puerto seguro
Cadernos
do Património
2
raia es-
ca-
ri-
go.
2 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
A história da colecção Cadernos do Património, a dos Encontros Transfron-
teiriços e a da Associação RIBACVDANA são histórias entrelaçadas.
Este Caderno do Património n.º 2 é assim o resultado do 2.º Encontro, or-
ganizado pela RIBACVDANA em Setembro de 2021, em Escarigo, pequena
aldeia raiana no Concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, e, do outro lado
da ribeira de Tourões e do rio Águeda, em Puerto Seguro. Almeja ser, antes
de mais, a consolidação deste projecto editorial da RIBACVDANA, que terá
periodicidade anual.
Acreditamos que a colecção Cadernos do Património pode contribuir, mesmo
se modestamente, para consolidar uma ideia de futuro para a raia, que contra-
rie o contínuo processo de debandada e de desertificação. Queremos fazê-lo
atravésdadiscussãoedapartilhadepontosdevistacomoshabitantesecom
agentes da cultura local, sempre com a cumplicidade de estudiosos cativos de
uma peregrinação na busca das raízes históricas e culturais das populações. É
esseopapelqueosEncontrosTransfronteiriçosdevemdesempenhar.
Cadernos do Património 2
– editorial
António Sá Gué
PELA DIRECÇÃO DA RIBACVDANA.
raia
4 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
As raízes que procuramos materializam-se num subconsciente colectivo,
na paisagem agreste que nos cativa, na arquitectura civil e religiosa, nas
crenças e nas lendas e em todo o património imaterial, em marcas civiliza-
cionais deixadas ao longo do tempo por outras formas de estar, saber e de
ver o outro. Estão alojadas, essencialmente, na memória das pessoas.
E, se o território raiano é uma região sem monumentos grandiosos, como
acontece perto dos centros de poder, sabemos no entanto que podemos
por lá descobrir património material e não-material de grande valor.
Abre-se, portanto, um vasto campo de acção e de estudo, que nos permite
acreditar que, no tempo em que as fronteiras se esbatem (se ainda se es-
batem?), é essencial registar e estudar esta estreita faixa de terra, que de-
signamos de raia, sempre tão esquecida e, julgamos, ainda mais ignorada.
É um território marcado por memórias de muitas e cruentas batalhas, por-
que era território cobiçado e disputado, como porta de entrada para con-
quistas maiores. Foi, por isso, local de construção de postos de atalaia e de
fortalezas militares, que materializaram primeiro a conquista e depois a de-
fesa de cada reino dos reinos vizinhos.
Foianossacrençanaimportânciadeconhecermosanossahistóriaquenos
levou à “descoberta” do Castelo de Monforte, que foi, em grande medida, o
marco genesíaco da nossa Associação, e que ainda justifica a vontade de
continuar a estudá-lo e a dá-lo a conhecer, pois, realmente, muito pouco
ainda se sabe sobre ele.
E, pensamos que faz sentido que este Caderno do Património n.º 2 regresse
ao tema Monforte e publique duas das comunicações apresentadas numa
jornada de reflexão sobre a importância efetiva das ruínas do Castelo de
Monforte 1
, que realizámos em 18 de Junho de 2022, com a parceria da Câ-
maraMunicipaldeFigueiradeCasteloRodrigo.ProcuramosnessasJornadas
Europeias de Arqueologia relembrar o potencial arqueológico, quer científico
quer turístico, que este enigmático sítio possui, mas sobretudo relembrar a
necessidade de se proceder à reabertura do processo de classificação. para
assimexistirumenquadramentolegalparaasuaproteçãoevalorização,ede
proceder ao levantamento topofráfico do local.
O artigode TiagoRamos“OsSenhoresde Monforte noséculoXIIIComiam Os-
tras?”,construídoapartirdeumadescobertasurpreendente–foramencontra-
dos restos de bivalves marinhos (ostras?) nas escavações em Monforte, o que
vemmaisumavezsublinharaimportânciadecontinuarainvestigação.
O artigo “Monforte, um Meandro do Côa nos Mapas de Fronteira”, dos geó-
grafos João Garcia e Luís Moreira, conta-nos a história do castelo e da re-
gião de Riba Côa, usando como fio de rumo os mapas da região, desde o
seculo XVI. Não chegaram até nós mapas mais antigos
Mas a Raia, como defendemos, é muito mais do que um espaço geográfico,
estrategicamente relevante para os dois estados que divide. E é mais do
que património edificado. É um espaço social, económico, espiritual, que o
artigo“OsSítiosdeSignificânciaCulturalemEscarigo”nosrevelacomtanta
acuidade, ao tentar resgatar da noite dos tempos o imaginário colectivo e
memorialístico de um povo.
1.
Os artigos de Ignacio Benito e de João
Garcia & Luís Moreira.
6 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
No ensaio de Carlos Caetano “Uma Pintura Quinhentista a Fresco no Fron-
tal do Antigo Altar-mor da Igreja de Escarigo “, o historiador de arte mos-
tra-nos a relevância da arquitectura da igreja de Escarigo e a importância
artísticadofrescoconservado,descobertonasobrasderestauro,pordetrás
do novo altar-mor.
E o que era a raia antes de o ser? Quem ali viveu, que crenças tinha, quem
eramessesnossosantepassados?Partedarespostaencontramo-latalvez
no artigo “El Patrimonio Arqueológico del Valle del Águeda como Recurso
Turístico” do arqueólogo Ignacio Benito.
Captar o imaginário colectivo é um desígnio exigente, a que o ensaio foto-
gráfico, “Fotografar a Raia”, e os dois textos que o acompanham, de Renato
RoqueeJorgeVelhote,tentamoferecerumsegundoolhar,através dosentir
estético das múltiplas visões da Raia de um grupo de fotógrafos que parti-
cipou no Encontro.
O Caderno de Património n.º 2 é assim, por um lado, um testemunho do En-
contro Transfronteiriço que dinamizámos em 2021, em Escarigo e Puerto
Seguro, e, por outro lado, pretende ser um contributo para uma reflexão so-
bre o território de Riba Côa, que se estende à volta de Monforte.
Em intervenções arqueológicas, realizadas em solos derivados de rochas
graníticas, os materiais mais abundantemente recolhidos são sobretudo
fragmentos de peças cerâmicas ou materiais pétreos. Materiais orgânicos,
como madeira, sementes, ossos, espinhas ou molúsculos raramente se
conservam, ou necessitam de condições excepcionais para chegarem em
bom estado de preservação. Tal facto deve-se à composição dos solos gra-
níticos, que possuem um alto nível de acidez, degradando rapidamente os
materiais orgânicos.
No entanto, nos raros casos em que se formam contextos arqueológicos
pouco comuns, como por exemplo ter ocorrido um incêndio que crie um
estrato com elevada presença de matéria orgânica carbonizada, ficam pre-
servados interessantes vestígios da vida quotidiana do passado. Nomea-
damente restos de alimentos consumidos nesse período.
os Senhores de Monforte
no século XIII
Comiam Ostras?
Tiago Ramos
ARQUEÓLOGO
A enigmática presença de bivalves marinhos
no Castelo da Sr.ª de Monforte (Bizarril-Figueira de Castelo Rodrigo)
8 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Como constatámos, na intervenção arqueológica realizada no Castelo da Srª
de Monforte em 2019, cujos dados foram publicados na dissertação de dou-
toramento (Ramos, 2020), este fenómeno incomum ocorreu em Monforte.
Um incêndio na torre de menagem possibilitou a formação de um contexto
que, entre outros materiais orgânicos e não-orgânicos, continha a presença
derestos,queidentificámos como pertencendo a várias espécies de bivalves
marinhos, e entre eles alguns que pareciam poder ser conchas de ostras.
A identificação segura das espécies em presença exigiria uma investigação
mais aprofundada.
Este achado, para além de raro e exótico para a região, é extremamente
enigmático. Mais que respostas, levanta-nos um conjunto de interroga-
ções: Quando se comeram? Quem os comia? Que espécies biológicas se
reconhecem? Como eram confecionados? De onde vinham? Como eram
transportados para garantir a sua preservação na longa viagem do mar até
ao Côa? Haverá mais por descobrir?
Encontramo-nos ainda num estado inicial da investigação para darmos
respostas concretas. A hipótese que formulamos anteriormente (Ramos,
2020) e que podemos sintetizar é a seguinte: Em Monforte, entre a segun-
da metade do século XII e os inícios do século XIII, vivia um conjunto de
indivíduos pertencentes a uma elite guerreira, que possuíam estatuto e ca-
pital financeiro suficientemente elevado para consumir bivalves marinhos,
que chegariam até aqui através da importante via colimbriana, que ligava
Coimbra a Salamanca. Estaremos assim perante um importante sítio, mes-
mo se de cariz regional, que aparentemente se encontrava perfeitamente
inserido numa rede comercial peninsular de larga escala.
Mas todas as hipóteses que adiantámos têm de ser comprovadas ou, even-
tualmente, contrariadas, dando lugar a novas propostas de explicação, por
meio de estudo e de avaliação, recorrendo a métodos científicos. Só assim
poderemos saber mais sobre aquela época e como viviam as gentes que
habitavam no castelo e no pequeno povoado à sua volta. Não nos cansa-
mos de repetir que estamos ainda num estado inicial da investigação sobre
o Castelo de Monforte. É, pois, imperativo um estudo mais aprofundado so-
bre o local.
E, para realizar esse estudo, é urgente arrancar com duas tarefas relativa-
mente simples, tão brevemente quanto possível:
a)umalimpezadomatoqueatualmentecobreetornaquaseinvisívelosítio
arqueológico.
b) um levantamento topográfico das estruturas que se avistam nos dois
cabeços e nas suas encostas, tarefa difícil de empreender sem o envolvi-
mento efetivo do poder autárquico.
Estes dois requisitos serão antes de mais fundamentais para reabrir o pro-
cessodeclassificaçãodosítio.Eserãoimprescindíveisparaacontinuaçãoda
investigação arqueológica, que possa criar condições concretas para a valori-
zação e para fruição deste património emblemático, quer pelas comunidades
locais, quer por visitantes nacionais e estrangeiros interessados na riqueza
culturalehistóricadolugar.OCastelodeMonforteeasuaenvolventepoderá
assim constituir uma mais-valia importante para a região, sobretudo se as-
sociado a outros sítios históricos e culturais do Riba Côa.
Resto de bivalve marinho (ostra?),
encontrado nas escavações
na Torre de Menagem do Castelo de Monforte
em 2019
– Fotografia do Autor
10 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
MONFORTE,
UM MEANDRO DO CôA
NOS MAPAS DE FRONTEIRA
João Carlos Garcia
Luís Miguel Moreira
GEÓGRAFOS
FIGURA 1. Mapa hipsométrico
da bacia do médio Coa.
FIGURA 2. Mapa de declives
da bacia do médio Coa.
Agradecemos à Prof.ª
Laura Machado Soares, do
Departamento de Geografia
da Faculdades de Letras
da Universidade do Porto,
a realização destes dois
mapas que servem de
enquadramento físico-natural
da área de estudo.
Os mapas deste artigo podem
ser acedidos com maior
resolução e a cores:
https://photos.app.goo.glw/
d4enErvUu1v67bo39
Na parte sul da bacia do médio Douro, entre os rios Águeda/Tourões e Côa,
afluentes do grande coletor ibérico, que correm sul-norte, em vales fortemen-
te encaixados, desenvolveu-se um original caso de colonização luso-leonesa,
entre o último quartel do século XII e o início do século XIV (Figuras 1 e 2).
O processo da “Reconquista” cristã e da subsequente reorganização e repo-
voamento do território, por parte do Reino de Leão, conheceu uma impor-
tante etapa, durante os reinados de Fernando II (1157-1188) e de Afonso IX
(1188-1230). Falamos, em particular, da avançada para Oeste, em direção a
um novo corpo político que recentemente se emancipara e tentava estru-
turar - Portugal -, também ele cristão, com o qual era importante negociar
diplomática e militarmente, em especial, as fronteiras.
Além da luta territorial entre os poderes régios, outros poderes e outras ins-
tituições procuravam implantar-se e controlar o mesmo espaço, fossem as
ordens militares, a nobreza, as cidades, procurando alargar os seus termos,
12 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
ou a Igreja, através da restauração das dioceses e da fixação das ordens re-
ligiosas. Na parte norte da futura comarca de Riba Côa encontramos bons
exemplos da atuação de todos estes tipos de intervenientes na reorganiza-
ção do espaço, nos anos 70 do século XII. Apenas alguns breves exemplos.
A Ordem militar de São Julião do Pereiro (futura Ordem de Alcântara), fundada
em 1166, recebeu dez anos depois, os núcleos de Reigada e Granja do Pereiro,
férteis e estratégicos locais, no aplanado interflúvio entre os rios Côa e Seco,
a que se juntarão outros próximos ou em direção ao Douro, como Cinco Vilas,
Vilar Torpim, Ferreira, Colmeal, Almendra e Fonte Seca, com o beneplácito do
Papa Lúcio III, em 1183 (Cintra, 1984, p. LIII). Entre Cinco Vilas e Reigada terá
sidoconstruídoo“MonasteriodePerario”,masafuturacomendadaOrdemde
Alcântara apresentará por sede Vilar Torpim e estender-se-á a São Félix dos
Galegos, confirmando uma ligação suportada por um importante eixo viário,
em direção à Tierra de Ledesma e ao vale do Tormes.
Para nordeste desta rede de povoamento, no interflúvio entre os rios Seco
e Águeda, encontramos o mosteiro de Santa Maria de Aguiar, inicialmente
da regra de São Bento e, posteriormente, da Ordem de Cister, sob a juris-
dição da abadia leonesa de Moreruela. Contudo, tratava-se de uma funda-
ção portuguesa, para a qual Afonso Henriques tinha definido couto, em 1174
(Azevedo, 1962, p. 261). Em princípio, situando-se a leste do Côa, caberia em
exclusividade à soberania leonesa, tanto mais que se encontrava enquadra-
do na diocese de Ciudad Rodrigo, existente desde 1161 (como herdeira da
antiga diocese de Calábria) e renomeada e com termos definidos desde 1175
(Martín Benito, 2002), mas as pretensões portuguesas sobre esse espaço,
que não eram novas, continuavam. O mesmo acontece no campo oposto:
Ciudad Rodrigo e o seu bispo não deixarão de reivindicar privilégios e rendas
sobre Riba Côa, mesmo depois do Tratado de Alcañices (1297) e do estabe-
lecimento da fronteira Portugal - Castela.
EstaorganizaçãoestabelecidanapartenortedafuturacomarcadeRibaCôa
manter-se-á na década seguinte, até à morte de Fernando II, em 1188, e
no início do reinado do seu sucessor. Na primeira metade dos anos de 1190,
Afonso IX, não só confirmou a maioria das doações que o pai fizera neste
território, como acrescentou algumas novas, como a Granja de Tourões, a
SantaMariadeAguiar(Cintra,1984,p.LV).Mas,oreideLeãoestavaatentoà
estratégiapovoadoradotioevizinho,oreiSanchoIdePortugal,querepartia
forais nas faixas fronteiriças de Trás-os-Montes e da Beira.
A ponta da lança apontada a Portugal será Castelo Rodrigo, protegido pela
Serra da Marofa e dominando vastos espaços para Norte, até ao Douro, e
para Sul até ao corredor natural leste - oeste, entre Guarda e Ciudad Rodrigo.
É esse espaço retangular, limitado a Oeste pelo Côa e a Leste pelo Águeda/
Tourões, desanexado do termo de Ciudad Rodrigo, que o fuero concedido por
Afonso IX a Castelo Rodrigo, vai gerir, desde 1209 1
. A esta peça no tabuleiro
leonês corresponde Pinhel, do outro lado da fronteira. Sancho I, concede fo-
ral a Pinhel exatamente na mesma data, 1209 (Ventura, 1989, p. 39). Entre
os dois núcleos rivais que se enfrentam passa o Côa, e sobre o Côa, num
sítio alcandorado, dominando as passagens do rio, constroem os leoneses o
Castelo de Monforte, primeiro atalaia vigilante e estritamente militar, depois
pequeno núcleo de povoamento que crescerá ao longo do século XIII.
A prova da importância dada por Afonso IX à organização desde espaço é a
suapresençaassíduaemCasteloRodrigo,em1209,1210,1215,1217…(Cintra,
1984, p. LIX e Vicente, 1998, p. 296). O que inclui novas doações no espaço
envolvente (Bouça, Cortiçada) e, provavelmente, a construção e reforço da
1
. Ver a importante reconstituição
cartográfica elaborada por Cintra (1984,
p. CXXI), sobre o povoamento de Riba
Coa, no século XIII.
