Conexão                                           Comunicação e Cultura
                                                          v.
Revista de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul - v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE             CONEXÃO
                  DE CAXIAS DO SUL            COMUNICAÇÃO E CULTURA

                              Presidente:     Conselho Editorial
                             Nestor Perini    Prof. Dr. Antonio Hohlfeldt
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                                                  (UFS/SE)
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                                                  (UFRGS)
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                                              Parecerista ad hoc
     CONSELHO EDITORIAL DA EDUCS              Profa. Dra. Susana Gastal

      Prof. Dr. José Clemente Pozenatto       Editora
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                Prof. Dr. José Mauro Madi
Prof. Dr. Paulo Fernando Pinto Barcellos
      Prof. Dr. Gilberto Henrique Chissini
Conexão                                         Comunicação e Cultura
                                                          v.
Revista de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul - v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
© dos autores
www.ucs.br/cchc/deco/conexao

Revisão: Ivone Justina Polidoro Franco
Editoração eletrônica: Formato Artes Gráficas




                 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
                             Universidade de Caxias do Sul
                          UCS - BICE - Processamento Técnico

          C747     Conexão – comunicação e cultura / Universidade de Caxias do
                     Sul. Vol. 1, n. 1 (jan. 2002). – Caxias do Sul, RS: Educs,
                     2007.

                      Vol. 6, n. 11 (Jan./Jun. 2007)
                      Semestral
                      ISSN 1677-0943

                     1. Comunicação Social. 2. Jornalismo. 3. Publicidade – Pro-
                   paganda. 4. Relações Públicas. I. Universidade de Caxias do Sul.

                                                                         CDU: 659

                            Índice para o catálogo sistemático:
                     1. Comunicação Social                         659
                     2. Jornalismo                                 070
                     3. Publicidade – Propaganda                   659.1
                     4. Relações Públicas                          659.4

                    Catalogação na fonte elaborada pela Bibliotecária
                           Rose Elga Beber - CRB 10/1369.




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SUMÁRIO



%     APRESENTAÇÃO


MÍDIA, CULTURA   E IMAGINÁRIO

     HISTÓRIA, IMAGINÁRIO E MENTALIDADES:
       DELINEAMENTOS POSSÍVEIS
       José D’Assunção Barros

     A LEITURA DO TEMPO NO ESPAÇO: UMA REFLEXÃO
       SOBRE A CULTURA E A MEMÓRIA NA MÍDIA
       Magda Rodrigues da Cunha

##     DO FORT-DA DA ARTE AO CORPO-OBRA. [É POSSÍVEL
       UMA ESTÉTICA DA CLÍNICA? HAVERÁ UM CORPO-OBRA?]
       Marcio Pizarro Noronha

     CORPOS AUTORIZADOS: COMUNICAÇÃO PODER E TURISMO
       Euler David de Siqueira e Denise da Costa Oliveira de Siqueira

''     COMUNICAÇÃO E TURISMO:
       POSSIBILIDADES DE CONHECIMENTO
       Mary Sandra Guerra Ashton

'    TECNOTOTEMISMO: IDENTIDADES MÚLTIPLAS E NOVA SUBJETIVIDADE
       Lauren Ferreira Colvara

!     EL PÚBLICO EN LOS NOTICIEROS TELEVISIVOS
       Mabel Grillo
A RTIGOS
        A EMERGÊNCIA DE GÊNEROS NO CINEMA BRASILEIRO: DO
           PRIMEIRO CINEMA ÀS CHANCHADAS E PORNOCHANCHADAS
           Bernadette Lyra

$        VIGÍLIA E INTELIGÊNCIA ESTRATÉGICA: FERRAMENTAS
           METODOLÓGICAS PARA A DEFINIÇÃO DE ESTRATÉGIAS
           DE RELAÇÕES PÚBLICAS
           Ana Cristina Fachinelli, Jane Rech,
           Olivar Maximino Mattia e Vanessa Roveda

'!        COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL E PRESSUPOSTOS
           DA COMUNICAÇÃO INTEGRADA: A EXPERIÊNCIA EM
           UMA UNIVERSIDADE NA IMPLEMENTAÇÃO/
           REESTRUTURAÇÃO DO JORNAL INSTITUCIONAL
           Cassiana Maris Lima Cruz

         IDÉIAS SOBRE TECNOLOGIA, INTERAÇÕES
           COMUNICATIVAS E ECONOMIA MIDIÁTICA
           Álvaro Benevenuto Júnior
APRESENTAÇÃO




Falar em cultura e imaginário, hoje, é “dar a cara pra bater”. Em meio a um
caleidoscópio de teorias, visões, mundos, o que deve prevalecer? Qual é ou
onde está a verdade? Ela existe?

Ao convidar a comunidade acadêmica a discutir o tema, pelo viés da comunica-
ção, a idéia era justamente esta: provocar autores a nos mostrarem algumas
das “imagens de seus caleidoscópios”. Dar espaço a pesquisadores, para que,
mesmo arriscando-se, nos mostrassem algumas das opções, no leque de possi-
bilidades com que nos confrontamos, para “olhar este nosso mundo”.

Para conversar um pouco com nossos leitores, retardando seu encontro com os
articulistas aos quais somos imensamente gratos por terem atendido a nossa
convocação, vamos a três ponderações: a primeira delas é trazer, para a noção
de imaginário, as lentes de Lacan. A segunda é pedir a Morin seus óculos, e
então poder olhar para a noção de cultura, e a terceira, com a qual os leitores já
tiveram um encontro, é apelar para o bom humor de Dali, que, com o desdo-
bramento de um mesmo quadro (“Rapariga à janela”, de 1925, e “Jovem virgem
auto-sodomizada”, de 1954), nos mostra que a verdade está onde e como a
colocamos.

Como o tempo contemporâneo (para não cair na armadilha dos muitos conceitos
que se encarniçam na disputa de levá-lo à pia batismal) se caracteriza pela multi-
plicidade de facetas, pela complexidade (Morin) e por apontar sempre novas e
inúmeras possibilidades, parece coerente que a um movimento de imersão no
tecnológico se contraponha, entre outros, um olhar na direção da subjetividade,
do inconsciente. Eles aparecem como pratos de uma mesma balança, a provocar
o equilíbrio pela disputa/tensão. Das três categorias lacanianas, o imaginário é
aquele que nasce da constituição da imagem do corpo. Como o real é sempre da
ordem do impossível, o imaginário se constituirá a partir do engodo, da identi-
ficação, da imagem. Nada mais coerente, portanto, do que admitir o quanto a
sociedade contemporânea se fundamenta nesse registro, valora-o e olha/de-
senha o mundo de mãos dadas com ele. Morin alerta: “Toda sociedade com-
porta indivíduos genética, intelectual, psicológica e afetivamente muito diversos,
aptos, portanto, a pontos de vista cognitivamente muito variados.”1 E está jus-
tamente nesse confronto a possibilidade de trincar o determinismo cultural e
estimular dúvidas, incertezas, novas buscas/descobertas.

Assim, encerrar-se numa visão míope de determinismo tecnológico ou, pelo con-
trário, lançar maldição eterna à tecnologia são posturas que, com certeza, nos
impedem de olhar na direção do horizonte, dando-nos conta de que somos pro-
dutos e produtores de novas socialidades, de novas formas de relação, de novos
usos para “velhos objetos”, mas também de velhos usos para “novos objetos”.
É importante aceitarmos a premissa de que o imaginário é o oxigênio de todas
as culturas.



                                                                    Marlene Branca Sólio
                                                                                 Editora




1 MORIN, E. O método 4. 3. ed. Porto Alegre: Sulina, 2002. p. 33.
MÍDIA,   CULTURA E IMAGINÁRIO
História, imaginário
e mentalidades:




                                                                                                                         Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
delineamentos possíveis1
                                                                 José D’Assunção Barros2


                                                     RESUMO
Este artigo – voltado para as discussões estabelecidas desde a segunda metade do século XX
entre as possíveis interações entre História, cultura e imaginário – busca desenvolver um paralelo
comparativo entre história das mentalidades, Psicoistória e história do imaginário, esclarecendo
alguns aspectos relacionados a essas modalidades da História e discutindo a historiografia
pertinente a cada um desses campos. O artigo remete à obra recentemente publicada pelo autor
deste texto, cujo principal objetivo é o de elaborar uma visão panorâmica das diversas modalidades
da História nos dias de hoje.
Palavras-chave: História do imaginário. História das mentalidades.Imaginário político. Imagem.

                                                    ABSTRACT
This article – directed to the discussions that have been established since the second half of the
twenty century around the possible interactions between History and imaginary – attempts to
elaborate a comparative parallel between history of mentalities, psicohistory and history of imagi-
nary, clarifying some aspects related to these fields of History and discussing the historiographer
production concerning to which one of these modalities. The article refers to a recently publicized
work of the author of this text, witch principal subject was to elaborate a panoramic view of the
various fields in which ones the historical knowledge is divided nowadays.

Key words History of imaginary. History of mentalities. Political imaginary. Image.
    words:




1 O presente artigo remete, como referência principal, a um livro publicado recentemente pelo autor, e que se refere
a um estudo das várias modalidades da História (BARROS, José D’Assunção. O campo da história: especialidades e
abordagens. Petrópolis: Vozes, 2004).
2 Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor na Universidade Severino Sombras
(USS) em Vassouras, nos Programas de Mestrado e em cursos de Graduação em História, onde leciona disciplinas
ligadas à Teoria e Metodologia da História e da História Cultural. Publicou recentemente os livros O campo da História
(Petrópolis: Vozes, 2004) e O projeto de pesquisa em História (Petrópolis: Vozes, 2005).
mundo contemporâneo tem se mostrado, desde primórdios do século
                                 
                                                                           XX, cada vez mais, um espaço a ser percebido e vivenciado por meio de
                                                                  O        imagens e amparado por suportes que vão dos mais modernos meios de
Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:..




                                                                  comunicação aos recursos computacionais. Em meio ao desenvolvimento de
                                                                  áreas do conhecimento que vão das ciências da comunicação aos saberes “psi”,
                                                                  neste novo mundo de possibilidades imagísticas, os discursos visuais e os
                                                                  circuitos da imaginação passaram a desempenhar um papel tão significativo
                                                                  como os discursos verbais no que se refere à produção de um conhecimento
                                                                  sobre a vida humana. Na verdade, o visual e o verbal são discursos que cada vez
                                                                  mais, enfaticamente, se entrelaçam. Mais do que isso, o imaginário – comportando
                                                                  aqui não apenas as imagens visuais, mas também as imagens mentais e oníricas,
                                                                  o universo simbólico e os modos de representação – atualiza um fator que não
                                                                  pode ser mais ignorado por nenhum campo do saber inserido no âmbito das
                                                                  Ciências Sociais, das Ciências Humanas e das Ciências da Comunicação. A
                                                                  História – enquanto área de saber que estuda especificamente “o homem no
                                                                  tempo”, a partir de todas as dimensões de sua vida social – não constitui
                                                                  certamente exceção.

                                                                  É assim que, dentro de uma fascinante profusão de campos intradisciplinares
                                                                  que têm revelado um sensível enriquecimento dos estudos históricos no que
                                                                  se refere ao interesse por novos objetos e por novas abordagens, a historiografia
                                                                  da segunda metade do século XX assistiu precisamente à emergência de cam-
                                                                  pos do saber historiográfico que passaram a valorizar o universo mental dos
                                                                  seres humanos em sociedade, os seus modos de sentir, o imaginário por eles
                                                                  elaborados coletivamente. A modalidades já tradicionais como a História Política,
                                                                  a História Econômica ou a História Social, os novos historiadores propuseram
                                                                  acrescentar a história das mentalidades, a psicoistória, a história do imaginário.
                                                                  Teremos aqui campos que com alguma freqüência se interpenetram no que
                                                                  concerne aos seus objetos, às suas fontes privilegiadas, às suas abordagens
                                                                  e aportes teóricos, às suas conexões com outros saberes e aos seus padrões
                                                                  de interdisciplinaridade. Contudo, cada um desses campos conserva
                                                                  singularidades e aspectos que nos permitem separá-los entre si como espaços
                                                                  intradisciplinares bem diferenciados.

                                                                  O objetivo deste artigo será o de clarificar as diferenças e similitudes entre esses
                                                                  campos historiográficos que têm atentado mais enfaticamente para o estudo
                                                                  dos padrões mentais, dos modos de sentir e dos imaginários coletivos nos vários
                                                                  períodos históricos, o que implica que abordemos mais particularmente a história
                                                                  das mentalidades, a psicoistória e a história do imaginário.
História das mentalidades




                                                                                                                !
Será bastante oportuno iniciar esta discussão crítica com um exame




                                                                                                      Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
dos aspectos que têm permitido identificar essa modalidade historiográfica
que se mostrou polêmica desde os seus primórdios: a história das mentalidades.
Essa nova modalidade da História, que tem precursores já na primeira metade
do século XX, mas que, rigorosamente, começa a se delinear como um novo
espaço de ação para os historiadores na segunda metade do século, propunha-
se a enfocar a dimensão da sociedade relacionada ao mundo mental e
aos modos de sentir, ficando, a partir daí, sob a rubrica de uma designação
que tem dado margem a grandes debates que não poderão ser todos por-
menorizados aqui.3

Terá certamente contribuído para esta polêmica o fato de que os historiadores
das mentalidades foram os primeiros a se interessar por determinados temas
não convencionais, desbravando certos domínios da História que os historiadores
ainda não haviam pensado em investigar. Assim, Robert Mandrou propôs-se a
estudar a longa persistência de certos modos de sentir que motivaram a prática
da feitiçaria e sua repressão, no livro Magistrados e feiticeiros na França do
século XVII (MANDROU, 1979); Jean Delumeau impôs a si a tarefa de examinar
um complexo de medos de longa duração que haviam estruturado o modo de
sentir do homem europeu durante muito tempo, e cuja lenta superação permitiu
a passagem para o mundo moderno (DELUMEAU, 1989); Philippe Ariès (1981) e
Michel Vovelle (1982) empenharam-se dedicadamente a analisar historicamente
os sentimentos do homem diante da morte.

De certo modo, por força dos novos e imprevisíveis objetos que traziam à tona
com bastante audácia – e em virtude de sua tendência dedicar anos de um
exaustivo trabalho intelectual a temas que deles fizeram verdadeiros especialistas
em objetos historiográficos até então considerados insólitos – os historiadores
das mentalidades vieram a constituir uma espécie de vanguarda da tendência da
Nova História da segunda metade do século XX em se tornar uma espécie de
“história em migalhas”, para utilizar aqui a famosa expressão que deu um título
ao impactante livro de François Dosse sobre a passagem dos Annales para a



3 Alguns artigos panorâmicos podem ser esclarecedores a respeito deste campo histórico: (1) Le Goff
(1988, p. 68-83); (2) Ariès (1990, p. 154-176); (3) Darton (1990, p. 225-255).
Nova História (DOSSE, 1994).4 Foram eles que primeiro exploraram certos temas
                                 
                                                                  que – a princípio recebidos pelos demais historiadores como estranhos ou exóticos
                                                                  – logo encontrariam um curioso lugar editorial entre uma multidão de outros
Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:..




                                                                  campos temáticos que posteriormente marcariam, através de uma miríade de
                                                                  novas especialidades relativas aos “domínios” históricos, a tendência à
                                                                  fragmentação que parecia deixar definitivamente para trás as antigas ambições
                                                                  de realizar uma “história total”.

                                                                  Devido à sua exploração ousada de certos temas até então incomuns, a história
                                                                  das mentalidades produziu, no seu nascedouro, uma forte estranheza que logo
                                                                  despertaria acirradas polêmicas. Mas é muito importante ter em vista que a
                                                                  história das mentalidades não pode ser definida essencialmente com base nesses
                                                                  novos domínios historiográficos que ela passou a privilegiar em um primeiro
                                                                  momento. Mesmo porque, posteriormente, esses mesmos domínios também
                                                                  foram retomados por outros campos da História que pouco ou nada têm a ver
                                                                  com a história das mentalidades.

                                                                  Rigorosamente, qualquer tema pode ser trabalhado a partir dos vários enfoques
                                                                  que classificaremos aqui como relacionados às “dimensões” sociais (a política,
                                                                  a economia, a cultura, as mentalidades, o imaginário, e assim por diante).5
                                                                  Assim, uma história da morte pode ser trabalhada pela história demográfica,
                                                                  pela história política, pela econômica, e não apenas pela história das
                                                                  mentalidades. Em contrapartida, temas já tradicionais como o do “nacionalismo”
                                                                  ou o da “religião” podem ser igualmente examinados da perspectiva de uma
                                                                  história das mentalidades. Não são, portanto, domínios privilegiados pelos
                                                                  historiadores das mentalidades que definem o tipo de história que fazem, mas


                                                                  4 Na verdade, a expressão “história em migalhas” chegou a ser referida de maneira afirmativa (não
                                                                  depreciativa) por Pierre Nora – organizador de uma coletânea de artigos da Nova História francesa. Pierre
                                                                  Nora enunciou a expressão em uma entrevista concedida a um jornal francês em 1974, e com ela anunciava
                                                                  a consolidação de uma moda que passava a privilegiar as curiosidades, os temas exóticos ou pelo menos o
                                                                  estudo de objetos muito particularizados em contraste com os antigos projetos de produzir uma grande
                                                                  história total.
                                                                  5 Em O campo da história: especialidades e abordagens, propõe-se um esclarecimento dos critérios a partir
                                                                  dos quais são pensados e repensados os vários campos e modalidades da História. Ao lado das abordagens,
                                                                  que se referem aos métodos e modos de fazer, e dos domínios, que se referem a campos temáticos
                                                                  privilegiados pelos historiadores, as dimensões correspondem àquilo que o historiador traz para primeiro
                                                                  plano no seu exame de uma determinada sociedade: a política, a cultura, a economia, a demografia, e assim
                                                                  por diante. Apenas para exemplificar com um exemplo de cada uma dessas modalidades, a história oral
                                                                  seria uma abordagem, a história das mulheres seria um domínio, e a história cultural seria uma modalidade
                                                                  historiográfica relacionada a uma dimensão. (BARROS, 2004).
sim a dimensão da vida social para a qual os seus olhares se dirigem: o universo




                                                                                                  #
mental, os modos de sentir, o âmbito mais espontâneo das representações
coletivas e, para alguns, o inconsciente coletivo.




                                                                                        Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
A verdadeira polêmica que envolve a história das mentalidades é teórica e
metodológica. Apenas para registrar alguns problemas pertinentes a esse campo
historiográfico que se consolida a partir da década de 60, mencionaremos aqui
as questões fundamentais que devem ser refletidas pelo historiador que ambiciona
trilhar esses caminhos de investigação. Existirá efetivamente uma mentalidade
coletiva? Será possível identificar uma base comum presente nos “modos de
pensar e de sentir” dos homens de determinada sociedade – algo que una “César
e o último soldado de suas legiões, São Luís e o camponês que cultivava as
suas terras, Cristóvão Colombo e o marinheiro de suas caravelas?” Essas
imagens, extremamente oportunas, foram celebrizadas por Lucien Febvre.

Abraçando a perspectiva teórica de que existem de fato mentalidades coletivas, o
historiador deve ampliar a sua concepção documental. Conforme assinala François
Furet (1991, p. 93), se o historiador das mentalidades pretende alcançar níveis
médios de comportamento, não pode se satisfazer mais apenas com a literatura
tradicional do testemunho histórico, que é inevitavelmente subjetiva, não re-
presentativa, ambígua. Assim, como veremos adiante, ocorreu um casamento feliz
entre a história das mentalidades (um campo histórico que se refere a uma “di-
mensão”) e a História Serial (um campo histórico que se refere a uma “abordagem”).
A revalidação dos estudos de natureza qualitativa, ao lado da abordagem serial,
não esteve, contudo, alheia a outros historiadores das mentalidades – como no
caso de Vovelle, historiador marxista das mentalidades que defende, em importante
artigo de 1982, o uso das duas abordagens como igualmente válidos para captar
a dimensão mental de uma sociedade. (VOVELLE, 1987, p. 31).

Para resumir três ordens de tratamento metodológico que os historiadores das
mentalidades têm empregado na sua ânsia de captar os modos coletivos de pensar
e de sentir, poderemos registrar precisamente: (1) a abordagem serial; (2) a eleição
de um recorte privilegiado que funcione como lugar de projeção das atitudes coletivas
(uma aldeia, uma prática cultural, uma vida), ou, finalmente; (3) uma abordagem
extensiva de fontes de naturezas diversas. Nesse último caso, enquadra-se a obra
O homem diante da morte, de Philippe Ariès. Nessa ambiciosa obra, lança-se mão
dos mais diversos tipos de fonte – desde os escritos de todos os tipos (obras
literárias, textos hagiográficos, poemas, canções, crônicas oficiais, testemunhos
anônimos) até as fontes iconográficas e os objetos da cultura material. Vovelle
denomina a essa utilização de um universo de fontes tão heterogêneos, percorrido
                                 $
                                                                  mais ou menos livremente, de técnica “impressionista”. (1987, p. 51).
Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:..




                                                                  Ele mesmo já utiliza a segunda ordem de procedimentos a que atrás nos re-
                                                                  feríamos: de modo geral, prefere a abordagem serial. Em sua tese de 1978
                                                                  sobre a Piedade barroca e descristianização (VOVELLE, 1978), examinou com
                                                                  precisão e método milhares de testamentos provençais – sempre de forma maciça
                                                                  e procurando enxergar serialmente padrões e deslocamentos de padrões que
                                                                  denunciassem as variações das atitudes diante da morte na longa duração por ele
                                                                  escolhida. Quando examina fontes iconográficas, afasta-se da abordagem qualitativa
                                                                  livre para avaliar topicamente a recorrência e a ruptura de certos modos de repre-
                                                                  sentar, às vezes medindo espaços no interior da representação iconográfica e
                                                                  quantificando elementos figurativos. Se vai às fontes da cultura material, à arqui-
                                                                  tetura funerária, por exemplo, faz medições das distâncias que separam túmulos e
                                                                  altares. Sua abordagem é, portanto, sistemática, cuidadosamente preocupada com
                                                                  a homogeneidade das fontes e com o seu lugar preciso dentro da série.

                                                                  A derradeira ordem de tratamentos metodológicos corresponde à já mencionada
                                                                  eleição de um recorte privilegiado que funcione como lugar de projeção das atitudes
                                                                  coletivas ou de padrões de sensibilidade. Pode ser um microcosmo localizado ou
                                                                  uma vida, desde que o autor os considere significativos para a percepção de uma
                                                                  mentalidade coletiva mais ampla.

                                                                  Febvre, precursor distante dos estudos de mentalidade, havia tentado precisamen-
                                                                  te essa via. Já em 1942, em sua famosa obra sobre Rabelais, o historiador francês
                                                                  se propunha – a partir da investigação de um único indivíduo – identificar as
                                                                  coordenadas de toda uma era. (FEBVRE, 1962). A abordagem é criticada por Carlo
                                                                  Ginzburg – historiador mais habitualmente classificado na interconexão de uma
                                                                  história cultural (dimensão) com uma Microistória (abordagem).6 Ao contrário de
                                                                  Febvre, Ginzburg opta por instrumentalizar o conceito de “mentalidade de classe”
                                                                  em sua obra O queijo e os vermes. (1989, p. 34). Nesse último caso – em que
                                                                  toma como documentação principal os “registros inquisitoriais” do processo de
                                                                  um moleiro italiano perseguido pela Inquisição no século XVI – Ginzburg mantém-


                                                                  6 A microistória corresponde a uma modalidade da História que procura empregar uma nova escala de
                                                                  observação no exame das sociedades históricas. Elegendo como campo de observação um determinado
                                                                  locus bem circunscrito – uma vida anônima, uma prática social localizada, uma comunidade – a microistória
                                                                  almeja conhecer através da gota-d’água algo do oceano inteiro. Para utilizar uma metáfora comum entre os
                                                                  microistoriadores, abandona-se aqui o “telescópio” em favor do “microscópio”, o olhar panorâmico e
                                                                  distanciado em favor do olhar detalhista e aproximador.
se atento à questão da “intertextualidade”, isto é, ao diálogo que o discurso do




                                                                                                                   %
moleiro Menocchio estabelece implicitamente com outros textos e discursos.




                                                                                                         Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
Dessa forma, embora ambos os historiadores partam de um estudo de caso
individual, a abordagem tornou-se distinta. Ressalte-se, no tratamento historio-
gráfico levado adiante por Ginzburg, a já mencionada preocupação em identificar
os vários registros dialógicos presentes em uma mesma fonte – preocupação
que se coaduna muito intimamente com um dos setores da chamada nova
história cultural. Assim, para além do discurso externo do próprio Menocchio,
visível na superfície de suas fontes, o historiador italiano toma por objeto a
multiplicidade de discursos que o constituem; e, além disso, evita a pretensão
de reconstituir uma “mentalidade de época”. Sua metodologia funda-se em
uma análise dialógica e intensiva das fontes. Seu enfoque, como se disse, é
mais propriamente cultural.

Uma nova história cultural, aliás, vem fortalecendo cada vez mais uma alternativa
para o tratamento de certos temas que até então foram campos privilegiados
pelos historiadores das mentalidades. Ainda assim, é preciso reconhecer que a
história das mentalidades, sobretudo através dos historiadores franceses da
Novelle Histoire, proporcionou uma significativa abertura aos novos modos de
fazer a História, inclusive deixando sua margem de influências na historiografia
brasileira da década de 80. É verdade que, para o caso da maioria dos nossos
historiadores, ela raramente foi uma influência única e linear, aparecendo habi-
tualmente combinada a outras influências e entrelaçada com outras subespe-
cialidades da História.

Apenas como um exemplo entre outros possíveis, a historiadora Laura de Melo e
Souza – autora de obras que vão de Os desclassificados do ouro (1993) até
Inferno atlântico (1982) – reconhece em seu trabalho uma influência importante
advinda de historiadores das mentalidades como Geremek e Mandrou,7 mas
acrescenta que suas influências ou inserções mais importantes referem-se à
etnoistória e à história da cultura, neste último caso a partir das obras de Ginzburg.
(MORAES; REGO, 2001, p. 377). Já João José Reis – autor do já clássico A morte
é uma festa (1991) – reconhece a importância para o amadurecimento de seu
trabalho da leitura dos historiadores franceses das mentalidades que estudaram



7 O historiador polonês Bronislaw Geremek é autor de Os marginais parisienses nos sécs. XIV e XV; de A
piedade e a forca e de outras obras importantes.
as atitudes diante da morte (ARIÉS, VOVELLE), mas situa sua principal coordenada
                                 
                                                                  em uma história social da cultura inspirada no historiador marxista Edward
                                                                  Thompson. (MORAES; REGO, 2001, p. 329-330).
Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:..




                                                                  Psicoistória
                                                                  Será oportuno discutir, em seguida, um campo ou subespecialidade da História
                                                                  que por vezes se torna muito próximo da história das mentalidades: a psicoistória.
                                                                  Esse campo mostra-se definido ou atravessado por preocupações oriundas da
                                                                  Psicologia e por conceitos de diversos tipos, desenvolvidos no interior desse
                                                                  campo do saber. O historiador das mentalidades Jean Delumeau, por exemplo,
                                                                  lança mão, em alguns momentos, de conceitos elaborados por Wilhelm Reich e
                                                                  Erich Fromm.

                                                                  Reich e Fromm desenvolveram noções que ainda poderão ser utilizadas
                                                                  futuramente pelos historiadores. O primeiro envidou esforços no sentido de
                                                                  estabelecer a conceituação de um “caráter social”, que se constituiria a partir de
                                                                  uma interação entre a ideologia e o inconsciente, aqui representado por certos
                                                                  padrões e alternativas de comportamento que seriam interiorizadas pelos
                                                                  indivíduos que vivem em sociedade.8 Além disso, Reich chama a atenção para o
                                                                  papel da família na formação do tipo caráter individual que sustentaria a ordem
                                                                  política e econômica da sociedade. (REICH, 1969).9 Conseqüentemente, sugere
                                                                  que deveríamos examinar a estrutura da família e suas práticas de criação dos
                                                                  filhos em uma época histórica para compreender como as realidades econômicas
                                                                  são traduzidas em política, ética e religião. Dito de outra forma, seria possível
                                                                  analisar as principais forças sociais presentes em determinada sociedade em
                                                                  função da situação familiar típica e da estrutura do caráter, o que toca pelos dois
                                                                  lados no projeto de alguns dos historiadores das mentalidades que estudaram a
                                                                  família e a criança, como Áries (1981).




                                                                  8 A idéia de que a ideologia torna-se psicologicamente internalizada ou fixada na estrutura de caráter do
                                                                  indivíduo aparece em Psicologia de massas do Fascismo. (REICH, 1933).
                                                                  9 É verdade que, em Reich, esse projeto permanece muito incipiente, já que, ao invés de empenhar-se em
                                                                  uma análise sistemática das diferentes estruturas históricas da família e de criação dos filhos, ele, grosso
                                                                  modo, reduz sua análise a dois tipos históricos básicos: o “patriarcado autoritário” e o “matriarcado tolerante”,
                                                                  fixando-se em 4000 a. C. a transição de um modelo a outro. Em todo caso, desconta-se o fato de que Reich
                                                                  não era historiador e nem tinha a erudição histórica de um Fromm.
Aprimorando o conceito de “caráter social”, Erich Fromm também se expressa




                                                                                                                     '
em termos de um “filtro condicionado socialmente”.10 O “filtro social” seria
constituído por uma série de elementos, como a linguagem, a lógica e os tabus




                                                                                                           Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
sociais, mas também por toda uma série de hábitos enraizados, de atitudes
automatizadas e de impulsos que dão origem a práticas culturais diversas. É
interessante comparar o conceito de caráter social em Fromm com a noção de
“mentalidade de época” que seria desenvolvida depois, no fim da década de
60, por alguns historiadores franceses ligados à Novelle Histoire. Para Fromm,
o caráter social corresponderia a “um núcleo da estrutura do caráter que é
inerente à maioria dos membros da mesma cultura, diferentemente do caráter
individual que varia entre as pessoas da mesma cultura”. (FROMM, 1959,
p. 78). Ou seja, existiria em qualquer sociedade uma estrutura única de caráter
que seria específica e comum à maioria dos grupos e classes que fizessem
parte desta sociedade.

Por outro lado, em outra oportunidade, Fromm reconhece a noção de que diferentes
classes dentro da sociedade tenham um determinado caráter social sob cuja
base diferentes idéias podem se desenvolver e adquirir força. (FROMM, 1964,
p. 279). Para além disso, é importante ressaltar a adaptação de todas essas
noções aos princípios fundamentais do materialismo histórico, dos quais esse
teórico, ligado à Escola de Frankfurt, parte primordialmente. Para Fromm, “o
caráter social é elo entre a estrutura econômico-social e as idéias e ideais que
ganharam difusão na sociedade”, e sua influência exerce-se nas duas direções:
da base econômica às idéias e das idéias à base econômica – o que se sintoniza
com a flexibilização do determinismo histórico que foi encaminhada por diversos
autores marxistas importantes do século XX. (FROMM, 1963, p. 93).

Reich e Fromm, para não falar em Freud, são apenas dois dos muitos autores
que têm exercido alguma influência nos historiadores, ainda poucos, os quais
têm buscado constituir um campo novo a partir da interconexão entre História
e Psicologia. Seria essa exploração mais sistemática de diversificadas noções
e conceitos desenvolvidos no âmbito da Psicanálise o que poderia distinguir
mais propriamente a psicoistória (ou a psicologia histórica) da história das
mentalidades, já que o terreno em que ambas se movimentam seria, a princípio,
o mesmo.



10 O conceito de “filtro socialmente condicionado” é introduzido por Fromm para se referir à formação de
um “inconsciente social” mais amplo. (FROMM, 1963, p. 125).
Vale lembrar, para citar um exemplo, que tem influenciado mais incisivamente os
                                 
                                                                  historiadores da atualidade, que o sociólogo-historiador (e médico) Norbert Elias
                                                                  também percorreu caminhos similares ao examinar a interiorização de certos
Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:..




                                                                  modos de agir e de sentir que passam a condicionar os indivíduos em sociedade.
                                                                  Embora sem indicar Freud como interlocutor, o sociólogo alemão vale-se por
                                                                  diversas vezes de noções oriundas do campo da Psicanálise – como as das
                                                                  “pulsões” – para embasar, já em 1939, seu mais célebre trabalho: O processo
                                                                  civilizador (1990). Trata-se de uma cuidadosa análise social que objetiva mostrar
                                                                  como a interiorização de certos hábitos é o contraponto psicossocial de um
                                                                  processo civilizador que foi se produzindo desde o período medieval, e que se
                                                                  instala gradualmente no Ocidente a partir de poderes centralizados em torno dos
                                                                  modernos estados nacionais.

                                                                  Em diversos aspectos, O processo civilizador tem ligações muito definidas com A
                                                                  sociedade de corte (1986),11 obra anterior em que Elias já havia estabelecido
                                                                  claramente os parâmetros do tipo de sociologia histórica que pretendia propor. A
                                                                  idéia é examinar, explica ele na introdução dessa última obra, não os indivíduos
                                                                  do passado histórico tomados como únicos em si mesmos e como possuidores
                                                                  de uma expressiva liberdade para agir no mundo histórico (tendência que Elias
                                                                  sugeria ser a dos historiadores alemães de seu tempo), mas a rede de
                                                                  interdependências e condicionamentos que inscreveriam todos esses seres
                                                                  humanos em sociedade. Isso explica, aliás, a atualidade da obra de Elias: no
                                                                  decurso do século XX foi se afirmando cada vez mais uma historiografia que se
                                                                  opunha precisamente ao historicismo criticado pelo sociólogo alemão, tanto no
                                                                  que se refere ao surgimento da vertente francesa, inaugurada pela chamada
                                                                  Escola dos Annales, como por meio dos novos desenvolvimentos historiográficos
                                                                  inscritos no materialismo dialético. Assim a sociologia histórica proposta por
                                                                  Elias – diretamente preocupada com as determinações que impõem um limite
                                                                  aos destinos pessoais – foi sendo identificada cada vez mais com uma História
                                                                  que avançou na mesma direção nas suas inúmeras modalidades.

                                                                  É interessante constatar, aliás, que mesmo no período pós-Annales e pós-No-
                                                                  velle Histoire, marcado por novos desenvolvimentos como a microistória, uma
                                                                  obra como A sociedade de corte continua a mostrar-se sintonizada com alguns
                                                                  dos mais recentes caminhos historiográficos. O que se faz nesta obra, senão


                                                                  11 Embora a sua primeira publicação somente tenha ocorrido em 1969, essa obra é anterior a O processo
                                                                  civilizador, já contando com uma edição praticamente definitiva em 1933.
tomar um universo microrrecortado – a corte dos reis de França entre Francisco I




                                                                                                
e Luís XIV com todo o seu sistema ritualizado pela etiqueta – para, a partir daí,
examinar a rede de relacionamentos e imposições de comportamento que passam




                                                                                      Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
a constranger os indivíduos, produzindo, de um lado, estratégias daqueles que
são obrigados a se movimentar nesse sistema, e, de outro, automatismos a
serem decifrados pelos sociólogos e historiadores? O que se faz nesta obra,
ainda, senão uma tentativa de apreender a sociedade do Antigo Regime a partir
dessa formação social mais específica que é a “corte principesca”, oferecendo
àqueles que puderem decifrá-la as chaves para compreender padrões de
comportamento que se difundem para a sociedade mais ampla?

Para utilizar um comentário pertinente de Roger Chartier, que tomaria mais tarde
a obra de Elias como um dos modelos de sua história cultural, é possível dizer
que o que o sociólogo alemão está propondo é precisamente “estabelecer as
leis de funcionamento das formas sociais a partir de um exame minucioso de
uma de suas atualizações históricas”. (CHARTIER, 1990, p. 91-119). Trata-se,
então, de dar uma tríplice utilidade a este estudo de caso: por um lado utilizando-
o para compreender certos aspectos do Antigo Regime; por outro, aproveitando-
o para investigar, a partir das comparações com que Elias enriquece o livro, se
uma formação social como a “corte” produziria efeitos similares em outras
sociedades; por fim – e é este o aspecto que nos interessa mais especificamente
nesta seção em que estamos abordando a psicohistória – Elias propõe-se a
examinar a função da corte em um processo de civilização que transforma
radicalmente a economia psíquica dos homens entre os séculos XII e XIII.

O objetivo central de O processo civilizador também se enquadra perfeitamente
nesse campo intradisciplinar que poderia ser definido como uma psicoistória, ou
nesses interstícios situados entre a História e a Psicologia (e que Elias pretendia
inscrever no interior do campo sociológico). Trata-se de investigar, nessa obra de
1939, a variação das normas de agressividade no tempo e de examinar como
essas normas se refinam (ou civilizam-se) de modo a transferir um controle que
antes era exercido de fora para um espaço intra-individual e intersubjetivo onde o
indivíduo entroniza as regras e interdições sociais até que passa a agir
automaticamente, de maneira autocoativa. Dito de outro modo, o que Elias está
estudando nesse livro é a formação de um psiquismo específico no homem
ocidental, que está precisamente ligado a motivações socioistóricas.

Na verdade, o enquadramento de O processo civilizador em um campo que poderia
ser definido como uma psicoistória é autorizado pelo próprio Elias, já que no
segundo volume dessa obra ele reclama precisamente a constituição de uma
                                                                  ciência humana que ainda não existia, e que poderia ser chamada “psicologia
                                                                  histórica”, vindo essa a ocupar o vazio produzido pelo abismo que separa uma
Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:..




                                                                  História não-psicologizada de uma Psicologia que recusa a si mesma pensar
                                                                  historicamente seus objetos. (ELIAS, 1990):

                                                                           Exatamente porque o psicólogo pensa não-historicamente, porque aborda as es-
                                                                           truturas psicológicas dos homens de nossos dias como se fossem algo sem
                                                                           evolução ou mudança, os resultados de suas investigações de pouco servem ao
                                                                           historiador. E porque, preocupado com o que chama de fatos, evita problemas
                                                                           psicológicos, o historiador pouco tem a dizer ao psicólogo (p. 234).

                                                                  É esse diálogo de surdos, onde psicólogos e historiadores habitam constelações
                                                                  teóricas separadas por anos-luz de incompreensão mútua, o que Elias propõe-se
                                                                  a superar. A Psicologia Social Histórica, tal como a define o sociólogo alemão em
                                                                  outro passo de O processo civilizador, deveria produzir estudos simultaneamente
                                                                  psicogenéticos e sociogenéticos. E é isso o que Elias realiza efetivamente com
                                                                  suas obras.

                                                                  Elias foi, na verdade, um crítico contumaz da Psicanálise enquanto campo de sa-
                                                                  ber até então redutor e habitualmente tendente à não-historicização. Criticou-lhe –
                                                                  além da a-historicidade – a utilização dos conceitos de Ego, Id e Superego para
                                                                  identificar compartimentos separados da mente humana, propondo, ao contrário,
                                                                  uma atenção especial às relações entre esses três conjuntos de funções psico-
                                                                  lógicas. Seu objetivo era investigar as relações entre os sentimentos controlados
                                                                  pelos indivíduos humanos e aquelas agências controladoras da psique, mas cha-
                                                                  mando a atenção para o fato de que a estrutura média ou habitual dessas agências
                                                                  controladoras (ego, superego) vai se transformando no decurso de um processo
                                                                  civilizador como aquele que foi sendo produzido socialmente no Ocidente, na medida
                                                                  em que se sofisticava e se transmudava a rede de interdependências humanas.
                                                                  Introduzir simultaneamente uma abordagem social e uma profunda consciência
                                                                  histórica no âmbito da Psicologia foi a sua pedra de toque.

                                                                  Da mesma forma, Elias foi crítico arguto da historiografia alemã de sua época,
                                                                  seja a associada àquele tipo de história das idéias que almejava investigar o
                                                                  pensamento humano desencarnado de sua sociedade, seja a historiografia
                                                                  que, a título de examinar a sociedade nas suas relações concretas, acabava
                                                                  por abstrair essa sociedade de um universo mental que constitui parte funda-
                                                                  mental de sua própria vida. Romper o isolamento injustificável entre esses
                                                                  dois tipos de História, e reinstaurar o diálogo de uma História simultaneamente
mental e concreta com a disciplina Psicologia – esse foi um dos seus projetos




                                                                                                 !
mais pessoais, vindo a se constituir em uma contribuição decisiva para esse
campo que rigorosamente nem começou ainda a se formar, mas que desde já




                                                                                       Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
poderemos chamar psicoistória.

Os maiores riscos que rondam a psicoistória envolvem, de um modo ou de outro,
os chamados “perigos do Anacronismo”. O que é Anacronismo? Em primeiro
lugar, é preciso considerar que o historiador, ao examinar uma determinada
sociedade localizada no passado, está sempre operando com categorias de seu
próprio tempo (mesmo que ele não queira). Daí aquela célebre frase de Benedetto
Croce, que dizia que “toda história é contemporânea”. Isso quer dizer que mesmo
a História Antiga e a História Medieval são histórias contemporâneas, porque
feitas pelos historiadores de nosso tempo (e voltadas para leitores de nosso
tempo). Há uma tensão muito delicada que envolve essa inarredável característica
do trabalho historiográfico: por um lado, o historiador deve conservar a consciência
de que trabalhará com as categorias de seu tempo (as únicas que lhe serão
possíveis), mas de outro deverá evitar que essas categorias deturpem as suas
possibilidades de compreender os homens do passado, que tinham as suas
próprias categorias de pensamento e de sensibilidade. Por exemplo, os métodos
que um historiador emprega serão sempre métodos seus, desenvolvidos na sua
própria época: ele poderá empregar os recursos da análise semiótica, somente
desenvolvidos recentemente, para examinar fontes da história antiga ou me-
dieval; e poderá elaborar novos conceitos, somente tornados possíveis no seu
tempo, para iluminar uma época anterior à sua.

Não há o menor problema nesses usos. Aliás, é precisamente o uso de novas
técnicas, conceitos e modos de ver uma realidade passada o que assegura que
a História de uma determinada época deverá ser sempre recontada. A questão
do anacronismo é muitas vezes mal-interpretada. Não tenho por que me
constranger de utilizar a expressão “ataque cardíaco” para uma morte desse
tipo, ocorrida na Antiguidade greco-romana ou na Idade Média somente porque
os homens de então se referiam a esses males como “mal súbito”.

O que não posso é dizer que um determinado grupo de mulheres daquela época,
dadas suas atitudes de resistência ao controle masculino em um tempo em que
essas resistências não eram esperadas, fossem “feministas”. O erro, nesse
caso, está em que estou lhes atribuindo uma categoria de pensamento que
somente surgiu nas mulheres do século XX – à luz de uma equivalente conquista
de direitos políticos e de obtenção de espaço social e profissional – e transferindo
isso para uma época em que o discurso feminista simplesmente não existia. O
                                 
                                                                  discurso feminista é datado e, na verdade, inseparável das condições de seu
                                                                  surgimento e perpetuação. Se quero tentar compreender as mulheres da
Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:..




                                                                  Antiguidade e da Idade Média que resistiram à sociedade misógina de sua época,
                                                                  devo tentar perceber como elas viam o mundo, através de que categorias de
                                                                  pensamentos, a partir de que práticas e representações. Devo examinar, além
                                                                  disso, a excepcionalidade ou não do comportamento deste ou daquele grupo,
                                                                  que sentido os componentes desse grupo atribuíam aos seus próprios discursos.
                                                                  Devo refletir longamente sobre as suas palavras (que certamente não incluirão a
                                                                  expressão “porco chauvinista”). Metaforicamente falando, deverei sintonizar,
                                                                  nesse caso, essa singular estação que é a mulher antiga ou a mulher medieval,
                                                                  sempre com a consciência de que deverei apreender um idioma estrangeiro,
                                                                  diferente do meu.

                                                                  Muitas vezes, alguns historiadores de nosso tempo, que aprendem desde cedo
                                                                  na academia que o maior pecado para um historiador é o do anacronismo, quase
                                                                  parecem se sentir tentados a mandar confeccionar um manto medieval para
                                                                  depois se encerrarem nos seus gabinetes de estudo com uma roupa apropriada
                                                                  para iniciar uma investigação sobre a ordem medieval dos templários. Não é isso
                                                                  o que os libertará dos riscos do anacronismo, e nem um eventual horror a utilizar
                                                                  categorias teóricas contemporâneas na hora de analisar uma fonte histórica. Se
                                                                  assim fosse, a própria discussão sobre a possibilidade de diálogo entre a História
                                                                  e a Psicologia, ou entre a História e a Semiótica para citar um outro campo de
                                                                  possibilidades, seria inviável, já que não existiam esses campos de saber naquelas
                                                                  épocas mais remotas (e já que, rigorosamente, a própria História não existia da
                                                                  maneira como hoje concebemos esse campo do conhecimento).

                                                                  O que o historiador não deve fazer, com vistas a evitar os riscos do anacronismo,
                                                                  é inadvertidamente projetar categorias de pensamento que são somente suas e
                                                                  dos homens de sua época nas mentes das pessoas de uma determinada
                                                                  sociedade ou de um determinado período. Para compreender os pensamentos
                                                                  de um chinês da época dos mandarins, terei de me avizinhar dos códigos que
                                                                  (tanto quanto me for possível perceber) regeriam o universo mental dos chineses.
                                                                  Esse exercício de compreender o “outro chinês” é que tem que ser feito. Mas
                                                                  não é a análise que tem de ser chinesa.

                                                                  Compreendido isso, poderemos retornar agora aos problemas do diálogo entre
                                                                  História e Psicologia. Febvre, em um texto visionário, deixou registrado um alerta
                                                                  que poderemos reproduzir literalmente aqui, já que diz tudo:
Muito já dissemos para mostrar que, se evitarmos projetar o presente, o nosso
           presente, no passado; se rejeitarmos o anacronismo psicológico, o pior de todos, o




                                                                                                                 #
           mais insidioso e o mais grave; se pretendermos esclarecer todas as atitudes das
           sociedades e, inicialmente, suas atitudes mentais, pelo exame de suas condições




                                                                                                       Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
           gerais de existência – é evidente que não poderemos considerar como válidas, para
           esse passado, as descrições e constatações de nossos psicólogos, operando sobre
           dados que nossa época lhes fornece. É também evidente que uma psicologia histórica
           verdadeira só será possível pelo acordo, negociado claramente, do psicólogo com o
           historiador. Este orientado por aquele. Mas aquele claramente tributário do primeiro, e
           obrigado a procurá-lo, para criar suas condições de trabalho. Trabalho em colaboração.
           Trabalho em equipe, para falar mais claramente. (1953, p. 207-215).

A psicoistória, enfim, mostra-se um campo promissor, que requer naturalmente
os seus cuidados. Uma última tentação a evitar nos trabalhos que poderiam ser
enquadrados pela psicoistória é a de pretender psicanalisar os homens do
passado, como se pudessem “deitar-se no divã de um hipotético historiador
psicanalista”.12 Naturalmente, sabe-se que o processo psicanalítico, pelo menos
no sentido freudiano, necessita ser construído a partir de um discurso interativo
com o “outro” – o que seria impossível no caso dos atores sociais do passado
que nos chegam por meio das fontes.

Para citar um último conjunto de historiadores que têm investido na conformação
de uma ainda incipiente psicoistória, poderemos registrar que também entre os
historiadores ligados à herança dos Annales começaram a surgir, no fim do século
XX, algumas contribuições importantes. Desses, talvez o mais entusiasmado
com as possibilidades de diálogo com a Psicanálise seja Alain Besançon, que já
em 1974 escreveu um texto sobre o inconsciente para a obra coletiva da Nova
História coordenada por Pierre Nora e Jacques Le Goff. (1988, p. 234). Fora do
circuito francês, o grande marco nas tentativas de repensar as relações entre
História e Psicanálise está registrado na obra Freud para historiadores (1985),
de Peter Gay (1989). E a sua própria série de obras sobre os padrões de afetividade
e sexualidade na época vitoriana dá uma idéia dos caminhos possíveis a partir
desse diálogo. (GAY, 1988).




12 Essa imagem foi utilizada ironicamente por Le Roy Ladurie, que também dialoga eventualmente com a
teoria psicanalítica (LADURIE, 1974, p. 284).
História do imaginário
                                 $


                                                                  Os novos objetos que audaciosamente os historiadores das últimas décadas do
Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:..




                                                                  século XX passariam a explorar, tal como se disse, não se tornaram de modo
                                                                  algum monopólios da historiografia das mentalidades. Ainda explorando os
                                                                  caminhos da cultura e também o universo mental das sociedades, poderemos
                                                                  delimitar agora as bases de um campo que pode ser definido como uma história
                                                                  do imaginário – investimento historiográfico que começa por abrir mais uma
                                                                  alternativa à investigação daqueles objetos historiográficos que até então haviam
                                                                  sido seara, praticamente exclusiva, da história das mentalidades.

                                                                  A história do imaginário estuda essencialmente as imagens produzidas por uma
                                                                  sociedade, mas não apenas as imagens visuais, como também as imagens verbais
                                                                  e, em última instância, as imagens mentais. O imaginário será aqui visto como
                                                                  uma realidade tão presente quanto aquilo que poderíamos chamar “vida concreta”.
                                                                  Essa perspectiva sustenta-se na idéia de que o imaginário é também reestruturante
                                                                  em relação à sociedade que o produz. Assim, basta lembrar como um exemplo
                                                                  entre outros que, na Idade Média, muitos se engajaram nas Cruzadas menos por
                                                                  razões econômicas ou políticas (embora estas sejam sempre evidentes) do que
                                                                  em virtude de um imaginário cristão e cavaleiresco. O imaginário mostra-se, dessa
                                                                  forma, uma dimensão tão significativa das sociedades humanas quanto aquilo
                                                                  que corriqueiramente é encarado como a realidade efetiva.

                                                                  A elaboração de um conceito (ou de uma noção) de imaginário para as Ciências
                                                                  Humanas deve muito a Cornelius Castoriadis, cuja obra de referência é A instituição
                                                                  imaginária da sociedade (1982), e a historiadores como Le Goff e Duby.13 Não
                                                                  devem ser desprezadas as contribuições antropológicas, como as de Gilbert
                                                                  Durand em As estruturas antropológicas do imaginário (DURAND, 1989), embora
                                                                  o historiador deva estar atento a um tratamento por vezes a-histórico que
                                                                  transparece nesse livro. Todavia, como registro de um repertório milenar de
                                                                  imagens, devidamente interconectadas, essa obra é imprescindível.

                                                                  A noção de imaginário é polêmica. Por um lado, ela conserva interfaces com a
                                                                  noção de “representação” e, em algumas situações, os campos originados por
                                                                  esses dois conceitos se invadem reciprocamente. Le Goff destacava que “o


                                                                  13 Um marco para o delineamento de uma história do imaginário é o prefácio de Le Goff para a sua
                                                                  coletânea de textos relativos a essa especialidade historiográfica (1980).
imaginário pertence ao campo da representação, mas ocupa nele a parte da tradução




                                                                                                   %
não reprodutora, não simplesmente transposta em imagem do espírito, mas criadora,
poética no sentido etimológico da palavra”. (LE GOFF, 1980, p. 12). Para o historiador




                                                                                         Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
francês, como aliás para Castoriadis em sua obra pioneira sobre A invenção
imaginária da sociedade, o imaginário não pode ser examinado como algo estático.
De certo modo, marca-se aqui uma distância em relação à noção de “mentalidade”,
que evoca uma idéia maior de imobilidade ou de permanência em uma duração
mais longa. Mas a isso voltaremos oportunamente.

Por ora, consideraremos o imaginário como um sistema ou universo complexo e
interativo que abrange a produção e circulação de imagens visuais, mentais e
verbais, incorporando sistemas simbólicos diversificados e atuando na construção
de representações diversas. De acordo com essa definição, existe uma interface
possível do imaginário não apenas com o campo das “representações”, mas
também com o âmbito dos “símbolos”. Nesse sentido, deveremos lembrar que
é possível se falar em “simbólico” apenas quando um objeto, uma imagem ou
uma representação são remetidos a uma dada realidade, idéia ou a um sistema
de valores que se quer tornar presente (a espada como símbolo da justiça). Uma
imagem, portanto, pode se ver revestida de significado simbólico, conforme
veremos adiante com o exame de algumas imagens apropriadas politicamente.

A noção de imaginário, de qualquer modo, é complexa e aberta a sentidos
diferenciados, o que não impede que tenha gerado uma dimensão historiográfica
importante. Para encontrar uma obra precursora no campo da historiografia, devemos
ir ao clássico de Johannes Huizinga, escrito em princípios do século XX e traduzido
para o português com o título O declínio da Idade Média (1978). Nessa obra, o
historiador holandês circula livremente entre as imagens visuais e verbais
perceptíveis através da produção cultural das sociedades franco-flamengas de fins
da Idade Média, antecipando, em décadas, um campo histórico que somente
passaria a receber uma atenção mais sistemática dos historiadores a partir da
década de 70. Suas fontes são constituídas tanto de textos literários como de
obras iconográficas. Adicionalmente, Huizinga também toca na questão de
determinados modos de sentir que seriam comuns a todos os homens medievais,
o que o coloca também como um precursor da história das mentalidades.

Tal como se disse, os primeiros domínios históricos a serem percorridos pela
moderna história do imaginário coincidiram de certa forma com aqueles que
começaram a ser desbravados pelos historiadores das mentalidades na década
de 60. Ginzburg, por exemplo, ocupou-se de recuperar um imaginário das práticas
de feitiçaria em Os andarilhos do bem (1991). Todavia, embora existam alguns
                                 
                                                                  objetos em comum, a história do imaginário guarda alguma distância em relação
                                                                  à história das mentalidades.
Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:..




                                                                  Essa última está muito associada à idéia de que existe em qualquer sociedade
                                                                  algo como uma “mentalidade coletiva”, que para alguns seria uma espécie de
                                                                  estrutura mental que somente se transforma lenta, às vezes dando origem a
                                                                  permanências que se incorporam aos hábitos mentais de todos os que participam
                                                                  da formação social (apesar de transformações que podem estar se operando
                                                                  rapidamente nos planos econômico e político).

                                                                  A história do imaginário não se ocupa propriamente dessas longas durações nos
                                                                  modos de pensar e de sentir, mas da articulação das imagens visuais, verbais e
                                                                  mentais com a própria vida que flui em uma determinada sociedade. Foi o que Le
                                                                  Goff pretendeu fazer em sua obra O nascimento do purgatório (1990), em que
                                                                  busca investigar a mútua interação entre o imaginário religioso medieval e a
                                                                  sociedade que o produziu.

                                                                  Por outro lado, nota-se que, em geral, os historiadores das mentalidades estão
                                                                  sempre no encalço de algo que, grosso modo, é bem mais abstrato do que as
                                                                  imagens bem definidas investigadas pelos historiadores do imaginário. A história
                                                                  das mentalidades busca captar modos coletivos de sentir (a história de um
                                                                  sentimento como o “medo”), padrões de comportamento e atitudes recorrentes
                                                                  (os complexos mentais e emocionais que estão por trás das crenças e práticas
                                                                  da feitiçaria, as atitudes do homem diante da morte). Já a história do Imaginário
                                                                  volta-se para objetos mais definidos: um determinado padrão de representações,
                                                                  um repertório de símbolos e imagens com a sua correspondente interação na
                                                                  vida social e política, o papel político ou social de certas cerimônias ou rituais, a
                                                                  recorrência de determinadas temáticas na literatura, a incorporação de hierarquias
                                                                  e interditos sociais nos modos de vestir, a teatralização do poder.

                                                                  Uma pequena comparação de casos poderá contribuir para clarificar a questão.
                                                                  Na História do medo no Ocidente, de Delumeau, procura-se captar um complexo
                                                                  de medos que faziam parte da constituição da mentalidade coletiva do homem
                                                                  ocidental, considerando-se um período de longa duração que tem seus primórdios
                                                                  na Idade Média e que o autor examina até o século XVIII.

                                                                  Habituados a um mundo rural fechado em redes senhoriais e controles privados,
                                                                  que somente conheceria uma reintensificação do comércio a partir do século XII
e que, mesmo nesse processo de reurbanização, será um mundo de cidades




                                                                                              '
muradas e de castelos fortificados ou acostumados desde a mais tenra infância
a partilhar a vida diária entre as permanências pagãs e um sobrenatural religioso




                                                                                    Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
cristão; assaltados outras vezes pela peste e pelas invasões de povos que lhes
pareciam bárbaros, os homens medievais desenvolveram uma série de medos
que eram partilhados pela totalidade social. Apesar das transformações políticas
e sociais a partir do século XIII, os homens da Baixa Idade Média e do princípio
do período moderno haviam herdado permanências seculares, que só poderiam
ser alteradas em ritmos muito lentos ou então sob estímulo de alguns dos
acontecimentos traumáticos do princípio dos tempos modernos.

Para resumir o complexo de medos ocidentais rastreados por Delumeau, pode-
remos mencionar o medo do mar, o medo do desconhecido, o medo da noite, o
medo das florestas não-desbravadas que constituíram verdadeiras fronteiras
internas ainda nos tempos feudais, o medo dos leprosos e da Peste Negra, e
sobretudo o medo do “outro” – que podia se voltar contra os judeus, contra os
muçulmanos, contra as bruxas ou contra os simples forasteiros. Medo, por fim,
do Diabo – a quem os vários “outros” eram constantemente assimilados.

Esses medos só a custo foram sendo vencidos quando o homem ocidental co-
meçou e continuou a desbravar as suas florestas internas, quando se lançou às
grandes viagens oceânicas, ou à aventura do intercâmbio com povos os mais
diversos, ou mesmo quando começou a decifrar racionalmente uma natureza
que até então lhe parecera enigmática e mesmo assustadora. Os desbravadores
que se lançavam a outras terras como Marco Polo, como os alquimistas que
queriam decifrar o mundo natural e sobrenatural, como os novos comerciantes
de longo curso, como os cruzados ou como os missionários, eram pessoas que
enfrentavam e lutavam contra esses vários medos coletivos.

A caminhada para a modernidade aparece, assim, como uma trajetória de supe-
ração desses medos seculares, talvez em direção a novos medos a serem inven-
tados de acordo com as circunstâncias histórico-sociais. Essas longas perma-
nências no âmbito dos modos de sentir – produtoras de medos coletivos que em
algumas ocasiões eram manipulados pelos donos do poder – são tratadas por
Delumeau como mentalidades.

Em que objetos está interessado o historiador nesse caso? Busca compreender
os medos coletivos que aparecem aqui como “modos de sentir” a serem parti-
lhados por todos e que, além de ocuparem uma longa duração, estendem-se por
todos os espaços – não a uma pequena aldeia, ou sequer à França, mas ao
                                 !
                                                                  Ocidente cristão. Mais ainda, esses modos de sentir atravessam as classes,
                                                                  passam a se insinuar na análise do historiador como elementos constituintes da
Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:..




                                                                  estrutura mental dos homens de toda uma época.

                                                                  Um historiador do imaginário estaria menos interessado nesses modos coletivos
                                                                  de sentir do que nas imagens socialmente produzidas, mesmo que em alguns
                                                                  casos essas imagens sejam produzidas por padrões coletivos de sentimento e
                                                                  de sensibilidade.

                                                                  Quando um autor como Claude Kappler escreve a sua obra sobre Monstros,
                                                                  demônios e encantamentos no fim da Idade Média (KAPPLER , 1994) – portanto
                                                                  abordando um recorte análogo e objetos muito próximos dos de Jean Delumeau –
                                                                  está muito particularmente interessado nas imagens e nos seus usos, no inventário
                                                                  de fenômenos prodigiosos que assaltam a imaginação dos homens medievais, na
                                                                  tipologia de monstros que se espalha pelos seus bestiários e que têm algo a dizer
                                                                  sobre o contexto social em que foram produzidas, nas visões cosmográficas a
                                                                  partir das quais eram estabelecidas representações da Terra e do Universo, trazendo
                                                                  o Paraíso para um ponto qualquer no Oriente ou no topo do mundo.

                                                                  É verdade que Kappler trabalha também com a perspectiva de uma longa
                                                                  permanência medieval, e por isso dialoga, em um de seus capítulos, com a
                                                                  história das mentalidades. Mas isso é circunstancial ao seu objeto – já que,
                                                                  conforme veremos, as imagens, as cosmovisões e os símbolos podem ser
                                                                  produzidos também por circunstâncias políticas, por necessidades sociais e até
                                                                  locais, por artimanhas da poesia e da literatura, por arquitetura política pensada
                                                                  ou intuída, ou podem mesmo ser ocasionadas por grandes eventos que caem
                                                                  como raios na vida das sociedades. Durante o período Nazista, na Alemanha do
                                                                  século XX, por exemplo, um rico imaginário foi construído em poucas décadas
                                                                  em torno da suástica, da imagem do super-homem de raça pura, da simbologia
                                                                  do Reich e do papel do Führer no centro ou no topo desse imaginário político, um
                                                                  imaginário que aflora repentinamente, mesmo que recolhendo materiais seculares
                                                                  como as idéias pan-germanistas e as hostilizações anti-semitas.

                                                                  Mas deixemos por ora os demônios do século XX e voltemos aos de Kappler – ao
                                                                  seu imaginário de monstros, demônios e encantamentos da Idade Média. Que
                                                                  esse historiador está embriagado de imagens nas suas motivações historiográficas
                                                                  fica bem claro nas primeiras frases de seu trabalho. Ele nos conta que a idéia de
                                                                  seu livro germinou da contemplação das pinturas de Jerônimo Bosch – pintor
renascentista que muitas vezes contrasta com seus contemporâneos pela profusão,




                                                                                                  !
em seus quadros, de um imaginário iconográfico riquíssimo onde abundam os
monstros, os seres fantásticos, os prodígios, as referências a um sobrenatural




                                                                                        Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
mágico. Enquanto Delumeau está fascinado pela persistência de um modo de
sentir, Kappler está fascinado pelos modos de imaginar, de representar, de viver
entre imagens visuais e verbais construídas pelos homens medievais.

Alguns talvez considerem a obra de Kappler sobre os monstros medievais um
tanto descritiva, como se o seu objetivo principal fosse apenas o de inventariar
um vasto universo de imagens que hoje causam estranhamento ou curiosidade.
Descrever a imagem pela imagem é uma das tentações da história do imaginário.
Mas convenhamos: uma história descritiva pode ser elaborada em qualquer uma
das dimensões que estamos estudando: um historiador econômico pode se limitar
a descrever os ciclos e as flutuações de preços em um determinado período, e
um historiador demográfico pode reduzir o seu trabalho à apresentação de curvas
demográficas e de dados sobre uma população de determinado local e época. A
história descritiva (como a história factual, que é a sua contrapartida entre os
historiadores que se comprazem em narrar uma seqüência de eventos), pode ser
sempre confrontada com uma história-problema. Problematizações interessantes
podem ser elaboradas em todas as dimensões e domínios historiográficos, com
os mais diversificados métodos e abordagens.

O historiador do imaginário começa a fazer uma história problematizada quando
relaciona as imagens, os símbolos, os mitos, as visões de mundo a questões
sociais e políticas de maior interesse – quando trabalha os elementos do ima-
ginário não como um fim em si mesmos, mas como elementos para a compreensão
da vida social, econômica, política, cultural e religiosa. O imaginário deve fornecer
materiais para o estabelecimento de inter-conexões diversas. Estão aí as obras
de Le Goff mergulhando nas estruturas sociais através das imagens do Purgatório,
ou de Duby compreendendo a visão tripartida da sociedade através do imaginário
do feudalismo.

Esse contraste entre a busca de modos de sentir mais abstratos (medo, pavor
da morte, afetos) e a intenção de decifrar a profusão de imagens visuais, verbais
e mentais pode esclarecer algumas das fronteiras e dos pontos de contato entre
a história das mentalidades e a história do imaginário. Com base no que até aqui
discutimos (pois a questão não se resume a isso, postulamos que a famosa
obra em que Marc Bloch estuda Os reis taumaturgos (1993) é muito mais uma
precursora da história do imaginário do que de uma história das mentalidades.
O que Bloch está examinando, nesse caso, é a persistência de um determinado
                                 !
                                                                  imaginário régio, de uma determinada crença popular em um aspecto muito
                                                                  específico e delineado que seria a capacidade dos reis franceses e ingleses de
Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:..




                                                                  duas dinastias medievais de curarem com um simples toque as “escrófulas”
                                                                  (sintomas visíveis de doenças pouco conhecidas na época). Bloch decifra
                                                                  precisamente a imagem do “rei taumaturgo” e a sua apropriação política,
                                                                  investigando rituais e simbologias que com ela estariam relacionados. Não é,
                                                                  portanto, um modo genérico de sentir o que ele busca rastrear, mas a história de
                                                                  uma crença muito bem delineada e atrelada aos universos político e social de sua
                                                                  época, com base em um imaginário que tem uma história e que foi se entranhando
                                                                  na maneira medieval de conceber uma realeza que dialoga com a sacralidade.

                                                                  De modo geral, a diferença entre história das mentalidades e história do imaginário
                                                                  acaba por produzir uma tendência a abordagens distintas. Não raro, chega-se às
                                                                  mentalidades de maneira indireta, freqüentemente através de indícios, de detalhes
                                                                  que são reveladores de atitudes coletivas e de modos de sentir comuns a toda
                                                                  uma sociedade. Já o imaginário pode ser, muitas vezes, apreendido por uma
                                                                  análise mais direta do discurso, seja um discurso verbal, seja visual, empregando,
                                                                  para tal, desde análises topológicas até recursos semióticos (e também métodos
                                                                  iconográficos e iconológicos para o caso das imagens visuais).

                                                                  A independência de uma história do imaginário em relação a uma história das
                                                                  mentalidades propriamente dita não impede que alguns historiadores tenham
                                                                  atuado na articulação entre essas duas dimensões, como foi o caso do historiador
                                                                  das mentalidades Vovelle, que, em um mesmo trabalho historiográfico buscou,
                                                                  perceber tanto os padrões de sensibilidade do homem diante da morte como as
                                                                  formas simbólicas que os acompanham.

                                                                  Vale a pena registrar essa interconexão entre mentalidades e imaginário
                                                                  percorrida com sucesso pelo historiador francês. O ponto de partida é uma
                                                                  hipótese que se sustenta no conceito de mentalidade como estrutura de longa
                                                                  duração: teria ocorrido no Ocidente europeu do século XVIII (entre 1730 e
                                                                  1770) uma mudança radical na sensibilidade coletiva diante da morte e,
                                                                  na verdade, na sensibilidade religiosa em sentido mais amplo, uma vez que a
                                                                  partir desse período assiste-se ao que o historiador francês chama uma “des-
                                                                  cristianização”. (VOVELLE, 1981).

                                                                  Partindo de uma história das mentalidades, calcada em uma hipótese que encara
                                                                  a sensibilidade religiosa e mortuária do homem ocidental como uma estrutura de
longa duração que se desgasta mais aceleradamente a partir do século XVIII,




                                                                                                           !!
Vovelle chega a uma história do imaginário tanto pelo seu enfoque nas imagens,
nos símbolos e nas representações como pelo tipo de fontes iconográficas que




                                                                                                 Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
postula serem indispensáveis para a percepção de certos aspectos das
representações coletivas. (VOVELLE, 1981, p. 46). Dessa forma, abordando tanto
a iconografia dos cemitérios (imagens visuais) como as comunicações fúnebres
(imagens produzidas no âmbito da escrita), Vovelle revela o caminho percorrido:

         Todo um trabalho de decifração se impõe a partir de indícios frágeis. Escrutinando os
         ex-votos, o pesquisador medirá pacientemente a superfície, respectivamente do es-
         paço celeste de aparição e da cena terrestre; analisará, também, o gestual e o jogo
         dos olhares pelo qual se estabelece a ligação entre os dois universos. Analisando as
         representações do purgatório em sua evolução, sublinhará as mutações caracte-
         rísticas de um panteão de intercessores que, paulatinamente, vai se despovoando
         do século XVII ao século XVIII. (1981, p. 42).


Vovelle revela-se um verdadeiro mestre em suas investigações sobre a religio-
sidade e a morte – um mestre capaz de perceber o imaginário seja nos objetos
de cultura material, seja nas fontes iconográficas, seja em documentação escrita
como os testamentos. Examina altares e retábulos, mede o tamanho de velas!
Avalia as imagens verbais registradas nos epitáfios, seja para perceber as
fórmulas estereotipadas que indicam permanências, seja para surpreender
aquele detalhe revelador, aquela lenta emergência de novas imagens verbais a
denunciar simultaneamente a presença de um novo imaginário e de uma nova
sensibilidade diante da morte.

É preciso maestria para elaborar historiograficamente essas conversões da
informação visual em imagem mental, da informação escrita em imagem vi-
sual, ou para fazer a passagem do discurso contido nas fontes de cultura
material para o discurso verbal, e vice-versa. É a mesma maestria que nos
revela Ladurie, historiador que circula com a mesma desenvoltura entre uma
história da cultura material, uma história das mentalidades e uma história do
imaginário, conhecendo os segredos da conversão de um desses campos no
outro. Para justificar esses elogios, será bastante reproduzir um pequeno trecho
de suas fontes – documentos inquisitoriais que registram os depoimentos de
réus acusados de pertencerem à heresia cátara – e os subseqüentes comen-
tários do historiador, hábil em perceber, em um pequeno extrato textual, todo
um universo que abrange desde traços da cultura material de uma pequena
comunidade até os traços de sua “utensilhagem mental”, para utilizar uma
expressão de Febvre que Ladurie encampa conceitualmente:
[texto da fonte “Um dia [conta Guillemette Clergue, cujo marido é violento] eu
                                                                            texto     fonte]:
                                 !
                                                                           precisava de pedir emprestados alguns pentes para pentear o canhâmo e fui, para
                                                                           esse efeito, à casa de meu pai. E, quando aí cheguei, encontrei o meu irmão que
                                                                           tirava o esterco de casa. E perguntei ao meu irmão:
Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:..




                                                                           — Onde é que está a senhora minha mãe?
                                                                           — E que lhe quereis? replicou ele.
                                                                           — Quero alguns pentes, disse eu.
                                                                           — A nossa mãe não está aqui, concluiu o meu irmão. Foi à água. Só voltará daqui a
                                                                           um bom bocado.
                                                                            Não acreditei no meu irmão e tentei entrar em casa. Então, o meu irmão pôs o braço
                                                                           defronte da porta e impediu-me de entrar.”

                                                                           [comentário do historiador “Texto notável! A porta é estreita; foi barrada por um
                                                                            comentário       historiador]:
                                                                           simples braço de homem: a porta cheira a esterco; Alazais Rives, a mãe, é aguadeira
                                                                           da domus do seu homem, como todas as outras. Isto não impede que esta mamã
                                                                           muito vulgar tenha o direito ao título de Senhora (“minha senhora”!) por parte de sua
                                                                           filha Guillemette Clergue. Esta família é, por outro lado, um ninho de escorpiões; os
                                                                           laços são no entanto ritualizados. O irmão trata por vós a irmã, o que não o impede
                                                                           de ser brutal para com ela.” (LADURIE, 1983, p. 252).

                                                                  A partir de um registro verbal, aparentemente tão despretensioso, Ladurie traz à
                                                                  tona a materialidade das habitações, os seus cheiros, a labuta diária das mulheres
                                                                  oprimidas pelos maridos, a contradição entre a simplicidade dessas vidas e a
                                                                  formalidade respeitosa com que se tratam. Enfim, recupera-se, em um instantâneo
                                                                  notável, o material e o mental que se entrelaçam em torno das relações sociais
                                                                  rigidamente hierarquizadas e ritualizadas. As imagens irrompem através da
                                                                  verbalidade e chegam a exalar cheiros e concretudes materiais prontamente
                                                                  percebidas pelo historiador.

                                                                  Voltemos, contudo, aos esforços de explicitar os limites existentes entre o enfoque
                                                                  da história das mentalidades e o enfoque da história do imaginário. Ressalvados
                                                                  os significativos e eloqüentes exemplos de Vovelle e Ladurie, o encontro entre
                                                                  história do imaginário e história das mentalidades não é, em todo caso, obrigatório,
                                                                  sendo pertinente considerá-los como dois campos específicos. Se um circuito do
                                                                  imaginário social pode se formar lentamente, a partir de longas permanências e
                                                                  de uma dimensão mais diretamente derivada dos modos automáticos de pensar
                                                                  e de sentir – ou a partir das mentalidades, como diriam os historiadores que
                                                                  enfocam essa dimensão social – pode se dar também que um circuito imaginário
                                                                  seja produzido por necessidades ou por motivações políticas. Nesse caso, veremos
                                                                  que combinações da história do imaginário com outros campos são perfeitamente
                                                                  possíveis (por exemplo, entre uma história do imaginário e uma história política).
                                                                  Da mesma forma que existe um “imaginário religioso”, cada sociedade desenvolve
também o seu “imaginário político”, como aquele que Ernst Kantorowicz estudou em




                                                                                                   !#
Os dois corpos do rei (1998). A idéia presente na Inglaterra e na França do Antigo
Regime de que o “rei não morre jamais”, ou de que a própria sociedade constitui um




                                                                                         Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
“segundo corpo do rei”, pode estar, segundo o historiador polonês, interconectada
com um imaginário cristão e ao mesmo tempo com determinadas motivações políticas,
percebendo-se aqui uma rede de múltiplas interações a ser decifradas pelo historiador.

Em muitos casos, um circuito de elementos do imaginário social pode ser produzido
ou apropriado por circunstâncias políticas ou, tal como já mencionamos, mesmo
por uma arquitetura do poder. Também não são raros os casos em que o imaginário
encontra um leito em determinadas condições sociais, ou que se adapte a certas
motivações políticas. Na Espanha medieval do século XIII, os sábios e juristas do
rei Afonso X elaboraram a imagem de que “o rei é a cabeça, o coração e a alma
do reino”. Esse imaginário tem muito a ver com a maneira medieval de conceber
a sociedade como um organismo (que teria no rei a sua cabeça), mas tem a ver
também com uma determinada maneira de governar. Por que não somente a
cabeça, órgão que comanda de cima ou o coração, órgão que rege a vida de
dentro ou a alma, que está em toda a parte? O que está por trás dessa hábil
estratégia de unir essas três imagens em uma única metáfora?14 Um estudo
inserido na história do imaginário elabora perguntas dessa ordem.

Cada sociedade, ou cada sistema político, pode produzir do governante um
imaginário que lhe seja mais apropriado. À estruturação do poder absolutista francês
no século XVII, por exemplo, adaptou-se com muita eficácia a imagem do Rei-Sol
difundida por Luís XIV. Outrossim, a história nos oferece inúmeros imaginários
régios: o rei taumaturgo, o rei-sábio, o rei santo, apenas para citar alguns.

Os horizontes abertos por uma busca da compreensão do imaginário político
são, na verdade, inúmeros. Os modos como o poder é representado – por exemplo,
em termos de “centro” e de “periferia” – ou como a estratificação social, mate-
rializa-se em imagens como a de um espectro de alturas em que as classes
sociais mais favorecidas são chamadas “classes altas”... Eis aqui algumas
imagens sociais e políticas que podem passar a fazer parte da vida de uma
sociedade. Duby, por exemplo, buscou recuperar precisamente o imaginário que
está por trás dos padrões de organização da sociedade feudal em As três ordens
ou o imaginário do feudalismo (1971).


14 Essa questão é discutida em Barros (1999).
Mas a história do imaginário também pode seguir por outros caminhos. Existe o
                                 !$
                                                                  estudo mais direto das imagens visuais, perceptíveis, por exemplo, nas iconografias
                                                                  ou das imagens verbais empregadas na literatura – não propriamente para perceber
Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:..




                                                                  um fundo mental que as sustenta, como no caso dos já mencionados exemplos de
                                                                  Vovelle, mas para estudar essas imagens visuais e literárias em si mesmas. Nesse
                                                                  ponto, a história do imaginário partilha seus objetos com uma “história das imagens”
                                                                  propriamente dita ou com uma “história das representações”, que são, na verdade,
                                                                  “domínios da história” (ou seja, campos temáticos à disposição do historiador). São
                                                                  domínios que, naturalmente, também podem ser partilhados por uma história cul-
                                                                  tural. Vale ressaltar que, nesse caso, o estudo das imagens abre-se a metodologias
                                                                  próprias, que vão desde os métodos da iconografia temática iniciada cedo por autores
                                                                  como Emile Mâle, até o célebre “método iconológico” de Erwin Panófsky (1991),
                                                                  passando pelas abordagens semiológicas da imagem.

                                                                  O importante no estudo de imagens, como fontes históricas, é buscar metodologias
                                                                  próprias com a atenção de que existe uma diferença clara entre o discurso visual e o
                                                                  discurso escrito. Deve-se evitar, naturalmente, aquela tentação ou até mesmo
                                                                  inocência de se utilizar a fonte iconográfica como mera ilustração que confirma o que
                                                                  o historiador já percebeu através do discurso escrito de outra fonte trabalhada para-
                                                                  lelamente. A imagem visual (é o que queremos ressaltar), tem por si mesma algo a
                                                                  ser dito. É preciso fazê-la falar com as perguntas certas ou, para utilizar uma metáfora
                                                                  de Vovelle, arrancar da imagem certas “confissões involuntárias”. (1981, p. 70).

                                                                                                          ****
                                                                  Diante do que aqui foi colocado, será possível delimitar melhor os espaços
                                                                  historiográficos que correspondem a esses campos aparentemente tão próximos
                                                                  da historiografia. Apesar de se constituírem a partir de dimensões que guardam
                                                                  entre si alguma proximidade – o imaginário e o universo mental dos homens
                                                                  inseridos em sua vida coletiva – o que a história das mentalidades traz para
                                                                  primeiro plano são modos de pensar e de sentir que, em princípio, corresponderiam
                                                                  a processos de longa duração, e que podem se expressar ou não em imagens
                                                                  mentais, verbais ou visuais. A história do imaginário, por seu turno, traz a primeiro
                                                                  plano certos padrões de representação, certas potências da imaginação que se
                                                                  concretizam em imagens visuais, verbais ou mentais, mas que não neces-
                                                                  sariamente se formam em processos de longa duração (embora isso possa acon-
                                                                  tecer). O imaginário, conforme se salientou, pode ser objeto de uma arquitetura
                                                                  política, ser interferido por ela – pode ser gerado rapidamente sob determinadas
                                                                  circunstâncias; pode ainda ser produzido a partir da representação artística e
gerar suas próprias conexões. O imaginário nem sempre surgirá como uma




                                                                                                       !%
dimensão coletiva (embora isso possa ocorrer), o que já se dá necessariamente
com aquilo que foi chamado mentalidades pelos historiadores que acreditam na




                                                                                             Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
possibilidade de identificar um significativo substrato mental comum entre os
homens de uma mesma época ou pelo menos de um mesmo setor da sociedade.
Mas teremos aqui, de qualquer modo, campos conceituais que ainda estão por
se definir – e que ainda geram cada um deles as mais diversificadas polêmicas
entre os historiadores.


Para concluir esse grande paralelo entre as modalidades da História que atentam
mais particularmente para os universos mental e imaginário, e também para o
campo das sensibilidades humanas, e que têm explorado através de abordagens
históricas os labirintos da psicologia e da imaginação humana, será oportuno lembrar
que a psicoistória, a história das mentalidades e a história do imaginário deixaram
certamente a sua marca em uma historiografia contemporânea que buscou, a
partir do século XX, inserir-se em uma perspectiva interdisciplinar. Contudo, as
reflexões e preocupações encaminhadas por essas modalidades históricas, bem
como seus investimentos metodológicos e seus aportes teóricos, estão ainda
longe de se esgotar à altura desse novo milênio que a pouco se iniciou. O universo
mental dos homens, considerados em sua vida social, bem como sua produção de
imagens de todos os tipos e de diversificados padrões de sensibilidade, constitui,
certamente, ainda, um enigma que possivelmente nunca será decifrado, mas que,
em todo caso, sempre atrairá o interesse dos historiadores.


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e a memória na mídia

                                                               Mágda Rodrigues da Cunha1



                                              RESUMO
Investigar as relações que se estabelecem em uma sociedade midiatizada é pesquisar cada vez as
diferentes camadas e marcas deixadas pela história das mídias. História essa que permanece ou
se modifica, de acordo com as tramas da cultura. O que este artigo propõe é a possibilidade de ler
hoje, por intermédio da reinvenção e reacomodação das mídias, as marcas que vêm sendo deixadas
sob influência da cultura que, por sua vez, também se reinventa a cada nova mudança, em diálogo
com os diferentes horizontes históricos. As características que atualmente se evidenciam, de uma
sociedade individualista, também marcam as formas de comunicar, por intermédio de conteúdos
personalizados. A solidão, que muitos atribuem aos navegadores na internet, é a mesma que,
numa trama muito complexa, possibilita a existência de uma sociedade em escala global. Cultura,
memória, tempo e espaço são as categorias que este texto elege como base de reflexão, para
pensar os motivos de uma comunicação individualizada e em rede simultaneamente.
Palavras-chave Cultura. Memória. Tempo. Espaço. Comunicação.
Palavras-chave:

                                              ABSTRACT
To investigate the relations in a society influenced by the media is to search each time the different
layers and marks left for the history, that remains or modifies in accordance with the culture. This
article considers the possibility to read today, for intermediary of the reinvention of the medias, the
marks that are being left under influence of the culture that, in turn, is reinvented in each new
change, in dialogue with different historical horizons. The characteristics of an individualist society,
also marks the forms to communicate, for intermediary of personalized contents. The solitude, that
many attribute to the navigators in the Internet, is the same that, in a very complex tram makes
possible the existence of a society in global scale. Culture, memory, time and space are the catego-
ries that this text chooses as reflection base, to think reasons of an individualized communication
and in net simultaneously.
Key words Culture. Memory. Time. Space. Communication.
    words:




1 Jornalista. Professora na Famecos – Faculdade de Comunicação Social da PUCRS no curso de Jornalismo e
no Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Mestre em Comunicação Social. Doutora em Letras.
acumulação, a adição das distintas temporalidades configura a modernidade do
                                  

                                                                                A        lugar. Este ideal de acumulação corresponde a certo desejo de escrever ou de
                                                                                         ler o tempo no espaço: o tempo passado que não apaga de todo o tempo presente,
Cunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma...




                                                                                         e o tempo futuro que já se perfila.


                                                                    A afirmação de Marc Augé (2006, p. 101), no texto intitulado Sobremodernidade:
                                                                    do mundo tecnológico de hoje ao desafio essencial do amanhã, será o eixo da
                                                                    reflexão proposta neste texto. Entende-se que o atual momento histórico, assim
                                                                    como um palimpsesto,2 é a evidência de uma história midiática que começou há
                                                                    muito tempo, influenciada pelas adaptações da cultura, gerando uma outra relação
                                                                    com o tempo e o espaço e com a própria memória, influenciando diretamente a
                                                                    complexa identidade dos sujeitos.

                                                                    O fio condutor desta reflexão é o pensamento de Augé em diálogo com outros
                                                                    autores. Inserem-se, nesse contexto, alguns fatos históricos da mídia, como
                                                                    evidência da construção que chega hoje a uma sociedade marcada pela individua-
                                                                    lização e que produz, por intermédio dessa mesma mídia, conteúdos perso-
                                                                    nalizados.

                                                                    Trabalha-se com a hipótese de que, ao percorrer alguns momentos significativos
                                                                    da história da consolidação das mídias, pode-se localizar evidências sobre a
                                                                    exacerbada individualização em que chega hoje a sociedade. Não se pode, no
                                                                    entanto, afastar a hipótese de que as mídias vêm se constituindo em resposta
                                                                    às exigências dos diferentes horizontes históricos, deixando suas marcas na
                                                                    cultura e na memória.

                                                                    Augé (2006, p. 100) constata a existência de dois paradoxos, quando são abordados
                                                                    temas como globalização, uniformização e até homogeneização. Essa planetalização,
                                                                    segundo ele, convive com reivindicações de singularidade, de identidade local com
                                                                    formas e escalas muito diferentes umas das outras. “[...] no conjunto, cada um
                                                                    pode constatar felizmente que o mundo não está definitivamente sob o signo da
                                                                    uniformidade e, ao mesmo tempo, inquietar-se diante das desordens e das violências
                                                                    geradas pela loucura identitária.” De acordo com a observação antropológica,
                                                                    ressalta Augé (2006), que está sempre contextualizada, hoje em dia, inclusive nos
                                                                    grupos mais isolados, o contexto sempre é planetário.



                                                                    2 Palimpsesto tem origem no grego e denomina o pergaminho raspado e reutilizado, mas que mantém as
                                                                    marcas da escritura anterior. Trata-se de prática muito antiga, mas freqüente no século VII pelas dificuldades
                                                                    do comércio de papiro egípcio e depois pela escassez de pergaminho.
Esse contexto planetário é muito bem descrito por Lévy (2001) ainda no início do




                                                                                                                 !
século XXI. Os planetários dirigem os mesmos carros, pegam os mesmos aviões,
desembarcam nos mesmos hotéis, têm as mesmas casas, os mesmos telefones,




                                                                                                       Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
televisores, computadores ou cartões de crédito.

         Nos informamos na câmara de eco das mídias globalizadas. Nós navegamos na Internet.
         Nós temos o nosso site. Nós participamos da silenciosa explosão do hipercórtex infinita-
         mente reticulado da World Wide Web. Nós escutamos música de todos os cantos do mun-
         do [...]. Nós afluímos, turistas misturados, em museus cujas coleções cruzam as culturas.
         [...] Nada do que é humano nos é estrangeiro. (p. 15).


O autor afirma que a população atual começa a construir a sociedade civil mundial.
E quem são essas pessoas? Lévy (2001) afirma que são artistas, escritores,
cineastas, músicos, professores, funcionários internacionais, jogadores de futebol,
alpinistas, navegadores solitários, comerciantes, comissários de bordo,
consultores, investidores de capitais, militantes em associações internacionais.
Cotidianamente, seja qual for a finalidade, devem olhar, comunicar e talvez agir
além das fronteiras.

         Somos a primeira geração de pessoas que existe numa escala global. Homens ou mulheres,
         políticos, drogados, modelos, executivos, prostituídos, terroristas, vítimas de catástrofes
         transmitidas pela TV, cozinheiros, consumidores, telespectadores, internautas, imigrantes,
         turistas: somos a primeira geração global. (p. 16-17).


O autor completa que nunca uma geração viajou tanto, seja por trabalho ou
prazer. O turismo se torna a maior indústria mundial. A imigração ocorre em larga
escala sejam pobres atraídos pelo trabalho ou ricos em busca de melhores
condições fiscais. A população planetária é móvel, não nômade, pois os nômades
não tinham nem terras nem cidades. Móveis, passando de uma cidade a outra,
de um bairro a outro da megalópole mundial. As pessoas vivem nas cidades ou
metrópoles que se relacionam umas com as outras ou no campo, em casas que
são como navios em pleno mar, conectados com todas as redes.

Os planetários reúnem budistas americanos, programadores indianos, ecologistas
árabes, pianistas japoneses, médicos sem fronteiras. Graças à internet, dão a
conhecer, em escala planetária, o que têm a oferecer.

      Nossa geração está inventando o mundo, o primeiro mundo verdadeiramente
mundial. [...] Não somos infiéis, somos móveis. Nossa identidade é cada vez mais
problemática. [...] Tudo deve cada vez mais ser inventado. (LÉVY, 2001, p. 17).
Esse contexto, defende Augé (2006), está presente na consciência de todos,
                                  
                                                                    interfere desigualmente, mas em todos os lugares, de maneira sensível nas
                                                                    configurações locais, modificando as condições de observação. Há, segundo
Cunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma...




                                                                    ele, três movimentos complementares: o passar da modernidade, o que chama
                                                                    “sobremodernidade”, o passar dos lugares, chamados por ele de “não-lugares”,
                                                                    e o passar do real ao virtual.

                                                                    Sem ser distintos uns dos outros, privilegiam pontos de vista diferentes, de
                                                                    acordo com o pensamento. O primeiro dá ênfase ao tempo, o segundo, ao espaço,
                                                                    e o terceiro, à imagem. Augé (2006, p. 101) cita Jean Starobinski para quem
                                                                    essa acumulação, a adição das distintas temporalidades, configura a modernidade
                                                                    do lugar, conforme a citação que abre este artigo, aqui repetida. “Este ideal de
                                                                    acumulação corresponde a certo desejo de escrever ou de ler o tempo no espaço:
                                                                    o tempo passado que não apaga do todo o tempo presente, e o tempo futuro que
                                                                    já se perfila.”


                                                                    As eras culturais
                                                                    Para dialogar com esse ideal, traz-se aqui o pensamento de Santaella (2003)
                                                                    que utiliza uma divisão das eras culturais em seis tipos de formação: cultura
                                                                    oral, cultura escrita, cultura impressa, cultura de massas, cultura das mídias e
                                                                    cultura digital. Salienta que tais divisões são pautadas na crença de que os
                                                                    meios, desde o aparelho fonador até as redes digitais atuais, mesmo sendo
                                                                    meros canais de transmissão de informação, são capazes não só de moldar o
                                                                    pensamento, “mas também de propiciar o surgimento de novos ambientes
                                                                    sociais”. (p. 13).

                                                                    É possível evidenciar a cultura em situação de diálogo com os diferentes períodos
                                                                    históricos de surgimento e desenvolvimento das mídias.

                                                                    A autora destaca outro aspecto importante no que diz respeito a essa divisão de
                                                                    eras culturais. Não são períodos culturais lineares, com o desaparecimento de
                                                                    uma era para surgimento de outra. Há sempre um processo cumulativo de
                                                                    complexificação, “uma nova formação comunicativa e cultural vai se integrando
                                                                    na anterior, provocando nela reajustamentos e refuncionalizações”. (SANTAELLA,
                                                                    2003, p. 13). Afinal, de acordo com esse pensamento, a cultura comporta-se
                                                                    sempre como um organismo vivo, inteligente, com poderes de adaptação impre-
                                                                    visíveis e surpreendentes.
Com o “agigantamento” dos meios de comunicação de massa, no século XX,




                                                                                              #
foram crescendo as dificuldades para se estabelecer distinções claras entre o
popular, o erudito e o massivo. Até o fim do século XIX, não era tão complicado




                                                                                    Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
quanto hoje determinar as formas, os códigos e os gêneros da cultura. A partir
da Revolução Industrial, esse cenário se complicou com o aparecimento de meios
técnicos de produção cultural. Entretanto, entende a autora, não obstante o poder
de que se revestem, contra todos os prognósticos, os meios de massa não
levaram as formas mais tradicionais de cultura, a cultura superior, erudita, e as
culturas populares ao desaparecimento. Provocaram recomposições nos papéis,
cenários sociais e até mesmo no modo de produção dessas formas de cultura,
assim como “borraram” suas fronteiras, mas não apagaram sua existência.

Entende-se, no presente artigo, que nessa recomposição de papéis e diluição de
fronteiras, confirma-se a idéia de um palimpsesto, onde se enxergam as marcas
mais antigas “borradas” na base das novas. Falar em permanência ou desapa-
recimento de mídias é desconsiderar, muitas vezes, o que realmente se mantém:
a demanda social por comunicar. O que se evidencia ao investigar a História é
uma reinvenção permanente dos meios usados para comunicar. Confirmando a
idéia de um palimpsesto, a sociedade se comunica hoje em formatos desenvolvi-
dos por ela mesma, numa construção baseada em perguntas e respostas que
resultaram no aperfeiçoamento dos meios.

A explicação, entende Santaella (2003), está no fato de que a cultura humana
existe num continuum, ela é cumulativa, não no sentido linear, mas de interação
incessante de tradição e mudança, persistência e transformação. O entendimento
de que uma novidade não termina com a outra, mas gera transformações, confirma
o objetivo deste texto, de investigar os meios e as camadas culturais nas quais
estão inseridos, considerando a possibilidade de ler cada um deles por intermédio
das marcas históricas. Os meios e suas adaptações ou reinvenções influenciam
e são influenciados pela cultura e transformam-se a partir dos suportes tecno-
lógicos moldados pela própria cultura, mantendo as diversas linguagens em sua
base de existência. A tecnologia que dá suporte à produção cinematográfica,
exemplifica Santaella (2003), pode mudar, mas não muda a linguagem que foi
inventada pelo cinema.

Considerando esse tempo lido no espaço, Augé (2006) traz o pensamento de
Benjamin que vê, na arquitetura das passagens parisienses, um prefiguração da
cidade do século XX. Por acúmulo, essa imagem do espaço corresponde a uma
progressão, a uma imagem do tempo como progresso. O autor cita ainda o pen-
samento de Max Weber que, para evocar a modernidade, fala sobre o desencanto
                                  $
                                                                    do mundo, apresentando três características: a primeira é o desaparecimento
                                                                    dos mitos de origem, dos mitos de fundação, de todos os sistemas de crença
Cunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma...




                                                                    que procuram o sentido do presente da sociedade em seu passado. Há também
                                                                    o desaparecimento de todas as representações e crenças que, vinculadas a
                                                                    essa presença do passado, submetiam a existência e, inclusive, a definição do
                                                                    indivíduo de seu meio. O homem do Século das Luzes é o indivíduo dono de si
                                                                    mesmo, de quem a razão corta os laços supersticiosos com os deuses, com a
                                                                    Terra, com sua família, que afronta o porvir e se nega a interpretar o presente
                                                                    baseado em magia ou bruxaria.



                                                                    Sobremodernidade
                                                                    Augé (2006) propõe a utilização do conceito de sobremodernidade, para pensar
                                                                    a coexistência das correntes de uniformização e dos particularismos. O autor
                                                                    afirma que se trata de uma lógica do excesso, mensurada a partir de três excessos,
                                                                    segundo sua proposta: o excesso de informação, o excesso de imagens e o
                                                                    excesso de individualismo. O excesso de informação dá a idéia de que a História
                                                                    se acelera. Cada dia tem-se a informação do que acontece nos quatro cantos do
                                                                    mundo.

                                                                             Naturalmente esta informação sempre é parcial e talvez tendenciosa: mas junto com a
                                                                             evidência de que um acontecimento longínquo pode nos trazer conseqüências, reforça-
                                                                             nos cada dia o sentimento de estarmos dentro da história, ou, mais exatamente, de tê-la
                                                                             por perto, para voltarmos a ser alcançados por ela durante o noticiário das oito ou duran-
                                                                             te as notícias da manhã. (AUGÉ, 2006, p. 104).


                                                                    Essa superabundância, segundo Auge (2006, p. 104), é proporcional à capa-
                                                                    cidade de esquecimento, uma vez que um acontecimento, que chama a atenção
                                                                    durante alguns dias, desaparece repentinamente das telas, logo, das memórias.
                                                                    Isso até o dia em que ressurge repentinamente. “Um certo número de aconteci-
                                                                    mentos tem, assim, uma existência eclíptica, esquecidos, familiares e surpreen-
                                                                    dentes ao mesmo tempo.” Augé (2006) cita aqui exemplos como a Guerra do
                                                                    Golfo, a crise irlandesa, os atentados no País Basco ou as matanças na Argélia
                                                                    e reflete que o aparecimento do ciberespaço marca a prioridade do tempo
                                                                    sobre o espaço, desenhando a idade do imediatismo e do instantâneo, onde a
                                                                    comunicação se produz na velocidade da luz, resultando em um domínio do
                                                                    tempo que reduz o espaço.
Tempo, espaço e memória




                                                                                                             %
Mitchell (2006) investiga o fato de a sociedade estar entrando em uma era na qual a




                                                                                                   Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
vida se desenrola cada vez mais no ponto de intersecção do mundo físico e real com
o da virtualidade e das interconexões eletrônicas. Reflete sobre a importância dos
lugares e das relações que interferem na memória. Suas obras mais recentes abordam
temas referentes à reconfiguração dos lugares de moradia e das relações sociais.
Lugares e memórias, conforme Casalegno, em texto de apresentação de entrevista
com Mitchell, sempre representaram dois paradigmas fundamentais na configuração
das comunidades, na evolução das culturas e das relações entre as pessoas.

O autor fala de uma memória baseada em algo transmitido pelo contato face a
face e que se torna uma memória de grupo e que realmente mantém a comunidade
e a cultura juntas. É nesse ponto que a arquitetura começa a se transformar no
repositório da memória, e fisicamente, todos os prédios importantes, prédios
religiosos estão inscritos. Mitchell (2006) afirma que, no século XX, o rádio e a
televisão entram nesse contexto e atualmente a rede começa a se tornar crucial.
Nenhum dos meios desaparece, mas novos entram.

         Se você olha para isto em termos tecnológicos, isso tem sido dependente do desenvolvi-
         mento das comunicações remotas, tem dependido das telecomunicações e das tecnolo-
         gias de gravação. O que teve início nos anos 60 e, novamente, isto não é tão revolucio-
         nário, o que as mensagens eletrônicas realmente são: a combinação de tecnologias de
         telecomunicação e tecnologias de gravação do controle de computador sofisticado. Então
         essas tecnologias não estavam realmente juntas até os anos 60 quando houve uma mu-
         dança explosiva. (p. 58).

A preservação da memória e as estratégias para essa conservação também são
destacadas por Mitchell que apresenta o exemplo das gravações e as mudanças
tecnológicas em conseqüência disso. Segundo ele, originalmente, a memória
humana era a única mídia, e essa é a tradição oral, transmissão direta de uma
memória humana para outra. O desenvolvimento da escrita e as tecnologias de
impressão e gravação cumpriram esse papel, agora desempenhado em larga
escala pela gravação digital eletrônica. A diferença fundamental em gravar mídia
eletrônica, na opinião do autor, é que não há necessidade de transferir fisicamente
os artefatos da memória. Está junto com as telecomunicações “nessa espantosa”
maneira que induz esse tipo de condição de memória portátil.

Virilio (2006) também reflete sobre o assunto, trazendo a memória “vivida”, memória
do que ocorre no momento, como um elemento novo oferecido pelas tecnologias
de comunicação. Isso, segundo ele, traz um paradoxo, pois a televisão ou a internet
                                  
                                                                    e outras tecnologias promovem a idéia de uma memória do instante presente. “É
                                                                    como se houvesse um efeito de lupa não sobre um objeto, mas sobre um instante
Cunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma...




                                                                    no tempo: um efeito de dilatação.” (p. 93). Nessa perspectiva, o autor entende
                                                                    que as tecnologias funcionam para a memória como um telescópio. Virilio acredita
                                                                    que a internet e as tecnologias de informação permitirão ver o que se passa no
                                                                    mais curto espaço de tempo, o que se passa na comunicação. Nesse ponto de
                                                                    sua reflexão, o autor define que essa é uma memória que diz respeito à comunidade,
                                                                    pois não há memória por si. Memória, conforme o seu pensamento, é uma
                                                                    linguagem, um utensílio de comunicação. Não há memória que não seja coletiva.



                                                                    Solidão, individualização e personalização
                                                                    Augé (2006) afirma que o terceiro termo que define a sobremodernidade consiste
                                                                    na individualização passiva, diferente do individualismo conquistador do ideal
                                                                    moderno. Trata-se de uma individualização de consumidores, cujo aparecimento
                                                                    está relacionado com o desenvolvimento dos meios de comunicação. Conforme
                                                                    o pensamento do autor, a relação com os meios de comunicação pode gerar
                                                                    uma forma de passividade, na medida em que expõe cotidianamente os indivíduos
                                                                    ao espetáculo de uma atualidade efêmera, uma forma de solidão na medida em
                                                                    que os convida à “navegação solitária” e na qual toda telecomunicação abstrai a
                                                                    relação com o outro, substituindo com o som ou a imagem o corpo a corpo. Augé
                                                                    (2006) entende isso como uma forma de ilusão, na medida em que deixa a
                                                                    critério de cada um a elaboração de pontos de vista, opiniões em geral bastante
                                                                    induzidas, mas percebidas como pessoais. O autor salienta que não descreve
                                                                    uma fatalidade, mas um conjunto de riscos, de tendências.

                                                                    Reflete, também, sobre a individualização dos destinos ou dos itinerários e sobre
                                                                    a ilusão da livre-escolha individual, o que, segundo ele, se desenvolve a partir do
                                                                    momento em que se debilitam as cosmologias, as ideologias e as obrigações
                                                                    intelectuais com as quais estão vinculadas. Augé (2006, p. 107) cita que “o
                                                                    mercado ideológico se equipara a um self-service, no qual cada indivíduo pode
                                                                    prover-se com peças soltas para ensamblar sua própria cosmologia e ter a
                                                                    sensação de pensar por si próprio”. Passividade, solidão e individualização se
                                                                    encontram em várias dimensões, inclusive religiosas, segundo Augé (2006).

                                                                    O pensamento de Lipovetsky (2004) que, de sua parte, adota o conceito de
                                                                    “hipermodernidade”, torna-se pertinente nesta reflexão. O autor descreve a
hipermodernidade baseada numa sociedade hiperindividualista, onde se investe




                                                                                                             '
emocionalmente naquilo que é mais próximo, nos vínculos fundados sobre a
semelhança e a origem em comum. De acordo com esse pensamento, na atual




                                                                                                   Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
sociedade nasce toda uma cultura hedonista e psicologista que incita à satisfação
imediata das necessidades, enaltecendo o “florescimento” pessoal. Na comunica-
ção, essas características apontam para uma tendência à produção individualizada
ou personalizada de informação, seja no âmbito da publicidade, seja no do jornalismo
ou mesmo dentro da lógica em que todos produzem para todos.

Alguns conceitos, porém, devem ser relacionados para reflexão em torno desse
momento individualista e a conseqüente produção de conteúdos: o conceito e a
origem da personalização ou individualização, a história das mídias e sua presença
neste contexto, tornando-se evidências do processo, na medida em que os hábitos
de leitura dessa audiência ou a cultura construída interfere diretamente.

Nesse ponto, faz-se importante buscar aspectos da História que evidenciam a
construção do processo, especialmente no relacionamento das audiências com
as mídias. Todavia, torna-se relevante na mesma medida refletir sobre o tipo de
isolamento que hoje muitos autores propõe como resultado das relações com os
meios de comunicação social.


O que registra a História?
Cinco séculos depois do nascimento da imprensa, o rádio tenta fazer com a voz,
essa forma tão primitiva de comunicação, o que antes só podia ser feito com a
impressão: armazená-la, repeti-la e transmiti-la a grandes distâncias. Os três
inventos que transformam o uso da voz humana, o telefone, o rádio e o gravador,
são, em um primeiro momento, concebidos como melhorias no sistema telegráfico.
A informação de Pool (1992) aponta para o âmbito social do rádio, pois, se o
fonógrafo, o telefone e o rádio são, em princípio, concebidos como um aperfeiçoa-
mento da telegrafia, o telefone e o rádio são meios irmãos.

         O que surge como emissão de rádio é um meio de massas irreversível, que dá a alguns
         poucos produtores das capitais um modo de dirigir-se a toda a nação. É um instrumento
         que se escuta sozinho ou com a família. É o companheiro das horas solitárias, as drogas
         dos que não tinham amigos. (POOL, 1992, p. 84).


A radiodifusão substitui o bar da esquina, a reunião na igreja, a banda local ou o
concerto. No início do século XX, os sociólogos descrevem uma civilização ur-
bana em expansão. As grandes cidades, as fábricas, a mobilidade geográfica, a
                                  #
                                                                    burocracia e os meios de comunicação criam, segundo eles, uma sociedade
                                                                    marcada pela ausência de personalidade e produtos pouco diferenciados, e o
Cunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma...




                                                                    rádio se inclui nessa descrição. O telefone é diferente, sendo um invento contra
                                                                    a fácil generalização.

                                                                    Tanto o telefone quanto o rádio têm profundos, ainda que diferentes, efeitos sobre
                                                                    a ecologia da atividade humana. Os processos de mudança urbana, por exemplo,
                                                                    que começam no início do século, florescem nos anos 20, com o início da radio-
                                                                    emissão. A coincidência das transmissões e da rápida urbanização é uma questão
                                                                    fortuita, mas significa que o rádio se converte em um meio de entretenimento para
                                                                    a primeira geração de habitantes classificados como imigrantes lançados ao
                                                                    anonimato de novas cidades. Não conhecem seus vizinhos imediatos e nem
                                                                    pertencem a qualquer grupo organizado com sua própria tradição cultural. Para
                                                                    essas pessoas, o rádio deve proporcionar muito do que seus pais e avós lhes
                                                                    haviam dado nas festas ou férias no interior, em reuniões religiosas semanais.

                                                                    O rádio, segundo Pool (1992), é um excelente substituto da vivência comunitária.
                                                                    As radionovelas ou shows de variedades, ainda que ruins, são melhores do que as
                                                                    apresentações no teatro do bairro realizado por grupos itinerantes. As cadeias de
                                                                    rádio oferecem a possibilidade nacional de poder escolher. Melhor ou pior, o rádio
                                                                    é diferente, por estar em casa. É ideal para a granja isolada ou para o igualmente
                                                                    isolado ambiente urbano, onde os vizinhos são estranhos. É uma atividade indi-
                                                                    vidual ou familiar e não compartilhada com a comunidade ou a igreja.

                                                                    Por volta de 1930, revela Roberts (2001), a maioria das pessoas que possuem
                                                                    receptores sem fio (e são milhões) deixa de acreditar que é preciso manter as
                                                                    janelas abertas para permitir que as ondas de transmissão as alcançassem. A
                                                                    sociedade convive com a tecnologia, e ela não causa mais estranhamento. O
                                                                    rádio não contradiz, mas é assimilado, dentro de um contexto interessado em
                                                                    conviver com o conforto. Transmissões de rádio em larga escala já acontecem
                                                                    em todos os principais países.

                                                                    Observando esse período da História, verifica-se que a possibilidade de registro
                                                                    torna-se eletrônica, confirmando o pensamento de Mitchell que salienta a idéia
                                                                    de acumulação de possibilidades para chegar ao formato atual. Registra-se,
                                                                    também, uma mudança nos hábitos de consumo dos meios que começam a se
                                                                    desenhar como individuais. Traz-se aqui o rádio por ser o primeiro meio eletrônico
                                                                    de massa. Todavia, o rádio só vai transformar em eletrônica uma tendência já
existente com a leitura e ele mesmo, com a consolidação da televisão, vai se




                                                                                                  #
tornar ainda mais individual.




                                                                                        Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
Nos anos 60, o rádio da família é destronado pela televisão. A transmissão de
imagens por ondas é conhecida desde os anos 30, mas a curta distância e em
caráter experimental. O transistor na televisão também permite a redução do peso,
do volume e do preço. O ingresso do rádio e da televisão no universo doméstico
constitui mutação social de primeira importância, segundo Prost (1992). O espe-
táculo familiar da tevê é complementado pela escuta individual do rádio. Juntos,
esses dois momentos de comunicação podem ocupar grande parte do tempo da
vida privada. A informação passa a ser dominada pelo rádio e pela tevê. A imprensa
já não impera e ocupa as lacunas dos meios audiovisuais, com informações mais
aprofundadas, especializadas ou locais. As ondas prevalecem sobre a imprensa,
porque são mais rápidas e podem chegar a todos os lugares e pessoas.

O consumo individualizado também é descrito por Chartier (1998, p. 13) quando
aborda a história do livro e dos próprios jornais. Se o texto era lido por alguém
alfabetizado, para muitos analfabetos, em uma fase inicial da propagação da escrita,
ele passou, depois de um certo período para um consumo individualizado nas
bibliotecas, em voz baixa ou somente pelo correr dos olhos. Nos séculos XVII e XVIII,
um jornal não tem uma estrutura diferente daquela do livro. Quando adquire um
grande formato e uma distribuição ampla, ocorre uma atitude mais livre, ele é
carregado, dobrado, rasgado, lido por muitos, mas individualmente. O leitor da tela,
descreve Chartier, de certa forma, assemelha-se ao leitor da Antiguidade. O texto
que ele lê corre diante de seus olhos. “Ele é simultaneamente esses dois leitores.”

A solidão referida por Augé e por tantos outros autores merece reflexão. Trata-se
de uma navegação solitária, mas em rede. Nunca tantas comunidades se
constituíram por intermédio da possibilidade proporcionada pela tecnologia digi-
tal. Em tudo isso há uma conjunção de fatores, como citado por Castells (2003).
Três processos se uniram, inaugurando uma nova estrutura social predominante-
mente baseada em redes: as exigências da economia por flexibilidade adminis-
trativa e por globalização do capital, da produção e do comércio; as demandas
da sociedade, em que os valores da liberdade individual e da comunicação aberta
tornaram-se supremos; e os avanços extraordinários na computação e nas
telecomunicações possibilitados pela revolução microeletrônica.

Na comunicação social, o conceito de individualização ou personalização de
conteúdos, ainda não descrito claramente, começa a ser desenhado em um
horizonte que viveu durante muitos anos baseado na segmentação de informações,
                                  #
                                                                    relacionada aos meios convencionais, com finalidades especialmente comerciais.
                                                                    As tecnologias digitais oferecem a possibilidade de personalizar, chegando ao extre-
Cunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma...




                                                                    mo da individualização. Os meios, acostumados a falar para as grandes massas, a
                                                                    informar as grandes audiências, a exemplo do que foi descrito sobre o rádio e a
                                                                    televisão, encaram um paradoxo: a demanda por uma informação individual.

                                                                    Personalização em comunicação entende-se como a possibilidade de o público
                                                                    interagir sobre a forma e o conteúdo do jornal, para consumir unicamente o que
                                                                    quer e como quer, dentro dos limites da própria tecnologia. Incluem-se aí as notícias,
                                                                    o recebimento de um jornal a la carte, o recebimento de newsletters ou mensagens
                                                                    com fins publicitários. Mas outras questões começam a ter destaque em relação
                                                                    ao comportamento dos meios habituados a uma produção massiva, especialmente
                                                                    quanto à impressão em larga escala ou mesmo a radiodifusão.

                                                                    A energização das redes provocada pela internet leva a recepção, até então tratada
                                                                    apenas como tal, a se apropriar de possibilidades tecnológicas narrativas, gerando
                                                                    iniciativas hoje evidenciadas especialmente pelos blogs e comunidades virtuais.
                                                                    Isso resulta em uma personalização de conteúdos e coincide ou responde a uma
                                                                    tendência de individualização exacerbada, que não começou agora, mas vem sendo
                                                                    lapidada no coração da história do desenvolvimento das mídias. Registrar, preservar
                                                                    a memória, comunicar, ocupar o espaço da cidadania global, ler o tempo no espaço,
                                                                    todos esses são fatores que coexistem no atual contexto. Pode-se afirmar que
                                                                    tanto para as tecnologias de comunicação, como para a identidade dos sujeitos,
                                                                    nunca um horizonte histórico reuniu, em continuum, tantas marcas de tantos
                                                                    períodos. A memória do passado é também vivida e observada.

                                                                    O território em que vive a humanidade atualmente é como descreve Augé (2006):

                                                                             Um universo de reconhecimento, onde cada um conhece o seu lugar e o dos outros, um
                                                                             conjunto de pontos de referências espaciais, sociais e históricos: todos os que se reco-
                                                                             nhecem neles têm algo em comum, compartilham algo, independente da desigualdade
                                                                             de suas respectivas situações. (p. 108).


                                                                    A reflexão aqui realizada não pode, considerando o contexto e a própria reinvenção
                                                                    permanente da cultura, propor conclusões. Não é novo dizer que cada vez mais
                                                                    surgem perguntas e não respostas. Os questionamentos de Lucien Sfez (2006)
                                                                    soam adequados para um fechamento baseado em perguntas e dúvidas a respeito
                                                                    das tendências.
Que imaginação deveríamos evocar para conseguir pensar o mundo no qual não




                                                                                                    #!
seríamos mais uma variedade de sujeitos pensantes individuados, tampouco um
único sujeito fusionado, agindo e pensando por concerto (como no caso da Biosfera




                                                                                          Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
II), mas uma parte de um número ilimitado de cópias sobre as quais teríamos
dificuldade de reconhecer o original? Será que, nesse caso, ainda seríamos su-
jeitos? Ou seria preciso encontrar palavras e outras definições para uma identidade
que apenas dificilmente poderia ser identificada enquanto uma única e mesma?
Para essas unidades errantes, será que se poderia falar ainda de um sujeito
social? Ou, então, as mediações tecnológicas conseguiriam criar um novo sujeito
planetário, fazendo da reprodução tecnológica a própria essência de sua iden-
tidade? (p. 80).

Investigar as relações com os meios é sim estudar um palimpsesto, é ler o
tempo no espaço. A reinvenção é permanente numa sociedade que busca construir
formatos apropriados. Nessa trajetória, muitos deles soam como individualistas
ou têm uso individualizado. Mas aqui prefere-se entender como personalizado,
considerando cada parte da audiência ou cada leitor como único, integrado em
um processo de produção de um para um, mas também de todos para todos. A
percepção de um tempo que se acelera e insere muitos em um mesmo circuito
pode também ser a soma dos vários tempos individuais, do tempo de cada um,
em uma lógica que privilegia o formato de rede.



Referências
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amanhã. In: MORAES, Denis. Sociedade midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.
CASALEGNO, Federico. Diálogo com William J. Mitchell: lugares, arquiteturas e memórias.
In: CASALEGNO, Federico. Memória cotidiana: comunidades e comunicação na era das
redes. Porto Alegre: Sulina, 2006.
CASTELLS, Manuel. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a
sociedade. Rio de Janeiro: J. Zahar Editor, 2003.
CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Ed. da Unesp,
1998.
LÉVY, Pierre. Conexão planetária: o mercado, o ciberespaço, a consciência. São Paulo:
Ed. 34, 2001.
LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2004.
MITCHELL, William. Diálogo com William J. Mitchell: lugares, arquiteturas e memórias.
In: CASALEGNO, Federico. Memória cotidiana: comunidades e comunicação na era das
                                  #
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                                                                    POOL, Ithiel de Sola. Discursos e sonidos de largo alcance. In: WILLIAMS, Raymond
Cunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma...




                                                                    (Org.). Historia de la comunicación: de la imprenta a nuestros dias. Barcelona: Bosch,
                                                                    1992.
                                                                    PROST, Antoine; VINCENT, Gérard. História da vida privada: da Primeira Guerra a nossos
                                                                    dias. São Paulo: Cia. das Letras, 1992.
                                                                    ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo : da Pré-História à Idade
                                                                    Contemporânea. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
                                                                    SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura.
                                                                    São Paulo: Paulus, 2003.
                                                                    SFEZ, Lucien. As biotecnologias e a construção social de um corpo perfeito. In:
                                                                    ESCOSTEGUY, Ana Carolina D. (Org.). Comunicação, cultura e mediações tecnológicas.
                                                                    Porto Alegre: Edipucrs, 2006.
                                                                    VIRILIO, Paul. Diálogo com Paul Virilio: o paradoxo da memória do presente na era
                                                                    cibernética. In: CASALEGNO, Federico. Memória cotidiana: comunidades e comunicação
                                                                    na era das redes. Porto Alegre: Sulina, 2006.
##
Do FORT-DA da arte ao corpo-obra.
[É possível uma estética da clínica?




                                                                                                                Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
Haverá um corpo-obra?]
                                                                         Marcio Pizarro Noronha1



                                                RESUMO
O artigo traça o parentesco entre arte e clínica com uma questão central acerca da estética
da clínica (psicanálise, estética psicanalítica). O artigo apresenta um ponto de vista teórico
acerca do FORT-DA (Freud) e seus desenvolvimentos na história e teoria da arte e avança na
discussão conceptual acerca dos termos corpo, arte, clínica. A idéia do FORT-DA retorna às
questões do corpo-arte (arte do corpo), do aparecer/desaparecer, do jogo. Em seguida, propõe
uma interpretação da pintura de Francis Bacon.
Palavra-chave: Estética. Arte. Corpo. FORT-DA. Francis Bacon.

                                               ABSTRACT
This article traces a relationship between art and clinic with a central question about The
clinic’ aesthetics (psychoanalysis, psychoanalytical aesthetics). The article presents a theoretic
point of view about Freud´s FORT-DA and its developments in art, History and theory and
advances in the conceptual quarrel regarding the terms body, art, clinical. The idea of FORT-
DA retakes the questions of the body-art, appear/disappear, game. Afterwards proposes a
interpretation about Bacon’s painting.
Key words Aesthetics. Art. Body. Fort-da. Francis Bacon.
    words:




1 Dr. em Antropologia pela USP. Dr. em História pela PUCRS. Prof. e Pesquisador nos PPG em Música (EMAC)
e História FCHF/UFG. Coordenador do Grupo Pesquisa Diretório CNPq – Interartes: PROCESSOS E SISTEMAS
INTERARTÍSTICOS E ESTUDOS DE PERFORMANCE. Pesquisador na Funape/UFG. Professor convidado para o
ano de 2008 da Universidade Nacional de SALTA na Argentina. Professor das disciplinas de Análise da
Criação Contemporânea (Mestre em Música), História e Teoria Interartes: do romantismo ao pós-modernismo
(Mestre e Doutor em História) e no Seminário de Pesquisa: Arte e Psicanálise. Coordenador do GT Intertexto,
Interartes e Hibridismo (Abralic, 2007). Coordenador do GT Estudos Interartísticos e Interculturais Musicais:
história plural e comparada das artes (Anppom, 2007). Coordenador do S.T. CLIO E AS MUSAS (III ENCONTRO
INTERNACIONAL DE HISTÓRIA ANPUH-GOIÁS). Membro de diversas associações científicas e grupos de traba-
lho e pesquisa no campo das ciências humanas, artes e terapêuticas de viés psicanalítico. E-mail:
marcpiza@terra.com.br
I Introduzindo questões
                                             #$


                                                                                         É possível uma estética da clínica? Haverá um corpo-obra? Duas questões de
Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética...




                                                                                         vasta extensão e que servirão como guias na construção deste texto, que se
                                                                                         volta especialmente para um tipo especial de clínica que, em sua própria
                                                                                         denominação, inclui a tarefa da arte, em seu ofício – da arteterapia, da gestalt-
                                                                                         terapia, da musicoterapia. Pensar seu lugar, o que seja essa clínica que tem
                                                                                         fundamentos em uma estética e em relações com objetos, ferramentas e
                                                                                         instrumentos capazes de passar de estados subjetivos particulares a estados
                                                                                         subjetivos compartilhados, tal como nas manifestações artísticas propriamente
                                                                                         ditas. Nesses termos, operamos com uma forma de relação clínica que pretende
                                                                                         integrar subjetividade e estética – viver a subjetivação em sua potência de
                                                                                         estetização parece ser um conteúdo latente dessas clínicas que se deslocam
                                                                                         em direções múltiplas.

                                                                                         O foco encontra-se, num ponto de vista especial, do objeto-problema CORPO e os
                                                                                         modos como esse é tratado, nas vias psicanalítica e artística, afetando a
                                                                                         construção do objeto do estudo clínico e das práticas terapêuticas que incluem
                                                                                         formas, manifestações e relações estéticas. A psicanálise aqui será observada
                                                                                         sob a égide de um olhar oblíquo – de atravessamento – sendo atingida a partir do
                                                                                         corpo e do corpo-obra. O tema do corpo-obra visa a ressaltar a particular
                                                                                         importância da experiência clínica e suas afinidades com a experiência e as
                                                                                         formas do pensamento-fazer artístico. Assim, entendo aqui que a relação clínica
                                                                                         não só desenvolve uma particular epistemologia dos objetos psíquicos como
                                                                                         também se deixa atravessar por formas transicionais ou por movimentos do
                                                                                         informe que fazem nascer a obra de arte do sujeito na clínica e seu corpo glorioso.
                                                                                         Como amálgama de flutuações e materializações, a clínica deve arregimentar
                                                                                         esse princípio de funcionamento radical, no qual a inclusão da arte não deve
                                                                                         estar restrita às formas do discurso comentado de obras e filmes por conta dos
                                                                                         pacientes. Obrar a subjetividade como enfrentamento dos grandes lugares da
                                                                                         clínica – a arte e a morte. (M’UZAN, 1978).

                                                                                         As duas perguntas do título “É possível uma estética da clínica? e Haverá um
                                                                                         corpo-obra?” levam em conta, por um lado, a existência de um grupo de clínicas
                                                                                         que se fazem valer da presença de relações e de objetos artísticos na instauração-
                                                                                         construção do campo clínico e de suas demandas específicas e, por outro, a
                                                                                         questão do corpo na arte e do corpo-obra-de-arte. Esse não será representado
                                                                                         somente pela presença do artista (o corpo do artista vivo, presente/ausente,
                                                                                         metaforizado), mas estará centrado na existência de um jogo relacional entre
obra e corpo, entre feitura (obrar) e matéria (corpo), modo particular de fazer




                                                                                                                        #%
acontecer uma cena e aparecer um objeto, meio e modo de fazer trânsitos entre
o mundo dos objetos (e das relações de objeto), de presentificar os restos (e as




                                                                                                              Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
relações de abjeção) e de resistir à morte, nas formas fantasmáticas, da aura.

Desse modo, nossas perguntas podem ser investigadas por dois vastos tópicos:
o primeiro diz respeito ao tema da arte e clínica (e vice-versa). O segundo trata do
corpo e do corpo-obra. Entre eles, um encontro marcado na proposta de uma
teoria do corpo-obra no campo clínico e o modo como esse processo de construção
pode ser também um modo de dar forma e de sustentar a relação terapêutica,
entendendo que o sujeito se estrutura esteticamente – estética do desejo e
ético-estética, relações entre arte e clínica.



II Clínica e arte, arte e clínica
II. 1. As relações entre arte e clínica podem ser traçadas de modos muito diferen-
tes. Por conta de uma historiografia do problema, podemos elencar o quanto a
Psicologia e a Psicanálise dedicaram-se ao problema da arte, das relações entre
arte e campo psíquico, dos contatos e confrontos entre uma psicologia da
gestalt, uma psicanálise da arte – desde suas origens, em Freud, bastante limitada
pelo próprio autor, ao entendimento de fundo lacaniano da obra-de-arte enquanto
lugar do analista, diante da qual somos todos analisandos. (Lacan/Magno).2

Não apenas Freud e sua dobra lacaniana fazem da arte alvo e centro de suas
preocupações e atuações teóricas e clínicas. Essas relações podem estar dirigidas
a um modelo de estudos voltado para a clínica psicanalítica e para os trânsitos
entre a biografia do artista e a terapêutica. Ampliam-se para o domínio do sonho
e do sonho acordado, traçando o campo de vizinhança entre a arte e a teoria da
fantasia (fantasma).

Gombrich, um dos mais importantes historiadores e teóricos da arte, traça as relações
entre arte e chiste, demonstrando, através do chiste, que a arte é um jogo que
depende da própria estrutura da linguagem no qual se joga, ou seja, tal como num
chiste é preciso um entendimento prévio da estrutura e do contexto da “piada” para


2 Refiro-me aqui aos seguintes textos: LACAN, Jacques. O seminário: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro:
J. Zahar Editor, 1991; MAGNO, M.D. Psicanálise  Política. Rio de Janeiro: A Outra Editora, 1986.
que se possa rir ou para que se possa apreender o sentido no vasto campo lacunar
                                             #
                                                                                         instalado pelo chiste. Assim, nos termos desta teoria da arte, que vincula a História
                                                                                         à Psicanálise, há um inconsciente da obra que deve ser investigado.3
Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética...




                                                                                                     Embora possa parecer uma comparação extravagante, a arte tem muito em comum com os
                                                                                                     chistes. Nos anos em que as abordagens psicanalíticas tendiam a focalizar redutoramente
                                                                                                     os detalhes biográficos, Gombrich sugeriu, certa vez, que o melhor lugar na obra de Freud a
                                                                                                     partir do qual dever-se-ia começar a pensar sobre arte era o seu livro sobre o chiste. Para
                                                                                                     Freud, um chiste apoiava-se na complicada mistura de uma mensagem ou “tendência”
                                                                                                     (hostil, sexual, etc.) e as estruturas formais da linguagem, os mecanismos lingüísticos que
                                                                                                     dariam ao chiste sua forma. Um trocadilho ou chiste de duplo sentido apóia-se, por exem-
                                                                                                     plo, no que uma linguagem tem a oferecer em termos de semelhanças entre palavras.
                                                                                                     Esses recursos da linguagem podem ser explorados ou destacados pela pessoa que conta
                                                                                                     o chiste, mas não são inventados como tal. De modo análogo, uma obra de arte poderia ter
                                                                                                     uma “mensagem” ou “conteúdo” talvez ligado à biografia do artista, mas, crucialmente,
                                                                                                     isso seria moldado, configurado e estruturado pela sintaxe formal da linguagem contempo-
                                                                                                     rânea da arte. Em lugar de ver a forma artística como sendo meramente o vínculo do
                                                                                                     pensamento inconsciente do artista, Gombrich argumentou que a teoria freudiana dos chis-
                                                                                                     tes mostrou como, em suas palavras, “é freqüentemente o invólucro que determina o con-
                                                                                                     teúdo... O código gera a mensagem. (LEADER, 2005, p. 70-71).


                                                                                         Psicanalistas como Jones (teoria do simbolismo), Segal e Winnicott (enfatizando
                                                                                         o teórico dos objetos transicionais e os estudos do jogo), dentre outros, também
                                                                                         produziram importantes contribuições ao campo da reflexão artística e nas relações
                                                                                         entre arte e psiquismo. Michel de M’Uzan (1978) designa que o personagem
                                                                                         interior e suas metamorfoses assemelham-se à plasticidade do lugar do analista.

                                                                                         Desse modo, podemos reunir algumas dessas posições da Psicanálise e da arte
                                                                                         nos seguintes conjuntos:
                                                                                         • a arte como dimensão do inconsciente do artista;
                                                                                         • a arte como dimensão do inconsciente moldado, configurado e estruturado
                                                                                           pela sintaxe formal da linguagem; e
                                                                                         • a arte (e a obra) como lugar do analista.


                                                                                         Contemporaneamente, essa problemática expande-se para os domínios das
                                                                                         relações entre arte, estética e poética para e no campo das clínicas e suas
                                                                                         teorizações – as metarreflexões nascidas na/da clínica – na contemporaneidade.


                                                                                         3 Refiro-me especialmente ao ensaio: GOMBRICH, E. H. Verbal wit as a paradigm of art: the aesthetic
                                                                                         theories of Sigmund Freud. In: WOODFIELD, Richard. The essential Gombrich. London: Phaidon Press Limited,
                                                                                         1996. p. 189-210.
Essas inflexões acabam por confluir num conjunto vocabular que nos permite




                                                                                                                     #'
pensar na estética e na ética do desejo (Lacan), na ético-estética (Deleuze e
Guattari) e na poética na clínica contemporânea (Safra).




                                                                                                           Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
Hoje, temos uma tarefa ainda mais ampla, a de reconhecer possíveis matrizes
na Psicanálise para uma clínica que tem também em seus fundamentos uma
estética e um conjunto de relações com objetos, ferramentas e instrumentos
capazes de passar de estados subjetivos particulares a estados subjetivos
compartilhados, tal como nas manifestações artísticas propriamente ditas. Viver
a subjetivação em sua potência de estetização parece ser um conteúdo latente
dessas clínicas contemporâneas que se deslocam em direções múltiplas.

Para pensar tal empreendimento, vou privilegiar os textos de Freud (1987), Lacan,
Regnault (2001), Magno, França (1997) e M’Uzan (1978). No âmbito da reflexão
artística, concentrando essa interface numa escolha contemporânea da teoria da arte
em torno do enunciado do FORT-DA (Freud),4 vou atravessar do campo clínico para o
campo da teoria da arte e reconhecer a matéria na qual se tece o FORT-DA da arte.

II. 2. François Regnault (2001), num conjunto de quatro conferências proferidas
em Madrid, entre os anos de 1992 e 1993, nos lembra que o método da Psica-
nálise é justamente o de estabelecer um intenso vai e vem dos textos metapsi-
cológicos, do arsenal conceitual, das reflexões passíveis de serem denominadas
teóricas e da presença marcante da experiência, advinda do campo clínico-analítico
(a clínica psicanalítica). Portanto, não haveria uma fala em psicanálise que pudesse
ser exclusivamente de ordem teórica, deixando de ser o que ela é, em seu
exercício, se assim o fosse.

Nesses termos, a Psicanálise tem afinidades com as lógicas particulares das
ciências que privilegiam os estudos de caso, o trabalho de campo, a etnografia,
a descrição. Segundo o autor, nada do que é feito, de dentro do campo da
Psicanálise, para seu ordenamento epistemológico – um saber acerca do saber
psicanalítico – pode prescindir da clínica – nos termos lacanianos d’A Coisa. No
estatuto dessa disciplina, portanto, não haveria uma metalinguagem – teórica –
capaz de ser aplicável ao caso, pois não há um discurso sobre, mas um discurso
dentro da prática e que está integralmente comprometido com ela. A partir de e
dentro de cada caso, descrições e conceitos se extendem promovendo afirmações


4 FORT-DA, termo utilizado por Sigmund Freud, num jogo de palavras que designam uma brincadeira infantil
de “aparecer/desaparecer”. O termo será detalhadamente explicado no decorrer do próprio artigo.
conflitivas e contornáveis entre os casos e as teorizações. Não um texto exclusi-
                                             $
                                                                                         vamente de teoria, mas teorizações que se expandem a partir dos efeitos dos
                                                                                         casos. “A psicanálise, por sua dialética do caso clínico, é então o campo no
Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética...




                                                                                         qual o singular e o universal coincidem sem passar pelo particular. Isso não é
                                                                                         comum em filosofia, exceto talvez em certos momentos hegelianos.”
                                                                                         (REGNAULT, 2001, p. 10).

                                                                                         Eis a questão da clínica enunciada. E dela o seu tipo de saber, um saber que faz
                                                                                         a travessia do singular ao universal. Nessas inter-relações, fazemos coincidir a
                                                                                         problemática de Hegel a Lacan: no modo como a arte é, também, uma produção
                                                                                         do singular que faz passagem ao universal. Assim, os próprios trânsitos entre a
                                                                                         arte e a clínica encontram-se aqui enunciados, nos modos como estamos a nos
                                                                                         orientar em torno das questões da arte e do estilo, do estilo e da interpretação (e
                                                                                         do estilo na interpretação), numa antifilosofia (arte da desenvoltura em relação
                                                                                         às doutrinas).5

                                                                                         No dizer de Maria Inês França, a Psicanálise constitui-se em prática teórica, o
                                                                                         que nos faz lembrar essa pretensa definição contemporânea para as artes, elas
                                                                                         próprias enquanto práticas teóricas. Carregadas no seu limite por uma experiência,
                                                                                         a do analista na clínica e a do artista em qualquer forma de ateliê, estão em
                                                                                         vizinhança quando falamos ou pensamos nas estruturas da sublimação, tomadas
                                                                                         de Hegel, apontadas por Freud (arte, ciência e religião) e, posteriormente, rea-
                                                                                         presentadas por Lacan.

                                                                                                     Enfatizaremos a sublimação na arte, enquanto exemplar da estética do desejo, por ela se
                                                                                                     referir especificamente ao ato criativo. Tanto na religião quanto na ciência, embora estruturas
                                                                                                     de sublimação e, portanto, referidas ao mistério da origem, podemos perceber um afasta-
                                                                                                     mento do ato criativo. Na religião, este afastamento se refere à burocratização e à ritualização,
                                                                                                     perdendo com isto a religião sua referência à origem e à criação. Na ciência, do mesmo modo,
                                                                                                     as referências ao positivismo lógico e à prova experimental demonstrativa reduzem os pressu-
                                                                                                     postos criativos a meras correspondências. Ambas religião e ciência, podem manter suas
                                                                                                     estruturas apesar da ausência de questionamentos e de referência ao ato criativo. Na arte é
                                                                                                     diferente. A angústia suscitada na produção artística é similar na produção psicanalítica, pois
                                                                                                     o efeito produzido não garante a produção de um novo efeito. Ou seja, a obra criada é um
                                                                                                     efeito transitório, instantâneo. O que quer dizer que o efeito é causado pelos tropeços no real,
                                                                                                     em uma origem perfeitamente desconhecida. (FRANÇA, 1997, p. 136).

                                                                                         5 Nesses termos, as leituras de Fabio Herrmann fazem grande metáfora ao termo de Freud-Lacan-Regnault:
                                                                                         a antifilosofia. Por esse termo, entende-se a capacidade de o analista trafegar e navegar entre os conceitos,
                                                                                         “uma arte de desenvoltura em relação às doutrinas, amealhando, picotando aqui e ali algum achado filosófico,
                                                                                         e deixando o resto”. (REGNAULT, 2001, p. 11). O que se apreende aqui é a plasticidade, o senso pragmático,
                                                                                         a catarse (a condução dos afetos como estado de arte).
A orientação geral para o tema da sublimação e para as três grandes formações




                                                                                                                           $
que tratam desta questão – arte, ciência, religião (Freud) – podem ser ainda
contaminadas pelo tratamento que foi dado por Lacan ao tema, incluindo aí, no




                                                                                                                 Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
cerne do problema, as relações entre arte, ciência e filosofia (Lacan).

Nos termos de Regnault (2001), não se trata apenas de reconhecer a monu-
mentalidade das grandes formações; é preciso traçar um ziguezague entre elas, uma
aposta “barroca” (Lacan) para fazer avançar a Psicanálise e a sua clínica.6

Já vimos como a arte e a Psicanálise tratam da mesma questão: a do singular. E
isso pode nos fazer passar numa zona intermediária entre a inexistência de uma
estética da Psicanálise, do modo como existe uma ética da Psicanálise, e a
existência de uma estética em Psicanálise, ou uma estética à moda psicanalítica,
freudiana, lacaniana, dentre outras (REGNAULT; FRANÇA).

            Neste sentido, a estética em psicanálise se aproxima da arte, pois, desde seu fundamento, o
            saber psicanalítico, provocado pela produção histérica, se colocou nos limites do não-sentido,
            interrogando a verdade parcial do desejo. Não é permitida nem ao psicanalista, nem ao
            artista, qualquer forma de burocratização, pois ela cortaria a possibilidade de presentificação
            de um radical desconhecido e, portanto, aboliria a referência ao ato criativo. Em alguns de
            seus trabalhos Freud associa a interpretação psicanalítica ao ato criativo, textos onde pode-
            mos apreciar a irrupção do imaginário no simbólico, presentificando o real e causando efeitos
            de busca e movimentação de sentido. (FRANÇA, 1997, p. 136-137).


Nas leituras de França, uma estética precede uma ética, enquanto uma inquietante
estranheza presentificada na função do Belo. Nos termos da autora, partindo da
leitura de Das Unheimliche,7 o Belo é uma operação de formação de um duplo,
mostrando o enigma do semelhante e do familiar como sendo uma terrível ameaça
para além do jogo de espelhos. Portanto, o Belo é o sinal gêmeo do Horror – o
mais Belo que o próprio Belo.8

6 A aposta barroca é central na leitura do Seminário 20, mais, ainda, de Jacques Lacan.
7 FREUD, Sigmund. O estranho. In: FREUD, S. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição
standard brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1987. Primeira reimpressão: 1988. p. 233-273. v. XVII.
8 Nos termos de França, esta articulação entre o Belo e o Horrível é o ponto da irrupção do imaginário no
simbólico, fazendo presente o Real e desvelando, na Beleza, a imagem da morte e a relação do ser com a
finitude. Eis o tema central de Antígona, na leitura de Lacan, no seminário sobre a Ética na Psicanálise. Para
ele, a Beleza de Antígona, ressaltada durante todo o texto, é justamente o modo do qual podemos falar
dessa relação resplandecente com a morte. Ficamos cegos diante de tanta beleza e estamos, ao mesmo
tempo, diante de uma surpresa e de uma angústia, pois o excesso de beleza só revela a condicionante da
decrepitude e da morte mais e mais ressaltadas. Assim, o prazer da beleza – prazer de imagem, de objeto –
se faz acompanhar de uma forma de angústia e de indeterminação da imagem, como se o excesso fosse já
a distorção que emblematizará, na ausência do objeto, a presença e a marca da morte.
Por essa terminologia, na ausência de uma estética da Psicanálise, haveria uma
                                             $
                                                                                         estética psicanalítica, que põe o Belo, na estética do desejo, num lugar asseme-
                                                                                         lhado ao do Sublime, para as estéticas clássicas.
Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética...




