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1
FACULDADE DE MACAPÁ
CLAUDILENE SILVA, DIELLE BRANDÃO, ELLEN MACIEL, FLÁVIA FILIZZOLA, JIMMY
PEREIRA, MICHELLE MONTELES, VANESSA DENIUR
CIÚME ROMÂNTICO E CIÚME PATOLÓGICO
Profa. Orientadora: Maria das Graças Teles Martins
MACAPÁ
2
2014
FACULDADE DE MACAPÁ
CLAUDILENE SILVA, DIELLE BRANDÃO, ELLEN MACIEL, FLÁVIA FILIZZOLA, JIMMY
PEREIRA, MICHELLE MONTELES, VANESSA DENIUR
CIÚME ROMÂNTICO E CIÚME PATOLÓGICO
Trabalho apresentado a disciplina
Processo Psicológico Básico I,
ministrada pela Docente Msc. Maria
das Graças Teles Martins como
método avaliativo do curso de
Psicologia segundo termo da
Faculdade de Macapá.
MACAPÁ-AP
3
2014
CIÚME ROMÂNTICO: UM BREVE HISTÓRICO, PERSPECTIVAS, CONCEPÇÕES
CORRELATAS E SEUS DESDOBRAMENTOS PARA
OS RELACIONAMENTOS AMOROSOS
Resumo
O que é o ciúme? Há uma história para ele? Desde a Antiguidade, encontramos
diversos autores e entendimentos que se focaram nestas questões. Infelizmente, o
que se observa na prática é que as produções teóricas enfocam quase que
exclusivamente o aspecto clínico, psiquiátrico e ‘individual’ do ciúme, como se fosse
possível isolar o indivíduo do seu contexto que, não apenas o cerca como comumente
se acredita, mas que, mais do que isso, o constitui. A proposta deste artigo, enquanto
uma revisão bibliográfica, tenta promover um debate, bem como analisar o reflexo do
ciúme para os relacionamentos amorosos cotidianos. Para tanto, buscamos responder
a seguinte questão: de que maneira o sentimento do ciúme, presente em algumas
relações amorosas entre homens e mulheres, pode ser compreendido diante das
transformações pelas quais vem passando a sociedade e das características que vem
assumindo a convivência amorosa na contemporaneidade? O que se observou por
meio de tal levantamento é que o ciúme não é uma experiência contemporânea. Ao
contrário, ele é um sentimento antigo, atemporal, que atravessa diferentes épocas e
contextos da história do ser humano.
“Na realidade, o ser ciumento trava uma batalha consigo
próprio, e não contra quem ama ou contra quem cobiça o bem
amado. É no próprio núcleo do amor “ciumento” que se
engendra a inquietação e cresce a biotoxina que o envenena”
(Myra y López, 1998, p. 174).
4
1 – Considerações iniciais
Dentre as mais diferenciadas emoções humanas, o ciúme é uma emoção ex-
tremamente comum (Kingham & Gordon, 2004). Assim, o ciúme romântico não so-
mente é um dos mais importantes temas que envolvem os relacionamentos humanos,
bem como um desafio para muitos destes, como nos aponta o estudo de Almeida
(2007). Ele é reconhecido como um complexo de emoções provocado pela percepção
de uma ameaça a um relacionamento diádico e exclusivo. Faz-se tal observação tendo
em vista que há diferentes tipos de ciúme (Bringle, 1991) e que podem surgir nos mais
diversos contextos interpessoais, embora seja comumente associado com os
relacionamentos amorosos, cuja presente pesquisa visa discorrer.
Ramos (2000) aponta que há diferentes posicionamentos quanto à existência da
emoção ciúme enquanto uma combinação de outras emoções básicas e irredutíveis,
ou mesmo como uma categoria própria. Uma grande dificuldade ao se estudar o
fenômeno do ciúme é o fato de que para muitos ainda, ciúme é uma manifestação de
afeto, de zelo ou até de amor que uma pessoa sente por outra. Ferreira-Santos (1998)
ressalta que devido às múltiplas manifestações de ciúme nas pessoas, e mesmo por
objetos, fica muito difícil compreender a origem destas situações. Além disto, cada
pessoa pode exprimir o seu ciúme de uma forma peculiar, ou seja, o vivencia do seu
próprio jeito. Mas que esferas cognitivas estão implícitas ao se analisar o ciúme ro-
mântico, os relacionamentos amorosos e a infidelidade?
Uma das definições mais aceitas para o entendimento desse tema é a de que ele é um
“complexo de pensamentos, sentimentos e ações que se seguem às ameaças para a
existência ou a qualidade de um relacionamento, enquanto estas ameaças são geradas
pela percepção de uma real ou potencial atração entre um parceiro e um (talvez
imaginário) rival” (White, 1981, p.129). Portanto, desenvolve-se quando sentimos que
nosso parceiro não está tão estreitamente conectado conosco como gostaríamos
(Rosset, 2004). Segundo Ramos (2000) é possível ter ciúme até mesmo em relacio-
namentos platônicos, em que há um amor unilateral não correspondido.
O ciúme, então, é um conjunto de emoções desencadeadas por sentimentos de
alguma ameaça à estabilidade ou qualidade de um relacionamento íntimo valorizado.
5
Como visto, as definições, dadas pelos teóricos, de ciúme são diversas, porém uma
mesma tríade conceitual as une:
1) ser uma reação frente a uma ameaça percebida;
2) haver um rival real ou imaginário e;
3) a reação visa eliminar, ou ainda, diminuir os riscos da perda do objeto amado.
No relacionamento amoroso, cada parceiro sente necessidade de controlar o outro e,
nesse sentido, o ciúme pode funcionar como uma justificativa para exercer este
controle e vigilância, quando não existem outros pretextos plausíveis.
Consequentemente, quando a pessoa percebe que perdeu o controle sobre o outro,
isso talvez signifique para ela que a relação terminou. Dessa forma, por meio de
mecanismos de controle à liberdade da parceria constituída como, por exemplo,
manifestar o ciúme como uma sinonímia do amor que sente, ou ainda, de sua
preocupação com o parceiro ou com a relação, o comportamento violento do agressor
se esconde por detrás da máscara da simpatia. Algumas manifestações de ciúme são
altamente valorizadas, sobretudo pela sociedade brasileira como sinônimos de amor,
ou ainda, de qualidade/investimento para a relação. Logo, é viável conceber que
lugares-comuns como as verbalizações que dizem que o ciúme é “tempero” ou “prova”
de amor partilham pelo menos dois fatores: muito apoio popular e nenhum respaldo
científico.
