Amém. 
OS LEVITAS 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
"Nesse tempo o Senhor separou a tribo de Levi para levar a arca da aliança do Senhor, para o servir, e 
para abençoar em seu nome..." (Dt 10.8) 
Levitas eram os membros da tribo de Levi, terceiro filho do patriarca Jac ó. Formavam uma tribo 
separada, sem território, sem herança terrena porque gozavam do alto privilégio de ter o Senhor
www.obeb.com.br / http://www.teologiagratisefenipe.com.br/page10.php 
162 
como seu quinhão, sua posse (Dt 10.9). Era a tribo dos sacerdotes (cohanim), descendentes de Ar ão, 
por sua vez descendente de Levi (Ex 29.44; Nm 3.10). Isso quer dizer que todo sacerdote (cohen) era 
levita levi), mas nem todo levita era sacerdote (Nm 3.6s). 
Os levitas (leviim) tinham, entre outros privilégios: 
· servir no santuário (Nm 3.6; 1Cr 15.2) ajudando nos sacrifícios (Jr 33.18,22), na recepção de 
oráculos (Nm 3.38; 2Rs 12.9ss; 
· transportar a arca da aliança (aron haberith); 
· a responsabilidade do ensino da lei (Dt 31.9; 22.10); 
· autoridade para abençoar. Grande privilégio pela associação como o Nome de Deus (Nm 6.27). 
Gozavam os levitas de alto prestígio, de elevada estima aos olhos do Senhor a ponto de lhes ser dito 
pelo Senhor, "... os levitas serão meus" (Nm 8.14b). Por esse motivo, no deserto, quando da 
apostasia do povo de Deus, os levitas puniram os apóstatas (Ex 32.25-29). 
Deuteronômio 10.8 resume o ministério levítico, e nos aponta de modo sugestivo um plano de 
trabalho para nós mesmos, levitas da Nova Aliança: levar a arca da aliança, estar diante do Senhor e 
abençoar em Seu Nome. 
LEVAR A ARCA DA ALIANÇA 
O relato do Antigo Testamento dá uma descrição da arca (Ex 25.10ss). Era uma caixa de madeira de 
acácia medindo 1,40m x 0,84 cm x 0,84 cm, coberta de ouro e com uma tampa de ouro e com um 
tampo de ouro chamado de "propiciatório", em hebraico kapporeth (Ex 25.17, 21; 26.34). 
Na arca, três objetos que eram testemunhos da relação de Deus com Seu povo: 
· As duas tábuas de pedra onde se achava "escrita a aliança de Deus com o povo" (Ex 24.12; 25.16, 
21; 40.20; Dt 10.1-5). Era lembrança do pacto de Deus com os filhos de Jacó, símbolo de direção 
permanente da parte divina; 
· O pote de maná que recordava ao povo o cuidado e o sustento que vinham da parte de Deus no 
deserto (Ex 16.14ss; Hb 9.4, 5). Era uma metáfora concreta do alimento permanente vindo de 
Deus; 
· O bastão (vara) de Arão (Nm 17.10) que floresceu como prova da sua divina indicação para ser 
Sumo-sacerdote (cf. v.8). É sinal de apoio permanente pelo Senhor. 
A arca era um ponto catalizador dos doze tribos de Israel; o lugar de encontro no Santo dos Santos, 
onde o Senhor revelava Sua vontade aos Seus servos. Sinal visível e símbolo da presença de Deus entre 
o povo (1Sm 4-6; 2Sm 6; 1Rs 8; cf. 1Sm 4.7,22; Nm 10 35; 1Rs 8.11). Era o próprio trono de Deus. 
Reputada como a "glória de Israel" (1Sm 4.21,22), santificava o lugar onde repousava (2Cr 8.11). 
Por esse motivo, quando a notícia de que havia sido tomada pelos filisteus chegou ao povo de Deus, a 
nora de Eli, o sacerdote, exclamou: "De Israel se foi a glória!" (1Sm 4.21). 
Pois uma das funções levíticas era transportar a arca, o que foi desempenhado até Ter sido levada 
definitivamente para Jerusalém (1Cr 16.1), ocasião quando dita função foi transformada em 
ministério de serviço e de louvor (1Cr 23.25-32).
Que lição tiramos para nós, os levitas de hoje? A de que para levar a arca é preciso ser escolhido. 
Outra importante lição é que se temos de levar a arca, temos que desempenhar esta obrigação de 
modo incansável, sacrificial, corajoso até. Afinal, a arca da aliança é um tipo de Jesus Cristo, segundo 
Apocalipse 11.19. 
163 
ESTAR DIANTE DO SENHOR 
Uma explicação mais detalhada está em Números 3.6-8, onde se percebe que "estar diante de..." é o 
mesmo que "dar assistência, servir". 
"Estar diante do Senhor" tem a ver com consagração. O Novo Testamento ensina que os filhos de 
Deus somos constrangidos pelo amor a viver para o Senhor que morreu e ressuscitou por n ós (2Co 
5.14). A base dessa consagração é o amor, e não pode haver consagração se não se sentir o amor do 
Senhor, e se não se amor o Senhor. 
O povo de Israel fora escolhido, mas só a tribo de Levi foi separada para ser a tribo de sacerdotes. 
Consagração na Antiga Aliança era algo exclusivo. Hoje, na dispensação da raça, todos somos 
sacerdotes, levitas, portanto (Ap 1.5, 6). Watchman Nee escreveu como oração: 
Ó Senhor, Sendo amado, que mais posso eu fazer 
Além de me separar de todas as coisas 
Para poder servir-Te? 
Daqui em diante, 
Ninguém poderá usar minhas mãos, ou pés, 
Ou boca, ou ouvidos; 
Pois estas minhas mãos 
São para fazer as Tuas obras, 
Meus dois pés para andar em Teu Caminho, 
Minha boca para cantar os Teus louvores, 
E meus ouvidos para ouvir a Tua voz". 
A consagração visa a servir a Deus, como o faziam os levitas que tinham a função de "estar diante do 
Senhor". Quando nos tornamos crentes em Cristo, assumimos o compromisso o compromisso de 
servir a Deus por toda a vida. Um médico que é salvo pelo sangue de Jesus coloca a medicina em 
segundo lugar, pois para o primeiro lugar vai Jesus, seu Salvador. O mesmo com o comerciante, o 
soldado ou o bancário. Assim aconteceu com os primeiros discípulos: Mateus era fiscal de rendas; 
Pedro, André, Tiago e João eram pescadores que para "estar diante do Senhor" deixaram suas 
vocações para segundo plano. 
Para 'estar diante do Senhor" é preciso ser (2Cr 29.11). "Não sejais negligentes" diz este texto. Isso 
faz lembrar Samuel Brengle: "A santidade não tem pernas e não pode andar de um lado para outro 
visitante os preguiçosos". E continua lembrando que há dois empecilhos práticos à santidade: 
consagração imperfeita e fé imperfeita. 
Realmente a nada leva a consagração pela metade, a consagração parcial, a consagração às vezes, 
talvez, pode-ser, domingo-sim-domingo-não, semana-sim-semana-não. A nada leva a fé mais-ou-menos, 
a fé desde-que, até-certo-ponto, limitada, nem-sempre, com ressalvas.
164 
PARA ABENÇOAR EM SEU NOME 
A história da bênção é antiga. Já a encontramos nos primeiros momentos da Criação (Gn 1.27, 28; 
2.3). Abraão foi abençoado por Deus para ser uma bênção para o mundo (Gn 12.1-3). 
O texto de Deuteronômio fala da função levítica de abençoar em nome de Deus. Ora, aprendemos 
com a Escritura que abençoar em nome de alguém é falar em seu nome. Por essa razão há de haver 
cuidado com a bênção dada levianamente e sem discernimento (cf. Ex 20.7). Excelente exemplo de 
abençoar em Nome do Senhor está em 2Samuel 6.18, quando a arca da aliança foi trazida da casa de 
Abinadabe (em Quiriate-Jearim) e a levaram para Jerusalém conquistada por Davi. 
Há bênçãos belíssimas: 
DE PARA REFERÊNCIA 
De Isaque Para Jacó - Referência Gn 27.27-29 
De Jacó Para filhos - Referência Gn 49.1-28 
De Moisés Para povo de Israel - Referência Dt 33 
De Sacerdotes Para Povo de Israel - Referência Nm 6.24-27 
De Jacó Para José (em seus filhos) - Referência Gn 48.`15,16 
O Salmo 128 
De Jesus Para crianças - Referência Mc 10.14, 16 
Na imensa maioria, destaca-se a marca do Nome do Senhor, ou seja, Seu caráter, Sua personalidade e 
Seu poder. A vontade de Deus é colocada sobre aquele por quem se orar, pois que o Nome do Senhor 
protege e abençoa (Nm 6.27). Não é uma simples palavra, pois "Eu-Sou-O-Que-Sou", ou seja, "Eu- 
Não-Mudo" (cf. Pv 18.10). 
Há que tomar em consideração um importante fato: para abençoar é preciso ser uma bênção. 
Em Números 16.9, a grande pergunta do Senhor é : "Acaso é pouco vós que o Deus de Israel vos 
tenha separado... para vos fazer chegar a si...?" Os levitas da Nova Aliança vivemos na disposição de 
continuar levando a arca, pois para tanto formos escolhidos; de lembrar ao povo a dire ção permanente 
de Deus; de recordar ao povo o pão dos céus, Jesus Cristo, o maná vivo; de ressaltar o apoio 
permanente no cajado de Arão agora brotando em Cristo Jesus. Vivemos, os levitas, na santa 
disposição de estar diante do Senhor, ou seja, de consagração contínua, efetiva, real, verdadeira 
baseada no amor, na disposição de ser. Vivemos na sagrada determinação de abençoar em Seu Nome, 
e para isso temos que ser uma bênção. 
"... POUCO MENOR DO QUE DEUS" 
Refletindo Sobre O Salmo 8 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
Um dos mais conhecidos e apreciados hinos da palavra de Deus. Marcante nas suas expressões, responde a duas 
perguntas: "Quem é Deus?" e "que é o ser humano. 
Começa e termina com a mesma expressão: "Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome 
em toda a terra", que está no começo do primeiro versículo e em todo o verso final.
165 
É significativo que assim aconteça para que não esqueçamos que este hino não está exaltando o ser 
humano, apesar de perguntar: "Que é o homem mortal para que te lembres dele?" Exalta, sim, o 
nosso Deus. 
Como referido, o Salmo responde a duas perguntas: Quem é Deus e quem é o ser humano. Vejamos 
inicialmente a resposta a esta última pergunta. 
"POUCO MENOR DO QUE DEUS" 
Examinemos o verso 4: 
"Que é o homem mortal para que te lembres dele; 
o filho do homem para que o visites? 
É uma pergunta cheia de assombro, até porque os versos anteriores falaram das maravilhas do 
universo, do céus, do espaço, das estrelas, dos planetas, da obra criadora de Deus. 
Depois de olhar para o céu estrelado e se maravilhar com sua beleza, pergunta o salmista, "à luz de 
tudo o que foi dito acima, coitado do ser humano, quem é ele? Que é o ser humano?" 
A verdade é que somos apenas uma poeira, menos que um grãozinho de poeira. No espaço todo, o 
planeta Terra é um grãozinho ao redor de uma estrela de quinta grandeza, e nós, seres humanos, 
apenas uma minúscula partícula de um grão de poeira. É de admirar, portanto, que apesar de tudo 
isso, Deus concedeu a cada um capacidades maravilhosas. 
A pergunta como foi traduzida pode dar idéia "Que é o homem?" (mas a mulher, não). E não é essa a 
pergunta. O original em hebraico pergunta "Que é o ser humano? A propósito, tanto faz dizer "o 
homem" quanto "o filho do homem", expressões que querem significar a mesma realidade. Mas não 
fala do homem masculino. As palavras que aqui estão são 'enosh e 'adam (ben 'adam), de onde veio o 
nome Adão. Ambas querem dizer "ser humano" ou "humanidade". A palavra em hebraico é 'enosh, 
pessoa humana, ser humano. Assim, "Que é a pessoa humana para que Deus olhe para ela com tanto 
carinho?" Que é a pessoa humana para que Deus olhe com tanta atenção, dela se lembre e a visite?" A 
resposta é dada no próprio Salmo. Está no verso 5, onde é dito que o ser humano foi criado "pouco 
menor do que Deus". Essa última expressão significa que nossa criação trouxe-nos uma condição 
muito especial. 
Algumas Bíblias trazem a tradução, "Pouco menor que os anjos o criaste". Afinal, o ser humano foi 
criado "pouco menor que os anjos" ou "pouco menor do que Deus"? A Bíblia hebraica menciona a 
palavra "Deus". Ali está 'Elohim, plural de majestade para Deus. Para se traduzir "anjos", deveria ser 
malachim, palavra parecida, mas não igual. 'Elohim é o plural de 'Eloah, idêntica a 'El, significando 
ambas "Deus"; malachim é a forma plural de malach, que significa "mensageiro, portador" e que se 
traduz como "anjo", transliterado do grego aggelos e quer dizer o mesmo: "mensageiro, estafeta", ou 
"portador". 
Traduções que falam em "pouco menor que os anjos" refletem a primeira tradução da Bíblia hebraica 
para outra língua, neste caso, a grega. Isso ocorreu para que os judeus que habitavam no norte da 
África, e já não mais falavam hebraico e aramaico, pudessem ler o Tanach (o Antigo Testamento). Os
166 
tradutores acharam que era uma irreverência usar a expressão "pouco menor do que Deus", e 
utilizaram essa alternativa não encontrada no original. 
Interessante que no Novo Testamento está dito que os anjos são servidores da pessoa humana, 
colocados à disposição dos salvos por Deus para que ministrassem. Está em 1.13, 14: "A qual dos 
anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra até que ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés? 
Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a 
salvação?" 
Há, mesmo, uma ordem: Deus ('Elohim), em seguida, O Ser Humano ('enosh e ben 'adam), e 
abaixo de nós, para servir a Deus e para nos servir Os Anjos, os malachim. 
DEUS > O SER HUMANO > OS ANJOS 
A pergunta fica então "Que é a pessoa humana para que lembres dela?" Nada é. Inspirado pelo 
Espírito, o salmista coloca algumas qualidades concedidas por Deus: 
A pessoa humana foi criada um pouco abaixo dEle (v. 5a). Que extraordinária grandeza nesse 
grão de poeira que somos nós! Dizem os biólogos que somos formados de 70% de água. O restante é 
pele, fibras musculares, ossos, cabelos unhas. Se pudéssemos pegar alguém e colocar numa centrífuga, 
encheríamos um balde com a água extraída. Só água. Por isso, não podemos entender como pode 
haver tanta água orgulhosa, vaidosa, ciumenta, cheia de jactância. 
Mas diz a Escritura que fomos criados um "pouco menor do que Deus" (v. 5). Se assim é, alguma 
coisa aconteceu que nos fez perder essa qualidade. Esse fato é denominado a Queda, e está relatado 
em Gênesis, capítulo 3. 
É muita dignidade, mas há quem não pense nisso. Como há quem se degrade a ponto de não ter 
qualquer sentido na vida, ela perde o significado? Como alguém não pode se compreender imagem e 
semelhança de Deus e não se ver criada com amor e carinho, e como uma obra especial de Deus 
porque imagem e semelhança de Deus? 
O Salmo 8 responde quem é o ser humano: aquele que foi criado imagem e semelhança de 
Deus. 
Nossos primeiros pais foram criados com dignidade e receberam a incumbência de serem gerentes da 
Terra, pois Adão fora colocado para lavrar e guardar o jardim (Gn 2.15). Deveriam os pais primevos 
desenvolver a Terra, mas se rebelaram e perderam esse status. Com isso, fomos arrastados pela 
Queda. Aliás, o próprio texto do Salmo 8 diz: "Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das 
tuas mãos; tudo puseste debaixo dos seus pés" (v. 6). 
Deus colocou em nossas mãos a administração dos recursos do planeta. Significa que os rios, os lagos, 
os mares, as dunas, as florestas, tudo deve ser preservado para o benef ício do ser humano. Estão 
prevendo que dentro de mais alguns anos não haverá alimentação para todos. Nossos trinetos e seus 
filhos vão ter dificuldades. O resto de Mata Atlântica no sul da Bahia está sendo devastado de modo 
terrível. Não estamos gerenciando bem, pois 32 hectares são diariamente derrubados na Floresta 
Amazônica!
167 
O ser humano é o gerente de Deus na Terra. Cada um de nós é chamado a ser supervisor das 
coisas que Deus criou. O que se chama de ecologia é o equilíbrio das coisas. A palavra, que vem do 
grego, é sugestiva. A raiz é oikos, "casa", e de onde procede "economia". Ecologia é o estudo para a 
preservação da nossa casa, que não outra coisa senão o mundo onde vivemos. Quando não cuidamos 
da higiene, rebaixa-se a qualidade de vida pela perda da saúde. Recordemos, portanto, que esse 
"tomar conta" da casa, o gerenciamento dos interesses do planeta nos foi dado pelas mãos de Deus 
como dizem o Gênesis e o Salmo 8. 
Tem mais: "de glória e de honra o coroaste". Na língua de Davi, "glória" é kavod. Na riquíssima 
língua hebraica, uma palavra significa um universo de coisas. Kavod significa também "peso". O 
apóstolo Paulo usa a expressão redundante "peso de glória" (2Co 4.17). Ele fez um jogo de palavras 
com o hebraico falou de "kavod de kavod" ("glória extraordinária"). E esse "peso de glória" foi 
colocado em nós. 
Uma compreensão da sinonímia de "glória" e "peso" nos pode ser dada por uma fotografia que saiu na 
antiga revista O Cruzeiro. Nela era apresentada uma cena ocorrida no anivers ário do rei Aga Khan, da 
Arábia Saudita. Era um homem enorme. Uma balança fora colocada num tablado. O rei sentou-se 
num dos pratos e no outro prato, seus súditos colocavam jóias, ouro, pedras, moedas até equivaler o 
seu peso. O peso do rei era traduzido em jóias e metais preciosos. Uma verdadeira glória essa fabulosa 
riqueza! Então o rei ordenava que o recolhido fosse destinado às obras sociais. Cada ano isso 
acontecia. Fica evidente o significado do hebraico. 
A Glória de Deus é o peso que Ele tem na nossa vida. Como se perdeu o senso da majestade divina. 
Deus tem sido minimizado! Perdeu-se o senso de quem Deus é. 
"Que é o ser humano?" É criado em glória e honra (v. 5b). Vezes inúmeras essa glória e honra 
têm sido jogadas no lixo. Não entendemos como uma pessoa pode se degradar a ponto de perder a 
identidade, quem ele é, e se drogar, beber, e se prejudicar. 
E DEUS, QUEM É? 
A outra pergunta é "Quem é Deus?" O salmista começa seu hino de louvor com uma expressão, e a 
repete no final: 
"Ó Senhor, Senhor nosso, 
quão admirável é o teu nome em toda a terra" (vv. 1a, 9) 
Que sugestivo! Começou com Deus e terminou com Deus! E ele responde à pergunta sobre A Pessoa 
divina: Deus é Aquele que tem um Nome admirável. Os deuses do passado tinham nomes 
estranhos com significados mais estranhos, até. Um deus na Babilônia era Shamash, o Sol. Adoravam-no 
e diziam que era um deus. Uma deusa era Sin, a Lua. Ensinam, mesmo, que o monte Sinai tem 
este nome porque teria existido ali um antigo santuário a essa deusa. Os filisteus adoravam Dagon, o 
peixe. 
Não sabemos pronunciar o Nome de Deus. Quando Moisés teve uma visão da kavod divina, a Glória 
de Deus no arbusto que pegava fogo e não se queimava, a "sarça ardente", o brilho de Deus, recebeu a
168 
missão de voltar ao Egito, e perguntou, "Quem está me mandando ao Egito?" O Senhor lhe disse: "Eu 
Sou". 
Como é o Nome de Deus que é tão admirável? Diz a Escritura Sagrada que Ele Se apresentou a Moisés 
e disse que Seu Nome era Eu-Sou-O-Que-Sou. Parece um enigma, uma enorme interrogação: "Eu 
Sou O Que Sou". 
Essa tradução aqui colocada, tem outras possibilidades. No original, aparece o verbo hayah na forma 
do incompleto. O passado é completo: "Ontem fui à feira" É um ato que já terminou, motivo 
porque está no completo. "Estou agora no santuário da igreja". Já chegou ao seu fim esse ato? Ainda 
não; é incompleto. "Amanhã será feriado". É tempo futuro; já chegou? Não; então é incompleto. 
"Saia daqui!" É uma ordem. Já aconteceu? Não; é incompleto. Isso quer dizer que podemos traduzir 
o Eu Sou o Que Sou de outras maneiras: "Eu Serei o Que Sou", "Eu Sou o Que Tenho Sido", "Eu 
Continuo a Ser o Que Sempre Fui". O Nome de Deus tem muitas possibilidades de tradu ção. Versões 
mais contemporâneas da Bíblia colocam apenas "Eu Sou o Eterno", que diz tudo. 
Podemos chamar a Deus por diversos outros Nomes. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento 
utilizam várias designações para falar de Deus. Quando se diz El Elyon, estamos falando do Deus 
Altíssimo. 
Ele é chamado na Bíblia de El Shadday, o Deus Todo-poderoso, também de Javé-jirê, o que Deus que 
provê as coisas, o Deus que providenciará as coisas, o Deus que tudo vê, El Roeh, Aquele que tudo 
prevê. Pode ser chamado o Deus da paz, Adonai Shalom. 
Poderíamos seguir com outras designações do nosso Deus. Mas uma coisas sabemos: Ele é o que tem 
o Nome Admirável em toda a terra! Primeira grande lição acerca de Deus é que Ele é o que tem o 
Nome admirável. 
Segunda lição: Ele é o que tem glória, pois ""Puseste a tua glória sobre os céus" (v. 1b). 
Percebam: Deus é superior ao espaço criado, pois não Se identifica com ele. Há quem pregue que 
Deus é a substância de todas as coisas. Isso se chama panteísmo. Vê uma linda flor, e diz "A substância 
dessa flor é Deus"; "a substância do mar é Deus", a substância da nuvem é Deus". Os hindus batem 
numa árvore e perguntam, "Deus, estás aí?" A Bíblia diz que Deus é superior a tudo o que Ele criou, 
não é a substância das coisas. Mas tudo é Sua obra: 
"Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, 
A lua e as estrelas que preparaste..." 
O Sol, a Lua, os planetas, estrelas, cometas, o que eram os deuses dos outros. O nome da deusa-estrela 
era Ishtar, de onde vem o nome Ester, e da mesma raiz o latim stella e da í "estrela". 
Enquanto os povos pensavam que as obras criadas eram deuses, o hebreu declarava a sua f é, esperança 
e completa dedicação e piedade ao Deus Criador. "Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu 
nome em toda a terra..." Só temos que render graças, glória, nossa admiração, reverência e louvor ao 
Deus que nos criou e sustenta. 
Deus é Aquele que é sempre vencedor. Como bem expressa o verso 2:
169 
"Da boca das crianças e dos que mamam tu suscitaste força, por causa dos teus adversários, para 
fazeres calar o inimigo e vingativo". 
Deus é o que sempre vence. Ele é o Deus do paradoxo! Vence com crianças que ainda estão sendo 
amamentadas! Venceu os egípcios, não porque arregimentou um tremendo exército: apenas o mar se 
abriu, os hebreus passaram, os egípcios entraram no mar, e o mar se fechou. Nosso Deus é o Deus dos 
paradoxos. 
Quem é Deus? Deus é o Criador, Aquele de Cujas mãos tudo saiu. 
"Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, 
a lua e as estrelas que preparaste," 
Gênesis 1 é de uma incrível felicidade. Temos uma descrição da obra criadora. A luz, separação entre 
luz e trevas, o Sol, os mares, a terra, os peixes, os grandes répteis, as aves, mamíferos, animais 
selvagens e animais do campo, o ser humano. Porém, enquanto alguns olham apenas a obra criadora, 
que é em si maravilhosa, outros a olham e fazem uma leitura um pouquinho diferente: v êem uma 
verdadeira batalha dos deuses. 
E esta batalha significa que os povos no entorno de Israel (os arameus no Norte, os fen ícios no 
noroeste, os filisteus no sudoeste, os edomitas, os babilônios) tinham os seus deuses e todos estão 
representados em Gênesis 1, mas apenas como produtos e subprodutos das mãos do Deus Que Tudo 
Cria. Era o caso dos babilônios e dos egípcios que adoravam o Sol. Na Babilônia era chamavam-no 
Shamash; no Egito, Rá. Era Sin, a Lua, entre os babilônios, os assírios. 
Animais também eram cultuados. No Egito, praticamente o panteão, o elenco dos deuses, era 
formado por animais: entre outros, o crocodilo, o touro, o gato, o íbis, o chacal, o falcão. Alguns 
deuses deuses eram representados como tendo o corpo de homem e a cabeça de animal. O deus da 
morte era Anúbis, o chacal com corpo de homem. No Museu Nacional do Rio de Janeiro, h á múmias 
de filhotes de crocodilo; no Museu do Cairo, vimos múmias de gatos, também considerados sagrados. 
O Mar Mediterrâneo, chamado de Grande Mar (Yam haGadol) era cultuado; os peixes eram 
cultuados, como no caso dos já mencionados filisteus. 
As florestas eram deuses para os cananeus. Essa religião da natureza está representada entre nós pelo 
candomblé. É o culto de Baal no nosso meio. Salvador tem um grande e lindo parque p úblico (o de 
São Bartolomeu) dedicado aos orixás. 
Mas nosso Deus é o Criador. Não faz por menos: enquanto adoravam a obra criada ("Ó, Sol! Ó, Sol! 
Recebe meus louvores!), o hebreu dizia "Você está adorando a criatura do meu Deus El Shaddai, o 
Criador dos céus e da terra (Baruch Atah Adonai Melech haOlam...")". Por isso o Salmo come ça 
dizendo, "Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra...", e termina do 
mesmo modo. É um salmo de louvor. A piedade deve estar sempre presente na expressão de louvor. 
PROJETO DE VIDA 
Eclesiastes 1.1; 2.1,11 
Professor Antony Diego Roberto
170 
O livro de Eclesiastes tem se constituído num verdadeiro enigma para muito. Há quem não o leia 
porque não entende; e há quem o leia sem tirar muito proveito, a não ser de um outro versículo 
escolhido. 
Na realidade, este livro se apresenta como um enigma. Enigma como o da esfinge à espera de ser 
decifrado: cabeça de ser humano, corpo de leão, asas de águia e patas de touro. Mas não é touro, nem 
águia, nem leão, nem gente. É nesse enigma que o autor vai desenvolvendo o seu raciocínio, 
mostrando que, no fundamento das coisas temporais, tudo é futilidade, tremenda e imensa 
futilidade... 
"VAIDADE DE VAIDADES" (1.2) 
Talvez a mais conhecida expressão do livro seja mesmo "vaidade de vaidades" "Hevel hahavelim" é 
um superlativo da língua hebraica que coloca a palavra hevel na sua forma mais elevada. Hevel 
significa muita coisa (como é típico da língua hebraica): "vapor, sopro", e por causa da fugacidade do 
vapor que logo desaparece, também tem a acepção de "futilidade, ineficácia, inutilidade, inconstância, 
ilusão, vacuidade, e vaidade", ou seja, "coisa vã, vazia". 
É precisamente isso o que o autor de Eclesiastes enfatiza: a futilidade, a ilusão e ineficácia dos projetos 
humanos. Usa, até, expressões como "trabalhar para o vento"1, "aflição de espírito"2; "enfadonha 
ocupação".3 
O livro, escrito na primeira pessoa, é um testemunho da experiência pessoal da vida do autor 
(chamado o Pregador, o Eclesiaste, e Koheleth, palavra que significa "aquele-que-fala-na assembléia"). 
É possível, então, fazer uma releitura do texto. 1.2 diz: 
"Futilidade das maiores, 
diz o Pregador, 
inutilidade das coisas vazias, 
tudo é ilusão! 
Tudo é transitório!" 
E não é mesmo? Heráclito, filósofo grego do século 50 a. C. explicou que ""Ninguém toma banho 
duas vezes no mesmo rio", por causa do constante fluxo das águas, e Isaías 40.6,7 também o clara 
com toda clareza: 
"Diz uma voz: Clama. 
E eu disse: Que hei de clamar? 
Todos os homens são como a erva, 
E toda a sua beleza como as flores do campo. 
Seca-se a erva, e caem as flores, 
Soprando nelas o hálito do Senhor. 
Na verdade o povo é erva". 
A época em que este livro foi escrito não era problemática em termos políticos e econômicos. No 
entanto, o Eclesiaste (ou Pregador) sendo homem de reflexão, de profundidade, percebeu a tremenda 
dificuldade em termos espirituais e emocionais. A religião era só ritual, prazer da hora, êxito 
comercial. E ele o diz:
171 
"Guarda o teu pé, quando entrares na casa de Deus. Inclina-te mais a ouvir do que a oferecer 
sacrifícios de tolos, pois não sabem que procedem mal. 
Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de 
Deus. Deus está nos céus, e tu estás na terra, pelo que sejam poucas as tuas palavras. 
Porque da muita ocupação vêm os sonhos, e a voz do tolo da multidão das palavras. 
Quando a Deus fizeres algum voto, não tardes em cumpri-lo. Ele não se agrada de tolos; o que 
votares, paga-o. 
Melhor é que não votes do que votes e não pagues. 
Não consintas que a tua boca faça pecas a tua carne, nem digas diante do anjo que foi erro Por que 
razão se iraria Deus contra a tua voz e destruiria a obra das tuas mãos? 
Na multidão dos sonhos há vaidade, assim também nas muitas palavras. Portanto, tu teme a Deus". 
E deste modo ele desafia a corrupção, a leviandade, o mundanismo e os valores apodrecidos do seu 
tempo. Uma leitura dos capítulos 4, 9 e 10 ajudará a entender esse fato. Só como exemplo: 
" "O que ama o dinheiro nunca se fartará dele; quem ama a abaundância nunca se farta da renda. Isto 
também é vaidade",4 
e, 
"Tudo isto vi nos dias da minha vaidade: há justo que perece na sua justiça, e há ímpio que prolonga os 
seus dias na sua maldade",5 
Bem como, 
"Ai de ti, ó terra, cujo rei é criança, e cujos príncipes banqueteiam de manhã".6 
E qual a nossa situação como indivíduos? Como famílias? Como igreja? Há quem passe o dia, a 
semana, o tempo numa tremenda futilidade; sem projeto de vida, de modo vazio, oco, med íocre. 
Projeto de crescimento, nem pensar... 
"TODAS AS COISAS SÃO CANSEIRAS" (1.8) 
Esta expressão do verso 8 é digna de reflexão mais detida. O fato é que temos um vocábulo no 
hebraico que é davar. Ele pode ser traduzido indiferentemente por "coisa, palavra, fato, evento, 
acontecimento. E isso oferece outras possibilidades de tradução: 
* "Todas as coisas estão cheias de cansaço, ninguém o pode exprimir,"7 
* 
"Toda palavra é enfadonha, e ninguém é capaz de explicá-la"8 
* "Todas as coisas nos cansam tanto, que não há palavras que cheguem para explicar"9 
* "Todas as palavras estão gastas, não se consegue mais dizê-las"10 
* "Todas as coisas são canseiras, mais do que ninguém o pode declarar"11 
É a mais pura das verdades! Estamos cansados dos acontecimentos que nos chegam de outros países; 
fatigados das coisas que nos ocorrem na ruas da cidade, no comércio, no banco, na escola. Estamos 
enfadados das palavras mentirosas, dos discursos demagógicos, dos sermões sem unção, vazios; 
estamos cansados das promessas de lealdade, das tapinhas nos ombros, das juras de fidelidade e amor
172 
que recendem a engano. É verdade..., "todas as coisas (ou "todos os acontecimentos, todas as 
palavras, todos os discursos, todos os fatos") nos cansam tanto, que não encontramos maneira de 
explicá-los". 
O autor passa a enumerar seus projetos em busca de sentido para a vida. Come ça pela formação 
acadêmica: 
"Apliquei o meu coração a esquadrinha, e a informar-me com sabedoria de tudo o que acontece 
debaixo do céu. Que enfadonha ocupação deu Deus aos filhos dos homens, para nela os afligir!" 
(1.13) 
Diz ele que depois de muito se aplicar à filosofia, à aventura do saber, descobriu sua futilidade,12pois, 
por mais que se dedicasse à aquisição de conhecimentos (científicos, literários, filosóficos), isso nada 
lhe adiantou na busca de satisfação espiritual ou moral. Com toda certeza,, um anel de universidade 
não satisfaz essa busca. 
Fala, em seguida, da "boa vida" ( prazer, hedonismo). Vivemos numa sociedade tremendamente 
erotizada. Pobres criancinhas nossas orientadas, educadas que são pelas novelas das 6, 7, e das 8, e 
pelas "Angélicas" e outras animadoras da TV... Infelizmente, em algumas igrejas ditas evangélicas, 
Jesus Cristo saiu e Eros13 entrou, visto que o espírito erotizante está em tudo. Perdeu-se o senso da 
Grandeza, da Majestade, da Justiça de Deus e do Senhorio de Jesus Cristo, e tem-se dado lugar às 
águas impuras, e os pastores deixam de ser profetas para serem animadores de audit ório, porque o 
que importa é encher os bancos, mesmo que custe a decadência da qualidade de doutrina, de ordem 
no culto e de respeito ao "em espírito e em verdade" que deve qualificar as reuniões cristãs 
evangélicas. 
A verdade é que a qualidade do cristianismo evangélico vem piorando, decaindo dia a dia, mês a mês, 
ano após ano. Que projeto de vida você quer para a sua igreja? 
O Pregador disse que o Prazer, a "boa vida" é fútil.14 Por quê? A razão é simples: é propaganda 
enganosa. O prazer promete mais do que realmente dá; porque a sua busca, a sua aventura termina 
em desengano e frustração. 
O Eclesiaste fala de trabalho, de realizações. De fato, o trabalho esteve a serviço do prazer.15 
Observe-se que ele procurou seu Jardim do Éden particular.16 Faz mal ter uma casa de campo? Uma 
casa de praia? Um sítio? Sem dúvida, é algo desejável. Mas não a ponto de tirar o irmão e seus filhos 
do convívio da igreja. Projete seu filho, sua filha daqui a dez anos. Qual a possibilidade de seu filho 
(que você não tem trazido à Casa do Senhor hoje), estar daqui a dez ou doze anos nos arraiais do 
Senhor? 
UM PROJETO DE VIDA 
O livro de Eclesiastes é progressivo no seu curso, no seu projeto de vida. A verdade é que todos os 
projetos humanos são futilidade, menos o projeto de Deus para você. Responda com sinceridade: 
* Que projeto de vida tem você? 
* Que projeto de vida tem você para você e sua esposa como casal cristão? 
* Que projeto de vida têm vocês para a família como um todo? 
* E no trabalho? 
* E na igreja? 
* E para a eternidade?
173 
Afinal, a sabedoria é fútil! O prazer não tem sentido! O esforço é igualmente vazio! 
"Lembra-te do Criador enquanto és jovem..."17 Isso vale para todos. Já imaginou viver sem Deus? 
Isso tem nome. Chama-se secularismo. 
Mas, sem Deus o que é que resta? 
* Resta a Morte (2.16) 
* Resta o Mal em todas as suas formas: injustiça, opressão do menos valido, inveja, avidez de lucro, 
exploração do outro, pecado, sede pelo mal.18 
* Restam os limites tanto do tempo quanto da oportunidade (9.11,12) porque n ão somos donos do 
nosso destino. 
Qual o seu projeto de vida? A geração evangélica de vinte anos para cá tem sido vitimada por baixos 
padrões morais e espirituais, por doutrinas antibíblicas, por práticas anti-evangélicas, por ensino 
fraco. Como resultado, temos crentes sem convicção doutrinária correndo de igreja em igreja num 
turismo eclesiástico desenfreado, indo a grupos que não são outra coisa senão sincretismo entre 
evangelho e rock pesado ou pior: práticas mistas do evangelho e do candomblé. 
PARA CONCLUIR 
"Lembra-te do teu Criador..." é um grande, excelente, nobre, salvador projeto de vida. Na 
realidade, você pode mudar a orientação de sua história pessoal, porque a sabedoria reside em levar 
em conta o que está em 12.13: temer a Deus e guardar os seus mandamentos. O criminoso na cruz 
mudou toda a sua história pessoal, e nos últimos momentos seu projeto de vida: "Senhor, lembra-te 
de mim quando estiveres no teu reino". A sabedoria você a encontrará em Jesus Cristo, pois 
1Coríntios 1.30 ensina que "vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus 
sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção..." Isso é felicidade; não as honrarias, a riqueza, a vida 
longa, e a aparente paz. Na verdade, a felicidade real e possível está em nos unirmos na comunhão de 
Jesus Cristo e em serví-Lo. 
"Temer a Deus" (que não é medo, terror, pavor). "Temer a Deus", que é respeito, reverência, 
adoração, comprometimento, nos coloca no Seu plano.. 
1 Cf. 5.16. 
2 Cf. 2.11. 
3 Cf. 1.13. 
4 Ec 5.10. 
5 Ec 7.15. 
6 Ec 10.16. 
7 VersãoRevisada da IBB. 
8 Bíblia de Jerusalém. 
9 Bíblia Sagrada: Tradução Interconfessional. 
10 Bíblia Tradução Ecumênica. 
11 Almeida Edição Contemporânea. 
12 Cf. vv. 17,18. 
13 Esta referência não diz respeito a um conceito psicanalítico ou freudiano do Eros, mas ao senso 
comum. 
14 Cf. 2.1b,2. 
15 Cf. 2.10. 
16 Cf. vv. 4-8.
174 
17 Cf. 11.7-12.8. 
18 Cf. 3.16; 4.1; 4.4; 4.8; 5.8; 7.20; 9.3. 
Rahab e Leviatan 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
Encontramos várias vezes no texto do Antigo Testamento a menção de seres dos quais não temos 
certeza quanto à sua origem e espécie. Dois deles são Rahab e Leviatan. Muitas vezes Rahab e Leviatan 
aparecem no texto lutando contra Yahweh. Geralmente esta luta de Yahweh c ontra Rahab e Leviatan 
se dá em contextos poéticos que tratam da origem do cosmos (cosmogonia). Como exemplo temos 
Jó 26.10- 13 Traçou um círculo à superfície das águas, até aos confins da luz e das trevas. 11 As 
colunas do céu tremem e se espantam da sua ameaça. 12 Com a sua força fende o mar e com o seu 
entendimento abate o adversário. 13 Pelo seu sopro aclara os céus, a sua mão fere o dragão veloz 
(serpente veloz/fugitiva) 
Salmo 74.13-17 Tu, com o teu poder, dividiste o mar; esmagaste sobre as águas a cabeça dos 
monstros marinhos. 14 Tu espedaçaste as cabeças do crocodilo e o deste por alimento às alimárias do 
deserto. 15 Tu abriste fontes e ribeiros; secaste rios caudalosos. 16 Teu é o dia; tua, também, a noite; 
a luz e o sol, tu os formaste. 17 Fixaste os confins da terra; verão e inverno, tu os fizeste. 
O que são o Rahab e o Leviatan, citados juntamente com os monstros marinhos nessas passagens? 
Como interpretar textos que citam esses elementos e fazem referências à criação? 
Mary K. Wakeman, estudando a literatura do antigo Oriente Próximo, concluiu que a mitologia de 
diversas fontes antigas (Suméria, Índia, Mesopotâmia, Anatólia, Grécia e Canaã) traz traços comuns: 
(1) um monstro repressivo impedindo a criação; (2) a derrota do monstro por um deus heróico que 
então libera as forças essenciais para a vida e (3) o domínio final do herói sobre estas forças. Nesses 
mitos do antigo Oriente Próximo Rahab e Leviatan são sempre identificados como estes monstros 
anti-criacionais. 
Estariam os textos acima mencionados fazendo referência a estes elementos mitológicos comuns às 
culturas do antigo Oriente Próximo? A referência feita em Jó e Salmos teria características comuns 
com a mitologia? Entender estas referências a aspectos da mitologia do antigo Oriente Próximo nos 
escritos canônicos prejudica de alguma forma a nossa compreensão de inspiração, inerrância e 
historicidade das Escrituras? Vejamos algumas respostas a estas perguntas. 
O simples fato de Rahab e Leviatan serem citados em literatura mítica e na literatura bíblica não 
implica necessariamente que estejam falando da mesma coisa. Porém, o contexto e o fato de não 
sabermos a que o texto bíblico se refere exatamente nos leva a crer que estes elementos são os 
mesmos citados na literatura mítica. Nossas traduções são a prova de que nossa lexicografia é incerta 
quanto a estes vocábulos. Rahab aparece traduzido em português como ‘adversário’ (RA), ‘soberba’ 
(RC), ‘monstro Raabe’ (BLH). O léxico hebraico (BDB) traz como possibilidades para a tradução 
‘soberbo’, ‘arrogância’ (como nomes), ‘nome emblemático para o Egito’, ‘monstro mítico’ (seguindo 
a Septuaginta) entre outros. Leviatan aparece traduzido como ‘crocodilo’ (RA), e ‘Leviatan’ (RC e
BLH). O mesmo BDB traz como possibilidades de tradução ‘leviatan’, ‘monstro marinho’, ‘dragão’ , 
grande animal aquático’, ‘talvez um dinossauro extinto’, ‘significado exato desconhecido’. Em Jó 41 
encontra-se uma descrição do Leviatan que certamente não se encaixa com qualquer animal 
conhecido, ou mesmo a possibilidade de algum animal extinto, mas sim com a figura mitológica 
comum do dragão que lança fogo pela boca (Jó 41.19-21). No contexto dos textos acima (Jó 26.12 e 
Sl 74.14) tanto Rahab quanto Leviatan aparecem acompanhados de outros seres que lembram tamb ém 
elementos mitológicos, ainda que sua presença não indique necessariamente uma fonte mitológica 
para os textos (e.g. a serpente em Gênesis 3). 
175 
Em geral, este monstro está associado ao mar e o Senhor domina e derrota o monstro, como o Salmo 
89.9-10 
9 Dominas a fúria do mar; quando as suas ondas se levantam, tu as amainas. 10 Calcaste a Raabe, 
como um ferido de morte; com o teu poderoso braço dispersaste os teus inimigos. 
Salmo 104:26 
25 Eis o mar vasto, imenso, no qual se movem seres sem conta, animais pequenos e grandes. 26 Por 
ele transitam os navios e o monstro marinho que formaste para nele folgar. 
Isaías 27.1 
1 Naquele dia, o SENHOR castigará com a sua dura espada, grande e forte, o dragão, serpente veloz, 
e o dragão, serpente sinuosa, e matará o monstro que está no mar. 
Associar as menções de Rahab e Leviatan na Bíblia aos mitos pagãos do antigo Oriente Próximo 
implica em que os autores bíblicos criam nestes mitos? Não. O fato dos mitos serem citados implica, 
em primeiro lugar, que eles eram conhecidos dos autores bíblicos e, certamente, da audiência deles. 
Segundo, que usando de uma lógica clara, eles citam estes mitos dentro de literatura 
reconhecidamente poética, para demonstrar que Yahweh é superior a todos estes elementos míticos. 
A Escritura é muito clara em demonstrar que o politeísmo pagão é condenável e os autores bíblicos 
bem sabiam disto. Afirmar que, porque citaram a mitologia, criam nela, é ir além do que o contexto 
nos permite. 
Waltke demonstra, convincentemente, que pelo menos três aspectos podem ser estabelecidos a partir 
destas citações na literatura bíblica. Primeiro, que os autores bíblicos estavam declarando a 
superioridade de Yahweh sobre os deuses pagãos na criação, e, assim, descartando sua religião 
mitológica. Segundo, que ao identificar Rahab com inimigos históricos do povo de Deus como o Egito 
(Is 30.7; Is 51:9-10 Rahab=Egito), sustentam a vitória de Yahweh no presente, auxiliando o seu 
povo. Terceiro, ao identificar estes elementos mitológicos na literatura apocalíptica, apresentam a 
vitória futura e final de Yahweh sobre todos os seus inimigos (Is 27.1; Ap 12.7-9). 
No contexto da criação os textos de Jó e Salmos nos ajudam a entender alguns fatos importantes. 
Primeiro, que o Senhor é o grande criador, e não os deuses destes relatos mitológicos (Baal, Faraó, 
Marduque, etc.). Segundo, que o Deus criador do cosmos foi vitorioso no passado e será no futuro. 
Segundo Waltke,
É inconcebível pensar que estes monoteistas estritos [os escritores bíblicos] intencionaram dar suporte à sua visão 
apa rtir da mitologia pagã, que eles indubitavelmente detestavam e abominavam, a não ser que tivessem absoluta 
certeza de que seus ouvintes iriam entender que suas alusões eram usadas num sentido puramente figurativo. 
176 
REFLEXÕES SOBRE A IMORTALIDADE DA ALMA 
Professor Diego Roberto 
A doutrina aniquilacionista defende cessação total da vida no ato da morte. A alma, princípio vital, 
sucumbe com o corpo na sepultura. Ao descer ao pó, o homem, desaparece por completo. Todavia, 
segundo essa teoria, os justos ressuscitarão no tempo oportuno e voltarão à condição original de alma 
vivente. 
O castigo dos ímpios seria o de não viver para sempre com Jesus. A morte para estes seria realmente a 
separação eterna de Deus. Neste caso, não haveria os diferentes graus de castigo, segundo as obras de 
cada um. 
"O aniquilacionismo defende que, após a morte, a alma do ímpio não será punida eternamente num 
inferno literal, mas, ao invés disso, simplesmente deixará de existir. O aniquilacionismo constitui um 
meio termo entre o universalismo indiscriminado e a doutrina cristã tradicional da condenação eterna. 
É defendido pelas testemunhas de Jeová, pelos adventistas do sétimo dia, pela Igreja Mundial de Deus, 
e muitos outros grupos religiosos em atividade atualmente" (Dicionário de Religiões, Crenças e 
Ocultismo, George A. Mather). 
O Antigo Testamento é pouco elucidativo quanto à vida após a morte. É no Novo Testamento que 
vamos encontrar indicações mais claras a respeito do assunto. Comecemos pela formação do homem 
no Éden, onde pela primeira vez, a palavra alma é registrada: 
"Formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida, e o 
homem tornou-se alma vivente. Então da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou a 
mulher, e a trouxe ao homem" (Gn 2.7,22). 
Deus criou os animais sem soprar em suas narinas e os chamou de "répteis de alma vivente [criaturas 
que vivem e se movem]" (Gn 1.20,21), diferentes do homem que recebeu o f ôlego diretamente de 
Deus. Os seres humanos possuem portanto algo que veio diretamente da subst ância de Deus. A esse 
fôlego damos o nome de alma. Vejamos agora o significado das palavras "alma" e "esp írito" no 
hebraico e no grego, línguas originais do Antigo e do Novo Testamento, respectivamente. 
Alma, hebraico "nephesh". Significados principais: alma, ego, vida, pessoa, cora ção; refere-se à 
essência da vida, ao ato de respirar, tomar fôlego. 
Alma, grego psyche. Significados principais: a vida natural do corpo; vida; a parte imaterial, invisível 
do homem, o homem interior (Mt 10.28; At 2.27; 1 Rs 17.21). Espírito, hebraico "ruah". 
Significados principais: respiração, ar, força, vento, brisa, ânimo, humor, Espírito. Vejamos alguns 
exemplos: respiração que, quando volta, a pessoa é reavivada: "E [Sansão] bebeu [água]; e o seu 
espírito [literalmente, respiração] tornou, e reviveu" (Jz 15.19); elemento de vida no homem, o seu
177 
"espírito" natural: "E expirou toda carne que se movia sobre a terra [...] Tudo o que tinha f ôlego de 
espírito de vida em seus narizes" (Gn 7.21.22). Estes versículos dizem que os animais também 
possuem "espírito", porém o homem recebeu o "fôlego" de forma diferente. 
Espírito, grego pneuma. Significados principais: vento, respiração; parte imaterial, invisível do 
homem (Lc 8.55; At 7.59; 1 Co 5.5; Tg 2.26); o Espírito Santo; o homem interior, com relação aos 
crentes; os espíritos imundos, demônios; o corpo da ressurreição (1 Co 15.45; 1 Tm 3.16. 1 Pe 
3.18). (Fonte: Dicionário VINE, W.E.Vine, Merril F. Unger, William White Jr., CPAD, 2002, 1a. 
Edição). 
Em Isaías 26.9 o profeta apresenta nephesh e ruah como sinônimos: "Com minha alma te desejei de 
noite e, com o meu espírito, que está dentro de mim, madrugarei a buscar-te". Parece indicar que a 
alma está ligada aos sentimentos ("te desejei"), sendo o espírito o elemento vital de comunicação com 
Deus. 
A Bíblia não faz uma nítida distinção entre alma e espírito. Maria, mãe de Jesus, orou assim: "A minha 
alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador" (Lc 1.46-47). Jesus, 
no Getsêmani: "A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal" (Mt 26.38). Na cruz, 
Ele bradou: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito" (Lc 23.46). Por isso, para efeito deste 
trabalho, chamaremos de alma ou espírito a parte imaterial que se separa do corpo na hora da morte. 
A alma foi doada ao homem no momento de sua formação, conforme Gênesis 2.7, onde se lê que o 
homem tornou-se "alma vivente". A condição expressa no verso 17 - "certamente morrerás" - sugere 
uma imortalidade humana. Subtende-se que se o primeiro casal não comesse do fruto proibido, não 
passaria pela morte física nem perderia a comunhão com o Criador. 
O primeiro casal não morreu logo após desobedecer, ou seja, não desceu ao pó, mas ficou 
potencialmente sujeito à morte física. Contudo, a sua morte espiritual foi imediata (Gn 3.7-13). 
Depois que o pecado afetou de forma negativa a raça humana, passou a haver separação da pessoa, na 
morte, em corpo, que volta à terra, e em espírito que volta a Deus (Ec 12.7). 
Analisemos Eclesiastes 12.7-NVI: "O pó volte à terra, de onde veio, e o espírito volte a Deus, que o 
deu". Aqui temos um pouco mais de luz. O pneuma-espírito não desce à sepultura. Ele é parte 
inerente ao homem, mas não o é do corpo sem vida. Na morte há uma separação. Os contradizentes 
argumentam que se todos os espíritos voltam a Deus, então, como defende o universalismo, todos se 
salvam. Tal argumento não deve prevalecer. Basta ler o verso anterior: "Lembra-te dele [do Criador] 
antes que se rompa a cadeia de prata [antes que a morte chegue]" (v.6). É nessa condição de homem 
arrependido e voltado para Deus, que a alma imortal, separada do corpo na hora da morte, "volta 
para Deus, que a deu". 
O contexto ressalta a fragilidade da vida do homem que vive sua vida sem temer a Deus, sem sequer 
se lembrar do seu Criador, sem nenhuma preocupação com a vida espiritual futura. A imagem de um 
corpo que se transforma em pó contrasta com a situação de vaidade e orgulho dos que não se 
submetem à vontade do Criador. Eclesiastes 12.7 mostra que a alma é imortal, e não morre com o 
corpo, nem com o corpo dorme na sepultura, mas segue imediatamente para Deus. 
Dando mais luz ao contido em Gn 3.19 e Ec 12.7, Jesus disse que quando descemos ao pó a nossa
178 
parte imaterial e invisível sobrevive, não morre: 
"E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer 
perecer no inferno tanto a alma como o corpo" (Mt 10.28 - Trinitariana). 
Seus discípulos aprenderam a lição. Sabiam que a morte não era o fim de tudo. Herodes poderia 
degolar João Batista, mas jamais poderia extinguir a sua alma. Pedro poderia ser crucificado de cabeça 
para baixo; outros poderiam ser brutalmente assassinados, mas suas almas permaneceriam intocáveis. 
Jesus não deixa dúvida quanto à imortalidade e sobrevivência da alma. Por isso, na parábola, disse que 
"Lázaro morreu e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão". O rico, que vivia na opulência, 
poderia até ter tirado a vida do mendigo, mas a alma deste não seria atingida. 
Conhecedor desta verdade, o apóstolo Paulo afirma que "para mim o viver é Cristo, e o morrer é 
ganho...mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir e estar com Cristo, porque 
isto é ainda muito melhor" (Fp 1.21-23). Estava Paulo realmente consciente de que iria apodrecer no 
sepulcro e nada dele sobraria até a ressurreição? Neste caso não haveria qualquer lucro imediato. 
Melhor seria continuar vivo e pregando o Evangelho. Mas ele tinha a promessa do Autor da Vida: a 
sua alma não morrerá. "Partir e estar com Cristo" transmite uma idéia de trânsito sem interrupção. 
Esta interpretação se torna mais consistente quando consideramos Lucas 23.43, 46, e Atos 7.59. 
O EXTERMÍNIO DOS ÍMPIOS 
Os mortalistas alegam que se os que morrem em Cristo seguem diretamente para o c éu, por que 
motivo Deus os tiraria de lá para se unirem a seus corpos? Considerando que defendem a total 
extinção dos ímpios, respondemos com outra pergunta: "Por que Deus tiraria os ímpios de suas 
sepulturas (Ap 20.5) para em seguida aniquilá-los? Eles já não estão mortos? Ora, na ressurreição do 
corpo - uns para a vida de eterna comunhão com Deus, outros para a eterna separação de Deus - 
ocorre uma recomposição alma-corpo, e o homem retorna à condição original de alma vivente (Gn 
2.7), porém agora, quanto aos salvos, num estado de glorificação. 
Li em determinado endereço na internet que o objetivo da segunda ressurreição, a dos ímpios (Ap 
20.5) é "simples regresso à vida, à vida física, prelúdio de destruição total e definitiva (Dn 12.2 - 2a 
parte)". Vejamos o que diz o texto: 
"E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para 
vergonha e desprezo eterno" (Dn 12.2-Trinitariana). Os contradizentes desejam aniquilar a alma do 
homem, na morte, e também aniquilar os ímpios após a ressurreição destes. Mas o texto apresentado 
não aprova tal raciocínio. Os ímpios ressuscitarão "para vergonha e desprezo eterno", ou seja, estarão 
eternamente envergonhados e desprezados, afastados de Deus. Jesus fala que os maus sofrerão a 
ressurreição "da condenação" (Jo 5.28,29). O inferno é lugar de "tribulação e angústia" (Rm 2.9) e 
de "pranto e ranger de dentes" (Mt 22.13; 25.30). Tais castigos só podem ocorrer em corpos vivos. 
A ressurreição dos ímpios dar-se-á para serem julgados e castigados segundo as más obras de cada um. 
É um exagero afirmar que a ressurreição dos ímpios é um "prelúdio" do extermínio. 
GRAUS DE CASTIGO 
A doutrina da pena de morte para os ímpios não consegue responder satisfatoriamente como serão
179 
aplicados os diferentes graus de castigo. Ora, se os ímpios sofrerem a pena capital, não haverá 
diferentes graus de punição. 
"Assim como haverá diferentes graus de glória no novo céu e na nova terra, também haverá diferentes 
graus de sofrimento no inferno. Aqueles que estão eternamente perdidos sofrerão diferentes graus de 
castigo, conforme os privilégios e responsabilidades que aqui tiveram" (Notas Bíblia de Estudo 
Pentecostal). Vejam os textos pertinentes: 
"Virá o Senhor daquele servo no dia em que o não espera e numa hora que ele não sabe, e separá-lo-á, 
e lhe dará a sua parte com os infiéis". E o servo que soube da vontade do seu senhor e não se 
aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com MUITOS AÇOITES. Mas o que a não 
soube e fez coisas dignas de açoites com POUCOS AÇOITES será castigado..." (Lc 12.46-48). 
"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que devorais as casas das viúvas, sob pretexto de 
prolongadas orações. Por isso, SOFREREIS MAIS RIGOROSO JUÍZO" (Mt 23.14-Trinitariana). 
(Mc 12.40 diz:"...Estes receberão juízo muito mais severo"; Lucas 20.47 diz"... Estes receberão 
maior condenação"). 
"De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver 
por profano o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajar o Espírito da graça?" (Hb 10.29). 
"Uma é a glória do sol, e outra, a glória da lua; e outra, a glória das estrelas; porque uma estrela 
difere em glória de outra estrela. Assim também a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo em 
corrupção; ressuscitará em incorrupção. " (1 Co 15.41,42). 
Os crentes fiéis receberão galardões: Mt 5.11,12; 25.14-23; Lc 19.12-19; 22.28-30; 1 Co 3.12-14; 
9.25-27;2 Co 5.10; Ef 6.8; Hb 6.10; Ap 2.7,11,17,26-28; 3.4,5;12,21. Os crentes menos fiéis 
receberão poucos galardões, ou nenhum (Ec 12.14; Mt 5.19; 2 Co 5.10). 
Ainda sobre o "extermínio dos ímpios, convém esclarecer que o verbo "perecer" em Mateus 10.28 
não significa exterminar. Vejamos seu real significado no grego, língua original do Novo Testamento, 
tudo conforme o conceituado Dicionário VINE, de W.E. Vine, Merril F. Unger, William White Jr., 
CPAD, edição 2002, Rio. 
"Perecer" 
1 - apollumi, "destruir", significa, na voz média, "perecer", e é usado acerca de: (a) coisas (por 
exemplo, Mt 5.29.30; Lc 5.37; At 27.34 [em alguns textos piptõ, "cair"]; Hb 1.11; 2 Pe 3.6; Ap 
18.14-segunda parte... 
(b) pessoas (por exemplo, Mt 8.25; Jo 3.15, 16; 10.28; 17.12, "se perdeu"; Rm 2.12; 1 Co 8.11; 
15.18; 2 Pe 3.9; Jd 11). Em 1 Co 1.18 ["Porque a mensagem da cruz é loucura para os que estão 
perecendo..."], literalmente, "perecendo", onde a força perfectiva do verbo implica a conclusão do 
processo. Quanto ao significado da palavra, veja DESTRUIR". 
"Destruir" 
1 - apollumi, forma fortalecida de ollumi, significa "destruir totalmente"; na voz média, "perecer". 
A idéia não é de extinção, mas de ruína, perda, não de ser, mas de bem-estar. Isto é claro pelo uso do 
verbo, como, por exemplo, o estrago dos odres de vinho (Lc 5.37); a ovelha perdida, ou seja, perdida
do pastor, estado metafórico de destituição espiritual (Lc 15.4,6, etc.); o filho perdido (Lc 15.24); o 
perecimento da comida (Jo 6.27), do ouro (1 Pe 1.7). O mesmo com rela ção às pessoas (Mt 2.13; 
8.25; 22.7; 27.20); à perda da felicidade no caso dos não-salvos (Mt 10.28; Lc 13.3,5; Jo 3.15, em 
alguns manuscritos; Jo 3.16; 10.28; 17.12; Rm 2.12; 1 Co 15.18; 2 Co 2.15; 4.3; 2 Ts 2.10; Tg 
4.12; 2 Pe 3.9). 
180 
2 - kataluõ, formado de kata, para baixo, elemento intensivo, e o n. 4, "destruir totalmente", 
"subverter completamente", é verbo que ocorre em Mt 5,17 duas vezes acerca da lei); Mt 24.2; 
26.61; 27.40; Mc 13.2; 14.58; 15.29; Lc 21.6 (acerca do templo); em At 6.14, diz r espeito a 
Jerusalém; em Gl 2.18, fala acerca da lei como meio de justificação; em Rm 14.20, da ruína do 
bem-estar espiritual de uma pessoa (em Rm 14.15, o verbo appolumi, n. 1, é usado no mesmo 
sentido). Em At 5.38,39, acerca do fracasso dos propósitos; em 2 Co 5.1, da morte do corpo". 
Portanto, nem sempre a expressão PERECER significa destruição, extermínio, eliminação do ser. 
Vejamos o que diz o evangelho sinótico de Lucas: 
"Temam aquele que, depois de matar o corpo, tem poder para lançar no inferno" (Lc 12.5b-NVI-Almeida 
RC-Bíblia de Jerusalém-Trinitariana). 
"Tenham medo de Deus, que, depois de matar o corpo, tem poder para jogar a pessoa no inferno" 
(Lc 12.5b-BLH). 
Eis a Bíblia se explicando a si mesma. O sinótico de Lucas, para não pairar dúvidas, não usa o verbo 
apollumi-perecer, mas emballõ-lançar (separar, lançar, arremessar, atirar, jogar, lançar em). Ballõ-lançar 
é um sinônimo traduzido como lançar, arremessar, jogar (Mt 5.29; 18.8; Ap 2.10.24; 
20.3,10,14,15). Então Mateus 10.28b deve ser lido assim: "...tem o poder para lançar no inferno 
alma e corpo". Logo, lançar ou perecer no inferno não significa aniquilamento. 
Os mortalistas apresentam também o seguinte texto como prova do extermínio dos maus: "Os quais, 
por castigo, padecerão eterna perdição, ante a face do Senhor e a glória do seu poder" (2 Ts 1.9- 
Trinitariana). "Eles vão sofrer o castigo da destruição eterna e serão separados da presença do Senhor 
e do seu glorioso poder" (BLH). "Os quais padecerão, como castigo, a perdição eterna, expulsos da 
face do Senhor e da glória do seu poder" (Alfalit). 
Contestação - O versículo diz exatamente o contrário do que desejam os defensores da pena de 
morte. Os ímpios serão banidos da face do Senhor, para serem castigados (cf.Ap 
20.10)."Destruição/perdição/banimento" (elethros) nesse caso, como já vimos, significa perda de 
bem-estar, ruína, separação eterna da comunhão de Deus, tal como já explicado a análise de Mateus 
10.28b ("perecer no inferno"). Neste sentido é usado em Mt 7.13, Jo 17.12, 2 Ts 2.3. Adão foi 
expulso do Éden, banido da face do Senhor, e experimentou imediata perdição/morte espiritual. 
"Pois assim como em Adão todos morrem, também da mesma forma em Cristo serão vivificados" (1 
Co 15.22). Ademais, o próprio texto diz: "separados/banidos" da presença do Senhor". A 
advertência do Senhor continua válida nos dias de hoje. Se formos desobedientes, certamente 
morreremos (Gn 2.17). 
Mais um: "Porque eis que aquele dia vem ardendo como fornalha; todos os soberbos, e todos os que 
cometem impiedade, serão como a palha; e pisareis os ímpios, porque se farão cinza debaixo das 
plantas de vossos pés, naquele dia que estou preparando, diz o Senhor dos Exércitos" (Ml 4.1,3).
181 
"Todos os que praticaram a iniqüidade serão queimados" (Bíblia Alfalit). 
Contestação - Realmente, os ímpios serão destruídos. O texto fala de pessoas vivas que serão 
exterminadas no Dia do Senhor ("aquele dia"). Esses ímpios a serem aniquilados ressuscitarão no 
tempo devido (Jo 5.29; Ap 20.5). Depois, corpo e alma serão lançados no inferno (Mt 10.28; Lc 
12.5), onde "serão atormentados dia e noite, pelos séculos dos séculos" (Ap 20.10,14,15). Malaquias 
4.1,3 se coaduna com outras passagens que falam das últimas coisas. Vejamos: 
"Porque como um fogo purificador ele é..." (Ml 3.2-a); "Colocarei sinais nos céus e sobre a terra, 
sangue e fogo e colunas de fumaça" (Jl 2.30); "Os céus e a terra que agora existem, estão reservados 
para o fogo, guardados para o dia do juízo e da destruição dos ímpios (2 Pe 3.7). Um terça parte dos 
homens serão mortos ao soar da sexta trombeta, por fogo, fumaça e enxofre (Ap 9.15,17). No Dia do 
Senhor, no tempo em que Deus derramará seus juízos sobre a terra, os ímpios que existirem na terra 
experimentarão a primeira morte, a morte física. Depois da ressurreição, virá a morte eterna, a 
eterna separação de Deus (Ap 20.14,15;21.8; 22.15). 
Portanto, o texto sob análise não reforça a tese do aniquilamento. Dentro do mesmo contexto e 
interpretação estão os demais textos que falam em extermínio e perdição dos ímpios (Sl 
34.16;37.9.10,38; 145.20. Fp 3.19). Em tais casos, "perecer", "destruir", "perdição" falam da 
destituição e alienação espirituais provenientes de Deus. São exemplos João 3.16 ("não pereça, mas 
tenha a vida eterna") e Mateus 10.6 ("ovelhas perdidas da casa de Israel"). 
A tese do extermínio dos ímpios enfrenta outra dificuldade. Jesus revelou que os justos ressuscitarão 
"para a vida", e os ímpios, "para serem condenados" (Jo 5.29); na carta aos romanos Paulo indica que 
"haverá tribulação e angústia para todo ser humano que pratica o mal" (Rm 2.9); em Daniel 12.2 l ê-se 
que os ímpios ressuscitarão "para a vergonha e desprezo eterno"; Apocalipse 14.11 diz que não 
haverá descanso "nem de dia nem de noite" para os adoradores da besta; Apocalipse 20 .10 anuncia 
que os que forem lançados no lago de fogo "serão atormentados dia e noite, para todo o sempre"; 
Jesus declara que os insensatos e hipócritas serão punidos severamente num lugar "onde haverá choro 
e ranger de dentes" (Mt 8.12; 24.51; 25.30), e onde estarão amarrados, em trevas, para todo o 
sempre (Mt 22.13). 
Convenhamos, defunto não chora, não se angustia, não range dentes, não passa por tribulação, não se 
atormenta, não sente vergonha ou desprezo. Logo, não deve prevalecer a idéia de que os ímpios serão 
exterminados. Deus não ressuscitará os ímpios para exterminá-los em seguida (Ap 20.5). Agiria assim 
para que morram "conscientes" da punição? De maneira alguma. É uma impropriedade alegar que a 
ressurreição é um prelúdio da morte. Reviver para morrer, sair da sepultura para, em seguida, 
retornar à sepultura - sinceramente, se trata de um pensamento que colide frontalmente com a 
Palavra. A ressurreição do corpo é para que viva; não para que morra. Não fosse assim, não haveria 
razão para ressuscitar os que já se acham mortos. 
Em resumo, a tese do extermínio dos ímpios é incompatível com a doutrina dos diferentes graus de 
castigo e contrária ao ensino da Bíblia. O assunto voltará a ser tratado m ais adiante. 
DUALIDADE E SOBREVIVÊNCIA DA ALMA 
A separação alma-corpo por ocasião da morte está expressa, por exemplo, nas palavras de Jesus: "Pai,
182 
nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, havendo dito isto, expirou". Havendo morrido como 
homem, e não como Deus, a alma de Jesus também separou-se do seu corpo na morte. O primeiro 
mártir cristão, Estevão, também entregou seu espírito: "Senhor Jesus, recebe o meu espírito" (At 
7.59). Salomão tinha razão quando disse que o corpo desce ao pó, mas o espírito segue seu destino 
(Ec 12.7), confirmando haver uma separação na hora da morte. 
"E disse [o ladrão] a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino. E disse-lhe 
Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso" (Lc 23.42,43). 
A declaração de Jesus ao ladrão arrependido é a mais clara aplicação da salvação pela graça, mediante a 
fé, conforme Efésios 2.8-9. Além disso, o texto revela a dualidade do homem, a separação e 
sobrevivência da alma por ocasião da morte. Tão grande pedra no caminho dos mortalistas não 
poderia deixar de ser rejeitada com muito alarido e pouca consistência. Apresentam as seguintes 
objeções, cabalmente refutáveis. 
Primeiro - Dizem que em algumas versões está escrito "quando vieres no teu reino" , e não "quando 
entrares no teu reino". Assim, desejam convencer que a alma do ladrão não iria imediatamente para o 
céu, mas esperaria a volta de Jesus para ressuscitar. 
Contestação - (a) A segunda parte do texto dirime qualquer dúvida que possa existir com relação à 
primeira. Jesus declara que o ladrão arrependido subiria para o céu naquele mesmo dia. Em nenhuma 
hipótese devemos duvidar das palavras de Jesus, a menos que renunciemos à nossa condição de 
cristãos. (b) O ladrão arrependido passou a fazer parte do reino de Deus no momento em que aceitou 
o senhorio de Jesus. Sabendo que o ladrão morreria naquele mesmo dia, e que, na qualidade de salvo, 
sua parte imaterial iria para o céu, Jesus declarou sem rodeios: "Hoje estarás comigo no paraíso". É 
muito provável que o ladrão não conhecesse o ensino da volta de Jesus. A interpretação mais 
provável, portanto, é "quando entrares no seu reino". (c) De qualquer modo, Jesus nos ensinou que 
as almas dos crentes seguem direto para o céu. Com isto, o ladrão morreu com a certeza de se 
encontrar com Ele no paraíso. (d) A palavra grega erchomai é traduzida também como "vir" (Mt 2.2; 
24.46), "ir" (Jo 20.1; 1 Co 4.19), chegar (Mt 8.14; 13.54), partir (Mc 8.10; 9.33). Em razão disso, 
algumas versões registram, "quando vieres no seu reino", e outras, "quando entrares no seu reino". 
(e) O ladrão leu a placa com a declaração em grego, romano e hebraico: "Este é o Rei dos judeus" (Lc 
23.38) que fora colocada na cruz, teve certeza de que Jesus reinaria em algum lugar e manifestou o 
desejo de participar desse reino. Na verdade Jesus começou a reinar ali mesmo no coração do 
arrependido malfeitor. Então, quando estiveres, chegares, entrares no seu reinado, lembra-te de 
mim. Qualquer dúvida que possa subsistir desvanece diante da declaração de Jesus: "Em verdade te 
digo que hoje estarás comigo no paraíso". 
Segundo - Os contradizentes alegam que na Tradução Trinitariana, em português, editada em 1883, 
pela "Trinitarian Bible Society" de Londres, Diz: "Na verdade te digo hoje, que ser ás comigo no 
Paraíso". 
Contestação - A versão apresentada atende aos interesses dos contradizentes. É importante registrar 
que em edições mais recentes, em português, da SBTB - Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, o 
versículo está redigido assim: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso". Então, se 
torna inconsistente o argumento que defende a transcrição correta somente na edição de 1883, sem 
esclarecer o porquê de tal discriminação. Eleger uma versão em detrimento de outras, somente
183 
porque determinado registro atende a determinada cren ça, não me parece um sólido argumento. 
Terceiro - Alegam também, em defesa da inexistência da alma imortal, que "a expressão "hoje" ligada 
ao verbo não é redundante, mas enfática, tal como encontrada em Zacarias 9:12 e Atos 20:26. 
Justificam assim a versão "digo-te hoje: estarás comigo no paraíso". Contestação - Devemos buscar a 
ênfase no contexto. Logo após garantir que o malfeitor estaria com Ele no paraíso, Jesus, para 
confirmar tal assertiva, entregou ao Pai seu próprio espírito. Os textos apresentados (Zc 9.12 e At 
20.26) não servem para elucidar a questão. Vários exemplos podem ser citados em que inexiste a 
expressão "digo hoje": "Em verdade vos digo que eles já receberam..." (Mt 6.2); "Em verdade vos 
digo que, entre os que de mulher têm nascido..." (Mt 11.11). 
Quarto - Para contornar o problema, alegam que o ladrão não morreu naquele mesmo dia. Dizem 
que os crucificados passavam até sete dias sofrendo. Afirmam que "Cristo foi caso excepcional e que 
sabemos que não morreu dos ferimentos ou da hemorragia, mas do quebrantamento do co ração. 
Morreu de dor moral por causa dos pecados do mundo. Mas os outros, n ão, e as crônicas descrevem o 
condenado esvaindo-se lentamente durante dias". Alegam mais que "de acordo com o costume, 
quebravam as pernas dos criminosos depois de os haverem removido da cruz, deixando-os estendidos 
no chão, até que o sábado passasse. Depois do sábado haver passado, sem dúvida esses dois corpos 
foram outra vez amarrados na cruz, e lá ficaram diversos dias até morrerem..." 
Contestação - Como não podem negar a morte de Jesus na sexta-feira, apelam por alongar a agonia 
dos malfeitores crucificados. Ao dizer que Jesus morreu de "dor moral", negam a exist ência de 
hemorragia no Seu corpo, a asfixia, o enfraquecimento físico. Tal afirmação colide com diagnósticos 
de profissionais. O Dr. Barbet, médico francês, professor e cirurgião, que por treze anos viveu na 
companhia de cadáveres, após dissertar sobre o sofrimento de Jesus, dá o seu diagnóstico: 
"Todas as suas dores, a sede, as cãibras, a asfixia, o latejar dos nervos medianos, lhe arrancaram um 
lamento: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?". Jesus grita: "Tudo está consumado!". 
Em seguida num grande brado disse: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito". E morre". 
O Professor Pierluigi Baima Bollone diretor do Instituto de Medicina Legal da Universidade de 
Torino - Itália, relata em seu último livro, "Os últimos dias de Cristo". que a causa final da morte de 
Jesus foi "asfixia, complicada por ataque cardíaco terminal, e trombose coronária, ocorridas depois de 
poucas horas sobre a cruz, pois Jesus se encontrava fraco, devido as torturas recebidas. Todos estes 
dados são perfeitamente compatíveis com o que se lê nos evangelhos". 
Vejamos o relato bíblico a respeito da morte dos ladrões: 
"Os judeus, pois, para que no sábado não ficassem os corpos na cruz, visto como era a preparação 
(pois era grande o dia de sábado) rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas, e fossem 
tirados. Foram, pois, os soldados e, na verdade, quebraram as pernas ao primeiro e ao outro que com 
ele fora crucificado. Mas, vindo a Jesus e vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas" (Jo 19.31- 
33). 
Quebrar as pernas dos crucificados tinha o objetivo de apressar a morte. Sem o apoio dos pés, o corpo 
ficava seguro apenas pelos pulsos, o que causava forte press ão sobre o tórax. A morte viria 
rapidamente.
184 
Quinto - Alegam que Jesus não foi para o Pai logo após a morte. Apresentam como justificativa o que 
Jesus disse a Maria Madalena: "Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai" (Jo 20.17 a). 
Sob a ótica da não sobrevivência da alma, dizem que Jesus devolveu ao Pai o sopro, a vida dele 
recebida. Assim explicam: "Era este fôlego que Cristo e Estevão não podendo reter, quando estavam 
prestes a expirar (e expirar significa soltar o fôlego, exalá-lo definitivamente), pediram ao Pai que o 
recebesse de volta. (Atos 7:59 e Lucas 23:46). Mas não era parte consciente, pois Cristo, dias depois, 
ressurreto, dissera: "Ainda não subi para Meu Pai." 
Contestação - Creio que todas as afirmações de Jesus são verdadeiras. Os mortalistas se agarram na 
frágil argumentação segundo a qual o espírito de Jesus não subiu ao Pai porque Ele mesmo o revelou a 
Madalena (Jo 20.17). Somente em duas hipóteses Jesus não entregou seu espírito ao Pai. Primeira, 
Ele não falou isso, e os evangelhos mentem; segunda, de fato Ele entregou seu esp írito, mas o Pai não 
o recebeu. Nenhuma dessas hipóteses é viável. "Não me detenhas, porque ainda não subi para meu 
Pai" diz respeito à subida de seu corpo ressurreto. Passados quarenta dias é que se deu sua ascensão 
corporal. 
Na ótica dos mortalistas não existe separação entre corpo e espírito por ocasião do falecimento. 
Admitem que o retorno à vida, como no caso de Lázaro (Jo 11.43) e da ressurreição coletiva (1 Ts 
4.16-17), é resultado de novo sopro de Deus. 
Jesus e Estevão não entregaram um simples sopro, nem Jesus disse ao ladrão que o seu "sopro" estaria 
subindo para o céu juntamente com o seu próprio "sopro". Nem sempre se pode traduzir psyche 
como "sopro". Vejamos se seria possível tal construção: 
"Não temais os que matam o corpo, e não podem matar o "sopro"; temei antes aquele que pode fazer 
perecer no inferno tanto o "sopro" como o corpo" (Mt 10.28). 
Após a morte a alma continua existindo. Na sua visão apocalíptica, o apóstolo João validou essa 
realidade: "E, havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por 
amor da palavra de Deus...e clamavam com grande voz..." (Ap 6.9 -10). De nenhum modo se pode 
deduzir que os "sopros" dos mortos estavam vivos e conscientes. As "almas dos que foram mortos" 
estavam no céu, e oravam para que os ímpios que rejeitaram a Deus e mataram os seus seguidores 
recebessem a justiça divina. 
Para Apocalipse 6.9-10 os mortalistas afirmam que é tudo simbólico, mas depois apresentam uma 
bizarra interpretação: "Estas "almas" eram as pessoas vítimas da matança do cavaleiro chamado 
Morte, descrito no quarto selo. Queremos dizer que as "almas" que aparecem sob o quinto selo foram 
mortas sob o selo precedente, dezenas ou mesmo centenas de a nos antes, portanto os perseguidores já 
estavam mortos, e ainda de conformidade com a teologia popular deveriam já estar no inferno, 
portanto já sofrendo a punição, sendo inócuo, pois, o clamor por vingança" ( 
http://www.jupiter.com.br/iasd/pmc2/outras2.htm) 
Contestação - O que dizer de: "E vi almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus..." 
(Ap 20.4)? Se são "almas das pessoas", confirma-se a sobrevivência das almas, pois não há registro de 
que essas pessoas haviam ressuscitado. Se a Bíblia diz que eram almas dos mortos, então realmente o 
eram. Seriam elas o "sopro" dos que foram degolados?. Claro que n ão. 
A mensagem nos diz que as almas se separam dos corpos, e sobrevivem, conforme referen dado em 
outros textos. Não procede o argumento de que as almas referidas são de pessoas que morreram
185 
centenas de anos antes. Esses eventos ocorrerão num período de sete anos, tempo de duração da 
grande tribulação, a "septuagésima semana de Daniel" (Dn 9.27;Ap 11.2; 13.5). 
Em Lucas 16.22 está escrito, conforme palavras de Jesus, que o mendigo Lázaro morreu e "foi levado 
pelos anjos para o seio de Abraão". A alma do injusto rico seguiu para um lugar de tormentos. O 
apóstolo Paulo desejou "partir e estar com Cristo, o que é muito melhor" (Fp 1.23). Esta afirmação 
denota mudança imediata, sem interrupção, sem intervalo. Demonstra que Paulo sabia que a sua alma 
entraria imediatamente na presença de Deus. 
A imortalidade da alma não é doutrina estranha às sagradas Escrituras. Creio na verdade dita por 
Jesus: podem matar o corpo, mas a alma não morrerá. Vejamos mais uma vez: "E não temais os que 
matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a 
alma e o corpo" (Mt 10.28-Trinitariana). 
"Não temais os que matam o corpo e, depois, não têm mais que fazer. Mas eu vos mostrarei a quem 
deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem poder para lan çar no inferno; sim, vos digo, a 
esse temei". (Lc 12.4-5-Trinitariana,NVI,Bíblia de Jerusalém,BLH ("jogar"). 
O texto acima contradiz duas teses dos aniquilistas: (a) A da morre da alma com o corpo; (b) A do 
extermínio dos ímpios. Alegam que "matar o corpo e não podem matar a alma" significa não poder 
matar o transcendente, a mente ou ego. Alegam também que se Jesus declara que Deus pode fazer 
perecer no inferno alma e corpo, é porque a alma é mortal. 
Contestação - Os contradizentes afirmam que quando o homem morre, tudo se acaba. Somente na 
ressurreição é que ressurgem corpo, consciência e todo o complexo ser humano. O texto, por sua 
clareza, dispensaria comentários. "Matar o corpo, mas não podem matar a alma", dar autenticidade a 
Lucas 16.22 (Lázaro levado pelos anjos), Atos 7.59 (Estevão entregando seu espírito), Filipenses 1.23 
(Paulo desejando morrer para estar com Cristo), Lucas 23.43 (o malfeitor arrependido sendo levado 
para o céu), Lucas 23.46 (o próprio Jesus entregando o seu espírito), Eclesiastes 12.7 (a alma se 
desliga e volta a Deus), Apocalipse 6.9 (almas dos mortos), Tiago 2.6 (corpo sem o espírito), Mateus 
17.3 (Moisés na transfiguração), 2 Coríntios 5.8 (deixar o corpo e habitar com o Senhor), Mateus 
22.32 (Deus não é Deus dos mortos, mas de vivos). 
A MORTE DA ALMA 
Examinemos algumas das provas apresentadas pelos mortalistas. 
"Certamente morrerás", castigo prometido ao homem, em caso de desobediência (Gn 2.17), 
versículo muito usado na defesa do dogma da pena de morte para a alma. Alegam que como o homem 
foi feito "alma vivente" (Gn 2.7), ao morrer, morre a alma vivente e tudo se extingue. Alguns alegam 
que o homem, por não haver comido da árvore da vida (Gn 4.22-24), não se tornou imortal. 
Contestação - Os contradizentes se apegam ao termo "alma vivente" na tentativa de demonstrar que o 
homem sendo uma alma que vive, morrendo o homem, morre a alma. Ocorre que o hebraico nephes, 
mencionado mais de 780 vezes no AT, é traduzido por alma, ego, vida, pessoa, coração. A mesma 
palavra nephes é usada para descrever animais da terra, em distinção aos pássaros e peixes. Nesta 
concepção, são seres ou criaturas viventes (Gn 1.24,28,30). Quanto ao homem, a palavra passa a
186 
significar pessoa que vive. Uma importante diferença existe na criação de homens e animais. O 
homem foi criado de um modo todo especial. Além de haver sido feito à imagem e semelhança do 
Criador, Deus soprou em suas narinas. Não houve sopro nas narinas dos animais. Temos, portanto, 
em nosso ser uma substância divina que veio diretamente do Ser Divino. A isso chamamos alma, que, 
segundo as palavras do próprio Criador, Jesus, é imortal e transcendente (Mt 10.28). 
É possível que a árvore da vida seja símbolo das bênçãos espirituais a serem desfrutadas pelos que são 
lavados e remidos no sangue do Cordeiro. Após a queda, Adão foi lançado "fora do jardim do Éden" 
para que não tome da árvore da vida, e "viva eternamente" (Gn 3.22-23). O ressurgimento simbólico 
da árvore no tempo futuro (Ap 2.7;22.2,14), para desfrute dos santos imortais, desencoraja a tese de 
que ela seja símbolo de imortalidade. O Novo Comentário da Bíblia, assim interpreta: "Qualquer que 
seja a verdadeira explicação sobre a árvore, não há dúvida sobre a significação da ação de Deus ao 
remover o homem do jardim. O homem estava agora cortado de Deus e, portanto, no sentido mais 
real estava cortado da "vida": isso foi simbolizado mediante a separa ção entre ele e a árvore da vida". 
Somente quando a redenção aparece consumada é que a árvore da vida reaparece dentro do alcance do 
homem. Note-se que a `árvore da vida´ era símbolo do estado abençoado do homem; enquanto que a 
árvore da ciência do bem e do mal simbolizada o teste a que foi sujeitado o homem". 
Gênesis 2.17 não fala em mortalidade da alma. Somente a partir de Eclesiastes 12.7 o assunto come ça 
a ser revelado, até chegar na palavra de Jesus, conforme Mateus 10.28, onde diz que a alma n ão pode 
morrer. 
Adão passou por duas qualidades de morte, após sua queda: em primeiro lugar e imediatamente, 
adveio a morte espiritual, ou seja, a eterna separação de Deus (Gn 3.6-12). Em segundo lugar, a 
morte física, isto é, Adão ficou sujeito a morrer fisicamente. Daí a sentença em Gênesis 3.19: "Pois és 
pó, e ao pó tornarás". Por isso, "certamente morrerás" (Gn 2.17) contempla a morte física e a morte 
espiritual. Esses dois tipos de morte passaram a todos os homens (Rm 5.12, cf. Mt 13.49; 25.41). A 
alma imortal de Adão não ficou sujeita à morte. 
Os mortalistas dizem que na morte o fôlego se evapora, perde-se no ar. Eclesiastes 12.7 chama 
"espírito" a parte invisível que sai do corpo sem vida, e que volta para Deus. Salom ão não se estendeu 
muito no assunto, mas nota-se que ele estava falando dos justos, cujas almas vão diretamente para 
Deus. Portanto, não vale dizer que Salomão ensinou a salvação universal, salvação para todos. Para 
colocar as coisas nos devidos lugares, Jesus explica que os justos são levados para o céu, e os 
desobedientes para um lugar de tormentos (Lc 16.19-31). 
Continuemos na análise de alguns versículos apresentados pelos mortalistas em defesa do dogma da 
mortalidade da alma. 
"A alma que pecar, essa morrerá" (Ez 18.4,20). 
Contestação - A Bíblia está falando de pessoas, de filhos com relação aos pais. Na Bíblia Linguagem de 
Hoje registra "a pessoa que pecar é que morrerá". Citar esse versículo como prova da mortalidade da 
alma é um lamentável equívoco. "Morte" nesse caso tem o mesmo significado que teve com rela ção a 
Adão, o de morte espiritual, compreendendo a separação de Deus. Os que estão mortos em seus 
pecados, afastados de Deus, porém vivos, têm ainda oportunidade de se arrependerem e aceitarem os 
termos da Nova Aliança em Cristo Jesus (Ez 18.21). Se, porém, não se arrependerem experimentarão
187 
a morte eterna, ou seja, a eterna separação de Deus. Estes sofrerão o eterno castigo (Ap 20.10; 
14,15; 21.8). 
"O salário do pecado é a morte" (Rm 6.23). 
Contestação - Cabe a mesma refutação do tópico anterior. Vejamos o que diz o conceituado 
Dicionário VINE, sobre thanatos-morte: "É usado nas Escrituras para descrever: (a) a separação da 
alma (a parte espiritual do homem) do corpo (a parte material), o último cessar de funções e a volta 
para o pó (Jo 11.13; Hb 2.15; 5.7; 7.23). (b) separação do homem de Deus; Adão morreu no dia em 
que desobedeceu a Deus (Gn 2.17), e, por conseguinte, todo o g ênero humano nasce na mesma 
condição espiritual (Rm 5.12.14,17,21) da qual, porém, aqueles que crêem em Cristo são livres (Jo 
5.24; 1 Jo 3.14). A morte é o oposto da vida; nunca denota não-existência. Assim como a vida 
espiritual é "a existência consciente em comunhão com Deus", assim, a morte espiritual é "a 
existência consciente na separação de Deus". 
A IMORTALIDADE DE DEUS 
"O único que possui a imortalidade que habita em luz inacess ível..." (1 Tm 6.16). Este versículo é 
muito usado na defesa da mortalidade da alma. Dizem que o homem somente adquire imortalidade na 
ressurreição para a vida eterna com Cristo. Argumentam que na ressurreição o que é mortal se 
reveste de imortalidade (1 Co 15.54). Os outros, os que morreram sem salvação não terão tal 
privilégio. 
Contestação - Na ressurreição dar-se-á uma recomposição do homem; o corpo volta à vida, reunindo-se 
à alma, e o homem retorna à condição original de ser vivente. Os crentes terão um corpo 
semelhante ao de Cristo (Rm 6.5; Fp 3.21). É preciso lembrar que os ímpios também ressuscitarão, e 
se tornarão imortais, porém terão vida de má qualidade. 
"O termo athanasia expressa mais que imortalidade, sugere a qualidade da vida desfrutada, como est á 
claro em 2 Co 5.4: ...não queremos ser despidos, mas vestidos de novo, para que o mortal seja 
recolhido pela vida. O estado do crente de ser despido não se refere ao corpo no sepulcro, mas ao 
espírito que aguarda o "corpo da glória" na ressurreição" (Dicionário VINE, pg 703). O apóstolo 
Paulo faz talvez a mais importante revelação sobre a imortalidade da alma e futura união desta com o 
corpo. Ele fala da sua esperança não apenas de "partir e estar com Cristo" (Fp 1.23), mas de poder ser 
"vestido de novo", quando será consumada a redenção completa, "a redenção do nosso corpo" (Rm 
8.23). 
A imortalidade de que trata 1 Timóteo 6.16, refere-se a um atributo intrínseco da Divindade; uma 
imortalidade que pode ser traduzida por eternidade, isto é, Deus não teve começo nem terá fim. Por 
outro lado, Paulo assevera que os cristãos ressuscitarão em corpos físicos "imortais" (1 Co 15.53). 
Logo, o homem possui em potencial essa imortalidade não inerente ao seu ser, mas derivada, 
adquirida, doada. A imortalidade humana difere da de Deus porque não é eterna: a nossa não terá fim, 
mas teve um princípio. 
Mortalistas há que usam o argumento do silêncio, afirmando que em lugar nenhum da Bíblia diz que as 
almas que estão no céu ou no inferno sairão de seus lugares para um encontro com seus corpos. Como 
vimos em 2 Coríntios 5.1,8, e em outras passagens, esse silêncio não é total. Se a alma não morre
188 
com o corpo (Ec 12.7; Mt 10.28; Lc 23.43,46; At 7.59; Fp 1.23), sem d úvida ela se unirá ao corpo e 
formará na ressurreição um corpo espiritual e imortal. 
ACERCA DOS QUE DORMEM 
Não sejais ignorantes acerca dos que já dormem... (1 Ts 4.13,14; cf. Dn 12.2; Mt 27.52; Mc 5.39; Lc 
8.52; 1 Co 11.30; 15.6,18). A expressão "os que dormem", referindo-se aos mortos em Cristo, tem 
sido usada para justificar a inconsciência após a morte e a inexistência de uma alma sobrevivente e 
imortal. Dizem que a situação dos mortos até a ressurreição é de completa inexistência. Citam como 
prova irrecusável a resposta de Jesus aos discípulos: "Nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo" 
(Jo 11.11). Alegam também que Jesus nada disse sobre a situação do espírito do falecido. Para 
Marta e Maria seria um consolo saber que seu irmão morreu e foi para o céu. 
Contestação - Primeiro, é impróprio o argumento com base no silêncio de Jesus. Não se pode firmar 
doutrina sobre o que não foi dito. A Bíblia aponta na direção de que somente os salvos tiveram o 
privilégio de voltar a viver. Estamos falando em ressuscitar, ter uma vida normal, por ém mortal. São 
exemplos: "os santos que dormiam" (Mt 27.52-53); o filho da viúva de Serepta, (1 Rs 17.19-22); o 
filho da sunamita, (2 Rs 4.32-35); o defunto na cova de Eliseu (2 Rs 13.21); a filha de Jairo (Mc 5.21 - 
23, 35-41); o filho da viúva de Naim (Lc 7.11-17); a discípula chamada Tabita, ressuscitada por Pedro 
(At 9.36-43); a ressurreição do jovem Êutico (At 20.9). Temos aí cinco ressuscitações provavelmente 
de crianças ("delas pertence o reino de Deus" - Lc 18.16). 
Lázaro não estava num lugar de tormentos, condenado (Lc 16.22.23). N ão podemos imaginar um 
ímpio, condenado, vivendo já em tormentos, retornar à vida por um milagre de Deus. Entendemos 
que Lázaro, ao morrer, fora levado pelos anjos para o céu, tal como aconteceu com o outro Lázaro, o 
mendigo (Lc 16.22). 
Segundo, sempre que a Bíblia fala em dormir está se referindo, metaforicamente, ao corpo, 
porquanto a parte imaterial do homem não morre, nem dorme. O corpo do malfeitor arrependido 
ficou "dormindo", mas seu espírito foi para o céu (Lc 23.43). 
O conceituado Dicionário VINE nos oferece uma clara definição do termo grego koimaomai-dormir: 
"É usado acerca do "sono" natural (Mt 28.13); da morte do corpo, mas s ó daqueles que são de 
Cristo...; dos santos que partiram antes da vinda de Cristo (Mt 27.52; At 13.36); de Lázaro, 
enquanto Jesus ainda estava na terra (Jo 11.11). Este uso metafórico da palavra sono é apropriado por 
causa da semelhança na aparência entre um corpo dormente e um corpo morto; tranqüilidade e paz 
normalmente caracterizam ambos. O objetivo da metáfora é sugerir que assim como aquele que 
dorme não deixa de existir enquanto o corpo dorme, assim a pessoa morta continua a existir, apesar 
de sua ausência da região na qual aqueles que ficaram podem ter acesso ao corpo morto, e que, assim 
como sabemos que o sono é temporário, assim será a morte do corpo. É evidente que só o corpo está 
sob consideração nesta metáfora: (a) por causa da derivação da palavra koimaomai, de keimai, `deitar-se 
´; (b) pelo fato de que no Novo Testamento a palavra ressurrei ção é usada somente em alusão ao 
corpo; (c) porque em Dn 12.2, onde os fisicamente mortos são descritos como `os que dormem no 
pó da terra', a linguagem é inaplicável à parte espiritual do homem; além disso, quando o 
corpo volta de onde veio (Gn 3.19), o espírito retorna a Deus que o deu (Ec 12.7). É evidente que a 
palavra `dormir´, onde é aplicada aos cristãos que partiram, não tem a intenção de transmitir a idéia 
de que o espírito está inconsciente".
189 
Portanto, o argumento do "sono da alma", como é conhecido, para justificar a visão holística do 
adventismo, é um dos mais insustentáveis. Somente o corpo fica inconsciente. 
O ESTADO DOS MORTOS 
Para atestar que os mortos estão inconscientes, os defensores da alma mortal apresentam os seguintes 
razões: Salmos 94.17, 115.17 e Isaías 38.18, que falam em "silêncio"; Salmos 6.5, fala em 
"esquecimento"; Eclesiastes 9.5, 6 e 10, de "inconsciência"; Daniel 12.2; Jó 14.12; Salmos 13.3, 
João 11.11 a 14; 1 Ts 4.13-15, falam de "sono"; Dn 12.13; Ap 6.11; 14.13, falam de "repouso". 
Contestação - A Bíblia ensina que ao separar-se do corpo a alma sobrevive e permanece num estado 
consciente de conhecimento. Portanto, quando a Bíblia fala em silêncio, esquecimento, descanso está 
se referindo à situação do corpo na sepultura, uma vez que a Palavra não pode contradizer-se. Já 
examinamos a questão do "sono da alma", em tópico anterior. Os textos citados podem ser 
esclarecidos unicamente através do exame de Eclesiastes 9.5: "Porque os vivos sabem que h ão de 
morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma...a sua memória ficou entregue ao esquecimento". 
O próprio Salomão explica onde se dá essa falta de memória dos mortos. Vejam: "Tudo o que te vier 
à mão fazer, faze-o conforme as tuas forças, pois na sepultura, para onde vás, não há obra, nem 
projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma" (v.10). Então, a palavra se refere ao corpo 
morto, inconsciente, que não mais terá qualquer atividade "debaixo do sol" (Ec 9.6), na terra, mas 
com certeza saberá o que estiver ocorrendo no céu (cf Lc 16.19-31; 2 Co 5.8; Fp 1.13; Ap 6.9). 
Por outro lado, de nada adiantaria subir para Deus uma alma inconsciente, morta, sem mem ória. Mas 
vejam que Jesus e Estevão entregaram o seu espírito. Não entregaram a sua respiração, o sopro de 
seus pulmões. Também de nada adiantaria ao ladrão subir para o céu, e lá não gozar conscientemente 
das bem-aventuranças. Os argumentos da extinção total do ser humano na hora da morte não devem 
prosperar por falta de embasamento bíblico. 
Dito isto, analisemos algumas questões levantadas pelo adventista Dr. Samuele Bacchiocchi, um dos 
expoentes da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), no artigo intitulado "Dualismo e Holismo no 
Exame da Consciência após a Morte". Suas considerações são um retrato ampliado do pensamento da 
senhora Ellen Gould White (1827-1915), co-fundadora e profetiza da IASD. Os argumentos e textos 
bíblicos do Dr. Bacchiochi são, regra geral, os mesmos da referida profetiza, que asse gurou o 
seguinte: "Depois da queda, Satanás ordenou a seus anjos que inculcassem a crença da imortalidade 
natural do homem" (Ellen, "O Grande Conflito", Edição Condensada, Casa Publicadora Brasileira, S. 
Paulo, p. 317). 
Não se sabe como a profetiza soube o que se passava no reino das trevas. Ora, todos sabemos que os 
homens morrem, mas sabemos também que todos ressuscitarão, uns para a ressurreição da vida, 
outros para a ressurreição da condenação" (Jo 5.29). O problema reside em refletirmos a respeito 
dessa condenação. Os ímpios ressuscitarão para a ressurreição da morte? Ou para receberem a devida 
punição, "e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre" (Ap 20.10)? A imortalidade 
que defendemos não é a do homem, mas a da alma do homem. Jesus soube muito bem definir o que 
significa corpo mortal e alma imortal (Mt 10.28).
190 
Mas adiante, Ellen White declara: "Se fosse verdade que a alma passa diretamente para o C éu na hora 
do falecimento, bem poderíamos anelar mais a morte que a vida" (p. 319). Argumento exatamente 
igual vem sendo usado pelos admiradores da profetiza. 
O apóstolo Paulo sabia que não existe, para os salvos, nenhum espaço de tempo indefinido entre a 
morte e a vida futura. Vejam: ..."enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor; mas 
temos confiança e desejamos, antes, deixar este corpo, para habitar com o Senhor" (2 Co 5.6,8); 
"Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho; mas de ambos os lados estou em aperto, 
tendo desejo de partir e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor" (Fp 1.21,23). 
Vejamos os argumentos do Dr. Bacchiocchi: 
"Não existe na Bíblia qualquer dicotomia entre um corpo mortal e uma alma imortal que "se separa" quando da 
morte. Tanto o corpo quanto a alma são unidades indivisíveis que deixam de existir ao tempo da morte, até a 
ressurreição". 
Não procede tal tese. Ocorre exatamente o contrário. Na morte, há uma separação. Corpo e alma são 
unidades divisíveis. Conquanto o corpo se corrompa no pó, a alma, dada por Deus, sobrevive. A 
questão é que na visão holística o que se separa do corpo é o sopro; na visão dualista, o que se separa é 
a parte imaterial do homem. 
"Abandonar o dualismo também provoca o abandono de todo um conjunto de doutrinas que resultam disso, 
especialmente a acariciada crença na consciência da vida após a morte. Isso pode se chamar "efeito dominó". Se 
uma doutrina cai, várias cairão junto". 
Não há como os aniquilistas abandonarem a crença da pena de morte para a alma sem que sofram o 
"efeito dominó". Abandonariam também a crença da inconsciência da alma, do extermínio dos 
ímpios, do sono da alma. Todavia, considero ser possível - em prol da liberdade de pensamento -, que 
um adventista se convença do ensino bíblico da imortalidade da alma, e continue adventista. 
"O evangelho não nos dá base para uma doutrina de redenção que salva a alma à parte do corpo ao qual pertence. 
A comissão evangélica não é salvar almas, mas pessoas inteiras". 
Os evangélicos não ensinam o contrário. A redenção contempla o homem, corpo e alma. Para isso 
ocorre a ressurreição do corpo. É o corpo físico que ressurge. O mortal se revestirá de imortalidade 
(1 Co15.53-54). "...gememos, aguardando a redenção do nosso corpo" (Rm 8.23). As almas imortais 
não precisam ser revestidas de imortalidade. Elas estão num lugar de descanso, ou num lugar de 
tormento (Lc 16.19-31). Na ressurreição a alma volta a unir-se ao corpo e o homem retorna à 
situação original de ser vivente (cf Rm 8.11). 
"Essas crenças têm enfraquecido e obscurecido a expectativa da segunda vinda de Cristo". 
Não procede o argumento de que a "crença popular" dualista não valoriza a vinda de Cristo, uma vez 
que as almas dos crentes já estão no céu. A redenção só se completa com a ressurreição do corpo, que 
está garantida pela ressurreição de Cristo (Mt 28.6; At 17.31; 1 Co 15.12,20-23). A ressurreição do 
corpo é necessária: (a) porque o corpo é parte essencial e total da personalidade do homem (Rm 8.18 - 
25); (b) na ressurreição o corpo voltará a ser templo do
191 
Espírito (1 Co 6.19); (c) para vencer a morte, o último inimigo do homem (1 Co 15.26). "O homem 
não recebeu uma alma de Deus; ele foi feito uma alma vivente. Os animais também foram feitos "almas viventes" 
(Gn 1:20, 21, 24, 30; 2:19), contudo, não foram criados à imagem de Deus". 
Entenda-se "almas viventes" como criaturas viventes ou seres viventes que t êm vida, que respiram 
vivem e se movem. Há, sim, uma grande diferença na forma como Deus criou homens e animais. 
Somente o homem recebeu o sopro de Deus em suas narinas (Gn 2.7). Isto é muito significativo. Para 
que os animais respirassem e vivessem não foi necessário o sopro de Deus. O respirar faz parte da 
mecânica do ser vivente. Os homens possuem algo provindo do seu eterno e imortal Criador. Esse 
algo se chama alma. Homens e animais se assemelham na morte porque os corpos de um e de outro 
descem ao pó e são consumidos. Mas com relação aos animais não se diz que o "espírito volta a Deus, 
que o deu" (Ec 12.7). 
"O que retorna para Deus não é a alma imortal humana, mas o Espírito divino que transmite vida e que nas 
Escrituras são igualadas ao fôlego de Deus: "Se Deus. . . recolhesse o seu espírito [ruach] e o seu sopro 
[neshamah], toda carne pereceria juntamente, e o homem retornaria ao pó" (Jó 34:14-15). O paralelismo indica 
que o fôlego de Deus é o Seu Espírito transmissor de vida". 
Vejamos a versão Trinitariana: "Se ele pusesse o seu coração contra o homem, e recolhesse para si o 
seu espírito e o seu fôlego, toda a carne juntamente expiraria, e o homem voltaria para o p ó" (Jó 
34.14-15). A Bíblia Linguagem de Hoje registra: "Se Deus quisesse, poderia fazer voltar para si o 
fôlego, a respiração da gente; então todas as pessoas morreriam juntas, no mesmo instante, e 
voltariam de novo para o pó". 
O Espírito de Deus é Deus. O Espírito Santo é Deus. Não faz sentido dizer que o Espírito divino 
retorna para Deus. Na verdade, o texto nos diz que se Deus não amasse a humanidade ["pusesse seu 
coração contra o homem"], e tirasse o fôlego de todos e o espírito que nos foi doado, todos 
pereceriam. A passagem não serve como argumento para defender a mortalidade da alma. 
A afirmação de que quem "retorna para Deus não é a alma imortal humana, mas o Espírito divino que 
transmite vida e que nas Escrituras são igualadas ao fôlego de Deus", é uma velada negação do Espírito 
Santo como terceira pessoa da Trindade. As testemunhas de Jeov á dizem que o Espírito é uma força, 
uma energia. 
"Quando, porém, o sopro se vai, tornam-se almas mortas. Isso explica porque a Bíblia freqüentemente se refere à 
morte humana como a morte da alma (Lv. 19:28; 21:1, 11; 22:4; Nm. 5:2; 6:6,11; 9:6, 7, 10; 19:11, 13; 
Ag 2:13)". 
A exemplo de Lv 19.28: "Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma 
sobre vós", e Ageu 2.13: "Se alguém vier a tornar-se impuro, por haver tocado um corpo morto...", 
nenhum dos textos citados diz que a alma morre junto com o corpo. Nada que possa robustecer a tese 
mortalista está nesses versículos, que apontam para o "corpo" sem vida, morto. No voto de nazireu 
havia a restrição de não tocar num corpo morto, que transmitia impureza (Nm 6.6). A mesma 
restrição é admitida pelo profeta Ageu, ao falar aos sacerdotes, porque fazia parte da lei (cf Nm 
19.11-14).
192 
"O que distingue os seres humanos dos animais não é a alma, mas o fato de que os seres humanos foram criados à 
imagem de Deus, isto é, com possibilidades semelhantes às de Deus, não disponíveis aos animais". 
Uma característica importante, a mais importante, distingue os homens dos animais: somente a 
respeito dos homens Eclesiastes diz que quando o corpo desce ao pó, o espírito volta a Deus (Ec 
12.7). Somente com relação ao homem, Jesus revelou que a sua alma é imortal: "Não tenham medo 
daqueles que podem matar o corpo e não podem matar a alma" (Mt 10.28a). Portanto, não somos 
semelhantes aos animais nem na criação, nem na vida, nem na morte. 
"Para impedir à humanidade pecadora a possibilidade de "viver para sempre" (Gn 3:22), ap ós a Queda Deus 
barrou o acesso à árvore da vida (Gn 3:22, 23)". "Após a Queda, Adão e Eva não mais tiveram acesso à árvore da 
vida (Gn. 3:22-23) e, conseqüentemente, começaram a experimentar a realidade do processo da morte". 
A alta simbologia da "árvore da vida" não ficará restrita ao conceito da imortalidade. O assunto foi 
desenvolvido em tópico anterior, onde lembrei que a mesma árvore surge na nova morada dos justos: 
"Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no paraíso de Deus (Ap 2.7). A árvore 
da vida representa a plenitude da vida eterna. A desobedi ência do homem resultou não na perda da 
imortalidade de seu espírito, mas em sua morte física e espiritual, como já explicado. A árvore da vida 
manifesta-se nos dias de hoje para o homem redimido, e estará na Jerusalém celestial, indicando o 
pleno retorno às condições no Éden. 
"A advertência divina (G. 2:17) estabelece uma clara ligação ética entre a vida e a obediência versus morte e 
desobediência. A natureza humana não foi criada com uma alma imortal, mas com a possibilidade de tornar -se 
imortal. A desobediência resultou em morte, não apenas para o corpo, mas para a pessoa inteira. Deus não disse: 
"no dia em que comerdes dela, vossos corpos morrerão enquanto vossa alma sobreviverá num estado 
desincorporado". Antes, declarou: "Vós", ou seja, a pessoa inteira, "morrereis". 
A declaração "certamente morrereis" não revela tudo a respeito do complexo ser humano. 
Aprendemos que na Bíblia, a exemplo do Messias que começou a ser revelado em Gênesis 3.15, as 
revelações são progressivas, como foi progressiva a revelação a respeito da imortalidade e 
sobrevivência da alma. Após a queda, Adão experimentou a morte espiritual ao ver-se afastado de 
Deus, e ficou potencialmente sujeito à morte física. 
"Sumariando, a expressão "o homem se tornou uma alma vivente-nephesh hayyah" apenas significa 
que em resultado do sopro divino, o corpo inanimado fez-se um ser vivente, que respirava--nada 
menos do que isso. O coração começou a bater, o sangue a circular, o cérebro a pensar, sendo todos 
os sinais vitais ativados. Declarado em termos simples, "uma alma vivente" significa "um ser vivo", e 
não "uma alma imortal". O que distingue os seres humanos dos animais n ão é a alma, mas o fato de 
que os seres humanos foram criados à imagem de Deus, isto é, com possibilidades semelhantes às de 
Deus, não disponíveis aos animais. 
"Possibilidades semelhantes às de Deus" é uma afirmação dúbia. Quais possibilidades? Poderíamos 
dizer que uma dessas possibilidades seria a imortalidade. O pr óprio Deus destacou a alma como o 
elemento que distingue os homens dos animais. O animal morre, e nada sobrevive; morre o homem, 
o espírito imortal sobrevive (Ec 12.7; Mt 10.28). Portanto, é exatamente o contrário do que foi dito. 
"A Bíblia traz um relatório de sete pessoas que foram levantadas dentre os mortos (1 Reis 17:17 -24; 2 Reis 4:25-
193 
37; Lucas 7:11-15; 8:41-56; Atos 9:36-41; 20:9-11), mas nenhuma delas teve uma experiência de pós-morte 
para compartilhar. 
"Não existe forma de vida consciente entre a morte e a ressurrei ção. Os mortos repousam inconscientemente em suas 
sepulturas até que Cristo os chame no glorioso dia de Sua vinda". 
Mais uma vez tenta-se firmar tese com base no silêncio das Escrituras. Não é boa essa hermenêutica. 
As doutrinas devem ser apresentadas com base no que a Bíblia diz, e não no que ela não diz. Porque a 
Bíblia não relata experiências pós-morte, então não existe vida espiritual logo após a morte? 
Poderíamos dizer que os animais também ressuscitam, pois a Bíblia nada diz a respeito. 
O argumento acima desconsidera o fato de que Moisés, apesar de haver morrido há mais de mil anos, 
apareceu em sã consciência e conversou com Jesus na transfiguração, estando presentes Pedro, Tiago 
e João (Mt 17.1-9). O profeta Elias, que subiu ao céu num redemoinho, também ali estava. O 
registro da presença de Moisés no monte da transfiguração é bastante para demolir o dogma da 
inconsciência dos mortos. Na tentativa de contornar mais esse obst áculo, alegam que é possível que 
Moisés haja ressuscitado, considerando-se que "o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e 
disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele..." (Jd 
9). Mas onde está escrito que Moisés ressuscitou? O que está escrito na Bíblia é que ele morreu e foi 
sepultado. 
Todos os justos que já morreram estão na presença do Senhor, porque "Deus não é Deus de mortos, 
mas de vivos" (Mt 22.32). Esta é uma declaração da sobrevivência da personalidade após a morte. 
Entre a morte e a ressurreição os justos continuam como que vivos para Deus, e aguardam o 
momento glorioso da redenção do corpo, quando enfim a morte será vencida. Leiam: "Ora, Deus não 
é Deus de mortos, mas de vivos, porque para ele vivem todos" (Lc 20.38). A passagem explica que 
depois que os patriarcas morreram em seu estado corpóreo continuaram vivendo em outro estado. 
"Nenhum texto bíblico autoriza a declaração de que a 'alma' é separada do corpo no momento da morte. O ruach, 
'espírito', que faz do homem um ser vivente (cf. Gn 2:7), e que ele perde por ocasi ão da morte, não é, falando-se 
apropriadamente, uma realidade antropológica, mas um dom de Deus que retorna a Ele ao tempo da morte. (Ec 
12:7)". 
Nesse caso o argumento do silêncio das Escrituras erra o alvo. A visão adventista da inconsciência após 
a morte assenta-se sobre dois pilares: Gênesis 2.7, "o homem se tornou alma vivente", e Gênesis 
2.17, "certamente morrerás". Os dois textos são citados à saciedade no decorrer do artigo sob 
análise. Em tópico anterior dissertamos sobre essa questão. A expressão "alma vivente" significa um 
ser que vive, que se move, que respira. O homem é uma alma no sentido em que ele é um ser 
vivente, uma pessoa, uma personalidade. O próprio Deus, na Pessoa do Filho, que criou o homem e 
disse "certamente morrerás", e que veio trazer Boas Novas, nos ensinou que o homem possui uma 
parte imaterial, o espírito, que se separa do corpo na hora da morte (Mt 10.28). Com isso, Jesus deu 
mais luz ao contido em Eclesiastes 12.7. Ao dizer ao ladrão arrependido: Hoje estarás comigo no 
paraíso", Jesus não se referia ao "dom de Deus", à vida do malfeitor. Referia-se à sua personalidade, 
ao seu espírito, parte invisível e imaterial do seu ser. Ele foi recebido no céu pelo Deus dos vivos, e 
não dos mortos. 
"Primeiramente, não há lembrança do Senhor na morte: "Pois na morte [maveth] não há recordação
194 
de Ti; no sepulcro quem te dará louvor?" (Sal. 6:5)". 
Já comentamos e refutamos diversos textos apresentados como prova de que não há memória na 
morte. A contestação e explicação está no próprio versículo. É "no sepulcro", onde jaz o corpo, que 
ocorre a falta de memória. 
"Alguns argumentam que a intenção das passagens que acabamos de citar e que descrevem a morte 
como um estado de inconsciência "não é ensinar que a alma do homem é inconsciente quando ele 
morre", e sim de que "no estado de morte o homem não mais pode participar nas atividades do 
mundo presente". Em outras palavras, uma pessoa morta é inconsciente no que concerne a este 
mundo, mas sua alma é consciente no que concerne ao mundo dos espíritos. O problema com essa 
interpretação é que tem por base o pressuposto gratuito de que a alma sobrevive à morte do corpo, 
um pressuposto que é claramente negado no Velho Testamento. Descobrimos que no Velho 
Testamento a morte do corpo é a morte da alma porque o corpo é a forma exterior da alma". 
Em vários lugares, maveth [morte] é usada em referência à segunda morte. "Dize-lhes: Tão certo 
como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se 
converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por 
que haveis de morrer, ó casa de Israel" (Ez 33:11; cf. 18:23, 32). Aqui a "morte do ímpio" 
obviamente não se refere à morte natural que toda pessoa experimenta, mas aquela infligida por Deus 
no Fim aos pecadores impenitentes. Nenhuma das descri ções literais ou referências figuradas da morte 
no Velho Testamento sugere a sobrevivência consciente da alma ou espírito à parte do corpo. A morte 
é a cessação da vida para a pessoa integral. 
Houve um lamentável equívoco na exposição da idéia. Em primeiro lugar, por que buscar apoio 
somente no Velho Testamento? A Palavra de Deus não se estende ao Novo Testamento? Segundo, o 
texto citado como exemplo não dá suporte à eliminação do corpo e alma juntos. As lentes dos 
aniquilacionistas enxergam extermínio em qualquer tipo de morte. Mas não é bem assim. Adão 
morreu, mas não foi exterminado. Nós morremos em Adão, por causa de sua desobediência (1 Co 
15.22); os crentes morrem para o pecado, isto é, afasta-se de toda associação espiritual com o sistema 
pecaminoso do mundo (Rm 6.2; 1 Pe 2;24); morremos de morte natural (Mt 9.24); os ímpios 
morrem em seus pecados (Jo 8.24). 
Vejamos o que diz o verso apresentado como prova: "Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor Jeová, que não 
tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva; convertei-vos, 
convertei-vos dos maus caminhos; pois por que razão morrereis, ó casa de Israel" (Ez 33.11). Em 
outras palavras, o texto repete Ez 18.20: "A alma que pecar, essa morrerá". Agora, vejamos o que o 
articulista disse acima: 
"Descobrimos que no Velho Testamento a morte do corpo é a morte da alma porque o corpo é a forma exterior da 
alma". 
Se a descoberta foi em decorrência dos versículos acima, vê-se claramente que nada foi descoberto. 
Ezequiel 18.20 e 33.11 falam em morte dos ímpios, isto é, morrem em suas iniqüidades 
(vv.10,13,18). Não diz que a morte do corpo é a morte da alma, nem diz que se trata de um 
extermínio nos tempos do fim. A "morte do ímpio" se caracteriza em dois planos: (a) aqui na terra, 
pela quebra da comunhão com Deus (Tg 1.15), significando morte espiritual, tal como aconteceu com
195 
Adão logo após desobedecer (Gn 3.7-10); (b) a morte eterna, caracterizada pela separação definitiva e 
irremediável entre o pecador e Deus, após a ressurreição de que trata Jo 5.29 e Apocalipse 20.5. A 
morte eterna é entendida como a segunda morte, o lago de fogo - mais adiante explicado -, onde 
serão atormentados para todo o sempre (Ap 20.10). 
"Não há qualquer indicação de que a alma de Lázaro, ou das demais seis pessoas levantadas da morte, tenha ido 
para o céu. Nenhuma delas teve uma "experiência celestial" para narrar. A razão disso é que nenhuma ascendeu 
ao céu. Isso é se confirma na referência de Pedro a Davi em seu discurso no dia de Pentecoste: "Irm ãos, seja-me 
permitido dizer-vos claramente, a respeito do patriarca Davi, que ele morreu e foi sepultado e o seu t úmulo 
permanece entre nós até hoje" (Atos 2:29). Alguns poderiam argumentar que o que estava na sepultura era o corpo 
de Davi, não sua alma que havia ido para o céu. Essa interpretação, porém, é negada pelas explícitas palavras de 
Pedro: "Porque Davi não subiu aos céus" (Atos 2:34). A tradução de Knox assim reza: "Davi nunca subiu para o 
céu". A Bíblia de Cambridge traz a seguinte nota: "Pois Davi não ascendeu. . . Ele desceu à sepultura e 'dormiu 
com os seus pais'". O que dorme na sepultura, segundo a Bíblia, não é meramente o corpo, mas a pessoa integral 
que aguarda o despertar da ressurreição". 
O simples fato de não haver relato das "experiências celestiais" não prova nada. Não é boa a 
hermenêutica que busca apoio no silêncio da Bíblia. Vejamos o contexto em que se insere "Porque 
Davi não subiu aos céus": "A respeito dele [de Cristo] disse Davi: Porque tu n ão me abandonaste no 
sepulcro, nem permitirás que o teu Santo sofra decomposição... Posso dizer que o patriarca Davi 
morreu e foi sepultado, e o seu túmulo está entre nós até o dia de hoje... Prevendo isso, ele falou da 
ressurreição do Cristo, que não foi abandonado no sepulcro e cujo corpo não sofreu decomposição. 
Pois Davi não subiu aos céus..." (At 2.25-34). 
Pedro explicou que a afirmação de Davi (Sl 16.10) não se referia ao próprio Davi, e sim a Jesus, que 
realmente ressurgiu dos mortos. Conclui dizendo que não foi o corpo de Davi que ressuscitou, pois o 
patriarca morreu e foi sepultado, e o seu túmulo está entre nós até o dia de hoje" (v.29). A Bíblia 
Linhagem de Hoje melhor esclarece: "Porque não foi Davi quem subiu para o céu" (anabainõ-subir, 
ascender, levantar-se). Que o espírito de Davi foi imediatamente para o céu não há dúvida, à vista das 
diversas passagens bíblicas aqui citadas, e também porque ele era "homem segundo o coração de 
Deus" (At 13.22). É da vontade de Deus que os seus, a exemplo de Moisés, Elias, Enoque e o ladrão 
arrependido subam logo para o céu. 
"Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o Seu Filho unigênito, para que todo o que Nele crê não 
pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3:16). O destino dos que recusam crer é a destruição ("perecer"), e não a 
salvação universal". 
No tópico sob o título "extermínio dos ímpios" o assunto foi amplamente analisado e refutados os 
argumentos contrários. Faz parte da visão dos mortalistas ver extermínio em tudo. O mesmo verbo 
apollumi-perecer, de João 3.16, é usado, por exemplo, em Romanos 14.15: "Não destruas [ou faças 
perecer] por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu"; e em 1 Co 8.11: "E, pela tua 
ciência, perecerá o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu". Não se há de admitir que o irmão seja 
exterminado nesta vida terrena ou depois de ressuscitado. Então, entenda-se "perecer", em João 
3.16, como arruinar-se, afastar-se de Deus, perder a fé, perder-se, desviar-se do caminho. 
"A solução sensata aos problemas do ponto de vista tradicionalista deve ser encontrada, n ão por rebaixar ou 
eliminar o quociente de dor de um inferno literal, mas aceitando-se o Inferno por aquilo que realmente é - a
196 
punição final e permanente aniquilamento dos ímpios. Como declara a Bíblia, "Mais um pouco de tempo e já não 
existirá o ímpio; procurarás o seu lugar, e não o acharás", porque "o destino deles é a perdição" (Fil. 3:19). 
A tese sobre o aniquilamento está mal formulada ou mal explicada. A morte natural é considerada 
como aniquilamento? Considerando que os ímpios ressuscitarão (Ap 20.5), a pena capital ocorrerá 
logo após ressuscitarem? Neste caso, qual seria a finalidade da ressurrei ção deles? Ressuscitariam, 
seriam castigados por um tempo de acordo com suas obras, e depois seriam exterminados? Neste 
caso, não seria melhor não revivê-los? 3 
Referindo-se a Ezequiel 33.11, o articulista afirma que a "morte" ali referida "obviamente n ão se 
refere à morte natural que toda pessoa experimenta, mas aquela infligida por Deus no Fim aos 
pecadores impenitentes". 
Depreende-se que ao afirmar que "o destino deles é a perdição" o adventismo admite que o 
extermínio será o do corpo ressurreto, uma vez que não admite a existência de uma alma em 
sofrimento consciente. Retornamos ao seguinte questionamento: os ímpios reviverão para morrer? 
Sairão da sepultura para morrerem em seguida? Qual seria a finalidade da ressurrei ção dos ímpios (Ap 
20.5)? 
O inferno/lago de fogo e enxofre é lugar de prisão, desprezo, vergonha. Os anjos que pecaram foram 
lançados no inferno, presos em "abismos tenebrosos" (2 Pe 2.4; cf. Jd 6;cf Ap 20.7). O tormento é 
eterno, "para todo o sempre" (Ap 20.10). 
"Mas não há ressurreição da segunda morte, pois os que a experimentam são consumidos no que a Bíblia chama "o 
lago de fogo" (Ap. 20:14). Esse será o aniquilamento final". 
A refutação está no próprio capítulo, verso 10: "E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de 
fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta [e para onde irão os ímpios, cf. verso 15]. De dia e 
de noite serão atormentados, para todo o sempre". Todas as versões consultadas falam num tormento 
sem fim. O comentário da Bible Online (GILL), assim traduz: "E serão atormentados dia e noite para 
sempre; quer dizer, não só o diabo, mas a besta e falso profeta, porque a palavra está no plural: e este 
será o caso de todos os homens maus, de todos os inimigos de Deus e Cristo; é uma prova da 
eternidade de tormentos do inferno". 
"Não há existência independente do espírito ou alma à parte do corpo. A morte é a perda do ser total, e não 
meramente a perda do bem-estar. A pessoa inteira repousa na sepultura num estado de inconsci ência caracterizado 
na Bíblia como "sono". O "despertar" desse sono terá lugar quando Cristo vier e chamar de volta à vida os santos 
adormecidos". 
Então, anulemos tudo aquilo o que na Bíblia define como visão dualista, sobrevivência e consciência 
da alma após separar-se do corpo. Desprezemos, por exemplo, o relato dos evangelhos de Mateus, 
Marcos e Lucas que falam da Transfiguração de Jesus, onde apareceu Moisés, que havia morrido há 
mais de mil anos (Mt 17.1-8; Mc 9.1-8; Lc 9.28-36). Quem estava ali? Uma saída honrosa seria dizer 
que era o "sopro" personificado de Moisés ou um fantasma. Nada disso. Era Moisés mesmo, 
confirmando que na morte a parte imaterial chamada espírito se separa e segue o seu destino: os de 
Cristo seguem diretamente para o céu. Sobre Moisés, escrevi numa determinada lista de discussão, 
onde o assunto entrou em debate:
197 
Pensei pudesse receber melhor contribuição dos adventistas, ainda que contrária à minha crença, com 
relação ao aparecimento do falecido Moisés no monte da Transfiguração. O argumento contrário é 
bem vindo para que possa refutar com responsabilidade. 
O que vi, todavia, foi a alegação de que Jesus não iria participar de uma sessão espírita, haja vista a 
proibição para tal prática (Is 8.19). Ora, o que está em pauta não é isso. Essa argumentação seria mais 
válida para ser apresentada por um espírita, em defesa da comunicação com os mortos. 
O que sobressai é que a Palavra diz que Moisés, falecido, apareceu no monte da Transfiguração e falou 
com Jesus. Dizer que isso equivale a uma sessão espírita e que por isso mesmo não pode ser levado em 
conta, é não encarar de frente a questão. 
Mas vamos lá. Na Transfiguração não se caracterizou uma sessão espírita como a conhecemos. Não 
houve intermediário, um médium entre o morto Moisés e Jesus. Não ocorreram manifestações 
mediúnicas. Moisés conversou com o Senhor Jesus como se estivesse no céu. Os apóstolos que 
presenciaram o fato não conversaram com o morto Moisés nem com Elias. Estes e Jesus conversaram 
entre si. 
A Transfiguração (metamorphoõ) de Jesus se caracterizou por uma mudança radical do seu corpo; o 
termo denota alteração substancial, mudança completa. Então, o Filho de Deus se apresentou ali com 
a Sua natureza divina plena, da mesma forma como os apóstolos O viram na ascensão. Somente nessa 
condição falou com o morto Moisés. Não cito Elias porque este não passou pela morte; foi trasladado. 
Vejam que o rosto de Jesus "resplandeceu como o sol, e as suas vestes se to rnaram brancas como a 
luz" (Mt 17.2). 
Menos desastroso argumento, embora natimorto, seria dizer que ali estava o "sopro personificado de 
Moisés", ou que tudo isso é um simbolismo, que na verdade Moisés quer dizer Lei, e Elias quer dizer 
profetas. Seriam argumentos completamente refutáveis, mas muito mais dignos do que dizer que não 
podia ser Moisés porque Jesus não iria participar de uma sessão espírita. 
"Como no serviço típico do Dia da Expiação, os pecadores impenitentes eram "eliminados" e "destruídos", assim 
no cumprimento antitípico do juízo final, os pecadores "sofrerão penalidade de eterna destruição banidos da face 
do Senhor" (2 Ts 1:9). 
A palavra "destruição" e as equivalentes perecer, eliminar e aniquilar ocorrem 66 vezes no artigo sob 
exame. Portanto, estamos realmente diante da doutrina do aniquilacionismo. 
Vejam o texto na versão NVI: "Eles sofrerão a pena de destruição eterna, a separação da presença do 
Senhor e da majestade do seu poder". Apõleia-destruição/perdição tem o significado de separação, 
"perda de felicidade, de bem-estar, não de ser". Poderíamos traduzir assim: "Sofrerão a pena da 
eterna separação de Deus". A versão Alfalit registra: "Os quais padecerão, como castigo, a perdição 
eterna, expulsos da face do Senhor e da glória do seu poder". São expulsos, perdem o privilégio de 
viverem para sempre com o Senhor. A versão BLH: "Eles vão sofrer o castigo da destruição eterna e 
serão separados da presença do Senhor e do seu glorioso poder". Deus elimina e separa? Ora, se vão 
ser exterminados não há porque separá-los. Os ímpios ficarão eternamente separados.
198 
Em nenhum momento o autor do artigo sobre a visão holística faz qualquer comentário sobre os 
castigos diferenciados. Como conciliar a doutrina da punição proporcional às faltas cometidas com o 
conceito holístico o extermínio puro e simples? Ora, a punição diferenciada como resultado do 
julgamento segundo as obras espelha a reta justiça de Deus. A pena capital nivelaria todas as faltas 
cometidas. Todos pagariam igualmente com a morte, qualquer que fosse o nível de suas culpas. 
Sobre a ressurreição dos ímpios, revela o artigo: 
"Mas não há ressurreição da segunda morte, pois os que a experimentam são consumidos no que a Bíblia chama "o 
lago de fogo" (Ap 20:14). Esse será o aniquilamento final". A Bíblia, contudo, faz uma distinção entre a primeira 
morte, que todo ser humano experimenta em resultado do pecado de Ad ão (Rm 5:12; 1 Co 15:21), e a segunda 
morte experimentada após a ressurreição (Ap 20.5) como salário pelos pecados pessoalmente cometidos (Rm 6.23). 
Admitem os mortalistas que os ímpios, após ressuscitarem (Jo 5.29; Ap 20.5), serão eliminados. 
Determinado adventista disse que "a ressurreição do ímpio é o prelúdio de sua destruição". Deus 
agiria assim para que os ímpios morram "conscientes" de sua punição? Ora, na morte não há 
consciência. Apesar de já estarem mortos, Deus faria ressurgir bilhões de corpos para em seguida 
queimá-los no lago de fogo e enxofre. Para quê, se eles já estavam mortos? 
O lago de fogo não é uma espécie de matadouro, um lugar de extermínio. É um lugar de vergonha, 
desprezo, angústia, tristeza por que passarão os que lá estiverem, pelos séculos dos séculos. A mesma 
expressão grega usada em Apocalipse 20.10, "serão atormentados para eis tous aiõnas ton aiõnõn-todo 
o sempre", é usada em Hebreus 1.8, referindo-se à duração do trono de Deus, eterno no sentido 
de interminável; em 1 Pedro 4.11, concercente à Sua glória e domínio para sempre; em Apocalipse 
1.8, sobre a eternidade do Cordeiro. 
Acompanhem a seguinte seqüência de eventos e comprovem que a "segunda morte" não é uma 
aniquilação, mas um estado eterno de separação de Deus: 
Apocalipse 19.20 - A besta e o falso profeta são lançados vivos no lago de fogo. 
Apocalipse 20.2 - Satanás é amarrado por mil anos. 
Apocalipse 20.5 - Os outros mortos reviveram após os mil anos. 
Apocalipse 20.7 - Satanás será solto da sua prisão. 
Apocalipse 20.10 - O diabo foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta. 
De dia e de noite serão atormentados para todo o sempre. 
Apocalipse 20.15 - Serão lançados no lago de fogo todos os não inscritos no livro da vida. 
Observem que passados mil anos (Ap 19.20) a besta e o falso profeta ainda se encontravam vivos no 
lago de fogo (Ap 20.10) e continuarão no mesmo eterno estado de ruína, sendo atormentados dia e 
noite. Diante das evidências, falece, porque não bíblica, a tese da aniquilação dos ímpios. 
"Descobrimos que tanto o Velho quanto o Novo Testamento claramente ensinam que a morte é a extinção da vida 
para a pessoa integral. Não há lembrança nem consciência na morte (Sl 9:5; 146:4; 30:9; 115:17; Ec 9:5). Não 
há existência independente do espírito ou alma à parte do corpo. A morte é a perda do ser total, e não meramente a 
perda do bem-estar. A pessoa inteira repousa na sepultura num estado de inconsci ência caracterizado na Bíblia 
como "sono". O "despertar" desse sono terá lugar quando Cristo vier e chamar de volta à vida os santos 
adormecido". 
Sobre o "sono da alma" já discorremos em análise anterior, neste estudo. O simples fato de a Bíblia
199 
usar a expressão "dormir" para os crentes mortos não pode ser traduzido como uma declaração de 
não sobrevivência da alma. Eclesiastes 9.5 deve ser entendido com os versos 6 e 10 seguintes: n ão há 
entendimento "debaixo do sol" nem na "sepultura". Nesta, morrem os projetos humanos. Há, sim, 
vida após a morte, em razão da imortalidade da alma. A vontade dos adventistas e demais 
contradizentes é que os homens, na morte, sejam iguais aos animais. Toda via, somente no caso dos 
homens se diz que o corpo desce à sepultura, mas o espírito volta a Deus. Ora, os animais também 
receberam o fôlego de vida diretamente do Criador. Por que razão ao morrerem seus "espíritos" não 
se separam? 
Salmos 9.5 fala da vitória de Davi sobre os inimigos do Deus de Israel, que pode ser uma alus ão aos 
Amalequitas, quase totalmente aniquilados no reinado de Saul (1 Sm 15.1-9). Os sobreviventes dessa 
nação inimiga foram exterminados pelo salmista Davi (1 Sm 30). O exemplo não pode servir para 
estabelecer doutrina sobre o aniquilamento dos ímpios. Nem todos os ímpios são exterminados da 
mesma forma. A maioria morre de morte natural, como morrem tamb ém os justos. O salmista diz 
que seus nomes estão apagados para sempre. Sim, seus nomes, aqui na terra estão apagados. Serão 
lembrados na ressurreição (Ap 20.5) para receberem o castigo eterno. Portanto, o exemplo do Salmo 
9.5 é inadequado como apoio ao ensino do aniquilamento, quer da alma, quer dos ímpios. 
Salmos 146.4, citado pelo adventista, diz que na morte perecem os pensamentos dos homens. A 
mensagem fala da fragilidade dos propósitos humanos, que em decorrência da morte não conseguem 
dar-lhe curso. Por isso, o salmista diz para não confiarmos em homens (v. 3), mas depositarmos a 
nossa esperança no Senhor (v.5). "Naquele dia perecem os seus pensamentos" nada diz sobre a 
inconsciência do espírito que na morte se separa do corpo. 
Salmos 30.9 ressalta uma realidade: "Porventura te louvar á o pó?". Trata-se de um "cântico para a 
dedicação do templo". A palavra hebraica yãdãh-louvar é usada como expressão de adoração, 
agradecimento ou louvor público-congregacional. Na morte, o salmista estaria impedido de dar 
testemunho público no meio da congregação (cf. Sl 22.12,22; 35.18). Nesta concepção, somente os 
vivos louvam (Is 38.18-19). O salmista conclui afirmando: "Senhor, Deus meu, eu te louvarei para 
sempre" (Sl 30.12). Todavia, "as almas dos mortos", cuja redenção ainda não se completou pela 
ressurreição do corpo, estão no céu louvando a Deus continuamente (Ap 6.9,10; cf Ap 19.4-7). 
Quando a Bíblia diz que os mortos não louvam ao Senhor (Sl 115.17) e sua memória jaz no 
esquecimento (Ec 9.5), está falando de não haver memória neste mundo, mas certamente há memória 
deste mundo. Salomão esclarece ao dizer que "na sepultura, para onde vais, n ão há obra, nem 
projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma" (Ec 9.10). Na morte, os projetos humanos são 
findos. A Bíblia ensina que a alma sobrevive à morte num estado consciente de conhecimento. 
"Outro bom exemplo se acha em 2 Ts 1:9 onde Paulo, falando a respeito dos que rejeitam o evangelho, declara 
objetivamente: "Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do Seu 
poder". 
Evidentemente a destruição dos ímpios não pode ser eterna em duração porque é difícil imaginar um processo 
eterno, inconclusivo de destruição. A destruição pressupõe aniquilamento. A destruição dos ímpios é eterna, não 
porque o processo de destruição continue para sempre, mas porque os resultados são permanentes. Do mesmo modo, 
os resultados da "punição eterna" de Mat. 25:46 são permanentes. É uma punição que resulta em sua eterna 
destruição ou aniquilamento".
200 
Entenda-se "destruição eterna" como eternamente arruinados, perdidos, abandonados, banidos da 
face do Senhor. Estarão destruídos porque separados para sempre do Senhor: "Eles sofrer ão a pena de 
destruição eterna, a separação da presença do Senhor e da majestade do seu poder" (2 Ts 1.9-NVI). A 
Bíblia de Jerusalém fala em ruína: "O castigo deles será a ruína eterna, longe da face do Senhor...". A 
versão Alfalit registra: "Os quais padecerão, como castigo, a perdição eterna, expulsos da face do 
Senhor..." 
O termo olethros-perdição, ruína, destruição é usado no Novo Testamento em quatro casos, e em 
nenhum deles significa extermínio (1 Co 5.5; 1 Ts 5.3; 2 Ts 1.9; 1 Tm 6.9). Exemplo: "Os que 
querem ficar ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que 
submergem os homens na perdição e ruína" (1 Tm 6.9). Na Bíblia, nem sempre a palavra original 
traduzida como destruir/destruição significa literalmente exterminar ou aniquilar: "O meu povo foi 
destruído porque lhe faltou o conhecimento...também eu te rejeitarei..." (Os 4.6). Vejam o termo 
hebraico shahat-destruir com o significado de ser vencido, rejeitado, derrotado, arruinado 
espiritualmente. Os israelitas eram "destruídos" porque rejeitavam deliberadamente a verdade que 
Deus lhes revelara através dos profetas e de sua Palavra escrita. Outro exemplo: "Porque no Filho do 
Homem não veio para destruir [apollumi] as almas dos homens, mas para salv á-las" (Lc 9.56). 
Então, banidos da presença de Deus, de sua majestade e glória, estarão em ruína, destruídos, 
desprezados, envergonhados, punidos com eterno castigo (2 Ts 1.9; Dn 12.2; Mt 25.46; 2 Pe 2.9; Ap 
20.10). 
"Antes de analisarmos a parábola, precisamos nos lembrar que contrariamente a uma alegoria como O Peregrino, 
onde cada detalhe conta, os detalhes de uma parábola não têm necessariamente algum significado em si mesmos, 
exceto como "pontos de apoio" para o relato. A parábola tem o propósito de ensinar uma verdade fundamental, e 
os detalhes não têm um significado literal, a menos que o contexto indique doutra forma. A partir deste princ ípio 
outro se desenvolve, ou seja, somente o ensino fundamental de uma par ábola, confirmado pelo teor geral das 
Escrituras, pode ser legitimamente usado para definir doutrina. 
A tentativa de Peterson de extrair três lições da parábola ignora o fato de que a sua principal lição é dada na linha 
conclusiva: "ainda que ressuscite alguém dentre os mortos" (Luc. 16:31). Esta é a principal lição da parábola, ou 
seja, nada ou ninguém pode superar o poder convincente da revelação que Deus nos concedeu em Sua Palavra. 
Interpretar Lázaro e o homem rico como representantes do que ocorrerá aos salvos e perdidos imediatamente após a 
morte significa querer captar da parábola lições estranhas a sua intenção original. 
O articulista fez uma ampla exposição da parábola do rico e Lázaro (Lc 16.19-31), do que extraímos 
algumas referências, como acima. Em suma, diz que não devemos levar em conta tudo o que foi dito 
por Jesus. Estabelece como principal lição da parábola "o poder convincente" da Palavra de Deus. 
Todos esses argumentos objetivam contornar uma preocupante e inc ômoda afirmação: "Morreu o 
mendigo [Lázaro] e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão" (Lc 16.22). Simples e bela como 
uma flor, a afirmação de Jesus atinge em cheio a tese dos mortalistas de completa inconsci ência depois 
da morte e de não sobrevivência da personalidade do homem. 
Jesus teria cometido o deslize de causar tremenda confusão entre as gerações futuras ao dizer que três 
almas - Abraão, Lázaro e o rico - haviam se apartado do corpo, na morte, e estavam, conscientes, em
201 
seus devidos lugares, mesmo sabendo que a alma morre com o corpo? Improvável. 
Na parábola do rico e Lázaro não há apenas uma verdade. Há várias lições que dela podemos extrair. 
A primeira, é que na morte o espírito se separa do corpo, e os salvos irão imediatamente para a 
presença do Senhor (Cf. Ec 12.7; Mt 10.28; Lc 8.55; 23.43,46; At 7.59; Fp 1.21,23; 2 Co 5.1,8; Ap 
6.9; 20.14). A segunda, é que o estado de tormento ou de bem-aventurança após a morte é um 
estado consciente e irreversível. A terceira, é que os espíritos dos mortos não podem sair de onde 
estão para auxiliar os vivos. A quarta, é que o meio eficaz de salvação é crer em Jesus e na sua Palavra. 
(22.04.2003) 
RESPOSTA AOS JUDEUS NÃO CONVERTIDOS 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
"Santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, e estai sempre preparados para responder com mansid ão e 
temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós" (1 Pe 3.15-16). 
Desconheço o autor das questões abaixo, que me foram remetidas recentemente. Pelo visto, deve ser 
um judaizante, ou seja, seguidor do Judaísmo, talvez um judeu não convertido, que não reconhece em 
Jesus o verdadeiro Messias. Em defesa de minha fé, elaborei a devida refutação, como a seguir: 
O Judaísmo afirma que Jesus não foi o Messias, pois não realizou as esperanças 
messiânicas. Ele não estabeleceu a paz universal e justiça social para toda a 
humanidade, nem redimiu o povo de Israel, e nem tampouco elevou as montanhas do 
Senhor acima do topo das alturas. No tocante aos judeus, seu pr óprio exílio e falta de 
um lar, e a continuação da guerra, pobreza e injustiça são provas conclusivas de que o 
Messias ainda não chegou, pois sua vinda, de acordo com promessas proféticas, 
apressará a redenção do povo de Israel do exílio e a redenção de todo o mundo dos 
males da guerra, pobreza e injustiça. 
Resposta - Todas as profecias messiânicas se cumpriram em Jesus Cristo. O Messias prometido, Jesus, 
o Ungido de Deus, veio para destruir as obras do diabo, dar liberdade aos cativos, quebrar as algemas 
invisíveis, trazer Boas Novas e preparar um povo para morar no c éu (Is 61-2; Lc 4.18; Jo 3.16). Veio 
para todas as nações, "para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 
3.16). Ele [O Cristo do Senhor] "é luz para iluminar os gentios, e para glória do teu povo Israel" (Lc 
2.32). "É Deus somente dos judeus? Não o é também dos gentios? Também dos gentios, certamente" 
(Rm 3.29). O povo de Deus não é exclusivamente a nação de Israel, mas os que estão lavados e 
remidos no sangue do Cordeiro. A REDENÇÃO em Jesus é espiritual. Todos os que O recebem são 
espiritualmente renovados. Jó disse: "Eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantar á 
sobre a terra. E depois de consumada a minha pele, ainda em minha carne verei a Deus" (J ó 19.25- 
26). A esperança no Redentor é que Ele viria salvar seu povo do pecado e da condenação (Rm 3.24; 
Gl 3.13; 4.5; Ef 1.7; Tt 2.14), livrá-lo do medo da morte (Hb 2.14,15; Rm 8.2) e da ira vindoura (1 
Ts 1.10); e dar-lhe vida eterna (Rm 6.23). Tudo isso encontramos na pessoa do Senhor Jesus. 
O reinado de Jesus será estabelecido num tempo vindouro, quando haverá plena paz no mundo. 
Vejam: "Em verdade vos digo que vós os que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do 
homem se assentar no trono de sua glória, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze 
tribos de Israel" (Mt 19.28); "Quando vier o Filho do homem na sua majestade e todos os anjos com
202 
ele, então se assentará no trono da sua glória; e todas as nações serão reunidas em sua presença, e ele 
separará uns dos outros, como o pastor separa dos cabritos as ovelhas" (Mt 25.31 -32). Os judeus 
"pensavam que o reino de Deus havia de manifestar-se imediatamente" (Lc 19.11). Supunham que 
Jesus iria comandar um exército para libertar os judeus do jugo romano. Ficaram decepcionados 
quando viram o Rei humilhado diante de Pilatos; conduzido para o Calv ário; castigado, vencido, fraco 
e morto. Nesse sentido, realmente Ele não realizou "as esperanças messiânicas". Mas trouxe vida 
abundante para todos os que O recebem como o verdadeiro Messias, o Filho do Deus vivo. 
A ênfase de Jesus em seus próprios ensinamentos, a maioria dos quais contrários ao 
verdadeiro espírito da profecia hebraica, culminou em sua reivindica ção de possuir 
proximidade especial com Deus, proximidade não compartilhada e nem mesmo 
semelhante à de qualquer outro ser humano. Assim ele declarou: "Tudo me foi 
entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho se não o Pai, e ninguém conhece o 
pai, se não o filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar". Deus, do modo como o 
judeu o conhece, está igualmente próximo de todos os homens, e sua proximidade 
depende de quão próximo eles querem que ele esteja e quão próximo eles desejam 
chegar dele. Nenhum profeta judeu nem mesmo Moisés, o mestre dos profetas, alguma 
vez afirmou estar mais próximo de Deus do que qualquer outro homem. 
Resposta - Jesus continua junto à sua Igreja, aos seus, ao seu povo, a todos os que O aceitam como 
Senhor. Ele mesmo disse que estaria conosco todos os dias (Mt 28.20). Ele foi chamado de Emanuel, 
que significa "Deus conosco" (Is 7.14). Jesus estabeleceu a diferen ça. Realmente, nenhum outro teve 
a ousadia de dizer que era "o Cristo, o Filho do Deus Vivo" (Mt 16.16 -17); nenhum profeta, em 
qualquer época, ouviu "uma voz dos céus, dizendo: "Este é o meu Filho amado, em quem me 
comprazo" (Mt 3.17; 17.5); ninguém jamais disse de si mesmo: "Eu sou o Senhor do sábado" (Mt 
12.8); nenhum profeta foi chamado de "Filho do Altíssimo" (Lc 1.32); a respeito de nenhum outro 
profeta se lê na Bíblia: "E estamos naquele que é verdadeiro, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é 
o verdadeiro Deus, e a vida eterna" (1 Jo 5.20); ninguém, antes de Jesus, teve a autoridade para 
declarar: "Eu sou o caminho, a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim" (Jo 14.6). 
Realmente, Jesus fez a diferença. Antes dele, ninguém pôde dizer com tanta certeza: "Eu e o Pai 
somos um" (Jo 10.30). E ninguém deu tantas evidências de Sua própria divindade quanto Ele, pois 
curou milhares de doentes, expulsou demônios, ressuscitou mortos, acalmou tempestades, andou 
sobre as águas. Em toda a história da humanidade, jamais um homem predisse a sua própria 
ressurreição: "Depois de eu ressurgir, irei adiante de vós para a Galiléia" (Mt 26.32); "E o entregarão 
aos gentios para ser escarnecido, açoitado e crucificado. No terceiro dia ele ressurgirá" (Mt 20.19). 
As Escrituras hebraicas, a exemplo do Salmo 22 e Isaías 53, falam do sacrifício de Jesus na cruz, 
exceto para quem ainda espera, em vão, o Messias prometido. 
O Messias que os judaizantes ainda aguardam terá que cumprir totalmente as profecias messiânicas das 
Escrituras hebraicas, o que é plenamente impossível. Assim, deverá ser descendente da tribo de Judá 
(Gn 49.10; Lc 3.33;Mt 1.2-3); nascer em Belém Efrata (Mq 5.2; Mt 2.1; Lc 2.4-7); nascer de uma 
virgem (Is 7.14; Mt 1.18); ser o principal motivo da matan ça dos meninos (Jr 312.15; Mt 2.16-18); 
ser a Galiléia o principal cenário do seu ministério (Is 9.1-2; Mt 4.12-16); ser profeta (Dt 18.15; Jo 
6.14) e sacerdote (Sl 110.4; Hb 6.20); deverá ser recebido com alegria quando entrar em Jerusalém, 
montado num jumentinho (Zc 9.9; Jo 12.13-14); ser traído por um dos apóstolos (Sl 41.9; Mc 14.10; 
Mt 26.14-16; Mc 14.43-45) e vendido por trinta moedas de prata (Zc 11.12; Mt 26.15;Mt 27.3 -10); 
que essas moedas sirvam para comprar um sítio (Zc 11.13; Mt 27.3-5; 8-10; 27.6-7); ser acusado por
203 
falsas testemunhas (Sl 27.12; 35.11; Mt 26.60-61). 
O Messias dos judaizantes, para que as Escrituras hebraicas se cumpram, dever á permanecer em 
silêncio quando for acusado (Is 53.7; Mt 26.62-63); ao ser preso, deve ser esbofeteado e cuspido (Sl 
69.4;Mc 14.65; 15.17; Jo 19.1-3; 18.22); deve ser odiado sem justa causa (Sl 69.4; Jo 15.23-25); 
sofrerá em nosso lugar (Is 53.4-5; Mt 8.16-17; Rm 4.25; 1Co 15.3); deve ser crucificado com 
pecadores (Is 53.12; Mt 27.38; Mc 15.27-28; Lc 23.33); na sua crucificação, suas mãos e pés devem 
ser trespassados (Sl 22.16; Jo 19.37; 20.25-27); para saciar sua sede, receberá na cruz fel e vinagre (Sl 
69.21; Jo 19.29; Mt 27.34,48); será alvo de zombaria (Sl 22.8; Mt 27.43). O Messias aguardado deve 
ter seu lado trespassado (Zc 12.10; Jo 19.34), seus ossos n ão serão quebrados (Sl 34.20; Jo 19.33), 
lançarão sortes sobre suas vestes (Sl22.18; Mc 15.24;Jo 19.24); dever á ser sepultado com os ricos (Is 
53.9; Mt 27.57-60); em cumprimento à sua própria profecia e às profecias das Escrituras hebraicas, o 
Messias que os judaizantes aguardam deverá ressuscitar ao terceiro dia, apesar de seu sepulcro receber 
o selo imperial e ser guardado dia e noite por uma guarda romana fortemente armada (Sl 16.10; Mt 
20.19; 26.32; 27.40; Mt 28.9; Lc 24.36-48) e sua ascensão deve ser vista pelos discípulos (Sl 68.18; 
Lc 24.50-51; At 1.9). 
O Messias esperado pelos judaizantes enfrentará outro obstáculo insuperável. É que o seu nascimento 
deverá ocorrer há dois mil anos (?!), exatamente na mesma época em que nasceu Jesus, para que se 
cumpra a profecia de Daniel 9.24-26a. Outra condição incômoda para o Messias dos judaizantes diz 
respeito à prova de sua linhagem, pois ele deverá ser da tribo de Judá e da família de Davi, da "raiz de 
Jessé" (Gn 49.10; Is 11.1,10; 2 Sm 7.12-16; Mt 1.1; 9.27; Lc 1.32; Hb 7.14; Rm 15.12; Ap 5.5). 
Impossível conseguir a prova dessa filiação porque os registros genealógicos foram extintos com a 
destruição do templo de Jerusalém pelos exércitos romanos, sob o comando do general Tito, em 70 
d.C. 
Para Jesus, a pobreza não era uma condição deplorável, necessitando de erradicação; 
mas pelo contrário, a considerava como um passaporte para o reino dos céus. E então 
aconselhava aos discípulos: Se desejas a perfeição, vá! venda sua propriedade e doe o 
dinheiro aos pobres e gozarás de riqueza nos céus. Depois, volte e seja meu seguidor" 
(Mt 19:21). 
Resposta - Não se pode generalizar o que está escrito em Mt 19.21. O coração daquele jovem estava 
em suas riquezas. Conhecendo sua fraqueza, Jesus aconselhou -o a vender seus bens. E disse ser difícil 
um rico entrar no reino de Deus. Jesus aproveitou a ocasi ão para ensinar que quem ama a Deus acima 
de tudo não deve ser escravo da idolatria e avareza. Todavia, a salva ção está em nEle crê, seja rico ou 
pobre (Jo 3.18; Ef 2.8). Não se pode criar uma doutrina com base nesse versículo, mas se deve 
examinar o conjunto dos ensinos de Jesus. Pobreza ou riqueza, tudo deve ser para a glória de Deus. 
Quando Jesus se encontrou com Zaqueu não condenou a sua riqueza; mas aquele homem, tendo 
ouvido a Jesus, resolveu devolveu o que havia ganho por meio il ícito (Lc 19.8). 
Para poder ser um seguidor de Jesus, entretanto, seria preciso romper todos os 
vínculos com a vida social normal, pois ele exigia: "Nem um de voc ês que não se 
despedir de tudo o que possui não poderá ser um dos meus discípulos" (Lucas 14:33). 
Essa renúncia não se estendia somente às posses materiais mas também à eliminação 
das afeições mais naturais pelos membros da família.
Resposta - Em Lucas 14.26-35 Jesus estabelece as condições para quem deseja ser Seu discípulo: 
renunciar a tudo quanto tem por amor a Cristo; levar após Ele a sua cruz (v.27), avaliar o preço de 
segui-Lo até o fim (vv.28-32). Em outras palavras, Jesus fez uma declaração de sua divindade, pois 
devemos amar a Deus sobre todas as coisas. Jesus ensina que o preço do discipulado verdadeiro é abrir 
mão de todos os relacionamentos e posses, isto é, de bens materiais, família, nossa própria vida com 
suas ambições, planos e interesses. Isto não significa que devemos abandonar tudo quanto temos, mas 
que tudo quanto temos deve ser colocado a serviço de Cristo e sob sua direção, "pois para isto Cristo 
morreu e tornou a viver, para ser Senhor tantos dos mortos como dos vivos" (Rm 14.9). 
204 
Contrariamente a atitude judaica positiva em relação ao matrimonio e família, Jesus se 
opunha quase que hostilmente a essas instituições. Não era casado e dirigia palavras 
extremamente contundentes contra lealdade a pais, irmãos e irmãs, considerando esses 
vínculos como afastadores do amor de Deus. Jesus desmerecia e envergonhava sua mãe 
e irmãos em público. Assim está registrado que quando Jesus se dirigia a uma 
multidão, "sua mãe e seus irmãos e permaneciam fora dela, desejando falar com ele. 
Mas, dizia a quem o avisava, 'quem é a minha mãe e quem são meus irmãos?' Apontava 
aos discípulos e dizia 'aqui estão minha mãe e meus irmãos! Todo aquele que realiza a 
vontade de meu Pai do céu é meu irmão e minha irmã e mãe'' (Mt 12:46-50). Em outra 
ocasião, quando um dos ouvintes exclamou, '' abençoada seja a mãe que o gerou e 
nutriu!'' Jesus respondeu: 'Você poderia se expressar-se melhor, abençoados sejam 
aqueles que ouvem a mensagem de Deus e as observa! '' (Lucas 11:27). E ele também 
ensinava: Não deves chamar qualquer um na terra de seu Pai, pois tens somente um, o 
Pai dos céus (Mt 23:9). 
Resposta - Em Mateus 12.46-50 vemos Jesus aproveitando a ocasião para, mais uma vez, dizer que 
em primeiro lugar está a obediência a Deus, e que sua mãe e seus irmãos não deveriam ser 
idolatrados. Jesus colocou um ponto final em qualquer tentativa de endeusar sua mãe (Lc 11.27-28). 
Nivelou sua família, principalmente sua mãe, a todos os tementes a Deus. Com coerência, Ele deu o 
exemplo de que devemos amar menos as coisas terrenas e MAIS a Deus. A divina missão de Jesus, 
definida desde a eternidade (Jo 1.1,2,14; 3.16), não incluía o vínculo matrimonial. É uma inverdade 
dizer que Jesus, de forma hostil, se opunha ao casamento, pois Ele confirmou o mandamento de 
"honrar pai e mãe" (Mt 15.4), manifestou-se a favor da pureza do matrimônio, condenando o 
adultério (Mt 5.27-28); e, na cruz, já perto da morte, demonstrou seu grande amor filial ao entregar 
Maria aos cuidados do apóstolo João. 
A maneira pela qual Jesus aplicava esses princípios a situações da vida real pode ser 
vista por seus rompantes de ira para com os discípulos que desejavam se desvincular 
de certas obrigações familiares antes de segui-lo. Quando um futuro discípulo dizia a 
Jesus: Mestre, vou segui-lo, mas deixe-me primeiramente dizer adeus aos que estão em 
minha casa'', ele o reprovava: Quem coloca sua mão no arado e olha para trás, é 
inadequado para o reino de Deus (Lucas 9:61). 
Resposta - Nessa passagem, Jesus disse que devemos deixar os espiritualmente mortos, cujos 
interesses estão somente nesta vida. Veja: "Disse também outro: Senhor, eu te seguirei, mas deixa-me 
despedir primeiro dos que estão em minha casa. Disse Jesus: Ninguém que lança mão do arado e olha 
para trás é ato para o Reino de Deus" (Lc 9.61-62). Jesus aproveitou a oportunidade para dizer que 
segui-Lo é tarefa para quem deseja amá-Lo sobre todas as coisas, capaz de deixar família, nação e bens
por Sua causa. Espiritualmente falando, vale dizer que todos nós devemos amar MENOS as coisas 
deste mundo. Os não crentes estão mortos em seus delitos e pecados (Ef 2.1,5). Jesus considerou que 
a família daquele homem estava espiritualmente morta; então usou essa expressão: deixe que os 
[espiritualmente] mortos sepultem seus mortos. As palavras para aquele seguidor naquele momento 
foram amargas, mas serviram como lição para o resto de sua vida. Esta verdade serve para os dias de 
hoje. Muitos missionários, colocando em risco a própria vida, largam família e bens e vão habitar em 
lugares hostis, por amor a Cristo. Em nada Jesus pode ser julgado por isso. Ele continuou sendo 
coerente em suas sábias palavras. 
205 
Jesus exigiu de seus seguidores que odiassem seu semelhante para serem melhores 
discípulos. Portanto ensinava: ''Aquele que se aproxima de mim sem odiar seu próprio 
pai e mãe, esposa e filhos, irmãos e irmãs e também a sua vida não pode ser dos meus 
discípulos'' (Lucas 14:26). 
Resposta - Quem nos ensinou a amar nossos inimigos e orar por eles, e a honrar pai e mãe, não nos 
ensinaria a odiar nossos familiares. Portanto, a passagem sob análise deve ser interpretada no seu 
contexto. Leia-se: "Se alguém vier a mim e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e 
irmãos, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo" (Lc 14.26-ARC). Mais uma 
vez, guardando coerência com as palavras já expostas, devemos entender "aborrecer" ou "odiar", 
neste versículo, como "amar menos". Ou seja, nossa lealdade e amor a Ele devem ficar acima de 
todos e de tudo. Todavia, a explicação bastante clara de Lucas 14.26 está em Mateus 10.37-38: 
"Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim; quem ama o filho ou a filha mais 
do que a mim, não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz, e não vem após mim, não é digno de 
mim". 
O quanto Jesus estava longe de ser piedoso e isento de desejo de vingança pode ser 
avaliado pelo fato de que ele amaldiçoou até mesmo uma árvore que não produziu os 
frutos que ele esperava! 
Resposta - Jesus transmitiu suas verdades em diversas situações e de diversos modos. O contexto de 
Mateus 21.18-22 revela que a intenção de Jesus não era apenas de amaldiçoar uma árvore, mas o de 
ensinar que "se tiverdes fé e não duvidardes, não só fareis o que foi feito à figueira...". Afirmar que 
Jesus era vingativo e falto de piedade é desconhecer por completo o texto dos quatro evangelhos. 
Existe também uma contradição sem solução entre a beatitude de Jesus: "Bem-aventurado 
os que promovem a paz por que serão chamados filhos de Deus''' (Mt 5:9) 
e sua declaração: "Não penseis que vim trazer paz a terra. Não vim trazer paz, mas 
espada. Com efeito vim contrapor o homem ao seu pai, a filha a sua mãe e a nora a sua 
sogra. Em suma, os inimigos do homem serão os seus próprios familiares" (Mt 10:34- 
37). 
Resposta - "Contradição sem solução" há para quem não sabe ou não quer aprender a interpretar 
corretamente as palavras de Jesus. O que Jesus disse é uma verdade. Vemos todos os dias cumprir-se 
essa palavra. Um jovem se converte e de imediato seus pais e seus irmãos ficam contra ele. Jesus 
promove a divisão entre as trevas e a luz porque: (a) o crente está separado do mundo e morto para o 
pecado (Lc 12.51-53; Rm 12.2); (b) A pregação da verdade enseja perseguição, divisão, zombaria e 
desprezo (Mt 5.10,11; 12.24; 14.4-12; 27.1; At 5.17; 7; 54-60; 14.22). É dessa forma que se deve
entender a aparente contradição em Jesus ser o "Príncipe da Paz" (Is 9.6) e declarar que veio trazer 
divisão. 
206 
A Bíblia hebraica considera todos os homens como irmãos por parte do Pai do céu. 
Portanto os profetas eram mensageiros de Deus para toda a humanidade e não somente 
para seu próprio povo. Jesus por outro lado apresentou uma atitude definitivamente 
exclusivista ao enfatizar que fora enviado somente para "as ovelhas desgarradas do 
povo de Israel. Esse aspecto ainda é mais enfatizado na recusa de Jesus em curar a filha 
de uma cananita. A Bíblia hebraica é repleta de exemplos de gestos de bondade 
dirigidos a não judeus, para citar um exemplo: Naamã. A dura resposta de Jesus à 
cananita não foi menos contrária à tradição judaica do que aos padrões éticos aceitos. 
Pois quando a mulher implorou: tenha piedade de mim, Senhor! Minha filha está 
terrivelmente possuída pelo demônio!' Jesus não reconfortou e também instruiu seus 
discípulos: mande-a embora pois fica implorando', acrescentando: "Fui enviado 
somente para as ovelhas desgarradas da casa de Israel. Quando a mãe alterada 
continuou implorando, ele exclamou as cruéis palavras: ''Não é certo tirar o pão das 
crianças e jogar aos cães! Querendo dizer com isso que os não judeus são cães e 
conseqüentemente sem direito a misericórdia divina. Somente quando a pobre mulher 
se humilhou, a ponto de aceitar o papel de uma cadela, dizendo: até os cães comem as 
migalhas que caem da mesa de seu dono, é que Jesus considerou e prometeu ajudá-la 
porque você possui grande fé (Mt 15:22-28). Mas mesmo ao ajudá-la, ele o fez sem 
humanidade ou piedade mas como retribuição à grande fé da mulher em sua pessoa. 
Respostas - Exemplos maiores de "crueldade" e "desprezo" pela vida humana vemos nas Escrituras 
hebraicas, dadas por Deus Pai. (1) Para provar a fé de Abraão, ordenou que este sacrificasse seu único 
filho Isaque, fazendo-o percorrer um longo caminho; somente no último momento, suspendeu sua 
ordem (Gn 22.1-12); (2) Após ter demonstrado grande zelo pelo seu povo, que tirou da escravidão 
do Egito, desejou matar todos eles em pleno deserto, por causa da idolatria do bezerro de ouro.Tal 
intento não se consumou por causa da intercessão de Moisés (Êx 3.7-9; 32.4,6,10). Por causa desse 
incidente, Moisés, num ato de "crueldade" passou a fio de espada cerca de três mil homens (Êx 
32.28); (3) Por ordem de Deus, a cidade de Jericó foi totalmente destruída pelo fogo, sob o comando 
do servo Josué: as casas, os animais, homens, mulheres e crianças foram consumidos (Js 6.2; 7.17, 
24); (4) Ao tomarem a cidade de Ai, por ordem do Senhor, mataram doze mil entre homens e 
mulheres (Js 8.1,2,25,26,28,29); (5) Jó era homem "íntegro e reto, temia a Deus e se desviava do 
mal", mas isso não evitou que perdesse todos os seus filhos e bens, e ainda ficasse coberto de chagas, 
tudo por permissão do Altíssimo, e tudo conforme as Escrituras hebraicas. São muitos os casos em 
que Deus Pai, como Senhor dos vivos e dos mortos, usou de Sua soberana e infinita vontade para pôr 
em prática seu plano de redenção. Podemos censurar Deus? Como admitir, portanto, que o Cristo, 
"Senhor dos vivos e dos mortos", "Pai da Eternidade", "Deus Forte" (Is 9.6; Rm 14.9) não agiu 
corretamente ao provar a fé da referida mulher? O texto não fala que Jesus ordenou aos discípulos que 
expulsassem a mulher. Os discípulos é que pediram a Jesus que assim procedesse, mas não foram 
atendidos (Mt 15.23-24). Com isso, Jesus ensinou que devemos ser perseverantes na fé. Ao atender 
ao clamor da Cananéia, libertando sua filha dos demônios, Jesus mais uma vez afirmou que veio 
libertar os cativos. 
Apesar de Jesus ter apregoado que nenhum pingo no i ou traço no t deveriam ser 
retirados da lei, ele próprio desconsiderou e violou várias leis importantes. A
207 
autorização a seus discípulos de apanharem as espigas de milho no sábado, pois estar 
faminto não se trata de emergência que justifique transgressão do sábado. Em várias 
ocasiões ele curou pessoas no sábado, que não estavam em situação emergencial, 
alegando que poderia fazê-lo, em oposição aos rabinos que sustentavam que o sábado 
pode e deve na verdade ser transgredido somente com vistas a salvar e preservar uma 
vida, mas não para tratar de pessoas com enfermidades crônicas cujo estado se 
prolonga por anos e que sem qualquer perigo de vida e saúde podem aguardar 
algumas horas até o término do sábado. 
Resposta - Ninguém melhor do que Jesus para dar a correta interpretação à lei que Ele mesmo 
formulou, na qualidade de Pessoa da Trindade. João Batista deu testemunho da divindade de Jesus, 
dizendo: "Aquele que vem do céu é sobre todos. Aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus..." 
(Jo 3.31,34). Jesus confirmou as palavras do seu precursor, afirmando que Seu ensino vinha daquele 
que O enviou, ou seja, de Deus (Jo 7.16,17). Nós, cristãos, cumprimos os princípios éticos e morais 
do Antigo Testamento (Mt 7.12; 22.36-40) e os ensinamentos de Cristo e dos apóstolos. Ouçam as 
palavras do nosso Salvador: "Ide e fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, e 
do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas QUE EU VOS TENHO 
MANDADO" (Mt 28.19-20). Do contrário, ainda estaríamos cumprindo o ritual da circuncisão (1 Co 
7.19). Para nós, a fé em Cristo é o ponto de partida para o cumprimento da lei, pelo que nos 
tornamos filhos de Deus (Jo 1.12). Segue-se que não somos salvos pelo mérito de cumprirmos a lei, 
mas "pela graça mediante a fé" (Ef 2.8). Libertos do poder do pecado e selados com o Espírito Santo, 
estamos debaixo da "lei de Cristo" (Gl 6.2;1 Co 9.21). O apóstolo Paulo declarou de forma clara que 
não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça (Rm 6.14). Jesus colocou o sábado no seu devido 
lugar, ensinando que esse dia foi instituído para benefício do homem, a seu favor, e não contra o 
homem (Mc 2.27). Jesus não censurou os discípulos acusados de não cumprirem a lei do sábado, por 
haverem apanhado espigas para comer (Mt 12.1-7), e afirmou que é lícito fazer o bem nesse dia (Lc 
6.9). Por último, Ele declarou que "o Filho do homem é Senhor do sábado" (Mt 12.8). 
A lei judaica aprova e recomenda o divórcio como meio de findar um matrimônio 
infeliz e insustentável. De fato a lei é notavelmente liberal pois aceita como 
justificativa para o divorcio a incompatibilidade, o que não é admitido por várias 
religiões progressistas. Jesus em clara oposição às leis talmúdicas e bíblicas proibiu o 
divórcio, exceto em caso de adultério por sua própria conta. 
Resposta - São válidos para este caso os mesmos argumentos apresentados na questão anterior. É 
bom entendermos que estamos sob a égide de uma nova aliança. Ao instituir a ceia do Senhor, Jesus 
disse que o Seu sacrifício na cruz representava o novo concerto, a Nova Aliança (Mt 26.28)."Dizendo 
nova aliança, Ele tornou antiquada a primeira. Ora, aquilo que se torna antiquada e envelhecida, perto 
está de desaparecer" (Hb 8.13). Jesus Cristo é o Mediador desse novo concerto ou novo testamento. 
"Se a aspersão do sangue de bodes e de touros, e das cinzas de uma novilha santifica os contaminados, 
quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, 
purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo?" (Hb 9.13-14). Com 
esta compreensão e certeza, podemos entender melhor a explicação dada por Jesus, quanto ao 
divórcio: "Também foi dito: Aquele que deixar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos 
digo que qualquer que e repudiar sua mulher, a não ser por causa de infidelidade conjugal, faz que ela 
cometa adultério, e aquele que casar com a repudiada, comete adultério" (Mt 5.31-32). O que vale 
para nós, hoje, nós que estamos debaixo da lei de Cristo, é essa palavra. Na questão formulada, está o
reconhecimento de que a lei do divórcio era "notavelmente liberal". Por isso, a lei é aperfeiçoada na 
Nova Aliança. 
208 
Ainda mais grave foi a atitude negativa de Jesus quanto às leis dietéticas expressas em 
seus ensinamentos: "Ouvi e entendei! Não é o que entra pela boca que torna o homem 
impuro!" (Mt 15:11). Isto era uma clara e inequívoca desaprovação da importância das 
leis dietéticas. Os discípulos de Jesus, indignados com esse ataque a uma das mais 
importantes observâncias judaicas, perguntaram a seu Mestre: "Você sabia que os 
fariseus se escandalizaram ao ouvir o que disseste?" Ao que ele respondeu: 'Qualquer 
planta que meu pai celeste não plantou será arrancada. Deixai-os. São cegos 
conduzindo cegos! Ora, se um ofuscado conduz outro, ambos acabarão caindo num 
buraco'. A pedido dos discípulos para explicar a parábola Jesus disse: "Não entendeis 
que tudo o que entra pela boca vai para o ventre e daí para a fossa? Mas o que sai da 
boca procede do coração e é isto que torna o homem impuro" (Mt 15:12-18). De 
maneira bastante natural Jesus declarou que "todos os alimentos são puros" (Mc 7.19). 
Claro que esse ataque frontal à totalidade das leis dietéticas constitui-se em estranho 
contraste à colocação de Jesus de que ele não havia vindo para abolir nada da lei ou 
dos profetas. 
Resposta - Os argumentos apresentados na questão anterior, quanto à autoridade de Jesus para 
alterar ou explicar a lei, são válidos para este caso. Continuam em vigor as palavras de Jesus, pois 
ainda temos cegos guiados por outros cegos. Os fariseus observavam com rigor os mínimos detalhes 
de sua tradição, até o "lavar as mãos quando comem pão" (Mt 15.2). Estavam convictos - e muitos 
ainda estão - de que a salvação deles dependia do cumprimento dessas obrigações. Jesus dá exemplo 
de que eles transgrediam os mandamentos, e revela: "E assim invalidastes, pela vossa tradição, o 
mandamento de Deus... ensinando doutrinas que são preceitos dos homens" (Mt 15.6,9). Jesus 
aproveitou o momento para declarar que os propósitos do coração são mais importantes para Deus, 
do que o lavar as mãos antes das refeições ou praticar outros rudimentos, porque do coração 
procedem os maus pensamentos..." (Mt 15.19,20). Em outra oportunidade Jesus criticou duramente 
os fariseus: 
"Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está 
cheio de rapina e de intemperança. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Sois semelhantes aos 
sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos de 
mortos, e de toda imundícia. Exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais 
cheios de hipocrisia e iniqüidades. Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do 
inferno?" (Mt 23.25-28). 
Para finalizar, ouçamos o apóstolo Paulo: "Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, 
ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas 
o corpo é de Cristo. Se estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos 
carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: não toques, não proves, não 
manuseies? {Estas coisas] não são de valor algum, senão para a satisfação da carne" (Cl 
2.16,17,20,21,23). 
O Messias será Rei sobre toda a terra
Todas as profecias messiânicas tiveram cabal cumprimento na Pessoa de Jesus de Nazaré. As 
expectativas dos judeus apontavam para o surgimento de um rei político/militar, capaz de livrá-los do 
jugo romano. Jamais admitiam a hipótese de um rei sofredor, humilde, sem armas. Por certo não 
atentaram bem para o texto do "servo sofredor", conforme Isaías 53, Aquele que seria "traspassado 
por nossas transgressões e moído por nossas iniqüidades". Por isso, não sem razão Paulo afirmou que 
a cruz de Cristo era "escândalo para os judeus" (1 Co 1.23). 
Todas as profecias da Bíblia foram, serão ou estão sendo cumpridas. O exemplo mais recente é a 
reconstituição do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948, por resolução da Organização das Nações 
Unidas (ONU), após quase dois mil anos de dispersão por todo o mundo. Esse retorno à Terra 
Prometida foi predito há cerca de 2.500 anos. Vejam: 
"Eis que os trarei da terra do Norte e os congregarei das extremidades da terra; e, entre eles, também 
os cegos e aleijados, as mulheres grávidas e as de parto; em grande congregação, voltarão para aqui" 
(Jr 31.8). O profeta Ezequiel foi ainda mais preciso: "Tornar-vos-ei de entre as nações, e vos 
congregarei de todos os países, e vos trarei para a vossa terra" (Ez 36.24). Outra profecia cumprida é 
a de que o deserto de Israel seria lavrado, agricultável, e que todos, surpresos, iriam dizer que "esta 
terra desolada ficou como o jardim do Éden" (Ez 36.33-36). Sabe-se que Israel tem superado a grande 
escassez de água na agricultura, utilizando sistema de irrigação de alta tecnologia. 
209 
Israel deve atentar muito bem para a seguinte profecia, a ser cumprida: 
"E sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o Espírito de graça e de 
súplicas; olharão para mim, a quem traspassaram; pranteá-lo-ão como quem pranteia por um 
unigênito, e chorarão por ele, como se chora amargamente pelo primogênito" (Zc 12.10). Não é 
preciso muito esforço para concluir que esta profecia está falando de Jesus, o unigênito de Deus (Jo 
1.14; 3.16; 1 Jo 4.9), o primogênito de Maria (Lc 2.7a), o traspassado na cruz (Jo 19.34,37). 
O povo que rejeitou o enviado de Deus chorará amargamente, e "o SENHOR será Rei sobre toda a 
terra" (Zc 14.9). 
SALMO 133: INTERPRETANDO O TEXTO NUMA 
PERSPECTIVA BÍBLICO-TEOLÓGICA 
Professor Diego Roberto 
No primeiro número de Fides Reformata apresentei um artigo sobre a necessidade da pregação do 
Antigo Testamento.1 Essa apresentação se deu como fruto da constatação de que se prega muito 
pouco o Antigo Testamento em nossas igrejas, e que, quando se prega, com raras exceções, usa-se o 
texto como um pretexto. No artigo defendi a necessidade de uma abordagem mais eficiente da 
teologia bíblica do Antigo e Novo Testamentos como uma só disciplina que não deve ser quebrada em 
diversas subdisciplinas autônomas. Esta teologia deve refletir o caráter da unidade bíblica. 
No presente artigo gostaria de expor de forma técnica, porém acessível, o texto do Salmo 133, 
bastante conhecido pelo povo evangélico na sua forma, porém, com um significado um pouco 
obscurecido por duas razões: a distância sócio-cultural que nos separa do Antigo Testamento e o 
desconhecimento do próprio Antigo Testamento com relação à teologia bíblica. Este artigo, portanto, 
se propõe a ser uma aplicação prática do primeiro artigo, um exercício hermenêutico em um texto
que, numa primeira leitura, superficial, parece ser de simples interpretação, mas que, no entanto, 
trouxe dificuldades a intérpretes do passado. 
Ainda mais, este texto traz uma mensagem muito relevante para o povo de Deus no momento atual, 
quando interpretado dentro do contexto bíblico-teológico adequado. É parte da pressuposição deste 
autor que o texto do Salmo 133 (assim como toda a Escritura) faz parte da revelação progressiva de 
Deus na história. A interpretação e suas implicações contribuem com a teologia bíblica, e esta, por sua 
vez, é refletida no texto. Portanto, perguntamos ao interpretar o texto em que ele contribui para a 
teologia bíblica como um todo, e como ele reflete esta teologia. Ainda mais, é parte de nossa 
pressuposição que estas relações do texto com a teologia podem ser percebidas através da 
interpretação e aplicação do texto sem forçar ou distorcer o seu significado original. 
I. Erros Comuns na Interpretação do Salmo 133 
Antes de expor o texto propriamente dito, exemplificaremos rapidamente alguns erros de 
interpretação do mesmo. Dois destes erros são os mais comuns: a pressa em aplicar o texto ao Novo 
Testamento, sem antes entende-lo à luz do seu próprio contexto e o medo de aplicar o texto temendo 
cometer um "abuso hermenêutico" como foi feito em abundância no passado. Seguem-se alguns 
exemplos destes erros e alguns outros. 
Agostinho, por exemplo, nas suas exposições do livro de Salmos, aplica o texto "quão bom e 
agradável é viverem unidos os irmãos" a certas circunstâncias neotestamentárias, como a união entre 
judeus e gentios e a união entre os apóstolos e a comunidade cristã descrita em Atos 2. No entanto, 
seu principal ponto na exposição do salmo é a defesa da vida monástica. Agostinho também interpreta 
detalhes do texto como "a barba" como sendo um sinal de maturidade e coragem. Quando muito, 
devemos considerar a interpretação de Agostinho uma aplicação alegórica.2 
Jerônimo segue uma linha semelhante à de Agostinho, defendendo a vida monástica. Ele diz que a 
unidade proposta pelo salmo só pode ser alcançada na vida monástica, e que é impossível em qualquer 
outra circunstância. Comentando o verso 2 ele afirma: 
Habilmente dito: "sobre a cabeça". E "o qual desce para a barba." A barba é o sinal de hombridade 
porque por este sinal a natureza distingue o homem da mulher. A cabeça simboliza a divindade, ou 
seja, Deus Pai; a barba designa o homem. "Até" dizem as Escrituras "que cheguemos … à perfeita 
varonilidade," isto é, Cristo. Agora vejam o que o profeta quer dizer com: "É como o óleo precioso." 
Assim como as bênçãos do precioso óleo da cabeça – ou seja, do Hermon da divindade – desce sobre a 
barba, desce sobre o homem perfeito que é Cristo, daquela mesma barba o mesmo precioso bálsamo 
desce para a gola de suas vestes … Qual é o benefício para nós desta barba que foi ungida e deste 
perfeito homem? … Se nós somos a veste de Cristo, nós vestimos a sua nudez com nossa fé …3 
Entre os intérpretes reformados nós encontramos Lutero, que embora não comente o Salmo 133, 
refere-se ao mesmo na sua interpretação do Salmo 42 verso 6. Dando uma explicação etimológica 
para o nome Jordão, Lutero afirma que "misticamente este denota o batismo na igreja e nas Santas 
Escrituras, no qual todos os cristãos são banhados." Mais impressionante é sua interpretação de 
Hermon: 
210 
O Hermon denota anátema, excomunhão, e a Cristo é dado este nome no Salmo 133.3: "como o 
orvalho do Hermon," porque Cristo foi feito pecado, maldição, excomunhão e anátema por nós.
Logo, todos os cristãos são Hermonin, que é o plural de Hermon, porque eles também são o refugo, 
obscuridade e anátema do mundo (1 Co 4.13), como diz o apóstolo (Gl 6.14).4 
Calvino, muito mais centrado no método histórico-gramatical de interpretação, não está livre de 
alegorizações na sua interpretação. Ele diz: "Pela barba e gola das vestes nós somos levados a entender 
que a paz que vem de Cristo, como o cabeça, se espalha através de todo o comprimento e largura da 
Igreja."5 
Alguns estudiosos, utilizando-se do método crítico-histórico, têm grandes dificuldades em entender o 
texto e propõem emendas ao mesmo, no sentido de "melhorá-lo" dentro da sua própria perspectiva. 
Como exemplo, Kraus no seu comentário de Salmos sugere a seguinte tradução: "o orvalho de 
Hermon que desce aos campos secos." Sua justificativa para tal emenda é que a tradução "sobre os 
montes de Sião" é topograficamente impossível e também absurda, "num fantasioso estilo poético."6 
211 
Vemos, portanto, que existem muitas interpretações diferentes do texto. Sem sombra de dúvidas, 
muitos intérpretes trouxeram grande luz sobre o texto no passado e, ao interpretarmos o salmo, 
faremos recurso a estas interpretações. 
II. Contexto Histórico 
O título, usualmente traduzido como "Cântico das Subidas," é relacionado a um grupo de cânticos 
usado por peregrinos nas procissões festivais.7 É nele que encontramos a indicação mais lógica do 
provável contexto histórico do nosso texto — dÛiwñfd:l twèolA(aM×ah ryÛi$ (Cânticos das Subidas 
– de Davi). O Texto Massorético traz este título para o grupo de Salmos 120 a 134. Alguns acreditam 
que o título pertencia primeiramente ao grupo como um todo e depois foi aplicado aos textos 
individuais. Interessantemente, os Salmos 122, 124, 131 e 133 são associados ao nome de Davi, 
enquanto que o 127 é associado ao nome de Salomão. 
É bom lembrar que a maioria dos comentaristas bíblicos (inclusive um grande número de intérpretes 
conservadores) põe em dúvida a autenticidade dos títulos no Texto Massorético. No entanto, para 
este texto específico existe bastante evidência de que ele vem de tradições muito antigas. 
Comentaristas usam dois argumentos principais contra a autoria davídica do texto. 
Primeiro, eles alegam que a LXX e o Codex Vaticanus omitem o título e isto é considerado evidência 
suficiente para negar a historicidade do mesmo. No entanto, existem outras fontes de evidência contra 
este ponto de vista. O título aparece no Codex Alexandrinus e em textos de Qumran. O texto 
11QPs13 preserva o grupo twèolA(aM×ah ryÛi$, colocando os Salmos 133 e 134 em outra posição. 
Ainda assim, mesmo isolados do grupo, os dois textos trazem o título completo.8 
Outro argumento contra a autoria davídica segundo Delitzsch, é de natureza filológica. Delitzsch 
afirma que o pronome relativo $ com o particípio (d"rïYe$) não era usado na era davídica, e passou a 
ser usado somente mais tarde.9 Na verdade, a construção pronome relativo + particípio aparece 
somente 7 vezes em todo o Antigo Testamento, sendo duas no Salmo 133, uma no Salmo 135, uma 
em Cantares e três em Eclesiastes. Ainda que estes outros escritos sejam evidentemente posteriores ao 
período davídico, a ausência da construção em outros escritos anteriores não é evidência suficiente 
para se desacreditar da autoria davídica.10
Temos, portanto, mais evidência textual para crer na autoria davídica do que para desacreditar dela. 
Ainda mais, existem possíveis Sitze im Leben que se encaixam perfeitamente na teologia do salmo. 
Algumas sugestões interessantes são apresentadas por estudiosos. Kirkpatrick faz a conexão do salmo 
com a tentativa de Neemias de repovoar Jerusalém após o exílio babilônio.11 Tal possibilidade é 
válida, ainda que não seja esta a origem do salmo. Delitzsch afirma que o salmo é atribuído a Davi 
porque "este exala inteiramente o espírito de Davi, e se pensa que este [o salmo] nasceu do amor de 
Davi por Jônatas".12 Como o título afirma, o salmo também era usado nas romarias do israelitas 
(Cântico das Subidas), provavelmente na festa dos tabernáculos (Lv 23.33-43), quando todo o povo 
deveria viver em tendas. 
O contexto mais provável, no entanto, é o da unificação das doze tribos de Israel debaixo do reinado 
de Davi em Jerusalém. As figuras no texto do salmo confirmam ascendentemente esta situação. 
Considerando pois este contexto, é que vamos interpretar o texto. 
III. Estrutura Textual 
O texto, ainda que seja uma pequena unidade literária, possui uma clara estrutura que precisa ser 
considerada na sua interpretação. Adele Berlin usa a expressão "corrente de palavras", que na minha 
opinião melhor caracteriza a unidade do texto.13 Ela descreve a corrente no Salmo 133 da seguinte 
forma: 
212 
v. 1 bO+ bom 
v. 2 bO+ah precioso 
v. 2 la( d"roy descendo sobre 
la( d"roYe$ que desce 
v. 3 la( d"roYe$ que desce 
O adjetivo bO+ (bom) no verso 1 é ligado à expressão bwío=ah }emÜe<aK (como o óleo precioso) 
no verso 2 que por sua vez funciona como sujeito da sentença la( d"roy (descendo sobre) no verso 2. 
A última expressão se repete nos versos 2 e 3. Veremos mais adiante como esta estrutura simples, 
porém significativa, nos dará orientações para interpretar o texto. 
IV. Interpretação 
É importante nesta seção separar de forma consciente a interpretação do texto no seu contexto 
original, da aplicação do mesmo no contexto da teologia bíblica. Estes são dois passos distintos, 
porém, inter-relacionados. A intenção de mantê-los distintos é com vistas a manter a integridade 
hermenêutica, sem nos apressarmos a conclusões que não estão claramente expressas no salmo. Uma 
vez entendido o texto dentro de seu contexto, podemos passar a aplicá-lo. 
O verso 1 declara o propósito temático do salmo. Sendo um hino de uso no culto público, este exalta 
o valor da unidade do povo de Deus no contexto do reinado teocrático de Davi. Alguns comentaristas 
entendem a expressão "viverem unidos os irmãos" como uma manifestação da cultura antiga onde 
várias famílias viviam debaixo do mesmo teto. Porém, tal idéia não se pode aplicar ao texto, 
principalmente considerando que este vem de Davi. Sabemos pela narrativa bíblica que a unidade
familiar não foi o forte na vida deste rei. Portanto o termo "irmãos" ({yØixa)) do verso 1 só pode se 
referir ao povo de Israel como um todo, ou mais provavelmente, como veremos nas figuras de 
linguagem dos versos 2 e 3, à unidade das doze tribos de Israel. Confirmando este argumento aparece 
a expressão dax×fy tebÙe$ (viverem juntos) que, nas três outras instâncias em que aparece no Antigo 
Testamento, claramente refere-se à possessão de terras. Uma rápida referência aos textos de Gênesis 
13.6; 36.7 e Deuteronômio 25.5 nos mostra isto. 
Os dois primeiros textos (Gn 13.6; 36.7) relatam as separações de Abraão e Ló e Jacó e Esaú, 
causadas pela impossibilidade de viverem numa única região. A terra não poderia sustentá-los 
juntamente. O texto em Deuteronômio 25.5 não menciona a "terra" de forma clara. No entanto, esta 
passagem sobre as obrigações maritais para com a viúva de um irmão, não se refere somente a irmãos 
que vivem debaixo de um mesmo teto, mas certamente a irmãos que vivem debaixo de uma mesma 
autoridade. Os versos seguintes deixam esta idéia clara quando mencionam "Israel", "anciãos", 
"suscitar a seu irmão nome em Israel", "cidade", etc. Todas estas expressões são evidência de que o 
texto se refere a irmãos que vivem debaixo de uma unidade nacional ou tribal. 
Por estas razões, a expressão dax×fy-{aG {yØixa) tebÙe$ (habitarem unidos os irmãos) nos dá uma 
direção natural para interpretar o texto: o verso se refere à unidade do território de Israel. O salmo é 
uma expressão da bênção da unidade no reino davídico, prefigurando a bênção do reinado de Cristo. 
A bênção da unidade é relatada na expressão "bom e agradável". 14 
Portanto, o verso 1 é uma expressão da bênção alcançada na união das doze tribos sob o reinado de 
Davi, após o problemático reinado de Saul. As figuras nos versos 2 e 3 são as aplicações diretas desta 
expressão de louvor. 
A figura no verso 2 expressa a unidade das doze tribos debaixo do serviço sacerdotal providenciado 
por Deus para o povo de Israel. Freqüentemente encontra-se em comentários uma ênfase na 
interpretação dos elementos individuais do texto como o óleo, a barba e o adjetivo "bom", 
esquecendo-se da figura completa que o verso apresenta e que deveria ser algo imediatamente 
absorvido e entendido pelo auditório original do texto, o povo israelita: a bênção do sacerdócio para o 
povo. 
A expressão }eme<aK (como o óleo) logo no início do verso levou muitos intérpretes a crerem que a 
comparação introduzida pela preposição k (como) compara a unidade com o "óleo" ou a preciosidade 
do óleo. Porém, como vimos anteriormente, a estrutura do texto nos leva a verificar que a 
comparação vai além desse ponto. A comparação introduzida por k é uma comparação de toda a figura 
do verso: a unção do sumo sacerdote Aarão (Ex 30.22-33; Lv 8.12) sobre toda a casa de Israel e os 
resultados dessa unção. A associação direta da unidade, no verso 1, com o óleo, no verso 2, de certa 
forma até mesmo interfere na interpretação correta do texto no seu contexto original.15 
Lendo a respeito da instituição do sacerdócio em Israel vemos que esta é a forma que Deus escolheu 
para abençoar o seu povo, para redimi-lo do seu pecado, para aceitá-lo na sua presença. Dentre as 
doze tribos Deus escolheu uma para exercer este ministério. Uma tribo abençoaria a si mesma e a 
todas as demais. Porém, o sacerdócio era prejudicado quando havia divisões entre as tribos, e 
efetivado na sua unidade. Sob o reinado de Davi o sacerdócio cumpria a plenitude de suas funções 
sobre o povo de Israel. Jerusalém foi estabelecida como capital política, e mais tarde, espiritual de 
toda a nação (2 Samuel 6). Esta situação singular estava certamente nos planos de Deus para abençoar 
213
seu povo. A descendência de Aarão foi usada por Deus naquela época típica do reinado do Messias 
para abençoar a Israel. 
Interessantemente, como sugere Kirkpatrick,16 o colar da veste do sumo sacerdote carregava duas 
pedras de ônix onde estavam inscritos os nomes das doze tribos (Ex 28.9-10). Na unção, não só o 
sacerdote era ungido, mas também aqueles que ele representava. O óleo descia da cabeça sobre a 
barba e sobre o colar das vestes, onde estavam representadas as doze tribos de Israel. Somente na 
unidade é que todo o Israel poderia receber o exercício do sacerdócio. A contínua expiação pelo 
pecado dependia da unidade do povo de Deus. 
O verso 3 traz uma nova e interessante figura. Como no verso 2, uma comparação é introduzida pela 
preposição k: "Como o orvalho do Hermon, que desce sobre os montes de Sião." A comparação não 
se concentra no "orvalho do Hermon," mas nos resultados do "orvalho do Hermon que desce sobre 
os montes de Sião". Assim como foi necessário conhecer um pouco do contexto sacerdotal para se 
entender a figura de linguagem no verso 2, é necessário um pouco de conhecimento de geografia para 
se entender a figura do verso 3. O monte Hermon ficava no extremo norte de Israel e era bem 
conhecido pelos efeitos que seu orvalho produzia (e produz até hoje). Porque o monte Hermon é 
muito alto e seu cume coberto de neve, o seu pesado orvalho "rega" toda a região em volta fazendo da 
mesma uma área muito fértil e produtiva. O contraste entre Hermon e Sião é extremo: enquanto o 
primeiro representa vida por sua situação geográfica, Sião é a fronteira do deserto, que é símbolo de 
morte, de sequidão. A partir de Sião na direção sul só se encontra terra seca, sem vida. Enquanto a 
região do Hermon é rica em águas, a região do Negueve (ao sul de Sião) depende de cursos 
temporários de água que vêm das montanhas após as chuvas mais ao norte. No mais, encontra-se o 
Mar Morto, que, por seu alto grau de salinidade, não suporta nenhum tipo de vida. 
214 
Toda sorte de interpretação já foi dada a esta figura. Comparam-se, por exemplo, as figuras 
geográficas do verso 3 com o corpo humano no verso 2 (cabeça/barba/colar com Hermon/Sião, o 
óleo com o orvalho, etc.).17 
Creio, porém, que Davi se utiliza do recurso poético que analisamos anteriormente para demonstrar 
o significado pleno de ambas as figuras de linguagem. O verbo dry (descer) parte da corrente de 
palavras na estrutura do texto, é fundamental para as figuras. Primeiro, o verbo, que aparece três 
vezes no texto, está no particípio, expressando uma idéia de continuidade, a continuidade da bênção 
no sacerdócio sobre Israel. Segundo, o verbo dry (descer) é que faz a ligação das figuras entre os 
versos 2 e 3. 
Como já vimos, Hermon e Sião são dois extremos, dois polos geográficos que representam a unidade 
norte/sul de Israel. Porém existe ainda uma figura mais marcante por traz do verbo dry. Hermon e 
Sião, sendo tão distantes fisicamente (nas proporções da geografia do antigo Oriente Próximo), 
possuem um elo comum, o rio Jordão. Este corre desde o norte até o sul de Israel morrendo no Mar 
Morto. O nome Jordão (}¢D:ráy) provavelmente deriva-se do verbo dry sendo então "o que 
desce".18 Uma das fontes do rio Jordão é exatamente um ribeiro chamado Banias, que nasce na base 
do monte Hermon. De certa forma, a riqueza de vida do Hermon se faz presente em toda a extensão 
de Israel até as proximidades de Sião. Aquele "que desce" (como o óleo descendo … que desce … 
que desce) traz bênção sobre todo Israel.
A segunda parte do verso 3 é introduzida pela partícula yiK (porque), seguida de um advérbio de 
lugar referindo-se a Sião ("porque lá Iahweh ordena a bênção"). Ainda que o norte abençoe todo o 
Israel, é no sul que Iahweh ordena a bênção. Em Sião é que estão as bênçãos espirituais para todo 
Israel. Em Sião Iahweh estabeleceu o seu rei e o seu sacerdote, dois ofícios de bênção para todo o 
povo, na unidade. Ambos servem como verdadeiros mediadores, escolhidos de Iahweh. Qual é a 
bênção prometida? "Vida para sempre." 
215 
Berlin conclui sua interpretação da seguinte forma: 
O país inteiro é retratado com um rosto sacerdotal: do Hermon a Sião, da cabeça ao corpo. E para 
voltar à equação dos versos 2 e 3, a terra é ungida com o orvalho assim como Aarão é ungido com o 
óleo da consagração. O país não é somente unido, é também abençoado. O ponto focal da santidade e 
bênção é Sião, porque lá o Senhor ordenou a sua bênção para sempre.19 
V. Aplicação 
Com raros pontos de exceção, até agora nos concentramos em interpretar o texto no contexto 
original. Depois de feita esta interpretação cabe-nos perguntar quais são as implicações teológicas do 
Salmo 133 no contexto da revelação bíblica. 
Primeiramente, o texto se relaciona com o contexto do reinado davídico e dentro deste contexto 
manifesta aspectos das bênçãos redentivas que Deus ordena para seu povo. Davi tinha consciência da 
importância da unidade nacional das tribos de Israel. O povo não poderia ser abençoado na divisão por 
dois motivos simples: sem um rei não haveria vitória e paz, e sem um sacerdote que ministrasse a todo 
o povo eles não teriam condições de se aproximar de Deus. O papel do reino é de fundamental 
importância: "O reino davídico serve dentro da esfera do próprio reinado de Deus."20 Tanto o rei 
quanto o reino e o sacerdócio são tipos de um reinado futuro. O texto manifesta o reconhecimento da 
necessidade de um reino e sacerdócio mediatorial. Sem estes não há bênção. 
Este conceito estende-se para o povo de Deus na era do Novo Testamento: "Vós, porém, sois raça 
eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus…" (1 Pe 2.9). Vimos no 
texto que a bênção era condicionada à unidade, e prejudicada sem ela. A mesma relação permanece 
para o povo de Deus hoje? Creio que sim, guardadas as devidas proporções. O povo de Deus é uma 
nação santa e exerce um sacerdócio que é abençoado na unidade. Esta unidade se expressa à medida 
que o povo de Deus, sua Igreja, como agente do seu reino, se submete à autoridade do Rei, sua lei e 
seu ensino, sem se desviar, sem comprometer sua verdade. Nesta unidade, Iahweh ordena a sua 
bênção. Creio que esta é a aplicação fundamental do texto para nossos dias. 
A pergunta que permanece é se ainda outros elementos do texto podem ou devem ser aplicados no 
contexto neotestamentário, como por exemplo, o óleo ser comparado com o Espírito Santo. Seria 
legítima esta aplicação do Salmo 133? Ainda que este seja o primeiro impulso do intérprete com um 
conhecimento geral das Escrituras, tal aplicação sem uma formulação adequada pode levar a erros de 
interpretação tais quais os mencionados no início deste artigo. 
Sabemos que a unidade do povo de Deus se dá debaixo da obra e poder do Espírito Santo, e da mesma 
forma como o povo de Israel era abençoado na unidade nacional, o povo de Deus é abençoado na 
unidade espiritual, quando com unanimidade, em um só Espírito, uma só fé, nos aproximamos do 
único Senhor.
Fala-se muito na igreja contemporânea a respeito de unidade, e não há como negar diante da 
interpretação deste salmo que a bênção de Deus vem sobre seu povo unido. Entretanto, é importante 
reconhecermos que, assim como a unidade de Israel se dava, em vários níveis (social, cultural e 
espiritual) debaixo de princípios claros da Escritura, a igreja do Senhor deve buscar esta unidade sob 
princípios semelhantes, que reflitam a verdade da Escritura e seus princípios básicos de autoridade. 
216 
Notas 
1 Mauro Meister, "Pregação no Antigo Testamento: É Mesmo Necessária?", em Fides Reformata 
1/1(1996) 1-5. 
2 Agostinho, Expositions on the Book of Psalms, em Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian 
Church, volume VII (Grand Rapids: Eerdmans, 1983) 622-624. 
3 The Homilies of Saint Jerome, em The Fathers of the Church, A New Translation by Sister Marie 
Ewald (Washington, D.C.:The Catholic University of America Press, 1963) 334-336. 
4 Martin Luther, First Psalm Lectures, em Luther’s Works, ed por Hilton C. Oswald (Saint Louis: 
Concordia, 1986) 195. 
5 John Calvin, Commentary in the Book of Psalms, trad. por James Anderson (Grand Rapids: Baker, 
1981) 165. 
6 Hans-Joachim Kraus, Psalms 60-150, A Commentary, trad. por Hilton C. Oswald (Minneapolis: 
Ausburg/Fortress, 1989) 484. 
7 Esta posição é comum e defendida por Calvino, Leupold, Delitzsch, Allen e Kirkpatrick. 
8 Gerald Henry Wilson, The Editing of the Hebrew Psalter, SBL Dissertation Series 76 (Chico, CA: 
Scholars Press, 1985) 130. 
9 Franz Delitzsch, Biblical Commentary on the Psalms, trad. por Francis Bolton (Edinburgh: T. & T. 
Clark, 1871). 
10 E. Y. Kutscher, em A History of the Hebrew Language (Jerusalem: Magnes Press, 1982) afirma 
que o uso da partícula é encontrado primeiramente no hebraico israelita do norte, depois no hebraico 
bíblico mais tardio, substituindo r#), e finalmente no hebraico da Mishnah. No entanto não podemos 
tirar uma conclusão desta afirmativa, porque os pressupostos de Kutscher são opostos aos nossos. 