14 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
fortificação de Monforte, tanto mais que entre 1210 e 1212 novos conflitos
bélicos haviam ocorrido entre Leão e Portugal (Martín Benito, 2002, p. 147).
Sóapartirdofinaldadécada,acolonizaçãoemRibaCôaavançaparasul,em
direção ao Sabugal.
A evolução da “Reconquista”, quer do lado leonês e castelhano, quer do lado
português, e as convulsões internas nos estados cristãos ibéricos deixarão,
aparentemente, solidificar a organização destes espaços, separados politica-
mente pelo Côa. Mas, o ataque militar a Riba Côa, por parte de Portugal, que a
crise dinástica castelhana possibilita, no final do século XIII, é a prova que as
faixasfronteiriçascontinuavampoucocristalizadaseaserespaçosdeconflito.
A campanha de D. Dinis em território leonês, que terminará com o Tratado
de Alcañices, com base na narrativa de Rui de Pina, merece um comentário
geográfico que pode explicar a incorporação de Ribacôa como um todo2
. O
exército português avança no interior do reino inimigo, provavelmente utili-
zandoascalçadasromanasquecruzavamaregião–aColimbriana(notroço
Guarda - Ciudad Rodrigo) e a Dalmatia (no troço Ciudad Rodrigo - Ledesma)
(Martín Benito, 2002, p. 119). O cronista concretiza que o monarca “entrou
por has Comarquas de Ciudad Rodrigo, e de Ledesma” (Pina, 1729, p. 25) até
Simancas, às portas de Valladolid, ameaçando a regência da rainha Maria de
Molina (no quadro da menoridade de Fernando IV) e participando nas que-
relas internas da sucessão do trono castelhano (Pizarro, 2005, p. 108-115).
Uma boa razão para serem estes os espaços invadidos prende-se com a
ligação entre o monarca português e o senhor de grande parte deles junto à
fronteira, Sancho de Ledesma, neto de Afonso X, como também o era D. Di-
nis. Refere Rui de Pina, que algum tempo antes: “[…] veo ha ElRey D. Diniz ha
IfanteDonaMargarida,molherqueforadoIfanteD.Pedro[filhodeAfonsoX],
e com ella D. Sancho de Ledesma seu filho, e por descontentamentos, que
tinha del Rey D. Fernando pedio ha ElRey D. Diniz por mercee, que ho rece-
besse por vassalo, do que ElRey aprouve.” (Pina, 1729, p. 24). Na sequência
da evolução dos acontecimentos políticos em Castela e no rescaldo da cam-
panha militar de 1296, a reação do monarca português não se fez esperar.
Explica o cronista que: “[…] em se tornando pera seu Regno veyo loguo por
riba de Côa, onde loguo por cerquos, e combates cobrou ha seu poder ho
senhorio de todolos Lugares daquela Comarqua, que aguora sam de Portu-
gal, porque eram de D. Sancho que se fizera seu vassalo […] e por eles se deu
booa satisfaçam em Castella aho dito D. Sancho.” (Pina, 1729, p. 28). Uma
vez mais, as diversas jurisdições sobre um mesmo território, justificam deci-
sões políticas e militares, mas também económicas e sociais, em função de
contextos históricos distintos (Ladero Quesada, 1989, p. 681).
O Tratado de Alcañices (1297) é um momento chave na clarificação do pro-
cesso mas, também o é para a sobrevivência e o futuro do castelo de Mon-
forte de Riba Côa. É no texto do acordo estabelecido entre Dinis de Portugal
e Fernando IV de Castela, que Monforte é pela primeira vez referido, entre as
unidades espaciais que se permutam no extremo nordeste da Beira: “[…] yo
rey don Denys de sus dicho, por [que nos] uos quitades de los castiellos e de
lasvillasdeSabugalydeAlfayatesedeCastielRodrigoedeVillarMayorede
Castiel Bono e de Almeyda e de Castiel Mellor e de Monforte [e de los otros]
lugares de Riba de Côa com sus términos, que yo agora tengo a mi mano […]”
(González Giménez, 1998, p. 23). É toda a faixa fronteiriça da margem direita
do Côa que Leão/Castela perde, é toda a faixa fronteiriça para leste do Côa,
que Portugal ganha: as fortificações militares, as vilas e os lugares, com os
espaços sob o controlo de cada um deles. O desequilíbrio entre a rede de
2
. Sobre as várias interpretações
historiográficas em torno do Tratado
de Alcañices, ver Amaral & Garcia, 1989,
p. 970-977.
16 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
povoamento na parte norte e na parte sul da faixa é ainda evidente. A sul,
apenas são nomeados Sabugal, Alfaiates e Vilar Maior, mas no seu conjunto,
o território tem já uma unidade: “Riba de Côa” é o que fica para além do Côa,
na visão portuguesa, a partir dos seus centros de poder no litoral atlântico.
Na“primitiva”organizaçãomilitar,aleonesa,asfortificaçõesmilitarestinham
sido construídas sobre o Côa, contra Portugal; agora Portugal ocupava-as,
mas ficava sem linha defensiva ao longo dos vales do Águeda e do Tourões,
por onde se estabeleceu o novo limite político, com base no acordo de Al-
cañices. Assim, nem todos os “castelos” recebidos terão a mesma atenção
e manutenção por parte da Coroa portuguesa (Barroca, 1998). Rui de Pina,
na Crónica de D. Dinis, é bastante explicito sobre as razões do abandono de
Monforte. Ao inventariar a obra do monarca na defesa da Comarca da Beira
e de Riba Côa afirma: “[…] fez de novo estes Castellos, há saber, Avoo, que
agoraheedoBispodeCoimbra,hoSabugal,Alfayates,CastelRodriguo,Villar
mayor, Castel boom, Almeyda, Castel melhor, Castel mendo, San Felizes dos
Galegos, que tem agora Castella, e nom fez ho Castello de Monforte de riba
de Côa, que tambeem lhe foy dado por estar em maa despoziçam da teerra,
e sua força pera defençaõ do Regno, nom seer muito necessária, fez mais
Pinhel, e seu Castello […]” 3
. A fortificação estava agora longe e “de costas”
para o novo troçado da fronteira.
Atendendo ao renovado quadro geo-estratégico do nordeste da Beira, so-
bretudo pela alteração do limite político entre os Estados, nem o sítio nem a
posição de Monforte justificavam o investimento em obras de engenharia e
arquitetura militar. Como em outros casos ocorridos ao longo da faixa raiana,
ao abandono da ocupação militar seguiu-se a decadência do pequeno nú-
cleo populacional, que no entretanto se formara e sobre o qual, de qualquer
modo, temos notícias documentais até ao reinado de Pedro I, nos meados
do século XIV (Abreu, p. 2014, 114).
Num documento de D. João I sobre o concelho de Pinhel, datado de 1386,
refere-se “[…] hum logo que se chamão Monforte ho quall dizem que he de-
sabitado há gramde tempo.” (Francisco & Gil, 2016, p. 415). Assim se encon-
traria. A presença do topónimo entre a recorrente lista de lugares de Riba
Côa num documento da chancelaria de D. Manuel I (Abreu, 2014, p. 114) não
atesta a sobrevivência do núcleo populacional, já que as fontes descritivas,
estatísticas e cartográficas do século XVI (e dos séculos seguintes), são
em tudo omissas à existência da povoação. Referimo-nos às descrições
quinhentistas de Portugal e aos róis de topónimos do chamado Códice de
Hamburgo, de 1525, e do Numeramento de 1527-1532, estudados por Su-
zanne Daveau e Júlia Galego. Tentando localizar o castelo de Monforte pro-
curámos a comarca de Riba Côa nas imagens cartográficas do País. Sobre
essa busca faremos um comentário mais detalhado 4
.
A primeira representação gráfica (vistas e plantas) deste território, ainda que
de forma limitada, foi apresentada por Duarte Darmas, no Livro das Forta-
lezas. Em 1509, D. Manuel I enviou um agente “debuxador” percorrer a raia,
registando através do desenho, os castelos que vigiavam e demarcavam a
faixa fronteiriça entre a foz do rio Guadiana, a sul, e a foz do rio Minho, a nor-
te. O levantamento não permitia obter uma “imagem” exata da configuração
dos limites do reino, embora esta estivesse implícita no simbolismo de cada
um dos castelos, enquanto marcos da autoridade central sobre o espaço de
contacto com o Estado vizinho. A fronteira medieval era ainda mal definida,
difusa e permeável. Percorrendo Riba Côa de sul para norte, o autor deixou
registos de Sabugal, Vilar Maior, Castelo Mendo, Castelo Bom, Almeida e
3
. Pina, 1729, p. 94. Sobre as condições
militares das praças fortes havia
notado o autor: “[…] hos quaaes
Lugares nom eram então taõ
afortelezados como ElRey depois hos
fez” (ibid., p. 28).
4
. Com base no levantamento efetuado
por Moreira, 2012.
18 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Castelo Rodrigo, enquanto principais centros organizadores do território.
Sóem1561,comaediçãodoprimeiromapadePortugal,gravadoemVeneza,
na tipografia de Michele Tramezzino (1526-1571), e difundido em Roma, se
representou com algum detalhe, cartograficamente, o conjunto da fronteira
portuguesa (Figura 3).
Neste primeiro mapa de Portugal, orientado com o Oeste no topo 5
, destaca-
-se ao longo da base, uma linha ponteada que enfatiza a mensagem política
veiculada através da figuração geográfica dos fenómenos representados.
A imagem, da autoria de Fernando Álvares Seco (fl. 1559-1561), composta
a partir de um protótipo cujo paradeiro permanece desconhecido, conver-
teu-se em “mapa oficial” do país, divulgando-o internacionalmente a partir
dos prelos de Gerard de Jode (ca. 1511-1591), em 1565 e, sobretudo, dos de
Abraham Ortelius, (1527-1598), ao integrar o seu famoso atlas Theatrum
Orbis Terrarum, em 1570 (Dias, 2009 e Garcia, 2010).
No mapa está identificado “Riba de Côa” num tipo e tamanho de letra dis-
tintos do utlizado para os núcleos de povoamento, muito embora sem apre-
sentar uma clara delimitação territorial. A linha divisória interna que corre
paralela ao Côa, para Oeste, deverá corresponder à divisão diocesana, entre
Braga, Lamego e Guarda. Considerando unicamente as localidades com-
preendidas entre aquele rio e o Águeda, identificam-se 17 topónimos figu-
rados pelo mesmo símbolo: Sabugal, Alfaites, Aldea da Ponte, Vilar maior,
Nave dabeira, Malhdda Surda, Castelmedo, Castel lobon, Val delamula, S.
Pedro, Almeida, Vilar Torpim, Almofada, Escarigo, Touroes, Castel rodrigo e
Almedra. Não há qualquer alusão a Monforte.
A rede hidrográfica, formada pelos rios Arnes, Côa, Palhais, Touroes e Daguiar,
fornece o fundo natural de referência. Sobre estes existem 4 pontes, que per-
mitem a sua travessia e articulam os principais eixos viários da região: uma
sobreorioCôaemSabugal;outranumafluentedoCôanãoidentificado(talvez
o rio Cesarão), nas proximidades de Vilar Maior; uma nova ponte sobre o rio
Côa(apontevelha),nasproximidadesdeVilardeTorpime,porfim,umaponte
sobre a ribeira de Aguiar, provavelmente a ponte romana de Escalhão.
O mapa de Álvares Seco e suas variantes, foram substituídos por uma nova
imagem de Portugal, elaborada pelo cartógrafo português ao serviço de Es-
panha, Pedro Teixeira Albernaz (ca. 1595-1662), intitulada Descripción del
Reyno de Portugal y de los Reynos de Castilla, editado em Madrid, em 1662,
em pleno contexto da Guerra da Restauração (1640-1668) (Figura 4).
Figura 3 – [Mapa de Portugal],
Fernando Álvares Seco. Roma, 1561.
5
. A visão do país era estabelecida a
partir do centro da Península Ibérica
ou de outros países europeus. A
‘obrigatoriedade’ do norte no topo
da imagem data apenas da segunda
metade do século XIX. Ver Fig. 7.
20 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
O mapa, também orientado para Oeste, assinala o território de “Riba de Côa”,
muito embora sem qualquer delimitação, nele se assinalando 23 topóni-
mos: Osabugal, Rebolosa, Guinola, Alfaiates, Aldea da Ponte, Lanava, Navas
da Beira, Côa, Vilamaior, Castelmendo, Vila Fermo, Valde lamula, Castelo-
bom, S. Pedro, Almeida, Malpartida, Escarigo, Almofala, Vilar Torpim, Mata
de lobos, Escalhao, Castel Ro. e Almendro. Todos os topónimos referem-se
a núcleos de povoamento, figurados por um símbolo constituído por um
pequeno conjunto de edifícios, destacando-se Almeida, que já apresenta
uma muralha moderna, reveladora do seu destacado papel militar enquanto
“chave do Reino”. Monforte não é referido.
Os únicos 3 rios identificados são o Côa, o Tourões e o Águeda, mas sobre
eles não foram assinaladas quaisquer pontes e o relevo está representado
porpequenosmontesdesenhadosemperspetiva,queseadensamnaparte
Suldacomarca,correspondentesàsserrasdaMalcataedasMesas,quenão
são identificadas.
Este maior conhecimento do território, pelo menos dos núcleos de povoa-
mento, deve ter resultado da incorporação de informação diretamente re-
colhida no terreno pelos militares que participaram nas campanhas bélicas
que aqui foram ocorrendo desde 1641, ainda que a fronteira da Beira não te-
nha constituído o principal teatro das operações militares da Guerra da Res-
tauração 6
. Esta imagem de Portugal permanecerá por mais de um século,
como uma das mais válidas 7
.
A partir da segunda metade do século XVIII a cartografia impressa europeia
conheceu uma renovação, à medida que os editores londrinos aumentavam
e diversificavam a sua produção, na tentativa de superar o domínio dos edi-
tores parisienses. Simultaneamente, sob a direção de Tomás López, surgiu
uma casa editora em Madrid, cuja produção de mapas não só permitiu abas-
teceromercadoibérico,comocontribuiuparaanimarocompetitivomercado
europeu. Nesta sequência, foram difundidos dois novos mapas do conjunto
de Portugal, cujo impacto se estendeu até ao início da segunda metade do
século XIX, aquando do advento da moderna cartografia científica.
O primeiro mapa foi editado em 1762, intitula-se Mappa ou Carta Geogra-
phica dos Reinos de Portugal e Algarve, e foi produzido pelo geógrafo real
britânico, Thomas Jefferys (ca.1710-1771). A obra foi preparada numa edição
bilingue, em português e inglês, e impressa em várias folhas que, no seu
conjunto, apresentam uma dimensão aproximada de 165 x 88 cm (Figura 5).
Figura 4 - Descripcion del Reyno de
Portugal…, Pedro Teixeira Albernaz.
Madrid, 1662
6
. O próprio autor terá estado no terreno,
ao longo da “raia” portuguesa. Cf. Pereda
& Marías, 2002, p. 17.
7
. Sobre este mapa, comentou o
Engenheiro-mor do Reino décadas mais
tarde: “[…] entre as cartas gerais, que
há no Reino, a que passa por melhor
e mais exacta, é a de Pedro Teixeira
que se estampou em Madrid no ano
de 1662, a qual (excepto as costas
marítimas que se encontram menos mal
arrimadas) é tão defeituosa que para o
intento presente é o mesmo que se não
houvera” (Fortes, 1722, p.[10]).
22 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Foi editada durante a Guerra dos Sete Anos (1755-1762), o que no contexto
ibérico,correspondeuàGuerraFantástica(1762),momentoemqueaFrança
e a Espanha declararam guerra a Portugal, tendo concretizado uma invasão
que se iniciou por Trás-os-Montes, passando para as províncias da Beira e
do Alentejo, sem nunca ter conseguido ameaçar a capital. Assim, o território
ribacudano conheceu, novamente, ações militares diretas.
Os 32 topónimos registados por Jefferys, no território de Ribacôa, resultam,
por um lado, da maior escala do mapa (ca. 1:450 000), o que permite repre-
sentar uma maior quantidade de informação e, por outro lado, do maior nú-
mero de fontes consultadas. Os núcleos populacionais identificados são os
seguintes: Sobugal, Rebolosa, Forcalhos, Alfayates, Fenaya, Naoes da Beira,
Lagiosa, Villar Mayor, Lanava, Freyneda, Castel Bom, V. Fermo, Rio Seco, S.