6
Mas, entender racionalmente o que foi anteriormente colocado não significa que as
pessoas simplesmente abram mão do ciúme enquanto um mecanismo dinamizador
para os relacionamentos que estabelecem. Tem quem provoque ciúme no parceiro só
para se sentir querido, ou seja, existem ainda casos em que um dos parceiros assume
constantemente um comportamento sedutor para provocar ciúme. E comumente uma
pessoa potencialmente ciumenta se apaixona exatamente por aquela pessoa que
apresenta uma atitude sedutora. Esta situação ocorre, segundo alguns autores (e.g.
Almeida, 2007) porque o parceiro infiel precisa da pessoa ciumenta, quase que por um
regime inconsciente de comorbidade, pois esta irá controlar seus impulsos de traição,
que são resultantes de sua autoestima fragilizada, o que faz com que o parceiro infiel
necessite de constantes provas de que é desejado.
Toda relação amorosa, a princípio, pressupõe um grau de ciúme saudável, por assim
dizer. Nesse sentido, uma total apatia, segundo o que raciocinam muitos casais, pode
revelar desinteresse, pesadelo mais indesejável para alguém ciumento. O problema é
quando esse ciúme passa da dose ideal e esboça contornos paranoicos. Contudo,
todos os parceiros deveriam considerar que a fidelidade é algo que se faz pela relação,
e assim, não deve ser um limite imposto pelos parceiros.
Há pessoas que reclamam que o outro não se queixa dos olhares interessados que
atrai. Provavelmente tal crença errônea está amparada na expectativa que o ciúme é
tido como prova de amor e, portanto, algumas retaliações são bem-vindas para a
harmonia do relacionamento. E não raramente, pessoas vitimizadas pelo agressor,
suportam altos limiares de violências impostos por seus parceiros e atingem o ponto
de ignorar a violência sofrida, sobretudo, quando o agressor alega que esse
descontrole foi motivado pelo ciúme. Desta maneira, a pessoa que exacerba seu ciúme
pode demonstrar um sinal de instabilidade emocional acentuada, confundindo amor
com posse (Hintz, 2003). Ainda, segundo Carotenudo (2004) a pessoa ciumenta possui
uma fantasia inconsciente de trair para se auto afirmar em relação à pessoa amada.
Assim, é difícil diferenciar a acusação de traição, ou seja, a infidelidade presumida, da
projeção do próprio desejo de trair. Quando o assunto é ciúme, as coisas são mais
complicadas do que simplesmente certo e errado.
7
Para Ramos (2000) mais importante que a confirmação da infidelidade em si é a
incerteza que consome a mente destas pessoas, porque em casos de ciúme extremo
decorrentes de disfunção perceptiva, mesmo que não haja provas evidentes da
infidelidade do parceiro, o ciumento toma alguns indícios como se fossem provas ir-
refutáveis, cuja validade ou falsidade é indiferente para o seu grau de sofrimento. O
sofrimento produzido pelo ciúme decorre do fato de que o ciumento sente que só
pode crescer junto com o ser amado e que, sem ele, sua vida não tem significado. O
que provoca a angústia do ciumento é o medo de perder o que o elemento erótico
representa na relação e não a infidelidade sexual em si. Nas palavras de Hintz (2003):
“O indivíduo ciumento permanece ambivalente entre o amor e a desconfiança de seu
parceiro, tomando-se perturbado, com labilidade afetiva e obcecado por triangula-
ções” (p. 48).
Então, para entender o que se subjaz ao ciúme em relação ao passado, e em compasso
com o conhecimento produzido ao longo do tempo, percebemos que as concepções e
entendimentos sobre o ciúme foram e ainda são diversos. Desta forma, resgatar os
pressupostos sobre os quais se fundamentam algumas das nossas concepções atuais
se faz necessário a fim de que relativizemos nossos referenciais etnocêntricos e
também tenhamos uma melhor compreensão da dinâmica afetiva em outras situações
anteriores a nossa, diretriz essa que não tem sido, a nosso ver, suficientemente
explorada na literatura sobre o tema. Para tanto, neste estudo, buscamos responder a
seguinte questão: de que maneira o sentimento do ciúme, presente em algumas
relações amorosas entre homens e mulheres, pode ser compreendido diante das
transformações pelas quais vem passando a sociedade e das características que vem
assumindo a convivência amorosa na contemporaneidade?
Ciúme patológico e violência
O ciúme patológico pode causar inúmeros transtornos no contexto de um
relacionamento amoroso, podendo prejudicar, inclusive, outros âmbitos da vida de
uma pessoa, como o social, o profissional, o familiar e o íntimo, provocando, por vezes,
sérios conflitos. Para Clanton (1998), o adulto torna-se ciumento quando acredita que
8
o casamento ou o relacionamento romântico no qual está inserido está ameaçado por
um rival real ou imaginário. Levando-se em consideração o que foi colocado
anteriormente, pode-se dizer que as pessoas ciumentas permanecem ambivalentes
entre o amor e a desconfiança de seu parceiro, tomando-se perturbadas, com
labilidade afetiva e obcecadas por triangulações, muitas vezes imaginárias. Dessa
forma, os ciumentos conflitam entre o medo de descobrir a infidelidade real dos seus
parceiros e, não ocorrendo à situação da infidelidade, descobrir que sofre de uma
forma de um delírio de ciúme (Hintz, 2003).
O criminologista e autor do livro Amour et crimes d’amour, Etiène De Greeff, considera
que quando o ciúme repercute em um relacionamento é impossível compreender o
papel da razão e da lógica. Assim, as razões que o ciumento cita em seu discurso para
uma traição em potencial podem parecer até bastante coerentes e pautadas na
realidade; contudo, muitas vezes, são superficiais e se apoiam em premissas falsas
(1942/1973). Frequentemente, aquilo que até então era zelo e cuidado, a serviço de
valorizar o amor e o vínculo da exclusividade entre os parceiros, acaba sendo expresso
como vigilância cerrada e injustificadas punições aos parceiros.