11 A. F. Kirkpatrick, The Book of Psalms (Cambridge: University Press, 1903) 770. 
12 Delitzsch, Biblical Commentary on the Psalms, 317. 
13 Adele Berlin, "On the Interpretation of Psalm 133", em Directions in Biblical Hebrew Poetry, ed. 
por E. Follis, JSOT, 40 (Sheffield Academic Press, 1987) 141-147. Berlin reconhece que o 
"fenômeno de repetição de um item léxico é um conhecido artifício de coesão," (p. 146).
14 Berlin em "On the Interpretation of Psalm 133," considera este Salmo uma expresão escatológica. 
Ela diz: "O Salmo expressa a esperança da unificação do norte e do sul, com Jerusalém sendo a capital 
de um reino unido" (p. 145). Dois fatores levam Berlin a esta conclusão: seus pressupostos judaicos e 
a data avançada que ela crê que o Salmo foi composto. 
15 Na aplicação veremos que a figura do óleo é importantíssima, principalmente à luz do Novo 
Testamento. No entanto, para exercitarmos uma hermenêutica sadia, precisamos primeiro entender o 
texto no seu próprio contexto. 
217 
16 Kirkpatrick, The Book of Psalms, 771. 
17 Ver as conclusões de Berlin em "On the Interpretation of Psalm 133," 145. 
18 Ver Laird Harris, Gleason Archer e Bruce Waltke: }dry em Theological WordBook of the Old 
Testament (Chicago: Moody Press, 1980) 401-402. 
19 Berlin, "On the Interpretation of Psalm 133," 145. 
20 John H. Eaton, Kingship and the Psalms (London: SCM Press, 1976) 135. 
TIPOLOGIA: CONSIDERAÇÕES GERAIS 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
A palavra "tipologia" é de origem grega. Deriva-se do substantivo typos, termo usado no mundo 
antigo para indicar a) a marca de um golpe; b) uma impressão, a marca feita por um cunho - daí o 
sentido de figura, imagem e c) modelo ou padrão, que é o sentido mais comum na Bíblia. 
Na Bíblia o modelo é usado em dois sentidos distintos: (1) a correspondência entre duas situações 
históricas, tais como Adão e Cristo (cf. Rm 5.12-21); (2) a correspondência entre o padrão celestial e 
seu equivalente terrestre. Exemplo: o original divino por trás do tabernáculo terrestre (At 7.44; Hb 
8.5; 9.24). Há várias categorias - pessoas (Adão, Melquisedeque), eventos (o dilúvio, a serpente de 
bronze), instituições (festas), lugares (Jerusalém, Sião), objetos (altar de holocaustos, incenso), ofícios 
(profeta, sacerdote, rei). "A tipologia bíblica, portanto, envolve uma correspondência análoga em que 
eventos, pessoas e lugares anteriores na história da salvação tornam-se padrões por meio dos quais 
eventos posteriores, pessoas, etc. são interpretados" (G. R. Osborne). 
Além dos conceitos mencionados acima, também existe o uso paralelo de figuras de linguagem, 
juntamente com os tipos, para indicar um exemplo moral a ser seguido. Todos os crentes, como tais, 
devem considerar-se modelos ou padrões da vida que se assemelha à de Cristo. 
É relevante fazer uma distinção entre tipo e símbolo. Embora ambos indiquem alguma coisa, diferem 
em pontos importantes. 
Símbolo é um sinal. 
Tipo é um modelo ou imagem de alguma coisa. 
O símbolo refere-se a alguma coisa do passado, presente ou futuro.
218 
O tipo sempre prefigura uma realidade futura. 
Podemos resumir esses quatro pontos dizendo que "O símbolo é um fato que ensina uma verdade 
moral. O tipo é um fato que ensina uma verdade moral e prediz a realidade daquela verdade" 
(Davidson). 
É preciso dizer ainda que os tipos do Antigo Testamento eram ao mesmo tempo símbolos (no sentido 
que comunicavam verdades espirituais aos seus contemporâneos), pois sua significação simbólica podia 
ser entendida antes de sua significação tipológica ser determinada. 
TOLERÂNCIA ZERO 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
Há uma linha divisória entre a longanimidade de Deus e a sua justiça; entre a sua paciência e a sua ação 
ajuizadora; entre o seu esperar e o seu agir. Pelos exemplos da Bíblia sabemos que a tolerância de 
Deus é igual a zero para quem ultrapassa a linha vermelha. Vemos isso no anúncio do dilúvio a Noé: 
"O fim de toda carne é vindo perante a minha face, porque a terra está cheia de violência. E eis que os 
desfarei com a terra" (Gn 6.13). Quando a balança de Deus indicou um peso intolerável e irreversível 
de iniqüidades, entrou em ação a justiça divina. "Pesado foste na balança e foste achado em falta". 
Com estas palavras Deus selou o destino de Belsazar, o rei que profanou os utensílios da Casa de Deus 
(Dn 5.1-4, 27). Registramos também os pecados do rei Azarias, também chamado Uzias, que, como 
castigo, ficou leproso até a morte (2 Cr 26.16-21; cf; 2 Rs 15.1). 
A primeira reação de Deus, na Terra, ante a desobediência, ocorreu no jardim do Éden. O castigo 
imposto ao primeiro casal afetou toda a raça humana e teve efeito sobre a natureza. A morte fez parte 
desse pacote de medidas com vistas a nos fazer lembrar sempre das terríveis conseqüências do pecado: 
"Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte assim também a 
morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram" (Rm 5.12; cf. Gn 3.16-19). No céu, o 
castigo não foi menos severo, pois "Deus não poupou os anjos que pecaram, havendo-os lançado no 
inferno, entregues às cadeias de escuridão, e reservados para o Juízo" (2 Pe 2.4). 
A intolerância de Deus se manifestou outra vez ao decidir pela destruição de Sodoma e Gomorra: 
"Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e porquanto o seu pecado se tem 
agravado muito..." (Gn 18.20). 
A intolerância divina diante da desobediência se revelou também no deserto, em Cades, quando seu 
povo desconfiou do poder de Deus e julgou impossível vencer os "gigantes" que habitavam na terra 
prometida. A sentença veio sem meias palavras: "Até quando sofrerei esta má congregação, que 
murmura contra mim? Neste deserto cairão vossos cadáveres, como também todos os que de vós 
foram contados no recenseamento, de vinte e oito anos para cima, e que murmuravam contra mim... 
salvo Calebe, filho de Jefoné, e Josué, filho de Num" (Nm 14.29-30). A Palavra foi fielmente 
cumprida. 
"Seus filhos e suas filhas serão dados a outro povo... o Senhor te levará a ti e a teu rei a uma gente que 
não conheceste...(Dt 28.32,36; v. Isaías 6.11,12). "Eis que virão dias em que tudo quanto houver em 
tua casa...será levado para a Babilônia; não ficará coisa alguma, disse o Senhor" (Is 39.6). "E toda esta 
terra virá a ser um deserto e um espanto, e estas nações servirão ao rei da Babilônia setenta anos" (Jr 
25.11). Essas profecias foram cabalmente cumpridas. Por sua idolatria e corrupção moral, o povo de
Deus foi levado cativo pelos assírios (722 a.C., 2 Rs 17.6); pelos babilônios (586 a.C., 2 Rs 25.21), 
pelos gregos, para Alexandria, no Egito, séc. III a.C., pelos romanos (70 d.C., Lucas 21.20-24). O 
exílio na Babilônia está bem expresso no livro de Daniel: "No ano terceiro do reinado de Jeoaquim, 
rei de Judá, veio Nabucodonosor, rei da Babilônia, a Jerusalém e a sitiou" (Dn 1.1). A ruína moral da 
nação de Judá chegou no ponto em que não havia mais possibilidade de recuperação. A nação 
ultrapassou a linha vermelha a partir da qual ficou sujeita ao julgamento divino. 
O cativeiro dos judeus é um exemplo de que Deus não tolera por tempo indefinido o estado 
pecaminoso do seu povo. Séculos antes, pela boca dos profetas, Deus os advertiu para a catástrofe 
iminente. Na descrição das dores por que passaria Jerusalém, Jeremias diz o seguinte: "Fá-los-ei 
comer as carnes de seus filhos e as carnes de suas filhas, e cada um comerá a carne do seu próximo, no 
cerco e na angústia em que os apertarão os inimigos e os que buscam tirar-lhes a vida" (Jr 19.9). 
Também Ezequiel: "Esta é Jerusalém... [que] se rebelou contra meus juízos...e não andou nos meus 
preceitos...executarei juízos no meio de ti...os pais comerão a seus filhos, os filhos comerão a seus 
pais, e espalharei todo o remanescente a todos os ventos" (Ez 5.5-10). 
As profecias davam conta de que haveria atos de canibalismo em Jerusalém, tamanha seria a falta de 
alimentos. A fome seria de tal ordem que o povo comeria a sola dos sapatos, e as mulheres 
devorariam seus próprios filhos. Naquele tempo, ninguém deu muito crédito a essas advertências. O 
povo continuou deitando e rolando em seus "carnavais", orgias e idolatrias. Deus cumpre a sua 
palavra. 
O profeta Jeremias foi o único escritor conhecido do Antigo Testamento que testemunho em primeira 
mão a tragédia que se abateu sobre Jerusalém, 586 a.C. Ele escreveu: "Mais felizes foram as vítimas 
da espada do que as vítimas da fome; porque estas se definham atingidas mortalmente pela falta do 
produto dos campos. As mãos das mulheres outrora compassivas cozeram seus próprios filhos; estes 
lhes serviram de alimento na destruição da filha do meu povo. Deu o Senhor cumprimento à sua 
indignação, derramou o ardor da sua ira. Não creram os reis da terra, nem todos os moradores do 
mundo, que entrasse o adversário e o inimigo pelas portas de Jerusalém" (Lm 4.9-12). 
Passados cerca de 500 anos das lágrimas de Jeremias sobre Jerusalém, e do cativeiro babilônico, Jesus 
também chorou sobre a cidade. Um choro que foi mais lamento, pranto, soluço e clamor de quem 
soube com bastante antecedência o que iria acontecer. Jesus profetizou: "Jerusalém, Jerusalém, que 
matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Porque dias virão sobre ti, em que os teus 
inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todas as bandas, e te derribarão, 
at i e a teus filhos que dentro de ti estiverem, e não deixarão em ti pedra sobre pedra..." (Lc 13.34; 
19.41-44). Esta predição foi cumprida quarenta anos mais tarde, quando Jerusalém foi destruída pelo 
exército romano e centenas de milhares de judeus foram mortos. Flávio Josefo (Josef ben Mattatias), 
escritor e historiador judeu, que viveu entre 37-100 d.C., contou com riqueza de detalhes o que 
presenciou. Como prova da predição de Jesus, de não ficar pedra sobre pedra, vejam o que ele 
escreveu: 
"Depois que o exército romano, que jamais se cansaria de matar e de saquear, nada mais achou em 
que saciar o seu furor, Tito ordenou que a destruíssem, até os alicerces, com exceção de um pedaço 
do muro, que está do lado do Ocidente... Esta ordem foi tão exatamente cumprida que não ficou sinal 
algum, que mostrasse haver ali existido um centro tão populoso" (História dos Hebreus, obra 
completa, Flávio Josefo, LIvro Sétimo, CPAD - 5a. Edição/2001, pg 688). 
219
220 
Quanto à extrema falta de alimentos na Jerusalém, sitiada por 134 dias, Flávio relata: 
"Enquanto tudo isso se passava, em redor do templo, a fome e a carestia faziam tal devastação na 
cidade que o número dos que ela destruía era impossível de se conhecer... Comiam até mesmo a sola 
dos sapatos, o couro dos escudos". 
Josefo conta também uma história espantosa, terrível e repugnante, que diz respeito ao cumprimento 
de Jeremias 19.9 e Ezequiel 5.10: 
"Uma mulher chamada Maria, filha de Eleazar, muito rica, tinha vindo com algumas outras, à aldeia 
de Batechor, isto é, casa de hissope, refugiar-se em Jerusalém, e lá se viu cercada. Aqueles tiranos, 
cuja crueldade martirizava os habitantes, não se contentaram em lhe arrebatar tudo o que ela tinha 
levado de mais precioso, tomaram-lhe ainda por diversas vezes o que ela havia escondido para seu 
alimento. A dor de se ver tratada daquela maneira lançou-a em tal desespero, que, depois de ter feito 
mil imprecações contra eles, usou de palavras ofensivas, procurando irritá-los, a fim de que a 
matassem; mas nem um só daqueles tigres, por vingança de tantas injúrias ou por compaixão, lhe quis 
usar dessa graça... A fome que a devorava, e ainda mais, o fogo que a cólera tinha acendido no seu 
coração, inspiraram-lhe uma resolução que causa horror à mesma natureza. Ela arrancou o filho do 
próprio seio e disse-lhe: ´Criança infeliz, da qual nunca se poderá chorar assaz a desgraça de ter 
nascido durante esta guerra... Para que te haveria de conservar a vida? Para ser talvez escrava dos 
romanos? Depois de ter assim falado ela matou o filho, cozeu-o, comeu uma parte e escondeu a outra. 
Aqueles ímpios, que só viviam de rapina, entraram em seguida naquela casa; tendo sentido o cheiro 
daquela iguaria inominável, ameaçaram matá-la, se ela não lhes mostrasse o que tinha preparado para 
comer. Ela respondeu que ainda restava um pedaço da iguaria e mostrou-lhes restos do corpo do 
próprio filho. Ainda que tivessem um coração de bronze, tal espetáculo causou-lhes tanto horror, que 
eles pareciam fora de si. Ela, porém, na exaltação que lhe causava furor, disse-lhes com rosto 
convulsionado: ´Sim, é meu próprio filho, que vedes e fui eu mesma que o matei. Podeis comê-lo, 
também, pois eu já comi. Sois talvez menos corajosos que uma mulher e tendes mais compaixão do 
que uma mãe? Se vossa piedade não vos permite aceitar essa vítima, que eu vos ofereço, eu mesma 
acabarei de comê-lo. Aqueles homens que até, então, não haviam sabido o que era compaixão, 
retiraram-se trêmulos..." (Ibidem pg 675/6). 
Em determinado momento da caminhada pelo deserto, o povo sentiu falta dos deuses do Egito e 
construiu um bezerro de ouro. Então, Deus falou a Moisés: "Tenho visto a este povo, e eis que é povo 
obstinado. Agora, pois, deixa-me, que o meu furor se acenda contra eles, e os consuma" (Êx 32.1- 
10). Embora Deus, em razão da intercessão de Moisés, tenha sustado a execução deste juízo, ficou 
patente a sua intolerância diante da desobediência. 
Vimos exemplos de castigos coletivos, alcançando populações inteiras. Mas são conhecidos os casos 
individuais em que homens e mulheres de corações endurecidos e desobedientes receberam a justa 
reprovação divina. Eles ultrapassaram a linha vermelha da tolerância zero de Deus. O rei 
Nabucodonosor, exaltando a si mesmo, disse: "Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a 
casa real, com a força do meu poder, e para glória da minha majestade? Ainda estava a palavra na boca 
do rei, quando desceu uma voz do céu: A ti se diz, ó rei Nabucodonosor, passou de ti o reino. Serás 
tirado dentre os homens, e a tua morada será com os animais do campo; far-te-ão comer erva como os 
bois, e passar-se-ão sete tempos sobre ti, até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o reino
dos homens, e o dá a quem quer. Na mesma hora se cumpriu a palavra sobre Nabucodonosor", e ele 
passou a viver como os animais. Passado o tempo de castigo, ele, finalmente, resolveu louvar, exaltar 
e glorificar "o Rei do céu, porque todas as suas obras são verdade, e os seus caminhos justos, e pode 
humilhar aos que andam na soberba" (Dn 4.30-37). 
Em nossos dias, muitas pessoas só glorificam a Deus depois de uma tormenta. Às vezes precisam 
comer o pão que o diabo amassou, sentir o peso do castigo divino, descer à olaria de Deus para 
aprenderem a se humilhar diante do Criador. A história do rei Davi, o ungido de Deus, registra um 
pecado terrível: cometeu adultério com uma mulher casada e depois armou uma cilada para tirar a 
vida do marido traído. Embora Davi tenha posteriormente demonstrado sincero arrependimento (v. 
Salmo 51), Deus não deixou por menos: "Por que desprezaste a palavra do Senhor, fazendo o mal 
diante de seus olhos? A Urias, o heteu, mataste à espada, e a sua mulher tomaste por sua mulher. 
Agora, portanto, a espada jamais se apartará da tua casa..." (2 Sm 11 - 12). A "espada" de Deus veio 
em forma de violência, conflito e homicídio. Morreu a criança nascida desse ato ilícito (12.14), houve 
homicídio entre seus filhos (13.28-29), Absalão rebelou-se contra o pai e foi executado (18.9-17), e 
outro filho, Adonias, foi também assassinado por ordem de Salomão (1 Rs 2.24-25). 
O pecado de Davi nos leva a refletir sobre a promiscuidade sexual dos dias atuais. Quantos adultérios 
são praticados por dia só no Brasil? Quantas famílias vivem em intermináveis angústias, traumas, ódio, 
desespero, demandas judiciais só porque os cônjuges não souberam manter o leito conjugal sem 
mácula? Quantos filhos sofrendo por não mais receberem o carinho e a proteção de seus pais, porque 
o marido traidor partiu para mais uma aventura? 
O ciumento, invejoso e rebelde rei Saul pagou um preço alto por sua desobediência. "Rebelião é 
como pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniqüidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra 
do Senhor, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei". O Espírito de Deus se retirou de Saul, 
"e o assombrava um espírito mau, da parte do Senhor" (1 Sm 15.23; 16.14). A Bíblia registra o 
arrependimento de Saul (15.24,31). Todavia, num gesto de desespero, porque Deus não falava mais 
com ele, consultou uma feiticeira. A sua situação piorou. "Assim, morreu Saul por causa da sua 
transgressão com que transgrediu contra o Senhor, por causa da palavra do Senhor, a qual não havia 
guardado; e também porque buscou a adivinhadora para a consultar, e não buscou o Senhor, pelo que 
o matou e transferiu o reino a Davi, filho de Jessé" (1 Cr 10.13-14). 
Mais reflexão se faz necessária. Um número muito grande de pessoas, dentre as quais muitas que se 
dizem cristãs, consulta os adivinhadores, sejam cartomantes, manipuladores de búzios ou 
canalizadores. Vimos que tal prática é considerada por Deus como rebeldia. Vejam: 
221 
"Não haja no teu meio quem faça passar pelo fogo o filho ou a filha, nem adivinhador, nem 
prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro, nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem 
quem consulte os mortos. O Senhor abomina todo aquele que faz essas coisas" (Dt 18.10-12). 
"Fez seus filhos passarem pelo fogo no vale do filho de Hinon, praticou feitiçaria, adivinhações e 
bruxaria, e consultou médiuns e adivinhos, fez muito mal aos olhos do Senhor, provocando-o à ira" (2 
Cr 33.6-7; v. 2 Rs 21.1-18). 
O último versículo, acima, se refere a Manassés, décimo - quinto rei de Judá, onde reinou por 
cinqüenta e cinco anos. Por estes pecados, e por haver colocado "uma imagem escultura, o ídolo que
tinha feito, na Casa de Deus" e "levantou altares a todo o exército dos céus" foi levado cativo para 
Babilônia. Manassés faz parte do rol dos que precisam primeiro passar pelo vale da tormenta para 
aprenderem a humilhar-se e a glorificar a Deus. A Bíblia diz em Gálatas 5.20-22 que não herdarão o 
Reino de Deus quem pratica a prostituição, a idolatria e a feitiçaria (v. Ap 21.8; 22.15). 
"Quando vos disserem: consultai os que têm espíritos familiares e os adivinhos, que chilreiam e 
murmuram entre dentes, não recorrerá um povo a seu Deus? A favor dos vivos interrogar-se-ão os 
mortos?" (Is 8.19; v. 1 Sm 28.8 cf. 1 Cr 10.13). 
222 
"Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os 
sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os 
roubadores herdarão o Reino de Deus" (1 Co 6.10; v. Ef 5.5; 1 Tm 1.9-10). 
Está bem clara a advertência e será fielmente cumprida como cumpridas foram as anteriores, porque 
sem santificação ninguém verá o Senhor. Não podemos viver segundo a nossa vontade. 
Precisamos saber qual a vontade de Deus para nosso viver. Será terrível o fim para os que desejam que 
a Palavra de Deus se ajuste à sua situação pecaminosa. Nós é que devemos nos ajustar ao padrão da 
Palavra. Sei que tais advertências estão ficando cada vez mais raras em nossos púlpitos. Parece haver 
um conformismo diante da situação degradante do mundo, com o aumento do ocultismo, da 
feitiçaria, do culto a Satanás. O tempo reservado à Palavra tende a diminuir. Vale lembrar as palavras 
do apóstolo Paulo: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do 
vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" 
(Rm 12.2). 
A verdade é que o mau não ficará sem castigo (Pv 11.21). "Eu repreendo e castigo a todos quanto 
amo" (Ap 3.19). Um dos ladrões crucificados no Gólgota, ao lado de Jesus, reconheceu a dura 
realidade da justiça divina: "Com justiça - disse ele - recebemos o castigo por nossa rebeldia" (Lc 
23.41). Consideremos, pois, "a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; 
mas, para contigo, a benignidade de Deus, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira, 
também tu serás cortado" (Rm 11.22). Por último, fiquemos com a advertência abaixo: 
"A carne deseja o que é contrário ao Espírito, e o Espírito o que é contrário à carne... As obras da 
carne são conhecidas: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, 
ciúmes, iras, pelejas, dissensões, facções, invejas, bebedices, orgias e coisas semelhantes a estas, 
acerca das quais vos declaro, como já antes vos preveni, que os que cometem tais coisas não herdarão 
o reino de Deus" (Gl 5.17-21). "Lembra-te de onde caíste. Arrepende-te, e pratica as primeiras 
obras. Se não te arrependeres, brevemente virei a ti, e removerei do seu lugar o teu candeeiro, se não 
te arrependeres" (Ap 2.5). (18.08.2003) 
Reverendo professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
APOSTILA - 04 
ESTUDOS SOBRE – A CONQUISTA DE CANAÃ 
TOTAL 1 – 7 PAGINAS
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A CONQUISTA DE CANAÃ 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
Enquanto caminhavam pelo deserto, os hebreus contavam a seus filhos uma velha história. Há 
quatrocentos anos - diziam eles - um homem chamado Abrão desceu lá do norte, da cidade de Ur, na 
Caldéia, e com toda a sua família dirigiu-se para o sul da Palestina. 
Era uma ordem de Deus. 
Ele receberia por herança uma terra, teria uma descendência tão grande como as estrelas do céu, e 
através dele todas as famílias da terra seriam abençoadas. Era uma estranha promessa, afinal Abrão não 
tinha filhos e seu clã era nômade. Mas ele acreditou na promessa de Deus. Anos mais tarde, Deus 
trocou seu nome para Abraão, que quer dizer "pai de uma multidão de nações", fez um pacto especial 
com ele e lhe deu um filho, que foi chamado Isaque. 
Como líder, Moisés tinha certeza que o acordo feito com Abraão estava sendo cumprido. Deus dissera 
que a terra prometida era Canaã, e que seus limites iriam do Egito até o rio Eufrates. Explicou 
também que Canaã estava ocupada por dez povos guerreiros, sanguinários e idólatras: queneus, 
queneseus, cadmoneus, heteus, periseus, refains, amorreus, cananeus, girgaseus e jebuseus. Mas eles 
seriam arados da terra, como mato bravo arrancado para permitir a semeadura. 
Um novo líder 
Durante os anos de caminhada pelo deserto, Moisés foi formando uma liderança que julgou capaz de 
dirigir a conquista da Palestina. Entre seus homens de confiança havia um jovem chamado Josué. 
Tinha sido seu assistente pessoal, e quando grupos de assaltantes amalequitas começaram a ameaçar a 
segurança dos hebreus, Josué liderou um grupo de combatentes. Era disciplinado, ousado e muito 
corajoso. 
Em hebraico Josué quer dizer "Iaveh é a salvação". Era da tribo de Efraim, filho de Num, e esteve 
com Moisés durante toda a peregrinação no deserto. Quando Moisés subiu ao monte Sinai, para 
receber de Deus os Dez Mandamentos, Josué subiu com ele. Foi quem avisou a Moisés que lá 
embaixo estava uma barulheira incrível, como um alarido de guerra. Mas o que ele ouvia era o povo 
dançando e cantando em adoração deus Ápis, o deus touro do egípcios. 
Como dirigente militar recebeu de Moisés uma missão especial: fazer parte de um grupo de espiões 
que deveriam se infiltrar em Canaã. As ordens eram precisas: observar a terra, o que produzia, se os 
campos eram férteis, como era o povo, se era organizado, numeroso, e se haviam fortalezas. Deviam 
também trazer frutos da terra. 
Os espiões chegaram até as proximidades de Hebrom, que fica ao sul de Jerusalém, e depois de dias 
trouxeram a Moisés um relatório terrível: 
-- É, na verdade, uma terra que produz leite e mel, em abundância. Vimos cachos de uvas que tinham 
que ser transportados numa vara por dois homens, de tão grandes. Mas o povo que habita na terra é 
muito poderoso, as cidades são grandes, fortificadas. Vimos gigantes e nos sentimos como se fôssemos 
gafanhotos, de tão pequenos diante deles.
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Excluindo Josué e Calebe, os outros espiões estavam em pânico. E o medo que tinham foram 
transmitindo ao povo, que então rebelou-se contra Moisés. 
-- Foi para isso que você nos tirou do Egito, para a gente morrer aqui, no deserto, para sermos 
massacrados a espada, nós, nossas mulheres e nossos filhos? 
Josué e Calebe ainda tentaram reverter a situação. Explicaram que a terra era excelente e que se era 
da vontade de Deus a terra prometida seria entregue na mão deles, não importava a força dos povos 
ocupantes, pois "a sombra protetora de Deus lhes foi tirada". 
Mas a mentalidade escrava do povo prevaleceu. Não estavam preparados para lutar. E diante da 
rebelião, Deus afirmou que nenhum deles entraria na terra, mas seus filhos. Assim, durante quarenta 
anos caminharam pelo deserto. E os filhos dos escravos foram transformados em guerreiros. Forjados 
sob o sol escaldante, confiantes na promessa de que a terra lhes seria entregue. 
Os espiões que se acovardaram e sublevaram o povo contra Deus e Moisés foram presos e condenados 
à morte. Josué por sua coragem e fidelidade a Deus despontou como sucessor de Moisés. 
As tribos atacam 
Os hebreus não eram um grupo homogêneo. Mesmo sendo descendentes de Abraão, no correr dos 
séculos miscigenaram-se com outros povos semitas e inclusive com os próprios egípcios. Estavam, no 
entanto, unidos através da fé no Deus único, e dos rituais semitas, dos quais o principal deles, nessa 
época, era a circuncisão. 
Cada tribo recebeu o nome do patriarca de que descendia: Rubem, Simeão, Judá, Issacar, Zebulom, 
Efraim, Manassés (esses dois, netos de Abraão, filhos de José, que juntos formavam uma tribo), 
Benjamim, Dã, Aser, Gade e Naftali. Havia ainda uma outra tribo, a de Levi, que era a dos sacerdotes. 
Dessa maneira, a nação de Israel surgiu como uma confederação de tribos, sem governo centralizado. 
Seria governada por juizes, homens sábios que julgavam suas tribos a partir das leis deixadas por 
Moisés. 
Assim, após a morte de Moisés, os hebreus conquistaram a Palestina liderados por Josué, considerado 
pelos historiadores um dos maiores generais da história. Formou regimentos com guerreiros jovens, 
que ao contrário de seus pais estavam desejosos de combater por Iaveh, o Deus de Israel. Os 
regimentos foram organizados a partir das doze tribos que formavam a confederação hebréia. 
A estratégia inicial de Josué consistiu em montar seu quartel general em Gálgala, ao oriente da cidade 
de Jericó, e a partir daí atacar as cidades de Ai e Gabaom. Em Gálgala já estavam estabelecidas as 
tribos de Rubem, Simeão e Manassés. Ali havia água em abundância, provisão para os combatentes e 
lugar seguro para armazenar os despojos. 
Guerra de extermínio 
Antes de iniciar o período da conquista, Josué deu combate aos grupos inimigos, nômades, que 
poderiam ameaçar a produção agrícola das tribos já instaladas em Gálgala. Só depois disso, tomou 
Jericó, fortaleza avançada do território de Canaã e conhecida na época como "a princesa do vale do 
Jordão".
A cidade de Jericó data, segundo pesquisas arqueológicas, do ano oito mil antes de Cristo. Por ter 
uma fonte e um oásis e estar estrategicamente situada, foi ocupada por povos diferentes, como os 
amorreus e cananeus, e muitas vezes destruída. Antes da conquista por parte dos hebreus, foi atacada 
por faraós da 18a dinastia e totalmente destruída. De novo reconstruída, tinha nessa época muros 
altos, de pedras macho e fêmea, duas torres, e casas retangulares e espaçosas. 
Essa linda cidade, que também recebia o nome de Cidade das Palmeiras, dominava o vale do Jordão e 
as passagens para as montanhas do oeste. Antes de atacá-la, Josué enviou dois jovens oficiais do recém 
formado exército para espionar a região. Eles entraram na cidade, foram protegidos e escondidos por 
uma prostituta chamada Raabe, e depois voltaram ao quartel general de Josué com uma grande 
notícia: 
-- Realmente Deus nos deu toda esta terra. Os seus habitantes estão apavorados com nossa presença. 
Josué então chamou os sacerdotes, que leram para os oficiais e soldados uma ordem que Deus tinha 
dado a Moisés. 
"Quando saírem para guerrear contra teus inimigos, se virem cavalos, carros de combate e um povo 
mais numeroso do que vocês, não fiquem com medo, pois com vocês está o Senhor Deus, que tirou 
vocês do Egito. Quando estiverem para começar o combate, o sacerdote se aproximará para falar aos 
soldados e lhes dirá: 'Ouve, ó Israel! Estais hoje prestes a guerrear contra teus inimigos. Não se 
acovardem, não fiquem com medo, não tremam, nem se atemorizem diante deles, porque o Senhor 
Deus marcha com vocês, lutando com vocês'." 
225 
Depois, os sacerdotes disseram: 
-- Quem tem uma tenda nova e ainda não a usou? Volte para a sua tenda, para que não morra na 
batalha e não possa curtir sua tenda nova. Quem plantou uma vinha e ainda não colheu os primeiros 
cachos de uva? Volte para sua tenda, para que não morra na batalha e não coma de seus primeiros 
frutos. Quem acaba de casar-se e ainda não completou sua lua de mel? Volte para sua tenda, para que 
não morra na batalha e não usufrua sua noite de núpcias. 
E por fim os sacerdotes, perguntaram: 
-- Quem está com medo e se considera um covarde? Volte para sua tenda para que não contagie seus 
irmãos. 
Então, Josué destacou os oficiais e definiu o ataque. 
Por ordem divina, rodearam a cidade uma vez por dia, durante sete dias. Tocavam trombetas, 
gritavam e saltavam. Ao sétimo dia, todo o povo, com os soldados e os sacerdotes, rodearam sete 
vezes a cidade, tocando trombetas e gritando. De repente, ao som mais agudo da trombeta, os muros 
caíram permitindo a entrada do povo. A cidade foi amaldiçoada, seus habitantes executados, com 
exceção de uma moça, prostituta, de nome Raabe e da família do pai dela. Os despojos de ouro e 
prata foram levados para o tabernáculo, que era a tenda onde estava a arca da aliança, com os Dez 
Mandamentos.
226 
Foi uma guerra implacável. E diante disso, é o caso de perguntar: o extermínio realizado pelos 
israelitas foi um ato justificável? 
Na época, Canaã estava sendo permanentemente disputada por conquistadores. Confederações de 
reinos, agrupados em torno de uma cidade, lançavam-se contra outros pequenos reinos. Os filisteus, 
por exemplo, não eram originários da região, vinham da ilha de Caftor, mais conhecida como 
Capadócia. Instalaram-se na região de Gaza, exterminando os Avins que viviam nesse território. 
Assim, os hebreus tinham tanto direito à terra como os que foram despojados. Eram conquistadores 
lutando contra conquistadores. 
E quanto ao seu modo de atuar nas operações de guerra? Caso tomemos os padrões guerreiros da 
época, os hebreus não eram nem mais sanguinários, nem mais cruéis. Os assírios, por exemplo, 
decapitavam os povos vencidos, fazendo pirâmides com seus crânios. Crucificavam ou empalavam os 
prisioneiros, arrancavam seus olhos e os esfolavam vivos. Não há casos de tortura na tradição 
guerreira dos israelitas. 
Sem dúvida, Deus utilizou o povo de Israel para trazer sua justiça sobre os cananeus. Seus costumes 
religiosos estavam entre os mais bárbaros de todo o mundo antigo. Ofereciam sacrifícios humanos e 
infantis a seus deuses. Eram idólatras, dominados por vícios vergonhosos e abomináveis. É 
interessante notar que antes dos hebreus se lançarem à conquista da Palestina, Deus lhes falou: 
"Ó Israel, hoje vocês estão atravessando o rio Jordão para conquistar nações mais numerosas e 
poderosas, cidades grandes e fortificadas. (...) Portanto, vocês devem saber que o Senhor Deus vai 
atravessar na frente, como um fogo devorador. É ele quem exterminará. Vocês, então, desalojarão 
rapidamente esses povos, os farão perecer, conforme falou o Senhor Deus. Quando Iaveh os tiver 
removido de sua presença, vocês não devem dizer nos seus corações: 'É por causa da nossa justiça que 
O Senhor nos fez entrar na posse dessa terra'. É por causa da perversidade dessas nações que Iaveh irá 
expulsá-las da tua frente." (Deuteronômio 9:1, 3 e 4). 
Dessa maneira, os cananeus estavam sendo punidos por Deus por causa de seus crimes, sua idolatria e 
vida promíscua. E, também, para evitar que seu exemplo levassem os hebreus aos mesmos erros. 
Segundo a maneira de pensar dos antigos israelitas, Deus responsabiliza tanto as nações como os 
indivíduos. 
Vitória quase completa 
Depois da conquista de Jericó, Josué tomou a cidade de Ai, que fazia fronteira com Gálgala. Recebeu, 
então, a visita de embaixadores do reino de Gabaom com os quais Josué celebrou uma tratado de paz, 
sem consultar antes o Deus de Israel. 
Os reis de Jerusalém, Hebrom, Jerimote, Laquis e Eglom formaram uma aliança e atacaram Gabaom. 
Como Josué havia feito um acordo bilateral com Gabaom, teve que sair em sua defesa e lançar um 
ataque contra os cinco reis. Conseguiu derrotá-los e conquistou as cidades de Maceda, Libna e Laquis. 
Estabeleceu um acampamento provisório perto de Eglom e daí lançou-se à conquista de mais três 
cidades, Eglom, Hebrom e Debir. A essa altura, já havia ocupado toda a região central e sul da 
Palestina.
Josué voltou então para Gálgala. Descansou meses e começou a organizou os futuros ataques ao norte 
de Canaã, região onde estavam localizadas cidades populosas e fortificadas. 
O rei de Asor chefiava uma confederação de reinos e ficou sabendo dos planos de Josué. Reuniu, 
então, todas as cidades vizinhas e organizou uma confederação para enfrentar militarmente o exército 
hebreu. A mais violenta das batalhas aconteceu às margens do rio Merom. Josué derrotou os exércitos 
confederados, queimou a cidade de Asor e tomou todas as cidades dos reinos aliados. 
Estrategicamente, foi sua maior vitória, pois com ela quebrou o poder dos cananeus. 
227 
Mas nem todos os habitantes da Palestina tinham sido exterminados. Cidades importantes ficaram 
intocadas, principalmente as da região norte da Filístia. 
Foi longa a guerra da conquista, durou 45 anos. 
Apesar de ser o maior general da história de Israel, Josué cometeu três erros: fez aliança com os 
gabaonitas, permitiu aos jebuseus permanecerem em Jerusalém e não destruiu as bases dos filisteus no 
litoral. 
Esses erros, isolaram as tribos de Judá e Simeão do resto do país. A entrada principal para o território 
de Judá ficou sob controle dos jebuseus, que ocupavam Jerusalém. E toda a região permaneceu 
cercada pelas cidades dos gabaonitas. Esta situação criou um separatismo entre as tribos do norte e as 
do sul e acabou fracionando a confederação hebréia. 
A divisão da terra 
A repartição da terra foi feita parcialmente em Gálgala e depois em Siló, cidade para onde havia sido 
transportada a tenda da congregação. Essa primeira distribuição de terras foi realizada por uma 
comissão formada pelo sacerdote Eleazar, pelo general Josué e por dez chefes dos clãs. Havia uma lei 
básica, que já havia sido promulgada e que orientava a divisão. As tribos mais populosas receberiam as 
porções maiores. Os sacerdotes destinaram duas urnas, uma para receber o nome das tribos e outra 
para as regiões da Palestina que seriam sorteadas. Assim, o método de distribuição combinava a sorte - 
podia ser no sul, no centro ou no norte da Palestina -, com um elemento objetivo, a população de 
cada tribo. As questões de limites ou permanência de tribos nos lugares onde já se encontravam, 
como era o caso das tribos de Rubem, Simeão e Manassés, foram decididas pela comissão. 
Depois de uma semana de trabalhos, a confederação das tribos de Israel estava assim distribuída: 
· A parte montanhosa ao sul foi entregue à tribo de Judá. 
· A parte montanhosa ao centro, à tribo de José. Este território foi dividido entre as tribos de Efraim e 
Manassés, filhos de José. 
· A parte montanhosa central coube à tribo de Benjamim. 
· A parte excedente do território entregue a Judá, por ser grande demais, ficou com à tribo de 
Simeão. 
· O território que limitava a parte montanhosa central com a região norte foi entregue às tribos de 
Zebulom e de Issacar. 
· A região costeira coube às tribos de Aser e Naftali. 
· Dois territórios foram entregues à tribo de Dã, um no litoral central e outro no extremo norte. 
· Os territórios ao oriente do Jordão foram entregues as tribos de Rubem e Gade. A parte que coube 
a Manassés também estava do lado oriental do rio Jordão.
Era tradição no antigo Oriente Médio que o crime de sangue fosse vingado por um parente da pessoa 
assassinada. Através de Moisés, Deus deu ao povo uma legislação que punia severamente os crimes 
contra a pessoa, fossem eles assassinatos, seqüestros ou violências sexuais. Com isso, Deus tirava a 
justiça das mãos do vingador individual e a colocava sob responsabilidade social. Mas Josué sabia que 
muitos crimes podiam acontecer sem premeditação, por acidente ou imprevisto. Por isso, criou 
também as cidades de refúgio, onde pessoas que ainda não tinham sido julgadas e condenadas pela 
justiça recebiam o direito de asilo. Era uma forma de oferecer misericórdia àqueles que 
involuntariamente tinham cometido um erro. 
228 
Nas cidades de refúgio nenhum vingador de sangue tinha permissão para entrar, e dentro dela os 
perseguidos tinham o direito de viver sem serem molestados. 
Terminada a guerra, Josué pediu aos dirigentes da confederação de tribos, como recompensa pelos 
serviços prestados, a cidade de Timnate-Sera, que ficava no alto do monte Efraim. Viveu aí seus 
últimos dias e morreu com 110 anos. 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
APOSTILA 05 
ESTUDOS SOBRE – DOUTRINAS 
TOTAL 98 - PAGINAS 
24 ASSUNTOS! 
Adventistas declaram que não é pecado guardar o domingo 
A Ceia Messiânica 
A Doutrina da Eleição III 
A Doutrina da Eleição II 
A Doutrina da Eleição I 
A Doutrina Reformada da Autoridade Suprema das Escrituras 
A Guarda do Sábado 
Consagrado para Cuidar 
Cura Interior 
Desvios Doutrinários da Confissão Positiva 
Guerra Espiritual 
Indulgência 
Levando a sério a Ceia do Senhor 
O Diabo Existe 
O diálogo da Ceia do Senhor 
O Titanic e a Predestinação 
Os Sacramentos no Breve Catecismo de Westminster III (A Ceia do Senhor) 
Os Sacramentos no Breve Catecismo de Westminster (Batismo) 
Os Sacramentos no Breve Catecismo de Westminster (Considerações Gerais) 
Os Sacramentos no Breve Catecismo de Westminster 
Para uma alma religiosa, curiosa e confusa 
Pneumatologia Reformada, de Verdade! Definições e Desafios Contemporâneos 
Quatro Princípios Bíblicos para se Entender a Batalha Espiritual 
Sacramentos de Roma 
Sábado ou domingo- a opção cristã
229 
DOUTRINAS 
Adventistas declaram que não é pecado guardar o domingo 
Reverendo professor Diego Roberto 
Escola Missionaria Voz no Deserto 
Há cinqüenta anos, líderes adventistas, ao admitirem que os "domingueiros" não estavam em pecado, 
concluíram que qualquer dia da semana poderia ser guardado. Vejam na matéria a seguir que o Dr. 
Walter Martin não entrevistou gente miúda, pequenos adventistas, homens comuns da crença. 
Entrevistou "conceituadíssimos líderes". O livro com essas entrevistas foi exaustivamente revisado 
por "250 líderes adventistas". Vejam bem, a palavra vem da cúpula adventista, de homens que 
exercem ou exerciam liderança no seio dessa religião. 
Houve realmente um consenso em torno dessa questão. Se há adventistas radicais que discordam dessa 
importante decisão, precisam primeiramente explicar por que, onde e como aqueles próceres 
erraram. Ao admitir que os domingueiros não estão em pecado, admitiram, também, que os 
adventistas poderiam guardar o domingo. Num e noutro caso não haveria pecado. 
O foco da discussão deveria ser dirigido nessa direção. Por que esses proeminentes adventistas 
cederam? O que realmente aconteceu no seio adventista? Qual o pensamento predominante no 
adventismo brasileiro? Vejamos a matéria. 
Extraída do Dicionário de Religiões, Crenças e Ocultismo, de George A. Mather & Larry A. Nichols, 
Vida, 2000, pg.194:: 
“Entre 1955 e 56, Dr. Walter Martin, um dos grandes apologistas da fé cristã em nossos dias e 
fundador do Christian Research Institute, EUA, entrevistou conceituadíssimos líderes adventistas em 
sua associação Geral (o órgão máximo do grupo), naquela época localizada em Takoma Park, 
Maryland, EUA. O resultado final da entrevista deu origem ao livro Seventh-day adventists answer 
questions on doctrine (Adventistas do sétimo dia respondem perguntas sobre doutrina), lançado em 
1957 pela editora adventista Review and Harald Publishing Association. Antes de ser publicado, o 
manuscrito de 720 páginas foi revisado por 250 líderes adventistas. Foi destacado o seguinte”: 
1. Sabatismo: a guarda do sábado não propicia salvação; o cristão que observa o domingo não está em 
pecado; não é cúmplice do papado. 
2. Ellen G. White: seus escritos não devem ser colocados em pé de igualdade com a Bíblia; não são de 
valor universal, mas restritos à IASD. 
3. Santíssimo: Cristo entrou no Lugar Santíssimo por ocasião de sua ascensão, e não em 22 de outubro 
de 1844. Assim, as doutrinas do santuário celestial ser purificado e do juízo investigativo não tinham 
base bíblica. 
"Houve, contudo, sérias controvérsias no seio da IASD devido ao livro, dando origem a dois
movimentos: o tradicional e o evangélico. O primeiro recusava-se a abrir mão das posições acima, 
pois aceitá-las comprometeria a exclusividade da IASD como o remanescente, a única e verdadeira 
igreja de Cristo. O segundo advogava os conceitos expressos no Questions on doctrine. Estes não 
queriam deixar a IASD, apenas queriam uma reforma nas questões teológicas nada ortodoxas. Muitos 
desses, porém, por pressões internas, deixaram a IASD. Diante de tudo o que foi dito acima, 
concluiu-se que o adventismo com o qual o Dr. Walter Martin dialogou e aceitou como cristão não é 
mais o mesmo que presenciamos aqui no Brasil, pois rompeu com tudo aquilo abordado no Questions 
on Doctrine. Entretanto, não se pode negar que há dentro da IASD aqueles que almejam o retorno às 
formulações esboçadas e defendidas no Questions on Doctrine". 
Professor: Reverendo Antony Steff Gilson de Oliveira 
A Ceia Messiânica 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
"Ao ouvir isso um dos que estavam com ele à mesa, disse-lhe: Bem-aventurado aquele que comer pão no 
Dreeiuns.o Jdee su s, porém, lhe disse: Certo homem dava uma grande ceia, e convidou a muitos. E à hora da ceia 
mo ansdeou u se rvo dizer aos convidados: Vinde, porque tudo já está preparado. Mas todos à uma começaram a 
Deiscssuesa-rlh-es eo. p rimeiro: Comprei um campo, e preciso ir vê-lo: rogo-te que me dês por escusado. Outro disse: 
Cciomncpor eij un tas de bois, e vou experimentá-los; rogo-te que me dês por escusado. Ainda outro disse: 
Cpaorsetain-tmoe ne ão posso ir. Voltou o servo e contou tudo isto a seu senhor: Então o dono da casa, indignado, 
dseirssveo : a Sasei u de pressa para as ruas e becos da cidade e traze aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os 
cdiosxoses . o Deseporivos : Senhor, feito está como ordenaste, e ainda há lugar. Respondeu o senhor ao servo: Sai pelos 
ce amvailnahdoos s, e obriga-os a entrar, para que a minha casa se encha. Pois eu vos digo que nenhum daqueles 
fhoomraemn s coqnuev id ados provará a minha ceia" (Lc 1 4.15-24) 
Os antigos judeus utilizaram imagens variadas para descrever o que aconteceria quando chegassem os 
dias da Era Messiânica. Era um tema constante não somente na mensagem dos profetas, mas nos dias 
de Jesus havia muita especulação sobre quando seria, e o que aconteceria por ocasião desse abençoado 
tempo. 
Entre as muitas figuras que foram usadas para descrevê-la, havia a de um banquete. Quando lemos no 
Antigo Testamento o Salmo 23, o seu penúltimo versículo, ele diz "Preparas uma mesa perante mim 
na presença dos meus inimigos". É essa figura da ceia a que foi utilizada por Jesus Cristo. E, se vamos 
ao profeta Isaías, aquele que mais falou acerca do Messias, também leremos: "E, o Senhor dos 
exércitos dará neste monte a todos os povos um banquete", e, continua dizendo, "e destruirá neste 
monte a coberta que cobre todos os povos, e o véu que está posto sobre todas as nações. Aniquilará a 
morte para sempre, e assim enxugará o Senhor Deus as lágrimas de todos os rostos, e tirará de toda a 
terra o opróbrio do seu povo; porque o Senhor o disse" (Is 25.6a, 7, 8). 
No relato de Lucas houve um homem que fez referência a essa Ceia Messiânica, dizendo a Jesus o 
seguinte: "Bem-aventurado aquele que comer pão no reino de Deus". Com essa palavra, ele deu 
ocasião para que Jesus contasse um midrash, uma parábola, uma pequena história, uma ilustração 
sobre quem tem direito de participar do futuro banquete com o Messias. E aqui está a história que 
Jesus contou: um homem quis dar um banquete, convidou os amigos, e eles começaram a dar 
desculpas. Um não podia ir porque havia comprado um campo; o outro, porque havia comprado 
cinco juntas de boi e precisava experimentá-los; o outro não podia ir porque havia casado. É; cada um 
apresentou o que considerava ser uma importante desculpa. 
230
É necessário explicar que o homem ficara indignado porque o convite era feito muito 
antecipadamente. Mas havia um detalhe: não se sabia a hora da festa. Quando chegasse a ocasião, o 
convidado seria comunicado, e foi o que aconteceu : "E à hora da ceia mandou o seu servo dizer aos 
convidados: Vinde, porque tudo já está preparado". Aceitar o convite, e não comparecer, seria 
considerado uma grave injúria ao anfitrião, um sério insulto. 
Na história, os convidados deram suas excusas: um estava com suas terras, o outro estava envolvido 
com o seu gado, e o terceiro com a família. Naturalmente, para eles os envolvimentos particulares 
tinham prioridade sobre o convite, e deram desculpas. Razões tremendamente ilógicas, fracas de 
argumento, e, até, insultuosas, porque dizer "Não vou ao seu banquete porque eu preciso ver as 
terras; não vou ao banquete porque vou olhar o boi que comprei" era um insulto! E vejam a razão: 
"Comprei um campo, e preciso ir vê-lo; peço que me desculpe". A desculpa é fraca porque esse 
homem era um mentiroso. É uma questão de senso comum tanto aqui quanto no Oriente Médio, pois 
ninguém compra uma fazenda, um trato de terra sem antes conhecer cada metro quadrado. Ninguém 
compra terreno sem olhar antes, e foi o que esse homem fez. Um certo comentarista da Palavra de 
Deus até diz que muitas vezes a compra de uma fazenda requer, no Oriente, anos de negociação, 
mesmo porque os orientais são extremamente pechincheiros. Comprar no Oriente, é uma mão de 
obra, uma verdadeira arte. É como se hoje alguém dissesse, "Não posso ir a sua festa porque eu 
comprei uma casa pelo telefone", sem olhá-la, sem saber se prestava, suas divisões internas. Além 
disso, as ceias eram realizadas no fim da tarde, de modo que haveria tempo suficiente durante o dia 
para que o homem fosse olhar a fazenda que havia comprado. 
231 
Mentiroso!... 
O outro homem disse, "Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-los; peço que me 
desculpe". Essa é outra desculpa ridícula! Porque ninguém vai comprar juntas de boi (são dois bois 
trabalhando num arado), sem testar antes se os animais poderiam trabalhar um com o outro. Ninguém 
pegava um boi aqui e outro ali e os colocava juntos, não, porque nem sempre podiam trabalhar em 
harmonia, um ajustado ao outro. É como se alguém ligasse para casa, e dissesse: "Não vou jantar hoje 
em casa porque comprei cinco carros usados pelo telefone, e vou olhar para ver se prestam". 
Ninguém faz isso! 
A terceira desculpa ("Casei-me e portanto não posso ir") parece ser a mais coerente, e até ficamos 
querendo desculpar o homem que se casou e disse que não podia ir ao banquete do outro porque, 
naturalmente, o lar é de suprema importância no ensino do evangelho. Mas, a família não foi 
instituída para ser utilizada de modo egoísta. Jesus, de qualquer modo, mostrou na história que essa 
desculpa não era a mais adequada. 
AS LIÇÕES DA PARÁBOLA 
Ela nos lembra que o convite do Senhor é para uma festa tão alegre quanto um banquete pode ser. 
Estamos sendo convidados para a Ceia Messiânica! Quando celebramos a Ceia do Senhor temos uma 
prévia desse banquete em apenas dois elementos: um pedacinho de pão e um calicezinho de fruto da 
videira; só! No entanto, ficamos tão felizes com esses poucos elementos, que podemos imaginar como 
será na Ceia Messiânica com todos os quitutes à nossa frente, com aquelas iguarias à nossa disposição! 
É a festa da salvação!
Na realidade, esse é um convite para a alegria! Não entendemos como pode alguém participar da Ceia 
do Senhor com o rosto triste... Aliás, há quem pense que a Ceia do Senhor é uma recepção fúnebre. 
É; há lugares onde há recepção; quando alguém falece, e se vai fazer a "sentinela", o velório, há uma 
mesa onde os participantes vão se deliciar. A Ceia, apesar de Memorial, não é uma festa fúnebre: é a 
ceia da alegria! E temos nela uma pré-estréia do que vai acontecer na Ceia Messiânica! Evangelho de 
tristeza, de penúria não pode ser o evangelho do reino de Deus! 
A história lembra também que as coisas que tornam uma pessoa surda ao convite não são más em si 
mesmas. Todos compreendem que o homem que disse ir olhar a fazenda faria algo considerado 
correto. Todos entendem que aquele que foi olhar a junta de bois, fez algo adequado. E menos, ainda, 
o casamento. São as terras de um, os negócios de outro, a indústria de alguém, a casa de praia de mais 
outra pessoa, mas é tão fácil alguém ficar por demais ocupado, e diria mais tão preocupado com essa 
coisas boas que Deus concede, com o agora que se esquece da eternidade, que se esquece do Deus-que- 
232 
concede, que se preocupa tanto com o visível, que se esquece daquele que ele não vê! 
A história nos lembra, igualmente, que Jesus exemplifica o que nós perdemos quando não O seguimos 
E a real tragédia é perder a alegria do banquete messiânico, a alegria da presença de Jesus Cristo, a 
alegria da eternidade. 
A história nos recorda outra coisa; é que o convite é o da graça do Criador. E o conceito que Jesus 
enfatizou é a oferta gratuita da misericórdia de Deus, e, por isso, a porta é aberta, e nesse momento 
em que a porta se tornou aberta, foram convidados aqueles que antecipadamente não tinham sido 
convidados. 
Ah, meu amigo querido, tudo está pronto! É o que diz a Bíblia. A você nada resta a fazer a não ser 
aceitar participar desse banquete messiânico. O dever dos servos (e aqui estamos nós, os servos do 
Senhor) é chamar, é insistir, é dizer a todos, é enfatizar o "vinde!" que está no verso 17: "Vinde, 
porque tudo já está preparado". Esse é o nosso dever; a você só compete o atender esse convite! 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
A DOUTRINA DA ELEIÇÃO - I 
Organizado pelo Reverendo professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
A eleição, conhecida também como predestinação e eleição incondicional, é um ato da livre graça de 
Deus. Com isto em mente procuraremos responder, com a colaboração de vários autores, algumas 
das perguntas mais comuns sobre a doutrina da eleição e tentar esclarecer as principais dúvidas de 
crentes sinceros, desejosos de aprenderem um pouco mais desta doutrina bíblica tão enriquecedora. 
Minha oração é que o estudo desta doutrina seja uma benção para você como tem sido para mim. 
Obs: As notas adicionais e a tradução de alguns textos são de minha autoria. 
I. A VERACIDADE BÍBLICA DA DOUTRINA 
DA ELEIÇÃO POR W. J. SEATON 
Esta não é uma filosofia cega, mas é retirada da Palavra de Deus, é construída, sustentada e revelada 
por ela. O assunto é tão vasto quanto o oceano; mas não podemos fazer mais do que citar alguns 
versículos chaves das Escrituras que agem como mapa e compasso através desses mares imensos. 
A história da Bíblia é a história da eleição incondicional. É estranho que aqueles que se opõem a essa 
doutrina não reconheçam isso. Alguns crentes têm dificuldade em crer que Deus poderia preterir 
certas pessoas e escolher outras e, no entanto, aparentemente não têm dificuldade em crer que Deus 
chamou a Abraão dentre os pagãos de Ur dos Caldeus deixando os outros no paganismo. Por que
razão Deus escolheu a nação de Israel como Seu "povo peculiar"? Não há necessidade de especular, 
pois Deuteronômio 7.7 nos dá a resposta: "O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, 
porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos: Mas porque o Senhor vos 
amava...". Por que razão Deus, desrespeitando completamente as leis de família de Israel, escolheu o 
filho mais novo, Jacó, em lugar do primogênito Esaú? Mais uma vez, "à lei e ao testemunho". 
Romanos 9.11-13: "... Para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme... Amei Jacó, e 
aborreci Esaú". 
Qual era a doutrina pregada por Jesus na sinagoga em Nazaré, se não a doutrina da eleição 
incondicional? "Em verdade vos digo que muitas viúvas existiam em Israel nos dias de Elias... E a 
nenhuma delas foi enviado Elias, senão a Serepta de Sidom, a uma mulher viúva... E muitos leprosos 
havia em Israel no tempo do profeta Eliseu, e nenhum deles foi purificado, senão Naamã, o siro" (Lc 
4.25-27). Sabemos o resultado da pregação dessa mensagem por nosso Senhor: "o levaram até o cume 
do monte para dali o precipitarem". 
Concedemos que há um "tipo de eleição" que é mantida por muitos crentes hoje. De modo geral 
baseiam-se em Romanos 8.29: "Porque os que dantes conheceu também os predestinou...". A causa 
se desenvolve aproximadamente da seguinte maneira: Deus previu aqueles que aceitariam a Cristo, 
"elegendo-os" portanto para a vida eterna. Contra esse ponto de vista salientamos que: 
1. A presciência de Deus refere-se a um povo e não a qualquer ação desenvolvida pelo povo. A Bíblia 
diz: "... os que dantes conheceu...", etc. De novo Deus fala através de Amós: "De todas as famílias da 
terra a vós somente conheci". Isto é, independente de qualquer ação, boa ou má, Deus os "conheceu" 
no sentido que os amou e escolheu para serem dEle. É assim que predestinou a Seus eleitos. 
2. Não adianta dizer que Deus nos elegeu por ver algo que faríamos – isto é, "aceitar" a Cristo, mas 
somos escolhidos para que possamos "aceitá-lO". "Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus 
para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas" (Ef 2.10). 
3. Também não resolverá dizer que Deus previu aqueles que acreditariam. Atos 13.48 torna esse 
ponto completamente claro: "... e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna". 
Eleição não resulta de acreditarmos, mas nossa crença resulta de sermos eleitos – "ordenados para a 
vida eterna". 
4. Além disso, dizer que exercitamos fé ao aceitar a Cristo e que Deus previu essa fé e, portanto, nos 
elegeu, somente nos leva mais um passo para traz; pois onde encontramos a fé para exercitar? As 
Escrituras fornecem a resposta: "É dádiva de Deus, não de nós mesmos". (1). 
Certamente, em vez de argumentarmos contra essas coisas, deveríamos estar praticando aquilo que o 
Espírito Santo, através do apóstolo Pedro, recomenda: "Procurai fazer cada vez mais firme a vossa 
vocação e eleição " (2 Pe 1.10). 
II. A EXPOSIÇÃO DA DOUTRINA DA ELEIÇÃO 
POR R. B. KUIPER 
OS ESCOLHIDOS DE DEUS 
A igreja consiste dos escolhidos de Deus. Certamente nem todos que estão na lista de membros da 
igreja visível foram escolhidos por Deus para a vida eterna. Há alguns dentro da igreja que são cristãos 
nominais e que nunca serão crentes. Estes não estão entre o número dos escolhidos. Porém todos os 
verdadeiros membros da igreja de Cristo pertencem aos escolhidos. 
É possível que não haja outro ensinamento da Palavra de Deus tão impopular como a eleição. Inclusive 
alguns crentes bíblicos e amantes da Palavra de Deus estão mui próximo de detestá-la. Isto é difícil de 
entender. Não só se ensina inequivocamente a eleição na Escritura senão que esta doutrina declara 
enfática e belamente o amor infinito e eterno de Deus pelos seus. 
Assim, pois, o fato de que a igreja consiste dos escolhidos de Deus torna mais refulgente sua glória. 
233
Especificados por Deus Pai 
Suponhamos que uma congregação vá construir um templo, uma casa de adoração. O primeiro passo 
para a realização de tal projeto é contratar um arquiteto, que desenhará um plano para o edifício 
proposto e especificará que material se usará em dita construção. Como o arquiteto de sua igreja, o 
Deus Pai a planejou desde a eternidade e especificou precisamente quais pessoas seriam as que a 
comporiam. Ele a escolheu dentre toda raça humana para esse fim. 
Deus falou acerca da igreja do Antigo Testamento como "meu servo Jacó" e "Israel meu escolhido" (Is 
45.4). Na saudação de sua carta aos efésios Paulo se regozijou dizendo: "Bendito o Deus e Pai de 
nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões 
celestiais em Cristo, assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e 
irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de 
Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade..." (Ef 1.3-5). E Pedro se dirigiu àqueles a quem 
escreveu sua carta como "eleitos, segundo a presciência de Deus Pai..." (1 Pe 1.2). 
Há quem diga que Deus elegeu a todos os homens para que sejam membros do corpo de Cristo. Nada 
poderia ser mais absurdo. A própria palavra eleição significa a escolha de alguns dentre um número 
maior, e escolher a todos de um certo número simplesmente não é escolher. Citemos um exemplo: 
três homens lançam sua candidatura para o cargo de governador de uma província. Certo eleitor, que 
não pode decidir qual é o melhor candidato para o cargo, decide votar nos três. É claro que o que fez 
foi perder seu voto! E não é menos lógico que se todos os outros eleitores fizessem o mesmo, não 
haveria eleição. Disso concluímos que se Deus elegesse todos os homens para que sejam membros de 
sua igreja não teria elegido nenhum. É iniludível esta conclusão. 
É interessante que alguns que sustentam que Deus elegeu todos os homens chegam exatamente a essa 
conclusão: dizem que a única razão por que uma pessoa chega a ser membro da igreja de Cristo é 
porque por sua própria vontade escolhe unir-se à igreja. Em outras palavras, alguém chega a ser 
membro da igreja, não porque Deus o escolhe, mas porque a própria pessoa decide fazê-lo. Assim a 
eleição é do homem, não de Deus. É difícil imaginar uma contradição mais flagrante da Escritura. 
Karl Barth ensina que todos os homens são escolhidos por e em Cristo para a vida eterna. Havendo 
tomado esta posição, que está abertamente em desacordo com a Escritura, enfrenta um sério dilema. 
Ele deve, de acordo com o universalismo, concluir que no final todos os homens serão salvos, ou, de 
acordo com o arminianismo, fazer com que a salvação dependa, no final, da vontade do homem. Não 
obstante, ele recusa em reconhecer estas alternativas. Deste modo sua doutrina da eleição chega a ser 
em extremo confusa. 
Apresenta-se, então, a importante pergunta: Por que Deus designou certas pessoas dentre as demais 
para que sejam membros de sua igreja? Têm-se dado duas respostas contraditórias. O arminianismo 
ensina que Deus escolheu certos indivíduos porque sabia de antemão que eles creriam em Cristo. A 
teologia reformada insiste que a única razão da eleição de Deus era o divino amor soberano. Isto é, 
desde a eternidade Deus viu os objetos de sua eleição em Cristo, seu Escolhido. Segundo o 
arminianismo, a base para a eleição de Deus reside no homem; segundo o calvinismo, reside em Deus. 
Dito de outro modo, o arminianismo sustenta que a fé é a base para a eleição, enquanto que a fé 
reformada sustenta que a fé é o fruto da eleição e também sua prova. 
Comprados por Deus Filho 
Suponhamos de novo que uma congregação planeja construir um templo. Os planos e as outras 
especificações já foram adotados; o segundo passo é a compra de materiais de construção. Isso é o que 
também Deus fez para construir sua igreja. Deus, o Filho, comprou os escolhidos, aqueles a quem o 
Pai havia designado como membros de sua igreja. Paulo relembrou os anciãos da igreja de Éfeso de 
seu dever de pastorear a igreja de Deus, a qual, disse, "ele comprou com o seu próprio sangue" (At 
20.28). 
234
Alguns dos primeiros pais da igreja sustentaram a opinião que Cristo pagou a Satanás o preço com o 
qual ele comprou os escolhidos. É uma interpretação de todo errônea. Se Cristo tivesse feito isso, 
teria constituído um reconhecimento de que Satanás havia sido antes o dono legítimo dos pecadores 
escolhidos. É evidente que Satanás nunca teve tal coisa. As coisas são bem assim: quando o homem 
pecou, Deus como Juiz sentenciou a raça humana à prisão. Satanás foi, por assim dizer, carcereiro da 
prisão. Cristo veio para dar sua vida em resgate por certos prisioneiros. Dito em uma maneira mais 
clara, Ele apresentou o resgate não ao carcereiro, mas ao Juiz. O Juiz aceitou o resgate e ordenou a 
liberdade daqueles prisioneiros. Assim os prisioneiros são libertados do poder das trevas e 
transportados para o reino de seu amado Filho (Cl 1.13). 
Em nossos dias é muito comum outra falsa interpretação dessa transação. Diz-se que Cristo comprou 
não só aos escolhidos, mas a todos os homens com seu sangue e que, havendo feito isso, Ele deixou 
que cada indivíduo escolhesse aceitar ou não o benefício salvífico de sua morte. Essa interpretação 
fracassa completamente em compreender o amor do Salvador moribundo para com os seus. Sem 
dúvida, a morte de Cristo é suficiente para a salvação de todos os homens. Contudo, há de se afirmar 
enfaticamente que nenhum dos que Cristo comprou com seu sangue permanecerá sob o domínio do 
diabo. Seu amor assegura que todos aqueles que Ele comprou chegarão a ser crentes nEle e membros 
de sua igreja. Ele fará que tal coisa suceda, não por uma compulsão externa, porém pela influência 
graciosa de seu Espírito Santo. "O bom pastor dá a vida pelas ovelhas" (Jo 10.11). E Ele verá que até a 
última ovelha pela qual deu sua vida será trazida ao rebanho. 
A Escritura com freqüência fala em termos superlativos acerca do amor de Deus por sua igreja. Diz 
por exemplo: "Acaso pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se 
compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me 
esquecerei de ti. Eis que nas palmas das minhas mãos te gravei; os teus muros estão continuamente 
perante mim" (Is 49.15,16). Esta linguagem é ao mesmo tempo forte em extremo e supremamente 
terna. Todavia, a revelação do amor de Deus por sua igreja alcança seu cume na compra dessa igreja 
pelo Filho de Deus com seu próprio sangue. Olhando para o Cristo crucificado, todo membro de sua 
igreja sussurra: "O qual me amou e se entregou a si mesmo por mim" (Gl 2.20). Em uníssono a igreja 
lê: "Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo 
nós ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele 
salvos da ira. Porque se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do 
seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida" (Rm 5.8-10). E canta: 
De sua cabeça, mãos, pés, 
Precioso sangue ali verteu; 
Coroa vil de espinhos foi 
A que Jesus por mim levou. 
Reunidos por Deus Espírito Santo 
Suponhamos uma vez mais que uma congregação está no processo de levantar um templo. Os planos e 
as especificações foram aprovados e o material comprado. É obvio que fica mais uma coisa para fazer – 
construir, ou seja, o processo de colocar o material. Uma vez feito isso, a construção ficará completa. 
Isso também Deus faz ao edificar sua igreja. Os escolhidos, aqueles que foram designados desde a 
eternidade pelo Deus Pai e comprados pelo Deus Filho quando morreu na cruz do Calvário, são no 
curso da história reunidos como igreja cristã pelo Deus Espírito Santo. 
O Espírito realiza isso quando concede aos escolhidos a graça da regeneração. Por natureza eles estão 
mortos em seus delitos e pecados, mas o Espírito de Deus lhes dá vida (Ef 2.1). É uma conclusão 
segura que em conseqüência crerão no Senhor Jesus Cristo. Alguns dos escolhidos estão predestinados 
a morrer na infância. Todos estes, certamente, são regenerados antes que partam desta vida, e desde o 
próprio momento da regeneração possuem o que os teólogos chamam de habitus, a disposição da fé 
235
salvadora. Isso os torna membros do corpo de Cristo. E quanto aos escolhidos a quem são concedidos 
chegar à idade do juízo, seguramente nascerão de novo, embora nenhum ser humano pode dizer a que 
idade pudesse o Espírito querer conceder-lhe o nascer de novo; e em seu caso a regeneração resultará 
em uma consciente recepção do Salvador como Ele está apresentado no evangelho. Isso é outra forma 
de afirmar que cedo ou tarde, pela graça do Espírito Santo, serão membros viventes da igreja de 
Cristo. 
A noção ampliada difundida nos círculos cristãos é que todos os seres humanos, incluindo os não-regenerados, 
são capazes por sua própria vontade de aceitar a Cristo como Salvador e ao fazer isso 
unir-se à igreja de Cristo. Com efeito, diz-se que Deus tem deixado essa parte da salvação para o 
homem. E declara-se que o novo nascimento é uma conseqüência, não um requisito, do ato de fé do 
homem. Este é um dos erros mais correntes, para não dizer um dos mais sérios do fundamentalismo 
atual. Por fazer do homem, em última instância, seu próprio salvador, esta heresia comete a maior 
violência à doutrina cardial da Palavra de Deus, a saber: a salvação pela graça de Deus. A Escritura 
ensina inequivocamente que ninguém pode vir a Cristo em fé se o Pai não lhe trouxer (Jo 6.44); que 
antes que a fé chegue a ser um ato do homem, é um dom de Deus (Fp 1.29); e que "ninguém pode 
dizer: Senhor Jesus! senão pelo Espírito Santo" (1 Co 12.3). A Escritura ensina com a mesma clareza 
que é Deus quem reúne seus escolhidos na igreja. Foi Deus o Espírito Santo quem, ao aplicar o 
sermão de Pedro nos corações, reuniu três mil homens e mulheres na igreja no dia de Pentecostes. E 
foi "o Senhor" quem posteriormente "acrescentava diariamente à igreja os que haviam de ser salvos" 
(At 2.47). 
Que gloriosa manifestação do amor divino é a reunião dos escolhidos na igreja! Se Deus tivesse 
escolhido certos indivíduos para constituir o corpo de seu Filho, mas tivesse feito com que a realização 
dessa seleção dependesse do consentimento deles, nenhum deles seria salvo. Se, além de escolhê-los, 
Deus os comprasse com seu sangue para que fossem membros de sua igreja, mas tivesse feito com que 
o cumprimento dessa transação dependesse da aceitação de suas condições, todos estariam perdidos. 
Tão grande é o amor de Deus pelos seus que Ele realiza sua salvação exclusivamente. Não só os 
escolheu desde a fundação do mundo e os comprou no Calvário, como também é Ele quem torna 
válidas essa eleição e essa compra por meio da operação de seu Espírito dentro deles. O Espírito Santo 
os traz da morte para a vida, concedendo-lhes a fé salvadora e assim os torna membros de Cristo. 
Desde o princípio até o fim, sua salvação depende exclusivamente da graça soberana e do amor 
infinito de Deus. 
A igreja consiste daqueles que Deus ama imensamente. 
Salvos para servir 
Agora é necessário chamar a atenção para um aspecto da eleição que às vezes é descuidado por aqueles 
que confessam esta doutrina. Indubitavelmente a eleição é para a salvação (2), mas a Escritura ensina 
em uma forma não menos enfática que é também para serviço. A salvação e o serviço são inseparáveis. 
A salvação é para servir. 
Os membros da igreja de Cristo são feitura de Deus, "criados em Cristo Jesus para as boas obras" (Ef 
2.10). Porque foram comprados, estão sob a solene obrigação de glorificar a Deus em seus corpos e 
em seus espíritos, que são de Deus (1 Co 6.20). Cristo se entregou por eles para redimi-los de toda 
iniqüidade e purificar para Si mesmo um povo peculiar, zeloso de boas obras (Tt 2.14). E digamos 
com toda a ênfase de que somos capazes – Deus Pai escolheu a sua igreja em seu amor soberano, o 
Filho a comprou com seu precioso sangue, e o Espírito Santo veio para morar nela com o fim de que 
testificasse. É raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus para que anuncie as 
virtudes daquele que a chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1 Pe 2.9). 
A igreja consiste daqueles que amam e servem ao Deus trino, porque Ele os amou primeiro. 
236
A DOUTRINA DA ELEIÇÃO - II 
Organizado pelo Rev. Antony Steff Gilson de Oliveira 
A ELEIÇÃO E A EVANGELIZAÇÃO 
Vez por outra se ouve a idéia de que a eleição torna supérflua a ação evangelizadora. Pergunta-se "Se 
o decreto da eleição é imutável e, portanto, torna absolutamente certa a salvação dos eleitos, que 
necessidade têm eles do Evangelho? Os eleitos não vão ser salvos mesmo, ouçam ou não o 
Evangelho?". 
A premissa desse argumento é inteiramente verdadeira. A eleição divina torna a salvação dos eleitos 
inalteravelmente certa. Mas a conclusão derivada dessa premissa revela grave incompreensão da 
soberania divina como expressa no decreto da eleição. 
Enquanto que a eleição é feita na eternidade, não se pode perder de vista a verdade de que sua 
concretização é um processo que se dá no tempo, ou seja, dentro da história. Muitos fatores tomam 
parte nesse processo. Um deles é o Evangelho. E por sinal é um fator da maior significação (3). 
Não se confunda a soberania de Deus com a Sua onipotência. Certamente Deus é todo-poderoso. 
Significativamente, o conciso Credo Apostólico se refere a este atributo de Deus, não uma, porém duas 
vezes. Se Deus quisesse, poderia pelo emprego da simples força levar para o céu os eleitos, e 
igualmente pelo emprego da simples força lançar ao inferno os não eleitos. Mas Ele não faz nada disso. 
Preordenação não é compulsão e a certeza não exclui a liberdade. Ninguém jamais foi convertido ao 
cristianismo à força. Todo verdadeiro convertido volta-se para Cristo porque quer – embora seja 
certo que este querer é dom de Deus, transmitido a ele por ocasião do seu novo nascimento. Deus 
trata os seres humanos como criaturas racionais, capazes de agir livremente. Por isso, Ele arrazoa e 
dialoga com os não salvos por meio do Evangelho. Quer "persuadir" os homens (2 Co 5.11). E no 
caso dos eleitos, Ele aplica o Evangelho aos corações deles de maneira salvadora, mediante o Espírito 
Santo. 
Não se vá supor que o soberano decreto de Deus só se refere aos fins, com a exclusão dos meios. Por 
mais ênfase que se dê, não será suficiente para expressar que Deus preordenou tudo que sucede. Tudo 
abrange os meios, como os fins. Para ilustrar, Deus não somente predeterminou que dado fazendeiro 
colhesse este ano dez mil arrobas de trigo; predeterminou também que colhesse aquela quantidade 
como resultado de muito trabalho duro. Do mesmo modo, Deus não decretou apenas que certo 
pecador herde a vida eterna, mas decretou que esse pecador receba a vida eterna por meio da fé em 
Cristo, e que obtenha a fé em Cristo por meio do Evangelho. 
Não se pode imaginar a soberania de Deus como se ela eliminasse a responsabilidade do homem. 
Como os mais cultos e competentes teólogos e filósofos se mostraram incapazes de conciliar a 
soberania divina com a responsabilidade humana perante o tribunal da razão, sempre se corre o risco 
de dar ênfase a uma delas em detrimento – ou mesmo com a exclusão – da outra. Mas a Bíblia ensina 
as duas verdades com grande ênfase. Aquele que aceita com humilde fé a Bíblia como a infalível 
Palavra de Deus, dará vigoroso destaque tanto a uma como à outra. Portanto, o pregador do 
Evangelho tem de dizer ao pecador, não apenas que a salvação é só pela graça soberana, mas também 
que, para ser salvo, ele precisa crer em Jesus como Salvador e Senhor. Por um lado, deve pregar que 
os eleitos de Deus serão salvos com toda a segurança; por outro lado, deve proclamar a advertência de 
que aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele (João 3.36). 
Mesmo os eleitos precisam desta admoestação, pois faz parte integrante do método que Deus adotou 
para levá-los à salvação. 
Agora fica assegurada uma conclusão das mais significativas. Em vez de tornar supérflua a 
evangelização, a eleição requer a evangelização. Todos os eleitos de Deus têm que ser salvos. Nenhum 
deles pode perecer. E o Evangelho é o meio pelo qual Deus lhes comunica a fé salvadora. De fato, é o 
237
único meio que Deus emprega para esse fim. "A fé vem pelo ouvir e o ouvir pela palavra de Deus" 
(Romanos 10.17). 
Observe-se que, por paradoxal que pareça, a eleição é universal. Certamente, a eleição é a escolha de 
certas pessoas, dentre um maior número, para a vida eterna. Assim a eleição reflete particularismo. 
Contudo, num sentido real, a eleição é universal. Deus tem os Seus eleitos em todas as nações e em 
todas as épocas. A igreja é composta de "eleitos de toda nação", e em nenhum período da história os 
eleitos pereceram na terra, e jamais acontecerá isto no futuro. Deus quer que o Evangelho seja 
proclamado no mundo todo e em todo o tempo para que seja congregada a soma total dos eleitos. É 
bom repetir, pois: a eleição exige a evangelização. 
A mesma verdade pode-se ver de outro ângulo. A Escritura ensina que a eleição foi feita com vistas às 
boas obras. Disse Paulo: "Somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais 
Deus de antemão preparou para que andássemos nelas" (Efésios 2.10). E a Escritura ensina 
especificamente que a eleição foi feita com vistas ao testemunho. Disse Pedro: "Vós sois raça eleita ... 
a fim de proclamardes as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz" (1 
Pedro 2.9). Deus escolheu determinadas pessoas, não só para irem para o Céu quando morrerem, 
mas também para serem Suas testemunhas enquanto estiverem na terra. Digamos outra vez: a eleição 
exige a evangelização. 
Eis outra conclusão igualmente significativa: a eleição assegura que a evangelização resulte em 
cgeonnuveínrassõ.e sO pregador do Evangelho não tem como dizer quem em seu auditório pertence aos eleitos e 
quem não pertence. Mas Deus sabe. E Deus está pronto para aplicar e abençoar Sua Palavra nos 
corações dos Seus eleitos para a salvação. O momento preciso em que apraz a Deus fazer isso no caso 
de um eleito individual, não sabemos, mas é certo e seguro que o fará antes da morte da pessoa. 
Exatamente tão certo como todos os eleitos de Deus serão salvos, é certo que a palavra do Evangelho 
não tornará a Deus vazia (Isaías 55.11). 
A preterição e o oferecimento do Evangelho 
A eleição tem seu reverso. Se Deus escolheu da raça humana decaída certo número para a vida eterna, 
é óbvio que passou outros por alto, deixando-os em seu estado de perdição e decretando sua 
condenação por seus pecados. Teologicamente, este aspecto da predestinação é conhecido como 
preterição, rejeição ou reprovação. Tem-se alegado que esta doutrina elimina o sincero e universal 
oferecimento do Evangelho. Se Deus decretou desde a eternidade que certos homens pereçam 
eternamente, dizem os oponentes, é inconcebível que Ele, dentro da história, convide sinceramente a 
todos, sem distinção, para a vida eterna. 
Numa tentativa para refutar esse argumento, às vezes se faz a observação de que o pregador humano 
não tem meios para saber quem é eleito e quem não é, e que, portanto, ele não tem outro recurso 
senão proclamar o Evangelho a todos, indiscriminadamente. Embora válida, essa observação não 
atinge o ponto. A questão é se Deus, que sabe infalivelmente quais são os Seus eleitos e quais não são, 
faz sincero oferecimento da salvação a todos os que são alcançados pelo Evangelho. 
Fato da maior importância é que a Palavra de Deus ensina inequivocamente, tanto a reprovação 
divina, como a universalidade e a sinceridade do oferecimento do Evangelho. É inegável que Romanos 
9.21,22 ensina a doutrina da reprovação: "Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo 
barro fazer um vaso para honra e outro para desonra? Que diremos, pois, se Deus querendo mostrar a 
sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos de ira, preparados para a 
perdição...?". Também a ensina 1 Pedro 2.8, onde se faz menção dos "que tropeçam na palavra, 
sendo desobedientes, para o que também foram destinados". (...) o universal e sincero oferecimento 
do Evangelho é firme e certamente ensinado em Ezequiel 33.11, 2 Pedro 3.9 e em outras partes mais. 
Também podemos admitir – ou melhor, tem que ser admitido – que estes ensinos não podem ser 
conciliados entre si pela razão humana. Tanto quanto possa interessar à lógica humana, um exclui o 
238
outro. Todavia, a aceitação de um deles com a exclusão do outro é condenada como racionalismo. A 
norma da verdade não é ditada pela razão humana, e sim pela infalível Palavra de Deus. 
É digno de nota que, na história da igreja cristã, os teólogos que têm insistido mais na verdade da 
rejeição divina, são os que têm defendido também, e da maneira mais enfática, o universal e sincero 
oferecimento do Evangelho. Seguem alguns exemplos. 
É do conhecimento geral que João Calvino ensinava a doutrina da reprovação divina. Às vezes ele até 
assumia a posição supralapsária, assim chamada. Quer dizer, defendia a idéia de que o decreto da 
predestinação precedeu logicamente os decretos da criação e da queda. No entanto, ao comentar 
Ezequiel 18.23, passagem paralela a Ezequiel 33.11, disse ele: "Não há nada que Deus deseja mais 
ardentemente do que, que aqueles que estejam perecendo e correndo para a destruição retomem o 
caminho da segurança". E continuou: "Se alguém objetar – bem, neste caso não há nenhuma eleição 
de Deus pela qual Ele tenha predestinado um número fixo para a salvação – a resposta está à mão: o 
profeta não fala aqui do secreto conselho de Deus, mas somente evoca aos homens em desgraça o seu 
desespero, para que aprendam a esperança de perdão, arrependam-se e abracem a salvação oferecida. 
Se alguém mais contestar – isso é fazer Deus agir com duplicidade – a resposta está preparada, que 
Deus sempre quer a mesma coisa, embora por diferentes meios e de modo inescrutável para nós. 
Portanto, embora a vontade de Deus seja simples, grande variedade a envolve, no que diz respeito aos 
nossos sentidos. Além disso, não é surpreendente que nossos olhos sejam cegados por luz intensa, de 
modo que, certamente, não podemos julgar como é que Deus quer que todos se salvem e, contudo, 
destinou todos os reprovados à destruição eterna, e quer que eles pereçam. Enquanto olhamos através 
de um vidro, obscuramente, devemos satisfazer-nos com a medida do nosso entendimento". 
Os Cânones de Dort ensinam inconfundivelmente a doutrina da reprovação. Dizem eles: "O que 
peculiarmente tende a ilustrar e a recomendar-nos a eterna e imerecida graça da eleição é o expresso 
testemunho da Sagrada Escritura de que não todos, mas somente alguns são eleitos, enquanto que 
outros são deixados de lado no decreto eterno. A estes Deus, por seu soberano, justíssimo, 
irrepreensível e imutável beneplácito, decidiu deixar caídos em sua miséria comum à qual se tinham 
lançado voluntariamente, e não lhes dar a fé salvadora e a graça da conversão. Mas, permitindo em 
seu justo julgamento que sigam os seus próprios caminhos, decidiu afinal, para a manifestação da sua 
justiça, condená-los e puni-los para sempre, não somente por causa da incredulidade deles, mas 
também por todos os seus outros pecados" (I, 15). Todavia, os Cânones insistem: "Todos quantos são 
chamados pelo Evangelho, são chamados com sinceridade. Pois Deus declarou ardorosa e 
verdadeiramente em Sua Palavra o que é aceitável a Ele, a saber, que aqueles que são chamados, 
venham a Ele" (III, IV, 8). 
Em apoio do ensino de Dort que transcrevemos acima, Herman Bavinck negou tanto que a fé seja a 
causa da eleição como que o pecado seja a causa da rejeição, e insistiu em que a eleição e a rejeição 
têm suas raízes no soberano beneplácito de Deus. Para ser exato, ele ensinou que Deus decretou 
soberanamente, desde a eternidade, que alguns homens escapariam da punição dos seus pecados, e 
outros não (Gereformeerde Dogmatick, II, 399). Mas na mesma obra clássica, aquele calvinista bem 
equilibrado afirmou também: "Embora através do chamamento a salvação se torne a porção de apenas 
uns poucos... ele /o chamamento/, não obstante, é de grande valor e significação também para 
aqueles que o rejeitam. Para todos, sem exceção, é prova do infinito amor de Deus, e sela a 
declaração de que Ele não tem prazer na morte do pecador, mas que ele se volte e viva" (IV, 7). 
A apresentação da eleição aos não salvos 
Não se pode simplesmente suprimir a pergunta sobre que lugar, se há algum, a doutrina da eleição 
deve ocupar na pregação aos não salvos. 
A Escritura e as confissões calvinistas dizem-nos que a verdade da eleição visa primariamente os 
crentes. O propósito ao qual ela serve em benefício deles foi admiravelmente resumido nos Cânones de 
239
Dort. Dizem eles: "O senso e a certeza desta eleição comunicam aos filhos de Deus matéria adicional 
para a sua humilhação diária diante dele, para adorarem a profundidade das Suas misericórdias, para se 
purificarem e para oferecerem gratas retribuições de ardente amor a Ele, que manifestou primeiro tão 
grande amor para com eles" (I, 13). 
Uma velha ilustração torna bem claro o uso que não deve ser feito da doutrina da eleição ao lidarmos 
com pessoas não salvas. Pode-se falar da casa da salvação. Seu alicerce é o decreto divino da eleição, e 
sua entrada é Cristo. Ele disse: "Eu sou a porta" (João 10.9). Quando os que pela graça de Deus se 
acham dentro convidam os de fora para entrar, indicam para eles o alicerce ou a porta? A resposta é 
mais que evidente. Assim, quando o carcereiro de Filipos perguntou a Paulo e a Silas o que devia fazer 
para salvar-se, eles não o aconselharam a que procurasse descobrir se estava na lista dos eleitos; 
mandaram-no crer no Senhor Jesus Cristo (Atos 16.31). 
Vamos concluir que os homens devem ser mantidos na ignorância da eleição enquanto não receberem 
a Cristo pela fé? Naturalmente a resposta a esta pergunta deve ser negativa. Sem dúvida, a Assembléia 
de Westminster estava bem fundamentada ao advertir que "a doutrina deste alto mistério de 
predestinação deve ser tratada com especial prudência e cuidado" (Confissão de Fé de Westminster, 
III, 8), mas isto não pode significar que deva ser mantida oculta dos não salvos. Muito ao contrário, 
eles devem ser advertidos que não torçam esta verdade e exortados a fazerem uso apropriado dela. 
Especificamente, deve-se dizer a eles que a eleição dá lugar à salvação pela graça divina, que os 
méritos humanos estão fora de cogitação, e que, portanto, há esperança para o maioral dos pecadores; 
que o Deus da eleição convida com sinceridade, cordialmente e mesmo com urgência, todo pecador 
para a salvação; que a predestinação longe de excluir a responsabilidade humana, definitivamente a 
inclui, de modo que todos os que ouvem a proclamação do Evangelho estão, por dever sagrado, 
moralmente obrigados a crer, e, não sendo Deus a causa da incredulidade como é a causa da fé, os que 
persistem na incredulidade perecem por inteira culpa deles mesmos; que o decreto da eleição não é 
secreto no sentido de que ninguém pode estar certo de pertencer aos eleitos, mas que, ao contrário, 
visto que a fé em Cristo é o fruto e também a prova da eleição, a pessoa pode ter tanta certeza de que 
está incluída no número dos eleitos como de que é crente em Cristo Jesus; que a casa para a qual eles 
são convidados tem alicerce imutável e eterno, de sorte que aquele que entra, ainda que o inferno 
todo o ataque, não terá a mínima possibilidade de perecer, mas, com absoluta certeza herdará a vida 
eterna. 
A DOUTRINA DA ELEIÇÃO - III 
Organizado por Professor Reverendo 
Antony Steff Gilson de Oliveira 
NA ELEIÇÃO DEUS NÃO É PARCIAL 
E NÃO FAZ ACEPÇÃO DE PESSOAS 
POR LORAINE BOETTNER, SAMUEL FALCÃO E 
WILLIAM G. T. SHEDD 
Alguém que "faz acepção de pessoas", é alguém que, atuando como juiz, não trata aqueles que vêm 
ante ele conforme seu caráter, senão que nega a uns o que justamente lhes pertence e dá a outros o 
que não é justamente deles – isto é, é alguém governado pelo prejuízo e por motivos sinistros, e não 
pela justiça e pela lei. As Escrituras negam que Deus faça acepção de pessoas neste sentido; e se a 
doutrina da predestinação apresenta Deus atuando desse modo, teremos que admitir que Deus é 
injusto. 
As Escrituras ensinam que Deus não faz acepção de pessoas, porque Ele não escolhe um e rejeita outro 
com base em circunstancias externas como raça, nacionalidade, riquezas, poder, nobreza, etc. Pedro 
diz que Deus não faz acepção já que Ele não faz distinção entre judeus e gentios. Sua conclusão após 
240
ser divinamente enviado a pregar ao centurião romano, Cornélio, foi, "Reconheço por verdade que 
Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é 
justo lhe é aceitável" (At 10.34,35). Através de toda sua história os judeus creram que como povo 
eram objetos exclusivos do favor de Deus. Uma leitura cuidadosa de Atos 10.1 a 11.18 revelará quão 
revolucionária era a idéia de que o evangelho haveria de ser pregado aos gentios também. 
Paulo, igualmente, diz, "glória, porém, e honra e paz a todo aquele que pratica o bem; ao judeu 
primeiro, também ao grego. Porque para com Deus não há acepção de pessoas" (Rm 2.10.11). E, 
novamente, "Já não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há varão nem mulher; porque 
todos vós sois um em Cristo Jesus". Logo acrescenta que não são os judeus externamente, mas 
aqueles que são de Cristo os que, no sentido mais profundo, pertencem a "linhagem de Abraão", e 
"herdeiros segunda a promessa" (Gl 3.28,29). Em Efésios 6.5-9 ordena os servos e senhores a se 
tratarem com justiça; por que Deus, que é Senhor de ambos, não faz acepção de pessoas; e em 
Colossenses 3.25 inclui igualmente as relações entre pais e filhos e entre esposas e esposos. Tiago diz 
que Deus não faz acepção de pessoas porque não faz distinção entre rico e pobre, nem entre aqueles 
que usam vestiduras finas e os que se vestem com simplicidade (Tg 2.1-9). O termo "pessoa" nestes 
versículos significa, não o homem interior, ou a alma, mas a aparência externa, que tão 
freqüentemente influi tanto em nós. Portanto, quando as Escrituras afirmam que Deus não faz 
acepção de pessoas, isto não significa que Deus trata a todos por igual, senão que a razão pela qual Ele 
salva um e rejeita outro não é porque um seja judeu e o outro gentio, ou porque um seja rico e o 
outro pobre, etc. 
Se todas as pessoas fossem inocentes, Deus seria injusto e se deixaria levar de respeitos humanos se as 
tratasse de maneira desigual, salvando umas e condenando as demais. O fato, no entanto, é que todos 
são pecadores e nada merecem de Deus. 
Deus é misericordioso para com aqueles a quem salva, sem ser injusto para com aqueles a quem 
condena, visto como podia ter condenado a todos sem ser injusto. Quando a Bíblia diz que Deus não 
faz acepção de pessoas, não quer dizer que Ele não distingue pessoas, dando a uns o que nega a outros. 
Que todas as pessoas não têm os mesmos dons e as mesmas oportunidades é um fato inegável. 
Sabemos existir muita gente que nunca teve oportunidade de ouvir o Evangelho, e nações inteiras, 
durante séculos, foram privadas desse privilégio. Quando a Bíblia diz que Deus não faz acepção de 
pessoas quer dizer que ele não faz distinção por motivo de raça, riqueza, condição social, etc., e 
também que Ele recompensará cada um de acordo com as suas obras. Veja-se Atos 10.34; Romanos 
2.11; Tiago 2.9 e 1 Pedro 1.17. Nenhuma diferença faz entre judeus e gentios; julgará a todos de 
conformidade com as obras de cada um, visto como não faz acepção de pessoas. Mas nossa salvação 
não é algo devido aos nossos méritos; procede da graça divina. A este respeito Deus pode dizer o que 
o proprietário, respondendo, disse: "Amigo, não te faço injustiça; não combinaste comigo um 
denário? Toma o que é teu, e vai-te; pois quero dar a este último tanto quanto a ti. Porventura não 
me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque os meus são bons?" 
(Mt 20.13-15). 
O decreto divino da eleição não pode ser acusado de parcialidade, porque isto só é cabível quando 
uma parte tem o que exigir de outra. Se Deus fosse obrigado a perdoar e salvar o mundo inteiro, seria 
parcial se salvasse apenas alguns e não todos. Parcialidade é injustiça. Um pai é imparcial e injusto se 
desconsidera direitos e exigências iguais de todos os seus filhos. Um devedor é parcial e injusto se, no 
ato de pagar a seus credores, favorece uns às custas dos outros. Nestes casos uma parte tem certa 
reivindicação a fazer sobre a outra. Mas é impossível Deus mostrar parcialidade em salvar do pecado, 
porque o pecador não tem qualquer direito ou reivindicação a apresentar. 
A afirmativa de que Deus é obrigado, seja nesta vida, seja na outra, a oferecer perdão de pecados 
mediante Cristo a todo o mundo, não apenas não tem apoio na Escritura, como é contrário à razão, 
241
visto como transforma a graça em dívida, envolvendo o absurdo de que, se o juiz não oferece perdão 
ao criminoso, contra quem lavrou sentença condenatória, não o trata com eqüidade. 
IV. CONCLUSÃO: POR JOSIVALDO DE FRANÇA PEREIRA 
A eleição ou predestinação é a missão resgate de Deus, pois Deus não deixou todo o gênero humano 
perecer no estado de pecado e miséria que merecia. A doutrina da eleição não é uma filosofia cega. É 
construída, sustentada e revelada pela Palavra de Deus. Veja por exemplo Deuteronômio 7.6-9; Atos 
13.48; Romanos 8.29,30; Efésios 1.4,5; 2 Tessalonicenses 2.13; 2 Timóteo 2.10; Tito 1.2, etc. Esta 
eleição, conforme dizem corretamente os teólogos calvinistas, é "incondicional", isto é, Deus elege 
independente de méritos, fé ou obras do indivíduo. E isto só é possível porque a eleição é um ato 
gracioso de Deus (Rm 11.5). Sendo assim, devemos compreender que a eleição divina nunca é uma 
questão de justiça. Portanto, erram aqueles que dizem que Deus seria injusto se escolhesse alguns e 
não todos para a salvação. A eleição é questão de graça. A condenação sim, é questão de justiça. 
Mas ninguém poderá entender a doutrina bíblica da eleição se não compreender adequadamente a 
doutrina bíblica do pecado. Porque "a pressuposição do eterno decreto divino da eleição é que a raça 
humana é caída; a eleição envolve o plano gracioso de Deus para o resgate" (Fred H. Klooster). Você 
acredita realmente que todos pecaram em Adão (cf. Rm 5.12) e que ninguém é merecedor da vida 
eterna? (cf. Rm 3.23). Se a sua resposta for afirmativa, então esteja certo de que nunca poderá 
entender a eleição como sendo injustiça. Deus teria sido perfeitamente justo se não elegesse ninguém 
(cf. Mt 20.14,15; Rm 9.14,15); no entanto, Ele quis, soberanamente, mostrar para alguns o Seu 
favor imerecido. Por isso, Paulo fala da "eleição da graça" (Rm 11.5). Na verdade, tudo que 
recebemos de bom é pura expressão da graça de Deus para conosco, como por exemplo, o 
arrependimento para a vida eterna (At 11.18), a salvação em Cristo (At 15.11; Ef 2.8,9) e o serviço 
cristão (1 Co 15.10; Ef 2.10). 
Deus também não faz acepção de pessoas, porque Ele não escolhe uma pessoa e rejeita outra com base 
em circunstâncias externas como raça, nacionalidade, riquezas, poder, nobreza, etc. O fato de Deus 
não salvar todo mundo só confirma a tese de que Ele não é obrigado a salvar todo mundo. Graça não é 
dívida; é graça! 
É importante esclarecer que a eleição divina não é a salvação; é para a salvação (2 Tm 2.13; 2 Tm 
2.10). E entre ambas (eleição e salvação) está a evangelização, servindo de ponte para ligar duas partes 
inseparáveis (Rm 10.14-17; cf. At 18.9-11). Com isto aprendemos que não procede o falso conceito 
de que se uma pessoa é eleita, ela será salva independentemente de crer ou não em Cristo pelo 
evangelho. Pensar assim seria simplesmente um absurdo! Como também não procede a idéia de que 
esta doutrina da eleição "acomoda o crente para a evangelização". A eleição, conforme a Bíblia 
também ensina, é para serviço (cf. 1 Pe 2.9; 2 Pe 1.10). "Serviço" aqui deve ser entendido no mais 
amplo sentido do termo: evangelização, ação social, etc; portanto, somente os desavisados 
acreditariam que a eleição acomoda o crente para a obra de Deus. Lendo 2 Timóteo 2.10, 
aprendemos que para Paulo a eleição incentivava a evangelização ("tudo suporto por causa dos 
eleitos", dizia) e garantia os bons resultados da evangelização ("para que também eles [como os 
demais crentes] obtenham a salvação que está em Cristo Jesus com eterna glória"). Não é verdade que 
o apóstolo que mais defendeu a doutrina da predestinação foi um dos que mais trabalhou na obra de 
Deus? (1 Co 15.9,10). 
Além da salvação e o serviço propriamente ditos, a eleição tem, ainda como finalidade, a santidade de 
vida (Ef 1.4). A eleição é "para sermos santos". Deste modo, também não tem sentido a objeção de 
que a certeza de salvação que a eleição produz leva à libertinagem. A vida que não se expressa em 
santidade é incompatível com a doutrina bíblica da eleição (cf. 2 Pe 1.3-11). 
PERGUNTAS PARA RECAPITULAÇÃO 
Conforme R. B. Kuiper, o que é uma eleição? 
242
Por que a eleição divina é incondicional? 
Por que a eleição exige a evangelização? 
De que modo a eleição auxilia na evangelização? 
Por que na eleição não há injustiça? 
Como é possível Deus eleger sem fazer acepção de pessoas? 
NOTAS 
(1). Em 2 Tessalonicenses 3.2 Paulo diz que "a fé não é de todos" e em Tito 1.1 que a fé "é dos 
eleitos de Deus". 
(2). Leia 2 Tessalonicenses 2.13. 
(3). Veja Atos 13.48. 
Professor Reverendo Antony Steff Gilson de Oliveira 
A DOUTRINA REFORMADA DA AUTORIDADE SUPREMA DAS ESCRITURAS 
Professor Reverendo Dr. Antony Steff Gilson de Oliveira 
A doutrina que me proponho a considerar neste artigo foi de fundamental importância na Reforma 
Protestante do Século XVI. Em contraposição, por um lado, à doutrina católica romana de uma 
tradição oral apostólica e, por outro lado, ao misticismo dos assim chamados entusiastas ou 
reformadores radicais, os Reformadores defenderam a doutrina da autoridade suprema das Escrituras. 
Essa foi, portanto, a sua resposta à autoridade da tradição eclesiástica e do misticismo pessoal. 
A autoridade suprema das Escrituras também é uma doutrina puritano-presbiteriana. A ela os 
puritanos tiveram que apelar freqüentemente na luta que foram obrigados a travar contra as 
imposições litúrgicas da Igreja Anglicana.1 A Confissão de Fé de Westminster professa a referida 
doutrina em três parágrafos do seu primeiro capítulo. No quarto parágrafo, ela trata da origem ou 
fundamento da autoridade das Escrituras: 
A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do 
testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o 
seu Autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a Palavra de Deus. 
O parágrafo quinto aborda a questão da certeza ou convicção pessoal da autoridade das Escrituras: 
Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente apreço pela 
Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, a eficácia da sua doutrina, a majestade do 
seu estilo, a harmonia de todas as suas partes, o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a 
plena revelação que faz do único meio de salvar-se o homem, as suas muitas outras excelências 
incomparáveis e completa perfeição são argumentos pelos quais abundantemente se evidencia ser ela a 
Palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina 
autoridade provém da operação interna do Espírito Santo que, pela Palavra e com a Palavra, testifica 
em nossos corações. 
O décimo e último parágrafo desse capítulo confere às Escrituras (a voz do Espírito Santo) a palavra 
final para toda e qualquer questão religiosa, reconhecendo-a como supremo tribunal de recursos em 
matéria de fé e prática: 
O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas, e por quem 
serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as 
doutrinas de homens e opiniões particulares; o Juiz Supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, 
não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura. 
Em dias como os que estamos vivendo, em que cresce a impressão de que o evangelicalismo moderno 
(particularmente o brasileiro) manifesta profunda crise teológica, eclesiástica e litúrgica,2 convém 
considerar novamente essa importante doutrina reformado-puritana. Convém uma palavra de alerta 
contra antigas e novas tendências de usurpar ou limitar a autoridade da Palavra de Deus. Tal é o 
propósito deste artigo. 
243
I. Definição 
O que queriam dizer os Reformadores ao professarem a doutrina da autoridade das Escrituras? Que, 
por serem divinamente inspiradas, elas são verídicas em todas as suas afirmativas. Segundo esta 
doutrina, as Escrituras são a fonte infalível de informação que estabelece definitivamente qualquer 
assunto nelas tratado: a única regra infalível de fé e de prática, o supremo tribunal de recursos ao qual 
a Igreja pode apelar para a resolução de qualquer controvérsia religiosa. 
Isto não significa que as Escrituras sejam o único instrumento de revelação divina. Os atributos de 
Deus se revelam por meio da criação: a revelação natural (cf. Sl 19:1-4 e Rm 1:18-20). Uma versão 
da sua lei moral foi registrada em nosso coração: a consciência (cf. Rm 2:14-15), "uma espiã de Deus 
em nosso peito," "uma embaixadora de Deus em nossa alma," como os puritanos costumavam cham á-la. 
244 
3 A própria pessoa de Deus, o ser de Deus, revela-se de modo especialíssimo no Verbo encarnado, 
a segunda pessoa da Trindade (cf. Jo 14.19; Cl 1.15 e 3.9). 
Mas, visto que Cristo nos fala agora pelo seu Espírito por meio das Escrituras, e que as revelações da 
criação e da consciência não são nem perfeitas e nem suficientes por causa da queda, que corrompeu 
tanto uma como outra, a palavra final, suficiente e autoritativa de Deus para esta dispensa ção são as 
Escrituras Sagradas. 
II. Base Bíblica 
A base bíblica da doutrina reformada da autoridade suprema das Escrituras é tanto inferencial como 
direta. 
A. Base Inferencial 
É inferencial, porque decorre do ensino bíblico a respeito da inspiração divina das Escrituras. Visto 
que as Escrituras não são produto da mera inquirição espiritual dos seus autores (cf. 2 Pe 1.20), mas 
da ação sobrenatural do Espírito Santo (cf. 2 Tm 3.16 e 2 Pe 1.21), infere-se que são autoritativas. Na 
linguagem da Confissão de Fé, a autoridade das Escrituras procede da sua autoria divina: "porque é a 
Palavra de Deus." 
Isto não significa que cada palavra foi ditada pelo Espírito Santo, de modo a anular a mente e a 
personalidade daqueles que a escreveram. Os autores bíblicos não escreveram mecanicamente. As 
Escrituras não foram psicografadas, ou melhor, "pneumografadas." Os diversos livros que comp õem 
o cânon revelam claramente as características culturais, intelectuais, estilísticas e circunstanciais dos 
diversos autores. Paulo não escreve como João ou Pedro. Lucas fez uso de pesquisas para escrever o 
seu Evangelho e o livro de Atos. Cada autor escreveu na sua própria língua: hebraico, aramaico e 
grego. Os autores bíblicos, embora secundários, não foram instrumentos passivos nas mãos de Deus. 
A superintendência do Espírito não eliminou de modo algum as suas características e peculiaridades 
individuais. Por outro lado, a agência humana também em nada prejudicou a revelação divina. Seus 
autores humanos foram de tal modo dirigidos e supervisionados pelo Espírito Santo que tudo o que foi 
registrado por eles nas Escrituras constitui-se em revelação infalível, inerrante e autoritativa de Deus. 
Não somente as idéias gerais ou fatos revelados foram registrados, mas as próprias palavras 
empregadas foram escolhidas pelo Espírito Santo, pela livre instrumentalidade dos escritores.4 
O fato é que, por procederem de Deus, as Escrituras reivindicam atributos divinos: s ão perfeitas, 
fiéis, retas, puras, duram para sempre, verdadeiras, justas (Sl 19.7-9) e santas (2 Tm 3.15).5 
B. Base Direta 
Mas a doutrina reformada da autoridade das Escrituras não se fundamenta apenas em inferências. 
Diversos textos bíblicos reivindicam autoridade suprema. 
Os profetas do Antigo Testamento reivindicam falar palavras de Deus, introduzindo suas profecias 
com as assim chamadas fórmulas proféticas, dizendo: "assim diz o Senhor," "ouvi a palavra do 
Senhor," ou "palavra que veio da parte do Senhor."6 No Novo Testamento, v ários textos do Antigo
245 
Testamento são citados, sendo atribuídos a Deus ou ao Espírito Santo. Por exemplo: "Assim diz o 
Espírito Santo..." (Hb 3:7ss).7 
A autoridade apostólica também evidencia a autoridade suprema das Escrituras. O Apóstolo Paulo 
dava graças a Deus pelo fato de os tessalonicenses terem recebido as suas palavras "n ão como palavra 
de homens, e, sim, como em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando 
eficazmente em vós, os que credes" (1 Ts 2:13). Que autoridade teria Paulo para exortar aos g álatas 
no sentido de rejeitarem qualquer evangelho que fosse além do evangelho que ele lhes havia 
anunciado, ainda que viesse a ser pregado por anjos? Só há uma resposta razoável: ele sabia que o 
evangelho por ele anunciado não era segundo o homem; porque não o havia aprendido de homem 
algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo (Gl 1:8-12). 
Jesus também atesta a autoridade suprema das Escrituras: pelo modo como a usa, para estabelecer 
qualquer controvérsia: "está escrito"8 (exemplos: Mt 4:4,6,7,10; etc.), e ao afirmar explicitamente a 
autoridade das mesmas, dizendo em João 10:35 que "a Escritura não pode falhar."9 
III. Usurpações da Autoridade das Escrituras 
Apesar da sólida base bíblico-teológica em favor da doutrina reformada da autoridade suprema das 
Escrituras, hoje, como no passado, deparamo-nos com a mesma tendência geral de diminuir a 
autoridade das Escrituras. E isso ocorre de duas maneiras: por um lado, h á a propensão em admitir 
fontes adicionais ou suplementares de autoridade, que tendem a usurpar a autoridade da Palavra de 
Deus. Por outro lado, há a tendência de limitar a autoridade das Escrituras, negando-a, subjetivando-a 
ou reduzindo o seu escopo. 
Com relação à primeira dessas tendências, pelo menos três fontes suplementares usurpadoras da 
autoridade das Escrituras podem ser identificadas: a tradição (degenerada em tradicionalismo), a 
emoção (degenerada em emocionalismo) e a razão (degenerada no racionalismo). Sempre que um 
desses elementos é indevidamente enfatizado, a autoridade das Escrituras é questionada, diminuída ou 
mesmo suplantada. 
A. A Tradição Degenerada em Tradicionalismo 
Este foi um dos grandes problemas enfrentados pelo Senhor Jesus. A religi ão judaica havia se tornado 
incrivelmente tradicionalista. Havendo cessado a revelação, os judeus, já no segundo século antes de 
Cristo, produziram uma infinidade de tradições ou interpretações da Lei, conhecidas como Mishnah. 
Essas tradições foram cuidadosamente guardadas pelos escribas e fariseus por séculos, até serem 
registradas nos séculos IV e V A.D., passando a ser conhecidas como o Talmude,10 a interpretação 
judaica oficial do Antigo Testamento até o dia de hoje. Muitas dessas tradições judaicas eram, 
entretanto, distorções do ensino do Antigo Testamento. Mas tornaram-se tão autoritativas, que 
suplantaram a autoridade do Antigo Testamento. Jesus acusou severamente os escribas e fariseus da 
sua época, dizendo: 
Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Negligenciando o 
mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. E disse-lhes ainda: Jeitosamente rejeitais o 
preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição... invalidando a palavra de Deus pela vossa 
própria tradição que vós mesmos transmitistes... (Mc 7.7-9,13).11 
O Apóstolo Paulo também denunciou essa tendência. Escrevendo aos colossenses, ele advertiu: 
Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos 
homens, conforme os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo... Se morrestes com Cristo para 
os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: Não 
manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos 
homens? (Cl 2.8,20-22). 
Quinze séculos depois, os Reformadores se depararam com o mesmo problema: as tradições contidas 
nos livros apócrifos e pseudepígrafos, nos escritos dos pais da igreja, nas decisões conciliares e nas
246 
bulas papais também degeneraram em tradicionalismo. As tradições eclesiásticas adquiriram 
autoridade que não possuíam, usurpando a autoridade bíblica. É neste contexto que se deve entender 
a doutrina reformada da autoridade das Escrituras. Trata-se, primordialmente, de uma reação à 
posição da Igreja Católica. 
Isto não significa, entretanto, que a tradição eclesiástica seja necessariamente ruim. Se a tradição 
reflete, de fato, o ensino bíblico, ou está de acordo com ele, não sendo considerada normativa 
(autoritativa) a não ser que reflita realmente o ensino bíblico, então não é má. Os próprios 
Reformadores produziram, registraram e empregaram confissões de fé e catecismos (os quais também 
são tradições eclesiásticas). Para eles, contudo, esses símbolos de fé não têm autoridade própria, só 
sendo normativos na medida em que refletem fielmente a autoridade das Escrituras. 
O problema, portanto, não está na tradição, mas na sua degeneração, no tradicionalismo, que atribui 
à tradição autoridade inerente. O tradicionalismo atribui autoridade às tradições, pelo simples fato de 
serem antigas ou geralmente observadas, e não por serem bíblicas. Essa tendência acaba sempre 
usurpando a autoridade das Escrituras. 
B. A Emoção Degenerada em Emocionalismo 
Outra fonte de autoridade que sempre ameaça a autoridade das Escrituras é a emoção, quando 
degenerada em emocionalismo. Isto quase inevitavelmente conduz ao misticismo. Na esfera religiosa, 
freqüentemente é dado um valor exagerado à intuição, ao sentimento, ao convencimento subjetivo. 
Quando tal ênfase ocorre, facilmente esse sentimento subjetivo de convicção, pessoal e interno, é 
explicado misticamente, em termos de iluminação espiritual e revelação divina direta, seja por meio 
do Espírito, seja pela instrumentalidade de anjos, sonhos, visões, arrebatamentos, etc. 
Não é que Deus não tenha se revelado por esses meios. Ele de fato o fez. Foi, em parte, através desses 
meios que a revelação especial foi comunicada à Igreja e registrada no cânon pelo processo de 
inspiração. O que se está afirmando é que o misticismo copia, forja essas formas reais de revelação do 
passado, para reivindicar autoridade que na verdade não é divina, mas humana (quando não diabólica). 
Essa tendência não é de modo algum nova. Eis as palavras do Senhor através do profeta Jeremias: 
Assim diz o Senhor dos Exércitos: Não deis ouvido às palavras dos profetas que entre vós profetizam, 
e vos enchem de vãs esperanças; falam as visões do seu coração, não o que vem da boca do Senhor... 
Até quando sucederá isso no coração dos profetas que proclamam mentiras, que proclamam só o 
engano do próprio coração?... O profeta que tem sonho conte-o como apenas sonho; mas aquele em 
quem está a minha palavra, fale a minha palavra com verdade. Que tem a palha com o trigo? diz o 
Senhor (Jr 23.16,26,28). 
Séculos depois o Apóstolo Paulo enfrentou o mesmo problema. Ele próprio foi instrumento de 
revelações espirituais verdadeiras, inspirado que foi para escrever suas cartas canônicas. Nessa 
condição, ele sabia muito bem o que eram sonhos, visões, revelações e arrebatamentos. Mas, ainda 
assim, advertiu aos colossenses, dizendo: "Ninguém se faça árbitro contra vós outros, pretextando 
humildade e culto dos anjos, baseando-se em visões, enfatuado sem motivo algum na sua mente 
carnal" (Cl 2:18). Tanto Jesus como os apóstolos advertem a Igreja repetidamente contra os falsos 
profetas, os quais ensinam como se fossem apóstolos de Cristo, mas que não passam de enganadores. 
Pois bem, sempre que tal coisa ocorre, a autoridade das Escrituras é ameaçada. O misticismo, como 
degeneração das emoções (não se pode esquecer que também as emoções foram corrompidas pelo 
pecado) tende sempre a usurpar, a competir com a autoridade das Escrituras, ch egando mesmo 
freqüentemente a suplantá-la. Na época dos Reformadores não foi diferente. Eles combateram grupos 
místicos por eles chamados de entusiastas12 que reivindicavam autoridade espiritual interior, luz 
interior, revelações espirituais adicionais que suplantavam ou mesmo negavam a autoridade das 
Escrituras. Esta tem sido igualmente uma das características mais comuns das seitas modernas, tais 
como mormonismo, testemunhas de Jeová, adventismo do sétimo dia, etc. Entre os movimentos
pentecostais e carismáticos também não é incomum a emoção degenerar em emocionalismo, 
produzindo um misticismo usurpador da autoridade das Escrituras. 
C. A Razão Degenerada em Racionalismo 
A ênfase exagerada na razão também tende a usurpar a autoridade das Escrituras. O homem, devido a 
sua natureza pecaminosa, sempre tem resistido a submeter sua razão à autoridade da Palavra de Deus. 
A tendência é sempre tê-la (a razão) como fonte suprema de autoridade. Isto foi conseqüência da 
queda. Na verdade, foi também a causa, tanto da queda de Satanás como de nossos primeiros pais. 
Ambos caíram por darem mais crédito às suas conclusões do que à palavra de Deus. Desde então, essa 
soberba mental, essa altivez intelectual tem tendido sempre a minar a autoridade da Palavra de Deus, 
oral (antes de ser registrada) ou escrita. 
Por que o ser humano, tendo conhecimento de Deus, não o glorifica como Deus nem lhe é grato? O 
Apóstolo Paulo explica: porque, suprimindo a verdade de Deus (Rm 1:18), "...se tornaram nulos em 
seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, 
tornaram-se loucos... pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a 
criatura, em lugar do Criador...’’ (Rm 1:21-22,25). 
Esta tem sido, sem dúvida, a causa de uma infinidade de heresias e erros surgidos no curso da hist ória 
da Igreja. A heresia de Marcião, o gnosticismo, o arianismo, o docetismo, o unitarianismo, e mesmo o 
arminianismo são todos erros provocados pela dificuldade do homem em submeter sua razão à 
revelação bíblica. Todos preferiram uma explicação racional, lógica, em lugar da explicação bíblica 
que lhes parecia inaceitável. Assim, Marcião concebeu dois deuses, um do Antigo e outro do Novo 
Testamento. Por isso, também o gnosticismo fez distinção moral entre matéria e espírito. Já o 
arianismo originou-se da dificuldade de Ario em aceitar a eternidade de Cristo. Do mesmo modo, o 
docetismo surgiu da dificuldade de alguns em admitir um Cristo verdadeiramente divino -humano. O 
unitarianismo, por sua vez, decorre da recusa em aceitar a doutrina bíblica da Trindade, enquanto que 
o arminianismo surgiu da dificuldade de Armínio em conciliar a doutrina da soberania de Deus com a 
doutrina da responsabilidade humana (rejeitando a primeira). 
A tendência da razão em usurpar a autoridade das Escrituras tem sido especialmente forte nos últimos 
dois séculos. O desenvolvimento científico e tecnológico instigou a soberba intelectual do homem. 
Assim, passou-se a acreditar apenas no que possa ser constatado, comprovado, pela razão e pela 
lógica. A ciência tornou-se a autoridade suprema, a única regra de fé e prática. E a Igreja passou a 
fazer concessões e mais concessões, na tentativa de harmonizar as Escrituras com a razão e com a 
ciência. O relato bíblico da criação foi desacreditado pela teoria da evolução; os milagres relatados nas 
Escrituras foram rejeitados como mitos; e muitos estudiosos das Escrituras passaram a assumir uma 
postura crítica, não mais submissa aos seus ensinos. Foi assim que surgiu o método de interpretação 
histórico-crítico em substituição ao método histórico-gramatical. Nele, é a suprema razão humana que 
determina o que é escriturístico ou mera tradição posterior, o que é milagre ou mito, o que é 
verdadeiro ou falso nas Escrituras. 
Mas antes de se atribuir tanta autoridade à ciência, convém considerar a sua história. Quão falível e 
mutável é! A grande maioria dos "fatos" científicos de dois séculos atrás já foram rejeitados pela 
própria ciência. Além disso, com que freqüência meras teorias e hipóteses científicas são tomadas 
como fatos científicos comprovados!13 
247 
IV. Limitações da Autoridade das Escrituras 
Além das tendências que acabei de considerar, propensas a usurpar a autoridade das Escrituras, 
existem outras, que tendem a limitar a autoridade bíblica, negando-a, subjetivando-a ou reduzindo o 
seu escopo. É o que têm feito a teologia liberal, a neo-ortodoxia e o neo-evangelicalismo, com relação 
a três dos principais aspectos da doutrina da autoridade das Escrituras. Estas três concepções de
248 
"autoridade" bíblica precisam ser entendidas. Elas estão sendo bastante divulgadas em nossos dias, e 
são, em certo sentido, até mais perigosas do que as tendências anteriormente mencionadas, por serem 
mais sutis. Este assunto pode ser melhor entendido considerando-se os três principais aspectos da 
doutrina da autoridade das Escrituras: sua origem (ou base), certeza (ou convic ção) e escopo (ou 
abrangência). 
A. Origem ou Base da Autoridade das Escrituras 
A origem ou base da autoridade das Escrituras, como já foi mencionado, encontra-se na sua autoria 
divina. As Escrituras são autoritativas porque são de origem divina: o Espírito Santo é o seu autor 
primário. Para os Reformadores, as Escrituras são autoritativas porque são a Palavra de Deus 
inspirada. Por isso são infalíveis, inerrantes, claras, suficientes, etc. 
A teologia liberal (racionalista) nega a própria base da autoridade da Escritura, negando a sua origem 
divina. Para ela, as Escrituras são mero produto do espírito humano, expressando verdades divinas 
conforme discernidas pelos seus autores, bem como erros e falhas caracter ísticas do homem. Sua 
autoridade, portanto, não é divina nem inerente, mas humana, devendo ser determinada pelo 
julgamento da razão crítica. Eis o que afirmam: "A verdade divina não é encontrada em um livro 
antigo, mas na obra contínua do Espírito na comunidade, conforme discernida pelo julgamento crítico 
racional."14 De acordo com a teologia liberal, "nós estamos em uma nova situação histórica, com 
uma nova consciência da nossa autonomia e responsabilidade para repensar as coisas por nós mesmos. 
Não podemos mais apelar à inquestionável autoridade de um livro inspirado."15 
B. Certeza da Autoridade das Escrituras 
A certeza ou convicção da autoridade das Escrituras16 provém do testemunho interno do Espírito 
Santo. A excelência do seu conteúdo, a eficácia da sua doutrina e a sua extraordinária unidade são 
algumas das características das Escrituras que demonstram a sua autoridade divina. Contudo, 
admitimos que "a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém 
da operação interna do Espírito Santo, que pela Palavra e com a Palavra, testifica em nossos 
corações."17 
O testemunho da Igreja com relação à excelência das Escrituras pode se constituir no meio pelo qual 
somos persuadidos da sua autoridade, mas não na base ou fundamento da nossa persuasão. A nossa 
persuasão da autoridade da Bíblia dá-se por meio do testemunho interno do Espírito Santo com 
relação à sua inspiração. Na concepção reformada, se alguém crê, de fato, na autoridade suprema das 
Escrituras como regra de fé e prática, o faz como resultado da ação do Espírito Santo. É ele, e só ele, 
quem pode persuadir alguém da autoridade da Bíblia. 
Essa persuasão não significa de modo algum uma revelação adicional do Espírito. Significa, sim, que a 
ação do Espírito na alma de uma pessoa, iluminando seu coração e sua mente em trevas, regenerando-a, 
fazendo-a nova criatura, dissipa as trevas espirituais da sua mente, remove a obscuridade do seu 
coração, permitindo que reconheça a autoridade divina das Escrituras. O Apóstolo Paulo trata deste 
assunto escrevendo aos coríntios. Ele explica, na sua primeira carta, que, "o homem natural não aceita 
as cousas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las porque elas se 
discernem espiritualmente" (1 Co 2.14). O homem natural, em estado de pecado, perdeu a sua 
capacidade original de compreender as coisas espirituais. Ele não pode, portanto, reconhecer a 
autoridade das Escrituras; ele não tem capacidade para isso. Na sua segunda carta aos coríntios o 
Apóstolo é ainda mais explícito, ao observar que, 
...se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o 
deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do 
evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus... Porque Deus que disse: de trevas 
resplandecerá luz —, ele mesmo resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento 
da glória de Deus na face de Cristo (2 Co 4.3-4,6).
249 
O que Paulo afirma aqui é que o homem natural, o incrédulo, está cego como resultado da obra do 
diabo, que o fez cair. Nesse estado, ele está como um deficiente visual, que não consegue perceber 
nem mesmo a luz do sol. Pode-se compreender melhor o testemunho interno do Espírito com esta 
ilustração. O testemunho do Espírito não é uma nova luz no coração, mas a sua ação através da qual 
ele abre os olhos de um pecador, permitindo-lhe reconhecer a verdade que lá estava, mas não podia 
ser vista por causa da sua cegueira espiritual. 
Deve-se ter em mente, entretanto — e esse é o ponto enfatizado aqui —, que esse testemunho 
interno do Espírito Santo diz respeito à certeza do crente com relação à plena autoridade das 
Escrituras, e não à própria autoridade inerente das Escrituras. A convicção de um crente de que as 
Escrituras têm autoridade é subjetiva, mas a autoridade das Escrituras é objetiva. Esteja-se ou não 
convencido da sua autoridade, a Bíblia é e continua objetivamente autoritativa. A neo-ortodoxia 
existencialista confunde estas coisas e defende a subjetividade da própria autoridade da Bíblia. Para 
eles, a revelação bíblica só é verdade divina quando fala ao nosso coração. Como dizem, "as Escrituras 
não são, mas se tornam a Palavra de Deus" quando existencializadas.18 
C. Escopo da Autoridade das Escrituras 
Essas posições da teologia liberal e da neo-ortodoxia com relação à origem e à certeza da autoridade 
das Escrituras são seríssimas. Contudo, talvez mais séria ainda (por ser mais sutil) é a questão 
relacionada ao escopo da autoridade das Escrituras. 
Uma nova concepção da autoridade das Escrituras tem surgido entre os eruditos evangélicos (inclusive 
reformados de renome, tais como G. C. Berkouwer19), conhecida como neo-evangélica. O neo-evangelicalismo 
limita o escopo (a área) da autoridade das Escrituras ao seu propósito salvífico. 
Segundo essa concepção, a autoridade das Escrituras limita-se à revelação de assuntos diretamente 
relacionados à salvação, a assuntos religiosos.20 
A doutrina neo-evangélica faz diferença entre o conteúdo salvífico das Escrituras e o seu contexto 
salvífico, reivindicando autoridade e inerrância apenas para o primeiro. Mas tal posição não reflete 
nem se coaduna com a posição reformada e protestante histórica. Para esta, o escopo da autoridade 
das Escrituras é todo o seu cânon. É verdade que a Bíblia não se propõe a ser um compêndio científico 
ou um livro histórico. Mas, ainda assim, todas as afirmativas nelas contidas, sejam elas de car áter 
teológico, prático, histórico ou científico, são inerrantes e autoritativas.21 
Os principais problemas relacionados com a posição neo-evangélica quanto à autoridade das Escrituras 
são os seguintes: Primeiro, como distinguir o conteúdo salvífico do seu contexto salvífico? É 
impossível. As Escrituras são a Palavra de Deus revelada na história. Segundo, como delimitar o que 
está ou não está diretamente relacionado ao propósito salvífico, se o propósito da obra da redenção 
não é meramente salvar o homem, mas restaurar o cosmo? Que porções das Escrituras ficariam de 
fora do escopo da salvação? Como Ridderbos admite, "a Bíblia não é apenas o livro da conversão, mas 
também o livro da história e o livro da Criação..."22 Que áreas da vida humana ficariam de fora da 
obra da redenção? A arte, a ciência, a história, a ética, a moral? Quem delimitaria as fronteiras entre o 
que está ou não incluído no propósito salvífico? Admitir, portanto, o conceito neo-evangélico de 
autoridade das Escrituras é cair na cilada liberal do cânon dentro do cânon, e colocar a razão humana 
como juiz supremo de fé e prática, pois neste caso competirá ao homem determinar o que é ou não 
propósito salvífico. 
Conclusão 
Em última instância, a questão da autoridade das Escrituras pode ser resumida na seguinte pergunta: 
quem tem a última palavra, Deus, falando através das Escrituras, ou o homem, por meio de suas 
tradições, sentimentos ou razão? A resposta dos Reformadores foi clara. Embora reconhecendo que o 
propósito especial das Escrituras não é histórico, moral ou científico, mas salvífico, eles não 
diminuíram a sua autoridade de forma alguma: nem por adições ou suplementos, nem por reduções
ou limitações de qualquer natureza. A fé reformado-puritana reconhece a autoridade de todo o 
conteúdo das Escrituras, e sua plena suficiência e suprema autoridade em matéria de fé e práticas 
eclesiásticas. 
Tão importante foi a redescoberta destas doutrinas pelos Reformadores, que pode-se afirmar que, da 
aplicação prática das mesmas, decorreu, em grande parte, a profunda reforma doutrinária, eclesiástica 
e litúrgica que deu origem às igrejas protestantes. Todas as doutrinas foram submetidas à autoridade 
das Escrituras. Todos os elementos de culto, cerimônias e práticas eclesiásticas foram submetidos ao 
escrutínio da Palavra de Deus. A própria vida (trabalho, lazer, educação, casamento, etc.) foi avaliada 
pelo ensino suficiente e autoritativo das Escrituras. Muito entulho doutrinário teve que ser rejeitado. 
Muitas tradições e práticas religiosas acumuladas no curso dos séculos foram reprovadas quando 
submetidas ao teste da suficiência e da autoridade suprema das Escrituras. E a profunda reforma 
religiosa do século XVI foi assim empreendida. 
Mas muito tempo já se passou desde então. O evangelicalismo moderno recebeu, especialmente do 
século passado, um legado teológico, eclesiástico e litúrgico que precisa ser urgentemente submetido 
ao teste da doutrina reformada da autoridade suprema das Escrituras. É tempo de reconsiderar as 
implicações desta doutrina. É tempo de reavaliar a nossa fé, nossas práticas eclesiásticas e nossas 
próprias vidas à luz desta doutrina. Afinal, admitimos que a Igreja reformada deve estar sempre se 
reformando — não pela conformação constante às últimas novidades, mas pelo retorno e 
conformação contínuos ao ensino das Escrituras. 
Sabendo que a nossa natureza pecaminosa nos impulsiona em direção ao erro e ao pecado, 
conhecendo o engano e a corrupção do nosso próprio coração, reconhecendo os dias difíceis pelos 
quais passa o evangelicalismo moderno (particularmente no Brasil), e a ojeriza doutrinária, a exegese 
superficial e a ignorância histórica que em grande parte caracterizam o evangelicalismo moderno no 
nosso país, não temos o direito de assumir que nossa fé e práticas eclesiásticas sejam corretas, 
simplesmente por serem geralmente assim consideradas. É necessário submeter nossa fé e práticas 
eclesiásticas à autoridade suprema das Escrituras. 
Assim fazendo, não é improvável que nós, à semelhança dos Reformadores, também tenhamos que 
rejeitar considerável entulho teológico, eclesiástico e litúrgico acumulados nos últimos séculos. Não é 
improvável que venhamos a nos surpreender, ao descobrir um evangelicalismo profundamente 
tradicionalista, subjetivo e racionalista. Mas não é improvável também que venhamos a presenciar 
uma nova e profunda reforma religiosa em nosso país. Que assim seja! 
Notas 
1 Ver, por exemplo, William Ames, A Fresh Suit against Human Ceremonies in God ’s Worship (Rotterdam, 
1633); David Calderwood, Against Festival Days, 1618 (Dallas: Naphtali Press, 1996); George Gillespie, 
Dispute against the English Popish Ceremonies Obtruded on the Church of Scotland (Edinburgh: Robert Ogle and 
Oliver & Boyd, 1844); e John Owen, "A Discourse concerning Liturgies and their Impositions," em The Works of 
John Owen, vol. 15 (Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1965). 
2 Cf. John MacArthur Jr., Com Vergonha do Evangelho: Quando a Igreja se torna como o Mundo 
(São José dos Campos: Editora Fiel, 1997) e Paulo Romeiro, Evangélicos em Crise: Decadência 
Doutrinária na Igreja Brasileira (São Paulo: Mundo Cristão, 1995). 
3 Ver capítulo sobre a "Consciência Puritana," em J. I. Packer, Entre os Gigantes de Deus: Uma 
Visão Puritana da Vida Cristã (São José dos Campos: Editora Fiel, 1991), 115-132. 
4 Sobre o conceito reformado de inspiração e infalibilidade (inerrância) das Escrituras, ver L. Berkhof, 
Introducción a la Teología Sistemática (Grand Rapids: The Evangelical Literature League, [1973]), 
159-190; A. A. Hodge, Evangelical Theology: A Course of Popular Lectures (Edinburgh and 
Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1976), 61-83; Loraine Boettner, Studies in Theology 
250
251 
(Phillipsburg and New Jersey: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1978), 9 -49; e J. C. 
Ryle, Foundations of Faith: Selections From J. C. Ryle’s Old Paths (South Plainfield, New Jersey: 
Bridge Publishing, 1987), 1-39. 
5 Cf. também Salmo 119.39, 43, 62, 75, 86, 89, 106, 137, 138, 142, 144, 160, 164, 172; Mateus 
24.34; João 17.17; Tiago 1.18; Hebreus 4.12 e 1 Pedro 1.23,25. 
6 Lloyd-Jones afirma que essas expressões são usadas 3.808 vezes no Antigo Testamento; e que os que 
assim se expressavam estavam deixando claro que não expunham suas próprias idéias ou imaginações. 
D. Martin Lloyd-Jones, Authority (Edinburgh and Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1984), 
50. 
7 Ver também Atos 28.25 e Hebreus 4.3, 5.6 e 10.15-16. 
8 O termo empregado é gegraptai (gegraptai). O tempo (perfeito) indica uma ação realizada no 
passado, cujos resultados permanecem no presente: foi escrito e permanece válido, falando com 
autoridade. 
9 Outras evidências da autoridade divina das Escrituras são apresentadas por Lloyd-Jones, Authority, 
30-50; e por John A. Witmer, "The Authority of the Bible," Bibliotheca Sacra 118:471 (July 1961): 
264-27. 
10 O Talmud inclui também a Gemara, comentários rabínicos sobre o Mishnah, escritos entre 200 e 
500 AD (C. L. Feinberg, "Talmude e Midrash," em J. D. Douglas, ed., O Novo Dicionário da Bíblia, 
vol. 3 (São Paulo: Edições Vida Nova, 1979), 1560-61. 
11 Conferir também Mt 15.3ss. 
12 Berkhof, Introducción a la Teología Sistemática, 207. 
13 Um exemplo bem atual: há poucos dias atrás, cientistas anunciaram que pesquisas feitas com o 
DNA dos fósseis do assim chamado homem de Neanderthal — até então "inquestionavelmente" 
considerado um dos antepassados mais recentes do homem na cadeia evolutiva —, revelam que esses 
ossos nada têm a ver com a raça humana. Exemplos como estes repetem-se continuamente, e 
deveriam tornar-nos cautelosos em atribuir à ciência autoridade maior do que a da revelação bíblica. 
14 C. Pinnock, citado por Keun-Doo Jung, "A Study of the Authority with Reference to The 
Westminster Confession of Faith." (Tese de Mestrado, Potchefstroom [South Africa] University for 
Christian Higher Education, 1981), 45. 
15 G. D. Kaufman, ibid., 45. 
16 Ensinada no parágrafo V do capítulo I da Confissão de Fé de Westminster. 
17 Ibid. 
18 Outros dados sobre a importância da doutrina reformada da autoridade das Escrituras em relação à 
teologia liberal e à neo-ortodoxia podem ser obtidos em Lloyd-Jones, Authority, 30-61; John A. 
Witmer, "Biblical Authority in Contemporary Theology," Bibliotheca Sacra 118:469 (January 1961), 
59-67; e Kenneth S. Kantzer, "Neo-Orthodoxy and the Inspiration of Scripture," Bibliotheca Sacra 
116:461 (January 1959), 15-29. 
19 Ver G. C. Berkouwer, Studies in Dogmatics: Holy Scripture (Grand Rapids: Eerdmans, 1975) e 
Ronald Gleason, "In Memoriam: Dr. Gerrit Cornelius Berkouwer," Modern Reformation 5:3 
(May/June 1996), 30-32. 
20 Alguns eruditos têm considerado a doutrina reformada tradicional da autoridade das Escrituras 
conforme ensinada pelos teólogos de Princeton, tais como Charles Hodge (1797-1878), Alexander 
Hodge (1823-1886) e B. B. Warfield (1851-1921), como um desvio do ensino dos Reformadores e da 
Confissão de Fé de Westminster. Ver, por exemplo, Ernest Sandeen, The Roots of Fundamentalism: 
British and American Millenarianism, 1800-1930 (Chicago: University of Chicago Press, 1970). 
Alguns, como Jack Rogers e Donald McKim, The Authority and Interpretation of the Bible: A 
Historical Approach (San Francisco: Harper & Row, 1979), chegam a defender que a doutrina
252 
reformada das Escrituras encontra seus legítimos representantes em Abraham Kuyper (1837-1920) e 
Herman Bavinck (1854-1921), os quais teriam se antecipado aos esforços de Karl Barth e G. C. 
Berkouwer no sentido de restaurar a verdadeira tradição reformada. Outros, entretanto, têm 
demonstrado que estas teses não procedem, visto que os teólogos de Princeton estão em substancial 
harmonia com outros que os antecederam, e com Kuyper e Bavinck. Ver Randall H. Balmer, "The 
Princetonians and Scripture: A Reconsideration," Westminster Theological Journal 44:2 (1982): 
352-365; e Richard B. Gaffin, Jr., "Old Amsterdam and Inerrancy?," Westminster Theological 
Journal 44:2 (1982), 250-289; 45:2 (1983): 219-272. 
21 Uma demonstração da posição reformada e protestante histórica da inerrância das Escrituras em 
português pode ser encontrada em John H. Gerstner, "A Doutrina da Igreja sobre a Inspira ção 
Bíblica," em James Montgomery Boice, ed., O Alicerce da Autoridade Bíblica, 2a ed. (São Paulo: 
Vida Nova, 1989), 25-68. 
22 Herman Ridderbos, Studies in Scripture and its Authority (Grand Rapids: Eerdmans, 1978), 24. 
A Guarda do Sábado 
Professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
Pastor da Igreja Presbiteriana em Renovação Espiritual 
Pretendemos dissertar a respeito do sábado judaico. Por que sábado judaico? Porque se trata de uma 
ordenança cumprida pelos judeus, mas propriamente pelos judaizantes, cuja crença está baseada no 
Antigo Testamento. Os adventistas também são pró-sabáticos. A guarda do sábado, que foi um sinal 
para o povo da Antiga Aliança, é obrigatória aos que estão sob a égide da Nova Aliança? Quem guarda 
o domingo está em pecado e não será salvo? O cumprimento da ordenança sobre o sétimo dia garante 
a salvação? Tentarei responder a estas e a outras perguntas. 
A Igreja de Cristo, desde o início, principalmente pelo Apóstolo Paulo, sempre dispensou estreita 
atenção às heresias, chamadas por Pedro de "heresias de perdição" (2 Pe 2.1), por tratar-se de ensinos 
contrários às doutrinas bíblicas. 
A Igreja, como fazem as sentinelas, deve manter-se em constante vigilância para denunciar a 
aproximação ou o surgimento de elementos estranhos ao Evangelho. É seu dever combater as 
heresias: "Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para 
admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes" (Tt 1.9). 
Sábado, grego sabbaton, hebraico shãbath, tem em sua raiz o significado de cessação de atividade. 
Segundo o Dicionário VINE, "a idéia não é de relaxamento ou repouso, mas cessação de atividade". A 
conotação com o descanso físico vem pelo fato de que a suspensão dos trabalhos proporciona 
descanso, e porque Deus destinou o sétimo dia não só para repouso e memorial do término de sua 
criação, mas como dia de culto, adoração e comunhão com Ele (Ex 16.27; 31.12-17). 
A primeira referência bíblica sobre o sétimo dia está em Gênesis 2.2-3 que fala do descanso de Deus 
no shãbath. O "descanso" de Deus não quer dizer que Ele ficou cansado, mas que suspendeu sua 
atividade criadora. O princípio da criação do shãbath é destinar um dia ao repouso e ao exclusivo culto 
ao Senhor: "Seis dias trabalharás, mas o sétimo dia será o sábado do descanso solene, santo ao Senhor" 
(Êx 31.15). 
Deus incluiu o sábado nos Dez Mandamentos, lembrando que "em seis dias fez o Senhor os céus e a 
terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou" (Êx 20.8-11). O castigo para quem
253 
violasse o sábado era a morte (Ex 31.12-17). Portanto, o castigo está associado à guarda do sábado. 
Para que haja coerência de procedimentos, quem guarda o sábado deveria, no caso de violação, aceitar 
o castigo correspondente. A guarda desse dia e o castigo pela desobediência são ordenanças de Deus e 
fazem parte da Antiga Aliança. 
O sábado era um sinal, como o foi a circuncisão, entre Deus e os filhos de Israel, assim como o arco 
era um sinal do pacto com Noé. Vejam a similitude que há nessas ordenanças: Arco: "Este é o sinal da 
aliança que ponho entre mim e vós, e entre toda a alma vivente, que está convosco, por gerações 
eternas...será por sinal entre mim e a terra" (Gn 9.12-13). Circuncisão: "Esta é a minha aliança, que 
guardareis entre mim e vós, e a tua descendência depois de ti... e circundareis a carne do vosso 
prepúcio, e isto será por sinal da aliança entre mim e vós. E o homem incircunciso...será extirpado do 
seu povo" (Gn 17.10,11,13). Sábado: "Tu, pois, fala aos filhos de |Israel, dizendo: Certamente 
guardareis meus sábados, porquanto isso é um sinal entre mim e vós nas vossas gerações, para que 
saibais que eu sou o Senhor, que vos santifica. Portanto, guardareis o sábado...aquele que o profanar, 
certamente morrerá" (Êx 31.13-14). A instituição do sábado está associada à lembrança da libertação 
da escravidão egípcia (Dt 5.15; Ez 20.10-20). 
Tais leis foram sombras das coisas futuras. Embora estabelecidas como estatuto perp étuo, como 
também a páscoa, a queima de incenso, o sacerdócio levítico e ofertas de paz, vigoraram até o 
estabelecimento do novo pacto em Cristo Jesus. Vejamos: 
"E, quando vós estáveis mortos nos pecados e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou 
juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas" (Cl 2.13). 
O homem não pôde, pela lei, livrar-se da morte do pecado. Ninguém, até hoje, conseguiu cumprir 
fielmente toda a vontade de Deus expressa na lei. Cristo veio para nos livrar das penalidades da lei, 
visto que estamos não debaixo da lei, mas debaixo da graça (Rm 6.14). 
"Havendo riscado a cédula que era de alguma maneira contra nós nas suas ordenanças, a qual de 
alguma maneira nos era contrária, a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz" (Cl 2.14). 
O "ministério da morte", como é chamada a lei mosaica (2 Co 3.7), não deu vida ao homem; apenas 
revelava o seu estado pecaminoso "Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, 
até que viesse a posteridade a quem a promessa tinha sido feita. Porque, se fosse dada uma lei que 
pudesse vivificar, a justiça, na verdade, teria sido pela lei. Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do 
pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes. Mas, antes que a fé viesse, 
estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar. De 
maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados. 
Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo da lei. Porque todos sois filhos de Deus pela fé em 
Cristo Jesus" (Gl 3.19-26). 
A lei de Moisés serviu para nos conduzir a Cristo. As palavras do Apóstolo, como acima, falam por si 
sem necessitar muitos esclarecimentos. A lei foi um estágio necessário, como necessários são os 
primeiros degraus de uma escada pelos quais alcançamos o ponto mais elevado. Ao morrermos com 
Cristo, morremos para a lei. A lei não alcança os mortos. "Agora estamos livres da lei, pois morremos 
para aquilo em que estávamos retidos, a fim de servirmos em novidade de espírito, e não na velhice da 
lei" (Rm 7.1,4,6). Por isso, Jesus cravou na cruz as ordenanças que de certo modo eram contra nós.
254 
Agora vivemos não segundo o ministério da condenação, mas segundo o do Espírito. "Se o ministério 
da condenação foi glorioso, muito mais excederá em glória o ministério da justiça". O Apóstolo diz 
que as antigas ordenanças eram transitórias, e foram abolidas por Cristo (2 Co 3.7-14). Os crentes da 
atualidade não são guiados pela lei, mas pelo Espírito. 
"Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua 
nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo" (Cl 2.16-17). A 
guarda do sábado semanal, sombra do que viria, apontava para Cristo. Se a instituição do sábado nos 
fazia lembrar da saída do Egito, nossa atenção agora está centralizada na libertação que há em Jesus. 
Os "sábados" de Colossenses 2.16 não são sábados festivos; são sábados semanais, sem dúvida. Os 
festivos estão inclusos em "dias de festa". Em Ezequiel 20.12 e 44.24 também encontramos "meus 
sábados" referindo-se aos sábados semanais. De igual modo, Êxodo 31.13 alude aos "meus sábados", 
numa referência ao sétimo dia de descanso e culto. Então, a guarda do sábado foi uma "sombra das 
coisas futuras", mas a realidade está em Cristo. De acordo com isso está o teólogo adventista Samuele 
Bacchiocci, que afirmou: 
"O consenso unânime de comentaristas é que essas três expressões ["dias de festa", "lua nova" e 
"sábados"] representam uma lógica e progressiva seqüência (anual, mensal e semanal). Este ponto de 
vista é válido pela ocorrência desses termos...Um outro significativo argumento contra os sábados 
cerimoniais é o fato de que estes já estão incluídos nas palavras dias de festa (ou festividades - no 
original)... esta indicação positivamente mostra que a palavra SABATON como é usada em Cl 2.16 
não pode referir-se aos sábados cerimoniais anuais (From Sabbath Sunday - Do Sábado para o 
Domingo - Samuele Bacchiocci, 1977, p. 359-360. Fonte: Bíblia Apologética). 
Leiam a seguinte promessa: "E farei cessar todo o seu gozo, as suas festas, as suas luas novas, e os seus 
sábados, e todas as suas festividades" (Os 2.11; cf. Cl 2.14,16). Vamos ver o que m ais a Nova Aliança 
diz a respeito da anterior: 
"O mandamento anterior é anulado por causa da sua fraqueza e inutilidade. Pois a lei nunca 
aperfeiçoou coisa alguma, e desta sorte é introduzida uma melhor esperança, pela qual chegamos a 
Deus" (Hb 7.18-19). Só chegaremos a Deus pela aceitação dos termos da Nova Aliança, isto é, pela 
graça, mediante a fé em Jesus (Jo 3.15-18; Rm 10.9; Ef 2.8-9). A salvação do ladrão na cruz é 
exemplo. Foi salvo não pelo cumprimento da lei, mas por graça e fé (Lc 23.46). 
O Novo Testamento diz que Cristo "alcançou ministério tanto mais excelente, quanto é mediador de 
um melhor concerto que está confirmado em melhores promessas. Porque, se aquela primeira fora 
irrepreensível, nunca se teria buscado lugar para a segunda. Dizendo Nova Aliança, envelheceu a 
primeira. Ora, o que foi tornado velho, e se envelhece, perto está de acabar" (Hb 8.6,7,13). 
Mas, se a lei foi abolida em Cristo, então podemos matar, cometer adultério, desobedecer a nossos 
pais? A resposta precisa ser encontrada no Novo Concerto, que ratificou os Dez Mandamentos, 
exceto a guarda do sábado. Em nenhuma parte do Novo Testamento encontraremos a ordem para 
reservar o sétimo dia. Vejamos o Decálogo e a correspondente instrução na Nova Aliança: "Não terás 
outros deuses diante de mim" (At 14.15); "não farás para ti imagem de escultura" (1 Ts 1.9; 1 Jo 
5.21); "não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão" (Tg 5.12); "Lembra-te do dia do sábado 
para o santificar" (não mencionado no NT); "honra teu pai e a tua mãe" (Ef 6.1); "não matarás" , 
"não adulterarás", "não furtarás", "não cobiçarás" (Rm 13.9); "não dirás falso testemunho" (Cl 3.9).
255 
Quanto ao mandamento de não fazer imagem de escultura, sabatistas por vezes alegam não haver 
mandamento correspondente e explícito no Novo Testamento, porquanto, dizem, a palavra "ídolo" 
(1 Jo 5.21) não significa imagem de escultura. Quanto a isso, observem o que diz o conceituado 
Dicionário VINE: "Ídolo (eidolon), primariamente "fantasma" ou "semelhança" (derivado de eidos, 
"aparência", literalmente, "aquilo que é visto"), ou "idéia, imaginação", denota no Novo 
Testamento; (a) "ídolo", imagem que representa um falso deus (At 7.41; 1 Co 12.2; Ap 9.20); (b) "o 
falso deus" adorado numa imagem (At 15.20; Rm 2.22; 1 Co 8.4,7; 10.19; 2 Co 6.16; 1 Ts 1.9; 1 Jo 
5.21)". 
Cabe salientar que prevalecem os princípios éticos e morais do Antigo Testamento, ratificados e, em 
alguns casos, aperfeiçoados no Novo Concerto. "Cada um desses princípios contidos nos Dez 
Mandamentos é restabelecido num outro contexto no Novo Testamento, exceto, é claro, o 
mandamento para descansar e cultuar no sábado". Jesus não fazia distinção entre leis morais e leis 
cerimoniais. É possível fazer-se esta divisão para melhor compreensão, mas ela não está definida na 
Bíblia. Ele afirmou que não veio anular a lei, mas cumpri-la (Mt 5.17). Em seguida, cita o sexto 
mandamento, "não matarás" (v.21); o sétimo, "não adulterarás" (v.27); o nono, "não dirás falso 
testemunho" (v.33); cita Levítico 24.20 "olho por olho, dente por dente"; cita Levítico 19.18 sobre o 
"amor ao próximo". Logo, a "lei" a que se referiu Jesus não diz respeito somente aos Dez 
Mandamentos, mas abrange o Pentateuco. "A lei é termo comum entre os judeus para a primeira das 
três divisões das Escrituras hebraicas, isto é, os cinco livros do Pentateuco. 
Jesus cumpriu cabalmente a lei, em Sua vida, pela observação constante de seus preceitos; em Seus 
ensinos, pela pregação da ética do amor que cumpre a lei (Rm 13.10) e em Sua morte, pela satisfa ção 
de suas exigências" (O Novo Comentário da Bíblia - Vol. II, Edições vida Nova, 1990, p. 953). 
Porque em sua vida cumpria a lei, era costume de Jesus participar dos cultos, aos sábados, nas 
sinagogas de sua cidade natal (Lc 4.16). Após a cruz, "pela lei ninguém será justificado diante de 
Deus, porque o justo viverá pela fé. Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por 
nós" (Gl 3.11,13). 
Se alguém deseja guardar o sábado, que o faça segundo prescreve o Antigo Testamento, assim: não 
ferver ou assar comida (Êx 16.23); não sair de casa nesse dia (Êx 16.29); não acender fogo (Êx 35.3); 
não viajar (Ne 10.31); não carregar peso (Jr 17.21); não exercer o comércio (Am 8.5). A violação de 
tais preceitos torna o infrator sujeito à maldição da lei e à pena de morte (Êx 31.15; Dt 27.11-28; Gl 
5.1-5; Tg 1.23; 2.10). 
Pelas obras da lei nenhuma carne será justificada, porque pela lei vem o conhecimento do pecado. Ela 
revela o pecado e condena o homem. Em Cristo, se manifestou a justiça de Deus pela fé em Jesus 
Cristo. Foi impossível ao homem cumprir totalmente os itens da lei, sem qualquer fracasso, pois 
"maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para 
fazê-las". Cristo, com sua morte expiatória, fez-se maldição em nosso lugar (Gl 3.10-13). Por isso, a 
Bíblia diz que todos pecaram (Rm 3.20-23). No antigo concerto, a salvação tinha por base a fé 
expressa pela obediência à lei de Deus e ao sistema sacrificial. 
Mas um novo concerto ou novo testamento, com melhores promessas, foi levado a efeito por Jesus 
Cristo mediante sua morte e ressurreição (Jr 31.31-34).
256 
Os adventistas, regra geral, são sabatistas, mas parece não haver um consenso. Entre 1955 e 1956, o 
dr. Walter Martin, apologista da fé cristã, entrevistou 250 conceituadíssimos líderes adventistas. O 
resultado dessas entrevistas foi publicado no livro "Adventistas do Sétimo Dia Respondem Perguntas 
sobre Doutrina", de 720 páginas. Esses destacados líderes concluíram o seguinte: 1) Sabatismo: A 
guarda do sábado não propicia salvação. O cristão que observa o domingo não está em pecado. Não é 
cúmplice do papado. 2) Ellen G. White: Os escritos de Ellen White [profetiza do adventismo] n ão 
devem ser colocados em pé de igualdade com a Bíblia. 3) Santíssimo: Cristo entrou no Lugar 
Santíssimo por ocasião de sua ascenção, e não em 22 de outubro de 1844. Assim, as doutrinas do 
santuário celestial ser purificado e do juízo investigativo não tinham base bíblica. 
Em decorrência dessa posição, "houve sérias controvérsias no seio da Igreja Adventista do Sétimo Dia, 
dando origem a dois movimentos: o tradicional e o evangélico. O primeiro recusava-se a abrir mão 
das posições acima, pois aceitá-las comprometeria a exclusividade da IASD como o ´remanescente´, a 
única e verdadeira igreja de Cristo. O segundo advogava os conceitos expressos no Questions on 
doctrine. Estes não queriam deixar a IASD, apenas queriam uma reforma nas questões teológicas nada 
ortodoxas. Conclui-se que o Adventismo com o qual o Dr. Walter Martin dialogou e aceitou como 
cristão não é mais o mesmo que presenciamos aqui no Brasil, pois rompeu com tudo aquilo abordado 
no Questions on doctrine. Entretanto, não se pode negar que há dentro da IASD aqueles que almejam o 
retorno às formulações esboçadas e defendidas no referido livro" (Dicionário de Religiões, Crenças e 
Ocultismo - George A. Mather, Vida, 2.000, p. 194). 
Os apóstolos elegeram o primeiro dia da semana como o dia do Senhor: "No primeiro dia da semana, 
reunindo-se os discípulos para partir o pão, Paulo, que havia de sair no dia seguinte, falava com eles, e 
prolongou o seu discurso até à meia noite (At 20.7; v. 1 Co 16.2). Aqui vemos o registro da 
celebração da Ceia do Senhor num domingo, um dia de culto. O Apóstolo João revela que foi 
"arrebatado em espírito no dia do Senhor" (Ap 1.10), referindo-se ao domingo, dia da ressurreição de 
Jesus (Lc 24.1) e do seu aparecimento aos discípulos (Jo 20.19; Lc 24.13,33,36). 
A vontade de Deus é que aceitemos e vivamos segundo os termos do novo concerto. As provisões 
necessárias à nossa salvação não estão na antiga aliança, nem na obediência às suas leis e ao seu sistema 
de sacrifícios. A lei funcionou como tutor do povo até que viesse a salvação pela fé em Cristo. 
Desprezar a lei? Não. O Novo Testamento cuidou de revitalizar os princípios éticos e morais da lei, 
modificando uns, confirmando letra por letra outros, excluindo muitos. A salvação na nova aliança 
está consolidada na morte expiatória de Cristo, na sua ressurreição gloriosa e no privilégio de, pela fé, 
pertencermos a Ele. 
Quase toda a instrução dos capítulos 3, 4 e 5 de Gálatas aborda a questão da lei e do evangelho, donde 
se conclui que: 1) A lei foi ordenada por causa das transgressões, ATÉ que viesse a posteridade (3.19). 
2) A lei não pôde comunicar vida; por isso, a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a 
promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes. 3) A lei serviu para nos conduzir a Cristo, 
para que pela fé fôssemos justificados, não pela fé na obediência à lei. 4) Depois que a fé veio, já não 
estamos debaixo da lei, mas da graça (3.25). 
5) Cristo veio para libertar os que estavam debaixo da lei. Não somos mais meninos necessitados de 
tutores, reduzidos à escravidão. Agora somos filhos de Deus (4.1-7). 6) Não mais estamos sujeitos a 
guardar dias, meses e anos, rudimentos fracos e pobres aos quais alguns querem continuar servindo 
(4.9-10). 7) Somos filhos não da escrava Agar, que simboliza o velho concerto. Somos filhos da
257 
promessa, como Isaque. Lancemos fora a escrava e seu filho, porque, "de modo algum, o filho da 
escrava herdará com o filho da livre" (4.21-31). 8) Não devemos retornar ao jugo da servidão, pois 
Cristo nos libertou (5.1). 9) Os que buscam justificação na lei, separados estão de Cristo (5.4). 
(08.01.2004) 
CONSAGRADO PARA CUIDAR 
Professor Dr. Diego Roberto 
Escola Missionaria Voz no Deserto 
(JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) 
O capítulo 8 de Levítico é o cumprimento da ordem dada em Êxodo 29 em relação à consagração dos 
sacerdotes (cohanim), Arão e seus filhos, dada por Moisés, o libertador e líder do povo de Israel. É 
um ato de extrema seriedade que descreve, de modo gráfico a responsabilidade dos consagrandos, que 
eram os guardiães espirituais do povo de Deus. 
Deste ato distante de nós cerca de 3.300 anos, desejamos extrair lições para o ministro do século 21, 
tarefa esta do intérprete da Bíblia Sagrada. 
O Ato de Consagração 
O ritual é um sacrifício de comunhão com a função especial de consagrar. A cerimônia pode ser 
dividida em quatro partes: 
vv. 1-13 
Purificação, Vestidura, Unção dos Consagrandos 
vv. 14-17 
Oferta pelo pecado dos Sacerdotes 
vv. 18-21 
Oferta queimada 
vv. 22-36 
Oferta de paz 
Uma análise da liturgia nos mostra em primeiro lugar o oferecimento de uma oferta pelo pecado, que 
seria totalmente consumida de acordo com as instruções do capítulo 4 do mesmo livro; e o 
oferecimento de dois carneiros. O primeiro seria oferecido em holocausto, de acordo com o cap ítulo 
1. O segundo, porém tem uma parte especialíssima na cerimônia, razão porque é chamado de "o 
carneiro da consagração", conforme o verso 22 deste capítulo 8. 
Lê-se no verso 23 que houve aplicação do seu sangue a algumas partes do corpo dos consagrandos. 
Este sangue foi usado para trazer Arão e seus filhos a um estado sem igual de santidade. 
O restante do sangue será jogado ao redor do altar, estabelecendo com este ato um relacionamento 
especial entre o altar, símbolo do ministério, e os ordenandos, agentes desse ministério. 
As partes do corpo tocadas pelo sangue são orelha, mão e pé. Esse toque pelo sangue lava-os e dedica-os 
simbolicamente ao Senhor. Quer também dizer que o ministro de Deus ouvirá e obedecerá, e suas 
mãos e pés servirão ao Senhor. 
As lições são extraordinárias: 
O OUVIR (v. 23) 
O ministro de Deus há de ouvir corretamente. Referimo-nos à conversação pastoral, chamada por 
alguns de Clínica Pastoral no gabinete, na visitação ou informalmente. Não a confunda, porém, com 
aquilo que jocosamente chamam de "papoterapia". 
Como ministro de Deus e da Igreja de Jesus Cristo, você deve conhecer exatamente o papel que lhe 
corresponde. Não será um profissional da psicologia, da psicanálise ou das variadas terapias oferecidas 
à clientela. E, no entanto, seu ministério de ouvir é comparável ao do psicoterapeuta, do conselheiro 
matrimonial, ou do psicólogo. Muito de seu trabalho tem a ver com ouvir-e-aconselhar. Entretanto, 
você não receberá honorários pelo aconselhamento, nem fará contrato de trabalho para isso. Você é
um ministro de Deus e será procurado não por um paciente ou cliente, mas por uma ovelha sua, ou 
um semelhante seu que precisa de ajuda. 
Há quem apenas deseja falar, conversar; dê ouvidos, pois para isso sua orelha foi ungida. Há quem 
queira injeções de otimismo cristão, de esperança. Há quem tenha sérios sentimentos de culpa, de 
rejeição. Há quem precise ser confrontado. Uma coisa, porém, é certa: você tem autoridade dada por 
Deus e pela igreja que o chamou para dar esse conselho, essa exorta ção ou esse confronto. 
O ministro de Deus deve ouvir corretamente. Assim, você precisa ouvir o que está por trás das 
palavras. Palavras ditas, palavras não ditas, e palavras em suspenso. Talvez os lábios digam algo, mas a 
expressão facial, as mãos, a expressão corporal digam outra. Você precisa "ouvir" corretamente os 
sentimentos de quem está à sua frente. 
Na Clínica Pastoral, ouça bastante antes de opinar. Leve a ovelha a falar; viva a situação do outro. 
Você é chamado a um ministério de simpatia, de carinho, de afeição e de amor. Sobretudo quando 
você é enérgico! 
Desde que você começa a ouvir, está fazendo Psicoterapia Pastoral. Isso é afirmado pelo Dr. Wayne 
Oates, autor ou co-autor de mais de quarenta livros e por muitos anos professor de Aconselhamento 
Pastoral (Pastoral Care), no The Southern Baptist Theological Seminary em Louisville. Você é visto 
dentro de um esquema todo especial: há um significado simbólico em você como ministro de Deus. O 
pastor, por exemplo, é um ponto de referência na igreja para o povo de Deus. Ele simboliza e 
representa a comunidade cristã, e é agente dessa comunidade de Cristo, de Deus. 
Há muita esperança quando alguém procura o pastor. Por essa razão, é terrível, medonho mesmo, 
quando as palavras do pastor são divinas, mas seus hábitos de vida contradizem essa dimensão... Você 
representa e simboliza muito mais do que você mesmo: você representa o Pai, você leva a palavra de 
Cristo e o faz sob a direção do Espírito Santo. Quem vai ao seu gabinete espera e deve sair abençoado. 
Você vai ouvir confissões, vai ouvir palavras de arrependimento. Mas não pressione: ajude no 
processo de crescimento. 
O TOCAR (v. 23) 
O ministro de Deus é ungido na mão para tocar vidas. Estamos nos referindo, então, à influência. 
Você vai tocar muitas vidas e deve fazê-lo com cuidado e leveza. 
Use suas mãos para abençoar a criança, o jovem, o adulto, o idoso. E faça-o com carinho. Leve-os à 
consciência do santo, lembrando ao crente em Jesus Cristo que a rigor, para o povo de Deus, n ão 
existem espaços separados, compartimentos estanques entre o secular e o religioso, o sagrado e o 
profano, pois a vida pública, social, civil do crente em Jesus Cristo há de ser normatizada pelo senso 
do santo. 
Leve-os ao senso da providência, à fé, à gratidão, ao arrependimento, à comunhão, à vocação. Você 
há de tocar vidas; há de xer com as emoções das pessoas: raiva, medo, alegria. Você vai lidar com 
almas enfermas. São doenças do comportamento, mazelas do espírito, enfermidades psicossomáticas. 
Você terá um ministério a desempenhar nas crises. Crise é qualquer acontecimento que ameace o 
bem-estar de uma pessoa, e interfira na sua rotina de vida. O nascimento de uma crian ça, a morte de 
um parente, o fim de um casamento, o desemprego, a aposentadoria são crises . Você há de entrar em 
contato e reduzir a ansiedade, encorajando a pessoa a agir. Lembre-se de que cada situação de crise é 
única, sem igual. Ou como o povo diz, "Cada caso é um caso". 
Você há de tocar vidas em diferentes níveis de cuidado pastoral: o Nível da Amizade; o Nível do 
Conforto; o Nível da Confissão, o Nível do Ensino e o Nível do Aconselhamento e Psicoterapia. Devo 
estas classificações ao Dr. Oates. Há pessoas aflitas que necessitam de apoio; há aqueles enfrentando a 
morte que precisam do poder espiritual que o pastor representa; há pessoas com enfermidades 
crônicas; há deficientes físicos; há famílias com filhos com déficit mental; há os deprimidos e os 
desapontados com o amor ou outra causa. Todos estes estão no Nível de Conforto. Há o jovem 
258
solteiro, os jovens casados, o adulto de meia-idade, a viúva, a mãe solteira, o 
separado/desquitado/divorciado, o hospitalizado, todos em diferentes níveis do seu cuidado pastoral. 
O ANDAR (v. 23) 
O ministro de Deus é ungido no pé para andar santamente. Estamos falando de ética. Para isso, 
necessária é a ajuda do Espírito Santo. Se você não tem a ajuda do Espírito de Deus para crescer na 
graça e na maturidade, vai ser difícil entender a Bíblia, impossível aplicá-la às vidas, será um problema 
conviver com as ovelhas, e terrível dominar atitudes internas. 
Mais do que nunca, é preciso ser imitador de Cristo. Para sê-lo, porém, é preciso andar no Espírito, 
andar santamente. E andar santamente exige análise freqüente de nós mesmos, submissão do eu a 
Deus, e plenitude do Espírito Santo, que é o Seu controle em nossas vidas. 
Você há de visitar. Irá a muitos lugares e lares. Há dois tipos de visitas: as regulares e as de 
emergência. Não visite só nas crises: você precisa visitar o seu rebanho em tempos de paz. Seja ético, 
então, quanto ao que ouve, vê e aconselha. 
CONCLUSÃO 
O final da narração de Levítico 8 registra a obediência dos consagrandos, Arão e filhos. Isso nos ensina 
que consagração é entrega absoluta marcada pela obediência irrestrita às ordens de Deus. 
Nossa oração é que nosso ministério seja pontuado agora, hoje, sempre pela disciplina, obediência, 
entrega e consagração total àquele que é o Mestre de nossas vidas, Senhor do nosso futuro, Salvador 
de nosso ser. 
A Catedral 
Uma catedral para a honra e a glória 
de nosso Senhor Jesus Cristo 
se constrói momento a momento 
à medida que uma mão se estende 
e toca outra mão 
com amor humano, 
e à medida que um coração responde 
em amor a outro coração 
capacitado pelo Espírito Santo 
para anelar, escutar, elevar 
e amar-nos uns aos outros. 
Para que todos, em todo lugar 
possamos oferecer outros dons 
que Deus nos tem dado: 
Integridade nas relações, 
Alegria e paz na fidelidade, 
Fortaleza para fazer por meio da igreja, 
Mais do que pedimos ou imaginamos. 
259 
Margaret Shannon 
CURA INTERIOR 
Professor Dr. Diego Roberto 
Escola Missionaria Voz no Deserto 
(JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) 
1. HISTÓRICO 
A "vida abundante" que Jesus ofereceu aos seus seguidores tem sido o objetivo dos mais dedicados 
cristãos em todas as épocas. Esta prometida abundância tem sido usualmente entendida como
260 
harmonia interna e liberdade espiritual, mais do que abundância material - por razões óbvias. A busca 
por tal liberdade interior tem aparecido sob os mais diversos nomes. 
2. O QUE É CURA INTERIOR? 
O fenômeno conhecido como cura interior tem dois objetivos. O seu objetivo primário e espiritual é 
estender o senhorio e poder de cura de Cristo ao nosso passado, afetando mesmo a nossa experiência 
antes da conversão. O objetivo secundário e psicológico é portanto nos libertar de qualquer cativeiro 
emocional e psicológico que a nossa experiência passada possa ter produzido. Os teóricos da cura 
interior defendem que os bloqueios emocionais e os padrões habituais de comportamento (com os 
seus frutos negativos de frustração, derrota e fraca auto-imagem) nos impedem de atingir a vida 
abundante que Jesus prometeu. Portanto, eles concluem que, um esforço especial deve ser feito para 
curar estas feridas interiores, de forma que possamos ser libertos das diversas coisas que podem 
constringir e empobrecer as nossas vidas. Em resumo, o objetivo geral da cura interior pode ser 
descrito como uma espécie de "santificação retroativa". 
O propósito geral do movimento de cura interior é claramente de natureza pastoral. Desta forma, ele 
defende que a "cura das memórias" normalmente ocorra num aconselhamento de base individual, ou 
em pequenos grupos. Considera-se essencial que os dons do Espírito Santo estejam em operação, 
particularmente os dons de discernimento e cura. Ao indivíduo que está buscando sua cura será 
pedido que reviva seu passado através da imaginação. Isto geralmente envolve um "retorno" ao ponto-problema 
- um encontro traumático ou assustador que moldou a auto-imagem e o comportamento da 
pessoa e também porque este ponto se alojou em camadas profundas de sua psique. À medida em que 
o "paciente" imaginativamente recria o ponto-problema, com toda sua intensidade emocional, eles 
dizem ao paciente para imaginar que Jesus está lá (naquela situação). Presume-se que a presença 
imaginativa de Jesus traga Seu amor e poder de cura para relacionamentos perturbados com os pais e 
companheiros, os quais são muito poderosos para que o indivíduo dê conta dos mesmos sozinho. 
O que devemos fazer com estes fundamentos, teorias e técnicas que os acompanham? Na verdade, o 
que devemos fazer com os "ministros e ministérios da cura interior"? A época em que vivemos, com 
sua orientação voltada para o experiencial, tende a gerar um entusiasmo desqualificado por 
experiências de cura interior dentro de alguns setores da comunidade cristã. Infelizmente, esta mesma 
tendência tem efeito oposto em outros cristãos, que vêem como muito suspeitas tais experiências e a 
fascinação acrítica despertada por elas. Na maioria dos casos, não existe uma única resposta simples. A 
época em que vivemos é caracterizada pela crescente complexidade da vida em todos os níveis - 
econômico, material, moral e intelectual. À medida em que novas e antigas idéias se proliferam, elas 
influenciam o pensamento cristão de várias formas. Algumas têm mais validade que outras; muitas são 
completamente inaceitáveis. Nós devemos estar preparados para encarar conceitos não-familiares e 
pacientemente e em oração desvendar tanto as suas fontes bem como a suas implicações. Este 
processo pode ser frustrante e cansativo, mas sua necessidade é cada vez mais crescente. 
Dentro disto, nós podemos comentar que a cura interior é um fenômeno complexo e altamente 
variável. Não é possível nem endossá-la, nem condená-la cegamente. É possível, entretanto, 
identificar e avaliar aqueles elementos que influenciam as teorias e as terapias dos que praticam a cura 
interior. 
"Nossa vida interior é uma parte crítica de nossa identidade pessoal, e portanto a necessidade para a 
cura das emoções e memórias sempre fez parte da nossa condição humana." 
3. REDIMINDO A PESSOA INTEGRAL 
A queda da humanidade (Gn.3) introduziu o princípio da morte e decadência em todos os níveis da 
existência humana. O veneno do pecado perpassa cada poro do nosso ser. Em seu sofrimento e 
ressurreição, Cristo venceu a morte - não somente fisicamente, mas de todas as formas em que somos 
afetados por ela. Nossa vida interior é uma parte crítica de nossa identidade pessoal, e portanto a
necessidade para a cura das emoções e memórias sempre fez parte da nossa condição humana. O 
ensinamento e ministério de Jesus reconheceram implicitamente esta necessidade, bem como o fez o 
alcance da igreja primitiva. Jesus mesmo falou freqüentemente sobre "o coração" (isto é, "a sede 
oculta da vida emocional") como fonte de pensamento e ação. Ele também citou a profecia messiânica 
de Isaías 61, declarando seu propósito de "restaurar o coração partido" (Lc. 4:18). O apóstolo Paulo 
falou repetidamente sobre a renovação da mente no Espírito Santo (Rm. 12:2; Ef. 4:23). 
O encontro na estrada de Emaús (Lc. 24) pode ser visto (entre outras coisas) como uma forma de 
"cura das memórias". Se nós tomarmos este incidente como um protótipo para o exercício válido 
desta forma de ministério, vários critérios podem ser vistos. Se esta forma de cura tem sustentação 
bíblica, ela não se referirá primariamente às cicatrizes emocionais e traumas psicológicos da infância. 
Muito mais, ela tomará uma perspectiva mais ampla, lidando radicalmente com todas as forças da 
ansiedade, medo e incredulidade que produzem pensamento e comportamento anti-bíblico. O ponto 
central da cura interior nesta perspectiva mais ampla é a morte sacrificial de Jesus e sua vitória através 
da ressurreição sobre o pecado e a morte, exatamente como aconteceu na estrada de Emaús. Deste 
ponto-de-vista, a cura interior é muito menos um fim em si mesma e muito mais um passo preliminar 
que capacita o cristão a conseguir a libertação (Gl. 5:1) e a maturidade espiritual, deixando de lado a 
forma egoísta e infantil de viver (I Co. 13:11-12). 
Os discípulos, apóstolos e crentes do primeiro século conheciam o Cristo crucificado e ressurreto 
como Senhor de toda a história - cósmica (Cl. 1:15-23), racial (Ef. 2:11-20) e pessoal (Hb. 9:14). À 
medida em que eles seguiam Seu exemplo e a promessa de Sua eterna presença, eles eram libertos (e 
libertavam outros) do pecado, da doença física e psicológica e dos problemas emocionais, bem como 
do medo da morte e da falta de esperança que ela produz. Foi-lhes dada radicalmente uma nova base 
para a auto-estima, a qual não está baseada na mentira, ira ou outras formas de auto-afirmação. Esta 
nova base desafiou tanto a religião farisaica como sensualidade desenfreada. 
261 
4. A PSICOLOGIA DA PESSOA INTEGRAL 
Existe comunhão entre psicologia e o Cristianismo? Esta questão, em seu sentido mais amplo, escapa 
do objetivo da nossa aula. Entretanto, o assunto é pertinente, desde que muito da "cura interior" está 
baseada em visão secular de como a nossa personalidade é formada e influenciada. 
Muitos elementos da psicologia secular, entretanto, são mais ambíguos; alguns são frontalmente 
contrários ao pensamento bíblico. Sigmund Freud é a maior fonte de tendência a se enfatizar o trauma 
infantil. Carl Jung foi seu aluno e colega que se envolveu superficialmente com ocultismo. Sua 
abordagem sistemática à compreensão da natureza da mente inconsciente se tornou influente nos anos 
60 e 70. Muito dos conceitos de Jung têm sido empregados num modelo "carismático" por pessoas 
como John Sanford e Morton Kelsey. Portanto, Freud e Jung (para não mencionar outros) 
indiretamente ajudaram a delinear muitas das pressuposições do movimento de cura interior. Além do 
mais, algumas das técnicas utilizadas para resgatar memórias têm sido tomadas de empréstimos de 
terapias seculares. 
"Alguns praticantes da cura interior...não somente têm adotado um sub-modelo da natureza humana; 
eles têm permitido que os próprios modelos se tornem parâmetros de interpretação da Bíblia." 
5. ALGUNS PARÂMETROS PARA O DISCERNIMENTO 
À medida em que consideramos estes fundamentos, teorias e técnicas, e tentamos pesar suas 
implicações, nós devemos ter me mente alguns fatores críticos. A cura do "interior do homem" é uma 
premissa biblicamente demonstrável. Por esta razão, nós precisamos abordar alguma idéias e métodos 
sobre cura interior com cautela. A admoestação de Jesus a seus discípulos de que fossem "prudentes 
como as serpentes e símplices como as pombas" (Mt. 10:16) nos colocará numa posição bem firme 
para que sejamos capazes de identificar as influências sub-cristãs sem sermos influenciadas por elas.
262 
A ênfase exagerada numa certa técnica na vida espiritual facilmente se torna uma tentativa de 
manipulação psíquica, um esforço de produzir uma experiência ou um encontro com Deus. Não há 
nada de intrinsecamente errado em se utilizar a imaginação na oração, mas a dependência de 
invocação imaginativa de imagens religiosas pode se tornar insana. O uso do termo "visualização de 
fé" não batiza semanticamente tais práticas. Os produtos da imaginação podem também ser 
convenientemente trazidos para o campo do desejo e do ego, enquanto que o Cristo vivo n ão pode. 
Uma ênfase extremada na confissão verbalizada pelo crente no movimento da "palavra da fé" é outro 
ensino aberrante o qual, sutilmente, se torna uma espécie de ocultismo. Nestas formas exageradas, a 
visualização da fé cria um "video-interior de Jesus", o qual pode ser manipulado para quase qualquer 
sentido. 
Da mesma forma, devemos estar atentos para os modelos psicológicos que se baseiam em visões anti-bíblicas 
da natureza humana. É também necessário identificar e rejeitar tecnologias terapêuticas que 
são utilizadas para sustentar tais modelos. Alguns praticantes de cura interior, infelizmente, n ão 
somente têm adotado um sub-modelo da natureza humana; eles têm permitido que os próprios 
modelos se tornem parâmetros de interpretação da Bíblia. Tais práticas se situam entre a aberração e a 
apostasia. 
Como já dissemos, existem ligações demonstráveis entre tais técnicas como a "visualização da fé" ou a 
"confissão positiva" e algumas formas de pensamento do ocultismo e da Nova Era. Os esfor ços de se 
voltar para o interior para encontrar a globalidade, pode levar-nos à "dimensão divina interna" do 
misticismo Neoplatônico ou aos "arquétipos" do inconsciente coletivo de Jung. Em ambos os casos, 
bem como num grande número de casos similares, o sujeito que busca termina ofuscado por um 
subjetivismo, o qual é racionalizado com termos originários da metafísica oriental e da psicologia 
humanística. 
Neste ponto, uma mudança da verdade bíblica para especulações humanas se torna base para uma séria 
confusão sobre a natureza da cura e, mais importante, sobre a natureza do praticante da cura. Neste 
novo papel, Jesus, o Messias, se torna em parte o terapeuta primal e em parte um xamã primevo. 
Nesta situação, uma tentativa de se fazer uma avaliação racional ou bíblica é negativamente rotulada 
como um "falta de fé", "apagar o Espírito" ou "bloquear o fluxo"; pode mesmo ser desprezada como 
uma "viseira". 
"A postura bíblica sobre a nossa natureza é, com certeza, uma avaliação verdadeira e mais confiável do 
que a feita por nossos medos, iras e memórias..." 
6. UMA QUESTÃO DE PRIORIDADES 
É razoável assumir que os problemas psicológicos e emocionais a que a igreja primitiva se referia eram 
tão complexos como os de hoje. Nós também vamos assumir que as soluções que ela aplicava são tão 
funcionais para hoje como eram no primeiro século. Não havia nenhuma necessidade de se renunciar à 
visão escriturística da condição humana ou de Jesus Cristo, a fim de fazerem estas soluções 
funcionarem. A imposição de mãos, a unção com óleo, a confissão mútua e a meditação direcionada 
eram alguns dos métodos empregados para produzir ambos, a cura interna e a cura externa. Os 
apóstolos foram estranhamente silenciosos, entretanto, sobre qualquer necessidade de reviver 
experiências relacionadas com a infância, ou sobre a prática de esfaquear o pai na imaginação, como 
alguns praticantes de cura interior têm aconselhado aos seus clientes. 
Com certeza, há abundantes benefícios psicológicos em se colocar Jesus como o centro radical de 
nossas vidas e afetos - mesmo acima e além de nossos laços familiares. Nós também somos chamados, 
entretanto, a meditar sobre coisas que estão acima e, de alguma forma é bom que se diga, que não 
estão nutrindo ressentimentos ou usando a nossa liberdade como desculpa para o mal (Ef. 4:26; I Pe. 
2:16; Gl. 5:1). Existe uma considerável distância entre confessar a presença de um desejo negativo e 
dramaticamente realizá-lo - mesmo que na fantasia.
263 
Nós devemos evitar confundir o sagrado com a saúde. A cura da psique e emoções pode ser uma 
importante parte do nosso crescimento em direção à espiritualidade. Entretanto, ela não deve ser 
superestimada em detrimento de outros aspectos da santidade, nem deve se tornar um substituto 
deles . Nós devemos nos guardar da idéia de que os cristãos estão isentos de toda sorte de 
enfermidades, doenças e tentações e que, qualquer ocorrência deste tipo seja um ponto negativo em 
nossa condição espiritual. Por outro lado, é importante não perder de vista as variadas maneiras pelas 
quais Deus provê libertação de coisas que nos impediriam viver plenamente em Cristo. 
7. AS MARCAS DA INTEGRIDADE ESPIRITUAL 
Cura espiritual pode ser considerada como tendo base bíblica. Se assim for, ela deve ser reconhecida 
como uma parte integral de nossa vida cristã. Três principais pontos nos ajudarão a discernir a 
consonância bíblica de cada forma em particular, de cura interior. Todos os três pontos são vitais para 
um entendimento equilibrado e seria desaconselhável isolar ou superestimar qualquer um destes 
elementos. 
Primeiro: A cura espiritual deve tocar o problema na sua fonte. O indiv íduo deve ser liberto da prisão 
de uma memória em particular e do falso significado atribuído a ela. As feridas emocionais causadas 
pelo incidente que forçou a repressão de sua memória deve ser curada. Paulo fala de Deus como o Pai 
da compaixão (I Co. 1:3-4) e também enfatiza que a provisão do sangue de Cristo é um aspecto da Sua 
perfeita sabedoria (Ef. 1:7-8). De fato, é a "contínua aspersão do Seu sangue" que guarda o coração e 
a consciência das "palavras mortas" (Hb. 9:14; 10:22) e nos liberta do cativeiro emocional destas 
palavras a fim de que possamos servir ao Deus vivo. 
Segundo: A cura interior deve quebrar padrões de respostas habituais e comportamentos que foram 
gerados em reação a um trauma inicial. A pessoa que está sendo curada deve cooperar ativamente 
neste processo, ao invés de reagir passivamente à instruções e manipulações do que ministra a cura 
interior. Toda redenção envolve o fazer escolhas e o exercício da nossa vontade. Uma vez que fomos 
convocados ao arrependimento e renovação, somos também chamados a abandonar velhas formas de 
responder às pessoas e circunstâncias (Cl. 3:12-17; I Pe 2:1-3). Nós devemos portanto aprender 
novas atitudes e formas de lidar com estas situações (Ef. 4:22-24; I Pe. 1:5-9). 
Terceiro: A cura interior deve produzir mudanças pessoais que sejam compatíveis com a revelação das 
Escrituras, do nosso novo ego (eu) em Cristo. Isto deve estar combinado com uma ênfase na confiança 
do que Deus nos diz sobre nós mesmos, mais do que nossos sentimentos podem dizer. A postura 
bíblica sobre a nossa natureza é, com certeza, uma avaliação verdadeira e mais confiável do que a feita 
por nossos medos, iras e memórias, sem mencionar as acusações do Adversário (Rm. 8:1-2). A cura 
interior deve nos ajudar a sermos reeducados (através da palavra de Deus) acerca de quem somos em 
Cristo. Uma vez que entendemos como Deus nos vê, bem como a provisão que Ele fez para o nosso 
crescimento, nós começaremos a desenvolver uma auto-estima que corresponde precisamente à nossa 
confiança na justiça de Cristo, mais do que em nossa própria (Rm. 12:3). 
Nós não temos que abandonar o ponto-de-vista bíblico ou o compromisso com o senhorio de Cristo a 
fim de podermos nos beneficiar da cura interior. De fato, se tal necessidade for expressa ou se est á 
implícita, é aconselhável reconsiderar a validade dos fundamentos que têm sido colocados. 
Jesus mesmo reconheceu o dilema fundamental da humanidade, bem como suas secund árias 
implicações emocionais e psicológicas. Ele reconheceu o problema de se atingir auto-estima diante em 
ambiente hostil e uma consciência igualmente hostil que foi imperfeitamente moldada por influências 
imperfeitas durante os anos de formação da pessoa. A consciência ainda não-redimida se torna um 
entrave na condição psicológica, o qual inevitavelmente produz sua própria dissolução (Rm. 8:6). 
Jesus sugeriu ao homem que a vida entregue a Ele e o fato de seguirmos seu exemplo - mesmo a sua
264 
morte como mártir - é uma carga mais fácil de ser suportada do que se lutarmos com as nossas 
próprias forças. (Mt. 11:28-30). 
Desvios Doutrinários da Confissão Positiva 
Professor Dr. Diego Roberto 
Escola Missionaria Voz no Deserto 
(JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) 
Os seguidores das doutrinas da Confissão Positiva dizem que não devemos submeter nossos pedidos à 
vontade de Deus. Não questiono a qualidade do caráter das pessoas mencionadas neste trabalho. 
Questiono a qualidade de seus ensinos, comparados com a Bíblia Sagrada. Vejamos: 
“Usar a frase `se for a Tua vontade´ em oração pode parecer espiritual, e demonstrar atitude piedosa 
de quem é submisso à vontade do Senhor, mas além de não adiantar nada, destrói a própria oração” 
(R.R.Soares, livro O Direito de Desfrutar Saúde, p. 11, citado por Paulo Romeiro, Supercrentes, 
p.37). 
Essa infeliz declaração é cópia fiel do que disse Benny Hinn, como está registrado mais adiante. Ora, 
submeter-se à vontade de Deus é bíblico, não anula nossas orações e é uma atitude espiritual. Se 
anulasse, a oração-modelo do Pai Nosso, ensinada por Jesus, para nada serviria; Jesus não teria sido 
um bom Mestre; milhões de orações nesses últimos dois mil anos foram ineficazes; nenhum crente em 
dois mil anos teria recebido qualquer bênção divina. Deus não respondeu a nenhuma delas? Logo de 
início vê-se o absurdo de tal declaração. Devemos confiar em quem? “Maldito o homem que confia no 
homem. Bendito o homem que confia no Senhor, e cuja esperança é o Senhor” (Jr 17.5,7). O cristão 
nunca deve esquecer o exemplo dos bereanos, que examinavam nas Escrituras se as coisas que Paulo e 
Silas ensinavam estavam corretas (At 17.10-12). 
“Jesus me apareceu e disse que se alguém, em qualquer lugar, quiser tomar esses quatro passos ou pôr 
em operação esses quatro princípios, sempre receberá o que quiser de mim ou da parte de Deus Pai: 
Passo 1 – Diga a coisa: positiva ou negativamente, tudo depende do indivíduo. 
Passo 2 – Faça a coisa: Os atos derrotam-no ou lhe dão vitória. Passo 3 – Receba a coisa: Compete a 
nós a conexão com o dínamo do céu. Passo 4 – Conte a coisa: Contar para que outros também 
possam crer” (Kenneth Hagin, Como Registrar Seu Próprio Bilhete com Deus, p.5, citado por Hank 
Hanegraaaff, em Cristianismo em Crise, p. 81). Referindo-se a João 14.14, Hagin ensina que “a 
palavra `pedir´ também significa `exigir´: `E tudo quanto exigirdes em Meu nome, isso [Eu, Jesus] 
farei”. 
“Nunca jamais, em tempo algum vão ao Senhor e digam: `Se for da tua vontade...´ Não permitam que 
essas palavras destruidoras da fé saiam da boca de vocês. Quando vocês oram `se for da tua vontade, 
Senhor´ a fé é destruída. A dúvida espumará e inundará todo o seu ser. Resguardem-se de palavras 
como essas, que lhes roubarão a fé e os puxarão para baixo, ao desespero” (Benny Hinn, Levante-se e 
Seja Curado, ibid, p.295). Frederic Price, outro arauto da Confissão Positiva, segue no mesmo 
diapasão: “Se você tem de dizer: `Se for da tua vontade´ ou `Que se faça a tua vontade´, então você 
está chamando Deus de idiota. É deveras estupidez orar para que a vontade de Deus seja feita. Isto é 
uma farsa, um insulto à inteligência de Deus”. 
“Sereis semelhantes a Deus”
265 
É este um dos itens fundamentais da doutrina desses mestres da fé: o homem deve exigir seus direitos 
e não se submeter à vontade de Deus. Essa aberração teológica rebaixa o Criador, que fica à mercê das 
vontades e caprichos humanos, e exalta o homem, colocando-o em condições de igualdade com 
Cristo. Eles falam e ensinam o que o Senhor não mandou falar nem ensinar. Apresentam um 
cristianismo particular, muitas vezes fruto de experiências particulares, de visões e aparições. 
“O homem foi criado em termos de igualdade com Deus... O crente é chamado de Cristo... Eis quem 
somos: somos Cristo... Você é tanto uma encarnação de Deus quanto Jesus Cristo o foi”. O Senhor 
fez o homem como o Seu substituto aqui na terra... O homem era Senhor... vivia em termos de 
igualdade com o Criador. Muitos não sabem ainda que são filhos e filhas de Deus tanto quanto o 
próprio Jesus... Nem o próprio Senhor Jesus tem uma posição melhor diante de Deus do que você e 
eu temos” (Kenneth Hagin, citado por Hank Hanegraaaff, Cristianismo em Crise, p. 116/7). 
Essas palavras são um testemunho de que não podemos confiar na doutrina da Confissão Positiva. 
Afirmar em alto e bom som que o Príncipe da Paz tem posição inferior ao homem diante do Pai soa 
como uma blasfêmia contra o Filho Unigênito de Deus, o Verbo encarnado, o “Alfa e Ômega, o 
primeiro e o último, o princípio e o fim”. Observem que Hagin rebaixa Jesus a uma condição de 
desigualdade com o Pai, ao mesmo tempo em que promove a deificação do homem. Essa doutrina é a 
da serpente (Gn 3.5). 
“A razão para Deus criar Adão foi seu desejo de reproduzir a si mesmo. Adão não era um deus 
pequenino. Não era um semideus. Nem ao menos estava subordinado a Deus” (Kenneth Copeland). 
“Deus está duplicando a si próprio na Terra” (John Avanzini). “Vocês sabiam que desde o começo do 
tempo o propósito inteiro de Deus era reproduzir-se?... e quando estamos aqui de pé, vocês não estão 
olhando para Morris Cerullo; vocês estão olhando para Deus, estão olhando para Jesus” (Morris 
Cerullo). “Deus duplicou a si mesmo em espécie. Adão foi uma exata duplicata do tipo de Deus” 
(Charles Capps). “Jesus foi recriado nas portas do inferno” (Valnice Milhomens). 
Notaram a tentativa de colocar o homem em condições de igualdade com Deus? Notaram como os 
componentes da orquestra da Confissão Positiva estão afinados? Essa orquestra está sob a batuta de 
quem? De Deus? Estão afirmando que o homem é uma clonagem do Criador. São esses os mestres que 
estão ensinando diariamente, pela televisão e por livros, a milhões de desavisados irmãos, ávidos por 
novidades e declarações chocantes. Eles estão repetindo a fórmula mágica apresentada pelo diabo a 
Eva, no Éden: “Sereis como Deus” (Gn 3.5). 
Loucos por dinheiro 
Entre Hagin, Hinn, Copeland, Jorge Tadeu, Robert Tilton, Morris Cerullo, Charles Capps e outros, 
parece haver uma disputa para ver quem cria mais desvios doutrinários. Qual a razão de tanto 
empenho? Amor pelas almas perdidas ou amor ao dinheiro? A resposta vem de um dos componentes 
da orquestra, que desta vez saiu do tom. Leiam: 
“Eu estava muito influenciado por Kenneth Hagin e Kenneth Copeland. Nenhum deles fala de 
salvação. Só de fé. A mensagem da fé é vazia sem o Espírito. A própria palavra [prosperidade] foi 
distorcida e tornou-se de importância fundamental no ministério. Dinheiro, dinheiro, dinheiro. É 
quase como ir a um cassino jogar” (Benny Hinn, citado por Paulo Romeiro, em Evangélicos em Crise, 
p.43-44). Hinn reconhece os erros doutrinários da Confissão Positiva, mas, parece, não consegue
livrar-se das “concupiscências loucas e nocivas” que arrastam os homens à “ruína e perdição”, por causa 
do desejo ardente de ficarem ricos (1 Tm 6.9). Leiam o que ele declarou: “Anos atrás costumavam 
pregar: Ó, nós andaremos por ruas de ouro. Hoje eu digo: Não preciso de ouro lá em cima. Quero o 
ouro aqui embaixo”. 
266 
Benny Hinn tem razão. O cristianismo não é um cassino, em que quem arriscar mais, tem chance de 
levar mais. Se até agora nada deu certo; se não choveram dólares sobre você, é hora de arriscar tudo, 
numa última cartada. Entregue aos mestres a sua bolsa, seu salário, seus bens. Sabendo disso, o 
próprio Hinn ensinou: “Você quer prosperar? O dinheiro vai cair sobre você da esquerda, da direita e 
do centro. Deus começará a fazê-lo prosperar, pois o dinheiro sempre se segue à retidão... Diga 
comigo: Tudo que eu possa desejar já está em mim”. Alguém tem dúvida de que no Brasil as igrejas 
filiadas ao ministério dos Kenneth`s tocam a mesma música? Outra de Hinn: “O dinheiro sempre se 
segue à retidão” Traduzindo, significa que a pessoa justa, correta, honesta terá muito dinheiro. E o 
pobre? Não tem dinheiro porque não leva uma vida de retidão? É possível que o vil metal esteja 
provocando distúrbios mentais em muita gente. 
Se Deus quiser 
Conforme ensina a Confissão Positiva, submeter-se à vontade de Deus anula a oração; dizer “seja feita 
a tua vontade” é ser estúpido e chamar Deus de idiota. A estupidez e idiotice estão em quem ensina 
heresias. O “Jesus” que apareceu a Hagin e ensinou os passos decisivos para conseguir tudo o que 
desejar entrou em contradição com o Jesus da Bíblia. Na oração-modelo do Pai Nosso, Ele nos 
ensinou a pedir, e não exigir de Deus, e que em tudo “seja feita a tua vontade, assim na terra como no 
céu” (Mt 6.10); ensinou que devemos sempre fazer a vontade do Pai (Mt 7.21; 12.50); Ele mesmo 
dava o exemplo (Jo 4.34; 5.30; 6.38,39). Até no momento de maior dor, na última noite em que 
passou com os apóstolos, Jesus foi submisso à vontade do Pai: “Pai, se queres, passa de mim este 
cálice, todavia não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 22.42). 
Os mestres da prosperidade ensinam o oposto. Dizem que a nossa vontade é que deve prevalecer. Os 
apóstolos, que tinham o ensino de Jesus no coração, não pensavam do mesmo modo. Diante da recusa 
de Paulo em cancelar sua viagem para Jerusalém, eles se renderam aos fatos e disseram: “Faça-se a 
vontade do Senhor” (At 18.21; 21.14; cf. Sl 40.8; 143.10; Rm 1.10; 15.32; 1 Co 4.19; Hb 10.7; 1 
Pe 2.15; 3.17; 4.2,19; 1 Jo 2.17). 
A expressão `se Deus quiser` não entra no vocabulário dos mestres da prosperidade. A doutrina deles 
aponta para “eu digo, eu faço, eu recebo”. É o mesmo que dizer: Eu posso, eu mando, eu sou Senhor 
de mim mesmo. Isto é egolatria. A exemplo de `se for da tua vontade`, dizer `se Deus quiser´ é 
chamar Deus de idiota. Deveriam editar uma Bíblia particular, com interpretações próprias, ajustadas 
aos seus ensinos, como fizeram os testemunhas-de-jeová. Vejam o que diz a Palavra: 
“Humilhai-vos perante o Senhor, e ele vos exaltará. Vós que dizeis: Hoje ou amanhã iremos a tal 
cidade, lá passaremos um ano, negociaremos e ganharemos. Ora, não sabeis o que acontecerá 
amanhã... Em lugar disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser [ou se for da Sua vontade], viveremos e 
faremos isto ou aquilo. Vós vos jactais das vossas presunções. Ora, toda jactância tal como esta é 
maligna” (Tg 4.10,13-16). 
É indiscutível o desencontro entre a Palavra de Deus e a doutrina da Confissão Positiva. Há 
declarações que chegam a ser uma blasfêmia: “Acredito que a oração do Pai Nosso não é para os
267 
crentes hoje em dia” (Frederic Price). Ora, o crente é que deve adaptar-se à vontade de Deus expressa 
na Bíblia, e não o contrário. Pelo visto, os fiéis da Confissão Positiva rejeitam por completo a oração 
ensinada por Jesus, porque nela os cristãos se colocam à mercê da soberana vontade do Senhor. 
Pedir ou exigir? 
Com relação à substituição do "pedir" pelo "exigir", vejam o seguinte. Pedir, do grego aiteõ, sugere a 
atitude de um suplicante que se encontra em posição inferior àquele a quem pede. 
É esse o verbo usado em João 14.13 – “E tudo quanto pedirdes em meu nome...” – e 14.14 – “Se 
pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei”. “Pedir”, do grego erõtaõ, indica com mais 
freqüência que o suplicante está em pé de igualdade ou familiaridade com a pessoa a quem ele pede, 
como, por exemplo, um rei fazendo pedido a outro rei. “Sob este aspecto, é significativo destacar que 
o Senhor Jesus nunca usou o verbo aiteõ na questão de fazer um pedido ao Pai”, por ter dignidade 
igual Àquele a quem pedia. (Jo 14.16; 17.9,15,20 – Fonte: Dic. VINE). Como a Confissão Positiva 
diviniza o homem, colocando-o no mesmo nível de Deus, não há porque pedir, mas exigir. Alguns 
falam em “reivindicar direitos”, da mesma forma como fazemos nos requerimentos endereçados às 
autoridades constituídas. 
A Soberania de Deus 
Um dos textos usados pelos mestres da Confissão Positiva é o seguinte: “E tudo o que pedirdes em 
oração, crendo, o recebereis” (Mt 21.22; cf. Mc 11.24; Jo 14.13; 15.7; 1 Jo 5.15). Alegam que, pela 
Palavra, Deus obriga-se a nos atender. Daí concluem que não precisamos pedir, mas exigir o direito a 
que fazemos jus. Dizem, também, que, em razão disso, é ocioso dizer `se Deus quiser´ ou `que seja 
feita a Sua vontade´. Esses desvios não são os únicos da Confissão Positiva. 
Se a palavra acima funcionasse automaticamente, isto é, se de forma literal Jesus nos desse qualquer 
coisa que lhe pedíssemos com fé, nosso destino e nossas lutas estariam sob nosso próprio controle, o 
que seria desastroso, pois somos incapazes de conhecer o que nos aguarda o futuro e o que é melhor 
para nossa vida. Todavia, nosso “Pai sabe do que necessitais, antes de lho pedirdes” (Mt 6.8; cf. Ef 
3.20). Ele nos dará o que for melhor, e nem sempre pedimos o que é melhor. Deus poderá responder 
SIM ou NÃO, visto que Ele é soberano para fazer somente o que lhe apraz. Paulo orou com fé para 
que Deus o livrasse de um espinho na carne, e Deus não o atendeu (2 Co 12.8-9). Ele também estava 
capacitado por Deus para curar enfermos (Mc 16.18; At 28.9)), mas não pôde curar Epafrodito (Fp 
2.25-27) nem Trófimo (2 Tm 4.20) nem Timóteo (1 Tm 5.23). 
A interpretação de Mateus 21.22 não pode ser literal porque Deus não pode nos dar qualquer coisa. 
Por exemplo, Deus não perdoa nossos pecados sem que tenhamos perdoado as ofensas recebidas, 
ainda que Lho peçamos com fé (Mc 11.23-26). Deus não me atendeu quando lhe pedi, em lágrimas e 
profunda dor, durante sete meses, que curasse a minha mulher. Também lhe pedi que tirasse a minha 
vida, mas a deixasse viver, mas não fui atendido. Minhas petições foram negadas. Os planos de Deus 
excediam a minha capacidade de compreensão. 
Deus também não cura todas as pessoas, pelas quais oramos com fé. O mais certo é seguirmos o 
exemplo de Jesus: “Não seja, porém, o que eu quero, e, sim, o que tu queres” (Mc 14.36); e o de 
Paulo: “Se Deus quiser, outra vez voltarei a vós” (At 18.21; 1 Co 4.19); “A fim de que, pela vontade 
de Deus, chegue a vós...” (Rm 15.32). Deus tem razão em cem por cento das vezes em que Ele nos 
responde com um não. Depois de um certo tempo é que vamos entender que foi melhor assim.
w 
268 
A soberania de Deus, absoluta e universal, decorre de seus atributos incomunicáveis (onipotência, 
onisciência, onipresença, infinitude e imutabilidade). Deus é supremo sobre todas as coisas, em 
governo e autoridade. Ele faz o que quer com o que é seu (Mt 20.15) e se compadece de quem quer 
se compadecer, e terá misericórdia de quem quiser ter misericórdia. “Ou não tem o oleiro poder 
sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Rm 
9.15,16,18,21). Não se pode pôr limites à sua autoridade. “Deus não é menos soberano na 
distribuição de seus favores. A alguns dá riquezas, a outros, honra; a outros, saúde; enquanto outros 
são pobres, ignorados ou vitimados pela enfermidade. A alguns, ele envia a luz do evangelho; a 
outros, ele deixa nas trevas. Alguns, pela fé, são conduzidos à salvação; outros perecem na 
incredulidade. À pergunta “Por que isso é assim?”, a única resposta é aquela dada por nosso Senhor: 
“Assim foi do teu agrado, ó Pai” - Mt 11.26” (Teologia Sistemática Strong). 
