A
rroz, feijão, café,
frutas, hortaliças e
legumes. Alimentos
essenciais, presentes
diariamente na mesa
de milhões de
brasileiros, carregam o sabor
das pesquisas desenvolvidas
no Instituto Agronômico de
Campinas (IAC) ao longo de
seus 128 anos. No centro de
uma polêmica por conta da
transferência de dois acervos
históricos para São Paulo e
de parte de sua estrutura
instalada em Jundiaí para
Campinas, o IAC tem se
destacado como instituição
pioneira no desenvolvimento
da ciência, tecnologia e
inovação de produtos
agrícolas no País e no
mundo, garantindo a oferta
de alimentos à população e
de matéria-prima às
indústrias.
Fundado em 1887 pelo
Imperador D. Pedro II para
estudar o café que se
expandia no País, o IAC
trabalha atualmente com 99
espécies de plantas e já
desenvolveu 1.034 cultivares
— subdivisões da espécie a
partir de intervenções em
laboratório — por meio de
melhoramento genético
funcional. Desenvolve
pesquisas relacionadas à
análise de solos, fertilizantes,
irrigação. Também atua nas
áreas de mecanização
agrícola e de pós-colheita.
Diretor-geral do IAC, Sérgio
Augusto Morais Carbonell
afirma que o instituto tem
como missão “gerar e
transferir ciência, tecnologia
e produtos para otimização
dos sistemas de produção
vegetal, com
responsabilidade ambiental,
visando ao desenvolvimento
socioeconômico e à
segurança alimentar”.
Segundo ele, o instituto
atua com foco em resultados
que tragam melhoria na
qualidade de vida da
população — o que pode ser
observado ao longo do
centenário da instituição,
graças ao esforço dos
pesquisadores. “Nossa
pesquisa tem que ser
essencial, responsável,
competitiva, baseada na
credibilidade e importante
para a sociedade. A gente
também tem que ser
competitivo e por isso
estamos sempre em busca de
uma nova solução
tecnológica, procurando sair
do lugar comum”, diz
Carbonell. Entre os seus
principais desafios está
buscar soluções para
problemas atuais, como é o
caso dos pacotes tecnológicos
gerados que envolvem o uso
racional e conservação dos
recursos hídricos.
Café
A pesquisa com café no IAC
sempre foi importante e
continua sendo um dos
carros-chefes da instituição.
Cerca de 90% das cultivares
do café arábica foram
desenvolvidas pelo IAC. Os
trabalhos são focados no
aumento da eficiência
produtiva e na qualidade,
procurando atender a um
consumidor cada vez mais
exigente. “Temos um
programa de café de
qualidade, desde o
descafeinado, que estamos
em fase de estudo, até
bebidas diferentes, com
sabor de hortelã, mais
amadeirado, mais
achocolatado. Em 2004, o
instituto fez uma descoberta
com repercussão
internacional: uma planta de
café naturalmente sem
cafeína, batizada de AC, em
homenagem a Alcides
Carvalho, responsável por 65
cultivares de café
desenvolvidas no IAC.
Atualmente, pesquisadores
trabalham por um produto
comercialmente viável.
Unanimidade entre os
brasileiros, o famoso feijão
carioquinha nasceu nos
laboratórios do IAC. Os
trabalhos com
melhoramento genético de
feijoeiro tiveram início em
1932 no instituto e até hoje os
pesquisadores buscam o
aperfeiçoamento do produto,
desde o enriquecimento
nutricional, resistência às
pragas, passando pela
redução do tempo de
cozimento na panela,
rendimento, coloração,
tamanho, até a redução do
consumo de água no cultivo.
“A pesquisa nunca tem fim. O
desafio é sempre a melhoria e
o avanço do conhecimento.
Você sempre tem o que
potencializar e melhorar”,
completou Carbonell.