O ciumento permanece em um estado de constante vigília, ansioso, estressado e aflito,
é intempestivo nas atitudes que toma, prevalecendo frequentemente atitudes
agressivas, acusadoras, desconfiadas, o que causa grandes problemas na evolução da
relação. Esse descontrole pode levar os ciumentos a protagonizar cenas ridículas e
constrangedoras em público.
De uma forma geral, embora se verifique a conservação de convicções desajustadas, é
comum a insensibilidade dos ciumentos intensos e excessivos à contradição quando
colocados em uma situação de confrontamento com as crenças que fundamentam seu
estado afetivo. É possível que essa insensibilidade esteja associada a traços de
personalidade paranoica, tais como rigidez psíquica, orgulho, desconfiança e falsidade
de julgamento. Para Cavalcante (1997), a paranoia é o transtorno mais comumente
associado ao ciúme patológico, constituindo-se de delírios paranoicos sistematizados.
Em Freud e a psicanálise, Jung (1989) tratou o ciúme como uma manifestação afetiva e
como uma defesa em relação ao objeto visado. O ciúme patológico pode ser
considerado um afeto ou emoção porque ele é intenso, atraindo a atenção do ego
para o que estiver relacionado a ele, de maneira que o ciumento patológico pode até
9
mesmo ignorar e distorcer os fatos da realidade externa. Existem diversos graus de
ciúme, sendo que o patológico é aquele que causa maiores prejuízos ao ciumento e à
sua companheira devido à sua intensidade exagerada.
De acordo com Carotenuto (2004), a pessoa ciumenta não consegue manter uma
relação de objetividade com os fatos, de maneira que eles são interpretados a partir
de uma perspectiva obsessiva, favorável às suspeitas. Levando-se em consideração o
que foi escrito anteriormente, podemos entender que uma emoção intensa como o
ciúme patológico pode ultrapassar os limites de controle egóico e prejudicar a
capacidade de raciocinar com clareza e objetividade, o que pode conduzir o ciumento
mórbido a atos violentos.
Segundo um trabalho realizado por Torres et al. (1999), o ciúme patológico pode ser
um sintoma do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), pois inclui rituais de
verificação e obsessão característicos dessa síndrome. Foram selecionados quatro
casos clínicos de TOC com sintomas de ciúme patológico do Serviço de Psiquiatria da
Faculdade de Medicina de Botucatu, da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp). O
critério de escolha priorizou os casos mais representativos de TOC com ciúme
patológico, seguido de descrição e discussão de suas características. Os sujeitos
receberam o mesmo tratamento médico oferecido a outros pacientes diagnosticados
como obsessivo-compulsivos e, segundo os pesquisadores, apresentaram melhora.
Os resultados dessa pesquisa indicaram que foi aberta uma nova alternativa de
abordagem terapêutica do ciúme patológico, que até bem recentemente se restringia
a duas condutas quase opostas: a internação com o uso de neurolépticos e as
abordagens psicodinâmicas exclusivas. Segundo os autores, tal fato permite um maior
otimismo em relação ao seu prognóstico, pois sendo o ciúme patológico, em geral,
uma condição que envolve muito sofrimento e que é notoriamente difícil de tratar, a
possibilidade de sucesso em certos casos com outras abordagens, como as específicas
para TOC, é relevante.
O ciúme patológico também foi estudado por Michael et al. (1995) com o objetivo de
melhor compreender a relação desse sintoma com o alcoolismo. Foram pesquisados
207 pacientes heterossexuais do sexo masculino, dependentes de álcool e que
10
estavam casados ou em um relacionamento estável. As principais conclusões da
pesquisa foram que o alcoolismo parece não ser o causador do ciúme patológico. E
detectar os casos em que o ciúme mórbido (sinônimo de patológico) se manifesta
apenas quando o paciente está alcoolizado tem sua utilidade em processos
preventivos.
Para Adler, o ciúme é um traço de caráter e, ao mesmo tempo, uma maneira de lutar
para manter a dominação. Ele aparece sob formas diversas: desconfiança, preparação
de armadilhas, críticas aos colegas e no medo constante de ser preterido. Gostar de
ser desmancha-prazeres, opor-se sem motivo, restringir a liberdade do outro e
conseguir dominá-lo são outras manifestações do ciúme. O ciumento pode estabelecer
regras de amor para o parceiro:
Fixar para outrem uma série de regras de conduta é um dos expedientes prediletos do
ciúme. É este o padrão característico de procedimento que uma pessoa adota, quando
intenta ditar jeitosamente algumas regras de amor ao cônjuge, quando cerca de
muralhas a pessoa a quem ama, e lhe determina para onde deve olhar, que deve fazer
e como deve pensar. (1967, pp. 200-2001)
A finalidade do ciúme é roubar a liberdade do outro, fazê-lo andarem determinado
trilho ou mantê-lo acorrentado (Adler, 1967). No relacionamento amoroso, cada
parceiro sente necessidade de controlar o outro e o ciúme pode funcionar como uma
justificativa para exercer esse controle e vigilância, quando não existem outros
pretextos plausíveis (Carotenuto, 2004).
Percebemos que, para esses autores, o ciúme está totalmente relacionado ao poder, à
dominação e ao aprisionamento do companheiro.
Questionamos se o ciúme seria sempre negativo para o relacionamento ou se também
teria seu lado positivo, dependendo da atitude do ciumento. Será que o ciumento que
usa esse sentimento para refletir sobre si mesmo e sobre seu o relacionamento vai
tentar aprisionar e vigiar a pessoa que ama? Será que dominar o ser amado com
práticas ciumentas evita a tão temida traição? Na prática clínica, observamos que nada
é capaz de evitar a traição, pois até mesmo uma pessoa presa à cama por algemas
pode pensar e se imaginar traindo seu parceiro. É claro que poucos casos chegam a um
extremo desses, mas podemos observar que a pessoa que quer trair acaba criando
algum jeito de fazê-lo, por mais que seja vigiada e controlada. Às vezes, ocorre até
11
mesmo a traição para assegurar sua autonomia em relação ao parceiro possessivo,
para provar para si mesma que não tem dono ou que ninguém manda nela. Às vezes,
há sentimentos de vingança contra a tentativa de aprisionamento.
Na prática clínica, observa-se que muitas mulheres dedicam suas vidas ao marido e ao
casamento, sentindo ciúme e ódio quando o relacionamento é ameaçado ou termina.