                                                                                         O Sublime kantiano pode estar mais próximo do Belo freudiano, pois da beleza,
                                                                                         nos termos das teorias renascentistas e clássicas, fala-se de uma forma de
                                                                                         harmonização e regularização de opostos. A verdade seria resultante do velamento
                                                                                         do horror, causando sistematização da experiência e configuração da realidade
                                                                                         num mundo ordenado. Para Freud, tal como para a estética do Sublime, o problema
                                                                                         da verdade incita a pensar no deslocamento que o Belo faz do Horror, para se
                                                                                         fazer o lugar de um engodo, de um equívoco.9

                                                                                                    O Belo, assim, afirma exemplarmente uma erótica e uma estética do desejo, que apre-
                                                                                                    sentam o valor de subversão do pensamento freudiano, ao mesmo tempo em que amplia
                                                                                                    o discurso analítico sobre o desejo, pois indica a estética como antecessora lógica à ética
                                                                                                    do desejo, na medida em que a imagem desejável contém a transgressão do desejo e
                                                                                                    seus impasses com a lei que, por sua vez, se funda no desejo. Nossa questão nos conduz
                                                                                                    a pensar a estética e seu fundamento erótico como o que movimenta e liberta o desejo da
                                                                                                    lei normativa. Portanto, é a estética do desejo que interroga e suspende o poder coerciti-
                                                                                                    vo da lei do desejo e seus arranjos sociais e culturais. Inferimos, assim, que toda pers-
                                                                                                    pectiva ética para a psicanálise se coloca associada a uma erótica e como uma face da
                                                                                                    estética do desejo. (FRANÇA, 1997, p. 139).


                                                                                         Nesse cruzamento, a função da sublimação exercida pela arte é condizente com
                                                                                         a função de sublimação exercida pela clínica. Em ambas, faz-se referência à
                                                                                         Coisa. E que Coisa é essa?

                                                                                                    A Coisa é o objeto que jamais será reencontrado. [...] Ela caracteriza o sujeito, seu objeto
                                                                                                    e seu desejo. Esse objeto nunca foi perdido, embora se trate de reencontrá-lo. Esse objeto
                                                                                                    tampouco foi dito. Ele desliza entre as palavras e as coisas, na ilusão que acredita que as
                                                                                                    palavras correspondem às coisas, ilusão sem cessar desmentida pelo mal-entendido e,
                                                                                                    no entanto, sem cessar renascente. A Coisa se situará, então, “entre o real e o significan-
                                                                                                    te”. (REGNAULT, 2001, p. 17).


                                                                                         Se Ela desliza entre os significantes, a melhor forma de representá-la é o Vazio.
                                                                                         Assim, em cada momento, podemos colocar algo no seu lugar. Quando estamos
                                                                                         próximos do Real, a Coisa é o Vazio, e o Vazio a representa. Quando estamos ao lado
                                                                                         da arte, temos aí, algo posto em cena, no seu lugar, como sendo a sua representação.


                                                                                         9 Talvez, se possa pensar na concepção de barroco para Lacan e da fórmula da arte enquanto lugar do
                                                                                         engodo – trompe l’oeil. Veja-se O Seminário mais ainda.
Portanto, na Psicanálise, a arte é um modo de representação do Vazio.10




                                                                                                                         $!
            Mas então, aplicada à arte, a questão se apresenta: onde reconheceremos esse vazio em




                                                                                                               Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
            torno do qual a arte se organiza? Vazio o vaso, pode ser, mas vazio o templo? Vazia a
            estátua? Vazias As meninas? Vazia uma sinfonia de Beethoven? Vazio o Dom Quixote e
            vazio o Ulisses, de Joyce? (REGNAULT, 2001, p. 19).


Ao fim, não há também uma Psicanálise aplicada ao estudo da arte. O que há é
estado de arte na Psicanálise. O que há é um estilo na clínica. A arte precede a
clínica.

E o que pode fazer a clínica (psicanalítica) na arte e com a arte?

O que pode fazer a arte, portanto, na clínica e para a clínica?

No que diz respeito à primeira questão, Freud sempre manteve reservas em
psicanalizar o artista através da arte e restringiu ao máximo sua abordagem ao
ato e ao processo de criação.

No que diz respeito à segunda, Lacan conduziu a arte para fazer avançar a
psicanálise.

            Assim, o quadro Os embaixadores, com a anamorfose do crânio, ensina o que são o falo e
            o olhar mais que a fantasia de Holbein. A Antígona, de Sófocles, revela o que é o entre-
            duas-mortes; Hamlet, a construção em torno de nosso desejo, o que acontece com o falo;
            a trilogia de Claudel, o que ocorre com o desejo no mundo moderno. Diria até que Os
            embaixadores e As meninas ensinam o que é um quadro; Sófocles e Claudel, o que são o
            trágico antigo e o trágico moderno. Ora, a teoria dos conceitos fundamentais da psica-
            nálise, notadamente a pulsão, não pode prescindir de saber o que é um quadro; a ética
            da psicanálise não pode ignorar o trágico, etc. A arte então, não se contenta com adornar,
            ilustrar; ela realmente organiza. (REGNAULT, 2001, p. 22).


Nesses termos, ao estudar arte, estamos compreendendo as relações que se
estabelecem entre o visível, o legível e o audível, todos eles suportados imagi-


10 Nos estudos das interfaces, encontram-se pontos de aproximação entre esta concepção do Furo e do
inconsciente como sendo um Real furado – no qual tudo é travessia – com as filosofias orientais. Maria Luiza
Ramos aponta para estas relações entre a psicanálise lacaniana e as abordagens do sentido nas filosofias
do extremo oriente, afirmando uma relação intertextual entre Lacan e os místicos (Zen-budismo, Bhagavadgita
e o misticismo cristão). Ela estabelece as redes de leitura entre os Upanixades e o Estágio do Espelho e
entre o método da análise e a didática do zen-budismo. Veja-se RAMOS, M. L. Interfaces: literatura, mito,
inconsciente, cognição. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2000. 296 p. (Coleção Humanitas)
nariamente no corpo. As artes não se definem aqui segundo gêneros ou segundo
                                             $
                                                                                         as classificações e sistemas artísticos. Na Psicanálise, com ênfase aqui para
                                                                                         Lacan, as artes estão marcadas pelo VAZIO (o modelo do vaso) e pela ANAMOR-
Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética...




                                                                                         FOSE (o modelo do crânio). No vazio, estamos no templo e na arquitetura primitiva,
                                                                                         no vaso d’A Oleira Ciumenta de Claude Lévi-Strauss. É em torno do vazio e da
                                                                                                    A       Ciumenta,
                                                                                         sua organização que se obra. Na anamorfose, um jogo barroco quer reinstaurar o
                                                                                         sentido da arte, nos termos de uma arte contemporânea das ciências.

                                                                                         Nos termos de França (1997), a arte, enquanto desconstrução do ideal da estética
                                                                                         clássica, promove com a criação um laço entre os sujeitos desejantes. Nesses
                                                                                         termos, o Belo faz um laço social. Com a atividade sublimatória, o vazio do qual
                                                                                         se falava torna-se um modo de articulação do modo como apresentamos nossas
                                                                                         paixões no registro pulsional. No amor, no ódio e na ignorância – as paixões
                                                                                         humanas – o aprendizado permanente de lidar com o não-sentido é o que permite
                                                                                         ao sujeito a invenção de um lugar criativo e de potencialização do desejo.




                                                                                         III O FORT-DA e a arte
                                                                                         III. 1. Lendo em Freud

                                                                                         Se as questões que trazem o tema das relações entre arte e clínica psicanalítica,
                                                                                         do ponto de vista da Psicanálise, concentram-se na abordagem da angústia do
                                                                                         ato criador e da autocriação do sujeito, numa invenção da vida em face da de-
                                                                                         crepitude e do desaparecimento, a arte e suas reflexões teóricas têm se debruçado
                                                                                         nos textos da Psicanálise como modo de enfrentar os objetos artísticos dos
                                                                                         séculos XX e XXI. Grande parte da bibliografia atual que estuda as relações entre
                                                                                         arte e Psicanálise tem na famosa descrição freudiana do FORT-DA um dos seus
                                                                                         motes de iniciação. Essa questão, inicialmente restrita ao campo dos estudos
                                                                                         freudianos, após as derivações Freud-Lacan, ganha importância no cenário de
                                                                                         uma teoria da arte propriamente dita.

                                                                                         Assim, quero me deter em alguns desses momentos exemplares e identificar as
                                                                                         possíveis correlações entre o FORT-DA, uma teoria da visão e uma teoria da
                                                                                         encenação.

                                                                                         Inicialmente, retomemos o texto de Freud.
Em Além do princípio de prazer Freud descreve a situação do seu próprio neto,
                         prazer,




                                                                                                               $#
com dezoito meses de vida. Seu contexto de leitura diz respeito a uma passagem
que faz alusão às brincadeiras infantis.




                                                                                                     Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
        As diferentes teorias sobre a brincadeira das crianças foram ainda recentemente resumi-
        das e discutidas do ponto de vista psicanalítico por Pfeifer (1919), a cujo artigo remeto
        meus leitores. Essas teorias esforçam-se por descobrir os motivos que levam as crianças a
        brincar, mas deixam de trazer para o primeiro plano o motivo econômico, a consideração da
        produção de prazer envolvida. Sem querer incluir todo o campo abrangido por esses
        fenômenos, pude, através de uma oportunidade fortuita que se me apresentou, lançar cer-
        ta luz sobre a primeira brincadeira efetuada por um menininho de ano e meio de idade e
        inventada por ele próprio. Foi mais do que uma simples observação passageira, porque vivi
        sob o mesmo teto que a criança e seus pais durante algumas semanas, e foi algum tempo
        antes que descobri o significado da enigmática atividade que ele constantemente repetia.
        (FREUD, 1988, p. 25).


Vemos aqui como o autor revela sua preocupação inicial com uma relação teórica
entre a economia libidinal e seu bom funcionamento através da brincadeira,
recebendo o brinquedo e o brincar a função de produção de prazer.

Em seguida, continuando o pensamento de Freud:

        A criança de modo algum era precoce em seu desenvolvimento intelectual. À idade de ano
        e meio podia dizer apenas algumas palavras compreensíveis e utilizava uma série de
        sons que expressavam um significado inteligível para aqueles que a rodeavam. Achava-
        se, contudo, em bons termos com os pais e sua única empregada, e tributos eram-lhe
        prestados por ser um “bom menino”. Não incomodava os pais à noite, obedecia cons-
        cientemente às ordens de não tocar em certas coisas, ou de não entrar em determinados
        cômodos e, acima de tudo, nunca chorava quando sua mãe o deixava por algumas horas.
        Ao mesmo tempo, era bastante ligado à mãe, que tinha não apenas de alimentá-lo, como
        também cuidava dele sem qualquer ajuda externa. Esse bom menininho, contudo, tinha o
        hábito ocasional e perturbador de apanhar quaisquer objetos que pudesse agarrar e ati-
        rá-los longe para um canto, sob a cama, de maneira que procurar seus brinquedos e
        apanhá-los, quase sempre dava bom trabalho. Enquanto procedia assim, emitia um longo
        e arrastado “o-o-o-ó”, acompanhado por expressão de interesse e satisfação. Sua mãe e
        o autor do presente relato concordaram em achar que isso não constituía uma simples
        interjeição, mas representava a palavra alemã “fort”. Acabei por compreender que se
        tratava de um jogo e que o único uso que o menino fazia de seus brinquedos, era brincar
        de “ir embora” com eles. Certo dia, fiz uma observação que confirmou meu ponto de
        vista. O menino tinha um carretel de madeira com um pedaço de cordão amarrado em
        volta dele. Nunca lhe ocorrera puxá-lo pelo chão atrás de si, por exemplo, e brincar com o
        carretel como se fosse um carro. O que ele fazia, era segurar o carretel pelo cordão e com
        muita perícia arremessá-lo por sobre a borda de sua caminha encortinada, de maneira
        que aquele desaparecia por entre as cortinas, ao mesmo tempo que o menino proferia
seu expressivo “o-o-o-ó”. Puxava então o carretel para fora da cama novamente, por meio
                                             $$
                                                                                                  do cordão, e saudava o seu reaparecimento com um alegre “da” (“ali”). Essa, então, era a
                                                                                                  brincadeira completa: desaparecimento e retorno. Via de regra, assistia-se apenas a seu
Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética...




                                                                                                  primeiro ato, que era incansavelmente repetido como um jogo em si mesmo, embora não
                                                                                                  haja dúvida de que o prazer maior se ligava ao segundo ato. (FREUD, 1988, p. 25-27).


                                                                                         Nesse ponto, Freud estabelece a relação entre o jogo e a questão da linguagem.
                                                                                         No seu entendimento, o FORT-DA designava uma situação de “ir embora” e de
                                                                                         “estar ali (retornar)”, como num vai-e-vem. O prazer do menino era medido pelo
                                                                                         procedimento repetitivo – característica do jogo – entre desaparecer e reaparecer.

                                                                                         O jogo era, então, visto como iniciativa cultural e de simbolização dos modos
                                                                                         da ausência e da presença da figura materna que, além dos cuidados físicos
                                                                                         (alimentação, o grande seio) implicava também um estado entre o cuidado e o
                                                                                         olhar que se depositava da mãe em direção ao filho e do filho na procura da
                                                                                         mãe. O menino reencenava a situação vivida, representando-a na forma do
                                                                                         jogo do carretel.

                                                                                                  A interpretação do jogo tornou-se então óbvia. Ele se relacionava à grande realização
                                                                                                  cultural da criança, à renúncia instintual (isto é, a renúncia à satisfação instintual) que
                                                                                                  efetuara ao deixar a mãe ir embora sem protestar. Compensava-se por isso, por assim
                                                                                                  dizer, encenando ele próprio o desaparecimento e a volta dos objetos que se encon-
                                                                                                  travam a seu alcance. É naturalmente indiferente, do ponto de vista de ajuizar a natureza
                                                                                                  efetiva do jogo, saber se a própria criança o inventara ou o tirara de alguma sugestão
                                                                                                  externa. Nosso interesse se dirige para outro ponto. A criança não pode ter sentido a
                                                                                                  partida da mãe como algo agradável ou mesmo indiferente. Como, então, a repetição
                                                                                                  dessa experiência aflitiva, enquanto jogo, harmonizava-se com o princípio de prazer? Tal-
                                                                                                  vez se possa responder que a partida dela tinha de ser encenada como preliminar ne-
                                                                                                  cessária a seu alegre retorno, e que neste último residia o verdadeiro propósito do jogo.
                                                                                                  Mas contra isso deve-se levar em conta o fato observado de o primeiro ato, o da partida,
                                                                                                  ser encenado como um jogo em si mesmo, e com muito mais freqüência do que o episó-
                                                                                                  dio na íntegra, com seu final agradável. Nenhuma decisão certa pode ser alcançada pela
                                                                                                  análise de um caso isolado como esse. De um ponto de vista não preconcebido, fica-se
                                                                                                  com a impressão de que a criança transformou sua experiência em jogo devido a outro
                                                                                                  motivo. No início, achava-se numa situação passiva, era dominada pela experiência; repe-
                                                                                                  tindo-a, porém, por mais desagradável que fosse, como jogo, assumia papel ativo. Esses
                                                                                                  esforços podem ser atribuídos a um instinto de dominação que atuava independente-
                                                                                                  mente de a lembrança em si mesma ser agradável ou não. (FREUD, 1988, p. 27-28).

                                                                                         Note-se aqui a complexidade da observação e da análise do caso isolado. Freud
                                                                                         chama a atenção para o fato de que o jogo, na maioria das vezes, não tinha
                                                                                         como garantia o retorno do objeto. Portanto, na grande maioria das situações em
                                                                                         que o carretel sumia, ele não retornava. A criança, então, estava se impondo,
enquanto agente ativo, um padrão de desaparecimento do seu objeto de prazer.




                                                                                                                          $%
Substituía o lugar de objeto dado a si por estar sofrendo com a saída ativa da
mãe – era a mãe que ia e vinha – por um jogo, no qual, ela própria, designava a




                                                                                                                Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
mãe enquanto objeto destinado a ser retirado da cena ou retornar a ela, conforme
o movimento promovido pela criança.

A criança ritualizava a saída de cena da mãe através do objeto e, através do me-
canismo constituído, restituía a si o objeto e o prazer advindo de uma certeza simbólica
da volta da própria mãe. Assim como o carretel, a mãe também retornaria sempre.
Mas não apenas isso. A criança tomava a si o poder – simbólico – de mandar a mãe
e o objeto embora e de trazê-los de volta quando lhe fosse aprazível.11

            Mas uma outra interpretação pode ainda ser tentada. Jogar longe o objeto, de maneira a
            que fosse “embora”, poderia satisfazer um impulso da criança, suprimido na vida real, de
            vingar-se da mãe por afastar-se dela. Nesse caso, possuiria significado desafiador: “Pois
            bem, então: vá embora! Não preciso de você. Sou eu que estou mandando você embora.”
            Um ano mais tarde, o mesmo menino que eu observara em seu primeiro jogo, costumava
            agarrar um brinquedo, se estava zangado com este, e jogá-lo ao chão, exclamando: “Vá
            para a frente!” Escutara nessa época que o pai ausente se encontrava na “frente (de
            batalha),” e o menino estava longe de lamentar sua ausência, pelo contrário, deixava
            bastante claro que não tinha desejo de ser perturbado em sua posse exclusiva da mãe.
            Conhecemos outras crianças que gostavam de expressar impulsos hostis semelhantes
            lançando longe de si objetos, em vez de pessoas. Assim, ficaremos em dúvida quanto a
            saber se o impulso para elaborar na mente alguma experiência de dominação, de modo a
            tornar-se senhor dela, pode encontrar expressão como um evento primário e independen-
            temente do princípio de prazer. Isso porque, no caso que acabamos de estudar, a criança,
            afinal de contas, só foi capaz de repetir sua experiência desagradável na brincadeira por-
            que a repetição trazia consigo uma produção de prazer de outro tipo, uma produção mais
            direta. Não seremos auxiliados em nossa hesitação entre esses dois pontos de vista por
            outras considerações sobre brincadeiras infantis. É claro que em suas brincadeiras as
            crianças repetem tudo que lhes causou uma grande impressão na vida real, e assim pro-
            cedendo, ab-reagem a intensidade da impressão, tornando-se, por assim dizer, senhoras da
            situação. Por outro lado, porém, é obvio que todas as suas brincadeiras são influenciadas
            por um desejo que as domina o tempo todo: o desejo de crescer e poder fazer o que as
            pessoas crescidas fazem. Pode-se também observar que a natureza desagradável de uma
            experiência nem sempre a torna inapropriada para a brincadeira. Se o médico examina a



11 Penso que aqui devemos levar em conta o quantum de tempo no qual o jogo se estabelece, como meio
de realização de diferentes tempos do afastamento do objeto materno e o desenvolvimento dos níveis de
resistência infantil. Assim, não há um único modo de se jogar esse jogo, no qual o que importa não são a
duração e as distâncias temporais entre o desaparecimento e o retorno do objeto, mas uma dimensão
subjetiva e flutuante. É por isso que não designa descontinuidade de raciocínio e de lógica simbólica do jogo
do FORT-DA, a descontinuidade de apreensão temporal.
garganta de uma criança ou faz nela alguma pequena intervenção, podemos estar inteira-
                                             $
                                                                                                     mente certos de que essas assustadoras experiências serão tema da próxima brincadeira;
                                                                                                     contudo, não devemos, quanto a isso, desprezar o fato de existir uma produção de prazer
Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética...




                                                                                                     provinda de outra fonte. Quando a criança passa da passividade da experiência para a
                                                                                                     atividade do jogo, transfere a experiência desagradável para um de seus companheiros de
                                                                                                     brincadeira e, dessa maneira, vinga-se num substituto. (FREUD, 1988, p. 27-28).


                                                                                         Como dissemos, o jogo inicialmente observado por Freud, do ponto de vista de
                                                                                         uma economia, é também aventado como da ordem de uma política. Em ambas,
                                                                                         estamos diante de uma representação. Representação simbólica de objeto, na
                                                                                         economia, e, representação relacional de poder, na política. Freud deixa em aberto,
                                                                                         apesar de preponderar em si o raciocínio da economia, o jogo entre essas duas
                                                                                         forças, correlacionando-as e colocando-as, cautelosamente, lado a lado.12

                                                                                         Qual o motivo que nos fez tomar esse pequeno caso acima descrito por Freud
                                                                                         como sendo paradigmático para pensar as artes, enfatizando aqui suas origens
                                                                                         num jogo (simbólico e relacional) e designando uma função visual e uma função
                                                                                         de encenação.

                                                                                         Ao que parece, o próprio Freud sugere essa relação entre o menino e os artistas,
                                                                                         terminando o caso com a representação teatral trágica, onde o espectador é
                                                                                         levado a buscar prazer em experiências penosas encenadas, designando que
                                                                                         “um sistema de estética com uma abordagem econômica a seu tema geral”
                                                                                         (FREUD, 1988, p. 29) deve prevalecer.13

                                                                                         Nessa articulação entre economia (libidinal, simbólica), política (forças, relações)
                                                                                         e estética, estamos diante das páginas de uma estética psicanalítica que se


                                                                                         12 Em sua análise, Didi-Huberman (1998) lembra que o exemplo do jogo infantil encontra-se no contexto de
                                                                                         uma análise sobre a guerra e uma metáfora do sujeito em busca da sobrevivência, no aprendizado de por
                                                                                         novamente em cena o “pior”, ou seja, brincar e fazer troça com os elementos mais desprezíveis, tomando
                                                                                         como objeto de jogo e de cena aqueles elementos em geral desconsiderados ou vistos como inferiores e
                                                                                         repulsivos, fazendo do jogo um meio de preservação psíquica da própria existência.
                                                                                         13 Didi-Huberman afirma: “Que o carretel só é ‘vivo e dançante ao figurar a ausência, e só ‘joga’ ao eternizar
                                                                                         o desejo, como um mar demasiado vivo devora o corpo do afogado, como uma sepultura eterniza a morte
                                                                                         para os vivos. Talvez só haja imagem a pensar radicalmente – metapsicologicamente – para além do princípio
                                                                                         de prazer: Freud, como se lembram, terminava sua passagem com uma alusão ao ‘jogo do luto’ (Trauerspiel,
                                                                                         a tragédia) e apelava a ‘uma estética guiada pelo ponto de vista econômico’. Ora, não importa a idéia que
                                                                                         Freud fizesse então da atividade artística em geral, devemos igualmente sublinhar a crítica da imitação que
                                                                                         acompanhava toda sua reflexão: ‘Explicar um jogo por um instinto de imitação é formular uma hipótese
                                                                                         inútil’. Talvez só haja imagem a pensar radicalmente para além do princípio de imitação. É talvez no momento
                                                                                         mesmo em que se torna capaz de desaparecer ritmicamente, enquanto objeto visível, que o carretel se torna
volta para dois lugares, privilegiadamente: uma teoria da encenação e daí




                                                                                                                           $'
decorrente uma noção de representação e uma teoria do campo visual, do olhar
e do jogo entre olhares, nas relações sujeito e objeto.




                                                                                                                 Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
III. 2. Arte, teoria da encenação e a noção de representação

A representação é um elemento central no processo de criação. Fórmula expressa
por Freud no JOGO DO FORT-DA. Representar, em Freud, designa o ato de pôr em
cena.

            Fórmula, por otra parte, muy próxima a la idea expresada por Freud en los dos principios
            del funcionamiento mental, y maravillosamente ilustrada en la observación de su nieto,
            que intenta consolarse de la partida de su madre jugando con una bobina, y pone en
            escena esta misma desaparición y esse mismo regreso con objetos al alcance de su
            mano. (M´UZAN, 1978, p. 17).


O que está posto em cena é o modo mesmo como se situa no mundo um ser
desejante, constituindo a realidade do ser diante da ausência do seu objeto de
desejo. A criança, ao jogar, elabora o trauma da perda e encontra para ela uma
saída positivada – criadora (no jogo).

Nos níveis mais elevados da criação, denominamos isso de inspiração criadora,
como forma de compreender uma experiência mítica do real, gerando não apenas


uma imagem visual. O símbolo, certamente, o ‘substituirá’, o assassinará – segundo a idéia de que ‘o
símbolo se manifesta primeiro como assassinato da coisa’ –, mas ele subsistirá num canto, esse carretel:
num canto da alma ou num canto da casa. Subsistirá como resto assassinado do desejo da criança.” (DIDI-
HUBERMAN, 1998, p. 83). A imagem deve ser vista aqui como emblema ou como alegoria que designa uma
posição intermediária entre o objeto real – em desaparecimento – e a abstração da ordem simbólica – que
também faz desaparecer a imagem. A ordem imaginária ficaria, assim, numa espécie de zona de suspensão.
Não se está falando da imagem enquanto cópia do real – por imitação. Para Didi-Huberman, em sua recuperação
para a Teoria da Arte da leitura de Freud, a imagem surge justamente condicionada pelo desaparecimento do
objeto real. A imagem surge no lugar da ausência dos objetos, visando a eternizar o desejo de um certo
objeto perdido e apenas reencontrado num outro plano, numa passagem do real ao imaginário. Nessa
economia freudiana, não existem duas coisas no mesmo lugar. Perde-se o objeto, ganha-se a imagem.
Posteriormente, uma nova passagem indica que o imaginário deverá ser subsumido no simbólico, por efeitos
de ordem. O símbolo virá para dizer algo a respeito de todo e qualquer objeto perdido, ele virá para dar ordem
ao acontecimento do plano real. Para tanto, ele deverá enfrentar a coisa e a imagem, mas nessa economia
psíquica, as coisas se deslocam, e objetos perdidos e imagens apagadas acabam por permanecer como
traços ou restos. Nada é controlável pelo modelo. Nem mesmo a boneca – imagem e semelhança do huma-
no – pode ser contida numa figuração corporal. Sempre se procura outro algo – Baudelaire diz que queremos
ver a alma e por isso destruímos nossos brinquedos. Por isso, busca-se sempre outra imagem capaz de
convocar o jogo dos objetos perdidos.
uma descrição ou um comentário do mundo desse ser de desejo, mas também
                                             %
                                                                                         provocando três estados definidos como:
Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética...




                                                                                                   1) una modificación de la alteridad natural del mundo exterior;
                                                                                                   2) la alteración de la intimidad silenciosa del yo psicosomático;
                                                                                                   3) el sentimiento de un esfumado de los límites que separan a esos dos ordenes, con una
                                                                                                      connotación de extrañamiento. A esta transformación en la relación de las parcelas
                                                                                                      objetales y narcisistas responde el sentimiento experimentado por el sujeto de un
                                                                                                      cambio de su posición con respecto al mundo, es decir, de su propia identidad. El
                                                                                                      estado de captación aquí implicado suscita la consciencia de entrar en relación con
                                                                                                      algo esencial y sin embargo inefable. [...] Yo admitia que, em algunos casos, este esta-
                                                                                                      do vivido en la angustia, puede incluirse entre los fenómenos de la despersonaliza-
                                                                                                      ción; que otras veces, acompañado de un estado de euforia, se siente como una expe-
                                                                                                      riencia exultante de dilatación poderosa con la que puede relacionarse el momento
                                                                                                      inicial de la inspiración artística o mística o incluso las experiencias relacionales des-
                                                                                                      critas por Grunberger. Sea como fuere, en los dos casos, el instante de captación me
                                                                                                      parece que surge de una experiencia traumática. (M’UZAN, 1978, p. 18-19).


                                                                                         O que M’Uzan identifica na criação é uma supressão, uma ultrapassagem ou
                                                                                         uma valorização da zona intersticial entre o mundo exterior e a realidade do eu
                                                                                         psicossomático, a realidade e o sujeito, enfim, o surgimento de uma relação
                                                                                         provocadora de um estranhamento diante dos limites e das fronteiras agora
                                                                                         olhados enquanto tal, a partir de uma localização intermediária entre exterior-
                                                                                         interior, uma espécie de espaço indefinido.

                                                                                         Aparentemente, durante o processo de constituição narcísica, após o momento
                                                                                         do narcisismo primário, que se põe o problema de pôr algo em cena, algo no
                                                                                         lugar de, como representando algo para alguém. É nesse momento que saímos
                                                                                         em busca dos objetos exteriores e temos de suportar as tensões (pulsionais).
                                                                                         Jogado nesse espaço indefinível, debatendo-se nos encontros com o real, o sujeito
                                                                                         é submetido a novos aspectos e a novas exigências da pulsão que, em seus
                                                                                         movimentos constantes, permite promover o surgimento da representação
                                                                                         criadora. Cada momento da criação desvela, assim, sua condição traumática.


                                                                                         III. 3. Teoria do olhar

                                                                                         Por outro lado, tomando a situação do objeto – o carretel do FORT-DA –, estamos
                                                                                         diante de um aparecer-desaparecer, de um desvelar-velar, de um jogo de esconde-
                                                                                         esconde, onde algo não se deixa alcançar pelo olhar. E isso coloca em questão
                                                                                         uma teoria do olhar e do jogo entre olhares.
Diferentes autores, teóricos da arte ou psicanalistas interessados nos termos




                                                                                                           %
da visão e do olhar, da função escópica, estão atraídos pelas condicionantes
enunciadas no FORT-DA.




                                                                                                 Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
Vejamos alguns exemplos. Em Didi-Huberman, trata-se do “desaparecimento de
seu carretel com um invariável o-o-o-ó prolongado, depois saudando seu reapa-
recimento, escreve Freud, ‘um alegre Da!’ (‘Ah! Aí está!’). Faço alusão a isso
apenas para sublinhar de novo o quadro geral em que nosso problema se coloca:
quando o que vemos é suportado por uma obra de perda, e quando disto alguma
coisa resta. (DIDI-HUBERMAN, 1998, p. 79-80).

Estamos diante de um objeto – o carretel – apresentado em sua singularidade
visual, de objeto concreto e visível. Seja uma moeda, uma pedra ou um carretel,
os objetos permitem o desenvolvimento de um estranhamento e da marca da
presença da alteridade que arrasta consigo o poder da fantasia e da identificação
na ordem do imaginário.

Num texto de divulgação, o psicanalista e teórico da arte, Darian Leader, afirma que

         os jogos de esconde-esconde convertem o ato de olhar em algo que não está sempre aí.
         Ele pode ser modulado e organizado, ligado pelo jogo a uma estrutura. E, assim, a
         dimensão potencialmente traumática é transformada numa fonte de prazer. Lacan ti-
         nha a idéia de que uma teoria psicanalítica da visão deveria adotar como seu ponto de
         partida esse fato de que, antes de olhar, somos olhados, e de que o nosso olhar se
         insere no que chamamos uma dinâmica de olhares. Note-se como isso é diferente do
         pressuposto muito comum segundo o qual, para investigar respostas visuais e esté-
         ticas, cumpre estudar o que acontece quando um observador olha para um objeto. Em
         vez de postular dois termos – o observador e o objeto –, temos pelo menos três: o
         espectador, o objeto e o terceiro componente, que é quem está observando o obser-
         vador. (2005, p. 12).


Leader e Didi-Huberman estão a nos colocar diante do problema de um jogo
entre olhares, no qual estamos cindidos – “viscondes partidos ao meio”, como
diria o escritor italiano Italo Calvino. Para esses autores, o ato de ver é uma
abertura, uma fenda que se imprime num jogo de aparecer e desaparecer, no
qual somos aquele que vê o objeto sumir e retornar (sujeito) e somos aquele que
é visto, não pelo objeto, mas por aquilo (aquele ou aquela) a que o objeto designa,
um terceiro termo, abrindo a relação sujeito-objeto para uma compreensão de
que “somos vistos pelo que nos olha”. Vemos através de e com um objeto que
deve designar uma perda e, numa partida como essa, resta um.
O jogo do que está posto em cena – tal como vimos no tópico acima – é sustentado
                                             %
                                                                                         num objeto mínimo e numa imagem visual que se configura aos olhos do sujeito
                                                                                         como um resto do movimento completo de desaparecer e de reaparecer. O que se
Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética...




                                                                                         entende disso é que, em face do jogo repetitivo – movimento de intervalos varian-
                                                                                         tes –, fixa-se o menor denominador comum ao olhar da criança. Fixa-se uma imagem
                                                                                         no desaparecimento da coisa. E quando a coisa retorna, ela volta como o resto da
                                                                                         imaginária14 que se estabilizou, escavada que foi na interioridade do sujeito.15

                                                                                         Partindo de Lacan, Huberman e Leader, esses afirmam que o objeto visual é
                                                                                         mais algo que remete àquilo que não vemos do que àquilo que vemos. O carretel
                                                                                         somente é objeto visual no instante em que desaparece e se constitui visualmente
                                                                                         em nossa mente. Seu desaparecimento físico instala a imagem dentro de nós.
                                                                                         Mas o que não podemos ver? O nosso próprio ato de ver não nos é dado a ver, o
                                                                                         modo como somos vistos por outros. Ou seja, não podemos ver como somos
                                                                                         olhados. O que vemos não é o que nos olha. Então, somos constituídos
                                                                                         psiquicamente por uma exterioridade que nos olha e que nos liga, relacionalmente,
                                                                                         e nos afeta, através do olhar do outro. Desde o começo de nossa própria presença
                                                                                         objetal no mundo, somos olhados.

                                                                                         Leader afirma de modo direto: “O que vemos e para onde olhamos dependerá,
                                                                                         em parte, do que outrem vê e para onde olha. No exato momento de vir ao
                                                                                         mundo, antes num sentido de se poder ‘ver’ qualquer coisa, somos o objeto do
                                                                                         olhar de outrem. (LEADER, 2005, p. 11).


                                                                                         14 Aqui, os termos imaginário, imaginação e imaginária podem indicar algumas confusões. Há uma íntima
                                                                                         associação entre eles, e o seu envolvimento revela muito das migrações e das interfaces entre a teoria
                                                                                         psicanalítica e a teoria da arte. No sentido dado aqui ao termo, a tópica do imaginário acaba exatamente
                                                                                         por se configurar numa ordem imaginária e nas formações figurais do tipo das imaginárias, que seria uma
                                                                                         outra maneira de dar tratamento ao tema dos arquétipos, mantendo a filiação à leitura proposta, tanto no
                                                                                         que tange aos aspectos da psicanálise quanto aos aspectos da teoria da arte. Trata-se ainda de pensar nas
                                                                                         provocações pensantes do tipo alegórico e das formas figurais que acabam por tecer relações do tipo da
                                                                                         fantasia e da fantasmática. As imaginárias se constituem como sendo estes conjuntos de figuras
                                                                                         (emblemáticas) que são capazes de reunir e reapresentar o fantasma. Trata-se ainda de pensar o modo
                                                                                         como estas figuras da Imaginária Religiosa – geralmente lembradas pelos conjuntos de santos e pelos ex-
                                                                                         votos – são modos de fixação de emblemas do si mesmo. No caso específico da arte dos ex-votos há uma
                                                                                         associação direta entre promessa, resto do real e a feitura de uma imagem que deve servir de resistência,
                                                                                         de emblema, de sinal protetor, pois deve existir enquanto promessa e retorno, enquanto conquista (de um
                                                                                         pedido agora alcançado) e enquanto perda (de um pedaço de si que deve ser um emblema de si). Então,
                                                                                         estamos diante de conjuntos organizados e, ao mesmo tempo, vestigiais, como numa espécie de cova de
                                                                                         escavação arqueológica, onde nos deparamos com conjuntos fragmentários (fragmentos apresentados em
                                                                                         camadas, designando temporalidades distintas). Em outros textos, tenho procurado associações entre
                                                                                         pensamento teológico, teoria da arte e estudos da psicanálise.
                                                                                         15 Didi-Huberman fala mesmo de uma arqueologia do símbolo.
Portanto, ao colocar em cena (representar), estamos diante também de um jogo




                                                                                                            %!
que nos ensina a nossa condição de sermos objeto do olhar de um outro. E
enquanto olhamos para as coisas perdidas imaginariamente constituídas em




                                                                                                  Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
nossa mente, fazemos imagem de nós mesmos e fazemos a imagem através do
corpo-imagem – como na fase do espelho.

         De acordo com Lacan, carregamos o Outro em nós mesmos e o outro, o semelhante, é a
         forma de nosso próprio corpo. Esse outro do qual dependemos da maneira mais funda-
         mental é, também, o Outro da discordância primária. Ao assumir sua imagem, o sujeito é
         marcado por um olhar, que desenha uma forma ideal e que se torna um sonho de do-
         mínio. Esta imortalidade sonhada e ligada a uma forma, o eu ideal, tenta sustentar uma
         unidade que não há. (FRANÇA, 1997, p. 133).


Em geral, pensamos que o corpo é um real ao qual acedemos e do qual e no qual
nos constituímos. Na Psicanálise, somos constituídos enquanto corpo e enquanto
forma através do olhar e da imagem, do olhar do outro (do que nos olha) e da
imagem espelhada (quando nos olhamos no espelho e, inicialmente, nos
imaginamos um outro dentro do espelho). Traçamos a idealização nessa imagem
que irá nos acompanhar e resistimos ao corpo real, acessível através da alucina-
ção – da dor, do sofrimento, do êxtase físico. Assim, somos um outro, um outro no
espelho e um outro aos olhos dos outros. E, nessa fixação emblemática, buscamos
uma eternização na imagem. Buscamos o emblema que sempre revigorará o objeto
perdido que somos e que apenas encontramos na esquina da imaginária.

Por outro lado, a figurabilidade abre a superfície da imagem que nos olha para
além do que é visível (aparente). A imagem não é apenas o traçado de um ponto
de vista ideal. A vidência não é somente uma prova, uma evidência. Diante da
superfície imaginária, o objeto visual tangencia e se realiza como um deslocamento
de sentidos. A vista pode se abrir em múltiplas vistas. O pano pode aceder a
muitas dimensões e organizações plásticas.

O que vemos não será medido pelo real do corpo, mas pela condicionante do
jogo do ir e do vir, estabelecendo um lugar e uma temporalidade. Nesse ponto,
estamos acedendo ao momento da projeção e ao movimento do lançamento –
projetar e lançar o objeto longe para lhe dar um conteúdo, fazê-lo imagem e
fundar o sujeito neste afastamento da coisa, integrando a imagem visual como
condição constitutiva do sujeito.

Não vemos o que se encontra no real, apenas podemos ver aquilo que é preenchido
no seu desaparecimento. Isso configura a definição de objeto aurático. O que se
vê é da conta da aura das coisas e não do real. Não se vê o objeto real, mas o
                                             %
                                                                                         objeto aurático, aquele que delata o seu desaparecimento, como o carretel, e
                                                                                         que, ao reaparecer, demonstra-se enquanto objeto perdido, apenas encenado,
Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética...




                                                                                         no jogo, e, visualmente representado, na imagem.

                                                                                         Como o carretel, o quadro de Mona Lisa desaparecido do Museu do Louvre,
                                                                                         constitui um olhar. O olhar recai na ausência do objeto – do carretel, do quadro –
                                                                                         e dela passa a constituir a aura em torno do desaparecimento.

                                                                                         Passando pelo roubo da Mona Lisa ou pelas leituras do minimalismo norte-
                                                                                         americano, Leader e Didi-Huberman terminam por reforçar a idéia de que a arte é
                                                                                         um desejo de ser visto ou de que algo seja visto – seja colocado em cena, no
                                                                                         setting, pois ser visto é entrar na dinâmica do entrelaçamento de olhares,
                                                                                         apreender que nossa constituição subjetiva, inconsciente, é co-dependente do
                                                                                         olhar de outrem e, mais ainda, da incorporação do modo como somos olhados.

                                                                                         “Essa é a condição para a qual Piaget reservou um lugar de honra em seu mapa do
                                                                                         desenvolvimento: só podemos tornar-nos seres plenamente sociais quando temos capa-
                                                                                         cidade para ver o mundo através dos olhos de outrem.” (LEADER, 2005, p. 131).

                                                                                         Somente há constituição subjetiva do ato de ver quando esse aparece cindido em
                                                                                         dois, pelo que vemos e pelo que nos olha (como somos vistos), na assinatura das
                                                                                         coisas. Devemos aprender a ver de “olhos bem fechados” – parafraseando Kubrick
                                                                                         – para que possamos ser remetidos mais uma vez ao vazio constitutivo daquilo
                                                                                         que ultrapassa a percepção carnalizada do mundo; para, ao ultrapassar o que
                                                                                         vemos, adentrar no campo fantasmático de ver o invisível como modalidade do
                                                                                         visível vendo, assim, com nossos olhos, todos os olhos dos quais fomos olhados.

                                                                                         O visível indica mais do que o plano óptico – impressionista –, uma potência
                                                                                         visual,

                                                                                                  um trabalho do sintoma no qual o que vemos é suportado por (e remetido a) uma obra de
                                                                                                  perda. Um trabalho do sintoma que atinge o visível em geral e nosso próprio corpo vidente
                                                                                                  em particular. [...] Dar forma ao trabalho visual que deveria ser o nosso quando pousamos
                                                                                                  os olhos sobre o mar, sobre alguém que morre ou sobre uma obra de arte. Abramos os
                                                                                                  olhos para experimentar o que não vemos, o que não mais veremos – ou melhor, para
                                                                                                  experimentar que o que não vemos com toda evidência (a evidência visível) não obstante
                                                                                                  nos olha como uma obra (uma obra visual) de perda. [...] Quando ver é sentir que algo
                                                                                                  inelutavelmente nos escapa, isto é: quando ver é perder. (DIDI-HUBERMAN, 1998, p. 34).
Uma teoria da visão seria então uma teoria dos vestígios. No passado, intimamente




                                                                                                                   %#
ligada à aura religiosa e reapresentada, no mundo moderno, através da obra de
arte.16




                                                                                                         Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
A diferença entre qualquer imagem e o vestígio é designada como a diferença
entre uma ordem do visual visível (da percepção) e a de uma visão daquilo que
não se vê, visão de traços daquilo que foi desaparecido, arruinado. Assim, a
cisão entre o visual e o visível, na Psicanálise, nos ensina que, ao ver, não
apenas estamos diante de objetos, corpos e matérias, estamos diante de uma
tentativa de recuperação, num corpo objetal qualquer, daquilo que ao ser dado
por perdido nunca teria existido antes, um objeto inexistente e procurado em
objetos substitutos, formalizado num objeto qualquer, vazado a ponto de ser
capaz de nos mostrar um vazio – a obra de arte.

Para finalizar este tópico, reconhece-se que a arte é dada então como objeto do
gozo, objeto inútil, finalidade sem fim (kantiano). Não há simplesmente prazer,
pois não há uso que a sustente (jogo da finalidade sem fim, objeto inútil). No
gozo, estamos diante do vazio. O gozo remete a uma filosofia do amor, tal como
anunciou Santo Agostinho. Somente podemos gozar do amor por ser esse sem
finalidade, sem utilidade. Somente podemos gozar da arte como gozamos do
significante de Deus.



III O corpo-obra
           Corpo-obra
           Trabalho do corpo
           Corpo obra de arte
           Corpo-d’obra
           Um copo de corpo quebra
           (Marcio Pizarro Noronha)




16 Em outro texto, tratando especificamente do conceito de composição, tomo a questão posta por Didi-
Huberman, retraçando as relações entre Hegel, Freud, Benjamin e Lacan. Vejam-se os textos: ENSAIO DE
COMPOSIÇÃO: Entre o conceito e a sensação em literatura e arte modernas. Veja-se o site do II Encontro
Internacional de História (Anpuh-Goiás. Disponível em: www.anpuhgo.br. Numa versão mais recente com o
título COMPOSIÇÃO: TRAJETO CONCEITUAL E A RETOMADA DA PERSPECTIVA DA SENSAÇÃO-EXPERIÊNCIA NO
ESTUDO DAS RELAÇÕES INTERARTÍSTICAS. (Encontro Regional Abralic 2007, SP, USP. Disponível em:
www.abralic.org.br). Além desses, o texto integra um livro editado pela EdUFU, em outubro de 2007.
Se a arte associa-se ao gozo, como lugar do vazio, o que será este corpo – corpo,
                                             %$
                                                                                         objeto, matéria – que se põe aqui como sendo seu significante? O que podemos
                                                                                         pensar neste lugar? Para falar desse corpo e de um corpo-obra, vou eleger um
Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética...




                                                                                         artista em sua singularidade, ao qual tenho dedicado grande parte da minha
                                                                                         atenção e leitura. O método diz respeito ao modo de fazer da clínica – do singular
                                                                                         ao universal. A passagem diz respeito ao inconsciente da obra enquanto incons-
                                                                                         ciente da cultura e ao modo como a obra é, ela própria, o lugar vazio do analista,
                                                                                         plasticamente preenchido, na linguagem, por todos nós, seus analisandos, artista
                                                                                         e público. O artista escolhido é Francis Bacon.

                                                                                         Tomamos de início, uma entrevista de Bacon a Michel Archimbaud, em 1991,
                                                                                         quando o pintor afirma que já não faz a pintura pelos outros, mas faz a pintura para
                                                                                         si mesmo. Ele revela uma atenção particular a esse modo de compreender a pintura
                                                                                         como um ofício e uma fabricação. Ao pintar, ele fabrica a obra e desenvolve uma
                                                                                         atitude de fabricação de si – uma reflexão sobre o si mesmo (Foucault).

                                                                                         Ao fabricar a obra como lugar existente, ele vai preenchendo a tela – como poderia
                                                                                         ser também a folha de papel, o espaço sonoro, etc. – com seus depósitos e seus
                                                                                         resíduos, para deixar na imagem o seu próprio rastro, o seu vestígio.

                                                                                         Esta reflexão é um tipo de pesquisa artística e artefatual que se dá no âmbito e
                                                                                         no cerne do visível, para constituir um objeto visual que se possa oferecer como
                                                                                         evidência (formal) e vidência (residual) do modo como um aparecer implica também
                                                                                         um desaparecer.

                                                                                         O alvo, ou o objeto eleito, é o corpo humano e o seu rosto.17 O rosto é a condição
                                                                                         do retrato, modo de constituição de um regime de signos que visa a presentificar
                                                                                         uma identificação de um sujeito – seja do retrato pintado de um cortesão, seja
                                                                                         de um nobre, seja de um político, seja numa fotografia identificatória policial,
                                                                                         numa 3x4, numa foto de passaporte.



                                                                                         17 Para esta pesquisa, o pintor procura pranchas coloridas à mão que tratam do corpo enquanto objeto da
                                                                                         ciência médica (um exemplo é o tema das doenças bucais, pranchas com bocas abertas mostrando diversos
                                                                                         exames e patologias da boca) e reúne a ela fotogramas e outras imagens retiradas do mundo contemporâneo
                                                                                         (por exemplo, imagens do filme O Encouraçado Potemkim, na cena da escadaria). O artista desenvolve uma
                                                                                         pesquisa sobre o corpo a partir da boca aberta, um tecido cutâneo interno, cruzando-a com as imagens dos
                                                                                         gritos, outras bocas abertas, que aparecem na arte, no cinema e em outras imagens circulantes na cultura.
                                                                                         De Deleuze a Cuir, observa-se que é o corpo que escapa através da boca que grita, bem como é o corpo que
                                                                                         grita quando a boca encontra-se fechada.
Bacon toma o retrato como sendo uma impossibilidade de mostrar o sujeito e o




                                                                                                                     %%
identifica como objeto visual que está no lugar de, um substitutivo para uma
perda. O retrato é um traço de uma imagem perdida de si mesmo. Desse modo,




                                                                                                           Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
na imagem do retratado, o que se faz passar é o vestígio do rosto perdido ou
arruinado pela diferença existente de um instante a outro. Já não somos o que
foi retratado.

O retrato então passa à condição de carne, e o rosto, tomado em suas relações
com os exercícios encontrados nas pranchas de anatomia e de fisiologia, um
objeto visual capaz de mostrar essa perda ou esse deslocamento contínuo e
temporal do próprio objeto, em suas mudanças fisionômicas e em suas alterações
da máscara da face.

O artista, segundo o historiador da arte Raphaël Cuir, está interessado no corpo
como objeto a ser investigado – retratado, oferecido como objeto visual – pela
pintura (arte) e, ao fazer isso, abre-se para um jogo corpo-pintura que nada mais
é do que um jogo entre um visível sensorial-perceptual (corpo) e a produção de
um objeto visual capaz não apenas de ser uma observação (raciocínio do desenho)
ou um comentário de uma observação (raciocínio do ready-made), mas um objeto
carnal-pictórico, um corpo-obra.

Num auto-retrato de 1976, Cuir descreve o modo como Bacon pinta o próprio
rosto tomando como base as pranchas de anatomia e patologia. Contrariamente
ao uso da imagem, pela via da apropriação de imagens científicas de observação
(lógica do desenho de observação) ou de imagens prontas, desenvolvidas por
meio dos aparatos técnicos (lógica do ready-made). Bacon propõe a construção
de um sistema representacional carnal-pictórico, uma carne da pintura, que seja
uma tradução do Horror,18 em cuja centralidade estão a figura humana e as
constantes transformações a que somos submetidos no processo vital. (CUIR,
2000). No sistema visual do Horror assistimos ao Belo da destruição e, portanto,
podemos ver e sermos vistos através de uma face da dissolução do si mesmo;
podemos enxergar uma face da morte integralmente vivida.

Segundo Guin, cabe à representação artística figurativa baconiana excitar as
terminações nervosas e impedir que se faça uma associação entre o figurativo e
o narrativo ou o meramente ilustrativo – um problema da pintura.


18 O Horror aqui deve ser remetido ao mais Belo que o Belo e à noção de inquietante estranheza de Freud,
tal como foi enunciado no início deste texto.
Como faz isso? Tratando a pintura como um acidente. Acidentes são aconteci-
                                             %
                                                                                         mentos felizes ou infelizes que preenchem nossa existência trazendo consigo a
                                                                                         ruptura da continuidade existencial. A pintura é um acidente do desenho, e o
Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética...




                                                                                         óleo é o acidente da pintura. A pintura é um acidente cujo evento principal é a
                                                                                         invenção da tecnologia do óleo19 e para a qual se enunciarão e encadearão
                                                                                         outras séries acidentais – no modo como o artista encontra, acidentalmente,
                                                                                         entre as imagens médicas e a arte pictórica, um ponto de contato para a ima-
                                                                                         ginação da beleza e do Horror – como vimos acima, o mais belo que o belo.

                                                                                         Acidentes são pontos de descontinuidade e de contato, como no livro de J. G.
                                                                                         Ballard adaptado para o cinema (Crash) e no filme homônimo (Crash, ganhador
                                                                                         do Oscar de 2006).20

                                                                                         A cada instante do movimento da fabricação da obra, há um desvio provocado
                                                                                         por algum acidente, por algum acontecimento, no ato de pintar.

                                                                                         Assim, a superfície fica tomada de fatos. Uma memória cumulativa de cada trecho
                                                                                         nos permite pensar no raciocínio do palimpsesto e num acontecimento que se dá
                                                                                         entre trechos da pintura e entre as diferentes imagens que ali estão acumuladas.

                                                                                         Em geral, essas transformações são representadas na imagem plana pelo acúmulo
                                                                                         de ângulos diferentes, numa soma de todas as imagens em uma única imagem,
                                                                                         causando ao espectador uma sensação de deformidade – o Horror.

                                                                                                     Ces transformations que Francis Bacon souhaitait piéger dans la toile, ce sont les acci-
                                                                                                     dents, ces hasards, ces malheurs qui construisent la vie d’un corp, non pas selon une
                                                                                                     chronologique comme dans les autoportraits successifs de Rembrandt, mais dans l’ur-


                                                                                         19 Pierre Guin (2000) lembra que o óleo é um meio fluido e, por isso mesmo, capaz de produzir outras
                                                                                         formas além das que foram propostas pelo artista. Desse modo, a subjetivação encontra-se com a maquinaria
                                                                                         de produção. Não é apenas da ordem imaginária que se está falando. Quando se apresenta a imagem de um
                                                                                         retrato ou de um corpo humano em pose/no congelamento de um movimento ou mesmo no movimento,
                                                                                         estamos diante de diferentes vistas – perscrutação do olhar que voyeuriza o objeto exterior – e estamos
                                                                                         diante de um ato de pintar que impõe ao sujeito uma maleabilidade, a plasticidade do meio, no contato entre
                                                                                         o meio e a superfície deslizante e operante da tela. Nos termos do psiquismo, estamos diante de um real,
                                                                                         uma volta do real em torno de um nó, que faz ver a outrem ou a outra Coisa. O que aparece não é apenas o
                                                                                         retrato ou o auto-retrato – a imagem de si – mas o deslocamento dessa imagem que deve suportar sua
                                                                                         condição existencial metamorfoseante em direção à decrepitude – uma face da morte. Nesses termos,
                                                                                         podemos mesmo pensar numa certa anamorfose do retrato no quadro, nos termos de que fala Lacan.
                                                                                         20 Crash é um livro de ficção científica de J. G. Ballard. Foi adaptado para o cinema com o título Crash
                                                                                         (traduzido como Crash – Estranhos Prazeres), com direção de Cronenberg (1996). Crash (traduzido como
                                                                                         Crash – No Limite), 2005, ganhador do Oscar de 2006, direção de Paul Haggis.
gence de l’instant, selon une Logique de la Sensation. Ces accidents, Bacon leur accorde




                                                                                                              %'
         une très grande importance dans le processus de réalisation de ses oeuvres: “toute pein-
         ture est accident”. (CUIR, 2000, p. 113).




                                                                                                    Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
O que se pode apreender dessa arte e aprender com ela? O que ela nos pode
ensinar a respeito do corpo? O corpo pintado – o rosto, o retrato – não é apenas
a resultante de uma estética gestual e de uma estética que privilegia o meio
fílmico (estética do cinema). O corpo desordenado em gestos é também o corpo
em deslocamento enquanto imagem no cinema. O corpo é apresentado por Ba-
con como o espaço intermediário, entre um fotograma e outro de um filme. O
corpo é um palimpsesto pessoal, tomado por trechos e por traços.

Nesse deslocamento, o que se anuncia no entreimagens fixadas por Bacon é um
momento destinado à contemplação da destruição do corpo físico, como se o
humano tivesse, também, ele já passado, entre as imagens, sumindo em alguma
mancha ou zona colorida, massa de distorção.

Dessa maneira, quando o corpo é a obra, na esfera clínica, podemos sustentar
algumas possibilidades de relação e de interpretação: o corpo-obra permite
investigar e transitar por entre o mundo dos objetos (e das relações de objeto),
presentificar os restos (e as relações de abjeção) e simbolizar a morte – a obra
de arte enquanto fantasma permite, por meio da forma aurática, resistir à morte.

A manipulação dos meios e dos materiais não visa apenas à produção de uma
representação de objeto exterior ao que está sendo produzido. Assim, um retrato
ou uma canção não deve ser tomado tão simplesmente como representação dos
conteúdos socialmente reconhecidos do retrato e da canção. Um objeto pode
ser, também, a representação de uma relação e, nesses termos, pode ser um
índice de apresentação da relação terapêutica e do setting instalado.

O trânsito para a dimensão do corpo-obra permite a instalação de um lugar-
signficante na clínica e um modo de apreensão da estética enquanto modo de
estruturação subjetiva.

O tema do corpo-obra visa a ressaltar a particular importância da experiência
clínica e suas afinidades com a experiência e as formas do pensamento-fazer
artístico. Assim, entendo aqui que a relação clínica não só desenvolve uma par-
ticular epistemologia dos objetos psíquicos, como também se deixa atravessar
por formas transicionais ou por movimentos do informe que fazem nascer a obra
de arte do sujeito na clínica e seu corpo glorioso. Como amálgama de flutuações
                                             
                                                                                         e materializações, a clínica deve arregimentar esse princípio de funcionamento
                                                                                         radical, no qual a inclusão da arte não deve estar restrita às formas do discurso
Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética...




                                                                                         comentado de obras e filmes por conta dos pacientes.

                                                                                         Obrar a subjetividade é tarefa preponderante e diz respeito ao enfrentamento
                                                                                         dos grandes lugares da clínica – a arte e a morte. (M’UZAN, 1978).



                                                                                         Referências
                                                                                         CUIR, Raphaël. Tentative d’évasion du corps. In: GUIN, P. et al. Une oeuvre de Francis
                                                                                         Bacon. Marseille: Muntaner, 2000. p. 109-118. (Collection Iconotexte).
                                                                                         DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34, 1998.
                                                                                         FRANÇA, Maria Inês. Psicanálise: estética e ética do desejo. São Paulo: Perspectiva,
                                                                                         1997.
                                                                                         FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Edição standard
                                                                                         brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1987.
                                                                                         GOMBRICH, E. Verbal wit as a paradigm of art: the aesthetic theories of Sigmund Freud.
                                                                                         In: WOODFIELD, Richard. The essential Gombrich. London: Phaidon Press Limited, 1996.
                                                                                         p. 189-210.
                                                                                         GUIN, Pierre. L’innocence de Francis Bacon. In: GUIN, P. et al. Une oeuvre de Francis
                                                                                         Bacon. Marseille: Muntaner, 2000. p. 9-34. (Collection Iconotexte)
                                                                                         LACAN, Jacques. O seminário, a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1991.
                                                                                         p. 400. L. 7.
                                                                                         LEADER, Darian. O roubo da Mona Lisa: o que a arte nos impede de ver. Rio de Janeiro:
                                                                                         Elsevier, 2005.
                                                                                         MOSCOVICI, Marie. A sombra do objeto: sobre a inatualidade da psicanálise. Rio de
                                                                                         Janeiro: J. Zahar, 1994.
                                                                                         MAGNO, M. D. Psicanálise  política. Rio de Janeiro: A Outra Editora, 1986. p. 498.
                                                                                         M’UZAN, Michel de. Del arte a la muerte: itinerario psicoanalítico. Barcelona: Icaria,
                                                                                         1978.
                                                                                         RAMOS, Maria Luiza. Interfaces: literatura, mito, inconsciente, cognição. Belo Horizonte:
                                                                                         Ed. da UFMG, 2000. p. 296. (Coleção Humanitas)
                                                                                         REGNAULT, François. Em torno do vazio: a arte à luz da psicanálise. Rio de Janeiro:
                                                                                         Contra Capa, 2001.
Corpos autorizados:
comunicação, poder e turismo




                                                                                                            Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
                                                               Euler David de Siqueira1
                                                   Denise da Costa Oliveira de Siqueira2



                                               RESUMO
O corpo é lugar de intervenção da sociedade e da cultura sobre o indivíduo, espaço de controle
amplamente reproduzido pela mídia. Meios de comunicação, os cartões-postais do Rio de Janeiro
durante anos mostraram mulheres de biquíni nas praias da cidade. Em 2005, foi aprovado um
projeto de lei que regulamenta a veiculação, exposição e comercialização de postais com imagens
femininas, com intuito de inibir o turismo sexual no estado. O ato de proibir e controlar tais
imagens levou a esta discussão sobre as múltiplas e complexas relações entre comunicação,
turismo e estado. Neste trabalho, temos como objetivo refletir sobre como o Estado busca exercer
o controle sobre a mídia cartão-postal. Para tal, recorremos à abordagem de Foucault acerca dos
corpos dóceis e a de antropólogos sobre o corpo no universo da cultura. Esse referencial
fundamentou a análise do ato do estado em sua relação com a mídia e o corpo.
Palavras-chave: Comunicação. Corpo. Representações sociais. Poder. Turismo.

                                              ABSTRACT
The body is a space of intervention of society and culture over the individual, space of control
reproducted by media. As a kind of media, the post cards of Rio de Janeiro during years showed
women in bikini in the city beaches. In 2005, it was approved by the State a law project that
regulates the exhibition and commercialization of post cards with women images with the objective
of inhibiting the sexual tourism in the state. The act of forbidding and controlling those images
served as a starting point for this argumentation about the multiple and complex relations among
communication, tourism and state. In this paper we have as objective to reflect about how the
State searches to control the post card media. For this, we appeal to Foucault’s notion of docile
bodies and the one of anthropologists about body in the universe of culture. These principles
based the analysis of the state act in its relation with the media and the body.
Key words: Communication. Body. Social representations. Power. Tourism.


1 Professor Adjunto III e Pesquisador no Programa de Mestrado em Ciências Sociais e no curso de Graduação
em Turismo do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre e
Doutor em Sociologia pela IFCS/UFRJ. Graduado em Ciências Sociais pela IFCH/UERJ.
2 Professora Adjunta na PPGC/UERJ no curso de Especialização em Jornalismo Cultural e em curso de
graduação. Doutora em Comunicação pela ECA/USP. Graduada em Comunicação pela IFCS/UERJ. Autora de
Corpo, comunicação e cultura: a dança contemporânea em cena (Autores Associados, 2006) e de A ciência
na televisão: mito, ritual e espetáculo (Annablume, 1999).
Introdução
                                                         


                                                                                                                        “Um corpo disciplinado é a base de um gesto eficiente.”
Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo




                                                                                                                        (FOUCAULT, 1989, p. 139)

                                                                                                                        “Quando são feitas e impostas as regras?”
                                                                                                                         (BECKER, 1977a, p. 86)

                                                                                                               Complexos, contraditórios, híbridos, exóticos: assim são os lugares turísticos.
                                                                                                               Muitos desses lugares, pelo menos como representações sociais imagéticas,
                                                                                                               são encontrados somente em bancas de jornais, anúncios publicitários, boîtes e
                                                                                                               agências de turismo. Como informação ou representação, fragmentos de lugares
                                                                                                               turísticos são destacados, recortados do cotidiano a fim de encantar turistas.
                                                                                                               Assim sendo, antes mesmo que o turista chegue a seu destino, muito provavel-
                                                                                                               mente já teve contato com imagens dele. Longe de o turismo se reduzir à viagem
                                                                                                               ou ao deslocamento de uma sociedade para outra, começa a se manifestar no
                                                                                                               local em que o turista vive e constrói seu imaginário.

                                                                                                               Contudo, não é só o turista que entra em contato com as imagens de lugares
                                                                                                               turísticos. Ao andar pelas ruas do Rio de Janeiro, por exemplo, turistas e moradores
                                                                                                               da cidade deparavam-se com cartões-postais mostrando cenas de jovens de
                                                                                                               biquíni nas praias ao lado de outros com imagens de favelas, da Passarela do
                                                                                                               Samba, da Praça da Apoteose, do Palácio do Catete, do Monumento aos Pracinhas,
                                                                                                               do Cristo Redentor, do Maracanã, do Morro do Corcovado, do Pão-de-Açúcar e da
                                                                                                               Baía de Guanabara. Destacados de revistas e jornais de todos os tipos, os postais
                                                                                                               ganham a atenção dos passantes, expostos em mostradores que podem ser
                                                                                                               manipulados, na entrada das bancas de jornais.

                                                                                                               Como cidade litorânea, no Rio de Janeiro não é difícil observar-se mulheres em
                                                                                                               trajes de banho nas praias quase todos os dias do ano. Isso faz parte, até certo
                                                                                                               ponto, do cotidiano da cidade, mas não significa que, ao longo das estações do
                                                                                                               ano e dos dias da semana, os sentidos e significados de ir à praia sejam os
                                                                                                               mesmos. O corpo feminino bronzeado nas praias ganha expressão máxima no
                                                                                                               verão e nos fins de semana quando em oposição aos outros dias da semana e
                                                                                                               às estações do ano.

                                                                                                               Retratado em cartões-postais, o corpo feminino se torna uma espécie de re-
                                                                                                               presentação da cidade e é facilmente associado ao turismo sexual, à promiscui-
                                                                                                               dade da mulher carioca ou brasileira, assim como a uma possível ausência de
regras e normas que atestem sua civilidade. Tal corpo seria visto, então, como




                                                                                                          !
livre, liberto das amarras ético-morais da civilização, corpo “natural”, em estado
selvagem, autêntico, original, sem regras inscritas nele próprio. De acordo com




                                                                                                        Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
esse ponto de vista, seria nos trópicos, lugar exótico e caliente, que o turista
estrangeiro encontraria a mulher em seu estado quase natural. A proximidade
com a praia, com a paisagem natural, talvez reforce essa imagem.

Para aqueles que saem de sociedades nas quais o meio ambiente natural foi
quase ou totalmente destruído, visitar locais como o Brasil pode significar encontro
com aquilo de que se está distante: a natureza em toda sua potencialidade, seja
sob a forma do contato com florestas, rios, cachoeiras, praias ainda selvagens
ou sob a forma da mulher carioca ou brasileira, representada como quente e
sensual. Na realidade, sabe-se que não há nada de “natural” em comportamentos,
gestos e formas de ser da mulher carioca ou brasileira.

Marcel Mauss, em seu artigo “As técnicas corporais” (1974), mostrou que o
corpo é tanto fruto da cultura, da Psicologia, como da natureza. Em outras palavras,
o corpo deveria ser visto em sua totalidade concreta como fato social total. Da
mesma forma, Gilberto Freyre (1986) assinalou, em Modos de homem e modas
de mulher, que não é a natureza, mas a sociedade que intervém construindo um
corpo com formas próprias. Turista-antropólogo, o francês Stéphane Malysse
constatou sobre as imagens do Rio de Janeiro que

         estavam antes de mais nada ligadas ao corpo: a cidade do Rio de Janeiro era apresentada
         pelas fotos dos catálogos e pelos vídeos turísticos como uma grande cidade praiana
         povoada de corpos bonitos praticamente nus. [...] As imagens que uma sociedade escolhe
         para se apresentar, para se representar aos olhares estrangeiros, geralmente exibem uma
         realidade antropológica descrita como “autêntica” e uma visão generalizada do local e de
         seus habitantes, uma espécie de “consenso visual”, em suma, que não deve ser negli-
         genciado pela antropologia, pois constitui um convite a passar para o outro lado do espelho,
         o ponto de partida de uma antropologia visual do corpo. Primeiros cartões-postais do Brasil,
         primeiras visões do inferno: o corpo, o sexo, o calor tropical. (MALYSSE, 2002, p. 81).


Tal representação do Rio de Janeiro como cidade do corpo foi, em parte, construída
tendo o estado como avalista que divulgou a idéia do Rio Cidade Maravilhosa,
instituiu os concursos de Escolas de Samba, organizou e divulgou os desfiles de
Carnaval e, na década de 80, patrocinou a construção da Passarela do Samba
ou Sambódromo. Carnaval e praia foram amplamente empregados para construir
uma certa imagem da cidade – inclusive na propaganda do estado. Nesse tipo de
imagem – ou nessa estratégia de comunicação – o corpo feminino pouco vestido
à praia ganhou destaque na construção das simbologias sobre o turismo no Rio
                                                         
                                                                                                               de Janeiro. Ainda hoje, o corpo feminino nas praias – principalmente aquelas
                                                                                                               com um maior apelo turístico, como Ipanema e Copacabana, na Zona Sul da
Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo




                                                                                                               cidade – torna-se o objeto de capas de jornais e revistas quando o tema é a
                                                                                                               chegada do verão.

                                                                                                               Na contramão da representação Rio-praia-Carnaval-mulheres nuas, em 2005, a
                                                                                                               Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro aprovou por unanimidade o
                                                                                                               Projeto de Lei 2813/05, que “proíbe a veiculação, exposição e venda de postais
                                                                                                               turísticos que usem fotos de mulheres, em trajes sumários, que não mantenham
                                                                                                               relação ou não estejam inseridas na imagem original dos cartões-postais”.3 O
                                                                                                               projeto da deputada estadual Alice Tamborindeguy abre espaço para uma reflexão
                                                                                                               sobre as relações entre corpo, estado, turismo e mídia. Pelo documento, apenas
                                                                                                               postais representando mulheres na “cena original” da praia podem ser veiculados,
                                                                                                               expostos e vendidos. Fotos produzidas, com modelos em imagens construídas
                                                                                                               profissionalmente agora são caracterizadas como infração.

                                                                                                               Tal projeto de lei levou a algumas reflexões que procuramos expor e que valem
                                                                                                               um adendo explicativo: são essas reflexões que nos interessam discutir neste
                                                                                                               artigo. Não nos propomos a estudar a questão do turismo sexual – sua análise
                                                                                                               implicaria outro formato e outra abordagem. Atemo-nos às questões de
                                                                                                               comunicação, de construção de sentidos e significados por meio das imagens
                                                                                                               do corpo feminino e à tentativa de reconstrução e regulação de tais imagens pelo
                                                                                                               estado. Não é porque o turismo sexual reconhecidamente explicite problemas
                                                                                                               sociais de variadas ordens que não se deva estudar ou analisar a forma retórica
                                                                                                               como o estado lida com ele. Mesmo porque, no caso analisado, a construção da
                                                                                                               imagem relacionada ao apelo sexual foi construída, em parte, como estratégia
                                                                                                               de comunicação do próprio estado. Assim, não se busca aqui desqualificar a lei,
                                                                                                               mas análisá-la de um determinado ponto de vista, o que permite apontar suas
                                                                                                               contradições.

                                                                                                               Dessa forma, de acordo com o projeto de lei em questão, imagens de mulheres
                                                                                                               produzidas intencionalmente para figurar em cartões-postais são proibidas
                                                                                                               enquanto fotos de mulheres tão nuas quanto as primeiras podem ser exibidas,
                                                                                                               veiculadas e comercializadas porque constariam da “cena original”. Do ponto de
                                                                                                               vista de quem percebe a imagem, no entanto, não há diferença, pois também


                                                                                                               3 Ementa do Projeto de Lei 2.813/05. Disponível em: http://alerjn1.alerj.re.gov.br. Acesso em: 9 maio 2006.
cabe ao observador atribuir sentidos e significados às imagens. Assim, qualquer




                                                                                      #
pessoa que visse imagens de mulheres de biquínis nos jornais da cidade e em
postais dificilmente saberia identificar a diferença de intenção. Ao mesmo tempo,




                                                                                    Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
o argumento da deputada nos leva à seguinte questão: Quem na praia não está
“representando”? Ser ou estar banhista nas praias é também representar o
papel de banhista.

A ação do estado leva a pensar sobre como imagens quase idênticas podem
assumir sentidos diversos. A classificação das imagens será, então, um ato de
interpretação. Como distinguir corpos que fariam parte “original da paisagem” e
corpos que foram ali colocados, ou seja, que foram profissionalmente produzidos?
Ou ainda, como distinguir natureza e cultura nos corpos? O estado se propôs
essa difícil tarefa e, assim, parece acreditar que pode decidir sobre os sentidos
e significados dessas imagens. O interessante é que ao mesmo tempo em que
proíbe determinadas imagens em postais, autoriza outras que passam a gozar
de uma legitimidade pelo fato de o estado interpretar que elas fazem parte do
contexto original. Então, mais do que simplesmente ver um estado que proíbe,
destacamos um que autoriza e legitima certos corpos em determinadas paisagens.

Tomando a situação como exemplo, este artigo busca fazer uma reflexão sobre
algumas das múltiplas relações entre estado, turismo e cultura, expressas por
intermédio dos sentidos e significados dos cartões-postais agora proibidos por
lei. Para tal, utilizamos como referencial a abordagem de Foucault (1989) acerca
dos corpos dóceis; a de antropólogos, como Mauss, sobre o corpo no universo
da cultura e a de Howard Becker, sobre as regras e sua imposição, uma vez que
a proibição dos postais apelativos no Estado do Rio de Janeiro oferece a
possibilidade de se pensar o que faz com que uma infração seja, em algum
momento, tornada pública mobilizando os recursos necessários para que as
regras sejam impostas. Esse referencial fundamentou a reflexão e análise do ato
do estado levando à (des)construção de uma relação entre estado, mídia e corpo.
A partir de uma amostra aleatória de matérias veiculadas pela mídia logo após a
aprovação do projeto de lei, buscamos pensar o turismo como sendo decisi-
vamente atravessado pelas questões políticas e ideológicas.

Mais do que tomar os cartões-postais como expressões de natureza utilitarista,
instrumental e individual, os pensamos como signos, repletos de significados,
de informações, tanto para quem os produz quanto para quem os vê, portanto,
meios de comunicação, suportes de mensagens. Ao escrever sobre o corpo
feminino à praia, quase nu, agora proibido de ser representado nos postais,
propomos pensar como esse espaço é entrecortado por interesses, visões de
                                                         $
                                                                                                               mundo, ethos e se configura, acima de tudo, como um espaço relacional, cujo
                                                                                                               significado aparece na relação mais do que nas partes.
Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo




                                                                                                               Estado, lei, corpo e cultura
                                                                                                               Política e cultura possuem uma longa história em comum. No pensar de Clifford
                                                                                                               Geertz, uma das “coisas que quase todo mundo conhece, mas não sabe muito
                                                                                                               bem demonstrar é que a política de um país reflete o modelo de sua cultura”.
                                                                                                               (1978, p. 206). Noções como sociedade civil, soberania, estado, corpo político,
                                                                                                               cidadão, indivíduo, liberdade, direito natural, vontade geral e moral foram funda-
                                                                                                               mentais à emergência da noção de cultura. (HELL, 1989). Tal noção foi construída
                                                                                                               paralelamente à conformação do campo político, principalmente entre os séculos
                                                                                                               XVII e XIX.

                                                                                                               A política é uma obra da cultura, afirma Victor Hell, que escreve também: “Um
                                                                                                               dos princípios da cultura é o de constituir o lugar de interferências entre múltiplas
                                                                                                               atividades políticas e econômicas, entre outras; falar de cultura é incluir de certa
                                                                                                               forma a política e a economia em seus propósitos”. (1989, p. 12). É à cultura
                                                                                                               que nos referimos ao estudar a forma como o estado, através da iniciativa de um
                                                                                                               empresário moral (BECKER, 1977b), proíbe postais com imagens apelativas de
                                                                                                               mulheres. Mas também tratamos de poder, de quem o exerce, com que meios e
                                                                                                               em nome de quem. Nesse sentido, tomamos as definições propostas por Geertz:

                                                                                                                           A cultura, aqui, não são cultos e costumes, mas as estruturas de significado através das
                                                                                                                           quais os homens dão forma à sua experiência, e a política não são golpes e constituições,
                                                                                                                           mas sim uma das principais arenas na qual tais estruturas se desenrolam publicamente.
                                                                                                                           (1978, p. 207).


                                                                                                               A justificativa apresentada pela deputada estadual para aprovar o projeto de lei
                                                                                                               2.813/05 referente aos postais – disponível na página da Assembléia Legislativa
                                                                                                               na Internet4 – começa reforçando estereótipos naturalizados tais como a exaltação
                                                                                                               das qualidades tropicais do País, o reconhecimento da beleza das praias,
                                                                                                               montanhas e mulheres e termina com as possibilidades econômicas: “Toda essa
                                                                                                               fama atrai turistas, que deixam nos cofres das cidades milhares de dólares,

                                                                                                               4 Disponível em: http://alerjln1.alerj.re.gov.br. Acesso em: 9 maio 2006.
contribuindo para o nosso crescimento”5 . Parece ser um apelo à razão econômica,




                                                                                                         %
mais do que tudo, a explicação que realmente pesa na construção da justificativa,
sendo o restante da argumentação complemento.




                                                                                                       Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
A autora do projeto segue reconhecendo o valor do turismo como indústria e
“propulsor do desenvolvimento” do Estado do Rio de Janeiro. Tal desenvolvimento
seria prejudicado

            por uma insistente campanha de exposição da imagem feminina de forma apelativa, to-
            talmente dissociada de qualquer campanha planejada, que só tem servido à degradação
            da imagem de nosso Estado e do nosso País, contribuindo sobremaneira para que faça-
            mos parte da lista de países que incentivam o turismo sexual.6


Assim, segue a justificativa: “Ao colocar nos cartões-postais dos pontos turísticos
recortes de figuras femininas em trajes sumaríssimos, geralmente de costas,
estas pessoas prestam um desserviço ao nosso País”.7 Por desserviço pode-se
entender é que assim como o turismo é indústria e traz capital, o turismo sexual
prejudica a imagem, logo afasta outros capitais: tanto em termos de dinheiro
direto quanto em termos de construção de imagem, o que afasta verbas
indiretamente.

Como instância do estado, a Assembléia Legislativa e seus membros podem
exercer poder, coibir, proibir, mandar. Assim, referindo-se ao chamado “turismo
sexual”, o documento explicita: “Este Projeto de Lei visa a reprimir este tipo de
iniciativa”.8 E segue: “Precisamos proteger nossas meninas. E o primeiro passo
para isso é proibir que se veicule e se exponha imagens de mulheres e meninas
neste tipo de cartão-postal”9 [sic]. A justificativa se encerra qualificando o texto
como “Projeto de Lei em favor das mulheres brasileiras”.10

A iniciativa tem implícito um discurso de cunho moral e de aspecto cultural. Não
utiliza como argumento, por exemplo, que é nítido que a imagem das mulheres
na praia, sem mostrar seus rostos, apenas ressaltando suas nádegas, não
representa a maior parte da população urbana carioca e menos ainda a população


5 Projeto de lei 2.813/2005. Disponível em: http://alerjln1.alerj.re.gov.br. Acesso em: 9 maio 2006.
6 Projeto de Lei 2.813/2005.
7 Idem.
8 Idem.
9 Idem.
10 Idem.
feminina brasileira. Representa um grupo social, não toda a sociedade. Mas,
                                                         
                                                                                                               quando veiculados tanto pela mídia de massa quanto pelos cartões-postais que
                                                                                                               circulam no mundo, aqueles corpos são mostrados como sendo o corpo da mulher
Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo




                                                                                                               brasileira, sem pluralidade, sem outras possibilidade de diferença. Tal imagem
                                                                                                               foi amplamente utilizada pela indústria turística em sua publicidade assim como
                                                                                                               pelo estado em sua propaganda de Brasil.

                                                                                                               O corpo e suas imagens são um lugar também de memória. Segundo Clastres, a
                                                                                                               forma como a sociedade se inscreve nos corpos nos mostra como se dá o
                                                                                                               pertencimento do indivíduo ao grupo social assim como também permite “avaliar
                                                                                                               a resistência pessoal”. (1990, p. 129). As marcas inscritas no corpo são história,
                                                                                                               memória de experiências e, sendo visíveis, tornam-se identificáveis, comunicativas,
                                                                                                               reconhecíveis, informativas. Afinal, não se pode esquecer nem se tornar indiferente
                                                                                                               àquilo que não se pode apagar. Se o corpo é marcado, cortado, pintado, queimado,
                                                                                                               torturado, é porque se quer que ele comunique. Conforme Clastres,

                                                                                                                        uma cicatriz, um sulco, uma marca, são indeléveis. Inscritos na profundidade da pele,
                                                                                                                        atestarão para sempre que, se por um lado a dor pode não ser mais do que uma recor-
                                                                                                                        dação desagradável, ela foi sentida num contexto de medo e de terror. A marca é um
                                                                                                                        obstáculo ao esquecimento, o próprio corpo traz impressos em si os sulcos da lembrança.
                                                                                                                        (1990, p. 128).


                                                                                                               Olhares menos atentos poderiam classificar tais práticas como primitivas, sel-
                                                                                                               vagens, irracionais e desprovidas de sentido. Aqui, como em todo comportamento
                                                                                                               humano, há sentidos e significados em jogo. Toda ação e comportamento sociais
                                                                                                               somente ganham sentido quando compreendidos a partir da totalidade de uma
                                                                                                               lógica simbólica. (SAHLINS, 1981). Da mesma forma, “nenhuma prática se realiza
                                                                                                               sobre o corpo, sem que tenha, a suportá-la, um sentido genérico ou específico.
                                                                                                               Não há razões para se supor que as pessoas a elas se submetam a contragosto
                                                                                                               ou sem conformidade intelectual”. (RODRIGUES, 1983, p. 64).

                                                                                                               Os penitentes, os que se oferecem em sacrifício pelos outros, os soldados, os
                                                                                                               bombeiros, aqueles que imaginamos sofrerem castigos cruéis e dolorosos, de
                                                                                                               um modo geral, aceitam a situação e se conformam com a forma como a sociedade
                                                                                                               atua sobre seus corpos. Em outra mão, pessoas que se submetem a tratamentos
                                                                                                               físicos com vistas a modificar sua aparência também aceitam os “sacrifícios”
                                                                                                               impostos com vistas a alcançar o que é socialmente mais bem-aceito. Nesse
                                                                                                               sentido, o corpo escarificado, deformado, mutilado, amputado revela um valor
                                                                                                               coletivo hierárquico. Assim, os homens
não perdem a possibilidade de lançar mão desses recursos, para se aproximarem do




                                                                                                     '
         ideal de estética corporal que a sociedade define, destacando, dissimulando ou atenuan-
         do particularidades de sua aparência: submetem-se a dietas especiais, praticam exer-




                                                                                                   Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
         cícios físicos, pintam-se ou deitam-se em mesas de operações cirúrgicas – porque crêem
         que, procedendo assim, estarão incrementando a vitalidade de sua constituição orgânica
         e social. (RODRIGUES, 1983, p. 64).


Dos corpos marcados pela tortura nas sociedades indígenas guaranis passamos
para o corpo marcado e transposto para os postais das praias cariocas. O corpo
moralmente aceito e valorizado na praia, dentro dos padrões de forma e cor,
revela a natureza coercitiva do fato social, o poder da coletividade que encontra
ali, em um espaço dito “democrático”, toda sua expressão de violência. A presença
ou ausência do corpo feminino bronzeado de biquíni nas praias cariocas implica
estar diante de relações sociais de poder. Como parte do fenômeno social total
(MAUSS, 1974), o poder pode assumir várias formas e modelar diferentemente
os lugares, inclusive os turísticos. (GIDDENS, 1991).

Mais do que tomar os lugares turísticos como produzidos pelas ações sociais de
sujeitos orientados por seus próprios interesses individuais – o que nos levaria a
admitir que a ordem social se constrói por meio das ações individuais - os
concebemos como sendo possíveis por meio de um eficaz poder simbólico. É o
poder político que autoriza, sanciona e legitima a presença de corpos, seja de
mulheres ou de homens, nus ou vestidos, de frente ou de costas, nas praias ou
na cidade, de dia ou de noite.

Surgem, então, questões acerca da forma como o estado, por meio do poder
legislativo do Rio de Janeiro e do projeto que proibiu o cartão-postal de
mulheres seminuas nas praias – projeto proposto por uma mulher e votado
unanimemente – ao mesmo tempo em que interdita o corpo de biquíni nos
postais, autoriza e sanciona o corpo, especificamente as nádegas, em outros
espaços. Na Praça da Apoteose, parte integrante da Passarela do Samba,
encontra-se uma obra de arquitetura monumental que representa nádegas
estilizadas. Se tal parte do corpo feminino está proibida nos postais, como
pensar que no ponto central da Passarela do Samba, lugar turístico há mais
de vinte anos, visto em todo o mundo, as nádegas reinem absolutas, atraindo
a atenção de turistas e foliões que brincam seu Carnaval? Por que essas não
induziriam ao turismo sexual? Talvez porque trata-se de nádegas localizadas
fora da praia, que não são de carne e osso e que aparecem em um espaço
ritual próprio à sua exibição: o espaço burocratizado, racionalizado,
profissionalizado e midiatizado do Carnaval carioca?
Uma possível resposta a esse dilema talvez esteja na forma como Carnaval,
                                                         '
                                                                                                               estado e Igreja, juntos, aparecem para romper dualidades exploradas por DaMatta
                                                                                                               em A casa e a rua (1987). Em vez de operar com dois pólos dicotômicos
Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo




                                                                                                               tradicionais como até então se fizera no pensamento social brasileiro, talvez
                                                                                                               seja necessário pensá-lo como uma tríade. Estudando o Carnaval, a ordem e a
                                                                                                               religiosidade como ritual, DaMatta, encontrou um

                                                                                                                        triângulo ritual, uma figura com três lados, cada qual exprimindo uma faceta muito im-
                                                                                                                        portante da realidade social do Brasil [...]. Teríamos então os ritos da ordem, da desordem
                                                                                                                        e os cerimoniais “neutros” das religiões, onde se indicava um lugar fora do comum ou no
                                                                                                                        outro mundo. Estava diante de espaços sociais e ideológicos onde se podia rir e “brincar”,
                                                                                                                        ser sério e “legal”, e de ser ainda neutro e renunciar a favor dos pobres, oprimidos e
                                                                                                                        marginais, dos santos, de Deus e da Igreja. (1987, p. 107).


                                                                                                               Assim, o corpo seminu mostrado na Passarela do Samba não representaria um
                                                                                                               problema posto que figura no lugar e no momento permitidos pelo ritual de inversão
                                                                                                               que caracteriza o Carnaval. No Carnaval, durante o momento em que as
                                                                                                               convenções aplicadas e em vigor durante todo o ano são momentaneamente
                                                                                                               suspensas, não vemos problema em corpos nus ou seminus se movimentando
                                                                                                               pela Avenida e sendo exibidos mundialmente via TV. Afinal, o tempo e o espaço
                                                                                                               são apropriados e reinventados por sujeitos e grupos segundo lógicas simbólicas
                                                                                                               bastante distintas. Quanto ao cartão-postal, está à venda o ano todo em bancas
                                                                                                               de jornal, o que pressuporia um rompimento com a própria ordem das coisas. É
                                                                                                               interessante notar que estamos nos referindo ao corpo que aparece em um
                                                                                                               espaço urbano e que “a cidade é já a realidade da concentração da população,
                                                                                                               dos instrumentos de produção, do capital, dos prazeres, das necessidades”.
                                                                                                               (MARX; ENGELS, 1984, p. 64). Também é importante pensar o cartão-postal
                                                                                                               como utilizando código que talvez seja lido de forma distinta por “locais” e por
                                                                                                               pessoas de origem cultural distinta daquela dos cariocas ou brasileiros, como os
                                                                                                               turistas estrangeiros.


                                                                                                               De corpos autorizados a corpos dóceis
                                                                                                               Em Vigiar e punir, história da violência nas prisões, Foucault escreve que o corpo,
                                                                                                               além de estudado do ponto de vista da biologia, da saúde, da doença, também
                                                                                                               se inscreve em um universo político. Assim, “o corpo também está diretamente
                                                                                                               mergulhado num campo político; as relações de poder têm alcance imediato
                                                                                                               sobre ele; elas o investem, o marcam, o dirigem, o supliciam, sujeitam-no a
                                                                                                               trabalhos, obrigam-no a cerimônias, exigem-lhe sinais”. (1989, p. 28).
A relação política do corpo pode começar com vistas a uma utilização econômica,




                                                                                                        '
como força de produção investida de relações de poder e dominação. Dessa
forma, “o corpo só se torna força útil se é ao mesmo tempo corpo produtivo e




                                                                                                      Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
corpo submisso”. (1989, p. 29). Em uma época em que a sexualidade é ampla-
mente discutida e explorada pela mídia, pela publicidade e gera um setor eco-
nômico com diversas ramificações, o corpo muitas vezes aparece como do-
minado pelas relações de poder econômico e político. Não são somente insti-
tuições como hospitais, prisões, escolas e quartéis que agora disciplinam os
corpos. A praia, os postais e suas representações aparecem na cena contem-
porânea como les nouveaux lieux onde o corpo, assim como o sujeito e sua
subjetividade, são submetidos ao poder disciplinador. Afinal, como explica Hall,
em sua leitura sobre Foucault,

         o objetivo do poder disciplinar consiste em manter “as vidas, as atividades, o trabalho,
         as infelicidades e os prazeres do indivíduo”, assim como sua saúde física e moral, suas
         práticas sexuais e sua vida familiar, sob estrito controle e disciplina, com base no poder
         dos regimes administrativos, do conhecimento especializado dos profissionais e no co-
         nhecimento fornecimento pelas “disciplinas” das Ciências Sociais”. (1999, p. 42).


O discurso sobre sexualidade, longe de operar apenas como pólo de repressão
sexual, de moral, informa sobre a esfera do legítimo e do autorizado, das
estratégias que se montam como discursos com o objetivo de fazer aparecer um
objeto de conhecimento. Por meio da investida do sexo como elemento simbólico,
pode-se operar a sua regulamentação e controle. Como recursos estratégicos,
os discursos sobre o controle populacional, as doenças venéreas, a procriação,
os costumes e a moral do sexo tratam de manter o indivíduo e seu corpo dentro
de fronteiras legitimadas pela ciência e pelo Estado. Ao se elaborar um discurso
científico sobre a sexualidade, o que se quer é evitar que a apropriação da natureza
via cultura esteja sujeita a desvios e disfunções.

O corpo feminino presente nos cartões-postais não é somente um objeto e lugar
de intervenção e de demarcação da sociedade por parte dos aparatos discursivos
sobre a sexualidade. Parafraseando Foucault (1989), seria o corpo “objeto e
alvo de poder”. A investida da regulamentação política por parte do estado sobre
os postais em que aparecem mulheres seminuas nas praias cariocas torna clara
a forma de controle sobre o corpo e o sexo quando se afirma que, o que está em
risco é a saúde e a moral das mulheres e meninas cariocas e brasileiras. É de
um corpo que, quer apareça muito, quer pouco vestido, poderia escapar, mas
não escapa ao controle dos dispositivos de que se está a tratar. Tal controle
também se estende ao campo do lazer, do qual grandes contingentes popu-
                                                         '
                                                                                                               lacionais usufruem desigualmente. Assim, o próprio turismo é, de fato, um novo
                                                                                                               espaço de intervenção da disciplina burocrata estatal.
Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo




                                                                                                               O pensamento de Foucault representou um dos marcos no descentramento do
                                                                                                               sujeito em relação aos grandes sistemas filosóficos que o viam como uma unidade
                                                                                                               integrada, racional, consciente, coerente e acabada. (HALL, 1999). A partir de
                                                                                                               então, a própria construção da identidade do sujeito e de seu corpo torna-se
                                                                                                               muito mais problemática.

                                                                                                               Refletindo sobre a relação poder e corpo, Foucault constrói o conceito de corpo dócil,
                                                                                                               sujeito a uma tecnologia política do corpo: um saber e um controle que levam a uma
                                                                                                               sujeição que não é obtida pela violência ou ideologia, que pode ser tecnicamente
                                                                                                               pensada. Segundo o autor, a tecnologia política do corpo seria uma espécie de
                                                                                                               “microfísica do poder posta em jogo pelos aparelhos e instituições, mas cujo campo
                                                                                                               de validade se coloca de algum modo entre esses grandes funcionamentos e os
                                                                                                               próprios corpos com sua materialidade e suas forças”. (1989, p. 28).

                                                                                                               Praia e corpo feminino, muitas vezes confundidos como objetos naturais ou mais
                                                                                                               próximos da natureza, são investidos de uma gramática também política: estão
                                                                                                               sujeitos a códigos precisos de comportamentos legítimos e autorizados. A praia
                                                                                                               e o corpo – a primeira, lugar público, ideologicamente visto como democrático ou
                                                                                                               de todos, e o segundo, que se acredita poder mostrar-se e expressar-se livremente
                                                                                                               na praia – pela forma como aparece, atestam como o poder se faz presente.
                                                                                                               Aparecer de biquíni, na praia, de dia, longe de ser uma quebra das regras de um
                                                                                                               poder que se quer contrapor, é justamente reconhecê-lo como autorizado e
                                                                                                               legítimo. Ao proibir determinadas imagens, o estado, via Poder Legislativo, trata
                                                                                                               de um corpo dócil, “que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode
                                                                                                               ser transformado e aperfeiçoado”. (FOUCAULT, 1989, p. 125).

                                                                                                               Contemporaneamente, ir às praias urbanas é ato investido de regulação e vigilância
                                                                                                               da parte de uma gama bastante ampla de especialistas que versam sobre onde,
                                                                                                               quando, como e por que o corpo deve aparecer no espaço da praia ou em repre-
                                                                                                               sentação nos postais. Na praia encontramos policiais, assegurando que os in-
                                                                                                               divíduos terão sua segurança garantida; com eles, encontramos a guarda muni-
                                                                                                               cipal, fiscalizando o cumprimento preciso dos códigos de posturas municipais;
                                                                                                               não menos presentes estão os bombeiros salva-vidas, guardando a segurança
                                                                                                               de banhistas no mar. Além desses, médicos, sobretudo dermatologistas e infec-
                                                                                                               tologistas, nutricionistas, biólogos e sanitaristas, atestam o melhor horário para
se permanecer na praia, o que deve ou não ser ingerido, quais as ameaças




                                                                                                        '!
infectocontagiosas que rondam os banhistas e o que fazer para se prevenir.




                                                                                                      Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
Dessa forma, analisar o investimento político do corpo e a microfísica do poder
supõe um “corpo político como conjunto dos elementos materiais e das técnicas
que servem de armas, de reforço, de vias de comunicação e de pontos de apoio
para as relações de poder e de saber que investem os corpos humanos e os
submetem fazendo deles objetos de saber”. (FOUCAULT, 1989, p. 31). Enfim, é
de corpos dóceis que se está a tratar, afinal, o poder que regula e disciplina é
acompanhado de um saber que o instrui.



Regras, valores e sua imposição
Howard Becker, em As regras e sua imposição, leva a cabo uma discussão à qual
recorremos para pensar a forma como a criação da regra e sua imposição se deram
no caso de cartões-postais. Becker (1977) parte de uma pergunta bastante geral e
que interessa a este trabalho: “Quando são feitas e impostas as regras?” (1977,
p. 86). Quando regras são feitas a fim de punir infratores, pergunta-se: Quem as
impõe? Geertz adianta a resposta da seguinte maneira: “As idéias – religiosa, moral,
prática, estética – como Max Weber, entre outros, nunca se cansou de insistir, devem
ser apresentadas por grupos sociais poderosos para poderem ter efeitos sociais
poderosos: alguém deve reverenciá-las, celebrá-las, impô-las.” (1978, p. 209).

Toda imposição se origina de uma iniciativa. A iniciativa é, para Becker, a variável-
chave no estudo da imposição de regras. Contudo, a dimensão pública e as forças
presentes nas organizações também são muito importantes na imposição das regras.
Analisando o caso dos postais, em linhas gerais, a autora da lei, deputada Alice
Tamborindeguy, tomou a iniciativa, tornando-a pública ao mesmo tempo em que
utilizou a estrutura organizacional da Assembléia Legislativa a fim de impor as regras
que proíbem que o cartão-postal veicule jovens seminuas nas praias. Conforme Becker,

         a iniciativa, gerada pelo interesse pessoal, fortalecida com a publicidade e condicionada
         pelo caráter da organização, é assim, a variável-chave na imposição da regra. A iniciativa
         opera de forma mais imediata numa situação na qual há concordância básica em relação
         às regras que serão impostas. (1977, p. 92).


Em matéria publicada pela Folha Online (“Lei proíbe cartões-postais com mu-
lheres seminuas no Rio”, 18/11/05), observa-se a concordância entre os
argumentos da deputada Alice Tamborindeguy e os do secretário estadual de
                                                         '
                                                                                                               Turismo da época, Sérgio Ricardo de Almeida. Ambos defendiam o valor das
                                                                                                               imagens turísticas da cidade e do Estado do Rio de Janeiro que seriam man-
Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo




                                                                                                               chadas pelo que consideram ser um forte apelo para o turismo sexual na cidade
                                                                                                               e no estado.

                                                                                                               Conforme Becker, é a partir dos valores que regras concretas e específicas são
                                                                                                               deduzidas. Os valores seriam como premissas a fundamentar as regras. No
                                                                                                               caso dos postais, há um conjunto de valores tais como a proteção da mulher
                                                                                                               brasileira e de sua imagem, proteção da imagem da cidade do Rio de Janeiro
                                                                                                               como a Cidade Maravilhosa e a do Brasil que não poderiam ser relacionadas ao
                                                                                                               turismo sexual.

                                                                                                               Becker enfatiza, no entanto, que não é a existência da regra que garante a sua
                                                                                                               imposição. Há uma seqüência que, guardando-se as devidas proporções, segue
                                                                                                               um padrão comum à criação de regras e à sua imposição. Segundo o sociólogo,
                                                                                                               vai-se do geral para o específico. Em outras palavras, em primeiro lugar, parte-se
                                                                                                               de um valor geral; em segundo lugar, deduzem-se regras particulares que, em
                                                                                                               terceiro lugar, serão aplicadas a atos e pessoas específicos (1977). Contudo,
                                                                                                               sem o papel do empresário moral, ou seja, aquele a quem interessa pessoalmente
                                                                                                               a aplicação de uma regra, nada aconteceria. Analisando o caso da criação de
                                                                                                               uma regra e sua imposição para uma lei federal sobre o uso da maconha nos
                                                                                                               EUA, Becker buscou mostrar que “onde quer que as regras sejam criadas e
                                                                                                               aplicadas, deveríamos estar atentos para a possível presença de um indivíduo
                                                                                                               ou grupo que toma a iniciativa”. (1977, p. 107). Finalmente, segundo o autor,

                                                                                                               onde quer que as regras sejam criadas e aplicadas, deveríamos encontrar
                                                                                                               pessoas tentando atrair o apoio de grupos coordenados e usando os meios
                                                                                                               de comunicação disponíveis para desenvolver um clima favorável de opinião.
                                                                                                               Onde não se desenvolve tal apoio, podemos esperar o fracasso da iniciativa. E
                                                                                                               onde quer que as regras sejam criadas e aplicadas, esperamos que os processos
                                                                                                               de imposição sejam moldados pela complexidade da organização, repousan-
                                                                                                               do sobre uma base de acordos compartilhados em grupos mais simples
                                                                                                               e resultando de manobras e barganhas políticas numa estrutura complexa.
                                                                                                               (1977, p. 107).

                                                                                                               Chamamos a atenção para o fato de que a imposição “ocorre quando alguém
                                                                                                               trila o apito, tornando a imposição necessária, ao ver alguma vantagem em
                                                                                                               fazê-lo”. (BECKER, 1977, p. 87). Contudo, como escreveu Galbraith (1986), a
todo acúmulo de poder surgem outras fontes em oposição. É a dialética do




                                                                                     '#
poder. Assim, a imposição de uma regra pode gerar posições contrárias a ela.
Tal oposição pode gerar ações ou desinteresse, indiferença. A indiferença talvez




                                                                                   Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
seja a causa de grande parte das regras que são apresentadas, mas não
obedecidas. No Brasil, é a situação das leis que “não pegam”. A matéria
“Turismo sexual”, do jornalista Pedro Torre, tem como tema a discussão sobre
o Projeto de Lei 2.813/05 e adota uma posição pouco crédula ao começar da
seguinte forma: “Sobre esse assunto já manifestei minha opinião por vá-
rias vezes, sempre com a idéia que dificilmente ‘pegará’, se transformando
em outra lei que não servirá para nada” (03/12/2005). Disponível em: http:/
/sierramar.com.br/noticias/visualizar.asp?Cod=10 ). Tal matéria reflete boa
parte do posicionamento da imprensa em relação ao assunto. E mesmo lidando
com um tipo de discurso que buscaria uma atitude objetiva, a imprensa expressa
representações, visões de mundo.


Considerações finais
O corpo, como manifestação cultural, é também lugar de dimensão política. A
ida à praia informa sobre o conjunto de possibilidades acerca de como o
espaço social é traçado ou desenhado e sobre qual corpo e como tal corpo
será mostrado nesse lugar. Longe de ser um campo desprovido de interesses
e conflitos, a praia é também espaço onde inúmeros atores e grupos disputam
o poder. Seja o poder de autorizar quem irá comercializar toda sorte de
alimentos e bebidas, de produtos para o corpo (protetor solar, bonés, viseiras
e óculos de sol) ou quais imagens da praia serão representativas da cultura
brasileira em um determinado tipo de mídia, a saber, os cartões-postais.
Assim, há, nos códigos culturais, instituições sociais que legitimam e autorizam
a aparição de corpos que estão de acordo com determinados padrões morais
de beleza e estética.

Nesse sentido, ao investir sob forma de lei contra as imagens de mulheres de
biquíni nos postais, o estado expõe determinadas contradições. Ele pode levar a
pensar que proibir essas imagens implica combater dura e eficazmente o problema
da prostituição e do turismo sexual, uma vez que não tem podido dar conta da
prostituição nas areias da praia ou nas boîtes da orla da Zona Sul, assim como,
em instância maior, da exploração de menores e do tráfico de mulheres. As
imagens tornam-se, então, alvo da investida daquilo que Becker chamou
“empresário moral” e de trilar o apito (1977b).
Aqui se explicita uma forte questão de comunicação, importante para discutir a
                                                         '$
                                                                                                               temática: expor mulheres seminuas em um postal é, também e fundamentalmente,
                                                                                                               uma estratégia de comunicação que visa a construir um imaginário. Em determi-
Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo




                                                                                                               nado momento, esse imaginário corroborou as teses que o estado quis construir.
                                                                                                               Na atualidade, parece não mais contribuir para o que o estado considera adequado.
                                                                                                               Aqui, os postais se apresentaram como a ponta desse processo de desconstrução
                                                                                                               da imagem construída. Isso porque imagens não são selecionadas, editadas e
                                                                                                               veiculadas sem intenções ou interesses de diversas ordens. Ao exibir ou proibir,
                                                                                                               existem inúmeras intenções e interesses em jogo.

                                                                                                               O projeto de lei apresentado à Assembléia do Estado do Rio de Janeiro aponta
                                                                                                               algumas questões implícitas: reconhece o País como espaço de belezas “naturais”
                                                                                                               – praia, montanha e mulheres; reconhece o valor econômico do turismo; aponta
                                                                                                               para a vinculação da imagem construída da mulher na praia carioca com o turismo
                                                                                                               sexual, mas também aponta para a questão da regra e de sua imposição, com a
                                                                                                               possibilidade de desobediência a uma lei cujo empresário moral precisou trilar o
                                                                                                               apito a fim de conseguir chamar a atenção para uma situação específica. O
                                                                                                               estado reconhece o País onde a natureza é bela e exuberante, inclusive enfatizando
                                                                                                               a beleza da mulher brasileira. Contudo, justamente por associar a beleza da
                                                                                                               mulher a uma natureza selvagem indômita, o estado admite que é preciso protegê-
                                                                                                               la. Ao fazer isso, faz reconhecer que está também presente nesse espaço “natu-
                                                                                                               ral” que é a praia, mas que sabemos, antes de tudo, que é político. Ao mesmo
                                                                                                               tempo, o que presenciamos nas praias, mais do que a expressão livre e autônoma
                                                                                                               de sujeitos dotados de liberdade, implica observar uma série de dispositivos
                                                                                                               prescritivos de condutas, códigos e comportamentos cujo corpo se coloca como
                                                                                                               alvo central da circunscrição legal ou moral.

                                                                                                               Mais de um ano depois da promulgação da lei, ainda era possível observar, em
                                                                                                               algumas bancas de jornais da Zona Sul carioca, a presença de postais do tipo
                                                                                                               agora proibido. Em inúmeras outras bancas que antes exibiam os postais, não
                                                                                                               se observava mais esse tipo de mídia. Observamos uma lei que chama a atenção
                                                                                                               sobre como, onde e por que o corpo de mulheres jovens é veiculado pela mídia.
                                                                                                               Ao proibir os postais com mulheres que não estejam fora da cena original, o
                                                                                                               estado abre, por outro lado, a possibilidade de que outras imagens, desde que
                                                                                                               inseridas na paisagem original, exibam corpos de mulheres seminuas. Nesse
                                                                                                               sentido, nos meses que antecedem o verão carioca e principalmente o Carnaval,
                                                                                                               inúmeros jornais exibem imagens em que corpos de mulheres seminuas aparecem
                                                                                                               no contexto de uma cena “autêntica e original”, mostrando a todos que são
                                                                                                               nádegas autorizadas pelo estado.
Referências




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'
                                                                                                               Matérias
                                                                                                               FANTÁSTICO. Beleza ou vulgaridade. 06/11/2005. Disponível em: http://fantasti-
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                                                                                                               co.globo.com/Jornalismo/Fantastico/0, AA1067312-4005-0-0-06112005,00.html.
                                                                                                               Acesso em: nov. 2006.
                                                                                                               FOLHA ONLINE. Lei proíbe cartões-postais com mulheres seminuas no Rio. 18/11/2005.
                                                                                                               Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u115411.shtml.
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''
Comunicação e turismo:
possibilidades de conhecimento1




                                                                                                           Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
                                                               Mary Sandra Guerra Ashton2



                                              RESUMO
Este artigo propõe uma abordagem teórica acerca da noção de comunicação, conforme Maffesoli
e sua inter-relação com a noção de Turismo desenvolvida por De La Torre, com o objetivo de
compreender os novos valores comportamentais observados na atividade turística, sustentados
pelo compartilhar. Para tanto, o trabalho busca a reflexão e o diálogo como uma possibilidade de
conhecimento por meio da relativização e do estilo proposto por Maffesoli para a Sociologia
Compreensiva.
Palavras-chave Comunicação. Turismo. Compartilhar. Valores comportamentais.
Palavras-chave:

                                             ABSTRACT
The purpose of this article is the theoretical approach about the notion of communication according
to Maffesoli and its interrelation with the concept of Tourism developed by De La Torre with the
objective of understanding the new behavioral values observed in the touristic activity, sustained by
sharing. In order to do this, this work seeks the reflection and the dialog as a possibility of knowl-
edge through relativization and the style proposed by Maffesoli for the Comprehensive Sociology.
Key words: Communication. Tourism. Sharing. Behavioral values.




1 Este trabalho faz parte da revisão bibliográfica para a Tese de Doutorado pela PUCRS.
2 Doutora e Mestre em Comunicação Social. Pós-Graduada e Bacharel em Turismo pela PUCRS. Autora de
ensaios publicados na área e organizadora de dois livros. Professora e Pesquisadora na Feevale, no Grupo
de Desenvolvimento Regional. E-mail: marysga@feevale.br
Introdução
                                                                                    O turismo como temática de pesquisa vem conquistando um significativo espaço
Ashton, Mary Sandra Guerra. Comunicação e turismo: possibilidades de conhecimento




                                                                                    no campo da investigação científica. Muitas das abordagens favorecem uma
                                                                                    visão mais voltada para a economia; no entanto, o que se propõe neste artigo é
                                                                                    observar o turismo como um fenômeno social que move milhões de pessoas
                                                                                    motivadas, principalmente, pela busca de novas experiências diferentes daquelas
                                                                                    vividas no cotidiano.

                                                                                    Essa intensa e crescente mobilidade social, descrita pelo fenômeno turístico,
                                                                                    assume características diversas, variando conforme o período histórico no qual
                                                                                    se acha inserida, bem como insinua comportamentos distintos daqueles
                                                                                    observados até há poucas décadas.

                                                                                    Nesse contexto, a contribuição de Maffesoli, ao desenvolver a noção de
                                                                                    comunicação, sublinhando o compartilhar, torna-se relevante para explicar os
                                                                                    novos valores comportamentais observados na sociedade pós-moderna, bem
                                                                                    como a sua relação com o turismo.

                                                                                    Por sua vez, o turismo, sustentado por De La Torre, revela a importância das
                                                                                    interações sociais. Elas acontecem durante a atividade turística e podem encontrar
                                                                                    sentido no compartilhar proposto por Maffesoli. Desse modo, a comunicação e o
                                                                                    turismo, apesar de suas características próprias e singulares, podem se mostrar
                                                                                    complementares, conforme os princípios da Sociologia Compreensiva.



                                                                                    O COMPARTILHAR: o que não é medido, mas vivido
                                                                                    A comunicação é lida por Maffesoli como uma interação e, como tal, é recarregada,
                                                                                    constantemente pelos sujeitos, de acordo com a necessidade de estar junto.
                                                                                    Conforme o autor, apenas o que se vive junto pode ser compartilhado, assim
                                                                                    “comunicar é servir-se daquilo que se tem em comum”. (MAFFESOLI, 1995,
                                                                                    p. 82). A comunicação favorece a percepção do coletivo, delineando, dessa
                                                                                    maneira, uma nova ordem social, valorizando a interação, banalizando o eu,
                                                                                    cedendo lugar ao plural e, desse modo, conhecer uma tal emoção em comum.

                                                                                    A noção de comunicação celebra o compartilhar. “A sociedade é formada por um
                                                                                    conjunto de relações interativas, feito de afetos, emoções, sensações que cons-
                                                                                    tituem, strito sensu o corpo social.” (MAFFESOLI, 1996, p. 73). A comunicação,
enquanto interação, acontece quando se pode comungar um afeto. Assim, a




                                                                                                          
correspondência do sentimento, do sensível, não trata do número de vezes ou
do número de pessoas, mas sim, da essência, da paixão.




                                                                                                        Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
Dessa forma, a comunicação é realimentada pela necessidade de socialização
inerente à natureza humana e pode ser demonstrada de várias maneiras. Assim,
“as refeições, as festas, as procissões são, sabidamente, um modo de dizer o
prazer de estar junto” (MAFFESOLI, 1996, p. 85), são formas de pôr em comum
os afetos e celebrar essa comunalização.

Portanto, a ordem do singular cede lugar à efervescência da massa, na medida
em que metamorfoseia o individual para explodir no outro, vislumbra-se a oposição
ao hedonismo. Maffesoli3 apresenta questões inquietantes referentes à nova
constituição da socialidade. Para o autor

           A metamorfose não é o fim, mas a separação, a desagregação para que outra associação
           possa se formar. Sublinha a crise do individual, mas o reforço do coletivo e outra maneira
           de estar junto se forma. Assim, a pós-modernidade pode ser lida como a heterogenização,
           a pluralização do mundo, gerando identificações múltiplas. (2005, p. 32).


Não se trata de fazer distinção entre o bem e o mal, mas de vivê-lo na pulsação
do hoje, numa ondulação que aceita e celebra ora Dionísio, ora Apolo.

“Vive-se uma forma de estar-junto, que não está voltada para o longínquo ou
para uma sociedade perfeita, mas que se dedica a organizar o presente.”
(MAFFESOLI, 1995, p. 17). A sociedade assume uma postura, essencialmente,
presenteísta e, com ela, o peso ou a leveza da velocidade do aqui e agora.

Ao compartilhar sentimentos, emoções, afetos pressupõe-se comungar com outras
pessoas e, por meio dessa ação, de fazer parte, estar vivendo o mesmo sentimento
com os outros, dá-se início e continuidade ao processo de integração e evolução
social, sugerido por Maffesoli como entrar em correspondência com os outros, o
que se vive junto e não é medido, mas apenas vivido.

Dessa forma, a comunicação se dá a partir do experimentar junto, exalta o
corresponder, o viver em comum uma experiência prazerosa ou infeliz, pouco


3 Anotações de palestra proferida por Maffesoli: “O retorno das emoções sociais” – UFRGS, 17/10/
2005, em Metamorfoses da cultura contemporânea.
importa, só é relevante o sentido coletivo da ação. Para Maffesoli (1996, p. 83)
                                          
                                                                                    “há no ar uma afetividade que tende a explodir e contaminar todos os setores da
                                                                                    vida social”. A afetividade ultrapassa o conceitual, já que é, essencialmente,
Ashton, Mary Sandra Guerra. Comunicação e turismo: possibilidades de conhecimento




                                                                                    sensível. Fala-se aqui do que não é quantificável, a paixão, a emoção.

                                                                                    Maffesoli faz referência à comunicação tátil, que tem por objetivo, simplesmente, o
                                                                                    contato, o participar junto. Tende a uma uniformização na maneira de vestir, de falar,
                                                                                    dos esportes ou apenas freqüentar locais cotidianos, como numa espécie de eco,
                                                                                    com grau zero de conteúdo, acentuando, unicamente, a importância do coletivo.

                                                                                    Nesse caso, forma-se um novo sujeito, rompendo-se com o princípio de
                                                                                    individuação, tirando-se de circulação o egocêntrico, “seja por uma Comunicação
                                                                                    verbal, seja por uma Comunicação não-verbal, está em interação com o outro”.
                                                                                    (MAFFESOLI, 1995, p. 80). Adicionalmente, a questão estética complementa
                                                                                    essa noção de que a comunhão é o fundamento para a geração de movimentos
                                                                                    de atrações e de repulsões.

                                                                                             Quer sejam elas (as atrações) espontâneas, como as formas teatrais urbanas, quer escondi-
                                                                                             das pelos calendários musicais ou esportivos, quer programadas, como os períodos festivos
                                                                                             ou de férias [...] não faz a menor diferença. Em cada um desses casos, além das simples
                                                                                             causalidades racionais, observa-se um desejo de estar junto. (MAFFESOLI, 1996, p. 73-74).


                                                                                    O compartilhar redefiniu a necessidade de comunicação na sociedade. As com-
                                                                                    ponentes sociais, que determinam tais desejos, são universais. Elas se verificam
                                                                                    em qualquer parte: compartilhar experiências (positivas ou negativas), conquistas,
                                                                                    conhecimentos, cultura ou integrar-se a elas livremente entre os infinitos agentes
                                                                                    sociais, que neles transitam. Sem isso, se (des)configuram alguns aspectos do
                                                                                    cenário típico dos contextos pós-modernos da sociedade contemporânea.

                                                                                    Maffesoli (2001, p. 113) considera que “a Comunicação, ao mesmo tempo,
                                                                                    verbal e não-verbal, constitui uma vasta rede, que liga os indivíduos entre si”.
                                                                                    Nesse sentido, deve-se acrescentar que não apenas a verbalização tem estatuto
                                                                                    de laço social, mas as situações silenciosas devem ser incluídas como ativos da
                                                                                    comunicação, atendo-se a uma perspectiva orgânica de grupo, seja na linguagem
                                                                                    corporal, seja nos ruídos das músicas.

                                                                                    Assim, a profusão de imagens pode provocar a cultura dos sentimentos por meio
                                                                                    dos elementos que fazem parte dos atrativos turísticos. Podem ser elementos
                                                                                    das cidades, as linhas arquitetônicas, as ruas, o entorno natural, dotado de
                                                                                    elementos, como os cheiros, as texturas, os sons.
A comunicação pode se dar, ainda, através das cores, uma vez que “constituem




                                                                                      !
estímulos para a sensibilidade humana, influindo no indivíduo, para gostar ou
não de algo, para negar ou afirmar, para se abster ou agir”. (FARINA, 2000,




                                                                                    Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
p. 112). A reação das pessoas em relação à cor é particular e subjetiva, estando
ligada a vários fatores que fazem parte da vida de cada um. “As cores são uma
realidade sensorial [...], atuam sobre a emotividade humana, produzem uma
sensação de movimento, uma dinâmica envolvente.” (FARINA, 2000, p. 101).

Assim, assumem um papel relevante na condução das imagens, associadas à
experiência, vivida pelo agente do processo comunicacional. Elas são elementos
complementares à forma, dão consistência à mensagem compartilhada e facilitam
a continuidade da correspondência por se constituírem em elemento comum aos
que interagem em seu processo, tanto no plano físico quanto no imaginário.
(CHEVALIER; GHEERBRANT, 1997).

É no conceito do compartilhar que se encontra a função expressa na origem
etimológica da comunicação: tornar comum a todos – fazer algo comum,
conhecimento compartilhado. Está na origem dos sistemas sociais a organização
urbana, através da qual se otimiza o processo comunicacional.

Para o qual “comunicar-se é servir-se daquilo que se tem em comum”. O contexto
é essencialmente pluricausalista, polissêmico, plural, ele favorece a percepção
das coisas em massa e permite, portanto, compreender as massas e também
os diversos movimentos que as animam. (MAFFESOLI, 1995, p. 82).

O compartilhar das experiências, enquanto vividas, constitui-se em elemento
que merece atenção em relação ao Turismo. Na medida em que as pessoas
sentem-se motivadas a “estar-junto”, forma-se a cadeia motora dos deslocamentos
humanos (buscar algo em outro lugar e no outro). O comungar do vivido, no
instante em que é vivido, é que desperta a curiosidade e o desejo de experimentar
junto e, ao mesmo tempo, que/com os outros, resultando em atratividade turística.

A comunhão constitui-se no elemento principal da atratividade turística, uma
vez que as pessoas, simplesmente, vivem, surge a necessidade da interação.
O Turismo permite essa comunhão, na medida em que os sujeitos compartilham
as suas vivências, estão juntos, comungando em torno de um mesmo objeto,
fazendo parte, experimentando uma tal emoção em comum. Desse modo,
possibilita-se a formação da cadeia motora de atração de públicos aos locais
turísticos.
TURISMO: (re)definindo novos
                                                                                    padrões de convívio social
Ashton, Mary Sandra Guerra. Comunicação e turismo: possibilidades de conhecimento




                                                                                    O Turismo é um fenômeno social que dá conta de inúmeras atividades e que
                                                                                    mantém relevantes interações com o meio. Por conta disso, sua prática se
                                                                                    apresenta como um brinde ao estar junto, ao mesmo tempo em que pode explicar
                                                                                    as transformações observadas nos novos valores comportamentais descritos na
                                                                                    atualidade e observados na atividade turística. Assim, a noção de Turismo é
                                                                                    complexa e abrangente.

                                                                                             O Turismo é um fenômeno social que consiste no deslocamento voluntário e temporal de
                                                                                             indivíduos ou grupos de pessoas que, fundamentalmente por motivos de recreação,
                                                                                             descanso, cultura ou saúde, se trasladam de seu lugar de residência habitual a outro, no
                                                                                             qual não exerçam nenhuma atividade lucrativa nem remunerada, gerando múltiplas
                                                                                             relações de importância social, econômica e cultural (DE LA TORRE, 1997, p. 16).


                                                                                    Apreende-se que essa manifestação do comportamento humano são movi-
                                                                                    mentações, ou seja, indivíduos que se trasladam de um local para outro e que
                                                                                    promovem intensas relações sociais. Essa tensão, provocada pelo movimento
                                                                                    de indivíduos, pode ter reflexo em todos os níveis formadores da sociedade,
                                                                                    sejam eles econômicos e sociais, sejam culturais e ambientais.

                                                                                    As transformações provocadas pelo fenômeno turístico se estendem por inúmeras
                                                                                    áreas das atividades que mantêm relações diretas ou indiretas com o Turismo, razão
                                                                                    pela qual torna-se relevante compreender os vetores que lhe são característicos, bem
                                                                                    como as interações que acontecem nos seus campos de abrangência.

                                                                                    Para De La Torre (1997, p. 101) “posto que o Turismo é um fenômeno eminentemente
                                                                                    social, por derivar de deslocamentos humanos, teve, desde o seu início, uma estreita
                                                                                    interdependência nas relações de interação com outros fenômenos sociais”.

                                                                                    Portanto, o Turismo pode ser identificado a partir das repercussões sociais que
                                                                                    se estabelecem através da diversidade de ações, entre elas, as advindas do
                                                                                    aumento de mobilidade social. Conforme De La Torre (1997, p. 101), o Turismo,
                                                                                    “na atualidade, transforma os moldes tradicionais de conduta tanto dos homens
                                                                                    como das coletividades”.

                                                                                    A mobilidade social, até então motivada por causas políticas e econômicas, passa
                                                                                    a encontrar razões de outra ordem, como a espiritual, a emotiva e a intelectual.
Cria-se, assim, uma nova demanda por lazer na atualidade, reforçada pelas




                                                                                                            #
oportunidades que se abrem com os avanços tecnológicos mais recentes. Esse
incremento vigoroso dos deslocamentos, por razões não econômicas, associadas




                                                                                                          Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
ao Turismo, leva a novos padrões e formatos nas regras estabelecidas para o
convívio social.

Nesse cenário de intensa mobilidade, entram em cena os atrativos turísticos,
que figuram como elementos responsáveis pela motivação do deslocamento das
pessoas, da sua residência para outra localidade, em busca de coisas, para ver
e fazer. Portanto, são os responsáveis por atrair visitantes para determinados
locais, com o objetivo de transformar a experiência de visitação a um lugar em
uma experiência singular, prazerosa e de significado diferenciado. (FERRI;
RUSCHMANN, 2000).

Desde épocas mais remotas, a curiosidade em conhecer outros locais move
milhares de pessoas. Esse movimento vem crescendo de forma acelerada – o
Turismo movimentou 842 milhões de turistas no mundo durante o ano de 2006,
um crescimento de 4,5% em relação aos 808 milhões de 2005 (OMT – O GLOBO,
20/01/07)4 – gerando a criação de uma indústria de atrativos, que vem agindo
como motor dos deslocamentos.

Essa busca incessante por ver e fazer, enfim, por interatividade, formata os
atrativos na atualidade. A oferta se direciona a atender ao olhar dos viajantes.
Assim, tanto os atrativos turísticos naturais como os atrativos culturais, bem
como o estudo das demandas, tornam-se relevantes para análises referentes ao
Turismo e à sua relação com a comunicação. Nesse sentido, deve-se dar atenção
às formas de representação simbólica, que cada atrativo turístico terá no
inconsciente das pessoas, ao procederem à escolha de seus destinos.

A comunicação, por sua vez, pode contribuir para (re)definir os novos valores
comportamentais observados na atividade turística. Os traços presenteístas que
permeiam as noções de Turismo e de comunicação são reforçados na medida
em que o estar junto exige uma ação presente: aqui e agora.



4 OMT – Organização Mundial do Turismo. Em entrevista, o secretário-geral da OMT Francesco Frangialli
disse que é “uma fase histórica de crescimento contínuo ao longo dos três últimos anos, já que o número
de turistas aumentou em 150 milhões, e estão ocorrendo crescimentos muito importantes em várias
regiões”. Dados disponíveis em O Globo, 20/01/07.
O compartilhar das experiências observado no Turismo é formador da socialidade e,
                                          $
                                                                                    portanto, motor dos deslocamentos humanos em busca do outro (lugar). A ação é
                                                                                    voltada para o presente, para o instante em que é vivido, exaltando unicamente o
Ashton, Mary Sandra Guerra. Comunicação e turismo: possibilidades de conhecimento




                                                                                    que é vivido em comum, compartilhado. O comungar da experiência se transforma no
                                                                                    fator da atratividade turística, bem como estabelece uma relação de simbiose entre
                                                                                    as noções de Turismo e de comunicação. Portanto, mostram-se complementares,
                                                                                    redefinindo novos padrões comportamentais para o convívio social.



                                                                                    Comunicação: o mundo das idéias
                                                                                    Para além da epistemologia da comunicação, Maffesoli apresenta novas formas
                                                                                    de compreender aquilo que é do senso comum. Mesmo os elementos (trans)for-
                                                                                    madores da socialidade, considerados muitas vezes banais, são objeto de estudo
                                                                                    da Sociologia Compreensiva proposta por Maffesoli.

                                                                                    Abrangente na sua totalidade, a Sociologia Compreensiva, também chamada
                                                                                    Sociologia do Lado de Dentro, ocupa-se em explicar os pormenores da vida de
                                                                                    todos os dias por meio de cinco pressupostos enunciados por Maffesoli (1985).
                                                                                    Possui, como uma de suas características, a universalidade e a subjetividade
                                                                                    nas questões do cotidiano, do mundo das idéias; elementos essenciais na des-
                                                                                    crição conceitual, que envolvem a reflexão deste estudo.

                                                                                    O objeto da Sociologia Compreensiva é o estudo abrangente dos processos de
                                                                                    evolução das sociedades, contemplando o cotidiano e a subjetividade, através
                                                                                    da análise integrada dos momentos e dos movimentos sociais. “O essencial se
                                                                                    encontra na invariabilidade do homem em sociedade, no retorno do idêntico, nas
                                                                                    grandes constantes da condição humana.” (MAFFESOLI, 1985, p. 10).



                                                                                    Considerações finais
                                                                                    Esse artigo se ocupou em compreender e explicar os novos valores comporta-
                                                                                    mentais, descritos no Turismo e sustentados pelo compartilhar, como um dos
                                                                                    determinantes do movimento social observado na atualidade. Por meio desse
                                                                                    exercício, houve a possibilidade de dar uma nova compreensão ao fenômeno
                                                                                    social, representado pelo Turismo, a partir da análise de um de seus elementos
                                                                                    mais contemporâneos, como é o caso da comunicação.
A comunicação caracterizou-se, em sentido verbal e não verbal, na medida em




                                                                                            %
que se verificou o compartilhar dos sentimentos, das paixões, dando início ao
processo de interação, com base na comunhão de afetos, para o bem ou para o




                                                                                          Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
mal, valorizando o mundo dos signos. Através da realimentação constante da
comunicação, por intermédio dos símbolos, é delineada uma nova maneira de
comunhão, na qual o destaque ao coletivo entra em sinergia com o que é vivido
enfatizando o presente.

No Turismo se verificou a presença desses valores constitutivos da sociedade,
como ingredientes importantes para ligar pessoas e como fundamento natural
da socialidade. A prevalência das práticas comuns e tradicionais promove
identificação desses elementos no âmbito sociológico, naquilo que orienta a
ordenação dos fenômenos sociais, como é o caso do Turismo, que conduz à
produção de sentido.

Por outro lado, o estudo mostrou que o Turismo desempenha um papel relevante
na sociedade, uma vez que realimenta o processo de comunicação, enquanto
contribui para reforçar a sua identidade. O Turismo e a comunicação se
apresentam, dessa maneira, complementares.

Assim, a leitura do Turismo e sua relação com a comunicação pode ser uma
contribuição para o estudo dos comportamentos sociais, inscritos nas idéias de
Maffesoli e da Sociologia Compreensiva na busca pela investigação, a partir do
cotidiano, para traçar o perfil das representações da sociedade.

Desse modo, foi possível promover o diálogo entre a noção de Turismo e de
comunicação, respeitando as características do método, as particularidades dos
teóricos, Maffesoli e De La Torre, e estabelecer os níveis de convergência entre
ambos. Logo, descartou a perspectiva positivista, já que teve como objetivo a
observação e o acompanhamento do processo que relaciona a vida à represen-
tação como uma possibilidade de conhecimento.



Referências
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: J. Olympio,
1997.
DE LA TORRE, Óscar. El Turismo: fenómeno social. México: Fondo de Cultura Económica,
1997.
FARINA, Modesto. Psicodinâmica das cores em comunicação. São Paulo: E. Blücher,
                                          
                                                                                    2000.
                                                                                    FERRI, Cássia; RUSCHMANN, Dóris. Turismo: visão e ação. Revista Científica do Mestrado
Ashton, Mary Sandra Guerra. Comunicação e turismo: possibilidades de conhecimento




                                                                                    em Turismo e Hotelaria, Itajaí: Univali, ano 2, n. 4, p. 9-17, fev. 2000.
                                                                                    MAFFESOLI, Michel. O conhecimento comum. São Paulo: Brasiliense, 1985.
                                                                                    _____ . A contemplação do mundo. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1995.
                                                                                    _____ . No fundo das aparências. Petrópolis: Vozes, 1996.
                                                                                    _____ . Sobre o nomadismo, vagabundagens pós-modernas. Rio de Janeiro: Record,
                                                                                    2001.
                                                                                    _____ . O retorno das emoções sociais. Anotações da Palestra proferida por Maffe-
                                                                                    soli – Salão de Atos da UFRGS – “Metamorfoses da cultura contemporânea”, 17/10/
                                                                                    2005.
'
Tecnototemismo:
identidades múltiplas




                                                                                                         Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
e nova subjetividade
                                                                    Lauren Ferreira Colvara1



                                              RESUMO
A formação da subjetividade, com um recorte específico para a reconstrução da identidade
atravessada pelas tecnologias de comunicação, será o foco deste artigo. Ao procurar a “evitação de
desprazer” ou produção de prazer, o indivíduo produz contextos e conexões para que assim haja um
sentimento de pertencimento, de conexão a um sentido de identidade individual e grupal. A articulação
entre essa identidade, a cultura e os meios de comunicação é uma relação construída e eliciada
pela procura de uma zona de conforto e/ou fuga do sofrimento. Teoriza-se, assim, sobre a formação
de novos tabus e totens sob a regência das tecnologias de comunicação, ao que há de se chamar:
tecnototemismo. O tecnototemismo seria o rompimento com o passado e suas leis, seria o
estabelecimento de uma cultura do prazer e da satisfação, de um hedonismo crônico para a obtenção
da transcendência do ser. Esse processo é promovido pelas tecnologias de comunicação. As regras
e o mundo passam a ser determinados pela máquina. As verdades são produzidas por essa, mesmo
que operada pelo homem. Há a crença de que com o saber são possíveis transformações,
desenvolvimento, crescimento e, sobretudo, o controle do mundo à sua volta. Produz-se a angústia
da perda do poder que é deslocada para o ritual do rompimento de barreiras, da transcendência do
ser, da imaterialidade, da virtualização. Caberia pensar no parcelamento da subjetividade em
identidades múltiplas e fugazes, uma completa abstração do social e um reforço no uso de aparatos
tecnológicos que esse indivíduo experimenta ao trocar de identidade, novas peles, novas texturas
de fantasia e, principalmente, na realização de suas fantasias num contexto virtual, e não, objetivo,
o faz mergulhar em si próprio.

Palavras-chave Comunicação. Identidade. Subjetividade.
Palavras-chave:

                                             ABSTRACT
The formation of the subjectivity with a specific clipping for (re) the construction of the identity
crossed for the communication technologies will be the focus of this article. When looking for the
“avoidance of displeasure” or production of pleasure the individual produces contexts and connec-



1 Psicóloga pela Faculdade de Ciências e Letras de Assis (Unesp). Mestre em Comunicação Midiática pela
Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Unesp/Bauru). Pesquisadora no Grupo Mídia e Sociedade
(CNPq). E-mail: laucolvara@yahoo.com.br
tions so that thus it has a belonging feeling, of connection to a direction of individual and group
                                             
                                                                                       identity. Therefore, the joint between this identity, the culture and the medias are a constructed
                                                                                       relation provoked for the search of a zone of comfort or escape of the suffering. It articulates, thus,
                                                                                       on the formation of new taboos and totens under the regency of the communication technologies,
Colvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade




                                                                                       which have to call: tecnotemism. The tecnototemism would be the disruption with the past and its
                                                                                       laws, would be the establishment of a culture of the pleasure and the satisfaction, of a chronic
                                                                                       hedonism for the attainment of the to exceed a of the being. This process is promoted by the
                                                                                       communication technologies. Therefore, if the culture if characterizes for definitive limits, and the
                                                                                       phenomenon after-humanist considers the disruption of the norms as revolutionary action, has an
                                                                                       inversion of values, where the machine dominates the man in a tecnototenic relation. The rules and
                                                                                       the world start to be definitive for the machine. The truths are produced by these, exactly that
                                                                                       operated for the man. The belief that with knowing is possible transformations, development, growth
                                                                                       and, over all the control of the world its return. They produce the anguish of the loss of the power
                                                                                       that is dislocated for the ritual of the disruption of barriers, of the to exceed of the being, of the
                                                                                       immateriality, of the virtualization. It would be fit to think about the parcelamento of the subjectivity
                                                                                       in multiple identities and fugitive, a complete abstraction of the social one, and a reinforcement of
                                                                                       the use of technological apparatuses where this individual tries when changing of identity, new
                                                                                       skins, new textures of fancies, and mainly to carry through its fancies in a virtual context and not
                                                                                       objective, it makes it to dive in proper itself.
                                                                                       Key words Communication. Identity. Subjectivity.
                                                                                           words:




                                                                                                 a teoria psicanalítica, supõe-se que o indivíduo, para sua formação, tenda
                                                                                                 a explorar o mundo a sua volta, tentando resolver as interrogações que
                                                                                       N         nele habitam elaborando respostas com a menor tensão desagradável
                                                                                                 possível.

                                                                                       Ao procurar esta “evitação de desprazer” (FREUD, 1920, p. 17), ou produção
                                                                                       de prazer, o indivíduo produz contextos e conexões socioistóricas para que
                                                                                       assim haja um sentimento de pertencimento, de contingência ligada a um
                                                                                       sentido de identidade individual e grupal. Portanto, a articulação entre essa
                                                                                       identidade, a cultura e os meios de comunicação é socialmente construída,
                                                                                       no sentido da procura de uma zona de conforto ou de fuga do sofrimento, no
                                                                                       entanto, o sentido é variável conforme a situação e é atribuído pelo indivíduo
                                                                                       em sua existência.

                                                                                       A formação da subjetividade, com um recorte específico para a formação da
                                                                                       identidade atravessada pelas tecnologias de comunicação, será o foco deste
                                                                                       artigo. Teoriza-se sobre a formação de novos tabus e totens sob a regência das
                                                                                       tecnologias de comunicação, ao que há de se chamar: tecnototemismo. Dessa
                                                                                       forma, problematiza-se a questão da formação de uma nova subjetividade
atravessada por essas tecnologias, que, nos campos da filosofia e da comuni-




                                                                                                                  
cação, são identificadas como um movimento “pós-humanista”.2




                                                                                                                Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
As indagações propostas aqui partem de um paradoxo aparente, em que esses
tabus têm origem nas tecnologias que são instrumentos para a realização do
prazer, da projeção, conseqüentemente, de uma não-regra. No entanto, percebe-
se um movimento de estabelecimento de tabus pós-modernos, em que se forma
uma “religião da máquina”, isto é, um tecnototemismo.

O sujeito depende não da emissão das informações, mas da forma como elas
são elaboradas na constituição de subjetividade. É nesse ponto da produção de
sentido e de identidade que se insere a problemática dos meios de comunicação,
pois essas tecnologias de comunicação se tornam instrumentos de articulação
da subjetividade, em que identidade e cultura passam por modificações,
institucionalizações, onde os discursos são construídos.

A revolução tecnológica não alterou apenas os hábitos cotidianos, mas criou
uma nova cultura: a tecnocultura. Possibilitou ao homem a ilusão e o poder da
superação do seu ser. Estabeleceram-se relações totêmicas, tais quais as de
tribos australianas descritas por Freud (1913) em Totem e tabu, em que a ordem
totêmica estabelecida vigorava na organização da família. O tabu criado dentro
da dinâmica das relações totêmicas vem com a carga da negação, do proibido,
das regras a serem obedecidas.

            O significado de “tabu”, como vemos, diverge em dois sentidos contrários. Para nós signi-
            fica, por um lado, “sagrado”, “consagrado”, e, por outro, “misterioso”, “perigoso”, “impuro”.
            O inverso de tabu em polinésio é noa, que significa comum ou “geralmente acessível”. As-
            sim, o tabu traz em si um sentido de algo inabordável, sendo principalmente expresso em
            proibições e restrições. Nossa acepção de “temor sagrado” muitas vezes pode coincidir em
            significado com “tabu”. As restrições do tabu são distintas das proibições religiosas ou mo-
            rais. Não se baseiam em nenhuma ordem divina, mas pode-se dizer que se impõem por
            conta própria. Diferem das proibições morais por não se enquadrarem em nenhum sistema




2 O pós-humanismo atesta a transcendência das fronteiras que se iniciam da espécie, do gênero e até mesmo
de seu reino, já que, de certo modo, podem resultar da combinação do concreto e do imaginado. Tudo isso
repousa na idéia da superação dos limites impostos pelo estado natural. Como enuncia a já célebre frase
cunhada por Donna Haraway em seu Manifesto Ciborgue, aqui lidamos com “o prazer da confusão de fronteiras”
(2000). Para Haraway, Ciborgue é criatura tanto do nosso imaginário como da nossa realidade cotidiana, que
simboliza o rompimento, já em curso, das fronteiras tradicionalmente estabelecidas na cultura ocidental, como
as de gênero (homem/mulher) ou de natureza (orgânico/inorgânico).
que declare de maneira bem geral que certas abstinências devem ser observadas e apre-
                                             
                                                                                                sente motivos para essa necessidade. As proibições dos tabus não têm fundamento e são
                                                                                                de origem desconhecida. Embora sejam ininteligíveis para nós, para aqueles que por elas
Colvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade




                                                                                                são dominados são aceitas como coisa natural. (FREUD, 1913, p. 38).


                                                                                       Entende-se que há o estabelecimento de um totem, criação de um “[...] lugar
                                                                                       seguro de refúgio em que a alma podia ser depositada, fugindo assim aos perigos
                                                                                       que a ameaçavam”. (FREUD, 1913, p. 143). E esse lugar seguro seria a tecnologia,
                                                                                       por isso o tecnototemismo. O gozo e a fantasia têm prioridade em relação à
                                                                                       moral e à ética nesse novo espaço, pois o indivíduo consegue escapar da realidade
                                                                                       objetiva se projetando nessa virtualidade de desejos. Ao totem são atribuídas
                                                                                       características de salvação das frustrações do cotidiano e de materialidade dos
                                                                                       desejos, que, na atualidade, são atribuídos às tecnologias de comunicação, a
                                                                                       exemplo da TV com a materialidade das imagens, e da internet com a possibilidade
                                                                                       de transcendência corporal por meio da imersão na virtualidade.