Melhoramento genético é
diferente dos transgênicos
Do laboratório
para a panela
No centro da POLÊMICA que envolve a TRANSFERÊNCIA dos ACERVOS entomológicos e de
plantas PARA A CAPITAL, Instituto Agronômico de CAMPINAS mostra sua IMPORTÂNCIA por
meio de pesquisas ESSENCIAIS para trazer o CAMPO até a MESA dos consumidores brasileiros
Técnico mostra muda de feijão em estufa do IAC na Fazenda Santa Margarida, em Campinas: o carioquinha, que se tornou quase uma unanimidade nacional, foi criado aqui
DA AGÊNCIA ANHANGUERA
Sérgio Augusto Carbonell, diretor-geral do IAC: pesquisa responsável, competitiva e com credibilidade
REPORTAGEM
ESPECIAL
inae.miranda@rac.com.br
Patrimônio
campineiro
✔ Total de servidores: 444
✔ Número de pesquisadores: 158
✔ Número de servidores de apoio: 286
✔ Áreas de pesquisa: café, cana-de-açúcar, citricultura, ecofisiologia e
biofísica, engenharia e automação, fitossanidade, frutas, horticultura, grãos e
fibras, seringueira e sistemas agroflorestais, solos e recursos ambientais e
recursos genéticos e vegetais.
✔ Ensino: Pós-Graduação em Agricultura Tropical e Subtropical, com
mestrado e doutorado.
✔ Locais das Unidades do IAC: Campinas: Sede e Centro Experimental
Central (local que abriga o Centro de Café, Centro de Ecofisiologia e
Biofísica, Centro de Fitossanidade, Centro de Horticultura, Centro de Grãos
e Fibras, Centro de Solos e Recursos Ambientais e Centro de Recursos
Genéticos e Vegetais); Jundiaí: Centro de Engenharia e Automação e Centro
de Frutas; Cordeirópolis: Centro de Citricultura; Ribeirão Preto: Centro de
Cana; Votuporanga: Centro de Seringueira e Sistemas Agroflorestais.
✔ Prêmios: Desde 2003, o IAC recebeu 27 prêmios, 9 homenagens e 2
reconhecimentos
Inaê Miranda
O IAC foi fundado em 1887 pelo impe-
rador D. Pedro II. Inicialmente foi cha-
mado de Estação Agronômica de Cam-
pinas. Em 1892 passou para a admi-
nistração do Estado. O melhoramento
genético convencional é o carro-chefe
do IAC, que já desenvolveu 1.034 culti-
vares de 98 espécies. O IAC esclarece
que o melhoramento genético é dife-
rente dos transgênicos (organismos ge-
neticamente modificados). No melho-
ramento genético convencional, a
transferência de genes é feita dentro
da mesma espécie. Na transgenia, é
feita a introdução de genes de uma es-
pécie diferente daquela que se preten-
de melhorar — por exemplo, transfere
o gene de uma bactéria para o algodão.
O raio X do instituto
Fotos: Janaína Ribeiro/Especial para a AAN
A16 CORREIO POPULARA16
Campinas, domingo, 27 de setembro de 2015
CIDADES
Hidroponia reduz custo e
tempo de cultivo no campo
IAC ajudou cultura da
uva em pleno ‘deserto’
Milho ficou mais barato e
ganhou mais produtividade
Pesquisador científico no
IAC de 1978 até 2014 (37
anos), o engenheiro
agrônomo Maurilo Monteiro
Terra atuou na área de
viticultura e não só viu como
participou de importantes
trabalhos relacionados à
cultura da uva. Primeira
instituição do País a
implantar um programa de
melhoramento genético para
produção de uvas para mesa,
elaboração de vinhos, sucos,
geleias e derivados na década
de 40, o IAC é também é o
grande responsável pela
produção de uva no
Nordeste. Segundo Terra, na
década de 50, o IAC, obteve
os porta-enxertos tropicais
IAC 313 “Tropícal”, IAC 572
“Jales”, IAC 571-6 “Jundiaí” e
IAC 766 “Campinas”,
adaptados às condições de
solo e clima tropical do País.
“A produção de uva para
mesa e vinho no Nordeste
brasileiro, no submédio São
Francisco, polo Petrolina
(PE) e Juazeiro (BA), só existe
devido aos porta-enxertos
tropicais IAC, que
atualmente ocupam uma
área de 95% do total
cultivado. Isso se deve às
adaptações aos solos e clima
da região”, explica o
pesquisador. Para elaboração
de vinho foi desenvolvida a
variedade IAC 138-22
“Máximo”, hoje denominada
uva paulista, considerada a
melhor uva para produção
de vinho tinto seco. As
contribuições das pesquisas
realizadas no IAC para
vitivinicultura são muitas e
só ocorreram graças à
importância da instituição e
empenho dos pesquisadores.