Como o ódio não é considerado feminino na cultura patriarcal, é comum que fiquem
deprimidas, ao dirigirem essa emoção para dentro delas mesmas. No caso de pessoas
que aparentam não experimentar esse estado, pode-se inferir que ele foi reprimido e
que atua mais intensamente a partir do inconsciente.
Quando o ciúme é simplesmente desqualificado e reprimido, ele passa a operar na
sombra, tornando-se inadequado e destrutivo. Assim, uma pessoa pode se mostrar
intolerante, possessiva, obsessiva e agressiva, o que faz com que o vínculo amoroso
seja destruído. O ciúme deve ser respeitado, pois assim o amor é cultivado e
preservado (Byington, 2006).
Levando-se em consideração as ideias desses últimos autores, entendemos que não é
interessante reprimir o ciúme. Melhor seria compreender esse sentimento, refletir
sobre o que ele está mostrando a respeito do relacionamento e do próprio ciumento.
Dessa forma, é possível utilizar essa emoção para o desenvolvimento do indivíduo e
evitar que ela se intensifique e se torne patológica.
O bom ciúme seria aquele que cuida e protege, zelando pelo ser ou objeto amado. Por
outro lado, o ciúme patológico seria aquele baseado na fusão e na posse. O ciumento
patológico vive na ilusão de que o parceiro é uma parte dele mesmo e, quando a
mulher não corresponde mais à imagem que o homem idealizou, ao expressar sua
autonomia e identidade, começam as suspeitas e os conflitos (Cavalcante, 1997).
Entende-se que um relacionamento baseado no amor é marcado pelo
compartilhamento e pela troca entre egos com certo grau de autonomia e integridade.
Através de observações cotidianas e de casos clínicos, pode-se hipotetizar que, quando
o homem confia nele mesmo, tende a confiar no mundo e na esposa. Por outro lado,
se não tiver essa confiança, provavelmente irá projetar sua desconfiança no mundo (e
na companheira), o que pode ser um dos fatores contribuintes para o surgimento da
paranoia. Um possível trabalho psicoterapêutico seria conduzir o ciumento patológico
para compreender os motivos da falta de confiança em si mesmo e depois começar a
12
desenvolver sua autoconfiança, junto com sua autonomia e integridade egóicas.
Considera-se que nos casos de extrema violência, certamente, existem fatores
psicológicos envolvidos, além dos culturais, tais como a não superação da estrutura do
complexo de Édipo, baixa autoestima, fragilidade egóica e complexos parentais
patológicos. Mesmo assim, percebe-se que a excessiva valorização do poder, da posse
e da honra masculina influencia no comportamento do ciumento mórbido. Ou seja, na
dinâmica do ciúme patológico são encontrados tanto fatores subjetivos quanto
culturais.
Conclusão
O tema ciúme mostra-se de grande importância enquanto área de estudo, já que
diferentes estudos o colocam como fator de motivação em casos de homicídios,
violência doméstica e outros contextos de agressão física e verbal. Ultimamente, muito
dos conflitos e da violência entre homens e mulheres no âmbito dos relacionamentos
amorosos têm crescido derivados do ciúme e estão relacionados com a questão da
infidelidade.
Principalmente no contexto brasileiro, muitas das pessoas que são vítimas de ciúme,
dependendo do grau e de acordo com seus históricos de vida, sentem-se lisonjeadas
em granjear esse tipo de atenção para elas mesmas. Contudo, não devemos deixar
escamotear a nossa percepção e deixar passar despercebido o número de casos de
violência doméstica, crimes passionais, etc. Nesse sentido, a exemplo da personagem
Othelo, de Shakespeare, podemos dizer que existem muitos casos similares ao da
história e “Othelo”s na vida real, pois o ciúme lança seus efeitos na vida de muitas
pessoas.
Há tanto fatores culturais quanto psicológicos associados ao ciúme patológico. Entre
os aspectos culturais, podemos destacar a preservação da honra e da reputação
masculinas, que são percebidas como associadas ao comportamento da companheira
na cultura patriarcal e a possessividade que pode estar associada à cultura capitalista
que valoriza excessivamente o ter em detrimento do ser. Percebe-se que a violência
física e verbal, frequentemente, está presente em relacionamentos marcados pelo
13
ciúme. Por isso, é necessário pensarmos em propostas psicoterapêuticas rápidas e
eficazes com o objetivo de diminuir o sofrimento das vítimas do ciúme patológico.
No âmbito subjetivo, encontramos o ciúme patológico associado à baixa autoestima,
ao orgulho, à não superação da estrutura edipiana, à fragilidade egóica e a complexos
parentais patológicos. As propostas psicoterapêuticas podem ser conduzidas no
sentido de rever crenças limitantes e criar outras, mais saudáveis, elaborando feridas
psíquicas. É necessário melhorar a autoestima da pessoa que sofre de ciúme
patológico, rever sua estrutura familiar, seu relacionamento com figuras parentais e a
visão que tem de si mesma, buscando fortalecer seus pontos fracos e valorizar seus
pontos forte.
Referências
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Tradução
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1967.
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Laboratório de Saúde Mental e Psicologia Clínica Social Departamento de Psicologia
Clínica - IPUSP
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CAMPO DA PSICOLOGIA CLÍNICA SOCIAL São Paulo, 14 de novembro de 2008
Página | 180
BALLONE, G. J. Ciúme Patológico. Disponível em:
<http://sites.uol.com.br/gballone/voce/ciume.html Acesso em: 15 de julho, 2004
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CAVALCANTE, A. M. O ciúme patológico. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997.
