Coerência e coesão no vestibular da UFMG
               Manoel Neves
INSTRUÇÃO
Língua Portuguesa, UFMG-1999
          Leia o texto.
FILHO DA FARINHA
                             Língua Portuguesa, UFMG-1999
Diz a Bíblia: o homem nasceu do barro. Aqui, há bebês nascendo da farinha. Pílula
anticoncepcional falsificada. Num país onde falta alimento e há crianças demais, o uso da
farinha em cápsulas é sem dúvida um contrassenso. Gilka estava grávida. O namorado se
chamava Nunes e era padeiro. Gilka não queria o aborto. Nunes tinha um plano. “Quando
nascer, jogo no forno da padaria.” O bebê veio ao mundo. Parecia uma mistura de Bebeto com
Ronaldinho. Nunes desistiu do infanticídio: "Dou um voto de confiança no moleque”. É preciso
confiar menos na pílula e mais no ser humano.
          SOUZA, Voltaire de. Filho da farinha. Folha de S. Paulo, São Paulo, 3 jul.1998. Folha Ilustrada, p. 2.
QUESTÃO 01
                         Língua Portuguesa, UFMG-1999
A partir dessa leitura, REDIJA um texto, justificando o título do conto, com base no jogo de ideias
em torno do qual se estrutura a narrativa.
SOLUÇÃO COMENTADA
                        Língua Portuguesa, UFMG-1999
                                     lendo o título
01) farinha/barro – pó [nascer do barro/nascer da farinha = nascer do pó]: Bíblia: “Tu és pó…”;
   02) farinha/pílula anticoncepcional falsificada: nascer da farinha X pílula de não-nascer;
                                 03) farinha/alimento X fome;
              04) farinha/pão – padeiro: nascer da farinha = nascer do padeiro;
                                05) nascer X não ser abortado;
        06) nascer do padeiro e da farinha, feito o pão X morrer assado, como o pão;
       07) ser como o pão, mistura de farinha/ser mistura de Bebeto com Ronaldinho.
SOLUÇÃO COMENTADA
                           Língua Portuguesa, UFMG-1999
                           estruturando a paragrafação
 O texto deveria justificar o título do conto em função das relações entre: a) farinha e barro [pó];
b) farinha/pílula anticoncepcional falsificada; c) farinha e alimento [sem o qual não se sobrevive];
         d) farinha e pão/padeiro, que acarretam a equivalência entre nascer do barro,
  nascer da farinha e nascer do padeiro; nasce-se porque a pílula anticoncepcional é falsificada;
e) ser filho d farinha é ser resultado da farinha da pílula e, ao mesmo tempo, é ser filho d padeiro.
INSTRUÇÃO
Língua Portuguesa, UFMG-1999
      Considere esta passagem.
FILHO DA FARINHA
                       Língua Portuguesa, UFMG-1999
Gilka estava grávida. O namorado se chamava Nunes e era padeiro. Gilka não queria o aborto.
Nunes tinha um plano. “Quando nascer, jogo no forno da padaria.”
QUESTÃO 02
                        Língua Portuguesa, UFMG-1999
a) REDIJA um texto, explicando as relações linguísticas que articulam as frases, nessa passagem,
e possibilitam atribuir sentido à sequência.
b) REESCREVA essa passagem, articulando as frases por meio do uso de outros recursos
sintáticos.
SOLUÇÃO COMENTADA
                         Língua Portuguesa, UFMG-1999
                                   a coesão lexical
O trecho em destaque foi construído a partir da seleção de palavras que apresentam
proximidade semântica [coesão lexical], ou seja, ao invés de usar articuladores e explicitar as
relações de sentido entre as orações, o locutor escolheu palavras semanticamente próximas
[campo semântico] para articular seu texto, como se pode ver em: “grávida”, “namorado”,
“aborto”, “plano” e “nascer” e ainda em: “padeiro”, “forno” e “padaria”.