“O IAC veio ao encontro da
pesquisa e do
desenvolvimento agrícola do
País, fazendo frente às
necessidades da agricultura.
Grande parte do que está na
mesa do brasileiro tem o
trabalho do IAC”, disse o
pesquisador que recebeu o
prêmio de pesquisador do
ano em 2014. (IM/AAN)
Além de maior consumidor, o
Estado de São Paulo é o
maior produtor de hortaliças
do Brasil. Devido à
proximidade com outros
grandes centros de consumo
das regiões Sudeste e Sul, as
terras paulistas têm na
produção de hortaliças uma
de suas melhores opções de
uso, segundo explica a
pesquisadora científica do
centro de horticultura Arlete
Marchi Tavares de Melo. No
IAC, o programa de pesquisa
de hortaliças foi criado em
1937 e teve como marco a
introdução da “Cebola
Amarela das Canárias”, que
livrou o Estado de São Paulo
da necessidade de importar
sementes e viabilizou a
produção nacional. De
acordo com Arlete, o trabalho
de melhoramento é marcante
e disponibilizou 38 cultivares
de 13 hortaliças diferentes.
“Destacam-se cultivares de
morango, tomate, alface,
pimentão e quiabo, que
foram líderes de mercado
durante décadas. Essas
cultivares revolucionaram os
mercados paulista e brasileiro
de hortaliças devido ao
aumento da produtividade,
resistência a doenças e
qualidade do produto e
algumas ultrapassaram as
fronteiras do Brasil”, conta.
A pesquisadora ressalta os
benefícios para todos os elos
das cadeias produtivas, desde
o produtor até o consumidor
final. “As cultivares IAC
permitiram o aumento da
renda e contribuiram para a
inclusão social, pois gera 2,4
empregos diretos por
hectare.”
Arlete afirma que os
desafios para a pesquisa com
hortaliças continuam. “Em
poucos anos, a cadeia das
hortaliças no Brasil deve
sofrer mudança radical em
suas formas e modelos de
produção e entre os fatores
atuais que demandam essa
mudança sobressai a crise
hídrica. A necessária
modernização buscando
ainda mais produtividade
aliada ao incremento do valor
nutricional das hortaliças
exige que a pesquisa
contribua para potencializar
os usos dos recursos naturais,
financeiros e humanos.”
(IM/AAN)
O primeiro programa de
melhoramento de milho
híbrido no Brasil depois dos
Estados Unidos teve início no
Instituto Agronômico (IAC),
em 1932. Sete anos mais tarde,
os pesquisadores lançaram o
primeiro híbrido duplo de
milho. O método da
exploração do vigor de híbrido,
que revolucionou o
melhoramento da planta e
permite que até hoje se
atinjam produtividades
elevadas, completa cerca de 80
anos de trabalhos no Brasil,
como ressalta a pesquisadora
científica Maria Elisa Zagatto
Paterniani, do centro de grãos
e fibras.
A partir da década de 80, o
programa de melhoramento
de milho foi redirecionado
para atender demandas
específicas e nichos de
mercado. “Hoje o IAC
desenvolve novos tipos de
híbridos convencionais (não
transgênicos), para produtores
de baixa e média tecnologia.
São híbridos de baixo custo,
produtivos, de menor preço de
sementes, com resistência às
principais doenças foliares”,
explicou. Outro segmento
importante atendido pelo IAC
é o de milhos especiais, com
destaque para o programa de
melhoramento de
milho-pipoca, coordenado
pelo Dr. Eduardo Sawazaki.
Atualmente, a maioria das
cultivares de milho pipoca é
importada, e o IAC é a única
instituição oficial que está
lançando híbridos de pipoca
no Brasil, em parceria com a
iniciativa privada. (IM/AAN)
“O IAC veio ao encontro da pesquisa e do
desenvolvimento agrícola do País. Grande
parte do que está na mesa do brasileiro tem
nosso trabalho.”