Pedro, Naves, Val de la Mula, Vienca, Almeida, Coelha, Mendo, Cinque Villas,
Malpartida, Vilar Torpiu, Reygada, Escarigo, Almofalo, Mata de Lobos, Castel
Rodrigo, Escalão, Algedres, Almendra e Castel Melhor. Destes, três foram fi-
gurados com um símbolo que corresponde a local fortificado, a saber: Alfaia-
tes, Almeida e Castelo Rodrigo. Não existe referência a Monforte.
Apenasencontramostrêsitinerários:anorte,umcaminhovindodeEspanha,
por Freixeneda, ligando as povoações de Escalhão, Castelo Melhor e Vila
Nova de Foz Côa; um outro, partindo de Castelo Rodrigo em direção a São
João da Pesqueira, bifurca em Almendra, ligando-se ao primeiro; o terceiro,
também faz ligação a Espanha, a partir de San Felices de los Gallegos, até
Almeida e Pinhel.
Oterritórioéatravessadoporvárioscursosdeágua,masapenasseregistou
o nome de três: o rio Côa, a ribeira de Aguiar e o rio Águeda, devidamente
separados por cordilheiras montanhosas que definem as respetivas bacias
hidrográficas.
O autor acrescentou o desenho de uma espada, junto de Castelo Rodrigo,
reportando-se à batalha que ali ocorreu – Mata de Lobos – em julho de
1664, a chamada batalha da Salgadela, durante a Guerra da Restauração.
A evocação do facto, associada a uma das vitórias militares decisivas para
assegurar a independência de Portugal e a afirmação da nova dinastia de
Bragança, contribuía para exaltar, um século depois, os sentimentos de
identidade nacional, frente ao tradicional inimigo espanhol.
O segundo mapa, intitulado Mapa General del Reyno de Portugal, é da au-
toria do geógrafo espanhol Tomás López de Vargas Machuca (1730-1802) e
foi editado em Madrid, em 1778 (Figura 6).
Figura 5 - Mappa ou Carta Geographica
dos Reinos de Portugal e Algarve, Thomas
Jefferys. Londres, 1762
24 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Trata-se de um documento de grandes dimensões e, à semelhança do an-
terior, também foi impresso em várias folhas. Para a sua composição, López
teve acesso a um conjunto de fontes, cartográficas e bibliográficas, tanto
portuguesas como espanholas. Entre estas, destaca-se um pequeno ál-
bum das províncias de Portugal, que o autor publicou no quadro da referida
Guerra Fantástica, em 1762, bem como um conjunto de mapas provinciais
de Espanha, que incluíam dados obtidos através de inquéritos enviados a
informadores locais.
Como resultado final, identifica-se um maior número de topónimos (44) em
Ribacôa: Rebolosa, Sabugal, Fenaya, Pueñas, Forcalhos, Alfayates, Aldea
del Obispo, Liciosa ó Lagiosa, Naoes da Beira, Nave, Sacaparte, Villar mayor,
La Nava, Aldea Ponte, Ponte de Sequeiros, Talaquela, Batoquina, Freyneda,
Nava de Avel, Posobello, Castellobom, Villafermosa, Rio Seco, S. Pedro, Val-
delamula, Laduncia, Almeida, Vienca, Valdecoelha, Castellomendo, Aldea
de Ribas, Cincovillas, Bervenosa, Malpartida, Escarigo, Almofalo, Reygada,
Mata de Lobos, Villartorpim, Castel Rodrigo, Peñadapia, Algodres, Almendra
e Castello Melhor. Entre estes, apenas Sabugal, Alfaiates, Almeida e Castelo
Rodrigo foram representados com um símbolo de “Praça de Guerra”, embo-
ra se indique a existência de fortes em Vilar Maior e Castelo Bom. Monforte
não consta no inventário.
Também foram desenhados um maior número de itinerários: a Norte, man-
têm-se as ligações Fregeneda - Castelo Melhor - Vila Nova de Foz Côa e
Castelo Rodrigo – Almendra - Vila Nova de Foz Côa; foi indicada uma ligação
direta entre Castelo Rodrigo e Pinhel, mas é Almeida o nó viário de Ribacôa.
Para aqui convergem dois eixos provenientes da fronteira, um desde Vale
de Mula e outro nas suas proximidades, bifurcando em direção a Pinhel e à
Guarda. A Sul, indicam-se três itinerários que ligam Vilar Maior, Alfaiates e
Sabugal à Guarda.
Identificam-se o rio Côa, a ribeira de Aguiar e o rio Turon e apesar da pre-
sença de vários pequenos montes que representam a orografia, apenas foi
identificada a serra de “Meras” (Mesas), no limite Sul de Ribacôa.
O mapa de Portugal figura os limites da divisão administrativa/judicial,
identificando-se as seis Províncias, separadas por uma linha tracejada fina
e dentro destas, a divisão dos Corregimentos e Ouvidorias, delimitados por
Figura 6 - Mapa General del Reyno de
Portugal, Tomás López. Madrid,1778
26 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
uma linha ponteada. Como complemento, o cartógrafo indicou as localida-
des sedes de ouvidorias, provedorias, coutos ou concelhos, com o símbo-
lo correspondente, o que constitui uma novidade nos mapas de Portugal,
mesmo com escala semelhante. Assim, quase todo o território ribacudano
enquadra-se no “Corregimiento de Pinhel” (Comarca de Pinhel) e, interna-
mente, distinguem-se as categorias administrativas e honoríficas de várias
localidades, registando-se que Castelo Rodrigo era um Marquesado, en-
quanto que Almeida, Vilar Maior e Sabugal eram condados.
Os mapas de Jefferys e de Tomás López fixaram a imagem de Portugal por
mais um século, pelo que, no decorrer das invasões francesas (1807-1812),
os vários exércitos presentes no país utilizaram-nos (e às suas variantes)
para planearem as principais ações militares em território nacional. A tí-
tulo de exemplo, podemos referir a 2ª edição do mapa de Jefferys, datada
de 1790, sob responsabilidade técnica e comercial de William Faden (1749-
1836).Oeditoresclarecequeasmaisimportantesalteraçõeseatualizações,
sobretudo na Estremadura e no Alentejo, decorreram das informações colhi-
das no terreno pelo Tenente-General Charles Rainsford (1728-1809), oficial
dos Coldstream Guards, ao serviço do rei de Portugal na Guerra Fantástica.
Embora mantendo o título da 1ª edição, foram feitas algumas alterações
pontuais à toponímia e à rede viária de Ribacôa. Assim, foram acrescen-
tados e/ou modificados os seguintes topónimos: Nave de Avel, Posobello
(em substituição de “Freyneda”), Valfermoso (substituindo “V. Fermo”), Las
Naves, Laduncia, Castel Mendo (em vez de “Mendo”), Bervenosa, Villartor-
pim (repete) e Penada Pia. Também a rede viária foi atualizada, seguindo de
perto o mapa de López: um itinerário liga diretamente Alfaiates à Guarda; a
estrada vinda de Ciudad Rodrigo, via Vale de Mula, subdivide-se a partir de
Almeida em três, em direção a Pinhel, a Celorico e à Guarda; figura-se um
itinerário de Pinhel a Castelo Rodrigo, mantendo-se os restantes iguais ao
da primeira edição.
Nos últimos anos de Setecentos e na iminência de uma nova invasão, o Go-
verno português procurou desenvolver os necessários preparativos para a
defesa do Reino, que incluíram, como já era hábito, a contratação dos servi-
ços de vários militares estrangeiros. Assim, coube a Christian August, Prínci-
pe de Waldeck e Pyrmont, a tarefa de realizar o reconhecimento da fronteira,
entre o rio Douro e a foz do Guadiana, inspecionando os regimentos que aí
se aquartelavam. Acompanhava o Marechal alemão, como seu Ajudante de
Campo, Bernhard Wilhelm Wiederhold, Barão de Wiederhold (1757-1810),
que registou as observações que iam sendo feitas no terreno, comparan-
do-as com os mapas de Portugal de que dispunham, sendo um destes o de
Jefferys, na edição de Faden.
O Brigadeiro Wiederhold, também ele um experimentado cartógrafo, proce-
deu a inúmeras alterações, tendo adicionado e corrigido vários topónimos
e estradas que os mapas ignoravam, tarefa apenas possível graças a um
apurado trabalho de campo. Só na área de Castelo Rodrigo foram introdu-
zidos, de forma manuscrita, os seguintes topónimos: Val d’Afonsinho, Villar
d’Amargo, Figueira de Castelo Rodrigo, Freixeda, Penha d’Águia, Torrão, Ser-
ra da Marofa, Colmeal, Luzellos, Bizarril, Nave Redonda e Vermiosa (em vez
de Bervenosa). Ao longo do rio Côa, estão assinalados os locais de travessia,
nomeadamente o “vau da Barroca”, a Sul da Marofa, e o “vau de Vide”, o que
permite associar este maior conhecimento da micro-toponímia aos itine-
rários percorridos pelo autor, tornando o mapa corrigido num documento
precioso (Guedes, 1992).
28 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
O outro exemplo é a Carta militar das principais estradas de Portugal, edita-
da em 1808. O seu autor, Lourenço Homem da Cunha de Eça (1767-1833),
era oficial do Real Corpo de Engenheiros e lente na Real Academia de For-
tificação, Artilharia e Desenho, em Lisboa. A história deste mapa relacio-
na-se com os principais eventos militares que marcaram o País durante a
primeira década do século XIX: depois de uma primeira versão manuscrita,
presumivelmenteelaboradanocontextodaGuerradasLaranjas(1801),uma
segunda versão, impressa e bilingue (português e francês), foi editada em
1808, durante a ocupação francesa, seguindo-se uma 2ª ed. impressa, em
português (Moreira, 2012, p.363-372).
Fazendo justiça ao título, o autor destacou a rede viária do mapa de Portugal
de Tomás López (1778), mostrando as principais vias terrestres, indicando
as distâncias em léguas e o tempo de percurso, em horas de marcha a pé,
entreasdiferenteslocalidades.Destemodo,afiguraçãodaredehidrográfica
e do relevo foi muito simplificada, mostrando-se até, incompleta.
Em Ribacôa, e ainda que o rio Côa não esteja figurado de forma completa,
foram indicadas apenas as localidades de Sabugal, Rapoula de Côa, Nave,
Alfaiates, Vilar Maior, Castello bom, Val de lamula, Almeida, Villartorpim, Cas-
tello Rodrigo, Almendra e Castello Melhor. E existem algumas localidades
assinaladas que não foram identificadas.
Um exemplar deste mapa esteve na posse do então Major George Julius Hart-
mann (1774-1856), do Regimento de Artilharia da King’s German Legion, ao
serviço do Exército Britânico a operar na Península Ibérica, sob o comando de
Lord Wellington. Hartmann era comandante de Artilharia, tendo desempe-
nhadoessafunçãodurantetodaaGuerraPeninsularerecebeuaincumbência
de percorrer partes da fronteira portuguesa, fazendo levantamentos do terre-
no e das condições de defesa (Moreira, 2012, p. 371-372). Reunindo estes da-
dos, Hartmann tratou de atualizar e reformular o mapa de Lourenço Homem,
nomeadamente, acrescentando topónimos, corrigindo outros, relocalizando
povoações,refazendoitineráriosterrestreseclassificando-os,ecompletando
informações sobre as montanhas e os rios (Figura 7).
No território de Ribacôa, estas alterações são mais visíveis entre Sabugal e
Almeida, a área onde ocorreu maior atividade militar neste período e aquela
que o oficial de artilharia melhor conhecia, tal como deixou registado no seu
Sketch of the country between the Côa & Sierra de Gata.
O contributo dado por estes oficiais estrangeiros permitiu obter informa-
ções mais precisas sobre a geografia dos espaços raianos periféricos, habi-
tualmente mal representados nos mapas gerais do País. Em 1829, fazendo
uso desta possibilidade, o Arquivo Militar, em Lisboa, elaborou a Carta Topo-
FIGURA 7 — Carta Militar das Principaes
Estradas de Portugal, Lourenço Homem da
Cunha de Eça. Lisboa, post. 1808 (Library
of Congress, pertencente a Georg Julius
Hartmann).
30 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
gráfica da Beira Alta e Baixa, à época, a melhor imagem regional deste ter-
ritório, registando quase 50 topónimos na área entre Sabugal e Castelo Ro-
drigo: Fojos, V. de Espinho, Quadrasaes, Torre, Azendo, Sabugal, Rendo, Vila
Boa, Souto, Alfaiates, Alde. Velha, Alde. do Bispo, Lagioza, Forcalhos, Alde.
da Ponte, Rebolosa, Ruivos, Rapoula, Escabralhado, Bismula, V. das Egoas,
Carvalhal, V. Maior, Arifana, Malhada, Nave de Aver, Q. Poço Velho, Freine-
da, V. Formosa, Castº. Bom, Rio Seco, Asnaves, Junça, Almeida, V. de la mula,
V. de Coelha, Malpartida, Cinco Villas, Reygada, Vilar Torpim, Bizarril, Nave
Redonda, Vermiosa, Escarigo, Almofala, Aguiar, Castelo Rodrigo e Colmeal.
Como em todos os casos anteriormente analisados, o topónimo Monforte
não está presente.
Como esta cartografia militar era manuscrita e, por essa razão, pouco divul-
gada e conhecida, os mapas impressos e com circulação comercial não con-
seguiam incorporar a informação atualizada. Continuavam-se a consumir
imagens antigas e de produção estrangeira.
Em meados do século XIX, após o fim da Guerra Peninsular, da Revolução
Liberal e da Guerra Civil, quando a situação em Portugal encontrou alguma
estabilidade, os governos regeneradores consideraram que, finalmente, es-
tavam reunidas as condições para investir no desenvolvimento socioeco-
nómico do País. Para tal, era necessário implementar uma política de obras
públicas, assente na construção de novas infraestruturas de comunicação
(estradas, caminhos de ferro, pontes, portos), capaz de impulsionar o desen-
volvimento das principais atividades económicas e de reforçar o mercado
interno. No entanto, as autoridades rapidamente compreenderam que os
mapas existentes não eram compatíveis com as suas necessidades, por-
quanto fixavam uma imagem distorcida e incompleta do território.
Assim, entre 1860 e 1865, foi preparado o primeiro mapa científico do país, a
Carta Geographica de Portugal, cujos trabalho foram dirigidos por Filipe Folque
(1800-1874), no quadro da Direção Geral dos Trabalhos Geodésicos, a nova au-
toridade cartográfica nacional. O mapa, composto na escala 1:500 000, forne-
ceu a base para inúmera cartografia temática, mas serviu também de su-
porte a tomadas de decisão por parte da administração pública.
O território de Ribacôa foi, finalmente, fixado em moldes modernos e cien-
tíficos, refletindo a nova hierarquia administrativa decorrente das reformas
territoriais impostas pelos sucessivos governos liberais, com exceção de
algumas localidades raianas, cuja jurisdição não estava ainda definida, dado
que o processo de levantamento e posterior demarcação da linha de fron-
teira só seriam estabelecidos e reconhecidos em 1864, com a assinatura do
“Tratado de Limites” e, em 1906, com a aprovação da Acta geral de delimita-
ção entre Portugal e Espanha.
No que respeita, concretamente, ao sítio de Monforte, ele só foi figurado
com exatidão num mapa impresso, em 1890. Falamos da folha 12, da Carta
Corográfica de Portugal, na escala de 1/100.000, publicada em Lisboa, pela
Direcção-Geral dos Trabalhos Geodésicos do Reino, onde se localiza e iden-
tifica a ermida de Nossa Senhora de Monforte. Aí encontramos o relevo, a
rede hidrográfica, o povoamento (e a toponímia) e a rede viária, entre outros
fenómenos, mas não qualquer referência ao Castelo de Monforte. A densi-
dade das curvas de nível e os numerosos pontos cotados permitem uma
boa visualização, por um lado, do encaixe do Côa e dos seus afluentes e, por
outro, das áreas aplanadas dos interflúvios, onde se reparte o povoamento
concentrado e se desenvolve a rede de estradas e caminhos.
32 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Esta primeira edição da Carta Corográfica de Portugal tem a particular vir-
tude de figurar a rede viária anterior à construção das estradas asfaltadas
e à “revolução” dos transportes no território nacional. Muitas das ligações
terrestres entre núcleos populacionais presentes das folhas do mapa teste-
munham heranças de séculos.
