Tempo de reflexão
Coluna do senador Aécio Neves na Folha de São Paulo, em 24 de dezembro de 2012
Não importa a religião que se tenha, o Natal é sempre tempo de solidariedade e reflexão.
Nessa época, nos afastamos da rotina e é inevitável examinar as perdas e conquistas, as
experiências e aprendizados.
Ao olhar para 2012, é forçoso reconhecer que o protagonismo não foi do governo federal nem
do Congresso Nacional. Nem um nem outro conseguiram oferecer ao país o que, por direito,
deles os brasileiros esperavam.
O primeiro encerra o ano colecionando promessas não cumpridas. O governo Dilma chega à
metade sem que importantes compromissos com os brasileiros tenham sido honrados e vendo
reforçado o traço da ausência de diálogo com Legislativo e sociedade.
O segundo apequenou-se sob o peso da subserviência de uma maioria pragmática e
obediente. O melhor exemplo talvez seja constatar que dorme até hoje nas gavetas da Câmara
o projeto que disciplina o uso de medidas provisórias.
Confirmando a tese de que em política não existe vácuo, a boa nova é que o protagonismo
político do país está sendo cada vez mais assumido por aquele que é o grande interessado nas
mudanças e nos avanços: o cidadão. A lei da ficha limpa, a obrigatoriedade de dar
transparência, nas notas fiscais, aos impostos cobrados sobre produtos e serviços e a atuação
de diversas entidades civis sinalizam um país de pé, ciente de seus direitos.
Ao lado do cidadão, o Judiciário agigantou-se. Ficará para sempre o marco emblemático do fim
da impunidade. O elogio público que devemos ao STF não homenageia a condenação de
pessoas, mas o exercício de autonomia e independência do Poder.
Foi uma conquista enorme, cujo mérito é coletivo e a responsabilidade é partilhada. Ninguém
simboliza melhor este momento de altivez que o ministro e agora presidente do STF, Joaquim
Barbosa, que soube imprimir uma condução processual exemplar, acima das pressões de
praxe.
A sociedade também tem outra importante conquista a celebrar: a manutenção da liberdade
de expressão. Sob crescentes ataques e insinuações, meios de comunicação e jornalistas
independentes atravessaram este difícil 2012 com suas prerrogativas preservadas. Não é
batalha ganha, mas revela uma sociedade que não tolera o controle da informação,
independentemente do nome que o disfarce.
Estamos nos preparando para deixar 2012 e começamos a imaginar o que 2013 nos reserva.
Mas hoje é noite de Natal. Que ela possa abrigar a saudade e o reconhecimento aos que não
se encontram mais entre nós e nos ajude a acolher, com afeto e compreensão, aqueles com
quem ainda temos a alegria de conviver.
E que ela nos ilumine, para que a solidariedade possa habitar de forma definitiva os nossos
corações. Feliz Natal.

Coluna do Senador Aécio Neves da Folha - Tempo de reflexão

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    Tempo de reflexão Colunado senador Aécio Neves na Folha de São Paulo, em 24 de dezembro de 2012 Não importa a religião que se tenha, o Natal é sempre tempo de solidariedade e reflexão. Nessa época, nos afastamos da rotina e é inevitável examinar as perdas e conquistas, as experiências e aprendizados. Ao olhar para 2012, é forçoso reconhecer que o protagonismo não foi do governo federal nem do Congresso Nacional. Nem um nem outro conseguiram oferecer ao país o que, por direito, deles os brasileiros esperavam. O primeiro encerra o ano colecionando promessas não cumpridas. O governo Dilma chega à metade sem que importantes compromissos com os brasileiros tenham sido honrados e vendo reforçado o traço da ausência de diálogo com Legislativo e sociedade. O segundo apequenou-se sob o peso da subserviência de uma maioria pragmática e obediente. O melhor exemplo talvez seja constatar que dorme até hoje nas gavetas da Câmara o projeto que disciplina o uso de medidas provisórias. Confirmando a tese de que em política não existe vácuo, a boa nova é que o protagonismo político do país está sendo cada vez mais assumido por aquele que é o grande interessado nas mudanças e nos avanços: o cidadão. A lei da ficha limpa, a obrigatoriedade de dar transparência, nas notas fiscais, aos impostos cobrados sobre produtos e serviços e a atuação de diversas entidades civis sinalizam um país de pé, ciente de seus direitos. Ao lado do cidadão, o Judiciário agigantou-se. Ficará para sempre o marco emblemático do fim da impunidade. O elogio público que devemos ao STF não homenageia a condenação de pessoas, mas o exercício de autonomia e independência do Poder. Foi uma conquista enorme, cujo mérito é coletivo e a responsabilidade é partilhada. Ninguém simboliza melhor este momento de altivez que o ministro e agora presidente do STF, Joaquim Barbosa, que soube imprimir uma condução processual exemplar, acima das pressões de praxe. A sociedade também tem outra importante conquista a celebrar: a manutenção da liberdade de expressão. Sob crescentes ataques e insinuações, meios de comunicação e jornalistas independentes atravessaram este difícil 2012 com suas prerrogativas preservadas. Não é batalha ganha, mas revela uma sociedade que não tolera o controle da informação, independentemente do nome que o disfarce. Estamos nos preparando para deixar 2012 e começamos a imaginar o que 2013 nos reserva. Mas hoje é noite de Natal. Que ela possa abrigar a saudade e o reconhecimento aos que não se encontram mais entre nós e nos ajude a acolher, com afeto e compreensão, aqueles com quem ainda temos a alegria de conviver. E que ela nos ilumine, para que a solidariedade possa habitar de forma definitiva os nossos corações. Feliz Natal.