                                                                                       Quais são os graus de valores que devem ser atribuídos à tecnologia na formação
                                                                                       subjetiva da criança? Quais seriam as relações desse tecnototemismo nessa
                                                                                       subjetividade? E como isso se refletirá na idade adulta? Como fica esse indivíduo
                                                                                       em conflito com uma realidade virtual em que não há castração ou frustração e
                                                                                       um cotidiano cheio de obstáculos para a realização de seus desejos?

                                                                                       A virtualidade ganha um peso maior do que aquele que provém do mundo objetivo;
                                                                                       há um fracionamento desse ser pós-moderno, um esvaziamento de seus desejos,
                                                                                       pois consegue realizá-los nesse supermercado de desejos.

                                                                                       O tecnototemismo é o rompimento com o passado e suas leis, é o estabelecimento
                                                                                       de uma cultura do prazer e da satisfação de um hedonismo crônico. É a
                                                                                       consolidação de uma cultura narcísica regida pela tecnologia: o grande oráculo,
                                                                                       já que os meios de comunicação são capazes de responder às angústias do ser
                                                                                       e dela (comunicação).

                                                                                       A finitude do ser e a dor relacionadas à repressão dos desejos são solucionadas
                                                                                       com o apertar de um botão. Se houver angústia é só mudar de canal, mudar de
                                                                                       chat, inventar uma nova identidade na internet. As desgraças e os infortúnios
                                                                                       expostos por esses meios de comunicação acontecem com os outros, e o
                                                                                       sentimento de compensação é recorrente com a referência da desgraça alheia. É
                                                                                       dada à máquina essa capacidade de governabilidade da identidade, das emoções,
                                                                                       da abricolage de desejos.
A idéia de sociedade é quase apagada, e o universo social emerge como um




                                                                                                   !
agregado fragmentário de indivíduos num vazio sem restrições históricas e
materiais. O projeto individualista teorizado por Velho (1994) é a manifestação




                                                                                                 Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
de um projeto de sociedade moderno que toma forma. Na sociedade tradicional,
temos a história e a memória do grupo em primeiro plano, os mitos e as
narrativas reforçam o sentimento de pertencimento dos indivíduos àquela
unidade. Em contraste, na sociedade moderna, a ideologia individualista é
predominante, assim como há exposição a múltiplas experiências, contradições
e segmentações. O indivíduo se torna avesso à idéia de uma organização so-
cial, que implicaria uma limitação da realização dos desejos, das possibilidades
máximas de cada um.

Entende-se que o “projeto” é a nova subjetividade imbricada diretamente com a
idéia de indivíduo, que é o reforço ideológico do individualista. O indivíduo torna-
se o protagonista da sociedade moderna, em que a centralidade está na
instauração do significado, força constitutiva de modelos, paradigmas e con-
figurações culturais – elemento básico de negociação da realidade. Nessa ne-
gociação simbólica, o que importa não é a informação em si, mas a sua elaboração,
o significado atribuído.

         O projeto é dinâmico e é permanentemente reelaborado, reorganizando a memória do
         ator, dando novos sentidos e significados, provocando com isso repercussões na sua
         identidade. Assim a biografia, valorizada ao extremo em um mundo individualista, está
         sujeita a periódicas revisões e reinterpretações. (VELHO, 1994, p. 104).


Estamos diante da manifestação de uma cultura tomada pelo excesso para suprir
o vazio do ser na pós-modernidade, numa realidade em que os ideais estão
difusos, e o individualismo parece ser a única causa possível para a proteção de
um ego fragilizado. Se a cultura se caracteriza por determinados limiares, e o
fenômeno pós-humanista propõe o rompimento das normas como ação
revolucionária, tem-se uma inversão de valores, em que a máquina domina o
homem, uma relação tecnototêmica.

As regras e o mundo passam a ser determinados pela máquina. As verdades são
produzidas por ela, mesmo que operada pelo homem. O desejo pela verdade,
pela informação para dominar, o poder e o saber são coisas há muito ansiadas
pelo homem, com a crença de que com o saber são possíveis transformações,
desenvolvimento, crescimento e, sobretudo, o controle do mundo a sua volta.
Então, a angústia da perda do poder é deslocada para o ritual do rompimento de
barreiras, da transcendência do ser, da imaterialidade, da virtualização.
É a filosofia do pós-humanismo como uma reelaboração contemporânea de um
                                             
                                                                                       tema que já aparecia, ao menos embrionariamente, em filmes futuristas. Todo o
                                                                                       discurso pós-humanista pode ser articulado em duas alternativas básicas: a
Colvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade




                                                                                       extensão das capacidades do corpo ou a simples e pura ultrapassagem das
                                                                                       limitações corporais (nas fantasias de digitalização da consciência). O que se
                                                                                       percebe é a exaltação do individualismo e das medidas anti-sociais, em que a
                                                                                       célebre frase de Sartre: “O inferno são os outros” faz todo sentido. Não há
                                                                                       necessidade desse outro, da possível frustração, é o triunfo da vontade, do
                                                                                       desejo individual.

                                                                                       O desejo de rompimento dos limites e a transposição das fronteiras impostas
                                                                                       pela realidade é o que se tem chamado pós-humanismo, que tem como um dos
                                                                                       traços identificadores básicos o desejo de rompimento dos limites, de
                                                                                       atravessamento das fronteiras. O limite já não é mais o corpo; o pensamento
                                                                                       ganha materialidade conjuntamente com a fantasia.

                                                                                       O prazer da ruptura, provindo de um desdobramento virtual do ser, do poder, é
                                                                                       incentivado a todo instante pela sedução das tecnologias de comunicação, pela
                                                                                       mídia e por suas correntes de pensamento: cibercultura, que teoriza não mais o
                                                                                       homem e a máquina, mas um Ciborgue – a conjunção do homem com a máquina,
                                                                                       inventando uma tecnocultura apoiada nesse pós-humanismo.

                                                                                       Freud, no início de Além do princípio do prazer (1920), assinala com certa ironia
                                                                                       teorias como as citadas acima que conseguiriam falar sobre o prazer e o desprazer
                                                                                       de forma “sistemática”:

                                                                                                Prontamente expressaríamos nossa gratidão a qualquer teoria filosófica ou psicológica
                                                                                                que pudesse nos informar sobre o significado dos sentimentos de prazer e desprazer
                                                                                                que atuam tão imperativamente sobre nós. Contudo, quanto a esse ponto, infelizmente
                                                                                                nada nos é oferecido para nossos fins. Trata-se da região mais obscura e inacessível da
                                                                                                mente e, já que não podemos evitar travar contato com ela, a hipótese menos rígida
                                                                                                será a melhor, segundo me parece. Decidimos relacionar o prazer e o desprazer à quan-
                                                                                                tidade de excitação presente na mente, mas que não se encontra de maneira alguma
                                                                                                “vinculada”, e relacioná-los de tal modo que o desprazer corresponda a um aumento na
                                                                                                quantidade de excitação, e o prazer a uma diminuição. O que isso implica não é uma
                                                                                                simples relação entre a intensidade dos sentimentos de prazer e desprazer e as modi-
                                                                                                ficações correspondentes na quantidade de excitação; tampouco – em vista de tudo
                                                                                                que nos foi ensinado pela psicofisiologia – sugerimos a existência de qualquer razão
                                                                                                proporcional direta: o fator que determina o sentimento e provavelmente a quantidade
                                                                                                de aumento ou diminuição na quantidade de excitação num determinado período de
                                                                                                tempo. (FREUD, 1920, p. 17-18).
Segundo Freud (1920), essa possível dominância do princípio do prazer na vida




                                                                                         #
mental viria da expressão do aparelho numa tentativa de constância. Portanto,
essa proposta de uma consciência livre de amarras do corpo, principalmente do




                                                                                       Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
espaço e do contexto, em que os indivíduos se constroem, se reconstrói
continuamente alterando a noção de identidade e subjetividade, não seria uma
grande falácia? Ou um desencontro de discurso na emergência dessa nova
subjetividade tecnototemizada? Projetar características extraordinárias e receber
fantasias prontas. O ser humano não é mais instigado a criar os seus desejos,
eles já estão prontos e pulam para dentro da sua sala pela TV. Mas são convidados
a participar de uma gama infinita de sonhos que se materializam aos seus olhos.
Vivenciam esses desejos pasteurizados ao se projetarem em um espaço infinito
em que se tem todas as possibilidades em um clicar ou digitar de caracteres.

A questão é compreender como esse indivíduo era/é tecido pelas tramas desse
contexto tecnológico, em que é ao mesmo tempo ativo e criativo nesse processo.
Trata-se de entender como essa subjetividade se forma, como há de configurar
essa identidade, atravessada pelos meios de comunicação. Assim, ao se observar
a relação do sujeito com os meios de comunicação, tem-se a oportunidade de
lidar com uma esfera “existencialista” e tensionar os campos empírico e teórico
com a investigação da identificação de operações de práticas discursivas e
cotidianas específicas.


A identidade tecnototêmica
Hall (2000) indica que para pensar no sujeito moderno e na sua identidade, é
preciso pensar no que aconteceu à concepção de sujeito, que sofreu uma série
de rupturas, das quais ele indica cinco pensadores e suas teorias que contribuíram
diretamente para avanços na teoria social e nas ciências humanas. São eles: 1º)
Karl Marx e seu anti-humanismo teórico; 2º) Sigmund Freud e a descoberta do
inconsciente; 3º) Ferdinand Saussure e a afirmação que a língua é um sistema
social; 4º) Michel Foucault e a genealogia do sujeito moderno; e por último, 5º) o
feminismo tanto como crítica teórica quanto como movimento social.

Desses cinco indicativos, a opção foi se centrar no aprofundamento do diálogo
entre Foucault e Freud, pois cada um traz à cena perspectivas para se pensar na
questão do poder, uma vez que, ao lidar com a criança e seu desenvolvimento
psicossocial, utiliza-se Freud. E a justificativa para Foucault é seu pensamento ser
originário da psicanálise e seus questionamentos sobre o poder e a interpretação.
Caberia pensar se esse parcelamento da subjetividade em identidades múltiplas
                                             $
                                                                                       e fugazes, em uma cultura apoiada em um tecnototemismo, não levaria o sujeito
                                                                                       a um niilismo pós-moderno em sua idade adulta: uma completa abstração do
Colvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade




                                                                                       social, pois, se durante o seu desenvolvimento foi exercida uma ação contraditória,
                                                                                       de afastamento do convívio objetivo do social e um reforço do uso de aparatos,
                                                                                       esse indivíduo experimenta, ao trocar de identidade, novas peles e, principalmente,
                                                                                       realizar suas fantasias num contexto virtual e não objetivo. Essas novas texturas
                                                                                       de fantasia, que o fazem mergulhar em si próprio numa atitude beirando a psicose
                                                                                       por alguns instantes, provavelmente, se refletirão quando chegar à idade adulta.

                                                                                       Uma das implicações desse recorte é o lugar da formação da identidade. Segundo
                                                                                       Canclini (1999), existe o movimento de “dissolução das monoidentidades”, pois
                                                                                       a metrópole cria padrões de uniformidade, remodela hábitos locais e os subordina
                                                                                       a estilos “modernos”, é a homogeneização do consumo e da sociabilidade,
                                                                                       propiciada pelo formato comum com que esses serviços se organizam no trabalhar,
                                                                                       vestir e distrair.

                                                                                       O pensamento de Hall (2000) sobre as identidades acrescenta ao debate, pois,
                                                                                       dentro de uma teoria social, o autor postula que há o surgimento de novas
                                                                                       identidades que fragmentam o indivíduo moderno. Essa seria uma crise de
                                                                                       identidades por tendências demasiadamente recentes e ambíguas, na qual esse
                                                                                       fenômeno social não oferece afirmações conclusivas ou julgamentos seguros. O
                                                                                       que converge com as inferências feitas por Canclini (1999), vai além, pois Hall
                                                                                       (2003) faz a indicação de três identidades: sujeito do iluminismo; sujeito sociológico;
                                                                                       e sujeito pós-moderno. Aqui, interessa o sujeito pós-moderno, que é o sujeito que
                                                                                       assume identidades diferentes em momentos diferentes, identidades que não são
                                                                                       configuradas ao redor de um “eu” coerente. A identidade unificada é uma fantasia,
                                                                                       e as significações e representações culturais se multiplicam. Assim, confronta-se
                                                                                       multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis.

                                                                                       Portanto, a identidade cultural moderna para Hall (2003) é formada por meio
                                                                                       do pertencimento a uma cultura “nacional” e que tem sido amplamente des-
                                                                                       locada pelo processo de mudança que é a globalização; dessa forma, as de-
                                                                                       finições de identidade ficam contestadas no cotidiano. E Canclini (1999) endossa
                                                                                       a questão quando define a globalização como a passagem das identidades
                                                                                       modernas ao “incômodo” de pós-modernas e incita o questionamento ao indagar
                                                                                       como os indivíduos representam para si mesmos os atos com os quais se
                                                                                       reconhecem como se reconhecem como sujeitos, isto é, suas estruturas e
                                                                                       suas experiências subjetivas.
Ambos os autores fazem referência a Foucault e a seus conceitos de genealogia




                                                                                                     %
do sujeito moderno, poder disciplinar, tecnologias do eu, entre outros. Esses
auxiliariam a compreender e a contextualizar o sujeito moderno. Foucault descreve




                                                                                                   Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
o poder disciplinar como tendência das modernas formas de controle social (1987)
para articular, em obra posterior (2006), o poder disciplinar como força monolítica
plenamente instalada, o que leva à correlação entre os campos do saber, os tipos
de normatividade e as formas de subjetividade; isso é o que o leva a analisar o
sujeito, as relações estabelecidas com o “eu” (indivíduo) e como esse se reconhece
como sujeito, chave da problemática da identidade colocada por Hall e Canclini.

         Um deslocamento teórico pareceu-me necessário para analisar o que freqüentemente
         era designado como progresso dos conhecimentos: ele me levara a interrogar-me sobre
         as formas práticas discursivas que articulavam o saber. E foi preciso também um deslo-
         camento teórico para analisar o que freqüentemente se descreve como manifestações
         do “poder”: ele me levara a interrogar-me sobretudo sobre as relações múltiplas, as
         estratégias abertas e as técnicas racionais que articulam o exercício dos poderes.
         Parecia agora que seria preciso empreender um terceiro deslocamento a fim de
         analisar o que é designado como “o sujeito”; convinha pesquisar quais são as formas e
         as modalidades da relação consigo através das quais o indivíduo se constitui e se
         reconhece como sujeito. [...] Deve-se entender, com isso, práticas refletidas e
         voluntárias através das quais os homens não somente se fixam regras de conduta,
         como também procuram se transformar, modificar-se em seu ser singular e fazer de
         sua vida uma obra que seja portadora de certos valores estéticos e responda a certos
         valores estéticos e responda a certos critérios de estilo. Essas “artes de existência”,
         essas “técnicas de si”, perderam, sem dúvida, uma certa parte de sua importância e de
         sua autonomia. (FOUCAULT, 2006, p. 11-15).


As tecnologias do “eu” e as estéticas da existência são as estilizações deliberadas
da vida cotidiana; são as tecnologias envolvidas que aparecem mais sob a forma
de práticas de auto-produção, de modos específicos de conduta, constituindo o
reconhecimento do indivíduo enquanto sujeito inserido em uma sociedade. Seriam
essas as técnicas que envolvem uma aplicação do poder e do saber que
“individualiza” ainda mais o sujeito, pois, quanto mais coletiva e organizada for a
natureza da instituição em que o sujeito está inserido, maiores serão o isolamento,
a vigilância e a individuação do sujeito. (FOUCAULT, 1987).

         A questão que fica é se nós também precisamos, por assim dizer, diminuir o fosso entre
         os dois domínios, isto é, se precisamos de uma teoria que descreva quais são os meca-
         nismos pelos quais os indivíduos considerados como sujeitos se identificam (ou não se
         identificam) com as “posições” para as quais são convocados; que descreva de que forma
         eles moldam, estilizam, produzem e “exercem” essas posições; que explique por que eles
         não o fazem completamente, de uma só vez e por todo o tempo, e por que alguns nunca o
fazem, ou estão em um processo constante, agonístico, de luta com as regras normativas
                                                                                                ou regulativas com as quais se confrontam e pelas quais regulam a si mesmos – fazendo-
                                                                                                lhes resistências, negociando-as ou acomodando-as. [...] O que ele [Foucault] produz é
Colvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade




                                                                                                uma fenomenologia discursiva (voltando, assim, talvez, a fontes e influências iniciais,
                                                                                                cuja influência sobre seu trabalho ele próprio, de alguma forma subestimou) e uma ge-
                                                                                                nealogia das tecnologias do eu. (HALL, 2000, p. 126-127).


                                                                                       Hall (2000) e Canclini (1999) teorizam sobre a desterritorialização do nacional e
                                                                                       como ela afeta a formação da identidade social, que é formada e transformada
                                                                                       no interior das representações. Entendendo o social como um sistema de
                                                                                       representações culturais, isto é, simbolicamente no indivíduo, isso explicaria o
                                                                                       seu poder de gerar o sentimento de identidade e lealdade.

                                                                                                A formação de uma cultura nacional contribui para criar padrões de alfabetização ver-
                                                                                                nacular como o meio dominante de comunicação criou uma cultura homogênea e
                                                                                                manteve instituições culturais, nacionais, como, por exemplo, um sistema educacional.
                                                                                                Dessa e de outras formas, a cultura nacional se transformou em característica-chave
                                                                                                de industrialização e um dispositivo da modernidade. (HALL, 2000, p. 49-50).


                                                                                       A prática discursiva postulada por Foucault (2005) seria a construção dos sentidos
                                                                                       que influenciariam e organizariam tanto as ações quanto as concepções do
                                                                                       indivíduo em relação a ser sujeito. É a reconceptualização de sujeito; pensá-lo
                                                                                       em sua nova posição numa tentativa de rearticular a relação entre sujeitos e
                                                                                       práticas discursivas é a questão da identificação como campo semântico, a busca
                                                                                       da compreensão por meio dos repertórios discursivo e psicanalítico sem se
                                                                                       restringir a nenhum deles. (HALL, 2000, p. 105). Tudo isso são indicações de
                                                                                       um novo significado porque o termo identificação torna-se estratégico e posicional,
                                                                                       segundo Hall (2000):

                                                                                                O conceito de identidade aqui desenvolvido não é, portanto, um conceito essencialista,
                                                                                                mas um conceito estratégico e posicional. Isto é, de forma diretamente contrária àquilo
                                                                                                que parece ser sua carreira semântica oficial, esta concepção de identidade não assi-
                                                                                                nala aquele núcleo estável do eu que passa, do início ao fim, sem qualquer mudança,
                                                                                                por todas as vicissitudes da história. Esta concepção não tem como referenciais aquele
                                                                                                segmento do eu que permanece, sempre e já, tampouco se refere, se pensamos agora
                                                                                                na questão da identidade cultural, àquele “eu coletivo” ou verdadeiro que se esconde
                                                                                                dentro de muitos outros eus – mais superficiais ou mais artificiais impostos – que um
                                                                                                povo, com uma história e uma ancestralidade partilhadas, mantém em comum. Ou se-
                                                                                                ja, um eu coletivo capaz de estabilizar, fixar ou garantir o pertencimento cultural ou
                                                                                                uma “unidade” imutável que se sobrepõe a todas as outras diferenças – supostamente
                                                                                                superficiais. Essa concepção aceita que as identidades não são nunca unificadas; que
                                                                                                elas são, na modernidade tardia, cada vez mais fragmentadas e fraturadas; que elas
'
            não são nunca, singulares, mas multiplamente construídas ao longo de discursos, prá-
            ticas e posições que podem se cruzar ou ser antagônicas. As identidades estão sujeitas
            a uma historização radical, estando constantemente em processo de mudança e trans-




                                                                                                                   Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
            formação. (HALL, 2000, p. 108).


Entender como as identidades se reconstroem, problema proposto por Canclini
(1999) e Hall (2000) para investigação, é olhar para como se apropriam de
elementos de várias sociedades combinando-os e transformando-os em processo
de hibridização intercultural. Que tipo de TV poderia narrar a heterogeneidade e a
coexistência de vários códigos em um mesmo grupo e até mesmo em um
indivíduo? Levar em conta os diversos repertórios e mediações na reelaboração
da identidade? Levar em conta os diversos modos que recompõem os desiguais
circuitos de produção, comunicação e apropriação da cultura?



Janelas que se abrem para uma nova reflexão
Questiona-se a construção da identidade dentro de uma estrutura de poder e
exclusão, isto é, o ponto de encontro entre discurso e prática. Nessa pesquisa,
esse processo é visto como a recepção e a mediação, a descrição desses
pontos e a junção deles com o sujeito e suas estruturas de significação. Portanto,
a observação desse conjunto de práticas e rituais simbólicos indicaria como a
prática discursiva incide sobre certos valores e normas de comportamento.
Todo esse processo é observável pelo que acontece na ritualidade de ver TV
com as crianças.

Ao tomar a Fase Fálica, como ponto de partida, que se dá na faixa etária dos 4
aos 6 anos,3 encontramos características muito significativas. A criança tende a
estar autocentrada, isto é, em um movimento egocêntrico, vê as coisas sob sua
própria perspectiva e não imagina que haja outro ponto de vista. Mesmo quando
esse se apresenta, a criança lhe dá um significado próprio que combine com o
repertório que ela possui, não é por teimosia ou porque não tenha compreendido,
mas a sua visão, a sua interpretação, impera.




3 Ao se tratar do universo televisivo,as empresas que medem a audiência, como o Ibope,a Datafolha e a
MultiFocus, bem como as emissoras de televisão, consideram que a idade de 4 anos marca o início da “vida do
telespectador”. Por isso a delimitação inicia nessa fase, sem perder de vista a importância das fases anteriores
a serem estudadas com mais aprofundamento no andamento da pesquisa.
Durante a fase denominada por Freud como Fase Fálica, a criança começa a
                                              
                                                                                       fazer importantes distinções no mundo a sua volta. Começa a perceber o mundo
                                                                                       além do núcleo familiar, inicia o estabelecimento do tabu, isto é, as regras sociais.
Colvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade




                                                                                       A aventura pelo mundo externo (social) se inicia.

                                                                                       Nesse período, tem-se um indivíduo que, bem ou mal, enfrentou várias experiências
                                                                                       das fases anteriores em um nível individual, e que agora necessita colocá-las à prova:
                                                                                       modelar suas fantasias e estruturar seu Ego, seu Eu-social para viver na coletividade.
                                                                                       É a organização da afetividade para que o corpo atinja uma relação consigo mesmo e
                                                                                       uma relação com o outro e com o mundo. A criança, nessa fase, primeiramente faz, e
                                                                                       durante sua ação, elabora o acontecimento; elabora as regras e os valores.

                                                                                       Os mecanismos de identificação e projeção estão em pleno funcionamento,
                                                                                       exatamente os dois mecanismos mais explorados e utilizados pela TV na captura
                                                                                       da atenção do público.

                                                                                       É comum a criança atribuir vida a todos os seres, inclusive a objetos inanimados
                                                                                       (animismo), como também o artificialismo, isto é,atribuir origem artesanal humana
                                                                                       a todas as coisas. Seu raciocínio ainda é primitivo. Se a criança vê duas coisas
                                                                                       acontecerem ao mesmo tempo, supõe que uma coisa é causa da outra.

                                                                                       Por isso, a identificação, em conjunto com a formação do Superego, organiza os
                                                                                       valores dessa criança, isto é, seus tabus, edificando assim seus totens. A
                                                                                       assimilação do mundo que se dá por meio da identificação é a aquisição ou rejeição
                                                                                       do que é visto, sentido e percebido no mundo externo. E com o Superego em
                                                                                       formação, essa criança coloca à prova os valores introjetados em relação às normas
                                                                                       externas. Aquilo que ela sente como justo e valorizado será conquistado pela sua
                                                                                       consciência moral, isto é, irá ser incorporado ao tabu, às suas normas sociais.

                                                                                       Todo esse processo descrito é organizado em nível de fantasia e mensagens
                                                                                       transmitidas, tornando difícil separar o peso dos fatores da realidade e os da fanta-
                                                                                       sia. Esse é o guia por toda a teoria freudiana de como se constituem os afetos dos
                                                                                       indivíduos e como esses entram em relação com a externalidade (social).

                                                                                       Será que suas percepções do mundo externo são corretas? Haverá interferência
                                                                                       nesse processo por parte das tecnologias de comunicação? E como isso se
                                                                                       processa? É impossível prever o número de fatores que possam interferir no
                                                                                       processo, como também o que a criança carrega das fases anteriores de seu
                                                                                       desenvolvimento.
O problema não está na fantasia, mas na volta à realidade, na opressão do




                                                                                        
cotidiano assolado por questões materiais. O totem tecnológico ganha força exa-
tamente nesse ponto porque promove esse descolamento, essa experiência




                                                                                     Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
intensa, seja vivendo a vida do outro fictício, como na novela, um alguém qualquer
como ele, no caso do Big Brother, seja o seu próprio alterego, em sessões de
bate-papo pela internet.

A convergência entre essas diferentes esferas (a subjetiva e a objetiva) aponta à
presença não apenas de um imaginário totemizado pelos meios de comunicação,
mas de uma necessidade maior, talvez por conta da globalização, de uma trans-
cendência corporal.

Nessa consciência projetiva, destacam-se as fantasias de expansão, de realização
dos desejos e de construção de uma vida em sua virtualidade. A consciência já
não será mais limitada pelos entraves do espaço, mas poderá se projetar li-
vremente pelo infinito de uma fantasia provocada pela virtualidade. Daí que o
totem dessa tecnologia se impõe, refugia esse indivíduo em uma ação narcísica
de realização desmedida de novas identidades em busca de prazer. As fantasias
se tornam reais com uma realização virtual em que a consciência pode expe-
rimentar sem aparentes riscos ou entraves.

A identidade passa a ser fruto de um processo de construção intencional e,
desse modo, os indivíduos teriam total liberdade de criação, de reelaboração
de sua experiência existencial. Os indivíduos, assim, não mais ficam enclau-
surados a uma única identidade;eles passam a ser criadores de si mesmos,
com suas próprias regras, com tabus que provêm desse tecnototemismo, pro-
duzindo uma tecnocultura hedonista em que prazeres e satisfações podem ser
alcançados a todo momento.

À medida que esse desejo se manifesta e,conseqüentemente, se realiza pela
mobilidade da criação e pelos tabus que se colocam para que hajam definições
para que assim o gozo se prolongue, diretrizes para que as identidades fugazes
não se esvaziem rapidamente e assim criem o desprazer. Por isso a inversão de
valores. A tecnologia começa a dominar quem deveria ser dominado por um
mecanismo projetivo de “divinização” em que a tecnologia é responsável pela
transcendência desse indivíduo, pela sua capacidade de catarse e de fantasia.
Atenta-se para a problemática que isso traz ao desenvolvimento infantil que se
forma nesse contexto.
Referências
                                             


                                                                                       CANCLINI, Nestor. Consumidores e cidadãos. Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ, 1999.
Colvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade




                                                                                       FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: aula inaugural no Collége de France, pronunciada
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                                                                                       ______. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.
                                                                                       ______. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. 6. ed. São
                                                                                       Paulo: M. Fontes, 1992.
                                                                                       FREUD, Sigmund. Delírios e sonhos na “Grandiva” de Jensen: romances familiares (1921).
                                                                                       In: ______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. São Paulo:
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                                                                                       ______. O ego e o ID (1923). In: ______. Edição standard brasileira das obras completas
                                                                                       de Sigmund Freud. São Paulo: Imago, 1980. v. 19.
                                                                                       ______. Além do princípio do prazer: psicologia de grupo e análise do ego (1921). In:
                                                                                       ______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. São Paulo:
                                                                                       Imago, 1980. p. 91-184. v. 18.
                                                                                       ______. O futuro de uma ilusão: mal-estar na civilização (1930). In: ______. Edição stan-
                                                                                       dard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. São Paulo: Imago, 1980. p. 81-
                                                                                       178. v. 21.
                                                                                       ______. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise – XXXI A dissecção da
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!
El público en los
                                                        1
noticieros televisivos




                                                                                                               Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
                                                                                     Mabel Grillo1


Introducción
En el primer capítulo de su obra ¿Por qué estudiar los medios? Roger Silverstone
nos invita de manera convincente a hacerlo menos por lo inusual o lo catastrófico
que ellos nos acercan y más por lo que replican cotidianamente de aquello que
pasa “por sentido común”, pues, nos dirá, “los medios dependen de él”(2004:21).
Si seguimos esta recomendación y pensamos en cuáles son las cuestiones
importantes que básicamente están encastradas en el sentido común rápidamente
surgen el lugar y el momento en el que estamos y compartimos con quienes nos
rodean. Es que una de las asunciones del sentido común más comprometedoras
para nuestras prácticas cotidianas es aquella que nos habilita para las
clasificaciones espaciotemporales de la situación en la que nos encontramos.
Es más, en algunas situaciones se puede deducir nuestra lucidez de la capacidad
que tengamos para identificarlas.

Por lo general nuestras experiencias cotidianas transcurren en el ámbito
doméstico, en el laboral, en sitios de esparcimiento, etcétera, pero casi siempre
en un espacio local que administrativamente lo contiene, ese espacio que para
nosotros es el lugar. Pero cuando durante nuestra vida diaria interactuamos con
los medios definimos sucesivamente marcos espaciotemporales diversos que
nos posicionan en una plataforma con anclaje móvil. Como integrantes de sus
públicos los acompañamos imaginariamente en los traslados que sus contenidos
nos ofrecen. Y, en la espesura de la experiencia cotidiana, pocas veces estamos
alertas para reconocer los poderes que actúan como fulcro de esos movimientos.
Cuando los medios producen y reproducen las clasificaciones espacio temporales
que organizan nuestras identidades, las instituciones dominantes de la vida so-
cial no están detrás ni delante de ellos, muchos menos a su costado, están allí.


1 Agradezco a Belén Acosta su colaboración en la visualización y registro del material noticioso televisivo.
Como están, hay que decirlo, en medio de todas las instancias con poder
                              
                                                          clasificatorio, es decir con poder.
Grillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos




                                                          Así, la imprenta, que surgió casi al mismo tiempo que los estados nacionales,
                                                          acompañó con su capacidad multiplicadora los ejercicios cotidianos de las
                                                          nacientes sociedades nacionales y, fundamentalmente, de sus estados, para
                                                          dotar de sentido a las fronteras nacionales. Por entonces, una nueva y poderosa
                                                          clasificación espacial reorganizaba los límites y, al mismo tiempo, conmovía las
                                                          identificaciones de las comunidades tribales: eran las naciones.2

                                                          Hoy, después de doscientos años, tanto las comúnmente denominadas TICS
                                                          como los medios electrónicos de comunicación, fundamentalmente la televisión,
                                                          son interpretados como vehículos del debilitamiento de todas las fronteras
                                                          tradicionales, entre ellas, las nacionales. En otros artículos he tratado de mostrar
                                                          que los medios locales, ubicados en “el interior”, o las transmisiones locales de
                                                          cadenas nacionales o transnacionales, juegan un poderoso papel de reproducción
                                                          de las identificaciones con lo local, con el propio lugar.3 Al mismo tiempo, las
                                                          grandes cadenas mediáticas, siguiendo el curso transnacional de la economía,
                                                          ensanchan el alcance de sus producciones, amplían sus públicos y mercados y
                                                          movilizan imágenes y fuentes lejanas de interpelación identitaria generando
                                                          también segmentos de públicos y lealtades transnacionales. En este trabajo
                                                          trataré de mostrar que la nación todavía constituye un espacio de interacción
                                                          mediática diferenciado, que aparece reeditado diariamente en los noticieros
                                                          televisivos nacionales y sostendré una hipótesis: la participación del público en
                                                          esos espacios es un operador de particularización de tendencias mundiales del
                                                          discurso informativo televisivo.



                                                          2 En Latinoamérica los estados llevaron adelante un papel activo – en lo militar, pero también en lo
                                                          económico y lo ideológico – de diferente manera y con diferentes grados de “éxito” según los países, por
                                                          aglutinar e igualar hacia adentro al mismo tiempo que combatían con las fuerzas colonizadoras europeas.
                                                          Ver, por ejemplo, Alimonda, H. (1982) “Paz y Administración- Orden y Progreso. Notas para un estudio
                                                          comparativo de los estados oligárquicos argentino y brasileño”. Revista Mexicana de Sociología. UNAM.
                                                          Nro.4; Ozlak, O. (1986) “Formación histórica del estado en América Latina: elementos teórico-metodológicos
                                                          para su estudio”. CEDES. Bs. As. y “La formación del estado argentino (1997). Planeta. Buenos Aires;
                                                          Trindade, H. (1986) La construcción del estado nacional en Argentina y Brasil (1810-1900). En Revista
                                                          Mexicana de Sociología. UNAM. Nro.11. Por otra parte, Anderson., B. (1993) da cuenta de la importancia
                                                          de la imprenta y de los nacientes medios en la construcción del sentido de lo nacional.
                                                          3 Grillo, M (2004) “Lo local y lo nacional como espacios de identificación espacial en la interacción
                                                          mediática”. En Antonelli, M (ed) Cartografías de la Argentina de los ’90. Cultura mediática, política y
                                                          sociedad. Ferreyra Editor. Córdoba.
#
La nación como espacio de interacción mediática
John Thompson (1999) denomina espacio de interacción mediática al ámbito




                                                                                                            Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
que se genera a partir de la relación que se produce entre la producción de los
medios de comunicación y los públicos hacia los cuales llega su alcance. Pero,
ocurre que en las interacciones mediáticas no siempre se generan espacios, en
numerosas oportunidades se reproducen rutinariamente aquellos cuyos sentidos
han sido construidos en procesos sociohistóricos específicos. Uno de ellos es el
espacio nacional.

Autores como Billig (1995), Waisbord (2007) y Schlesinger (1993, 2007), entre
otros, han analizado y destacado la necesidad de estudiar los vínculos entre los
medios y las naciones.4 Especialmente por su papel en la vida cotidiana al ofrecer
y reeditar experiencias colectivas con producciones entretejidas en deixis
nacionales.

Schlesinger (2007) discute la idea que posiciona a los medios cumpliendo un
papel reproductor del espacio de lo nacional. La considera una visión unilateral
en la medida que concibe a la nación “desde adentro” e ignora las redes de
relaciones en las que se encuentran hoy los estados nacionales. En el mismo
sentido, para Massey (2005) ver el espacio constituido desde adentro es
concebirlo como ruptura, discontinuidad o fragmentación; es como si las “culturas
locales” brotaran de la tierra, dice. No se ven como producto de la interacción y,
desde esta perspectiva, las naciones eran de una manera propia hasta que la
globalización derribó “fronteras naturales”.

No obstante, visto el problema desde la teoría de la identidad, en el marco de la
cual nos interesa ubicar el papel de los medios, la mirada “desde adentro”,
indica los procesos de autogeneración y “la mirada de los otros, que incluye las
propias miradas desde y hacia los otros” constituyen los de heterogenación.
Ambos procesos son complementarios al momento de producirse las identi-
ficaciones de los grupos sociales (Boutinet, 1978).

En síntesis, desde la teoría de la identidad, el espacio no es solamente una
superficie objetiva en la cual se mueven líneas imaginarias hacia adentro y hacia

4 En el artículo citado de Silvio Waisbord -“Los medios y la reinvención de la nación”- el autor presenta
una selección actualizada de trabajos que vinculan el papel de los medios en lo que el autor llama “la
coordinación cultural” del espacio nacional.
afuera, sino fundamentalmente un proceso de construcción temporal e histórica
                              $
                                                          que en la experiencia de los grupos sociales adquiere sentidos. Puesto en estos
                                                          términos, el problema se inscribe en los debates acerca del papel de los medios,
Grillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos




                                                          especialmente la televisión, en procesos de identificación con espacios históri-
                                                          camente constituidos como lugares, esto es como espacios de identificación
                                                          (Giddens, A. 1993; Morley, D. 2005). Consideramos que las discusiones sobre
                                                          el poder de los medios para anclar los públicos a sus lugares, fortaleciendo
                                                          procesos de identificación y diferenciación crecientes, o desanclarlos, promoviendo
                                                          su desterritorialización, están agotadas si se plantean en esos términos gen-
                                                          erales. Partimos del supuesto que afirma la posibilidad de ocurrencia de ambos
                                                          procesos, tanto de manera diferenciada como complementaria según diferentes
                                                          momentos, lugares e instancias de la vida social. Debemos aportar muchos más
                                                          resultados empíricos para poder comprender mejor la multiplicidad y combinación
                                                          de estas posibilidades.

                                                          Pero, más allá de estos debates, lo cierto es que en el complejo contexto
                                                          socio-histórico -que intenté exponer sin grandes omisiones pero de manera
                                                          sintética porque ha sido suficientemente retomado en la literatura corriente- lo
                                                          nacional permanece como un espacio de producción de sentidos. Todavía re-
                                                          presenta el ámbito de la racionalidad organizadora que trascendiendo la se-
                                                          guridad del vecindario permite la expansión imaginativa de la vida social sin
                                                          resultar insondable y, por eso, amenazante. Es una frontera amplia pero de
                                                          pertenencia contenedora que aún constituye una estación plausible para la
                                                          plataforma mediática. En la televisión, por ejemplo, refracta cotidianamente en
                                                          los noticieros nacionales.

                                                          Los noticieros televisivos de alcance nacional nos recuerdan una y otra vez,
                                                          diariamente, cuál es el afuera y el adentro del espacio que alberga el nosotros
                                                          social institucionalizado de lo que nos ocurre día tras día. Nos interpelan desde
                                                          esa instancia asediada por la cotidianeidad de lo local, próximo, denso e inex-
                                                          cusable, y los variados, dispersos y desordenados flujos noticiosos de lo global.
                                                          Desde el punto de vista comunicativo, este doble asedio del que hablamos es
                                                          explicitado por Schlesinger de la siguiente manera: “es importante plantearse
                                                          preguntas sobre el impacto de los cambios transnacionales y globales en lo que
                                                          siguen siendo en gran medida sistemas de comunicación ligados al Estado-
                                                          nación”. Para el autor la pregunta debe girar sobre las implicancias de estos
                                                          sistemas comunicativos definidos principalmente en ese marco “para la posibilidad
                                                          de una esfera pública supranacional como para nuevas formas de comunicación
                                                          surgidas de la auto-organización de la sociedad civil” (2007:79).
Desde esta perspectiva la exploración del papel de los espacios de producción y




                                                                                          %
consumo eminentemente nacional, como son los noticieros televisivos, parece
interesante en la medida que, tal como han sostenido autores como Habermas




                                                                                       Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
(1994) y Garnham (1998), los derechos ciudadanos continúan estando vinculados
a estados nacionales específicos.

Winocur contrapone esta perspectiva sobre el espacio de lo nacional y el espacio
público, como ámbito apropiado para la participación ciudadana con la propuesta
de Keane. En sus términos, para este autor “se ha vuelto obsoleto el ideal de
una esfera pública unificada (…) en lugar de ello, figurativamente hablando, la
vida pública ha sufrido una refeudalización” (…) en el sentido de “la conformación
de un complejo mosaico de esferas públicas de diversos tamaños que se traslapan
e interconectan y que nos obligan a reconsiderar radicalmente nuestros conceptos
sobre la vida pública y sus términos asociados tales como opinión pública,
bienestar público y la diferenciación público-privado” (1997:56).

Nuevamente, debemos replantear la cuestión desde la perspectiva de los actores
sociales involucrados, es decir de aquellos que ocupan e interactúan con los
medios generando espacios en el marco de condiciones históricas compartidas.
Desde esta esfera hablar de niveles micro o macro, no aporta a la comprensión
de la significación que las interacciones adquieren y los procesos de identificación
espacial que interpelan. En otras palabras, la identificación del espacio nacional
con un espacio público denominado mesoesfera no permite comprender mejor el
papel de lo nacional y las prácticas ciudadanas en su marco, aunque pueda dar
cuenta de fragmentaciones asentadas en prácticas, intereses y estilos situacio-
nales específicos.

No obstante, consideramos que en un punto Winocur acierta en su discusión de
las ideas de Garnham (1986). Este autor define el espacio público desde una
perspectiva normativa como “un espacio para definir una política racional y
universalista” que sólo sería posible con unos medios independientes del mercado.
Para Winocur (ibid) en cambio “El problema en estas nuevas condiciones no
reside en cuestionar el papel y la legitimidad de los medios en la generación de
nuevos espacios públicos sino en preguntarse hasta que punto las transforma-
ciones que introdujeron en la vida pública la empobrecen o si, por el contrario,
ofrecen nuevos desafíos para pensar la relación entre lo público y lo privado y
también las posibilidades de intervención de los ciudadanos en la definición y
discusión de los temas de interés colectivo en la agenda mediática”. Y, desde
nuestra perspectiva, sobre el empobrecimiento de la vida pública es poco lo que
puede decirse en la medida que excepto en situaciones excepcionales de revuelta
                              
                                                          y conflicto generalizado, la historia de las sociedades modernas no da cuenta de
                                                          una participación permanente, cotidiana y directa de la población – constituida
Grillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos




                                                          en ciudadanía- en los espacios públicos.

                                                          Los puntos de contacto entre algunas prácticas sociales y determinados procesos
                                                          comunicativos mediáticos suelen ser analizados poniendo el acento en el papel
                                                          que cumplen los medios en movilizar algunas cuestiones no sustanciales, mera-
                                                          mente expresivas o espectaculares de esas prácticas. Estas perspectivas ubican
                                                          los procesos de interacción mediática como productores deformantes de prácticas
                                                          que natural o esencialmente son de otra manera. En nuestros trabajos tratamos
                                                          de evitar tanto esta visión de lo social – espontaneísta, en la medida que le
                                                          otorga una existencia natural sin mediaciones históricas particulares – como la
                                                          que evoca momentos históricos en los cuales se manifestaba en estado de
                                                          activa pureza. Por ello, en lugar de preguntarnos cómo los medios “empobrecen”
                                                          la vida social, nos cuestionamos directamente por los modos y la intensidad de
                                                          su intervención en procesos sociales específicos. Esto es: los medios constituyen
                                                          hoy lo social junto a otras instituciones y lo que intentamos averiguar en nuestras
                                                          investigaciones es la participación del proceso comunicativo que promueven en
                                                          manifestaciones específicas de la vida social.


                                                          El público en la pantalla en debate
                                                          Los medios de comunicación han sido considerados desde ampliaciones del
                                                          espacio público, en la medida que favorecen la participación, el reconocimiento y
                                                          la visibilidad (Macé, 1997) hasta instrumentos a favor de su eliminación, en
                                                          tanto reemplazan el debate racional propio de la esfera pública por un “espectáculo
                                                          fascinante o ilusión fantasmal” (… ) “por las imágenes y los simulacros de realidad”
                                                          (Jay, M.; 2003).

                                                          Es indudable que una cuestión clave para abonar una u otra posición es
                                                          comprender la significación que asume la participación de los integrantes del
                                                          público en los espacios generados por los medios. Si bien es verdad que los
                                                          medios se constituyen en la actualidad en espacios privilegiados para la visibilidad
                                                          pública de actores sociales diversos también lo es que esas intervenciones
                                                          contribuyen a la “polifonía de la controversia” animadora del mercado que medios
                                                          y públicos constituyen (Billing; 1997). Winocur (2002) pone el acento en las
                                                          capacidades y los intereses de los interactuantes. Dice que los participantes en
los espacios de los medios han adquirido experiencia en esa práctica y ello les




                                                                                                            '
ha permitido desarrollar habilidades histriónicas para desempeñarse con soltura
“al aire”. Todos han aprendido cuáles son las reglas de cada medio: lo que se




                                                                                                         Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
puede o no decir, la manera para expresarlo y qué estrategias discursivas deben
usarse para impactar al auditorio en cada caso. Agrega que el público no espera
que se le solucionen sus problemas y al medio tampoco le interesa averiguar qué
desenlace tuvieron las historias, salvo que ameriten convertirse en una novela por
entregas. Lo que importa a ambos es publicitar y ser observados. Para los primeros
significa volverse “visibles” en la escena pública, para los segundos, historias que
venden. En definitiva, para Winocur, se da una transacción de intereses. Ya hemos
dicho que podríamos coincidir con Winocur, tanto en adjudicar a los participantes
la intención de buscar visibilidad en el espacio mediático como en el desarrollo de
la capacidad histriónica que han logrado, pero lo que no surge de nuestras
observaciones es que quienes participen en los medios no esperen solucionar sus
problemas o al menos, sumar adherentes, lograr efectos directos en las instituciones
del Estado u obtener reconocimiento público de sus necesidades. Los integrantes
del público que estudiamos consideran que estar en los medios siempre es una
alternativa válida para ser oídos y solucionar problemas; incluso, dan cuenta de
experiencias exitosas en ese sentido (Grillo et alt., 2003).

En esta instancia de nuestras indagaciones sobre el problema consideramos
que el público en pantalla integra una estrategia de tratamiento de la noticia por
parte de la televisión en la medida que consigue movilizar procesos de identi-
ficación en el público, favorece el contacto y anima la pantalla. Pero, más allá de
estos intereses que persiguen las producciones televisivas, lo cierto es que, al
mismo tiempo, amplia el espacio de participación del público y colabora en dotar
de visibilidad y reconocimiento a sus necesidades y carencias.

Entiendo que los ciudadanos dan a conocer sus intereses y opiniones en un
ámbito que ya está mediado por el noticiero y la participación en los espacios
públicos que promueven los noticieros son insumos producidos por el mismo
espacio5 . Digamos entonces que los espacios mediáticos no son espacios-
escenarios como las plazas, los teatros o las salas de debate barriales o de las


5 Marletti (2001) destaca el papel de las rutinas profesionales, como puede ser concebida la actividad
que despliegan los periodistas al hacer intervenir al público en los espacios mediáticos, en la
autorreferencialidad de los medios. Entiende la autorreferencialidad en el sentido que le da Luhmann
como la capacidad de un sistema de seleccionar del ambiente aquello que mantiene en la complejidad la
propia identidad.
casas de gobierno. Estos escenarios mediáticos “vienen a casa” para que
                             !
                                                          participemos y lo hacen en un doble sentido: por un lado, efectivamente salen a
                                                          nuestro encuentro en el lugar que estemos y, por otro, cada participación de un
Grillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos




                                                          ciudadano en la televisión abre la posibilidad de nuevas intervenciones a otras
                                                          personas y permite la identificación de integrantes del público6 . El noticiero
                                                          televisivo es un escenario demandante y disponible; en este sentido, acuerdo
                                                          con Winocur que se da una transacción de intereses entre el medio y quienes
                                                          intervienen en sus espacios.



                                                          El noticiero televisivo nacional
                                                          y el discurso de la información
                                                          Para Verón (2005) el discurso de la información es el que tiene por objeto la
                                                          actualidad y para avanzar en su comprensión debemos reconocer su articulación
                                                          con la red tecnológica de los medios y las prácticas del periodismo y por otro con
                                                          su único destinatario genérico que es el ciudadano habitante de un país – puede
                                                          ser de una región – que es construido como un predestinatario, esto es como
                                                          alguien con quien se comparten y confirman creencias comunes. 7 El periodismo
                                                          cuenta la actualidad, pero esa actualidad integra diegéticamente sentidos producidos
                                                          desde una multiplicidad de relatos que recortan el mismo espacio nacional.

                                                          Charaudeau agrega una cuestión fundamental para la comprensión del modo y la
                                                          posibilidad de circulación de este discurso a partir de la relación que se establece
                                                          entre medios y públicos. Para este autor : “la instancia mediática televisiva se
                                                          encuentra en una posición de bisagra doblemente orientada: referencial, cuando
                                                          está orientada al mundo exterior que muestra, refiere y comenta, y de contacto
                                                          cuando contempla al telespectador al que intenta interesar y conmover, al que
                                                          reclama e interpela. (…) La dirección, lugar por excelencia de la articulación entre


                                                          6 Lazarsfeld y Merton afirmaban, en un artículo escrito en 1948, que podría darse un fenómeno que
                                                          denominaron “disfunción narcotizante” en el sentido de que la recepción de estos mensajes transformen
                                                          las energías disponibles para “una participación activa en un saber pasivo”. No obstante, los propios
                                                          autores sostenían entonces que no se conoce mucho cómo puede operar este fenómeno y que estudiarlo
                                                          “es una de las tareas que aún se presentan al estudioso de las comunicaciones masivas.” (1978:35) No
                                                          hemos avanzado demasiado.
                                                          7 Verón afirma así el sentido de pertenencia común que sostienen los recortes espaciales compartidos en
                                                          los discursos informativos. Agrega que el público del discurso de la información difícilmente sea
                                                          paradestinatario – objeto de persuasión – o antidestinatario – con el que se polemiza-.
el mundo exterior, el estudio y el telespectador es la que garantiza la puesta en




                                                                                                           !
escena.” (2003: 233) Desde nuestro interés analítico, esto quiere decir que los
noticieros deben ser creíbles y, al mismo tiempo, mantener su público. Por esto,




                                                                                                         Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
deben seguir los cánones de construcción de la verosimilitud sin perder de vista
que necesitan lograr y mantener una audiencia. Tanto el contacto como la
verosimilitud son dimensiones centrales para mantener las interacciones
promovidas por los noticieros televisivos; sus estrategias desde la puesta en
escena deben ser exitosas al momento de articular la producción discursiva con
su reconocimiento por parte del público.8

Como sostiene con claridad Eliseo Verón (2005), para comprender la complejidad
del vínculo de los medios con sus públicos hay que entender que los medios son
actores de un mercado económico y están sometidos a dos lógicas que hasta
hoy han sido relativamente divergentes. Una, es la función primaria del contrato
que es crear y conservar sus receptores y la otra, es de dotar de valor a ese
colectivo para vendérselo a los anunciantes. Pero, en tanto la relación con los
anunciantes es sólo un problema de marketing, vende o no vende, su anclaje en
un grupo de receptores depende de variables demográficas, económicas, políticas
y culturales variadas y muchas veces sutiles. Ahora bien, desde la producción de
los noticieros televisivos nacionales estas dos lógicas aparecen imbricadas en
el momento en que reproducen estilos discursivos idiosincráticos y diferenciadores
particulares, propios de sus lugares de producción y atentos a esas variables
expuestas por Verón, así como están sometidos a procesos crecientes de
racionalización de la producción televisiva informativa que muestra tendencias
comunes en numerosos países del mundo (2005:194).

Con respecto a esas tendencias, en un artículo aparecido en diciembre de 2005
en Le Monde Diplomatique, Marc Endeweld da cuenta de algunas de estas
transformaciones comunes en noticieros televisivos franceses muchas de las
cuales responden a tendencias mundiales. Una de ellas es la creciente ficciona-
lización en la construcción de las noticias promovida especialmente por las
agencias de noticias internacionales9 , otras son: el aumento del espacio a ser-
vicios para la vida cotidiana – tiempo, salud, tránsito, seguridad –, el aumento de


8 Para Verón el desafío principal de la investigación en la comunicación mediática es en la actualidad
tratar de comprender lo que llama sistema productivo, es decir la articulación entre producción y
reconocimiento (2005:222).
9 Describe el tratamiento dado a la información del huracán Katrina, ocurrido en Estados Unidos en ese
mismo año.
la importancia de los periodistas estrellas como marca o imagen de los espacios
                             !
                                                          noticiosos y de las propias emisoras, el aumento de los relatos en off
                                                          acompañados por imágenes editadas muchas veces de archivo, la generación de
Grillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos




                                                          la información desde el noticiero según su conveniencia operativa antes que la
                                                          búsqueda de la información relevante y el aumento de la importancia del ritmo, a
                                                          tal punto que el tiempo medio de los reportajes es de un minuto cuando hace
                                                          diez años era de un minuto y medio10 . Pero una de las tendencias más comunes
                                                          en los noticieros televisivos del mundo es la reducción del tiempo dedicado a las
                                                          noticias internacionales y el crecimiento de la importancia del factor noticioso de
                                                          la proximidad.

                                                          Para Waisbord (2007) “La debilidad de la cobertura internacional de noticias
                                                          ofrece probablemente una explicación parcial de las razones por las cuales los
                                                          medios fracasan en cubrir las expectativas cosmopolitas. (…) Típicamente los
                                                          medios de comunicación recurren a narrativas e historias culturales que resuenan
                                                          en las audiencias domésticas, antes que a un mejor entendimiento de los desar-
                                                          rollos y los contextos. Sin embargo no parece ser una cuestión principalmente
                                                          de limitaciones de los marcos noticiosos y de las prácticas periodísticas: a la
                                                          inversa que las naciones, el cosmopolitismo carece de medios de comunicación
                                                          aliados deseosos de convertirse en vehículos de las culturas trans-post-nacionales.
                                                          (…) Como advierte Schlesinger “no deberíamos esperar demasiado del potencial
                                                          de los medios audiovisuales para configurar identidades en un contexto
                                                          transnacional” pues están mejor equipados para, y deseosos de, sostener iden-
                                                          tidades nacionales (En Waisbord, 2007:48).

                                                          Algunos de los factores que tendencialmente se introducen en la producción de
                                                          noticias televisivas en el mundo constituyen, desde nuestra perspectivas,
                                                          condiciones homólogas y contiguas a la intervención del público en la pantalla,
                                                          de manera tal que este factor puede considerarse una estrategia desde la cual
                                                          analizar particularidades nacionales de los noticieros. De mejor manera, podemos
                                                          decir que consideramos al tratamiento dado al público en la pantalla como un
                                                          operador particular productivo de tendencias universalizantes de la producción
                                                          de la información televisiva. Estas tendencias afines son: aumento de la impor-
                                                          tancia de cuestiones atinentes a la vida cotidiana, como la prestación de servicios
                                                          –salud, tránsito y, con gran fuerza, seguridad-, el aumento del valor de la proximidad


                                                          10 Mi propia experiencia indica que hace alrededor de treinta años atrás, cuando me desempeñaba como
                                                          redactora de un noticiero televisivo, esta duración media de los reportajes era de 2 minutos y medio; tres
                                                          minutos era el tiempo máximo.
y la creciente importancia del ritmo en la continuidad expositiva, complementadas




                                                                                           !!
por las necesidades de aprovechamiento por parte del público del espacio que
posibilitan los medios para publicitar sus demandas. Especialmente cuando “…se




                                                                                         Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
produjo una adaptación de las instituciones de las democracias industriales a
los medios y los medios se han transformado en los mediadores insoslayables
de la gestión de lo social” (Verón, E. 2005: 224).


El público en la pantalla de los noticieros
televisivos de Argentina, Brasil y Chile
En trabajos anteriores hemos tratado de dar cuenta de dimensiones significativas
de la intervención del público en programas televisivos a partir del ámbito de
producción de esos espacios. Así, mostramos el modo en el que noticieros locales
construyen sus audiencias en términos de vecindario a diferencia de los noticieros
nacionales (Grillo, 2004; Rusconi, 2004); analizamos la significación de estas
intervenciones en entrevistas realizadas a los integrantes del público (Grillo, 2005;
Tonello, 2003), exploramos la potencialidad de espacios mediáticos como
escenario de transacciones de diversa índole (Milani, 2004) y nos detuvimos
especialmente en aquellas vinculadas a la condición ciudadana del quienes
intervenían identificando su construcción como demandante y consumidor de
servicios públicos (Grillo 2005; 2006).

Posteriormente comenzamos a estudiar el tratamiento de las noticias con partici-
pación del público en noticieros nacionales de Argentina Brasil y Chile. Hasta el
momento han surgido con claridad dos cuestiones que seguimos analizando:
una es el lugar diferencial que ocupa el público participante en la construcción de
la noticia y otra es el estilo de tratamiento. Mientras en los noticieros de Chile y
de Brasil la actuación del público en la pantalla aparece como consecuencia del
hecho que se considera noticia, en el argentino el público interviene constituido
en el hecho noticioso, es la causa de la información y eje alrededor del cual se
construye el hecho que despertó su actuación (Giussano, 2006). En términos
generales encontramos que mientras en el noticiero de Brasil el público comparte
su intervención con reporteros, informantes del poder público, expertos y otras
fuentes variadas de información en vivo, todo alrededor de temas (o “historias”)
de integración, y en el chileno los escenarios oscilan claramente entre aquellos
específicos y variados que ocupan los participantes con otros propios del poder
público –ministerios, oficinas, sedes oficiales- o político, en el noticiero argentino
su presencia, como testigo, informante o actor principal es casi excluyente (Grillo,
2006). Por otra parte, el noticiero brasileño organiza una puesta en escena
                             !
                                                          compleja en la que se hace evidente la presencia de un organizador ausente pero
                                                          necesario. Como contrapartida, la puesta en escena informativa del noticiero
Grillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos




                                                          argentino Telenoche se construye siguiendo una modalidad fluida – como
                                                          espontánea-; la pantalla aparece ocupada – en el sentido de tomada y por
                                                          momentos invadida- por “los hechos noticiosos”. Entre estos hechos están,
                                                          obviamente, las manifestaciones, los cortes de calles y las escenarios barriales
                                                          con voces que reclaman por salarios, subsidios, seguridad o servicios, noticias
                                                          todas en las cuales la participación del público en la pantalla es una constante.
                                                          El espacio informativo televisivo se convierte así en una réplica mediatizada del
                                                          espacio público de calles, plazas, rutas y vecindarios.

                                                          Estos antecedentes nos han llevado a postular la hipótesis de que el público en
                                                          pantalla – en tanto variante mediática del pueblo en la plaza y las calles- se
                                                          construye en el noticiero argentino como una estrategia eficaz de articulación
                                                          entre la realidad a la que remite, la construcción que hace de ella y la relación
                                                          que establece con su público. Dicho de otro modo, el público en pantalla en el
                                                          noticiero argentino es un articulador productivo de los tres espacios que en
                                                          palabras de Charaudeau son el espacio externo público, el espacio interno de
                                                          interpretación y el de la relación de esta instancia con el público. (2003:233)

                                                          Desde esta mirada y a partir de los antecedentes citados tratamos de abonar
                                                          más profusamente nuestras sospechas acerca del papel de la intervención del
                                                          público en la pantalla en el noticiero argentino explorando aspectos más detallados
                                                          del tratamiento dado a ese recurso noticioso. Para ello, presentaremos algunos
                                                          resultados de un análisis descriptivo de los noticieros de mayor circulación emitidos
                                                          durante una semana de los noticieros de mayor circulación de Argentina que es
                                                          Telenoche de Canal 13, de Brasil, el Jornal Nacional de la Rede O‘Globo y de
                                                          Chile, 24 Horas Central de la Televisión Nacional de Chile11 . Los datos que
                                                          tenemos muestran los porcentajes de noticias con participación del público en
                                                          cada noticiero, el tiempo promedio de esas notas, la cantidad de tiempo efectivo
                                                          del público en la pantalla, el tipo de público que participa, según sea ciudadano
                                                          común o especialista, el papel del reportero que entrevista y la dramatización de
                                                          la actuación por parte del público interviniente.


                                                          11 Luego de visualizar e interpretar los lineamientos generales que presentan los noticieros de los tres
                                                          países sobre material grabado de veinte emisiones por noticiero de cada país, correspondientes al mes de
                                                          junio de 2006, resolví efectuar este análisis de contenido pormenorizado del material de una semana, a
                                                          partir de categorías emergentes de ese visionado previo.
!#
                                               Telenoche        Jornal Nacional            24 Hs
                                               Argentina             Brasil           Tele. Nac. Chile

  Porcentaje de noticias c/público *




                                                                                                            Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
                                                 50,87%              33,33 %               57,35 %

  Porcentaje de tiempo ocupado por                  70%                 38%                    45%
  público en pantalla sobre tiempo
  medio de las notas.

  Presencia del ciudadano común                    69 %                 59 %                 52,5%
  sobre el especialista.

  Promedio en segundos por nota de                   52”                  27º                   20º
  complicidad del reportero sobre
  tiempo de participación del reportero
  (complice-distante-negocia-ausente)

  Tiempo promedio por nota en el que               20 %                   7%                   4%
  el público dramatiza su intervención

* No se incluyeron las intervenciones de candidatos políticos, funcionarios, legisladores o gobernantes.
  Sí, las de profesionales o especialistas en temas específicos vinculados al material noticioso.



Si bien el noticiero argentino muestra un porcentaje menor en el total de notas con
público en la pantalla que el de Chile, no obstante, presenta un porcentaje
notablemente mayor de tiempo efectivo ocupado por el público. Si sumamos a
esta observación, los mayores porcentajes tanto de la presencia del ciudadano
común frente al especialista, como de los tiempos en los cuales las personas que
intervienen lo hacen dramatizando sus actuaciones y los reporteros mantienen una
relación de complicidad con los entrevistados vemos que todo organiza una
configuración que permite seguir trabajando la idea que venimos sosteniendo acerca
del papel que cumple la intervención del público en la pantalla del noticiero argentino.

Creemos que es en las formas, en las modalidades de construcción, en los
estilos de enunciación o de tratamiento donde debemos seguir analizando las
diferencias. Ellas exponen, como lo sostiene White, la moral que trasunta los
deseos (1992:33-35).12

12 En un estudio anterior que efectué comparando material relevado en 1993 del mismo noticiero brasileño
y de canal 9 de Argentina, que en ese momento eran los de mayor audiencia, observaba ya un estilo
diferente en la relación que proponían los reporteros con los entrevistados en los noticieros de ambos
países. Entendía entonces, que el estilo de los reporteros argentinos reproducían una moral común que
más allá del contenido, sigue estrategias manipulatorias para la igualación. A partir de la clasificación
efectuada por Todorov (1987) de las modalidades de tratamiento del otro; resumía esa modalidad seguida
en el noticiero argentino como aquella que concibe al otro como creyente. (Grillo, 1995)
Verón (2005) plantea también la necesidad de realizar las comparaciones a partir
                             !$
                                                          de las modalidades, pues en ellas se sostiene el contacto. Afirma que los
                                                          mecanismos de competencia en el mercado de los medios tienen como
Grillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos




                                                          consecuencia que el contrato con el público sea fundamentalmente enunciativo,
                                                          es decir que no sea del plano del contenido sino “en el de las modalidades del
                                                          decir”, pues productos muy parecidos entre sí sólo pueden diferenciarse en las
                                                          estrategias ocupadas del contacto.

                                                          Entonces, la pregunta central que demanda nuestra interpretación en adelante
                                                          será identificar las reinversiones tecnológicas, sociales e históricas que producen
                                                          operatividad en la intervención del público en pantalla para fundar y mantener el
                                                          contacto cuando se informa por televisión en las sociedades estudiadas.



                                                          Referencias
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CONEXÕES – ARTIGOS
A emergência de gêneros
no cinema brasileiro: do




                                                                                                          Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
primeiro cinema às
chanchadas e pornochanchadas
                                                                               Bernadette Lyra1



                                              RESUMO
A noção de gênero é uma das mais importantes da doxa da história e da teoria do cinema. O
objetivo deste artigo é examinar a emergência de gêneros no cinema produzido no Brasil, desde
os primeiros filmes até a chanchada e a pornochanchada. Em primeiro lugar, enfatizando uma
perspectiva institucional. Em segundo, considerando a noção genérica como um pacto entre os
sistemas de produção e difusão de filmes e os espectadores. E, finalmente, analisando tanto as
marcas reveladoras dos elementos que regulam a formação do próprio discurso cinematográfico
no País, quanto as formas que atravessam a identidade daquilo que, institucionalmente, se constitui
em cinema brasileiro.
Palavras-chave: Instituição cinematográfica. Gêneros. Filmes brasileiros.

                                             ABSTRACT
The notion of genre that’s the essentials from history and from theory cinema. The aim of this
paper is examine the emergence of the genres into the Brazilian cinema, from the first films to
chanchada and the pornochanchada. At first, enhancing an institucional perspective. Secondly,
considering the generic notion like a pact among the filmmaker, the mode of diffusion and the
viewers. In addition, analysing both the marks revealing from the elements what regule the train-
ing of the discours cinematographic and the forms what cross the institucional identity of the
Brazilian cinema.
Key words: Cinematographic institution. Genres. Brazilians films.




1 Doutora em Cinema pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP),
Pós-Doutorado pela Université René Descartes, Paris V, Sorbonne. Atualmente, é coordenadora do Programa
de Mestrado em Comunicação e Professora Titular na Universidade Anhembi Morumbi. Parecerista da
Fapesp, CNPq e Capes. Líder do Grupo de Pesquisa Forma, Imagem na Comunicação Contemporânea
(UAM/CNPq). Publicou livros e artigos teóricos sobre o cinema. É escritora de ficção com romances e
contos publicados no País e no Exterior. E-mail: blyra@uol.com.br
Razões das escolhas
                                                            


                                                                                                                     A noção de gênero, talvez, esteja desgastada pelo tempo e pelo uso. Mas, nem
Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas




                                                                                                                     por isso, deixa de ser uma das mais importantes na teoria e na história do
                                                                                                                     cinema. Retomá-la para investigar a emergência genérica no cinema brasileiro
                                                                                                                     pode tornar-se um desafio intrigante.

                                                                                                                     De modo mais comum, os estudos de gênero costumam ser delineados em
                                                                                                                     contraposição aos estudos de autor. Essa oposição se dá, principalmente, em
                                                                                                                     torno daquela necessidade de agrupamento, nascida na tradição semiológica:
                                                                                                                     “A obra de um cineasta não é a única unidade textual sistemática maior do que
                                                                                                                     um filme. Há também o que se chama ‘gênero cinematográfico’: burlesco, filme
                                                                                                                     noir, comédia musical etc.” (METZ, 1971, p. 93).

                                                                                                                     O princípio de classificação estruturalista, que contrapõe as especificidades de
                                                                                                                     grandes conjuntos, permite que esses conjuntos se desdobrem em diversos
                                                                                                                     esquemas. Nesse sentido, Thomas Schatz propõe a seguinte equação: “A crítica
                                                                                                                     de gênero tenta estabelecer um conjunto de formas cinemáticas, enquanto a
                                                                                                                     crítica de autor celebra certos cineastas que trabalham, efetivamente, no quadro
                                                                                                                     dessas formas gerais.” (1980, p. 8).

                                                                                                                     De modo geral, ao privilegiar essa idéia de conjuntos classificatórios, muitas
                                                                                                                     análises que se dedicam às questões do gênero cinematográfico resultam textuais
                                                                                                                     e têm por motivo certas repetições e reiterações dos temas, tramas e narrativas
                                                                                                                     para nomear os gêneros. Para além dessa idéia, alguns pesquisadores estão
                                                                                                                     preocupados com uma espécie de ontologia dos gêneros:

                                                                                                                              Um gênero não é meramente uma coleção de imagens mortas à espera de um decorador
                                                                                                                              para animá-las. Trata-se de uma tradição com vida própria...Os gêneros precedem os
                                                                                                                              grandes diretores. O western se desenvolvia a contento, por si próprio, antes de John
                                                                                                                              Ford, ou mesmo James Cruz se debruçarem sobre ele. Precisamos nos dedicar muito
                                                                                                                              mais aos primórdios dessas formas variadas se quisermos compreender o seu estranho
                                                                                                                              poder e o processo exato pelo qual se tornaram suficientemente densas para atrair ta-
                                                                                                                              lentos. (BUSCOMBE, 2005, p. 318).


                                                                                                                     Há que mencionar, ainda, que certas vertentes advogam o retorno dos estudos
                                                                                                                     dos gêneros fílmicos ao âmbito da historicidade. Tom Gunning, por exemplo, recorre
                                                                                                                     ao Formalismo Russo em seus estudos sobre o cinema primitivo, exemplificando
                                                                                                                     os gêneros delineados pelos filmes dos primeiros tempos pela “articulação entre
                                                                                                                     os planos, em termos de tempo e espaço”. (GUNNING, 1984, p. 105). Mas,
considerando o rol dos muitos estudiosos que se ocupam do assunto, fica patente




                                                                                                                !
que poucos assumem a importância da história da própria instituição:




                                                                                                              Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
         Constatar, na trama atemporal dos filmes, a ocorrência sistemática de certas repartições
         coerentes, não é a mesma coisa que interrogar a imagem e a história da instituição
         cinematográfica como algo que, num dado período e sob determinadas condições e
         exigências, se pensou como um cinema de gêneros, facilitando e fomentando o surgi-
         mento e a implantação dessas mesmas repar sãobiêMT6êêMT“GRIMmbmO,M1Mmv2tm9aMMtM9aMvMtr7aMmbMtaMmbMt,aMmvbHêMêiêMT6b m4ie
Desse modo, o cinema, em seus primórdios, foi tido como um meio de replicação
                                                            
                                                                                                                     da realidade objetiva, ou seja, como um meio de reprodução técnica das imagens
                                                                                                                     em movimento da realidade. A “recriação do mundo real” funda ontologicamente
Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas




                                                                                                                     o cinema.


                                                                                                                                 O mito condutor da invenção do cinema é a consumação do mito que domina confu-
                                                                                                                                 samente todas as técnicas de reprodução mecânica da realidade que surgiram no século
                                                                                                                                 XIX, da fotografia ao fonógrafo. É o mito do realismo integral, de uma recriação do mundo
                                                                                                                                 à sua imagem, uma imagem sobre a qual não pesaria a hipoteca da liberdade de interpre-
                                                                                                                                 tação do artista, nem a irreversibilidade do tempo. (BAZIN, 1991, p. 30).


                                                                                                                     Porém, desde muito cedo, empresários e produtores do entretenimento
                                                                                                                     descobriram que o cinema poderia substituir o teatro e o circo no imaginário do
                                                                                                                     público.

                                                                                                                     Essa descoberta, talvez, tenha se dado na noite de 28 de dezembro de 1895,
                                                                                                                     quando Georges Méliès, um empresário e prestidigitador do pequeno teatro
                                                                                                                     Robert Houdin, em Paris, compareceu ao salão do Grand Café, convidado para a
                                                                                                                     primeira sessão do Cinematógrafo dos Irmãos Lumière.

                                                                                                                     Emmanuelle Toulet reproduz o que Méliès sentiu:

                                                                                                                                 Estávamos, os outros convidados e eu, diante de uma pequena tela, parecida com as que
                                                                                                                                 nos serviam para as projeções Molteni e, após um instante, uma fotografia imóvel repre-
                                                                                                                                 sentando a Place Bellecour, em Lyon, apareceu em projeção. Um tanto surpreso, eu mal
                                                                                                                                 tive tempo de dizer a meu vizinho: “Foi para nos mostrar projeções que nos fizeram vir
                                                                                                                                 aqui? Eu faço há mais de dez anos”. Mal acabei de falar, um cavalo puxando um cami-
                                                                                                                                 nhão se põe em marcha em nossa direção, seguido de outros veículos, depois de pedes-
                                                                                                                                 tres, enfim, toda a animação da rua. Ficamos todos boquiabertos com aquele espetáculo,
                                                                                                                                 estupefatos, tomados por uma surpresa inenarrável. (1988, p. 14).


                                                                                                                     De imediato, Méliès compreendeu a função espetacular do cinema, vislumbrando
                                                                                                                     o mundo imaginário que se abria na tela. 3


                                                                                                                     3 Louis Lumière, com a ajuda do irmão Auguste, inventou o aparelho que permitia a reprodução técnica
                                                                                                                     das imagens em movimento, mas, ao mesmo tempo, inventou o cinema. Assim, o cinema é uma invenção
                                                                                                                     científica, nascida da vontade de domínio do homem sobre a realidade, seguindo o mito do realismo
                                                                                                                     integral e o sonho de uma recriação do mundo à sua própria imagem. A reprodução automática da realidade,
                                                                                                                     preocupação científica que animou a invenção do cinema no fim do século XIX, difere da arte do espetáculo
                                                                                                                     que ganhou amplitude com o cinema de Méliès.
Em função desse imaginário fantasioso, Méliès dedicou-se à criação e à realização




                                                                                                                #
dos procedimentos que, até hoje, fazem parte do arsenal da realização: trucagens,
sobre impressões, movimentos mais lentos e muitos outros jogos cinema-




                                                                                                              Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
tográficos.

A forma de espetáculo concebida por Méliès, muito cedo, encontrou empresários
que iriam cercá-la de meios.4

No início, eram apenas complementos de espetáculos de vaudeville, assistidos
cada vez mais por uma multidão em que predominava uma platéia composta de
operários e trabalhadores de escassa renda. Porém, logo, a classe média se
interessou pelo cinema. Os filmes, então, ocuparam salões que ficavam lotados
com todo tipo de gente disposta a se divertir ou se maravilhar com as imagens
em movimento projetadas na tela.

Assim, o cinema, rapidamente, revelou sua função de festa e prodígio.

À medida que o mercado de produção e distribuição que se iniciava exigia uma
intensificação programática a fim de atrair o público e mantê-lo interessado, as
formas materializadas daquela “recriação do real” logo se diversificavam e
passavam a incluir, além das famosas “vistas” de Lumière, fatos de repercussão
social, paisagens de lugares distantes, óperas, dramas e comédias tirados de
peças teatrais, espetáculos mágicos e circenses.

Esses motivos, ao mesmo tempo que se multiplicavam, foram sendo repetida-
mente utilizados pelas produtoras e distribuidoras que os organizavam em
catálogos para os programas de exibição.

Dessa maneira, a indústria de filmes ia se construindo entre a diversidade e a
previsibilidade, baseada em dois pólos: inovar para sobreviver e repetir para
garantir um padrão.



4 É claro que, ao lado dessa função de espetáculo de divertimento, o cinema muito cedo revelou, para
alguns realizadores, as possibilidades de exercer uma função política e ideológica em que se proclamava
a ideologia politizada do meio e até se teorizava sobre ela, como é o caso do americano David Wark Griffith
(Nascimento de uma nação, 1915, e Intolerância, 1916) e do soviético Seguei Eisenstein, em seus filmes
e escritos. Além disso, também muito cedo, começavam as preocupações com a transformação ideológica
do cinema em uma “arte”. Nos primórdios do século XX, na França, os irmãos Laffitte chegam a fundar a
sociedade Le Film d´Art, esperando dar ao cinema um toque de “nobreza artística”, inexistente até então.
Constituiu-se, assim, a experiência cinematográfica. Do ponto de vista institucional,
                                                            $
                                                                                                                     a existência de uma noção de gênero se deve a esse tipo de experiência, que
                                                                                                                     engloba a repetição e a inovação.
Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas




                                                                                                                     Embora no âmbito da estética a idéia do “novo” seja motivo de desacordo entre
                                                                                                                     aqueles que a atribuem aos valores pregados pelo romantismo e aqueles que a
                                                                                                                     vêem como um modo politizado de tornar um produto cultural acessível, nivelando
                                                                                                                     “alta cultura” e “cultura de massa”, um filme de gênero sempre depende dessa
                                                                                                                     “combinação de novidade e familiaridade. As convenções do gênero são
                                                                                                                     conhecidas e reconhecidas pelo público e tal reconhecimento já é, por si só, um
                                                                                                                     prazer estético”. (BUSCOMBE, 2005, p. 315).



                                                                                                                     Os gêneros no cinema brasileiro: os primeiros momentos
                                                                                                                     O cinema no Brasil começa sob o signo da perspectiva industrial e da importação
                                                                                                                     de modelos. Em torno desses dois eixos gira toda a produção, realização e difusão
                                                                                                                     de filmes no País, nas primeiras décadas do século XX.

                                                                                                                     Quanto ao primeiro, é fato que a primeira geração de produtores e distribuidores de
                                                                                                                     filmes a atuar nas cidades brasileiras estava mais interessada na rentabilidade comercial
                                                                                                                     do cinema, não se podendo falar em idéias organizadas com uma determinada finalidade
                                                                                                                     que não aquela de investir e lucrar com o novo meio de entretenimento.

                                                                                                                     Quanto ao segundo, é relevante considerar a chegada de imigrantes que aqui
                                                                                                                     aportavam em busca de trabalho e o seu direcionamento para a indústria de
                                                                                                                     entretenimento.

                                                                                                                     Muitos desses imigrantes tinham facilidades de ida e vinda e contatos deixados em
                                                                                                                     seus lugares de origem e podiam estar em dia com a disseminação do cinema pelo
                                                                                                                     mundo. Foram eles que se encarregaram de formar um público de espectadores no
                                                                                                                     Brasil, trazendo do estrangeiro as projeções luminosas sobre uma tela branca.5

                                                                                                                     5 Exemplar é o caso de Pascoal Segreto, um italiano que, aos 28 anos de idade, era empresário do
                                                                                                                     Pantheon Ceroplástico, um museu de cera que se apresentava em vários logradouros do Rio de Janeiro,
                                                                                                                     por volta de 1896. Acostumado a investir no mundo dos espetáculos, Segreto introduziu o primeiro
                                                                                                                     cinematógrafo permanente no Brasil: o Salão de Novidades. Antes dele, o público havia já visto o
                                                                                                                     Kinetographo, trazido pelo empresário português Aurélio da Paz Reis, que estreou em 15 de janeiro de
                                                                                                                     1897; o Cinematographo Edison, apresentado pelo prestidigitador espanhol Enrique Moya; o Animatographo,
                                                                                                                     do professor italiano Vittorio di Maio e o Cinematographo Lumière, apresentado pelo francês Henry Picolet.
Além disso, a precária situação econômica de grande parte da população do País




                                                                                                       %
impedia o investimento de empresários, técnicos e profissionais na área. Nossas
indústria e tecnologia, quase inexistentes, também se mostravam incapazes de




                                                                                                     Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
fabricar máquinas de cinema.

Todos esses fatores contribuíram para atrair a atenção dos centros produtores e
difusores do cinema no mundo, que demonstraram um especial interesse pelo
mercado brasileiro.

         Primeiro vieram os filmes experimentais de Edison, Lumière e outros. Logo em seguida,
         as pesquisas mais elaboradas de Méliès, Zecca, Edwin Porter, etc. Depois as epopéias
         italianas de Ambrosio, Pastrone e Guazzoni. Imediatamente após, os dramas escan-
         dinavos de Asta Nielsen e Valdemar Psilander. Em 1915, num concurso de popularidade
         efetuado no Brasil, os quatro primeiros postos foram ocupados pela italiana Francesca
         Bertini, pelos dinamarqueses Nielsen e Psilander e pelo norte-americano Maurice Costel-
         lo. Daí por diante, porém, garantidos pelos bancos, que pouco a pouco haviam tomado o
         controle dos estúdios, os filmes norte-americanos começaram a entrar com maior força
         no nosso mercado, eliminando gradativamente, através de uma produção e uma publici-
         dade maciças, os demais concorrentes. (VIANY, 1987, p. 37).


Quanto à realização de filmes em nosso país, ela parece ter se iniciado também
dentro do princípio ontológico de reprodução do real que guiava as primeiras
produções de Lumière, bem como a de tantos realizadores europeus e americanos.

Em 19 de junho de 1898, Afonso Segreto faz o registro da baía de Guanabara, de
bordo do navio Brésil que o trazia da França. O jornal A Gazeta de Notícias, do
Rio, no dia 20 de junho de 1898, noticia o fato aos leitores:

         Chegou ontem de Paris o sr. Afonso Segreto, irmão do proprietário do salão Paris, no Rio,
         sr. Gaetano Segreto. O sr. Afonso Segreto há sete meses que fora buscar o aparelho foto-
         gráfico para preparo de vistas destinadas ao cinematográfo e agora volta habilitado a
         montar aqui uma verdadeira novidade que é a exibição de vistas movimentadas no Brasil.
         Já ao entrar à barra, fotografou ele as fortalezas e os navios de guerra.


A partir dessa primeira “vista”, se inicia uma diminuta produção em que os filmes
eram pequenos, feitos com tecnologia precária, destinados à exibição nas salas
de divertimento que apareciam, principalmente, no Rio de Janeiro.

Logo, as vistas e as paisagens que se multiplicavam começaram a dividir o
espaço com filmes que recheavam o universo de interesse dos habitantes do Rio
e de outras cidades. Registros de casos policiais famosos, melodramas, filmes
religiosos, dramas históricos e patrióticos e filmagens de bailes e corsos
                                                            
                                                                                                                     carnavalescos, ao mesmo tempo que forneciam ao público uma diversidade de
                                                                                                                     escolha dentro de um panorama comum a todos, consolidavam-se na sucessão
Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas




                                                                                                                     dessas mesmas escolhas.

                                                                                                                     Sempre atento às tendências dos filmes estrangeiros que faziam sucesso na
                                                                                                                     época, o próprio Segreto produziu filmes ligeiros, como Beijos de amor e Um
                                                                                                                     colegial numa pensão, os quais reproduziam cenas cômicas da vida cotidiana.

                                                                                                                     O ano de 1908 marcou o início de uma fase áurea do cinema brasileiro, com uma
                                                                                                                     produção intensa. A demanda do público se tornava cada vez maior com a
                                                                                                                     ascendência de uma classe burguesa urbana e uma intensa população de
                                                                                                                     migrantes. Os espectadores já então se tinham habituado ao novo entretenimento,
                                                                                                                     exigindo a ampliação do número de salas exibidoras e a variação dos filmes.
                                                                                                                     Nessa época, romancistas, dramaturgos e caricaturistas começaram a se
                                                                                                                     interessar em escrever para o cinema.

                                                                                                                     Grande parte da instalação dessa fase se deveu à participação de proprietários
                                                                                                                     das salas de exibição, os quais resolveram investir na produção cinematográfica.6

                                                                                                                     A pesquisadora Anita Simis registra 963 produções nesse período, no País.
                                                                                                                     “Grande parte desses filmes eram de curta metragem, sendo vários deles
                                                                                                                     documentários e tomadas de vistas e um quarto de ficção produções, 763 eram
                                                                                                                     filmes curtos, como documentários e tomadas de vistas (768) e um quarto de
                                                                                                                     ficção (240)”. (SIMIS, 1996, p.72).

                                                                                                                     Construíam-se estúdios e neles eram realizadas películas que iriam competir
                                                                                                                     com as fitas estrangeiras exibidas. Mas, em geral, os realizadores continuavam
                                                                                                                     seguindo os modelos genéricos vindos “de fora” e que obtinham sucesso.
                                                                                                                     Proliferavam os documentários; as vistas; os filmes falantes e os cantantes,
                                                                                                                     sincronizados com o som de fonógrafos; os filmes sacros; os chamados “filmes
                                                                                                                     livres”, proibidos para mulheres e crianças; as comédias e os policiais. Estes
                                                                                                                     últimos se destacavam entre os modelos narrativos.



                                                                                                                     6 Quanto às salas de exibição, nos primeiros tempos do nosso cinema, eram inexistentes. Depois, pouco
                                                                                                                     a pouco, foram surgindo salas esparsas, funcionando em circos, teatros, pavilhões eventuais e mesmo
                                                                                                                     em locais de consumação de bebidas e comidas, como os cafés-concerto e, quase sempre restritas aos
                                                                                                                     centros mais adiantados, como Rio e São Paulo.
As comédias, sobretudo aquelas que repassavam repetidamente um “estar” cínico




                                                                                                            '
da realidade brasileira, caíam no gosto do público. Tornavam-se o gênero mais
popular de cinema.




                                                                                                          Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
         As comédias... envolviam sempre algum tipo de malvadeza. As vítimas eram muitas: aman-
         tes, policiais, cozinheiros, vagabundos, tintureiros chineses, proprietário de mercearias. Ha-
         via bagunça de todo tipo: guerras de travesseiro entre internas, guerras de farinha de trigo
         e de tortas entre adultos, brigas entre policiais e civis. Estas comédias eram freqüen-
         temente cínicas em relação à autoridade e à moralidade vigente. Esperava-se a infidelida-
         de. A corrupção era motivo de piada. Proliferavam estereótipos raciais e profissionais. (COS-
         TA, 1995, p. 21).


A introdução do fator “brasileiro” se constitui em dado mais que importante na
gênese genérica dos filmes, ao lado da vontade industrial e da importação de
modelos.

A primeira comédia de enredo foi Nhô Anastácio chegou de viagem (1908), de
Julio Ferrez, filme de menos de quinze minutos, produzido por Arnaldo Gomes de
Souza e Marc Ferrez.

Nhô Anastácio chegou de viagem mantinha, com humor e alguma ironia, um fio
narrativo que ainda não havia sido explorado e pode-se afirmar que trazia um
caipirismo bem brasileiro.

O primeiro policial foi Os estranguladores (1908). O filme era a adaptação de
uma peça teatral contando uma rebuscada história de dois assassinatos em 40
minutos – tempo demasiado para os filmes da época – que alcançou grande
sucesso – mais de 800 exibições – tendo sido produzido pela Photo-Cinematografia
Brasileira, sociedade do cinegrafista português Antonio Leal com o ex-comerciante
José Labanca.

Nessa vertente policial, também em 1908, foi produzido O crime da mala, pela
empresa Francisco Serrador, no qual se reconstituía o assassinato de Elias Farah,
por Miguel Traad, que esquartejou a vítima e tomou um navio com intenção de
jogar os pedaços do cadáver no mar, mas acabou sendo preso. O filme apresenta
uma mistura de fato ocorrido com ficção, com registros autênticos dos locais do
crime e do julgamento do assassino. A união de imagens encenadas com imagens
documentais resulta em uma fórmula que começa a dar o tom em algumas
produções brasileiras, tais como Noivado de sangue, Um drama na Tijuca e A
mala sinistra, sendo este último uma versão do mesmo crime da mala.
Esses dois tipos de filme repetiam ou criticavam o cotidiano dos habitantes das
                                                            #
                                                                                                                     cidades, em especial do Rio de Janeiro, em ritmo de crescimento, aumento da
                                                                                                                     pobreza e implantação de valores sociais, incitando o voyeurismo do público que
Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas




                                                                                                                     ia ver, no cinema, os fatos urbanos domésticos, pitorescos ou violentos.

                                                                                                                     Paz e amor (1910), de Alberto Botelho, é uma comédia que já mesclava fragmentos
                                                                                                                     de outros gêneros.7 O título se referia a uma frase do Presidente Nilo Peçanha
                                                                                                                     que, ao assumir o cargo, teria dito aos repórteres: “Farei um governo de paz e
                                                                                                                     amor.” No filme, que era dividido em quatro partes, cinco quadros e duas
                                                                                                                     apoteoses, eram criticados os acontecimentos da campanha civilista, os políticos
                                                                                                                     nacionais e os costumes da cidade.

                                                                                                                     Nesse período, os filmes que aqui chegavam ou aqueles que aqui eram produzidos
                                                                                                                     tinham duas possibilidades de distribuição: ou eram exibidos nas salas de projeção
                                                                                                                     das grandes cidades ou ficavam destinados à exibição ambulante. “Pelo país
                                                                                                                     afora seguiam cinegrafistas itinerantes registrando coisas e projecionistas
                                                                                                                     exibindo-as, bem como ao material importado de séries de filminhos de diversas
                                                                                                                     proveniências.” (FINGUERUT, 1986, p. 3).

                                                                                                                     Em 1915, veio morar em São Paulo o italiano Vittorio Capellaro, responsável
                                                                                                                     pela produção dos primeiros épicos e de adaptações literárias no País. E, em
                                                                                                                     1919, Gilberto Rossi e José Medina produziram, também em São Paulo, Exemplo
                                                                                                                     regenerador, filme considerado de bom padrão técnico e artístico.

                                                                                                                     Assim, o grosso da produção fílmica que, de 1912 a 1922, situava-se no Rio de
                                                                                                                     Janeiro, alastrou-se para outros estados. A atividade produtiva causou o
                                                                                                                     surgimento de revistas especializadas em cinema, bastante lidas na época, em
                                                                                                                     especial Para Todos, Selecta e Cinearte Esta última abriu um caminho para que
                                                                                                                     se pensasse nas possibilidades do uso do cinema com fins de educar a juventude
                                                                                                                     brasileira, através de gêneros “educativos”.

                                                                                                                     Mas, desde 1911, com a chegada da primeira leva de capitalistas norte-
                                                                                                                     americanos interessados em investir em cinema no Brasil, os filmes estrangeiros
                                                                                                                     começaram a tirar espaço das produções feitas no Brasil, fato que foi se
                                                                                                                     intensificando, causando progressiva regressão na produção local de tal forma


                                                                                                                     7 Pode-se dizer que Paz e Amor é um filme verdadeiramente precursor da identidade genérica das
                                                                                                                     chanchadas.
que, ao fim da década de 10, a produção cinematográfica brasileira entrava em




                                                                                         #
crise e passava a sobreviver com a ajuda da filmagem de jornais e documentários
que, então, se transformavam em um gênero básico para o mercado exibidor.




                                                                                       Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
Por alguns anos, o cinema brasileiro sobreviveu quase exclusivamente dos
cinejornais e dos filmes de cavação, um tipo de filme encomendado ou vendido
às figuras proeminentes ou ricas que neles apareciam.

A anulação da farta fase produtiva pode ser creditada a alguns fatores que afetaram
o mercado cinematográfico no País. Um desses fatores, a dificuldade em importar
material, por ocasião da Guerra de 1914, prejudicou em muito a produção fílmica.
Além disso, os Estados Unidos se aproveitaram do envolvimento da Europa no
conflito para intensificar uma política agressiva de exportação de produtos
cinematográficos para países como o Brasil.

Não deixa de ser interessante que, por essa ocasião, o técnico americano
William S. Jansen juntou-se a comerciantes brasileiros para fundar uma empresa
cinematográfica, a Brasil Film, depois denominada Sociedade Anônima Omega Film.

A Omega Film pretendia produzir filmes baseados em autores literários, comédias
e dramas históricos dentro de um modelo que apresentasse a novidade do aspecto
brasileiro a ser exportado para os Estados Unidos.

Em junho de 1919, a produtora mostrou seu filme Urutau em sessão para
convidados e jornalistas. O filme tratava de uma pretensa lenda indígena, apoiando-
se em uma mistura narrativa repleta de exotismo, cercada de pretensas matas,
cachoeiras, plumagens e modo “selvagem” de vida. Foi veementemente louvado
pela crítica como sendo um dos grandes esforços já feitos, no Brasil, para implantar
a arte e a indústria do cinema, dentro de propostas para educar, divertir e
engrandecer o povo brasileiro.

Apesar do entusiasmo com que foi recebido pelos comentaristas, o filme nunca
estreou comercialmente. E, com a volta de Jansen à América do Norte, a Omega
Film foi extinta, tendo o filme desaparecido juntamente com o produtor.

A chegada da tecnologia do som a Hollywood modificou o cinema em todo o mundo.

Em 6 de outubro de 1927, estreava, nos Estados Unidos, o primeiro filme falado e
cantado: O cantor de jazz (The jazz singer), produzido e realizado pela Warner Bros.
A Warner Bros ocupava um lugar relativamente à parte entre as grandes produtoras
                                                            #
                                                                                                                     pelo modo como aplicava seus recursos econômicos e, desde muito, havia
                                                                                                                     começado a investir na adaptação de um dispositivo de sincronização sonora
Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas




                                                                                                                     para seus filmes. Em julho de 1928, a companhia lançava The lights of New
                                                                                                                     York, o primeiro filme falado de gangster.

                                                                                                                     Entre nós, o fim da era do cinema mudo intensificou o trabalho de importação de
                                                                                                                     filmes americanos. Porém, estimulado pelo sucesso de Barro humano (1929),
                                                                                                                     Adhemar Gonzaga conseguia já recursos para fundar um grande estúdio, a Cinédia,
                                                                                                                     pioneira em filmes musicais, na esteira dos filmes musicais hollywoodianos que
                                                                                                                     a tecnologia sonora havia deslanchado.

                                                                                                                     Instalada no bairro carioca de São Cristóvão, a Cinédia era dotada de parâmetros
                                                                                                                     técnicos, bem-equipada e tinha nítida inspiração nos estúdios de Hollywood,
                                                                                                                     desenvolvendo uma produção regular, com palcos simultâneos, equipamentos
                                                                                                                     de qualidade e pessoal contratado em regime permanente.

                                                                                                                     A exemplo dos americanos, os filmes cantados e dançados brasileiros da década
                                                                                                                     de 30 operavam sob a forma de backstage musical da época.8

                                                                                                                     No backstage a estrutura narrativa se alicerça em uma história que apenas serve de
                                                                                                                     pretexto para que danças e canções sejam encenadas. Foi essa forma fílmica que
                                                                                                                     permitiu, rapidamente, uma vinculação dos musicais, no Brasil, com o rádio e com a
                                                                                                                     indústria fonográfica, atuando, especialmente dentro de um modelo carnavalesco.

                                                                                                                     Na Cinédia foram produzidos A voz do carnaval, em 1933, e Alô, Alô, Brasil,
                                                                                                                     1935, dirigido pelo norte-americano Wallace Downey, representante dos discos
                                                                                                                     Columbia em São Paulo. Em sua realização, esse filme contava com uma imensa
                                                                                                                     constelação de estrelas do rádio e do mercado fonográfico.

                                                                                                                     Em 1936, a Cinédia lançava um filme carnavalesco que alcançou enorme sucesso,
                                                                                                                     Alô, Alô, Carnaval. E em 1939, era produzido Banana da terra, filme em que
                                                                                                                     Carmen Miranda se despedia do cinema no País.

                                                                                                                                A alternativa do filme musical de carnaval obedeceu, em parte, a uma vocação da socie-
                                                                                                                                dade carioca: o cômico a ele acrescentado trouxera mais vigor e mais público, principal-



                                                                                                                     8 Em oposição ao backstage musical, o integrated dance musical busca integrar os números de dança ao
                                                                                                                     processo diegético do filme, expressando situações da narrativa e integrando-se a elas.
#!
           mente quando estas histórias e estas narrativas mostravam o Rio de Janeiro com sua
           própria cara. O cômico era linguagem descritiva da esterilização dos destinos individuais
           e também representava a possibilidade das vivências e das sociabilidades cotidianas de




                                                                                                           Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
           forma incomum, no seio de uma comunidade imaginada. (FERREIRA, 2003, p. 79).




Das chanchadas às pornochanchadas
De repente, em determinado momento (talvez por volta da década de 40), por
todo o País, ouvia-se a palavra chanchada.

“Não se sabe ao certo quem primeiro a empregou entre nós, mas tudo indica
que, antes de se estabelecer por aqui, ela tenha feito baldeação na Argentina.”
(AUGUSTO, 1989, p. 17).

O nome chanchada serve a um cinema em que tudo se faz sobre a necessidade
de negociar com o público e não de educá-lo ou de instruí-lo. E, sobretudo, sobre
a necessidade de adaptar os gêneros fílmicos a uma “brasilidade” que nada
tinha de cópia dos modelos estrangeiros.9

Os espectadores das chanchadas ansiavam por filmes populares e alegres, sem
se importar que fossem ou não profissionalmente bem-acabados ou que
contivessem refinadas mensagens.

 Pode-se dizer que o espírito da chanchada locou-se no Brasil, desde a chegada
do espetáculo cinematográfico, quando se consolidou a tradição de uma produção
destinada a entreter certo tipo de público, anteriormente voltado para o circo e o
teatro. Desse modo, a popularização dos filmes se fez sentir desde os primeiros
momentos, apesar dos protestos daqueles que pretendiam uma cultura mais
“artística” para o País.10


9 Alguns críticos mais radicais afirmam que as chanchadas eram cópias de modelo hollywoodiano.
Naturalmente que, para alguns, cópias inferiores. No entanto, a fórmula de Carnaval no Fogo (1949),
apontada como cópia dos filmes da dupla Jerry Lewis e Dean Martin, foi pensada antes da primeira
comédia de Lewis e Martin, Amiga da onça (My friend Irma), produzida em 1949 e lançada no Brasil algum
tempo depois que Alinor Azevedo e Watson Macedo já tinham terminado Carnaval no Fogo.
10 Os intelectuais sempre temeram o entretenimento, pois sabiam bem que este ameaçava a fragilidade
cultural. O entretenimento vinha ocupar um lugar dos sentidos que a razão e a mente tentavam cooptar. O
entretenimento vinha substituir o sublime pelo divertido. Desmerecer o entretenimento era, portanto, uma
questão de poder.
Não é coincidência que o desprezo de um certo tipo de intelectualidade pe-
                                                            #
                                                                                                                     las chanchadas seja o mesmo que as elites culturais, por longo tempo, mantiveram
                                                                                                                     a respeito do entretenimento das massas. Afinal, um dos dogmas da cultura erudita
Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas




                                                                                                                     era que a arte exigia esforço para ser apreciada, sobretudo esforço intelectual, mas
                                                                                                                     que o entretenimento não fazia exigência alguma ao intelecto.

                                                                                                                                Ela (a arte) redimensionava a visão do sensual para o intelectual, do temporal para o
                                                                                                                                eterno, do corpóreo para o espiritual, coisas que, todas juntas, faziam da arte uma
                                                                                                                                questão não só de estética como também de moralidade, já que seu efeito era encorajar
                                                                                                                                o aprimoramento. (GABLER, 1999, p. 23).

                                                                                                                     As chanchadas se constituíram sobre uma coletânea de gêneros já reconhecidos
                                                                                                                     sem maiores dificuldades pelos espectadores brasileiros, mesclando melodrama,
                                                                                                                     drama romântico, aventura, policial e, sobretudo, musicais e comédia.

                                                                                                                     Em suas relações com o cinema no Brasil, as chanchadas constituem uma topografia
                                                                                                                     que se afirma não como um lugar de proveniência e fim de algo, mas uma terra de
                                                                                                                     convergência para todas as orgias do imaginário cinematográfico, repletas de deusas,
                                                                                                                     personalidades do mundo social e político, indígenas, faraós, gangsters, bailarinas,
                                                                                                                     figuras bíblicas, personagens teatrais, enfim, uma desmesurada gag cultural embalada
                                                                                                                     por músicas carnavalescas e por adaptações populares de peças eruditas.

                                                                                                                     Pode-se dizer que a terra das chanchadas está fundamentada sobre o território
                                                                                                                     do cinema brasileiro, mais precisamente sobre as idéias que nele pairam, e se
                                                                                                                     configura, ela mesma, em arquipélago enunciativo, feito de associações,
                                                                                                                     aproveitamentos, cópias, montagens, cruzamentos e permutas de outros gêneros,
                                                                                                                     incessantemente em combinação.

                                                                                                                     Na rede cruzada de fragmentos que vão organizando as histórias, o nome chanchada
                                                                                                                     se confunde com outros, como aquele que viria a designar o lugar produtor de chanchadas
                                                                                                                     por excelência: a Atlântida, que, no entanto, “não foi o único celeiro da chanchada,
                                                                                                                     apenas o mais antigo e produtivo (62 filmes de ficção e dois documentários em 20
                                                                                                                     anos de atividade) por conseguinte, o mais célebre”. (AUGUSTO, 1989, p. 30).

                                                                                                                     A Atlântida foi oficialmente fundada em 18 de setembro de 1941, por Moacyr
                                                                                                                     Fenelon, Edgard Brasil, José Carlos Burle, Arnaldo de Farias e Alinor Azevedo.11


                                                                                                                     11 A marca da produtora, a não ser pelo chafariz jorrando água em abundância, em nada lembrava a
                                                                                                                     utópica cidade-estado de Atlântida, sonhada por Platão e devorada pelo oceano, cujos habitantes eram
                                                                                                                     sábios e portadores de grandes riquezas.
Com o nome de Atlântida Empresa Cinematográfica do Brasil S.A., pretendia ser




                                                                                                        ##
uma fonte de produção de filmes brasileiros que, ao lado do apuro técnico, exi-
bissem um conceito de identidade cultural do Brasil.




                                                                                                      Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
Em seu depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em 5 de
agosto de 1969, Alinor de Azevedo conta de que maneira participou da fundação
da companhia:

           Uma vez eu estava na Cinelândia, muito desgostoso, e encontrei o Moacir Fenelon. Ele me
           pediu uma ajuda para fundar uma empresa. Foi aí que comecei a escrever o prospecto da
           Atlântida. Falei de filme colorido, de coisas mirabolantes e até de coisas que a empresa
           nunca fez. Ficou conhecido como o Manifesto da Atlântida. (1969, p. 59).


 O Manifesto da Atlântida – que era “propagandista, para inspirar a confiança
nos compradores de ações da Companhia”, segundo Alinor – é, possivelmente,
a primeira demonstração, no meio cinematográfico brasileiro, de consciência da
necessidade de adequar a produção e a proposta de industrialização à realidade
concreta do mercado.

A Atlântida tentou, desesperadamente, colocar isso em prática. Tomando Alinor
Azevedo como exemplo, pode-se ter uma idéia de quanto seus idealizadores
pretendiam fazer um cinema engajado, de acordo com seus ideais de cultura e
política no Brasil, mas tiveram que se render a filmes de entretenimento popular
para continuar industrialmente atuando.12

Era de Alinor o roteiro de Tumulto, o primeiro longa-metragem da Atlântida, que
nunca foi filmado. Na produtora, ele fez ainda Asas do Brasil (1947), Luz dos
meus olhos (1947), Terra violenta (1948), todos filmes baseados em nosso
universo sociocultural.

Então, veio uma fase intensa de chanchadas produzidas na Atlântida. Apoiado
em uma idéia de Anselmo Duarte, em 1946, Alinor Azevedo fez o roteiro de
Carnaval no Fogo, filme que conseguiu sintetizar o modelo ideal do gênero
chanchadesco no Brasil.13


12 Alinor Azevedo era o cérebro da Atlântida. Foi um dos mais importantes roteiristas do País.
13 Na Atlântida, Alinor Azevedo ainda trabalhou em roteiros originais, diálogos e adaptações para
chanchadas e outros tipos de filme: Caçula do barulho (1949), Também somos irmãos (1949), Aviso aos
navegantes (1950), A sombra da outra (1949), Não é nada disso (1950), Maior que o ódio (1951).
O imenso sucesso de bilheteria de outra chanchada, Este mundo é um pandeiro
                                                            #$
                                                                                                                     (1946), escrita por Hélio Soveral, tinha atraído Luiz Severiano Ribeiro o maior
                                                                                                                     exibidor do País e dono da distribuidora União Cinematográfica Brasileira, que
Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas




                                                                                                                     passou a investir na produtora.

                                                                                                                     Severiano Ribeiro estava motivado, sobretudo, pela Lei 20.493 (sancionada no
                                                                                                                     início de 1946), que obrigava todos os cinemas a exibir pelo menos três longas-
                                                                                                                     metragens brasileiros por ano, ou seja, um filme a cada quatro meses.

                                                                                                                                 A estratégia da participação do exibidor na produção tinha a sua lógica. A seção Cine-
                                                                                                                                 gráfica de O Cruzeiro acusava, atrás da anônima assinatura de operador, que Severiano
                                                                                                                                 durante a guerra havia comprado cotas da Distribuidora de Filmes Brasileiros (DFB) e da
                                                                                                                                 Distribuidora Nacional (DN), que eram duas das três firmas especializadas na distribui-
                                                                                                                                 ção de filmes brasileiros no eixo Rio-São Paulo. Severiano trazia o cabedal dos territórios
                                                                                                                                 de exibição do Rio-Leste-Nordeste-Norte do país, agora acrescido de um laboratório cine-
                                                                                                                                 matográfico que pretendia ser o melhor do Brasil. O passo seguinte da estratégia do exi-
                                                                                                                                 bidor foi aproveitar-se da exibição corrente do meio cinematográfico, propondo co-produ-
                                                                                                                                 ções a quantos projetos houvesse. (CATANI, 1983, p. 50-52).


                                                                                                                     A verticalização empreendida pelo empresário foi fundamental para a longevidade
                                                                                                                     e a continuidade das atividades da produtora que passou a contar com uma
                                                                                                                     equipe de realizadores como Watson Macedo, José Carlos Burle e Carlos Manga.
                                                                                                                     Instalou-se, também, um sistema de estrelas e astros, alguns exclusivos da
                                                                                                                     Atlântida, como o casal romântico dos filmes, Eliana e Anselmo Duarte e cômicos
                                                                                                                     como Oscarito e Grande Otelo.

                                                                                                                     Na década de 50, a Atlântida se transformou em uma verdadeira fábrica de
                                                                                                                     chanchadas, obtendo imenso sucesso comercial. Sucediam-se as chanchadas
                                                                                                                     de sucesso como Nem Sansão nem Dalila (1954) e O homem do Sputnik (1959).14

                                                                                                                                 Esse encontro entre produção e comércio exibidor lembra a harmoniosa e nunca repetida
                                                                                                                                 conjuntura econômica que reinou no cinema brasileiro entre 1908 e 1911. Em 1947,
                                                                                                                                 porém, o resultado mais evidente da almejada confluência de interesses industriais e
                                                                                                                                 comerciais foi a solidificação da chanchada e sua proliferação durante mais de quinze
                                                                                                                                 anos. (GOMES, 1980, p. 73).




                                                                                                                     14 A par das chanchadas, a Atlântida não deixou de produzir filmes “sérios” como já havia produzido
                                                                                                                     Vidas solidárias (1945), de Moacyr Fenelon e Também somos irmãos (1949), de José Carlos Burle. A
                                                                                                                     Atlântida produziu Luz dos meus olhos (1947), onde José Carlos Burle lançou a atriz Cacilda Becker; Terra
                                                                                                                     violenta (1948), e o policial Amei um bicheiro (1952), de Jorge Ileli e Paulo Wanderley.
Também a partir de 1950, a experiência cinematográfica dos espectadores




                                                                                                           #%
brasileiros passou a contar com uma indústria cinematográfica disposta a explorar
fatos tais como a volta de Getúlio Vargas ao poder, eleito pelo voto direto, as




                                                                                                         Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
novidades da industrialização, o êxodo rural e o crescimento das cidades brasileiras.

Nessa década, desenvolve-se o modelo institucionalizado de um ethos cultural brasi-
leiro que a política desenvolvimentista do governo fazia questão de acentuar. Carna-
val, samba, bons malandros e os olhos verdes da mulata povoam os gêneros fílmicos
produzidos no País, até a irrupção do Cinema Experimental e do Cinema Novo.15

No fim dos anos 60, aparece a pornochanchada, uma forma de cinema que, se
mal- adivinhada anteriormente aqui e ali, irrompe, finalmente, em decorrência da
crise institucional do cinema no Brasil.

Para muitos, a crise que se apresenta como decorrência de fatos políticos que
desencadeiam violenta censura aos meios de comunicação, propiciou o surgimento
da pornochanchada.

Mas o pesquisador Gelson Santana apresenta uma versão mais bem fundada no
aparato institucional do cinema brasileiro, quando remete à própria precariedade
que rege esse meio:

“Na pornochanchada, o processo de fazer uma imagem sem espessura é levado às
últimas conseqüências... E ele (esse processo) foi resultado de uma falta de ca-
pacidade artística e tecnológica da indústria cinematográfica nacional.” (SANTANA,
2005, p. 329).

Esse deslocamento de uma explicação de raiz sociológica (a crise política) para
um dado tecnologicamente ancorado na produção e realização de filmes se torna
fundamental, dentro da visão institucional do cinema:

           O precário é a instância primordial, ele é o resultado de uma espécie de subnutrição
           tecnológica. E é exatamente esta espécie de subnutrição que inventa ou conforma o gênero no
           cinema brasileiro. Se o gênero no cinema brasileiro pode ser visto como a configuração do
           precário em formas paradoxais imantadas nos filmes, isso se deve ao fato de que gênero no
           cinema brasileiro se faz a partir de pontos de convergência de determinadas práticas, tanto
           materiais, determinadas pela precariedade, quanto expressivas. (SANTANA, 2005, p. 326).


15 O fim da Atlântida, em 1962, se deve a uma série de filmes mal-sucedidos e ao advento do Cinema
Novo e da televisão no País.
As pornochanchadas, quer as produzidas no Rio, quer as feitas na Boca do Lixo
                                                            #
                                                                                                                     paulista, eram o tipo de filme com uma produção barata e disposta a produzir um
                                                                                                                     filme com o lucro imediato de outro filme.16
Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas




                                                                                                                     Na década de 80, com a invasão dos filmes eróticos estrangeiros, a pornochan-
                                                                                                                     chada assumiu um caráter mais explícito:

                                                                                                                                Êxitos como Bacanal de Colegiais, A Menina e o Cavalo e Sexo em Festa serviram para provar
                                                                                                                                ao comércio cinematográfico que o Brasil podia fazer frente a desenfreada importação de
                                                                                                                                pornôs estrangeiros. E em relação ao público, existia a vantagem: a língua portuguesa. O
                                                                                                                                palavreado chulo em meio das fartas transas tornavam nossos filmes mais atraentes. A indús-
                                                                                                                                tria da Boca sentiu-se, aparentemente, mais segura, podia se manter e manter os empregos
                                                                                                                                que gerava. Era o começo de um caminho sem volta. (STERNHEIM, 2005, p. 39).


                                                                                                                     Essas formas que materializavam, escancaradamente, o aspecto pornô emergiram
                                                                                                                     das instâncias externas que, ao longo da história do cinema brasileiro, foram
                                                                                                                     estruturando os atos de produção e difusão, em conjugação com os aspectos
                                                                                                                     técnicos e tecnológicos e com as alternativas estéticas e narrativas dos filmes.



                                                                                                                     Concluindo
                                                                                                                     As formas de produção de chanchadas e de pornochanchadas foram concebidas
                                                                                                                     no triplo cruzamento que moveu a produção de filmes no País, desde seus
                                                                                                                     princípios: modelos importados, que faziam sucesso entre nós, e eram, já,
                                                                                                                     devidamente conhecidos e reconhecidos pela formação cinematográfica do público;
                                                                                                                     modelos voltados para aproveitamento daquilo que a instituição cinematográfica
                                                                                                                     considerava “a nossa cultura”; modelos adaptados à rentabilidade econômica
                                                                                                                     de produção e difusão e às injunções técnicas e tecnológicas existentes no País.

                                                                                                                     Dessa integração de modelos foi feito o cinema brasileiro de gêneros.

                                                                                                                     Os gêneros foram emergindo como possibilidades de organização e estruturação
                                                                                                                     cinematográficas dentro de nossas possibilidades e precariedades, e foram se
                                                                                                                     organizando com o fim de garantir as expectativas do público.Gênero no Brasil é
                                                                                                                     a experiência que resulta desse enlace institucional que une a indústria do ci-
                                                                                                                     nema com o modo de combinar as imagens e os sons.


                                                                                                                     16 O cinema da Boca do Lixo respondia por mais de 50% da produção brasileira da década de 70.
REFERÊNCIAS




                                                                                            #'
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                                                                                          Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
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Vigília e inteligência estratégica:
ferramentas metodológicas




                                                                                                         Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
para a definição de estratégias
de relações públicas
                                                 Ana Cristina Fachinelli1, Jane Rech2,
                                         Olivar Maximino Mattia3 e Vanessa Roveda4



                                              RESUMO
O presente artigo pretende, a partir de uma análise das características da sociedade contem-
porânea, refletir sobre as novas necessidades das organizações quanto à área de comunicação.
Dessa forma, parte-se da investigação de quais são os atributos que o profissional de comunicação
deve desenvolver para formular e implantar estratégias eficazes, bem como quais metodologias e
processos podem auxiliá-lo nessa tarefa. Sendo assim, este trabalho apresenta um estudo sobre
a importância da informação para a criação de estratégias e sobre a contribuição que metodologias
de processamento da informação, como a vigília e a inteligência estratégicas, podem gerar para
a atividade de relações públicas.
Palavras-chave Novas tecnologias de informação e comunicação. Informação. Vigília estratégica.
Palavras-chave:
Inteligência estratégica. Relações públicas.

                                             ABSTRACT
This paper intends, from the analysis of the characteristics of a contemporary society, to reflect
about the new organizational necessities in the field of communication. It refers to the necessary
attributes of the communication professional in order to shape and to establish efficient strate-
gies as well as processes and methodologies like Strategic Intelligence.
Key words: New technologies of information and communication. Information. Strategic Vigil.
Strategic Intelligence. Public Relations.


1 Doutora em Ciências da Informação e da Comunicação pela Université de Poitiers – França. Professora/
Pesquisadora no Departamento de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul (UCS). E-mail:
acfachin@ucs.br.
2 Doutora em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Professora/Pesquisadora no Departamento de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul (UCS). E-
mail: jrech2@ucs.br.
3 Mestre em Tecnologia da Educação pelo Instituto de Pesquisas Espaciais, Inpe/CNPq de São Paulo.
Diretor/Professor/Pesquisador no Centro de Ciências Humanas e da Comunicação da Universidade de
Caxias do Sul (UCS). E-mail: ommattia@ucs.br.
4 Bacharel em Relações Públicas pela Universidade de Caxias do Sul (UCS).
grande desenvolvimento das novas tecnologias de informação provocou
                         $
                                                                                                                                               profundas modificações no comportamento da sociedade contemporânea,
                                                                                                                                        O      criou novas formas de ação e interação e assim transformou a organização
Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas...




                                                                                                                                        espacial e temporal da vida social. Thompson5 analisa os principais impactos
                                                                                                                                        que os meios de comunicação trouxeram à sociedade contemporânea, destacando
                                                                                                                                        cinco pontos principais de repercussões:

                                                                                                                                        1. reorganização do espaço e do tempo: antes dos meios de comunicação, o
                                                                                                                                        conceito de simultaneidade pressupunha que, para assistir a um determinado
                                                                                                                                        acontecimento, era necessário estar presente no ambiente-evento. Se isso não
                                                                                                                                        fosse possível, o conhecimento era adquirido através de relatos de outras pessoas
                                                                                                                                        sobre o fato. Com o desenvolvimento dos meios de comunicação, a interação se
                                                                                                                                        dissocia do ambiente, permitindo que indivíduos interajam com situações ou
                                                                                                                                        pessoas mesmo estando em espaços diferentes;

                                                                                                                                        2. transformação da visibilidade: no momento em que as interações se tornam
                                                                                                                                        independentes do compartilhamento do mesmo ambiente físico, os eventos
                                                                                                                                        envolvendo, tanto os fatos como as pessoas adquirem maior visibilidade. Isso
                                                                                                                                        porque há um aumento significativo do número de pessoas que passam a ter
                                                                                                                                        conhecimento de uma determinada situação. Políticos e líderes sociais tiveram
                                                                                                                                        que se adaptar a essa nova visibilidade;

                                                                                                                                        3. a globalização da comunicação: a crescente interconexão entre os diferentes
                                                                                                                                        pontos do mundo possibilita que atividades aconteçam numa arena que é global.
                                                                                                                                        Possibilita também que atividades sejam organizadas, planejadas ou coordenadas
                                                                                                                                        numa escala mundial envolvendo algum grau de reciprocidade e interdependências
                                                                                                                                        globais;

                                                                                                                                        4. a alteração da experiência do indivíduo num mundo mediado: o desenvolvimento
                                                                                                                                        da mídia aumentou a capacidade dos indivíduos de experimentarem, através da
                                                                                                                                        interação mediada, experiências que dificilmente aconteceriam na interação face
                                                                                                                                        a face. Ou, seja, o conhecimento local do indivíduo é complementado por co-
                                                                                                                                        nhecimentos não locais. A compreensão do mundo é, em grande parte, modelada
                                                                                                                                        pela mediação de formas simbólicas;




                                                                                                                                        5 THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
5. reinvenção da publicidade: para pensadores de dois séculos atrás, a liberdade




                                                                                                           $!
de expressão de pensamentos e opiniões só seria garantida na medida em que
a imprensa fosse independente do Estado. No entanto, com essa independência




                                                                                                         Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
novas ameaças surgiram, como os fortes interesses comerciais das organizações
da mídia, que voltaram a colocar em questão a imparcialidade dos veículos de
comunicação.

Todas essas repercussões alteraram significativamente os costumes e a cultura
da sociedade contemporânea que gradativamente vem se habituando a viver
num mundo interconectado. Isso fica ainda mais evidente quando se analisa o
impacto da internet e o conceito de conectividade ao qual ela remete. A internet,
de certa forma, confirma a teoria de Marshall McLuhan6 , sobre a mensagem não
estar somente embasada em seu conteúdo, mas principalmente, no meio que
se utiliza para sua transmissão. Ou seja, a modificação do meio de transmissão
já é um processo transformador de nossa relação com o ambiente.

Castells7 avança um pouco mais nessa lógica afirmando que as novas tecnologias
de informação e comunicação estão acarretando uma revolução tecnológica para
a sociedade. De acordo com ele, os registros históricos mostram que uma
revolução é caracterizada pela sua penetrabilidade, ou seja, está permeada em
todos os domínios da atividade humana. No caso da sociedade moderna, as
novas tecnologias têm possibilitado uma troca muito superior de informações e
conhecimentos, elementos que interferem em todos os aspectos da vida do
indivíduo.

Castells8 cita, ainda, as principais características do paradigma da tecnologia da
informação, a fim de descrever essa revolução e diferenciá-la das anteriores. A
primeira dessas características é que a matéria-prima dessa tecnologia é a
informação, ou seja, são tecnologias que agem sobre a informação, e não
informações que agem sobre a tecnologia. A segunda diz respeito ao fato de
que, como a tecnologia trabalha sobre a informação, e a informação integra
todos os aspectos da vida do indivíduo, todo o seu contexto acaba sendo atingido
constantemente por ela. A terceira diz respeito à tecnologia da informação


6 McLUHAN apud NEGROPONTE, Nicholas. A vida digital. 2. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1995. p. 14.
7 CASTELLS, Manuel. A era da informação: economia, sociedade e cultura. 5. ed. São Paulo: Paz e Terra,
2001.
8 Ibidem, p. 108.
possibilitando a formação de redes que incentivam o processo criativo. A quarta
                         $
                                                                                                                                        característica trata da flexibilidade da rede, que admite sua reconfiguração,
                                                                                                                                        permitindo que a tecnologia acompanhe a velocidade das mudanças. E, finalmente,
Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas...




                                                                                                                                        a quinta indica a convergência de diferentes tecnologias dentro de uma só, as
                                                                                                                                        hipermídias.

                                                                                                                                        Dessa forma, a sociedade da informação possui características muito próprias,
                                                                                                                                        ou seja, nela o conhecimento e as informações circulam livremente, permitindo
                                                                                                                                        seu compartilhamento e, em conseqüência, o aprimoramento constante das
                                                                                                                                        técnicas humanas. Eis a origem da rapidez das mudanças na contemporaneidade:
                                                                                                                                        novas tecnologias que possibilitam e incentivam a existência de um ambiente
                                                                                                                                        em intenso aperfeiçoamento.

                                                                                                                                        As organizações, segundo Castells, por estarem inseridas em um contexto so-
                                                                                                                                        cial, tendem a copiar os modelos de relação presentes no ambiente externo. Por
                                                                                                                                        esse motivo, há alguns anos, quando a velocidade das mudanças era mais lenta,
                                                                                                                                        o principal objetivo das empresas não era antecipar oportunidades de mudanças,
                                                                                                                                        mas sim, preservar o status nas relações já estabelecidas. Inclusive, a mudança
                                                                                                                                        apresentava-se como um risco. O objetivo era crescer quantitativamente no
                                                                                                                                        mercado e preservar o espaço até então conquistado.

                                                                                                                                        No entanto, hoje, as organizações encontram-se diante de uma nova realidade.
                                                                                                                                        As mudanças não são mais um risco ou uma opção, e sim uma certeza. O contexto
                                                                                                                                        está em constante reconfiguração, e as organizações necessitam acompanhar
                                                                                                                                        esse ritmo para sobreviver. Dessa forma, as empresas começam a perceber que
                                                                                                                                        a vantagem competitiva está na captação de informações que dêem indicações
                                                                                                                                        de oportunidades e ameaças. Ou seja, a estratégia de competir globalmente
                                                                                                                                        resulta na capacidade da empresa de captar as necessidades do mercado e
                                                                                                                                        desenvolver com rapidez um produto ou serviço que responda a essa demanda.

                                                                                                                                        Lévy9 afirma que quanto mais competitivo for o mercado, mais as organizações
                                                                                                                                        precisam se dedicar, sem cessar, à pesquisa e ao aprendizado para compreender,
                                                                                                                                        conceber, produzir, comunicar e vender. O mercado recompensará as empresas
                                                                                                                                        que souberem cultivar talentos, semear idéias e investir na sua inteligência
                                                                                                                                        competitiva. Dessa forma, as empresas mais competitivas serão as que mais
                                                                                                                                        souberem cooperar, tanto internamente quanto com seus clientes.


                                                                                                                                        9 LÉVY, Pierre. A conexão planetária: o mercado, o ciberespaço, a consciência. São Paulo: Ed. 34, 2001.
Todas essas alterações nas características do ambiente exigem uma mudança




                                                                                                           $#
na estrutura e na cultura das organizações. De acordo com Dan Tapscot,10 as
empresas, para executarem seu trabalho com sucesso na sociedade da informa-




                                                                                                         Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
ção, necessitarão adotar uma nova estrutura de trabalho. Isso significa propor o
abandono de uma hierarquia fechada para a adoção de uma hierarquia aberta
em rede. O quadro¹ detalha como o autor descreve em tópicos as características
principais dos dois tipos de estrutura:


 Organização                    Hierarquia fechada               Hierarquia aberta em rede

 Estrutura                      Hierarquia pirâmide              Em rede

 Orientação                     Voltada ao interior/fechada      Voltada ao exterior/ aberta

 Recurso-chave                  Bens e equipamentos              Recursos humanos, informação

 Posição                        Estática, estável                Dinâmica, mutante

 Pessoal                        Gestores                         Especialistas

 Modo de funcionamento          Recompensa e punição             Comprometimento

 Tipo de direção                Ordens vindas de cima            Responsabilidade pessoal

 Fundamento das ações           Controle                         Capacidade de agir

 Motivação individual           Satisfação dos superiores        Objetivos a alcançar em equipe

 Formação                       Tarefas específicas              Competências estendidas

 Base de retribuição            Posição hierárquica              Resultados obtidos, nível de
                                                                 competência

 Relações                       Concorrenciais (territórios)     Cooperativas (desafios
                                                                    compartilhados)

 Atitude do pessoal             Distanciamento                   Identificação

 Exigências principais          Gestão sadia                     Liderança

Quadro 1: Organização fundamentada na informação
Fonte: Adaptado de Tapscot (1997).


Como se pôde constatar, as sociedades organizadas em rede possuem uma
estrutura que permite e incentiva o compartilhamento de conhecimentos e o
surgimento de novas idéias, uma estrutura que incentiva o processo criativo. Já


10 TAPSCOT, Don. Economia digital: promessa e perigo na era da inteligência em rede. São Paulo: Makron
Books, 1997.
a organização de hierarquia piramidal parte do princípio de que os indivíduos
                         $$
                                                                                                                                        pensantes da organização resumem-se a uma pequena cúpula, que define as
                                                                                                                                        estratégias e políticas. Esse tipo de organização possui uma posição mercadoló-
Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas...




                                                                                                                                        gica estável, foca seu desenvolvimento nos seus bens e equipamentos, e possui
                                                                                                                                        uma visão mais voltada para seu interior. Cada colaborador tem tarefas específicas
                                                                                                                                        e se sente responsável somente por elas, porém sendo sempre controlado por
                                                                                                                                        seu superior. A recompensa pelo bom trabalho costuma ser a promoção para
                                                                                                                                        uma nova posição hierárquica, na qual se exerce maior poder sobre os outros.

                                                                                                                                        Numa organização aberta em rede, o líder tem como objetivo incentivar e auxiliar
                                                                                                                                        os colaboradores no desenvolvimento de suas atividades e competências, e não
                                                                                                                                        controlá-los, como na organização de hierarquia fechada. Na organização aberta
                                                                                                                                        em rede, tem-se um olhar atento voltado ao exterior para, assim, captar
                                                                                                                                        informações que permitam o ajuste com o ambiente; o incentivo é orientado para
                                                                                                                                        o desenvolvimento das competências de seus colaboradores, para que se tornem
                                                                                                                                        especialistas na área em que atuam; o comprometimento do funcionário é com a
                                                                                                                                        causa da empresa e com a da sua equipe de trabalho. Enfim, na empresa em
                                                                                                                                        rede, cada um possui uma visão clara de suas responsabilidades, buscando
                                                                                                                                        competência suficiente para desenvolvê-las e sendo recompensado pelos seus
                                                                                                                                        resultados. Para isso, o trabalho em equipe e o desenvolvimento das habilidades
                                                                                                                                        humanas constituem-se em elementos fundamentais.

                                                                                                                                        Assim, parece evidente que, no contexto da sociedade contemporânea, a estrutura
                                                                                                                                        de organização aberta em rede tem maior condição de garantir a adaptação das
                                                                                                                                        organizações, com vistas à sobrevivência. Até porque, esse modelo é capaz de
                                                                                                                                        comportar o desenvolvimento da inteligência organizacional, cujo conceito será
                                                                                                                                        estudado ao longo do capítulo, o que já não ocorre no modelo de hierarquia
                                                                                                                                        fechada. Ou seja, as empresas necessitam revisar seus conceitos e escolher ca-
                                                                                                                                        minhos que permitam a utilização de toda essa informação que se encontra es-
                                                                                                                                        palhada pelos meios, para obterem bons resultados. Afinal, como relata Castells,11
                                                                                                                                        a importância da revolução tecnológica não está na grande quantidade de
                                                                                                                                        informações centralizadas, e sim no uso que se fará dessas informações e desses
                                                                                                                                        conhecimentos para desenvolver a inovação e o aperfeiçoamento constantes.

                                                                                                                                        Nessa lógica, a informação e o conhecimento (quando estáticos) não possuem o
                                                                                                                                        valor em si mesmos. O valor desses elementos se encontra nos conteúdos


                                                                                                                                        11 CASTELLS, op. cit., p. 69.
dinamizados pelos fluxos que os orientam e no processo de troca e de interação




                                                                                                          $%
de mensagens. A comunicação é o elemento condutor de todo esse processo, e
será através dela que as organizações tornarão possível uma atitude mais




                                                                                                        Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
consciente e competitiva diante de seus públicos de interesse nesse contexto.
Portanto, o profissional de comunicação, para atuar com competência na
sociedade contemporânea, deve possuir uma visão sistemática e estratégica de
seu ambiente interno e externo.

           Nesse contexto, o profissional de relações públicas “moderno” tem de ser um “revolu-
           cionário”, saindo da passividade para a administração ativa do processo comunicacional,
           posicionando-se como um estrategista e não apenas como um mero reprodutor de
           recados da organização procurando aplicar os princípios da comunicação simétrica de
           duas mãos.12


Dessa forma, como defende também Bueno,13 a comunicação passa a integrar o
atual processo de gestão e partilha do conhecimento, incorporando sua prática e
sua filosofia ao chamado capital intelectual das organizações.

A função de relações públicas, dessa forma, apóia-se em metodologias, em
pesquisas, no desenvolvimento de novas teorias para novas situações e apóia-
se, sobretudo, na necessidade de dotar a comunicação de um novo perfil, de
passar de uma função tácita para uma função estratégica.



A estratégia
Fayard14 se refere à estratégia como a arte de saber usar as forças do ambiente
para gerar uma determinada situação. De acordo com ele, estratégia consiste
em combinar, no tempo e no espaço, meios heterogêneos a serviço de um fim.
Para tal combinação, é necessário um conhecimento profundo de si mesmo, do
outro e do ambiente, para, dessa forma, identificar o momento de agir, o melhor
local de ação, o inimigo, os meios e a forma de como usá-los para atingir um
objetivo.


12 KUNSCH, Margarida Maria Krohling. Obtendo resultados com relações públicas. São Paulo: Pioneira
Thomson Learning, 1997. p. 146.
13 BUENO, Wilson da Costa. Comunicação empresarial: teoria e pesquisa. Barueri: Manole, 2003.
14 FAYARD, Pierre. O jogo da interação: informação e comunicação em estratégia. Caxias do Sul: Educs,
2000. p. 59.
Ainda segundo Fayard, 15 a informação é um dos elementos essenciais da
                         $
                                                                                                                                        estratégia e é possível verificar a existência de oito elementos principais, todos
                                                                                                                                        interligados, que são fundamentais para a formulação de uma estratégia eficaz.
Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas...




                                                                                                                                        O primeiro deles é a informação, que aponta para a necessidade de estar atento
                                                                                                                                        às informações, com o olhar focado naquelas que realmente interessam, para
                                                                                                                                        assim compreender e identificar onde, quando e de que forma agir. Fayard alerta
                                                                                                                                        que o valor estratégico de uma informação cresce em proporção inversa à sua
                                                                                                                                        previsibilidade e à sua distribuição em longa escala. A informação mais valiosa
                                                                                                                                        não é aquela à que todos têm acesso, pois dessa todos têm consciência, mas
                                                                                                                                        sim aquela que proporciona um diferencial nas ações. Ele ressalta também que
                                                                                                                                        o mais importante na questão das informações não é seu acúmulo, mas sim o
                                                                                                                                        seu cruzamento e enriquecimento de acordo com os interesses do gestor, para a
                                                                                                                                        produção de um novo conhecimento.

                                                                                                                                        O domínio da informação proporciona o segundo elemento que é a liberdade de
                                                                                                                                        ação. Quanto mais informação o estrategista possuir, maior será a sua liberdade
                                                                                                                                        de ação, pois somente através do conhecimento do contexto é possível identificar
                                                                                                                                        os momentos e os locais em que existe liberdade para a ação. No momento em
                                                                                                                                        que se tem conhecimento de si e do outro, sabe-se o momento exato, tanto de
                                                                                                                                        se lançar quanto de recuar.

                                                                                                                                        Através da liberdade de ação é possível administrar o terceiro elemento: a
                                                                                                                                        economia dos meios. A partir do momento em que se tem pleno conhecimento
                                                                                                                                        das habilidades e das armas do adversário, é necessário organizar os recursos
                                                                                                                                        disponíveis de forma que se possa tirar o máximo proveito dos meios. Para
                                                                                                                                        exemplificar o princípio da economia dos meios, Fayard propõe que se pense na
                                                                                                                                        seguinte situação: um indivíduo participará de uma corrida de cavalos com três
                                                                                                                                        animais: um forte, um médio e um fraco. Ele possui pleno conhecimento de seu
                                                                                                                                        oponente e sabe que os cavalos do concorrente também são um forte, um médio
                                                                                                                                        e um fraco. Esse indivíduo sabe que os cavalos são o seu meio de ganhar a
                                                                                                                                        corrida e ele terá que usar os três, assim como seu oponente também terá que
                                                                                                                                        usar os três. Como esse indivíduo pode organizar seus cavalos para ganhar a
                                                                                                                                        corrida? De acordo com o princípio da economia dos meios, ele sacrificará seu
                                                                                                                                        cavalo fraco para correr com o forte do seu oponente e perderá uma corrida. Mas
                                                                                                                                        colocará seu cavalo médio correr com o fraco do seu oponente, e seu cavalo
                                                                                                                                        forte correr com o médio dele. Serão duas vitórias e uma derrota. Ou seja, esse


                                                                                                                                        15 FAYARD, op. cit.
princípio sugere organizar os meios de forma que se possa tirar um proveito




                                                                                         $'
maior de sua utilização. No entanto, para isso, é preciso ter um conhecimento
dos meios que temos para utilizar, e dos meios que o oponente tem. Sem essas




                                                                                       Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
informações torna-se impossível fazer essa combinação.

O quarto elemento diz respeito à formação de um sistema comunicante. É a
comunicação que permite a coesão e a organização de duas ou mais partes do
organismo. Para que as partes ajam de forma organizada e coerente com o todo,
elas precisam ter as informações e orientações necessárias para cumprirem
suas tarefas. E é através dos canais de comunicação que circulam as orientações
e as informações, e é através deles que os líderes controlam, monitoram e dispõem
suas equipes e seus meios.

A organização de um sistema comunicante possibilita o quinto elemento, o domínio
da interação das vontades. Ele consiste em saber estabelecer uma comunicação
com o outro, a fim de fazê-lo realizar as ações desejadas. “Não é o sedutor que
conquista, mas o seduzido que sucumbe às suas próprias tendências, às suas
expectativas, às suas esperanças e aos seus sonhos.”16 É induzir o oponente a
crer em informações que o levem a realizar ações favoráveis às nossas estratégias.

O sexto elemento é a geoestratégia. Consiste em conhecer o seu ambiente,
saber posicionar-se e mover-se nele. É ter um conhecimento do terreno que
possibilite identificar os espaços que o outro ocupa e os que se encontram
livres, assim como, também, entender o espaço que estamos ocupando. A
geoestratégia, metaforicamente, pode ser exemplificada através do jogo de go,
onde o objetivo é ocupar os espaços vazios e restringir a movimentação do
adversário. “Aquele que vê longe e combina conhecimento, mobilidade e conexões
longínquas, dispõe de uma potência desmedida em relação ao seu tamanho.”17

A cronoestratégia constitui o sétimo item. Ela cobre a pesquisa e o domínio do
tempo e dos ritmos de si mesmo e dos outros. Permite jogar com o tempo e
identificar a hora de agir e de recuar. O autor exemplifica o uso da cronoestratégia
através das artes marciais dos samurais. Os samurais usam o interstício do
tempo como o momento ideal para atacar o oponente. O interstício se refere ao
exato momento em que há uma parada para o início de outro movimento. Por


16 Ibidem, p. 53.
17 Ibidem, p. 45.
exemplo, quando se joga uma bola para cima, existe um pequeno intervalo de
                         %
                                                                                                                                        tempo que a bola fica parada antes de cair novamente. Assim também acontece
                                                                                                                                        com nossos movimentos, quando se acaba um movimento e inicia-se outro, há
Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas...




                                                                                                                                        um pequeno intervalo de tempo. De acordo com os samurais, esse intervalo de
                                                                                                                                        tempo é o melhor momento para atacar o oponente, pois ele não estará preparado
                                                                                                                                        para se defender. Para localizar esse momento exato, é necessário conhecer o
                                                                                                                                        ritmo de movimentação do inimigo.

                                                                                                                                        O oitavo e último elemento é a decisão. A arte da estratégia consiste em pensar
                                                                                                                                        nas interações com os outros atores, sejam elas conflituais ou cooperativas, a
                                                                                                                                        fim de prever conceitualmente a resolução mais adequada. Porém, de nada
                                                                                                                                        adianta todo o conhecimento do contexto, se não se tomar nenhuma postura,
                                                                                                                                        posição a partir disso. A estratégia é constituída de ações com base no
                                                                                                                                        conhecimento adquirido.

                                                                                                                                        Os elementos que constituem a estratégia, na visão de Fayard, são interligados
                                                                                                                                        e dependentes. De um bom conhecimento da situação e da análise das
                                                                                                                                        informações, resultam a liberdade de ação, a cronoestratégia e a geoestratégia.
                                                                                                                                        Estas, aliadas a uma boa comunicação, permitem que se aja no ambiente, no
                                                                                                                                        momento e na forma mais adequados.

                                                                                                                                        Na visão de Fayard, a informação desempenha uma função muito importante:

                                                                                                                                                   O conhecimento de si e do outro assegura o êxito de todo o empreendimento porque, a
                                                                                                                                                   partir deste conhecimento, sabe-se quando, onde e como se engajar ou não se engajar. A
                                                                                                                                                   conquista da liberdade de ação será tão mais possível na medida do nível de informação
                                                                                                                                                   que permite a previsibilidade do comportamento do adversário.18


                                                                                                                                        A informação, nesse sentido, serve como um guia para a ação. Ela permite um
                                                                                                                                        mapeamento da situação que possibilita pensar a melhor estratégia. Sobre a
                                                                                                                                        estratégia no contexto organizacional, Mintzberg e cols.19 identificam e organizam
                                                                                                                                        os conceitos segundo diferentes escolas de pensamento. Na análise de tais
                                                                                                                                        escolas, percebe-se que também no universo da estratégia orientada para as
                                                                                                                                        organizações a informação é elemento fundamental.



                                                                                                                                        18 Ibidem, p. 27.
                                                                                                                                        19 MINTZBERG, Henry; AHLSTRAND, Bruce; LAMPEL, Joseph. Safari de estratégia: um roteiro pela selva
                                                                                                                                        do planejamento estratégico. Porto Alegre: Bookman, 2000.
%
        Escola                          Descrição                                     Informação

Design             Defende que estratégias eficazes derivam de um – informações simples e objetivas sobre
                   processo de pensamento humano rigidamente            o ambiente e as atividades da em-




                                                                                                                   Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
                   controlado. A responsabilidade pelo controle e a     presa para análise do líder.
                   percepção da estratégia devem ser do executivo prin-
                   cipal. Esse deve adequar as competências internas
                   da organização às ameaças e oportunidades do
                   ambiente, para formular uma estratégia de pers-
                   pectiva para a empresa.