SOLUÇÃO COMENTADA
                         Língua Portuguesa, UFMG-1999
                                  possíveis reescritas
Gilka estava grávida de um namorado que se chamava Nunes e era padeiro. como ele queria
que ela provocasse um aborto, mas ela não aceitou essa ideia, ele planejou matar a criança,
jogando-a no formo da padaria.
Gilka estava grávida de padeiro chamado Nunes, que não desejava o filho e pretendia que ela
abortasse. Como ela se recusou a fazer isso, ela planejou jogar a criança no forno da padaria,
para matá-la, assim que nascesse.
Gilka engravidou de seu namorado, um padeiro chamado Nunes. Ela queria ter a criança, mas
ele, não. Por isso, ele planejou matar o filho logo que nascesse, jogando-o no forno da padaria.
INSTRUÇÃO
                           Língua Portuguesa, UFMG-1999
A teoria gramatical tradicional classifica o vocábulo e como conjunção coordenativa aditiva. As
conjunções coordenativas aditivas, que são o e e o nem, “servem para ligar simplesmente dois
termos ou duas orações de idêntica função”.
           CUNHA, Celso. Gramática da língua portuguesa. 5. ed. Rio de Janeiro: FENAME, 1979. p. 534.

Por esse aspecto, considera-se que as conjunções aditivas se distinguem das demais conjunções
coordenativas, que, além de ligar termos ou orações, imprimem algum significado à relação que
se estabelece.

Analise a relação que a conjunção e estabelece entre as orações, em cada um dos seguintes
períodos:
TEXTO
  Língua Portuguesa, UFMG-1999
    Ele pegou o copo e tomou um gole de água.
Ele deixou a janela aberta e o ladrão entrou na casa.
      Ele é competente e está desempregado.
QUESTÃO 03
                       Língua Portuguesa, UFMG-1999
Com base nas informações dadas e na análise feita, REDIJA um texto, discutindo o ponto de
vista da teoria gramatical tradicional.
Para fundamentar sua resposta, utilize como argumento a função do e nesses períodos ou em
outros que você queira construir.
SOLUÇÃO COMENTADA
                          Língua Portuguesa, UFMG-1999
                      discutindo a gramática tradicional
Veja que a concepção de língua como um objeto estanque, expressa em servem para ligar
simplesmente, é insuficiente para que se possam compreender os fenômenos linguísticos com
que lidamos no dia-a-dia.
Nas frases anteriores, percebe-se que o “e” pode assumir outros valores que não os
“canonizados” pela gramática tradicional.
Na primeira frase, a conjunção funciona como um sequenciador [temporal], indicando que
primeiro ele pegou o copo, depois tomou um gole de água.
Já no segundo enunciado, a mesma conjunção acaba por assumir um valor consecutivo,
sugerindo que alguém deixou a janela aberta, por isso o ladrão entrou em casa.
No terceiro contexto frasal, percebe-se que o conectivo “e” tem valor adversativo: ou seja, ele é
competente, mas está desempregado.
QUESTÃO 04
                       Língua Portuguesa, UFMG-2010
Como é difícil reconstituir os acontecimentos! Lembrar o ano em que tudo começou já exige
esforço. Distribuir os fatos pelos meses não consigo. Mas ordenar os sentimentos é para mim
totalmente impossível.
REDIJA um texto, explicando o funcionamento do conector destacado nesse trecho do conto
“Helga”, do livro Antes do baile verde, de Lygia Fagundes Telles.
SOLUÇÃO COMENTADA
                         Língua Portuguesa, UFMG-2010
O articulador em destaque, normalmente de valor adversativo, encerra uma cadeia gradativa,
desempenhando papel enfático. Percebe-se que o locutor estabelece uma sequência de fatos
marcados, de um modo geral, pela impossibilidade de concretização: a reconstituição dos
acontecimentos é difícil; a lembrança exige esforço; a distribuição dos fatos não é alcançada e a
ordenação dos sentimentos é totalmente impossível. Importante notar que essa impossibilidade
final, reforçada pelo uso do advérbio “totalmente”, é justamente a introduzida pelo conectivo
“mas”.

