Curso
De
Psicopatolo
gia
Curso de psicopatologia
@psicanalistacosmeribeiro
Apresentação
Podemos afirmar que psicopatologia psicanalítica é uma encruzilhada de vários
caminhos. Nela desembocam o conhecimento da teoria psicanalítica geral, o
conhecimento da psiquiatria dinâmica, o conhecimento das contribuições técnicas
psicanalíticas por Freud e seus dissidentes, assim como os enquadramentos
epistemológicos modernos que testam e avaliam todas essas produções discursivas em
torno do ser psicopatológico.
Hoje, não resta dúvida sobre a imensa revolução. Científica que significou a entrada em
cena da psicanálise no início deste século. A sistematização dos seus modelos para a
compreensão da conduta normal e anormal do homem, assim como a interpenetração de
fatores biológicos, psicossociais e culturais na produção sintomatológica, foram — e
continuam sendo — de valor inquestionável.
1. INTRODUÇÃO À PSICOPATOLOGIA GERAL
(...) a psicopatologia é uma ciência complexa: é uma ciência natural, destinada à
explicação causal dos fenômenos psíquicos mediante os recursos e teorias acerca dos
nexos extraconscientes que determinam esses fenômenos; e é ciência do espírito, voltada
para a descrição das vivências subjetivas, para a interpretação das suas expressões
objetivas e para a compreensão de seus nexos internos e significativos. (JASPERS, Karl
2000.)
É uma área do conhecimento que objetiva estudar os estados psíquicos relacionados ao
sofrimento mental. É área da medicina, psicologia e psicanálise que tem como objetivo
fornecer a referência, a classificação e a explicação para as modificações do modo de
vida, do comportamento e da personalidade de um indivíduo, que se desviam da norma
e/ou ocasionam sofrimento e são tidas como expressão de doenças mentais.
Dessa forma, Psicopatologia pode ser compreendida como um discurso ou um saber
(logos) sobre a paixão, (pathos) da mente, da alma (psiquê). Ou seja, um discurso
representativo a respeito do pathos psíquico; um discurso sobre o sofrimento psíquico
sobre o padecer psíquico. A psychê é alada; mas a direção que ela toma lhe é dada pelo
pathos, pelas paixões.
Psicopatologia tem dificuldade de coesão teórica devido aos muitos discursos que
abarca. Percebe-se que os conhecimentos a ela relativos parecem constituir-se apenas
como um aglomerado de especialidades. A Psicopatologia está ligada a diversas
disciplinas: as psicologias, as psiquiatrias e ao corpo teórico psicanalítico. Dentro da
Psicologia, liga-se com Psicologia Clínica (direcionada ao diagnóstico, e ao estudo da
personalidade), Psicologia Geral (noções de subjetividade, intencionalidade,
representação, atos voluntários etc.), e ainda Psicologia ligada às neurociências,
tradições hinduístas e outros.
2. A PSICOPATOLOGIA COM OLHAR PARA O SUJEITO.
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A psicopatologia enquanto estudo das "anormalidades" da vida mental é às vezes
referida como psicopatologia geral, psicologia anormal, psicologia da anormalidade e
psicologia do patológico. É uma visão das patologias mentais (desordens) fundamentada
na evolução dos conceitos pelas áreas de psicologia, psiquiatria e psicanálise (nesta
última área, no sentido de psicologia profunda das manifestações do inconsciente), em
oposição a uma abordagem estritamente médica de tais patologias, buscando não reduzir
o sujeito a conceitos patológicos, enquadrando-o em padrões baseados em pressupostos
e preconceitos.
3. SAÚDE MENTAL, NORMALIDADE E PSICOPATOLOGIA
Uma das primeiras, e talvez uma das mais importantes, discussões sobre psicopatologia
diz respeito à questão da normalidade. Existem várias definições sobre o que é
"normal".
Estatisticamente, normal refere-se a uma propriedade de uma distribuição que aponta
uma tendência, o que seria "mais comum" de encontrar em determinada amostra, o mais
provável. Assim, o normal é o que seria o mais provável de encontrarmos numa
população, o comum, o esperado. Portanto, deste ponto de vista, os comportamentos
que são considerados típicos, ou seja, que são os "esperados" de se encontrar ou de
acordo com os padrões sociais aceitáveis para o agir, podem ser considerados
comportamentos "normais".