Assim, para montante e para jusante do meandro encaixado de Monforte, não
são muitas as passagens do Côa, face à sinuosidade longitudinal do leito e ao
forte declive das vertentes. Para montante, a chamada Ponte Velha (que não
está identificada) ligando Pinhel a Vilar Torpim; mais longe, depois de um dos
troços mais repulsivos e isolados do vale, só a ponte de Almeida, na estrada en-
tre esta vila e a Guarda; para jusante, a vizinha Ponte da Chinchela, junto à con-
fluência da Ribeira do Avelal. Será esse ponto de passagem do leito do Côa, a
herança de um caminho de transumância de gado entre Vilar Torpim, Bizarril e
Pinhel (ou mais longe, em direção a Trancoso), que a configuração arruada de
Bizarril testemunha e a Canada da Moreira, entre esta aldeia e o Lagar do Ba-
rão, parece registar ? Mas, o sítio alcandorado do antigo castelo de Monforte é
apenas um dos ermos pontos cotados (478 m) sobre o encaixado vale do Côa,
numaáreaquearedeviáriaevita,pelasdificuldadesqueatopografiaimpõe.
A primeira localização do Castelo de Monforte num mapa impresso ocorreu,
seguramente,nasediçõesdafolha171,daCartaMilitardePortugal,naescala
de 1/25.000, ainda que com uma alteração no topónimo, entre as primeiras
edições (1941/1970) - Castelo de Monte Forte -, e a 4ª ed., de 1994 - Castelo
de Monforte -, e ligeiros acertos no ponto cotado de maior altitude: 476 m /
480 m. Um pormenor a reter é não ter sido incluído o símbolo da existência
de ruínas… No espaço envolvente, são mínimas as alterações ocorridas no
quarto de século que separa as duas últimas edições.
Percorrendo a fronteira luso-espanhola da foz do Minho à foz do Guadia-
na, são muitos os locais onde, ao longo dos séculos, ocorreram conflitos di-
plomáticos, militares, económicos e sociais, que deixaram mais ou menos
memória, documental, material ou imaterial, que chegou até nós. A longa
duração do processo, que no espaço se materializou, de uma faixa mais ou
menos ampla até à linha matematicamente estabelecida e que hoje, de for-
ma periódica, se verifica e confirma, faz com que existam nos atuais territó-
rios, relíquias esquecidas das etapas dessa evolução, que exumadas pela
Arqueologia, pela História, pela Geografia ou pela Etnologia, permitem com-
preendermos melhor a atual organização do espaço. O Castelo de Monforte
de Riba Côa é um bom caso, para um estudo que apenas começou (Abreu &
Hernández, 2014 e 2019; Francisco & Gil, 2016; Ramos, 2021).
Este trabalho enquadra-se
no projeto de investigação
científica “GEOCONFRONT
– Conflictos fronterizos en
España y América Latina
(1840-2020): aproximaciones
geohistóricas y actuales”,
coordenado por Jacobo García
Álvares, da Universidad
Carlos III de Madrid. O projeto
é financiado pela Agência
Estatal de Pesquisa, de
Espanha (Projeto PID2020-
114088GB-I00 / AEI
/10.13039/501100011033).
João Carlos Garcia
Faculdade de Letras da
Universidade do Porto.
Luís Miguel Moreira
Instituto de Ciências Sociais
da Universidade do Minho.
Centro de Estudos Geográficos
da Universidade de Lisboa.
34 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
BIBLIOGRAFIA
Fontes cartográficas
ALBERNAZ, Pedro Teixeira, ca.1595-1662
Descripcion del reyno de Portugal y de los reynos de Castilla, que parten con su frontera / delineada por D.
Pedro Teixeira / dedicada a la Magestad del rey Nro. Sr, D. Phelipe 4° por D. Joseph Lendinez de Guevara. -
Escala [ca. 1:660 000], 15 Leguas = [14,30 cm]. - Matriti : Marcus Orozcus, 1662. - 1 mapa : p&b ; 77 x 109 cm
Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra / Coleção Nabais Conde: NC-652
EÇA, Lourenço Homem da Cunha de 1767?-1833
Carta militar das principaes estradas de Portugal / por L. H. ; grav. Romão Eloy Almeida. - Escala [ca. 1:470
000]. - Lisboa : [s.n.], 1808. - 1 mapa em 4 folhas : grav., p&b ; 74 x 138 cm.
Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal: C.C. 1226 R.
EÇA, Lourenço Homem da Cunha de 1767?-1833
Carta militar das principaes estradas de Portugal / por L. H. ; grav. Romão Eloy Almeida. - Escala [ca. 1:470
000]. - Lisboa : [s.n.], 1808. - 1 mapa em 4 folhas : grav., p&b ; 74 x 138 cm.
Washington, Library of Congress: G6562.G35 1812 .H3
JEFFERYS, Thomas, ca 1710-1771
Mappa ou carta geographica dos reinos de Portugale e Algarve / por T. Jefferys, Geographo de Sua Mages-
tade Britannica ; Miguel Rodrigues impressor do Excelentissimo Senhor Cardial Patriarca. - Second Edition.
- Escala [ca 1:450 000], 10 Legoas commuas de Portugal e d'Espanha 19 à hum Grao = [13,05 cm] . - Londres
: W. Faden, 1790. - 1 mapa : grav., p&b ; 165 x 89 cm.
Lisboa, Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar: 4067 / I-2A-29-41
LOPEZ DE VARGAS MACHUCA, Tomás, 1731-1802
Mapa general del reyno de Portugal: comprehende sus provincias, corregimientos, oidorias, proveedurias,
concejos, cotos &c. / por Tomás Lopez, Geografo de los Dominios de S.M. de sus Reales Academias de la
Historia, de S, Fernando, de la de Buenas letras de Sevilla, y de la Sociedad Bascongada de los Amigos del
Pais ; Dedicado Al Ilustrisimo Señor Don Pedro Rodriguez Campomanes, Cavallero de la distinguida Ordem
de Carlos III, del Consejo y Camara de S.M., Director de la Real Academia de la Historia &cc.. - Escala [ca 1:470
000],12LeguascomunesdePortugal,delasqueentran18.enunGrado=[15,90cm].-Madrid:[s.n.],1778.-1
mapa em 8 folhas : grav., p&b ; 142 x 81 cm.
Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal: C.C. 952 R.
PORTUGAL. Arquivo Militar, 1802-1868
Carta topografica da Beira Alta e Baixa : comprehendida entre os rios Tejo e Mondego,
as fronteiras orientaes do reino de Espanha e a linha que passa por Thomar e Coimbra /
redigida no Real Archivo Militar em 1829, avista dos mappas litograficos levantados pelos officiaes do Es-
tado Maior do Ex.º Britanico, corregidos, e addicionados com o auxilio das cartas levantadas pelos officiaes
do Real Corpo de Eng.os de Portugal, e outros documentos existentes no mesmo Real Archivo. – Escala [ca.
1:200 000], 9 milhas = [7,4 cm]. – [post.1831]. – 1 mapa : ms., color. ; 70 x 82 cm
Lisboa, Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar: 1844 / 2-19-28
SECO, Fernando Álvares, fl. ca 1559-1561
[Portugal]/VernandiAlvariSecco;SebastianusaRegibusClodiensisinaerei[n]cidebat;MichaelisTramezini
formis, cum Summi Pontificis ac Veneti Senatus privilegio. - Escala [ca 1:1 340 000]. - Roma : Michaelis Tra-
mezini, 1561. - 1 mapa : grav., p&b ; 35 x 52 cm
Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra / Coleção Nabais Conde: NC-899 (Gaveta 1)
Estudos
ABREU, Carlos d’; HERNÁNDEZ, Román (2014). O Castelo de Monforte de RibaCôa: primeiras impressões
arqueológicas de uma fortificação medieval leonesa. Sabucale. Revista do Museu do Sabugal. Sabugal, 6, p.
101-118.
ABREU, Carlos d’; HERNÁNDEZ, Román (2019). A fortificação medieval leonesa de Monforte de RibaCôa (no-
vos elementos arqueológicos e artísticos). Douro – Vinha, História & Património. Porto, 8, p. 33-70.
AMARAL, Luís Carlos; GARCIA, João Carlos (1998). O Tratado de Alcañices (1297): uma construção historio-
gráfica. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto – História. Porto, II, XV, 2, p. 967-986.
AZEVEDO, Rui Pinto de (1962). Riba Côa sob o domínio de Portugal no reinado de D. Afonso Henriques. O
Mosteiro de Santa Maria de Aguiar, de fundação portuguesa e não leonesa. Anais da Academia Portuguesa
da História. Lisboa, II, 12, p. 231-298.
BARROCA, Mário Jorge (1998). D. Dinis e a Arquitectura Militar Portuguesa. Revista da Faculdade de Letras
da Universidade do Porto. Porto, II, XV, 1, p. 801-822.
CINTRA, Luís F. Lindley (1984). A linguagem dos Foros de Castelo Rodrigo: seu confronto com a dos foros de
Alfaiates, Castelo Bom, Castelo Melhor, Cória, Cáceres e Usagre: contribuição para o estudo do leonês e do
galego-português do século XIII. Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda (1ª ed. 1959).
DAVEAU, Suzanne (2010). Um antigo mapa corográfico de Portugal (c. 1525). Reconstituição a partir do Códi-
ce de Hamburgo. Lisboa, Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa.
DIAS, Maria Helena (2009). A primeira carta de Portugal continental. http://cvc.instituto-camoes.pt/ cien-
cia/e79.html.
FORTES, Manuel de Azevedo (1722). Tratado do Modo o Mais Fácil e o Mais Exacto de Fazer as Cartas Geo-
graficas, assim da terra, como do mar, e tirar as plantas das praças, cidades e edificios com instrumentos, e
sem instrumentos, para servir de instrucçãm à fabrica das Cartas Geograficas da Historia Ecclesiastica, e
36 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Secular de Portugal. Lisboa, Officina de Pascôal da Silva.
FRANCISCO, José Paulo; GIL, Tiago (2016). O projecto de investigação do Castelo de Monforte de Riba Côa
como âncora de um amplo programa de Arqueologia comunitária do Côa. In VILAÇA, Raquel (coord.). II Con-
gresso Internacional de Arqueologia da Região de Castelo Branco. Castelo Branco, RVJ Editores / Sociedade
dos Amigos do Museu Francisco Tavares Proença Júnior, p. 413-426.
GALEGO, Júlia; DAVEAU, Suzanne (1986). O Numeramento de 1527-1532: tratamento cartográfico. Lisboa,
Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa.
GARCIA, João Carlos (2010). A Lusitânia parra o Cardeal Guido Sforza: um Mapa de Portugal de 1561 na Biblio-
teca Nacional. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto – História. Porto, III, 11, p. 363-368.
GONZÁLEZ JIMÉNEZ, Manuel (1998). Las relaciones entre Portugal y Castilla durante el siglo XIII. Revista da
Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Porto, II, XV, 1, p. 1-24.
GUEDES, Lívio da Costa (1992). A viagem de Christian, Principe de Waldeck, ao Alentejo e ao Algarve descrita
pelo Barão von Wiederhold 1798. Separata do Boletim do Arquivo Histórico Militar, vol. 60. Lisboa, ed. Autor.
LADERO QUESADA, Miguel-Angel (1998). Reconquista y definiciones de frontera. Revista da Faculdade de
Letras da Universidade do Porto. Porto, II, XV, 1, p. 655-691.
MARTÍN BENITO, José Ignacio (2002). Fontera y Territorio en el sur del Reyno de León (1157-1212). In El Rey-
no de León el la época de las Cortes de Benavente. Jornadas de Estudios Históricos. Benavente, Centro de
Estudios Benaventanos ‘Ledo del Pozo’, p. 115-163.
MOREIRA, Luís Miguel (2012). Cartografia, geografia e Poder: o processo de construção da imagem cartográ-
fica de Portugal, na segunda metade do século XVIII. Braga: Universidade do Minho (Tese de Doutoramento
em Geografia).
PEREDA,Felipe;MARÍAS,Fernando,Eds.(2002).ElAtlasdelReyPlaneta.La"DescripcióndeEspañaydelas
costas y puertos de sus reinos”. Barcelona, Ediciones Nerea.
PINA, Rui de (1729). Chronica do muito alto e muito esclarecido Principe Dom Diniz sexto Rey de Portugal.
Lisboa Occidental, Na Officina Ferreyriana.
PIZARRO, José Augusto Sotto Mayor (2005). D. Dinis. Rio de Mouro, Círculo de Leitores.
RAMOS, Tiago (2021). A primeira intervenção arqueológica no Castelo de Monforte de Riba Côa (2019). Ca-
dernos do Património. Figueira de Castelo Rodrigo, 2, p. 7-12.
VENTURA, Leontina (1998). A fronteira luso-castelhana na Idade Média. Revista da Faculdade de Letras da
Universidade do Porto. Porto, II, XV, 1, p. 25-52.
VICENTE, António M. Balcão (1998). A ‘Extremadura’ leonesa – o caso da fronteira de Riba-Côa nos séculos
XII-XIII. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Porto, II, XV, 1, p. 287-300.
Emobrasrelativamenterecentesdescobriu-sesoboaltar-mordaigrejadeEs-
carigo o altar-mor primitivo, de alvenaria, cujo frontal, pintado a fresco, repre-
sentaoArcanjoS.Miguelladeadodeduasfigurasostentandotípicosturbantes,
característicosdaiconografiatradicionaldefigurasdoAntigoTestamento.
Deve dizer-se que esta sensacional pintura descoberta há poucos anos é no-
tável por todos os motivos, a começar pela sua própria sobrevivência e pela
sua presença material, enquanto testemunho vivo de uma prática decorativa,
figurativa e até litúrgica, típica da Idade Média e do início dos Tempos Moder-
nos, tempo histórico em que os interiores das igrejas, e nomeadamente os
seus espaços mais centrais, eram parcial ou integralmente pintados, como
mostraremos. Em segundo lugar, pela sua importância e pelas suas qualida-
des pictóricas, testemunho de uma oficina ou mesmo de uma escola regional
Uma Pintura Quinhentista
a Fresco no Frontal
do Antigo Altar-mor
da Igreja de Escarigo
(Figueira de Castelo Rodrigo)
Carlos Caetano
HISTORIADOR DE ARTE
38 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
que urge identificar e conhecer. Em terceiro lugar, pela sua iconografia, muito
importante, pois o conjunto se destaca das figurações mais convencionais
do Arcanjo S. Miguel. Mas a pintura de Escarigo é também um pretexto para
referenciar a belíssima e relativamente bem conservada igreja, erguida sob a
invocaçãodeS.Miguel,deorigemprovavelmenteleonesa(eportantoanterior
ao Tratado de Alcanizes, de 1297), que a acolheu, e onde se conserva há cerca
de quinhentos anos. Diga-se que Escarigo, outrora no termo do antigo conce-
lho de Castelo Rodrigo (hoje Figueira de Castelo Rodrigo) foi no passado uma
localidade relativamente opulenta.
1
FIGURA 1 – Igreja Matriz de Escarigo.
Fachada lateral Sul: note-se o alpendre e o
corpo da capela-mor
1
. João Maria Tello de Magalhães Collaço,
Cadastro da População do Reino (1527) – Actas
das Comarcas Damtre Tejo e Odiana e da Beira,
Ed. de Autor; Lisboa, 1929-1931, p. 109.
2
. As Freguesias do Distrito da Guarda nas
Memórias Paroquiais de 1758: Memória,
História e Património, José Viriato Capela e
Henrique Matos (Org., transcrição e notas), Ed.
José Viriato Capela, Braga, 2013, p. 271.
Assim, em 1527, “o lugar d escarygo” dispunha de 229 “moradores”, só abai-
xo, em número de moradores, dos “lugares” da Vermiosa” (236 moradores)
e de Escalhão (249), mas muito acima do “lugar e villa da reygada”, então
cabeça de uma Comenda da Ordem de Cristo, como veremos, onde “vivem
somente cem moradores” 1
. Mais de 250 anos depois, em 1758, tinha 115
“fogos”, com a população distribuída do seguinte modo: 271 “pessoas maio-
res de confissão e comunhão” e 43 “menores”, como informa o respectivo
vigário em resposta ao inquérito ordenado pelo futuro Marquês de Pombal
a todos os párocos do Reino, na sequência do Terramoto de 1755, e que co-
nhecemos por Memórias ou Registos Paroquiais 2
.