Por isso, devemos sempre dizer: seja feita a tua vontade, porquanto é o Senhor que “esquadrinha o 
coração, e provo a mente, e isto para dar a cada um segundo os seus caminhos, e segundo o fruto das 
suas ações” (Jr 17.10). O salmista aconselha: “Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele, e ele 
tudo fará” (Sl 37.5). Jó, um herói da fé, declarou: “Ainda que ele me mate, nele esperarei” (Jó 13.15). 
GUERRA ESPIRITUAL 
Reverendo professor Diego Roberto 
Escola Missionaria Voz no Deserto 
(JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) 
Introdução: 
"Há dois erros iguais e contrários em que nossa raça pode cair com respeito aos diabos. Um é não 
acreditar na sua existência. O outro é acreditar e sentir um interesse excessivo e insalubre neles." 
(C.S. Lewis, Screwtape Letters, p.3) 
Creio que hoje mais do que nunca se cumprem estas palavras de C.S. Lewis, temos igrejas que nem 
acreditam no diabo e por outro lado temos igrejas que acreditam demais no diabo. Voc ê está em 
guerra, não estamos vivendo uma vida de Disneylandia espiritual, esta guerra acontece 24 horas por 
dia, Satanás não descansa, não tira férias, não passa mais tarde. 
Hoje a Igreja vive uma diferente perseguição de Satanás, pois hoje ele está agindo dentro da Igreja. 
Durante muitos anos ele agiu fora da Igreja, mandando matar os crist ãos, mas hoje ele está matando os 
cristãos com as mais variadas heresias. Pastores estão exorcizando cidades, crentes estão sendo 
possuídos por demônios. 
"Para que Satanás não alcance vantagem sobre nós, 
pois não lhe ignoramos os desígnios." (2 Co 2:11) 
I - QUEM É O INIMIGO: Satanás e seus anjos 
A.) Terminologia bíblica: Satanás é achado em 7 livros do A.T., e por cada autor do N.T.: 
Satanás: 
a.) A.T. hb. satan, "adversário" do verbo "ficar em emboscada (como inimigo); opor-se"; satã é usado 
15 de 23 vezes para a pessoa de Satanás. 
b.) N.T. gg. satanás é quase sempre o grande adversário de Deus e do homem - o Diabo; das 36 
vezes, só três não se referem absolutamente à pessoa de Satanás. (Mt 16:23; Mc 8:33: Jo 6:70). 
Diabo: gg. diábolos, 33 vezes, "caluniador, difamador". 
Outros nomes de Satanás: Nos nomes vemos o caráter de Satanás: 
"O grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, 
"O sedutor de todo mundo" Ap. 12:9; 
"Acusador dos nossos irmãos , Ap.12:10:
269 
"Lúcifer" ou "a estrela da manhã" Is.14:12 (cf. 2 Co 11:14: anjo de luz) 
"Belzebu" maioral dos demônios - Mt 12:24 
"Maligno" Mt 13:38 
"Belial" - "sem lei; anárquico; desordenado" 2 Co 6:15 
"Tentador" - Mt 4:3; 1 Ts 3:5 
"Inimigo" Mt 13:28,29 
"Homicida" Jo 8:44 
"O Pai da mentira" Jo 8:44 
"O deus deste século" - 2 Co 4:4 
"O Príncipe da potestade do ar" Ef. 2:2 
"O Príncipe deste mundo" Jo 14:30; 16:11 
"O Abadom" (Hb); "Apoliom" (gg) Ap. 9:11 
destruidor; exterminador" (Abadom = sheol ou hades 3 vezes; a morte 2 vezes; provavelmente aqui 
"o anjo do abismo", o rei dos demônios. 
Demônios, gg. daímon 5 vezes: daimónion 60 vezes vb. daimonízomai 13 vezes: fora de 10 vezes, 
todos os usos ficam nos Evangelhos. Geralmente = seres espirituais e maus ( às vezes, deuses dos 
pagãos); provavelmente os demônios sãos os anjos de Satanás que caíram com ele. 
Os demônios tem personalidade; inteligência (2 Co 11:3); vontade (2 Tm 2:26); emoções (Ap 12:17) 
Eles sabem da sua condenação 
(Mt 8:29; Lc 8:28-31) 
Alguns já estão encarcerados no abismo e alguns destes serão libertados na grande tribulação 
(2 Pe 2:4; Jd 6; Ap 9:14; 16:14: Lc 8:31, etc.) 
Eles conhecem a Jesus (Mt 8:29: Mc 1:24) 
Eles tem suas doutrinas e promovem doutrinas falsas (1Tm 4:1-3) 
Podem habitar em homens e animais (Mc 4:24; 5:13) 
Eles podem causar doenças (Mt 9:33; cf. Jo 2:7) 
Alguns poderosos enganam as nações 
(Dn 10:13; Ap 16:13,14; Is 24:21) 
B. Caráter e Atividade de Satanás: 
1.) A pessoa de Satanás (Ez 28:12,17; Is 14:12-15) 
No mundo antigo, um rei freqüentemente foi deificado e visto como o mediador entre a sua cidade-país 
(i.é., Tiro, Babilônia, Roma) e o deus nacional. Nestas passagens, os profetas falam não somente 
ao rei, mas ao deus-espírito atrás do rei. 
Satanás foi criado "querubim da guarda ungido, o sinete da perfeição, formoso, poderoso, mas finito. 
Ele caiu por causa do orgulho (Is. 14:12-14; Ez 28:15-17 cf.. I Tm 3:6) 
O que Satanás tem, é dado, permitido e limitado pelo Deus soberano. 
"O Diabo acha que ele está livre; mas ele tem um freio na boca e Deus segura as rédeas"(B.B. 
Warfield). 
2.) Posição de Satanás: 
Ele ainda tem acesso ao trono de Deus. 
(Jo 1:6; 2:1; Zc 3:1-6; Lc 22:31; Ap 12:7-10) 
Ele reina sobre a hierarquia dos demônios. 
(Mt 25:4; Ef 6:12: Ap 12:7) 
Ele reina sobre este mundo. 
(Lc 4:5,6; 2 Co 4:3;4; Ef 2:1-3; I Jo 5:19-20) 
3.) Atividade do Diabo e seus anjos: 
Tentar: (Gn 3:1; Mt 4:11; 16:23; Lc 22:31; At 5:3; I Co 7:5; I Tm 3:6,7; I Jo 2:16)
Confundir, enganar, contrafazer, imitar ( I Co 10:20; 2 Co 4:3,4; 11:13-15 (anjo de luz); 2 Ts 2:9; 
Ap 16:13s; 20:3) 
Destruir - (Lc 8:12 (tirar a Palavra); I Pe 5:8; Ap 12:13-17) 
Habitação: "possessão demoníaca" não comunica bem o conceito do gg. daimonizomenos (Mt 15:22) 
= "endemoninhado", que é um estado de passividade humana causada pelos demônios; o controle de 
alguma forma dum demônio (cf. Mt 12:22-28, 43-45) 
Especificamente contra os cristãos: tenta-os a mentir (At 5:3); à imoralidade (1 Co 7:5); semeia o joio 
para enganar e atrapalhar (Mt 13:38s; 1 Ts 2:18); perseguição (Ap 2:10); difamação e calúnia (Ap 
12:10); cria problemas físicos (2 Co 12:7-10) 
Qual a diferença entre Opressão Satânica e Possessão Demoníaca? 
Possessão é Demoníaca e Opressão é Satânica: 
Na Possessão a vítima é dominada pelo demônio, corpo, alma e espírito. 
O crente que estiver andando com Deus em fé e obediência não pode ser possuído de um espírito 
demoníaco, cf: (Ap 3:20; Rm 12:1;2; II Co 5:17; Jo 3:3-5; Ef 1:13-14; Jo 14:23-30; Jo 14:16; II Co 
2:16: 12-13; 1 Co 3:16-18; 1 Co 6:19-20; Rm 8:9-10; 1 Jo 5:19; Jo 14:30). 
Opressão - todos os cristão são alvos de Satanás para cairmos numa vida de pecado, por isso muitos 
cristãos podem sofrer, cf. (E 6:13; Tg 4:7) 
Obsessão demoníaca - é um ataque mais intenso de ataque demoníaco (II Co 12:7-10) 
II - QUEM É O VENCEDOR? O poder do Sangue de Cristo 
A.) O que Cristo fez na cruz: 17 cumprimentos 
"Porque Jesus Cristo é Deus e homem, a Sua morte na cruz tem valor infinito para todos que cr êem" 
(F.Schaeffer) 
Substituição: Ele morreu no nosso lugar (Lv 1:4; Mt 20:28; Tm 5:6-8; 2 Co 5:15-21; 1 Pe 3:18) 
Redenção: pagou o preço para libertar-nos (At 20:28; Rm 3:24; Ef 1:7; 1 Pe 1:18-19) 
Propiciação: satisfez a ira santa de Deus contra os pecados (Rm 3:25; Hb 2:17; 1 Jo 2:2) 
Reconciliação: o homem pode ser amigo de Deus (Rm 5:10,11; 2 Co 5:18-21; Ef 1:10; 2:16) 
Justificação: a justiça de Cristo é imputada a nós (At 13:39; Rm 3:19-26; 5:9; 8:30,31; 2 Co 5:21; Ef 
1:4) 
Base do perdão dos pecados antes da cruz (Rm 3:25; Hb 9:15; 10:1-14) 
O fim da lei Mosaica; agora há "a lei de Cristo", a lei do Espírito. Rm 3:19-28; 6:14; 8:2-4; 10:4; 
13:8s; 2 Co 3:6-17: Gl 3:19-25; Fp 3:3; Cl 2:14; I Jo 3:23) 
Base da adoção como filhos e herdeiros maduros - Rm 8:14-17; Gl 3:23-26; 4:1-7. 
Base da obra do Espírito Santo em nós - Jo 3:1-7; 16:8-11; I Co 12:13; Ef 1:13-14; 4:30; 5:18) 
Base da santificação - posicional e experimental - I Co 1:2; 6:11; Ef 5:26-27; I Ts 4:3; I Pe 1:15-16. 
O juízo da natureza pecaminosa: quebrou o poder controlador do pecado; podemos viver vidas que 
agradam a Deus. Rm 6:1-14; Gl 5:13-25. 
Base do perdão dos pecados do crente: filhos que caem da comunhão com Deus devido ao pecado. 
Rm 8:1s; I Jo 1:7; 2:2. 
Jesus é o primogênito do processo da morte, ressurreição, ascensão e glorificação que nós seguiremos 
(I Co 15:12-23; Cl 1:18; I Ts 4:13-17: Hb 2:9-15; I Jo 3:1,2.) 
Base da redenção da natureza. Rm 8:18-22; Is 65:17-25; Ap 21:1s. 
Base da purificação das coisas no céu - Hb 9:22-24 (cf. 8:1-5; 9:11) 
A cruz é a base do juízo dos incrédulos - o dom da salvação rejeitado - Jo 16:8-11, cf. Jo 3:14-18,36; 
2 Ts 1:6-11; Ap 20:11-15. 
Na cruz, o pecado, a morte e Satanás foram vencidos: 
o pecado - I Jo 5:18-19; cf. n.11 acima 
a morte - Jo 5:24-27; I Co 15:55-57; Hb 2:14-15; Ap 20:14 
270
Satanás e os demônios - Jo 12:31-33; Hb 2:14,15; Ap 20:10 
B. Os Juízos de Satanás e seus anjos: 
Satanás e os anjos perderam sua posição no céu (Ez 28:16) 
Ele foi julgado profeticamente no jardim do Éden 
(Gn 3:16) 
Cristo veio a primeira vez para destruir as obras do maligno. (I Jo 3:8; 5:18; Cl 2:14,15) 
Quando Cristo voltar, Satanás receberá um castigo temporário dum mil anos no abismo (Ap 20:1-3) 
No fim do milênio, no juízo final, Satanás e os seus anjos serão lançados no lago de fogo e enxofre 
para eternidade. (Ap 20:10) 
III - COMO DEVEMOS LUTAR? 
Três passos à vitória 
A. Observações Iniciais: 
1.. Satanás é feroz: "A razão pela qual muitos cristãos falham por toda vida é esta: eles sub-estimam o 
poder do inimigo. Temos um inimigo terrível com quem temos que lutar. Não deixa Satanás nos 
enganar. Pois assim estaremos mortos! Isto é guerra. Quase tudo que nos rodeia (neste mundo) nos 
desvia de Deus. Não saltamos do Egito ao trono de Deus num pulo só. Há um deserto, uma viagem, e 
há inimigos na terra." (D.L.Moody, cf. I Pe 5:8) 
2.. Satanás é finito: não é onipotente, onipresente ou onisciente. Geralmente, no sentido direto, o 
diabo e os seus demônios não nos tentam diariamente. Claro, o mundo está controlado espiritual e 
moralmente por satanás. Mas tentação vem principalmente da nossa própria carne: cobiça, orgulho, 
concupiscência, falta de auto-controle, etc. (Tg 1:13-16; 4:1-8) 
3.. Satanás e os demônios são limitados por Deus. O Senhor os permitem ser ativos, mas a graça que 
restrita não deixa-os fazem tudo que quiserem (Jó 1:6 , 2:7; Lc 22:31; 2 Co 12:7-9). Em qualquer 
situação. "...Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças... (mas) com a 
tentação vos proverá livramento..." (I Co 10:13). Cristo, nosso Sumo-Sacerdote, constantemente 
intercede por nós - Jo 17:15; Hb 7:25: I Jo 2:1-2. 
Passo Um: Pureza 
1. Cristo adquiriu nossa pureza na cruz. Apesar de falhas nas nossas vidas - das quais satanás gosta de 
nos acusar (Zc 3:1-5; Ap 12:10) - somos posicionalmente puros, vestidos na justiça de Jesus Cristo. 
Satanás não pode tocar nossa salvação, nem nos separar do amor de Deus (Rm 8:38,39); temos uma 
posição de aceitação e autoridade em Jesus Cristo. (Rm 8:1; Ef 1:6) 
2.. Mas devemos buscar a santidade, experimentalmente realizando Sua chamada alta. O pe cado na 
vida nos destrói, abrindo a porta para opressão. 
Seja santificado pela Palavra - Jo 17:17: 2 Tm 3:16 
Confessar e renunciar tudo na nossa vida contra Deus - Ef 4:27; I Ts 4:3 cf. Êx 20:4-6. 
Nada disponhais para a carne - Rm 13:12-14 
Chegai-vos a Deus - Tg 4:8 
Passo dois: As armas de Deus 
1.. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, cada peça tem propósito para lutar, e sugere como 
satanás ataca. 
o largo cinto da verdade 
a couraça da justiça 
calçai os pés com a preparação do evangelho 
o escudo da fé 
o capacete da salvação 
2. A espada do Espírito = a Palavra de Deus (Mt 4:4) 
3. O poder conquistador da oração: 
271
272 
no nome de Jesus - Jo 14:13,14'; 15:7;16; 16:23-27 
com consciência pura - Tg 4:2,3; 5:16; I Jo 3:21s. 
poder do Espírito Santo - Rm 8:26s; Ef 6:18; Jd 20s 
com fé - Hb 11:1-6; Mc 11:22-24; Tg 1:5-8; 5:14,15 
com perseverança - Ef 6:18; Cl 4:2; Lc 11:5-10 
às vezes com jejum - At 13:2-3; 14:23; Mc 9:29 
Passo três: Como Vencer Satanás e os demônios 
1.. Seja sempre sóbrio e vigilante - 1 Pe 5:8-9a 
2.. Quando você confrontar a presença satânica, não seja tolo. Tome cuidado - Jd 9; 2 Pe 2:10s; At 
19:12-17 
3.. Reconheça a sua autoridade em Jesus Cristo - Lc 9:1; 10:1-20; At 5:16; 8:7; 16:16-18; I Jo 4:4; 
Mc 16:17. 
4.. Também; os demônios crêem e tremem - Tg 2:19 
5.. Imediatamente, no nome de Jesus, peça que o Senhor quebre os poderes de Satanás e os demônios 
e limpe a situação. Lembre-se que o Sangue de Cristo é a prova que Satanás foi conquistado na cruz, e 
que o seu juízo foi selado. 
6. Em casos graves, ache outros irmãos logo que possível. Junte-se com eles para orar e resistir ao 
maligno. Não tente exorcizar ou confrontar sozinho um demônio, exceto quando é difícil de achar 
ajuda. Nos casos de habitação demoníaca, seria sábio em procurar líderes cristãos que tem experiência 
nisso. Entretanto, você, bem preparado, pode exorcizar sozinho. 
7. "Sujeitai-vos pois à Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós"(Tg 4:7) 
"Eles, pois o (Acusador) venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do 
testemunho que deram, e mesmo em face de morte, não amaram a própria vida". 
Indulgência 
Reverendo professor Diego Roberto 
Escola Missionaria Voz no Deserto 
(JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) 
É um conceito católico usado para referir-se à remissão das penas devidas ao pecado, mediante 
determinados atos de devoção e piedade. Tem dois tipos de indulgência: 
1. plenária quando abrange a totalidade das penas temporais 
2. parcial quando perdoa somente uma parte das penas. 
A indulgência pode-se também aplicar em benefício de outras pessoas, nas devidas condições. 
A doutrina sobre as indulgências foi exposta na Constituição Apostólica de Paulo VI Indulgentiarum 
Doctrina, de 12 de janeiro de 1967, onde também se incluíam algumas normas que reformavam o 
disposto no Código a esse respeito. Posteriormente, por Decreto da Sagrada Penitenciaria Apostólica, 
de 29 de junho de 1968, aprovado especificamente pelo mesmo Papa, foi promulgado o novo 
Enchiridion Indulgentiarum, onde se reformava totalmente a disciplina das indulgências, recolhendo 
inclusive as normas contidas na citada Constituição Apostólica. 0 novo Código reproduz, quase 
literalmente algumas das Normas que se encontram no Enchiridion, remetendo, para maiores 
especificações a essa legislação especial. 
Para ganhar indulgência requer-se: 
1) perdão dos pecados cometidos e estado de graça. Por isto a Igreja inclui a Confissão sacramental 
entre os requisitos necessários para lucrar indulgência; 
2) realização da obra prescrita (visita a uma igreja, orações, mortificações) com todo o desapego do 
pecado e o máximo amor a Deus de que a pessoa seja capaz; o cristão deve achar-se em estado de 
graça ao realizar tal obra; 
3) Comunhão Eucarística. Esta e a Confissão sacramental podem ser efetuadas alguns dias antes ou
depois da realização da obra indicada, 
4) orações pelas intenções do S. Padre (pode ser um Pai Nosso ou uma Ave Maria). O instituto das 
indulgências assim concebido está longe de ser algo de mecânico ou mágico, mas é um estímulo 
poderoso para afervorar a vida dos cristãos. Paulo VI quis que, de modo geral, o trabalho, o serviço ao 
próximo e o sofrimento aceito ou praticado em união com Cristo sejam indulgenciados. Há nisto um 
incentivo a que os fiéis façam e sofram tudo com o máximo amor a Deus e desapego do pecado. 
Foi contra o sistema de indulgencias defendido e praticado pela Igreja Cat ólica na Idade Média que os 
Reformadores se levantaram, especialmente Martinho Lutero. Mais recentemente, apesar de cat ólicos 
e luteranos terem firmado um acordo sobre a justificação pela fé, a Igreja Católica publicou um novo 
Manual de Indulgências, que continua na mesma linha do ensino católico. 
Reverendo professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
Presidente da Federação Internacional das Igrejas e Pastores no Brasil ou FENIPE 
(JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) 
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273 
LEVANDO A SÉRIO A CEIA DO SENHOR 
Reverendo professor Diego Roberto 
Escola Missionaria Voz no Deserto 
(JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) 
"Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o 
pão; e, havendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo que é por vós; fazei isto em memória de mim. 
Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto do meu sangue; 
Fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes deste pão e 
beberdes do cálice estareis anunciando a morte do Senhor, até que ele venha. De modo que qualquer que comer do 
pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o 
homem a si mesmo, e assim como do pão e beba do cálice. Porque quem come e bebe, come e bebe para sua própria 
condenação, se não discernir o corpo do Senhor" (1Co 11.23-29). 
A Ceia Memorial tem sido celebrada num ambiente espiritual, profundo, reverente e cheio de 
certeza, além do destaque que a Ceia do Senhor nos fala numa linguagem silenciosa por ém plena de 
energia. Temos o pão e o vinho, elementos simples, porém altamente destacados nesta celebração. E 
nesta simplicidade, ela se torna um meio de comunicação de algumas importantes mensagens para o 
povo de Deus. Quando levamos a sério a celebração da Ceia do Senhor, usamos de determinadas 
linguagens: 
A LINGUAGEM DE COMEMORAÇÃO (v.25) 
Paulo diz isso: "Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o 
novo pacto no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em mem ória de mim", ou seja, 
"para que pensem novamente em mim." 
A presença de Jesus Cristo é algo extraordinário na vida cristã. Pela inspiração do Espírito de Deus, 
até mesmo a escolha de certas palavras tem o seu lugar na Escritura Sagrada. Aqui, apenas uma 
filigrana lingüística: na língua hebraica, a palavra que significa "manifestação de Deus, presença 
divina" é shekinah, a gloriosa presença de Deus no meio do Seu povo. Cada vez que a glória do Senhor 
se manifestava no meio do povo de Israel, fosse no deserto, em Canaã, ou nas grandes batalhas, 
sempre era celebrada a manifestação da shekinah divina (cf. Sl 78.60; Is 18.1; 22.19). 
Quando João escreveu a narrativa que abre o Evangelho que leva o seu nome, ele disse "E o Verbo se 
fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade"; a palavra grega utilizada não é do
274 
hebraico: é grega, tem outra origem. O impressionante, no entanto, é que o vocábulo utilizado por 
João para dizer, "o Verbo habitou, marcou presença, manifestou-se entre nós", é a palavra grega que 
diz skinê. Percebam o som do hebraico sh ki nah e do grego s ki nê. As duas palavras têm 
praticamente o mesmo radical. Coincidência, ou vontade de Deus que as palavras assemelhadas 
fossem usadas pelo escritor sagrado? 
Para que se manifeste a glória de Deus, e para que pensemos nEle, é que a Ceia do Senhor é celebrada 
por Sua Igreja. Jesus Cristo estabeleceu duas ordenanças, e somente duas: o Batismo e a Ceia 
Memorial. São ordenanças sem qualquer benefício acessório para a salvação. Uma pessoa em sendo 
salva por Jesus Cristo, na verdade não precisa, para acrescentar algum valor maior à salvação, do 
Batismo. O malfeitor da cruz não precisou se batizar, mas já estava com Jesus Cristo no paraíso após a 
crueldade daquele momento. 
A outra ordenança é a Ceia do Senhor. Então, quando observamos a Ceia do Senhor, fazemos algo 
pelo Senhor, não por nós ou pelos outros, mas pelo Senhor, porque estamos pregando o Seu sacrifício 
para a salvação de todo aquele que crê. Estamos dizendo isso quando tomamos o pão nas mãos, que é 
o corpo de Jesus Cristo que sofreu no Calvário; e quando tomamos o cálice, dizemos que o sangue de 
Jesus Cristo foi derramado por nós. Estamos pregando a mensagem de livramento de redenção para 
todo o que crê! 
Como precisamos de memoriais! Sim; precisamos de memoriais para que nos lembremos de quem 
somos, daquilo que somos, porque estamos aqui, e aonde estamos indo. Quando nosso pa ís joga na 
Copa, os memoriais brasileiros se apresentam por todos os lados: é a bandeira do Brasil sendo 
desfraldada. E não existe sentimento maior, e quem já passou por isso o sabe, que estar num outro 
país, e se emocionar com o verde-amarelo tremulando nos mastros com outras bandeiras. Isso se 
chama filia, o amor cívico, patriótico. Não é doença, não: é patriotismo mesmo! 
Sim; precisamos de memoriais. Quando se ouve o nome de Maria Quitéria, logo lembramos do Dois 
de Julho, a data principal da Bahia! Falamos de amor conjugal, lembramos a alian ça. Com certeza: 
precisamos de memoriais. Temos que lembrar da nossa indignidade e da beleza do perd ão. Por essa 
razão, temos o memorial da Ceia do Senhor. É isso o exatamente o que faz a Ceia do Senhor: ela nos 
relembra o dom da vida através da morte de Jesus Cristo. Assim, quando nos reunimos seriamente 
para celebrar este ato memorial, utilizamos a linguagem da comemoração. 
A LINGUAGEM DA COMUNHÃO (vv. 17-20) 
Paulo disse: "Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para 
melhor, mas para pior" (v. 17). Aconteceu, infelizmente, com a igreja de Corinto, que se reuniu n ão 
para o melhor, mas para o pior; reunia-se para a indignidade. Não confundamos as coisas: quando 
falamos de comunhão, não estamos falando de encontro sobrenatural, místico; não estamos dizendo 
que nos unimos a Jesus Cristo através do Nirvana, como querem pregar as religiões orientais; não 
estamos tendo uma visão, não; não é comunicação com um morto como querem ensinar por aí, não! 
A Palavra nos ensina que a Ceia do Senhor é um memorial. Não há comunhão física, ao se participar 
da Ceia do Senhor, entre o homem pecador e o Deus perfeito, mas uma comunhão espiritual, sem 
dúvida, pela lembrança de Cristo na cruz, se a levamos a sério. 
Ao longo destes 39 anos de ministério da palavra e das ordenanças, ainda me emociono quando 
participo da Ceia do Senhor! E cada vez que seguro o pão, e o parto na frente dos irmãos, eu me 
emociono, porque me vem à mente que sou indigno pecador, e que pela graça de Deus fui feito Seu 
filho! Lembro-me, quando tomo a jarra de vinho, e derramo um pouco no cálice, de que fico com as 
mãos trêmulas; são 39 anos celebrando a Ceia do Senhor praticamente mês a mês (e houve época 
quando o fiz duas vezes no mês), mas ainda hoje tremo quando tenho na minha memória e coração a 
cena de Jesus Cristo no Calvário, e o Seu sangue escorrendo pelas mãos, pela Sua testa, pela face, e 
pelo tronco da cruz...
275 
Sim; há uma comunhão espiritual pela lembrança de Cristo na cruz, e pela nossa identificação com 
essa cruz: a minha cruz, não de Cristo, mas a minha cruz! 
Há uma comunhão entre os crentes na Ceia Memorial, mas não é comunhão-de-cafezinho! Por isso, 
Paulo está preocupado, e diz "Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem 
tampouco as igrejas de Deus. Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, 
não para melhor, mas para pior". 
Havia divisões na igreja de Corinto quanto a questões de doutrina. A igreja estava seccionada por 
causa de trajes (capítulo 11)?! Havia divisões por causa de uma doutrina (cf. capítulos 12 e 14); E 
depois todos queriam se reunir para "tomar cafezinho"?! A Ceia do Senhor n ão é para isso, porque a 
tomamos agora, e se não temos essa impressão profunda, sairemos com a mesma amargura e rancor 
com que entramos. A conduta dos irmãos de Corinto destruía o propósito da igreja, e o propósito da 
Ceia! O que Paulo está enfatizando é a harmonia da Ceia, a qualidade de vida espiritual, a unidade da 
igreja, e quando celebramos com seriedade a Ceia, é isso o que estamos proclamando! 
A LINGUAGEM DA CONSAGRAÇÃO (vv. 27-29) 
Quando celebramos a Ceia usamos esse tipo de linguagem. "De modo que qualquer que comer do 
pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. 
Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice". 
Interessante que a Ceia do Senhor não torna ninguém melhor: ninguém vai sair melhor porque tomou 
a Ceia do Senhor. E, no entanto, há um paradoxo: o irmão pode sair pior se tomou a Ceia do Senhor 
indignamente! É o que Paulo diz, por essa razão é dever de cada um solene e seriamente examinar-se 
sobre quais são os seus interesses e propósitos quando se aproxima da Mesa do Senhor. Veja bem a 
seriedade de seus objetivos. 
Estive lendo sobre os levitas e sacerdotes (Números 3 e 4). Fiquei arrepiado! Que coisa 
impressionante a legislação, como eram as normas no acampamento de Israel no deserto: somente 
podiam se aproximar dos móveis os sacerdotes, nem os levitas que eram os seus auxiliares. 
Quando havia necessidade de desmontar o tabernáculo para se transferirem para outro lugar, os 
sacerdotes entravam, embalavam os móveis, com várias camadas de tecidos (e de cores diferentes para 
mostrar o grau de santidade do objeto), e depois que tudo era embalado, e ninguém via a forma do 
objeto, os levitas pegavam o pacote e faziam o carregamento nos carros de boi para o transporte pelo 
deserto. E sempre é lembrado o seguinte: "e o estranho que se chegar será morto" (Nm 3.10, etc.). 
Os levitas funcionavam, entre outros deveres, como guardas de segurança do tabernáculo. A lei não 
era fácil: era marcial, lei de guerra! O "estranho" não era o pagão, não; era o próprio povo de Israel. 
Só que há uma diferença muito grande: na Igreja Cristã o pastor não é o sacerdote, e os outros, o 
"povão"! Na Igreja de Cristo fomos todos elevados ao sacerdócio, por isso podemos nos aproximar 
dos objetos, da Mesa do Senhor! Mas tem uma coisa: se o irmão vier à Mesa do Senhor com as mãos 
sujas, "será culpado do corpo e do sangue do Senhor" (1Co 11.27b)! O irmão não sai melhor, mas 
pode sair pior do santuário. Quanto seriedade é exigida dos participantes?! 
Então, estou vindo com fé na morte de Jesus Cristo? Vivo diariamente pelo poder da ressurreição de 
Jesus Cristo? São perguntas que tenho que fazer! É Jesus realmente o alimento da minha alma? Sou eu 
um dos Seus, e sou eu um com os Seus? Estou em harmonia, minha vida é digna da comunhão com os 
outros crentes? Permanece a minha aliança com o Deus vivo? Se não conheço a Jesus Cristo, como 
posso me lembrar dEle? 
Phillip Henry diz que o crente quando for participar da Ceia deve fazer tr ês perguntas: 
· Que é que eu sou? Filho de Deus, salvo pelo sangue de Jesus? Lavado pelo Seu sangue? 
· Que é que eu tenho feito? Minhas mãos estão limpas, ou manchadas. Meu coração está limpo, ou
276 
borrado, sujo? 
· Que é que eu desejo? Quais os meus sonhos e visões, que almejo na Causa de Jesus Cristo? 
Não é sério? Então, devemos dar graças a Deus pelo privilégio de termos um diálogo com a Ceia do 
Senhor, e, assim, que venhamos à mesa do Senhor em espírito de comemoração porque essa é a 
linguagem que falamos agora, em comunhão espiritual porque essa é a realidade que vivemos agora, e 
consagração pessoal porque esse é o propósito, o objetivo, o alvo de nossa vida sempre. E lembrando, 
sobretudo, que a Ceia do Senhor não é um funeral (para que cara triste?): a Ceia do Senhor é uma 
celebração de fé, de alegria, de esperança porque nós olhamos para o dia da volta de nosso Senhor 
Jesus Cristo! 
O DIABO EXISTE 
Reverendo professor Diego Roberto 
Escola Missionaria Voz no Deserto 
(JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) 
A existência de Satanás é ensinada em sete livros do Antigo testamento - Gênesis, 1 Crônicas, Jó, 
Salmos, Isaías, Ezequiel e Zacarias, bem como por todos os autores do Novo Testamento e, 
principalmente, por Jesus. Das vinte e nove passagens sobre o diabo nos Evangelhos, vinte e cinco são 
citações do próprio Senhor Jesus. 
A partir de relato bíblico sabemos que Satanás tem características de uma personalidade, podendo 
falar e planejar, sendo tratado sempre com pronomes pessoas e sendo apresentado como um ser 
moralmente responsável, Jó 1.6-12; Mateus 4.1-12 e Apocalipse 20.10. 
A Bíblia registra a atuação do inimigo na realidade experiencial da humanidade desde os primórdios da 
humanidade, Gênesis 3.1; 4 e 13. É bem verdade que o nome diabo não aparece no texto. No original 
a palavra é "serpente", que é traduzida em outras passagens como "o acusador". Sabemos que o 
ocorrido em Gênesis 3 foi atuação do diabo quando comparamos a narrativa com a sua atuação na 
tentação de Jesus, registrada em Mateus 4.1-11, pois a estratégia foi a mesma; concupiscência da 
carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida. 
Na verdade, a Bíblia se refere a Satanás como um ser espiritual criado por Deus. Até Gênesis 3, o 
Texto Sagrado assevera que toda a criação era muito boa, Gênesis 1.31, o que inclui os anjos maus 
que um dia foram como os bons, mas pecaram e perderam o privilégio de servir a Deus. Isto significa 
dizer que mesmo no mundo espiritual criado por Deus não existiam os demônios, que são anjos que 
pecaram e que se tornaram maus e que hoje continuamente praticam o mal no mundo. 
Satanás é descrito no Texto Sagrado como o ser angelical que, movido por soberba e desejo de 
usurpação, se rebelou contra Deus, mas que antes do pecado esteve presente no Éden, o Jardim de 
Deus, sendo considerado como o "selo da perfeição" e "perfeito em formosura", que "vivia no monte 
de Deus" e que era "querubim da guarda ungido" pelo próprio Deus. 
A despeito de todas estas qualidades, achou-se iniqüidade em seu coração e o seu interior se encheu de 
violência e de pecado, o que o levou a ser expulso da presença de Deus e lançado sobre a Terra e 
tornado em cinza diante dos olhos dos que o contemplavam, como lemos em Ezequiel 28.1 -3 e 11- 
20, que por inferência hermenêutica e consenso teológico é admitida como sendo a mais objetiva 
narrativa sobre a criação e destituição do diabo. O texto na realidade fala de Itabol II, rei de Tiro, mas 
apresenta as mais precisas informações sobre Satanás.
277 
Outros textos ricos em informações sobre o diabo e sua queda são Isaias 14.3-23, em uma profecia 
contra a Babilônia, mas que é, na verdade, uma alusão clara a Satanás, e 2 Pedro 2.4, juntamente com 
Judas verso 6 e Apocalipse 12.7-11, que confirmam a queda e o abismo espiritual dos demônios, 
Mateus 25.41, visto que depois da queda Satanás constituiu-se em inimigo de Deus e tornou-se um 
mentiroso, o pai da mentira conforme Jesus, procurando sempre matar, roubar e destruir as obras e 
as criaturas de Deus, João 8.44 e 10.10. 
Satanás, que significa adversário, é o nome mais usado para se referir ao diabo na Bíblia, aparecendo 
52 vezes. Depois vem o termo diabo, derivado do Diábolos, que significa acusador ou caluniador, que 
é usado 35 vezes. Também vemos aparecer nomes como maligno, inimigo, grande dragão, Belzebu, 
serpente, Belial, homicida, pecador e tentador, ou expressões como "o príncipe dos demônios", 
"aquele que está no mundo", "o deus deste século", "o enganador de todo o mundo", "o príncipe das 
potestades do ar", "o poder das trevas" e "o espírito que opera nos filhos da desobediência", Mateus 
4.3, 12.24 e 27, 13.19 e 38-39; Marcos 3.22; Lucas 11.15 e 19; João 8.44; 2 Coríntios 6.15; 1 
Tessalonicenses 3.5; 1 João 2.13, 3.8 e 12 e 5.18; 1 Pedro 5.8 e Apocalipse 12.3 e 9. 
Todos estes nomes indicam um pouco do caráter e da atividade do diabo que, como indica os seus 
nomes, está empenhado na oposição a Deus e à obra de Cristo, juntamente com os demônios que 
realizam seu trabalho no mundo e infligindo tentação, engano e as mais diversas doenças a fim de 
impedir o progresso espiritual do povo de Deus. 
Em Efésios 6.10-20, o Texto Sagrado assevera sobre a confrontação com os principados e potestades, 
ou seja, com os demônios, quando o apóstolo Paulo alerta a igreja sobre a necessidade do 
revestimento da armadura de Deus para o combate. O texto fala das "ciladas do diabo", vs. 11, onde 
ciladas, methodeías no original, pode significar a astúcia, os planos, os esquemas ou os estratagemas 
que visam destruir a igreja. 
Vemos também que há uma luta, ou seja, uma disputa que exige preparo, força e coragem. Não 
podemos sair de peito aberto, sem o devido preparo, para o confronto. Lutamos contra principados e 
potestades. Principado é uma espécie de autoridade superior sobre grandes regiões e muitíssimos 
seres e potestades são autoridades subordinadas que exercem funções específicas. 
Lutamos contra os dominadores deste mundo, kosmkrátoras, que é a figura é de um governante 
mundial que se auto-arroga o deus salvador, mas que atua motivado pela malignidade de suas 
intenções. Também lutamos contra as hostes espirituais da iniqüidade, que são seres espirituais 
malignos que constituem as forças do mal, que metaforicamente retratam um exército opositor 
liderado pelo próprio maligno, o diabo. 
Destas passagens e seus ensinamentos, concluímos que o diabo existe e que está atuante no mundo, 
habitando nos lugares celestiais, mas também rodeando a terra e os filhos de Deus, exercendo o 
controle geral sobre o sistema mundano, Zacarias 3.1 e 1 Pedro 5.8. Duvidar da sua exist ência é o 
mesmo que desacreditar da Palavra de Deus. 
O DIÁLOGO DA CEIA DO SENHOR 
Reverendo professor Diego Roberto 
Escola Missionaria Voz no Deserto
278 
(JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) 
Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi 
traído, tomou o pão; e, havendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo que é por vós; fazei 
isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este 
cálice é o novo pacto do meu sangue; Fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em mem ória de mim. 
Porque todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes do cálice estareis anunciando a morte do 
Senhor, até que ele venha. De modo que qualquer que comer do pão, ou beber do cálice do Senhor 
indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, 
e assim como do pão e beba do cálice. Porque quem come e bebe, come e bebe para sua própria 
condenação, se não discernir o corpo do Senhor" (1Co 11.23-29). 
A Ceia Memorial tem sido celebrada num ambiente espiritual, profundo, reverente e cheio de 
certeza, além do destaque que a Ceia do Senhor nos fala numa linguagem silenciosa por ém plena de 
energia. Temos o pão e temos o vinho, elementos simples e destacados nesta celebração. E nesta 
simplicidade, ela se torna um meio de comunicação de algumas importantes mensagens para o povo 
de Deus. 
A LINGUAGEM DE COMEMORAÇÃO (v.25) 
Paulo diz isso: "Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o 
novo pacto no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em mem ória de mim", ou seja, 
"para que pensem novamente em mim". 
É extraordinária a presença de Jesus Cristo na vida cristã. Pela inspiração do Espírito de Deus, até 
mesmo a escolha de certas palavras tem o seu lugar na Escritura Sagrada. Aqui, apenas uma filigrana 
lingüística: na língua hebraica, a palavra que significa "manifestação de Deus, presença divina" é 
shekinah, a gloriosa presença de Deus no meio do Seu povo. Cada vez que a glória do Senhor se 
manifestava no meio do povo de Israel, fosse no deserto, em Canaã, ou nas grandes batalhas, sempre 
era celebrada a manifestação da shekinah divina (cf. Sl 78.60; Is 18.1; 22.19). 
Quando João escreveu a narrativa que abre o Evangelho que leva o seu nome, ele disse "E o Verbo se 
fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade"; a palavra grega utilizada nada tem a ver 
com o hebraico: é outra língua, outra origem, não tem a mesma categoria, inclusive lingüística. Pois 
bem, a palavra que João utilizou para dizer "o Verbo habitou, marcou presença, manifestou-se entre 
nós", é a palavra grega que diz skinê. Percebam o som do hebraico sh ki nah e do grego s ki nê. As 
duas palavras têm praticamente o mesmo radical. Coincidência, ou vontade de Deus que as palavras 
assemelhadas fossem usadas pelo escritor sagrado? 
Para que se manifeste a glória de Deus, e para que pensemos nEle, é que a Ceia do Senhor é celebrada 
por Sua Igreja. Jesus Cristo estabeleceu duas ordenanças, e somente duas: o Batismo e a Ceia 
Memorial. São ordenanças sem qualquer benefício acessório para a salvação. Uma pessoa em sendo 
salva por Jesus Cristo, na verdade não precisa do Batismo para acrescentar algum valor maior à 
salvação. O malfeitor da cruz não precisou se batizar, mas já estava com Jesus Cristo no paraíso após 
aquele momento cruel. Não é preciso, mas o batismo é um ato de obediência: Jesus até foi batizado 
por João, e mandou que a Igreja praticasse o batismo, o que fazemos como testemunho p úblico do 
que Jesus Cristo fez na nossa vida. 
A outra ordenança é a Ceia do Senhor. Então, quando observamos a Ceia do Senhor, fazemos algo 
pelo Senhor, não por nós ou pelos outros, mas pelo Senhor, porque estamos pregando a Sua morte 
para a salvação de todo aquele que crê. Estamos dizendo isso quando tomamos o pão nas mãos, que é 
o corpo de Jesus Cristo que sofreu no Calvário; e quando tomamos o cálice, dizemos que o sangue de
279 
Jesus Cristo foi derramado por mim e por você, por nós. Estamos pregando a mensagem de 
livramento de redenção para todo o que crê! 
Como precisamos de memoriais! Sim; precisamos de memoriais para que nos lembremos de quem 
somos, daquilo que somos, porque estamos aqui, e aonde estamos indo. Quando nosso pa ís joga na 
Copa, os memoriais brasileiros se apresentam por todos os lados: é a bandeira do Brasil sendo 
desfraldada. E não existe sentimento maior que estar em outro país, e se emocionar com o verde-amarelo 
tremulando nos mastros com outras bandeiras. Isso se chama filia, o amor c ívico, patriótico. 
Sim; precisamos de memoriais. Quando se ouve o nome de Maria Quitéria, logo lembramos do Dois 
de Julho, a data principal da Bahia! Falamos de amor conjugal, lembramos a alian ça. 
Sem dúvida, precisamos de memoriais. Temos que lembrar da nossa indignidade e da beleza do 
perdão. Por essa razão, temos o memorial da Ceia do Senhor. É isso o exatamente o que faz a Ceia do 
Senhor: ela nos relembra o dom da vida através da morte de Jesus Cristo. Assim, quando nos 
reunimos para a Ceia, ela utiliza a linguagem da comemoração. 
A LINGUAGEM DA COMUNHÃO (vv. 17-20) 
Paulo disse: "Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para 
melhor, mas para pior" (v. 17). Isso aconteceu, infelizmente, com a igreja de Corinto, que se reunia 
para a indignidade. Que coisa triste, reunirem-se os nossos irmãos para atos indignos! 
Não confundamos as coisas: quando falamos de comunhão, não estamos falando de encontro 
sobrenatural, místico; não estamos dizendo que nos unimos a Jesus Cristo através do Nirvana, como 
querem pregar orientais; não estamos tendo uma visão, não; não é comunicação com um morto como 
querem ensinar por aí, não! 
É por esses erros todos que doutrinas estranhas surgiram ao longo da hist ória da Igreja Cristã. Como a 
transubstanciação, ensinando que no momento em que são pronunciadas as palavras de instituição 
("isso é o meu corpo" e "isso é o meu sangue") que tanto o pão quanto o vinho mudam a sua 
substância, e as suas substâncias tornam-se, respectivamente, a da carne e do sangue de Jesus Cristo! 
O Senhor tenha piedade! Isso não se encontra na Escritura?! A comunhão com Cristo não necessita 
que a substância desses elementos materiais seja mudada. 
O Novo Testamento nos ensina que a Ceia do Senhor é um memorial. Não há comunhão física, ao se 
participar da Ceia do Senhor, entre o homem pecador e o Deus perfeito, mas uma comunh ão 
espiritual, sem dúvida, pela lembrança de Cristo na cruz. 
Ao longo destes quase quarenta anos de ministério da palavra e das ordenanças, tenho me emocionado 
sempre que participo da Ceia Memorial! E cada vez que seguro a côdea de pão, e o parto na frente dos 
participantes, eu me emociono, porque me vem à mente que sou indigno pecador, e que pela graça de 
Deus fui feito Seu filho! Lembro-me, quando tomo esta jarra de vinho, e derramo um pouco no 
cálice, fico com as mãos trêmulas ainda; são 39 anos celebrando a Ceia do Senhor praticamente mês a 
mês (e houve época quando o fiz duas vezes no mês), mas ainda hoje tremo quando tenho na minha 
mente e coração a cena de Jesus Cristo no Calvário, e o Seu sangue escorrendo pelas mãos, pela Sua 
testa, pela face, e pelo tronco da cruz... Sim; há uma comunhão espiritual pela lembrança de Cristo na 
cruz, e pela nossa identificação com essa cruz: a minha cruz, não de Cristo, mas a minha cruz! 
Há uma comunhão entre os crentes, mas não é comunhão-de-cafezinho, porque a Ceia do Senhor não 
é isso! Por isso, Paulo está preocupado, e diz "Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos 
tal costume, nem tampouco as igrejas de Deus. Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; 
porquanto vos ajuntais, não para melhor, mas para pior". Terrível! 
Havia divisões na igreja de Corinto quanto a questões de doutrina. A igreja estava dividida por causa 
de uma doutrina (cf. capítulos 12 e 14); havia divisões por causa de trajes (capítulo 11)?! E depois 
todos queriam se reunir para "tomar cafezinho"?! A Ceia do Senhor não é para isso, não! Porque 
tomamos agora, e se não temos essa impressão profunda, sairemos de novo com a mesma raiva e
280 
amargura do nosso irmão em Jesus Cristo! A conduta dos irmãos de Corinto destruía o propósito da 
igreja, e o propósito da Ceia! O que Paulo está enfatizando aqui é a harmonia da Ceia, a qualidade de 
vida espiritual, é a unidade da igreja, e quando celebramos a Ceia, é isso o que estamos dizendo! 
A LINGUAGEM DA CONSAGRAÇÃO (vv. 27-29) 
Quando celebramos a Ceia usamos essa linguagem. "De modo que qualquer que comer do pão, ou 
beber do cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, 
pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice". Interessante que a Ceia do Senhor 
não torna ninguém melhor. Na verdade, ninguém vai sair melhor porque tomou a Ceia do Senhor. E 
agora o paradoxo: o irmão pode sair pior se tomou a Ceia do Senhor indignamente! É o que Paulo diz, 
por essa razão é dever de cada um solene e seriamente examinar-se sobre quais são os seus interesses 
em Jesus Cristo. Você participou da Ceia só porque os outros iam ver, e você ia ficar com vergonha se 
ficasse sentado e não participasse? Quais são seus propósitos quando se aproxima da Mesa do Senhor? 
Estive lendo sobre a congregação dos levitas e sacerdotes (Números 3 e 4). Fiquei arrepiado! Que 
coisa impressionante a legislação, como eram as normas no acampamento de Israel no deserto: 
somente podiam se aproximar dos móveis os sacerdotes, nem os levitas quer eram os seus auxiliares. 
Quando havia necessidade de desmontar o tabernáculo para ir para outro lugar, os sacerdotes 
entravam, embalavam os móveis, com várias camadas de tecidos (e de cores diferentes para mostrar o 
grau de santidade do objeto), e depois que tudo era embalado, e ninguém via a forma do objeto, os 
levitas pegavam o pacote e faziam o carregamento nos carros de boi para o transporte pelo deserto. E 
sempre é lembrado o seguinte: "e o estranho que se chegar será morto" (Nm 3.10, etc.). Os levitas 
funcionavam, entre outros deveres, como guardas de segurança do tabernáculo. 
A lei não era fácil: era marcial, lei de guerra! O "estranho" não era o pagão, não; era o próprio povo 
de Israel. Só que há uma diferença muito grande: na Igreja Cristã o pastor não é o sacerdote, e os 
outros, o "povão"! Na Igreja de Cristo fomos todos elevados ao sacerdócio, por isso podemos nos 
aproximar dos objetos, da Mesa do Senhor! Mas tem uma coisa: se o irm ão vier à Mesa do Senhor 
com as mãos sujas, "será culpado do corpo e do sangue do Senhor" (1Co 11.27b)! O irmão não sai 
melhor, mas pode sair pior do santuário. 
Então, estou vindo com fé na morte de Jesus Cristo? Vivo diariamente pelo poder da ressurreição de 
Jesus Cristo? São perguntas que tenho que fazer! É Jesus realmente o alimento da minha alma? Sou eu 
um dos Seus, e sou eu um com os Seus? Estou em harmonia, minha vida é digna da comunhão com os 
outros crentes? Permanece a minha aliança com o Deus vivo? Se não conheço a Jesus Cristo, como 
posso me lembrar dEle? 
Por isso que Phillip Henry diz que o crente quando for participar da Ceia deve fazer tr ês perguntas: 
· Que é que eu sou? Filho de Deus, salvo pelo sangue de Jesus? Lavado pelo Seu sangue? 
· Que é que eu tenho feito? Minhas mãos estão limpas, ou manchadas. Meu coração está limpo, ou 
borrado, sujo? · Que é que eu desejo? Quais os meus sonhos e visões, que almejo na Causa de Jesus 
Cristo? 
Então, devemos dar graças a Deus pelo privilégio de termos um diálogo com a Ceia do Senhor, e, 
assim, que venhamos à mesa do Senhor em espírito de comemoração porque essa é a linguagem que 
falamos agora, em comunhão espiritual porque essa é a realidade que vivemos agora, e consagração 
pessoal porque esse é o propósito, o objetivo, o alvo de nossa vida sempre. E lembrando, sobretudo, 
que a Ceia do Senhor não é um funeral (para que cara triste?): a Ceia do Senhor é uma celebração de 
fé, de alegria, de esperança porque nós olhamos para aquele dia! Que o Senhor nos ajude e abençoe! 
O TITANIC E A PREDESTINAÇÃO 
Reverendo professor Antony Steff Gilson de Oliveira 
Presidente da Federação Internacional das Igrejas e Pastores no Brasil ou FENIPE
281 
(JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) 
Homens de todas as tribos sempre gostaram de construir colossos, prédios, pontes, torres, arranha-céus, 
monumentos cada vez maiores. Sejam quais forem os objetivos, essas construções representam 
sinais exteriores de riqueza e poder, produto do orgulho e da vaidade. A primeira materialização 
desse desejo nato ocorreu com a construção da Torre de Babel, com o que pretendiam chegar aos 
céus. Deus não permitiu essa afronta. 
Torre de Babel 
"E disseram [os descendentes de Noé] uns aos outros: Edifiquemos uma cidade e uma torre cujo cume 
toque nos céus e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra" 
(Gênesis 11.4). Desejavam construir uma cidade-império, dominadora, poderosa, única: uma só 
língua, um só governo. Mas Deus não quis que o mundo ficasse sob a direção de um só homem, ou de 
uma elite. Ainda hoje nações econômica e militarmente poderosas esforçam-se por exercer domínio 
sobre o resto do mundo. A intenção de Deus é que haja equilíbrio de forças, equilíbrio nas economias, 
na distribuição de rendas, com oportunidades para todos. Há alguns anos havia duas potências 
mundiais, duas torres de Babel, dirigindo os destinos da humanidade: a antiga União soviética e os 
Estados Unidos. A primeira, desmantelou-se, fragmentou-se o temível império em várias nações 
independentes e autônomas, com suas bandeiras, hinos, cultura, governos. A segunda, os Estados 
Unidos da América, tem pago um preço altíssimo por sua supremacia política, econômica e militar. 
Colosso de Rhodes 
A começar pelas Sete Maravilhas do Mundo Antigo, destacamos "O Colossos de Rhodes", em bronze 
com base de mármore branco, na Ilha de Rhodes, Grécia, com 46 metros de altura. Concluída em 
282 a.C., após doze anos de trabalho, a gigante estátua foi destruída juntamente com a cidade, por um 
forte terremoto, em 226 a.C. 
Estátua de Zeus 
A majestosa "Estátua de Zeus", "deus dos deuses", com quinze metros, feita de marfim e ébano com 
incrustações de ouro e pedras preciosas, em cuja homenagem os Jogos Olímpicos da Antiguidade 
eram festejados. Localizava-se no Templo de Olímpia, na Grécia. A obra foi concluída em 447 a.C. e 
destruída por um incêndio 922 anos mais tarde. 
O Farol de Alexandria 
Monumento dedicado aos deuses salvadores Ptolomeu Soter e sua esposa Berenice. Servia de aux ílio 
aos navegantes. Inaugurado em 270 a.C., na antiga ilha de Faros, agora um promontório na cidade de 
Alexandria no Egito. Durou 1.750 anos. Seriamente danificado por terremotos, foi finalmente 
destruído em 1.480. Esse farol era útil aos navegantes. 
Templo de Ártemis (Diana) 
Esse templo, em homenagem à deusa dos bosques (Ártemis), localizava-se na cidade grega de Efésio, 
na Turquia; foi concluído no ano de 550 a.C. e levou 120 anos para ficar completamente pronto. A
282 
sua altura é desconhecida, mas tinha 80 metros de largura e 130 metros de profundidade. A escultura 
da deusa Ártemis era em ébano, ouro, prata e pedra preta. Durou 194 anos, até ser destruído pelos 
godos. 
Túmulo de Mausoléu 
Com 50 metros de altura, construído em mármore e bronze por Artemísia, viúva de Mausolo, em 
Halicarnasso, Caria, hoje Turquia. A construção durou dez anos e nela trabalharam 30.000 homens. 
Provavelmente, destruído por um terremoto entre os séculos XI e XV. 
Pirâmides do Egito 
Sepulturas dos faraós construídas há mais de 40 séculos na Planície de Gizé, a 15 km do Cairo, capital 
do Egito. As mais célebres são as de Quéops (137,2m), Quéfrem (136,5m) e Mikerinos (66m), 
nomes de três reis (pai filho e neto). Das sete maravilhas da antiguidade somente as pir âmides do 
Egito ainda existem, apesar dos estragos causados pela ação do tempo. Serviram de sepultura dos 
faraós, que acreditavam poder subir até os seus deuses, no céu, se seus corpos fossem assim 
sepultados. As pirâmides continuam sendo objeto de estudos, pois abrigam muitos mistérios. 
Jardins Suspensos da Babilônia 
Segundo uma das versões, os Jardins foram construídos em 605 a.C. por Nabucodonosor II em 
homenagem a sua mulher, Amitis, no sul do Iraque. Outra versão diz que foram construídos por 
Semíramis. Na verdade, eram seis montanhas artificiais, no sul do Rio Eufrates, 50 km ao sul da atual 
Bagdá, Capital do Iraque. Nos terraços, construídos com trabalho escravo, foram plantadas palmeiras 
e flores tropicais, para deleite de seus proprietários. Hoje, não existe qualquer vestígio desses jardins. 
Os homens continuaram dando expansão aos seus desejos de mostrar ao mundo sinais de riqueza, 
poderio militar e econômico. Na era da modernidade, destacam-se os arranha-céus, as grandes 
estruturas. Algumas dessas obras são apreciadas pelo bom gosto de seus idealizadores, pela beleza de 
suas formas; outras, apenas por suas gigantescas proporções. Algumas, necessárias; outras, como na 
Antiguidade, apenas um bem supérfluo, sem nenhuma utilidade prática. Vejamos algumas dessas obras 
dos tempos modernos. 
Torre Eifell 
A Torre Eifell de Paris, conhecida como "A Dama de Ferro", 10.100 toneladas, 320 metros de altura, 
incluindo a antena, duas vezes mais alta do que a grande pirâmide do Egito, foi construída em alguns 
meses, em 1889, e consumiu 15.000 barras de ferro. Seu nome é uma homenagem ao engenheiro 
civil francês Gustave Alexandre Eifell, projetista e construtor da obra. 
O Muro de Berlim 
A construção do Muro de Berlim, de 155 quilômetros, que separava Berlim Ocidental de Berlim 
Oriental, iniciou-se em 13 de agosto de 1961, e começou a ser derrubado a partir de 9 de novembro 
de l989, quando pela primeira vez, em 28 anos, os cidadãos da antiga União Soviética puderam visitar 
seus irmãos do lado ocidental e democrático. A queda do Muro, símbolo da guerra fria e da divisão do
283 
mundo em duas potências antagônicas, marcou a falência do sistema comunista soviético. Dados 
revelam que durante a existência do "Muro da Vergonha", como ficou conhecido, 75.000 alemães 
foram presos, e 809 mortos durante tentativa de atravessar na direção oriente-ocidente. 
Empire State Building 
Com 381 metros de altura. Em 1950 foi colocada na estrutura uma antena de televisão de 67 metros, 
fazendo com que a altura total do edifício atingisse 448 metros. O Empire State continuou sendo o 
prédio mais alto do mundo até 1971, quando foi terminada a primeira torre do World Trade Center, 
também em Nova York. Com a destruição das torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001, por atos 
terroristas, o Empire voltou a ser o mais alto edifício do mundo. 
World Trade Center 
As torres gêmeas de Nova York - Com uma altura, cada uma, de 411 metros, com 110 andares, 
simbolizavam, em Nova York, o poder econômico da mais poderosa nação do mundo, os Estados 
Unidos da América. Superava o Empire State Building, com 381 metros, sem a antena. Ter ça-feira, 
11 de setembro de 2001, uma data que jamais será esquecida, essas torres foram destruídas, deixando 
um saldo de 2.823 vítimas, trinta por cento das quais jamais poderão ser identificadas, tamanho o 
calor da explosão do combustível nos aviões utilizados pelos seqüestradores. 
Titanic 
Repousa no Oceano Atlântico, a 4.126 metros de profundidade, desde a madrugada do dia 
15.04.1912, o que restou das 46,329 toneladas do navio Titanic, 270 metros de comprimento, 28 
metros de largura, o "Navio dos Sonhos", o "Palácio Flutuante". Sua construção foi concluída em 
maio de 1911, em que foram empregados os mais modernos sistemas de segurança, ao custo de 400 
milhões de dólares. Antes de iniciar sua viagem inaugural da Inglaterra para Nova York, algu ém teria 
feito um infeliz prognóstico: "Nem Deus afunda o Titanic". Não desejamos concluir, e não podemos 
fazê-lo, que Deus foi o autor da tragédia. Mas asseguramos com certeza que bastou a ponta de um 
iceberg para nocautear o gigante, e fazer naufragar com ele 1.522 almas. 
A maioria dessas obras gigantescas, a começar pela Torre de Babel, caiu por terra. Muitas delas foram 
produto da vaidade humana, uma vaidade que exige demonstração pública de poder e riqueza. Nos 
tempos modernos, há uma corrida entre nações ricas para ver quem constrói torres cada vez mais 
elevadas, complexos comerciais cada vez maiores. A verticalização dos edifícios comerciais decorre, 
também, de uma exigência do mercado imobiliário, considerando as limitações de espaços nas grandes 
metrópoles. Contudo, por trás dessa imperiosa necessidade de ampliação dos espaços para atender a 
demanda, há o desejo de colocar o nome da empresa, da família, da nação num lugar bem alto, mais 
alto do que todos, para que todos vejam, admirem, reverenciem, aplaudam. 
Noventa anos separam o naufrágio do navio Titanic, no Oceano Atlântico, da tragédia do World 
Trade Center, em Nova York, e milhares de anos separam estes da Torre de Babel. Tais fatos 
revelam-nos que não há um só lugar completamente seguro em nosso planeta. Por isso devemos fazer 
tudo para glória de Deus, porque "se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela" (Salmos 
127.1). Os homens têm construído casas e edifícios com todos os requisitos de segurança: portas de 
aço, guardas, sistema de alarme, grades de fero, cães amestrados, mas se esquecem de fazer um 
seguro para a vida eterna; temem os que podem matar o corpo e não podem matar a alma, mas não
284 
temem Aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo (Mt 10.28). 
Resgato a imagem do Titanic para ajudar numa outra reflexão. Há muitos séculos fazemos a seguinte 
pergunta: o crente pode perder a salvação? E há muitos séculos uns dizem que pode, outros, que não 
pode. De um lado, os que consideram a salvação imperdível; do outro, os que consideram 
plenamente possível o cair da graça. Vejamos um resumo dessas doutrinas. 
CALVINISMO - Sistema teológico elaborado pelo teólogo francês João Calvino (1509-1564). Os 
pontos fundamentais do seu ensino são: 
(1) Depravação total: Os homens nascem depravados, não lhes sendo possível, nesse estado, escolher 
o caminho da salvação. 
(2) Eleição incondicional - Somos escolhidos por Deus para salvação, independente de qualquer 
mérito de nossa parte. 
(3) Graça irresistível - Os escolhidos não resistirão à graça salvadora do Criador, em razão da atuação 
do Espírito Santo, convencendo-os do pecado. 
(4) Expiação limitada aos eleitos - O alto preço do resgate, pago por Jesus na cruz, alcançou apenas os 
eleitos. 
(5) Perseverança dos crentes - Nenhum dos eleitos perderá a salvação; irão perseverar até o fim, pois 
estão predestinados ao céu desde a fundação do mundo. Em resumo, o movimento teológico 
calvinista defende a absoluta soberania de Deus, e a exclusão do livre-arbítrio. Deus concede aos 
eleitos graça eficaz e irresistível, que permite ao homem continuar perseverante por toda a vida. 
ARMINIANISMO - Sistema teológico formulado pelo teólogo holandês Jacobus Arminius (1560- 
1609), em oposição à doutrina calvinista da predestinação, assim exposto: 
1) Livre-arbítrio - Deus concedeu ao homem a capacidade de aceitar ou recusar a salvação que lhe é 
oferecida. 
2) Eleição condicional - Deus elege ou reprova com base na fé ou na incredulidade em Jesus Cristo. 
3) Expiação ilimitada - Cristo morreu por todos, e não somente pelos eleitos. 
4) Graça resistível - É possível ao homem rejeitar a Graça de Deus e, em conseqüência, perder a 
salvação. 
5) Decair da Graça - Os salvos podem perder a salvação se não perseverarem até o fim. 
Agora, tomemos por empréstimo a imagem do Titanic para melhor compreendermos a eleição 
incondicional e prévia dos salvos, a restrição ao acesso da cruz de Cristo, por um lado; e por outro, o 
livre-arbítrio, a eleição condicional, o acesso à cruz a todos os que aceitarem o Evangelho. A vida aqui 
na terra é uma viagem inaugural que tem começo e fim. O homem está avariado pelo iceberg do 
pecado; se continuar no mesmo rumo, sem mudar de atitude, sem mudar a rota, fatalmente ser á
285 
destroçado. 
Em determinado momento, um enorme navio, o navio dos predestinados, mais belo e mais possante, 
baixa âncoras junto ao Titanic dos condenados. O Comandante, de posse de um potente megafone, 
anuncia que está ali para salvar vidas. Imediatamente, com auxílio de roldanas, faz descer uma enorme 
prancha de madeira em forma de cruz, a fim de permitir o acesso dos condenados ao navio da 
predestinação. "Venham! Venham, meus escolhidos; aqui encontrarão descanso para suas almas", diz 
o Comandante. 
A água, que inicialmente invadira cinco dos 16 compartimentos estanques, agora toma conta das 
fornalhas, invade os alojamentos da terceira classe e faz submergir um ter ço da proa. As 1.954 janelas 
com vidro vão-se quebrando pouco a pouco, e os estilhaços provocam profundos ferimentos nas 
pessoas. Ao ouvirem o chamado, nem todos atendem. São os que ainda alimentam vãs esperanças, um 
bom número corre para iniciar a travessia. Todavia, ouvem uma ordem: "Não! Não venham todos! Só 
os escolhidos poderão passar por essa cruz. Por alto preço os comprei. Minha cruz não suporta o peso 
de tantas vidas, e o meu barco tem capacidade limitada". 
Então, o Comandante foi chamando um a um pelo nome; "Pedro, Wagner, Marcos, Marcelo, 
Norberto, venham, vocês são os meus escolhidos desde o começo, desde a partida do navio do porto 
de Southampton, na Inglaterra, no dia 10 de abril". E assim, os devidamente chamados e previamente 
escolhidos, fizeram a travessia, e agora estavam fora de perigo no barco da predestinação. 
Um dos salvos, já acomodado no navio dos eleitos, perguntou: "O Senhor deixará morrer aqueles?". 
E ouviu a seguinte explicação: 
"Meu bom eleito. Aqueles que agora descem às águas profundas já estavam condenados de há muito. 
Com você e com todos que estão aqui comigo usei de misericórdia, porque uso de misericórdia com 
quem quero. Com aqueles usei de justiça. Agora você sabe que uso de justiça e de misericórdia. Eu 
não os afoguei; eles é que se afogaram em suas iniqüidades". 
O predestinado ainda tentou conseguir mais explicação, mas o Comandante cortou a conversa, 
categórico. Olhou-o nos olhos, colocou a mão sobre seu ombro, e disse: "É a minha Soberania, filho, 
a minha Soberania". 
Em seguida, o Comandante deu partida ao enorme navio, rumo a um porto seguro. Os eleitos ainda 
tiveram tempo de olhar para trás e ver o Titanic partir-se ao meio, ficar com a popa na vertical e 
iniciar seu sinistro caminho nas águas geladas, rumo às fossas abissais. 
Numa outra versão, o navio da predestinação se aproxima do Titanic; a cruz é estendida, e o 
Comandante convida todos, e todos os que ouviram e aceitaram o convite ficam perfilados e come ça a 
travessia. "Venham todos - diz o Comandante. Todos serão acolhidos no meu navio. Minha cruz 
suporta o peso de todas as almas, as quais resgatei por alto preço. Usarei de justiça com os que 
rejeitarem o meu convite, mas com misericórdia com os que atravessarem essa cruz. No meu navio 
vocês estarão predestinados à salvação. Venham, benditos; todos os que vierem são meus eleitos. O 
navio em que vocês estão está avariado, prestes a afundar. É o tempo do fim. Coloco diante de vocês 
o caminho estreito e difícil da cruz. Não será fácil a travessia. Os ventos são contrários, mas eu lhes 
sou favorável; tenham os olhos fixos em mim; não olhem para trás; cada passo à frente é uma
286 
conquista; venham! Muitos já chegaram até aqui; não desanimem; prossigam". 
Um dos salvos, indagou: "Comandante, por que ficaram aqueles?". O Comandante respondeu: 
"Porque não deram ouvidos ao meu chamado. Aquele navio carrega muito ouro, prazeres e fantasias. 
O coração deles está nessas coisas. Usam do direito do livre-arbítrio para recusar a minha oferta de 
salvação. Com vocês, manifestei a minha misericórdia; com eles, minha justiça". 
A água, depois de invadir as 159 fornalhas, chegou à primeira classe, a dos milionários. Caem as 
quatro chaminés de 19 metros. Diante da situação incontrolável e da iminente morte, ecoam gritos de 
desespero na escuridão. O gigante Titanic, nome dado em homenagem aos titãs da mitologia grega, 
partido ao meio e vencido, aponta sua popa na posição vertical, como que olhando de joelhos para o 
céu, e logo depois desaparece nas águas geladas. 
O quadro apresentado revela no primeiro instante a posição calvinista da expiação limitada de Jesus, 
em que apenas os previamente eleitos serão salvos. O segundo quadro representa a posição oposta, o 
da expiação ilimitada, em que todos podem obter a graça da salvação. 
Os Sacramentos no Breve Catecismo de Westminster 
Reverendo professor Diego Roberto 
Escola Missionaria Voz no Deserto 
(JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) 
Elaborado no século XVII pela famosa Assembléia de Westminster (Inglaterra), o Breve Catecismo 
forma, juntamente com o Catecismo Maior e a Confissão de Fé de Westminster, a tríade teológica 
dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das igrejas reformadas e presbiterianas. 
Segundo o Breve Catecismo, o que é um sacramento? De que maneira ele se torna eficaz para a salvação? 
Quantos e quais são os sacramentos do Novo Testamento? Para muitos evangélicos é provável que não 
haja dificuldade em responder essas perguntas. Mas para outros é possível existir uma vaga lembrança 
acerca do presente tema ou, até mesmo, desconhecimento total. Os sacramentos não devem ser vistos 
como mera formalidade pública. Estudá-los (e principalmente vivenciá-los) é uma das tarefas mais 
gratificantes e enriquecedoras que possa existir. 
Portanto, o estudo dos sacramentos deve ser feito no intuito de crescermos na gra ça e no 
conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (cf. 2Pe 3.18). Que o Esp írito de Deus nos 
oriente nesse sentido. 
Definição, importância e bênçãos dos sacramentos 
Muitas definições poderiam ser dadas sobre um sacramento, mas nenhuma é tão direta e objetiva 
quanto a definição do Breve Catecismo: "Um sacramento é uma santa ordenança, instituída por Cristo, 
na qual por sinais sensíveis, Cristo e as bênçãos do novo pacto são representados, selados e aplicados 
aos crentes" (Resposta 92). As referências bíblicas que sustentam a excelente definição do Breve 
Catecismo são: Mateus 26.26-28; 28.19; Romanos 4.11, dentre outras. 
A importância do sacramento está no fato de ser "uma santa ordenança, instituída por Cristo".
287 
Indubitavelmente a Palavra de Deus é o mais importante meio de graça, porém, não podemos 
subestimar ou diminuir o valor de um sacramento, visto que foi o próprio Deus quem instituiu os dois 
(a Palavra e os sacramentos) como meios de graça. Além disso, Cristo é o conteúdo central tanto da 
Palavra quanto dos sacramentos. Um e outro devem ser recebidos pela fé. E receber a Palavra de 
Deus e os sacramentos pela fé é, segundo Berkhof, "o único modo no qual o pecador pode chegar a 
ser participante da graça que nos é oferecida na Palavra e nos sacramentos". O sacramento, além de 
ser um privilégio do crente, é um meio de bênçãos espirituais. É por isso que a negligência voluntária 
dos sacramentos, por parte do crente, resulta em sérios prejuízos espirituais, conforme 1Coríntios 
11.29,30. De que maneira somos beneficiados pelos sacramentos? O Breve Catecismo nos ensina que 
"por sinais sensíveis, Cristo e as bênçãos do novo pacto são representados, selados e aplicados aos 
crentes". Segundo Agostinho (354-430), os elementos sensíveis dos sacramentos são "sinais visíveis de 
uma graça invisível", pois representam a purificação espiritual (At 22.16) que na realidade é feita no 
sangue de Cristo (1Jo 1.7), o sacrifício remidor. Selam a nossa união e vivificação com Cristo. 
Aplicam as bênçãos da promessa de pertencermos ao Senhor e nos sustentam, alimentando-nos de 
Cristo. 
A eficácia dos sacramentos 
"Como se tornam os sacramentos meios eficazes para a salvação? Os sacramentos tornam-se meios 
eficazes para a salvação, não por alguma virtude que eles ou aqueles que os ministram tenham, mas 
somente pela bênção de Cristo e pela obra do seu Espírito naqueles que pela fé os recebem" (Pergunta 
e Resposta 91, cf. 1Pe 3.21; Rm 2.28,29; 1Co 12.13; 10.16,17). 
Veja que antes de dizer em que consiste a eficácia dos sacramentos, o Breve Catecismo é cuidadoso ao 
nos informar sobre o que não torna os sacramentos eficazes. Em primeiro lugar, os elementos 
sensíveis ou visíveis dos sacramentos não têm, em si mesmos, virtude ou poder algum. Sem dúvida a 
Assembléia de Westminster tinha católicos e luteranos em mente quando fez a afirmação acima. 
Porque ambos (católicos e luteranos) defendem, quanto ao batismo, a chamada "regeneração 
batismal", atribuindo poder regenerador à água do batismo. Quanto à ceia do Senhor, os primeiros 
falam de uma "transubstanciação", isto é, uma transformação do pão em carne de Cristo e do vinho 
em sangue de Cristo. Os luteranos, mais amenos, mas também anti-bíblicos, enfatizam uma 
"consubstanciação", isto é, ensinam que os elementos da ceia não se transformam em substâncias de 
carne e sangue, porém, Cristo está com e nos elementos da ceia, humanamente glorificado. 
Em segundo lugar, a eficácia dos sacramentos também não está na virtude daqueles que os ministram 
(ex: os pastores). Para os católicos romanos, que consideram o batismo absolutamente essencial para a 
salvação, é cruel fazer a salvação de alguém depender da presença ou ausência acidental de um 
sacerdote; então, permitem em caso de emergência que outros batizem, particularmente as parteiras. 
Nós evangélicos consideramos válido um batismo quando é celebrado por um pastor devidamente 
credenciado. Mas nem por isso a eficácia do batismo depende do pastor, propriamente dito. Os 
sacramentos tornam-se meios eficazes para a salvação "somente pela benção de Cristo e pela obra do 
seu Espírito naqueles que pela fé os recebem" (Resposta 91). E assim os sacramentos fortalecem, 
confirmam e aumentam a nossa fé e dão testemunho de nossa religião perante os homens. 
Os sacramentos do Novo Testamento 
Quando se fala em sacramentos do Novo Testamento, subentende-se que há também os sacramentos
288 
do Antigo Testamento. Os sacramentos do velho Testamento foram a páscoa e a circuncisão. "Os 
sacramentos do Novo Testamento são o Batismo e a Ceia do Senhor" (Resposta 93, cf. At 10.47,48; 
1Co 11.23-26). A igreja romana aumentou, de maneira injustificada, o número dos sacramentos para 
sete. Além dos que foram instituídos por Cristo acrescentaram a confirmação, a penitência, as ordens, 
o matrimônio e a extrema-unção. As igrejas evangélicas não reconhecem os sacramentos de Roma, 
porque não existe ordem expressa do Senhor para a prática dos mesmos como sacramentos. 
Por exemplo: O crente pode casar-se, mas não recebeu uma ordem de Cristo, através do Evangelho, 
para se casar. E embora o matrimônio tenha sido instituído por Deus, não tem a finalidade de ser um 
meio de graça. O sacramento verdadeiro exige uma cerimônia externa, ordenada por Cristo para 
confirmação de alguma promessa. 
Devemos entender que entre os sacramentos do Antigo e Novo Testamentos existe uma diferença 
gradual, mas nunca essencial. Quanto à unidade essencial dos sacramentos do Antigo e Novo 
Testamentos, veja o testemunho do apóstolo Paulo em Romanos 4.11; 1Coríntios 5.7; 10.1-4 e 
Colossenses 2.11. 
A diferença entre os sacramentos do Antigo e do Novo Testamentos é apenas em grau porque 1) os 
sacramentos do Antigo Testamento tiveram um caráter nacional, apesar de sua significação espiritual; 
2) apontavam para frente, para Cristo, e eram selos de uma graça que ainda seria adquirida, enquanto 
que os sacramentos do Novo Testamento apontam para trás, para Cristo, e para Sua obra consumada; 
3) os sacramentos do Novo Testamento transmitem aos crentes uma medida mais rica de gra ça 
espiritual. 
Aplicação 
Qual a aplicação prática dos sacramentos para a nossa vida? Coates interpreta bem o Breve Catecismo 
quando diz: "Os sacramentos, quando administrados de conformidade com os princípios estabelecidos 
nas Escrituras, nos fazem relembrar continuamente a grande base de nossa salvação, a saber, Jesus 
Cristo em Sua morte e ressurreição, e nos fazem lembrar as obrigações que temos de andar de modo 
digno da chamada mediante a qual fomos chamados". 
Perguntas Para Recapitulação 
1. Que bênçãos os crentes recebem através dos sacramentos? 
2. De que maneira os sacramentos tornam-se meios eficazes para a salvação? 
3. Em quê os sacramentos do AT e NT são iguais? Em quê são diferentes? 
Os Sacramentos no Breve Catecismo de Westminster - I (Considerações Gerais) 
Reverendo professor Diego Roberto 
Escola Missionaria Voz no Deserto 
(JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) 
Elaborado no século XVII pela famosa Assembléia de Westminster (Inglaterra), o Breve Catecismo 
forma, juntamente com o Catecismo Maior e a Confissão de Fé de Westminster, a tríade teológica 
dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das igrejas reformadas e presbiterianas.
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Segundo o Breve Catecismo, o que é um sacramento? De que maneira ele se torna eficaz para a 
salvação? Quantos e quais são os sacramentos do Novo Testamento? Para muitos evangélicos é 
provável que não haja dificuldade em responder essas perguntas. Mas para outros é possível existir 
uma vaga lembrança acerca do presente tema ou, até mesmo, desconhecimento total. 
Os sacramentos não devem ser vistos como mera formalidade pública. Estudá-los (e principalmente 
vivenciá-los) é uma das tarefas mais gratificantes e enriquecedoras que possa existir. Portanto, o 
estudo dos sacramentos deve ser feito no intuito de crescermos na graça e no conhecimento de nosso 
Senhor e Salvador Jesus Cristo (cf. 2Pe 3.18). Que o Espírito de Deus nos oriente nesse sentido. 
Definição, importância e bênçãos dos sacramentos 
Muitas definições poderiam ser dadas sobre um sacramento, mas nenhuma é tão direta e objetiva 
quanto a definição do Breve Catecismo: "Um sacramento é uma santa ordenança, instituída por 
Cristo, na qual, por sinais sensíveis, Cristo e as bênçãos do novo pacto são representados, selados e 
aplicados aos crentes" (Resposta 92). As referências bíblicas que sustentam a excelente definição do 
Breve Catecismo são: Mateus 26.26-28; 28.19; Romanos 4.11, dentre outras. A importância do 
sacramento está no fato de ser "uma santa ordenança, instituída por Cristo". 
Indubitavelmente a Palavra de Deus é o mais importante meio de graça, porém, não podemos 
subestimar ou diminuir o valor de um sacramento, visto que foi o próprio Deus quem instituiu os dois 
(a Palavra e os sacramentos) como meios de graça. 
Cristo é o conteúdo central tanto da Palavra quanto dos sacramentos. E do modo como recebemos a 
Cristo em nosso coração pela fé, assim devemos receber a Palavra e os sacramentos. E receber a 
Palavra de Deus e os sacramentos pela fé é, segundo Berkhof, "o único modo no qual o pecador pode 
chegar a ser participante da graça que nos é oferecida na Palavra e nos sacramentos". [1]. 
O sacramento, além de ser um privilégio do crente, é um meio de bênçãos espirituais. É por isso que 
a negligência voluntária dos sacramentos, por parte do crente, resulta em sérios prejuízos espirituais, 
conforme 1Coríntios 11.29,30. 
De que maneira somos beneficiados pelos sacramentos? O Breve Catecismo nos ensina que "por sinais 
sensíveis, Cristo e as bênçãos do novo pacto são representados, selados e aplicados aos crentes". 
Segundo Agostinho (354-430), os elementos sensíveis dos sacramentos são "sinais visíveis de uma 
graça invisível", pois representam a purificação espiritual que é feita no sangue de Cristo, o sacrifício 
remidor (cf. At 22.16; 1Jo 1.7). Os sacramentos selam a nossa união e vivificação com Cristo. 
Aplicam as bênçãos da promessa de pertencermos ao Senhor e nos sustentam, alimentando-nos de 
Cristo. 
A eficácia dos sacramentos 
"Como os sacramentos se tornam meios eficazes para a salvação? Os sacramentos tornam-se meios 
eficazes para a salvação, não por alguma virtude que eles ou aqueles que os ministram tenham, mas 
somente pela bênção de Cristo e pela obra do seu Espírito naqueles que pela fé os recebem" (Pergunta 
e Resposta 91; cf. 1Pe 3.21; Rm 2.28,29; 1Co 12.13; 10.16,17).
290 
Veja que antes de dizer em que consiste a eficácia dos sacramentos, o Breve Catecismo é cuidadoso ao 
nos informar sobre o que não torna os sacramentos eficazes. Em primeiro lugar, os elementos 
sensíveis ou visíveis dos sacramentos não têm, em si mesmos, virtude ou poder algum. 
Sem dúvida a Assembléia de Westminster tinha católicos e luteranos em mente quando fez a 
afirmação acima. Porque ambos (católicos e luteranos) defendem, quanto ao batismo, a chamada 
"regeneração batismal", atribuindo poder regenerador à água do batismo. Quanto à ceia do Senhor, 
os primeiros falam de uma "transubstanciação", isto é, uma transformação do pão em carne de Cristo 
e do vinho em sangue de Cristo. Os luteranos, mais amenos, mas não menos equivocados, enfatizam 
uma "consubstanciação", isto é, ensinam que os elementos da ceia não se transformam em substâncias 
de carne e sangue, porém, Cristo está com e nos elementos da ceia, humanamente glorificado. 
Em segundo lugar, a eficácia dos sacramentos também não está na virtude daqueles que os ministram 
(ex: os pastores). Para os católicos romanos, que consideram o batismo absolutamente essencial para a 
salvação, é cruel fazer a salvação de alguém depender da presença ou ausência acidental de um 
sacerdote; então, permitem em caso de emergência que outros batizem, particularmente as parteiras. 
Nós evangélicos consideramos válido um batismo quando é celebrado por um ministro devidamente 
credenciado. Mas a eficácia do batismo não está nele e não depende dele. Os sacramentos tornam-se 
meios eficazes para a salvação "somente pela benção de Cristo e pela obra do seu Espírito naqueles 
que pela fé os recebem" (Resposta 91). E assim os sacramentos fortalecem, confirmam e aumentam a 
nossa fé e dão testemunho de nossa religião perante os homens. 
Os sacramentos do Novo Testamento 
Quando se fala em sacramentos do Novo Testamento, subentende-se que há também os sacramentos 
do Antigo Testamento. Os sacramentos do Velho Testamento foram a páscoa e a circuncisão. "Os 
sacramentos do Novo Testamento são o Batismo e a Ceia do Senhor" (Resposta 93, cf. At 10.47,48; 
1Co 11.23-26). A igreja romana aumentou, de maneira injustificada, o número dos sacramentos para 
sete. Além dos que foram instituídos por Cristo acrescentaram a confirmação, a penitência, as ordens, 
o matrimônio e a extrema-unção. As igrejas evangélicas não reconhecem os sacramentos de Roma, 
porque não existe ordem expressa do Senhor para a prática dos mesmos como sacramentos. Por 
exemplo: O crente pode casar-se, mas não recebeu uma ordem de Cristo, através do Evangelho, para 
se casar. E embora o matrimônio tenha sido instituído por Deus, não tem a finalidade de ser um meio 
de graça. O sacramento verdadeiro exige uma cerimônia externa, ordenada por Cristo para 
confirmação de alguma promessa. 
Devemos entender que entre os sacramentos do Antigo e Novo Testamentos existe uma diferença de 
grau e não de essência. Os sacramentos do Antigo Testamento tiveram um caráter nacional, apesar de 
sua significação espiritual. Apontavam para frente, para Cristo, e eram selos de uma graça que ainda 
seria adquirida; enquanto que os sacramentos do Novo Testamento apontam para tr ás, para Cristo, e 
para Sua obra consumada. Os sacramentos do Novo Testamento transmitem aos crentes uma medida 
ainda mais rica de graça espiritual. [2]. 
Qual a aplicação prática dos sacramentos para a nossa vida? Coates interpreta bem o pensamento do 
Breve Catecismo quando diz: "Os sacramentos, quando administrados de conformidade com os 
princípios estabelecidos nas Escrituras, nos fazem relembrar continuamente a grande base de nossa 
salvação, a saber, Jesus Cristo em Sua morte e ressurreição, e nos fazem lembrar as obrigações que
291 
temos de andar de modo digno da chamada mediante a qual fomos chamados". [3]. 
NOTAS 
[1] Louis Berkhof, Teología Sistemática. 7a ed. Mexico: La Antorcha , 1987, p. 736. [2] Quanto à 
unidade essencial dos sacramentos do Antigo e Novo Testamentos, veja o testemunho do ap óstolo 
Paulo em Romanos 4.11; 1Coríntios 5.7; 10.1-4 e Colossenses 2.11. [3] R. J. Coates, Sacramentos. 
In: O Novo Dicionário da Bíblia. Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 1435. 
Os Sacramentos no Breve Catecismo de Westminster - II 
(O Batismo) 
Reverendo professor Diego rOberto 
Escola Missionaria Voz no Deserto 
(JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) 
Elaborado no século XVII pela famosa Assembléia de Westminster (Inglaterra), o Breve Catecismo 
forma, juntamente com o Catecismo Maior e a Confissão de Fé de Westminster, a tríade teológica 
dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das igrejas reformadas e presbiterianas. 
O que é o batismo cristão e qual o modo correto de aplicá-lo? Que critérios são utilizados para se 
batizar adultos e crianças? De acordo com o Breve Catecismo, "Batismo é um sacramento no qual o 
lavar com água em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo significa e sela a nossa união com Cristo, 
a participação das bênçãos do pacto da graça, e a promessa de pertencermos ao Senhor" (Resposta 94; 
cf. Mt 28.19; Jo 3.5; Rm 6.1-11; Gl 3.27). 
Quanto ao modo ou forma de batismo 
A forma de batismo indicada pelo Breve Catecismo é "o lavar com água". O uso da preposição "com" 
ao invés de "em" significa que por "lavar" o Breve Catecismo não quer dizer "banhar-se" ou 
"imergir". Pelo contrário, a preposição "com" é utilizada propositalmente para reafirmar o batismo 
por aspersão ou efusão. O que significa dizer, em outras palavras, que "Não é necessário imergir o 
candidato na água, mas o batismo é corretamente administrado derramando ou aspergindo água sobre 
a pessoa".[1]. O entendimento da expressão "lavar com água" no Breve Catecismo fica ainda mais 
claro quando vemos o que a Bíblia diz sobre batismo. 
Nas Escrituras o verbo grego baptízo (batizar) não é um verbo de movimento, por isso geralmente é 
usado com a preposição grega en (dativo instrumental), denotando meio ou método, podendo 
significar "com", "por" ou "em". Raras vezes é usado com a preposição eis, que indica movimento 
(1Co 10.2; Gl 3.27). Essa preposição significa "para dentro de", "para". Se o sentido original do 
termo fosse realmente "imergir", era de se esperar que a preposição usada fosse eis, a indicativa de 
movimento. Isso, porém, não é o que ocorre. 
O verbo baptízo vem de bápto, cujo sentido predominante é "tingir". O sentido de "imergir" vem da 
implicação de se submergir ou envolver completamente no líquido para o tingimento. Daí vem 
também a idéia de "purificar", que é o resultado da ação de "lavar" ou "tingir". No seu uso clássico 
baptízo significa a) lavar um objeto por mergulhá-lo em água ou qualquer outro líquido, para qualquer 
fim; b) a submersão ou afundamento de algum objeto; c) a cobertura de um objeto pelo 
derramamento de qualquer líquido sobre ele - daí o uso metafórico de "estar oprimido" ou "coberto",
"inundado (de problemas)"; d) molhar (ensopar) completamente um objeto, quer por imersão ou por 
aspersão. Pelo uso clássico, portanto, não se pode fixar o modo pelo qual o "batismo" é realizado, isto 
é, como é que o elemento batizante é aplicado ao objeto batizado. 
292 
Tudo o que é indicado é que o primeiro está intimamente em contato com o segundo, ou que o 
segundo está inteiramente no primeiro. 
Na Septuaginta (LXX) o verbo baptízo ocorre apenas quatro vezes. Duas vezes nos canônicos (2 Rs 
5.14; Is 21.4) e duas nos apócrifos (Judite 12.7; Eclesiástico 34.30). Nestes dois últimos usos o 
sentido é apenas o de "lavar", sem indicação de qualquer método. Em Números 19.19,20, porém, 
lemos que essa purificação ou "lavagem" não era feita por imersão, mas por aspersão primeiro, e 
depois, um banho (verbo lúo). A água purificadora era aspergida (cf. Ez 36.25). No grego da LXX, 
portanto, baptízo significa "submergir", "banhar", "estar tomado de". Nunca é usado no sentido de 
descrever o ato de alguém mergulhar um objeto ou uma pessoa em qualquer líquido. 
No Novo Testamento a preposição eis mantém seu sentido próprio, indicando a finalidade pela qual 
uma coisa é feita. Assim, "ser batizado para Moisés" significa ser batizado com o propósito de tornar-se 
sujeito à lei de Moisés. Ser batizado para Cristo significa ser batizado com o propósito de se tornar 
um verdadeiro seguidor de Cristo. 
Em suma, no uso grego clássico o verbo baptízo pode significar "imergir", "molhar", "estar possuído 
de". No uso bíblico significa geralmente "purificar" pela aplicação de água. O método de aspersão está 
ligado às purificações dos judeus, que eram feitas através da aspersão ou borrifamento de água (Is 
52.13; Ez 36.25; Hb 9.10,13,14;). Também o modo como as influências do Espírito são descritas 
como "descendo" sobre as pessoas, está mais de acordo com o "derramamento" como modo de 
administração do batismo, uma vez que representa ou é sinal dessas influências.[2]. 
Quanto à fórmula e significado do batismo 
O batismo deve ser feito "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (Resposta 94; cf. Mt 28.19). 
Em Mateus 28.19 a preposição grega eis (na expressão eis to onoma = em nome), indica finalidade e 
pode ser interpretada como "em relação a", ou "na profissão de fé em alguém e na sincera obediência 
a alguém". A palavra onoma (nome) é usada no mesmo sentido do hebraico shem como indicativo de 
todas as qualidades por meio das quais Deus se dá a conhecer, e que constitui a soma total de tudo o 
que Ele é para quem o adora. A fórmula batismal indica que mediante o batismo (isto é, mediante 
tudo o que o batismo significa) aquele que o recebe encontra-se em uma relação especial com 
Deus.[3]. 
Quanto ao seu significado, o batismo é um sacramento do Novo Testamento, instituído por Jesus 
Cristo (Mt 28.19; Mc 16.16) não só para admitir na igreja visível a pessoa batizada (1Co 12.13; Gl 
3.27,28), mas também para que seja para ela um sinal e selo do pacto da graça (Rm 4.11; Cl 
2.11,12), de sua união com Cristo (Rm 6.5; Gl 3.27), de sua regeneração (Tt 3.5), da remissão de 
seus pecados (Mc 1.4; At 2.38; 22.16) e de sua submissão a Deus por meio de Jesus Cristo para andar 
em novidade de vida (Rm 6.3,4).[4]. O batismo deve representar a morte completa como de uma pessoa que foi 
sepultada; mas, também, deve representar uma vida inteiramente nova, como de alguém que venha da ressurreição. 
Convém salientar que tanto em Romanos 6.4 quanto em Colossenses 2.12, Paulo não trata de um
293 
batismo com água (como parece entender a maioria dos imersionistas), mas de um batismo espiritual 
representado desta maneira, isto é, representa, como já foi mencionado, o novo nascimento sob a 
figura de sermos sepultados (morrer para o pecado) e ressuscitados (viver para Cristo). 
Quanto aos objetos do batismo 
"A quem o batismo deve ser ministrado? O batismo não deve ser ministrado àqueles que estão fora da 
igreja visível, enquanto não professarem sua fé em Cristo e obediência a ele, mas os filhos daqueles 
que são membros da igreja visível devem ser batizados" (Pergunta e Resposta 95, cf. Gn 17.7-14; At 
2.38,39; 18.8; 1Co 7.14). 
Depois da extraordinária pregação evangelística de Pedro no dia de Pentecostes (At 2.14-36), Lucas 
relata a reação dos ouvintes assim: "Ouvindo eles estas cousas, compungiu-se-lhes o coração e 
perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos?" (At 2.37). Pedro diz que o 
critério para serem recebidos como filhos de Deus deveria ser o arrependimento de pecados e o 
batismo como evidência externa do arrependimento. De acordo com o Breve Catecismo, ninguém 
pode ser batizado enquanto não professar sua fé em Cristo e obediência a Ele. O batismo exige a 
pública profissão de fé. 
Mas se para alguém ser batizado é necessário primeiro professar a fé, então por que as igrejas 
presbiterianas batizam crianças? O Breve Catecismo responde parcialmente essa pergunta assim: "... os 
filhos daqueles que são membros da igreja visível devem ser batizados" (Resposta 95). 
Talvez o primeiro passo para se compreender porque as crianças devem ser batizadas, é respondendo 
a pergunta: Por que os adultos são batizados? É porque são estranhos ao pacto da graça e somente o 
arrependimento de seus pecados e o selo do batismo introduzem-nos dentro do pacto. Os filhos de 
pais crentes já estão naturalmente dentro do pacto. O batismo é o sinal e selo externo desse pacto. O 
batismo é "um sinal da aliança (como a circuncisão, mas sem derramamento de sangue) e, portanto, 
um sinal da obra de Deus realizada a nosso favor, que antecede e possibilita nossa pr ópria atuação 
correspondente".[5]. Por isso, "Enquanto houver oração no Espírito e uma disposição de pregar a 
palavra evangélica quando vier a oportunidade, as crianças pequenas podem ser incluídas dentro da 
esfera desta obra vivificante da qual o batismo deve ser o sinal e o selo".[6]. 
A base bíblica para o batismo de infantes está em Gênesis 17. Do mesmo modo como a circuncisão 
introduzia a criança no pacto, assim o faz o batismo. Não temos certeza se nas casas de Atos 16.15,33 
e 1Co 1.16, por exemplo, havia crianças, mas se havia, então com certeza foram batizadas por causa 
da aliança de Deus. "Visto que o batismo tomou o lugar da circuncisão (Cl 2.11-13), as crianças 
devem ser batizadas como herdeiras do reino de Deus e de Seu pacto" (Form for the Baptism of 
Infants). Que os filhos de pais crentes, ou aqueles que têm um dos pais crentes, devem ser batizados 
sobre a base de suas relações de pacto, pode ser visto ainda em Atos 2.39 e 1Coríntios 7.14. 
Portanto, façamos do batismo que recebemos verdadeira expressão de vida cristã para nós e nossos 
filhos. 
NOTAS 
[1] Confissão de Fé de Westminster (CFW), XXVIII,3.
294 
[2] Cf. João Alves dos Santos, Comentários de Atos 1.1-8. São Paulo: Obra não publicada, 1981, p. 
9-14; Charles Hodge, O Batismo Cristão: Imersão ou Aspersão?. 2a ed. São Paulo: Editora Cultura 
Cristã, 2003, p. 7-34. 
[3] Louis Berkhof, Teología Sistemática. 7a ed. Mexico: La Antorcha , 1987, p. 746-47; Charles 
Hodge, Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Hagnos, 2001, p. 1419-20. 
[4] Cf. CFW, XXVIII,1. 
[5] G. W. Bromiley, Batismo Infantil. In: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, vol. I. 
São Paulo: Vida Nova, 1988, p. 158. 
[6] Idem, p. 159. V. t. Elias Dantas Filho, Filhos e Filhas da Promessa. Curitiba: Editora Descoberta, 
1998, p. 125-140; Guillermo Hendriksen, El Pacto de Gracia. Grand Rapids: Subcomisión Literatura 
Cristiana, 1985, p. 55-63. 
Os Sacramentos no Breve Catecismo de Westminster - III 
(A Ceia do Senhor) 
Reverendo professor Diego Roberto 
Escola Missionaria Voz no Deserto 
(JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) 
Elaborado no século XVII pela famosa Assembléia de Westminster (Inglaterra), o Breve Catecismo 
forma, juntamente com o Catecismo Maior e a Confissão de Fé de Westminster, a tríade teológica 
dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das igrejas reformadas e presbiterianas. 
Antes de estudarmos a Ceia do Senhor no Breve Catecismo, propriamente dito, faremos um breve 
histórico acerca da presença de Cristo na Ceia. Esse pano de fundo nos ajudará a compreender, de 
certa forma, o que o Breve Catecismo diz sobre a Ceia do Senhor. Em esp írito de oração, estudemos 
este assunto na certeza de sermos ensinados por Deus. 
A presença de Cristo na Ceia 
As palavras de Cristo "isto é o meu corpo, isto é o meu sangue" (Mt 26.26,28; Mc 14.22,24), foram 
o ponto de divergência entre os reformadores do século XVI quanto à interpretação da presença de 
Cristo na Ceia, embora eles fossem unânimes em rejeitar o conceito católico romano sobre este 
assunto. 
• O conceito católico romano 
Mediante a consagração do pão e do vinho pelo sacerdote, esses elementos transformam-se na 
substância da carne e sangue de Cristo, respectivamente. 
Objeção: A expressão "isto é o meu corpo, isto é o meu sangue" não pode ser tomada literalmente. 
Visto que Jesus estava diante dos seus discípulos em carne e osso, Ele não podia dizer que eles estavam 
com o seu corpo e o seu sangue nas mãos, e que deviam comê-lo e bebê-lo, respectivamente, de 
forma literal. A expressão "isto é o meu corpo, isto é o meu sangue", deve ser interpretada como 
"representa", "simboliza". Além disso, "É contrário ao senso comum crer que o que parece, cheira e
295 
tem gosto de pão e vinho seja, de fato, carne e sangue".[1]. 
• O conceito luterano 
Objeção: Este conceito não melhora muito a doutrina romana. Faz as palavras de Jesus significar "isto acompanha 
meu corpo", que é uma interpretação muito estranha. 
• O conceito zwingliano 
Zwínglio, reformador suíço, rejeitou os dois conceitos anteriores da presença física de Cristo na Ceia. Para ele a 
Ceia do Senhor é tão somente uma lembrança da morte de Cristo, um memorial. Esse conceito é adotado pelas 
igrejas batistas. 
Objeção: A Ceia não está relacionada apenas à obra passada de Cristo, mas também à sua obra atual de Mediador. 
O significado da Ceia do Senhor no conceito presbiteriano 
"A Ceia do Senhor é o sacramento no qual, dando-se e recebendo-se pão e vinho, conforme a instituição de Cristo, 
se anuncia a Sua morte; e aqueles que participam dignamente tornam-se, não de uma maneira corporal e carnal, 
mas pela fé, participantes do seu corpo e do seu sangue, com todas as suas bênçãos para o seu alimento espiritual e 
crescimento em graça (Resposta 96; cf. 1Co 10.16; 11.23-26; Ef 3.17). 
Os presbiterianos não negam o conceito da presença real de Cristo na Ceia. No entanto, entendem que a presença 
de Cristo não é em substâncias materiais, porém, presença espiritual, conforme afirmava o reformador francês João 
Calvino. A presença espiritual de Cristo na Ceia é tão real quanto a presença física do pão e do vinho. Pela fé o 
crente se alimenta do corpo de Cristo, tão real e verdadeiramente, como come do pão e bebe do cálice. 
Quando falamos da "presença espiritual" de Cristo na Ceia, devemos entender que o corpo e o sangue de Cristo n ão 
estão espiritualmente presentes nos elementos da Ceia, mas sim, "espiritual e realmente presentes à fé dos crentes 
nessa ordenança, como estão os próprios elementos aos seus sentidos corporais".[2]. 
A Ceia é um momento de profunda comunhão com o Senhor (1Co 10.16) e um anúncio ao mundo da morte de 
Cristo, "até que ele venha" (1Co 11.26). A Ceia é uma dádiva de Deus a nós, ou como a expressou Leon Morris, 
"Na comunhão recebemos a Cristo. Não O apresentamos nem Seu sacrifício ao Pai. Apresentamos, e podemos 
apresentar, somente a nós mesmos".[3]. É assim que devemos entender a expressão "dando-se e recebendo-se pão e 
vinho" no Breve Catecismo. 
Finalmente, aqueles que participam da Ceia do Senhor são abençoados com verdadeiro alimento espiritual e 
crescimento na graça. 
Exigência para participar dignamente da Ceia do Senhor "Que se exige para participar dignamente da Ceia do 
Senhor? Exige-se daqueles que desejam participar dignamente da Ceia do Senhor que se examinem sobre o seu 
conhecimento em discernir o corpo do Senhor, sobre a sua fé para se alimentarem dele, sobre o seu arrependimento, 
amor e nova obediência, para não suceder que, vindo indignamente, comam e bebam para si a condenação" 
(Pergunta e Resposta 97; cf. Rm 6.17,18; 1Co 11.27,31,32). 
A Ceia do Senhor é um ato de fé e discernimento, conforme o ensino do Breve Catecismo à luz da Bíblia. A razão
pela qual um descrente ou uma criança não possa participar da Ceia do Senhor é porque aquele não tem fé em 
Cristo e esta não tem discernimento quanto ao corpo e o sangue do Senhor. 
Para que o crente participe dignamente da Ceia do Senhor é necessário que ele observe o seguinte: 1) Tenha 
consciência do valor e importância da Ceia do Senhor (1Co 11.27,29). 
Participar com dignidade e discernimento é receber com fé aquele ato solene; 2) Faça um auto-exame de sua pessoa 
e conduta perante Deus (1Co 11.28). "Antes de tomarmos parte em tal servi ço, o mínimo que podemos fazer é um 
rigoroso auto-exame. Deixar de fazê-lo resultará em comungar 'indignamente' (v27)".[4]. Esse é o momento em 
que a hipocrisia não tem vez, visto que não se estará julgando os outros, mas cada um a si mesmo, sob os olhares 
atentos de Deus. É uma ocasião solene de "arrependimento, amor e nova obediência" (Resposta 97); 3) Evite a 
condenação divina (1Co 11.29-32). Que condenação é essa? Morris diz com muita propriedade: "Paulo não quer 
dizer que a pessoa que comunga erroneamente incorre na pena eterna, mas cai sob a medida de condenação 
apropriada a seu ato".[5]. 
296 
"Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice" (1Co 11.28). Que a nossa 
participação na Ceia do Senhor promova a glória de Deus. 
NOTAS 
[1] Louis Berkhof, Manual de Doutrina Cristã. Campinas/Patrocínio: Luz Para o Caminho/Ceibel, 1985, p. 
292. 
[2] Confissão de Fé de Westminster, XXIX,7. 
[3] Leon Morris, 1Coríntios: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo 
Cristão, 1992, p. 130. 
[4] Idem, p. 131. 
[5] Ibidem. 
PARA UMA ALMA RELIGIOSA, CURIOSA E CONFUSA 
Reverendo professorDiego Roberto 
Escola Missionaria Voz no Deserto 
(JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) 
"Se alguém não tiver sabedoria suficiente, peça-a a Deus, que a dá a todos de graça sem humilhar ninguém" 
(Carta de São Tiago, 1.5, Tradução Interconfessional dos Franciscanos Capuchinhos) 
Estas perguntas, nós as recebemos para que déssemos uma resposta pastoral dentro da Palavra de 
Deus. Foram devidamente encaminhadas tanto ao anônimo consulente quanto ao portal evangélico 
que no-las enviou. Um amigo leu as respostas dadas, e sugeriu-nos dar publicidade para ajudar outros 
espíritos religiosos, curiosos porém confusos, assim como, nossos irmãos em Jesus Cristo. O nível é 
apologético. 
"Meus caros irmãos das Igreja Evangélicas, eu sou da Igreja Católica e gostaria muito que vocês me 
respondessem a estas perguntas": 
PERGUNTA # 1 
"Já que a Igreja Batista, Adventista, Pentecostal, Messiânica, Presbiteriana, Quadrangular, Deus é 
Amor, Universal do Reino de Deus, etc... não têm imagem de nenhum "demônio" como na Igreja 
Católica, e se vocês adoram a Jesus Cristo, por que vocês então não se unem e formam uma única 
Igreja de Cristo?"
NOSSA RESPOSTA: 
Na realidade, caro consulente, só existe uma Igreja de Jesus Cristo. Ela é formada por todos os salvos, 
de todos os tempos, de todos os quadrantes da Terra, de todas as línguas, de todas as raças, de todas 
as condições sociais, e não é conhecida por qualquer nome de Igreja particular, Grupo ou 
Denominação. É um Corpo que reúne todos os que foram alcançados pela Graça(1) de Deus, unido 
este Corpo pela fé a Jesus Cristo, o Filho de Deus, e sem nenhuma cor sectária. A Igreja de Cristo não 
é qualquer organização terrena, visível seja do movimento Ortodoxo em suas diversas formas (Grego, 
Russo, Ucraniano, Igrejas Orientais, etc.), dos diversos agrupamentos Católico-Romanos ou de 
quaisquer grupos Protestantes e outros Evangélicos (2). 
Outrossim, não nos parece que qualquer grupo evangélico, para-evangélico ou presumido-evangélico 
tenha acusado as imagens e outros ícones presentes nos templos, capelas e lares católico-romanos de 
"demônios". Reconhecemos, sim a absoluta falta de ensino bíblico com respeito à veneração ou culto 
(mesmo que o seja de dulia ou hiperdulia, visto que na teologia romana a latria s ó é devida ao Criador), 
razão porque o culto anicônico das igrejas evangélicos é realizado nos moldes do ensino 
neotestamentário: "em espírito e verdade" e "racional"(3). 
A propósito, vamos desfazer um engano: a assim chamada Igreja Messiânica Mundial do Brasil não é 
uma igreja evangélica. É um movimento não-cristão de origem japonesa, que não tem a Bíblia Sagrada 
como seu livro de fé. Portanto, convém não mais relacioná-la com as Igrejas denominadas 
protestantes nem com as evangélicas. 
PERGUNTA # 2 
"Já que vocês dizem que as imagens que estão na Igreja Católica são demônios ou ídolos, dêem-me a 
prova de que elas realmente o são". 
NOSSA RESPOSTA 
Pena que sua afirmação está certa somente em parte. Não conhecemos qualquer afirmação entre os 
evangélicos de serem as imagens dos templos católicos "demônios". No entanto, quem as coloca na 
categoria de "ídolos" é a própria edição católico-romana da Bíblia Sagrada num livro considerado 
deuterocanônico (nós o chamamos "apócrifo") e que não se encontra no Cânon Original, que é o 
Palestino (escritos os livros em hebraico e aramaico), e conseqüentemente, também não no Cânon 
Protestante/Evangélico. Trata-se do livro de Sabedoria, do qual transcrevemos uma parte e indicamos 
outras. Foi utilizada para essa transcrição a edição da Bíblia Sagrada, traduzida pelo Pe. Matos Soares 
(4). 
Diz o capítulo 13.11ss: 
Eis que um artista hábil corta do bosque um tronco direito, e destramente lhe tira toda a casca,e, valendo -se da sua 
arte, faz com esmero uma peça útil para uso da vida(5), e os restos daquela obra emprega-os para cozinhar a 
comida(6). E, quanto ao resto de tudo isto, que para nenhum uso é útil, por ser um madeiro torto e cheio de nós, 
vai-o esculpindo cuidadosamente nas horas livres, e, pela perícia de sua arte dá-lhe uma figura, e configura-o à 
semelhança de um homem,... 
Depois prepara-lhe um nicho conveniente, pondo-o numa parede, e segurando-o com algum ferro, usando com ele 
desta precaução, para que não caia, reconhecendo que não pode ajudar-se a si mesmo, porque é uma estátua e tem 
necessidade de auxílio. E, fazendo-lhe votos, consulta-o a respeito dos seus bens, e dos seus filhos, ou de 
cuams amento. 
Não se envergonha de falar com aquele madeiro, que está sem alma; e roga pela saúde a um inválido, e pede a 
vida a um morto, e invoca em seu socorro um inútil; e, para o bom sucesso de uma jornada, recorre àquele que não 
pode andar; e para as suas compras, suas empresas, e para o bom êxito de todas as suas coisas, implora a quem é 
incapaz de tudo. 
Continue lendo o capítulo seguinte, o 14, sobretudo os versos 7 e 8. Veja também os versos 17 a 20. 
297
O livro do profeta Isaías (46.7,8) tem igualmente uma palavra de condenação quando exclama: 
Levam-no às costas, colocam-no no seu nicho, e ele fica sem se mover do seu lugar; e ainda, quando clamarem para 
ele, não ouvirá, nem os salvará da tribulação Lembrai-vos disto, envergonhai-vos, entrai em vós mesmos. 
É ou não, a mesmíssima forma de uma prática de religiosidade encontrada sobretudo nos países latinos 
europeus e do Novo Mundo? Veja, ainda, Isaías 44.9-20. 
A claríssima recomendação do Novo Testamento e que se encontra no último versículo da Primeira 
Carta de São João é: "Filhinhos, guardai-vos dos ídolos". 
PERGUNTA # 3 
"Eu lhes pergunto quando Deus Todo Poderoso ordenou não fazer imagem, proibiu se fazer imagens 
dos homens santos, ou de se fazer imagens de deuses?" 
NOSSA RESPOSTA 
Leia o que diz a Bíblia. Vamos reproduzir as palavras da tradução do Pe. Matos Soares em Êxodo 
20.4,5: 
Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma do que há em cima no céu, e do que há em baixo na 
terra, nem do que há nas águas debaixo da terra. Não adorarás tais coisas, nem lhes prestarás culto. 
Raciocine: há cabimento para qualquer tipo de culto, seja dulia ou hiperdulia? A proibição é TOTAL: 
de "homens santos" e de "deuses" também. 
298 
PERGUNTA # 4 
"Para vocês existem ou não os santos Ler 2 Tessalo-nicenses 1,10; Efésios 3,8. 
NOSSA RESPOSTA 
Do começo ao fim, a Bíblia Sagrada ensina uma Teologia da Santidade. Os textos mencionados são 
dois entre centenas tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. 
A pergunta não deve ser se "existem ou não os santos". A pergunta é "QUE SIGNIFICA SER 
SANTO?" Há uma teologia popular e há uma Teologia Bíblica sobre este assunto. A primeira é 
incentivada e alimentada por uma compreensão equivocada do termo e do conceito; a segunda tem 
um caudal puríssimo na Escritura Sagrada. 
A idéia popular é de que "santo" é alguém que, tendo obtido um altíssimo grau de bondade, perfeição 
e virtude, nem precisa passar pelo Purgatório, onde supostamente se "purificaria" dos pecados 
veniais(7). Outrossim, esta "teologia popular" da santificação avança no imaginário do povo com o 
conceito de beatificação até se chegar à canonização. São mais duas idéias não encontradas no Novo 
Testamento. 
Graças a Deus, o ensino bíblico é suficientemente iluminado para não deixar dúvidas: "Santo é o que 
está reservado para Deus". O conceito de santidade (em hebraico kidshut) está ligado a objetos, 
eventos/datas, lugares e pessoas. 
A "Arca da Aliança" era chamada Aron haKodesh, ou seja, a Arca Santa, porque era um objeto 
reservado, exclusivo do culto a Deus; 
o Templo de Jerusalém era nomeado Beith haMikdash porque era um edifício de uso exclusivo de Javé 
e Seu Culto; 
o povo de Israel era Santo por ser uma nação separada para Deus; 
o Shabath, um Dia Santo porque nele só uma realidade interessa: fazê-lo diferente de todos os outros. 
Recorde-se do mandamento que regula: "Lembra-te de santificar o dia de Repouso". Aproveite e leia o 
restante que está em Êxodo 20.7 a 11. 
Assim sendo, quem são os "santos"? A resposta da Bíblia Sagrada é que são aqueles que pertencem a 
Jesus Cristo, aqueles que foram lavados e purificados pelo sangue de Jesus (não pelo batismo, o que 
não é ensino neotestamentário), aqueles que O receberam pela fé salvadora, outro nome para a fé-
adesão, fé-compromisso, fé-levada-a-sério. A Bíblia chama a estes de "fiéis", "santos" e "santificados", 
entre outros significativos epítetos. Leia: 1Coríntios 1.1,2; 2Coríntios 1.1; Efésios 1.1; Filipenses 
1.1; Colossenses 1.1,2. 
PERGUNTA # 5 
"Pois quando Deus disse em Levítico 19,1: ‘Dirás a toda a assembléia de Israel o seguinte: Sede santos, 
porque eu, o Senhor, vosso Deus sou santo’, Deus estava mandando seu povo ser santo ou demônio?" 
NOSSA RESPOSTA 
Deus estava ordenando Seu povo, e, por extensão, aos salvos e fiéis da Igreja de Jesus Cristo a serem 
diferentes, que é, sem dúvida, a melhor interpretação para o conceito teológico veterotestamentário 
expresso pela palavra Kadosh. Ser uma reserva especial para Deus e Jesus Cristo. A Primeira Carta de 
São Pedro (2.5)esclarece: 
Vós, também, como pedras vivas sede edificados sobre ele como casa espiritual, sacerd ócio santo para oferecer 
sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo. 
299 
PERGUNTA # 6 
"Os homens que seguem a Jesus Cristo, estão ou não estão no caminho da santidade? Ler: (I Coríntios 
7,32-34)" 
NOSSA RESPOSTA 
Os verdadeiros discípulos já encontraram esse caminho como bênção inicial de sua vida cristã. 
Caminhar por Ele é um ato de entrega e de adesão. Ninguém é salvo por procuração ou representado 
por outra pessoa como se pratica. A Bíblia registra as palavras de Jesus Cristo em João 14.6: "Eu sou o 
Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim" (Bíblia de Jerusalém). Os 
cristãos da Igreja do tempo dos apóstolos eram chamados de "os do Caminho". Quem segue a Jesus 
Cristo busca a vida de separação, vida de-fazer-diferença-neste-mundo, ou, para usar a palavra bíblica: 
de santidade. 
PERGUNTA # 7 
"Já que os que seguem a Jesus Cristo estão no caminho da santidade (para serem santos), será que 
nenhum homem chegou a alcançar essa santidade, chegou ou não chegou?" 
NOSSA RESPOSTA 
Santidade é separação deste mundo, já o vimos. Ao longo da História da Salvação(8), milhões têm 
experimentado a santidade como estilo e prática de vida. Nas ruas de qualquer cidade ou no campo, 
os santos estão andando e passando por nós. Eles nos encorajam a tudo suportar pelo amor de Cristo e 
de Seu reino. 
PERGUNTA # 8 
"Quantas Igrejas de Jesus Cristo existem, pois no Evangelho Jesus diz: ‘E eu te declaro: "Tu és Pedro, e 
sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.’ Ler: (Mateus 
16,18), Jesus Cristo não disse no plural: "as minhas igrejas", Ele disse: a minha Igreja. Por que será 
então que existem tantas Igrejas?" 
‘NOSSA RESPOSTA 
A resposta da Pergunta # 1 cobre, de certo modo, o alcance desta questão. A Igreja de Jesus Cristo, 
repetimos, não se identifica com uma Igreja nacional, um grupo local ou organização religiosa. Não 
tem um nome específico (Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Reformada, Igreja Evangélica de 
Confissão Luterana, Igreja Presbiteriana do Brasil, Assembléia de Deus - Ministério de Belém, Igreja Batista Sião,
Jovens com uma Missão, Missão Antioquia, etc, etc). A Igreja Cristo é supranacional, e atemporal; o 
Corpo Místico de Cristo se forma de todos os fiéis sem distinção de raça, cor, língua ou filiação cristã. 
Um alerta, entanto, se faz necessário: os chamados "fiéis", "santos", "salvos" são aquelas pessoas que, 
conduzidas pelo Espírito Santo ao Salvador (Espírito que, como ensina a Bíblia na tradução do Pe. 
Matos Soares, convence o mundo "quanto ao pecado, à justiça e ao juízo"(9), pela fé receberam o perdão 
para os seus pecados (o Novo Testamento usa para essa gloriosa realidade o termo justificação)(10). A 
Igreja Cristo, Seu Corpo Místico, não é qualquer Igreja nominal (que tem origem e organização 
humana, inclusive a Igreja Católica Apostólica Romana, cuja origem se prende à "conversão" de 
Constantino, apesar de a história oficial conta-la diferentemente. 
PERGUNTA # 9 
"O que Jesus queria dizer quando disse a Pedro: "Eu te darei as chaves do reino dos c éus: tudo o que ligares 
na terra, será ligado no céu e tudo o que desligares na terra, será desligado no céu" ?, e o que significa ligar e 
desligar?" 
NOSSA RESPOSTA 
O versículo mencionado se encontra no contexto de Mateus 16.13-20 que registra uma pesquisa 
conduzida por Jesus para saber qual a opinião popular em torno de Sua Pessoa. Os discípulos 
respondem que algumas pessoas entendiam que Jesus era João Batista, outros que seria Elias, o tesbita, 
outros, ainda, acreditavam que seria o profeta Jeremias ou talvez um outro dos inflamados pregadores 
da Antiga Aliança. 
O mesmo versículo aparece em 18.15-22 num contexto de disciplina e perdão no âmbito da igreja. 
Em João 20.23 em instruções que foram dadas aos apóstolos após a ressurreição, o mesmo ensino 
aparece ligeiramente modificado. 
Paulo em 1Coríntios 5.4,5 expõe um comentário sobre o mesmo tema. 
Ligar e desligar são termos técnicos rabínicos que significam "permitir" e "proibir" uma ação acerca 
da qual uma questão tenha sido levantada. Em Mateus 18.18, a ação de "ligar e desligar" tem a ver 
com a disciplina exercida pela igreja local, paroquial. 1Coríntios 5.4,5 reflete a excomunhão, 
exclusão da igreja para mortificação da natureza carnal. 
PERGUNTA # 10 
"Baseado nesta observação: Pedro negou Jesus por três vezes antes de Jesus morrer. Porém quando 
Jesus ressuscitou; Jesus confirmou Pedro como primeiro pastor das suas ovelhas, também por três 
vezes. Ler: (João 21,15-17), agora me responda já que Pedro iria morrer um dia, e o seu lugar ficaria 
vago, o substituto de Pedro teria ou não teria o mesmo poder que Jesus outorgou a Pedro? Ler para 
comparar Atos 1,15-26, e responda". 
NOSSA RESPOSTA 
Cremos que será conveniente fazer uma exegese de João 21.15ss para entender porque Jesus fez por 
três vezes a pergunta "Simão, filho de João, amas-me?" para não se cair no pecado de ler o que não foi 
dito. 
O Mestre fez a indagação a Pedro utilizando um verbo e Pedro todo o tempo com outro. Jesus lhe 
perguntou: "Simão, filho de João, agaposme? ("Tu me amas de verdade?") Pedro responde: "Sim, Senhor, tu 
sabes que filote" (Tu sabes que eu tenho amizade por ti). Não é isso o que Jesus Cristo quer de Seus 
discípulos. 
Não tendo ficado satisfeito com a resposta de Simão Pedro, Jesus repete a pergunta. A palavra final do 
Mestre é "Apascenta as minhas ovelhas". Não há qualquer indicação (nem por inferência) a um primado 
de Pedro. Há, sim, uma dupla lição para os cristãos: 
300
É preciso que cada discípulo de Jesus Cristo tenha uma PAIXÃO pelo Senhor, pelo Seu reino, pela 
Sua Causa, pela Sua missão neste mundo ("agaposme?", "Amas-me verdadeiramente?"); 
É preciso que cada discípulo de Cristo tenha uma MISSÃO, que confiada à Igreja é repassada a cada 
um individualmente ("apascenta as minhas ovelhas"). 
Como louvamos a Deus por este e outros espíritos que, religiosos, porém confusos, são curiosos a 
respeito de sua fé! Como pedimos que a iluminação do Seu Santo Espírito revele a verdade eterna, 
salvadora, purificadora e santificadora. Que sejam como os bereanos que "de bom grado receberam a 
palavra, examinando cada dia nas escrituras se estas coisas eram assim"(At 
1N7O.T1A1S ). 
(1) Graça: termo da Teologia que expressa o "o amor que não merecemos da parte de Deus ". Em 
Efésios 2.8, o apóstolo S. Paulo repassa o ensino vindo do Espírito Santo de que "Com efeito, é pela 
graça que vós sois salvos por meio da fé; e isto não depende de vós, é Dom de Deus. Isto não vem das 
obras, para que ninguém se orgulhe" (TEB - Tradução Ecumênica da Bíblia, SP, Edições Loyola com 
Recomendação de D. Luciano Mendes de Almeida, Presidente da CNBB). 
(2) Protestantes e Evangélicos são realidades distintas, como o prezado consulente deve ter 
conhecimento, embora a opinião popular e a mídia os confunda. 
(3) Assim o descreveu Jesus em João 4.23,24, e Paulo, apóstolo, em Romanos 12.1. 
(4) 45a ed. SP, Edições Paulinas, 1988. 
(5) Ou seja, faz algo de utilidade como um móvel ou prateleira, etc. 
(6) A lenha tem utilidade no uso doméstico 
(7) Ressalte-se que nem a idéia de um "purificatório" ou "purgatório" nem a de "pecados veniais" têm 
substância no ensino bíblico. 
(8) "História da Salvação" (Heilsgeschichte) é termo técnico para designar desde o evento cósmico e 
existencial chamado A Queda até o ministério salvador de Jesus Cristo e as conseqüentes implicações, 
até a Sua Parusia, a ressurreição final e a bem-aventurança eterna. 
(9) João 16.8. 
(10) Leia Romanos 5.1ss. 
PNEUMATOLOGIA REFORMADA DE VERDADE! DEFINIÇÕES E DESAFIOS NICODEMOS 
LOPES 
Reverendo professor Diego Roberto 
Escola Missionaria Voz no Deserto 
(JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) 
O que é ser "reformado"? 
A primeira questão com a qual nos defrontamos ao abordar o tema desse pequeno ensaio é a de definir 
exatamente sobre o que estamos falando. O nosso assunto gira em torno da compreensão reformada 
sobre a pessoa e a obra do Espírito Santo. Mas, o que queremos dizer por "reformada"? 
Não existe unanimidade entre os que se consideram herdeiros da Reforma protestante quanto ao 
sentido do termo. Historicamente, o termo "reformados" foi usado a princípio indistintamente para 
todos os protestantes, calvinistas, luteranos e zwinglianos. Com as controvérsias entre eles sobre a 
Ceia, "reformados" passou a designar zwinglianos e calvinistas somente, em contraponto aos 
luteranos. E com o arrefecimento da importância de Zwinglio no cenário protestante, "reformados" 
passou a designar os calvinistas. Portanto, é historicamente correto afirmar que um entendimento 
reformado sobre o Espírito Santo tem a ver primaria e basicamente com a teologia calvinista sobre o 
Espírito Santo. Hoje em dia, muitas igrejas e denominações se utilizam do nome "reformada", mesmo 
que já tenham abandonado em grande medida partes fundamentais da teologia calvinista, inclusive a 
pneumatologia. O mesmo acontece com alguns pastores que consideram-se reformados apesar do fato 
301
de que não são calvinistas em sua doutrina. Assim, embora para alguns hoje ser reformado seja 
pertencer a uma igreja que historicamente descende da reforma protestante, ou ainda manter o 
espírito reformista que marcou os reformadores, é mais exato dizer que o conceito está ligado às 
principais convicções doutrinárias dos reformadores, particularmente às de João Calvino. 
Consequentemente, uma pneumatologia reformada é necessariamente aquela adotada pelas igrejas 
que são herdeiras do Cristianismo bíblico. É uma pneumatologia originada nas Escrituras e defendida 
por Agostinho, Calvino, e os puritanos, tendo sua expressão adequada nas confissões de fé 
reformadas. É uma pneumatologia derivada de uma leitura das Escrituras a partir dos pressupostos 
principais que guiaram esses homens, a começar com o alto apreço pelas Escrituras como Palavra de 
Deus, inspirada e infalível, e única regra de fé e prática da Igreja. À luz desta visão podemos definir 
pneumatologia reformada como sendo aquela compreensão da pessoa e da obra do Espírito Santo que 
parte da revelação divina grafada nas Escrituras, lida e interpretada da ótica da hermenêutica 
reformada, tendo como alvo a glória de Deus e o avanço do seu reino neste mundo. 
Se considerarmos que apenas os que se mantém leais aos principais pontos da doutrina calvinista 
podem ser realmente chamados de reformados, verificaremos que são poucos os verdadeiros 
reformados. Escreve o ex-calvinista Clark Pinnock: 
Tenho a forte impressão, confirmada até mesmo pelos que discordam dela, que o pensamento de 
Agostinho está perdendo sua influência nos evangélicos de hoje. Não são apenas os evangelistas que 
estão pregando um evangelho arminiano. É difícil até mesmo achar um teólogo calvinista hoje que 
esteja disposto a defender a teologia reformada em seus detalhes mais peculiares, em particular as 
opiniões de Calvino e Lutero. Eu não estou sozinho, especialmente agora que Gordon Clark faleceu e 
John Gerstner aposentou-se. 
Numa época em que o número de "reformados" comprometidos com a teologia calvinista é tão 
pequeno, não é de se estranhar que tendências teológicas, filosóficas e hermenêuticas, trazidas no bojo 
do pós-modernismo e do crescente movimento neopentecostal, se infiltrem nas igrejas historicamente 
reformadas, e descaracterizem, onde aceitas, a compreensão correta acerca do Espírito Santo. Tais 
ameaças já estão presentes, e que aparentemente vieram para ficar por um longo tempo. Entende-las 
agora é essencial para a preservação da identidade reformada quanto à obra do Espírito Santo no 
mundo e na Igreja. No que se segue, procuro detectar e analisar alguns destes desafios 
O Desafio Teológico: Pelagianismo 
O que é o Pelagianismo 
O primeiro desafio vem da área teológica, representado pelo pelagianismo, heresia antiga e já 
condenada pela Igreja, mas jamais erradicada do seu meio. O pelagianismo sustenta basicamente que 
todo homem nasce moralmente neutro, e que é capaz, por si mesmo, sem qualquer influência 
externa, de converter-se a Deus e obedecer à sua vontade, quando assim o deseje. Uma das grandes 
disputas durante a Reforma protestante versou sobre a natureza e a extensão do pecado original. Ele 
afetou Adão somente, ou todo o gênero humano? A vontade do homem decaído é ainda livre ou 
escravizada ao pecado? No século V Pelágio havia debatido ferozmente com Agostinho sobre este 
assunto. Agostinho mantinha que o pecado original de Adão foi herdado por toda a humanidade e que, 
mesmo que o homem caído retenha a habilidade para escolher, ele está escravizado ao pecado e não 
pode não pecar. Por outro lado, Pelágio insistia que a queda de Adão afetara apenas a Adão, e que se 
Deus exige das pessoas que vivam vidas perfeitas, Ele também dá a habilidade moral para que elas 
possam fazer assim. Ele reivindicou mais adiante que a graça divina era desnecessária para salvação, 
embora facilitasse a obediência. 
Agostinho teve sucesso refutando Pelágio, mas o pelagianismo não morreu. Várias formas de 
pelagianismo recorreram periodicamente através dos séculos. Lutero escreveu um livro "A Escravidão 
302
da Vontade" em resposta a uma diatribe de Erasmo, onde o mesmo defendia conceitos pelagianos. 
Lutero acreditava que Erasmo era "um inimigo de Deus e da religião Cristã" por causa do ensino dele 
sobre o pecado original. É bom notar que o Catolicismo medieval, sob a influência de Aquino, adotara 
um semi-pelagianismo, mesmo que na antigüidade houvesse rejeitado o pelagianismo puro. Neste 
sistema, acreditava-se que o homem cooperava com a graça de Deus para a salvação. 
No século XVIII, uma forma nova e levemente modificada de pelagianismo, apareceu, que foi o 
arminianismo. Existem algumas diferenças entre as duas posições, mas ambas são sinergistas (o 
homem coopera para sua salvação) e mantém o mesmo conceito de fé (uma decisão puramente 
humana de receber a Jesus Cristo, e não como um dom misericordioso de Deus). 
A influência de Charles Finney 
No século XIX, o evangelista americano Charles Grandison Finney reavivou o puro pelagianismo. Ele 
repudiou abertamente quase todas as principais doutrinas calvinistas (mesmo que tenha sido ordenado 
na Igreja Presbiteriana), em particular a doutrina de pecado original e da depravação total. É um grave 
erro histórico e teológico considerar Finney como "reformado" (alguns, exagerando, diga-se, nem 
desejam considerá-lo como evangélico). A metodologia evangelística de Finney teve tanto êxito, que 
ele se tornou um modelo para os evangelistas mais recentes. Embora o evangelicalismo americano não 
tivesse aceitado integralmente o pelagianismo de Finney, abraçou, entretanto, sua metodologia, uma 
forma de semi-pelagianismo que infectou a alma da sua teologia até o dia de hoje. Vários movimentos 
nasceram conscientemente da teologia de Finney, como a teoria do governo moral. 
Ameaças à doutrina do Espírito Santo 
O pelagianismo, em suas variadas formas contemporâneas, ameaça a doutrina reformada do Espírito 
Santo especialmente nas áreas da regeneração e da chamada eficaz, das seguintes maneiras: 
a) Reduz a regeneração do pecador a uma decisão de sua própria vontade. Finney rejeitou a idéia de 
que a regeneração fosse um milagre, uma transformação sobrenatural produzida pela ação soberana do 
Espírito no coração dos eleitos. Para ele, regeneração era a decisão do pecador em se voltar para Deus 
e obedecê-lo. Não poderia haver nenhuma transformação miraculosa, pois não havia o que 
transformar, já que o pecador é moralmente capaz de obedecer a Deus. Após a negação de pecado 
original, foi somente um passo para que Finney negasse a doutrina da regeneração sobrenatural. O 
sermão mais popular de Finney, pregado na Igreja da Rua do Parque, em Boston, foi intitulado "Os 
Pecadores Devem Mudar os Próprios Corações". Para ele, não há nada na religião que ultrapasse os 
poderes ordinários de natureza. "Religião é obra do homem", disse ele. "Consiste tão somente no 
emprego apropriado dos poderes naturais. É somente isso e nada mais" 
b) Reduz a chamada eficaz do Espírito Santo a uma mera persuasão moral. Para Finney, a obra do 
Espírito limita-se ao exercício de influências morais no pecador, mas "a conversão em si ... é ato do 
próprio pecador", afirma ele em sua Teologia Sistemática (p. 236). O ensino calvinista é que o 
Espírito de Deus, através do ministério da Palavra, chama irresistivelmente o eleito, regenerando-o e 
assim habilitando-o a responder positivamente em fé à oferta das boas novas do Evangelho. Essa 
chamada é irresistível, embora não se constitua uma violação da vontade do pecador. No conceito 
pelagiano (ou semi-pelagiano), o Espírito de Deus apenas se esforça para persuadir os pecadores, 
cabendo a estes em última análise a decisão e a capacidade de converter-se e tornar para Deus, 
exercendo fé em Cristo. 
O desafio do pelagianismo em suas formas contemporâneas para a identidade reformada é alarmante. 
O pentecostalismo, em seu crescimento assombroso na América Latina e no Brasil, traz em seu bojo, 
além de várias outras ameaças e desafios, os principais conceitos do antigo pelagianismo, e desafia as 
igrejas reformadas a rever o conceito calvinista da atuação do Espírito Santo na regeneração e salvação 
do pecador. Os pentecostais são hoje mais de 450 milhões no mundo. Com o crescimento do 
303
pelagianismo no Brasil, a identidade reformada das igrejas que assim se consideram fica ameaçada, no 
que respeita à obra do Espírito Santo na conversão dos pecadores. 
Mas o desafio maior vem de dentro das próprias igrejas históricas. Não são muitos os "reformados" 
que aderem coerentemente à doutrina calvinista da depravação total. Embora possam afirmá-la em 
princípio, acabam sendo incoerentes por também acreditar que o pecador tem a "capacidade moral de 
se voltar para Deus". Praticamente ninguém hoje declararia, "eu sou um pelagiano, ou semi-pelagiano", 
primeiro, por que toda a Cristandade condenou no passado essa heresia, e segundo, por 
que poucos que adotam esta linha têm idéia do que o pelagianismo significa. Muitos ministros de 
igrejas reformadas provavelmente ofereceriam as respostas corretas em um exame teológico, 
entretanto, operam em seus ministério como se essas convicções não tivessem absolutamente 
nenhuma conseqüência. 
304 
Os Desafios Filosóficos: Pluralismo e Pragmatismo 
O pluralismo religioso 
Um outro desafio de imensas proporções vem de duas filosofias características do período pós-moderno 
em que vivemos. A primeira delas é o pluralismo. Como o nome já indica, essa filosofia 
defende a pluralidade da verdade, ou seja, que não existe uma verdade absoluta, mas sim verdades 
diferentes para cada pessoa. Esse conceito é ambíguo, mas definitivamente já faz parte integrante da 
nossa cultura presente. Ele defende o relacionamento de pessoas com ideologias diferentes, sem que 
uma tenha de sujeitar suas convicções ao domínio da outra. A idéia de converter alguém às suas 
próprias convicções é politicamente incorreto. A chave está na valorização da negociação e da 
cooperação em lugar de se tentar provar que se está certo ou errado. 
O pluralismo religioso, por sua vez, prega o abandono da "arrogância" teológica do cristianismo, nega 
que exista verdade religiosa absoluta, e exalta a experiência religiosa individual como critério último 
para cada um. Por exemplo, o padre católico Raimundo Panikkar, descendente de hindus, escreveu 
um artigo onde defende que isolacionismo já não é mais possível na sociedade globalista em que 
vivemos. Embora afirme que aceitar o pluralismo religioso não signifique o mesmo que aceitar o 
relativismo, deixa claro que a experiência religiosa individual é a chave para a convivência pluralista. 
Diz ele, "No momento eu estou experimentando o amor de Deus por mim em Cristo Jesus, e por 
este motivo eu sei com perfeita clareza que ele é o caminho, a verdade e a vida". 
O pluralismo religioso defende uma nova teoria missiológica, onde não mais se prega a necessidade de 
conversão de outras religiões ao cristianismo, e sim a cooperação entre todas as religiões, naquilo que 
têm em comum. O pressuposto é que o cristianismo não é o único caminho para Deus, embora seja o 
melhor, e que Deus está agindo salvadoramente no âmbito de outras religiões, como as religiões 
orientais. 
O pragmatismo religioso 
A outra filosofia é o pragmatismo. Seu popularizador, o psicólogo americano William James, afirmou 
que idéias humanas eram verdadeiras se funcionassem ou fossem úteis para resolver problemas. Já que 
o funcionamento e utilidade das idéias variam de contexto para contexto, segue-se que a verdade é 
relativa. No dizer de Francis Schaeffer, é um sistema de pensamento que faz das conseqüências 
práticas de uma crença o critério supremo da sua verdade. O pragmatismo dominou rapidamente a 
cultura americana e estendeu-se para além das suas fronteiras. Adotar as coisas que realmente 
preservam a paz individual e uma situação financeira confortável, sem qualquer preocupação com 
princípios fixos de certo ou errado é evidentemente a idéia que controla procedimentos 
internacionais, domésticos e individuais. Princípios absolutos tem pouco ou nenhum lugar no 
pensamento ocidental moderno.
Não devemos, portanto, pensar que o pragmatismo é um fenômeno ocidental. Seu princípio 
fundamental é inerente ao coração humano. Uma das 4 premissas básicas do substrato filosófico e 
religioso da Ásia, por exemplo, pode ser resumida neste parágrafo: "É direito de cada pessoa religiosa 
aceitar e praticar qualquer maneira de viver que achar útil ao seu modo de pensar e às suas 
circunstâncias sociais peculiares". 
Desafios do Pluralismo e do Pragmatismo para a doutrina do Espírito Santo 
O pluralismo e o pragmatismo andam geralmente de mãos dadas. Onde o conceito de verdade 
absoluta deixa de existir (pluralismo), as pessoas e as organizações passam a orientar as suas decisões 
em termos daquilo que mais satisfaz as suas necessidades (pragmatismo). A combinação destas duas 
filosofias aparece claramente em vários movimentos presentes nas igrejas evangélicas, e representam 
um novo desafio ao cristianismo em geral e aos calvinistas em particular. A pergunta que as pessoas 
fazem com relação ao cristianismo não é se ele é a verdade ou não, mas simplesmente se funciona. 
Elas querem saber se vai mudar a vida delas para melhor, se Cristo realmente é poderoso para 
transformá-las, e pode dar-lhes paz, alegria, esperança e propósito às suas existências. 
Ambas as filosofias trazem sérios desafios a alguns aspectos da pessoa e obra do Espírito Santo: 
1) Quanto à extensão da operação ou atividade salvadora do Espírito Santo. O calvinismo ensina uma 
distinção nas operações do Espírito Santo, que está relacionada com os conceitos de graça comum e de 
graça especial. A graça comum refere-se à atuação do Espírito Santo no mundo em geral, preservando 
valores morais e trazendo benefícios materiais, sobre todos os homens indistintamente de suas crenças 
religiosas. A graça especial refere-se à operação salvadora do Espírito, restrita apenas aos eleitos, 
regenerando-os, iluminando-os e santificando-os pelo Evangelho de Cristo. O pluralismo religioso 
ameaça esse conceito, pois ensina que o Espírito de Deus age salvadoramente em todos os homens 
indistintamente de suas religiões, sem se restringir ao âmbito do cristianismo. Um exemplo de 
pluralista cristão que defende esse ponto é o ex-calvinista Clark Pinnock. 
2) Quanto à relação entre a Palavra e o Espírito. O calvinismo ensina a relação indissolúvel entre a 
atuação do Espírito Santo e a Palavra de Deus. O Espírito atua graciosamente através da Palavra; por 
sua vez, a Palavra funciona como critério para reconhecermos a atividade do Espírito, em contraste 
com a atividade de espíritos malignos ou do espírito humano. O pluralismo e o pragmatismo ameaçam 
este conceito. O primeiro, porque divorcia a atuação salvadora do Espírito da verdade bíblica, como 
vimos no item anterior. E o segundo por enfatizar a validade de experiências religiosas à parte de seus 
conteúdos teológicos, ameaçando assim da mesma forma a relação entre o Espírito e a Palavra. 
3) Quanto à soberania do Espírito de Deus em converter pecadores e aumentar a Igreja. Segundo o 
ensino calvinista, o aumento da Igreja através da conversão de pecadores é uma obra soberana do 
Espírito Santo, através dos meios secundários que Deus mesmo determinou. A Igreja deve evangelizar 
ardorosamente, dependendo porém da operação soberana do Espírito Santo quanto aos resultados. O 
pragmatismo representa um desafio para essa convicção calvinista, pois enfatiza o emprego de 
métodos, estratégias e técnicas tiradas do marketing secular e de ciências sociais como sociologia e 
psicologia, através das quais a igreja poderá crescer. O sucesso ou fracasso de igrejas locais no 
aumentar o número de seus membros é relacionado, não à soberania do Espírito de Deus, mas ao uso 
desses métodos. Embora calvinistas defendam o planejamento das atividades missionárias e 
evangelísticas da Igreja, têm entretanto sérias reservas quanto ao planejamento de resultados, uma 
estratégia que faz parte do pragmatismo do moderno movimento de crescimento de igrejas. 
Influência generalizada do pluralismo e do pragmatismo entre os protestantes 
O pluralismo e o pragmatismo têm infectado o cristianismo mundialmente. O tema da salvação em 
outras religiões foi discutido recentemente na Assembléia Geral do Concílio Mundial de Igrejas. O 
relatório apresentado trouxe debate considerável. Uma consulta teológica na suíça patrocinada pelo 
CMI, composta por 25 teólogos, trouxe as seguintes conclusões: 
305
Através da história, pessoas tem encontrado a Deus no contexto de várias religiões e culturas 
diferentes. 
Todas as tradições religiosas são ambíguas, isto é, uma combinação do que é bom e do que é ruim. 
É necessário progredir além de uma teologia que confina a salvação a um compromisso pessoal 
explícito com Jesus Cristo. 
Em algumas denominações o pluralismo tem sido proposto como filosofia oficial, como na Igreja 
Metodista Unida, dos Estados Unidos. Nas igrejas brasileiras que se consideram reformadas, a ameaça 
vem por diversas avenidas, trazendo sérios desafios à doutrina calvinista do Espírito Santo. Eis algumas 
dessas maneiras pelas quais o pragmatismo e o pluralismo têm invadido as igrejas históricas: 
a) A adoção de uma liturgia neopentecostal, particularmente a ênfase na experiência. O culto hoje em 
igrejas evangélicas que adotaram esta ênfase, é geralmente uma adaptação comunitária do 
pragmatismo americano, onde todos fazem o que gostam, e todos gostam do que fazem. 
b) O impacto do movimento de crescimento de igreja na área de missões e evangelização das 
denominações, missões paraeclesiásticas, e das igrejas locais. Mesmo as igrejas reformadas não tem 
escapado à penetração dessas influências mencionadas acima. Embora o movimento tenha levado a 
Igreja a repensar mais corretamente a sua metodologia missionária, por outro lado, tem provocado 
reações por parte de calvinistas quanto à seus pressupostos semi-pelagianos e sua metodologia 
claramente pragmatista. 
A influência dessas filosofias pós-modernas pode ser percebida ainda de outra maneira. Uma equipe de 
pesquisa composta de 60 estudiosos e mais de 100 sócios completou um estudo sobre o 
presbiterianismo americano, no seminário presbiteriano de Louisville, nos EUA. Uma das suas 
conclusões é que no século XX a denominação sofreu de uma doença teológica, com muitos 
presbiterianos evitando posições firmes e claras na área teológica porque diferenças doutrinais tendem 
a produzir conflito ou divisão. Essa é a razão por que eles tentaram em anos recentes resolver 
problemas potencialmente divisivos em termos políticos e não teológicos. 
A diversidade de perspectivas teológicas dentro das denominações presbiterianas tem origem na 
escolha enfrentada em 1927 pela Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos de América (PCUSA). A 
denominação teve que decidir entre subscrever a um conjunto fixo de doutrinas ou permitir uma 
diferença maior entre opiniões teológicas. A Igreja decidiu por não delinear as doutrinas exatas que 
todos os presbiterianos teriam que aceitar, uma decisão consistente com o presbiterianismo histórico 
daquele país. Debates doutrinários haviam sido freqüentes no passado, com divisões acontecendo 
sempre que as disparidades ficavam intoleráveis. A pergunta agora é se o pluralismo teológico 
produziu alguma teologia que tenha bastante substância. O pluralismo promete enriquecer a teologia 
mas na realidade tende a dilui-la em opções múltiplas que não são coerentes nem persuasivas. E a 
identidade reformada quanto à ação do Espírito tende a desaparecer. 
O Desafio Hermenêutico: Neopentecostalismo 
O que é o neopentecostalismo 
Por neopentecostalismo quero dizer aqueles movimentos surgidos em décadas recentes, que são 
desdobramentos do pentecostalismo clássico do início do século, mesmo que abandonaram algumas 
de suas ênfases características e adquiriram marcas próprias, como ênfase em revelações diretas, 
curas, batalha espiritual, e particularmente uma maneira sobrenaturalista de encarar a realidade 
espiritual. 
A hermenêutica destes movimentos é caracterizada por uma leitura das Escrituras e da realidade 
sempre em termos da ação sobrenatural de Deus. Deus é percebido somente em termos de sua ação 
extraordinária. Para o neopentecostal típico, Deus o guia na vida diária através de impulsos, sonhos, 
visões, palavras proféticas, e dá soluções aos seus problemas sempre de forma miraculosa, como 
306
libertações, livramentos, exorcismos e curas. A doutrina que define, mais que qualquer outra, as 
igrejas evangélicas no Brasil hoje, é a crença em milagres. É claro que não estou dizendo que crer em 
milagres seja errado. O que estou dizendo é que, na hora que a crença em milagres contemporâneos e 
diários passa a ser a característica maior da igreja evangélica, algo está errado. 
Desafios para a doutrina do Espírito Santo 
A hermenêutica sobrenaturalista do neopentecostalismo representa um desafio para a identidade 
reformada pois tende a menosprezar uma das doutrinas típicas do calvinismo, que é a providência de 
Deus. Partindo das Escrituras, os reformados usam o termo providência para se referir à ação de 
Deus, pelo seu Espírito, agindo no mundo através de pessoas e circunstâncias da vida para atingir seus 
propósitos. Esses meios não são intervenções miraculosas ou extraordinárias de Deus na vida humana, 
mas simplesmente meios naturais secundários. Os calvinistas reconhecem que Deus intervém 
miraculosamente neste mundo, mas sempre em regime de exceção. Normalmente, ele age através 
dos meios naturais. 
O neopentecostalismo, por enfatizar a ação sobrenatural e miraculosa de Deus no mundo (a qual não 
negamos, diga-se), acaba por negligenciar a importância da operação do Espírito Santo através de 
meios secundários e naturais. Essa negligência torna-se mais séria quando nos conscientizamos que o 
Espírito normalmente trabalha através de meios secundários e naturais para salvar os pecadores. 
Acredito não ser difícil de provar que a esmagadora maioria dos cristãos foram salvos através de meios 
naturais – como o testemunho de alguém, a leitura da Bíblia, a pregação da Palavra – e não através de 
intervenções miraculosas e extraordinárias, como foi a conversão de Paulo. 
Como resultado do sobrenaturalismo neopentecostal, as igrejas reformadas por ele afetadas tendem a 
considerar os meios naturais como sendo espiritualmente inferiores. Um bom exemplo é a tendência 
de não se tomar remédios, como sendo falta de fé. Um outro resultado é a diminuição da pregação do 
Evangelho como meio de salvação dos pecadores, e a ênfase nos milagres como meio evangelístico. 
Assim, a obra do Espírito na Igreja e no mundo através dos meios naturais secundários é 
negligenciada, com graves e perniciosos efeitos nas vidas dos que abraçam a cosmovisão 
neopentecostal. 
Conclusão 
Esses desafios à identidade reformada quanto à ação do Espírito Santo já se encontram presentes em 
nosso meio, e prometem persistir por ainda muito tempo. Alguns dos movimentos contemporâneos 
que trazem no bojo de seus pressupostos e de sua metodologia esses desafios, continuam a crescer no 
Brasil, e a influenciar as igreja reformadas. Esses movimentos, como o reavivalismo, crescimento de 
igrejas, batalha espiritual e ecumenismo forçam as igrejas reformadas a reavaliar o que crêem quanto à 
ação do Espírito na Igreja e no mundo. O desafio é que façamos isso procurando cada vez mais 
conformar essas crenças com o ensino das Escrituras Sagradas, a Palavra de Deus, e com a nossa 
tradição calvinista. 
Quatro Princípios Bíblicos para se Entender a Batalha Espiritual 
Reverendo professor Diego Roberto 
Escola Missionaria Voz no Deserto 
(JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) 
A necessidade de princípios bíblicos 
A melhor maneira de abordarmos assuntos polêmicos é colocá-los dentro de seus contextos maiores. 
Se tivermos a visão do todo, poderemos com mais exatidão entender suas partes. Por exemplo, uma 
pessoa que tenta achar um endereço numa cidade simplesmente procurando as placas com o nome das 
ruas pode acabar desorientada e perdida. Se ela porém tiver um mapa, que lhe dá uma visão mais 
ampla da área onde ela se encontra, e mostra as ligações entre as ruas, poderá mais facilmente 
307
encontrar seu destino. Da mesma forma, quando colocamos o tema do confronto da Igreja com as 
hostes das trevas dentro de um contexto maior, e percebemos as ligações com outras áreas teológicas, 
podemos melhor entendê-lo. 
Em termos do conhecimento teológico global, o assunto não pertence a uma área somente. Quando 
falamos da polêmica entre salvação pela fé e/ou pelas obras, facilmente identificamos que o assunto 
pertence à área de soteriologia, ou seja, o estudo da salvação, uma área da enciclopédia teológica. Se 
tivermos uma boa compreensão dos princípios e fundamentos que orientam a soteriologia, poderemos 
mais facilmente entender tudo o que está envolvido nessa polêmica. Mas a luta entre a Igreja e Satanás 
não se enquadra em uma área somente, muito embora a demonologia bíblica, que por sua vez é um 
departamento da angelologia, (o estudo dos anjos bons e maus) certamente seja a principal área afim. 
O fato é que os ensinos e práticas da "batalha espiritual" levantam questões sérias relacionadas com 
diversas áreas do nosso conhecimento de Deus. 
Quando, por exemplo, alguns dos defensores do movimento falam de Satanás como se fosse um 
poder independente, autônomo e livre para fazer o mal neste mundo, está indiretamente entrando na 
área que trata dos decretos de Deus e da sua maneira de governar o mundo. Ainda, quando alguns 
revelam possuir informações extra bíblicas sobre o mundo invisível dos anjos e demônios – como por 
exemplo, o nome de determinados demônios e os locais geográficos onde supostamente habitam – 
está entrando na epistemologia, ou teoria do conhecimento. Essa área trata do modo pelo qual 
conhecemos as coisas ao nosso redor, inclusive o acesso humano ao conhecimento do mundo 
espiritual invisível, onde habitam e atuam os seres espirituais como anjos e demônios. 
Semelhantemente, quando todo tipo de mal que existe no mundo, quer moral ou circunstancial 
(como doença, dor, desemprego, etc.) é atribuído aos demônios, levanta-se a antiga discussão acerca 
da origem dos males e sofrimentos neste mundo presente. E quando é dito que os cristãos podem ser 
possuídos por um espírito maligno (ou ficar demonizados, para usar um termo mais em voga), 
estamos de volta à soteriologia – ou seja, qual a situação dos salvos diante dos ataques de demônios – e 
entramos também na cristologia, indagando qual a relação entre a obra vitoriosa e consumada de 
Cristo e a atividade satânica no presente. 
Quando procuramos entender os conceitos da "batalha espiritual" a partir de princípios gerais que 
controlam as diversas áreas abrangidas pelo tema, poderemos ter alguns trilhos sobre os quais 
poderemos conduzir o assunto. No que se segue, procuro analisar quatro desses princípios que têm 
importância fundamental para ele: a soberania de Deus, a suficiência as Escrituras, a queda da raça 
humana e a suficiência da obra de Cristo. Acredito que se forem compreendidos adequadamente pelos 
leitores, funcionarão como balizadores seguros pelos quais poderão prosseguir com maior certeza no 
conflito diário que enfrentamos contra as hostes espirituais da maldade. 
Quatro princípios fundamentais 
1. Deus é soberano absoluto do seu universo 
O título acima expressa um dos ensinamentos mais relevantes das Escrituras para o tema desse ensaio. 
Um soberano é alguém que está revestido da autoridade suprema, que governa com absoluto poderio, 
que exerce um poder supremo sem restrição nem neutralização. Quando dizemos que Deus é 
soberano, significa que ele tem poder ilimitado para fazer o que quiser com o mundo e as criaturas 
que criou, e que nenhuma delas pode, ao final, frustrar seus planos. Podemos fazer algumas 
afirmações quanto a essa doutrina. 
A soberania absoluta de Deus sobre sua criação percebe-se claramente nas Escrituras. No Pentateuco 
Deus revela-se como o Criador do mundo visível e invisível, e da raça humana. Ele é o Libertador dos 
seus e o Legislador que soberanamente passa leis que refletem sua santidade e exigem obediência 
plena de suas criaturas. Ele exerce total controle sobre a natureza que criou, intervindo em suas leis 
naturais, suspendendo-as (milagres). Assim, em contraste com os deuses das nações, ele é o supremo 
308
soberano do universo, acima de todos os deuses, que os julga e castiga, bem como aos que os adoram. 
Nos livros Históricos, lemos como Deus cumpre soberanamente suas promessas feitas a Abraão de dar 
uma terra aos seus descendentes, introduzindo-os e estabelecendo-os em Canaã, e ali mantendo-os até 
que os expulsasse por causa da desobediência deles. Os Salmos e os Profetas celebram a soberania de 
Deus sobre sua criação e sobre seu povo. É ele quem reina acima das nações e de seus deuses falsos, 
quem controla o curso desse mundo. Nele seu povo sempre pode confiar e depender. 
O mesmo reconhecimento encontramos nas Escrituras do Novo Testamento. Na plenitude dos 
tempos Deus envia soberanamente seu filho, e dá testemunho dele através de milagres poderosos, 
ressuscitando-o de entre os mortos. Esses eventos, bem como os que se seguiram na vida dos 
apóstolos e da Igreja nascente, ocorreram como o cumprimento da vontade de Deus. Esse ponto 
vemos claramente nos Evangelhos e no livro de Atos: a morte e a ressurreição de Jesus (At 2.23), 
bem como a oposição contra a Igreja (At 4.27-29) são simplesmente o cumprimento da soberana 
vontade divina, acontecendo como cumprimento das Escrituras. Para os apóstolos, "as profecias feitas 
no Antigo Testamento governavam o decurso da história da Igreja"(4). Assim, o derramamento do 
Espírito (2.17-21), a missão aos gentios (13.47), a entrada dos genti
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    TILA 01 ESTUDOSSOBRE – ANTROPOLOGIA TOTAL 1046 - PAGINA 6 ASSUNTOS! A imagem de Deus A liberdade humana As conseqüências do pecado "...homem e mulher os criou" Quem Somos? Por que, Calabar? APOSTILA Nº 01 ESTUDOS SOBRE – ANTROPOLOGIA SOBRE ANTROPOLOGIA A IMAGEM DE DEUS A Integridade Original da Natureza Humana Professor Diego Roberto Escola Missionaria Eclesiastica Voz no Deserto Introdução: Este talvez seja um dos capítulos mais importantes que estudaremos. Tentaremos responder perguntas como: Em que consiste a imagem de Deus no homem? Que efeito teve a queda do homem sobre a imagem de Deus? O que queremos dizer quando afirmamos que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus? O conceito de imagem de Deus é o coração da antropologia cristã. Precisamos entender bem este conceito.
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    2 O homemdistingue-se das demais criaturas de Deus, porque foi criado de uma maneira singular. Apenas do homem é dito que ele foi criado à imagem de Deus. Esta expressão descreve o homem na totalidade de sua existência, ele é um ser que reflete e espelha Deus. (Gn 1:26-28). Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra. (Gn 1:26-28). A imagem de Deus no homem não é algo acidental, mas é algo essencial à natureza humana. O homem não pode ser homem sem a imagem de Deus. O homem é a imagem de Deus, não simplesmente a possui, como se fosse algo que lhe foi acrescentado. "Imagem" e "Semelhança"? Qual o significado destas palavras? Aqui eu quero ver com os irmãos, os 4 estágios da imagem de Deus no homem. A imagem original, a imagem desfigurada, A imagem original, a Imagem desfigurada, A imagem restaurada e a Imagem aperfeiçoada. 1 - A imagem de Deus no homem originalmente No Velho Testamento encontramos apenas três passagens que tratam de forma específica a questão da imagem de Deus. (Gen. 1:26-28; 5:1-3; 9:6). "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança" . Sobre o significado das palavras "Imagem e Semelhança" entendemos que elas não se referem a coisas diferentes, embora alguns defensores da fé do passado tivessem crido diferente (1). Veja as razões porque entendemos que estes dois termos querem significar a mesma coisa: Em Gen. 1:26, aparecem as duas palavras "imagem e semelhan ça"; em 1:27 o autor usou apenas o termo "imagem"; em 5:1 ele resolve substituir o termo por outro - "semelhança", e, em 5:3, o autor novamente volta a usar as duas palavras , contudo em ordem diferente daquela usada em 1:26 - "semelhança e imagem" e em 9:6 ele volta a usar apenas um dos termos, optando agora pelo termo "imagem". Isto, deixa suficientemente claro para nós que "imagem e semelhança" são termos sinônimos, e que querem dizer a mesma coisa. Caso não fosse assim, o autor não faria estas mudanças alternando os termos. O Que Significa ser Criado á Imagem e Semelhança?
  • 3.
    Escola Missionaria V.N.D 3 Mas o que entendemos por Imagem e Semelhança? Por estes dois termos queremos dizer que o homem foi criado para refletir, espelhar e representar Deus. Nossos primeiros pais foram criados para refletir as qualidades que haviam em Deus, e isto em perfeita obediência, sem pecado. Agostinho diz que o homem foi criado "capaz de não pecar" (2). O homem podia agir perfeitamente e obedientemente na adoração , no serviço a Deus, no domínio e cuidado da criação e no amor e companheirismo uns com os outros. Berkhof diz que na concepção reformada, a Imagem de Deus consiste na integridade original da natureza do homem, integridade esta expressa: a. No Conhecimento Verdadeiro - Cl 3:10 "E vos revestistes do novo homem, que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou" b. Na Justiça - Ef. 4:24 "E vos revestais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade" c. Na Santidade - Ef 4:24 "E vos revestiais do novo homem, criado segundo Deus, em justi ça e retidão procedentes da verdade"(3) Van Groningen assevera que: Ao criar a humanidade á sua própria imagem, Deus estabeleceu uma relação na qual a humanidade poderia refletir, de modo finito, certos aspectos do infinito Rei-Criador. A humanidade deveria refletir as qualidades éticas de Deus, tais como "retidão e verdadeira santidade"... e seu "conhecimento" (Cl 3:10). A humanidade deveria dar expressão ás funções divinas em ralação ao cosmos e atividades tais como encher a terra, cultiv á-la e governar sobre o mundo criado. A humanidade em uma forma física, também refletiria as próprias capacidades do Criador: apreender, conhecer, exercer amor, produzir, controlar e interagir (4) Percebemos nas palavras do Dr. Van Groningen que ele apresenta a imagem de Deus como tendo uma tríplice relação: A. Relação com Deus, B. Relação com o próximo C. Relação com a criação. Iremos verificar em nosso estudo que em seu estado glorificado, os santos refletir ão esta imagem e semelhança restaurando no estado final, esta tríplice relação em sua perfeição. Antes do homem cair em pecado, ele refletia perfeitamente a imagem de Deus. Tudo estava em perfeita harmonia. Mas em que consistia este refletir a imagem de Deus?(5) 1 - O homem reflete a imagem de Deus como um ser que é relacional. Ele não é um ser que vive isolado, assim como Deus não vive só. Deus é Tripessoal, e se relaciona entre as pessoas da Trindade (Gn 1:26 - "Façamos o homem ... ")
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    4 O homemé uma pessoa, e como tal ele se relaciona. Foi por isto que Deus lhe fez uma companheira. 2 - O homem reflete a imagem de Deus pela sua capacidade de dominar sobre as outras coisas criadas O homem foi colocado como "senhor" da terra, para governá-la e cuidar dela. (Gn 1:26-28). O domínio do homem sobre as coisas criadas é parte essencial de sua natureza. Nesse sentido, o homem imita o Seu Criador, pois Deus é o Senhor soberano e absoluto exercendo domínio sobre toda a terra. A Deus pertence o domínio e o poder; ele faz reinar a paz nas alturas celestes. Jó 25:2 O teu reino é o de todos os séculos, e o teu domínio subsiste por todas as gerações. O SENHOR é fiel em todas as suas palavras e santo em todas as suas obras. Sl 145:13 Dn. 4:3,25,34 Quão grandes são os seus sinais, e quão poderosas, as suas maravilhas! O seu reino é reino sempiterno, e o seu domínio, de geração em geração. V. 3 Serás expulso de entre os homens, e a tua morada será com os animais do campo, e dar-te-ão a comer ervas como aos bois, e serás molhado do orvalho do céu; e passar-se-ão sete tempos por cima de ti, até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer. v. 25 Mas ao fim daqueles dias, eu, Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu, tornou-me a vir o entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. v. 34 Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus; se alguém serve, faça-o na força que Deus supre, para que, em todas as coisas, seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo, a quem pertence a gl ória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém! I Pe 4:11 Domine ele de mar a mar e desde o rio até aos confins da terra. Sl 72:8 3 - O homem reflete a imagem de Deus por Ter atributo que chamamos "essenciais" nele; sem os quais ele não poderia continuar sendo o que é: a) Poder intelectual: É a faculdade de raciocinar, inteligência e outras capacidades intelectivas em geral, que refletem aquilo que Deus tem. b) Afeições naturais: É a capacidade que o homem tem de ligar-se emocionalmente e afetivamente a outros seres e coisas. Deus tem esta capacidade. c) Liberdade moral: Capacidade que o homem tem de fazer as coisas obedecendo a princípios morais. d) Espiritualidade: A Escritura diz que o homem foi criado "alma vivente" (Gn 2:7). É a natureza imaterial do homem. Deus é espírito, e num certo sentido, o homem tem traços desta espiritualidade.
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    5 e) Imortalidade:Depois de criado, o homem não deixa mais de existir. A morte não é para o corpo, mas para o homem. Morte é separação e não cessação de existência. A imortalidade é essencial para Deus (I Tm 6:16). O homem, num caráter secundário derivado, passa a Ter a imortalidade. 2 - A queda e a Imagem Desfigurada Como sabemos, este estado de integridade ("posso não pecar") não foi mantido até o fim pelos nossos primeiros pais. Veio a desobediência e consequentemente a queda. Nossos primeiros pais, criados para refletir e representar Deus não passaram no teste. Provados, caíram e deformaram a imagem de Deus neles. Podemos fazer a seguinte pergunta: Quando o homem caiu, perdeu ele totalmente a Imago Dei? Respondemos que em seu aspecto estrutural ou ontológico (aquilo que o homem é), não foi eliminado com a queda, o homem continuou homem, mas após a queda, o aspecto funcional (aquilo que o homem faz) da imago Dei, seus dons, talentos e habilidades passaram a ser usados para afrontar a Deus. Para Calvino, a imagem de Deus não foi totalmente aniquilada com a Queda, mas foi terrivelmente deformada Ele descreveu esta imagem depois da queda como "uma imagem deformada, doentia e desfigurada" (6). O homem antes criado para refletir Deus, agora após a queda, precisa ter esta condição restaurada. Restauração esta que se estenderá por todo o processo da redenção. Esta renovação da imagem original de Deus no homem significa que o homem é capacitado a voltar-se para Deus, a voltar-se para o próximo e também voltar-se para a criação para governá-la. 3 - Cristo e a Imagem Renovada Num sentido, como já dissemos, o homem ainda é portador da imagem de Deus, mas também num sentido, ele precisa ser renovado nesta imagem. Esta restauração da imagem só é possível através de Cristo, porque Cristo é a imagem perfeita de Deus, e o pecador precisa agora tornar-se mais semelhante a Cristo. Lemos em Cl. 1:15 "Ele é a imagem do Deus invisível" e em Romanos 8:29 que Deus nos predestinou para sermos "Conforme a imagem de Seu Filho ..." (I Jo 3:2; II Co 3:18) 4 - A Imagem Aperfeiçoada A completação da perfeição dos cristãos será a participação da final glorificação de Cristo Jesus. Não somos apenas herdeiros de Deus, mas também co-herdeiros com Cristo, "Se com ele sofremos, para que também com ele sejamos glorificados" (Rm 8:17). Não podemos pensar em Cristo separado de seu povo, nem de seu povo separado dele. Assim será na vida futura: a glorificação dos cristãos ocorrerá junto com a glorificação do Senhor Jesus . É exatamente isto que Paulo nos ensina em Cl 3:4:
  • 6.
    6 "Quando Cristoque é a nossa vida, se manifestar, então vós também sereis manifestados com ele, em glória" A glorificação é voltar à perfeição com a qual fomos criados por Deus, é voltar a imagem de Deus. Este é o propósito último de nossa redenção. Esta perfeição da imagem será o auge, a consumação do plano redentivo de Deus para o seu povo. E isto só é possível em Cristo. Em Cristo, o eleito não apenas volta ao que era Adão antes de pecar, mas vai um pouco mais à frente: Note as palavras de Anthony Hoekema: Devemos ver o homem à luz de seu destino final (...) Adão ainda podia perder a impecabilidade e bem aventurança, mas aos santos glorificados isso não poderá mais ocorrer. Adão era "Capaz de não pecar e morrer"(posse non peccare et mori), os santos na glória, porém "não serão capazes de pecar e morrer" (non posse peccare et mori). Esta perfeição, que não se poderá perder, é aquilo para o qual o homem foi destinado e nada menos do que isto (7) Sabemos que os santos glorificados, em seu estado final não vão pecar nem morrer. Várias passagens das Escrituras nos garantem isto. (Is. 25:8 I Cor. 15:42,54; Ef. 5:27; Ap. 21:4) Paulo em sua carta aos Efésios nos ensina que o propósito de Deus para sua igreja, é apresentá-la "a si mesmo Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito" (cf. Ef. 5:27) Nesta dispensação, até a Segunda Vinda de Cristo, carregamos conosco, conforme lemos em I Cor. 15:49, a "imagem do que é terreno", mas na glorificação, teremos plena e perfeitamente a "imagem do celestial", ou seja, a imagem de Cristo. No porvir, nossa vida será gloriosa, porque teremos a imagem de Cristo, seremos como Ele é, e Cristo sendo a imagem de Deus, teremos a imagem de Deus de volta em nós de forma completa e perfeita. Calvino comentando este texto de I Cor. 15:49 diz: Pois agora começamos a exibir a imagem de Cristo, e somos transformados nela diária e paulatinamente; porém esta imagem depende da regeneração espiritual. Mas depois seremos restaurados à plenitude, que em nosso corpo, quer em nossa alma, o que agora teve in ício será levado à completação, e alcançaremos, em realidade, o que agora esperamos(8) Note ainda as palavras de João: "Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque havemos de v ê-lo como ele é" I Jo. 3:2 O que João nos diz, é que, na ocasião da Segunda Vinda de Cristo, seremos assemelhados a Ele, perfeita e completamente. E como Cristo é a imagem de Deus invisível, os santos glorificados terão a imagem de Cristo. Isto significa dizer que a nossa imagem na glorificação, será restaurada à imagem de Deus. Esta semelhança a Deus e a Cristo é o propósito final da nossa redenção, ou seja, a glorificação.
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    7 Por enquanto,a imagem de Cristo em nós está em processo contínuo conforme nos diz Paulo em II Cor. 3:18 que estamos "sendo transformados de glória em glória" , mas após a nossa ressurreição, poderemos refletir a perfeição desta imagem, que Deus começou em nós, e assim, só então, poderemos ser tudo aquilo para o qual fomos destinados pelo Pai. Neste processo de restauração da imagem de Deus em nós, através de Cristo, chamamos de santificação que é a "conformidade progressiva à imagem de Cristo aqui e agora (...); a glória é a conformidade perfeita a imagem de Cristo lá e então, Santificação é a glória começada; glória é a santificação completada" (9) Gerrit C. Berkouwer, teólogo holandês, nos mostra que a verdadeira imagem de Deus se pode conseguir apenas em Jesus Cristo que é a imagem perfeita de Deus. Ser renovado á imagem de Deus é tornar-se parecido com Jesus (10). Todo o povo de Deus, de todas as nações, tribos, línguas, estará então com Deus por toda a eternidade, glorificando a Deus pela adoração, serviço e louvor. Todos nossos atos serão enfim feitos sem pecado com perfeição e aí o propósito que Deus estabeleceu para seus remidos terá sido alcançado. A Imagem de Deus para João Calvino (1509 - 1564) - Veja como Calvino responde ás seguintes questões sobre a Imagem de Deus: 1 - Onde situa-se a imagem de Deus no homem? R: Segundo Calvino, ela é encontrada fundamentalmente na alma do homem. 2 - Em que constitui originalmente a imagem de Deus? R: Com base em Cl 3:10 e Ef 4:24, Calvino conclui que a imagem de Deus no homem inclu ía originalmente o verdadeiro conhecimento, justiça e santidade. 3 - Existe algum aspecto sob o qual o homem decaído ainda é a imagem de Deus? R: Antes da queda, de acordo com Calvino, o homem possuía a imagem de Deus em sua perfeição. A queda, contudo, teve um efeito devastador sobre esta imagem. A imagem de Deus não é totalmente aniquilada pela queda, mas é terrivelmente afetada, deformada. 4 - O que a queda fez à imagem de Deus? R: O que aconteceu foi que quaisquer dons ou habilidades que o homem reteve, tais como raz ão e a vontade foram pervertidos e deturpados pela queda. Todas as suas faculdades estão viciadas e corrompidas. 5 - Como a imagem de Deus é renovada no homem?
  • 8.
    8 R: ParaCalvino, esta imagem é restaurada pela fé e começa na conversão. É a nossa conformação com a pessoa de Cristo. Isto é uma obra da graça de Deus que se inicia na regeneração e progressivamente termina na glorificação dos santos. 6 - Quando será completada a renovação da imagem de Deus? R: Calvino responde: Na vida por vir. Seu explendor pleno será alcançado apenas no céu. NOTAS (1) Tertuliano (160-225); Orígenes e Clemente de Alexandria (Ver Hoekema: Criados á Imagem de Deus (São Paulo, Ed. Cultura Cristã, 1999), 46-8 (2) Santo Agostinho, citado por Hoekema, op cit, p. 98 (3) L. Berkhof, Teologia Sistemática (São Paulo: Luz para o Caminho, 1990), 206 (4) Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho testamento (Luz para o caminho: Campinas) 1995 (5) Extraído adaptado de Apostila do Dr. Héber C. de Campos. (6) As Institutas, I, XV, 3 (7) Anthony Hoekema - Criados Á Imagem de Deus (São Paulo, Ed. Cultura Cristã , 1999), 108 (8) João Calvino, Comentário de I Coríntios , (Edições Paracletos, São Paulo, 1996), 488 (9) F. F. Bruce, citado por Geoffrey B. Wilson, Romanos - Um Resumo de Pensamento Reformado, (SP - PES) 130 (10) G.C.Berkouwer, Man, The image of God, p. 107 EXERCÍCIOS PARA FIXAÇÃO DA MATÉRIA 1) O que significa dizer que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus? 2) "Imagem" e "Semelhança" são termos que querem dizer a mesma coisa ou coisas diferentes? 3) Segundo Berkhof, em que consiste a integridade original da natureza do homem? 4) Como o homem reflete a Imagem de Deus? 5) Com a queda, o homem perdeu a imagem de Deus? Justifique: 6) Como a imagem de Deus é renovada no homem? A LIBERDADE HUMANA Rev. Diego Roberto "Deus dotou a vontade do homem de tal liberdade, que ele nem é forçado para o bem ou para o mal, nem a isso é determinado por qualquer necessidade absoluta da sua natureza" Confissão de Fé de Westminster, Capítulo IX, seção 1
  • 9.
    9 Quando estudamosa doutrina do Homem, torna-se inevitável enfrentarmos a questão da liberdade. Os teólogos reformados, os chamados calvinistas, têm sido criticados como alguém que não crê que o homem seja livre. Isto não é verdade, e os membros da IPO que têm acompanhados os últimos estudos, já perceberam isso. Nós cremos que o homem tem liberdade sim, mas a questão que precisamos definir muito bem é: O que é ser livre? O que entendemos por liberdade? Muita confusão já tem sido criada em torno do termo "livre", e isto porque ele pode ser visto em vários sentidos. A maioria dos nossos irmão na fé diz acreditar no "Livre Arbítrio" Contudo, a maioria não tem a menor idéia do que isto significa. A vontade, faculdade que todo homem tem, tem sido exaltada como a fant ástica capacidade que a alma tem para discutir sobre coisas, fatos da vida. Mas as pessoas estão dizendo que o arbítrio (vontade) é livre, precisamos perguntar: De que a vontade é livre? De que ela é capaz? Para provar que arbítrio (vontade) não é livre lanço mão de 2 proposições: 1. O Mito da Liberdade Circunstancial: A vontade pode ser livre para planejar, mas não para executar. Quando se diz que a vontade é livre, obviamente não quer dizer que ela determina o curso da nossa vida. Não escolhemos doença. pobreza ou dor; Não escolhemos nossa condição social, nossa cor, ou nossa inteligência. Ninguém pode negar que o homem tem vontade, e que esta faculdade de escolher o que dizer, fazer, pensar, etc. ... tem nos frustrado bastante. Pensando em nossa liberdade circunstancial, podemos projetar um curso de ação, mas não podemos realizar o intento. Em outras palavras, nossa vontade tem a capacidade de tomar uma decisão, mas não o poder de realizar seu propósito. ( PV 16:9; Jr 10:23; Lc 12:18-21) Sim. O homem pode escolher e planejar o que tiver vontade. Mas a sua vontade não é livre para realizar nada contrário à vontade de Deus. 2. O Mito da Liberdade Ética: Diz-se que a vontade do homem é livre para decidir entre o bem e o mal. Mas é livre do que? É livre para escolher o que? A vontade do homem é a sua capacidade de escolher entre alternativas. A sua vontade, de fato, decide qual a sua ação entre um certo número de opções. Nenhum homem é compelido a agir contrário à sua vontade, nem forçado a dizer aquilo que não quer. Sua decisões não são formadas por uma força externa, mas por forças internas.
  • 10.
    10 A vontadetoma decisões, e estas decisões tomadas não estão livres de influências. O homem escolhe com base nos sentimentos, gostos, entendimentos, anseios, etc. Em outras palavras, a vontade n ão é livre do homem mesmo. Suas escolhas são feitas pelo seu próprio caráter. Sua vontade não é independente de sua natureza. A vontade é inclinada àquilo que você sente, ama, deseja e conhece. Você sempre escolhe com base em sua disposição; de acordo com a condição do seu coração. A Bíblia diz que nossa vontade não é livre, ao contrário, ela é escrava do coração - ( Gn 6:5; Rm 3:12; Jr 13:23 ). A capacidade de escolha do coração do homem é livre para escolher qualquer coisa que o coração ditar; assim, não existe qualquer possibilidade de um homem escolher agradar a Deus sem que haja a prévia operação da Graça Divina. Note o texto bíblico: "Nós O amamos porque Ele nos amou primeiro" I Jo 4:19 Se carne fresca e salada de tomate fossem colocadas diante de uma leão faminto, ele escolheria a carne. É a natureza que dita sua escolha ( Jr. 13:33 ) Por isto não existe livre arbítrio. O arbítrio humano, assim como toda a natureza humana, é inclinado só e continuamente para o mal. (Jr 13:23). Não existe livre arbítrio a menos que Deus mude o coração e crie um novo coração em submissão e verdade, o homem não pode decidir por Jesus para Ter a vida a vida eterna. ( Jo 3:7; Ez 11:19; 36:26; Atos 16:14 ). A vontade não é livre. Pelo contrário, ela é escrava, escrava do coração pervertido; escrava da natureza ( Jr. 17:9; 12:2; Mc 7:6,21 ). Foi a vontade de escolher o fruto proibido que nos atirou na miséria. Só a vontade de Deus tem realmente liberdade, e se quiser pode dar vida. (Jo 1:12-13) A ORIGEM DA VERDADEIRA LIBERDADE (posse non peccare) Definição: Liberdade é a capacidade de fazer o que é agradável a Deus. Quando Adão e Eva foram criados, tinham a capacidade de escolher como a verdadeira liberdade. Nas palavras de Agostinho, nossos primeiros pais eram "capazes de não pecar" (posse non peccare). Eles poderiam permanecer no estado de tentação que a serpente lhes impôs. Adão tinha o Livre arbítrio, tinha a capacidade de fazer a escolha certa. Possuía a verdadeira liberdade. Contudo, ainda não era a liberdade perfeita; era verdadeira, porém não perfeita. Pois havia a possibilidade da queda. Note as palavras da Confissão de Fé de Westminster, Capítulo IX, seção 2
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    11 "O homem,em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que pudesse decair dessa liberdade e poder" A VERDADEIRA LIBERDADE É PERDIDA (non posse non peccare) Quando nossos primeiros pais ( Adão e Eva ) caíram em pecado, perderam aquela Liberdade que o Criador lhes havia dado. Perdeu não a capacidade de escolher, mas a verdadeira liberdade, ou seja, perdeu a capacidade de escolher aquilo que agrada a Deus. Novamente fazemos menção do pensamento de Agostinho. Diz ele: podemos dizer que antes da queda, o homem era "capaz de não pecar". Após a queda é "não ser capaz de não pecar" (non posse non peccare) As Escrituras ensinam de maneira muito clara que a humanidade decaída perdeu a sua verdadeira liberdade. (João 8:34; Romanos 6:6,17-20 ) A VERDADEIRA LIBERDADE É RESTAURADA (posse non peccare) No processo de redenção, o homem decaído começa a restaurar sua liberdade perdida na queda. Agostinho chamou o estado do homem regenerado de "posse non peccare" - posso não pecar, porque a redenção significa libertação da "escravidão vontade". Vamos dar um olhada em algumas passagens das Escrituras que mostram que a liberdade para fazer a vontade de Deus, é restaurada na regeneração, operada pelo Espírito Santo em nós. (Jo 8:34-36; Gl 5:1,12,13; II Co 3:17-18; Rm 6:4-6; 14-18; 22 ) A verdadeira liberdade não é licença para pecar ; não significa fazer o que bem quiser. Segundo o apóstolo Pedro (I Pe 2:16), quem tem liberdade, usa-a para servir a Deus. O exercício de nossa liberdade envolve nossa responsabilidade neste processo que chamamos de santificação. A VERDADEIRA LIBERDADE APERFEIÇOADA (non posse peccare). Em nosso processo de santificação, que é a verdadeira liberdade no processo de redenção, ainda podemos pecar, mas no estado glorificado, na vida por vir, nossa liberdade ser á aperfeiçoada. Então, como disse Agostinho; estaremos no estado "não posso pecar" (non posse peccare). Quando estivermos com nossos corpos glorificados, já não seremos mais impedidos em obedecer a Deus com a perfeição que Ele deseja.
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    12 Cf. ICo 15:42-43 ; Ap 21:4 Esta glorificação não será apenas na alma, mas também no físico. A Imago Dei, ( Imagem de Deus ) antes ofuscada por causa do pecado de Adão, chegará a sua perfeição por ocasião da Segunda Vinda de Cristo, quando então, seremos ressuscitados e habitaremos para sempre com o Senhor (cf. I Tes. 4:13-18). o estado final dos Santos Glorificados Na nossa glorificação, seremos restaurados novamente á perfeita imagem de Deus. Em nosso estado glorificado, vamos poder refletir Deus em sua plenitude. Reporto-me ao Dr. Van Groningen, que afirmou que Deus ao nos criar á sua imagem e semelhança nos deu três mandatos que delineiam os deveres pactuais de Deus com o homem: São eles: os mandatos Espiritual, o Social e o Cultural. A glorificação ( a imagem aperfeiçoada ) implica em que : A. O Homem passará a ter um relacionamento perfeito com Deus. ( Mandato espiritual ) De acordo com as Escrituras, os remidos na glória vão poder desfrutar da comunhão plena com Deus; vão Ter uma visão de Deus na face de Cristo ( ap. 22:4 ); vão desfrutar da completa isenção do pecado; vão adorar plenamente o Deus verdadeiro ( Ap. 19:6,7 ). Prestarão um genuíno serviço ao Rei das nações ( Ap. 22:3 ). Tudo isso tinha sido perdido na Queda. B. O homem passará a Ter um relacionamento perfeito com o próximo (Mandato Social) No estado glorificado, ou seja, com a Imagem de Deus aperfeiçoada, os santos não mais vão se relacionar egoísticamente, não haverá ressentimentos, mentiras, odio ou manipulações. Amor e comunhão é o que marcará definitivamente o relacionamento entre todos os irmãos. As diferenças desaparecerão. Todos os membros desta Família estarão agora e para todo o sempre na Casa do Pai. C. O homem passará a Ter um relacionamento perfeito com o cosmos. ( mandato Cultural ). Paulo em Romanos 8:21 nos diz que "a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção...". Não apenas o ser humano será redimido, mas também toda a criação. Não apenas o homem espera por um novo começo, mas também a criação o espera de forma expectante (Ef 8:19). A glória por vir também receberá uma criação redimida da corrupção do tempo presente. Em Isaías, Deus já prometeu criar novos céus e uma nova terra (vv. 22 e 23) para o seu povo se regozijar. Se com a Queda, o homem perdeu o domínio sobre a criação, agora no estado de glória, ele vai exercer o domínio, o governo sobre a natureza. Vai herdar a terra. Não mais vai destruí-la como antes. Pelo contrário, o homem vai cumprir o mandato e governar sobre toda a terra, ( G, 1:27,28 ) agora redimida do cativeiro da corrupção.
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    13 AS CONSEQÜÊNCIASDO PECADO Rev. Diego Roberto A Queda dos nossos primeiros pais Introdução: A queda de nossos primeiros pais, trouxe conseqüências desastrosas não apenas para eles, mas também para toda a humanidade. Entender o que aconteceu com Adão e Eva após o primeiro pecado é chave para compreendermos a situação em que o homem se encontra hoje. Isto porque, Adão não agiu como uma pessoa particular, mas como representante de toda a humanidade. I - CONSEQÜÊNCIAS PARA ADÃO E EVA: Veja o que nos diz a Confissão de Fé de Westminster : "Por este pecado eles decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus, e assim se tornaram mortos em pecado e inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da alma" Capítulo VI, seção 2 "Por este pecado", diz a Confissão de Fé de Westminster: 1) Decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus (imagem desfigurada) 2) Tornaram-se mortos em pecado (escravos do pecado) 3) Inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da alma (depravação total) Ao estudar o texto de Gênesis 3:7-24, vemos as seguintes conseqüências para nossos primeiros pais: GÊNESIS 3:7-24 1-) Após o pecado foram dominados por um sentimento de vergonha. V.7 Antes tinham consciência da nudez, mas não tinham vergonha. (Gn 2:25) "Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais". (Gn 3:7) Antes tinham consciência da nudez, mas não tinham vergonha. Veja o texto abaixo: "Ora um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonharam". (Gn 2:25)
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    14 O resultadode terem comido o fruto proibido, não foi a aquisição da sabedoria sobrenatural, como satanás havia dito (v. 5), ao contrário, agora eles descobriram que foram reduzidos a um estado de miséria. 2-) Após o pecado sentiram o peso de uma consciência culpada (Gn 3:7) Agora eles reconheciam que haviam pecado contra Deus, e resolveram fazer vestes de folha de figueira para se cobrirem. É interessante observar que em Gn 3:7 afirma que os "olhos de ambos foram abertos". Obviamente que não se trata de olhos físicos porque estes já estavam bem abertos antes, mas trata-se de olhos espirituais, os olhos do entendimento, os olhos da consciência, que agora passam a ver e se acusarem. Eles agora "percebem" que estão nús. Perderam o estado da inocência. Percebem não apenas a nudez física, mas a nudez da alma que é muito pior, pois esta impede o homem de perceber Deus. A nudez de Adão e Eva é a perda da justiça original da imagem de Deus. Todos os seres humanos nascem agora ( após a Queda ) nesta condição e as Escrituras dizem que é necessário que recebamos as "vestes brancas" - Ap 3:18; "vestes de salvação" - Is 61:10, que é a justiça original que Cristo nos traz de volta. Eles agora estavam percebendo que a sua condição física espelhava a sua condição espiritual. 3-) Após o pecado, tiveram medo e fugiram - v.8 "E ouviram a voz do Senhor Deus que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da prsença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim. E chamou o Senhor Deus a Adão e disse-lhe: Onde estás? E ele disse: Ouvi a Tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me" Gn 3: 8-10 Adão e Eva se escondem ao chamado de Deus. Consciência culpada sempre produz medo e fuga. Mas que tolice! Pensaram eles que poderiam se esconder de Deus? Pecaram e agora têm medo da sentença condenatória que Deus pode proferir contra eles. O pecado os separou de Deus, rompeu a comunhão com Deus. E é sempre assim. A menos que a obra de Cristo seja realizada em nosso favor, estaremos frente a frente com o juízo de Deus - Hb 2:3. 4-) Após o pecado procuraram uma solução inútil para seu pecado. Gn 3:7. Eles tentam salvar as aparências, ao invés de procurar o perdão de Deus. Fabricando aquelas cintas de folha de figueira, eles estavam tão somente fazendo uma tentativa de acalmar a própria consciência.
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    15 Hoje emdia também é assim. Os descendentes de Adão têm medo de serem descobertos em suas transgressões. Mas seu objetivo principal não é buscar o perdão, mas sim, aquietar a consciência e fazem isto assumindo o papel de religiosos, parecendo aos outros que est ão bem vestidos. Mas não obstante nossas roupas religiosas, o Espírito Santo nos faz ver a nossa nudez espiritual. Não adianta dar desculpas esfarrapadas. Precisamos nos humilhar diante daquele que tudo v ê. 5-) Após o pecado, há uma fuga da responsabilidade - Gn 3:10 "E ele disse: Ouvi a Tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me" Gn 3:10 Adão tenta encobrir sua culpa, colocando a culpa em Eva (v 12), que por sua vez, culpou a serpente (v 13). Eles não aceitaram a responsabilidade pelo erro. Ao contrário transferiram a responsabilidade para o outro. Não é assim também em nossos dias? 6 -) Após o pecado eles tentaram arranjar uma justificativa - Gn 3:12 "... a mulher que me deste" Adão chega a ser insolente. Ele não disse: "A mulher me deu do fruto e eu comi ...", mas disse: "A mulher que Tu me deste ...". Em outras palavras, Adão disse: "Se tu não me tivesses dado essa mulher, eu não teria caído". Hoje em dia, nós podemos estar fazendo o mesmo. Em nossos esforços de se justificar, acabamos por culpar a Deus dos pecados que cometemos - Pv 19:3. Exemplos: • A razão tentou eximir-se de culpa, culpando o povo Ex 32:22-24. • Saul fez o mesmo - I Sam 15:17-21. • Pilatos deu ordem para crucificar Jesus e depois atribuiu o crime aos judeus - Mt 27:24. 7-) Após o pecado, a mulher daria a luz em meio a dores ( Gn 3:16-19) Nesta sentença que Deus profere contra a mulher, vemos que a maldição foi mitigada. Isto porque, a gravidez era uma bênção visto que a mulher daria à luz e se multiplicaria sobre a terra e o descendente nasceria para pisar a cabeça da serpente. Mas a dor e o desconforto do parto são conseqüências da queda. 8-) Após o pecado, a Terra foi amaldiçoada. (Gn 3:17) A natureza sofre junto com a humanidade, compartilhando assim as conseqüências da queda.
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    16 As Escriturasdescrevem esta maldição em três maneiras: a) O sustento será obtido com fadiga v 17. Assim como a mulher terá seus filhos com dor, o homem haverá de comer o fruto da Terra por meio de trabalho penoso. Antes da queda, o trabalho de Adão no jardim era prazeroso e agradável, mas de agora em diante, seu trabalho, bem como o dos seus descendentes será seguido de cansaço e tribulação. b) A Terra produzirá cardos e abrolhos v 18. O cultivo da terra seria mais difícil do que antes. Cardos e abrolhos aqui significam: plantas indesejáveis, desastres naturais, enchentes, insetos, secas e doenças. A natureza foi subvertida com o pecado do homem. (Rm 8:20-21). c) No suor do rosto comerás v 19. O trabalho árduo se tornaria a porção do homem. A vida não seria fácil. 9-) Após o pecado, a morte alcança o homem - v 19: A palavra "morte" ocorre na Bíblia, com 3 sentidos diferentes, embora o conceito de separação seja comum aos três: a) Morte Física: Ecl 12:7 b) Morte Espiritual: Rm 6:23; 5:12 c) Morte Eterna: Mt 25:46 10-) Após o pecado, foram expulsos da presença de Deus - Gn 3:22-24. Estar fora do jardim era equivalente a estar fora da presença de Deus. Era a ira de Deus se revelando aos nossos primeiros pais pela desobediência deles. (Judas 6) II - AS CONSEQÜÊNCIAS PARA A RAÇA HUMANA: No tópico anterior vimos que a queda trouxe conseqüências desastrosas para os nossos primeiros pais. Mas estas conseqüências não ficaram restritas apenas ao Édem. Toda a raça humana sofre as conseqüências do pecado dos nossos primeiros pais. Assim se expressa a nossa Confissão de Fé: "Sendo eles ( Adão e Eva ) o tronco de toda a humanidade, o delito dos seus pecados foi imputado a seus filhos; e a mesma morte em pecado, bem como a sua natureza corrompida, foram transmitidas a toda a
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    17 sua posteridade,que deles procede por geração ordinária" Capítulo VI, 3 (Sl 51:5; 58:3-5; Rm 5:12, 15:19) Em vista da queda, o pecado tornou-se universal; com excessão do Senhor Jesus, nenhuma pessoa que tenha vivido sobre a terra esteve isenta de pecado. Esta mancha que atinge a todos os homens recebe o nome na Teologia de PECADO ORIGINAL. Vamos estudá-lo agora. O PECADO ORIGINAL O que é o pecado original? Usamos esta expressão por três razões: 1ª) Porque o pecado tem sua origem na época da origem da raça humana. Em outras palavras, é pecado original porque ele, se deriva do tronco original da raça. 2ª) Porque é a fonte de todos os pecados atuais que mancham a vida do homem. 3ª) Porque está presente na vida de cada indivíduo desde o momento do seu nascimento. O pecado original pode ser dividido em dois elementos: Culpa original e Corrupção original. 1-) Culpa original: Culpa real e pena real. A culpa é o estado no qual se merece a condenação ou de ser passível de punição pela violação de uma lei ou de uma exigência moral. Podemos falar de culpa em dois sentidos: • Culpa Potencial ou Culpa de Réu ( Inerente ao ser humano ) Esta culpa é inseparável do pecado, jamais se encontra em quem não é pecador e é permanente, de modo que, que uma vez estabelecida não é removida nem mesmo com o perdão. Ela faz parte da essência do pecado. Os méritos de Jesus Cristo não tiram esta culpa do pecador porque esta lhe é inerente. O fato de Cristo Ter morrido pelo pecador não o torna inocente, mas apenas livre da condenação, livre da penalidade da lei, justificado portanto. • Culpa (de fato) Real ou Pena do Réu: Esta culpa não é inerente ao homem, mas é o estatuto penal do legislador, que fixa a penalidade da culpa. Pode ser removida pela satisfação pessoal ou vicária das justas exigências da lei.
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    18 É nestesentido que Jesus levou nossa culpa, isto é, pagando a penalidade da lei. Jesus não levou nossa culpa potencial, mas sim nossa culpa real. Em outras palavras, Jesus n ão levou nossa culpa, pagou nossa pena. 2-) Corrupção original: O pecado inclui corrupção. Por corrupção entende-se a poluição ou contaminação inerente à qual todo pecador está sujeito. É uma realidade na vida de todos os homens. É o estado pecaminoso, do qual surgem atos pecaminosos. Enquanto a culpa tem a ver com a nossa posição perante a lei, a corrupção tem a ver com a nossa condição perante a lei. Como uma implicação necessária de nosso comprometimento com a culpa de Adão, todos os seres humanos nascem em um estado de corrupção. Esta corrupção que se propaga e afeta todas as partes da natureza humana recebe o nome de Depravação Total e que resulta numa incapacidade total. Vejamos agora em nosso próximo estudo, os dois aspectos da Corrupção original: Depravação Total ou Generalizada e a Incapacidade Espiritual. "...homem e mulher os criou" Pr. Gilson Aristeu de Oliveira "Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora que lhe seja idônea. Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre o homem, e este adormeceu; tomou -lhe, então, uma das costelas, e fechou a carne em seu lugar; e da costela que o Senhor Deus lhe tomara, formou a mulher e a trouxe ao homem. Então disse o homem: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; ela será chamada varoa, porquanto do varão foi tomada. Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Então Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-ado; m inai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra". (Gn 2. 18, 21-23; 1.27,28) "Homem e mulher os criou" diz a Escritura Sagrada e nessa pequena expressão está todo o mistério de ser adam, o ser humano como Deus o criou. O homem e a mulher são iguais em dignidade e destino sobrenatural, mas tão paradoxais com respeito à natureza humana. E por conta das diferenças, aliás, significativas diferenças, já houve quem dissesse que eles pertencem a planetas distintos: o homem é da Terra, mas a mulher veio de algum outro planeta... É uma alienígena! Pensa e reage de modo tão diferente! Há quem seja muito ferino com a mulher. Por exemplo, Catão, pensador romano, disse: "Consente que a mulher, uma só vez, chegue ao pé de igualdade contigo [estava falando a um homem], e desse momento em diante, ela se tornará superior a ti". Vejam, porém, o que uma mulher disse a respeito das outras mulheres. Foi Mme. de Staél assim se expressou: "Alegro-me por não ser homem, já que o sendo teria que me casar com uma mulher." No entanto, Plutarco opinou: "As mulheres, quando amam, põem no amor algo divino. Esse amor é como o Sol que anima a Natureza." Que coisa linda disse ele a respeito do amor feminino!
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    Escola Missionaria EclesiásticaV.N.D 19 Nada disso invalida o relevante fato que homem e mulher têm visões diferentes do mundo, da vida, do amor, mas se completam. E um escritor evangélico dos nossos dias, o Pr. Jaime Kemp, também deu a sua opinião dizendo que "Eva foi criada para ser a peça que faltava no quebra-cabeça da vida de Adão" . COMPREENDENDO AS DIFERENÇAS Homem e mulher são iguais, mas são diferentes. Que contradição é essa? São iguais na mesma vida vegetativa e faculdades sensoriais, são iguais nos mesmos atributos intelectuais e no mesmo destino natural e sobrenatural, nas mesmas causas comuns. E, no entanto, são tão diversos, visto que cada sexo tem características próprias. Se o homem tem maior força física, e é preparado para grandes esforços nesse campo, a mulher tem muito mais força intrínseca, como que preparada para não gemer enquanto sofre, nem cansar. A mulher tem graça, tem ternura, tem feitio delicado. E se o homem se doa ao trabalho, e dele faz o seu centro de interesse; a mulher se doa integralmente a quem ama (marido, filhos), e faz do lar o seu centro de atenção. Se ele busca o exercício do poder, da chefia, da conquista do mundo exterior, da imposição de ideais; ela atua mais diretamente sobre aqueles a quem ama. É de uma presença impressionante no seu lar. Se ele tem espírito de decisão, de iniciativa, uma visão segura e clara dos objetivos (por isso, é "chefe de família"), ela possui delicadeza, sensibilidade, dedicação, beleza física, e o dom da maternidade física e espiritual (por isso é chamada "mãe de família"). As diferenças não devem se tornar obstáculo ao amor. Pelo contrário, ambos devem conhecê-las, identificá-las, aceitá-las e não considerá-las como barreira, como pedra-no-meio-do-caminho do amor e do casamento. É verdade que desentendimentos até podem surgir por conta dessas diferenças. Acontece, e muito. Não esqueçamos, no entanto, que para o equilíbrio do lar é fundamental que homem e mulher coexistam, e coabitem (mesmo que ela seja de outro planeta!), mas vivam com suas características. Aliás, nem devemos olhar para isso, nem devemos olhar para as divergências, senão para o seu aspecto de complementação. Não foi assim que o Senhor projetou?: "Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora que lhe seja idônea". (Gn 2.18). Uma ajudadora, uma auxiliadora, uma complementação naquilo que o homem não sabe nem pode fazer; ajudadora que esteja à sua altura, "que lhe seja idônea", diz o texto. É por essa razão que temos dentro de nós forças poderosíssimas que agem sem que, sequer, percebamos. E uma delas é a busca do caráter oposto. É a necessidade da antítese, e esse é o milagre do amor: são dois necessitados que se completam. CONTINUANDO AS DIFERENÇAS Nietzche, filósofo extremamente racional do século passado, e, ao mesmo tempo, muito cínico, desejando expressar a natureza da mulher deixou o seguinte: "Tudo na mulher é um enigma, e tudo na mulher tem uma solução: chama-se gravidez." Há estruturas psíquicas bem distintas no homem e na mulher. Já sabemos que o homem pensa de um jeito, e a mulher pensa de outra maneira. Elas decorrem do fato que a natureza guiada por Deus n ão sobrecarrega as criaturas de atributos de que não necessitam,. Isso quer dizer que em cada ser, em cada criatura, uma é forte e expressiva nas qualidades de que precisa. Assim, o homem tem certas qualidades que não se encontram na mulher, e vice-versa. Aí se completam. Precisam disso para cumprir as suas tarefas, mas são fracos, razão porque um necessita do outro, completando-o. O homem tem tudo o que falta à mulher, e vice-versa. Ou seja, virtudes masculinas na mulher são defeitos, como modos femininos no homem não são convenientes
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    20 Este nãoé um trabalho sobre psicologia científica. A ênfase há de ser não exatamente nas diferenças, mas em como conhecê-las e administrá-las, ou como utilizá-las adequadamente, e assim enriquecer a vida do casal. E sabem o quê? Nem sempre a mesma palavra ou expressão significa a mesma coisa para o homem e para a mulher. Por exemplo, que significado tem a expressão "lua de mel" para certos homens? Que significa a mesma expressão para as mulheres? Quando faço as entrevistas pré-matrimoniais, essa é uma das perguntas. Exatamente isso: "Que significa para você, minha filha, "lua de mel?" E, geralmente, vem uma idéia tão romanceada para a moça, e ela pretende ficar em lua de mel toda a vida. O rapaz, quantas vezes, tem outra idéia, e discutimos as duas, e chegamos a uma síntese. O traço basilar da natureza masculina é a dinâmica. E é por esse motivo que todo menino brinca pensando em um algo que o leve para longe. "Você quer ser o quê?" E ele fala: "Aviador (marinheiro, astronauta, caminhoneiro)". Isso é coisa de menino: ele foi feito para a ação, para a combatividade, para o trabalho pesado. Mas a mulher é delicada. É delicada mas não é fraca. É corajosa diante da dor. E um médico pediatra amigo meu dizia "Mãe não cansa." Mas não é uma questão de força física. É verdade que ela sofre variação no seu temperamento; é dada à depressão em certos momentos; tem alegria no outro momento. Aliás, o marido não deve se alarmar com isso, não; compreenda sua mulher: há momentos da vida em que ela está altamente deprimida; talvez na hora seguinte ela esteja diferente e o marido que não conheça e compreenda essa diferença feminina vai ter muitos problemas em casa, porque não vai entender a pobre da sua mulher. Conseqüências: ela espera do marido proteção, segurança, estabilidade, e ele não as dá. Por outro lado, falando em tese, o pensamento masculino é devagar, abstrato, mas tem muita lógica. Já perceberam que os sistemas filosóficos, que as grandes teorias científicas, as fórmulas universais vieram todas de homens com seus pensamentos puxando à lógica e à abstração? E aí a mulher vai exclamar amargurada: "Meu marido não me compreende..." É difícil mesmo!... Nicolas Berdiaeff deixou registrado que "existe uma profunda e trágica desinteligência, uma estranha e dolorosa incompreensão entre o amor do homem e da mulher." E dizem que a Esfinge propunha o seguinte enigma: "Decifra-me ou devoro-te" (não é de espantar que a Esfinge fosse uma mulher). O traço fundamental da natureza feminina é a estática. Daí que o homem, que é dinâmico, estaria perdido sem a mulher (como Deus fez tudo tão perfeito!) Seu pensar é intuitivo, e não é incomum, não é fora de comum, ouvirmos da esposa: "Sinto que é assim." E aquelas mulheres que dizem para os maridos: "Tome cuidado com Fulano; ele tem alguma coisa em que eu n ão confio." É muito próprio da mulher ser intuitiva. Desse modo, não foi por acaso que na Idade Média muitas mulheres foram queimadas como feiticeiras, somente porque estavam exercitando o seu poder de intui ção. Entre os gregos, a Sabedoria era representada como ... uma mulher: Atenas. Em Delfos, havia um oráculo, uma profetisa, e era... uma mulher. Quem venceu Sansão, aquele homem de força extraordinária debaixo do poder de Deus? Quem o venceu senão... uma mulher muito astuciosa. César levou dezessete anos para vencer o Norte da Europa; Cleópatra o venceu em dezessete dias... Isso é bem coisa de mulher. Pois é; são essas as filhas de Eva: sentidos mais agudos que os do homem, ouvido mais apurado que o do homem, e o povo até diz que "coração de mãe não dorme." E como dizia o médico nosso irmão em Cristo, "mãe não cansa".