Planejamento       Prega que as estratégias devem seguir um pro- – informações e dados para a fase de
                   cedimento formal decomposto em várias etapas, são       auditoria interna e externa.
                   elas: fixação de objetivos, traçar as principais metas
                   da organização; auditoria externa, avaliar as condições
                   externas; auditoria interna, estudo das forças e fra-
                   quezas da organização; operacionalização da
                   estratégia, formulação de planos operacionais e
                   programas de ação.

Posicionamento     A estratégia é uma escolha de posicionamento da – informações das características do
                   empresa no mercado.                               ambiente.

Empreendedora      Focaliza a formação de estratégia num líder, levando – informações e conhecimentos adqui-
                   em consideração processos como intuição, julga-        ridos na experiência e no dia-a-dia do
                   mento e experiência.                                   negócio.

Cognitiva          Analisa a formação da estratégia através da esfera – a importância e o foco das informa-
                   da cognição da mente do estrategista.                ções e sua interpretação vão depen-
                                                                        der da estrutura cognitiva do analista.

Aprendizado        Sugere que a estratégia seja como um processo – a informação deve ser dividida e
                   constante de aprendizado.                       compartilhada com todos.

Poder              Caracteriza a formação de estratégia como um – informações sobre os interesses das
                   processo aberto de influência, enfatizando o uso do pessoas envolvidas.
                   poder e da política para negociar estratégias
                   favoráveis a determinados interesses.

Cultural           Sugere que a formação de estratégia é um processo – informações de importância para as
                   enraizado na força social da cultura. Preocupa-se em   empresas vão depender da sua
                   grande parte com a influência da cultura na manutenção cultura organizacional.
                   da estabilidade estratégica e, em alguns casos,
                   resistindo ativamente às mudanças estratégicas.

Ambiental          Trata do conjunto de forças fora da organização que – informações ambientais possibilitam
                   os teóricos gostam de chamar ambiente. Essa escola    a adaptação da organização.
                   ajuda a colocar em equilíbrio a visão global da
                   formação da estratégia, posicionando o ambiente
                   como uma das três forças centrais no processo, ao
                   lado da liderança e da organização.

Configuração       Essa escola descreve a organização e o contexto como – informações sobre todas as áreas que
                   uma configuração e a estratégia como o processo de     influenciam as atividades da empresa.
                   transformação da configuração.

Quadro 2: Resumo das características das escolas de estratégia
Fonte: Elaborado pelos autores.
Em um ponto todas as escolas concordam: toda a estratégia, para ser bem-
                         %
                                                                                                                                        sucedida, é baseada em um conhecimento profundo da situação em análise.
                                                                                                                                        Isso decorre do fato de que a estratégia deve levar em consideração não somente
Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas...




                                                                                                                                        as condições externas e internas de uma organização, mas também os jogos
                                                                                                                                        de interesse, a cognição humana, a cultura empresarial, o processo de
                                                                                                                                        aprendizagem e a liderança. No entanto, para a construção desse conhecimento,
                                                                                                                                        são necessárias muita reflexão e a busca de informações que a subsidiem. Por
                                                                                                                                        esse motivo, considera-se a informação como um elemento-chave na formulação
                                                                                                                                        de estratégias.

                                                                                                                                        Em matéria de estratégia, as novas mídias aumentaram significativamente as
                                                                                                                                        dimensões dos terrenos de manobra, atalhando os caminhos e mobilizando um
                                                                                                                                        espaço planetário. Isso reforça não apenas a importância da informação, como
                                                                                                                                        também a da iniciativa e da ação. Como esclarece Fayard,20 a questão da relação
                                                                                                                                        entre informação, comunicação e estratégia é tão velha quanto a humanidade,
                                                                                                                                        no entanto, os recursos técnicos disponíveis para lhe fazer frente conhecem hoje
                                                                                                                                        uma amplitude inigualável.

                                                                                                                                        As atuais tecnologias digitais desempenham o papel de buscar um padrão comum
                                                                                                                                        para os dados, onde os mesmos são gerenciados com maior facilidade. Assim,
                                                                                                                                        a rede permite que se ganhe tempo e precisão.

                                                                                                                                                   Na era da digitalização, as temporalidades diferem pelo fato da facilidade e da grande
                                                                                                                                                   rapidez das transmissões e, sobretudo, das capacidades em inteligência: captura de
                                                                                                                                                   informações, tratamento e tomada de decisão em tempo real e em função da apreciação
                                                                                                                                                   das variações nas circunstâncias.21


                                                                                                                                        De acordo com Fayard, para fazer a diferença, hoje, é necessário primeiro
                                                                                                                                        inteligência para criar ligações entre as informações coletadas, ou seja, ter um
                                                                                                                                        conhecimento combinatório. Em seguida, é preciso aptidão para acelerar uma
                                                                                                                                        idéia ou um projeto, porque o tempo se sobrepõe ao espaço e ao ritmo. Uma boa
                                                                                                                                        idéia precisa de rapidez.

                                                                                                                                                   No presente, a compreensão do processo que vai da identificação de dados à decisão da
                                                                                                                                                   execução, aparece como uma nova forma de segurança. De que serve angustiar-se
                                                                                                                                                   quanto à proteção de seus dados se, no momento em que a concorrência os alcança, a
                                                                                                                                                   etapa de sua exploração completa já se iniciou? A energia economizada na proteção é,

                                                                                                                                        20 Ibidem, p. 22.
                                                                                                                                        21 Ibidem, p. 127.
%!
           então, investida na ação. A informação e a comunicação, pelo conhecimento e organiza-
           ção que proporcionam, dispõem hoje de instrumentos que revolucionam a maneira de
           definir e de conduzir a estratégia.22




                                                                                                    Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
Na sociedade contemporânea, a informação e a comunicação são elementos-
chave para boas estratégias. A informação permite que a empresa tenha subsídios
para uma decisão rápida e consistente. A comunicação permite que essa decisão
seja colocada em ação. E a iniciativa possibilita que a empresa atue com agilidade.



Tecnologias da informação
Conforme Porter e Montgomery,23 as empresas, ao utilizarem a informação para
desenvolver uma vantagem competitiva, reconhecem a necessidade da gestão
das novas tecnologias de informação. Assim, o valor gerado pela empresa é
mensurado pela totalidade de pacotes de benefícios, de serviços e de informações
produzida pelos serviços ou produtos.

Dessa forma, as novas tecnologias alteram o que o autor denomina “escopo
competitivo”, que nada mais é do que a amplitude que as atividades da empresa
alcançam na sociedade:

           A tecnologia da informação está permeando todos os pontos da cadeia de valores,
           transformando a maneira como as atividades de valor são desempenhadas e a natureza
           dos elos entre elas. Também está afetando o escopo competitivo e reformulando a ma-
           neira como os produtos satisfazem as necessidades dos compradores. Esses efeitos bá-
           sicos explicam por que a tecnologia da informação adquiriu significado estratégico e é
           diferente das muitas outras tecnologias utilizadas.24


Nessa linha de pensamento, Porter explica, ainda, que as atividades de valor de
um produto ou serviço apresentam um componente físico e um componente de
informação. O componente físico inclui todas as tarefas necessárias para o
desempenho da atividade. O componente de informações abrange os passos
para a captação, manipulação e distribuição dos dados necessários ao
desempenho da atividade.


22 Ibidem, p. 137.
23 PORTER, Michael E.; MONTGOMERY, Cynthia A. Estratégia: a busca da vantagem competitiva. 7. ed.
Rio de Janeiro: Campus, 2002.
24 Ibidem, p. 88.
Ao longo da maior parte da história da indústria, o progresso tecnológico afetou
                         %
                                                                                                                                        principalmente o componente físico das empresas. Hoje, constata-se a alteração
                                                                                                                                        do ritmo da mudança tecnológica. A tecnologia da informação está progredindo
Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas...




                                                                                                                                        com maior velocidade do que as tecnologias de processamento físico.

                                                                                                                                        Além de influenciar o desempenho das atividades individuais, a tecnologia da
                                                                                                                                        informação, através dos novos fluxos, amplia em muito a capacidade da empresa
                                                                                                                                        de explorar os elos entre as atividades, nos âmbitos interno e externo, pois ela
                                                                                                                                        possibilita uma comunicação e uma troca de informações mais constantes e
                                                                                                                                        com um alcance muito maior.

                                                                                                                                        Finalmente, a tecnologia da informação exerce um impacto poderoso sobre o escopo
                                                                                                                                        competitivo. Os sistemas de informação permitem que as empresas coordenem
                                                                                                                                        as atividades de valor entre localidades geográficas com grande dispersão. Além
                                                                                                                                        disso, a tecnologia da informação está criando muitos inter-relacionamentos novos
                                                                                                                                        entre as empresas, ao expandir o escopo setorial em que deve competir para
                                                                                                                                        conquistar a vantagem competitiva. Constata-se uma tendência inquestionável no
                                                                                                                                        sentido da expansão do conteúdo de informação dos produtos. Esse componente,
                                                                                                                                        combinado às mudanças na cadeia de valores das empresas, destaca o papel
                                                                                                                                        cada vez mais estratégico da tecnologia de informação.25

                                                                                                                                        A tecnologia da informação também tem uma grande importância para a imple-
                                                                                                                                        mentação da estratégia. Os sistemas de relatório são capazes de acompanhar o
                                                                                                                                        progresso das ações para atingir os objetivos já definidos. Através dos sistemas de
                                                                                                                                        informação, as empresas quantificam as atividades com maior exatidão para a im-
                                                                                                                                        plementação das estratégias, podendo verificar os ajustes necessários.

                                                                                                                                        Todavia, a grande quantidade de informações disponíveis nos ambientes das
                                                                                                                                        organizações somente terá um caráter estratégico a partir do momento em que
                                                                                                                                        soubermos usá-las eficazmente. É preciso estar vigilantes aos acontecimentos,
                                                                                                                                        e o alimento básico da vigília é a informação.

                                                                                                                                        Diante dessa preocupação, torna-se evidente a atenção que deve ser dada aos
                                                                                                                                        estudos sobre metodologias, processos e ferramentas que possam auxiliar na
                                                                                                                                        coleta e no tratamento dessa grande quantidade de informações.




                                                                                                                                        25 Ibidem, p. 92.
Para tanto, inicialmente, é necessário desmitificar a definição do termo informação,




                                                                                                        %#
pois se nota que existe uma dificuldade teórica em esclarecer esse conceito.
Informação deve ser diferenciada do dado e do conhecimento. Embora muitas




                                                                                                      Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
vezes os três conceitos sejam complementares e partem de um mesmo processo,
essa diferenciação pode ser útil para uma análise mais profunda. Dados, como
define Davenport,26 são “observações sobre o estado do mundo”. Por exemplo:
“30% da população brasileira é de classe média”. Ou seja, dados são estáticos,
não têm vínculo contextual direto e normalmente podem ser quantificados. São
facilmente capturados e processados por tecnologias.

Já a informação é contextualizada e exige toda uma análise no seu processamento.
Conforme definição de Drucker,27 a informação é um dado dotado de relevância e
propósito. Ou seja, a informação depende dos interesses de quem a analisa. Apesar
de suas diferenças, dado, informação e conhecimento são elementos de um só
processo. Informação é a atribuição de sentido para um dado, e o conhecimento é
a informação contextualizada. Essa construção ocorre quando o indivíduo dá a
uma informação uma interpretação e um significado e consegue considerar as
suas implicações em seu contexto. Para detalhar melhor as características desses
três elementos, observemos o quadro,³ proposto por Davenport:28


               Dado                         Informação                     Conhecimento
 Simples observações                Dados dotados de               Informação valiosa da mente
 sobre o estado do mundo            relevância e propósito         humana, inclui reflexão,
                                                                   síntese e contexto.
 – Facilmente estruturado           – Requer unidade de            – De difícil estruturação
 – Facilmente obtido por              análise                      – De difícil captura em
   máquinas                         – Exige consenso em              máquinas
 – Freqüentemente quantificado        relação ao significado       – Freqüentemente tácito
 – Facilmente transferível          – Exige necessariamente a      – De difícil transferência
                                      mediação humana

Quadro 3: Dado, informação e conhecimento28




26 DAVENPORT, Thomas H. Ecologia da informação: por que só a tecnologia não basta para o sucesso na
era da informação. São Paulo: Futura, 1998.
27 DRUCKER apud DAVENPORT, op. cit., p. 19.
28 Ibidem, p. 18.
Como se pôde notar no quadro, o envolvimento humano, nesse processo, aumenta
                         %$
                                                                                                                                        à medida que se passa de dados a informações e a conhecimentos. Por esse
                                                                                                                                        motivo, Davenport traz uma abordagem ecológica da informação, na qual propõe
Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas...




                                                                                                                                        uma administração informacional centrada no ser humano.

                                                                                                                                        Por meio da abordagem ecológica, Davenport explica que devemos perder a ilusão
                                                                                                                                        do controle sobre a informação. Nunca conseguiremos satisfazer a necessidade
                                                                                                                                        de saber de tudo, isso é impossível. Por esse motivo, é necessário, a partir dos
                                                                                                                                        interesses dos indivíduos, estabelecer prioridades que definirão focos de
                                                                                                                                        observação. Como afirma Drucker, é necessário se perguntar: De que informação
                                                                                                                                        necessito? Sob que forma e quando? A quem devo e que tipo de informação?

                                                                                                                                        A abordagem ecológica do processo informacional recomenda, em geral, que
                                                                                                                                        inicialmente é preciso integrar os diversos tipos de informação. As informações
                                                                                                                                        podem ser não-estruturadas, como o conhecimento; estruturada em papel,
                                                                                                                                        registros e documentos; ou estruturada em computador, como as tecnologias da
                                                                                                                                        informação. Um bom gerenciamento da informação deve levar em consideração
                                                                                                                                        esses três tipos. Após, é necessário reconhecer e acompanhar as mudanças
                                                                                                                                        nos ambientes informacionais e ter ferramentas e metodologias flexíveis. É
                                                                                                                                        também preciso estar atento aos comportamentos pessoal e informacional dos
                                                                                                                                        indivíduos envolvidos no processo.

                                                                                                                                        Levando em consideração esse aspecto da informação, surge a necessidade do
                                                                                                                                        uso de uma metodologia que auxilie no tratamento das informações, com o objetivo
                                                                                                                                        de embasar o processo de tomada de decisões, uma metodologia que contribua
                                                                                                                                        para transformar uma grande quantidade de dados em conhecimento estratégico.



                                                                                                                                        Inteligência estratégica
                                                                                                                                        A inteligência estratégica é uma metodologia que teve grande influência das
                                                                                                                                        práticas e dos conhecimentos das inteligências militar e governamental. É um
                                                                                                                                        processo sistemático e formal que tem o objetivo de reter, a partir de um
                                                                                                                                        emaranhado de informações, aquelas que são críticas ao processo decisório.
                                                                                                                                        Segundo Tyson,29 ela pode ser definida como um processo ético de coleta,


                                                                                                                                        29 TYSON apud BELLO, Bruno Carneiro de et al. Inteligência: colaborando para competir. In: SIMPEP, 11.,
                                                                                                                                        2004, Bauru. Anais... Bauru, 2004. p. 1-12. v. 1.
tratamento, análise e disseminação da informação sobre os ambientes de inter-




                                                                                                          %%
esse da empresa, visando subsidiar o processo decisório e alcançar as metas
estratégicas da organização, de forma sistêmica e rotineira.




                                                                                                        Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
Os principais objetivos da inteligência estratégia são reduzir a incerteza na tomada
de decisão, evitar surpresas de mudanças ambientais e obter vantagem com-
petitiva pela redução do tempo de reação e melhorar o posicionamento estratégico
da organização.



Principais etapas
Em termos operacionais, o processo de inteligência estratégica passa por várias
etapas. A primeira é fundamentada num trabalho de sensibilização, que consiste
na sua apresentação para a direção e equipes da empresa, abordando principal-
mente quais suas vantagens, qual apoio será necessário e quais as dificuldades
que o processo pode encontrar. Em outras palavras, é a obtenção da compreensão,
do apoio e da colaboração da direção e das equipes da organização.

A segunda etapa é a identificação das reais necessidades de informação, para
saber o que coletar e com que propósito. Essa etapa pode ser aplicada através
de uma entrevista com os principais gestores da organização visando a identificar
os focos e as prioridades necessárias de informação, para assim gerar a inteligên-
cia adequada. De acordo com Herring,30 normalmente as necessidades de
inteligência de uma empresa podem ser enquadradas em três categorias: as que
são úteis para embasar a decisão e a ação estratégica; as antecipativas, que
alertam para as mudanças do ambiente; e as que descrevem a situação dos
públicos com os quais a empresa tem um envolvimento. As três devem ser
levadas em consideração.

A terceira etapa é a da escolha das fontes de consulta e das ferramentas
adequadas para o processamento da informação. É fundamental identificar as
fontes de informação externas e internas e qual ferramenta pode auxiliar na sua
busca ou no seu armazenamento. Somente então, dentro do foco já determinado,
inicia-se a busca das informações de interesse.


30 HERRING apud MILLER, Stephen H.; PRESCOTT, John E. Inteligência competitiva na prática: técnicas e
práticas bem-sucedidas para conquistar mercados. Rio de Janeiro: Campus, 2002.
Após, realiza-se o processamento e a análise das informações. Essa etapa
                         %
                                                                                                                                        consiste em interpretar, analisar e filtrar os dados coletados. Esse processamento
                                                                                                                                        começa com a validação das informações coletadas. É preciso avaliar a confia-
Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas...




                                                                                                                                        bilidade da fonte e da informação e, após, é necessário arquivar e catalogar os
                                                                                                                                        dados recolhidos. Para essa tarefa é exigido um conhecimento quanto à natureza
                                                                                                                                        do assunto ao qual a informação se refere. Em seguida, faz-se a interpretação
                                                                                                                                        das informações com o objetivo de obter um significado dos dados brutos para
                                                                                                                                        guiar a decisão. A interpretação demanda todo um processo cognitivo, e os indi-
                                                                                                                                        víduos que dela participarem devem ter um bom entendimento do ambiente
                                                                                                                                        organizacional.

                                                                                                                                        O próximo passo é a comunicação, ou seja, a disseminação da informação aos
                                                                                                                                        indivíduos que necessitam dela para realizar seu trabalho. É o processo por meio
                                                                                                                                        do qual o produto do esforço de uma organização em adquirir, processar e
                                                                                                                                        interpretar uma informação é disseminado por toda a sua estrutura. Sem uma
                                                                                                                                        boa comunicação, todo o processo de busca e análise das informações perde
                                                                                                                                        seu significado. A informação só tem valor se for comunicada para as pessoas
                                                                                                                                        certas no momento certo.

                                                                                                                                        Um processo de inteligência estratégica não deve se desviar de seus objetivos
                                                                                                                                        principais. Ele tem a finalidade de fornecer informação crítica para os tomadores
                                                                                                                                        de decisão. Para tanto, é muito importante que se faça um esforço para identificar
                                                                                                                                        os problemas centrais da organização, de modo que o processo de inteligência
                                                                                                                                        possa contribuir para a criação do conhecimento entre os indivíduos.

                                                                                                                                        Através da análise de diversos casos sobre inteligência estratégica, Miller e
                                                                                                                                        Prescott31 definiram alguns pontos sobre os quais deve-se ter atenção redobrada
                                                                                                                                        na implementação de processos de inteligência. Um dos pontos que mais têm
                                                                                                                                        causado frustração nesses processos é a definição do foco das necessidades de
                                                                                                                                        informação da empresa. Um erro nessa definição coloca a perder todo o processo,
                                                                                                                                        pois a informação só possui importância a partir dos interesses do indivíduo ou da
                                                                                                                                        organização. Portanto, sem uma definição precisa dos focos de observação, o
                                                                                                                                        processo de inteligência poderá produzir somente informações inutilizáveis.

                                                                                                                                        Outro cuidado que deve ser tomado é no momento de comunicar as informações,
                                                                                                                                        pois os indivíduos precisam confiar na credibilidade das mesmas. Para tanto, a


                                                                                                                                        31 MILLER, op. cit.
apresentação de números, entrevistas ou fotos pode oferecer uma compreensão




                                                                                        %'
mais rica. Uma boa tática é uma comunicação redundante, pois os indivíduos
têm diferentes preferências quanto ao modo como gostam de receber as infor-




                                                                                      Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
mações. Vale também lembrar que falhas de âmbito ético comprometerão toda a
credibilidade e confiança.

A inteligência estratégica não funciona como um efeito mágico. Ela é um processo
evolutivo, construído passo a passo, que envolve a cultura organizacional e sua
estrutura social. Por esse motivo, paralelamente, a organização deve desenvolver
planos de conscientização do conceito, do funcionamento e da importância da
inteligência estratégica, além de criar incentivos para o envolvimento de todos
neste processo.

O diagnóstico de nossa pesquisa mostra que o contrário do que diz o folclore
popular, os mecanismos comportamentais e políticos não são as principais
barreiras ao fluxo de informações. As principais são os sistemas organizacionais
e os diferentes modelos mentais.32

Portanto, a organização deve criar uma estrutura que incentive a interação entre
os indivíduos.

E, finalmente, a inteligência estratégica é um processo, e, como tal, deve ser
periodicamente avaliada e ajustada conforme as necessidades empresariais.

A estrutura de aplicação da inteligência competitiva pode ser complementada
através da vigília estratégica.



Vigília estratégica
A metodologia de vigília estratégica funciona como um radar de navio, que tem
por objetivo alertar sobre os obstáculos que podem surgir no caminho. É um
processo informacional através do qual a organização realiza uma escuta an-
tecipativa dos sinais fracos do seu ambiente, com o objetivo de criar oportunidades
e reduzir a incerteza. As informações decorrentes da vigília estratégica não são



32 Ibidem, p. 33.
informações que vêm à empresa de forma espontânea, são informações que
                         
                                                                                                                                        necessitam ser procuradas.
Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas...




                                                                                                                                        As informações que constituem os processos de vigília estratégica costumam
                                                                                                                                        ser antecipativas, qualitativas, incertas e fragmentadas. São antecipativas porque
                                                                                                                                        alertam sobre mudanças que estão começando e que podem constituir uma
                                                                                                                                        oportunidade ou uma ameaça. Têm o objetivo de alertar com tempo suficiente
                                                                                                                                        para uma ação. São qualitativas, pois dão indícios de um futuro próximo; não
                                                                                                                                        são conclusões de uma análise do passado ou de verificações contábeis. São
                                                                                                                                        incertas, pois constituem indícios, pistas, sinais, hipóteses do que pode vir a
                                                                                                                                        acontecer. E, finalmente, são fragmentadas. As informações da vigília costumam
                                                                                                                                        se apresentar sob a forma de trechos pacientemente coletados, reunidos,
                                                                                                                                        interpretados e validados. Isoladamente, cada informação é desconexa,
                                                                                                                                        entretanto, quando relacionada a outras adquire um significado.

                                                                                                                                        A vigília é um sistema de monitoramento para determinar o que acontecerá e
                                                                                                                                        verificar, ao longo do tempo, se as hipóteses levantadas continuam válidas. Ela
                                                                                                                                        trabalha com a análise de sinais fracos, que são indicadores de tendências. A
                                                                                                                                        vigília é muito importante na construção de estratégias.

                                                                                                                                        Segundo Fachinelli33 , uma célula de vigília segue passos semelhantes aos que
                                                                                                                                        conduzem um processo de inteligência estratégica, iniciando pela fase de
                                                                                                                                        apropriação do projeto por parte dos gestores da organização.

                                                                                                                                        A segunda fase é o mapeamento dos potenciais. Realizar uma espécie de auditoria
                                                                                                                                        interna, analisando o sistema informacional atual da empresa e suas necessi-
                                                                                                                                        dades. Avaliar como a organização tem usado a informação e como seus membros
                                                                                                                                        lidam com ela.

                                                                                                                                        A definição do foco de observação constitui a terceira fase, o que implica a
                                                                                                                                        identificação dos fatores críticos de sucesso. Ou seja, identificar as variáveis
                                                                                                                                        cujo gerenciamento pode afetar a posição competitiva de uma empresa dentro
                                                                                                                                        de um ramo de atividade. São os fatores que devem ser prioritários na observação
                                                                                                                                        pela sua importância. A vigília deve ter seus focos de observação bem deter-
                                                                                                                                        minados para não cair num estado de cegueira estratégica.


                                                                                                                                        33 FACHINELLI, Ana C. Elementos metodológicos de vigília e de inteligência econômica para o
                                                                                                                                        processamento de informações organizacionais. Conexão, Caxias do Sul: Educs, v. 2, n. 1, dez./2003.
Após, segue-se com a etapa da formação da rede de especialistas, que auxiliarão




                                                                                                            
na análise da informação. Cada foco de observação consiste num tema de
interesse da empresa, e a cada foco estará ligado um especialista no assunto




                                                                                                          Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
em questão. Esse especialista terá como função validar e evidenciar as
informações estratégicas.

Em seguida, definem-se as fontes e os instrumentos de coleta. A vigília tem,
basicamente, como fontes de informações: notícias publicadas na imprensa,
banco de dados, internet, publicações de agências governamentais e o diálogo
com outros indivíduos. De acordo com as fontes de pesquisa, serão definidos os
instrumentos de consulta.

A próxima fase é a de validação das informações. Uma vez recolhidas, as
informações passam pelos especialistas para verificação de sua validade e
pertinência. E, finalmente, após tratadas, as informações devem ser comunicadas
aos diversos membros envolvidos no processo.

Um dos problemas que podem surgir na implementação da célula de vigília é a
dificuldade de criar significado através das informações coletadas. Após a coleta
de sinais fracos, o resultado será um conjunto de informações dispersas sem
grande significado e em desordem. Para se produzir um significado a partir disso,
são necessárias muita análise, criatidade e capacidade para identificar vínculos.

Lesca e Freitas34 sugerem o uso do conceito de PUZZLE para organizar a infor-
mação de forma a fazer emergir um significado. Inicialmente, coletam-se os sinais
fracos da área do foco de atenção. Listam-se todas as informações coletadas,
resumindo-as em poucas e essenciais palavras. Em seguida, produz-se uma
disposição espacial para essas informações, na qual algumas se aproximam
mais de umas do que de outras. A representação espacial deve ser constituída
em forma de rede. No centro, é colocada a informação principal, que é o foco de
observação. Em torno desse centro, são distribuídas as informações-satélites.
Veja-se o exemplo a seguir, apresentado por Lesca e Freitas, na figura 1.




34 LESCA, Humberto; FREITAS, Henrique M. R. Como dar senso útil às informações dispersas para
facilitar as decisões e ações dos dirigentes: o problema crucial da inteligência competitiva através da
construção de “PUZZLE”. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 1996. (Série Documentos para Estudos, n. 6).
Informações coletadas relativas à companhia IBM
                         

                                                                                                                                           1.  IBM@ acentua a separação entre os softwares e os serviços.
                                                                                                                                           2.  IBM@ coloca a escuta do cliente em prioridade.
Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas...




                                                                                                                                           3.  IBM@ coloca as preocupações dos clientes em prioridade.
                                                                                                                                           4.  O fornecimento de serviços será objeto de um contrato entre IBM@ e
                                                                                                                                               seu cliente.
                                                                                                                                           5. IBM@ se orienta para os serviços.
                                                                                                                                           6. IBM@ inflete (reorienta) sua estratégia.
                                                                                                                                           7. IBM@ se dividirá em muitas sociedades.
                                                                                                                                           8. IBM@ decepciona seus clientes.
                                                                                                                                           9. IBM@ nomeia um diretor-geral de serviços.
                                                                                                                                           10. Centralização: IBM@ planeja controlar todas as suas filiais.
                                                                                                                                           11. IBM@ e DE@ se juntam para a gestão das redes.
                                                                                                                                           12. IBM@ majoritária na (empresa). Pyrénées Informática


                                                                                                                                                            Exemplos de links entre sinais anunciadores
                                                                                                                                                               reagrupados em torno de um tema35

                                                                                                                                                                                                IBM se
                                                                                                                                                                                              dividirá em
                                                                                                                                                                                               diversas      IBM se interessa
                                                                                                                                                       IBM reflete sua estratégia                              pelo mercado
                                                                                                                                                                                              empresas
                                                                                                                                                                                                                  japonês


                                                                                                                                                                IBM se reposiciona                Desorientação??




                                                                                                                                                                           IBM se orienta para os serviços

                                                                                                                                                                                                               Resultado?
                                                                                                                                                                Contradição
                                                                                                                                                                                                             IBM “de bem”

                                                                                                                                                      IBM e DEC                              Golpe surpresa?! com o lucro
                                                                                                                                                    se aliam para a
                                                                                                                                                                      IBM, novo produto de
                                                                                                                                                   gestão das redes                                          IBM compra a CGI
                                                                                                                                                                      reconhecimento vocal

                                                                                                                                                                                     IBM majoritária na Pyrénées Informática




                                                                                                                                        35 Idem.
O resultado é a formação de uma rede que é ligada por vínculos. Os vínculos




                                                                                                      !
podem ser de diversas origens: vínculo de confirmação – quando uma informação
afirma o conteúdo de outra; – vínculo de contradição – quando uma informação é




                                                                                                    Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
antagônica a outra; – vínculo da causa e efeito – quando uma informação revela
ser conseqüência de outra; – vínculo de analogia – quando uma informação é
semelhante a outra; e – vínculo de proximidade – quando as informações se
referem ao mesmo assunto, mas são independentes. O objetivo desses vínculos
é produzir um sentido. Percebe-se que, embora a inteligência e a vigília estratégica
tenham processos semelhantes, elas possuem abrangência e enfoques um pouco
diferenciados. A vigília é focada para as informações antecipatórias e, além da
observação contínua dos focos, também pode ser usada somente para um assunto
em questão. Já a inteligência possui uma natureza mais abrangente e congrega
todas as estratégias da empresa. Mas, como afirmam Fachinelli, Mattia e Rech,36
essas duas metodologias “são sob certo aspecto complementares, pois a riqueza
metodológica da vigília é essencial a toda a criação de inteligência assim como
as intenções estratégias e a interação enriquecem em retorno aos procedimentos
de vigília”. Ou seja, ambos os processos se complementam.



Relações públicas
Devido à importância que a informação tem para a atividade de relações públicas,
o profissional responsável por essa área pode e deve utilizar metodologias de
pesquisa e processamento da informação para elaborar suas ações. Devido à
circulação de alta quantidade de informações, proporcionada pelas novas
tecnologias, metodologias como inteligência e vigília estratégicas podem ser muito
úteis para dotar a atividade desse profissional de um caráter estratégico.

Neste artigo, a definição de Relações Públicas é de que esse profissional exerce
uma função política e, portanto, estratégica, na qual ele é o responsável pela
administração dos interesses da organização com os interesses de seus públicos.
Para tanto, o Relações Públicas precisa se basear num profundo conhecimento,



36 FACHINELLI, Ana C.; MATTIA, Olivar, M.; RECH, Jane. A dinâmica da informação na comunicação
organizacional: a perspectiva do hipertexto e da autopoiese. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS
DA COMUNICAÇÃO, 28., 2005, Rio de Janeiro. Anais... São Paulo: Intercom, 2005. CD-ROM. Disponível
em: http://reposcom.portcom.intercom.org.br/bitstream/1904/17608/1/R1647-1.pdf . Acesso em: 30
abr. 2006.
tanto da empresa quanto de seus públicos, para orientar a execução das ações
                         
                                                                                                                                        que necessitam ser empreendidas com vistas à satisfação dos públicos e objetivos
                                                                                                                                        da organização. De acordo com Simões,37 os principais objetivos do profissional
Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas...




                                                                                                                                        de Relações Públicas é otimizar o processo decisório organizacional nas políticas
                                                                                                                                        e atividades de relações públicas e estabelecer a integração dos grupos que
                                                                                                                                        interferem nos objetivos da organização. Dessa forma, esse profissional lida
                                                                                                                                        com questões organizacionais bastante amplas e complexas e, para lidar com
                                                                                                                                        tais questões, necessita de ferramentas e metodologias que lhe forneçam
                                                                                                                                        embasamento informacional.

                                                                                                                                        O Relações Públicas tradicionalmente sempre teve como uma de suas atividades
                                                                                                                                        principais o levantamento de informações para a construção do seu diagnóstico.
                                                                                                                                        A informação é essencial para a formulação de uma descrição sobre a situação
                                                                                                                                        da empresa e as principais características de seus públicos de interesse. A
                                                                                                                                        partir dessa descrição, o profissional elabora as ações mais eficazes para atingir
                                                                                                                                        os objetivos pretendidos. Dessa forma, afirma-se que, para construir suas
                                                                                                                                        estratégias, o Relações Públicas sempre buscou, anteriormente, munir-se de
                                                                                                                                        informações. A informação e os interesses da organização possibilitam a
                                                                                                                                        construção de ações e estratégias coerentes com o ambiente.

                                                                                                                                        As relações públicas vêem à busca de informação como fonte para os seus
                                                                                                                                        programas e estratégias. Tradicionalmente, os profissionais dessa área para
                                                                                                                                        satisfazer essa necessidade de informação, usam a pesquisa como ferramenta.
                                                                                                                                        Segundo Lesly,38 a pesquisa em relações públicas tem três funções principais:
                                                                                                                                        1. confirmar suposições e palpites a respeito do estado da opinião pública sobre
                                                                                                                                           um assunto, produto ou empresa;
                                                                                                                                        2. clarificar questões nas quais há pouca quantidade de informações ou quando
                                                                                                                                           se encontram dados contraditórios;
                                                                                                                                        3. reorientar nossos pensamentos ou conceitos a respeito de um problema de
                                                                                                                                           relações públicas.




                                                                                                                                        37 SIMÕES, Roberto Porto. Relações públicas e micropolítica. São Paulo: Summus, 2001.
                                                                                                                                        38 LESLY apud FOCHI, Marcos A. B.; PIROLO, Maria A. M. A pesquisa de opinião: o “ver e o “fazer” do
                                                                                                                                        Relações Públicas. In: INTERCOM-Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação e
                                                                                                                                        XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação, 2001. Disponível em: www.portal-rp.com.br/bibliotecavirtual/
                                                                                                                                        relacoespublicas/funcoesetecnicas/0157.pdf. Acesso em: 30 abr. 2006.
No contexto organizacional, Fortes39 defende a idéia de que as pesquisas em




                                                                                                      #
relações públicas permitem:
– conhecer em que extensão os públicos estão informados a respeito da res-




                                                                                                    Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
   ponsabilidade e dos limites das atividades de uma organização;
– saber como pensam e reagem antes de decisões tomadas pelas organizações;
– prever qual será a atitude dos públicos em relação a ações que estão sendo
   planejadas pela organização;
– julgar o que pensam e esperam da organização;
– apreciar quais são as necessidades dos públicos e que medidas devem ser
   adotadas, a fim de satisfazer essas necessidades;
– admitir e delimitar áreas de ignorância dos públicos sobre problemas socio-
   econômicos; indagar se estão dispostos a pagar mais por melhores serviços e
   por melhores produtos de uma organização.

A pesquisa tem sido usada tradicionalmente como uma ferramenta que propor-
ciona ao Relações Públicas e às instituições um conhecimento do contexto da
organização, possibilitando a identificação das ameaças e oportunidades do
ambiente, bem como fornece uma base para a tomada de decisões. Sendo assim,
Lesly define a importância da informação para o Relações Públicas:

           Em relações públicas, pesquisa não é um produto primário, que pode ser comprado ou
           vendido na medida em que nossas necessidades o ditem. É especialmente um ponto de
           vista, uma maneira de se olhar para os problemas, uma pré-disposição para se organizar
           experiências presentes e passadas. Neste sentido, pesquisas não são algo separado das
           atividades correntes de um programa de Relações Públicas – são o seu coração.40


A pesquisa tem sido uma ferramenta que muito tem contribuído e auxiliado no
trabalho de relações públicas. No entanto, no contexto atual, na era da globali-
zação, houve uma mudança de perspectiva diante do uso de informação. Há
alguns anos, o principal desafio das organizações era a busca de informação,
que era um tanto escassa. Por esse motivo, a pesquisa se tornou uma metodologia
muito popular, pois coleta uma boa quantidade de informações que não estavam
disponíveis anteriormente. Já, hoje, há um novo desafio, que não é mais a es-
cassez de informações, e sim, o seu excesso. As novas tecnologias têm dispo-
nibilizado uma circulação de informações muito grande, assim como têm facilitado
o acesso às mesmas. Nesse contexto, surge a dificuldade de filtrar as informações


39 FORTES apud FOCHI, op. cit.
40 LESLY apud FOCHI, op. cit.
que realmente são relevantes à atividade da empresa. Dessa forma, profissionais
                         $
                                                                                                                                        que se utilizam do conhecimento do seu ambiente para elaborar suas ações
                                                                                                                                        necessitam de metodologias para identificar e processar as informações
Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas...




                                                                                                                                        relevantes. Sendo assim, pode-se observar que metodologias como a inteligência
                                                                                                                                        e a vigília estratégicas podem auxiliar muito dentro desse contexto. Na contem-
                                                                                                                                        poraneidade, a inteligência e a vigília estratégicas são, antes de mais nada,
                                                                                                                                        processos de triagem da informação.

                                                                                                                                        Hoje, com as novas tecnologias, o Relações Públicas tem à sua disposição no-
                                                                                                                                        vas abordagens para a busca e a análise da informação. O acesso à informação
                                                                                                                                        está muito mais amplo, e torna-se imprescindível considerar o uso de novas
                                                                                                                                        metodologias de processamento. O profissional de Relações Públicas tem,
                                                                                                                                        atualmente, a oportunidade de ampliar seus instrumentos de busca da informação,
                                                                                                                                        para, assim, aumentar a eficácia das suas ações e estratégias.

                                                                                                                                        Não se pretende, aqui, questionar a importância e a eficácia de instrumentos
                                                                                                                                        tradicionais de pesquisa. Ao contrário, a pretensão consiste em sinalizar que esses
                                                                                                                                        instrumentos podem ser ampliados e enriquecidos com a soma de novas metodologias
                                                                                                                                        e processos, como, por exemplo, a vigília e a inteligência estratégicas.

                                                                                                                                        Apesar da facilidade de acesso à informação, estudos41 apontam que 70% das
                                                                                                                                        empresas que encerraram suas atividades, faliram por não possuir conhecimento
                                                                                                                                        do ambiente no qual estavam inseridas. Isso evidencia a dificuldade que as
                                                                                                                                        empresas ainda possuem de organizar, processar e usar eficazmente as infor-
                                                                                                                                        mações. Evidencia, também, a necessidade que as organizações têm de novas
                                                                                                                                        metodologias para gerenciar a informação.

                                                                                                                                        A inteligência e a pesquisa funcionam de formas um pouco diferenciadas, porém
                                                                                                                                        complementares. A pesquisa responde a uma necessidade de informação num
                                                                                                                                        determinado tempo e sobre uma determinada situação ou fato, baseada numa
                                                                                                                                        amostra; já a vigília consiste numa observação constante e contínua dos diversos
                                                                                                                                        focos de interesse da empresa, baseada num conjunto de fontes analisadas por
                                                                                                                                        especialistas.




                                                                                                                                        41 Dado apresentado em 2000 por SANTOS, Raimundo Nonato Macedo. Métodos e ferramentas para
                                                                                                                                        gestão de inteligência e do conhecimento . Disponível em: www.eci.ufmg.br/pcionline/include/
                                                                                                                                        getdoc.php?id=527article=281mode=pdf – Acesso em: 16 abr. 2006.
O uso das novas metodologias pode auxiliar o profissional de Relações Públicas




                                                                                                         %
a identificar e processar as informações úteis ao seu planejamento. Além disso,
no momento em que o Relações Públicas consegue construir uma análise realista




                                                                                                       Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
do contexto da empresa como base para o seu trabalho, ele passa a desenvolver
uma atividade de nível estratégico. Ou seja, ele passa a dar um sentido estratégico
à informação:

           Nos dias atuais, a comunicação empresarial se prepara para ascender a um novo pata-
           mar, tornando-se um elemento importante do processo de inteligência empresarial. Ela
           se estrutura para usufruir das potencialidades das novas tecnologias, respaldar-se em
           banco de dados inteligentes, explorar a emergência das novas mídias e, sobretudo, maxi-
           mizar a interface entre as empresas, ou entidades, e a sociedade. Nesse novo cenário,
           passa a integrar o novo processo de gestão e partilha do conhecimento, incorporando sua
           prática e sua filosofia ao chamado “capital intelectual” das organizações.42

Nesse contexto, a informação é um elemento-chave na construção de estratégias
de sucesso. O Relações Públicas que desejar exercer uma atividade de nível
estratégico deve ter uma preocupação constante com a busca e o processamento
da informação. Deve encontrar metodologias que o auxiliem a tratar essa
informação de forma adequada, as quais lhe forneçam uma orientação das ações
mais apropriadas para o momento e das estratégias que a empresa deve adotar.

           Os executivos, baseados na experiência de sua própria empresa, admitem que a comu-
           nicação, nos dias de hoje, já é vista como estratégica pelos empresários e que ela se
           reveste de fundamental importância para o desenvolvimento dos negócios. Reconhecem
           que a área de Comunicação Empresarial participa ativamente do processo de decisão
           relativo às suas ações e estratégias, ou seja, que tem autonomia para gerir suas próprias
           atividades.43


O Relações Públicas que desenvolve um papel estratégico deve possuir uma
visão macro que lhe permita identificar e mapear os principais públicos e focos
de interesse da organização. Portanto, é necessário que se desenvolva um
monitoramento dos pontos que podem afetar a estrutura e os serviços de uma
organização. Essa lógica foi confirmada também através do projeto Infocom, a
partir do qual novas premissas para o comunicador organizacional apontam para
um profissional que saiba lidar com a mudança e que acompanhe o contexto
para continuar a estabelecer uma conexão eficiente com seus públicos.



42 BUENO, op. cit., p. 8.
43 Ibidem, p. 241.
De fato, pode-se considerar que o objetivo de uma estratégia, principalmente nos
                         
                                                                                                                                        tempos atuais e no contexto organizacional, não é a guerra ou o uso da força. O
                                                                                                                                        objetivo é que a estratégia possibilite que a empresa atue em harmonia com seu
Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas...




                                                                                                                                        ambiente, para atingir seus objetivos. Dentro desse pensamento, o profissional
                                                                                                                                        de Relações Públicas exerce uma atividade de grande valor estratégico, pois ele
                                                                                                                                        visa à cooperação mútua entre o sistema organização-públicos, visando à conse-
                                                                                                                                        cução da missão organizacional. Ou seja, ele é o profissional que busca a harmo-
                                                                                                                                        nia na relação da empresa com seus públicos. Para agir harmonicamente com um
                                                                                                                                        público, é necessário ter conhecimento para compreender as necessidades e os
                                                                                                                                        desejos desse público e inteligência para criar formas de respostas.

                                                                                                                                                   Tendo este quadro organizacional como perspectiva, o profissional de comunicação
                                                                                                                                                   convive hoje com uma exigência de aproximação com tecnologias, que estão em
                                                                                                                                                   constante atualização, mostrando a necessidade não somente de um controle técnico-
                                                                                                                                                   instrumental mas o domínio de novas relações que se desenvolvem a partir da
                                                                                                                                                   emergência e utilização das mesmas, em seu contexto de trabalho. Esta necessidade de
                                                                                                                                                   estar mais qualificado, de estar apto para enfrentar as transformações e de saber
                                                                                                                                                   coordenar o novo quadro que se instala nas áreas de comunicação das empresas tem
                                                                                                                                                   gerado a necessidade de novas competências.44


                                                                                                                                        Em decorrência dessa função de sintonia e harmonização dos interesses da empresa
                                                                                                                                        com seus públicos é tão importante que o Relações Públicas se utilize de
                                                                                                                                        metodologias de coleta e processamento da informação. Por esse motivo, também
                                                                                                                                        a inteligência e a vigília estratégicas são processos que podem fornecer um apoio
                                                                                                                                        fundamental à atividade de relações públicas. Essas metodologias permitem
                                                                                                                                        monitorar informações ambientais para responder satisfatoriamente aos desafios
                                                                                                                                        e às oportunidades que se apresentam à organização. Elas oportunizam uma busca
                                                                                                                                        sistemática de informações de interesse para a construção de uma reação proativa
                                                                                                                                        diante das mudanças contextuais. Também possibilitam ao Relações Públicas a
                                                                                                                                        construção de estratégias coerentes com a realidade e com os objetivos
                                                                                                                                        organizacionais e a prática de uma postura estratégica.

                                                                                                                                        Da mesma forma que as metodologias de busca e processamento da informação
                                                                                                                                        podem auxiliar a atividade de relações públicas, elas também abrem espaço
                                                                                                                                        para um novo campo de atuação profissional.



                                                                                                                                        44 SANDI, André Quiroga. Novas competências do Relações Públicas frente às tecnologias de informação.
                                                                                                                                        In: XXV CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 25., 2002, Fortaleza. Anais... Fortaleza,
                                                                                                                                        2005. Disponível em: www.eca.usp.br/alaic/material%20bolivia%202002/congbolivia2002/traba-
                                                                                                                                        lhos%20completo%20. Acesso em: 16 abr. 2006.
A gestão das informações deve estar a cargo do setor de comunicação, em




                                                                                                      '
especial do profissional de Relações Públicas, que trabalha a comunicação
organizacional integrada e deve ser visto como um estrategista, um gerente




                                                                                                    Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
informacional.45

Essa parece ser uma tendência das organizações que vêm sentindo as con-
seqüências do acelerado desenvolvimento das novas tecnologias de informação
e comunicação.

           As organizações da contemporaneidade têm consciência lúcida de que não estão sozi-
           nhas, mas inseridas num contexto. E é desse contexto que depende fundamentalmente o
           sucesso ou o fracasso dessas organizações e de seus sistemas de comunicação. Foi-se o
           tempo em que as empresas olhavam para o universo a partir de uma perspectiva de si
           mesmas, preocupando-se somente consigo e não levando em conta o meio circundante.
           Hoje as organizações, bem como a dinâmica de sua comunicação, dependem dos seus
           vínculos com o mundo exterior. Sua coerência e construção dependem da interação com
           os elementos no contexto em que atuam. E nesse contexto, o comunicador deve observar
           o meio ambiente buscando estabelecer as conexões com elementos importantes para o
           enriquecimento e para a validação de suas informações. O exterior valida a comunicação
           organizacional.46




Considerações finais
As organizações contemporâneas se encontram diante de novos desafios. A
globalização e a rapidez das mudanças exigem das organizações atitudes ágeis
e conscientes. O contexto mudou, e as empresas precisam desenvolver
metodologias e processos que permitam sua constante adaptação.

A sobrevivência das organizações empresariais está intimamente ligada à sua
capacidade de inovação também na sua gestão. Para tanto, é necessário
habilidade para gerenciar os recursos informacionais e agilidade de ação. As
organizações precisam identificar os focos de ameaça e oportunidade no ambiente
e traçar estratégias de reação a essa situação. Nesse contexto, a informação
passa a ter um valor estratégico. Afinal, ela forma a base de conhecimento sobre
o qual a empresa se apoiará para pensar suas ações e estratégias.



45 Idem.
46 FACHINELLI; MATTIA; RECH, op. cit.
No entanto, o grande desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação
                         '
                                                                                                                                        produziram uma verdadeira avalanche de dados. O fluxo informacional das redes e
                                                                                                                                        dos veículos cresceram exponencialmente. Isso traz um novo desafio às organizações,
Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas...




                                                                                                                                        pois a situação da falta de informação foi substituída pelo excesso da mesma.
                                                                                                                                        Assim, as empresas necessitam adotar metodologias e processos que possibilitem
                                                                                                                                        a busca focalizada nos dados de interesse e o tratamento da informação disponível.

                                                                                                                                        A atividade do Relações Públicas também atravessa o mesmo dilema, pois, para
                                                                                                                                        criar ações que busquem a sinergia entre os objetivos da empresa e a expectativa
                                                                                                                                        de seus públicos de interesse, esse profissional necessita ter uma boa base
                                                                                                                                        informacional que lhe permita identificar esses interesses, também em constante
                                                                                                                                        modificação.

                                                                                                                                        Dessa forma, partindo do pressuposto de que a informação é fundamental para
                                                                                                                                        a formulação de uma estratégia de sucesso, surge a necessidade do uso de
                                                                                                                                        metodologias que facilitem o seu processamento.

                                                                                                                                        Através do estudo da aplicação e das vantagens da inteligência e da vigília
                                                                                                                                        estratégicas conclui-se que essas metodologias podem contribuir muito para a
                                                                                                                                        busca e a análise da informação, pois a inteligência e a vigília são processos que
                                                                                                                                        possibilitam um monitoramento constante das informações de valor estratégico
                                                                                                                                        para a organização.

                                                                                                                                        Sendo assim, essas metodologias contribuem não só para as estratégias do
                                                                                                                                        Relações Públicas, mas também para as estratégias macro da organização. No
                                                                                                                                        momento em que as relações públicas forem a atividade responsável por administrar
                                                                                                                                        esse processo, passam a atingir um novo patamar de importância para a direção
                                                                                                                                        da empresa, por exercer uma função essencial e de cunho estratégico.

                                                                                                                                        Com a sociedade contemporânea, surge então uma nova perspectiva de atuação
                                                                                                                                        para o Relações Públicas. Esse profissional pode atuar na implementação e no
                                                                                                                                        desenvolvimento de metodologias e processos que permitam gerenciar estrate-
                                                                                                                                        gicamente a informação para a produção de conhecimento aplicável tanto dentro
                                                                                                                                        de sua função como em outras atividades da empresa.

                                                                                                                                        O profissional de comunicação contemporâneo deve estar atento às demandas
                                                                                                                                        da atual sociedade e produzir mecanismos para responder a elas. Por esse motivo,
                                                                                                                                        apontamos para a tendência do uso estratégico da informação como um novo
                                                                                                                                        campo de atuação para as relações públicas.
'
Referências
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                                                                                                 Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
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                                                                                                                                        dispersas para facilitar as decisões e ações dos dirigentes: o problema crucial da
                                                                                                                                        inteligência competitiva através da construção de “PUZZLE”. Porto Alegre: Ed. da UFRGS,
                                                                                                                                        1996. (Série Documentos para Estudos, n. 6).
Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas...




                                                                                                                                        LÉVY, Pierre. A conexão planetária: o mercado, o ciberespaço, a consciência. São Paulo:
                                                                                                                                        Ed. 34, 2001.
                                                                                                                                        ______. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. 2. ed. São Paulo:
                                                                                                                                        Loyola, 1999.
                                                                                                                                        _____. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Rio
                                                                                                                                        de Janeiro: Ed. 34, 1997.
                                                                                                                                        MATURANA, Humberto R.; VARELA, Francisco J. A árvore do conhecimento: as bases
                                                                                                                                        biológicas da compreensão humana. 2. ed. São Paulo: Palas Athena, 2002.
                                                                                                                                        MILLER, Stephen H.; PRESCOTT, John E. Inteligência competitiva na prática: técnicas e
                                                                                                                                        práticas bem-sucedidas para conquistar mercados. Rio de Janeiro: Campus, 2002.
                                                                                                                                        MINTZBERG, Henry; QUINN, James Brian. O processo da estratégia. 3. ed. Porto Alegre:
                                                                                                                                        Bookman, 2001.
                                                                                                                                        MINTZBERG, Henry; AHLSTRAND, Bruce; LAMPEL, Joseph. Safari de estratégia: um roteiro
                                                                                                                                        pela selva do planejamento estratégico. Porto Alegre: Bookman, 2000.
                                                                                                                                        NEGROPONTE, Nicholas. A vida digital. 2. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.
                                                                                                                                        PORTER, Michael E.; MONTGOMERY, Cynthia A. Estratégia: a busca da vantagem
                                                                                                                                        competitiva. 7. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2002.
                                                                                                                                        SANDI, André Quiroga. Novas competências do Relações Públicas frente às tecnologias
                                                                                                                                        de informação. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 25., 2002,
                                                                                                                                        Fortaleza. Anais... Fortaleza, 2002. Disponível em: www.eca.usp.br/alaic/mate-
                                                                                                                                        rial%20bolivia%202002/congbolivia2002/trabalhos%20completo%20. Acesso em: 16
                                                                                                                                        abr. 2006.
                                                                                                                                        SANTOS, Raimundo Nonato Macedo. Métodos e ferramentas para gestão de inteligên-
                                                                                                                                        cia e do conhecimento. Disponível em: www.eci.ufmg.br/pcionline/include/
                                                                                                                                        getdoc.php?id=527article=281mode=pdf – Acesso em: 16 abr. 2006.
                                                                                                                                        SIMÕES, Roberto Porto. Relações públicas e micropolítica. São Paulo: Summus, 2001.
                                                                                                                                        SOARES JÚNIOR, Enio; BRUNO, Flávio da Silveira; BELLO, Bruno Carneiro Di. Inteligência:
                                                                                                                                        colaborando para competir. In: SIMPEP, 11., 2004, Bauru. Anais... Bauru, 2004. p. 1-12. v. 1.
                                                                                                                                        TAPSCOT, Don. Economia digital: promessa e perigo na era da inteligência em rede. São
                                                                                                                                        Paulo: Makron Books, 1997.
                                                                                                                                        TARAPANOFF, Kira. Inteligência organizacional e competitiva. Brasília: Ed. da UnB, 2001.
                                                                                                                                        THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. 5. ed. Pe-
                                                                                                                                        trópolis: Vozes, 2002.
                                                                                                                                        TZU, Sun. A arte da guerra. Porto Alegre: LPM, 2000.
'!
Comunicação organizacional e
pressupostos da comunicação




                                                                                                             Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
integrada: a experiência em uma
universidade na implementação/
reestruturação do jornal institucional
                                                            Cassiana Maris Lima Cruz1


                                               RESUMO
A gestão da comunicação organizacional precisa considerar a cultura da organização, para que então
elabore o planejamento estratégico comunicacional. A comunicação, nessa perspectiva, tem importância
fundamental uma vez que se torna o meio condutor pelo qual a organização constrói/desconstrói e
perpetua sua imagem. Nesse sentido, este estudo tem por objetivo resgatar as teorias referentes à
comunicação organizacional e os pressupostos da comunicação integrada, bem como relata a
experiência de uma universidade no Rio Grande do Sul quando implementou/reestruturou o jornal
institucional. O relato demonstra, claramente, que a instituição não possui políticas de comunicação
definidas. Para fins de construção do arcabouço teórico que norteou este estudo, foram considerados
os conceitos produzidos por Kunsch (2003); Bueno (2003), dentre outros pesquisadores do tema.
Palavras-chave: Comunicação organizacional. Comunicação integrada. Comunicação em
                 omunicação
universidades.

                                              ABSTRACT
Organizational communication management needs to consider the culture of the organization, in order
to, after that, elaborate the communicational strategic planning. Communication under this perspective
has fundamental importance, once it becomes the conductive way through which the organization builds/
unbuilds and perpetuates its image. Following this, the study aims to rescue the theories referring to
organizational communication and the presuppositions of integrated communication, as well as it re-
ports the experience of an university in Rio Grande do Sul state, when they implemented/rearranged the
institutional journal. The report clearly shows that the institution does not have defined communication
policies. In order to build the theoretical structure that lead the study, the concepts produced by Kunsch
(2003) and Bueno (2003) were considered, among other researchers on the subject.
Key words: Organizational communication. Integrated communication. Communication in universities.


1 Professora/Pesquisadora na Faculdade de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis da
Universidade de Passo Fundo (UPF). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social/PPGCOM pela Pontifícia Uni-
versidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
'
                                                                                                                  Introdução
                                                                                                                  A comunicação organizacional é tema recorrente em agendas de pesquisa das
Cruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência...




                                                                                                                  escolas de Comunicação Social, uma vez que as organizações necessitam ter
                                                                                                                  novas posturas de gestão em função de modificações que ocorreram no ambiente,
                                                                                                                  considerando sobremaneira as três últimas décadas, quanto a fatores de natureza
                                                                                                                  econômica, geopolítica e sociocultural. (BUENO, 2003, p. 19).

                                                                                                                  Sob esse contexto, os novos paradigmas aplicados aos estudos organizacionais
                                                                                                                  e estratégicos apontam que as organizações precisam estabelecer relações e
                                                                                                                  modelos de gestão contemporâneos que contemplem efetivamente a visão sis-
                                                                                                                  têmica (GOLDHABER, 1991; BALDISSERA, 2000) e relacional dos processos admi-
                                                                                                                  nistrativos e da dinâmica institucional.

                                                                                                                  Todo esse complexo debate está presente já há algum tempo nas Instituições
                                                                                                                  de Ensino Superior (IESs), que enfrentam verdadeiras transformações seja
                                                                                                                  no âmbito de suas concepções filosóficas, no da tecnologia da informação,
                                                                                                                  no dos comportamentos e das aspirações dos educandos, seja no da
                                                                                                                  sociedade em geral. Há, também, de se considerar as modificações no pro-
                                                                                                                  cesso de avaliação das IEs, hoje institucionalizadas por meio do Sistema
                                                                                                                  Nacional de Avaliação do Ensino Superior (Sinaes), que, em suas diversas
                                                                                                                  dimensões de análise, tem como idéias centrais, dentre outras, a integração
                                                                                                                  e a participação.

                                                                                                                  Contemplando esse (re)olhar para as organizações, no contexto da pós-
                                                                                                                  modernidade, é que se considera fundamental abordar a questão da comunica-
                                                                                                                  ção organizacional. Considerada como elemento estratégico, cerne da orga-
                                                                                                                  nização, a comunicação assume a função de “reforçar e preservar a identidade
                                                                                                                  organizacional”. (BALDISSERA, 2000, p. 13). É por meio da interação entre os
                                                                                                                  fluxos de informações que as redes de relações estão sistematicamente em
                                                                                                                  processo de construção/desconstrução, numa constante organização/reorga-
                                                                                                                  nização e (re)produção.

                                                                                                                  Portanto, constitui-se objeto deste estudo o resgate de teorias referentes à
                                                                                                                  comunicação organizacional e os pressupostos da comunicação integrada, bem
                                                                                                                  como se relata a experiência de uma universidade no Rio Grande do Sul, na
                                                                                                                  implementação/reestruturação do jornal – instrumento de comunicação insti-
                                                                                                                  tucional (KUNSCH, 2003), focado em atingir os públicos: alunos, funcionários
                                                                                                                  e professores.
'#
Comunicação organizacional
Falar sobre comunicação organizacional sem antes abordar a importância da




                                                                                        Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
cultura organizacional para a construção da comunicação no âmbito da organização
é interpretá-la de forma fragmentada, desconsiderando uma visão sistêmica.

A cultura organizacional constitui-se no elemento norteador das organizações, pois
orienta os comportamentos dos indivíduos que passam, então, a conviver em uma
unidade de sociedade empresarial específica, repleta de construções/desconstruções
das relações sociais. Como diz Bueno (2003, p. 4), a comunicação “é o espelho da
cultura empresarial e reflete, necessariamente, os valores das organizações”.

Baldissera (2000) define cultura organizacional como um conjunto de crenças e valores
específicos de uma determinada organização, traduzido por hábitos, mitos, ritos, ta-
bus, mentalidade da organização, estilo de direção, comportamentos, criações,
rompimentos e recodificações. Para o autor a cultura organizacional representa os
aspectos identitários que tornam uma organização única, diferenciando-a das demais.

As organizações necessitam, então, perpetuar esses conjuntos de pressupostos
que representam sua imagem e identidade, utilizando-se, dentre outras estratégias
de gestão e da comunicação organizacional. Sendo assim, falar de comunicação
é referendar as práticas comunicacionais enquanto acontecimento de cultura.
(BALDISSERA, 2000).

Mediante o exposto, pode-se dizer que a comunicação é um processo de
construção de sentidos. Para tanto, os emissores/receptores participam de um
complexo jogo de relações interativas, onde realizam intercâmbio de mensagens,
de onde emerge um fluxo de informações entre as pessoas que ocupam distintas
posições e representam distintas funções. (GOLDHABER, 1991).

Partindo desse contexto, os profissionais que se propõem a planejar e a coordenar
a comunicação de uma organização, primeiramente, necessitam realizar um
esforço para diagnosticar a cultura organizacional (BALDISSERA, 2000), estando
ela implícita ou explícita nas redes formais e/ou informais.

A comunicação organizacional, assumindo os aspectos descritos, passa a ser “es-
tratégica para as organizações o que significa que se vincula estritamente ao
negócio” (BUENO, 2003, p. 7), passando, também, a ser desenvolvida por profissio-
nais que conheçam e entendam a organização na perspectiva sistêmica.
'$
                                                                                                                  Aspectos a serem considerados
                                                                                                                  pela comunicação organizacional
Cruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência...




                                                                                                                  A comunicação organizacional, por apresentar esse caráter de inter-relação acima
                                                                                                                  mencionado, possibilita o conhecimento de informações que permitem a definição
                                                                                                                  ou o ajuste de estratégias organizacionais. Nesse contexto, são postos em cir-
                                                                                                                  culação, na cadeia comunicacional, efeitos de sentidos orientados para a obtenção
                                                                                                                  de resultados estratégicos globais, tendo como principal objetivo agregar valor
                                                                                                                  positivo à imagem da organização. (BALDISSERA, 2000).

                                                                                                                  Para tanto, é preciso disseminar políticas, crenças e valores da organização,
                                                                                                                  criando, mantendo e desenvolvendo formas de comunicação que contribuam para
                                                                                                                  a melhor operacionalidade dos sistemas e das atividades. (TORQUATO, 2002).
                                                                                                                  Segundo o autor, a empresa necessita desenvolver harmoniosamente o espírito
                                                                                                                  de equipe, projetar com centros irradiadores de opinião e poder o pensamento
                                                                                                                  ideológico da organização, acompanhar e influenciar o meio ambiente.

                                                                                                                  Mediante essas considerações, como os gestores podem considerar a comunica-
                                                                                                                  ção nas organizações e de que forma poderão proceder ao planejamento da mesma?

                                                                                                                  Torquato (2002) fala de quatro dimensões de comunicação na organização: a
                                                                                                                  primeira dimensão é a da comunicação cultural que abrange os climas internos,
                                                                                                                  onde o gestor deve medir a temperatura do clima organizacional, aferida a
                                                                                                                  partir da cultura interna, arcabouço dos costumes, das idéias e dos valores da
                                                                                                                  comunidade.

                                                                                                                  A segunda dimensão destacada pelo autor diz respeito à comunicação administrativa
                                                                                                                  que são todos os elementos de comunicação ligados ao fluxo de informação interna
                                                                                                                  que estabelecem as relações entre setores, chefias e colaboradores.

                                                                                                                  A terceira dimensão é a comunicação social que envolve atos de comunicação
                                                                                                                  indiretos, unilaterais e públicos. A quarta dimensão é chamada sistema de
                                                                                                                  informações, tendo por objetivo agregar e gerenciar as informações armazenadas
                                                                                                                  em bancos de dados.

                                                                                                                  Nessa sistemática de organização da comunicação para as empresas, Torquato
                                                                                                                  (2002, p. 34) atenta para o fato de que as quatro dimensões devem funcionar
                                                                                                                  como “uma orquestra”, pois uma dimensão influi na outra, ou seja, as quatro
                                                                                                                  formas de comunicação se afetam significativamente.
A comunicação organizacional, nessa perspectiva é, portanto, a possibilidade




                                                                                         '%
sistêmica, integrada, que reúne as quatro grandes modalidades, cada qual
exercendo um conjunto de funções. Torquato (2002) ressalta que para que a




                                                                                    Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
eficácia da comunicação aconteça, é necessária uma clara definição de objetivos
éticos, capacidade de codificação/expressão, domínio psicológico e capacidade
de compreender o meio ambiente.

Para que a comunicação tenha condições de fluir, é preciso considerar como os
fluxos ocorrem, pois exercem grande influência sobre a eficácia do processo. É em
nível de fluxos, ou seja, nos caminhos que a informação percorre que acontecem
os desvios e os degraus que atravessam a comunicação. (TORQUATO, 2002). As
informações necessitam ser transmitidas considerando os fluxos descendentes,
ascendentes, por direções laterais internas e por direções laterais externas.

No fluxo descendente, ou seja, de cima para baixo, o objetivo é que ocorra a
difusão dos dados globais, tais como as políticas da organização, dentre outras
informações, tendo como característica a formalidade. (BALDISSERA, 2000).
O fluxo ascendente permite que os dados recolhidos nas bases cheguem até
as instâncias superiores e departamentos interessados. (BALDISSERA, 2000).
As comunicações nesse fluxo são mais lentas do que as comunicações entre
essas e os níveis superiores. (TORQUATO, 2002). São de caráter muito mais
informal.

Os dados provenientes dos distintos setores são comparados, de maneira a
sistematizar e uniformizar idéias e informações (BALDISSERA, 2000) no fluxo
por direções laterais internas. No fluxo diagonal/por direções laterais externas,
o objetivo é que as informações sejam difundidas no meio. (BALDISSERA, 2000).
Sendo assim, para que a comunicação possa efetivamente produzir os efeitos
desejados, existe a necessidade de realizar pesquisas, entrevistas, auditorias,
reuniões e conversas informais com os diversos públicos da organização.
(BALDISSERA, 2000; KUNSCH, 2003). O objetivo dessa busca por informações
deve-se ao fato de que a organização precisa avaliar o grau de satisfação quanto
à quantidade e à qualidade das informações recebidas pelos públicos, quanto à
capacidade de estabelecer relações entre os assuntos de interesse para a
organização e quanto ao nível de elaboração crítica com referência aos temas
identificados como de importância para o desenvolvimento organizacional.

A falta de informações sistematizadas para a comunicação e, efetivamente, a
falta de um planejamento estratégico de comunicação organizacional fazem com
que os problemas de comunicação se avolumem, podendo causar distorções de
                                         '
                                                                                                                  relacionamento de ordem pessoal e profissional e, em muitos casos, prejudicar
                                                                                                                  a imagem e a lucratividade da empresa.
Cruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência...




                                                                                                                  Baldissera (2000) aponta como possíveis conseqüências para os problemas de
                                                                                                                  comunicação nas organizações: inexistência de um diagnóstico atualizado que
                                                                                                                  descreva a situação da comunicação organizacional e o perfil do público de interes-
                                                                                                                  se; circulação de informações desencontradas; uso de meios e linguagens não
                                                                                                                  acessíveis; uso de codificações frouxas, ocasionando leituras incorretas; a ine-
                                                                                                                  xistência de um fio condutor que funcione como referência para toda a comu-
                                                                                                                  nicação oficial; mensagens muito complexas; dificuldade na construção de me-
                                                                                                                  canismos, ou mesmo a inexistência deles, que permitam avaliar o processo de
                                                                                                                  comunicação e retroalimetá-lo.

                                                                                                                  Então, planejar a comunicação organizacional é considerar as dimensões de comu-
                                                                                                                  nicação, é considerar os fluxos pelos quais as mensagens são transmitidas,
                                                                                                                  aliando sistematicamente a coleta de informações com os públicos, implemen-
                                                                                                                  tando ações estratégicas, controlando-as e analisando os resultados. No entanto,
                                                                                                                  nada será realizado com eficácia sem um planejamento estratégico, com políticas
                                                                                                                  de comunicação bem definidas.



                                                                                                                  Pressupostos para a comunicação
                                                                                                                  integrada nas organizações

                                                                                                                  Bueno (2003, p. 8) enfatiza que a comunicação organizacional é vista agora
                                                                                                                  como “um conjunto de novos atributos que a tipificam como insumo estratégico”.
                                                                                                                  Nessa perspectiva, “caminha para assumir, por inteiro, a chamada comunicação
                                                                                                                  integrada, com uma articulação estreita entre os vários departamentos/áreas e
                                                                                                                  profissionais que exercem atividades de comunicação nas empresas ou
                                                                                                                  entidades”, complementa o autor.

                                                                                                                  Embora o conceito de comunicação integrada não seja novo, ainda é possível
                                                                                                                  observar “estruturas parciais de comunicação, com serviços fragmentados e sem
                                                                                                                  uma política definida”. (KUNSCH, 1992, p. 87).

                                                                                                                  Trevisan (2003) argumenta que a comunicação integrada necessita de um
                                                                                                                  processo de planejamento estratégico, pois requer uma visão acurada e
abrangente das necessidades comunicacionais da organização para atingir o




                                                                                          ''
objetivo final, que é o de contribuir para a construção das imagens interna e
externa da empresa. Pressupõe a sinergia e a integração entre as diversas áreas,




                                                                                     Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
ferramentas e necessidades de comunicação de uma organização.

Kunsch (2003, p. 179) ressalta que a comunicação integrada “precisa ser enten-
dida como uma filosofia capaz de nortear e orientar toda a comunicação que é
gerada na organização, como um fator estratégico para o desenvolvimento orga-
nizacional na sociedade”, hoje globalizada. É atribuição dos departamentos de
comunicação nas organizações estabelecer as decisões e a condução das práticas
de todas as ações de comunicação na organização, complementa a autora. Ainda:
enfatiza que “aliada às políticas de comunicação estabelecidas, a filosofia deverá
nortear os melhores caminhos para o cumprimento da missão e da visão, o
cultivo dos valores e a consecução dos objetivos globais da organização”.
(KUNSCH, 2003, p. 181).

Nessa perspectiva de filosofia, a comunicação integrada, entendida como um
conjunto de diferentes modalidades de comunicação, pressupõe a junção da
comunicação institucional, da comunicação mercadológica, da comunicação
interna e da comunicação administrativa, que formam, então, o mix ou composto
da comunicação organizacional. Esse deve formar um conjunto harmonioso,
sinérgico, apesar das diferenças e das especificidades de cada setor e dos
respectivos subsetores cuja soma de todas as atividades redundará na eficácia
da comunicação nas organizações, a partir de ações estratégicas e táticas de
comunicação.

A comunicação institucional, por meio direto da gestão estratégica das relações
públicas, é a responsável pela “construção e formatação de uma imagem e
identidade corporativas fortes e positivas da organização”, ressaltando os
aspectos relacionados com “a missão, a visão, os valores e a filosofia da
organização e contribuindo para o desenvolvimento do subsistema institucional,
compreendido pela junção desses atributos”. (KUNSCH, 2003, p. 164-165).

Direcionada à divulgação da oferta da organização, a comunicação mercadoló-
gica envolve as manifestações comunicativas surgidas a partir de um obje-
tivo mercadológico, cuja mensagem persuasiva é elaborada a partir do qua-
dro sociocultural do consumidor-alvo e dos canais que lhe servem de acesso,
utilizando-se das mais variadas ferramentas, conforme Galindo (1986) apud
(KUNSCH, 2003).
A comunicação interna é um setor planejado, cujos objetivos precisam ser bem
                                         
                                                                                                                  definidos, para que então haja toda a interação possível entre a organização e
                                                                                                                  seus empregados, utilizando as ferramentas da comunicação institucional e até
Cruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência...




                                                                                                                  da comunicação mercadológica (endomarketing). (KUNSCH, 2003). Conforme a
                                                                                                                  autora, à medida que a comunicação interna se desenvolve no conjunto de uma
                                                                                                                  comunicação integrada, tendo políticas globais bem delineadas e programas de
                                                                                                                  ação voltados prioritariamente para todo o público interno, poderá ser muito
                                                                                                                  mais eficiente/eficaz.

                                                                                                                  A comunicação administrativa abrange todos os conteúdos do cotidiano da
                                                                                                                  administração da empresa, buscando atender às áreas centrais de planejamento
                                                                                                                  e às estruturas técnico-normativas. (TORQUATO, 2002). Tem como finalidade
                                                                                                                  orientar, atualizar, ordenar e reordenar o fluxo das atividades funcionais.

                                                                                                                  Kunsch (2003, p. 180) ressalta que a importância da comunicação integrada
                                                                                                                  nas organizações tem seu princípio no fato de “permitir que se estabeleça uma
                                                                                                                  política global, em função de uma coerência maior entre os diversos programas
                                                                                                                  comunicacionais, de uma linguagem comum a todos os setores e de um com-
                                                                                                                  portamento organizacional homogêneo”. Atenta, também, para o fato de que,
                                                                                                                  assim, evitam-se sobreposições de tarefas. Sendo assim, o processo de
                                                                                                                  planejamento de comunicação integrada pressupõe as seguintes etapas:
                                                                                                                  pesquisa e levantamento de dados, briefing, diagnóstico e proposta de uma
                                                                                                                  estrutura integrada. (KUNSCH, 1992).

                                                                                                                  O desafio consiste, então, em considerar as particularidades das diversas áreas
                                                                                                                  de gestão e os níveis intermediários que se relacionam, estando em constante
                                                                                                                  interação. A linguagem necessita ser única e se dirigir para um único sentido,
                                                                                                                  objetivando a integração das ações, dos atos e das atividades da comunicação
                                                                                                                  organizacional, sem esquecer de considerar a cultura organizacional, suas
                                                                                                                  especificidades explícitas e/ou implícitas.


                                                                                                                  Instrumentos da comunicação institucional

                                                                                                                  Seguindo a proposta de Kunsch (2003) para a comunicação integrada nas
                                                                                                                  organizações, são considerados como instrumentos de comunicação institucional:
                                                                                                                  as relações públicas, o jornalismo empresarial, a assessoria de imprensa, a
                                                                                                                  publicidade/propaganda institucional, a imagem e a identidade corporativa, o
                                                                                                                  marketing social, o marketing cultural e a editoração multimídia. Em função de
que o objeto de estudo neste artigo é a implementação/reestruturação de um




                                                                                             
jornal em uma IES, a seguir contemplam-se elementos da teoria que o ratificam
como um instrumento de comunicação organizacional.




                                                                                        Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
Para a comunicação institucional, a assessoria de imprensa é uma subárea im-
portante nas mediações das organizações com os públicos com que se relacionam.
Sob o gerenciamento da assessoria de imprensa, o jornalismo empresarial é
compreendido como significativo e pioneiro e, em conjunto com as relações públicas
e a propaganda, forma o tripé clássico que tem por função organizar os fluxos para
disseminar as informações nas organizações. (KUNSCH, 2003).

Os chamados house-organs, dentre eles o jornal institucional, mantêm-se como
“canais importantes de relacionamento da empresa com os diversos públicos,
em especial os colaboradores”; no entanto, as organizações “ou não avaliam de
modo regular sua eficácia, baseadas em consultas freqüentes aos públicos”,
ou, “quando o fazem, adotam uma metodologia caseira” que objetiva legitimar o
que vem se fazendo. (BUENO, 2003, p. 14).

A prática organizacional revela que as “publicações empresariais constituem hoje
ferramenta de primeira grandeza das organizações”, pois o jornalismo empresarial
“se apropria da teoria e dos modelos paradigmáticos como área de conhecimento
e do mercado profissional” de acordo com Kunsch (2003, p. 168). Desse modo,
tem-se a justificativa para a descrição empírica do jornal institucional – ferramenta
de comunicação em uma IES.



A comunicação nas universidades
As universidades estão claramente inseridas no complexo organizacional
(KUNSCH, 1992) e, como tal, tornam-se agentes da realidade organizacional que
se produz, se reproduz e se transforma por meio da interação dos diferentes
grupos de indivíduos que as compõem. (CHANLAT, 2000; MORIN, 2001).

A Reforma do Estado, no Brasil, transformou a “educação de direito” em serviço,
passando a perceber as universidades como prestadoras de serviço, conferindo-
lhes a “idéia de autonomia universitária”, introduzindo o vocabulário neoliberal
para refletir o ensino de graduação, conforme transparece em expressões como
“qualidade universitária, avaliação universitária e flexibilização da universidade”.
(CHAUÍ, 1999, p. 210).
Sendo assim, o papel da comunicação no sistema organizacional universitário
                                         
                                                                                                                  passa a adquirir fundamental importância. Objeto cobiçado pelos gestores que
                                                                                                                  na hierarquia possuem poder, a comunicação organizacional pode se transformar
Cruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência...




                                                                                                                  em processo de manipulação, tanto de interesses pessoais quanto como trans-
                                                                                                                  missora do pensamento organizacional – missão, visão, valores, filosofia e
                                                                                                                  políticas que representam a cultura da empresa.

                                                                                                                  Complementa Kunsch (1992), ao afirmar que não há mais espaço para a con-
                                                                                                                  cepção de serviços parciais de comunicação nas universidades, com atividades
                                                                                                                  extemporâneas, sem que haja um planejamento integrado e com políticas de
                                                                                                                  comunicação bem definidas.

                                                                                                                  Scroferneker (2001, p. 78) diz que a ausência de políticas de comunicação
                                                                                                                  claramente definidas “compromete toda e qualquer proposta de mudança”, pois
                                                                                                                  normalmente “os segmentos envolvidos – professores, alunos, funcionários –
                                                                                                                  não são comunicados, nem convidados a refletir sobre o significado dessas
                                                                                                                  mudanças e do impacto no seu cotidiano”.

                                                                                                                  Em pesquisas realizadas, Kunsch (1992) e Scroferneker (2001, p. 82), em
                                                                                                                  momentos e realidades diferentes, porém complementares, observam que a
                                                                                                                  comunicação nas universidades ainda é incipiente, não sendo tratada como
                                                                                                                  “elemento vital” e como uma “ferramenta estratégica”.

                                                                                                                  Há de se considerar também que o Ministério da Educação instituiu, através da
                                                                                                                  Lei 10.861, de 14 de abril de 2004, o Sistema Nacional de Avaliação da Educação
                                                                                                                  Superior (Sinaes), que, na dimensão quatro, passa a avaliar nas universidades
                                                                                                                  como se estabelece: “A comunicação com a sociedade”, tendo como indicadores
                                                                                                                  a comunicação interna no âmbito dos canais de comunicação e sistemas de
                                                                                                                  informações e, ainda, a ouvidoria; e a comunicação externa, no âmbito dos canais
                                                                                                                  de comunicação e sistemas de informações; e a imagem pública das IESs.

                                                                                                                  Partindo desse contexto, verifica-se que é premente que as universidades revisem
                                                                                                                  sua concepção de comunicação e a forma como é conduzida, objetivando evitar
                                                                                                                  distorções de condutas e objetivos organizacionais, a partir de um efetivo
                                                                                                                  planejamento de comunicação integrada com políticas claras.
Análise empírica da comunicação em uma universidade




                                                                                                           !
Após a apresentação do arcabouço teórico sobre cultura organizacional, comuni-




                                                                                                      Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
cação organizacional e comunicação integrada, se relatada a experiência de uma
universidade no Rio Grande do Sul quando da implementação/reestruturação do
ABC Jornal,2 ferramenta de comunicação institucional.

Antes da análise específica do ABC Jornal, vale destacar alguns princípios de
sociedade para e pela qual a universidade em estudo orienta as suas ações,
sendo eles: de uma sociedade humanizadora; da promoção da melhoria da
qualidade de vida; da participação de todos a bens e benefícios da cultura, da
ciência e da tecnologia; da promoção da convivência solidária; da inovação das
relações interativas; dos valores de igualdade, da democracia e do pluralismo.

Com base nesses princípios, foram definidos: a missão, os objetivos, as políticas
e as estratégias necessários ao desenvolvimento, referenciais orientadores das
administrações do período. Os aspectos que norteiam a missão são: a promoção
e a difusão de conhecimentos; a promoção da melhoria da qualidade de vida; a
formação de cidadãos competentes, com postura crítica, ética e humanista; a
atuação como agentes transformadores.

Para cumprir essa missão, a instituição estabeleceu como objetivo superior, ou
finalidade, a qualidade de vida e o desenvolvimento. Esse objetivo estabelece a
busca do desenvolvimento da sociedade por meio da formação de recursos
humanos e do desenvolvimento e da difusão de conhecimentos científicos,
tecnológicos e culturais, configurando-se como centro de excelência, com vistas
ao aprimoramento da sociedade, conforme estabelece o Plano de Desenvolvimento
Institucional (PDI) neste início de século XXI.

A partir dos princípios norteadores da universidade e da missão, é possível
perceber alguns traços culturais dessa IES, que estão explicitados nos documentos
institucionais, os quais são de livre-acesso aos públicos. Ainda, a missão da
universidade, bem como sua história, estão apresentados no site da instituição –
ferramenta de comunicação utilizada para todo tipo de informação (intranet), tendo
como principais públicos alunos, funcionários e professores.


2 ABC Jornal é um nome fictício adotado neste estudo que tem por objetivo preservar a identidade da
universidade neste relato.
O instrumento de comunicação descrito neste artigo é o jornal institucional –
                                         
                                                                                                                  house-organs – na instituição de ensino aqui relatada, sendo uma ferramenta de
                                                                                                                  comunicação que já existe na organização há mais de onze anos. Nesse período,
Cruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência...




                                                                                                                  passou por diversas fases. O relato começa a partir da última modificação quanto
                                                                                                                  ao formato, ao editorial, aos canais de distribuição, aos públicos, à editoração e
                                                                                                                  à periodicidade.

                                                                                                                  Em 1998 essa universidade passou por um processo eleitoral. O grupo que
                                                                                                                  assumiu a gestão entendia que havia a necessidade de rever as ferramentas de
                                                                                                                  comunicação. Para tanto, sob a responsabilidade do Setor de Marketing e da
                                                                                                                  Assessoria de Imprensa foi realiza uma pesquisa no período de setembro a outubro
                                                                                                                  do ano de 1998.

                                                                                                                  A pesquisa foi direcionada a alunos, funcionários e professores da instituição. O
                                                                                                                  universo considerado foi o campus central e os demais cinco campi da instituição.
                                                                                                                  Foram realizadas 89 entrevistas com professores (erro amostral de 10%); 91
                                                                                                                  entrevistas com funcionários (erro amostral de 9,8%); e com 445 alunos (erro
                                                                                                                  amostral de 4,6%), utilizando o cálculo para uma amostra aleatória simples.
                                                                                                                  (BARBETTA, 1994).

                                                                                                                  O objetivo da pesquisa foi identificar o grau de satisfação dos públicos em relação
                                                                                                                  ao jornal institucional que era veiculado, objetivando coletar informações para que,
                                                                                                                  posteriormente, a gestão tomasse as decisões gerenciais cabíveis. As questões
                                                                                                                  relativas às informações versaram sobre os seguintes aspectos: a forma como os
                                                                                                                  públicos obtinham informações sobre a universidade – buscando identificar os
                                                                                                                  meios de comunicação que mais atingiam os entrevistados, considerando cada
                                                                                                                  público pesquisado; se o entrevistado conhecia ou não o atual jornal da instituição;
                                                                                                                  os aspectos editoriais que deveriam caracterizar um jornal universitário, tendo por
                                                                                                                  objetivo identificar quais os atributos de maior relevância para os públicos; o inte-
                                                                                                                  resse pelos temas de ensino-graduação, assuntos específicos da área, assuntos
                                                                                                                  científicos, assuntos culturais, assuntos gerais da universidade, lazer e esporte;
                                                                                                                  hábitos de leitura dos públicos em relação ao jornal da universidade, quanto à
                                                                                                                  quantidade de matérias que habitualmente eram lidas, a aspectos determinantes
                                                                                                                  para a escolha dos temas, à disposição para leitura e à verificação do usuário final
                                                                                                                  do jornal; a forma de escolha dos artigos para leitura (folheando o jornal, a partir de
                                                                                                                  títulos interessantes, temas específicos da área, através de autores mais
                                                                                                                  conhecidos; em que locais o jornal era lido); quantas pessoas, em média, liam o
                                                                                                                  mesmo exemplar; de que forma os públicos tinham acesso ao jornal; se havia
                                                                                                                  falhas no jornal e sugestões para melhorá-lo.
A partir das informações obtidas com os entrevistados, fez-se a análise das mesmas




                                                                                             #
e se chegou à conclusão de que o atual jornal tinha muitas falhas, principalmente
no aspecto da linha editorial. Sendo assim, a decisão tomada foi pela reestruturação




                                                                                        Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
completa, incluindo um novo nome para o mesmo. Surge, então, o ABC Jornal,
implementado no segundo semestre de 1999, sob a responsabilidade da Assessoria
de Imprensa da universidade, com as seguintes características:
a) perfil: jornal informativo, com periodicidade mensal, dando visibilidade às
   produções científica, acadêmica, institucional e cultural e à inserção comunitária
   da universidade. Para isso, busca elementos do jornalismo científico, do noti-
   ciarismo, da prestação de serviços e da opinião, em formato que visa à profun-
   didade do conteúdo e à facilidade de leitura, através de aspectos visuais atra-
   tivos e textos objetivos;
b) público-alvo: além da comunidade acadêmica – alunos, professores e funcioná-
   rios – o ABC Jornal alcança alunos do Ensino Médio e de cursos pré-vestibulares,
   entidades de classe e formadores de opinião, com a finalidade de reforçar a
   imagem da universidade como instituição de inserção comunitária. O jornal serve,
   ainda, para divulgar a instituição a outras IESs, órgãos de imprensa e gover-
   namentais, projetando nacionalmente o trabalho desenvolvido pela universidade;
c) formato: revista 25x30, capa e páginas centrais coloridas e demais páginas
   em preto-e-branco, com tiragem de 8 mil exemplares;
d) conteúdo: o ABC Jornal abrange assuntos de interesse comunitário que de-
   monstrem o vínculo da universidade com o desenvolvimento regional. A
   distribuição do jornal entre alunos do Ensino Médio possibilita sua utilização
   em salas de aula e como referencial de temáticas atuais. O ABC Jornal também
   é um espaço para divulgação científica, facilitando a compreensão do leigo
   sobre as pesquisas realizadas e aproximando a comunidade da produção
   científica da universidade. Acima de tudo é um canal de comunicação da
   instituição com a comunidade. Todo o conteúdo do jornal também está na
   página da internet.

Percebe-se, nessa construção, que o ABC Jornal contempla aspectos relacionados à
missão e à concepção de universidade que a instituição em análise destaca como
relevantes, elementos esses descritos, portanto, materializados, e que refletem a
cultura e os pressupostos da mesma. Também há de se considerar que foi realizada
pesquisa, ou seja, um questionamento aos públicos internos sobre suas expectativas
e necessidades de comunicação, para que, então, decisões gerenciais fossem to-
madas, considerando os fluxos ascendentes, descentes, por direções laterais internas
e externas. (BALDISSERA, 2000; TORQUATO, 2002; KUNSCH, 2003). Dessa forma,
é possível dizer, com relação aos aspectos relatados, que a instituição contempla o
arcabouço teórico destacado neste estudo, quanto a como proceder e quanto ao que
                                         $
                                                                                                                  considerar para o planejamento da comunicação organizacional. (BALDISSERA, 2000;
                                                                                                                  TORQUATO, 2002; KUNSCH, 2003).
Cruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência...




                                                                                                                  As modificações que o jornal sofreu ao longo desses seis anos foram realizadas
                                                                                                                  a partir da experiência dos jornalistas responsáveis pela elaboração do mesmo,
                                                                                                                  ou seja, não houve nova pesquisa, nem ao menos se utilizou um instrumento de
                                                                                                                  coleta de dados que tenha avaliado o grau de satisfação dos públicos que foram
                                                                                                                  anteriormente pesquisados. O processo de pesquisa foi interrompido, impossi-
                                                                                                                  bilitando a retroalimentação como a teoria sobre a comunicação organizacional
                                                                                                                  enfatiza. (BALDISSERA, 2000; KUNSCH, 2003).

                                                                                                                  No planejamento de comunicação de 2006, está prevista a realocação de públicos
                                                                                                                  para o ABC Jornal, passando a atingir somente os funcionários, com linha edito-
                                                                                                                  rial que enfatize assuntos da gestão organizacional e temas mais genéricos re-
                                                                                                                  lativos à universidade.

                                                                                                                  A agência de publicidade e propaganda – responsável pelo planejamento de
                                                                                                                  comunicação da universidade – justifica a mudança, em função de ter criado
                                                                                                                  uma revista direcionada aos alunos da universidade com perspectiva de ampliar
                                                                                                                  a distribuição aos alunos do Ensino Médio e cursos pré-vestibulares.

                                                                                                                  A agência de publicidade e propaganda argumenta que os professores têm acesso a
                                                                                                                  todas as informações da universidade através da intranet e que está prevista a
                                                                                                                  elaboração de um boletim direcionado a esse público, ampliando a distribuição aos
                                                                                                                  veículos de comunicação da região e do País, formadores de opinião e a outras IESs.

                                                                                                                  Com a ação de reestruturação do ABC Jornal, verifica-se a fragmentação e dis-
                                                                                                                  persão da comunicação. Assim, a instituição corre o risco de perder uma ferra-
                                                                                                                  menta de comunicação que esteja cumprindo com seus objetivos e com sua função
                                                                                                                  organizacional. Tal fato pode ser atribuído, hoje, à falta da presença mais intensa
                                                                                                                  da Assessoria de Imprensa nas decisões de comunicação, atualmente gerenciadas
                                                                                                                  quase na totalidade pelo Setor de Marketing. Outro aspecto a ser considerado é
                                                                                                                  que a instituição deixa o planejamento da comunicação organizacional com a agência
                                                                                                                  de publicidade e propaganda. Ratifica-se, então, que a decisão gerencial de realocar
                                                                                                                  os públicos do ABC Jornal não foi tomada tendo como base a pesquisa.

                                                                                                                  Também, se constata que a instituição não possui políticas claras e definidas de
                                                                                                                  comunicação, fato presente desde que a universidade institucionalizou a Assessoria
de Imprensa e o Setor de Marketing. O que existe é o planejamento de comunicação




                                                                                          %
anual, desenvolvido pela agência de publicidade e propaganda, implementado a
partir de 2003 e que nem sempre é cumprido na íntegra, às vezes só em parte.




                                                                                     Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
Mediante tais constatações, não é surpresa que na rede/fluxo de comunicação
informal, haja o consenso de que existem falhas grandes de comunicação,
principalmente no sentido interno. Baldissera (2000), Scroferneker (2001) e
Kunsch (2003) já alertaram para os riscos que as organizações correm por não
realizar o planejamento de comunicação, e por não considerar a comunicação
organizacional. Nesse sentido, fica prejudicada toda e qualquer iniciativa que
tenha por objetivo implementar um processo de comunicação integrada.

Outro fato a ser mencionado e que está relacionado à cultura organizacional,
porém materializado nos documentos formais, mas que afeta diretamente a
comunicação organizacional, diz respeito à política institucional que rege as
decisões da instituição, em muitos casos se sobrepondo à concepção de
universidade proposta. Nesse contexto, é usual que os gestores detentores do
poder utilizem-se das ferramentas de comunicação para fins de promoção da
gestão, com objetivos de se perpetuarem no poder. Essa constatação é pontual
e hoje se reflete no editorial do ABC Jornal.

Sugere-se que a organização reveja sua concepção de comunicação organizacional,
para que efetivamente possa ter uma imagem positiva ao seu público interno,
implementando o planejamento estratégico de comunicação que contemple o
mix/composto da comunicação/comunicação integrada. É importante evidenciar
que a comunicação organizacional é que sustenta e reproduz a imagem da empresa
perante os públicos com os quais essa se relaciona.



Considerações finais
A comunicação organizacional, no contexto das organizações pós-modernas, para
que possa atingir seus objetivos, necessita, primeiramente, considerar a cultura
organizacional, pressuposto ratificado pelos autores apresentados neste estudo.

É importante para uma organização a integração de suas atividades de comu-
nicação – comunicação integrada – em função do fortalecimento de seus conceitos
institucional, mercadológico e corporativo em seus públicos. Isso poderá acontecer
se efetivamente a gestão da comunicação organizacional considerar as dimensões
e os fluxos que permeiam a construção/desconstrução das relações pessoais e
                                         
                                                                                                                  profissionais nas empresas.
Cruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência...




                                                                                                                  Conforme foi possível observar quanto às decisões estratégicas relacionadas ao
                                                                                                                  ABC Jornal, percebe-se que no momento de sua implementação/reestruturação
                                                                                                                  a instituição de ensino considerou alguns dos pressupostos que norteiam a teoria
                                                                                                                  da comunicação organizacional, mas em função de a mesma não ter claramente
                                                                                                                  definidas suas políticas de comunicação, os processos anteriormente seguidos
                                                                                                                  acabam se perdendo nesse novo momento de planejamento de comunicação ao
                                                                                                                  qual a instituição se propõe. Sendo assim, corrobora-se com o argumento de
                                                                                                                  Bueno (2003, p. 9) quando destaca que a comunicação integrada, ainda hoje,
                                                                                                                  “se constitui em mais um discurso, apropriado pelos especialistas e gestores da
                                                                                                                  comunicação, do que uma prática efetiva no quotidiano das organizações”.

                                                                                                                  É importante salientar que não se pode generalizar os dados apresentados na
                                                                                                                  universidade que relata a experiência com o ABC Jornal; no entanto, há de se
                                                                                                                  considerar que pesquisas realizadas em outras universidades (KUNSCH, 1992;
                                                                                                                  SCROFERNEKER, 2001), demonstram que as IESs têm dificuldade em
                                                                                                                  compreender a importância da comunicação organizacional. Também se percebe
                                                                                                                  que são incipientes no que tange às práticas comunicacionais – comunicação
                                                                                                                  integrada – praticando-as de forma fragmentada e incompleta, uma vez que não
                                                                                                                  desenvolvem um planejamento estratégico de comunicação organizacional, vindo
                                                                                                                  a correr sérios riscos de construção/desconstrução de sua imagem diante dos
                                                                                                                  públicos com os quais mantêm relações.

                                                                                                                  Essas são as contribuições gerenciais deste estudo, que podem servir de base
                                                                                                                  para que a IES em análise reveja os pontos estratégicos da gestão da comunicação
                                                                                                                  organizacional. As implicações acadêmicas dizem respeito à análise empírica
                                                                                                                  dos conceitos teóricos referentes à comunicação organizacional e à implementação
                                                                                                                  dos pressupostos da comunicação integrada nas organizações, já conhecidas da
                                                                                                                  comunidade acadêmica.



                                                                                                                  Referências
                                                                                                                  BALDISSERA, Rudimar. Comunicação organizacional: o treinamento de recursos humanos
                                                                                                                  como rito de passagem. São Leopoldo: Ed. da Unisinos, 2000. p. 13-39.
                                                                                                                  BARBETTA, Pedro Alberto. Estatística aplicada às Ciências Sociais. Florianópolis: Ed. da
                                                                                                                  UFSC, 1994.
BUENO, Wilson da Costa. Comunicação empresarial: teoria e prática. Barueri: 2003.




                                                                                               '
CHANLAT, Jean-François. Ciências Sociais e management: reconciliando o econômico e
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                                                                                          Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
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Idéias sobre tecnologia,




                                                                                                           
interações comunicativas




                                                                                                         Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
                                                       1
e economia midiática
                                                           Álvaro Benevenuto Júnior2


                                              RESUMO
A tecnologia tem interferido nas mais singelas ações do cotidiano. Da cozinha ao computador, a
tecnologização da sociedade atual, processo verificado com maior nitidez nas duas últimas décadas
do século XX, transforma o homem em um ser cada vez mais dependente de aparelhos eletrônicos
e, ao mesmo tempo, de informações que condicionam sua operação (dos manuais de operação
aos telejornais). Essa “tecnoocupação” da vida permite análises sobre o resultado da ação do
capital sobre a mídia, transformando-a num potencial veículo de consolidação do lucro. Este
artigo pretende seguir por caminhos que propiciem observar o impacto da ação capitalista produtivo-
lucrativa, partindo da liberdade e do direito de agir do cidadão, de forma comunicativa e corporativa,
apreendendo a tecnologia disponível.
Palavras-chave: Tecnologia da comunicação. Economia da Comunicação. Mídia e interação so-
cial.

                                             ABSTRACT
Technology interfers with the most simple acts of daily actions. From the kitchen to the computer,
the approach to technology in the current society (a process verified with igger clearness during
the last two decades), transforms man into a great electronic devices dependent and, at the same
time, of the information that conditions its operation (from the operation manual to the news). This
“techno-occupation” of life allows us to analyse the results of the action from the capital on the
media, transforming it into a potential vehicle of consolidation of profit. This article intends to
follow the ways that propitiate the bservation of the impact on the productive-lucrative capitalist
action: from the citizen´s freedom and his right to action in a communicative and corporative form,
apprehending the available technology.
Key words: Communication technology. Communication economy. Media and social interaction.




1 Texto produzido para a disciplina de Comunicação, Política e Cidadania do PPG em Comunicação e
Política da Universidade de Santa Cruz do Sul (2006-2007).
2 Doutor em Ciências da Comunicação pela Unisinos. Professor da disciplina Televisão na Universidade
de Caxias do Sul (UCS). Pesquisador no CNPq.
Introdução
                                                    


                                                                                                    As características das interações sociais contemporâneas estão cada vez mais
Benevenuto Júnior, Álvaro. Idéias sobre tecnologia, interações comunicativas e economia midiática




                                                                                                    presas ao uso de aparatos tecnológicos, como indicam, principalmente, estudos
                                                                                                    relatados por Silverstone e Hirsch, 3 que dirigem o foco de atenção para
                                                                                                    experiências individuais, ocorridas no âmbito da família e do lar, mediadas pela
                                                                                                    tecnologia disponível no mercado: do forno de microondas ao computador que,
                                                                                                    conectado, acessa o ambiente das redes. Uma reflexão sobre as transferências
                                                                                                    dos tempos e as mudanças nas características das interações sociais e
                                                                                                    comunicativas, a partir da tecnologização da sociedade, é necessária para pensar
                                                                                                    a economia midiática.

                                                                                                    O que mudou nos espaços das interações com a inclusão desses aparatos
                                                                                                    tecnológicos? Perguntar isso, num momento em que o cotidiano se caracteriza
                                                                                                    pela ampla possibilidade de comunicação em tempo real com nossos pares, traz
                                                                                                    um ar de nostalgia.4 As tecnologias de informação inserem-se fácil e rapidamente
                                                                                                    no cotidiano social. Primeiramente porque elas, antes mesmo de surgirem, fazem
                                                                                                    parte de uma histórica atração humana pela novidade e pelo tecnológico. Segundo,
                                                                                                    porque a busca pela vida plena, pela praticidade que pode ser proporcionada
                                                                                                    pelos artefatos, igualmente encanta.5

                                                                                                    No fim dos anos 60, os artefatos tecnológicos exóticos mais comuns numa
                                                                                                    residência de classe média eram: fogão, liquidificador, batedeira, geladeira,
                                                                                                    bicicletas e um automóvel (geradores de interação social), telefone, receptores
                                                                                                    de rádio e TV (geradores de interação comunicativa). Às crianças, um trenzinho
                                                                                                    elétrico, um autorama ou uma boneca que falava ou se movimentava bastava
                                                                                                    para estabelecer um ambiente de interação social com seus pares.

                                                                                                    Esses aparelhos davam conta de certo conforto para preparar a alimentação
                                                                                                    diária, para propiciar deslocamentos a lugares de lazer e para revigorar os laços


                                                                                                    3 SILVERSTONE, Roger; HISCH, Eric (Eds.). Los efectos de la nueva comunicación: el consumo de la
                                                                                                    moderna tecnología en el hogar y en la familia. Barcelona: Bosch, 1996.
                                                                                                    4 Refiro-me aqui à lembrança daquele tempo em que as brincadeiras de rua começavam com a construção
                                                                                                    dos brinquedos, seja do carrinho de lomba, do corte dos galhos de eucalipto para fazer as traves da goleira
                                                                                                    ou das “incursões” na pequena oficina para construir as mobílias em miniatura das bonecas, muito comum
                                                                                                    nas cidades pequenas, mesmo que estivessem próximas das metrópoles.
                                                                                                    5 BENEVENUTO JÚNIOR, Álvaro; HEBERLE, Antônio. Gestão e funcionamento das interações sociais con-
                                                                                                    temporâneas. São Leopoldo: Ed. da Unisinos. 2002. p. 1. Mimeo.
sociais familiares com parentes distantes e para o acesso a noticiários e ao




                                                                                                             !
entretenimento da mídia. Exigiam, assim, destinar tempos cotidianos específicos
para cada atividade, permitindo a interação social, intrafamiliar nos interstícios




                                                                                                           Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
do fazer de cada uma dessas atividades.6

A hora de preparar a refeição, por exemplo, constituía-se num momento de
interação presencial, ao vivo, entre pais e filhos, vizinhos e, em algum tempo,
amigos de diferentes ambientes (escola, trabalho, igreja, viajantes). A definição
e a quase-imobilidade desses tempos proporcionavam outros momentos de
interação, como o fim de tarde, quando os vizinhos se encontravam nas calçadas
para conversar sobre o corriqueiro, o cotidiano da vizinhança para, em seguida,
encerrar o dia ouvindo o noticiário no rádio e/ou assistindo à televisão, à novela
e a programa de variedades ou filme, de temática complexa.7

Isso era possível porque os tempos cronometrados das décadas de 60-70,
determinados pela dependência operacional e pelo precário funcionamento dos
sistemas de aparatos tecnológicos de interação comunicativa,8 tinham “lugares
fixos”, isto é, a hora da escola era uma, o trabalho ocupava duas partes do dia,
o lazer/entretenimento vinha logo em seguida.

Localizar as interações dessa época nesses lugares e tempos, definidos por
uma lógica de uso de uma tecnologia “rústica” e da preservação dos ambientes
privados e públicos, é definir uma característica de interação presencial, partici-
pativa,9 de um espaço público, conforme Habermas.




6 Inspirada em E. Goffman, a pesquisadora salienta que as “enunciações não se sustentam sozinhas,
não fazem sentido isolado. A conversão, “transe socializado”, unio mystica, está assentada em
complexos jogos de cena que vão sustentar o contato, fundar a troca de palavras, projetar um indivíduo
ao outro”. (FRANÇA, Vera R. V. Comunicação, sociabilidade e cotidiano: o fio de Ariadne, a palavra da
rua. In: FAUSTO NETO, Antonio; PINTO, Milton José. O indivíduo e as mídias. Rio de Janeiro: Compós;
Diadorim, 1996. p. 101).
7 MILANESI, Luís. O paraíso via Embratel. São Paulo: Paz e Terra, 1985. p. 87s.
8 Os eletrodomésticos não tinham timers, controle remoto ou memória artificial, exigindo a presença de
seus operadores para sua aplicação. No caso dos aparatos de interação comunicativa, como o telefone,
o rádio e a televisão, as operações mais simples eram longas. A exemplo, um telefonema para a cidade
vizinha poderia demorar quatro horas para ser completada, porque ela dependia da liberação de linhas até
o destino, além de ser operada manualmente.
9 França fala que as interações sociais se completam quando há resposta a um estímulo gerador da
demanda. (FRANÇA, op. cit., p. 101-102).
A partir da segunda metade da década de 70, centralmente nos países em
                                                    
                                                                                                    desenvolvimento, acompanhou-se outro movimento da modernização da economia,
                                                                                                    com o acelerado processo de multinacionalização da indústria e da fácil mobilidade
Benevenuto Júnior, Álvaro. Idéias sobre tecnologia, interações comunicativas e economia midiática




                                                                                                    do capital. A marca nacional se transformou em multinacional, modificando os
                                                                                                    tempos da vida dos empregados em função das diferenças de fuso horário.
                                                                                                    Significa que, ao transferir o controle administrativo para um outro lugar, distante,
                                                                                                    as definições da temporalidade local das interações foram reorganizadas.

                                                                                                    Esse processo aconteceu concomitantemente com o desenvolvimento das no-
                                                                                                    vas tecnologias de comunicação, fundamentais para administrar instituições
                                                                                                    contemporâneas, sem locais fixos. Essa transformação incide diretamente na
                                                                                                    reorganização dos tempos sociais característicos e particulares de cada lugar.
                                                                                                    Da mesma maneira, interfere no tempo do trabalho, ampliando-o para as 24
                                                                                                    horas do dia. Muda o tempo da brincadeira, substituindo a ação lúdica de
                                                                                                    construção dos brinquedos pela compra de aparelhos eletrônicos automotivos
                                                                                                    em oferta no mercado. Muda também o tempo do lar, ao trazer para dentro de
                                                                                                    casa o conforto dos controles remotos (eletrodomésticos programáveis) e das
                                                                                                    opções pré-prontas (alimentos congelados, telentregas, restaurantes, ingressos
                                                                                                    a espetáculos de arte, etc.), marcas desse outro momento.

                                                                                                    A nova configuração do tempo reestruturou o espaço privado, integrando nele as
                                                                                                    atividades características dos espaços públicos, como a continuação das
                                                                                                    atividades profissionais (agora em rede) e as brincadeiras, que deixaram de
                                                                                                    acontecer nas ruas e praças, se transferindo para a tela de videogames ou de
                                                                                                    computadores, muitas vezes, conectados à internet. Muda a característica das
                                                                                                    interações comunicativas, presenciais e participativas. As conversas com pessoas
                                                                                                    que estavam longe, feitas por cartas e ao telefone, são efetivadas em real time,
                                                                                                    por meio da conexão com a internet. A referência definidora dos limites entre os
                                                                                                    espaços públicos e privados dilui(u)-se na calçada da rua e transfere(iu)-se para
                                                                                                    a capacidade processadora dos aparatos tecnológicos da comunicação.


                                                                                                    Novos lugares e novas interações
                                                                                                    Os novos lugares e as novas formas de interação têm oferecido elementos para
                                                                                                    observar a sociedade contemporânea. Começando pela forma como se
                                                                                                    estabelecem a gestão e o funcionamento das interações sociais e comunicativas.
                                                                                                    Num primeiro momento, percebe-se que essas relações são gerenciadas pela
                                                                                                    mídia. Grosso modo, elas acontecem quando o indivíduo convoca seu par,
oferecendo situações que permitam o reconhecimento de falas e experiências




                                                                                                                #
vividas, mobilizando-o a uma outra situação, construída e constituída de falas e
experiências gestadas a partir da nova experiência que visa à construção de um




                                                                                                              Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
processo onde os nexos entre essas experiências10 é permeado pela gestão
individual.

É importante considerar os contornos do modo de ocorrência dessas duas
interações: no âmbito presencial e no participativo, estando os indivíduos
interagentes mobilizados para a ação num tempo e num espaço concomitantes e
concretos, vive-se essa experiência comunicativa ao sabor de interferências
intemporais e imprevistas conforme a lógica das opiniões imediatas. Ao usar a
tecnologia de comunicação, que assume o papel de meio, incorpora-se um
elemento mediador da experimentação inovadora, a partir de referenciais da
alteridade, proporcionando um tempo de reflexão não mais imediato, eliminando
a astúcia do comentário.

Nesse lugar, a convocação do outro acontece por mensagens que passam por
um trabalho de montagem-desmontagem-remontagem. Elas, sutil e concretamente,
ficam à deriva das condições e das imposições vulneráveis a estratagema
comercial, estabelecidas a partir de parâmetros sociolucrativos, ditados pelos
comandos das instituições produtoras da comunicação. A conversa se aproxima
do sentido da manipulação da mensagem, sem que isso represente julgamento
de valor moral ou ético. Significa dizer que essa interação, agora midiatizada,
inclui elementos de uma experiência vivida estranha à dos interagentes
(espectadores/consumidores) presenciais e imediatos.

A mídia será, nessa hora, a produtora daquilo que cabe ser interpretado como
um terceiro sentido na experiência interacional, revelando importante característica
do fenômeno: ao estar atrelada a interesses (econômicos) estranhos aos
indivíduos e ao ter alto potencial de circulação e consumo, transforma-se num
outro lugar de sociabilidade, agora comunicativa. “En todas las encuestas en
que se pregunta a la gente quién tiene demasiado poder en la sociedade actual,
los medios de comunicación aparecen en los primeros lugares.”11 Quer dizer
que, se a mídia não “fala” a respeito de algo, esse algo não é concreto.



10 FRANÇA, op cit., p. 102.
11 NEUMANN, Elisabeth Noele. La espiral del silencio: o
                                                      opinión pública: nuestra piel social. Madrid: Paidós,
1996. p. 204.
O resultado dessa ação no ambiente privado é representado pelas mudanças
                                                    $
                                                                                                    nos modos de (re)conhecer o mundo e de experimentar as interações, mudando,
                                                                                                    inclusive, o agendamento das atividades familiares. Por exemplo: se é anunciada
Benevenuto Júnior, Álvaro. Idéias sobre tecnologia, interações comunicativas e economia midiática




                                                                                                    a previsão de chuva durante um feriado prolongado, os planos de ida à praia são
                                                                                                    adiados. É a simples previsão da condição climática exposta pela mídia, inter-
                                                                                                    ferindo na rotina de milhares de famílias de uma determinada região geográfica.

                                                                                                    Também são resultado da atitude gestora da mídia os comportamentos dos
                                                                                                    indivíduos diante do estilo de vida e de consumo. A moda, nesse aspecto, é uma
                                                                                                    referência mais explícita do poder midiático.12 Ao apresentar suas propostas de
                                                                                                    mundo ideal a seus milhares de espectadores/consumidores, potencializado com
                                                                                                    as transmissões globais através dos satélites e da internet da moda, a mídia
                                                                                                    confirma sua capacidade de gerir as interações contemporâneas, impondo um
                                                                                                    tipo de funcionamento preestabelecido da sociedade. A mídia aumenta e consolida
                                                                                                    o fosso entre os grupos sociais, desrespeitando a expressão da multiplicidade.13

                                                                                                    O exercício de rascunhar o quadro das novas interações midiatizadas resulta
                                                                                                    num esboço onde tudo e todos terão como prioridade a circulação pelo ambiente
                                                                                                    virtual, transferindo para segundo plano as interações presenciais e participativas,
                                                                                                    como as relatadas no início deste texto. Sem ser apocalíptico, nem integrado,
                                                                                                    esse rabisco alerta para a necessidade de estudos, debates e divulgação de
                                                                                                    propostas e de ações que instiguem a busca do equilíbrio nas interações
                                                                                                    presenciais-participativas em relação às virtuais-participativas.



                                                                                                    Mídia, cotidiano e economia da comunicação
                                                                                                    Não faz muito tempo que a mídia passou a ser objeto de destaque para as
                                                                                                    pesquisas, e já são muitas as citações sobre o impacto e os efeitos desse



                                                                                                    12 Os seriados vespertinos, como “Malhação”, exibido pela Rede Globo de Televisão desde 1998, na
                                                                                                    faixa das 18 horas, é um bom exemplo para essa reflexão. Ali, os personagens – todos adolescentes –
                                                                                                    adolescentes vivem situações características de sua faixa etária, vestem-se com os lançamentos da
                                                                                                    indústria do vestuário, usam a gíria presente em outros veículos dirigidos a esse público, criando a imagem
                                                                                                    de pertinente para a época. Ao mesmo tempo, esses seriados servem como instrumento de campanhas
                                                                                                    publicitárias de cunho social, como a prevenção da Aids, combate às drogas, segurança no trânsito. É
                                                                                                    interessante notar que temas polêmicos são evitados, como questões políticas e o debate a respeito das
                                                                                                    opções individuais em relação ao gênero.
                                                                                                    13 BAUMANN, Zygmunt. Globalização: as conseqüências humanas. Rio de Janeiro: J. Zahar Editor, 1999.
campo na sociedade. Esses estudos buscam referências em clássicos, a exemplo




                                                                                                            %
de Aristóteles, quando se aponta a necessidade de ampliar a área do conheci-
mento, passa pela Acta Romana, pelas impressões chinesas, de Gutenberg, e




                                                                                                          Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
pelo uso da imprensa na Revolução Francesa para apresentar a mídia, com a
qual nós convivemos, como fundante do cotidiano.

Não é estranho saber que alguém é despertado por uma mensagem radiofônica
no lugar do canto do galo; ou que começa o dia vendo a programação da televisão
antes mesmo de ouvir o rádio ou o sonido estridente e monótono do despertador.
É comum também saber de que há alguém que, antes de qualquer atividade
cotidiana, conecta-se à rede.

São sintomas explícitos de que a mídia está dentro da rotina, realizando sua
atividade central – e muito pouco percebida – que é a de incentivar ações
individuais que sustentam a circulação de mercadorias e mantêm a geração de
lucro do capital. A propósito dessa linha de pensamento, Martín-Barbero e Rey
afirmam que “a experiência cultural latino-americana desse fim de século não
pode ser pensada fora das novas estruturas comunicativas da sociedade”,14
indicando que essas estruturas escamoteiam sua interdependência com o capi-
tal e o seu propósito de ação único que visa a um objetivo, isto é, ao lucro,
mesmo que ele não signifique diretamente ganho financeiro.

A presença da mídia no cotidiano é de tal força que Sodré considera-a como o
quarto bios, dotada de tal poder que supera e perpassa as três outras formas
tradicionais da existência humana: a vida contemplativa, a vida política e a vida
prazerosa.15 Como uma quarta maneira de vida, ela acaba sendo a responsável
pela ordenação do cotidiano.

Na perspectiva de um quarto bios, a televisão se apresenta como a alternativa
mais comum de meio de ação comunicativa na sociedade atual. Sua aparição,
na segunda metade da década de 30, foi acompanhada de variantes econômico-
políticas, que permitem resgatar os laços estreitos entre o mercado e a mídia.




14 MARTÍN-BARBERO, Jesús; REY, Gérman. Os exercícios do ver: hegemonia audiovisual e ficção televisiva.
São Paulo: Senac, 2001. p. 30.
15 SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho: uma teoria da comunicação linear em rede. Petrópolis:
Vozes, 2002. p. 25.
A primeira transmissão experimental de TV nos Estados Unidos, de uma partida
                                                    
                                                                                                    de beisebol, revela uma pista importante do interesse do capital sobre esse
                                                                                                    novo meio de comunicação, o que se concretizou logo após a implantação do
Benevenuto Júnior, Álvaro. Idéias sobre tecnologia, interações comunicativas e economia midiática




                                                                                                    sistema. Na Inglaterra, a primeira transmissão de larga abrangência foi a coroação
                                                                                                    do rei Jorge IV, em 1937, evento de interesse nacional, mobilizando toda a
                                                                                                    sociedade inglesa. Cinqüenta mil espectadores acompanharam o espetáculo.16

                                                                                                    Para melhor entender esses movimentos, é importante ter presente que naquela
                                                                                                    época o mundo se recuperava da crise da Primeira Guerra e da Revolução Russa,
                                                                                                    tendo como mola propulsora o investimento na industrialização. Os modelos de
                                                                                                    produção em larga escala, a partir da filosofia fordista, incentivavam (e cobravam)
                                                                                                    o aumento do consumo. Isso somente foi possível com o crescimento da massa
                                                                                                    de trabalhadores assalariados, contratados pela própria indústria, que também
                                                                                                    recebia investimentos das bolsas de negócios.

                                                                                                    No campo da comunicação, o cinema e o rádio eram as indústrias mais rentáveis do
                                                                                                    entretenimento, criando seus stars systems para trabalhar, indiretamente, na divulga-
                                                                                                    ção de uma grande quantidade de produtos – de uso pessoal, de cosméticos a cigar-
                                                                                                    ros, ou de uso coletivo, de aparelhos domésticos, para facilitar a rotina, e automóveis
                                                                                                    – como forma de garantir a circulação de mercadorias com o intuito de incrementar a
                                                                                                    indústria e a geração de lucro para o capital. Entretanto, foi a partir da solução da crise
                                                                                                    gerada pela ascensão do nazismo alemão, na Segunda Guerra, que o mundo retomou
                                                                                                    o desenvolvimento industrial, e o capital pautou-se pelo desenvolvimento em escala
                                                                                                    mundial até chegar aos moldes de uma globalização como conhecemos hoje.

                                                                                                    A mobilização do capital mundial (1) para recuperar os estragos provocados pela
                                                                                                    Segunda Guerra (2) para identificar e fortalecer politicamente o vencedor das
                                                                                                    batalhas e (3) para consolidar as normas de convivência civilizada entre os países
                                                                                                    aliados e derrotados foi acompanhada de atitudes políticas que necessitaram dos
                                                                                                    meios de comunicação para ser reconhecidas e apoiadas pelas populações do
                                                                                                    bloco hegemônico. Não é por acaso que no documento que instala a Organização
                                                                                                    das Nações Unidas, “os meios de informação de massa (sic) estão certamente
                                                                                                    ausentes da sigla, mas a questão de sua relação com a paz e a educação foi
                                                                                                    evocada amplamente desde as suas premissas”.17


                                                                                                    16 MATTOS, Sérgio. A televisão no Brasil: 50 anos de história (1950-2000). Salvador: PAS; Ianamá,
                                                                                                    2000. p. 256.
                                                                                                    17 MATTELART, Armand; MATTELART, Michele. História da utopia planetária: da cidade profética à sociedade
                                                                                                    global. Porto Alegre: Sulina, 2002. p. 330.
Esse movimento inspirou a forma de pensar as propostas de administração das




                                                                                                             '
mídias, buscando resolver os problemas de alta complexidade para a operação,
por exemplo, de uma TV (que envolve questões puramente técnicas, relacionadas




                                                                                                           Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
ao campo das engenharias, artísticas, intelectuais, comerciais e de relacionamento
com os espectadores).18

Enquanto esse movimento em direção à organização de um novo mercado
acontece, os estudos de mídia, que nesse tempo começavam a ser desenvolvidos
pelas disciplinas: antropologia, sociologia e psicologia, identificaram o fenômeno
que Adorno e Horkheimer denominaram Indústria Cultural.19

A proposta de uso da mídia como elemento basilar da luta pela hegemonia
econômico-política mundial (em especial a televisão) consolida a relação de valor
dos bens de consumo cultural, provocando um movimento no sentido de estabe-
lecer diferenças que permitirão opções de escolha.20


Concorrência na diferença
A variedade dos produtos culturais oferecidos pela televisão, no caso brasileiro,
delineia um quadro interessante de análise para entender o seu desenvolvimento
e a sua inclusão na vida social contemporânea. Em seus primeiros dias de funcio-
namento, a partir de setembro de 1950, seguindo o modelo radiofônico de pro-
dução cultural, a Tupi investiu na exibição de programas de entretenimento (shows,
variedades, humor), entremeados por uma edição jornalística, mesmo recebida
por apenas 200 aparelhos instalados no País (leia-se São Paulo).

A aparição da concorrência – a TV Record –, meses depois de sua inauguração,
obrigou a emissora a pensar em outras atrações para manter sua grade, que
era apresentada durante três ou quatro horas diárias. O teleteatro foi a saída
da emissora pioneira para conquistar a audiência da recepção dos 7 mil apa-
relhos vendidos no País em novembro de 1951.21 É importante notar, também,


18 Essa diversidade de operações é especialmente tratada por BUSTAMANTE, Enrique. La televisión
económica: financiación, estrategias y mercados. Barcelona: Gedisa, 1999. p. 14-20.
19 ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Indústria cultural: o iluminismo como mistificação de massas.
In: LIMA, Luis Costa. Teoria da cultura de massa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. p. 162.
20 BOLAÑO, Cesar. Indústria cultural, informação e capitalismo. São Paulo: Hucitec; Polis, 2000. p. 204.
21 REIMÃO, Sandra. Em instantes: notas sobre a programação na TV brasileira. São Paulo: Salesianas;
Cabral, 1997. p. 21 e MATTOS, op. cit., p. 93-95.
que além dos programas, a audiência era outra preocupação relevante para os
                                                    
                                                                                                    gerentes. O relato de ações para aumentar a audiência através de uma campa-
                                                                                                    nha incentivando a aquisição de televisores é revelador. O texto veiculado
Benevenuto Júnior, Álvaro. Idéias sobre tecnologia, interações comunicativas e economia midiática




                                                                                                    na época era:

                                                                                                               Você quer ou não a televisão? Para tornar a televisão uma realidade no Brasil, um consórcio
                                                                                                               radiojornalístico investiu milhões de cruzeiros! Agora é a sua vez – qual será a sua con-
                                                                                                               tribuição para sustentar tão grandioso empreendimento? Do seu apoio dependerá o pro-
                                                                                                               gresso, em nossa terra, dessa maravilha da ciência eletrônica. Bater palmas, aclamar ad-
                                                                                                               miravelmente, é louvável, mas não basta – seu apoio só será efetivo quando você adquirir
                                                                                                               um televisor!22


                                                                                                    A leitura dessa propaganda revela que a integração dos interesses dos investidores
                                                                                                    na televisão brasileira e os interesses da indústria é muito maior do que parece
                                                                                                    ser. Vale um olhar atento para o texto. A propaganda apresenta a novidade como
                                                                                                    uma benevolência de um grupo interessado no futuro do País em desenvolvimento,
                                                                                                    que quer uma sociedade moderna, com acesso aos diversos aparatos tecnológicos
                                                                                                    para o bem-estar da família nacional. Informa que a parte mais difícil foi cumprida,
                                                                                                    isto é, o investimento de “milhões de cruzeiros” e convoca os compatriotas a
                                                                                                    adquirir seus aparelhos receptores para manter a televisão nacional. Num outro
                                                                                                    sentido, a propaganda cobra, explicitamente, a responsabilidade da audiência
                                                                                                    em manter – por meio da aquisição dos receptores – a sobrevivência da televisão,
                                                                                                    como se ela estivesse incluída no rol de investidores.

                                                                                                    As relações do capital e a comunicação ficam evidentes, pois os produtos
                                                                                                    apresentados pela TV são os que terão, potencialmente, maior garantia de
                                                                                                    consumo. A publicidade e propaganda em larga escala é a ferramenta para fazer
                                                                                                    circular a produção e aumentar o lucro: o objetivo do capital. Assim também se
                                                                                                    explica, além da experiência norte-americana da TV comercial, a inversão da
                                                                                                    maior parte das verbas publicitárias nesse veículo. “O modelo brasileiro de
                                                                                                    televisão [...] depende do suporte publicitário, sua principal fonte de receita.”23
                                                                                                    De acordo com o Grupo de Mídia/MeioMensagem, há décadas a televisão
                                                                                                    movimenta 60% do capital de investimentos publicitários durante o ano.




                                                                                                    22 MATTOS, op. cit., p. 96.
                                                                                                    23 Ibidem, p. 66.
Indústria cultural e integração na TV




                                                                                                               
Na mesma medida, a integração das indústrias culturais24, num meio de




                                                                                                             Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
comunicação múltiplo como é a televisão, se estabelece na perspectiva de
completar um círculo de “auto-ajuda” promocional para a circulação da sua
produção simbólica. O grande volume de espectadores da televisão, mesmo
atualmente dividida entre as opções tradicionais (transmissão aberta) e as
codificadas (transmissão por assinatura, independentemente de sua natureza),
se caracteriza num bom ambiente para a circulação de mercadorias culturais. No
“modo de funcionamento da Indústria Cultural nos dias de hoje, o que observa é
que não apenas o comercial predomina sobre o desinteressado no que se refere
às decisões de investimentos, mas o próprio sucesso tem-se tornado
crescentemente fator de reconhecimento do produto por uma elite cultural”.25

Eventos especialmente produzidos para atender às necessidades tecnooperacio-
nais da televisão, como campeonatos esportivos ou os megashows de cantantes
da moda (como o “concerto” da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó no teatro
do Macksoud Plaza, em 1990); e a massificação de “Don’t cry for me Argentina”,
na voz de Madonna, no campo da indústria fonográfica, ou a popularização do
vôlei e do tênis (modalidades esportivas elitizadas) a partir das transmissões ao
vivo diante da crise do futebol, são exemplos eficientes para esboçar a auto-
ajuda das indústrias culturais. De um lado, respondem à necessidade de circulação
das mercadorias, culturais ou não (no caso do esporte, os principais produtos
em exibição são os próprios equipamentos característicos de cada modalidade e
seus complementos, como vitaminas, bebidas nutritivas, entre outros), e, de
outro lado, contemplam as necessidades de entretenimento da “massa” espec-
tadora da TV. Além desses dois movimentos, os espetáculos são reconhecidos
como produtos utilizáveis no cotidiano pela elite, isto é, pelos próprios detentores
do capital, que produz os bens.

É também interessante observar a “invasão” do estilo tecnopopsertanejo na
música popular brasileira, muito explorado pelos videoclipes, a partir da sofis-
ticação e da adequação desses eventos à televisão. Ao mesmo tempo, esse



24 Bolaño usa a expressão indústrias culturais para indicar a pluralidade da produção de bens, os suportes
e as cadeias de mercado. Hoje o plural é mais adequado para cobrir a amplitude da Indústria Cultural
proposta por Adorno e Horkheimer.
25 BOLAÑO, op. cit., p. 202.
gênero vai buscar obras no cancioneiro de outros movimentos musicais – como
                                                                                                    a MPB, por exemplo – adaptando-os e incluindo-os em suas apresentações.26
Benevenuto Júnior, Álvaro. Idéias sobre tecnologia, interações comunicativas e economia midiática




                                                                                                    No campo da dramaturgia (uma das áreas mais especializadas da televisão
                                                                                                    brasileira), as correlações das indústrias culturais parecem não ser tão explícitas
                                                                                                    como acontece na música.

                                                                                                    Porém, tradicionalmente, essa é uma área de investimento de outros tipos de
                                                                                                    produto, como os do setor de higiene, de bebidas, de automóveis e de alimen-
                                                                                                    tação.27 Na teledramaturgia, há espaço para a publicidade e para a propaganda,
                                                                                                    sendo que, em alguns momentos, o enredo da novela é a própria peça publicitária,
                                                                                                    seja ela originária do Estado ou do capital. Exemplos são os merchandising de
                                                                                                    produtos de variadas origens que aparecem em cenas importantes da trama, ou
                                                                                                    citados nos diálogos dos personagens, transparecendo que integram o cotidiano
                                                                                                    daquela trama e incentivando o espectador a copiar as atitudes de seus perso-
                                                                                                    nagens favoritos.28

                                                                                                    Sobre o merchandising social, dois exemplos merecem atenção: as novelas “Sal-
                                                                                                    vador da Pátria” e “O rei do gado”, produzidas e exibidas pela Rede Globo nas
                                                                                                    décadas de 80-90. Elas experimentaram tramas que abordaram a temática político-
                                                                                                    social, muito próxima dos contextos daquelas épocas e, com isso, outro tipo de
                                                                                                    publicidade: a ligada a comportamentos e à ética social.

                                                                                                    Em “Salvador da Pátria”, a personagem Sassá Mutema, inspirado no Jeca Tatu,
                                                                                                    de Monteiro Lobato, é quem cobra, dos políticos e da elite econômica, maior
                                                                                                    seriedade no trato das questões administrativas da cidade. Arma as ações e
                                                                                                    ganha a simpatia da população, que acaba elegendo-o prefeito. Essa trama é



                                                                                                    26 Aqui vale lembrar, em especial, as apresentações da dupla Leandro e Leonardo cantando “Canção da
                                                                                                    América”, de Milton Nascimento; de Chitãozinho, Xororó, Leandro, Leonardo, Luciano e Zezé di Camargo,
                                                                                                    no megashow Amigos, executando “Amigos para sempre”, composta para a solenidade de abertura dos
                                                                                                    Jogos Olímpicos de Atlanta e apresentada pelo trio de tenores Luciano Pavarotti, Plácido Domingues e
                                                                                                    José Carreras ou de Leandro, ao inaugurar sua carreira solo (depois do desaparecimento de Leonardo),
                                                                                                    cantando “Nas curvas da estrada de Santos”, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos.
                                                                                                    27 Veja-se, especialmente, os estudos de MELO, José Marques. As telenovelas da Globo: produto de
                                                                                                    exportação. São Paulo: Summus, 1988; ORTIZ, Renato; RAMOS, José Mário Ortiz; BORELLI, Sílvia. Telenovela:
                                                                                                    história e produção. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1991; REIMÃO, op. cit.
                                                                                                    28 A esse respeito, Doc Comparato indica que o autor das peças tem que pensar nos produtos que
                                                                                                    podem ser apresentados no enredo de sua obra para evitar ao máximo problemas com a recusa dos
                                                                                                    atores em participar da novela. (COMPARATO, Doc. Da criação ao roteiro. Rio de Janeiro: Campus, 1998).
apresentada exatamente na época que antecede a primeira rodada das eleições
presidenciais, quando o País se pautava pela organização da economia, pela




                                                                                                                  !
moralização das instituições públicas e pelo fim dos privilégios oferecidos para




                                                                                                                Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
as elites nacionais.

Em “O rei do gado”, o autor chegou ao ponto de misturar realidade com ficção de
tal forma que até mesmo os políticos dialogaram com as personagens por meio
de publicações na imprensa diária.29 Essa atitude ousada da equipe que escreveu
a novela deu publicidade a uma questão de ordem social importante: em 1997,
a sociedade brasileira exigia seriedade e ética no trato da coisa pública e já
havia iniciado o processo de investigação para reduzir a corrupção revelada pelo
processo de impedimento do presidente Collor de Melo.

Outra relação do capital com a televisão, que merece resgate, é o interesse da
indústria eletrônica no veículo. A televisão foi a plataforma dos grandes desafios
para a pesquisa e o desenvolvimento da eletrônica, o que sinaliza a dependência
mútua. Se o sistema rádio representou a largada para a comunicação mundial,
experimentando, num primeiro momento, as possibilidades de um sistema
rentável – tanto para hardware como para os software –, a televisão consolidou
a indústria porque, ao se mostrar mais complexa e mais atrativa do que o rádio
(ela dá acesso às imagens), possibilitou também resolver problemas de trans-
missão sonora. Isso significa economia e racionalização para o desenvolvimen-
to de projetos.

Na mesma intensidade, implica a manutenção e a ampliação de mercado para
os receptores, informação que se constrói pelos dados históricos dos aparelhos
de TV em uso no Brasil nesses 50 anos: os 200 aparelhos em 1950 se multipli-
caram para 4.584 milhões em 1970, subindo para 30 milhões em 1990 até
chegar a 55 milhões em 2002.30




29 Especialmente a novela “O rei do gado”, de Benedito Ruy Barbosa, exibida a partir de janeiro de 1997,
que, na cena do funeral do senador Caxias, contou com a atuação de políticos eleitos para aquela legislatura,
além de exibir cenas de discursos proferidos na própria casa legislativa. (HAMBURGER, Esther. Política e
novela. In: BUCCI, Eugênio (Org.). A TV aos 50: criticando a televisão brasileira no seu cinqüentenário. São
Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000. p. 25-48).
30 MATTOS, op. cit., p. 95, sendo os dados de 2002 uma estimativa apoiada nas informações da
Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica. (Abinee). Disponível em: htpp://
                                                                  .
www.abinee.com.br. Acesso em: 2 ago. 2002.
Hoje, a televisão continua sendo especial para a mobilização da pesquisa no
                                                    
                                                                                                    âmbito da técnica, da política e da economia, especialmente quando se fala em
                                                                                                    televisão digital.
Benevenuto Júnior, Álvaro. Idéias sobre tecnologia, interações comunicativas e economia midiática




                                                                                                    São perceptíveis, no discurso corrente, as possibilidades técnicas que o novo
                                                                                                    modo de operação do sistema traz. Transmissão simultânea de múltiplos canais,
                                                                                                    conexão imediata com os operadores, estímulo dos processos de emissão-
                                                                                                    resposta, diversidade de conteúdos opções de acesso a outras mídias, qualidade
                                                                                                    de imagem, etc., mas ainda não se debatem as implicações desse avanço
                                                                                                    tecnológico sobre a cultura nacional.

                                                                                                    Apesar das diferenças enormes entre as capacidades (e possibilidades) de acesso
                                                                                                    às novas mídias percebidas na sociedade brasileira, a televisão contemporânea é,
                                                                                                    ainda, o bem de comunicação de maior acessibilidade social. Quando concretizar
                                                                                                    a digitalização desse meio, outra barreira (econômico-social) surgirá, transforman-
                                                                                                    do o meio de comunicação com alto grau de popularidade em um filão de reduzido
                                                                                                    acesso. Esse dado pode produzir reflexos inesperados ao mercado da comunicação.



                                                                                                    Algumas considerações
                                                                                                    Observa-se a mídia (e em especial a televisão) como um fenômeno comunicacional
                                                                                                    inserido de maneira tão íntima no cotidiano da sociedade – que permite comentários
                                                                                                    como “se a TV não mostrou, não aconteceu”.31 Percebe-se que ela se transforma,
                                                                                                    assim, num ambiente especial para a publicização de bens materiais e culturais.

                                                                                                    Essa categorização, entretanto, não entra em detalhes a respeito das especificidades
                                                                                                    que acontecem nos bastidores da produção midiática, produzindo uma certa névoa
                                                                                                    num lugar onde começam a se concretizar as relações entre o capital e a mídia.

                                                                                                    É sintomático o depoimento de um roteirista de novelas, recolhido em 1982,
                                                                                                    para entender os meandros das relações econômicas em detrimento das sociais:
                                                                                                    “Tanto os comerciais quanto o merchandising são regras do sistema capitalista,
                                                                                                    e é preciso aceitá-los, a não ser que se esteja contra o próprio sistema capitalista.
                                                                                                    Pessoalmente, eu sou contra, mas vivo dele, porque não sou uma ilha.”32 Como


                                                                                                    31 NEUMAN, op. cit., p. 197.
                                                                                                    32 GOMES, Dias. Como vender tudo através da televisão. In: MATTELART; MATTELART, op. cit., p. 120.
exemplo, a produção das telenovelas envolve a participação dos intelectuais
(autores, diretores de cena e fotografia, de produção), dos artistas, técnicos e,




                                                                                                  #
no fim da esteira, dos programadores e difusores. Da mesma forma que a categoria




                                                                                                Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
produção exige os recortes em subcategorias, a programação e a difusão devem
ser analisadas com recortes mais específicos para melhor entender essas relações
entre o capital e a mídia.

Os estudos sobre essa temática convocam, para o campo da comunicação, aportes
das disciplinas da economia e da sociologia, pois o impacto das ações do mercado
sobre o ambiente complexo da televisão não se restringe ao seu cotidiano
operacional. Ele resulta numa relação muito estreita com as formas de interação
comunicativa individuais e sociais por meio da circulação de bens de consumo e
culturais, incidindo na expressão cultural de um povo. Pensar a comunicação sob
essa ótica é muito pertinente, especialmente no tempo em que a convergência
das mídias é uma realidade muito mais próxima do que se pode imaginar. É relevante
observar as movimentações do mercado para perceber a qualidade das
transformações que estão rascunhadas para o campo da comunicação.