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Revista, v. 16. (no prelo)
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  • 1. 1 FACULDADE DE MACAPÁ CLAUDILENE SILVA, DIELLE BRANDÃO, ELLEN MACIEL, FLÁVIA FILIZZOLA, JIMMY PEREIRA, MICHELLE MONTELES, VANESSA DENIUR CIÚME ROMÂNTICO E CIÚME PATOLÓGICO Profa. Orientadora: Maria das Graças Teles Martins MACAPÁ
  • 2. 2 2014 FACULDADE DE MACAPÁ CLAUDILENE SILVA, DIELLE BRANDÃO, ELLEN MACIEL, FLÁVIA FILIZZOLA, JIMMY PEREIRA, MICHELLE MONTELES, VANESSA DENIUR CIÚME ROMÂNTICO E CIÚME PATOLÓGICO Trabalho apresentado a disciplina Processo Psicológico Básico I, ministrada pela Docente Msc. Maria das Graças Teles Martins como método avaliativo do curso de Psicologia segundo termo da Faculdade de Macapá. MACAPÁ-AP
  • 3. 3 2014 CIÚME ROMÂNTICO: UM BREVE HISTÓRICO, PERSPECTIVAS, CONCEPÇÕES CORRELATAS E SEUS DESDOBRAMENTOS PARA OS RELACIONAMENTOS AMOROSOS Resumo O que é o ciúme? Há uma história para ele? Desde a Antiguidade, encontramos diversos autores e entendimentos que se focaram nestas questões. Infelizmente, o que se observa na prática é que as produções teóricas enfocam quase que exclusivamente o aspecto clínico, psiquiátrico e ‘individual’ do ciúme, como se fosse possível isolar o indivíduo do seu contexto que, não apenas o cerca como comumente se acredita, mas que, mais do que isso, o constitui. A proposta deste artigo, enquanto uma revisão bibliográfica, tenta promover um debate, bem como analisar o reflexo do ciúme para os relacionamentos amorosos cotidianos. Para tanto, buscamos responder a seguinte questão: de que maneira o sentimento do ciúme, presente em algumas relações amorosas entre homens e mulheres, pode ser compreendido diante das transformações pelas quais vem passando a sociedade e das características que vem assumindo a convivência amorosa na contemporaneidade? O que se observou por meio de tal levantamento é que o ciúme não é uma experiência contemporânea. Ao contrário, ele é um sentimento antigo, atemporal, que atravessa diferentes épocas e contextos da história do ser humano. “Na realidade, o ser ciumento trava uma batalha consigo próprio, e não contra quem ama ou contra quem cobiça o bem amado. É no próprio núcleo do amor “ciumento” que se engendra a inquietação e cresce a biotoxina que o envenena” (Myra y López, 1998, p. 174).
  • 4. 4 1 – Considerações iniciais Dentre as mais diferenciadas emoções humanas, o ciúme é uma emoção ex- tremamente comum (Kingham & Gordon, 2004). Assim, o ciúme romântico não so- mente é um dos mais importantes temas que envolvem os relacionamentos humanos, bem como um desafio para muitos destes, como nos aponta o estudo de Almeida (2007). Ele é reconhecido como um complexo de emoções provocado pela percepção de uma ameaça a um relacionamento diádico e exclusivo. Faz-se tal observação tendo em vista que há diferentes tipos de ciúme (Bringle, 1991) e que podem surgir nos mais diversos contextos interpessoais, embora seja comumente associado com os relacionamentos amorosos, cuja presente pesquisa visa discorrer. Ramos (2000) aponta que há diferentes posicionamentos quanto à existência da emoção ciúme enquanto uma combinação de outras emoções básicas e irredutíveis, ou mesmo como uma categoria própria. Uma grande dificuldade ao se estudar o fenômeno do ciúme é o fato de que para muitos ainda, ciúme é uma manifestação de afeto, de zelo ou até de amor que uma pessoa sente por outra. Ferreira-Santos (1998) ressalta que devido às múltiplas manifestações de ciúme nas pessoas, e mesmo por objetos, fica muito difícil compreender a origem destas situações. Além disto, cada pessoa pode exprimir o seu ciúme de uma forma peculiar, ou seja, o vivencia do seu próprio jeito. Mas que esferas cognitivas estão implícitas ao se analisar o ciúme ro- mântico, os relacionamentos amorosos e a infidelidade? Uma das definições mais aceitas para o entendimento desse tema é a de que ele é um “complexo de pensamentos, sentimentos e ações que se seguem às ameaças para a existência ou a qualidade de um relacionamento, enquanto estas ameaças são geradas pela percepção de uma real ou potencial atração entre um parceiro e um (talvez imaginário) rival” (White, 1981, p.129). Portanto, desenvolve-se quando sentimos que nosso parceiro não está tão estreitamente conectado conosco como gostaríamos (Rosset, 2004). Segundo Ramos (2000) é possível ter ciúme até mesmo em relacio- namentos platônicos, em que há um amor unilateral não correspondido. O ciúme, então, é um conjunto de emoções desencadeadas por sentimentos de alguma ameaça à estabilidade ou qualidade de um relacionamento íntimo valorizado.
  • 5. 5 Como visto, as definições, dadas pelos teóricos, de ciúme são diversas, porém uma mesma tríade conceitual as une: 1) ser uma reação frente a uma ameaça percebida; 2) haver um rival real ou imaginário e; 3) a reação visa eliminar, ou ainda, diminuir os riscos da perda do objeto amado. No relacionamento amoroso, cada parceiro sente necessidade de controlar o outro e, nesse sentido, o ciúme pode funcionar como uma justificativa para exercer este controle e vigilância, quando não existem outros pretextos plausíveis. Consequentemente, quando a pessoa percebe que perdeu o controle sobre o outro, isso talvez signifique para ela que a relação terminou. Dessa forma, por meio de mecanismos de controle à liberdade da parceria constituída como, por exemplo, manifestar o ciúme como uma sinonímia do amor que sente, ou ainda, de sua preocupação com o parceiro ou com a relação, o comportamento violento do agressor se esconde por detrás da máscara da simpatia. Algumas manifestações de ciúme são altamente valorizadas, sobretudo pela sociedade brasileira como sinônimos de amor, ou ainda, de qualidade/investimento para a relação. Logo, é viável conceber que lugares-comuns como as verbalizações que dizem que o ciúme é “tempero” ou “prova” de amor partilham pelo menos dois fatores: muito apoio popular e nenhum respaldo científico.