Saúde, normalidade e psicopatologia são termos altamente relacionados. A
psicopatologia passa a ocorrer quando o comportamento de uma pessoa, ou
eventualmente de um grupo de pessoas, foge àquilo que é esperado como referência de
determinada sociedade, quando a pessoa passa a ter alterações importantes em relação
ao comportamento que tinha no passado, com prejuízos significativos em seu
funcionamento (comportamento), causando a si e a outros, especialmente seus
familiares, acentuado grau de sofrimento. Tem-se como expectativa que a normalidade
seja o tipo de comportamento que mais ocorre em qualquer cultura.
A saúde mental, por sua vez, seria então uma condição ideal ou desejada para que essa
normalidade possa vir a existir, com qualidade e capaz de oferecer as melhores
condições para que as pessoas vivam satisfatoriamente, produzam com eficiência e
possam gozar de certo grau de felicidade para com as pessoas próximas a si. Segundo a
OMS, a saúde mental refere-se a um amplo espectro de atividades direta ou
indiretamente relacionadas com o componente de bem-estar, que inclui a definição de
um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente a ausência de
doença. Este conceito engloba não apenas o comportamento manifesto, mas o
sentimento de bem-estar e a capacidade de ser produtivo e bem adaptado à sociedade.
Por exemplo, considera-se que a tristeza seja normal e esperada na vida de qualquer
pessoa, e é mesmo necessária em determinados momentos da vida (p. ex., em situação
de luto). Entretanto, num quadro depressivo estabelecido, a tristeza é mais intensa e
mais duradoura do que seria esperado numa situação normal e transitória. Assim, uma
situação normal e esperada torna-se patológica não por ser uma experiência ou vivência
qualitativamente diferente, mas por ser mais ou menos intensa do que se espera em
situações normais. Neste sentido o trabalho do psicanalista na compreensão dessa
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desordem vai na busca da construção de um processo analítico (entre paciente/cliente e
analista) capaz de conduzir ao "tratamento" dessa psicopatologia.
4. PSICOPATOLOGIA PSICANALÍTICA
4.1. O PSICANALISTA PODE SE UTILIZAR DO DSM?
A resposta é "não somente desse instrumento", o que podemos dizer com essa resposta
é que o psicanalista precisa ter como base que o seu instrumento para psicodiagnóstico
de uma desordem mental é inicialmente é por meio "da escuta subjetiva de um sujeito",
por meio dos sintomas, do caráter, da inibição e do estereótipo, ou seja, não existe
uma regra "geral" ou mesmo o termo propriamente dito psicodiagnosticar em
psicanálise. Casa pessoa tem a sua subjetividade e esse olhar para o "Outro" e seu
sofrimento psíquico. É, portanto, esse olhar que nos faz psicanalistas, bem como difere
do psicognóstico psiquiátrico e em muitos casos psicológicos.
4.2. AS NEUROSES
Freud, nos textos iniciais de sua obra, explicou o mecanismo da divisão, afirmando que
os neuróticos, antes do adoecimento, gozavam de boa saúde mental. Porém, em
determinado momento, aconteceu uma incompatibilidade na sua vida ideativa, ou seja,
seu ego foi confrontado com uma experiência, uma ideia ou um sentimento que suscitou
um afeto aflitivo e com isso o sujeito deseja esquecê-lo. Percebe-se, então, que passa a
ser complicada qualquer mediação entre a ideia aflitiva e seu próprio ego.
No texto “As Neuroses de Defesa”, Freud propõe que, nas histerias, fobias e obsessões,
o processo inicial de um conflito entre uma ideia incompatível e o posicionamento do
ego é semelhante e as divergências dar-se-ão nas etapas seguintes.
“Na histeria a ideia incompatível é tornada inócua pelas transformações da soma de
excitação em alguma coisa somática. Para isto eu gostaria de propor o nome
conversão”. (Freud,1894, pag 61).
No início de sua obra, Freud dividiu os transtornos emocionais, que então ele
denominava psiconeuroses, em três categorias psicopatológicas:
1) As neuroses atuais (que estavam em desuso na psicanálise, mas que
recentemente voltam a ocupar, com esse mesmo nome, um lugar de destaque,
principalmente a partir dos estudos com pacientes somatizadores ).
2) As neuroses transferenciais, também conhecidas como psiconeuroses de defesa
(que eram as histerias, as fobias e as obsessivas).