A forte presença da pintura a fresco
nas igrejas das Beiras
nos primeiros anos de Quinhentos
A pintura do frontal do antigo altar-mor da igreja matriz de Escarigo suscita
muitas considerações, sendo a primeira o reconhecimento da sua importân-
cia extraordinária enquanto testemunho material de uma pintura realizada
a fresco no lugar mais central da capela-mor da igreja matriz local, datável
das primeiras décadas do século XVI, como veremos. A pintura representa
o Arcanjo S. Miguel ladeado por dois profetas e comprova materialmente a
existênciadepinturasmurais,decunhoreligiosooumeramentedecorativas
nãosónestamasnageneralidadedasigrejasportuguesasdaIdadeMédiae
em particular nas do princípio da Idade Moderna, nomeadamente nesta re-
gião,pinturasestasdecujaexistênciasabíamospeladocumentaçãoescrita.
Ora, no decurso de prospecções e sobretudo no decurso de obras recentes
40 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
em igrejas de origem medieval, têm surgido à luz do dia inúmeras pinturas,
quase sempre de fins do século XV e da primeira metade do século XVI, pa-
tentes em grandes e em pequenas igrejas e ermidas de todo o país 3
– e esta
revelação de uma abundante pintura mural portuguesa, normalmente de
grande escala, espalhada por todo o território, tem sido uma das surpresas
maiores da mais recente historiografia portuguesa de arte 4
.
Estas recentes descobertas da nossa velha pintura mural não nos devem
surpreender, pois todos os testemunhos escritos confirmam que as igrejas
medievais e sobretudo as tardo-medievais eram geralmente rebocadas e
caiadas, pelo menos interiormente, sendo muitas vezes este preparo, ainda
que muito básico em ecossistemas graníticos ou xistosos, o suporte de pin-
turas murais a fresco. A decoração das paredes das igrejas sobretudo a pa-
rede fundeira e as paredes laterais da capela-mor, bem como as superfícies
queladeiamoarcotriunfal(doladodanave)–compinturasafrescoerauma
prática comum nas igrejas da época, em todas as regiões do Reino. Assim,
face ao “patamar de excepcionalidade raras vezes conseguido em Portugal”
atingido pela “pintura em tábua”, devido aos grandes mestres da Época Ma-
nuelina, Pedro Dias considera que “a pintura a fresco foi ainda mais impres-
sionante, pela sua difusão por todo o espaço nacional” 5
.
Nesta pintura mural, descoberta em igrejas e capelas ao longo de todo o
país, privilegiavam-se cenas da História Sagrada (do Antigo e sobretudo do
Novo Testamento), cenas da Vida da Virgem e cenas da Vida e sobretudo da
Paixão de Cristo, bem como a figuração das figuras maiores ou mais popu-
lares da hagiografia cristã, virgens e mártires, patriarcas ou fundadores das
sucessivas Ordens Religiosas, etc.
3
. A título de exemplo Joaquim Caetano
faz notar que a Igreja de Nossa Senhora da
Azinheira, de Outeiro Seco (Chaves) “esteve
completamente revestida de frescos no seu
interior”, Joaquim Inácio Caetano, O Marão e
as oficinas de pintura mural nos seculos XV e
XVI, Aparição, Lisboa, 2001, p. 38.
4
. Um marco importante na descoberta da
velha pintura mural portuguesa deve-se a
Luís Urbano Afonso, a partir do seu estudo
dos frescos da igreja do Convento de S.
Francisco de Leiria: ver Luís Urbano Afonso,
Convento de São Francisco de Leiria – Estudo
Monográfico, Livros Horizonte, Lisboa, 2003.
5
. Pedro Dias, “A Arte Manuelina” in AAVV.,
Manuelino – À Descoberta da Arte do Tempo
de D. Manuel I, Civilização Portugal, Lisboa,
2002, p. 31.
6
. Arquivo Nacional da Torre do Tombo
[ANTT] – Mesa da Consciência e Ordens /
Comendas – Ordem de Cristo / Convento de
Tomar [COM - OC/CT], Maço 66, doc. n. 2 /
Visitações [1505], f. 120 v.
7
. Ibidem, f. 113. Nota: todos os sublinhados
nas transcrições incluídas do presente estudo
são do autor.
8
. Ver “Visitação efectuada por D. Fr. João
Pereira e Frei Diogo do Rego, sendo escrivão
Fr. Francisco – 1507-1510”, in ANTT – Mesa
da Consciência e Ordens – OC/CT, Livro 132.
A Visitação, iniciada na Reigada, prosseguiria
nomeadamente pelas igrejas das comendas
da área raiana em torno do Côa e do Douro.
Não são conhecidos documentos escritos sobre a pintura do frontal do
antigo altar de Escarigo, que certamente estava relacionada com pinturas
a fresco aplicadas noutras superfícies da capela-mor e do corpo da igreja,
umas hoje perdidas (como as das paredes laterais da capela mor, por exem-
plo, destruídas para sempre quando lamentavelmente foi removido o res-
pectivo reboco de suporte), outras ainda ocultas, nomeadamente atrás do
retábulo monumental do altar-mor, como veremos. À falta de testemunho
escrito relativamente às pinturas quinhentistas da igreja de Escarigo, ater-
-nos-emos à documentação relativa às igrejas da região que pertenciam
a Comendas da Ordem de Cristo, regularmente inspeccionadas no âmbito
das visitações às diversas vilas e lugares tutelados pela Ordem. Pelos rela-
tos dos respectivos visitadores ficamos a saber que, ao contrário do que se
possa pensar hoje, as igrejas eram normalmente rebocadas e caiadas, parti-
cularmente no seu interior e eram ainda efectivamente decoradas com pin-
turas: era o caso da igreja de S. Miguel de Acha (Idanha a Nova), visitada em
1505, que detinha pintura mural 6
embora de iconografia não especificada,
ou ainda o caso da igreja de Alcains (Castelo Branco), também visitada em
1505, em que a parede do altar-mor detinha “pintura de cortinas de colores”,
isto é, figurava cortinas de tecido mais ou menos rico 7
. Também a matriz
(hoje desaparecida) da vizinha freguesia de Reigada, que também era cabe-
ça de uma Comenda da Ordem de Cristo – de que fora Comendador o pró-
prio Infante D. Henrique! – era profusamente pintada. Chegou-nos o valioso
relatório relativo à visitação desta igreja, que se iniciou a 14 de Outubro de
1507 8
. Assim, relativamente à “oussia” (capela-mor) da igreja da Reigada,
“cuja jnuocaçom he de nossa Senhora do pereiro” 9
, ficamos a saber que “as
paredes della pella mayor parte som de camtaria he o mais d aluenaria. ca-
42 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
felladas [rebocadas] he pinçelladas [caiadas] de dentro”. Do mesmo modo,
também“Ocorpodadictaegrejatemasparedesdepedraebarrocafelladas
e pinçelladas da parte de dentro”.
Tal como a igreja de Escarigo daquela época, também a igreja da Reigada
tinha um altar maciço de alvenaria, isto é, detinha o “seu altar de pedra sobre
moçiço. he esta quase no meyo da dicta oussia. e tem tres tauoleiros [de-
graus] de pedraria”. O acesso à capela-mor fazia-se pelo arco triunfal: “tem
a dicta oussia huum arco de pedraria chãas [?] e grande e sobre elle ha jma-
gem do cruçifixo pintada na parede a fresco”. Ficamos também a saber que
no corpo da igreja,
“aos lados do arco da oussia estam dous altares ambos de pedra”,
sendo “Huum da jnuocaçõm do Spirito Sancto com sua estorea pin-
tada a Fresco na parede., o outro altar he da jnvocaçõm de Sancta
marjnha e nelle huuma jmagem de paao velha de vulto”.
Entreasigrejascom pintura muraldosprimeirosanosde Quinhentos, em que
se inclui a de Escarigo, merece referência a Igreja de S. Bento da Meda, visita-
da a partir do dia 28 de Outubro de 1507, que “tem [n]a oussia as paredes d
aluenaria de pedra he barro cafelladas de dentro he bem pintadas a Fresco”.
O altar-mor era “de pedra”, isto é, de alvenaria, tal como o de Escarigo, e aos
visitadores não escapou a profusão de pintura mural na igreja da Meda:
“E na parede do altar estam pintadas a Fresco as Jmagens de nossa
Senhora e de sam beento O que todo ora mandou pintar o Dito garçia
de mello comendador
9
. ANTT – Mesa da Consciência e Ordens
– OC/CT, Livro 132, ff. 1, 1v. O relatório da
visitação encerra-se com a lista seguinte:
“Estas som as cousas que o dicto visitador
mandou que se façam na dicta egreja., e
cousas da comenda”: O Comendador “[…]
mandaraa cafelar he pinçelar as paredes da
dicta egreja da parte de Fora. he Fazer as
Juntas aa cantaria da dicta oussia”.
—
10
. ANTT – Mesa da Consciência e Ordens –
OC/CT, Livro 132, f 11 e seg.s.
11
. “Visitaçom da comenda da moxagata” in
ANTT – Mesa da Consciência e Ordens – OC/
CT, Livro 132, ff 14 e seg.s.
Aos lados do arco da oussia estam dous altares com Jmagens ou-
trosi pintadas a Fresco. e sobre o Dicto arco as Jmagens do cruçifixo
he de nossa Senhora he de sam joam e asi toda a parede pintada a
Fresco. E asy as paredes de huum cabo e do outro som pintadas com
muitas Jmagens atee as portas trauessas” 10
.
A caminho do Douro, a igreja de Santa Maria Madalena, cabeça da Comenda
da Muxagata (Vila Nova de Foz Côa), visitada a partir de 2 de Novembro de
1507, era também profusamente pintada 11
, como se vê da descrição da igre-
ja, que parcialmente se transcreve:
“a oussia da dicta egreja tem as paredes de pedra he barro Forrada d
oliuel [forro nivelado] sobre as asnas., a qual oussia he oliuel [o Co-
mendador] Garçia de mello mandou pintar de bõoas pinturas. o ter-
reo della estaa lageado de lousas
na Dicta oussia estaa huum altar de pedra sobre parede he no Dicto
altar huuma Jmagem De vulto da magdalena pintada de nouo. e na
parede do dito altar pintadas a Fresco Jmagens de bõoas pinturas
tem a Dicta oussia huum boom arco de pedraria e sobre elle pinta-
das a Fresco as Jmagens do cruçifixo e nossa Senhora e sam joam e
tambem outra Jmagem do crucifixo de vulto. aos lados Do dicto arco
he fora da dicta oussia. estam Dous altares com suas Jmagens pin-
tadasnasparedes,afresco.easigrandeparteDasparedesDaegreja
som pintadas de huum cabo e do outro com mujtas estorias Da pai-
xom De bõoas pinturas”.
44 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Na raia transmontana as visitações registavam também igrejas da Ordem
decoradas com pinturas de temas religiosos. Assim, o “corpo” da igreja de S.
Martinho do Peso, da Comenda de Mogadouro, visitada a 20 de Novembro
de 1507, tinha
“as paredes de pedra e barro cafelladas de Dentro e aos lados do arco
tem Dous altares igualmente ornamentados e nelles jmagens de
vulto he outras pintadas nas paredes E sobre o arco as Jmagens do
cruçifixo e de nossa Senhora e sam Joam pintadas a fresco”.
Como vemos, o tema do Calvário (Cristo Crucificado, ladeado de Nossa Se-
nhora e de S. João Evangelista) era muito presente. Porém, num assomo de
cosmopolitismo internacionalista, os visitadores determinam que a parede
fundeira da capela mor desta igreja se decore com pintura de “obra romana”,
isto é, com motivos decorativos de tipo classicizante, pelo que o Comendador
“fara pintar a parede do Dito altar [da oussia] de bõoas pinturas e
tintas De obra romana ou de Imagens qual mais lhe prouuer e poer
hi huum çeeo [céu = sobre-céu; guarda-pó] de cortina de linho com
seus alparauazees 12
Franjados” 13
.
Como vemos, enquanto recurso decorativo, figurativo e devocional, a pre-
sençadapintura,afresco,daigrejadeEscarigonadadetinhadeexcepcional,
de raro ou de singular. Ela é um manifesto de um gosto e de uma necessi-
dade efectiva de figuração, patente nas paredes da generalidade das igrejas,
pois a realização de pinturas a fresco, fosse qual fosse o tema, tornava-se
mais barata que a decoração, efémera ou permanente, da igreja com colga-
duras, panejamentos ou com painéis pintados a têmpera (ou a óleo) sobre
12
. “Alparavazes” ou “alparavazéis”: franjas,
sanefas: ver Cândido de Figueiredo, Grande
Dicionário da Língua Portuguesa, Bertrand
Editora, 25.ª Edição, Lisboa, 1996, Vol. I, p. 140
13
. ANTT – Mesa da Consciência e Ordens –
OC/CT, Livro 132, f. 32.
14
. Ver Joaquim Caetano, Motivos Decorativos
de Estampilha…, p. 120.
15
. Note-se, porém, que a moda das pinturas
a fresco de retábulos fingidos dará lugar à
sua substituição progressiva por retábulos
de madeira, devidamente entalhados e ao
uso intensivo de painéis de pintura a têmpera
ou a óleo sobre madeira integrados nos
retábulos.
madeira, muito mais cara. A pintura mural, a fresco, representava ou simu-
lava, de uma forma rápida, ligeira, muito vistosa – mas também muito mais
barata 14
– tudo o que o imaginário, a devoção, a liturgia ou a simples vonta-
de de ostentação dos paroquianos pudesse exigir 15
. Neste sentido, se afir-
maram gerações e gerações de oficinas e mestres de pintura a fresco, todos
eles de alcance regional, que hoje se começam a individualizar e mesmo a
identificar. Do mesmo modo começam a identificar-se os sucessivos ciclos
operativos e estéticos, compreendidos num aro cronológico que contempla
o século XV e meados do século XVI. Estes sucessivos ciclos são marcados
por localismos e regionalismos com as suas insuficiências de escola e as
suas limitações, próprias de mestres que, nas periferias, procuram emular a
grande pintura retabular sobre madeira, mas com modestas possibilidades
técnicas, por onde perpassam intensas marcas vernaculares.
Como vemos, pinturas a fresco de tema religioso eram muito comuns nas
nossas velhas igrejas, comprovadamente decoradas com pinturas, com
temas religiosos ou apenas com motivos decorativos, de que era exemplo
a presença das cortinas pintadas no fundo do altar de Alcains, atrás referi-
das. Estas cortinas pintadas eram como que a “petrificação”, para sempre,
de cortinas reais, de panos mais ou menos ricos, como esses alparavazes
de franjas, usados para destacar, dignificar ou proteger as imagens de vulto.
Com efeito, era intensa e estava muito arreigada a tradição das igrejas ar-
madas, isto é, decoradas com cortinas e panos de armar – tradição que se
perpetuou pelos séculos e que chegou aos inícios do século XX.
Esta tradição das igrejas decoradas e paramentadas a preceito, mesmo que
efemeramente, a cargo de profissionais, era própria de uma civilização que,
também no domínio estético, tinha horror ao vazio e era incompatível com
46 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
o Minimalismo corrente nos nossos dias: tal como os espaços palacianos e
cortesãos, as igrejas eram profusamente decoradas com colchas, panos de
armar, bandeiras, pendões e troféus de toda a natureza. Esta sobrecarga de
elementos decorativos, simbólicos, litúrgicos ou votivos produzia nos inte-
riores religiosos ou palacianos um efeito visual feérico, brilhante, sumamen-
te colorido e mesmo garrido até à saturação.
Enfim, a pintura, a fresco, sobre paredes rebocadas e caiadas, devidamen-
te preparadas para o efeito, deixa entrever uma realidade esquecida pelos
“teóricos” e os agentes da actual moda da “pedra à vista”: a da presença in-
tensa dos rebocos e a das caiações e consequentemente o uso comum da
cal, mesmo em regiões onde esta era difícil de obter. Com efeito, a cal, base
dos bons rebocos e sobretudo das caiações, usadas secularmente na nos-
sa arquitectura religiosa e solarenga, era comprovadamente consumida em
toda a Beira e, como tal, as entradas das cargas de cal em cada concelho
eramdevidamentetaxadas,talcomoconstadosforaismanuelinosdetodos
os velhos concelhos das Beiras!
FIGURA 2 – Fresco quinhentista
do frontal do altar-mor;
vista geral
As fotografias do fresco
quinhentista de Escarigo
podem ser vistas com mais
resolução e a cores em:
https://photos.app.goo.
gl/3VgbsFwgzDcqbuqy6
2
A pintura quinhentista do frontal antigo
do altar-mor da igreja de Escarigo
Da decoração de um altar à sua ocultação
na Época Barroca
Apinturadoantigofrontaldoaltar-mordeEscarigo,devidaaartistaregional
ou local, está mal conservada.