Ex-pesquisador do IAC
MAURILO MONTEIRO TERRA
A POLÊMICA
Acima, Alisson
Fernando Chiorato,
diretor do centro
de grãos e fibras do
IAC; à direita, um
dos laboratórios na
sede do instituto,
no centenário
casarão da Avenida
Barão de Itapura:
tradição aliada ao
conhecimento e
tecnologia em
pesquisa
Frutas como maçã, pêssego,
ameixa, figo, caqui e uva podem
ser encontradas facilmente no
mercado brasileiro graças ao me-
lhoramento genético feito por pes-
quisadores do IAC, que permitiu
que essas espécies, comuns em
países de clima frio, se adaptas-
sem aos climas temperados-sub-
tropicais e tropicais no Brasil.
“Em fruticultura de clima tempe-
rado, o IAC deu uma grande con-
tribuição na área de melhoramen-
to genético”, destaca o pesquisa-
dor científico Wilson Barbosa. O
desenvolvimento do Circuito das
Frutas, em Jundiaí, por exemplo,
teve a base do IAC.
O engenheiro agrônomo Maurilo Terra atuou no IAC por 37 anos
95% OS AVANÇOS NA
FRUTICULTURA
César Rodrigues/AAN
Cultivadas no Vale do São
Francisco são de cultivares
desenvolvidos no IAC
A transferência de dois
acervos históricos do IAC
para São Paulo provocou a
reação da comunidade
científica, contrária às
mudanças. O Instituto teve
todo o seu acervo
entomológico, com mais de
8,5 mil amostras de insetos e
pragas, coletadas ao longo de
80 anos, transferido
definitivamente para o
Instituto Biológico, na Capital,
no início do mês. Também
seguirá para o Instituto de
Botânica de São Paulo todo o
acervo do Herbário do IAC. A
coleção de plantas conta
com mais de 56 mil amostras
e 11 mil espécies
catalogadas. Algumas delas,
são anteriores à própria
fundação do IAC, há 128
anos. A Associação dos
Pesquisadores Científicos do
Estado de São Paulo também
apontou como problemas
enfrentados pelo IAC a
defasagem de pesquisadores
científicos. A direção do IAC
também confirmou que as
atividades do Centro de
Engenharia e Automação
(CEA), que ficam em Jundiaí,
serão transferidas para
Campinas. A direção do IAC
afirma que as medidas fazem
parte da reprogramação e
alinhamento da pesquisa e
redução de custos com a
desocupação dos prédios e
reorganização dos trabalhos.
Na última quinta-feira, o
Conselho Municipal de Meio
Ambiente de Campinas
(Comdema) aprovou uma
moção de repúdio às
transferências.
Janaína Ribeiro/Especial para a AAN
César Rodrigues/AAN
DAS UVAS
CORREIO POPULAR A17CIDADES Campinas, domingo, 27 de setembro de 2015
A17

Do laboratório para a panela

  • 1.
    A rroz, feijão, café, frutas,hortaliças e legumes. Alimentos essenciais, presentes diariamente na mesa de milhões de brasileiros, carregam o sabor das pesquisas desenvolvidas no Instituto Agronômico de Campinas (IAC) ao longo de seus 128 anos. No centro de uma polêmica por conta da transferência de dois acervos históricos para São Paulo e de parte de sua estrutura instalada em Jundiaí para Campinas, o IAC tem se destacado como instituição pioneira no desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação de produtos agrícolas no País e no mundo, garantindo a oferta de alimentos à população e de matéria-prima às indústrias. Fundado em 1887 pelo Imperador D. Pedro II para estudar o café que se expandia no País, o IAC trabalha atualmente com 99 espécies de plantas e já desenvolveu 1.034 cultivares — subdivisões da espécie a partir de intervenções em laboratório — por meio de melhoramento genético funcional. Desenvolve pesquisas relacionadas à análise de solos, fertilizantes, irrigação. Também atua nas áreas de mecanização agrícola e de pós-colheita. Diretor-geral do IAC, Sérgio Augusto Morais Carbonell afirma que o instituto tem como missão “gerar e transferir ciência, tecnologia e produtos para otimização dos sistemas de produção vegetal, com responsabilidade ambiental, visando ao desenvolvimento socioeconômico e à segurança alimentar”. Segundo ele, o instituto atua com foco em resultados que tragam melhoria na qualidade de vida da população — o que pode ser observado ao longo do centenário da instituição, graças ao esforço dos pesquisadores. “Nossa pesquisa tem que ser essencial, responsável, competitiva, baseada na credibilidade e importante para a sociedade. A gente também tem que ser competitivo e por isso estamos sempre em