Coesão e coerência no vestibular da ufmg

  • 1.
    Coerência e coesãono vestibular da UFMG Manoel Neves
  • 2.
  • 3.
    FILHO DA FARINHA Língua Portuguesa, UFMG-1999 Diz a Bíblia: o homem nasceu do barro. Aqui, há bebês nascendo da farinha. Pílula anticoncepcional falsificada. Num país onde falta alimento e há crianças demais, o uso da farinha em cápsulas é sem dúvida um contrassenso. Gilka estava grávida. O namorado se chamava Nunes e era padeiro. Gilka não queria o aborto. Nunes tinha um plano. “Quando nascer, jogo no forno da padaria.” O bebê veio ao mundo. Parecia uma mistura de Bebeto com Ronaldinho. Nunes desistiu do infanticídio: "Dou um voto de confiança no moleque”. É preciso confiar menos na pílula e mais no ser humano. SOUZA, Voltaire de. Filho da farinha. Folha de S. Paulo, São Paulo, 3 jul.1998. Folha Ilustrada, p. 2.
  • 4.
    QUESTÃO 01 Língua Portuguesa, UFMG-1999 A partir dessa leitura, REDIJA um texto, justificando o título do conto, com base no jogo de ideias em torno do qual se estrutura a narrativa.
  • 5.
    SOLUÇÃO COMENTADA Língua Portuguesa, UFMG-1999 lendo o título 01) farinha/barro – pó [nascer do barro/nascer da farinha = nascer do pó]: Bíblia: “Tu és pó…”; 02) farinha/pílula anticoncepcional falsificada: nascer da farinha X pílula de não-nascer; 03) farinha/alimento X fome; 04) farinha/pão – padeiro: nascer da farinha = nascer do padeiro; 05) nascer X não ser abortado; 06) nascer do padeiro e da farinha, feito o pão X morrer assado, como o pão; 07) ser como o pão, mistura de farinha/ser mistura de Bebeto com Ronaldinho.
  • 6.
    SOLUÇÃO COMENTADA Língua Portuguesa, UFMG-1999 estruturando a paragrafação O texto deveria justificar o título do conto em função das relações entre: a) farinha e barro [pó]; b) farinha/pílula anticoncepcional falsificada; c) farinha e alimento [sem o qual não se sobrevive]; d) farinha e pão/padeiro, que acarretam a equivalência entre nascer do barro, nascer da farinha e nascer do padeiro; nasce-se porque a pílula anticoncepcional é falsificada; e) ser filho d farinha é ser resultado da farinha da pílula e, ao mesmo tempo, é ser filho d padeiro.
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  • 8.
    FILHO DA FARINHA Língua Portuguesa, UFMG-1999 Gilka estava grávida. O namorado se chamava Nunes e era padeiro. Gilka não queria o aborto. Nunes tinha um plano. “Quando nascer, jogo no forno da padaria.”
  • 9.
    QUESTÃO 02 Língua Portuguesa, UFMG-1999 a) REDIJA um texto, explicando as relações linguísticas que articulam as frases, nessa passagem, e possibilitam atribuir sentido à sequência. b) REESCREVA essa passagem, articulando as frases por meio do uso de outros recursos sintáticos.
  • 10.
    SOLUÇÃO COMENTADA Língua Portuguesa, UFMG-1999 a coesão lexical O trecho em destaque foi construído a partir da seleção de palavras que apresentam proximidade semântica [coesão lexical], ou seja, ao invés de usar articuladores e explicitar as relações de sentido entre as orações, o locutor escolheu palavras semanticamente próximas [campo semântico] para articular seu texto, como se pode ver em: “grávida”, “namorado”, “aborto”, “plano” e “nascer” e ainda em: “padeiro”, “forno” e “padaria”.
  • 11.