Com efeito, a pintura sofreu mutilações importantes, como se nota nos des-
gastesdobordosuperioresofreuaindagravesperdasdecamadacromática
na figura central, a pontos de estas perdas obstruírem ou dificultarem seria-
mente a própria identificação dessa mesma figura, S. Miguel Arcanjo, muito
facilmente confundida com Cristo Ressuscitado.
A pintura ocupa a totalidade do frontal do altar antigo da igreja, muito vasto.
Nele se apoiava o competente retábulo, talvez total ou parcialmente pintado
na parede do fundo da capela mor, pois, como vimos, era essa uma práti-
48 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
FIGURA 3 – Imagem quinhentista
de S. Miguel, padroeiro de Escarigo,
no altar-mor da Igreja Matriz.
FIGURA 4 – Retábulo-mor da Igreja
de Escarigo.
ca corrente na Idade Média, chegando às primeiras décadas do século XVI,
época a que deve remontar a pintura do frontal de Escarigo. A esse retábulo
primitivo, parcialmente conservado, embora presentemente não observável,
pois está atrás do retábulo barroco, deve ter pertencido a imagem do ora-
go da igreja, o Arcanjo S. Miguel, uma belíssima escultura a que os repintes
sucessivos não retiram nada do seu esplendor, próprio da melhor escultura
portuguesa dos princípios do Séc. XVI.
O retábulo primitivo, que se apoiava no altar de alvenaria, foi há muito
ocultado pelo imponente retábulo barroco, modelado no chamado “es-
tilo nacional”, muito bem conservado e que é uma das glórias da maqui-
naria retabular das Beiras.
O retábulo barroco, muito projectado para a frente da capela-mor de modo
a enquadrar e acolher a estrutura do típico e imponente trono escalonado,
muito profundo, suscitou a construção de um novo altar-mor, numa lo-
calização muito avançada em relação ao altar primitivo de alvenaria. Esta
circunstância permitiu que, apesar de mutilado, o altar antigo de alvenaria
sobrevivesse, embora abaixo e muito atrás do altar actual, motivo pelo qual
a pintura sobreviveu também.
Visando a implantação do retábulo barroco e a montagem do acesso inte-
rior ao camarim do trono, o altar primitivo foi então cerceado, removendo-se
uma faixa horizontal de cerca de palmo ou palmo e meio do topo do seu cor-
po de alvenaria. Destes desbastes no topo da mesa do primitivo altar fica-
ram marcas muito intensas na face superior da composição do frontal. Com
efeito, a base inferior da composição chegou-nos intacta, notando-se per-
feitamente as barras inferiores dos três “panos” figurativos que o integram e
a barra branca, que delimitava inferiormente todo o frontal. O mesmo se não
50 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
passa no topo superior do frontal, cujo bordo, hoje muito irregular, está mui-
to ferido, subentendendo-se que o sebasto superior do frontal, igualmente
pintadoafresco,tenhasidotododestruídovisandoamontagemdoretábulo
monumental barroco, como se pode ver na Fig. 2.
A ter em conta as faixas laterais que igualmente o integravam (e que sobre-
viveram), este sebasto perdido, devia ter a altura de um palmo ou de um pal-
mo e meio e figurava certamente um pano rico, de brocado ou talvez de da-
masco, tendo em conta a monocromia relativa do tecido representado nas
faixas laterais. À semelhança destas, o fingido sebasto perdido do topo do
frontaleracertamentedelimitadopelafiguraçãodeumaricaemuitovistosa
franja em fio de seda tricolor, com pequenos segmentos sucessivamente
brancos, vermelhos e verdes), igual a tantas franjas que se captam nos pa-
nejamentos mais ricos figurados na pintura portuguesa antiga.
A raríssima iconografia de um frontal de altar raiano
das primeiras décadas do Séc. XVI
O programa figurativo do frontal, delimitado pelo sebasto superior, desapa-
recido, e pelos sebastos laterais, que sobrevivem, consiste numa compo-
sição tripartida mas organizada simetricamente, representando no painel
central, de formato rectangular, disposto ao alto, o popular orago da igreja,
o Arcanjo S. Miguel, de pé, triunfante sobre o Dragão. Note-se desde já que
o culto de S. Miguel foi muito intenso entre nós durante toda a Idade Média,
pois ele era o padroeiro da generalidade das igrejas das cidadelas dos ve-
lhos castelos medievais, tanto portugueses, como peninsulares e europeus,
mas era também o orago de inúmeras igrejas paroquiais, nomeadamente
em zonas de fronteira.
A área central do frontal de Escarigo está rodeada por dois panos laterais
iguais,deformasensivelmentequadrada,decomposiçãomuitomaiscomple-
xa. No centro destes dois grandes quadrados laterais inscrevem-se duas mol-
duras quase circulares que enquadram duas figuras toucadas e vestidas com
trajescaracterísticos,decunhoorientalizante.Asmoldurasarredondadassão
definidas por uma barra densa de folhagens, muito clara, a evocar idênticas
molduras típicas do Renascimento Italiano. Estas molduras são sublinhadas
por dois ramos de folhagens que se desenvolvem a partir de uma espécie de
nóinferiorcomumaosdoisramos.Osdesenhosdestasfolhagens,muitoden-
sas, são assimétricos pois, por entre as folhagens, emergem ornatos típicos:
um puto e uma ave simbólica (pomba, águia, pelicano?). Estas ramagens em
cinzento intenso dispostas mais ou menos simetricamente, mas de orienta-
ção divergente, contornam, por cima e por baixo, a barra clara que delimita os
medalhões e sobrepõem-se ao fundo da composição, em vermelho escuro.
52 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
FIGURA 5. S. Miguel combatendo
e derrotando o Dragão;
painel central
FIGURA 6. Profeta Jonas (?);
painel lateral direito (lado da Epístola)
Os dois medalhões mais ou menos ovais delimitados pelas cercaduras já re-
feridas ostentam dois bustos masculinos “terçados”, isto é, representados a
três quartos, um de cada lado, voltados para o centro do altar e consequen-
temente para S. Miguel Arcanjo. A figura da esquerda (lado do Evangelho) é
imberbe, mas a figura da direita (lado da Epístola) aparece barbada, sendo
aparentemente muito mais idosa. Ambas ostentam, porém, típicos touca-
dos vermelhos em forma de cone, tendo o da direita, na sua base, uma es-
péciedebarraclara,eventualfiguraçãodeumabasedearminho.Apesardas
diferenças, estes toucados são muito característicos e de identificação ób-
via: as duas figuras que os ostentam pertencem ao corpus iconográfico do
Antigo Testamento. Ambas as figuras têm os braços semi-erguidos e com
as mãos seguram filactérias voltadas para o centro do frontal, enrolando-se
nas cercaduras dos medalhões laterais. Estas filactérias têm um significado
óbvio: simbolizam as narrativas proféticas, permitindo identificar as duas fi-
guras laterais como Profetas.
A imagem central do tríptico, de S. Miguel, corresponde ao típico modelo ico-
nográfico que conhecemos como Duelo ou Combate de S. Miguel contra o
Dragão inspirado num famoso episódio do Apocalipse (XII, 7-12):
“Então houve no Céo uma grande batalha; Miguel, e os seus Anjos
pelejavam contra o Dragão, e o Dragão com os seus Anjos pelejava
contra elle.
Porém, estes não prevaleceram, nem o seu lugar se achou mais no
Céo.
E foi precipitado aquelle grande Dragão, aquella antiga serpente, que
se chama o Diabo, e Satanás, que seduz a todo o Mundo: sim foi pre-
cipitado na terra, e precipitados com elle os seus Anjos.
54 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
E eu ouvi uma grande voz no Céo, que dizia; Agora foi estabelecida
a salvação, e a fortaleza, e o Reino do nosso Deus, e o poder do seu
Christo: porque foi precipitado o accusador de nossos irmãos, que os
accusava de dia e de noite, diante do nosso Deus”.
O Arcanjo S. Miguel é referido por três vezes no Antigo Testamento, no Livro
do Profeta Daniel, surgindo como “um dos primeiros príncipes” (Daniel, X, 13)
e como “Miguel que é o vosso príncipe” (Daniel, X, 21), num tempo que cor-
responde ao “terceiro anno de Cyro Rey dos Persas” (Daniel, X, 1), isto é, no
contexto do Cativeiro da Babilónia. Enfim, a terceira referência ao “grande
Principe Miguel” apresenta o mesmo tom apocalíptico que perpassa na nar-
rativa do Novo Testamento, assim prenunciado no mesmo Livro de Daniel
(Daniel, XII, 1-2):
“N’aquelle tempo porém, se levantará o grande Principe Miguel, que é
o Protector dos filhos do teu Povo: e virá um tempo, qual não houve
desde que as gentes começaram a existir até áquelle tempo. E sal-
var-se-ha n’aquelle tempo d’entre o teu Povo todo aquelle que fôr
achado escripto no Livro.
E toda esta multidão dos que dormem no pó da terra, acordarão: uns
para a vida eterna, e outros para um opprobrio, que elles terão sem-
pre diante dos olhos.”.
Destas referências do Antigo Testamento, bem como das constantes do
Apocalipse, já referidas, decorrem os atributos de S. Miguel Arcanjo enquan-
to “victoriosus, princeps militiae caelestis, pugnat cum dracone”.
O Arcanjo de Escarigo, de belas asas douradas erguidas, quase infantil, mui-
to jovem e imberbe, apesar de desprovido de elmo, de cabelos soltos, está
devidamente equipado para o combate, ostenta uma lança e está protegi-
do por uma armadura (hoje pouco visível, por perda acentuada da camada
cromática respectiva) que lhe protege tronco, braços e pernas, sobre a qual
flutua a cercadura avermelhada de um típico saio, muito curto. S. Miguel Ar-
canjo surge com um pé à frente do outro, numa posição muito dinâmica, de
grandedeterminação,calcandoaospésocorpodoDragão,queestádeitado
de costas, apoiado no limite inferior da composição.
Prestes a ser vencido, o Dragão ergue a cabeça monstruosa e sobre-dimen-
sionada para cima, com a goela aberta e avivada a vermelho, fazendo res-
saltar dentes agressivos.
Uma cauda muito desenvolvida, que se ergue em hélice, com um enrola-
mento de desenho ingénuo, completa a figuração do Dragão que (apesar
de hoje estar também muito esbatido, devido a perda de matéria cromática)
durante quase duzentos anos, há-de ter proporcionado ao povo devoto de
Escarigo uma figuração muito eficiente, terrífica mesmo, do Demónio, do
Mal e, por extensão, das Penas do Inferno. Face ao Dragão, pesado e ar-
rojado no chão, o Arcanjo ganha, porém, um ar quase flutuante e imaterial,
efeitos acentuados pelo lançamento caprichoso do seu manto vermelho e
pela coreografia dos braços e das mãos que sustentam a lança, acabada de
enfiar nas goelas abertas do Dragão, lança esta que é encimada pela cruz,
simultaneamente arma e símbolo do triunfo sobre o mal.
56 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
FIGURA 7. S. Miguel matando o Dragão
(pormenor do painel central,
editado para realçar o desenho).
As figuras de S. Miguel Arcanjo e do Dragão sobrepõem-se a um típico fun-
do de damasco ou de brocado de tons amarelados, à semelhança do que
acontecia em inúmeras figurações medievais e tardo-medievais de cenas
de cunho religioso, de santos e demais figuras sagradas, frequentemente
representadas perante fundos constituídos por draps d’honneur, ou seja,
panos de armar de grande aparato, de modo a realçar a sua majestade e
sobretudo para reforçar a sua carga devocional.
Como vemos, apesar do manto vermelho, esta figuração é em si iconografica-
mente convencional e muito frequente. Ela integra o que Louis Réau chama
de Angelofanias, essas aparições miraculosas, nomeadamente do Arcanjo S.
Miguel que, assim figurado, surgia perante os fiéis vencendo o Dragão, com a
lançaarmadacomacruzdaPaixãoeRessurreiçãodeCristo–istoé,equipado
como verdadeiro triunfador sobre o inimigo, o mal e o pecado.
Ora, sendo o tema iconográfico de S. Miguel tão popular na arte portugue-
sa medieval e tardo-medieval, a figuração de S. Miguel Arcanjo de Escarigo
apresenta, porém, uma singularidade que merece o maior destaque. Com
efeito, e como acima vimos, em Escarigo o Arcanjo está ladeado de dois pro-
fetas: certamente o profeta Daniel no painel do lado do Evangelho (o lado
liturgicamente mais importante), representando a figura do lado oposto (a
direita, para quem olha para o altar-mor); ver atrás Fig. 6) provavelmente
o profeta Jonas ou eventualmente Elias, Isaías ou mesmo Eliseu. Segundo
LouisRéau,oautorquevimoscitando,oprofetaDaniel,emparticular,“ilaété
considéré par les théologiens comme une préfigure du Christ. Daniel dans la
fosse aux lions est l’image du Sauveur dans le Sépulcre” e “le symbôle de
l’âme sauvée: c’est le type de l’homme protégé par Dieu”. Tal como Daniel,
também o profeta Jonas, muito provavelmente representado no medalhão
58 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
do painel direito do frontal de Escarigo, tinha um significado singular, que
justificava a sua importância e a sua popularidade entre Judeus e Cristãos:
“Pour les Juifs, Jonas englouti, puis vomi ou craché par la baleine, est
l’image du peuple d’Israel dévoré par le dragon assyrien, enseveli vi-
vant dans l’exil pendant la captivité de Babylone, puis rendu à la liberté
para la grâce de l’Éternel.
Pour les Chrétiens, c’est la préfigure de la Mise au tombeau et de la
Réssurrection du Christ.
De même que Jonas est resté trois jours dans le ventre du squale et
en est sorti vivant, de même le Christ ressuscite après trois jours pas-
sés dans les ténèbres du sépulcre”.
Que saibamos, nas Beiras não estão identificadas composições semelhan-
tes, envolvendo profetas a ladear a figura de S. Miguel Arcanjo. Com efeito, a
representação de S. Miguel Arcanjo ladeado de dois profetas não só parece
ser única como não consta na recensão das tipologias iconográficas esta-
belecidas por Louis Réau, já atrás referidas. Consideramos que a associação
de S. Miguel aos Profetas no frontal de Escarigo proporciona uma importan-
te variante, provavelmente de cunho nacional ou mesmo regional, ao tipo
iconográfico de S. Miguel. Mas a própria figuração dos Profetas no frontal
de Escarigo também é digna de nota, pois acusa a influência iconográfica
directa de tipos semelhantes da pintura primitiva portuguesa e, por essa via,
parece deter uma forte influência flamenga. Note-se ainda que a figuração
do profeta do painel esquerdo do frontal de Escarigo, figurado sem barbas e
que identificamos como Daniel, respeita também os modelos iconográficos
estabelecidos.
FIGURA 8. Profeta Daniel (?);
painel lateral esquerdo do frontal
O manto do profeta barbado (o do painel
da direita) é de cor de laranja hoje num
tom muito esmaecido. Ambos os profetas
ostentam típicos turbantes vermelhos,
típicos da iconografia de algumas figuras
importantes do Antigo Testamento,
como vimos,
Ambos os profetas envergam amplos mantos, sendo o de Daniel vermelho,
debruado com gola rica de arminho, atributo dos mantos reais.
60 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Um olhar sobre uma pintura quinhentista
a fresco em Escarigo
A pintura do frontal do antigo altar-mor de Escarigo merece múltiplos olha-
res, nomeadamente sobre si própria, enquanto composição, realização pic-
tural e estado de conservação. Merece registo a qualidade da pintura dos
profetaseemparticularadoprofetadadireita,barbado,queproporcionaum
autêntico e excelente retrato, pela individualização dos traços fisionómicos
do rosto, mas também pelas suas raras qualidades pictóricas.
FIGURA 9. Profeta Jonas (?).
Painel direito do frontal de Escarigo
(pormenor).
Com efeito, este retrato distingue-se pela leveza e soltura do desenho, quer
do rosto, quer das mãos; pelo requinte da pintura, patente nas carnações
delicadas e na subtileza do tratamento das barbas, quer, enfim, pela inten-
sidade do olhar. Pensamos que estas qualidades fazem deste profeta bar-
bado um dos mais belos retratos alguma vez pintados nas Beiras (ou para
as igrejas das Beiras), em nada desmerecendo de figurações semelhantes,
patentes nas múltiplas pinturas sobre tábua que devemos à chamada Es-
cola de Grão Vasco.