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    21 O homemtem visão de conjunto, mas a esposa tem visão de detalhes. E ela se influencia mais facilmente e decide com o coração. Quantas vezes é impulsiva, tem juízo rápido; ele usa a reflexão, decide com a cabeça. E como conseqüência, pela visão global das coisas, fixa normalmente os objetivos remotos; enquanto a esposa, pela dedicação, pelo senso do particular, pela acuidade realiza esses objetivos. Por isso, é preciso haver essa indissolubilidade, essa solidariedade entre ele e ela. AINDA AS DIFERENÇAS O homem está mais preocupado em conquistar do que ser conquistado, razão porque o Espírito Santo através de Paulo ordena aos homens: "Maridos, amai a vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela" (Ef 5.25). É da natureza masculina o conquistar. Está pouco atento aos detalhes, e até parece, apenas parece, desinteressado na esposa. A mulher tem afetividade como centro da sua personalidade. A mulher é um grande coração! É mais receptora ao amor, e o exprime através de certas coisas pequenas: a maneira como se veste, como coloca flores na casa, como prepara os pratos na hora do almoço (a sabedoria popular diz que "O coração do homem se alcança pela boca"), e outros pequenos detalhes. Meu irmão querido, observe essas coisinhas pequenas na sua casa porque a sua esposa está lhe dizendo não com palavras, "eu te amo". Lição: o marido deve procurar compreender essas pequenas delicadezas, e manifestar o amor. Ao passo que não deve a esposa armar uma tragédia grega dizendo que ele não a ama se esquecer alguma data. Marido é muito desligado disso mesmo, de esquecer datas! Já imaginou a data em que vocês se encontraram pela primeira vez, e ele se esqueceu desse dia tão importante na vida dos dois?! Em vez de armar um escândalo porque ele esqueceu, sugira antes, dois dias antes: "Mas que bom, n ão é, que daqui a dois dias vamos completar o aniversário de nosso primeiro encontro..." Faça uma sugestão de leve que dá muito mais resultado do que reclamar do esquecido do marido. Nós temos atitudes diferentes quanto ao lar e quanto à sociedade. O homem é inclinado para o exterior. E mais uma coisa: reclamação não prende o homem em casa! Não reclame, não: é pior; aí é que ele quer sair mesmo. Reclamação não vai tirar o homem do baba (como se diz Bahia), da pelada, ou de grupos ou de sociedades que ele freqüenta. Para a mulher, o centro vital é o lar, é quase como extensão de sua capacidade de ser mãe, um psicólogo completou dizendo que para a mulher, o lar é como se fosse uma extensão do seu útero! E como é doloroso descobrir no começo do casamento que você não é o mundo do seu marido. Mas sua religião, sua espiritualidade é muito mais sentimental e afetiva, e a prática religiosa se torna uma necessidade espontânea dentro de casa. No caso, a espiritualidade dele é às vezes mais fria, e, às vezes, mais por dever do que por servir. Para harmonizar essas diferenças, necessário se torna o trabalho contínuo, e o desejo de adaptação. Procure, portanto, não atribuir aos gestos e palavras do outro um segundo significado. Há muita gente que quer fazer isso: Porque ele disse uma coisa, ela lê outra; ela disse uma coisa, ele escuta outra. Talvez não seja isso o que ele está dizendo, não é o que ele queria dizer. Mas não use também as características próprias do sexo para encobrir ou justificar defeitos individuais seus. O marido é professor, está no sofá lendo, meditando ou estudando. A esposa chega e diz: "Já que você não está fazendo nada, venha me ajudar com essa pia entupida (ou com essa escada, etc.)." Pronto; matou o casamento! Ele está fazendo alguma coisa: está se preparando, está estudando, está se melhorando;
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    22 Não éque não esteja fazendo nada. Ou no caso daquele outro que gosta de trabalhar com as m ãos, pegar na tinta, no pesado. Quando sai, deixa a sujeira no chão. A mulher que se identifica tanto com a casa que não pode ver sujeira, diz assim: "Sujou a casa, limpa depois." Ele, porque n ão compreende, também ridiculariza o quadro que ela começa a pintar, o tapete que começa a tecer, e diz algo que machuca a alma da esposa. Os tipos humanos são também, diferentes. Há os extrovertidos que amam sair, amam o movimento, são "rueiros"e festeiros. Há pessoas que são introvertidas, são tranqüilas, caseiras, mais apreciadoras de um livro do que de bater perna no shopping. Por instinto, um homem muito racional vai se casar com uma mulher muito sentimental. Isso não é problema, não. O problema é querer fazê-la entender a linguagem da razão, a linguagem objetiva, exata, e dizer que ela não tem lógica quando explode sentimentalmente. Ela, por sua vez, reclama que o tom racional do marido esteriliza os sonhos e a própria vida. Na verdade, uma é a linguagem das ciências exatas, outra é a linguagem das metáforas. Jesus até a usou. Veja Mateus 13.1-23. A metáfora está nos versos 3 a 9. Ele não disse "quem tem ouvidos para ouvir ouça"? Mas, nem todos tinham. Por isso, Ele explicou, e recontou-a nos versos 18 a 23. Esses aparentemente díspares (os conceitos exatos e as expressões metafóricas) são perfeitos para a união do casal, para que se completem. Talvez o casal não saiba administrar essa união, e quando perderem o outro, vão dizer "Eu era feliz e não sabia". É verdade; há diferenças entre o homem e a mulher. Por isso se necessitam tanto, e, ao mesmo tempo, têm tanta dificuldade de se conhecerem. É o homem que discute o futuro, é a mulher que reage ao momento presente ("Deixa de conversar bobagem - diz ela - e vem ajudar o menino a fazer os deveres"). Creio que é esse gosto pelo presente e por detalhes que faz com que a conversa nas rodas de mulheres casadas seja principalmente em um desses três temas: filhos (ou netos), empregadas ou cirurgia que já fizeram, ou precisam fazer. São assuntos imediatos, é coisa de mulher! Já o marido pega o jornal, pronto, ela se sente infeliz e abandonada. O USO DA PALAVRA E o uso da palavra? Para o homem, a palavra é expressão de idéias e expressões. Mas para a mulher, é expressão de sentimentos e emoções, razão porque conta oito vezes a mesma história para o marido. Ela não quer informá-lo, não: quer descarregar a emoção. Lá fora, usam dizer que mulher fala demais, "Fala pelos cotovelos", e um teólogo curioso e criativo disse que no céu haverá um momento de grande tormento para as mulheres, descrito em Apocalipse 8.1: "Quando abriu o sétimo selo, fez-se silêncio no céu, quase por meia hora." Uma tortura para as mulheres essa meia hora de sil êncio! A mulher quer a palavra. Foi perfeitamente pertinente, então, que a palavra se tenha feito carne no ventre de uma mulher. E porque a palavra significa emoção, ela quer ouvir do marido (não importa se duzentas vezes) a expressão mágica "Eu te amo". É o carinho da palavra. E ela quer ouvir, apesar de o saber. Há uma historinha que diz que a esposa reclamou do marido: "Você já não diz que me ama..." E ele responde: "Olha, nós estamos casados há 17 anos. No dia do casamento eu disse que a amava e basta; não precisa dizer mais; não já disse diante das testemunhas? " Ela quer ouvir, apesar de o saber, porque a mulher é conquistada e seduzida pelo ouvir. Não foi assim que a nossa mãe primeira foi seduzida e conquistada pela palavra da serpente? (cf. Gn 3.1-6).
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    23 Por outrolado, há maridos que não sabem dizer "Eu te amo", mas falam como podem ou sabem: é aquele vestido que dá de presente, é aquele jantar fora um dia, e assim por diante. CASE-SE COM ELE E TAMBÉM COM... Minha irmã querida, case-se com ele e também com a profissão dele. O filósofo espanhol Ortega Y Gasset disse que o homem é ele e suas situações de vida ("Eu sou eu e as minhas circunstâncias"). O médico, por exemplo, não tem hora; o pastor vive em função da igreja 24 horas no ar; o professor, da sala de aula; o comerciante, do seu comércio. De modo que nunca fale da profissão dele com desprezo; e nem fale da profissão dela, meu irmão, como coisa desnecessária. E mais uma coisa: não reclame se ela vai tanto ao salão de beleza. É para você que ela está se embelezando; é para você que ela está ressaltando essa beleza. Ela quer que você a veja e aprecie. Vejam que encontro bonito descrito em Gênesis 24. 63-65: "Saíra Isaque ao campo à tarde, para meditar; e levantando os olhos, viu, e eis que vinham camelos. Rebeca também levantou os olhos e, vendo a Isaque, saltou do camelo e perguntou ao servo: Quem é aquele homem que vem pelo campo ao nosso encontro? Respondeu o servo: É meu senhor. Então ela tomou o véu e se cobriu". Modéstia por um lado (a modéstia oriental, as mulheres se cobriam como o fazem ainda hoje nos países árabes), mas, ao mesmo tempo, ela se embelezou para Isaque. Por que não dizer para ela, então, no espírito do Cântico dos Cânticos: "Tu és toda formosa, amada minha, e em ti não há mancha. Quão doce é o teu amor, minha irmã, noiva minha! Quanto melhor é o teu amor do que o vinho! E o aroma dos teus ungüentos do que o de toda sorte de especiarias!" (4.7,10). Aliás, a mulher é por natureza vaidosa. Veja a reação das mulheres quando passam diante de um espelho. ("Espelho, espelho meu, existe outra mulher mais bonita do que eu?"). Porque nós somos iguais e diferentes; porque temos iguais e diferentes necessidades; porque a irm ã necessita ser protegida, acariciada e amada: porque o irmão precisa de ser igualmente elogiado, apreciado, é que há certas condições. Sim; a mulher quer isso mesmo: ser amada e protegida (necessidade é o que cada um deseja para se manter equilibrado), mas quer liberdade para exercer os seus papéis de mãe, esposa e profissional, e as pequenas expressões de carinho e interesse significam para a mulher muito mais, muito além do que nós, os homens, podemos imaginar. Ela deseja que o marido seja amante e companheiro, mas delicado. E o seu marido também, amada irmã, precisa saber que é competente, é digno de confiança, deseja uma esposa que cuide do lar, dos filhos, e que se interesse pelo seu trabalho, mas n ão reclame dos seus passatempos. Queixas e reclamações não resolvem! Pelo contrário, o que eu encontro nos Provérbios é até uma condenação: "As rixas da mulher são uma goteira contínua" (Pv 19.13b). Imagine uma goteira pingando durante toda a noite? E também: "Melhor é morar numa terra deserta do que com a mulher rixosa e iracunda." (Pv 21.19) Está na Escritura... Agora, só para as irmãs um segredinho de um homem para as mulheres (os companheiros que me perdoem): o homem cede muito mais (muito, muito mais) a uma suave persuasão e um tratamento sedutor que às reclamações e exigências. DIÁLOGO Muito ajuste de diferenças se resolve com diálogo. Palavrinha boa! Diálogo significa "através (dia) da palavra (logos)". É o que alguém chamou de "O dever de sentar-se". É preciso sentar para conversar,
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    24 sentar paratrocar idéias, porque diálogo no casamento é o encontro da psicologia masculina com a feminina. Diálogo é avaliação. E um pensador disse que "Ainda não nos conhecemos porque não tivemos ainda a coragem de nos calar juntos" (Maeterlinck). O dever de sentar-se e avaliar o casamento é a três: O Senhor nosso Deus e o casal; é diálogo sob o olhar de Deus. E para esse diálogo há condições: • é preciso respeitar o outro, por isso use linguagem afetuosa. • É preciso saber escutar, razão porque Jesus Cristo mandou que nos amássemos, e não que nos amassemos uns aos outros. • Buscar compreender as necessidades do outro. Se alguém tem sede, guaraná não serve. Se a esposa precisa de atenção, não adianta dar uma pulseira. Aliás, dê a pulseira e atenção! Dialogar não é reclamar, (pode até sê-lo), mas é, realmente, sorriso, perdão, colocar na mesa problemas, sucessos, alegrias e preocupações; é troca de idéias, e se insere na linha da comunhão. No casamento e no diálogo, marido e mulher estão em pé de igualdade; são companheiros ("companheiro" é aquele que come pão comigo: co+panis ), e são camaradas ("camarada" é quem habita a mesma câmara, o mesmo quarto). Diálogo é um encontro das psicologias masculina e feminina, já o dissemos. Outrossim, além das palavras, a oração é diálogo, o passeio a dois é diálogo, o passeio com os filhos também é diálogo. Sim; orem juntos; escolham a melhor hora de conversar; procurem definir o problema b ásico. Onde há acordo? Onde está o desacordo? Ouça primeiro, e só depois responda, porque até para isso a Escritura tem uma recomendação: "Responder antes de ouvir, é estultícia e vergonha." (Pv 18.13; cf. Tg 1.19). Como você pode contribuir para resolver? Termino com este poema que diz: AMOR És a minha amada, és minha e eu sou teu. Está escrito. Uniremos nossas almas e corpos e ficaremos ligados em corpo e almas. Está escrito. E nem o vento que sopra do deserto, nem o tempo que desgasta, nem a morte que amedronta , nem os sensatos que falam de razão,
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    25 nada destruirá o nosso amor, porque o nosso amor é um baluarte e os aguaceiros da vida não poderiam extingui-lo porque ele é uma chama de Deus, e o fogo de Deus arde para além de todos os dilúvios. Está escrito: amar é penetrar nas fronteiras de Deus. Seremos uma porta aberta: a quem entrar serviremos a Festa com colares engranzados de nuvens, oferecer-lhe-emos o nosso riso como presente para levar, abrir-lhe-emos as mãos para receber em depósito todos os fardos. Seremos uma só taça derramada, seremos um só corpo oferecido, entregar-nos-emos à festa da vida. QUEM SOMOS? Pr. Gilson Aristeu de Oliveira Nossa reflexão é sobre identidade. Que nos identifica como cristãos, salvos, regenerados, nascidos de novo, tornados novas criaturas? Que convocação, chamada, temos da parte de Deus Pai que faz diferença no mundo em que vivemos e atuamos? DEUS NOS CHAMA PARA QUE SEJAMOS ADORADORES A tarefa primordial da Igreja de Jesus Cristo é celebrar o Seu Nome, adorá-Lo, cultuá-Lo. Afirmou o Senhor Jesus Cristo em João 4.23,24: "Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores
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    26 adorarão oPai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e é necessário que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade". Tudo o mais é decorrente do culto. Foi para cultuar e adorar a Deus que fomos trazidos à fé e à salvação. Deus nos convoca para a adoração. No entanto, em muitos casos, apenas nos divertimos. Fomos chamados para cultuar, mas fazemos na igreja paródia de teatro, de circo, de programa de auditório; somos espectadores, quantas vezes, mas não cultuantes. O objetivo da adoração é despertar a consciência da santidade de Deus. Um aspecto do culto é encontrado em Romanos 12.1: "Rogo-vos pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional". O verdadeiro culto, então, é medido pela transformação de quem cultua pelo fato de estar na presença de Deus. Mede-se por uma nova visão de Deus, por uma compreensão que torna a caminhada diária, a aventura do dia a dia mais profunda com Deus na nossa vida, com Cristo no nosso coração, com o Espírito Santo segurando a nossa mão. O verdadeiro culto incomoda a nossa vida e o modo como temos vivido. Que falta em nossos dias em relação a essa reverência e temor a Deus? O que anda acontecendo em muitas igrejas evangélicas é mais programa de auditório que profundidade na palavra. Mas há quem prefira o raso de uma religião infantil à profundidade do culto racional, do culto em espírito e do culto em verdade. E deste modo, quando o crente está com a sua vida apagada e cheia de desobediência, e de rebeldia e de pecado, o louvor não sai DEUS NOS CHAMA PARA QUE SEJAMOS INTERCESSORES Oração é um fenômeno espiritual. Consiste numa queixa, num grito de angústia, num pedido de socorro. Consiste numa serena contemplação de Deus, princípio imanente e transcendente de todas as coisas. A oração é um ato de amor e adoração para com Aquele a Quem se deve a vida. Ora-se como se ama, ou seja, com todo o nosso ser. Não há necessidade de eloqüência para que seja atendida. Foi o caso do cego Bartimeu, que ao ouvir que Jesus estava passando, exclamou "Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim!" Mc 10.46ss). Ele só tinha o grito. Nada mais. Oração é uma batalha. Para essa batalha, temos que vestir a armadura do crente (Ef 6.11). Nela, enfrentamos hostes espirituais, os poderes de Satanás. Oração é prestar atenção a Deus. Você tira tempo para falar com Ele, o Pai, e, também, para ouvi-Lo . Grandes intercessores na Bíblia não escolhem lugar para orar: Agar orou no deserto (Gn 21.16); Moisés fez acabar uma rebelião com oração (Ex 15.24,25); Ana teve um filho como resposta à oração (1Sm 1.27,28); Samuel derrotou uma nação inimiga pela oração (1Sm 7.9,10); Gideão provou a vontade de Deus através da oração (Jz 6.39,40); Elias pela fé e oração venceu os profetas de Baal (1Rs 18.37,38); Davi pediu misericórdia (Sl 51.10ss); Salomão santificou a Casa de Deus pela oração (2Rs 20.1,2,5); Ezequias acrescentou anos à vida pela oração (2Cr 18.3); Josafá saiu de uma situação difícil
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    27 pela oração((2Cr 18.3); Daniel pediu auxílio pela oração (9.16); Esdras recebeu orientação divina porque orou (Ed 8.21,22); Zacarias viu o sonho de sua vida realizado pela ora ção (Lc 1.13). Você pode ser intercessor em qualquer lugar: Ezequias orou na cama (2Rs 20.1); Jonas em alto mar (Jr 2.1); Jesus o fez no Calvário (Lc 23.34); Jairo, na rua (Lc 8.41); Pedro orou no terraço (At 10.9); Paulo e Silas estavam na prisão (At 16.25), e um criminoso não nomeado o fez nos seus últimos momentos de vida (Lc 23.42). Ora-se como se ama: com todo o ser. Não há necessidade de eloqüência para ser atendido, já o dissemos. Pedro fez uma oração com três palavras (Mt 14.30); o publicano com sete palavras (Lc 18.13); Salomão fez uma longa oração na consagração do templo (2Cr 6.12-42). Mas, como orar? A Bíblia é tão clara... · Sem hipocrisia, exorta-nos Mateus 6.5. Hipocrisia é uma representação, uma peça de teatro; é faz-de- conta com extrema maldade (Mt 15.7,8). · Secretamente, ensina Mateus 6.6. Isso corresponde, até, a ficar a sós com Deus mesmo na multidão. · Com fé, atesta Hebreus (11.6). · De modo definido como o declara Mateus 6.7,8 e Marcos 11.24. · Com insistência, mesmo (Lc 18.1-7; Mt 15. 21.28). · Com submissão fala Romanos 8.21, aguardando o que Deus quer fazer em nós. · Com espírito de perdão, como expresso em Marcos 11.25,26. · E, por fim, em nome de Jesus(Jo 14.14). Muita oração deixa de ser atendida por falta desses importantes elementos ou pela presença de motivos indesejáveis. São orações estéreis pelo egoísmo, mentira, orgulho, falta de fé e de amor, teimosia e desobediência a Deus (Zc 7.12,13; Dt 1.45; Pv 28.9), Pecado (Sl 66.18; Is 59.2; 1.15; Mq 3.4; Sl 66.18), desarmonia no lar ((1Pe 3.7); vaidade (Jó 35.12,13), falta de perdão (Mt 6. 14,15), indiferença (Pv 1.28), amor próprio exaltado e maus objetivos (Tg 4.3). De tudo isso, decorre que quem ora tem senso de incapacidade e insuficiência, compreende necessitar de ajuda extra e clama a Deus. Paulo disse "A nossa suficiência vem de Deus" (2Co 3.5), e Jesus exortou que "... sem mim nada podeis fazer" (Jo 15.5b). Quem ora tem fé (Hb 11.6). Se quer ser atendido, ore com fé (Mt 21.21,22; Jo 11.40). DEUS NOS CHAMA PARA QUE SEJAMOS FACILITADORES (1Co 16.14) Temos de Deus muito o que repassar aos outros: o evangelho deve ser rep assado (Mt 28.19,20). Porque somos facilitadores do reino de Deus, o produto da vida cristã deve ser repassado (Ef 2.8ss), o fruto do Espírito deve ser repassado (Gl 5.22,23). O fruto do Espírito é um programa de vida a ser facilitado, repassado e posto em ação: · AMOR (Cl 3.14). Deus é amor; o amor perdoa (1Co 13) · ALEGRIA (Rm 14.17). Não são sorrisos; "Alegrai-vos no Senhor"; Cuidado com a confiança mal colocada (deve ser posta no Senhor); · PAZ (Rm 12.18) · PACIÊNCIA (Cl 3.12,13).Mesmo na provocação; · BENIGNIDADE (Cl 3.12); · BONDADE (Gl 6.10);
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    28 · FIDELIDADE(Pv 20.6) · MANSIDÃO e · DOMÍNIO PRÓPRIO (Pv 25.28) Sobre o amor, lembremos que no evangelho há o amor de Deus por nós; o nosso amor por Deus; o nosso amor pelos outros. Quanto ao amor de Deus por nós, conforme expresso em João 3.16; 1João 4.19. O que distingue o evangelho de qualquer outro sistema religioso, teológico ou filosófico é o verbo "dar". Deus deu. Agostinho ensinou que "Deus ama a cada um de nós como se só houvesse um de nós para amar". Em relação ao nosso amor por Deus, amo realmente a Deus e a Cristo? Em João 21, há uma expressiva pergunta de Jesus: "Simão, filho de João [ponha seu nome e sobrenome], amas-me?" Como podemos ser facilitadores se perdemos o primeiro amor? O terceiro tema é o nosso amor pelos outros. Ou colocamos em ação ou não somos facilitadores de coisa nenhuma. CONCLUSÃO Quem somos? Essa foi a pergunta proposta. Percebeu que responsabilidade temos? Adoradores, Intercessores e Facilitadores do reino de Deus. Como Ele é bom: elegeu-nos em Cristo, deu-nos uma comissão, sustenta-nos na obra, e espera que sejamos responsáveis. Dele dependemos; nEle esperamos. "POR QUE, CALABAR?" O MOTIVO DA TRAIÇÃO Gilson Aristeu de Oliveira A figura de Calabar insere-se na história pátria colonial durante a época da invasão dos holandeses no Nordeste (1630-1654). Morador de Porto Calvo, Alagoas, passou para o lado holandês em 1632. Conseqüentemente, é desprezado pela maioria das pessoas como traidor; outros, porém, acreditam que Calabar amava a sua terra natal e fez uma escolha sábia. Mas, afinal, por que ele teria passado para o outro lado? Qual a razão da traição? I. Contexto Para entendermos o drama de Calabar, temos de lembrar do contexto hist órico.1 Portugal e suas colônias estavam debaixo do domínio espanhol desde que Filipe II conquistara a coroa portuguesa em 1580. Com isso, ele pode afirmar com razão que no seu império o sol nunca se punha. Somente sessenta anos depois, em 1640, Portugal se livraria de Castela e constituiria de novo um reino independente sob o governo de D. João IV. Mas a história de Calabar se desenvolveu inteiramente no contexto do Brasil ibérico, quando, por algum tempo, não havia previsão de mudanças políticas. Domingos Fernandes Calabar2 deve ter nascido durante a primeira década do século XVII, no atual Estado de Alagoas, na região de Porto Calvo, sendo filho de pai português e de mãe indígena, de nome Ângela Álvares.3 Era, assim, um mameluco,4 e foi batizado numa igreja da paróquia de Porto Calvo.5 O menino foi educado numa escola dos padres jesuitas e, homem feito, ainda antes da invasão
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    29 batava, possuíatrês engenhos de açúcar naquela região.6 Então, em 1630, a segunda onda de invasores holandeses alcançou a costa do Nordeste. Portugal e a Holanda geralmente gozavam de um bom relacionamento, inclusive por causa do seu inimigo comum, a Espanha. Na época do reino unido ibérico (1580-1640), a invasão flamenga fazia parte da guerra dos oitenta anos que a Holanda travava contra o domínio espanhol sobre os sofridos Países Baixos (1568-1648).7 A Ibéria continuou tentando recapturar suas províncias perdidas e esmagar a reforma religiosa naqueles rincões. A Europa sempre se admirava de como os Filipes conseguiam colocar exércitos bem equipados tão longe das suas terras, e sabia que o segredo era a riqueza oriunda principalmente das colônias americanas, inclusive do Brasil. De lá não vinha ouro nessa época, e sim grandes caixas do apreciado açúcar, branco e mascavo. Eram umas 35.000 caixas de 300 quilos cada uma por ano.8 O paladar europeu estava se adaptando ao novo produto e o preço do açúcar estava em alta. A Holanda procurava "estancar as veias do rei da Espanha," pelas quais fluía tanta riqueza, e muitos holandeses apoiaram de coração os esforços da Companhia das Índias Ocidentais no sentido de causar "prejuízo ao inimigo comum."9 O domínio holandês do Nordeste durou quase um quarto de um século (1630-1654) e teve três períodos distintos. A primeira etapa abrange os anos da resistência ibérica e do crescimento do poderio neerlandês (1630-1636). O segundo período compreende a resignação lusa e o florescimento da colônia holandesa (1637-1644). Os últimos anos compõem a insurreição dos moradores portugueses e o fenecimento do domínio flamengo até a expulsão final (1645-1654). São períodos de aproximadamente sete, oito e nove anos, respectivamente. O florescimento da colônia holandesa coincidiu com a presença do Conde João Maurício de Nassau-Siegen como governador do Brasil holandês, e deveu-se em grande parte à sua pessoa. Especialmente na época nassoviana, mas de fato durante todo o período holandês, o Nordeste era como que um enclave renascentista10 no Brasil colonial, com uma forte influência cristã reformada. A história de Calabar é parte integrante do primeiro período da ocupação holandesa, a da resistência ibérica contra os conquistadores recém-chegados. Olinda, a capital da capitania de Pernambuco, caiu nas mãos dos holandeses em fevereiro de 1630. Sua conquista fez parte da "primeira guerra mundial... contra o rei do planeta."11 A composição das tropas invasoras refletia esse aspecto global, à semelhança dos atuais Gideões Internacionais, incorporando holandeses, frísios, valões, franceses, poloneses, alemães, ingleses e outros. Envolvidos na guerra contra Madri, todos se alegraram quando os "espanhóis" bateram em retirada.12 Essa luta contra a Espanha tinha implicações profundamente religiosas. Embora a instrução do almirante Lonck estipulasse que todos os padres jesuítas e outros religiosos teriam de abandonar o país, ela reafirmava a "liberdade de consciência, tanto para os cristãos como para os judeus, desde que prestassem juramento de lealdade..., assegurando-lhes que (a Holanda) não molestaria ou investigaria as suas consciências, mas que a religião reformada seria publicamente pregada nos templos..."13 Foi instituído um governo civil; um dos membros desse Alto Conselho era o médico Servaes Carpentier.14 O exército ficou sob o comando do coronel Diederick van Waerdenburch, o governador, presbítero da Igreja Reformada, homem estimado pelas tropas. Em 1631, foi conquistada a Ilha de Itamaracá e construído o Forte de Orange sob a supervisão do capitão protestante Chrestofle Arciszewski, um nobre polonês.15 Todavia, a expansão foi lenta, e outras tentativas de ampliar a conquista vieram a fracassar por causa da resistência dos luso-brasileiros, que eram grandes conhecedores da região e haviam adotado a tática de guerrilhas ("capitanias de emboscada"), o que deixou os holandeses praticamente encurralados. O próprio almirante Lonck quase caiu numa emboscada no istmo entre o Recife e Olinda, e o pastor Jacobus Martini foi morto no
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    30 mesmo trecho.16O centro da resistência portuguesa estava localizado a uns seis quilômetros do litoral, em um terreno alagadiço no lugar denominado Arraial do Bom Jesus.17 A Ibéria enviou uma armada de mais de 50 navios para recapturar Pernambuco, sendo que a maior parte da contribuição dada por Lisboa veio de empréstimos compulsórios de "cristãos novos" (judeus convertidos compulsoriamente ao catolicismo romano).18 Em setembro de 1631, a batalha naval de Abrolhos, no litoral pernambucano, ficou sem vencedor. Em seguida, as tropas espanholas, sob o comando do não muito benquisto conde napolitano Bagnuolo, desembarcaram em Barra Grande, no sul de Pernambuco, a cerca de cinco léguas do maior povoado da região, Porto Calvo, às margens do Rio das Pedras. Entre eles estava Duarte de Albuquerque Coelho, o novo donatário de Pernambuco, autor das famosas Memórias Diárias19 sobre os primeiros oito anos dessa guerra colonial. Por ora a situação era de empate, os holandeses dominando o mar, os portugueses as praias. II. História Essa situação de virtual equilíbrio no Nordeste continuou até 22 de abril de 1632, quando um soldado de nome Calabar, homem muito forte e audaz, deixou o campo português e passou para o lado dos holandeses. Foi apenas por um breve período, pouco mais de três anos, mas teve conseqüências para toda a época flamenga. Calabar não foi o único a passar para o outro lado, mas sem dúvida foi o mais importante entre eles. Era um homem inteligente e grande conhecedor da regi ão, que já tinha se distinguido e ficado ferido na defesa do Arraial sob a liderança do nobre general Matias de Albuquerque.20 Inicialmente, os holandeses não confiaram muito nele.21 No entanto, dez dias depois Calabar provou pela primeira vez o que podia fazer, levando as tropas do coronel Van Waerdenburch a saquear Igaraçu, a segunda cidade de Pernambuco, para onde uma parte das riquezas de Olinda tinha sido transportadas. Durante os meses seguintes, muitas campanhas foram feitas pelas colunas volantes batavas sob a orientação de Calabar, que tornou-se amigo do coronel alemão Sigismund von Schoppe. Por outro lado, o general Matias tentou "por todos os meios possíveis (reduzir Calabar), assegurando-lhe não só o perdão, mas ainda mercês, se voltasse ao serviço de el-rei; e esta diligência repetiu por muitas vezes, no que se gastou algum tempo; mas vendo que nada bastava para convencê-lo, tratou de outros meios."22 Em 1633, com a ajuda de Calabar, foi conquistado o litoral norte, desde Itamaracá até a fortaleza dos Reis Magos, e com isso o Rio Grande do Norte, o que levou a contatos amigos com os tapuias, indígenas antropófagos daquela região. Na parte sul, foi tomado o valioso ancoradouro do Cabo Santo Agostinho, o que privou os portugueses do porto mais próximo do Arraial, dificultando o recebimento de reforços de Lisboa e o envio de açúcar para Portugal. Nessa altura, o coronel Sigismund, como o mais velho dos oficiais, assumiu o comando das tropas terrestres. No mar, o almirante Jan Cornelis Lichthart, que falava português, tornou-se amigo de Calabar, que lhe ensinava as entradas dos rios. Do outro lado, os portugueses prosseguiam com suas tentativas de destruir Calabar. Assim, em mar ço de 1634, o general Matias prometeu a Antônio Fernandes, um primo irmão com quem Calabar fora criado, "que lhe faria mercê que o contentasse se pudesse matá-lo em algum ataque." Antônio aceitou a comissão mas foi morto na tentativa.23
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    31 Enquanto isso,Calabar se adaptava mais e mais à sociedade dos invasores e tornou-se um indivíduo estimado e respeitado, inclusive na "igreja católica reformada."24 Prova disto é que, quando nasceu um filhinho do casal, foi batizado na Igreja Reformada do Recife. O livro de batismo dessa igreja registra que no dia 20 de setembro de 1634, Calabar esteve ao lado da pia batismal com o seu filho nos braços. O menino foi, então, batizado "Domingo Fernandus, pais Domingo Fernandus Calabara e Barbara Cardoza."25 Como testemunhas, ali estavam o alto conselheiro Servatius Carpentier, o coronel Sigismund von Schoppe, o coronel polonês Chrestofle Arciszewski, o almirante Jan Cornelisz Lichthart e uma senhora da alta sociedade.26 O pastor oficiante foi provavelmente o Rev. Daniel Schagen.27 No final de 1634, a Paraíba também havia se rendido aos invasores. Alguns sacerdotes (exceto os jesuítas) inclusive tiveram a permissão de assistir aos ofícios religiosos. Houve até um padre, Manuel de Morais, S.J., que passou para o lado invasor. Dessa forma, os holandeses ocuparam a faixa litor ânea desde o Cabo Santo Agostinho até o Rio Grande do Norte. A Espanha não podia fazer muito devido aos grandes problemas que enfrentava na Alemanha (com o avanço do exército sueco para ajudar a Reforma contra as tropas do imperador), a perda de uma frota carregada de prata do México (devido a um furacão), problemas no Ceilão, vários anos de seca em Portugal, etc. Novamente orientados por Calabar, os holandeses continuaram a expansão para o sul e, em março de 1635, atacaram Porto Calvo, a terra natal do próprio Calabar. Os defensores, liderados por Bagnuolo, fugiram para o sul, e com a ajuda de frei Manuel Calado do Salvador28 os moradores da regi ão submeteram-se aos holandeses. Dessa forma, o Arraial ficou isolado e, depois de três meses, em junho, Arciszewski conquistou aquela fortificação lusa, os religiosos recebendo permissão para levarem as suas imagens. Matias de Albuquerque havia fugido para o sul com aproximadamente 7000 moradores que preferiram acompanhá-lo a ficar sob o domínio flamengo. A única estrada da região pantanosa de Alagoas que podia ser usada por carros de boi passava por Porto Calvo, e nessa altura estava em poder do major Picard e de Calabar, acompanhados de uns 500 homens. Matias viu -se forçado a atacar a praça, que teve de pedir condições de entrega. Picard tentou salvar a vida de Calabar e finalmente foi combinado que ele ficaria "à mercê d'el-rei."29 Porém, como disse o historiador De Laet, a proteção concedida foi "à espanhola" e um tribunal militar o condenou a ser enforcado e esquartejado como traidor.30 O frei Manuel o assistiu nas últimas horas31 e ao anoitecer do dia 22 de julho de 1635 a sentença foi executada. Foi também enforcado um judeu, Manuel de Castro, "homem de nação," que estava ali a serviço dos holandeses.32 Poucas horas depois, os portugueses continuavam a sua retirada em direção à Bahia, levando consigo cerca de 300 prisioneiros holandeses. Nenhum dos moradores cuidou de enterrar o soldado executado. Dois dias depois, chegaram a Porto Calvo as forças combinadas dos coronéis Sigismund e Arciszweski, que ficaram enfurecidos ao achar os restos mortais do seu amigo e compadre Calabar. Foram colocados num caixão e sepultados com honras militares. Querendo vingar-se da população lusa, foram dissuadidos por Calado, "o frei dos óculos," especialmente pelo fato de que os holandeses precisavam dos "moradores da terra" para a plantação da cana-de-açúcar e a criação do gado. III. Motivos Por que Calabar teria passado para o lado do invasor? Capistrano de Abreu pergunta: "Talvez a ambição ou esperança de fazer mais rápida carreira, ou desânimo, a convicção da vitória certa e fácil do invasor"?33 Reconheçamos que, com esta inquirição, entramos no campo da especulação histórica, pois não há indícios concretos nos documentos, somente alusões vagas.34 Deve ter havido motivos claros e outros ocultos, motivos diurnos e noturnos.35 Além disto devem ter existido forças que o
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    32 empurravam parafora do círculo português e outras que o atraíam para dentro do campo holandês, forças centrífugas e centrípetas. Lembremos ainda que uma decisão dessas geralmente não se toma de um dia para o outro. Havia motivos que se cristalizaram com o tempo, até que algo levou o barril de pólvora a explodir. A. Fugitivo? A primeira pergunta deve ser: será que Calabar era um fugitivo? O confessor de Calabar, antes da sua execução, foi o frei Manuel Calado do Salvador, vigário da paróquia de Porto Calvo. Treze anos depois, em 1648, no auge da revolta contra os holandeses, ao escrever O Valeroso Lucideno, seu livro panegírico em louvor do líder João Fernandes Vieira, Calado afirmou que Calabar era um contrabandista, que inclusive teria cometido grandes furtos e vários crimes atrozes na paróquia de Porto Calvo e, temendo a justiça, fugiu com Bárbara para o campo do inimigo.36 As Memórias de Duarte Coelho, escritas em 1654, acompanham Calado nessa opinião.37 Vários historiadores, como Varnhagen e outros, mantêm esse veredito.38 Mas o cônego Pinheiro lembra que "os mais graves cronistas como Brito Freyre (1675), e frei José da Santa Teresa (1698), não falam nesses crimes atrozes atribuídos pelo Valeroso Lucideno e seu Castrioto Lusitano compilador."39 Quanto às Memórias do donatário Duarte de Albuquerque Coelho, temos de observar que o autor (cujo irmão Matias, cognominado o "terríbil,"40 era o general da resistência portuguesa), escrevendo sobre a traição de 1632, não mencionou motivo algum, somente se admirou de que um homem tão corajoso, que ficou ferido duas vezes na defesa da sua terra, não sentisse ódio dos invasores.41 Mas, depois, quando tratou da morte de Calabar, disse que foi um "castigo reclamado por sua infidelidade," acrescentando que tinha "cometido grandes crimes, e para evitar a punição fugiu passando-se para o inimigo."42 Será que Coelho refletia boatos do campo português depois da traição, além de referir-se aos crimes de guerra ocorridos nas incursões dos holandeses com Calabar entre 1632 e 1635, inclusive em Barra Grande e Camaragibe, ambos distritos no litoral da paróquia de Porto Calvo?43 Quanto às informações de Calado, temos de reconhecer que elas nem sempre são muito precisas,44 e são às vezes romanceadas;45 além disso, conforme C. R. Boxer, elas freqüentemente eram um tanto caluniadoras e não necessariamente fidedignas.46 Talvez Flávio Guerra seja o autor mais sistemático na rejeição da idéia de fuga por roubo e outras razões dessa natureza. Ele argumenta: a) Calabar era um homem de posses que não aceitou dinheiro dos holandeses; b) ele não poderia ter defraudado bens do estado no Arraial; c) não há documento nenhum que fale em fraude; d) essa alegação surgiu somente alguns anos depois da morte de Calabar.47 Reconhecemos, porém, que esse jovem inteligente e proprietário de engenhos de açúcar talvez não tenha herdado essas propriedades; talvez fosse mesmo um contrabandista e como tal pudesse ter cometido algum furto ou crime antes da traição. Entretanto, seja como for, naqueles dias de guerra dificilmente esse corajoso e astuto defensor do Arraial seria entregue nas m ãos da justiça enquanto o general Matias e o donatário Duarte estavam a seu favor. Por outro lado, depois da traição, depois de tantas tentativas de reconduzi-lo gentilmente, depois de tantos prejuízos e mortes causados na conquista de Igaraçu, Itamaracá, Rio Grande, Paraíba e boa parte do sul de Pernambuco, depois de tantas tramas abortadas para liquidá-lo, não havia chance nenhuma de escapar das garras dos seus justiceiros comandados pelo general Matias, com ou sem crimes cometidos antes da trai ção.48 B. Teria Segurança? Mas, sendo fugitivo do lado português, teria realmente segurança se passasse para o outro lado? Inteligente como era, Calabar deve ter calculado o perigo que estava correndo. Será que ele teria tido medo de, no fim, ser abandonado pelos holandeses? Creio que não. Intimamente ele deve ter tido a
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    php 33 certezade que não seria como Frei Calado sugeriu, que os holandeses "se servem (dos seus ajudantes) enquanto os hão mister, (mas) no tempo da necessidade e tribulação, os deixam desamparados e entregues à morte."49 A proteção dada posteriormente aos seus aliados judeus e índios e a resistência em render-se finalmente aos portugueses por causa dos mesmos (atestada pelo próprio Calado),50 mostra que não é provável que isto tenha acontecido. Mas, pela última vez em Porto Calvo, com soldados relutantes, restando pouca água e munições, com lenha amontoada pelos sitiantes debaixo da casa forte para queimá-los,51 e depois de "mais de meio-dia no ajuste dos artigos de rendição, porque o inimigo insistia em levar consigo Domingos Fernandes Calabar," o próprio soldado Calabar sabia que era impossível escapar e, querendo poupar as vidas dos seus amigos e subordinados, "disse com grande ânimo estas palavras ao governador Picard: 'Não deixeis, senhor, de concordar no que se vos exige pelo que me diz respeito, pois não quero perder a hora que Deus quis dar-me para salvar-me, como espero de sua imensa bondade e infinita misericórdia'."52 Deve ter pedido, ainda, que cuidassem bem da sua mulher, com quem fugira para o campo holandês,53 e de seus filhos, pois ia entregar-se sozinho. De fato, o governo cuidou bem da família do seu nobre capitão, pois a sua viúva passou a receber para cada um dos seus três filhos menores o salário de um soldado, num total de 24 florins mensais, equivalente ao salário de um mestre-escola, o que não acontecia com a família de pastor e capelão do exército tombado no serviço da Companhia.54 Por outro lado, o próprio major Alexandre Picard deve ter ficado arrasado com o triste fim do colega, e n ós o encontramos depois na Holanda recuperando-se na casa do seu irmão pastor em Coevorden.55 C. Exemplos de "Traidores" Fugindo em busca de refúgio ou não, também temos de lembrar que a época conhecia muitos exemplos de "traidores," de ambos os lados. Embora Calabar fosse considerado em abril de 163 2 como o primeiro a desertar do Arraial,56 os documentos testificam que já havia passagens dos dois lados. Alguns soldados franceses a serviço da Companhia das Índias Ocidentais passaram para o campo português devido à religião, e houve judeus que fizeram a viagem em direção oposta pelo mesmo motivo. Sabemos de escravos que fugiram dos seus donos para obter mais liberdade entre os holandeses,57 de grupos de índios tupis que deles se aproximaram,58 e também de soldados napolitanos que debandaram para o lado invasor. O "vira-casaca" holandês mais conhecido foi o capitão Dirk van Hooghstraten que, em 1645, entregou a fortaleza do Cabo Santo Agostinho aos portugueses por um bom dinheiro (que ainda não havia recebido quatro anos depois).59 Houve pessoas que trocaram de campo até duas vezes, e entraram para a história com honras, como o padre jesuíta Manuel de Morais e o próprio João Fernandes Vieira. O primeiro tinha liderado os índios na resistência contra o invasor, mas passou para o campo do inimigo depois da queda da Paraíba. Foi enviado à Holanda, onde casou-se com uma holandesa e, para ressarcir-se das despesas que teve, cobrou à Companhia das Índias Ocidentais pela ajuda prestada no Brasil. Depois de alguns anos, Morais deixou mulher e filhos, voltando para o Nordeste como negociante. Quando, no início da revolta, foi capturado pelos portugueses, salvou sua pele passando de novo para o campo cat ólico romano. Quando foi preso pela Inquisição, defendeu-se habilmente diante dos seus inquisidores, insistindo que nunca tinha quebrado seus votos sacerdotais, mas, não reconhecendo o matrimônio herético, somente tinha se amancebado com mulheres reformadas.60 Por sua vez, Jo ão Fernandes Vieira ajudou um conselheiro holandês a achar o tesouro enterrado do seu antigo patrão português e conseguiu créditos e mais créditos da Companhia até, em 1645, proclamar a "guerra da liberdade divina" para livrar o Brasil dos "heréticos," aos quais ficou devendo 300.000 florins, importância altíssima para a época.61 De fato, em tempo de guerra, a traição está "no ar."
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    34 D. InterpretaçãoEconômica Revendo esses poucos exemplos, poderíamos então postular que a interpretação mais simples para o caso de Calabar seria econômica. Talvez Calabar, como grande conhecedor da região e dos acessos pelos rios, já fosse contrabandista antes e depois da invasão,62 e teria passado para os invasores em busca de dinheiro. Embora tudo indique que ele não precisava disto, pois já tinha adquirido propriedades e gado em Alagoas, um bom dinheiro sempre teria sido bem-vindo. Mas, se foi contrabandista, de certo havia cúmplices, como deixou transparecer o seu próprio confessor. É que Calado relatou alguns detalhes da confissão de Calabar (com permissão do mesmo) ao general Matias; entretanto, este ordenou ao padre "que não se falasse mais nesta matéria, por não se levantar alguma poeira, da qual se originassem muitos desgostos e trabalhos" (sem dúvida para alguns portugueses importantes).63 Mas, afinal, será que este moço abastado teria passado para o inimigo por dinheiro, pensando em aumentar a sua fortuna? Southey o acha mais provável.64 Calado não o diz, nem Coelho, que somente menciona que Calabar passou a receber o soldo de um sargento-mor.65 Também, através dos anos, não apareceu nenhum indício disto nos documentos, nem a mais ligeira referência como nos outros casos de peso. Ao contrário, há indicações de que ele recusou o suborno.66 Por outro lado, não parece muito provável que Waerdenburch teria oferecido a Calabar o título de capitão caso mudasse de lado, pois desconfiava dele. Se prometeu algo nesse sentido, teria sido mais por uma questão de honra do que por uma razão financeira.67 E. Questão de Honra Uma interpretação bem mais provável é essa questão de honra; talvez de glória, mas muito mais de reconhecimento, respeito, bom nome, dignidade. Vivendo no século XVII, por ser mestiço e não português "de sangue puro," Calabar, apesar das suas qualidades, de certa forma era um inferior por causa da cor da sua pele, ainda que atualmente algumas pessoas tenham dificuldade em admitir esse fato histórico. Ainda quase um século e meio depois, o vice-rei do Brasil mandou degradar um cacique indígena que antes tinha recebido honras reais, pois "havia desprezado as mesmas… se baixando tanto que se casou com uma negra, manchando seu sangue."68 Mestiçagem aviltada num Brasil mestiço. Na época de Calabar a situação não era muito melhor e parece que até os holandeses sabiam da discriminação racial contra Calabar.69 Talvez baseando-se na história de Southey, o romancista Leal faz Calabar pensar em "vingança de tantos desprezos e tantas humilhações com que me têm amargurado os da vossa raça."70 E outro romancista, Felício dos Santos, bem pode ter razão quando faz o napolitano conde Bagnuolo insultar Calabar chamando-o de negro. Seria mesmo o estopim que o fez sair do acampamento do Arraial do Bom Jesus e passar para os holandeses.71 Anos depois, o próprio governador de Pernambuco (1661-1664) escreveu que Calabar buscara entre os inimigos "a esperança que lhe impedia entre os nossos a vileza do nascimento." E falando sobre Henrique Dias, o herói africano da restauração portuguesa, acrescenta: "Um negro, indigno deste nome, pelo que emendou ao defeito da natureza."72 Por outro lado, Calabar, o mameluco, deve ter observado como os holandeses tratavam melhor os seus escravos,73 e os índios até mesmo com respeito, chamando-os de "brasilianos" por serem os primeiros moradores do vasto Brasil.74 E quem sabe Calabar também fosse um tanto ambicioso e pensasse que poderia fazer carreira do outro lado,75 o que num certo sentido aconteceu, como Coelho lembra ao afirmar que "logo o fizeram capitão."76 Não foi tão logo, mas de fato aconteceu. F. Motivação Religiosa Resta ainda uma dupla de motivos que deve ser considerada, a político-religiosa. Estas são duas alavancas importantes da história e naquele tempo estavam entrelaçadas quase que inseparavelmente. Será que houve algum motivo religioso na traição de Calabar? Representantes do pensamento cristão
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    35 reformado comoo presbítero holandês coronel Waerdenburch, reconhecidamente um homem de Deus,77 ou o alemão Von Schoppe, ou o polonês Arciszewski, devem ter tido uma influência nesse sentido. Será que Calabar leu o livro de Carrascon, ou "O Católico Reformado" de Perkins,78 livros que já estavam circulando no Nordeste e sobre os quais frei Calado advertia constantemente os seus fiéis em Porto Calvo, berço de Calabar? Anos depois Calado se lembrava de que se não tivesse ficado em Porto Calvo, "os pusilânimes haviam de ter titubeado na fé, e haviam de estar envoltos em muitos erros e heresias. Porquanto os predicantes dos holandeses haviam derramado por toda a terra uns livrinhos que se intitulavam O Católico Reformado em língua espanhola, composto por Fulano Carrascon, cheios de todos os erros de Calvino e Lutero, e persuadiam os ignorantes (e ainda aos que não eram) de que a verdadeira religião era a que naqueles livros se ensinava."79 De fato, houve uma escolha religiosa voluntária por parte de Calabar, o que não era possível na direção oposta.80 Ele podia ter passado para o lado holandês sem filiação à "igreja do estado" e Bárbara podia ter procurado um padre católico romano para o batismo do seu filho. Calabar teria sido considerado um aliado valioso da mesma forma que os tapuias com o seu paj é, os judeus com o seu rabino e os soldados franceses e napolitanos com o seu vigário católico romano. A entrada da família Calabar na igreja reformada foi voluntária e o batismo do seu filho na igreja reformada do Recife em 1634 aponta para isto.81 Finalmente, dez meses depois, no dia da sua execução, Calabar reconheceu mais claramente os seus pecados e se mostrou tão arrependido que os religiosos que o assistiram acharam que "Deus por meio de tal pena o quis salvar, dando-lha no próprio lugar de seu nascimento e onde tanto o havia ofendido."82 Quem sabe Calabar lembrou-se, como posteriormente o índio Pedro Poti durante o seu suplício, das primeiras frases do Catecismo de Heidelberg, escrito em tempos de perseguição pela Inquisição e memorizado pelos fiéis: "Qual o teu único consolo na vida e morte? Que, na vida e na morte, não pertenço a mim mesmo, mas ao meu fiel Salvador, Jesus Cristo."83 G. Patriotismo Finalmente, quanto ao aspecto político convém abordar o motivo do amor à terra natal, o patriotismo. José Honório Rodrigues observa que talvez tenha sido Francisco de Brito Freyre (almirante da armada que reconquistou o Nordeste e posteriormente governador de Pernambuco), "dos primeiros a manifestar, ao se referir a Calabar, sentimentos patrióticos em relação ao Brasil," quando diz que Calabar foi enforcado em Porto Calvo, "pátria sua."84 Recentemente, o historiador Flávio Guerra defendeu esse sentimento de patriotismo e, ao mesmo tempo, o ódio luso-brasileiro contra a opressão da Espanha. El-rei teria praticamente abandonado o Brasil e quando chegou o reforço sob o comando de Bagnuolo, os estrangeiros receberam, por ordem régia, tratamento melhor do que os "moradores da terra," dos quais alguns foram indo para suas casas, conforme Calado. Por outro lado, os holandeses prometiam menos impostos do que os espanhóis e tentaram trazer Calabar para si. "A catequização do mameluco estivera sendo trabalhada por um tal de Joer," agente dos invasores, católico romano, que falava muito bem o idioma do Brasil. Finalmente Calabar teria escrito ao governador Waerdenburch, dizendo: "Passei para essa causa sem querer recompensa, e vim para melhorar minha terra, que não tem liberdade de espécie alguma." Waerdenburch teria confirmado à Holanda que "Calabar só se colocou ao nosso lado por convicção, pois recusou as recompensas que vossas senhorias lhe haviam mandado. Diz estar certo de que a sua pátria irá melhor do que com os espanhóis e os portugueses." Guerra conclui que "convicções talvez erradas mas honestas… decorreram do seu idealismo… (para) melhor servir à pátria." E quando, depois, o general Matias acenou com anistia total na tentativa de trazê-lo de volta, Calabar teria respondido: "Tomo Deus por testemunha de que meu procedimento é o indicado pela minha consciência de verdadeiro patriota,
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    36 não comotraidor, mas como patriota." E no fim, em Porto Calvo, antes de entregar-se, teria escrito ao governo holandês no Recife: "Serei um brasileiro que morre pela liberdade da pátria." Infelizmente, não conseguimos localizar os documentos em que a informação de Guerra se baseia. Mesmo assim, a base histórica parece muito sólida.85 Conclusão Pessoalmente, tenho a impressão de que o motivo que impulsionou Calabar foi um pouco mais "caleidoscópico." O fator centrífugo ou negativo mais forte talvez tenha sido a ira, ira contra o desprezo racial, inclusive, quem sabe, ódio contra o seu pai português (desconhecido?), uma ira impotente contra a primeira onda de invasores na terra dos "brasilianos." Se fosse fugitivo, a segurança lhe acenaria. Todavia, o fator positivo mais forte certamente teria sido o seu patriotismo, enfatizado por Flávio Guerra. A descrição intuitiva de João Felício dos Santos talvez possa estar perto da resposta que se esconde na névoa da história. Para Felício, esse amor à terra natal era patente em todas as fases da vida do soldado, quem sabe um desejo de realmente ver "ordem e progresso" no Brasil (talvez o sonho de servir, não a si mesmo, mas à comunidade, com justiça e paz). Como menino, o romancista faz Calabar estudar em um colégio de jesuítas onde se ensinava uma obediência incondicional à coroa católica romana de Castela, mas faz o menino responder que somente devia obediência à sua mãe e à terra brasileira. Como jovem, ele teria percebido que os holandeses amavam o Brasil pela construção e limpeza do Recife (e podia ter acrescentado: por planos de melhorias como o ensino prim ário generalizado, limpeza dos limpos, proibição do corte do pau-brasil e do cajueiro, etc.). Finalmente, Felício faz Calabar adulto dizer ao frei Calado, seu confessor, defendendo-se do epíteto de traidor: "São partidários dos flamengos todos os que querem esta terra farta e acarinhada, sejam eles de que nação forem."86 Provavelmente foi isto em essência que Chico Buarque também quis enfatizar, em 1973, com seu musical "Major Calabar."87 Na verdade, à pergunta "Por que Calabar passou para o outro lado?" temos de responder por enquanto com um "non liquet," pois, mesmo do lado holandês, nem o meticuloso cronista De Laet (1644) e nem o panegirista Barlaeus (1647) mencionam motivo algum. De Laet registra somente que "para os nossos passou um mulato, de nome Domingo Fernandes Calabar" e B arlaeus observa que esse "português abandonou o partido do rei (da Espanha) pelo nosso," mencionando a sua terr ível morte por causa da sua infidelidade.88 Talvez seja pessimista demais a conclusão de Capistrano de Abreu: "nunca se saberá."89 Se for localizada uma das cartas mencionadas por Flávio Guerra, teremos uma resposta clara e autêntica. Mas, de fato, atualmente não sabemos com certeza. Na velha Roma, os juízes podiam usar seu "NL" com discrição, porém sem constrangimento. Era uma placa cujas letras queriam dizer "non liquet," isto é, o assunto não está claro (líquido). Se, depois de ouvir as testemunhas, o caso ainda não estava claro, eles erguiam as suas plaquinhas "NL" na hora da votação. Não era um atestado de ignorância, nem prova de indecisão, mas de juízo. Era um sinal humilde de que estavam no limite da interpretação honesta dos dados conhecidos. Precisamos ter sabedoria e coragem para erguer o "NL," porque no caso do capitão Calabar por enquanto não sabemos mesmo. Provavelmente, ele foi movido por um misto de motivos, tendo o amor à sua terra natal como Leitmotiv. Porém, foi sempre uma motivação mesclada, pois "o coração tem razões que a própria razão desconhece" (Blaise Pascal). Apeldoorn, Holanda, 08-05-2000 A.D. Dedicado ao meu irmão e colega Rev. Klaas Kuiper (biógrafo de João Ferreira de Almeida [1628-1691], o
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    37 tradutor daBíblia para o português e pastor da "Santa Igreja Cristã Católica Apostólica Reformada" em Jakarta, Indonésia). Post Scriptum Quanto aos cinco documentos mencionados por Guerra (Aventura, 79 -84, 103; Calabar, 42, 69), os mesmos poderiam encontrar-se em Haia, no Rio ou em Recife. Os originais deviam estar no Arquivo Real de Haia, na Holanda (Algemeen RijksArchief), nas respectivas caixas de cartas escritas do Recife para os Estados Gerais dos Países Baixos (ARA-AStG 5753 e 5754; 1631-34 e 1635) ou para os Senhores XIX (ARA-OWIC 49 e 50; 1630-32 e 1633-35). As cópias podem estar no Brasil, pois as transcrições das missivas aos Estados Gerais (1854) constituem hoje a "Cole ção Caetano," no Rio de Janeiro; as transcrições das cartas aos Senhores XIX (1886) formam a famosa "Cole ção José Higino," no Recife. Os documentos procurados (originais, cópias ou traduções; principais ou anexados) devem ser os seguintes: (a) Carta de 14-11-1631 de "Aldiembert" a Holanda (Estados Gerais ou Senhores XIX). Guerra informa que segundo Assis Cintra "[Aldiembert] 'teria dito' que Calabar 'apesar de ter sofrido injustamente dos seus patrícios por ser mulato, tem recusado aceitar o nosso oferecimento de dinheiro e honrarias'" (Ver notas 66 e 69. Guerra, Aventura, 83). (b) Carta entre 22 e 30-04-1632 de Calabar (ao Governador Waerdenburch?). Guerra diz: "Conta -se que Calabar escreveu: '… vim para melhorar minha terra'" (Nota 85. Guerra, Aventura, 84). (c) Carta entre 22 e 30-04-1632 de Waerdenburch à Holanda (Estados Gerais ou Senhores XIX). Guerra, fazendo citação: "(Calabar) só se colocou ao nosso lado pela convicção, pois recusou-se a recompensas que vossas senhorias lhe haviam mandado. Diz que está certo que conosco a sua pátria irá melhor do que com os espanhóis e os portugueses. Envio-lhes uma carta [de certo a carta "b"] que nos mandou comunicando a sua adesão … Iremos atacar agora Igaraçu" (Notas 66 e 85. Guerra, Calabar, 42). (d) Carta (entre 01-05-1632 e 03-1635?) de Calabar a Matias de Albuquerque. Guerra informa que a carta (descoberta no ARA por W. Wallitz) é uma resposta à oferta de anistia total para Calabar, dizendo: "Tomo Deus por testemunha de que meu procedimento é o indicado pela minha consciência de verdadeiro patriota… não como traidor, mas como patriota" (Nota 85. Guerra, Calabar, 44s). (e) Relatório do Major Picard (depois de 19-07-1635) sobre a capitulação de Porto Calvo. Guerra informa que no relato (traduzido do holandês por Wallitz e divulgado por Assis Cintra), Picard diz que Calabar insistiu que aceitassem as condições da capitulação e afirmou: "Serei um brasileiro que morre pela liberdade da pátria." Ao Governo no Recife Calabar escreveu: "Vós, os holandeses, oferecestes a liberdade ao Brasil, ao meu amado Pernambuco. Um homem como eu que recusou honras e proventos, não é traidor; se houve traição foi uma traição justificada pela nobreza do motivo …" (Nota 85. Guerra, Calabar, 69). Infelizmente, ainda não conseguimos localizar nenhum desses documentos em Haia (AStG ou OWIC; somente a tradução de um breve relato de Picard numa missiva portuguesa que n ão menciona Calabar, em OWIC 50), e eles não constam dos índices das coleções do Recife ou do Rio de Janeiro. As outras cartas de Waerdenburch em 1631 e 1632 foram seis aos Senhores XIX (07 -10 e 09-11- 1631; 06-01, 09-05, 16-08 e 12-11-1632) e nove aos Estados Gerais (12-02, 24-03, 31-05, 03-08,
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    38 07-10 e09-11-1631; ?-01, 09-05, 16-08-1632). Porém, nelas (mormente na de 09-05-1632, ver nota 21) as informações procuradas não foram encontradas. Temos de reconhecer que isto às vezes acontece com informações históricas sólidas por perda de documentos originais, perda essa acidental (como em F.A. Pereira da Costa, Annais Pernambucanos, III:5) ou intencional ( óbvia pela seqüência de documentos referentes ao Brasil atualmente ausentes do Arquivo dos Estados Gerais; ver Schalkwijk, Igreja e Estado, p. 201, n. 112; 465:2.1.5; 466:2.4). Documentos extraviados são a frustração do historiador e apelamos aos que têm alguma pista dos documentos perdidos do Arquivo dos Estados Gerais que se comuniquem com o Algemeen RijksArchief, 2595BE, Den Haag, Holanda. Guerra menciona como sua fonte Assis Cintra. Cintra publicou sua defesa de Calabar em 1933 (A Reabilitação Histórica de Calabar: Estudo Documentado, Onde Prova que Calabar não Foi Traidor. Depoimento, Acusação, Defesa e Reabilitação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933). A sua tese pode ter sido mal defendida e não muda o fato da traição (Rodrigues, Bibliografia, p. 423, #964), mas o importante era a sua documentação. Mesmo que, em 1933, certos documentos dos Estados Gerais já tivessem desaparecido do arquivo de Haia, Cintra ainda teria à disposição as transcrições da Coleção Caetano, no Rio de Janeiro, a não ser que esses cinco documentos não tenham sido transcritos. Seria uma coincidência, mas tem ocorrido com outros documentos, mormente com anexos interessantes. Infelizmente não há condições no momento de consultar Cintra, Recife ou Rio de Janeiro. Notas 1 Do lado português, a principal fonte de informações deste período é Duarte de Albuquerque Coelho, Memórias Diárias da Guerra do Brasil, 1630-1638 (Madri: 1654; Recife: Secretaria do Interior, 1944), que menciona Calabar em muitas páginas. Do lado holandês, Joannes de Laet, Iaerlijck Verhael, 4 vols. (Leiden: 1644; 's-Gravenhage: Linschoten Vereniging, 1931-1937); tradução portuguesa: História ou Annaes dos feitos da Companhia Privilegiada das Índias Occidentais desde o seu começo até o fim do ano de 1636, 2 vols. (Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1916- 1925). 2 J. da Silva Mendes Leal, Calabar (Rio de Janeiro: Correio Mercantil, 1863), p. 140, sugere que o seu nome era Domingos Fernandes, apelidado "o Calabar." Com isto parece concordar a informa ção do general Matias de Albuquerque, de que o "primo co-irmão" de Calabar era Antônio Fernandes, sendo ambos nascidos, batizados e criados na paróquia de Porto Calvo (Coelho, Memórias, 197; 31- 03 e 01-04-1634). De igual modo, alguns dos primeiros documentos holand eses não mencionam o nome Calabar, mas somente "Domingo Fernando," como na carta do coronel Waerdenburch aos Diretores da Companhia das Índias Ocidentais, os chamados "Senhores XIX," em 12-11-1632, sobre a incursão contra Barra Grande: "...porque o mesmo nasceu ali e é grande conhecedor." 3 Frei Manuel Calado do Salvador, Valeroso Lucideno e Triunfo da Liberdade (Lisboa: 1648; Recife: Cultura Intelectual de Pernambuco, 1942; 2 vols.), I:48; Ângela Alures Coelho, Memórias, 120: mãe e alguns parentes. F.A. de Varnhagen, História Geral do Brasil (Rio de Janeiro: 1854-1857; São Paulo: Melhoramentos, 1956, 5ª ed.), I:277: Ângela Álvares. 4 Frei Calado chama Calabar de "mancebo mameluco, mui esfor çado e atrevido" (Lucideno, I:32). Por servir como pároco em Porto Calvo por alguns anos, Calado conhecia melhor o parentesco de Calabar. Às vezes Calado chama-o de mulato (com desprezo? Lucideno, I:48). Coelho, Mem órias, p. 120 (o "mulato" Calabar; 20-04-1632); p. 68 (o "pardo" ferido, 14-03-1630). Laet, Verhael, III:95, 96: "mulaet." Também depois, às vezes, chamado de mulato, como por R. Southey, História do Brasil (Londres: 1810-1819; São Paulo: Obelisco, 1965), II:164; mas, nas notas, o cônego J.C. Fernandes Pinheiro afirma que "todos os nossos cronistas qualificam a Calabar de mameluco e não de
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    39 mulato" (p.205, n. 13). Pedro Calmon, História do Brasil (Rio de Janeiro: Olympio, 1961), II:597, nota, julga que pelo nome africano, Calabar, de certo era negro ou mulato. No interior de Pernabuco, por volta de 1600, deve ter havido muitos mamelucos (mestiços índio-europeus), mulatos (mestiços africano-europeus) e cafuzos (mestiços índio-africanos; Alagoas: "pelos cafus," ao anoitecer), de sorte que um mameluco bem podia ter alguns traços africanos e ser chamado mulato. João Felício dos Santos, Major Calabar (São Paulo: Círculo do Livro, s.d. [1ª ed. 1960]; ed. integral): mameluco. Romances usam liberdades históricas (ex: Felício faz Maurício de Nassau filho do "stadhouder" da Holanda, etc.), mas podem ajudar na interpretação dos fatos. 5 Coelho, Memórias, 197: "onde foram batizados" (isto é, Calabar e seu primo Antônio). Flávio Guerra, Uma Aventura Holandesa no Brasil (Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 1977), 78s: ainda menino, Calabar foi parar, "não se sabe como, nem conduzido por quem," em Olinda e batizado no dia 15-03-1610 na ermida do engenho N.S. da Ajuda, de Jerônimo de Albuquerque, sendo padrinhos Afonso Duro, rico colono de Évora, Portugal, e sua filha D. Inês Barbosa, nascida em Pernambuco. Flávio Guerra, Calabar: Traidor, Vilão ou Idealista (Recife: ASA Pernambuco, 1986). Talvez com a fórmula: "Si non baptizatus es, ego te baptizo…" 6 Guerra, Aventura, 78: em 1628 Calabar tinha três engenhos de açúcar em Porto Calvo e participava da procura das lendárias minas de prata de Caramuru. Novo Dicionário de História do Brasil, 2ª ed. (São Paulo: Melhoramentos, 1971), s.v. "Calabar" (o artigo merece reparos). Os batavos foram os primeiros moradores históricos da Holanda. 7 Naquela época, os Países Baixos, pertencentes à coroa da Espanha, englobavam Bélgica e Holanda, com capital em Bruxelas. A palavra "flamengos," freqüentemente usada para "holandeses," refere-se propriamente aos moradores do norte da atual Bélgica. Ver a história sociológica do Dr. José Antônio Gonçalves de Mello, Tempo dos Flamengos (Recife: Secretaria de Educa ção e Cultura, 1978). 8 C.R. Boxer, Os Holandeses no Brasil, 1624-1654 (São Paulo: Editora Nacional, 1961; tradução de The Dutch in Brazil, 1624-1654 [Londres: Oxford University Press, 1957]), p. 45. Em 1630, havia 137 engenhos de açúcar, com uma produção de 700.000 arrobas, ou seja, 10.500.000 quilos por ano. O livro de Boxer dá um ótimo resumo da história geral da época. Evaldo Cabral de Mello, Olinda Restaurada: Guerra e Açúcar no Nordeste, 1630-1654 (Rio de Janeiro/São Paulo: Forense- Universitária/Universidade de São Paulo, 1975). 9 Panfleto De Portogysen goeden Buyrman (O bom vizinho português; Lisbon: Drucksael daer uyt-hangt het Verradich Portugael, 1649. Sic: Lisboa? Sala de impress ão com a placa Portugal Traidor? ), p. 13. 10 José Honório Rodrigues, Civilização Holandesa no Brasil (Rio de Janeiro: Nacional, 1940), p. 16 9: "capa cultural." Ver E.van den Boogaert, ed., Johan Maurits van Nassau -Siegen, 1604-1679: A Humanist Prince in Europe and Brazil. Essays on the Occasion of the Tercentenary of his Death ('s- Gravenhage: The Johan Maurits van Nassau Stichting, 1979). 11 C.R. Boxer, The Dutch Seaborne Empire (Londres: Hutchinson, 1965), 108. 12 Panfleto Veroveringh van de Stadt Olinda (Conquista da cidade de Olinda; Amsterdam: J. Luyck, 1630). Rev. J. Revius, Biechte des Conincx van Spanjen (Confiss ão do rei da Espanha mortalmente doente pela perda de Pernambuco; S.l.: s.e., 1630): "mea gravissima culpa." 13 Instrução do almirante Lonck de 01-08-1629 sobre "onze rechtvaardige oorlog," nossa guerra justa contra a Espanha. Sobre a questão da liberdade religiosa durante esta época, ver F.L. Schalkwijk, Igreja e Estado no Brasil Holandês, 1630-1654, 2ª ed. (São Paulo: Vida Nova, 1989), 335-458. 14 F.J. Moonen, Holandeses no Brasil (Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 1968), 53. 15 E. Fischlowitz, Christoforo Arciszewski (Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1959). 16 Laet, Verhael, III:143. 17 Ver F.A. Pereira da Costa, Anais Pernambucanos, 10 vols. (Recife: Arquivo P úblico Estadual,
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    40 1952-1966), III:12-19. 18 Boxer, Holandeses, 63, nota 27. 19 Ver nota 1. Somente em 1817 Alagoas tornou-se uma capitania independente de Pernambuco. 20 Coelho, Memórias, 120 (20-04-1632). Matias era irmão do donatário Duarte de Albuquerque Coelho. 21 Em 01-05-1632, Waerdenburch fez uma incursão a Igaraçu "sob a fidelidade ou infidelidade de um negro que me serviu de guia" (carta aos Estados Gerais, 09 -05-1632; provavelmente a primeira referência a Calabar nos documentos holandeses). F.A. de Varnhag en, História das Lutas com os Hollandezes no Brasil desde 1624 a 1654 (Lisboa: Castro Irmão, 1872), 59. Até novembro de 1632 provavelmente surgiu certa dúvida por causa da confissão do colaborador Leendert van Lom, que alertou o governo a não confiar em nenhum português e que suspeitava de "Domingo Fernando," que joga (cartas) com capitães (de barcos) portugueses, dando-lhes dinheiro e chamando-os de primos (o que não são)." Porém, na hora da execução Lom hesitou em confirmar os nomes dos portugueses, de sorte que ficou a incerteza (Laet, Verhael, III:107). 22 Coelho, Memórias, 138 (07-02-1633). 23 Ibid., 197 (31-03 e 01-04-1634). 24 Os protestantes, inclusive o pastor João Ferreira de Almeida, insistiram que não pertenciam a uma nova seita, mas à igreja cristã "católica reformada," não católica romana. Ver Schalkwijk, Igreja e Estado, 234s. 25 No dia 20-09, não em 10-09 como foi sugerido pela edição impressa do Doopboek por ter omitido "Sept. 20" (Livro de Batismos da Igreja Reformada do Recife, 1633-1654, publicado por C.J. Wasch, Nederlandsch Familieblad, 5 e 6, 1888-1889). Frei Calado diz que Calabar travou amizade com Von Schoppe tomando-o "por compadre de um filho que lhe nasceu de uma mameluca, chamada B árbara, a qual levou consigo e andava com ela amancebado." Calado não reconheceu o matrimônio protestante (Calado, Lucideno, I:32, seguido por J.B.F. Gama, Memórias Históricas da Província de Pernambuco, 2ª ed., 2 vols. [Recife: Secretaria da Justiça/Arquivo Público Estadual, 1977], I:239). O colaborador Leendert van Lom afirmou (hesitando porém na hora da execução) que "a mulher de Domingo" falou que todos os holandeses deviam ser mortos à bala ("Domingos vrouw," Laet, Verhael, III:107). Em 1636, as atas do governo no Recife falam sobre "a viúva de Calabar" (Dagelijkse Notulen, 13-04-1636). Mameluca (Calado, Lucideno, I:14). Parece que B árbara também era natural de Porto Calvo, porque em março de 1635 o cunhado ("swagher") de Calabar traz notícias de que os grandes da povoação querem discutir (a rendição; Laet, Verhael, IV:151). Leal, no seu romance, desconhece Bárbara (Leal, Calabar, passim). 26 Magtelt Daays. Engana-se o romancista Felício ao fazer Bárbara e o filho morrerem em 1631 (Santos, Calabar, 97 e 102). Coelho, Memórias, 116. 27 Pastores no Recife no ano de 1634: Christianus Wachtelo (1630 -1635) e Daniel Schagen (1634- 1637), este mais ligado ao exército. 28 Sobre Calado, ver J.A.G. de Mello, "Frei Manuel Calado do Salvador," Restauradores de Pernambuco (Recife: Imprensa Universitária, 1967). Era um religioso da ordem de São Paulo. 29 Calado, Lucideno, I:46-48. "E como se havia de entender aquela promessa dos conc êrtos, que ficaria a mercê d'El-Rei." Calado justifica o não cumprimento do "à mercê d'el-rei," considerando o general Matias como representante do rei. Varnhagen, História geral, I:263, "(Calabar) esperançado talvez de ter algum meio de escapar-se, se em tempo de guerra andassem com ele, de uma parte para outra, à espera de ordens da metrópole." 30 Enforcado, dizem Calado (Lucideno, I:47) e Coelho (Memórias, p. 264); garroteado, diz Guerra (Aventura, 103). João Ribeiro, História do Brasil, 19ª ed., rev. por Joaquim Ribeiro (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1966), 152: "como é próprio da fraqueza humana, vingaram-se." Mas parece que
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    41 alta traiçãoexigia este tipo de execução (ver Laet, Verhael, III:107, o traidor Leendert de Lom foi decapitado e esquartejado no Recife). O problema era o não cumprimento total das cláusulas (escritas ou orais) da rendição, pois teriam dado quartel a Calabar, "a mercê d'el-rei" (Calado, Lucideno, I:46- 48; Carta do governo no Recife aos Senhores XIX, 23-08-1635, prometido o quartel. Laet, Verhael, IV:169). 31 Calado, Lucideno, I:46-48, com Calabar durante quatro horas pela manhã e mais três horas à tarde; lágrimas e arrependimento. Leal se engana fazendo padre Manuel de Morais confessor de Calabar (Leal, Calabar, IV:135). 32 Calado, Lucideno, I:47. Coelho, Memórias, 264 (22-07-1645), aguazil (funcionário administrativo e judicial) dos holandeses em Porto Calvo. Castro ou Crasto: Laet, Verhael, IV:162, Manuel de Crasto Fortado. 33 J. Capistrano de Abreu, Capítulos de História Colonial, 4ª ed. (Rio de Janeiro: Briguet, 1954), 155. 34 J. Veríssimo qualifica os motivos, sem mencioná-los: "Foram vis e infamantes os móveis que o fizeram bandear-se" ("Os Hollandezes no Brazil," Revista do Instituto Arqueol ógico, Histórico e Geográfico Pernambucano [RIAP] 54:127). 35 Ver Ruy dos Santos Pereira, Piso e a Medicina Indígena (Recife: Instituto Histórico Pernambucano e Universidade Federal de Pernambuco, 1980), 23. 36 Calado, Lucideno, I:14, 46-48. Rodrigues diz sobre esse "saboroso livro" (no Index, Índice de Livros Proibidos, de 1655 até 1910) que o desejo de Calado "de ver o Brasil livre dos holandeses … conduziram-no muita vez ao erro, à parcialidade, à falsidade." Mas "foi uma injustiça … quando (Varnhagen julgou a obra) defeituosa e sem dignidade histórica"; José Honório Rodrigues, Historiografia e Bibliografia do Domínio Holandês no Brasil (Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1949), 11,12. Boxer, Holandeses, p. 68, n. 34,35. Mello, Calado, 9: "É, não uma história, mas o depoimento de um contemporâneo … a fim de influir sobre o Rei a favor dos insurretos …" (1648). 37 Coelho, Memórias, 264 (22-07-1635). Guerra: Coelho precisava de um bode expiatório (Aventura, 79). 38 Varnhagen, História das Lutas, 58; História Geral, I:277. H. Wätjen, O Domínio Colonial Hollandez no Brasil (São Paulo: Editora Nacional, 1938), 119: "um trânsfuga," sem mencionar motivos. 39 Southey, História, II:212, 239, n. 1. Francisco de Brito Freyre, Nova Lusit ânia: História da Guerra Brasílica (Lisboa: 1675; Recife: Secretaria de Educação e Cultura, 1977). Gioseppe di S. Teresa, Istoria delle Guerre del Regno del Brasile (Roma: Corbelletti,1698), "compilação pouco estimável," conforme Rodrigues (Bibliografia, 147). Raphael de Jesus, Castrioto Lusitano (Lisboa: 1679; Recife: Assembléia Legislativa de Pernambuco, 1979), na sua maior parte c ópia de Calado. 40 Guerra, Aventura, 94, 102. 41 Coelho, Memórias, 68, 120. 42 Ibid., 264 (22-07-1635). Nota 131: "Tradução literal do texto espanhol." A tradução (Melo Morais, 1855) rezava: "por sua infidelidade e crimes." Rodrigues avalia esta tradu ção como "indigna de apreço pelos seus erros e omissões" (Bibliografia, 223, ítem 410). Leal sugere que Calabar tentou organizar com uns cúmplices um desastre no Arraial para acabar com a guerra, e teria fugido depois de pôr fogo na barraca do general Matias (Leal, Calabar, II:104,132). 43 Ver Laet, Verhael, III:95 (Barra Grande, 09-1632); III:112 (Camaragibe, 12-1632); II:190 (descrição do litoral de Porto Calvo). Coelho, Memórias, 197 (Barra Grande, 04-1634). 44 Ver Schalkwijk, Igreja e Estado, 234, n. 81. 45 Como sobre a morte do almirante Pater envolvido na bandeira holandesa. Varnhagem, Hist ória Geral, I:276 (n.V).
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    42 46 Boxer,Holandeses, 71, n. 38. 47 Guerra, Aventura, 79ss. Guerra, Calabar, 36. 48 Coelho, Memórias, 263 (19-07-1635: "o general assegurou [ao inimigo] que arriscaria a sua própria pessoa para não perder das mãos a de Calabar"); p. 264 (22-07-1635: "tão firme em não entregá-lo." Varnhagen, História Geral, I:263, "(Calabar) traidor por todos os séculos dos séculos." 49 Calado, Lucideno (1648), I:46. Opinião copiada ao pé da letra por Diogo Lopes Santiago, História da Guerra de Pernambuco (1660?; Recife: Fundarpe, 1984), 92, e Raphael de Jesus, Castrioto Lusitano (p. 115). Assim também Varnhagen, História Geral, I:263. Mas o próprio donatário reconheceu que os holandeses fizeram muitos esforços para salvar a vida de Calabar: (Deus permitiu que) "o nosso general estivesse tão firme em não entregá-lo, a despeito de tamanhas instâncias que fazia o inimigo" (Coelho, Memórias, 264, 22-07-1635). 50 Calado, Lucideno, II:241: "se não foram os judeus ..." Panfleto Portugysen, 13. 51 Coelho, Memórias, 262 (17 e 18-07-1635). Laet, Verhael, IV:168. 52 Coelho, Memórias, 263 (19-07-1635). Brito Freyre, Nova Lusitânia, 349: "persuadindo-os a se renderem, capitularam." Não há provas do engano sugerido por Freyre. Guerra, Aventura, 102, parafraseando: "O mameluco, ante a recusa de Picard em atender a intima ção do 'terríbil,' reagiu, e, com rara altivez e coragem, retorquiu para o enviado do inimigo: 'Ide e dizei ao General Matias de Albuquerque que o Coronel Picard aceita a proposta'." 53 Calado, Lucideno, I:32. 54 A Companhia reconheceu o valor de Calabar: o diretor De Laet escreveu que esse homem corajoso e forte "fez mui grandes serviços" (Laet, Verhael, IV:162,171). Nótulas Diárias do Governo no Recife, 13 de abril de 1636 (ver 24-01-1636). A viúva do pastor Stetten e seus filhos receberam uma ajuda provisória (Nótulas Diárias, 12-07-1647), suspensa em junho de 1650 (carta da D. Raquel à Stetten ao pastor P. Wittewrongel, de Amsterdam - Recife, 18-05-1652 (GAA-ACA 88, 4, p. 167- 169). 55 G. Groenhuis, De Predikanten (Groningen: Wolters-Noordhoff, 1977), 36. 56 Coelho, Memórias, 120 (20-04-1632). 57 Ver J.A.G. de Mello, "A Situação do Negro sob o Domínio Holandês," em Gilberto Freyre e outros, Novos Estudos Afro-Brasileiros (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1937). 58 Informações geralmente contidas nas "cartas gerais" do governo no Recife aos Senhores XIX, 1630-1632 (ver o índice da coleção "Brieven en Papieren" no Instituto Histórico no Recife; RIAP 30:129-144). 59 Pedidos de Hooghstraten ao Conselho Ultramarino em Lisboa para pagar o soldo prometido (Lisboa, Arquivo Histórico Ultramarino, cod. 14:88 e 278:230v, de 28-09-1647 e 25-02-1649). 60 Boxer, Holandeses, 380-382. Muitas referências nos documentos holandeses. 61 J.A.G. de Mello, João Fernandes Vieira, 2 vols. (Recife: Imprensa Universit ária, 1967), I:105- 127. 62 Abreu, Capítulos, 155. 63 Calado, Lucideno, I:48. 64 Southey, História, II:164. 65 Coelho, Memórias, 264 (22-07-1635). 66 Guerra, Aventura, 83: segundo Assis Cintra "[Aldiembert] 'teria dito' que Calabar, 'apesar de ter sofrido injustamente dos seus patrícios por ser mulato, tem recusado aceitar o nosso oferecimento de dinheiro e honrarias'." Guerra, Calabar, 42: Waerdenburch teria escrito à Holanda que "(Calabar) só se colocou ao nosso lado por convicção, pois recusou-se a recompensas que vossas senhorias lhe haviam mandado." Ver o post scriptum deste artigo. 67 Santos, Major Calabar, 107 (capitão Jouer de Haia, o "língua," tradutor), 113-115. Calabar era
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    43 capitão, nãomajor, ver Laet, Verhael, IV:162s, em Porto Calvo, julho de 1635, Major Picard, Capiteyn Langley, Capiteyn van Exel, Capiteyn Domingo Fernandes Calabar, Capiteyn Jan Muller. 68 C.R. Boxer, Race Relations in the Portuguese Colonial Empire, 1415 -1825 (Oxford: Clarendon, 1963), 86-130; 1771. 69 Guerra, Aventura, 83: Calabar "(sofreu) injustamente dos seus patr ícios por ser mulato." Ver nota 66 e o post scriptum deste artigo. 70 Southey, História, II:164: "se o tratamento recebido dos comandantes o desgostou." Leal, Calabar, I:141, em um conclave com conspiradores, faz Calabar dizer: "A minha raça é outra … Tolerais-me quando vos sou útil" (II:100), e faz com que o futuro sogro de João Fernandes Vieira bata com um ferro no rosto de Calabar, marcando-o (I:146; "ansiedade de vingança, III:29; IV:104). Ambos, Vieira e Calabar, seriam apaixonados por Maria C ésar (I:141), sugerindo ainda outro motivo. Isso, porém, não é válido, pois Leal desconheceu Bárbara (nota 25). 71 Santos, Major Calabar, 112s. Leal, no seu romance hist órico, não aproveita o desgosto geral contra Bagnuolo por fazê-lo chegar depois da deserção de Calabar (Leal, Calabar, IV:54). Calado, segundo Boxer, é um crítico muito escarninho de Bagnuolo (Boxer, Holandeses, 68, n. 35). 72 Brito Freyre, Nova Lusitânia, 240, 254. 73 Ver nota 57. Observe-se sobre o tratamento dos escravos, as instruções de João Fernandes Vieira e as de Nono Olferdi para os novos colonos no Sergipe. Schalkwijk, Igreja e Estado, 74, n. 81. 74 Também o índio Pedro Poti, membro da igreja cristã reformada, assina a sua carta na língua tupí como "regedor (dos) brasilianos em Paraíba" (31-10-1645). Talvez fosse bom usar de novo este nome arcaico, porém honorífico, como coletivo para todas as nossas tribos indígenas em geral. "Brasilianen," passim nos documentos holandeses para as tribos tupis (como tupinambás, potiguaras, sergipes, etc.), distinguindo-os dos tapuias (nhanduis, cariris). Os (luso) "brasileiros" eram chamados "portugueses" ou "moradores." Calado, Lucideno, I:xvi, "brasilianos" no sentido de "moradores." 75 Abreu, Capítulos, 155. 76 Coelho, Memórias, 264 (22-07-1635). 77 Carta de Dom. (Rev.) Pistorius aos Senhores XIX, Recife, 04-11-1631. 78 Schalkwijk, Igreja e Estado, 231-235. 79 Calado, Lucideno, I:68s. 80 Schalkwijk, Igreja e Estado, caps. 12-15, sobre a liberdade religiosa nessa época, mormente pp. 388-458. 81 Ver notas 25 e 26. 82 Coelho, Memórias, 264 (22-07-1635). Brito Freyre, Nova Lusitânia, 350: "com piedosas mostras de verdadeiro arrependimento e lágrimas constantes, nascidas mais do temor de Deus que do receio do castigo." Guerra, Aventura, 103: "firme e seguro, sem denotar arrependimento," ou seja, não se sabe se considerou a "traição" como pecado. 83 O Catecismo de Heidelberg (1563) era estudado dominicalmente nas igrejas reformadas. Havia no Brasil uma edição em espanhol, Catechismo (s.l.: Ioris van Henghel, 1628, 135 p.), 1ª pergunta e resposta. Sobre Poti, Schalkwijk, Igreja e Estado, 309. 84 Rodrigues, Bibliografia, 13. Brito Freyre (Armada: 1654; Governador: 1661 -1664), Nova Lusitânia, 350. 85 Guerra, Aventura, 79-84, 103. Guerra, Calabar, 42, 69. Ver o post scriptum no fim deste artigo. 86 Santos, Major Calabar, 99, 101 e 205. Capitão Jouer, ver nota 66. 87 A peça "Calabar" (com subtítulo de "O Elogio da Traição" e músicas como "Bárbara"), de Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra, foi proibida em 1973 pelo governo militar, mas liberada em 1980. O alvo era debater a figura do "traidor" por ocasi ão do sesquicentenário da independência (Veja, 14-05-1980, pp. 60ss).
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    44 88 Laet,Verhael, III:98. Gaspar Barlaeus, História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil (Amsterdam: 1647; Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1980), 39. 89 Abreu, Capítulos, 155. Muitos têm opinião semelhante, como Rocha Pombo, História do Brasil, 7ª ed. (São Paulo: Melhoramentos, 1956), I:171; Southey, História do Brasil, II:164: "não se sabe"; Hélio Vianna, História do Brasil (São Paulo: Melhoramentos, 1961), etc. APOSTILA 02 ESTUDOS SOBRE – ANJOS Reverendo professor Antony Steff Gilson de Oliveira Presidente da Federação Internacional das Igrejas e Pastores no Brasil ou FENIPE www.fatefina.com.br TOTAL 21 - PAGINAS 4 ASSUNTOS! Cada Crente Possui um Anjo da Guarda? Anjos no Novo Testamento Anjos: Um Serviço Secreto Muito Especial Espíritos ministradores ANJOS NO NOVO TESTAMENTO Professor: Reverendo ADiego Roberto A crença em anjos no Novo Testamento Os cristãos não eram o único grupo do primeiro século que acreditava na existência de anjos. A maioria das seitas do judaísmo, berço do cristianismo, pro-fessava a crença nesses mensageiros celestes, á exceção provável dos saduceus (At 23.8). 0 interesse dos judeus por anjos havia crescido de forma notável durante o período intertestamentario, quando o segundo templo foi construído, após o retorno do cativeiro babilônico. É provável que esse aumento de interesse pelos anjos tenha ocorrido como resultado da ênfase nesse período á idéia de que Deus havia se distanciado do seu povo, já que não havia mais profetas. A ausência de profetas, os mensageiros oficiais de Deus ao seu povo, provocava a necessidade de outros mediadores da vontade divina. Os anjos vieram ocupar esse espaço no judaísmo do segundo templo. 0 aumento do interesse pelo mundo celestial e pelos seus habitantes, os anjos, nota-se nos escritos judaicos produzidos antes ou logo após o nascimento do cristianismo. Exemplos desta tendência se percebem em alguns livros apócrifos (4 Esdras 2.44-48; Tobias 6.3-15; 2 Macabeus 11.6). 0 mesmo se vê em alguns dos escritos dos sectários do Mar Morto achados nas cavernas do Wadi Qumran, como o rolo da Batalha entre os Filhos das Trevas e os Filhos da Luz. Alguns dos escritos produzidos pelo movimento apocalíptico dentro do judaísmo, mais que os escritos de outros movimentos, enfatizava o ministério dos anjos (1 Enoque 6. 1 ss; 9. 1 ss), 0 interesse pelos anjos se nota até mesmo nos escritos rabínicos datados a partir do século III (com exceção do Mishnah), e que possivelmente representam a linha principal do judaísmo no período do segundo templo. Fora das fronteiras do judaísmo, a crença em anjos, encontrava-se não somente nas religiões que fervilhavam no mundo greco-romano, mergulhado no misticismo helênico, como também nas obras dos filósofos e escritores gregos famosos, como Sófocles, Homero, Xenofonte, Epicteto e Platão. A biblioteca de Nag Hammadi, descoberta em nosso século (1945) nas areias quentes do deserto egípcio, apresenta material gnóstico datando do século IV, com uma elaborada angelologia, onde a distância entre Deus e os homens é coberta por trinta "archons", seres intermediários, possivelmente
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    45 anjos, queguardam as regiões celestes. Os "Papiros Mágicos" desta coleção contém fórmulas para atrair os anjos. Embora datando do século IV, estes escritos possivelmente refletem crenças que já estavam presentes de forma incipiente no mundo greco-romano desde antes de Cristo. Em contraste aos escritos produzidos cm sua época, a literatura do Novo Testamento é bem mais discreta e reservada em seus relatos da atividade angélica. As palavras mais comuns para "anjos" no Novo Testamento A palavra mais usada no Novo Testamento para "anjo" é aggelos, que é a tradução regular na Septuaginta da palavra hebraica Mala'k. Ambas significam 'mensageiro". Aggelos é usada umas poucas vezes no Novo Testamento para mensageiros humanos, como por exem plo os emissários de João Batista a Jesus (Lc. 7.24; veja ainda Tg 2.25; Lc 9.52). Na maioria esmagadora das vezes, a palavra refere-se aos mensageiros de Deus, que povoam o mundo celeste e assistem em sua presen ça. Aggelos é usada tanto para anjos de Deus quanto para os anjos maus. Existe outro termo no Novo Testamento para se referir aos anjos, o qual s ó Paulo emprega: "principados e potestades". Em duas ocasiões é usado em referência aos demônios (Ef 6.12; Cl 2.13) e em três outras aos anjos de Deus (Ef 3.10; Cl 1.16; 1 Pe 3.22). Em todos os casos, refere -se ao poder e á hierarquia que existe entre esses espíritos. Uma outra palavra usada no Novo Testamento para anjos e pneuma, geralmente no plural (pneumata) , que se traduz por espíritos". Embora o termo seja empregado geralmente para os anjos maus e decaídos (quase sempre qualificado pelo adjetivo "imundo", cf. Mt 12.43; Lc 4.36; At 8.7), é usado pelo menos uma vez para os anjos de Deus, como sendo "espíritos administradores" (Hb 1. 14). Alguns estudiosos têm sugerido que "espíritos" também se refere a anjos em outras passagens onde a palavra pneumata aparece, como por exemplo 1 Co 14.12. Neste versículo o apóstolo Paulo aprova e incentiva o desejo dos membros da igreja por pneumata, expressão quase que universalmente traduzida como "dons espirituais", devido ao contexto. De acordo com E. Earle Ellis, Paulo, na verdade, não se refere a dons espirituais, mas aos anjos que estavam presentes aos cultos (1 Co 11. 10). Sua tese é que existe uma relação estreita entre as manifestações sobrenaturais que estavam acontecendo na igreja de Corinto e o minist ério angélico. Tais manifestações, ou parte delas, não eram produzidas pelo Espírito Santo, e nem também por espíritos malignos, mas por estes espíritos bons. Outras passagens onde "espíritos" significa "anjos", segundo Ellis, são 1 Co 14.32; 1 Jo 4.1-3; Ap 22.6.1(1). Embora esta sugestão seja interessante e provocativa, fica difícil ver como "espíritos" produtores de dons espirituais se encaixam no contexto de 1 Co 14.12 e no ensino de Paulo de que os dons são dados pelo Espírito Santo. 0 uso de pneumata em 1 Co 14.12 (bem como nas demais passagens mencionadas acima) pode ser explicado á luz de 1 Co 12.7, onde Paulo afirma que há diferentes manifestações do Espírito Santo. Ou seja, o mesmo Espírito manifesta-se de formas diferentes através de pessoas diferentes. Paulo refere-se a estas manifestações como "espíritos". Elas eqüivalem aos dons espirituais. E difícil admitir que Paulo aprovaria um desejo dos crentes de Corinto de buscar estas entidades celestiais. Anjos através dos livros do Novo Testamento A presença e a atividade de anjos registradas nos evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas) indicam invariavelmente a intervenção direta de Deus. Como mensageiros fiéis de Deus, que têm acesso a presença divina (Lc 1. 19; cf 12.8; Mt 10.32; Lc 15.10), a visita ou a interven ção de um deles eqüivale a uma manifestação divina. A encarnação e o nascimento de Jesus foram marcados pela presença de anjos, indicando a participação direta de Deus no nascimento do Messias (Mt 1.20; 2.13,19; Lc 1 . 11; 1.26-38). Embora os evangelhos não registrem quase nenhuma participação direta dos anjos assistindo a Jesus em seu ministério (o que poderia ter ocorrido, se Jesus quisesse, Mt
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    46 26.52), osanjos acompanharam o Senhor e se rejubilaram a medida em que pecadores se arrependiam (Lc 15.10). As poucas vezes em que se manifestaram visiv elmente tinham como propósito demonstrar que Ele era amado e aprovado por Deus (Mt 4.11; Lc 2143). Os anjos ainda participaram da sua ressurreição, da anunciação ás mulheres, e da anunciação aos discípulos de que Jesus havia de voltar (Mt 28.2-5; At 1.9-11). E o próprio Jesus também mencionou varias vezes que os anjos participariam) da sua segunda vinda e do Juízo final (Mt 13.4 1; 16.27; 24.3 l). Embora nos evangelhos a atividade dos anjos praticamente se concentre em tomo da pessoa de Jesus, ele mesmo menciona uma atividade deles relacionada aos homens, "cuidado para n ão desprezarem nenhum destes pequeninos. Eu afirmo que os anjos deles est ão sempre na presença do meu Pai que está no céu" (Mt 18. 10, NVI). Aqui Jesus fala do cuidado vigilante de Deus pelos "pequeninos ', através dos anjos. A quem Jesus se refere por pequeninos" tem sido debatido pelos estudiosos, j á que o termo pode ser tomado literalmente (crianças) ou figuradamente (os discípulos). Talvez a última possibilidade deva ser a preferida, já que Jesus usa regularmente pequeninos" para se referir aos discípulos, cf Mt 10.42; 18.6; Mc 9.42; Lc 17.2. Qualquer que seja a interpreta ção, a passagem não está ensinando que cada crente ou criança tem seu próprio "anjo da guarda", como era crido popularmente entre os judeus na época da igreja primitiva. Fazia parte desta crença que o anjo guardião" poderia tomar a forma do seu protegido (cf. At 12.15). Jesus est á ensinando nesta passagem que Deus envia seus anjos para assistir aos "pequeninos", e que, portanto, n ós não devemos desprezar estes "pequeninos". Esse ministério angélico para com os "pequeninos" faz parte do cuidado geral que os anjos desempenham, pelo povo de Deus (cf. SI 9 1.11; Hb 1. 14; Lc 16 .22). A passagem, portanto, não deve ser tomada como suporte á crença popular em "anjos da guarda". E importante notar que o Evangelho de João faz pouquíssimas referências á atividade dos anjos, embora, segundo João, Jesus tenha dito aos seus discípulos, no início do seu ministério, que eles veriam, os anjos subindo e descendo sobre si (Jo 1. 5 1 ). Possivelmente esta passagem não deva ser entendida literalmente no que se refere aos anjos, mas apenas como uma alusão ao sonho de Jacó (Gn 28.12) e ao seu cumprimento na pessoa de Cristo (unindo o céu á terra). No relato de João das boas novas, os anjos só revelam a sua presença ao lado da sepultura de Jesus (Jo 20.12)(2). Estes fatos indicam que as aparições angélicas durante o período cm que Jesus esteve presente fisicamente entre nós foram relativamente poucas, e quase todas associadas com o seu nascimento, ministério, morte e ressurreição. Era conveniente que a vinda do Filho de Deus ao mundo fosse marcada por esta atividade angélica especial. Apesar de a narrativa do livro de Atos abranger um período marcado por intensa manifestação sobrenatural, que foi o nascimento da igreja cristã, as aparições angélicas registradas pelo autor são relativamente poucas. Não há aparição de anjos em grupos, á exceção dos dois homens em vestes resplandecentes no local da ascensão (At 1. 10- 11). Nas intervenções angélicas, é sempre um único anjo que aparece, o qual é chamado de "um anjo do Senhor" (At 5.19; 8.26; 12.7,15) ou "um anjo de Deus" (10.3; 27.23). A expressão "anjo do Senhor" não tem. em Atos a mesma conotação que no Antigo Testamento, onde ás vezes este anjo é identificado com o próprio Deus. Em Atos a expressão sempre designa um mensageiro angelical. Os anjos aparecem em Atos com a mesma função principal, que no Antigo Testamento e nos Evangelhos, ou seja, trazer uma mensagem oficial da parte de Deus (At 5.19; 10.' 10.22; 27.23). A isto se acresce a função protetora, pois por duas vezes um anjo do Senhor libertou apóstolos da prisão (At 5.19; 12.7). Uma outra missão de um anjo foi punir o rei Herodes (At 12.23) missão esta já mencionada no Antigo Testamento (cf Ex 12.13; 2 Sm 24.17) A atividade dos anjos em Atos, além de bastante discreta, é voltada quase que exclusivamente para o progresso do Evangelho. Um ponto de grande relevância para nos hoje é que ela se concentra, em torno dos apóstolos (At 5.19; 12.7 27.23) ou dos seus associados, como Filipe (8.26). A única exceção foi a aparição á Cornélio (At 10,3). Mesmo assim ocorreu una ponto crucial do nascimento
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    47 da IgrejaCristã, que foi a inclusão do gentios na Igreja. Á exceção deste caso não há registro de aparições de anjos ao crentes em geral, nem para lhes trazer mensagens de Deus, nem para pr otege-los, embora certamente eles estivessem ocupados em desempenhar esta última; função, provavelmente de forma não perceptível aos crentes. 0 apóstolo Paulo é bastante ponderado no que escreve sobre os anjos, se com parado com outros autores religiosos não cristãos da sua época. Ele emprega a palavra aggelos apenas catorze vezes em suas treze cartas. Ele se refere aos anjos de Deus, não tanto como mensageiro: celestes ou protetores dos crentes, mas como participantes do progresso do plano de Deus neste mundo, que participaram da entrega da Lei no Sinai (G1 3.19) e que virão com Cristo para executar juízo sobre a humanidade (2 Ts 1.7). Estes são os "anjos eleitos", que assistem diante de Deus (I Tm 5 .2 1; cf. Gl 4.14). Uma possível explicação para a atitude reservada de Paulo é que, para ele, o Senhor Jesus, é a manifestação suprema de Deus, que suplanta todas as demais, diante das quais as manifestações angélicas perdem em importância e relevância (Ef 1.21; Cl 1. 16; cf. Hb 1. 1-2). Em nenhum momento Paulo menciona em suas cartas encontros angélicos que porventura teve, nem encoraja os crentes a buscar tais encontros. Some-se a isso a preocupação que demonstra em suas cartas com aparições e visões de anjos. 0 apóstolo teme que anjos caídos, passando-se por anjos de Deus, manifestem-se em visões com o alvo de enganar os crentes. Ele menciona a possibilidade de que um anjo do c éu venha pregar outro evangelho (G1 1. S), e que Satanás apareça dissimulado de "anjo de luz" (2 Co 11.14). Ele alerta aos crentes de Colossos a que não se deixem arrastar para o culto aos anjos propagado pelos l íderes da heresia que ameaçava a igreja, e que se baseava cm visões (C1 2.18). Uma passagem surpreendente sobre anjos é Gl 3.19, em que Paulo diz que a Lei de Deus foi entregue ao povo de Israel por meio de anjos. Esse fato no é mencionado na narrativa da entrega da Lei a Moisés no livro de Êxodo. Sua veracidade foi aceita possivelmente durante o per íodo do segundo templo, quando os anjos receberam cada vez mais lugar destacado na teologia do judaísmo,. ao ponto de serem. reconhecidos como mediadores no Sinai, na hora da entrega da Lei a Mois és por Deus. 0 fato foi aceito como verídico por judeus cristãos como Estêvão (At 7.53), o autor de Hebreus (Hb 2.2), e por Paulo. Só que, enquanto que para os judeus da sua época, a presença de anjos no Sinai era algo que exaltava a glória da Lei, para Paulo, a presença destas criaturas era apenas um sinal da inferioridade da Lei em comparação ao Evangelho, que havia sido trazido pelo próprio Filho de Deus, sem mediação de criaturas. Uma outra passagem difícil de entender nas cartas de Paulo é a enigmática expressão de 1 Co 11. 10. "Por esta razão, e por causa dos anjos, a mulher deve ter sobre a cabeça um sinal de autoridade". 0 que tem os anjos, a ver com o uso do véu nas igrejas de Corinto? A resposta está ligada a um aspecto da situação histórica específica da Igreja de Corinto no século I, que nós desconhecemos. Havia uma idéia estranha na época de Paulo de que Gn 6.1-2 se referia a anjos que se deixaram atrair pelos encantos femininos (uma tradição rabínica acrescenta que foram os longos cabelos das mulheres que tentaram os anjos), A falta de decoro e propriedade por parte das mulheres na igreja de Corinto poderia novamente provocá-los. 0 mais provável é que Paulo se refira a outro conceito corrente que os anjos bons eram guardiões do culto divino, o que exigiria decoro e propriedade por parte de todos os adoradores. Este conceito se encaixa perfeitamente no ensino do Novo Testamento de que os anjos observam e acompanham o desenvolvimento do evangelho no mundo (ver Ef 3. 10, 1 Tm 5.12; 1 Pe 1. 12; Hb 1. 14). Não há menção de anjos cm Tiago, e nem nas três cartas de João. Pedro menciona apenas que os anjos anelam compreender os mistérios do Evangelho (1Pe 1. 12), e que estão subordinados a Cristo (3,22). Em Judas encontramos mais uma referência enigmática aos anjos, desta feita cm relação ao confronto do arcanjo Miguel com Satanás, em disputa pelo corpo de Moisés (Jd 9). Esse incidente não
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    48 é narradono Antigo Testamento, mas aparece num livro apócrifo que era bastante popular entre os judeus chamado A Ascensão de Moisés. Neste livro o autor narra que, após a morte de Moisés, sozinho no monte, Deus encarregou o arcanjo Miguel de dar-lhe sepultura. 0 diabo veio disputar o corpo, alegando que Moisés era um assassino (havia matado o egípcio), e que, portanto, seu corpo lhe pertencia. De acordo com a Ascensão, Miguel limitou-se a dizer que o Senhor repreendesse os intentos malignos de Satanás. Embora narrado num livro apócrifo, o incidente deve ter ocorrido, e Deus permitiu que, através de Judas, viesse a alcançar lugar no cânon do Novo Testamento. A carta aos Hebreus menciona os anjos nada menos que 13 vezes, 11 das quais nos dois primeiros capítulos, onde o autor procura estabelecer a superioridade de Cristo sobre os anjos (Hb 1.4 -7,13; 2.2,15,16). A razão para esta abordagem foi possivelmente a exaltação dos anjos por parte de muitos judeus no século I. 0 autor, escrevendo a judeus cristãos sentiu a necessidade de diferenciar a mensagem do evangelho trazida por Cristo, e as muitas mensagens e mensageiros angelicais que infestavam a crendice popular judaica no século I. E no livro de Apocalipse que temos a maior concentração no Novo Testamento do ensino sobre anjos. É o livro do Novo Testamento que mais emprega a palavra aggelos (67 vezes). Aqui os anj os aparecem como agentes celestes que executam os propósitos de Deus no mundo, como proteger os servos de Deus (Ap 7.1-3) e administrar os juízos divinos sobre a humanidade incrédula e impenitente (Ap 8.2; 15.1; 16.1). Apocalipse está cheio das visões que o apóstolo João teve do céu, e os anjos aparecem como habitantes das regiões celestes, ao redor do trono divino, em reverente adora ção a Deus e ao Cordeiro (Ap 5.11; 7.11), mediando ao apóstolo João as visões e as instruções divinas (Ap 1.1). Uma questão que tem atraído o interesse dos intérpretes é o sentido da palavra "anjo" em Ap 1.20, "os anjos das sete igrejas" (cf Ap 2.1,8,12,18; 3,1,7,14).Alguns acham que Jo ão se refere aos pastores das igrejas às quais endereça suas cartas, já que em Malaquias os líderes religiosos são chamados de anjos (MI 2.7). Ou então, aos mensageiros (aggelos) das igrejas que haveriam de levar as cartas às suas comunidades. 0 problema com estas interpretações é que a palavra aggelos em Apocalipse nunca é usada para seres humanos, mas consistentemente para anjos. Por este motivo, outros, como Origenes no século II, acham que João se refere a anjos reais, já que este é o uso regular que ele faz da palavra no livro. Estes anjos seriam os anjos de guarda de cada igreja a quem João manda uma carta. A dificuldade óbvia com esta interpretação é que as advertências e repreensões das cartas seriam dirigidas a anjos, e não aos membros da igreja. Além do mais, fica claro pelo fim de cada carta que elas foram endereçadas aos membros das igrejas (2.7,11,17 etc). Assim, outros estudiosos têm sugerido que "anjos" representam o estado real de cada igreja, o "esp írito" da comunidade. Esta idéia, que no deixa de ser curiosa e estranha, tem sido adotada por alguns que defendem que igrejas têm suas próprias entidades espirituais malignas, que se alimentam dos pecados não tratados das mesmas(3). Fica difícil tomar uma decisão. Mas, já que é evidente que os anjos e as igrejas são uma mesma coisa nestas passagens, a " interpretação que talvez traga menos dificuldades é que aggelos (anjos) se refere aos pastores das igrejas. Anjos em batalha espiritual Uma outra passagem cm Apocalipse que merece destaque é a que descreve uma batalha no céu entre Miguel e seus anjos, contra o dragão e seus anjos, onde Satanás é derrotado e lançado á terra (Ap 12.7-9). A que evento histórico esta guerra celestial corresponde tem sido bastante discutido. Para alguns, refere-se á queda de Satanás no principio, quando revoltou-se contra Deus e foi expulso dos céus. Para outros, a vitória final de Cristo, ainda por ocorrer no fim dos tempos. 0 contexto, entretanto, parece favorecer outra interpretação, ou seja, que esta derrota de Satanás nas regiões celestiais corresponde à vitória de Cristo, ao morrer e ressuscitar, já que ela aconteceu, "por causa do sangue do cordeiro" (Ap 12. 10; cf. Jo 12.3 1; 16.1 l).À semelhança do Antigo Testamento, o Novo é
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    www.obeb.com.br / http://www.teologiagratisefenipe.com.br/page10.php 49 igualmente reservado em narrar estas pelejas celestiais, e limita-se a registrar dois confrontos do arcanjo Miguel com Satanás (Jd 9; Ap 12.7-9). Não temos condições de saber quais as razões para estes embates entre anjos, e nem quão freqüentemente eles ocorrem no misterioso mundo celestial. Digno de nota é o fato que Miguel, que no Antigo Testamento aparece como guardi ão de Israel, surge aqui em Ap 12.7-9 como defensor da Igreja, liderando as hostes angélicas contra Satanás e seus demônios, que procuram destruir a obra de Deus. Sua área de ação não e mais o território de Israel, mas o mundo, onde quer que a Igreja esteja. A constatação deste fato deveria moderar a fascinação de muitos hoje pela idéia de espíritos territoriais, maus ou bons, que seriam supostamente respons áveis por determinadas regiões geográficas, e que se embatem em busca da supremacia sobre aqueles locais. É possível que as nações ou outras regiões tenham seus príncipes angélicos, bons ou maus, mas esta idéia não exerce qualquer função ou influência no ensino do Novo Testamento, quanto aos anjos e á sua participação na luta da igreja contra os "principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso" (Ef 6.12). Enquanto que em Daniel os principados e as potestades aparecem relacionados com determinados territórios, no Novo Testamento eles aparecem não mais relacionados com regiões, mas com este mundo tenebroso. 0 conflito regionalizado do Antigo Testamento tomou caráter universal e cósmico com a vitória de Cristo. 0 diabo e seus príncipes malignos são vistos agora como dominadores, não de determinadas regiões geográficas, mas "deste mundo tenebroso". E os anjos agora servem aos servos de Deus, em qualquer regi ão geográfica do planeta, onde se encontrem. Notas de rodapé 1 Ver E. Earle Ellis, Spiritual GIffs in the Pauline Community, em New Testment Studies 20 (1973 - 1974) 134. 2 Existe séria dúvida da parte de muitos especialistas em manuscritologia b íblica de que a passagem de João 5,4, que menciona a decida de um anjo para mover a água da piscina de Betesda, seja de fato autêntica, visto que não aparece nos manuscritos mais antigos importantes. , 3 Neuza ltioka, por exemplo, afirma que os anjos das cartas de Apocalipse (Ap 2 -3 são anjos literais que Incorporam e absorvem o estado espiritual da Igreja, e que alguns deles s ão substituídos por demônios, devido á decadência espiritual da comunidade que representam. Ela baseia -se nas sugestões (sem exegese) de Walter Wink e R. Linthicum em Ap 2-3, cf. A Igreja e a Batalha Espiritual: Você Está Em Guerra em Série Batalha Espiritual (São, Paulo: Editora SEPAL 1994) 36,39,40-41,67,11 ANJOS NO NOVO TESTAMENTO Antony Steff Gilson de Oliveira A crença em anjos no Novo Testamento Os cristãos não eram o único grupo do primeiro século que acreditava na existência de anjos. A maioria das seitas do judaísmo, berço do cristianismo, pro-fessava a crença nesses mensageiros celestes, á exceção provável dos saduceus (At 23.8). 0 interesse dos judeus por anjos havia crescido de forma notável durante o período intertestamentario, quando o segundo templo foi construído, após o retorno do cativeiro babilônico. É provável que esse aumento de interesse pelos anjos tenha ocorrido como resultado da ênfase nesse período á idéia de que Deus havia se distanciado do seu povo, já que não havia mais profetas. A ausência de profetas, os mensageiros oficiais de Deus ao seu povo, provocava a necessidade de outros mediadores da vontade divina. Os anjos vieram ocupar esse espaço no judaísmo do segundo templo. 0 aumento do interesse pelo mund o celestial e pelos seus habitantes, os anjos, nota-se nos escritos judaicos produzidos antes ou logo após o nascimento do cristianismo. Exemplos desta tendência se percebem em alguns livros apócrifos (4 Esdras 2.44-48; Tobias 6.3-15; 2 Macabeus 11.6). 0 mesmo se vê em alguns dos escritos dos sectários do Mar Morto achados nas
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    www.obeb.com.br / http://www.teologiagratisefenipe.com.br/page10.php 50 cavernas do Wadi Qumran, como o rolo da Batalha entre os Filhos das Trevas e os Filhos da Luz. Alguns dos escritos produzidos pelo movimento apocal íptico dentro do judaísmo, mais que os escritos de outros movimentos, enfatizava o ministério dos anjos (1 Enoque 6. 1 ss; 9. 1 ss), 0 interesse pelos anjos se nota até mesmo nos escritos rabínicos datados a partir do século III (com exceção do Mishnah), e que possivelmente representam a linha principal do judaísmo no período do segundo templo. Fora das fronteiras do judaísmo, a crença em anjos, encontrava-se não somente nas religiões que fervilhavam no mundo greco-romano, mergulhado no misticismo helênico, como também nas obras dos filósofos e escritores gregos famosos, como Sófocles, Homero, Xenofonte, Epicteto e Platão. A biblioteca de Nag Hammadi, descoberta em nosso século (1945) nas areias quentes do deserto egípcio, apresenta material gnóstico datando do século IV, com uma elaborada angelologia, onde a distância entre Deus e os homens é coberta por trinta "archons", seres intermediários, possivelmente anjos, que guardam as regiões celestes. Os "Papiros Mágicos" desta coleção contém fórmulas para atrair os anjos. Embora datando do século IV, estes escritos possivelmente refletem crenças que já estavam presentes de forma incipiente no mundo greco-romano desde antes de Cristo. Em contraste aos escritos produzidos cm sua época, a literatura do Novo Testamento é bem mais discreta e reservada em seus relatos da atividade angélica. As palavras mais comuns para "anjos" no Novo Testamento A palavra mais usada no Novo Testamento para "anjo" é aggelos, que é a tradução regular na Septuaginta da palavra hebraica Mala'k. Ambas significam 'mensageiro". Aggelos é usada umas poucas vezes no Novo Testamento para mensageiros humanos, como por exemplo os emissários de João Batista a Jesus (Lc. 7.24; veja ainda Tg 2.25; Lc 9.52). Na maioria esmagadora das vezes, a palavra refere-se aos mensageiros de Deus, que povoam o mundo celeste e assistem em sua presen ça. Aggelos é usada tanto para anjos de Deus quanto para os anjos maus. Existe outro termo no Novo Testamento para se referir aos anjos, o qual s ó Paulo emprega: "principados e potestades". Em duas ocasiões é usado em referência aos demônios (Ef 6.12; Cl 2.13) e em três outras aos anjos de Deus (Ef 3.10; Cl 1.16; 1 Pe 3.22). Em todos os casos, refere -se ao poder e á hierarquia que existe entre esses espíritos. Uma outra palavra usada no Novo Testamento para anjos e pneuma, geralmente no plural (pneumata), que se traduz por esp íritos". Embora o termo seja empregado geralmente para os anjos maus e decaídos (quase sempre qualificado pelo adjetivo "imundo", cf. Mt 12.43; Lc 4.36; At 8.7), é usado pelo menos uma vez para os anjos de Deus, como sendo "espíritos administradores" (Hb 1. 14). Alguns estudiosos têm sugerido que "espíritos" também se refere a anjos em outras passagens onde a palavra pneumata aparece, como por exemplo 1 Co 14.12. Neste versículo o apóstolo Paulo aprova e incentiva o desejo dos membros da igreja por pneumata, expressão quase que universalmente traduzida como "dons espirituais", devido ao contexto. De acordo com E. Earle Ellis, Paulo, na verdade, não se refere a dons espirituais, mas aos anjos que estavam presentes aos cultos (1 Co 11. 10). Sua tese é que existe uma relação estreita entre as manifestações sobrenaturais que estavam acontecendo na igreja de Corinto e o minist ério angélico. Tais manifestações, ou parte delas, não eram produzidas pelo Espírito Santo, e nem também por espíritos malignos, mas por estes espíritos bons. Outras passagens onde "espíritos" significa "anjos", segundo Ellis, são 1 Co 14.32; 1 Jo 4.1-3; Ap 22.6.1(1). Embora esta sugestão seja interessante e provocativa, fica difícil ver como "espíritos" produtores de dons espirituais se encaixam no contexto de 1 Co 14.12 e no ensino de Paulo de que os dons são dados pelo Espírito Santo. 0 uso de pneumata em 1 Co 14.12 (bem como nas demais passagens mencionadas acima) pode ser explicado á luz de 1 Co 12.7, onde Paulo afirma que há diferentes manifestações do Espírito Santo. Ou seja, o mesmo
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    51 Espírito manifesta-sede formas diferentes através de pessoas diferentes. Paulo refere-se a estas manifestações como "espíritos". Elas eqüivalem aos dons espirituais. E difícil admitir que Paulo aprovaria um desejo dos crentes de Corinto de buscar estas entidades celestiais. Anjos através dos livros do Novo Testamento A presença e a atividade de anjos registradas nos evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas) indicam invariavelmente a intervenção direta de Deus. Como mensageiros fiéis de Deus, que têm acesso a presença divina (Lc 1. 19; cf 12.8; Mt 10.32; Lc 15.10), a visita ou a interven ção de um deles eqüivale a uma manifestação divina. A encarnação e o nascimento de Jesus foram marcados pela presença de anjos, indicando a participação direta de Deus no nascimento do Messias (Mt 1.20; 2.13,19; Lc 1 . 11; 1.26-38). Embora os evangelhos não registrem quase nenhuma participação direta dos anjos assistindo a Jesus em seu ministério (o que poderia ter ocorrido, se Jesus quisesse, Mt 26.52), os anjos acompanharam o Senhor e se rejubilaram a medida em que pecadores se arrependiam (Lc 15.10). As poucas vezes em que se manifestaram visivelmente tinham como prop ósito demonstrar que Ele era amado e aprovado por Deus (Mt 4.11; Lc 2143). Os anjos ainda participaram da sua ressurreição, da anunciação ás mulheres, e da anunciação aos discípulos de que Jesus havia de voltar (Mt 28.2-5; At 1.9-11). E o próprio Jesus também mencionou varias vezes que os anjos participariam) da sua segunda vinda e do Juízo final (Mt 13.4 1; 16.27; 24.3 l). Embora nos evangelhos a atividade dos anjos praticamente se concentre em tomo da pessoa de Jesus, ele mesmo menciona uma atividade deles relacionada aos homens, "cuidado para não desprezarem nenhum destes pequeninos. Eu afirmo que os anjos deles estão sempre na presença do meu Pai que está no céu" (Mt 18. 10, NVI). Aqui Jesus fala do cuidado vigilante de Deus pelos "pequeninos ', através dos anjos. A quem Jesus se refere por pequeninos" tem sido debatido pelos estudiosos, j á que o termo pode ser tomado literalmente (crianças) ou figuradamente (os discípulos). Talvez a última possibilidade deva ser a preferida, já que Jesus usa regularmente pequeninos" para se referir aos discípulos, cf Mt 10.42; 18.6; Mc 9.42; Lc 17.2. Qualquer que seja a interpretação, a passagem não está ensinando que cada crente ou criança tem seu próprio "anjo da guarda", como era crido popularmente entre os judeus na época da igreja primitiva. Fazia parte desta crença que o anjo guardião" poderia tomar a forma do seu protegido (cf. At 12.15). Jesus está ensinando nesta passagem que Deus envia seus anjos para assistir aos "pequeninos", e que, portanto, n ós não devemos desprezar estes "pequeninos". Esse ministério angélico para com os "pequeninos" faz parte do cuidado geral que os anjos desempenham, pelo povo de Deus (cf. SI 9 1.11; Hb 1. 14; Lc 16.22). A passagem, portanto, não deve ser tomada como suporte á crença popular em "anjos da guarda". E importante notar que o Evangelho de João faz pouquíssimas referências á atividade dos anjos, embora, segundo João, Jesus tenha dito aos seus discípulos, no início do seu ministério, que eles veriam, os anjos subindo e descendo sobre si (Jo 1. 5 1 ). Possivelmente esta passagem n ão deva ser entendida literalmente no que se refere aos anjos, mas apenas como uma alus ão ao sonho de Jacó (Gn 28.12) e ao seu cumprimento na pessoa de Cristo (unindo o céu á terra). No relato de João das boas novas, os anjos só revelam a sua presença ao lado da sepultura de Jesus (Jo 20.12)(2). Estes fatos indicam que as aparições angélicas durante o período cm que Jesus esteve presente fisicamente entre nós foram relativamente poucas, e quase todas associadas com o seu nascimento, ministério, morte e ressurreição. Era conveniente que a vinda do Filho de Deus ao mundo fosse marcada por esta atividade angélica especial. Apesar de a narrativa do livro de Atos abranger um período marcado por intensa manifestação sobrenatural, que foi o nascimento da igreja cristã, as aparições angélicas registradas pelo autor são relativamente poucas. Não há aparição de anjos em grupos, á exceção dos dois homens em vestes resplandecentes no local da ascensão (At 1. 10- 11). Nas intervenções angélicas, é sempre um único
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    52 anjo queaparece, o qual é chamado de "um anjo do Senhor" (At 5.19; 8.26; 12.7,15) ou "um anjo de Deus" (10.3; 27.23). A expressão "anjo do Senhor" não tem. em Atos a mesma conotação que no Antigo Testamento, onde ás vezes este anjo é identificado com o próprio Deus. Em Atos a expressão sempre designa um mensageiro angelical. Os anjos aparecem em Atos com a mesma função principal, que no Antigo Testamento e nos Evangelhos, ou seja, trazer uma mensagem oficial da parte de Deus (At 5.19; 10.' 10.22; 27.23). A isto se acresce a função protetora, pois por duas vezes um anjo do Senhor libertou apóstolos da prisão (At 5.19; 12.7). Uma outra missão de um anjo foi punir o rei Herodes (At 12.23) missão esta já mencionada no Antigo Testamento (cf Ex 12.13; 2 Sm 24.17) A atividade dos anjos em Atos, além de bastante discreta, é voltada quase que exclusivamente para o progresso do Evangelho. Um ponto de grande relevância para nos hoje é que ela se concentra, em torno dos apóstolos (At 5.19; 12.7 27.23) ou dos seus associados, como Filipe (8.26). A única exceção foi a aparição á Cornélio (At 10,3). Mesmo assim ocorreu una ponto crucial do nascimento da Igreja Cristã, que foi a inclusão do gentios na Igreja. Á exceção deste caso não há registro de aparições de anjos ao crentes em geral, nem para lhes trazer mensagens de Deus, nem para protege-los, embora certamente eles estivessem ocupados em desempenhar esta última; função, provavelmente de forma não perceptível aos crentes. 0 apóstolo Paulo é bastante ponderado no que escreve sobre os anjos, se com parado com outros autores religiosos não cristãos da sua época. Ele emprega a palavra aggelos apenas catorze vezes em suas treze cartas. Ele se refere aos anjos de Deus, não tanto como mensageiro: celestes ou protetores dos crentes, mas como participantes do progresso do plano de Deus neste mundo, que participaram da entrega da Lei no Sinai (G1 3.19) e que virão com Cristo para executar juízo sobre a humanidade (2 Ts 1.7). Estes são os "anjos eleitos", que assistem diante de Deus (I Tm 5.2 1; cf. Gl 4.14). Uma possível explicação para a atitude reservada de Paulo é que, para ele, o Senhor Jesus, é a manifestação suprema de Deus, que suplanta todas as demais, diante das quais as manifesta ções angélicas perdem em importância e relevância (Ef 1.21; Cl 1. 16; cf. Hb 1. 1-2). Em nenhum momento Paulo menciona em suas cartas encontros angélicos que porventura teve, nem encoraja os crentes a buscar tais encontros. Some-se a isso a preocupação que demonstra em suas cartas com aparições e visões de anjos. 0 apóstolo teme que anjos caídos, passando-se por anjos de Deus, manifestem-se em visões com o alvo de enganar os crentes. Ele menciona a possibilidade de que um anjo do c éu venha pregar outro evangelho (G1 1. S), e que Satanás apareça dissimulado de "anjo de luz" (2 Co 11.14). Ele alerta aos crentes de Colossos a que não se deixem arrastar para o culto aos anjos propagado pelos líderes da heresia que ameaçava a igreja, e que se baseava cm visões (C1 2.18). Uma passagem surpreendente sobre anjos é Gl 3.19, em que Paulo diz que a Lei de Deus foi entregue ao povo de Israel por meio de anjos. Esse fato no é mencionado na narrativa da entrega da Lei a Moisés no livro de Êxodo. Sua veracidade foi aceita possivelmente durante o período do segundo templo, quando os anjos receberam cada vez mais lugar destacado na teologia do judaísmo,. ao ponto de serem. reconhecidos como mediadores no Sinai, na hora da entrega da Lei a Mois és por Deus. 0 fato foi aceito como verídico por judeus cristãos como Estêvão (At 7.53), o autor de Hebreus (Hb 2.2), e por Paulo. Só que, enquanto que para os judeus da sua época, a presença de anjos no Sinai era algo que exaltava a glória da Lei, para Paulo, a presença destas criaturas era apenas um sinal da inferioridade da Lei em comparação ao Evangelho, que havia sido trazido pelo próprio Filho de Deus, sem mediação de criaturas. Uma outra passagem difícil de entender nas cartas de Paulo é a enigmática expressão de 1 Co 11. 10. "Por esta razão, e por causa dos anjos, a mulher deve ter sobre a cabeça um sinal de autoridade". 0 que tem os anjos, a ver com o uso do véu nas igrejas de Corinto? A resposta está ligada a um aspecto da situação histórica específica da Igreja de Corinto no século I, que nós desconhecemos. Havia uma
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    53 idéia estranhana época de Paulo de que Gn 6.1-2 se referia a anjos que se deixaram atrair pelos encantos femininos (uma tradição rabínica acrescenta que foram os longos cabelos das mulheres que tentaram os anjos), A falta de decoro e propriedade por parte das mulheres na igreja de Corinto poderia novamente provocá-los. 0 mais provável é que Paulo se refira a outro conceito corrente que os anjos bons eram guardiões do culto divino, o que exigiria decoro e propriedade por parte de todos os adoradores. Este conceito se encaixa perfeitamente no ensino do Novo Testamento de que os anjos observam e acompanham o desenvolvimento do evangelho no mundo (ver Ef 3. 10, 1 Tm 5.12; 1 Pe 1. 12; Hb 1. 14). Não há menção de anjos cm Tiago, e nem nas três cartas de João. Pedro menciona apenas que os anjos anelam compreender os mistérios do Evangelho (1Pe 1. 12), e que estão subordinados a Cristo (3,22). Em Judas encontramos mais uma referência enigmática aos anjos, desta feita cm relação ao confronto do arcanjo Miguel com Satanás, em disputa pelo corpo de Moisés (Jd 9). Esse incidente não é narrado no Antigo Testamento, mas aparece num livro apócrifo que era bastante popular entre os judeus chamado A Ascensão de Moisés. Neste livro o autor narra que, após a morte de Moisés, sozinho no monte, Deus encarregou o arcanjo Miguel de dar-lhe sepultura. 0 diabo veio disputar o corpo, alegando que Moisés era um assassino (havia matado o egípcio), e que, portanto, seu corpo lhe pertencia. De acordo com a Ascensão, Miguel limitou-se a dizer que o Senhor repreendesse os intentos malignos de Satanás. Embora narrado num livro apócrifo, o incidente deve ter ocorrido, e Deus permitiu que, através de Judas, viesse a alcançar lugar no cânon do Novo Testamento. A carta aos Hebreus menciona os anjos nada menos que 13 vezes, 11 das quais nos dois primeiros capítulos, onde o autor procura estabelecer a superioridade de Cristo sobre os anjos (Hb 1.4 -7,13; 2.2,15,16). A razão para esta abordagem foi possivelmente a exaltação dos anjos por parte de muitos judeus no século I. 0 autor, escrevendo a judeus cristãos sentiu a necessidade de diferenciar a mensagem do evangelho trazida por Cristo, e as muitas mensagens e mensageiros an gelicais que infestavam a crendice popular judaica no século I. E no livro de Apocalipse que temos a maior concentração no Novo Testamento do ensino sobre anjos. É o livro do Novo Testamento que mais emprega a palavra aggelos (67 vezes). Aqui os anjos a parecem como agentes celestes que executam os propósitos de Deus no mundo, como proteger os servos de Deus (Ap 7.1-3) e administrar os juízos divinos sobre a humanidade incrédula e impenitente (Ap 8.2; 15.1; 16.1). Apocalipse está cheio das visões que o apóstolo João teve do céu, e os anjos aparecem como habitantes das regiões celestes, ao redor do trono divino, em reverente adoração a Deus e ao Cordeiro (Ap 5.11; 7.11), mediando ao apóstolo João as visões e as instruções divinas (Ap 1.1). Uma questão que tem atraído o interesse dos intérpretes é o sentido da palavra "anjo" em Ap 1.20, "os anjos das sete igrejas" (cf Ap 2.1,8,12,18; 3,1,7,14).Alguns acham que Jo ão se refere aos pastores das igrejas às quais endereça suas cartas, já que em Malaquias os líderes religiosos são chamados de anjos (MI 2.7). Ou então, aos mensageiros (aggelos) das igrejas que haveriam de levar as cartas às suas comunidades. 0 problema com estas interpretações é que a palavra aggelos em Apocalipse nunca é usada para seres humanos, mas consistentemente para anjos. Por este motivo, outros, como Origenes no século II, acham que João se refere a anjos reais, já que este é o uso regular que ele faz da palavra no livro. Estes anjos seriam os anjos de guarda de cada igreja a que m João manda uma carta. A dificuldade óbvia com esta interpretação é que as advertências e repreensões das cartas seriam dirigidas a anjos, e não aos membros da igreja. Além do mais, fica claro pelo fim de cada carta que elas foram endereçadas aos membros das igrejas (2.7,11,17 etc). Assim, outros estudiosos têm sugerido que "anjos" representam o estado real de cada igreja, o "esp írito" da comunidade. Esta idéia, que no deixa de ser curiosa e estranha, tem sido adotada por alguns que defendem que igrejas têm suas próprias entidades espirituais malignas, que se alimentam dos pecados não tratados das mesmas(3). Fica difícil tomar uma decisão. Mas, já que é evidente que os anjos e as
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    54 igrejas sãouma mesma coisa nestas passagens, a " interpretação que talvez traga menos dificuldades é que aggelos (anjos) se refere aos pastores das igrejas. Anjos em batalha espiritual Uma outra passagem cm Apocalipse que merece destaque é a que descreve uma batalha no céu entre Miguel e seus anjos, contra o dragão e seus anjos, onde Satanás é derrotado e lançado á terra (Ap 12.7-9). A que evento histórico esta guerra celestial corresponde tem sido bastante discutido. Para alguns, refere-se á queda de Satanás no principio, quando revoltou-se contra Deus e foi expulso dos céus. Para outros, a vitória final de Cristo, ainda por ocorrer no fim dos tempos. 0 contexto, entretanto, parece favorecer outra interpretação, ou seja, que esta derrota de Satanás nas regiões celestiais corresponde à vitória de Cristo, ao morrer e ressuscitar, já que ela aconteceu, "por causa do sangue do cordeiro" (Ap 12. 10; cf. Jo 12.3 1; 16.1 l).À semelhança do Antigo Testamento, o Novo é igualmente reservado em narrar estas pelejas celestiais, e limita-se a registrar dois confrontos do arcanjo Miguel com Satanás (Jd 9; Ap 12.7-9). Não temos condições de saber quais as razões para estes embates entre anjos, e nem quão freqüentemente eles ocorrem no misterioso mundo celestial. Digno de nota é o fato que Miguel, que no Antigo Testamento aparece como guardião de Israel, surge aqui em Ap 12.7-9 como defensor da Igreja, liderando as hostes angélicas contra Satanás e seus demônios, que procuram destruir a obra de Deus. Sua área de ação não e mais o território de Israel, mas o mundo, onde quer que a Igreja esteja. A constatação deste fato deveria moderar a fascinação de muitos hoje pela idéia de espíritos territoriais, maus ou bons, que seriam supostamente responsáveis por determinadas regiões geográficas, e que se embatem em busca da supremacia sobre aqueles locais. É possível que as nações ou outras regiões tenham seus príncipes angélicos, bons ou maus, mas esta idéia não exerce qualquer função ou influência no ensino do Novo Testamento, quanto aos anjos e á sua participação na luta da igreja contra os "principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso" (Ef 6.12). Enquanto que em Daniel os principados e as potestades aparecem relacionados com determinados territórios, no Novo Testamento eles aparecem não mais relacionados com regiões, mas com este mundo tenebroso. 0 conflito regionalizado do Antigo Testamento tomou caráter universal e cósmico com a vitória de Cristo. 0 diabo e seus príncipes malignos são vistos agora como dominadores, não de determinadas regiões geográficas, mas "deste mundo tenebroso". E os anjos agora servem aos servos de Deus, em qualquer região geográfica do planeta, onde se encontrem. Notas de rodapé 1 Ver E. Earle Ellis, Spiritual GIffs in the Pauline Community, em New Testment Studies 20 (1973- 1974) 134. 2 Existe séria dúvida da parte de muitos especialistas em manuscritologia bíblica de que a passagem de João 5,4, que menciona a decida de um anjo para mover a água da piscina de Betesda, seja de fato autêntica, visto que não aparece nos manuscritos mais antigos importantes. , 3 Neuza ltioka, por exemplo, afirma que os anjos das cartas de Apocalipse (Ap 2 -3 são anjos literais que Incorporam e absorvem o estado espiritual da Igreja, e que alguns deles são substituídos por demônios, devido á decadência espiritual da comunidade que representam. Ela baseia-se nas sugestões (sem exegese) de Walter Wink e R. Linthicum em Ap 2-3, cf. A Igreja e a Batalha Espiritual: Você Está Em Guerra em Série Batalha Espiritual (São, Paulo: Editora SEPAL 1994) 36,39,40-41,67,11
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    55 ANJOS: UMSERVIÇO SECRETO MUITO ESPECIAL Antony Diego Roberto A partir de 1994, o Brasil começou a viver uma moda mística, a febre dos anjos. Sem dúvida, quem deu início a essa moda foi uma jovem senhora que antes trabalhava com orix ás e depois, através da Fraternidade Branca, com gnomos, duendes, silfos, ondinas, fadas e salamandras. O nome dela é Mônica Buonfiglio. Seus dois sucessos editoriais foram Anjos Cabalísticos e A Magia dos Anjos Cabalísticos. Mas, apesar de seu aspecto bombástico, essa moda teve um lado positivo, colocar em pauta a discussão sobre a existência ou não dos anjos. E é sobre isso que desejamos falar. Muitas pessoas, em nome da racionalidade, lançam fora a água e a criança. Negam não somente o misticismo eclético da Nova Era, mas também a realidade do mundo espiritual. Criticam um erro, a superstição, e despencam em outro, o agnosticismo racionalista. O maior e mais antigo tratado sobre anjos é a Bíblia. No Antigo Testamento, cujos escritos vão do segundo milênio aos anos quatrocentos antes de Cristo, temos 109 referências a anjos. A palavra hebraica para anjo é mal'akh, cuja idéia básica é de um mensageiro sagrado, humano ou sobrenatural. Já no Novo Testamento, cujos escritos vão dos anos 49 a 100 depois de Cristo, temos 186 referências a anjos. Em grego a palavra usada é ângelos, que também tem o sentido de mensageiro, de intermediário. É interessante que na Bíblia os anjos não tem nada a ver com a angelologia proposta pela Nova Era. Segundo Mônica Buonfiglio, por exemplo, os anjos são entidades etéreas, que não tem memória e nunca julgam. São como bebês...nus, com asas, bochechudos e com um sorriso maroto de criança arteira [Mônica Buonfiglio, Anjos Cabalísticos, São Paulo, Oficina Cultural Esotérica, 1993, p. 64]. INTELIGENTES E PODEROSOS Embora o assunto seja extenso, vejamos três aspectos da doutrina cristã sobre anjos, que responde à pergunta central sobre estes seres. Por que existem os anjos? 1. Os anjos são seres espirituais. 2. Têm atividades definidas pelo próprio Deus. 3. Protegem os filhos de Deus. Em relação ao primeiro item, é interessante ver que a Bíblia nos apresenta os anjos como seres espirituais, geralmente invisíveis. "Então, o que são os anjos? Todos são espíritos que servem a Deus e são mandados para ajudar os que vão receber a salvação". Hebreus 1.14 [Nas citações bíblicas foram utilizadas duas versões: A Bíblia Sagrada, tradução na Linguagem de Hoje, São Paulo, Sociedade Bíblica do Brasil, 1988; e A Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Edições Paulinas, 1985]. Os anjos têm personalidade e inteligência. "Ele fez isso para resolver este caso. O senhor é sábio como um anjo de Deus e sabe tudo o que acontece". 2 Samuel 14.20.
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    56 Têm tambémdireito de escolha e sentimentos, e isso fica claro quando se refere a Satan ás, um anjo rebelado. "Você ficou ocupado, comprando e vendendo, e isso o levou à violência e ao pecado. Por isso, anjo protetor, eu o humilhei e expulsei do monte de Deus, do meio das pedras brilhantes. Voc ê ficou orgulhoso por causa da sua beleza, e a sua fama o fez perder o ju ízo". Ezequiel 28.16-17. E o próprio Jesus fala da alegria dos anjos. "Pois digo que assim também os anjos de Deus se alegrarão por causa de uma pessoa de má fama que se arrepende". Lucas 15.10. A primeira conclusão é de que são seres espirituais, a serviço de Deus, para ajudar aqueles que serão salvos. Geralmente aparecem como adultos, têm capacidades especiais, memória, uma inteligência aguçada e sentimentos. De certa forma, não são muito diferentes de nós. Esses seres ministradores tem atividades específicas. Adoram e servem a Deus. "Louvem ao Deus eterno todos os anjos do céu, que o adoram e fazem a sua vontade". Salmo 103.21. Participarão do juízo divino, conforme explica o apóstolo Paulo: "Porque Deus fará o que é justo. Ele trará sofrimento sobre aqueles que fazem vocês sofrerem e dará descanso a vocês e também a nós que sofremos. Ele fará isso quando o Senhor Jesus vier do céu e aparecer junto com seus anjos poderosos". 2Tessalonicenses 1.6-8. Eles trazem importantes notícias, instruem e guiam os filhos de Deus. Segundo o escritor da carta aos Hebreus, os mandamentos foram entregues a Moisés por anjos. "Por isso devemos prestar mais atenção nas verdades que temos ouvido, para não nos desviarmos delas. Ficou provado que a mensagem que foi dada pelos anjos é verdadeira, e aqueles que não a seguiram nem lhe obedeceram receberam o castigo que mereceram". Hebreus 2.2. Ao contrário do que a vulgarização sobre angelologia prega, eles não estão debaixo da nossa vontade. Mas agem de acordo com a justiça de Deus nos julgamentos divinos. Participaram dos juízos de Sodoma e Gomorra, do Egito opressor, da destruição do exército de faraó na travessia do Mar Vermelho e em muitos outros eventos. E estarão com Cristo por ocasião do grande julgamento final. MISSÃO ESPECIAL E por fim, protegem e cuidam dos filhos de Deus. "O anjo do Deus Eterno fica em volta daqueles que O temem e os livra do perigo". Salmo 34.7. Dessa maneira, uma de suas principais tarefas, é acompanhar os filhos de Deus, em todos os momentos de suas vidas, mas especialmente naqueles de dificuldades. Não damos ordens aos anjos, já que eles são ministros de Deus, agentes secretos do Criador para proteção e guarda de seus filhos. É interessante que a angelologia mística da Nova Era propõe um relacionamento com os anjos através de práticas esotéricas, via astrologia, numerologia e ancoragem (magia branca). São utilizadas dezenas de invocações, velas, incensos e talismãs. Tudo para manipular os anjos. Estamos, de fato, diante de uma cosmovisão gnóstica e espírita. Conforme, explica o teólogo Scott Horrell, esta é "uma angelologia sem Deus definido, sem estrutura moral e sem explicação sobre o porque da própria existência dos anjos" [J. Scott Horrell, Anjos Cabalísticos, in Vox Scripturae, São Paulo, AETAL, 1995, p. 245].
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    57 Diante dasmodas místicas, todos aqueles que se aproximam de Deus devem se lembrar do que diz Paulo, o apóstolo: "Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, um homem, Cristo Jesus, que se deu em resgate por todos". 1Timóteo 2.5. ESPÍRITOS MINISTRADORES Professor: Diego Roberto "Quanto aos anjos, diz: Quem de seus anjos faz ventos, e de seus ministros labaredas de fogo. ... N ão são todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?" (Hb 1.6,7,14) Anjos constituem uma raridade em nossos púlpitos, por isso estas páginas foram escritas. Além disso, a insistência com que se explora essa temática, especialmente pelos adeptos dessa onda de misticismo que tem invadido as praias dos nossos dias, a ênfase dada pelo movimento da Nova Era, que tem levado às raias do absurdo mais absurdo o assunto do mundo angelical, e a exploração comercial em torno da ingenuidade e das carências emocionais e afetivas do povo, é outro bom motivo para que se reflita biblicamente sobre o tema. Muita idéia de anjos vem de cartões de Natal, de procissões da Semana Santa, de romances ou da mitologia grega (não fala de um anjinho, Cupido, que lança uma flecha a qual, atingindo alguém, o torna enamorado de outro? Muita idéia vem dessas fontes, e também do Movimento Aquariano colocando no mesmo cesto fadas, duendes, gnomos, ondinas e anjos. PRIMEIRAS IDÉIAS Os seguidores da atual onda mística afirmam que se pode incorporar os anjos aos programas de autodesenvolvimento e auto-ajuda, do mesmo modo com fazem com as fadas, os duendes e outros seres míticos. E se é o caso de teremos uma descrição dos anjos de acordo com a Nova Era, dirão eles o seguinte: "carinha linda, asas, roupas esvoaçantes e halo sobre a cabeça"(1) E completam dizendo que apreciam uma abordagem direta, têm grande senso de humor (gostam de rir, portanto), são felizes, alegres, brincalhões, amigáveis; o tempo não é um dos seus pontos fortes, e, desta maneira, perdem-se em divagações, ou seja, a cabeça dos anjos não funciona muito bem, não têm muita memória.(2) Essas afirmações não se assemelham, nem de longe, a qualquer das descrições ou características dos anjos de acordo com a Bíblia Sagrada. E menos ainda, quando os místicos os confundem com o que chamam de "elementais", e fazem a classificação dos seres no ar, na terra, na água e no fogo: No ar: fadas e silfos; na terra: gnomos, duendes, elfos, dríades e ninfas; na água: ninfas da água, náiades e ondinas; no fogo: salamandras.(3) Na verdade, essas esdrúxulas idéias e suas elaborações vêm de uma fonte chamada gnosticismo, movimento filosófico-teológico que já nos primeiros dias da Igreja Cristã deu muito trabalho. E isso porque enfatizava, como enfatiza ainda hoje, a idéia de que os anjos são expressões ou extensões de Deus, e pregam, também, que eram e são intermediários entre os homens e Deus.
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    58 Uma coisaé certa: a Bíblia, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, trata esse assunto com muita seriedade, com o máximo de seriedade a ponto de dar a melhor definição de quem sejam os anjos, a qual se encontra em Hebreus 1.14; "Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?" Ou como diz a Bíblia na Linguagem de Hoje: "Então, o que são os anjos? Todos eles são espíritos que servem a Deus e são mandados para ajudar os que vão receber a salvação". Martinho Lutero, o Reformador, expressou isso parafraseando Hebreus: "O anjo é uma criatura espiritual sem corpo, criada por Deus para o serviço da Cristandade e da Igreja"(4) OUTROS CONCEITOS A palavra anjo não é portuguesa. Na verdade, vem da língua grega através do latim. Em grego, dizem aggelos, daí para o latim angelus e para o português anjo. No Antigo Testamento, o vocábulo hebraico correspondente é malach.(5) Significam todas elas "aquele-que-traz-mensagem", "aquele-que-é-enviado", "mensageiro". O Pr. Vassílios Constantinides, Diretor nacional da APEC e grego de origem, confirmou-nos o que havia sido lido no dicionário. Disse: "em grego, 'carteiro' é "anjo", "o-que- traz-uma-mensagem". Palavra, portanto, que indica uma função. E, na Bíblia, vemos que Deus envia profetas como seus mensageiros,(6) envia sacerdotes(7), diz que homens env iam outros homens(8). De sorte, que a Bíblia apresenta o fato de que anjos são personalidades com função determinada, ou seja, a de trazer uma mensagem de Deus para nós. A Bíblia não apresenta qualquer descrição detalhada dos anjos. Eu, na verdade, nunca vi um anjo (apesar de Ariete dizer que estou vivendo com um há 36 anos). A Bíblia menciona sua existência como um fato, mostrando que têm eles uma parte relevante no plano de Deus para o ser humano(9). Voltando à Carta aos Hebreus: "Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?" (1.14). Quero tomar duas palavras deste texto para servir de base para esta mensagem. Primeiramente, "espírito", e, em seguida, "ministradores". ESPÍRITOS... A idéia básica da palavra "espírito", por incrível que possa parecer, vem de "vento, ar". Realmente, tanto na língua hebraica quanto na grega, os vocábulos que se traduzem por "vento, ar, hálito, alento, respiração, fôlego e espírito" são os mesmos. Tanto faz dizer ruach, que é a palavra hebraica, quanto dizer pneuma, que é grega. Sim; o ar é algo muito real, mas não podemos vê-lo a olhos vistos, com perdão da redundância. Podemos? Mas ele é real: sabemos que ele nos circunda, mas não o vemos. Assim são os espíritos, e assim são os anjos: reais, mas não os vemos, puros espíritos. Filon de Alexandria os chamava de "incorpóreos" (apesar de poderem aparecer em certas ocasiões com corpos humanos)(10). Mas a Bíblia prefere chamá-los de "espíritos", como em hebreus 1.14, "espíritos ministradores".
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    59 Aprendemos coma Bíblia que são superiores ao ser humano em inteligência, em vontade e em poder (11). Têm personalidade e responsabilidade moral como nós o temos. No entanto, apesar de sua inteligência ser sobre-humana, é limitada. Ou seja, não são oniscientes (só Deus o é), não conhecem o futuro (isso pertence a Deus), não conhecem os segredos de Deus(12). Por causa da vontade livre deles, alguns anjos pecaram, e a Bíblia faz referência a essa Queda de um grupo de anjos(13). O poder dos anjos que é delegado, nos supera em muito conforme tantos testemunhos na Escritura Sagrada(14). Isso quer dizer, então, que os anjos têm todos os elementos essenciais da personalidade, e além dos acima mencionados, possuem sensibilidade, emoções, e são capazes de adorar a Deus com inteligência (Sl 148.2). E porque o Deus Vivo e Verdadeiro é Deus de ordem e não de confusão(15), os anjos estão organizados em uma hierarquia. E, realmente, amado, quando fazemos o estudo dos anjos, distinguimos três etapas. Primeiramente, o que fala a Bíblia até o Exílio na Babilônia; em seguida, do Exílio ao Novo Testamento, quando veio Jesus e ministrou entre nós; e, por último, o Novo Testamento. É interessante que do início da História Sagrada até o Exílio (c. 527 a.C.), observamos que não há uma angelologia elaborada. O que temos são narrativas, bem lineares, até. E há uma presença marcante: a de uma figura chamada "o Anjo do Senhor". Vemos no Gênesis, em Êxodo e outros dessa primeira fase, a sua presença ostensiva e marcante. Do Exílio em diante, a crença, a princípio simples, vai tomar um desenvolvimento muito especial. Existe, inclusive o surgimento de toda uma literatura chamada pelos estudiosos do assunto de intertestamentária, que surgiu entre o último profeta da Antiga Aliança (Malaquias) e o primeiro da Nova Aliança (João, o Batista). Não são anos de tanto silêncio, como geralmente se ensina. Há uma literatura denominada intertestamentária, como já destacado, notadamente encontramos literatura dessa época nos livros de Daniel e Zacarias, livros que mencionam a presença de anjos. O Novo Testamento, por sua vez, reflete os principais ensinos do Antigo Testamento, e categorias e conceitos da literatura intertestamentária. Anjos são organizados como um exército. Interessante e bonito isso! No topo estão os arcanjos, anjos comandantes, chefes(16). Menciona em seguida tronos, dominações, principados, potestades, virtudes, que sejam designações hierárquicas dos anjos numa elaboração de um esquema bem organizado (cf. Cl 1.16; Rm 8.38; Ef 1.21). Paulo, em Efésios 6, coloca essas categorias ou hierarquias no exército do Maligno também (17). Existe o exército de Deus, mas o Maligno tem igualmente o seu com os mesmos princípios: um arcanjo, que é Lúcifer, encontrando-se, do mesmo modo, principados, potestades, dominações, etc. Paulo, mesmo, declara que Jesus Cristo já desarmou e venceu essas forças da malignidade: "e havendo riscado o escrito de dívida que havia contra nós nas suas ordenanças, o qual nos era contrário, removeu-o do meio de nós, cravando-o na cruz; e, tendo despojado os principados e potestades, os exibiu publicamente e deles triunfou na mesma cruz" (Cl 2.14,15). Na verdade, ainda sentimos os efeitos dessa força maligna porque ainda estamos nesta carne, porque ainda estamos no tempo, mas a Bíblia já declara a vitória do Senhor sobre as forças do Inferno. Jesus
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    60 cravou nacruz a nossa malignidade, o nosso pecado! Por essa razão, os crentes não podem se desencaminhar pelo culto dos anjos, e Paulo fala disso também nesse mesmo capítulo: "Ninguém atue como árbitro contra vós, afetando humildade ou culto aos anjos, firmando-se em coisas que tenha visto, inchado vãmente pelo seu entendimento carnal" (v.18). Esse culto aos anjos estava sendo levado pelos gnósticos para dentro das igrejas, ensinando que os anjos eram intermediários entre a pessoa e Deus. Está, aliás, retornando com toda força como o faziam os gnósticos dos tempos apostólicos, como influência do platonismo, e das escolas teosóficas que desaguaram no gnosticismo, assim como influência da Cabala. Querem fazer os anjos superiores a Cristo e ao Espírito Santo (Ele que é o nosso guia, e não os anjos(18); querem elevar os anjos a divindades, mesmo que sejam divindades menores, os devas(19). E os querubins e os serafins? Falamos há pouco sobre a hierarquia, e não foram mencionados. Querubins e serafins não são, a rigor, anjos. Nunca são apresentados na Bíblia como portadores de mensagens. Querubins são símbolos dos atributos divinos. Onde há querubins, o divino está presente ou está perto, razão porque são guardiães do jardim(20), da arca da aliança(21), do trono de Deus(22). Defendem a santidade de Deus de qualquer pecado(23). E os serafins? A palavra serafim é interessante porque em hebraico o verbo saraph significa "arder, pegar fogo, queimar". O serafim é "aquele-que-queima"; o que queima purifica: é, então, "aquele-que- purifica". São guardiães, também, da santidade do Eterno lembrando o fogo e sua obra de purificação. E, realmente, só aparecem os serafins uma vez em Isaías 6, na visão do profeta, com seis asas. A propósito, anjo tem asas? Não; a figura das asas em anjos é para mostrar graficamente a presteza, a velocidade com que executam as ordens de Deus. No entanto, n ão vamos encontrar os mensageiros de Deus com asas em Sodoma, ou guiando Agar no deserto, ou o povo de Deus na peregrinação no deserto. A única menção é a dos serafins, e outra no Apocalipse a respeito de anjos alados(24). E o arcanjo? Na Bíblia só aparece o nome de um que é Miguel(25). E tem ele sempre papel combativo. Quem é Miguel? Qual a diferença de Miguel para Gabriel? Miguel é aquele que está relacionado a missões guerreiras; é quem comanda as batalhas do Senhor. Então, sempre que lerem ou ouvirem o nome Miguel, lembrem-se que é ele o anjo guerreiro por excelência(26). É o mensageiro da lei e do julgamento(27), e seu próprio nome que é, aliás, uma pergunta retórica, é um grito de batalha e significa "QUEM É COMO DEUS?"e tem como resposta: "Ninguém!" Quem pode ser como Deus? Um hineto muito apreciado em nossas igrejas canta: "Quem é deus acima do Senhor? Quem é rocha como o nosso Deus?" A resposta só pode ser uma: "Ninguém!" É isso o que Miguel, que sempre aponta para Deus, nos está lembrando! E Gabriel? Agora é diferente. Se Miguel é o anjo guerreiro por excelência, Gabriel é o que está relacionado com missões de paz. É o contrário: Gabriel é o mensageiro das boas notícias, é o mensageiro das mensageiro, o mensageiro da promessa de Deus, é o anjo da revelação, é quem explica mistérios a respeito de futuros acontecimentos, até políticos(28). É mencionado quatro vezes na Bíblia, e sempre como mensageiro: Daniel 8.16; 9.21, e novamente no Evangelho de Lucas,
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    61 capítulo 1notificando a Isabel e a Maria, sobretudo, que ela vai ser a mãe do Salvador(29). Gabriel é um nome muito sugestivo e significa "Herói de Deus", "Valente de Deus", "Campeão de Deus". ...MINISTRADORES Voltemos a Hebreus 1.14: "Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?" O texto diz que, além de "espíritos", são os anjos "ministradores" a favor dos salvos. Qual é, então, o seu ministério? Há uma ministração celestial e uma ministração terrena. Há um serviço litúrgico, cultual dos anjos na adoração ao Criador: "Louvai-o, todos os seus anjos; louvai-o, todas as suas hostes!" (30) Ministério cultual, ministério de louvor. Também assistem o Senhor. Estavam presentes na Criação(31); estavam presentes na revelação da Lei(32); estavam no nascimento de Jesus(33); na tentação(34); no Getsêmani(35); na ressurreição(36); e na ascensão(37). Em todos esses eventos, os anjos estiveram presentes, e estarão, igualmente, na Parousia, a Segunda Vinda de Cristo(38). Há uma ministração aos salvos. No programa divino para nós, os anjos estão envolvidos em quatro tipos de atividades: proteção, transporte, comunicação e vigilância. Proteção ou guarda. Temos um grande conforto na Palavra Santa, que usa a abençoada expressão "O anjo do Senhor acampa-se ao redor daqueles que o temem e os livra"(39). Porém, não estamos nos referindo ao chamado "anjo da guarda". Esse é um conceito que vem da Igreja Majoritária. Basílio e Jerônimo, teólogos da Igreja Antiga lançaram a idéia de que quando nasce uma criança, a ela é atribuído um anjo para a guardar durante toda vida. Interessante é que quando Orígenes disse que, ao mesmo tempo que um anjo é colocado ao lado da criança, um demoniozinho também lhe é atribuído. De um lado fica um anjinho tomando conta e do outro lado fica um diabinho espicaçando cada um de nós. Essa é a razão porque nas histórias em quadrinhos ou em desenhos animados aparece, numa hora de tentação, o diabinho procurando tentar de todo jeito. Essa idéia de anjo da guarda, então, está baseada no papel de um arcanjo chamado Rafael, não mencionado na Bíblia, mas no livro apócrifo de Tobias. Eu não creio em "anjo da guarda", mas creio, sim, em um "anjo-que-guarda". Creio no anjo do Senhor que nos guarda, de acordo com o que a Bíblia diz no Salmo 34.7. Ou ainda em Daniel 6.22 que diz, "O meu Deus enviou o Seu anjo e fechou a boca dos leões, para que não me fizessem dano, porque foi achada em mim inocência diante dele; e também contra ti, ó rei, não cometi delito algum". Temos outros exemplos notáveis no Antigo Testamento. No Segundo livro dos Reis 6.15ss, há um exemplo dessa guarda. No Novo Testamento, no capítulo cinco de Atos, também. Nesse ponto, alguém pode perguntar, "Pastor, acontece hoje também essa guarda dos anjos, ou isso aconteceu somente nas páginas da Bíblia?" Isso ocorre ainda hoje. Na história de John Patton, missionário do século passado nas Novas Hébridas, há uma página onde ele conta que quando foi pregar o evangelho,
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    62 era muitohostilizado. As tribos que ali havia eram canibais e tentaram mat á-lo com toda a família. Patton diz que cercaram a sua casa e ele e a família começaram a orar durante toda a noite. Fizeram uma vigília de oração porque estavam literalmente no vale da sombra da morte. E eles oraram, e oraram, e quando um terminava de orar o outro começava, o outro depois, o outro depois. Orou ele, a esposa, os filhos oraram, quando terminava voltava toda aquela corrente de ora ções. Os homens foram embora, saindo sem tocá-los. Cerca de um ano depois dessa noite de terror, o chefe da tribo converteu-se ao evangelho, e conversando com o missionário Patton, perguntou-lhe "Eu queria saber uma coisa: nós estivemos cercando a sua casa para matá-los. E não podíamos, porque durante a noite víamos aquele exército. Onde é que você escondia aqueles homens todos durante o dia? Por que só apareciam à noite?". E então o missionário respondeu que não havia mais ninguém, somente ele e sua família. O chefe disse, "Não, de jeito nenhum, havia homens, sim. Eram de grande estatura, estavam vestidos de branco e com espadas na mão. Os nativos ficaram com medo e fugiram..." E o Pastor Patton entendeu que Deus havia mandado os Seus anjos para proteger a família naquele vale da sombra da morte de acordo com o que diz o Salmo 23. Uma outra função dos anjos é de transporte. Mas não é quando há engarrafamento. Alguém pode pensar, "Bom, eu acho que o pastor está atrasado porque houve um engarrafamento; não vai haver problemas porque um anjo pega o pastor e traz para a igreja. Afinal, s ão colegas, são dois anjos..." Não é assim. Essa função de transporte acontece na nossa morte. Está na Bíblia, Lucas 16.19-22: "Havia certo homem rico que se vestia de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente. Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele, e desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico. Morreu o mendigo e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão". Ele não foi acompanhado não, ele foi transportado segundo a Escritura Sagrada. Uma outra função é a de comunicação(40). Mas não para aumentar a Bíblia. Nada de chegar um anjo ensinando um novo evangelho para completar, como acontece com os mórmons que ensinam que um anjo chamado Moroni passou uma nova revelação a Joseph Smith. A Bíblia diz que é anátema (maldição), se alguém aparecer querendo pregar um novo evangelho. Por isso, não aceitamos o mormonismo, ou o islamismo que diz a mesma coisa, o espiritismo com um evangelho à sua moda ou qualquer acréscimo ao bel-prazer de qualquer tribunal canônico. Fujam de quem vem com uma mensagem nova. Fujam de quem vem com uma nova revelação, seja pregador, pregadora, ou um ser disfarçado de anjo(41). Há uma outra função. É a de observação. Porque os anjos observam aquilo que nós fazemos, os anjos são testemunhas do drama da salvação, os anjos estão interessados na conduta dos crentes. O apóstolo Paulo diz, "Tenho para mim que Deus a nós apóstolos, nos pôs por últimos como condenados a morte. Somos feitos espetáculo ao mundo, aos anjos, e aos homens"(42). Os anjos são testemunhas do drama da salvação; estão interessados na conduta dos crentes segundo 1Coríntios 4.9 vêem o que nós fazemos. Eles estão especialmente o declara. A Bíblia ensina que os anjos louvam e nos observam. Eles estão observando cada um de nós porque são ministradores. Não é observar para dizer, "Ah, fulaninho está fazendo tal coisa. Vou anotar e dizer a Deus". Anjo não é alcagüete de Deus mas são nossos observadores, e a Bíblia diz que são até chamados como testemunhas(43).
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    63 NO FUTURO Há um futuro papel dos anjos. Está em Mateus 24. Diz que "Quando o Senhor vier, Ele mandará Seus anjos para reunir os Seus eleitos de todos os quadrantes do mundo". Onde houver um crente em Jesus Cristo, o anjo vai lá e o trás no momento do grande Arrebatamento. Quando isso acontecer, a palavra de Jesus ensina que são os anjos que virão nos buscar. Há valores teológicos inigualáveis nas declarações bíblicas sobre os anjos. Preciosíssimas lições: Ø A primeira é que a Bíblia declara que ao lado do mundo que nós vemos Deus criou um outro mundo de espíritos invisíveis, de seres puros que O servem. A Deus e a nós também. No Salmo 103.20 está dito, "Bendizei ao Senhor, anjos seus, magníficos em poder, que cumpris as suas ordens, que obedeceis à sua voz"(44). Ø A segunda lição que tiramos é que Deus não perdoa a rebeldia. Que é desobediência, orgulho, e atentado à ordem dos Seus planos(45). Por esse motivo, Deus não perdoou os anjos que se rebelaram, os quais foram condenados à eterna separação Dele. Deus não perdoa a nossa rebeldia também, a nossa insensatez, e a nossa desobediência. E a Bíblia declara que "O salário do pecado é a morte"(46). Ø O ministério dos anjos na Bíblia é doutrina importante, doutrina essencial para que entendamos a providência de Deus e a direção soberana da Sua criação. Nós sabemos que a intervenção guiadora dos anjos na dispensação da Lei é substituída pela direção do Espírito Santo na dispensação do Novo Testamento. O Senhor não autoriza o culto aos anjos. E a idéia de anjos medianeiros também é um absurdo porque eles usurpam o lugar de Jesus Cristo. Os anjos são poderosos, mas não são Deus; são poderosos, mas não são a Trindade; são poderosos, mas não são o Espírito Santo; têm poder, mas não são Jesus Cristo, não são mediadores, não têm o atributos de Deus, não possuem qualquer capacidade de regenerar o ser humano. Ø O estudo dos anjos nos enche com uma nova visão e assombro pela grandeza de Deus. Especialmente quando pensamos que os anjos, poderosos como são, adorando a Deus, cumprindo a Sua vontade, são um exemplo para nós. Isso nos dá agora um senso de humildade diante de Deus e de gratidão porque os anjos estão ao nosso redor. Ø A quinta lição é que os anjos apontam para a nossa dignidade no futuro porque nós seremos iguais aos anjos de Deus, a Bíblia diz. Ø E a sexta, é que tudo isso nos encoraja e estimula a servir a Deus com a totalidade do nosso ser. Ø E mais: Os anjos se alegram quando alguém se volta para Cristo. A palavra de Deus acerca disso nos ensina em Lucas 15.10, "Há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende". Que Deus nos auxilie a compreender e viver a reverência, a submissão e o serviço que os anjos desempenham para que, deste modo, o que Jesus expressou na Oração do Senhor seja pura realidade: "Seja feita a tua vontade assim na terra como no céu!" FONTES PRIMÁRIAS 1. ALVES, Anna Clara. Nossos Aliados Celestes. Em: Planeta Especial - Anjos (Agosto de 1992), p. 4-9. - 2. BOUTTIER, M. Anjo (no NT) Em: VON ALLMEN, J.-J. (Org.) Vocabulário Bíblico. SP,
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    64 ASTE, 1964.Trad. A. Zimmermann, p. 25-26. - 3. BUCKLAND, A. R. Dicionário Bíblico Universal, 2a ed. Rio, Livros Evangélicos, 1957. Trad. J. Dos S. Figueiredo. - 4. CHAFER, L. S. Grandes Temas Bíblicos. Ed. Revista. Grand Rapids, Portavoz Evangélico, 1976. Trad. E. A. Nuñez e N. Fernández. -5. COSTA, Marina Elena. Seres Angélicos, do Oriente ao Ocidente. Em: Planeta Especial - Anjos, p. 10-15. - 6. DATTLER, Frederico. Síntese de Religião Cristã. Petrópolis, Vozes, 1985. - 7. DE HAAN, Richard W. Our Angel Friends. Grand Rapids, RBC, 1980. 8. LELIÈVRE, A. Anjo (no VT) Em: VON ALLMEN, Op. Cit., p. 24-25. 9. LITTLE, Robert J. Here's Your Answer. 3a impr. Chicago, Moody, 1967. 10. MEIER, Samuel A. Angels. Em: METZGER, Bruce M. e COOGAN, Michael D. (Orgs.). The Oxford Companion to the Bible. NY, Oxford University, 1993, p. 20-28. 11. MICHL, Johann. Angel.Em: BAUER, J.B. (Org.). Encyclopaedia of Biblical Theology. NY, Crossroads, 1981, p. 20-28. - 12. NEWHOUSE, Flower A. Redescobrindo os Anjos. SP, Pensamento, 1994. Trad. C. G. Duarte, 131 p. - 13. SCHNEIDER, Bernard N. The World of Unseen Spirits. Winona Lake, BMH Books, 1975. - 14. TAYLOR, Terry Lynn. Anjos - Mensageiros da Luz, 11a ed. SP, Pensamento, 1995. Trad. A. Trânsito. 15. VAN DEN BORN. Querubim. Em: VAN DEN BORN, A. (Org.) Dicionário Enciclopédico da Bíblia, 2a ed. Petrópolis, Vozes, 1977, p. 1248-1249. - 16. ________. Serafim. Em: VAN DEN BORN, A. (Org.), Op. Cit., p. 1414-1415. - 17. VAN SCHAIK, A. Anjo. Em: Van den Born, Op. Cit., p. 74-77. (1) ALVES, Anna Clara. In: Planeta Especial, agosto de 1992, pp. 4 -9. (2) TAYLOR, Terry Lynn. Anjos - Mensageiros da Luz. - (3) NEWHOUSE, Flower A. Redescobrindo os Anjos - (4) Cit. Por GRAHAM, Billy. Anjos. (5) De onde vem o nome Malaquias = "mensageiro do Senhor". (6) Cf. Isaías 14.32. (7) Cf. Malaquias 2.7. (8) Cf. Gn 32.3; Nm 20.14; 1Sm 11.7; 23.27. (9) Cf. Mt 13.41; 18.10; 26.53; Mc 8.38; 13.32; Lc 22.43; Jo 1.51; Ef 1.21; Cl 1.16; 2.18; 2Ts 1.7; 22.9; Hb 12.22; 1Pe 3.22; 2Pe 2.11; Jd 9; Ap 12.7;. (10) Cf. Jz 2.1; 6.11-22; Sl 104.4; Mt 1.20; 28.30; Lc 1.26; Jo 20.12; Ap 15.6; 18.1. (11) Cf. 2Sm 14.17.20. (12) Cf. 1Co 2.11; Mt 24.36; Mc 13.32. (13) Cf. 2Pe 2.4; Jd 6. (14) Cf. Is 37.36; 2Pe 2.11; Sl 103.20; Ap 20.2; 2Ts 1.7. (15) Cf. 1Co 14.33. (16) A rigor, a Bíblia só menciona um arcanjo que é Miguel, cf. 1Ts 4.16. (17) Cf. Ef 2.2; Cl 2.15. (18) Cf. Jo 16.13; 14.26; Rm 8.14; Gl 5.18). (19) Palavra sânscrita que significa "deus". (20) Gn 3.24. (21) Ex 25.18,20. (22) Sl 80.1. (23) Ez 1.1-18. (24) Ap 4.8. (25) Jd 9; Dn 10.13, 21; 12.1; 1Ts 4.16: Ap 12.7. (26) Cf. Ap 12.7. (27) Cf. Ap 12.7-12. (28) Cf. Dn 8.16-26; 9.20-27. (29) Cf. vv. 19, 26.
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    65 (30) Sl148.2; cf. Ap 5.11,12; Is 6.3; Ap 4.8 (31) Jó 38.7. (32) At 7.53; Gl 3.19; Hb 2.2; Ap 22.16). (33) Lc 2.13. (34) Mt 4.11. (35) Lc 22.43. (36) Mt 28.2. (37) At 1.10. (38) Cf. Mt 24.31; 25.3; 2Ts 1.7. (39) Sl 34.7. (40) Gn 19.1,12,13; Lc 1.11-13; 1.26-35; 2.8-12Mt 2.13; At 7.53; 27.22-25. (41) Cf. 2Co 11.4; Gl 1.7b,8; Ap 22.18. (42) 1Co 4.9; cf. 11.10. (43) Cf. 1Tm 5.21 (44) Cf. Gn 22.11; Sl 91.11; Hb 1.14. (45) Cf. Jó 42.2. (46) Cf. Gl 3.22; Ec 7.22. APOSTILA - 03 ESTUDOS SOBRE – O VELHO TESTAMENTO TOTAL 187 – PAGINA 34 ASSUNTOS! 01 - A Arca da Aliança: História e Significado 02 - A corrida da Fé: Por que e como devemos corrê-la? 03 - A vida nas mãos de Deus 04 - Abraão & a aliança 05 - Abraão, o amigo de Deus 06 - As conseqüências do Pecado 07 - Aspectos Messiânicos de José 08 - Creio no amor 09 - Creio no Dia do Senhor 10 - Creio nos mandamentos 11 - Creio no Reino de Deus 12 - Da rua da amargura para a galeria da fé 13 - Diário de Isaque 14 - Jerusalém nos Salmos 15 - Jonas: O profeta fujão 16 - José, "o Fiel" 17 - Manuscritos do Mar Morto 18 - Na presença de Deus 19 - o ano aceitável do Senhor" 20 - O Deus não desiste de amar 21 - O Espírito Santo e a salvação no Antigo Testamento
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    66 22 -O Método Segundo Kaiser 23 - O Segundo Mandamento 24 - O triunfo da fé em tempos de crise 25 - O Vale das Sombras 26 - Os Levitas 27 - "...pouco menor do que Deus" 28 - Projeto de Vida · Rahab e Leviatan · Reflexões sobre a imortalidade da alma · Resposta aos Judeus não convertidos · Salmo 133: Interpretando o Texto Numa Perspectiva Bíblico-Teológica · Tipologia: Considerações Gerais · Tolerância Zero A ARCA DA ALIANÇA: HISTÓRIA E SIGNIFICADO Reverendo professor Antony Steff Gilson de Oliveira I. História: A arca da aliança (também chamada "arca do Senhor", "arca de Deus", "arca da aliança do Senhor", "arca do testemunho" e "arca sagrada") era uma caixa retangular de madeira de ac ácia, medindo cerca de 1,20m de comprimento e 0,75m de largura x 0,75m de altura (Ex 25.10). Seu revestimento interno e sua cobertura externa eram de ouro puro batido. Na parte superior, ao redor, havia uma bordadura de ouro (Ex 25.11). Contudo, a tampa que cobria a arca, denominada de propiciatório (em hebraico kappõret, "cobertura"), era de ouro maciço (Ex 25.17). Sobre o propiciatório, também de ouro maciço, haviam dois querubins, um em cada extremidade da arca com as asas estendidas à frente um do outro, cobrindo o propiciatório (Ex 25.18-20). Do meio deles Deus se comunicava com o Seu povo (Ex 25.22). A arca era a única peça de mobília no Santo dos Santos do tabernáculo (e, posteriormente, do templo) e abrigava cópias das tábuas da lei (Ex 25.16; 2 Rs 11.12), um vaso com maná (Ex 16.33,34) e a vara de Arão (Nm 17.10). Mas quando, numa época posterior, foi colocada no lugar santíssimo do templo de Salomão, "Nada havia na arca senão só as duas tábuas de pedra, que Moisés ali pusera junto a Horebe, quando o Senhor fez aliança com os filhos de Israel, ao saírem da terra do Egito" (I Rs 8.9). Antes da construção do templo, a arca da aliança era carregada por sacerdotes levitas (cf. 2 Cr 35.3) que usavam duas varas de acácia revestidas de ouro, fixas em argolas que ficavam na parte inferior da arca (Ex 25.12-15). Quem tocasse na arca da aliança era passível de morte (cf. 2 Sm 6.6,7). Segundo o historiador Josefo, a arca da aliança provavelmente se perdeu durante a destruição de Jerusalém pelos caldeus, em 587 a. C., pois na construção pós-exílica do segundo templo (c. de 537 a. C.) a arca já não fazia parte dos utensílios do santuário, o que deveras surpreendeu Pompeu quando em 63 a. C. insistiu, pela força, entrar no lugar santíssimo. F. F. Bruce lembra: "No lugar santíssimo pós-exílico a posição da arca estava marcada por uma plataforma chamada 'a pedra de fundação' (heb. 'eben shattiyyãh)". Jeremias profetizou o fim da arca da aliança (como objeto e símbolo) assim: "Sucederá que, quando vos multiplicardes e vos tornardes fecundos na terra, então, diz o Senhor, nunca mais se exclamará: A
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    67 arca daaliança do Senhor! ela não lhes virá à mente, não se lembrarão dela nem dela sentirão falta; e não se fará outra" (Jr 3.16). Comentando esta passagem de Jeremias, R. K. Harrison diz: "A presen ça de Deus em Sião fará desnecessária a arca e outros objetos de culto com sua majestade, porque estes são somente símbolos da realidade de Deus. Na Jerusalém celestial de Ap 22.5 o sol também estará fora de moda. Até esta época ainda precisamos de alguns lembretes materiais da atuação de Deus, para auxiliar a fé". II. Significado: A arca da aliança possuía dos significados distintos. O primeiro era simbolizar a presença protetora e orientadora de Deus no meio do Seu povo. No recôndito do santuário o Senhor revelava Sua vontade aos Seus servos (Moisés: Ex 25.22; 30.36; Arão: Lv 16.2; Josué: Js 7.6, etc.). Justamente por ser símbolo de Deus com Seu povo, a arca da aliança desempenhou um papel importantíssimo, como por exemplo, na travessia do rio Jordão (Js 3.4), na queda de Jericó (Js 6) e na cerimônia da memorização do pacto, no monte Ebal (Js 8.30-35). O segundo significado, que na verdade é a expressão maior do primeiro, tem a ver com Jesus Cristo. O Dr. D. D. Turner observa: "A arca tipificava o Senhor Jesus Cristo que intercede por nós detrás do véu". E ainda: "Verifica-se melhor a tipologia da arca em Números 10.33: 'A arca da aliança do Senhor ia adiante deles caminho de três dias, para lhes deparar lugar de descanso'. Jesus Cristo, o antitipo da arca, vai adiante dos Seus remidos explorando o caminho atrav és do deserto deste mundo pecaminoso, e levando o Seu povo até à Canaã celestial". E conclui: "Assim como a arca ficou nas mãos dos filisteus durante certo tempo (cf. I Sm 5 e 6), o Messias foi cativo no sepulcro, mas depois ressuscitou com triunfo". Esperamos que estas rápidas considerações sobre a arca da aliança tenham sido de alguma forma esclarecedoras para você. Que Deus o (a) abençoe. Reverendo professor Antony Steff Gilson de Oliveira A CORRIDA DA FÉ: POR QUE E COMO DEVEMOS CORRÊ-LA? Estudo bíblico de Hebreus 12.1-3 As competições olímpicas eram práticas apreciadas e admiradas no mundo antigo. Ainda hoje, eventos olímpicos como o de Atlanta, nos Estados Unidos, em 1996 e o de Sydney que ocorrerá na Austrália em 2000, respectivamente, mexeram e mexerão com a emoção de muita gente. Escritores bíblicos como Paulo e o autor da carta aos Hebreus fizeram constante menção das atividades esportivas em seus escritos. Eles eram apreciadores do esporte e dele sabiam tirar lições preciosas para a vida cristã. Um exemplo clássico disso é a passagem bíblica de Hebreus 12.1-3. O autor aos Hebreus extrai da figura de um estádio lotado, do espírito da dinâmica de uma competição olímpica, uma ilustração para a vida cristã. Após relatar a luta e a vitória dos heróis e heroínas da fé do Antigo Testamento, o autor de Hebreus direciona o olhar de seus leitores para o Campeão dos campeões, Jesus. Ele os mostra como aqueles
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    68 campeões, eprincipalmente Jesus Cristo, venceram e porque eles (seus leitores) deveriam correr a corrida cristã e como esta corrida deveria ser feita. Mas deixemos por enquanto os leitores imediatos do autor aos Hebreus. Vamos entrar na corrida também! porque ela é de todo aquele que verdadeiramente corre a corrida da fé. I. Por que devemos participar da corrida cristã? Devemos participar da corrida cristã por três motivos básicos: 1) Em primeiro lugar, porque ela é determinada por Deus. O texto bíblico diz: "Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso, e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos com perseverança a carreira que nos está proposta" (Hb 12.1). Note que a passagem bíblica diz justamente: "corramos ...a carreira que nos está proposta". Não há necessidade de se especular sobre quem estaria propondo esta corrida para os filhos de Deus. Está claro que é o próprio Deus quem a propõe. Em última análise pode-se dizer, por isso mesmo, que esta corrida cristã e de fé é também a corrida da graça. O próprio Deus é quem a estabelece para nós e é quem nos capacita a corrê-la com triunfo (cf. I Co 15.10; 2 Co 3.5). A corrida cristã é a corrida de Deus para nós. Nela não estaremos sós e nunca seremos deixados à própria sorte, pois , de outro modo, estaríamos todos condenados à destruição. Quem está apto para correr por suas próprias forças a corrida da fé? Ninguém! A corrida que Deus nos propõe é a corrida da graça que nos capacita para a vitória. Além disso, estando determinada por Deus, ninguém, sendo cristão autêntico, ficará fora dessa corrida. Deus a determinou para todos nós. Semelhantemente, uma vez que corremos a corrida da graça de Deus, nada é tão forte que possa nos desviar do objetivo de completá-la. Uma obra clássica que nos ajuda a entender o triunfo de todo aquele que corre a corrida da f é é o Peregrino de João Bunyan (1628-1688). O Cristão, personagem principal da alegoria, alcançou, após lutar muito e passar por obstáculos sofríveis, seu objetivo maior que era chegar na Cidade Eterna. Assim será para todos nós, pois o nosso Deus não nos deixará correr sozinhos, mas nos incentivará sempre e nos capacitará para uma chegada triunfal. 2) A segunda razão porque devemos correr a corrida cristã, é porque ela é incentivada pelos heróis da fé. O autor aos Hebreus nos relata que "temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas". Além do próprio Deus como maior interessado em que sejamos vencedores nesta corrida (porque n ós seremos salvos e Deus glorificado), temos a rodear-nos "tão grande nuvem de testemunhas". Esta grande nuvem de testemunhas significa aqueles grandes exemplos de fé que o escritor sagrado acabara de citar no capítulo 11. Pensemos, então, num herói como Abel que pela fé "ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas. Por meio dela (da fé), também mesmo depois de morto, ainda fala" (Hb 11.4). E por aí segue exemplos como os de Noé, Abraão, Raabe, etc. Entretanto, em que sentido os homens e mulheres de Deus do Antigo Testamento são testemunhas para nós que corremos hoje? F.
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    www.obeb.com.br / http://www.teologiagratisefenipe.com.br/page10.php 69 F. Bruce responde: "Provavelmente não no sentido de espectadores, observando seus sucessores enquanto correm a corrida na qual entraram; mas no sentido que por sua lealdade e perseverança deram testemunho das possibilidades da vida da fé" (Bruce, La epístola a los hebreus, Nueva Creación, Buenos Aires, 1987, p. 349). Convém ressaltar que o escritor sagrado não está dizendo que os espíritos dos heróis da fé estariam conosco para nos ajudar na corrida cristã. Hebreus 9.27 dá a entender que este não era o ponto. A verdade é que os heróis da fé estão na presença de Deus torcendo, por assim dizer, por todos nós. 3) O terceiro motivo porque devemos correr a corrida que nos está proposta é porque é ela uma corrida inspirada na vitória de Cristo. "Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não fatigueis, desmaiando em vossas almas" (Hb 12.3). Pouco antes o autor de Hebreus diz que Cristo "suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia" (Hb 12.2). Quantas e quantas vezes não somos tentados a desistir dessa corrida? Às vezes parece que a nossa linha de chegada nunca será alcançada. Se olhamos para trás corremos o risco de tropeçar e cair, se corremos de cabeça baixa arriscamos não ver quão perto possa estar a nossa chegada. A corrida cristã é dura, mas a chegada é certa! Portanto, ergamos os nossos olhos para o horizonte e contemplemos Jesus Cristo. Quanta dor, quantas aflições Ele passou , porém, que vitória espetacular! Pois Ele suportou tudo sem nunca deixar de correr. É isso que o autor aos Hebreus pede que façamos: "Não desanimem, olhem para Jesus". É difícil viver nesse mundo de pecado, sendo constantemente cirandado pelo diabo, pelo mundo e pela nossa própria carne. Contudo, Cristo venceu para nos ajudar a vencer. Ele é nosso maior exemplo e incentivador. Então, minha amiga e meu amigo, levante a cabeça porque você é de Deus e vai vencer, por maiores que sejam os obstáculos desta sua corrida. Não desanime, o Senhor está com você e o (a) sustentará. II. Como devemos correr a corrida cristã? Esta pergunta pode ser respondida de duas maneiras, a saber, negativa e positivamente falando. 1. Negativamente falando: a. Desembaraçando-nos de todo peso É importante não perdermos de vista a figura dos atletas dos jogos olímpicos. Para nosso objetivo, trata-se daqueles atletas que praticam uma das modalidades mais antigas das olimpíadas, a prova de velocidade. Portanto, são velocistas correndo a prova dos 100 ou 200 metros, com barreira. Segundo os estudiosos dos tempos bíblicos, quando os atletas estavam treinando para as olimpíadas, eles costumavam vestir roupas pesadas e amarrar pequenos pesos nos tornozelos. Por ém, no dia da corrida propriamente dita, as roupas pesadas e as tornozeleiras eram tiradas. Isto dava a sensação de leveza que, dentre outras coisas, garantia a vitória.
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    70 O autoraos Hebreus também fala de peso. "Desembaraçando-nos de todo peso", diz ele. Que peso é esse que o escritor nos pede para desembaraçar? Quais as implicações do mesmo para a corrida cristã? Antes de tudo, notemos que peso aqui não é o pecado, pois sobre ele (o pecado) o escritor sagrado fala depois. Portanto, peso significa aqui tudo aquilo que na vida cristã impede o nosso bom relacionamento com Deus e, conseqüentemente, com o próximo. Não é o pecado propriamente dito, mas pode facilmente levar a ele se não vigiarmos e orarmos. Por exemplo, namorar não é pecado, mas um namoro pode servir de peso na vida do casal que se descuida do compromisso com Deus e de Sua Palavra. Assistir TV em si não é pecado, porém, a televisão pode tomar (e como toma!) o tempo precioso de dedicação a Deus. E por aí vai... Há na sua vida alguma coisa que está roubando o tempo de Deus, a comunhão e vida de santificação com o Senhor? Não prossiga a leitura dessa mensagem sem antes refletir seriamente sobre isto e confessar seus pecados a Deus. O Senhor Deus o abençoará. b. E do pecado que tenazmente nos assedia Além do peso que devemos nos desfazer, ainda é necessário, para que corramos bem, nos desembaraçar do "pecado que tenazmente nos assedia". O pecado sempre está às portas. Não foi isso que Deus disse a Caim? (Gn 4.7). E do mesmo modo que a ele foi ordenado, também cumpre a nós dominá-lo. Tem que ser assim porque o pecado faz separação entre nós e Deus (cf. Is 59.2). Por isso devemos orar para que Deus não nos deixe cair em tentação. A queda rompe o bom relacionamento com o Espírito Santo que em nós habita. Na corrida olímpica quem não pula os obstáculos será desclassificado, mesmo se chegar em primeiro lugar. Na corrida cristã nunca correremos bem se tivermos o pecado como nosso treinador. 2. Positivamente falando: a. Devemos correr com perseverança Alguém disse com acerto que "a persistência é a alma da conquista". Nada que seja verdadeiramente útil nesta vida é adquirido sem perseverança. Se queremos fazer bem feito e atingir os nossos objetivos na vida, então temos que trabalhar ao ponto de exaustão. Esta idéia de trabalho ao ponto de exaustão é muito comum em Paulo, veja por exemplo, I Co 9.24-27. Quando o atleta olímpico estava disputando a corrida com seu adversário, ele colocava toda força no enrijecimento de seus músculos. As dores também eram terríveis, superadas somente pelo ideal de vencer. Na corrida cristã, meu amigo, o lema é vencer ou vencer. Não há lugar para perdedores no reino dos céus. Garanta o seu lugar porque Deus não correrá por você. É verdade que Ele nos capacita, nos incentiva, etc., mas a corrida é nossa. Deus não correrá por mim e nem por você. O escritor sagrado é claro nisso quando diz com o imperativo verbal, "corramos"! Corramos com perseverança a carreira que nos está proposta. b. Olhando firmemente para Jesus O modo correto para se correr bem é exatamente este: "Olhando firmemente para Jesus". Eu diria que aqui está a parte mais importante da corrida. E por que? Porque quando nós corremos olhando firmemente para Jesus não há tempo para ocupações triviais da vida e muito menos tempo para pecar. Corremos com confiança. Além disso, voltamos o nosso olhar para Aquele que é o maior vencedor e
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    71 maior incentivadorda corrida cristã. Jesus é, por assim dizer, o torcedor principal no estádio, pois somente Ele é o nosso Autor e Consumador da nossa fé. E o que isso quer dizer? Quer dizer que como Autor Jesus "preparou o caminho da fé com triunfo diante de nós, abrindo assim um caminho para os que O seguem". Como Consumador da fé Ele é "o completador e aperfeiçoador; no sentido de levar uma obra até o fim, não por decurso de prazo". Enquanto estivermos correndo olhando para Jesus estaremos garantindo nossa vit ória nas olimpíadas da fé. Que Deus faça de você um grande campeão e vencedor em Cristo Jesus. Amém! A VIDA NAS MÃOS DE DEUS A mensagem do Salmo 31.15 Rev. Professor Diego Roberto Durante anos e anos o livro dos Salmos tem enriquecido a vida espiritual do povo de Deus. A razão disso está no fato de nos identificarmos com as lutas e as vitórias dos salmistas. Muitas das experiências dos salmistas são, de certa forma, as nossas experiências também. Porém, o que mais tem fascinado os crentes através dos tempos é a vida espiritual de comunhão com Deus que os salmistas levavam. Um bom exemplo dessa espiritualidade é a oração de Davi no Salmo 31, em especial a primeira parte do verso 15 que diz: "Nas tuas mãos estão os meus dias". Permita-me compartilhar com você esta preciosidade dos Salmos. Num mundo em que as pessoas estão cada vez mais interessadas em si mesmas, auto-confiantes, porém (paradoxalmente) confusas e inseguras acerca do dia de amanhã, em que circunstância poderíamos nos aproximar de Deus e dizer-Lhe com a mesma convicção de Davi, "Nas tuas mãos estão os meus dias"? Consideremos três aspectos. 1) Em primeiro lugar, podemos dizer "nas tuas mãos estão os meus dias" quando dependemos inteiramente de Deus. Somente alguém que se entrega totalmente aos cuidados de Deus é capaz de declarar ao Senhor: "Nas tuas mãos estão os meus dias". Somente quem vive em função do próprio Deus pode dizer e cantar: De ti, Senhor, careço! Do teu amparo, sempre! Oh, dá-me tua bênção! Aspiro a ti. (Dependência - NC 120) Uma das maiores expressões de dependência de Deus é a oração. Ao orarmos reconhecemos diante de Deus que somos fracos, pequenos e necessitados de Sua graça e compaixão imensuráveis. O Salmo 31 é uma oração de Davi do começo ao fim, onde o versículo 15 é ponto alto de sua súplica. É como se Davi dissesse a Deus: "Nas tuas mãos estão os meus dias porque sem a tua ajuda, sem a tua proteção e sem a tua providência constante em minha vida eu não tenho condições de dar um passo sequer". Este anseio de Davi em estar ligado a Deus também é marcante nos Salmos 42 e 63. Contudo, uma das melhores ilustrações da oração de Davi no Salmo 31.15 está no pedido de Pedro em João 6. Depois
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    72 que oSenhor Jesus acabou de proferir o sermão do pão da vida, muitos que O seguiam se escandalizaram e O abandonaram. Em seguida Jesus se voltou para os doze e lhes perguntou se também queriam deixá-lO. "Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus" (Jo 6.68). Observe a expressão: "Senhor, para quem iremos?". O que Pedro quis dizer foi exatamente isto: "N ão há outra pessoa a quem podemos ir; não há outra pessoa que satisfaça o anelo do coração" (G. Hendriksen). Assim oraram Davi e Pedro; assim deve orar todo aquele que crê que "a nossa suficiência vem de Deus" (2 Co 3.5). 2) Em segundo lugar, podemos dizer como o salmista "nas tuas mãos estão os meus dias" quando confiamos verdadeiramente em Deus. Quem depende inteiramente de Deus com certeza confia nEle. Davi confiava no Senhor de maneira absoluta e incondicional. Observe que o versículo 15 do Salmo 31 é o reflexo da confiança impressa no versículo 14. Enquanto os inimigos de Davi confiavam nos ídolos e a eles dedicavam suas vidas, o salmista buscava ao Senhor dizendo: "Quanto a mim, confio em ti, Senhor. Eu disse: Tu és o meu Deus. Nas tuas mãos estão os meus dias...". Havia, ainda, um problema específico mas o salmista o entregou a Deus: "... livra-me das mãos dos meus inimigos e dos meus perseguidores" (v15b). Davi faz um jogo de palavras com o termo "mãos" do verso 15, como se quisesse dizer: "Livra a minha vida das mãos dos meus inimigos porque a minha vida está nas tuas mãos". Todavia, fosse qual fosse o problema, era costume de Davi confiar totalmente em Deus para solucioná-lo. Será que temos confiado em Deus com a mesma intensidade do salmista? Temos confiado em Deus a ponto de O deixarmos resolver os nossos problemas? Muitas vezes permitimos que os nossos problemas pareçam maiores que o nosso Deus. Não acreditamos que Ele possa resolvê-los de fato, ou então esperamos que Ele os resolva ao nosso modo. Não ousamos dizer-Lhe que faça a nossa vontade, mas Deus, que é poderoso e tremendo, sonda o nosso coração e se entristece ao ver que não confiamos nEle de verdade. "Ajuda-me, Senhor, a confiar em ti de tal maneira que eu não carregue comigo aqueles problemas que já entreguei ao teu cuidado" (W. Kaschel). 3) Finalmente, mas não menos importante, podemos fazer das palavras de Davi, "nas tuas mãos estão os meus dias", nossas palavras, quando reconhecemos a direção de Deus em nossa vida. É interessante notar que Davi faz mais do que crer na existência de Deus. Ele nem ao menos pede a Deus: "Daqui pra frente dirige a minha vida". Ao contrário, o que ele faz no verso 15 é "relembrar" ao Senhor que a sua vida está nas mãos de Deus porque o Senhor já é o seu Deus! (cf. v14). Por isso Davi não precisaria temer os seus inimigos e perseguidores ou qualquer outra situa ção de perigo (veja Salmos 27.3; 46.1-3). A direção de Deus na vida de Davi fazia diferença. Semelhantemente, quando Deus dirige nosso destino não somos sufocados pelo desespero e ansiedade (cf. Mt 6.25-34; Fp 4.6; Hb 13.5,6; I Pe 5.7). Quando Deus dirige a nossa vida somos profundamente gratos a Ele por tudo (I Ts 5.18) e nos comportamos com maturidade em rela ção ao próximo. Alguns exemplos desse último: Por estar ciente da direção de Deus em sua vida foi que Davi poupou a vida de Saul (I Sm 24). E José do Egito? Sabendo que Deus dirigia o rumo de sua existência,
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    73 José deixoupara Deus as ofensas de seus irmãos ao invés de fazer justiça com as próprias mãos. José perdoou seus irmãos porque viu o propósito de Deus em meio à maldade deles. Davi fez o mesmo com Saul. Nós também podemos fazer o mesmo com o nosso semelhante se de fato reconhecemos a direção de Deus em nossa vida. Um dos piores males existentes no meio do povo de Deus hoje em dia é a falta do perdão. Esta falta de perdão, por sua vez, é motivada pela falta de compreensão da direção de Deus. Quando entendermos que é Deus quem dirige as grandes e as pequenas coisas do nosso viver e não o acaso, a fatalidade, a sorte ou o azar, e que "todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Rm 8.28), então nunca mais teremos problemas em nosso relacionamento interpessoal porque não teremos mais dificuldade em perdoar quem quer que seja. As pessoas com maior dificuldade em perdoar são aquelas que não conseguem ver Deus na direção de suas vidas. Depender de Deus em tudo, confiar totalmente nEle e ser dirigidos pelas Suas m ãos deveriam ser os nossos maiores ideais todos os dias da nossa vida. Porque na vida o que realmente deve importar ao servo e à serva de Deus não é se os sonhos serão ou não realizados, se haverá ou não muito dinheiro no bolso e saúde para dar e vender durante o ano, mas sim, poder entrar, passar e sair de mais um a no com a mesma certeza de Davi: "Nas tuas mãos, Senhor, estão os meus dias"! Que Deus o (a) abençoe. ABRAÃO & A ALIANÇA Professor Diego Roberto A tradição bíblica apresenta os pais da humanidade e os patriarcas como monoteístas. Adão, Sete, Noé, Abraão e seus descendentes conheciam o Deus Eterno e guardavam seus preceitos. O politeísmo surge como degeneração e distanciamento desse Deus criador do universo. Qualquer análise do surgimento da religião de Israel deve partir do homem Abraão e de seu contexto histórico e social. Podemos localizar as origens do surgimento de Israel na primeira metade do segundo milênio a.C. (2.000-1550). Foi nesse período que Abraão migrou de Ur com destino à Palestina. O mundo de Abraão é um mundo objetivo, não mitológico, e a aliança com o Deus Eterno, conforme se encontra em Gênesis 15, é a chave para entendermos todo o Pentateuco, os cinco livros da Lei. A consolidação dessa aliança acontecerá com Moisés, descrita em Êxodo 24 e reiterada em Deuteronômio 5, numa das montanhas do deserto do istmo, entre o Egito e Madiã-Seir. Essa é a idéia-força de toda a religião de Israel: um acordo que implica em salvação. UM ACORDO SOLENE Berit, aliança, tem o sentido de obrigação, mas também de segurança. É um acordo entre duas pessoas, celebrado solenemente, com o derramamento de sangue. A parte mais forte fornece a segurança, ou a salvação, e a mais fraca se obrigava a determinados compromissos. Dessa maneira, a aliança impôs um relacionamento especial entre o Deus Eterno e o povo. E os mandamentos e leis, dados mais tarde, no deserto a Moisés, transportam de uma conotação legal e externa para uma perspectiva de acordo maior, de adoração e obediência. O centro da aliança está no primeiro mandamento do decálogo (as dez palavras, em hebraico) que proíbe a adoração de outros deuses, da milícia do céu e dos ídolos.