Referências
ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Indústria cultural: o iluminismo como mistificação
de massas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
BAUMANN, Zygmunt. Globalização: as conseqüências humanas. Rio de Janeiro: J. Zahar
                                                        .
Editor, 1999.
BENEVENUTO JÚNIOR, Álvaro; HEBERLE, Antônio. Gestão e funcionamento das interações
sociais contemporâneas. São Leopoldo: Ed. da Unisinos, 2002.
BOLAÑO, César. Indústria cultural, informação e capitalismo. São Paulo: Hucitec; Pólis, 2000.
BUCCI, Eugênio (Org.). A TV aos 50: criticando a televisão brasileira no seu cinqüentenário.
São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000.
BUSTAMANTE, Enrique. La televisión económica: financiación, estrategias y mercados.
Barcelona: Gedisa, 1999.
COLETIVO, N. T. C.; MARCONDES, Ciro (Coord.). Pensar pulsar: cultura comunicacional,
tecnologias, velocidade. São Paulo: NTC, 1996.
COMPARATO, Doc. Da criação ao roteiro. Rio de Janeiro: Campus, 1998.
FRANÇA, V. R. V. Comunicação, sociabilidade e cotidiano: o fio de Ariadne, a palavra da
rua. In: FAUSTO NETO, Antonio; PINTO, Milton José. O indivíduo e as mídias. Rio de
Janeiro: Compós; Diadorim, 1996. p. 103-111.
GOMES, Dias. Como vender tudo através da televisão. In: MATTELART, Armand;
                                                    $
                                                                                                    MATTELART, Michèle. História da utopia planetária: da cidade profética à sociedade
                                                                                                    global. São Paulo: Brasiliense, 1989.
Benevenuto Júnior, Álvaro. Idéias sobre tecnologia, interações comunicativas e economia midiática




                                                                                                    LIMA, Luis Costa. Teoria da cultura de massa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
                                                                                                    MARTÍN-BARBERO, Jesus. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia.
                                                                                                    Rio de Janeiro: UFRJ, 2001.
                                                                                                    MATTELART, Armand; MATTELART, Michèle. História da utopia planetária: da cidade
                                                                                                    profética à sociedade global. São Paulo: Brasiliense, 1989.
                                                                                                    MATTOS, Sérgio. A televisão no Brasil: 50 anos de história (1950-2000). Salvador: PAS;
                                                                                                    Ianamá, 2000.
                                                                                                    MELO, José Marques. As telenovelas da Globo: produto de exportação. São Paulo:
                                                                                                    Summus, 1988.
                                                                                                    MILANESI, Luís. O paraíso via Embratel. São Paulo: Paz e Terra, 1978.
                                                                                                    NEUMANN, Elisabeth Noele. La espiral del silencio: opinión pública: nuestra piel social.
                                                                                                    Madrid: Paidós, 1996.
                                                                                                    ORTIZ, Renato; RAMOS, José Mário Ortiz; BORELLI, Sílvia. Telenovela: história e produção.
                                                                                                    2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.
                                                                                                    PALÁCIOS, Marcos. Cotidiano e sociabilidade no ciberespaço: apontamentos para
                                                                                                    discussão. In FAUSTO NETO, Antonio; PINTO, Milton José. O indivíduo e as mídias. Rio
                                                                                                    de Janeiro: Compós; Diadorim, 1996. p. 87-110.
                                                                                                    REIMÃO, Sandra. Em instantes: notas sobre a programação na TV brasileira. São Paulo:
                                                                                                    Salesianas; Cabral, 1997.
                                                                                                    RONDELLI, Maria Elizabeth. Sociabilidade, espaço público e comunicação. In: FAUSTO
                                                                                                    NETO, Antonio; PINTO, Milton José. O indivíduo e as mídias. Rio de Janeiro: Compós;
                                                                                                    Diadorim, 1996. p. 112-122.
                                                                                                    SILVERSTONE, Roger; HISCH, Eric (Eds.). Los efectos de la nueva comunicación: el
                                                                                                    consumo de la moderna tecnología en el hogar y en la familia. Barcelona: Bosch, 1996.
                                                                                                    SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho: u
                                                                                                                                            uma teoria da comunicação linear e em rede.
                                                                                                    Petrópolis: Vozes, 2002.
CONEXÃO – COMUNICAÇÃO E CULTURA
             REVISTA CIENTÍFICA DE COMUNICAÇÃO DA
                UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL


         A revista Conexão – Comunicação e Cultura, da Universidade de Caxias
do Sul, tem como proposta divulgar reflexões inéditas, enfatizando questões re-
lacionadas à ética e à comunicação, à história da mídia, às tendências do setor
comunicacional e suas múltiplas facetas, às discussões sobre linguagem e à
possibilidade de diálogos interdisciplinares. Com isso, pretende contribuir para
discussões relevantes na área, trazendo à tona temas atuais e pertinentes, além
de privilegiar o resgate histórico das práticas de comunicação.

      A revista terá periodicidade semestral e poderá abrigar dossiês temáticos, en-
trevistas, reprodução de fontes documentais, ensaios fotográficos, além de secções
fixas de ensaios, artigos e resenhas. O periódico será distribuído impresso em papel
e online, na página eletrônica da Universidade de Caxias do Sul e na internet.
SUMÁRIOS     DOS NÚMEROS ANTERIORES


CONEXÃO – COMUNICAÇÃO E CULTURA. V. 1, N. 1, JAN./JUN. 2002
APRESENTAÇÃO/ 7
TENDÊNCIAS / 9
PLURALIDADE, DIVERSIDADE E ÉTICA NA MÍDIA BRASILEIRA / 11
Venício A. de Lima
TELEVISÃO/ 17
HISTÓRIA, ECONOMIA POLÍTICA E TENDÊNCIAS DA TV BRASILEIRA / 19
Valério Cruz Brittos
TELEJORNAL: A PERCEPÇÃO DO PÚBLICO BRASILEIRO / 43
Kenia Maria Menegotto Pozenato
MERCOSUL EM PAUTA: O FAIT DIVERS NO TELEJORNALISMO BRASILEIRO / 57
Fábio Souza da Cruz
C INEMA / 79
RIVERÃO SUSSUARANA, O ROMANCE DE GLAUBER / 81
Paulo Ribeiro
IMBECIS OU PATÉTICOS? A REPRESENTAÇÃO DO POVO BRASILEIRO
EM TERRA EM TRANSE E CENTRAL DO BRASIL / 89
Adriana Andrade Braga
R EALIDADE VIRTUAL / 101
LEMBRANÇAS DOS MÍDIAS MORTOS / 103
Suely Fragoso
REAL E VIRTUAL: DA EXISTÊNCIA DE FATO À SIMULAÇÃO / 117
Maurício Moraes
C OMUNICAÇÃO   VISUAL   / 127
O HIPERTEXTO COMO METÁFORA / 129
Ana Cláudia Gruszynski
A IDENTIDADE VISUAL DAS CIDADES / 139
Lara Espinosa
C OMUNICAÇÃO   ORGANIZACIONAL   / 159
NOVAS TECNOLOGIAS NA COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL DA INDÚSTRIA:
A NECESSIDADE DE UM COMUNICADOR ESTRATEGISTA / 161
Cida Golin, Silvana Padilha Flores e Olivar Maximino Mattia
A ESTRATÉGIA COMO UMA NOVA DIMENSÃO DOS ESTUDOS
DE COMUNICAÇÃO E INFORMAÇÃO NO MUNDO ORGANIZACIONAL / 173
Ana Cristina Fachinelli
A QUESTÃO DA RECEPÇÃO NO JORNALISMO ORGANIZACIONAL / 193
Marlene Branca Sólio
R ESENHAS / 207
PARA UMA CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA DO CONHECIMENTO / 209
César Bolaño
O CURRÍCULO DE COMUNICAÇÃO NO BRASIL / 217
Doris Fagundes Haussen
CONEXÃO – COMUNICAÇÃO E CULTURA. V. 1, N. 2, JUL./DEZ. 2002
A PRESENTAÇÃO / 7
C RUZAMENTOS: LITERATURA    E IMPRENSA   /9
O POLEMISTA DO SÉCULO XIX: SER OU NÃO SER BRASILEIRO NO COTIDIANO DA IMPORTAÇÃO / 11
Cida Golin
ENTRE O ARCAICO E O MODERNO: A CRÔNICA DE MACHADO E JOÃO DO RIO / 35
Antônio Sanseverino
OTTO MARIA CARPEAUX E A MISSÃO EUROPÉIA DA ÁUSTRIA / 55
Mauro Souza Ventura
CRÔNICAS E MITOS DE RUBEM BRAGA / 71
Flávio Loureiro Chaves
A RTE    E   COMUNICAÇÃO / 77
ARTE, COMUNICAÇÃO E O TERRITÓRIO INTERMIDIAL DO LIVRO DE ARTISTA / 79
Paulo Silveira
C ONEXÕES – ARTIGOS / 95
LENDO HISTÓRIAS EM QUADRINHOS NA WEB / 97
Ivana Almeida da Silva
COMUNICAÇÃO E INFORMAÇÃO EM ARQUIVOS, BIBLIOTECAS E MUSEUS / 105
Luís Carlos Lopes
ENTRE O MERCADO E O PLANO: REFLEXÕES SOBRE A ORGANIZAÇÃO EM REDE / 113
Ruy Marcelo de Oliveira Pauletti
A CULTURA DA ESTRATÉGIA NA VIA JAPONESA DA CRIAÇÃO DO SABER / 127
Pierre-Marie Fayard
IMPACTOS SOCIAIS E ECONÔMICOS DAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E DA COMUNICAÇÃO:
HIPÓTESES SOBRE A ATUAL REESTRUTURAÇÃO CAPITALISTA / 143
César Ricardo S. Bolaño
IDÉIAS SOBRE TECNOLOGIA, INTERAÇÕES COMUNICATIVAS E ECONOMIA MIDIÁTICA / 155
Álvaro Benevenuto Jr.
A LÓGICA DO MERCADO NA ORGANIZAÇÃO DO GÊNERO MAGAZINE:
UMA RELAÇÃO ENTRE O MAIS VOCÊ E OS SHOPPINGS / 173
Najara Ferrari Pinheiro
INCERTEZAS E DESAFIOS DA PÓS-MODERNIDADE / 189
Tarsila Maria Pasa Madalena
ORGANIZAÇÕES, IDENTIDADE E MARCA:
ARTICULAÇÕES EM TEMPOS DE PÓS-MODERNIDADE / 201
Rudimar Baldissera


CONEXÃO – COMUNICAÇÃO E CULTURA. V. 2, N. 3, JAN./JUN. 2003
A PRESENTAÇÃO / 7
M ÍDIA   SONORA   /9
LANDELL OU MARCONI: QUEM É O PIONEIRO? / 11
César Augusto Azevedo dos Santos
JORNALISMO DE RÁDIO NO BRASIL: INSTANTES PRECURSORES DA PRÁTICA E DO ENSINO / 25
Sonia Virgínia Moreira
ISMOS EM CONFLITO: GERMANISMO, AMERICANISMO E NACIONALISMO NAS
EMISSORAS DE PORTO ALEGRE, NO CONTEXTO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL / 33
Luiz Artur Ferraretto
RJB-AM: UMA EMISSORA QUE REVOLUCIONOU O JORNAL DO BRASIL / 47
Ana Baumworcel
O VALOR DE PERMANÊNCIA DO RÁDIO: UM ESTUDO A PARTIR DA ESTÉTICA DA RECEPÇÃO / 59
Magda Rodrigues da Cunha
DIVERGÊNCIAS CONVERGENTES: A NOVA CULTURA RADIOFÔNICA / 79
Lilian Zaremba
MEIAS-VERDADES QUE CONTINUAMOS ENSINANDO
SOBRE O RADIOJORNALISMO NA ERA ELETRÔNICA / 99
Eduardo Meditsch
OUVIDO-REPÓRTER: POR UM RADIOJORNALISMO ACÚSTICO / 111
Rodrigo Manzano
HISTÓRIA ORAL E DOCUMENTÁRIO RADIOFÔNICO: DISTINÇÕES E CONVERGÊNCIAS
NA FORMATAÇÃO DESSA CATEGORIA DE PROGRAMA / 121
Carmen Lucia José
A FIDELIDADE DO OUVINTE DE RÁDIO / 133
Nair Prata
O SHOW DA VIDA REAL EM AMPLITUDE MODULADA: O BIG BROTHER CHEGA AO RÁDIO / 149
Leandro Ramires Comassetto
O RÁDIO ENTRE DUAS LÍNGUAS: A SINTONIA ENTRE O TALIAN E O PORTUGUÊS / 165
Maria da Graça M. Guaranha Kreisner
APRENDENDO MÚSICA COM AS MÍDIAS SONORAS / 185
Daniel Gohn
C ONEXÕES – ARTIGOS / 197
DA EVOLUÇÃO À CO-EVOLUÇÃO SOLIDÁRIA NA TERRA-PÁTRIA: COMUNICAÇÃO, REEDUCAÇÃO E DEVIR / 199
Heloísa Pedroso de Moraes Feltes
JORNAIS EM LÍNGUA ITALIANA NA ANTIGA REGIÃO COLONIAL DO RS / 213
Kenia Maria Menegotto Pozenato e Loraine Slomp Giron
INTERFACES DO PROCESSO DE PRODUÇÃO DE UM JORNAL ORGANIZACIONAL / 235
Marlene Branca Sólio
PERSPECTIVAS DO MUSEU EM DIREÇÃO A UMA CULTURA VIRTUAL / 251
Maurício Moraes


CONEXÃO – COMUNICAÇÃO E CULTURA. V. 2, N. 4, JUL./DEZ. 2003
APRESENTAÇÃO / 7
ECONOMIA   POLÍTICA DA COMUNICAÇÃO E CULTURA   /9
MUDANÇAS GLOBAIS NO SISTEMA ECONÔMICO E NAS COMUNICAÇÕES: UMA PERSPECTIVA
LATINO-AMERICANA PARA A ECONOMIA POLÍTICA DA COMUNICAÇÃO / 11
César Bolaño, Guillermo Mastrini e Francisco Sierra
TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO E DA COMUNICAÇÃO, CONFIGURAÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO
“GLOBAL” E NOVAS FORMAS DE CONCORRÊNCIA / 29
Alain Herscovici
A DIGITALIZAÇÃO DAS INDÚSTRIAS CULTURAIS / 53
Luiz A. Albornoz
A ECONOMIA POLÍTICA DA COMUNICAÇÃO E O PAPEL DO RECEPTOR / 67
Valério Cruz Brittos
CULTURA POLÍTICA E CULTURA MIDIÁTICA: ESFERA PÚBLICA, INTERESSES E CÓDIGOS / 81
Ancízar Narvdez Montoya
O BRASIL NA SOCIEDADE DE INFORMAÇÃO: ESTADO
REGULADOR E TELECOMUNICAÇÕES / 103
Othon Jambeiro e Fábio Ferreira
A ESTUPIDEZ HERÓICA DO CAPITAL: MEDIAÇÃO DO TRABALHO E ESTRATÉGIAS
PARA A CONSTRUÇÃO DE UM NOVO PERFIL OPERÁRIO NO BRASIL / 119
William Dias Braga
C ONEXÕES – ARTIGOS / 151
ELEMENTOS METODOLÓGICOS DE VIGÍLIA E DE INTELIGÊNCIA ECONÔMICA PARA O
PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÕES ORGANIZACIONAIS / 153
Ana Cristina Fachinelli
CAMINHOS DA ADMINISTRAÇÃO E OS PROCESSOS COMUNICACIONAIS
NAS ORGANIZAÇÕES / 163
Marlene Branca Sólio e Rudimar Baldissera
O CONCEITO DE CULTURA REVISITADO / 177
Lúcia Santaella
MEMÓRIA E PÓS-MODERNIDADE: DA MUSEALIZAÇÃO AO PASSADO COMO MERCADORIA / 185
Susana Gastal
COMUNICAÇÃO E MUSEUS: O MATERIAL E O SIMBÓLICO / 201
Luís Carlos Lopes


CONEXÃO – COMUNICAÇÃO E CULTURA. V. 3, N. 5, JAN./JUN. 2004
A PRESENTAÇÃO / 7
T URISMO / 9
LA FUNCIÓN SOCIAL DEL TURISMO / 11
Maribel Osorio Garcia
O ESPAÇO TURÍSTICO TAMBÉM É COMUNICAÇÃO / 23
Antonio Carlos Castrogiovanni
RELAÇÕES ENTRE VISITANTES E VISITADOS: UM
RETROSPECTO DOS ESTUDOS SOCIOANTROPOLÓGICOS / 31
Margarita Barretto
SAÚDE E BEM-ESTAR EM UM MODELO DE AGROTURISMO
HOLÍSTICO, ECOLÓGICO E RESPONSÁVEL / 49
Yolanda Flores e Silva e Rafael Bremmer Cyrillo
R ÁDIO / 61
TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DA PROGRAMAÇÃO DE RÁDIO: NOS ESTADOS UNIDOS E NA EUROPA / 63
Maria del Pilar Martínez-Costa
NAS ONDAS DA FÉ: TRÊS EXPERIÊNCIAS DO RÁDIO EDUCATIVO
NA AMÉRICA DO SUL, DURANTE A GUERRA FRIA / 89
João Batista de Abreu
RÁDIO E SINO: A HORA DO ANGELUS / 105
Cida Golin e Bárbara Salvatti

COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL / 121
Maria del Pilar Martínez-Costa
A INTRANET COMO MANIFESTAÇÃO EMERGENTE DA COMUNICAÇÃO
ORGANIZACIONAL MIDIATIZADA: TÉCNICA E SUBJETIVIDADE / 123
Jane Rech
SEMIÓTICA / 139
ARISTÓTELES E PIERCE: PROLEGÔMENOS SEMÂNTICOS OU ORGANOLÓGICOS / 141
Luiz Roberto Peel Furtado de Oliveira
CONEXÃO - COMUNICAÇÃO E CULTURA, V. 3, N. 6, JUL-DEZ. 2004
APRESENTAÇÃO / 7
C IBERESPAÇO,   COMUNICAÇÃO E CRIAÇÃO   /9
FICÇÃO CIENTÍFICA CYBERPUNK: O IMAGINÁRIO DA CIBERCULTURA / 11
André Lemos
EXTREMIDADES DO VÍDEO: O VÍDEO NA CULTURA DIGITAL / 17
Christine Mello
REALIDADE VIRTUAL E A IMERSÃO EM CAVES / 35
Diana Domingues
INTERATIVIDADE IMAGINAL E CRIATIVIDADE VIRTUAL / 51
Juremir Machado da Silva
POR UM CINEMA SENSORIAL: O CINEMA E O FIM DA “MOLDURA” / 61
Katia Maciel
UMA CARTOGRAFIA DAS POÉTICAS DO CIBERESPAÇO / 73
Lúcia Leão
COMPUTADORES VESTÍVEIS: CONVIVÊNCIA DE DIFERENTES ESPACIALIDADES / 93
Luisa Paraguai Donati
CIBERESPAÇO E METODOLOGIAS DE CRIAÇÃO / 103
Monica Tavares
CIBERESPAÇO E ESTÉTICA MIDIÁTICA: TEMPO, ESPAÇO E INTERCONEXÃO / 129
Priscila Arantes
PROCESSOS PERCEPTIVOS E CONSTRUÇÕES SIMBÓLICAS, AGENCIAMENTO DO
SUJEITO-“NÓS” E DO SUJEITO-“EU” NA INSTALAÇÃO DES-ESPELHOS DO GRUPO SCIARTS / 143
Sandra Rey
POÉTICA DIGITAL INFANTIL: NÃO PODE SER VENDIDA SEPARADAMENTE / 155
Sérgio Capparelli e Raquel Longhi
GAMES / 167
Mario Maciel e Suzete Venturelli
C ONEXÕES – ARTIGOS / 191
NÊMESIS MODERNISTA: COMUNICAÇÃO GRÁFICA NA PÓS-MODERNIDADE / 193
Ana Cláudia Gruszynski
AS FABULAÇÕES DA INDÚSTRIA CULTURAL E AS INTERAÇÕES COM O PODER / 211
Ana Mery Sehbe De Carli


CONEXÃO - COMUNICAÇÃO E CULTURA, V. 4, N. 7, JAN-JUN. 2005
APRESENTAÇÃO / 7
C OMUNICAÇÃO    ORGANIZACIONAL   /9
A COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL ESTRATÉGICA: DEFININDO OS CONTORNOS DE UM CONCEITO / 11
Wilson da Costa Bueno
REVISITANDO A (RE)CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DAS RELAÇÕES PÚBLICAS / 21
Cleusa Maria Andrade Scroferneker
DA FRAGMENTAÇÃO À CONVERGÊNCIA – UM PANORAMA DAS POSSIBILIDADES
DE TEORIZAÇÃO SOBRE OS PROCESSOS DE COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL / 31
Ana Thereza Nogueira Soares
A INFORMAÇÃO NA COMPREENSÃO DE CONTEXTOS ESTRATÉGICOS
PARA A COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL / 51
Ana Cristina Fachinelli, Jane Rech e Olivar Maximino Mattia
ESTUDANDO A COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL: REDES E PROCESSOS INTEGRATIVOS / 73
Ana Maria Córdova Wels
RELAÇÕES PÚBLICAS: PROCESSO HISTÓRICO E COMPLEXIDADE / 87
Rudimar Baldissera e Marlene Branca Sólio
C ONEXÕES –   ARTIGOS   / 103
TELEVISÃO DIGITAL E INCLUSÃO SOCIAL: UMA PROPOSTA DE DEMOCRATIZAÇÃO
PARA AS NOVAS TECNOLOGIAS EM COMUNICAÇÃO / 105
Cosette Castro
CANAIS COMUNITÁRIOS SE ESPALHAM E CRIAM ENTIDADE NACIONAL / 121
Álvaro Benevenuto Júnior
AS POLÍTICAS PÚBLICAS DE COMUNICAÇÃO PARA O RÁDIO BRASILEIRO:
REGULAÇÃO, DIGITALIZAÇÃO E INTEGRAÇÃO / 135
André Barbosa Filho
PSICANÁLISE E CULTURA: FEMININO E MASCULINO / 149
Vera Marta Reolon de Oliveira
E STUDO   DE CASO   / 161
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO: AVALIANDO A AVALIAÇÃO DA PESQUISA CIENTÍFICA / 163
Maurício Moraes


CONEXÃO - COMUNICAÇÃO E CULTURA, V. 4, N. 8, JUL-DEZ. 2005
A PRESENTAÇÃO / 7
T EORIA   DA COMUNICAÇÃO    / 11
LOS MEDIOS MASSIVOS EN EL ESTUDIO DE LA COMUNICACIÓN/CULTURA / 13
María Cristina Mata
DO INTERCÂMBIO DAS MENSAGENS À PRODUÇÃO DE SENTIDO: IMPLICAÇÕES
DE UMA PERSPECTIVA SOCIOCULTURAL NO ESTUDO DA COMUNICAÇÃO / 23
Raúl Fuentes Navarro
ACERCAMIENTO DE LA COMUNICACIÓN COMO CULTURA ACADÊMICA
Y A SUS PROPOSICIONES TEÓRICAS GENERALES / 39
Erick R. Torrico Villanueva
?TIENE SENTIDO LA TELEVISIÓN PÚBLICA? FUTURO, PRESENTE Y PASADO / 51
Manel Mateu i Evangelista
ELEMENTOS PARA PENSAR A FORMAÇÃO E O ENSINO EM TEORIAS DA COMUNICAÇÃO / 61
Jiani Adriana Bonin
A DINÂMICA DA PESQUISA COMO PROCESSOS E INTERAÇÕES COMUNICACIONAIS... REFLEXÕES / 69
Pedro Russi Duarte
UNA APROXIMACIÓN TRANS E INTERDISCIPLINARIA DEL CAMPO DE LA COMUNICACIÓN / 81
Luis Ignacio Sierra Gutiérrez
DE LA TEORÍA GENERAL DE LA ENUNCIACIÓN A LA ENUCIACIÓN TELEVISIVA / 101
Alberto Pereira Valarezo
TEORIA DA COMUNICAÇÃO: INTERCULTURALIDADE, FILOSOFIA, LINGUAGEM E SOCIEDADE / 117
Alberto Efendy Maldonado
E NTREVISTA / 131
EVALUCIONES Y PERSPECTIVAS PARA LA COMUNICACIÓN PARA EL DESARROLLO: CONCEPTOS Y EXPERIENCIAS
DE ÁFRICA Y LATINOAMÉRICA – ENTREVISTA COM O PROFESSOR DOUTOR ROBERT WHITE / 133
Juciano de Souza Lacerda e Manuela Rau de Almeida Callou
C ONEXÕES – ARTIGOS / 145
SEMIÓTICA E CONTEXTO / 147
Mônica Bernardo Schettini Marques
CONEXÃO - COMUNICAÇÃO E CULTURA - V. 5, N. 9, JAN./JUN. 2006

A PRESENTAÇÃO / 7
F ILOSOFIA   E ÉTICA DA COMUNICAÇÃO   / 11

IDENTIFICAÇÕES ENTRE O ETHOS DO TRABALHO E O DO BEM-ESTAR / 13
Mayra Rodrigues Gomes
MÍDIA E CIDADANIA / 27
Pedrinho A. Guareschi
IMAGENS DE GUERRA, GUERRA DE IMAGENS: A COBERTURA JORNALÍSTICA
EM DOIS MOMENTOS DA GUERRA EUA/IRAQUE / 41
João Elias Nery e Maria José Guerra
O APAGAMENTO DAS FORÇAS DO DISCURSO PERSUASIVO ANTE A
RACIONALIZAÇÃO DAS CONDUTAS: UMA REFLEXÃO SOBRE O PODER DA FALA
POLÍTICA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA EM TEMPOS DE CPIs / 61
Neusa Demartini Gomes e Geder Parzianello
A FLEUMA INGLESA VERSUS HOMOEROTISMO QUASE EXPLÍCITO / 73
José Luís de Carvalho Reckziegel
IMAGEM E CONCEITO: A EXPERIÊNCIA DO PENSAR NOS EMBLEMAS DA RENASCENÇA / 83
Luiz Carlos Bombassaro
DIÁLOGO CONSIGO MESMO, VOZ INTERNA DA CONSCIÊNCIA E
AÇÃO SIMBÓLICA NO CONTEXTO PEDAGÓGICO/ 97
Cláudio Almir Dalbosco
CINCO FERRAMENTAS PARA O ENSINO-APRENDIZAGEM DA FILOSOFIA / 117
Gabriele Greggersen
O FILÓSOFO DO SENTIDO E A COMUNICAÇÃO / 139
Marialva Barbosa
O VALOR NO COMUNICADOR ORGANIZACIONAL: TANGÊNCIAS ÉTICAS E EPISTEMOLÓGICAS / 151
Clóvis de Barros Filho e Arthur Meucci


C ONEXÕES – ARTIGOS / 173

HAROLDO E AS GALÁXIAS: UM CASO CONCRETO DE BARROCO / 175
Dhynarte Albuquerque Filho
DOMÍNIO DO IRREMEDIÁVEL EM CAIO: PALAVRA/IMAGEM / 197
Eulália Isabel Coelho
AMÉRICA: A ANTI-UTOPIA DA IMIGRAÇÃO ITALIANA / 219
João Cláudio Arendt e Cinara Ferreira Pavani
CONEXÃO - COMUNICAÇÃO E CULTURA - V. 5, N. 10, JUL./DEZ. 2006
APRESENTAÇÃO / 9

UM DESIGN CONTEMPORÂNEO / 14
Wilton Garcia
O PROJETO GRÁFICO DE REVISTAS: UMA ANÁLISE DOS DEZ ANOS DA REVISTA CAPRICHO / 32
Ana Cláudia Gruzynski e Sophia Seibel Chassot
LINGUAGEM VISUAL EM DESIGN GRÁFICO IMPRESSO E DIGITAL / 60
Gisela Belluzzo de Campos

TININDO, TRINCANDO: O DESIGN GRÁFICO NO TEMPO DO DESBUNDE / 72
Jorge Luis Caê Rodrigues
A SÃO PAULO DO ART DÉCO: A MEMÓRIA EM CARTAZ / 104
Nara Silvia Marcondes Martins
A ROUPA DO MODERNO: REPRESENTAÇÕES DA MODA NA DÉCADA DE 20 (PELOTAS/RS) / 124
Francisca Ferreira Michelon e Denise Ondina Morroni dos Santos
O DESIGN DE MODA COMO POTÊNCIA DE UM EXPERIMENTO / 144
Rosane Preciosa
CAMINHO PARA A GESTÃO INTEGRADA DA IDENTIDADE CORPORATIVA / 154
Lígia Cristina Fascioni
A GRAMÁTICA DA FORMA COMO METODOLOGIA DE ANÁLISE E SÍNTESE EM ARQUITETURA / 180
Gabriela Celani, Débora Cypriano, Giovana de Godoi e Carlos Eduardo V. Vaz
DESIGN ERGONÔMICO: UMA REVISÃO DOS SEUS ASPECTOS METODOLÓGICOS / 198
Luis Carlos Paschoarelli e José Carlos Plácido da Silva


C ONEXÕES – ARTIGOS / 215

ANÁLISE DE DISCURSO: UMA ABORDAGEM DIALÉTICA / 216
Roberto Ramos
INSTRUÇÕES            AOS COLABORADORES




1.   A revista aceita os seguintes tipos de con-      4.   Os artigos devem estar acompanhados
     tribuição:                                            por um resumo contendo entre 100
1.1. Artigos inéditos (até 30 laudas de 30 linhas          e 150 palavras, em Português e em In-
     com 70 toques, ou 63 mil caracteres,                  glês, além das palavras-chave. Os autores
     incluindo referências bibliográficas e notas).        devem enviar também seus dados profis-
1.2. Ensaios bibliográficos (até 12 laudas de 30           sionais (instituição, cargo, titulação, prin-
     linhas com 70 toques, ou 25.200 caracte-              cipais publicações), bem como endereço
     res, incluindo referências biblio-gráficas e          para correspondência (inclusive e-mail, se
     notas): resenhas críticas sobre apenas um             possível). Esses dados devem aparecer
     livro ou sobre vários livros tratando de as-          no final do trabalho.
     suntos correlatos.
1.3. Resenhas bibliográficas (até 4 laudas de 30      5.   Para a indicação das fontes citadas, optou-
     linhas com 70 toques, ou 8.400 caracteres):           se pelo sistema alfabético (autor-data), isto
     pequenas resenhas de livros recentes.                 é, os documentos podem ter a indicação:
                                                      5.1. Pelo sobrenome do autor, ano, página
2.   A pertinência ou não da publicação será               (esta não-obrigatória)
     avaliada pela Comissão Editorial (no que              – Quando o nome do autor estiver contido
     diz respeito à adequação do artigo ao perfil          na sentença:
     e à linha editorial da revista), e por pare-          Ex.: Nos estudo das probabilidades [...], se-
     ceristas ad hoc (no que diz respeito ao con-          gundo Milone (1993, p. 37), “qualquer afir-
     teúdo e à qualidade das contribuições).               mativa pode...”
     Serão aceitos, excepcio-nalmente, originais           – Quando o nome do autor não estiver
     em Espanhol, Francês e Inglês. A publica-             contido na sentença:
     ção desses trabalhos (em língua estrangei-            Ex.: “Saudações! Tenho-as até do que me
     ra) ficará submetida, contudo, à pos-                 foi nada...” (PESSOA, 1989, p. 53) – Para
     sibilidade de tradução para o Português.              obras do mesmo autor, no mesmo ano:
                                                           Ex.: (FREIRE, 1954a, p. 27); (FREIRE,
3.   Devem ser enviadas três cópias do manus-              1954b, p. 34) ou Freire (1954a, p. 27);
     crito (em espaço duplo e margens laterais             Freire (1954b, p. 34).
     de 3 cm) e o disquete com o texto digitado.           – Para autores com mesmo sobrenome e
     Recomenda-se a utilização de processado-              a mesma data de publicação, acrescentar
     res de texto compatíveis com as platafor-             a inicial do nome:
     mas Windows ou MacIntosh. Os originais                Ex.: (VIEIRA, C. 1998, p. 11) ou Vieira C.
     deven ser enviados à Revista Conexão –                (1998, p. 11)
     Educs (Rua Francisco Getúlio Vargas,                  (VIEIRA, M. 1998, p. 14) ou VIEIRA M.
     1130, CEP 95070-560, Caxias do Sul, RS).              (1998, p. 14)
– Para autores diversos, no mesmo ano:             las, com exceção da 1ª) mais dois pon-
     Ex.: (STEIN; VANELLI, 1986) ou STEIN e VA-         tos.
     NELLI (1986)                                       Devem ser encaminhadas numeradas, em
5.2. Pela instituição responsável                       folhas separadas, com a devida legenda e
     Ex.: Segundo a ABNT (1992) a Norma                 a referência à fonte (se reproduzidas),
     10.520 é a indicada para citações.                 tendo no texto a indicação do local onde
5.3. Pelo título da publicação (caso de autores         devem ser inseridas.
     desconhecidos)                                     Importante observar que devem estar
     Ex.: ...em, enquanto a sociedade requer            confeccionadas de maneira a permitir sua
     os seus direitos (1997), foram analisados          reprodução direta.
     os critérios...                                    Obs.: quando houver no texto somente
     Obs.:                                              quadros, deve-se substituir a palavra Figu-
     1) Para informações adicionais, ver NBR            ras por Quadros.
     10.520/92.
     2) A relação bibliográfica completa das       7.   Com a publicação da revista, a Educs re-
     fontes citadas deve estar no final do texto        ceberá 10% sobre a tiragem, que será dis-
     e obedecer à NBR 6.023/2000.                       tribuída, como direito autoral, entre auto-
     3) A obra: MOTTA, Valter; HESELN, Lígia;           res e colaboradores de forma igualitária.
     GIALDI, Silvestre. Normas té-cnicas para
     apresentação de trabalhos científicos. 2.     8.   Os ensaios bibliográficos e as resenhas
     ed. ver. atual. aum. Porto Alegre: Missau,         devem apresentar referência completa das
     2001, subsidia casos não exemplificados            obras analisadas, indicando o número de
     nestas orientações.                                páginas de cada uma. As resenhas não
                                                        devem receber título, nem conter notas ou
6. Ilustrações                                          referências bibliográficas fora do texto.
6.1. Figuras (mapas, diagramas, organogramas,
     quadros, fotografias, gráficos, fluxogra-     9.   O envio de manuscrito implica a cessão
     mas, etc.):                                        de direitos autorais e de publicação à Re-
     Devem ter legenda clara e concisa e pre-           vista. Essa não se compromete em devol-
     cedida da palavra figura (letras minúscu-          ver as colaborações recebidas.
Conexaoimagin
Conexaoimagin