busca de uma nova solução tecnológica, procurando sair do lugar comum”, diz Carbonell. Entre os seus principais desafios está buscar soluções para problemas atuais, como é o caso dos pacotes tecnológicos gerados que envolvem o uso racional e conservação dos recursos hídricos. Café A pesquisa com café no IAC sempre foi importante e continua sendo um dos carros-chefes da instituição. Cerca de 90% das cultivares do café arábica foram desenvolvidas pelo IAC. Os trabalhos são focados no aumento da eficiência produtiva e na qualidade, procurando atender a um consumidor cada vez mais exigente. “Temos um programa de café de qualidade, desde o descafeinado, que estamos em fase de estudo, até bebidas diferentes, com sabor de hortelã, mais amadeirado, mais achocolatado. Em 2004, o instituto fez uma descoberta com repercussão internacional: uma planta de café naturalmente sem cafeína, batizada de AC, em homenagem a Alcides Carvalho, responsável por 65 cultivares de café desenvolvidas no IAC. Atualmente, pesquisadores trabalham por um produto comercialmente viável. Unanimidade entre os brasileiros, o famoso feijão carioquinha nasceu nos laboratórios do IAC. Os trabalhos com melhoramento genético de feijoeiro tiveram início em 1932 no instituto e até hoje os pesquisadores buscam o aperfeiçoamento do produto, desde o enriquecimento nutricional, resistência às pragas, passando pela redução do tempo de cozimento na panela, rendimento, coloração, tamanho, até a redução do consumo de água no cultivo. “A pesquisa nunca tem fim. O desafio é sempre a melhoria e o avanço do conhecimento. Você sempre tem o que potencializar e melhorar”, completou Carbonell. Melhoramento genético é diferente dos transgênicos Do laboratório para a panela No centro da POLÊMICA que envolve a TRANSFERÊNCIA dos ACERVOS entomológicos e de plantas PARA A CAPITAL, Instituto Agronômico de CAMPINAS mostra sua IMPORTÂNCIA por meio de pesquisas ESSENCIAIS para trazer o CAMPO até a MESA dos consumidores brasileiros Técnico mostra muda de feijão em estufa do IAC na Fazenda Santa Margarida, em Campinas: o carioquinha, que se tornou quase uma unanimidade nacional, foi criado aqui DA AGÊNCIA ANHANGUERA Sérgio Augusto Carbonell, diretor-geral do IAC: pesquisa responsável, competitiva e com credibilidade REPORTAGEM ESPECIAL inae.miranda@rac.com.br Patrimônio campineiro ✔ Total de servidores: 444 ✔ Número de pesquisadores: 158 ✔ Número de servidores de apoio: 286 ✔ Áreas de pesquisa: café, cana-de-açúcar, citricultura, ecofisiologia e biofísica, engenharia e automação, fitossanidade, frutas, horticultura, grãos e fibras, seringueira e sistemas agroflorestais, solos e recursos ambientais e recursos genéticos e vegetais. ✔ Ensino: Pós-Graduação em Agricultura Tropical e Subtropical, com mestrado e doutorado. ✔ Locais das Unidades do IAC: Campinas: Sede e Centro Experimental Central (local que abriga o Centro de Café, Centro de Ecofisiologia e Biofísica, Centro de Fitossanidade, Centro de Horticultura, Centro de Grãos e Fibras, Centro de Solos e Recursos Ambientais e Centro de Recursos Genéticos e Vegetais); Jundiaí: Centro de Engenharia e Automação e Centro de Frutas; Cordeirópolis: Centro de Citricultura; Ribeirão Preto: Centro de Cana; Votuporanga: Centro de Seringueira e Sistemas Agroflorestais. ✔ Prêmios: Desde 2003, o IAC recebeu 27 prêmios, 9 homenagens e 2 reconhecimentos Inaê Miranda O IAC foi fundado em 1887 pelo impe- rador D. Pedro II. Inicialmente foi cha- mado de Estação Agronômica de Cam- pinas. Em 1892 passou para a admi- nistração do Estado. O melhoramento genético convencional é o carro-chefe do IAC, que já desenvolveu 1.034 culti- vares de 98 espécies. O IAC esclarece que o melhoramento genético é dife- rente dos transgênicos (organismos ge- neticamente modificados). No melho- ramento genético convencional, a transferência de genes é feita dentro da mesma espécie. Na transgenia, é feita a introdução de genes de uma es- pécie diferente daquela que se preten- de melhorar — por exemplo, transfere o gene de uma bactéria para o algodão. O raio X do instituto Fotos: Janaína Ribeiro/Especial para a AAN A16 CORREIO POPULARA16 Campinas, domingo, 27 de setembro de 2015 CIDADES
  • 2.