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    74 UMA ALIANÇAÉTICA Mas a aliança é também um pacto moral. Só que o fundamental desse pacto, que perpassa toda a Torah ou Pentateuco não é sua mera formalização, já que outros povos também possuíam noções desenvolvidas de lei e moralidade. O assassinato, o roubo, o adultério e o falso testemunho eram condenados não apenas pela lei moral universal, mas também duramente punidos pelos códigos de Ur-Nammu, de Lipit-Ishtar e de Hamurabi [León Epsztein, A Justiça Social no Antigo Oriente Médio e o Povo da Bíblia, SP, Paulinas, 1990, "As Leis Mesopotâmicas", pp. 11 a 26], para citar os mais representativos. Agora, no entanto, pela primeira vez a moralidade é apresentada pelo próprio Deus Eterno como fruto de um relacionamento entre Ele e o povo, com normas para o estabelecimento de um reino de novo tipo. É uma aliança com toda a nação. A consolidação que acontece centenas de anos mais tarde, no monte Sinai é fruto da aliança abraâmica e vai além das sabedorias babilônica e egípcia. A moralidade apresentada no Gênesis, por exemplo, que é individual, ganha aqui uma roupagem nova, passa a ser coletiva e nacional. "Yahweh não elegeu Israel para fundar um novo culto mágico em benefício dele; elegeu-o para ser seu povo, para realizar nele o seu arbítrio. Portanto, por sua natureza, também a aliança religiosa foi uma aliança moral/legal, envolvendo não apenas o culto, mas também a estrutura e os regulamentos da sociedade. Assim, colocou-se o alicerce da religião da tora, incluindo tanto o culto como a moralidade e concebendo a ambos como expressões da vontade divina". [Yehezkel Kaufmann, A Religião de Israel, SP, Perspectiva, 1989, p.232]. Na verdade, a aliança que o Deus Eterno faz com Abraão em Gênesis 15, historicamente, tem seu cumprimento em outras condições e em outra época, no Sinai. Dessa maneira, a aliança feita com Abraão não somente prepara o roteiro do Pentateuco, mas faz parte intrínseca dele. É bereshit, não somente como saga da origem, mas como alicerce de todos os cinco livros da Lei. Bereshit é uma expressão hebraica que normalmente traduzimos por "no princípio". É formada pela preposição B mais var, que significa cabeça, início, principal, o mais elevado. Na Bíblia hebraica o nome do livro de Gênesis é Bereshit, porque o primeiro versículo das Escrituras começa assim: "No princípio ..." UM CONCEITO UNIFICADOR A teologia de Gênesis tem por base o conceito da aliança, como descrição de um processo vivo, que tem origem em determinado momento histórico, numa relação entre o Deus Eterno e um homem historicamente definido. "A centralidade da aliança para a religião do AT já possuía defensores muito antes de Eichrodt [August Kayser, Die Theologie des AT in ihrer Geschichtlichen Entwicklung Dargestellt (Strassburg, 1886), p. 74]: "a concepção dominante dos profetas, a âncora e o alicerce da religião do AT em geral, é a noção de teocracia ou, utilizando a expressão do próprio AT, a noção de aliança" [G. F. Oehler, Theologie des AT (Tubingen, 1873), i, p. 69]: "O fundamento da religi ão do AT é a aliança por meio da qual Deus recebeu a tribo escolhida, a fim de realizar seu plano de salvação" [Gerhard Hasel, op. cit., p. 57]. Ao entendermos o conceito de aliança como centro unificador do livro de Gênesis e, por extensão, do Pentateuco, a leitura do texto bíblico passa a ter uma dinâmica real, que cresce conforme a aliança se transforma em osso e carne, primeiramente na vida dos patriarcas e, posteriormente, na forma ção da própria nação de Israel. O livro de Gênesis apresenta a humanidade recém formada como monoteísta [Kaufmann, op. cit.,
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    75 p.220]. Atéo capítulo 11 não vemos nenhum traço de idolatria. Só após Babel surge a idolatria, que seria contemporânea ao aparecimento das nações da antigüidade. A partir de Gênesis 12 temos nações idólatras e politeístas e pessoas que adoravam ao Deus Eterno. Entre estes estão Abraão e Melquisedeque. A compreensão desse fato é importante para tirarmos das costas de Abraão a responsabilidade de ter criado a primeira religião monoteísta. Ele não criou a religião do único e verdadeiro Deus, mas viveu uma tradição, no sentido de transmissão de conhecimento e cultura, que vinha em parte de seus antepassados. UMA REGIÃO PRÓSPERA Vejamos um pouco mais sobre a vida desse homem, conforme descrita em Gênesis 12:1 a 25:18. Ele vivia na terra formada entre os rios Tigre e Eufrates, às margens de um afluente do Eufrates, chamado Balique. A cidade de Ur, onde vivera antes de ir para Harã, é situada pelos arqueólogos na região da moderna Tell el-Muqayyar, a catorze quilômetros de Nasiryeh, no sul do Iraque. Segundo estudos de Sir Leonard Woolley, do Museu Britânico, que reconstruiu a história de Ur desde o quarto milênio até o ano 300 a.C., o deus-lua Nanar, que era adorado em Ur, também era a principal divindade em Harã. Décadas antes de Abraão, Ur era a mais importante cidade do mundo. Centro de produção manufatureira, agropastoril e exportador, estava situada numa região de enorme fertilidade. Daí partiam caravanas e navios em direção ao golfo Pérsico. Já na época de Abraão a cidade foi eclipsada pelo crescimento de Babilônia, mas manteve sua importância durante décadas.. A Babilônia destaca-se no cenário mundial a partir do governo de Hamurabi (1728-1686 a.C.). Ele venceu militarmente a Assíria, subjugou antigos aliados e também o reino de Mari, importante centro comercial da época. Durante seu governo, a Babilônia teve um impressionante florescimento cultural. Anos mais tarde, as águas do golfo Pérsico recuaram e o rio Eufrates mudou seu curso, correndo 16 quilômetros para leste. Ur então foi abandonada, sendo sepultada pelas tempestades de areia do deserto. As pesquisas arqueológicas desenvolvidas pela Universidade da Pensilvânia e o Museu Britânico, numa expedição dirigida por Sir Woolley, entre 1922-1934, descobriram o Zigurate ou torre-templo, cujo modelo fora a torre de Babel. Era o edifício mais importante da época de Abraão. A torre era quadrangular, construída com sólidos tijolos, possuía terraços arborizados e no topo ficava um santuário ao deus Lua. A cidade tinha ainda dois templos. Um ao deus Lua, Nanar, e outro à deusa Lua, Ningal. Esses dois templos eram um complexo de santuários, com pequenas salas, alojamentos de sacerdotes, sacerdotisas e atendentes. Eram essas divindades que o pai de Abraão cultuava. Num bairro residencial de Ur foram descobertas casas, lojas, escolas e capelas, com milhares de placas, documentos de negócios, contratos, recibos, hinos, liturgias, etc. As casas eram de alvenaria, com dois pavimentos, no alinhamento das ruas, e com pátio interno. UMA ÉPOCA CONTURBADA Depois de sair de Ur, Abraão viveu com sua família em Harã, uma cidade também muito
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    76 desenvolvida. Seusparentes, Terá, Naor, Pelegue e Serugue, tiveram seus nomes registrados nos documentos diplomáticos de Mari, na região e também em documentação dos assírios, como nomes de cidades naquelas regiões [Samuel Schultz, A História de Israel no Antigo Testamento, SP, EVN, 1992, p. 31]. QUADRO CRONOLÓGICO (2050-1500 a.C.) EGITO PALESTINA MESOPOTÂMIA 2050 Império médio Época do bronze (M) Renascimento sumério, dinastia de Ur. Amorreus 2000 Egito reunificado Amorreus 1950 XII dinastia Egito controla a costa 1900 Sírio-palestina Assíria Mari Isin Larsa 1850 Abraão 1800 Babilônia 1750 Invasão dos hicsos Hamurabi 1700 Hebreus Hititas 1650 XV dinastia 1600 1550 Novo Império 1500 XVIII dinastia e Época do bronze (R) Expulsão dos hicsos PEQUENA CRONOLOGIA DE ABRAÃO (Gn 11:26-32; 12:4; At 7:2-4) Nascimento Quando seu pai tinha 130 anos. Canaã Entrou na Palestina aos 75 anos. Ló Libertou seu sobrinho quando tinha 80 anos. Ismael Tinha 86 anos quando seu primeiro filho nasceu. Sodoma e Gomorra As cidades foram destruídas quando tinha 99 anos. Isaque Nasceu quando tinha 100 anos. Sara Tinha 137 anos quando sua mulher morreu. Esaú e Jacó Quando seus netos nasceram tinha 160 anos. Morte Aos 175 anos de idade.
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    77 ROTEIRO DEESTUDO VISÃO PANORÂMICA 1o bloco 1. Introdução Geral: a herança de Abraão para os cristãos de hoje. 2. Chamado: Gn 12.1-9; At 7.2-4; Hb 11.8. No Egito: Gn 12.10-20; Rt 1.1; Mt 12.14,15. 3. A separação de Ló: Gn 13.1-18; Ef 3.18 e 4:1. 2o bloco 1. A derrota de Sodoma e a captura de Ló: Gn 14.1-12. 2. Abraão resgata Ló: Gn 14.13-16. 3. Abraão, Melquisedeque e o rei de Sodoma: Gn 14.17-24; Hb 7.2; Sl 110.4. 3o bloco 1. Fé e aliança: Gn15.1-21; Rm 4; Gl 3. a. A fé que movia Abraão. b. A promessa vira aliança. 4o bloco 1. Hagar e Ismael: Gn 16.1-16; Gl 4.22 e 29; Pv 24.3; Ex 3.2, 4; Jz 6.12-14. 2. Sara, um novo nome: Gn 17.15-22; Rm 9.24. 3. Abraão intercede por Sodoma: Gn 18.16-33; Is 41.8; 1Tm 3.4-5; Ex 32.32; Is 53.12. Conclusão: A herança de Abraão para os cristãos de hoje. ABRAÃO, O "AMIGO DE DEUS" Professor Antony Steff Gilson de Oliveira "Ora, o Senhor a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. Eu farei de ti uma grande nação; abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome; e tu, se uma bênção. Abençoarei aos que te abençoarem, e amaldiçoarei aquele que te amaldiçoar; e em ti serão benditas todas as famílias da terra. Partiu, pois, Abrão, como o Senhor lhe ordenara, e Ló foi com ele. Tinha Abrão Setenta e cinco anos quando sai de Harã. Mas tu, o Israel, servo meu, tu Jacó, a quem escolhi, descendência de Abraão, meu amigo" (Gn 12,1-4; Is 41,8) Com a entrada de Abraão no cenário bíblico, inicia-se a história de dois mil anos do pacto de Deus com ele, e através dele, com toda a humanidade. Na pessoa de Abraão, Deus começa a obra de redenção daquele que crê (Rm 4.11). Tem início com Abraão, vai a Isaque, seu filho, a Jacó, seu neto, a Judá, seu bisneto, e segue até Jesus Cristo (cf. Mt 1.17; Rm 3.21,22). É ele o perfeito exemplo do que significa viver pela fé, ou, como designou o Dr. Page Kelley, querido ex-professor, o "projeto-piloto" de Deus na redenção de todos os povos.
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    78 A vidade Abraão gira em torno de duas ordens de partida: 1. " Sai-te da tua terra..." (Gn 12.1) e 2. "Toma agora teu filho..." (Gn 22.2). Vamos a elas. "SAI-TE DA TUA TERRA..." (Gn 12.1-4) O fato é que Deus requer de Abraão que deixe sua terra e seus parentes idólatras. Isso acontece por volta de 1976 a.C. Vai com Sara (a esposa), com Ló (o sobrinho), servos e gado. Josué 24.2,3 diz que Abraão deixou a sua terra e seu clã para se afastar da idolatria que ali reinava (cf. Gn 31.19). Deus tinha uma mensagem que desejava passar a toda a humanidade. Algu ém disse que "o melhor meio de enviar uma mensagem e amarrá-la no mensageiro" (como um pombo correio). Foi o que Deus fez com Abraão, e a tarefa, ele a cumpriu com fé e obediência. A ordem para deixar sua terra, familiares e pais foi algo muito mais sério para ele do que teria sido para nós. Na época de Abraão, a paz e segurança que se conhecia era a de estar com sua família. Quando alguém deixava essa segurança ficava exposto a todos os perigos. Abraão não conhecia a Deus. Para ele, falar de religião com seus pais, irmãos, familiares e contemporâneos de Ur era falar do deus-lua chamado Sin, principal divindade de sua terra. Ele conhecia também o deus-sol, Nana, e sabia de Anu, o deus do céu dos sumerianos. Tudo isso significa que para Abraão sair da sua terra, da sua parentela e da casa dos seus pais era um apelo espiritual que lhe chegava na revelação do Deus único, verdadeiro. Apelo a uma integridade que ele não poderia encontrar no panteão de deuses mitológicos. E assim ele parte. Vai para Canaã. O escritor de Hebreus rende uma homenagem a Abraão quando diz que, " Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu saindo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia" (Hb 11.8). É preciso uma "saída", uma separação radical para ser orientado pela pedagogia divina. Afinal, não vivemos no meio de tantos deuses da época atual? O dinheiro não é um poderoso deus? O poder não é um deus que apela? O prazer? A posição social? É preciso sair. Sair da idolatria, dos deuses falsos , de tudo o que prejudica a comunhão com o Eterno. Fé não é simplesmente crer num conjunto de parágrafos sobre a pessoa de Deus, mas comprometimento com Ele, porque fé é, primariamente, palavra de relacionamento pessoal com o Criador. A chamada de Abrão envolve uma dupla promessa: a de terra (Gn 12.7) e a de descendência (Gn 15.5) . E foi uma chamada grande de sacrifício, para compromisso total, e para um novo sentido, caminho, curso na vida. Essa a razão porque Abraão recebe duas ordens: a de andar diante de Deus, e a de ser perfeito (Gn 17,1). A vida , na Bíblia, é descrita como um caminho por onde se anda; é uma peregrinação. Ser perfeito, por sua vez, é ser integro, inteiro, completo. É, portanto , vida de rendição total e incondicional a Deus. E Abraão o aceita (cf. Gn 17.3a). Aí, começam suas provas, seus testes de fé.
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    79 AS PROVAS São, pelo menos, sete as promessas de Deus a Abraão: 1. seria pai de uma grande nação (e nem herdeiro tinha!); 2. Deus o abençoaria durante a vida; 3. seria ria uma figura mundial (talvez nem precisasse citar que três grandes grupos religiosos derivam da fé de Abraão. E a ele rendem suas homenagens: os judeus, os cristãos e os muçulmanos); 4. seria uma bênção para outras pessoas (Não é só destaque e fama: é serviço; o crente há de ser uma bênção sempre: seja porteiro de um edifício, industriário, bancário, pequeno comerciante, profissional liberal, executivo de empresa ou autoridade civil); 5. suas bênçãos serão compartilhadas com os que o recebessem (o que significaria abertura para a proximidade de Deus); 6. os que degradassem e amaldiçoassem Abraão, os insensíveis para com Deus e Suas promessas, trariam sobre eles a própria ira de Deus; 7. influência universal. Mas as provas são pesadíssimas. Foi-lhe prometida numerosa descendência, mas não tinha filhos. Ele e Sara já são de idades avançadas, e ela, ainda mais, estéril. Abraão toma a providência de adotar um servo: Eliezer (Gn 15.3) Não era a solução de Deus (cf. Gn 15.4), e, mais ainda, Deus não permite que tracemos Seu programa! Sara toma a sua providência: entrega ao marido uma serva egípcia (Agar). Isso aconteceu onze anos depois do "projeto Eliezer", e o objetivo é que a criança nascida da união fosse sua. Nasceu Ismael desse "arranjo" de Sara ("projeto Agar"). Não era, porém, repetimos, a solução de Deus (Gn 18.10), porque, mais uma vez afirmamos, Ele não permite que tracemos Seu programa! Passam-se vinte anos antes que Isaque, o filho da promessa, nasça. A segunda prova foi a da fome em Canaã. Fome na terra prometida Sera que Deus havia se enganado Afinal, Abraão estava em paz com os seus, materialmente bem, mas a fome foi um teste de fé que lhe veio após um tempo de comunhão. Outra prova ocorreu no Egito. Foi uma questão de fraqueza moral. Abraão e culpado de egoísmo, engano e mentira; colocou a esposa em situação difícil. Sua proposta, aliás, foi: "Quando ele estava prestes a entrar no Egito, disse a Sara, sua mulher: Ora, bem sei que es mulher formosa a vista; e acontecera que,quando os egípcios te virem, dirão Esta é mulher dele. E me matarão a mim, mas a ti te guardarão em vida. Dize, peço-te, que és minha irmã, para que me va bem por tua causa, e que viva a minha alma em atenção a ti."(Gn 12.11-13). Usou de meia verdade (v. 13; cf. 20.12). verbalmente verdadeiro, mas falso na realidade. Abraão não teve consideração por Sara. Alguém poderia perguntar porque a Bíblia registrou essa história tão triste e escabrosa. Lembramos que a Bíblia não esconde os erros dos seus heróis porque chama o pecado de pecado, o mal de mal, a virtude de virtude, e a bênção de bênção. Daí um Noé e um Loó bêbados , um Jacó enganador, um Moisés medroso, um Davi adúltero e um Pedro mentiroso. E, finalmente, a grande prova: Moriá.
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    80 MORIÁ (Gn22) Depois dessa longuíssima espera, nasce Isaque, o filho da promessa. Está agora rapazinho com cerca de doze ou treze anos. E quando Abraão recebe a segunda ordem: a primeira foi a de deixar Ur dos Caldeus, Ur dos seus parentes, para o passado. A segunda é a de se desfazer de seu futuro: "Prosseguiu Deus: Toma agora teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas; vai a terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre um dos montes que hei de mostrar" (Gn 22.2). Abraão está fadado a ser o homem do presente. Só do presente, sem passado e sem futuro. Seu futuro tão aguardado vai ser sacrificado. Dá para imaginar o sentimento de alegria que sentiu o garoto quando o pai o chamou para a viagem de três dias à terra de Moriá: a animação do preparo das bagagens, a partida, a chegada ao pé da montanha no terceiro dia. Isaque vê que tudo de que se necessita está pronto: a madeira, as correias de couro para amarrar a vítima, a faca, o fogo, o incenso. Mas falta o cordeiro: "Pai, não esqueceu de alguma coisa?" E o sentimento de Abraão, a sua introspecção enquanto caminhavam aqueles 120 km. Três dias de marcha sem uma palavra. Era tempo bastante para voltar para casa se Abraão quisesse mudar de idéia. Três longos dias e três frias noites! Finalmente, aí está Moriá, o monte da suprema provação, da prova que a linguagem humana é quase incapaz de analisar. Os servos e o animal ficam no sopé do monte. Abraão e Isaque o sobem. Como em Ur não discutira o Patriarca a ordem de sair, também aqui não o faz. Cabe nesse ponto lembrar que ainda existia entre os pagãos o costume de imolar os primogênitos quando se construía uma casa. Era o chamado "sacrifício do alicerce". No alto de Gezer, centro do paganismo foram descobertas urnas com esqueletos de criancinhas, de bebês. Em Megido, encontrou-se o esqueleto de uma mocinha de cerca de quinze anos. Abraão não entendera a ordem divina, mas obedeceu. É o que se requer: obediência Diz a Escritura que "As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, mas as reveladas nos pertencem a n ós e a nossos filhos para sempre, apra que observemos todas as palavras desta lei" (Dt 29.29). E, ainda: "Eis que o obedecer e melhor do que o sacrificar, e o tender, do que a gordura de carneiros"(1 Sm 15.22b; cf. Jr 42.5,6; Os 6.6). O altar vai sendo construído. Abraão olha o altar, olha o filho, olha a distância. Isaque pergunta, " Meu pai, e o cordeiro?" Abraão se lembra da ordem que veio num crescendo para não deixar duvidas: "Toma teu filho" > "(toma) o teu único filho" >toma o teu filho ( a quem amas) > "toma Isaque" . E devagar o altar vai sendo levantado. Pedra sobre pedra, lenha, sobre lenha. "E o cordeiro, meu pai" "Isaque, meu filho a quem amo, o cordeiro é... você... Mas o Senhor vai providenciar as coisas, Ele proverá. Ele dirá (o que fazer). Pois tanto confiava Abraão que disse aos servos, "depois de adorarmos, voltaremos a vos" (Gn 22.5b). E at é, a certeza, a confiança, a segurança a esperança (Hb 11.19). E o Senhor o fez. No momento em que a faca ia imolar a vitima, o garoto Isaque, o Senhor o fez porque Ele é Javé-jire, o "Senhor que providencia". E o cordeiro foi colocado ao dispor de Abra ão, razão porque o monte se chama Moriá: lugar da providência, de visão, da provisão. Daí porque cantamos,
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    81 "Sei queDeus o meu futuro Tem na sua mão; Seus desvelos compassivos Incessantes são. Inda que eu mais tarde encontre Provações e dor Por detrás das negras nuvens Brilha o seu amor". (Hino n 332 CC) Sim. Moriá é o monte da (nova) visão de Deus, o monte da revelação. Abraão precisava aprender ou refinar algo: sua fé. Existe entre os teólogos judeus a idéia que no Monte Moriá, Caim e Abel ofereceram os primeiros sacrifícios, e que Noé ofereceu a Deus um sacrifício de gratidão. Os crentes da Igreja do Novo Testamento comparavam o Moriá ao Calvário: dois montes, em ambos um sacrifício. Como Isaque carregou a lenha, Jesus levou a cruz. Nenhum dos dois reclamou, e nisto está a diferença: em Moriá, o cordeiro estava providenciado; no Calvário, Jesus foi " o cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo" (Jo 1.29). No terceiro dia, no entanto, ambos foram recobrados: Isaque foi solto no altar, Jesus ressuscitou dentre os mortos. O Pr. David Gomes relata que num dos retiros de senhoras onde falava, uma disse: "Pastor, sou crente há muitos anos, mas somente agora tive uma verdadeira visão de Deus". Não; não, chame isso de "Segunda Bênção" ou batismo no Espírito Santo "posterior" à sua conversão. Por outro lado, não faça de coisas pretensamente assombrosas meio de revelação de Deus. "Outro" deve estar querendo se revelar! Há lições preciosas a extrair da história de Abraão, "o amigo de Deus". A primeira é que temos de corrigir a teologia popular do que significa ser eleito de Deus. Não é viver do que significa ser eleito de Deus. Não é viver numa redoma de cristal; não é não ser atingido pela dureza e reveses da vida. Senão como explicaríamos Jeremias 1.5 e 20.2: "Antes que eu te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre te santifiquei; às nações te dei por profeta", e "Então feriu Pasur ao profeta Jeremias, e o meteu no cepo que está na porta superior de Benjamin, na casa do Senhor". Gálatas 1.15 e 2 Co 11.23-27, acrescentam, "Mas, quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou e me chamou pela sua graça"; "São ministros de Cristo? (falo como fora de mim) eu ainda mais; em trabalhos, muito mais; em pris ões, muito mais; em açoites, sem medida; em perigo de morte, muitas vezes; dos judeus, cinco vezes recebi quarenta açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo; em viagens muitas vezes; em perigos de rios, em perigos
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    de salteadores, emperigos dos da minha raça, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre os falsos irmãos; em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas vezes, em fome e sede, em jejuns muitas vezes, em frio e nudez". 82 Na verdade, ser chamado por Deus não coloca o crente em Jesus Cristo em posição privilegiada. Pelo contrário, expõe o cristão a grandes provações, dificuldades e sacrifícios (como Estevão, ou Pedro, ou Paulo). Outra lição da vida de Abraão é que os bens mais queridos da vida podem, algumas vezes, se constituir em tentações sutis de falta de fé. Abraão amava Isaque, mas amava a Deus. O seu conflito é o de escolher entre um e outro. Isso nos lembra Jesus e Sua Palavra: " Quem ama o pai ou a mãe do que a mim, não e digno de mim. E quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não e digno de mim" (Mt 10.37). A terceira das lições é que as mais ricas bênçãos são reservadas aos que estão totalmente e ser reservas à disposição do Senhor. Ele não prova os maus, prova os justos porque os quer "justos e perfeitos" (Gn 18,23; 17,1; 6,9). Essa é a explicação porque em virtude de sua fé) Abraão foi chamado "o amigo de Deus" (2 Cr 20.7; Is 41.8; Tg 2.23). Mais uma lição: Abraão foi um grande construtor de altares. Há pessoas que são reconhecidas pelas maldades e impiedades que praticaram; há quem seja conhecido pelos bens. Abraão o foi pelos altares. É o que na linguagem religiosa se chama "o temor do Senhor", devoção suprema, dedicação exclusiva a Deus. Era homem de piedade. Construiu um altar em Siquém (Gn 22.9). Numa terra pagã há quem invoque o Nome do Senhor, um altar foi construído. A propósito, o altar está armado em sua casa? Diz a Escritura em Gênesis 12.8 que "...armou a sua tenda... (e) edificou um altar ao Senhor". Como vai a vida religiosa de sua casa? O evangelho no lar? O exemplo é o de Abraão: trabalhador, obediente, piedoso, homem de fé. Por causa dessa fé, Abraão e chamado "pai dos crentes" (cf. Rm 4.8), num exemplo correto de fé que justifica (Gn 12.2; Hb 11.11,12). É viver, então, por essa obediência que nasce da segurança, confiança e esperança! AS CONSEQÜÊNCIAS DO PECADO Professor Diego Roberto A Queda dos nossos primeiros pais Introdução: A queda de nossos primeiros pais, trouxe conseqüências desastrosas não apenas para eles, mas também para toda a humanidade. Entender o que aconteceu com Adão e Eva após o primeiro pecado é chave para compreendermos a situação em que o homem se encontra hoje. Isto porque, Adão não agiu como uma pessoa particular, mas como representante de toda a humanidade. I - CONSEQÜÊNCIAS PARA ADÃO E EVA: Veja o que nos diz a Confissão de Fé de Westminster :
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    83 "Por estepecado eles decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus, e assim se tornaram mortos em pecado e inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da alma" Capítulo VI, seção 2 "Por este pecado", diz a Confissão de Fé de Westminster: 1) Decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus (imagem desfigurada) 2) Tornaram-se mortos em pecado (escravos do pecado) 3) Inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da alma (depravação total) Ao estudar o texto de Gênesis 3:7-24, vemos as seguintes conseqüências para nossos primeiros pais: GÊNESIS 3:7-24 1-) Após o pecado foram dominados por um sentimento de vergonha. V.7 Antes tinham consciência da nudez, mas não tinham vergonha. (Gn 2:25) "Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais". (Gn 3:7) Antes tinham consciência da nudez, mas não tinham vergonha. Veja o texto abaixo: "Ora um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonharam". (Gn 2:25) O resultado de terem comido o fruto proibido, não foi a aquisição da sabedoria sobrenatural, como satanás havia dito (v. 5), ao contrário, agora eles descobriram que foram reduzidos a um estado de miséria. 2-) Após o pecado sentiram o peso de uma consciência culpada (Gn 3:7) Agora eles reconheciam que haviam pecado contra Deus, e resolveram fazer vestes de folha de figueira para se cobrirem. É interessante observar que em Gn 3:7 afirma que os "olhos de ambos foram abertos". Obviamente que não se trata de olhos físicos porque estes já estavam bem abertos antes, mas trata-se de olhos espirituais, os olhos do entendimento, os olhos da consciência, que agora passam a ver e se acusarem. Eles agora "percebem" que estão nús. Perderam o estado da inocência. Percebem não apenas a nudez física, mas a nudez da alma que é muito pior, pois esta impede o homem de perceber Deus.
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    A nudez deAdão e Eva é a perda da justiça original da imagem de Deus. Todos os seres humanos nascem agora ( após a Queda ) nesta condição e as Escrituras dizem que é necessário que recebamos as "vestes brancas" - Ap 3:18; "vestes de salvação" - Is 61:10, que é a justiça original que Cristo nos traz de volta. 84 Eles agora estavam percebendo que a sua condição física espelhava a sua condição espiritual. 3-) Após o pecado, tiveram medo e fugiram - v.8 "E ouviram a voz do Senhor Deus que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da prsença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim. E chamou o Senhor Deus a Adão e disse-lhe: Onde estás? E ele disse: Ouvi a Tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me" Gn 3: 8-10 Adão e Eva se escondem ao chamado de Deus. Consciência culpada sempre produz medo e fuga. Mas que tolice! Pensaram eles que poderiam se esconder de Deus? Pecaram e agora têm medo da sentença condenatória que Deus pode proferir contra eles. O pecado os separou de Deus, rompeu a comunhão com Deus. E é sempre assim. A menos que a obra de Cristo seja realizada em nosso favor, estaremos frente a frente com o juízo de Deus - Hb 2:3. 4-) Após o pecado procuraram uma solução inútil para seu pecado. Gn 3:7. Eles tentam salvar as aparências, ao invés de procurar o perdão de Deus. Fabricando aquelas cintas de folha de figueira, eles estavam tão somente fazendo uma tentativa de acalmar a própria consciência. Hoje em dia também é assim. Os descendentes de Adão têm medo de serem descobertos em suas transgressões. Mas seu objetivo principal não é buscar o perdão, mas sim, aquietar a consciência e fazem isto assumindo o papel de religiosos, parecendo aos outros que est ão bem vestidos. Mas não obstante nossas roupas religiosas, o Espírito Santo nos faz ver a nossa nudez espiritual. Não adianta dar desculpas esfarrapadas. Precisamos nos humilhar diante daquele que tudo v ê. 5-) Após o pecado, há uma fuga da responsabilidade - Gn 3:10 "E ele disse: Ouvi a Tua voz soar no jardim, e temi, porque estava n u, e escondi-me" Gn 3:10 Adão tenta encobrir sua culpa, colocando a culpa em Eva (v 12), que por sua vez, culpou a serpente (v 13).
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    85 Eles nãoaceitaram a responsabilidade pelo erro. Ao contrário transferiram a responsabilidade para o outro. Não é assim também em nossos dias? 6 -) Após o pecado eles tentaram arranjar uma justificativa - Gn 3:12 "... a mulher que me deste" Adão chega a ser insolente. Ele não disse: "A mulher me deu do fruto e eu comi ...", mas disse: "A mulher que Tu me deste ...". Em outras palavras, Adão disse: "Se tu não me tivesses dado essa mulher, eu não teria caído". Hoje em dia, nós podemos estar fazendo o mesmo. Em nossos esforços de se justificar, acabamos por culpar a Deus dos pecados que cometemos - Pv 19:3. Exemplos: • A razão tentou eximir-se de culpa, culpando o povo Ex 32:22-24. • Saul fez o mesmo - I Sam 15:17-21. • Pilatos deu ordem para crucificar Jesus e depois atribuiu o crime aos judeus - Mt 27:24. 7-) Após o pecado, a mulher daria a luz em meio a dores ( Gn 3:16-19) Nesta sentença que Deus profere contra a mulher, vemos que a maldição foi mitigada. Isto porque, a gravidez era uma bênção visto que a mulher daria à luz e se multiplicaria sobre a terra e o descendente nasceria para pisar a cabeça da serpente. Mas a dor e o desconforto do parto são conseqüências da queda. 8-) Após o pecado, a Terra foi amaldiçoada. (Gn 3:17) A natureza sofre junto com a humanidade, compartilhando assim as conseqüências da queda. As Escrituras descrevem esta maldição em três maneiras: a) O sustento será obtido com fadiga v 17. Assim como a mulher terá seus filhos com dor, o homem haverá de comer o fruto da Terra por meio de trabalho penoso. Antes da queda, o trabalho de Adão no jardim era prazeroso e agradável, mas de agora em diante, seu trabalho, bem como o dos seus descendentes será seguido de cansaço e tribulação. b) A Terra produzirá cardos e abrolhos v 18. O cultivo da terra seria mais difícil do que antes. Cardos e abrolhos aqui significam: plantas indesejáveis, desastres naturais, enchentes, insetos, secas e doenças. A natureza foi subvertida com o pecado do homem. (Rm 8:20-21).
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    86 c) Nosuor do rosto comerás v 19. O trabalho árduo se tornaria a porção do homem. A vida não seria fácil. 9-) Após o pecado, a morte alcança o homem - v 19: A palavra "morte" ocorre na Bíblia, com 3 sentidos diferentes, embora o conceito de separação seja comum aos três: a) Morte Física: Ecl 12:7 b) Morte Espiritual: Rm 6:23; 5:12 c) Morte Eterna: Mt 25:46 10-) Após o pecado, foram expulsos da presença de Deus - Gn 3:22-24. Estar fora do jardim era equivalente a estar fora da presença de Deus. Era a ira de Deus se revelando aos nossos primeiros pais pela desobediência deles. (Judas 6) II - AS CONSEQÜÊNCIAS PARA A RAÇA HUMANA: No tópico anterior vimos que a queda trouxe conseqüências desastrosas para os nossos primeiros pais. Mas estas conseqüências não ficaram restritas apenas ao Édem. Toda a raça humana sofre as conseqüências do pecado dos nossos primeiros pais. Assim se expressa a nossa Confissão de Fé: "Sendo eles ( Adão e Eva ) o tronco de toda a humanidade, o delito dos seus pecados foi imputado a seus filhos; e a mesma morte em pecado, bem como a sua natureza corrompida, foram transmitidas a toda a sua posteridade, que deles procede por geração ordinária" Capítulo VI, 3 (Sl 51:5; 58:3-5; Rm 5:12, 15:19) Em vista da queda, o pecado tornou-se universal; com excessão do Senhor Jesus, nenhuma pessoa que tenha vivido sobre a terra esteve isenta de pecado. Esta mancha que atinge a todos os homens recebe o nome na Teologia de PECADO ORIGINAL. Vamos estudá-lo agora. O PECADO ORIGINAL O que é o pecado original? Usamos esta expressão por três razões: 1ª) Porque o pecado tem sua origem na época da origem da raça humana. Em outras palavras, é pecado original porque ele, se deriva do tronco original da raça.
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    87 2ª) Porqueé a fonte de todos os pecados atuais que mancham a vida do homem. 3ª) Porque está presente na vida de cada indivíduo desde o momento do seu nascimento. O pecado original pode ser dividido em dois elementos: Culpa original e Corrupção original. 1-) Culpa original: Culpa real e pena real. A culpa é o estado no qual se merece a condenação ou de ser passível de punição pela violação de uma lei ou de uma exigência moral. Podemos falar de culpa em dois sentidos: • Culpa Potencial ou Culpa de Réu ( Inerente ao ser humano ) Esta culpa é inseparável do pecado, jamais se encontra em quem não é pecador e é permanente, de modo que, que uma vez estabelecida não é removida nem mesmo com o perdão. Ela faz parte da essência do pecado. Os méritos de Jesus Cristo não tiram esta culpa do pecador porque esta lhe é inerente. O fato de Cristo Ter morrido pelo pecador não o torna inocente, mas apenas livre da condenação, livre da penalidade da lei, justificado portanto. • Culpa (de fato) Real ou Pena do Réu: Esta culpa não é inerente ao homem, mas é o estatuto penal do legislador, que fixa a penalidade da culpa. Pode ser removida pela satisfação pessoal ou vicária das justas exigências da lei. É neste sentido que Jesus levou nossa culpa, isto é, pagando a penalidade da lei. Jesus não levou nossa culpa potencial, mas sim nossa culpa real. Em outras palavras, Jesus n ão levou nossa culpa, pagou nossa pena. 2-) Corrupção original: O pecado inclui corrupção. Por corrupção entende-se a poluição ou contaminação inerente à qual todo pecador está sujeito. É uma realidade na vida de todos os homens. É o estado pecaminoso, do qual surgem atos pecaminosos. Enquanto a culpa tem a ver com a nossa posição perante a lei, a corrupção tem a ver com a nossa condição perante a lei. Como uma implicação necessária de nosso comprometimento com a culpa de Adão, todos os seres humanos nascem em um estado de corrupção. Esta corrupção que se propaga e afeta todas as partes da natureza humana recebe o nome de Depravação Total e que resulta numa incapacidade total.
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    88 Vejamos agoraem nosso próximo estudo, os dois aspectos da Corrupção original: Depravação Total ou Generalizada e a Incapacidade Espiritual. ASPECTOS MESSIÂNICOS DE JOSÉ Professor Diego Roberto Comentário bíblico de Gênesis 50.18-21 I. TEMPO HISTÓRICO DO PERSONAGEM O período mais provável para José é o tempo da dinastia dos faraós hicsos, cerca da 1720-1570 a.C. Estes "soberanos de terras estrangeiras" (é o que significa em egípcio o nome hicsos), eram de origem semita. Obtiveram proeminência no Baixo Egito e depois, talvez por um repentino golpe de estado, conquistaram o trono egípcio, formando as dinastias XV e XVI dos hicsos que durou mais ou menos 150 anos, quando foram expulsos pelos reis tebanos. Esta é a razão porque nos tempos de Moisés "se levantou novo rei sobre o Egito, que não conhecera a José" (Ex 1.8). Os faraós de origem semita assumiram a posição completa e o estilo da realeza tradicional egípcia. A princípio os hicsos empregaram na administração do governo oficiais egípcios do regime antigo. Porém, conforme o tempo foi passando, oficiais semitas naturalizados egípcios foram nomeados para altos postos administrativos. É neste contexto que José se encaixa perfeitamente. Tal como tantos outros, José foi um escravo semita a serviço de uma família egípcia importante: a família de Potifar, comandante da guarda. A corte real mostrava-se minuciosamente egípcia em questões de etiqueta (cf Gn 41.14; 43.32) e, no entanto, o semita José foi imediatamente nomeado para um alto ofício. A mistura peculiar e imediata de elementos egípcios e semitas, espalhadas na narrativa de José, adaptam-se perfeitamente ao período dos hicsos. Além do mais, somente entre os conquistadores hicsos um asiático teria possibilidade de se elevar ao mais alto posto do Estado (cf Gn 46.34). II. ESTRUTURA DA PASSAGEM José Irmãos Escravos Filhos Não Temais Deus V18a V18b V18c V18d V18e V18f V19a V19b V19c V19d V19e V20a
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    89 V20b V20c V21a V21b V21c V21d V21e V21f 8xs 6xs 1xs 1xs 2xs 2xs III. ESTRUTURA DO CONTEXTO 1. Contexto Remoto: A Infância de José O que está acontecendo em Gênesis 50.18-21? Por que os irmãos de José se aproximaram dele com tanto medo, implorando por suas vidas e suplicando que fossem seus escravos? A chave para uma compreensão adequada do ocorrido em Gênesis 50.18-21 está, a priori, no relato da infância de José em Gênesis 37. O amor de Jacó pelo filho de sua velhice despertou inveja e aborrecimento nos demais, ao ponto de não poderem mais "falar com ele (José) pacificamente" (v4). O relacionamento entre os irmãos ficou mais complicado ainda quando Jacó resolveu demonstrar sua predileção por José ao fazer-lhe "uma túnica talar de mangas compridas".1 A túnica do caçula de Jacó era ostentosa2 ("de várias cores", cf VRC) e provocante. Os sonhos reais de José estavam associados à roupa que ganhara (Gn 37.3,7,9); portanto, a destruição da túnica pelos seus irmãos representava o fim do sonhador e de sua realeza (Gn 37.31-33). O que Jacó pretendia exatamente com este tipo de presente é difícil saber. Não podia dar os plenos direitos de primogenitura a José, pois esses Jacó concederia a Judá (cf Gn 49.8-12). É possível que alguma explicação possa ser encontrada no fato de que José era o primeiro filho de sua esposa favorita, Raquel. No desfecho final da história de José sabemos que, pela vontade divina, Jacó antecipara, embora inconscientemente, a posição elevada que seu filho teria futuramente no Egito. Mais tarde, agora conscientemente, reconhecendo a realeza de José o proclamaria "príncipe" entre seus irmãos (Gn 49.26). A ordem no acontecimento dos fatos é progressiva. Jacó amava mais a José. Jacó demonstrou seu amor pelo filho predileto dando-lhe uma túnica real (Gn 37.3). Em seguida José tem dois sonhos reais (vv5-9). Parece que tudo, naquela ocasião, contribuía para o aumento da inveja de seus irmãos (v11a), fato ignorado por José. Jacó desconfiou que sonhos daquela natureza, que engrandeciam sobremaneira o sonhador, não eram comuns. "Guardava este negócio no seu coração" (v11b). É possível que a questão da eleição divina, tão marcante na vida de Jacó (Gn 25.23,30-33;27), passasse naquele instante por sua mente. Diferente de seus filhos, Jacó aprendera a admitir a mão de Deus nos fatos e em Seu direito de escolha entre os seres humanos. É impressionante como os sonhos passam a ter importância essencial na vida de José. Por causa de um sonho José foi lançado em uma cova (V24) e vendido (v28). Por causa de um sonho foi libertado do cárcere (Gn 41.14) e exaltado (Gn 41.42,43). No acontecimento de Gênesis 50.18-21, os irmãos de José sentem o temor conseqüente do crime que
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    90 cometeram, vendendoJosé por vinte siclos de prata aos ismaelitas (Gn 37.28), isto é, pelo preço de um escravo no período patriarcal. E o que passava pela cabeça de seus irmãos era: o único meio de consertarem o mal praticado seria fazer o que fizeram com ele, a saber, tornarem-se escravos. E escravos de José! 2. Contexto Próximo: A Morte de Jacó Se por um lado os irmãos de José já estavam amedrontados pelo mal que haviam feito a ele, de outro lado tiveram a situação piorada (no pensamento deles) com a morte do patriarca Jacó. Foi sem dúvida um fator preocupante. Ao verem Jacó expirar (Gn 49.33) e José se atirar ao pescoço dele, chorando e o beijando (Gn 50.1), puderam ver que o amor do irmão pelo pai era tão forte quanto antes e que a separação provocada entre os dois por meio de traição e mentira resultaria numa vingança sem precedentes. Com a morte de Jacó os irmãos de José se sentiram desamparados, pois agora estavam sem aquele que poderia livrá-los de qualquer mal intento de José. "Vendo então os irmãos de José que seu pai já estava morto, disseram: Porventura nos aborrecerá José, e nos pagará certamente todo o mal que lhe fizemos" (Gn 50.15). Podemos imaginar que o retorno de Canaã para o Egito não deve ter sido nada fácil. Com exceção de Benjamim, acredito que o choro dos irmãos de José não era mais por Jacó (Gn 50.10), mas por eles mesmos. E agora, com o pai enterrado num lugar distante, parecia ser mais f ácil resolver uma questão que seus irmãos achavam que ainda estava pendente. Por isso enviaram um representante a fim de amenizar a situação (v16). "Teu pai mandou, antes de sua morte" (v16). Por que não disseram "nosso pai"? É porque a esta altura não se achavam dignos de serem chamados filhos de Jacó e muito menos irmãos de José. Por outro lado, acreditamos que a ordem de perdão dada por Jacó não foi autêntica. Como o engano era uma agravante na família de Jacó, é provável que aqui (v16) não tenha sido diferente. O medo os levou a mentir. Mas não podemos negar a autenticidade do sentimento deles quando o mensageiro diz: "agora pois rogamos-te que perdoes a transgressão dos servos do Deus de teu pai" (v17, VRC). A ocasião era oportuna para apelarem à memória de Jacó. Contudo, a partícula hebraica NA' expressa ênfase no apelo para perdão do pecado, isto é, "rogamos-te do mais profundo coração". E isto é ainda comprovado pela unânime deliberação de se tornarem escravos de José (v18). Eles estavam verdadeiramente arrependidos, embora não houvessem compreendido ainda a dimensão do perdão de José. Não dá para saber com precisão o porque do choro de José, após ouvir o pedido de seus irmãos (v17). Seria por que a narração comovida sobre o medo e a desconfiança de seus irmãos o emocionara? Poderia ser. Seria a menção do nome de Jacó, trazendo à sua mente a lembrança do pai? Pode ser também. Porém, a resposta mais provável, na minha opinião, é que José não chorou porque seus irmãos estavam arrependidos do que fizeram com ele, mas apesar de não se lembrarem de sua prova de amor em outra ocasião (Gn 45.5,8,9), ainda assim eram objetos de sua compaixão e perdão. IV. TEOLOGIA ASPECTOS MESSIÂNICOS DE JOSÉ Nas igrejas evangélicas prevalece o consenso geral de que José foi um tipo de Cristo. É na pessoa de José, no Egito, que nós encontramos o cumprimento da promessa de Deus a Abraão que, por sua vez, alcançaria seu clímax em Cristo: "Em ti serão benditas todas as famílias da terra" (Gn 12.3). Acreditamos que pelo menos dois aspectos messiânicos estão claros em Gênesis 50.18-21: 1) O aspecto real e 2) O aspecto redentivo. Encontramos estes dois aspectos (ora mais, ora menos
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    91 enfatizados) emGênesis 37, 39-50. Mas por questão de propósito e objetividade limitaremos o assunto a Gênesis 50.18-21. 1. O aspecto real da pessoa de José (vv18,19) No versículo 18 temos o reconhecimento da realeza de José por parte de seus irmãos. Como tipo de Cristo, José agora prefigurava não mais o estado de humilhação, mas de exaltação do Messias. Sem dúvida alguma, aqui em Gn 50.18 os súditos (os irmãos de José) tiveram uma compreensão mais elevada de "servidão" do que a de Gênesis 44.9,33. Isto ficou claro pela prontidão imediata: "Eis-nos aqui por teus escravos" (v18). A maioria das versões em português traduzem o substantivo abadim por "servos". Contudo, não é a melhor tradução. A idéia de escravidão do verso 18 tem a mesma força de Gn 44.9: "Aquele dos teus servos, com quem for achado (um copo de prata), morra; e n ós ainda seremos escravos do meu senhor" (itálico meu). A única diferença nesses dois textos (Gn 44.9 e 50.18) é que no primeiro trata-se de uma hipótese. Os irmãos de José estavam certos que não furtaram nada dele (Gn 44.8). No segundo texto (Gn 50.18) trata-se de uma realidade. Eles se ofereceram como escravos do rei José e não se acharam dignos de serem comprados (ou vendidos) nem mesmo por vinte siclos de prata. Agora seus irmãos reconheciam a verdadeira realeza de José. Outrora, antes que José se desse a conhecer a eles, não o reverenciaram dentro de uma perspectiva teológica (Gn 42.6) como José via os acontecimentos (Gn 42.9). Mas agora lembravam-se dos sonhos de José (Gn 37.7,9) e que a resposta à pergunta: "Reinarás, com efeito, sobre nós?" (Gn 37.8) era afirmativa. Lembraram-se também da túnica real e principalmente do mal que lhe fizeram quando procuraram tirar-lhe a realeza com a destruição da túnica (Gn 37.31)3 e vendendo-o como escravo (Gn 37.28). Apesar de sua realeza, José reconhece que é um mortal e os adverte: "Não temais (a mim) porque porventura estou eu em lugar de Deus?" (v19). Quer dizer, "porventura eu tenho direit o de julgá-los?" 4. Lembremos que esta é uma característica tipicamente messiânica (Jo 8.50; Fp 2.6,7; I Pe 2.23). José deixa com Deus todo acerto do erro dos irmãos, antecipando, desse modo, o ensino do Novo Testamento (Rm 12.19; I Ts 5.15; I Pe 4.19). Da mesma maneira que Jesus Cristo, José estava plenamente ciente que era submisso. Não a Faraó, mas a Deus. 2. O aspecto redentivo da pessoa de José (vv20,21) Este segundo aspecto está subordinado ao primeiro. Nos versículos 20 e 21 de Gênesis 50 encontramos a mais bela declaração do entendimento que José tinha da posição em que Deus o colocara. José via além do alcance. E porque José via o propósito divino em meio à ruindade de seus irmãos, ele os perdoou. Não os isentou da culpa ("Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim..." - VRA), porém, vê o bem de Deus mais digno de crédito do que a maldade deles. No verso 20 José reafirma o que já havia prometido a eles (Gn 45.5,7,8). O aspecto redentivo de José tipificou a missão de Jesus no mundo. Conservar "muita gente em vida" (v20) também foi o objetivo da obra redentora de Cristo (cf Mt 1.21; 26.28). Não sabemos exatamente quando José tomou ciência do propósito divino em usá-lo como redentor. É possível que a ascensão como primeiro ministro ou grão-vizir de Faraó fosse o ponto de partida, pois o nome egípcio Zafnate-Panéa significa "o salvador do mundo" (cf Jo 4.42). "E todas as terras vinham ao Egito, para comprar de José; porquanto a fome prevaleceu em todas as terras" (Gn 41.57 - VRC). Em certo sentido José foi "o pão da vida" do mundo de então. No verso 21 temos o que podemos chamar de "uma atitude verdadeiramente crist ã". José não somente paga o mal com o perdão, mas com uma demonstração prática de afeto. Se por um lado seus irmãos não deveriam temê-lo porque todos, inclusive José, estavam sob o senhorio de Deus (v19), por outro lado não deveriam temer porque todo mundo estava sob a verdadeira proteção e cuidado de Zafnate-Panéa, o salvador do mundo. E José promete: "Eu mesmo vos sustentarei de verdade a vós e
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    92 a vossosfilhos", enfatiza o texto hebraico.5 José repete e confirma a eles neste versículo (21) a promessa que fez originalmente quando os convidou a virem ao Egito (Gn 45.11,18,19). A palavra "sustentarei" (v21) não significa que a fome ainda prevalecia. Quando Jacó chegou no Egito faltavam cinco anos de fome (Gn 45.11). O patriarca estava com 130 anos de idade (Gn 47.9) e morreu com 147 anos (Gn 47.28); portanto, a fome não mais existia há 12 anos. E aqui (v21) temos um detalhe importante do aspecto redentivo da pessoa de José que aponta diretamente para Jesus: Cristo não só nos salvou, mas nos mantém e nos sustenta dia após dia com a Sua providência. Ele está conosco sempre (Mt 28.2) e intercede por nós (Hb 7.25). A expressão: "Eu mesmo vos sustentarei de verdade a vós e a vossos filhos", sugere que como estrangeiros no Egito, os filhos de Israel poderiam dispor de uma pessoa influente como Jos é para guardar seus interesses e representá-los diante de Faraó. Jesus Cristo, sendo um dos nossos, por assim dizer, também é o nosso excelentíssimo representante diante de Deus (I Tm 2.5; I Jo 2.1). As palavras "não temais" é a expressão do refrigério que acalma os corações atribulados. Jesus a usou várias vezes para tranqüilizar seus discípulos e outras pessoas (Veja, por exemplo, Mt 10.28; 14.27; Mc 5.36; Lc 12.32). "Assim os consolou, e falou segundo o coração deles" (v21). O Dr. Gerard Van Groningen, em seu livro Messianic Revelation in the Old Testament pp. 166,7, resumiu muito bem os dois aspectos messiânicos da pessoa de José (realeza e redenção). Diz ele: José foi um verdadeiro tipo messiânico. Ele foi considerado real, recebeu uma posição real e cumpriu uma tarefa real. Como uma pessoa régia, ele livrou, protegeu e enriqueceu a semente de Abraão e Isaque. Ele funcionou, portanto, como um redentor e provedor físico, social, moral e espiritual. (...). Deus preparou José, e por meio de José o soberano Senhor realizou atos salvíficos dentro do contexto da história do mundo. E ao preparar José e realizar atos de salvação por meio de José, o Senhor falou profeticamente enquanto preparava a cena para a salvação mais plena, mais completa que Jesus Cristo traria. Essa salvação trazida pelo Cristo real foi também o que em última instância validou a obra redentiva de José, cumprida por uma pessoa real, tomada de entre a semente para funcionar em favor da semente. CONCLUSÃO Chegamos ao término desse estudo e esperamos ter alcançado o objetivo de mostrar que a passagem bíblica de Gênesis 50.18-21 encerra uma das mais profundas lições tipicamente messiânicas do Antigo Testamento. Os aspectos messiânicos de realeza e redenção de José prefiguram Jesus Cristo que, como Rei dos reis e Senhor dos senhores (I Tm 6.15) é o Salvador do mundo (Jo 4.42). A realeza é a base da redenção de povos e reinos. E José, como pessoa real, salvou a povos e reinos inteiros do colapso da fome e da miséria. José foi o "pão da vida" do mundo antigo; Jesus Cristo é o nosso "pão da vida" (Jo 6.48) e de todo aquele que nEle crê. José os alimentou materialmente; Jesus nos alimenta espiritualmente e também nos sustenta com o pão nosso de cada dia. José, cujo nome significa aquele que faz aumentar foi, na verdade, o instrumento de Deus para preservar e aumentar o Seu povo. Jesus, cujo nome significa Salvador, "salvará o seu povo dos pecados deles" (Mt 1.21). De tudo que podemos aprender de José o que fica são suas lições práticas para a vida cristã. Considerando que José viveu cerca de 1600 anos antes de Cristo, ele antecipou para nós o verdadeiro sentido do adjetivo que qualifica alguém como cristão ou semelhante a Cristo. José, em uma atitude verdadeiramente cristã, soube deixar com Deus a ofensa de seus irmãos (v19) porque aprendeu a ver o propósito divino na maldade dos mesmos (v20); e além de tudo isto, perdoou não apenas com
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    93 palavras, masem demonstração prática de perdão (v21). Em outras palavras, José praticara o que Cristo ensinaria futuramente (Mt 18.35): perdoou "do coração (VRC) ou "do íntimo" (VRA) a seus irmãos. Eis aí um típico cristão no Antigo Testamento, com o qual o cristão do novo milênio deveria aprender e a ele imitar. NOTAS 1. As túnicas comuns, nos tempos bíblicos, eram sem mangas e desciam até os joelhos. A de José descia até o calcanhar e cobria as mãos. 2. Um traje semelhante ao que José ganhou de seu pai é denominado vestimenta real em 2 Sm 13.18. 3. Certamente a túnica foi despedaçada (cf Gn 37.33). 4. Para outras possíveis interpretações, veja J.F. Exell, The Pulpit Commentary, (Grand Rapids, Michigan, Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1980, Vol. I), p. 539. 5. Derek Kidner observa corretamente que "José promete algo mais pessoal do que filantropia" (Gênesis: Introdução e Comentário, São Paulo, Vida Nova/Mundo Cristão, 1988, p. 207). CREIO NO AMOR Professor Diego Roberto "Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus; e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Nisto está o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, nós também devemos amar-nos uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em n ós, e o seu amor é em nós aperfeiçoado. E dele temos este mandamento, que quem ama a Deus ame também a seu irmão." (1Jo 4.7,10-12,21) Aconteceu no tempo da Segunda Guerra Mundial quando, em um dos hospitais de guerra, uma missionária-enfermeira estava cuidando de um soldado ferido, e realizava um curativo numa ferida muito feia. Começou a assepsia, quando alguém que estava no leito ao lado disse: "Eu não faria isso nem por um milhão de dólares!" Respondeu a jovem: "Nem eu!..." Nessa simples expressão está toda a grandeza desses profissionais de saúde. Somente o amor motiva essa atividade. E, a respeito do amor, filósofos, pensadores, poetas, teólogos, muita gente tem se pronunciado. Alguém dizia, fazendo uma pergunta: "Que é o amor?" E a resposta por ele mesmo dada foi: "É silêncio - quando suas palavras podem ferir. É paciência - quando o outro é irritante. É ficar surdo - quando surge um escândalo. É sensibilidade - quando os outros estão sofrendo. É prontidão - quando o dever chama. É coragem - quando sobrevem a desventura."
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    94 Outra pessoasobre esse mesmo tema disse: "É natural amar aqueles que nos amam, mas é sobrenatural amar aqueles que nos odeiam". Por isso eu creio no amor! É, realmente, agir em nome do amor estender a todas as pessoas o que achamos ser natural com algumas. DIMENSÕES DO AMOR Amor, não é simplesmente essa palavra romântica que encontramos pichada nos muros da vida: FULANO AMA FULANA. O evangelho de Jesus Cristo apresenta, aliás, uma tríplice exigência do amor que o cristão precisa exercitar. Diz o evangelho que existe o amor ao irmão de fé: "Nisto são manifestos os filhos de Deus, e os filhos do Diabo: quem não pratica a justiça não é de Deus, nem o que não ama a seu irmão" (1Jo 3.10). Existe o amor do próximo, e sobre isso temos uma palavra expressa de Jesus Cristo: "Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças. E o segundo é este: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que esses" (Mc 12.30,31). Diria ainda, que há outra dimensão também mencionada por Jesus Cristo, e que vai muito além do que pede o nosso coração, e encontra-se nesta Palavra do Mestre: "Eu , porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem." (Mt 5.44). Então, agir dentro dessa perspectiva é fazê-lo motivado pelo Espírito Santo de Deus, é agir motivado pelo fruto do Espírito, e reconhecê-lo basicamente como sendo o amor (Gl 5.22,23). Outra contribuição anônima diz que: "O fruto do Espírito é amor. Alegria é amor em regozijo. Paz é amor em repouso. Paciência é amor em provação. Benignidade é amor em sociedade. Bondade é amor em ação. Fé é amor em perseverança. Mansidão é amor na escola. Domínio-próprio é amor em disciplina" Quando Jesus desejou ilustrar esse assunto, contou uma história. AMOR AO PRÓXIMO Está em Lucas 10.3-35 e é a história de um homem a quem se costuma chamar "Bom Samaritano", embora a Bíblia o chame apenas de "Samaritano". O fato é que nossa sociedade está tão acostumada com a injustiça, que, quando alguém faz o que todos deveriam fazer, é chamado de "bom". A primeira personagem da história é uma viajante (v.30). Esse viajante tinha um problema. Vamos pensar no seguinte: aqui está uma estrada, na qual ninguém andava sozinho; quando as pessoas caminhavam por estradas como essa da antiga Palestina, faziam-no em caravanas, pois era uma imprudência aventurar-se a andar sozinho. Jesus colocou na história um homem descuidado, que resolvera ir de um lugar para outro sozinho.
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    95 Ele foiatacado por salteadores: são as próximas personagens (v.30). Estes malfeitores o deixaram muito machucado e meio morto. Passa depois outra personagem: um sacerdote (v.31), que colocara os valores rituais e cerimoniais acima do amor. O viajante descuidado tinha sido atacado, mas o problema do sacerdote foi ver o homem ferido na estrada, e não ter se importado com ele, porque não cuidava de outros valores a não ser os cerimoniais. Não quis tocar no homem caído, e, aliás, nem se aproximou. Passou de longe porque havia uma norma no sacerdócio que declarava impuro o sacerdote que tocasse um morto, de modo que, durante uma semana, não podia render o turno. Ele ficou temeroso de perder a oportunidade de rodízio no templo (cf. Nm 19.11). Diz a parábola que havia outra personagem: um levita que até chegou perto do homem (v.32), mas tinha um lema: "Primeiro a minha segurança. Esse homem pode ser um malfeitor, e talvez esteja se fazendo de morto, e me atacar". E fora embora. E agora a outra personagem que se aproximou do ferido: o samaritano (v.33). Mas Jesus fez uma pergunta porque já sabia que todos esperavam que o samaritano fosse o vilão da história. Samaritanos não se davam bem com os judeus, e Jesus contou a história de um homem que era judeu, como também o sacerdote e o levita. O samaritano não era judeu, e havia essa inimizade entre as duas raças-irmãs. O que aconteceu é que, quando todos esperavam que o samaritano fosse o bandido da história, Jesus disse que pelo contrário era o homem que tinha boas coisas a serem ditas a seu respeito. O samaritano viu o problema do homem, passou azeite nas feridas e machucões do homem, colocou-o na sua montaria e seguiu com ele. Adiante, encontrou uma pousada, tendo dito ao estalajadeiro que tomasse conta dele, pois pagaria a despesa no retorno (v.35). Primeira coisa boa: era homem de bom coração; segunda, era homem de crédito. Outra coisa admirável: tinha uma notável capacidade de ajudar. Grande disposição em ser útil. QUEM É O NOSSO PRÓXIMO? Essa história nos fala a respeito de amor. E Jesus nos dá um ensino a esse respeito porque para o judeu, o próximo era o judeu. Aliás, no ensino de alguns rabinos era até proibido ajudar a uma gentia que estivesse dando à luz, porque isso significa ajudar a colocar no mundo mais um gentio! É triste, mas era a verdade, e, no entanto, Jesus Cristo mostrou que para nós o nosso próximo é o necessitado. Quem é o nosso próximo? Não é o que está junto de nós, nem, exatamente, o vizinho. É o necessitado, é aquele a quem você foi com tanto carinho e passou a mão pela cabeça, pois talvez aquela pessoa só precisasse do seu sorriso. Esse é o seu próximo! Então, Jesus fez isso mesmo. Aqui está outra situação em que a doença está implícita: Jesus chegou num lugar chamado tanque de Betesda (Jo 5.1-9). Ali, encontrou um homem necessitado. Havia uma tradição que dizia que em certos momentos um anjo vinha e mexia nas águas do tanque. Quem conseguisse entrar naquele instante saía curado. Estudiosos disseram que seriam águas vulcânicas, e em determinados momento, dava-se um movimento das águas, e gases e minerais eram agitados, favorecendo o processo de
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    96 tratamento. Jesuschegou e encontrou um homem que ali estava há trinta e oito anos querendo entrar. Ele era coxo, e todas as vezes quando queria se aproximar, outro pulava dentro do tanque. Jesus teve compaixão, e viu a esperança no coração daquele homem. Perguntou-lhe queria ser curado. Era só o que o homem queria, mas Jesus queria ouvir dos seus lábios. E o Mestre disse: "Pode ir embora, você ficou bom" (v.8). Quando o homem olhou, estava bom, perfeitamente curado. A í se aplicam muito bem as palavras de 1 João 3.18: "Filhinhos, não amemos de Palavra, nem de língua, mas por obras e em verdade". Para Jesus o próximo é aquele que sofre, o que tem necessidade. Outro ensino desta história é que para amar é preciso ser sensível! Sensibilidade para dar ajudas práticas, e não somente sentir pena; sensibilidade para ajudar os outros mesmos que a culpa seja deles. Portanto, não podemos confundir o próximo com o nosso amigo. Meu amigo é quem eu escolhi para dar a minha simpatia e amizade, meu próximo é aquele a quem não escolhi, mas foi a pessoa que Deus me deu para ser objeto do meu amor, é o necessitado! Por isso eu creio no amor! Em Marcos 12.29-31, Jesus combina a exigência do amor de Deus (Dt 6.4,5) com a exigência do amor ao próximo (Lv 19.18), esse ser que eu não escolhi mas o Criador colocou na vida vida. O crente em Jesus Cristo deve amar a Deus com a totalidade do seu ser (v. 30). Jesus disse isso mesmo: "Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento" (Mt 22.37). Quanto ao amor ao próximo, depende da atitude que a pessoa tem para consigo mesma. Se você não tiver um conceito correto de valor de alguém como ser humano, é impossível ter uma atitude correta em relação ao seu semelhante. Isso quer dizer que não há lugar para a arrogância, para o desprezo aos outros; não há lugar para preconceito, se você trabalha na área de saúde, por exemplo, não pode escolher o paciente que deseja atender. Não; não há lugar para preconceito porque são todas essas coisas basicamente expressões de insegurança e de auto-estima muito baixa. E o teste de que amamos a Deus é: "Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, não pode amar a Deus, a quem não viu" (1Jo 4.20). CREIO NO DIA DO SENHOR Professor Antony Steff Gilson de Oliveira "Lembra-te do dia do descanso, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás todo o teu trabalho; mas o sétimo dia é o repouso do Senhor teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que est á dentro Das tuas portas. Por que em seis dias fez o Senhor o Céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; Por isso o Senhor abençoou o dia do repouso e o santificou" (Ex 20.8-11) Creio no Dia do Senhor; creio no Dia do Descanso por duas razões, pelo menos: por Quem foi instituído, e para que o foi. Creio no Dia do Senhor porque a Escritura Sagrada apresenta o cuidado e carinho do Criador pela sua criatura, criada à Sua imagem e semelhança; creio porque o próprio Deus descansou; creio pelo aspecto humanitário, e pela sua dimensão altamente espiritual. Creio no Dia do Senhor porque todo o esquema da criação e da nova criação se explica no dia do repouso semanal. E, naturalmente, há um princípio que, embasando o Dia do Descanso, o torna sagrado, separado, santificado: é o princípio de que "a parte significa o todo" (quem se aventurou pelos estudos da estilística reconhece que essa é uma figura de linguagem que toma o nome de sinédoque). É altamente significativo esse princípio para várias práticas do Antigo Testamento, práticas e usos que encontram
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    97 respaldo naNova Aliança: no Pentateuco, encontramos o conceito de que se traziam as primícias da colheita para que toda a colheita fosse santificada (Ex. 19.6; Lv 20.26; 1 Pe 2.5,9; Ap 1.6); uma família, a de Abraão, que foi escolhida por Deus para que todas as famílias fossem abençoadas (Gn 12. 1-3; 18.1,18; 27.29); um homem no meio dos outros homens para que todos fossem aben çoados (Ex. 28.1; Mt 10.1 ss); o primeiro filho separado e escolhido dos outros filhos para que toda a família fosse abençoada (Ex 22.19b; Jo 3.16; Rm 8.29); 10% da renda para que abençoada seja toda a renda (Lv. 27.30; M1 3.10; Mt 23.23; Lc 11.42); o conceito de um alguém que padece intensos sofrimentos, o "Servo Sofredor", para que todos possam ser resgatados da maldição e da dor (Is 53.1-12; Hb 9.28; 1Pe 2.21-24). O mesmo acontece quanto ao Dia do Descanso, quando se reconhece que o tempo pertence a Deus, bem como o todo da criação (Ex 20.8-11; Dt 5.12-15; Lc 13.10-17; Hb 4.9-11)! O SÉTIMO DIA Vamos partir de um consenso: é preciso traduzir o nome do sétimo dia para tornar o conceito e seu ensino claro, de modo que ninguém confunda o abençoado conceito com o dia da semana em português que tem o mesmo nome. A palavra sábado não pertence à nossa língua, é uma transliteração, um aportuguesamento de uma palavra hebraica (Shabbath) que significa "cessação". Alguém está trabalhando e faz uma pausa no que está fazendo, em hebraico dirá, "vou fazer um shabbath agora"). Significa "interrupção"; é o caso de você estar escrevendo uma carta, o telefone toca e você interrompe o que estava fazendo. Em hebraico, dir-se-ia "preciso fazer um shabbat para atender o telefone". Outras traduções possíveis são "repouso, abstenção, desistência," e, por incrível que pareça, a palavra "greve" do hebraico contemporâneo se traduz por shabbath, por ser uma "cessação de trabalho". Por essas razões, no possível, usaremos a expressão "Dia de Descanso" que é precisamente o que significa o hebraico Yom haShabbath, dia de "sábado", dia de repouso. Esclareçamos que os hebreus dividiam o tempo desta maneira: primeiro dia, segundo dia, terceiro dia, quarto dia, quinto dia, sexto dia e Dia do Descanso. PARA ENTENDER... É necessário que se traduza para que compreendamos a revelação divina, e não nos apeguemos à guarda de um dia do calendário considerado imutável, além de atribuir conotações cerimoniais a uma lei apodítica, moral. Aliás, o dia semanal chamado sábado encontra barreiras no fuso horário. São 11h10, o que significa que começamos o "sábado" do calendário antes de os habitantes dos Estados Unidos (eles mesmos separados no tempo por vários fusos horários) terem começado o "sábado" deles. Se o sábado é imutável, criou-se um problema! E os crentes japoneses já terminaram o culto desta noite e voltaram para casa porque no Japão são 23h10, e já estão dormindo ou se preparando para isso. O fuso horário se tornou herege: no horário de verão, adianta-se uma hora; no horário de inverno, nos Estados Unidos, atrasam uma hora. E nós aprendemos com a Palavra de Deus que a observância do Dia de Descanso é anterior à entrega da Lei no Sinai. Se alguém pensa que este significativo e abençoador dia foi estabelecido na entrega da Lei no Sinai, deve tomar conhecimento de que já era observado. Na realidade, quando da concessão do alimento chamado maná (Ex 16), o relato o menciona:
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    98 "E elelhes disse: Isto é o que o Senhor tem dito: Amanhã é repouso, sábado santo ao Senhor; o que quiserdes assar ao forno, assai-o, e o que quiserdes cozer em água; e tudo o que sobejar, ponde-o de lado para vós, guardando-o para amanhã. Guardaram-no, pois, até o dia seguinte, como Moisés tinha ordenado; e não cheirou mal, nem houve nele bicho algum. Então disse Moisés: Comei-o hoje, porquanto hoje é o sábado do Senhor; hoje não o achareis do campo. Seis dias o colhereis, mas o sétimo dia é o sábado; nele não haverá" (Ex 16.23-26). Já existia, portanto, o Dia de Descanso, que vinha sendo observado pelo povo de Deus. E porque o costume do descanso já existia, foi incorporado à Lei com essa recomendação no quarto mandamento: "Lembra-te do dia do descanso para o santificar". Isso nos ensina que a guarda do repouso semanal é marca e evidência da liberdade do ser humano, da sua liberdade individual. Essa é a dimensão humanitária desse dia da qual todos (escravos, estrangeiros, e, mesmo, os animais) deviam se beneficiar de acordo com Êxodo 20.10: "Nesse dia nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas". E isso nos ensina que temos a tarefa não só de guardar, mas de "santificar" esse dia; não apenas descanso físico, mas de sustento para o espírito. Nosso ritmo humano de trabalho e descanso, trabalho por seis dias, e descanso em um dia, é reflexo da imagem de Deus porque a Bíblia diz em Gênesis 2.2: "Ora, havendo Deus completado no dia sétimo a obra que tinha feito, descansou nesse dia de toda a obra que fizera". O PRIMEIRO DIA Há um aspecto sagrado no descanso, não no dia da semana (Ex 20.8ss). Esse é o problema de certos grupos religiosos que enfatizam o dia da semana. O que é sagrado não é o dia da semana, mas o descanso, quem é sagrado é o ser humano, porque o próprio Senhor Jesus ensinou que o Dia do Descanso foi feito para o ser humano, não a pessoa para a instituição. Se assim acontecesse, seria um tremendo revés para o plano divino. Quem é imagem e semelhança de Deus é o irmão/a irmã, não o dia. Não é nosso objetivo colocar oposição entre dia e dia, entre o sábado e o domingo, até para não incorremos na condenação paulina que diz "...como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir? Guardais dias..." (Gl 4.10) e "um faz diferença entre dia e dia" (Rm 14.5), como também, "ninguém vos julgue... por causa de sábados" (Cl 2.16b), mas apresentar o aspecto sagrado do repouso da máquina humana. É preciso encarar esse assunto em termos de tempo e de eternidade. Estamos falando, ao discutir o descanso, de algo mais que contagem de tempo. Estamos falando de muito al ém que contar minutos para fechar a loja. Fixar-se num dia da semana é perder o senso da eternidade, mesmo porque nós não podemos doutrinar em cima de sombras do calendário (cf. Hb 10.1), o sábado temporal, e fazê-lo é perder a noção de que Jesus Cristo, Ele, sim, é o nosso Shabbath, o nosso descanso, como mencionado em Hebreus 4.3: "Porque nós, os que temos crido, é que entramos no descanso, tal como disse: Assim jurei na minha ira: Não entrarão no meu descanso; embora as suas obras estivessem acabadas desde a fundação do mundo". O QUE É ETERNO O acima mencionado é o outro aspecto que deve ser enaltecido: o eterno. Nos dias do minist ério terreno de Jesus Cristo, criou-se um extremado fanatismo quanto à questão do descanso semanal, pois, além de não se preparar alimento nesse dia para não acender o fogo, os utensílios usados nem eram removidos e lavados. Há uma explicação mais demorada, detalhada e lúcida sobre este assunto
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    99 no livroA Guarda do Sábado, de autoria do Pr. Aníbal Pereira Reis. Os essênios nem iam ao sanitário?! Era proibido, entre outras coisas, acender e apagar candeeiro, cozinhar ovo, atar e desatar nó numa corda, dar pontos com uma agulha, escrever duas letras, esfregar as m ãos, andar mais que um certo número de passos (cf. At 1.12), e até prestar socorro a alguém que tivesse membros do corpo quebrados, curar, portanto. Contra esse tipo de mentalidade, Jesus Cristo reagiu por ter observado que haviam perdido a dimensão eterna pelas mesquinharias que foram chamadas de religião! E, por essa razão, curou doentes no dia de descanso: · curou um paralítico no poço de Betesda (Jo 5.1-18; cf. v. 9), razão porque foi duplamente chamado de herege (cf. v. 18); · curou uma cego de nascença (Jo 9.1-7, 13,14,16); · curou um homem de mão atrofiada (Mc 3.1-6; Lc 6.6-11); · curou uma mulher com terrível problema na coluna (Lc 13.10-17), · e permitiu, no dia do Shabbath, atividades que eram proibidas pela Lei porque Ele é superior à Lei e Senhor da mesma. Era proibido colher trigo para a alimentação, no entanto, permitiu que as espigas fossem colhidas (Mc 2.23-28). Sentiram que importante e digno é o ser humano, imagem do nosso Deus, semelhança do Criador? Sentiram que a Lei e as suas instituições devem ser vistas à luz da eternidade? Realmente, a carta aos Hebreus diz que a Lei é a sombra dos bens futuros, razão porque afirmamos que não se pode doutrinar em cima de sombras (cf. Hb 10.1). Portanto, com a Nova Aliança, as figuras e sombras da Antiga Aliança caducaram, e com elas os dias solenes dos judeus. · É o caso de Levítico 23.48 que registra a instituição, e regulação da Páscoa (23.4.8); encontramos, pelo contrário, na Nova Aliança, o apóstolo Paulo dizendo que Jesus Cristo é a nossa páscoa (1Co 5.7). · O Antigo Testamento faz referência às primícias (Lv 23.9-25), e quando Paulo escreve 1Coríntios 15.20, diz que Jesus Cristo é "as primícias dos que dormem". · Levítico 23.33-44, ainda, menciona a Festa dos Tabernáculos ou Festa das Tendas Sukkoth), mas o Evangelho de João registra que o próprio Deus tabernaculou, "armou Sua tenda", habitou no nosso meio (cf 1.4). · E sobre o Dia da Expiação, o Yom Kippur (Lv 23.26-32), verifica-se que esse Dia do Perdão encontra o seu lado concreto no Calvário (Hb 2.17) porque esta solene festa judaica, um dos chamados pelos judeus de "dias terríveis" é só uma sombra do Calvário que está projetada. · Assim é que também encontramos o Dia de Descanso, o Yom Shabbath (Lv 23.3), porque Jesus Cristo, Ele, sim, é o nosso shabbath, o nosso repouso (Hb 4.1ss). Oséias, o profeta, vai predizer no capítulo 2.11, que todas essa solenidades serão abolidas. "Também farei cessar todo o seu gozo, as suas festas, as suas luas novas, e os seus s ábados, e todas as suas assembléias solenes". Com a Nova Aliança, não estamos mais presos ao tempo, mas, sim, abençoadamente ligados à eternidade pelo sangue de nosso Senhor Jesus Cristo. E o apóstolo Paulo o afirma: "Ninguém, pois, vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa de dias de festa, ou de lua nova, ou de sábados, que são sombras das coisas vindouras; mas o corpo é de Cristo" (Cl 2.16,17).
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    100 CREIO NODIA DO DESCANSO Creio no Dia do Senhor porque creio na Nova Aliança de Deus com a humanidade, e nas realidades que ela ampliou do Antigo Pacto do Sinai! Creio no Dia do Senhor porque creio no sangue derramado de Jesus Cristo! Creio que o sacerdócio da Antiga Aliança foi conservado, mas foi ampliado, e o foi com um novo Sumo Sacerdote que é Jesus Cristo, (Hb 2.9-17; 4.14,15; 7.1-28; 9.11ss), e o acesso a esse sacerdócio por todos os crentes (Hb 10.19-23; 1Pe 2.5,9; Ap 1.6; 5.10; 20.6; 1Tm 2.1; Ef 6.18). Creio que o crente em Jesus Cristo, o salvo pelo Seu sangue é um sacerdote no reino de Deus! Creio no sacrifício único e eterno de Jesus Cristo (Hb 7.26,27; 9.24-28; 10.11-14)! Creio nas leis morais, até mesmo naquelas mais estritas, porque Jesus Cristo vê a intenção, e não apenas o ato! Creio, portanto, na conservação do descanso! Creio no Dia do Senhor porque aprendo com meu Mestre que a ênfase deve ser dada ao conceito, e não ao dia em si! Creio no Dia do Descanso porque Jesus Cristo é o Senhor desse dia, e o ser humano é superior à instituição temporal: "E prosseguiu [Jesus]: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado" (Mc 2.27). MAS, POR QUE O PRIMEIRO DIA DA SEMANA? Quando o cristão guarda o primeiro dia da semana, ele o faz no espírito de um novo mandamento, baseado em uma Nova Aliança, e ambos como cumprimento do antigo mandamento e da Antiga Aliança cumpridos na fé cristã. Por que o primeiro dia da semana? Porque a ressurreição de Jesus Cristo é o acontecimento fundamental do evangelho, e realmente tudo no evangelho olha para a ressurreição (cf. 1 Co 15.14,17,19). Que maravilha termos como referencial o túmulo vazio! O dia da semana, em si, nada significa, mas, o que nele ocorreu, sim! Vejam só: o dia 2 de Julho nada significa no Ceará, ou no Mato Grosso, ou em Santa Catarina! Mas é significativo na Bahia porque é o Dia da Independência deste estado ocorrida em 1823. Fora da Bahia não tem sentido! 17 de Abril nada significa para outras igrejas na cidade do Salvador, mas tem mérito na Igreja Batista Sião, que foi organizada nesta data em 1936. O primeiro dia da semana tem significado para o cristão porque em um primeiro dia da semana Jesus Cristo ressuscitou (Mt 28.1; Mc 16.1,2; Lc 24.1; Jo 20.1), e desde os tempos a postólicos, esse dia vem sendo reservado (At 20.7; 1Co 16.2; Ap 1.10, e escritos antigos), e Jesus ressuscitado Se encontrou com os discípulos no primeiro dia da semana (Mc 16.9; Mt 28.9; Lc 24.13,15,36ss; Jo 20.19,26). Por que o primeiro dia da semana? Porque depois de estar debaixo de extrema humilhação num fim de semana, Jesus Cristo, no primeiro dia da semana, gloriosamente ressuscitou. De modo que
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    101 olhamos odia do descanso, seja ele o primeiro dia da semana (o descanso temporal), seja o descanso eterno, à luz da ressurreição! E é por essa razão que na Nova Aliança o dia de descanso se chama "Dia do Senhor", significado exato da palavra domingo. Quando se fala "domingo" está sendo usada uma expressão da língua latina, dies dominica, ou seja, "dia que pertence ao Senhor", porque nesse dia, o primeiro da semana (a prima feria), nossos irmãos da Igreja Apostólica descansavam. Reuniam-se para a Ceia do Senhor: "No primeiro dia da semana, tendo-nos reunido a fim de partir o pão, Paulo, que havia de sair no dia seguinte, falava com eles, e prolongou o seu discurso até a meia-noite" (At 20.7); e preparavam ofertas de amor: "No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder, conforme tiver prosperado, guardando-o, para que se não faça coletas quando eu chegar" (1 Co 16.2). Eles o faziam no dia da ressurreição de Jesus Cristo! E é isso exatamente o que fazemos, porque compreendemos que o dia do descanso é vital, não é formal, e encontra expressão numa experiência de crescimento, e celebra um acontecimento, e expressa e promove uma experiência transcendental no significado para o crente em Jesus Cristo! Também porque compreendemos que é um memorial de experiência, um monumento à verdade (os antigos hebreus comemoravam o que devia ser lembrado levantando colunas. Colocavam uma pedra, e outra pedra, e uma pedra mais, e assim por diante de modo que levantavam um pilar, uma coluna, um altar (Gn 28.18; Js 22.10) para indicar que alguma coisa importante havia sucedido). Compreendemos que, sendo um memorial de uma eterna experiência, no Dia do Senhor , homens e mulheres confessam, individual e coletivamente, sua fé na obra divina da criação de uma nova raça humana, obra divina que se fez em nós. Dizemos "eu compreendo a imortalidade desta pessoa por causa da ressurreição de Cristo" , e tudo isso lembramos neste primeiro dia da semana (cf. 1Co 15.22). Compreendemos que o Dia do Descanso enfatiza a espiritualidade da vida humana, e lembramos Lucas 12.15: "E disse ao povo: Acautelai-vos e guardai-vos de toda espécie de cobiça; porque a vida do homem não consiste na abundância das coisas que possui". Não é o material, mas o espiritual que vale, e nós somos desafiados a considerar essas interpretações da vida, decidindo por uma posição materialista, aceitando essa abundância de coisas, ou uma posição espiritual, recebendo de mente e coração abertos essa bênção que desejamos e continuamos a desejar e praticar. Creio no Dia do Senhor porque eu me rejubilo nele! Ah, como me alegro, e posso exclamar como o fez o poeta de Israel: "Este é o dia que o Senhor fez; regozigemo-nos, e alegremo-nos nele" (Sl 118.24). Alegro-me por sua mensagem de ressurreição, e o próprio Senhor Jesus Cristo diz: "Não temas; eu sou o primeiro e o último, e o que vivo; fui morto, mas eis aqui estou vivo pelos séculos dos séculos; e tenho as chaves da morte e do hades" (Ap 1.17b,18). Creio no Dia do Senhor porque é um dia de culto, de descanso, de renovação da vida; é um dia de reconhecimento de Deus, de comunhão com Deus, de dedicação do eu em tempo e vida a Deus. O Dia de Descanso é um tipo dos céus. Já pensaram que toda a boa música que praticada nas igrejas é apenas uma sombra do que vem, quando mudaremos toda nossa atividade para o louvor? A pregação vai acabar, a Bíblia diz que "as profecias serão aniquiladas" (1Co 13.8) e restará o eterno louvor do coro dos anjos e salvos! No entanto, lembremos que aos olhos cristãos nenhum dia é mais santo que o
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    102 outro. Vamosrever os conceitos: não existe dia mais santo que outro porque neles devemos trabalhar, e o trabalho sempre foi considerado uma santa missão. (cf. Ex 20.9). É assim que o Dia do Senhor dá profundidade, dimensão, altura e significado aos demais dias! Que o Senhor nos ajude a compreender essa tão grande realidade, e a compreender que Jesus Cristo, Ele sim, é o nosso eterno descanso! CREIO NOS MANDAMENTOS Professor Diego Roberto Texto Básico: Êxodo 20.1-17 Creio nos mandamentos da Lei de Deus porque o moral e o espiritual têm sua fonte e valor eterno no Criador. Creio porque desconhecê-los significa uma perda na compreensão do que é a liberdade humana, do que significa a liberdade do espírito, e como essa liberdade deve ser mantida. Por esse motivo, os Dez Mandamentos (ou Decálogo) devem ser seriamente levados em consideração. Estudá-los sob o prisma do Novo Testamento e dos questionamentos de nossa época, poderá servir-nos de diretriz na vida pessoal e na da sociedade em que estamos inseridos. Vive -los significa firmeza de posição e de ética num mundo atacado pela descrença, desonestidade, imoralidade e irresponsabilidade. UM PROGRAMA DE VIDA Vejo nos Dez Mandamentos um programa de vida. A propósito, há outros códigos legais no Antigo Testamento: o Código da Aliança em Êxodo 20.22-23.33; o Pacto de Êxodo 34.10-28; o Código de Santidade (Lv 17-26) com o conceito de "Sede-santos-porque-Eu-sou-santo" permeando cada proibição e recomendação, e pontuando o senso de separação, exclusividade, reserva especial que deve marcar o povo de Deus; o Código Sacerdotal (Lv 1-16) regulando sacrifícios, o sacerdócio, a pureza e a beleza ritual e litúrgica; o Dodecálogo de Siquém em Deuteronômio 27.15-26). Na verdade, as leis do Antigo Testamento estão agrupadas em três blocos: leis casuísticas, apodíticas e cerimoniais. O primeiro tipo lida com casos: "faça", "não faça"; se cometer um erro, há uma penalidade fixada. É a lei civil. Um tremendo exemplo está em Levítico 20.9: "Qualquer que amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe, certamente será morto" numa preservação do mandamento que diz "Honra a teu pai e a tua mãe..." A lei apodítica lida com as relações espirituais. É lei sem exceções da qual um claro exemplo são os Dez Mandamentos como um corpo. A lei ritual normatiza os sacrifícios e o culto, seus aspectos e implicações. O Decálogo (Ex 20.1-17; Dt 5.6-21), entanto, é a fonte autêntica da Lei, e fonte de inspiração dos profetas, por isso que são preceitos e ordens em tom pessoal, muito individual, mesmo, dos quais quatro regulam as relações com Deus, e seis, as relações com o próximo. Os mandamentos têm o propósito de alertar as pessoas de que precisam de Deus, bem como guia-las para uma vida responsável na sociedade. Existem para evidenciar o que há de errado nas relações
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    103 sociais eespirituais, não porque sejamos em essência patológicas, mas porque um estado moral e espiritual patológico se instalou em nós, e se chama Pecado. Por essa razão, em nossa época, responsabilidade se tem confundido com o ser bitolado; liberdade é confundida com libertinagem; disciplina, com freios à natureza; e autoridade é repressão. Os mandamentos falam do Criador, do repouso merecido pelo ser humano, que é um maquinismo psicossomático-espiritual. Falam de respeito aos pais, aos mais velhos, e às tradições e ensinos passados de geração a geração; falam da vida humana, da propriedade, da instituição do matrimônio, da verdade, e da personalidade humana e do respeito devido a cada faceta da existência. Há quem não goste do tom negativo da maioria dos mandamentos. Essa ênfase, porém, não significa uma atitude negativa quanto à vida. Quem advoga uma sociedade sem proibições precisa se recordar que em moral, como na matemática, há operações exatas: há menos e há mais; há adições e subtrações! Por isso, eu creio nos mandamentos! AS IMPORTANTES VERDADES Os estatutos na vida de hoje têm sido flagrantemente desobedecidos. O Decálogo, porém, é um padrão de referência moral, e dele ressalta um profundo senso ético: a ética divina para o ser humano. Importantes verdades são declaradas: A verdade de Deus: Deus é . Assim, os mandamentos são abertos com a declaração "Eu Sou" (Ex 20.2a), e o hebreu confessará, como o faz com santa propriedade, "Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor", ou, O Senhor é nosso Deus , o Senhor éu m " (Dt 6.4). Deus Se comunica com a pessoa humana; dá diretrizes para o viver com aplicações no templo, no lar, na loja, no tribunal, na vizinhança. Por essa razão, os mandamentos dizem não, para que eu possa dizer sim à vontade de Deus. Isso quer dizer que para o israelita, Deus tanto era o Senhor da Hist ória ("Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão" Ex 20.2), quanto o Senhor do quotidiano ("Não matarás"; "Não adulterarás", etc.). Não é o Deus das especulações; mas o Deus Vivo (cf. Sl 14.1). Por isso, creio nos mandamentos! O Decálogo fala sobre o culto, pois que a dignidade do culto, a glória, a manifestação e a presença são a dimensão vertical de Deus. Porque Deus é Único, surge o culto, e deve Ele ser cultuado do modo digno e correto. Os mandamentos falam em exclusividade. Na Idade Antiga, quando alguém se mudava para outra região ou país, adotava o deus daquele país ou região. Se Filístia, Dagon; entre os cananeus, Baal; Marduque na Babilônia; Kemosh entre os moabitas. Assim se explica Rute dizendo a Noeme, sua sogra: "o teu Deus será o meu Deus" (Rt 1.16b); Rute era moabita. O que o Decálogo ensina é que quando alguém tem o Eterno como Deus, há exclusividade, quebrantamento e entrega; numa palavra: Consagração. É nesse quadro que se aplica a palavra de Jesus: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas" (Mt 6.24), que é a versão do primeiro mandamento no evangelho, ou, como Jesus, ainda, enfatiza, repetindo Deuteronômio 6.5, "Amarás ao senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento" (Mt 22.37, 38).
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    A ética andameio trôpega. Tem desaparecido do coração de muita gente o sentido do que é correto (cf. Is 59.14, 15). É o desejo de enriquecer rapidamente; são as aplicações fraudulentas à custa da ingenuidade ou ignorância do povo; a remessa de lucros ou de ganhos escusos para contas anônimas no estrangeiro. É a falta de ética, de moral, de honestidade, bastando para resolver a fórmula preconizada pelo jurista Capistrano de Abreu no início do século: "deveriam ser abolidas todas as leis no nosso país, e ser decretada uma só: q ue todo brasileiro tivesse vergonha! "(negrito nosso). É o ídolo do sucesso; o ídolo da raça. São vítimas dessa idolatria os indianos na Inglaterra, os turcos na Alemanha, os judeus que sofrem dos palestinos, os palestinos que sofrem dos judeus, brasileiros "da gema" em outras regiões do próprio país, índios em vários países (inclusive no nosso). É o ídolo da nação; o ídolo do partido. 104 É o uso e abuso do próximo: o seu direito de descanso não respeitado, nem por ele mesmo; é o desrespeito e abuso de confiança do adultério; e a vida humana tratada com desprezo nos crimes mais hediondos, mesquinhos, infames e impunes. LIÇÕES ETERNAS Temos muito o que aprender com os Dez Mandamentos. Sobre a vontade de Deus: a eleição de um povo, e padrões mais elevados para esse povo escolhido, e que isso se aplica à Igreja de Jesus Cristo, expressão concreta da vontade salvadora de Deus, e sem cor sectária na afirmação de Pedro: "Vós sois a geração eleita, o sacerdócio real; a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as grandezas daquele vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; v ós que outrora nem éreis povo, e agora sois povo de Deus; vós que não tínheis alcançado misericórdia, e agora a tendes alcançado" (1Pe 2.9,10). Temos que aprender sobre o vigor, a grandeza e o exclusivismo do culto ao Deus Vivo e Verdadeiro, pois "Não terás outros deuses diante de mim" (Ex 20.3; cf. Mt 6.24). Não se pode dividir o culto com outros deuses nem os atributos divinos com "deuses" menores. Aprendemos que o culto ao Deus Vivo é sem imagens, anicônico, portanto (Ex 20.4; cf. Jo 4.24). Aprendemos, outrossim, que o Eterno não pode ser manipulado através de uma imagem Sua (Ex 20.5), como o faziam os vizinhos de Israel com seus deuses pátrios, e há quem queira favorecer santos ou ameaçá-los como o fazem com a imagem de Santo Antônio de cabeça para baixo numa "simpatia" para atrair casamento. Aprendemos que o encontro com Deus é sempre decisivo, e uma decisão de vida ou de morte (Ex 20.5, 6). O mesmo se dá no evangelho: o encontro com Cristo é decisão de vida ou morte conforme João 3.36. Aprendemos que o Nome (haShem) , o Ser de Deus, é santo e não pode ser usado e citado, levianamente. "Não tomarás o nome do Senhor teu deus em vão" (Ex 20.7; Mt 5.33-36). Aprendemos que um dia da semana é, em termos, consagrado a Deus, e isento de atividades comuns: "lembra-te do dia do repouso para o santificar" (Ex 20.8-11; Mc 2.27, 28; Mt
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    105 12.1-8) NaAliança do Sinai, era o sétimo dia do calendário judaico apar lembrar o arremate da obra criadora; na Aliança do Calvário é o primeiro dia da semana para lembrar a ressurreição de Jesus Cristo, arremate da nova criação. Aprendemos sobre a coerência da união Deus+ser humano, ser humano+Deus, e dos direitos divinos sobre a Sua criatura (Ex 20.1-17). Aprendemos sobre o respeito aos pais, às antigas gerações, à vida conjugal e à verdade (Ex 20.12, 14-16; cf. Mt 15.4; Ef 6.1-3; Mt 5.27, 28; Ef 5.3, 5; 4.28; Mt 5.37; Tg 5.12). Aprendemos a rejeitar a hostilidade e a violência, e a respeitar a propriedade alheia: "Não matarás" (Ex 20.13; cf. Mt 5.21, 22); "Não furtarás" (Ex 20.15; Ef 4.28). Aprendemos com os profetas que a religião não se prende apenas a atos de culto, mas ao serviço, e o Decálogo visa a regular e orientar ao respeito à vida, à reverência ao Eterno, à ordem na sociedade, à justiça à pessoa humana. É possível, aliás, observar que o evangelho de Jesus Cristo reafirma tudo isso em Mateus 25.40, "sempre que o fizestes [destes de comer, de beber, acolhestes, vestistes, visitastes] a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos a mim o fizestes". Aprendemos, sobretudo, que a vida é um encontro com Deus. Deus marca os lugares de encontro. Com Abraão, numa cidade pagã; com Jacó, num ribeiro; com Moisés, num arbusto no sopé de uma montanha; com o povo de Israel, no caminho do deserto, no tabernáculo, nos santuários, no Templo. E hoje, esse encontro acontece na alma do fiel, verdadeiro, penitente e devoto cristão, pois que seu corpo é o Seu santuário. Por isso, creio nos mandamentos! CREIO NO REINO DE DEUS Professor Antony Steff Gilson de Oliveira "Quando iam pelo caminho, disse-lhe um homem: Seguir-te-ei para onde quer que fores. Respondeu-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. E a outro disse: Segue-me. Ao que este respondeu: Permite-me ir primeiro sepultar meu pai. Replicou-lhe Jesus: Deixa os mortos sepultar os seus próprios mortos; tu, porém, vai e anuncia o reino de Deus. Disse ainda outro: Senhor, eu te seguirei; mas deixa-me primeiro despedir-me dos que estão em minha casa. Jesus, porém, lhe respondeu: Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus" (Lc 9.57-62). Qual a principal afirmação de Jesus? "O Sermão do Monte" em Mateus 5 a7? Realmente, sermões, palestras, excelentes livros têm enfocado o Sermão do Monte, destacando aspectos diversos dessa extraordinária pregação de Jesus Cristo. Seriam textos como, "Assim como quereis que os homens vos fa çam, do mesmo modo lhes fazei vós também" (Lc 6.31)? Ou quem sabe aquele texto que é uma impossibilidade em termos humanos, "Amai a vossos inimigos"? Todas essas expressões estão no Sermão do Monte, no entanto, nenhuma delas resume a mensagem como Mateus 4.17 o faz, porque foi o primeiro sermão que Jesus pregou. E foi um sermão
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    106 resumidíssimo: "Arrependei-vosporque é chegado o reino dos céus". Durou apenas, 7 segundos! Sou capaz de dizer que os irmãos que se incomodam quando o culto passa um pouco de 11h40, ficariam também extremamente incomodados com um sermão que só dissesse isso: "Arrependei-vos porque é chegado o reino dos céus". Na verdade, o que encontramos em Mateus 5-7 são ensinos de Jesus que nos esclarecem o que Ele queria dizer em Mateus 4.17. Estamos familiarizados com certos ensinos de Jesus, com expressões que Ele utilizou como com as parábolas, tão lindas e que têm atravessado os séculos, com os relatos dos milagres que nos deixam abismados diante da sobrenatureza; com as narrativas da Paixão de Cristo, como Jesus Cristo sofreu Getsêmani, como suou sangue num fenômeno chamado hematidrose, como Jesus foi preso depois de receber um beijo de traição, e como vieram prendê-Lo com varas, com pedaços de pau nas suas mãos como se fosse um malfeitor a ponto de ser linchado, e como foi julgado, condenado, e, depois de uma noite de tortura, levado para o Calvário! Isso nos emociona, mas a idéia central que unifica tudo isso, parábolas, milagres, paixão, bem-aventuranças e sermões, o tema dominante, a característica do ensino de Jesus Cristo se sobressai numa expressão: reino de Deus. Parece até que não quer dizer muita coisa, mas há uma imensa riqueza nessa expressão que se tornou tão corriqueira. Reino de Deus! PRIMEIRAS IDÉIAS SOBRE O REINO DE DEUS O pensamento antigo de Israel era que o reino de Deus se manifestaria no senhorio do rei de Israel. Esta é a primeira idéia acerca desse tema (cf. 2Sm 7.12-16; Sl 89.36, 37). Enquanto Israel fosse soberano e tivesse um rei no trono, Deus também seria Senhor e Soberano. Esse foi um conceito primário e bem primitivo acerca do reino de Deus. Por isso, eles entendiam que o soberano faria justiça ao pobre, restituiria os direitos da viúva, e defenderia o órfão, libertando com esses atos o mundo da iniqüidade em que estava. Naturalmente que os aproveitadores (e os h á em todo lugar...) do tempo de Davi até perguntaram "Que parte temos nós em Davi" (1Rs 12.16). Alguns não queriam ter parte num reino que faria a defesa da viúva, e daria direitos ao necessitado. Vamos andar no tempo, e com a sua passagem, a idéia que passou a dominar em Israel era que o culto no templo, com os seus sacerdotes e levitas, com os sacrif ícios, normas e prescrições a respeito da santidade (kashrut), resolveria o assunto, porque o reino de Deus estaria no templo, e nos ofícios. Uma pessoa que queria ver e sentir o reino de Deus ia ao templo, e ali sacrificava, raz ão porque, na teologia antiga de Israel, passou o reino de Deus a ser sediado no templo e no culto realizado naquele local. No entanto, os profetas falaram contra isso, e denunciaram o culto sem convers ão. E isso era muito fácil: alguém teria uma vida ímpia, vil e de corrupção, e viria ao culto onde sacrificaria um animal, e, assim, entendia ter resolvido o seu problema. Culto sem convers ão! Sem solidariedade, e de egoísmo em lugar da misericórdia, motivo que leva o profeta Amós a dizer, "Aborreço, desprezo as vossas festas, e não me deleito nas vossas assembléias solenes. Ainda que me ofereçais holocaustos, juntamente com as vossas ofertas de cereais, n ão me agradarei deles; nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais cevados. Afasta de mim o estrepito dos teus
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    107 cânticos, porquenão ouvirei as melodias das tuas liras. Corra, porém, a justiça como as águas, e a retidão como o ribeiro perene" (Am 5.21-24; cf. Is 1.17; Os 6.6). Em lugar da misericórdia, persistia o egoísmo, e isso Deus não podia tolerar! Mas os israelitas antigos não entenderam que Deus reinaria no templo, sim, mas o templo de Deus é o ser humano restaurado, transformado, lavado pelo sangue de Jesus! Uma visão da era messiânica vai ser dada mais adiante pelos profetas como Isa ías (o profeta messiânico por excelência, onde se respira a vinda do Messias do primeiro ao último capítulo), Ezequiel, Malaquias. Isaías fala de um novo tempo a ser governado por Aquele que é chamado "Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz" (9.6); profetiza também acerca do Espírito do Senhor sobre o soberano do reino de Deus, e diz, "E repousar á sobre ele o Espírito do Senhor, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do Senhor" (Is 11.2); é quem fala sobre bênçãos do reino de Deus na expressão de 11.6-11, da qual destacamos: "Morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitar á; e o bezerro, e o leão novo e o animal cevado viverão juntos; e um menino pequeno os conduzirá... Naquele dia a raiz de Jessé será posta por estandarte dos povos, à qual recorrerão as nações; gloriosas lhe serão as suas moradas. Naquele dia o Senhor tornará a estender a sua mão para adquirir outra vez o resto do seu povo, que for deixado, da Assíria, do Egito, de Patros, da Etiópia, de Elão, de Sinar, de Hamate, e das ilhas do mar". Mas que linda reunião de todos os povos e daqueles que são salvos pelo Cordeiro de Deus! É também Isaías quem fala dos acontecimentos maravilhosos e extraordin ários que terão lugar no reino de Deus! "Naquele dia os surdos ouvirão as palavras do livro, e dentre a escuridão e dentre as trevas os olhos dos cegos as verão" (Is 29.18)! No chamado "Primeiro Poema do Servo Sofredor" (Is 42.1-9), é também mencionado o tema central do reino de Deus: "Eis que as primeiras coisas já se realizaram, e novas coisas eu vos anuncio; antes que venham à luz, vo-las faço ouvir" (42.9)! Tudo o que é novidade do reino de Deus nós teremos compreensão da parte do próprio Espírito de Deus! É disso que fala, e dos capítulos 40-55 Isaías vai falar de uma nova criação, produto do reino e da soberania de Deus. Ezequiel também, e ele estava na Babilônia, o povo estava no exílio, e esse profeta cantou sobre o Messias a quem Deus chama "meu servo Davi", e Ezequiel no capítulo 37 o expressa deste modo: "e Davi, meu servo, será seu príncipe eternamente. Farei com eles um pacto de paz, que ser á um pacto perpétuo. E os estabelecerei, e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles para sempre. Meu tabernáculo permanecerá com eles; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. E as nações saberão que eu sou o Senhor que santifico a Israel, quando estiver o meu santu ário no meio deles para sempre. Meu tabernáculo permanecerá com eles; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. E as nações saberão que eu sou o Senhor que santifico a Israel, quando estiver o meu santu ário no meio deles para sempre" (Ez 37.25b-28).
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    108 João 1.24fala que o Senhor veio e armou o seu santuário, Sua tenda e "habitou entre nós". Davi já havia morrido há 400 anos, mas o Senhor chama a Davi "meu servo" porque Ele fez refer ência àquele que é a descendência de Davi (cf. Sl 96.10-13). Pois bem, a oração de todo judeu piedoso era pela vinda do reino de Deus, por causa desse alimento espiritual que recebia todo judeu, dos profetas que falaram da vinda desse reino. Foi nesse ponto que Jesus Cristo entrou no cenário da história humana. Pois eu creio no reino de Deus por causa de manchetes como estas extraídas do jornal de nossa cidade: "QUATRO ASSALTANTES TOMBAM EM TIROTEIO" "MATOU O CUNHADO COM FACADA NO CORAÇÃO" "LEVADO COMO REFÉM" "CHINA TEM 300 MIL VICIADOS EM HEROÍNA" Manchetes que chocam, machucam, escandalizam e fazem lamentar! Sim; creio no governo de Deus sobre indivíduos que se rendem, que se entregam, que se quebrantam: creio na honestidade, no amor, na solidariedade, no calor humano, mas sobretudo no calor do Esp írito na consciência, na alma, no espírito do crente! O QUE O REINO DE DEUS NÃO É Ora-se muito sem discernimento "Venha o Teu reino". Mas o que n ão é o reino de Deus? Diria, em primeiro lugar, que não é um domínio geográfico, um país terreno com uma capital terrena como um certo segmento teológico que anuncia, na sua posição mais extremada, que o reino de Deus vai ser estabelecido num determinado lugar (Israel) tendo como ca pital Jerusalém, e ali Jesus Cristo vai reinar. Essa é uma posição extrema que a Escritura Sagrada não apoia. Não é, também, a Igreja. Agostinho e os teólogos da Outra Igreja ensinaram e ensinam que o reino de Deus é a Igreja. Também não é uma utopia, uma sociedade ideal a ser construída pelos homens, como certos reformadores sociais cristãos também pregam, de modo que com a pregação do evangelho se espalhando cada vez mais, por fim começa o reino de Deus sem ninguém perceber. Não é isso o que os noticiários trazem. Aliás, há uma longa história de equívocos sobre o reino de Deus. Já houve, até, quem quisesse antecipá-lo pela violência: os zelotes, mencionados no Novo Testamento (cf. Lc 6.15b; At 1.13b), que eram fanáticos políticos de Israel e representavam a extrema esquerda. Isso na época em que Roma estava dominando aquela terra, os zelotes levavam um punhal (sicar) escondido no manto, e, quando encontravam um romano num lugar mais discreto, apunhalavam -no. Daí vem a palavra sicário (= malfeitor, facínora). Queriam trazer o reino de Deus, que, entendiam, se estabeleceria no momento em que os romanos saíssem de Israel. No meio dos apóstolos havia ex-zelotes (Simão, Lc 6.15b; e, talvez, Judas Iscariotes). Um dos discípulos tomado desse espírito político até perguntou a Jesus: "Senhor, é neste tempo que restauras o reino a Israel?" (Atos 1.6). Esperavam que Jesus viesse como um zelote, um grande zelote de extrema-esquerda. Os fariseus queriam implantar o reino de Deus não com a violência, mas com a observância da Lei. Se
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    109 todos observassema Lei de Moisés o reino de Deus se implantaria, diziam. E os profetas continuaram proclamando, apesar de toda a pregação dos fariseus: "o reino há de vir!" (cf. Mq 5.2,4, 5a; Ml 3.1; Sf 3.13-15; Am 5.18; Jl 2.12, 13, 28-32). E o reino veio! Veio no Senhor Jesus Cristo! (cf. Mc 1.14, 15). Por isso eu creio no reino de Deus! O QUE O REINO DE DEUS Para Jesus, o reino de Deus era e é uma experiência que não se baseia na força das armas, e não tem dimensões de espaço nem de tempo, mas é, na verdade, um novo relacionamento entre Deus e a pessoa humana, entre o ser humano e o Ser Divino. Então, como já vimos, o anúncio do reino de Deus feito por Jesus foi o que o povo hebreu tinha ansiado por centenas de anos! Era o que Jo ão Batista anunciara que estava chegando (Mt 3.2,4; Mc 1.2, 3, 7, 8); foi o que Jesus havia anunciado quando disse: "É chegado o reino de Deus!" (Mc 1.15). E é por essa razão que o reino de Deus é chamado "as boas notícias"! É o significado da palavra evangelho (gr. evaggelion). Mas quando Cristo revelou que Seu reino era interior, espiritual, poucos O aceitaram (Jo 1.11, 12). O povo esperava, como os zelotes, alguém que trouxesse muitas bênçãos materiais, um grande chefe político. Porém Jesus exigia uma mudança interior aos que pertencessem ao Seu reino. E no "Pai Nosso" encontramos uma excelente explicação (Mt 6.10), porque temos o paralelismo típico do pensamento hebreu quando Jesus diz: "Venha o teu reino", e a expressão igual (com outras palavras) é: "Seja feita a tua vontade". Daí temos que o reino de Deus é uma sociedade no espaço-tempo, onde a vontade do Pai faz de modo tão perfeito como no infinito-eterno. O reino de Deus é a vida eterna que pela fé se recebe aqui e agora tendo efeitos imediatos enquanto eternos e permanentes. O reino de Deus é vida, é o reino dos céus (expressão, aliás, usada por Mateus que, sendo judeu, não queria usar o nome de Deus). O reino de Deus é definido por Paulo do seguinte modo: "porque o reino de Deus não consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no Espírito Santo." (Rm 1 4.17). O reino de Deus é Seu domínio sobre nós, e nossa submissão a Ele; quando nEle cremos, e fazemos a Sua vontade, pertencemos a esse reino. O reino de Deus é a Sua presença nos guiando, Sua graça/presença em nós, como a nuvem durante o dia e o fogo durante a noite guiavam o povo de Israel no deserto. ASPECTOS DO REINO O reino de Deus é presente ou futuro? Já está aqui ou ainda vem? Já se manifestou ou ainda há de vir? Há quem pregue que o reino de Deus não tem expressão hoje, e ainda há de se manifestar. Prega por conta própria porque Jesus ensinou "É chegado o reino de Deus" (Mc 1.15a; Mt 4.17; 1 0.7; Lc 9.2; 10.9). Podemos compreender o reino de Deus olhando três etapas distintas descritas na Bíblia. A primeira é que ele é tão antigo quanto o próprio universo, por uma razão básica: Deus é o soberano de toda a criação. É um fato eterno: "O teu reino é um reino eterno; o teu domínio dura por todas as gerações" (Sl 145.13), e também em Mateus 6.13: "E não nos deixes entrar em tentação; mas livra-nos do mal. Porque teu é o reino e o poder, e a glória, para sempre. Amém" (cf. Mt 8.11): "Teu é o reino (para
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    110 sempre); Teué o poder (para sempre); Teu é a glória (para sempre)", conforme Jesus ensinou. Em segundo lugar, é uma realidade presente, uma realidade agora, já. Lucas 17.20, 21 diz: "Sendo Jesus interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, respondeu -lhes: O reino de Deus não vem com aparência exterior; nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Ei-lo ali! Pois o reino de Deus está dentro de vós". (Outra tradução diz: "no meio de vós"). Jesus veio: é Deus invadindo a história humana para derrotar o mal. Quem tivesse os olhos espirituais abertos poderia sentir os sinais dos tempos, e veria o reino de Deus vindo através da cruz (aparente derrota, é verdade, mas, como resultado, uma vitória incrível contra a malignidade deste mundo)! O reino de Deus veio através da ressurreição, e nesse glorioso acontecimento a morte foi morta! Um dos meus professores, Dr. Merval Rosa, usou certa vez uma expressão muito interessante: ele disse que o cristão já morreu, e agora aguarda apenas a ressurreição. É isso mesmo! Já abandonamos o mundo, já o deixamos para trás, os seus apelos já não nos interessam, temos agora outra visão, outra dimensão diante de nós. Se os nossos olhos estavam somente voltados para o aqui e agora, para o imediatismo, estamos agora olhando para o futuro, para o que virá, para as realidades espirituais que já se encontram ao nosso dispor! O reino de Deus já veio através do dom do Espírito Santo! Quando a Igreja de Jesus Cristo no dia de Pentecostes experimentou o derramamento do Esp írito (At 2.1-13) como fato único na sua história, como o grito de "Independência ou morte!" foi dado só uma vez no Brasil, e não precisa cada brasileirinho que nasce ter o presidente da Rep ública tirando o chapéu e dizendo essas palavras para ele, e para estoutro e aqueloutro. É um fato histórico, aconteceu. Quando o irmão se converteu ao Senhor Jesus, recebeu o dom do Espírito Santo, que não deve ser confundido com "os dons", os carismas. Por isso, fazemos os crentes em Jesus Cristo, parte do reino de Deus, e a cruz (que foi um escândalo para os judeus, e loucura para os gentios, (cf. 1 Co 1.23) tem sentido para nós, e a ressurreição nos garante a salvação, e os dons do Espírito Santo são evidência do senhorio de Deus em nossas vidas! Por isso eu creio no reino de Deus! Mas há uma terceira etapa: o reino de Deus também pertence ao futuro porque ali teremos a sua consumação, e a fé cristã é também a esperança cristã. Cremos com a Escritura que Deus há de completar a Sua obra: no fim triunfará sobre o pecado, sobre o desespero e a morte (que já morreu na ressurreição de Cristo!) Além deste tempo, e desta era, a vida eterna na qual conheceremos o governo de Deus mais perfeitamente! Essa é a dimensão futura do reino de Deus. É assim que o reino pode ser uma realidade passada, presente e futura ao mesmo tempo porque é eterna. E, assim, o reino está perto, mas também está longe; está no nosso meio, mas oramos que venha; e o mistério já foi confiado a alguns, e, no entanto, ninguém sabe o dia nem a hora da sua vinda (cf. Lc 8.10; At 1.7). O CIDADÃO DO REINO A quem pertence o reino? Quem tem o direito ao reino dos céus? Vamos fazer a pergunta ao revés: quem não entra no reino de Deus? Quem não tem lugar no reino do Pai? E a Bíblia responde: os que vivem na carne e na corrupção não tem lugar no reino de Deus (1Co 15.59); os que fazem tropeçar um inocente não encontram espaço no reino de Deus (Mc 9.42, 47): os que se apegam aos bens materiais não têm vez no reino de Deus (Mt 19. 24);
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    111 os quesão convidados e não se determinam a seguir ( Lc 9.62); os não-convertidos (Jo 3.3,5); os injustos, os devassos, os idólatras, os adúlteros, os homossexuais em todas as suas nuances (pederastas, lésbicas, bissexuais não têm lugar no reino de Deus; os ladrões; os avarentos, os bêbados; os maldizentes; os que se prostituem; os feiticeiros (pais-de-santo, mães-de-santo, babalorixás, ialorixás, cartomantes, lançadores de búzios); os invejosos, os assassinos; os medrosos, os incrédulos, os que se recusam a graça e a bênção como Judas Iscariotes (cf. 1Co 6.9, 10; Gl 5.19-21; Ef 5.5; Ap 21.8; 22.15; Jo 17.12; 6.70). Então, a quem pertence o reino dos céus? E, também a Bíblia responde: no reino de Deus têm lugar os que nascem de novo, da água e do Espírito (Jo 3.3,5); aos inscritos no livro da vida (Ap 21. 27); aos que perseveram na fé e, por isso, passam por tribulações, e são perseguidos por causa da justiça (At 14.22; 2Ts 1.4,5; Mt 5.10); às crianças (Mc 10.14); aos que recebem o reino no espírito de uma criança (Mc 10.15); aos que guardam os mandamentos de Cristo (Mt 19.17); aos humildes de espírito (Mt 5.3); aos que vivem na justiça, na paz e na alegria no Espírito Santo (Rm 14.17); aos que tendo praticado todas as abominações que impedem a entrada no reino foram purificados pelo sangue de Jesus, e se tornaram limpos, lavados de suas iniq üidade, santificados, justificados em nome de Jesus e no Espírito de Cristo (1Co 6.11); aos que fazem a vontade: quem obedece está no reino, quem não obedece não está no reino (Mt 7.21). Assim, o reino de Deus não tem a ver com nações, reinos e países. É um reino pessoal, é questão de obediência. Nasci debaixo do governo do Brasil sem querer (sou brasileiro com muito orgulho, e cidadão desta terra extraordinária; e o Brasil se agiganta quando estamos fora do país; é aí que vemos o gigante que é esta nação, mas eu não pedi para nascer no Brasil), mas no reino de Deus, só nasço se o desejar. Os crentes chineses oravam, "Senhor, aviva a Tua Igreja, mas come çando em mim!" E nós podemos dizer: "Senhor, traze o Teu reino, faze a Tua vontade, mas começando em mim!" Jesus Cristo revelou os princípios espirituais que governam esse reino no "Sermão do Monte" dando aplicação presente destes princípios a situações particulares. O Sermão da Montanha é descrição da cidadania do reino, e alguém o chamou de "a constituição do reino de Deus", o qual (não esqueçamos!) é o poder soberano e misericordioso de Deus. Deus o fez em Cristo, Deus o faz hoje, e Deus o fará ainda mais. Já imaginaram a política deste país submissa ao Senhor Jesus Cristo? Uma pessoa disse com um toque de tristeza, com nostalgia: "Já não se fazem homens como antigamente..." Esses homens podem ser feitos como no passado, mas através do milagre que se chama nova criação em Cristo (2Co 5.17). Por isso, o reino de Deus, o governo de Deus, Sua vontade soberana vai influenciar a esfera moral, porque a lei de Deus é o padrão da moralidade, e vai influenciar a esfera espiritual, o plano mais alto e mais
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    112 nobre danossa vida! E isso há de acontecer, pois a Escritura assegura a vitória final antecipada em I Coríntios 15.24-28: "Então virá o fim quando ele entregar o reino a Deus o Pai, quando houver destru ído todo domínio, e toda autoridade e todo poder. Pois é necessário que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de seus pés. Ora, o último inimigo a ser destruído é a morte. Pois se lê: Todas as coisas sujeitou debaixo de seus pés. Mas, quando diz: Todas as coisas lhe estão sujeitas, claro está que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas. E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o próprio Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos". Por isso eu creio no reino de Deus! DA RUA DA AMARGURA PARA A GALERIA DA FÉ Professor Diego Roberto Josúe 2:8-13 - de prostituta para tataravó do maior rei de Israel A transformação radical é conseguida através da plena confiança em Deus Raabe ao aceitar e esconder os espias abriu espaço para Deus promover a maior transformação que um ser humano pode receber. Raabe aceitou... I. V.8-9 O PLANO DE DEUS O Retorno ao passado é impossível 8 Antes que os espias se deitassem, foi ela ter com eles ao eirado 9 e lhes disse: Bem sei que o SENHOR vos deu esta terra, e que o pavor que infundis caiu sobre n ós, e que todos os moradores da terra estão desmaiados. – ouviu e creu (o passado contribuiu com o presente) – Mar Vermelho = 40 anos antes II. V.10 O PODER DE DEUS As Obras provam a nossa convicção a respeito de Deus. 10 Porque temos ouvido que o SENHOR secou as águas do mar Vermelho diante de vós, quando saíeis do Egito; e também o que fizestes aos dois reis dos amorreus, Seom e Ogue, que estavam al ém do Jordão, os quais destruístes. – escondeu porque era a melhor coisa a fazer por causa do temor III. V. 11 A PESSOA DE DEUS Nossa vida tem influência sobre a vida dos que nos cercam.
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    113 11 Ouvindoisto, desmaiou-nos o coração, e em ninguém mais há ânimo algum, por causa da vossa presença; porque o SENHOR, vosso Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra. – Deus é pessoal e se relaciona. Transcendente e Imanente IV. V.12-13 A PROVIDÊNCIA DE DEUS Deus concede privilégios espirituais 12 Agora, pois, jurai-me, vos peço, pelo SENHOR que, assim como usei de misericórdia para convosco, também dela usareis para com a asa de meu pai; e que me dareis um sinal certo 13 de que conservareis a vida a meu pai e a minha mãe, como também a meus irmãos e a minhas irmãs, com tudo o que têm, e de que livrareis a nossa vida da morte. – fio de escarlate = providência de Deus. – Mt 1:5 - tataravó de Davi Hb 11:31 - Galeria da fé – Arrebatamento = Livra da ira vindoura. DIÁRIO DE ISAQUE Professor Antony Steff Gilson de Oliveira "Depois [Isaque] subiu dali a Berseba. Apareceu-lhe o Senhor naquela mesma noite, e disse: Eu sou o Deus de Abraão, teu pai. Não temas, pois eu sou contigo; abençoar-te-ei e multiplicarei a tua descendência por amor de Abraão, meu servo. Então edificou ali um altar, e invocou o nome do Senhor. Armou ali a sua tenda, e os seus servos cavaram um poço" (Gn 26.23-25). Este é o diário de Isaque. Registra o que ele fez num único dia., pois, após ter acampado no vale de Gerar, abriu os poços cavados por Abraão, seu pai, e que haviam sido entulhados pelos filisteus (vv. 15, 18). Tiveram seus pastores uma altercação com os colegas da região por causa de um desses poços de água nascente (vv. 19, 20). Outro poço foi cavado, e nova contenda (v. 21), e mais outro, desta vez em paz (v. 22). Nesse ponto, vai a Berseba, onde recebe a bênção de Deus, e, ao surgir do novo dia, erige um altar, arma uma tenda e abre um poço, tão indispensável à vida. Nestas três palavras, há implicações profundas para a vida de qualquer família. Invertendo a ordem, extraiamos as lições: "... seus servos cavaram um poço" (O POÇO) O poço é a representação do trabalho. Na cultura pastoril de Israel, o poço era essencialíssimo à existência. Aliás, não é preciso ir longe: onde não há água encanada, nas áreas rurais, poços, cacimbas são imprescindíveis. Do poço viria a água para dessedentar homens e gado: sem água, a vida fenece. Em toda a Bíblia, a água é símbolo de satisfação de sede profunda: "Tu visitas a terra, e a refrescas; tua enriqueces grandemente. O rio de Deus está cheio de água, para dar cereal ao povo, pois assim a tens preparado" (Sl 65.9). E, ainda, "O Senhor é o meu pastor; nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranqüilas" (Sl 23.1,2; cf. Is 44.3,4; 55.1a; 58.11; Jo 4.10, 14;
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    114 Ap 7.17).E como Deus dá os poços para as necessidades físicas, biológicas, também dá água viva para satisfazer as demandas espirituais (Is 55.1a; Jo 4.10,14). O poço representa uma circunstância em nossa vida: o trabalho, que na Escritura Sagrada significa a rotina pela qual nós ganhamos o pão nosso de cada dia. Aliás, o ser humano nasce destinado, e não, condenado ao trabalho (Gn 2.15). Sua tarefa é gerenciar o mundo, administrá-lo, melhorá-lo pelo labor até a plenitude prevista por Deus (Rm 8.19). A Bíblia não autoriza a pensar no trabalho como maldição. Gênesis 3.17-19 nos leva a ver que as más conseqüências, aparentemente do trabalho, o são, sim, do pecado dos primeiros pais: a dor, o cansaço, o sofrimento, as condições injustas e abaixo de humanas, a discriminação, os salários de sobrevivência. Não; a maldição foi sobre a terra. E esse pecado, e essa terra, agora maldita, trouxe descompasso na família entre o homem e a mulher (Gn 3.12), e entre o ser humano e outro pessoal (Gn 4.8). O trabalho, porém, é moral e espiritual. Como tudo se encaixa tão bem no plano cósmico de Deus (cf. Sl 104. 24, 19-23. E como valor moral e espiritual, deve ser repassado à família, e estar a serviço, e para a perfeição da família. Se assim é, necessário se torna pensar em compatibilizá-lo com o tempo dedicado aos filhos. Um jornal de nossa cidade estampou a manchete que dizia "Pais ingleses dedicam 40 segundos por dia aos filhos". Há filhos que têm verdadeiramente "fome de pai", carência da figura paterna. O ator Tony Leblanc ponderou: "Sinceramente, penso que muitos males de que padece a sociedade, e o casal em particular, são conseqüência do pouco tempo que os pais dedicam aos filhos". E porque o trabalho se inspira nos mais profundos e expressivos valores espirituais, é convertê-lo em amor. Afinal, 1Coríntios 16.14 o ensina muito bem: "Fazei todas as vossas obras com amor". É passar aos filhos a suprema lição de santificar o trabalho, santificar com o trabalho, e mais ainda, santificar-se no trabalho! "Armou ali a sua tenda" (A TENDA) É a vida familiar, a vida comum, as relações domésticas. A tenda representa deveres, lealdades, afeições, e está sob a proteção da comunhão com Deus. Mas, que contraste: a casa de Isaque não tinha a solidez e o nível de conforto que hoje conhecemos. Pelo contrário, era frágil, muito frágil. Pois é; nossa civilização é complexa, tecnicista e, até, desumana. Há sempre o perigo de ficarmos tão satisfeitos com o que possuímos, que não alcançamos a comunhão espiritual que deve caracterizar a vida do cristão. Com a pressa a que nos habituamos, com a correria a que nos acostumamos, h á o perigo de se perder as pequenas e as grandes descobertas no lar: · A alegria das pequenas vitórias diárias; · O agradecer voltar para casa ao fim do dia; · O crescimento dos filhos; · O desenvolvimento deles na escola, na vida. De repente são adolescentes, jovens, e não vimos isso acontecer...
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    115 É; atenda é a vida da família. Como é o lar ideal pela Bíblia Sagrada? Qual a receita? · É o que tem harmonia, e, conseqüentemente, paz (Mt 12.25); · Nele, a vida de piedade é uma constante (1Tm 5.4); · Provérbios 15.17 ("Melhor é um prato de hortaliças onde há amor, do que o boi gordo, e com ele o ódio") diz com clareza absoluta que o amor é mais do que necessário; · No lar ideal, há diligência: a preguiça não tem vez (Pv 31.27); · E a hospitalidade? (Hb 13.2); · Percebe-se claramente a presença do Espírito de Jesus Cristo, marcada pelo fruto do Espírito (Gl 5.22,23). Além dessa receita, há qualidades que precisam ser repassadas às gerações mais jovens: · A honrar aos pais, o que leva com naturalidade à obediência (Ef 6.2,3); · Obediência aos pais (Cl 3.20). Quem aprende a se submeter à autoridade dos pais, aprende a se submeter a qualquer autoridade. O melhor modo, porém, de ensinar a honra aos pais é viver de modo a merecê-la. · A tomar decisões inteligentes, sábias, ou ter responsabilidade, a cumprir deveres, a ser pontual. · O valor da fé em Deus, que na Bíblia é sempre obediência. Os exemplos clássicos estão em Hebreus 11.8, 18, 19, 24-27. "... edificou ali um altar" (O ALTAR) Com o altar, Isaque expressava o impulso que dera a Abra ão a sua grandeza. Mas vejam bem: julgadas pelos padrões do mundo, as vidas de muitas personagens do passado, e mesmo do presente, podem parecer imensamente mais importantes, mais impressionantes que as de Abraão e de Isaque. Neste quadro do Antigo Testamento, porém, encontramos homens que fizeram da devoção, do culto, da adoração o interesse primário, basilar de suas vidas. Essa a razão de o altar ter sido levantado em primeiro lugar. Antes, mesmo, da tenda e do poço. Como está o altar de sua casa? E sua aliança com o Deus das alianças? É o caso de restaurar o altar doméstico (1Rs 18.30; 2Cr 15.8; 33.16). E diante desse altar voc ê se entrega como Samuel, "Fala, (Senhor) porque o teu servo ouve"" (1Sm 3.10); ou como Paulo, "Senhor, que queres que eu faça?" (At 22.10), e apresenta seu corpo como sacrifício de justiça, de louvor, de ação de graças; sacrifício suave, contínuo, espiritual; sacrifício vivo, santo e agradável a Deus (cf. Sl 14.5; 107.22; 116; 17; Jr 6.20; Dn 8.11; 1Pe 2.5; Rm 12.1). No altar, você ora pelo filho que está sendo gerado, para que Deus faça nele o que fez por Jeremias (Jr 1.5). Ore pelo recém-nascido; ore pelo seu filho ou filha na infância; pelo pré-adolescente; pelo seu adolescente e pelo jovem. Ore pelo seu filho ou filha casada, por sua vida profissional, conjugal, emocional e espiritual. Ore pelo filho do seu filho ou de sua filha em cada etapa da vida. E abra os olhos do seu próprio espírito para ver como o Espírito Santo tocou nas suas vidas. Ore ao Deus que ama as famílias, porque Ele é o mesmo que salva as famílias. E há base bíblica para afirmá-lo: leia Gênesis 7.1; Atos 16.15, 31; 18.8. Mesmo uma criancinha pode crer, e tão pequena que Jesus pode levar no colo (Mc 10.14,16).
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    116 Pense nasua função como profeta e como sacerdote, como profetisa e sacerdotisa. Vamos explicar: como profeta/profetisa, você apresenta o Deus Vivo a seus filhos; você lhes fala de Deus. Mas é preciso que seu próprio relacionamento seja pessoal, íntimo e constante com Ele. Como sacerdote/sacerdotisa, você apresenta seus filhos ao Deus Eterno. É a oração de intercessão já mencionada; é a bênção diária, a bênção nas enfermidades. É o desejo que Jesus expressou em João 17.3, "A vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste". O altar é uma expressão da bênção de Deus sobre o poço e a tenda, o trabalho e a vida familiar, e essa bênção se expressa em comunhão, conforto espiritual, salvação e crescimento na graça. Nossa atividade de ganha-pão, a vida doméstica e a intimidade com Deus necessitam estar bem próximas, unidas, coesas. É o destaque dos valores do trabalho; o exercício da pedagogia de Deus, ou seja, o amor (cf. 1Jo 4.8): a criança obedece porque ama. Enquanto a pedagogia do Inimigo-de-nossas- almas é a do medo, ou seja, a criança obedece porque se sente ameaçada e está amedrontada (1Jo 4.18). É a aliança com Deus, pois Ele faz aliança com o pai (Gn 17.1ss; Ml 4.6), com a mãe (Gn 16.10ss), com os filhos (Ex 20.12; Ml 4.6), mas lembremos que a Nova Alian ça é feita de forma sempre individual, pessoal e única (Jr 31.33,34; Jo 3.16). JERUSÁLEM NOS SALMOS Professor Antony Steff Gilson de Oliveira Para as três maiores religiões monoteistas do mundo, Jerusalém é a Cidade Santa. Para o Judaísmo, o que leva à reverência é a presença das ruínas dos muros da Beth Hamikdash, o Templo, aliada ao fato de ter sido o local onde reinaram Davi e seus descendentes. Para o Cristianismo, ao lado da emo ção e sentimento dos eventos da Antiga Aliança, estão os acontecimentos da paixão de Cristo com o julgamento, crucificação, e a vitória sobre a morte no domingo da ressurreição. Além disso, a Jerusalém terrena é uma sombra e tipo da Jerusalém celeste com suas bênçãos e glória (cf. Ap 21.1- 4). Para o Islamismo, é El-quds, "A santa" (cf. Is 52.1), porque, segundo sua tradição, Maomé subiu aos céus no seu garboso corcel Baraq. O fato é que Jerusalém, ou Sião (possivelmente da raiz syn, "proteger", de onde "fortaleza"), nunca foi compreendida como uma simples e secular cidade. Profetas e salmistas sempre olharam a Cidade Santa em termos teológicos, o que é claríssimo no Livro dos Salmos. Dois grupos de salmos estão especialmente ligados à "Teologia de Sião": os "Cânticos de Sião" e os "Cânticos Graduais" ("de degraus" ou "de romagem"). A Lei prescrevia (Ex 23.27) que todo homem deveria ir em peregrinação (aliyah) a Jerusalém três vezes no ano: na Páscoa (Pessach), no Pentecoste (Shavuot) e na Festa dos Tabernáculos (Sukkot). Nessas ocasiões, o tom festivo, alegre era bastante exaltado, visto que grupos se reuniam nas vilas e rumavam à Santa Cidade. Isso é refletido no Salmo 84.1-4: "Quão amáveis são os teus tabernáculos, ó Senhor dos exércitos! A minha alma suspira, sim, desfalece pelos átrios do Senhor; o meu coração e a minha carne clamam pelo Deus vivo. Até o pardal encontrou casa, e a andorinha ninho para si, onde crie os seus filhotes, junto aos teus altares, ó Senhor dos
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    117 exércitos, Reimeu e Deus meu. Bem-aventurados os que habitam em tua casa; louvar-te-ão continuamente". Outros na mesma linha: o 46, o 68 (cf. vv. 28ss), o 76 (cf. vv. 1, 2) e o 79. O Salmo 48 tipifica todo o grupo dos "cânticos de Sião", e mostra no verso 1 que só o Senhor é digno de louvor, as glórias de Jerusalém (vv. 2 a 11), e, do verso 12 ao fim, a exortação a rodear a cidade como oportunidade de meditar no seu significado e na Pessoa do Deus Eterno. Muitos conceitos teológicos se salientam nesses cânticos: a cidade messiânica, o sinal da presença de Deus no meio do Seu povo na centralização do Templo. Não podemos deixar de observar que a teologia de Sião ressalta que Deus a escolheu para nela habitar o Seu Nome (haShem), razão porque tanto o Templo quanto a cidade gozam da proteção divina (Sl 78.68, 69; cf. Ex 15.17, 18). Destacado tema nos salmos é a liturgia do culto do Templo, a abodah, literalmente "o trabalho, o serviço" porque é um 'ebed (servo) o verdadeiro cultuante. A própria peregrinação era considerada parte da atividade sagrada. O Salmo 122 espelha a suprema felicidade dessa ocasi ão. Os "Cânticos Graduais", então, retratam a entrada no santuário. Os salmos 15 e 24 provavelmente aludem a esse fato. Recebiam esse nome porque eram entoados na subida (mealah) por ocasi ão das mencionadas três peregrinações, ou, em outra hipótese, porque os levitas os cantavam nos quinze degraus pelos quais se subia do Átrio das Mulheres para o dos Homens. O Culto em Jerusalém era vivo, ruidoso, dinâmico, com seus muitos cânticos e processionais. As exclamações de alegria e adoração pela glória, majestade e soberania de Deus eram constantes ("Hallelu-yah!", "Louvado seja o Eterno!", cf. os Salmos 111, 18, 135, 136, 146 -150). O Salmo 42.4 traz à memória do poeta a sua liderança à frente dos cultuantes "com brados de louvor e júbilo". E o 47 acrescenta outras manifestações de ritmo e harmonia (cf. Sl 95.1ss; 150). A descrição da bem-aventurança suprema de se temer a Deus é a espinha dorsal do Salmo 128, o qual acrescenta aos bens dos versos 1 a 4, duas outras graças das mãos divinas: • uma vida tranqüila e longa • numa cidade tranqüila e próspera. Um dos "cânticos de degraus", o Salmo 122, nos instrui a interceder pela shalom de Jerusal ém, ou seja, sua integridade, saúde, sucesso, plenitude, salvação e progresso. A sempre amada e poderosa figura de Jerusalém cantada no Salmo 46 inspirou Martinho Lutero a escrever "A Marselhesa da Reforma", o hino Ein' Fest Burg ("Castelo Forte é Nosso Deus"), por isso que é salmo que proclama a estabilidade e a segurança da cidade no meio do caos cósmico (vv. 1-3), e dos distúrbios internacionais (vv. 8, 9). Observe-se que este salmo começa com uma confissão de total confiança em Deus (v. 1). Por fim, o Salmo 87 ressalta o ser cidadão da Santa Cidade, pois nascer em Jerusalém concede uma cidadania toda especial (vv. 5, 6).
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    118 Que aproteção divina sobre Jerusalém seja usada como padrão de fé em relação ao cuidado do Senhor por aqueles que nEle põem a confiança: nós somos cidadãos da Jerusalém Eterna. (cf. Sl 125.2; Ap 21.3, 4, 7). JONAS: O PROFETA FUJÃO Professor Antony Steff Gilson de Oliveira O período histórico do ministério de Jonas é narrado com detalhes em II Reis 14 e 15. Ele viveu durante o reinado de Jeroboão II e, nesses tempos, a Assíria exercia seu poderio no Oriente Médio. Era uma nação cruel e era detestada por suas práticas desumanas. Jonas era o típico judeu que nunca entenderia como seria possível que Deus viesse a amar os assírios. Ao contrário, ele esperava que o Deus Javé se voltasse contra eles e os destruísse. A cidade de Nínive era a capital da Assíria, e quando Deus mandou Jonas pregar àquela cidade, ele recusou-se a ir, por causa do ódio que sentia pelos assírios. Jonas é um indivíduo preconceituoso e seu livro mostra a resistência desse profeta ao propósito divino de evangelizar a raça mais cruel do mundo. E o que vamos verificar é que o inexplicável amor de Deus para com Nínive não encontra eco no coração de Jonas. Foram os preconceitos de Jonas que o levaram a fugir da Missão que Deus lhe havia ordenado. Preconceitos políticos: pois os ninivitas eram velhos inimigos de seu povo. Preconceitos raciais: os ninivitas eram gentios e não pertenciam ao povo escolhido. Preconceitos religiosos: um povo t ão perverso, tão mau, tão grosseiro, não podia nem devia ser perdoado. Quantos hoje não são como Jonas. Quantas vezes os nossos preconceitos nos impedem de sermos úteis a Deus. Quantas vezes os nossos preconceitos sufocam o amor às pessoas; aniquila nossa compaixão; obscurece nossa visão; seca as fontes da nossa espiritualidade e empobrece nossa mensagem. Nós nos parecemos muito com Jonas. Podemos ver nele nossos preconceitos contra aqueles que n ão confessam a mesma doutrina, ou que pensam diferente de nós. Jonas é uma figura intrigante. Ele assiste a uma cidade inteira se converter e ao invés de se alegrar, ele se irrita. E mais do que irritado, ficou deprimido a ponto de desejar morrer. Jonas é uma figura desconcertante, mas veremos que muitos de nós agimos exatamente como ele. CAPÍTULO PRIMEIRO: FUGA INÚTIL "... veio a palavra do Senhor a Jonas." É assim que tudo começou: um dia estava Jonas em sua casa, lá peno ano 750 AC, quando Deus lhe disse: "Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e clama contra ela ... ". E aqui as coisas começam a se complicar, pois Jonas não tem a mínima vontade de ir àquela cidade. Por quê? Porque Jonas conhecia muito bem Nínive e a odiava, e também conhecia muito bem a Deus, e sabia que Ele é misericordioso e grande em benignidade (4:2) e com certeza iria dar uma oportunidade a Nínive de se converter. E como nosso profeta não quer a conversão desta cidade, e
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    119 para evitarque tal acontecesse, "Levantou-se, mas para fugir da presença do Senhor, para Társis." (v. 3). Se corremos os olhos pelo Mapa Bíblico, vamos observar que Nínive ficava diametralmente oposta a Társis, Nínive está no leste, Társis no oeste. Társis era o lugar mais longínquo de todo o planeta naqueles dias. A viagem para lá durava, pelo menos, um ano. Lá se vai Jonas para a sua viagem rumo a Társis. Seus planos foram bem arquitetados, no entanto, vai se meter em uma tremenda enrascada. Aquela enrascada em que se envolve todos os desobedientes. "Mas o Senhor lançou sobre o mar um forte vento, e fez no mar uma grande tempestade" (v.4). Deus, valendo-se da natureza, levanta uma tempestade para corrigir o profeta fuj ão. "Então os marinheiros cheios de medo clamavam cada um ao seu deus..." (v.5) . Os marinheiros conhecedores e experimentados no mar, sabem que a situa ção é perigosa. A sensação de medo os domina. A morte está às portas e por isso eles "clamavam cada um ao seu deus". Estes homens são pagãos e apegados a várias divindades. Contudo, enquanto eles dirigem suas preces aos seus deuses, Jonas dormia profundamente. Aqui temos uma lição: no processo de fuga de Deus, corremos o risco de nos tornarmos menos cristãos do que os pagãos. Que ironia! O único homem no navio que podia fazer uma oração de verdade ao Deus verdadeiro, não quer orar." Ao mesmo tempo que é triste, é deveras impressionante notar que não poucas as vezes, os incrédulos que não conhecem a Deus, manifestam mais respeito e fé em Deus do que os próprios cristãos. Nos versos 6 a 10 percebemos que os marinheiros pagãos têm noção da gravidade dos atos de Jonas. "Que fizeste? Pois sabiam os homens que Jonas estava fugindo da presen ça do Senhor, porque lhe havia declarado". (v.10). Os marinheiros sabiam que havia algo naquela tempestade, além de um fenômeno natural. Havia algo maior ali e por isso eles resolveram "Lançar sortes, para saberem por causa de que lhes sobreveio aquele mal" (v.7). A sorte é lançada, "e a sorte caiu sobre Jonas" (v.7). Descobriram que o homem de Deus era a causa da desgraça. A desobediência de Jonas estava atraindo maldição sobre todo o grupo. Precisamos aprender esta lição: As pessoas que desobedecem a Deus, não criam problemas apenas para si. Infelizmente acabam colocando os outros em suas enrascadas tamb ém. Homem de Deus em fuga leva problemas onde quer que vai. Agora algo precisa ser feito, e daí a pergunta: "Que te faremos, Jonas, para que o mar se acalme? (v.11). E a resposta foi: "Tomai-me e lançai-me ao mar e o mar se aquietará..." (v.12). Assim, Jonas assume o fato de que ele era o causa da tragédia. Antes de jogar Jonas no mar, os marinheiros pagãos se entregaram novamente à oração. Agora, oram não às divindades pagãs, mas ao Deus de Israel. Enquanto eles oram, os lábios de Jonas ainda permaneciam fechados (v.14). "E levantam a Jonas, e o lançaram ao mar, e cessou o mar da fúria" (v.15). Jonas é lançado ao mar, mas Deus não desiste do profeta fujão e ordenou que "um grande peixe engolisse a Jonas" (v.17).
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    120 Poucas situaçõesdevem ter sido tão angustiosas quanto esta. Jonas está consciente. Sua esperança de continuar vivendo eram mínimas. Que lugar para encerrar a vida, logo na barriga de um peixe, lugar escuro, mal cheiroso e onde provavelmente nunca encontrariam seu corpo. Mas, embora confuso e teimoso, Jonas é um homem que conhece a Deus. E Jonas faz a única coisa que se pode fazer em um momento de angústia. Ele se entregou à oração. CAPÍTULO SEGUNDO: A ORAÇÃO NO VENTRE DO PEIXE "Então Jonas no ventre do peixe orou ao seu Deus" (v.1). É no ventre do grande peixe que Jonas começa a recuperar a saúde espiritual. "Na minha angústia clamei ao Senhor." (v.2). Jonas começa a entender que a angústia pode ser uma expressão do amor de Deus. A própria tragédia de ter sido "Lançado no coração dos mares" (v.3) e ter sido engolido pelo peixe, não era obra dos marinheiros, mas de Deus. Por trás de tudo aquilo estava a mão divina. "Quando dentro em mim desfalecia a minha alma, eu me lembrei do Senhor ..." (v.7). Quando estava para morrer, Jonas voltava seus olhos para o Senhor. Que coisa tremenda! A ora ção ainda é a única e suficiente resposta de que a espiritualidade continua viva. E nesse aspecto n ós nos parecemos muito com Jonas. Pois quase sempre deixamos para orar em momentos de extrema dificuldades (Conferir: 1:3, 4,5,10,11,13,14). A oração de Jonas foi ouvida. Ele podia ser um crente fraco e remitente, mas sua confian ça está em Javé e não em ídolos (v.8). É bom saber que Deus nos ouve, apesar de nossas fraquezas. "Falou, pois, o Senhor ao peixe, e este vomitou Jonas na terra." (v.10). O capítulo dois termina com mais uma ação soberana de Deus. Ele ordena e o grande peixe, obediente, joga Jonas na praia. CAPÍTULO TERCEIRO: PREGAÇÃO SEM COMPAIXÃO "Veio a palavra do Senhor segunda vez a Jonas... " (v.1). Pela segunda vez, Deus comissionou o profeta à sua missão de pregar aos ninivitas. Uma nova oportunidade é dada a Jonas. "Dispõe-te e vai à grande cidade de Nínive ..." (v.2) A ordem é a mesma da primeira vez. E nisso aprendemos que Deus não muda sua vontade só pelo fato de não gostarmos dela. Temos a impressão de que Jonas só pregou aos ninivitas, quando enviado pela segunda vez, porque não teve outra opção. Isso porque o v.3 diz que Nínive levava "três dias para percorrê-la". E no v.4 somos informados que Jonas a percorrer só "caminho de um dia". Isto significa que o nosso profeta não completou a caminhada da cidade, demonstrando assim m á vontade em sua proclamação. Tipo coisa: "Já falei o suficiente, chega".
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    121 "Ainda quarentadias e Nínive será subvertida." (v.4). "Quarenta dias" é uma expressão que nos lembra o dilúvio (Gn 7:17). É uma expressão muitas vezes usada nas Escrituras para falar de juízo divino. Jonas com seus preconceitos, odiava os ninivitas. Portanto sua mensagem n ão é para salvar, mas para condenar. Estava obedecendo uma ordem divina, mas sem a mínima paixão. Pregava o juízo mas sem lágrimas nos olhos. Que mensagem precária a de Jonas: "Ainda quarenta dias e Nínive será subvertida". Não havia unção. Não havia vibração. Não havia o óleo da graça que cura e liberta. Havia apenas o tom de condenação, e era o que ele queria. Mas algo extraordinário acontece. Mesmo sendo uma pregação sem unção e sem poder, causou um impacto tremendo naquela cidade. E assim, surpreendentemente, Nínive "cidade mui importante para Deus" (v.3) é convertida. Deus é inquestionavelmente soberano. Mesmo que os nossos planos e projetos limitadíssimos falhem, os Dele são infalíveis. O que Deus quer fazer, Ele faz e "ninguém pode lhe deter a mão". CAPÍTULO QUATRO: AMANDO OS SECUNDÁRIOS DA VIDA "Com isso desgostou-se Jonas extremamente, e ficou irado" (v.1). Jonas, ao invés de se alegrar, teve um extremo desgosto, por ver a cidade se converter e saber que a sentença da condenação por ele pronunciada, não seria mais aplicada a Nínive. Sua pregação foi um sucesso, mas ele não queria a graça de Deus para aquele povo. Que mentalidade exclusivista! Os preconceitos de Jonas estavam tão impregnados em seu coração, que a alegria deu lugar a ira, a ponto de entrar num processo depressivo: "Melhor me é morrer do que viver" (v.3). Jonas fez uma barraca e ali ficou para "ver o que iria acontecer àquela cidade" (v.5). Tão duro era o coração de Jonas, que ele ainda esperava que Deus mudasse de pensamento e destruísse Nínive. Para dar uma lição no profeta, Deus fez nascer uma aboboreira para fazer sombra para ele. E esta planta se torna de um momento para outro o tesouro do cora ção de Jonas. No dia seguinte, Deus manda um verme para ferir e matar a planta (v.7). E aquela planta que dava conforto a Jonas murchou deixando-o exposto ao sol. O que o deixou irado novamente (v.9). "Tens compaixão da planta ..." (v.10). Que insensatez! Jonas amava mais as coisas do que as pessoas. Conseguia chorar e se sensibilizar por causa de uma planta, por outro lado, nutria ódio pelas pessoas. Jonas é um retrato de muitos hoje em dia. Hoje nossa aboboreira pode ser um carro, a casa, móveis, nosso conforto, etc.
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    122 Devemos noslembrar que se pusermos o coração nas coisas secundárias da vida, não devemos esperar que a nossa alegria seja mais duradoura do que a de Jonas. "Melhor me é morrer do que viver". Nisso devemos concordar com o profeta. Para quem coloca a vida num nível tão mesquinho, é melhor morrer do que viver. Jesus disse: "Ajuntai tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não consomem". Se o nosso coração estiver nas coisas secundárias da vida, as angústias se sucederão uma após outra, pois estes tesouros são falíveis e efêmeros. Ponhamos o nosso coração nas coisas imperecíveis e eternas. "... Não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive?" (v.11). Finalmente Jonas aprendeu. Deus tem compaixão de pecadores. Por isso, foi que o comissionou para pregar em Nínive. O recado final é no sentido de que ele volte a amar as pessoas. Não coloque os preconceitos acima da salvação. Volte a amar, mesmo aquelas pessoas estranhas a sua volta. EM JONAS APRENDEMOS 1 - Deus é soberano e sempre realiza sua vontade 2 - É impossível qualquer tentativa para fugir de Deus 3 - Os preconceitos nos tornam sem amor pelos incrédulos 4 - Quando estamos em desobediência nos tornamos maldição onde quer que vamos 5 - Quando amamos os secundários, nossa vida se torna mesquinha e sem alegria 6 - O caminho da desobediência sempre nos coloca em enrascadas 7 - Quão apaixonadamente Deus ama os pecadores JOSÉ, "O FIEL" Professor Antony Steff Gilson de Oliveira Bisneto de Abraão, "o amigo de Deus"; neto de Isaque, "o filho da promessa"; filho de Jac ó, "o príncipe de Deus, eis José, o "fiel". Tinha cerca de seis anos na ocasião de sua família sair de Padã-Harã para Siquém onde morou perto de oito anos. Estava aproximadamente com dezesseis anos quando Raquel, sua m ãe, faleceu ao dar à luz seu irmão, Benjamim. Sua história é a da evolução de uma família, havendo nesse relato um variado tempero onde ressaltam a ambição, a juventude, a beleza, a tentação, a mentira, o sofrimento, a tristeza, o ciúme, o ódio, o perdão. Todos os elementos de um grande romance. É deste modo que José passou à história dos judeus como figura ideal representando a fidelidade, a obediência e o amor que perdoa. Caráter de muitas virtudes, portanto, e exemplo recomendável, "uma carreira recomendável" disse H. I. Hester. Era generoso, tinha ideais elevados, vida limpa, altruismo e espírito de perdão. POÇO (Gn 37.12-28) Dos doze filhos de José, era o favorito,1 e esta é, ao lado de todas as já mencionadas qualidades
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    123 naturais epor adquirir, a aventura de um adolescente mimado, filho de fazendeiro, rico, vendido como escravo pela inveja dos irmãos, e que, por fim, se sai muito bem como administrador p úblico. Tinha seus dezessete anos2 não era perfeito, pelo contrário, apresentava um toque de ingenuidade e outro de orgulho (talvez por ser dos filhos de Jacó, o único que não era das escravas, ou de Léia, a esposa em segundo plano). O fato é que, predileto do pai, ficava muitas vezes em casa enquanto os outros irmãos se esgotavam de trabalho no campo. Algumas situações minaram a amizade e boa vontade entre os filhos de Jac ó. Uma foi o péssimo hábito de José de ser o "leva-e-traz"da família.3 A túnica de várias cores, de mangas longas e que ia até os calcanhares dada por Jacó a José4 é roupa de nobre, de chefe tribal, e dá-la ao filho de Raquel foi evidente sinal de parcialidade.5 Jacó, aliás, era mestre na parcialidade: "amou a Raquel muito mais do que a Léia",6 assim, amava o filho mais velho de Raquel mais que os outros. Na casa de seu pai, o favoritismo causara problemas: Esaú era favorito de Isaque; Jacó o era de Rebeca. Por outro lado, essa roupa não era adequada para trabalhar no campo mas nas lides de casa. A terceira situa ção foram os sonhos que José tivera, e contara aos irmãos e ao pai.7 É; José não sabia mentir, e por essa razão, por sua ingenuidade e imprudência, perdera a amizade dos irmãos.8 Contar um sonho não era só um passatempo entre os antigos orientais. A realidade é que quem o fazia era apresentado como privilegiado, conhecedor do futuro, um mestre autorizado. A rea ção dos irmãos, portanto, foi pertinentíssima para o povo que naquele tempo era tão afetado pelos sonhos. Hoje, o psicanalista lê o passado nos sonhos; na época dos patriarcas, lia-se o futuro. José foi até apelidado de "o Sonhador"(em hebraico se diz "o Mestre dos Sonhos", "o Senhor dos Sonhos"). Indo procurar os irmãos no campo (estavam em Dotã, 140 km de Hebron), repetem-se as linhas da história de Caim e Abel. Por intervenção de Rúben, a vida de Jacó foi poupada, mas, colocado num poço, terminou por ser vendido a uma caravana de ismaelitas (ou midianitas) que se dirigia ao Egito. Jacó foi vendido por 20 siclos de prata, o preço normal de venda de um escravo.9 POTIFAR (Gn 39.1-19) Comprado por um militar, comandante do destacamento da guarda real chamado Potifar [em egípcio Pet-Pa-Ra = "dedicado a Ra (o deus Sol)]", vai para sua casa. Rica mans ão, muitos criados, e por conta de seu trabalho, chega à função de mordomo. É homem de confiança: a casa do capitão Potifar está em excelente mãos! José não precisava de mais nada. É observador, meticuloso, cuidadoso; aprende a língua e os costumes do Egito. Onde punha a mão, crescia.10 No entanto, como "não há paraíso sem serpente", com a entrada da mulher de seu senhor em cena, a atmosfera muda. É uma mulher sedutora, insinuante, cheia de paixão. Mas não deixou nome na história; é conhecida apenas como "a mulher de Potifar". Não sabemos seu nome, aparência ou idade: surge anonimamente, e some anonimamente; não sabemos se tinha filhos, mas tenta seduzir o jovem José. Falha porque José a enfrenta com a mente, consciência e vontade. Vinga-se. Desaparece. Bem que Provérbios fala disso em 5.3-6, 8.20. Sem culpa, José é levado outra vez ao pó. PRISÃO (Gn 39.20 - 41.36) Não parece ser uma historia de muito futuro. Afinal, fora vendido, caluniado e, agora, encarcerado. As prisões no Egito tinham três funções: eram cárceres (como hoje), reservas de trabalhos forçados (fornecendo mão-de-obra gratuita para as construções) e casa de detenção onde aqueles em prisão
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    124 preventiva esperavamo julgamento, que era o caso de José. Pois, se Abraão teve Moriá como ponto marcante de crescimento e amadurecimento, se Jacó teve Peniel, José tem a prisão do Egito. Ali passou três longos anos, pois precisava amadurecer para funções mais elevadas. Estudou o caráter dos criminosos, dos prisioneiros de guerra de diferentes partes do mundo; conheceu funções da corte. Que extraordinária escola de administração! Deus continua a abençoá-lo: "O Senhor, porém, era com José, estendendo sobre ele a sua benignidade e dando-lhe graça aos olhos do carcereiro,"11 e ele recomeça sua lenta ascenção. Tornou-se imediato do comandante da prisão. É posição de liderança e responsabilidade: "E o carcereiro não tinha cuidado de coisa alguma que estava na mão de José, porquanto o Senhor era com ele, fazendo prosperar tudo quanto ele empreendia".12 Nesse tempo, o copeiro-mor e o padeiro-mor do palácio são enviados para a prisão. Têm cargo de importância na corte, mas corrupção no governo já existia, e os dois são confiados a José. Sonham... O sonho do copeiro-mor está registrado em Gênesis 40.9-11, o do padeiro-mor em 40.16,17. José os interpreta (tudo creditando a Deus13), e os sonhos efetivamente se cumprem. PODER (Gn 41.37 - 50.26) Dois anos se passam, e agora o próprio rei tem um sonho.14 Mas os adivinhadores, os sábios, os mestres não sabem interpretá-lo (serão sacerdotes do deus Ra?15). O copeiro-mor lembra-se de José, que foi mandado buscar. O moço é preparado para ser apresentado ao Faraó: traja-se à moda egípcia, tira a barba (judeus a usavam), veste roupa limpa, e vai ao pal ácio. Interpreta o sonho,16 e recomenda ao rei que indique alguém para gerenciar a armazenagem de comida para os sete anos de fracas colheitas, fomes e recessão. O governante fica tão impressionado que o próprio José é nomeado para a função. MANUSCRITOS DO MAR MORTO UMA GRANDE FONTE DE AJUDA NA COMPREENSÃO DA BÍBLIA Professor Antony Steff Gilson de Oliveira Intrigantes, inquietantes, polêmicos e esclarecedores. Apenas um misto de palavras pode definir o que são os Manuscritos do Mar Morto e sua importância para os estudiosos da religião. Descobertos em 1947 por um garoto beduíno que pastoreava cabras ao largo das cavernas de Qumrã, nos arredores do Mar Morto, e vendidos pelo amigo desse pastorzinho a um estudioso judeu e um padre, esses rolos de pergaminho, pele e bronze achados em jarros de barro, que j á viajaram o mundo, passando pelas mãos de estudiosos e catedráticos, têm feito uma verdadeira revolução no estudo do judaísmo e do cristianismo do século I. Apresentados ao mundo, os Manuscritos do Mar Morto tem influênciado e esclarecido, desmistificado e reafirmado vários pontos do panorama bíblico.
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    125 Mas, apesardisso tudo, perguntas ficam no ar sempre que esses manuscritos s ão citados, pois, constantemente, ouve-se muita polêmica ao seu redor. A primeira pergunta que logo se faz é qual o importante legado que esses pergaminhos deixaram para a estudo bíblico? Como e porque esses antigos escritos podem ajudar na compreensão do século I, do judaísmo e do cristianismo primitivo? Essa intrigantes perguntas vão aos poucos sendo respondidas quando se começa a descobrir o dia-a-dia da comunidade de Qumrã, seus hábitos, leis e crenças. Quando se começa a tomar conhecimento do que realmente se passava no panorama político, econômico e social da época dos qumramitas. Miraculosamente, uma novo modo de pensar é revelado quando se toma contato com esse admirável novo mundo bíblico. E mais, passa-se a ver que os Manuscritos do Mar Morto foram um descoberta de valor inestim ável, pois tanto confirmam a integridade e validade do texto b íblico (vide o rolo do livro de Isaías, onde, em todo texto, achou-se apenas sete variantes, sendo seis palavras diferentes, por ém sinônimas, e uma que, apesar de não ser sinômina, em nada alterava a integridade do livro) como também esclarecem o texto, pois tiram o véu do mistério que encobria o real modo de pensar, viver e acreditar das pessoas mais próximas a época do início do cristianismo. A Comunidade de Qumrã Comumente incluída na seita dos essênios, a comunidade inicial era formada de doze leigos e tr ês sacerdotes, que simbolicamente representavam as doze tribos de Israel e os três clãs levíticos (cf.Gn 46:11). Provavelmente, eles acreditavam ser um novo povo de Deus e, no seio do seu país, da terra de Israel, o restante fiel que obedeceria perfeitamente a lei de Mois és e a todas as revelações particulares dadas a Levi e seus descendentes. E mais, criam constituir um verdadeiro templo onde poder á se desenvolver uma liturgia segundo a vontade de Deus. Inspirados em Isaías 28:16, acreditavam que quem quisesse viver nessa comunidade deveria comportar-se sempre em perfeito estado de pureza como no templo ou como no santo dos santos. Para atingir esses alvos, tinham três objetivos: estabelecer a aliança segundo os decretos eternos, expiar em favor do país e dar aos maus sua retribuição. Baseados em Isaías 40:3, uma nova comunidade partiu para o deserto, a fim de preparar o caminho para a vinda escatológica de Deus. Ainda almejando ser uma assembléia santa, povo consagrado a Deus, eles dedicavam-se ao estudo aprofundado das Lei e as suas práticas. Já no deserto de Qumrã, a comunidade passou a receber novos membros e, com isso, a estabelecer um código penal, no qual encontravam-se leis como tempo de aprovação para integrar a comunidade, excomunhão ou exclusão e procedimentos gerais. Único lugar de salvação, a comunidade de Qumrã, agora distancida do templo de Jerusalém, lugar de culto do jadaísmo, apegou-se a profecia de Ezequiel 44:15 e passou a considerar-se independente de Jerusalém. E mais, cria que o verdadeiro templo era a própria comunidade e que os sacrifícios agradáveis a Deus eram os espirituais. Nessas comunidades-templo, tornava-se necessário, tanto para os sacerdotes como para os leigos, viver em perfeito e constante estado de pureza ritual, por isso valorizavam os rituais purificat órios.
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    126 Por isso,a água, desempenhava um papel importante na vida dos qumramitas, como testemunha a existência de cisternas e piscinas no recinto das construções comunitárias. Se por um lado a comunidade é adepta do batismo, chegando inclusive a crer que o batismo, por si s ó é incapaz de proporcionar uma verdadeira purificação, pois este depende essencialmente do Espírito de santidade, que Deus, por ocasião de sua visita, difundirá como aspersão, por outro lado obrigava seus membros a absterem-se de participar do culto sacrílego exercido pelo clero no templo de Jerusalém e, consequentemente, dos sacrifícios. Para os qumramitas, bastava a lei de Levítico 19:2: “Sede santos, porque eu, Javé vosso Deus, ou santo”. Além disso, eles consideravam o sacrifício de “louvor dos lábios”, unido a uma conduta irrepreensível, superior aos sacrifícios sangrentos. Com pontos teológicos comuns ao do judaísmo do Antigo Testamento, a comunidade Qumrã era adeptos da prática da oração, da observância do sábado, o qual era destinado para o louvor e das festas solenes como a de Pentecostes. A importância dos manuscritos do mar morto Diferentemente da opinião do crítico literário Robert Alter, que diz que “os rolos do Mar Morto são escritos de valor literário e espiritual menor, pois não oferecem qualquer conexão siginificativa entre o pensamento bíblico e o pensamento rabínico primitivo, e que os seus autores - os qumramitas - estavam fisicamente isolados do corpo político dos judeus” (“How The important are the Dead Sea Scrolls?”, pp. 34-41), é indiscutível o valor, a importância e a significação básica que os rolos têm para a real compreensão do desenvolvimento do judaísmo e do cristianismo. Como é sabido, os rolos “representam aspectos diversos da real condição do judaísmo durante três séculos do período intertestamentário - com todas as suas complexidades sectárias e heterodoxas”. E mais, boa parte dos manuscritos datam claramente do per íodo asmoneu, um período que, nas palavras de Menachem Stern, “(...)levou a independência espiritual e material da nação judaica tanto na Judéia quanto fora. (...) No século II a.C. um estado judaico expandiu-se sobre toda a Palestina, (...) que tornou-se religiosa e nacionalmente, a Grande Judéia, e esse fato imprimiu sua marca no caráter religioso, cultural e étnico na nação por um longo período. (...)houve um vigosoro desenvolvimento religioso e um fortalecimento do judaísmo nas nações da Diáspora”. Importantísmos, vários do rolos de Qumrã refletem claramente este desenvolvimento. Por outro lado, outros rolos datam do início da dominação romana (63.a.C.), a destruição da segunda comunidade judaica, quando outros acontecimento e mudanças abalaram a nação judaica. Nesse caso, os manuscritos do Mar Morto são uma rica e inesperada fonte de novos conhecimentos sobre esses dois períodos, onde encontra-se acontecimentos e personalidades do judaísmo palestino que até então desconhecidos. Extremamente relevantes para a história do pensamento e da espiritualidade judaica, os manuscritos do Mar Morto oferecem ao estudioso tanto leituras de excepcional interesse para a reconstru ção do texto original da Bíblia como também a história da religião bíblica será grandemente afetada e desmistificada. Afinal, os manuscritos colocam os estudiosos em melhor posição para, por exemplo, comparar os salmos do Saltério canônico com o conjunto de hinos helenísticos posteriores encontrados em Qumrã ou ainda poder melhor estudar das leis da escravatura na Paletina sob o domínio Persa, com base nos papiros de Samaria.
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    127 Além deimportantes, os manuscritos do Mar Morto causaram grande impacto. Um impacto que tanto se estendeu para uma forçosa mudança de mentalidade com relação as seitas judaicas do período intertestamentário. Ou seja, a partir dos rolos de Qumrã passou-se a entender mais e melhor sobre, por exemplo, os essênios, fariseus e saduceus. Por outro lado, o impacto dos rolos tamb ém foi sentido no que se refere a visão do movimento apocalíptco e o seu lugar na história dos últimos tempos da religião bíblica, pois até então considerado um fenômeno tardio e de vida curta no judaísmo (entre o séc II e I), o apocalipcismo passou a ser aceito como surgido a partir do s éculo IV a.C. Como se terá a oportunidade de ler mais adiante, os rolos do Mar Morto tamb ém foram, e ainda são, também muito importantes para uma melhor compreensão do Novo Testamento. Nunca deixando de lado a prudência nas comparações, pode-se dizer que muitas são as semelhanças nas crenças, instituições comunitárias, vocabulário e formas literárias dos qumramitas e dos cristãos primitivos. Se pegarmos, por exemplo, os apóstolos João e Paulo, encontrar-se-á muitas semelhanças entre seus escritos e os rolos. Em João encontramos, entre outros pontos, o dualismo-luz-trevas que também aparece frequentemente nos textos de Qumrã. Enquanto em João 12:35-36 lemos “Jesus lhes disse: Por pouco tempo a luz está entre vós. Caminhai enquanto tendes luz, para que as trevas não vos apreendam: quem caminha nas trevas não sabe para onde vai. Enquanto tendes luz, crede na luz, para vos tornardes filhos da luz”, no rolo de “Regras da Comunidade” na coluna 3 linha 19 a 25, lê-se que “Na morada da Luz... Nas mãos do Príncipe das Luzes está a dominação de todos os Filhos da Justiça — eles caminham nas vias da Luz - e nas mãos do Anjo das Trevas está a dominação dos Filhos da Perversidade - e eles caminham nas vias das Trevas. E é por causa do Anjo das Trevas que se dividem os Filhos da Justiça... e todos os espíritos de sua parcela tentam fazer cambalar os Filhos da Luz, mas o Deus de Israel e o Seu Anjo de verdade ajudam todos os Filhos da Luz ”. Quanto a Paulo, vemos várias semelhanças entre o livro de Efésios e os rolos “Regra dos Filhos da Luz” e “Regras da Comunidade”. Por exemplo, em Efésios 5:5 lemos “é bom que saibais que nenhum fornicário ou impuro ou avarento... tem herança no reino de Cristo e de Deus”, no rolo “Regra dos Filhos da Luz”, coluna 3, linhas 21-22, lemos “tu purificaste o espírito perverso de grande pecado, para que se mantenha em vigilância com o exército dos Santos e entre em comunhão com a Assembléia dos Filhos do Céu”. Em Efésios 5:12 temos outro paralelo. Enquanto na carta de Paulo lemos “Vede, pois, cuidadosamente como andais: não como tolos, mas como sábios”, no rolo “Regras da Comunidade”, coluna 4, linhas 23-24, lemos “até o presente, os Espíritos da verdade e de perversidade lutam no coração do homem: eles caminham na sabedoria e na loucura”. Nesse sentido, pode-se dizer que os manuscritos nos alargam, e mais um vez, clareiam nosso vis ão ainda um pouco embaçada do início do cristianismo e sua teologia. Apresentados como um dado novo e original, os manuscritos do Mar Morto, estão avalizando ou sugerindo um cristianização das idéias qumramitas, sem, todavia, sugerir que este tenha derivado da seita de Qumrã. Importante em todas as área do estudo bíblico, os manuscritos do Mar Morto tem feito uma verdadeira revolução nos conceitos e idéias pré-estabelecidas sobre um período de cerca de 2.000 atrás, onde emergiram o cristianismo e o judaísmo rabino, como poderemos ver a seguir.
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    128 Ajuda naCompreensão do Panorama do Judaíco do Séc. I Entre outras coisas foi partir deles que se passou a ter uma nova concep ção da mentalidade intertestamental, bem como do seu modo de viver e fé. Por outro lado, se teve de rever conceitos, como por exemplo o que se apregoava a respeito da língua falada nesse período. Segundo foi apurado nos manuscritos, três quartos dos textos, foram compostos em hebraico, desmentindo a id éia de que o aramaico tivesse superado o hebraico e ocupado o lugar de l íngua principal dos judeus da Palestina no século I a. D. Outra coisa relevante dos manuscritos para o judaísmo é através do rolo de Levítico e de outros fragmentos bíblicos e parabíblicos foi constatado que, sendo eles redigidos em escrita paleo -hebraica, no século II a.C., havia judeus palestinos que continuavam a usar a escrita hebraica original em textos do Pentateuco. E mais, esses rolos e outros fragmentos b íblicos encontrados nas cavernas, mostram que, na época em que os manuscritos foram escondidos, ainda não existia uma versão única e canonizada das escrituras, mas sim versões diferentes dos mesmos textos que circulavam entre os palestinos. Ajuda na Compreensão do Panorama do Novo Testamento Apesar de todas essas revelações do manuscritos do Mar Morto a cerca do judaísmo serem surpreendentes, é a relação dos documentos com o Cristianismo e o Novo Testamento que mais se ocupam a atenção do estudiosos. Afinal, várias idéias e práticas descritas nos rolos encontram eco nas idéias e práticas atribuídas aos primeiros cristãos. Uma das mais importantes dessas semelhanças diz respeito à refeição sagrada. Refeições comunais são descritas em detalhes em passagens de dois rolos, o “Manual da Disciplina” e a “Regra Messiânica”, onde, antes de comer, um sacerdote oficiante deveria das gra ças pelo pão e pelo vinho. No Novo Testamento uma cena semelhante a essa é narrada pelos primeiros cristãos: antes da sua crucificação, Jesus tomou o pão e o vinho da ceia pascal, os abençoa e distribui aos seus discípulos para que o comam (II Co 11:23-26). Outra afinidade entre os manuscritos e o cristianismo é o batismo. Para os cristãos primitivos, o batismo é um sinal de entrada na fé, talvez até um pré-requisito, aparecendo no Novo Testamento como algo quase imprescindível para a salvação (“Quem crêr e for batizado será salvo”). Em alguns rolos, principalmente no “Manual de Disciplina” existe menção do batismo, no qual é dito que penitentes teriam se negado a entrar nas águas. Somando-se a isso tem-se as cisternas de água achadas em Khirbet Qumrã. Somando-se ao batismo, tem-se a passagem do livro de Atos 2:44-45, que diz que os primeiros cristãos viviam juntos “(...) e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens, e dividiam - nos entre todos, segundo as necessidades de cada um”. Da mesmo forma, o “Manual de Disciplina” prescreve que aqueles que entrassem na comunidade deveriam ter suas riquezas colocadas num fundo comum para uso de todos os membros. Tendendo a compartilhar do mesmo cenário cultural e histórico, os manuscritos do Mar Morto e o Novo Testamento, demonstram preocupações idênticas, terminologias e idéias teológicas correlatas. Um exemplo clássico é a expressão “Filhos da Luz”, utilizada para designar o virtuoso povo de Deus,
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    129 que éencontrada tanto em alguns dos rolos quanto em um dos evangelhos (Lc 16:8). Além do título específico “Filhos da Luz”, o dualismo luz/trevas aparece tanto em alguns dos rolos quanto em alguns dos livros do Novo Testamento, principalmente no evangelho e nas ep ístolas de João. Outro exemplo é o modo como tanto os textos do Novo Testamento e os rolos utilizam as escrituras judaicas para justificar suas crenças. Outro dado a se considerar é que tanto na maior parte dos rolos como no Novo Testamento, encontra-se uma crença num Deus intimamente envolvido com os assuntos humanos. Um Deus que pune e recompensa seu povo como Ele acha que deve. Entre Deus e a humanidade, entretanto uma miríades de anjos agiam como intermediários. Anjos aparecem em vários rolos; auxiliam os humanos na batalha, guiam suas ações e cultuam a Deus. Já no Novo Testamento, da mesma forma, os anjos aparecem. Em Lucas 1 e 2 os anjos tanto anunciam a vinda de Jesus como também dizem a Maria e José o que fazerem. Já em Apocalipse, os anjos tanto cultuam a Deus como executam as puni ções de Deus contra os ímpios. Outra semelhança a se considerar é a existente entre a doutrina dos “Dois Espíritos” encontrada tanto no Manual de Disciplina como em algumas passagens do Novo Testamento. De acordo com o “Manual de Disciplina”, as almas humanas são guiadas por dois seres espirituais ou anjos: o espírito da luz tenta guiar a humanidade pelos caminhos da equidade e é quem governa sobre todos os indivíduos justos; já os Espírito das Trevas, tenta as pessoas a agirem iniquamente e tem total dom ínios sobre os iníquos. No Novo Testamento, Satã aparece diversas vezes como um espírito que tenta as pessoas a praticar o mal, chegando a tentar inclusive a Jesus (Mt. 4:1-11). Também 1 Jo. 4:16, fala do espírito do anticristo que, sendo oposto ao espírito da verdade, opõe-se ao povo de Deus e tenta desviá-lo do bom caminho. Interessante também é o fato de que tanto os cristãos primitivos como os autores de alguns dos rolos buscarem alternativa ou substituição para o sacrifícios de sangue. Para os primeiros cristãos a alternativa foi o vicário sacrifício e morte de Jesus, que, diz Hebreus, foi um sacrifício por excelência que tornou obsoleto todos os demais. Nos rolos, essa mesma id éia aparece quando le-se no “Manual de Disciplina” que um indivíduo virtuoso poderia redimir os pecados do outro através do seu próprio sofrimento. Percebe-se que tanto o “Manual de Disciplina” como o “Novo Testamento” beberam da imagem do “servo sofredor” de Isaías 52 e 53. Encerrando, podemos citar o rolo encontrado na Caverna 4 e batizado de “O Messias Perfurado”, onde uma figura misseânica, geralmente identificada como o “Príncipe da Congregação”, aparece agindo como salvador. Seu papel era liderar as tropas de Israel na batalha contra as nações e recuperar a glória nacional de Israel. Um papel mais ou menos semelhante é atribuído a Jesus no Novo Testamento - em sua segunda vinda ele viria com os exércitos do céu para executar a vingança contra os inimigos do povo de Deus (Mateus 24, Apoc. 9). Todos esses paralelos existentes entre os manuscritos do Mar Morto e o Novo Testamento servem, entretanto, para demonstrar um ponto importante: eles atestam inequivocamente que diversas tradições cristãs registradas no Novo Testamento estavam “em casa” no universo do judaísmo antigo. E mais, mostram-se impregnados pelo rico legado literário de uma era de crise do povo judaico. Uma era que ocasionou e marcou os estágios iniciais do cristianismo.
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    130 NA PRESENÇADE DEUS Professor Diego Roberto Uma das passagens bíblicas do Antigo Testamento que sempre me fascinou est á registrada em 1 Crônicas 17*. Um dos motivos dessa minha fascinação, que não deixa de vir acompanhada de um profundo sentido de reverência, será apresentado no decurso deste artigo. O texto de Crônicas trata da aliança do Senhor com Davi e da oração de ações de graça que este fez. Você poderá lê-lo na íntegra agora mesmo, para uma melhor compreensão daquilo que pretendemos abordar logo em seguida. Sucedeu que, habitando Davi em sua própria casa, disse ao profeta Natã: Eis que moro em casa de cedros, mas a arca da aliança do Senhor se acha numa tenda. Então Natã disse a Davi: Faze tudo quanto está no teu coração; porque Deus é contigo. Porém naquela mesma noite, veio a palavra do Senhor a Natã, dizendo: Vai, e dize a meu servo Davi: Assim diz o Senhor: Tu não edificarás casa para a minha habitação; porque em casa alguma habitei, desde o dia que fiz subir a Israel até ao dia de hoje; mas tenho andado de tenda em tenda, de tabern áculo em tabernáculo. Em todo lugar em que andei com todo o Israel, falei acaso alguma palavra com algum dos seus ju ízes, a quem mandei apascentar o meu povo, dizendo: Por que não me edificais uma casa de cedro? Agora, pois, assim dirás ao meu servo Davi: Assim diz o Senhor dos Exércitos: Tomei-te da malhada, e detrás das ovelhas, para que fosses príncipe sobre o meu povo Israel. Eu fui contigo, por onde quer que andaste, eliminei os teus inimigos de diante de ti, e fiz grande o teu nome, como só os grandes têm na terra. Preparei lugar para o meu povo Israel, e o plantarei, para que habite no seu lugar, e não mais seja perturbado, e jamais os filhos da perversidade o oprimam, como dantes; desde o dia em que mandei houvesse juízes sobre o meu povo Israel; porém abati a todos os teu inimigos; também te fiz saber que o Senhor te edificaria uma casa. Há de ser que, quando teus dias se cumprirem, e tiveres de ir para junto de teus pais, então farei levantar depois de ti o teu descendente, que ser á dos teus filhos, e estabelecerei o seu reino. Esse me edificará casa; e eu estabelecerei o seu trono para sempre. Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho; a minha misericórdia não apartarei dele, como a retirei daquele, que foi antes de ti. Mas o confirmarei na minha casa e no meu reino para sempre, e o seu trono será estabelecido para sempre. Segundo todas estas palavras, e conforme a toda esta visão, assim falou Natã a Davi. Então entrou o rei Davi na casa do Senhor, ficou perante ele, e disse: Quem sou eu, Senhor Deus, e qual é a minha casa, para que me tenhas trazido até aqui? Foi isso ainda pouco aos teus olhos, ó Deus, de maneira que também falaste a respeito da casa de teu servo para tempos distantes; e me trataste como se eu fosse homem ilustre, ó Senhor Deus. Que mais ainda te poderá dizer Davi, acerca das honras feitas a teu servo? pois tu conhec es bem a teu servo. Ó Senhor, por amor de teu servo, e segundo o teu coração, fizeste toda esta grandeza, para tornar notórias todas estas grandes cousas! Senhor, ninguém a semelhante a ti, e não há outro Deus além de ti, segundo tudo o que nós mesmos temos ouvido. Quem há como o teu povo Israel, gente única na terra, a quem tu, ó Deus, foste resgatar para ser teu povo, e fazer a ti mesmo um nome, com estas grandes e tremendas cousas, desterrando as na ções de diante do teu povo, que remiste do Egito? Estabeleceste a teu povo Israel por teu povo para sempre, e tu, ó Senhor, te fizeste o seu Deus. Agora, pois, ó Senhor, a palavra que disseste acerca de teu servo e acerca da sua casa, seja estabelecida para sempre; e faze como falaste. Estabeleça-se, e seja para sempre engrandecido o teu nome, e diga-se: O Senhor dos Exércitos é o Deus de Israel; e a casa de Davi teu servo será estabelecida diante de ti. Pois tu, Deus meu, fizeste ao teu servo a revelação de que lhe edificarias casa. Por isso o teu servo se animou para fazer-te esta oração. Agora, pois, ó Senhor, tu mesmo és Deus, e prometeste a teu servo este bem. Sê, pois, agora servido de abençoar a casa de teu servo, a fim de permanecer para sempre diante de ti, pois tu, ó Senhor, a abençoaste, e abençoada será para sempre.
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    131 Depois dereceber um balde de água fria em suas boas e louváveis intenções, Davi é alentado novamente com a excelente notícia de que o seu reino seria estabelecido para sempre. Imediatamente ele esquece a tristeza e começa a louvar a Deus numa oração de ações de graça. Desta belíssima oração queremos destacar um dos pontos cruciais da mesma, que é a primeira parte do versículo que diz: "Então entrou o rei Davi na casa do Senhor, ficou perante ele, e disse..." (1 º Cr 17.16). Observe a expressão: "ficou perante ele". Ela é tão fundamental e imprescindível no relato bíblico que eu me atrevo a dizer que a oração, a adoração, o louvor, ou qualquer atitude cristã que possa ser definida como digna do agrado de Deus não subsiste quando não se compreende o que realmente significa estar na presença de Deus. Antes de começar a abrir a boca para falar, Davi se colocou na presença do Senhor. Defendo a tese de que estar na presença de Deus, com toda a implicação que ela significa, é tão importante quanto a oração em si ou qualquer ato cúltico propriamente dito. A expressão hebraica hfwoh:y y^en:pIl (perante o Senhor) que aparece apenas uma única vez na oração de Davi, ocorre muitas vezes no Antigo Testamento. Somente no livro de Lev ítico a expressão, com seus sinônimos correlatos, aparece cerca de sessenta vezes. Sua única ocorrência na oração de Davi é suficiente para determinar todo o conteúdo da oração do salmista. Antes de tratarmos acerca do que significa estar diante do Senhor, é importante tentarmos compreender primeiramente em que consiste a presença de Deus. A PRESENÇA DE DEUS Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento há pelo menos três sentidos básicos e essenciais onde os substantivos hebraico {yinfP e grego pro/swpon (rosto, face, semblante) e as preposições y^en:pIl e e)nw/pion (perante, diante de, em face de) são, respectivamente, utilizados para indicar a presença de Deus na Bíblia. Em primeiro lugar, temos a presença geral e inescapável de Deus, como aquela que é descrita no Salmo 139.7-12: Para onde me ausentarei do teu Espírito? para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares: ainda lá me haverá de guiar a tua mão e a tua destra me susterá. Se eu digo: As trevas, com efeito, me encobrirão, e a luz ao redor de mim se fará noite, até as próprias trevas não te serão escuras: as trevas e a luz são a mesma cousa. Um segundo sentido é o que podemos chamar de presença celestial de Deus. Em Eclesiastes 5.2 lemos: Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu, na terra; portanto, sejam poucas as tuas palavras. "C éus" aqui é o lugar da habitação de Deus, às vezes denominado "alturas", "alturas dos céus" ou "céus dos céus" (Sl 113.5; Jó 22.12; 1 Rs 8.27). É, de certa forma, o lugar onde habita a glória de Deus. Digo "de certa forma" porque o termo "alturas", por exemplo, não é designativo de lugar, pois Deus habita a eternidade, mas é significativo daquilo que está além do que está criado, pois Deus já estava lá antes que houvesse céus e terra. Os anjos de Deus estão diante de sua presença celestial (Mt 18.10; Lc 1.19). Os ímpios, por sua vez, serão banidos por toda a eternidade da presença abençoadora de Deus (2 Ts 1.9), visto que diante do Senhor não pode haver nenhuma jactância de justiça própria (1 Co 1.29). Mas os crentes serão apresentados imaculados perante o Senhor pela obra que Cristo realizou em favor deles (Jd 24), para desfrutarem, como queria o salmista, da plenitude de alegria na presen ça de Deus (Sl 16.11).
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    132 O terceirosentido da presença de Deus refere-se àquela presença especial do Senhor com o seu povo para abençoá-lo. A expressão maior dessa presença foi revelada no Emanuel, o Deus conosco, Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Acerca deste sentido específico da presença de Deus, Geoffrey W. Bromiley faz uma observação interessante. Diz ele: "Pode-se notar que a ênfase da Bíblia não recai na presença divina como uma imanência geral, daí a naturalidade com que se pode dizer que Jonas procurou fugir da presença de Deus (Jn 1.3), ou que os adoradores comparecem diante da presença de Deus (Sl 95.2)" (EHTIC, Vol. III, p. 179). E ainda: "Somos recebidos na presença eterna de Deus somente se tivermos recebido primeiramente a presença de Deus conosco na Pessoa de Jesus Cristo (Jo 1.12)". É a este terceiro sentido da presença de Deus (presença especial com o seu povo) que vamos nos referir daqui por diante. O CRISTÃO NA PRESENÇA DE DEUS Existe uma diferença marcante entre a presença de Deus propriamente dita e o estar na presença de Deus. Que Deus está no meio do seu povo para abençoá-lo é indiscutível. Vimos algumas passagens bíblicas que comprovam esta verdade. Temos hinos bíblicos, teológicos e doutrinários que dizem acertadamente que Deus está aqui. Isso é verdade. A presença de Deus é uma realidade que devemos cantar e crer de todo o nosso coração. A presença de Deus é essencial em nossa vida. Recomendo, para uma maior compreensão da presença especial de Deus, a leitura do excelente artigo de David Wilkerson The Power of the Lord’s Presence !. Entretanto, estar na presença de Deus é outra coisa. Eu posso afirmar com sinceridade e inteireza de coração que "Deus está aqui", mas isso não significa que necessariamente eu esteja na presença de Deus. Como pode ser isso? Talvez você esteja pensando: "Ora, se Deus está aqui, é evidente que estamos na presença dele". Repito: Que Deus está aqui é fato, porém, isto não significa que necessariamente estamos na presença dele. Imagine uma igreja congregada para orar, louvar e adorar a Deus. Deus está no meio dela (cf. Hb 2.12). Não temos dúvida alguma em relação a isto. Contudo, será que podemos afirmar do mesmo modo que a igreja também "está na presença dele"? Infelizmente não. Estar na presença de Deus significa se aproximar com a fé e a segurança de que verdadeiramente estamos perante o Senhor. Permita-me esclarecer este ponto com um comentário de R. A. Torrey sobre a oração. Torrey fez a seguinte colocação a respeito da expressão "a Deus" de Atos 12.5: A primeira coisa a ser notada neste versículo é a breve expressão "a Deus". A oração que tem poder é aquela oferecida a Deus. Alguns dirão porém, "Mas toda oração não é feita a Deus?" Não. Grande parte da chamada oração, tanto pública quanto particular, não é feita a Deus. Para que a oração possa ser realmente dirigida a Deus, é preciso primeiro uma aproximação definida e consciente de Deus quando oramos; devemos ter uma compreensão definida e nítida de que Deus está se inclinando e ouvindo quando oramos. Nossa mente está ocupada com a idéia daquilo que precisamos e não com o Pai poderoso e cheio de amor a quem pedimos. Freqüentemente não estamos ocupados nem com a necessidade
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    nem com Aquelea quem estamos orando, mas nossos pensamentos estão vagando aqui e ali, pelo mundo afora. (Como Orar, pp. 20,21). 133 Quem de nós nunca cometeu os pecados descritos por Torrey, da desconcentração e do esquecimento de Deus na oração? E por que vez ou outra acontece assim conosco? Exatamente porque freqüentemente perdemos a perspectiva da presença de Deus antes de orarmos. Antes de orar é preciso fazer como o salmista, se colocar diante do Senhor. Antes de orar é preciso estar no espírito dessa presença, e se aproximar de Deus com fé e convicção. Quando nos colocamos na presença de Deus, e nos encontramos face a face com Ele no lugar em que oramos, nossa ora ção não se perde no ar e nem falamos coisa com coisa. Se queremos orar corretamente, precisamos, antes de tudo, conseguir uma audiência com Deus. É preciso entrar em Sua presença. Agora, o mesmo princípio da oração deve ser aplicável ao louvor e adoração do crente e em sua vida diária com Deus. Lembremos que Jesus ensinou que os verdadeiros adoradores são aqueles que o Pai procura para adorá-lo em espírito e em verdade (Jo 4.23). Isto significa que Deus deseja que os seus adoradores estejam verdadeiramente em sua presença. E o autor aos Hebreus descreve nossa responsabilidade neste particular do seguinte modo: Tendo,pois irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo v éu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura. Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel. Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima (Hb 10.19-25). A Bíblia Almeida Revista e Atualizada dá a esta passagem o sugestivo título: O privilégio de acesso dos crentes à presença de Deus. Dentre tantas coisas boas que o autor aos Hebreus nos fala, fica evidente que para uma aproxima ção correta de Deus é preciso a sinceridade de um coração humilde e agradecido diante do Senhor, além da pureza de espírito e fé. "De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam" (Hb 11.6). Viver na presença de Deus dia-a-dia deve ser o ideal cristão. O próprio Deus havia ordenado a Abraão: "Anda na minha presença e sê perfeito". E acerca de Enoque é dito: "Andou Enoque com Deus e já não era, porque Deus o tomou para si" (Gn 5.24). Meu irmão, minha irmã, prepare-se para estar diante de Deus. Certifique-se, antes de sua oração ou de qualquer ato de adoração a Deus, se você realmente está na presença do Senhor . Não ouse orar ou cantar louvares a Deus se ainda não estiver certo de estar na presença desse Deus que está sempre com você. Estar na presença do Senhor é muito mais que uma convicção gerada por nossos falíveis sentimentos. É a certeza da fé que toca o coração de Deus. (*)O mesmo relato também aparece, com pouquíssimas variações, em 2Samuel 7.
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    134 "... OANO ACEITÁVEL DO SENHOR" Professor Diego Roberto Então, pelo poder do Espirito, voltou Jesus para a Galiléia, e sua fama correu por todas as regiões circunvizinhas. Ele ensinava nas suas sinagogas, e por todos era louvado. Chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou, num dia de sábado, na sinagoga, segundo os eu costume, e levantou-se para ler. Foi-lhe dado o livro do profeta Isaías. Ao abrir o livro, achou o lugar onde estava escrito: O Espirito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar aos pobres. Enviou-me para apregoar liberdade aos cativos, dar vistas aos cegos, por em liberdade os oprimidos, e anunciar o ano aceit ável do Senhor. Fechando o livro, devolveu-o ao assistente, e assentou-se. Os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele. Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos." (Lc 4.14-21). Começa no versículo quatorze uma das extraordinárias narrativas de todo o evangelho. Jesus está no culto da sinagoga, onde lê Isaías 61.1,2 (acrescido de 58.6). Com essa narrativa, única nos Evangelhos, enquanto Mateus e Marcos dizem que Jesus anuncia o reino, Lucas mostra que o reino é a Sua realidade, é o Messias, o Cristo, o Ungido de Deus. UMA ANÁLISE BREVE Diferentes critérios podem ser utilizados passar estudar este trecho. Pode acontecer que algu ém tenha uma veia literária, e através dela veja apenas o aspecto poético de Isaías 61. Observe-se o paralelismo entre os termos apresentados, entre os versos, por exemplo: "Porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres", e "Restauração de vista aos cegos". Porque, praticamente, é a mesma coisa que está sendo dita. Quando diz: "enviou-me para proclamar libertação aos cativos", isso é paralelo a "para por em liberdade os oprimidos". É a mesma idéia, portanto. E todo esse paralelismo, encontra o seu ponto culminante na expressão final: "para proclamar o ano aceitável do Senhor", que é o objeto da nossa reflexão. Pode ser que alguém deixe de lado o aspecto literário, mas queira destacar o apelo político do que Jesus afirmou, o que, aliás, tem sido bastante explorado. Busca-se ver o lado político de expressões tão fortes como, "anunciar boas novas aos pobres", "libertação aos cativos", "restauração de vista aos cegos", "por em liberdade os oprimidos". O apelo político é muito do agrado dos radicais de plantão. Desejamos, porém, ver a extraordinária lição de apostolado que se encontra no que Jesus Cristo disse, aplicando a Si mesmo. Enfocamos o embasamento de um ministério que é repassado à Igreja de Jesus Cristo. Queremos analisar a missão quer nos foi entregue pelo Senhor, porque vejo que tudo começa com a unção, visto que nenhum empreendimento em nome de Jesus Cristo subsiste sem a unção do Espírito Santo; nenhuma empresa em nome do evangelho, nenhuma campanha, nada, movimento algum pode subsistir em nome de Jesus Cristo se não tiver a unção do Espirito Santo sobre si. Por essa razão, Jesus leu: "O Espirito do Senhor está sobre mim", e daí em diante Ele explica para quê.
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    Pedro num cultode proclamação do evangelho, na casa de um militar, um oficial do exército romano, refere-se ao ministério de Jesus Cristo, e afirma: "Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele." (At 10:38), o que vai nos conduzir às expressões que definem a plataforma que vai ser seguida por Jesus Cristo, o Seu programa. "O Espirito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar aos pobres. Enviou-me para apregoar liberdade aos cativos, dar vista aos cegos, por em liberdade os oprimidos." (Lc 4.18). 135 PROFUNDA CARGA EMOCIONAL "Pobres". falar de pobreza é uma carga emocional fortíssima. O jornal A Tarde (de Salvador) vem falando sobre a fome e a desnutrição no estado da Bahia. Falar de pobreza traz para nós sentimentos tremendamente emocionais; "Cativos". Falar de prisão é a mesma coisa. É pesado, é triste, traz mágoa. "Opressão". Há opressão demoníaca neste mundo. O crente é oprimido, mas não possuído. Jesus fala de cegueira, e lê essas palavras em Isaías 61, capítulo considerado como o cerne da mensagem desse profeta. Jesus se identifica com o fato profético descrito, e demonstra ser Ele mesmo as boas novas; o profeta escatológico, o proclamador do evangelho; demonstra ser Aquele que traz libertação para os oprimidos, função eminentemente messiânica. Para os pobres, para os cativos, para os cegos, e para os oprimidos que s ão, não apenas os desafortunados deste mundo, mas todos os que têm necessidade especial de dependência de Deus (Lc 1.53; 6.20). Ou na expressão do comentarista de Lucas da Bíblia do Intérprete, "o cativeiro a que Jesus se refere (Lc 4.18, 19) é evidentemente moral e espiritual. O pensamento não se move no plano de abrir portas físicas, para que os presos saiam], mas livrar os homens da invisível, porém terrivelmente real prisão de suas almas". Na verdade essas palavras de tão forte carga emocional descrevem a falência espiritual à qual Jesus dá especial atenção. E no verso 19: "e para proclamar o ano aceitável do Senhor". Esse ano a ser proclamado é a era messiânica iniciada nele mesmo, na pessoa e na obra de Cristo. No verso 21, verificamos: "Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos". Os contemporâneos de Jesus não duvidavam que o reino de Deus viria algum dia. Todos criam no rei no de Deus. Mas Jesus está ensinando que Deus está agindo agora, naquele mesmo momento, no presente, na obra dEle mesmo. E, assim, Ele se torna o centro da Hist ória, e até a História, porque a partir dEle ela passou a ser antes de Cristo (a. C.) e depois de Cristo (d. C.). O propósito de Deus é tudo colocar sob a autoridade de Jesus Cristo. E aqui O temos Senhor da História, agora com a vinda do reino, exaltado, glorificado nos termos de Mateus 28, final do verso 18 que diz: "foi-me dado todo o poder no céu e na terra". E porque recebemos a
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    graça da libertação,podemos encontrar esta expressão do apóstolo Paulo: "Seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro, tudo é vosso" (1 Co 3.22), autoridade que nos é passada por Jesus Cristo. 136 AS LIÇÕES O ser humano vive preocupado com o seu salário, com a inflação que parece querer voltar; com os aumentos das passagens dos ônibus (verdade que agora mais espacejados), o avanço e engodo das seitas, com o desenvolvimento do país, com a paz mundial. Pois Jesus traz uma nova compreensão da vida humana, por isso que, plenamente de acordo com sua plataforma de ação, é o portador da obra redentora de Deus, e oferece Sua palavra e Suas ações como desafio à nossa própria fé. Muitos contemporâneos de Jesus criam que o reino de Deus era só comida e bebida (Rm 14.12), ou libertação política (Mt 27.39-44; Jo 6.14ss; At 1.6); ou, ainda, poder temporal (Lc 22.24-30; Mt 20.20). Até os discípulos caíram nesse erro?! Mas Jesus diz que o reino de Deus já veio em Sua pessoa e dá prova disso (Mt 4.17; 11.1-6; 12.28; Lc 17.20ss). Pois a fraqueza de algumas pregações está na idéia de que o reino de Cristo ainda virá (pregação do premilenismo e dos posmilenismo ). Não é isso o que Jesus Cristo nos ensina, e permitam-me voltar a Lucas 17.20,21 : "Interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes: O reino de Deus não vem com aparência visível. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Ei-lo ali! Porque o reino de Deus está dentro de vós." (Mt 12.28; 3.2). É o reino inaugurado, apesar de que será plenamente cumprido na Parousia, na Segunda Vinda (Lc 22.18). É aquilo que C. H. Dodd chamou de "escatologia realizada", as coisas dos últimos dias já estão acontecendo e aconteceram na Pessoa de Jesus Cristo. Quais são as lições que tiramos desses fatos? A primeira é que Jesus Cristo é o cumprimento das antigas profecias. Apesar de Suas palavras fazerem nascer opiniões diferentes ou de admiração (Lc 4.22), ou de repulsa (v. 28), Jesus cumpre as profecias! Apesar se quererem os Seus contemporâneos os sinais do shalom que Ele traz (v. 23), Jesus Cristo traz a salvação integral, o verdadeiro shalom, a paz. O apóstolo Paulo diz que "Ele é a nossa paz" (Ef 2.14). A segunda lição é que o reino de Deus é Jesus Cristo entre nós, é o Emanuel. Emanuel é toda uma expressão hebraica, que significa "Deus entre nós", "Deus no nosso meio", "Deus habitando no nosso meio", "Deus conosco". Não é libertação para o futuro, para os últimos dias, mas Jesus é hoje a boa notícia, a graça , a redenção dos homens. Jesus glorificado, Jesus Salvador, Jesus senhor, Jesus, o Cristo, é poder renovador sobre a terra, é salvação para a pessoa humana individual, razão porque o livro dos Atos dos Apóstolos repete até o fim que a verdade está em Cristo Jesus, e mostra o modelo da "Plataforma de Nazaré" na defesa/sermão de Paulo quando fala ao rei Agripa em Atos 26.17,18 : "Eu te livrarei deste povo, e dos gentios, a quem agora te envio, para lhes abrir os olhos, e das trevas coosn verter à luz, e do poder de Satanás a Deus, a fim de que recebam remissão dos pecados e herança entre aqueles que são santificados pela fé em mim". Tocado por isso, Agripa diz a Paulo, "Ora, Paulo quase que eu viro cristão" (v. 28 BLH), e esse foi o seu grande erro, perto do reino, mas sem salvação: "Quase aceito o evangelho". O erro de muita gente é um "quase".