Por outro lado, como também vimos, os Profetas estão integrados num
medalhão mais ou menos oval cujo perímetro é sublinhado pela barra de-
corativa e por um típico festão de folhagens e outros motivos, pintados a
grisalha, como vimos, realçados de modo a proporcionarem um efeito de
relevo muito sofisticado, com ressonâncias quer goticizantes, quer singu-
larmente modernas, italianizantes mesmo, a lembrar, na sua composição e
na sua execução pictórica, aparentemente muito cuidada, algo da maneira
renascentista típica do Quatrocento italiano tardio. O conjunto das rama-
gens e dos temas decorativos é integralmente pintado em grisalha, isto é,
em várias gradações de cinzento, avivada a branco visando efeitos de relevo
e volume dos elementos figurados.
O resto das figurações não tem uma realização gráfica e pictórica tão so-
fisticada. Com efeito, face ao aparente virtuosismo da pintura das folha-
gens dos panos laterais, merece reparo a realização fruste dos efeitos de
damasco dos fundos do painel central. Do mesmo modo, a figuração de S.
Miguel Arcanjo – de grande monumentalidade e muito bela, aliás – é dada
por um traço muito vincado e muito duro, embora não isento de grande
expressividade.
62 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Por outro lado deve registar-se o toque de ingenuidade na respectiva com-
posição geral, desarticulada e pouco firme, nas proporções algo desequili-
bradas ou no lançamento e na composição algo desajeitada do manto ver-
melho. As diferenças de desenho e de execução pictórica patentes entre o
painel central, ingénuo, e os painéis laterais, que gozam de uma execução
mais cuidada, poderiam deixar entrever a presença de duas mãos e mesmo
de duas fases de execução. A ser assim, a um primeiro momento da em-
preitada caberia a realização do motivo central, S. Miguel Arcanjo, que teria
cabido a uma mão menos dotada ou de formação oficinal e técnica muito
mais limitada que a exibida na composição e na pintura dos painéis laterais,
com as efígies dos dois profetas, uma de cada lado. Se assim fosse, como
FIGURA 10. Arcanjo S. Miguel
(pormenor).
inicialmente pensámos, uma primeira mão seria aparentemente substituí-
da num segundo momento por uma mão muito mais segura e controlada, a
quem deveríamos os painéis laterais, que detêm uma composição densa, e
muito mais actualizada, um desenho seguro e elegante e um cromatismo
que temos que considerar muito vistoso e até rico.
Parece-nos, porém, muito mais verosímil considerar antes o recurso a duas
técnicas distintas, usadas simultaneamente na execução do fresco, prática
muito frequente na pintura mural da época, como veremos. Com efeito, a
uma composição integralmente efectuada a fresco nas duas pinturas late-
rais (profetas) parece ter-se sobreposto, sobretudo no painel central, a re-
pintura, a seco, de partes importantes da figuração programada. Assim, a
ser correcta esta proposta, como pensamos, todo o corpo e a armadura do
Arcanjo bem como o corpo e a cabeça do Dragão terão sido repintados, não
numa segunda fase, mas a seco. Joaquim Caetano nota na pintura mural
transmontana a realização em simultâneo da pintura a fresco e a seco, esta
completandoaquela,referindo“ofactodeascoresplanasseremaplicadasa
fresco – fundos, panejamentos, base das carnações – e tudo o resto acaba-
do a seco”. Ora, esta técnica, aplicada deficiente e impropriamente, implica
quase sempre a posterior perda quase integral da respectiva camada cro-
mática, o que hoje nos dá uma imagem muito deficiente e descorada do que
foi a vivacidade das pinturas originais. Consequentemente, o espectador de
hoje tem a necessidade de recompor virtualmente pinturas que, como a de
Escarigo (ou a de Monsaraz), perderam camada cromática de uma forma
muito significativa, pois aquilo que chegou até nós é uma sombra, muito
longe do que o pintor pintou e do que nos quis deixar. Consequentemente,
o que resta hoje da figura principal do frontal de Escarigo, para lá do típico
64 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
rosto quase infantil do Arcanjo, das suas asas douradas e do manto que o
envolve, é a pintura, muito esvaída, da armadura (hoje num cinzento extre-
mamente descorado), que presentemente mal se nota, a proteger o braço
esquerdo e as pernas do Arcanjo. O resto é uma mancha esbranquiçada, de
difícil leitura, onde apenas sobressaem os traços principais do desenho de
base, inerentes à preparação da pintura, e que sobressaem no desenho da
armadura que protege o segmento inferior do tronco da figura, represen-
tados imediatamente abaixo do braço direito do Arcanjo. O mesmo se terá
passadocomapinturadoDragão,hoje tambémquasetotalmente esvaídae
portanto de observação muito difícil.
Independentementedasuaqualidadeartística,quenãoénadadespicienda,a
pinturadeEscarigotemomaiorinteressehistóricoparanós,poiselacaptade
uma forma eloquentíssima a “temperatura” artística (e ideológica, como vere-
mos) da Beira nos últimos anos do Séc. XV e nos primeiros anos do Séc. XVI.
Com efeito, em terra de fronteira e em momento de mudanças e inflexões his-
tóricasconhecidas,nelaconfluemasmaisdíspareseatéasmaisdissonantes
influências. Por um lado, o fresco de Escarigo é o produto de uma escola e de
modelos iconográficos e decorativos de cunho tradicionalista, replicando, de
uma forma naturalmente limitada e até inconsistente, as melhores tradições
da grande pintura portuguesa da segunda metade do século XV. Por essa via,
nelaconfluemmodeloscompositivoseiconográficosquevêmprovavelmente
da pintura flamenga, de há muito aclimatada entre nós, patentes nomeada-
mente na figuração dos Profetas. Do mesmo modo, a composição global de
cada um dos quadrados laterais com os medalhões centrais e as ramagens
que os contornam, e que preenchem todo o fundo das respectivas composi-
ções, não deixam de evocar a composição de muitas vinhetas das iluminuras
tardo-góticas e manuelinas, que aqui surgem como que ampliadas e monu-
mentalizadas. Porém, a cercadura clara que delimita os medalhões que con-
têm as figuras dos profetas tem ressonâncias intensas com os “tondi” renas-
centistas,istoé,oscírculosdecorativosqueservemdefundonomeadamente
a retratos reais ou idealizados, quase sempre de perfil, pintados ou realizados
em madeira, em pedra ou em faiança e tão típicos do Renascimento italia-
no. Do mesmo modo, a inesperada presença do puto decorativo no painel da
esquerda deixa entrever um ambiente de evidente vontade de actualização
estilística, bem a par, afinal, do tratamento das folhagens em grisalha, que re-
meteminevitavelmenteparaosgrotescosoubrutescosdecorativos,também
muito típicos do Renascimento Italiano.
Em suma, a pintura do frontal de Escarigo é um monumento ímpar da pintu-
ra fresquista das Beiras, no período que medeia entre os meados do século
XV e meados do século XVI. Como em tantas e tantas obras de arte, as qua-
lidades e virtualidades da pintura de Escarigo coabitam com fragilidades e
debilidades técnicas inerentes à conclusão a seco de uma obra começada a
fresco, que comprometeram a própria sobrevivência de partes importantes
da camada cromática do painel central, como vimos. Mas estas são limita-
ções meramente técnicas que, tal como não afectavam em nada o seu pa-
pel litúrgico e o seu poder devocional de outrora, também nos dias de hoje
não afectam em nada o reconhecimento da importância histórica e artística
desta pintura, a todos os títulos notável, na complexidade e originalidade do
modelo iconográfico e do próprio esquema figurativo, mas também na sua
ingenuidade, na sua graça primitiva, na sua tentativa de actualização, e so-
bretudo na sua intensa presença pictórica, fonte da expressividade extrema
que a caracteriza e que dela emana há mais de quatrocentos anos.
66 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
A pintura de Escarigo, onde confluem, em termos de fontes e de influências,
modelos tradicionais e importantes assomos de novidades cosmopolitas e
que, em termos de composição e de factura, oscila entre o ingénuo, o con-
vencional e o relativamente sofisticado, constitui assim um barómetro cer-
teiro do ambiente artístico e cultural vivido nos últimos anos do Séc. XV e
nas primeiras décadas do Séc. XVI na região das Beiras e na de Riba-Côa
em particular. Com efeito, a pintura de Escarigo mostra como também no
aspecto cultural esta região, mais do que uma linha de fronteira era, por es-
ses anos, uma linha de charneira entre vectores culturais e artísticos díspa-
res e desencontrados, entre o respeito por modelos tradicionais e a pulsão
pelo moderno – assinalada esta com as inovações próprias de momentos
históricos particularmente acelerados, fazendo chegar a terras de Riba-Côa,
nas primeiras décadas de Quinhentos, os primeiros ecos de uma inspiração
renascentista e humanista.
A pintura do Arcanjo S. Miguel do altar de Escarigo:
um manifesto teológico e ideológico
dos princípios do Séc. XVI em terras de Riba-Côa
Para lá da sua importância histórica enquanto obra figurativa, a pintura do
frontal de Escarigo levanta ainda a questão do seu significado, do seu va-
lor simbólico, teológico e até ideológico no quadro das dinâmicas históricas
e sociais vividas na Península, em Portugal e, em particular, nesta região
das Beiras na viragem do século e nas primeiras décadas do século XVI.
Com efeito, estas complexas questões ombreiam com os difíceis proble-
mas suscitados no estrito âmbito da História da Arte pelo fresco de Escari-
go, relativos a influências artísticas e estilísticas e às questões, porventura
insolúveis, de oficina e de autoria. A figuração de S. Miguel Arcanjo, ladea-
do de duas figuras do Antigo Testamento tem um significado evidente ou,
se se pretender, uma intenção religiosa e social óbvias. Note-se, antes de
mais, que a pintura de Escarigo tem uma importância histórica singular pois,
numa época muito próxima do início do século XVI, representa dois profetas,
elementos preponderantes do “povo eleito”, como judeus, barbados ou não,
vestidos e cobertos como tal, de acordo com tradições iconográficas muito
consolidadas.
Mas a pintura de Escarigo tem também um significado teológico e até polí-
tico. Por um lado, a figuração de S. Miguel Arcanjo ladeado de Profetas tem
um significado religioso óbvio: sendo o Arcanjo S. Miguel uma das poucas fi-
guras bíblicas que perpassam tanto pelo Antigo como pelo Novo Testamen-
to,elerepresentaexplícitaeobjectivamenteaharmoniaentreaLeiVelhaea
Lei Nova, ou melhor, a continuidade, a passagem directa do Antigo ao Novo
Testamento, que conduz à vinda do Messias e à Ressurreição de Cristo, a
68 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
base fundadora do Cristianismo. A articulação harmoniosa entre o Antigo e
o Novo Testamento era um desígnio teológico e mesmo ideológico verda-
deiramente estruturante em diversas, poderosas e influentes instâncias es-
pirituais da época – e reflecte-se da forma mais explícita nos tão complexos
planosiconográficospatentesnasobrasrégiasinseridasnoCicloManuelino
– e continuaria a sê-lo durante toda a Idade Moderna. Neste âmbito, ganha
todo o sentido a associação entre S. Miguel e Cristo Ressuscitado: “Agora foi
estabelecida [por Miguel] a salvação, e a fortaleza, e o Reino do nosso Deus,
eopoderdoseuChristo”,patentenanarrativadoApocalipse(XII,10),jáatrás
referida. Esta associação induz uma espécie de assimilação entre o Arcanjo
e Cristo, patente na própria figuração do painel central de Escarigo, em que
tanto o manto vermelho do Arcanjo, como a haste da lança vencedora são
também atributos iconográficos de Cristo Ressuscitado.
Enfim, a figuração de S. Miguel Arcanjo no frontal do altar-mor desta igreja
raiana consagra a confluência entre os dois Testamentos, selada pelo mis-
tério da Eucaristia, a celebrar ritualmente – e pelos séculos dos séculos – no
altar assim decorado algures nas primeiras décadas do século XVI. Por isso,
a figuração do Arcanjo S. Miguel ladeado de Profetas tem também o valor
de um manifesto político e ideológico óbvio, tendo em conta as dinâmicas
político-ideológicas da época, criadas com o primeiro casamento do Rei D.
Manuel (1497), com a expulsão e a conversão forçada dos Judeus, com as
tensões provocadas por estas conversões e pelo convívio por vezes confli-
tuoso entre cristãos velhos e cristãos novos. Com efeito, a representação
de S. Miguel, uma das raríssimas figuras da Lei Velha que perpassam para
a Lei Nova, patente nesta pintura – datável de um período algo próximo do
primeiro casamento do rei e da consequente conversão dos judeus, como
veremos, tem um valor simbólico especial: ela simboliza a harmonia e a con-
córdiaquedevemexistirequesequerqueexistamentretodososmembros
da sociedade, entre os judeus recém-convertidos e a maioria dominante –
doravante todos unidos numa mesma crença comum. Pensamos, pois, que
a pintura do Arcanjo S. Miguel ladeado de dois profetas tem um significado
que transcende a sua mera intenção devocional: ela induz e impõe a articu-
lação,aintegraçãoeaassimilaçãodetodososelementosdasociedade–de
todos os fiéis, fosse qual fosse a origem ou a etnia de cada segmento social
em presença, fossem eles membros da maioria ou da minoria, pois todos
eles partilhavam a sua existência – e o seu quotidiano – em todo o Reino
e nesta região fronteiriça em particular. Esta pintura do Arcanjo triunfante
é o sinal de que se pretende que os cristãos velhos e os cristãos novos se
integrem, vivam e convivam entre si da forma mais pacífica e tolerante, pois
todos eles têm em S. Miguel o chefe vencedor sobre o “inimigo” comum.
A pintura de Escarigo é um manifesto político também por outro motivo,
pois celebra não só o padroeiro da igreja, mas também uma das grandes
invocações religiosas do Portugal da época. Com efeito, S. Miguel Arcanjo
torna-se objecto de um culto não só local ou regional, mas nacional; não só
espontâneo,masoficial.EnquantoArcanjoguerreiro,enasequênciadeuma
tradição muito antiga e muito intensa, o carisma vencedor de S. Miguel as-
similá-lo-á ao Anjo Custódio de Portugal – e daí a sua popularidade em ter-
ras raianas e a necessidade de renovar, actualizar ou pintar “de novo” a sua
imagem no frontal de uma igreja como a de Escarigo, localizada a menos de
um quilómetro da fronteira. Assim, é num contexto messiânico tão entra-
nhado na Ética e na Época Manuelina que ao Arcanjo S. Miguel, Príncipe das
MilíciasCelestes,defensordaIgreja,senhordaPesagemdasAlmasnoJuízo
70 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Final, se atribuirá “a protecção de Portugal, como anjo custódio do reino”. No
respeito pela letra do Profeta, o Arcanjo será para Portugal o que fora num
tempo mítico-histórico passado para o Povo Eleito, “o Protector dos filhos
do [seu] Povo” (Daniel, XII, 1). É neste contexto que D. Manuel I instituirá, a
6 de Junho de 1504, o culto obrigatório do Anjo Custódio em todas as cida-
des e vilas de Portugal, na forma de uma procissão muito solene a organizar
obrigatoriamente em todos os concelhos do Reino:
E isso mesmo Mandamos, que em cada huum anno no terceiro Do-
mingo do mes de Julho polo dito modo se faça outra Precissam so-
lene, por comemoraçam do Anjo Custodio, que tem cuidado de nos
goardar e defender, pera que sempre seja em nossa guarda e defen-
sam.AsquaesPrecissõessefaram,eordenaramcomaquellafestae
solenidade, com que se faz a Precissam do Corpo de Deos...”.
Sinais da mesma devoção estão bem patentes no complexíssimo programa
iconográfico-ideológico do portal Sul da Igreja do Mosteiro dos Jerónimos,
encimado pela figura monumental de S. Miguel Arcanjo, assimilado ao Anjo
Custódio de Portugal, num conjunto assim descrito por Rafael Moreira:
“no lugar de maior destaque, a imagem de Nossa Senhora dos Reis,
com o Menino-Deus e o vaso de ofertas dos Reis Magos; e dominan-
do ao alto o Anjo Custódio de Portugal, mensageiro do Espírito Santo:
sinais da protecção divina à linhagem espiritual do rei e, portanto, da
legitimidade do seu poder”.
Mas antes da institucionalização do culto a S. Miguel enquanto Anjo Custó-
dio do Reino já o Rei D. Manuel tinha dado uma prova extrema da sua devo-
ção sincera ao Arcanjo, enquanto Autor da Paz e Anjo da Paz, dando o seu
nome ao seu próprio filho primogénito, o Príncipe D. Miguel da Paz (1498-
1500), nascido da sua primeira mulher, a Rainha D. Isabel, que morreu do
respectivo parto.