3) As neuroses narcisistas (que constituem os atuais quadros psicóticos). Freud
afirmava então que somente as neuroses transferenciais poderiam ser tratadas
pelo método psicanalítico, visto a transferência ser a matéria-prima da
psicanálise, e, na época, a psicanálise não reunia condições para perceber a
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existência da transferência naqueles pacientes que estavam em um estado de
encapsulamento narcisístico próprio das psicoses.
De lá para cá, muita coisa modificou substancialmente na ciência da psicanálise e na da
psiquiatria: as síndromes da psicopatologia foram ganhando uma crescente
compreensão genético-dinâmica e paralelamente os autores foram ampliando,
subdividindo, diversificando, construindo novos modelos e, portanto, aumentando a
complexidade nosológica , tal como aparece nas modernas classificações diagnósticas,
como o DSM ou o CID.
No texto “Neurose e Psicose” (1923-1925), Freud aponta uma diferença básica
entre neurose e psicose:
Neuroses atuais
A neurose atual, segundo Freud, não é produzida por conflitos históricos, mas sim por
motivos atuais, de modo que ela não depende estritamente de fatores psicológicos.
Antes disso, a neurose de angústia seria resultante de fatores biológicos que agiriam
através de substâncias químicas, sendo que o acúmulo dessas “toxinas sexuais”
produzidas pelas excitações frustradas manifesta-se diretamente por sintomas de
angústia livre, como taquicardia, palpitações, respiração ofegante, etc., que, diz Freud,
são aquelas mesmas que estão presentes no ato sexual.
Freud deixou o tratamento das neuroses atuais de lado. Segundo ele, tanto os sintomas
das psiconeuroses como das neuroses atuais são o resultado de um uso anormal da
libido:
[...] os sintomas das neuroses “atuais” – pressão intracraniana, sensações de dor, estado
de irritação em um órgão, enfraquecimento ou inibição de uma função – não têm
nenhum “sentido”, nenhum significado psíquico. Não só se manifestam
predominantemente no corpo (como, por exemplo, os sintomas histéricos entre outros),
como também constituem eles próprios processos inteiramente somáticos, em cuja
origem estão ausentes todos os complicados mecanismos mentais que já conhecemos.
[...] se, nos sintomas das psiconeuroses, nos familiarizamos com as manifestações de
distúrbios na atuação psíquica da função sexual, não nos surpreenderemos ao encontrar
nas neuroses “atuais” as consequências somáticas diretas desses distúrbios sexuais
(Freud, 1917 - Obra: Conferências introdutórias à psicanálise.)
Para Freud, as neuroses atuais tinham características semelhantes aos quadros de
intoxicação orgânica, o que acabou deixando muito pouco espaço para a atuação da
terapia psicanalítica e também para desenvolvimento de hipóteses metapsicológicas.
Justificando porque não deu início à sua conferência sobre “O estado neurótico comum”
(Freud, 1917/1969: 453-4) pela descrição destes quadros, ele escreve:
(...) os problemas das neuroses atuais, cujos sintomas provavelmente são gerados por
lesão tóxica direta, não oferecem à psicanálise qualquer outro ponto de ataque. Ela
pouco pode fazer para esclarecê-los e deve deixar essa tarefa para a pesquisa bioquímica
[...] por essa razão, as neuroses “atuais”, improdutivas no que concerne à psicanálise,
não podiam mais ocupar um lugar em primeiro plano (Freud, 1917).
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Inicialmente, Freud descreveu dois tipos de neurose atual: a neurose de angústia
(resultante da libido estancada, como no caso do “coito interrompido”) e a neurastenia.
Neste último caso, teria havido uma excessiva descarga de substâncias sexuais, como
aconteceria no exagero da prática da masturbação, sendo que como decorrência dessa
hemorragia de substâncias sexuais, a neurastenia caracteriza-se por um quadro
sintomático de fraqueza, apatia, cansaço, etc. Posteriormente, em 1911, ao estudar o
“Caso Schreber”, Freud descreveu um terceiro tipo de neurose atual: a hipocondria, que
poderia estar representando um núcleo “atual” de uma esquizofrenia.
5. NEUROSES ATUAIS: NEUROSES DE ANGÚSTIA
Freud estudou a angústia em dois momentos diferentes de sua obra. Na primeira
formulação, a angústia seria consequente à repressão, o que provocaria uma libido
acumulada que funcionaria de uma maneira “tóxica” no organismo.