  • 6. 6 Mas, entender racionalmente o que foi anteriormente colocado não significa que as pessoas simplesmente abram mão do ciúme enquanto um mecanismo dinamizador para os relacionamentos que estabelecem. Tem quem provoque ciúme no parceiro só para se sentir querido, ou seja, existem ainda casos em que um dos parceiros assume constantemente um comportamento sedutor para provocar ciúme. E comumente uma pessoa potencialmente ciumenta se apaixona exatamente por aquela pessoa que apresenta uma atitude sedutora. Esta situação ocorre, segundo alguns autores (e.g. Almeida, 2007) porque o parceiro infiel precisa da pessoa ciumenta, quase que por um regime inconsciente de comorbidade, pois esta irá controlar seus impulsos de traição, que são resultantes de sua autoestima fragilizada, o que faz com que o parceiro infiel necessite de constantes provas de que é desejado. Toda relação amorosa, a princípio, pressupõe um grau de ciúme saudável, por assim dizer. Nesse sentido, uma total apatia, segundo o que raciocinam muitos casais, pode revelar desinteresse, pesadelo mais indesejável para alguém ciumento. O problema é quando esse ciúme passa da dose ideal e esboça contornos paranoicos. Contudo, todos os parceiros deveriam considerar que a fidelidade é algo que se faz pela relação, e assim, não deve ser um limite imposto pelos parceiros. Há pessoas que reclamam que o outro não se queixa dos olhares interessados que atrai. Provavelmente tal crença errônea está amparada na expectativa que o ciúme é tido como prova de amor e, portanto, algumas retaliações são bem-vindas para a harmonia do relacionamento. E não raramente, pessoas vitimizadas pelo agressor, suportam altos limiares de violências impostos por seus parceiros e atingem o ponto de ignorar a violência sofrida, sobretudo, quando o agressor alega que esse descontrole foi motivado pelo ciúme. Desta maneira, a pessoa que exacerba seu ciúme pode demonstrar um sinal de instabilidade emocional acentuada, confundindo amor com posse (Hintz, 2003). Ainda, segundo Carotenudo (2004) a pessoa ciumenta possui uma fantasia inconsciente de trair para se auto afirmar em relação à pessoa amada. Assim, é difícil diferenciar a acusação de traição, ou seja, a infidelidade presumida, da projeção do próprio desejo de trair. Quando o assunto é ciúme, as coisas são mais complicadas do que simplesmente certo e errado.
  • 7. 7 Para Ramos (2000) mais importante que a confirmação da infidelidade em si é a incerteza que consome a mente destas pessoas, porque em casos de ciúme extremo decorrentes de disfunção perceptiva, mesmo que não haja provas evidentes da infidelidade do parceiro, o ciumento toma alguns indícios como se fossem provas ir- refutáveis, cuja validade ou falsidade é indiferente para o seu grau de sofrimento. O sofrimento produzido pelo ciúme decorre do fato de que o ciumento sente que só pode crescer junto com o ser amado e que, sem ele, sua vida não tem significado. O que provoca a angústia do ciumento é o medo de perder o que o elemento erótico representa na relação e não a infidelidade sexual em si. Nas palavras de Hintz (2003): “O indivíduo ciumento permanece ambivalente entre o amor e a desconfiança de seu parceiro, tomando-se perturbado, com labilidade afetiva e obcecado por triangula- ções” (p. 48). Então, para entender o que se subjaz ao ciúme em relação ao passado, e em compasso com o conhecimento produzido ao longo do tempo, percebemos que as concepções e entendimentos sobre o ciúme foram e ainda são diversos. Desta forma, resgatar os pressupostos sobre os quais se fundamentam algumas das nossas concepções atuais se faz necessário a fim de que relativizemos nossos referenciais etnocêntricos e também tenhamos uma melhor compreensão da dinâmica afetiva em outras situações anteriores a nossa, diretriz essa que não tem sido, a nosso ver, suficientemente explorada na literatura sobre o tema. Para tanto, neste estudo, buscamos responder a seguinte questão: de que maneira o sentimento do ciúme, presente em algumas relações amorosas entre homens e mulheres, pode ser compreendido diante das transformações pelas quais vem passando a sociedade e das características que vem assumindo a convivência amorosa na contemporaneidade? Ciúme patológico e violência O ciúme patológico pode causar inúmeros transtornos no contexto de um relacionamento amoroso, podendo prejudicar, inclusive, outros âmbitos da vida de uma pessoa, como o social, o profissional, o familiar e o íntimo, provocando, por vezes, sérios conflitos. Para Clanton (1998), o adulto torna-se ciumento quando acredita que
  • 8. 8 o casamento ou o relacionamento romântico no qual está inserido está ameaçado por um rival real ou imaginário. Levando-se em consideração o que foi colocado anteriormente, pode-se dizer que as pessoas ciumentas permanecem ambivalentes entre o amor e a desconfiança de seu parceiro, tomando-se perturbadas, com labilidade afetiva e obcecadas por triangulações, muitas vezes imaginárias. Dessa forma, os ciumentos conflitam entre o medo de descobrir a infidelidade real dos seus parceiros e, não ocorrendo à situação da infidelidade, descobrir que sofre de uma forma de um delírio de ciúme (Hintz, 2003). O criminologista e autor do livro Amour et crimes d’amour, Etiène De Greeff, considera que quando o ciúme repercute em um relacionamento é impossível compreender o papel da razão e da lógica. Assim, as razões que o ciumento cita em seu discurso para uma traição em potencial podem parecer até bastante coerentes e pautadas na realidade; contudo, muitas vezes, são superficiais e se apoiam em premissas falsas (1942/1973). Frequentemente, aquilo que até então era zelo e cuidado, a serviço de valorizar o amor e o vínculo da exclusividade entre os parceiros, acaba sendo expresso como vigilância cerrada e injustificadas punições aos parceiros. O ciumento permanece em um estado de constante vigília, ansioso, estressado e aflito, é intempestivo nas atitudes que toma, prevalecendo frequentemente atitudes agressivas, acusadoras, desconfiadas, o que causa grandes problemas na evolução da relação. Esse descontrole pode levar os ciumentos a protagonizar cenas ridículas e constrangedoras em público. De uma forma geral, embora se verifique a conservação de convicções desajustadas, é comum a insensibilidade dos ciumentos intensos e excessivos à contradição quando colocados em uma situação de confrontamento com as crenças que fundamentam seu estado afetivo. É possível que essa insensibilidade esteja associada a traços de personalidade paranoica, tais como rigidez psíquica, orgulho, desconfiança e falsidade de julgamento. Para Cavalcante (1997), a paranoia é o transtorno mais comumente associado ao ciúme patológico, constituindo-se de delírios paranoicos sistematizados. Em Freud e a psicanálise, Jung (1989) tratou o ciúme como uma manifestação afetiva e como uma defesa em relação ao objeto visado. O ciúme patológico pode ser considerado um afeto ou emoção porque ele é intenso, atraindo a atenção do ego para o que estiver relacionado a ele, de maneira que o ciumento patológico pode até