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    A terceira liçãoa destacar é que a missão da Igreja é dada por Deus . "A missão de Cristo [é] padrão e modelo para missão de sua igreja", diz Grellert em Os Compromissos da Missão. "Disse-lhes Jesus de novo: Paz seja convosco! Assim como o pai me enviou, eu vos envio." (Jo 20.21). Isso quer dizer que para igrejas que têm como modelo a missão de Jesus, há necessidade de vidas modeladas pelo mesmo Jesus. E assim disse João em sua Primeira Carta: "aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou" (1 Jo 2.6). "Pois quem conheceu a mente do Senhor, para que o possa instruir? Mas n ós temos a mente de Cristo" (1 Co 2.16); "De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas a si mesmo se esvaziou, tomando a forma de servo, fazendo - se semelhante aos homens. E, achando na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz." (Fp 2.5-8); "Pois os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conforme a imagem de seu filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos" (Rm 8.29). Assim, temos que moldar a nossa vida pela de Jesus Cristo. Então, se como nós afirmamos, Missões é o nosso braço para alcançar este mundo para o Senhor. Temos o fato de que o Deus vivo é um Deus que envia. Os povos pagãos, vizinhos de Israel, não tinham deuses que enviavam a qualquer lugar pessoas com uma mensagem. Mas o nosso Deus é um Deus que envia: Ele enviou Seu Filho ao mundo, diz a Bíblia; enviou os apóstolos; Jesus Cristo enviou os setenta; e envia a Igreja; ele mesmo manda o Espírito Santo à Igreja para a unção, e a nossos corações, por isso Ele nos envia, também ao mundo perdido. "Disse-lhes Jesus de novo: Paz seja convosco! Assim como o pai me enviou, eu vos envio." (Jo 20.21) , "Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu vos enviei ao mundo." (Jo 17.18). 137 E aí vem, a quarta lição: é preciso redescobrir a importância da escatologia, que é o ponto de contato entre a teologia (aquilo que nós cremos), e a missão (aquilo que nós fazemos). É preciso centralizar tudo na escatologia, porque do ponto de vista da teologia, se n ão tivermos uma dimensão de futuro, o evangelho deixa de ser evangelho e se torna ética: um clube ético, e só. Se não olharmos para a Segunda Vinda de Cristo, teremos um grupo de idealistas que toda manh ã de domingo vem para cantar, orar, e pronto, idealismo apenas e nada mais. Agora do ponto de vista de Missões, a escatologia é a sua razão. O Povo de Deus não pode ter crise de identidade, pois sabe quem Deus é, e sabe que é o povo desse Deus maravilhoso, Vivo e Verdadeiro! É povo que sabe o que faz! E sabe para que vive, porque a identidade da igreja como povo de Deus é uma identidade missionária! Além disso, o povo de Deus não pode perder a memória. Quanta gente desmemoriada lá fora! De vez em quando é dito que "O Brasil está perdendo a memória, destruindo os seus monumentos, e seu passado". A nossa memória é o Novo Testamento, é a Escritura Sagrada! A nossa memória são as ações apostólicas, o que eles fizeram no passado! A nossa memória são os atos da Igreja Primitiva; como agia, assim queremos agora! O Povo de Deus há de estar padrões acima do mundo. Que história é essa de querermos nos igualar ao mundo?! E damos um exemplo: se o mundo vem à Igreja e ouve sua própria música aqui sendo tocada, onde está o fermento levedando a massa? Se nos colocamos no
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    138 mesmo péde igualdade, ou até abaixo, como vamos elevar os padrões do mundo? Mas Jesus, o Cristo de Deus, é decisivo e normativo para os assuntos de fé e prática. Afunilando o assunto um pouco mais, isso vai trazer mais uma lição: é a de que ninguém pode obedecer às ordens de "ir" ou de "servir" se não tiver amor. Porque a obra de expansão do reino de Deus não pode ser realizada com carência de amor. Aí Jesus perguntou a Pedro: "Simão, filho de João, [verdadeiramente] tu me amas?" (Jo 21.16). E Jesus perguntou tantas vezes porque Pedro nunca respondia "[verdadeiramente] eu te amo", mas tão somente "eu te amo, eu tenho significativa amizade por ti". Que significa isso hoje? Sem dúvida, temos três passos no compromisso nosso com Cristo. Quando Jesus nos pergunta, "Fulano, você verdadeiramente me ama?", temos um convite à autoconsciência. Você tem que tomar consciência de quem é diante de Deus, e deste mundo também. Você representa as mãos de Deus, os pés de Deus e os olhos de Deus; você é um instrumento de Deus, um agente do reino de Deus. A segunda coisa é que você tem um convite à consciência da Pessoa de Jesus Cristo que é o Senhor do nosso futuro, é o Messias de Deus, é o ungido do Pai, é o Filho de Deus, é o Senhor de nossas almas, é o Salvador de nossas vidas. Você tem, igualmente, um compromisso. Há um hino que diz, "Eis-me submisso pra teu serviço". Bonito, não é? Porém, há crentes que parecem que cantam assim: "Eis-me sumiço ...", quer dizer, "caio fora, desapareço, não quero compromisso com a Igreja de Cristo". Mas temos um convite ao compromisso com a Igreja de Cristo. Um convite ao compromisso é o que precisa acontecer conosco, nos termos de Romanos 5.8: "Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu p ôr nós, sendo nós ainda pecadores". Que o Senhor nos ajude nesses compromissos! O DEUS NÃO DESISTE DE AMAR Professor Diego Roberto (Exposição em Oséias) Oséias (seu nome significa "salvação"), profeta de Deus que viveu entre 741 e 701 AC.( datação fácil de ser verificada pela lista de reis do v.1) Oséias em seu livro denuncia claramente a corrupção, o orgulho e a idolatria do povo de Israel; a certeza do julgamento de Deus e finalmente a miseric órdia dEle diante de um povo arrependido. Os primeiros 3 capítulos fornecem a chave para a compreensão do livro todo, nos quais se vê a infidelidade de Israel para com Jeová durante o período de sua história. Nos caps. 1 a 3, a infidelidade de Israel e a paciência e longanimidade de Jeová são representadas pela analogia do casamento do profeta com uma prostituta. Gômer. UM CASAMENTO PERTURBADO Deus diz a Oséias "Vai, toma uma mulher de prostituições...."(1.2). Ao ler esta estranha ordem de Deus a um profeta, o leitor pode pensar que Oséias ao recebê-la saiu e foi a um lugar de prostituição daquela cidade, à procura de uma mulher de vida fácil para casar-se com ela. Mas não é bem assim. É mais natural aceitar que Deus tenha ordenado a seu profeta que se casasse uma jovem pura, linda, mas
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    139 que, emseu pre-conhecimento sabia que posteriormente haveria ela de cair em imoralidade. O que seria um quadro nítido do atual relacionamento de Israel com Deus, pois o povo também traia Deus, como uma mulher trai o marido. Esta interpretação está igualmente de conformidade com a prática profética, pois os profetas se referem a Israel como nação pura no tempo de sua união com Jeová. Deus ama seu povo, e por isso permitiu uma tragédia na vida de Oséias para que compreendesse o profundo amor que existe no coração Divino. Como afirmou alguém; "DEUS ESCONDEU UM EVANGELHO NO CORAÇÀO DOS SOFRIMENTOS DE OSÉIAS". A história do casamento deste profeta com uma prostituta, é também a história sobre o amor de Deus pelo seu povo. Deus disse a Oséias que fizesse a última coisa que um profeta responsável poderia esperar. " Vai, toma uma prostituta por esposa". Mas esta é também a história de Deus com seu povo. Foi exatamente isso que Deus fez quando se associou a nós. Portanto, conhecer a história do amor de Oséias por Gômer, é conhecer o amor de Deus para com sua igreja, seu povo escolhido. Palavras não seriam suficientes para explicar a realidade do amor Divino pela sua igreja, e por isso Deus usa o casamento de Oséias, sua tragédia, seus sofrimentos, para transmitir o fato de Ele tem um profundo interesse por nós. Foi preciso uma representação da vida real, para Deus dizer o quanto nos ama. TRÊS FILHOS COM NOMES SINISTROS Desse casamento com Gômer, nasceram-lhe três filhos: 1) JEZREEL - v.4- Era o nome de uma cidade famosa por sua atrocidades. Era como colocar hoje o nome de seu filho de "Vigário Real", ou " Aparecida do Norte " ou "Morro do Alemão". O julgamento de Deus estava chegando(v.5) 2) LO-RUAMAH- V.6- Que significa "NÀO FAVORECIDA', Ou seja aquela que não recebe favor ou graça. O nome dessa criança é um quadro do divino desprazer com a apostasia de Israel. Deus diz "Porque eu não tornarei a favorecer a casa de Israel"(l-6). 3) LO-AMMI v.9- Que significa. 'NÀO MEU-POVO'. Gômer engravida pela terceira vez e Oséias fica profundamente a balado. Sabia ele, que este filho não era fruto do seu casamento. Ele não era o pai daquela criança, mas sim fruto da deslealdade de sua mulher. Deus instruiu Oséias a dar-lhe o nome de "Não Meu- povo". A separação completa de Deus do seu povo; um Deus ,santo não poderia concordar com o "adultério"do seu povo. Ele diz "Porque vós não sois meu povo, nem eu serei vosso Deus"(v1.9) Depois do nascimento do terceiro filho, Gômer se afastou mais longe ainda de Oséias o profeta e seus filhos eram literalmente a mensagem de Deus àquele povo de espiritualidade superficial e que tratava a palavra de Deus levianamente. Em face de toda esta tragédia que acontece no lar de Oséias, existe ai, uma lição maravilhosa aplicada ao povo de Israel, e que pode ser aplicada ao povo de Deus em todos os tempos. A igreja é a noiva de Cristo, e assim deve proceder pura, em santificação, desviando-se da corrupção de qualquer espécie, preparando-se para o dia glorioso quando irão se encontrar para uma união perpétua. O amor de Deus para com sua igreja é triplicado aqui no amor de Oséias por Gômer.
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    140 O CONTEXTORELIGIOSO DE ISRAEL Oséias conhece bem a que nível se encontrava a espiritualidade daquele povo. 1) Atribuía a Baal as dádivas que Jeová lhes dava(2.8) 2) Havia muita religiosidade, mas pouco cristianismo(4: 15,6:6) Israel tinha uma religião, mas não tinha um amor leal. Oferecia abundantes sacrifícios mas não tinha conhecimento de Deus(4:6) Deus não se agrada da proclamação da salvação pela fé, se não há correspondente transparência de vida moral e social. O povo estava enganando a si mesmo. "As cãs se espalham sobre ele, e ele não o sabe"(7:9). Todo mundo percebe sua incoerência, menos ele. Foi a religião divorciada da prática que levou Oséias bradar o recado divino "Misericórdia quero, e não sacrifícios! O conhecimento de Deus, mais do que holocaustos"(6:6) 3) Crentes apenas de fim-de-semana(8:1-3) Como Israel, a nossa sociedade quer uma religião acomodatícia , que não exija, nem imponha restrições à vida social , econômica ou sexual. Os Israelitas eram "crentes" fervorosos no sábado e domingo, mas nos outros dias da semana eram enganadores em seus desejos sexuais. Eram adoradores no domingo, mas durante a semana "salve-se quem puder". Quando se separava de Deus, o que só prevalecia era perjurar, matar, roubar, mentir e adulterar"(4:1-2) 4) Vida cristã vazia de conteúdo (6:1-4) Havia confissões vazias e conversões ineficazes. O arrependimento de Israel era tão passageiro como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada. Esta era a situação degradante em que se encontrava o povo do Senhor. Tinha se desviado de Deus, abandonou a Javé para ir atrás de outros deuses, de outros amantes(2:5). O GRANDE AMOR DE DEUS (a analogia aplicada) O povo havia se prostituído espiritualmente, e como não poderia deixar de ser tornou-se escravo. Voltamos a Gômer. Naquele tempo, a prostituta corria o risco de se transformar em escrava, e foi exatamente o que aconteceu a Gômer. Sua situação se tornou tão aviltante que acabou sendo vendida em praça pública como escrava(3:1-2) Gômer se corrompera, se desviara se vendera e caíra num estado deplorável de humilhação. Repetidas vezes tinha ela traído os votos matrimoniais. Mas vemos na ordem de Deus a Oséias em 3:1, quando diz "vai outra vez, ama uma mulher, amada de seu amigo e adúltera" o persistente amor do Senhor pelo seu povo eleito. Amados, é por demais impressionante que Oséias tendo passado por esse trágico e humilhante episódio familiar, descobre que ainda ama sua esposa infiel e percebeu com isso que o amor de Deus era assim também. DEUS AMA TAMBÉM AS PIORES PESSOAS.
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    141 Como nenhumoutro escritor, Oséias consegue captar a força extraordinária do amor de Deus pela sua igreja. Deus não desiste de amar . Ele ama tais pessoas apesar de sua infidelidade, embora olhem eles para outros deuses. Oséias , que tanto sofreu no lar com a infidelidade de sua esposa, entendeu o cora ção de Deus quando descreveu o amor divino nestes termos "MEU CORAÇÀO ESTÁ COMOVIDO DENTRO DE MIM, AS MINHAS COMPAIXÒES A UMA SE ACENDEM"(11:8). O profeta conseguiu reconstruir seu lar com Gômer, quando a comprou no leilão de escravos por "15 moedas de prata e um ômer e meio de cevada"(3:2). Que linda figura Oséias trás diante de nós. Seu nome que significa " salvação ", nos faz pensar na pessoa de Jesus, o nosso Salvador, que em demonstração de seu grande amor por nós, pagou o preço do nosso resgate da escravidão do pecado. O apóstolo Paulo escreve sobre isso quando diz em II Co 6:20 "Porque fostes comprados por preço", e Pedro diz o preço que foi pago "Sabendo que não foi mediante cousas corruptíveis, como prata ou outro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que legaram vossos país, mas pelo precioso sangue de Cristo..." (1 Pe 1:18,19). Nós também estávamos escravizados pois João diz...'Todo aquele comete pecado, é escravo do pecado"(João 8:34). Semelhante a Gômer, nós também precisava- mos ser resgatados, o preço precisava ser pago. Em 'Oséias, o amor triunfou. O amor em Cristo ,triunfou também. Agora aonde se dizia de Israel "Vocês não são favorecidos"" passa-se a dizer "Vocês são amados, favorecidos". E onde se dizia de Israel que era chamado de "não -meu -povo ", passa a ser chamado de "Vocês são meu povo" porque eu vou perdoá-los e restaurá-los( 1:10,21). Deus tinha dado vitória ao lar de Oséias, em nome do amor inabalável. Gômer, teve o significado de seu nome de volta (perfeição) . Gômer estava de volta ao lar, e os filhos não levavam mais aqueles nomes feios. A família estava unida novamente, e tudo por causa do amor. O profeta do coração quebrantado chegou a aprender que o coração de Deus é também assim. Quão desesperadamente Deus ama os pecadores! Quão deliberadamente ele busca os pecadores! E quão devotadamente Ele os atrai a Si mesmo! DEUS NUNCA DESISTE DE AMAR, POIS ELE É AMOR. O ESPÍRITO SANTO E A SALVAÇÃO NO ANTIGO TESTAMENTO Professor Diego Roberto O Antigo Testamento é o berço de toda doutrina bíblica. E não existe nada revelado a respeito do Espírito Santo no Novo testamento que não tenha sido sugerido antes no Velho.
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    142 Com todaa evidência se depreende do Antigo Testamento que a origem da vida depende da ação soberana do Espírito Santo. Retirar o Espírito significa morte! Como realidade presente O Espírito Santo atuava como vivificador no Antigo Testamento. Mas de que maneira o Esp írito regenerava os crentes no Antigo Testamento? Como ele aplicaria a obra redentora de Cristo se o próprio Cristo não tinha vindo? Será que os crentes do Antigo Testamento foram igualmente regenerados e salvos como os crentes do Novo Testamento? Um dos motivos que nos levaria a fazer tais perguntas seria, a priori, o fato de que o Antigo Testamento não apresenta o Espírito Santo atuando de maneira tão proeminente na salvação de indivíduos como o Novo Testamento. A palavra "regeneração" que aparece no Novo Testamento não é encontrada em nenhum livro do Velho Testamento. O termo grego que designa a regeneração pelo Espírito não tem nenhum equivalente no hebraico. Nem mesmo na Septuaginta, a versão grega pré-cristã do Antigo Testamento, aparece as palavras palingenesi/a ou genna/w que traduzem a idéia bíblica de regeneração e novo nascimento, respectivamente. O que mais se aproxima é a forma verbal e(/wj pa/lin ge/nwmai, que é uma tradução livre de Jó 14.4: "Morrendo o homem, porventura tornará a viver?". No entanto, aqui não existe nenhum pensamento do renascimento espiritual do indivíduo como há no Novo Testamento. O que temos no Velho Testamento são promessas claras de uma renovação futura (cf. Jr 31.31-33; Ez 11.29; 36.26,27). Mas apesar da obra regeneradora do indivíduo não ser enfatizada no AT, não significa que o Espírito Santo não tenha atuado salvificamente. Mesmo assim, a possibilidade de alguém ser regenerado no Antigo Testamento foi totalmente descartada pelo teólogo alemão Friedrich Daniel Ernest Schleiermacher (1768-1834). Para ele era impossível que alguém tivesse sido regenerado na antiga dispensação, uma vez que Cristo não se fez Verbo encarnado e Sua obra, portanto, não podia ser aplicada àqueles crentes. Evidenciada pela fé no Messias Não há dúvida que os crentes do Velho Testamento foram regenerados. Seria contradição de termos falar de "crentes não regenerados". Eles eram crentes de fato e o autor da carta aos Hebreus no capítulo 11 de sua epístola atesta esta veracidade. Ele não os nomearia como heróis da fé se não fossem regenerados e salvos. E como o Espírito Santo os regenerava e os salvava em Cristo Jesus? Simplesmente aplicando a obra redentora do Messias no qual eles criam (cf. J ó 19.25). A explicação desta aplicação no Antigo Testamento é entendida quando vamos ao Novo e lemos sobre o "Cordeiro que foi morto, desde a fundação do mundo" (Ap 13.8). Desta maravilhosa declaração aprendemos que: 1. A expiação de Cristo é referida como algo determinado por Deus; 2. O princípio de sacrifício e redenção por parte de Cristo é mais antigo que o mundo; 3. Os decretos e propósitos de Deus são tão concretos e reais como o próprio acontecimento. Quando a Trindade vivia na solidão da eternidade, a morte de Cristo já estava declarada como ocorrida antes que tudo existisse.
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    143 Simbolizado nosistema sacrificial A ausência do fato histórico da expiação de Cristo no Antigo Testamento não anula, de forma alguma, o seu valor para os crentes daquela época; e muito menos a aplicação da mesma pelo Espírito Santo. Isto é fácil de ser percebido quando vemos os santos do Antigo Testamento oferecendo sacrifícios de animais a Deus e sendo perdoados e salvos. Não por causa dos sacrifícios em si, "porque é impossível que sangue de touros e bodes remova pecado" (Hb 10.4), mas eram perdoados e salvos porque criam na promessa simbolizada no sistema sacrificial. O Novo Testamento nos dá claras indicações, e declarações explícitas, que os sacrifícios de animais no Velho Testamento foram símbolos do mais excelente sacrifício de Cristo (Cl 2.17; Hb 9.23,24; 10.1; 13.11,12). Donald Guthrie é verdadeiro quando diz que o "sistema sacrificial do Antigo Testamento tinha validez somente porque prenunciava o sacrifício supremo e definitivo de Cristo" (D. Guthrie, Hebreus: Introdução e Comentário, p. 191). David Martin Lloyd-Jones é ainda mais preciso quando declara que eles "faziam essas ofertas pela fé. Criam na palavra de Deus, que Ele um dia no porvir proveria um sacrifício, e pela fé se mantiveram firmes nisso. Foi a fé em Cristo que os salvou..." (D. M. Lloyd- Jones, A Cruz: A Justificação de Deus, p. 10). E era somente por causa da obra regeneradora do Espírito Santo que eles podiam "olhar" para Cristo e exercer fé nEle, pois, no conceito bíblico, onde há fé salvadora, houve regeneração pelo Espírito. O MÉTODO SEGUNDO KAISER Teologia do Antigo Testamento Professor Antony Steff Gilson de Oliveira Uma das primeiras preocupações de Walter Kaiser é discutir se de fato existe a possibilidade de uma teologia do Antigo Testamento. Para analisar esta questão, o autor faz uma apresentação das posições adotadas por grandes teólogos do AT neste século, como Walter Eichrodt, Theology of the Old Testament (Londres: SCM, 1961) e Gerhard von Rad, Teologia do Antigo Testamento, 2 vols. (SP: ASTE, 1986). Eichrodt fez um ataque violento contra o historicismo. Alegava que a coerência interior do AT e do NT tinha sido reduzida a um tênue fio de conexão histórica e seqüencial, causal, entre os dois testamentos, que resultava de uma causalidade externa. Já von Rad não somente negava qualquer fundamento histórico genuíno para a confissão de fé de Israel, como também tinha mudado o objeto do estudo teológico de uma focalização sobre a palavra de Deus e sua obra para os conceitos religiosos do povo de Deus. O objeto e enfoque da teologia do Antigo Testamento tinham sido mudados da história como evento e da palavra como revelação para uma abordagem tipo história da religião. Assim, Kaiser vai mostrar que a natureza da teologia do AT não é somente uma teologia que está em conformidade com a Bíblia inteira, mas é aquela que se descreve e se contém na Bíblia. Essa teologia expressa uma vinculação real com os períodos históricos que compreendem a história de Israel, onde cada contexto antecedente e mais antigo se torna a base para a teologia que vem a segu ir. Dessa maneira, para Kaiser, na teologia do Antigo Testamento a estrutura está colocada historicamente e seu
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    144 conteúdo seencontra exegeticamente controlado. Como conseqüência, a teologia do AT em Kaiser tem um centro e conceitualização unificadas e traduzidas nas descrições, explanações e conexões do texto sagrado. Ao procurar identificar as teologias do AT, Kaiser vai trabalhar com quatro vari áveis: 1. A teologia estrutural, que descreve o esboço básico do pensamento e da crença do AT em unidades tiradas por empréstimo da teologia sistemática, da sociologia, ou de princípios selecionados, e depois arma seus relacionamentos com conceitos secundários. Eichrodt e Th. C. Vriezen, An Outline of Old Testament Theology (Newton, Mass.: Charles T. Branford Co. 1970) pode sem enquadrados na teologia estrutural. Para Kaiser, essa teologia não tem autonomia, existindo apenas como função heurística da teologia sistemática. 2. A teologia diacrônica que expõe a crença dos sucessivos períodos e das estratificações da história de Israel, colocando a ênfase sobre as tradições sucessivas da fé e da experiência da comunidade religiosa. Von Rad é seu grande expoente. Para Kaiser, não estamos diante de uma teologia do AT, mas diante de uma história da religião de Israel. 3. A teologia lexicográfica, que limita sua investigação a um grupo ou a grupos de personalidades bíblicas, analisando seu vocabulário teológico especial, como por exemplo, os sábios, o eloísta, o vocabulário sacerdotal, etc. Gerhard Kittel, editor, G. W. Bromiley, trad., Theological Dictionary of the New Testament, 10 vols. (Grand Rapids: Eerdmans, 1964-74); Peter F. Ellis, The Yahwist: the Bible's First Theologian (Notre Dame: Fides Publishers, 1968). 4. E por fim a teologia de temas bíblicos, que leva sua busca além do vocabulário de personagens, para abranger uma constelação de palavras que gira ao redor de um tema chave. Aqui se coloca o próprio Kaiser. O enquadramento da teologia do AT Outra questão colocada por Kaiser é a que se refere ao enquadramento da teologia do AT. Deve-se incluir material alheio ao cânone, como apócrifos, textos da biblioteca de Qunram ou comentários do Talmude? Para Kaiser a utilização de material alheio ao texto debilitariam o propósito de discutir a feição integral da teologia dentro de uma corrente da revelação. Toma como exemplo a pregação de Jesus que, considera Kaiser, trabalhou apenas com os textos enquadrados no cânone judaico. Assim, para Kaiser, a teologia deve ser bíblica e não precisa repetir cada detalhe do cânone para ser autêntica e exata. O método deve sintetizar os detalhes que parecem discrepantes, a fim de termos, então, uma única teologia bíblica embalada sob a etiqueta de dois testamentos. O que move a teologia do AT? O texto pede para ser entendido e colocado num contexto de eventos e significados. Os estudos históricos colocam o exegeta em contato com os fluxo de eventos no tempo e no espa ço. As análises gramaticais e sintáticas identificam a coleção de idéias no período histórico sob investigação. Assim, as raízes históricas da mensagem em seu desenvolvimento e o julgamento das avaliações normativas do texto traduzem o propósito e o papel da teologia bíblica.
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    145 A motivaçãomaior é entender o texto enquanto texto colocado num contexto de significados. É assim, considera Kaiser, que a teologia bíblica sua grande contribuição, especial e peculiar. E o centro canônico, existe ou não? Kaiser levanta algumas perguntas: existe uma chave para uma organização metódica e progressiva de assuntos, temas e ensinos do Antigo Testamento? Os escritores do AT tinham consciência dessa organização quando acrescentavam algo a essa corrente histórica da revelação? E conclui que as respostas a seus questionamentos definirão o destino e a direção da teologia do AT. Caso seja impossível responder positivamente as duas perguntas, então, somos obrigados a falar de diferentes teologias do AT, no sentido de variedade ou de linhas de continuidade que acontecem dentro de tendências de diversidade. Mas para Kaiser isso não acontece: os escritores bíblicos reivindicam a posse da intencionalidade divina na sua seletividade e interpretação daquilo que foi registrado e nós não podemos negar essa realidade. Por isso Kaiser defende a realidade do centro canônico. Considera, porém, que a maioria dos teólogos erra ao definir um centro apriorístico, externo, e tentar enquadrar o conteúdo do AT nele. A metodologia deve partir de uma exegese cuidadosa, evitando todo e qualquer encaixe precipitado. Até a década de 70, a maioria dos teólogos considerava que a história era o veículo da revelação divina no AT. Aquilo que se conhecia de Deus era conhecido através da história. Outros, no entanto, argumentavam que a revelação verbal tinha tanto direito quanto a história de ocupar o centro do palco teológico. A fé de Israel, assim como a teologia bíblica, tinha de Ter como seu objeto não os atos de Deus na história, mas aquilo que o povo confessava, não importa a veracidade primeira dos acontecimentos. A essa afirmação, um teólogo católico, Roland de Vaux, Historia antigua de Israel, 2 vols. (Madri, Cristiandad, 1975) - id., Instituciones del Antiguo Testamento (Barcelona, Herder, 1976) argumenta: "A interpretação da história dada é verdadeira e tem origem em Deus ou não é digna da fé de Israel e da nossa". O mais importante, para Kaiser, é a conexão entre a reivindicação divina - o ter anunciado muito antes de ter acontecido o curso dos eventos - e o fato de que isso estava de acordo com seu plano e propósito. E os escritores bíblicos tinham a palavra divina e o juramento divino de promessa. Esse é o centro canônico que Kaiser vai devolver em sua obra, depois de uma ampla e bem defendida exposição metodológica. Trabalhando a partir dessa metodologia, Kaiser constrói sua teologia bíblica, organizando o cânone a partir das promessas de Deus ou daquelas passagens onde considera que Deus acrescentou seu compromisso ou juramento. O SEGUNDO MANDAMENTO Professor Antony Steff Gilson de Oliveira Há um certo descompasso entre os Dez Mandamentos transcritos na Bíblia Sagrada e os relacionados no Catecismo da Igreja Católica (C.I.C.), 9a edição, Editora Vozes, 1998. Tal desencontro poderá gerar dúvidas e estranheza não só entre os católicos, mas também entre os novos evangélicos provindos daquela denominação. Para que a verdade prevaleça, elaborei o presente trabalho que
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    146 poderá serenriquecido com as observações dos leitores. O Decálogo no C.I.C. está assim redigido (páginas 548-650, itens 2083-2550): Primeiro Mandamento - “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida de nada que se assemelhe ao que existe lá em cima, nos céus, ou embaixo, na terra, ou nas águas que estão debaixo da terra. Não te prostrarás diante desses deuses e não os servirás (Ex 20.2-5)” (o grifo é meu). Segundo Mandamento - “Não pronunciarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão (Ex 20.7)”. Terceiro Mandamento - “Lembra-te do dia do sábado para santificá-lo. trabalharás durante seis dias e farás todas as tuas obras. O sétimo dia, porém, é o sábado do Senhor, teu Deus. Não farás nenhum trabalho (Ex 20.8-10)”. Quarto Mandamento - “Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor, teu Deus, te dá (Ex 20.12)”. Quinto Mandamento - “Não matarás (Ex 20.13)”. Sexto Mandamento - “Não cometerás adultério” (Êx 20.14)”. Sétimo Mandamento - “Não roubarás (Êx 20.15)”. Oitavo Mandamento - “Não apresentarás falso testemunho contra o teu próximo (Êx 20.15)”. Nono Mandamento - “Não cobiçarás a casa de teu próximo, não desejarás sua mulher, nem seu servo, nem sua serva, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma que perten ça a teu próximo (Êx 20.17)”. Décimo Mandamento - “Não cobiçarás... coisa alguma que pertença a teu próximo (Êx 20.17)”. Observem que o primeiro e o segundo mandamentos foram arrolados num só, e o décimo foi dividido em dois. Vejamos como estão na Bíblia de Estudo Pentecostal, Almeida Revista e Corrigida, edição de 1995, o primeiro, o segundo e o décimo mandamentos: Primeiro Mandamento - “Não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo 20.3; Deuteronômio 5.7). Segundo Mandamento - “Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás A ELAS nem AS servirás”. (as maiúsculas são nossas). (Êxodo 20.4-5; Deuteronômio 5.8-9). Décimo Mandamento - “Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo”(Êxodo 20.17; Deuteronômio 5.21). Não há razão para dividirmos em dois o mandamento de Êxodo 20.17. Trata-se de um só enunciado, uma proibição específica de não cobiçar pessoas, animais e objetos, e está expresso num único e reduzido versículo. O nono e o décimo mandamentos são iguais no Catecismo por uma razão simples: como o primeiro e o segundo foram unificados, ficou faltando um, o décimo. A solução foi criar dois mandamentos iguais. O Vaticano assim explica: “A divisão e a numeração dos mandamentos têm variado no decorrer da história. O presente catecismo segue a divisão dos mandamentos estabelecida por Sto. Agostinho e que se tornou tradicional na Igreja Cat ólica. É também a das confissões luteranas. Os padres gregos fizeram uma divisão um tanto diferente, que se encontra nas igrejas ortodoxas e nas comunidades reformadas” (C.I.C. pg. 545, item 2066).
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    147 Para quenão haja suspeição, vejamos os mandamentos numa Bíblia “católica”, Edição Ecumênica, tradução do padre Antônio Pereira de Figueiredo, com notas do Mons. José Alberto L. de Castro Pinto: Primeiro Mandamento - “Não terás deuses estrangeiros diante de mim” (Êxodo 20.3). Segundo Mandamento – “Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma de tudo o que há em cima no céu, e do que há em baixo na terra, nem de coisa, que haja nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto” (O grifo é nosso). (Êxodo 20.4-5). Décimo Mandamento – “Não cobiçarás a casa de teu próximo: não desejarás a sua mulher, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertencer”(Êxodo 20.17). A Palavra de Deus não se altera ao longo da história, e não podemos modificá-la por nenhuma razão. Convém esclarecer que nas Bíblias os mandamentos não estão numerados, mas pelo enunciado é possível sabermos qual é o primeiro, qual o segundo, e assim por diante. Mas isto é um detalhe. O cerne da questão está no segundo mandamento. Incorporado o segundo mandamento ao primeiro, fortalece-se a idéia de que as imagens proibidas estariam se referindo, somente, aos deuses antigos. Daí porque o verso 5, no C.I.C., reforça essa idéia: “Não te prostrarás diante desses deuses e não os servirás”. É preciso notar que o versículo 4 refere-se especificamente a IMAGENS, e não a deuses. O versículo 5 (“não te encurvarás/inclinarás a elas nem as servirás”) encontra-se afastado do versículo 3 (“não terás outros deuses diante de mim”). Os “deuses”, portanto, não são a essência da proibição do verso 4 e começo do verso 5. Por isso, entendo que as versões que se reportam às imagens, e não aos deuses, (“não as adorarás, não as servirás, não lhes darás culto”) são as mais aceitas. São exemplos: Las Sagradas Escrituras-1569 (“No te inclinarás a ellas, ni las honrarás”); Almeida Revista e Corrigida, 1995 (“Não te encurvarás a elas nem as servirás”); Bíblia Linguagem de Hoje (“Não se ajoelhe diante de ídolos, nem os adore”). A bem da verdade, convém registrar que diversas versões, quanto ao versículo 5, fazem referência aos deuses, e não às imagens. Deuses e imagens estão tão associados que a proibição de não prestar culto a um alcança naturalmente o outro. Imagens e deuses são ídolos. Aprouve a Deus destinar um mandamento só para referir-se às imagens, ídolos ou estátuas, objeto de adoração, veneração, culto, honra, homenagens. Assim, Deus descreveu quais as imagens que não deveriam ser objeto de culto. Deus exemplificou para não haver dúvida. As imagens dos santos católicos estariam incluídas nessa proibição? ANÁLISE DE ÊXODO 20.4 “Não farás para ti” – Entende-se a posse do objeto quando destinado ao culto, à homenagem, à prece, à veneração. Deus não condena as obras de arte, escultura ou pintura de valor histórico e cultural. “Nem alguma semelhança do que há em cima nos céus” – Não encontramos diferenças relevantes de tradução nas versões consultadas. A proibição não alcança apenas as imagens dos deuses, mas diz respeito, também, ao que existe nos céus: A Trindade (Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo), os anjos e os salvos em Cristo. Logo, estátuas de Jesus, dos santos apóstolos, de Maria, e de quantos, pelo nosso julgamento, estejam no céu, não devem ser objeto de culto. “Não te encurvarás a elas” - Deus proíbe qualquer atitude de reverência ou respeito, tais como inclinar respeitosamente o corpo ou ajoelhar-se diante das imagens; prostrar-se com o rosto no chão; tocá-las; beijá-las; levantar os braços em atitude de adoração; tirar o chapéu; ficar em pé diante delas
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    148 em estadocontemplativo. Enfim, Deus proíbe fazer qualquer gesto com o corpo que expresse admiração, contemplação, fé, devoção, homenagem, reverência. “Não as servirás” - Não servi-las com flores, velas, cânticos, coroas, festas, procissões, lágrimas, alegria, rezas, vigílias, doações, homenagens, devoção, sacrifícios, incenso. Não lhes devotar fé, confiança, zelo, amor, cuidados. Não alimentar expectativas de receber delas amparo, curas e proteção. Não colocá-las em lugar de destaque, em redoma ou em lugares altos. A Igreja de Roma reconhece a proibição, mas decide por não acatá-la: “O mandamento divino incluía a proibição de toda representação de Deus por mão do homem. O Deuteronômio explica: “Uma vez que nenhuma forma vistes no dia em que o Senhor vos falou no Horebe, do meio do fogo, n ão vos pervertais, fazendo para vós uma imagem esculpida em forma de ídolo...”(Dt 4.15-16)... No entanto, desde o Antigo Testamento, Deus ordenou ou permitiu a instituição de imagens que conduziriam simbolicamente à salvação por meio do Verbo encarnado, como são a serpente de bronze, a Arca da Aliança e os querubins. Foi fundamentando-se no mistério do Verbo encarnado que o sétimo Concílio ecumênico, em Nicéia (em 787), justificou, contra os iconoclastas, o culto dos ícones : os de Cristo, mas também os da Mãe de Deus, dos anjos e de todos os santos. Ao se encarnar, o Filho de Deus inaugurou uma nova “economia ”das imagens. O culto cristão das imagens não é contrário ao primeiro mandamento, que proíbe os ídolos. De fato, “a honra prestada a uma imagem se dirige ao modelo original, e quem venera uma imagem venera a pessoa que nela está pintada. A honra prestada às santas imagens é uma “ veneração respeitosa”, e não uma adoração, que só compete a Deus. O culto às imagens sagradas está fundamentado no mistério da encarnação do Verbo de Deus. Não contraria o primeiro mandamento” (C.I.C. pg. 560-562, itens 2129-2132, 2141). ANALISANDO AS EXPLICAÇÕES “O mandamento divino INCLUÍA a representação de toda representação de Deus por mãos do homem”. O mandamento divino incluía? Não, mandamento inclui, está vigente. A cruz não aboliu as Dez Palavras. As leis cerimoniais sim, foram abolidas. O Decálogo é, no varejo, o que Jesus disse no atacado: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento”, e “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22.35-40; Deuteronômio 6.5; 10.12; 30.6; Levítico 19.18). Num coração cheio do amor de Deus e do amor a Deus não há espaço para a adoração de pessoas ou de coisas. Em Mateus 5.17, Jesus afirma: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim ab-rogar, mas cumprir” (ARC) ou: “Não pensem que eu vim acabar com a Lei de Moisés e os ensinamentos dos profetas. Não vim acabar com eles, mas para dar o seu sentido completo.” (BLH). A seguir Jesus exemplifica o novo sentido à lei: se pensar em matar, já pecou e descumpriu a lei; se pensar em adulterar, já pecou. “No entanto, Deus ordenou... a serpente de bronze, a Arca da Aliança, os querubins”... A Arca da Aliança e os querubins passaram. Faziam parte de cerimônias e símbolos instituídos por Deus, de acordo com sua infinita sabedoria e soberana vontade, para melhor conduzir o povo em sua fé. Agora, vindo Cristo, temos “um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta criação, nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue...” (Hebreus 9.11). A serpente de bronze - símbolo tão zelosamente defendido pela Igreja de Roma – foi um remédio específico para um mal específico numa situação especial (Números 21.7-9). Agora, já não precisamos
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    de figuras paranossos males físicos e espirituais. Como disse João Ferreira de Almeida, “o poder vivificante da serpente de metal prefigura a morte sacrificial de Jesus Cristo, levantado que foi na cruz para dar vida a todos que para Ele olharem com fé”. O próprio Jesus assim se manifestou: “E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.14-15). Deus não recomendou o culto, a homenagem ou a veneração à serpente. Por isso, o rei Ezequias, temente e reto aos olhos do Senhor, destruiu-a ao perceber que o povo lhe prestava culto (2 Reis 18.4). Ademais, não se vê em Atos dos Apóstolos qualquer indício de uso de figuras, ícones ou imagens destinados a facilitar a compreensão e conduzir os fiéis à salvação. 149 “... o sétimo Concílio ecumênico, em Nicéia (em 787), justificou... o culto dos ícones : os de Cristo, mas também os da Mãe de Deus, dos anjos e de todos os santos. O culto cristão das imagens não é contrário ao primeiro mandamento, que proíbe os ídolos. De fato, “a honra prestada a uma imagem se dirige ao modelo original, e quem venera uma imagem venera a pessoa que nela est á pintada. A honra prestada às santas imagens é uma “ veneração respeitosa”, e não uma adoração, que só Não contraria o primeiro mandamento”. Ora, se o mandamento proíbe o culto aos ídolos, então o culto aos ídolos é proibido. Desculpem-me os leitores pelo óbvio. Portanto, o culto às imagens contraria o mandamento. Se contraria, é pecado cultuá-las. O Concílio de Nicéia justificou, mas são justificativas de homens. A Palavra é o padrão. A tradição deverá ajustar-se à Palavra. A honra ao modelo original via imagem parte de uma premissa falsa, porque as imagens não são em sua grande maioria cópias fiéis dos originais, exemplos de Jesus, Maria, José e dos santos apóstolos. Seus traços físicos não foram revelados nem por fotografias nem por pinturas. Jeremias foi direto: “Suas imagens são mentira” (Jr 10.14). “A honra prestada às santas imagens é uma “ veneração respeitosa”, e não uma adoração, que só compete a Deus”. Venerar: “Tributar grande respeito a; render culto a, reverenciar”; Culto: “Adoração ou homenagem à divindade em qualquer de suas formas, e em qualquer religião”. Adorar: “Render culto a (divindade); reverenciar, venerar, idolatrar” (Dicionário Aurélio). Como se vê, é muito tênue a linha entre honrar, venerar, adorar e prestar culto. Diria que não existe essa linha. Vejamos o que Deus afirma: “Eu sou o Senhor. Este é o meu nome. A minha glória a outrem não a darei, nem a minha honra às imagens de escultura” (Isaías 42.8). Na Bíblia Linguagem de Hoje: Eu sou o Deus Eterno: este é o meu nome, e não permito que as imagens recebam o louvor que somente eu mereço.” Na Bíblia ecumênica, católica: “Eu sou o Senhor, este é o meu nome: eu não darei a outrem a minha glória, nem consentirei que se tribute aos ídolos o louvor que só a mim pertence”. OUTRAS REFERÊNCIAS “Não fareis para vós ídolos, nem para vós levantareis imagem de escultura nem estátua, nem poreis figura de pedra na vossa terra para inclinar-vos diante dela. Eu sou o Senhor vosso Deus” (Levítico 26.1). “No dia em que o Senhor vosso Deus falou convosco em Horebe, do meio do fogo, n ão vistes figura nenhuma. Portanto, guardai com diligência as vossas almas, para que não vos corrompais, fazendo um ídolo, UMA IMAGEM DE QUALQUER TIPO, FIGURA DE HOMEM OU DE MULHER...” (Deuteronômio 4.15-16). O destaque é meu.
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    150 “As imagensde escultura de seus deuses queimarás no fogo. Não cobiçarás a prata nem o ouro que haja nelas, nem os tomarás para ti, para que não sejas iludido, pois É ABOMINAÇÃO AO SENHOR, TEU DEUS” (Deuteronômio 7.25). O destaque é meu. “As suas imagens de fundição são vento e nada” (Isaías 41.29b) “Eu sou o SENHOR; este é o meu nome! A minha glória a outrem não a darei, nem o meu louvor às imagens de escultura” (Isaías 42.8) “Todo homem se embruteceu e não tem ciência; envergonha-se todo fundidor da sua imagem de escultura, porque sua imagem fundida é mentira, e não há espírito nela” (Jeremias 10.14). “Arrancarei do meio de ti as tuas imagens de escultura e as tuas estátuas; e tu não te inclinarás mais diante da OBRA DAS TUAS MÃOS” (Miquéias 5.13). O destaque é meu. “Também está cheia de ídolos a sua terra; inclinaram-se perante a OBRA DAS SUAS MÃOS, diante daquilo que fabricaram os seus dedos” (Isaías 2.8). O destaque é meu. “Nada sabem os que conduzem em procissão as suas imagens de escultura, feitas de madeira, e rogam a um deus que não pode salvar” (Isaías 45.20). “Mas o nosso Deus está nos céus e faz tudo o que lhe apraz. Os ídolos deles são prata e ouro, OBRA DAS MÃOS DOS HOMENS. Têm boca, mas não falam; têm olhos, mas não vêem; têm ouvidos, mas não ouvem; nariz têm, mas não cheiram. Têm mãos, mas não apalpam; têm pés, mas não andam; nem som algum sai da sua garganta. Tornem-se semelhantes a eles os que os fazem e todos os que neles confiam” (Salmos 115.3-8). O destaque é meu. “Eles trocam a verdade de Deus pela mentira e ADORAM E SERVEM O QUE DEUS CRIOU, em vez de adorarem e servirem o próprio Criador, que deve ser louvado para sempre. Amém” (Romanos 1.25). O destaque é meu. Anjos e espíritos humanos são criaturas de Deus. CONCLUSÃO A proibição divina abrange: 1. Qualquer coisa (estátua, imagem, ídolo, presépio) produzida por mãos humanas. 2. Toda a criação de Deus (anjos, pessoas, espíritos humanos, corpos celestes, animais). 3. Imagens de qualquer uma das três Pessoas da Trindade. Está, portanto, contrário ao Segundo Mandamento qualquer culto de louvor, adoração, homenagem ou veneração prestado às imagens representativas de pessoas falecidas, qualquer que tenha sido o grau de santidade por elas alcançado na vida terrena. O TRIUNFO DA FÉ EM TEMPOS DE CRISE Professor Diego Roberto
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    151 Na épocade Habacuque, reinava Jeoaquim. Seu reinado teve a marca da violência e da ausência de uma justiça verdadeira. Habacuque vê a maldade social crescendo e a justiça manipulada por parte dos poderosos. No início do seu livro ele se mostra perplexo, pois a violência se alastra e Deus parece não tomar nenhuma providência. O justo está sendo explorado e massacrado pelo corrupto e parece que Deus se mostra completamente apático, indiferente a tudo. Não é de admirar que o profeta clamasse em profunda angústia: "Até quando Senhor ..." (1:2). O profeta viu Israel cair numa condição de apostasia. A nação estava se afastando de Deus. Entregara-se à idolatria e outras buscas destituídas de qualquer valor. Que quadro triste! Pecado, imoralidade e vício dominavam o povo de Israel. A lei não era aplicada com equidade e honestidade. A justiça era frouxa e indolente. A ilegalidade campeava solta (1:3,4). A nação de Israel estava em grave decadência espiritual, moral e social. Realmente, era um problema e não é para estranhar que Habacuque viesse a entrar em crise. Ele não conseguia entender porque Deus permitia tudo aquilo. Orou a Deus a esse respeito, mas Deus parecia não responder. Daí a sua perplexidade: "Até quando Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás?" (1:2) A questão que Habacuque levanta e que a maioria dos cristãos enfrenta é: Onde está Deus que vê tudo isso e não faz nada para sanar o problema? Será que Deus não vê? Não vê toda esta brincadeira humilhante com a vida humana, como o direito está sendo pervertido, como o justo está sendo massacrado? Vale a pena ter fé num Deus como este? Esta é a resposta que Habacuque nos dará em seu pequeno livro. A Fé que triunfa. O SILÊNCIO DE DEUS EM MOMENTOS DE CRISE A primeira coisa que descobrimos quando estudamos as ações de Deus em Habacuque, é que pode parecer que Ele esteja estranhamente silencioso e inativo em momentos de crise. "Até quando Senhor". É uma tremenda ousadia fazer uma indagação desta a Deus. O profeta vê a violência em seus dias crescer, a justiça sendo torcida, a desonestidade ganhando espaço ... e onde está Deus que não intervém e nada faz para cassar todo este mal? Não é esta a questão que muitos levantam hoje também? Por que Deus permite que certas coisas aconteçam? Por que Deus permite que a enfermidade entre no lar e comece a dizimar fam ílias cristãs e fiéis a Deus? Por que Ele permite que a idolatria e o espiritismo cresçam espantosamente? Por que Ele não intervém e fira de morte todos aqueles que proferem mentiras e negam a fé? Sempre foi difícil entender o silêncio de Deus nos assuntos humanos. Porém, não presumamos que esse silêncio seja indicativo de sua apatia. Longe está Deus de ser um mero espectador desinteressado nos assuntos dos homens. Tudo está sob o seu olhar e todas as coisas estão debaixo de suas poderosas mãos. Ele não se apavora nem se precipita.
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    152 Deus nãoestá com os olhos fechados, os ouvidos tapados, as mãos encolhidas, a mente alienada, e com os pensamentos longe dos dramas que enfrentamos na vida. A Palavra nos orienta dizendo que "Deus fará justiça aos seus escolhidos, embora pareça demorado em defendê-los" (Lc 18:7). E ainda mais, nenhum fio de cabelo cairá de nossa cabeça alheio a sua vontade. O cristão vive pela fé, mesmo quando não está vendo suas orações sendo respondidas. RESPOSTAS INESPERADAS ÀS NOSSAS ORAÇÕES A segunda coisa que descobrimos é que Deus, às vezes, dá respostas inesperadas às nossas orações (1:5-11). Isto, mais do que qualquer outra coisa, foi o que deixou Habacuque perplexo. Por um longo tempo Deus parecia não responder. Então, quando responde, o que diz é mais misterioso até do que sua aparente falha em ouvir as orações. Na mente de Habacuque estava claro que Deus tinha que castigar a nação e depois enviar um grande avivamento. Mas quando Deus disse: "Estou respondendo a sua oração suscitando o exército Caldeu para marchar contra suas cidades e destruí-las", o profeta não consegue acreditar no que ouviu. Mas foi o que Deus lhe disse, e que realmente aconteceu. Deus responde a oração do profeta, mas de uma forma inesperada. Habacuque levou um susto, pois Deus iria suscitar os caldeus (Babilônicos) uma nação pagã para julgar o seu próprio povo. Habacuque queria que Deus respondesse a sua oração e Deus respondeu, mas não do jeito que ele queria. Todos temos a tendência de prescrever as respostas às nossas orações. Freqüentemente, oramos dizendo a Deus exatamente como Ele tem de fazer, como se Ele fosse um Deus que não soubesse como agir. Tem gente que chega quase ao absurdo de ensinar a Deus como ser Deus. Precisamos entender que Deus é livre. Ele faz o que quer, como e quando quiser. A Fé que triunfa é aquela que descansa na liberdade divina. Pela fé e pelo estudo das Escrituras, o cristão sabe que Deus nunca erra. Suas respostas podem parecer estranhas, podem parecer sem sentido, mas é assim que Ele age às vezes. Um exemplo clássico. Os irmãos de José o venderam como escravo (Gên. 37) e assim foi ele parar no Egito. Muito mais tarde, porém José e seus irmãos se encontraram e ele declara que não foram eles, mas Deus que o enviara para lá (Gên. 45:7). Nossa Fé não é um sentimento positivo, nem um amontoado de conceitos moralistas e piegas. É a firme crença num Deus que tudo encaminha para o ponto que Ele deseja. Pensamos que Deus pode se manifestar somente de uma forma. Mas a Bíblia ensina que Deus, às vezes, responde as nossas orações permitindo que as coisas piorem muito antes que possam melhorar. Ele pode, às vezes, fazer o contrário do que prescrevemos. Ele pode sim, às vezes, nos colocar à frente de um exército caldeu. Mas é um princípio fundamental na vida e caminhar da fé que, quando tratamos com Deus, devemos estar sempre preparados para o inesperado. Certa vez li o seguinte caso em um livro: Havia um membro de uma determinada Igreja que era a "pedra no sapato" de toda a comunidade. Era criador de casos, sempre mal-humorado, era altamente personalista e sua palavra devia ser sempre a
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    153 última emtodos os assuntos. Numa noite de vigília, não se sabe se querendo isentar-se de culpa ou transferi-la para outros, orou dizendo: "Deus, remove desta Igreja aquele que a atrapalh a". No dia seguinte, menos de 24 horas depois, seu corpo estava sendo velado no templo daquela Igreja. Orar pode ser perigoso. Queremos que Deus, realmente, responda às nossas orações ou apenas que Ele nos beneficie? DEUS USA OS ÍMPIOS COMO INSTRUMENTO Eis agora um terceiro aspecto surpreendente dos caminhos de Deus. Ele usa, às vezes, instrumentos estranhos para corrigir sua Igreja. Os caldeus, dentre todos os povos, são os que Deus levanta para disciplinar o seu povo. Habacuque não podia imaginar tal coisa. Mas aqui também está um fato evidente em toda a Bíblia: Deus usa o instrumento que quiser. No curso da história, Ele tem usado toda sorte de instrumentos estranhos e inesperados, para a realização de seus propósitos. Usou Pilatos, usou Herodes, usou Saul, usou uma mula. O mal não é de sua autoria, mas Ele, às vezes, o usa para educar e corrigir os da sua Igreja. Quantas vezes somos acometidos por uma enfermidade, desemprego, crise conjugal, injustiças ou outras tragédias da vida? Deus é livre para usar qualquer instrumento para disciplinar o seu povo. "O Senhor corrige o que ama" e "Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos" (Sl 119:71). O TRIUNFO DA FÉ "Mas o justo viverá pela sua Fé" (2:4) Sim, o justo, o crente em Jesus, viverá pela sua fé. E esta fé no Senhor triunfante, ressuscitado e glorioso, transmite à vida diária uma vitalidade vibrante. O cristão não se abate com o presente, embora o veja muitas vezes como sendo sombrio. "Ainda que a figueira não floresça, nem há fruto na vide; o produto da oliveira mente e os campos não produzam mantimentos; as ovelhas foram arrebatadas do aprisco e nos currais n ão há gado, todavia, eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação. (Hab. 3:17, 18). Este texto é uma declaração de fé em um momento de crise inigualável. Faltariam figos, uvas, azeitonas, os campos não produziriam os alimentos. O Rebanho seria exterminado. Os currais sem gado. E qual é a atitude do profeta? Desespero? Inconformismo? Não. Fé!. Habacuque nos ensina que a resposta à crise é a fé. Sua segurança não brota de emoções, mas de uma fé viva. E quem crê, não se abala. "Aqueles que confiam no Senhor são como o monte de Sião, que não se abala, estão firmes sempre" (Sl 125:1).
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    154 "Ainda quea figueira não floresça... e nos currais não há gado, todavia, eu me alegro no Senhor". (Hab. 3:17 ). Que fé! No meio da crise, alegria. Que lição para todos os cristãos aborrecidos, murmuradores, emburrados com Deus e com o mundo. Façamos como Habacuque, manter a fé em Deus mesmo que Ele se mostre indiferente às nossas orações; manter a fé mesmo que suas respostas sejam inesperadas; manter a fé mesmo que Ele esteja usando instrumentos dolorosos para nos disciplinar e educar e ainda que venhamos a perder tudo, todavia, devemos nos alegrar no Senhor, pois Ele é a única riqueza que vai perdurar sempre. Que o Senhor da Fé nos abençoe! O VALE DAS SOMBRAS Professor Antony Steff Gilson de Oliveira Salmo 23 Uma história diz que o Culto se desenvolvia, e dois homens recitaram o Salmo 23. Um deles era um grande e aplaudido ator, dono de um jogo de cena fora do comum, magn ífica oratória, dramaticidade nos gestos, leu o Salmo 23. Quando terminou de fazê-lo, o auditório, nesse culto mais informal, quase veio abaixo de tantos aplausos. Depois, um senhor idoso, encurvado, trêmulo, frágil, apoiado na sua bengala foi à frente e recitou de memória o Salmo 23. Quando terminou, não houve qualquer aplauso. Pelo contrário, houve um profundo silêncio no santuário; e lágrimas. Nisso, o ator, foi à frente e, com a voz embargada, disse: "Meus amigos, há uma enorme diferença entre nós dois, declamadores. Eu conheço o "Salmo do Pastor", mas, este piedoso homem, conhece o Pastor do salmo". O Salmo 23 foi chamado de uma das criações mais sublimes de todo os tempo, como também "a pérola do livro dos Salmos". Houve, igualmente, quem dissesse que é um hino de louvor à providência divina. Não é um Salmo longo, são apenas seis versículos, e no entanto, é, sem dúvida, o capítulo mais amado do Antigo Testamento, senão de toda a Bíblia. É conhecido pelas crianças. Dos cento e cinqüenta salmos, é aquele que 90% dos leitores sabem de cor. Qualquer criança que vai à Escola Bíblica o conhece. E tem sido a última leitura solicitada por muitos cristãos neste mundo quando em seu leito de dor já encarando a morte. O tema do Salmo 23 é "a segurança daquele que crê em Deus", e em cada versículo, exceto o primeiro, que é uma introdução, apresenta duas necessidades básicas de toda pessoa, vitais, sentidas, porém, de um modo mais profundo, mais reflexivo, mais intimista pelo crente em Jesus Cristo. S ão necessidades com promessas de absoluta satisfação, visto que "o Senhor é o meu pastor", razão porque nada me faltará. É um cântico de confiança apresentado em linguagem simples, de beleza literária, e rica dos conceitos e das lições espirituais implícitos em suas expressões. Paulo, apóstolo, escreveu na Carta aos Filipenses uma expressão bem dentro do mesmo conceito, quando exprimiu: "Meu Deus, suprirá todas as vossas necessitadas segundo as suas riquezas na glória e em Cristo Jesus". É então, esse Salmo, um cântico de confiança numa linguagem simples, é verdade, ímpar na beleza literária, e rico nos seus conceitos e nas lições espirituais. O PASTOR
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    155 Quem éo Pastor? Façamos uma exposição versículo por versículo. O primeiro versículo diz, "O Senhor é o meu pastor; nada me faltará". A imagem do pastor é muito encontrada na Escritura Sagrada, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Largamente utilizada foi essa palavra nos livros proféticos.. Os Salmos, também, têm uso abundante da imagem do pastor, e o próprio Jesus Cristo disse sobre si próprio, "Eu sou o bom pastor". O pastor do Salmo 23 é Jesus Cristo, sem dúvida alguma, e disse que daria Sua vida pelas Suas ovelhas. O texto diz, "nada me faltará". A verdade é que ninguém precisa estar perdido no meio da multidão quando o Senhor é o nosso pastor. Nós temos a segurança da Sua palavra; nós temos a segurança da Sua presença e do Seu poder, seja na vida secular ou na espiritual, se é que alguém pode separar do cristão a vida secular da espiritual. E Davi mostra que esse pastor resolve, co mpleta e definitivamente, o problema do enfado, do cansaço; dando novas provisões de força, bem como dá solução às necessidades físicas de abrigo e de alimentação. Diz o Salmo 37, "Eu fui moço, e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo, nem a sua descendência a mendigar o pão". E melhor do que qualquer psicoterapeuta, psicólogo ou psicanalista; ele elimina o temor, a falta de significado na vida. E sabem o que mais? "Nada me faltará", diz o texto. Porque nós temos dois excelentes guarda-costas, especialíssimos guarda-costas nominados no final do Salmo; a Bondade e a Misericórdia que nos perseguirão todos os dias da nossa vida. E temos também um destino santo que é, habitar na Sua casa por toda a eternidade. O SEGREDO DA VIDA "Nada me faltará", porque o segredo da vida espiritual, o segredo da vida cristã é o que Ele, Cristo, faz em nós; o que Ele faz através de nós; e o que Ele faz e fez para nós. Então, se "nada me faltará", por que a ansiedade? Por que a preocupação? As palavras de Jesus Cristo nos dão tanta serenidade, porque Ele diz: "Não estejais ansiosos quanto à vossa vida pelo que haveis de comer; ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves dos céus que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros e vosso Pai Celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas? Portanto, não vos inquieteis dizendo: O que havemos de comer; ou o que havemos de beber; ou com o que nos havemos de vestir. Mas buscai primeiro Seu Reino e a Sua Justiça e todas essas coisas vos serão acrescentadas". Então, por que se afastar do Pastor de nossas vidas e buscar outros pastos que julgamos at é mais verdejantes? Chegamos, assim, ao verso dois "Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranqüilas". Temos aqui duas novas promessas: a de descanso e a de paz. E Ele vos conduz dia a dia às fontes daquilo que nós necessitamos. Mas, vamos lembrar algo. Vamos lembrar que até chegar a esses verdes pastos, a ovelha precisa caminhar muito; não é sair de casa e logo se chega ao pasto, não. Há que andar dias e dias, quilômetros e quilômetros buscando água, sombra, pasto e proteção. Indefesa diante das feras e dos ladrões, a ovelha, no entanto, não está só, porque a Bíblia declara: "Guia-me mansamente". Há um detalhe também aqui. Estamos lendo a respeito de uma paisagem bucólica e romântica. Mas, a vida das ovelhas não é assim. Talvez em uma situação destas, muita gente quisesse ser leão, ou tigre, ou um cavalo selvagem, fogoso, ou, mesmo, um pássaro livre para voar. Mas, ser ovelha?! Parece que são todas iguais?! Esse Salmo nada tem de romântico. Ele fala de perigos, de dificuldades, de penhascos, há pesares, mas, também do Senhor que guia mansamente, e Ele não
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    leva a águasparadas, estagnadas, infectadas, não! Ele leva a águas serenas, calmas, a águas de repouso, de descanso, de satisfação. E caímos na segunda promessa, no verso três, "Refrigera a minha alma; guia-me nas veredas da justiça, por amor do seu nome". Mais duas promessas: saúde e orientação. Quem escreveu este Salmo foi Davi, o Rei de Israel, que fora um tremendo pecador. Todos conhecem a sua hist ória com Batseba (Betsabá). Diz a Bíblia que ele, cobiçara a esposa de um dos seus oficiais superiores. Urias era o seu nome. Com ela, adulterou, e por ela, tornou-se mandante de um assassinato. Davi viveu uma horrorosa miséria moral, e uma ainda mais tremenda miséria espiritual. Aliás, não podemos separar uma da outra, não. Mas ele se arrependeu. E quando isso aconteceu, ele expressou o seu arrependimento e o seu pedido de perdão no Salmo 51, dizendo: "Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias. Lava-me completamente da minha iniquidade, e purifica-me do meu pecado. Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim". 156 E foi perdoado por Deus; e foi purificado; e foi resgatado, e, agora, escreve o Salmo 23. Ao escrevê-lo, declara que o Senhor restaura, renova e dá refrigério. E realmente, "refrigera a minha alma" é o mesmo que dizer: restaura minha vida; refaz o meu ser.. Quem sabe voc ê necessita ser curado, igualmente, de problemas íntimos tão sérios, de pecados desconhecidos dos outros mas muito diante dos seus olhos, como Davi também tinha o seu pecado diante dos olhos e confessou o seu próprio pecado. Então observe esse outro, "guia-me nas veredas da justiça". Sabe qual é a nossa maior necessidade? É conhecer a vontade de Deus. E esse "guia-me nas veredas", é completamente diferente do verso 2 que diz "guia-me mansamente". Porque se nos desviarmos da Sua vontade, Ele nos traz de volta. Essa é a razão porque os pastores usavam, como ainda hoje os pastores bascos, um cajado que te m uma ponta curva como um cabo de guarda-chuva. Na outra ponta há um aguilhão de metal. Esse bastão funciona como três coisas: com a ponta curva, se a ovelha cair num buraco, ele a puxa para cima; mas se começar a se desviar do grupo (não é uma vereda? se cair para o lado vai para o despenhadeiro), ele toca de leve e ela volta para o lugar; com a ponta de ferro, ele espanta o lobo. A í temos a restauração por amor do Seu Nome. Apesar de em português ser o mesmo verbo, o primeiro é uma direção devagarinho, é uma direção calma, é uma direção mansa, mas, o segundo é um pouquinho diferente. O verbo no original da língua hebraica significa um pouco mais, significa até colocar um pouquinho mais de pressão para que volte a ovelha para o caminho da justiça. Não é aquele toquezinho de leve com o bastão, não, talvez seja colocar o bastão do lado e empurrar para refazer o caminho da justiça, porque, se nos desviarmos da sua vontade ele nos traz de volta. E chegamos à Palavra Santa. E a palavra diz assim: "Confirmados pelo Senhor são os passos do homem em cujo caminho ele se deleita, ainda que caia não ficará prostrado; pois o Senhor lhe segura a mão." É a restauração por amor do seu nome. O VALE SOMBRIO Vamos ao verso 4, "Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam".
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    157 Aqui nóstemos coragem e conforto; coragem e consolação. Essa expressão: "vale da sombra da morte", era uma expressão coloquial para os hebreus antigos e para nós. Nos Estados Unidos há um deserto chamado Vale da Sombra da Morte. Quase não tem vida. Com respeito aos hebreus, todos tinham conhecimento de um trecho da estrada entre Jerusalém e o Mar Morto, no sul da Palestina. Estamos falando de três mil anos atrás, quando esse Salmo foi escrito. Era um trecho tremendamente perigoso, por isso, era chamado de vale da sombra, como apelido. Era o vale da sombra da morte, era o vale da profunda escuridão, significado também, da expressão sombra da morte, proximidade da morte. Amados, há quem não goste, não tolere. Há quem não suporte falar em morte. Talvez alguém esteja agora, começando a se inquietar com esse assunto. Há quem fale com muita naturalidade sobre a morte. E não são os donos ou gerentes das casas funerárias, não. E nem são os coveiros lá do Jardim da Saudade ou do Campo Santo, não. Tomas Mann, ele disse: "Sem a morte haveria muito poucos poetas na terra". Pois é, filósofos, cantores, musicistas se expressaram sobre esse evento, sobre esse fato na natureza humana e ninguém ignora ou contesta que morrer faz parte do processo da vida. O cristão tem tudo para ser natural diante da morte. Até comemoramos, ao lado do nascimento de Jesus, o Natal, a Sua morte na Ceia Memorial. Mas, a morte nos incomoda, n ão é? Por quê? Um irmão de nossa igreja passou por experiência desse tipo; quase nos disse adeus. Ninguém desconhece isso, nem ele que é médico, ele sabe da depressão pela qual passou, e um médico nos informou isso mesmo: cirurgia de ponte de safena traz um processo de depressão logo em seguida. Por que razão não gostamos de falar nesse assunto? Há muitas opiniões sobre a vida após a morte. Aliás, será conveniente trocar a expressão para "vida após a vida". Os arqueólogos têm encontrado túmulos com dois mil; dois mil e quinhentos; três mil; quatro mil anos. Túmulos onde havia restos de comida, bebida, armas, roupas, carruagens e até escravos, que foram ali colocados vivos para servir aquele nobre, aquele faraó, aquele rei no outro mundo. Até os primitivos falam sobre a vida após a vida. E há um resquício dessa idéia primitivíssima em certas correntes ditas até como ciência que acreditam que os espíritos dos falecidos vagueiam pelo ambiente dos vivos, interferindo até nas suas vidas. O fato é que há em nós, em todos nós, um tremendo instinto de sobrevivência pessoal, por uma básica razão: é que nós não fomos criados para a morte; e sim para viver! A morte então, é um acidente num tremendo incidente que se chama "a Queda". É uma expressão da teologia para mostrar como toda a humanidade está ligada de um modo único ao representante federal nosso que é o primeiro pai, Adão. E a Bíblia não esconde, e chega a dizer com muita clareza: "O salário do pecado é a morte", mas, completa pela misericórdia de Deus, "que o dom gratuito de Deus é a vida; a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor". Sim, nós amamos a vida! Todos nós amamos e prezamos e valorizamos tremendamente a vida! Nosso Deus é o Deus da vida. Ele é chamado na Escritura de o Deus Vivo. É o Deus que ama a vida e por isso, ele nos sustenta nesta vida e dá-nos a eternidade para a vindoura. INFORMAÇÕES SOBRE A VIDA APÓS A VIDA São difíceis as informações sobre a vida após está vida, porque quem conhece bem o assunto não voltou para contar. No entanto, temos no maior best seller do mundo, a B íblia Sagrada, promessas gloriosíssimas sobre a vida após esta vida. Aqui estão para o nosso conforto. Por exemplo, em Mateus há uma palavra de Jesus que diz:
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    "Dirá o reino juízo aos que estiverem a sua direita: Vinde benditos do meu pai; possui por herança o reino que vos está preparado desta fundação do mundo". 158 Que promessa extraordinária! Ou, ainda, esta outra que também vem dos lábios do Senhor, "Quem crê no filho tem a vida eterna; o que porém desobedece ao filho", [você está levando Jesus a sério?] "O que desobedece ao filho não verá a vida; mas, sobre ele permanece a ira de Deus". Você está levando Jesus Cristo a sério? Querem ver outra? "Eu vivo; e vós vivereis". E poderíamos continuar pelo resto da manhã mostrando textos e textos, promessas e promessas, profecias e mais profecias sobre a vida depois desta vida. Jesus Cristo nos trouxe uma palavra tão clara, e essa palavra tão clara diz que "As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço; e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna, e jamais perecerão e ninguém as arrebatará da minha mão". E ele também, ainda disse essa outra, "Que todo aquele que vê o Filho e crê nele tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia". Pois é, Jesus , o doador da vida eterna; Jesus, a fonte da vida; o pão da vida; a água da vida. • Mas, há que não tema a morte? Creio que sim. A Segunda Guerra Mundial trouxe ao cen ário bélico uns idealistas com um misto de fanatismo, e eles não temem a morte. • Aqueles que amarram bombas no corpo e entrando numa loja ou num mercado público de modo que muita gente morre com aquela pessoa, que morreu por esse ideal, eles n ão tinham medo de morrer, não. • Eram os pilotos kamicaze, eles eram jovens oficiais, pilotos japoneses que tendo transformado o avião transformado em uma bomba, e iam pilotando diretamente para o alvo, um porta-aviões, por exemplo; para que não se perdesse nenhuma dessas bombas. • E aqueles homens que dirigem carros bomba, são islamitas, são muçulmanos da linha xiita. Que também, eles não temem a morte. • Há aqueles que são plenamente realizados e justificados por Deus. Um excelente exemplo é o do patriarca Abraão. Diz a Escritura Sagrada a respeito de Abraão o seguinte, "Abraão expirou, morrendo em boa velhice; velho e cheio de dias e foi congregado ao seu povo". Foi o caso tamb ém de Simeão. Quando viu Jesus nenenzinho no templo pata sua apresentação, Simeão agradecido orou dizendo que agora o Senhor já podia levá-lo com as seguintes palavras, "despedes em paz o teu servo, pois os meus olhos já viram a tua salvação". • Há os que foram e voltaram. A revista Vinde trouxe há algum tempo uma reportagem sobre o tema da ressuscitação, tendo dado à matéria o título seguinte: Quando o céu pode esperar. Foi quase o título de um filme a respeito da reencarnação, doutrina intranqüila, e que não se encontra na Bíblia Sagrada. O jornalista falou do Pastor João de Oliveira, que em 1966, em Pindamonhangaba, São Paulo, foi declarado morto e voltou; Dona Luzanira Barbosa, em Maceió, em 1974; um médico, ou seja, um homem de ciência, o Dr. Joannis Garakis, em Brasília, em 1986; Dona Hortência Conceição dos Santos, em São Gonçalo, em 1990; o administrador de empresas Renato Liro, no Rio; e também um outro, filho da nossa igreja, a Igreja Batista Sião, o Dr. Samuel Figueira, por duas vezes em 1949 e em 1964. Hoje, aprouve a Deus levá-lo de vez depois de ele ter percebido que acontecia do outro lado.
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    Todos acharam eacham dificuldade em exprimir o inexprimível. Exatamente como o apóstolo Paulo quando 1Coríntios 2.9 disse "As coisas que olhos não viram, nem ouvidos ouviram, nem penetraram o coração do homem; são as que Deus preparou para os que os amam". Nesse mesmo sentido, o ap óstolo Paulo declarou em seguida que fora arrebatado ao Paraíso, tendo ouvido palavras inefáveis, as quais não é lícito ao homem referir (cf. 2Co 12.4). Mas todos têm a santa capacidade de exclamar com o apóstolo Paulo dizendo o seguinte, "Onde está ó morte a tua vitória, onde está ó morte o teu aguilhão; mas, graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo". E mesmo Jó, no Antigo Testamento, também disse: "Eu sei que o meu Redentor vive e que por fim se levantará sobre a terra e depois de consumida esta minha pele, então, fora da minha carme eu verei a Deus". 159 Como temos passado pelo vale sombrio e frio do desânimo, da tristeza, da dor, da necessidade, da doença incurável, do paciente terminal da sombra da morte! No entanto, pela presença do Bom Pastor esse vale se torna esplendidamente iluminado e o senso de absoluta e perfeita segurança, bem como o senso de objetivo, de propósito, de finalidade, de destino, se apresenta com tanta definição! No verso 5, mais duas promessas: de proteção e de provisão. E o verso cinco diz: "Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos; ungis com óleo a minha cabeça, o meu cálice trasborda". A primeira figura, foi a de um pastor que protege, guia, cuida e orienta a ovelha. Agora, eu temos uma outra imagem, a de um acampamento de beduínos, de pastores, naquelas planícies do Oriente Médio, armaram suas tendas, e já caindo a noite, ou mesmo no sol inclemente do meio dia, um viajante aparece naquele acampamento. E então, um dos beduínos, recebe o viajante, e o coloca casa, e não permite que um fio de cabelo de seu hóspede seja tocado. Até hoje, ainda é assim. Se alguém vai ao Oriente próximo, descobre que a hospitalidade é uma verdade ali entre eles. A escassa água é tornada disponível para a ablução, para que ele lave o rosto, para que lave as mãos, para que os pés sejam também lavados. O perfume vem em forma de um óleo, que aliás, é símbolo de alegria festiva na Bíblia, de cura. E a proteção, a imunidade contra os inimigos é garantida. Se o caso for, o hospedeiro chega a ponto de perder a vida para resguardar a do seu hóspede na tenda. Ele é muito bem recebido e é isso que diz a expressão, "Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos; unge com óleo a minha cabeça e meu cálice trasborda". Mas, quem são esses inimigos? O primeiro grande inimigo é Satanás, o inimigo das nossas almas, atazanando a vida do crente por todos os lados com enfermidades, impiedade alheia e com perturbação. São pessoas que oprimem, são os que se levantam contra Deus, é a família iníqua, são os injustos. Outro inimigo é a ansiedade, é o medo da morte, é o medo do futuro. Mas, sabem quem é o último inimigo nosso? É a morte. Está em 1Coríntios 15.26: "O último inimigo a ser destruído é a morte". Mas nós temos proteção e provisão bem definidas da parte do Senhor. E no verso 6, "Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias". Que coisa maravilhosa, porque temos tudo o que foi dito acima e o céu também! Temos amor e vida! Foi dito no começo que temos dois guarda-costas especiais, a bondade e a misericórdia. O texto sagrado diz, "me seguirão", no original, porém, a palavra é "perseguir". Os inimigos perseguem, mas, a bondade e a misericórdia nos seguem bem de perto, isto é, somos perseguidos. É exatamente o que o autor quis colocar, nós temos bondade, tov, e temos a
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    misericórdia, hesed. Quelindas palavras na língua hebraica. Tov, é de onde vem o nome próprio Tobias, que quer dizer, "Deus é bom". E, na verdade, Davi quer falar de algo que sobrepuja toda a nossa compreensão. Ele quer falar da paz de Deus que excede todo o entendimento. E como n ão encontra palavras para falar da eternidade, ele declara: "Habitarei na casa do Senhor por longos dias". 160 Se Enoque e Elias foram arrebatados pelo Senhor, porque não seremos levados com alegria no rosto e serenidade no coração à presença do Pai quando chegar a hora da nossa morte? E Jesus não falou sobre isso? E não contou Ele a história do rico e do Lázaro em Lucas 16.22? "Aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o rico, e foi sepultado". "Levado pelos anjos", que outra promessa extraordinária na palavra de Deus... Jesus não disse nessa história que o mendigo foi levado pelos anjos, arrebatado pelos anjos para o s eio de Abraão? Paulo não menciona isso, o arrebatamento, em 1Tessalonicenses 4.17? Pois é, bondade e misericórdia, tov e hesed. Aliás, essa palavrinha é, até, mais que só misericórdia, porque ela é lealdade, a lealdade de Deus, é bondade, é salvação, é a fidelidade do Pai, é a justiça, é a verdade. E a fidelidade de Deus está aí, até cantamos, "Tu es fiel Senhor, meu Pai celeste". Por isso que emoções e sentimentos perturbados serão acalmados pelo Senhor, temor, pavor, espanto, medo, serão tranqüilizados por Deus e perdão sempre "e habitarei na casa do Senhor". Estamos falando de segurança, de segurança para a vida eterna. E Jesus disse, "Na casa de meu pai há muitas moradas; senão fosse assim eu vo-lo teria tido". E agora, ele assegura, "Vou prepara-vos lugar". Nós estamos falando de segurança eterna, de segurança verdadeira, porque nada nos arrebatará da mão de Jesus, porque nós somos parte da casa do Senhor, da família de Deus. Vou lhe dizer o que fazer, e vou fazê-lo com a palavra de Deus. Nós vamos encerrar, mas, o amigo já observou que houve um uso constante da primeira pessoa do singular? Porque esse é um Salmo pessoal, esse é um Salmo para você recitar: "O Senhor é o meu pastor". O Senhor é o seu pastor? Você tem certeza de que nada vai lhe faltar? Que é que você pode fazer para ter este Bom Pastor na sua vida? A primeira coisa é ter fé. Creia que só Jesus Cristo pode lhe dar soluções. Confesse a Jesus como seu Salvador. E a ênfase é no Deus que conhece a cada um de nós, é no Deus que conhece a você, porque você não é um anônimo diante de Deus. É o Deus que cuida de você, é o Deus que busca ajudá-lo e você acabou de conhecer o Salmo do Pastor comentado por este pastor. Mas, conhece o Pastor deste Salmo e de todo o rebanho de Deus? Que pode você fazer para ter este bom Pastor na sua vida? E eu vejo que Jesus coloca tudo na base da fé, da confiança, na fé-adesão, na fé-compromisso com ele. Você precisa, então, crer. Essa é a primeira coisa, fé. Você precisa confessar, confessar a Jesus Cristo, o passado, o seu pecado, deixá-lo para trás e obedecer-Lhe e andar com Ele. E este pastor extraordinário lhe oferece provisões abundantíssimas porque Ele faz a vida transbordar. Nós temos o Seu óleo, nós temos a Sua unção, nós temos a Sua bênção, a Sua revelação, as Suas visões, a visão do céu, a visão de Deus, a visão da eternidade, a visão do mais além, a visão da vida após esta vida. Portanto, creia, confesse, e obedeça. E eu gostaria de ler este poema que está na capa do boletim porque ele diz o seguinte:
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    www.obeb.com.br / http://www.teologiagratisefenipe.com.br/page10.php 161 O Senhor mostrou-me a vida verdadeira, mudou meu modo de ser, minha maneira de viver e fez-me enxergar bem clara a vida e na fonte do amor sua jazida fez-me encontrar o tesouro imperecível que as traças não destroem o combustível para a minha viagem rumo ao céu. Hoje, louvo ao Senhor, meu Pai, meu Deus que me disse que eu era um ramo de Sua vinha. Nesta hora a minha alma se aninha nos braços do Senhor, sou filha sua; e vivo em torno dele como a lua que vira sempre em redor do sol. Jesus é o meu guia, o meu farol, com a Sua luz ilumino, me projeto sem direção, eu alcanço rumo certo, pois, sigo o meu Jesus que é meu caminho. Na Sua paz, busco fazer o meu ninho, um dia assumirei o viver sã, um dia cantarei também um canto feito de paz, de amor, e de alegria. Eu quero agora, ser oferta, colocar-me no altar do Senhor, falar-me do meu imenso amor e abandonar-me humildemente em Suas mãos. Acolhei e ajudai os meus irmãos a seguir os passos Santos de Jesus, a assumir com muito amor a minha cruz até chegar ao alto do Calvário. Até que ao pé do santuário eu deposite a minha vida, o meu ser, e diga ao Pai: Valeu a pena o meu viver. Amém. OS LEVITAS Professor Antony Steff Gilson de Oliveira "Nesse tempo o Senhor separou a tribo de Levi para levar a arca da aliança do Senhor, para o servir, e para abençoar em seu nome..." (Dt 10.8) Levitas eram os membros da tribo de Levi, terceiro filho do patriarca Jac ó. Formavam uma tribo separada, sem território, sem herança terrena porque gozavam do alto privilégio de ter o Senhor
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    www.obeb.com.br / http://www.teologiagratisefenipe.com.br/page10.php 162 como seu quinhão, sua posse (Dt 10.9). Era a tribo dos sacerdotes (cohanim), descendentes de Ar ão, por sua vez descendente de Levi (Ex 29.44; Nm 3.10). Isso quer dizer que todo sacerdote (cohen) era levita levi), mas nem todo levita era sacerdote (Nm 3.6s). Os levitas (leviim) tinham, entre outros privilégios: · servir no santuário (Nm 3.6; 1Cr 15.2) ajudando nos sacrifícios (Jr 33.18,22), na recepção de oráculos (Nm 3.38; 2Rs 12.9ss; · transportar a arca da aliança (aron haberith); · a responsabilidade do ensino da lei (Dt 31.9; 22.10); · autoridade para abençoar. Grande privilégio pela associação como o Nome de Deus (Nm 6.27). Gozavam os levitas de alto prestígio, de elevada estima aos olhos do Senhor a ponto de lhes ser dito pelo Senhor, "... os levitas serão meus" (Nm 8.14b). Por esse motivo, no deserto, quando da apostasia do povo de Deus, os levitas puniram os apóstatas (Ex 32.25-29). Deuteronômio 10.8 resume o ministério levítico, e nos aponta de modo sugestivo um plano de trabalho para nós mesmos, levitas da Nova Aliança: levar a arca da aliança, estar diante do Senhor e abençoar em Seu Nome. LEVAR A ARCA DA ALIANÇA O relato do Antigo Testamento dá uma descrição da arca (Ex 25.10ss). Era uma caixa de madeira de acácia medindo 1,40m x 0,84 cm x 0,84 cm, coberta de ouro e com uma tampa de ouro e com um tampo de ouro chamado de "propiciatório", em hebraico kapporeth (Ex 25.17, 21; 26.34). Na arca, três objetos que eram testemunhos da relação de Deus com Seu povo: · As duas tábuas de pedra onde se achava "escrita a aliança de Deus com o povo" (Ex 24.12; 25.16, 21; 40.20; Dt 10.1-5). Era lembrança do pacto de Deus com os filhos de Jacó, símbolo de direção permanente da parte divina; · O pote de maná que recordava ao povo o cuidado e o sustento que vinham da parte de Deus no deserto (Ex 16.14ss; Hb 9.4, 5). Era uma metáfora concreta do alimento permanente vindo de Deus; · O bastão (vara) de Arão (Nm 17.10) que floresceu como prova da sua divina indicação para ser Sumo-sacerdote (cf. v.8). É sinal de apoio permanente pelo Senhor. A arca era um ponto catalizador dos doze tribos de Israel; o lugar de encontro no Santo dos Santos, onde o Senhor revelava Sua vontade aos Seus servos. Sinal visível e símbolo da presença de Deus entre o povo (1Sm 4-6; 2Sm 6; 1Rs 8; cf. 1Sm 4.7,22; Nm 10 35; 1Rs 8.11). Era o próprio trono de Deus. Reputada como a "glória de Israel" (1Sm 4.21,22), santificava o lugar onde repousava (2Cr 8.11). Por esse motivo, quando a notícia de que havia sido tomada pelos filisteus chegou ao povo de Deus, a nora de Eli, o sacerdote, exclamou: "De Israel se foi a glória!" (1Sm 4.21). Pois uma das funções levíticas era transportar a arca, o que foi desempenhado até Ter sido levada definitivamente para Jerusalém (1Cr 16.1), ocasião quando dita função foi transformada em ministério de serviço e de louvor (1Cr 23.25-32).
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    Que lição tiramospara nós, os levitas de hoje? A de que para levar a arca é preciso ser escolhido. Outra importante lição é que se temos de levar a arca, temos que desempenhar esta obrigação de modo incansável, sacrificial, corajoso até. Afinal, a arca da aliança é um tipo de Jesus Cristo, segundo Apocalipse 11.19. 163 ESTAR DIANTE DO SENHOR Uma explicação mais detalhada está em Números 3.6-8, onde se percebe que "estar diante de..." é o mesmo que "dar assistência, servir". "Estar diante do Senhor" tem a ver com consagração. O Novo Testamento ensina que os filhos de Deus somos constrangidos pelo amor a viver para o Senhor que morreu e ressuscitou por n ós (2Co 5.14). A base dessa consagração é o amor, e não pode haver consagração se não se sentir o amor do Senhor, e se não se amor o Senhor. O povo de Israel fora escolhido, mas só a tribo de Levi foi separada para ser a tribo de sacerdotes. Consagração na Antiga Aliança era algo exclusivo. Hoje, na dispensação da raça, todos somos sacerdotes, levitas, portanto (Ap 1.5, 6). Watchman Nee escreveu como oração: Ó Senhor, Sendo amado, que mais posso eu fazer Além de me separar de todas as coisas Para poder servir-Te? Daqui em diante, Ninguém poderá usar minhas mãos, ou pés, Ou boca, ou ouvidos; Pois estas minhas mãos São para fazer as Tuas obras, Meus dois pés para andar em Teu Caminho, Minha boca para cantar os Teus louvores, E meus ouvidos para ouvir a Tua voz". A consagração visa a servir a Deus, como o faziam os levitas que tinham a função de "estar diante do Senhor". Quando nos tornamos crentes em Cristo, assumimos o compromisso o compromisso de servir a Deus por toda a vida. Um médico que é salvo pelo sangue de Jesus coloca a medicina em segundo lugar, pois para o primeiro lugar vai Jesus, seu Salvador. O mesmo com o comerciante, o soldado ou o bancário. Assim aconteceu com os primeiros discípulos: Mateus era fiscal de rendas; Pedro, André, Tiago e João eram pescadores que para "estar diante do Senhor" deixaram suas vocações para segundo plano. Para 'estar diante do Senhor" é preciso ser (2Cr 29.11). "Não sejais negligentes" diz este texto. Isso faz lembrar Samuel Brengle: "A santidade não tem pernas e não pode andar de um lado para outro visitante os preguiçosos". E continua lembrando que há dois empecilhos práticos à santidade: consagração imperfeita e fé imperfeita. Realmente a nada leva a consagração pela metade, a consagração parcial, a consagração às vezes, talvez, pode-ser, domingo-sim-domingo-não, semana-sim-semana-não. A nada leva a fé mais-ou-menos, a fé desde-que, até-certo-ponto, limitada, nem-sempre, com ressalvas.
  • 164.
    164 PARA ABENÇOAREM SEU NOME A história da bênção é antiga. Já a encontramos nos primeiros momentos da Criação (Gn 1.27, 28; 2.3). Abraão foi abençoado por Deus para ser uma bênção para o mundo (Gn 12.1-3). O texto de Deuteronômio fala da função levítica de abençoar em nome de Deus. Ora, aprendemos com a Escritura que abençoar em nome de alguém é falar em seu nome. Por essa razão há de haver cuidado com a bênção dada levianamente e sem discernimento (cf. Ex 20.7). Excelente exemplo de abençoar em Nome do Senhor está em 2Samuel 6.18, quando a arca da aliança foi trazida da casa de Abinadabe (em Quiriate-Jearim) e a levaram para Jerusalém conquistada por Davi. Há bênçãos belíssimas: DE PARA REFERÊNCIA De Isaque Para Jacó - Referência Gn 27.27-29 De Jacó Para filhos - Referência Gn 49.1-28 De Moisés Para povo de Israel - Referência Dt 33 De Sacerdotes Para Povo de Israel - Referência Nm 6.24-27 De Jacó Para José (em seus filhos) - Referência Gn 48.`15,16 O Salmo 128 De Jesus Para crianças - Referência Mc 10.14, 16 Na imensa maioria, destaca-se a marca do Nome do Senhor, ou seja, Seu caráter, Sua personalidade e Seu poder. A vontade de Deus é colocada sobre aquele por quem se orar, pois que o Nome do Senhor protege e abençoa (Nm 6.27). Não é uma simples palavra, pois "Eu-Sou-O-Que-Sou", ou seja, "Eu- Não-Mudo" (cf. Pv 18.10). Há que tomar em consideração um importante fato: para abençoar é preciso ser uma bênção. Em Números 16.9, a grande pergunta do Senhor é : "Acaso é pouco vós que o Deus de Israel vos tenha separado... para vos fazer chegar a si...?" Os levitas da Nova Aliança vivemos na disposição de continuar levando a arca, pois para tanto formos escolhidos; de lembrar ao povo a dire ção permanente de Deus; de recordar ao povo o pão dos céus, Jesus Cristo, o maná vivo; de ressaltar o apoio permanente no cajado de Arão agora brotando em Cristo Jesus. Vivemos, os levitas, na santa disposição de estar diante do Senhor, ou seja, de consagração contínua, efetiva, real, verdadeira baseada no amor, na disposição de ser. Vivemos na sagrada determinação de abençoar em Seu Nome, e para isso temos que ser uma bênção. "... POUCO MENOR DO QUE DEUS" Refletindo Sobre O Salmo 8 Professor Antony Steff Gilson de Oliveira Um dos mais conhecidos e apreciados hinos da palavra de Deus. Marcante nas suas expressões, responde a duas perguntas: "Quem é Deus?" e "que é o ser humano. Começa e termina com a mesma expressão: "Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra", que está no começo do primeiro versículo e em todo o verso final.
  • 165.
    165 É significativoque assim aconteça para que não esqueçamos que este hino não está exaltando o ser humano, apesar de perguntar: "Que é o homem mortal para que te lembres dele?" Exalta, sim, o nosso Deus. Como referido, o Salmo responde a duas perguntas: Quem é Deus e quem é o ser humano. Vejamos inicialmente a resposta a esta última pergunta. "POUCO MENOR DO QUE DEUS" Examinemos o verso 4: "Que é o homem mortal para que te lembres dele; o filho do homem para que o visites? É uma pergunta cheia de assombro, até porque os versos anteriores falaram das maravilhas do universo, do céus, do espaço, das estrelas, dos planetas, da obra criadora de Deus. Depois de olhar para o céu estrelado e se maravilhar com sua beleza, pergunta o salmista, "à luz de tudo o que foi dito acima, coitado do ser humano, quem é ele? Que é o ser humano?" A verdade é que somos apenas uma poeira, menos que um grãozinho de poeira. No espaço todo, o planeta Terra é um grãozinho ao redor de uma estrela de quinta grandeza, e nós, seres humanos, apenas uma minúscula partícula de um grão de poeira. É de admirar, portanto, que apesar de tudo isso, Deus concedeu a cada um capacidades maravilhosas. A pergunta como foi traduzida pode dar idéia "Que é o homem?" (mas a mulher, não). E não é essa a pergunta. O original em hebraico pergunta "Que é o ser humano? A propósito, tanto faz dizer "o homem" quanto "o filho do homem", expressões que querem significar a mesma realidade. Mas não fala do homem masculino. As palavras que aqui estão são 'enosh e 'adam (ben 'adam), de onde veio o nome Adão. Ambas querem dizer "ser humano" ou "humanidade". A palavra em hebraico é 'enosh, pessoa humana, ser humano. Assim, "Que é a pessoa humana para que Deus olhe para ela com tanto carinho?" Que é a pessoa humana para que Deus olhe com tanta atenção, dela se lembre e a visite?" A resposta é dada no próprio Salmo. Está no verso 5, onde é dito que o ser humano foi criado "pouco menor do que Deus". Essa última expressão significa que nossa criação trouxe-nos uma condição muito especial. Algumas Bíblias trazem a tradução, "Pouco menor que os anjos o criaste". Afinal, o ser humano foi criado "pouco menor que os anjos" ou "pouco menor do que Deus"? A Bíblia hebraica menciona a palavra "Deus". Ali está 'Elohim, plural de majestade para Deus. Para se traduzir "anjos", deveria ser malachim, palavra parecida, mas não igual. 'Elohim é o plural de 'Eloah, idêntica a 'El, significando ambas "Deus"; malachim é a forma plural de malach, que significa "mensageiro, portador" e que se traduz como "anjo", transliterado do grego aggelos e quer dizer o mesmo: "mensageiro, estafeta", ou "portador". Traduções que falam em "pouco menor que os anjos" refletem a primeira tradução da Bíblia hebraica para outra língua, neste caso, a grega. Isso ocorreu para que os judeus que habitavam no norte da África, e já não mais falavam hebraico e aramaico, pudessem ler o Tanach (o Antigo Testamento). Os
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    166 tradutores acharamque era uma irreverência usar a expressão "pouco menor do que Deus", e utilizaram essa alternativa não encontrada no original. Interessante que no Novo Testamento está dito que os anjos são servidores da pessoa humana, colocados à disposição dos salvos por Deus para que ministrassem. Está em 1.13, 14: "A qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra até que ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés? Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor dos que hão de herdar a salvação?" Há, mesmo, uma ordem: Deus ('Elohim), em seguida, O Ser Humano ('enosh e ben 'adam), e abaixo de nós, para servir a Deus e para nos servir Os Anjos, os malachim. DEUS > O SER HUMANO > OS ANJOS A pergunta fica então "Que é a pessoa humana para que lembres dela?" Nada é. Inspirado pelo Espírito, o salmista coloca algumas qualidades concedidas por Deus: A pessoa humana foi criada um pouco abaixo dEle (v. 5a). Que extraordinária grandeza nesse grão de poeira que somos nós! Dizem os biólogos que somos formados de 70% de água. O restante é pele, fibras musculares, ossos, cabelos unhas. Se pudéssemos pegar alguém e colocar numa centrífuga, encheríamos um balde com a água extraída. Só água. Por isso, não podemos entender como pode haver tanta água orgulhosa, vaidosa, ciumenta, cheia de jactância. Mas diz a Escritura que fomos criados um "pouco menor do que Deus" (v. 5). Se assim é, alguma coisa aconteceu que nos fez perder essa qualidade. Esse fato é denominado a Queda, e está relatado em Gênesis, capítulo 3. É muita dignidade, mas há quem não pense nisso. Como há quem se degrade a ponto de não ter qualquer sentido na vida, ela perde o significado? Como alguém não pode se compreender imagem e semelhança de Deus e não se ver criada com amor e carinho, e como uma obra especial de Deus porque imagem e semelhança de Deus? O Salmo 8 responde quem é o ser humano: aquele que foi criado imagem e semelhança de Deus. Nossos primeiros pais foram criados com dignidade e receberam a incumbência de serem gerentes da Terra, pois Adão fora colocado para lavrar e guardar o jardim (Gn 2.15). Deveriam os pais primevos desenvolver a Terra, mas se rebelaram e perderam esse status. Com isso, fomos arrastados pela Queda. Aliás, o próprio texto do Salmo 8 diz: "Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo dos seus pés" (v. 6). Deus colocou em nossas mãos a administração dos recursos do planeta. Significa que os rios, os lagos, os mares, as dunas, as florestas, tudo deve ser preservado para o benef ício do ser humano. Estão prevendo que dentro de mais alguns anos não haverá alimentação para todos. Nossos trinetos e seus filhos vão ter dificuldades. O resto de Mata Atlântica no sul da Bahia está sendo devastado de modo terrível. Não estamos gerenciando bem, pois 32 hectares são diariamente derrubados na Floresta Amazônica!
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    167 O serhumano é o gerente de Deus na Terra. Cada um de nós é chamado a ser supervisor das coisas que Deus criou. O que se chama de ecologia é o equilíbrio das coisas. A palavra, que vem do grego, é sugestiva. A raiz é oikos, "casa", e de onde procede "economia". Ecologia é o estudo para a preservação da nossa casa, que não outra coisa senão o mundo onde vivemos. Quando não cuidamos da higiene, rebaixa-se a qualidade de vida pela perda da saúde. Recordemos, portanto, que esse "tomar conta" da casa, o gerenciamento dos interesses do planeta nos foi dado pelas mãos de Deus como dizem o Gênesis e o Salmo 8. Tem mais: "de glória e de honra o coroaste". Na língua de Davi, "glória" é kavod. Na riquíssima língua hebraica, uma palavra significa um universo de coisas. Kavod significa também "peso". O apóstolo Paulo usa a expressão redundante "peso de glória" (2Co 4.17). Ele fez um jogo de palavras com o hebraico falou de "kavod de kavod" ("glória extraordinária"). E esse "peso de glória" foi colocado em nós. Uma compreensão da sinonímia de "glória" e "peso" nos pode ser dada por uma fotografia que saiu na antiga revista O Cruzeiro. Nela era apresentada uma cena ocorrida no anivers ário do rei Aga Khan, da Arábia Saudita. Era um homem enorme. Uma balança fora colocada num tablado. O rei sentou-se num dos pratos e no outro prato, seus súditos colocavam jóias, ouro, pedras, moedas até equivaler o seu peso. O peso do rei era traduzido em jóias e metais preciosos. Uma verdadeira glória essa fabulosa riqueza! Então o rei ordenava que o recolhido fosse destinado às obras sociais. Cada ano isso acontecia. Fica evidente o significado do hebraico. A Glória de Deus é o peso que Ele tem na nossa vida. Como se perdeu o senso da majestade divina. Deus tem sido minimizado! Perdeu-se o senso de quem Deus é. "Que é o ser humano?" É criado em glória e honra (v. 5b). Vezes inúmeras essa glória e honra têm sido jogadas no lixo. Não entendemos como uma pessoa pode se degradar a ponto de perder a identidade, quem ele é, e se drogar, beber, e se prejudicar. E DEUS, QUEM É? A outra pergunta é "Quem é Deus?" O salmista começa seu hino de louvor com uma expressão, e a repete no final: "Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra" (vv. 1a, 9) Que sugestivo! Começou com Deus e terminou com Deus! E ele responde à pergunta sobre A Pessoa divina: Deus é Aquele que tem um Nome admirável. Os deuses do passado tinham nomes estranhos com significados mais estranhos, até. Um deus na Babilônia era Shamash, o Sol. Adoravam-no e diziam que era um deus. Uma deusa era Sin, a Lua. Ensinam, mesmo, que o monte Sinai tem este nome porque teria existido ali um antigo santuário a essa deusa. Os filisteus adoravam Dagon, o peixe. Não sabemos pronunciar o Nome de Deus. Quando Moisés teve uma visão da kavod divina, a Glória de Deus no arbusto que pegava fogo e não se queimava, a "sarça ardente", o brilho de Deus, recebeu a
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    168 missão devoltar ao Egito, e perguntou, "Quem está me mandando ao Egito?" O Senhor lhe disse: "Eu Sou". Como é o Nome de Deus que é tão admirável? Diz a Escritura Sagrada que Ele Se apresentou a Moisés e disse que Seu Nome era Eu-Sou-O-Que-Sou. Parece um enigma, uma enorme interrogação: "Eu Sou O Que Sou". Essa tradução aqui colocada, tem outras possibilidades. No original, aparece o verbo hayah na forma do incompleto. O passado é completo: "Ontem fui à feira" É um ato que já terminou, motivo porque está no completo. "Estou agora no santuário da igreja". Já chegou ao seu fim esse ato? Ainda não; é incompleto. "Amanhã será feriado". É tempo futuro; já chegou? Não; então é incompleto. "Saia daqui!" É uma ordem. Já aconteceu? Não; é incompleto. Isso quer dizer que podemos traduzir o Eu Sou o Que Sou de outras maneiras: "Eu Serei o Que Sou", "Eu Sou o Que Tenho Sido", "Eu Continuo a Ser o Que Sempre Fui". O Nome de Deus tem muitas possibilidades de tradu ção. Versões mais contemporâneas da Bíblia colocam apenas "Eu Sou o Eterno", que diz tudo. Podemos chamar a Deus por diversos outros Nomes. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento utilizam várias designações para falar de Deus. Quando se diz El Elyon, estamos falando do Deus Altíssimo. Ele é chamado na Bíblia de El Shadday, o Deus Todo-poderoso, também de Javé-jirê, o que Deus que provê as coisas, o Deus que providenciará as coisas, o Deus que tudo vê, El Roeh, Aquele que tudo prevê. Pode ser chamado o Deus da paz, Adonai Shalom. Poderíamos seguir com outras designações do nosso Deus. Mas uma coisas sabemos: Ele é o que tem o Nome Admirável em toda a terra! Primeira grande lição acerca de Deus é que Ele é o que tem o Nome admirável. Segunda lição: Ele é o que tem glória, pois ""Puseste a tua glória sobre os céus" (v. 1b). Percebam: Deus é superior ao espaço criado, pois não Se identifica com ele. Há quem pregue que Deus é a substância de todas as coisas. Isso se chama panteísmo. Vê uma linda flor, e diz "A substância dessa flor é Deus"; "a substância do mar é Deus", a substância da nuvem é Deus". Os hindus batem numa árvore e perguntam, "Deus, estás aí?" A Bíblia diz que Deus é superior a tudo o que Ele criou, não é a substância das coisas. Mas tudo é Sua obra: "Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, A lua e as estrelas que preparaste..." O Sol, a Lua, os planetas, estrelas, cometas, o que eram os deuses dos outros. O nome da deusa-estrela era Ishtar, de onde vem o nome Ester, e da mesma raiz o latim stella e da í "estrela". Enquanto os povos pensavam que as obras criadas eram deuses, o hebreu declarava a sua f é, esperança e completa dedicação e piedade ao Deus Criador. "Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra..." Só temos que render graças, glória, nossa admiração, reverência e louvor ao Deus que nos criou e sustenta. Deus é Aquele que é sempre vencedor. Como bem expressa o verso 2:
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    169 "Da bocadas crianças e dos que mamam tu suscitaste força, por causa dos teus adversários, para fazeres calar o inimigo e vingativo". Deus é o que sempre vence. Ele é o Deus do paradoxo! Vence com crianças que ainda estão sendo amamentadas! Venceu os egípcios, não porque arregimentou um tremendo exército: apenas o mar se abriu, os hebreus passaram, os egípcios entraram no mar, e o mar se fechou. Nosso Deus é o Deus dos paradoxos. Quem é Deus? Deus é o Criador, Aquele de Cujas mãos tudo saiu. "Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste," Gênesis 1 é de uma incrível felicidade. Temos uma descrição da obra criadora. A luz, separação entre luz e trevas, o Sol, os mares, a terra, os peixes, os grandes répteis, as aves, mamíferos, animais selvagens e animais do campo, o ser humano. Porém, enquanto alguns olham apenas a obra criadora, que é em si maravilhosa, outros a olham e fazem uma leitura um pouquinho diferente: v êem uma verdadeira batalha dos deuses. E esta batalha significa que os povos no entorno de Israel (os arameus no Norte, os fen ícios no noroeste, os filisteus no sudoeste, os edomitas, os babilônios) tinham os seus deuses e todos estão representados em Gênesis 1, mas apenas como produtos e subprodutos das mãos do Deus Que Tudo Cria. Era o caso dos babilônios e dos egípcios que adoravam o Sol. Na Babilônia era chamavam-no Shamash; no Egito, Rá. Era Sin, a Lua, entre os babilônios, os assírios. Animais também eram cultuados. No Egito, praticamente o panteão, o elenco dos deuses, era formado por animais: entre outros, o crocodilo, o touro, o gato, o íbis, o chacal, o falcão. Alguns deuses deuses eram representados como tendo o corpo de homem e a cabeça de animal. O deus da morte era Anúbis, o chacal com corpo de homem. No Museu Nacional do Rio de Janeiro, h á múmias de filhotes de crocodilo; no Museu do Cairo, vimos múmias de gatos, também considerados sagrados. O Mar Mediterrâneo, chamado de Grande Mar (Yam haGadol) era cultuado; os peixes eram cultuados, como no caso dos já mencionados filisteus. As florestas eram deuses para os cananeus. Essa religião da natureza está representada entre nós pelo candomblé. É o culto de Baal no nosso meio. Salvador tem um grande e lindo parque p úblico (o de São Bartolomeu) dedicado aos orixás. Mas nosso Deus é o Criador. Não faz por menos: enquanto adoravam a obra criada ("Ó, Sol! Ó, Sol! Recebe meus louvores!), o hebreu dizia "Você está adorando a criatura do meu Deus El Shaddai, o Criador dos céus e da terra (Baruch Atah Adonai Melech haOlam...")". Por isso o Salmo come ça dizendo, "Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra...", e termina do mesmo modo. É um salmo de louvor. A piedade deve estar sempre presente na expressão de louvor. PROJETO DE VIDA Eclesiastes 1.1; 2.1,11 Professor Antony Diego Roberto
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    170 O livrode Eclesiastes tem se constituído num verdadeiro enigma para muito. Há quem não o leia porque não entende; e há quem o leia sem tirar muito proveito, a não ser de um outro versículo escolhido. Na realidade, este livro se apresenta como um enigma. Enigma como o da esfinge à espera de ser decifrado: cabeça de ser humano, corpo de leão, asas de águia e patas de touro. Mas não é touro, nem águia, nem leão, nem gente. É nesse enigma que o autor vai desenvolvendo o seu raciocínio, mostrando que, no fundamento das coisas temporais, tudo é futilidade, tremenda e imensa futilidade... "VAIDADE DE VAIDADES" (1.2) Talvez a mais conhecida expressão do livro seja mesmo "vaidade de vaidades" "Hevel hahavelim" é um superlativo da língua hebraica que coloca a palavra hevel na sua forma mais elevada. Hevel significa muita coisa (como é típico da língua hebraica): "vapor, sopro", e por causa da fugacidade do vapor que logo desaparece, também tem a acepção de "futilidade, ineficácia, inutilidade, inconstância, ilusão, vacuidade, e vaidade", ou seja, "coisa vã, vazia". É precisamente isso o que o autor de Eclesiastes enfatiza: a futilidade, a ilusão e ineficácia dos projetos humanos. Usa, até, expressões como "trabalhar para o vento"1, "aflição de espírito"2; "enfadonha ocupação".3 O livro, escrito na primeira pessoa, é um testemunho da experiência pessoal da vida do autor (chamado o Pregador, o Eclesiaste, e Koheleth, palavra que significa "aquele-que-fala-na assembléia"). É possível, então, fazer uma releitura do texto. 1.2 diz: "Futilidade das maiores, diz o Pregador, inutilidade das coisas vazias, tudo é ilusão! Tudo é transitório!" E não é mesmo? Heráclito, filósofo grego do século 50 a. C. explicou que ""Ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio", por causa do constante fluxo das águas, e Isaías 40.6,7 também o clara com toda clareza: "Diz uma voz: Clama. E eu disse: Que hei de clamar? Todos os homens são como a erva, E toda a sua beleza como as flores do campo. Seca-se a erva, e caem as flores, Soprando nelas o hálito do Senhor. Na verdade o povo é erva". A época em que este livro foi escrito não era problemática em termos políticos e econômicos. No entanto, o Eclesiaste (ou Pregador) sendo homem de reflexão, de profundidade, percebeu a tremenda dificuldade em termos espirituais e emocionais. A religião era só ritual, prazer da hora, êxito comercial. E ele o diz:
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    171 "Guarda oteu pé, quando entrares na casa de Deus. Inclina-te mais a ouvir do que a oferecer sacrifícios de tolos, pois não sabem que procedem mal. Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus. Deus está nos céus, e tu estás na terra, pelo que sejam poucas as tuas palavras. Porque da muita ocupação vêm os sonhos, e a voz do tolo da multidão das palavras. Quando a Deus fizeres algum voto, não tardes em cumpri-lo. Ele não se agrada de tolos; o que votares, paga-o. Melhor é que não votes do que votes e não pagues. Não consintas que a tua boca faça pecas a tua carne, nem digas diante do anjo que foi erro Por que razão se iraria Deus contra a tua voz e destruiria a obra das tuas mãos? Na multidão dos sonhos há vaidade, assim também nas muitas palavras. Portanto, tu teme a Deus". E deste modo ele desafia a corrupção, a leviandade, o mundanismo e os valores apodrecidos do seu tempo. Uma leitura dos capítulos 4, 9 e 10 ajudará a entender esse fato. Só como exemplo: " "O que ama o dinheiro nunca se fartará dele; quem ama a abaundância nunca se farta da renda. Isto também é vaidade",4 e, "Tudo isto vi nos dias da minha vaidade: há justo que perece na sua justiça, e há ímpio que prolonga os seus dias na sua maldade",5 Bem como, "Ai de ti, ó terra, cujo rei é criança, e cujos príncipes banqueteiam de manhã".6 E qual a nossa situação como indivíduos? Como famílias? Como igreja? Há quem passe o dia, a semana, o tempo numa tremenda futilidade; sem projeto de vida, de modo vazio, oco, med íocre. Projeto de crescimento, nem pensar... "TODAS AS COISAS SÃO CANSEIRAS" (1.8) Esta expressão do verso 8 é digna de reflexão mais detida. O fato é que temos um vocábulo no hebraico que é davar. Ele pode ser traduzido indiferentemente por "coisa, palavra, fato, evento, acontecimento. E isso oferece outras possibilidades de tradução: * "Todas as coisas estão cheias de cansaço, ninguém o pode exprimir,"7 * "Toda palavra é enfadonha, e ninguém é capaz de explicá-la"8 * "Todas as coisas nos cansam tanto, que não há palavras que cheguem para explicar"9 * "Todas as palavras estão gastas, não se consegue mais dizê-las"10 * "Todas as coisas são canseiras, mais do que ninguém o pode declarar"11 É a mais pura das verdades! Estamos cansados dos acontecimentos que nos chegam de outros países; fatigados das coisas que nos ocorrem na ruas da cidade, no comércio, no banco, na escola. Estamos enfadados das palavras mentirosas, dos discursos demagógicos, dos sermões sem unção, vazios; estamos cansados das promessas de lealdade, das tapinhas nos ombros, das juras de fidelidade e amor
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    172 que recendema engano. É verdade..., "todas as coisas (ou "todos os acontecimentos, todas as palavras, todos os discursos, todos os fatos") nos cansam tanto, que não encontramos maneira de explicá-los". O autor passa a enumerar seus projetos em busca de sentido para a vida. Come ça pela formação acadêmica: "Apliquei o meu coração a esquadrinha, e a informar-me com sabedoria de tudo o que acontece debaixo do céu. Que enfadonha ocupação deu Deus aos filhos dos homens, para nela os afligir!" (1.13) Diz ele que depois de muito se aplicar à filosofia, à aventura do saber, descobriu sua futilidade,12pois, por mais que se dedicasse à aquisição de conhecimentos (científicos, literários, filosóficos), isso nada lhe adiantou na busca de satisfação espiritual ou moral. Com toda certeza,, um anel de universidade não satisfaz essa busca. Fala, em seguida, da "boa vida" ( prazer, hedonismo). Vivemos numa sociedade tremendamente erotizada. Pobres criancinhas nossas orientadas, educadas que são pelas novelas das 6, 7, e das 8, e pelas "Angélicas" e outras animadoras da TV... Infelizmente, em algumas igrejas ditas evangélicas, Jesus Cristo saiu e Eros13 entrou, visto que o espírito erotizante está em tudo. Perdeu-se o senso da Grandeza, da Majestade, da Justiça de Deus e do Senhorio de Jesus Cristo, e tem-se dado lugar às águas impuras, e os pastores deixam de ser profetas para serem animadores de audit ório, porque o que importa é encher os bancos, mesmo que custe a decadência da qualidade de doutrina, de ordem no culto e de respeito ao "em espírito e em verdade" que deve qualificar as reuniões cristãs evangélicas. A verdade é que a qualidade do cristianismo evangélico vem piorando, decaindo dia a dia, mês a mês, ano após ano. Que projeto de vida você quer para a sua igreja? O Pregador disse que o Prazer, a "boa vida" é fútil.14 Por quê? A razão é simples: é propaganda enganosa. O prazer promete mais do que realmente dá; porque a sua busca, a sua aventura termina em desengano e frustração. O Eclesiaste fala de trabalho, de realizações. De fato, o trabalho esteve a serviço do prazer.15 Observe-se que ele procurou seu Jardim do Éden particular.16 Faz mal ter uma casa de campo? Uma casa de praia? Um sítio? Sem dúvida, é algo desejável. Mas não a ponto de tirar o irmão e seus filhos do convívio da igreja. Projete seu filho, sua filha daqui a dez anos. Qual a possibilidade de seu filho (que você não tem trazido à Casa do Senhor hoje), estar daqui a dez ou doze anos nos arraiais do Senhor? UM PROJETO DE VIDA O livro de Eclesiastes é progressivo no seu curso, no seu projeto de vida. A verdade é que todos os projetos humanos são futilidade, menos o projeto de Deus para você. Responda com sinceridade: * Que projeto de vida tem você? * Que projeto de vida tem você para você e sua esposa como casal cristão? * Que projeto de vida têm vocês para a família como um todo? * E no trabalho? * E na igreja? * E para a eternidade?
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    173 Afinal, asabedoria é fútil! O prazer não tem sentido! O esforço é igualmente vazio! "Lembra-te do Criador enquanto és jovem..."17 Isso vale para todos. Já imaginou viver sem Deus? Isso tem nome. Chama-se secularismo. Mas, sem Deus o que é que resta? * Resta a Morte (2.16) * Resta o Mal em todas as suas formas: injustiça, opressão do menos valido, inveja, avidez de lucro, exploração do outro, pecado, sede pelo mal.18 * Restam os limites tanto do tempo quanto da oportunidade (9.11,12) porque n ão somos donos do nosso destino. Qual o seu projeto de vida? A geração evangélica de vinte anos para cá tem sido vitimada por baixos padrões morais e espirituais, por doutrinas antibíblicas, por práticas anti-evangélicas, por ensino fraco. Como resultado, temos crentes sem convicção doutrinária correndo de igreja em igreja num turismo eclesiástico desenfreado, indo a grupos que não são outra coisa senão sincretismo entre evangelho e rock pesado ou pior: práticas mistas do evangelho e do candomblé. PARA CONCLUIR "Lembra-te do teu Criador..." é um grande, excelente, nobre, salvador projeto de vida. Na realidade, você pode mudar a orientação de sua história pessoal, porque a sabedoria reside em levar em conta o que está em 12.13: temer a Deus e guardar os seus mandamentos. O criminoso na cruz mudou toda a sua história pessoal, e nos últimos momentos seu projeto de vida: "Senhor, lembra-te de mim quando estiveres no teu reino". A sabedoria você a encontrará em Jesus Cristo, pois 1Coríntios 1.30 ensina que "vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção..." Isso é felicidade; não as honrarias, a riqueza, a vida longa, e a aparente paz. Na verdade, a felicidade real e possível está em nos unirmos na comunhão de Jesus Cristo e em serví-Lo. "Temer a Deus" (que não é medo, terror, pavor). "Temer a Deus", que é respeito, reverência, adoração, comprometimento, nos coloca no Seu plano.. 1 Cf. 5.16. 2 Cf. 2.11. 3 Cf. 1.13. 4 Ec 5.10. 5 Ec 7.15. 6 Ec 10.16. 7 VersãoRevisada da IBB. 8 Bíblia de Jerusalém. 9 Bíblia Sagrada: Tradução Interconfessional. 10 Bíblia Tradução Ecumênica. 11 Almeida Edição Contemporânea. 12 Cf. vv. 17,18. 13 Esta referência não diz respeito a um conceito psicanalítico ou freudiano do Eros, mas ao senso comum. 14 Cf. 2.1b,2. 15 Cf. 2.10. 16 Cf. vv. 4-8.
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    174 17 Cf.11.7-12.8. 18 Cf. 3.16; 4.1; 4.4; 4.8; 5.8; 7.20; 9.3. Rahab e Leviatan Professor Antony Steff Gilson de Oliveira Encontramos várias vezes no texto do Antigo Testamento a menção de seres dos quais não temos certeza quanto à sua origem e espécie. Dois deles são Rahab e Leviatan. Muitas vezes Rahab e Leviatan aparecem no texto lutando contra Yahweh. Geralmente esta luta de Yahweh c ontra Rahab e Leviatan se dá em contextos poéticos que tratam da origem do cosmos (cosmogonia). Como exemplo temos Jó 26.10- 13 Traçou um círculo à superfície das águas, até aos confins da luz e das trevas. 11 As colunas do céu tremem e se espantam da sua ameaça. 12 Com a sua força fende o mar e com o seu entendimento abate o adversário. 13 Pelo seu sopro aclara os céus, a sua mão fere o dragão veloz (serpente veloz/fugitiva) Salmo 74.13-17 Tu, com o teu poder, dividiste o mar; esmagaste sobre as águas a cabeça dos monstros marinhos. 14 Tu espedaçaste as cabeças do crocodilo e o deste por alimento às alimárias do deserto. 15 Tu abriste fontes e ribeiros; secaste rios caudalosos. 16 Teu é o dia; tua, também, a noite; a luz e o sol, tu os formaste. 17 Fixaste os confins da terra; verão e inverno, tu os fizeste. O que são o Rahab e o Leviatan, citados juntamente com os monstros marinhos nessas passagens? Como interpretar textos que citam esses elementos e fazem referências à criação? Mary K. Wakeman, estudando a literatura do antigo Oriente Próximo, concluiu que a mitologia de diversas fontes antigas (Suméria, Índia, Mesopotâmia, Anatólia, Grécia e Canaã) traz traços comuns: (1) um monstro repressivo impedindo a criação; (2) a derrota do monstro por um deus heróico que então libera as forças essenciais para a vida e (3) o domínio final do herói sobre estas forças. Nesses mitos do antigo Oriente Próximo Rahab e Leviatan são sempre identificados como estes monstros anti-criacionais. Estariam os textos acima mencionados fazendo referência a estes elementos mitológicos comuns às culturas do antigo Oriente Próximo? A referência feita em Jó e Salmos teria características comuns com a mitologia? Entender estas referências a aspectos da mitologia do antigo Oriente Próximo nos escritos canônicos prejudica de alguma forma a nossa compreensão de inspiração, inerrância e historicidade das Escrituras? Vejamos algumas respostas a estas perguntas. O simples fato de Rahab e Leviatan serem citados em literatura mítica e na literatura bíblica não implica necessariamente que estejam falando da mesma coisa. Porém, o contexto e o fato de não sabermos a que o texto bíblico se refere exatamente nos leva a crer que estes elementos são os mesmos citados na literatura mítica. Nossas traduções são a prova de que nossa lexicografia é incerta quanto a estes vocábulos. Rahab aparece traduzido em português como ‘adversário’ (RA), ‘soberba’ (RC), ‘monstro Raabe’ (BLH). O léxico hebraico (BDB) traz como possibilidades para a tradução ‘soberbo’, ‘arrogância’ (como nomes), ‘nome emblemático para o Egito’, ‘monstro mítico’ (seguindo a Septuaginta) entre outros. Leviatan aparece traduzido como ‘crocodilo’ (RA), e ‘Leviatan’ (RC e
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    BLH). O mesmoBDB traz como possibilidades de tradução ‘leviatan’, ‘monstro marinho’, ‘dragão’ , grande animal aquático’, ‘talvez um dinossauro extinto’, ‘significado exato desconhecido’. Em Jó 41 encontra-se uma descrição do Leviatan que certamente não se encaixa com qualquer animal conhecido, ou mesmo a possibilidade de algum animal extinto, mas sim com a figura mitológica comum do dragão que lança fogo pela boca (Jó 41.19-21). No contexto dos textos acima (Jó 26.12 e Sl 74.14) tanto Rahab quanto Leviatan aparecem acompanhados de outros seres que lembram tamb ém elementos mitológicos, ainda que sua presença não indique necessariamente uma fonte mitológica para os textos (e.g. a serpente em Gênesis 3). 175 Em geral, este monstro está associado ao mar e o Senhor domina e derrota o monstro, como o Salmo 89.9-10 9 Dominas a fúria do mar; quando as suas ondas se levantam, tu as amainas. 10 Calcaste a Raabe, como um ferido de morte; com o teu poderoso braço dispersaste os teus inimigos. Salmo 104:26 25 Eis o mar vasto, imenso, no qual se movem seres sem conta, animais pequenos e grandes. 26 Por ele transitam os navios e o monstro marinho que formaste para nele folgar. Isaías 27.1 1 Naquele dia, o SENHOR castigará com a sua dura espada, grande e forte, o dragão, serpente veloz, e o dragão, serpente sinuosa, e matará o monstro que está no mar. Associar as menções de Rahab e Leviatan na Bíblia aos mitos pagãos do antigo Oriente Próximo implica em que os autores bíblicos criam nestes mitos? Não. O fato dos mitos serem citados implica, em primeiro lugar, que eles eram conhecidos dos autores bíblicos e, certamente, da audiência deles. Segundo, que usando de uma lógica clara, eles citam estes mitos dentro de literatura reconhecidamente poética, para demonstrar que Yahweh é superior a todos estes elementos míticos. A Escritura é muito clara em demonstrar que o politeísmo pagão é condenável e os autores bíblicos bem sabiam disto. Afirmar que, porque citaram a mitologia, criam nela, é ir além do que o contexto nos permite. Waltke demonstra, convincentemente, que pelo menos três aspectos podem ser estabelecidos a partir destas citações na literatura bíblica. Primeiro, que os autores bíblicos estavam declarando a superioridade de Yahweh sobre os deuses pagãos na criação, e, assim, descartando sua religião mitológica. Segundo, que ao identificar Rahab com inimigos históricos do povo de Deus como o Egito (Is 30.7; Is 51:9-10 Rahab=Egito), sustentam a vitória de Yahweh no presente, auxiliando o seu povo. Terceiro, ao identificar estes elementos mitológicos na literatura apocalíptica, apresentam a vitória futura e final de Yahweh sobre todos os seus inimigos (Is 27.1; Ap 12.7-9). No contexto da criação os textos de Jó e Salmos nos ajudam a entender alguns fatos importantes. Primeiro, que o Senhor é o grande criador, e não os deuses destes relatos mitológicos (Baal, Faraó, Marduque, etc.). Segundo, que o Deus criador do cosmos foi vitorioso no passado e será no futuro. Segundo Waltke,
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    É inconcebível pensarque estes monoteistas estritos [os escritores bíblicos] intencionaram dar suporte à sua visão apa rtir da mitologia pagã, que eles indubitavelmente detestavam e abominavam, a não ser que tivessem absoluta certeza de que seus ouvintes iriam entender que suas alusões eram usadas num sentido puramente figurativo. 176 REFLEXÕES SOBRE A IMORTALIDADE DA ALMA Professor Diego Roberto A doutrina aniquilacionista defende cessação total da vida no ato da morte. A alma, princípio vital, sucumbe com o corpo na sepultura. Ao descer ao pó, o homem, desaparece por completo. Todavia, segundo essa teoria, os justos ressuscitarão no tempo oportuno e voltarão à condição original de alma vivente. O castigo dos ímpios seria o de não viver para sempre com Jesus. A morte para estes seria realmente a separação eterna de Deus. Neste caso, não haveria os diferentes graus de castigo, segundo as obras de cada um. "O aniquilacionismo defende que, após a morte, a alma do ímpio não será punida eternamente num inferno literal, mas, ao invés disso, simplesmente deixará de existir. O aniquilacionismo constitui um meio termo entre o universalismo indiscriminado e a doutrina cristã tradicional da condenação eterna. É defendido pelas testemunhas de Jeová, pelos adventistas do sétimo dia, pela Igreja Mundial de Deus, e muitos outros grupos religiosos em atividade atualmente" (Dicionário de Religiões, Crenças e Ocultismo, George A. Mather). O Antigo Testamento é pouco elucidativo quanto à vida após a morte. É no Novo Testamento que vamos encontrar indicações mais claras a respeito do assunto. Comecemos pela formação do homem no Éden, onde pela primeira vez, a palavra alma é registrada: "Formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida, e o homem tornou-se alma vivente. Então da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou a mulher, e a trouxe ao homem" (Gn 2.7,22). Deus criou os animais sem soprar em suas narinas e os chamou de "répteis de alma vivente [criaturas que vivem e se movem]" (Gn 1.20,21), diferentes do homem que recebeu o f ôlego diretamente de Deus. Os seres humanos possuem portanto algo que veio diretamente da subst ância de Deus. A esse fôlego damos o nome de alma. Vejamos agora o significado das palavras "alma" e "esp írito" no hebraico e no grego, línguas originais do Antigo e do Novo Testamento, respectivamente. Alma, hebraico "nephesh". Significados principais: alma, ego, vida, pessoa, cora ção; refere-se à essência da vida, ao ato de respirar, tomar fôlego. Alma, grego psyche. Significados principais: a vida natural do corpo; vida; a parte imaterial, invisível do homem, o homem interior (Mt 10.28; At 2.27; 1 Rs 17.21). Espírito, hebraico "ruah". Significados principais: respiração, ar, força, vento, brisa, ânimo, humor, Espírito. Vejamos alguns exemplos: respiração que, quando volta, a pessoa é reavivada: "E [Sansão] bebeu [água]; e o seu espírito [literalmente, respiração] tornou, e reviveu" (Jz 15.19); elemento de vida no homem, o seu
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    177 "espírito" natural:"E expirou toda carne que se movia sobre a terra [...] Tudo o que tinha f ôlego de espírito de vida em seus narizes" (Gn 7.21.22). Estes versículos dizem que os animais também possuem "espírito", porém o homem recebeu o "fôlego" de forma diferente. Espírito, grego pneuma. Significados principais: vento, respiração; parte imaterial, invisível do homem (Lc 8.55; At 7.59; 1 Co 5.5; Tg 2.26); o Espírito Santo; o homem interior, com relação aos crentes; os espíritos imundos, demônios; o corpo da ressurreição (1 Co 15.45; 1 Tm 3.16. 1 Pe 3.18). (Fonte: Dicionário VINE, W.E.Vine, Merril F. Unger, William White Jr., CPAD, 2002, 1a. Edição). Em Isaías 26.9 o profeta apresenta nephesh e ruah como sinônimos: "Com minha alma te desejei de noite e, com o meu espírito, que está dentro de mim, madrugarei a buscar-te". Parece indicar que a alma está ligada aos sentimentos ("te desejei"), sendo o espírito o elemento vital de comunicação com Deus. A Bíblia não faz uma nítida distinção entre alma e espírito. Maria, mãe de Jesus, orou assim: "A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador" (Lc 1.46-47). Jesus, no Getsêmani: "A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal" (Mt 26.38). Na cruz, Ele bradou: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito" (Lc 23.46). Por isso, para efeito deste trabalho, chamaremos de alma ou espírito a parte imaterial que se separa do corpo na hora da morte. A alma foi doada ao homem no momento de sua formação, conforme Gênesis 2.7, onde se lê que o homem tornou-se "alma vivente". A condição expressa no verso 17 - "certamente morrerás" - sugere uma imortalidade humana. Subtende-se que se o primeiro casal não comesse do fruto proibido, não passaria pela morte física nem perderia a comunhão com o Criador. O primeiro casal não morreu logo após desobedecer, ou seja, não desceu ao pó, mas ficou potencialmente sujeito à morte física. Contudo, a sua morte espiritual foi imediata (Gn 3.7-13). Depois que o pecado afetou de forma negativa a raça humana, passou a haver separação da pessoa, na morte, em corpo, que volta à terra, e em espírito que volta a Deus (Ec 12.7). Analisemos Eclesiastes 12.7-NVI: "O pó volte à terra, de onde veio, e o espírito volte a Deus, que o deu". Aqui temos um pouco mais de luz. O pneuma-espírito não desce à sepultura. Ele é parte inerente ao homem, mas não o é do corpo sem vida. Na morte há uma separação. Os contradizentes argumentam que se todos os espíritos voltam a Deus, então, como defende o universalismo, todos se salvam. Tal argumento não deve prevalecer. Basta ler o verso anterior: "Lembra-te dele [do Criador] antes que se rompa a cadeia de prata [antes que a morte chegue]" (v.6). É nessa condição de homem arrependido e voltado para Deus, que a alma imortal, separada do corpo na hora da morte, "volta para Deus, que a deu". O contexto ressalta a fragilidade da vida do homem que vive sua vida sem temer a Deus, sem sequer se lembrar do seu Criador, sem nenhuma preocupação com a vida espiritual futura. A imagem de um corpo que se transforma em pó contrasta com a situação de vaidade e orgulho dos que não se submetem à vontade do Criador. Eclesiastes 12.7 mostra que a alma é imortal, e não morre com o corpo, nem com o corpo dorme na sepultura, mas segue imediatamente para Deus. Dando mais luz ao contido em Gn 3.19 e Ec 12.7, Jesus disse que quando descemos ao pó a nossa
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    178 parte imateriale invisível sobrevive, não morre: "E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo" (Mt 10.28 - Trinitariana). Seus discípulos aprenderam a lição. Sabiam que a morte não era o fim de tudo. Herodes poderia degolar João Batista, mas jamais poderia extinguir a sua alma. Pedro poderia ser crucificado de cabeça para baixo; outros poderiam ser brutalmente assassinados, mas suas almas permaneceriam intocáveis. Jesus não deixa dúvida quanto à imortalidade e sobrevivência da alma. Por isso, na parábola, disse que "Lázaro morreu e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão". O rico, que vivia na opulência, poderia até ter tirado a vida do mendigo, mas a alma deste não seria atingida. Conhecedor desta verdade, o apóstolo Paulo afirma que "para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho...mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor" (Fp 1.21-23). Estava Paulo realmente consciente de que iria apodrecer no sepulcro e nada dele sobraria até a ressurreição? Neste caso não haveria qualquer lucro imediato. Melhor seria continuar vivo e pregando o Evangelho. Mas ele tinha a promessa do Autor da Vida: a sua alma não morrerá. "Partir e estar com Cristo" transmite uma idéia de trânsito sem interrupção. Esta interpretação se torna mais consistente quando consideramos Lucas 23.43, 46, e Atos 7.59. O EXTERMÍNIO DOS ÍMPIOS Os mortalistas alegam que se os que morrem em Cristo seguem diretamente para o c éu, por que motivo Deus os tiraria de lá para se unirem a seus corpos? Considerando que defendem a total extinção dos ímpios, respondemos com outra pergunta: "Por que Deus tiraria os ímpios de suas sepulturas (Ap 20.5) para em seguida aniquilá-los? Eles já não estão mortos? Ora, na ressurreição do corpo - uns para a vida de eterna comunhão com Deus, outros para a eterna separação de Deus - ocorre uma recomposição alma-corpo, e o homem retorna à condição original de alma vivente (Gn 2.7), porém agora, quanto aos salvos, num estado de glorificação. Li em determinado endereço na internet que o objetivo da segunda ressurreição, a dos ímpios (Ap 20.5) é "simples regresso à vida, à vida física, prelúdio de destruição total e definitiva (Dn 12.2 - 2a parte)". Vejamos o que diz o texto: "E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno" (Dn 12.2-Trinitariana). Os contradizentes desejam aniquilar a alma do homem, na morte, e também aniquilar os ímpios após a ressurreição destes. Mas o texto apresentado não aprova tal raciocínio. Os ímpios ressuscitarão "para vergonha e desprezo eterno", ou seja, estarão eternamente envergonhados e desprezados, afastados de Deus. Jesus fala que os maus sofrerão a ressurreição "da condenação" (Jo 5.28,29). O inferno é lugar de "tribulação e angústia" (Rm 2.9) e de "pranto e ranger de dentes" (Mt 22.13; 25.30). Tais castigos só podem ocorrer em corpos vivos. A ressurreição dos ímpios dar-se-á para serem julgados e castigados segundo as más obras de cada um. É um exagero afirmar que a ressurreição dos ímpios é um "prelúdio" do extermínio. GRAUS DE CASTIGO A doutrina da pena de morte para os ímpios não consegue responder satisfatoriamente como serão
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    179 aplicados osdiferentes graus de castigo. Ora, se os ímpios sofrerem a pena capital, não haverá diferentes graus de punição. "Assim como haverá diferentes graus de glória no novo céu e na nova terra, também haverá diferentes graus de sofrimento no inferno. Aqueles que estão eternamente perdidos sofrerão diferentes graus de castigo, conforme os privilégios e responsabilidades que aqui tiveram" (Notas Bíblia de Estudo Pentecostal). Vejam os textos pertinentes: "Virá o Senhor daquele servo no dia em que o não espera e numa hora que ele não sabe, e separá-lo-á, e lhe dará a sua parte com os infiéis". E o servo que soube da vontade do seu senhor e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com MUITOS AÇOITES. Mas o que a não soube e fez coisas dignas de açoites com POUCOS AÇOITES será castigado..." (Lc 12.46-48). "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que devorais as casas das viúvas, sob pretexto de prolongadas orações. Por isso, SOFREREIS MAIS RIGOROSO JUÍZO" (Mt 23.14-Trinitariana). (Mc 12.40 diz:"...Estes receberão juízo muito mais severo"; Lucas 20.47 diz"... Estes receberão maior condenação"). "De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajar o Espírito da graça?" (Hb 10.29). "Uma é a glória do sol, e outra, a glória da lua; e outra, a glória das estrelas; porque uma estrela difere em glória de outra estrela. Assim também a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo em corrupção; ressuscitará em incorrupção. " (1 Co 15.41,42). Os crentes fiéis receberão galardões: Mt 5.11,12; 25.14-23; Lc 19.12-19; 22.28-30; 1 Co 3.12-14; 9.25-27;2 Co 5.10; Ef 6.8; Hb 6.10; Ap 2.7,11,17,26-28; 3.4,5;12,21. Os crentes menos fiéis receberão poucos galardões, ou nenhum (Ec 12.14; Mt 5.19; 2 Co 5.10). Ainda sobre o "extermínio dos ímpios, convém esclarecer que o verbo "perecer" em Mateus 10.28 não significa exterminar. Vejamos seu real significado no grego, língua original do Novo Testamento, tudo conforme o conceituado Dicionário VINE, de W.E. Vine, Merril F. Unger, William White Jr., CPAD, edição 2002, Rio. "Perecer" 1 - apollumi, "destruir", significa, na voz média, "perecer", e é usado acerca de: (a) coisas (por exemplo, Mt 5.29.30; Lc 5.37; At 27.34 [em alguns textos piptõ, "cair"]; Hb 1.11; 2 Pe 3.6; Ap 18.14-segunda parte... (b) pessoas (por exemplo, Mt 8.25; Jo 3.15, 16; 10.28; 17.12, "se perdeu"; Rm 2.12; 1 Co 8.11; 15.18; 2 Pe 3.9; Jd 11). Em 1 Co 1.18 ["Porque a mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo..."], literalmente, "perecendo", onde a força perfectiva do verbo implica a conclusão do processo. Quanto ao significado da palavra, veja DESTRUIR". "Destruir" 1 - apollumi, forma fortalecida de ollumi, significa "destruir totalmente"; na voz média, "perecer". A idéia não é de extinção, mas de ruína, perda, não de ser, mas de bem-estar. Isto é claro pelo uso do verbo, como, por exemplo, o estrago dos odres de vinho (Lc 5.37); a ovelha perdida, ou seja, perdida
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    do pastor, estadometafórico de destituição espiritual (Lc 15.4,6, etc.); o filho perdido (Lc 15.24); o perecimento da comida (Jo 6.27), do ouro (1 Pe 1.7). O mesmo com rela ção às pessoas (Mt 2.13; 8.25; 22.7; 27.20); à perda da felicidade no caso dos não-salvos (Mt 10.28; Lc 13.3,5; Jo 3.15, em alguns manuscritos; Jo 3.16; 10.28; 17.12; Rm 2.12; 1 Co 15.18; 2 Co 2.15; 4.3; 2 Ts 2.10; Tg 4.12; 2 Pe 3.9). 180 2 - kataluõ, formado de kata, para baixo, elemento intensivo, e o n. 4, "destruir totalmente", "subverter completamente", é verbo que ocorre em Mt 5,17 duas vezes acerca da lei); Mt 24.2; 26.61; 27.40; Mc 13.2; 14.58; 15.29; Lc 21.6 (acerca do templo); em At 6.14, diz r espeito a Jerusalém; em Gl 2.18, fala acerca da lei como meio de justificação; em Rm 14.20, da ruína do bem-estar espiritual de uma pessoa (em Rm 14.15, o verbo appolumi, n. 1, é usado no mesmo sentido). Em At 5.38,39, acerca do fracasso dos propósitos; em 2 Co 5.1, da morte do corpo". Portanto, nem sempre a expressão PERECER significa destruição, extermínio, eliminação do ser. Vejamos o que diz o evangelho sinótico de Lucas: "Temam aquele que, depois de matar o corpo, tem poder para lançar no inferno" (Lc 12.5b-NVI-Almeida RC-Bíblia de Jerusalém-Trinitariana). "Tenham medo de Deus, que, depois de matar o corpo, tem poder para jogar a pessoa no inferno" (Lc 12.5b-BLH). Eis a Bíblia se explicando a si mesma. O sinótico de Lucas, para não pairar dúvidas, não usa o verbo apollumi-perecer, mas emballõ-lançar (separar, lançar, arremessar, atirar, jogar, lançar em). Ballõ-lançar é um sinônimo traduzido como lançar, arremessar, jogar (Mt 5.29; 18.8; Ap 2.10.24; 20.3,10,14,15). Então Mateus 10.28b deve ser lido assim: "...tem o poder para lançar no inferno alma e corpo". Logo, lançar ou perecer no inferno não significa aniquilamento. Os mortalistas apresentam também o seguinte texto como prova do extermínio dos maus: "Os quais, por castigo, padecerão eterna perdição, ante a face do Senhor e a glória do seu poder" (2 Ts 1.9- Trinitariana). "Eles vão sofrer o castigo da destruição eterna e serão separados da presença do Senhor e do seu glorioso poder" (BLH). "Os quais padecerão, como castigo, a perdição eterna, expulsos da face do Senhor e da glória do seu poder" (Alfalit). Contestação - O versículo diz exatamente o contrário do que desejam os defensores da pena de morte. Os ímpios serão banidos da face do Senhor, para serem castigados (cf.Ap 20.10)."Destruição/perdição/banimento" (elethros) nesse caso, como já vimos, significa perda de bem-estar, ruína, separação eterna da comunhão de Deus, tal como já explicado a análise de Mateus 10.28b ("perecer no inferno"). Neste sentido é usado em Mt 7.13, Jo 17.12, 2 Ts 2.3. Adão foi expulso do Éden, banido da face do Senhor, e experimentou imediata perdição/morte espiritual. "Pois assim como em Adão todos morrem, também da mesma forma em Cristo serão vivificados" (1 Co 15.22). Ademais, o próprio texto diz: "separados/banidos" da presença do Senhor". A advertência do Senhor continua válida nos dias de hoje. Se formos desobedientes, certamente morreremos (Gn 2.17). Mais um: "Porque eis que aquele dia vem ardendo como fornalha; todos os soberbos, e todos os que cometem impiedade, serão como a palha; e pisareis os ímpios, porque se farão cinza debaixo das plantas de vossos pés, naquele dia que estou preparando, diz o Senhor dos Exércitos" (Ml 4.1,3).
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    181 "Todos osque praticaram a iniqüidade serão queimados" (Bíblia Alfalit). Contestação - Realmente, os ímpios serão destruídos. O texto fala de pessoas vivas que serão exterminadas no Dia do Senhor ("aquele dia"). Esses ímpios a serem aniquilados ressuscitarão no tempo devido (Jo 5.29; Ap 20.5). Depois, corpo e alma serão lançados no inferno (Mt 10.28; Lc 12.5), onde "serão atormentados dia e noite, pelos séculos dos séculos" (Ap 20.10,14,15). Malaquias 4.1,3 se coaduna com outras passagens que falam das últimas coisas. Vejamos: "Porque como um fogo purificador ele é..." (Ml 3.2-a); "Colocarei sinais nos céus e sobre a terra, sangue e fogo e colunas de fumaça" (Jl 2.30); "Os céus e a terra que agora existem, estão reservados para o fogo, guardados para o dia do juízo e da destruição dos ímpios (2 Pe 3.7). Um terça parte dos homens serão mortos ao soar da sexta trombeta, por fogo, fumaça e enxofre (Ap 9.15,17). No Dia do Senhor, no tempo em que Deus derramará seus juízos sobre a terra, os ímpios que existirem na terra experimentarão a primeira morte, a morte física. Depois da ressurreição, virá a morte eterna, a eterna separação de Deus (Ap 20.14,15;21.8; 22.15). Portanto, o texto sob análise não reforça a tese do aniquilamento. Dentro do mesmo contexto e interpretação estão os demais textos que falam em extermínio e perdição dos ímpios (Sl 34.16;37.9.10,38; 145.20. Fp 3.19). Em tais casos, "perecer", "destruir", "perdição" falam da destituição e alienação espirituais provenientes de Deus. São exemplos João 3.16 ("não pereça, mas tenha a vida eterna") e Mateus 10.6 ("ovelhas perdidas da casa de Israel"). A tese do extermínio dos ímpios enfrenta outra dificuldade. Jesus revelou que os justos ressuscitarão "para a vida", e os ímpios, "para serem condenados" (Jo 5.29); na carta aos romanos Paulo indica que "haverá tribulação e angústia para todo ser humano que pratica o mal" (Rm 2.9); em Daniel 12.2 l ê-se que os ímpios ressuscitarão "para a vergonha e desprezo eterno"; Apocalipse 14.11 diz que não haverá descanso "nem de dia nem de noite" para os adoradores da besta; Apocalipse 20 .10 anuncia que os que forem lançados no lago de fogo "serão atormentados dia e noite, para todo o sempre"; Jesus declara que os insensatos e hipócritas serão punidos severamente num lugar "onde haverá choro e ranger de dentes" (Mt 8.12; 24.51; 25.30), e onde estarão amarrados, em trevas, para todo o sempre (Mt 22.13). Convenhamos, defunto não chora, não se angustia, não range dentes, não passa por tribulação, não se atormenta, não sente vergonha ou desprezo. Logo, não deve prevalecer a idéia de que os ímpios serão exterminados. Deus não ressuscitará os ímpios para exterminá-los em seguida (Ap 20.5). Agiria assim para que morram "conscientes" da punição? De maneira alguma. É uma impropriedade alegar que a ressurreição é um prelúdio da morte. Reviver para morrer, sair da sepultura para, em seguida, retornar à sepultura - sinceramente, se trata de um pensamento que colide frontalmente com a Palavra. A ressurreição do corpo é para que viva; não para que morra. Não fosse assim, não haveria razão para ressuscitar os que já se acham mortos. Em resumo, a tese do extermínio dos ímpios é incompatível com a doutrina dos diferentes graus de castigo e contrária ao ensino da Bíblia. O assunto voltará a ser tratado m ais adiante. DUALIDADE E SOBREVIVÊNCIA DA ALMA A separação alma-corpo por ocasião da morte está expressa, por exemplo, nas palavras de Jesus: "Pai,
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    182 nas tuasmãos entrego o meu espírito. E, havendo dito isto, expirou". Havendo morrido como homem, e não como Deus, a alma de Jesus também separou-se do seu corpo na morte. O primeiro mártir cristão, Estevão, também entregou seu espírito: "Senhor Jesus, recebe o meu espírito" (At 7.59). Salomão tinha razão quando disse que o corpo desce ao pó, mas o espírito segue seu destino (Ec 12.7), confirmando haver uma separação na hora da morte. "E disse [o ladrão] a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino. E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso" (Lc 23.42,43). A declaração de Jesus ao ladrão arrependido é a mais clara aplicação da salvação pela graça, mediante a fé, conforme Efésios 2.8-9. Além disso, o texto revela a dualidade do homem, a separação e sobrevivência da alma por ocasião da morte. Tão grande pedra no caminho dos mortalistas não poderia deixar de ser rejeitada com muito alarido e pouca consistência. Apresentam as seguintes objeções, cabalmente refutáveis. Primeiro - Dizem que em algumas versões está escrito "quando vieres no teu reino" , e não "quando entrares no teu reino". Assim, desejam convencer que a alma do ladrão não iria imediatamente para o céu, mas esperaria a volta de Jesus para ressuscitar. Contestação - (a) A segunda parte do texto dirime qualquer dúvida que possa existir com relação à primeira. Jesus declara que o ladrão arrependido subiria para o céu naquele mesmo dia. Em nenhuma hipótese devemos duvidar das palavras de Jesus, a menos que renunciemos à nossa condição de cristãos. (b) O ladrão arrependido passou a fazer parte do reino de Deus no momento em que aceitou o senhorio de Jesus. Sabendo que o ladrão morreria naquele mesmo dia, e que, na qualidade de salvo, sua parte imaterial iria para o céu, Jesus declarou sem rodeios: "Hoje estarás comigo no paraíso". É muito provável que o ladrão não conhecesse o ensino da volta de Jesus. A interpretação mais provável, portanto, é "quando entrares no seu reino". (c) De qualquer modo, Jesus nos ensinou que as almas dos crentes seguem direto para o céu. Com isto, o ladrão morreu com a certeza de se encontrar com Ele no paraíso. (d) A palavra grega erchomai é traduzida também como "vir" (Mt 2.2; 24.46), "ir" (Jo 20.1; 1 Co 4.19), chegar (Mt 8.14; 13.54), partir (Mc 8.10; 9.33). Em razão disso, algumas versões registram, "quando vieres no seu reino", e outras, "quando entrares no seu reino". (e) O ladrão leu a placa com a declaração em grego, romano e hebraico: "Este é o Rei dos judeus" (Lc 23.38) que fora colocada na cruz, teve certeza de que Jesus reinaria em algum lugar e manifestou o desejo de participar desse reino. Na verdade Jesus começou a reinar ali mesmo no coração do arrependido malfeitor. Então, quando estiveres, chegares, entrares no seu reinado, lembra-te de mim. Qualquer dúvida que possa subsistir desvanece diante da declaração de Jesus: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso". Segundo - Os contradizentes alegam que na Tradução Trinitariana, em português, editada em 1883, pela "Trinitarian Bible Society" de Londres, Diz: "Na verdade te digo hoje, que ser ás comigo no Paraíso". Contestação - A versão apresentada atende aos interesses dos contradizentes. É importante registrar que em edições mais recentes, em português, da SBTB - Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, o versículo está redigido assim: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso". Então, se torna inconsistente o argumento que defende a transcrição correta somente na edição de 1883, sem esclarecer o porquê de tal discriminação. Eleger uma versão em detrimento de outras, somente
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    183 porque determinadoregistro atende a determinada cren ça, não me parece um sólido argumento. Terceiro - Alegam também, em defesa da inexistência da alma imortal, que "a expressão "hoje" ligada ao verbo não é redundante, mas enfática, tal como encontrada em Zacarias 9:12 e Atos 20:26. Justificam assim a versão "digo-te hoje: estarás comigo no paraíso". Contestação - Devemos buscar a ênfase no contexto. Logo após garantir que o malfeitor estaria com Ele no paraíso, Jesus, para confirmar tal assertiva, entregou ao Pai seu próprio espírito. Os textos apresentados (Zc 9.12 e At 20.26) não servem para elucidar a questão. Vários exemplos podem ser citados em que inexiste a expressão "digo hoje": "Em verdade vos digo que eles já receberam..." (Mt 6.2); "Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido..." (Mt 11.11). Quarto - Para contornar o problema, alegam que o ladrão não morreu naquele mesmo dia. Dizem que os crucificados passavam até sete dias sofrendo. Afirmam que "Cristo foi caso excepcional e que sabemos que não morreu dos ferimentos ou da hemorragia, mas do quebrantamento do co ração. Morreu de dor moral por causa dos pecados do mundo. Mas os outros, n ão, e as crônicas descrevem o condenado esvaindo-se lentamente durante dias". Alegam mais que "de acordo com o costume, quebravam as pernas dos criminosos depois de os haverem removido da cruz, deixando-os estendidos no chão, até que o sábado passasse. Depois do sábado haver passado, sem dúvida esses dois corpos foram outra vez amarrados na cruz, e lá ficaram diversos dias até morrerem..." Contestação - Como não podem negar a morte de Jesus na sexta-feira, apelam por alongar a agonia dos malfeitores crucificados. Ao dizer que Jesus morreu de "dor moral", negam a exist ência de hemorragia no Seu corpo, a asfixia, o enfraquecimento físico. Tal afirmação colide com diagnósticos de profissionais. O Dr. Barbet, médico francês, professor e cirurgião, que por treze anos viveu na companhia de cadáveres, após dissertar sobre o sofrimento de Jesus, dá o seu diagnóstico: "Todas as suas dores, a sede, as cãibras, a asfixia, o latejar dos nervos medianos, lhe arrancaram um lamento: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?". Jesus grita: "Tudo está consumado!". Em seguida num grande brado disse: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito". E morre". O Professor Pierluigi Baima Bollone diretor do Instituto de Medicina Legal da Universidade de Torino - Itália, relata em seu último livro, "Os últimos dias de Cristo". que a causa final da morte de Jesus foi "asfixia, complicada por ataque cardíaco terminal, e trombose coronária, ocorridas depois de poucas horas sobre a cruz, pois Jesus se encontrava fraco, devido as torturas recebidas. Todos estes dados são perfeitamente compatíveis com o que se lê nos evangelhos". Vejamos o relato bíblico a respeito da morte dos ladrões: "Os judeus, pois, para que no sábado não ficassem os corpos na cruz, visto como era a preparação (pois era grande o dia de sábado) rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas, e fossem tirados. Foram, pois, os soldados e, na verdade, quebraram as pernas ao primeiro e ao outro que com ele fora crucificado. Mas, vindo a Jesus e vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas" (Jo 19.31- 33). Quebrar as pernas dos crucificados tinha o objetivo de apressar a morte. Sem o apoio dos pés, o corpo ficava seguro apenas pelos pulsos, o que causava forte press ão sobre o tórax. A morte viria rapidamente.
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    184 Quinto -Alegam que Jesus não foi para o Pai logo após a morte. Apresentam como justificativa o que Jesus disse a Maria Madalena: "Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai" (Jo 20.17 a). Sob a ótica da não sobrevivência da alma, dizem que Jesus devolveu ao Pai o sopro, a vida dele recebida. Assim explicam: "Era este fôlego que Cristo e Estevão não podendo reter, quando estavam prestes a expirar (e expirar significa soltar o fôlego, exalá-lo definitivamente), pediram ao Pai que o recebesse de volta. (Atos 7:59 e Lucas 23:46). Mas não era parte consciente, pois Cristo, dias depois, ressurreto, dissera: "Ainda não subi para Meu Pai." Contestação - Creio que todas as afirmações de Jesus são verdadeiras. Os mortalistas se agarram na frágil argumentação segundo a qual o espírito de Jesus não subiu ao Pai porque Ele mesmo o revelou a Madalena (Jo 20.17). Somente em duas hipóteses Jesus não entregou seu espírito ao Pai. Primeira, Ele não falou isso, e os evangelhos mentem; segunda, de fato Ele entregou seu esp írito, mas o Pai não o recebeu. Nenhuma dessas hipóteses é viável. "Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai" diz respeito à subida de seu corpo ressurreto. Passados quarenta dias é que se deu sua ascensão corporal. Na ótica dos mortalistas não existe separação entre corpo e espírito por ocasião do falecimento. Admitem que o retorno à vida, como no caso de Lázaro (Jo 11.43) e da ressurreição coletiva (1 Ts 4.16-17), é resultado de novo sopro de Deus. Jesus e Estevão não entregaram um simples sopro, nem Jesus disse ao ladrão que o seu "sopro" estaria subindo para o céu juntamente com o seu próprio "sopro". Nem sempre se pode traduzir psyche como "sopro". Vejamos se seria possível tal construção: "Não temais os que matam o corpo, e não podem matar o "sopro"; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto o "sopro" como o corpo" (Mt 10.28). Após a morte a alma continua existindo. Na sua visão apocalíptica, o apóstolo João validou essa realidade: "E, havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus...e clamavam com grande voz..." (Ap 6.9 -10). De nenhum modo se pode deduzir que os "sopros" dos mortos estavam vivos e conscientes. As "almas dos que foram mortos" estavam no céu, e oravam para que os ímpios que rejeitaram a Deus e mataram os seus seguidores recebessem a justiça divina. Para Apocalipse 6.9-10 os mortalistas afirmam que é tudo simbólico, mas depois apresentam uma bizarra interpretação: "Estas "almas" eram as pessoas vítimas da matança do cavaleiro chamado Morte, descrito no quarto selo. Queremos dizer que as "almas" que aparecem sob o quinto selo foram mortas sob o selo precedente, dezenas ou mesmo centenas de a nos antes, portanto os perseguidores já estavam mortos, e ainda de conformidade com a teologia popular deveriam já estar no inferno, portanto já sofrendo a punição, sendo inócuo, pois, o clamor por vingança" ( http://www.jupiter.com.br/iasd/pmc2/outras2.htm) Contestação - O que dizer de: "E vi almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus..." (Ap 20.4)? Se são "almas das pessoas", confirma-se a sobrevivência das almas, pois não há registro de que essas pessoas haviam ressuscitado. Se a Bíblia diz que eram almas dos mortos, então realmente o eram. Seriam elas o "sopro" dos que foram degolados?. Claro que n ão. A mensagem nos diz que as almas se separam dos corpos, e sobrevivem, conforme referen dado em outros textos. Não procede o argumento de que as almas referidas são de pessoas que morreram
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    185 centenas deanos antes. Esses eventos ocorrerão num período de sete anos, tempo de duração da grande tribulação, a "septuagésima semana de Daniel" (Dn 9.27;Ap 11.2; 13.5). Em Lucas 16.22 está escrito, conforme palavras de Jesus, que o mendigo Lázaro morreu e "foi levado pelos anjos para o seio de Abraão". A alma do injusto rico seguiu para um lugar de tormentos. O apóstolo Paulo desejou "partir e estar com Cristo, o que é muito melhor" (Fp 1.23). Esta afirmação denota mudança imediata, sem interrupção, sem intervalo. Demonstra que Paulo sabia que a sua alma entraria imediatamente na presença de Deus. A imortalidade da alma não é doutrina estranha às sagradas Escrituras. Creio na verdade dita por Jesus: podem matar o corpo, mas a alma não morrerá. Vejamos mais uma vez: "E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo" (Mt 10.28-Trinitariana). "Não temais os que matam o corpo e, depois, não têm mais que fazer. Mas eu vos mostrarei a quem deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem poder para lan çar no inferno; sim, vos digo, a esse temei". (Lc 12.4-5-Trinitariana,NVI,Bíblia de Jerusalém,BLH ("jogar"). O texto acima contradiz duas teses dos aniquilistas: (a) A da morre da alma com o corpo; (b) A do extermínio dos ímpios. Alegam que "matar o corpo e não podem matar a alma" significa não poder matar o transcendente, a mente ou ego. Alegam também que se Jesus declara que Deus pode fazer perecer no inferno alma e corpo, é porque a alma é mortal. Contestação - Os contradizentes afirmam que quando o homem morre, tudo se acaba. Somente na ressurreição é que ressurgem corpo, consciência e todo o complexo ser humano. O texto, por sua clareza, dispensaria comentários. "Matar o corpo, mas não podem matar a alma", dar autenticidade a Lucas 16.22 (Lázaro levado pelos anjos), Atos 7.59 (Estevão entregando seu espírito), Filipenses 1.23 (Paulo desejando morrer para estar com Cristo), Lucas 23.43 (o malfeitor arrependido sendo levado para o céu), Lucas 23.46 (o próprio Jesus entregando o seu espírito), Eclesiastes 12.7 (a alma se desliga e volta a Deus), Apocalipse 6.9 (almas dos mortos), Tiago 2.6 (corpo sem o espírito), Mateus 17.3 (Moisés na transfiguração), 2 Coríntios 5.8 (deixar o corpo e habitar com o Senhor), Mateus 22.32 (Deus não é Deus dos mortos, mas de vivos). A MORTE DA ALMA Examinemos algumas das provas apresentadas pelos mortalistas. "Certamente morrerás", castigo prometido ao homem, em caso de desobediência (Gn 2.17), versículo muito usado na defesa do dogma da pena de morte para a alma. Alegam que como o homem foi feito "alma vivente" (Gn 2.7), ao morrer, morre a alma vivente e tudo se extingue. Alguns alegam que o homem, por não haver comido da árvore da vida (Gn 4.22-24), não se tornou imortal. Contestação - Os contradizentes se apegam ao termo "alma vivente" na tentativa de demonstrar que o homem sendo uma alma que vive, morrendo o homem, morre a alma. Ocorre que o hebraico nephes, mencionado mais de 780 vezes no AT, é traduzido por alma, ego, vida, pessoa, coração. A mesma palavra nephes é usada para descrever animais da terra, em distinção aos pássaros e peixes. Nesta concepção, são seres ou criaturas viventes (Gn 1.24,28,30). Quanto ao homem, a palavra passa a
  • 186.
    186 significar pessoaque vive. Uma importante diferença existe na criação de homens e animais. O homem foi criado de um modo todo especial. Além de haver sido feito à imagem e semelhança do Criador, Deus soprou em suas narinas. Não houve sopro nas narinas dos animais. Temos, portanto, em nosso ser uma substância divina que veio diretamente do Ser Divino. A isso chamamos alma, que, segundo as palavras do próprio Criador, Jesus, é imortal e transcendente (Mt 10.28). É possível que a árvore da vida seja símbolo das bênçãos espirituais a serem desfrutadas pelos que são lavados e remidos no sangue do Cordeiro. Após a queda, Adão foi lançado "fora do jardim do Éden" para que não tome da árvore da vida, e "viva eternamente" (Gn 3.22-23). O ressurgimento simbólico da árvore no tempo futuro (Ap 2.7;22.2,14), para desfrute dos santos imortais, desencoraja a tese de que ela seja símbolo de imortalidade. O Novo Comentário da Bíblia, assim interpreta: "Qualquer que seja a verdadeira explicação sobre a árvore, não há dúvida sobre a significação da ação de Deus ao remover o homem do jardim. O homem estava agora cortado de Deus e, portanto, no sentido mais real estava cortado da "vida": isso foi simbolizado mediante a separa ção entre ele e a árvore da vida". Somente quando a redenção aparece consumada é que a árvore da vida reaparece dentro do alcance do homem. Note-se que a `árvore da vida´ era símbolo do estado abençoado do homem; enquanto que a árvore da ciência do bem e do mal simbolizada o teste a que foi sujeitado o homem". Gênesis 2.17 não fala em mortalidade da alma. Somente a partir de Eclesiastes 12.7 o assunto come ça a ser revelado, até chegar na palavra de Jesus, conforme Mateus 10.28, onde diz que a alma n ão pode morrer. Adão passou por duas qualidades de morte, após sua queda: em primeiro lugar e imediatamente, adveio a morte espiritual, ou seja, a eterna separação de Deus (Gn 3.6-12). Em segundo lugar, a morte física, isto é, Adão ficou sujeito a morrer fisicamente. Daí a sentença em Gênesis 3.19: "Pois és pó, e ao pó tornarás". Por isso, "certamente morrerás" (Gn 2.17) contempla a morte física e a morte espiritual. Esses dois tipos de morte passaram a todos os homens (Rm 5.12, cf. Mt 13.49; 25.41). A alma imortal de Adão não ficou sujeita à morte. Os mortalistas dizem que na morte o fôlego se evapora, perde-se no ar. Eclesiastes 12.7 chama "espírito" a parte invisível que sai do corpo sem vida, e que volta para Deus. Salom ão não se estendeu muito no assunto, mas nota-se que ele estava falando dos justos, cujas almas vão diretamente para Deus. Portanto, não vale dizer que Salomão ensinou a salvação universal, salvação para todos. Para colocar as coisas nos devidos lugares, Jesus explica que os justos são levados para o céu, e os desobedientes para um lugar de tormentos (Lc 16.19-31). Continuemos na análise de alguns versículos apresentados pelos mortalistas em defesa do dogma da mortalidade da alma. "A alma que pecar, essa morrerá" (Ez 18.4,20). Contestação - A Bíblia está falando de pessoas, de filhos com relação aos pais. Na Bíblia Linguagem de Hoje registra "a pessoa que pecar é que morrerá". Citar esse versículo como prova da mortalidade da alma é um lamentável equívoco. "Morte" nesse caso tem o mesmo significado que teve com rela ção a Adão, o de morte espiritual, compreendendo a separação de Deus. Os que estão mortos em seus pecados, afastados de Deus, porém vivos, têm ainda oportunidade de se arrependerem e aceitarem os termos da Nova Aliança em Cristo Jesus (Ez 18.21). Se, porém, não se arrependerem experimentarão
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    187 a morteeterna, ou seja, a eterna separação de Deus. Estes sofrerão o eterno castigo (Ap 20.10; 14,15; 21.8). "O salário do pecado é a morte" (Rm 6.23). Contestação - Cabe a mesma refutação do tópico anterior. Vejamos o que diz o conceituado Dicionário VINE, sobre thanatos-morte: "É usado nas Escrituras para descrever: (a) a separação da alma (a parte espiritual do homem) do corpo (a parte material), o último cessar de funções e a volta para o pó (Jo 11.13; Hb 2.15; 5.7; 7.23). (b) separação do homem de Deus; Adão morreu no dia em que desobedeceu a Deus (Gn 2.17), e, por conseguinte, todo o g ênero humano nasce na mesma condição espiritual (Rm 5.12.14,17,21) da qual, porém, aqueles que crêem em Cristo são livres (Jo 5.24; 1 Jo 3.14). A morte é o oposto da vida; nunca denota não-existência. Assim como a vida espiritual é "a existência consciente em comunhão com Deus", assim, a morte espiritual é "a existência consciente na separação de Deus". A IMORTALIDADE DE DEUS "O único que possui a imortalidade que habita em luz inacess ível..." (1 Tm 6.16). Este versículo é muito usado na defesa da mortalidade da alma. Dizem que o homem somente adquire imortalidade na ressurreição para a vida eterna com Cristo. Argumentam que na ressurreição o que é mortal se reveste de imortalidade (1 Co 15.54). Os outros, os que morreram sem salvação não terão tal privilégio. Contestação - Na ressurreição dar-se-á uma recomposição do homem; o corpo volta à vida, reunindo-se à alma, e o homem retorna à condição original de ser vivente. Os crentes terão um corpo semelhante ao de Cristo (Rm 6.5; Fp 3.21). É preciso lembrar que os ímpios também ressuscitarão, e se tornarão imortais, porém terão vida de má qualidade. "O termo athanasia expressa mais que imortalidade, sugere a qualidade da vida desfrutada, como est á claro em 2 Co 5.4: ...não queremos ser despidos, mas vestidos de novo, para que o mortal seja recolhido pela vida. O estado do crente de ser despido não se refere ao corpo no sepulcro, mas ao espírito que aguarda o "corpo da glória" na ressurreição" (Dicionário VINE, pg 703). O apóstolo Paulo faz talvez a mais importante revelação sobre a imortalidade da alma e futura união desta com o corpo. Ele fala da sua esperança não apenas de "partir e estar com Cristo" (Fp 1.23), mas de poder ser "vestido de novo", quando será consumada a redenção completa, "a redenção do nosso corpo" (Rm 8.23). A imortalidade de que trata 1 Timóteo 6.16, refere-se a um atributo intrínseco da Divindade; uma imortalidade que pode ser traduzida por eternidade, isto é, Deus não teve começo nem terá fim. Por outro lado, Paulo assevera que os cristãos ressuscitarão em corpos físicos "imortais" (1 Co 15.53). Logo, o homem possui em potencial essa imortalidade não inerente ao seu ser, mas derivada, adquirida, doada. A imortalidade humana difere da de Deus porque não é eterna: a nossa não terá fim, mas teve um princípio. Mortalistas há que usam o argumento do silêncio, afirmando que em lugar nenhum da Bíblia diz que as almas que estão no céu ou no inferno sairão de seus lugares para um encontro com seus corpos. Como vimos em 2 Coríntios 5.1,8, e em outras passagens, esse silêncio não é total. Se a alma não morre
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    188 com ocorpo (Ec 12.7; Mt 10.28; Lc 23.43,46; At 7.59; Fp 1.23), sem d úvida ela se unirá ao corpo e formará na ressurreição um corpo espiritual e imortal. ACERCA DOS QUE DORMEM Não sejais ignorantes acerca dos que já dormem... (1 Ts 4.13,14; cf. Dn 12.2; Mt 27.52; Mc 5.39; Lc 8.52; 1 Co 11.30; 15.6,18). A expressão "os que dormem", referindo-se aos mortos em Cristo, tem sido usada para justificar a inconsciência após a morte e a inexistência de uma alma sobrevivente e imortal. Dizem que a situação dos mortos até a ressurreição é de completa inexistência. Citam como prova irrecusável a resposta de Jesus aos discípulos: "Nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo" (Jo 11.11). Alegam também que Jesus nada disse sobre a situação do espírito do falecido. Para Marta e Maria seria um consolo saber que seu irmão morreu e foi para o céu. Contestação - Primeiro, é impróprio o argumento com base no silêncio de Jesus. Não se pode firmar doutrina sobre o que não foi dito. A Bíblia aponta na direção de que somente os salvos tiveram o privilégio de voltar a viver. Estamos falando em ressuscitar, ter uma vida normal, por ém mortal. São exemplos: "os santos que dormiam" (Mt 27.52-53); o filho da viúva de Serepta, (1 Rs 17.19-22); o filho da sunamita, (2 Rs 4.32-35); o defunto na cova de Eliseu (2 Rs 13.21); a filha de Jairo (Mc 5.21 - 23, 35-41); o filho da viúva de Naim (Lc 7.11-17); a discípula chamada Tabita, ressuscitada por Pedro (At 9.36-43); a ressurreição do jovem Êutico (At 20.9). Temos aí cinco ressuscitações provavelmente de crianças ("delas pertence o reino de Deus" - Lc 18.16). Lázaro não estava num lugar de tormentos, condenado (Lc 16.22.23). N ão podemos imaginar um ímpio, condenado, vivendo já em tormentos, retornar à vida por um milagre de Deus. Entendemos que Lázaro, ao morrer, fora levado pelos anjos para o céu, tal como aconteceu com o outro Lázaro, o mendigo (Lc 16.22). Segundo, sempre que a Bíblia fala em dormir está se referindo, metaforicamente, ao corpo, porquanto a parte imaterial do homem não morre, nem dorme. O corpo do malfeitor arrependido ficou "dormindo", mas seu espírito foi para o céu (Lc 23.43). O conceituado Dicionário VINE nos oferece uma clara definição do termo grego koimaomai-dormir: "É usado acerca do "sono" natural (Mt 28.13); da morte do corpo, mas s ó daqueles que são de Cristo...; dos santos que partiram antes da vinda de Cristo (Mt 27.52; At 13.36); de Lázaro, enquanto Jesus ainda estava na terra (Jo 11.11). Este uso metafórico da palavra sono é apropriado por causa da semelhança na aparência entre um corpo dormente e um corpo morto; tranqüilidade e paz normalmente caracterizam ambos. O objetivo da metáfora é sugerir que assim como aquele que dorme não deixa de existir enquanto o corpo dorme, assim a pessoa morta continua a existir, apesar de sua ausência da região na qual aqueles que ficaram podem ter acesso ao corpo morto, e que, assim como sabemos que o sono é temporário, assim será a morte do corpo. É evidente que só o corpo está sob consideração nesta metáfora: (a) por causa da derivação da palavra koimaomai, de keimai, `deitar-se ´; (b) pelo fato de que no Novo Testamento a palavra ressurrei ção é usada somente em alusão ao corpo; (c) porque em Dn 12.2, onde os fisicamente mortos são descritos como `os que dormem no pó da terra', a linguagem é inaplicável à parte espiritual do homem; além disso, quando o corpo volta de onde veio (Gn 3.19), o espírito retorna a Deus que o deu (Ec 12.7). É evidente que a palavra `dormir´, onde é aplicada aos cristãos que partiram, não tem a intenção de transmitir a idéia de que o espírito está inconsciente".
  • 189.
    189 Portanto, oargumento do "sono da alma", como é conhecido, para justificar a visão holística do adventismo, é um dos mais insustentáveis. Somente o corpo fica inconsciente. O ESTADO DOS MORTOS Para atestar que os mortos estão inconscientes, os defensores da alma mortal apresentam os seguintes razões: Salmos 94.17, 115.17 e Isaías 38.18, que falam em "silêncio"; Salmos 6.5, fala em "esquecimento"; Eclesiastes 9.5, 6 e 10, de "inconsciência"; Daniel 12.2; Jó 14.12; Salmos 13.3, João 11.11 a 14; 1 Ts 4.13-15, falam de "sono"; Dn 12.13; Ap 6.11; 14.13, falam de "repouso". Contestação - A Bíblia ensina que ao separar-se do corpo a alma sobrevive e permanece num estado consciente de conhecimento. Portanto, quando a Bíblia fala em silêncio, esquecimento, descanso está se referindo à situação do corpo na sepultura, uma vez que a Palavra não pode contradizer-se. Já examinamos a questão do "sono da alma", em tópico anterior. Os textos citados podem ser esclarecidos unicamente através do exame de Eclesiastes 9.5: "Porque os vivos sabem que h ão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma...a sua memória ficou entregue ao esquecimento". O próprio Salomão explica onde se dá essa falta de memória dos mortos. Vejam: "Tudo o que te vier à mão fazer, faze-o conforme as tuas forças, pois na sepultura, para onde vás, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma" (v.10). Então, a palavra se refere ao corpo morto, inconsciente, que não mais terá qualquer atividade "debaixo do sol" (Ec 9.6), na terra, mas com certeza saberá o que estiver ocorrendo no céu (cf Lc 16.19-31; 2 Co 5.8; Fp 1.13; Ap 6.9). Por outro lado, de nada adiantaria subir para Deus uma alma inconsciente, morta, sem mem ória. Mas vejam que Jesus e Estevão entregaram o seu espírito. Não entregaram a sua respiração, o sopro de seus pulmões. Também de nada adiantaria ao ladrão subir para o céu, e lá não gozar conscientemente das bem-aventuranças. Os argumentos da extinção total do ser humano na hora da morte não devem prosperar por falta de embasamento bíblico. Dito isto, analisemos algumas questões levantadas pelo adventista Dr. Samuele Bacchiocchi, um dos expoentes da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), no artigo intitulado "Dualismo e Holismo no Exame da Consciência após a Morte". Suas considerações são um retrato ampliado do pensamento da senhora Ellen Gould White (1827-1915), co-fundadora e profetiza da IASD. Os argumentos e textos bíblicos do Dr. Bacchiochi são, regra geral, os mesmos da referida profetiza, que asse gurou o seguinte: "Depois da queda, Satanás ordenou a seus anjos que inculcassem a crença da imortalidade natural do homem" (Ellen, "O Grande Conflito", Edição Condensada, Casa Publicadora Brasileira, S. Paulo, p. 317). Não se sabe como a profetiza soube o que se passava no reino das trevas. Ora, todos sabemos que os homens morrem, mas sabemos também que todos ressuscitarão, uns para a ressurreição da vida, outros para a ressurreição da condenação" (Jo 5.29). O problema reside em refletirmos a respeito dessa condenação. Os ímpios ressuscitarão para a ressurreição da morte? Ou para receberem a devida punição, "e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre" (Ap 20.10)? A imortalidade que defendemos não é a do homem, mas a da alma do homem. Jesus soube muito bem definir o que significa corpo mortal e alma imortal (Mt 10.28).
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    190 Mas adiante,Ellen White declara: "Se fosse verdade que a alma passa diretamente para o C éu na hora do falecimento, bem poderíamos anelar mais a morte que a vida" (p. 319). Argumento exatamente igual vem sendo usado pelos admiradores da profetiza. O apóstolo Paulo sabia que não existe, para os salvos, nenhum espaço de tempo indefinido entre a morte e a vida futura. Vejam: ..."enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor; mas temos confiança e desejamos, antes, deixar este corpo, para habitar com o Senhor" (2 Co 5.6,8); "Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho; mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor" (Fp 1.21,23). Vejamos os argumentos do Dr. Bacchiocchi: "Não existe na Bíblia qualquer dicotomia entre um corpo mortal e uma alma imortal que "se separa" quando da morte. Tanto o corpo quanto a alma são unidades indivisíveis que deixam de existir ao tempo da morte, até a ressurreição". Não procede tal tese. Ocorre exatamente o contrário. Na morte, há uma separação. Corpo e alma são unidades divisíveis. Conquanto o corpo se corrompa no pó, a alma, dada por Deus, sobrevive. A questão é que na visão holística o que se separa do corpo é o sopro; na visão dualista, o que se separa é a parte imaterial do homem. "Abandonar o dualismo também provoca o abandono de todo um conjunto de doutrinas que resultam disso, especialmente a acariciada crença na consciência da vida após a morte. Isso pode se chamar "efeito dominó". Se uma doutrina cai, várias cairão junto". Não há como os aniquilistas abandonarem a crença da pena de morte para a alma sem que sofram o "efeito dominó". Abandonariam também a crença da inconsciência da alma, do extermínio dos ímpios, do sono da alma. Todavia, considero ser possível - em prol da liberdade de pensamento -, que um adventista se convença do ensino bíblico da imortalidade da alma, e continue adventista. "O evangelho não nos dá base para uma doutrina de redenção que salva a alma à parte do corpo ao qual pertence. A comissão evangélica não é salvar almas, mas pessoas inteiras". Os evangélicos não ensinam o contrário. A redenção contempla o homem, corpo e alma. Para isso ocorre a ressurreição do corpo. É o corpo físico que ressurge. O mortal se revestirá de imortalidade (1 Co15.53-54). "...gememos, aguardando a redenção do nosso corpo" (Rm 8.23). As almas imortais não precisam ser revestidas de imortalidade. Elas estão num lugar de descanso, ou num lugar de tormento (Lc 16.19-31). Na ressurreição a alma volta a unir-se ao corpo e o homem retorna à situação original de ser vivente (cf Rm 8.11). "Essas crenças têm enfraquecido e obscurecido a expectativa da segunda vinda de Cristo". Não procede o argumento de que a "crença popular" dualista não valoriza a vinda de Cristo, uma vez que as almas dos crentes já estão no céu. A redenção só se completa com a ressurreição do corpo, que está garantida pela ressurreição de Cristo (Mt 28.6; At 17.31; 1 Co 15.12,20-23). A ressurreição do corpo é necessária: (a) porque o corpo é parte essencial e total da personalidade do homem (Rm 8.18 - 25); (b) na ressurreição o corpo voltará a ser templo do
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    191 Espírito (1Co 6.19); (c) para vencer a morte, o último inimigo do homem (1 Co 15.26). "O homem não recebeu uma alma de Deus; ele foi feito uma alma vivente. Os animais também foram feitos "almas viventes" (Gn 1:20, 21, 24, 30; 2:19), contudo, não foram criados à imagem de Deus". Entenda-se "almas viventes" como criaturas viventes ou seres viventes que t êm vida, que respiram vivem e se movem. Há, sim, uma grande diferença na forma como Deus criou homens e animais. Somente o homem recebeu o sopro de Deus em suas narinas (Gn 2.7). Isto é muito significativo. Para que os animais respirassem e vivessem não foi necessário o sopro de Deus. O respirar faz parte da mecânica do ser vivente. Os homens possuem algo provindo do seu eterno e imortal Criador. Esse algo se chama alma. Homens e animais se assemelham na morte porque os corpos de um e de outro descem ao pó e são consumidos. Mas com relação aos animais não se diz que o "espírito volta a Deus, que o deu" (Ec 12.7). "O que retorna para Deus não é a alma imortal humana, mas o Espírito divino que transmite vida e que nas Escrituras são igualadas ao fôlego de Deus: "Se Deus. . . recolhesse o seu espírito [ruach] e o seu sopro [neshamah], toda carne pereceria juntamente, e o homem retornaria ao pó" (Jó 34:14-15). O paralelismo indica que o fôlego de Deus é o Seu Espírito transmissor de vida". Vejamos a versão Trinitariana: "Se ele pusesse o seu coração contra o homem, e recolhesse para si o seu espírito e o seu fôlego, toda a carne juntamente expiraria, e o homem voltaria para o p ó" (Jó 34.14-15). A Bíblia Linguagem de Hoje registra: "Se Deus quisesse, poderia fazer voltar para si o fôlego, a respiração da gente; então todas as pessoas morreriam juntas, no mesmo instante, e voltariam de novo para o pó". O Espírito de Deus é Deus. O Espírito Santo é Deus. Não faz sentido dizer que o Espírito divino retorna para Deus. Na verdade, o texto nos diz que se Deus não amasse a humanidade ["pusesse seu coração contra o homem"], e tirasse o fôlego de todos e o espírito que nos foi doado, todos pereceriam. A passagem não serve como argumento para defender a mortalidade da alma. A afirmação de que quem "retorna para Deus não é a alma imortal humana, mas o Espírito divino que transmite vida e que nas Escrituras são igualadas ao fôlego de Deus", é uma velada negação do Espírito Santo como terceira pessoa da Trindade. As testemunhas de Jeov á dizem que o Espírito é uma força, uma energia. "Quando, porém, o sopro se vai, tornam-se almas mortas. Isso explica porque a Bíblia freqüentemente se refere à morte humana como a morte da alma (Lv. 19:28; 21:1, 11; 22:4; Nm. 5:2; 6:6,11; 9:6, 7, 10; 19:11, 13; Ag 2:13)". A exemplo de Lv 19.28: "Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma sobre vós", e Ageu 2.13: "Se alguém vier a tornar-se impuro, por haver tocado um corpo morto...", nenhum dos textos citados diz que a alma morre junto com o corpo. Nada que possa robustecer a tese mortalista está nesses versículos, que apontam para o "corpo" sem vida, morto. No voto de nazireu havia a restrição de não tocar num corpo morto, que transmitia impureza (Nm 6.6). A mesma restrição é admitida pelo profeta Ageu, ao falar aos sacerdotes, porque fazia parte da lei (cf Nm 19.11-14).
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    192 "O quedistingue os seres humanos dos animais não é a alma, mas o fato de que os seres humanos foram criados à imagem de Deus, isto é, com possibilidades semelhantes às de Deus, não disponíveis aos animais". Uma característica importante, a mais importante, distingue os homens dos animais: somente a respeito dos homens Eclesiastes diz que quando o corpo desce ao pó, o espírito volta a Deus (Ec 12.7). Somente com relação ao homem, Jesus revelou que a sua alma é imortal: "Não tenham medo daqueles que podem matar o corpo e não podem matar a alma" (Mt 10.28a). Portanto, não somos semelhantes aos animais nem na criação, nem na vida, nem na morte. "Para impedir à humanidade pecadora a possibilidade de "viver para sempre" (Gn 3:22), ap ós a Queda Deus barrou o acesso à árvore da vida (Gn 3:22, 23)". "Após a Queda, Adão e Eva não mais tiveram acesso à árvore da vida (Gn. 3:22-23) e, conseqüentemente, começaram a experimentar a realidade do processo da morte". A alta simbologia da "árvore da vida" não ficará restrita ao conceito da imortalidade. O assunto foi desenvolvido em tópico anterior, onde lembrei que a mesma árvore surge na nova morada dos justos: "Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no paraíso de Deus (Ap 2.7). A árvore da vida representa a plenitude da vida eterna. A desobedi ência do homem resultou não na perda da imortalidade de seu espírito, mas em sua morte física e espiritual, como já explicado. A árvore da vida manifesta-se nos dias de hoje para o homem redimido, e estará na Jerusalém celestial, indicando o pleno retorno às condições no Éden. "A advertência divina (G. 2:17) estabelece uma clara ligação ética entre a vida e a obediência versus morte e desobediência. A natureza humana não foi criada com uma alma imortal, mas com a possibilidade de tornar -se imortal. A desobediência resultou em morte, não apenas para o corpo, mas para a pessoa inteira. Deus não disse: "no dia em que comerdes dela, vossos corpos morrerão enquanto vossa alma sobreviverá num estado desincorporado". Antes, declarou: "Vós", ou seja, a pessoa inteira, "morrereis". A declaração "certamente morrereis" não revela tudo a respeito do complexo ser humano. Aprendemos que na Bíblia, a exemplo do Messias que começou a ser revelado em Gênesis 3.15, as revelações são progressivas, como foi progressiva a revelação a respeito da imortalidade e sobrevivência da alma. Após a queda, Adão experimentou a morte espiritual ao ver-se afastado de Deus, e ficou potencialmente sujeito à morte física. "Sumariando, a expressão "o homem se tornou uma alma vivente-nephesh hayyah" apenas significa que em resultado do sopro divino, o corpo inanimado fez-se um ser vivente, que respirava--nada menos do que isso. O coração começou a bater, o sangue a circular, o cérebro a pensar, sendo todos os sinais vitais ativados. Declarado em termos simples, "uma alma vivente" significa "um ser vivo", e não "uma alma imortal". O que distingue os seres humanos dos animais n ão é a alma, mas o fato de que os seres humanos foram criados à imagem de Deus, isto é, com possibilidades semelhantes às de Deus, não disponíveis aos animais. "Possibilidades semelhantes às de Deus" é uma afirmação dúbia. Quais possibilidades? Poderíamos dizer que uma dessas possibilidades seria a imortalidade. O pr óprio Deus destacou a alma como o elemento que distingue os homens dos animais. O animal morre, e nada sobrevive; morre o homem, o espírito imortal sobrevive (Ec 12.7; Mt 10.28). Portanto, é exatamente o contrário do que foi dito. "A Bíblia traz um relatório de sete pessoas que foram levantadas dentre os mortos (1 Reis 17:17 -24; 2 Reis 4:25-
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    193 37; Lucas7:11-15; 8:41-56; Atos 9:36-41; 20:9-11), mas nenhuma delas teve uma experiência de pós-morte para compartilhar. "Não existe forma de vida consciente entre a morte e a ressurrei ção. Os mortos repousam inconscientemente em suas sepulturas até que Cristo os chame no glorioso dia de Sua vinda". Mais uma vez tenta-se firmar tese com base no silêncio das Escrituras. Não é boa essa hermenêutica. As doutrinas devem ser apresentadas com base no que a Bíblia diz, e não no que ela não diz. Porque a Bíblia não relata experiências pós-morte, então não existe vida espiritual logo após a morte? Poderíamos dizer que os animais também ressuscitam, pois a Bíblia nada diz a respeito. O argumento acima desconsidera o fato de que Moisés, apesar de haver morrido há mais de mil anos, apareceu em sã consciência e conversou com Jesus na transfiguração, estando presentes Pedro, Tiago e João (Mt 17.1-9). O profeta Elias, que subiu ao céu num redemoinho, também ali estava. O registro da presença de Moisés no monte da transfiguração é bastante para demolir o dogma da inconsciência dos mortos. Na tentativa de contornar mais esse obst áculo, alegam que é possível que Moisés haja ressuscitado, considerando-se que "o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele..." (Jd 9). Mas onde está escrito que Moisés ressuscitou? O que está escrito na Bíblia é que ele morreu e foi sepultado. Todos os justos que já morreram estão na presença do Senhor, porque "Deus não é Deus de mortos, mas de vivos" (Mt 22.32). Esta é uma declaração da sobrevivência da personalidade após a morte. Entre a morte e a ressurreição os justos continuam como que vivos para Deus, e aguardam o momento glorioso da redenção do corpo, quando enfim a morte será vencida. Leiam: "Ora, Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, porque para ele vivem todos" (Lc 20.38). A passagem explica que depois que os patriarcas morreram em seu estado corpóreo continuaram vivendo em outro estado. "Nenhum texto bíblico autoriza a declaração de que a 'alma' é separada do corpo no momento da morte. O ruach, 'espírito', que faz do homem um ser vivente (cf. Gn 2:7), e que ele perde por ocasi ão da morte, não é, falando-se apropriadamente, uma realidade antropológica, mas um dom de Deus que retorna a Ele ao tempo da morte. (Ec 12:7)". Nesse caso o argumento do silêncio das Escrituras erra o alvo. A visão adventista da inconsciência após a morte assenta-se sobre dois pilares: Gênesis 2.7, "o homem se tornou alma vivente", e Gênesis 2.17, "certamente morrerás". Os dois textos são citados à saciedade no decorrer do artigo sob análise. Em tópico anterior dissertamos sobre essa questão. A expressão "alma vivente" significa um ser que vive, que se move, que respira. O homem é uma alma no sentido em que ele é um ser vivente, uma pessoa, uma personalidade. O próprio Deus, na Pessoa do Filho, que criou o homem e disse "certamente morrerás", e que veio trazer Boas Novas, nos ensinou que o homem possui uma parte imaterial, o espírito, que se separa do corpo na hora da morte (Mt 10.28). Com isso, Jesus deu mais luz ao contido em Eclesiastes 12.7. Ao dizer ao ladrão arrependido: Hoje estarás comigo no paraíso", Jesus não se referia ao "dom de Deus", à vida do malfeitor. Referia-se à sua personalidade, ao seu espírito, parte invisível e imaterial do seu ser. Ele foi recebido no céu pelo Deus dos vivos, e não dos mortos. "Primeiramente, não há lembrança do Senhor na morte: "Pois na morte [maveth] não há recordação
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    194 de Ti;no sepulcro quem te dará louvor?" (Sal. 6:5)". Já comentamos e refutamos diversos textos apresentados como prova de que não há memória na morte. A contestação e explicação está no próprio versículo. É "no sepulcro", onde jaz o corpo, que ocorre a falta de memória. "Alguns argumentam que a intenção das passagens que acabamos de citar e que descrevem a morte como um estado de inconsciência "não é ensinar que a alma do homem é inconsciente quando ele morre", e sim de que "no estado de morte o homem não mais pode participar nas atividades do mundo presente". Em outras palavras, uma pessoa morta é inconsciente no que concerne a este mundo, mas sua alma é consciente no que concerne ao mundo dos espíritos. O problema com essa interpretação é que tem por base o pressuposto gratuito de que a alma sobrevive à morte do corpo, um pressuposto que é claramente negado no Velho Testamento. Descobrimos que no Velho Testamento a morte do corpo é a morte da alma porque o corpo é a forma exterior da alma". Em vários lugares, maveth [morte] é usada em referência à segunda morte. "Dize-lhes: Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que haveis de morrer, ó casa de Israel" (Ez 33:11; cf. 18:23, 32). Aqui a "morte do ímpio" obviamente não se refere à morte natural que toda pessoa experimenta, mas aquela infligida por Deus no Fim aos pecadores impenitentes. Nenhuma das descri ções literais ou referências figuradas da morte no Velho Testamento sugere a sobrevivência consciente da alma ou espírito à parte do corpo. A morte é a cessação da vida para a pessoa integral. Houve um lamentável equívoco na exposição da idéia. Em primeiro lugar, por que buscar apoio somente no Velho Testamento? A Palavra de Deus não se estende ao Novo Testamento? Segundo, o texto citado como exemplo não dá suporte à eliminação do corpo e alma juntos. As lentes dos aniquilacionistas enxergam extermínio em qualquer tipo de morte. Mas não é bem assim. Adão morreu, mas não foi exterminado. Nós morremos em Adão, por causa de sua desobediência (1 Co 15.22); os crentes morrem para o pecado, isto é, afasta-se de toda associação espiritual com o sistema pecaminoso do mundo (Rm 6.2; 1 Pe 2;24); morremos de morte natural (Mt 9.24); os ímpios morrem em seus pecados (Jo 8.24). Vejamos o que diz o verso apresentado como prova: "Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor Jeová, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva; convertei-vos, convertei-vos dos maus caminhos; pois por que razão morrereis, ó casa de Israel" (Ez 33.11). Em outras palavras, o texto repete Ez 18.20: "A alma que pecar, essa morrerá". Agora, vejamos o que o articulista disse acima: "Descobrimos que no Velho Testamento a morte do corpo é a morte da alma porque o corpo é a forma exterior da alma". Se a descoberta foi em decorrência dos versículos acima, vê-se claramente que nada foi descoberto. Ezequiel 18.20 e 33.11 falam em morte dos ímpios, isto é, morrem em suas iniqüidades (vv.10,13,18). Não diz que a morte do corpo é a morte da alma, nem diz que se trata de um extermínio nos tempos do fim. A "morte do ímpio" se caracteriza em dois planos: (a) aqui na terra, pela quebra da comunhão com Deus (Tg 1.15), significando morte espiritual, tal como aconteceu com
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    195 Adão logoapós desobedecer (Gn 3.7-10); (b) a morte eterna, caracterizada pela separação definitiva e irremediável entre o pecador e Deus, após a ressurreição de que trata Jo 5.29 e Apocalipse 20.5. A morte eterna é entendida como a segunda morte, o lago de fogo - mais adiante explicado -, onde serão atormentados para todo o sempre (Ap 20.10). "Não há qualquer indicação de que a alma de Lázaro, ou das demais seis pessoas levantadas da morte, tenha ido para o céu. Nenhuma delas teve uma "experiência celestial" para narrar. A razão disso é que nenhuma ascendeu ao céu. Isso é se confirma na referência de Pedro a Davi em seu discurso no dia de Pentecoste: "Irm ãos, seja-me permitido dizer-vos claramente, a respeito do patriarca Davi, que ele morreu e foi sepultado e o seu t úmulo permanece entre nós até hoje" (Atos 2:29). Alguns poderiam argumentar que o que estava na sepultura era o corpo de Davi, não sua alma que havia ido para o céu. Essa interpretação, porém, é negada pelas explícitas palavras de Pedro: "Porque Davi não subiu aos céus" (Atos 2:34). A tradução de Knox assim reza: "Davi nunca subiu para o céu". A Bíblia de Cambridge traz a seguinte nota: "Pois Davi não ascendeu. . . Ele desceu à sepultura e 'dormiu com os seus pais'". O que dorme na sepultura, segundo a Bíblia, não é meramente o corpo, mas a pessoa integral que aguarda o despertar da ressurreição". O simples fato de não haver relato das "experiências celestiais" não prova nada. Não é boa a hermenêutica que busca apoio no silêncio da Bíblia. Vejamos o contexto em que se insere "Porque Davi não subiu aos céus": "A respeito dele [de Cristo] disse Davi: Porque tu n ão me abandonaste no sepulcro, nem permitirás que o teu Santo sofra decomposição... Posso dizer que o patriarca Davi morreu e foi sepultado, e o seu túmulo está entre nós até o dia de hoje... Prevendo isso, ele falou da ressurreição do Cristo, que não foi abandonado no sepulcro e cujo corpo não sofreu decomposição. Pois Davi não subiu aos céus..." (At 2.25-34). Pedro explicou que a afirmação de Davi (Sl 16.10) não se referia ao próprio Davi, e sim a Jesus, que realmente ressurgiu dos mortos. Conclui dizendo que não foi o corpo de Davi que ressuscitou, pois o patriarca morreu e foi sepultado, e o seu túmulo está entre nós até o dia de hoje" (v.29). A Bíblia Linhagem de Hoje melhor esclarece: "Porque não foi Davi quem subiu para o céu" (anabainõ-subir, ascender, levantar-se). Que o espírito de Davi foi imediatamente para o céu não há dúvida, à vista das diversas passagens bíblicas aqui citadas, e também porque ele era "homem segundo o coração de Deus" (At 13.22). É da vontade de Deus que os seus, a exemplo de Moisés, Elias, Enoque e o ladrão arrependido subam logo para o céu. "Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o Seu Filho unigênito, para que todo o que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3:16). O destino dos que recusam crer é a destruição ("perecer"), e não a salvação universal". No tópico sob o título "extermínio dos ímpios" o assunto foi amplamente analisado e refutados os argumentos contrários. Faz parte da visão dos mortalistas ver extermínio em tudo. O mesmo verbo apollumi-perecer, de João 3.16, é usado, por exemplo, em Romanos 14.15: "Não destruas [ou faças perecer] por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu"; e em 1 Co 8.11: "E, pela tua ciência, perecerá o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu". Não se há de admitir que o irmão seja exterminado nesta vida terrena ou depois de ressuscitado. Então, entenda-se "perecer", em João 3.16, como arruinar-se, afastar-se de Deus, perder a fé, perder-se, desviar-se do caminho. "A solução sensata aos problemas do ponto de vista tradicionalista deve ser encontrada, n ão por rebaixar ou eliminar o quociente de dor de um inferno literal, mas aceitando-se o Inferno por aquilo que realmente é - a
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    196 punição finale permanente aniquilamento dos ímpios. Como declara a Bíblia, "Mais um pouco de tempo e já não existirá o ímpio; procurarás o seu lugar, e não o acharás", porque "o destino deles é a perdição" (Fil. 3:19). A tese sobre o aniquilamento está mal formulada ou mal explicada. A morte natural é considerada como aniquilamento? Considerando que os ímpios ressuscitarão (Ap 20.5), a pena capital ocorrerá logo após ressuscitarem? Neste caso, qual seria a finalidade da ressurrei ção deles? Ressuscitariam, seriam castigados por um tempo de acordo com suas obras, e depois seriam exterminados? Neste caso, não seria melhor não revivê-los? 3 Referindo-se a Ezequiel 33.11, o articulista afirma que a "morte" ali referida "obviamente n ão se refere à morte natural que toda pessoa experimenta, mas aquela infligida por Deus no Fim aos pecadores impenitentes". Depreende-se que ao afirmar que "o destino deles é a perdição" o adventismo admite que o extermínio será o do corpo ressurreto, uma vez que não admite a existência de uma alma em sofrimento consciente. Retornamos ao seguinte questionamento: os ímpios reviverão para morrer? Sairão da sepultura para morrerem em seguida? Qual seria a finalidade da ressurrei ção dos ímpios (Ap 20.5)? O inferno/lago de fogo e enxofre é lugar de prisão, desprezo, vergonha. Os anjos que pecaram foram lançados no inferno, presos em "abismos tenebrosos" (2 Pe 2.4; cf. Jd 6;cf Ap 20.7). O tormento é eterno, "para todo o sempre" (Ap 20.10). "Mas não há ressurreição da segunda morte, pois os que a experimentam são consumidos no que a Bíblia chama "o lago de fogo" (Ap. 20:14). Esse será o aniquilamento final". A refutação está no próprio capítulo, verso 10: "E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta [e para onde irão os ímpios, cf. verso 15]. De dia e de noite serão atormentados, para todo o sempre". Todas as versões consultadas falam num tormento sem fim. O comentário da Bible Online (GILL), assim traduz: "E serão atormentados dia e noite para sempre; quer dizer, não só o diabo, mas a besta e falso profeta, porque a palavra está no plural: e este será o caso de todos os homens maus, de todos os inimigos de Deus e Cristo; é uma prova da eternidade de tormentos do inferno". "Não há existência independente do espírito ou alma à parte do corpo. A morte é a perda do ser total, e não meramente a perda do bem-estar. A pessoa inteira repousa na sepultura num estado de inconsci ência caracterizado na Bíblia como "sono". O "despertar" desse sono terá lugar quando Cristo vier e chamar de volta à vida os santos adormecidos". Então, anulemos tudo aquilo o que na Bíblia define como visão dualista, sobrevivência e consciência da alma após separar-se do corpo. Desprezemos, por exemplo, o relato dos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas que falam da Transfiguração de Jesus, onde apareceu Moisés, que havia morrido há mais de mil anos (Mt 17.1-8; Mc 9.1-8; Lc 9.28-36). Quem estava ali? Uma saída honrosa seria dizer que era o "sopro" personificado de Moisés ou um fantasma. Nada disso. Era Moisés mesmo, confirmando que na morte a parte imaterial chamada espírito se separa e segue o seu destino: os de Cristo seguem diretamente para o céu. Sobre Moisés, escrevi numa determinada lista de discussão, onde o assunto entrou em debate:
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    197 Pensei pudessereceber melhor contribuição dos adventistas, ainda que contrária à minha crença, com relação ao aparecimento do falecido Moisés no monte da Transfiguração. O argumento contrário é bem vindo para que possa refutar com responsabilidade. O que vi, todavia, foi a alegação de que Jesus não iria participar de uma sessão espírita, haja vista a proibição para tal prática (Is 8.19). Ora, o que está em pauta não é isso. Essa argumentação seria mais válida para ser apresentada por um espírita, em defesa da comunicação com os mortos. O que sobressai é que a Palavra diz que Moisés, falecido, apareceu no monte da Transfiguração e falou com Jesus. Dizer que isso equivale a uma sessão espírita e que por isso mesmo não pode ser levado em conta, é não encarar de frente a questão. Mas vamos lá. Na Transfiguração não se caracterizou uma sessão espírita como a conhecemos. Não houve intermediário, um médium entre o morto Moisés e Jesus. Não ocorreram manifestações mediúnicas. Moisés conversou com o Senhor Jesus como se estivesse no céu. Os apóstolos que presenciaram o fato não conversaram com o morto Moisés nem com Elias. Estes e Jesus conversaram entre si. A Transfiguração (metamorphoõ) de Jesus se caracterizou por uma mudança radical do seu corpo; o termo denota alteração substancial, mudança completa. Então, o Filho de Deus se apresentou ali com a Sua natureza divina plena, da mesma forma como os apóstolos O viram na ascensão. Somente nessa condição falou com o morto Moisés. Não cito Elias porque este não passou pela morte; foi trasladado. Vejam que o rosto de Jesus "resplandeceu como o sol, e as suas vestes se to rnaram brancas como a luz" (Mt 17.2). Menos desastroso argumento, embora natimorto, seria dizer que ali estava o "sopro personificado de Moisés", ou que tudo isso é um simbolismo, que na verdade Moisés quer dizer Lei, e Elias quer dizer profetas. Seriam argumentos completamente refutáveis, mas muito mais dignos do que dizer que não podia ser Moisés porque Jesus não iria participar de uma sessão espírita. "Como no serviço típico do Dia da Expiação, os pecadores impenitentes eram "eliminados" e "destruídos", assim no cumprimento antitípico do juízo final, os pecadores "sofrerão penalidade de eterna destruição banidos da face do Senhor" (2 Ts 1:9). A palavra "destruição" e as equivalentes perecer, eliminar e aniquilar ocorrem 66 vezes no artigo sob exame. Portanto, estamos realmente diante da doutrina do aniquilacionismo. Vejam o texto na versão NVI: "Eles sofrerão a pena de destruição eterna, a separação da presença do Senhor e da majestade do seu poder". Apõleia-destruição/perdição tem o significado de separação, "perda de felicidade, de bem-estar, não de ser". Poderíamos traduzir assim: "Sofrerão a pena da eterna separação de Deus". A versão Alfalit registra: "Os quais padecerão, como castigo, a perdição eterna, expulsos da face do Senhor e da glória do seu poder". São expulsos, perdem o privilégio de viverem para sempre com o Senhor. A versão BLH: "Eles vão sofrer o castigo da destruição eterna e serão separados da presença do Senhor e do seu glorioso poder". Deus elimina e separa? Ora, se vão ser exterminados não há porque separá-los. Os ímpios ficarão eternamente separados.