A partir de sua monografia Inibições, sintomas e angústia (1926) ele conceituou de
forma inversa, ou seja, é a repressão que se processa como uma forma de defesa contra
a ameaça de irrupção da angústia, mais especificamente, a angústia de castração.
Portanto podemos dizer que a neurose de angústia consiste em um transtorno clínico
que se manifesta por meio de uma angústia livre, quer sob uma forma permanente, quer
pelo surgimento em momentos de crise. Em outras palavras, a ansiedade do paciente
expressa-se tanto por equivalentes somáticos (como uma opressão pré-cordial,
taquicardia, dispneia suspirosa, sensação de uma “bola no peito”, etc.), como por uma
indefinida e angustiante sensação do medo de que possa vir a morrer, enlouquecer, ou
da iminência de alguma tragédia.
Ex: Seria hoje o que popularmente chamamos conforme manual de psiquiatria
(DSM) atualmente como transtorno de ansiedade generalizada (TAG).
Habitualmente, os psicanalistas empregam os termos “angústia” e “ansiedade” de forma
indistinta, porém que cabe alguma distinção.
O termo ansiedade (talvez tenha alguma relação com “ânsia”, isto é, um desejo
desmedido) designa alguma descompensação da harmonia psíquica interna, no entanto,
nem sempre ela é visível ou perceptível porque, por meio de recursos defensivos que
constituem os mais diversos tipos de negação da referida ansiedade, o sujeito pode estar
impregnado por uma ansiedade latente sem que ela seja manifesta.
Como exemplo disso, pode ser o caso de uma fobia específica a utilizar um elevador,
sendo que essa pessoa nada sentirá enquanto puder administrar bem as suas técnicas
evitativas dessa situação fobígena, porém um enfrentamento direto da situação
ansiogênica pode fazer vir à tona, de forma ruidosa, aquela angústia que estava latente,
aparentemente inexistente.
Por sua vez, a palavra angústia deriva do latim angor, que quer dizer “angustura,
estreitamento, apertamento”, o que traduz fielmente os sintomas que emergem e ficam
livremente manifestos nos sintomas opressivos acima assinalados. Na maioria das
vezes, tais sintomas indicam que está havendo uma falha do mecanismo de repressão,
diante de um – traumático – excesso de estímulos, externos e/ou internos.
Nos quadros clínicos em que prevalece uma recorrência de episódios de crises de
angústia, é necessário que se levante a hipótese que se esteja tratando do transtorno
conhecido como “doença do pânico”, o qual costuma responder muito bem à medicação
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específica. Conquanto para Freud, como vimos antes, o termo “neurose de angústia”
designasse uma das formas de “neurose atual” – portanto, sem estar diretamente ligada a
antigas repressões – posteriormente, aquela terminologia também costumava ser
utilizada na literatura psicanalítica para designar uma modalidade de neurose que
guarda raízes históricas com fixações das repressões dos desejos proibidos que, por isso,
quando surge uma ameaça do retorno do reprimido à consciência, a neurose de angústia
manifesta-se pela via somática, através de sintomas de angústia livre.
Assim, é útil estabelecer uma certa diferença entre a neurose de angústia e a neurose
atual. Enquanto a primeira alude mais diretamente à manifestação sintomática de uma
angústia livre, resultante da ameaça de que os primitivos desejos proibidos, que estão
reprimidos no inconsciente, retornem à consciência, a “neurose atual” refere mais
diretamente que o sujeito não está conseguindo processar um excesso de estímulos que,
na realidade e na atualidade, estão acossando ao seu ego.
Caso o ego não consiga processar adequadamente esse estressante excesso de estímulos
(Freud, em suas primeiras formulações acerca da neurose atual, exemplificava com a
masturbação mal dirigida, ou com os edípicos incrementados por uma hiperestimulação
ambiental), os mesmos escoarão por outras vias, como são as diversas possibilidades da
fisiologia orgânica.
ATENÇÃO: O termo “neurose de angústia” caiu em certo desuso visto que ela ora se
confunde com a síndrome do pânico, ora com a neurose atual, ora com a angústia dos
fóbicos diante de situações especificamente ansiogênicas. Aliás, nos primeiros tempos,
Freud designava as fobias com a denominação de “histeria de angústia” o que evidencia
a sua percepção de que a neurose de angústia e a fobia são parentes íntimos.