  • 9. 9 mesmo ignorar e distorcer os fatos da realidade externa. Existem diversos graus de ciúme, sendo que o patológico é aquele que causa maiores prejuízos ao ciumento e à sua companheira devido à sua intensidade exagerada. De acordo com Carotenuto (2004), a pessoa ciumenta não consegue manter uma relação de objetividade com os fatos, de maneira que eles são interpretados a partir de uma perspectiva obsessiva, favorável às suspeitas. Levando-se em consideração o que foi escrito anteriormente, podemos entender que uma emoção intensa como o ciúme patológico pode ultrapassar os limites de controle egóico e prejudicar a capacidade de raciocinar com clareza e objetividade, o que pode conduzir o ciumento mórbido a atos violentos. Segundo um trabalho realizado por Torres et al. (1999), o ciúme patológico pode ser um sintoma do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), pois inclui rituais de verificação e obsessão característicos dessa síndrome. Foram selecionados quatro casos clínicos de TOC com sintomas de ciúme patológico do Serviço de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Botucatu, da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp). O critério de escolha priorizou os casos mais representativos de TOC com ciúme patológico, seguido de descrição e discussão de suas características. Os sujeitos receberam o mesmo tratamento médico oferecido a outros pacientes diagnosticados como obsessivo-compulsivos e, segundo os pesquisadores, apresentaram melhora. Os resultados dessa pesquisa indicaram que foi aberta uma nova alternativa de abordagem terapêutica do ciúme patológico, que até bem recentemente se restringia a duas condutas quase opostas: a internação com o uso de neurolépticos e as abordagens psicodinâmicas exclusivas. Segundo os autores, tal fato permite um maior otimismo em relação ao seu prognóstico, pois sendo o ciúme patológico, em geral, uma condição que envolve muito sofrimento e que é notoriamente difícil de tratar, a possibilidade de sucesso em certos casos com outras abordagens, como as específicas para TOC, é relevante. O ciúme patológico também foi estudado por Michael et al. (1995) com o objetivo de melhor compreender a relação desse sintoma com o alcoolismo. Foram pesquisados 207 pacientes heterossexuais do sexo masculino, dependentes de álcool e que
  • 10. 10 estavam casados ou em um relacionamento estável. As principais conclusões da pesquisa foram que o alcoolismo parece não ser o causador do ciúme patológico. E detectar os casos em que o ciúme mórbido (sinônimo de patológico) se manifesta apenas quando o paciente está alcoolizado tem sua utilidade em processos preventivos. Para Adler, o ciúme é um traço de caráter e, ao mesmo tempo, uma maneira de lutar para manter a dominação. Ele aparece sob formas diversas: desconfiança, preparação de armadilhas, críticas aos colegas e no medo constante de ser preterido. Gostar de ser desmancha-prazeres, opor-se sem motivo, restringir a liberdade do outro e conseguir dominá-lo são outras manifestações do ciúme. O ciumento pode estabelecer regras de amor para o parceiro: Fixar para outrem uma série de regras de conduta é um dos expedientes prediletos do ciúme. É este o padrão característico de procedimento que uma pessoa adota, quando intenta ditar jeitosamente algumas regras de amor ao cônjuge, quando cerca de muralhas a pessoa a quem ama, e lhe determina para onde deve olhar, que deve fazer e como deve pensar. (1967, pp. 200-2001) A finalidade do ciúme é roubar a liberdade do outro, fazê-lo andarem determinado trilho ou mantê-lo acorrentado (Adler, 1967). No relacionamento amoroso, cada parceiro sente necessidade de controlar o outro e o ciúme pode funcionar como uma justificativa para exercer esse controle e vigilância, quando não existem outros pretextos plausíveis (Carotenuto, 2004). Percebemos que, para esses autores, o ciúme está totalmente relacionado ao poder, à dominação e ao aprisionamento do companheiro. Questionamos se o ciúme seria sempre negativo para o relacionamento ou se também teria seu lado positivo, dependendo da atitude do ciumento. Será que o ciumento que usa esse sentimento para refletir sobre si mesmo e sobre seu o relacionamento vai tentar aprisionar e vigiar a pessoa que ama? Será que dominar o ser amado com práticas ciumentas evita a tão temida traição? Na prática clínica, observamos que nada é capaz de evitar a traição, pois até mesmo uma pessoa presa à cama por algemas pode pensar e se imaginar traindo seu parceiro. É claro que poucos casos chegam a um extremo desses, mas podemos observar que a pessoa que quer trair acaba criando algum jeito de fazê-lo, por mais que seja vigiada e controlada. Às vezes, ocorre até
  • 11. 11 mesmo a traição para assegurar sua autonomia em relação ao parceiro possessivo, para provar para si mesma que não tem dono ou que ninguém manda nela. Às vezes, há sentimentos de vingança contra a tentativa de aprisionamento. Na prática clínica, observa-se que muitas mulheres dedicam suas vidas ao marido e ao casamento, sentindo ciúme e ódio quando o relacionamento é ameaçado ou termina. Como o ódio não é considerado feminino na cultura patriarcal, é comum que fiquem deprimidas, ao dirigirem essa emoção para dentro delas mesmas. No caso de pessoas que aparentam não experimentar esse estado, pode-se inferir que ele foi reprimido e que atua mais intensamente a partir do inconsciente. Quando o ciúme é simplesmente desqualificado e reprimido, ele passa a operar na sombra, tornando-se inadequado e destrutivo. Assim, uma pessoa pode se mostrar intolerante, possessiva, obsessiva e agressiva, o que faz com que o vínculo amoroso seja destruído. O ciúme deve ser respeitado, pois assim o amor é cultivado e preservado (Byington, 2006). Levando-se em consideração as ideias desses últimos autores, entendemos que não é interessante reprimir o ciúme. Melhor seria compreender