Conexaoimagin

  • 1.
    Conexão Comunicação e Cultura v. Revista de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul - v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
  • 2.
    FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE CONEXÃO DE CAXIAS DO SUL COMUNICAÇÃO E CULTURA Presidente: Conselho Editorial Nestor Perini Prof. Dr. Antonio Hohlfeldt (PUC/RS) Vice-Presidente: Prof. Dr. Bernard Miège Roberto Boniatti (Universidade Stendhal Grenoble 3) Prof. Dr. César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS/SE) UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL Profa. Dr. Cida Golin (UFRGS) Reitor: Profa. Dra. Cicilia Maria Krohling Peruzzo Prof. Isidoro Zorzi (UMESP/SP) Vice-Reitor: Profa. Dra. Doris Fagundes Haussen Prof. José Carlos Avino (PUC/RS) Profa. Dra. Heloísa Pedroso de Moraes Feltes Pró-Reitor de Planejamento e (UCS/RS) Desenvolvimento Institucional: Profa. Dra. Kenia Maria Menegotto Prof. João Ignacio Pires Lucas Pozenato (UCS/RS) Pró-Reitora de Graduação: Profa. Dra. Lucia Santaella Profa. Nilva Lúcia Rech Stedile (PUC/SP) Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa: Profa. Dra. Margarida Maria Krohling Prof. José Clemente Pozenato Kunsch (USP/SP) Pró-Reitor de Extensão: Prof. Dr. Muniz Sodré Prof. Alexandre Viecelli (UFRJ) Prof. Dr. Pierre Fayard Pró-Reitor Administrativo: (Poitiers – França) Prof. Gilberto Henrique Chissini Profa. Dra. Solange Medina Ketzer (PUC/RS) Chefe de Gabinete da Reitoria: Prof. Dr. Rudimar Baldissera Profa. Cleodes Maria Piazza Julio Ribeiro (UFRGS) Coordenador da Educs: Profa. Dra. Vania Beatriz Merlotti Herédia Renato Henrichs (UCS/RS) Parecerista ad hoc CONSELHO EDITORIAL DA EDUCS Profa. Dra. Susana Gastal Prof. Dr. José Clemente Pozenatto Editora Prof. Dr. Jayme Paviani Profa. Ms. Marlene Branca Sólio (UCS/RS) Prof. Dr. José Luiz Piazza Prof. Dr. Luis Carlos Bombassaro Prof. Dr. Flávio Gianetti Loureiro Chaves Prof. Dr. José Mauro Madi Prof. Dr. Paulo Fernando Pinto Barcellos Prof. Dr. Gilberto Henrique Chissini
  • 3.
    Conexão Comunicação e Cultura v. Revista de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul - v. 6, n. 11, jan./jun. 2007
  • 4.
    © dos autores www.ucs.br/cchc/deco/conexao Revisão:Ivone Justina Polidoro Franco Editoração eletrônica: Formato Artes Gráficas Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Universidade de Caxias do Sul UCS - BICE - Processamento Técnico C747 Conexão – comunicação e cultura / Universidade de Caxias do Sul. Vol. 1, n. 1 (jan. 2002). – Caxias do Sul, RS: Educs, 2007. Vol. 6, n. 11 (Jan./Jun. 2007) Semestral ISSN 1677-0943 1. Comunicação Social. 2. Jornalismo. 3. Publicidade – Pro- paganda. 4. Relações Públicas. I. Universidade de Caxias do Sul. CDU: 659 Índice para o catálogo sistemático: 1. Comunicação Social 659 2. Jornalismo 070 3. Publicidade – Propaganda 659.1 4. Relações Públicas 659.4 Catalogação na fonte elaborada pela Bibliotecária Rose Elga Beber - CRB 10/1369. EDUCS – Editora da Universidade de Caxias do Sul Rua Francisco Getúlio Vargas, 1130 – CEP 95070-560 – Caxias do Sul – RS – Brasil Ou: Caixa Postal 1352 – CEP 95001-970 – Caxias do Sul – RS – Brasil Telefone / Telefax: (54) 3218 2100 – Ramais: 2197 e 2281 – DDR: (54) 3218 2197 Home page: www.ucs.br – E-mail: educs@ucs.br
  • 5.
    SUMÁRIO % APRESENTAÇÃO MÍDIA, CULTURA E IMAGINÁRIO HISTÓRIA, IMAGINÁRIO E MENTALIDADES: DELINEAMENTOS POSSÍVEIS José D’Assunção Barros A LEITURA DO TEMPO NO ESPAÇO: UMA REFLEXÃO SOBRE A CULTURA E A MEMÓRIA NA MÍDIA Magda Rodrigues da Cunha ## DO FORT-DA DA ARTE AO CORPO-OBRA. [É POSSÍVEL UMA ESTÉTICA DA CLÍNICA? HAVERÁ UM CORPO-OBRA?] Marcio Pizarro Noronha CORPOS AUTORIZADOS: COMUNICAÇÃO PODER E TURISMO Euler David de Siqueira e Denise da Costa Oliveira de Siqueira '' COMUNICAÇÃO E TURISMO: POSSIBILIDADES DE CONHECIMENTO Mary Sandra Guerra Ashton ' TECNOTOTEMISMO: IDENTIDADES MÚLTIPLAS E NOVA SUBJETIVIDADE Lauren Ferreira Colvara ! EL PÚBLICO EN LOS NOTICIEROS TELEVISIVOS Mabel Grillo
  • 6.
    A RTIGOS A EMERGÊNCIA DE GÊNEROS NO CINEMA BRASILEIRO: DO PRIMEIRO CINEMA ÀS CHANCHADAS E PORNOCHANCHADAS Bernadette Lyra $ VIGÍLIA E INTELIGÊNCIA ESTRATÉGICA: FERRAMENTAS METODOLÓGICAS PARA A DEFINIÇÃO DE ESTRATÉGIAS DE RELAÇÕES PÚBLICAS Ana Cristina Fachinelli, Jane Rech, Olivar Maximino Mattia e Vanessa Roveda '! COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL E PRESSUPOSTOS DA COMUNICAÇÃO INTEGRADA: A EXPERIÊNCIA EM UMA UNIVERSIDADE NA IMPLEMENTAÇÃO/ REESTRUTURAÇÃO DO JORNAL INSTITUCIONAL Cassiana Maris Lima Cruz IDÉIAS SOBRE TECNOLOGIA, INTERAÇÕES COMUNICATIVAS E ECONOMIA MIDIÁTICA Álvaro Benevenuto Júnior
  • 7.
    APRESENTAÇÃO Falar em culturae imaginário, hoje, é “dar a cara pra bater”. Em meio a um caleidoscópio de teorias, visões, mundos, o que deve prevalecer? Qual é ou onde está a verdade? Ela existe? Ao convidar a comunidade acadêmica a discutir o tema, pelo viés da comunica- ção, a idéia era justamente esta: provocar autores a nos mostrarem algumas das “imagens de seus caleidoscópios”. Dar espaço a pesquisadores, para que, mesmo arriscando-se, nos mostrassem algumas das opções, no leque de possi- bilidades com que nos confrontamos, para “olhar este nosso mundo”. Para conversar um pouco com nossos leitores, retardando seu encontro com os articulistas aos quais somos imensamente gratos por terem atendido a nossa convocação, vamos a três ponderações: a primeira delas é trazer, para a noção de imaginário, as lentes de Lacan. A segunda é pedir a Morin seus óculos, e então poder olhar para a noção de cultura, e a terceira, com a qual os leitores já tiveram um encontro, é apelar para o bom humor de Dali, que, com o desdo- bramento de um mesmo quadro (“Rapariga à janela”, de 1925, e “Jovem virgem auto-sodomizada”, de 1954), nos mostra que a verdade está onde e como a colocamos. Como o tempo contemporâneo (para não cair na armadilha dos muitos conceitos que se encarniçam na disputa de levá-lo à pia batismal) se caracteriza pela multi- plicidade de facetas, pela complexidade (Morin) e por apontar sempre novas e inúmeras possibilidades, parece coerente que a um movimento de imersão no tecnológico se contraponha, entre outros, um olhar na direção da subjetividade, do inconsciente. Eles aparecem como pratos de uma mesma balança, a provocar o equilíbrio pela disputa/tensão. Das três categorias lacanianas, o imaginário é
  • 8.
    aquele que nasceda constituição da imagem do corpo. Como o real é sempre da ordem do impossível, o imaginário se constituirá a partir do engodo, da identi- ficação, da imagem. Nada mais coerente, portanto, do que admitir o quanto a sociedade contemporânea se fundamenta nesse registro, valora-o e olha/de- senha o mundo de mãos dadas com ele. Morin alerta: “Toda sociedade com- porta indivíduos genética, intelectual, psicológica e afetivamente muito diversos, aptos, portanto, a pontos de vista cognitivamente muito variados.”1 E está jus- tamente nesse confronto a possibilidade de trincar o determinismo cultural e estimular dúvidas, incertezas, novas buscas/descobertas. Assim, encerrar-se numa visão míope de determinismo tecnológico ou, pelo con- trário, lançar maldição eterna à tecnologia são posturas que, com certeza, nos impedem de olhar na direção do horizonte, dando-nos conta de que somos pro- dutos e produtores de novas socialidades, de novas formas de relação, de novos usos para “velhos objetos”, mas também de velhos usos para “novos objetos”. É importante aceitarmos a premissa de que o imaginário é o oxigênio de todas as culturas. Marlene Branca Sólio Editora 1 MORIN, E. O método 4. 3. ed. Porto Alegre: Sulina, 2002. p. 33.
  • 9.
    MÍDIA, CULTURA E IMAGINÁRIO
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    História, imaginário e mentalidades: Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 delineamentos possíveis1 José D’Assunção Barros2 RESUMO Este artigo – voltado para as discussões estabelecidas desde a segunda metade do século XX entre as possíveis interações entre História, cultura e imaginário – busca desenvolver um paralelo comparativo entre história das mentalidades, Psicoistória e história do imaginário, esclarecendo alguns aspectos relacionados a essas modalidades da História e discutindo a historiografia pertinente a cada um desses campos. O artigo remete à obra recentemente publicada pelo autor deste texto, cujo principal objetivo é o de elaborar uma visão panorâmica das diversas modalidades da História nos dias de hoje. Palavras-chave: História do imaginário. História das mentalidades.Imaginário político. Imagem. ABSTRACT This article – directed to the discussions that have been established since the second half of the twenty century around the possible interactions between History and imaginary – attempts to elaborate a comparative parallel between history of mentalities, psicohistory and history of imagi- nary, clarifying some aspects related to these fields of History and discussing the historiographer production concerning to which one of these modalities. The article refers to a recently publicized work of the author of this text, witch principal subject was to elaborate a panoramic view of the various fields in which ones the historical knowledge is divided nowadays. Key words History of imaginary. History of mentalities. Political imaginary. Image. words: 1 O presente artigo remete, como referência principal, a um livro publicado recentemente pelo autor, e que se refere a um estudo das várias modalidades da História (BARROS, José D’Assunção. O campo da história: especialidades e abordagens. Petrópolis: Vozes, 2004). 2 Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor na Universidade Severino Sombras (USS) em Vassouras, nos Programas de Mestrado e em cursos de Graduação em História, onde leciona disciplinas ligadas à Teoria e Metodologia da História e da História Cultural. Publicou recentemente os livros O campo da História (Petrópolis: Vozes, 2004) e O projeto de pesquisa em História (Petrópolis: Vozes, 2005).
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    mundo contemporâneo temse mostrado, desde primórdios do século XX, cada vez mais, um espaço a ser percebido e vivenciado por meio de O imagens e amparado por suportes que vão dos mais modernos meios de Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. comunicação aos recursos computacionais. Em meio ao desenvolvimento de áreas do conhecimento que vão das ciências da comunicação aos saberes “psi”, neste novo mundo de possibilidades imagísticas, os discursos visuais e os circuitos da imaginação passaram a desempenhar um papel tão significativo como os discursos verbais no que se refere à produção de um conhecimento sobre a vida humana. Na verdade, o visual e o verbal são discursos que cada vez mais, enfaticamente, se entrelaçam. Mais do que isso, o imaginário – comportando aqui não apenas as imagens visuais, mas também as imagens mentais e oníricas, o universo simbólico e os modos de representação – atualiza um fator que não pode ser mais ignorado por nenhum campo do saber inserido no âmbito das Ciências Sociais, das Ciências Humanas e das Ciências da Comunicação. A História – enquanto área de saber que estuda especificamente “o homem no tempo”, a partir de todas as dimensões de sua vida social – não constitui certamente exceção. É assim que, dentro de uma fascinante profusão de campos intradisciplinares que têm revelado um sensível enriquecimento dos estudos históricos no que se refere ao interesse por novos objetos e por novas abordagens, a historiografia da segunda metade do século XX assistiu precisamente à emergência de cam- pos do saber historiográfico que passaram a valorizar o universo mental dos seres humanos em sociedade, os seus modos de sentir, o imaginário por eles elaborados coletivamente. A modalidades já tradicionais como a História Política, a História Econômica ou a História Social, os novos historiadores propuseram acrescentar a história das mentalidades, a psicoistória, a história do imaginário. Teremos aqui campos que com alguma freqüência se interpenetram no que concerne aos seus objetos, às suas fontes privilegiadas, às suas abordagens e aportes teóricos, às suas conexões com outros saberes e aos seus padrões de interdisciplinaridade. Contudo, cada um desses campos conserva singularidades e aspectos que nos permitem separá-los entre si como espaços intradisciplinares bem diferenciados. O objetivo deste artigo será o de clarificar as diferenças e similitudes entre esses campos historiográficos que têm atentado mais enfaticamente para o estudo dos padrões mentais, dos modos de sentir e dos imaginários coletivos nos vários períodos históricos, o que implica que abordemos mais particularmente a história das mentalidades, a psicoistória e a história do imaginário.
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    História das mentalidades ! Será bastante oportuno iniciar esta discussão crítica com um exame Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 dos aspectos que têm permitido identificar essa modalidade historiográfica que se mostrou polêmica desde os seus primórdios: a história das mentalidades. Essa nova modalidade da História, que tem precursores já na primeira metade do século XX, mas que, rigorosamente, começa a se delinear como um novo espaço de ação para os historiadores na segunda metade do século, propunha- se a enfocar a dimensão da sociedade relacionada ao mundo mental e aos modos de sentir, ficando, a partir daí, sob a rubrica de uma designação que tem dado margem a grandes debates que não poderão ser todos por- menorizados aqui.3 Terá certamente contribuído para esta polêmica o fato de que os historiadores das mentalidades foram os primeiros a se interessar por determinados temas não convencionais, desbravando certos domínios da História que os historiadores ainda não haviam pensado em investigar. Assim, Robert Mandrou propôs-se a estudar a longa persistência de certos modos de sentir que motivaram a prática da feitiçaria e sua repressão, no livro Magistrados e feiticeiros na França do século XVII (MANDROU, 1979); Jean Delumeau impôs a si a tarefa de examinar um complexo de medos de longa duração que haviam estruturado o modo de sentir do homem europeu durante muito tempo, e cuja lenta superação permitiu a passagem para o mundo moderno (DELUMEAU, 1989); Philippe Ariès (1981) e Michel Vovelle (1982) empenharam-se dedicadamente a analisar historicamente os sentimentos do homem diante da morte. De certo modo, por força dos novos e imprevisíveis objetos que traziam à tona com bastante audácia – e em virtude de sua tendência dedicar anos de um exaustivo trabalho intelectual a temas que deles fizeram verdadeiros especialistas em objetos historiográficos até então considerados insólitos – os historiadores das mentalidades vieram a constituir uma espécie de vanguarda da tendência da Nova História da segunda metade do século XX em se tornar uma espécie de “história em migalhas”, para utilizar aqui a famosa expressão que deu um título ao impactante livro de François Dosse sobre a passagem dos Annales para a 3 Alguns artigos panorâmicos podem ser esclarecedores a respeito deste campo histórico: (1) Le Goff (1988, p. 68-83); (2) Ariès (1990, p. 154-176); (3) Darton (1990, p. 225-255).
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    Nova História (DOSSE,1994).4 Foram eles que primeiro exploraram certos temas que – a princípio recebidos pelos demais historiadores como estranhos ou exóticos – logo encontrariam um curioso lugar editorial entre uma multidão de outros Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. campos temáticos que posteriormente marcariam, através de uma miríade de novas especialidades relativas aos “domínios” históricos, a tendência à fragmentação que parecia deixar definitivamente para trás as antigas ambições de realizar uma “história total”. Devido à sua exploração ousada de certos temas até então incomuns, a história das mentalidades produziu, no seu nascedouro, uma forte estranheza que logo despertaria acirradas polêmicas. Mas é muito importante ter em vista que a história das mentalidades não pode ser definida essencialmente com base nesses novos domínios historiográficos que ela passou a privilegiar em um primeiro momento. Mesmo porque, posteriormente, esses mesmos domínios também foram retomados por outros campos da História que pouco ou nada têm a ver com a história das mentalidades. Rigorosamente, qualquer tema pode ser trabalhado a partir dos vários enfoques que classificaremos aqui como relacionados às “dimensões” sociais (a política, a economia, a cultura, as mentalidades, o imaginário, e assim por diante).5 Assim, uma história da morte pode ser trabalhada pela história demográfica, pela história política, pela econômica, e não apenas pela história das mentalidades. Em contrapartida, temas já tradicionais como o do “nacionalismo” ou o da “religião” podem ser igualmente examinados da perspectiva de uma história das mentalidades. Não são, portanto, domínios privilegiados pelos historiadores das mentalidades que definem o tipo de história que fazem, mas 4 Na verdade, a expressão “história em migalhas” chegou a ser referida de maneira afirmativa (não depreciativa) por Pierre Nora – organizador de uma coletânea de artigos da Nova História francesa. Pierre Nora enunciou a expressão em uma entrevista concedida a um jornal francês em 1974, e com ela anunciava a consolidação de uma moda que passava a privilegiar as curiosidades, os temas exóticos ou pelo menos o estudo de objetos muito particularizados em contraste com os antigos projetos de produzir uma grande história total. 5 Em O campo da história: especialidades e abordagens, propõe-se um esclarecimento dos critérios a partir dos quais são pensados e repensados os vários campos e modalidades da História. Ao lado das abordagens, que se referem aos métodos e modos de fazer, e dos domínios, que se referem a campos temáticos privilegiados pelos historiadores, as dimensões correspondem àquilo que o historiador traz para primeiro plano no seu exame de uma determinada sociedade: a política, a cultura, a economia, a demografia, e assim por diante. Apenas para exemplificar com um exemplo de cada uma dessas modalidades, a história oral seria uma abordagem, a história das mulheres seria um domínio, e a história cultural seria uma modalidade historiográfica relacionada a uma dimensão. (BARROS, 2004).
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    sim a dimensãoda vida social para a qual os seus olhares se dirigem: o universo # mental, os modos de sentir, o âmbito mais espontâneo das representações coletivas e, para alguns, o inconsciente coletivo. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 A verdadeira polêmica que envolve a história das mentalidades é teórica e metodológica. Apenas para registrar alguns problemas pertinentes a esse campo historiográfico que se consolida a partir da década de 60, mencionaremos aqui as questões fundamentais que devem ser refletidas pelo historiador que ambiciona trilhar esses caminhos de investigação. Existirá efetivamente uma mentalidade coletiva? Será possível identificar uma base comum presente nos “modos de pensar e de sentir” dos homens de determinada sociedade – algo que una “César e o último soldado de suas legiões, São Luís e o camponês que cultivava as suas terras, Cristóvão Colombo e o marinheiro de suas caravelas?” Essas imagens, extremamente oportunas, foram celebrizadas por Lucien Febvre. Abraçando a perspectiva teórica de que existem de fato mentalidades coletivas, o historiador deve ampliar a sua concepção documental. Conforme assinala François Furet (1991, p. 93), se o historiador das mentalidades pretende alcançar níveis médios de comportamento, não pode se satisfazer mais apenas com a literatura tradicional do testemunho histórico, que é inevitavelmente subjetiva, não re- presentativa, ambígua. Assim, como veremos adiante, ocorreu um casamento feliz entre a história das mentalidades (um campo histórico que se refere a uma “di- mensão”) e a História Serial (um campo histórico que se refere a uma “abordagem”). A revalidação dos estudos de natureza qualitativa, ao lado da abordagem serial, não esteve, contudo, alheia a outros historiadores das mentalidades – como no caso de Vovelle, historiador marxista das mentalidades que defende, em importante artigo de 1982, o uso das duas abordagens como igualmente válidos para captar a dimensão mental de uma sociedade. (VOVELLE, 1987, p. 31). Para resumir três ordens de tratamento metodológico que os historiadores das mentalidades têm empregado na sua ânsia de captar os modos coletivos de pensar e de sentir, poderemos registrar precisamente: (1) a abordagem serial; (2) a eleição de um recorte privilegiado que funcione como lugar de projeção das atitudes coletivas (uma aldeia, uma prática cultural, uma vida), ou, finalmente; (3) uma abordagem extensiva de fontes de naturezas diversas. Nesse último caso, enquadra-se a obra O homem diante da morte, de Philippe Ariès. Nessa ambiciosa obra, lança-se mão dos mais diversos tipos de fonte – desde os escritos de todos os tipos (obras literárias, textos hagiográficos, poemas, canções, crônicas oficiais, testemunhos anônimos) até as fontes iconográficas e os objetos da cultura material. Vovelle
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    denomina a essautilização de um universo de fontes tão heterogêneos, percorrido $ mais ou menos livremente, de técnica “impressionista”. (1987, p. 51). Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. Ele mesmo já utiliza a segunda ordem de procedimentos a que atrás nos re- feríamos: de modo geral, prefere a abordagem serial. Em sua tese de 1978 sobre a Piedade barroca e descristianização (VOVELLE, 1978), examinou com precisão e método milhares de testamentos provençais – sempre de forma maciça e procurando enxergar serialmente padrões e deslocamentos de padrões que denunciassem as variações das atitudes diante da morte na longa duração por ele escolhida. Quando examina fontes iconográficas, afasta-se da abordagem qualitativa livre para avaliar topicamente a recorrência e a ruptura de certos modos de repre- sentar, às vezes medindo espaços no interior da representação iconográfica e quantificando elementos figurativos. Se vai às fontes da cultura material, à arqui- tetura funerária, por exemplo, faz medições das distâncias que separam túmulos e altares. Sua abordagem é, portanto, sistemática, cuidadosamente preocupada com a homogeneidade das fontes e com o seu lugar preciso dentro da série. A derradeira ordem de tratamentos metodológicos corresponde à já mencionada eleição de um recorte privilegiado que funcione como lugar de projeção das atitudes coletivas ou de padrões de sensibilidade. Pode ser um microcosmo localizado ou uma vida, desde que o autor os considere significativos para a percepção de uma mentalidade coletiva mais ampla. Febvre, precursor distante dos estudos de mentalidade, havia tentado precisamen- te essa via. Já em 1942, em sua famosa obra sobre Rabelais, o historiador francês se propunha – a partir da investigação de um único indivíduo – identificar as coordenadas de toda uma era. (FEBVRE, 1962). A abordagem é criticada por Carlo Ginzburg – historiador mais habitualmente classificado na interconexão de uma história cultural (dimensão) com uma Microistória (abordagem).6 Ao contrário de Febvre, Ginzburg opta por instrumentalizar o conceito de “mentalidade de classe” em sua obra O queijo e os vermes. (1989, p. 34). Nesse último caso – em que toma como documentação principal os “registros inquisitoriais” do processo de um moleiro italiano perseguido pela Inquisição no século XVI – Ginzburg mantém- 6 A microistória corresponde a uma modalidade da História que procura empregar uma nova escala de observação no exame das sociedades históricas. Elegendo como campo de observação um determinado locus bem circunscrito – uma vida anônima, uma prática social localizada, uma comunidade – a microistória almeja conhecer através da gota-d’água algo do oceano inteiro. Para utilizar uma metáfora comum entre os microistoriadores, abandona-se aqui o “telescópio” em favor do “microscópio”, o olhar panorâmico e distanciado em favor do olhar detalhista e aproximador.
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    se atento àquestão da “intertextualidade”, isto é, ao diálogo que o discurso do % moleiro Menocchio estabelece implicitamente com outros textos e discursos. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Dessa forma, embora ambos os historiadores partam de um estudo de caso individual, a abordagem tornou-se distinta. Ressalte-se, no tratamento historio- gráfico levado adiante por Ginzburg, a já mencionada preocupação em identificar os vários registros dialógicos presentes em uma mesma fonte – preocupação que se coaduna muito intimamente com um dos setores da chamada nova história cultural. Assim, para além do discurso externo do próprio Menocchio, visível na superfície de suas fontes, o historiador italiano toma por objeto a multiplicidade de discursos que o constituem; e, além disso, evita a pretensão de reconstituir uma “mentalidade de época”. Sua metodologia funda-se em uma análise dialógica e intensiva das fontes. Seu enfoque, como se disse, é mais propriamente cultural. Uma nova história cultural, aliás, vem fortalecendo cada vez mais uma alternativa para o tratamento de certos temas que até então foram campos privilegiados pelos historiadores das mentalidades. Ainda assim, é preciso reconhecer que a história das mentalidades, sobretudo através dos historiadores franceses da Novelle Histoire, proporcionou uma significativa abertura aos novos modos de fazer a História, inclusive deixando sua margem de influências na historiografia brasileira da década de 80. É verdade que, para o caso da maioria dos nossos historiadores, ela raramente foi uma influência única e linear, aparecendo habi- tualmente combinada a outras influências e entrelaçada com outras subespe- cialidades da História. Apenas como um exemplo entre outros possíveis, a historiadora Laura de Melo e Souza – autora de obras que vão de Os desclassificados do ouro (1993) até Inferno atlântico (1982) – reconhece em seu trabalho uma influência importante advinda de historiadores das mentalidades como Geremek e Mandrou,7 mas acrescenta que suas influências ou inserções mais importantes referem-se à etnoistória e à história da cultura, neste último caso a partir das obras de Ginzburg. (MORAES; REGO, 2001, p. 377). Já João José Reis – autor do já clássico A morte é uma festa (1991) – reconhece a importância para o amadurecimento de seu trabalho da leitura dos historiadores franceses das mentalidades que estudaram 7 O historiador polonês Bronislaw Geremek é autor de Os marginais parisienses nos sécs. XIV e XV; de A piedade e a forca e de outras obras importantes.
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    as atitudes dianteda morte (ARIÉS, VOVELLE), mas situa sua principal coordenada em uma história social da cultura inspirada no historiador marxista Edward Thompson. (MORAES; REGO, 2001, p. 329-330). Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. Psicoistória Será oportuno discutir, em seguida, um campo ou subespecialidade da História que por vezes se torna muito próximo da história das mentalidades: a psicoistória. Esse campo mostra-se definido ou atravessado por preocupações oriundas da Psicologia e por conceitos de diversos tipos, desenvolvidos no interior desse campo do saber. O historiador das mentalidades Jean Delumeau, por exemplo, lança mão, em alguns momentos, de conceitos elaborados por Wilhelm Reich e Erich Fromm. Reich e Fromm desenvolveram noções que ainda poderão ser utilizadas futuramente pelos historiadores. O primeiro envidou esforços no sentido de estabelecer a conceituação de um “caráter social”, que se constituiria a partir de uma interação entre a ideologia e o inconsciente, aqui representado por certos padrões e alternativas de comportamento que seriam interiorizadas pelos indivíduos que vivem em sociedade.8 Além disso, Reich chama a atenção para o papel da família na formação do tipo caráter individual que sustentaria a ordem política e econômica da sociedade. (REICH, 1969).9 Conseqüentemente, sugere que deveríamos examinar a estrutura da família e suas práticas de criação dos filhos em uma época histórica para compreender como as realidades econômicas são traduzidas em política, ética e religião. Dito de outra forma, seria possível analisar as principais forças sociais presentes em determinada sociedade em função da situação familiar típica e da estrutura do caráter, o que toca pelos dois lados no projeto de alguns dos historiadores das mentalidades que estudaram a família e a criança, como Áries (1981). 8 A idéia de que a ideologia torna-se psicologicamente internalizada ou fixada na estrutura de caráter do indivíduo aparece em Psicologia de massas do Fascismo. (REICH, 1933). 9 É verdade que, em Reich, esse projeto permanece muito incipiente, já que, ao invés de empenhar-se em uma análise sistemática das diferentes estruturas históricas da família e de criação dos filhos, ele, grosso modo, reduz sua análise a dois tipos históricos básicos: o “patriarcado autoritário” e o “matriarcado tolerante”, fixando-se em 4000 a. C. a transição de um modelo a outro. Em todo caso, desconta-se o fato de que Reich não era historiador e nem tinha a erudição histórica de um Fromm.
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    Aprimorando o conceitode “caráter social”, Erich Fromm também se expressa ' em termos de um “filtro condicionado socialmente”.10 O “filtro social” seria constituído por uma série de elementos, como a linguagem, a lógica e os tabus Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 sociais, mas também por toda uma série de hábitos enraizados, de atitudes automatizadas e de impulsos que dão origem a práticas culturais diversas. É interessante comparar o conceito de caráter social em Fromm com a noção de “mentalidade de época” que seria desenvolvida depois, no fim da década de 60, por alguns historiadores franceses ligados à Novelle Histoire. Para Fromm, o caráter social corresponderia a “um núcleo da estrutura do caráter que é inerente à maioria dos membros da mesma cultura, diferentemente do caráter individual que varia entre as pessoas da mesma cultura”. (FROMM, 1959, p. 78). Ou seja, existiria em qualquer sociedade uma estrutura única de caráter que seria específica e comum à maioria dos grupos e classes que fizessem parte desta sociedade. Por outro lado, em outra oportunidade, Fromm reconhece a noção de que diferentes classes dentro da sociedade tenham um determinado caráter social sob cuja base diferentes idéias podem se desenvolver e adquirir força. (FROMM, 1964, p. 279). Para além disso, é importante ressaltar a adaptação de todas essas noções aos princípios fundamentais do materialismo histórico, dos quais esse teórico, ligado à Escola de Frankfurt, parte primordialmente. Para Fromm, “o caráter social é elo entre a estrutura econômico-social e as idéias e ideais que ganharam difusão na sociedade”, e sua influência exerce-se nas duas direções: da base econômica às idéias e das idéias à base econômica – o que se sintoniza com a flexibilização do determinismo histórico que foi encaminhada por diversos autores marxistas importantes do século XX. (FROMM, 1963, p. 93). Reich e Fromm, para não falar em Freud, são apenas dois dos muitos autores que têm exercido alguma influência nos historiadores, ainda poucos, os quais têm buscado constituir um campo novo a partir da interconexão entre História e Psicologia. Seria essa exploração mais sistemática de diversificadas noções e conceitos desenvolvidos no âmbito da Psicanálise o que poderia distinguir mais propriamente a psicoistória (ou a psicologia histórica) da história das mentalidades, já que o terreno em que ambas se movimentam seria, a princípio, o mesmo. 10 O conceito de “filtro socialmente condicionado” é introduzido por Fromm para se referir à formação de um “inconsciente social” mais amplo. (FROMM, 1963, p. 125).
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    Vale lembrar, paracitar um exemplo, que tem influenciado mais incisivamente os historiadores da atualidade, que o sociólogo-historiador (e médico) Norbert Elias também percorreu caminhos similares ao examinar a interiorização de certos Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. modos de agir e de sentir que passam a condicionar os indivíduos em sociedade. Embora sem indicar Freud como interlocutor, o sociólogo alemão vale-se por diversas vezes de noções oriundas do campo da Psicanálise – como as das “pulsões” – para embasar, já em 1939, seu mais célebre trabalho: O processo civilizador (1990). Trata-se de uma cuidadosa análise social que objetiva mostrar como a interiorização de certos hábitos é o contraponto psicossocial de um processo civilizador que foi se produzindo desde o período medieval, e que se instala gradualmente no Ocidente a partir de poderes centralizados em torno dos modernos estados nacionais. Em diversos aspectos, O processo civilizador tem ligações muito definidas com A sociedade de corte (1986),11 obra anterior em que Elias já havia estabelecido claramente os parâmetros do tipo de sociologia histórica que pretendia propor. A idéia é examinar, explica ele na introdução dessa última obra, não os indivíduos do passado histórico tomados como únicos em si mesmos e como possuidores de uma expressiva liberdade para agir no mundo histórico (tendência que Elias sugeria ser a dos historiadores alemães de seu tempo), mas a rede de interdependências e condicionamentos que inscreveriam todos esses seres humanos em sociedade. Isso explica, aliás, a atualidade da obra de Elias: no decurso do século XX foi se afirmando cada vez mais uma historiografia que se opunha precisamente ao historicismo criticado pelo sociólogo alemão, tanto no que se refere ao surgimento da vertente francesa, inaugurada pela chamada Escola dos Annales, como por meio dos novos desenvolvimentos historiográficos inscritos no materialismo dialético. Assim a sociologia histórica proposta por Elias – diretamente preocupada com as determinações que impõem um limite aos destinos pessoais – foi sendo identificada cada vez mais com uma História que avançou na mesma direção nas suas inúmeras modalidades. É interessante constatar, aliás, que mesmo no período pós-Annales e pós-No- velle Histoire, marcado por novos desenvolvimentos como a microistória, uma obra como A sociedade de corte continua a mostrar-se sintonizada com alguns dos mais recentes caminhos historiográficos. O que se faz nesta obra, senão 11 Embora a sua primeira publicação somente tenha ocorrido em 1969, essa obra é anterior a O processo civilizador, já contando com uma edição praticamente definitiva em 1933.
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    tomar um universomicrorrecortado – a corte dos reis de França entre Francisco I e Luís XIV com todo o seu sistema ritualizado pela etiqueta – para, a partir daí, examinar a rede de relacionamentos e imposições de comportamento que passam Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 a constranger os indivíduos, produzindo, de um lado, estratégias daqueles que são obrigados a se movimentar nesse sistema, e, de outro, automatismos a serem decifrados pelos sociólogos e historiadores? O que se faz nesta obra, ainda, senão uma tentativa de apreender a sociedade do Antigo Regime a partir dessa formação social mais específica que é a “corte principesca”, oferecendo àqueles que puderem decifrá-la as chaves para compreender padrões de comportamento que se difundem para a sociedade mais ampla? Para utilizar um comentário pertinente de Roger Chartier, que tomaria mais tarde a obra de Elias como um dos modelos de sua história cultural, é possível dizer que o que o sociólogo alemão está propondo é precisamente “estabelecer as leis de funcionamento das formas sociais a partir de um exame minucioso de uma de suas atualizações históricas”. (CHARTIER, 1990, p. 91-119). Trata-se, então, de dar uma tríplice utilidade a este estudo de caso: por um lado utilizando- o para compreender certos aspectos do Antigo Regime; por outro, aproveitando- o para investigar, a partir das comparações com que Elias enriquece o livro, se uma formação social como a “corte” produziria efeitos similares em outras sociedades; por fim – e é este o aspecto que nos interessa mais especificamente nesta seção em que estamos abordando a psicohistória – Elias propõe-se a examinar a função da corte em um processo de civilização que transforma radicalmente a economia psíquica dos homens entre os séculos XII e XIII. O objetivo central de O processo civilizador também se enquadra perfeitamente nesse campo intradisciplinar que poderia ser definido como uma psicoistória, ou nesses interstícios situados entre a História e a Psicologia (e que Elias pretendia inscrever no interior do campo sociológico). Trata-se de investigar, nessa obra de 1939, a variação das normas de agressividade no tempo e de examinar como essas normas se refinam (ou civilizam-se) de modo a transferir um controle que antes era exercido de fora para um espaço intra-individual e intersubjetivo onde o indivíduo entroniza as regras e interdições sociais até que passa a agir automaticamente, de maneira autocoativa. Dito de outro modo, o que Elias está estudando nesse livro é a formação de um psiquismo específico no homem ocidental, que está precisamente ligado a motivações socioistóricas. Na verdade, o enquadramento de O processo civilizador em um campo que poderia ser definido como uma psicoistória é autorizado pelo próprio Elias, já que no
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    segundo volume dessaobra ele reclama precisamente a constituição de uma ciência humana que ainda não existia, e que poderia ser chamada “psicologia histórica”, vindo essa a ocupar o vazio produzido pelo abismo que separa uma Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. História não-psicologizada de uma Psicologia que recusa a si mesma pensar historicamente seus objetos. (ELIAS, 1990): Exatamente porque o psicólogo pensa não-historicamente, porque aborda as es- truturas psicológicas dos homens de nossos dias como se fossem algo sem evolução ou mudança, os resultados de suas investigações de pouco servem ao historiador. E porque, preocupado com o que chama de fatos, evita problemas psicológicos, o historiador pouco tem a dizer ao psicólogo (p. 234). É esse diálogo de surdos, onde psicólogos e historiadores habitam constelações teóricas separadas por anos-luz de incompreensão mútua, o que Elias propõe-se a superar. A Psicologia Social Histórica, tal como a define o sociólogo alemão em outro passo de O processo civilizador, deveria produzir estudos simultaneamente psicogenéticos e sociogenéticos. E é isso o que Elias realiza efetivamente com suas obras. Elias foi, na verdade, um crítico contumaz da Psicanálise enquanto campo de sa- ber até então redutor e habitualmente tendente à não-historicização. Criticou-lhe – além da a-historicidade – a utilização dos conceitos de Ego, Id e Superego para identificar compartimentos separados da mente humana, propondo, ao contrário, uma atenção especial às relações entre esses três conjuntos de funções psico- lógicas. Seu objetivo era investigar as relações entre os sentimentos controlados pelos indivíduos humanos e aquelas agências controladoras da psique, mas cha- mando a atenção para o fato de que a estrutura média ou habitual dessas agências controladoras (ego, superego) vai se transformando no decurso de um processo civilizador como aquele que foi sendo produzido socialmente no Ocidente, na medida em que se sofisticava e se transmudava a rede de interdependências humanas. Introduzir simultaneamente uma abordagem social e uma profunda consciência histórica no âmbito da Psicologia foi a sua pedra de toque. Da mesma forma, Elias foi crítico arguto da historiografia alemã de sua época, seja a associada àquele tipo de história das idéias que almejava investigar o pensamento humano desencarnado de sua sociedade, seja a historiografia que, a título de examinar a sociedade nas suas relações concretas, acabava por abstrair essa sociedade de um universo mental que constitui parte funda- mental de sua própria vida. Romper o isolamento injustificável entre esses dois tipos de História, e reinstaurar o diálogo de uma História simultaneamente
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    mental e concretacom a disciplina Psicologia – esse foi um dos seus projetos ! mais pessoais, vindo a se constituir em uma contribuição decisiva para esse campo que rigorosamente nem começou ainda a se formar, mas que desde já Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 poderemos chamar psicoistória. Os maiores riscos que rondam a psicoistória envolvem, de um modo ou de outro, os chamados “perigos do Anacronismo”. O que é Anacronismo? Em primeiro lugar, é preciso considerar que o historiador, ao examinar uma determinada sociedade localizada no passado, está sempre operando com categorias de seu próprio tempo (mesmo que ele não queira). Daí aquela célebre frase de Benedetto Croce, que dizia que “toda história é contemporânea”. Isso quer dizer que mesmo a História Antiga e a História Medieval são histórias contemporâneas, porque feitas pelos historiadores de nosso tempo (e voltadas para leitores de nosso tempo). Há uma tensão muito delicada que envolve essa inarredável característica do trabalho historiográfico: por um lado, o historiador deve conservar a consciência de que trabalhará com as categorias de seu tempo (as únicas que lhe serão possíveis), mas de outro deverá evitar que essas categorias deturpem as suas possibilidades de compreender os homens do passado, que tinham as suas próprias categorias de pensamento e de sensibilidade. Por exemplo, os métodos que um historiador emprega serão sempre métodos seus, desenvolvidos na sua própria época: ele poderá empregar os recursos da análise semiótica, somente desenvolvidos recentemente, para examinar fontes da história antiga ou me- dieval; e poderá elaborar novos conceitos, somente tornados possíveis no seu tempo, para iluminar uma época anterior à sua. Não há o menor problema nesses usos. Aliás, é precisamente o uso de novas técnicas, conceitos e modos de ver uma realidade passada o que assegura que a História de uma determinada época deverá ser sempre recontada. A questão do anacronismo é muitas vezes mal-interpretada. Não tenho por que me constranger de utilizar a expressão “ataque cardíaco” para uma morte desse tipo, ocorrida na Antiguidade greco-romana ou na Idade Média somente porque os homens de então se referiam a esses males como “mal súbito”. O que não posso é dizer que um determinado grupo de mulheres daquela época, dadas suas atitudes de resistência ao controle masculino em um tempo em que essas resistências não eram esperadas, fossem “feministas”. O erro, nesse caso, está em que estou lhes atribuindo uma categoria de pensamento que somente surgiu nas mulheres do século XX – à luz de uma equivalente conquista de direitos políticos e de obtenção de espaço social e profissional – e transferindo
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    isso para umaépoca em que o discurso feminista simplesmente não existia. O discurso feminista é datado e, na verdade, inseparável das condições de seu surgimento e perpetuação. Se quero tentar compreender as mulheres da Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. Antiguidade e da Idade Média que resistiram à sociedade misógina de sua época, devo tentar perceber como elas viam o mundo, através de que categorias de pensamentos, a partir de que práticas e representações. Devo examinar, além disso, a excepcionalidade ou não do comportamento deste ou daquele grupo, que sentido os componentes desse grupo atribuíam aos seus próprios discursos. Devo refletir longamente sobre as suas palavras (que certamente não incluirão a expressão “porco chauvinista”). Metaforicamente falando, deverei sintonizar, nesse caso, essa singular estação que é a mulher antiga ou a mulher medieval, sempre com a consciência de que deverei apreender um idioma estrangeiro, diferente do meu. Muitas vezes, alguns historiadores de nosso tempo, que aprendem desde cedo na academia que o maior pecado para um historiador é o do anacronismo, quase parecem se sentir tentados a mandar confeccionar um manto medieval para depois se encerrarem nos seus gabinetes de estudo com uma roupa apropriada para iniciar uma investigação sobre a ordem medieval dos templários. Não é isso o que os libertará dos riscos do anacronismo, e nem um eventual horror a utilizar categorias teóricas contemporâneas na hora de analisar uma fonte histórica. Se assim fosse, a própria discussão sobre a possibilidade de diálogo entre a História e a Psicologia, ou entre a História e a Semiótica para citar um outro campo de possibilidades, seria inviável, já que não existiam esses campos de saber naquelas épocas mais remotas (e já que, rigorosamente, a própria História não existia da maneira como hoje concebemos esse campo do conhecimento). O que o historiador não deve fazer, com vistas a evitar os riscos do anacronismo, é inadvertidamente projetar categorias de pensamento que são somente suas e dos homens de sua época nas mentes das pessoas de uma determinada sociedade ou de um determinado período. Para compreender os pensamentos de um chinês da época dos mandarins, terei de me avizinhar dos códigos que (tanto quanto me for possível perceber) regeriam o universo mental dos chineses. Esse exercício de compreender o “outro chinês” é que tem que ser feito. Mas não é a análise que tem de ser chinesa. Compreendido isso, poderemos retornar agora aos problemas do diálogo entre História e Psicologia. Febvre, em um texto visionário, deixou registrado um alerta que poderemos reproduzir literalmente aqui, já que diz tudo:
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    Muito já dissemospara mostrar que, se evitarmos projetar o presente, o nosso presente, no passado; se rejeitarmos o anacronismo psicológico, o pior de todos, o # mais insidioso e o mais grave; se pretendermos esclarecer todas as atitudes das sociedades e, inicialmente, suas atitudes mentais, pelo exame de suas condições Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 gerais de existência – é evidente que não poderemos considerar como válidas, para esse passado, as descrições e constatações de nossos psicólogos, operando sobre dados que nossa época lhes fornece. É também evidente que uma psicologia histórica verdadeira só será possível pelo acordo, negociado claramente, do psicólogo com o historiador. Este orientado por aquele. Mas aquele claramente tributário do primeiro, e obrigado a procurá-lo, para criar suas condições de trabalho. Trabalho em colaboração. Trabalho em equipe, para falar mais claramente. (1953, p. 207-215). A psicoistória, enfim, mostra-se um campo promissor, que requer naturalmente os seus cuidados. Uma última tentação a evitar nos trabalhos que poderiam ser enquadrados pela psicoistória é a de pretender psicanalisar os homens do passado, como se pudessem “deitar-se no divã de um hipotético historiador psicanalista”.12 Naturalmente, sabe-se que o processo psicanalítico, pelo menos no sentido freudiano, necessita ser construído a partir de um discurso interativo com o “outro” – o que seria impossível no caso dos atores sociais do passado que nos chegam por meio das fontes. Para citar um último conjunto de historiadores que têm investido na conformação de uma ainda incipiente psicoistória, poderemos registrar que também entre os historiadores ligados à herança dos Annales começaram a surgir, no fim do século XX, algumas contribuições importantes. Desses, talvez o mais entusiasmado com as possibilidades de diálogo com a Psicanálise seja Alain Besançon, que já em 1974 escreveu um texto sobre o inconsciente para a obra coletiva da Nova História coordenada por Pierre Nora e Jacques Le Goff. (1988, p. 234). Fora do circuito francês, o grande marco nas tentativas de repensar as relações entre História e Psicanálise está registrado na obra Freud para historiadores (1985), de Peter Gay (1989). E a sua própria série de obras sobre os padrões de afetividade e sexualidade na época vitoriana dá uma idéia dos caminhos possíveis a partir desse diálogo. (GAY, 1988). 12 Essa imagem foi utilizada ironicamente por Le Roy Ladurie, que também dialoga eventualmente com a teoria psicanalítica (LADURIE, 1974, p. 284).
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    História do imaginário $ Os novos objetos que audaciosamente os historiadores das últimas décadas do Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. século XX passariam a explorar, tal como se disse, não se tornaram de modo algum monopólios da historiografia das mentalidades. Ainda explorando os caminhos da cultura e também o universo mental das sociedades, poderemos delimitar agora as bases de um campo que pode ser definido como uma história do imaginário – investimento historiográfico que começa por abrir mais uma alternativa à investigação daqueles objetos historiográficos que até então haviam sido seara, praticamente exclusiva, da história das mentalidades. A história do imaginário estuda essencialmente as imagens produzidas por uma sociedade, mas não apenas as imagens visuais, como também as imagens verbais e, em última instância, as imagens mentais. O imaginário será aqui visto como uma realidade tão presente quanto aquilo que poderíamos chamar “vida concreta”. Essa perspectiva sustenta-se na idéia de que o imaginário é também reestruturante em relação à sociedade que o produz. Assim, basta lembrar como um exemplo entre outros que, na Idade Média, muitos se engajaram nas Cruzadas menos por razões econômicas ou políticas (embora estas sejam sempre evidentes) do que em virtude de um imaginário cristão e cavaleiresco. O imaginário mostra-se, dessa forma, uma dimensão tão significativa das sociedades humanas quanto aquilo que corriqueiramente é encarado como a realidade efetiva. A elaboração de um conceito (ou de uma noção) de imaginário para as Ciências Humanas deve muito a Cornelius Castoriadis, cuja obra de referência é A instituição imaginária da sociedade (1982), e a historiadores como Le Goff e Duby.13 Não devem ser desprezadas as contribuições antropológicas, como as de Gilbert Durand em As estruturas antropológicas do imaginário (DURAND, 1989), embora o historiador deva estar atento a um tratamento por vezes a-histórico que transparece nesse livro. Todavia, como registro de um repertório milenar de imagens, devidamente interconectadas, essa obra é imprescindível. A noção de imaginário é polêmica. Por um lado, ela conserva interfaces com a noção de “representação” e, em algumas situações, os campos originados por esses dois conceitos se invadem reciprocamente. Le Goff destacava que “o 13 Um marco para o delineamento de uma história do imaginário é o prefácio de Le Goff para a sua coletânea de textos relativos a essa especialidade historiográfica (1980).
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    imaginário pertence aocampo da representação, mas ocupa nele a parte da tradução % não reprodutora, não simplesmente transposta em imagem do espírito, mas criadora, poética no sentido etimológico da palavra”. (LE GOFF, 1980, p. 12). Para o historiador Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 francês, como aliás para Castoriadis em sua obra pioneira sobre A invenção imaginária da sociedade, o imaginário não pode ser examinado como algo estático. De certo modo, marca-se aqui uma distância em relação à noção de “mentalidade”, que evoca uma idéia maior de imobilidade ou de permanência em uma duração mais longa. Mas a isso voltaremos oportunamente. Por ora, consideraremos o imaginário como um sistema ou universo complexo e interativo que abrange a produção e circulação de imagens visuais, mentais e verbais, incorporando sistemas simbólicos diversificados e atuando na construção de representações diversas. De acordo com essa definição, existe uma interface possível do imaginário não apenas com o campo das “representações”, mas também com o âmbito dos “símbolos”. Nesse sentido, deveremos lembrar que é possível se falar em “simbólico” apenas quando um objeto, uma imagem ou uma representação são remetidos a uma dada realidade, idéia ou a um sistema de valores que se quer tornar presente (a espada como símbolo da justiça). Uma imagem, portanto, pode se ver revestida de significado simbólico, conforme veremos adiante com o exame de algumas imagens apropriadas politicamente. A noção de imaginário, de qualquer modo, é complexa e aberta a sentidos diferenciados, o que não impede que tenha gerado uma dimensão historiográfica importante. Para encontrar uma obra precursora no campo da historiografia, devemos ir ao clássico de Johannes Huizinga, escrito em princípios do século XX e traduzido para o português com o título O declínio da Idade Média (1978). Nessa obra, o historiador holandês circula livremente entre as imagens visuais e verbais perceptíveis através da produção cultural das sociedades franco-flamengas de fins da Idade Média, antecipando, em décadas, um campo histórico que somente passaria a receber uma atenção mais sistemática dos historiadores a partir da década de 70. Suas fontes são constituídas tanto de textos literários como de obras iconográficas. Adicionalmente, Huizinga também toca na questão de determinados modos de sentir que seriam comuns a todos os homens medievais, o que o coloca também como um precursor da história das mentalidades. Tal como se disse, os primeiros domínios históricos a serem percorridos pela moderna história do imaginário coincidiram de certa forma com aqueles que começaram a ser desbravados pelos historiadores das mentalidades na década de 60. Ginzburg, por exemplo, ocupou-se de recuperar um imaginário das práticas
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    de feitiçaria emOs andarilhos do bem (1991). Todavia, embora existam alguns objetos em comum, a história do imaginário guarda alguma distância em relação à história das mentalidades. Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. Essa última está muito associada à idéia de que existe em qualquer sociedade algo como uma “mentalidade coletiva”, que para alguns seria uma espécie de estrutura mental que somente se transforma lenta, às vezes dando origem a permanências que se incorporam aos hábitos mentais de todos os que participam da formação social (apesar de transformações que podem estar se operando rapidamente nos planos econômico e político). A história do imaginário não se ocupa propriamente dessas longas durações nos modos de pensar e de sentir, mas da articulação das imagens visuais, verbais e mentais com a própria vida que flui em uma determinada sociedade. Foi o que Le Goff pretendeu fazer em sua obra O nascimento do purgatório (1990), em que busca investigar a mútua interação entre o imaginário religioso medieval e a sociedade que o produziu. Por outro lado, nota-se que, em geral, os historiadores das mentalidades estão sempre no encalço de algo que, grosso modo, é bem mais abstrato do que as imagens bem definidas investigadas pelos historiadores do imaginário. A história das mentalidades busca captar modos coletivos de sentir (a história de um sentimento como o “medo”), padrões de comportamento e atitudes recorrentes (os complexos mentais e emocionais que estão por trás das crenças e práticas da feitiçaria, as atitudes do homem diante da morte). Já a história do Imaginário volta-se para objetos mais definidos: um determinado padrão de representações, um repertório de símbolos e imagens com a sua correspondente interação na vida social e política, o papel político ou social de certas cerimônias ou rituais, a recorrência de determinadas temáticas na literatura, a incorporação de hierarquias e interditos sociais nos modos de vestir, a teatralização do poder. Uma pequena comparação de casos poderá contribuir para clarificar a questão. Na História do medo no Ocidente, de Delumeau, procura-se captar um complexo de medos que faziam parte da constituição da mentalidade coletiva do homem ocidental, considerando-se um período de longa duração que tem seus primórdios na Idade Média e que o autor examina até o século XVIII. Habituados a um mundo rural fechado em redes senhoriais e controles privados, que somente conheceria uma reintensificação do comércio a partir do século XII
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    e que, mesmonesse processo de reurbanização, será um mundo de cidades ' muradas e de castelos fortificados ou acostumados desde a mais tenra infância a partilhar a vida diária entre as permanências pagãs e um sobrenatural religioso Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 cristão; assaltados outras vezes pela peste e pelas invasões de povos que lhes pareciam bárbaros, os homens medievais desenvolveram uma série de medos que eram partilhados pela totalidade social. Apesar das transformações políticas e sociais a partir do século XIII, os homens da Baixa Idade Média e do princípio do período moderno haviam herdado permanências seculares, que só poderiam ser alteradas em ritmos muito lentos ou então sob estímulo de alguns dos acontecimentos traumáticos do princípio dos tempos modernos. Para resumir o complexo de medos ocidentais rastreados por Delumeau, pode- remos mencionar o medo do mar, o medo do desconhecido, o medo da noite, o medo das florestas não-desbravadas que constituíram verdadeiras fronteiras internas ainda nos tempos feudais, o medo dos leprosos e da Peste Negra, e sobretudo o medo do “outro” – que podia se voltar contra os judeus, contra os muçulmanos, contra as bruxas ou contra os simples forasteiros. Medo, por fim, do Diabo – a quem os vários “outros” eram constantemente assimilados. Esses medos só a custo foram sendo vencidos quando o homem ocidental co- meçou e continuou a desbravar as suas florestas internas, quando se lançou às grandes viagens oceânicas, ou à aventura do intercâmbio com povos os mais diversos, ou mesmo quando começou a decifrar racionalmente uma natureza que até então lhe parecera enigmática e mesmo assustadora. Os desbravadores que se lançavam a outras terras como Marco Polo, como os alquimistas que queriam decifrar o mundo natural e sobrenatural, como os novos comerciantes de longo curso, como os cruzados ou como os missionários, eram pessoas que enfrentavam e lutavam contra esses vários medos coletivos. A caminhada para a modernidade aparece, assim, como uma trajetória de supe- ração desses medos seculares, talvez em direção a novos medos a serem inven- tados de acordo com as circunstâncias histórico-sociais. Essas longas perma- nências no âmbito dos modos de sentir – produtoras de medos coletivos que em algumas ocasiões eram manipulados pelos donos do poder – são tratadas por Delumeau como mentalidades. Em que objetos está interessado o historiador nesse caso? Busca compreender os medos coletivos que aparecem aqui como “modos de sentir” a serem parti- lhados por todos e que, além de ocuparem uma longa duração, estendem-se por
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    todos os espaços– não a uma pequena aldeia, ou sequer à França, mas ao ! Ocidente cristão. Mais ainda, esses modos de sentir atravessam as classes, passam a se insinuar na análise do historiador como elementos constituintes da Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. estrutura mental dos homens de toda uma época. Um historiador do imaginário estaria menos interessado nesses modos coletivos de sentir do que nas imagens socialmente produzidas, mesmo que em alguns casos essas imagens sejam produzidas por padrões coletivos de sentimento e de sensibilidade. Quando um autor como Claude Kappler escreve a sua obra sobre Monstros, demônios e encantamentos no fim da Idade Média (KAPPLER , 1994) – portanto abordando um recorte análogo e objetos muito próximos dos de Jean Delumeau – está muito particularmente interessado nas imagens e nos seus usos, no inventário de fenômenos prodigiosos que assaltam a imaginação dos homens medievais, na tipologia de monstros que se espalha pelos seus bestiários e que têm algo a dizer sobre o contexto social em que foram produzidas, nas visões cosmográficas a partir das quais eram estabelecidas representações da Terra e do Universo, trazendo o Paraíso para um ponto qualquer no Oriente ou no topo do mundo. É verdade que Kappler trabalha também com a perspectiva de uma longa permanência medieval, e por isso dialoga, em um de seus capítulos, com a história das mentalidades. Mas isso é circunstancial ao seu objeto – já que, conforme veremos, as imagens, as cosmovisões e os símbolos podem ser produzidos também por circunstâncias políticas, por necessidades sociais e até locais, por artimanhas da poesia e da literatura, por arquitetura política pensada ou intuída, ou podem mesmo ser ocasionadas por grandes eventos que caem como raios na vida das sociedades. Durante o período Nazista, na Alemanha do século XX, por exemplo, um rico imaginário foi construído em poucas décadas em torno da suástica, da imagem do super-homem de raça pura, da simbologia do Reich e do papel do Führer no centro ou no topo desse imaginário político, um imaginário que aflora repentinamente, mesmo que recolhendo materiais seculares como as idéias pan-germanistas e as hostilizações anti-semitas. Mas deixemos por ora os demônios do século XX e voltemos aos de Kappler – ao seu imaginário de monstros, demônios e encantamentos da Idade Média. Que esse historiador está embriagado de imagens nas suas motivações historiográficas fica bem claro nas primeiras frases de seu trabalho. Ele nos conta que a idéia de seu livro germinou da contemplação das pinturas de Jerônimo Bosch – pintor
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    renascentista que muitasvezes contrasta com seus contemporâneos pela profusão, ! em seus quadros, de um imaginário iconográfico riquíssimo onde abundam os monstros, os seres fantásticos, os prodígios, as referências a um sobrenatural Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 mágico. Enquanto Delumeau está fascinado pela persistência de um modo de sentir, Kappler está fascinado pelos modos de imaginar, de representar, de viver entre imagens visuais e verbais construídas pelos homens medievais. Alguns talvez considerem a obra de Kappler sobre os monstros medievais um tanto descritiva, como se o seu objetivo principal fosse apenas o de inventariar um vasto universo de imagens que hoje causam estranhamento ou curiosidade. Descrever a imagem pela imagem é uma das tentações da história do imaginário. Mas convenhamos: uma história descritiva pode ser elaborada em qualquer uma das dimensões que estamos estudando: um historiador econômico pode se limitar a descrever os ciclos e as flutuações de preços em um determinado período, e um historiador demográfico pode reduzir o seu trabalho à apresentação de curvas demográficas e de dados sobre uma população de determinado local e época. A história descritiva (como a história factual, que é a sua contrapartida entre os historiadores que se comprazem em narrar uma seqüência de eventos), pode ser sempre confrontada com uma história-problema. Problematizações interessantes podem ser elaboradas em todas as dimensões e domínios historiográficos, com os mais diversificados métodos e abordagens. O historiador do imaginário começa a fazer uma história problematizada quando relaciona as imagens, os símbolos, os mitos, as visões de mundo a questões sociais e políticas de maior interesse – quando trabalha os elementos do ima- ginário não como um fim em si mesmos, mas como elementos para a compreensão da vida social, econômica, política, cultural e religiosa. O imaginário deve fornecer materiais para o estabelecimento de inter-conexões diversas. Estão aí as obras de Le Goff mergulhando nas estruturas sociais através das imagens do Purgatório, ou de Duby compreendendo a visão tripartida da sociedade através do imaginário do feudalismo. Esse contraste entre a busca de modos de sentir mais abstratos (medo, pavor da morte, afetos) e a intenção de decifrar a profusão de imagens visuais, verbais e mentais pode esclarecer algumas das fronteiras e dos pontos de contato entre a história das mentalidades e a história do imaginário. Com base no que até aqui discutimos (pois a questão não se resume a isso, postulamos que a famosa obra em que Marc Bloch estuda Os reis taumaturgos (1993) é muito mais uma precursora da história do imaginário do que de uma história das mentalidades.
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    O que Blochestá examinando, nesse caso, é a persistência de um determinado ! imaginário régio, de uma determinada crença popular em um aspecto muito específico e delineado que seria a capacidade dos reis franceses e ingleses de Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. duas dinastias medievais de curarem com um simples toque as “escrófulas” (sintomas visíveis de doenças pouco conhecidas na época). Bloch decifra precisamente a imagem do “rei taumaturgo” e a sua apropriação política, investigando rituais e simbologias que com ela estariam relacionados. Não é, portanto, um modo genérico de sentir o que ele busca rastrear, mas a história de uma crença muito bem delineada e atrelada aos universos político e social de sua época, com base em um imaginário que tem uma história e que foi se entranhando na maneira medieval de conceber uma realeza que dialoga com a sacralidade. De modo geral, a diferença entre história das mentalidades e história do imaginário acaba por produzir uma tendência a abordagens distintas. Não raro, chega-se às mentalidades de maneira indireta, freqüentemente através de indícios, de detalhes que são reveladores de atitudes coletivas e de modos de sentir comuns a toda uma sociedade. Já o imaginário pode ser, muitas vezes, apreendido por uma análise mais direta do discurso, seja um discurso verbal, seja visual, empregando, para tal, desde análises topológicas até recursos semióticos (e também métodos iconográficos e iconológicos para o caso das imagens visuais). A independência de uma história do imaginário em relação a uma história das mentalidades propriamente dita não impede que alguns historiadores tenham atuado na articulação entre essas duas dimensões, como foi o caso do historiador das mentalidades Vovelle, que, em um mesmo trabalho historiográfico buscou, perceber tanto os padrões de sensibilidade do homem diante da morte como as formas simbólicas que os acompanham. Vale a pena registrar essa interconexão entre mentalidades e imaginário percorrida com sucesso pelo historiador francês. O ponto de partida é uma hipótese que se sustenta no conceito de mentalidade como estrutura de longa duração: teria ocorrido no Ocidente europeu do século XVIII (entre 1730 e 1770) uma mudança radical na sensibilidade coletiva diante da morte e, na verdade, na sensibilidade religiosa em sentido mais amplo, uma vez que a partir desse período assiste-se ao que o historiador francês chama uma “des- cristianização”. (VOVELLE, 1981). Partindo de uma história das mentalidades, calcada em uma hipótese que encara a sensibilidade religiosa e mortuária do homem ocidental como uma estrutura de
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    longa duração quese desgasta mais aceleradamente a partir do século XVIII, !! Vovelle chega a uma história do imaginário tanto pelo seu enfoque nas imagens, nos símbolos e nas representações como pelo tipo de fontes iconográficas que Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 postula serem indispensáveis para a percepção de certos aspectos das representações coletivas. (VOVELLE, 1981, p. 46). Dessa forma, abordando tanto a iconografia dos cemitérios (imagens visuais) como as comunicações fúnebres (imagens produzidas no âmbito da escrita), Vovelle revela o caminho percorrido: Todo um trabalho de decifração se impõe a partir de indícios frágeis. Escrutinando os ex-votos, o pesquisador medirá pacientemente a superfície, respectivamente do es- paço celeste de aparição e da cena terrestre; analisará, também, o gestual e o jogo dos olhares pelo qual se estabelece a ligação entre os dois universos. Analisando as representações do purgatório em sua evolução, sublinhará as mutações caracte- rísticas de um panteão de intercessores que, paulatinamente, vai se despovoando do século XVII ao século XVIII. (1981, p. 42). Vovelle revela-se um verdadeiro mestre em suas investigações sobre a religio- sidade e a morte – um mestre capaz de perceber o imaginário seja nos objetos de cultura material, seja nas fontes iconográficas, seja em documentação escrita como os testamentos. Examina altares e retábulos, mede o tamanho de velas! Avalia as imagens verbais registradas nos epitáfios, seja para perceber as fórmulas estereotipadas que indicam permanências, seja para surpreender aquele detalhe revelador, aquela lenta emergência de novas imagens verbais a denunciar simultaneamente a presença de um novo imaginário e de uma nova sensibilidade diante da morte. É preciso maestria para elaborar historiograficamente essas conversões da informação visual em imagem mental, da informação escrita em imagem vi- sual, ou para fazer a passagem do discurso contido nas fontes de cultura material para o discurso verbal, e vice-versa. É a mesma maestria que nos revela Ladurie, historiador que circula com a mesma desenvoltura entre uma história da cultura material, uma história das mentalidades e uma história do imaginário, conhecendo os segredos da conversão de um desses campos no outro. Para justificar esses elogios, será bastante reproduzir um pequeno trecho de suas fontes – documentos inquisitoriais que registram os depoimentos de réus acusados de pertencerem à heresia cátara – e os subseqüentes comen- tários do historiador, hábil em perceber, em um pequeno extrato textual, todo um universo que abrange desde traços da cultura material de uma pequena comunidade até os traços de sua “utensilhagem mental”, para utilizar uma expressão de Febvre que Ladurie encampa conceitualmente:
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    [texto da fonte“Um dia [conta Guillemette Clergue, cujo marido é violento] eu texto fonte]: ! precisava de pedir emprestados alguns pentes para pentear o canhâmo e fui, para esse efeito, à casa de meu pai. E, quando aí cheguei, encontrei o meu irmão que tirava o esterco de casa. E perguntei ao meu irmão: Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. — Onde é que está a senhora minha mãe? — E que lhe quereis? replicou ele. — Quero alguns pentes, disse eu. — A nossa mãe não está aqui, concluiu o meu irmão. Foi à água. Só voltará daqui a um bom bocado. Não acreditei no meu irmão e tentei entrar em casa. Então, o meu irmão pôs o braço defronte da porta e impediu-me de entrar.” [comentário do historiador “Texto notável! A porta é estreita; foi barrada por um comentário historiador]: simples braço de homem: a porta cheira a esterco; Alazais Rives, a mãe, é aguadeira da domus do seu homem, como todas as outras. Isto não impede que esta mamã muito vulgar tenha o direito ao título de Senhora (“minha senhora”!) por parte de sua filha Guillemette Clergue. Esta família é, por outro lado, um ninho de escorpiões; os laços são no entanto ritualizados. O irmão trata por vós a irmã, o que não o impede de ser brutal para com ela.” (LADURIE, 1983, p. 252). A partir de um registro verbal, aparentemente tão despretensioso, Ladurie traz à tona a materialidade das habitações, os seus cheiros, a labuta diária das mulheres oprimidas pelos maridos, a contradição entre a simplicidade dessas vidas e a formalidade respeitosa com que se tratam. Enfim, recupera-se, em um instantâneo notável, o material e o mental que se entrelaçam em torno das relações sociais rigidamente hierarquizadas e ritualizadas. As imagens irrompem através da verbalidade e chegam a exalar cheiros e concretudes materiais prontamente percebidas pelo historiador. Voltemos, contudo, aos esforços de explicitar os limites existentes entre o enfoque da história das mentalidades e o enfoque da história do imaginário. Ressalvados os significativos e eloqüentes exemplos de Vovelle e Ladurie, o encontro entre história do imaginário e história das mentalidades não é, em todo caso, obrigatório, sendo pertinente considerá-los como dois campos específicos. Se um circuito do imaginário social pode se formar lentamente, a partir de longas permanências e de uma dimensão mais diretamente derivada dos modos automáticos de pensar e de sentir – ou a partir das mentalidades, como diriam os historiadores que enfocam essa dimensão social – pode se dar também que um circuito imaginário seja produzido por necessidades ou por motivações políticas. Nesse caso, veremos que combinações da história do imaginário com outros campos são perfeitamente possíveis (por exemplo, entre uma história do imaginário e uma história política). Da mesma forma que existe um “imaginário religioso”, cada sociedade desenvolve
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    também o seu“imaginário político”, como aquele que Ernst Kantorowicz estudou em !# Os dois corpos do rei (1998). A idéia presente na Inglaterra e na França do Antigo Regime de que o “rei não morre jamais”, ou de que a própria sociedade constitui um Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 “segundo corpo do rei”, pode estar, segundo o historiador polonês, interconectada com um imaginário cristão e ao mesmo tempo com determinadas motivações políticas, percebendo-se aqui uma rede de múltiplas interações a ser decifradas pelo historiador. Em muitos casos, um circuito de elementos do imaginário social pode ser produzido ou apropriado por circunstâncias políticas ou, tal como já mencionamos, mesmo por uma arquitetura do poder. Também não são raros os casos em que o imaginário encontra um leito em determinadas condições sociais, ou que se adapte a certas motivações políticas. Na Espanha medieval do século XIII, os sábios e juristas do rei Afonso X elaboraram a imagem de que “o rei é a cabeça, o coração e a alma do reino”. Esse imaginário tem muito a ver com a maneira medieval de conceber a sociedade como um organismo (que teria no rei a sua cabeça), mas tem a ver também com uma determinada maneira de governar. Por que não somente a cabeça, órgão que comanda de cima ou o coração, órgão que rege a vida de dentro ou a alma, que está em toda a parte? O que está por trás dessa hábil estratégia de unir essas três imagens em uma única metáfora?14 Um estudo inserido na história do imaginário elabora perguntas dessa ordem. Cada sociedade, ou cada sistema político, pode produzir do governante um imaginário que lhe seja mais apropriado. À estruturação do poder absolutista francês no século XVII, por exemplo, adaptou-se com muita eficácia a imagem do Rei-Sol difundida por Luís XIV. Outrossim, a história nos oferece inúmeros imaginários régios: o rei taumaturgo, o rei-sábio, o rei santo, apenas para citar alguns. Os horizontes abertos por uma busca da compreensão do imaginário político são, na verdade, inúmeros. Os modos como o poder é representado – por exemplo, em termos de “centro” e de “periferia” – ou como a estratificação social, mate- rializa-se em imagens como a de um espectro de alturas em que as classes sociais mais favorecidas são chamadas “classes altas”... Eis aqui algumas imagens sociais e políticas que podem passar a fazer parte da vida de uma sociedade. Duby, por exemplo, buscou recuperar precisamente o imaginário que está por trás dos padrões de organização da sociedade feudal em As três ordens ou o imaginário do feudalismo (1971). 14 Essa questão é discutida em Barros (1999).
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    Mas a históriado imaginário também pode seguir por outros caminhos. Existe o !$ estudo mais direto das imagens visuais, perceptíveis, por exemplo, nas iconografias ou das imagens verbais empregadas na literatura – não propriamente para perceber Barros, José D’Assunção. História, imaginário e mentalidades:.. um fundo mental que as sustenta, como no caso dos já mencionados exemplos de Vovelle, mas para estudar essas imagens visuais e literárias em si mesmas. Nesse ponto, a história do imaginário partilha seus objetos com uma “história das imagens” propriamente dita ou com uma “história das representações”, que são, na verdade, “domínios da história” (ou seja, campos temáticos à disposição do historiador). São domínios que, naturalmente, também podem ser partilhados por uma história cul- tural. Vale ressaltar que, nesse caso, o estudo das imagens abre-se a metodologias próprias, que vão desde os métodos da iconografia temática iniciada cedo por autores como Emile Mâle, até o célebre “método iconológico” de Erwin Panófsky (1991), passando pelas abordagens semiológicas da imagem. O importante no estudo de imagens, como fontes históricas, é buscar metodologias próprias com a atenção de que existe uma diferença clara entre o discurso visual e o discurso escrito. Deve-se evitar, naturalmente, aquela tentação ou até mesmo inocência de se utilizar a fonte iconográfica como mera ilustração que confirma o que o historiador já percebeu através do discurso escrito de outra fonte trabalhada para- lelamente. A imagem visual (é o que queremos ressaltar), tem por si mesma algo a ser dito. É preciso fazê-la falar com as perguntas certas ou, para utilizar uma metáfora de Vovelle, arrancar da imagem certas “confissões involuntárias”. (1981, p. 70). **** Diante do que aqui foi colocado, será possível delimitar melhor os espaços historiográficos que correspondem a esses campos aparentemente tão próximos da historiografia. Apesar de se constituírem a partir de dimensões que guardam entre si alguma proximidade – o imaginário e o universo mental dos homens inseridos em sua vida coletiva – o que a história das mentalidades traz para primeiro plano são modos de pensar e de sentir que, em princípio, corresponderiam a processos de longa duração, e que podem se expressar ou não em imagens mentais, verbais ou visuais. A história do imaginário, por seu turno, traz a primeiro plano certos padrões de representação, certas potências da imaginação que se concretizam em imagens visuais, verbais ou mentais, mas que não neces- sariamente se formam em processos de longa duração (embora isso possa acon- tecer). O imaginário, conforme se salientou, pode ser objeto de uma arquitetura política, ser interferido por ela – pode ser gerado rapidamente sob determinadas circunstâncias; pode ainda ser produzido a partir da representação artística e
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    gerar suas própriasconexões. O imaginário nem sempre surgirá como uma !% dimensão coletiva (embora isso possa ocorrer), o que já se dá necessariamente com aquilo que foi chamado mentalidades pelos historiadores que acreditam na Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 possibilidade de identificar um significativo substrato mental comum entre os homens de uma mesma época ou pelo menos de um mesmo setor da sociedade. Mas teremos aqui, de qualquer modo, campos conceituais que ainda estão por se definir – e que ainda geram cada um deles as mais diversificadas polêmicas entre os historiadores. Para concluir esse grande paralelo entre as modalidades da História que atentam mais particularmente para os universos mental e imaginário, e também para o campo das sensibilidades humanas, e que têm explorado através de abordagens históricas os labirintos da psicologia e da imaginação humana, será oportuno lembrar que a psicoistória, a história das mentalidades e a história do imaginário deixaram certamente a sua marca em uma historiografia contemporânea que buscou, a partir do século XX, inserir-se em uma perspectiva interdisciplinar. Contudo, as reflexões e preocupações encaminhadas por essas modalidades históricas, bem como seus investimentos metodológicos e seus aportes teóricos, estão ainda longe de se esgotar à altura desse novo milênio que a pouco se iniciou. O universo mental dos homens, considerados em sua vida social, bem como sua produção de imagens de todos os tipos e de diversificados padrões de sensibilidade, constitui, certamente, ainda, um enigma que possivelmente nunca será decifrado, mas que, em todo caso, sempre atrairá o interesse dos historiadores. Referências ARIÈS, Philippe. O homem diante da morte. Rio de Janeiro: Alves, 1981. 2 v. ARIÈS, Philippe. História social criança e da família. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1981. [Orig.: 1964]. ARIÈS, Philippe. A história das mentalidades. In: LE GOFF Jacques (Org.). A história nova. São Paulo: M. Fontes, 1990. p. 154-176. BARROS, José D’Assunção. As três imagens do rei: o imaginário régio nos livros de linhagens e nas cantigas trovadorescas (Portugal e Castela, século XIII). 1999. Tese (Doutorado) – UFF, Niterói, 1999. BARROS, José D’Assunção. O campo da história: especialidades e abordagens. Petrópolis: Vozes, 2004. BARROS, José D’Assunção. O projeto de pesquisa em história. Petrópolis: Vozes, 2004.
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    A leitura dotempo no espaço: uma reflexão sobre a cultura Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 e a memória na mídia Mágda Rodrigues da Cunha1 RESUMO Investigar as relações que se estabelecem em uma sociedade midiatizada é pesquisar cada vez as diferentes camadas e marcas deixadas pela história das mídias. História essa que permanece ou se modifica, de acordo com as tramas da cultura. O que este artigo propõe é a possibilidade de ler hoje, por intermédio da reinvenção e reacomodação das mídias, as marcas que vêm sendo deixadas sob influência da cultura que, por sua vez, também se reinventa a cada nova mudança, em diálogo com os diferentes horizontes históricos. As características que atualmente se evidenciam, de uma sociedade individualista, também marcam as formas de comunicar, por intermédio de conteúdos personalizados. A solidão, que muitos atribuem aos navegadores na internet, é a mesma que, numa trama muito complexa, possibilita a existência de uma sociedade em escala global. Cultura, memória, tempo e espaço são as categorias que este texto elege como base de reflexão, para pensar os motivos de uma comunicação individualizada e em rede simultaneamente. Palavras-chave Cultura. Memória. Tempo. Espaço. Comunicação. Palavras-chave: ABSTRACT To investigate the relations in a society influenced by the media is to search each time the different layers and marks left for the history, that remains or modifies in accordance with the culture. This article considers the possibility to read today, for intermediary of the reinvention of the medias, the marks that are being left under influence of the culture that, in turn, is reinvented in each new change, in dialogue with different historical horizons. The characteristics of an individualist society, also marks the forms to communicate, for intermediary of personalized contents. The solitude, that many attribute to the navigators in the Internet, is the same that, in a very complex tram makes possible the existence of a society in global scale. Culture, memory, time and space are the catego- ries that this text chooses as reflection base, to think reasons of an individualized communication and in net simultaneously. Key words Culture. Memory. Time. Space. Communication. words: 1 Jornalista. Professora na Famecos – Faculdade de Comunicação Social da PUCRS no curso de Jornalismo e no Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Mestre em Comunicação Social. Doutora em Letras.
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    acumulação, a adiçãodas distintas temporalidades configura a modernidade do A lugar. Este ideal de acumulação corresponde a certo desejo de escrever ou de ler o tempo no espaço: o tempo passado que não apaga de todo o tempo presente, Cunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma... e o tempo futuro que já se perfila. A afirmação de Marc Augé (2006, p. 101), no texto intitulado Sobremodernidade: do mundo tecnológico de hoje ao desafio essencial do amanhã, será o eixo da reflexão proposta neste texto. Entende-se que o atual momento histórico, assim como um palimpsesto,2 é a evidência de uma história midiática que começou há muito tempo, influenciada pelas adaptações da cultura, gerando uma outra relação com o tempo e o espaço e com a própria memória, influenciando diretamente a complexa identidade dos sujeitos. O fio condutor desta reflexão é o pensamento de Augé em diálogo com outros autores. Inserem-se, nesse contexto, alguns fatos históricos da mídia, como evidência da construção que chega hoje a uma sociedade marcada pela individua- lização e que produz, por intermédio dessa mesma mídia, conteúdos perso- nalizados. Trabalha-se com a hipótese de que, ao percorrer alguns momentos significativos da história da consolidação das mídias, pode-se localizar evidências sobre a exacerbada individualização em que chega hoje a sociedade. Não se pode, no entanto, afastar a hipótese de que as mídias vêm se constituindo em resposta às exigências dos diferentes horizontes históricos, deixando suas marcas na cultura e na memória. Augé (2006, p. 100) constata a existência de dois paradoxos, quando são abordados temas como globalização, uniformização e até homogeneização. Essa planetalização, segundo ele, convive com reivindicações de singularidade, de identidade local com formas e escalas muito diferentes umas das outras. “[...] no conjunto, cada um pode constatar felizmente que o mundo não está definitivamente sob o signo da uniformidade e, ao mesmo tempo, inquietar-se diante das desordens e das violências geradas pela loucura identitária.” De acordo com a observação antropológica, ressalta Augé (2006), que está sempre contextualizada, hoje em dia, inclusive nos grupos mais isolados, o contexto sempre é planetário. 2 Palimpsesto tem origem no grego e denomina o pergaminho raspado e reutilizado, mas que mantém as marcas da escritura anterior. Trata-se de prática muito antiga, mas freqüente no século VII pelas dificuldades do comércio de papiro egípcio e depois pela escassez de pergaminho.
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    Esse contexto planetárioé muito bem descrito por Lévy (2001) ainda no início do ! século XXI. Os planetários dirigem os mesmos carros, pegam os mesmos aviões, desembarcam nos mesmos hotéis, têm as mesmas casas, os mesmos telefones, Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 televisores, computadores ou cartões de crédito. Nos informamos na câmara de eco das mídias globalizadas. Nós navegamos na Internet. Nós temos o nosso site. Nós participamos da silenciosa explosão do hipercórtex infinita- mente reticulado da World Wide Web. Nós escutamos música de todos os cantos do mun- do [...]. Nós afluímos, turistas misturados, em museus cujas coleções cruzam as culturas. [...] Nada do que é humano nos é estrangeiro. (p. 15). O autor afirma que a população atual começa a construir a sociedade civil mundial. E quem são essas pessoas? Lévy (2001) afirma que são artistas, escritores, cineastas, músicos, professores, funcionários internacionais, jogadores de futebol, alpinistas, navegadores solitários, comerciantes, comissários de bordo, consultores, investidores de capitais, militantes em associações internacionais. Cotidianamente, seja qual for a finalidade, devem olhar, comunicar e talvez agir além das fronteiras. Somos a primeira geração de pessoas que existe numa escala global. Homens ou mulheres, políticos, drogados, modelos, executivos, prostituídos, terroristas, vítimas de catástrofes transmitidas pela TV, cozinheiros, consumidores, telespectadores, internautas, imigrantes, turistas: somos a primeira geração global. (p. 16-17). O autor completa que nunca uma geração viajou tanto, seja por trabalho ou prazer. O turismo se torna a maior indústria mundial. A imigração ocorre em larga escala sejam pobres atraídos pelo trabalho ou ricos em busca de melhores condições fiscais. A população planetária é móvel, não nômade, pois os nômades não tinham nem terras nem cidades. Móveis, passando de uma cidade a outra, de um bairro a outro da megalópole mundial. As pessoas vivem nas cidades ou metrópoles que se relacionam umas com as outras ou no campo, em casas que são como navios em pleno mar, conectados com todas as redes. Os planetários reúnem budistas americanos, programadores indianos, ecologistas árabes, pianistas japoneses, médicos sem fronteiras. Graças à internet, dão a conhecer, em escala planetária, o que têm a oferecer. Nossa geração está inventando o mundo, o primeiro mundo verdadeiramente mundial. [...] Não somos infiéis, somos móveis. Nossa identidade é cada vez mais problemática. [...] Tudo deve cada vez mais ser inventado. (LÉVY, 2001, p. 17).
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    Esse contexto, defendeAugé (2006), está presente na consciência de todos, interfere desigualmente, mas em todos os lugares, de maneira sensível nas configurações locais, modificando as condições de observação. Há, segundo Cunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma... ele, três movimentos complementares: o passar da modernidade, o que chama “sobremodernidade”, o passar dos lugares, chamados por ele de “não-lugares”, e o passar do real ao virtual. Sem ser distintos uns dos outros, privilegiam pontos de vista diferentes, de acordo com o pensamento. O primeiro dá ênfase ao tempo, o segundo, ao espaço, e o terceiro, à imagem. Augé (2006, p. 101) cita Jean Starobinski para quem essa acumulação, a adição das distintas temporalidades, configura a modernidade do lugar, conforme a citação que abre este artigo, aqui repetida. “Este ideal de acumulação corresponde a certo desejo de escrever ou de ler o tempo no espaço: o tempo passado que não apaga do todo o tempo presente, e o tempo futuro que já se perfila.” As eras culturais Para dialogar com esse ideal, traz-se aqui o pensamento de Santaella (2003) que utiliza uma divisão das eras culturais em seis tipos de formação: cultura oral, cultura escrita, cultura impressa, cultura de massas, cultura das mídias e cultura digital. Salienta que tais divisões são pautadas na crença de que os meios, desde o aparelho fonador até as redes digitais atuais, mesmo sendo meros canais de transmissão de informação, são capazes não só de moldar o pensamento, “mas também de propiciar o surgimento de novos ambientes sociais”. (p. 13). É possível evidenciar a cultura em situação de diálogo com os diferentes períodos históricos de surgimento e desenvolvimento das mídias. A autora destaca outro aspecto importante no que diz respeito a essa divisão de eras culturais. Não são períodos culturais lineares, com o desaparecimento de uma era para surgimento de outra. Há sempre um processo cumulativo de complexificação, “uma nova formação comunicativa e cultural vai se integrando na anterior, provocando nela reajustamentos e refuncionalizações”. (SANTAELLA, 2003, p. 13). Afinal, de acordo com esse pensamento, a cultura comporta-se sempre como um organismo vivo, inteligente, com poderes de adaptação impre- visíveis e surpreendentes.
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    Com o “agigantamento”dos meios de comunicação de massa, no século XX, # foram crescendo as dificuldades para se estabelecer distinções claras entre o popular, o erudito e o massivo. Até o fim do século XIX, não era tão complicado Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 quanto hoje determinar as formas, os códigos e os gêneros da cultura. A partir da Revolução Industrial, esse cenário se complicou com o aparecimento de meios técnicos de produção cultural. Entretanto, entende a autora, não obstante o poder de que se revestem, contra todos os prognósticos, os meios de massa não levaram as formas mais tradicionais de cultura, a cultura superior, erudita, e as culturas populares ao desaparecimento. Provocaram recomposições nos papéis, cenários sociais e até mesmo no modo de produção dessas formas de cultura, assim como “borraram” suas fronteiras, mas não apagaram sua existência. Entende-se, no presente artigo, que nessa recomposição de papéis e diluição de fronteiras, confirma-se a idéia de um palimpsesto, onde se enxergam as marcas mais antigas “borradas” na base das novas. Falar em permanência ou desapa- recimento de mídias é desconsiderar, muitas vezes, o que realmente se mantém: a demanda social por comunicar. O que se evidencia ao investigar a História é uma reinvenção permanente dos meios usados para comunicar. Confirmando a idéia de um palimpsesto, a sociedade se comunica hoje em formatos desenvolvi- dos por ela mesma, numa construção baseada em perguntas e respostas que resultaram no aperfeiçoamento dos meios. A explicação, entende Santaella (2003), está no fato de que a cultura humana existe num continuum, ela é cumulativa, não no sentido linear, mas de interação incessante de tradição e mudança, persistência e transformação. O entendimento de que uma novidade não termina com a outra, mas gera transformações, confirma o objetivo deste texto, de investigar os meios e as camadas culturais nas quais estão inseridos, considerando a possibilidade de ler cada um deles por intermédio das marcas históricas. Os meios e suas adaptações ou reinvenções influenciam e são influenciados pela cultura e transformam-se a partir dos suportes tecno- lógicos moldados pela própria cultura, mantendo as diversas linguagens em sua base de existência. A tecnologia que dá suporte à produção cinematográfica, exemplifica Santaella (2003), pode mudar, mas não muda a linguagem que foi inventada pelo cinema. Considerando esse tempo lido no espaço, Augé (2006) traz o pensamento de Benjamin que vê, na arquitetura das passagens parisienses, um prefiguração da cidade do século XX. Por acúmulo, essa imagem do espaço corresponde a uma progressão, a uma imagem do tempo como progresso. O autor cita ainda o pen-
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    samento de MaxWeber que, para evocar a modernidade, fala sobre o desencanto $ do mundo, apresentando três características: a primeira é o desaparecimento dos mitos de origem, dos mitos de fundação, de todos os sistemas de crença Cunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma... que procuram o sentido do presente da sociedade em seu passado. Há também o desaparecimento de todas as representações e crenças que, vinculadas a essa presença do passado, submetiam a existência e, inclusive, a definição do indivíduo de seu meio. O homem do Século das Luzes é o indivíduo dono de si mesmo, de quem a razão corta os laços supersticiosos com os deuses, com a Terra, com sua família, que afronta o porvir e se nega a interpretar o presente baseado em magia ou bruxaria. Sobremodernidade Augé (2006) propõe a utilização do conceito de sobremodernidade, para pensar a coexistência das correntes de uniformização e dos particularismos. O autor afirma que se trata de uma lógica do excesso, mensurada a partir de três excessos, segundo sua proposta: o excesso de informação, o excesso de imagens e o excesso de individualismo. O excesso de informação dá a idéia de que a História se acelera. Cada dia tem-se a informação do que acontece nos quatro cantos do mundo. Naturalmente esta informação sempre é parcial e talvez tendenciosa: mas junto com a evidência de que um acontecimento longínquo pode nos trazer conseqüências, reforça- nos cada dia o sentimento de estarmos dentro da história, ou, mais exatamente, de tê-la por perto, para voltarmos a ser alcançados por ela durante o noticiário das oito ou duran- te as notícias da manhã. (AUGÉ, 2006, p. 104). Essa superabundância, segundo Auge (2006, p. 104), é proporcional à capa- cidade de esquecimento, uma vez que um acontecimento, que chama a atenção durante alguns dias, desaparece repentinamente das telas, logo, das memórias. Isso até o dia em que ressurge repentinamente. “Um certo número de aconteci- mentos tem, assim, uma existência eclíptica, esquecidos, familiares e surpreen- dentes ao mesmo tempo.” Augé (2006) cita aqui exemplos como a Guerra do Golfo, a crise irlandesa, os atentados no País Basco ou as matanças na Argélia e reflete que o aparecimento do ciberespaço marca a prioridade do tempo sobre o espaço, desenhando a idade do imediatismo e do instantâneo, onde a comunicação se produz na velocidade da luz, resultando em um domínio do tempo que reduz o espaço.
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    Tempo, espaço ememória % Mitchell (2006) investiga o fato de a sociedade estar entrando em uma era na qual a Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 vida se desenrola cada vez mais no ponto de intersecção do mundo físico e real com o da virtualidade e das interconexões eletrônicas. Reflete sobre a importância dos lugares e das relações que interferem na memória. Suas obras mais recentes abordam temas referentes à reconfiguração dos lugares de moradia e das relações sociais. Lugares e memórias, conforme Casalegno, em texto de apresentação de entrevista com Mitchell, sempre representaram dois paradigmas fundamentais na configuração das comunidades, na evolução das culturas e das relações entre as pessoas. O autor fala de uma memória baseada em algo transmitido pelo contato face a face e que se torna uma memória de grupo e que realmente mantém a comunidade e a cultura juntas. É nesse ponto que a arquitetura começa a se transformar no repositório da memória, e fisicamente, todos os prédios importantes, prédios religiosos estão inscritos. Mitchell (2006) afirma que, no século XX, o rádio e a televisão entram nesse contexto e atualmente a rede começa a se tornar crucial. Nenhum dos meios desaparece, mas novos entram. Se você olha para isto em termos tecnológicos, isso tem sido dependente do desenvolvi- mento das comunicações remotas, tem dependido das telecomunicações e das tecnolo- gias de gravação. O que teve início nos anos 60 e, novamente, isto não é tão revolucio- nário, o que as mensagens eletrônicas realmente são: a combinação de tecnologias de telecomunicação e tecnologias de gravação do controle de computador sofisticado. Então essas tecnologias não estavam realmente juntas até os anos 60 quando houve uma mu- dança explosiva. (p. 58). A preservação da memória e as estratégias para essa conservação também são destacadas por Mitchell que apresenta o exemplo das gravações e as mudanças tecnológicas em conseqüência disso. Segundo ele, originalmente, a memória humana era a única mídia, e essa é a tradição oral, transmissão direta de uma memória humana para outra. O desenvolvimento da escrita e as tecnologias de impressão e gravação cumpriram esse papel, agora desempenhado em larga escala pela gravação digital eletrônica. A diferença fundamental em gravar mídia eletrônica, na opinião do autor, é que não há necessidade de transferir fisicamente os artefatos da memória. Está junto com as telecomunicações “nessa espantosa” maneira que induz esse tipo de condição de memória portátil. Virilio (2006) também reflete sobre o assunto, trazendo a memória “vivida”, memória do que ocorre no momento, como um elemento novo oferecido pelas tecnologias
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    de comunicação. Isso,segundo ele, traz um paradoxo, pois a televisão ou a internet e outras tecnologias promovem a idéia de uma memória do instante presente. “É como se houvesse um efeito de lupa não sobre um objeto, mas sobre um instante Cunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma... no tempo: um efeito de dilatação.” (p. 93). Nessa perspectiva, o autor entende que as tecnologias funcionam para a memória como um telescópio. Virilio acredita que a internet e as tecnologias de informação permitirão ver o que se passa no mais curto espaço de tempo, o que se passa na comunicação. Nesse ponto de sua reflexão, o autor define que essa é uma memória que diz respeito à comunidade, pois não há memória por si. Memória, conforme o seu pensamento, é uma linguagem, um utensílio de comunicação. Não há memória que não seja coletiva. Solidão, individualização e personalização Augé (2006) afirma que o terceiro termo que define a sobremodernidade consiste na individualização passiva, diferente do individualismo conquistador do ideal moderno. Trata-se de uma individualização de consumidores, cujo aparecimento está relacionado com o desenvolvimento dos meios de comunicação. Conforme o pensamento do autor, a relação com os meios de comunicação pode gerar uma forma de passividade, na medida em que expõe cotidianamente os indivíduos ao espetáculo de uma atualidade efêmera, uma forma de solidão na medida em que os convida à “navegação solitária” e na qual toda telecomunicação abstrai a relação com o outro, substituindo com o som ou a imagem o corpo a corpo. Augé (2006) entende isso como uma forma de ilusão, na medida em que deixa a critério de cada um a elaboração de pontos de vista, opiniões em geral bastante induzidas, mas percebidas como pessoais. O autor salienta que não descreve uma fatalidade, mas um conjunto de riscos, de tendências. Reflete, também, sobre a individualização dos destinos ou dos itinerários e sobre a ilusão da livre-escolha individual, o que, segundo ele, se desenvolve a partir do momento em que se debilitam as cosmologias, as ideologias e as obrigações intelectuais com as quais estão vinculadas. Augé (2006, p. 107) cita que “o mercado ideológico se equipara a um self-service, no qual cada indivíduo pode prover-se com peças soltas para ensamblar sua própria cosmologia e ter a sensação de pensar por si próprio”. Passividade, solidão e individualização se encontram em várias dimensões, inclusive religiosas, segundo Augé (2006). O pensamento de Lipovetsky (2004) que, de sua parte, adota o conceito de “hipermodernidade”, torna-se pertinente nesta reflexão. O autor descreve a
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    hipermodernidade baseada numasociedade hiperindividualista, onde se investe ' emocionalmente naquilo que é mais próximo, nos vínculos fundados sobre a semelhança e a origem em comum. De acordo com esse pensamento, na atual Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 sociedade nasce toda uma cultura hedonista e psicologista que incita à satisfação imediata das necessidades, enaltecendo o “florescimento” pessoal. Na comunica- ção, essas características apontam para uma tendência à produção individualizada ou personalizada de informação, seja no âmbito da publicidade, seja no do jornalismo ou mesmo dentro da lógica em que todos produzem para todos. Alguns conceitos, porém, devem ser relacionados para reflexão em torno desse momento individualista e a conseqüente produção de conteúdos: o conceito e a origem da personalização ou individualização, a história das mídias e sua presença neste contexto, tornando-se evidências do processo, na medida em que os hábitos de leitura dessa audiência ou a cultura construída interfere diretamente. Nesse ponto, faz-se importante buscar aspectos da História que evidenciam a construção do processo, especialmente no relacionamento das audiências com as mídias. Todavia, torna-se relevante na mesma medida refletir sobre o tipo de isolamento que hoje muitos autores propõe como resultado das relações com os meios de comunicação social. O que registra a História? Cinco séculos depois do nascimento da imprensa, o rádio tenta fazer com a voz, essa forma tão primitiva de comunicação, o que antes só podia ser feito com a impressão: armazená-la, repeti-la e transmiti-la a grandes distâncias. Os três inventos que transformam o uso da voz humana, o telefone, o rádio e o gravador, são, em um primeiro momento, concebidos como melhorias no sistema telegráfico. A informação de Pool (1992) aponta para o âmbito social do rádio, pois, se o fonógrafo, o telefone e o rádio são, em princípio, concebidos como um aperfeiçoa- mento da telegrafia, o telefone e o rádio são meios irmãos. O que surge como emissão de rádio é um meio de massas irreversível, que dá a alguns poucos produtores das capitais um modo de dirigir-se a toda a nação. É um instrumento que se escuta sozinho ou com a família. É o companheiro das horas solitárias, as drogas dos que não tinham amigos. (POOL, 1992, p. 84). A radiodifusão substitui o bar da esquina, a reunião na igreja, a banda local ou o concerto. No início do século XX, os sociólogos descrevem uma civilização ur-
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    bana em expansão.As grandes cidades, as fábricas, a mobilidade geográfica, a # burocracia e os meios de comunicação criam, segundo eles, uma sociedade marcada pela ausência de personalidade e produtos pouco diferenciados, e o Cunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma... rádio se inclui nessa descrição. O telefone é diferente, sendo um invento contra a fácil generalização. Tanto o telefone quanto o rádio têm profundos, ainda que diferentes, efeitos sobre a ecologia da atividade humana. Os processos de mudança urbana, por exemplo, que começam no início do século, florescem nos anos 20, com o início da radio- emissão. A coincidência das transmissões e da rápida urbanização é uma questão fortuita, mas significa que o rádio se converte em um meio de entretenimento para a primeira geração de habitantes classificados como imigrantes lançados ao anonimato de novas cidades. Não conhecem seus vizinhos imediatos e nem pertencem a qualquer grupo organizado com sua própria tradição cultural. Para essas pessoas, o rádio deve proporcionar muito do que seus pais e avós lhes haviam dado nas festas ou férias no interior, em reuniões religiosas semanais. O rádio, segundo Pool (1992), é um excelente substituto da vivência comunitária. As radionovelas ou shows de variedades, ainda que ruins, são melhores do que as apresentações no teatro do bairro realizado por grupos itinerantes. As cadeias de rádio oferecem a possibilidade nacional de poder escolher. Melhor ou pior, o rádio é diferente, por estar em casa. É ideal para a granja isolada ou para o igualmente isolado ambiente urbano, onde os vizinhos são estranhos. É uma atividade indi- vidual ou familiar e não compartilhada com a comunidade ou a igreja. Por volta de 1930, revela Roberts (2001), a maioria das pessoas que possuem receptores sem fio (e são milhões) deixa de acreditar que é preciso manter as janelas abertas para permitir que as ondas de transmissão as alcançassem. A sociedade convive com a tecnologia, e ela não causa mais estranhamento. O rádio não contradiz, mas é assimilado, dentro de um contexto interessado em conviver com o conforto. Transmissões de rádio em larga escala já acontecem em todos os principais países. Observando esse período da História, verifica-se que a possibilidade de registro torna-se eletrônica, confirmando o pensamento de Mitchell que salienta a idéia de acumulação de possibilidades para chegar ao formato atual. Registra-se, também, uma mudança nos hábitos de consumo dos meios que começam a se desenhar como individuais. Traz-se aqui o rádio por ser o primeiro meio eletrônico de massa. Todavia, o rádio só vai transformar em eletrônica uma tendência já
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    existente com aleitura e ele mesmo, com a consolidação da televisão, vai se # tornar ainda mais individual. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Nos anos 60, o rádio da família é destronado pela televisão. A transmissão de imagens por ondas é conhecida desde os anos 30, mas a curta distância e em caráter experimental. O transistor na televisão também permite a redução do peso, do volume e do preço. O ingresso do rádio e da televisão no universo doméstico constitui mutação social de primeira importância, segundo Prost (1992). O espe- táculo familiar da tevê é complementado pela escuta individual do rádio. Juntos, esses dois momentos de comunicação podem ocupar grande parte do tempo da vida privada. A informação passa a ser dominada pelo rádio e pela tevê. A imprensa já não impera e ocupa as lacunas dos meios audiovisuais, com informações mais aprofundadas, especializadas ou locais. As ondas prevalecem sobre a imprensa, porque são mais rápidas e podem chegar a todos os lugares e pessoas. O consumo individualizado também é descrito por Chartier (1998, p. 13) quando aborda a história do livro e dos próprios jornais. Se o texto era lido por alguém alfabetizado, para muitos analfabetos, em uma fase inicial da propagação da escrita, ele passou, depois de um certo período para um consumo individualizado nas bibliotecas, em voz baixa ou somente pelo correr dos olhos. Nos séculos XVII e XVIII, um jornal não tem uma estrutura diferente daquela do livro. Quando adquire um grande formato e uma distribuição ampla, ocorre uma atitude mais livre, ele é carregado, dobrado, rasgado, lido por muitos, mas individualmente. O leitor da tela, descreve Chartier, de certa forma, assemelha-se ao leitor da Antiguidade. O texto que ele lê corre diante de seus olhos. “Ele é simultaneamente esses dois leitores.” A solidão referida por Augé e por tantos outros autores merece reflexão. Trata-se de uma navegação solitária, mas em rede. Nunca tantas comunidades se constituíram por intermédio da possibilidade proporcionada pela tecnologia digi- tal. Em tudo isso há uma conjunção de fatores, como citado por Castells (2003). Três processos se uniram, inaugurando uma nova estrutura social predominante- mente baseada em redes: as exigências da economia por flexibilidade adminis- trativa e por globalização do capital, da produção e do comércio; as demandas da sociedade, em que os valores da liberdade individual e da comunicação aberta tornaram-se supremos; e os avanços extraordinários na computação e nas telecomunicações possibilitados pela revolução microeletrônica. Na comunicação social, o conceito de individualização ou personalização de conteúdos, ainda não descrito claramente, começa a ser desenhado em um
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    horizonte que viveudurante muitos anos baseado na segmentação de informações, # relacionada aos meios convencionais, com finalidades especialmente comerciais. As tecnologias digitais oferecem a possibilidade de personalizar, chegando ao extre- Cunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma... mo da individualização. Os meios, acostumados a falar para as grandes massas, a informar as grandes audiências, a exemplo do que foi descrito sobre o rádio e a televisão, encaram um paradoxo: a demanda por uma informação individual. Personalização em comunicação entende-se como a possibilidade de o público interagir sobre a forma e o conteúdo do jornal, para consumir unicamente o que quer e como quer, dentro dos limites da própria tecnologia. Incluem-se aí as notícias, o recebimento de um jornal a la carte, o recebimento de newsletters ou mensagens com fins publicitários. Mas outras questões começam a ter destaque em relação ao comportamento dos meios habituados a uma produção massiva, especialmente quanto à impressão em larga escala ou mesmo a radiodifusão. A energização das redes provocada pela internet leva a recepção, até então tratada apenas como tal, a se apropriar de possibilidades tecnológicas narrativas, gerando iniciativas hoje evidenciadas especialmente pelos blogs e comunidades virtuais. Isso resulta em uma personalização de conteúdos e coincide ou responde a uma tendência de individualização exacerbada, que não começou agora, mas vem sendo lapidada no coração da história do desenvolvimento das mídias. Registrar, preservar a memória, comunicar, ocupar o espaço da cidadania global, ler o tempo no espaço, todos esses são fatores que coexistem no atual contexto. Pode-se afirmar que tanto para as tecnologias de comunicação, como para a identidade dos sujeitos, nunca um horizonte histórico reuniu, em continuum, tantas marcas de tantos períodos. A memória do passado é também vivida e observada. O território em que vive a humanidade atualmente é como descreve Augé (2006): Um universo de reconhecimento, onde cada um conhece o seu lugar e o dos outros, um conjunto de pontos de referências espaciais, sociais e históricos: todos os que se reco- nhecem neles têm algo em comum, compartilham algo, independente da desigualdade de suas respectivas situações. (p. 108). A reflexão aqui realizada não pode, considerando o contexto e a própria reinvenção permanente da cultura, propor conclusões. Não é novo dizer que cada vez mais surgem perguntas e não respostas. Os questionamentos de Lucien Sfez (2006) soam adequados para um fechamento baseado em perguntas e dúvidas a respeito das tendências.
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    Que imaginação deveríamosevocar para conseguir pensar o mundo no qual não #! seríamos mais uma variedade de sujeitos pensantes individuados, tampouco um único sujeito fusionado, agindo e pensando por concerto (como no caso da Biosfera Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 II), mas uma parte de um número ilimitado de cópias sobre as quais teríamos dificuldade de reconhecer o original? Será que, nesse caso, ainda seríamos su- jeitos? Ou seria preciso encontrar palavras e outras definições para uma identidade que apenas dificilmente poderia ser identificada enquanto uma única e mesma? Para essas unidades errantes, será que se poderia falar ainda de um sujeito social? Ou, então, as mediações tecnológicas conseguiriam criar um novo sujeito planetário, fazendo da reprodução tecnológica a própria essência de sua iden- tidade? (p. 80). Investigar as relações com os meios é sim estudar um palimpsesto, é ler o tempo no espaço. A reinvenção é permanente numa sociedade que busca construir formatos apropriados. Nessa trajetória, muitos deles soam como individualistas ou têm uso individualizado. Mas aqui prefere-se entender como personalizado, considerando cada parte da audiência ou cada leitor como único, integrado em um processo de produção de um para um, mas também de todos para todos. A percepção de um tempo que se acelera e insere muitos em um mesmo circuito pode também ser a soma dos vários tempos individuais, do tempo de cada um, em uma lógica que privilegia o formato de rede. Referências AUGÉ, Marc. Sobremodernidade: do mundo tecnológico de hoje ao desafio essencial do amanhã. In: MORAES, Denis. Sociedade midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006. CASALEGNO, Federico. Diálogo com William J. Mitchell: lugares, arquiteturas e memórias. In: CASALEGNO, Federico. Memória cotidiana: comunidades e comunicação na era das redes. Porto Alegre: Sulina, 2006. CASTELLS, Manuel. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: J. Zahar Editor, 2003. CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Ed. da Unesp, 1998. LÉVY, Pierre. Conexão planetária: o mercado, o ciberespaço, a consciência. São Paulo: Ed. 34, 2001. LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2004. MITCHELL, William. Diálogo com William J. Mitchell: lugares, arquiteturas e memórias.
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    In: CASALEGNO, Federico.Memória cotidiana: comunidades e comunicação na era das # redes. Porto Alegre: Sulina, 2006. POOL, Ithiel de Sola. Discursos e sonidos de largo alcance. In: WILLIAMS, Raymond Cunha, Mágda Rodrigues da. A leitura no tempo e no espaço: uma... (Org.). Historia de la comunicación: de la imprenta a nuestros dias. Barcelona: Bosch, 1992. PROST, Antoine; VINCENT, Gérard. História da vida privada: da Primeira Guerra a nossos dias. São Paulo: Cia. das Letras, 1992. ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo : da Pré-História à Idade Contemporânea. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003. SFEZ, Lucien. As biotecnologias e a construção social de um corpo perfeito. In: ESCOSTEGUY, Ana Carolina D. (Org.). Comunicação, cultura e mediações tecnológicas. Porto Alegre: Edipucrs, 2006. VIRILIO, Paul. Diálogo com Paul Virilio: o paradoxo da memória do presente na era cibernética. In: CASALEGNO, Federico. Memória cotidiana: comunidades e comunicação na era das redes. Porto Alegre: Sulina, 2006.
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    ## Do FORT-DA daarte ao corpo-obra. [É possível uma estética da clínica? Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Haverá um corpo-obra?] Marcio Pizarro Noronha1 RESUMO O artigo traça o parentesco entre arte e clínica com uma questão central acerca da estética da clínica (psicanálise, estética psicanalítica). O artigo apresenta um ponto de vista teórico acerca do FORT-DA (Freud) e seus desenvolvimentos na história e teoria da arte e avança na discussão conceptual acerca dos termos corpo, arte, clínica. A idéia do FORT-DA retorna às questões do corpo-arte (arte do corpo), do aparecer/desaparecer, do jogo. Em seguida, propõe uma interpretação da pintura de Francis Bacon. Palavra-chave: Estética. Arte. Corpo. FORT-DA. Francis Bacon. ABSTRACT This article traces a relationship between art and clinic with a central question about The clinic’ aesthetics (psychoanalysis, psychoanalytical aesthetics). The article presents a theoretic point of view about Freud´s FORT-DA and its developments in art, History and theory and advances in the conceptual quarrel regarding the terms body, art, clinical. The idea of FORT- DA retakes the questions of the body-art, appear/disappear, game. Afterwards proposes a interpretation about Bacon’s painting. Key words Aesthetics. Art. Body. Fort-da. Francis Bacon. words: 1 Dr. em Antropologia pela USP. Dr. em História pela PUCRS. Prof. e Pesquisador nos PPG em Música (EMAC) e História FCHF/UFG. Coordenador do Grupo Pesquisa Diretório CNPq – Interartes: PROCESSOS E SISTEMAS INTERARTÍSTICOS E ESTUDOS DE PERFORMANCE. Pesquisador na Funape/UFG. Professor convidado para o ano de 2008 da Universidade Nacional de SALTA na Argentina. Professor das disciplinas de Análise da Criação Contemporânea (Mestre em Música), História e Teoria Interartes: do romantismo ao pós-modernismo (Mestre e Doutor em História) e no Seminário de Pesquisa: Arte e Psicanálise. Coordenador do GT Intertexto, Interartes e Hibridismo (Abralic, 2007). Coordenador do GT Estudos Interartísticos e Interculturais Musicais: história plural e comparada das artes (Anppom, 2007). Coordenador do S.T. CLIO E AS MUSAS (III ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA ANPUH-GOIÁS). Membro de diversas associações científicas e grupos de traba- lho e pesquisa no campo das ciências humanas, artes e terapêuticas de viés psicanalítico. E-mail: marcpiza@terra.com.br
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    I Introduzindo questões #$ É possível uma estética da clínica? Haverá um corpo-obra? Duas questões de Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... vasta extensão e que servirão como guias na construção deste texto, que se volta especialmente para um tipo especial de clínica que, em sua própria denominação, inclui a tarefa da arte, em seu ofício – da arteterapia, da gestalt- terapia, da musicoterapia. Pensar seu lugar, o que seja essa clínica que tem fundamentos em uma estética e em relações com objetos, ferramentas e instrumentos capazes de passar de estados subjetivos particulares a estados subjetivos compartilhados, tal como nas manifestações artísticas propriamente ditas. Nesses termos, operamos com uma forma de relação clínica que pretende integrar subjetividade e estética – viver a subjetivação em sua potência de estetização parece ser um conteúdo latente dessas clínicas que se deslocam em direções múltiplas. O foco encontra-se, num ponto de vista especial, do objeto-problema CORPO e os modos como esse é tratado, nas vias psicanalítica e artística, afetando a construção do objeto do estudo clínico e das práticas terapêuticas que incluem formas, manifestações e relações estéticas. A psicanálise aqui será observada sob a égide de um olhar oblíquo – de atravessamento – sendo atingida a partir do corpo e do corpo-obra. O tema do corpo-obra visa a ressaltar a particular importância da experiência clínica e suas afinidades com a experiência e as formas do pensamento-fazer artístico. Assim, entendo aqui que a relação clínica não só desenvolve uma particular epistemologia dos objetos psíquicos como também se deixa atravessar por formas transicionais ou por movimentos do informe que fazem nascer a obra de arte do sujeito na clínica e seu corpo glorioso. Como amálgama de flutuações e materializações, a clínica deve arregimentar esse princípio de funcionamento radical, no qual a inclusão da arte não deve estar restrita às formas do discurso comentado de obras e filmes por conta dos pacientes. Obrar a subjetividade como enfrentamento dos grandes lugares da clínica – a arte e a morte. (M’UZAN, 1978). As duas perguntas do título “É possível uma estética da clínica? e Haverá um corpo-obra?” levam em conta, por um lado, a existência de um grupo de clínicas que se fazem valer da presença de relações e de objetos artísticos na instauração- construção do campo clínico e de suas demandas específicas e, por outro, a questão do corpo na arte e do corpo-obra-de-arte. Esse não será representado somente pela presença do artista (o corpo do artista vivo, presente/ausente, metaforizado), mas estará centrado na existência de um jogo relacional entre
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    obra e corpo,entre feitura (obrar) e matéria (corpo), modo particular de fazer #% acontecer uma cena e aparecer um objeto, meio e modo de fazer trânsitos entre o mundo dos objetos (e das relações de objeto), de presentificar os restos (e as Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 relações de abjeção) e de resistir à morte, nas formas fantasmáticas, da aura. Desse modo, nossas perguntas podem ser investigadas por dois vastos tópicos: o primeiro diz respeito ao tema da arte e clínica (e vice-versa). O segundo trata do corpo e do corpo-obra. Entre eles, um encontro marcado na proposta de uma teoria do corpo-obra no campo clínico e o modo como esse processo de construção pode ser também um modo de dar forma e de sustentar a relação terapêutica, entendendo que o sujeito se estrutura esteticamente – estética do desejo e ético-estética, relações entre arte e clínica. II Clínica e arte, arte e clínica II. 1. As relações entre arte e clínica podem ser traçadas de modos muito diferen- tes. Por conta de uma historiografia do problema, podemos elencar o quanto a Psicologia e a Psicanálise dedicaram-se ao problema da arte, das relações entre arte e campo psíquico, dos contatos e confrontos entre uma psicologia da gestalt, uma psicanálise da arte – desde suas origens, em Freud, bastante limitada pelo próprio autor, ao entendimento de fundo lacaniano da obra-de-arte enquanto lugar do analista, diante da qual somos todos analisandos. (Lacan/Magno).2 Não apenas Freud e sua dobra lacaniana fazem da arte alvo e centro de suas preocupações e atuações teóricas e clínicas. Essas relações podem estar dirigidas a um modelo de estudos voltado para a clínica psicanalítica e para os trânsitos entre a biografia do artista e a terapêutica. Ampliam-se para o domínio do sonho e do sonho acordado, traçando o campo de vizinhança entre a arte e a teoria da fantasia (fantasma). Gombrich, um dos mais importantes historiadores e teóricos da arte, traça as relações entre arte e chiste, demonstrando, através do chiste, que a arte é um jogo que depende da própria estrutura da linguagem no qual se joga, ou seja, tal como num chiste é preciso um entendimento prévio da estrutura e do contexto da “piada” para 2 Refiro-me aqui aos seguintes textos: LACAN, Jacques. O seminário: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: J. Zahar Editor, 1991; MAGNO, M.D. Psicanálise Política. Rio de Janeiro: A Outra Editora, 1986.
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    que se possarir ou para que se possa apreender o sentido no vasto campo lacunar # instalado pelo chiste. Assim, nos termos desta teoria da arte, que vincula a História à Psicanálise, há um inconsciente da obra que deve ser investigado.3 Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... Embora possa parecer uma comparação extravagante, a arte tem muito em comum com os chistes. Nos anos em que as abordagens psicanalíticas tendiam a focalizar redutoramente os detalhes biográficos, Gombrich sugeriu, certa vez, que o melhor lugar na obra de Freud a partir do qual dever-se-ia começar a pensar sobre arte era o seu livro sobre o chiste. Para Freud, um chiste apoiava-se na complicada mistura de uma mensagem ou “tendência” (hostil, sexual, etc.) e as estruturas formais da linguagem, os mecanismos lingüísticos que dariam ao chiste sua forma. Um trocadilho ou chiste de duplo sentido apóia-se, por exem- plo, no que uma linguagem tem a oferecer em termos de semelhanças entre palavras. Esses recursos da linguagem podem ser explorados ou destacados pela pessoa que conta o chiste, mas não são inventados como tal. De modo análogo, uma obra de arte poderia ter uma “mensagem” ou “conteúdo” talvez ligado à biografia do artista, mas, crucialmente, isso seria moldado, configurado e estruturado pela sintaxe formal da linguagem contempo- rânea da arte. Em lugar de ver a forma artística como sendo meramente o vínculo do pensamento inconsciente do artista, Gombrich argumentou que a teoria freudiana dos chis- tes mostrou como, em suas palavras, “é freqüentemente o invólucro que determina o con- teúdo... O código gera a mensagem. (LEADER, 2005, p. 70-71). Psicanalistas como Jones (teoria do simbolismo), Segal e Winnicott (enfatizando o teórico dos objetos transicionais e os estudos do jogo), dentre outros, também produziram importantes contribuições ao campo da reflexão artística e nas relações entre arte e psiquismo. Michel de M’Uzan (1978) designa que o personagem interior e suas metamorfoses assemelham-se à plasticidade do lugar do analista. Desse modo, podemos reunir algumas dessas posições da Psicanálise e da arte nos seguintes conjuntos: • a arte como dimensão do inconsciente do artista; • a arte como dimensão do inconsciente moldado, configurado e estruturado pela sintaxe formal da linguagem; e • a arte (e a obra) como lugar do analista. Contemporaneamente, essa problemática expande-se para os domínios das relações entre arte, estética e poética para e no campo das clínicas e suas teorizações – as metarreflexões nascidas na/da clínica – na contemporaneidade. 3 Refiro-me especialmente ao ensaio: GOMBRICH, E. H. Verbal wit as a paradigm of art: the aesthetic theories of Sigmund Freud. In: WOODFIELD, Richard. The essential Gombrich. London: Phaidon Press Limited, 1996. p. 189-210.
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    Essas inflexões acabampor confluir num conjunto vocabular que nos permite #' pensar na estética e na ética do desejo (Lacan), na ético-estética (Deleuze e Guattari) e na poética na clínica contemporânea (Safra). Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Hoje, temos uma tarefa ainda mais ampla, a de reconhecer possíveis matrizes na Psicanálise para uma clínica que tem também em seus fundamentos uma estética e um conjunto de relações com objetos, ferramentas e instrumentos capazes de passar de estados subjetivos particulares a estados subjetivos compartilhados, tal como nas manifestações artísticas propriamente ditas. Viver a subjetivação em sua potência de estetização parece ser um conteúdo latente dessas clínicas contemporâneas que se deslocam em direções múltiplas. Para pensar tal empreendimento, vou privilegiar os textos de Freud (1987), Lacan, Regnault (2001), Magno, França (1997) e M’Uzan (1978). No âmbito da reflexão artística, concentrando essa interface numa escolha contemporânea da teoria da arte em torno do enunciado do FORT-DA (Freud),4 vou atravessar do campo clínico para o campo da teoria da arte e reconhecer a matéria na qual se tece o FORT-DA da arte. II. 2. François Regnault (2001), num conjunto de quatro conferências proferidas em Madrid, entre os anos de 1992 e 1993, nos lembra que o método da Psica- nálise é justamente o de estabelecer um intenso vai e vem dos textos metapsi- cológicos, do arsenal conceitual, das reflexões passíveis de serem denominadas teóricas e da presença marcante da experiência, advinda do campo clínico-analítico (a clínica psicanalítica). Portanto, não haveria uma fala em psicanálise que pudesse ser exclusivamente de ordem teórica, deixando de ser o que ela é, em seu exercício, se assim o fosse. Nesses termos, a Psicanálise tem afinidades com as lógicas particulares das ciências que privilegiam os estudos de caso, o trabalho de campo, a etnografia, a descrição. Segundo o autor, nada do que é feito, de dentro do campo da Psicanálise, para seu ordenamento epistemológico – um saber acerca do saber psicanalítico – pode prescindir da clínica – nos termos lacanianos d’A Coisa. No estatuto dessa disciplina, portanto, não haveria uma metalinguagem – teórica – capaz de ser aplicável ao caso, pois não há um discurso sobre, mas um discurso dentro da prática e que está integralmente comprometido com ela. A partir de e dentro de cada caso, descrições e conceitos se extendem promovendo afirmações 4 FORT-DA, termo utilizado por Sigmund Freud, num jogo de palavras que designam uma brincadeira infantil de “aparecer/desaparecer”. O termo será detalhadamente explicado no decorrer do próprio artigo.
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    conflitivas e contornáveisentre os casos e as teorizações. Não um texto exclusi- $ vamente de teoria, mas teorizações que se expandem a partir dos efeitos dos casos. “A psicanálise, por sua dialética do caso clínico, é então o campo no Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... qual o singular e o universal coincidem sem passar pelo particular. Isso não é comum em filosofia, exceto talvez em certos momentos hegelianos.” (REGNAULT, 2001, p. 10). Eis a questão da clínica enunciada. E dela o seu tipo de saber, um saber que faz a travessia do singular ao universal. Nessas inter-relações, fazemos coincidir a problemática de Hegel a Lacan: no modo como a arte é, também, uma produção do singular que faz passagem ao universal. Assim, os próprios trânsitos entre a arte e a clínica encontram-se aqui enunciados, nos modos como estamos a nos orientar em torno das questões da arte e do estilo, do estilo e da interpretação (e do estilo na interpretação), numa antifilosofia (arte da desenvoltura em relação às doutrinas).5 No dizer de Maria Inês França, a Psicanálise constitui-se em prática teórica, o que nos faz lembrar essa pretensa definição contemporânea para as artes, elas próprias enquanto práticas teóricas. Carregadas no seu limite por uma experiência, a do analista na clínica e a do artista em qualquer forma de ateliê, estão em vizinhança quando falamos ou pensamos nas estruturas da sublimação, tomadas de Hegel, apontadas por Freud (arte, ciência e religião) e, posteriormente, rea- presentadas por Lacan. Enfatizaremos a sublimação na arte, enquanto exemplar da estética do desejo, por ela se referir especificamente ao ato criativo. Tanto na religião quanto na ciência, embora estruturas de sublimação e, portanto, referidas ao mistério da origem, podemos perceber um afasta- mento do ato criativo. Na religião, este afastamento se refere à burocratização e à ritualização, perdendo com isto a religião sua referência à origem e à criação. Na ciência, do mesmo modo, as referências ao positivismo lógico e à prova experimental demonstrativa reduzem os pressu- postos criativos a meras correspondências. Ambas religião e ciência, podem manter suas estruturas apesar da ausência de questionamentos e de referência ao ato criativo. Na arte é diferente. A angústia suscitada na produção artística é similar na produção psicanalítica, pois o efeito produzido não garante a produção de um novo efeito. Ou seja, a obra criada é um efeito transitório, instantâneo. O que quer dizer que o efeito é causado pelos tropeços no real, em uma origem perfeitamente desconhecida. (FRANÇA, 1997, p. 136). 5 Nesses termos, as leituras de Fabio Herrmann fazem grande metáfora ao termo de Freud-Lacan-Regnault: a antifilosofia. Por esse termo, entende-se a capacidade de o analista trafegar e navegar entre os conceitos, “uma arte de desenvoltura em relação às doutrinas, amealhando, picotando aqui e ali algum achado filosófico, e deixando o resto”. (REGNAULT, 2001, p. 11). O que se apreende aqui é a plasticidade, o senso pragmático, a catarse (a condução dos afetos como estado de arte).
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    A orientação geralpara o tema da sublimação e para as três grandes formações $ que tratam desta questão – arte, ciência, religião (Freud) – podem ser ainda contaminadas pelo tratamento que foi dado por Lacan ao tema, incluindo aí, no Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 cerne do problema, as relações entre arte, ciência e filosofia (Lacan). Nos termos de Regnault (2001), não se trata apenas de reconhecer a monu- mentalidade das grandes formações; é preciso traçar um ziguezague entre elas, uma aposta “barroca” (Lacan) para fazer avançar a Psicanálise e a sua clínica.6 Já vimos como a arte e a Psicanálise tratam da mesma questão: a do singular. E isso pode nos fazer passar numa zona intermediária entre a inexistência de uma estética da Psicanálise, do modo como existe uma ética da Psicanálise, e a existência de uma estética em Psicanálise, ou uma estética à moda psicanalítica, freudiana, lacaniana, dentre outras (REGNAULT; FRANÇA). Neste sentido, a estética em psicanálise se aproxima da arte, pois, desde seu fundamento, o saber psicanalítico, provocado pela produção histérica, se colocou nos limites do não-sentido, interrogando a verdade parcial do desejo. Não é permitida nem ao psicanalista, nem ao artista, qualquer forma de burocratização, pois ela cortaria a possibilidade de presentificação de um radical desconhecido e, portanto, aboliria a referência ao ato criativo. Em alguns de seus trabalhos Freud associa a interpretação psicanalítica ao ato criativo, textos onde pode- mos apreciar a irrupção do imaginário no simbólico, presentificando o real e causando efeitos de busca e movimentação de sentido. (FRANÇA, 1997, p. 136-137). Nas leituras de França, uma estética precede uma ética, enquanto uma inquietante estranheza presentificada na função do Belo. Nos termos da autora, partindo da leitura de Das Unheimliche,7 o Belo é uma operação de formação de um duplo, mostrando o enigma do semelhante e do familiar como sendo uma terrível ameaça para além do jogo de espelhos. Portanto, o Belo é o sinal gêmeo do Horror – o mais Belo que o próprio Belo.8 6 A aposta barroca é central na leitura do Seminário 20, mais, ainda, de Jacques Lacan. 7 FREUD, Sigmund. O estranho. In: FREUD, S. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1987. Primeira reimpressão: 1988. p. 233-273. v. XVII. 8 Nos termos de França, esta articulação entre o Belo e o Horrível é o ponto da irrupção do imaginário no simbólico, fazendo presente o Real e desvelando, na Beleza, a imagem da morte e a relação do ser com a finitude. Eis o tema central de Antígona, na leitura de Lacan, no seminário sobre a Ética na Psicanálise. Para ele, a Beleza de Antígona, ressaltada durante todo o texto, é justamente o modo do qual podemos falar dessa relação resplandecente com a morte. Ficamos cegos diante de tanta beleza e estamos, ao mesmo tempo, diante de uma surpresa e de uma angústia, pois o excesso de beleza só revela a condicionante da decrepitude e da morte mais e mais ressaltadas. Assim, o prazer da beleza – prazer de imagem, de objeto – se faz acompanhar de uma forma de angústia e de indeterminação da imagem, como se o excesso fosse já a distorção que emblematizará, na ausência do objeto, a presença e a marca da morte.
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    Por essa terminologia,na ausência de uma estética da Psicanálise, haveria uma $ estética psicanalítica, que põe o Belo, na estética do desejo, num lugar asseme- lhado ao do Sublime, para as estéticas clássicas. Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... O Sublime kantiano pode estar mais próximo do Belo freudiano, pois da beleza, nos termos das teorias renascentistas e clássicas, fala-se de uma forma de harmonização e regularização de opostos. A verdade seria resultante do velamento do horror, causando sistematização da experiência e configuração da realidade num mundo ordenado. Para Freud, tal como para a estética do Sublime, o problema da verdade incita a pensar no deslocamento que o Belo faz do Horror, para se fazer o lugar de um engodo, de um equívoco.9 O Belo, assim, afirma exemplarmente uma erótica e uma estética do desejo, que apre- sentam o valor de subversão do pensamento freudiano, ao mesmo tempo em que amplia o discurso analítico sobre o desejo, pois indica a estética como antecessora lógica à ética do desejo, na medida em que a imagem desejável contém a transgressão do desejo e seus impasses com a lei que, por sua vez, se funda no desejo. Nossa questão nos conduz a pensar a estética e seu fundamento erótico como o que movimenta e liberta o desejo da lei normativa. Portanto, é a estética do desejo que interroga e suspende o poder coerciti- vo da lei do desejo e seus arranjos sociais e culturais. Inferimos, assim, que toda pers- pectiva ética para a psicanálise se coloca associada a uma erótica e como uma face da estética do desejo. (FRANÇA, 1997, p. 139). Nesse cruzamento, a função da sublimação exercida pela arte é condizente com a função de sublimação exercida pela clínica. Em ambas, faz-se referência à Coisa. E que Coisa é essa? A Coisa é o objeto que jamais será reencontrado. [...] Ela caracteriza o sujeito, seu objeto e seu desejo. Esse objeto nunca foi perdido, embora se trate de reencontrá-lo. Esse objeto tampouco foi dito. Ele desliza entre as palavras e as coisas, na ilusão que acredita que as palavras correspondem às coisas, ilusão sem cessar desmentida pelo mal-entendido e, no entanto, sem cessar renascente. A Coisa se situará, então, “entre o real e o significan- te”. (REGNAULT, 2001, p. 17). Se Ela desliza entre os significantes, a melhor forma de representá-la é o Vazio. Assim, em cada momento, podemos colocar algo no seu lugar. Quando estamos próximos do Real, a Coisa é o Vazio, e o Vazio a representa. Quando estamos ao lado da arte, temos aí, algo posto em cena, no seu lugar, como sendo a sua representação. 9 Talvez, se possa pensar na concepção de barroco para Lacan e da fórmula da arte enquanto lugar do engodo – trompe l’oeil. Veja-se O Seminário mais ainda.
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    Portanto, na Psicanálise,a arte é um modo de representação do Vazio.10 $! Mas então, aplicada à arte, a questão se apresenta: onde reconheceremos esse vazio em Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 torno do qual a arte se organiza? Vazio o vaso, pode ser, mas vazio o templo? Vazia a estátua? Vazias As meninas? Vazia uma sinfonia de Beethoven? Vazio o Dom Quixote e vazio o Ulisses, de Joyce? (REGNAULT, 2001, p. 19). Ao fim, não há também uma Psicanálise aplicada ao estudo da arte. O que há é estado de arte na Psicanálise. O que há é um estilo na clínica. A arte precede a clínica. E o que pode fazer a clínica (psicanalítica) na arte e com a arte? O que pode fazer a arte, portanto, na clínica e para a clínica? No que diz respeito à primeira questão, Freud sempre manteve reservas em psicanalizar o artista através da arte e restringiu ao máximo sua abordagem ao ato e ao processo de criação. No que diz respeito à segunda, Lacan conduziu a arte para fazer avançar a psicanálise. Assim, o quadro Os embaixadores, com a anamorfose do crânio, ensina o que são o falo e o olhar mais que a fantasia de Holbein. A Antígona, de Sófocles, revela o que é o entre- duas-mortes; Hamlet, a construção em torno de nosso desejo, o que acontece com o falo; a trilogia de Claudel, o que ocorre com o desejo no mundo moderno. Diria até que Os embaixadores e As meninas ensinam o que é um quadro; Sófocles e Claudel, o que são o trágico antigo e o trágico moderno. Ora, a teoria dos conceitos fundamentais da psica- nálise, notadamente a pulsão, não pode prescindir de saber o que é um quadro; a ética da psicanálise não pode ignorar o trágico, etc. A arte então, não se contenta com adornar, ilustrar; ela realmente organiza. (REGNAULT, 2001, p. 22). Nesses termos, ao estudar arte, estamos compreendendo as relações que se estabelecem entre o visível, o legível e o audível, todos eles suportados imagi- 10 Nos estudos das interfaces, encontram-se pontos de aproximação entre esta concepção do Furo e do inconsciente como sendo um Real furado – no qual tudo é travessia – com as filosofias orientais. Maria Luiza Ramos aponta para estas relações entre a psicanálise lacaniana e as abordagens do sentido nas filosofias do extremo oriente, afirmando uma relação intertextual entre Lacan e os místicos (Zen-budismo, Bhagavadgita e o misticismo cristão). Ela estabelece as redes de leitura entre os Upanixades e o Estágio do Espelho e entre o método da análise e a didática do zen-budismo. Veja-se RAMOS, M. L. Interfaces: literatura, mito, inconsciente, cognição. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2000. 296 p. (Coleção Humanitas)
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    nariamente no corpo.As artes não se definem aqui segundo gêneros ou segundo $ as classificações e sistemas artísticos. Na Psicanálise, com ênfase aqui para Lacan, as artes estão marcadas pelo VAZIO (o modelo do vaso) e pela ANAMOR- Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... FOSE (o modelo do crânio). No vazio, estamos no templo e na arquitetura primitiva, no vaso d’A Oleira Ciumenta de Claude Lévi-Strauss. É em torno do vazio e da A Ciumenta, sua organização que se obra. Na anamorfose, um jogo barroco quer reinstaurar o sentido da arte, nos termos de uma arte contemporânea das ciências. Nos termos de França (1997), a arte, enquanto desconstrução do ideal da estética clássica, promove com a criação um laço entre os sujeitos desejantes. Nesses termos, o Belo faz um laço social. Com a atividade sublimatória, o vazio do qual se falava torna-se um modo de articulação do modo como apresentamos nossas paixões no registro pulsional. No amor, no ódio e na ignorância – as paixões humanas – o aprendizado permanente de lidar com o não-sentido é o que permite ao sujeito a invenção de um lugar criativo e de potencialização do desejo. III O FORT-DA e a arte III. 1. Lendo em Freud Se as questões que trazem o tema das relações entre arte e clínica psicanalítica, do ponto de vista da Psicanálise, concentram-se na abordagem da angústia do ato criador e da autocriação do sujeito, numa invenção da vida em face da de- crepitude e do desaparecimento, a arte e suas reflexões teóricas têm se debruçado nos textos da Psicanálise como modo de enfrentar os objetos artísticos dos séculos XX e XXI. Grande parte da bibliografia atual que estuda as relações entre arte e Psicanálise tem na famosa descrição freudiana do FORT-DA um dos seus motes de iniciação. Essa questão, inicialmente restrita ao campo dos estudos freudianos, após as derivações Freud-Lacan, ganha importância no cenário de uma teoria da arte propriamente dita. Assim, quero me deter em alguns desses momentos exemplares e identificar as possíveis correlações entre o FORT-DA, uma teoria da visão e uma teoria da encenação. Inicialmente, retomemos o texto de Freud.
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    Em Além doprincípio de prazer Freud descreve a situação do seu próprio neto, prazer, $# com dezoito meses de vida. Seu contexto de leitura diz respeito a uma passagem que faz alusão às brincadeiras infantis. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 As diferentes teorias sobre a brincadeira das crianças foram ainda recentemente resumi- das e discutidas do ponto de vista psicanalítico por Pfeifer (1919), a cujo artigo remeto meus leitores. Essas teorias esforçam-se por descobrir os motivos que levam as crianças a brincar, mas deixam de trazer para o primeiro plano o motivo econômico, a consideração da produção de prazer envolvida. Sem querer incluir todo o campo abrangido por esses fenômenos, pude, através de uma oportunidade fortuita que se me apresentou, lançar cer- ta luz sobre a primeira brincadeira efetuada por um menininho de ano e meio de idade e inventada por ele próprio. Foi mais do que uma simples observação passageira, porque vivi sob o mesmo teto que a criança e seus pais durante algumas semanas, e foi algum tempo antes que descobri o significado da enigmática atividade que ele constantemente repetia. (FREUD, 1988, p. 25). Vemos aqui como o autor revela sua preocupação inicial com uma relação teórica entre a economia libidinal e seu bom funcionamento através da brincadeira, recebendo o brinquedo e o brincar a função de produção de prazer. Em seguida, continuando o pensamento de Freud: A criança de modo algum era precoce em seu desenvolvimento intelectual. À idade de ano e meio podia dizer apenas algumas palavras compreensíveis e utilizava uma série de sons que expressavam um significado inteligível para aqueles que a rodeavam. Achava- se, contudo, em bons termos com os pais e sua única empregada, e tributos eram-lhe prestados por ser um “bom menino”. Não incomodava os pais à noite, obedecia cons- cientemente às ordens de não tocar em certas coisas, ou de não entrar em determinados cômodos e, acima de tudo, nunca chorava quando sua mãe o deixava por algumas horas. Ao mesmo tempo, era bastante ligado à mãe, que tinha não apenas de alimentá-lo, como também cuidava dele sem qualquer ajuda externa. Esse bom menininho, contudo, tinha o hábito ocasional e perturbador de apanhar quaisquer objetos que pudesse agarrar e ati- rá-los longe para um canto, sob a cama, de maneira que procurar seus brinquedos e apanhá-los, quase sempre dava bom trabalho. Enquanto procedia assim, emitia um longo e arrastado “o-o-o-ó”, acompanhado por expressão de interesse e satisfação. Sua mãe e o autor do presente relato concordaram em achar que isso não constituía uma simples interjeição, mas representava a palavra alemã “fort”. Acabei por compreender que se tratava de um jogo e que o único uso que o menino fazia de seus brinquedos, era brincar de “ir embora” com eles. Certo dia, fiz uma observação que confirmou meu ponto de vista. O menino tinha um carretel de madeira com um pedaço de cordão amarrado em volta dele. Nunca lhe ocorrera puxá-lo pelo chão atrás de si, por exemplo, e brincar com o carretel como se fosse um carro. O que ele fazia, era segurar o carretel pelo cordão e com muita perícia arremessá-lo por sobre a borda de sua caminha encortinada, de maneira que aquele desaparecia por entre as cortinas, ao mesmo tempo que o menino proferia
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    seu expressivo “o-o-o-ó”.Puxava então o carretel para fora da cama novamente, por meio $$ do cordão, e saudava o seu reaparecimento com um alegre “da” (“ali”). Essa, então, era a brincadeira completa: desaparecimento e retorno. Via de regra, assistia-se apenas a seu Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... primeiro ato, que era incansavelmente repetido como um jogo em si mesmo, embora não haja dúvida de que o prazer maior se ligava ao segundo ato. (FREUD, 1988, p. 25-27). Nesse ponto, Freud estabelece a relação entre o jogo e a questão da linguagem. No seu entendimento, o FORT-DA designava uma situação de “ir embora” e de “estar ali (retornar)”, como num vai-e-vem. O prazer do menino era medido pelo procedimento repetitivo – característica do jogo – entre desaparecer e reaparecer. O jogo era, então, visto como iniciativa cultural e de simbolização dos modos da ausência e da presença da figura materna que, além dos cuidados físicos (alimentação, o grande seio) implicava também um estado entre o cuidado e o olhar que se depositava da mãe em direção ao filho e do filho na procura da mãe. O menino reencenava a situação vivida, representando-a na forma do jogo do carretel. A interpretação do jogo tornou-se então óbvia. Ele se relacionava à grande realização cultural da criança, à renúncia instintual (isto é, a renúncia à satisfação instintual) que efetuara ao deixar a mãe ir embora sem protestar. Compensava-se por isso, por assim dizer, encenando ele próprio o desaparecimento e a volta dos objetos que se encon- travam a seu alcance. É naturalmente indiferente, do ponto de vista de ajuizar a natureza efetiva do jogo, saber se a própria criança o inventara ou o tirara de alguma sugestão externa. Nosso interesse se dirige para outro ponto. A criança não pode ter sentido a partida da mãe como algo agradável ou mesmo indiferente. Como, então, a repetição dessa experiência aflitiva, enquanto jogo, harmonizava-se com o princípio de prazer? Tal- vez se possa responder que a partida dela tinha de ser encenada como preliminar ne- cessária a seu alegre retorno, e que neste último residia o verdadeiro propósito do jogo. Mas contra isso deve-se levar em conta o fato observado de o primeiro ato, o da partida, ser encenado como um jogo em si mesmo, e com muito mais freqüência do que o episó- dio na íntegra, com seu final agradável. Nenhuma decisão certa pode ser alcançada pela análise de um caso isolado como esse. De um ponto de vista não preconcebido, fica-se com a impressão de que a criança transformou sua experiência em jogo devido a outro motivo. No início, achava-se numa situação passiva, era dominada pela experiência; repe- tindo-a, porém, por mais desagradável que fosse, como jogo, assumia papel ativo. Esses esforços podem ser atribuídos a um instinto de dominação que atuava independente- mente de a lembrança em si mesma ser agradável ou não. (FREUD, 1988, p. 27-28). Note-se aqui a complexidade da observação e da análise do caso isolado. Freud chama a atenção para o fato de que o jogo, na maioria das vezes, não tinha como garantia o retorno do objeto. Portanto, na grande maioria das situações em que o carretel sumia, ele não retornava. A criança, então, estava se impondo,
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    enquanto agente ativo,um padrão de desaparecimento do seu objeto de prazer. $% Substituía o lugar de objeto dado a si por estar sofrendo com a saída ativa da mãe – era a mãe que ia e vinha – por um jogo, no qual, ela própria, designava a Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 mãe enquanto objeto destinado a ser retirado da cena ou retornar a ela, conforme o movimento promovido pela criança. A criança ritualizava a saída de cena da mãe através do objeto e, através do me- canismo constituído, restituía a si o objeto e o prazer advindo de uma certeza simbólica da volta da própria mãe. Assim como o carretel, a mãe também retornaria sempre. Mas não apenas isso. A criança tomava a si o poder – simbólico – de mandar a mãe e o objeto embora e de trazê-los de volta quando lhe fosse aprazível.11 Mas uma outra interpretação pode ainda ser tentada. Jogar longe o objeto, de maneira a que fosse “embora”, poderia satisfazer um impulso da criança, suprimido na vida real, de vingar-se da mãe por afastar-se dela. Nesse caso, possuiria significado desafiador: “Pois bem, então: vá embora! Não preciso de você. Sou eu que estou mandando você embora.” Um ano mais tarde, o mesmo menino que eu observara em seu primeiro jogo, costumava agarrar um brinquedo, se estava zangado com este, e jogá-lo ao chão, exclamando: “Vá para a frente!” Escutara nessa época que o pai ausente se encontrava na “frente (de batalha),” e o menino estava longe de lamentar sua ausência, pelo contrário, deixava bastante claro que não tinha desejo de ser perturbado em sua posse exclusiva da mãe. Conhecemos outras crianças que gostavam de expressar impulsos hostis semelhantes lançando longe de si objetos, em vez de pessoas. Assim, ficaremos em dúvida quanto a saber se o impulso para elaborar na mente alguma experiência de dominação, de modo a tornar-se senhor dela, pode encontrar expressão como um evento primário e independen- temente do princípio de prazer. Isso porque, no caso que acabamos de estudar, a criança, afinal de contas, só foi capaz de repetir sua experiência desagradável na brincadeira por- que a repetição trazia consigo uma produção de prazer de outro tipo, uma produção mais direta. Não seremos auxiliados em nossa hesitação entre esses dois pontos de vista por outras considerações sobre brincadeiras infantis. É claro que em suas brincadeiras as crianças repetem tudo que lhes causou uma grande impressão na vida real, e assim pro- cedendo, ab-reagem a intensidade da impressão, tornando-se, por assim dizer, senhoras da situação. Por outro lado, porém, é obvio que todas as suas brincadeiras são influenciadas por um desejo que as domina o tempo todo: o desejo de crescer e poder fazer o que as pessoas crescidas fazem. Pode-se também observar que a natureza desagradável de uma experiência nem sempre a torna inapropriada para a brincadeira. Se o médico examina a 11 Penso que aqui devemos levar em conta o quantum de tempo no qual o jogo se estabelece, como meio de realização de diferentes tempos do afastamento do objeto materno e o desenvolvimento dos níveis de resistência infantil. Assim, não há um único modo de se jogar esse jogo, no qual o que importa não são a duração e as distâncias temporais entre o desaparecimento e o retorno do objeto, mas uma dimensão subjetiva e flutuante. É por isso que não designa descontinuidade de raciocínio e de lógica simbólica do jogo do FORT-DA, a descontinuidade de apreensão temporal.
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    garganta de umacriança ou faz nela alguma pequena intervenção, podemos estar inteira- $ mente certos de que essas assustadoras experiências serão tema da próxima brincadeira; contudo, não devemos, quanto a isso, desprezar o fato de existir uma produção de prazer Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... provinda de outra fonte. Quando a criança passa da passividade da experiência para a atividade do jogo, transfere a experiência desagradável para um de seus companheiros de brincadeira e, dessa maneira, vinga-se num substituto. (FREUD, 1988, p. 27-28). Como dissemos, o jogo inicialmente observado por Freud, do ponto de vista de uma economia, é também aventado como da ordem de uma política. Em ambas, estamos diante de uma representação. Representação simbólica de objeto, na economia, e, representação relacional de poder, na política. Freud deixa em aberto, apesar de preponderar em si o raciocínio da economia, o jogo entre essas duas forças, correlacionando-as e colocando-as, cautelosamente, lado a lado.12 Qual o motivo que nos fez tomar esse pequeno caso acima descrito por Freud como sendo paradigmático para pensar as artes, enfatizando aqui suas origens num jogo (simbólico e relacional) e designando uma função visual e uma função de encenação. Ao que parece, o próprio Freud sugere essa relação entre o menino e os artistas, terminando o caso com a representação teatral trágica, onde o espectador é levado a buscar prazer em experiências penosas encenadas, designando que “um sistema de estética com uma abordagem econômica a seu tema geral” (FREUD, 1988, p. 29) deve prevalecer.13 Nessa articulação entre economia (libidinal, simbólica), política (forças, relações) e estética, estamos diante das páginas de uma estética psicanalítica que se 12 Em sua análise, Didi-Huberman (1998) lembra que o exemplo do jogo infantil encontra-se no contexto de uma análise sobre a guerra e uma metáfora do sujeito em busca da sobrevivência, no aprendizado de por novamente em cena o “pior”, ou seja, brincar e fazer troça com os elementos mais desprezíveis, tomando como objeto de jogo e de cena aqueles elementos em geral desconsiderados ou vistos como inferiores e repulsivos, fazendo do jogo um meio de preservação psíquica da própria existência. 13 Didi-Huberman afirma: “Que o carretel só é ‘vivo e dançante ao figurar a ausência, e só ‘joga’ ao eternizar o desejo, como um mar demasiado vivo devora o corpo do afogado, como uma sepultura eterniza a morte para os vivos. Talvez só haja imagem a pensar radicalmente – metapsicologicamente – para além do princípio de prazer: Freud, como se lembram, terminava sua passagem com uma alusão ao ‘jogo do luto’ (Trauerspiel, a tragédia) e apelava a ‘uma estética guiada pelo ponto de vista econômico’. Ora, não importa a idéia que Freud fizesse então da atividade artística em geral, devemos igualmente sublinhar a crítica da imitação que acompanhava toda sua reflexão: ‘Explicar um jogo por um instinto de imitação é formular uma hipótese inútil’. Talvez só haja imagem a pensar radicalmente para além do princípio de imitação. É talvez no momento mesmo em que se torna capaz de desaparecer ritmicamente, enquanto objeto visível, que o carretel se torna
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    volta para doislugares, privilegiadamente: uma teoria da encenação e daí $' decorrente uma noção de representação e uma teoria do campo visual, do olhar e do jogo entre olhares, nas relações sujeito e objeto. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 III. 2. Arte, teoria da encenação e a noção de representação A representação é um elemento central no processo de criação. Fórmula expressa por Freud no JOGO DO FORT-DA. Representar, em Freud, designa o ato de pôr em cena. Fórmula, por otra parte, muy próxima a la idea expresada por Freud en los dos principios del funcionamiento mental, y maravillosamente ilustrada en la observación de su nieto, que intenta consolarse de la partida de su madre jugando con una bobina, y pone en escena esta misma desaparición y esse mismo regreso con objetos al alcance de su mano. (M´UZAN, 1978, p. 17). O que está posto em cena é o modo mesmo como se situa no mundo um ser desejante, constituindo a realidade do ser diante da ausência do seu objeto de desejo. A criança, ao jogar, elabora o trauma da perda e encontra para ela uma saída positivada – criadora (no jogo). Nos níveis mais elevados da criação, denominamos isso de inspiração criadora, como forma de compreender uma experiência mítica do real, gerando não apenas uma imagem visual. O símbolo, certamente, o ‘substituirá’, o assassinará – segundo a idéia de que ‘o símbolo se manifesta primeiro como assassinato da coisa’ –, mas ele subsistirá num canto, esse carretel: num canto da alma ou num canto da casa. Subsistirá como resto assassinado do desejo da criança.” (DIDI- HUBERMAN, 1998, p. 83). A imagem deve ser vista aqui como emblema ou como alegoria que designa uma posição intermediária entre o objeto real – em desaparecimento – e a abstração da ordem simbólica – que também faz desaparecer a imagem. A ordem imaginária ficaria, assim, numa espécie de zona de suspensão. Não se está falando da imagem enquanto cópia do real – por imitação. Para Didi-Huberman, em sua recuperação para a Teoria da Arte da leitura de Freud, a imagem surge justamente condicionada pelo desaparecimento do objeto real. A imagem surge no lugar da ausência dos objetos, visando a eternizar o desejo de um certo objeto perdido e apenas reencontrado num outro plano, numa passagem do real ao imaginário. Nessa economia freudiana, não existem duas coisas no mesmo lugar. Perde-se o objeto, ganha-se a imagem. Posteriormente, uma nova passagem indica que o imaginário deverá ser subsumido no simbólico, por efeitos de ordem. O símbolo virá para dizer algo a respeito de todo e qualquer objeto perdido, ele virá para dar ordem ao acontecimento do plano real. Para tanto, ele deverá enfrentar a coisa e a imagem, mas nessa economia psíquica, as coisas se deslocam, e objetos perdidos e imagens apagadas acabam por permanecer como traços ou restos. Nada é controlável pelo modelo. Nem mesmo a boneca – imagem e semelhança do huma- no – pode ser contida numa figuração corporal. Sempre se procura outro algo – Baudelaire diz que queremos ver a alma e por isso destruímos nossos brinquedos. Por isso, busca-se sempre outra imagem capaz de convocar o jogo dos objetos perdidos.
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    uma descrição ouum comentário do mundo desse ser de desejo, mas também % provocando três estados definidos como: Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... 1) una modificación de la alteridad natural del mundo exterior; 2) la alteración de la intimidad silenciosa del yo psicosomático; 3) el sentimiento de un esfumado de los límites que separan a esos dos ordenes, con una connotación de extrañamiento. A esta transformación en la relación de las parcelas objetales y narcisistas responde el sentimiento experimentado por el sujeto de un cambio de su posición con respecto al mundo, es decir, de su propia identidad. El estado de captación aquí implicado suscita la consciencia de entrar en relación con algo esencial y sin embargo inefable. [...] Yo admitia que, em algunos casos, este esta- do vivido en la angustia, puede incluirse entre los fenómenos de la despersonaliza- ción; que otras veces, acompañado de un estado de euforia, se siente como una expe- riencia exultante de dilatación poderosa con la que puede relacionarse el momento inicial de la inspiración artística o mística o incluso las experiencias relacionales des- critas por Grunberger. Sea como fuere, en los dos casos, el instante de captación me parece que surge de una experiencia traumática. (M’UZAN, 1978, p. 18-19). O que M’Uzan identifica na criação é uma supressão, uma ultrapassagem ou uma valorização da zona intersticial entre o mundo exterior e a realidade do eu psicossomático, a realidade e o sujeito, enfim, o surgimento de uma relação provocadora de um estranhamento diante dos limites e das fronteiras agora olhados enquanto tal, a partir de uma localização intermediária entre exterior- interior, uma espécie de espaço indefinido. Aparentemente, durante o processo de constituição narcísica, após o momento do narcisismo primário, que se põe o problema de pôr algo em cena, algo no lugar de, como representando algo para alguém. É nesse momento que saímos em busca dos objetos exteriores e temos de suportar as tensões (pulsionais). Jogado nesse espaço indefinível, debatendo-se nos encontros com o real, o sujeito é submetido a novos aspectos e a novas exigências da pulsão que, em seus movimentos constantes, permite promover o surgimento da representação criadora. Cada momento da criação desvela, assim, sua condição traumática. III. 3. Teoria do olhar Por outro lado, tomando a situação do objeto – o carretel do FORT-DA –, estamos diante de um aparecer-desaparecer, de um desvelar-velar, de um jogo de esconde- esconde, onde algo não se deixa alcançar pelo olhar. E isso coloca em questão uma teoria do olhar e do jogo entre olhares.
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    Diferentes autores, teóricosda arte ou psicanalistas interessados nos termos % da visão e do olhar, da função escópica, estão atraídos pelas condicionantes enunciadas no FORT-DA. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Vejamos alguns exemplos. Em Didi-Huberman, trata-se do “desaparecimento de seu carretel com um invariável o-o-o-ó prolongado, depois saudando seu reapa- recimento, escreve Freud, ‘um alegre Da!’ (‘Ah! Aí está!’). Faço alusão a isso apenas para sublinhar de novo o quadro geral em que nosso problema se coloca: quando o que vemos é suportado por uma obra de perda, e quando disto alguma coisa resta. (DIDI-HUBERMAN, 1998, p. 79-80). Estamos diante de um objeto – o carretel – apresentado em sua singularidade visual, de objeto concreto e visível. Seja uma moeda, uma pedra ou um carretel, os objetos permitem o desenvolvimento de um estranhamento e da marca da presença da alteridade que arrasta consigo o poder da fantasia e da identificação na ordem do imaginário. Num texto de divulgação, o psicanalista e teórico da arte, Darian Leader, afirma que os jogos de esconde-esconde convertem o ato de olhar em algo que não está sempre aí. Ele pode ser modulado e organizado, ligado pelo jogo a uma estrutura. E, assim, a dimensão potencialmente traumática é transformada numa fonte de prazer. Lacan ti- nha a idéia de que uma teoria psicanalítica da visão deveria adotar como seu ponto de partida esse fato de que, antes de olhar, somos olhados, e de que o nosso olhar se insere no que chamamos uma dinâmica de olhares. Note-se como isso é diferente do pressuposto muito comum segundo o qual, para investigar respostas visuais e esté- ticas, cumpre estudar o que acontece quando um observador olha para um objeto. Em vez de postular dois termos – o observador e o objeto –, temos pelo menos três: o espectador, o objeto e o terceiro componente, que é quem está observando o obser- vador. (2005, p. 12). Leader e Didi-Huberman estão a nos colocar diante do problema de um jogo entre olhares, no qual estamos cindidos – “viscondes partidos ao meio”, como diria o escritor italiano Italo Calvino. Para esses autores, o ato de ver é uma abertura, uma fenda que se imprime num jogo de aparecer e desaparecer, no qual somos aquele que vê o objeto sumir e retornar (sujeito) e somos aquele que é visto, não pelo objeto, mas por aquilo (aquele ou aquela) a que o objeto designa, um terceiro termo, abrindo a relação sujeito-objeto para uma compreensão de que “somos vistos pelo que nos olha”. Vemos através de e com um objeto que deve designar uma perda e, numa partida como essa, resta um.
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    O jogo doque está posto em cena – tal como vimos no tópico acima – é sustentado % num objeto mínimo e numa imagem visual que se configura aos olhos do sujeito como um resto do movimento completo de desaparecer e de reaparecer. O que se Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... entende disso é que, em face do jogo repetitivo – movimento de intervalos varian- tes –, fixa-se o menor denominador comum ao olhar da criança. Fixa-se uma imagem no desaparecimento da coisa. E quando a coisa retorna, ela volta como o resto da imaginária14 que se estabilizou, escavada que foi na interioridade do sujeito.15 Partindo de Lacan, Huberman e Leader, esses afirmam que o objeto visual é mais algo que remete àquilo que não vemos do que àquilo que vemos. O carretel somente é objeto visual no instante em que desaparece e se constitui visualmente em nossa mente. Seu desaparecimento físico instala a imagem dentro de nós. Mas o que não podemos ver? O nosso próprio ato de ver não nos é dado a ver, o modo como somos vistos por outros. Ou seja, não podemos ver como somos olhados. O que vemos não é o que nos olha. Então, somos constituídos psiquicamente por uma exterioridade que nos olha e que nos liga, relacionalmente, e nos afeta, através do olhar do outro. Desde o começo de nossa própria presença objetal no mundo, somos olhados. Leader afirma de modo direto: “O que vemos e para onde olhamos dependerá, em parte, do que outrem vê e para onde olha. No exato momento de vir ao mundo, antes num sentido de se poder ‘ver’ qualquer coisa, somos o objeto do olhar de outrem. (LEADER, 2005, p. 11). 14 Aqui, os termos imaginário, imaginação e imaginária podem indicar algumas confusões. Há uma íntima associação entre eles, e o seu envolvimento revela muito das migrações e das interfaces entre a teoria psicanalítica e a teoria da arte. No sentido dado aqui ao termo, a tópica do imaginário acaba exatamente por se configurar numa ordem imaginária e nas formações figurais do tipo das imaginárias, que seria uma outra maneira de dar tratamento ao tema dos arquétipos, mantendo a filiação à leitura proposta, tanto no que tange aos aspectos da psicanálise quanto aos aspectos da teoria da arte. Trata-se ainda de pensar nas provocações pensantes do tipo alegórico e das formas figurais que acabam por tecer relações do tipo da fantasia e da fantasmática. As imaginárias se constituem como sendo estes conjuntos de figuras (emblemáticas) que são capazes de reunir e reapresentar o fantasma. Trata-se ainda de pensar o modo como estas figuras da Imaginária Religiosa – geralmente lembradas pelos conjuntos de santos e pelos ex- votos – são modos de fixação de emblemas do si mesmo. No caso específico da arte dos ex-votos há uma associação direta entre promessa, resto do real e a feitura de uma imagem que deve servir de resistência, de emblema, de sinal protetor, pois deve existir enquanto promessa e retorno, enquanto conquista (de um pedido agora alcançado) e enquanto perda (de um pedaço de si que deve ser um emblema de si). Então, estamos diante de conjuntos organizados e, ao mesmo tempo, vestigiais, como numa espécie de cova de escavação arqueológica, onde nos deparamos com conjuntos fragmentários (fragmentos apresentados em camadas, designando temporalidades distintas). Em outros textos, tenho procurado associações entre pensamento teológico, teoria da arte e estudos da psicanálise. 15 Didi-Huberman fala mesmo de uma arqueologia do símbolo.
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    Portanto, ao colocarem cena (representar), estamos diante também de um jogo %! que nos ensina a nossa condição de sermos objeto do olhar de um outro. E enquanto olhamos para as coisas perdidas imaginariamente constituídas em Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 nossa mente, fazemos imagem de nós mesmos e fazemos a imagem através do corpo-imagem – como na fase do espelho. De acordo com Lacan, carregamos o Outro em nós mesmos e o outro, o semelhante, é a forma de nosso próprio corpo. Esse outro do qual dependemos da maneira mais funda- mental é, também, o Outro da discordância primária. Ao assumir sua imagem, o sujeito é marcado por um olhar, que desenha uma forma ideal e que se torna um sonho de do- mínio. Esta imortalidade sonhada e ligada a uma forma, o eu ideal, tenta sustentar uma unidade que não há. (FRANÇA, 1997, p. 133). Em geral, pensamos que o corpo é um real ao qual acedemos e do qual e no qual nos constituímos. Na Psicanálise, somos constituídos enquanto corpo e enquanto forma através do olhar e da imagem, do olhar do outro (do que nos olha) e da imagem espelhada (quando nos olhamos no espelho e, inicialmente, nos imaginamos um outro dentro do espelho). Traçamos a idealização nessa imagem que irá nos acompanhar e resistimos ao corpo real, acessível através da alucina- ção – da dor, do sofrimento, do êxtase físico. Assim, somos um outro, um outro no espelho e um outro aos olhos dos outros. E, nessa fixação emblemática, buscamos uma eternização na imagem. Buscamos o emblema que sempre revigorará o objeto perdido que somos e que apenas encontramos na esquina da imaginária. Por outro lado, a figurabilidade abre a superfície da imagem que nos olha para além do que é visível (aparente). A imagem não é apenas o traçado de um ponto de vista ideal. A vidência não é somente uma prova, uma evidência. Diante da superfície imaginária, o objeto visual tangencia e se realiza como um deslocamento de sentidos. A vista pode se abrir em múltiplas vistas. O pano pode aceder a muitas dimensões e organizações plásticas. O que vemos não será medido pelo real do corpo, mas pela condicionante do jogo do ir e do vir, estabelecendo um lugar e uma temporalidade. Nesse ponto, estamos acedendo ao momento da projeção e ao movimento do lançamento – projetar e lançar o objeto longe para lhe dar um conteúdo, fazê-lo imagem e fundar o sujeito neste afastamento da coisa, integrando a imagem visual como condição constitutiva do sujeito. Não vemos o que se encontra no real, apenas podemos ver aquilo que é preenchido no seu desaparecimento. Isso configura a definição de objeto aurático. O que se
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    vê é daconta da aura das coisas e não do real. Não se vê o objeto real, mas o % objeto aurático, aquele que delata o seu desaparecimento, como o carretel, e que, ao reaparecer, demonstra-se enquanto objeto perdido, apenas encenado, Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... no jogo, e, visualmente representado, na imagem. Como o carretel, o quadro de Mona Lisa desaparecido do Museu do Louvre, constitui um olhar. O olhar recai na ausência do objeto – do carretel, do quadro – e dela passa a constituir a aura em torno do desaparecimento. Passando pelo roubo da Mona Lisa ou pelas leituras do minimalismo norte- americano, Leader e Didi-Huberman terminam por reforçar a idéia de que a arte é um desejo de ser visto ou de que algo seja visto – seja colocado em cena, no setting, pois ser visto é entrar na dinâmica do entrelaçamento de olhares, apreender que nossa constituição subjetiva, inconsciente, é co-dependente do olhar de outrem e, mais ainda, da incorporação do modo como somos olhados. “Essa é a condição para a qual Piaget reservou um lugar de honra em seu mapa do desenvolvimento: só podemos tornar-nos seres plenamente sociais quando temos capa- cidade para ver o mundo através dos olhos de outrem.” (LEADER, 2005, p. 131). Somente há constituição subjetiva do ato de ver quando esse aparece cindido em dois, pelo que vemos e pelo que nos olha (como somos vistos), na assinatura das coisas. Devemos aprender a ver de “olhos bem fechados” – parafraseando Kubrick – para que possamos ser remetidos mais uma vez ao vazio constitutivo daquilo que ultrapassa a percepção carnalizada do mundo; para, ao ultrapassar o que vemos, adentrar no campo fantasmático de ver o invisível como modalidade do visível vendo, assim, com nossos olhos, todos os olhos dos quais fomos olhados. O visível indica mais do que o plano óptico – impressionista –, uma potência visual, um trabalho do sintoma no qual o que vemos é suportado por (e remetido a) uma obra de perda. Um trabalho do sintoma que atinge o visível em geral e nosso próprio corpo vidente em particular. [...] Dar forma ao trabalho visual que deveria ser o nosso quando pousamos os olhos sobre o mar, sobre alguém que morre ou sobre uma obra de arte. Abramos os olhos para experimentar o que não vemos, o que não mais veremos – ou melhor, para experimentar que o que não vemos com toda evidência (a evidência visível) não obstante nos olha como uma obra (uma obra visual) de perda. [...] Quando ver é sentir que algo inelutavelmente nos escapa, isto é: quando ver é perder. (DIDI-HUBERMAN, 1998, p. 34).
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    Uma teoria davisão seria então uma teoria dos vestígios. No passado, intimamente %# ligada à aura religiosa e reapresentada, no mundo moderno, através da obra de arte.16 Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 A diferença entre qualquer imagem e o vestígio é designada como a diferença entre uma ordem do visual visível (da percepção) e a de uma visão daquilo que não se vê, visão de traços daquilo que foi desaparecido, arruinado. Assim, a cisão entre o visual e o visível, na Psicanálise, nos ensina que, ao ver, não apenas estamos diante de objetos, corpos e matérias, estamos diante de uma tentativa de recuperação, num corpo objetal qualquer, daquilo que ao ser dado por perdido nunca teria existido antes, um objeto inexistente e procurado em objetos substitutos, formalizado num objeto qualquer, vazado a ponto de ser capaz de nos mostrar um vazio – a obra de arte. Para finalizar este tópico, reconhece-se que a arte é dada então como objeto do gozo, objeto inútil, finalidade sem fim (kantiano). Não há simplesmente prazer, pois não há uso que a sustente (jogo da finalidade sem fim, objeto inútil). No gozo, estamos diante do vazio. O gozo remete a uma filosofia do amor, tal como anunciou Santo Agostinho. Somente podemos gozar do amor por ser esse sem finalidade, sem utilidade. Somente podemos gozar da arte como gozamos do significante de Deus. III O corpo-obra Corpo-obra Trabalho do corpo Corpo obra de arte Corpo-d’obra Um copo de corpo quebra (Marcio Pizarro Noronha) 16 Em outro texto, tratando especificamente do conceito de composição, tomo a questão posta por Didi- Huberman, retraçando as relações entre Hegel, Freud, Benjamin e Lacan. Vejam-se os textos: ENSAIO DE COMPOSIÇÃO: Entre o conceito e a sensação em literatura e arte modernas. Veja-se o site do II Encontro Internacional de História (Anpuh-Goiás. Disponível em: www.anpuhgo.br. Numa versão mais recente com o título COMPOSIÇÃO: TRAJETO CONCEITUAL E A RETOMADA DA PERSPECTIVA DA SENSAÇÃO-EXPERIÊNCIA NO ESTUDO DAS RELAÇÕES INTERARTÍSTICAS. (Encontro Regional Abralic 2007, SP, USP. Disponível em: www.abralic.org.br). Além desses, o texto integra um livro editado pela EdUFU, em outubro de 2007.
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    Se a arteassocia-se ao gozo, como lugar do vazio, o que será este corpo – corpo, %$ objeto, matéria – que se põe aqui como sendo seu significante? O que podemos pensar neste lugar? Para falar desse corpo e de um corpo-obra, vou eleger um Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... artista em sua singularidade, ao qual tenho dedicado grande parte da minha atenção e leitura. O método diz respeito ao modo de fazer da clínica – do singular ao universal. A passagem diz respeito ao inconsciente da obra enquanto incons- ciente da cultura e ao modo como a obra é, ela própria, o lugar vazio do analista, plasticamente preenchido, na linguagem, por todos nós, seus analisandos, artista e público. O artista escolhido é Francis Bacon. Tomamos de início, uma entrevista de Bacon a Michel Archimbaud, em 1991, quando o pintor afirma que já não faz a pintura pelos outros, mas faz a pintura para si mesmo. Ele revela uma atenção particular a esse modo de compreender a pintura como um ofício e uma fabricação. Ao pintar, ele fabrica a obra e desenvolve uma atitude de fabricação de si – uma reflexão sobre o si mesmo (Foucault). Ao fabricar a obra como lugar existente, ele vai preenchendo a tela – como poderia ser também a folha de papel, o espaço sonoro, etc. – com seus depósitos e seus resíduos, para deixar na imagem o seu próprio rastro, o seu vestígio. Esta reflexão é um tipo de pesquisa artística e artefatual que se dá no âmbito e no cerne do visível, para constituir um objeto visual que se possa oferecer como evidência (formal) e vidência (residual) do modo como um aparecer implica também um desaparecer. O alvo, ou o objeto eleito, é o corpo humano e o seu rosto.17 O rosto é a condição do retrato, modo de constituição de um regime de signos que visa a presentificar uma identificação de um sujeito – seja do retrato pintado de um cortesão, seja de um nobre, seja de um político, seja numa fotografia identificatória policial, numa 3x4, numa foto de passaporte. 17 Para esta pesquisa, o pintor procura pranchas coloridas à mão que tratam do corpo enquanto objeto da ciência médica (um exemplo é o tema das doenças bucais, pranchas com bocas abertas mostrando diversos exames e patologias da boca) e reúne a ela fotogramas e outras imagens retiradas do mundo contemporâneo (por exemplo, imagens do filme O Encouraçado Potemkim, na cena da escadaria). O artista desenvolve uma pesquisa sobre o corpo a partir da boca aberta, um tecido cutâneo interno, cruzando-a com as imagens dos gritos, outras bocas abertas, que aparecem na arte, no cinema e em outras imagens circulantes na cultura. De Deleuze a Cuir, observa-se que é o corpo que escapa através da boca que grita, bem como é o corpo que grita quando a boca encontra-se fechada.
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    Bacon toma oretrato como sendo uma impossibilidade de mostrar o sujeito e o %% identifica como objeto visual que está no lugar de, um substitutivo para uma perda. O retrato é um traço de uma imagem perdida de si mesmo. Desse modo, Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 na imagem do retratado, o que se faz passar é o vestígio do rosto perdido ou arruinado pela diferença existente de um instante a outro. Já não somos o que foi retratado. O retrato então passa à condição de carne, e o rosto, tomado em suas relações com os exercícios encontrados nas pranchas de anatomia e de fisiologia, um objeto visual capaz de mostrar essa perda ou esse deslocamento contínuo e temporal do próprio objeto, em suas mudanças fisionômicas e em suas alterações da máscara da face. O artista, segundo o historiador da arte Raphaël Cuir, está interessado no corpo como objeto a ser investigado – retratado, oferecido como objeto visual – pela pintura (arte) e, ao fazer isso, abre-se para um jogo corpo-pintura que nada mais é do que um jogo entre um visível sensorial-perceptual (corpo) e a produção de um objeto visual capaz não apenas de ser uma observação (raciocínio do desenho) ou um comentário de uma observação (raciocínio do ready-made), mas um objeto carnal-pictórico, um corpo-obra. Num auto-retrato de 1976, Cuir descreve o modo como Bacon pinta o próprio rosto tomando como base as pranchas de anatomia e patologia. Contrariamente ao uso da imagem, pela via da apropriação de imagens científicas de observação (lógica do desenho de observação) ou de imagens prontas, desenvolvidas por meio dos aparatos técnicos (lógica do ready-made). Bacon propõe a construção de um sistema representacional carnal-pictórico, uma carne da pintura, que seja uma tradução do Horror,18 em cuja centralidade estão a figura humana e as constantes transformações a que somos submetidos no processo vital. (CUIR, 2000). No sistema visual do Horror assistimos ao Belo da destruição e, portanto, podemos ver e sermos vistos através de uma face da dissolução do si mesmo; podemos enxergar uma face da morte integralmente vivida. Segundo Guin, cabe à representação artística figurativa baconiana excitar as terminações nervosas e impedir que se faça uma associação entre o figurativo e o narrativo ou o meramente ilustrativo – um problema da pintura. 18 O Horror aqui deve ser remetido ao mais Belo que o Belo e à noção de inquietante estranheza de Freud, tal como foi enunciado no início deste texto.
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    Como faz isso?Tratando a pintura como um acidente. Acidentes são aconteci- % mentos felizes ou infelizes que preenchem nossa existência trazendo consigo a ruptura da continuidade existencial. A pintura é um acidente do desenho, e o Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... óleo é o acidente da pintura. A pintura é um acidente cujo evento principal é a invenção da tecnologia do óleo19 e para a qual se enunciarão e encadearão outras séries acidentais – no modo como o artista encontra, acidentalmente, entre as imagens médicas e a arte pictórica, um ponto de contato para a ima- ginação da beleza e do Horror – como vimos acima, o mais belo que o belo. Acidentes são pontos de descontinuidade e de contato, como no livro de J. G. Ballard adaptado para o cinema (Crash) e no filme homônimo (Crash, ganhador do Oscar de 2006).20 A cada instante do movimento da fabricação da obra, há um desvio provocado por algum acidente, por algum acontecimento, no ato de pintar. Assim, a superfície fica tomada de fatos. Uma memória cumulativa de cada trecho nos permite pensar no raciocínio do palimpsesto e num acontecimento que se dá entre trechos da pintura e entre as diferentes imagens que ali estão acumuladas. Em geral, essas transformações são representadas na imagem plana pelo acúmulo de ângulos diferentes, numa soma de todas as imagens em uma única imagem, causando ao espectador uma sensação de deformidade – o Horror. Ces transformations que Francis Bacon souhaitait piéger dans la toile, ce sont les acci- dents, ces hasards, ces malheurs qui construisent la vie d’un corp, non pas selon une chronologique comme dans les autoportraits successifs de Rembrandt, mais dans l’ur- 19 Pierre Guin (2000) lembra que o óleo é um meio fluido e, por isso mesmo, capaz de produzir outras formas além das que foram propostas pelo artista. Desse modo, a subjetivação encontra-se com a maquinaria de produção. Não é apenas da ordem imaginária que se está falando. Quando se apresenta a imagem de um retrato ou de um corpo humano em pose/no congelamento de um movimento ou mesmo no movimento, estamos diante de diferentes vistas – perscrutação do olhar que voyeuriza o objeto exterior – e estamos diante de um ato de pintar que impõe ao sujeito uma maleabilidade, a plasticidade do meio, no contato entre o meio e a superfície deslizante e operante da tela. Nos termos do psiquismo, estamos diante de um real, uma volta do real em torno de um nó, que faz ver a outrem ou a outra Coisa. O que aparece não é apenas o retrato ou o auto-retrato – a imagem de si – mas o deslocamento dessa imagem que deve suportar sua condição existencial metamorfoseante em direção à decrepitude – uma face da morte. Nesses termos, podemos mesmo pensar numa certa anamorfose do retrato no quadro, nos termos de que fala Lacan. 20 Crash é um livro de ficção científica de J. G. Ballard. Foi adaptado para o cinema com o título Crash (traduzido como Crash – Estranhos Prazeres), com direção de Cronenberg (1996). Crash (traduzido como Crash – No Limite), 2005, ganhador do Oscar de 2006, direção de Paul Haggis.