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    Curso de psicopatologia @psicanalistacosmeribeiro Apresentação Podemosafirmar que psicopatologia psicanalítica é uma encruzilhada de vários caminhos. Nela desembocam o conhecimento da teoria psicanalítica geral, o conhecimento da psiquiatria dinâmica, o conhecimento das contribuições técnicas psicanalíticas por Freud e seus dissidentes, assim como os enquadramentos epistemológicos modernos que testam e avaliam todas essas produções discursivas em torno do ser psicopatológico. Hoje, não resta dúvida sobre a imensa revolução. Científica que significou a entrada em cena da psicanálise no início deste século. A sistematização dos seus modelos para a compreensão da conduta normal e anormal do homem, assim como a interpenetração de fatores biológicos, psicossociais e culturais na produção sintomatológica, foram — e continuam sendo — de valor inquestionável. 1. INTRODUÇÃO À PSICOPATOLOGIA GERAL (...) a psicopatologia é uma ciência complexa: é uma ciência natural, destinada à explicação causal dos fenômenos psíquicos mediante os recursos e teorias acerca dos nexos extraconscientes que determinam esses fenômenos; e é ciência do espírito, voltada para a descrição das vivências subjetivas, para a interpretação das suas expressões objetivas e para a compreensão de seus nexos internos e significativos. (JASPERS, Karl 2000.) É uma área do conhecimento que objetiva estudar os estados psíquicos relacionados ao sofrimento mental. É área da medicina, psicologia e psicanálise que tem como objetivo fornecer a referência, a classificação e a explicação para as modificações do modo de vida, do comportamento e da personalidade de um indivíduo, que se desviam da norma e/ou ocasionam sofrimento e são tidas como expressão de doenças mentais. Dessa forma, Psicopatologia pode ser compreendida como um discurso ou um saber (logos) sobre a paixão, (pathos) da mente, da alma (psiquê). Ou seja, um discurso representativo a respeito do pathos psíquico; um discurso sobre o sofrimento psíquico sobre o padecer psíquico. A psychê é alada; mas a direção que ela toma lhe é dada pelo pathos, pelas paixões. Psicopatologia tem dificuldade de coesão teórica devido aos muitos discursos que abarca. Percebe-se que os conhecimentos a ela relativos parecem constituir-se apenas como um aglomerado de especialidades. A Psicopatologia está ligada a diversas disciplinas: as psicologias, as psiquiatrias e ao corpo teórico psicanalítico. Dentro da Psicologia, liga-se com Psicologia Clínica (direcionada ao diagnóstico, e ao estudo da personalidade), Psicologia Geral (noções de subjetividade, intencionalidade, representação, atos voluntários etc.), e ainda Psicologia ligada às neurociências, tradições hinduístas e outros. 2. A PSICOPATOLOGIA COM OLHAR PARA O SUJEITO.
  • 3.
    Curso de psicopatologia @psicanalistacosmeribeiro Apsicopatologia enquanto estudo das "anormalidades" da vida mental é às vezes referida como psicopatologia geral, psicologia anormal, psicologia da anormalidade e psicologia do patológico. É uma visão das patologias mentais (desordens) fundamentada na evolução dos conceitos pelas áreas de psicologia, psiquiatria e psicanálise (nesta última área, no sentido de psicologia profunda das manifestações do inconsciente), em oposição a uma abordagem estritamente médica de tais patologias, buscando não reduzir o sujeito a conceitos patológicos, enquadrando-o em padrões baseados em pressupostos e preconceitos. 