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    198 Em nenhummomento o autor do artigo sobre a visão holística faz qualquer comentário sobre os castigos diferenciados. Como conciliar a doutrina da punição proporcional às faltas cometidas com o conceito holístico o extermínio puro e simples? Ora, a punição diferenciada como resultado do julgamento segundo as obras espelha a reta justiça de Deus. A pena capital nivelaria todas as faltas cometidas. Todos pagariam igualmente com a morte, qualquer que fosse o nível de suas culpas. Sobre a ressurreição dos ímpios, revela o artigo: "Mas não há ressurreição da segunda morte, pois os que a experimentam são consumidos no que a Bíblia chama "o lago de fogo" (Ap 20:14). Esse será o aniquilamento final". A Bíblia, contudo, faz uma distinção entre a primeira morte, que todo ser humano experimenta em resultado do pecado de Ad ão (Rm 5:12; 1 Co 15:21), e a segunda morte experimentada após a ressurreição (Ap 20.5) como salário pelos pecados pessoalmente cometidos (Rm 6.23). Admitem os mortalistas que os ímpios, após ressuscitarem (Jo 5.29; Ap 20.5), serão eliminados. Determinado adventista disse que "a ressurreição do ímpio é o prelúdio de sua destruição". Deus agiria assim para que os ímpios morram "conscientes" de sua punição? Ora, na morte não há consciência. Apesar de já estarem mortos, Deus faria ressurgir bilhões de corpos para em seguida queimá-los no lago de fogo e enxofre. Para quê, se eles já estavam mortos? O lago de fogo não é uma espécie de matadouro, um lugar de extermínio. É um lugar de vergonha, desprezo, angústia, tristeza por que passarão os que lá estiverem, pelos séculos dos séculos. A mesma expressão grega usada em Apocalipse 20.10, "serão atormentados para eis tous aiõnas ton aiõnõn-todo o sempre", é usada em Hebreus 1.8, referindo-se à duração do trono de Deus, eterno no sentido de interminável; em 1 Pedro 4.11, concercente à Sua glória e domínio para sempre; em Apocalipse 1.8, sobre a eternidade do Cordeiro. Acompanhem a seguinte seqüência de eventos e comprovem que a "segunda morte" não é uma aniquilação, mas um estado eterno de separação de Deus: Apocalipse 19.20 - A besta e o falso profeta são lançados vivos no lago de fogo. Apocalipse 20.2 - Satanás é amarrado por mil anos. Apocalipse 20.5 - Os outros mortos reviveram após os mil anos. Apocalipse 20.7 - Satanás será solto da sua prisão. Apocalipse 20.10 - O diabo foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta. De dia e de noite serão atormentados para todo o sempre. Apocalipse 20.15 - Serão lançados no lago de fogo todos os não inscritos no livro da vida. Observem que passados mil anos (Ap 19.20) a besta e o falso profeta ainda se encontravam vivos no lago de fogo (Ap 20.10) e continuarão no mesmo eterno estado de ruína, sendo atormentados dia e noite. Diante das evidências, falece, porque não bíblica, a tese da aniquilação dos ímpios. "Descobrimos que tanto o Velho quanto o Novo Testamento claramente ensinam que a morte é a extinção da vida para a pessoa integral. Não há lembrança nem consciência na morte (Sl 9:5; 146:4; 30:9; 115:17; Ec 9:5). Não há existência independente do espírito ou alma à parte do corpo. A morte é a perda do ser total, e não meramente a perda do bem-estar. A pessoa inteira repousa na sepultura num estado de inconsci ência caracterizado na Bíblia como "sono". O "despertar" desse sono terá lugar quando Cristo vier e chamar de volta à vida os santos adormecido". Sobre o "sono da alma" já discorremos em análise anterior, neste estudo. O simples fato de a Bíblia
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    199 usar aexpressão "dormir" para os crentes mortos não pode ser traduzido como uma declaração de não sobrevivência da alma. Eclesiastes 9.5 deve ser entendido com os versos 6 e 10 seguintes: n ão há entendimento "debaixo do sol" nem na "sepultura". Nesta, morrem os projetos humanos. Há, sim, vida após a morte, em razão da imortalidade da alma. A vontade dos adventistas e demais contradizentes é que os homens, na morte, sejam iguais aos animais. Toda via, somente no caso dos homens se diz que o corpo desce à sepultura, mas o espírito volta a Deus. Ora, os animais também receberam o fôlego de vida diretamente do Criador. Por que razão ao morrerem seus "espíritos" não se separam? Salmos 9.5 fala da vitória de Davi sobre os inimigos do Deus de Israel, que pode ser uma alus ão aos Amalequitas, quase totalmente aniquilados no reinado de Saul (1 Sm 15.1-9). Os sobreviventes dessa nação inimiga foram exterminados pelo salmista Davi (1 Sm 30). O exemplo não pode servir para estabelecer doutrina sobre o aniquilamento dos ímpios. Nem todos os ímpios são exterminados da mesma forma. A maioria morre de morte natural, como morrem tamb ém os justos. O salmista diz que seus nomes estão apagados para sempre. Sim, seus nomes, aqui na terra estão apagados. Serão lembrados na ressurreição (Ap 20.5) para receberem o castigo eterno. Portanto, o exemplo do Salmo 9.5 é inadequado como apoio ao ensino do aniquilamento, quer da alma, quer dos ímpios. Salmos 146.4, citado pelo adventista, diz que na morte perecem os pensamentos dos homens. A mensagem fala da fragilidade dos propósitos humanos, que em decorrência da morte não conseguem dar-lhe curso. Por isso, o salmista diz para não confiarmos em homens (v. 3), mas depositarmos a nossa esperança no Senhor (v.5). "Naquele dia perecem os seus pensamentos" nada diz sobre a inconsciência do espírito que na morte se separa do corpo. Salmos 30.9 ressalta uma realidade: "Porventura te louvar á o pó?". Trata-se de um "cântico para a dedicação do templo". A palavra hebraica yãdãh-louvar é usada como expressão de adoração, agradecimento ou louvor público-congregacional. Na morte, o salmista estaria impedido de dar testemunho público no meio da congregação (cf. Sl 22.12,22; 35.18). Nesta concepção, somente os vivos louvam (Is 38.18-19). O salmista conclui afirmando: "Senhor, Deus meu, eu te louvarei para sempre" (Sl 30.12). Todavia, "as almas dos mortos", cuja redenção ainda não se completou pela ressurreição do corpo, estão no céu louvando a Deus continuamente (Ap 6.9,10; cf Ap 19.4-7). Quando a Bíblia diz que os mortos não louvam ao Senhor (Sl 115.17) e sua memória jaz no esquecimento (Ec 9.5), está falando de não haver memória neste mundo, mas certamente há memória deste mundo. Salomão esclarece ao dizer que "na sepultura, para onde vais, n ão há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma" (Ec 9.10). Na morte, os projetos humanos são findos. A Bíblia ensina que a alma sobrevive à morte num estado consciente de conhecimento. "Outro bom exemplo se acha em 2 Ts 1:9 onde Paulo, falando a respeito dos que rejeitam o evangelho, declara objetivamente: "Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do Seu poder". Evidentemente a destruição dos ímpios não pode ser eterna em duração porque é difícil imaginar um processo eterno, inconclusivo de destruição. A destruição pressupõe aniquilamento. A destruição dos ímpios é eterna, não porque o processo de destruição continue para sempre, mas porque os resultados são permanentes. Do mesmo modo, os resultados da "punição eterna" de Mat. 25:46 são permanentes. É uma punição que resulta em sua eterna destruição ou aniquilamento".
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    200 Entenda-se "destruiçãoeterna" como eternamente arruinados, perdidos, abandonados, banidos da face do Senhor. Estarão destruídos porque separados para sempre do Senhor: "Eles sofrer ão a pena de destruição eterna, a separação da presença do Senhor e da majestade do seu poder" (2 Ts 1.9-NVI). A Bíblia de Jerusalém fala em ruína: "O castigo deles será a ruína eterna, longe da face do Senhor...". A versão Alfalit registra: "Os quais padecerão, como castigo, a perdição eterna, expulsos da face do Senhor..." O termo olethros-perdição, ruína, destruição é usado no Novo Testamento em quatro casos, e em nenhum deles significa extermínio (1 Co 5.5; 1 Ts 5.3; 2 Ts 1.9; 1 Tm 6.9). Exemplo: "Os que querem ficar ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína" (1 Tm 6.9). Na Bíblia, nem sempre a palavra original traduzida como destruir/destruição significa literalmente exterminar ou aniquilar: "O meu povo foi destruído porque lhe faltou o conhecimento...também eu te rejeitarei..." (Os 4.6). Vejam o termo hebraico shahat-destruir com o significado de ser vencido, rejeitado, derrotado, arruinado espiritualmente. Os israelitas eram "destruídos" porque rejeitavam deliberadamente a verdade que Deus lhes revelara através dos profetas e de sua Palavra escrita. Outro exemplo: "Porque no Filho do Homem não veio para destruir [apollumi] as almas dos homens, mas para salv á-las" (Lc 9.56). Então, banidos da presença de Deus, de sua majestade e glória, estarão em ruína, destruídos, desprezados, envergonhados, punidos com eterno castigo (2 Ts 1.9; Dn 12.2; Mt 25.46; 2 Pe 2.9; Ap 20.10). "Antes de analisarmos a parábola, precisamos nos lembrar que contrariamente a uma alegoria como O Peregrino, onde cada detalhe conta, os detalhes de uma parábola não têm necessariamente algum significado em si mesmos, exceto como "pontos de apoio" para o relato. A parábola tem o propósito de ensinar uma verdade fundamental, e os detalhes não têm um significado literal, a menos que o contexto indique doutra forma. A partir deste princ ípio outro se desenvolve, ou seja, somente o ensino fundamental de uma par ábola, confirmado pelo teor geral das Escrituras, pode ser legitimamente usado para definir doutrina. A tentativa de Peterson de extrair três lições da parábola ignora o fato de que a sua principal lição é dada na linha conclusiva: "ainda que ressuscite alguém dentre os mortos" (Luc. 16:31). Esta é a principal lição da parábola, ou seja, nada ou ninguém pode superar o poder convincente da revelação que Deus nos concedeu em Sua Palavra. Interpretar Lázaro e o homem rico como representantes do que ocorrerá aos salvos e perdidos imediatamente após a morte significa querer captar da parábola lições estranhas a sua intenção original. O articulista fez uma ampla exposição da parábola do rico e Lázaro (Lc 16.19-31), do que extraímos algumas referências, como acima. Em suma, diz que não devemos levar em conta tudo o que foi dito por Jesus. Estabelece como principal lição da parábola "o poder convincente" da Palavra de Deus. Todos esses argumentos objetivam contornar uma preocupante e inc ômoda afirmação: "Morreu o mendigo [Lázaro] e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão" (Lc 16.22). Simples e bela como uma flor, a afirmação de Jesus atinge em cheio a tese dos mortalistas de completa inconsci ência depois da morte e de não sobrevivência da personalidade do homem. Jesus teria cometido o deslize de causar tremenda confusão entre as gerações futuras ao dizer que três almas - Abraão, Lázaro e o rico - haviam se apartado do corpo, na morte, e estavam, conscientes, em
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    201 seus devidoslugares, mesmo sabendo que a alma morre com o corpo? Improvável. Na parábola do rico e Lázaro não há apenas uma verdade. Há várias lições que dela podemos extrair. A primeira, é que na morte o espírito se separa do corpo, e os salvos irão imediatamente para a presença do Senhor (Cf. Ec 12.7; Mt 10.28; Lc 8.55; 23.43,46; At 7.59; Fp 1.21,23; 2 Co 5.1,8; Ap 6.9; 20.14). A segunda, é que o estado de tormento ou de bem-aventurança após a morte é um estado consciente e irreversível. A terceira, é que os espíritos dos mortos não podem sair de onde estão para auxiliar os vivos. A quarta, é que o meio eficaz de salvação é crer em Jesus e na sua Palavra. (22.04.2003) RESPOSTA AOS JUDEUS NÃO CONVERTIDOS Professor Antony Steff Gilson de Oliveira "Santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, e estai sempre preparados para responder com mansid ão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós" (1 Pe 3.15-16). Desconheço o autor das questões abaixo, que me foram remetidas recentemente. Pelo visto, deve ser um judaizante, ou seja, seguidor do Judaísmo, talvez um judeu não convertido, que não reconhece em Jesus o verdadeiro Messias. Em defesa de minha fé, elaborei a devida refutação, como a seguir: O Judaísmo afirma que Jesus não foi o Messias, pois não realizou as esperanças messiânicas. Ele não estabeleceu a paz universal e justiça social para toda a humanidade, nem redimiu o povo de Israel, e nem tampouco elevou as montanhas do Senhor acima do topo das alturas. No tocante aos judeus, seu pr óprio exílio e falta de um lar, e a continuação da guerra, pobreza e injustiça são provas conclusivas de que o Messias ainda não chegou, pois sua vinda, de acordo com promessas proféticas, apressará a redenção do povo de Israel do exílio e a redenção de todo o mundo dos males da guerra, pobreza e injustiça. Resposta - Todas as profecias messiânicas se cumpriram em Jesus Cristo. O Messias prometido, Jesus, o Ungido de Deus, veio para destruir as obras do diabo, dar liberdade aos cativos, quebrar as algemas invisíveis, trazer Boas Novas e preparar um povo para morar no c éu (Is 61-2; Lc 4.18; Jo 3.16). Veio para todas as nações, "para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3.16). Ele [O Cristo do Senhor] "é luz para iluminar os gentios, e para glória do teu povo Israel" (Lc 2.32). "É Deus somente dos judeus? Não o é também dos gentios? Também dos gentios, certamente" (Rm 3.29). O povo de Deus não é exclusivamente a nação de Israel, mas os que estão lavados e remidos no sangue do Cordeiro. A REDENÇÃO em Jesus é espiritual. Todos os que O recebem são espiritualmente renovados. Jó disse: "Eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantar á sobre a terra. E depois de consumada a minha pele, ainda em minha carne verei a Deus" (J ó 19.25- 26). A esperança no Redentor é que Ele viria salvar seu povo do pecado e da condenação (Rm 3.24; Gl 3.13; 4.5; Ef 1.7; Tt 2.14), livrá-lo do medo da morte (Hb 2.14,15; Rm 8.2) e da ira vindoura (1 Ts 1.10); e dar-lhe vida eterna (Rm 6.23). Tudo isso encontramos na pessoa do Senhor Jesus. O reinado de Jesus será estabelecido num tempo vindouro, quando haverá plena paz no mundo. Vejam: "Em verdade vos digo que vós os que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do homem se assentar no trono de sua glória, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel" (Mt 19.28); "Quando vier o Filho do homem na sua majestade e todos os anjos com
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    202 ele, entãose assentará no trono da sua glória; e todas as nações serão reunidas em sua presença, e ele separará uns dos outros, como o pastor separa dos cabritos as ovelhas" (Mt 25.31 -32). Os judeus "pensavam que o reino de Deus havia de manifestar-se imediatamente" (Lc 19.11). Supunham que Jesus iria comandar um exército para libertar os judeus do jugo romano. Ficaram decepcionados quando viram o Rei humilhado diante de Pilatos; conduzido para o Calv ário; castigado, vencido, fraco e morto. Nesse sentido, realmente Ele não realizou "as esperanças messiânicas". Mas trouxe vida abundante para todos os que O recebem como o verdadeiro Messias, o Filho do Deus vivo. A ênfase de Jesus em seus próprios ensinamentos, a maioria dos quais contrários ao verdadeiro espírito da profecia hebraica, culminou em sua reivindica ção de possuir proximidade especial com Deus, proximidade não compartilhada e nem mesmo semelhante à de qualquer outro ser humano. Assim ele declarou: "Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho se não o Pai, e ninguém conhece o pai, se não o filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar". Deus, do modo como o judeu o conhece, está igualmente próximo de todos os homens, e sua proximidade depende de quão próximo eles querem que ele esteja e quão próximo eles desejam chegar dele. Nenhum profeta judeu nem mesmo Moisés, o mestre dos profetas, alguma vez afirmou estar mais próximo de Deus do que qualquer outro homem. Resposta - Jesus continua junto à sua Igreja, aos seus, ao seu povo, a todos os que O aceitam como Senhor. Ele mesmo disse que estaria conosco todos os dias (Mt 28.20). Ele foi chamado de Emanuel, que significa "Deus conosco" (Is 7.14). Jesus estabeleceu a diferen ça. Realmente, nenhum outro teve a ousadia de dizer que era "o Cristo, o Filho do Deus Vivo" (Mt 16.16 -17); nenhum profeta, em qualquer época, ouviu "uma voz dos céus, dizendo: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo" (Mt 3.17; 17.5); ninguém jamais disse de si mesmo: "Eu sou o Senhor do sábado" (Mt 12.8); nenhum profeta foi chamado de "Filho do Altíssimo" (Lc 1.32); a respeito de nenhum outro profeta se lê na Bíblia: "E estamos naquele que é verdadeiro, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus, e a vida eterna" (1 Jo 5.20); ninguém, antes de Jesus, teve a autoridade para declarar: "Eu sou o caminho, a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim" (Jo 14.6). Realmente, Jesus fez a diferença. Antes dele, ninguém pôde dizer com tanta certeza: "Eu e o Pai somos um" (Jo 10.30). E ninguém deu tantas evidências de Sua própria divindade quanto Ele, pois curou milhares de doentes, expulsou demônios, ressuscitou mortos, acalmou tempestades, andou sobre as águas. Em toda a história da humanidade, jamais um homem predisse a sua própria ressurreição: "Depois de eu ressurgir, irei adiante de vós para a Galiléia" (Mt 26.32); "E o entregarão aos gentios para ser escarnecido, açoitado e crucificado. No terceiro dia ele ressurgirá" (Mt 20.19). As Escrituras hebraicas, a exemplo do Salmo 22 e Isaías 53, falam do sacrifício de Jesus na cruz, exceto para quem ainda espera, em vão, o Messias prometido. O Messias que os judaizantes ainda aguardam terá que cumprir totalmente as profecias messiânicas das Escrituras hebraicas, o que é plenamente impossível. Assim, deverá ser descendente da tribo de Judá (Gn 49.10; Lc 3.33;Mt 1.2-3); nascer em Belém Efrata (Mq 5.2; Mt 2.1; Lc 2.4-7); nascer de uma virgem (Is 7.14; Mt 1.18); ser o principal motivo da matan ça dos meninos (Jr 312.15; Mt 2.16-18); ser a Galiléia o principal cenário do seu ministério (Is 9.1-2; Mt 4.12-16); ser profeta (Dt 18.15; Jo 6.14) e sacerdote (Sl 110.4; Hb 6.20); deverá ser recebido com alegria quando entrar em Jerusalém, montado num jumentinho (Zc 9.9; Jo 12.13-14); ser traído por um dos apóstolos (Sl 41.9; Mc 14.10; Mt 26.14-16; Mc 14.43-45) e vendido por trinta moedas de prata (Zc 11.12; Mt 26.15;Mt 27.3 -10); que essas moedas sirvam para comprar um sítio (Zc 11.13; Mt 27.3-5; 8-10; 27.6-7); ser acusado por
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    203 falsas testemunhas(Sl 27.12; 35.11; Mt 26.60-61). O Messias dos judaizantes, para que as Escrituras hebraicas se cumpram, dever á permanecer em silêncio quando for acusado (Is 53.7; Mt 26.62-63); ao ser preso, deve ser esbofeteado e cuspido (Sl 69.4;Mc 14.65; 15.17; Jo 19.1-3; 18.22); deve ser odiado sem justa causa (Sl 69.4; Jo 15.23-25); sofrerá em nosso lugar (Is 53.4-5; Mt 8.16-17; Rm 4.25; 1Co 15.3); deve ser crucificado com pecadores (Is 53.12; Mt 27.38; Mc 15.27-28; Lc 23.33); na sua crucificação, suas mãos e pés devem ser trespassados (Sl 22.16; Jo 19.37; 20.25-27); para saciar sua sede, receberá na cruz fel e vinagre (Sl 69.21; Jo 19.29; Mt 27.34,48); será alvo de zombaria (Sl 22.8; Mt 27.43). O Messias aguardado deve ter seu lado trespassado (Zc 12.10; Jo 19.34), seus ossos n ão serão quebrados (Sl 34.20; Jo 19.33), lançarão sortes sobre suas vestes (Sl22.18; Mc 15.24;Jo 19.24); dever á ser sepultado com os ricos (Is 53.9; Mt 27.57-60); em cumprimento à sua própria profecia e às profecias das Escrituras hebraicas, o Messias que os judaizantes aguardam deverá ressuscitar ao terceiro dia, apesar de seu sepulcro receber o selo imperial e ser guardado dia e noite por uma guarda romana fortemente armada (Sl 16.10; Mt 20.19; 26.32; 27.40; Mt 28.9; Lc 24.36-48) e sua ascensão deve ser vista pelos discípulos (Sl 68.18; Lc 24.50-51; At 1.9). O Messias esperado pelos judaizantes enfrentará outro obstáculo insuperável. É que o seu nascimento deverá ocorrer há dois mil anos (?!), exatamente na mesma época em que nasceu Jesus, para que se cumpra a profecia de Daniel 9.24-26a. Outra condição incômoda para o Messias dos judaizantes diz respeito à prova de sua linhagem, pois ele deverá ser da tribo de Judá e da família de Davi, da "raiz de Jessé" (Gn 49.10; Is 11.1,10; 2 Sm 7.12-16; Mt 1.1; 9.27; Lc 1.32; Hb 7.14; Rm 15.12; Ap 5.5). Impossível conseguir a prova dessa filiação porque os registros genealógicos foram extintos com a destruição do templo de Jerusalém pelos exércitos romanos, sob o comando do general Tito, em 70 d.C. Para Jesus, a pobreza não era uma condição deplorável, necessitando de erradicação; mas pelo contrário, a considerava como um passaporte para o reino dos céus. E então aconselhava aos discípulos: Se desejas a perfeição, vá! venda sua propriedade e doe o dinheiro aos pobres e gozarás de riqueza nos céus. Depois, volte e seja meu seguidor" (Mt 19:21). Resposta - Não se pode generalizar o que está escrito em Mt 19.21. O coração daquele jovem estava em suas riquezas. Conhecendo sua fraqueza, Jesus aconselhou -o a vender seus bens. E disse ser difícil um rico entrar no reino de Deus. Jesus aproveitou a ocasi ão para ensinar que quem ama a Deus acima de tudo não deve ser escravo da idolatria e avareza. Todavia, a salva ção está em nEle crê, seja rico ou pobre (Jo 3.18; Ef 2.8). Não se pode criar uma doutrina com base nesse versículo, mas se deve examinar o conjunto dos ensinos de Jesus. Pobreza ou riqueza, tudo deve ser para a glória de Deus. Quando Jesus se encontrou com Zaqueu não condenou a sua riqueza; mas aquele homem, tendo ouvido a Jesus, resolveu devolveu o que havia ganho por meio il ícito (Lc 19.8). Para poder ser um seguidor de Jesus, entretanto, seria preciso romper todos os vínculos com a vida social normal, pois ele exigia: "Nem um de voc ês que não se despedir de tudo o que possui não poderá ser um dos meus discípulos" (Lucas 14:33). Essa renúncia não se estendia somente às posses materiais mas também à eliminação das afeições mais naturais pelos membros da família.
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    Resposta - EmLucas 14.26-35 Jesus estabelece as condições para quem deseja ser Seu discípulo: renunciar a tudo quanto tem por amor a Cristo; levar após Ele a sua cruz (v.27), avaliar o preço de segui-Lo até o fim (vv.28-32). Em outras palavras, Jesus fez uma declaração de sua divindade, pois devemos amar a Deus sobre todas as coisas. Jesus ensina que o preço do discipulado verdadeiro é abrir mão de todos os relacionamentos e posses, isto é, de bens materiais, família, nossa própria vida com suas ambições, planos e interesses. Isto não significa que devemos abandonar tudo quanto temos, mas que tudo quanto temos deve ser colocado a serviço de Cristo e sob sua direção, "pois para isto Cristo morreu e tornou a viver, para ser Senhor tantos dos mortos como dos vivos" (Rm 14.9). 204 Contrariamente a atitude judaica positiva em relação ao matrimonio e família, Jesus se opunha quase que hostilmente a essas instituições. Não era casado e dirigia palavras extremamente contundentes contra lealdade a pais, irmãos e irmãs, considerando esses vínculos como afastadores do amor de Deus. Jesus desmerecia e envergonhava sua mãe e irmãos em público. Assim está registrado que quando Jesus se dirigia a uma multidão, "sua mãe e seus irmãos e permaneciam fora dela, desejando falar com ele. Mas, dizia a quem o avisava, 'quem é a minha mãe e quem são meus irmãos?' Apontava aos discípulos e dizia 'aqui estão minha mãe e meus irmãos! Todo aquele que realiza a vontade de meu Pai do céu é meu irmão e minha irmã e mãe'' (Mt 12:46-50). Em outra ocasião, quando um dos ouvintes exclamou, '' abençoada seja a mãe que o gerou e nutriu!'' Jesus respondeu: 'Você poderia se expressar-se melhor, abençoados sejam aqueles que ouvem a mensagem de Deus e as observa! '' (Lucas 11:27). E ele também ensinava: Não deves chamar qualquer um na terra de seu Pai, pois tens somente um, o Pai dos céus (Mt 23:9). Resposta - Em Mateus 12.46-50 vemos Jesus aproveitando a ocasião para, mais uma vez, dizer que em primeiro lugar está a obediência a Deus, e que sua mãe e seus irmãos não deveriam ser idolatrados. Jesus colocou um ponto final em qualquer tentativa de endeusar sua mãe (Lc 11.27-28). Nivelou sua família, principalmente sua mãe, a todos os tementes a Deus. Com coerência, Ele deu o exemplo de que devemos amar menos as coisas terrenas e MAIS a Deus. A divina missão de Jesus, definida desde a eternidade (Jo 1.1,2,14; 3.16), não incluía o vínculo matrimonial. É uma inverdade dizer que Jesus, de forma hostil, se opunha ao casamento, pois Ele confirmou o mandamento de "honrar pai e mãe" (Mt 15.4), manifestou-se a favor da pureza do matrimônio, condenando o adultério (Mt 5.27-28); e, na cruz, já perto da morte, demonstrou seu grande amor filial ao entregar Maria aos cuidados do apóstolo João. A maneira pela qual Jesus aplicava esses princípios a situações da vida real pode ser vista por seus rompantes de ira para com os discípulos que desejavam se desvincular de certas obrigações familiares antes de segui-lo. Quando um futuro discípulo dizia a Jesus: Mestre, vou segui-lo, mas deixe-me primeiramente dizer adeus aos que estão em minha casa'', ele o reprovava: Quem coloca sua mão no arado e olha para trás, é inadequado para o reino de Deus (Lucas 9:61). Resposta - Nessa passagem, Jesus disse que devemos deixar os espiritualmente mortos, cujos interesses estão somente nesta vida. Veja: "Disse também outro: Senhor, eu te seguirei, mas deixa-me despedir primeiro dos que estão em minha casa. Disse Jesus: Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é ato para o Reino de Deus" (Lc 9.61-62). Jesus aproveitou a oportunidade para dizer que segui-Lo é tarefa para quem deseja amá-Lo sobre todas as coisas, capaz de deixar família, nação e bens
  • 205.
    por Sua causa.Espiritualmente falando, vale dizer que todos nós devemos amar MENOS as coisas deste mundo. Os não crentes estão mortos em seus delitos e pecados (Ef 2.1,5). Jesus considerou que a família daquele homem estava espiritualmente morta; então usou essa expressão: deixe que os [espiritualmente] mortos sepultem seus mortos. As palavras para aquele seguidor naquele momento foram amargas, mas serviram como lição para o resto de sua vida. Esta verdade serve para os dias de hoje. Muitos missionários, colocando em risco a própria vida, largam família e bens e vão habitar em lugares hostis, por amor a Cristo. Em nada Jesus pode ser julgado por isso. Ele continuou sendo coerente em suas sábias palavras. 205 Jesus exigiu de seus seguidores que odiassem seu semelhante para serem melhores discípulos. Portanto ensinava: ''Aquele que se aproxima de mim sem odiar seu próprio pai e mãe, esposa e filhos, irmãos e irmãs e também a sua vida não pode ser dos meus discípulos'' (Lucas 14:26). Resposta - Quem nos ensinou a amar nossos inimigos e orar por eles, e a honrar pai e mãe, não nos ensinaria a odiar nossos familiares. Portanto, a passagem sob análise deve ser interpretada no seu contexto. Leia-se: "Se alguém vier a mim e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo" (Lc 14.26-ARC). Mais uma vez, guardando coerência com as palavras já expostas, devemos entender "aborrecer" ou "odiar", neste versículo, como "amar menos". Ou seja, nossa lealdade e amor a Ele devem ficar acima de todos e de tudo. Todavia, a explicação bastante clara de Lucas 14.26 está em Mateus 10.37-38: "Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim; quem ama o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz, e não vem após mim, não é digno de mim". O quanto Jesus estava longe de ser piedoso e isento de desejo de vingança pode ser avaliado pelo fato de que ele amaldiçoou até mesmo uma árvore que não produziu os frutos que ele esperava! Resposta - Jesus transmitiu suas verdades em diversas situações e de diversos modos. O contexto de Mateus 21.18-22 revela que a intenção de Jesus não era apenas de amaldiçoar uma árvore, mas o de ensinar que "se tiverdes fé e não duvidardes, não só fareis o que foi feito à figueira...". Afirmar que Jesus era vingativo e falto de piedade é desconhecer por completo o texto dos quatro evangelhos. Existe também uma contradição sem solução entre a beatitude de Jesus: "Bem-aventurado os que promovem a paz por que serão chamados filhos de Deus''' (Mt 5:9) e sua declaração: "Não penseis que vim trazer paz a terra. Não vim trazer paz, mas espada. Com efeito vim contrapor o homem ao seu pai, a filha a sua mãe e a nora a sua sogra. Em suma, os inimigos do homem serão os seus próprios familiares" (Mt 10:34- 37). Resposta - "Contradição sem solução" há para quem não sabe ou não quer aprender a interpretar corretamente as palavras de Jesus. O que Jesus disse é uma verdade. Vemos todos os dias cumprir-se essa palavra. Um jovem se converte e de imediato seus pais e seus irmãos ficam contra ele. Jesus promove a divisão entre as trevas e a luz porque: (a) o crente está separado do mundo e morto para o pecado (Lc 12.51-53; Rm 12.2); (b) A pregação da verdade enseja perseguição, divisão, zombaria e desprezo (Mt 5.10,11; 12.24; 14.4-12; 27.1; At 5.17; 7; 54-60; 14.22). É dessa forma que se deve
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    entender a aparentecontradição em Jesus ser o "Príncipe da Paz" (Is 9.6) e declarar que veio trazer divisão. 206 A Bíblia hebraica considera todos os homens como irmãos por parte do Pai do céu. Portanto os profetas eram mensageiros de Deus para toda a humanidade e não somente para seu próprio povo. Jesus por outro lado apresentou uma atitude definitivamente exclusivista ao enfatizar que fora enviado somente para "as ovelhas desgarradas do povo de Israel. Esse aspecto ainda é mais enfatizado na recusa de Jesus em curar a filha de uma cananita. A Bíblia hebraica é repleta de exemplos de gestos de bondade dirigidos a não judeus, para citar um exemplo: Naamã. A dura resposta de Jesus à cananita não foi menos contrária à tradição judaica do que aos padrões éticos aceitos. Pois quando a mulher implorou: tenha piedade de mim, Senhor! Minha filha está terrivelmente possuída pelo demônio!' Jesus não reconfortou e também instruiu seus discípulos: mande-a embora pois fica implorando', acrescentando: "Fui enviado somente para as ovelhas desgarradas da casa de Israel. Quando a mãe alterada continuou implorando, ele exclamou as cruéis palavras: ''Não é certo tirar o pão das crianças e jogar aos cães! Querendo dizer com isso que os não judeus são cães e conseqüentemente sem direito a misericórdia divina. Somente quando a pobre mulher se humilhou, a ponto de aceitar o papel de uma cadela, dizendo: até os cães comem as migalhas que caem da mesa de seu dono, é que Jesus considerou e prometeu ajudá-la porque você possui grande fé (Mt 15:22-28). Mas mesmo ao ajudá-la, ele o fez sem humanidade ou piedade mas como retribuição à grande fé da mulher em sua pessoa. Respostas - Exemplos maiores de "crueldade" e "desprezo" pela vida humana vemos nas Escrituras hebraicas, dadas por Deus Pai. (1) Para provar a fé de Abraão, ordenou que este sacrificasse seu único filho Isaque, fazendo-o percorrer um longo caminho; somente no último momento, suspendeu sua ordem (Gn 22.1-12); (2) Após ter demonstrado grande zelo pelo seu povo, que tirou da escravidão do Egito, desejou matar todos eles em pleno deserto, por causa da idolatria do bezerro de ouro.Tal intento não se consumou por causa da intercessão de Moisés (Êx 3.7-9; 32.4,6,10). Por causa desse incidente, Moisés, num ato de "crueldade" passou a fio de espada cerca de três mil homens (Êx 32.28); (3) Por ordem de Deus, a cidade de Jericó foi totalmente destruída pelo fogo, sob o comando do servo Josué: as casas, os animais, homens, mulheres e crianças foram consumidos (Js 6.2; 7.17, 24); (4) Ao tomarem a cidade de Ai, por ordem do Senhor, mataram doze mil entre homens e mulheres (Js 8.1,2,25,26,28,29); (5) Jó era homem "íntegro e reto, temia a Deus e se desviava do mal", mas isso não evitou que perdesse todos os seus filhos e bens, e ainda ficasse coberto de chagas, tudo por permissão do Altíssimo, e tudo conforme as Escrituras hebraicas. São muitos os casos em que Deus Pai, como Senhor dos vivos e dos mortos, usou de Sua soberana e infinita vontade para pôr em prática seu plano de redenção. Podemos censurar Deus? Como admitir, portanto, que o Cristo, "Senhor dos vivos e dos mortos", "Pai da Eternidade", "Deus Forte" (Is 9.6; Rm 14.9) não agiu corretamente ao provar a fé da referida mulher? O texto não fala que Jesus ordenou aos discípulos que expulsassem a mulher. Os discípulos é que pediram a Jesus que assim procedesse, mas não foram atendidos (Mt 15.23-24). Com isso, Jesus ensinou que devemos ser perseverantes na fé. Ao atender ao clamor da Cananéia, libertando sua filha dos demônios, Jesus mais uma vez afirmou que veio libertar os cativos. Apesar de Jesus ter apregoado que nenhum pingo no i ou traço no t deveriam ser retirados da lei, ele próprio desconsiderou e violou várias leis importantes. A
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    207 autorização aseus discípulos de apanharem as espigas de milho no sábado, pois estar faminto não se trata de emergência que justifique transgressão do sábado. Em várias ocasiões ele curou pessoas no sábado, que não estavam em situação emergencial, alegando que poderia fazê-lo, em oposição aos rabinos que sustentavam que o sábado pode e deve na verdade ser transgredido somente com vistas a salvar e preservar uma vida, mas não para tratar de pessoas com enfermidades crônicas cujo estado se prolonga por anos e que sem qualquer perigo de vida e saúde podem aguardar algumas horas até o término do sábado. Resposta - Ninguém melhor do que Jesus para dar a correta interpretação à lei que Ele mesmo formulou, na qualidade de Pessoa da Trindade. João Batista deu testemunho da divindade de Jesus, dizendo: "Aquele que vem do céu é sobre todos. Aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus..." (Jo 3.31,34). Jesus confirmou as palavras do seu precursor, afirmando que Seu ensino vinha daquele que O enviou, ou seja, de Deus (Jo 7.16,17). Nós, cristãos, cumprimos os princípios éticos e morais do Antigo Testamento (Mt 7.12; 22.36-40) e os ensinamentos de Cristo e dos apóstolos. Ouçam as palavras do nosso Salvador: "Ide e fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas QUE EU VOS TENHO MANDADO" (Mt 28.19-20). Do contrário, ainda estaríamos cumprindo o ritual da circuncisão (1 Co 7.19). Para nós, a fé em Cristo é o ponto de partida para o cumprimento da lei, pelo que nos tornamos filhos de Deus (Jo 1.12). Segue-se que não somos salvos pelo mérito de cumprirmos a lei, mas "pela graça mediante a fé" (Ef 2.8). Libertos do poder do pecado e selados com o Espírito Santo, estamos debaixo da "lei de Cristo" (Gl 6.2;1 Co 9.21). O apóstolo Paulo declarou de forma clara que não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça (Rm 6.14). Jesus colocou o sábado no seu devido lugar, ensinando que esse dia foi instituído para benefício do homem, a seu favor, e não contra o homem (Mc 2.27). Jesus não censurou os discípulos acusados de não cumprirem a lei do sábado, por haverem apanhado espigas para comer (Mt 12.1-7), e afirmou que é lícito fazer o bem nesse dia (Lc 6.9). Por último, Ele declarou que "o Filho do homem é Senhor do sábado" (Mt 12.8). A lei judaica aprova e recomenda o divórcio como meio de findar um matrimônio infeliz e insustentável. De fato a lei é notavelmente liberal pois aceita como justificativa para o divorcio a incompatibilidade, o que não é admitido por várias religiões progressistas. Jesus em clara oposição às leis talmúdicas e bíblicas proibiu o divórcio, exceto em caso de adultério por sua própria conta. Resposta - São válidos para este caso os mesmos argumentos apresentados na questão anterior. É bom entendermos que estamos sob a égide de uma nova aliança. Ao instituir a ceia do Senhor, Jesus disse que o Seu sacrifício na cruz representava o novo concerto, a Nova Aliança (Mt 26.28)."Dizendo nova aliança, Ele tornou antiquada a primeira. Ora, aquilo que se torna antiquada e envelhecida, perto está de desaparecer" (Hb 8.13). Jesus Cristo é o Mediador desse novo concerto ou novo testamento. "Se a aspersão do sangue de bodes e de touros, e das cinzas de uma novilha santifica os contaminados, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo imaculado a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo?" (Hb 9.13-14). Com esta compreensão e certeza, podemos entender melhor a explicação dada por Jesus, quanto ao divórcio: "Também foi dito: Aquele que deixar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos digo que qualquer que e repudiar sua mulher, a não ser por causa de infidelidade conjugal, faz que ela cometa adultério, e aquele que casar com a repudiada, comete adultério" (Mt 5.31-32). O que vale para nós, hoje, nós que estamos debaixo da lei de Cristo, é essa palavra. Na questão formulada, está o
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    reconhecimento de quea lei do divórcio era "notavelmente liberal". Por isso, a lei é aperfeiçoada na Nova Aliança. 208 Ainda mais grave foi a atitude negativa de Jesus quanto às leis dietéticas expressas em seus ensinamentos: "Ouvi e entendei! Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro!" (Mt 15:11). Isto era uma clara e inequívoca desaprovação da importância das leis dietéticas. Os discípulos de Jesus, indignados com esse ataque a uma das mais importantes observâncias judaicas, perguntaram a seu Mestre: "Você sabia que os fariseus se escandalizaram ao ouvir o que disseste?" Ao que ele respondeu: 'Qualquer planta que meu pai celeste não plantou será arrancada. Deixai-os. São cegos conduzindo cegos! Ora, se um ofuscado conduz outro, ambos acabarão caindo num buraco'. A pedido dos discípulos para explicar a parábola Jesus disse: "Não entendeis que tudo o que entra pela boca vai para o ventre e daí para a fossa? Mas o que sai da boca procede do coração e é isto que torna o homem impuro" (Mt 15:12-18). De maneira bastante natural Jesus declarou que "todos os alimentos são puros" (Mc 7.19). Claro que esse ataque frontal à totalidade das leis dietéticas constitui-se em estranho contraste à colocação de Jesus de que ele não havia vindo para abolir nada da lei ou dos profetas. Resposta - Os argumentos apresentados na questão anterior, quanto à autoridade de Jesus para alterar ou explicar a lei, são válidos para este caso. Continuam em vigor as palavras de Jesus, pois ainda temos cegos guiados por outros cegos. Os fariseus observavam com rigor os mínimos detalhes de sua tradição, até o "lavar as mãos quando comem pão" (Mt 15.2). Estavam convictos - e muitos ainda estão - de que a salvação deles dependia do cumprimento dessas obrigações. Jesus dá exemplo de que eles transgrediam os mandamentos, e revela: "E assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus... ensinando doutrinas que são preceitos dos homens" (Mt 15.6,9). Jesus aproveitou o momento para declarar que os propósitos do coração são mais importantes para Deus, do que o lavar as mãos antes das refeições ou praticar outros rudimentos, porque do coração procedem os maus pensamentos..." (Mt 15.19,20). Em outra oportunidade Jesus criticou duramente os fariseus: "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de intemperança. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos, e de toda imundícia. Exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e iniqüidades. Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?" (Mt 23.25-28). Para finalizar, ouçamos o apóstolo Paulo: "Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo. Se estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: não toques, não proves, não manuseies? {Estas coisas] não são de valor algum, senão para a satisfação da carne" (Cl 2.16,17,20,21,23). O Messias será Rei sobre toda a terra
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    Todas as profeciasmessiânicas tiveram cabal cumprimento na Pessoa de Jesus de Nazaré. As expectativas dos judeus apontavam para o surgimento de um rei político/militar, capaz de livrá-los do jugo romano. Jamais admitiam a hipótese de um rei sofredor, humilde, sem armas. Por certo não atentaram bem para o texto do "servo sofredor", conforme Isaías 53, Aquele que seria "traspassado por nossas transgressões e moído por nossas iniqüidades". Por isso, não sem razão Paulo afirmou que a cruz de Cristo era "escândalo para os judeus" (1 Co 1.23). Todas as profecias da Bíblia foram, serão ou estão sendo cumpridas. O exemplo mais recente é a reconstituição do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948, por resolução da Organização das Nações Unidas (ONU), após quase dois mil anos de dispersão por todo o mundo. Esse retorno à Terra Prometida foi predito há cerca de 2.500 anos. Vejam: "Eis que os trarei da terra do Norte e os congregarei das extremidades da terra; e, entre eles, também os cegos e aleijados, as mulheres grávidas e as de parto; em grande congregação, voltarão para aqui" (Jr 31.8). O profeta Ezequiel foi ainda mais preciso: "Tornar-vos-ei de entre as nações, e vos congregarei de todos os países, e vos trarei para a vossa terra" (Ez 36.24). Outra profecia cumprida é a de que o deserto de Israel seria lavrado, agricultável, e que todos, surpresos, iriam dizer que "esta terra desolada ficou como o jardim do Éden" (Ez 36.33-36). Sabe-se que Israel tem superado a grande escassez de água na agricultura, utilizando sistema de irrigação de alta tecnologia. 209 Israel deve atentar muito bem para a seguinte profecia, a ser cumprida: "E sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o Espírito de graça e de súplicas; olharão para mim, a quem traspassaram; pranteá-lo-ão como quem pranteia por um unigênito, e chorarão por ele, como se chora amargamente pelo primogênito" (Zc 12.10). Não é preciso muito esforço para concluir que esta profecia está falando de Jesus, o unigênito de Deus (Jo 1.14; 3.16; 1 Jo 4.9), o primogênito de Maria (Lc 2.7a), o traspassado na cruz (Jo 19.34,37). O povo que rejeitou o enviado de Deus chorará amargamente, e "o SENHOR será Rei sobre toda a terra" (Zc 14.9). SALMO 133: INTERPRETANDO O TEXTO NUMA PERSPECTIVA BÍBLICO-TEOLÓGICA Professor Diego Roberto No primeiro número de Fides Reformata apresentei um artigo sobre a necessidade da pregação do Antigo Testamento.1 Essa apresentação se deu como fruto da constatação de que se prega muito pouco o Antigo Testamento em nossas igrejas, e que, quando se prega, com raras exceções, usa-se o texto como um pretexto. No artigo defendi a necessidade de uma abordagem mais eficiente da teologia bíblica do Antigo e Novo Testamentos como uma só disciplina que não deve ser quebrada em diversas subdisciplinas autônomas. Esta teologia deve refletir o caráter da unidade bíblica. No presente artigo gostaria de expor de forma técnica, porém acessível, o texto do Salmo 133, bastante conhecido pelo povo evangélico na sua forma, porém, com um significado um pouco obscurecido por duas razões: a distância sócio-cultural que nos separa do Antigo Testamento e o desconhecimento do próprio Antigo Testamento com relação à teologia bíblica. Este artigo, portanto, se propõe a ser uma aplicação prática do primeiro artigo, um exercício hermenêutico em um texto
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    que, numa primeiraleitura, superficial, parece ser de simples interpretação, mas que, no entanto, trouxe dificuldades a intérpretes do passado. Ainda mais, este texto traz uma mensagem muito relevante para o povo de Deus no momento atual, quando interpretado dentro do contexto bíblico-teológico adequado. É parte da pressuposição deste autor que o texto do Salmo 133 (assim como toda a Escritura) faz parte da revelação progressiva de Deus na história. A interpretação e suas implicações contribuem com a teologia bíblica, e esta, por sua vez, é refletida no texto. Portanto, perguntamos ao interpretar o texto em que ele contribui para a teologia bíblica como um todo, e como ele reflete esta teologia. Ainda mais, é parte de nossa pressuposição que estas relações do texto com a teologia podem ser percebidas através da interpretação e aplicação do texto sem forçar ou distorcer o seu significado original. I. Erros Comuns na Interpretação do Salmo 133 Antes de expor o texto propriamente dito, exemplificaremos rapidamente alguns erros de interpretação do mesmo. Dois destes erros são os mais comuns: a pressa em aplicar o texto ao Novo Testamento, sem antes entende-lo à luz do seu próprio contexto e o medo de aplicar o texto temendo cometer um "abuso hermenêutico" como foi feito em abundância no passado. Seguem-se alguns exemplos destes erros e alguns outros. Agostinho, por exemplo, nas suas exposições do livro de Salmos, aplica o texto "quão bom e agradável é viverem unidos os irmãos" a certas circunstâncias neotestamentárias, como a união entre judeus e gentios e a união entre os apóstolos e a comunidade cristã descrita em Atos 2. No entanto, seu principal ponto na exposição do salmo é a defesa da vida monástica. Agostinho também interpreta detalhes do texto como "a barba" como sendo um sinal de maturidade e coragem. Quando muito, devemos considerar a interpretação de Agostinho uma aplicação alegórica.2 Jerônimo segue uma linha semelhante à de Agostinho, defendendo a vida monástica. Ele diz que a unidade proposta pelo salmo só pode ser alcançada na vida monástica, e que é impossível em qualquer outra circunstância. Comentando o verso 2 ele afirma: Habilmente dito: "sobre a cabeça". E "o qual desce para a barba." A barba é o sinal de hombridade porque por este sinal a natureza distingue o homem da mulher. A cabeça simboliza a divindade, ou seja, Deus Pai; a barba designa o homem. "Até" dizem as Escrituras "que cheguemos … à perfeita varonilidade," isto é, Cristo. Agora vejam o que o profeta quer dizer com: "É como o óleo precioso." Assim como as bênçãos do precioso óleo da cabeça – ou seja, do Hermon da divindade – desce sobre a barba, desce sobre o homem perfeito que é Cristo, daquela mesma barba o mesmo precioso bálsamo desce para a gola de suas vestes … Qual é o benefício para nós desta barba que foi ungida e deste perfeito homem? … Se nós somos a veste de Cristo, nós vestimos a sua nudez com nossa fé …3 Entre os intérpretes reformados nós encontramos Lutero, que embora não comente o Salmo 133, refere-se ao mesmo na sua interpretação do Salmo 42 verso 6. Dando uma explicação etimológica para o nome Jordão, Lutero afirma que "misticamente este denota o batismo na igreja e nas Santas Escrituras, no qual todos os cristãos são banhados." Mais impressionante é sua interpretação de Hermon: 210 O Hermon denota anátema, excomunhão, e a Cristo é dado este nome no Salmo 133.3: "como o orvalho do Hermon," porque Cristo foi feito pecado, maldição, excomunhão e anátema por nós.
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    Logo, todos oscristãos são Hermonin, que é o plural de Hermon, porque eles também são o refugo, obscuridade e anátema do mundo (1 Co 4.13), como diz o apóstolo (Gl 6.14).4 Calvino, muito mais centrado no método histórico-gramatical de interpretação, não está livre de alegorizações na sua interpretação. Ele diz: "Pela barba e gola das vestes nós somos levados a entender que a paz que vem de Cristo, como o cabeça, se espalha através de todo o comprimento e largura da Igreja."5 Alguns estudiosos, utilizando-se do método crítico-histórico, têm grandes dificuldades em entender o texto e propõem emendas ao mesmo, no sentido de "melhorá-lo" dentro da sua própria perspectiva. Como exemplo, Kraus no seu comentário de Salmos sugere a seguinte tradução: "o orvalho de Hermon que desce aos campos secos." Sua justificativa para tal emenda é que a tradução "sobre os montes de Sião" é topograficamente impossível e também absurda, "num fantasioso estilo poético."6 211 Vemos, portanto, que existem muitas interpretações diferentes do texto. Sem sombra de dúvidas, muitos intérpretes trouxeram grande luz sobre o texto no passado e, ao interpretarmos o salmo, faremos recurso a estas interpretações. II. Contexto Histórico O título, usualmente traduzido como "Cântico das Subidas," é relacionado a um grupo de cânticos usado por peregrinos nas procissões festivais.7 É nele que encontramos a indicação mais lógica do provável contexto histórico do nosso texto — dÛiwñfd:l twèolA(aM×ah ryÛi$ (Cânticos das Subidas – de Davi). O Texto Massorético traz este título para o grupo de Salmos 120 a 134. Alguns acreditam que o título pertencia primeiramente ao grupo como um todo e depois foi aplicado aos textos individuais. Interessantemente, os Salmos 122, 124, 131 e 133 são associados ao nome de Davi, enquanto que o 127 é associado ao nome de Salomão. É bom lembrar que a maioria dos comentaristas bíblicos (inclusive um grande número de intérpretes conservadores) põe em dúvida a autenticidade dos títulos no Texto Massorético. No entanto, para este texto específico existe bastante evidência de que ele vem de tradições muito antigas. Comentaristas usam dois argumentos principais contra a autoria davídica do texto. Primeiro, eles alegam que a LXX e o Codex Vaticanus omitem o título e isto é considerado evidência suficiente para negar a historicidade do mesmo. No entanto, existem outras fontes de evidência contra este ponto de vista. O título aparece no Codex Alexandrinus e em textos de Qumran. O texto 11QPs13 preserva o grupo twèolA(aM×ah ryÛi$, colocando os Salmos 133 e 134 em outra posição. Ainda assim, mesmo isolados do grupo, os dois textos trazem o título completo.8 Outro argumento contra a autoria davídica segundo Delitzsch, é de natureza filológica. Delitzsch afirma que o pronome relativo $ com o particípio (d"rïYe$) não era usado na era davídica, e passou a ser usado somente mais tarde.9 Na verdade, a construção pronome relativo + particípio aparece somente 7 vezes em todo o Antigo Testamento, sendo duas no Salmo 133, uma no Salmo 135, uma em Cantares e três em Eclesiastes. Ainda que estes outros escritos sejam evidentemente posteriores ao período davídico, a ausência da construção em outros escritos anteriores não é evidência suficiente para se desacreditar da autoria davídica.10
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    Temos, portanto, maisevidência textual para crer na autoria davídica do que para desacreditar dela. Ainda mais, existem possíveis Sitze im Leben que se encaixam perfeitamente na teologia do salmo. Algumas sugestões interessantes são apresentadas por estudiosos. Kirkpatrick faz a conexão do salmo com a tentativa de Neemias de repovoar Jerusalém após o exílio babilônio.11 Tal possibilidade é válida, ainda que não seja esta a origem do salmo. Delitzsch afirma que o salmo é atribuído a Davi porque "este exala inteiramente o espírito de Davi, e se pensa que este [o salmo] nasceu do amor de Davi por Jônatas".12 Como o título afirma, o salmo também era usado nas romarias do israelitas (Cântico das Subidas), provavelmente na festa dos tabernáculos (Lv 23.33-43), quando todo o povo deveria viver em tendas. O contexto mais provável, no entanto, é o da unificação das doze tribos de Israel debaixo do reinado de Davi em Jerusalém. As figuras no texto do salmo confirmam ascendentemente esta situação. Considerando pois este contexto, é que vamos interpretar o texto. III. Estrutura Textual O texto, ainda que seja uma pequena unidade literária, possui uma clara estrutura que precisa ser considerada na sua interpretação. Adele Berlin usa a expressão "corrente de palavras", que na minha opinião melhor caracteriza a unidade do texto.13 Ela descreve a corrente no Salmo 133 da seguinte forma: 212 v. 1 bO+ bom v. 2 bO+ah precioso v. 2 la( d"roy descendo sobre la( d"roYe$ que desce v. 3 la( d"roYe$ que desce O adjetivo bO+ (bom) no verso 1 é ligado à expressão bwío=ah }emÜe<aK (como o óleo precioso) no verso 2 que por sua vez funciona como sujeito da sentença la( d"roy (descendo sobre) no verso 2. A última expressão se repete nos versos 2 e 3. Veremos mais adiante como esta estrutura simples, porém significativa, nos dará orientações para interpretar o texto. IV. Interpretação É importante nesta seção separar de forma consciente a interpretação do texto no seu contexto original, da aplicação do mesmo no contexto da teologia bíblica. Estes são dois passos distintos, porém, inter-relacionados. A intenção de mantê-los distintos é com vistas a manter a integridade hermenêutica, sem nos apressarmos a conclusões que não estão claramente expressas no salmo. Uma vez entendido o texto dentro de seu contexto, podemos passar a aplicá-lo. O verso 1 declara o propósito temático do salmo. Sendo um hino de uso no culto público, este exalta o valor da unidade do povo de Deus no contexto do reinado teocrático de Davi. Alguns comentaristas entendem a expressão "viverem unidos os irmãos" como uma manifestação da cultura antiga onde várias famílias viviam debaixo do mesmo teto. Porém, tal idéia não se pode aplicar ao texto, principalmente considerando que este vem de Davi. Sabemos pela narrativa bíblica que a unidade
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    familiar não foio forte na vida deste rei. Portanto o termo "irmãos" ({yØixa)) do verso 1 só pode se referir ao povo de Israel como um todo, ou mais provavelmente, como veremos nas figuras de linguagem dos versos 2 e 3, à unidade das doze tribos de Israel. Confirmando este argumento aparece a expressão dax×fy tebÙe$ (viverem juntos) que, nas três outras instâncias em que aparece no Antigo Testamento, claramente refere-se à possessão de terras. Uma rápida referência aos textos de Gênesis 13.6; 36.7 e Deuteronômio 25.5 nos mostra isto. Os dois primeiros textos (Gn 13.6; 36.7) relatam as separações de Abraão e Ló e Jacó e Esaú, causadas pela impossibilidade de viverem numa única região. A terra não poderia sustentá-los juntamente. O texto em Deuteronômio 25.5 não menciona a "terra" de forma clara. No entanto, esta passagem sobre as obrigações maritais para com a viúva de um irmão, não se refere somente a irmãos que vivem debaixo de um mesmo teto, mas certamente a irmãos que vivem debaixo de uma mesma autoridade. Os versos seguintes deixam esta idéia clara quando mencionam "Israel", "anciãos", "suscitar a seu irmão nome em Israel", "cidade", etc. Todas estas expressões são evidência de que o texto se refere a irmãos que vivem debaixo de uma unidade nacional ou tribal. Por estas razões, a expressão dax×fy-{aG {yØixa) tebÙe$ (habitarem unidos os irmãos) nos dá uma direção natural para interpretar o texto: o verso se refere à unidade do território de Israel. O salmo é uma expressão da bênção da unidade no reino davídico, prefigurando a bênção do reinado de Cristo. A bênção da unidade é relatada na expressão "bom e agradável". 14 Portanto, o verso 1 é uma expressão da bênção alcançada na união das doze tribos sob o reinado de Davi, após o problemático reinado de Saul. As figuras nos versos 2 e 3 são as aplicações diretas desta expressão de louvor. A figura no verso 2 expressa a unidade das doze tribos debaixo do serviço sacerdotal providenciado por Deus para o povo de Israel. Freqüentemente encontra-se em comentários uma ênfase na interpretação dos elementos individuais do texto como o óleo, a barba e o adjetivo "bom", esquecendo-se da figura completa que o verso apresenta e que deveria ser algo imediatamente absorvido e entendido pelo auditório original do texto, o povo israelita: a bênção do sacerdócio para o povo. A expressão }eme<aK (como o óleo) logo no início do verso levou muitos intérpretes a crerem que a comparação introduzida pela preposição k (como) compara a unidade com o "óleo" ou a preciosidade do óleo. Porém, como vimos anteriormente, a estrutura do texto nos leva a verificar que a comparação vai além desse ponto. A comparação introduzida por k é uma comparação de toda a figura do verso: a unção do sumo sacerdote Aarão (Ex 30.22-33; Lv 8.12) sobre toda a casa de Israel e os resultados dessa unção. A associação direta da unidade, no verso 1, com o óleo, no verso 2, de certa forma até mesmo interfere na interpretação correta do texto no seu contexto original.15 Lendo a respeito da instituição do sacerdócio em Israel vemos que esta é a forma que Deus escolheu para abençoar o seu povo, para redimi-lo do seu pecado, para aceitá-lo na sua presença. Dentre as doze tribos Deus escolheu uma para exercer este ministério. Uma tribo abençoaria a si mesma e a todas as demais. Porém, o sacerdócio era prejudicado quando havia divisões entre as tribos, e efetivado na sua unidade. Sob o reinado de Davi o sacerdócio cumpria a plenitude de suas funções sobre o povo de Israel. Jerusalém foi estabelecida como capital política, e mais tarde, espiritual de toda a nação (2 Samuel 6). Esta situação singular estava certamente nos planos de Deus para abençoar 213
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    seu povo. Adescendência de Aarão foi usada por Deus naquela época típica do reinado do Messias para abençoar a Israel. Interessantemente, como sugere Kirkpatrick,16 o colar da veste do sumo sacerdote carregava duas pedras de ônix onde estavam inscritos os nomes das doze tribos (Ex 28.9-10). Na unção, não só o sacerdote era ungido, mas também aqueles que ele representava. O óleo descia da cabeça sobre a barba e sobre o colar das vestes, onde estavam representadas as doze tribos de Israel. Somente na unidade é que todo o Israel poderia receber o exercício do sacerdócio. A contínua expiação pelo pecado dependia da unidade do povo de Deus. O verso 3 traz uma nova e interessante figura. Como no verso 2, uma comparação é introduzida pela preposição k: "Como o orvalho do Hermon, que desce sobre os montes de Sião." A comparação não se concentra no "orvalho do Hermon," mas nos resultados do "orvalho do Hermon que desce sobre os montes de Sião". Assim como foi necessário conhecer um pouco do contexto sacerdotal para se entender a figura de linguagem no verso 2, é necessário um pouco de conhecimento de geografia para se entender a figura do verso 3. O monte Hermon ficava no extremo norte de Israel e era bem conhecido pelos efeitos que seu orvalho produzia (e produz até hoje). Porque o monte Hermon é muito alto e seu cume coberto de neve, o seu pesado orvalho "rega" toda a região em volta fazendo da mesma uma área muito fértil e produtiva. O contraste entre Hermon e Sião é extremo: enquanto o primeiro representa vida por sua situação geográfica, Sião é a fronteira do deserto, que é símbolo de morte, de sequidão. A partir de Sião na direção sul só se encontra terra seca, sem vida. Enquanto a região do Hermon é rica em águas, a região do Negueve (ao sul de Sião) depende de cursos temporários de água que vêm das montanhas após as chuvas mais ao norte. No mais, encontra-se o Mar Morto, que, por seu alto grau de salinidade, não suporta nenhum tipo de vida. 214 Toda sorte de interpretação já foi dada a esta figura. Comparam-se, por exemplo, as figuras geográficas do verso 3 com o corpo humano no verso 2 (cabeça/barba/colar com Hermon/Sião, o óleo com o orvalho, etc.).17 Creio, porém, que Davi se utiliza do recurso poético que analisamos anteriormente para demonstrar o significado pleno de ambas as figuras de linguagem. O verbo dry (descer) parte da corrente de palavras na estrutura do texto, é fundamental para as figuras. Primeiro, o verbo, que aparece três vezes no texto, está no particípio, expressando uma idéia de continuidade, a continuidade da bênção no sacerdócio sobre Israel. Segundo, o verbo dry (descer) é que faz a ligação das figuras entre os versos 2 e 3. Como já vimos, Hermon e Sião são dois extremos, dois polos geográficos que representam a unidade norte/sul de Israel. Porém existe ainda uma figura mais marcante por traz do verbo dry. Hermon e Sião, sendo tão distantes fisicamente (nas proporções da geografia do antigo Oriente Próximo), possuem um elo comum, o rio Jordão. Este corre desde o norte até o sul de Israel morrendo no Mar Morto. O nome Jordão (}¢D:ráy) provavelmente deriva-se do verbo dry sendo então "o que desce".18 Uma das fontes do rio Jordão é exatamente um ribeiro chamado Banias, que nasce na base do monte Hermon. De certa forma, a riqueza de vida do Hermon se faz presente em toda a extensão de Israel até as proximidades de Sião. Aquele "que desce" (como o óleo descendo … que desce … que desce) traz bênção sobre todo Israel.
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    A segunda partedo verso 3 é introduzida pela partícula yiK (porque), seguida de um advérbio de lugar referindo-se a Sião ("porque lá Iahweh ordena a bênção"). Ainda que o norte abençoe todo o Israel, é no sul que Iahweh ordena a bênção. Em Sião é que estão as bênçãos espirituais para todo Israel. Em Sião Iahweh estabeleceu o seu rei e o seu sacerdote, dois ofícios de bênção para todo o povo, na unidade. Ambos servem como verdadeiros mediadores, escolhidos de Iahweh. Qual é a bênção prometida? "Vida para sempre." 215 Berlin conclui sua interpretação da seguinte forma: O país inteiro é retratado com um rosto sacerdotal: do Hermon a Sião, da cabeça ao corpo. E para voltar à equação dos versos 2 e 3, a terra é ungida com o orvalho assim como Aarão é ungido com o óleo da consagração. O país não é somente unido, é também abençoado. O ponto focal da santidade e bênção é Sião, porque lá o Senhor ordenou a sua bênção para sempre.19 V. Aplicação Com raros pontos de exceção, até agora nos concentramos em interpretar o texto no contexto original. Depois de feita esta interpretação cabe-nos perguntar quais são as implicações teológicas do Salmo 133 no contexto da revelação bíblica. Primeiramente, o texto se relaciona com o contexto do reinado davídico e dentro deste contexto manifesta aspectos das bênçãos redentivas que Deus ordena para seu povo. Davi tinha consciência da importância da unidade nacional das tribos de Israel. O povo não poderia ser abençoado na divisão por dois motivos simples: sem um rei não haveria vitória e paz, e sem um sacerdote que ministrasse a todo o povo eles não teriam condições de se aproximar de Deus. O papel do reino é de fundamental importância: "O reino davídico serve dentro da esfera do próprio reinado de Deus."20 Tanto o rei quanto o reino e o sacerdócio são tipos de um reinado futuro. O texto manifesta o reconhecimento da necessidade de um reino e sacerdócio mediatorial. Sem estes não há bênção. Este conceito estende-se para o povo de Deus na era do Novo Testamento: "Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus…" (1 Pe 2.9). Vimos no texto que a bênção era condicionada à unidade, e prejudicada sem ela. A mesma relação permanece para o povo de Deus hoje? Creio que sim, guardadas as devidas proporções. O povo de Deus é uma nação santa e exerce um sacerdócio que é abençoado na unidade. Esta unidade se expressa à medida que o povo de Deus, sua Igreja, como agente do seu reino, se submete à autoridade do Rei, sua lei e seu ensino, sem se desviar, sem comprometer sua verdade. Nesta unidade, Iahweh ordena a sua bênção. Creio que esta é a aplicação fundamental do texto para nossos dias. A pergunta que permanece é se ainda outros elementos do texto podem ou devem ser aplicados no contexto neotestamentário, como por exemplo, o óleo ser comparado com o Espírito Santo. Seria legítima esta aplicação do Salmo 133? Ainda que este seja o primeiro impulso do intérprete com um conhecimento geral das Escrituras, tal aplicação sem uma formulação adequada pode levar a erros de interpretação tais quais os mencionados no início deste artigo. Sabemos que a unidade do povo de Deus se dá debaixo da obra e poder do Espírito Santo, e da mesma forma como o povo de Israel era abençoado na unidade nacional, o povo de Deus é abençoado na unidade espiritual, quando com unanimidade, em um só Espírito, uma só fé, nos aproximamos do único Senhor.
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    Fala-se muito naigreja contemporânea a respeito de unidade, e não há como negar diante da interpretação deste salmo que a bênção de Deus vem sobre seu povo unido. Entretanto, é importante reconhecermos que, assim como a unidade de Israel se dava, em vários níveis (social, cultural e espiritual) debaixo de princípios claros da Escritura, a igreja do Senhor deve buscar esta unidade sob princípios semelhantes, que reflitam a verdade da Escritura e seus princípios básicos de autoridade. 216 Notas 1 Mauro Meister, "Pregação no Antigo Testamento: É Mesmo Necessária?", em Fides Reformata 1/1(1996) 1-5. 2 Agostinho, Expositions on the Book of Psalms, em Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, volume VII (Grand Rapids: Eerdmans, 1983) 622-624. 3 The Homilies of Saint Jerome, em The Fathers of the Church, A New Translation by Sister Marie Ewald (Washington, D.C.:The Catholic University of America Press, 1963) 334-336. 4 Martin Luther, First Psalm Lectures, em Luther’s Works, ed por Hilton C. Oswald (Saint Louis: Concordia, 1986) 195. 5 John Calvin, Commentary in the Book of Psalms, trad. por James Anderson (Grand Rapids: Baker, 1981) 165. 6 Hans-Joachim Kraus, Psalms 60-150, A Commentary, trad. por Hilton C. Oswald (Minneapolis: Ausburg/Fortress, 1989) 484. 7 Esta posição é comum e defendida por Calvino, Leupold, Delitzsch, Allen e Kirkpatrick. 8 Gerald Henry Wilson, The Editing of the Hebrew Psalter, SBL Dissertation Series 76 (Chico, CA: Scholars Press, 1985) 130. 9 Franz Delitzsch, Biblical Commentary on the Psalms, trad. por Francis Bolton (Edinburgh: T. & T. Clark, 1871). 10 E. Y. Kutscher, em A History of the Hebrew Language (Jerusalem: Magnes Press, 1982) afirma que o uso da partícula é encontrado primeiramente no hebraico israelita do norte, depois no hebraico bíblico mais tardio, substituindo r#), e finalmente no hebraico da Mishnah. No entanto não podemos tirar uma conclusão desta afirmativa, porque os pressupostos de Kutscher são opostos aos nossos. 11 A. F. Kirkpatrick, The Book of Psalms (Cambridge: University Press, 1903) 770. 12 Delitzsch, Biblical Commentary on the Psalms, 317. 13 Adele Berlin, "On the Interpretation of Psalm 133", em Directions in Biblical Hebrew Poetry, ed. por E. Follis, JSOT, 40 (Sheffield Academic Press, 1987) 141-147. Berlin reconhece que o "fenômeno de repetição de um item léxico é um conhecido artifício de coesão," (p. 146).
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    14 Berlin em"On the Interpretation of Psalm 133," considera este Salmo uma expresão escatológica. Ela diz: "O Salmo expressa a esperança da unificação do norte e do sul, com Jerusalém sendo a capital de um reino unido" (p. 145). Dois fatores levam Berlin a esta conclusão: seus pressupostos judaicos e a data avançada que ela crê que o Salmo foi composto. 15 Na aplicação veremos que a figura do óleo é importantíssima, principalmente à luz do Novo Testamento. No entanto, para exercitarmos uma hermenêutica sadia, precisamos primeiro entender o texto no seu próprio contexto. 217 16 Kirkpatrick, The Book of Psalms, 771. 17 Ver as conclusões de Berlin em "On the Interpretation of Psalm 133," 145. 18 Ver Laird Harris, Gleason Archer e Bruce Waltke: }dry em Theological WordBook of the Old Testament (Chicago: Moody Press, 1980) 401-402. 19 Berlin, "On the Interpretation of Psalm 133," 145. 20 John H. Eaton, Kingship and the Psalms (London: SCM Press, 1976) 135. TIPOLOGIA: CONSIDERAÇÕES GERAIS Professor Antony Steff Gilson de Oliveira A palavra "tipologia" é de origem grega. Deriva-se do substantivo typos, termo usado no mundo antigo para indicar a) a marca de um golpe; b) uma impressão, a marca feita por um cunho - daí o sentido de figura, imagem e c) modelo ou padrão, que é o sentido mais comum na Bíblia. Na Bíblia o modelo é usado em dois sentidos distintos: (1) a correspondência entre duas situações históricas, tais como Adão e Cristo (cf. Rm 5.12-21); (2) a correspondência entre o padrão celestial e seu equivalente terrestre. Exemplo: o original divino por trás do tabernáculo terrestre (At 7.44; Hb 8.5; 9.24). Há várias categorias - pessoas (Adão, Melquisedeque), eventos (o dilúvio, a serpente de bronze), instituições (festas), lugares (Jerusalém, Sião), objetos (altar de holocaustos, incenso), ofícios (profeta, sacerdote, rei). "A tipologia bíblica, portanto, envolve uma correspondência análoga em que eventos, pessoas e lugares anteriores na história da salvação tornam-se padrões por meio dos quais eventos posteriores, pessoas, etc. são interpretados" (G. R. Osborne). Além dos conceitos mencionados acima, também existe o uso paralelo de figuras de linguagem, juntamente com os tipos, para indicar um exemplo moral a ser seguido. Todos os crentes, como tais, devem considerar-se modelos ou padrões da vida que se assemelha à de Cristo. É relevante fazer uma distinção entre tipo e símbolo. Embora ambos indiquem alguma coisa, diferem em pontos importantes. Símbolo é um sinal. Tipo é um modelo ou imagem de alguma coisa. O símbolo refere-se a alguma coisa do passado, presente ou futuro.
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    218 O tiposempre prefigura uma realidade futura. Podemos resumir esses quatro pontos dizendo que "O símbolo é um fato que ensina uma verdade moral. O tipo é um fato que ensina uma verdade moral e prediz a realidade daquela verdade" (Davidson). É preciso dizer ainda que os tipos do Antigo Testamento eram ao mesmo tempo símbolos (no sentido que comunicavam verdades espirituais aos seus contemporâneos), pois sua significação simbólica podia ser entendida antes de sua significação tipológica ser determinada. TOLERÂNCIA ZERO Professor Antony Steff Gilson de Oliveira Há uma linha divisória entre a longanimidade de Deus e a sua justiça; entre a sua paciência e a sua ação ajuizadora; entre o seu esperar e o seu agir. Pelos exemplos da Bíblia sabemos que a tolerância de Deus é igual a zero para quem ultrapassa a linha vermelha. Vemos isso no anúncio do dilúvio a Noé: "O fim de toda carne é vindo perante a minha face, porque a terra está cheia de violência. E eis que os desfarei com a terra" (Gn 6.13). Quando a balança de Deus indicou um peso intolerável e irreversível de iniqüidades, entrou em ação a justiça divina. "Pesado foste na balança e foste achado em falta". Com estas palavras Deus selou o destino de Belsazar, o rei que profanou os utensílios da Casa de Deus (Dn 5.1-4, 27). Registramos também os pecados do rei Azarias, também chamado Uzias, que, como castigo, ficou leproso até a morte (2 Cr 26.16-21; cf; 2 Rs 15.1). A primeira reação de Deus, na Terra, ante a desobediência, ocorreu no jardim do Éden. O castigo imposto ao primeiro casal afetou toda a raça humana e teve efeito sobre a natureza. A morte fez parte desse pacote de medidas com vistas a nos fazer lembrar sempre das terríveis conseqüências do pecado: "Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram" (Rm 5.12; cf. Gn 3.16-19). No céu, o castigo não foi menos severo, pois "Deus não poupou os anjos que pecaram, havendo-os lançado no inferno, entregues às cadeias de escuridão, e reservados para o Juízo" (2 Pe 2.4). A intolerância de Deus se manifestou outra vez ao decidir pela destruição de Sodoma e Gomorra: "Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e porquanto o seu pecado se tem agravado muito..." (Gn 18.20). A intolerância divina diante da desobediência se revelou também no deserto, em Cades, quando seu povo desconfiou do poder de Deus e julgou impossível vencer os "gigantes" que habitavam na terra prometida. A sentença veio sem meias palavras: "Até quando sofrerei esta má congregação, que murmura contra mim? Neste deserto cairão vossos cadáveres, como também todos os que de vós foram contados no recenseamento, de vinte e oito anos para cima, e que murmuravam contra mim... salvo Calebe, filho de Jefoné, e Josué, filho de Num" (Nm 14.29-30). A Palavra foi fielmente cumprida. "Seus filhos e suas filhas serão dados a outro povo... o Senhor te levará a ti e a teu rei a uma gente que não conheceste...(Dt 28.32,36; v. Isaías 6.11,12). "Eis que virão dias em que tudo quanto houver em tua casa...será levado para a Babilônia; não ficará coisa alguma, disse o Senhor" (Is 39.6). "E toda esta terra virá a ser um deserto e um espanto, e estas nações servirão ao rei da Babilônia setenta anos" (Jr 25.11). Essas profecias foram cabalmente cumpridas. Por sua idolatria e corrupção moral, o povo de
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    Deus foi levadocativo pelos assírios (722 a.C., 2 Rs 17.6); pelos babilônios (586 a.C., 2 Rs 25.21), pelos gregos, para Alexandria, no Egito, séc. III a.C., pelos romanos (70 d.C., Lucas 21.20-24). O exílio na Babilônia está bem expresso no livro de Daniel: "No ano terceiro do reinado de Jeoaquim, rei de Judá, veio Nabucodonosor, rei da Babilônia, a Jerusalém e a sitiou" (Dn 1.1). A ruína moral da nação de Judá chegou no ponto em que não havia mais possibilidade de recuperação. A nação ultrapassou a linha vermelha a partir da qual ficou sujeita ao julgamento divino. O cativeiro dos judeus é um exemplo de que Deus não tolera por tempo indefinido o estado pecaminoso do seu povo. Séculos antes, pela boca dos profetas, Deus os advertiu para a catástrofe iminente. Na descrição das dores por que passaria Jerusalém, Jeremias diz o seguinte: "Fá-los-ei comer as carnes de seus filhos e as carnes de suas filhas, e cada um comerá a carne do seu próximo, no cerco e na angústia em que os apertarão os inimigos e os que buscam tirar-lhes a vida" (Jr 19.9). Também Ezequiel: "Esta é Jerusalém... [que] se rebelou contra meus juízos...e não andou nos meus preceitos...executarei juízos no meio de ti...os pais comerão a seus filhos, os filhos comerão a seus pais, e espalharei todo o remanescente a todos os ventos" (Ez 5.5-10). As profecias davam conta de que haveria atos de canibalismo em Jerusalém, tamanha seria a falta de alimentos. A fome seria de tal ordem que o povo comeria a sola dos sapatos, e as mulheres devorariam seus próprios filhos. Naquele tempo, ninguém deu muito crédito a essas advertências. O povo continuou deitando e rolando em seus "carnavais", orgias e idolatrias. Deus cumpre a sua palavra. O profeta Jeremias foi o único escritor conhecido do Antigo Testamento que testemunho em primeira mão a tragédia que se abateu sobre Jerusalém, 586 a.C. Ele escreveu: "Mais felizes foram as vítimas da espada do que as vítimas da fome; porque estas se definham atingidas mortalmente pela falta do produto dos campos. As mãos das mulheres outrora compassivas cozeram seus próprios filhos; estes lhes serviram de alimento na destruição da filha do meu povo. Deu o Senhor cumprimento à sua indignação, derramou o ardor da sua ira. Não creram os reis da terra, nem todos os moradores do mundo, que entrasse o adversário e o inimigo pelas portas de Jerusalém" (Lm 4.9-12). Passados cerca de 500 anos das lágrimas de Jeremias sobre Jerusalém, e do cativeiro babilônico, Jesus também chorou sobre a cidade. Um choro que foi mais lamento, pranto, soluço e clamor de quem soube com bastante antecedência o que iria acontecer. Jesus profetizou: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Porque dias virão sobre ti, em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todas as bandas, e te derribarão, at i e a teus filhos que dentro de ti estiverem, e não deixarão em ti pedra sobre pedra..." (Lc 13.34; 19.41-44). Esta predição foi cumprida quarenta anos mais tarde, quando Jerusalém foi destruída pelo exército romano e centenas de milhares de judeus foram mortos. Flávio Josefo (Josef ben Mattatias), escritor e historiador judeu, que viveu entre 37-100 d.C., contou com riqueza de detalhes o que presenciou. Como prova da predição de Jesus, de não ficar pedra sobre pedra, vejam o que ele escreveu: "Depois que o exército romano, que jamais se cansaria de matar e de saquear, nada mais achou em que saciar o seu furor, Tito ordenou que a destruíssem, até os alicerces, com exceção de um pedaço do muro, que está do lado do Ocidente... Esta ordem foi tão exatamente cumprida que não ficou sinal algum, que mostrasse haver ali existido um centro tão populoso" (História dos Hebreus, obra completa, Flávio Josefo, LIvro Sétimo, CPAD - 5a. Edição/2001, pg 688). 219
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    220 Quanto àextrema falta de alimentos na Jerusalém, sitiada por 134 dias, Flávio relata: "Enquanto tudo isso se passava, em redor do templo, a fome e a carestia faziam tal devastação na cidade que o número dos que ela destruía era impossível de se conhecer... Comiam até mesmo a sola dos sapatos, o couro dos escudos". Josefo conta também uma história espantosa, terrível e repugnante, que diz respeito ao cumprimento de Jeremias 19.9 e Ezequiel 5.10: "Uma mulher chamada Maria, filha de Eleazar, muito rica, tinha vindo com algumas outras, à aldeia de Batechor, isto é, casa de hissope, refugiar-se em Jerusalém, e lá se viu cercada. Aqueles tiranos, cuja crueldade martirizava os habitantes, não se contentaram em lhe arrebatar tudo o que ela tinha levado de mais precioso, tomaram-lhe ainda por diversas vezes o que ela havia escondido para seu alimento. A dor de se ver tratada daquela maneira lançou-a em tal desespero, que, depois de ter feito mil imprecações contra eles, usou de palavras ofensivas, procurando irritá-los, a fim de que a matassem; mas nem um só daqueles tigres, por vingança de tantas injúrias ou por compaixão, lhe quis usar dessa graça... A fome que a devorava, e ainda mais, o fogo que a cólera tinha acendido no seu coração, inspiraram-lhe uma resolução que causa horror à mesma natureza. Ela arrancou o filho do próprio seio e disse-lhe: ´Criança infeliz, da qual nunca se poderá chorar assaz a desgraça de ter nascido durante esta guerra... Para que te haveria de conservar a vida? Para ser talvez escrava dos romanos? Depois de ter assim falado ela matou o filho, cozeu-o, comeu uma parte e escondeu a outra. Aqueles ímpios, que só viviam de rapina, entraram em seguida naquela casa; tendo sentido o cheiro daquela iguaria inominável, ameaçaram matá-la, se ela não lhes mostrasse o que tinha preparado para comer. Ela respondeu que ainda restava um pedaço da iguaria e mostrou-lhes restos do corpo do próprio filho. Ainda que tivessem um coração de bronze, tal espetáculo causou-lhes tanto horror, que eles pareciam fora de si. Ela, porém, na exaltação que lhe causava furor, disse-lhes com rosto convulsionado: ´Sim, é meu próprio filho, que vedes e fui eu mesma que o matei. Podeis comê-lo, também, pois eu já comi. Sois talvez menos corajosos que uma mulher e tendes mais compaixão do que uma mãe? Se vossa piedade não vos permite aceitar essa vítima, que eu vos ofereço, eu mesma acabarei de comê-lo. Aqueles homens que até, então, não haviam sabido o que era compaixão, retiraram-se trêmulos..." (Ibidem pg 675/6). Em determinado momento da caminhada pelo deserto, o povo sentiu falta dos deuses do Egito e construiu um bezerro de ouro. Então, Deus falou a Moisés: "Tenho visto a este povo, e eis que é povo obstinado. Agora, pois, deixa-me, que o meu furor se acenda contra eles, e os consuma" (Êx 32.1- 10). Embora Deus, em razão da intercessão de Moisés, tenha sustado a execução deste juízo, ficou patente a sua intolerância diante da desobediência. Vimos exemplos de castigos coletivos, alcançando populações inteiras. Mas são conhecidos os casos individuais em que homens e mulheres de corações endurecidos e desobedientes receberam a justa reprovação divina. Eles ultrapassaram a linha vermelha da tolerância zero de Deus. O rei Nabucodonosor, exaltando a si mesmo, disse: "Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a casa real, com a força do meu poder, e para glória da minha majestade? Ainda estava a palavra na boca do rei, quando desceu uma voz do céu: A ti se diz, ó rei Nabucodonosor, passou de ti o reino. Serás tirado dentre os homens, e a tua morada será com os animais do campo; far-te-ão comer erva como os bois, e passar-se-ão sete tempos sobre ti, até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o reino
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    dos homens, eo dá a quem quer. Na mesma hora se cumpriu a palavra sobre Nabucodonosor", e ele passou a viver como os animais. Passado o tempo de castigo, ele, finalmente, resolveu louvar, exaltar e glorificar "o Rei do céu, porque todas as suas obras são verdade, e os seus caminhos justos, e pode humilhar aos que andam na soberba" (Dn 4.30-37). Em nossos dias, muitas pessoas só glorificam a Deus depois de uma tormenta. Às vezes precisam comer o pão que o diabo amassou, sentir o peso do castigo divino, descer à olaria de Deus para aprenderem a se humilhar diante do Criador. A história do rei Davi, o ungido de Deus, registra um pecado terrível: cometeu adultério com uma mulher casada e depois armou uma cilada para tirar a vida do marido traído. Embora Davi tenha posteriormente demonstrado sincero arrependimento (v. Salmo 51), Deus não deixou por menos: "Por que desprezaste a palavra do Senhor, fazendo o mal diante de seus olhos? A Urias, o heteu, mataste à espada, e a sua mulher tomaste por sua mulher. Agora, portanto, a espada jamais se apartará da tua casa..." (2 Sm 11 - 12). A "espada" de Deus veio em forma de violência, conflito e homicídio. Morreu a criança nascida desse ato ilícito (12.14), houve homicídio entre seus filhos (13.28-29), Absalão rebelou-se contra o pai e foi executado (18.9-17), e outro filho, Adonias, foi também assassinado por ordem de Salomão (1 Rs 2.24-25). O pecado de Davi nos leva a refletir sobre a promiscuidade sexual dos dias atuais. Quantos adultérios são praticados por dia só no Brasil? Quantas famílias vivem em intermináveis angústias, traumas, ódio, desespero, demandas judiciais só porque os cônjuges não souberam manter o leito conjugal sem mácula? Quantos filhos sofrendo por não mais receberem o carinho e a proteção de seus pais, porque o marido traidor partiu para mais uma aventura? O ciumento, invejoso e rebelde rei Saul pagou um preço alto por sua desobediência. "Rebelião é como pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniqüidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do Senhor, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei". O Espírito de Deus se retirou de Saul, "e o assombrava um espírito mau, da parte do Senhor" (1 Sm 15.23; 16.14). A Bíblia registra o arrependimento de Saul (15.24,31). Todavia, num gesto de desespero, porque Deus não falava mais com ele, consultou uma feiticeira. A sua situação piorou. "Assim, morreu Saul por causa da sua transgressão com que transgrediu contra o Senhor, por causa da palavra do Senhor, a qual não havia guardado; e também porque buscou a adivinhadora para a consultar, e não buscou o Senhor, pelo que o matou e transferiu o reino a Davi, filho de Jessé" (1 Cr 10.13-14). Mais reflexão se faz necessária. Um número muito grande de pessoas, dentre as quais muitas que se dizem cristãs, consulta os adivinhadores, sejam cartomantes, manipuladores de búzios ou canalizadores. Vimos que tal prática é considerada por Deus como rebeldia. Vejam: 221 "Não haja no teu meio quem faça passar pelo fogo o filho ou a filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro, nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos. O Senhor abomina todo aquele que faz essas coisas" (Dt 18.10-12). "Fez seus filhos passarem pelo fogo no vale do filho de Hinon, praticou feitiçaria, adivinhações e bruxaria, e consultou médiuns e adivinhos, fez muito mal aos olhos do Senhor, provocando-o à ira" (2 Cr 33.6-7; v. 2 Rs 21.1-18). O último versículo, acima, se refere a Manassés, décimo - quinto rei de Judá, onde reinou por cinqüenta e cinco anos. Por estes pecados, e por haver colocado "uma imagem escultura, o ídolo que
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    tinha feito, naCasa de Deus" e "levantou altares a todo o exército dos céus" foi levado cativo para Babilônia. Manassés faz parte do rol dos que precisam primeiro passar pelo vale da tormenta para aprenderem a humilhar-se e a glorificar a Deus. A Bíblia diz em Gálatas 5.20-22 que não herdarão o Reino de Deus quem pratica a prostituição, a idolatria e a feitiçaria (v. Ap 21.8; 22.15). "Quando vos disserem: consultai os que têm espíritos familiares e os adivinhos, que chilreiam e murmuram entre dentes, não recorrerá um povo a seu Deus? A favor dos vivos interrogar-se-ão os mortos?" (Is 8.19; v. 1 Sm 28.8 cf. 1 Cr 10.13). 222 "Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o Reino de Deus" (1 Co 6.10; v. Ef 5.5; 1 Tm 1.9-10). Está bem clara a advertência e será fielmente cumprida como cumpridas foram as anteriores, porque sem santificação ninguém verá o Senhor. Não podemos viver segundo a nossa vontade. Precisamos saber qual a vontade de Deus para nosso viver. Será terrível o fim para os que desejam que a Palavra de Deus se ajuste à sua situação pecaminosa. Nós é que devemos nos ajustar ao padrão da Palavra. Sei que tais advertências estão ficando cada vez mais raras em nossos púlpitos. Parece haver um conformismo diante da situação degradante do mundo, com o aumento do ocultismo, da feitiçaria, do culto a Satanás. O tempo reservado à Palavra tende a diminuir. Vale lembrar as palavras do apóstolo Paulo: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Rm 12.2). A verdade é que o mau não ficará sem castigo (Pv 11.21). "Eu repreendo e castigo a todos quanto amo" (Ap 3.19). Um dos ladrões crucificados no Gólgota, ao lado de Jesus, reconheceu a dura realidade da justiça divina: "Com justiça - disse ele - recebemos o castigo por nossa rebeldia" (Lc 23.41). Consideremos, pois, "a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para contigo, a benignidade de Deus, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira, também tu serás cortado" (Rm 11.22). Por último, fiquemos com a advertência abaixo: "A carne deseja o que é contrário ao Espírito, e o Espírito o que é contrário à carne... As obras da carne são conhecidas: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, pelejas, dissensões, facções, invejas, bebedices, orgias e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos preveni, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus" (Gl 5.17-21). "Lembra-te de onde caíste. Arrepende-te, e pratica as primeiras obras. Se não te arrependeres, brevemente virei a ti, e removerei do seu lugar o teu candeeiro, se não te arrependeres" (Ap 2.5). (18.08.2003) Reverendo professor Antony Steff Gilson de Oliveira APOSTILA - 04 ESTUDOS SOBRE – A CONQUISTA DE CANAÃ TOTAL 1 – 7 PAGINAS
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    223 A CONQUISTADE CANAÃ Professor Antony Steff Gilson de Oliveira Enquanto caminhavam pelo deserto, os hebreus contavam a seus filhos uma velha história. Há quatrocentos anos - diziam eles - um homem chamado Abrão desceu lá do norte, da cidade de Ur, na Caldéia, e com toda a sua família dirigiu-se para o sul da Palestina. Era uma ordem de Deus. Ele receberia por herança uma terra, teria uma descendência tão grande como as estrelas do céu, e através dele todas as famílias da terra seriam abençoadas. Era uma estranha promessa, afinal Abrão não tinha filhos e seu clã era nômade. Mas ele acreditou na promessa de Deus. Anos mais tarde, Deus trocou seu nome para Abraão, que quer dizer "pai de uma multidão de nações", fez um pacto especial com ele e lhe deu um filho, que foi chamado Isaque. Como líder, Moisés tinha certeza que o acordo feito com Abraão estava sendo cumprido. Deus dissera que a terra prometida era Canaã, e que seus limites iriam do Egito até o rio Eufrates. Explicou também que Canaã estava ocupada por dez povos guerreiros, sanguinários e idólatras: queneus, queneseus, cadmoneus, heteus, periseus, refains, amorreus, cananeus, girgaseus e jebuseus. Mas eles seriam arados da terra, como mato bravo arrancado para permitir a semeadura. Um novo líder Durante os anos de caminhada pelo deserto, Moisés foi formando uma liderança que julgou capaz de dirigir a conquista da Palestina. Entre seus homens de confiança havia um jovem chamado Josué. Tinha sido seu assistente pessoal, e quando grupos de assaltantes amalequitas começaram a ameaçar a segurança dos hebreus, Josué liderou um grupo de combatentes. Era disciplinado, ousado e muito corajoso. Em hebraico Josué quer dizer "Iaveh é a salvação". Era da tribo de Efraim, filho de Num, e esteve com Moisés durante toda a peregrinação no deserto. Quando Moisés subiu ao monte Sinai, para receber de Deus os Dez Mandamentos, Josué subiu com ele. Foi quem avisou a Moisés que lá embaixo estava uma barulheira incrível, como um alarido de guerra. Mas o que ele ouvia era o povo dançando e cantando em adoração deus Ápis, o deus touro do egípcios. Como dirigente militar recebeu de Moisés uma missão especial: fazer parte de um grupo de espiões que deveriam se infiltrar em Canaã. As ordens eram precisas: observar a terra, o que produzia, se os campos eram férteis, como era o povo, se era organizado, numeroso, e se haviam fortalezas. Deviam também trazer frutos da terra. Os espiões chegaram até as proximidades de Hebrom, que fica ao sul de Jerusalém, e depois de dias trouxeram a Moisés um relatório terrível: -- É, na verdade, uma terra que produz leite e mel, em abundância. Vimos cachos de uvas que tinham que ser transportados numa vara por dois homens, de tão grandes. Mas o povo que habita na terra é muito poderoso, as cidades são grandes, fortificadas. Vimos gigantes e nos sentimos como se fôssemos gafanhotos, de tão pequenos diante deles.
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    224 Excluindo Josuée Calebe, os outros espiões estavam em pânico. E o medo que tinham foram transmitindo ao povo, que então rebelou-se contra Moisés. -- Foi para isso que você nos tirou do Egito, para a gente morrer aqui, no deserto, para sermos massacrados a espada, nós, nossas mulheres e nossos filhos? Josué e Calebe ainda tentaram reverter a situação. Explicaram que a terra era excelente e que se era da vontade de Deus a terra prometida seria entregue na mão deles, não importava a força dos povos ocupantes, pois "a sombra protetora de Deus lhes foi tirada". Mas a mentalidade escrava do povo prevaleceu. Não estavam preparados para lutar. E diante da rebelião, Deus afirmou que nenhum deles entraria na terra, mas seus filhos. Assim, durante quarenta anos caminharam pelo deserto. E os filhos dos escravos foram transformados em guerreiros. Forjados sob o sol escaldante, confiantes na promessa de que a terra lhes seria entregue. Os espiões que se acovardaram e sublevaram o povo contra Deus e Moisés foram presos e condenados à morte. Josué por sua coragem e fidelidade a Deus despontou como sucessor de Moisés. As tribos atacam Os hebreus não eram um grupo homogêneo. Mesmo sendo descendentes de Abraão, no correr dos séculos miscigenaram-se com outros povos semitas e inclusive com os próprios egípcios. Estavam, no entanto, unidos através da fé no Deus único, e dos rituais semitas, dos quais o principal deles, nessa época, era a circuncisão. Cada tribo recebeu o nome do patriarca de que descendia: Rubem, Simeão, Judá, Issacar, Zebulom, Efraim, Manassés (esses dois, netos de Abraão, filhos de José, que juntos formavam uma tribo), Benjamim, Dã, Aser, Gade e Naftali. Havia ainda uma outra tribo, a de Levi, que era a dos sacerdotes. Dessa maneira, a nação de Israel surgiu como uma confederação de tribos, sem governo centralizado. Seria governada por juizes, homens sábios que julgavam suas tribos a partir das leis deixadas por Moisés. Assim, após a morte de Moisés, os hebreus conquistaram a Palestina liderados por Josué, considerado pelos historiadores um dos maiores generais da história. Formou regimentos com guerreiros jovens, que ao contrário de seus pais estavam desejosos de combater por Iaveh, o Deus de Israel. Os regimentos foram organizados a partir das doze tribos que formavam a confederação hebréia. A estratégia inicial de Josué consistiu em montar seu quartel general em Gálgala, ao oriente da cidade de Jericó, e a partir daí atacar as cidades de Ai e Gabaom. Em Gálgala já estavam estabelecidas as tribos de Rubem, Simeão e Manassés. Ali havia água em abundância, provisão para os combatentes e lugar seguro para armazenar os despojos. Guerra de extermínio Antes de iniciar o período da conquista, Josué deu combate aos grupos inimigos, nômades, que poderiam ameaçar a produção agrícola das tribos já instaladas em Gálgala. Só depois disso, tomou Jericó, fortaleza avançada do território de Canaã e conhecida na época como "a princesa do vale do Jordão".
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    A cidade deJericó data, segundo pesquisas arqueológicas, do ano oito mil antes de Cristo. Por ter uma fonte e um oásis e estar estrategicamente situada, foi ocupada por povos diferentes, como os amorreus e cananeus, e muitas vezes destruída. Antes da conquista por parte dos hebreus, foi atacada por faraós da 18a dinastia e totalmente destruída. De novo reconstruída, tinha nessa época muros altos, de pedras macho e fêmea, duas torres, e casas retangulares e espaçosas. Essa linda cidade, que também recebia o nome de Cidade das Palmeiras, dominava o vale do Jordão e as passagens para as montanhas do oeste. Antes de atacá-la, Josué enviou dois jovens oficiais do recém formado exército para espionar a região. Eles entraram na cidade, foram protegidos e escondidos por uma prostituta chamada Raabe, e depois voltaram ao quartel general de Josué com uma grande notícia: -- Realmente Deus nos deu toda esta terra. Os seus habitantes estão apavorados com nossa presença. Josué então chamou os sacerdotes, que leram para os oficiais e soldados uma ordem que Deus tinha dado a Moisés. "Quando saírem para guerrear contra teus inimigos, se virem cavalos, carros de combate e um povo mais numeroso do que vocês, não fiquem com medo, pois com vocês está o Senhor Deus, que tirou vocês do Egito. Quando estiverem para começar o combate, o sacerdote se aproximará para falar aos soldados e lhes dirá: 'Ouve, ó Israel! Estais hoje prestes a guerrear contra teus inimigos. Não se acovardem, não fiquem com medo, não tremam, nem se atemorizem diante deles, porque o Senhor Deus marcha com vocês, lutando com vocês'." 225 Depois, os sacerdotes disseram: -- Quem tem uma tenda nova e ainda não a usou? Volte para a sua tenda, para que não morra na batalha e não possa curtir sua tenda nova. Quem plantou uma vinha e ainda não colheu os primeiros cachos de uva? Volte para sua tenda, para que não morra na batalha e não coma de seus primeiros frutos. Quem acaba de casar-se e ainda não completou sua lua de mel? Volte para sua tenda, para que não morra na batalha e não usufrua sua noite de núpcias. E por fim os sacerdotes, perguntaram: -- Quem está com medo e se considera um covarde? Volte para sua tenda para que não contagie seus irmãos. Então, Josué destacou os oficiais e definiu o ataque. Por ordem divina, rodearam a cidade uma vez por dia, durante sete dias. Tocavam trombetas, gritavam e saltavam. Ao sétimo dia, todo o povo, com os soldados e os sacerdotes, rodearam sete vezes a cidade, tocando trombetas e gritando. De repente, ao som mais agudo da trombeta, os muros caíram permitindo a entrada do povo. A cidade foi amaldiçoada, seus habitantes executados, com exceção de uma moça, prostituta, de nome Raabe e da família do pai dela. Os despojos de ouro e prata foram levados para o tabernáculo, que era a tenda onde estava a arca da aliança, com os Dez Mandamentos.
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    226 Foi umaguerra implacável. E diante disso, é o caso de perguntar: o extermínio realizado pelos israelitas foi um ato justificável? Na época, Canaã estava sendo permanentemente disputada por conquistadores. Confederações de reinos, agrupados em torno de uma cidade, lançavam-se contra outros pequenos reinos. Os filisteus, por exemplo, não eram originários da região, vinham da ilha de Caftor, mais conhecida como Capadócia. Instalaram-se na região de Gaza, exterminando os Avins que viviam nesse território. Assim, os hebreus tinham tanto direito à terra como os que foram despojados. Eram conquistadores lutando contra conquistadores. E quanto ao seu modo de atuar nas operações de guerra? Caso tomemos os padrões guerreiros da época, os hebreus não eram nem mais sanguinários, nem mais cruéis. Os assírios, por exemplo, decapitavam os povos vencidos, fazendo pirâmides com seus crânios. Crucificavam ou empalavam os prisioneiros, arrancavam seus olhos e os esfolavam vivos. Não há casos de tortura na tradição guerreira dos israelitas. Sem dúvida, Deus utilizou o povo de Israel para trazer sua justiça sobre os cananeus. Seus costumes religiosos estavam entre os mais bárbaros de todo o mundo antigo. Ofereciam sacrifícios humanos e infantis a seus deuses. Eram idólatras, dominados por vícios vergonhosos e abomináveis. É interessante notar que antes dos hebreus se lançarem à conquista da Palestina, Deus lhes falou: "Ó Israel, hoje vocês estão atravessando o rio Jordão para conquistar nações mais numerosas e poderosas, cidades grandes e fortificadas. (...) Portanto, vocês devem saber que o Senhor Deus vai atravessar na frente, como um fogo devorador. É ele quem exterminará. Vocês, então, desalojarão rapidamente esses povos, os farão perecer, conforme falou o Senhor Deus. Quando Iaveh os tiver removido de sua presença, vocês não devem dizer nos seus corações: 'É por causa da nossa justiça que O Senhor nos fez entrar na posse dessa terra'. É por causa da perversidade dessas nações que Iaveh irá expulsá-las da tua frente." (Deuteronômio 9:1, 3 e 4). Dessa maneira, os cananeus estavam sendo punidos por Deus por causa de seus crimes, sua idolatria e vida promíscua. E, também, para evitar que seu exemplo levassem os hebreus aos mesmos erros. Segundo a maneira de pensar dos antigos israelitas, Deus responsabiliza tanto as nações como os indivíduos. Vitória quase completa Depois da conquista de Jericó, Josué tomou a cidade de Ai, que fazia fronteira com Gálgala. Recebeu, então, a visita de embaixadores do reino de Gabaom com os quais Josué celebrou uma tratado de paz, sem consultar antes o Deus de Israel. Os reis de Jerusalém, Hebrom, Jerimote, Laquis e Eglom formaram uma aliança e atacaram Gabaom. Como Josué havia feito um acordo bilateral com Gabaom, teve que sair em sua defesa e lançar um ataque contra os cinco reis. Conseguiu derrotá-los e conquistou as cidades de Maceda, Libna e Laquis. Estabeleceu um acampamento provisório perto de Eglom e daí lançou-se à conquista de mais três cidades, Eglom, Hebrom e Debir. A essa altura, já havia ocupado toda a região central e sul da Palestina.
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    Josué voltou entãopara Gálgala. Descansou meses e começou a organizou os futuros ataques ao norte de Canaã, região onde estavam localizadas cidades populosas e fortificadas. O rei de Asor chefiava uma confederação de reinos e ficou sabendo dos planos de Josué. Reuniu, então, todas as cidades vizinhas e organizou uma confederação para enfrentar militarmente o exército hebreu. A mais violenta das batalhas aconteceu às margens do rio Merom. Josué derrotou os exércitos confederados, queimou a cidade de Asor e tomou todas as cidades dos reinos aliados. Estrategicamente, foi sua maior vitória, pois com ela quebrou o poder dos cananeus. 227 Mas nem todos os habitantes da Palestina tinham sido exterminados. Cidades importantes ficaram intocadas, principalmente as da região norte da Filístia. Foi longa a guerra da conquista, durou 45 anos. Apesar de ser o maior general da história de Israel, Josué cometeu três erros: fez aliança com os gabaonitas, permitiu aos jebuseus permanecerem em Jerusalém e não destruiu as bases dos filisteus no litoral. Esses erros, isolaram as tribos de Judá e Simeão do resto do país. A entrada principal para o território de Judá ficou sob controle dos jebuseus, que ocupavam Jerusalém. E toda a região permaneceu cercada pelas cidades dos gabaonitas. Esta situação criou um separatismo entre as tribos do norte e as do sul e acabou fracionando a confederação hebréia. A divisão da terra A repartição da terra foi feita parcialmente em Gálgala e depois em Siló, cidade para onde havia sido transportada a tenda da congregação. Essa primeira distribuição de terras foi realizada por uma comissão formada pelo sacerdote Eleazar, pelo general Josué e por dez chefes dos clãs. Havia uma lei básica, que já havia sido promulgada e que orientava a divisão. As tribos mais populosas receberiam as porções maiores. Os sacerdotes destinaram duas urnas, uma para receber o nome das tribos e outra para as regiões da Palestina que seriam sorteadas. Assim, o método de distribuição combinava a sorte - podia ser no sul, no centro ou no norte da Palestina -, com um elemento objetivo, a população de cada tribo. As questões de limites ou permanência de tribos nos lugares onde já se encontravam, como era o caso das tribos de Rubem, Simeão e Manassés, foram decididas pela comissão. Depois de uma semana de trabalhos, a confederação das tribos de Israel estava assim distribuída: · A parte montanhosa ao sul foi entregue à tribo de Judá. · A parte montanhosa ao centro, à tribo de José. Este território foi dividido entre as tribos de Efraim e Manassés, filhos de José. · A parte montanhosa central coube à tribo de Benjamim. · A parte excedente do território entregue a Judá, por ser grande demais, ficou com à tribo de Simeão. · O território que limitava a parte montanhosa central com a região norte foi entregue às tribos de Zebulom e de Issacar. · A região costeira coube às tribos de Aser e Naftali. · Dois territórios foram entregues à tribo de Dã, um no litoral central e outro no extremo norte. · Os territórios ao oriente do Jordão foram entregues as tribos de Rubem e Gade. A parte que coube a Manassés também estava do lado oriental do rio Jordão.
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    Era tradição noantigo Oriente Médio que o crime de sangue fosse vingado por um parente da pessoa assassinada. Através de Moisés, Deus deu ao povo uma legislação que punia severamente os crimes contra a pessoa, fossem eles assassinatos, seqüestros ou violências sexuais. Com isso, Deus tirava a justiça das mãos do vingador individual e a colocava sob responsabilidade social. Mas Josué sabia que muitos crimes podiam acontecer sem premeditação, por acidente ou imprevisto. Por isso, criou também as cidades de refúgio, onde pessoas que ainda não tinham sido julgadas e condenadas pela justiça recebiam o direito de asilo. Era uma forma de oferecer misericórdia àqueles que involuntariamente tinham cometido um erro. 228 Nas cidades de refúgio nenhum vingador de sangue tinha permissão para entrar, e dentro dela os perseguidos tinham o direito de viver sem serem molestados. Terminada a guerra, Josué pediu aos dirigentes da confederação de tribos, como recompensa pelos serviços prestados, a cidade de Timnate-Sera, que ficava no alto do monte Efraim. Viveu aí seus últimos dias e morreu com 110 anos. Professor Antony Steff Gilson de Oliveira APOSTILA 05 ESTUDOS SOBRE – DOUTRINAS TOTAL 98 - PAGINAS 24 ASSUNTOS! Adventistas declaram que não é pecado guardar o domingo A Ceia Messiânica A Doutrina da Eleição III A Doutrina da Eleição II A Doutrina da Eleição I A Doutrina Reformada da Autoridade Suprema das Escrituras A Guarda do Sábado Consagrado para Cuidar Cura Interior Desvios Doutrinários da Confissão Positiva Guerra Espiritual Indulgência Levando a sério a Ceia do Senhor O Diabo Existe O diálogo da Ceia do Senhor O Titanic e a Predestinação Os Sacramentos no Breve Catecismo de Westminster III (A Ceia do Senhor) Os Sacramentos no Breve Catecismo de Westminster (Batismo) Os Sacramentos no Breve Catecismo de Westminster (Considerações Gerais) Os Sacramentos no Breve Catecismo de Westminster Para uma alma religiosa, curiosa e confusa Pneumatologia Reformada, de Verdade! Definições e Desafios Contemporâneos Quatro Princípios Bíblicos para se Entender a Batalha Espiritual Sacramentos de Roma Sábado ou domingo- a opção cristã
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    229 DOUTRINAS Adventistasdeclaram que não é pecado guardar o domingo Reverendo professor Diego Roberto Escola Missionaria Voz no Deserto Há cinqüenta anos, líderes adventistas, ao admitirem que os "domingueiros" não estavam em pecado, concluíram que qualquer dia da semana poderia ser guardado. Vejam na matéria a seguir que o Dr. Walter Martin não entrevistou gente miúda, pequenos adventistas, homens comuns da crença. Entrevistou "conceituadíssimos líderes". O livro com essas entrevistas foi exaustivamente revisado por "250 líderes adventistas". Vejam bem, a palavra vem da cúpula adventista, de homens que exercem ou exerciam liderança no seio dessa religião. Houve realmente um consenso em torno dessa questão. Se há adventistas radicais que discordam dessa importante decisão, precisam primeiramente explicar por que, onde e como aqueles próceres erraram. Ao admitir que os domingueiros não estão em pecado, admitiram, também, que os adventistas poderiam guardar o domingo. Num e noutro caso não haveria pecado. O foco da discussão deveria ser dirigido nessa direção. Por que esses proeminentes adventistas cederam? O que realmente aconteceu no seio adventista? Qual o pensamento predominante no adventismo brasileiro? Vejamos a matéria. Extraída do Dicionário de Religiões, Crenças e Ocultismo, de George A. Mather & Larry A. Nichols, Vida, 2000, pg.194:: “Entre 1955 e 56, Dr. Walter Martin, um dos grandes apologistas da fé cristã em nossos dias e fundador do Christian Research Institute, EUA, entrevistou conceituadíssimos líderes adventistas em sua associação Geral (o órgão máximo do grupo), naquela época localizada em Takoma Park, Maryland, EUA. O resultado final da entrevista deu origem ao livro Seventh-day adventists answer questions on doctrine (Adventistas do sétimo dia respondem perguntas sobre doutrina), lançado em 1957 pela editora adventista Review and Harald Publishing Association. Antes de ser publicado, o manuscrito de 720 páginas foi revisado por 250 líderes adventistas. Foi destacado o seguinte”: 1. Sabatismo: a guarda do sábado não propicia salvação; o cristão que observa o domingo não está em pecado; não é cúmplice do papado. 2. Ellen G. White: seus escritos não devem ser colocados em pé de igualdade com a Bíblia; não são de valor universal, mas restritos à IASD. 3. Santíssimo: Cristo entrou no Lugar Santíssimo por ocasião de sua ascensão, e não em 22 de outubro de 1844. Assim, as doutrinas do santuário celestial ser purificado e do juízo investigativo não tinham base bíblica. "Houve, contudo, sérias controvérsias no seio da IASD devido ao livro, dando origem a dois
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    movimentos: o tradicionale o evangélico. O primeiro recusava-se a abrir mão das posições acima, pois aceitá-las comprometeria a exclusividade da IASD como o remanescente, a única e verdadeira igreja de Cristo. O segundo advogava os conceitos expressos no Questions on doctrine. Estes não queriam deixar a IASD, apenas queriam uma reforma nas questões teológicas nada ortodoxas. Muitos desses, porém, por pressões internas, deixaram a IASD. Diante de tudo o que foi dito acima, concluiu-se que o adventismo com o qual o Dr. Walter Martin dialogou e aceitou como cristão não é mais o mesmo que presenciamos aqui no Brasil, pois rompeu com tudo aquilo abordado no Questions on Doctrine. Entretanto, não se pode negar que há dentro da IASD aqueles que almejam o retorno às formulações esboçadas e defendidas no Questions on Doctrine". Professor: Reverendo Antony Steff Gilson de Oliveira A Ceia Messiânica Professor Antony Steff Gilson de Oliveira "Ao ouvir isso um dos que estavam com ele à mesa, disse-lhe: Bem-aventurado aquele que comer pão no Dreeiuns.o Jdee su s, porém, lhe disse: Certo homem dava uma grande ceia, e convidou a muitos. E à hora da ceia mo ansdeou u se rvo dizer aos convidados: Vinde, porque tudo já está preparado. Mas todos à uma começaram a Deiscssuesa-rlh-es eo. p rimeiro: Comprei um campo, e preciso ir vê-lo: rogo-te que me dês por escusado. Outro disse: Cciomncpor eij un tas de bois, e vou experimentá-los; rogo-te que me dês por escusado. Ainda outro disse: Cpaorsetain-tmoe ne ão posso ir. Voltou o servo e contou tudo isto a seu senhor: Então o dono da casa, indignado, dseirssveo : a Sasei u de pressa para as ruas e becos da cidade e traze aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os cdiosxoses . o Deseporivos : Senhor, feito está como ordenaste, e ainda há lugar. Respondeu o senhor ao servo: Sai pelos ce amvailnahdoos s, e obriga-os a entrar, para que a minha casa se encha. Pois eu vos digo que nenhum daqueles fhoomraemn s coqnuev id ados provará a minha ceia" (Lc 1 4.15-24) Os antigos judeus utilizaram imagens variadas para descrever o que aconteceria quando chegassem os dias da Era Messiânica. Era um tema constante não somente na mensagem dos profetas, mas nos dias de Jesus havia muita especulação sobre quando seria, e o que aconteceria por ocasião desse abençoado tempo. Entre as muitas figuras que foram usadas para descrevê-la, havia a de um banquete. Quando lemos no Antigo Testamento o Salmo 23, o seu penúltimo versículo, ele diz "Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos". É essa figura da ceia a que foi utilizada por Jesus Cristo. E, se vamos ao profeta Isaías, aquele que mais falou acerca do Messias, também leremos: "E, o Senhor dos exércitos dará neste monte a todos os povos um banquete", e, continua dizendo, "e destruirá neste monte a coberta que cobre todos os povos, e o véu que está posto sobre todas as nações. Aniquilará a morte para sempre, e assim enxugará o Senhor Deus as lágrimas de todos os rostos, e tirará de toda a terra o opróbrio do seu povo; porque o Senhor o disse" (Is 25.6a, 7, 8). No relato de Lucas houve um homem que fez referência a essa Ceia Messiânica, dizendo a Jesus o seguinte: "Bem-aventurado aquele que comer pão no reino de Deus". Com essa palavra, ele deu ocasião para que Jesus contasse um midrash, uma parábola, uma pequena história, uma ilustração sobre quem tem direito de participar do futuro banquete com o Messias. E aqui está a história que Jesus contou: um homem quis dar um banquete, convidou os amigos, e eles começaram a dar desculpas. Um não podia ir porque havia comprado um campo; o outro, porque havia comprado cinco juntas de boi e precisava experimentá-los; o outro não podia ir porque havia casado. É; cada um apresentou o que considerava ser uma importante desculpa. 230
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    É necessário explicarque o homem ficara indignado porque o convite era feito muito antecipadamente. Mas havia um detalhe: não se sabia a hora da festa. Quando chegasse a ocasião, o convidado seria comunicado, e foi o que aconteceu : "E à hora da ceia mandou o seu servo dizer aos convidados: Vinde, porque tudo já está preparado". Aceitar o convite, e não comparecer, seria considerado uma grave injúria ao anfitrião, um sério insulto. Na história, os convidados deram suas excusas: um estava com suas terras, o outro estava envolvido com o seu gado, e o terceiro com a família. Naturalmente, para eles os envolvimentos particulares tinham prioridade sobre o convite, e deram desculpas. Razões tremendamente ilógicas, fracas de argumento, e, até, insultuosas, porque dizer "Não vou ao seu banquete porque eu preciso ver as terras; não vou ao banquete porque vou olhar o boi que comprei" era um insulto! E vejam a razão: "Comprei um campo, e preciso ir vê-lo; peço que me desculpe". A desculpa é fraca porque esse homem era um mentiroso. É uma questão de senso comum tanto aqui quanto no Oriente Médio, pois ninguém compra uma fazenda, um trato de terra sem antes conhecer cada metro quadrado. Ninguém compra terreno sem olhar antes, e foi o que esse homem fez. Um certo comentarista da Palavra de Deus até diz que muitas vezes a compra de uma fazenda requer, no Oriente, anos de negociação, mesmo porque os orientais são extremamente pechincheiros. Comprar no Oriente, é uma mão de obra, uma verdadeira arte. É como se hoje alguém dissesse, "Não posso ir a sua festa porque eu comprei uma casa pelo telefone", sem olhá-la, sem saber se prestava, suas divisões internas. Além disso, as ceias eram realizadas no fim da tarde, de modo que haveria tempo suficiente durante o dia para que o homem fosse olhar a fazenda que havia comprado. 231 Mentiroso!... O outro homem disse, "Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-los; peço que me desculpe". Essa é outra desculpa ridícula! Porque ninguém vai comprar juntas de boi (são dois bois trabalhando num arado), sem testar antes se os animais poderiam trabalhar um com o outro. Ninguém pegava um boi aqui e outro ali e os colocava juntos, não, porque nem sempre podiam trabalhar em harmonia, um ajustado ao outro. É como se alguém ligasse para casa, e dissesse: "Não vou jantar hoje em casa porque comprei cinco carros usados pelo telefone, e vou olhar para ver se prestam". Ninguém faz isso! A terceira desculpa ("Casei-me e portanto não posso ir") parece ser a mais coerente, e até ficamos querendo desculpar o homem que se casou e disse que não podia ir ao banquete do outro porque, naturalmente, o lar é de suprema importância no ensino do evangelho. Mas, a família não foi instituída para ser utilizada de modo egoísta. Jesus, de qualquer modo, mostrou na história que essa desculpa não era a mais adequada. AS LIÇÕES DA PARÁBOLA Ela nos lembra que o convite do Senhor é para uma festa tão alegre quanto um banquete pode ser. Estamos sendo convidados para a Ceia Messiânica! Quando celebramos a Ceia do Senhor temos uma prévia desse banquete em apenas dois elementos: um pedacinho de pão e um calicezinho de fruto da videira; só! No entanto, ficamos tão felizes com esses poucos elementos, que podemos imaginar como será na Ceia Messiânica com todos os quitutes à nossa frente, com aquelas iguarias à nossa disposição! É a festa da salvação!
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    Na realidade, esseé um convite para a alegria! Não entendemos como pode alguém participar da Ceia do Senhor com o rosto triste... Aliás, há quem pense que a Ceia do Senhor é uma recepção fúnebre. É; há lugares onde há recepção; quando alguém falece, e se vai fazer a "sentinela", o velório, há uma mesa onde os participantes vão se deliciar. A Ceia, apesar de Memorial, não é uma festa fúnebre: é a ceia da alegria! E temos nela uma pré-estréia do que vai acontecer na Ceia Messiânica! Evangelho de tristeza, de penúria não pode ser o evangelho do reino de Deus! A história lembra também que as coisas que tornam uma pessoa surda ao convite não são más em si mesmas. Todos compreendem que o homem que disse ir olhar a fazenda faria algo considerado correto. Todos entendem que aquele que foi olhar a junta de bois, fez algo adequado. E menos, ainda, o casamento. São as terras de um, os negócios de outro, a indústria de alguém, a casa de praia de mais outra pessoa, mas é tão fácil alguém ficar por demais ocupado, e diria mais tão preocupado com essa coisas boas que Deus concede, com o agora que se esquece da eternidade, que se esquece do Deus-que- 232 concede, que se preocupa tanto com o visível, que se esquece daquele que ele não vê! A história nos lembra, igualmente, que Jesus exemplifica o que nós perdemos quando não O seguimos E a real tragédia é perder a alegria do banquete messiânico, a alegria da presença de Jesus Cristo, a alegria da eternidade. A história nos recorda outra coisa; é que o convite é o da graça do Criador. E o conceito que Jesus enfatizou é a oferta gratuita da misericórdia de Deus, e, por isso, a porta é aberta, e nesse momento em que a porta se tornou aberta, foram convidados aqueles que antecipadamente não tinham sido convidados. Ah, meu amigo querido, tudo está pronto! É o que diz a Bíblia. A você nada resta a fazer a não ser aceitar participar desse banquete messiânico. O dever dos servos (e aqui estamos nós, os servos do Senhor) é chamar, é insistir, é dizer a todos, é enfatizar o "vinde!" que está no verso 17: "Vinde, porque tudo já está preparado". Esse é o nosso dever; a você só compete o atender esse convite! Professor Antony Steff Gilson de Oliveira A DOUTRINA DA ELEIÇÃO - I Organizado pelo Reverendo professor Antony Steff Gilson de Oliveira A eleição, conhecida também como predestinação e eleição incondicional, é um ato da livre graça de Deus. Com isto em mente procuraremos responder, com a colaboração de vários autores, algumas das perguntas mais comuns sobre a doutrina da eleição e tentar esclarecer as principais dúvidas de crentes sinceros, desejosos de aprenderem um pouco mais desta doutrina bíblica tão enriquecedora. Minha oração é que o estudo desta doutrina seja uma benção para você como tem sido para mim. Obs: As notas adicionais e a tradução de alguns textos são de minha autoria. I. A VERACIDADE BÍBLICA DA DOUTRINA DA ELEIÇÃO POR W. J. SEATON Esta não é uma filosofia cega, mas é retirada da Palavra de Deus, é construída, sustentada e revelada por ela. O assunto é tão vasto quanto o oceano; mas não podemos fazer mais do que citar alguns versículos chaves das Escrituras que agem como mapa e compasso através desses mares imensos. A história da Bíblia é a história da eleição incondicional. É estranho que aqueles que se opõem a essa doutrina não reconheçam isso. Alguns crentes têm dificuldade em crer que Deus poderia preterir certas pessoas e escolher outras e, no entanto, aparentemente não têm dificuldade em crer que Deus chamou a Abraão dentre os pagãos de Ur dos Caldeus deixando os outros no paganismo. Por que
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    razão Deus escolheua nação de Israel como Seu "povo peculiar"? Não há necessidade de especular, pois Deuteronômio 7.7 nos dá a resposta: "O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos: Mas porque o Senhor vos amava...". Por que razão Deus, desrespeitando completamente as leis de família de Israel, escolheu o filho mais novo, Jacó, em lugar do primogênito Esaú? Mais uma vez, "à lei e ao testemunho". Romanos 9.11-13: "... Para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme... Amei Jacó, e aborreci Esaú". Qual era a doutrina pregada por Jesus na sinagoga em Nazaré, se não a doutrina da eleição incondicional? "Em verdade vos digo que muitas viúvas existiam em Israel nos dias de Elias... E a nenhuma delas foi enviado Elias, senão a Serepta de Sidom, a uma mulher viúva... E muitos leprosos havia em Israel no tempo do profeta Eliseu, e nenhum deles foi purificado, senão Naamã, o siro" (Lc 4.25-27). Sabemos o resultado da pregação dessa mensagem por nosso Senhor: "o levaram até o cume do monte para dali o precipitarem". Concedemos que há um "tipo de eleição" que é mantida por muitos crentes hoje. De modo geral baseiam-se em Romanos 8.29: "Porque os que dantes conheceu também os predestinou...". A causa se desenvolve aproximadamente da seguinte maneira: Deus previu aqueles que aceitariam a Cristo, "elegendo-os" portanto para a vida eterna. Contra esse ponto de vista salientamos que: 1. A presciência de Deus refere-se a um povo e não a qualquer ação desenvolvida pelo povo. A Bíblia diz: "... os que dantes conheceu...", etc. De novo Deus fala através de Amós: "De todas as famílias da terra a vós somente conheci". Isto é, independente de qualquer ação, boa ou má, Deus os "conheceu" no sentido que os amou e escolheu para serem dEle. É assim que predestinou a Seus eleitos. 2. Não adianta dizer que Deus nos elegeu por ver algo que faríamos – isto é, "aceitar" a Cristo, mas somos escolhidos para que possamos "aceitá-lO". "Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas" (Ef 2.10). 3. Também não resolverá dizer que Deus previu aqueles que acreditariam. Atos 13.48 torna esse ponto completamente claro: "... e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna". Eleição não resulta de acreditarmos, mas nossa crença resulta de sermos eleitos – "ordenados para a vida eterna". 4. Além disso, dizer que exercitamos fé ao aceitar a Cristo e que Deus previu essa fé e, portanto, nos elegeu, somente nos leva mais um passo para traz; pois onde encontramos a fé para exercitar? As Escrituras fornecem a resposta: "É dádiva de Deus, não de nós mesmos". (1). Certamente, em vez de argumentarmos contra essas coisas, deveríamos estar praticando aquilo que o Espírito Santo, através do apóstolo Pedro, recomenda: "Procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição " (2 Pe 1.10). II. A EXPOSIÇÃO DA DOUTRINA DA ELEIÇÃO POR R. B. KUIPER OS ESCOLHIDOS DE DEUS A igreja consiste dos escolhidos de Deus. Certamente nem todos que estão na lista de membros da igreja visível foram escolhidos por Deus para a vida eterna. Há alguns dentro da igreja que são cristãos nominais e que nunca serão crentes. Estes não estão entre o número dos escolhidos. Porém todos os verdadeiros membros da igreja de Cristo pertencem aos escolhidos. É possível que não haja outro ensinamento da Palavra de Deus tão impopular como a eleição. Inclusive alguns crentes bíblicos e amantes da Palavra de Deus estão mui próximo de detestá-la. Isto é difícil de entender. Não só se ensina inequivocamente a eleição na Escritura senão que esta doutrina declara enfática e belamente o amor infinito e eterno de Deus pelos seus. Assim, pois, o fato de que a igreja consiste dos escolhidos de Deus torna mais refulgente sua glória. 233
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    Especificados por DeusPai Suponhamos que uma congregação vá construir um templo, uma casa de adoração. O primeiro passo para a realização de tal projeto é contratar um arquiteto, que desenhará um plano para o edifício proposto e especificará que material se usará em dita construção. Como o arquiteto de sua igreja, o Deus Pai a planejou desde a eternidade e especificou precisamente quais pessoas seriam as que a comporiam. Ele a escolheu dentre toda raça humana para esse fim. Deus falou acerca da igreja do Antigo Testamento como "meu servo Jacó" e "Israel meu escolhido" (Is 45.4). Na saudação de sua carta aos efésios Paulo se regozijou dizendo: "Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade..." (Ef 1.3-5). E Pedro se dirigiu àqueles a quem escreveu sua carta como "eleitos, segundo a presciência de Deus Pai..." (1 Pe 1.2). Há quem diga que Deus elegeu a todos os homens para que sejam membros do corpo de Cristo. Nada poderia ser mais absurdo. A própria palavra eleição significa a escolha de alguns dentre um número maior, e escolher a todos de um certo número simplesmente não é escolher. Citemos um exemplo: três homens lançam sua candidatura para o cargo de governador de uma província. Certo eleitor, que não pode decidir qual é o melhor candidato para o cargo, decide votar nos três. É claro que o que fez foi perder seu voto! E não é menos lógico que se todos os outros eleitores fizessem o mesmo, não haveria eleição. Disso concluímos que se Deus elegesse todos os homens para que sejam membros de sua igreja não teria elegido nenhum. É iniludível esta conclusão. É interessante que alguns que sustentam que Deus elegeu todos os homens chegam exatamente a essa conclusão: dizem que a única razão por que uma pessoa chega a ser membro da igreja de Cristo é porque por sua própria vontade escolhe unir-se à igreja. Em outras palavras, alguém chega a ser membro da igreja, não porque Deus o escolhe, mas porque a própria pessoa decide fazê-lo. Assim a eleição é do homem, não de Deus. É difícil imaginar uma contradição mais flagrante da Escritura. Karl Barth ensina que todos os homens são escolhidos por e em Cristo para a vida eterna. Havendo tomado esta posição, que está abertamente em desacordo com a Escritura, enfrenta um sério dilema. Ele deve, de acordo com o universalismo, concluir que no final todos os homens serão salvos, ou, de acordo com o arminianismo, fazer com que a salvação dependa, no final, da vontade do homem. Não obstante, ele recusa em reconhecer estas alternativas. Deste modo sua doutrina da eleição chega a ser em extremo confusa. Apresenta-se, então, a importante pergunta: Por que Deus designou certas pessoas dentre as demais para que sejam membros de sua igreja? Têm-se dado duas respostas contraditórias. O arminianismo ensina que Deus escolheu certos indivíduos porque sabia de antemão que eles creriam em Cristo. A teologia reformada insiste que a única razão da eleição de Deus era o divino amor soberano. Isto é, desde a eternidade Deus viu os objetos de sua eleição em Cristo, seu Escolhido. Segundo o arminianismo, a base para a eleição de Deus reside no homem; segundo o calvinismo, reside em Deus. Dito de outro modo, o arminianismo sustenta que a fé é a base para a eleição, enquanto que a fé reformada sustenta que a fé é o fruto da eleição e também sua prova. Comprados por Deus Filho Suponhamos de novo que uma congregação planeja construir um templo. Os planos e as outras especificações já foram adotados; o segundo passo é a compra de materiais de construção. Isso é o que também Deus fez para construir sua igreja. Deus, o Filho, comprou os escolhidos, aqueles a quem o Pai havia designado como membros de sua igreja. Paulo relembrou os anciãos da igreja de Éfeso de seu dever de pastorear a igreja de Deus, a qual, disse, "ele comprou com o seu próprio sangue" (At 20.28). 234
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    Alguns dos primeirospais da igreja sustentaram a opinião que Cristo pagou a Satanás o preço com o qual ele comprou os escolhidos. É uma interpretação de todo errônea. Se Cristo tivesse feito isso, teria constituído um reconhecimento de que Satanás havia sido antes o dono legítimo dos pecadores escolhidos. É evidente que Satanás nunca teve tal coisa. As coisas são bem assim: quando o homem pecou, Deus como Juiz sentenciou a raça humana à prisão. Satanás foi, por assim dizer, carcereiro da prisão. Cristo veio para dar sua vida em resgate por certos prisioneiros. Dito em uma maneira mais clara, Ele apresentou o resgate não ao carcereiro, mas ao Juiz. O Juiz aceitou o resgate e ordenou a liberdade daqueles prisioneiros. Assim os prisioneiros são libertados do poder das trevas e transportados para o reino de seu amado Filho (Cl 1.13). Em nossos dias é muito comum outra falsa interpretação dessa transação. Diz-se que Cristo comprou não só aos escolhidos, mas a todos os homens com seu sangue e que, havendo feito isso, Ele deixou que cada indivíduo escolhesse aceitar ou não o benefício salvífico de sua morte. Essa interpretação fracassa completamente em compreender o amor do Salvador moribundo para com os seus. Sem dúvida, a morte de Cristo é suficiente para a salvação de todos os homens. Contudo, há de se afirmar enfaticamente que nenhum dos que Cristo comprou com seu sangue permanecerá sob o domínio do diabo. Seu amor assegura que todos aqueles que Ele comprou chegarão a ser crentes nEle e membros de sua igreja. Ele fará que tal coisa suceda, não por uma compulsão externa, porém pela influência graciosa de seu Espírito Santo. "O bom pastor dá a vida pelas ovelhas" (Jo 10.11). E Ele verá que até a última ovelha pela qual deu sua vida será trazida ao rebanho. A Escritura com freqüência fala em termos superlativos acerca do amor de Deus por sua igreja. Diz por exemplo: "Acaso pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti. Eis que nas palmas das minhas mãos te gravei; os teus muros estão continuamente perante mim" (Is 49.15,16). Esta linguagem é ao mesmo tempo forte em extremo e supremamente terna. Todavia, a revelação do amor de Deus por sua igreja alcança seu cume na compra dessa igreja pelo Filho de Deus com seu próprio sangue. Olhando para o Cristo crucificado, todo membro de sua igreja sussurra: "O qual me amou e se entregou a si mesmo por mim" (Gl 2.20). Em uníssono a igreja lê: "Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. Porque se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida" (Rm 5.8-10). E canta: De sua cabeça, mãos, pés, Precioso sangue ali verteu; Coroa vil de espinhos foi A que Jesus por mim levou. Reunidos por Deus Espírito Santo Suponhamos uma vez mais que uma congregação está no processo de levantar um templo. Os planos e as especificações foram aprovados e o material comprado. É obvio que fica mais uma coisa para fazer – construir, ou seja, o processo de colocar o material. Uma vez feito isso, a construção ficará completa. Isso também Deus faz ao edificar sua igreja. Os escolhidos, aqueles que foram designados desde a eternidade pelo Deus Pai e comprados pelo Deus Filho quando morreu na cruz do Calvário, são no curso da história reunidos como igreja cristã pelo Deus Espírito Santo. O Espírito realiza isso quando concede aos escolhidos a graça da regeneração. Por natureza eles estão mortos em seus delitos e pecados, mas o Espírito de Deus lhes dá vida (Ef 2.1). É uma conclusão segura que em conseqüência crerão no Senhor Jesus Cristo. Alguns dos escolhidos estão predestinados a morrer na infância. Todos estes, certamente, são regenerados antes que partam desta vida, e desde o próprio momento da regeneração possuem o que os teólogos chamam de habitus, a disposição da fé 235
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    salvadora. Isso ostorna membros do corpo de Cristo. E quanto aos escolhidos a quem são concedidos chegar à idade do juízo, seguramente nascerão de novo, embora nenhum ser humano pode dizer a que idade pudesse o Espírito querer conceder-lhe o nascer de novo; e em seu caso a regeneração resultará em uma consciente recepção do Salvador como Ele está apresentado no evangelho. Isso é outra forma de afirmar que cedo ou tarde, pela graça do Espírito Santo, serão membros viventes da igreja de Cristo. A noção ampliada difundida nos círculos cristãos é que todos os seres humanos, incluindo os não-regenerados, são capazes por sua própria vontade de aceitar a Cristo como Salvador e ao fazer isso unir-se à igreja de Cristo. Com efeito, diz-se que Deus tem deixado essa parte da salvação para o homem. E declara-se que o novo nascimento é uma conseqüência, não um requisito, do ato de fé do homem. Este é um dos erros mais correntes, para não dizer um dos mais sérios do fundamentalismo atual. Por fazer do homem, em última instância, seu próprio salvador, esta heresia comete a maior violência à doutrina cardial da Palavra de Deus, a saber: a salvação pela graça de Deus. A Escritura ensina inequivocamente que ninguém pode vir a Cristo em fé se o Pai não lhe trouxer (Jo 6.44); que antes que a fé chegue a ser um ato do homem, é um dom de Deus (Fp 1.29); e que "ninguém pode dizer: Senhor Jesus! senão pelo Espírito Santo" (1 Co 12.3). A Escritura ensina com a mesma clareza que é Deus quem reúne seus escolhidos na igreja. Foi Deus o Espírito Santo quem, ao aplicar o sermão de Pedro nos corações, reuniu três mil homens e mulheres na igreja no dia de Pentecostes. E foi "o Senhor" quem posteriormente "acrescentava diariamente à igreja os que haviam de ser salvos" (At 2.47). Que gloriosa manifestação do amor divino é a reunião dos escolhidos na igreja! Se Deus tivesse escolhido certos indivíduos para constituir o corpo de seu Filho, mas tivesse feito com que a realização dessa seleção dependesse do consentimento deles, nenhum deles seria salvo. Se, além de escolhê-los, Deus os comprasse com seu sangue para que fossem membros de sua igreja, mas tivesse feito com que o cumprimento dessa transação dependesse da aceitação de suas condições, todos estariam perdidos. Tão grande é o amor de Deus pelos seus que Ele realiza sua salvação exclusivamente. Não só os escolheu desde a fundação do mundo e os comprou no Calvário, como também é Ele quem torna válidas essa eleição e essa compra por meio da operação de seu Espírito dentro deles. O Espírito Santo os traz da morte para a vida, concedendo-lhes a fé salvadora e assim os torna membros de Cristo. Desde o princípio até o fim, sua salvação depende exclusivamente da graça soberana e do amor infinito de Deus. A igreja consiste daqueles que Deus ama imensamente. Salvos para servir Agora é necessário chamar a atenção para um aspecto da eleição que às vezes é descuidado por aqueles que confessam esta doutrina. Indubitavelmente a eleição é para a salvação (2), mas a Escritura ensina em uma forma não menos enfática que é também para serviço. A salvação e o serviço são inseparáveis. A salvação é para servir. Os membros da igreja de Cristo são feitura de Deus, "criados em Cristo Jesus para as boas obras" (Ef 2.10). Porque foram comprados, estão sob a solene obrigação de glorificar a Deus em seus corpos e em seus espíritos, que são de Deus (1 Co 6.20). Cristo se entregou por eles para redimi-los de toda iniqüidade e purificar para Si mesmo um povo peculiar, zeloso de boas obras (Tt 2.14). E digamos com toda a ênfase de que somos capazes – Deus Pai escolheu a sua igreja em seu amor soberano, o Filho a comprou com seu precioso sangue, e o Espírito Santo veio para morar nela com o fim de que testificasse. É raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus para que anuncie as virtudes daquele que a chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1 Pe 2.9). A igreja consiste daqueles que amam e servem ao Deus trino, porque Ele os amou primeiro. 236
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    A DOUTRINA DAELEIÇÃO - II Organizado pelo Rev. Antony Steff Gilson de Oliveira A ELEIÇÃO E A EVANGELIZAÇÃO Vez por outra se ouve a idéia de que a eleição torna supérflua a ação evangelizadora. Pergunta-se "Se o decreto da eleição é imutável e, portanto, torna absolutamente certa a salvação dos eleitos, que necessidade têm eles do Evangelho? Os eleitos não vão ser salvos mesmo, ouçam ou não o Evangelho?". A premissa desse argumento é inteiramente verdadeira. A eleição divina torna a salvação dos eleitos inalteravelmente certa. Mas a conclusão derivada dessa premissa revela grave incompreensão da soberania divina como expressa no decreto da eleição. Enquanto que a eleição é feita na eternidade, não se pode perder de vista a verdade de que sua concretização é um processo que se dá no tempo, ou seja, dentro da história. Muitos fatores tomam parte nesse processo. Um deles é o Evangelho. E por sinal é um fator da maior significação (3). Não se confunda a soberania de Deus com a Sua onipotência. Certamente Deus é todo-poderoso. Significativamente, o conciso Credo Apostólico se refere a este atributo de Deus, não uma, porém duas vezes. Se Deus quisesse, poderia pelo emprego da simples força levar para o céu os eleitos, e igualmente pelo emprego da simples força lançar ao inferno os não eleitos. Mas Ele não faz nada disso. Preordenação não é compulsão e a certeza não exclui a liberdade. Ninguém jamais foi convertido ao cristianismo à força. Todo verdadeiro convertido volta-se para Cristo porque quer – embora seja certo que este querer é dom de Deus, transmitido a ele por ocasião do seu novo nascimento. Deus trata os seres humanos como criaturas racionais, capazes de agir livremente. Por isso, Ele arrazoa e dialoga com os não salvos por meio do Evangelho. Quer "persuadir" os homens (2 Co 5.11). E no caso dos eleitos, Ele aplica o Evangelho aos corações deles de maneira salvadora, mediante o Espírito Santo. Não se vá supor que o soberano decreto de Deus só se refere aos fins, com a exclusão dos meios. Por mais ênfase que se dê, não será suficiente para expressar que Deus preordenou tudo que sucede. Tudo abrange os meios, como os fins. Para ilustrar, Deus não somente predeterminou que dado fazendeiro colhesse este ano dez mil arrobas de trigo; predeterminou também que colhesse aquela quantidade como resultado de muito trabalho duro. Do mesmo modo, Deus não decretou apenas que certo pecador herde a vida eterna, mas decretou que esse pecador receba a vida eterna por meio da fé em Cristo, e que obtenha a fé em Cristo por meio do Evangelho. Não se pode imaginar a soberania de Deus como se ela eliminasse a responsabilidade do homem. Como os mais cultos e competentes teólogos e filósofos se mostraram incapazes de conciliar a soberania divina com a responsabilidade humana perante o tribunal da razão, sempre se corre o risco de dar ênfase a uma delas em detrimento – ou mesmo com a exclusão – da outra. Mas a Bíblia ensina as duas verdades com grande ênfase. Aquele que aceita com humilde fé a Bíblia como a infalível Palavra de Deus, dará vigoroso destaque tanto a uma como à outra. Portanto, o pregador do Evangelho tem de dizer ao pecador, não apenas que a salvação é só pela graça soberana, mas também que, para ser salvo, ele precisa crer em Jesus como Salvador e Senhor. Por um lado, deve pregar que os eleitos de Deus serão salvos com toda a segurança; por outro lado, deve proclamar a advertência de que aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele (João 3.36). Mesmo os eleitos precisam desta admoestação, pois faz parte integrante do método que Deus adotou para levá-los à salvação. Agora fica assegurada uma conclusão das mais significativas. Em vez de tornar supérflua a evangelização, a eleição requer a evangelização. Todos os eleitos de Deus têm que ser salvos. Nenhum deles pode perecer. E o Evangelho é o meio pelo qual Deus lhes comunica a fé salvadora. De fato, é o 237
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    único meio queDeus emprega para esse fim. "A fé vem pelo ouvir e o ouvir pela palavra de Deus" (Romanos 10.17). Observe-se que, por paradoxal que pareça, a eleição é universal. Certamente, a eleição é a escolha de certas pessoas, dentre um maior número, para a vida eterna. Assim a eleição reflete particularismo. Contudo, num sentido real, a eleição é universal. Deus tem os Seus eleitos em todas as nações e em todas as épocas. A igreja é composta de "eleitos de toda nação", e em nenhum período da história os eleitos pereceram na terra, e jamais acontecerá isto no futuro. Deus quer que o Evangelho seja proclamado no mundo todo e em todo o tempo para que seja congregada a soma total dos eleitos. É bom repetir, pois: a eleição exige a evangelização. A mesma verdade pode-se ver de outro ângulo. A Escritura ensina que a eleição foi feita com vistas às boas obras. Disse Paulo: "Somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas" (Efésios 2.10). E a Escritura ensina especificamente que a eleição foi feita com vistas ao testemunho. Disse Pedro: "Vós sois raça eleita ... a fim de proclamardes as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz" (1 Pedro 2.9). Deus escolheu determinadas pessoas, não só para irem para o Céu quando morrerem, mas também para serem Suas testemunhas enquanto estiverem na terra. Digamos outra vez: a eleição exige a evangelização. Eis outra conclusão igualmente significativa: a eleição assegura que a evangelização resulte em cgeonnuveínrassõ.e sO pregador do Evangelho não tem como dizer quem em seu auditório pertence aos eleitos e quem não pertence. Mas Deus sabe. E Deus está pronto para aplicar e abençoar Sua Palavra nos corações dos Seus eleitos para a salvação. O momento preciso em que apraz a Deus fazer isso no caso de um eleito individual, não sabemos, mas é certo e seguro que o fará antes da morte da pessoa. Exatamente tão certo como todos os eleitos de Deus serão salvos, é certo que a palavra do Evangelho não tornará a Deus vazia (Isaías 55.11). A preterição e o oferecimento do Evangelho A eleição tem seu reverso. Se Deus escolheu da raça humana decaída certo número para a vida eterna, é óbvio que passou outros por alto, deixando-os em seu estado de perdição e decretando sua condenação por seus pecados. Teologicamente, este aspecto da predestinação é conhecido como preterição, rejeição ou reprovação. Tem-se alegado que esta doutrina elimina o sincero e universal oferecimento do Evangelho. Se Deus decretou desde a eternidade que certos homens pereçam eternamente, dizem os oponentes, é inconcebível que Ele, dentro da história, convide sinceramente a todos, sem distinção, para a vida eterna. Numa tentativa para refutar esse argumento, às vezes se faz a observação de que o pregador humano não tem meios para saber quem é eleito e quem não é, e que, portanto, ele não tem outro recurso senão proclamar o Evangelho a todos, indiscriminadamente. Embora válida, essa observação não atinge o ponto. A questão é se Deus, que sabe infalivelmente quais são os Seus eleitos e quais não são, faz sincero oferecimento da salvação a todos os que são alcançados pelo Evangelho. Fato da maior importância é que a Palavra de Deus ensina inequivocamente, tanto a reprovação divina, como a universalidade e a sinceridade do oferecimento do Evangelho. É inegável que Romanos 9.21,22 ensina a doutrina da reprovação: "Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro para desonra? Que diremos, pois, se Deus querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos de ira, preparados para a perdição...?". Também a ensina 1 Pedro 2.8, onde se faz menção dos "que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que também foram destinados". (...) o universal e sincero oferecimento do Evangelho é firme e certamente ensinado em Ezequiel 33.11, 2 Pedro 3.9 e em outras partes mais. Também podemos admitir – ou melhor, tem que ser admitido – que estes ensinos não podem ser conciliados entre si pela razão humana. Tanto quanto possa interessar à lógica humana, um exclui o 238
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    outro. Todavia, aaceitação de um deles com a exclusão do outro é condenada como racionalismo. A norma da verdade não é ditada pela razão humana, e sim pela infalível Palavra de Deus. É digno de nota que, na história da igreja cristã, os teólogos que têm insistido mais na verdade da rejeição divina, são os que têm defendido também, e da maneira mais enfática, o universal e sincero oferecimento do Evangelho. Seguem alguns exemplos. É do conhecimento geral que João Calvino ensinava a doutrina da reprovação divina. Às vezes ele até assumia a posição supralapsária, assim chamada. Quer dizer, defendia a idéia de que o decreto da predestinação precedeu logicamente os decretos da criação e da queda. No entanto, ao comentar Ezequiel 18.23, passagem paralela a Ezequiel 33.11, disse ele: "Não há nada que Deus deseja mais ardentemente do que, que aqueles que estejam perecendo e correndo para a destruição retomem o caminho da segurança". E continuou: "Se alguém objetar – bem, neste caso não há nenhuma eleição de Deus pela qual Ele tenha predestinado um número fixo para a salvação – a resposta está à mão: o profeta não fala aqui do secreto conselho de Deus, mas somente evoca aos homens em desgraça o seu desespero, para que aprendam a esperança de perdão, arrependam-se e abracem a salvação oferecida. Se alguém mais contestar – isso é fazer Deus agir com duplicidade – a resposta está preparada, que Deus sempre quer a mesma coisa, embora por diferentes meios e de modo inescrutável para nós. Portanto, embora a vontade de Deus seja simples, grande variedade a envolve, no que diz respeito aos nossos sentidos. Além disso, não é surpreendente que nossos olhos sejam cegados por luz intensa, de modo que, certamente, não podemos julgar como é que Deus quer que todos se salvem e, contudo, destinou todos os reprovados à destruição eterna, e quer que eles pereçam. Enquanto olhamos através de um vidro, obscuramente, devemos satisfazer-nos com a medida do nosso entendimento". Os Cânones de Dort ensinam inconfundivelmente a doutrina da reprovação. Dizem eles: "O que peculiarmente tende a ilustrar e a recomendar-nos a eterna e imerecida graça da eleição é o expresso testemunho da Sagrada Escritura de que não todos, mas somente alguns são eleitos, enquanto que outros são deixados de lado no decreto eterno. A estes Deus, por seu soberano, justíssimo, irrepreensível e imutável beneplácito, decidiu deixar caídos em sua miséria comum à qual se tinham lançado voluntariamente, e não lhes dar a fé salvadora e a graça da conversão. Mas, permitindo em seu justo julgamento que sigam os seus próprios caminhos, decidiu afinal, para a manifestação da sua justiça, condená-los e puni-los para sempre, não somente por causa da incredulidade deles, mas também por todos os seus outros pecados" (I, 15). Todavia, os Cânones insistem: "Todos quantos são chamados pelo Evangelho, são chamados com sinceridade. Pois Deus declarou ardorosa e verdadeiramente em Sua Palavra o que é aceitável a Ele, a saber, que aqueles que são chamados, venham a Ele" (III, IV, 8). Em apoio do ensino de Dort que transcrevemos acima, Herman Bavinck negou tanto que a fé seja a causa da eleição como que o pecado seja a causa da rejeição, e insistiu em que a eleição e a rejeição têm suas raízes no soberano beneplácito de Deus. Para ser exato, ele ensinou que Deus decretou soberanamente, desde a eternidade, que alguns homens escapariam da punição dos seus pecados, e outros não (Gereformeerde Dogmatick, II, 399). Mas na mesma obra clássica, aquele calvinista bem equilibrado afirmou também: "Embora através do chamamento a salvação se torne a porção de apenas uns poucos... ele /o chamamento/, não obstante, é de grande valor e significação também para aqueles que o rejeitam. Para todos, sem exceção, é prova do infinito amor de Deus, e sela a declaração de que Ele não tem prazer na morte do pecador, mas que ele se volte e viva" (IV, 7). A apresentação da eleição aos não salvos Não se pode simplesmente suprimir a pergunta sobre que lugar, se há algum, a doutrina da eleição deve ocupar na pregação aos não salvos. A Escritura e as confissões calvinistas dizem-nos que a verdade da eleição visa primariamente os crentes. O propósito ao qual ela serve em benefício deles foi admiravelmente resumido nos Cânones de 239
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    Dort. Dizem eles:"O senso e a certeza desta eleição comunicam aos filhos de Deus matéria adicional para a sua humilhação diária diante dele, para adorarem a profundidade das Suas misericórdias, para se purificarem e para oferecerem gratas retribuições de ardente amor a Ele, que manifestou primeiro tão grande amor para com eles" (I, 13). Uma velha ilustração torna bem claro o uso que não deve ser feito da doutrina da eleição ao lidarmos com pessoas não salvas. Pode-se falar da casa da salvação. Seu alicerce é o decreto divino da eleição, e sua entrada é Cristo. Ele disse: "Eu sou a porta" (João 10.9). Quando os que pela graça de Deus se acham dentro convidam os de fora para entrar, indicam para eles o alicerce ou a porta? A resposta é mais que evidente. Assim, quando o carcereiro de Filipos perguntou a Paulo e a Silas o que devia fazer para salvar-se, eles não o aconselharam a que procurasse descobrir se estava na lista dos eleitos; mandaram-no crer no Senhor Jesus Cristo (Atos 16.31). Vamos concluir que os homens devem ser mantidos na ignorância da eleição enquanto não receberem a Cristo pela fé? Naturalmente a resposta a esta pergunta deve ser negativa. Sem dúvida, a Assembléia de Westminster estava bem fundamentada ao advertir que "a doutrina deste alto mistério de predestinação deve ser tratada com especial prudência e cuidado" (Confissão de Fé de Westminster, III, 8), mas isto não pode significar que deva ser mantida oculta dos não salvos. Muito ao contrário, eles devem ser advertidos que não torçam esta verdade e exortados a fazerem uso apropriado dela. Especificamente, deve-se dizer a eles que a eleição dá lugar à salvação pela graça divina, que os méritos humanos estão fora de cogitação, e que, portanto, há esperança para o maioral dos pecadores; que o Deus da eleição convida com sinceridade, cordialmente e mesmo com urgência, todo pecador para a salvação; que a predestinação longe de excluir a responsabilidade humana, definitivamente a inclui, de modo que todos os que ouvem a proclamação do Evangelho estão, por dever sagrado, moralmente obrigados a crer, e, não sendo Deus a causa da incredulidade como é a causa da fé, os que persistem na incredulidade perecem por inteira culpa deles mesmos; que o decreto da eleição não é secreto no sentido de que ninguém pode estar certo de pertencer aos eleitos, mas que, ao contrário, visto que a fé em Cristo é o fruto e também a prova da eleição, a pessoa pode ter tanta certeza de que está incluída no número dos eleitos como de que é crente em Cristo Jesus; que a casa para a qual eles são convidados tem alicerce imutável e eterno, de sorte que aquele que entra, ainda que o inferno todo o ataque, não terá a mínima possibilidade de perecer, mas, com absoluta certeza herdará a vida eterna. A DOUTRINA DA ELEIÇÃO - III Organizado por Professor Reverendo Antony Steff Gilson de Oliveira NA ELEIÇÃO DEUS NÃO É PARCIAL E NÃO FAZ ACEPÇÃO DE PESSOAS POR LORAINE BOETTNER, SAMUEL FALCÃO E WILLIAM G. T. SHEDD Alguém que "faz acepção de pessoas", é alguém que, atuando como juiz, não trata aqueles que vêm ante ele conforme seu caráter, senão que nega a uns o que justamente lhes pertence e dá a outros o que não é justamente deles – isto é, é alguém governado pelo prejuízo e por motivos sinistros, e não pela justiça e pela lei. As Escrituras negam que Deus faça acepção de pessoas neste sentido; e se a doutrina da predestinação apresenta Deus atuando desse modo, teremos que admitir que Deus é injusto. As Escrituras ensinam que Deus não faz acepção de pessoas, porque Ele não escolhe um e rejeita outro com base em circunstancias externas como raça, nacionalidade, riquezas, poder, nobreza, etc. Pedro diz que Deus não faz acepção já que Ele não faz distinção entre judeus e gentios. Sua conclusão após 240
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    ser divinamente enviadoa pregar ao centurião romano, Cornélio, foi, "Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável" (At 10.34,35). Através de toda sua história os judeus creram que como povo eram objetos exclusivos do favor de Deus. Uma leitura cuidadosa de Atos 10.1 a 11.18 revelará quão revolucionária era a idéia de que o evangelho haveria de ser pregado aos gentios também. Paulo, igualmente, diz, "glória, porém, e honra e paz a todo aquele que pratica o bem; ao judeu primeiro, também ao grego. Porque para com Deus não há acepção de pessoas" (Rm 2.10.11). E, novamente, "Já não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há varão nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus". Logo acrescenta que não são os judeus externamente, mas aqueles que são de Cristo os que, no sentido mais profundo, pertencem a "linhagem de Abraão", e "herdeiros segunda a promessa" (Gl 3.28,29). Em Efésios 6.5-9 ordena os servos e senhores a se tratarem com justiça; por que Deus, que é Senhor de ambos, não faz acepção de pessoas; e em Colossenses 3.25 inclui igualmente as relações entre pais e filhos e entre esposas e esposos. Tiago diz que Deus não faz acepção de pessoas porque não faz distinção entre rico e pobre, nem entre aqueles que usam vestiduras finas e os que se vestem com simplicidade (Tg 2.1-9). O termo "pessoa" nestes versículos significa, não o homem interior, ou a alma, mas a aparência externa, que tão freqüentemente influi tanto em nós. Portanto, quando as Escrituras afirmam que Deus não faz acepção de pessoas, isto não significa que Deus trata a todos por igual, senão que a razão pela qual Ele salva um e rejeita outro não é porque um seja judeu e o outro gentio, ou porque um seja rico e o outro pobre, etc. Se todas as pessoas fossem inocentes, Deus seria injusto e se deixaria levar de respeitos humanos se as tratasse de maneira desigual, salvando umas e condenando as demais. O fato, no entanto, é que todos são pecadores e nada merecem de Deus. Deus é misericordioso para com aqueles a quem salva, sem ser injusto para com aqueles a quem condena, visto como podia ter condenado a todos sem ser injusto. Quando a Bíblia diz que Deus não faz acepção de pessoas, não quer dizer que Ele não distingue pessoas, dando a uns o que nega a outros. Que todas as pessoas não têm os mesmos dons e as mesmas oportunidades é um fato inegável. Sabemos existir muita gente que nunca teve oportunidade de ouvir o Evangelho, e nações inteiras, durante séculos, foram privadas desse privilégio. Quando a Bíblia diz que Deus não faz acepção de pessoas quer dizer que ele não faz distinção por motivo de raça, riqueza, condição social, etc., e também que Ele recompensará cada um de acordo com as suas obras. Veja-se Atos 10.34; Romanos 2.11; Tiago 2.9 e 1 Pedro 1.17. Nenhuma diferença faz entre judeus e gentios; julgará a todos de conformidade com as obras de cada um, visto como não faz acepção de pessoas. Mas nossa salvação não é algo devido aos nossos méritos; procede da graça divina. A este respeito Deus pode dizer o que o proprietário, respondendo, disse: "Amigo, não te faço injustiça; não combinaste comigo um denário? Toma o que é teu, e vai-te; pois quero dar a este último tanto quanto a ti. Porventura não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque os meus são bons?" (Mt 20.13-15). O decreto divino da eleição não pode ser acusado de parcialidade, porque isto só é cabível quando uma parte tem o que exigir de outra. Se Deus fosse obrigado a perdoar e salvar o mundo inteiro, seria parcial se salvasse apenas alguns e não todos. Parcialidade é injustiça. Um pai é imparcial e injusto se desconsidera direitos e exigências iguais de todos os seus filhos. Um devedor é parcial e injusto se, no ato de pagar a seus credores, favorece uns às custas dos outros. Nestes casos uma parte tem certa reivindicação a fazer sobre a outra. Mas é impossível Deus mostrar parcialidade em salvar do pecado, porque o pecador não tem qualquer direito ou reivindicação a apresentar. A afirmativa de que Deus é obrigado, seja nesta vida, seja na outra, a oferecer perdão de pecados mediante Cristo a todo o mundo, não apenas não tem apoio na Escritura, como é contrário à razão, 241
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    visto como transformaa graça em dívida, envolvendo o absurdo de que, se o juiz não oferece perdão ao criminoso, contra quem lavrou sentença condenatória, não o trata com eqüidade. IV. CONCLUSÃO: POR JOSIVALDO DE FRANÇA PEREIRA A eleição ou predestinação é a missão resgate de Deus, pois Deus não deixou todo o gênero humano perecer no estado de pecado e miséria que merecia. A doutrina da eleição não é uma filosofia cega. É construída, sustentada e revelada pela Palavra de Deus. Veja por exemplo Deuteronômio 7.6-9; Atos 13.48; Romanos 8.29,30; Efésios 1.4,5; 2 Tessalonicenses 2.13; 2 Timóteo 2.10; Tito 1.2, etc. Esta eleição, conforme dizem corretamente os teólogos calvinistas, é "incondicional", isto é, Deus elege independente de méritos, fé ou obras do indivíduo. E isto só é possível porque a eleição é um ato gracioso de Deus (Rm 11.5). Sendo assim, devemos compreender que a eleição divina nunca é uma questão de justiça. Portanto, erram aqueles que dizem que Deus seria injusto se escolhesse alguns e não todos para a salvação. A eleição é questão de graça. A condenação sim, é questão de justiça. Mas ninguém poderá entender a doutrina bíblica da eleição se não compreender adequadamente a doutrina bíblica do pecado. Porque "a pressuposição do eterno decreto divino da eleição é que a raça humana é caída; a eleição envolve o plano gracioso de Deus para o resgate" (Fred H. Klooster). Você acredita realmente que todos pecaram em Adão (cf. Rm 5.12) e que ninguém é merecedor da vida eterna? (cf. Rm 3.23). Se a sua resposta for afirmativa, então esteja certo de que nunca poderá entender a eleição como sendo injustiça. Deus teria sido perfeitamente justo se não elegesse ninguém (cf. Mt 20.14,15; Rm 9.14,15); no entanto, Ele quis, soberanamente, mostrar para alguns o Seu favor imerecido. Por isso, Paulo fala da "eleição da graça" (Rm 11.5). Na verdade, tudo que recebemos de bom é pura expressão da graça de Deus para conosco, como por exemplo, o arrependimento para a vida eterna (At 11.18), a salvação em Cristo (At 15.11; Ef 2.8,9) e o serviço cristão (1 Co 15.10; Ef 2.10). Deus também não faz acepção de pessoas, porque Ele não escolhe uma pessoa e rejeita outra com base em circunstâncias externas como raça, nacionalidade, riquezas, poder, nobreza, etc. O fato de Deus não salvar todo mundo só confirma a tese de que Ele não é obrigado a salvar todo mundo. Graça não é dívida; é graça! É importante esclarecer que a eleição divina não é a salvação; é para a salvação (2 Tm 2.13; 2 Tm 2.10). E entre ambas (eleição e salvação) está a evangelização, servindo de ponte para ligar duas partes inseparáveis (Rm 10.14-17; cf. At 18.9-11). Com isto aprendemos que não procede o falso conceito de que se uma pessoa é eleita, ela será salva independentemente de crer ou não em Cristo pelo evangelho. Pensar assim seria simplesmente um absurdo! Como também não procede a idéia de que esta doutrina da eleição "acomoda o crente para a evangelização". A eleição, conforme a Bíblia também ensina, é para serviço (cf. 1 Pe 2.9; 2 Pe 1.10). "Serviço" aqui deve ser entendido no mais amplo sentido do termo: evangelização, ação social, etc; portanto, somente os desavisados acreditariam que a eleição acomoda o crente para a obra de Deus. Lendo 2 Timóteo 2.10, aprendemos que para Paulo a eleição incentivava a evangelização ("tudo suporto por causa dos eleitos", dizia) e garantia os bons resultados da evangelização ("para que também eles [como os demais crentes] obtenham a salvação que está em Cristo Jesus com eterna glória"). Não é verdade que o apóstolo que mais defendeu a doutrina da predestinação foi um dos que mais trabalhou na obra de Deus? (1 Co 15.9,10). Além da salvação e o serviço propriamente ditos, a eleição tem, ainda como finalidade, a santidade de vida (Ef 1.4). A eleição é "para sermos santos". Deste modo, também não tem sentido a objeção de que a certeza de salvação que a eleição produz leva à libertinagem. A vida que não se expressa em santidade é incompatível com a doutrina bíblica da eleição (cf. 2 Pe 1.3-11). PERGUNTAS PARA RECAPITULAÇÃO Conforme R. B. Kuiper, o que é uma eleição? 242
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    Por que aeleição divina é incondicional? Por que a eleição exige a evangelização? De que modo a eleição auxilia na evangelização? Por que na eleição não há injustiça? Como é possível Deus eleger sem fazer acepção de pessoas? NOTAS (1). Em 2 Tessalonicenses 3.2 Paulo diz que "a fé não é de todos" e em Tito 1.1 que a fé "é dos eleitos de Deus". (2). Leia 2 Tessalonicenses 2.13. (3). Veja Atos 13.48. Professor Reverendo Antony Steff Gilson de Oliveira A DOUTRINA REFORMADA DA AUTORIDADE SUPREMA DAS ESCRITURAS Professor Reverendo Dr. Antony Steff Gilson de Oliveira A doutrina que me proponho a considerar neste artigo foi de fundamental importância na Reforma Protestante do Século XVI. Em contraposição, por um lado, à doutrina católica romana de uma tradição oral apostólica e, por outro lado, ao misticismo dos assim chamados entusiastas ou reformadores radicais, os Reformadores defenderam a doutrina da autoridade suprema das Escrituras. Essa foi, portanto, a sua resposta à autoridade da tradição eclesiástica e do misticismo pessoal. A autoridade suprema das Escrituras também é uma doutrina puritano-presbiteriana. A ela os puritanos tiveram que apelar freqüentemente na luta que foram obrigados a travar contra as imposições litúrgicas da Igreja Anglicana.1 A Confissão de Fé de Westminster professa a referida doutrina em três parágrafos do seu primeiro capítulo. No quarto parágrafo, ela trata da origem ou fundamento da autoridade das Escrituras: A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu Autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a Palavra de Deus. O parágrafo quinto aborda a questão da certeza ou convicção pessoal da autoridade das Escrituras: Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente apreço pela Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, a eficácia da sua doutrina, a majestade do seu estilo, a harmonia de todas as suas partes, o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a plena revelação que faz do único meio de salvar-se o homem, as suas muitas outras excelências incomparáveis e completa perfeição são argumentos pelos quais abundantemente se evidencia ser ela a Palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo que, pela Palavra e com a Palavra, testifica em nossos corações. O décimo e último parágrafo desse capítulo confere às Escrituras (a voz do Espírito Santo) a palavra final para toda e qualquer questão religiosa, reconhecendo-a como supremo tribunal de recursos em matéria de fé e prática: O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas, e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares; o Juiz Supremo, em cuja sentença nos devemos firmar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura. Em dias como os que estamos vivendo, em que cresce a impressão de que o evangelicalismo moderno (particularmente o brasileiro) manifesta profunda crise teológica, eclesiástica e litúrgica,2 convém considerar novamente essa importante doutrina reformado-puritana. Convém uma palavra de alerta contra antigas e novas tendências de usurpar ou limitar a autoridade da Palavra de Deus. Tal é o propósito deste artigo. 243
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    I. Definição Oque queriam dizer os Reformadores ao professarem a doutrina da autoridade das Escrituras? Que, por serem divinamente inspiradas, elas são verídicas em todas as suas afirmativas. Segundo esta doutrina, as Escrituras são a fonte infalível de informação que estabelece definitivamente qualquer assunto nelas tratado: a única regra infalível de fé e de prática, o supremo tribunal de recursos ao qual a Igreja pode apelar para a resolução de qualquer controvérsia religiosa. Isto não significa que as Escrituras sejam o único instrumento de revelação divina. Os atributos de Deus se revelam por meio da criação: a revelação natural (cf. Sl 19:1-4 e Rm 1:18-20). Uma versão da sua lei moral foi registrada em nosso coração: a consciência (cf. Rm 2:14-15), "uma espiã de Deus em nosso peito," "uma embaixadora de Deus em nossa alma," como os puritanos costumavam cham á-la. 244 3 A própria pessoa de Deus, o ser de Deus, revela-se de modo especialíssimo no Verbo encarnado, a segunda pessoa da Trindade (cf. Jo 14.19; Cl 1.15 e 3.9). Mas, visto que Cristo nos fala agora pelo seu Espírito por meio das Escrituras, e que as revelações da criação e da consciência não são nem perfeitas e nem suficientes por causa da queda, que corrompeu tanto uma como outra, a palavra final, suficiente e autoritativa de Deus para esta dispensa ção são as Escrituras Sagradas. II. Base Bíblica A base bíblica da doutrina reformada da autoridade suprema das Escrituras é tanto inferencial como direta. A. Base Inferencial É inferencial, porque decorre do ensino bíblico a respeito da inspiração divina das Escrituras. Visto que as Escrituras não são produto da mera inquirição espiritual dos seus autores (cf. 2 Pe 1.20), mas da ação sobrenatural do Espírito Santo (cf. 2 Tm 3.16 e 2 Pe 1.21), infere-se que são autoritativas. Na linguagem da Confissão de Fé, a autoridade das Escrituras procede da sua autoria divina: "porque é a Palavra de Deus." Isto não significa que cada palavra foi ditada pelo Espírito Santo, de modo a anular a mente e a personalidade daqueles que a escreveram. Os autores bíblicos não escreveram mecanicamente. As Escrituras não foram psicografadas, ou melhor, "pneumografadas." Os diversos livros que comp õem o cânon revelam claramente as características culturais, intelectuais, estilísticas e circunstanciais dos diversos autores. Paulo não escreve como João ou Pedro. Lucas fez uso de pesquisas para escrever o seu Evangelho e o livro de Atos. Cada autor escreveu na sua própria língua: hebraico, aramaico e grego. Os autores bíblicos, embora secundários, não foram instrumentos passivos nas mãos de Deus. A superintendência do Espírito não eliminou de modo algum as suas características e peculiaridades individuais. Por outro lado, a agência humana também em nada prejudicou a revelação divina. Seus autores humanos foram de tal modo dirigidos e supervisionados pelo Espírito Santo que tudo o que foi registrado por eles nas Escrituras constitui-se em revelação infalível, inerrante e autoritativa de Deus. Não somente as idéias gerais ou fatos revelados foram registrados, mas as próprias palavras empregadas foram escolhidas pelo Espírito Santo, pela livre instrumentalidade dos escritores.4 O fato é que, por procederem de Deus, as Escrituras reivindicam atributos divinos: s ão perfeitas, fiéis, retas, puras, duram para sempre, verdadeiras, justas (Sl 19.7-9) e santas (2 Tm 3.15).5 B. Base Direta Mas a doutrina reformada da autoridade das Escrituras não se fundamenta apenas em inferências. Diversos textos bíblicos reivindicam autoridade suprema. Os profetas do Antigo Testamento reivindicam falar palavras de Deus, introduzindo suas profecias com as assim chamadas fórmulas proféticas, dizendo: "assim diz o Senhor," "ouvi a palavra do Senhor," ou "palavra que veio da parte do Senhor."6 No Novo Testamento, v ários textos do Antigo
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    245 Testamento sãocitados, sendo atribuídos a Deus ou ao Espírito Santo. Por exemplo: "Assim diz o Espírito Santo..." (Hb 3:7ss).7 A autoridade apostólica também evidencia a autoridade suprema das Escrituras. O Apóstolo Paulo dava graças a Deus pelo fato de os tessalonicenses terem recebido as suas palavras "n ão como palavra de homens, e, sim, como em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em vós, os que credes" (1 Ts 2:13). Que autoridade teria Paulo para exortar aos g álatas no sentido de rejeitarem qualquer evangelho que fosse além do evangelho que ele lhes havia anunciado, ainda que viesse a ser pregado por anjos? Só há uma resposta razoável: ele sabia que o evangelho por ele anunciado não era segundo o homem; porque não o havia aprendido de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo (Gl 1:8-12). Jesus também atesta a autoridade suprema das Escrituras: pelo modo como a usa, para estabelecer qualquer controvérsia: "está escrito"8 (exemplos: Mt 4:4,6,7,10; etc.), e ao afirmar explicitamente a autoridade das mesmas, dizendo em João 10:35 que "a Escritura não pode falhar."9 III. Usurpações da Autoridade das Escrituras Apesar da sólida base bíblico-teológica em favor da doutrina reformada da autoridade suprema das Escrituras, hoje, como no passado, deparamo-nos com a mesma tendência geral de diminuir a autoridade das Escrituras. E isso ocorre de duas maneiras: por um lado, h á a propensão em admitir fontes adicionais ou suplementares de autoridade, que tendem a usurpar a autoridade da Palavra de Deus. Por outro lado, há a tendência de limitar a autoridade das Escrituras, negando-a, subjetivando-a ou reduzindo o seu escopo. Com relação à primeira dessas tendências, pelo menos três fontes suplementares usurpadoras da autoridade das Escrituras podem ser identificadas: a tradição (degenerada em tradicionalismo), a emoção (degenerada em emocionalismo) e a razão (degenerada no racionalismo). Sempre que um desses elementos é indevidamente enfatizado, a autoridade das Escrituras é questionada, diminuída ou mesmo suplantada. A. A Tradição Degenerada em Tradicionalismo Este foi um dos grandes problemas enfrentados pelo Senhor Jesus. A religi ão judaica havia se tornado incrivelmente tradicionalista. Havendo cessado a revelação, os judeus, já no segundo século antes de Cristo, produziram uma infinidade de tradições ou interpretações da Lei, conhecidas como Mishnah. Essas tradições foram cuidadosamente guardadas pelos escribas e fariseus por séculos, até serem registradas nos séculos IV e V A.D., passando a ser conhecidas como o Talmude,10 a interpretação judaica oficial do Antigo Testamento até o dia de hoje. Muitas dessas tradições judaicas eram, entretanto, distorções do ensino do Antigo Testamento. Mas tornaram-se tão autoritativas, que suplantaram a autoridade do Antigo Testamento. Jesus acusou severamente os escribas e fariseus da sua época, dizendo: Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. E disse-lhes ainda: Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição... invalidando a palavra de Deus pela vossa própria tradição que vós mesmos transmitistes... (Mc 7.7-9,13).11 O Apóstolo Paulo também denunciou essa tendência. Escrevendo aos colossenses, ele advertiu: Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo... Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: Não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? (Cl 2.8,20-22). Quinze séculos depois, os Reformadores se depararam com o mesmo problema: as tradições contidas nos livros apócrifos e pseudepígrafos, nos escritos dos pais da igreja, nas decisões conciliares e nas
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    246 bulas papaistambém degeneraram em tradicionalismo. As tradições eclesiásticas adquiriram autoridade que não possuíam, usurpando a autoridade bíblica. É neste contexto que se deve entender a doutrina reformada da autoridade das Escrituras. Trata-se, primordialmente, de uma reação à posição da Igreja Católica. Isto não significa, entretanto, que a tradição eclesiástica seja necessariamente ruim. Se a tradição reflete, de fato, o ensino bíblico, ou está de acordo com ele, não sendo considerada normativa (autoritativa) a não ser que reflita realmente o ensino bíblico, então não é má. Os próprios Reformadores produziram, registraram e empregaram confissões de fé e catecismos (os quais também são tradições eclesiásticas). Para eles, contudo, esses símbolos de fé não têm autoridade própria, só sendo normativos na medida em que refletem fielmente a autoridade das Escrituras. O problema, portanto, não está na tradição, mas na sua degeneração, no tradicionalismo, que atribui à tradição autoridade inerente. O tradicionalismo atribui autoridade às tradições, pelo simples fato de serem antigas ou geralmente observadas, e não por serem bíblicas. Essa tendência acaba sempre usurpando a autoridade das Escrituras. B. A Emoção Degenerada em Emocionalismo Outra fonte de autoridade que sempre ameaça a autoridade das Escrituras é a emoção, quando degenerada em emocionalismo. Isto quase inevitavelmente conduz ao misticismo. Na esfera religiosa, freqüentemente é dado um valor exagerado à intuição, ao sentimento, ao convencimento subjetivo. Quando tal ênfase ocorre, facilmente esse sentimento subjetivo de convicção, pessoal e interno, é explicado misticamente, em termos de iluminação espiritual e revelação divina direta, seja por meio do Espírito, seja pela instrumentalidade de anjos, sonhos, visões, arrebatamentos, etc. Não é que Deus não tenha se revelado por esses meios. Ele de fato o fez. Foi, em parte, através desses meios que a revelação especial foi comunicada à Igreja e registrada no cânon pelo processo de inspiração. O que se está afirmando é que o misticismo copia, forja essas formas reais de revelação do passado, para reivindicar autoridade que na verdade não é divina, mas humana (quando não diabólica). Essa tendência não é de modo algum nova. Eis as palavras do Senhor através do profeta Jeremias: Assim diz o Senhor dos Exércitos: Não deis ouvido às palavras dos profetas que entre vós profetizam, e vos enchem de vãs esperanças; falam as visões do seu coração, não o que vem da boca do Senhor... Até quando sucederá isso no coração dos profetas que proclamam mentiras, que proclamam só o engano do próprio coração?... O profeta que tem sonho conte-o como apenas sonho; mas aquele em quem está a minha palavra, fale a minha palavra com verdade. Que tem a palha com o trigo? diz o Senhor (Jr 23.16,26,28). Séculos depois o Apóstolo Paulo enfrentou o mesmo problema. Ele próprio foi instrumento de revelações espirituais verdadeiras, inspirado que foi para escrever suas cartas canônicas. Nessa condição, ele sabia muito bem o que eram sonhos, visões, revelações e arrebatamentos. Mas, ainda assim, advertiu aos colossenses, dizendo: "Ninguém se faça árbitro contra vós outros, pretextando humildade e culto dos anjos, baseando-se em visões, enfatuado sem motivo algum na sua mente carnal" (Cl 2:18). Tanto Jesus como os apóstolos advertem a Igreja repetidamente contra os falsos profetas, os quais ensinam como se fossem apóstolos de Cristo, mas que não passam de enganadores. Pois bem, sempre que tal coisa ocorre, a autoridade das Escrituras é ameaçada. O misticismo, como degeneração das emoções (não se pode esquecer que também as emoções foram corrompidas pelo pecado) tende sempre a usurpar, a competir com a autoridade das Escrituras, ch egando mesmo freqüentemente a suplantá-la. Na época dos Reformadores não foi diferente. Eles combateram grupos místicos por eles chamados de entusiastas12 que reivindicavam autoridade espiritual interior, luz interior, revelações espirituais adicionais que suplantavam ou mesmo negavam a autoridade das Escrituras. Esta tem sido igualmente uma das características mais comuns das seitas modernas, tais como mormonismo, testemunhas de Jeová, adventismo do sétimo dia, etc. Entre os movimentos
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    pentecostais e carismáticostambém não é incomum a emoção degenerar em emocionalismo, produzindo um misticismo usurpador da autoridade das Escrituras. C. A Razão Degenerada em Racionalismo A ênfase exagerada na razão também tende a usurpar a autoridade das Escrituras. O homem, devido a sua natureza pecaminosa, sempre tem resistido a submeter sua razão à autoridade da Palavra de Deus. A tendência é sempre tê-la (a razão) como fonte suprema de autoridade. Isto foi conseqüência da queda. Na verdade, foi também a causa, tanto da queda de Satanás como de nossos primeiros pais. Ambos caíram por darem mais crédito às suas conclusões do que à palavra de Deus. Desde então, essa soberba mental, essa altivez intelectual tem tendido sempre a minar a autoridade da Palavra de Deus, oral (antes de ser registrada) ou escrita. Por que o ser humano, tendo conhecimento de Deus, não o glorifica como Deus nem lhe é grato? O Apóstolo Paulo explica: porque, suprimindo a verdade de Deus (Rm 1:18), "...se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos... pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura, em lugar do Criador...’’ (Rm 1:21-22,25). Esta tem sido, sem dúvida, a causa de uma infinidade de heresias e erros surgidos no curso da hist ória da Igreja. A heresia de Marcião, o gnosticismo, o arianismo, o docetismo, o unitarianismo, e mesmo o arminianismo são todos erros provocados pela dificuldade do homem em submeter sua razão à revelação bíblica. Todos preferiram uma explicação racional, lógica, em lugar da explicação bíblica que lhes parecia inaceitável. Assim, Marcião concebeu dois deuses, um do Antigo e outro do Novo Testamento. Por isso, também o gnosticismo fez distinção moral entre matéria e espírito. Já o arianismo originou-se da dificuldade de Ario em aceitar a eternidade de Cristo. Do mesmo modo, o docetismo surgiu da dificuldade de alguns em admitir um Cristo verdadeiramente divino -humano. O unitarianismo, por sua vez, decorre da recusa em aceitar a doutrina bíblica da Trindade, enquanto que o arminianismo surgiu da dificuldade de Armínio em conciliar a doutrina da soberania de Deus com a doutrina da responsabilidade humana (rejeitando a primeira). A tendência da razão em usurpar a autoridade das Escrituras tem sido especialmente forte nos últimos dois séculos. O desenvolvimento científico e tecnológico instigou a soberba intelectual do homem. Assim, passou-se a acreditar apenas no que possa ser constatado, comprovado, pela razão e pela lógica. A ciência tornou-se a autoridade suprema, a única regra de fé e prática. E a Igreja passou a fazer concessões e mais concessões, na tentativa de harmonizar as Escrituras com a razão e com a ciência. O relato bíblico da criação foi desacreditado pela teoria da evolução; os milagres relatados nas Escrituras foram rejeitados como mitos; e muitos estudiosos das Escrituras passaram a assumir uma postura crítica, não mais submissa aos seus ensinos. Foi assim que surgiu o método de interpretação histórico-crítico em substituição ao método histórico-gramatical. Nele, é a suprema razão humana que determina o que é escriturístico ou mera tradição posterior, o que é milagre ou mito, o que é verdadeiro ou falso nas Escrituras. Mas antes de se atribuir tanta autoridade à ciência, convém considerar a sua história. Quão falível e mutável é! A grande maioria dos "fatos" científicos de dois séculos atrás já foram rejeitados pela própria ciência. Além disso, com que freqüência meras teorias e hipóteses científicas são tomadas como fatos científicos comprovados!13 247 IV. Limitações da Autoridade das Escrituras Além das tendências que acabei de considerar, propensas a usurpar a autoridade das Escrituras, existem outras, que tendem a limitar a autoridade bíblica, negando-a, subjetivando-a ou reduzindo o seu escopo. É o que têm feito a teologia liberal, a neo-ortodoxia e o neo-evangelicalismo, com relação a três dos principais aspectos da doutrina da autoridade das Escrituras. Estas três concepções de
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    248 "autoridade" bíblicaprecisam ser entendidas. Elas estão sendo bastante divulgadas em nossos dias, e são, em certo sentido, até mais perigosas do que as tendências anteriormente mencionadas, por serem mais sutis. Este assunto pode ser melhor entendido considerando-se os três principais aspectos da doutrina da autoridade das Escrituras: sua origem (ou base), certeza (ou convic ção) e escopo (ou abrangência). A. Origem ou Base da Autoridade das Escrituras A origem ou base da autoridade das Escrituras, como já foi mencionado, encontra-se na sua autoria divina. As Escrituras são autoritativas porque são de origem divina: o Espírito Santo é o seu autor primário. Para os Reformadores, as Escrituras são autoritativas porque são a Palavra de Deus inspirada. Por isso são infalíveis, inerrantes, claras, suficientes, etc. A teologia liberal (racionalista) nega a própria base da autoridade da Escritura, negando a sua origem divina. Para ela, as Escrituras são mero produto do espírito humano, expressando verdades divinas conforme discernidas pelos seus autores, bem como erros e falhas caracter ísticas do homem. Sua autoridade, portanto, não é divina nem inerente, mas humana, devendo ser determinada pelo julgamento da razão crítica. Eis o que afirmam: "A verdade divina não é encontrada em um livro antigo, mas na obra contínua do Espírito na comunidade, conforme discernida pelo julgamento crítico racional."14 De acordo com a teologia liberal, "nós estamos em uma nova situação histórica, com uma nova consciência da nossa autonomia e responsabilidade para repensar as coisas por nós mesmos. Não podemos mais apelar à inquestionável autoridade de um livro inspirado."15 B. Certeza da Autoridade das Escrituras A certeza ou convicção da autoridade das Escrituras16 provém do testemunho interno do Espírito Santo. A excelência do seu conteúdo, a eficácia da sua doutrina e a sua extraordinária unidade são algumas das características das Escrituras que demonstram a sua autoridade divina. Contudo, admitimos que "a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo, que pela Palavra e com a Palavra, testifica em nossos corações."17 O testemunho da Igreja com relação à excelência das Escrituras pode se constituir no meio pelo qual somos persuadidos da sua autoridade, mas não na base ou fundamento da nossa persuasão. A nossa persuasão da autoridade da Bíblia dá-se por meio do testemunho interno do Espírito Santo com relação à sua inspiração. Na concepção reformada, se alguém crê, de fato, na autoridade suprema das Escrituras como regra de fé e prática, o faz como resultado da ação do Espírito Santo. É ele, e só ele, quem pode persuadir alguém da autoridade da Bíblia. Essa persuasão não significa de modo algum uma revelação adicional do Espírito. Significa, sim, que a ação do Espírito na alma de uma pessoa, iluminando seu coração e sua mente em trevas, regenerando-a, fazendo-a nova criatura, dissipa as trevas espirituais da sua mente, remove a obscuridade do seu coração, permitindo que reconheça a autoridade divina das Escrituras. O Apóstolo Paulo trata deste assunto escrevendo aos coríntios. Ele explica, na sua primeira carta, que, "o homem natural não aceita as cousas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente" (1 Co 2.14). O homem natural, em estado de pecado, perdeu a sua capacidade original de compreender as coisas espirituais. Ele não pode, portanto, reconhecer a autoridade das Escrituras; ele não tem capacidade para isso. Na sua segunda carta aos coríntios o Apóstolo é ainda mais explícito, ao observar que, ...se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus... Porque Deus que disse: de trevas resplandecerá luz —, ele mesmo resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo (2 Co 4.3-4,6).
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    249 O quePaulo afirma aqui é que o homem natural, o incrédulo, está cego como resultado da obra do diabo, que o fez cair. Nesse estado, ele está como um deficiente visual, que não consegue perceber nem mesmo a luz do sol. Pode-se compreender melhor o testemunho interno do Espírito com esta ilustração. O testemunho do Espírito não é uma nova luz no coração, mas a sua ação através da qual ele abre os olhos de um pecador, permitindo-lhe reconhecer a verdade que lá estava, mas não podia ser vista por causa da sua cegueira espiritual. Deve-se ter em mente, entretanto — e esse é o ponto enfatizado aqui —, que esse testemunho interno do Espírito Santo diz respeito à certeza do crente com relação à plena autoridade das Escrituras, e não à própria autoridade inerente das Escrituras. A convicção de um crente de que as Escrituras têm autoridade é subjetiva, mas a autoridade das Escrituras é objetiva. Esteja-se ou não convencido da sua autoridade, a Bíblia é e continua objetivamente autoritativa. A neo-ortodoxia existencialista confunde estas coisas e defende a subjetividade da própria autoridade da Bíblia. Para eles, a revelação bíblica só é verdade divina quando fala ao nosso coração. Como dizem, "as Escrituras não são, mas se tornam a Palavra de Deus" quando existencializadas.18 C. Escopo da Autoridade das Escrituras Essas posições da teologia liberal e da neo-ortodoxia com relação à origem e à certeza da autoridade das Escrituras são seríssimas. Contudo, talvez mais séria ainda (por ser mais sutil) é a questão relacionada ao escopo da autoridade das Escrituras. Uma nova concepção da autoridade das Escrituras tem surgido entre os eruditos evangélicos (inclusive reformados de renome, tais como G. C. Berkouwer19), conhecida como neo-evangélica. O neo-evangelicalismo limita o escopo (a área) da autoridade das Escrituras ao seu propósito salvífico. Segundo essa concepção, a autoridade das Escrituras limita-se à revelação de assuntos diretamente relacionados à salvação, a assuntos religiosos.20 A doutrina neo-evangélica faz diferença entre o conteúdo salvífico das Escrituras e o seu contexto salvífico, reivindicando autoridade e inerrância apenas para o primeiro. Mas tal posição não reflete nem se coaduna com a posição reformada e protestante histórica. Para esta, o escopo da autoridade das Escrituras é todo o seu cânon. É verdade que a Bíblia não se propõe a ser um compêndio científico ou um livro histórico. Mas, ainda assim, todas as afirmativas nelas contidas, sejam elas de car áter teológico, prático, histórico ou científico, são inerrantes e autoritativas.21 Os principais problemas relacionados com a posição neo-evangélica quanto à autoridade das Escrituras são os seguintes: Primeiro, como distinguir o conteúdo salvífico do seu contexto salvífico? É impossível. As Escrituras são a Palavra de Deus revelada na história. Segundo, como delimitar o que está ou não está diretamente relacionado ao propósito salvífico, se o propósito da obra da redenção não é meramente salvar o homem, mas restaurar o cosmo? Que porções das Escrituras ficariam de fora do escopo da salvação? Como Ridderbos admite, "a Bíblia não é apenas o livro da conversão, mas também o livro da história e o livro da Criação..."22 Que áreas da vida humana ficariam de fora da obra da redenção? A arte, a ciência, a história, a ética, a moral? Quem delimitaria as fronteiras entre o que está ou não incluído no propósito salvífico? Admitir, portanto, o conceito neo-evangélico de autoridade das Escrituras é cair na cilada liberal do cânon dentro do cânon, e colocar a razão humana como juiz supremo de fé e prática, pois neste caso competirá ao homem determinar o que é ou não propósito salvífico. Conclusão Em última instância, a questão da autoridade das Escrituras pode ser resumida na seguinte pergunta: quem tem a última palavra, Deus, falando através das Escrituras, ou o homem, por meio de suas tradições, sentimentos ou razão? A resposta dos Reformadores foi clara. Embora reconhecendo que o propósito especial das Escrituras não é histórico, moral ou científico, mas salvífico, eles não diminuíram a sua autoridade de forma alguma: nem por adições ou suplementos, nem por reduções
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    ou limitações dequalquer natureza. A fé reformado-puritana reconhece a autoridade de todo o conteúdo das Escrituras, e sua plena suficiência e suprema autoridade em matéria de fé e práticas eclesiásticas. Tão importante foi a redescoberta destas doutrinas pelos Reformadores, que pode-se afirmar que, da aplicação prática das mesmas, decorreu, em grande parte, a profunda reforma doutrinária, eclesiástica e litúrgica que deu origem às igrejas protestantes. Todas as doutrinas foram submetidas à autoridade das Escrituras. Todos os elementos de culto, cerimônias e práticas eclesiásticas foram submetidos ao escrutínio da Palavra de Deus. A própria vida (trabalho, lazer, educação, casamento, etc.) foi avaliada pelo ensino suficiente e autoritativo das Escrituras. Muito entulho doutrinário teve que ser rejeitado. Muitas tradições e práticas religiosas acumuladas no curso dos séculos foram reprovadas quando submetidas ao teste da suficiência e da autoridade suprema das Escrituras. E a profunda reforma religiosa do século XVI foi assim empreendida. Mas muito tempo já se passou desde então. O evangelicalismo moderno recebeu, especialmente do século passado, um legado teológico, eclesiástico e litúrgico que precisa ser urgentemente submetido ao teste da doutrina reformada da autoridade suprema das Escrituras. É tempo de reconsiderar as implicações desta doutrina. É tempo de reavaliar a nossa fé, nossas práticas eclesiásticas e nossas próprias vidas à luz desta doutrina. Afinal, admitimos que a Igreja reformada deve estar sempre se reformando — não pela conformação constante às últimas novidades, mas pelo retorno e conformação contínuos ao ensino das Escrituras. Sabendo que a nossa natureza pecaminosa nos impulsiona em direção ao erro e ao pecado, conhecendo o engano e a corrupção do nosso próprio coração, reconhecendo os dias difíceis pelos quais passa o evangelicalismo moderno (particularmente no Brasil), e a ojeriza doutrinária, a exegese superficial e a ignorância histórica que em grande parte caracterizam o evangelicalismo moderno no nosso país, não temos o direito de assumir que nossa fé e práticas eclesiásticas sejam corretas, simplesmente por serem geralmente assim consideradas. É necessário submeter nossa fé e práticas eclesiásticas à autoridade suprema das Escrituras. Assim fazendo, não é improvável que nós, à semelhança dos Reformadores, também tenhamos que rejeitar considerável entulho teológico, eclesiástico e litúrgico acumulados nos últimos séculos. Não é improvável que venhamos a nos surpreender, ao descobrir um evangelicalismo profundamente tradicionalista, subjetivo e racionalista. Mas não é improvável também que venhamos a presenciar uma nova e profunda reforma religiosa em nosso país. Que assim seja! Notas 1 Ver, por exemplo, William Ames, A Fresh Suit against Human Ceremonies in God ’s Worship (Rotterdam, 1633); David Calderwood, Against Festival Days, 1618 (Dallas: Naphtali Press, 1996); George Gillespie, Dispute against the English Popish Ceremonies Obtruded on the Church of Scotland (Edinburgh: Robert Ogle and Oliver & Boyd, 1844); e John Owen, "A Discourse concerning Liturgies and their Impositions," em The Works of John Owen, vol. 15 (Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1965). 2 Cf. John MacArthur Jr., Com Vergonha do Evangelho: Quando a Igreja se torna como o Mundo (São José dos Campos: Editora Fiel, 1997) e Paulo Romeiro, Evangélicos em Crise: Decadência Doutrinária na Igreja Brasileira (São Paulo: Mundo Cristão, 1995). 3 Ver capítulo sobre a "Consciência Puritana," em J. I. Packer, Entre os Gigantes de Deus: Uma Visão Puritana da Vida Cristã (São José dos Campos: Editora Fiel, 1991), 115-132. 4 Sobre o conceito reformado de inspiração e infalibilidade (inerrância) das Escrituras, ver L. Berkhof, Introducción a la Teología Sistemática (Grand Rapids: The Evangelical Literature League, [1973]), 159-190; A. A. Hodge, Evangelical Theology: A Course of Popular Lectures (Edinburgh and Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1976), 61-83; Loraine Boettner, Studies in Theology 250
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    251 (Phillipsburg andNew Jersey: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1978), 9 -49; e J. C. Ryle, Foundations of Faith: Selections From J. C. Ryle’s Old Paths (South Plainfield, New Jersey: Bridge Publishing, 1987), 1-39. 5 Cf. também Salmo 119.39, 43, 62, 75, 86, 89, 106, 137, 138, 142, 144, 160, 164, 172; Mateus 24.34; João 17.17; Tiago 1.18; Hebreus 4.12 e 1 Pedro 1.23,25. 6 Lloyd-Jones afirma que essas expressões são usadas 3.808 vezes no Antigo Testamento; e que os que assim se expressavam estavam deixando claro que não expunham suas próprias idéias ou imaginações. D. Martin Lloyd-Jones, Authority (Edinburgh and Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1984), 50. 7 Ver também Atos 28.25 e Hebreus 4.3, 5.6 e 10.15-16. 8 O termo empregado é gegraptai (gegraptai). O tempo (perfeito) indica uma ação realizada no passado, cujos resultados permanecem no presente: foi escrito e permanece válido, falando com autoridade. 9 Outras evidências da autoridade divina das Escrituras são apresentadas por Lloyd-Jones, Authority, 30-50; e por John A. Witmer, "The Authority of the Bible," Bibliotheca Sacra 118:471 (July 1961): 264-27. 10 O Talmud inclui também a Gemara, comentários rabínicos sobre o Mishnah, escritos entre 200 e 500 AD (C. L. Feinberg, "Talmude e Midrash," em J. D. Douglas, ed., O Novo Dicionário da Bíblia, vol. 3 (São Paulo: Edições Vida Nova, 1979), 1560-61. 11 Conferir também Mt 15.3ss. 12 Berkhof, Introducción a la Teología Sistemática, 207. 13 Um exemplo bem atual: há poucos dias atrás, cientistas anunciaram que pesquisas feitas com o DNA dos fósseis do assim chamado homem de Neanderthal — até então "inquestionavelmente" considerado um dos antepassados mais recentes do homem na cadeia evolutiva —, revelam que esses ossos nada têm a ver com a raça humana. Exemplos como estes repetem-se continuamente, e deveriam tornar-nos cautelosos em atribuir à ciência autoridade maior do que a da revelação bíblica. 14 C. Pinnock, citado por Keun-Doo Jung, "A Study of the Authority with Reference to The Westminster Confession of Faith." (Tese de Mestrado, Potchefstroom [South Africa] University for Christian Higher Education, 1981), 45. 15 G. D. Kaufman, ibid., 45. 16 Ensinada no parágrafo V do capítulo I da Confissão de Fé de Westminster. 17 Ibid. 18 Outros dados sobre a importância da doutrina reformada da autoridade das Escrituras em relação à teologia liberal e à neo-ortodoxia podem ser obtidos em Lloyd-Jones, Authority, 30-61; John A. Witmer, "Biblical Authority in Contemporary Theology," Bibliotheca Sacra 118:469 (January 1961), 59-67; e Kenneth S. Kantzer, "Neo-Orthodoxy and the Inspiration of Scripture," Bibliotheca Sacra 116:461 (January 1959), 15-29. 19 Ver G. C. Berkouwer, Studies in Dogmatics: Holy Scripture (Grand Rapids: Eerdmans, 1975) e Ronald Gleason, "In Memoriam: Dr. Gerrit Cornelius Berkouwer," Modern Reformation 5:3 (May/June 1996), 30-32. 20 Alguns eruditos têm considerado a doutrina reformada tradicional da autoridade das Escrituras conforme ensinada pelos teólogos de Princeton, tais como Charles Hodge (1797-1878), Alexander Hodge (1823-1886) e B. B. Warfield (1851-1921), como um desvio do ensino dos Reformadores e da Confissão de Fé de Westminster. Ver, por exemplo, Ernest Sandeen, The Roots of Fundamentalism: British and American Millenarianism, 1800-1930 (Chicago: University of Chicago Press, 1970). Alguns, como Jack Rogers e Donald McKim, The Authority and Interpretation of the Bible: A Historical Approach (San Francisco: Harper & Row, 1979), chegam a defender que a doutrina
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    252 reformada dasEscrituras encontra seus legítimos representantes em Abraham Kuyper (1837-1920) e Herman Bavinck (1854-1921), os quais teriam se antecipado aos esforços de Karl Barth e G. C. Berkouwer no sentido de restaurar a verdadeira tradição reformada. Outros, entretanto, têm demonstrado que estas teses não procedem, visto que os teólogos de Princeton estão em substancial harmonia com outros que os antecederam, e com Kuyper e Bavinck. Ver Randall H. Balmer, "The Princetonians and Scripture: A Reconsideration," Westminster Theological Journal 44:2 (1982): 352-365; e Richard B. Gaffin, Jr., "Old Amsterdam and Inerrancy?," Westminster Theological Journal 44:2 (1982), 250-289; 45:2 (1983): 219-272. 21 Uma demonstração da posição reformada e protestante histórica da inerrância das Escrituras em português pode ser encontrada em John H. Gerstner, "A Doutrina da Igreja sobre a Inspira ção Bíblica," em James Montgomery Boice, ed., O Alicerce da Autoridade Bíblica, 2a ed. (São Paulo: Vida Nova, 1989), 25-68. 22 Herman Ridderbos, Studies in Scripture and its Authority (Grand Rapids: Eerdmans, 1978), 24. A Guarda do Sábado Professor Antony Steff Gilson de Oliveira Pastor da Igreja Presbiteriana em Renovação Espiritual Pretendemos dissertar a respeito do sábado judaico. Por que sábado judaico? Porque se trata de uma ordenança cumprida pelos judeus, mas propriamente pelos judaizantes, cuja crença está baseada no Antigo Testamento. Os adventistas também são pró-sabáticos. A guarda do sábado, que foi um sinal para o povo da Antiga Aliança, é obrigatória aos que estão sob a égide da Nova Aliança? Quem guarda o domingo está em pecado e não será salvo? O cumprimento da ordenança sobre o sétimo dia garante a salvação? Tentarei responder a estas e a outras perguntas. A Igreja de Cristo, desde o início, principalmente pelo Apóstolo Paulo, sempre dispensou estreita atenção às heresias, chamadas por Pedro de "heresias de perdição" (2 Pe 2.1), por tratar-se de ensinos contrários às doutrinas bíblicas. A Igreja, como fazem as sentinelas, deve manter-se em constante vigilância para denunciar a aproximação ou o surgimento de elementos estranhos ao Evangelho. É seu dever combater as heresias: "Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes" (Tt 1.9). Sábado, grego sabbaton, hebraico shãbath, tem em sua raiz o significado de cessação de atividade. Segundo o Dicionário VINE, "a idéia não é de relaxamento ou repouso, mas cessação de atividade". A conotação com o descanso físico vem pelo fato de que a suspensão dos trabalhos proporciona descanso, e porque Deus destinou o sétimo dia não só para repouso e memorial do término de sua criação, mas como dia de culto, adoração e comunhão com Ele (Ex 16.27; 31.12-17). A primeira referência bíblica sobre o sétimo dia está em Gênesis 2.2-3 que fala do descanso de Deus no shãbath. O "descanso" de Deus não quer dizer que Ele ficou cansado, mas que suspendeu sua atividade criadora. O princípio da criação do shãbath é destinar um dia ao repouso e ao exclusivo culto ao Senhor: "Seis dias trabalharás, mas o sétimo dia será o sábado do descanso solene, santo ao Senhor" (Êx 31.15). Deus incluiu o sábado nos Dez Mandamentos, lembrando que "em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou" (Êx 20.8-11). O castigo para quem
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    253 violasse osábado era a morte (Ex 31.12-17). Portanto, o castigo está associado à guarda do sábado. Para que haja coerência de procedimentos, quem guarda o sábado deveria, no caso de violação, aceitar o castigo correspondente. A guarda desse dia e o castigo pela desobediência são ordenanças de Deus e fazem parte da Antiga Aliança. O sábado era um sinal, como o foi a circuncisão, entre Deus e os filhos de Israel, assim como o arco era um sinal do pacto com Noé. Vejam a similitude que há nessas ordenanças: Arco: "Este é o sinal da aliança que ponho entre mim e vós, e entre toda a alma vivente, que está convosco, por gerações eternas...será por sinal entre mim e a terra" (Gn 9.12-13). Circuncisão: "Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós, e a tua descendência depois de ti... e circundareis a carne do vosso prepúcio, e isto será por sinal da aliança entre mim e vós. E o homem incircunciso...será extirpado do seu povo" (Gn 17.10,11,13). Sábado: "Tu, pois, fala aos filhos de |Israel, dizendo: Certamente guardareis meus sábados, porquanto isso é um sinal entre mim e vós nas vossas gerações, para que saibais que eu sou o Senhor, que vos santifica. Portanto, guardareis o sábado...aquele que o profanar, certamente morrerá" (Êx 31.13-14). A instituição do sábado está associada à lembrança da libertação da escravidão egípcia (Dt 5.15; Ez 20.10-20). Tais leis foram sombras das coisas futuras. Embora estabelecidas como estatuto perp étuo, como também a páscoa, a queima de incenso, o sacerdócio levítico e ofertas de paz, vigoraram até o estabelecimento do novo pacto em Cristo Jesus. Vejamos: "E, quando vós estáveis mortos nos pecados e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas" (Cl 2.13). O homem não pôde, pela lei, livrar-se da morte do pecado. Ninguém, até hoje, conseguiu cumprir fielmente toda a vontade de Deus expressa na lei. Cristo veio para nos livrar das penalidades da lei, visto que estamos não debaixo da lei, mas debaixo da graça (Rm 6.14). "Havendo riscado a cédula que era de alguma maneira contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz" (Cl 2.14). O "ministério da morte", como é chamada a lei mosaica (2 Co 3.7), não deu vida ao homem; apenas revelava o seu estado pecaminoso "Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade a quem a promessa tinha sido feita. Porque, se fosse dada uma lei que pudesse vivificar, a justiça, na verdade, teria sido pela lei. Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes. Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar. De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados. Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo da lei. Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus" (Gl 3.19-26). A lei de Moisés serviu para nos conduzir a Cristo. As palavras do Apóstolo, como acima, falam por si sem necessitar muitos esclarecimentos. A lei foi um estágio necessário, como necessários são os primeiros degraus de uma escada pelos quais alcançamos o ponto mais elevado. Ao morrermos com Cristo, morremos para a lei. A lei não alcança os mortos. "Agora estamos livres da lei, pois morremos para aquilo em que estávamos retidos, a fim de servirmos em novidade de espírito, e não na velhice da lei" (Rm 7.1,4,6). Por isso, Jesus cravou na cruz as ordenanças que de certo modo eram contra nós.