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    gence de l’instant,selon une Logique de la Sensation. Ces accidents, Bacon leur accorde %' une très grande importance dans le processus de réalisation de ses oeuvres: “toute pein- ture est accident”. (CUIR, 2000, p. 113). Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 O que se pode apreender dessa arte e aprender com ela? O que ela nos pode ensinar a respeito do corpo? O corpo pintado – o rosto, o retrato – não é apenas a resultante de uma estética gestual e de uma estética que privilegia o meio fílmico (estética do cinema). O corpo desordenado em gestos é também o corpo em deslocamento enquanto imagem no cinema. O corpo é apresentado por Ba- con como o espaço intermediário, entre um fotograma e outro de um filme. O corpo é um palimpsesto pessoal, tomado por trechos e por traços. Nesse deslocamento, o que se anuncia no entreimagens fixadas por Bacon é um momento destinado à contemplação da destruição do corpo físico, como se o humano tivesse, também, ele já passado, entre as imagens, sumindo em alguma mancha ou zona colorida, massa de distorção. Dessa maneira, quando o corpo é a obra, na esfera clínica, podemos sustentar algumas possibilidades de relação e de interpretação: o corpo-obra permite investigar e transitar por entre o mundo dos objetos (e das relações de objeto), presentificar os restos (e as relações de abjeção) e simbolizar a morte – a obra de arte enquanto fantasma permite, por meio da forma aurática, resistir à morte. A manipulação dos meios e dos materiais não visa apenas à produção de uma representação de objeto exterior ao que está sendo produzido. Assim, um retrato ou uma canção não deve ser tomado tão simplesmente como representação dos conteúdos socialmente reconhecidos do retrato e da canção. Um objeto pode ser, também, a representação de uma relação e, nesses termos, pode ser um índice de apresentação da relação terapêutica e do setting instalado. O trânsito para a dimensão do corpo-obra permite a instalação de um lugar- signficante na clínica e um modo de apreensão da estética enquanto modo de estruturação subjetiva. O tema do corpo-obra visa a ressaltar a particular importância da experiência clínica e suas afinidades com a experiência e as formas do pensamento-fazer artístico. Assim, entendo aqui que a relação clínica não só desenvolve uma par- ticular epistemologia dos objetos psíquicos, como também se deixa atravessar por formas transicionais ou por movimentos do informe que fazem nascer a obra
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    de arte dosujeito na clínica e seu corpo glorioso. Como amálgama de flutuações e materializações, a clínica deve arregimentar esse princípio de funcionamento radical, no qual a inclusão da arte não deve estar restrita às formas do discurso Noronha, Marcio Pizarro. Do FORT-DA da arte ao corpo-obra. [É possível uma estética... comentado de obras e filmes por conta dos pacientes. Obrar a subjetividade é tarefa preponderante e diz respeito ao enfrentamento dos grandes lugares da clínica – a arte e a morte. (M’UZAN, 1978). Referências CUIR, Raphaël. Tentative d’évasion du corps. In: GUIN, P. et al. Une oeuvre de Francis Bacon. Marseille: Muntaner, 2000. p. 109-118. (Collection Iconotexte). DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34, 1998. FRANÇA, Maria Inês. Psicanálise: estética e ética do desejo. São Paulo: Perspectiva, 1997. FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1987. GOMBRICH, E. Verbal wit as a paradigm of art: the aesthetic theories of Sigmund Freud. In: WOODFIELD, Richard. The essential Gombrich. London: Phaidon Press Limited, 1996. p. 189-210. GUIN, Pierre. L’innocence de Francis Bacon. In: GUIN, P. et al. Une oeuvre de Francis Bacon. Marseille: Muntaner, 2000. p. 9-34. (Collection Iconotexte) LACAN, Jacques. O seminário, a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1991. p. 400. L. 7. LEADER, Darian. O roubo da Mona Lisa: o que a arte nos impede de ver. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005. MOSCOVICI, Marie. A sombra do objeto: sobre a inatualidade da psicanálise. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1994. MAGNO, M. D. Psicanálise política. Rio de Janeiro: A Outra Editora, 1986. p. 498. M’UZAN, Michel de. Del arte a la muerte: itinerario psicoanalítico. Barcelona: Icaria, 1978. RAMOS, Maria Luiza. Interfaces: literatura, mito, inconsciente, cognição. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2000. p. 296. (Coleção Humanitas) REGNAULT, François. Em torno do vazio: a arte à luz da psicanálise. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2001.
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    Corpos autorizados: comunicação, podere turismo Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Euler David de Siqueira1 Denise da Costa Oliveira de Siqueira2 RESUMO O corpo é lugar de intervenção da sociedade e da cultura sobre o indivíduo, espaço de controle amplamente reproduzido pela mídia. Meios de comunicação, os cartões-postais do Rio de Janeiro durante anos mostraram mulheres de biquíni nas praias da cidade. Em 2005, foi aprovado um projeto de lei que regulamenta a veiculação, exposição e comercialização de postais com imagens femininas, com intuito de inibir o turismo sexual no estado. O ato de proibir e controlar tais imagens levou a esta discussão sobre as múltiplas e complexas relações entre comunicação, turismo e estado. Neste trabalho, temos como objetivo refletir sobre como o Estado busca exercer o controle sobre a mídia cartão-postal. Para tal, recorremos à abordagem de Foucault acerca dos corpos dóceis e a de antropólogos sobre o corpo no universo da cultura. Esse referencial fundamentou a análise do ato do estado em sua relação com a mídia e o corpo. Palavras-chave: Comunicação. Corpo. Representações sociais. Poder. Turismo. ABSTRACT The body is a space of intervention of society and culture over the individual, space of control reproducted by media. As a kind of media, the post cards of Rio de Janeiro during years showed women in bikini in the city beaches. In 2005, it was approved by the State a law project that regulates the exhibition and commercialization of post cards with women images with the objective of inhibiting the sexual tourism in the state. The act of forbidding and controlling those images served as a starting point for this argumentation about the multiple and complex relations among communication, tourism and state. In this paper we have as objective to reflect about how the State searches to control the post card media. For this, we appeal to Foucault’s notion of docile bodies and the one of anthropologists about body in the universe of culture. These principles based the analysis of the state act in its relation with the media and the body. Key words: Communication. Body. Social representations. Power. Tourism. 1 Professor Adjunto III e Pesquisador no Programa de Mestrado em Ciências Sociais e no curso de Graduação em Turismo do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre e Doutor em Sociologia pela IFCS/UFRJ. Graduado em Ciências Sociais pela IFCH/UERJ. 2 Professora Adjunta na PPGC/UERJ no curso de Especialização em Jornalismo Cultural e em curso de graduação. Doutora em Comunicação pela ECA/USP. Graduada em Comunicação pela IFCS/UERJ. Autora de Corpo, comunicação e cultura: a dança contemporânea em cena (Autores Associados, 2006) e de A ciência na televisão: mito, ritual e espetáculo (Annablume, 1999).
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    Introdução “Um corpo disciplinado é a base de um gesto eficiente.” Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo (FOUCAULT, 1989, p. 139) “Quando são feitas e impostas as regras?” (BECKER, 1977a, p. 86) Complexos, contraditórios, híbridos, exóticos: assim são os lugares turísticos. Muitos desses lugares, pelo menos como representações sociais imagéticas, são encontrados somente em bancas de jornais, anúncios publicitários, boîtes e agências de turismo. Como informação ou representação, fragmentos de lugares turísticos são destacados, recortados do cotidiano a fim de encantar turistas. Assim sendo, antes mesmo que o turista chegue a seu destino, muito provavel- mente já teve contato com imagens dele. Longe de o turismo se reduzir à viagem ou ao deslocamento de uma sociedade para outra, começa a se manifestar no local em que o turista vive e constrói seu imaginário. Contudo, não é só o turista que entra em contato com as imagens de lugares turísticos. Ao andar pelas ruas do Rio de Janeiro, por exemplo, turistas e moradores da cidade deparavam-se com cartões-postais mostrando cenas de jovens de biquíni nas praias ao lado de outros com imagens de favelas, da Passarela do Samba, da Praça da Apoteose, do Palácio do Catete, do Monumento aos Pracinhas, do Cristo Redentor, do Maracanã, do Morro do Corcovado, do Pão-de-Açúcar e da Baía de Guanabara. Destacados de revistas e jornais de todos os tipos, os postais ganham a atenção dos passantes, expostos em mostradores que podem ser manipulados, na entrada das bancas de jornais. Como cidade litorânea, no Rio de Janeiro não é difícil observar-se mulheres em trajes de banho nas praias quase todos os dias do ano. Isso faz parte, até certo ponto, do cotidiano da cidade, mas não significa que, ao longo das estações do ano e dos dias da semana, os sentidos e significados de ir à praia sejam os mesmos. O corpo feminino bronzeado nas praias ganha expressão máxima no verão e nos fins de semana quando em oposição aos outros dias da semana e às estações do ano. Retratado em cartões-postais, o corpo feminino se torna uma espécie de re- presentação da cidade e é facilmente associado ao turismo sexual, à promiscui- dade da mulher carioca ou brasileira, assim como a uma possível ausência de
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    regras e normasque atestem sua civilidade. Tal corpo seria visto, então, como ! livre, liberto das amarras ético-morais da civilização, corpo “natural”, em estado selvagem, autêntico, original, sem regras inscritas nele próprio. De acordo com Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 esse ponto de vista, seria nos trópicos, lugar exótico e caliente, que o turista estrangeiro encontraria a mulher em seu estado quase natural. A proximidade com a praia, com a paisagem natural, talvez reforce essa imagem. Para aqueles que saem de sociedades nas quais o meio ambiente natural foi quase ou totalmente destruído, visitar locais como o Brasil pode significar encontro com aquilo de que se está distante: a natureza em toda sua potencialidade, seja sob a forma do contato com florestas, rios, cachoeiras, praias ainda selvagens ou sob a forma da mulher carioca ou brasileira, representada como quente e sensual. Na realidade, sabe-se que não há nada de “natural” em comportamentos, gestos e formas de ser da mulher carioca ou brasileira. Marcel Mauss, em seu artigo “As técnicas corporais” (1974), mostrou que o corpo é tanto fruto da cultura, da Psicologia, como da natureza. Em outras palavras, o corpo deveria ser visto em sua totalidade concreta como fato social total. Da mesma forma, Gilberto Freyre (1986) assinalou, em Modos de homem e modas de mulher, que não é a natureza, mas a sociedade que intervém construindo um corpo com formas próprias. Turista-antropólogo, o francês Stéphane Malysse constatou sobre as imagens do Rio de Janeiro que estavam antes de mais nada ligadas ao corpo: a cidade do Rio de Janeiro era apresentada pelas fotos dos catálogos e pelos vídeos turísticos como uma grande cidade praiana povoada de corpos bonitos praticamente nus. [...] As imagens que uma sociedade escolhe para se apresentar, para se representar aos olhares estrangeiros, geralmente exibem uma realidade antropológica descrita como “autêntica” e uma visão generalizada do local e de seus habitantes, uma espécie de “consenso visual”, em suma, que não deve ser negli- genciado pela antropologia, pois constitui um convite a passar para o outro lado do espelho, o ponto de partida de uma antropologia visual do corpo. Primeiros cartões-postais do Brasil, primeiras visões do inferno: o corpo, o sexo, o calor tropical. (MALYSSE, 2002, p. 81). Tal representação do Rio de Janeiro como cidade do corpo foi, em parte, construída tendo o estado como avalista que divulgou a idéia do Rio Cidade Maravilhosa, instituiu os concursos de Escolas de Samba, organizou e divulgou os desfiles de Carnaval e, na década de 80, patrocinou a construção da Passarela do Samba ou Sambódromo. Carnaval e praia foram amplamente empregados para construir uma certa imagem da cidade – inclusive na propaganda do estado. Nesse tipo de imagem – ou nessa estratégia de comunicação – o corpo feminino pouco vestido
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    à praia ganhoudestaque na construção das simbologias sobre o turismo no Rio de Janeiro. Ainda hoje, o corpo feminino nas praias – principalmente aquelas com um maior apelo turístico, como Ipanema e Copacabana, na Zona Sul da Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo cidade – torna-se o objeto de capas de jornais e revistas quando o tema é a chegada do verão. Na contramão da representação Rio-praia-Carnaval-mulheres nuas, em 2005, a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro aprovou por unanimidade o Projeto de Lei 2813/05, que “proíbe a veiculação, exposição e venda de postais turísticos que usem fotos de mulheres, em trajes sumários, que não mantenham relação ou não estejam inseridas na imagem original dos cartões-postais”.3 O projeto da deputada estadual Alice Tamborindeguy abre espaço para uma reflexão sobre as relações entre corpo, estado, turismo e mídia. Pelo documento, apenas postais representando mulheres na “cena original” da praia podem ser veiculados, expostos e vendidos. Fotos produzidas, com modelos em imagens construídas profissionalmente agora são caracterizadas como infração. Tal projeto de lei levou a algumas reflexões que procuramos expor e que valem um adendo explicativo: são essas reflexões que nos interessam discutir neste artigo. Não nos propomos a estudar a questão do turismo sexual – sua análise implicaria outro formato e outra abordagem. Atemo-nos às questões de comunicação, de construção de sentidos e significados por meio das imagens do corpo feminino e à tentativa de reconstrução e regulação de tais imagens pelo estado. Não é porque o turismo sexual reconhecidamente explicite problemas sociais de variadas ordens que não se deva estudar ou analisar a forma retórica como o estado lida com ele. Mesmo porque, no caso analisado, a construção da imagem relacionada ao apelo sexual foi construída, em parte, como estratégia de comunicação do próprio estado. Assim, não se busca aqui desqualificar a lei, mas análisá-la de um determinado ponto de vista, o que permite apontar suas contradições. Dessa forma, de acordo com o projeto de lei em questão, imagens de mulheres produzidas intencionalmente para figurar em cartões-postais são proibidas enquanto fotos de mulheres tão nuas quanto as primeiras podem ser exibidas, veiculadas e comercializadas porque constariam da “cena original”. Do ponto de vista de quem percebe a imagem, no entanto, não há diferença, pois também 3 Ementa do Projeto de Lei 2.813/05. Disponível em: http://alerjn1.alerj.re.gov.br. Acesso em: 9 maio 2006.
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    cabe ao observadoratribuir sentidos e significados às imagens. Assim, qualquer # pessoa que visse imagens de mulheres de biquínis nos jornais da cidade e em postais dificilmente saberia identificar a diferença de intenção. Ao mesmo tempo, Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 o argumento da deputada nos leva à seguinte questão: Quem na praia não está “representando”? Ser ou estar banhista nas praias é também representar o papel de banhista. A ação do estado leva a pensar sobre como imagens quase idênticas podem assumir sentidos diversos. A classificação das imagens será, então, um ato de interpretação. Como distinguir corpos que fariam parte “original da paisagem” e corpos que foram ali colocados, ou seja, que foram profissionalmente produzidos? Ou ainda, como distinguir natureza e cultura nos corpos? O estado se propôs essa difícil tarefa e, assim, parece acreditar que pode decidir sobre os sentidos e significados dessas imagens. O interessante é que ao mesmo tempo em que proíbe determinadas imagens em postais, autoriza outras que passam a gozar de uma legitimidade pelo fato de o estado interpretar que elas fazem parte do contexto original. Então, mais do que simplesmente ver um estado que proíbe, destacamos um que autoriza e legitima certos corpos em determinadas paisagens. Tomando a situação como exemplo, este artigo busca fazer uma reflexão sobre algumas das múltiplas relações entre estado, turismo e cultura, expressas por intermédio dos sentidos e significados dos cartões-postais agora proibidos por lei. Para tal, utilizamos como referencial a abordagem de Foucault (1989) acerca dos corpos dóceis; a de antropólogos, como Mauss, sobre o corpo no universo da cultura e a de Howard Becker, sobre as regras e sua imposição, uma vez que a proibição dos postais apelativos no Estado do Rio de Janeiro oferece a possibilidade de se pensar o que faz com que uma infração seja, em algum momento, tornada pública mobilizando os recursos necessários para que as regras sejam impostas. Esse referencial fundamentou a reflexão e análise do ato do estado levando à (des)construção de uma relação entre estado, mídia e corpo. A partir de uma amostra aleatória de matérias veiculadas pela mídia logo após a aprovação do projeto de lei, buscamos pensar o turismo como sendo decisi- vamente atravessado pelas questões políticas e ideológicas. Mais do que tomar os cartões-postais como expressões de natureza utilitarista, instrumental e individual, os pensamos como signos, repletos de significados, de informações, tanto para quem os produz quanto para quem os vê, portanto, meios de comunicação, suportes de mensagens. Ao escrever sobre o corpo feminino à praia, quase nu, agora proibido de ser representado nos postais,
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    propomos pensar comoesse espaço é entrecortado por interesses, visões de $ mundo, ethos e se configura, acima de tudo, como um espaço relacional, cujo significado aparece na relação mais do que nas partes. Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo Estado, lei, corpo e cultura Política e cultura possuem uma longa história em comum. No pensar de Clifford Geertz, uma das “coisas que quase todo mundo conhece, mas não sabe muito bem demonstrar é que a política de um país reflete o modelo de sua cultura”. (1978, p. 206). Noções como sociedade civil, soberania, estado, corpo político, cidadão, indivíduo, liberdade, direito natural, vontade geral e moral foram funda- mentais à emergência da noção de cultura. (HELL, 1989). Tal noção foi construída paralelamente à conformação do campo político, principalmente entre os séculos XVII e XIX. A política é uma obra da cultura, afirma Victor Hell, que escreve também: “Um dos princípios da cultura é o de constituir o lugar de interferências entre múltiplas atividades políticas e econômicas, entre outras; falar de cultura é incluir de certa forma a política e a economia em seus propósitos”. (1989, p. 12). É à cultura que nos referimos ao estudar a forma como o estado, através da iniciativa de um empresário moral (BECKER, 1977b), proíbe postais com imagens apelativas de mulheres. Mas também tratamos de poder, de quem o exerce, com que meios e em nome de quem. Nesse sentido, tomamos as definições propostas por Geertz: A cultura, aqui, não são cultos e costumes, mas as estruturas de significado através das quais os homens dão forma à sua experiência, e a política não são golpes e constituições, mas sim uma das principais arenas na qual tais estruturas se desenrolam publicamente. (1978, p. 207). A justificativa apresentada pela deputada estadual para aprovar o projeto de lei 2.813/05 referente aos postais – disponível na página da Assembléia Legislativa na Internet4 – começa reforçando estereótipos naturalizados tais como a exaltação das qualidades tropicais do País, o reconhecimento da beleza das praias, montanhas e mulheres e termina com as possibilidades econômicas: “Toda essa fama atrai turistas, que deixam nos cofres das cidades milhares de dólares, 4 Disponível em: http://alerjln1.alerj.re.gov.br. Acesso em: 9 maio 2006.
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    contribuindo para onosso crescimento”5 . Parece ser um apelo à razão econômica, % mais do que tudo, a explicação que realmente pesa na construção da justificativa, sendo o restante da argumentação complemento. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 A autora do projeto segue reconhecendo o valor do turismo como indústria e “propulsor do desenvolvimento” do Estado do Rio de Janeiro. Tal desenvolvimento seria prejudicado por uma insistente campanha de exposição da imagem feminina de forma apelativa, to- talmente dissociada de qualquer campanha planejada, que só tem servido à degradação da imagem de nosso Estado e do nosso País, contribuindo sobremaneira para que faça- mos parte da lista de países que incentivam o turismo sexual.6 Assim, segue a justificativa: “Ao colocar nos cartões-postais dos pontos turísticos recortes de figuras femininas em trajes sumaríssimos, geralmente de costas, estas pessoas prestam um desserviço ao nosso País”.7 Por desserviço pode-se entender é que assim como o turismo é indústria e traz capital, o turismo sexual prejudica a imagem, logo afasta outros capitais: tanto em termos de dinheiro direto quanto em termos de construção de imagem, o que afasta verbas indiretamente. Como instância do estado, a Assembléia Legislativa e seus membros podem exercer poder, coibir, proibir, mandar. Assim, referindo-se ao chamado “turismo sexual”, o documento explicita: “Este Projeto de Lei visa a reprimir este tipo de iniciativa”.8 E segue: “Precisamos proteger nossas meninas. E o primeiro passo para isso é proibir que se veicule e se exponha imagens de mulheres e meninas neste tipo de cartão-postal”9 [sic]. A justificativa se encerra qualificando o texto como “Projeto de Lei em favor das mulheres brasileiras”.10 A iniciativa tem implícito um discurso de cunho moral e de aspecto cultural. Não utiliza como argumento, por exemplo, que é nítido que a imagem das mulheres na praia, sem mostrar seus rostos, apenas ressaltando suas nádegas, não representa a maior parte da população urbana carioca e menos ainda a população 5 Projeto de lei 2.813/2005. Disponível em: http://alerjln1.alerj.re.gov.br. Acesso em: 9 maio 2006. 6 Projeto de Lei 2.813/2005. 7 Idem. 8 Idem. 9 Idem. 10 Idem.
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    feminina brasileira. Representaum grupo social, não toda a sociedade. Mas, quando veiculados tanto pela mídia de massa quanto pelos cartões-postais que circulam no mundo, aqueles corpos são mostrados como sendo o corpo da mulher Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo brasileira, sem pluralidade, sem outras possibilidade de diferença. Tal imagem foi amplamente utilizada pela indústria turística em sua publicidade assim como pelo estado em sua propaganda de Brasil. O corpo e suas imagens são um lugar também de memória. Segundo Clastres, a forma como a sociedade se inscreve nos corpos nos mostra como se dá o pertencimento do indivíduo ao grupo social assim como também permite “avaliar a resistência pessoal”. (1990, p. 129). As marcas inscritas no corpo são história, memória de experiências e, sendo visíveis, tornam-se identificáveis, comunicativas, reconhecíveis, informativas. Afinal, não se pode esquecer nem se tornar indiferente àquilo que não se pode apagar. Se o corpo é marcado, cortado, pintado, queimado, torturado, é porque se quer que ele comunique. Conforme Clastres, uma cicatriz, um sulco, uma marca, são indeléveis. Inscritos na profundidade da pele, atestarão para sempre que, se por um lado a dor pode não ser mais do que uma recor- dação desagradável, ela foi sentida num contexto de medo e de terror. A marca é um obstáculo ao esquecimento, o próprio corpo traz impressos em si os sulcos da lembrança. (1990, p. 128). Olhares menos atentos poderiam classificar tais práticas como primitivas, sel- vagens, irracionais e desprovidas de sentido. Aqui, como em todo comportamento humano, há sentidos e significados em jogo. Toda ação e comportamento sociais somente ganham sentido quando compreendidos a partir da totalidade de uma lógica simbólica. (SAHLINS, 1981). Da mesma forma, “nenhuma prática se realiza sobre o corpo, sem que tenha, a suportá-la, um sentido genérico ou específico. Não há razões para se supor que as pessoas a elas se submetam a contragosto ou sem conformidade intelectual”. (RODRIGUES, 1983, p. 64). Os penitentes, os que se oferecem em sacrifício pelos outros, os soldados, os bombeiros, aqueles que imaginamos sofrerem castigos cruéis e dolorosos, de um modo geral, aceitam a situação e se conformam com a forma como a sociedade atua sobre seus corpos. Em outra mão, pessoas que se submetem a tratamentos físicos com vistas a modificar sua aparência também aceitam os “sacrifícios” impostos com vistas a alcançar o que é socialmente mais bem-aceito. Nesse sentido, o corpo escarificado, deformado, mutilado, amputado revela um valor coletivo hierárquico. Assim, os homens
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    não perdem apossibilidade de lançar mão desses recursos, para se aproximarem do ' ideal de estética corporal que a sociedade define, destacando, dissimulando ou atenuan- do particularidades de sua aparência: submetem-se a dietas especiais, praticam exer- Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 cícios físicos, pintam-se ou deitam-se em mesas de operações cirúrgicas – porque crêem que, procedendo assim, estarão incrementando a vitalidade de sua constituição orgânica e social. (RODRIGUES, 1983, p. 64). Dos corpos marcados pela tortura nas sociedades indígenas guaranis passamos para o corpo marcado e transposto para os postais das praias cariocas. O corpo moralmente aceito e valorizado na praia, dentro dos padrões de forma e cor, revela a natureza coercitiva do fato social, o poder da coletividade que encontra ali, em um espaço dito “democrático”, toda sua expressão de violência. A presença ou ausência do corpo feminino bronzeado de biquíni nas praias cariocas implica estar diante de relações sociais de poder. Como parte do fenômeno social total (MAUSS, 1974), o poder pode assumir várias formas e modelar diferentemente os lugares, inclusive os turísticos. (GIDDENS, 1991). Mais do que tomar os lugares turísticos como produzidos pelas ações sociais de sujeitos orientados por seus próprios interesses individuais – o que nos levaria a admitir que a ordem social se constrói por meio das ações individuais - os concebemos como sendo possíveis por meio de um eficaz poder simbólico. É o poder político que autoriza, sanciona e legitima a presença de corpos, seja de mulheres ou de homens, nus ou vestidos, de frente ou de costas, nas praias ou na cidade, de dia ou de noite. Surgem, então, questões acerca da forma como o estado, por meio do poder legislativo do Rio de Janeiro e do projeto que proibiu o cartão-postal de mulheres seminuas nas praias – projeto proposto por uma mulher e votado unanimemente – ao mesmo tempo em que interdita o corpo de biquíni nos postais, autoriza e sanciona o corpo, especificamente as nádegas, em outros espaços. Na Praça da Apoteose, parte integrante da Passarela do Samba, encontra-se uma obra de arquitetura monumental que representa nádegas estilizadas. Se tal parte do corpo feminino está proibida nos postais, como pensar que no ponto central da Passarela do Samba, lugar turístico há mais de vinte anos, visto em todo o mundo, as nádegas reinem absolutas, atraindo a atenção de turistas e foliões que brincam seu Carnaval? Por que essas não induziriam ao turismo sexual? Talvez porque trata-se de nádegas localizadas fora da praia, que não são de carne e osso e que aparecem em um espaço ritual próprio à sua exibição: o espaço burocratizado, racionalizado, profissionalizado e midiatizado do Carnaval carioca?
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    Uma possível respostaa esse dilema talvez esteja na forma como Carnaval, ' estado e Igreja, juntos, aparecem para romper dualidades exploradas por DaMatta em A casa e a rua (1987). Em vez de operar com dois pólos dicotômicos Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo tradicionais como até então se fizera no pensamento social brasileiro, talvez seja necessário pensá-lo como uma tríade. Estudando o Carnaval, a ordem e a religiosidade como ritual, DaMatta, encontrou um triângulo ritual, uma figura com três lados, cada qual exprimindo uma faceta muito im- portante da realidade social do Brasil [...]. Teríamos então os ritos da ordem, da desordem e os cerimoniais “neutros” das religiões, onde se indicava um lugar fora do comum ou no outro mundo. Estava diante de espaços sociais e ideológicos onde se podia rir e “brincar”, ser sério e “legal”, e de ser ainda neutro e renunciar a favor dos pobres, oprimidos e marginais, dos santos, de Deus e da Igreja. (1987, p. 107). Assim, o corpo seminu mostrado na Passarela do Samba não representaria um problema posto que figura no lugar e no momento permitidos pelo ritual de inversão que caracteriza o Carnaval. No Carnaval, durante o momento em que as convenções aplicadas e em vigor durante todo o ano são momentaneamente suspensas, não vemos problema em corpos nus ou seminus se movimentando pela Avenida e sendo exibidos mundialmente via TV. Afinal, o tempo e o espaço são apropriados e reinventados por sujeitos e grupos segundo lógicas simbólicas bastante distintas. Quanto ao cartão-postal, está à venda o ano todo em bancas de jornal, o que pressuporia um rompimento com a própria ordem das coisas. É interessante notar que estamos nos referindo ao corpo que aparece em um espaço urbano e que “a cidade é já a realidade da concentração da população, dos instrumentos de produção, do capital, dos prazeres, das necessidades”. (MARX; ENGELS, 1984, p. 64). Também é importante pensar o cartão-postal como utilizando código que talvez seja lido de forma distinta por “locais” e por pessoas de origem cultural distinta daquela dos cariocas ou brasileiros, como os turistas estrangeiros. De corpos autorizados a corpos dóceis Em Vigiar e punir, história da violência nas prisões, Foucault escreve que o corpo, além de estudado do ponto de vista da biologia, da saúde, da doença, também se inscreve em um universo político. Assim, “o corpo também está diretamente mergulhado num campo político; as relações de poder têm alcance imediato sobre ele; elas o investem, o marcam, o dirigem, o supliciam, sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a cerimônias, exigem-lhe sinais”. (1989, p. 28).
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    A relação políticado corpo pode começar com vistas a uma utilização econômica, ' como força de produção investida de relações de poder e dominação. Dessa forma, “o corpo só se torna força útil se é ao mesmo tempo corpo produtivo e Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 corpo submisso”. (1989, p. 29). Em uma época em que a sexualidade é ampla- mente discutida e explorada pela mídia, pela publicidade e gera um setor eco- nômico com diversas ramificações, o corpo muitas vezes aparece como do- minado pelas relações de poder econômico e político. Não são somente insti- tuições como hospitais, prisões, escolas e quartéis que agora disciplinam os corpos. A praia, os postais e suas representações aparecem na cena contem- porânea como les nouveaux lieux onde o corpo, assim como o sujeito e sua subjetividade, são submetidos ao poder disciplinador. Afinal, como explica Hall, em sua leitura sobre Foucault, o objetivo do poder disciplinar consiste em manter “as vidas, as atividades, o trabalho, as infelicidades e os prazeres do indivíduo”, assim como sua saúde física e moral, suas práticas sexuais e sua vida familiar, sob estrito controle e disciplina, com base no poder dos regimes administrativos, do conhecimento especializado dos profissionais e no co- nhecimento fornecimento pelas “disciplinas” das Ciências Sociais”. (1999, p. 42). O discurso sobre sexualidade, longe de operar apenas como pólo de repressão sexual, de moral, informa sobre a esfera do legítimo e do autorizado, das estratégias que se montam como discursos com o objetivo de fazer aparecer um objeto de conhecimento. Por meio da investida do sexo como elemento simbólico, pode-se operar a sua regulamentação e controle. Como recursos estratégicos, os discursos sobre o controle populacional, as doenças venéreas, a procriação, os costumes e a moral do sexo tratam de manter o indivíduo e seu corpo dentro de fronteiras legitimadas pela ciência e pelo Estado. Ao se elaborar um discurso científico sobre a sexualidade, o que se quer é evitar que a apropriação da natureza via cultura esteja sujeita a desvios e disfunções. O corpo feminino presente nos cartões-postais não é somente um objeto e lugar de intervenção e de demarcação da sociedade por parte dos aparatos discursivos sobre a sexualidade. Parafraseando Foucault (1989), seria o corpo “objeto e alvo de poder”. A investida da regulamentação política por parte do estado sobre os postais em que aparecem mulheres seminuas nas praias cariocas torna clara a forma de controle sobre o corpo e o sexo quando se afirma que, o que está em risco é a saúde e a moral das mulheres e meninas cariocas e brasileiras. É de um corpo que, quer apareça muito, quer pouco vestido, poderia escapar, mas não escapa ao controle dos dispositivos de que se está a tratar. Tal controle
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    também se estendeao campo do lazer, do qual grandes contingentes popu- ' lacionais usufruem desigualmente. Assim, o próprio turismo é, de fato, um novo espaço de intervenção da disciplina burocrata estatal. Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo O pensamento de Foucault representou um dos marcos no descentramento do sujeito em relação aos grandes sistemas filosóficos que o viam como uma unidade integrada, racional, consciente, coerente e acabada. (HALL, 1999). A partir de então, a própria construção da identidade do sujeito e de seu corpo torna-se muito mais problemática. Refletindo sobre a relação poder e corpo, Foucault constrói o conceito de corpo dócil, sujeito a uma tecnologia política do corpo: um saber e um controle que levam a uma sujeição que não é obtida pela violência ou ideologia, que pode ser tecnicamente pensada. Segundo o autor, a tecnologia política do corpo seria uma espécie de “microfísica do poder posta em jogo pelos aparelhos e instituições, mas cujo campo de validade se coloca de algum modo entre esses grandes funcionamentos e os próprios corpos com sua materialidade e suas forças”. (1989, p. 28). Praia e corpo feminino, muitas vezes confundidos como objetos naturais ou mais próximos da natureza, são investidos de uma gramática também política: estão sujeitos a códigos precisos de comportamentos legítimos e autorizados. A praia e o corpo – a primeira, lugar público, ideologicamente visto como democrático ou de todos, e o segundo, que se acredita poder mostrar-se e expressar-se livremente na praia – pela forma como aparece, atestam como o poder se faz presente. Aparecer de biquíni, na praia, de dia, longe de ser uma quebra das regras de um poder que se quer contrapor, é justamente reconhecê-lo como autorizado e legítimo. Ao proibir determinadas imagens, o estado, via Poder Legislativo, trata de um corpo dócil, “que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado”. (FOUCAULT, 1989, p. 125). Contemporaneamente, ir às praias urbanas é ato investido de regulação e vigilância da parte de uma gama bastante ampla de especialistas que versam sobre onde, quando, como e por que o corpo deve aparecer no espaço da praia ou em repre- sentação nos postais. Na praia encontramos policiais, assegurando que os in- divíduos terão sua segurança garantida; com eles, encontramos a guarda muni- cipal, fiscalizando o cumprimento preciso dos códigos de posturas municipais; não menos presentes estão os bombeiros salva-vidas, guardando a segurança de banhistas no mar. Além desses, médicos, sobretudo dermatologistas e infec- tologistas, nutricionistas, biólogos e sanitaristas, atestam o melhor horário para
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    se permanecer napraia, o que deve ou não ser ingerido, quais as ameaças '! infectocontagiosas que rondam os banhistas e o que fazer para se prevenir. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Dessa forma, analisar o investimento político do corpo e a microfísica do poder supõe um “corpo político como conjunto dos elementos materiais e das técnicas que servem de armas, de reforço, de vias de comunicação e de pontos de apoio para as relações de poder e de saber que investem os corpos humanos e os submetem fazendo deles objetos de saber”. (FOUCAULT, 1989, p. 31). Enfim, é de corpos dóceis que se está a tratar, afinal, o poder que regula e disciplina é acompanhado de um saber que o instrui. Regras, valores e sua imposição Howard Becker, em As regras e sua imposição, leva a cabo uma discussão à qual recorremos para pensar a forma como a criação da regra e sua imposição se deram no caso de cartões-postais. Becker (1977) parte de uma pergunta bastante geral e que interessa a este trabalho: “Quando são feitas e impostas as regras?” (1977, p. 86). Quando regras são feitas a fim de punir infratores, pergunta-se: Quem as impõe? Geertz adianta a resposta da seguinte maneira: “As idéias – religiosa, moral, prática, estética – como Max Weber, entre outros, nunca se cansou de insistir, devem ser apresentadas por grupos sociais poderosos para poderem ter efeitos sociais poderosos: alguém deve reverenciá-las, celebrá-las, impô-las.” (1978, p. 209). Toda imposição se origina de uma iniciativa. A iniciativa é, para Becker, a variável- chave no estudo da imposição de regras. Contudo, a dimensão pública e as forças presentes nas organizações também são muito importantes na imposição das regras. Analisando o caso dos postais, em linhas gerais, a autora da lei, deputada Alice Tamborindeguy, tomou a iniciativa, tornando-a pública ao mesmo tempo em que utilizou a estrutura organizacional da Assembléia Legislativa a fim de impor as regras que proíbem que o cartão-postal veicule jovens seminuas nas praias. Conforme Becker, a iniciativa, gerada pelo interesse pessoal, fortalecida com a publicidade e condicionada pelo caráter da organização, é assim, a variável-chave na imposição da regra. A iniciativa opera de forma mais imediata numa situação na qual há concordância básica em relação às regras que serão impostas. (1977, p. 92). Em matéria publicada pela Folha Online (“Lei proíbe cartões-postais com mu- lheres seminuas no Rio”, 18/11/05), observa-se a concordância entre os
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    argumentos da deputadaAlice Tamborindeguy e os do secretário estadual de ' Turismo da época, Sérgio Ricardo de Almeida. Ambos defendiam o valor das imagens turísticas da cidade e do Estado do Rio de Janeiro que seriam man- Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo chadas pelo que consideram ser um forte apelo para o turismo sexual na cidade e no estado. Conforme Becker, é a partir dos valores que regras concretas e específicas são deduzidas. Os valores seriam como premissas a fundamentar as regras. No caso dos postais, há um conjunto de valores tais como a proteção da mulher brasileira e de sua imagem, proteção da imagem da cidade do Rio de Janeiro como a Cidade Maravilhosa e a do Brasil que não poderiam ser relacionadas ao turismo sexual. Becker enfatiza, no entanto, que não é a existência da regra que garante a sua imposição. Há uma seqüência que, guardando-se as devidas proporções, segue um padrão comum à criação de regras e à sua imposição. Segundo o sociólogo, vai-se do geral para o específico. Em outras palavras, em primeiro lugar, parte-se de um valor geral; em segundo lugar, deduzem-se regras particulares que, em terceiro lugar, serão aplicadas a atos e pessoas específicos (1977). Contudo, sem o papel do empresário moral, ou seja, aquele a quem interessa pessoalmente a aplicação de uma regra, nada aconteceria. Analisando o caso da criação de uma regra e sua imposição para uma lei federal sobre o uso da maconha nos EUA, Becker buscou mostrar que “onde quer que as regras sejam criadas e aplicadas, deveríamos estar atentos para a possível presença de um indivíduo ou grupo que toma a iniciativa”. (1977, p. 107). Finalmente, segundo o autor, onde quer que as regras sejam criadas e aplicadas, deveríamos encontrar pessoas tentando atrair o apoio de grupos coordenados e usando os meios de comunicação disponíveis para desenvolver um clima favorável de opinião. Onde não se desenvolve tal apoio, podemos esperar o fracasso da iniciativa. E onde quer que as regras sejam criadas e aplicadas, esperamos que os processos de imposição sejam moldados pela complexidade da organização, repousan- do sobre uma base de acordos compartilhados em grupos mais simples e resultando de manobras e barganhas políticas numa estrutura complexa. (1977, p. 107). Chamamos a atenção para o fato de que a imposição “ocorre quando alguém trila o apito, tornando a imposição necessária, ao ver alguma vantagem em fazê-lo”. (BECKER, 1977, p. 87). Contudo, como escreveu Galbraith (1986), a
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    todo acúmulo depoder surgem outras fontes em oposição. É a dialética do '# poder. Assim, a imposição de uma regra pode gerar posições contrárias a ela. Tal oposição pode gerar ações ou desinteresse, indiferença. A indiferença talvez Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 seja a causa de grande parte das regras que são apresentadas, mas não obedecidas. No Brasil, é a situação das leis que “não pegam”. A matéria “Turismo sexual”, do jornalista Pedro Torre, tem como tema a discussão sobre o Projeto de Lei 2.813/05 e adota uma posição pouco crédula ao começar da seguinte forma: “Sobre esse assunto já manifestei minha opinião por vá- rias vezes, sempre com a idéia que dificilmente ‘pegará’, se transformando em outra lei que não servirá para nada” (03/12/2005). Disponível em: http:/ /sierramar.com.br/noticias/visualizar.asp?Cod=10 ). Tal matéria reflete boa parte do posicionamento da imprensa em relação ao assunto. E mesmo lidando com um tipo de discurso que buscaria uma atitude objetiva, a imprensa expressa representações, visões de mundo. Considerações finais O corpo, como manifestação cultural, é também lugar de dimensão política. A ida à praia informa sobre o conjunto de possibilidades acerca de como o espaço social é traçado ou desenhado e sobre qual corpo e como tal corpo será mostrado nesse lugar. Longe de ser um campo desprovido de interesses e conflitos, a praia é também espaço onde inúmeros atores e grupos disputam o poder. Seja o poder de autorizar quem irá comercializar toda sorte de alimentos e bebidas, de produtos para o corpo (protetor solar, bonés, viseiras e óculos de sol) ou quais imagens da praia serão representativas da cultura brasileira em um determinado tipo de mídia, a saber, os cartões-postais. Assim, há, nos códigos culturais, instituições sociais que legitimam e autorizam a aparição de corpos que estão de acordo com determinados padrões morais de beleza e estética. Nesse sentido, ao investir sob forma de lei contra as imagens de mulheres de biquíni nos postais, o estado expõe determinadas contradições. Ele pode levar a pensar que proibir essas imagens implica combater dura e eficazmente o problema da prostituição e do turismo sexual, uma vez que não tem podido dar conta da prostituição nas areias da praia ou nas boîtes da orla da Zona Sul, assim como, em instância maior, da exploração de menores e do tráfico de mulheres. As imagens tornam-se, então, alvo da investida daquilo que Becker chamou “empresário moral” e de trilar o apito (1977b).
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    Aqui se explicitauma forte questão de comunicação, importante para discutir a '$ temática: expor mulheres seminuas em um postal é, também e fundamentalmente, uma estratégia de comunicação que visa a construir um imaginário. Em determi- Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo nado momento, esse imaginário corroborou as teses que o estado quis construir. Na atualidade, parece não mais contribuir para o que o estado considera adequado. Aqui, os postais se apresentaram como a ponta desse processo de desconstrução da imagem construída. Isso porque imagens não são selecionadas, editadas e veiculadas sem intenções ou interesses de diversas ordens. Ao exibir ou proibir, existem inúmeras intenções e interesses em jogo. O projeto de lei apresentado à Assembléia do Estado do Rio de Janeiro aponta algumas questões implícitas: reconhece o País como espaço de belezas “naturais” – praia, montanha e mulheres; reconhece o valor econômico do turismo; aponta para a vinculação da imagem construída da mulher na praia carioca com o turismo sexual, mas também aponta para a questão da regra e de sua imposição, com a possibilidade de desobediência a uma lei cujo empresário moral precisou trilar o apito a fim de conseguir chamar a atenção para uma situação específica. O estado reconhece o País onde a natureza é bela e exuberante, inclusive enfatizando a beleza da mulher brasileira. Contudo, justamente por associar a beleza da mulher a uma natureza selvagem indômita, o estado admite que é preciso protegê- la. Ao fazer isso, faz reconhecer que está também presente nesse espaço “natu- ral” que é a praia, mas que sabemos, antes de tudo, que é político. Ao mesmo tempo, o que presenciamos nas praias, mais do que a expressão livre e autônoma de sujeitos dotados de liberdade, implica observar uma série de dispositivos prescritivos de condutas, códigos e comportamentos cujo corpo se coloca como alvo central da circunscrição legal ou moral. Mais de um ano depois da promulgação da lei, ainda era possível observar, em algumas bancas de jornais da Zona Sul carioca, a presença de postais do tipo agora proibido. Em inúmeras outras bancas que antes exibiam os postais, não se observava mais esse tipo de mídia. Observamos uma lei que chama a atenção sobre como, onde e por que o corpo de mulheres jovens é veiculado pela mídia. Ao proibir os postais com mulheres que não estejam fora da cena original, o estado abre, por outro lado, a possibilidade de que outras imagens, desde que inseridas na paisagem original, exibam corpos de mulheres seminuas. Nesse sentido, nos meses que antecedem o verão carioca e principalmente o Carnaval, inúmeros jornais exibem imagens em que corpos de mulheres seminuas aparecem no contexto de uma cena “autêntica e original”, mostrando a todos que são nádegas autorizadas pelo estado.
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    Referências '% BECKER, Howard. As regras e sua imposição. In: ______. Uma teoria da ação coletiva. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Rio de Janeiro: J. Zahar, 1977a. p. 86-107. ______. Os empresários morais. In: ______. Uma teoria da ação coletiva. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1977b. p. 108-121. CLASTRES. A sociedade contra o Estado. Rio de Janeiro: F. Alves, 1990. DAMATTA, Roberto. A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 1989. FREYRE, Gilberto. Modos de homem e modas de mulher. Rio de Janeiro: Record, 1986. GALBRAITH, John Kenneth. Anatomia do poder. 2. ed. São Paulo: Pioneira, 1986. GEERTZ, Clifford. A política do significado. In: A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1978. p. 206-222. GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991. GOLDENBERG, Mirian; RAMOS, Marcelo Silva. A civilização das formas: o corpo como valor. In: GOLDENBERG, Mirian (Org.). Nu vestido: dez antropólogos revelam a cultura do corpo carioca. Rio de Janeiro: Record, 2002. p. 19-40. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DPA, 1999. HELL, Victor. A idéia de cultura. São Paulo: M. Fontes, 1989. MALYSSE, Stéphane. Em busca dos (H)alteres-ego: olhares franceses nos bastidores da corpolatria carioca. In: GOLDENBERG, Mirian (Org.). Nu vestido: dez antropólogos revelam a cultura do corpo carioca. Rio de Janeiro: Record, 2002. p. 79-137. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Moraes, 1984. MAUSS, Marcel. As técnicas corporais. In: _____. Sociologia e antropologia. São Paulo: Edusp, 1974. p. 209-234. v. 2. RODRIGUES, José Carlos. Tabu do corpo. Rio de Janeiro: Achiamé, 1983. SAHLINS, Marshall. Cultura e razão prática. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1981. SIQUEIRA, Denise da Costa Oliveira. Corpo, comunicação e cultura: a dança contemporânea em cena. Campinas: Autores Associados, 2006. SIQUEIRA, Euler David de; SIQUEIRA, Denise da Costa Oliveira. Corpo, mito e imaginário nos postais das praias cariocas. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA CO- MUNICAÇÃO, 28., 2005. Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro: UERJ, 2005.
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    ' Matérias FANTÁSTICO. Beleza ou vulgaridade. 06/11/2005. Disponível em: http://fantasti- Siqueira, Euler David de - Siqueira, Denise da Costa O. de. Corpos autorizados: comunicação, poder e turismo co.globo.com/Jornalismo/Fantastico/0, AA1067312-4005-0-0-06112005,00.html. Acesso em: nov. 2006. FOLHA ONLINE. Lei proíbe cartões-postais com mulheres seminuas no Rio. 18/11/2005. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u115411.shtml. Acesso em: nov. 2006. GRANDELLE, Renato. Mulheres fora dos cartões-postais. Jornal do Brasil, 02/06/2006, p. A13. MORENNO, Pablo. A lei de Alice. 04/11/2005. Disponível em: http://www.verdestrigos. com.br/sitenovo/site/cronica_ver.asp?id=800 . Acesso em: nov. 2006. TORRE, Pedro. Turismo sexual. 03/12/2005. Disponível em: http://www.sierramar. com.br/ noticias/visualizar.asp?Cod=10 . Acesso em: nov. 2006.
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    '' Comunicação e turismo: possibilidadesde conhecimento1 Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Mary Sandra Guerra Ashton2 RESUMO Este artigo propõe uma abordagem teórica acerca da noção de comunicação, conforme Maffesoli e sua inter-relação com a noção de Turismo desenvolvida por De La Torre, com o objetivo de compreender os novos valores comportamentais observados na atividade turística, sustentados pelo compartilhar. Para tanto, o trabalho busca a reflexão e o diálogo como uma possibilidade de conhecimento por meio da relativização e do estilo proposto por Maffesoli para a Sociologia Compreensiva. Palavras-chave Comunicação. Turismo. Compartilhar. Valores comportamentais. Palavras-chave: ABSTRACT The purpose of this article is the theoretical approach about the notion of communication according to Maffesoli and its interrelation with the concept of Tourism developed by De La Torre with the objective of understanding the new behavioral values observed in the touristic activity, sustained by sharing. In order to do this, this work seeks the reflection and the dialog as a possibility of knowl- edge through relativization and the style proposed by Maffesoli for the Comprehensive Sociology. Key words: Communication. Tourism. Sharing. Behavioral values. 1 Este trabalho faz parte da revisão bibliográfica para a Tese de Doutorado pela PUCRS. 2 Doutora e Mestre em Comunicação Social. Pós-Graduada e Bacharel em Turismo pela PUCRS. Autora de ensaios publicados na área e organizadora de dois livros. Professora e Pesquisadora na Feevale, no Grupo de Desenvolvimento Regional. E-mail: marysga@feevale.br
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    Introdução O turismo como temática de pesquisa vem conquistando um significativo espaço Ashton, Mary Sandra Guerra. Comunicação e turismo: possibilidades de conhecimento no campo da investigação científica. Muitas das abordagens favorecem uma visão mais voltada para a economia; no entanto, o que se propõe neste artigo é observar o turismo como um fenômeno social que move milhões de pessoas motivadas, principalmente, pela busca de novas experiências diferentes daquelas vividas no cotidiano. Essa intensa e crescente mobilidade social, descrita pelo fenômeno turístico, assume características diversas, variando conforme o período histórico no qual se acha inserida, bem como insinua comportamentos distintos daqueles observados até há poucas décadas. Nesse contexto, a contribuição de Maffesoli, ao desenvolver a noção de comunicação, sublinhando o compartilhar, torna-se relevante para explicar os novos valores comportamentais observados na sociedade pós-moderna, bem como a sua relação com o turismo. Por sua vez, o turismo, sustentado por De La Torre, revela a importância das interações sociais. Elas acontecem durante a atividade turística e podem encontrar sentido no compartilhar proposto por Maffesoli. Desse modo, a comunicação e o turismo, apesar de suas características próprias e singulares, podem se mostrar complementares, conforme os princípios da Sociologia Compreensiva. O COMPARTILHAR: o que não é medido, mas vivido A comunicação é lida por Maffesoli como uma interação e, como tal, é recarregada, constantemente pelos sujeitos, de acordo com a necessidade de estar junto. Conforme o autor, apenas o que se vive junto pode ser compartilhado, assim “comunicar é servir-se daquilo que se tem em comum”. (MAFFESOLI, 1995, p. 82). A comunicação favorece a percepção do coletivo, delineando, dessa maneira, uma nova ordem social, valorizando a interação, banalizando o eu, cedendo lugar ao plural e, desse modo, conhecer uma tal emoção em comum. A noção de comunicação celebra o compartilhar. “A sociedade é formada por um conjunto de relações interativas, feito de afetos, emoções, sensações que cons- tituem, strito sensu o corpo social.” (MAFFESOLI, 1996, p. 73). A comunicação,
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    enquanto interação, acontecequando se pode comungar um afeto. Assim, a correspondência do sentimento, do sensível, não trata do número de vezes ou do número de pessoas, mas sim, da essência, da paixão. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Dessa forma, a comunicação é realimentada pela necessidade de socialização inerente à natureza humana e pode ser demonstrada de várias maneiras. Assim, “as refeições, as festas, as procissões são, sabidamente, um modo de dizer o prazer de estar junto” (MAFFESOLI, 1996, p. 85), são formas de pôr em comum os afetos e celebrar essa comunalização. Portanto, a ordem do singular cede lugar à efervescência da massa, na medida em que metamorfoseia o individual para explodir no outro, vislumbra-se a oposição ao hedonismo. Maffesoli3 apresenta questões inquietantes referentes à nova constituição da socialidade. Para o autor A metamorfose não é o fim, mas a separação, a desagregação para que outra associação possa se formar. Sublinha a crise do individual, mas o reforço do coletivo e outra maneira de estar junto se forma. Assim, a pós-modernidade pode ser lida como a heterogenização, a pluralização do mundo, gerando identificações múltiplas. (2005, p. 32). Não se trata de fazer distinção entre o bem e o mal, mas de vivê-lo na pulsação do hoje, numa ondulação que aceita e celebra ora Dionísio, ora Apolo. “Vive-se uma forma de estar-junto, que não está voltada para o longínquo ou para uma sociedade perfeita, mas que se dedica a organizar o presente.” (MAFFESOLI, 1995, p. 17). A sociedade assume uma postura, essencialmente, presenteísta e, com ela, o peso ou a leveza da velocidade do aqui e agora. Ao compartilhar sentimentos, emoções, afetos pressupõe-se comungar com outras pessoas e, por meio dessa ação, de fazer parte, estar vivendo o mesmo sentimento com os outros, dá-se início e continuidade ao processo de integração e evolução social, sugerido por Maffesoli como entrar em correspondência com os outros, o que se vive junto e não é medido, mas apenas vivido. Dessa forma, a comunicação se dá a partir do experimentar junto, exalta o corresponder, o viver em comum uma experiência prazerosa ou infeliz, pouco 3 Anotações de palestra proferida por Maffesoli: “O retorno das emoções sociais” – UFRGS, 17/10/ 2005, em Metamorfoses da cultura contemporânea.
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    importa, só érelevante o sentido coletivo da ação. Para Maffesoli (1996, p. 83) “há no ar uma afetividade que tende a explodir e contaminar todos os setores da vida social”. A afetividade ultrapassa o conceitual, já que é, essencialmente, Ashton, Mary Sandra Guerra. Comunicação e turismo: possibilidades de conhecimento sensível. Fala-se aqui do que não é quantificável, a paixão, a emoção. Maffesoli faz referência à comunicação tátil, que tem por objetivo, simplesmente, o contato, o participar junto. Tende a uma uniformização na maneira de vestir, de falar, dos esportes ou apenas freqüentar locais cotidianos, como numa espécie de eco, com grau zero de conteúdo, acentuando, unicamente, a importância do coletivo. Nesse caso, forma-se um novo sujeito, rompendo-se com o princípio de individuação, tirando-se de circulação o egocêntrico, “seja por uma Comunicação verbal, seja por uma Comunicação não-verbal, está em interação com o outro”. (MAFFESOLI, 1995, p. 80). Adicionalmente, a questão estética complementa essa noção de que a comunhão é o fundamento para a geração de movimentos de atrações e de repulsões. Quer sejam elas (as atrações) espontâneas, como as formas teatrais urbanas, quer escondi- das pelos calendários musicais ou esportivos, quer programadas, como os períodos festivos ou de férias [...] não faz a menor diferença. Em cada um desses casos, além das simples causalidades racionais, observa-se um desejo de estar junto. (MAFFESOLI, 1996, p. 73-74). O compartilhar redefiniu a necessidade de comunicação na sociedade. As com- ponentes sociais, que determinam tais desejos, são universais. Elas se verificam em qualquer parte: compartilhar experiências (positivas ou negativas), conquistas, conhecimentos, cultura ou integrar-se a elas livremente entre os infinitos agentes sociais, que neles transitam. Sem isso, se (des)configuram alguns aspectos do cenário típico dos contextos pós-modernos da sociedade contemporânea. Maffesoli (2001, p. 113) considera que “a Comunicação, ao mesmo tempo, verbal e não-verbal, constitui uma vasta rede, que liga os indivíduos entre si”. Nesse sentido, deve-se acrescentar que não apenas a verbalização tem estatuto de laço social, mas as situações silenciosas devem ser incluídas como ativos da comunicação, atendo-se a uma perspectiva orgânica de grupo, seja na linguagem corporal, seja nos ruídos das músicas. Assim, a profusão de imagens pode provocar a cultura dos sentimentos por meio dos elementos que fazem parte dos atrativos turísticos. Podem ser elementos das cidades, as linhas arquitetônicas, as ruas, o entorno natural, dotado de elementos, como os cheiros, as texturas, os sons.
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    A comunicação podese dar, ainda, através das cores, uma vez que “constituem ! estímulos para a sensibilidade humana, influindo no indivíduo, para gostar ou não de algo, para negar ou afirmar, para se abster ou agir”. (FARINA, 2000, Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 p. 112). A reação das pessoas em relação à cor é particular e subjetiva, estando ligada a vários fatores que fazem parte da vida de cada um. “As cores são uma realidade sensorial [...], atuam sobre a emotividade humana, produzem uma sensação de movimento, uma dinâmica envolvente.” (FARINA, 2000, p. 101). Assim, assumem um papel relevante na condução das imagens, associadas à experiência, vivida pelo agente do processo comunicacional. Elas são elementos complementares à forma, dão consistência à mensagem compartilhada e facilitam a continuidade da correspondência por se constituírem em elemento comum aos que interagem em seu processo, tanto no plano físico quanto no imaginário. (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1997). É no conceito do compartilhar que se encontra a função expressa na origem etimológica da comunicação: tornar comum a todos – fazer algo comum, conhecimento compartilhado. Está na origem dos sistemas sociais a organização urbana, através da qual se otimiza o processo comunicacional. Para o qual “comunicar-se é servir-se daquilo que se tem em comum”. O contexto é essencialmente pluricausalista, polissêmico, plural, ele favorece a percepção das coisas em massa e permite, portanto, compreender as massas e também os diversos movimentos que as animam. (MAFFESOLI, 1995, p. 82). O compartilhar das experiências, enquanto vividas, constitui-se em elemento que merece atenção em relação ao Turismo. Na medida em que as pessoas sentem-se motivadas a “estar-junto”, forma-se a cadeia motora dos deslocamentos humanos (buscar algo em outro lugar e no outro). O comungar do vivido, no instante em que é vivido, é que desperta a curiosidade e o desejo de experimentar junto e, ao mesmo tempo, que/com os outros, resultando em atratividade turística. A comunhão constitui-se no elemento principal da atratividade turística, uma vez que as pessoas, simplesmente, vivem, surge a necessidade da interação. O Turismo permite essa comunhão, na medida em que os sujeitos compartilham as suas vivências, estão juntos, comungando em torno de um mesmo objeto, fazendo parte, experimentando uma tal emoção em comum. Desse modo, possibilita-se a formação da cadeia motora de atração de públicos aos locais turísticos.
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    TURISMO: (re)definindo novos padrões de convívio social Ashton, Mary Sandra Guerra. Comunicação e turismo: possibilidades de conhecimento O Turismo é um fenômeno social que dá conta de inúmeras atividades e que mantém relevantes interações com o meio. Por conta disso, sua prática se apresenta como um brinde ao estar junto, ao mesmo tempo em que pode explicar as transformações observadas nos novos valores comportamentais descritos na atualidade e observados na atividade turística. Assim, a noção de Turismo é complexa e abrangente. O Turismo é um fenômeno social que consiste no deslocamento voluntário e temporal de indivíduos ou grupos de pessoas que, fundamentalmente por motivos de recreação, descanso, cultura ou saúde, se trasladam de seu lugar de residência habitual a outro, no qual não exerçam nenhuma atividade lucrativa nem remunerada, gerando múltiplas relações de importância social, econômica e cultural (DE LA TORRE, 1997, p. 16). Apreende-se que essa manifestação do comportamento humano são movi- mentações, ou seja, indivíduos que se trasladam de um local para outro e que promovem intensas relações sociais. Essa tensão, provocada pelo movimento de indivíduos, pode ter reflexo em todos os níveis formadores da sociedade, sejam eles econômicos e sociais, sejam culturais e ambientais. As transformações provocadas pelo fenômeno turístico se estendem por inúmeras áreas das atividades que mantêm relações diretas ou indiretas com o Turismo, razão pela qual torna-se relevante compreender os vetores que lhe são característicos, bem como as interações que acontecem nos seus campos de abrangência. Para De La Torre (1997, p. 101) “posto que o Turismo é um fenômeno eminentemente social, por derivar de deslocamentos humanos, teve, desde o seu início, uma estreita interdependência nas relações de interação com outros fenômenos sociais”. Portanto, o Turismo pode ser identificado a partir das repercussões sociais que se estabelecem através da diversidade de ações, entre elas, as advindas do aumento de mobilidade social. Conforme De La Torre (1997, p. 101), o Turismo, “na atualidade, transforma os moldes tradicionais de conduta tanto dos homens como das coletividades”. A mobilidade social, até então motivada por causas políticas e econômicas, passa a encontrar razões de outra ordem, como a espiritual, a emotiva e a intelectual.
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    Cria-se, assim, umanova demanda por lazer na atualidade, reforçada pelas # oportunidades que se abrem com os avanços tecnológicos mais recentes. Esse incremento vigoroso dos deslocamentos, por razões não econômicas, associadas Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 ao Turismo, leva a novos padrões e formatos nas regras estabelecidas para o convívio social. Nesse cenário de intensa mobilidade, entram em cena os atrativos turísticos, que figuram como elementos responsáveis pela motivação do deslocamento das pessoas, da sua residência para outra localidade, em busca de coisas, para ver e fazer. Portanto, são os responsáveis por atrair visitantes para determinados locais, com o objetivo de transformar a experiência de visitação a um lugar em uma experiência singular, prazerosa e de significado diferenciado. (FERRI; RUSCHMANN, 2000). Desde épocas mais remotas, a curiosidade em conhecer outros locais move milhares de pessoas. Esse movimento vem crescendo de forma acelerada – o Turismo movimentou 842 milhões de turistas no mundo durante o ano de 2006, um crescimento de 4,5% em relação aos 808 milhões de 2005 (OMT – O GLOBO, 20/01/07)4 – gerando a criação de uma indústria de atrativos, que vem agindo como motor dos deslocamentos. Essa busca incessante por ver e fazer, enfim, por interatividade, formata os atrativos na atualidade. A oferta se direciona a atender ao olhar dos viajantes. Assim, tanto os atrativos turísticos naturais como os atrativos culturais, bem como o estudo das demandas, tornam-se relevantes para análises referentes ao Turismo e à sua relação com a comunicação. Nesse sentido, deve-se dar atenção às formas de representação simbólica, que cada atrativo turístico terá no inconsciente das pessoas, ao procederem à escolha de seus destinos. A comunicação, por sua vez, pode contribuir para (re)definir os novos valores comportamentais observados na atividade turística. Os traços presenteístas que permeiam as noções de Turismo e de comunicação são reforçados na medida em que o estar junto exige uma ação presente: aqui e agora. 4 OMT – Organização Mundial do Turismo. Em entrevista, o secretário-geral da OMT Francesco Frangialli disse que é “uma fase histórica de crescimento contínuo ao longo dos três últimos anos, já que o número de turistas aumentou em 150 milhões, e estão ocorrendo crescimentos muito importantes em várias regiões”. Dados disponíveis em O Globo, 20/01/07.
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    O compartilhar dasexperiências observado no Turismo é formador da socialidade e, $ portanto, motor dos deslocamentos humanos em busca do outro (lugar). A ação é voltada para o presente, para o instante em que é vivido, exaltando unicamente o Ashton, Mary Sandra Guerra. Comunicação e turismo: possibilidades de conhecimento que é vivido em comum, compartilhado. O comungar da experiência se transforma no fator da atratividade turística, bem como estabelece uma relação de simbiose entre as noções de Turismo e de comunicação. Portanto, mostram-se complementares, redefinindo novos padrões comportamentais para o convívio social. Comunicação: o mundo das idéias Para além da epistemologia da comunicação, Maffesoli apresenta novas formas de compreender aquilo que é do senso comum. Mesmo os elementos (trans)for- madores da socialidade, considerados muitas vezes banais, são objeto de estudo da Sociologia Compreensiva proposta por Maffesoli. Abrangente na sua totalidade, a Sociologia Compreensiva, também chamada Sociologia do Lado de Dentro, ocupa-se em explicar os pormenores da vida de todos os dias por meio de cinco pressupostos enunciados por Maffesoli (1985). Possui, como uma de suas características, a universalidade e a subjetividade nas questões do cotidiano, do mundo das idéias; elementos essenciais na des- crição conceitual, que envolvem a reflexão deste estudo. O objeto da Sociologia Compreensiva é o estudo abrangente dos processos de evolução das sociedades, contemplando o cotidiano e a subjetividade, através da análise integrada dos momentos e dos movimentos sociais. “O essencial se encontra na invariabilidade do homem em sociedade, no retorno do idêntico, nas grandes constantes da condição humana.” (MAFFESOLI, 1985, p. 10). Considerações finais Esse artigo se ocupou em compreender e explicar os novos valores comporta- mentais, descritos no Turismo e sustentados pelo compartilhar, como um dos determinantes do movimento social observado na atualidade. Por meio desse exercício, houve a possibilidade de dar uma nova compreensão ao fenômeno social, representado pelo Turismo, a partir da análise de um de seus elementos mais contemporâneos, como é o caso da comunicação.
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    A comunicação caracterizou-se,em sentido verbal e não verbal, na medida em % que se verificou o compartilhar dos sentimentos, das paixões, dando início ao processo de interação, com base na comunhão de afetos, para o bem ou para o Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 mal, valorizando o mundo dos signos. Através da realimentação constante da comunicação, por intermédio dos símbolos, é delineada uma nova maneira de comunhão, na qual o destaque ao coletivo entra em sinergia com o que é vivido enfatizando o presente. No Turismo se verificou a presença desses valores constitutivos da sociedade, como ingredientes importantes para ligar pessoas e como fundamento natural da socialidade. A prevalência das práticas comuns e tradicionais promove identificação desses elementos no âmbito sociológico, naquilo que orienta a ordenação dos fenômenos sociais, como é o caso do Turismo, que conduz à produção de sentido. Por outro lado, o estudo mostrou que o Turismo desempenha um papel relevante na sociedade, uma vez que realimenta o processo de comunicação, enquanto contribui para reforçar a sua identidade. O Turismo e a comunicação se apresentam, dessa maneira, complementares. Assim, a leitura do Turismo e sua relação com a comunicação pode ser uma contribuição para o estudo dos comportamentos sociais, inscritos nas idéias de Maffesoli e da Sociologia Compreensiva na busca pela investigação, a partir do cotidiano, para traçar o perfil das representações da sociedade. Desse modo, foi possível promover o diálogo entre a noção de Turismo e de comunicação, respeitando as características do método, as particularidades dos teóricos, Maffesoli e De La Torre, e estabelecer os níveis de convergência entre ambos. Logo, descartou a perspectiva positivista, já que teve como objetivo a observação e o acompanhamento do processo que relaciona a vida à represen- tação como uma possibilidade de conhecimento. Referências CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1997. DE LA TORRE, Óscar. El Turismo: fenómeno social. México: Fondo de Cultura Económica, 1997.
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    FARINA, Modesto. Psicodinâmicadas cores em comunicação. São Paulo: E. Blücher, 2000. FERRI, Cássia; RUSCHMANN, Dóris. Turismo: visão e ação. Revista Científica do Mestrado Ashton, Mary Sandra Guerra. Comunicação e turismo: possibilidades de conhecimento em Turismo e Hotelaria, Itajaí: Univali, ano 2, n. 4, p. 9-17, fev. 2000. MAFFESOLI, Michel. O conhecimento comum. São Paulo: Brasiliense, 1985. _____ . A contemplação do mundo. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1995. _____ . No fundo das aparências. Petrópolis: Vozes, 1996. _____ . Sobre o nomadismo, vagabundagens pós-modernas. Rio de Janeiro: Record, 2001. _____ . O retorno das emoções sociais. Anotações da Palestra proferida por Maffe- soli – Salão de Atos da UFRGS – “Metamorfoses da cultura contemporânea”, 17/10/ 2005.
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    ' Tecnototemismo: identidades múltiplas Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 e nova subjetividade Lauren Ferreira Colvara1 RESUMO A formação da subjetividade, com um recorte específico para a reconstrução da identidade atravessada pelas tecnologias de comunicação, será o foco deste artigo. Ao procurar a “evitação de desprazer” ou produção de prazer, o indivíduo produz contextos e conexões para que assim haja um sentimento de pertencimento, de conexão a um sentido de identidade individual e grupal. A articulação entre essa identidade, a cultura e os meios de comunicação é uma relação construída e eliciada pela procura de uma zona de conforto e/ou fuga do sofrimento. Teoriza-se, assim, sobre a formação de novos tabus e totens sob a regência das tecnologias de comunicação, ao que há de se chamar: tecnototemismo. O tecnototemismo seria o rompimento com o passado e suas leis, seria o estabelecimento de uma cultura do prazer e da satisfação, de um hedonismo crônico para a obtenção da transcendência do ser. Esse processo é promovido pelas tecnologias de comunicação. As regras e o mundo passam a ser determinados pela máquina. As verdades são produzidas por essa, mesmo que operada pelo homem. Há a crença de que com o saber são possíveis transformações, desenvolvimento, crescimento e, sobretudo, o controle do mundo à sua volta. Produz-se a angústia da perda do poder que é deslocada para o ritual do rompimento de barreiras, da transcendência do ser, da imaterialidade, da virtualização. Caberia pensar no parcelamento da subjetividade em identidades múltiplas e fugazes, uma completa abstração do social e um reforço no uso de aparatos tecnológicos que esse indivíduo experimenta ao trocar de identidade, novas peles, novas texturas de fantasia e, principalmente, na realização de suas fantasias num contexto virtual, e não, objetivo, o faz mergulhar em si próprio. Palavras-chave Comunicação. Identidade. Subjetividade. Palavras-chave: ABSTRACT The formation of the subjectivity with a specific clipping for (re) the construction of the identity crossed for the communication technologies will be the focus of this article. When looking for the “avoidance of displeasure” or production of pleasure the individual produces contexts and connec- 1 Psicóloga pela Faculdade de Ciências e Letras de Assis (Unesp). Mestre em Comunicação Midiática pela Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Unesp/Bauru). Pesquisadora no Grupo Mídia e Sociedade (CNPq). E-mail: laucolvara@yahoo.com.br
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    tions so thatthus it has a belonging feeling, of connection to a direction of individual and group identity. Therefore, the joint between this identity, the culture and the medias are a constructed relation provoked for the search of a zone of comfort or escape of the suffering. It articulates, thus, on the formation of new taboos and totens under the regency of the communication technologies, Colvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade which have to call: tecnotemism. The tecnototemism would be the disruption with the past and its laws, would be the establishment of a culture of the pleasure and the satisfaction, of a chronic hedonism for the attainment of the to exceed a of the being. This process is promoted by the communication technologies. Therefore, if the culture if characterizes for definitive limits, and the phenomenon after-humanist considers the disruption of the norms as revolutionary action, has an inversion of values, where the machine dominates the man in a tecnototenic relation. The rules and the world start to be definitive for the machine. The truths are produced by these, exactly that operated for the man. The belief that with knowing is possible transformations, development, growth and, over all the control of the world its return. They produce the anguish of the loss of the power that is dislocated for the ritual of the disruption of barriers, of the to exceed of the being, of the immateriality, of the virtualization. It would be fit to think about the parcelamento of the subjectivity in multiple identities and fugitive, a complete abstraction of the social one, and a reinforcement of the use of technological apparatuses where this individual tries when changing of identity, new skins, new textures of fancies, and mainly to carry through its fancies in a virtual context and not objective, it makes it to dive in proper itself. Key words Communication. Identity. Subjectivity. words: a teoria psicanalítica, supõe-se que o indivíduo, para sua formação, tenda a explorar o mundo a sua volta, tentando resolver as interrogações que N nele habitam elaborando respostas com a menor tensão desagradável possível. Ao procurar esta “evitação de desprazer” (FREUD, 1920, p. 17), ou produção de prazer, o indivíduo produz contextos e conexões socioistóricas para que assim haja um sentimento de pertencimento, de contingência ligada a um sentido de identidade individual e grupal. Portanto, a articulação entre essa identidade, a cultura e os meios de comunicação é socialmente construída, no sentido da procura de uma zona de conforto ou de fuga do sofrimento, no entanto, o sentido é variável conforme a situação e é atribuído pelo indivíduo em sua existência. A formação da subjetividade, com um recorte específico para a formação da identidade atravessada pelas tecnologias de comunicação, será o foco deste artigo. Teoriza-se sobre a formação de novos tabus e totens sob a regência das tecnologias de comunicação, ao que há de se chamar: tecnototemismo. Dessa forma, problematiza-se a questão da formação de uma nova subjetividade
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    atravessada por essastecnologias, que, nos campos da filosofia e da comuni- cação, são identificadas como um movimento “pós-humanista”.2 Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 As indagações propostas aqui partem de um paradoxo aparente, em que esses tabus têm origem nas tecnologias que são instrumentos para a realização do prazer, da projeção, conseqüentemente, de uma não-regra. No entanto, percebe- se um movimento de estabelecimento de tabus pós-modernos, em que se forma uma “religião da máquina”, isto é, um tecnototemismo. O sujeito depende não da emissão das informações, mas da forma como elas são elaboradas na constituição de subjetividade. É nesse ponto da produção de sentido e de identidade que se insere a problemática dos meios de comunicação, pois essas tecnologias de comunicação se tornam instrumentos de articulação da subjetividade, em que identidade e cultura passam por modificações, institucionalizações, onde os discursos são construídos. A revolução tecnológica não alterou apenas os hábitos cotidianos, mas criou uma nova cultura: a tecnocultura. Possibilitou ao homem a ilusão e o poder da superação do seu ser. Estabeleceram-se relações totêmicas, tais quais as de tribos australianas descritas por Freud (1913) em Totem e tabu, em que a ordem totêmica estabelecida vigorava na organização da família. O tabu criado dentro da dinâmica das relações totêmicas vem com a carga da negação, do proibido, das regras a serem obedecidas. O significado de “tabu”, como vemos, diverge em dois sentidos contrários. Para nós signi- fica, por um lado, “sagrado”, “consagrado”, e, por outro, “misterioso”, “perigoso”, “impuro”. O inverso de tabu em polinésio é noa, que significa comum ou “geralmente acessível”. As- sim, o tabu traz em si um sentido de algo inabordável, sendo principalmente expresso em proibições e restrições. Nossa acepção de “temor sagrado” muitas vezes pode coincidir em significado com “tabu”. As restrições do tabu são distintas das proibições religiosas ou mo- rais. Não se baseiam em nenhuma ordem divina, mas pode-se dizer que se impõem por conta própria. Diferem das proibições morais por não se enquadrarem em nenhum sistema 2 O pós-humanismo atesta a transcendência das fronteiras que se iniciam da espécie, do gênero e até mesmo de seu reino, já que, de certo modo, podem resultar da combinação do concreto e do imaginado. Tudo isso repousa na idéia da superação dos limites impostos pelo estado natural. Como enuncia a já célebre frase cunhada por Donna Haraway em seu Manifesto Ciborgue, aqui lidamos com “o prazer da confusão de fronteiras” (2000). Para Haraway, Ciborgue é criatura tanto do nosso imaginário como da nossa realidade cotidiana, que simboliza o rompimento, já em curso, das fronteiras tradicionalmente estabelecidas na cultura ocidental, como as de gênero (homem/mulher) ou de natureza (orgânico/inorgânico).
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    que declare demaneira bem geral que certas abstinências devem ser observadas e apre- sente motivos para essa necessidade. As proibições dos tabus não têm fundamento e são de origem desconhecida. Embora sejam ininteligíveis para nós, para aqueles que por elas Colvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade são dominados são aceitas como coisa natural. (FREUD, 1913, p. 38). Entende-se que há o estabelecimento de um totem, criação de um “[...] lugar seguro de refúgio em que a alma podia ser depositada, fugindo assim aos perigos que a ameaçavam”. (FREUD, 1913, p. 143). E esse lugar seguro seria a tecnologia, por isso o tecnototemismo. O gozo e a fantasia têm prioridade em relação à moral e à ética nesse novo espaço, pois o indivíduo consegue escapar da realidade objetiva se projetando nessa virtualidade de desejos. Ao totem são atribuídas características de salvação das frustrações do cotidiano e de materialidade dos desejos, que, na atualidade, são atribuídos às tecnologias de comunicação, a exemplo da TV com a materialidade das imagens, e da internet com a possibilidade de transcendência corporal por meio da imersão na virtualidade. Quais são os graus de valores que devem ser atribuídos à tecnologia na formação subjetiva da criança? Quais seriam as relações desse tecnototemismo nessa subjetividade? E como isso se refletirá na idade adulta? Como fica esse indivíduo em conflito com uma realidade virtual em que não há castração ou frustração e um cotidiano cheio de obstáculos para a realização de seus desejos? A virtualidade ganha um peso maior do que aquele que provém do mundo objetivo; há um fracionamento desse ser pós-moderno, um esvaziamento de seus desejos, pois consegue realizá-los nesse supermercado de desejos. O tecnototemismo é o rompimento com o passado e suas leis, é o estabelecimento de uma cultura do prazer e da satisfação de um hedonismo crônico. É a consolidação de uma cultura narcísica regida pela tecnologia: o grande oráculo, já que os meios de comunicação são capazes de responder às angústias do ser e dela (comunicação). A finitude do ser e a dor relacionadas à repressão dos desejos são solucionadas com o apertar de um botão. Se houver angústia é só mudar de canal, mudar de chat, inventar uma nova identidade na internet. As desgraças e os infortúnios expostos por esses meios de comunicação acontecem com os outros, e o sentimento de compensação é recorrente com a referência da desgraça alheia. É dada à máquina essa capacidade de governabilidade da identidade, das emoções, da abricolage de desejos.
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    A idéia desociedade é quase apagada, e o universo social emerge como um ! agregado fragmentário de indivíduos num vazio sem restrições históricas e materiais. O projeto individualista teorizado por Velho (1994) é a manifestação Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 de um projeto de sociedade moderno que toma forma. Na sociedade tradicional, temos a história e a memória do grupo em primeiro plano, os mitos e as narrativas reforçam o sentimento de pertencimento dos indivíduos àquela unidade. Em contraste, na sociedade moderna, a ideologia individualista é predominante, assim como há exposição a múltiplas experiências, contradições e segmentações. O indivíduo se torna avesso à idéia de uma organização so- cial, que implicaria uma limitação da realização dos desejos, das possibilidades máximas de cada um. Entende-se que o “projeto” é a nova subjetividade imbricada diretamente com a idéia de indivíduo, que é o reforço ideológico do individualista. O indivíduo torna- se o protagonista da sociedade moderna, em que a centralidade está na instauração do significado, força constitutiva de modelos, paradigmas e con- figurações culturais – elemento básico de negociação da realidade. Nessa ne- gociação simbólica, o que importa não é a informação em si, mas a sua elaboração, o significado atribuído. O projeto é dinâmico e é permanentemente reelaborado, reorganizando a memória do ator, dando novos sentidos e significados, provocando com isso repercussões na sua identidade. Assim a biografia, valorizada ao extremo em um mundo individualista, está sujeita a periódicas revisões e reinterpretações. (VELHO, 1994, p. 104). Estamos diante da manifestação de uma cultura tomada pelo excesso para suprir o vazio do ser na pós-modernidade, numa realidade em que os ideais estão difusos, e o individualismo parece ser a única causa possível para a proteção de um ego fragilizado. Se a cultura se caracteriza por determinados limiares, e o fenômeno pós-humanista propõe o rompimento das normas como ação revolucionária, tem-se uma inversão de valores, em que a máquina domina o homem, uma relação tecnototêmica. As regras e o mundo passam a ser determinados pela máquina. As verdades são produzidas por ela, mesmo que operada pelo homem. O desejo pela verdade, pela informação para dominar, o poder e o saber são coisas há muito ansiadas pelo homem, com a crença de que com o saber são possíveis transformações, desenvolvimento, crescimento e, sobretudo, o controle do mundo a sua volta. Então, a angústia da perda do poder é deslocada para o ritual do rompimento de barreiras, da transcendência do ser, da imaterialidade, da virtualização.
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    É a filosofiado pós-humanismo como uma reelaboração contemporânea de um tema que já aparecia, ao menos embrionariamente, em filmes futuristas. Todo o discurso pós-humanista pode ser articulado em duas alternativas básicas: a Colvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade extensão das capacidades do corpo ou a simples e pura ultrapassagem das limitações corporais (nas fantasias de digitalização da consciência). O que se percebe é a exaltação do individualismo e das medidas anti-sociais, em que a célebre frase de Sartre: “O inferno são os outros” faz todo sentido. Não há necessidade desse outro, da possível frustração, é o triunfo da vontade, do desejo individual. O desejo de rompimento dos limites e a transposição das fronteiras impostas pela realidade é o que se tem chamado pós-humanismo, que tem como um dos traços identificadores básicos o desejo de rompimento dos limites, de atravessamento das fronteiras. O limite já não é mais o corpo; o pensamento ganha materialidade conjuntamente com a fantasia. O prazer da ruptura, provindo de um desdobramento virtual do ser, do poder, é incentivado a todo instante pela sedução das tecnologias de comunicação, pela mídia e por suas correntes de pensamento: cibercultura, que teoriza não mais o homem e a máquina, mas um Ciborgue – a conjunção do homem com a máquina, inventando uma tecnocultura apoiada nesse pós-humanismo. Freud, no início de Além do princípio do prazer (1920), assinala com certa ironia teorias como as citadas acima que conseguiriam falar sobre o prazer e o desprazer de forma “sistemática”: Prontamente expressaríamos nossa gratidão a qualquer teoria filosófica ou psicológica que pudesse nos informar sobre o significado dos sentimentos de prazer e desprazer que atuam tão imperativamente sobre nós. Contudo, quanto a esse ponto, infelizmente nada nos é oferecido para nossos fins. Trata-se da região mais obscura e inacessível da mente e, já que não podemos evitar travar contato com ela, a hipótese menos rígida será a melhor, segundo me parece. Decidimos relacionar o prazer e o desprazer à quan- tidade de excitação presente na mente, mas que não se encontra de maneira alguma “vinculada”, e relacioná-los de tal modo que o desprazer corresponda a um aumento na quantidade de excitação, e o prazer a uma diminuição. O que isso implica não é uma simples relação entre a intensidade dos sentimentos de prazer e desprazer e as modi- ficações correspondentes na quantidade de excitação; tampouco – em vista de tudo que nos foi ensinado pela psicofisiologia – sugerimos a existência de qualquer razão proporcional direta: o fator que determina o sentimento e provavelmente a quantidade de aumento ou diminuição na quantidade de excitação num determinado período de tempo. (FREUD, 1920, p. 17-18).
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    Segundo Freud (1920),essa possível dominância do princípio do prazer na vida # mental viria da expressão do aparelho numa tentativa de constância. Portanto, essa proposta de uma consciência livre de amarras do corpo, principalmente do Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 espaço e do contexto, em que os indivíduos se constroem, se reconstrói continuamente alterando a noção de identidade e subjetividade, não seria uma grande falácia? Ou um desencontro de discurso na emergência dessa nova subjetividade tecnototemizada? Projetar características extraordinárias e receber fantasias prontas. O ser humano não é mais instigado a criar os seus desejos, eles já estão prontos e pulam para dentro da sua sala pela TV. Mas são convidados a participar de uma gama infinita de sonhos que se materializam aos seus olhos. Vivenciam esses desejos pasteurizados ao se projetarem em um espaço infinito em que se tem todas as possibilidades em um clicar ou digitar de caracteres. A questão é compreender como esse indivíduo era/é tecido pelas tramas desse contexto tecnológico, em que é ao mesmo tempo ativo e criativo nesse processo. Trata-se de entender como essa subjetividade se forma, como há de configurar essa identidade, atravessada pelos meios de comunicação. Assim, ao se observar a relação do sujeito com os meios de comunicação, tem-se a oportunidade de lidar com uma esfera “existencialista” e tensionar os campos empírico e teórico com a investigação da identificação de operações de práticas discursivas e cotidianas específicas. A identidade tecnototêmica Hall (2000) indica que para pensar no sujeito moderno e na sua identidade, é preciso pensar no que aconteceu à concepção de sujeito, que sofreu uma série de rupturas, das quais ele indica cinco pensadores e suas teorias que contribuíram diretamente para avanços na teoria social e nas ciências humanas. São eles: 1º) Karl Marx e seu anti-humanismo teórico; 2º) Sigmund Freud e a descoberta do inconsciente; 3º) Ferdinand Saussure e a afirmação que a língua é um sistema social; 4º) Michel Foucault e a genealogia do sujeito moderno; e por último, 5º) o feminismo tanto como crítica teórica quanto como movimento social. Desses cinco indicativos, a opção foi se centrar no aprofundamento do diálogo entre Foucault e Freud, pois cada um traz à cena perspectivas para se pensar na questão do poder, uma vez que, ao lidar com a criança e seu desenvolvimento psicossocial, utiliza-se Freud. E a justificativa para Foucault é seu pensamento ser originário da psicanálise e seus questionamentos sobre o poder e a interpretação.
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    Caberia pensar seesse parcelamento da subjetividade em identidades múltiplas $ e fugazes, em uma cultura apoiada em um tecnototemismo, não levaria o sujeito a um niilismo pós-moderno em sua idade adulta: uma completa abstração do Colvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade social, pois, se durante o seu desenvolvimento foi exercida uma ação contraditória, de afastamento do convívio objetivo do social e um reforço do uso de aparatos, esse indivíduo experimenta, ao trocar de identidade, novas peles e, principalmente, realizar suas fantasias num contexto virtual e não objetivo. Essas novas texturas de fantasia, que o fazem mergulhar em si próprio numa atitude beirando a psicose por alguns instantes, provavelmente, se refletirão quando chegar à idade adulta. Uma das implicações desse recorte é o lugar da formação da identidade. Segundo Canclini (1999), existe o movimento de “dissolução das monoidentidades”, pois a metrópole cria padrões de uniformidade, remodela hábitos locais e os subordina a estilos “modernos”, é a homogeneização do consumo e da sociabilidade, propiciada pelo formato comum com que esses serviços se organizam no trabalhar, vestir e distrair. O pensamento de Hall (2000) sobre as identidades acrescenta ao debate, pois, dentro de uma teoria social, o autor postula que há o surgimento de novas identidades que fragmentam o indivíduo moderno. Essa seria uma crise de identidades por tendências demasiadamente recentes e ambíguas, na qual esse fenômeno social não oferece afirmações conclusivas ou julgamentos seguros. O que converge com as inferências feitas por Canclini (1999), vai além, pois Hall (2003) faz a indicação de três identidades: sujeito do iluminismo; sujeito sociológico; e sujeito pós-moderno. Aqui, interessa o sujeito pós-moderno, que é o sujeito que assume identidades diferentes em momentos diferentes, identidades que não são configuradas ao redor de um “eu” coerente. A identidade unificada é uma fantasia, e as significações e representações culturais se multiplicam. Assim, confronta-se multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis. Portanto, a identidade cultural moderna para Hall (2003) é formada por meio do pertencimento a uma cultura “nacional” e que tem sido amplamente des- locada pelo processo de mudança que é a globalização; dessa forma, as de- finições de identidade ficam contestadas no cotidiano. E Canclini (1999) endossa a questão quando define a globalização como a passagem das identidades modernas ao “incômodo” de pós-modernas e incita o questionamento ao indagar como os indivíduos representam para si mesmos os atos com os quais se reconhecem como se reconhecem como sujeitos, isto é, suas estruturas e suas experiências subjetivas.
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    Ambos os autoresfazem referência a Foucault e a seus conceitos de genealogia % do sujeito moderno, poder disciplinar, tecnologias do eu, entre outros. Esses auxiliariam a compreender e a contextualizar o sujeito moderno. Foucault descreve Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 o poder disciplinar como tendência das modernas formas de controle social (1987) para articular, em obra posterior (2006), o poder disciplinar como força monolítica plenamente instalada, o que leva à correlação entre os campos do saber, os tipos de normatividade e as formas de subjetividade; isso é o que o leva a analisar o sujeito, as relações estabelecidas com o “eu” (indivíduo) e como esse se reconhece como sujeito, chave da problemática da identidade colocada por Hall e Canclini. Um deslocamento teórico pareceu-me necessário para analisar o que freqüentemente era designado como progresso dos conhecimentos: ele me levara a interrogar-me sobre as formas práticas discursivas que articulavam o saber. E foi preciso também um deslo- camento teórico para analisar o que freqüentemente se descreve como manifestações do “poder”: ele me levara a interrogar-me sobretudo sobre as relações múltiplas, as estratégias abertas e as técnicas racionais que articulam o exercício dos poderes. Parecia agora que seria preciso empreender um terceiro deslocamento a fim de analisar o que é designado como “o sujeito”; convinha pesquisar quais são as formas e as modalidades da relação consigo através das quais o indivíduo se constitui e se reconhece como sujeito. [...] Deve-se entender, com isso, práticas refletidas e voluntárias através das quais os homens não somente se fixam regras de conduta, como também procuram se transformar, modificar-se em seu ser singular e fazer de sua vida uma obra que seja portadora de certos valores estéticos e responda a certos valores estéticos e responda a certos critérios de estilo. Essas “artes de existência”, essas “técnicas de si”, perderam, sem dúvida, uma certa parte de sua importância e de sua autonomia. (FOUCAULT, 2006, p. 11-15). As tecnologias do “eu” e as estéticas da existência são as estilizações deliberadas da vida cotidiana; são as tecnologias envolvidas que aparecem mais sob a forma de práticas de auto-produção, de modos específicos de conduta, constituindo o reconhecimento do indivíduo enquanto sujeito inserido em uma sociedade. Seriam essas as técnicas que envolvem uma aplicação do poder e do saber que “individualiza” ainda mais o sujeito, pois, quanto mais coletiva e organizada for a natureza da instituição em que o sujeito está inserido, maiores serão o isolamento, a vigilância e a individuação do sujeito. (FOUCAULT, 1987). A questão que fica é se nós também precisamos, por assim dizer, diminuir o fosso entre os dois domínios, isto é, se precisamos de uma teoria que descreva quais são os meca- nismos pelos quais os indivíduos considerados como sujeitos se identificam (ou não se identificam) com as “posições” para as quais são convocados; que descreva de que forma eles moldam, estilizam, produzem e “exercem” essas posições; que explique por que eles não o fazem completamente, de uma só vez e por todo o tempo, e por que alguns nunca o
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    fazem, ou estãoem um processo constante, agonístico, de luta com as regras normativas ou regulativas com as quais se confrontam e pelas quais regulam a si mesmos – fazendo- lhes resistências, negociando-as ou acomodando-as. [...] O que ele [Foucault] produz é Colvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade uma fenomenologia discursiva (voltando, assim, talvez, a fontes e influências iniciais, cuja influência sobre seu trabalho ele próprio, de alguma forma subestimou) e uma ge- nealogia das tecnologias do eu. (HALL, 2000, p. 126-127). Hall (2000) e Canclini (1999) teorizam sobre a desterritorialização do nacional e como ela afeta a formação da identidade social, que é formada e transformada no interior das representações. Entendendo o social como um sistema de representações culturais, isto é, simbolicamente no indivíduo, isso explicaria o seu poder de gerar o sentimento de identidade e lealdade. A formação de uma cultura nacional contribui para criar padrões de alfabetização ver- nacular como o meio dominante de comunicação criou uma cultura homogênea e manteve instituições culturais, nacionais, como, por exemplo, um sistema educacional. Dessa e de outras formas, a cultura nacional se transformou em característica-chave de industrialização e um dispositivo da modernidade. (HALL, 2000, p. 49-50). A prática discursiva postulada por Foucault (2005) seria a construção dos sentidos que influenciariam e organizariam tanto as ações quanto as concepções do indivíduo em relação a ser sujeito. É a reconceptualização de sujeito; pensá-lo em sua nova posição numa tentativa de rearticular a relação entre sujeitos e práticas discursivas é a questão da identificação como campo semântico, a busca da compreensão por meio dos repertórios discursivo e psicanalítico sem se restringir a nenhum deles. (HALL, 2000, p. 105). Tudo isso são indicações de um novo significado porque o termo identificação torna-se estratégico e posicional, segundo Hall (2000): O conceito de identidade aqui desenvolvido não é, portanto, um conceito essencialista, mas um conceito estratégico e posicional. Isto é, de forma diretamente contrária àquilo que parece ser sua carreira semântica oficial, esta concepção de identidade não assi- nala aquele núcleo estável do eu que passa, do início ao fim, sem qualquer mudança, por todas as vicissitudes da história. Esta concepção não tem como referenciais aquele segmento do eu que permanece, sempre e já, tampouco se refere, se pensamos agora na questão da identidade cultural, àquele “eu coletivo” ou verdadeiro que se esconde dentro de muitos outros eus – mais superficiais ou mais artificiais impostos – que um povo, com uma história e uma ancestralidade partilhadas, mantém em comum. Ou se- ja, um eu coletivo capaz de estabilizar, fixar ou garantir o pertencimento cultural ou uma “unidade” imutável que se sobrepõe a todas as outras diferenças – supostamente superficiais. Essa concepção aceita que as identidades não são nunca unificadas; que elas são, na modernidade tardia, cada vez mais fragmentadas e fraturadas; que elas
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    ' não são nunca, singulares, mas multiplamente construídas ao longo de discursos, prá- ticas e posições que podem se cruzar ou ser antagônicas. As identidades estão sujeitas a uma historização radical, estando constantemente em processo de mudança e trans- Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 formação. (HALL, 2000, p. 108). Entender como as identidades se reconstroem, problema proposto por Canclini (1999) e Hall (2000) para investigação, é olhar para como se apropriam de elementos de várias sociedades combinando-os e transformando-os em processo de hibridização intercultural. Que tipo de TV poderia narrar a heterogeneidade e a coexistência de vários códigos em um mesmo grupo e até mesmo em um indivíduo? Levar em conta os diversos repertórios e mediações na reelaboração da identidade? Levar em conta os diversos modos que recompõem os desiguais circuitos de produção, comunicação e apropriação da cultura? Janelas que se abrem para uma nova reflexão Questiona-se a construção da identidade dentro de uma estrutura de poder e exclusão, isto é, o ponto de encontro entre discurso e prática. Nessa pesquisa, esse processo é visto como a recepção e a mediação, a descrição desses pontos e a junção deles com o sujeito e suas estruturas de significação. Portanto, a observação desse conjunto de práticas e rituais simbólicos indicaria como a prática discursiva incide sobre certos valores e normas de comportamento. Todo esse processo é observável pelo que acontece na ritualidade de ver TV com as crianças. Ao tomar a Fase Fálica, como ponto de partida, que se dá na faixa etária dos 4 aos 6 anos,3 encontramos características muito significativas. A criança tende a estar autocentrada, isto é, em um movimento egocêntrico, vê as coisas sob sua própria perspectiva e não imagina que haja outro ponto de vista. Mesmo quando esse se apresenta, a criança lhe dá um significado próprio que combine com o repertório que ela possui, não é por teimosia ou porque não tenha compreendido, mas a sua visão, a sua interpretação, impera. 3 Ao se tratar do universo televisivo,as empresas que medem a audiência, como o Ibope,a Datafolha e a MultiFocus, bem como as emissoras de televisão, consideram que a idade de 4 anos marca o início da “vida do telespectador”. Por isso a delimitação inicia nessa fase, sem perder de vista a importância das fases anteriores a serem estudadas com mais aprofundamento no andamento da pesquisa.
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    Durante a fasedenominada por Freud como Fase Fálica, a criança começa a fazer importantes distinções no mundo a sua volta. Começa a perceber o mundo além do núcleo familiar, inicia o estabelecimento do tabu, isto é, as regras sociais. Colvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade A aventura pelo mundo externo (social) se inicia. Nesse período, tem-se um indivíduo que, bem ou mal, enfrentou várias experiências das fases anteriores em um nível individual, e que agora necessita colocá-las à prova: modelar suas fantasias e estruturar seu Ego, seu Eu-social para viver na coletividade. É a organização da afetividade para que o corpo atinja uma relação consigo mesmo e uma relação com o outro e com o mundo. A criança, nessa fase, primeiramente faz, e durante sua ação, elabora o acontecimento; elabora as regras e os valores. Os mecanismos de identificação e projeção estão em pleno funcionamento, exatamente os dois mecanismos mais explorados e utilizados pela TV na captura da atenção do público. É comum a criança atribuir vida a todos os seres, inclusive a objetos inanimados (animismo), como também o artificialismo, isto é,atribuir origem artesanal humana a todas as coisas. Seu raciocínio ainda é primitivo. Se a criança vê duas coisas acontecerem ao mesmo tempo, supõe que uma coisa é causa da outra. Por isso, a identificação, em conjunto com a formação do Superego, organiza os valores dessa criança, isto é, seus tabus, edificando assim seus totens. A assimilação do mundo que se dá por meio da identificação é a aquisição ou rejeição do que é visto, sentido e percebido no mundo externo. E com o Superego em formação, essa criança coloca à prova os valores introjetados em relação às normas externas. Aquilo que ela sente como justo e valorizado será conquistado pela sua consciência moral, isto é, irá ser incorporado ao tabu, às suas normas sociais. Todo esse processo descrito é organizado em nível de fantasia e mensagens transmitidas, tornando difícil separar o peso dos fatores da realidade e os da fanta- sia. Esse é o guia por toda a teoria freudiana de como se constituem os afetos dos indivíduos e como esses entram em relação com a externalidade (social). Será que suas percepções do mundo externo são corretas? Haverá interferência nesse processo por parte das tecnologias de comunicação? E como isso se processa? É impossível prever o número de fatores que possam interferir no processo, como também o que a criança carrega das fases anteriores de seu desenvolvimento.
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    O problema nãoestá na fantasia, mas na volta à realidade, na opressão do cotidiano assolado por questões materiais. O totem tecnológico ganha força exa- tamente nesse ponto porque promove esse descolamento, essa experiência Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 intensa, seja vivendo a vida do outro fictício, como na novela, um alguém qualquer como ele, no caso do Big Brother, seja o seu próprio alterego, em sessões de bate-papo pela internet. A convergência entre essas diferentes esferas (a subjetiva e a objetiva) aponta à presença não apenas de um imaginário totemizado pelos meios de comunicação, mas de uma necessidade maior, talvez por conta da globalização, de uma trans- cendência corporal. Nessa consciência projetiva, destacam-se as fantasias de expansão, de realização dos desejos e de construção de uma vida em sua virtualidade. A consciência já não será mais limitada pelos entraves do espaço, mas poderá se projetar li- vremente pelo infinito de uma fantasia provocada pela virtualidade. Daí que o totem dessa tecnologia se impõe, refugia esse indivíduo em uma ação narcísica de realização desmedida de novas identidades em busca de prazer. As fantasias se tornam reais com uma realização virtual em que a consciência pode expe- rimentar sem aparentes riscos ou entraves. A identidade passa a ser fruto de um processo de construção intencional e, desse modo, os indivíduos teriam total liberdade de criação, de reelaboração de sua experiência existencial. Os indivíduos, assim, não mais ficam enclau- surados a uma única identidade;eles passam a ser criadores de si mesmos, com suas próprias regras, com tabus que provêm desse tecnototemismo, pro- duzindo uma tecnocultura hedonista em que prazeres e satisfações podem ser alcançados a todo momento. À medida que esse desejo se manifesta e,conseqüentemente, se realiza pela mobilidade da criação e pelos tabus que se colocam para que hajam definições para que assim o gozo se prolongue, diretrizes para que as identidades fugazes não se esvaziem rapidamente e assim criem o desprazer. Por isso a inversão de valores. A tecnologia começa a dominar quem deveria ser dominado por um mecanismo projetivo de “divinização” em que a tecnologia é responsável pela transcendência desse indivíduo, pela sua capacidade de catarse e de fantasia. Atenta-se para a problemática que isso traz ao desenvolvimento infantil que se forma nesse contexto.
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    Referências CANCLINI, Nestor. Consumidores e cidadãos. Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ, 1999. Colvara, Lauren Ferreira. Tecnototemismo: identidades múltiplas e nova subjetividade FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: aula inaugural no Collége de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 12. ed. São Paulo: Loyola, 2005. ______. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995. ______. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. 6. ed. São Paulo: M. Fontes, 1992. FREUD, Sigmund. Delírios e sonhos na “Grandiva” de Jensen: romances familiares (1921). In: ______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. São Paulo: Imago, 1980. p. 243-250. v. 9. ______. O ego e o ID (1923). In: ______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. São Paulo: Imago, 1980. v. 19. ______. Além do princípio do prazer: psicologia de grupo e análise do ego (1921). In: ______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. São Paulo: Imago, 1980. p. 91-184. v. 18. ______. O futuro de uma ilusão: mal-estar na civilização (1930). In: ______. Edição stan- dard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. São Paulo: Imago, 1980. p. 81- 178. v. 21. ______. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise – XXXI A dissecção da personalidade psíquica. In: ______. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. São Paulo: Imago, 1980. p. 75-102. v. 22. HALL, Stuart. Estudos culturais: dois paradigmas. In: SOVIK, Liv (Org.). Da diápora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Ed. da UFMG; Representação da Unesco no Brasil, 2003a. p. 131- 159. ______. A identidade cultual na pós-modernidade. São Paulo: DPA, 2003b. ______. Quem precisa de identidade: In: SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 103-133. POSTMAN, N. O desaparecimento da infância. Rio de Janeiro: Graphia, 1999.
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    ! El público enlos 1 noticieros televisivos Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Mabel Grillo1 Introducción En el primer capítulo de su obra ¿Por qué estudiar los medios? Roger Silverstone nos invita de manera convincente a hacerlo menos por lo inusual o lo catastrófico que ellos nos acercan y más por lo que replican cotidianamente de aquello que pasa “por sentido común”, pues, nos dirá, “los medios dependen de él”(2004:21). Si seguimos esta recomendación y pensamos en cuáles son las cuestiones importantes que básicamente están encastradas en el sentido común rápidamente surgen el lugar y el momento en el que estamos y compartimos con quienes nos rodean. Es que una de las asunciones del sentido común más comprometedoras para nuestras prácticas cotidianas es aquella que nos habilita para las clasificaciones espaciotemporales de la situación en la que nos encontramos. Es más, en algunas situaciones se puede deducir nuestra lucidez de la capacidad que tengamos para identificarlas. Por lo general nuestras experiencias cotidianas transcurren en el ámbito doméstico, en el laboral, en sitios de esparcimiento, etcétera, pero casi siempre en un espacio local que administrativamente lo contiene, ese espacio que para nosotros es el lugar. Pero cuando durante nuestra vida diaria interactuamos con los medios definimos sucesivamente marcos espaciotemporales diversos que nos posicionan en una plataforma con anclaje móvil. Como integrantes de sus públicos los acompañamos imaginariamente en los traslados que sus contenidos nos ofrecen. Y, en la espesura de la experiencia cotidiana, pocas veces estamos alertas para reconocer los poderes que actúan como fulcro de esos movimientos. Cuando los medios producen y reproducen las clasificaciones espacio temporales que organizan nuestras identidades, las instituciones dominantes de la vida so- cial no están detrás ni delante de ellos, muchos menos a su costado, están allí. 1 Agradezco a Belén Acosta su colaboración en la visualización y registro del material noticioso televisivo.
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    Como están, hayque decirlo, en medio de todas las instancias con poder clasificatorio, es decir con poder. Grillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos Así, la imprenta, que surgió casi al mismo tiempo que los estados nacionales, acompañó con su capacidad multiplicadora los ejercicios cotidianos de las nacientes sociedades nacionales y, fundamentalmente, de sus estados, para dotar de sentido a las fronteras nacionales. Por entonces, una nueva y poderosa clasificación espacial reorganizaba los límites y, al mismo tiempo, conmovía las identificaciones de las comunidades tribales: eran las naciones.2 Hoy, después de doscientos años, tanto las comúnmente denominadas TICS como los medios electrónicos de comunicación, fundamentalmente la televisión, son interpretados como vehículos del debilitamiento de todas las fronteras tradicionales, entre ellas, las nacionales. En otros artículos he tratado de mostrar que los medios locales, ubicados en “el interior”, o las transmisiones locales de cadenas nacionales o transnacionales, juegan un poderoso papel de reproducción de las identificaciones con lo local, con el propio lugar.3 Al mismo tiempo, las grandes cadenas mediáticas, siguiendo el curso transnacional de la economía, ensanchan el alcance de sus producciones, amplían sus públicos y mercados y movilizan imágenes y fuentes lejanas de interpelación identitaria generando también segmentos de públicos y lealtades transnacionales. En este trabajo trataré de mostrar que la nación todavía constituye un espacio de interacción mediática diferenciado, que aparece reeditado diariamente en los noticieros televisivos nacionales y sostendré una hipótesis: la participación del público en esos espacios es un operador de particularización de tendencias mundiales del discurso informativo televisivo. 2 En Latinoamérica los estados llevaron adelante un papel activo – en lo militar, pero también en lo económico y lo ideológico – de diferente manera y con diferentes grados de “éxito” según los países, por aglutinar e igualar hacia adentro al mismo tiempo que combatían con las fuerzas colonizadoras europeas. Ver, por ejemplo, Alimonda, H. (1982) “Paz y Administración- Orden y Progreso. Notas para un estudio comparativo de los estados oligárquicos argentino y brasileño”. Revista Mexicana de Sociología. UNAM. Nro.4; Ozlak, O. (1986) “Formación histórica del estado en América Latina: elementos teórico-metodológicos para su estudio”. CEDES. Bs. As. y “La formación del estado argentino (1997). Planeta. Buenos Aires; Trindade, H. (1986) La construcción del estado nacional en Argentina y Brasil (1810-1900). En Revista Mexicana de Sociología. UNAM. Nro.11. Por otra parte, Anderson., B. (1993) da cuenta de la importancia de la imprenta y de los nacientes medios en la construcción del sentido de lo nacional. 3 Grillo, M (2004) “Lo local y lo nacional como espacios de identificación espacial en la interacción mediática”. En Antonelli, M (ed) Cartografías de la Argentina de los ’90. Cultura mediática, política y sociedad. Ferreyra Editor. Córdoba.
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    # La nación comoespacio de interacción mediática John Thompson (1999) denomina espacio de interacción mediática al ámbito Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 que se genera a partir de la relación que se produce entre la producción de los medios de comunicación y los públicos hacia los cuales llega su alcance. Pero, ocurre que en las interacciones mediáticas no siempre se generan espacios, en numerosas oportunidades se reproducen rutinariamente aquellos cuyos sentidos han sido construidos en procesos sociohistóricos específicos. Uno de ellos es el espacio nacional. Autores como Billig (1995), Waisbord (2007) y Schlesinger (1993, 2007), entre otros, han analizado y destacado la necesidad de estudiar los vínculos entre los medios y las naciones.4 Especialmente por su papel en la vida cotidiana al ofrecer y reeditar experiencias colectivas con producciones entretejidas en deixis nacionales. Schlesinger (2007) discute la idea que posiciona a los medios cumpliendo un papel reproductor del espacio de lo nacional. La considera una visión unilateral en la medida que concibe a la nación “desde adentro” e ignora las redes de relaciones en las que se encuentran hoy los estados nacionales. En el mismo sentido, para Massey (2005) ver el espacio constituido desde adentro es concebirlo como ruptura, discontinuidad o fragmentación; es como si las “culturas locales” brotaran de la tierra, dice. No se ven como producto de la interacción y, desde esta perspectiva, las naciones eran de una manera propia hasta que la globalización derribó “fronteras naturales”. No obstante, visto el problema desde la teoría de la identidad, en el marco de la cual nos interesa ubicar el papel de los medios, la mirada “desde adentro”, indica los procesos de autogeneración y “la mirada de los otros, que incluye las propias miradas desde y hacia los otros” constituyen los de heterogenación. Ambos procesos son complementarios al momento de producirse las identi- ficaciones de los grupos sociales (Boutinet, 1978). En síntesis, desde la teoría de la identidad, el espacio no es solamente una superficie objetiva en la cual se mueven líneas imaginarias hacia adentro y hacia 4 En el artículo citado de Silvio Waisbord -“Los medios y la reinvención de la nación”- el autor presenta una selección actualizada de trabajos que vinculan el papel de los medios en lo que el autor llama “la coordinación cultural” del espacio nacional.
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    afuera, sino fundamentalmenteun proceso de construcción temporal e histórica $ que en la experiencia de los grupos sociales adquiere sentidos. Puesto en estos términos, el problema se inscribe en los debates acerca del papel de los medios, Grillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos especialmente la televisión, en procesos de identificación con espacios históri- camente constituidos como lugares, esto es como espacios de identificación (Giddens, A. 1993; Morley, D. 2005). Consideramos que las discusiones sobre el poder de los medios para anclar los públicos a sus lugares, fortaleciendo procesos de identificación y diferenciación crecientes, o desanclarlos, promoviendo su desterritorialización, están agotadas si se plantean en esos términos gen- erales. Partimos del supuesto que afirma la posibilidad de ocurrencia de ambos procesos, tanto de manera diferenciada como complementaria según diferentes momentos, lugares e instancias de la vida social. Debemos aportar muchos más resultados empíricos para poder comprender mejor la multiplicidad y combinación de estas posibilidades. Pero, más allá de estos debates, lo cierto es que en el complejo contexto socio-histórico -que intenté exponer sin grandes omisiones pero de manera sintética porque ha sido suficientemente retomado en la literatura corriente- lo nacional permanece como un espacio de producción de sentidos. Todavía re- presenta el ámbito de la racionalidad organizadora que trascendiendo la se- guridad del vecindario permite la expansión imaginativa de la vida social sin resultar insondable y, por eso, amenazante. Es una frontera amplia pero de pertenencia contenedora que aún constituye una estación plausible para la plataforma mediática. En la televisión, por ejemplo, refracta cotidianamente en los noticieros nacionales. Los noticieros televisivos de alcance nacional nos recuerdan una y otra vez, diariamente, cuál es el afuera y el adentro del espacio que alberga el nosotros social institucionalizado de lo que nos ocurre día tras día. Nos interpelan desde esa instancia asediada por la cotidianeidad de lo local, próximo, denso e inex- cusable, y los variados, dispersos y desordenados flujos noticiosos de lo global. Desde el punto de vista comunicativo, este doble asedio del que hablamos es explicitado por Schlesinger de la siguiente manera: “es importante plantearse preguntas sobre el impacto de los cambios transnacionales y globales en lo que siguen siendo en gran medida sistemas de comunicación ligados al Estado- nación”. Para el autor la pregunta debe girar sobre las implicancias de estos sistemas comunicativos definidos principalmente en ese marco “para la posibilidad de una esfera pública supranacional como para nuevas formas de comunicación surgidas de la auto-organización de la sociedad civil” (2007:79).
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    Desde esta perspectivala exploración del papel de los espacios de producción y % consumo eminentemente nacional, como son los noticieros televisivos, parece interesante en la medida que, tal como han sostenido autores como Habermas Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 (1994) y Garnham (1998), los derechos ciudadanos continúan estando vinculados a estados nacionales específicos. Winocur contrapone esta perspectiva sobre el espacio de lo nacional y el espacio público, como ámbito apropiado para la participación ciudadana con la propuesta de Keane. En sus términos, para este autor “se ha vuelto obsoleto el ideal de una esfera pública unificada (…) en lugar de ello, figurativamente hablando, la vida pública ha sufrido una refeudalización” (…) en el sentido de “la conformación de un complejo mosaico de esferas públicas de diversos tamaños que se traslapan e interconectan y que nos obligan a reconsiderar radicalmente nuestros conceptos sobre la vida pública y sus términos asociados tales como opinión pública, bienestar público y la diferenciación público-privado” (1997:56). Nuevamente, debemos replantear la cuestión desde la perspectiva de los actores sociales involucrados, es decir de aquellos que ocupan e interactúan con los medios generando espacios en el marco de condiciones históricas compartidas. Desde esta esfera hablar de niveles micro o macro, no aporta a la comprensión de la significación que las interacciones adquieren y los procesos de identificación espacial que interpelan. En otras palabras, la identificación del espacio nacional con un espacio público denominado mesoesfera no permite comprender mejor el papel de lo nacional y las prácticas ciudadanas en su marco, aunque pueda dar cuenta de fragmentaciones asentadas en prácticas, intereses y estilos situacio- nales específicos. No obstante, consideramos que en un punto Winocur acierta en su discusión de las ideas de Garnham (1986). Este autor define el espacio público desde una perspectiva normativa como “un espacio para definir una política racional y universalista” que sólo sería posible con unos medios independientes del mercado. Para Winocur (ibid) en cambio “El problema en estas nuevas condiciones no reside en cuestionar el papel y la legitimidad de los medios en la generación de nuevos espacios públicos sino en preguntarse hasta que punto las transforma- ciones que introdujeron en la vida pública la empobrecen o si, por el contrario, ofrecen nuevos desafíos para pensar la relación entre lo público y lo privado y también las posibilidades de intervención de los ciudadanos en la definición y discusión de los temas de interés colectivo en la agenda mediática”. Y, desde nuestra perspectiva, sobre el empobrecimiento de la vida pública es poco lo que
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    puede decirse enla medida que excepto en situaciones excepcionales de revuelta y conflicto generalizado, la historia de las sociedades modernas no da cuenta de una participación permanente, cotidiana y directa de la población – constituida Grillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos en ciudadanía- en los espacios públicos. Los puntos de contacto entre algunas prácticas sociales y determinados procesos comunicativos mediáticos suelen ser analizados poniendo el acento en el papel que cumplen los medios en movilizar algunas cuestiones no sustanciales, mera- mente expresivas o espectaculares de esas prácticas. Estas perspectivas ubican los procesos de interacción mediática como productores deformantes de prácticas que natural o esencialmente son de otra manera. En nuestros trabajos tratamos de evitar tanto esta visión de lo social – espontaneísta, en la medida que le otorga una existencia natural sin mediaciones históricas particulares – como la que evoca momentos históricos en los cuales se manifestaba en estado de activa pureza. Por ello, en lugar de preguntarnos cómo los medios “empobrecen” la vida social, nos cuestionamos directamente por los modos y la intensidad de su intervención en procesos sociales específicos. Esto es: los medios constituyen hoy lo social junto a otras instituciones y lo que intentamos averiguar en nuestras investigaciones es la participación del proceso comunicativo que promueven en manifestaciones específicas de la vida social. El público en la pantalla en debate Los medios de comunicación han sido considerados desde ampliaciones del espacio público, en la medida que favorecen la participación, el reconocimiento y la visibilidad (Macé, 1997) hasta instrumentos a favor de su eliminación, en tanto reemplazan el debate racional propio de la esfera pública por un “espectáculo fascinante o ilusión fantasmal” (… ) “por las imágenes y los simulacros de realidad” (Jay, M.; 2003). Es indudable que una cuestión clave para abonar una u otra posición es comprender la significación que asume la participación de los integrantes del público en los espacios generados por los medios. Si bien es verdad que los medios se constituyen en la actualidad en espacios privilegiados para la visibilidad pública de actores sociales diversos también lo es que esas intervenciones contribuyen a la “polifonía de la controversia” animadora del mercado que medios y públicos constituyen (Billing; 1997). Winocur (2002) pone el acento en las capacidades y los intereses de los interactuantes. Dice que los participantes en
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    los espacios delos medios han adquirido experiencia en esa práctica y ello les ' ha permitido desarrollar habilidades histriónicas para desempeñarse con soltura “al aire”. Todos han aprendido cuáles son las reglas de cada medio: lo que se Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 puede o no decir, la manera para expresarlo y qué estrategias discursivas deben usarse para impactar al auditorio en cada caso. Agrega que el público no espera que se le solucionen sus problemas y al medio tampoco le interesa averiguar qué desenlace tuvieron las historias, salvo que ameriten convertirse en una novela por entregas. Lo que importa a ambos es publicitar y ser observados. Para los primeros significa volverse “visibles” en la escena pública, para los segundos, historias que venden. En definitiva, para Winocur, se da una transacción de intereses. Ya hemos dicho que podríamos coincidir con Winocur, tanto en adjudicar a los participantes la intención de buscar visibilidad en el espacio mediático como en el desarrollo de la capacidad histriónica que han logrado, pero lo que no surge de nuestras observaciones es que quienes participen en los medios no esperen solucionar sus problemas o al menos, sumar adherentes, lograr efectos directos en las instituciones del Estado u obtener reconocimiento público de sus necesidades. Los integrantes del público que estudiamos consideran que estar en los medios siempre es una alternativa válida para ser oídos y solucionar problemas; incluso, dan cuenta de experiencias exitosas en ese sentido (Grillo et alt., 2003). En esta instancia de nuestras indagaciones sobre el problema consideramos que el público en pantalla integra una estrategia de tratamiento de la noticia por parte de la televisión en la medida que consigue movilizar procesos de identi- ficación en el público, favorece el contacto y anima la pantalla. Pero, más allá de estos intereses que persiguen las producciones televisivas, lo cierto es que, al mismo tiempo, amplia el espacio de participación del público y colabora en dotar de visibilidad y reconocimiento a sus necesidades y carencias. Entiendo que los ciudadanos dan a conocer sus intereses y opiniones en un ámbito que ya está mediado por el noticiero y la participación en los espacios públicos que promueven los noticieros son insumos producidos por el mismo espacio5 . Digamos entonces que los espacios mediáticos no son espacios- escenarios como las plazas, los teatros o las salas de debate barriales o de las 5 Marletti (2001) destaca el papel de las rutinas profesionales, como puede ser concebida la actividad que despliegan los periodistas al hacer intervenir al público en los espacios mediáticos, en la autorreferencialidad de los medios. Entiende la autorreferencialidad en el sentido que le da Luhmann como la capacidad de un sistema de seleccionar del ambiente aquello que mantiene en la complejidad la propia identidad.
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    casas de gobierno.Estos escenarios mediáticos “vienen a casa” para que ! participemos y lo hacen en un doble sentido: por un lado, efectivamente salen a nuestro encuentro en el lugar que estemos y, por otro, cada participación de un Grillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos ciudadano en la televisión abre la posibilidad de nuevas intervenciones a otras personas y permite la identificación de integrantes del público6 . El noticiero televisivo es un escenario demandante y disponible; en este sentido, acuerdo con Winocur que se da una transacción de intereses entre el medio y quienes intervienen en sus espacios. El noticiero televisivo nacional y el discurso de la información Para Verón (2005) el discurso de la información es el que tiene por objeto la actualidad y para avanzar en su comprensión debemos reconocer su articulación con la red tecnológica de los medios y las prácticas del periodismo y por otro con su único destinatario genérico que es el ciudadano habitante de un país – puede ser de una región – que es construido como un predestinatario, esto es como alguien con quien se comparten y confirman creencias comunes. 7 El periodismo cuenta la actualidad, pero esa actualidad integra diegéticamente sentidos producidos desde una multiplicidad de relatos que recortan el mismo espacio nacional. Charaudeau agrega una cuestión fundamental para la comprensión del modo y la posibilidad de circulación de este discurso a partir de la relación que se establece entre medios y públicos. Para este autor : “la instancia mediática televisiva se encuentra en una posición de bisagra doblemente orientada: referencial, cuando está orientada al mundo exterior que muestra, refiere y comenta, y de contacto cuando contempla al telespectador al que intenta interesar y conmover, al que reclama e interpela. (…) La dirección, lugar por excelencia de la articulación entre 6 Lazarsfeld y Merton afirmaban, en un artículo escrito en 1948, que podría darse un fenómeno que denominaron “disfunción narcotizante” en el sentido de que la recepción de estos mensajes transformen las energías disponibles para “una participación activa en un saber pasivo”. No obstante, los propios autores sostenían entonces que no se conoce mucho cómo puede operar este fenómeno y que estudiarlo “es una de las tareas que aún se presentan al estudioso de las comunicaciones masivas.” (1978:35) No hemos avanzado demasiado. 7 Verón afirma así el sentido de pertenencia común que sostienen los recortes espaciales compartidos en los discursos informativos. Agrega que el público del discurso de la información difícilmente sea paradestinatario – objeto de persuasión – o antidestinatario – con el que se polemiza-.
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    el mundo exterior,el estudio y el telespectador es la que garantiza la puesta en ! escena.” (2003: 233) Desde nuestro interés analítico, esto quiere decir que los noticieros deben ser creíbles y, al mismo tiempo, mantener su público. Por esto, Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 deben seguir los cánones de construcción de la verosimilitud sin perder de vista que necesitan lograr y mantener una audiencia. Tanto el contacto como la verosimilitud son dimensiones centrales para mantener las interacciones promovidas por los noticieros televisivos; sus estrategias desde la puesta en escena deben ser exitosas al momento de articular la producción discursiva con su reconocimiento por parte del público.8 Como sostiene con claridad Eliseo Verón (2005), para comprender la complejidad del vínculo de los medios con sus públicos hay que entender que los medios son actores de un mercado económico y están sometidos a dos lógicas que hasta hoy han sido relativamente divergentes. Una, es la función primaria del contrato que es crear y conservar sus receptores y la otra, es de dotar de valor a ese colectivo para vendérselo a los anunciantes. Pero, en tanto la relación con los anunciantes es sólo un problema de marketing, vende o no vende, su anclaje en un grupo de receptores depende de variables demográficas, económicas, políticas y culturales variadas y muchas veces sutiles. Ahora bien, desde la producción de los noticieros televisivos nacionales estas dos lógicas aparecen imbricadas en el momento en que reproducen estilos discursivos idiosincráticos y diferenciadores particulares, propios de sus lugares de producción y atentos a esas variables expuestas por Verón, así como están sometidos a procesos crecientes de racionalización de la producción televisiva informativa que muestra tendencias comunes en numerosos países del mundo (2005:194). Con respecto a esas tendencias, en un artículo aparecido en diciembre de 2005 en Le Monde Diplomatique, Marc Endeweld da cuenta de algunas de estas transformaciones comunes en noticieros televisivos franceses muchas de las cuales responden a tendencias mundiales. Una de ellas es la creciente ficciona- lización en la construcción de las noticias promovida especialmente por las agencias de noticias internacionales9 , otras son: el aumento del espacio a ser- vicios para la vida cotidiana – tiempo, salud, tránsito, seguridad –, el aumento de 8 Para Verón el desafío principal de la investigación en la comunicación mediática es en la actualidad tratar de comprender lo que llama sistema productivo, es decir la articulación entre producción y reconocimiento (2005:222). 9 Describe el tratamiento dado a la información del huracán Katrina, ocurrido en Estados Unidos en ese mismo año.
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    la importancia delos periodistas estrellas como marca o imagen de los espacios ! noticiosos y de las propias emisoras, el aumento de los relatos en off acompañados por imágenes editadas muchas veces de archivo, la generación de Grillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos la información desde el noticiero según su conveniencia operativa antes que la búsqueda de la información relevante y el aumento de la importancia del ritmo, a tal punto que el tiempo medio de los reportajes es de un minuto cuando hace diez años era de un minuto y medio10 . Pero una de las tendencias más comunes en los noticieros televisivos del mundo es la reducción del tiempo dedicado a las noticias internacionales y el crecimiento de la importancia del factor noticioso de la proximidad. Para Waisbord (2007) “La debilidad de la cobertura internacional de noticias ofrece probablemente una explicación parcial de las razones por las cuales los medios fracasan en cubrir las expectativas cosmopolitas. (…) Típicamente los medios de comunicación recurren a narrativas e historias culturales que resuenan en las audiencias domésticas, antes que a un mejor entendimiento de los desar- rollos y los contextos. Sin embargo no parece ser una cuestión principalmente de limitaciones de los marcos noticiosos y de las prácticas periodísticas: a la inversa que las naciones, el cosmopolitismo carece de medios de comunicación aliados deseosos de convertirse en vehículos de las culturas trans-post-nacionales. (…) Como advierte Schlesinger “no deberíamos esperar demasiado del potencial de los medios audiovisuales para configurar identidades en un contexto transnacional” pues están mejor equipados para, y deseosos de, sostener iden- tidades nacionales (En Waisbord, 2007:48). Algunos de los factores que tendencialmente se introducen en la producción de noticias televisivas en el mundo constituyen, desde nuestra perspectivas, condiciones homólogas y contiguas a la intervención del público en la pantalla, de manera tal que este factor puede considerarse una estrategia desde la cual analizar particularidades nacionales de los noticieros. De mejor manera, podemos decir que consideramos al tratamiento dado al público en la pantalla como un operador particular productivo de tendencias universalizantes de la producción de la información televisiva. Estas tendencias afines son: aumento de la impor- tancia de cuestiones atinentes a la vida cotidiana, como la prestación de servicios –salud, tránsito y, con gran fuerza, seguridad-, el aumento del valor de la proximidad 10 Mi propia experiencia indica que hace alrededor de treinta años atrás, cuando me desempeñaba como redactora de un noticiero televisivo, esta duración media de los reportajes era de 2 minutos y medio; tres minutos era el tiempo máximo.
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    y la crecienteimportancia del ritmo en la continuidad expositiva, complementadas !! por las necesidades de aprovechamiento por parte del público del espacio que posibilitan los medios para publicitar sus demandas. Especialmente cuando “…se Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 produjo una adaptación de las instituciones de las democracias industriales a los medios y los medios se han transformado en los mediadores insoslayables de la gestión de lo social” (Verón, E. 2005: 224). El público en la pantalla de los noticieros televisivos de Argentina, Brasil y Chile En trabajos anteriores hemos tratado de dar cuenta de dimensiones significativas de la intervención del público en programas televisivos a partir del ámbito de producción de esos espacios. Así, mostramos el modo en el que noticieros locales construyen sus audiencias en términos de vecindario a diferencia de los noticieros nacionales (Grillo, 2004; Rusconi, 2004); analizamos la significación de estas intervenciones en entrevistas realizadas a los integrantes del público (Grillo, 2005; Tonello, 2003), exploramos la potencialidad de espacios mediáticos como escenario de transacciones de diversa índole (Milani, 2004) y nos detuvimos especialmente en aquellas vinculadas a la condición ciudadana del quienes intervenían identificando su construcción como demandante y consumidor de servicios públicos (Grillo 2005; 2006). Posteriormente comenzamos a estudiar el tratamiento de las noticias con partici- pación del público en noticieros nacionales de Argentina Brasil y Chile. Hasta el momento han surgido con claridad dos cuestiones que seguimos analizando: una es el lugar diferencial que ocupa el público participante en la construcción de la noticia y otra es el estilo de tratamiento. Mientras en los noticieros de Chile y de Brasil la actuación del público en la pantalla aparece como consecuencia del hecho que se considera noticia, en el argentino el público interviene constituido en el hecho noticioso, es la causa de la información y eje alrededor del cual se construye el hecho que despertó su actuación (Giussano, 2006). En términos generales encontramos que mientras en el noticiero de Brasil el público comparte su intervención con reporteros, informantes del poder público, expertos y otras fuentes variadas de información en vivo, todo alrededor de temas (o “historias”) de integración, y en el chileno los escenarios oscilan claramente entre aquellos específicos y variados que ocupan los participantes con otros propios del poder público –ministerios, oficinas, sedes oficiales- o político, en el noticiero argentino su presencia, como testigo, informante o actor principal es casi excluyente (Grillo,
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    2006). Por otraparte, el noticiero brasileño organiza una puesta en escena ! compleja en la que se hace evidente la presencia de un organizador ausente pero necesario. Como contrapartida, la puesta en escena informativa del noticiero Grillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos argentino Telenoche se construye siguiendo una modalidad fluida – como espontánea-; la pantalla aparece ocupada – en el sentido de tomada y por momentos invadida- por “los hechos noticiosos”. Entre estos hechos están, obviamente, las manifestaciones, los cortes de calles y las escenarios barriales con voces que reclaman por salarios, subsidios, seguridad o servicios, noticias todas en las cuales la participación del público en la pantalla es una constante. El espacio informativo televisivo se convierte así en una réplica mediatizada del espacio público de calles, plazas, rutas y vecindarios. Estos antecedentes nos han llevado a postular la hipótesis de que el público en pantalla – en tanto variante mediática del pueblo en la plaza y las calles- se construye en el noticiero argentino como una estrategia eficaz de articulación entre la realidad a la que remite, la construcción que hace de ella y la relación que establece con su público. Dicho de otro modo, el público en pantalla en el noticiero argentino es un articulador productivo de los tres espacios que en palabras de Charaudeau son el espacio externo público, el espacio interno de interpretación y el de la relación de esta instancia con el público. (2003:233) Desde esta mirada y a partir de los antecedentes citados tratamos de abonar más profusamente nuestras sospechas acerca del papel de la intervención del público en la pantalla en el noticiero argentino explorando aspectos más detallados del tratamiento dado a ese recurso noticioso. Para ello, presentaremos algunos resultados de un análisis descriptivo de los noticieros de mayor circulación emitidos durante una semana de los noticieros de mayor circulación de Argentina que es Telenoche de Canal 13, de Brasil, el Jornal Nacional de la Rede O‘Globo y de Chile, 24 Horas Central de la Televisión Nacional de Chile11 . Los datos que tenemos muestran los porcentajes de noticias con participación del público en cada noticiero, el tiempo promedio de esas notas, la cantidad de tiempo efectivo del público en la pantalla, el tipo de público que participa, según sea ciudadano común o especialista, el papel del reportero que entrevista y la dramatización de la actuación por parte del público interviniente. 11 Luego de visualizar e interpretar los lineamientos generales que presentan los noticieros de los tres países sobre material grabado de veinte emisiones por noticiero de cada país, correspondientes al mes de junio de 2006, resolví efectuar este análisis de contenido pormenorizado del material de una semana, a partir de categorías emergentes de ese visionado previo.
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    !# Telenoche Jornal Nacional 24 Hs Argentina Brasil Tele. Nac. Chile Porcentaje de noticias c/público * Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 50,87% 33,33 % 57,35 % Porcentaje de tiempo ocupado por 70% 38% 45% público en pantalla sobre tiempo medio de las notas. Presencia del ciudadano común 69 % 59 % 52,5% sobre el especialista. Promedio en segundos por nota de 52” 27º 20º complicidad del reportero sobre tiempo de participación del reportero (complice-distante-negocia-ausente) Tiempo promedio por nota en el que 20 % 7% 4% el público dramatiza su intervención * No se incluyeron las intervenciones de candidatos políticos, funcionarios, legisladores o gobernantes. Sí, las de profesionales o especialistas en temas específicos vinculados al material noticioso. Si bien el noticiero argentino muestra un porcentaje menor en el total de notas con público en la pantalla que el de Chile, no obstante, presenta un porcentaje notablemente mayor de tiempo efectivo ocupado por el público. Si sumamos a esta observación, los mayores porcentajes tanto de la presencia del ciudadano común frente al especialista, como de los tiempos en los cuales las personas que intervienen lo hacen dramatizando sus actuaciones y los reporteros mantienen una relación de complicidad con los entrevistados vemos que todo organiza una configuración que permite seguir trabajando la idea que venimos sosteniendo acerca del papel que cumple la intervención del público en la pantalla del noticiero argentino. Creemos que es en las formas, en las modalidades de construcción, en los estilos de enunciación o de tratamiento donde debemos seguir analizando las diferencias. Ellas exponen, como lo sostiene White, la moral que trasunta los deseos (1992:33-35).12 12 En un estudio anterior que efectué comparando material relevado en 1993 del mismo noticiero brasileño y de canal 9 de Argentina, que en ese momento eran los de mayor audiencia, observaba ya un estilo diferente en la relación que proponían los reporteros con los entrevistados en los noticieros de ambos países. Entendía entonces, que el estilo de los reporteros argentinos reproducían una moral común que más allá del contenido, sigue estrategias manipulatorias para la igualación. A partir de la clasificación efectuada por Todorov (1987) de las modalidades de tratamiento del otro; resumía esa modalidad seguida en el noticiero argentino como aquella que concibe al otro como creyente. (Grillo, 1995)
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    Verón (2005) planteatambién la necesidad de realizar las comparaciones a partir !$ de las modalidades, pues en ellas se sostiene el contacto. Afirma que los mecanismos de competencia en el mercado de los medios tienen como Grillo, Mabel. El público en los noticieros televisivos consecuencia que el contrato con el público sea fundamentalmente enunciativo, es decir que no sea del plano del contenido sino “en el de las modalidades del decir”, pues productos muy parecidos entre sí sólo pueden diferenciarse en las estrategias ocupadas del contacto. Entonces, la pregunta central que demanda nuestra interpretación en adelante será identificar las reinversiones tecnológicas, sociales e históricas que producen operatividad en la intervención del público en pantalla para fundar y mantener el contacto cuando se informa por televisión en las sociedades estudiadas. Referencias Anderson, B. (1993) Comunidades imaginadas. Fdo. de Cultura Económica. México. Billing, M. (1998) “De los códigos a las emisiones. Estudios culturales, discursos y psicología”. En Ferguson, M. y P. Golding (comp.) Economía Política y Estudios Culturales. Bosch. Barcelona. Pp.331-360. Boutinet, J.P. (1978) “Identité, identification et projet”. En Ethno-psycologie Nº 1 Enero- Marzo. Le Havre. Charaudeau, P. (2003) El discurso de la información. Gedisa, Barcelona. Garnham, N. (1986) “The Mass Media, Cultural Identity, and the Public Sphere in the Modern World” en Public Culture. Vol 5. The University of Chicago. Garnham, N. (1998) Economía política y la práctica de los estudios culturales. En Ferguson, M. y P. Holding (edits.) Economía política y estudios culturales. Bosch. Barcelona (121- 144) Giddens, A (1993) Consecuencias de la modernidad. Alianza. Madrid. Giussano, F. (2006) La construcción de la ciudadanía en noticieros de Argentina y Chile. Informe de beca: Ayudantía de Investigación . SECYT, UNRC. Glaser, B. y A. Strauss (1967) The discovery of Grounded theory. Aldine Publishing Com- pany. New York. Traducción Pablo Romero. Grillo, M. (1995) “El noticiero televisivo. El espacio de lo nacional en una programación transnacionalizada”. En Temas y Problemas de Comunicación. Año 3, V.5. Grillo, M. (2000) “Medios, conocidos y allegados. Circuitos de reconocimiento local”. En Comunicación y Sociedad. Imprenta de la Universidad de Guadalajara. México. Enero- julio 2000. Nro. 37. Pp: 111-128.
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    A emergência degêneros no cinema brasileiro: do Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas Bernadette Lyra1 RESUMO A noção de gênero é uma das mais importantes da doxa da história e da teoria do cinema. O objetivo deste artigo é examinar a emergência de gêneros no cinema produzido no Brasil, desde os primeiros filmes até a chanchada e a pornochanchada. Em primeiro lugar, enfatizando uma perspectiva institucional. Em segundo, considerando a noção genérica como um pacto entre os sistemas de produção e difusão de filmes e os espectadores. E, finalmente, analisando tanto as marcas reveladoras dos elementos que regulam a formação do próprio discurso cinematográfico no País, quanto as formas que atravessam a identidade daquilo que, institucionalmente, se constitui em cinema brasileiro. Palavras-chave: Instituição cinematográfica. Gêneros. Filmes brasileiros. ABSTRACT The notion of genre that’s the essentials from history and from theory cinema. The aim of this paper is examine the emergence of the genres into the Brazilian cinema, from the first films to chanchada and the pornochanchada. At first, enhancing an institucional perspective. Secondly, considering the generic notion like a pact among the filmmaker, the mode of diffusion and the viewers. In addition, analysing both the marks revealing from the elements what regule the train- ing of the discours cinematographic and the forms what cross the institucional identity of the Brazilian cinema. Key words: Cinematographic institution. Genres. Brazilians films. 1 Doutora em Cinema pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), Pós-Doutorado pela Université René Descartes, Paris V, Sorbonne. Atualmente, é coordenadora do Programa de Mestrado em Comunicação e Professora Titular na Universidade Anhembi Morumbi. Parecerista da Fapesp, CNPq e Capes. Líder do Grupo de Pesquisa Forma, Imagem na Comunicação Contemporânea (UAM/CNPq). Publicou livros e artigos teóricos sobre o cinema. É escritora de ficção com romances e contos publicados no País e no Exterior. E-mail: blyra@uol.com.br
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    Razões das escolhas A noção de gênero, talvez, esteja desgastada pelo tempo e pelo uso. Mas, nem Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas por isso, deixa de ser uma das mais importantes na teoria e na história do cinema. Retomá-la para investigar a emergência genérica no cinema brasileiro pode tornar-se um desafio intrigante. De modo mais comum, os estudos de gênero costumam ser delineados em contraposição aos estudos de autor. Essa oposição se dá, principalmente, em torno daquela necessidade de agrupamento, nascida na tradição semiológica: “A obra de um cineasta não é a única unidade textual sistemática maior do que um filme. Há também o que se chama ‘gênero cinematográfico’: burlesco, filme noir, comédia musical etc.” (METZ, 1971, p. 93). O princípio de classificação estruturalista, que contrapõe as especificidades de grandes conjuntos, permite que esses conjuntos se desdobrem em diversos esquemas. Nesse sentido, Thomas Schatz propõe a seguinte equação: “A crítica de gênero tenta estabelecer um conjunto de formas cinemáticas, enquanto a crítica de autor celebra certos cineastas que trabalham, efetivamente, no quadro dessas formas gerais.” (1980, p. 8). De modo geral, ao privilegiar essa idéia de conjuntos classificatórios, muitas análises que se dedicam às questões do gênero cinematográfico resultam textuais e têm por motivo certas repetições e reiterações dos temas, tramas e narrativas para nomear os gêneros. Para além dessa idéia, alguns pesquisadores estão preocupados com uma espécie de ontologia dos gêneros: Um gênero não é meramente uma coleção de imagens mortas à espera de um decorador para animá-las. Trata-se de uma tradição com vida própria...Os gêneros precedem os grandes diretores. O western se desenvolvia a contento, por si próprio, antes de John Ford, ou mesmo James Cruz se debruçarem sobre ele. Precisamos nos dedicar muito mais aos primórdios dessas formas variadas se quisermos compreender o seu estranho poder e o processo exato pelo qual se tornaram suficientemente densas para atrair ta- lentos. (BUSCOMBE, 2005, p. 318). Há que mencionar, ainda, que certas vertentes advogam o retorno dos estudos dos gêneros fílmicos ao âmbito da historicidade. Tom Gunning, por exemplo, recorre ao Formalismo Russo em seus estudos sobre o cinema primitivo, exemplificando os gêneros delineados pelos filmes dos primeiros tempos pela “articulação entre os planos, em termos de tempo e espaço”. (GUNNING, 1984, p. 105). Mas,
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    considerando o roldos muitos estudiosos que se ocupam do assunto, fica patente ! que poucos assumem a importância da história da própria instituição: Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Constatar, na trama atemporal dos filmes, a ocorrência sistemática de certas repartições coerentes, não é a mesma coisa que interrogar a imagem e a história da instituição cinematográfica como algo que, num dado período e sob determinadas condições e exigências, se pensou como um cinema de gêneros, facilitando e fomentando o surgi- mento e a implantação dessas mesmas repar sãobiêMT6êêMT“GRIMmbmO,M1Mmv2tm9aMMtM9aMvMtr7aMmbMtaMmbMt,aMmvbHêMêiêMT6b m4ie
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    Desse modo, ocinema, em seus primórdios, foi tido como um meio de replicação da realidade objetiva, ou seja, como um meio de reprodução técnica das imagens em movimento da realidade. A “recriação do mundo real” funda ontologicamente Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas o cinema. O mito condutor da invenção do cinema é a consumação do mito que domina confu- samente todas as técnicas de reprodução mecânica da realidade que surgiram no século XIX, da fotografia ao fonógrafo. É o mito do realismo integral, de uma recriação do mundo à sua imagem, uma imagem sobre a qual não pesaria a hipoteca da liberdade de interpre- tação do artista, nem a irreversibilidade do tempo. (BAZIN, 1991, p. 30). Porém, desde muito cedo, empresários e produtores do entretenimento descobriram que o cinema poderia substituir o teatro e o circo no imaginário do público. Essa descoberta, talvez, tenha se dado na noite de 28 de dezembro de 1895, quando Georges Méliès, um empresário e prestidigitador do pequeno teatro Robert Houdin, em Paris, compareceu ao salão do Grand Café, convidado para a primeira sessão do Cinematógrafo dos Irmãos Lumière. Emmanuelle Toulet reproduz o que Méliès sentiu: Estávamos, os outros convidados e eu, diante de uma pequena tela, parecida com as que nos serviam para as projeções Molteni e, após um instante, uma fotografia imóvel repre- sentando a Place Bellecour, em Lyon, apareceu em projeção. Um tanto surpreso, eu mal tive tempo de dizer a meu vizinho: “Foi para nos mostrar projeções que nos fizeram vir aqui? Eu faço há mais de dez anos”. Mal acabei de falar, um cavalo puxando um cami- nhão se põe em marcha em nossa direção, seguido de outros veículos, depois de pedes- tres, enfim, toda a animação da rua. Ficamos todos boquiabertos com aquele espetáculo, estupefatos, tomados por uma surpresa inenarrável. (1988, p. 14). De imediato, Méliès compreendeu a função espetacular do cinema, vislumbrando o mundo imaginário que se abria na tela. 3 3 Louis Lumière, com a ajuda do irmão Auguste, inventou o aparelho que permitia a reprodução técnica das imagens em movimento, mas, ao mesmo tempo, inventou o cinema. Assim, o cinema é uma invenção científica, nascida da vontade de domínio do homem sobre a realidade, seguindo o mito do realismo integral e o sonho de uma recriação do mundo à sua própria imagem. A reprodução automática da realidade, preocupação científica que animou a invenção do cinema no fim do século XIX, difere da arte do espetáculo que ganhou amplitude com o cinema de Méliès.
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    Em função desseimaginário fantasioso, Méliès dedicou-se à criação e à realização # dos procedimentos que, até hoje, fazem parte do arsenal da realização: trucagens, sobre impressões, movimentos mais lentos e muitos outros jogos cinema- Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 tográficos. A forma de espetáculo concebida por Méliès, muito cedo, encontrou empresários que iriam cercá-la de meios.4 No início, eram apenas complementos de espetáculos de vaudeville, assistidos cada vez mais por uma multidão em que predominava uma platéia composta de operários e trabalhadores de escassa renda. Porém, logo, a classe média se interessou pelo cinema. Os filmes, então, ocuparam salões que ficavam lotados com todo tipo de gente disposta a se divertir ou se maravilhar com as imagens em movimento projetadas na tela. Assim, o cinema, rapidamente, revelou sua função de festa e prodígio. À medida que o mercado de produção e distribuição que se iniciava exigia uma intensificação programática a fim de atrair o público e mantê-lo interessado, as formas materializadas daquela “recriação do real” logo se diversificavam e passavam a incluir, além das famosas “vistas” de Lumière, fatos de repercussão social, paisagens de lugares distantes, óperas, dramas e comédias tirados de peças teatrais, espetáculos mágicos e circenses. Esses motivos, ao mesmo tempo que se multiplicavam, foram sendo repetida- mente utilizados pelas produtoras e distribuidoras que os organizavam em catálogos para os programas de exibição. Dessa maneira, a indústria de filmes ia se construindo entre a diversidade e a previsibilidade, baseada em dois pólos: inovar para sobreviver e repetir para garantir um padrão. 4 É claro que, ao lado dessa função de espetáculo de divertimento, o cinema muito cedo revelou, para alguns realizadores, as possibilidades de exercer uma função política e ideológica em que se proclamava a ideologia politizada do meio e até se teorizava sobre ela, como é o caso do americano David Wark Griffith (Nascimento de uma nação, 1915, e Intolerância, 1916) e do soviético Seguei Eisenstein, em seus filmes e escritos. Além disso, também muito cedo, começavam as preocupações com a transformação ideológica do cinema em uma “arte”. Nos primórdios do século XX, na França, os irmãos Laffitte chegam a fundar a sociedade Le Film d´Art, esperando dar ao cinema um toque de “nobreza artística”, inexistente até então.
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    Constituiu-se, assim, aexperiência cinematográfica. Do ponto de vista institucional, $ a existência de uma noção de gênero se deve a esse tipo de experiência, que engloba a repetição e a inovação. Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas Embora no âmbito da estética a idéia do “novo” seja motivo de desacordo entre aqueles que a atribuem aos valores pregados pelo romantismo e aqueles que a vêem como um modo politizado de tornar um produto cultural acessível, nivelando “alta cultura” e “cultura de massa”, um filme de gênero sempre depende dessa “combinação de novidade e familiaridade. As convenções do gênero são conhecidas e reconhecidas pelo público e tal reconhecimento já é, por si só, um prazer estético”. (BUSCOMBE, 2005, p. 315). Os gêneros no cinema brasileiro: os primeiros momentos O cinema no Brasil começa sob o signo da perspectiva industrial e da importação de modelos. Em torno desses dois eixos gira toda a produção, realização e difusão de filmes no País, nas primeiras décadas do século XX. Quanto ao primeiro, é fato que a primeira geração de produtores e distribuidores de filmes a atuar nas cidades brasileiras estava mais interessada na rentabilidade comercial do cinema, não se podendo falar em idéias organizadas com uma determinada finalidade que não aquela de investir e lucrar com o novo meio de entretenimento. Quanto ao segundo, é relevante considerar a chegada de imigrantes que aqui aportavam em busca de trabalho e o seu direcionamento para a indústria de entretenimento. Muitos desses imigrantes tinham facilidades de ida e vinda e contatos deixados em seus lugares de origem e podiam estar em dia com a disseminação do cinema pelo mundo. Foram eles que se encarregaram de formar um público de espectadores no Brasil, trazendo do estrangeiro as projeções luminosas sobre uma tela branca.5 5 Exemplar é o caso de Pascoal Segreto, um italiano que, aos 28 anos de idade, era empresário do Pantheon Ceroplástico, um museu de cera que se apresentava em vários logradouros do Rio de Janeiro, por volta de 1896. Acostumado a investir no mundo dos espetáculos, Segreto introduziu o primeiro cinematógrafo permanente no Brasil: o Salão de Novidades. Antes dele, o público havia já visto o Kinetographo, trazido pelo empresário português Aurélio da Paz Reis, que estreou em 15 de janeiro de 1897; o Cinematographo Edison, apresentado pelo prestidigitador espanhol Enrique Moya; o Animatographo, do professor italiano Vittorio di Maio e o Cinematographo Lumière, apresentado pelo francês Henry Picolet.
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    Além disso, aprecária situação econômica de grande parte da população do País % impedia o investimento de empresários, técnicos e profissionais na área. Nossas indústria e tecnologia, quase inexistentes, também se mostravam incapazes de Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 fabricar máquinas de cinema. Todos esses fatores contribuíram para atrair a atenção dos centros produtores e difusores do cinema no mundo, que demonstraram um especial interesse pelo mercado brasileiro. Primeiro vieram os filmes experimentais de Edison, Lumière e outros. Logo em seguida, as pesquisas mais elaboradas de Méliès, Zecca, Edwin Porter, etc. Depois as epopéias italianas de Ambrosio, Pastrone e Guazzoni. Imediatamente após, os dramas escan- dinavos de Asta Nielsen e Valdemar Psilander. Em 1915, num concurso de popularidade efetuado no Brasil, os quatro primeiros postos foram ocupados pela italiana Francesca Bertini, pelos dinamarqueses Nielsen e Psilander e pelo norte-americano Maurice Costel- lo. Daí por diante, porém, garantidos pelos bancos, que pouco a pouco haviam tomado o controle dos estúdios, os filmes norte-americanos começaram a entrar com maior força no nosso mercado, eliminando gradativamente, através de uma produção e uma publici- dade maciças, os demais concorrentes. (VIANY, 1987, p. 37). Quanto à realização de filmes em nosso país, ela parece ter se iniciado também dentro do princípio ontológico de reprodução do real que guiava as primeiras produções de Lumière, bem como a de tantos realizadores europeus e americanos. Em 19 de junho de 1898, Afonso Segreto faz o registro da baía de Guanabara, de bordo do navio Brésil que o trazia da França. O jornal A Gazeta de Notícias, do Rio, no dia 20 de junho de 1898, noticia o fato aos leitores: Chegou ontem de Paris o sr. Afonso Segreto, irmão do proprietário do salão Paris, no Rio, sr. Gaetano Segreto. O sr. Afonso Segreto há sete meses que fora buscar o aparelho foto- gráfico para preparo de vistas destinadas ao cinematográfo e agora volta habilitado a montar aqui uma verdadeira novidade que é a exibição de vistas movimentadas no Brasil. Já ao entrar à barra, fotografou ele as fortalezas e os navios de guerra. A partir dessa primeira “vista”, se inicia uma diminuta produção em que os filmes eram pequenos, feitos com tecnologia precária, destinados à exibição nas salas de divertimento que apareciam, principalmente, no Rio de Janeiro. Logo, as vistas e as paisagens que se multiplicavam começaram a dividir o espaço com filmes que recheavam o universo de interesse dos habitantes do Rio e de outras cidades. Registros de casos policiais famosos, melodramas, filmes
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    religiosos, dramas históricose patrióticos e filmagens de bailes e corsos carnavalescos, ao mesmo tempo que forneciam ao público uma diversidade de escolha dentro de um panorama comum a todos, consolidavam-se na sucessão Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas dessas mesmas escolhas. Sempre atento às tendências dos filmes estrangeiros que faziam sucesso na época, o próprio Segreto produziu filmes ligeiros, como Beijos de amor e Um colegial numa pensão, os quais reproduziam cenas cômicas da vida cotidiana. O ano de 1908 marcou o início de uma fase áurea do cinema brasileiro, com uma produção intensa. A demanda do público se tornava cada vez maior com a ascendência de uma classe burguesa urbana e uma intensa população de migrantes. Os espectadores já então se tinham habituado ao novo entretenimento, exigindo a ampliação do número de salas exibidoras e a variação dos filmes. Nessa época, romancistas, dramaturgos e caricaturistas começaram a se interessar em escrever para o cinema. Grande parte da instalação dessa fase se deveu à participação de proprietários das salas de exibição, os quais resolveram investir na produção cinematográfica.6 A pesquisadora Anita Simis registra 963 produções nesse período, no País. “Grande parte desses filmes eram de curta metragem, sendo vários deles documentários e tomadas de vistas e um quarto de ficção produções, 763 eram filmes curtos, como documentários e tomadas de vistas (768) e um quarto de ficção (240)”. (SIMIS, 1996, p.72). Construíam-se estúdios e neles eram realizadas películas que iriam competir com as fitas estrangeiras exibidas. Mas, em geral, os realizadores continuavam seguindo os modelos genéricos vindos “de fora” e que obtinham sucesso. Proliferavam os documentários; as vistas; os filmes falantes e os cantantes, sincronizados com o som de fonógrafos; os filmes sacros; os chamados “filmes livres”, proibidos para mulheres e crianças; as comédias e os policiais. Estes últimos se destacavam entre os modelos narrativos. 6 Quanto às salas de exibição, nos primeiros tempos do nosso cinema, eram inexistentes. Depois, pouco a pouco, foram surgindo salas esparsas, funcionando em circos, teatros, pavilhões eventuais e mesmo em locais de consumação de bebidas e comidas, como os cafés-concerto e, quase sempre restritas aos centros mais adiantados, como Rio e São Paulo.
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    As comédias, sobretudoaquelas que repassavam repetidamente um “estar” cínico ' da realidade brasileira, caíam no gosto do público. Tornavam-se o gênero mais popular de cinema. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 As comédias... envolviam sempre algum tipo de malvadeza. As vítimas eram muitas: aman- tes, policiais, cozinheiros, vagabundos, tintureiros chineses, proprietário de mercearias. Ha- via bagunça de todo tipo: guerras de travesseiro entre internas, guerras de farinha de trigo e de tortas entre adultos, brigas entre policiais e civis. Estas comédias eram freqüen- temente cínicas em relação à autoridade e à moralidade vigente. Esperava-se a infidelida- de. A corrupção era motivo de piada. Proliferavam estereótipos raciais e profissionais. (COS- TA, 1995, p. 21). A introdução do fator “brasileiro” se constitui em dado mais que importante na gênese genérica dos filmes, ao lado da vontade industrial e da importação de modelos. A primeira comédia de enredo foi Nhô Anastácio chegou de viagem (1908), de Julio Ferrez, filme de menos de quinze minutos, produzido por Arnaldo Gomes de Souza e Marc Ferrez. Nhô Anastácio chegou de viagem mantinha, com humor e alguma ironia, um fio narrativo que ainda não havia sido explorado e pode-se afirmar que trazia um caipirismo bem brasileiro. O primeiro policial foi Os estranguladores (1908). O filme era a adaptação de uma peça teatral contando uma rebuscada história de dois assassinatos em 40 minutos – tempo demasiado para os filmes da época – que alcançou grande sucesso – mais de 800 exibições – tendo sido produzido pela Photo-Cinematografia Brasileira, sociedade do cinegrafista português Antonio Leal com o ex-comerciante José Labanca. Nessa vertente policial, também em 1908, foi produzido O crime da mala, pela empresa Francisco Serrador, no qual se reconstituía o assassinato de Elias Farah, por Miguel Traad, que esquartejou a vítima e tomou um navio com intenção de jogar os pedaços do cadáver no mar, mas acabou sendo preso. O filme apresenta uma mistura de fato ocorrido com ficção, com registros autênticos dos locais do crime e do julgamento do assassino. A união de imagens encenadas com imagens documentais resulta em uma fórmula que começa a dar o tom em algumas produções brasileiras, tais como Noivado de sangue, Um drama na Tijuca e A mala sinistra, sendo este último uma versão do mesmo crime da mala.
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    Esses dois tiposde filme repetiam ou criticavam o cotidiano dos habitantes das # cidades, em especial do Rio de Janeiro, em ritmo de crescimento, aumento da pobreza e implantação de valores sociais, incitando o voyeurismo do público que Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas ia ver, no cinema, os fatos urbanos domésticos, pitorescos ou violentos. Paz e amor (1910), de Alberto Botelho, é uma comédia que já mesclava fragmentos de outros gêneros.7 O título se referia a uma frase do Presidente Nilo Peçanha que, ao assumir o cargo, teria dito aos repórteres: “Farei um governo de paz e amor.” No filme, que era dividido em quatro partes, cinco quadros e duas apoteoses, eram criticados os acontecimentos da campanha civilista, os políticos nacionais e os costumes da cidade. Nesse período, os filmes que aqui chegavam ou aqueles que aqui eram produzidos tinham duas possibilidades de distribuição: ou eram exibidos nas salas de projeção das grandes cidades ou ficavam destinados à exibição ambulante. “Pelo país afora seguiam cinegrafistas itinerantes registrando coisas e projecionistas exibindo-as, bem como ao material importado de séries de filminhos de diversas proveniências.” (FINGUERUT, 1986, p. 3). Em 1915, veio morar em São Paulo o italiano Vittorio Capellaro, responsável pela produção dos primeiros épicos e de adaptações literárias no País. E, em 1919, Gilberto Rossi e José Medina produziram, também em São Paulo, Exemplo regenerador, filme considerado de bom padrão técnico e artístico. Assim, o grosso da produção fílmica que, de 1912 a 1922, situava-se no Rio de Janeiro, alastrou-se para outros estados. A atividade produtiva causou o surgimento de revistas especializadas em cinema, bastante lidas na época, em especial Para Todos, Selecta e Cinearte Esta última abriu um caminho para que se pensasse nas possibilidades do uso do cinema com fins de educar a juventude brasileira, através de gêneros “educativos”. Mas, desde 1911, com a chegada da primeira leva de capitalistas norte- americanos interessados em investir em cinema no Brasil, os filmes estrangeiros começaram a tirar espaço das produções feitas no Brasil, fato que foi se intensificando, causando progressiva regressão na produção local de tal forma 7 Pode-se dizer que Paz e Amor é um filme verdadeiramente precursor da identidade genérica das chanchadas.
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    que, ao fimda década de 10, a produção cinematográfica brasileira entrava em # crise e passava a sobreviver com a ajuda da filmagem de jornais e documentários que, então, se transformavam em um gênero básico para o mercado exibidor. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Por alguns anos, o cinema brasileiro sobreviveu quase exclusivamente dos cinejornais e dos filmes de cavação, um tipo de filme encomendado ou vendido às figuras proeminentes ou ricas que neles apareciam. A anulação da farta fase produtiva pode ser creditada a alguns fatores que afetaram o mercado cinematográfico no País. Um desses fatores, a dificuldade em importar material, por ocasião da Guerra de 1914, prejudicou em muito a produção fílmica. Além disso, os Estados Unidos se aproveitaram do envolvimento da Europa no conflito para intensificar uma política agressiva de exportação de produtos cinematográficos para países como o Brasil. Não deixa de ser interessante que, por essa ocasião, o técnico americano William S. Jansen juntou-se a comerciantes brasileiros para fundar uma empresa cinematográfica, a Brasil Film, depois denominada Sociedade Anônima Omega Film. A Omega Film pretendia produzir filmes baseados em autores literários, comédias e dramas históricos dentro de um modelo que apresentasse a novidade do aspecto brasileiro a ser exportado para os Estados Unidos. Em junho de 1919, a produtora mostrou seu filme Urutau em sessão para convidados e jornalistas. O filme tratava de uma pretensa lenda indígena, apoiando- se em uma mistura narrativa repleta de exotismo, cercada de pretensas matas, cachoeiras, plumagens e modo “selvagem” de vida. Foi veementemente louvado pela crítica como sendo um dos grandes esforços já feitos, no Brasil, para implantar a arte e a indústria do cinema, dentro de propostas para educar, divertir e engrandecer o povo brasileiro. Apesar do entusiasmo com que foi recebido pelos comentaristas, o filme nunca estreou comercialmente. E, com a volta de Jansen à América do Norte, a Omega Film foi extinta, tendo o filme desaparecido juntamente com o produtor. A chegada da tecnologia do som a Hollywood modificou o cinema em todo o mundo. Em 6 de outubro de 1927, estreava, nos Estados Unidos, o primeiro filme falado e cantado: O cantor de jazz (The jazz singer), produzido e realizado pela Warner Bros.
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    A Warner Brosocupava um lugar relativamente à parte entre as grandes produtoras # pelo modo como aplicava seus recursos econômicos e, desde muito, havia começado a investir na adaptação de um dispositivo de sincronização sonora Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas para seus filmes. Em julho de 1928, a companhia lançava The lights of New York, o primeiro filme falado de gangster. Entre nós, o fim da era do cinema mudo intensificou o trabalho de importação de filmes americanos. Porém, estimulado pelo sucesso de Barro humano (1929), Adhemar Gonzaga conseguia já recursos para fundar um grande estúdio, a Cinédia, pioneira em filmes musicais, na esteira dos filmes musicais hollywoodianos que a tecnologia sonora havia deslanchado. Instalada no bairro carioca de São Cristóvão, a Cinédia era dotada de parâmetros técnicos, bem-equipada e tinha nítida inspiração nos estúdios de Hollywood, desenvolvendo uma produção regular, com palcos simultâneos, equipamentos de qualidade e pessoal contratado em regime permanente. A exemplo dos americanos, os filmes cantados e dançados brasileiros da década de 30 operavam sob a forma de backstage musical da época.8 No backstage a estrutura narrativa se alicerça em uma história que apenas serve de pretexto para que danças e canções sejam encenadas. Foi essa forma fílmica que permitiu, rapidamente, uma vinculação dos musicais, no Brasil, com o rádio e com a indústria fonográfica, atuando, especialmente dentro de um modelo carnavalesco. Na Cinédia foram produzidos A voz do carnaval, em 1933, e Alô, Alô, Brasil, 1935, dirigido pelo norte-americano Wallace Downey, representante dos discos Columbia em São Paulo. Em sua realização, esse filme contava com uma imensa constelação de estrelas do rádio e do mercado fonográfico. Em 1936, a Cinédia lançava um filme carnavalesco que alcançou enorme sucesso, Alô, Alô, Carnaval. E em 1939, era produzido Banana da terra, filme em que Carmen Miranda se despedia do cinema no País. A alternativa do filme musical de carnaval obedeceu, em parte, a uma vocação da socie- dade carioca: o cômico a ele acrescentado trouxera mais vigor e mais público, principal- 8 Em oposição ao backstage musical, o integrated dance musical busca integrar os números de dança ao processo diegético do filme, expressando situações da narrativa e integrando-se a elas.
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    #! mente quando estas histórias e estas narrativas mostravam o Rio de Janeiro com sua própria cara. O cômico era linguagem descritiva da esterilização dos destinos individuais e também representava a possibilidade das vivências e das sociabilidades cotidianas de Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 forma incomum, no seio de uma comunidade imaginada. (FERREIRA, 2003, p. 79). Das chanchadas às pornochanchadas De repente, em determinado momento (talvez por volta da década de 40), por todo o País, ouvia-se a palavra chanchada. “Não se sabe ao certo quem primeiro a empregou entre nós, mas tudo indica que, antes de se estabelecer por aqui, ela tenha feito baldeação na Argentina.” (AUGUSTO, 1989, p. 17). O nome chanchada serve a um cinema em que tudo se faz sobre a necessidade de negociar com o público e não de educá-lo ou de instruí-lo. E, sobretudo, sobre a necessidade de adaptar os gêneros fílmicos a uma “brasilidade” que nada tinha de cópia dos modelos estrangeiros.9 Os espectadores das chanchadas ansiavam por filmes populares e alegres, sem se importar que fossem ou não profissionalmente bem-acabados ou que contivessem refinadas mensagens. Pode-se dizer que o espírito da chanchada locou-se no Brasil, desde a chegada do espetáculo cinematográfico, quando se consolidou a tradição de uma produção destinada a entreter certo tipo de público, anteriormente voltado para o circo e o teatro. Desse modo, a popularização dos filmes se fez sentir desde os primeiros momentos, apesar dos protestos daqueles que pretendiam uma cultura mais “artística” para o País.10 9 Alguns críticos mais radicais afirmam que as chanchadas eram cópias de modelo hollywoodiano. Naturalmente que, para alguns, cópias inferiores. No entanto, a fórmula de Carnaval no Fogo (1949), apontada como cópia dos filmes da dupla Jerry Lewis e Dean Martin, foi pensada antes da primeira comédia de Lewis e Martin, Amiga da onça (My friend Irma), produzida em 1949 e lançada no Brasil algum tempo depois que Alinor Azevedo e Watson Macedo já tinham terminado Carnaval no Fogo. 10 Os intelectuais sempre temeram o entretenimento, pois sabiam bem que este ameaçava a fragilidade cultural. O entretenimento vinha ocupar um lugar dos sentidos que a razão e a mente tentavam cooptar. O entretenimento vinha substituir o sublime pelo divertido. Desmerecer o entretenimento era, portanto, uma questão de poder.
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    Não é coincidênciaque o desprezo de um certo tipo de intelectualidade pe- # las chanchadas seja o mesmo que as elites culturais, por longo tempo, mantiveram a respeito do entretenimento das massas. Afinal, um dos dogmas da cultura erudita Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas era que a arte exigia esforço para ser apreciada, sobretudo esforço intelectual, mas que o entretenimento não fazia exigência alguma ao intelecto. Ela (a arte) redimensionava a visão do sensual para o intelectual, do temporal para o eterno, do corpóreo para o espiritual, coisas que, todas juntas, faziam da arte uma questão não só de estética como também de moralidade, já que seu efeito era encorajar o aprimoramento. (GABLER, 1999, p. 23). As chanchadas se constituíram sobre uma coletânea de gêneros já reconhecidos sem maiores dificuldades pelos espectadores brasileiros, mesclando melodrama, drama romântico, aventura, policial e, sobretudo, musicais e comédia. Em suas relações com o cinema no Brasil, as chanchadas constituem uma topografia que se afirma não como um lugar de proveniência e fim de algo, mas uma terra de convergência para todas as orgias do imaginário cinematográfico, repletas de deusas, personalidades do mundo social e político, indígenas, faraós, gangsters, bailarinas, figuras bíblicas, personagens teatrais, enfim, uma desmesurada gag cultural embalada por músicas carnavalescas e por adaptações populares de peças eruditas. Pode-se dizer que a terra das chanchadas está fundamentada sobre o território do cinema brasileiro, mais precisamente sobre as idéias que nele pairam, e se configura, ela mesma, em arquipélago enunciativo, feito de associações, aproveitamentos, cópias, montagens, cruzamentos e permutas de outros gêneros, incessantemente em combinação. Na rede cruzada de fragmentos que vão organizando as histórias, o nome chanchada se confunde com outros, como aquele que viria a designar o lugar produtor de chanchadas por excelência: a Atlântida, que, no entanto, “não foi o único celeiro da chanchada, apenas o mais antigo e produtivo (62 filmes de ficção e dois documentários em 20 anos de atividade) por conseguinte, o mais célebre”. (AUGUSTO, 1989, p. 30). A Atlântida foi oficialmente fundada em 18 de setembro de 1941, por Moacyr Fenelon, Edgard Brasil, José Carlos Burle, Arnaldo de Farias e Alinor Azevedo.11 11 A marca da produtora, a não ser pelo chafariz jorrando água em abundância, em nada lembrava a utópica cidade-estado de Atlântida, sonhada por Platão e devorada pelo oceano, cujos habitantes eram sábios e portadores de grandes riquezas.
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    Com o nomede Atlântida Empresa Cinematográfica do Brasil S.A., pretendia ser ## uma fonte de produção de filmes brasileiros que, ao lado do apuro técnico, exi- bissem um conceito de identidade cultural do Brasil. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Em seu depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, em 5 de agosto de 1969, Alinor de Azevedo conta de que maneira participou da fundação da companhia: Uma vez eu estava na Cinelândia, muito desgostoso, e encontrei o Moacir Fenelon. Ele me pediu uma ajuda para fundar uma empresa. Foi aí que comecei a escrever o prospecto da Atlântida. Falei de filme colorido, de coisas mirabolantes e até de coisas que a empresa nunca fez. Ficou conhecido como o Manifesto da Atlântida. (1969, p. 59). O Manifesto da Atlântida – que era “propagandista, para inspirar a confiança nos compradores de ações da Companhia”, segundo Alinor – é, possivelmente, a primeira demonstração, no meio cinematográfico brasileiro, de consciência da necessidade de adequar a produção e a proposta de industrialização à realidade concreta do mercado. A Atlântida tentou, desesperadamente, colocar isso em prática. Tomando Alinor Azevedo como exemplo, pode-se ter uma idéia de quanto seus idealizadores pretendiam fazer um cinema engajado, de acordo com seus ideais de cultura e política no Brasil, mas tiveram que se render a filmes de entretenimento popular para continuar industrialmente atuando.12 Era de Alinor o roteiro de Tumulto, o primeiro longa-metragem da Atlântida, que nunca foi filmado. Na produtora, ele fez ainda Asas do Brasil (1947), Luz dos meus olhos (1947), Terra violenta (1948), todos filmes baseados em nosso universo sociocultural. Então, veio uma fase intensa de chanchadas produzidas na Atlântida. Apoiado em uma idéia de Anselmo Duarte, em 1946, Alinor Azevedo fez o roteiro de Carnaval no Fogo, filme que conseguiu sintetizar o modelo ideal do gênero chanchadesco no Brasil.13 12 Alinor Azevedo era o cérebro da Atlântida. Foi um dos mais importantes roteiristas do País. 13 Na Atlântida, Alinor Azevedo ainda trabalhou em roteiros originais, diálogos e adaptações para chanchadas e outros tipos de filme: Caçula do barulho (1949), Também somos irmãos (1949), Aviso aos navegantes (1950), A sombra da outra (1949), Não é nada disso (1950), Maior que o ódio (1951).