3. SAÚDE MENTAL, NORMALIDADE E PSICOPATOLOGIA Uma das primeiras, e talvez uma das mais importantes, discussões sobre psicopatologia diz respeito à questão da normalidade. Existem várias definições sobre o que é "normal". Estatisticamente, normal refere-se a uma propriedade de uma distribuição que aponta uma tendência, o que seria "mais comum" de encontrar em determinada amostra, o mais provável. Assim, o normal é o que seria o mais provável de encontrarmos numa população, o comum, o esperado. Portanto, deste ponto de vista, os comportamentos que são considerados típicos, ou seja, que são os "esperados" de se encontrar ou de acordo com os padrões sociais aceitáveis para o agir, podem ser considerados comportamentos "normais". Saúde, normalidade e psicopatologia são termos altamente relacionados. A psicopatologia passa a ocorrer quando o comportamento de uma pessoa, ou eventualmente de um grupo de pessoas, foge àquilo que é esperado como referência de determinada sociedade, quando a pessoa passa a ter alterações importantes em relação ao comportamento que tinha no passado, com prejuízos significativos em seu funcionamento (comportamento), causando a si e a outros, especialmente seus familiares, acentuado grau de sofrimento. Tem-se como expectativa que a normalidade seja o tipo de comportamento que mais ocorre em qualquer cultura. A saúde mental, por sua vez, seria então uma condição ideal ou desejada para que essa normalidade possa vir a existir, com qualidade e capaz de oferecer as melhores condições para que as pessoas vivam satisfatoriamente, produzam com eficiência e possam gozar de certo grau de felicidade para com as pessoas próximas a si. Segundo a OMS, a saúde mental refere-se a um amplo espectro de atividades direta ou indiretamente relacionadas com o componente de bem-estar, que inclui a definição de um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente a ausência de doença. Este conceito engloba não apenas o comportamento manifesto, mas o sentimento de bem-estar e a capacidade de ser produtivo e bem adaptado à sociedade. Por exemplo, considera-se que a tristeza seja normal e esperada na vida de qualquer pessoa, e é mesmo necessária em determinados momentos da vida (p. ex., em situação de luto). Entretanto, num quadro depressivo estabelecido, a tristeza é mais intensa e mais duradoura do que seria esperado numa situação normal e transitória. Assim, uma situação normal e esperada torna-se patológica não por ser uma experiência ou vivência qualitativamente diferente, mas por ser mais ou menos intensa do que se espera em situações normais. Neste sentido o trabalho do psicanalista na compreensão dessa
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    Curso de psicopatologia @psicanalistacosmeribeiro desordemvai na busca da construção de um processo analítico (entre paciente/cliente e analista) capaz de conduzir ao "tratamento" dessa psicopatologia. 4. PSICOPATOLOGIA PSICANALÍTICA 4.1. O PSICANALISTA PODE SE UTILIZAR DO DSM? A resposta é "não somente desse instrumento", o que podemos dizer com essa resposta é que o psicanalista precisa ter como base que o seu instrumento para psicodiagnóstico de uma desordem mental é inicialmente é por meio "da escuta subjetiva de um sujeito", por meio dos sintomas, do caráter, da inibição e do estereótipo, ou seja, não existe uma regra "geral" ou mesmo o termo propriamente dito psicodiagnosticar em psicanálise. Casa pessoa tem a sua subjetividade e esse olhar para o "Outro" e seu sofrimento psíquico. É, portanto, esse olhar que nos faz psicanalistas, bem como difere do psicognóstico psiquiátrico e em muitos casos psicológicos. 4.2. AS NEUROSES Freud, nos textos iniciais de sua obra, explicou o mecanismo da divisão, afirmando que os neuróticos, antes do adoecimento, gozavam de boa saúde mental. Porém, em determinado momento, aconteceu uma incompatibilidade na sua vida ideativa, ou seja, seu ego foi confrontado com uma experiência, uma ideia ou um sentimento que suscitou um afeto aflitivo e com isso o sujeito deseja esquecê-lo. Percebe-se, então, que passa a ser complicada qualquer mediação entre a ideia aflitiva e seu próprio ego. No texto “As Neuroses de Defesa”, Freud propõe que, nas histerias, fobias e obsessões, o processo inicial de um conflito entre uma ideia incompatível e o posicionamento do ego é semelhante e as divergências dar-se-ão nas etapas seguintes. “Na histeria a ideia incompatível é tornada inócua pelas transformações da soma de excitação em alguma coisa somática. Para isto eu gostaria de propor o nome conversão”. (Freud,1894, pag 61). No início de sua obra, Freud dividiu os transtornos emocionais, que então ele denominava psiconeuroses, em três categorias psicopatológicas: 1) As neuroses atuais (que estavam em desuso na psicanálise, mas que recentemente voltam a ocupar, com esse mesmo nome, um lugar de destaque, principalmente a partir dos estudos com pacientes somatizadores ). 