    SOLUÇÃO COMENTADA Língua Portuguesa, UFMG-1999 possíveis reescritas Gilka estava grávida de um namorado que se chamava Nunes e era padeiro. como ele queria que ela provocasse um aborto, mas ela não aceitou essa ideia, ele planejou matar a criança, jogando-a no formo da padaria. Gilka estava grávida de padeiro chamado Nunes, que não desejava o filho e pretendia que ela abortasse. Como ela se recusou a fazer isso, ela planejou jogar a criança no forno da padaria, para matá-la, assim que nascesse. Gilka engravidou de seu namorado, um padeiro chamado Nunes. Ela queria ter a criança, mas ele, não. Por isso, ele planejou matar o filho logo que nascesse, jogando-o no forno da padaria.
  • 12.
    INSTRUÇÃO Língua Portuguesa, UFMG-1999 A teoria gramatical tradicional classifica o vocábulo e como conjunção coordenativa aditiva. As conjunções coordenativas aditivas, que são o e e o nem, “servem para ligar simplesmente dois termos ou duas orações de idêntica função”. CUNHA, Celso. Gramática da língua portuguesa. 5. ed. Rio de Janeiro: FENAME, 1979. p. 534. Por esse aspecto, considera-se que as conjunções aditivas se distinguem das demais conjunções coordenativas, que, além de ligar termos ou orações, imprimem algum significado à relação que se estabelece. Analise a relação que a conjunção e estabelece entre as orações, em cada um dos seguintes períodos:
  • 13.
    TEXTO LínguaPortuguesa, UFMG-1999 Ele pegou o copo e tomou um gole de água. Ele deixou a janela aberta e o ladrão entrou na casa. Ele é competente e está desempregado.
  • 14.
    QUESTÃO 03 Língua Portuguesa, UFMG-1999 Com base nas informações dadas e na análise feita, REDIJA um texto, discutindo o ponto de vista da teoria gramatical tradicional. Para fundamentar sua resposta, utilize como argumento a função do e nesses períodos ou em outros que você queira construir.
  • 15.
    SOLUÇÃO COMENTADA Língua Portuguesa, UFMG-1999 discutindo a gramática tradicional Veja que a concepção de língua como um objeto estanque, expressa em servem para ligar simplesmente, é insuficiente para que se possam compreender os fenômenos linguísticos com que lidamos no dia-a-dia. Nas frases anteriores, percebe-se que o “e” pode assumir outros valores que não os “canonizados” pela gramática tradicional. Na primeira frase, a conjunção funciona como um sequenciador [temporal], indicando que primeiro ele pegou o copo, depois tomou um gole de água. Já no segundo enunciado, a mesma conjunção acaba por assumir um valor consecutivo, sugerindo que alguém deixou a janela aberta, por isso o ladrão entrou em casa. No terceiro contexto frasal, percebe-se que o conectivo “e” tem valor adversativo: ou seja, ele é competente, mas está desempregado.
  • 16.
    QUESTÃO 04 Língua Portuguesa, UFMG-2010 Como é difícil reconstituir os acontecimentos! Lembrar o ano em que tudo começou já exige esforço. Distribuir os fatos pelos meses não consigo. Mas ordenar os sentimentos é para mim totalmente impossível. REDIJA um texto, explicando o funcionamento do conector destacado nesse trecho do conto “Helga”, do livro Antes do baile verde, de Lygia Fagundes Telles.
  • 17.
    SOLUÇÃO COMENTADA Língua Portuguesa, UFMG-2010 O articulador em destaque, normalmente de valor adversativo, encerra uma cadeia gradativa, desempenhando papel enfático. Percebe-se que o locutor estabelece uma sequência de fatos marcados, de um modo geral, pela impossibilidade de concretização: a reconstituição dos acontecimentos é difícil; a lembrança exige esforço; a distribuição dos fatos não é alcançada e a ordenação dos sentimentos é totalmente impossível. Importante notar que essa impossibilidade final, reforçada pelo uso do advérbio “totalmente”, é justamente a introduzida pelo conectivo “mas”.