    Hidroponia reduz custoe tempo de cultivo no campo IAC ajudou cultura da uva em pleno ‘deserto’ Milho ficou mais barato e ganhou mais produtividade Pesquisador científico no IAC de 1978 até 2014 (37 anos), o engenheiro agrônomo Maurilo Monteiro Terra atuou na área de viticultura e não só viu como participou de importantes trabalhos relacionados à cultura da uva. Primeira instituição do País a implantar um programa de melhoramento genético para produção de uvas para mesa, elaboração de vinhos, sucos, geleias e derivados na década de 40, o IAC é também é o grande responsável pela produção de uva no Nordeste. Segundo Terra, na década de 50, o IAC, obteve os porta-enxertos tropicais IAC 313 “Tropícal”, IAC 572 “Jales”, IAC 571-6 “Jundiaí” e IAC 766 “Campinas”, adaptados às condições de solo e clima tropical do País. “A produção de uva para mesa e vinho no Nordeste brasileiro, no submédio São Francisco, polo Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), só existe devido aos porta-enxertos tropicais IAC, que atualmente ocupam uma área de 95% do total cultivado. Isso se deve às adaptações aos solos e clima da região”, explica o pesquisador. Para elaboração de vinho foi desenvolvida a variedade IAC 138-22 “Máximo”, hoje denominada uva paulista, considerada a melhor uva para produção de vinho tinto seco. As contribuições das pesquisas realizadas no IAC para vitivinicultura são muitas e só ocorreram graças à importância da instituição e empenho dos pesquisadores. “O IAC veio ao encontro da pesquisa e do desenvolvimento agrícola do País, fazendo frente às necessidades da agricultura. Grande parte do que está na mesa do brasileiro tem o trabalho do IAC”, disse o pesquisador que recebeu o prêmio de pesquisador do ano em 2014. (IM/AAN) Além de maior consumidor, o Estado de São Paulo é o maior produtor de hortaliças do Brasil. Devido à proximidade com outros grandes centros de consumo das regiões Sudeste e Sul, as terras paulistas têm na produção de hortaliças uma de suas melhores opções de uso, segundo explica a pesquisadora científica do centro de horticultura Arlete Marchi Tavares de Melo. No IAC, o programa de pesquisa de hortaliças foi criado em 1937 e teve como marco a introdução da “Cebola Amarela das Canárias”, que livrou o Estado de São Paulo da necessidade de importar sementes e viabilizou a produção nacional. De acordo com Arlete, o trabalho de melhoramento é marcante e disponibilizou 38 cultivares de 13 hortaliças diferentes. “Destacam-se cultivares de morango, tomate, alface, pimentão e quiabo, que foram líderes de mercado durante décadas. Essas cultivares revolucionaram os mercados paulista e brasileiro de hortaliças devido ao aumento da produtividade, resistência a doenças e qualidade do produto e algumas ultrapassaram as fronteiras do Brasil”, conta. A pesquisadora ressalta os benefícios para todos os elos das cadeias produtivas, desde o produtor até o consumidor final. “As cultivares IAC permitiram o aumento da renda e contribuiram para a inclusão social, pois gera 2,4 empregos diretos por hectare.” Arlete afirma que os desafios para a pesquisa com hortaliças continuam. “Em poucos anos, a cadeia das hortaliças no Brasil deve sofrer mudança radical em suas formas e modelos de produção e entre os fatores atuais que demandam essa mudança sobressai a crise hídrica. A necessária modernização buscando ainda mais produtividade aliada ao incremento do valor nutricional das hortaliças exige que a pesquisa contribua para potencializar os usos dos recursos naturais, financeiros e humanos.” (IM/AAN) O primeiro programa de melhoramento de milho híbrido no Brasil depois dos Estados Unidos teve início no Instituto Agronômico (IAC), em 1932. Sete anos mais tarde, os pesquisadores lançaram o primeiro híbrido duplo de milho. O método da exploração do vigor de híbrido, que revolucionou o melhoramento da planta e permite que até hoje se atinjam produtividades elevadas, completa cerca de 80 anos de trabalhos no Brasil, como ressalta a pesquisadora científica Maria Elisa Zagatto Paterniani, do centro de grãos e fibras. A partir da década de 80, o programa de melhoramento de milho foi redirecionado para atender demandas específicas e nichos de mercado. “Hoje o IAC desenvolve novos tipos de híbridos convencionais (não transgênicos), para produtores de baixa e média tecnologia. São híbridos de baixo custo, produtivos, de menor preço de sementes, com resistência às principais doenças foliares”, explicou. Outro segmento importante atendido pelo IAC é o de milhos especiais, com destaque para o programa de melhoramento de milho-pipoca, coordenado pelo Dr. Eduardo Sawazaki. Atualmente, a maioria das cultivares de milho pipoca é importada, e o IAC é a única instituição oficial que está lançando híbridos de pipoca no Brasil, em parceria com a iniciativa privada. (IM/AAN) “O IAC veio ao encontro da pesquisa e do desenvolvimento agrícola do País. Grande parte do que está na mesa do brasileiro tem nosso trabalho.” Ex-pesquisador do IAC MAURILO MONTEIRO TERRA A POLÊMICA Acima, Alisson Fernando Chiorato, diretor do centro de grãos e fibras do IAC; à direita, um dos laboratórios na sede do instituto, no centenário casarão da Avenida Barão de Itapura: tradição aliada ao conhecimento e tecnologia em pesquisa Frutas como maçã, pêssego, ameixa, figo, caqui e uva podem ser encontradas facilmente no mercado brasileiro graças ao me- lhoramento genético feito por pes- quisadores do IAC, que permitiu que essas espécies, comuns em países de clima frio, se adaptas- sem aos climas temperados-sub- tropicais e tropicais no Brasil. “Em fruticultura de clima tempe- rado, o IAC deu uma grande con- tribuição na área de melhoramen- to genético”, destaca o pesquisa- dor científico Wilson Barbosa. O desenvolvimento do Circuito das Frutas, em Jundiaí, por exemplo, teve a base do IAC. O engenheiro agrônomo Maurilo Terra atuou no IAC por 37 anos 95% OS AVANÇOS NA FRUTICULTURA César Rodrigues/AAN Cultivadas no Vale do São Francisco são de cultivares desenvolvidos no IAC A transferência de dois acervos históricos do IAC para São Paulo provocou a reação da comunidade científica, contrária às mudanças. O Instituto teve todo o seu acervo entomológico, com mais de 8,5 mil amostras de insetos e pragas, coletadas ao longo de 80 anos, transferido definitivamente para o Instituto Biológico, na Capital, no início do mês. Também seguirá para o Instituto de Botânica de São Paulo todo o acervo do Herbário do IAC. A coleção de plantas conta com mais de 56 mil amostras e 11 mil espécies catalogadas. Algumas delas, são anteriores à própria fundação do IAC, há 128 anos. A Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo também apontou como problemas enfrentados pelo IAC a defasagem de pesquisadores científicos. A direção do IAC também confirmou que as atividades do Centro de Engenharia e Automação (CEA), que ficam em Jundiaí, serão transferidas para Campinas. A direção do IAC afirma que as medidas fazem parte da reprogramação e alinhamento da pesquisa e redução de custos com a desocupação dos prédios e reorganização dos trabalhos. Na última quinta-feira, o Conselho Municipal de Meio Ambiente de Campinas (Comdema) aprovou uma moção de repúdio às transferências. Janaína Ribeiro/Especial para a AAN César Rodrigues/AAN DAS UVAS CORREIO POPULAR A17CIDADES Campinas, domingo, 27 de setembro de 2015 A17