2) As neuroses transferenciais, também conhecidas como psiconeuroses de defesa (que eram as histerias, as fobias e as obsessivas). 3) As neuroses narcisistas (que constituem os atuais quadros psicóticos). Freud afirmava então que somente as neuroses transferenciais poderiam ser tratadas pelo método psicanalítico, visto a transferência ser a matéria-prima da psicanálise, e, na época, a psicanálise não reunia condições para perceber a
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    Curso de psicopatologia @psicanalistacosmeribeiro existênciada transferência naqueles pacientes que estavam em um estado de encapsulamento narcisístico próprio das psicoses. De lá para cá, muita coisa modificou substancialmente na ciência da psicanálise e na da psiquiatria: as síndromes da psicopatologia foram ganhando uma crescente compreensão genético-dinâmica e paralelamente os autores foram ampliando, subdividindo, diversificando, construindo novos modelos e, portanto, aumentando a complexidade nosológica , tal como aparece nas modernas classificações diagnósticas, como o DSM ou o CID. No texto “Neurose e Psicose” (1923-1925), Freud aponta uma diferença básica entre neurose e psicose: Neuroses atuais A neurose atual, segundo Freud, não é produzida por conflitos históricos, mas sim por motivos atuais, de modo que ela não depende estritamente de fatores psicológicos. Antes disso, a neurose de angústia seria resultante de fatores biológicos que agiriam através de substâncias químicas, sendo que o acúmulo dessas “toxinas sexuais” produzidas pelas excitações frustradas manifesta-se diretamente por sintomas de angústia livre, como taquicardia, palpitações, respiração ofegante, etc., que, diz Freud, são aquelas mesmas que estão presentes no ato sexual. Freud deixou o tratamento das neuroses atuais de lado. Segundo ele, tanto os sintomas das psiconeuroses como das neuroses atuais são o resultado de um uso anormal da libido: [...] os sintomas das neuroses “atuais” – pressão intracraniana, sensações de dor, estado de irritação em um órgão, enfraquecimento ou inibição de uma função – não têm nenhum “sentido”, nenhum significado psíquico. Não só se manifestam predominantemente no corpo (como, por exemplo, os sintomas histéricos entre outros), como também constituem eles próprios processos inteiramente somáticos, em cuja origem estão ausentes todos os complicados mecanismos mentais que já conhecemos. [...] se, nos sintomas das psiconeuroses, nos familiarizamos com as manifestações de distúrbios na atuação psíquica da função sexual, não nos surpreenderemos ao encontrar nas neuroses “atuais” as consequências somáticas diretas desses distúrbios sexuais (Freud, 1917 - Obra: Conferências introdutórias à psicanálise.) Para Freud, as neuroses atuais tinham características semelhantes aos quadros de intoxicação orgânica, o que acabou deixando muito pouco espaço para a atuação da terapia psicanalítica e também para desenvolvimento de hipóteses metapsicológicas. Justificando porque não deu início à sua conferência sobre “O estado neurótico comum” (Freud, 1917/1969: 453-4) pela descrição destes quadros, ele escreve: (...) os problemas das neuroses atuais, cujos sintomas provavelmente são gerados por lesão tóxica direta, não oferecem à psicanálise qualquer outro ponto de ataque. Ela pouco pode fazer para esclarecê-los e deve deixar essa tarefa para a pesquisa bioquímica [...] por essa razão, as neuroses “atuais”, improdutivas no que concerne à psicanálise, não podiam mais ocupar um lugar em primeiro plano (Freud, 1917).