esse sentimento, refletir sobre o que ele está mostrando a respeito do relacionamento e do próprio ciumento. Dessa forma, é possível utilizar essa emoção para o desenvolvimento do indivíduo e evitar que ela se intensifique e se torne patológica. O bom ciúme seria aquele que cuida e protege, zelando pelo ser ou objeto amado. Por outro lado, o ciúme patológico seria aquele baseado na fusão e na posse. O ciumento patológico vive na ilusão de que o parceiro é uma parte dele mesmo e, quando a mulher não corresponde mais à imagem que o homem idealizou, ao expressar sua autonomia e identidade, começam as suspeitas e os conflitos (Cavalcante, 1997). Entende-se que um relacionamento baseado no amor é marcado pelo compartilhamento e pela troca entre egos com certo grau de autonomia e integridade. Através de observações cotidianas e de casos clínicos, pode-se hipotetizar que, quando o homem confia nele mesmo, tende a confiar no mundo e na esposa. Por outro lado, se não tiver essa confiança, provavelmente irá projetar sua desconfiança no mundo (e na companheira), o que pode ser um dos fatores contribuintes para o surgimento da paranoia. Um possível trabalho psicoterapêutico seria conduzir o ciumento patológico para compreender os motivos da falta de confiança em si mesmo e depois começar a
  • 12. 12 desenvolver sua autoconfiança, junto com sua autonomia e integridade egóicas. Considera-se que nos casos de extrema violência, certamente, existem fatores psicológicos envolvidos, além dos culturais, tais como a não superação da estrutura do complexo de Édipo, baixa autoestima, fragilidade egóica e complexos parentais patológicos. Mesmo assim, percebe-se que a excessiva valorização do poder, da posse e da honra masculina influencia no comportamento do ciumento mórbido. Ou seja, na dinâmica do ciúme patológico são encontrados tanto fatores subjetivos quanto culturais. Conclusão O tema ciúme mostra-se de grande importância enquanto área de estudo, já que diferentes estudos o colocam como fator de motivação em casos de homicídios, violência doméstica e outros contextos de agressão física e verbal. Ultimamente, muito dos conflitos e da violência entre homens e mulheres no âmbito dos relacionamentos amorosos têm crescido derivados do ciúme e estão relacionados com a questão da infidelidade. Principalmente no contexto brasileiro, muitas das pessoas que são vítimas de ciúme, dependendo do grau e de acordo com seus históricos de vida, sentem-se lisonjeadas em granjear esse tipo de atenção para elas mesmas. Contudo, não devemos deixar escamotear a nossa percepção e deixar passar despercebido o número de casos de violência doméstica, crimes passionais, etc. Nesse sentido, a exemplo da personagem Othelo, de Shakespeare, podemos dizer que existem muitos casos similares ao da história e “Othelo”s na vida real, pois o ciúme lança seus efeitos na vida de muitas pessoas. Há tanto fatores culturais quanto psicológicos associados ao ciúme patológico. Entre os aspectos culturais, podemos destacar a preservação da honra e da reputação masculinas, que são percebidas como associadas ao comportamento da companheira na cultura patriarcal e a possessividade que pode estar associada à cultura capitalista que valoriza excessivamente o ter em detrimento do ser. Percebe-se que a violência física e verbal, frequentemente, está presente em relacionamentos marcados pelo
  • 13. 13 ciúme. Por isso, é necessário pensarmos em propostas psicoterapêuticas rápidas e eficazes com o objetivo de diminuir o sofrimento das vítimas do ciúme patológico. No âmbito subjetivo, encontramos o ciúme patológico associado à baixa autoestima, ao orgulho, à não superação da estrutura edipiana, à fragilidade egóica e a complexos parentais patológicos. As propostas psicoterapêuticas podem ser conduzidas no sentido de rever crenças limitantes e criar outras, mais saudáveis, elaborando feridas psíquicas. É necessário melhorar a autoestima da pessoa que sofre de ciúme patológico, rever sua estrutura familiar, seu relacionamento com figuras parentais e a visão que tem de si mesma, buscando fortalecer seus pontos fracos e valorizar seus pontos forte. Referências ADLER, A. Traços agressivos de caráter. In: ADLER, A. A ciência da natureza humana Tradução G. Rangel; A. Teixeira. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1967, p. 174- 205, 1967. ARAUJO, C. A. Pais que educam: uma aventura inesquecível. São Paulo: Gente, 2005. ASUÁ, J. Psicanálise Criminal. Buenos Aires: Depalma, 1990. Laboratório de Saúde Mental e Psicologia Clínica Social Departamento de Psicologia Clínica - IPUSP Anais da VI Jornada APOIAR: SAÚDE MENTAL E VIOLÊNCIA: CONTRIBUIÇÕES NO CAMPO DA PSICOLOGIA CLÍNICA SOCIAL São Paulo, 14 de novembro de 2008 Página | 180 BALLONE, G. J. Ciúme Patológico. Disponível em: <http://sites.uol.com.br/gballone/voce/ciume.html Acesso em: 15 de julho, 2004 BLEICHMAR, H. O Narcisismo: estudo sobre a emancipação e a gramática inconsciente. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987. BRINGLE, R. G. Romantic jealousy. Social Perspectives on Emotion, v. 3, p. 225-251, 1995. CAROTENUDO, A. Amar Trair: quase uma apologia da traição. São Paulo: Paulus, 2004.
  • 14. 14 CAVALCANTE, A. M. O ciúme patológico. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997. CENTEVILLE, V.; ALMEIDA, T. Ciúme romântico e sua relação com a violência. Psicologia Revista, v. 16. (no prelo) CLANTON, G. Frontiers of jealousy research. In: CLANTON, G.; SMITH, L. G. (Eds.). Jealousy. Lanhan, New York, Oxford: University Press of America, 1998. p. 241-247. DE GREEF, É. Amour et crimes d’ amour. Bruxelles: C. Dessert, 1942/1973. HINTZ, H. C. O Ciúme no Processo Amoroso. Pensando Famílias, v. 5, n.5, p. 45-55. 2003. KAST, R. Pathological jealousy defined. British Journal of Psychiatry, v. 159, n.590, 1991. KINGHAM, M.; GORDON, H. Aspects of morbid jealousy. Advances in Psychiatric Treatment, v. 10, p. 207-215. 2004. LEONG, G. B. et al. The dangerousness of persons with the Othello Syndrome. Journal of Forensic Sciences, v.39, p.1445-1454. 1994. ROSSET, S. M. O casal nosso de cada dia. Curitiba: Editora Sol, 2004. SANTOS, E. F. Ciúme - O medo da perda. São Paulo: Ática, 1996. SOARES, B. M. Mulheres Invisíveis: Violência conjugal e as novas políticas e segurança. São Paulo: Record/Civilização Brasileira, 1999. TODD, J.; DEWHURST, K. The Othello Syndrome: a study in the psychopathology of sexual jealousy. Journal of Nervous and Mental Disorder, v.122, p. 367-374, 1995.