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    254 Agora vivemosnão segundo o ministério da condenação, mas segundo o do Espírito. "Se o ministério da condenação foi glorioso, muito mais excederá em glória o ministério da justiça". O Apóstolo diz que as antigas ordenanças eram transitórias, e foram abolidas por Cristo (2 Co 3.7-14). Os crentes da atualidade não são guiados pela lei, mas pelo Espírito. "Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo" (Cl 2.16-17). A guarda do sábado semanal, sombra do que viria, apontava para Cristo. Se a instituição do sábado nos fazia lembrar da saída do Egito, nossa atenção agora está centralizada na libertação que há em Jesus. Os "sábados" de Colossenses 2.16 não são sábados festivos; são sábados semanais, sem dúvida. Os festivos estão inclusos em "dias de festa". Em Ezequiel 20.12 e 44.24 também encontramos "meus sábados" referindo-se aos sábados semanais. De igual modo, Êxodo 31.13 alude aos "meus sábados", numa referência ao sétimo dia de descanso e culto. Então, a guarda do sábado foi uma "sombra das coisas futuras", mas a realidade está em Cristo. De acordo com isso está o teólogo adventista Samuele Bacchiocci, que afirmou: "O consenso unânime de comentaristas é que essas três expressões ["dias de festa", "lua nova" e "sábados"] representam uma lógica e progressiva seqüência (anual, mensal e semanal). Este ponto de vista é válido pela ocorrência desses termos...Um outro significativo argumento contra os sábados cerimoniais é o fato de que estes já estão incluídos nas palavras dias de festa (ou festividades - no original)... esta indicação positivamente mostra que a palavra SABATON como é usada em Cl 2.16 não pode referir-se aos sábados cerimoniais anuais (From Sabbath Sunday - Do Sábado para o Domingo - Samuele Bacchiocci, 1977, p. 359-360. Fonte: Bíblia Apologética). Leiam a seguinte promessa: "E farei cessar todo o seu gozo, as suas festas, as suas luas novas, e os seus sábados, e todas as suas festividades" (Os 2.11; cf. Cl 2.14,16). Vamos ver o que m ais a Nova Aliança diz a respeito da anterior: "O mandamento anterior é anulado por causa da sua fraqueza e inutilidade. Pois a lei nunca aperfeiçoou coisa alguma, e desta sorte é introduzida uma melhor esperança, pela qual chegamos a Deus" (Hb 7.18-19). Só chegaremos a Deus pela aceitação dos termos da Nova Aliança, isto é, pela graça, mediante a fé em Jesus (Jo 3.15-18; Rm 10.9; Ef 2.8-9). A salvação do ladrão na cruz é exemplo. Foi salvo não pelo cumprimento da lei, mas por graça e fé (Lc 23.46). O Novo Testamento diz que Cristo "alcançou ministério tanto mais excelente, quanto é mediador de um melhor concerto que está confirmado em melhores promessas. Porque, se aquela primeira fora irrepreensível, nunca se teria buscado lugar para a segunda. Dizendo Nova Aliança, envelheceu a primeira. Ora, o que foi tornado velho, e se envelhece, perto está de acabar" (Hb 8.6,7,13). Mas, se a lei foi abolida em Cristo, então podemos matar, cometer adultério, desobedecer a nossos pais? A resposta precisa ser encontrada no Novo Concerto, que ratificou os Dez Mandamentos, exceto a guarda do sábado. Em nenhuma parte do Novo Testamento encontraremos a ordem para reservar o sétimo dia. Vejamos o Decálogo e a correspondente instrução na Nova Aliança: "Não terás outros deuses diante de mim" (At 14.15); "não farás para ti imagem de escultura" (1 Ts 1.9; 1 Jo 5.21); "não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão" (Tg 5.12); "Lembra-te do dia do sábado para o santificar" (não mencionado no NT); "honra teu pai e a tua mãe" (Ef 6.1); "não matarás" , "não adulterarás", "não furtarás", "não cobiçarás" (Rm 13.9); "não dirás falso testemunho" (Cl 3.9).
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    255 Quanto aomandamento de não fazer imagem de escultura, sabatistas por vezes alegam não haver mandamento correspondente e explícito no Novo Testamento, porquanto, dizem, a palavra "ídolo" (1 Jo 5.21) não significa imagem de escultura. Quanto a isso, observem o que diz o conceituado Dicionário VINE: "Ídolo (eidolon), primariamente "fantasma" ou "semelhança" (derivado de eidos, "aparência", literalmente, "aquilo que é visto"), ou "idéia, imaginação", denota no Novo Testamento; (a) "ídolo", imagem que representa um falso deus (At 7.41; 1 Co 12.2; Ap 9.20); (b) "o falso deus" adorado numa imagem (At 15.20; Rm 2.22; 1 Co 8.4,7; 10.19; 2 Co 6.16; 1 Ts 1.9; 1 Jo 5.21)". Cabe salientar que prevalecem os princípios éticos e morais do Antigo Testamento, ratificados e, em alguns casos, aperfeiçoados no Novo Concerto. "Cada um desses princípios contidos nos Dez Mandamentos é restabelecido num outro contexto no Novo Testamento, exceto, é claro, o mandamento para descansar e cultuar no sábado". Jesus não fazia distinção entre leis morais e leis cerimoniais. É possível fazer-se esta divisão para melhor compreensão, mas ela não está definida na Bíblia. Ele afirmou que não veio anular a lei, mas cumpri-la (Mt 5.17). Em seguida, cita o sexto mandamento, "não matarás" (v.21); o sétimo, "não adulterarás" (v.27); o nono, "não dirás falso testemunho" (v.33); cita Levítico 24.20 "olho por olho, dente por dente"; cita Levítico 19.18 sobre o "amor ao próximo". Logo, a "lei" a que se referiu Jesus não diz respeito somente aos Dez Mandamentos, mas abrange o Pentateuco. "A lei é termo comum entre os judeus para a primeira das três divisões das Escrituras hebraicas, isto é, os cinco livros do Pentateuco. Jesus cumpriu cabalmente a lei, em Sua vida, pela observação constante de seus preceitos; em Seus ensinos, pela pregação da ética do amor que cumpre a lei (Rm 13.10) e em Sua morte, pela satisfa ção de suas exigências" (O Novo Comentário da Bíblia - Vol. II, Edições vida Nova, 1990, p. 953). Porque em sua vida cumpria a lei, era costume de Jesus participar dos cultos, aos sábados, nas sinagogas de sua cidade natal (Lc 4.16). Após a cruz, "pela lei ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé. Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós" (Gl 3.11,13). Se alguém deseja guardar o sábado, que o faça segundo prescreve o Antigo Testamento, assim: não ferver ou assar comida (Êx 16.23); não sair de casa nesse dia (Êx 16.29); não acender fogo (Êx 35.3); não viajar (Ne 10.31); não carregar peso (Jr 17.21); não exercer o comércio (Am 8.5). A violação de tais preceitos torna o infrator sujeito à maldição da lei e à pena de morte (Êx 31.15; Dt 27.11-28; Gl 5.1-5; Tg 1.23; 2.10). Pelas obras da lei nenhuma carne será justificada, porque pela lei vem o conhecimento do pecado. Ela revela o pecado e condena o homem. Em Cristo, se manifestou a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo. Foi impossível ao homem cumprir totalmente os itens da lei, sem qualquer fracasso, pois "maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las". Cristo, com sua morte expiatória, fez-se maldição em nosso lugar (Gl 3.10-13). Por isso, a Bíblia diz que todos pecaram (Rm 3.20-23). No antigo concerto, a salvação tinha por base a fé expressa pela obediência à lei de Deus e ao sistema sacrificial. Mas um novo concerto ou novo testamento, com melhores promessas, foi levado a efeito por Jesus Cristo mediante sua morte e ressurreição (Jr 31.31-34).
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    256 Os adventistas,regra geral, são sabatistas, mas parece não haver um consenso. Entre 1955 e 1956, o dr. Walter Martin, apologista da fé cristã, entrevistou 250 conceituadíssimos líderes adventistas. O resultado dessas entrevistas foi publicado no livro "Adventistas do Sétimo Dia Respondem Perguntas sobre Doutrina", de 720 páginas. Esses destacados líderes concluíram o seguinte: 1) Sabatismo: A guarda do sábado não propicia salvação. O cristão que observa o domingo não está em pecado. Não é cúmplice do papado. 2) Ellen G. White: Os escritos de Ellen White [profetiza do adventismo] n ão devem ser colocados em pé de igualdade com a Bíblia. 3) Santíssimo: Cristo entrou no Lugar Santíssimo por ocasião de sua ascenção, e não em 22 de outubro de 1844. Assim, as doutrinas do santuário celestial ser purificado e do juízo investigativo não tinham base bíblica. Em decorrência dessa posição, "houve sérias controvérsias no seio da Igreja Adventista do Sétimo Dia, dando origem a dois movimentos: o tradicional e o evangélico. O primeiro recusava-se a abrir mão das posições acima, pois aceitá-las comprometeria a exclusividade da IASD como o ´remanescente´, a única e verdadeira igreja de Cristo. O segundo advogava os conceitos expressos no Questions on doctrine. Estes não queriam deixar a IASD, apenas queriam uma reforma nas questões teológicas nada ortodoxas. Conclui-se que o Adventismo com o qual o Dr. Walter Martin dialogou e aceitou como cristão não é mais o mesmo que presenciamos aqui no Brasil, pois rompeu com tudo aquilo abordado no Questions on doctrine. Entretanto, não se pode negar que há dentro da IASD aqueles que almejam o retorno às formulações esboçadas e defendidas no referido livro" (Dicionário de Religiões, Crenças e Ocultismo - George A. Mather, Vida, 2.000, p. 194). Os apóstolos elegeram o primeiro dia da semana como o dia do Senhor: "No primeiro dia da semana, reunindo-se os discípulos para partir o pão, Paulo, que havia de sair no dia seguinte, falava com eles, e prolongou o seu discurso até à meia noite (At 20.7; v. 1 Co 16.2). Aqui vemos o registro da celebração da Ceia do Senhor num domingo, um dia de culto. O Apóstolo João revela que foi "arrebatado em espírito no dia do Senhor" (Ap 1.10), referindo-se ao domingo, dia da ressurreição de Jesus (Lc 24.1) e do seu aparecimento aos discípulos (Jo 20.19; Lc 24.13,33,36). A vontade de Deus é que aceitemos e vivamos segundo os termos do novo concerto. As provisões necessárias à nossa salvação não estão na antiga aliança, nem na obediência às suas leis e ao seu sistema de sacrifícios. A lei funcionou como tutor do povo até que viesse a salvação pela fé em Cristo. Desprezar a lei? Não. O Novo Testamento cuidou de revitalizar os princípios éticos e morais da lei, modificando uns, confirmando letra por letra outros, excluindo muitos. A salvação na nova aliança está consolidada na morte expiatória de Cristo, na sua ressurreição gloriosa e no privilégio de, pela fé, pertencermos a Ele. Quase toda a instrução dos capítulos 3, 4 e 5 de Gálatas aborda a questão da lei e do evangelho, donde se conclui que: 1) A lei foi ordenada por causa das transgressões, ATÉ que viesse a posteridade (3.19). 2) A lei não pôde comunicar vida; por isso, a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes. 3) A lei serviu para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados, não pela fé na obediência à lei. 4) Depois que a fé veio, já não estamos debaixo da lei, mas da graça (3.25). 5) Cristo veio para libertar os que estavam debaixo da lei. Não somos mais meninos necessitados de tutores, reduzidos à escravidão. Agora somos filhos de Deus (4.1-7). 6) Não mais estamos sujeitos a guardar dias, meses e anos, rudimentos fracos e pobres aos quais alguns querem continuar servindo (4.9-10). 7) Somos filhos não da escrava Agar, que simboliza o velho concerto. Somos filhos da
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    257 promessa, comoIsaque. Lancemos fora a escrava e seu filho, porque, "de modo algum, o filho da escrava herdará com o filho da livre" (4.21-31). 8) Não devemos retornar ao jugo da servidão, pois Cristo nos libertou (5.1). 9) Os que buscam justificação na lei, separados estão de Cristo (5.4). (08.01.2004) CONSAGRADO PARA CUIDAR Professor Dr. Diego Roberto Escola Missionaria Voz no Deserto (JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) O capítulo 8 de Levítico é o cumprimento da ordem dada em Êxodo 29 em relação à consagração dos sacerdotes (cohanim), Arão e seus filhos, dada por Moisés, o libertador e líder do povo de Israel. É um ato de extrema seriedade que descreve, de modo gráfico a responsabilidade dos consagrandos, que eram os guardiães espirituais do povo de Deus. Deste ato distante de nós cerca de 3.300 anos, desejamos extrair lições para o ministro do século 21, tarefa esta do intérprete da Bíblia Sagrada. O Ato de Consagração O ritual é um sacrifício de comunhão com a função especial de consagrar. A cerimônia pode ser dividida em quatro partes: vv. 1-13 Purificação, Vestidura, Unção dos Consagrandos vv. 14-17 Oferta pelo pecado dos Sacerdotes vv. 18-21 Oferta queimada vv. 22-36 Oferta de paz Uma análise da liturgia nos mostra em primeiro lugar o oferecimento de uma oferta pelo pecado, que seria totalmente consumida de acordo com as instruções do capítulo 4 do mesmo livro; e o oferecimento de dois carneiros. O primeiro seria oferecido em holocausto, de acordo com o cap ítulo 1. O segundo, porém tem uma parte especialíssima na cerimônia, razão porque é chamado de "o carneiro da consagração", conforme o verso 22 deste capítulo 8. Lê-se no verso 23 que houve aplicação do seu sangue a algumas partes do corpo dos consagrandos. Este sangue foi usado para trazer Arão e seus filhos a um estado sem igual de santidade. O restante do sangue será jogado ao redor do altar, estabelecendo com este ato um relacionamento especial entre o altar, símbolo do ministério, e os ordenandos, agentes desse ministério. As partes do corpo tocadas pelo sangue são orelha, mão e pé. Esse toque pelo sangue lava-os e dedica-os simbolicamente ao Senhor. Quer também dizer que o ministro de Deus ouvirá e obedecerá, e suas mãos e pés servirão ao Senhor. As lições são extraordinárias: O OUVIR (v. 23) O ministro de Deus há de ouvir corretamente. Referimo-nos à conversação pastoral, chamada por alguns de Clínica Pastoral no gabinete, na visitação ou informalmente. Não a confunda, porém, com aquilo que jocosamente chamam de "papoterapia". Como ministro de Deus e da Igreja de Jesus Cristo, você deve conhecer exatamente o papel que lhe corresponde. Não será um profissional da psicologia, da psicanálise ou das variadas terapias oferecidas à clientela. E, no entanto, seu ministério de ouvir é comparável ao do psicoterapeuta, do conselheiro matrimonial, ou do psicólogo. Muito de seu trabalho tem a ver com ouvir-e-aconselhar. Entretanto, você não receberá honorários pelo aconselhamento, nem fará contrato de trabalho para isso. Você é
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    um ministro deDeus e será procurado não por um paciente ou cliente, mas por uma ovelha sua, ou um semelhante seu que precisa de ajuda. Há quem apenas deseja falar, conversar; dê ouvidos, pois para isso sua orelha foi ungida. Há quem queira injeções de otimismo cristão, de esperança. Há quem tenha sérios sentimentos de culpa, de rejeição. Há quem precise ser confrontado. Uma coisa, porém, é certa: você tem autoridade dada por Deus e pela igreja que o chamou para dar esse conselho, essa exorta ção ou esse confronto. O ministro de Deus deve ouvir corretamente. Assim, você precisa ouvir o que está por trás das palavras. Palavras ditas, palavras não ditas, e palavras em suspenso. Talvez os lábios digam algo, mas a expressão facial, as mãos, a expressão corporal digam outra. Você precisa "ouvir" corretamente os sentimentos de quem está à sua frente. Na Clínica Pastoral, ouça bastante antes de opinar. Leve a ovelha a falar; viva a situação do outro. Você é chamado a um ministério de simpatia, de carinho, de afeição e de amor. Sobretudo quando você é enérgico! Desde que você começa a ouvir, está fazendo Psicoterapia Pastoral. Isso é afirmado pelo Dr. Wayne Oates, autor ou co-autor de mais de quarenta livros e por muitos anos professor de Aconselhamento Pastoral (Pastoral Care), no The Southern Baptist Theological Seminary em Louisville. Você é visto dentro de um esquema todo especial: há um significado simbólico em você como ministro de Deus. O pastor, por exemplo, é um ponto de referência na igreja para o povo de Deus. Ele simboliza e representa a comunidade cristã, e é agente dessa comunidade de Cristo, de Deus. Há muita esperança quando alguém procura o pastor. Por essa razão, é terrível, medonho mesmo, quando as palavras do pastor são divinas, mas seus hábitos de vida contradizem essa dimensão... Você representa e simboliza muito mais do que você mesmo: você representa o Pai, você leva a palavra de Cristo e o faz sob a direção do Espírito Santo. Quem vai ao seu gabinete espera e deve sair abençoado. Você vai ouvir confissões, vai ouvir palavras de arrependimento. Mas não pressione: ajude no processo de crescimento. O TOCAR (v. 23) O ministro de Deus é ungido na mão para tocar vidas. Estamos nos referindo, então, à influência. Você vai tocar muitas vidas e deve fazê-lo com cuidado e leveza. Use suas mãos para abençoar a criança, o jovem, o adulto, o idoso. E faça-o com carinho. Leve-os à consciência do santo, lembrando ao crente em Jesus Cristo que a rigor, para o povo de Deus, n ão existem espaços separados, compartimentos estanques entre o secular e o religioso, o sagrado e o profano, pois a vida pública, social, civil do crente em Jesus Cristo há de ser normatizada pelo senso do santo. Leve-os ao senso da providência, à fé, à gratidão, ao arrependimento, à comunhão, à vocação. Você há de tocar vidas; há de xer com as emoções das pessoas: raiva, medo, alegria. Você vai lidar com almas enfermas. São doenças do comportamento, mazelas do espírito, enfermidades psicossomáticas. Você terá um ministério a desempenhar nas crises. Crise é qualquer acontecimento que ameace o bem-estar de uma pessoa, e interfira na sua rotina de vida. O nascimento de uma crian ça, a morte de um parente, o fim de um casamento, o desemprego, a aposentadoria são crises . Você há de entrar em contato e reduzir a ansiedade, encorajando a pessoa a agir. Lembre-se de que cada situação de crise é única, sem igual. Ou como o povo diz, "Cada caso é um caso". Você há de tocar vidas em diferentes níveis de cuidado pastoral: o Nível da Amizade; o Nível do Conforto; o Nível da Confissão, o Nível do Ensino e o Nível do Aconselhamento e Psicoterapia. Devo estas classificações ao Dr. Oates. Há pessoas aflitas que necessitam de apoio; há aqueles enfrentando a morte que precisam do poder espiritual que o pastor representa; há pessoas com enfermidades crônicas; há deficientes físicos; há famílias com filhos com déficit mental; há os deprimidos e os desapontados com o amor ou outra causa. Todos estes estão no Nível de Conforto. Há o jovem 258
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    solteiro, os jovenscasados, o adulto de meia-idade, a viúva, a mãe solteira, o separado/desquitado/divorciado, o hospitalizado, todos em diferentes níveis do seu cuidado pastoral. O ANDAR (v. 23) O ministro de Deus é ungido no pé para andar santamente. Estamos falando de ética. Para isso, necessária é a ajuda do Espírito Santo. Se você não tem a ajuda do Espírito de Deus para crescer na graça e na maturidade, vai ser difícil entender a Bíblia, impossível aplicá-la às vidas, será um problema conviver com as ovelhas, e terrível dominar atitudes internas. Mais do que nunca, é preciso ser imitador de Cristo. Para sê-lo, porém, é preciso andar no Espírito, andar santamente. E andar santamente exige análise freqüente de nós mesmos, submissão do eu a Deus, e plenitude do Espírito Santo, que é o Seu controle em nossas vidas. Você há de visitar. Irá a muitos lugares e lares. Há dois tipos de visitas: as regulares e as de emergência. Não visite só nas crises: você precisa visitar o seu rebanho em tempos de paz. Seja ético, então, quanto ao que ouve, vê e aconselha. CONCLUSÃO O final da narração de Levítico 8 registra a obediência dos consagrandos, Arão e filhos. Isso nos ensina que consagração é entrega absoluta marcada pela obediência irrestrita às ordens de Deus. Nossa oração é que nosso ministério seja pontuado agora, hoje, sempre pela disciplina, obediência, entrega e consagração total àquele que é o Mestre de nossas vidas, Senhor do nosso futuro, Salvador de nosso ser. A Catedral Uma catedral para a honra e a glória de nosso Senhor Jesus Cristo se constrói momento a momento à medida que uma mão se estende e toca outra mão com amor humano, e à medida que um coração responde em amor a outro coração capacitado pelo Espírito Santo para anelar, escutar, elevar e amar-nos uns aos outros. Para que todos, em todo lugar possamos oferecer outros dons que Deus nos tem dado: Integridade nas relações, Alegria e paz na fidelidade, Fortaleza para fazer por meio da igreja, Mais do que pedimos ou imaginamos. 259 Margaret Shannon CURA INTERIOR Professor Dr. Diego Roberto Escola Missionaria Voz no Deserto (JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) 1. HISTÓRICO A "vida abundante" que Jesus ofereceu aos seus seguidores tem sido o objetivo dos mais dedicados cristãos em todas as épocas. Esta prometida abundância tem sido usualmente entendida como
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    260 harmonia internae liberdade espiritual, mais do que abundância material - por razões óbvias. A busca por tal liberdade interior tem aparecido sob os mais diversos nomes. 2. O QUE É CURA INTERIOR? O fenômeno conhecido como cura interior tem dois objetivos. O seu objetivo primário e espiritual é estender o senhorio e poder de cura de Cristo ao nosso passado, afetando mesmo a nossa experiência antes da conversão. O objetivo secundário e psicológico é portanto nos libertar de qualquer cativeiro emocional e psicológico que a nossa experiência passada possa ter produzido. Os teóricos da cura interior defendem que os bloqueios emocionais e os padrões habituais de comportamento (com os seus frutos negativos de frustração, derrota e fraca auto-imagem) nos impedem de atingir a vida abundante que Jesus prometeu. Portanto, eles concluem que, um esforço especial deve ser feito para curar estas feridas interiores, de forma que possamos ser libertos das diversas coisas que podem constringir e empobrecer as nossas vidas. Em resumo, o objetivo geral da cura interior pode ser descrito como uma espécie de "santificação retroativa". O propósito geral do movimento de cura interior é claramente de natureza pastoral. Desta forma, ele defende que a "cura das memórias" normalmente ocorra num aconselhamento de base individual, ou em pequenos grupos. Considera-se essencial que os dons do Espírito Santo estejam em operação, particularmente os dons de discernimento e cura. Ao indivíduo que está buscando sua cura será pedido que reviva seu passado através da imaginação. Isto geralmente envolve um "retorno" ao ponto-problema - um encontro traumático ou assustador que moldou a auto-imagem e o comportamento da pessoa e também porque este ponto se alojou em camadas profundas de sua psique. À medida em que o "paciente" imaginativamente recria o ponto-problema, com toda sua intensidade emocional, eles dizem ao paciente para imaginar que Jesus está lá (naquela situação). Presume-se que a presença imaginativa de Jesus traga Seu amor e poder de cura para relacionamentos perturbados com os pais e companheiros, os quais são muito poderosos para que o indivíduo dê conta dos mesmos sozinho. O que devemos fazer com estes fundamentos, teorias e técnicas que os acompanham? Na verdade, o que devemos fazer com os "ministros e ministérios da cura interior"? A época em que vivemos, com sua orientação voltada para o experiencial, tende a gerar um entusiasmo desqualificado por experiências de cura interior dentro de alguns setores da comunidade cristã. Infelizmente, esta mesma tendência tem efeito oposto em outros cristãos, que vêem como muito suspeitas tais experiências e a fascinação acrítica despertada por elas. Na maioria dos casos, não existe uma única resposta simples. A época em que vivemos é caracterizada pela crescente complexidade da vida em todos os níveis - econômico, material, moral e intelectual. À medida em que novas e antigas idéias se proliferam, elas influenciam o pensamento cristão de várias formas. Algumas têm mais validade que outras; muitas são completamente inaceitáveis. Nós devemos estar preparados para encarar conceitos não-familiares e pacientemente e em oração desvendar tanto as suas fontes bem como a suas implicações. Este processo pode ser frustrante e cansativo, mas sua necessidade é cada vez mais crescente. Dentro disto, nós podemos comentar que a cura interior é um fenômeno complexo e altamente variável. Não é possível nem endossá-la, nem condená-la cegamente. É possível, entretanto, identificar e avaliar aqueles elementos que influenciam as teorias e as terapias dos que praticam a cura interior. "Nossa vida interior é uma parte crítica de nossa identidade pessoal, e portanto a necessidade para a cura das emoções e memórias sempre fez parte da nossa condição humana." 3. REDIMINDO A PESSOA INTEGRAL A queda da humanidade (Gn.3) introduziu o princípio da morte e decadência em todos os níveis da existência humana. O veneno do pecado perpassa cada poro do nosso ser. Em seu sofrimento e ressurreição, Cristo venceu a morte - não somente fisicamente, mas de todas as formas em que somos afetados por ela. Nossa vida interior é uma parte crítica de nossa identidade pessoal, e portanto a
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    necessidade para acura das emoções e memórias sempre fez parte da nossa condição humana. O ensinamento e ministério de Jesus reconheceram implicitamente esta necessidade, bem como o fez o alcance da igreja primitiva. Jesus mesmo falou freqüentemente sobre "o coração" (isto é, "a sede oculta da vida emocional") como fonte de pensamento e ação. Ele também citou a profecia messiânica de Isaías 61, declarando seu propósito de "restaurar o coração partido" (Lc. 4:18). O apóstolo Paulo falou repetidamente sobre a renovação da mente no Espírito Santo (Rm. 12:2; Ef. 4:23). O encontro na estrada de Emaús (Lc. 24) pode ser visto (entre outras coisas) como uma forma de "cura das memórias". Se nós tomarmos este incidente como um protótipo para o exercício válido desta forma de ministério, vários critérios podem ser vistos. Se esta forma de cura tem sustentação bíblica, ela não se referirá primariamente às cicatrizes emocionais e traumas psicológicos da infância. Muito mais, ela tomará uma perspectiva mais ampla, lidando radicalmente com todas as forças da ansiedade, medo e incredulidade que produzem pensamento e comportamento anti-bíblico. O ponto central da cura interior nesta perspectiva mais ampla é a morte sacrificial de Jesus e sua vitória através da ressurreição sobre o pecado e a morte, exatamente como aconteceu na estrada de Emaús. Deste ponto-de-vista, a cura interior é muito menos um fim em si mesma e muito mais um passo preliminar que capacita o cristão a conseguir a libertação (Gl. 5:1) e a maturidade espiritual, deixando de lado a forma egoísta e infantil de viver (I Co. 13:11-12). Os discípulos, apóstolos e crentes do primeiro século conheciam o Cristo crucificado e ressurreto como Senhor de toda a história - cósmica (Cl. 1:15-23), racial (Ef. 2:11-20) e pessoal (Hb. 9:14). À medida em que eles seguiam Seu exemplo e a promessa de Sua eterna presença, eles eram libertos (e libertavam outros) do pecado, da doença física e psicológica e dos problemas emocionais, bem como do medo da morte e da falta de esperança que ela produz. Foi-lhes dada radicalmente uma nova base para a auto-estima, a qual não está baseada na mentira, ira ou outras formas de auto-afirmação. Esta nova base desafiou tanto a religião farisaica como sensualidade desenfreada. 261 4. A PSICOLOGIA DA PESSOA INTEGRAL Existe comunhão entre psicologia e o Cristianismo? Esta questão, em seu sentido mais amplo, escapa do objetivo da nossa aula. Entretanto, o assunto é pertinente, desde que muito da "cura interior" está baseada em visão secular de como a nossa personalidade é formada e influenciada. Muitos elementos da psicologia secular, entretanto, são mais ambíguos; alguns são frontalmente contrários ao pensamento bíblico. Sigmund Freud é a maior fonte de tendência a se enfatizar o trauma infantil. Carl Jung foi seu aluno e colega que se envolveu superficialmente com ocultismo. Sua abordagem sistemática à compreensão da natureza da mente inconsciente se tornou influente nos anos 60 e 70. Muito dos conceitos de Jung têm sido empregados num modelo "carismático" por pessoas como John Sanford e Morton Kelsey. Portanto, Freud e Jung (para não mencionar outros) indiretamente ajudaram a delinear muitas das pressuposições do movimento de cura interior. Além do mais, algumas das técnicas utilizadas para resgatar memórias têm sido tomadas de empréstimos de terapias seculares. "Alguns praticantes da cura interior...não somente têm adotado um sub-modelo da natureza humana; eles têm permitido que os próprios modelos se tornem parâmetros de interpretação da Bíblia." 5. ALGUNS PARÂMETROS PARA O DISCERNIMENTO À medida em que consideramos estes fundamentos, teorias e técnicas, e tentamos pesar suas implicações, nós devemos ter me mente alguns fatores críticos. A cura do "interior do homem" é uma premissa biblicamente demonstrável. Por esta razão, nós precisamos abordar alguma idéias e métodos sobre cura interior com cautela. A admoestação de Jesus a seus discípulos de que fossem "prudentes como as serpentes e símplices como as pombas" (Mt. 10:16) nos colocará numa posição bem firme para que sejamos capazes de identificar as influências sub-cristãs sem sermos influenciadas por elas.
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    262 A ênfaseexagerada numa certa técnica na vida espiritual facilmente se torna uma tentativa de manipulação psíquica, um esforço de produzir uma experiência ou um encontro com Deus. Não há nada de intrinsecamente errado em se utilizar a imaginação na oração, mas a dependência de invocação imaginativa de imagens religiosas pode se tornar insana. O uso do termo "visualização de fé" não batiza semanticamente tais práticas. Os produtos da imaginação podem também ser convenientemente trazidos para o campo do desejo e do ego, enquanto que o Cristo vivo n ão pode. Uma ênfase extremada na confissão verbalizada pelo crente no movimento da "palavra da fé" é outro ensino aberrante o qual, sutilmente, se torna uma espécie de ocultismo. Nestas formas exageradas, a visualização da fé cria um "video-interior de Jesus", o qual pode ser manipulado para quase qualquer sentido. Da mesma forma, devemos estar atentos para os modelos psicológicos que se baseiam em visões anti-bíblicas da natureza humana. É também necessário identificar e rejeitar tecnologias terapêuticas que são utilizadas para sustentar tais modelos. Alguns praticantes de cura interior, infelizmente, n ão somente têm adotado um sub-modelo da natureza humana; eles têm permitido que os próprios modelos se tornem parâmetros de interpretação da Bíblia. Tais práticas se situam entre a aberração e a apostasia. Como já dissemos, existem ligações demonstráveis entre tais técnicas como a "visualização da fé" ou a "confissão positiva" e algumas formas de pensamento do ocultismo e da Nova Era. Os esfor ços de se voltar para o interior para encontrar a globalidade, pode levar-nos à "dimensão divina interna" do misticismo Neoplatônico ou aos "arquétipos" do inconsciente coletivo de Jung. Em ambos os casos, bem como num grande número de casos similares, o sujeito que busca termina ofuscado por um subjetivismo, o qual é racionalizado com termos originários da metafísica oriental e da psicologia humanística. Neste ponto, uma mudança da verdade bíblica para especulações humanas se torna base para uma séria confusão sobre a natureza da cura e, mais importante, sobre a natureza do praticante da cura. Neste novo papel, Jesus, o Messias, se torna em parte o terapeuta primal e em parte um xamã primevo. Nesta situação, uma tentativa de se fazer uma avaliação racional ou bíblica é negativamente rotulada como um "falta de fé", "apagar o Espírito" ou "bloquear o fluxo"; pode mesmo ser desprezada como uma "viseira". "A postura bíblica sobre a nossa natureza é, com certeza, uma avaliação verdadeira e mais confiável do que a feita por nossos medos, iras e memórias..." 6. UMA QUESTÃO DE PRIORIDADES É razoável assumir que os problemas psicológicos e emocionais a que a igreja primitiva se referia eram tão complexos como os de hoje. Nós também vamos assumir que as soluções que ela aplicava são tão funcionais para hoje como eram no primeiro século. Não havia nenhuma necessidade de se renunciar à visão escriturística da condição humana ou de Jesus Cristo, a fim de fazerem estas soluções funcionarem. A imposição de mãos, a unção com óleo, a confissão mútua e a meditação direcionada eram alguns dos métodos empregados para produzir ambos, a cura interna e a cura externa. Os apóstolos foram estranhamente silenciosos, entretanto, sobre qualquer necessidade de reviver experiências relacionadas com a infância, ou sobre a prática de esfaquear o pai na imaginação, como alguns praticantes de cura interior têm aconselhado aos seus clientes. Com certeza, há abundantes benefícios psicológicos em se colocar Jesus como o centro radical de nossas vidas e afetos - mesmo acima e além de nossos laços familiares. Nós também somos chamados, entretanto, a meditar sobre coisas que estão acima e, de alguma forma é bom que se diga, que não estão nutrindo ressentimentos ou usando a nossa liberdade como desculpa para o mal (Ef. 4:26; I Pe. 2:16; Gl. 5:1). Existe uma considerável distância entre confessar a presença de um desejo negativo e dramaticamente realizá-lo - mesmo que na fantasia.
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    263 Nós devemosevitar confundir o sagrado com a saúde. A cura da psique e emoções pode ser uma importante parte do nosso crescimento em direção à espiritualidade. Entretanto, ela não deve ser superestimada em detrimento de outros aspectos da santidade, nem deve se tornar um substituto deles . Nós devemos nos guardar da idéia de que os cristãos estão isentos de toda sorte de enfermidades, doenças e tentações e que, qualquer ocorrência deste tipo seja um ponto negativo em nossa condição espiritual. Por outro lado, é importante não perder de vista as variadas maneiras pelas quais Deus provê libertação de coisas que nos impediriam viver plenamente em Cristo. 7. AS MARCAS DA INTEGRIDADE ESPIRITUAL Cura espiritual pode ser considerada como tendo base bíblica. Se assim for, ela deve ser reconhecida como uma parte integral de nossa vida cristã. Três principais pontos nos ajudarão a discernir a consonância bíblica de cada forma em particular, de cura interior. Todos os três pontos são vitais para um entendimento equilibrado e seria desaconselhável isolar ou superestimar qualquer um destes elementos. Primeiro: A cura espiritual deve tocar o problema na sua fonte. O indiv íduo deve ser liberto da prisão de uma memória em particular e do falso significado atribuído a ela. As feridas emocionais causadas pelo incidente que forçou a repressão de sua memória deve ser curada. Paulo fala de Deus como o Pai da compaixão (I Co. 1:3-4) e também enfatiza que a provisão do sangue de Cristo é um aspecto da Sua perfeita sabedoria (Ef. 1:7-8). De fato, é a "contínua aspersão do Seu sangue" que guarda o coração e a consciência das "palavras mortas" (Hb. 9:14; 10:22) e nos liberta do cativeiro emocional destas palavras a fim de que possamos servir ao Deus vivo. Segundo: A cura interior deve quebrar padrões de respostas habituais e comportamentos que foram gerados em reação a um trauma inicial. A pessoa que está sendo curada deve cooperar ativamente neste processo, ao invés de reagir passivamente à instruções e manipulações do que ministra a cura interior. Toda redenção envolve o fazer escolhas e o exercício da nossa vontade. Uma vez que fomos convocados ao arrependimento e renovação, somos também chamados a abandonar velhas formas de responder às pessoas e circunstâncias (Cl. 3:12-17; I Pe 2:1-3). Nós devemos portanto aprender novas atitudes e formas de lidar com estas situações (Ef. 4:22-24; I Pe. 1:5-9). Terceiro: A cura interior deve produzir mudanças pessoais que sejam compatíveis com a revelação das Escrituras, do nosso novo ego (eu) em Cristo. Isto deve estar combinado com uma ênfase na confiança do que Deus nos diz sobre nós mesmos, mais do que nossos sentimentos podem dizer. A postura bíblica sobre a nossa natureza é, com certeza, uma avaliação verdadeira e mais confiável do que a feita por nossos medos, iras e memórias, sem mencionar as acusações do Adversário (Rm. 8:1-2). A cura interior deve nos ajudar a sermos reeducados (através da palavra de Deus) acerca de quem somos em Cristo. Uma vez que entendemos como Deus nos vê, bem como a provisão que Ele fez para o nosso crescimento, nós começaremos a desenvolver uma auto-estima que corresponde precisamente à nossa confiança na justiça de Cristo, mais do que em nossa própria (Rm. 12:3). Nós não temos que abandonar o ponto-de-vista bíblico ou o compromisso com o senhorio de Cristo a fim de podermos nos beneficiar da cura interior. De fato, se tal necessidade for expressa ou se est á implícita, é aconselhável reconsiderar a validade dos fundamentos que têm sido colocados. Jesus mesmo reconheceu o dilema fundamental da humanidade, bem como suas secund árias implicações emocionais e psicológicas. Ele reconheceu o problema de se atingir auto-estima diante em ambiente hostil e uma consciência igualmente hostil que foi imperfeitamente moldada por influências imperfeitas durante os anos de formação da pessoa. A consciência ainda não-redimida se torna um entrave na condição psicológica, o qual inevitavelmente produz sua própria dissolução (Rm. 8:6). Jesus sugeriu ao homem que a vida entregue a Ele e o fato de seguirmos seu exemplo - mesmo a sua
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    264 morte comomártir - é uma carga mais fácil de ser suportada do que se lutarmos com as nossas próprias forças. (Mt. 11:28-30). Desvios Doutrinários da Confissão Positiva Professor Dr. Diego Roberto Escola Missionaria Voz no Deserto (JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) Os seguidores das doutrinas da Confissão Positiva dizem que não devemos submeter nossos pedidos à vontade de Deus. Não questiono a qualidade do caráter das pessoas mencionadas neste trabalho. Questiono a qualidade de seus ensinos, comparados com a Bíblia Sagrada. Vejamos: “Usar a frase `se for a Tua vontade´ em oração pode parecer espiritual, e demonstrar atitude piedosa de quem é submisso à vontade do Senhor, mas além de não adiantar nada, destrói a própria oração” (R.R.Soares, livro O Direito de Desfrutar Saúde, p. 11, citado por Paulo Romeiro, Supercrentes, p.37). Essa infeliz declaração é cópia fiel do que disse Benny Hinn, como está registrado mais adiante. Ora, submeter-se à vontade de Deus é bíblico, não anula nossas orações e é uma atitude espiritual. Se anulasse, a oração-modelo do Pai Nosso, ensinada por Jesus, para nada serviria; Jesus não teria sido um bom Mestre; milhões de orações nesses últimos dois mil anos foram ineficazes; nenhum crente em dois mil anos teria recebido qualquer bênção divina. Deus não respondeu a nenhuma delas? Logo de início vê-se o absurdo de tal declaração. Devemos confiar em quem? “Maldito o homem que confia no homem. Bendito o homem que confia no Senhor, e cuja esperança é o Senhor” (Jr 17.5,7). O cristão nunca deve esquecer o exemplo dos bereanos, que examinavam nas Escrituras se as coisas que Paulo e Silas ensinavam estavam corretas (At 17.10-12). “Jesus me apareceu e disse que se alguém, em qualquer lugar, quiser tomar esses quatro passos ou pôr em operação esses quatro princípios, sempre receberá o que quiser de mim ou da parte de Deus Pai: Passo 1 – Diga a coisa: positiva ou negativamente, tudo depende do indivíduo. Passo 2 – Faça a coisa: Os atos derrotam-no ou lhe dão vitória. Passo 3 – Receba a coisa: Compete a nós a conexão com o dínamo do céu. Passo 4 – Conte a coisa: Contar para que outros também possam crer” (Kenneth Hagin, Como Registrar Seu Próprio Bilhete com Deus, p.5, citado por Hank Hanegraaaff, em Cristianismo em Crise, p. 81). Referindo-se a João 14.14, Hagin ensina que “a palavra `pedir´ também significa `exigir´: `E tudo quanto exigirdes em Meu nome, isso [Eu, Jesus] farei”. “Nunca jamais, em tempo algum vão ao Senhor e digam: `Se for da tua vontade...´ Não permitam que essas palavras destruidoras da fé saiam da boca de vocês. Quando vocês oram `se for da tua vontade, Senhor´ a fé é destruída. A dúvida espumará e inundará todo o seu ser. Resguardem-se de palavras como essas, que lhes roubarão a fé e os puxarão para baixo, ao desespero” (Benny Hinn, Levante-se e Seja Curado, ibid, p.295). Frederic Price, outro arauto da Confissão Positiva, segue no mesmo diapasão: “Se você tem de dizer: `Se for da tua vontade´ ou `Que se faça a tua vontade´, então você está chamando Deus de idiota. É deveras estupidez orar para que a vontade de Deus seja feita. Isto é uma farsa, um insulto à inteligência de Deus”. “Sereis semelhantes a Deus”
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    265 É esteum dos itens fundamentais da doutrina desses mestres da fé: o homem deve exigir seus direitos e não se submeter à vontade de Deus. Essa aberração teológica rebaixa o Criador, que fica à mercê das vontades e caprichos humanos, e exalta o homem, colocando-o em condições de igualdade com Cristo. Eles falam e ensinam o que o Senhor não mandou falar nem ensinar. Apresentam um cristianismo particular, muitas vezes fruto de experiências particulares, de visões e aparições. “O homem foi criado em termos de igualdade com Deus... O crente é chamado de Cristo... Eis quem somos: somos Cristo... Você é tanto uma encarnação de Deus quanto Jesus Cristo o foi”. O Senhor fez o homem como o Seu substituto aqui na terra... O homem era Senhor... vivia em termos de igualdade com o Criador. Muitos não sabem ainda que são filhos e filhas de Deus tanto quanto o próprio Jesus... Nem o próprio Senhor Jesus tem uma posição melhor diante de Deus do que você e eu temos” (Kenneth Hagin, citado por Hank Hanegraaaff, Cristianismo em Crise, p. 116/7). Essas palavras são um testemunho de que não podemos confiar na doutrina da Confissão Positiva. Afirmar em alto e bom som que o Príncipe da Paz tem posição inferior ao homem diante do Pai soa como uma blasfêmia contra o Filho Unigênito de Deus, o Verbo encarnado, o “Alfa e Ômega, o primeiro e o último, o princípio e o fim”. Observem que Hagin rebaixa Jesus a uma condição de desigualdade com o Pai, ao mesmo tempo em que promove a deificação do homem. Essa doutrina é a da serpente (Gn 3.5). “A razão para Deus criar Adão foi seu desejo de reproduzir a si mesmo. Adão não era um deus pequenino. Não era um semideus. Nem ao menos estava subordinado a Deus” (Kenneth Copeland). “Deus está duplicando a si próprio na Terra” (John Avanzini). “Vocês sabiam que desde o começo do tempo o propósito inteiro de Deus era reproduzir-se?... e quando estamos aqui de pé, vocês não estão olhando para Morris Cerullo; vocês estão olhando para Deus, estão olhando para Jesus” (Morris Cerullo). “Deus duplicou a si mesmo em espécie. Adão foi uma exata duplicata do tipo de Deus” (Charles Capps). “Jesus foi recriado nas portas do inferno” (Valnice Milhomens). Notaram a tentativa de colocar o homem em condições de igualdade com Deus? Notaram como os componentes da orquestra da Confissão Positiva estão afinados? Essa orquestra está sob a batuta de quem? De Deus? Estão afirmando que o homem é uma clonagem do Criador. São esses os mestres que estão ensinando diariamente, pela televisão e por livros, a milhões de desavisados irmãos, ávidos por novidades e declarações chocantes. Eles estão repetindo a fórmula mágica apresentada pelo diabo a Eva, no Éden: “Sereis como Deus” (Gn 3.5). Loucos por dinheiro Entre Hagin, Hinn, Copeland, Jorge Tadeu, Robert Tilton, Morris Cerullo, Charles Capps e outros, parece haver uma disputa para ver quem cria mais desvios doutrinários. Qual a razão de tanto empenho? Amor pelas almas perdidas ou amor ao dinheiro? A resposta vem de um dos componentes da orquestra, que desta vez saiu do tom. Leiam: “Eu estava muito influenciado por Kenneth Hagin e Kenneth Copeland. Nenhum deles fala de salvação. Só de fé. A mensagem da fé é vazia sem o Espírito. A própria palavra [prosperidade] foi distorcida e tornou-se de importância fundamental no ministério. Dinheiro, dinheiro, dinheiro. É quase como ir a um cassino jogar” (Benny Hinn, citado por Paulo Romeiro, em Evangélicos em Crise, p.43-44). Hinn reconhece os erros doutrinários da Confissão Positiva, mas, parece, não consegue
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    livrar-se das “concupiscênciasloucas e nocivas” que arrastam os homens à “ruína e perdição”, por causa do desejo ardente de ficarem ricos (1 Tm 6.9). Leiam o que ele declarou: “Anos atrás costumavam pregar: Ó, nós andaremos por ruas de ouro. Hoje eu digo: Não preciso de ouro lá em cima. Quero o ouro aqui embaixo”. 266 Benny Hinn tem razão. O cristianismo não é um cassino, em que quem arriscar mais, tem chance de levar mais. Se até agora nada deu certo; se não choveram dólares sobre você, é hora de arriscar tudo, numa última cartada. Entregue aos mestres a sua bolsa, seu salário, seus bens. Sabendo disso, o próprio Hinn ensinou: “Você quer prosperar? O dinheiro vai cair sobre você da esquerda, da direita e do centro. Deus começará a fazê-lo prosperar, pois o dinheiro sempre se segue à retidão... Diga comigo: Tudo que eu possa desejar já está em mim”. Alguém tem dúvida de que no Brasil as igrejas filiadas ao ministério dos Kenneth`s tocam a mesma música? Outra de Hinn: “O dinheiro sempre se segue à retidão” Traduzindo, significa que a pessoa justa, correta, honesta terá muito dinheiro. E o pobre? Não tem dinheiro porque não leva uma vida de retidão? É possível que o vil metal esteja provocando distúrbios mentais em muita gente. Se Deus quiser Conforme ensina a Confissão Positiva, submeter-se à vontade de Deus anula a oração; dizer “seja feita a tua vontade” é ser estúpido e chamar Deus de idiota. A estupidez e idiotice estão em quem ensina heresias. O “Jesus” que apareceu a Hagin e ensinou os passos decisivos para conseguir tudo o que desejar entrou em contradição com o Jesus da Bíblia. Na oração-modelo do Pai Nosso, Ele nos ensinou a pedir, e não exigir de Deus, e que em tudo “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10); ensinou que devemos sempre fazer a vontade do Pai (Mt 7.21; 12.50); Ele mesmo dava o exemplo (Jo 4.34; 5.30; 6.38,39). Até no momento de maior dor, na última noite em que passou com os apóstolos, Jesus foi submisso à vontade do Pai: “Pai, se queres, passa de mim este cálice, todavia não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 22.42). Os mestres da prosperidade ensinam o oposto. Dizem que a nossa vontade é que deve prevalecer. Os apóstolos, que tinham o ensino de Jesus no coração, não pensavam do mesmo modo. Diante da recusa de Paulo em cancelar sua viagem para Jerusalém, eles se renderam aos fatos e disseram: “Faça-se a vontade do Senhor” (At 18.21; 21.14; cf. Sl 40.8; 143.10; Rm 1.10; 15.32; 1 Co 4.19; Hb 10.7; 1 Pe 2.15; 3.17; 4.2,19; 1 Jo 2.17). A expressão `se Deus quiser` não entra no vocabulário dos mestres da prosperidade. A doutrina deles aponta para “eu digo, eu faço, eu recebo”. É o mesmo que dizer: Eu posso, eu mando, eu sou Senhor de mim mesmo. Isto é egolatria. A exemplo de `se for da tua vontade`, dizer `se Deus quiser´ é chamar Deus de idiota. Deveriam editar uma Bíblia particular, com interpretações próprias, ajustadas aos seus ensinos, como fizeram os testemunhas-de-jeová. Vejam o que diz a Palavra: “Humilhai-vos perante o Senhor, e ele vos exaltará. Vós que dizeis: Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, lá passaremos um ano, negociaremos e ganharemos. Ora, não sabeis o que acontecerá amanhã... Em lugar disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser [ou se for da Sua vontade], viveremos e faremos isto ou aquilo. Vós vos jactais das vossas presunções. Ora, toda jactância tal como esta é maligna” (Tg 4.10,13-16). É indiscutível o desencontro entre a Palavra de Deus e a doutrina da Confissão Positiva. Há declarações que chegam a ser uma blasfêmia: “Acredito que a oração do Pai Nosso não é para os
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    267 crentes hojeem dia” (Frederic Price). Ora, o crente é que deve adaptar-se à vontade de Deus expressa na Bíblia, e não o contrário. Pelo visto, os fiéis da Confissão Positiva rejeitam por completo a oração ensinada por Jesus, porque nela os cristãos se colocam à mercê da soberana vontade do Senhor. Pedir ou exigir? Com relação à substituição do "pedir" pelo "exigir", vejam o seguinte. Pedir, do grego aiteõ, sugere a atitude de um suplicante que se encontra em posição inferior àquele a quem pede. É esse o verbo usado em João 14.13 – “E tudo quanto pedirdes em meu nome...” – e 14.14 – “Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei”. “Pedir”, do grego erõtaõ, indica com mais freqüência que o suplicante está em pé de igualdade ou familiaridade com a pessoa a quem ele pede, como, por exemplo, um rei fazendo pedido a outro rei. “Sob este aspecto, é significativo destacar que o Senhor Jesus nunca usou o verbo aiteõ na questão de fazer um pedido ao Pai”, por ter dignidade igual Àquele a quem pedia. (Jo 14.16; 17.9,15,20 – Fonte: Dic. VINE). Como a Confissão Positiva diviniza o homem, colocando-o no mesmo nível de Deus, não há porque pedir, mas exigir. Alguns falam em “reivindicar direitos”, da mesma forma como fazemos nos requerimentos endereçados às autoridades constituídas. A Soberania de Deus Um dos textos usados pelos mestres da Confissão Positiva é o seguinte: “E tudo o que pedirdes em oração, crendo, o recebereis” (Mt 21.22; cf. Mc 11.24; Jo 14.13; 15.7; 1 Jo 5.15). Alegam que, pela Palavra, Deus obriga-se a nos atender. Daí concluem que não precisamos pedir, mas exigir o direito a que fazemos jus. Dizem, também, que, em razão disso, é ocioso dizer `se Deus quiser´ ou `que seja feita a Sua vontade´. Esses desvios não são os únicos da Confissão Positiva. Se a palavra acima funcionasse automaticamente, isto é, se de forma literal Jesus nos desse qualquer coisa que lhe pedíssemos com fé, nosso destino e nossas lutas estariam sob nosso próprio controle, o que seria desastroso, pois somos incapazes de conhecer o que nos aguarda o futuro e o que é melhor para nossa vida. Todavia, nosso “Pai sabe do que necessitais, antes de lho pedirdes” (Mt 6.8; cf. Ef 3.20). Ele nos dará o que for melhor, e nem sempre pedimos o que é melhor. Deus poderá responder SIM ou NÃO, visto que Ele é soberano para fazer somente o que lhe apraz. Paulo orou com fé para que Deus o livrasse de um espinho na carne, e Deus não o atendeu (2 Co 12.8-9). Ele também estava capacitado por Deus para curar enfermos (Mc 16.18; At 28.9)), mas não pôde curar Epafrodito (Fp 2.25-27) nem Trófimo (2 Tm 4.20) nem Timóteo (1 Tm 5.23). A interpretação de Mateus 21.22 não pode ser literal porque Deus não pode nos dar qualquer coisa. Por exemplo, Deus não perdoa nossos pecados sem que tenhamos perdoado as ofensas recebidas, ainda que Lho peçamos com fé (Mc 11.23-26). Deus não me atendeu quando lhe pedi, em lágrimas e profunda dor, durante sete meses, que curasse a minha mulher. Também lhe pedi que tirasse a minha vida, mas a deixasse viver, mas não fui atendido. Minhas petições foram negadas. Os planos de Deus excediam a minha capacidade de compreensão. Deus também não cura todas as pessoas, pelas quais oramos com fé. O mais certo é seguirmos o exemplo de Jesus: “Não seja, porém, o que eu quero, e, sim, o que tu queres” (Mc 14.36); e o de Paulo: “Se Deus quiser, outra vez voltarei a vós” (At 18.21; 1 Co 4.19); “A fim de que, pela vontade de Deus, chegue a vós...” (Rm 15.32). Deus tem razão em cem por cento das vezes em que Ele nos responde com um não. Depois de um certo tempo é que vamos entender que foi melhor assim.
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    w 268 Asoberania de Deus, absoluta e universal, decorre de seus atributos incomunicáveis (onipotência, onisciência, onipresença, infinitude e imutabilidade). Deus é supremo sobre todas as coisas, em governo e autoridade. Ele faz o que quer com o que é seu (Mt 20.15) e se compadece de quem quer se compadecer, e terá misericórdia de quem quiser ter misericórdia. “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Rm 9.15,16,18,21). Não se pode pôr limites à sua autoridade. “Deus não é menos soberano na distribuição de seus favores. A alguns dá riquezas, a outros, honra; a outros, saúde; enquanto outros são pobres, ignorados ou vitimados pela enfermidade. A alguns, ele envia a luz do evangelho; a outros, ele deixa nas trevas. Alguns, pela fé, são conduzidos à salvação; outros perecem na incredulidade. À pergunta “Por que isso é assim?”, a única resposta é aquela dada por nosso Senhor: “Assim foi do teu agrado, ó Pai” - Mt 11.26” (Teologia Sistemática Strong). Por isso, devemos sempre dizer: seja feita a tua vontade, porquanto é o Senhor que “esquadrinha o coração, e provo a mente, e isto para dar a cada um segundo os seus caminhos, e segundo o fruto das suas ações” (Jr 17.10). O salmista aconselha: “Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele, e ele tudo fará” (Sl 37.5). Jó, um herói da fé, declarou: “Ainda que ele me mate, nele esperarei” (Jó 13.15). GUERRA ESPIRITUAL Reverendo professor Diego Roberto Escola Missionaria Voz no Deserto (JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) Introdução: "Há dois erros iguais e contrários em que nossa raça pode cair com respeito aos diabos. Um é não acreditar na sua existência. O outro é acreditar e sentir um interesse excessivo e insalubre neles." (C.S. Lewis, Screwtape Letters, p.3) Creio que hoje mais do que nunca se cumprem estas palavras de C.S. Lewis, temos igrejas que nem acreditam no diabo e por outro lado temos igrejas que acreditam demais no diabo. Voc ê está em guerra, não estamos vivendo uma vida de Disneylandia espiritual, esta guerra acontece 24 horas por dia, Satanás não descansa, não tira férias, não passa mais tarde. Hoje a Igreja vive uma diferente perseguição de Satanás, pois hoje ele está agindo dentro da Igreja. Durante muitos anos ele agiu fora da Igreja, mandando matar os crist ãos, mas hoje ele está matando os cristãos com as mais variadas heresias. Pastores estão exorcizando cidades, crentes estão sendo possuídos por demônios. "Para que Satanás não alcance vantagem sobre nós, pois não lhe ignoramos os desígnios." (2 Co 2:11) I - QUEM É O INIMIGO: Satanás e seus anjos A.) Terminologia bíblica: Satanás é achado em 7 livros do A.T., e por cada autor do N.T.: Satanás: a.) A.T. hb. satan, "adversário" do verbo "ficar em emboscada (como inimigo); opor-se"; satã é usado 15 de 23 vezes para a pessoa de Satanás. b.) N.T. gg. satanás é quase sempre o grande adversário de Deus e do homem - o Diabo; das 36 vezes, só três não se referem absolutamente à pessoa de Satanás. (Mt 16:23; Mc 8:33: Jo 6:70). Diabo: gg. diábolos, 33 vezes, "caluniador, difamador". Outros nomes de Satanás: Nos nomes vemos o caráter de Satanás: "O grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, "O sedutor de todo mundo" Ap. 12:9; "Acusador dos nossos irmãos , Ap.12:10:
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    269 "Lúcifer" ou"a estrela da manhã" Is.14:12 (cf. 2 Co 11:14: anjo de luz) "Belzebu" maioral dos demônios - Mt 12:24 "Maligno" Mt 13:38 "Belial" - "sem lei; anárquico; desordenado" 2 Co 6:15 "Tentador" - Mt 4:3; 1 Ts 3:5 "Inimigo" Mt 13:28,29 "Homicida" Jo 8:44 "O Pai da mentira" Jo 8:44 "O deus deste século" - 2 Co 4:4 "O Príncipe da potestade do ar" Ef. 2:2 "O Príncipe deste mundo" Jo 14:30; 16:11 "O Abadom" (Hb); "Apoliom" (gg) Ap. 9:11 destruidor; exterminador" (Abadom = sheol ou hades 3 vezes; a morte 2 vezes; provavelmente aqui "o anjo do abismo", o rei dos demônios. Demônios, gg. daímon 5 vezes: daimónion 60 vezes vb. daimonízomai 13 vezes: fora de 10 vezes, todos os usos ficam nos Evangelhos. Geralmente = seres espirituais e maus ( às vezes, deuses dos pagãos); provavelmente os demônios sãos os anjos de Satanás que caíram com ele. Os demônios tem personalidade; inteligência (2 Co 11:3); vontade (2 Tm 2:26); emoções (Ap 12:17) Eles sabem da sua condenação (Mt 8:29; Lc 8:28-31) Alguns já estão encarcerados no abismo e alguns destes serão libertados na grande tribulação (2 Pe 2:4; Jd 6; Ap 9:14; 16:14: Lc 8:31, etc.) Eles conhecem a Jesus (Mt 8:29: Mc 1:24) Eles tem suas doutrinas e promovem doutrinas falsas (1Tm 4:1-3) Podem habitar em homens e animais (Mc 4:24; 5:13) Eles podem causar doenças (Mt 9:33; cf. Jo 2:7) Alguns poderosos enganam as nações (Dn 10:13; Ap 16:13,14; Is 24:21) B. Caráter e Atividade de Satanás: 1.) A pessoa de Satanás (Ez 28:12,17; Is 14:12-15) No mundo antigo, um rei freqüentemente foi deificado e visto como o mediador entre a sua cidade-país (i.é., Tiro, Babilônia, Roma) e o deus nacional. Nestas passagens, os profetas falam não somente ao rei, mas ao deus-espírito atrás do rei. Satanás foi criado "querubim da guarda ungido, o sinete da perfeição, formoso, poderoso, mas finito. Ele caiu por causa do orgulho (Is. 14:12-14; Ez 28:15-17 cf.. I Tm 3:6) O que Satanás tem, é dado, permitido e limitado pelo Deus soberano. "O Diabo acha que ele está livre; mas ele tem um freio na boca e Deus segura as rédeas"(B.B. Warfield). 2.) Posição de Satanás: Ele ainda tem acesso ao trono de Deus. (Jo 1:6; 2:1; Zc 3:1-6; Lc 22:31; Ap 12:7-10) Ele reina sobre a hierarquia dos demônios. (Mt 25:4; Ef 6:12: Ap 12:7) Ele reina sobre este mundo. (Lc 4:5,6; 2 Co 4:3;4; Ef 2:1-3; I Jo 5:19-20) 3.) Atividade do Diabo e seus anjos: Tentar: (Gn 3:1; Mt 4:11; 16:23; Lc 22:31; At 5:3; I Co 7:5; I Tm 3:6,7; I Jo 2:16)
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    Confundir, enganar, contrafazer,imitar ( I Co 10:20; 2 Co 4:3,4; 11:13-15 (anjo de luz); 2 Ts 2:9; Ap 16:13s; 20:3) Destruir - (Lc 8:12 (tirar a Palavra); I Pe 5:8; Ap 12:13-17) Habitação: "possessão demoníaca" não comunica bem o conceito do gg. daimonizomenos (Mt 15:22) = "endemoninhado", que é um estado de passividade humana causada pelos demônios; o controle de alguma forma dum demônio (cf. Mt 12:22-28, 43-45) Especificamente contra os cristãos: tenta-os a mentir (At 5:3); à imoralidade (1 Co 7:5); semeia o joio para enganar e atrapalhar (Mt 13:38s; 1 Ts 2:18); perseguição (Ap 2:10); difamação e calúnia (Ap 12:10); cria problemas físicos (2 Co 12:7-10) Qual a diferença entre Opressão Satânica e Possessão Demoníaca? Possessão é Demoníaca e Opressão é Satânica: Na Possessão a vítima é dominada pelo demônio, corpo, alma e espírito. O crente que estiver andando com Deus em fé e obediência não pode ser possuído de um espírito demoníaco, cf: (Ap 3:20; Rm 12:1;2; II Co 5:17; Jo 3:3-5; Ef 1:13-14; Jo 14:23-30; Jo 14:16; II Co 2:16: 12-13; 1 Co 3:16-18; 1 Co 6:19-20; Rm 8:9-10; 1 Jo 5:19; Jo 14:30). Opressão - todos os cristão são alvos de Satanás para cairmos numa vida de pecado, por isso muitos cristãos podem sofrer, cf. (E 6:13; Tg 4:7) Obsessão demoníaca - é um ataque mais intenso de ataque demoníaco (II Co 12:7-10) II - QUEM É O VENCEDOR? O poder do Sangue de Cristo A.) O que Cristo fez na cruz: 17 cumprimentos "Porque Jesus Cristo é Deus e homem, a Sua morte na cruz tem valor infinito para todos que cr êem" (F.Schaeffer) Substituição: Ele morreu no nosso lugar (Lv 1:4; Mt 20:28; Tm 5:6-8; 2 Co 5:15-21; 1 Pe 3:18) Redenção: pagou o preço para libertar-nos (At 20:28; Rm 3:24; Ef 1:7; 1 Pe 1:18-19) Propiciação: satisfez a ira santa de Deus contra os pecados (Rm 3:25; Hb 2:17; 1 Jo 2:2) Reconciliação: o homem pode ser amigo de Deus (Rm 5:10,11; 2 Co 5:18-21; Ef 1:10; 2:16) Justificação: a justiça de Cristo é imputada a nós (At 13:39; Rm 3:19-26; 5:9; 8:30,31; 2 Co 5:21; Ef 1:4) Base do perdão dos pecados antes da cruz (Rm 3:25; Hb 9:15; 10:1-14) O fim da lei Mosaica; agora há "a lei de Cristo", a lei do Espírito. Rm 3:19-28; 6:14; 8:2-4; 10:4; 13:8s; 2 Co 3:6-17: Gl 3:19-25; Fp 3:3; Cl 2:14; I Jo 3:23) Base da adoção como filhos e herdeiros maduros - Rm 8:14-17; Gl 3:23-26; 4:1-7. Base da obra do Espírito Santo em nós - Jo 3:1-7; 16:8-11; I Co 12:13; Ef 1:13-14; 4:30; 5:18) Base da santificação - posicional e experimental - I Co 1:2; 6:11; Ef 5:26-27; I Ts 4:3; I Pe 1:15-16. O juízo da natureza pecaminosa: quebrou o poder controlador do pecado; podemos viver vidas que agradam a Deus. Rm 6:1-14; Gl 5:13-25. Base do perdão dos pecados do crente: filhos que caem da comunhão com Deus devido ao pecado. Rm 8:1s; I Jo 1:7; 2:2. Jesus é o primogênito do processo da morte, ressurreição, ascensão e glorificação que nós seguiremos (I Co 15:12-23; Cl 1:18; I Ts 4:13-17: Hb 2:9-15; I Jo 3:1,2.) Base da redenção da natureza. Rm 8:18-22; Is 65:17-25; Ap 21:1s. Base da purificação das coisas no céu - Hb 9:22-24 (cf. 8:1-5; 9:11) A cruz é a base do juízo dos incrédulos - o dom da salvação rejeitado - Jo 16:8-11, cf. Jo 3:14-18,36; 2 Ts 1:6-11; Ap 20:11-15. Na cruz, o pecado, a morte e Satanás foram vencidos: o pecado - I Jo 5:18-19; cf. n.11 acima a morte - Jo 5:24-27; I Co 15:55-57; Hb 2:14-15; Ap 20:14 270
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    Satanás e osdemônios - Jo 12:31-33; Hb 2:14,15; Ap 20:10 B. Os Juízos de Satanás e seus anjos: Satanás e os anjos perderam sua posição no céu (Ez 28:16) Ele foi julgado profeticamente no jardim do Éden (Gn 3:16) Cristo veio a primeira vez para destruir as obras do maligno. (I Jo 3:8; 5:18; Cl 2:14,15) Quando Cristo voltar, Satanás receberá um castigo temporário dum mil anos no abismo (Ap 20:1-3) No fim do milênio, no juízo final, Satanás e os seus anjos serão lançados no lago de fogo e enxofre para eternidade. (Ap 20:10) III - COMO DEVEMOS LUTAR? Três passos à vitória A. Observações Iniciais: 1.. Satanás é feroz: "A razão pela qual muitos cristãos falham por toda vida é esta: eles sub-estimam o poder do inimigo. Temos um inimigo terrível com quem temos que lutar. Não deixa Satanás nos enganar. Pois assim estaremos mortos! Isto é guerra. Quase tudo que nos rodeia (neste mundo) nos desvia de Deus. Não saltamos do Egito ao trono de Deus num pulo só. Há um deserto, uma viagem, e há inimigos na terra." (D.L.Moody, cf. I Pe 5:8) 2.. Satanás é finito: não é onipotente, onipresente ou onisciente. Geralmente, no sentido direto, o diabo e os seus demônios não nos tentam diariamente. Claro, o mundo está controlado espiritual e moralmente por satanás. Mas tentação vem principalmente da nossa própria carne: cobiça, orgulho, concupiscência, falta de auto-controle, etc. (Tg 1:13-16; 4:1-8) 3.. Satanás e os demônios são limitados por Deus. O Senhor os permitem ser ativos, mas a graça que restrita não deixa-os fazem tudo que quiserem (Jó 1:6 , 2:7; Lc 22:31; 2 Co 12:7-9). Em qualquer situação. "...Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças... (mas) com a tentação vos proverá livramento..." (I Co 10:13). Cristo, nosso Sumo-Sacerdote, constantemente intercede por nós - Jo 17:15; Hb 7:25: I Jo 2:1-2. Passo Um: Pureza 1. Cristo adquiriu nossa pureza na cruz. Apesar de falhas nas nossas vidas - das quais satanás gosta de nos acusar (Zc 3:1-5; Ap 12:10) - somos posicionalmente puros, vestidos na justiça de Jesus Cristo. Satanás não pode tocar nossa salvação, nem nos separar do amor de Deus (Rm 8:38,39); temos uma posição de aceitação e autoridade em Jesus Cristo. (Rm 8:1; Ef 1:6) 2.. Mas devemos buscar a santidade, experimentalmente realizando Sua chamada alta. O pe cado na vida nos destrói, abrindo a porta para opressão. Seja santificado pela Palavra - Jo 17:17: 2 Tm 3:16 Confessar e renunciar tudo na nossa vida contra Deus - Ef 4:27; I Ts 4:3 cf. Êx 20:4-6. Nada disponhais para a carne - Rm 13:12-14 Chegai-vos a Deus - Tg 4:8 Passo dois: As armas de Deus 1.. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, cada peça tem propósito para lutar, e sugere como satanás ataca. o largo cinto da verdade a couraça da justiça calçai os pés com a preparação do evangelho o escudo da fé o capacete da salvação 2. A espada do Espírito = a Palavra de Deus (Mt 4:4) 3. O poder conquistador da oração: 271
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    272 no nomede Jesus - Jo 14:13,14'; 15:7;16; 16:23-27 com consciência pura - Tg 4:2,3; 5:16; I Jo 3:21s. poder do Espírito Santo - Rm 8:26s; Ef 6:18; Jd 20s com fé - Hb 11:1-6; Mc 11:22-24; Tg 1:5-8; 5:14,15 com perseverança - Ef 6:18; Cl 4:2; Lc 11:5-10 às vezes com jejum - At 13:2-3; 14:23; Mc 9:29 Passo três: Como Vencer Satanás e os demônios 1.. Seja sempre sóbrio e vigilante - 1 Pe 5:8-9a 2.. Quando você confrontar a presença satânica, não seja tolo. Tome cuidado - Jd 9; 2 Pe 2:10s; At 19:12-17 3.. Reconheça a sua autoridade em Jesus Cristo - Lc 9:1; 10:1-20; At 5:16; 8:7; 16:16-18; I Jo 4:4; Mc 16:17. 4.. Também; os demônios crêem e tremem - Tg 2:19 5.. Imediatamente, no nome de Jesus, peça que o Senhor quebre os poderes de Satanás e os demônios e limpe a situação. Lembre-se que o Sangue de Cristo é a prova que Satanás foi conquistado na cruz, e que o seu juízo foi selado. 6. Em casos graves, ache outros irmãos logo que possível. Junte-se com eles para orar e resistir ao maligno. Não tente exorcizar ou confrontar sozinho um demônio, exceto quando é difícil de achar ajuda. Nos casos de habitação demoníaca, seria sábio em procurar líderes cristãos que tem experiência nisso. Entretanto, você, bem preparado, pode exorcizar sozinho. 7. "Sujeitai-vos pois à Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós"(Tg 4:7) "Eles, pois o (Acusador) venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram, e mesmo em face de morte, não amaram a própria vida". Indulgência Reverendo professor Diego Roberto Escola Missionaria Voz no Deserto (JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) É um conceito católico usado para referir-se à remissão das penas devidas ao pecado, mediante determinados atos de devoção e piedade. Tem dois tipos de indulgência: 1. plenária quando abrange a totalidade das penas temporais 2. parcial quando perdoa somente uma parte das penas. A indulgência pode-se também aplicar em benefício de outras pessoas, nas devidas condições. A doutrina sobre as indulgências foi exposta na Constituição Apostólica de Paulo VI Indulgentiarum Doctrina, de 12 de janeiro de 1967, onde também se incluíam algumas normas que reformavam o disposto no Código a esse respeito. Posteriormente, por Decreto da Sagrada Penitenciaria Apostólica, de 29 de junho de 1968, aprovado especificamente pelo mesmo Papa, foi promulgado o novo Enchiridion Indulgentiarum, onde se reformava totalmente a disciplina das indulgências, recolhendo inclusive as normas contidas na citada Constituição Apostólica. 0 novo Código reproduz, quase literalmente algumas das Normas que se encontram no Enchiridion, remetendo, para maiores especificações a essa legislação especial. Para ganhar indulgência requer-se: 1) perdão dos pecados cometidos e estado de graça. Por isto a Igreja inclui a Confissão sacramental entre os requisitos necessários para lucrar indulgência; 2) realização da obra prescrita (visita a uma igreja, orações, mortificações) com todo o desapego do pecado e o máximo amor a Deus de que a pessoa seja capaz; o cristão deve achar-se em estado de graça ao realizar tal obra; 3) Comunhão Eucarística. Esta e a Confissão sacramental podem ser efetuadas alguns dias antes ou
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    depois da realizaçãoda obra indicada, 4) orações pelas intenções do S. Padre (pode ser um Pai Nosso ou uma Ave Maria). O instituto das indulgências assim concebido está longe de ser algo de mecânico ou mágico, mas é um estímulo poderoso para afervorar a vida dos cristãos. Paulo VI quis que, de modo geral, o trabalho, o serviço ao próximo e o sofrimento aceito ou praticado em união com Cristo sejam indulgenciados. Há nisto um incentivo a que os fiéis façam e sofram tudo com o máximo amor a Deus e desapego do pecado. Foi contra o sistema de indulgencias defendido e praticado pela Igreja Cat ólica na Idade Média que os Reformadores se levantaram, especialmente Martinho Lutero. Mais recentemente, apesar de cat ólicos e luteranos terem firmado um acordo sobre a justificação pela fé, a Igreja Católica publicou um novo Manual de Indulgências, que continua na mesma linha do ensino católico. Reverendo professor Antony Steff Gilson de Oliveira Presidente da Federação Internacional das Igrejas e Pastores no Brasil ou FENIPE (JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) php 273 LEVANDO A SÉRIO A CEIA DO SENHOR Reverendo professor Diego Roberto Escola Missionaria Voz no Deserto (JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) "Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, havendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo que é por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto do meu sangue; Fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes do cálice estareis anunciando a morte do Senhor, até que ele venha. De modo que qualquer que comer do pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim como do pão e beba do cálice. Porque quem come e bebe, come e bebe para sua própria condenação, se não discernir o corpo do Senhor" (1Co 11.23-29). A Ceia Memorial tem sido celebrada num ambiente espiritual, profundo, reverente e cheio de certeza, além do destaque que a Ceia do Senhor nos fala numa linguagem silenciosa por ém plena de energia. Temos o pão e o vinho, elementos simples, porém altamente destacados nesta celebração. E nesta simplicidade, ela se torna um meio de comunicação de algumas importantes mensagens para o povo de Deus. Quando levamos a sério a celebração da Ceia do Senhor, usamos de determinadas linguagens: A LINGUAGEM DE COMEMORAÇÃO (v.25) Paulo diz isso: "Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em mem ória de mim", ou seja, "para que pensem novamente em mim." A presença de Jesus Cristo é algo extraordinário na vida cristã. Pela inspiração do Espírito de Deus, até mesmo a escolha de certas palavras tem o seu lugar na Escritura Sagrada. Aqui, apenas uma filigrana lingüística: na língua hebraica, a palavra que significa "manifestação de Deus, presença divina" é shekinah, a gloriosa presença de Deus no meio do Seu povo. Cada vez que a glória do Senhor se manifestava no meio do povo de Israel, fosse no deserto, em Canaã, ou nas grandes batalhas, sempre era celebrada a manifestação da shekinah divina (cf. Sl 78.60; Is 18.1; 22.19). Quando João escreveu a narrativa que abre o Evangelho que leva o seu nome, ele disse "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade"; a palavra grega utilizada não é do
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    274 hebraico: égrega, tem outra origem. O impressionante, no entanto, é que o vocábulo utilizado por João para dizer, "o Verbo habitou, marcou presença, manifestou-se entre nós", é a palavra grega que diz skinê. Percebam o som do hebraico sh ki nah e do grego s ki nê. As duas palavras têm praticamente o mesmo radical. Coincidência, ou vontade de Deus que as palavras assemelhadas fossem usadas pelo escritor sagrado? Para que se manifeste a glória de Deus, e para que pensemos nEle, é que a Ceia do Senhor é celebrada por Sua Igreja. Jesus Cristo estabeleceu duas ordenanças, e somente duas: o Batismo e a Ceia Memorial. São ordenanças sem qualquer benefício acessório para a salvação. Uma pessoa em sendo salva por Jesus Cristo, na verdade não precisa, para acrescentar algum valor maior à salvação, do Batismo. O malfeitor da cruz não precisou se batizar, mas já estava com Jesus Cristo no paraíso após a crueldade daquele momento. A outra ordenança é a Ceia do Senhor. Então, quando observamos a Ceia do Senhor, fazemos algo pelo Senhor, não por nós ou pelos outros, mas pelo Senhor, porque estamos pregando o Seu sacrifício para a salvação de todo aquele que crê. Estamos dizendo isso quando tomamos o pão nas mãos, que é o corpo de Jesus Cristo que sofreu no Calvário; e quando tomamos o cálice, dizemos que o sangue de Jesus Cristo foi derramado por nós. Estamos pregando a mensagem de livramento de redenção para todo o que crê! Como precisamos de memoriais! Sim; precisamos de memoriais para que nos lembremos de quem somos, daquilo que somos, porque estamos aqui, e aonde estamos indo. Quando nosso pa ís joga na Copa, os memoriais brasileiros se apresentam por todos os lados: é a bandeira do Brasil sendo desfraldada. E não existe sentimento maior, e quem já passou por isso o sabe, que estar num outro país, e se emocionar com o verde-amarelo tremulando nos mastros com outras bandeiras. Isso se chama filia, o amor cívico, patriótico. Não é doença, não: é patriotismo mesmo! Sim; precisamos de memoriais. Quando se ouve o nome de Maria Quitéria, logo lembramos do Dois de Julho, a data principal da Bahia! Falamos de amor conjugal, lembramos a alian ça. Com certeza: precisamos de memoriais. Temos que lembrar da nossa indignidade e da beleza do perd ão. Por essa razão, temos o memorial da Ceia do Senhor. É isso o exatamente o que faz a Ceia do Senhor: ela nos relembra o dom da vida através da morte de Jesus Cristo. Assim, quando nos reunimos seriamente para celebrar este ato memorial, utilizamos a linguagem da comemoração. A LINGUAGEM DA COMUNHÃO (vv. 17-20) Paulo disse: "Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, mas para pior" (v. 17). Aconteceu, infelizmente, com a igreja de Corinto, que se reuniu n ão para o melhor, mas para o pior; reunia-se para a indignidade. Não confundamos as coisas: quando falamos de comunhão, não estamos falando de encontro sobrenatural, místico; não estamos dizendo que nos unimos a Jesus Cristo através do Nirvana, como querem pregar as religiões orientais; não estamos tendo uma visão, não; não é comunicação com um morto como querem ensinar por aí, não! A Palavra nos ensina que a Ceia do Senhor é um memorial. Não há comunhão física, ao se participar da Ceia do Senhor, entre o homem pecador e o Deus perfeito, mas uma comunhão espiritual, sem dúvida, pela lembrança de Cristo na cruz, se a levamos a sério. Ao longo destes 39 anos de ministério da palavra e das ordenanças, ainda me emociono quando participo da Ceia do Senhor! E cada vez que seguro o pão, e o parto na frente dos irmãos, eu me emociono, porque me vem à mente que sou indigno pecador, e que pela graça de Deus fui feito Seu filho! Lembro-me, quando tomo a jarra de vinho, e derramo um pouco no cálice, de que fico com as mãos trêmulas; são 39 anos celebrando a Ceia do Senhor praticamente mês a mês (e houve época quando o fiz duas vezes no mês), mas ainda hoje tremo quando tenho na minha memória e coração a cena de Jesus Cristo no Calvário, e o Seu sangue escorrendo pelas mãos, pela Sua testa, pela face, e pelo tronco da cruz...
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    275 Sim; háuma comunhão espiritual pela lembrança de Cristo na cruz, e pela nossa identificação com essa cruz: a minha cruz, não de Cristo, mas a minha cruz! Há uma comunhão entre os crentes na Ceia Memorial, mas não é comunhão-de-cafezinho! Por isso, Paulo está preocupado, e diz "Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem tampouco as igrejas de Deus. Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, mas para pior". Havia divisões na igreja de Corinto quanto a questões de doutrina. A igreja estava seccionada por causa de trajes (capítulo 11)?! Havia divisões por causa de uma doutrina (cf. capítulos 12 e 14); E depois todos queriam se reunir para "tomar cafezinho"?! A Ceia do Senhor n ão é para isso, porque a tomamos agora, e se não temos essa impressão profunda, sairemos com a mesma amargura e rancor com que entramos. A conduta dos irmãos de Corinto destruía o propósito da igreja, e o propósito da Ceia! O que Paulo está enfatizando é a harmonia da Ceia, a qualidade de vida espiritual, a unidade da igreja, e quando celebramos com seriedade a Ceia, é isso o que estamos proclamando! A LINGUAGEM DA CONSAGRAÇÃO (vv. 27-29) Quando celebramos a Ceia usamos esse tipo de linguagem. "De modo que qualquer que comer do pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice". Interessante que a Ceia do Senhor não torna ninguém melhor: ninguém vai sair melhor porque tomou a Ceia do Senhor. E, no entanto, há um paradoxo: o irmão pode sair pior se tomou a Ceia do Senhor indignamente! É o que Paulo diz, por essa razão é dever de cada um solene e seriamente examinar-se sobre quais são os seus interesses e propósitos quando se aproxima da Mesa do Senhor. Veja bem a seriedade de seus objetivos. Estive lendo sobre os levitas e sacerdotes (Números 3 e 4). Fiquei arrepiado! Que coisa impressionante a legislação, como eram as normas no acampamento de Israel no deserto: somente podiam se aproximar dos móveis os sacerdotes, nem os levitas que eram os seus auxiliares. Quando havia necessidade de desmontar o tabernáculo para se transferirem para outro lugar, os sacerdotes entravam, embalavam os móveis, com várias camadas de tecidos (e de cores diferentes para mostrar o grau de santidade do objeto), e depois que tudo era embalado, e ninguém via a forma do objeto, os levitas pegavam o pacote e faziam o carregamento nos carros de boi para o transporte pelo deserto. E sempre é lembrado o seguinte: "e o estranho que se chegar será morto" (Nm 3.10, etc.). Os levitas funcionavam, entre outros deveres, como guardas de segurança do tabernáculo. A lei não era fácil: era marcial, lei de guerra! O "estranho" não era o pagão, não; era o próprio povo de Israel. Só que há uma diferença muito grande: na Igreja Cristã o pastor não é o sacerdote, e os outros, o "povão"! Na Igreja de Cristo fomos todos elevados ao sacerdócio, por isso podemos nos aproximar dos objetos, da Mesa do Senhor! Mas tem uma coisa: se o irmão vier à Mesa do Senhor com as mãos sujas, "será culpado do corpo e do sangue do Senhor" (1Co 11.27b)! O irmão não sai melhor, mas pode sair pior do santuário. Quanto seriedade é exigida dos participantes?! Então, estou vindo com fé na morte de Jesus Cristo? Vivo diariamente pelo poder da ressurreição de Jesus Cristo? São perguntas que tenho que fazer! É Jesus realmente o alimento da minha alma? Sou eu um dos Seus, e sou eu um com os Seus? Estou em harmonia, minha vida é digna da comunhão com os outros crentes? Permanece a minha aliança com o Deus vivo? Se não conheço a Jesus Cristo, como posso me lembrar dEle? Phillip Henry diz que o crente quando for participar da Ceia deve fazer tr ês perguntas: · Que é que eu sou? Filho de Deus, salvo pelo sangue de Jesus? Lavado pelo Seu sangue? · Que é que eu tenho feito? Minhas mãos estão limpas, ou manchadas. Meu coração está limpo, ou
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    276 borrado, sujo? · Que é que eu desejo? Quais os meus sonhos e visões, que almejo na Causa de Jesus Cristo? Não é sério? Então, devemos dar graças a Deus pelo privilégio de termos um diálogo com a Ceia do Senhor, e, assim, que venhamos à mesa do Senhor em espírito de comemoração porque essa é a linguagem que falamos agora, em comunhão espiritual porque essa é a realidade que vivemos agora, e consagração pessoal porque esse é o propósito, o objetivo, o alvo de nossa vida sempre. E lembrando, sobretudo, que a Ceia do Senhor não é um funeral (para que cara triste?): a Ceia do Senhor é uma celebração de fé, de alegria, de esperança porque nós olhamos para o dia da volta de nosso Senhor Jesus Cristo! O DIABO EXISTE Reverendo professor Diego Roberto Escola Missionaria Voz no Deserto (JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) A existência de Satanás é ensinada em sete livros do Antigo testamento - Gênesis, 1 Crônicas, Jó, Salmos, Isaías, Ezequiel e Zacarias, bem como por todos os autores do Novo Testamento e, principalmente, por Jesus. Das vinte e nove passagens sobre o diabo nos Evangelhos, vinte e cinco são citações do próprio Senhor Jesus. A partir de relato bíblico sabemos que Satanás tem características de uma personalidade, podendo falar e planejar, sendo tratado sempre com pronomes pessoas e sendo apresentado como um ser moralmente responsável, Jó 1.6-12; Mateus 4.1-12 e Apocalipse 20.10. A Bíblia registra a atuação do inimigo na realidade experiencial da humanidade desde os primórdios da humanidade, Gênesis 3.1; 4 e 13. É bem verdade que o nome diabo não aparece no texto. No original a palavra é "serpente", que é traduzida em outras passagens como "o acusador". Sabemos que o ocorrido em Gênesis 3 foi atuação do diabo quando comparamos a narrativa com a sua atuação na tentação de Jesus, registrada em Mateus 4.1-11, pois a estratégia foi a mesma; concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida. Na verdade, a Bíblia se refere a Satanás como um ser espiritual criado por Deus. Até Gênesis 3, o Texto Sagrado assevera que toda a criação era muito boa, Gênesis 1.31, o que inclui os anjos maus que um dia foram como os bons, mas pecaram e perderam o privilégio de servir a Deus. Isto significa dizer que mesmo no mundo espiritual criado por Deus não existiam os demônios, que são anjos que pecaram e que se tornaram maus e que hoje continuamente praticam o mal no mundo. Satanás é descrito no Texto Sagrado como o ser angelical que, movido por soberba e desejo de usurpação, se rebelou contra Deus, mas que antes do pecado esteve presente no Éden, o Jardim de Deus, sendo considerado como o "selo da perfeição" e "perfeito em formosura", que "vivia no monte de Deus" e que era "querubim da guarda ungido" pelo próprio Deus. A despeito de todas estas qualidades, achou-se iniqüidade em seu coração e o seu interior se encheu de violência e de pecado, o que o levou a ser expulso da presença de Deus e lançado sobre a Terra e tornado em cinza diante dos olhos dos que o contemplavam, como lemos em Ezequiel 28.1 -3 e 11- 20, que por inferência hermenêutica e consenso teológico é admitida como sendo a mais objetiva narrativa sobre a criação e destituição do diabo. O texto na realidade fala de Itabol II, rei de Tiro, mas apresenta as mais precisas informações sobre Satanás.
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    277 Outros textosricos em informações sobre o diabo e sua queda são Isaias 14.3-23, em uma profecia contra a Babilônia, mas que é, na verdade, uma alusão clara a Satanás, e 2 Pedro 2.4, juntamente com Judas verso 6 e Apocalipse 12.7-11, que confirmam a queda e o abismo espiritual dos demônios, Mateus 25.41, visto que depois da queda Satanás constituiu-se em inimigo de Deus e tornou-se um mentiroso, o pai da mentira conforme Jesus, procurando sempre matar, roubar e destruir as obras e as criaturas de Deus, João 8.44 e 10.10. Satanás, que significa adversário, é o nome mais usado para se referir ao diabo na Bíblia, aparecendo 52 vezes. Depois vem o termo diabo, derivado do Diábolos, que significa acusador ou caluniador, que é usado 35 vezes. Também vemos aparecer nomes como maligno, inimigo, grande dragão, Belzebu, serpente, Belial, homicida, pecador e tentador, ou expressões como "o príncipe dos demônios", "aquele que está no mundo", "o deus deste século", "o enganador de todo o mundo", "o príncipe das potestades do ar", "o poder das trevas" e "o espírito que opera nos filhos da desobediência", Mateus 4.3, 12.24 e 27, 13.19 e 38-39; Marcos 3.22; Lucas 11.15 e 19; João 8.44; 2 Coríntios 6.15; 1 Tessalonicenses 3.5; 1 João 2.13, 3.8 e 12 e 5.18; 1 Pedro 5.8 e Apocalipse 12.3 e 9. Todos estes nomes indicam um pouco do caráter e da atividade do diabo que, como indica os seus nomes, está empenhado na oposição a Deus e à obra de Cristo, juntamente com os demônios que realizam seu trabalho no mundo e infligindo tentação, engano e as mais diversas doenças a fim de impedir o progresso espiritual do povo de Deus. Em Efésios 6.10-20, o Texto Sagrado assevera sobre a confrontação com os principados e potestades, ou seja, com os demônios, quando o apóstolo Paulo alerta a igreja sobre a necessidade do revestimento da armadura de Deus para o combate. O texto fala das "ciladas do diabo", vs. 11, onde ciladas, methodeías no original, pode significar a astúcia, os planos, os esquemas ou os estratagemas que visam destruir a igreja. Vemos também que há uma luta, ou seja, uma disputa que exige preparo, força e coragem. Não podemos sair de peito aberto, sem o devido preparo, para o confronto. Lutamos contra principados e potestades. Principado é uma espécie de autoridade superior sobre grandes regiões e muitíssimos seres e potestades são autoridades subordinadas que exercem funções específicas. Lutamos contra os dominadores deste mundo, kosmkrátoras, que é a figura é de um governante mundial que se auto-arroga o deus salvador, mas que atua motivado pela malignidade de suas intenções. Também lutamos contra as hostes espirituais da iniqüidade, que são seres espirituais malignos que constituem as forças do mal, que metaforicamente retratam um exército opositor liderado pelo próprio maligno, o diabo. Destas passagens e seus ensinamentos, concluímos que o diabo existe e que está atuante no mundo, habitando nos lugares celestiais, mas também rodeando a terra e os filhos de Deus, exercendo o controle geral sobre o sistema mundano, Zacarias 3.1 e 1 Pedro 5.8. Duvidar da sua exist ência é o mesmo que desacreditar da Palavra de Deus. O DIÁLOGO DA CEIA DO SENHOR Reverendo professor Diego Roberto Escola Missionaria Voz no Deserto
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    278 (JESUS SALVADORESSE E NOSSO DEUS) Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, havendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo que é por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto do meu sangue; Fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em mem ória de mim. Porque todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes do cálice estareis anunciando a morte do Senhor, até que ele venha. De modo que qualquer que comer do pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim como do pão e beba do cálice. Porque quem come e bebe, come e bebe para sua própria condenação, se não discernir o corpo do Senhor" (1Co 11.23-29). A Ceia Memorial tem sido celebrada num ambiente espiritual, profundo, reverente e cheio de certeza, além do destaque que a Ceia do Senhor nos fala numa linguagem silenciosa por ém plena de energia. Temos o pão e temos o vinho, elementos simples e destacados nesta celebração. E nesta simplicidade, ela se torna um meio de comunicação de algumas importantes mensagens para o povo de Deus. A LINGUAGEM DE COMEMORAÇÃO (v.25) Paulo diz isso: "Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo pacto no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em mem ória de mim", ou seja, "para que pensem novamente em mim". É extraordinária a presença de Jesus Cristo na vida cristã. Pela inspiração do Espírito de Deus, até mesmo a escolha de certas palavras tem o seu lugar na Escritura Sagrada. Aqui, apenas uma filigrana lingüística: na língua hebraica, a palavra que significa "manifestação de Deus, presença divina" é shekinah, a gloriosa presença de Deus no meio do Seu povo. Cada vez que a glória do Senhor se manifestava no meio do povo de Israel, fosse no deserto, em Canaã, ou nas grandes batalhas, sempre era celebrada a manifestação da shekinah divina (cf. Sl 78.60; Is 18.1; 22.19). Quando João escreveu a narrativa que abre o Evangelho que leva o seu nome, ele disse "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade"; a palavra grega utilizada nada tem a ver com o hebraico: é outra língua, outra origem, não tem a mesma categoria, inclusive lingüística. Pois bem, a palavra que João utilizou para dizer "o Verbo habitou, marcou presença, manifestou-se entre nós", é a palavra grega que diz skinê. Percebam o som do hebraico sh ki nah e do grego s ki nê. As duas palavras têm praticamente o mesmo radical. Coincidência, ou vontade de Deus que as palavras assemelhadas fossem usadas pelo escritor sagrado? Para que se manifeste a glória de Deus, e para que pensemos nEle, é que a Ceia do Senhor é celebrada por Sua Igreja. Jesus Cristo estabeleceu duas ordenanças, e somente duas: o Batismo e a Ceia Memorial. São ordenanças sem qualquer benefício acessório para a salvação. Uma pessoa em sendo salva por Jesus Cristo, na verdade não precisa do Batismo para acrescentar algum valor maior à salvação. O malfeitor da cruz não precisou se batizar, mas já estava com Jesus Cristo no paraíso após aquele momento cruel. Não é preciso, mas o batismo é um ato de obediência: Jesus até foi batizado por João, e mandou que a Igreja praticasse o batismo, o que fazemos como testemunho p úblico do que Jesus Cristo fez na nossa vida. A outra ordenança é a Ceia do Senhor. Então, quando observamos a Ceia do Senhor, fazemos algo pelo Senhor, não por nós ou pelos outros, mas pelo Senhor, porque estamos pregando a Sua morte para a salvação de todo aquele que crê. Estamos dizendo isso quando tomamos o pão nas mãos, que é o corpo de Jesus Cristo que sofreu no Calvário; e quando tomamos o cálice, dizemos que o sangue de
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    279 Jesus Cristofoi derramado por mim e por você, por nós. Estamos pregando a mensagem de livramento de redenção para todo o que crê! Como precisamos de memoriais! Sim; precisamos de memoriais para que nos lembremos de quem somos, daquilo que somos, porque estamos aqui, e aonde estamos indo. Quando nosso pa ís joga na Copa, os memoriais brasileiros se apresentam por todos os lados: é a bandeira do Brasil sendo desfraldada. E não existe sentimento maior que estar em outro país, e se emocionar com o verde-amarelo tremulando nos mastros com outras bandeiras. Isso se chama filia, o amor c ívico, patriótico. Sim; precisamos de memoriais. Quando se ouve o nome de Maria Quitéria, logo lembramos do Dois de Julho, a data principal da Bahia! Falamos de amor conjugal, lembramos a alian ça. Sem dúvida, precisamos de memoriais. Temos que lembrar da nossa indignidade e da beleza do perdão. Por essa razão, temos o memorial da Ceia do Senhor. É isso o exatamente o que faz a Ceia do Senhor: ela nos relembra o dom da vida através da morte de Jesus Cristo. Assim, quando nos reunimos para a Ceia, ela utiliza a linguagem da comemoração. A LINGUAGEM DA COMUNHÃO (vv. 17-20) Paulo disse: "Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, mas para pior" (v. 17). Isso aconteceu, infelizmente, com a igreja de Corinto, que se reunia para a indignidade. Que coisa triste, reunirem-se os nossos irmãos para atos indignos! Não confundamos as coisas: quando falamos de comunhão, não estamos falando de encontro sobrenatural, místico; não estamos dizendo que nos unimos a Jesus Cristo através do Nirvana, como querem pregar orientais; não estamos tendo uma visão, não; não é comunicação com um morto como querem ensinar por aí, não! É por esses erros todos que doutrinas estranhas surgiram ao longo da hist ória da Igreja Cristã. Como a transubstanciação, ensinando que no momento em que são pronunciadas as palavras de instituição ("isso é o meu corpo" e "isso é o meu sangue") que tanto o pão quanto o vinho mudam a sua substância, e as suas substâncias tornam-se, respectivamente, a da carne e do sangue de Jesus Cristo! O Senhor tenha piedade! Isso não se encontra na Escritura?! A comunhão com Cristo não necessita que a substância desses elementos materiais seja mudada. O Novo Testamento nos ensina que a Ceia do Senhor é um memorial. Não há comunhão física, ao se participar da Ceia do Senhor, entre o homem pecador e o Deus perfeito, mas uma comunh ão espiritual, sem dúvida, pela lembrança de Cristo na cruz. Ao longo destes quase quarenta anos de ministério da palavra e das ordenanças, tenho me emocionado sempre que participo da Ceia Memorial! E cada vez que seguro a côdea de pão, e o parto na frente dos participantes, eu me emociono, porque me vem à mente que sou indigno pecador, e que pela graça de Deus fui feito Seu filho! Lembro-me, quando tomo esta jarra de vinho, e derramo um pouco no cálice, fico com as mãos trêmulas ainda; são 39 anos celebrando a Ceia do Senhor praticamente mês a mês (e houve época quando o fiz duas vezes no mês), mas ainda hoje tremo quando tenho na minha mente e coração a cena de Jesus Cristo no Calvário, e o Seu sangue escorrendo pelas mãos, pela Sua testa, pela face, e pelo tronco da cruz... Sim; há uma comunhão espiritual pela lembrança de Cristo na cruz, e pela nossa identificação com essa cruz: a minha cruz, não de Cristo, mas a minha cruz! Há uma comunhão entre os crentes, mas não é comunhão-de-cafezinho, porque a Ceia do Senhor não é isso! Por isso, Paulo está preocupado, e diz "Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem tampouco as igrejas de Deus. Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, mas para pior". Terrível! Havia divisões na igreja de Corinto quanto a questões de doutrina. A igreja estava dividida por causa de uma doutrina (cf. capítulos 12 e 14); havia divisões por causa de trajes (capítulo 11)?! E depois todos queriam se reunir para "tomar cafezinho"?! A Ceia do Senhor não é para isso, não! Porque tomamos agora, e se não temos essa impressão profunda, sairemos de novo com a mesma raiva e
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    280 amargura donosso irmão em Jesus Cristo! A conduta dos irmãos de Corinto destruía o propósito da igreja, e o propósito da Ceia! O que Paulo está enfatizando aqui é a harmonia da Ceia, a qualidade de vida espiritual, é a unidade da igreja, e quando celebramos a Ceia, é isso o que estamos dizendo! A LINGUAGEM DA CONSAGRAÇÃO (vv. 27-29) Quando celebramos a Ceia usamos essa linguagem. "De modo que qualquer que comer do pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice". Interessante que a Ceia do Senhor não torna ninguém melhor. Na verdade, ninguém vai sair melhor porque tomou a Ceia do Senhor. E agora o paradoxo: o irmão pode sair pior se tomou a Ceia do Senhor indignamente! É o que Paulo diz, por essa razão é dever de cada um solene e seriamente examinar-se sobre quais são os seus interesses em Jesus Cristo. Você participou da Ceia só porque os outros iam ver, e você ia ficar com vergonha se ficasse sentado e não participasse? Quais são seus propósitos quando se aproxima da Mesa do Senhor? Estive lendo sobre a congregação dos levitas e sacerdotes (Números 3 e 4). Fiquei arrepiado! Que coisa impressionante a legislação, como eram as normas no acampamento de Israel no deserto: somente podiam se aproximar dos móveis os sacerdotes, nem os levitas quer eram os seus auxiliares. Quando havia necessidade de desmontar o tabernáculo para ir para outro lugar, os sacerdotes entravam, embalavam os móveis, com várias camadas de tecidos (e de cores diferentes para mostrar o grau de santidade do objeto), e depois que tudo era embalado, e ninguém via a forma do objeto, os levitas pegavam o pacote e faziam o carregamento nos carros de boi para o transporte pelo deserto. E sempre é lembrado o seguinte: "e o estranho que se chegar será morto" (Nm 3.10, etc.). Os levitas funcionavam, entre outros deveres, como guardas de segurança do tabernáculo. A lei não era fácil: era marcial, lei de guerra! O "estranho" não era o pagão, não; era o próprio povo de Israel. Só que há uma diferença muito grande: na Igreja Cristã o pastor não é o sacerdote, e os outros, o "povão"! Na Igreja de Cristo fomos todos elevados ao sacerdócio, por isso podemos nos aproximar dos objetos, da Mesa do Senhor! Mas tem uma coisa: se o irm ão vier à Mesa do Senhor com as mãos sujas, "será culpado do corpo e do sangue do Senhor" (1Co 11.27b)! O irmão não sai melhor, mas pode sair pior do santuário. Então, estou vindo com fé na morte de Jesus Cristo? Vivo diariamente pelo poder da ressurreição de Jesus Cristo? São perguntas que tenho que fazer! É Jesus realmente o alimento da minha alma? Sou eu um dos Seus, e sou eu um com os Seus? Estou em harmonia, minha vida é digna da comunhão com os outros crentes? Permanece a minha aliança com o Deus vivo? Se não conheço a Jesus Cristo, como posso me lembrar dEle? Por isso que Phillip Henry diz que o crente quando for participar da Ceia deve fazer tr ês perguntas: · Que é que eu sou? Filho de Deus, salvo pelo sangue de Jesus? Lavado pelo Seu sangue? · Que é que eu tenho feito? Minhas mãos estão limpas, ou manchadas. Meu coração está limpo, ou borrado, sujo? · Que é que eu desejo? Quais os meus sonhos e visões, que almejo na Causa de Jesus Cristo? Então, devemos dar graças a Deus pelo privilégio de termos um diálogo com a Ceia do Senhor, e, assim, que venhamos à mesa do Senhor em espírito de comemoração porque essa é a linguagem que falamos agora, em comunhão espiritual porque essa é a realidade que vivemos agora, e consagração pessoal porque esse é o propósito, o objetivo, o alvo de nossa vida sempre. E lembrando, sobretudo, que a Ceia do Senhor não é um funeral (para que cara triste?): a Ceia do Senhor é uma celebração de fé, de alegria, de esperança porque nós olhamos para aquele dia! Que o Senhor nos ajude e abençoe! O TITANIC E A PREDESTINAÇÃO Reverendo professor Antony Steff Gilson de Oliveira Presidente da Federação Internacional das Igrejas e Pastores no Brasil ou FENIPE
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    281 (JESUS SALVADORESSE E NOSSO DEUS) Homens de todas as tribos sempre gostaram de construir colossos, prédios, pontes, torres, arranha-céus, monumentos cada vez maiores. Sejam quais forem os objetivos, essas construções representam sinais exteriores de riqueza e poder, produto do orgulho e da vaidade. A primeira materialização desse desejo nato ocorreu com a construção da Torre de Babel, com o que pretendiam chegar aos céus. Deus não permitiu essa afronta. Torre de Babel "E disseram [os descendentes de Noé] uns aos outros: Edifiquemos uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra" (Gênesis 11.4). Desejavam construir uma cidade-império, dominadora, poderosa, única: uma só língua, um só governo. Mas Deus não quis que o mundo ficasse sob a direção de um só homem, ou de uma elite. Ainda hoje nações econômica e militarmente poderosas esforçam-se por exercer domínio sobre o resto do mundo. A intenção de Deus é que haja equilíbrio de forças, equilíbrio nas economias, na distribuição de rendas, com oportunidades para todos. Há alguns anos havia duas potências mundiais, duas torres de Babel, dirigindo os destinos da humanidade: a antiga União soviética e os Estados Unidos. A primeira, desmantelou-se, fragmentou-se o temível império em várias nações independentes e autônomas, com suas bandeiras, hinos, cultura, governos. A segunda, os Estados Unidos da América, tem pago um preço altíssimo por sua supremacia política, econômica e militar. Colosso de Rhodes A começar pelas Sete Maravilhas do Mundo Antigo, destacamos "O Colossos de Rhodes", em bronze com base de mármore branco, na Ilha de Rhodes, Grécia, com 46 metros de altura. Concluída em 282 a.C., após doze anos de trabalho, a gigante estátua foi destruída juntamente com a cidade, por um forte terremoto, em 226 a.C. Estátua de Zeus A majestosa "Estátua de Zeus", "deus dos deuses", com quinze metros, feita de marfim e ébano com incrustações de ouro e pedras preciosas, em cuja homenagem os Jogos Olímpicos da Antiguidade eram festejados. Localizava-se no Templo de Olímpia, na Grécia. A obra foi concluída em 447 a.C. e destruída por um incêndio 922 anos mais tarde. O Farol de Alexandria Monumento dedicado aos deuses salvadores Ptolomeu Soter e sua esposa Berenice. Servia de aux ílio aos navegantes. Inaugurado em 270 a.C., na antiga ilha de Faros, agora um promontório na cidade de Alexandria no Egito. Durou 1.750 anos. Seriamente danificado por terremotos, foi finalmente destruído em 1.480. Esse farol era útil aos navegantes. Templo de Ártemis (Diana) Esse templo, em homenagem à deusa dos bosques (Ártemis), localizava-se na cidade grega de Efésio, na Turquia; foi concluído no ano de 550 a.C. e levou 120 anos para ficar completamente pronto. A
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    282 sua alturaé desconhecida, mas tinha 80 metros de largura e 130 metros de profundidade. A escultura da deusa Ártemis era em ébano, ouro, prata e pedra preta. Durou 194 anos, até ser destruído pelos godos. Túmulo de Mausoléu Com 50 metros de altura, construído em mármore e bronze por Artemísia, viúva de Mausolo, em Halicarnasso, Caria, hoje Turquia. A construção durou dez anos e nela trabalharam 30.000 homens. Provavelmente, destruído por um terremoto entre os séculos XI e XV. Pirâmides do Egito Sepulturas dos faraós construídas há mais de 40 séculos na Planície de Gizé, a 15 km do Cairo, capital do Egito. As mais célebres são as de Quéops (137,2m), Quéfrem (136,5m) e Mikerinos (66m), nomes de três reis (pai filho e neto). Das sete maravilhas da antiguidade somente as pir âmides do Egito ainda existem, apesar dos estragos causados pela ação do tempo. Serviram de sepultura dos faraós, que acreditavam poder subir até os seus deuses, no céu, se seus corpos fossem assim sepultados. As pirâmides continuam sendo objeto de estudos, pois abrigam muitos mistérios. Jardins Suspensos da Babilônia Segundo uma das versões, os Jardins foram construídos em 605 a.C. por Nabucodonosor II em homenagem a sua mulher, Amitis, no sul do Iraque. Outra versão diz que foram construídos por Semíramis. Na verdade, eram seis montanhas artificiais, no sul do Rio Eufrates, 50 km ao sul da atual Bagdá, Capital do Iraque. Nos terraços, construídos com trabalho escravo, foram plantadas palmeiras e flores tropicais, para deleite de seus proprietários. Hoje, não existe qualquer vestígio desses jardins. Os homens continuaram dando expansão aos seus desejos de mostrar ao mundo sinais de riqueza, poderio militar e econômico. Na era da modernidade, destacam-se os arranha-céus, as grandes estruturas. Algumas dessas obras são apreciadas pelo bom gosto de seus idealizadores, pela beleza de suas formas; outras, apenas por suas gigantescas proporções. Algumas, necessárias; outras, como na Antiguidade, apenas um bem supérfluo, sem nenhuma utilidade prática. Vejamos algumas dessas obras dos tempos modernos. Torre Eifell A Torre Eifell de Paris, conhecida como "A Dama de Ferro", 10.100 toneladas, 320 metros de altura, incluindo a antena, duas vezes mais alta do que a grande pirâmide do Egito, foi construída em alguns meses, em 1889, e consumiu 15.000 barras de ferro. Seu nome é uma homenagem ao engenheiro civil francês Gustave Alexandre Eifell, projetista e construtor da obra. O Muro de Berlim A construção do Muro de Berlim, de 155 quilômetros, que separava Berlim Ocidental de Berlim Oriental, iniciou-se em 13 de agosto de 1961, e começou a ser derrubado a partir de 9 de novembro de l989, quando pela primeira vez, em 28 anos, os cidadãos da antiga União Soviética puderam visitar seus irmãos do lado ocidental e democrático. A queda do Muro, símbolo da guerra fria e da divisão do
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    283 mundo emduas potências antagônicas, marcou a falência do sistema comunista soviético. Dados revelam que durante a existência do "Muro da Vergonha", como ficou conhecido, 75.000 alemães foram presos, e 809 mortos durante tentativa de atravessar na direção oriente-ocidente. Empire State Building Com 381 metros de altura. Em 1950 foi colocada na estrutura uma antena de televisão de 67 metros, fazendo com que a altura total do edifício atingisse 448 metros. O Empire State continuou sendo o prédio mais alto do mundo até 1971, quando foi terminada a primeira torre do World Trade Center, também em Nova York. Com a destruição das torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001, por atos terroristas, o Empire voltou a ser o mais alto edifício do mundo. World Trade Center As torres gêmeas de Nova York - Com uma altura, cada uma, de 411 metros, com 110 andares, simbolizavam, em Nova York, o poder econômico da mais poderosa nação do mundo, os Estados Unidos da América. Superava o Empire State Building, com 381 metros, sem a antena. Ter ça-feira, 11 de setembro de 2001, uma data que jamais será esquecida, essas torres foram destruídas, deixando um saldo de 2.823 vítimas, trinta por cento das quais jamais poderão ser identificadas, tamanho o calor da explosão do combustível nos aviões utilizados pelos seqüestradores. Titanic Repousa no Oceano Atlântico, a 4.126 metros de profundidade, desde a madrugada do dia 15.04.1912, o que restou das 46,329 toneladas do navio Titanic, 270 metros de comprimento, 28 metros de largura, o "Navio dos Sonhos", o "Palácio Flutuante". Sua construção foi concluída em maio de 1911, em que foram empregados os mais modernos sistemas de segurança, ao custo de 400 milhões de dólares. Antes de iniciar sua viagem inaugural da Inglaterra para Nova York, algu ém teria feito um infeliz prognóstico: "Nem Deus afunda o Titanic". Não desejamos concluir, e não podemos fazê-lo, que Deus foi o autor da tragédia. Mas asseguramos com certeza que bastou a ponta de um iceberg para nocautear o gigante, e fazer naufragar com ele 1.522 almas. A maioria dessas obras gigantescas, a começar pela Torre de Babel, caiu por terra. Muitas delas foram produto da vaidade humana, uma vaidade que exige demonstração pública de poder e riqueza. Nos tempos modernos, há uma corrida entre nações ricas para ver quem constrói torres cada vez mais elevadas, complexos comerciais cada vez maiores. A verticalização dos edifícios comerciais decorre, também, de uma exigência do mercado imobiliário, considerando as limitações de espaços nas grandes metrópoles. Contudo, por trás dessa imperiosa necessidade de ampliação dos espaços para atender a demanda, há o desejo de colocar o nome da empresa, da família, da nação num lugar bem alto, mais alto do que todos, para que todos vejam, admirem, reverenciem, aplaudam. Noventa anos separam o naufrágio do navio Titanic, no Oceano Atlântico, da tragédia do World Trade Center, em Nova York, e milhares de anos separam estes da Torre de Babel. Tais fatos revelam-nos que não há um só lugar completamente seguro em nosso planeta. Por isso devemos fazer tudo para glória de Deus, porque "se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela" (Salmos 127.1). Os homens têm construído casas e edifícios com todos os requisitos de segurança: portas de aço, guardas, sistema de alarme, grades de fero, cães amestrados, mas se esquecem de fazer um seguro para a vida eterna; temem os que podem matar o corpo e não podem matar a alma, mas não
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    284 temem Aqueleque pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo (Mt 10.28). Resgato a imagem do Titanic para ajudar numa outra reflexão. Há muitos séculos fazemos a seguinte pergunta: o crente pode perder a salvação? E há muitos séculos uns dizem que pode, outros, que não pode. De um lado, os que consideram a salvação imperdível; do outro, os que consideram plenamente possível o cair da graça. Vejamos um resumo dessas doutrinas. CALVINISMO - Sistema teológico elaborado pelo teólogo francês João Calvino (1509-1564). Os pontos fundamentais do seu ensino são: (1) Depravação total: Os homens nascem depravados, não lhes sendo possível, nesse estado, escolher o caminho da salvação. (2) Eleição incondicional - Somos escolhidos por Deus para salvação, independente de qualquer mérito de nossa parte. (3) Graça irresistível - Os escolhidos não resistirão à graça salvadora do Criador, em razão da atuação do Espírito Santo, convencendo-os do pecado. (4) Expiação limitada aos eleitos - O alto preço do resgate, pago por Jesus na cruz, alcançou apenas os eleitos. (5) Perseverança dos crentes - Nenhum dos eleitos perderá a salvação; irão perseverar até o fim, pois estão predestinados ao céu desde a fundação do mundo. Em resumo, o movimento teológico calvinista defende a absoluta soberania de Deus, e a exclusão do livre-arbítrio. Deus concede aos eleitos graça eficaz e irresistível, que permite ao homem continuar perseverante por toda a vida. ARMINIANISMO - Sistema teológico formulado pelo teólogo holandês Jacobus Arminius (1560- 1609), em oposição à doutrina calvinista da predestinação, assim exposto: 1) Livre-arbítrio - Deus concedeu ao homem a capacidade de aceitar ou recusar a salvação que lhe é oferecida. 2) Eleição condicional - Deus elege ou reprova com base na fé ou na incredulidade em Jesus Cristo. 3) Expiação ilimitada - Cristo morreu por todos, e não somente pelos eleitos. 4) Graça resistível - É possível ao homem rejeitar a Graça de Deus e, em conseqüência, perder a salvação. 5) Decair da Graça - Os salvos podem perder a salvação se não perseverarem até o fim. Agora, tomemos por empréstimo a imagem do Titanic para melhor compreendermos a eleição incondicional e prévia dos salvos, a restrição ao acesso da cruz de Cristo, por um lado; e por outro, o livre-arbítrio, a eleição condicional, o acesso à cruz a todos os que aceitarem o Evangelho. A vida aqui na terra é uma viagem inaugural que tem começo e fim. O homem está avariado pelo iceberg do pecado; se continuar no mesmo rumo, sem mudar de atitude, sem mudar a rota, fatalmente ser á
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    285 destroçado. Emdeterminado momento, um enorme navio, o navio dos predestinados, mais belo e mais possante, baixa âncoras junto ao Titanic dos condenados. O Comandante, de posse de um potente megafone, anuncia que está ali para salvar vidas. Imediatamente, com auxílio de roldanas, faz descer uma enorme prancha de madeira em forma de cruz, a fim de permitir o acesso dos condenados ao navio da predestinação. "Venham! Venham, meus escolhidos; aqui encontrarão descanso para suas almas", diz o Comandante. A água, que inicialmente invadira cinco dos 16 compartimentos estanques, agora toma conta das fornalhas, invade os alojamentos da terceira classe e faz submergir um ter ço da proa. As 1.954 janelas com vidro vão-se quebrando pouco a pouco, e os estilhaços provocam profundos ferimentos nas pessoas. Ao ouvirem o chamado, nem todos atendem. São os que ainda alimentam vãs esperanças, um bom número corre para iniciar a travessia. Todavia, ouvem uma ordem: "Não! Não venham todos! Só os escolhidos poderão passar por essa cruz. Por alto preço os comprei. Minha cruz não suporta o peso de tantas vidas, e o meu barco tem capacidade limitada". Então, o Comandante foi chamando um a um pelo nome; "Pedro, Wagner, Marcos, Marcelo, Norberto, venham, vocês são os meus escolhidos desde o começo, desde a partida do navio do porto de Southampton, na Inglaterra, no dia 10 de abril". E assim, os devidamente chamados e previamente escolhidos, fizeram a travessia, e agora estavam fora de perigo no barco da predestinação. Um dos salvos, já acomodado no navio dos eleitos, perguntou: "O Senhor deixará morrer aqueles?". E ouviu a seguinte explicação: "Meu bom eleito. Aqueles que agora descem às águas profundas já estavam condenados de há muito. Com você e com todos que estão aqui comigo usei de misericórdia, porque uso de misericórdia com quem quero. Com aqueles usei de justiça. Agora você sabe que uso de justiça e de misericórdia. Eu não os afoguei; eles é que se afogaram em suas iniqüidades". O predestinado ainda tentou conseguir mais explicação, mas o Comandante cortou a conversa, categórico. Olhou-o nos olhos, colocou a mão sobre seu ombro, e disse: "É a minha Soberania, filho, a minha Soberania". Em seguida, o Comandante deu partida ao enorme navio, rumo a um porto seguro. Os eleitos ainda tiveram tempo de olhar para trás e ver o Titanic partir-se ao meio, ficar com a popa na vertical e iniciar seu sinistro caminho nas águas geladas, rumo às fossas abissais. Numa outra versão, o navio da predestinação se aproxima do Titanic; a cruz é estendida, e o Comandante convida todos, e todos os que ouviram e aceitaram o convite ficam perfilados e come ça a travessia. "Venham todos - diz o Comandante. Todos serão acolhidos no meu navio. Minha cruz suporta o peso de todas as almas, as quais resgatei por alto preço. Usarei de justiça com os que rejeitarem o meu convite, mas com misericórdia com os que atravessarem essa cruz. No meu navio vocês estarão predestinados à salvação. Venham, benditos; todos os que vierem são meus eleitos. O navio em que vocês estão está avariado, prestes a afundar. É o tempo do fim. Coloco diante de vocês o caminho estreito e difícil da cruz. Não será fácil a travessia. Os ventos são contrários, mas eu lhes sou favorável; tenham os olhos fixos em mim; não olhem para trás; cada passo à frente é uma
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    286 conquista; venham!Muitos já chegaram até aqui; não desanimem; prossigam". Um dos salvos, indagou: "Comandante, por que ficaram aqueles?". O Comandante respondeu: "Porque não deram ouvidos ao meu chamado. Aquele navio carrega muito ouro, prazeres e fantasias. O coração deles está nessas coisas. Usam do direito do livre-arbítrio para recusar a minha oferta de salvação. Com vocês, manifestei a minha misericórdia; com eles, minha justiça". A água, depois de invadir as 159 fornalhas, chegou à primeira classe, a dos milionários. Caem as quatro chaminés de 19 metros. Diante da situação incontrolável e da iminente morte, ecoam gritos de desespero na escuridão. O gigante Titanic, nome dado em homenagem aos titãs da mitologia grega, partido ao meio e vencido, aponta sua popa na posição vertical, como que olhando de joelhos para o céu, e logo depois desaparece nas águas geladas. O quadro apresentado revela no primeiro instante a posição calvinista da expiação limitada de Jesus, em que apenas os previamente eleitos serão salvos. O segundo quadro representa a posição oposta, o da expiação ilimitada, em que todos podem obter a graça da salvação. Os Sacramentos no Breve Catecismo de Westminster Reverendo professor Diego Roberto Escola Missionaria Voz no Deserto (JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) Elaborado no século XVII pela famosa Assembléia de Westminster (Inglaterra), o Breve Catecismo forma, juntamente com o Catecismo Maior e a Confissão de Fé de Westminster, a tríade teológica dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das igrejas reformadas e presbiterianas. Segundo o Breve Catecismo, o que é um sacramento? De que maneira ele se torna eficaz para a salvação? Quantos e quais são os sacramentos do Novo Testamento? Para muitos evangélicos é provável que não haja dificuldade em responder essas perguntas. Mas para outros é possível existir uma vaga lembrança acerca do presente tema ou, até mesmo, desconhecimento total. Os sacramentos não devem ser vistos como mera formalidade pública. Estudá-los (e principalmente vivenciá-los) é uma das tarefas mais gratificantes e enriquecedoras que possa existir. Portanto, o estudo dos sacramentos deve ser feito no intuito de crescermos na gra ça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (cf. 2Pe 3.18). Que o Esp írito de Deus nos oriente nesse sentido. Definição, importância e bênçãos dos sacramentos Muitas definições poderiam ser dadas sobre um sacramento, mas nenhuma é tão direta e objetiva quanto a definição do Breve Catecismo: "Um sacramento é uma santa ordenança, instituída por Cristo, na qual por sinais sensíveis, Cristo e as bênçãos do novo pacto são representados, selados e aplicados aos crentes" (Resposta 92). As referências bíblicas que sustentam a excelente definição do Breve Catecismo são: Mateus 26.26-28; 28.19; Romanos 4.11, dentre outras. A importância do sacramento está no fato de ser "uma santa ordenança, instituída por Cristo".
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    287 Indubitavelmente aPalavra de Deus é o mais importante meio de graça, porém, não podemos subestimar ou diminuir o valor de um sacramento, visto que foi o próprio Deus quem instituiu os dois (a Palavra e os sacramentos) como meios de graça. Além disso, Cristo é o conteúdo central tanto da Palavra quanto dos sacramentos. Um e outro devem ser recebidos pela fé. E receber a Palavra de Deus e os sacramentos pela fé é, segundo Berkhof, "o único modo no qual o pecador pode chegar a ser participante da graça que nos é oferecida na Palavra e nos sacramentos". O sacramento, além de ser um privilégio do crente, é um meio de bênçãos espirituais. É por isso que a negligência voluntária dos sacramentos, por parte do crente, resulta em sérios prejuízos espirituais, conforme 1Coríntios 11.29,30. De que maneira somos beneficiados pelos sacramentos? O Breve Catecismo nos ensina que "por sinais sensíveis, Cristo e as bênçãos do novo pacto são representados, selados e aplicados aos crentes". Segundo Agostinho (354-430), os elementos sensíveis dos sacramentos são "sinais visíveis de uma graça invisível", pois representam a purificação espiritual (At 22.16) que na realidade é feita no sangue de Cristo (1Jo 1.7), o sacrifício remidor. Selam a nossa união e vivificação com Cristo. Aplicam as bênçãos da promessa de pertencermos ao Senhor e nos sustentam, alimentando-nos de Cristo. A eficácia dos sacramentos "Como se tornam os sacramentos meios eficazes para a salvação? Os sacramentos tornam-se meios eficazes para a salvação, não por alguma virtude que eles ou aqueles que os ministram tenham, mas somente pela bênção de Cristo e pela obra do seu Espírito naqueles que pela fé os recebem" (Pergunta e Resposta 91, cf. 1Pe 3.21; Rm 2.28,29; 1Co 12.13; 10.16,17). Veja que antes de dizer em que consiste a eficácia dos sacramentos, o Breve Catecismo é cuidadoso ao nos informar sobre o que não torna os sacramentos eficazes. Em primeiro lugar, os elementos sensíveis ou visíveis dos sacramentos não têm, em si mesmos, virtude ou poder algum. Sem dúvida a Assembléia de Westminster tinha católicos e luteranos em mente quando fez a afirmação acima. Porque ambos (católicos e luteranos) defendem, quanto ao batismo, a chamada "regeneração batismal", atribuindo poder regenerador à água do batismo. Quanto à ceia do Senhor, os primeiros falam de uma "transubstanciação", isto é, uma transformação do pão em carne de Cristo e do vinho em sangue de Cristo. Os luteranos, mais amenos, mas também anti-bíblicos, enfatizam uma "consubstanciação", isto é, ensinam que os elementos da ceia não se transformam em substâncias de carne e sangue, porém, Cristo está com e nos elementos da ceia, humanamente glorificado. Em segundo lugar, a eficácia dos sacramentos também não está na virtude daqueles que os ministram (ex: os pastores). Para os católicos romanos, que consideram o batismo absolutamente essencial para a salvação, é cruel fazer a salvação de alguém depender da presença ou ausência acidental de um sacerdote; então, permitem em caso de emergência que outros batizem, particularmente as parteiras. Nós evangélicos consideramos válido um batismo quando é celebrado por um pastor devidamente credenciado. Mas nem por isso a eficácia do batismo depende do pastor, propriamente dito. Os sacramentos tornam-se meios eficazes para a salvação "somente pela benção de Cristo e pela obra do seu Espírito naqueles que pela fé os recebem" (Resposta 91). E assim os sacramentos fortalecem, confirmam e aumentam a nossa fé e dão testemunho de nossa religião perante os homens. Os sacramentos do Novo Testamento Quando se fala em sacramentos do Novo Testamento, subentende-se que há também os sacramentos
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    288 do AntigoTestamento. Os sacramentos do velho Testamento foram a páscoa e a circuncisão. "Os sacramentos do Novo Testamento são o Batismo e a Ceia do Senhor" (Resposta 93, cf. At 10.47,48; 1Co 11.23-26). A igreja romana aumentou, de maneira injustificada, o número dos sacramentos para sete. Além dos que foram instituídos por Cristo acrescentaram a confirmação, a penitência, as ordens, o matrimônio e a extrema-unção. As igrejas evangélicas não reconhecem os sacramentos de Roma, porque não existe ordem expressa do Senhor para a prática dos mesmos como sacramentos. Por exemplo: O crente pode casar-se, mas não recebeu uma ordem de Cristo, através do Evangelho, para se casar. E embora o matrimônio tenha sido instituído por Deus, não tem a finalidade de ser um meio de graça. O sacramento verdadeiro exige uma cerimônia externa, ordenada por Cristo para confirmação de alguma promessa. Devemos entender que entre os sacramentos do Antigo e Novo Testamentos existe uma diferença gradual, mas nunca essencial. Quanto à unidade essencial dos sacramentos do Antigo e Novo Testamentos, veja o testemunho do apóstolo Paulo em Romanos 4.11; 1Coríntios 5.7; 10.1-4 e Colossenses 2.11. A diferença entre os sacramentos do Antigo e do Novo Testamentos é apenas em grau porque 1) os sacramentos do Antigo Testamento tiveram um caráter nacional, apesar de sua significação espiritual; 2) apontavam para frente, para Cristo, e eram selos de uma graça que ainda seria adquirida, enquanto que os sacramentos do Novo Testamento apontam para trás, para Cristo, e para Sua obra consumada; 3) os sacramentos do Novo Testamento transmitem aos crentes uma medida mais rica de gra ça espiritual. Aplicação Qual a aplicação prática dos sacramentos para a nossa vida? Coates interpreta bem o Breve Catecismo quando diz: "Os sacramentos, quando administrados de conformidade com os princípios estabelecidos nas Escrituras, nos fazem relembrar continuamente a grande base de nossa salvação, a saber, Jesus Cristo em Sua morte e ressurreição, e nos fazem lembrar as obrigações que temos de andar de modo digno da chamada mediante a qual fomos chamados". Perguntas Para Recapitulação 1. Que bênçãos os crentes recebem através dos sacramentos? 2. De que maneira os sacramentos tornam-se meios eficazes para a salvação? 3. Em quê os sacramentos do AT e NT são iguais? Em quê são diferentes? Os Sacramentos no Breve Catecismo de Westminster - I (Considerações Gerais) Reverendo professor Diego Roberto Escola Missionaria Voz no Deserto (JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) Elaborado no século XVII pela famosa Assembléia de Westminster (Inglaterra), o Breve Catecismo forma, juntamente com o Catecismo Maior e a Confissão de Fé de Westminster, a tríade teológica dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das igrejas reformadas e presbiterianas.
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    289 Segundo oBreve Catecismo, o que é um sacramento? De que maneira ele se torna eficaz para a salvação? Quantos e quais são os sacramentos do Novo Testamento? Para muitos evangélicos é provável que não haja dificuldade em responder essas perguntas. Mas para outros é possível existir uma vaga lembrança acerca do presente tema ou, até mesmo, desconhecimento total. Os sacramentos não devem ser vistos como mera formalidade pública. Estudá-los (e principalmente vivenciá-los) é uma das tarefas mais gratificantes e enriquecedoras que possa existir. Portanto, o estudo dos sacramentos deve ser feito no intuito de crescermos na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (cf. 2Pe 3.18). Que o Espírito de Deus nos oriente nesse sentido. Definição, importância e bênçãos dos sacramentos Muitas definições poderiam ser dadas sobre um sacramento, mas nenhuma é tão direta e objetiva quanto a definição do Breve Catecismo: "Um sacramento é uma santa ordenança, instituída por Cristo, na qual, por sinais sensíveis, Cristo e as bênçãos do novo pacto são representados, selados e aplicados aos crentes" (Resposta 92). As referências bíblicas que sustentam a excelente definição do Breve Catecismo são: Mateus 26.26-28; 28.19; Romanos 4.11, dentre outras. A importância do sacramento está no fato de ser "uma santa ordenança, instituída por Cristo". Indubitavelmente a Palavra de Deus é o mais importante meio de graça, porém, não podemos subestimar ou diminuir o valor de um sacramento, visto que foi o próprio Deus quem instituiu os dois (a Palavra e os sacramentos) como meios de graça. Cristo é o conteúdo central tanto da Palavra quanto dos sacramentos. E do modo como recebemos a Cristo em nosso coração pela fé, assim devemos receber a Palavra e os sacramentos. E receber a Palavra de Deus e os sacramentos pela fé é, segundo Berkhof, "o único modo no qual o pecador pode chegar a ser participante da graça que nos é oferecida na Palavra e nos sacramentos". [1]. O sacramento, além de ser um privilégio do crente, é um meio de bênçãos espirituais. É por isso que a negligência voluntária dos sacramentos, por parte do crente, resulta em sérios prejuízos espirituais, conforme 1Coríntios 11.29,30. De que maneira somos beneficiados pelos sacramentos? O Breve Catecismo nos ensina que "por sinais sensíveis, Cristo e as bênçãos do novo pacto são representados, selados e aplicados aos crentes". Segundo Agostinho (354-430), os elementos sensíveis dos sacramentos são "sinais visíveis de uma graça invisível", pois representam a purificação espiritual que é feita no sangue de Cristo, o sacrifício remidor (cf. At 22.16; 1Jo 1.7). Os sacramentos selam a nossa união e vivificação com Cristo. Aplicam as bênçãos da promessa de pertencermos ao Senhor e nos sustentam, alimentando-nos de Cristo. A eficácia dos sacramentos "Como os sacramentos se tornam meios eficazes para a salvação? Os sacramentos tornam-se meios eficazes para a salvação, não por alguma virtude que eles ou aqueles que os ministram tenham, mas somente pela bênção de Cristo e pela obra do seu Espírito naqueles que pela fé os recebem" (Pergunta e Resposta 91; cf. 1Pe 3.21; Rm 2.28,29; 1Co 12.13; 10.16,17).
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    290 Veja queantes de dizer em que consiste a eficácia dos sacramentos, o Breve Catecismo é cuidadoso ao nos informar sobre o que não torna os sacramentos eficazes. Em primeiro lugar, os elementos sensíveis ou visíveis dos sacramentos não têm, em si mesmos, virtude ou poder algum. Sem dúvida a Assembléia de Westminster tinha católicos e luteranos em mente quando fez a afirmação acima. Porque ambos (católicos e luteranos) defendem, quanto ao batismo, a chamada "regeneração batismal", atribuindo poder regenerador à água do batismo. Quanto à ceia do Senhor, os primeiros falam de uma "transubstanciação", isto é, uma transformação do pão em carne de Cristo e do vinho em sangue de Cristo. Os luteranos, mais amenos, mas não menos equivocados, enfatizam uma "consubstanciação", isto é, ensinam que os elementos da ceia não se transformam em substâncias de carne e sangue, porém, Cristo está com e nos elementos da ceia, humanamente glorificado. Em segundo lugar, a eficácia dos sacramentos também não está na virtude daqueles que os ministram (ex: os pastores). Para os católicos romanos, que consideram o batismo absolutamente essencial para a salvação, é cruel fazer a salvação de alguém depender da presença ou ausência acidental de um sacerdote; então, permitem em caso de emergência que outros batizem, particularmente as parteiras. Nós evangélicos consideramos válido um batismo quando é celebrado por um ministro devidamente credenciado. Mas a eficácia do batismo não está nele e não depende dele. Os sacramentos tornam-se meios eficazes para a salvação "somente pela benção de Cristo e pela obra do seu Espírito naqueles que pela fé os recebem" (Resposta 91). E assim os sacramentos fortalecem, confirmam e aumentam a nossa fé e dão testemunho de nossa religião perante os homens. Os sacramentos do Novo Testamento Quando se fala em sacramentos do Novo Testamento, subentende-se que há também os sacramentos do Antigo Testamento. Os sacramentos do Velho Testamento foram a páscoa e a circuncisão. "Os sacramentos do Novo Testamento são o Batismo e a Ceia do Senhor" (Resposta 93, cf. At 10.47,48; 1Co 11.23-26). A igreja romana aumentou, de maneira injustificada, o número dos sacramentos para sete. Além dos que foram instituídos por Cristo acrescentaram a confirmação, a penitência, as ordens, o matrimônio e a extrema-unção. As igrejas evangélicas não reconhecem os sacramentos de Roma, porque não existe ordem expressa do Senhor para a prática dos mesmos como sacramentos. Por exemplo: O crente pode casar-se, mas não recebeu uma ordem de Cristo, através do Evangelho, para se casar. E embora o matrimônio tenha sido instituído por Deus, não tem a finalidade de ser um meio de graça. O sacramento verdadeiro exige uma cerimônia externa, ordenada por Cristo para confirmação de alguma promessa. Devemos entender que entre os sacramentos do Antigo e Novo Testamentos existe uma diferença de grau e não de essência. Os sacramentos do Antigo Testamento tiveram um caráter nacional, apesar de sua significação espiritual. Apontavam para frente, para Cristo, e eram selos de uma graça que ainda seria adquirida; enquanto que os sacramentos do Novo Testamento apontam para tr ás, para Cristo, e para Sua obra consumada. Os sacramentos do Novo Testamento transmitem aos crentes uma medida ainda mais rica de graça espiritual. [2]. Qual a aplicação prática dos sacramentos para a nossa vida? Coates interpreta bem o pensamento do Breve Catecismo quando diz: "Os sacramentos, quando administrados de conformidade com os princípios estabelecidos nas Escrituras, nos fazem relembrar continuamente a grande base de nossa salvação, a saber, Jesus Cristo em Sua morte e ressurreição, e nos fazem lembrar as obrigações que
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    291 temos deandar de modo digno da chamada mediante a qual fomos chamados". [3]. NOTAS [1] Louis Berkhof, Teología Sistemática. 7a ed. Mexico: La Antorcha , 1987, p. 736. [2] Quanto à unidade essencial dos sacramentos do Antigo e Novo Testamentos, veja o testemunho do ap óstolo Paulo em Romanos 4.11; 1Coríntios 5.7; 10.1-4 e Colossenses 2.11. [3] R. J. Coates, Sacramentos. In: O Novo Dicionário da Bíblia. Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 1435. Os Sacramentos no Breve Catecismo de Westminster - II (O Batismo) Reverendo professor Diego rOberto Escola Missionaria Voz no Deserto (JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) Elaborado no século XVII pela famosa Assembléia de Westminster (Inglaterra), o Breve Catecismo forma, juntamente com o Catecismo Maior e a Confissão de Fé de Westminster, a tríade teológica dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das igrejas reformadas e presbiterianas. O que é o batismo cristão e qual o modo correto de aplicá-lo? Que critérios são utilizados para se batizar adultos e crianças? De acordo com o Breve Catecismo, "Batismo é um sacramento no qual o lavar com água em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo significa e sela a nossa união com Cristo, a participação das bênçãos do pacto da graça, e a promessa de pertencermos ao Senhor" (Resposta 94; cf. Mt 28.19; Jo 3.5; Rm 6.1-11; Gl 3.27). Quanto ao modo ou forma de batismo A forma de batismo indicada pelo Breve Catecismo é "o lavar com água". O uso da preposição "com" ao invés de "em" significa que por "lavar" o Breve Catecismo não quer dizer "banhar-se" ou "imergir". Pelo contrário, a preposição "com" é utilizada propositalmente para reafirmar o batismo por aspersão ou efusão. O que significa dizer, em outras palavras, que "Não é necessário imergir o candidato na água, mas o batismo é corretamente administrado derramando ou aspergindo água sobre a pessoa".[1]. O entendimento da expressão "lavar com água" no Breve Catecismo fica ainda mais claro quando vemos o que a Bíblia diz sobre batismo. Nas Escrituras o verbo grego baptízo (batizar) não é um verbo de movimento, por isso geralmente é usado com a preposição grega en (dativo instrumental), denotando meio ou método, podendo significar "com", "por" ou "em". Raras vezes é usado com a preposição eis, que indica movimento (1Co 10.2; Gl 3.27). Essa preposição significa "para dentro de", "para". Se o sentido original do termo fosse realmente "imergir", era de se esperar que a preposição usada fosse eis, a indicativa de movimento. Isso, porém, não é o que ocorre. O verbo baptízo vem de bápto, cujo sentido predominante é "tingir". O sentido de "imergir" vem da implicação de se submergir ou envolver completamente no líquido para o tingimento. Daí vem também a idéia de "purificar", que é o resultado da ação de "lavar" ou "tingir". No seu uso clássico baptízo significa a) lavar um objeto por mergulhá-lo em água ou qualquer outro líquido, para qualquer fim; b) a submersão ou afundamento de algum objeto; c) a cobertura de um objeto pelo derramamento de qualquer líquido sobre ele - daí o uso metafórico de "estar oprimido" ou "coberto",
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    "inundado (de problemas)";d) molhar (ensopar) completamente um objeto, quer por imersão ou por aspersão. Pelo uso clássico, portanto, não se pode fixar o modo pelo qual o "batismo" é realizado, isto é, como é que o elemento batizante é aplicado ao objeto batizado. 292 Tudo o que é indicado é que o primeiro está intimamente em contato com o segundo, ou que o segundo está inteiramente no primeiro. Na Septuaginta (LXX) o verbo baptízo ocorre apenas quatro vezes. Duas vezes nos canônicos (2 Rs 5.14; Is 21.4) e duas nos apócrifos (Judite 12.7; Eclesiástico 34.30). Nestes dois últimos usos o sentido é apenas o de "lavar", sem indicação de qualquer método. Em Números 19.19,20, porém, lemos que essa purificação ou "lavagem" não era feita por imersão, mas por aspersão primeiro, e depois, um banho (verbo lúo). A água purificadora era aspergida (cf. Ez 36.25). No grego da LXX, portanto, baptízo significa "submergir", "banhar", "estar tomado de". Nunca é usado no sentido de descrever o ato de alguém mergulhar um objeto ou uma pessoa em qualquer líquido. No Novo Testamento a preposição eis mantém seu sentido próprio, indicando a finalidade pela qual uma coisa é feita. Assim, "ser batizado para Moisés" significa ser batizado com o propósito de tornar-se sujeito à lei de Moisés. Ser batizado para Cristo significa ser batizado com o propósito de se tornar um verdadeiro seguidor de Cristo. Em suma, no uso grego clássico o verbo baptízo pode significar "imergir", "molhar", "estar possuído de". No uso bíblico significa geralmente "purificar" pela aplicação de água. O método de aspersão está ligado às purificações dos judeus, que eram feitas através da aspersão ou borrifamento de água (Is 52.13; Ez 36.25; Hb 9.10,13,14;). Também o modo como as influências do Espírito são descritas como "descendo" sobre as pessoas, está mais de acordo com o "derramamento" como modo de administração do batismo, uma vez que representa ou é sinal dessas influências.[2]. Quanto à fórmula e significado do batismo O batismo deve ser feito "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (Resposta 94; cf. Mt 28.19). Em Mateus 28.19 a preposição grega eis (na expressão eis to onoma = em nome), indica finalidade e pode ser interpretada como "em relação a", ou "na profissão de fé em alguém e na sincera obediência a alguém". A palavra onoma (nome) é usada no mesmo sentido do hebraico shem como indicativo de todas as qualidades por meio das quais Deus se dá a conhecer, e que constitui a soma total de tudo o que Ele é para quem o adora. A fórmula batismal indica que mediante o batismo (isto é, mediante tudo o que o batismo significa) aquele que o recebe encontra-se em uma relação especial com Deus.[3]. Quanto ao seu significado, o batismo é um sacramento do Novo Testamento, instituído por Jesus Cristo (Mt 28.19; Mc 16.16) não só para admitir na igreja visível a pessoa batizada (1Co 12.13; Gl 3.27,28), mas também para que seja para ela um sinal e selo do pacto da graça (Rm 4.11; Cl 2.11,12), de sua união com Cristo (Rm 6.5; Gl 3.27), de sua regeneração (Tt 3.5), da remissão de seus pecados (Mc 1.4; At 2.38; 22.16) e de sua submissão a Deus por meio de Jesus Cristo para andar em novidade de vida (Rm 6.3,4).[4]. O batismo deve representar a morte completa como de uma pessoa que foi sepultada; mas, também, deve representar uma vida inteiramente nova, como de alguém que venha da ressurreição. Convém salientar que tanto em Romanos 6.4 quanto em Colossenses 2.12, Paulo não trata de um
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    293 batismo comágua (como parece entender a maioria dos imersionistas), mas de um batismo espiritual representado desta maneira, isto é, representa, como já foi mencionado, o novo nascimento sob a figura de sermos sepultados (morrer para o pecado) e ressuscitados (viver para Cristo). Quanto aos objetos do batismo "A quem o batismo deve ser ministrado? O batismo não deve ser ministrado àqueles que estão fora da igreja visível, enquanto não professarem sua fé em Cristo e obediência a ele, mas os filhos daqueles que são membros da igreja visível devem ser batizados" (Pergunta e Resposta 95, cf. Gn 17.7-14; At 2.38,39; 18.8; 1Co 7.14). Depois da extraordinária pregação evangelística de Pedro no dia de Pentecostes (At 2.14-36), Lucas relata a reação dos ouvintes assim: "Ouvindo eles estas cousas, compungiu-se-lhes o coração e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos?" (At 2.37). Pedro diz que o critério para serem recebidos como filhos de Deus deveria ser o arrependimento de pecados e o batismo como evidência externa do arrependimento. De acordo com o Breve Catecismo, ninguém pode ser batizado enquanto não professar sua fé em Cristo e obediência a Ele. O batismo exige a pública profissão de fé. Mas se para alguém ser batizado é necessário primeiro professar a fé, então por que as igrejas presbiterianas batizam crianças? O Breve Catecismo responde parcialmente essa pergunta assim: "... os filhos daqueles que são membros da igreja visível devem ser batizados" (Resposta 95). Talvez o primeiro passo para se compreender porque as crianças devem ser batizadas, é respondendo a pergunta: Por que os adultos são batizados? É porque são estranhos ao pacto da graça e somente o arrependimento de seus pecados e o selo do batismo introduzem-nos dentro do pacto. Os filhos de pais crentes já estão naturalmente dentro do pacto. O batismo é o sinal e selo externo desse pacto. O batismo é "um sinal da aliança (como a circuncisão, mas sem derramamento de sangue) e, portanto, um sinal da obra de Deus realizada a nosso favor, que antecede e possibilita nossa pr ópria atuação correspondente".[5]. Por isso, "Enquanto houver oração no Espírito e uma disposição de pregar a palavra evangélica quando vier a oportunidade, as crianças pequenas podem ser incluídas dentro da esfera desta obra vivificante da qual o batismo deve ser o sinal e o selo".[6]. A base bíblica para o batismo de infantes está em Gênesis 17. Do mesmo modo como a circuncisão introduzia a criança no pacto, assim o faz o batismo. Não temos certeza se nas casas de Atos 16.15,33 e 1Co 1.16, por exemplo, havia crianças, mas se havia, então com certeza foram batizadas por causa da aliança de Deus. "Visto que o batismo tomou o lugar da circuncisão (Cl 2.11-13), as crianças devem ser batizadas como herdeiras do reino de Deus e de Seu pacto" (Form for the Baptism of Infants). Que os filhos de pais crentes, ou aqueles que têm um dos pais crentes, devem ser batizados sobre a base de suas relações de pacto, pode ser visto ainda em Atos 2.39 e 1Coríntios 7.14. Portanto, façamos do batismo que recebemos verdadeira expressão de vida cristã para nós e nossos filhos. NOTAS [1] Confissão de Fé de Westminster (CFW), XXVIII,3.
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    294 [2] Cf.João Alves dos Santos, Comentários de Atos 1.1-8. São Paulo: Obra não publicada, 1981, p. 9-14; Charles Hodge, O Batismo Cristão: Imersão ou Aspersão?. 2a ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003, p. 7-34. [3] Louis Berkhof, Teología Sistemática. 7a ed. Mexico: La Antorcha , 1987, p. 746-47; Charles Hodge, Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Hagnos, 2001, p. 1419-20. [4] Cf. CFW, XXVIII,1. [5] G. W. Bromiley, Batismo Infantil. In: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1988, p. 158. [6] Idem, p. 159. V. t. Elias Dantas Filho, Filhos e Filhas da Promessa. Curitiba: Editora Descoberta, 1998, p. 125-140; Guillermo Hendriksen, El Pacto de Gracia. Grand Rapids: Subcomisión Literatura Cristiana, 1985, p. 55-63. Os Sacramentos no Breve Catecismo de Westminster - III (A Ceia do Senhor) Reverendo professor Diego Roberto Escola Missionaria Voz no Deserto (JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) Elaborado no século XVII pela famosa Assembléia de Westminster (Inglaterra), o Breve Catecismo forma, juntamente com o Catecismo Maior e a Confissão de Fé de Westminster, a tríade teológica dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das igrejas reformadas e presbiterianas. Antes de estudarmos a Ceia do Senhor no Breve Catecismo, propriamente dito, faremos um breve histórico acerca da presença de Cristo na Ceia. Esse pano de fundo nos ajudará a compreender, de certa forma, o que o Breve Catecismo diz sobre a Ceia do Senhor. Em esp írito de oração, estudemos este assunto na certeza de sermos ensinados por Deus. A presença de Cristo na Ceia As palavras de Cristo "isto é o meu corpo, isto é o meu sangue" (Mt 26.26,28; Mc 14.22,24), foram o ponto de divergência entre os reformadores do século XVI quanto à interpretação da presença de Cristo na Ceia, embora eles fossem unânimes em rejeitar o conceito católico romano sobre este assunto. • O conceito católico romano Mediante a consagração do pão e do vinho pelo sacerdote, esses elementos transformam-se na substância da carne e sangue de Cristo, respectivamente. Objeção: A expressão "isto é o meu corpo, isto é o meu sangue" não pode ser tomada literalmente. Visto que Jesus estava diante dos seus discípulos em carne e osso, Ele não podia dizer que eles estavam com o seu corpo e o seu sangue nas mãos, e que deviam comê-lo e bebê-lo, respectivamente, de forma literal. A expressão "isto é o meu corpo, isto é o meu sangue", deve ser interpretada como "representa", "simboliza". Além disso, "É contrário ao senso comum crer que o que parece, cheira e
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    295 tem gostode pão e vinho seja, de fato, carne e sangue".[1]. • O conceito luterano Objeção: Este conceito não melhora muito a doutrina romana. Faz as palavras de Jesus significar "isto acompanha meu corpo", que é uma interpretação muito estranha. • O conceito zwingliano Zwínglio, reformador suíço, rejeitou os dois conceitos anteriores da presença física de Cristo na Ceia. Para ele a Ceia do Senhor é tão somente uma lembrança da morte de Cristo, um memorial. Esse conceito é adotado pelas igrejas batistas. Objeção: A Ceia não está relacionada apenas à obra passada de Cristo, mas também à sua obra atual de Mediador. O significado da Ceia do Senhor no conceito presbiteriano "A Ceia do Senhor é o sacramento no qual, dando-se e recebendo-se pão e vinho, conforme a instituição de Cristo, se anuncia a Sua morte; e aqueles que participam dignamente tornam-se, não de uma maneira corporal e carnal, mas pela fé, participantes do seu corpo e do seu sangue, com todas as suas bênçãos para o seu alimento espiritual e crescimento em graça (Resposta 96; cf. 1Co 10.16; 11.23-26; Ef 3.17). Os presbiterianos não negam o conceito da presença real de Cristo na Ceia. No entanto, entendem que a presença de Cristo não é em substâncias materiais, porém, presença espiritual, conforme afirmava o reformador francês João Calvino. A presença espiritual de Cristo na Ceia é tão real quanto a presença física do pão e do vinho. Pela fé o crente se alimenta do corpo de Cristo, tão real e verdadeiramente, como come do pão e bebe do cálice. Quando falamos da "presença espiritual" de Cristo na Ceia, devemos entender que o corpo e o sangue de Cristo n ão estão espiritualmente presentes nos elementos da Ceia, mas sim, "espiritual e realmente presentes à fé dos crentes nessa ordenança, como estão os próprios elementos aos seus sentidos corporais".[2]. A Ceia é um momento de profunda comunhão com o Senhor (1Co 10.16) e um anúncio ao mundo da morte de Cristo, "até que ele venha" (1Co 11.26). A Ceia é uma dádiva de Deus a nós, ou como a expressou Leon Morris, "Na comunhão recebemos a Cristo. Não O apresentamos nem Seu sacrifício ao Pai. Apresentamos, e podemos apresentar, somente a nós mesmos".[3]. É assim que devemos entender a expressão "dando-se e recebendo-se pão e vinho" no Breve Catecismo. Finalmente, aqueles que participam da Ceia do Senhor são abençoados com verdadeiro alimento espiritual e crescimento na graça. Exigência para participar dignamente da Ceia do Senhor "Que se exige para participar dignamente da Ceia do Senhor? Exige-se daqueles que desejam participar dignamente da Ceia do Senhor que se examinem sobre o seu conhecimento em discernir o corpo do Senhor, sobre a sua fé para se alimentarem dele, sobre o seu arrependimento, amor e nova obediência, para não suceder que, vindo indignamente, comam e bebam para si a condenação" (Pergunta e Resposta 97; cf. Rm 6.17,18; 1Co 11.27,31,32). A Ceia do Senhor é um ato de fé e discernimento, conforme o ensino do Breve Catecismo à luz da Bíblia. A razão
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    pela qual umdescrente ou uma criança não possa participar da Ceia do Senhor é porque aquele não tem fé em Cristo e esta não tem discernimento quanto ao corpo e o sangue do Senhor. Para que o crente participe dignamente da Ceia do Senhor é necessário que ele observe o seguinte: 1) Tenha consciência do valor e importância da Ceia do Senhor (1Co 11.27,29). Participar com dignidade e discernimento é receber com fé aquele ato solene; 2) Faça um auto-exame de sua pessoa e conduta perante Deus (1Co 11.28). "Antes de tomarmos parte em tal servi ço, o mínimo que podemos fazer é um rigoroso auto-exame. Deixar de fazê-lo resultará em comungar 'indignamente' (v27)".[4]. Esse é o momento em que a hipocrisia não tem vez, visto que não se estará julgando os outros, mas cada um a si mesmo, sob os olhares atentos de Deus. É uma ocasião solene de "arrependimento, amor e nova obediência" (Resposta 97); 3) Evite a condenação divina (1Co 11.29-32). Que condenação é essa? Morris diz com muita propriedade: "Paulo não quer dizer que a pessoa que comunga erroneamente incorre na pena eterna, mas cai sob a medida de condenação apropriada a seu ato".[5]. 296 "Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice" (1Co 11.28). Que a nossa participação na Ceia do Senhor promova a glória de Deus. NOTAS [1] Louis Berkhof, Manual de Doutrina Cristã. Campinas/Patrocínio: Luz Para o Caminho/Ceibel, 1985, p. 292. [2] Confissão de Fé de Westminster, XXIX,7. [3] Leon Morris, 1Coríntios: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1992, p. 130. [4] Idem, p. 131. [5] Ibidem. PARA UMA ALMA RELIGIOSA, CURIOSA E CONFUSA Reverendo professorDiego Roberto Escola Missionaria Voz no Deserto (JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) "Se alguém não tiver sabedoria suficiente, peça-a a Deus, que a dá a todos de graça sem humilhar ninguém" (Carta de São Tiago, 1.5, Tradução Interconfessional dos Franciscanos Capuchinhos) Estas perguntas, nós as recebemos para que déssemos uma resposta pastoral dentro da Palavra de Deus. Foram devidamente encaminhadas tanto ao anônimo consulente quanto ao portal evangélico que no-las enviou. Um amigo leu as respostas dadas, e sugeriu-nos dar publicidade para ajudar outros espíritos religiosos, curiosos porém confusos, assim como, nossos irmãos em Jesus Cristo. O nível é apologético. "Meus caros irmãos das Igreja Evangélicas, eu sou da Igreja Católica e gostaria muito que vocês me respondessem a estas perguntas": PERGUNTA # 1 "Já que a Igreja Batista, Adventista, Pentecostal, Messiânica, Presbiteriana, Quadrangular, Deus é Amor, Universal do Reino de Deus, etc... não têm imagem de nenhum "demônio" como na Igreja Católica, e se vocês adoram a Jesus Cristo, por que vocês então não se unem e formam uma única Igreja de Cristo?"
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    NOSSA RESPOSTA: Narealidade, caro consulente, só existe uma Igreja de Jesus Cristo. Ela é formada por todos os salvos, de todos os tempos, de todos os quadrantes da Terra, de todas as línguas, de todas as raças, de todas as condições sociais, e não é conhecida por qualquer nome de Igreja particular, Grupo ou Denominação. É um Corpo que reúne todos os que foram alcançados pela Graça(1) de Deus, unido este Corpo pela fé a Jesus Cristo, o Filho de Deus, e sem nenhuma cor sectária. A Igreja de Cristo não é qualquer organização terrena, visível seja do movimento Ortodoxo em suas diversas formas (Grego, Russo, Ucraniano, Igrejas Orientais, etc.), dos diversos agrupamentos Católico-Romanos ou de quaisquer grupos Protestantes e outros Evangélicos (2). Outrossim, não nos parece que qualquer grupo evangélico, para-evangélico ou presumido-evangélico tenha acusado as imagens e outros ícones presentes nos templos, capelas e lares católico-romanos de "demônios". Reconhecemos, sim a absoluta falta de ensino bíblico com respeito à veneração ou culto (mesmo que o seja de dulia ou hiperdulia, visto que na teologia romana a latria s ó é devida ao Criador), razão porque o culto anicônico das igrejas evangélicos é realizado nos moldes do ensino neotestamentário: "em espírito e verdade" e "racional"(3). A propósito, vamos desfazer um engano: a assim chamada Igreja Messiânica Mundial do Brasil não é uma igreja evangélica. É um movimento não-cristão de origem japonesa, que não tem a Bíblia Sagrada como seu livro de fé. Portanto, convém não mais relacioná-la com as Igrejas denominadas protestantes nem com as evangélicas. PERGUNTA # 2 "Já que vocês dizem que as imagens que estão na Igreja Católica são demônios ou ídolos, dêem-me a prova de que elas realmente o são". NOSSA RESPOSTA Pena que sua afirmação está certa somente em parte. Não conhecemos qualquer afirmação entre os evangélicos de serem as imagens dos templos católicos "demônios". No entanto, quem as coloca na categoria de "ídolos" é a própria edição católico-romana da Bíblia Sagrada num livro considerado deuterocanônico (nós o chamamos "apócrifo") e que não se encontra no Cânon Original, que é o Palestino (escritos os livros em hebraico e aramaico), e conseqüentemente, também não no Cânon Protestante/Evangélico. Trata-se do livro de Sabedoria, do qual transcrevemos uma parte e indicamos outras. Foi utilizada para essa transcrição a edição da Bíblia Sagrada, traduzida pelo Pe. Matos Soares (4). Diz o capítulo 13.11ss: Eis que um artista hábil corta do bosque um tronco direito, e destramente lhe tira toda a casca,e, valendo -se da sua arte, faz com esmero uma peça útil para uso da vida(5), e os restos daquela obra emprega-os para cozinhar a comida(6). E, quanto ao resto de tudo isto, que para nenhum uso é útil, por ser um madeiro torto e cheio de nós, vai-o esculpindo cuidadosamente nas horas livres, e, pela perícia de sua arte dá-lhe uma figura, e configura-o à semelhança de um homem,... Depois prepara-lhe um nicho conveniente, pondo-o numa parede, e segurando-o com algum ferro, usando com ele desta precaução, para que não caia, reconhecendo que não pode ajudar-se a si mesmo, porque é uma estátua e tem necessidade de auxílio. E, fazendo-lhe votos, consulta-o a respeito dos seus bens, e dos seus filhos, ou de cuams amento. Não se envergonha de falar com aquele madeiro, que está sem alma; e roga pela saúde a um inválido, e pede a vida a um morto, e invoca em seu socorro um inútil; e, para o bom sucesso de uma jornada, recorre àquele que não pode andar; e para as suas compras, suas empresas, e para o bom êxito de todas as suas coisas, implora a quem é incapaz de tudo. Continue lendo o capítulo seguinte, o 14, sobretudo os versos 7 e 8. Veja também os versos 17 a 20. 297
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    O livro doprofeta Isaías (46.7,8) tem igualmente uma palavra de condenação quando exclama: Levam-no às costas, colocam-no no seu nicho, e ele fica sem se mover do seu lugar; e ainda, quando clamarem para ele, não ouvirá, nem os salvará da tribulação Lembrai-vos disto, envergonhai-vos, entrai em vós mesmos. É ou não, a mesmíssima forma de uma prática de religiosidade encontrada sobretudo nos países latinos europeus e do Novo Mundo? Veja, ainda, Isaías 44.9-20. A claríssima recomendação do Novo Testamento e que se encontra no último versículo da Primeira Carta de São João é: "Filhinhos, guardai-vos dos ídolos". PERGUNTA # 3 "Eu lhes pergunto quando Deus Todo Poderoso ordenou não fazer imagem, proibiu se fazer imagens dos homens santos, ou de se fazer imagens de deuses?" NOSSA RESPOSTA Leia o que diz a Bíblia. Vamos reproduzir as palavras da tradução do Pe. Matos Soares em Êxodo 20.4,5: Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma do que há em cima no céu, e do que há em baixo na terra, nem do que há nas águas debaixo da terra. Não adorarás tais coisas, nem lhes prestarás culto. Raciocine: há cabimento para qualquer tipo de culto, seja dulia ou hiperdulia? A proibição é TOTAL: de "homens santos" e de "deuses" também. 298 PERGUNTA # 4 "Para vocês existem ou não os santos Ler 2 Tessalo-nicenses 1,10; Efésios 3,8. NOSSA RESPOSTA Do começo ao fim, a Bíblia Sagrada ensina uma Teologia da Santidade. Os textos mencionados são dois entre centenas tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. A pergunta não deve ser se "existem ou não os santos". A pergunta é "QUE SIGNIFICA SER SANTO?" Há uma teologia popular e há uma Teologia Bíblica sobre este assunto. A primeira é incentivada e alimentada por uma compreensão equivocada do termo e do conceito; a segunda tem um caudal puríssimo na Escritura Sagrada. A idéia popular é de que "santo" é alguém que, tendo obtido um altíssimo grau de bondade, perfeição e virtude, nem precisa passar pelo Purgatório, onde supostamente se "purificaria" dos pecados veniais(7). Outrossim, esta "teologia popular" da santificação avança no imaginário do povo com o conceito de beatificação até se chegar à canonização. São mais duas idéias não encontradas no Novo Testamento. Graças a Deus, o ensino bíblico é suficientemente iluminado para não deixar dúvidas: "Santo é o que está reservado para Deus". O conceito de santidade (em hebraico kidshut) está ligado a objetos, eventos/datas, lugares e pessoas. A "Arca da Aliança" era chamada Aron haKodesh, ou seja, a Arca Santa, porque era um objeto reservado, exclusivo do culto a Deus; o Templo de Jerusalém era nomeado Beith haMikdash porque era um edifício de uso exclusivo de Javé e Seu Culto; o povo de Israel era Santo por ser uma nação separada para Deus; o Shabath, um Dia Santo porque nele só uma realidade interessa: fazê-lo diferente de todos os outros. Recorde-se do mandamento que regula: "Lembra-te de santificar o dia de Repouso". Aproveite e leia o restante que está em Êxodo 20.7 a 11. Assim sendo, quem são os "santos"? A resposta da Bíblia Sagrada é que são aqueles que pertencem a Jesus Cristo, aqueles que foram lavados e purificados pelo sangue de Jesus (não pelo batismo, o que não é ensino neotestamentário), aqueles que O receberam pela fé salvadora, outro nome para a fé-
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    adesão, fé-compromisso, fé-levada-a-sério.A Bíblia chama a estes de "fiéis", "santos" e "santificados", entre outros significativos epítetos. Leia: 1Coríntios 1.1,2; 2Coríntios 1.1; Efésios 1.1; Filipenses 1.1; Colossenses 1.1,2. PERGUNTA # 5 "Pois quando Deus disse em Levítico 19,1: ‘Dirás a toda a assembléia de Israel o seguinte: Sede santos, porque eu, o Senhor, vosso Deus sou santo’, Deus estava mandando seu povo ser santo ou demônio?" NOSSA RESPOSTA Deus estava ordenando Seu povo, e, por extensão, aos salvos e fiéis da Igreja de Jesus Cristo a serem diferentes, que é, sem dúvida, a melhor interpretação para o conceito teológico veterotestamentário expresso pela palavra Kadosh. Ser uma reserva especial para Deus e Jesus Cristo. A Primeira Carta de São Pedro (2.5)esclarece: Vós, também, como pedras vivas sede edificados sobre ele como casa espiritual, sacerd ócio santo para oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo. 299 PERGUNTA # 6 "Os homens que seguem a Jesus Cristo, estão ou não estão no caminho da santidade? Ler: (I Coríntios 7,32-34)" NOSSA RESPOSTA Os verdadeiros discípulos já encontraram esse caminho como bênção inicial de sua vida cristã. Caminhar por Ele é um ato de entrega e de adesão. Ninguém é salvo por procuração ou representado por outra pessoa como se pratica. A Bíblia registra as palavras de Jesus Cristo em João 14.6: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim" (Bíblia de Jerusalém). Os cristãos da Igreja do tempo dos apóstolos eram chamados de "os do Caminho". Quem segue a Jesus Cristo busca a vida de separação, vida de-fazer-diferença-neste-mundo, ou, para usar a palavra bíblica: de santidade. PERGUNTA # 7 "Já que os que seguem a Jesus Cristo estão no caminho da santidade (para serem santos), será que nenhum homem chegou a alcançar essa santidade, chegou ou não chegou?" NOSSA RESPOSTA Santidade é separação deste mundo, já o vimos. Ao longo da História da Salvação(8), milhões têm experimentado a santidade como estilo e prática de vida. Nas ruas de qualquer cidade ou no campo, os santos estão andando e passando por nós. Eles nos encorajam a tudo suportar pelo amor de Cristo e de Seu reino. PERGUNTA # 8 "Quantas Igrejas de Jesus Cristo existem, pois no Evangelho Jesus diz: ‘E eu te declaro: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.’ Ler: (Mateus 16,18), Jesus Cristo não disse no plural: "as minhas igrejas", Ele disse: a minha Igreja. Por que será então que existem tantas Igrejas?" ‘NOSSA RESPOSTA A resposta da Pergunta # 1 cobre, de certo modo, o alcance desta questão. A Igreja de Jesus Cristo, repetimos, não se identifica com uma Igreja nacional, um grupo local ou organização religiosa. Não tem um nome específico (Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Reformada, Igreja Evangélica de Confissão Luterana, Igreja Presbiteriana do Brasil, Assembléia de Deus - Ministério de Belém, Igreja Batista Sião,
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    Jovens com umaMissão, Missão Antioquia, etc, etc). A Igreja Cristo é supranacional, e atemporal; o Corpo Místico de Cristo se forma de todos os fiéis sem distinção de raça, cor, língua ou filiação cristã. Um alerta, entanto, se faz necessário: os chamados "fiéis", "santos", "salvos" são aquelas pessoas que, conduzidas pelo Espírito Santo ao Salvador (Espírito que, como ensina a Bíblia na tradução do Pe. Matos Soares, convence o mundo "quanto ao pecado, à justiça e ao juízo"(9), pela fé receberam o perdão para os seus pecados (o Novo Testamento usa para essa gloriosa realidade o termo justificação)(10). A Igreja Cristo, Seu Corpo Místico, não é qualquer Igreja nominal (que tem origem e organização humana, inclusive a Igreja Católica Apostólica Romana, cuja origem se prende à "conversão" de Constantino, apesar de a história oficial conta-la diferentemente. PERGUNTA # 9 "O que Jesus queria dizer quando disse a Pedro: "Eu te darei as chaves do reino dos c éus: tudo o que ligares na terra, será ligado no céu e tudo o que desligares na terra, será desligado no céu" ?, e o que significa ligar e desligar?" NOSSA RESPOSTA O versículo mencionado se encontra no contexto de Mateus 16.13-20 que registra uma pesquisa conduzida por Jesus para saber qual a opinião popular em torno de Sua Pessoa. Os discípulos respondem que algumas pessoas entendiam que Jesus era João Batista, outros que seria Elias, o tesbita, outros, ainda, acreditavam que seria o profeta Jeremias ou talvez um outro dos inflamados pregadores da Antiga Aliança. O mesmo versículo aparece em 18.15-22 num contexto de disciplina e perdão no âmbito da igreja. Em João 20.23 em instruções que foram dadas aos apóstolos após a ressurreição, o mesmo ensino aparece ligeiramente modificado. Paulo em 1Coríntios 5.4,5 expõe um comentário sobre o mesmo tema. Ligar e desligar são termos técnicos rabínicos que significam "permitir" e "proibir" uma ação acerca da qual uma questão tenha sido levantada. Em Mateus 18.18, a ação de "ligar e desligar" tem a ver com a disciplina exercida pela igreja local, paroquial. 1Coríntios 5.4,5 reflete a excomunhão, exclusão da igreja para mortificação da natureza carnal. PERGUNTA # 10 "Baseado nesta observação: Pedro negou Jesus por três vezes antes de Jesus morrer. Porém quando Jesus ressuscitou; Jesus confirmou Pedro como primeiro pastor das suas ovelhas, também por três vezes. Ler: (João 21,15-17), agora me responda já que Pedro iria morrer um dia, e o seu lugar ficaria vago, o substituto de Pedro teria ou não teria o mesmo poder que Jesus outorgou a Pedro? Ler para comparar Atos 1,15-26, e responda". NOSSA RESPOSTA Cremos que será conveniente fazer uma exegese de João 21.15ss para entender porque Jesus fez por três vezes a pergunta "Simão, filho de João, amas-me?" para não se cair no pecado de ler o que não foi dito. O Mestre fez a indagação a Pedro utilizando um verbo e Pedro todo o tempo com outro. Jesus lhe perguntou: "Simão, filho de João, agaposme? ("Tu me amas de verdade?") Pedro responde: "Sim, Senhor, tu sabes que filote" (Tu sabes que eu tenho amizade por ti). Não é isso o que Jesus Cristo quer de Seus discípulos. Não tendo ficado satisfeito com a resposta de Simão Pedro, Jesus repete a pergunta. A palavra final do Mestre é "Apascenta as minhas ovelhas". Não há qualquer indicação (nem por inferência) a um primado de Pedro. Há, sim, uma dupla lição para os cristãos: 300
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    É preciso quecada discípulo de Jesus Cristo tenha uma PAIXÃO pelo Senhor, pelo Seu reino, pela Sua Causa, pela Sua missão neste mundo ("agaposme?", "Amas-me verdadeiramente?"); É preciso que cada discípulo de Cristo tenha uma MISSÃO, que confiada à Igreja é repassada a cada um individualmente ("apascenta as minhas ovelhas"). Como louvamos a Deus por este e outros espíritos que, religiosos, porém confusos, são curiosos a respeito de sua fé! Como pedimos que a iluminação do Seu Santo Espírito revele a verdade eterna, salvadora, purificadora e santificadora. Que sejam como os bereanos que "de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas escrituras se estas coisas eram assim"(At 1N7O.T1A1S ). (1) Graça: termo da Teologia que expressa o "o amor que não merecemos da parte de Deus ". Em Efésios 2.8, o apóstolo S. Paulo repassa o ensino vindo do Espírito Santo de que "Com efeito, é pela graça que vós sois salvos por meio da fé; e isto não depende de vós, é Dom de Deus. Isto não vem das obras, para que ninguém se orgulhe" (TEB - Tradução Ecumênica da Bíblia, SP, Edições Loyola com Recomendação de D. Luciano Mendes de Almeida, Presidente da CNBB). (2) Protestantes e Evangélicos são realidades distintas, como o prezado consulente deve ter conhecimento, embora a opinião popular e a mídia os confunda. (3) Assim o descreveu Jesus em João 4.23,24, e Paulo, apóstolo, em Romanos 12.1. (4) 45a ed. SP, Edições Paulinas, 1988. (5) Ou seja, faz algo de utilidade como um móvel ou prateleira, etc. (6) A lenha tem utilidade no uso doméstico (7) Ressalte-se que nem a idéia de um "purificatório" ou "purgatório" nem a de "pecados veniais" têm substância no ensino bíblico. (8) "História da Salvação" (Heilsgeschichte) é termo técnico para designar desde o evento cósmico e existencial chamado A Queda até o ministério salvador de Jesus Cristo e as conseqüentes implicações, até a Sua Parusia, a ressurreição final e a bem-aventurança eterna. (9) João 16.8. (10) Leia Romanos 5.1ss. PNEUMATOLOGIA REFORMADA DE VERDADE! DEFINIÇÕES E DESAFIOS NICODEMOS LOPES Reverendo professor Diego Roberto Escola Missionaria Voz no Deserto (JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) O que é ser "reformado"? A primeira questão com a qual nos defrontamos ao abordar o tema desse pequeno ensaio é a de definir exatamente sobre o que estamos falando. O nosso assunto gira em torno da compreensão reformada sobre a pessoa e a obra do Espírito Santo. Mas, o que queremos dizer por "reformada"? Não existe unanimidade entre os que se consideram herdeiros da Reforma protestante quanto ao sentido do termo. Historicamente, o termo "reformados" foi usado a princípio indistintamente para todos os protestantes, calvinistas, luteranos e zwinglianos. Com as controvérsias entre eles sobre a Ceia, "reformados" passou a designar zwinglianos e calvinistas somente, em contraponto aos luteranos. E com o arrefecimento da importância de Zwinglio no cenário protestante, "reformados" passou a designar os calvinistas. Portanto, é historicamente correto afirmar que um entendimento reformado sobre o Espírito Santo tem a ver primaria e basicamente com a teologia calvinista sobre o Espírito Santo. Hoje em dia, muitas igrejas e denominações se utilizam do nome "reformada", mesmo que já tenham abandonado em grande medida partes fundamentais da teologia calvinista, inclusive a pneumatologia. O mesmo acontece com alguns pastores que consideram-se reformados apesar do fato 301
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    de que nãosão calvinistas em sua doutrina. Assim, embora para alguns hoje ser reformado seja pertencer a uma igreja que historicamente descende da reforma protestante, ou ainda manter o espírito reformista que marcou os reformadores, é mais exato dizer que o conceito está ligado às principais convicções doutrinárias dos reformadores, particularmente às de João Calvino. Consequentemente, uma pneumatologia reformada é necessariamente aquela adotada pelas igrejas que são herdeiras do Cristianismo bíblico. É uma pneumatologia originada nas Escrituras e defendida por Agostinho, Calvino, e os puritanos, tendo sua expressão adequada nas confissões de fé reformadas. É uma pneumatologia derivada de uma leitura das Escrituras a partir dos pressupostos principais que guiaram esses homens, a começar com o alto apreço pelas Escrituras como Palavra de Deus, inspirada e infalível, e única regra de fé e prática da Igreja. À luz desta visão podemos definir pneumatologia reformada como sendo aquela compreensão da pessoa e da obra do Espírito Santo que parte da revelação divina grafada nas Escrituras, lida e interpretada da ótica da hermenêutica reformada, tendo como alvo a glória de Deus e o avanço do seu reino neste mundo. Se considerarmos que apenas os que se mantém leais aos principais pontos da doutrina calvinista podem ser realmente chamados de reformados, verificaremos que são poucos os verdadeiros reformados. Escreve o ex-calvinista Clark Pinnock: Tenho a forte impressão, confirmada até mesmo pelos que discordam dela, que o pensamento de Agostinho está perdendo sua influência nos evangélicos de hoje. Não são apenas os evangelistas que estão pregando um evangelho arminiano. É difícil até mesmo achar um teólogo calvinista hoje que esteja disposto a defender a teologia reformada em seus detalhes mais peculiares, em particular as opiniões de Calvino e Lutero. Eu não estou sozinho, especialmente agora que Gordon Clark faleceu e John Gerstner aposentou-se. Numa época em que o número de "reformados" comprometidos com a teologia calvinista é tão pequeno, não é de se estranhar que tendências teológicas, filosóficas e hermenêuticas, trazidas no bojo do pós-modernismo e do crescente movimento neopentecostal, se infiltrem nas igrejas historicamente reformadas, e descaracterizem, onde aceitas, a compreensão correta acerca do Espírito Santo. Tais ameaças já estão presentes, e que aparentemente vieram para ficar por um longo tempo. Entende-las agora é essencial para a preservação da identidade reformada quanto à obra do Espírito Santo no mundo e na Igreja. No que se segue, procuro detectar e analisar alguns destes desafios O Desafio Teológico: Pelagianismo O que é o Pelagianismo O primeiro desafio vem da área teológica, representado pelo pelagianismo, heresia antiga e já condenada pela Igreja, mas jamais erradicada do seu meio. O pelagianismo sustenta basicamente que todo homem nasce moralmente neutro, e que é capaz, por si mesmo, sem qualquer influência externa, de converter-se a Deus e obedecer à sua vontade, quando assim o deseje. Uma das grandes disputas durante a Reforma protestante versou sobre a natureza e a extensão do pecado original. Ele afetou Adão somente, ou todo o gênero humano? A vontade do homem decaído é ainda livre ou escravizada ao pecado? No século V Pelágio havia debatido ferozmente com Agostinho sobre este assunto. Agostinho mantinha que o pecado original de Adão foi herdado por toda a humanidade e que, mesmo que o homem caído retenha a habilidade para escolher, ele está escravizado ao pecado e não pode não pecar. Por outro lado, Pelágio insistia que a queda de Adão afetara apenas a Adão, e que se Deus exige das pessoas que vivam vidas perfeitas, Ele também dá a habilidade moral para que elas possam fazer assim. Ele reivindicou mais adiante que a graça divina era desnecessária para salvação, embora facilitasse a obediência. Agostinho teve sucesso refutando Pelágio, mas o pelagianismo não morreu. Várias formas de pelagianismo recorreram periodicamente através dos séculos. Lutero escreveu um livro "A Escravidão 302
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    da Vontade" emresposta a uma diatribe de Erasmo, onde o mesmo defendia conceitos pelagianos. Lutero acreditava que Erasmo era "um inimigo de Deus e da religião Cristã" por causa do ensino dele sobre o pecado original. É bom notar que o Catolicismo medieval, sob a influência de Aquino, adotara um semi-pelagianismo, mesmo que na antigüidade houvesse rejeitado o pelagianismo puro. Neste sistema, acreditava-se que o homem cooperava com a graça de Deus para a salvação. No século XVIII, uma forma nova e levemente modificada de pelagianismo, apareceu, que foi o arminianismo. Existem algumas diferenças entre as duas posições, mas ambas são sinergistas (o homem coopera para sua salvação) e mantém o mesmo conceito de fé (uma decisão puramente humana de receber a Jesus Cristo, e não como um dom misericordioso de Deus). A influência de Charles Finney No século XIX, o evangelista americano Charles Grandison Finney reavivou o puro pelagianismo. Ele repudiou abertamente quase todas as principais doutrinas calvinistas (mesmo que tenha sido ordenado na Igreja Presbiteriana), em particular a doutrina de pecado original e da depravação total. É um grave erro histórico e teológico considerar Finney como "reformado" (alguns, exagerando, diga-se, nem desejam considerá-lo como evangélico). A metodologia evangelística de Finney teve tanto êxito, que ele se tornou um modelo para os evangelistas mais recentes. Embora o evangelicalismo americano não tivesse aceitado integralmente o pelagianismo de Finney, abraçou, entretanto, sua metodologia, uma forma de semi-pelagianismo que infectou a alma da sua teologia até o dia de hoje. Vários movimentos nasceram conscientemente da teologia de Finney, como a teoria do governo moral. Ameaças à doutrina do Espírito Santo O pelagianismo, em suas variadas formas contemporâneas, ameaça a doutrina reformada do Espírito Santo especialmente nas áreas da regeneração e da chamada eficaz, das seguintes maneiras: a) Reduz a regeneração do pecador a uma decisão de sua própria vontade. Finney rejeitou a idéia de que a regeneração fosse um milagre, uma transformação sobrenatural produzida pela ação soberana do Espírito no coração dos eleitos. Para ele, regeneração era a decisão do pecador em se voltar para Deus e obedecê-lo. Não poderia haver nenhuma transformação miraculosa, pois não havia o que transformar, já que o pecador é moralmente capaz de obedecer a Deus. Após a negação de pecado original, foi somente um passo para que Finney negasse a doutrina da regeneração sobrenatural. O sermão mais popular de Finney, pregado na Igreja da Rua do Parque, em Boston, foi intitulado "Os Pecadores Devem Mudar os Próprios Corações". Para ele, não há nada na religião que ultrapasse os poderes ordinários de natureza. "Religião é obra do homem", disse ele. "Consiste tão somente no emprego apropriado dos poderes naturais. É somente isso e nada mais" b) Reduz a chamada eficaz do Espírito Santo a uma mera persuasão moral. Para Finney, a obra do Espírito limita-se ao exercício de influências morais no pecador, mas "a conversão em si ... é ato do próprio pecador", afirma ele em sua Teologia Sistemática (p. 236). O ensino calvinista é que o Espírito de Deus, através do ministério da Palavra, chama irresistivelmente o eleito, regenerando-o e assim habilitando-o a responder positivamente em fé à oferta das boas novas do Evangelho. Essa chamada é irresistível, embora não se constitua uma violação da vontade do pecador. No conceito pelagiano (ou semi-pelagiano), o Espírito de Deus apenas se esforça para persuadir os pecadores, cabendo a estes em última análise a decisão e a capacidade de converter-se e tornar para Deus, exercendo fé em Cristo. O desafio do pelagianismo em suas formas contemporâneas para a identidade reformada é alarmante. O pentecostalismo, em seu crescimento assombroso na América Latina e no Brasil, traz em seu bojo, além de várias outras ameaças e desafios, os principais conceitos do antigo pelagianismo, e desafia as igrejas reformadas a rever o conceito calvinista da atuação do Espírito Santo na regeneração e salvação do pecador. Os pentecostais são hoje mais de 450 milhões no mundo. Com o crescimento do 303
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    pelagianismo no Brasil,a identidade reformada das igrejas que assim se consideram fica ameaçada, no que respeita à obra do Espírito Santo na conversão dos pecadores. Mas o desafio maior vem de dentro das próprias igrejas históricas. Não são muitos os "reformados" que aderem coerentemente à doutrina calvinista da depravação total. Embora possam afirmá-la em princípio, acabam sendo incoerentes por também acreditar que o pecador tem a "capacidade moral de se voltar para Deus". Praticamente ninguém hoje declararia, "eu sou um pelagiano, ou semi-pelagiano", primeiro, por que toda a Cristandade condenou no passado essa heresia, e segundo, por que poucos que adotam esta linha têm idéia do que o pelagianismo significa. Muitos ministros de igrejas reformadas provavelmente ofereceriam as respostas corretas em um exame teológico, entretanto, operam em seus ministério como se essas convicções não tivessem absolutamente nenhuma conseqüência. 304 Os Desafios Filosóficos: Pluralismo e Pragmatismo O pluralismo religioso Um outro desafio de imensas proporções vem de duas filosofias características do período pós-moderno em que vivemos. A primeira delas é o pluralismo. Como o nome já indica, essa filosofia defende a pluralidade da verdade, ou seja, que não existe uma verdade absoluta, mas sim verdades diferentes para cada pessoa. Esse conceito é ambíguo, mas definitivamente já faz parte integrante da nossa cultura presente. Ele defende o relacionamento de pessoas com ideologias diferentes, sem que uma tenha de sujeitar suas convicções ao domínio da outra. A idéia de converter alguém às suas próprias convicções é politicamente incorreto. A chave está na valorização da negociação e da cooperação em lugar de se tentar provar que se está certo ou errado. O pluralismo religioso, por sua vez, prega o abandono da "arrogância" teológica do cristianismo, nega que exista verdade religiosa absoluta, e exalta a experiência religiosa individual como critério último para cada um. Por exemplo, o padre católico Raimundo Panikkar, descendente de hindus, escreveu um artigo onde defende que isolacionismo já não é mais possível na sociedade globalista em que vivemos. Embora afirme que aceitar o pluralismo religioso não signifique o mesmo que aceitar o relativismo, deixa claro que a experiência religiosa individual é a chave para a convivência pluralista. Diz ele, "No momento eu estou experimentando o amor de Deus por mim em Cristo Jesus, e por este motivo eu sei com perfeita clareza que ele é o caminho, a verdade e a vida". O pluralismo religioso defende uma nova teoria missiológica, onde não mais se prega a necessidade de conversão de outras religiões ao cristianismo, e sim a cooperação entre todas as religiões, naquilo que têm em comum. O pressuposto é que o cristianismo não é o único caminho para Deus, embora seja o melhor, e que Deus está agindo salvadoramente no âmbito de outras religiões, como as religiões orientais. O pragmatismo religioso A outra filosofia é o pragmatismo. Seu popularizador, o psicólogo americano William James, afirmou que idéias humanas eram verdadeiras se funcionassem ou fossem úteis para resolver problemas. Já que o funcionamento e utilidade das idéias variam de contexto para contexto, segue-se que a verdade é relativa. No dizer de Francis Schaeffer, é um sistema de pensamento que faz das conseqüências práticas de uma crença o critério supremo da sua verdade. O pragmatismo dominou rapidamente a cultura americana e estendeu-se para além das suas fronteiras. Adotar as coisas que realmente preservam a paz individual e uma situação financeira confortável, sem qualquer preocupação com princípios fixos de certo ou errado é evidentemente a idéia que controla procedimentos internacionais, domésticos e individuais. Princípios absolutos tem pouco ou nenhum lugar no pensamento ocidental moderno.
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    Não devemos, portanto,pensar que o pragmatismo é um fenômeno ocidental. Seu princípio fundamental é inerente ao coração humano. Uma das 4 premissas básicas do substrato filosófico e religioso da Ásia, por exemplo, pode ser resumida neste parágrafo: "É direito de cada pessoa religiosa aceitar e praticar qualquer maneira de viver que achar útil ao seu modo de pensar e às suas circunstâncias sociais peculiares". Desafios do Pluralismo e do Pragmatismo para a doutrina do Espírito Santo O pluralismo e o pragmatismo andam geralmente de mãos dadas. Onde o conceito de verdade absoluta deixa de existir (pluralismo), as pessoas e as organizações passam a orientar as suas decisões em termos daquilo que mais satisfaz as suas necessidades (pragmatismo). A combinação destas duas filosofias aparece claramente em vários movimentos presentes nas igrejas evangélicas, e representam um novo desafio ao cristianismo em geral e aos calvinistas em particular. A pergunta que as pessoas fazem com relação ao cristianismo não é se ele é a verdade ou não, mas simplesmente se funciona. Elas querem saber se vai mudar a vida delas para melhor, se Cristo realmente é poderoso para transformá-las, e pode dar-lhes paz, alegria, esperança e propósito às suas existências. Ambas as filosofias trazem sérios desafios a alguns aspectos da pessoa e obra do Espírito Santo: 1) Quanto à extensão da operação ou atividade salvadora do Espírito Santo. O calvinismo ensina uma distinção nas operações do Espírito Santo, que está relacionada com os conceitos de graça comum e de graça especial. A graça comum refere-se à atuação do Espírito Santo no mundo em geral, preservando valores morais e trazendo benefícios materiais, sobre todos os homens indistintamente de suas crenças religiosas. A graça especial refere-se à operação salvadora do Espírito, restrita apenas aos eleitos, regenerando-os, iluminando-os e santificando-os pelo Evangelho de Cristo. O pluralismo religioso ameaça esse conceito, pois ensina que o Espírito de Deus age salvadoramente em todos os homens indistintamente de suas religiões, sem se restringir ao âmbito do cristianismo. Um exemplo de pluralista cristão que defende esse ponto é o ex-calvinista Clark Pinnock. 2) Quanto à relação entre a Palavra e o Espírito. O calvinismo ensina a relação indissolúvel entre a atuação do Espírito Santo e a Palavra de Deus. O Espírito atua graciosamente através da Palavra; por sua vez, a Palavra funciona como critério para reconhecermos a atividade do Espírito, em contraste com a atividade de espíritos malignos ou do espírito humano. O pluralismo e o pragmatismo ameaçam este conceito. O primeiro, porque divorcia a atuação salvadora do Espírito da verdade bíblica, como vimos no item anterior. E o segundo por enfatizar a validade de experiências religiosas à parte de seus conteúdos teológicos, ameaçando assim da mesma forma a relação entre o Espírito e a Palavra. 3) Quanto à soberania do Espírito de Deus em converter pecadores e aumentar a Igreja. Segundo o ensino calvinista, o aumento da Igreja através da conversão de pecadores é uma obra soberana do Espírito Santo, através dos meios secundários que Deus mesmo determinou. A Igreja deve evangelizar ardorosamente, dependendo porém da operação soberana do Espírito Santo quanto aos resultados. O pragmatismo representa um desafio para essa convicção calvinista, pois enfatiza o emprego de métodos, estratégias e técnicas tiradas do marketing secular e de ciências sociais como sociologia e psicologia, através das quais a igreja poderá crescer. O sucesso ou fracasso de igrejas locais no aumentar o número de seus membros é relacionado, não à soberania do Espírito de Deus, mas ao uso desses métodos. Embora calvinistas defendam o planejamento das atividades missionárias e evangelísticas da Igreja, têm entretanto sérias reservas quanto ao planejamento de resultados, uma estratégia que faz parte do pragmatismo do moderno movimento de crescimento de igrejas. Influência generalizada do pluralismo e do pragmatismo entre os protestantes O pluralismo e o pragmatismo têm infectado o cristianismo mundialmente. O tema da salvação em outras religiões foi discutido recentemente na Assembléia Geral do Concílio Mundial de Igrejas. O relatório apresentado trouxe debate considerável. Uma consulta teológica na suíça patrocinada pelo CMI, composta por 25 teólogos, trouxe as seguintes conclusões: 305
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    Através da história,pessoas tem encontrado a Deus no contexto de várias religiões e culturas diferentes. Todas as tradições religiosas são ambíguas, isto é, uma combinação do que é bom e do que é ruim. É necessário progredir além de uma teologia que confina a salvação a um compromisso pessoal explícito com Jesus Cristo. Em algumas denominações o pluralismo tem sido proposto como filosofia oficial, como na Igreja Metodista Unida, dos Estados Unidos. Nas igrejas brasileiras que se consideram reformadas, a ameaça vem por diversas avenidas, trazendo sérios desafios à doutrina calvinista do Espírito Santo. Eis algumas dessas maneiras pelas quais o pragmatismo e o pluralismo têm invadido as igrejas históricas: a) A adoção de uma liturgia neopentecostal, particularmente a ênfase na experiência. O culto hoje em igrejas evangélicas que adotaram esta ênfase, é geralmente uma adaptação comunitária do pragmatismo americano, onde todos fazem o que gostam, e todos gostam do que fazem. b) O impacto do movimento de crescimento de igreja na área de missões e evangelização das denominações, missões paraeclesiásticas, e das igrejas locais. Mesmo as igrejas reformadas não tem escapado à penetração dessas influências mencionadas acima. Embora o movimento tenha levado a Igreja a repensar mais corretamente a sua metodologia missionária, por outro lado, tem provocado reações por parte de calvinistas quanto à seus pressupostos semi-pelagianos e sua metodologia claramente pragmatista. A influência dessas filosofias pós-modernas pode ser percebida ainda de outra maneira. Uma equipe de pesquisa composta de 60 estudiosos e mais de 100 sócios completou um estudo sobre o presbiterianismo americano, no seminário presbiteriano de Louisville, nos EUA. Uma das suas conclusões é que no século XX a denominação sofreu de uma doença teológica, com muitos presbiterianos evitando posições firmes e claras na área teológica porque diferenças doutrinais tendem a produzir conflito ou divisão. Essa é a razão por que eles tentaram em anos recentes resolver problemas potencialmente divisivos em termos políticos e não teológicos. A diversidade de perspectivas teológicas dentro das denominações presbiterianas tem origem na escolha enfrentada em 1927 pela Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos de América (PCUSA). A denominação teve que decidir entre subscrever a um conjunto fixo de doutrinas ou permitir uma diferença maior entre opiniões teológicas. A Igreja decidiu por não delinear as doutrinas exatas que todos os presbiterianos teriam que aceitar, uma decisão consistente com o presbiterianismo histórico daquele país. Debates doutrinários haviam sido freqüentes no passado, com divisões acontecendo sempre que as disparidades ficavam intoleráveis. A pergunta agora é se o pluralismo teológico produziu alguma teologia que tenha bastante substância. O pluralismo promete enriquecer a teologia mas na realidade tende a dilui-la em opções múltiplas que não são coerentes nem persuasivas. E a identidade reformada quanto à ação do Espírito tende a desaparecer. O Desafio Hermenêutico: Neopentecostalismo O que é o neopentecostalismo Por neopentecostalismo quero dizer aqueles movimentos surgidos em décadas recentes, que são desdobramentos do pentecostalismo clássico do início do século, mesmo que abandonaram algumas de suas ênfases características e adquiriram marcas próprias, como ênfase em revelações diretas, curas, batalha espiritual, e particularmente uma maneira sobrenaturalista de encarar a realidade espiritual. A hermenêutica destes movimentos é caracterizada por uma leitura das Escrituras e da realidade sempre em termos da ação sobrenatural de Deus. Deus é percebido somente em termos de sua ação extraordinária. Para o neopentecostal típico, Deus o guia na vida diária através de impulsos, sonhos, visões, palavras proféticas, e dá soluções aos seus problemas sempre de forma miraculosa, como 306
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    libertações, livramentos, exorcismose curas. A doutrina que define, mais que qualquer outra, as igrejas evangélicas no Brasil hoje, é a crença em milagres. É claro que não estou dizendo que crer em milagres seja errado. O que estou dizendo é que, na hora que a crença em milagres contemporâneos e diários passa a ser a característica maior da igreja evangélica, algo está errado. Desafios para a doutrina do Espírito Santo A hermenêutica sobrenaturalista do neopentecostalismo representa um desafio para a identidade reformada pois tende a menosprezar uma das doutrinas típicas do calvinismo, que é a providência de Deus. Partindo das Escrituras, os reformados usam o termo providência para se referir à ação de Deus, pelo seu Espírito, agindo no mundo através de pessoas e circunstâncias da vida para atingir seus propósitos. Esses meios não são intervenções miraculosas ou extraordinárias de Deus na vida humana, mas simplesmente meios naturais secundários. Os calvinistas reconhecem que Deus intervém miraculosamente neste mundo, mas sempre em regime de exceção. Normalmente, ele age através dos meios naturais. O neopentecostalismo, por enfatizar a ação sobrenatural e miraculosa de Deus no mundo (a qual não negamos, diga-se), acaba por negligenciar a importância da operação do Espírito Santo através de meios secundários e naturais. Essa negligência torna-se mais séria quando nos conscientizamos que o Espírito normalmente trabalha através de meios secundários e naturais para salvar os pecadores. Acredito não ser difícil de provar que a esmagadora maioria dos cristãos foram salvos através de meios naturais – como o testemunho de alguém, a leitura da Bíblia, a pregação da Palavra – e não através de intervenções miraculosas e extraordinárias, como foi a conversão de Paulo. Como resultado do sobrenaturalismo neopentecostal, as igrejas reformadas por ele afetadas tendem a considerar os meios naturais como sendo espiritualmente inferiores. Um bom exemplo é a tendência de não se tomar remédios, como sendo falta de fé. Um outro resultado é a diminuição da pregação do Evangelho como meio de salvação dos pecadores, e a ênfase nos milagres como meio evangelístico. Assim, a obra do Espírito na Igreja e no mundo através dos meios naturais secundários é negligenciada, com graves e perniciosos efeitos nas vidas dos que abraçam a cosmovisão neopentecostal. Conclusão Esses desafios à identidade reformada quanto à ação do Espírito Santo já se encontram presentes em nosso meio, e prometem persistir por ainda muito tempo. Alguns dos movimentos contemporâneos que trazem no bojo de seus pressupostos e de sua metodologia esses desafios, continuam a crescer no Brasil, e a influenciar as igreja reformadas. Esses movimentos, como o reavivalismo, crescimento de igrejas, batalha espiritual e ecumenismo forçam as igrejas reformadas a reavaliar o que crêem quanto à ação do Espírito na Igreja e no mundo. O desafio é que façamos isso procurando cada vez mais conformar essas crenças com o ensino das Escrituras Sagradas, a Palavra de Deus, e com a nossa tradição calvinista. Quatro Princípios Bíblicos para se Entender a Batalha Espiritual Reverendo professor Diego Roberto Escola Missionaria Voz no Deserto (JESUS SALVADOR ESSE E NOSSO DEUS) A necessidade de princípios bíblicos A melhor maneira de abordarmos assuntos polêmicos é colocá-los dentro de seus contextos maiores. Se tivermos a visão do todo, poderemos com mais exatidão entender suas partes. Por exemplo, uma pessoa que tenta achar um endereço numa cidade simplesmente procurando as placas com o nome das ruas pode acabar desorientada e perdida. Se ela porém tiver um mapa, que lhe dá uma visão mais ampla da área onde ela se encontra, e mostra as ligações entre as ruas, poderá mais facilmente 307
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    encontrar seu destino.Da mesma forma, quando colocamos o tema do confronto da Igreja com as hostes das trevas dentro de um contexto maior, e percebemos as ligações com outras áreas teológicas, podemos melhor entendê-lo. Em termos do conhecimento teológico global, o assunto não pertence a uma área somente. Quando falamos da polêmica entre salvação pela fé e/ou pelas obras, facilmente identificamos que o assunto pertence à área de soteriologia, ou seja, o estudo da salvação, uma área da enciclopédia teológica. Se tivermos uma boa compreensão dos princípios e fundamentos que orientam a soteriologia, poderemos mais facilmente entender tudo o que está envolvido nessa polêmica. Mas a luta entre a Igreja e Satanás não se enquadra em uma área somente, muito embora a demonologia bíblica, que por sua vez é um departamento da angelologia, (o estudo dos anjos bons e maus) certamente seja a principal área afim. O fato é que os ensinos e práticas da "batalha espiritual" levantam questões sérias relacionadas com diversas áreas do nosso conhecimento de Deus. Quando, por exemplo, alguns dos defensores do movimento falam de Satanás como se fosse um poder independente, autônomo e livre para fazer o mal neste mundo, está indiretamente entrando na área que trata dos decretos de Deus e da sua maneira de governar o mundo. Ainda, quando alguns revelam possuir informações extra bíblicas sobre o mundo invisível dos anjos e demônios – como por exemplo, o nome de determinados demônios e os locais geográficos onde supostamente habitam – está entrando na epistemologia, ou teoria do conhecimento. Essa área trata do modo pelo qual conhecemos as coisas ao nosso redor, inclusive o acesso humano ao conhecimento do mundo espiritual invisível, onde habitam e atuam os seres espirituais como anjos e demônios. Semelhantemente, quando todo tipo de mal que existe no mundo, quer moral ou circunstancial (como doença, dor, desemprego, etc.) é atribuído aos demônios, levanta-se a antiga discussão acerca da origem dos males e sofrimentos neste mundo presente. E quando é dito que os cristãos podem ser possuídos por um espírito maligno (ou ficar demonizados, para usar um termo mais em voga), estamos de volta à soteriologia – ou seja, qual a situação dos salvos diante dos ataques de demônios – e entramos também na cristologia, indagando qual a relação entre a obra vitoriosa e consumada de Cristo e a atividade satânica no presente. Quando procuramos entender os conceitos da "batalha espiritual" a partir de princípios gerais que controlam as diversas áreas abrangidas pelo tema, poderemos ter alguns trilhos sobre os quais poderemos conduzir o assunto. No que se segue, procuro analisar quatro desses princípios que têm importância fundamental para ele: a soberania de Deus, a suficiência as Escrituras, a queda da raça humana e a suficiência da obra de Cristo. Acredito que se forem compreendidos adequadamente pelos leitores, funcionarão como balizadores seguros pelos quais poderão prosseguir com maior certeza no conflito diário que enfrentamos contra as hostes espirituais da maldade. Quatro princípios fundamentais 1. Deus é soberano absoluto do seu universo O título acima expressa um dos ensinamentos mais relevantes das Escrituras para o tema desse ensaio. Um soberano é alguém que está revestido da autoridade suprema, que governa com absoluto poderio, que exerce um poder supremo sem restrição nem neutralização. Quando dizemos que Deus é soberano, significa que ele tem poder ilimitado para fazer o que quiser com o mundo e as criaturas que criou, e que nenhuma delas pode, ao final, frustrar seus planos. Podemos fazer algumas afirmações quanto a essa doutrina. A soberania absoluta de Deus sobre sua criação percebe-se claramente nas Escrituras. No Pentateuco Deus revela-se como o Criador do mundo visível e invisível, e da raça humana. Ele é o Libertador dos seus e o Legislador que soberanamente passa leis que refletem sua santidade e exigem obediência plena de suas criaturas. Ele exerce total controle sobre a natureza que criou, intervindo em suas leis naturais, suspendendo-as (milagres). Assim, em contraste com os deuses das nações, ele é o supremo 308
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    soberano do universo,acima de todos os deuses, que os julga e castiga, bem como aos que os adoram. Nos livros Históricos, lemos como Deus cumpre soberanamente suas promessas feitas a Abraão de dar uma terra aos seus descendentes, introduzindo-os e estabelecendo-os em Canaã, e ali mantendo-os até que os expulsasse por causa da desobediência deles. Os Salmos e os Profetas celebram a soberania de Deus sobre sua criação e sobre seu povo. É ele quem reina acima das nações e de seus deuses falsos, quem controla o curso desse mundo. Nele seu povo sempre pode confiar e depender. O mesmo reconhecimento encontramos nas Escrituras do Novo Testamento. Na plenitude dos tempos Deus envia soberanamente seu filho, e dá testemunho dele através de milagres poderosos, ressuscitando-o de entre os mortos. Esses eventos, bem como os que se seguiram na vida dos apóstolos e da Igreja nascente, ocorreram como o cumprimento da vontade de Deus. Esse ponto vemos claramente nos Evangelhos e no livro de Atos: a morte e a ressurreição de Jesus (At 2.23), bem como a oposição contra a Igreja (At 4.27-29) são simplesmente o cumprimento da soberana vontade divina, acontecendo como cumprimento das Escrituras. Para os apóstolos, "as profecias feitas no Antigo Testamento governavam o decurso da história da Igreja"(4). Assim, o derramamento do Espírito (2.17-21), a missão aos gentios (13.47), a entrada dos genti