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    Curso de psicopatologia @psicanalistacosmeribeiro Inicialmente,Freud descreveu dois tipos de neurose atual: a neurose de angústia (resultante da libido estancada, como no caso do “coito interrompido”) e a neurastenia. Neste último caso, teria havido uma excessiva descarga de substâncias sexuais, como aconteceria no exagero da prática da masturbação, sendo que como decorrência dessa hemorragia de substâncias sexuais, a neurastenia caracteriza-se por um quadro sintomático de fraqueza, apatia, cansaço, etc. Posteriormente, em 1911, ao estudar o “Caso Schreber”, Freud descreveu um terceiro tipo de neurose atual: a hipocondria, que poderia estar representando um núcleo “atual” de uma esquizofrenia. 5. NEUROSES ATUAIS: NEUROSES DE ANGÚSTIA Freud estudou a angústia em dois momentos diferentes de sua obra. Na primeira formulação, a angústia seria consequente à repressão, o que provocaria uma libido acumulada que funcionaria de uma maneira “tóxica” no organismo. A partir de sua monografia Inibições, sintomas e angústia (1926) ele conceituou de forma inversa, ou seja, é a repressão que se processa como uma forma de defesa contra a ameaça de irrupção da angústia, mais especificamente, a angústia de castração. Portanto podemos dizer que a neurose de angústia consiste em um transtorno clínico que se manifesta por meio de uma angústia livre, quer sob uma forma permanente, quer pelo surgimento em momentos de crise. Em outras palavras, a ansiedade do paciente expressa-se tanto por equivalentes somáticos (como uma opressão pré-cordial, taquicardia, dispneia suspirosa, sensação de uma “bola no peito”, etc.), como por uma indefinida e angustiante sensação do medo de que possa vir a morrer, enlouquecer, ou da iminência de alguma tragédia. Ex: Seria hoje o que popularmente chamamos conforme manual de psiquiatria (DSM) atualmente como transtorno de ansiedade generalizada (TAG). Habitualmente, os psicanalistas empregam os termos “angústia” e “ansiedade” de forma indistinta, porém que cabe alguma distinção. O termo ansiedade (talvez tenha alguma relação com “ânsia”, isto é, um desejo desmedido) designa alguma descompensação da harmonia psíquica interna, no entanto, nem sempre ela é visível ou perceptível porque, por meio de recursos defensivos que constituem os mais diversos tipos de negação da referida ansiedade, o sujeito pode estar impregnado por uma ansiedade latente sem que ela seja manifesta. Como exemplo disso, pode ser o caso de uma fobia específica a utilizar um elevador, sendo que essa pessoa nada sentirá enquanto puder administrar bem as suas técnicas evitativas dessa situação fobígena, porém um enfrentamento direto da situação ansiogênica pode fazer vir à tona, de forma ruidosa, aquela angústia que estava latente, aparentemente inexistente. Por sua vez, a palavra angústia deriva do latim angor, que quer dizer “angustura, estreitamento, apertamento”, o que traduz fielmente os sintomas que emergem e ficam livremente manifestos nos sintomas opressivos acima assinalados. Na maioria das vezes, tais sintomas indicam que está havendo uma falha do mecanismo de repressão, diante de um – traumático – excesso de estímulos, externos e/ou internos. Nos quadros clínicos em que prevalece uma recorrência de episódios de crises de angústia, é necessário que se levante a hipótese que se esteja tratando do transtorno conhecido como “doença do pânico”, o qual costuma responder muito bem à medicação
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    Curso de psicopatologia @psicanalistacosmeribeiro específica.Conquanto para Freud, como vimos antes, o termo “neurose de angústia” designasse uma das formas de “neurose atual” – portanto, sem estar diretamente ligada a antigas repressões – posteriormente, aquela terminologia também costumava ser utilizada na literatura psicanalítica para designar uma modalidade de neurose que guarda raízes históricas com fixações das repressões dos desejos proibidos que, por isso, quando surge uma ameaça do retorno do reprimido à consciência, a neurose de angústia manifesta-se pela via somática, através de sintomas de angústia livre. Assim, é útil estabelecer uma certa diferença entre a neurose de angústia e a neurose atual. Enquanto a primeira alude mais diretamente à manifestação sintomática de uma angústia livre, resultante da ameaça de que os primitivos desejos proibidos, que estão reprimidos no inconsciente, retornem à consciência, a “neurose atual” refere mais diretamente que o sujeito não está conseguindo processar um excesso de estímulos que, na realidade e na atualidade, estão acossando ao seu ego. Caso o ego não consiga processar adequadamente esse estressante excesso de estímulos (Freud, em suas primeiras formulações acerca da neurose atual, exemplificava com a masturbação mal dirigida, ou com os edípicos incrementados por uma hiperestimulação ambiental), os mesmos escoarão por outras vias, como são as diversas possibilidades da fisiologia orgânica. ATENÇÃO: O termo “neurose de angústia” caiu em certo desuso visto que ela ora se confunde com a síndrome do pânico, ora com a neurose atual, ora com a angústia dos fóbicos diante de situações especificamente ansiogênicas. Aliás, nos primeiros tempos, Freud designava as fobias com a denominação de “histeria de angústia” o que evidencia a sua percepção de que a neurose de angústia e a fobia são parentes íntimos.