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    O imenso sucessode bilheteria de outra chanchada, Este mundo é um pandeiro #$ (1946), escrita por Hélio Soveral, tinha atraído Luiz Severiano Ribeiro o maior exibidor do País e dono da distribuidora União Cinematográfica Brasileira, que Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas passou a investir na produtora. Severiano Ribeiro estava motivado, sobretudo, pela Lei 20.493 (sancionada no início de 1946), que obrigava todos os cinemas a exibir pelo menos três longas- metragens brasileiros por ano, ou seja, um filme a cada quatro meses. A estratégia da participação do exibidor na produção tinha a sua lógica. A seção Cine- gráfica de O Cruzeiro acusava, atrás da anônima assinatura de operador, que Severiano durante a guerra havia comprado cotas da Distribuidora de Filmes Brasileiros (DFB) e da Distribuidora Nacional (DN), que eram duas das três firmas especializadas na distribui- ção de filmes brasileiros no eixo Rio-São Paulo. Severiano trazia o cabedal dos territórios de exibição do Rio-Leste-Nordeste-Norte do país, agora acrescido de um laboratório cine- matográfico que pretendia ser o melhor do Brasil. O passo seguinte da estratégia do exi- bidor foi aproveitar-se da exibição corrente do meio cinematográfico, propondo co-produ- ções a quantos projetos houvesse. (CATANI, 1983, p. 50-52). A verticalização empreendida pelo empresário foi fundamental para a longevidade e a continuidade das atividades da produtora que passou a contar com uma equipe de realizadores como Watson Macedo, José Carlos Burle e Carlos Manga. Instalou-se, também, um sistema de estrelas e astros, alguns exclusivos da Atlântida, como o casal romântico dos filmes, Eliana e Anselmo Duarte e cômicos como Oscarito e Grande Otelo. Na década de 50, a Atlântida se transformou em uma verdadeira fábrica de chanchadas, obtendo imenso sucesso comercial. Sucediam-se as chanchadas de sucesso como Nem Sansão nem Dalila (1954) e O homem do Sputnik (1959).14 Esse encontro entre produção e comércio exibidor lembra a harmoniosa e nunca repetida conjuntura econômica que reinou no cinema brasileiro entre 1908 e 1911. Em 1947, porém, o resultado mais evidente da almejada confluência de interesses industriais e comerciais foi a solidificação da chanchada e sua proliferação durante mais de quinze anos. (GOMES, 1980, p. 73). 14 A par das chanchadas, a Atlântida não deixou de produzir filmes “sérios” como já havia produzido Vidas solidárias (1945), de Moacyr Fenelon e Também somos irmãos (1949), de José Carlos Burle. A Atlântida produziu Luz dos meus olhos (1947), onde José Carlos Burle lançou a atriz Cacilda Becker; Terra violenta (1948), e o policial Amei um bicheiro (1952), de Jorge Ileli e Paulo Wanderley.
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    Também a partirde 1950, a experiência cinematográfica dos espectadores #% brasileiros passou a contar com uma indústria cinematográfica disposta a explorar fatos tais como a volta de Getúlio Vargas ao poder, eleito pelo voto direto, as Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 novidades da industrialização, o êxodo rural e o crescimento das cidades brasileiras. Nessa década, desenvolve-se o modelo institucionalizado de um ethos cultural brasi- leiro que a política desenvolvimentista do governo fazia questão de acentuar. Carna- val, samba, bons malandros e os olhos verdes da mulata povoam os gêneros fílmicos produzidos no País, até a irrupção do Cinema Experimental e do Cinema Novo.15 No fim dos anos 60, aparece a pornochanchada, uma forma de cinema que, se mal- adivinhada anteriormente aqui e ali, irrompe, finalmente, em decorrência da crise institucional do cinema no Brasil. Para muitos, a crise que se apresenta como decorrência de fatos políticos que desencadeiam violenta censura aos meios de comunicação, propiciou o surgimento da pornochanchada. Mas o pesquisador Gelson Santana apresenta uma versão mais bem fundada no aparato institucional do cinema brasileiro, quando remete à própria precariedade que rege esse meio: “Na pornochanchada, o processo de fazer uma imagem sem espessura é levado às últimas conseqüências... E ele (esse processo) foi resultado de uma falta de ca- pacidade artística e tecnológica da indústria cinematográfica nacional.” (SANTANA, 2005, p. 329). Esse deslocamento de uma explicação de raiz sociológica (a crise política) para um dado tecnologicamente ancorado na produção e realização de filmes se torna fundamental, dentro da visão institucional do cinema: O precário é a instância primordial, ele é o resultado de uma espécie de subnutrição tecnológica. E é exatamente esta espécie de subnutrição que inventa ou conforma o gênero no cinema brasileiro. Se o gênero no cinema brasileiro pode ser visto como a configuração do precário em formas paradoxais imantadas nos filmes, isso se deve ao fato de que gênero no cinema brasileiro se faz a partir de pontos de convergência de determinadas práticas, tanto materiais, determinadas pela precariedade, quanto expressivas. (SANTANA, 2005, p. 326). 15 O fim da Atlântida, em 1962, se deve a uma série de filmes mal-sucedidos e ao advento do Cinema Novo e da televisão no País.
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    As pornochanchadas, queras produzidas no Rio, quer as feitas na Boca do Lixo # paulista, eram o tipo de filme com uma produção barata e disposta a produzir um filme com o lucro imediato de outro filme.16 Lyra, Bernadette. A emergência de gêneros no cinema brasileiro: do primeiro cinema às chanchadas e pornochanchadas Na década de 80, com a invasão dos filmes eróticos estrangeiros, a pornochan- chada assumiu um caráter mais explícito: Êxitos como Bacanal de Colegiais, A Menina e o Cavalo e Sexo em Festa serviram para provar ao comércio cinematográfico que o Brasil podia fazer frente a desenfreada importação de pornôs estrangeiros. E em relação ao público, existia a vantagem: a língua portuguesa. O palavreado chulo em meio das fartas transas tornavam nossos filmes mais atraentes. A indús- tria da Boca sentiu-se, aparentemente, mais segura, podia se manter e manter os empregos que gerava. Era o começo de um caminho sem volta. (STERNHEIM, 2005, p. 39). Essas formas que materializavam, escancaradamente, o aspecto pornô emergiram das instâncias externas que, ao longo da história do cinema brasileiro, foram estruturando os atos de produção e difusão, em conjugação com os aspectos técnicos e tecnológicos e com as alternativas estéticas e narrativas dos filmes. Concluindo As formas de produção de chanchadas e de pornochanchadas foram concebidas no triplo cruzamento que moveu a produção de filmes no País, desde seus princípios: modelos importados, que faziam sucesso entre nós, e eram, já, devidamente conhecidos e reconhecidos pela formação cinematográfica do público; modelos voltados para aproveitamento daquilo que a instituição cinematográfica considerava “a nossa cultura”; modelos adaptados à rentabilidade econômica de produção e difusão e às injunções técnicas e tecnológicas existentes no País. Dessa integração de modelos foi feito o cinema brasileiro de gêneros. Os gêneros foram emergindo como possibilidades de organização e estruturação cinematográficas dentro de nossas possibilidades e precariedades, e foram se organizando com o fim de garantir as expectativas do público.Gênero no Brasil é a experiência que resulta desse enlace institucional que une a indústria do ci- nema com o modo de combinar as imagens e os sons. 16 O cinema da Boca do Lixo respondia por mais de 50% da produção brasileira da década de 70.
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    REFERÊNCIAS #' AUGUSTO, Sérgio. Este mundo é um pandeiro: a chanchada de Getúlio a Sérgio Augusto. São Paulo: Cinemateca Brasileira/Cia. das Letras, 1989. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 AZEVEDO, Alinor . Depoimento ao Museu da Imagem e do Som. Rio de Janeiro: MIS, 1969. BAZIN, André. O Cinema. São Paulo: Brasiliense, 1991. BUSCOMBE, Edward. A idéia de gênero no cinema americano. In: RAMOS, Fernão Pessoa (Org.). Teoria contemporânea do cinema. São Paulo: Senac, 2005. p. 303-318. v. 2. CATANI, Afrânio Mendes; SOUZA, José Inácio de Melo. A chanchada no cinema brasileiro. São Paulo: Brasiliense, 1983. (Col. Tudo é História, n. 76). GOMES, Paulo Emílio Salles. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. (Col. Cinema, n. 8). COSTA, Flávia Cesarino. O primeiro cinema. São Paulo: Scritta, 1995. FERREIRA, Suzana Cristina de Souza. Cinema carioca: anos 30 e 40. São Paulo: Annablume, 2003. FINGUERUT, Silva. Cinema brasileiro: 90 anos. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 1986. GABLER, Neal. Vida, o filme. São Paulo: Cia. das Letras, 1999. GRILO, João Mário. A ordem no cinema. Lisboa: Relógio-d’Água, 1997. GUNNING, Tom. Le style non-continu du cinéma des premiers temps. Les Cahiers de la Cinémathèque, Paris, n. 24, p. 24-34, 1979. METZ, Christian. Langage et cinema. Paris: Larrouse, 1971. SANTANA, Gelson. A pornochanchada como gênero. In: CATANI, Afrânio Mendes; GARCIA, Wilton; FABRIS, Mariarosa. Estudos de Cinema SOCINE – Ano VI. São Paulo: Nojosa, 2005. p. 325-331. SCHATZ, Thomas. Hollywood genres: formulas, filmmaking and the studio system. Filadelfia: Temple University Press, 1980. SIMIS, Anita. Estado e cinema no Brasil. São Paulo: Annablume, 1996. STERNHEIM, Alfredo. Cinema da Boca: dicionário de diretores. São Paulo: Cultura; Fundação Padre Anchieta; Imprensa Oficial, 2005. TOULET, Emmanuelle. O cinema: invenção do século. São Paulo: Objetiva, 1998. VIANY, Alex. Introdução ao cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Alhambra; Embrafilme, 1987.
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    $ Vigília e inteligênciaestratégica: ferramentas metodológicas Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 para a definição de estratégias de relações públicas Ana Cristina Fachinelli1, Jane Rech2, Olivar Maximino Mattia3 e Vanessa Roveda4 RESUMO O presente artigo pretende, a partir de uma análise das características da sociedade contem- porânea, refletir sobre as novas necessidades das organizações quanto à área de comunicação. Dessa forma, parte-se da investigação de quais são os atributos que o profissional de comunicação deve desenvolver para formular e implantar estratégias eficazes, bem como quais metodologias e processos podem auxiliá-lo nessa tarefa. Sendo assim, este trabalho apresenta um estudo sobre a importância da informação para a criação de estratégias e sobre a contribuição que metodologias de processamento da informação, como a vigília e a inteligência estratégicas, podem gerar para a atividade de relações públicas. Palavras-chave Novas tecnologias de informação e comunicação. Informação. Vigília estratégica. Palavras-chave: Inteligência estratégica. Relações públicas. ABSTRACT This paper intends, from the analysis of the characteristics of a contemporary society, to reflect about the new organizational necessities in the field of communication. It refers to the necessary attributes of the communication professional in order to shape and to establish efficient strate- gies as well as processes and methodologies like Strategic Intelligence. Key words: New technologies of information and communication. Information. Strategic Vigil. Strategic Intelligence. Public Relations. 1 Doutora em Ciências da Informação e da Comunicação pela Université de Poitiers – França. Professora/ Pesquisadora no Departamento de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul (UCS). E-mail: acfachin@ucs.br. 2 Doutora em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Professora/Pesquisadora no Departamento de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul (UCS). E- mail: jrech2@ucs.br. 3 Mestre em Tecnologia da Educação pelo Instituto de Pesquisas Espaciais, Inpe/CNPq de São Paulo. Diretor/Professor/Pesquisador no Centro de Ciências Humanas e da Comunicação da Universidade de Caxias do Sul (UCS). E-mail: ommattia@ucs.br. 4 Bacharel em Relações Públicas pela Universidade de Caxias do Sul (UCS).
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    grande desenvolvimento dasnovas tecnologias de informação provocou $ profundas modificações no comportamento da sociedade contemporânea, O criou novas formas de ação e interação e assim transformou a organização Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... espacial e temporal da vida social. Thompson5 analisa os principais impactos que os meios de comunicação trouxeram à sociedade contemporânea, destacando cinco pontos principais de repercussões: 1. reorganização do espaço e do tempo: antes dos meios de comunicação, o conceito de simultaneidade pressupunha que, para assistir a um determinado acontecimento, era necessário estar presente no ambiente-evento. Se isso não fosse possível, o conhecimento era adquirido através de relatos de outras pessoas sobre o fato. Com o desenvolvimento dos meios de comunicação, a interação se dissocia do ambiente, permitindo que indivíduos interajam com situações ou pessoas mesmo estando em espaços diferentes; 2. transformação da visibilidade: no momento em que as interações se tornam independentes do compartilhamento do mesmo ambiente físico, os eventos envolvendo, tanto os fatos como as pessoas adquirem maior visibilidade. Isso porque há um aumento significativo do número de pessoas que passam a ter conhecimento de uma determinada situação. Políticos e líderes sociais tiveram que se adaptar a essa nova visibilidade; 3. a globalização da comunicação: a crescente interconexão entre os diferentes pontos do mundo possibilita que atividades aconteçam numa arena que é global. Possibilita também que atividades sejam organizadas, planejadas ou coordenadas numa escala mundial envolvendo algum grau de reciprocidade e interdependências globais; 4. a alteração da experiência do indivíduo num mundo mediado: o desenvolvimento da mídia aumentou a capacidade dos indivíduos de experimentarem, através da interação mediada, experiências que dificilmente aconteceriam na interação face a face. Ou, seja, o conhecimento local do indivíduo é complementado por co- nhecimentos não locais. A compreensão do mundo é, em grande parte, modelada pela mediação de formas simbólicas; 5 THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
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    5. reinvenção dapublicidade: para pensadores de dois séculos atrás, a liberdade $! de expressão de pensamentos e opiniões só seria garantida na medida em que a imprensa fosse independente do Estado. No entanto, com essa independência Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 novas ameaças surgiram, como os fortes interesses comerciais das organizações da mídia, que voltaram a colocar em questão a imparcialidade dos veículos de comunicação. Todas essas repercussões alteraram significativamente os costumes e a cultura da sociedade contemporânea que gradativamente vem se habituando a viver num mundo interconectado. Isso fica ainda mais evidente quando se analisa o impacto da internet e o conceito de conectividade ao qual ela remete. A internet, de certa forma, confirma a teoria de Marshall McLuhan6 , sobre a mensagem não estar somente embasada em seu conteúdo, mas principalmente, no meio que se utiliza para sua transmissão. Ou seja, a modificação do meio de transmissão já é um processo transformador de nossa relação com o ambiente. Castells7 avança um pouco mais nessa lógica afirmando que as novas tecnologias de informação e comunicação estão acarretando uma revolução tecnológica para a sociedade. De acordo com ele, os registros históricos mostram que uma revolução é caracterizada pela sua penetrabilidade, ou seja, está permeada em todos os domínios da atividade humana. No caso da sociedade moderna, as novas tecnologias têm possibilitado uma troca muito superior de informações e conhecimentos, elementos que interferem em todos os aspectos da vida do indivíduo. Castells8 cita, ainda, as principais características do paradigma da tecnologia da informação, a fim de descrever essa revolução e diferenciá-la das anteriores. A primeira dessas características é que a matéria-prima dessa tecnologia é a informação, ou seja, são tecnologias que agem sobre a informação, e não informações que agem sobre a tecnologia. A segunda diz respeito ao fato de que, como a tecnologia trabalha sobre a informação, e a informação integra todos os aspectos da vida do indivíduo, todo o seu contexto acaba sendo atingido constantemente por ela. A terceira diz respeito à tecnologia da informação 6 McLUHAN apud NEGROPONTE, Nicholas. A vida digital. 2. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 1995. p. 14. 7 CASTELLS, Manuel. A era da informação: economia, sociedade e cultura. 5. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2001. 8 Ibidem, p. 108.
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    possibilitando a formaçãode redes que incentivam o processo criativo. A quarta $ característica trata da flexibilidade da rede, que admite sua reconfiguração, permitindo que a tecnologia acompanhe a velocidade das mudanças. E, finalmente, Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... a quinta indica a convergência de diferentes tecnologias dentro de uma só, as hipermídias. Dessa forma, a sociedade da informação possui características muito próprias, ou seja, nela o conhecimento e as informações circulam livremente, permitindo seu compartilhamento e, em conseqüência, o aprimoramento constante das técnicas humanas. Eis a origem da rapidez das mudanças na contemporaneidade: novas tecnologias que possibilitam e incentivam a existência de um ambiente em intenso aperfeiçoamento. As organizações, segundo Castells, por estarem inseridas em um contexto so- cial, tendem a copiar os modelos de relação presentes no ambiente externo. Por esse motivo, há alguns anos, quando a velocidade das mudanças era mais lenta, o principal objetivo das empresas não era antecipar oportunidades de mudanças, mas sim, preservar o status nas relações já estabelecidas. Inclusive, a mudança apresentava-se como um risco. O objetivo era crescer quantitativamente no mercado e preservar o espaço até então conquistado. No entanto, hoje, as organizações encontram-se diante de uma nova realidade. As mudanças não são mais um risco ou uma opção, e sim uma certeza. O contexto está em constante reconfiguração, e as organizações necessitam acompanhar esse ritmo para sobreviver. Dessa forma, as empresas começam a perceber que a vantagem competitiva está na captação de informações que dêem indicações de oportunidades e ameaças. Ou seja, a estratégia de competir globalmente resulta na capacidade da empresa de captar as necessidades do mercado e desenvolver com rapidez um produto ou serviço que responda a essa demanda. Lévy9 afirma que quanto mais competitivo for o mercado, mais as organizações precisam se dedicar, sem cessar, à pesquisa e ao aprendizado para compreender, conceber, produzir, comunicar e vender. O mercado recompensará as empresas que souberem cultivar talentos, semear idéias e investir na sua inteligência competitiva. Dessa forma, as empresas mais competitivas serão as que mais souberem cooperar, tanto internamente quanto com seus clientes. 9 LÉVY, Pierre. A conexão planetária: o mercado, o ciberespaço, a consciência. São Paulo: Ed. 34, 2001.
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    Todas essas alteraçõesnas características do ambiente exigem uma mudança $# na estrutura e na cultura das organizações. De acordo com Dan Tapscot,10 as empresas, para executarem seu trabalho com sucesso na sociedade da informa- Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 ção, necessitarão adotar uma nova estrutura de trabalho. Isso significa propor o abandono de uma hierarquia fechada para a adoção de uma hierarquia aberta em rede. O quadro¹ detalha como o autor descreve em tópicos as características principais dos dois tipos de estrutura: Organização Hierarquia fechada Hierarquia aberta em rede Estrutura Hierarquia pirâmide Em rede Orientação Voltada ao interior/fechada Voltada ao exterior/ aberta Recurso-chave Bens e equipamentos Recursos humanos, informação Posição Estática, estável Dinâmica, mutante Pessoal Gestores Especialistas Modo de funcionamento Recompensa e punição Comprometimento Tipo de direção Ordens vindas de cima Responsabilidade pessoal Fundamento das ações Controle Capacidade de agir Motivação individual Satisfação dos superiores Objetivos a alcançar em equipe Formação Tarefas específicas Competências estendidas Base de retribuição Posição hierárquica Resultados obtidos, nível de competência Relações Concorrenciais (territórios) Cooperativas (desafios compartilhados) Atitude do pessoal Distanciamento Identificação Exigências principais Gestão sadia Liderança Quadro 1: Organização fundamentada na informação Fonte: Adaptado de Tapscot (1997). Como se pôde constatar, as sociedades organizadas em rede possuem uma estrutura que permite e incentiva o compartilhamento de conhecimentos e o surgimento de novas idéias, uma estrutura que incentiva o processo criativo. Já 10 TAPSCOT, Don. Economia digital: promessa e perigo na era da inteligência em rede. São Paulo: Makron Books, 1997.
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    a organização dehierarquia piramidal parte do princípio de que os indivíduos $$ pensantes da organização resumem-se a uma pequena cúpula, que define as estratégias e políticas. Esse tipo de organização possui uma posição mercadoló- Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... gica estável, foca seu desenvolvimento nos seus bens e equipamentos, e possui uma visão mais voltada para seu interior. Cada colaborador tem tarefas específicas e se sente responsável somente por elas, porém sendo sempre controlado por seu superior. A recompensa pelo bom trabalho costuma ser a promoção para uma nova posição hierárquica, na qual se exerce maior poder sobre os outros. Numa organização aberta em rede, o líder tem como objetivo incentivar e auxiliar os colaboradores no desenvolvimento de suas atividades e competências, e não controlá-los, como na organização de hierarquia fechada. Na organização aberta em rede, tem-se um olhar atento voltado ao exterior para, assim, captar informações que permitam o ajuste com o ambiente; o incentivo é orientado para o desenvolvimento das competências de seus colaboradores, para que se tornem especialistas na área em que atuam; o comprometimento do funcionário é com a causa da empresa e com a da sua equipe de trabalho. Enfim, na empresa em rede, cada um possui uma visão clara de suas responsabilidades, buscando competência suficiente para desenvolvê-las e sendo recompensado pelos seus resultados. Para isso, o trabalho em equipe e o desenvolvimento das habilidades humanas constituem-se em elementos fundamentais. Assim, parece evidente que, no contexto da sociedade contemporânea, a estrutura de organização aberta em rede tem maior condição de garantir a adaptação das organizações, com vistas à sobrevivência. Até porque, esse modelo é capaz de comportar o desenvolvimento da inteligência organizacional, cujo conceito será estudado ao longo do capítulo, o que já não ocorre no modelo de hierarquia fechada. Ou seja, as empresas necessitam revisar seus conceitos e escolher ca- minhos que permitam a utilização de toda essa informação que se encontra es- palhada pelos meios, para obterem bons resultados. Afinal, como relata Castells,11 a importância da revolução tecnológica não está na grande quantidade de informações centralizadas, e sim no uso que se fará dessas informações e desses conhecimentos para desenvolver a inovação e o aperfeiçoamento constantes. Nessa lógica, a informação e o conhecimento (quando estáticos) não possuem o valor em si mesmos. O valor desses elementos se encontra nos conteúdos 11 CASTELLS, op. cit., p. 69.
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    dinamizados pelos fluxosque os orientam e no processo de troca e de interação $% de mensagens. A comunicação é o elemento condutor de todo esse processo, e será através dela que as organizações tornarão possível uma atitude mais Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 consciente e competitiva diante de seus públicos de interesse nesse contexto. Portanto, o profissional de comunicação, para atuar com competência na sociedade contemporânea, deve possuir uma visão sistemática e estratégica de seu ambiente interno e externo. Nesse contexto, o profissional de relações públicas “moderno” tem de ser um “revolu- cionário”, saindo da passividade para a administração ativa do processo comunicacional, posicionando-se como um estrategista e não apenas como um mero reprodutor de recados da organização procurando aplicar os princípios da comunicação simétrica de duas mãos.12 Dessa forma, como defende também Bueno,13 a comunicação passa a integrar o atual processo de gestão e partilha do conhecimento, incorporando sua prática e sua filosofia ao chamado capital intelectual das organizações. A função de relações públicas, dessa forma, apóia-se em metodologias, em pesquisas, no desenvolvimento de novas teorias para novas situações e apóia- se, sobretudo, na necessidade de dotar a comunicação de um novo perfil, de passar de uma função tácita para uma função estratégica. A estratégia Fayard14 se refere à estratégia como a arte de saber usar as forças do ambiente para gerar uma determinada situação. De acordo com ele, estratégia consiste em combinar, no tempo e no espaço, meios heterogêneos a serviço de um fim. Para tal combinação, é necessário um conhecimento profundo de si mesmo, do outro e do ambiente, para, dessa forma, identificar o momento de agir, o melhor local de ação, o inimigo, os meios e a forma de como usá-los para atingir um objetivo. 12 KUNSCH, Margarida Maria Krohling. Obtendo resultados com relações públicas. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 1997. p. 146. 13 BUENO, Wilson da Costa. Comunicação empresarial: teoria e pesquisa. Barueri: Manole, 2003. 14 FAYARD, Pierre. O jogo da interação: informação e comunicação em estratégia. Caxias do Sul: Educs, 2000. p. 59.
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    Ainda segundo Fayard,15 a informação é um dos elementos essenciais da $ estratégia e é possível verificar a existência de oito elementos principais, todos interligados, que são fundamentais para a formulação de uma estratégia eficaz. Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... O primeiro deles é a informação, que aponta para a necessidade de estar atento às informações, com o olhar focado naquelas que realmente interessam, para assim compreender e identificar onde, quando e de que forma agir. Fayard alerta que o valor estratégico de uma informação cresce em proporção inversa à sua previsibilidade e à sua distribuição em longa escala. A informação mais valiosa não é aquela à que todos têm acesso, pois dessa todos têm consciência, mas sim aquela que proporciona um diferencial nas ações. Ele ressalta também que o mais importante na questão das informações não é seu acúmulo, mas sim o seu cruzamento e enriquecimento de acordo com os interesses do gestor, para a produção de um novo conhecimento. O domínio da informação proporciona o segundo elemento que é a liberdade de ação. Quanto mais informação o estrategista possuir, maior será a sua liberdade de ação, pois somente através do conhecimento do contexto é possível identificar os momentos e os locais em que existe liberdade para a ação. No momento em que se tem conhecimento de si e do outro, sabe-se o momento exato, tanto de se lançar quanto de recuar. Através da liberdade de ação é possível administrar o terceiro elemento: a economia dos meios. A partir do momento em que se tem pleno conhecimento das habilidades e das armas do adversário, é necessário organizar os recursos disponíveis de forma que se possa tirar o máximo proveito dos meios. Para exemplificar o princípio da economia dos meios, Fayard propõe que se pense na seguinte situação: um indivíduo participará de uma corrida de cavalos com três animais: um forte, um médio e um fraco. Ele possui pleno conhecimento de seu oponente e sabe que os cavalos do concorrente também são um forte, um médio e um fraco. Esse indivíduo sabe que os cavalos são o seu meio de ganhar a corrida e ele terá que usar os três, assim como seu oponente também terá que usar os três. Como esse indivíduo pode organizar seus cavalos para ganhar a corrida? De acordo com o princípio da economia dos meios, ele sacrificará seu cavalo fraco para correr com o forte do seu oponente e perderá uma corrida. Mas colocará seu cavalo médio correr com o fraco do seu oponente, e seu cavalo forte correr com o médio dele. Serão duas vitórias e uma derrota. Ou seja, esse 15 FAYARD, op. cit.
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    princípio sugere organizaros meios de forma que se possa tirar um proveito $' maior de sua utilização. No entanto, para isso, é preciso ter um conhecimento dos meios que temos para utilizar, e dos meios que o oponente tem. Sem essas Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 informações torna-se impossível fazer essa combinação. O quarto elemento diz respeito à formação de um sistema comunicante. É a comunicação que permite a coesão e a organização de duas ou mais partes do organismo. Para que as partes ajam de forma organizada e coerente com o todo, elas precisam ter as informações e orientações necessárias para cumprirem suas tarefas. E é através dos canais de comunicação que circulam as orientações e as informações, e é através deles que os líderes controlam, monitoram e dispõem suas equipes e seus meios. A organização de um sistema comunicante possibilita o quinto elemento, o domínio da interação das vontades. Ele consiste em saber estabelecer uma comunicação com o outro, a fim de fazê-lo realizar as ações desejadas. “Não é o sedutor que conquista, mas o seduzido que sucumbe às suas próprias tendências, às suas expectativas, às suas esperanças e aos seus sonhos.”16 É induzir o oponente a crer em informações que o levem a realizar ações favoráveis às nossas estratégias. O sexto elemento é a geoestratégia. Consiste em conhecer o seu ambiente, saber posicionar-se e mover-se nele. É ter um conhecimento do terreno que possibilite identificar os espaços que o outro ocupa e os que se encontram livres, assim como, também, entender o espaço que estamos ocupando. A geoestratégia, metaforicamente, pode ser exemplificada através do jogo de go, onde o objetivo é ocupar os espaços vazios e restringir a movimentação do adversário. “Aquele que vê longe e combina conhecimento, mobilidade e conexões longínquas, dispõe de uma potência desmedida em relação ao seu tamanho.”17 A cronoestratégia constitui o sétimo item. Ela cobre a pesquisa e o domínio do tempo e dos ritmos de si mesmo e dos outros. Permite jogar com o tempo e identificar a hora de agir e de recuar. O autor exemplifica o uso da cronoestratégia através das artes marciais dos samurais. Os samurais usam o interstício do tempo como o momento ideal para atacar o oponente. O interstício se refere ao exato momento em que há uma parada para o início de outro movimento. Por 16 Ibidem, p. 53. 17 Ibidem, p. 45.
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    exemplo, quando sejoga uma bola para cima, existe um pequeno intervalo de % tempo que a bola fica parada antes de cair novamente. Assim também acontece com nossos movimentos, quando se acaba um movimento e inicia-se outro, há Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... um pequeno intervalo de tempo. De acordo com os samurais, esse intervalo de tempo é o melhor momento para atacar o oponente, pois ele não estará preparado para se defender. Para localizar esse momento exato, é necessário conhecer o ritmo de movimentação do inimigo. O oitavo e último elemento é a decisão. A arte da estratégia consiste em pensar nas interações com os outros atores, sejam elas conflituais ou cooperativas, a fim de prever conceitualmente a resolução mais adequada. Porém, de nada adianta todo o conhecimento do contexto, se não se tomar nenhuma postura, posição a partir disso. A estratégia é constituída de ações com base no conhecimento adquirido. Os elementos que constituem a estratégia, na visão de Fayard, são interligados e dependentes. De um bom conhecimento da situação e da análise das informações, resultam a liberdade de ação, a cronoestratégia e a geoestratégia. Estas, aliadas a uma boa comunicação, permitem que se aja no ambiente, no momento e na forma mais adequados. Na visão de Fayard, a informação desempenha uma função muito importante: O conhecimento de si e do outro assegura o êxito de todo o empreendimento porque, a partir deste conhecimento, sabe-se quando, onde e como se engajar ou não se engajar. A conquista da liberdade de ação será tão mais possível na medida do nível de informação que permite a previsibilidade do comportamento do adversário.18 A informação, nesse sentido, serve como um guia para a ação. Ela permite um mapeamento da situação que possibilita pensar a melhor estratégia. Sobre a estratégia no contexto organizacional, Mintzberg e cols.19 identificam e organizam os conceitos segundo diferentes escolas de pensamento. Na análise de tais escolas, percebe-se que também no universo da estratégia orientada para as organizações a informação é elemento fundamental. 18 Ibidem, p. 27. 19 MINTZBERG, Henry; AHLSTRAND, Bruce; LAMPEL, Joseph. Safari de estratégia: um roteiro pela selva do planejamento estratégico. Porto Alegre: Bookman, 2000.
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    % Escola Descrição Informação Design Defende que estratégias eficazes derivam de um – informações simples e objetivas sobre processo de pensamento humano rigidamente o ambiente e as atividades da em- Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 controlado. A responsabilidade pelo controle e a presa para análise do líder. percepção da estratégia devem ser do executivo prin- cipal. Esse deve adequar as competências internas da organização às ameaças e oportunidades do ambiente, para formular uma estratégia de pers- pectiva para a empresa. Planejamento Prega que as estratégias devem seguir um pro- – informações e dados para a fase de cedimento formal decomposto em várias etapas, são auditoria interna e externa. elas: fixação de objetivos, traçar as principais metas da organização; auditoria externa, avaliar as condições externas; auditoria interna, estudo das forças e fra- quezas da organização; operacionalização da estratégia, formulação de planos operacionais e programas de ação. Posicionamento A estratégia é uma escolha de posicionamento da – informações das características do empresa no mercado. ambiente. Empreendedora Focaliza a formação de estratégia num líder, levando – informações e conhecimentos adqui- em consideração processos como intuição, julga- ridos na experiência e no dia-a-dia do mento e experiência. negócio. Cognitiva Analisa a formação da estratégia através da esfera – a importância e o foco das informa- da cognição da mente do estrategista. ções e sua interpretação vão depen- der da estrutura cognitiva do analista. Aprendizado Sugere que a estratégia seja como um processo – a informação deve ser dividida e constante de aprendizado. compartilhada com todos. Poder Caracteriza a formação de estratégia como um – informações sobre os interesses das processo aberto de influência, enfatizando o uso do pessoas envolvidas. poder e da política para negociar estratégias favoráveis a determinados interesses. Cultural Sugere que a formação de estratégia é um processo – informações de importância para as enraizado na força social da cultura. Preocupa-se em empresas vão depender da sua grande parte com a influência da cultura na manutenção cultura organizacional. da estabilidade estratégica e, em alguns casos, resistindo ativamente às mudanças estratégicas. Ambiental Trata do conjunto de forças fora da organização que – informações ambientais possibilitam os teóricos gostam de chamar ambiente. Essa escola a adaptação da organização. ajuda a colocar em equilíbrio a visão global da formação da estratégia, posicionando o ambiente como uma das três forças centrais no processo, ao lado da liderança e da organização. Configuração Essa escola descreve a organização e o contexto como – informações sobre todas as áreas que uma configuração e a estratégia como o processo de influenciam as atividades da empresa. transformação da configuração. Quadro 2: Resumo das características das escolas de estratégia Fonte: Elaborado pelos autores.
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    Em um pontotodas as escolas concordam: toda a estratégia, para ser bem- % sucedida, é baseada em um conhecimento profundo da situação em análise. Isso decorre do fato de que a estratégia deve levar em consideração não somente Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... as condições externas e internas de uma organização, mas também os jogos de interesse, a cognição humana, a cultura empresarial, o processo de aprendizagem e a liderança. No entanto, para a construção desse conhecimento, são necessárias muita reflexão e a busca de informações que a subsidiem. Por esse motivo, considera-se a informação como um elemento-chave na formulação de estratégias. Em matéria de estratégia, as novas mídias aumentaram significativamente as dimensões dos terrenos de manobra, atalhando os caminhos e mobilizando um espaço planetário. Isso reforça não apenas a importância da informação, como também a da iniciativa e da ação. Como esclarece Fayard,20 a questão da relação entre informação, comunicação e estratégia é tão velha quanto a humanidade, no entanto, os recursos técnicos disponíveis para lhe fazer frente conhecem hoje uma amplitude inigualável. As atuais tecnologias digitais desempenham o papel de buscar um padrão comum para os dados, onde os mesmos são gerenciados com maior facilidade. Assim, a rede permite que se ganhe tempo e precisão. Na era da digitalização, as temporalidades diferem pelo fato da facilidade e da grande rapidez das transmissões e, sobretudo, das capacidades em inteligência: captura de informações, tratamento e tomada de decisão em tempo real e em função da apreciação das variações nas circunstâncias.21 De acordo com Fayard, para fazer a diferença, hoje, é necessário primeiro inteligência para criar ligações entre as informações coletadas, ou seja, ter um conhecimento combinatório. Em seguida, é preciso aptidão para acelerar uma idéia ou um projeto, porque o tempo se sobrepõe ao espaço e ao ritmo. Uma boa idéia precisa de rapidez. No presente, a compreensão do processo que vai da identificação de dados à decisão da execução, aparece como uma nova forma de segurança. De que serve angustiar-se quanto à proteção de seus dados se, no momento em que a concorrência os alcança, a etapa de sua exploração completa já se iniciou? A energia economizada na proteção é, 20 Ibidem, p. 22. 21 Ibidem, p. 127.
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    %! então, investida na ação. A informação e a comunicação, pelo conhecimento e organiza- ção que proporcionam, dispõem hoje de instrumentos que revolucionam a maneira de definir e de conduzir a estratégia.22 Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Na sociedade contemporânea, a informação e a comunicação são elementos- chave para boas estratégias. A informação permite que a empresa tenha subsídios para uma decisão rápida e consistente. A comunicação permite que essa decisão seja colocada em ação. E a iniciativa possibilita que a empresa atue com agilidade. Tecnologias da informação Conforme Porter e Montgomery,23 as empresas, ao utilizarem a informação para desenvolver uma vantagem competitiva, reconhecem a necessidade da gestão das novas tecnologias de informação. Assim, o valor gerado pela empresa é mensurado pela totalidade de pacotes de benefícios, de serviços e de informações produzida pelos serviços ou produtos. Dessa forma, as novas tecnologias alteram o que o autor denomina “escopo competitivo”, que nada mais é do que a amplitude que as atividades da empresa alcançam na sociedade: A tecnologia da informação está permeando todos os pontos da cadeia de valores, transformando a maneira como as atividades de valor são desempenhadas e a natureza dos elos entre elas. Também está afetando o escopo competitivo e reformulando a ma- neira como os produtos satisfazem as necessidades dos compradores. Esses efeitos bá- sicos explicam por que a tecnologia da informação adquiriu significado estratégico e é diferente das muitas outras tecnologias utilizadas.24 Nessa linha de pensamento, Porter explica, ainda, que as atividades de valor de um produto ou serviço apresentam um componente físico e um componente de informação. O componente físico inclui todas as tarefas necessárias para o desempenho da atividade. O componente de informações abrange os passos para a captação, manipulação e distribuição dos dados necessários ao desempenho da atividade. 22 Ibidem, p. 137. 23 PORTER, Michael E.; MONTGOMERY, Cynthia A. Estratégia: a busca da vantagem competitiva. 7. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2002. 24 Ibidem, p. 88.
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    Ao longo damaior parte da história da indústria, o progresso tecnológico afetou % principalmente o componente físico das empresas. Hoje, constata-se a alteração do ritmo da mudança tecnológica. A tecnologia da informação está progredindo Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... com maior velocidade do que as tecnologias de processamento físico. Além de influenciar o desempenho das atividades individuais, a tecnologia da informação, através dos novos fluxos, amplia em muito a capacidade da empresa de explorar os elos entre as atividades, nos âmbitos interno e externo, pois ela possibilita uma comunicação e uma troca de informações mais constantes e com um alcance muito maior. Finalmente, a tecnologia da informação exerce um impacto poderoso sobre o escopo competitivo. Os sistemas de informação permitem que as empresas coordenem as atividades de valor entre localidades geográficas com grande dispersão. Além disso, a tecnologia da informação está criando muitos inter-relacionamentos novos entre as empresas, ao expandir o escopo setorial em que deve competir para conquistar a vantagem competitiva. Constata-se uma tendência inquestionável no sentido da expansão do conteúdo de informação dos produtos. Esse componente, combinado às mudanças na cadeia de valores das empresas, destaca o papel cada vez mais estratégico da tecnologia de informação.25 A tecnologia da informação também tem uma grande importância para a imple- mentação da estratégia. Os sistemas de relatório são capazes de acompanhar o progresso das ações para atingir os objetivos já definidos. Através dos sistemas de informação, as empresas quantificam as atividades com maior exatidão para a im- plementação das estratégias, podendo verificar os ajustes necessários. Todavia, a grande quantidade de informações disponíveis nos ambientes das organizações somente terá um caráter estratégico a partir do momento em que soubermos usá-las eficazmente. É preciso estar vigilantes aos acontecimentos, e o alimento básico da vigília é a informação. Diante dessa preocupação, torna-se evidente a atenção que deve ser dada aos estudos sobre metodologias, processos e ferramentas que possam auxiliar na coleta e no tratamento dessa grande quantidade de informações. 25 Ibidem, p. 92.
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    Para tanto, inicialmente,é necessário desmitificar a definição do termo informação, %# pois se nota que existe uma dificuldade teórica em esclarecer esse conceito. Informação deve ser diferenciada do dado e do conhecimento. Embora muitas Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 vezes os três conceitos sejam complementares e partem de um mesmo processo, essa diferenciação pode ser útil para uma análise mais profunda. Dados, como define Davenport,26 são “observações sobre o estado do mundo”. Por exemplo: “30% da população brasileira é de classe média”. Ou seja, dados são estáticos, não têm vínculo contextual direto e normalmente podem ser quantificados. São facilmente capturados e processados por tecnologias. Já a informação é contextualizada e exige toda uma análise no seu processamento. Conforme definição de Drucker,27 a informação é um dado dotado de relevância e propósito. Ou seja, a informação depende dos interesses de quem a analisa. Apesar de suas diferenças, dado, informação e conhecimento são elementos de um só processo. Informação é a atribuição de sentido para um dado, e o conhecimento é a informação contextualizada. Essa construção ocorre quando o indivíduo dá a uma informação uma interpretação e um significado e consegue considerar as suas implicações em seu contexto. Para detalhar melhor as características desses três elementos, observemos o quadro,³ proposto por Davenport:28 Dado Informação Conhecimento Simples observações Dados dotados de Informação valiosa da mente sobre o estado do mundo relevância e propósito humana, inclui reflexão, síntese e contexto. – Facilmente estruturado – Requer unidade de – De difícil estruturação – Facilmente obtido por análise – De difícil captura em máquinas – Exige consenso em máquinas – Freqüentemente quantificado relação ao significado – Freqüentemente tácito – Facilmente transferível – Exige necessariamente a – De difícil transferência mediação humana Quadro 3: Dado, informação e conhecimento28 26 DAVENPORT, Thomas H. Ecologia da informação: por que só a tecnologia não basta para o sucesso na era da informação. São Paulo: Futura, 1998. 27 DRUCKER apud DAVENPORT, op. cit., p. 19. 28 Ibidem, p. 18.
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    Como se pôdenotar no quadro, o envolvimento humano, nesse processo, aumenta %$ à medida que se passa de dados a informações e a conhecimentos. Por esse motivo, Davenport traz uma abordagem ecológica da informação, na qual propõe Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... uma administração informacional centrada no ser humano. Por meio da abordagem ecológica, Davenport explica que devemos perder a ilusão do controle sobre a informação. Nunca conseguiremos satisfazer a necessidade de saber de tudo, isso é impossível. Por esse motivo, é necessário, a partir dos interesses dos indivíduos, estabelecer prioridades que definirão focos de observação. Como afirma Drucker, é necessário se perguntar: De que informação necessito? Sob que forma e quando? A quem devo e que tipo de informação? A abordagem ecológica do processo informacional recomenda, em geral, que inicialmente é preciso integrar os diversos tipos de informação. As informações podem ser não-estruturadas, como o conhecimento; estruturada em papel, registros e documentos; ou estruturada em computador, como as tecnologias da informação. Um bom gerenciamento da informação deve levar em consideração esses três tipos. Após, é necessário reconhecer e acompanhar as mudanças nos ambientes informacionais e ter ferramentas e metodologias flexíveis. É também preciso estar atento aos comportamentos pessoal e informacional dos indivíduos envolvidos no processo. Levando em consideração esse aspecto da informação, surge a necessidade do uso de uma metodologia que auxilie no tratamento das informações, com o objetivo de embasar o processo de tomada de decisões, uma metodologia que contribua para transformar uma grande quantidade de dados em conhecimento estratégico. Inteligência estratégica A inteligência estratégica é uma metodologia que teve grande influência das práticas e dos conhecimentos das inteligências militar e governamental. É um processo sistemático e formal que tem o objetivo de reter, a partir de um emaranhado de informações, aquelas que são críticas ao processo decisório. Segundo Tyson,29 ela pode ser definida como um processo ético de coleta, 29 TYSON apud BELLO, Bruno Carneiro de et al. Inteligência: colaborando para competir. In: SIMPEP, 11., 2004, Bauru. Anais... Bauru, 2004. p. 1-12. v. 1.
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    tratamento, análise edisseminação da informação sobre os ambientes de inter- %% esse da empresa, visando subsidiar o processo decisório e alcançar as metas estratégicas da organização, de forma sistêmica e rotineira. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Os principais objetivos da inteligência estratégia são reduzir a incerteza na tomada de decisão, evitar surpresas de mudanças ambientais e obter vantagem com- petitiva pela redução do tempo de reação e melhorar o posicionamento estratégico da organização. Principais etapas Em termos operacionais, o processo de inteligência estratégica passa por várias etapas. A primeira é fundamentada num trabalho de sensibilização, que consiste na sua apresentação para a direção e equipes da empresa, abordando principal- mente quais suas vantagens, qual apoio será necessário e quais as dificuldades que o processo pode encontrar. Em outras palavras, é a obtenção da compreensão, do apoio e da colaboração da direção e das equipes da organização. A segunda etapa é a identificação das reais necessidades de informação, para saber o que coletar e com que propósito. Essa etapa pode ser aplicada através de uma entrevista com os principais gestores da organização visando a identificar os focos e as prioridades necessárias de informação, para assim gerar a inteligên- cia adequada. De acordo com Herring,30 normalmente as necessidades de inteligência de uma empresa podem ser enquadradas em três categorias: as que são úteis para embasar a decisão e a ação estratégica; as antecipativas, que alertam para as mudanças do ambiente; e as que descrevem a situação dos públicos com os quais a empresa tem um envolvimento. As três devem ser levadas em consideração. A terceira etapa é a da escolha das fontes de consulta e das ferramentas adequadas para o processamento da informação. É fundamental identificar as fontes de informação externas e internas e qual ferramenta pode auxiliar na sua busca ou no seu armazenamento. Somente então, dentro do foco já determinado, inicia-se a busca das informações de interesse. 30 HERRING apud MILLER, Stephen H.; PRESCOTT, John E. Inteligência competitiva na prática: técnicas e práticas bem-sucedidas para conquistar mercados. Rio de Janeiro: Campus, 2002.
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    Após, realiza-se oprocessamento e a análise das informações. Essa etapa % consiste em interpretar, analisar e filtrar os dados coletados. Esse processamento começa com a validação das informações coletadas. É preciso avaliar a confia- Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... bilidade da fonte e da informação e, após, é necessário arquivar e catalogar os dados recolhidos. Para essa tarefa é exigido um conhecimento quanto à natureza do assunto ao qual a informação se refere. Em seguida, faz-se a interpretação das informações com o objetivo de obter um significado dos dados brutos para guiar a decisão. A interpretação demanda todo um processo cognitivo, e os indi- víduos que dela participarem devem ter um bom entendimento do ambiente organizacional. O próximo passo é a comunicação, ou seja, a disseminação da informação aos indivíduos que necessitam dela para realizar seu trabalho. É o processo por meio do qual o produto do esforço de uma organização em adquirir, processar e interpretar uma informação é disseminado por toda a sua estrutura. Sem uma boa comunicação, todo o processo de busca e análise das informações perde seu significado. A informação só tem valor se for comunicada para as pessoas certas no momento certo. Um processo de inteligência estratégica não deve se desviar de seus objetivos principais. Ele tem a finalidade de fornecer informação crítica para os tomadores de decisão. Para tanto, é muito importante que se faça um esforço para identificar os problemas centrais da organização, de modo que o processo de inteligência possa contribuir para a criação do conhecimento entre os indivíduos. Através da análise de diversos casos sobre inteligência estratégica, Miller e Prescott31 definiram alguns pontos sobre os quais deve-se ter atenção redobrada na implementação de processos de inteligência. Um dos pontos que mais têm causado frustração nesses processos é a definição do foco das necessidades de informação da empresa. Um erro nessa definição coloca a perder todo o processo, pois a informação só possui importância a partir dos interesses do indivíduo ou da organização. Portanto, sem uma definição precisa dos focos de observação, o processo de inteligência poderá produzir somente informações inutilizáveis. Outro cuidado que deve ser tomado é no momento de comunicar as informações, pois os indivíduos precisam confiar na credibilidade das mesmas. Para tanto, a 31 MILLER, op. cit.
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    apresentação de números,entrevistas ou fotos pode oferecer uma compreensão %' mais rica. Uma boa tática é uma comunicação redundante, pois os indivíduos têm diferentes preferências quanto ao modo como gostam de receber as infor- Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 mações. Vale também lembrar que falhas de âmbito ético comprometerão toda a credibilidade e confiança. A inteligência estratégica não funciona como um efeito mágico. Ela é um processo evolutivo, construído passo a passo, que envolve a cultura organizacional e sua estrutura social. Por esse motivo, paralelamente, a organização deve desenvolver planos de conscientização do conceito, do funcionamento e da importância da inteligência estratégica, além de criar incentivos para o envolvimento de todos neste processo. O diagnóstico de nossa pesquisa mostra que o contrário do que diz o folclore popular, os mecanismos comportamentais e políticos não são as principais barreiras ao fluxo de informações. As principais são os sistemas organizacionais e os diferentes modelos mentais.32 Portanto, a organização deve criar uma estrutura que incentive a interação entre os indivíduos. E, finalmente, a inteligência estratégica é um processo, e, como tal, deve ser periodicamente avaliada e ajustada conforme as necessidades empresariais. A estrutura de aplicação da inteligência competitiva pode ser complementada através da vigília estratégica. Vigília estratégica A metodologia de vigília estratégica funciona como um radar de navio, que tem por objetivo alertar sobre os obstáculos que podem surgir no caminho. É um processo informacional através do qual a organização realiza uma escuta an- tecipativa dos sinais fracos do seu ambiente, com o objetivo de criar oportunidades e reduzir a incerteza. As informações decorrentes da vigília estratégica não são 32 Ibidem, p. 33.
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    informações que vêmà empresa de forma espontânea, são informações que necessitam ser procuradas. Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... As informações que constituem os processos de vigília estratégica costumam ser antecipativas, qualitativas, incertas e fragmentadas. São antecipativas porque alertam sobre mudanças que estão começando e que podem constituir uma oportunidade ou uma ameaça. Têm o objetivo de alertar com tempo suficiente para uma ação. São qualitativas, pois dão indícios de um futuro próximo; não são conclusões de uma análise do passado ou de verificações contábeis. São incertas, pois constituem indícios, pistas, sinais, hipóteses do que pode vir a acontecer. E, finalmente, são fragmentadas. As informações da vigília costumam se apresentar sob a forma de trechos pacientemente coletados, reunidos, interpretados e validados. Isoladamente, cada informação é desconexa, entretanto, quando relacionada a outras adquire um significado. A vigília é um sistema de monitoramento para determinar o que acontecerá e verificar, ao longo do tempo, se as hipóteses levantadas continuam válidas. Ela trabalha com a análise de sinais fracos, que são indicadores de tendências. A vigília é muito importante na construção de estratégias. Segundo Fachinelli33 , uma célula de vigília segue passos semelhantes aos que conduzem um processo de inteligência estratégica, iniciando pela fase de apropriação do projeto por parte dos gestores da organização. A segunda fase é o mapeamento dos potenciais. Realizar uma espécie de auditoria interna, analisando o sistema informacional atual da empresa e suas necessi- dades. Avaliar como a organização tem usado a informação e como seus membros lidam com ela. A definição do foco de observação constitui a terceira fase, o que implica a identificação dos fatores críticos de sucesso. Ou seja, identificar as variáveis cujo gerenciamento pode afetar a posição competitiva de uma empresa dentro de um ramo de atividade. São os fatores que devem ser prioritários na observação pela sua importância. A vigília deve ter seus focos de observação bem deter- minados para não cair num estado de cegueira estratégica. 33 FACHINELLI, Ana C. Elementos metodológicos de vigília e de inteligência econômica para o processamento de informações organizacionais. Conexão, Caxias do Sul: Educs, v. 2, n. 1, dez./2003.
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    Após, segue-se coma etapa da formação da rede de especialistas, que auxiliarão na análise da informação. Cada foco de observação consiste num tema de interesse da empresa, e a cada foco estará ligado um especialista no assunto Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 em questão. Esse especialista terá como função validar e evidenciar as informações estratégicas. Em seguida, definem-se as fontes e os instrumentos de coleta. A vigília tem, basicamente, como fontes de informações: notícias publicadas na imprensa, banco de dados, internet, publicações de agências governamentais e o diálogo com outros indivíduos. De acordo com as fontes de pesquisa, serão definidos os instrumentos de consulta. A próxima fase é a de validação das informações. Uma vez recolhidas, as informações passam pelos especialistas para verificação de sua validade e pertinência. E, finalmente, após tratadas, as informações devem ser comunicadas aos diversos membros envolvidos no processo. Um dos problemas que podem surgir na implementação da célula de vigília é a dificuldade de criar significado através das informações coletadas. Após a coleta de sinais fracos, o resultado será um conjunto de informações dispersas sem grande significado e em desordem. Para se produzir um significado a partir disso, são necessárias muita análise, criatidade e capacidade para identificar vínculos. Lesca e Freitas34 sugerem o uso do conceito de PUZZLE para organizar a infor- mação de forma a fazer emergir um significado. Inicialmente, coletam-se os sinais fracos da área do foco de atenção. Listam-se todas as informações coletadas, resumindo-as em poucas e essenciais palavras. Em seguida, produz-se uma disposição espacial para essas informações, na qual algumas se aproximam mais de umas do que de outras. A representação espacial deve ser constituída em forma de rede. No centro, é colocada a informação principal, que é o foco de observação. Em torno desse centro, são distribuídas as informações-satélites. Veja-se o exemplo a seguir, apresentado por Lesca e Freitas, na figura 1. 34 LESCA, Humberto; FREITAS, Henrique M. R. Como dar senso útil às informações dispersas para facilitar as decisões e ações dos dirigentes: o problema crucial da inteligência competitiva através da construção de “PUZZLE”. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 1996. (Série Documentos para Estudos, n. 6).
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    Informações coletadas relativasà companhia IBM 1. IBM@ acentua a separação entre os softwares e os serviços. 2. IBM@ coloca a escuta do cliente em prioridade. Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... 3. IBM@ coloca as preocupações dos clientes em prioridade. 4. O fornecimento de serviços será objeto de um contrato entre IBM@ e seu cliente. 5. IBM@ se orienta para os serviços. 6. IBM@ inflete (reorienta) sua estratégia. 7. IBM@ se dividirá em muitas sociedades. 8. IBM@ decepciona seus clientes. 9. IBM@ nomeia um diretor-geral de serviços. 10. Centralização: IBM@ planeja controlar todas as suas filiais. 11. IBM@ e DE@ se juntam para a gestão das redes. 12. IBM@ majoritária na (empresa). Pyrénées Informática Exemplos de links entre sinais anunciadores reagrupados em torno de um tema35 IBM se dividirá em diversas IBM se interessa IBM reflete sua estratégia pelo mercado empresas japonês IBM se reposiciona Desorientação?? IBM se orienta para os serviços Resultado? Contradição IBM “de bem” IBM e DEC Golpe surpresa?! com o lucro se aliam para a IBM, novo produto de gestão das redes IBM compra a CGI reconhecimento vocal IBM majoritária na Pyrénées Informática 35 Idem.
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    O resultado éa formação de uma rede que é ligada por vínculos. Os vínculos ! podem ser de diversas origens: vínculo de confirmação – quando uma informação afirma o conteúdo de outra; – vínculo de contradição – quando uma informação é Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 antagônica a outra; – vínculo da causa e efeito – quando uma informação revela ser conseqüência de outra; – vínculo de analogia – quando uma informação é semelhante a outra; e – vínculo de proximidade – quando as informações se referem ao mesmo assunto, mas são independentes. O objetivo desses vínculos é produzir um sentido. Percebe-se que, embora a inteligência e a vigília estratégica tenham processos semelhantes, elas possuem abrangência e enfoques um pouco diferenciados. A vigília é focada para as informações antecipatórias e, além da observação contínua dos focos, também pode ser usada somente para um assunto em questão. Já a inteligência possui uma natureza mais abrangente e congrega todas as estratégias da empresa. Mas, como afirmam Fachinelli, Mattia e Rech,36 essas duas metodologias “são sob certo aspecto complementares, pois a riqueza metodológica da vigília é essencial a toda a criação de inteligência assim como as intenções estratégias e a interação enriquecem em retorno aos procedimentos de vigília”. Ou seja, ambos os processos se complementam. Relações públicas Devido à importância que a informação tem para a atividade de relações públicas, o profissional responsável por essa área pode e deve utilizar metodologias de pesquisa e processamento da informação para elaborar suas ações. Devido à circulação de alta quantidade de informações, proporcionada pelas novas tecnologias, metodologias como inteligência e vigília estratégicas podem ser muito úteis para dotar a atividade desse profissional de um caráter estratégico. Neste artigo, a definição de Relações Públicas é de que esse profissional exerce uma função política e, portanto, estratégica, na qual ele é o responsável pela administração dos interesses da organização com os interesses de seus públicos. Para tanto, o Relações Públicas precisa se basear num profundo conhecimento, 36 FACHINELLI, Ana C.; MATTIA, Olivar, M.; RECH, Jane. A dinâmica da informação na comunicação organizacional: a perspectiva do hipertexto e da autopoiese. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 28., 2005, Rio de Janeiro. Anais... São Paulo: Intercom, 2005. CD-ROM. Disponível em: http://reposcom.portcom.intercom.org.br/bitstream/1904/17608/1/R1647-1.pdf . Acesso em: 30 abr. 2006.
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    tanto da empresaquanto de seus públicos, para orientar a execução das ações que necessitam ser empreendidas com vistas à satisfação dos públicos e objetivos da organização. De acordo com Simões,37 os principais objetivos do profissional Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... de Relações Públicas é otimizar o processo decisório organizacional nas políticas e atividades de relações públicas e estabelecer a integração dos grupos que interferem nos objetivos da organização. Dessa forma, esse profissional lida com questões organizacionais bastante amplas e complexas e, para lidar com tais questões, necessita de ferramentas e metodologias que lhe forneçam embasamento informacional. O Relações Públicas tradicionalmente sempre teve como uma de suas atividades principais o levantamento de informações para a construção do seu diagnóstico. A informação é essencial para a formulação de uma descrição sobre a situação da empresa e as principais características de seus públicos de interesse. A partir dessa descrição, o profissional elabora as ações mais eficazes para atingir os objetivos pretendidos. Dessa forma, afirma-se que, para construir suas estratégias, o Relações Públicas sempre buscou, anteriormente, munir-se de informações. A informação e os interesses da organização possibilitam a construção de ações e estratégias coerentes com o ambiente. As relações públicas vêem à busca de informação como fonte para os seus programas e estratégias. Tradicionalmente, os profissionais dessa área para satisfazer essa necessidade de informação, usam a pesquisa como ferramenta. Segundo Lesly,38 a pesquisa em relações públicas tem três funções principais: 1. confirmar suposições e palpites a respeito do estado da opinião pública sobre um assunto, produto ou empresa; 2. clarificar questões nas quais há pouca quantidade de informações ou quando se encontram dados contraditórios; 3. reorientar nossos pensamentos ou conceitos a respeito de um problema de relações públicas. 37 SIMÕES, Roberto Porto. Relações públicas e micropolítica. São Paulo: Summus, 2001. 38 LESLY apud FOCHI, Marcos A. B.; PIROLO, Maria A. M. A pesquisa de opinião: o “ver e o “fazer” do Relações Públicas. In: INTERCOM-Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação e XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação, 2001. Disponível em: www.portal-rp.com.br/bibliotecavirtual/ relacoespublicas/funcoesetecnicas/0157.pdf. Acesso em: 30 abr. 2006.
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    No contexto organizacional,Fortes39 defende a idéia de que as pesquisas em # relações públicas permitem: – conhecer em que extensão os públicos estão informados a respeito da res- Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 ponsabilidade e dos limites das atividades de uma organização; – saber como pensam e reagem antes de decisões tomadas pelas organizações; – prever qual será a atitude dos públicos em relação a ações que estão sendo planejadas pela organização; – julgar o que pensam e esperam da organização; – apreciar quais são as necessidades dos públicos e que medidas devem ser adotadas, a fim de satisfazer essas necessidades; – admitir e delimitar áreas de ignorância dos públicos sobre problemas socio- econômicos; indagar se estão dispostos a pagar mais por melhores serviços e por melhores produtos de uma organização. A pesquisa tem sido usada tradicionalmente como uma ferramenta que propor- ciona ao Relações Públicas e às instituições um conhecimento do contexto da organização, possibilitando a identificação das ameaças e oportunidades do ambiente, bem como fornece uma base para a tomada de decisões. Sendo assim, Lesly define a importância da informação para o Relações Públicas: Em relações públicas, pesquisa não é um produto primário, que pode ser comprado ou vendido na medida em que nossas necessidades o ditem. É especialmente um ponto de vista, uma maneira de se olhar para os problemas, uma pré-disposição para se organizar experiências presentes e passadas. Neste sentido, pesquisas não são algo separado das atividades correntes de um programa de Relações Públicas – são o seu coração.40 A pesquisa tem sido uma ferramenta que muito tem contribuído e auxiliado no trabalho de relações públicas. No entanto, no contexto atual, na era da globali- zação, houve uma mudança de perspectiva diante do uso de informação. Há alguns anos, o principal desafio das organizações era a busca de informação, que era um tanto escassa. Por esse motivo, a pesquisa se tornou uma metodologia muito popular, pois coleta uma boa quantidade de informações que não estavam disponíveis anteriormente. Já, hoje, há um novo desafio, que não é mais a es- cassez de informações, e sim, o seu excesso. As novas tecnologias têm dispo- nibilizado uma circulação de informações muito grande, assim como têm facilitado o acesso às mesmas. Nesse contexto, surge a dificuldade de filtrar as informações 39 FORTES apud FOCHI, op. cit. 40 LESLY apud FOCHI, op. cit.
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    que realmente sãorelevantes à atividade da empresa. Dessa forma, profissionais $ que se utilizam do conhecimento do seu ambiente para elaborar suas ações necessitam de metodologias para identificar e processar as informações Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... relevantes. Sendo assim, pode-se observar que metodologias como a inteligência e a vigília estratégicas podem auxiliar muito dentro desse contexto. Na contem- poraneidade, a inteligência e a vigília estratégicas são, antes de mais nada, processos de triagem da informação. Hoje, com as novas tecnologias, o Relações Públicas tem à sua disposição no- vas abordagens para a busca e a análise da informação. O acesso à informação está muito mais amplo, e torna-se imprescindível considerar o uso de novas metodologias de processamento. O profissional de Relações Públicas tem, atualmente, a oportunidade de ampliar seus instrumentos de busca da informação, para, assim, aumentar a eficácia das suas ações e estratégias. Não se pretende, aqui, questionar a importância e a eficácia de instrumentos tradicionais de pesquisa. Ao contrário, a pretensão consiste em sinalizar que esses instrumentos podem ser ampliados e enriquecidos com a soma de novas metodologias e processos, como, por exemplo, a vigília e a inteligência estratégicas. Apesar da facilidade de acesso à informação, estudos41 apontam que 70% das empresas que encerraram suas atividades, faliram por não possuir conhecimento do ambiente no qual estavam inseridas. Isso evidencia a dificuldade que as empresas ainda possuem de organizar, processar e usar eficazmente as infor- mações. Evidencia, também, a necessidade que as organizações têm de novas metodologias para gerenciar a informação. A inteligência e a pesquisa funcionam de formas um pouco diferenciadas, porém complementares. A pesquisa responde a uma necessidade de informação num determinado tempo e sobre uma determinada situação ou fato, baseada numa amostra; já a vigília consiste numa observação constante e contínua dos diversos focos de interesse da empresa, baseada num conjunto de fontes analisadas por especialistas. 41 Dado apresentado em 2000 por SANTOS, Raimundo Nonato Macedo. Métodos e ferramentas para gestão de inteligência e do conhecimento . Disponível em: www.eci.ufmg.br/pcionline/include/ getdoc.php?id=527article=281mode=pdf – Acesso em: 16 abr. 2006.
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    O uso dasnovas metodologias pode auxiliar o profissional de Relações Públicas % a identificar e processar as informações úteis ao seu planejamento. Além disso, no momento em que o Relações Públicas consegue construir uma análise realista Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 do contexto da empresa como base para o seu trabalho, ele passa a desenvolver uma atividade de nível estratégico. Ou seja, ele passa a dar um sentido estratégico à informação: Nos dias atuais, a comunicação empresarial se prepara para ascender a um novo pata- mar, tornando-se um elemento importante do processo de inteligência empresarial. Ela se estrutura para usufruir das potencialidades das novas tecnologias, respaldar-se em banco de dados inteligentes, explorar a emergência das novas mídias e, sobretudo, maxi- mizar a interface entre as empresas, ou entidades, e a sociedade. Nesse novo cenário, passa a integrar o novo processo de gestão e partilha do conhecimento, incorporando sua prática e sua filosofia ao chamado “capital intelectual” das organizações.42 Nesse contexto, a informação é um elemento-chave na construção de estratégias de sucesso. O Relações Públicas que desejar exercer uma atividade de nível estratégico deve ter uma preocupação constante com a busca e o processamento da informação. Deve encontrar metodologias que o auxiliem a tratar essa informação de forma adequada, as quais lhe forneçam uma orientação das ações mais apropriadas para o momento e das estratégias que a empresa deve adotar. Os executivos, baseados na experiência de sua própria empresa, admitem que a comu- nicação, nos dias de hoje, já é vista como estratégica pelos empresários e que ela se reveste de fundamental importância para o desenvolvimento dos negócios. Reconhecem que a área de Comunicação Empresarial participa ativamente do processo de decisão relativo às suas ações e estratégias, ou seja, que tem autonomia para gerir suas próprias atividades.43 O Relações Públicas que desenvolve um papel estratégico deve possuir uma visão macro que lhe permita identificar e mapear os principais públicos e focos de interesse da organização. Portanto, é necessário que se desenvolva um monitoramento dos pontos que podem afetar a estrutura e os serviços de uma organização. Essa lógica foi confirmada também através do projeto Infocom, a partir do qual novas premissas para o comunicador organizacional apontam para um profissional que saiba lidar com a mudança e que acompanhe o contexto para continuar a estabelecer uma conexão eficiente com seus públicos. 42 BUENO, op. cit., p. 8. 43 Ibidem, p. 241.
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    De fato, pode-seconsiderar que o objetivo de uma estratégia, principalmente nos tempos atuais e no contexto organizacional, não é a guerra ou o uso da força. O objetivo é que a estratégia possibilite que a empresa atue em harmonia com seu Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... ambiente, para atingir seus objetivos. Dentro desse pensamento, o profissional de Relações Públicas exerce uma atividade de grande valor estratégico, pois ele visa à cooperação mútua entre o sistema organização-públicos, visando à conse- cução da missão organizacional. Ou seja, ele é o profissional que busca a harmo- nia na relação da empresa com seus públicos. Para agir harmonicamente com um público, é necessário ter conhecimento para compreender as necessidades e os desejos desse público e inteligência para criar formas de respostas. Tendo este quadro organizacional como perspectiva, o profissional de comunicação convive hoje com uma exigência de aproximação com tecnologias, que estão em constante atualização, mostrando a necessidade não somente de um controle técnico- instrumental mas o domínio de novas relações que se desenvolvem a partir da emergência e utilização das mesmas, em seu contexto de trabalho. Esta necessidade de estar mais qualificado, de estar apto para enfrentar as transformações e de saber coordenar o novo quadro que se instala nas áreas de comunicação das empresas tem gerado a necessidade de novas competências.44 Em decorrência dessa função de sintonia e harmonização dos interesses da empresa com seus públicos é tão importante que o Relações Públicas se utilize de metodologias de coleta e processamento da informação. Por esse motivo, também a inteligência e a vigília estratégicas são processos que podem fornecer um apoio fundamental à atividade de relações públicas. Essas metodologias permitem monitorar informações ambientais para responder satisfatoriamente aos desafios e às oportunidades que se apresentam à organização. Elas oportunizam uma busca sistemática de informações de interesse para a construção de uma reação proativa diante das mudanças contextuais. Também possibilitam ao Relações Públicas a construção de estratégias coerentes com a realidade e com os objetivos organizacionais e a prática de uma postura estratégica. Da mesma forma que as metodologias de busca e processamento da informação podem auxiliar a atividade de relações públicas, elas também abrem espaço para um novo campo de atuação profissional. 44 SANDI, André Quiroga. Novas competências do Relações Públicas frente às tecnologias de informação. In: XXV CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 25., 2002, Fortaleza. Anais... Fortaleza, 2005. Disponível em: www.eca.usp.br/alaic/material%20bolivia%202002/congbolivia2002/traba- lhos%20completo%20. Acesso em: 16 abr. 2006.
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    A gestão dasinformações deve estar a cargo do setor de comunicação, em ' especial do profissional de Relações Públicas, que trabalha a comunicação organizacional integrada e deve ser visto como um estrategista, um gerente Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 informacional.45 Essa parece ser uma tendência das organizações que vêm sentindo as con- seqüências do acelerado desenvolvimento das novas tecnologias de informação e comunicação. As organizações da contemporaneidade têm consciência lúcida de que não estão sozi- nhas, mas inseridas num contexto. E é desse contexto que depende fundamentalmente o sucesso ou o fracasso dessas organizações e de seus sistemas de comunicação. Foi-se o tempo em que as empresas olhavam para o universo a partir de uma perspectiva de si mesmas, preocupando-se somente consigo e não levando em conta o meio circundante. Hoje as organizações, bem como a dinâmica de sua comunicação, dependem dos seus vínculos com o mundo exterior. Sua coerência e construção dependem da interação com os elementos no contexto em que atuam. E nesse contexto, o comunicador deve observar o meio ambiente buscando estabelecer as conexões com elementos importantes para o enriquecimento e para a validação de suas informações. O exterior valida a comunicação organizacional.46 Considerações finais As organizações contemporâneas se encontram diante de novos desafios. A globalização e a rapidez das mudanças exigem das organizações atitudes ágeis e conscientes. O contexto mudou, e as empresas precisam desenvolver metodologias e processos que permitam sua constante adaptação. A sobrevivência das organizações empresariais está intimamente ligada à sua capacidade de inovação também na sua gestão. Para tanto, é necessário habilidade para gerenciar os recursos informacionais e agilidade de ação. As organizações precisam identificar os focos de ameaça e oportunidade no ambiente e traçar estratégias de reação a essa situação. Nesse contexto, a informação passa a ter um valor estratégico. Afinal, ela forma a base de conhecimento sobre o qual a empresa se apoiará para pensar suas ações e estratégias. 45 Idem. 46 FACHINELLI; MATTIA; RECH, op. cit.
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    No entanto, ogrande desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação ' produziram uma verdadeira avalanche de dados. O fluxo informacional das redes e dos veículos cresceram exponencialmente. Isso traz um novo desafio às organizações, Fachinelli, Ana Cristina - Rech, Jane - Mattia, Olivar Maximino - Roveda, Vanessa. Vigília e inteligência estratégica: ferramentas... pois a situação da falta de informação foi substituída pelo excesso da mesma. Assim, as empresas necessitam adotar metodologias e processos que possibilitem a busca focalizada nos dados de interesse e o tratamento da informação disponível. A atividade do Relações Públicas também atravessa o mesmo dilema, pois, para criar ações que busquem a sinergia entre os objetivos da empresa e a expectativa de seus públicos de interesse, esse profissional necessita ter uma boa base informacional que lhe permita identificar esses interesses, também em constante modificação. Dessa forma, partindo do pressuposto de que a informação é fundamental para a formulação de uma estratégia de sucesso, surge a necessidade do uso de metodologias que facilitem o seu processamento. Através do estudo da aplicação e das vantagens da inteligência e da vigília estratégicas conclui-se que essas metodologias podem contribuir muito para a busca e a análise da informação, pois a inteligência e a vigília são processos que possibilitam um monitoramento constante das informações de valor estratégico para a organização. Sendo assim, essas metodologias contribuem não só para as estratégias do Relações Públicas, mas também para as estratégias macro da organização. No momento em que as relações públicas forem a atividade responsável por administrar esse processo, passam a atingir um novo patamar de importância para a direção da empresa, por exercer uma função essencial e de cunho estratégico. Com a sociedade contemporânea, surge então uma nova perspectiva de atuação para o Relações Públicas. Esse profissional pode atuar na implementação e no desenvolvimento de metodologias e processos que permitam gerenciar estrate- gicamente a informação para a produção de conhecimento aplicável tanto dentro de sua função como em outras atividades da empresa. O profissional de comunicação contemporâneo deve estar atento às demandas da atual sociedade e produzir mecanismos para responder a elas. Por esse motivo, apontamos para a tendência do uso estratégico da informação como um novo campo de atuação para as relações públicas.
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    '! Comunicação organizacional e pressupostosda comunicação Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 integrada: a experiência em uma universidade na implementação/ reestruturação do jornal institucional Cassiana Maris Lima Cruz1 RESUMO A gestão da comunicação organizacional precisa considerar a cultura da organização, para que então elabore o planejamento estratégico comunicacional. A comunicação, nessa perspectiva, tem importância fundamental uma vez que se torna o meio condutor pelo qual a organização constrói/desconstrói e perpetua sua imagem. Nesse sentido, este estudo tem por objetivo resgatar as teorias referentes à comunicação organizacional e os pressupostos da comunicação integrada, bem como relata a experiência de uma universidade no Rio Grande do Sul quando implementou/reestruturou o jornal institucional. O relato demonstra, claramente, que a instituição não possui políticas de comunicação definidas. Para fins de construção do arcabouço teórico que norteou este estudo, foram considerados os conceitos produzidos por Kunsch (2003); Bueno (2003), dentre outros pesquisadores do tema. Palavras-chave: Comunicação organizacional. Comunicação integrada. Comunicação em omunicação universidades. ABSTRACT Organizational communication management needs to consider the culture of the organization, in order to, after that, elaborate the communicational strategic planning. Communication under this perspective has fundamental importance, once it becomes the conductive way through which the organization builds/ unbuilds and perpetuates its image. Following this, the study aims to rescue the theories referring to organizational communication and the presuppositions of integrated communication, as well as it re- ports the experience of an university in Rio Grande do Sul state, when they implemented/rearranged the institutional journal. The report clearly shows that the institution does not have defined communication policies. In order to build the theoretical structure that lead the study, the concepts produced by Kunsch (2003) and Bueno (2003) were considered, among other researchers on the subject. Key words: Organizational communication. Integrated communication. Communication in universities. 1 Professora/Pesquisadora na Faculdade de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis da Universidade de Passo Fundo (UPF). Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social/PPGCOM pela Pontifícia Uni- versidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
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    ' Introdução A comunicação organizacional é tema recorrente em agendas de pesquisa das Cruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência... escolas de Comunicação Social, uma vez que as organizações necessitam ter novas posturas de gestão em função de modificações que ocorreram no ambiente, considerando sobremaneira as três últimas décadas, quanto a fatores de natureza econômica, geopolítica e sociocultural. (BUENO, 2003, p. 19). Sob esse contexto, os novos paradigmas aplicados aos estudos organizacionais e estratégicos apontam que as organizações precisam estabelecer relações e modelos de gestão contemporâneos que contemplem efetivamente a visão sis- têmica (GOLDHABER, 1991; BALDISSERA, 2000) e relacional dos processos admi- nistrativos e da dinâmica institucional. Todo esse complexo debate está presente já há algum tempo nas Instituições de Ensino Superior (IESs), que enfrentam verdadeiras transformações seja no âmbito de suas concepções filosóficas, no da tecnologia da informação, no dos comportamentos e das aspirações dos educandos, seja no da sociedade em geral. Há, também, de se considerar as modificações no pro- cesso de avaliação das IEs, hoje institucionalizadas por meio do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior (Sinaes), que, em suas diversas dimensões de análise, tem como idéias centrais, dentre outras, a integração e a participação. Contemplando esse (re)olhar para as organizações, no contexto da pós- modernidade, é que se considera fundamental abordar a questão da comunica- ção organizacional. Considerada como elemento estratégico, cerne da orga- nização, a comunicação assume a função de “reforçar e preservar a identidade organizacional”. (BALDISSERA, 2000, p. 13). É por meio da interação entre os fluxos de informações que as redes de relações estão sistematicamente em processo de construção/desconstrução, numa constante organização/reorga- nização e (re)produção. Portanto, constitui-se objeto deste estudo o resgate de teorias referentes à comunicação organizacional e os pressupostos da comunicação integrada, bem como se relata a experiência de uma universidade no Rio Grande do Sul, na implementação/reestruturação do jornal – instrumento de comunicação insti- tucional (KUNSCH, 2003), focado em atingir os públicos: alunos, funcionários e professores.
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    '# Comunicação organizacional Falar sobrecomunicação organizacional sem antes abordar a importância da Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 cultura organizacional para a construção da comunicação no âmbito da organização é interpretá-la de forma fragmentada, desconsiderando uma visão sistêmica. A cultura organizacional constitui-se no elemento norteador das organizações, pois orienta os comportamentos dos indivíduos que passam, então, a conviver em uma unidade de sociedade empresarial específica, repleta de construções/desconstruções das relações sociais. Como diz Bueno (2003, p. 4), a comunicação “é o espelho da cultura empresarial e reflete, necessariamente, os valores das organizações”. Baldissera (2000) define cultura organizacional como um conjunto de crenças e valores específicos de uma determinada organização, traduzido por hábitos, mitos, ritos, ta- bus, mentalidade da organização, estilo de direção, comportamentos, criações, rompimentos e recodificações. Para o autor a cultura organizacional representa os aspectos identitários que tornam uma organização única, diferenciando-a das demais. As organizações necessitam, então, perpetuar esses conjuntos de pressupostos que representam sua imagem e identidade, utilizando-se, dentre outras estratégias de gestão e da comunicação organizacional. Sendo assim, falar de comunicação é referendar as práticas comunicacionais enquanto acontecimento de cultura. (BALDISSERA, 2000). Mediante o exposto, pode-se dizer que a comunicação é um processo de construção de sentidos. Para tanto, os emissores/receptores participam de um complexo jogo de relações interativas, onde realizam intercâmbio de mensagens, de onde emerge um fluxo de informações entre as pessoas que ocupam distintas posições e representam distintas funções. (GOLDHABER, 1991). Partindo desse contexto, os profissionais que se propõem a planejar e a coordenar a comunicação de uma organização, primeiramente, necessitam realizar um esforço para diagnosticar a cultura organizacional (BALDISSERA, 2000), estando ela implícita ou explícita nas redes formais e/ou informais. A comunicação organizacional, assumindo os aspectos descritos, passa a ser “es- tratégica para as organizações o que significa que se vincula estritamente ao negócio” (BUENO, 2003, p. 7), passando, também, a ser desenvolvida por profissio- nais que conheçam e entendam a organização na perspectiva sistêmica.
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    '$ Aspectos a serem considerados pela comunicação organizacional Cruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência... A comunicação organizacional, por apresentar esse caráter de inter-relação acima mencionado, possibilita o conhecimento de informações que permitem a definição ou o ajuste de estratégias organizacionais. Nesse contexto, são postos em cir- culação, na cadeia comunicacional, efeitos de sentidos orientados para a obtenção de resultados estratégicos globais, tendo como principal objetivo agregar valor positivo à imagem da organização. (BALDISSERA, 2000). Para tanto, é preciso disseminar políticas, crenças e valores da organização, criando, mantendo e desenvolvendo formas de comunicação que contribuam para a melhor operacionalidade dos sistemas e das atividades. (TORQUATO, 2002). Segundo o autor, a empresa necessita desenvolver harmoniosamente o espírito de equipe, projetar com centros irradiadores de opinião e poder o pensamento ideológico da organização, acompanhar e influenciar o meio ambiente. Mediante essas considerações, como os gestores podem considerar a comunica- ção nas organizações e de que forma poderão proceder ao planejamento da mesma? Torquato (2002) fala de quatro dimensões de comunicação na organização: a primeira dimensão é a da comunicação cultural que abrange os climas internos, onde o gestor deve medir a temperatura do clima organizacional, aferida a partir da cultura interna, arcabouço dos costumes, das idéias e dos valores da comunidade. A segunda dimensão destacada pelo autor diz respeito à comunicação administrativa que são todos os elementos de comunicação ligados ao fluxo de informação interna que estabelecem as relações entre setores, chefias e colaboradores. A terceira dimensão é a comunicação social que envolve atos de comunicação indiretos, unilaterais e públicos. A quarta dimensão é chamada sistema de informações, tendo por objetivo agregar e gerenciar as informações armazenadas em bancos de dados. Nessa sistemática de organização da comunicação para as empresas, Torquato (2002, p. 34) atenta para o fato de que as quatro dimensões devem funcionar como “uma orquestra”, pois uma dimensão influi na outra, ou seja, as quatro formas de comunicação se afetam significativamente.
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    A comunicação organizacional,nessa perspectiva é, portanto, a possibilidade '% sistêmica, integrada, que reúne as quatro grandes modalidades, cada qual exercendo um conjunto de funções. Torquato (2002) ressalta que para que a Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 eficácia da comunicação aconteça, é necessária uma clara definição de objetivos éticos, capacidade de codificação/expressão, domínio psicológico e capacidade de compreender o meio ambiente. Para que a comunicação tenha condições de fluir, é preciso considerar como os fluxos ocorrem, pois exercem grande influência sobre a eficácia do processo. É em nível de fluxos, ou seja, nos caminhos que a informação percorre que acontecem os desvios e os degraus que atravessam a comunicação. (TORQUATO, 2002). As informações necessitam ser transmitidas considerando os fluxos descendentes, ascendentes, por direções laterais internas e por direções laterais externas. No fluxo descendente, ou seja, de cima para baixo, o objetivo é que ocorra a difusão dos dados globais, tais como as políticas da organização, dentre outras informações, tendo como característica a formalidade. (BALDISSERA, 2000). O fluxo ascendente permite que os dados recolhidos nas bases cheguem até as instâncias superiores e departamentos interessados. (BALDISSERA, 2000). As comunicações nesse fluxo são mais lentas do que as comunicações entre essas e os níveis superiores. (TORQUATO, 2002). São de caráter muito mais informal. Os dados provenientes dos distintos setores são comparados, de maneira a sistematizar e uniformizar idéias e informações (BALDISSERA, 2000) no fluxo por direções laterais internas. No fluxo diagonal/por direções laterais externas, o objetivo é que as informações sejam difundidas no meio. (BALDISSERA, 2000). Sendo assim, para que a comunicação possa efetivamente produzir os efeitos desejados, existe a necessidade de realizar pesquisas, entrevistas, auditorias, reuniões e conversas informais com os diversos públicos da organização. (BALDISSERA, 2000; KUNSCH, 2003). O objetivo dessa busca por informações deve-se ao fato de que a organização precisa avaliar o grau de satisfação quanto à quantidade e à qualidade das informações recebidas pelos públicos, quanto à capacidade de estabelecer relações entre os assuntos de interesse para a organização e quanto ao nível de elaboração crítica com referência aos temas identificados como de importância para o desenvolvimento organizacional. A falta de informações sistematizadas para a comunicação e, efetivamente, a falta de um planejamento estratégico de comunicação organizacional fazem com
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    que os problemasde comunicação se avolumem, podendo causar distorções de ' relacionamento de ordem pessoal e profissional e, em muitos casos, prejudicar a imagem e a lucratividade da empresa. Cruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência... Baldissera (2000) aponta como possíveis conseqüências para os problemas de comunicação nas organizações: inexistência de um diagnóstico atualizado que descreva a situação da comunicação organizacional e o perfil do público de interes- se; circulação de informações desencontradas; uso de meios e linguagens não acessíveis; uso de codificações frouxas, ocasionando leituras incorretas; a ine- xistência de um fio condutor que funcione como referência para toda a comu- nicação oficial; mensagens muito complexas; dificuldade na construção de me- canismos, ou mesmo a inexistência deles, que permitam avaliar o processo de comunicação e retroalimetá-lo. Então, planejar a comunicação organizacional é considerar as dimensões de comu- nicação, é considerar os fluxos pelos quais as mensagens são transmitidas, aliando sistematicamente a coleta de informações com os públicos, implemen- tando ações estratégicas, controlando-as e analisando os resultados. No entanto, nada será realizado com eficácia sem um planejamento estratégico, com políticas de comunicação bem definidas. Pressupostos para a comunicação integrada nas organizações Bueno (2003, p. 8) enfatiza que a comunicação organizacional é vista agora como “um conjunto de novos atributos que a tipificam como insumo estratégico”. Nessa perspectiva, “caminha para assumir, por inteiro, a chamada comunicação integrada, com uma articulação estreita entre os vários departamentos/áreas e profissionais que exercem atividades de comunicação nas empresas ou entidades”, complementa o autor. Embora o conceito de comunicação integrada não seja novo, ainda é possível observar “estruturas parciais de comunicação, com serviços fragmentados e sem uma política definida”. (KUNSCH, 1992, p. 87). Trevisan (2003) argumenta que a comunicação integrada necessita de um processo de planejamento estratégico, pois requer uma visão acurada e
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    abrangente das necessidadescomunicacionais da organização para atingir o '' objetivo final, que é o de contribuir para a construção das imagens interna e externa da empresa. Pressupõe a sinergia e a integração entre as diversas áreas, Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 ferramentas e necessidades de comunicação de uma organização. Kunsch (2003, p. 179) ressalta que a comunicação integrada “precisa ser enten- dida como uma filosofia capaz de nortear e orientar toda a comunicação que é gerada na organização, como um fator estratégico para o desenvolvimento orga- nizacional na sociedade”, hoje globalizada. É atribuição dos departamentos de comunicação nas organizações estabelecer as decisões e a condução das práticas de todas as ações de comunicação na organização, complementa a autora. Ainda: enfatiza que “aliada às políticas de comunicação estabelecidas, a filosofia deverá nortear os melhores caminhos para o cumprimento da missão e da visão, o cultivo dos valores e a consecução dos objetivos globais da organização”. (KUNSCH, 2003, p. 181). Nessa perspectiva de filosofia, a comunicação integrada, entendida como um conjunto de diferentes modalidades de comunicação, pressupõe a junção da comunicação institucional, da comunicação mercadológica, da comunicação interna e da comunicação administrativa, que formam, então, o mix ou composto da comunicação organizacional. Esse deve formar um conjunto harmonioso, sinérgico, apesar das diferenças e das especificidades de cada setor e dos respectivos subsetores cuja soma de todas as atividades redundará na eficácia da comunicação nas organizações, a partir de ações estratégicas e táticas de comunicação. A comunicação institucional, por meio direto da gestão estratégica das relações públicas, é a responsável pela “construção e formatação de uma imagem e identidade corporativas fortes e positivas da organização”, ressaltando os aspectos relacionados com “a missão, a visão, os valores e a filosofia da organização e contribuindo para o desenvolvimento do subsistema institucional, compreendido pela junção desses atributos”. (KUNSCH, 2003, p. 164-165). Direcionada à divulgação da oferta da organização, a comunicação mercadoló- gica envolve as manifestações comunicativas surgidas a partir de um obje- tivo mercadológico, cuja mensagem persuasiva é elaborada a partir do qua- dro sociocultural do consumidor-alvo e dos canais que lhe servem de acesso, utilizando-se das mais variadas ferramentas, conforme Galindo (1986) apud (KUNSCH, 2003).
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    A comunicação internaé um setor planejado, cujos objetivos precisam ser bem definidos, para que então haja toda a interação possível entre a organização e seus empregados, utilizando as ferramentas da comunicação institucional e até Cruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência... da comunicação mercadológica (endomarketing). (KUNSCH, 2003). Conforme a autora, à medida que a comunicação interna se desenvolve no conjunto de uma comunicação integrada, tendo políticas globais bem delineadas e programas de ação voltados prioritariamente para todo o público interno, poderá ser muito mais eficiente/eficaz. A comunicação administrativa abrange todos os conteúdos do cotidiano da administração da empresa, buscando atender às áreas centrais de planejamento e às estruturas técnico-normativas. (TORQUATO, 2002). Tem como finalidade orientar, atualizar, ordenar e reordenar o fluxo das atividades funcionais. Kunsch (2003, p. 180) ressalta que a importância da comunicação integrada nas organizações tem seu princípio no fato de “permitir que se estabeleça uma política global, em função de uma coerência maior entre os diversos programas comunicacionais, de uma linguagem comum a todos os setores e de um com- portamento organizacional homogêneo”. Atenta, também, para o fato de que, assim, evitam-se sobreposições de tarefas. Sendo assim, o processo de planejamento de comunicação integrada pressupõe as seguintes etapas: pesquisa e levantamento de dados, briefing, diagnóstico e proposta de uma estrutura integrada. (KUNSCH, 1992). O desafio consiste, então, em considerar as particularidades das diversas áreas de gestão e os níveis intermediários que se relacionam, estando em constante interação. A linguagem necessita ser única e se dirigir para um único sentido, objetivando a integração das ações, dos atos e das atividades da comunicação organizacional, sem esquecer de considerar a cultura organizacional, suas especificidades explícitas e/ou implícitas. Instrumentos da comunicação institucional Seguindo a proposta de Kunsch (2003) para a comunicação integrada nas organizações, são considerados como instrumentos de comunicação institucional: as relações públicas, o jornalismo empresarial, a assessoria de imprensa, a publicidade/propaganda institucional, a imagem e a identidade corporativa, o marketing social, o marketing cultural e a editoração multimídia. Em função de
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    que o objetode estudo neste artigo é a implementação/reestruturação de um jornal em uma IES, a seguir contemplam-se elementos da teoria que o ratificam como um instrumento de comunicação organizacional. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Para a comunicação institucional, a assessoria de imprensa é uma subárea im- portante nas mediações das organizações com os públicos com que se relacionam. Sob o gerenciamento da assessoria de imprensa, o jornalismo empresarial é compreendido como significativo e pioneiro e, em conjunto com as relações públicas e a propaganda, forma o tripé clássico que tem por função organizar os fluxos para disseminar as informações nas organizações. (KUNSCH, 2003). Os chamados house-organs, dentre eles o jornal institucional, mantêm-se como “canais importantes de relacionamento da empresa com os diversos públicos, em especial os colaboradores”; no entanto, as organizações “ou não avaliam de modo regular sua eficácia, baseadas em consultas freqüentes aos públicos”, ou, “quando o fazem, adotam uma metodologia caseira” que objetiva legitimar o que vem se fazendo. (BUENO, 2003, p. 14). A prática organizacional revela que as “publicações empresariais constituem hoje ferramenta de primeira grandeza das organizações”, pois o jornalismo empresarial “se apropria da teoria e dos modelos paradigmáticos como área de conhecimento e do mercado profissional” de acordo com Kunsch (2003, p. 168). Desse modo, tem-se a justificativa para a descrição empírica do jornal institucional – ferramenta de comunicação em uma IES. A comunicação nas universidades As universidades estão claramente inseridas no complexo organizacional (KUNSCH, 1992) e, como tal, tornam-se agentes da realidade organizacional que se produz, se reproduz e se transforma por meio da interação dos diferentes grupos de indivíduos que as compõem. (CHANLAT, 2000; MORIN, 2001). A Reforma do Estado, no Brasil, transformou a “educação de direito” em serviço, passando a perceber as universidades como prestadoras de serviço, conferindo- lhes a “idéia de autonomia universitária”, introduzindo o vocabulário neoliberal para refletir o ensino de graduação, conforme transparece em expressões como “qualidade universitária, avaliação universitária e flexibilização da universidade”. (CHAUÍ, 1999, p. 210).
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    Sendo assim, opapel da comunicação no sistema organizacional universitário passa a adquirir fundamental importância. Objeto cobiçado pelos gestores que na hierarquia possuem poder, a comunicação organizacional pode se transformar Cruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência... em processo de manipulação, tanto de interesses pessoais quanto como trans- missora do pensamento organizacional – missão, visão, valores, filosofia e políticas que representam a cultura da empresa. Complementa Kunsch (1992), ao afirmar que não há mais espaço para a con- cepção de serviços parciais de comunicação nas universidades, com atividades extemporâneas, sem que haja um planejamento integrado e com políticas de comunicação bem definidas. Scroferneker (2001, p. 78) diz que a ausência de políticas de comunicação claramente definidas “compromete toda e qualquer proposta de mudança”, pois normalmente “os segmentos envolvidos – professores, alunos, funcionários – não são comunicados, nem convidados a refletir sobre o significado dessas mudanças e do impacto no seu cotidiano”. Em pesquisas realizadas, Kunsch (1992) e Scroferneker (2001, p. 82), em momentos e realidades diferentes, porém complementares, observam que a comunicação nas universidades ainda é incipiente, não sendo tratada como “elemento vital” e como uma “ferramenta estratégica”. Há de se considerar também que o Ministério da Educação instituiu, através da Lei 10.861, de 14 de abril de 2004, o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), que, na dimensão quatro, passa a avaliar nas universidades como se estabelece: “A comunicação com a sociedade”, tendo como indicadores a comunicação interna no âmbito dos canais de comunicação e sistemas de informações e, ainda, a ouvidoria; e a comunicação externa, no âmbito dos canais de comunicação e sistemas de informações; e a imagem pública das IESs. Partindo desse contexto, verifica-se que é premente que as universidades revisem sua concepção de comunicação e a forma como é conduzida, objetivando evitar distorções de condutas e objetivos organizacionais, a partir de um efetivo planejamento de comunicação integrada com políticas claras.
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    Análise empírica dacomunicação em uma universidade ! Após a apresentação do arcabouço teórico sobre cultura organizacional, comuni- Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 cação organizacional e comunicação integrada, se relatada a experiência de uma universidade no Rio Grande do Sul quando da implementação/reestruturação do ABC Jornal,2 ferramenta de comunicação institucional. Antes da análise específica do ABC Jornal, vale destacar alguns princípios de sociedade para e pela qual a universidade em estudo orienta as suas ações, sendo eles: de uma sociedade humanizadora; da promoção da melhoria da qualidade de vida; da participação de todos a bens e benefícios da cultura, da ciência e da tecnologia; da promoção da convivência solidária; da inovação das relações interativas; dos valores de igualdade, da democracia e do pluralismo. Com base nesses princípios, foram definidos: a missão, os objetivos, as políticas e as estratégias necessários ao desenvolvimento, referenciais orientadores das administrações do período. Os aspectos que norteiam a missão são: a promoção e a difusão de conhecimentos; a promoção da melhoria da qualidade de vida; a formação de cidadãos competentes, com postura crítica, ética e humanista; a atuação como agentes transformadores. Para cumprir essa missão, a instituição estabeleceu como objetivo superior, ou finalidade, a qualidade de vida e o desenvolvimento. Esse objetivo estabelece a busca do desenvolvimento da sociedade por meio da formação de recursos humanos e do desenvolvimento e da difusão de conhecimentos científicos, tecnológicos e culturais, configurando-se como centro de excelência, com vistas ao aprimoramento da sociedade, conforme estabelece o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) neste início de século XXI. A partir dos princípios norteadores da universidade e da missão, é possível perceber alguns traços culturais dessa IES, que estão explicitados nos documentos institucionais, os quais são de livre-acesso aos públicos. Ainda, a missão da universidade, bem como sua história, estão apresentados no site da instituição – ferramenta de comunicação utilizada para todo tipo de informação (intranet), tendo como principais públicos alunos, funcionários e professores. 2 ABC Jornal é um nome fictício adotado neste estudo que tem por objetivo preservar a identidade da universidade neste relato.
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    O instrumento decomunicação descrito neste artigo é o jornal institucional – house-organs – na instituição de ensino aqui relatada, sendo uma ferramenta de comunicação que já existe na organização há mais de onze anos. Nesse período, Cruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência... passou por diversas fases. O relato começa a partir da última modificação quanto ao formato, ao editorial, aos canais de distribuição, aos públicos, à editoração e à periodicidade. Em 1998 essa universidade passou por um processo eleitoral. O grupo que assumiu a gestão entendia que havia a necessidade de rever as ferramentas de comunicação. Para tanto, sob a responsabilidade do Setor de Marketing e da Assessoria de Imprensa foi realiza uma pesquisa no período de setembro a outubro do ano de 1998. A pesquisa foi direcionada a alunos, funcionários e professores da instituição. O universo considerado foi o campus central e os demais cinco campi da instituição. Foram realizadas 89 entrevistas com professores (erro amostral de 10%); 91 entrevistas com funcionários (erro amostral de 9,8%); e com 445 alunos (erro amostral de 4,6%), utilizando o cálculo para uma amostra aleatória simples. (BARBETTA, 1994). O objetivo da pesquisa foi identificar o grau de satisfação dos públicos em relação ao jornal institucional que era veiculado, objetivando coletar informações para que, posteriormente, a gestão tomasse as decisões gerenciais cabíveis. As questões relativas às informações versaram sobre os seguintes aspectos: a forma como os públicos obtinham informações sobre a universidade – buscando identificar os meios de comunicação que mais atingiam os entrevistados, considerando cada público pesquisado; se o entrevistado conhecia ou não o atual jornal da instituição; os aspectos editoriais que deveriam caracterizar um jornal universitário, tendo por objetivo identificar quais os atributos de maior relevância para os públicos; o inte- resse pelos temas de ensino-graduação, assuntos específicos da área, assuntos científicos, assuntos culturais, assuntos gerais da universidade, lazer e esporte; hábitos de leitura dos públicos em relação ao jornal da universidade, quanto à quantidade de matérias que habitualmente eram lidas, a aspectos determinantes para a escolha dos temas, à disposição para leitura e à verificação do usuário final do jornal; a forma de escolha dos artigos para leitura (folheando o jornal, a partir de títulos interessantes, temas específicos da área, através de autores mais conhecidos; em que locais o jornal era lido); quantas pessoas, em média, liam o mesmo exemplar; de que forma os públicos tinham acesso ao jornal; se havia falhas no jornal e sugestões para melhorá-lo.
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    A partir dasinformações obtidas com os entrevistados, fez-se a análise das mesmas # e se chegou à conclusão de que o atual jornal tinha muitas falhas, principalmente no aspecto da linha editorial. Sendo assim, a decisão tomada foi pela reestruturação Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 completa, incluindo um novo nome para o mesmo. Surge, então, o ABC Jornal, implementado no segundo semestre de 1999, sob a responsabilidade da Assessoria de Imprensa da universidade, com as seguintes características: a) perfil: jornal informativo, com periodicidade mensal, dando visibilidade às produções científica, acadêmica, institucional e cultural e à inserção comunitária da universidade. Para isso, busca elementos do jornalismo científico, do noti- ciarismo, da prestação de serviços e da opinião, em formato que visa à profun- didade do conteúdo e à facilidade de leitura, através de aspectos visuais atra- tivos e textos objetivos; b) público-alvo: além da comunidade acadêmica – alunos, professores e funcioná- rios – o ABC Jornal alcança alunos do Ensino Médio e de cursos pré-vestibulares, entidades de classe e formadores de opinião, com a finalidade de reforçar a imagem da universidade como instituição de inserção comunitária. O jornal serve, ainda, para divulgar a instituição a outras IESs, órgãos de imprensa e gover- namentais, projetando nacionalmente o trabalho desenvolvido pela universidade; c) formato: revista 25x30, capa e páginas centrais coloridas e demais páginas em preto-e-branco, com tiragem de 8 mil exemplares; d) conteúdo: o ABC Jornal abrange assuntos de interesse comunitário que de- monstrem o vínculo da universidade com o desenvolvimento regional. A distribuição do jornal entre alunos do Ensino Médio possibilita sua utilização em salas de aula e como referencial de temáticas atuais. O ABC Jornal também é um espaço para divulgação científica, facilitando a compreensão do leigo sobre as pesquisas realizadas e aproximando a comunidade da produção científica da universidade. Acima de tudo é um canal de comunicação da instituição com a comunidade. Todo o conteúdo do jornal também está na página da internet. Percebe-se, nessa construção, que o ABC Jornal contempla aspectos relacionados à missão e à concepção de universidade que a instituição em análise destaca como relevantes, elementos esses descritos, portanto, materializados, e que refletem a cultura e os pressupostos da mesma. Também há de se considerar que foi realizada pesquisa, ou seja, um questionamento aos públicos internos sobre suas expectativas e necessidades de comunicação, para que, então, decisões gerenciais fossem to- madas, considerando os fluxos ascendentes, descentes, por direções laterais internas e externas. (BALDISSERA, 2000; TORQUATO, 2002; KUNSCH, 2003). Dessa forma, é possível dizer, com relação aos aspectos relatados, que a instituição contempla o
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    arcabouço teórico destacadoneste estudo, quanto a como proceder e quanto ao que $ considerar para o planejamento da comunicação organizacional. (BALDISSERA, 2000; TORQUATO, 2002; KUNSCH, 2003). Cruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência... As modificações que o jornal sofreu ao longo desses seis anos foram realizadas a partir da experiência dos jornalistas responsáveis pela elaboração do mesmo, ou seja, não houve nova pesquisa, nem ao menos se utilizou um instrumento de coleta de dados que tenha avaliado o grau de satisfação dos públicos que foram anteriormente pesquisados. O processo de pesquisa foi interrompido, impossi- bilitando a retroalimentação como a teoria sobre a comunicação organizacional enfatiza. (BALDISSERA, 2000; KUNSCH, 2003). No planejamento de comunicação de 2006, está prevista a realocação de públicos para o ABC Jornal, passando a atingir somente os funcionários, com linha edito- rial que enfatize assuntos da gestão organizacional e temas mais genéricos re- lativos à universidade. A agência de publicidade e propaganda – responsável pelo planejamento de comunicação da universidade – justifica a mudança, em função de ter criado uma revista direcionada aos alunos da universidade com perspectiva de ampliar a distribuição aos alunos do Ensino Médio e cursos pré-vestibulares. A agência de publicidade e propaganda argumenta que os professores têm acesso a todas as informações da universidade através da intranet e que está prevista a elaboração de um boletim direcionado a esse público, ampliando a distribuição aos veículos de comunicação da região e do País, formadores de opinião e a outras IESs. Com a ação de reestruturação do ABC Jornal, verifica-se a fragmentação e dis- persão da comunicação. Assim, a instituição corre o risco de perder uma ferra- menta de comunicação que esteja cumprindo com seus objetivos e com sua função organizacional. Tal fato pode ser atribuído, hoje, à falta da presença mais intensa da Assessoria de Imprensa nas decisões de comunicação, atualmente gerenciadas quase na totalidade pelo Setor de Marketing. Outro aspecto a ser considerado é que a instituição deixa o planejamento da comunicação organizacional com a agência de publicidade e propaganda. Ratifica-se, então, que a decisão gerencial de realocar os públicos do ABC Jornal não foi tomada tendo como base a pesquisa. Também, se constata que a instituição não possui políticas claras e definidas de comunicação, fato presente desde que a universidade institucionalizou a Assessoria
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    de Imprensa eo Setor de Marketing. O que existe é o planejamento de comunicação % anual, desenvolvido pela agência de publicidade e propaganda, implementado a partir de 2003 e que nem sempre é cumprido na íntegra, às vezes só em parte. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 Mediante tais constatações, não é surpresa que na rede/fluxo de comunicação informal, haja o consenso de que existem falhas grandes de comunicação, principalmente no sentido interno. Baldissera (2000), Scroferneker (2001) e Kunsch (2003) já alertaram para os riscos que as organizações correm por não realizar o planejamento de comunicação, e por não considerar a comunicação organizacional. Nesse sentido, fica prejudicada toda e qualquer iniciativa que tenha por objetivo implementar um processo de comunicação integrada. Outro fato a ser mencionado e que está relacionado à cultura organizacional, porém materializado nos documentos formais, mas que afeta diretamente a comunicação organizacional, diz respeito à política institucional que rege as decisões da instituição, em muitos casos se sobrepondo à concepção de universidade proposta. Nesse contexto, é usual que os gestores detentores do poder utilizem-se das ferramentas de comunicação para fins de promoção da gestão, com objetivos de se perpetuarem no poder. Essa constatação é pontual e hoje se reflete no editorial do ABC Jornal. Sugere-se que a organização reveja sua concepção de comunicação organizacional, para que efetivamente possa ter uma imagem positiva ao seu público interno, implementando o planejamento estratégico de comunicação que contemple o mix/composto da comunicação/comunicação integrada. É importante evidenciar que a comunicação organizacional é que sustenta e reproduz a imagem da empresa perante os públicos com os quais essa se relaciona. Considerações finais A comunicação organizacional, no contexto das organizações pós-modernas, para que possa atingir seus objetivos, necessita, primeiramente, considerar a cultura organizacional, pressuposto ratificado pelos autores apresentados neste estudo. É importante para uma organização a integração de suas atividades de comu- nicação – comunicação integrada – em função do fortalecimento de seus conceitos institucional, mercadológico e corporativo em seus públicos. Isso poderá acontecer se efetivamente a gestão da comunicação organizacional considerar as dimensões
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    e os fluxosque permeiam a construção/desconstrução das relações pessoais e profissionais nas empresas. Cruz, Cassiana Maris Lima. Comunicação organizacional e pressupostos da comunicação integrada: a experiência... Conforme foi possível observar quanto às decisões estratégicas relacionadas ao ABC Jornal, percebe-se que no momento de sua implementação/reestruturação a instituição de ensino considerou alguns dos pressupostos que norteiam a teoria da comunicação organizacional, mas em função de a mesma não ter claramente definidas suas políticas de comunicação, os processos anteriormente seguidos acabam se perdendo nesse novo momento de planejamento de comunicação ao qual a instituição se propõe. Sendo assim, corrobora-se com o argumento de Bueno (2003, p. 9) quando destaca que a comunicação integrada, ainda hoje, “se constitui em mais um discurso, apropriado pelos especialistas e gestores da comunicação, do que uma prática efetiva no quotidiano das organizações”. É importante salientar que não se pode generalizar os dados apresentados na universidade que relata a experiência com o ABC Jornal; no entanto, há de se considerar que pesquisas realizadas em outras universidades (KUNSCH, 1992; SCROFERNEKER, 2001), demonstram que as IESs têm dificuldade em compreender a importância da comunicação organizacional. Também se percebe que são incipientes no que tange às práticas comunicacionais – comunicação integrada – praticando-as de forma fragmentada e incompleta, uma vez que não desenvolvem um planejamento estratégico de comunicação organizacional, vindo a correr sérios riscos de construção/desconstrução de sua imagem diante dos públicos com os quais mantêm relações. Essas são as contribuições gerenciais deste estudo, que podem servir de base para que a IES em análise reveja os pontos estratégicos da gestão da comunicação organizacional. As implicações acadêmicas dizem respeito à análise empírica dos conceitos teóricos referentes à comunicação organizacional e à implementação dos pressupostos da comunicação integrada nas organizações, já conhecidas da comunidade acadêmica. Referências BALDISSERA, Rudimar. Comunicação organizacional: o treinamento de recursos humanos como rito de passagem. São Leopoldo: Ed. da Unisinos, 2000. p. 13-39. BARBETTA, Pedro Alberto. Estatística aplicada às Ciências Sociais. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1994.
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    BUENO, Wilson daCosta. Comunicação empresarial: teoria e prática. Barueri: 2003. ' CHANLAT, Jean-François. Ciências Sociais e management: reconciliando o econômico e o social. São Paulo: Atlas, 2000. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 CHAUÍ, Marilena. A universidade em ruínas. In: TRINDADE, Hélgio (Org.). Universidade em ruínas: na república dos professores. Petrópolis: Vozes; Rio Grande do Sul: Cipedes, 1999. GOLDHABER, Gerald M. Comunicación organizacional. México: Diana, 1991 p. 15-60. KUNSCH, Margarida Maria Krohling. Universidade e comunicação na edificação da sociedade. São Paulo: Loyola, 1992. ________. Planejamento de relações públicas na comunicação integrada. São Paulo: Summus, 2003. MORIN, Edgar. A complexidade e a empresa. In: MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. 3. ed. Trad. de Dulce Matos. Lisboa: Instituto Piaget, 2001. p. 123-136. SCROFERNEKER, Cleusa Maria Andrade. Os (des)caminhos da comunicação na implantação do programa de qualidade total da universidade brasileira. Educação Brasileira, Brasília, v. 23, n. 46, p. 75-91, jan./jun. 2001. TORQUATO, Gaudêncio. Tratado de comunicação organizacional e política. São Paulo: Pioneira, 2002. TREVISAN, Nanci Maziero. O mito da comunicação integrada. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 26., 2003, Belo Horizonte. Anais... Belo Horizonte. 2003.
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    Idéias sobre tecnologia, interações comunicativas Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 1 e economia midiática Álvaro Benevenuto Júnior2 RESUMO A tecnologia tem interferido nas mais singelas ações do cotidiano. Da cozinha ao computador, a tecnologização da sociedade atual, processo verificado com maior nitidez nas duas últimas décadas do século XX, transforma o homem em um ser cada vez mais dependente de aparelhos eletrônicos e, ao mesmo tempo, de informações que condicionam sua operação (dos manuais de operação aos telejornais). Essa “tecnoocupação” da vida permite análises sobre o resultado da ação do capital sobre a mídia, transformando-a num potencial veículo de consolidação do lucro. Este artigo pretende seguir por caminhos que propiciem observar o impacto da ação capitalista produtivo- lucrativa, partindo da liberdade e do direito de agir do cidadão, de forma comunicativa e corporativa, apreendendo a tecnologia disponível. Palavras-chave: Tecnologia da comunicação. Economia da Comunicação. Mídia e interação so- cial. ABSTRACT Technology interfers with the most simple acts of daily actions. From the kitchen to the computer, the approach to technology in the current society (a process verified with igger clearness during the last two decades), transforms man into a great electronic devices dependent and, at the same time, of the information that conditions its operation (from the operation manual to the news). This “techno-occupation” of life allows us to analyse the results of the action from the capital on the media, transforming it into a potential vehicle of consolidation of profit. This article intends to follow the ways that propitiate the bservation of the impact on the productive-lucrative capitalist action: from the citizen´s freedom and his right to action in a communicative and corporative form, apprehending the available technology. Key words: Communication technology. Communication economy. Media and social interaction. 1 Texto produzido para a disciplina de Comunicação, Política e Cidadania do PPG em Comunicação e Política da Universidade de Santa Cruz do Sul (2006-2007). 2 Doutor em Ciências da Comunicação pela Unisinos. Professor da disciplina Televisão na Universidade de Caxias do Sul (UCS). Pesquisador no CNPq.
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    Introdução As características das interações sociais contemporâneas estão cada vez mais Benevenuto Júnior, Álvaro. Idéias sobre tecnologia, interações comunicativas e economia midiática presas ao uso de aparatos tecnológicos, como indicam, principalmente, estudos relatados por Silverstone e Hirsch, 3 que dirigem o foco de atenção para experiências individuais, ocorridas no âmbito da família e do lar, mediadas pela tecnologia disponível no mercado: do forno de microondas ao computador que, conectado, acessa o ambiente das redes. Uma reflexão sobre as transferências dos tempos e as mudanças nas características das interações sociais e comunicativas, a partir da tecnologização da sociedade, é necessária para pensar a economia midiática. O que mudou nos espaços das interações com a inclusão desses aparatos tecnológicos? Perguntar isso, num momento em que o cotidiano se caracteriza pela ampla possibilidade de comunicação em tempo real com nossos pares, traz um ar de nostalgia.4 As tecnologias de informação inserem-se fácil e rapidamente no cotidiano social. Primeiramente porque elas, antes mesmo de surgirem, fazem parte de uma histórica atração humana pela novidade e pelo tecnológico. Segundo, porque a busca pela vida plena, pela praticidade que pode ser proporcionada pelos artefatos, igualmente encanta.5 No fim dos anos 60, os artefatos tecnológicos exóticos mais comuns numa residência de classe média eram: fogão, liquidificador, batedeira, geladeira, bicicletas e um automóvel (geradores de interação social), telefone, receptores de rádio e TV (geradores de interação comunicativa). Às crianças, um trenzinho elétrico, um autorama ou uma boneca que falava ou se movimentava bastava para estabelecer um ambiente de interação social com seus pares. Esses aparelhos davam conta de certo conforto para preparar a alimentação diária, para propiciar deslocamentos a lugares de lazer e para revigorar os laços 3 SILVERSTONE, Roger; HISCH, Eric (Eds.). Los efectos de la nueva comunicación: el consumo de la moderna tecnología en el hogar y en la familia. Barcelona: Bosch, 1996. 4 Refiro-me aqui à lembrança daquele tempo em que as brincadeiras de rua começavam com a construção dos brinquedos, seja do carrinho de lomba, do corte dos galhos de eucalipto para fazer as traves da goleira ou das “incursões” na pequena oficina para construir as mobílias em miniatura das bonecas, muito comum nas cidades pequenas, mesmo que estivessem próximas das metrópoles. 5 BENEVENUTO JÚNIOR, Álvaro; HEBERLE, Antônio. Gestão e funcionamento das interações sociais con- temporâneas. São Leopoldo: Ed. da Unisinos. 2002. p. 1. Mimeo.
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    sociais familiares comparentes distantes e para o acesso a noticiários e ao ! entretenimento da mídia. Exigiam, assim, destinar tempos cotidianos específicos para cada atividade, permitindo a interação social, intrafamiliar nos interstícios Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 do fazer de cada uma dessas atividades.6 A hora de preparar a refeição, por exemplo, constituía-se num momento de interação presencial, ao vivo, entre pais e filhos, vizinhos e, em algum tempo, amigos de diferentes ambientes (escola, trabalho, igreja, viajantes). A definição e a quase-imobilidade desses tempos proporcionavam outros momentos de interação, como o fim de tarde, quando os vizinhos se encontravam nas calçadas para conversar sobre o corriqueiro, o cotidiano da vizinhança para, em seguida, encerrar o dia ouvindo o noticiário no rádio e/ou assistindo à televisão, à novela e a programa de variedades ou filme, de temática complexa.7 Isso era possível porque os tempos cronometrados das décadas de 60-70, determinados pela dependência operacional e pelo precário funcionamento dos sistemas de aparatos tecnológicos de interação comunicativa,8 tinham “lugares fixos”, isto é, a hora da escola era uma, o trabalho ocupava duas partes do dia, o lazer/entretenimento vinha logo em seguida. Localizar as interações dessa época nesses lugares e tempos, definidos por uma lógica de uso de uma tecnologia “rústica” e da preservação dos ambientes privados e públicos, é definir uma característica de interação presencial, partici- pativa,9 de um espaço público, conforme Habermas. 6 Inspirada em E. Goffman, a pesquisadora salienta que as “enunciações não se sustentam sozinhas, não fazem sentido isolado. A conversão, “transe socializado”, unio mystica, está assentada em complexos jogos de cena que vão sustentar o contato, fundar a troca de palavras, projetar um indivíduo ao outro”. (FRANÇA, Vera R. V. Comunicação, sociabilidade e cotidiano: o fio de Ariadne, a palavra da rua. In: FAUSTO NETO, Antonio; PINTO, Milton José. O indivíduo e as mídias. Rio de Janeiro: Compós; Diadorim, 1996. p. 101). 7 MILANESI, Luís. O paraíso via Embratel. São Paulo: Paz e Terra, 1985. p. 87s. 8 Os eletrodomésticos não tinham timers, controle remoto ou memória artificial, exigindo a presença de seus operadores para sua aplicação. No caso dos aparatos de interação comunicativa, como o telefone, o rádio e a televisão, as operações mais simples eram longas. A exemplo, um telefonema para a cidade vizinha poderia demorar quatro horas para ser completada, porque ela dependia da liberação de linhas até o destino, além de ser operada manualmente. 9 França fala que as interações sociais se completam quando há resposta a um estímulo gerador da demanda. (FRANÇA, op. cit., p. 101-102).
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    A partir dasegunda metade da década de 70, centralmente nos países em desenvolvimento, acompanhou-se outro movimento da modernização da economia, com o acelerado processo de multinacionalização da indústria e da fácil mobilidade Benevenuto Júnior, Álvaro. Idéias sobre tecnologia, interações comunicativas e economia midiática do capital. A marca nacional se transformou em multinacional, modificando os tempos da vida dos empregados em função das diferenças de fuso horário. Significa que, ao transferir o controle administrativo para um outro lugar, distante, as definições da temporalidade local das interações foram reorganizadas. Esse processo aconteceu concomitantemente com o desenvolvimento das no- vas tecnologias de comunicação, fundamentais para administrar instituições contemporâneas, sem locais fixos. Essa transformação incide diretamente na reorganização dos tempos sociais característicos e particulares de cada lugar. Da mesma maneira, interfere no tempo do trabalho, ampliando-o para as 24 horas do dia. Muda o tempo da brincadeira, substituindo a ação lúdica de construção dos brinquedos pela compra de aparelhos eletrônicos automotivos em oferta no mercado. Muda também o tempo do lar, ao trazer para dentro de casa o conforto dos controles remotos (eletrodomésticos programáveis) e das opções pré-prontas (alimentos congelados, telentregas, restaurantes, ingressos a espetáculos de arte, etc.), marcas desse outro momento. A nova configuração do tempo reestruturou o espaço privado, integrando nele as atividades características dos espaços públicos, como a continuação das atividades profissionais (agora em rede) e as brincadeiras, que deixaram de acontecer nas ruas e praças, se transferindo para a tela de videogames ou de computadores, muitas vezes, conectados à internet. Muda a característica das interações comunicativas, presenciais e participativas. As conversas com pessoas que estavam longe, feitas por cartas e ao telefone, são efetivadas em real time, por meio da conexão com a internet. A referência definidora dos limites entre os espaços públicos e privados dilui(u)-se na calçada da rua e transfere(iu)-se para a capacidade processadora dos aparatos tecnológicos da comunicação. Novos lugares e novas interações Os novos lugares e as novas formas de interação têm oferecido elementos para observar a sociedade contemporânea. Começando pela forma como se estabelecem a gestão e o funcionamento das interações sociais e comunicativas. Num primeiro momento, percebe-se que essas relações são gerenciadas pela mídia. Grosso modo, elas acontecem quando o indivíduo convoca seu par,
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    oferecendo situações quepermitam o reconhecimento de falas e experiências # vividas, mobilizando-o a uma outra situação, construída e constituída de falas e experiências gestadas a partir da nova experiência que visa à construção de um Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 processo onde os nexos entre essas experiências10 é permeado pela gestão individual. É importante considerar os contornos do modo de ocorrência dessas duas interações: no âmbito presencial e no participativo, estando os indivíduos interagentes mobilizados para a ação num tempo e num espaço concomitantes e concretos, vive-se essa experiência comunicativa ao sabor de interferências intemporais e imprevistas conforme a lógica das opiniões imediatas. Ao usar a tecnologia de comunicação, que assume o papel de meio, incorpora-se um elemento mediador da experimentação inovadora, a partir de referenciais da alteridade, proporcionando um tempo de reflexão não mais imediato, eliminando a astúcia do comentário. Nesse lugar, a convocação do outro acontece por mensagens que passam por um trabalho de montagem-desmontagem-remontagem. Elas, sutil e concretamente, ficam à deriva das condições e das imposições vulneráveis a estratagema comercial, estabelecidas a partir de parâmetros sociolucrativos, ditados pelos comandos das instituições produtoras da comunicação. A conversa se aproxima do sentido da manipulação da mensagem, sem que isso represente julgamento de valor moral ou ético. Significa dizer que essa interação, agora midiatizada, inclui elementos de uma experiência vivida estranha à dos interagentes (espectadores/consumidores) presenciais e imediatos. A mídia será, nessa hora, a produtora daquilo que cabe ser interpretado como um terceiro sentido na experiência interacional, revelando importante característica do fenômeno: ao estar atrelada a interesses (econômicos) estranhos aos indivíduos e ao ter alto potencial de circulação e consumo, transforma-se num outro lugar de sociabilidade, agora comunicativa. “En todas las encuestas en que se pregunta a la gente quién tiene demasiado poder en la sociedade actual, los medios de comunicación aparecen en los primeros lugares.”11 Quer dizer que, se a mídia não “fala” a respeito de algo, esse algo não é concreto. 10 FRANÇA, op cit., p. 102. 11 NEUMANN, Elisabeth Noele. La espiral del silencio: o opinión pública: nuestra piel social. Madrid: Paidós, 1996. p. 204.
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    O resultado dessaação no ambiente privado é representado pelas mudanças $ nos modos de (re)conhecer o mundo e de experimentar as interações, mudando, inclusive, o agendamento das atividades familiares. Por exemplo: se é anunciada Benevenuto Júnior, Álvaro. Idéias sobre tecnologia, interações comunicativas e economia midiática a previsão de chuva durante um feriado prolongado, os planos de ida à praia são adiados. É a simples previsão da condição climática exposta pela mídia, inter- ferindo na rotina de milhares de famílias de uma determinada região geográfica. Também são resultado da atitude gestora da mídia os comportamentos dos indivíduos diante do estilo de vida e de consumo. A moda, nesse aspecto, é uma referência mais explícita do poder midiático.12 Ao apresentar suas propostas de mundo ideal a seus milhares de espectadores/consumidores, potencializado com as transmissões globais através dos satélites e da internet da moda, a mídia confirma sua capacidade de gerir as interações contemporâneas, impondo um tipo de funcionamento preestabelecido da sociedade. A mídia aumenta e consolida o fosso entre os grupos sociais, desrespeitando a expressão da multiplicidade.13 O exercício de rascunhar o quadro das novas interações midiatizadas resulta num esboço onde tudo e todos terão como prioridade a circulação pelo ambiente virtual, transferindo para segundo plano as interações presenciais e participativas, como as relatadas no início deste texto. Sem ser apocalíptico, nem integrado, esse rabisco alerta para a necessidade de estudos, debates e divulgação de propostas e de ações que instiguem a busca do equilíbrio nas interações presenciais-participativas em relação às virtuais-participativas. Mídia, cotidiano e economia da comunicação Não faz muito tempo que a mídia passou a ser objeto de destaque para as pesquisas, e já são muitas as citações sobre o impacto e os efeitos desse 12 Os seriados vespertinos, como “Malhação”, exibido pela Rede Globo de Televisão desde 1998, na faixa das 18 horas, é um bom exemplo para essa reflexão. Ali, os personagens – todos adolescentes – adolescentes vivem situações características de sua faixa etária, vestem-se com os lançamentos da indústria do vestuário, usam a gíria presente em outros veículos dirigidos a esse público, criando a imagem de pertinente para a época. Ao mesmo tempo, esses seriados servem como instrumento de campanhas publicitárias de cunho social, como a prevenção da Aids, combate às drogas, segurança no trânsito. É interessante notar que temas polêmicos são evitados, como questões políticas e o debate a respeito das opções individuais em relação ao gênero. 13 BAUMANN, Zygmunt. Globalização: as conseqüências humanas. Rio de Janeiro: J. Zahar Editor, 1999.
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    campo na sociedade.Esses estudos buscam referências em clássicos, a exemplo % de Aristóteles, quando se aponta a necessidade de ampliar a área do conheci- mento, passa pela Acta Romana, pelas impressões chinesas, de Gutenberg, e Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 pelo uso da imprensa na Revolução Francesa para apresentar a mídia, com a qual nós convivemos, como fundante do cotidiano. Não é estranho saber que alguém é despertado por uma mensagem radiofônica no lugar do canto do galo; ou que começa o dia vendo a programação da televisão antes mesmo de ouvir o rádio ou o sonido estridente e monótono do despertador. É comum também saber de que há alguém que, antes de qualquer atividade cotidiana, conecta-se à rede. São sintomas explícitos de que a mídia está dentro da rotina, realizando sua atividade central – e muito pouco percebida – que é a de incentivar ações individuais que sustentam a circulação de mercadorias e mantêm a geração de lucro do capital. A propósito dessa linha de pensamento, Martín-Barbero e Rey afirmam que “a experiência cultural latino-americana desse fim de século não pode ser pensada fora das novas estruturas comunicativas da sociedade”,14 indicando que essas estruturas escamoteiam sua interdependência com o capi- tal e o seu propósito de ação único que visa a um objetivo, isto é, ao lucro, mesmo que ele não signifique diretamente ganho financeiro. A presença da mídia no cotidiano é de tal força que Sodré considera-a como o quarto bios, dotada de tal poder que supera e perpassa as três outras formas tradicionais da existência humana: a vida contemplativa, a vida política e a vida prazerosa.15 Como uma quarta maneira de vida, ela acaba sendo a responsável pela ordenação do cotidiano. Na perspectiva de um quarto bios, a televisão se apresenta como a alternativa mais comum de meio de ação comunicativa na sociedade atual. Sua aparição, na segunda metade da década de 30, foi acompanhada de variantes econômico- políticas, que permitem resgatar os laços estreitos entre o mercado e a mídia. 14 MARTÍN-BARBERO, Jesús; REY, Gérman. Os exercícios do ver: hegemonia audiovisual e ficção televisiva. São Paulo: Senac, 2001. p. 30. 15 SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho: uma teoria da comunicação linear em rede. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 25.
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    A primeira transmissãoexperimental de TV nos Estados Unidos, de uma partida de beisebol, revela uma pista importante do interesse do capital sobre esse novo meio de comunicação, o que se concretizou logo após a implantação do Benevenuto Júnior, Álvaro. Idéias sobre tecnologia, interações comunicativas e economia midiática sistema. Na Inglaterra, a primeira transmissão de larga abrangência foi a coroação do rei Jorge IV, em 1937, evento de interesse nacional, mobilizando toda a sociedade inglesa. Cinqüenta mil espectadores acompanharam o espetáculo.16 Para melhor entender esses movimentos, é importante ter presente que naquela época o mundo se recuperava da crise da Primeira Guerra e da Revolução Russa, tendo como mola propulsora o investimento na industrialização. Os modelos de produção em larga escala, a partir da filosofia fordista, incentivavam (e cobravam) o aumento do consumo. Isso somente foi possível com o crescimento da massa de trabalhadores assalariados, contratados pela própria indústria, que também recebia investimentos das bolsas de negócios. No campo da comunicação, o cinema e o rádio eram as indústrias mais rentáveis do entretenimento, criando seus stars systems para trabalhar, indiretamente, na divulga- ção de uma grande quantidade de produtos – de uso pessoal, de cosméticos a cigar- ros, ou de uso coletivo, de aparelhos domésticos, para facilitar a rotina, e automóveis – como forma de garantir a circulação de mercadorias com o intuito de incrementar a indústria e a geração de lucro para o capital. Entretanto, foi a partir da solução da crise gerada pela ascensão do nazismo alemão, na Segunda Guerra, que o mundo retomou o desenvolvimento industrial, e o capital pautou-se pelo desenvolvimento em escala mundial até chegar aos moldes de uma globalização como conhecemos hoje. A mobilização do capital mundial (1) para recuperar os estragos provocados pela Segunda Guerra (2) para identificar e fortalecer politicamente o vencedor das batalhas e (3) para consolidar as normas de convivência civilizada entre os países aliados e derrotados foi acompanhada de atitudes políticas que necessitaram dos meios de comunicação para ser reconhecidas e apoiadas pelas populações do bloco hegemônico. Não é por acaso que no documento que instala a Organização das Nações Unidas, “os meios de informação de massa (sic) estão certamente ausentes da sigla, mas a questão de sua relação com a paz e a educação foi evocada amplamente desde as suas premissas”.17 16 MATTOS, Sérgio. A televisão no Brasil: 50 anos de história (1950-2000). Salvador: PAS; Ianamá, 2000. p. 256. 17 MATTELART, Armand; MATTELART, Michele. História da utopia planetária: da cidade profética à sociedade global. Porto Alegre: Sulina, 2002. p. 330.
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    Esse movimento inspiroua forma de pensar as propostas de administração das ' mídias, buscando resolver os problemas de alta complexidade para a operação, por exemplo, de uma TV (que envolve questões puramente técnicas, relacionadas Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 ao campo das engenharias, artísticas, intelectuais, comerciais e de relacionamento com os espectadores).18 Enquanto esse movimento em direção à organização de um novo mercado acontece, os estudos de mídia, que nesse tempo começavam a ser desenvolvidos pelas disciplinas: antropologia, sociologia e psicologia, identificaram o fenômeno que Adorno e Horkheimer denominaram Indústria Cultural.19 A proposta de uso da mídia como elemento basilar da luta pela hegemonia econômico-política mundial (em especial a televisão) consolida a relação de valor dos bens de consumo cultural, provocando um movimento no sentido de estabe- lecer diferenças que permitirão opções de escolha.20 Concorrência na diferença A variedade dos produtos culturais oferecidos pela televisão, no caso brasileiro, delineia um quadro interessante de análise para entender o seu desenvolvimento e a sua inclusão na vida social contemporânea. Em seus primeiros dias de funcio- namento, a partir de setembro de 1950, seguindo o modelo radiofônico de pro- dução cultural, a Tupi investiu na exibição de programas de entretenimento (shows, variedades, humor), entremeados por uma edição jornalística, mesmo recebida por apenas 200 aparelhos instalados no País (leia-se São Paulo). A aparição da concorrência – a TV Record –, meses depois de sua inauguração, obrigou a emissora a pensar em outras atrações para manter sua grade, que era apresentada durante três ou quatro horas diárias. O teleteatro foi a saída da emissora pioneira para conquistar a audiência da recepção dos 7 mil apa- relhos vendidos no País em novembro de 1951.21 É importante notar, também, 18 Essa diversidade de operações é especialmente tratada por BUSTAMANTE, Enrique. La televisión económica: financiación, estrategias y mercados. Barcelona: Gedisa, 1999. p. 14-20. 19 ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Indústria cultural: o iluminismo como mistificação de massas. In: LIMA, Luis Costa. Teoria da cultura de massa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. p. 162. 20 BOLAÑO, Cesar. Indústria cultural, informação e capitalismo. São Paulo: Hucitec; Polis, 2000. p. 204. 21 REIMÃO, Sandra. Em instantes: notas sobre a programação na TV brasileira. São Paulo: Salesianas; Cabral, 1997. p. 21 e MATTOS, op. cit., p. 93-95.
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    que além dosprogramas, a audiência era outra preocupação relevante para os gerentes. O relato de ações para aumentar a audiência através de uma campa- nha incentivando a aquisição de televisores é revelador. O texto veiculado Benevenuto Júnior, Álvaro. Idéias sobre tecnologia, interações comunicativas e economia midiática na época era: Você quer ou não a televisão? Para tornar a televisão uma realidade no Brasil, um consórcio radiojornalístico investiu milhões de cruzeiros! Agora é a sua vez – qual será a sua con- tribuição para sustentar tão grandioso empreendimento? Do seu apoio dependerá o pro- gresso, em nossa terra, dessa maravilha da ciência eletrônica. Bater palmas, aclamar ad- miravelmente, é louvável, mas não basta – seu apoio só será efetivo quando você adquirir um televisor!22 A leitura dessa propaganda revela que a integração dos interesses dos investidores na televisão brasileira e os interesses da indústria é muito maior do que parece ser. Vale um olhar atento para o texto. A propaganda apresenta a novidade como uma benevolência de um grupo interessado no futuro do País em desenvolvimento, que quer uma sociedade moderna, com acesso aos diversos aparatos tecnológicos para o bem-estar da família nacional. Informa que a parte mais difícil foi cumprida, isto é, o investimento de “milhões de cruzeiros” e convoca os compatriotas a adquirir seus aparelhos receptores para manter a televisão nacional. Num outro sentido, a propaganda cobra, explicitamente, a responsabilidade da audiência em manter – por meio da aquisição dos receptores – a sobrevivência da televisão, como se ela estivesse incluída no rol de investidores. As relações do capital e a comunicação ficam evidentes, pois os produtos apresentados pela TV são os que terão, potencialmente, maior garantia de consumo. A publicidade e propaganda em larga escala é a ferramenta para fazer circular a produção e aumentar o lucro: o objetivo do capital. Assim também se explica, além da experiência norte-americana da TV comercial, a inversão da maior parte das verbas publicitárias nesse veículo. “O modelo brasileiro de televisão [...] depende do suporte publicitário, sua principal fonte de receita.”23 De acordo com o Grupo de Mídia/MeioMensagem, há décadas a televisão movimenta 60% do capital de investimentos publicitários durante o ano. 22 MATTOS, op. cit., p. 96. 23 Ibidem, p. 66.
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    Indústria cultural eintegração na TV Na mesma medida, a integração das indústrias culturais24, num meio de Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 comunicação múltiplo como é a televisão, se estabelece na perspectiva de completar um círculo de “auto-ajuda” promocional para a circulação da sua produção simbólica. O grande volume de espectadores da televisão, mesmo atualmente dividida entre as opções tradicionais (transmissão aberta) e as codificadas (transmissão por assinatura, independentemente de sua natureza), se caracteriza num bom ambiente para a circulação de mercadorias culturais. No “modo de funcionamento da Indústria Cultural nos dias de hoje, o que observa é que não apenas o comercial predomina sobre o desinteressado no que se refere às decisões de investimentos, mas o próprio sucesso tem-se tornado crescentemente fator de reconhecimento do produto por uma elite cultural”.25 Eventos especialmente produzidos para atender às necessidades tecnooperacio- nais da televisão, como campeonatos esportivos ou os megashows de cantantes da moda (como o “concerto” da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó no teatro do Macksoud Plaza, em 1990); e a massificação de “Don’t cry for me Argentina”, na voz de Madonna, no campo da indústria fonográfica, ou a popularização do vôlei e do tênis (modalidades esportivas elitizadas) a partir das transmissões ao vivo diante da crise do futebol, são exemplos eficientes para esboçar a auto- ajuda das indústrias culturais. De um lado, respondem à necessidade de circulação das mercadorias, culturais ou não (no caso do esporte, os principais produtos em exibição são os próprios equipamentos característicos de cada modalidade e seus complementos, como vitaminas, bebidas nutritivas, entre outros), e, de outro lado, contemplam as necessidades de entretenimento da “massa” espec- tadora da TV. Além desses dois movimentos, os espetáculos são reconhecidos como produtos utilizáveis no cotidiano pela elite, isto é, pelos próprios detentores do capital, que produz os bens. É também interessante observar a “invasão” do estilo tecnopopsertanejo na música popular brasileira, muito explorado pelos videoclipes, a partir da sofis- ticação e da adequação desses eventos à televisão. Ao mesmo tempo, esse 24 Bolaño usa a expressão indústrias culturais para indicar a pluralidade da produção de bens, os suportes e as cadeias de mercado. Hoje o plural é mais adequado para cobrir a amplitude da Indústria Cultural proposta por Adorno e Horkheimer. 25 BOLAÑO, op. cit., p. 202.
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    gênero vai buscarobras no cancioneiro de outros movimentos musicais – como a MPB, por exemplo – adaptando-os e incluindo-os em suas apresentações.26 Benevenuto Júnior, Álvaro. Idéias sobre tecnologia, interações comunicativas e economia midiática No campo da dramaturgia (uma das áreas mais especializadas da televisão brasileira), as correlações das indústrias culturais parecem não ser tão explícitas como acontece na música. Porém, tradicionalmente, essa é uma área de investimento de outros tipos de produto, como os do setor de higiene, de bebidas, de automóveis e de alimen- tação.27 Na teledramaturgia, há espaço para a publicidade e para a propaganda, sendo que, em alguns momentos, o enredo da novela é a própria peça publicitária, seja ela originária do Estado ou do capital. Exemplos são os merchandising de produtos de variadas origens que aparecem em cenas importantes da trama, ou citados nos diálogos dos personagens, transparecendo que integram o cotidiano daquela trama e incentivando o espectador a copiar as atitudes de seus perso- nagens favoritos.28 Sobre o merchandising social, dois exemplos merecem atenção: as novelas “Sal- vador da Pátria” e “O rei do gado”, produzidas e exibidas pela Rede Globo nas décadas de 80-90. Elas experimentaram tramas que abordaram a temática político- social, muito próxima dos contextos daquelas épocas e, com isso, outro tipo de publicidade: a ligada a comportamentos e à ética social. Em “Salvador da Pátria”, a personagem Sassá Mutema, inspirado no Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, é quem cobra, dos políticos e da elite econômica, maior seriedade no trato das questões administrativas da cidade. Arma as ações e ganha a simpatia da população, que acaba elegendo-o prefeito. Essa trama é 26 Aqui vale lembrar, em especial, as apresentações da dupla Leandro e Leonardo cantando “Canção da América”, de Milton Nascimento; de Chitãozinho, Xororó, Leandro, Leonardo, Luciano e Zezé di Camargo, no megashow Amigos, executando “Amigos para sempre”, composta para a solenidade de abertura dos Jogos Olímpicos de Atlanta e apresentada pelo trio de tenores Luciano Pavarotti, Plácido Domingues e José Carreras ou de Leandro, ao inaugurar sua carreira solo (depois do desaparecimento de Leonardo), cantando “Nas curvas da estrada de Santos”, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. 27 Veja-se, especialmente, os estudos de MELO, José Marques. As telenovelas da Globo: produto de exportação. São Paulo: Summus, 1988; ORTIZ, Renato; RAMOS, José Mário Ortiz; BORELLI, Sílvia. Telenovela: história e produção. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1991; REIMÃO, op. cit. 28 A esse respeito, Doc Comparato indica que o autor das peças tem que pensar nos produtos que podem ser apresentados no enredo de sua obra para evitar ao máximo problemas com a recusa dos atores em participar da novela. (COMPARATO, Doc. Da criação ao roteiro. Rio de Janeiro: Campus, 1998).
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    apresentada exatamente naépoca que antecede a primeira rodada das eleições presidenciais, quando o País se pautava pela organização da economia, pela ! moralização das instituições públicas e pelo fim dos privilégios oferecidos para Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 as elites nacionais. Em “O rei do gado”, o autor chegou ao ponto de misturar realidade com ficção de tal forma que até mesmo os políticos dialogaram com as personagens por meio de publicações na imprensa diária.29 Essa atitude ousada da equipe que escreveu a novela deu publicidade a uma questão de ordem social importante: em 1997, a sociedade brasileira exigia seriedade e ética no trato da coisa pública e já havia iniciado o processo de investigação para reduzir a corrupção revelada pelo processo de impedimento do presidente Collor de Melo. Outra relação do capital com a televisão, que merece resgate, é o interesse da indústria eletrônica no veículo. A televisão foi a plataforma dos grandes desafios para a pesquisa e o desenvolvimento da eletrônica, o que sinaliza a dependência mútua. Se o sistema rádio representou a largada para a comunicação mundial, experimentando, num primeiro momento, as possibilidades de um sistema rentável – tanto para hardware como para os software –, a televisão consolidou a indústria porque, ao se mostrar mais complexa e mais atrativa do que o rádio (ela dá acesso às imagens), possibilitou também resolver problemas de trans- missão sonora. Isso significa economia e racionalização para o desenvolvimen- to de projetos. Na mesma intensidade, implica a manutenção e a ampliação de mercado para os receptores, informação que se constrói pelos dados históricos dos aparelhos de TV em uso no Brasil nesses 50 anos: os 200 aparelhos em 1950 se multipli- caram para 4.584 milhões em 1970, subindo para 30 milhões em 1990 até chegar a 55 milhões em 2002.30 29 Especialmente a novela “O rei do gado”, de Benedito Ruy Barbosa, exibida a partir de janeiro de 1997, que, na cena do funeral do senador Caxias, contou com a atuação de políticos eleitos para aquela legislatura, além de exibir cenas de discursos proferidos na própria casa legislativa. (HAMBURGER, Esther. Política e novela. In: BUCCI, Eugênio (Org.). A TV aos 50: criticando a televisão brasileira no seu cinqüentenário. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000. p. 25-48). 30 MATTOS, op. cit., p. 95, sendo os dados de 2002 uma estimativa apoiada nas informações da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica. (Abinee). Disponível em: htpp:// . www.abinee.com.br. Acesso em: 2 ago. 2002.
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    Hoje, a televisãocontinua sendo especial para a mobilização da pesquisa no âmbito da técnica, da política e da economia, especialmente quando se fala em televisão digital. Benevenuto Júnior, Álvaro. Idéias sobre tecnologia, interações comunicativas e economia midiática São perceptíveis, no discurso corrente, as possibilidades técnicas que o novo modo de operação do sistema traz. Transmissão simultânea de múltiplos canais, conexão imediata com os operadores, estímulo dos processos de emissão- resposta, diversidade de conteúdos opções de acesso a outras mídias, qualidade de imagem, etc., mas ainda não se debatem as implicações desse avanço tecnológico sobre a cultura nacional. Apesar das diferenças enormes entre as capacidades (e possibilidades) de acesso às novas mídias percebidas na sociedade brasileira, a televisão contemporânea é, ainda, o bem de comunicação de maior acessibilidade social. Quando concretizar a digitalização desse meio, outra barreira (econômico-social) surgirá, transforman- do o meio de comunicação com alto grau de popularidade em um filão de reduzido acesso. Esse dado pode produzir reflexos inesperados ao mercado da comunicação. Algumas considerações Observa-se a mídia (e em especial a televisão) como um fenômeno comunicacional inserido de maneira tão íntima no cotidiano da sociedade – que permite comentários como “se a TV não mostrou, não aconteceu”.31 Percebe-se que ela se transforma, assim, num ambiente especial para a publicização de bens materiais e culturais. Essa categorização, entretanto, não entra em detalhes a respeito das especificidades que acontecem nos bastidores da produção midiática, produzindo uma certa névoa num lugar onde começam a se concretizar as relações entre o capital e a mídia. É sintomático o depoimento de um roteirista de novelas, recolhido em 1982, para entender os meandros das relações econômicas em detrimento das sociais: “Tanto os comerciais quanto o merchandising são regras do sistema capitalista, e é preciso aceitá-los, a não ser que se esteja contra o próprio sistema capitalista. Pessoalmente, eu sou contra, mas vivo dele, porque não sou uma ilha.”32 Como 31 NEUMAN, op. cit., p. 197. 32 GOMES, Dias. Como vender tudo através da televisão. In: MATTELART; MATTELART, op. cit., p. 120.
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    exemplo, a produçãodas telenovelas envolve a participação dos intelectuais (autores, diretores de cena e fotografia, de produção), dos artistas, técnicos e, # no fim da esteira, dos programadores e difusores. Da mesma forma que a categoria Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 6, n. 11, jan./jun. 2007 produção exige os recortes em subcategorias, a programação e a difusão devem ser analisadas com recortes mais específicos para melhor entender essas relações entre o capital e a mídia. Os estudos sobre essa temática convocam, para o campo da comunicação, aportes das disciplinas da economia e da sociologia, pois o impacto das ações do mercado sobre o ambiente complexo da televisão não se restringe ao seu cotidiano operacional. Ele resulta numa relação muito estreita com as formas de interação comunicativa individuais e sociais por meio da circulação de bens de consumo e culturais, incidindo na expressão cultural de um povo. Pensar a comunicação sob essa ótica é muito pertinente, especialmente no tempo em que a convergência das mídias é uma realidade muito mais próxima do que se pode imaginar. É relevante observar as movimentações do mercado para perceber a qualidade das transformações que estão rascunhadas para o campo da comunicação. Referências ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Indústria cultural: o iluminismo como mistificação de massas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. BAUMANN, Zygmunt. Globalização: as conseqüências humanas. Rio de Janeiro: J. Zahar . Editor, 1999. BENEVENUTO JÚNIOR, Álvaro; HEBERLE, Antônio. Gestão e funcionamento das interações sociais contemporâneas. São Leopoldo: Ed. da Unisinos, 2002. BOLAÑO, César. Indústria cultural, informação e capitalismo. São Paulo: Hucitec; Pólis, 2000. BUCCI, Eugênio (Org.). A TV aos 50: criticando a televisão brasileira no seu cinqüentenário. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000. BUSTAMANTE, Enrique. La televisión económica: financiación, estrategias y mercados. Barcelona: Gedisa, 1999. COLETIVO, N. T. C.; MARCONDES, Ciro (Coord.). Pensar pulsar: cultura comunicacional, tecnologias, velocidade. São Paulo: NTC, 1996. COMPARATO, Doc. Da criação ao roteiro. Rio de Janeiro: Campus, 1998. FRANÇA, V. R. V. Comunicação, sociabilidade e cotidiano: o fio de Ariadne, a palavra da rua. In: FAUSTO NETO, Antonio; PINTO, Milton José. O indivíduo e as mídias. Rio de Janeiro: Compós; Diadorim, 1996. p. 103-111.
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    GOMES, Dias. Comovender tudo através da televisão. In: MATTELART, Armand; $ MATTELART, Michèle. História da utopia planetária: da cidade profética à sociedade global. São Paulo: Brasiliense, 1989. Benevenuto Júnior, Álvaro. Idéias sobre tecnologia, interações comunicativas e economia midiática LIMA, Luis Costa. Teoria da cultura de massa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. MARTÍN-BARBERO, Jesus. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001. MATTELART, Armand; MATTELART, Michèle. História da utopia planetária: da cidade profética à sociedade global. São Paulo: Brasiliense, 1989. MATTOS, Sérgio. A televisão no Brasil: 50 anos de história (1950-2000). Salvador: PAS; Ianamá, 2000. MELO, José Marques. As telenovelas da Globo: produto de exportação. São Paulo: Summus, 1988. MILANESI, Luís. O paraíso via Embratel. São Paulo: Paz e Terra, 1978. NEUMANN, Elisabeth Noele. La espiral del silencio: opinión pública: nuestra piel social. Madrid: Paidós, 1996. ORTIZ, Renato; RAMOS, José Mário Ortiz; BORELLI, Sílvia. Telenovela: história e produção. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. PALÁCIOS, Marcos. Cotidiano e sociabilidade no ciberespaço: apontamentos para discussão. In FAUSTO NETO, Antonio; PINTO, Milton José. O indivíduo e as mídias. Rio de Janeiro: Compós; Diadorim, 1996. p. 87-110. REIMÃO, Sandra. Em instantes: notas sobre a programação na TV brasileira. São Paulo: Salesianas; Cabral, 1997. RONDELLI, Maria Elizabeth. Sociabilidade, espaço público e comunicação. In: FAUSTO NETO, Antonio; PINTO, Milton José. O indivíduo e as mídias. Rio de Janeiro: Compós; Diadorim, 1996. p. 112-122. SILVERSTONE, Roger; HISCH, Eric (Eds.). Los efectos de la nueva comunicación: el consumo de la moderna tecnología en el hogar y en la familia. Barcelona: Bosch, 1996. SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho: u uma teoria da comunicação linear e em rede. Petrópolis: Vozes, 2002.
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    CONEXÃO – COMUNICAÇÃOE CULTURA REVISTA CIENTÍFICA DE COMUNICAÇÃO DA UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL A revista Conexão – Comunicação e Cultura, da Universidade de Caxias do Sul, tem como proposta divulgar reflexões inéditas, enfatizando questões re- lacionadas à ética e à comunicação, à história da mídia, às tendências do setor comunicacional e suas múltiplas facetas, às discussões sobre linguagem e à possibilidade de diálogos interdisciplinares. Com isso, pretende contribuir para discussões relevantes na área, trazendo à tona temas atuais e pertinentes, além de privilegiar o resgate histórico das práticas de comunicação. A revista terá periodicidade semestral e poderá abrigar dossiês temáticos, en- trevistas, reprodução de fontes documentais, ensaios fotográficos, além de secções fixas de ensaios, artigos e resenhas. O periódico será distribuído impresso em papel e online, na página eletrônica da Universidade de Caxias do Sul e na internet.
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    SUMÁRIOS DOS NÚMEROS ANTERIORES CONEXÃO – COMUNICAÇÃO E CULTURA. V. 1, N. 1, JAN./JUN. 2002 APRESENTAÇÃO/ 7 TENDÊNCIAS / 9 PLURALIDADE, DIVERSIDADE E ÉTICA NA MÍDIA BRASILEIRA / 11 Venício A. de Lima TELEVISÃO/ 17 HISTÓRIA, ECONOMIA POLÍTICA E TENDÊNCIAS DA TV BRASILEIRA / 19 Valério Cruz Brittos TELEJORNAL: A PERCEPÇÃO DO PÚBLICO BRASILEIRO / 43 Kenia Maria Menegotto Pozenato MERCOSUL EM PAUTA: O FAIT DIVERS NO TELEJORNALISMO BRASILEIRO / 57 Fábio Souza da Cruz C INEMA / 79 RIVERÃO SUSSUARANA, O ROMANCE DE GLAUBER / 81 Paulo Ribeiro IMBECIS OU PATÉTICOS? A REPRESENTAÇÃO DO POVO BRASILEIRO EM TERRA EM TRANSE E CENTRAL DO BRASIL / 89 Adriana Andrade Braga R EALIDADE VIRTUAL / 101 LEMBRANÇAS DOS MÍDIAS MORTOS / 103 Suely Fragoso REAL E VIRTUAL: DA EXISTÊNCIA DE FATO À SIMULAÇÃO / 117 Maurício Moraes C OMUNICAÇÃO VISUAL / 127 O HIPERTEXTO COMO METÁFORA / 129 Ana Cláudia Gruszynski A IDENTIDADE VISUAL DAS CIDADES / 139 Lara Espinosa C OMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL / 159 NOVAS TECNOLOGIAS NA COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL DA INDÚSTRIA: A NECESSIDADE DE UM COMUNICADOR ESTRATEGISTA / 161 Cida Golin, Silvana Padilha Flores e Olivar Maximino Mattia A ESTRATÉGIA COMO UMA NOVA DIMENSÃO DOS ESTUDOS DE COMUNICAÇÃO E INFORMAÇÃO NO MUNDO ORGANIZACIONAL / 173 Ana Cristina Fachinelli A QUESTÃO DA RECEPÇÃO NO JORNALISMO ORGANIZACIONAL / 193 Marlene Branca Sólio R ESENHAS / 207 PARA UMA CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA DO CONHECIMENTO / 209 César Bolaño O CURRÍCULO DE COMUNICAÇÃO NO BRASIL / 217 Doris Fagundes Haussen
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    CONEXÃO – COMUNICAÇÃOE CULTURA. V. 1, N. 2, JUL./DEZ. 2002 A PRESENTAÇÃO / 7 C RUZAMENTOS: LITERATURA E IMPRENSA /9 O POLEMISTA DO SÉCULO XIX: SER OU NÃO SER BRASILEIRO NO COTIDIANO DA IMPORTAÇÃO / 11 Cida Golin ENTRE O ARCAICO E O MODERNO: A CRÔNICA DE MACHADO E JOÃO DO RIO / 35 Antônio Sanseverino OTTO MARIA CARPEAUX E A MISSÃO EUROPÉIA DA ÁUSTRIA / 55 Mauro Souza Ventura CRÔNICAS E MITOS DE RUBEM BRAGA / 71 Flávio Loureiro Chaves A RTE E COMUNICAÇÃO / 77 ARTE, COMUNICAÇÃO E O TERRITÓRIO INTERMIDIAL DO LIVRO DE ARTISTA / 79 Paulo Silveira C ONEXÕES – ARTIGOS / 95 LENDO HISTÓRIAS EM QUADRINHOS NA WEB / 97 Ivana Almeida da Silva COMUNICAÇÃO E INFORMAÇÃO EM ARQUIVOS, BIBLIOTECAS E MUSEUS / 105 Luís Carlos Lopes ENTRE O MERCADO E O PLANO: REFLEXÕES SOBRE A ORGANIZAÇÃO EM REDE / 113 Ruy Marcelo de Oliveira Pauletti A CULTURA DA ESTRATÉGIA NA VIA JAPONESA DA CRIAÇÃO DO SABER / 127 Pierre-Marie Fayard IMPACTOS SOCIAIS E ECONÔMICOS DAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E DA COMUNICAÇÃO: HIPÓTESES SOBRE A ATUAL REESTRUTURAÇÃO CAPITALISTA / 143 César Ricardo S. Bolaño IDÉIAS SOBRE TECNOLOGIA, INTERAÇÕES COMUNICATIVAS E ECONOMIA MIDIÁTICA / 155 Álvaro Benevenuto Jr. A LÓGICA DO MERCADO NA ORGANIZAÇÃO DO GÊNERO MAGAZINE: UMA RELAÇÃO ENTRE O MAIS VOCÊ E OS SHOPPINGS / 173 Najara Ferrari Pinheiro INCERTEZAS E DESAFIOS DA PÓS-MODERNIDADE / 189 Tarsila Maria Pasa Madalena ORGANIZAÇÕES, IDENTIDADE E MARCA: ARTICULAÇÕES EM TEMPOS DE PÓS-MODERNIDADE / 201 Rudimar Baldissera CONEXÃO – COMUNICAÇÃO E CULTURA. V. 2, N. 3, JAN./JUN. 2003 A PRESENTAÇÃO / 7 M ÍDIA SONORA /9 LANDELL OU MARCONI: QUEM É O PIONEIRO? / 11 César Augusto Azevedo dos Santos JORNALISMO DE RÁDIO NO BRASIL: INSTANTES PRECURSORES DA PRÁTICA E DO ENSINO / 25 Sonia Virgínia Moreira ISMOS EM CONFLITO: GERMANISMO, AMERICANISMO E NACIONALISMO NAS EMISSORAS DE PORTO ALEGRE, NO CONTEXTO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL / 33 Luiz Artur Ferraretto
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    RJB-AM: UMA EMISSORAQUE REVOLUCIONOU O JORNAL DO BRASIL / 47 Ana Baumworcel O VALOR DE PERMANÊNCIA DO RÁDIO: UM ESTUDO A PARTIR DA ESTÉTICA DA RECEPÇÃO / 59 Magda Rodrigues da Cunha DIVERGÊNCIAS CONVERGENTES: A NOVA CULTURA RADIOFÔNICA / 79 Lilian Zaremba MEIAS-VERDADES QUE CONTINUAMOS ENSINANDO SOBRE O RADIOJORNALISMO NA ERA ELETRÔNICA / 99 Eduardo Meditsch OUVIDO-REPÓRTER: POR UM RADIOJORNALISMO ACÚSTICO / 111 Rodrigo Manzano HISTÓRIA ORAL E DOCUMENTÁRIO RADIOFÔNICO: DISTINÇÕES E CONVERGÊNCIAS NA FORMATAÇÃO DESSA CATEGORIA DE PROGRAMA / 121 Carmen Lucia José A FIDELIDADE DO OUVINTE DE RÁDIO / 133 Nair Prata O SHOW DA VIDA REAL EM AMPLITUDE MODULADA: O BIG BROTHER CHEGA AO RÁDIO / 149 Leandro Ramires Comassetto O RÁDIO ENTRE DUAS LÍNGUAS: A SINTONIA ENTRE O TALIAN E O PORTUGUÊS / 165 Maria da Graça M. Guaranha Kreisner APRENDENDO MÚSICA COM AS MÍDIAS SONORAS / 185 Daniel Gohn C ONEXÕES – ARTIGOS / 197 DA EVOLUÇÃO À CO-EVOLUÇÃO SOLIDÁRIA NA TERRA-PÁTRIA: COMUNICAÇÃO, REEDUCAÇÃO E DEVIR / 199 Heloísa Pedroso de Moraes Feltes JORNAIS EM LÍNGUA ITALIANA NA ANTIGA REGIÃO COLONIAL DO RS / 213 Kenia Maria Menegotto Pozenato e Loraine Slomp Giron INTERFACES DO PROCESSO DE PRODUÇÃO DE UM JORNAL ORGANIZACIONAL / 235 Marlene Branca Sólio PERSPECTIVAS DO MUSEU EM DIREÇÃO A UMA CULTURA VIRTUAL / 251 Maurício Moraes CONEXÃO – COMUNICAÇÃO E CULTURA. V. 2, N. 4, JUL./DEZ. 2003 APRESENTAÇÃO / 7 ECONOMIA POLÍTICA DA COMUNICAÇÃO E CULTURA /9 MUDANÇAS GLOBAIS NO SISTEMA ECONÔMICO E NAS COMUNICAÇÕES: UMA PERSPECTIVA LATINO-AMERICANA PARA A ECONOMIA POLÍTICA DA COMUNICAÇÃO / 11 César Bolaño, Guillermo Mastrini e Francisco Sierra TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO E DA COMUNICAÇÃO, CONFIGURAÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO “GLOBAL” E NOVAS FORMAS DE CONCORRÊNCIA / 29 Alain Herscovici A DIGITALIZAÇÃO DAS INDÚSTRIAS CULTURAIS / 53 Luiz A. Albornoz A ECONOMIA POLÍTICA DA COMUNICAÇÃO E O PAPEL DO RECEPTOR / 67 Valério Cruz Brittos CULTURA POLÍTICA E CULTURA MIDIÁTICA: ESFERA PÚBLICA, INTERESSES E CÓDIGOS / 81 Ancízar Narvdez Montoya O BRASIL NA SOCIEDADE DE INFORMAÇÃO: ESTADO REGULADOR E TELECOMUNICAÇÕES / 103 Othon Jambeiro e Fábio Ferreira
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    A ESTUPIDEZ HERÓICADO CAPITAL: MEDIAÇÃO DO TRABALHO E ESTRATÉGIAS PARA A CONSTRUÇÃO DE UM NOVO PERFIL OPERÁRIO NO BRASIL / 119 William Dias Braga C ONEXÕES – ARTIGOS / 151 ELEMENTOS METODOLÓGICOS DE VIGÍLIA E DE INTELIGÊNCIA ECONÔMICA PARA O PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÕES ORGANIZACIONAIS / 153 Ana Cristina Fachinelli CAMINHOS DA ADMINISTRAÇÃO E OS PROCESSOS COMUNICACIONAIS NAS ORGANIZAÇÕES / 163 Marlene Branca Sólio e Rudimar Baldissera O CONCEITO DE CULTURA REVISITADO / 177 Lúcia Santaella MEMÓRIA E PÓS-MODERNIDADE: DA MUSEALIZAÇÃO AO PASSADO COMO MERCADORIA / 185 Susana Gastal COMUNICAÇÃO E MUSEUS: O MATERIAL E O SIMBÓLICO / 201 Luís Carlos Lopes CONEXÃO – COMUNICAÇÃO E CULTURA. V. 3, N. 5, JAN./JUN. 2004 A PRESENTAÇÃO / 7 T URISMO / 9 LA FUNCIÓN SOCIAL DEL TURISMO / 11 Maribel Osorio Garcia O ESPAÇO TURÍSTICO TAMBÉM É COMUNICAÇÃO / 23 Antonio Carlos Castrogiovanni RELAÇÕES ENTRE VISITANTES E VISITADOS: UM RETROSPECTO DOS ESTUDOS SOCIOANTROPOLÓGICOS / 31 Margarita Barretto SAÚDE E BEM-ESTAR EM UM MODELO DE AGROTURISMO HOLÍSTICO, ECOLÓGICO E RESPONSÁVEL / 49 Yolanda Flores e Silva e Rafael Bremmer Cyrillo R ÁDIO / 61 TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS DA PROGRAMAÇÃO DE RÁDIO: NOS ESTADOS UNIDOS E NA EUROPA / 63 Maria del Pilar Martínez-Costa NAS ONDAS DA FÉ: TRÊS EXPERIÊNCIAS DO RÁDIO EDUCATIVO NA AMÉRICA DO SUL, DURANTE A GUERRA FRIA / 89 João Batista de Abreu RÁDIO E SINO: A HORA DO ANGELUS / 105 Cida Golin e Bárbara Salvatti COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL / 121 Maria del Pilar Martínez-Costa A INTRANET COMO MANIFESTAÇÃO EMERGENTE DA COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL MIDIATIZADA: TÉCNICA E SUBJETIVIDADE / 123 Jane Rech SEMIÓTICA / 139 ARISTÓTELES E PIERCE: PROLEGÔMENOS SEMÂNTICOS OU ORGANOLÓGICOS / 141 Luiz Roberto Peel Furtado de Oliveira
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    CONEXÃO - COMUNICAÇÃOE CULTURA, V. 3, N. 6, JUL-DEZ. 2004 APRESENTAÇÃO / 7 C IBERESPAÇO, COMUNICAÇÃO E CRIAÇÃO /9 FICÇÃO CIENTÍFICA CYBERPUNK: O IMAGINÁRIO DA CIBERCULTURA / 11 André Lemos EXTREMIDADES DO VÍDEO: O VÍDEO NA CULTURA DIGITAL / 17 Christine Mello REALIDADE VIRTUAL E A IMERSÃO EM CAVES / 35 Diana Domingues INTERATIVIDADE IMAGINAL E CRIATIVIDADE VIRTUAL / 51 Juremir Machado da Silva POR UM CINEMA SENSORIAL: O CINEMA E O FIM DA “MOLDURA” / 61 Katia Maciel UMA CARTOGRAFIA DAS POÉTICAS DO CIBERESPAÇO / 73 Lúcia Leão COMPUTADORES VESTÍVEIS: CONVIVÊNCIA DE DIFERENTES ESPACIALIDADES / 93 Luisa Paraguai Donati CIBERESPAÇO E METODOLOGIAS DE CRIAÇÃO / 103 Monica Tavares CIBERESPAÇO E ESTÉTICA MIDIÁTICA: TEMPO, ESPAÇO E INTERCONEXÃO / 129 Priscila Arantes PROCESSOS PERCEPTIVOS E CONSTRUÇÕES SIMBÓLICAS, AGENCIAMENTO DO SUJEITO-“NÓS” E DO SUJEITO-“EU” NA INSTALAÇÃO DES-ESPELHOS DO GRUPO SCIARTS / 143 Sandra Rey POÉTICA DIGITAL INFANTIL: NÃO PODE SER VENDIDA SEPARADAMENTE / 155 Sérgio Capparelli e Raquel Longhi GAMES / 167 Mario Maciel e Suzete Venturelli C ONEXÕES – ARTIGOS / 191 NÊMESIS MODERNISTA: COMUNICAÇÃO GRÁFICA NA PÓS-MODERNIDADE / 193 Ana Cláudia Gruszynski AS FABULAÇÕES DA INDÚSTRIA CULTURAL E AS INTERAÇÕES COM O PODER / 211 Ana Mery Sehbe De Carli CONEXÃO - COMUNICAÇÃO E CULTURA, V. 4, N. 7, JAN-JUN. 2005 APRESENTAÇÃO / 7 C OMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL /9 A COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL ESTRATÉGICA: DEFININDO OS CONTORNOS DE UM CONCEITO / 11 Wilson da Costa Bueno REVISITANDO A (RE)CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DAS RELAÇÕES PÚBLICAS / 21 Cleusa Maria Andrade Scroferneker DA FRAGMENTAÇÃO À CONVERGÊNCIA – UM PANORAMA DAS POSSIBILIDADES DE TEORIZAÇÃO SOBRE OS PROCESSOS DE COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL / 31 Ana Thereza Nogueira Soares A INFORMAÇÃO NA COMPREENSÃO DE CONTEXTOS ESTRATÉGICOS PARA A COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL / 51 Ana Cristina Fachinelli, Jane Rech e Olivar Maximino Mattia ESTUDANDO A COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL: REDES E PROCESSOS INTEGRATIVOS / 73 Ana Maria Córdova Wels
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    RELAÇÕES PÚBLICAS: PROCESSOHISTÓRICO E COMPLEXIDADE / 87 Rudimar Baldissera e Marlene Branca Sólio C ONEXÕES – ARTIGOS / 103 TELEVISÃO DIGITAL E INCLUSÃO SOCIAL: UMA PROPOSTA DE DEMOCRATIZAÇÃO PARA AS NOVAS TECNOLOGIAS EM COMUNICAÇÃO / 105 Cosette Castro CANAIS COMUNITÁRIOS SE ESPALHAM E CRIAM ENTIDADE NACIONAL / 121 Álvaro Benevenuto Júnior AS POLÍTICAS PÚBLICAS DE COMUNICAÇÃO PARA O RÁDIO BRASILEIRO: REGULAÇÃO, DIGITALIZAÇÃO E INTEGRAÇÃO / 135 André Barbosa Filho PSICANÁLISE E CULTURA: FEMININO E MASCULINO / 149 Vera Marta Reolon de Oliveira E STUDO DE CASO / 161 TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO: AVALIANDO A AVALIAÇÃO DA PESQUISA CIENTÍFICA / 163 Maurício Moraes CONEXÃO - COMUNICAÇÃO E CULTURA, V. 4, N. 8, JUL-DEZ. 2005 A PRESENTAÇÃO / 7 T EORIA DA COMUNICAÇÃO / 11 LOS MEDIOS MASSIVOS EN EL ESTUDIO DE LA COMUNICACIÓN/CULTURA / 13 María Cristina Mata DO INTERCÂMBIO DAS MENSAGENS À PRODUÇÃO DE SENTIDO: IMPLICAÇÕES DE UMA PERSPECTIVA SOCIOCULTURAL NO ESTUDO DA COMUNICAÇÃO / 23 Raúl Fuentes Navarro ACERCAMIENTO DE LA COMUNICACIÓN COMO CULTURA ACADÊMICA Y A SUS PROPOSICIONES TEÓRICAS GENERALES / 39 Erick R. Torrico Villanueva ?TIENE SENTIDO LA TELEVISIÓN PÚBLICA? FUTURO, PRESENTE Y PASADO / 51 Manel Mateu i Evangelista ELEMENTOS PARA PENSAR A FORMAÇÃO E O ENSINO EM TEORIAS DA COMUNICAÇÃO / 61 Jiani Adriana Bonin A DINÂMICA DA PESQUISA COMO PROCESSOS E INTERAÇÕES COMUNICACIONAIS... REFLEXÕES / 69 Pedro Russi Duarte UNA APROXIMACIÓN TRANS E INTERDISCIPLINARIA DEL CAMPO DE LA COMUNICACIÓN / 81 Luis Ignacio Sierra Gutiérrez DE LA TEORÍA GENERAL DE LA ENUNCIACIÓN A LA ENUCIACIÓN TELEVISIVA / 101 Alberto Pereira Valarezo TEORIA DA COMUNICAÇÃO: INTERCULTURALIDADE, FILOSOFIA, LINGUAGEM E SOCIEDADE / 117 Alberto Efendy Maldonado E NTREVISTA / 131 EVALUCIONES Y PERSPECTIVAS PARA LA COMUNICACIÓN PARA EL DESARROLLO: CONCEPTOS Y EXPERIENCIAS DE ÁFRICA Y LATINOAMÉRICA – ENTREVISTA COM O PROFESSOR DOUTOR ROBERT WHITE / 133 Juciano de Souza Lacerda e Manuela Rau de Almeida Callou C ONEXÕES – ARTIGOS / 145 SEMIÓTICA E CONTEXTO / 147 Mônica Bernardo Schettini Marques
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    CONEXÃO - COMUNICAÇÃOE CULTURA - V. 5, N. 9, JAN./JUN. 2006 A PRESENTAÇÃO / 7 F ILOSOFIA E ÉTICA DA COMUNICAÇÃO / 11 IDENTIFICAÇÕES ENTRE O ETHOS DO TRABALHO E O DO BEM-ESTAR / 13 Mayra Rodrigues Gomes MÍDIA E CIDADANIA / 27 Pedrinho A. Guareschi IMAGENS DE GUERRA, GUERRA DE IMAGENS: A COBERTURA JORNALÍSTICA EM DOIS MOMENTOS DA GUERRA EUA/IRAQUE / 41 João Elias Nery e Maria José Guerra O APAGAMENTO DAS FORÇAS DO DISCURSO PERSUASIVO ANTE A RACIONALIZAÇÃO DAS CONDUTAS: UMA REFLEXÃO SOBRE O PODER DA FALA POLÍTICA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA EM TEMPOS DE CPIs / 61 Neusa Demartini Gomes e Geder Parzianello A FLEUMA INGLESA VERSUS HOMOEROTISMO QUASE EXPLÍCITO / 73 José Luís de Carvalho Reckziegel IMAGEM E CONCEITO: A EXPERIÊNCIA DO PENSAR NOS EMBLEMAS DA RENASCENÇA / 83 Luiz Carlos Bombassaro DIÁLOGO CONSIGO MESMO, VOZ INTERNA DA CONSCIÊNCIA E AÇÃO SIMBÓLICA NO CONTEXTO PEDAGÓGICO/ 97 Cláudio Almir Dalbosco CINCO FERRAMENTAS PARA O ENSINO-APRENDIZAGEM DA FILOSOFIA / 117 Gabriele Greggersen O FILÓSOFO DO SENTIDO E A COMUNICAÇÃO / 139 Marialva Barbosa O VALOR NO COMUNICADOR ORGANIZACIONAL: TANGÊNCIAS ÉTICAS E EPISTEMOLÓGICAS / 151 Clóvis de Barros Filho e Arthur Meucci C ONEXÕES – ARTIGOS / 173 HAROLDO E AS GALÁXIAS: UM CASO CONCRETO DE BARROCO / 175 Dhynarte Albuquerque Filho DOMÍNIO DO IRREMEDIÁVEL EM CAIO: PALAVRA/IMAGEM / 197 Eulália Isabel Coelho AMÉRICA: A ANTI-UTOPIA DA IMIGRAÇÃO ITALIANA / 219 João Cláudio Arendt e Cinara Ferreira Pavani
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    CONEXÃO - COMUNICAÇÃOE CULTURA - V. 5, N. 10, JUL./DEZ. 2006 APRESENTAÇÃO / 9 UM DESIGN CONTEMPORÂNEO / 14 Wilton Garcia O PROJETO GRÁFICO DE REVISTAS: UMA ANÁLISE DOS DEZ ANOS DA REVISTA CAPRICHO / 32 Ana Cláudia Gruzynski e Sophia Seibel Chassot LINGUAGEM VISUAL EM DESIGN GRÁFICO IMPRESSO E DIGITAL / 60 Gisela Belluzzo de Campos TININDO, TRINCANDO: O DESIGN GRÁFICO NO TEMPO DO DESBUNDE / 72 Jorge Luis Caê Rodrigues A SÃO PAULO DO ART DÉCO: A MEMÓRIA EM CARTAZ / 104 Nara Silvia Marcondes Martins A ROUPA DO MODERNO: REPRESENTAÇÕES DA MODA NA DÉCADA DE 20 (PELOTAS/RS) / 124 Francisca Ferreira Michelon e Denise Ondina Morroni dos Santos O DESIGN DE MODA COMO POTÊNCIA DE UM EXPERIMENTO / 144 Rosane Preciosa CAMINHO PARA A GESTÃO INTEGRADA DA IDENTIDADE CORPORATIVA / 154 Lígia Cristina Fascioni A GRAMÁTICA DA FORMA COMO METODOLOGIA DE ANÁLISE E SÍNTESE EM ARQUITETURA / 180 Gabriela Celani, Débora Cypriano, Giovana de Godoi e Carlos Eduardo V. Vaz DESIGN ERGONÔMICO: UMA REVISÃO DOS SEUS ASPECTOS METODOLÓGICOS / 198 Luis Carlos Paschoarelli e José Carlos Plácido da Silva C ONEXÕES – ARTIGOS / 215 ANÁLISE DE DISCURSO: UMA ABORDAGEM DIALÉTICA / 216 Roberto Ramos
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    INSTRUÇÕES AOS COLABORADORES 1. A revista aceita os seguintes tipos de con- 4. Os artigos devem estar acompanhados tribuição: por um resumo contendo entre 100 1.1. Artigos inéditos (até 30 laudas de 30 linhas e 150 palavras, em Português e em In- com 70 toques, ou 63 mil caracteres, glês, além das palavras-chave. Os autores incluindo referências bibliográficas e notas). devem enviar também seus dados profis- 1.2. Ensaios bibliográficos (até 12 laudas de 30 sionais (instituição, cargo, titulação, prin- linhas com 70 toques, ou 25.200 caracte- cipais publicações), bem como endereço res, incluindo referências biblio-gráficas e para correspondência (inclusive e-mail, se notas): resenhas críticas sobre apenas um possível). Esses dados devem aparecer livro ou sobre vários livros tratando de as- no final do trabalho. suntos correlatos. 1.3. Resenhas bibliográficas (até 4 laudas de 30 5. Para a indicação das fontes citadas, optou- linhas com 70 toques, ou 8.400 caracteres): se pelo sistema alfabético (autor-data), isto pequenas resenhas de livros recentes. é, os documentos podem ter a indicação: 5.1. Pelo sobrenome do autor, ano, página 2. A pertinência ou não da publicação será (esta não-obrigatória) avaliada pela Comissão Editorial (no que – Quando o nome do autor estiver contido diz respeito à adequação do artigo ao perfil na sentença: e à linha editorial da revista), e por pare- Ex.: Nos estudo das probabilidades [...], se- ceristas ad hoc (no que diz respeito ao con- gundo Milone (1993, p. 37), “qualquer afir- teúdo e à qualidade das contribuições). mativa pode...” Serão aceitos, excepcio-nalmente, originais – Quando o nome do autor não estiver em Espanhol, Francês e Inglês. A publica- contido na sentença: ção desses trabalhos (em língua estrangei- Ex.: “Saudações! Tenho-as até do que me ra) ficará submetida, contudo, à pos- foi nada...” (PESSOA, 1989, p. 53) – Para sibilidade de tradução para o Português. obras do mesmo autor, no mesmo ano: Ex.: (FREIRE, 1954a, p. 27); (FREIRE, 3. Devem ser enviadas três cópias do manus- 1954b, p. 34) ou Freire (1954a, p. 27); crito (em espaço duplo e margens laterais Freire (1954b, p. 34). de 3 cm) e o disquete com o texto digitado. – Para autores com mesmo sobrenome e Recomenda-se a utilização de processado- a mesma data de publicação, acrescentar res de texto compatíveis com as platafor- a inicial do nome: mas Windows ou MacIntosh. Os originais Ex.: (VIEIRA, C. 1998, p. 11) ou Vieira C. deven ser enviados à Revista Conexão – (1998, p. 11) Educs (Rua Francisco Getúlio Vargas, (VIEIRA, M. 1998, p. 14) ou VIEIRA M. 1130, CEP 95070-560, Caxias do Sul, RS). (1998, p. 14)
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    – Para autoresdiversos, no mesmo ano: las, com exceção da 1ª) mais dois pon- Ex.: (STEIN; VANELLI, 1986) ou STEIN e VA- tos. NELLI (1986) Devem ser encaminhadas numeradas, em 5.2. Pela instituição responsável folhas separadas, com a devida legenda e Ex.: Segundo a ABNT (1992) a Norma a referência à fonte (se reproduzidas), 10.520 é a indicada para citações. tendo no texto a indicação do local onde 5.3. Pelo título da publicação (caso de autores devem ser inseridas. desconhecidos) Importante observar que devem estar Ex.: ...em, enquanto a sociedade requer confeccionadas de maneira a permitir sua os seus direitos (1997), foram analisados reprodução direta. os critérios... Obs.: quando houver no texto somente Obs.: quadros, deve-se substituir a palavra Figu- 1) Para informações adicionais, ver NBR ras por Quadros. 10.520/92. 2) A relação bibliográfica completa das 7. Com a publicação da revista, a Educs re- fontes citadas deve estar no final do texto ceberá 10% sobre a tiragem, que será dis- e obedecer à NBR 6.023/2000. tribuída, como direito autoral, entre auto- 3) A obra: MOTTA, Valter; HESELN, Lígia; res e colaboradores de forma igualitária. GIALDI, Silvestre. Normas té-cnicas para apresentação de trabalhos científicos. 2. 8. Os ensaios bibliográficos e as resenhas ed. ver. atual. aum. Porto Alegre: Missau, devem apresentar referência completa das 2001, subsidia casos não exemplificados obras analisadas, indicando o número de nestas orientações. páginas de cada uma. As resenhas não devem receber título, nem conter notas ou 6. Ilustrações referências bibliográficas fora do texto. 6.1. Figuras (mapas, diagramas, organogramas, quadros, fotografias, gráficos, fluxogra- 9. O envio de manuscrito implica a cessão mas, etc.): de direitos autorais e de publicação à Re- Devem ter legenda clara e concisa e pre- vista. Essa não se compromete em devol- cedida da palavra figura (letras minúscu- ver as colaborações recebidas.