Em suma, D. Manuel I, os seus teólogos e os seus ideólogos, eivados de espí-
rito messiânico, recuperam as palavras proféticas do Livro de Daniel e a nar-
rativa apocalíptica inerente à “grande batalha” vitoriosa que “houve no Céo”,
entre os exércitos de S. Miguel e do Dragão, fonte de salvação, que também
é fonte de alegria, de esperança e de justiça para todos os justos: “Por isso, ó
Céos, alegrae-vos, e vós os que habitaes n’elles. Ai da terra, e do mar, porque
o diabo desceu a vós cheio d’uma grande ira” (Apocalipse, XII, 12). Nestes ter-
mos, a figuração do Arcanjo na pintura de Escarigo aponta também implícita
e simbolicamente para a Justiça – patente na balança da pesagem das almas,
normalmente ostentada pelo Arcanjo, embora omitida no plano iconográfico
de Escarigo – justiça que é a fonte da harmonia entre todos os membros da
comunidade, irmanados na Ecclesia e protegidos pela lança vencedora do
Arcanjo, pertençam à maioria ou a uma das minorias sociais então existen-
tes no Reino. Com efeito, todos os moradores do Reino estão ou quer-se que
estejam unidos “em perpetua paz, e bons costumes” numa república comum,
como se entrevê na pintura de Escarigo, que acolhe, no lugar mais central da
igreja matriz, entre os profetas da Lei Antiga, a figura de S. Miguel, que é um
dos esteios do “poder do seu Christo”. Esta república comum tem no Rei Ab-
soluto o penhor da Equidade e da Justiça, pois ele é o representante, o instru-
mento, o agente de Deus na Terra. Ora, a Justiça terrena – que replica a seu
72 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
modoaJustiçatranscendenteeeternadoJuízoFinal–éagrandevirtude“que
nom menos que as armas faz vencer pela concordia e assesseguo que se
della segue”. Nestes termos, o rei e a Justiça que dele emana são também o
penhor da harmonia, da ordem e do bem comum de todos, Cristãos Velhos e
CristãosNovos,pois“assiobomReydeueseersemprehum,eigualatodos”–
como se escrevia lapidarmente no Prólogo das Ordenações Manuelinas.
Proposta de datação
Merecediscussãoadataçãoprováveldofrescodoantigoaltar-mordaIgreja
de Escarigo. Com efeito, há que ter em consideração o vanguardismo das
grisalhas laterais, em tudo parecidas com idênticas grisalhas que Luís Afon-
so estudou, comprovadamente datadas ou datáveis de 1529, o que poderia
avançar a datação desta pintura para o período de cerca 1525-1535. Com
efeito, na sua lista de pinturas a fresco então conhecidas em Portugal, Luís
Afonso integra a pintura de Escarigo, na “Tabela I – Distribuição aproximada
da cronologia e do estilo das pinturas murais” da sua Tese, integrando-a no
período “1525-50”, sendo deste autor as seguintes considerações:
“O figurino destas figuras, nomeadamente pelo corte de cabelo que
apresentam, aponta para uma cronologia dentro do reinado de D.
Manuel, embora a indumentária e o tratamento plástico das figu-
ras, sobretudo ao nível do desenho, pareça ser mais adequado para
modelos classicistas do segundo quartel do século XVI. Deste modo,
julgamos que a cronologia mais viável para estas pinturas se situará
entre c. 1520 e c. 1550, não se encontrando nenhuma obra compará-
vel a estas na região beirã”.
A ser assim, as pinturas de Escarigo integrar-se-iam no ciclo estilístico
do Renascimento, época de afirmação de um novo espírito artístico entre
nós, que ocorre com a aclamação do Rei D. João III (1521) e que coincide
com um período de grande afirmação da pintura a fresco entre nós.Porém,
tendo em vista as dinâmicas sociais, ideológicas e culturais do início do
Reinado de D. Manuel I, atrás sumariamente referidas, pensámos inicial-
mente que a pintura de Escarigo devia remontar a uma data muito próxima
de 1500, época cheia de acontecimentos de uma relevância extrema: pro-
pusemos os anos imediatos a uma das seguintes datas: logo após 1498,
ano do nascimento, em Saragoça, do primogénito, Príncipe D. Miguel da Paz
e da morte da Rainha D. Isabel. 1498 foi também o ano do regresso ao Reino
de D. Manuel I (saída de Saragoça a 8 de Setembro e chegada a Lisboa a 9
de Dezembro de 1498), numa viagem em que o rei entra por Almeida, com
muito provável passagem na Guarda. Nesta passagem singular de D. Ma-
nuel I pelas terras raianas – sempre esquecida pelos historiadores, apesar
de ser bem digna de estudo – o rei que, apesar do luto, celebrava a varonia
do primogénito recém-nascido, há-de ter sido objecto de uma autêntica so-
beranofania nas localidades por onde passou. Com efeito, essa passagem
proporcionou em todas as cidades e vilas do percurso as cerimónias tradi-
cionais da entrada régia e a aclamação festiva do então jovem rei, em início
de reinado (fora aclamado em Outubro de 1495). Tal como na Idade Média, o
Rei há-de ter ouvido ou mandado ouvir os Procuradores dos Concelhos da
região, bem como as queixas e agravos dos Povos, para lá de ter tido cer-
tamente providenciado as medidas que se impunham nos mais diversos
domínios, tendo tido a oportunidade de arbitrar e resolver conflitos e dis-
senções existentes a nível local com a paciência, pragmatismo e bom senso
74 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
que caracterizaram a generalidade das medidas políticas, administrativas e
judiciais de todo o seu longo reinado – que de si deixou aos vindouros a me-
mória de “Venturoso”.
Nesta passagem memorável pelas Beiras, o rei D. Manuel distribui privilé-
gios, bens e benesses pelas terras e pelas igrejas das localidades por onde
passava, testemunhadas nos inventários das igrejas das Comendas da Or-
dem de Cristo, que detinham ornamentos e vestimentas oferecidas pelo
próprio rei, como comprovado pelo seu cronista Damião de Góis. Enfim, do
rasto intenso da passagem do Rei por terras de Riba-Côa pode ter resulta-
do a própria pintura de Escarigo (tal como outras pinturas desta e de outras
igrejas, há muito destruídas ou ocultas), pintada porventura logo após 1498,
deste modo celebrando a passagem do Rei e o nascimento do Príncipe re-
cém-nascido e retribuindo porventura eventuais privilégios e ofertas régias
à igreja e aos moradores da localidade.
A pintura de Escarigo pode também datar dos primeiros anos a seguir a
1504, ano da proclamação oficial da devoção ao Anjo Custódio de Portugal,
solicitada por D. Manuel junto do Papa Júlio II, ou até – terceira hipótese de
datação – dos primeiros anos posteriores a 1507, anos em que estão re-
ferenciadas Visitações em igrejas da região, como vimos acontecer, nesse
mesmo ano de 1507, na do lugar vizinho da Reigada e noutras localidades
raianas beirãs e transmontanas, todas elas Comendas da Ordem de Cristo.
Dessas Visitações decorriam sempre recomendações no sentido de actua-
lizações,melhoramentoseobrasafazernasestruturaseedifíciosreligiosos
locais, que incluíam igrejas, capelas, ermidas, campanários, cruzeiros, etc –
elementos que pontuavam e sacralizavam a paisagem local de uma forma
muito mais intensa e sobretudo muito mais vivida que nos nossos dias. Mas
dessas Visitações resultava também a necessária actualização litúrgica,
que passava pela encomenda de imagens e de objectos de culto novos, es-
tilística e canonicamente actualizados, em substituição dos antigos objec-
tos litúrgicos, envelhecidos, estragados e até desactualizados, bem como a
imposição da re-decoração, ainda que parcial, das igrejas.
Destasre-decoraçõesintensivas,efectuadasnasequênciadapassagemde
D. Manuel em 1498 ou na da Visitação de 1507 na igreja da aldeia vizinha da
Reigada – que hão-de ter deixado um rasto intenso nas igrejas e capelas de
todas as localidades das redondezas – pode sobreviver, pensamos, a notá-
vel pintura do frontal da belíssima Igreja de Escarigo (e, muito provavelmen-
te as outras pinturas a fresco já detectadas na mesma igreja mas ocultadas
pelo retábulo do altar mor, como vimos) e certamente nas igrejas e capelas
de toda a região, ainda ocultas sob as caiações antigas ou mesmo escondi-
das atrás dos respectivos retábulos barrocos.
Ora, a anos pouco posteriores a 1507 têm sido atribuídas importantes pintu-
ras e ciclos de pinturas pintadas a fresco. Com efeito, as figuras dos painéis
laterais do frontal, complexas e de desenho excelente, bem como os grotes-
cos extraordinários que as circundam, podem e devem apontar para datas
talvez ligeiramente posteriores às Visitações de 1507, atrás referidas, dada
a sua afinidade com grotescos em grisalha datáveis de 1511-1513; com pin-
turasdatáveisdoprimeiroquarteldoséculoXVIou,numâmbitocronológico
mais amplo, datáveis da segunda (ou da terceira) década do século XVI. Ten-
do em vista estas considerações históricas e a datação destes importantes
ciclos picturais, pensamos que a pintura do frontal-mor de Escarigo deve
remontar a um momento indeterminado do período entre 1510 e 1520 ou de
anos muito próximos a estas datas.
76 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Para lá da continuação da respectiva análise a nível iconográfico e pictórico,
urge o estudo técnico-arqueológico do fresco, a sua limpeza e restauro ur-
gentes e – se for esse o entendimento dos técnicos de restauro responsá-
veis e o das autoridades eclesiásticas e culturais envolvidas – encarar a sua
remoção e a sua consolidação num suporte adequado. Com efeito, a pintura
deEscarigomereceserestudada,expostaedivulgada,assimseresgatando
e dignificando uma pintura devocional que é hoje uma muito rara e notável
obra de arte que, para proveito de todos, deve estar disponível à contempla-
ção directa de todos e em particular à dos moradores de Escarigo, para os
quais foi criada há cerca de cinco séculos atrás.
FONTES E BIBLIOGRAFIA
FONTES MANUSCRITAS:
Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT) – Mesa da Consciência e Ordens/ Comendas – Ordem de Cristo/
Convento de Tomar [COM - OC/CT]- Maço 66, doc. n. 2/ Visitações: Livro 132 e Livro 304.
FONTES IMPRESSAS:
A Biblia Sagrada Contendo o Velho e o Novo Testamento – Traduzida em Portuguez Segundo a Vulgata Lati-
na por Antonio Pereira de Figueiredo, Typographia Universal, Lisboa, 1865.
As Freguesias do Distrito da Guarda nas Memórias Paroquiais de 1758: Memória, História e Património, CA-
PELA, José Viriato; MATOS, Henrique (Org., transcrição e notas), Ed. José Viriato Capela, Braga, 2013.
Cadastro da População do Reino (1527) – Actas das Comarcas Damtre Tejo e Odiana e da Beira, COLLAÇO,
João Maria Tello de Magalhães (Org. e transcrição), Ed. de Autor; Lisboa, 1929-1931.
GÓIS, Damião de, Chronica do Sereníssimo Senhor Rei D. Manoel…, dada a luz… por Reinerio Bocache, Impres-
são da Oficina de Miguel Manescal da Costa, Lisboa, 1749.
ONovoTestamentodeJesuChristo–TraduzidoemPortuguezSegundoaVulgataLatinaporAntonioPereira
de Figueiredo, Typographia Universal, Lisboa, 1865.
Ordenações Filipinas, Reimpressão “fac-simile” da Edição de Cândido Mendes de Almeida (Rio de Janeiro,
1870), Fundação C. Gulbenkian, Lisboa, 1985.
Ordenaçoens do Senhor Rey D. Manuel – Livro 1, Reimpressão “fac-simile” da edição feita na Real Imprensa
da Universidade de Coimbra no ano de 1797, Fundação C. Gulbenkian, Lisboa, 1984.
BIBLIOGRAFIA:
AFONSO,LuísUrbano,ConventodeSãoFranciscodeLeiria–EstudoMonográfico,LivrosHorizonte,Lisboa,2003.
AFONSO, Luís Urbano, “A apropriação simbólica da Justiça: Trajano, D. João II e a pintura do tribunal de Monsa-
raz”, Artis – Revista do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras de Lisboa, n.º 2, Lisboa, 2003.
AFONSO, Luís Urbano, A Pintura Mural Portuguesa entre o Gótico Internacional e o fim do Renascimento:
Formas, Significados, Funções, Fundação C. Gulbenkian (Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Lisboa,
2009 (2 Vol.s).
BATORÉO, Manuel, Os ‘Primitivos Portugueses’ e a Gravura do Norte da Europa – Utilização Instrumental de
Fontes Gráficas, Caleidoscópio, Casal de Cambra, 2011.
CAETANO, Carlos, “Uma Relíquia do Velho Poder Municipal: o Banco da Câmara do extinto Concelho de Cas-
telo Bom na Igreja Matriz daquela antiga Vila”, Praça Velha – Revista Cultural, N.º 19, Guarda, Câmara Muni-
cipal da Guarda, 2006.
78 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
CAETANO, Carlos, “Uma rara pintura do Arcanjo S. Miguel entre duas figuras da Lei Antiga, descoberta na
igreja de Escarigo”, in Praça Velha, Câmara Municipal da Guarda, Guarda, 2015, n.º 35, pp. 79-111.
CAETANO, Joaquim Inácio, O Marão e as oficinas de pintura mural nos seculos XV e XVI, Aparição, Lis-
boa, 2001, p. 38.
CAETANO, Joaquim Inácio, Motivos Decorativos de Estampilha na Pintura a Fresco dos Séculos XV e XVI no
Norte de Portugal. Relações entre Pintura Mural e de Cavalete, Dissertação de Doutoramento em História
na especialidade Arte, Património e Restauro, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Lisboa, 2010.
CARVALHO, José Alberto Seabra, Gregório Lopes, Edições Inapa, Lisboa, 2004.
DIAS, Pedro, “A Arte Manuelina” in AAVV., Manuelino – À Descoberta da Arte do Tempo de D. Manuel I, Civili-
zação Portugal, Lisboa, 2002.
FIGUEIREDO, Cândido de, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Bertrand Editora, 25.ª Edição, Lis-
boa, 1996, Vol. I.
FLOR, Pedro, A Arte do Retrato em Portugal nos séculos XV e XVI, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.
GOUVEIA, António Camões; BRANCO, Manuel (Coord.), Francisco Henriques – Um Pintor em Évora no Tempo
de D. Manuel I (Catálogo da Exposição), Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos
Portugueses / Câmara Municipal de Évora, Lisboa/ Évora, 1997.
LEITE, Sílvia, A Arte do Manuelino como Percurso Simbólico, Caleidoscópio, Casal de Cambra, 2005.
MOREIRA, Rafael, Jerónimos, Verbo, Lisboa, 1987.
Pereira, Paulo (Dir.) – História da Arte Portuguesa, 3 Vol.s, 3.ª ed., Lisboa, Temas e Debates, 1999.
RÉAU, Louis, Iconographie de L’Art Chrétien – Tome II – Iconographie de la Bible I – Ancient Testament, Pres-
ses Universitaires de France, Paris, 1956.
RÉAU, Louis, Iconographie de L’Art Chrétien – Tome Second – Iconographie de la Bible II - Nouveau Testa-
ment, Presses Universitaires de France, Paris, 1957.
RODRIGUES; Dalila, “A Pintura no Período Manuelino” in Paulo Pereira (Dir.), História da Arte Portuguesa, Te-
mas e Debates, Lisboa, 1999, Volume 2, pp. 199-277.
EL PATRIMONIO ARQUEOLÓGICO
DE LA CUENCA DEL ÁGUEDA
COMO RECURSO TURÍSTICO:
DEL PALEOLÍTICO
A LA EDAD MEDIA
José Ignacio Martín Benito
HISTORIADOR DE ARTE
La Organización Mundial del Turismo (OMT) define al turismo
cultural como un “tipo de actividad turística en el que la motiva-
ción esencial del visitante es aprender, descubrir, experimentar
y consumir los atractivos/ productos culturales, materiales e
inmateriales, de un destino turístico. Estos atractivos/productos
se refieren a un conjunto de elementos materiales, intelectuales,
espirituales y emocionales distintivos de una sociedad que en-
globa las artes y la arquitectura, el patrimonio histórico y cultural,
el patrimonio gastronómico, la literatura, la música, las industrias
creativas y las culturas vivas con sus formas de vida, sistemas de
valores, creencias y tradiciones”. 1
El desarrollo de este tipo de turismo debe marcarse como objeti-
vo principal la sostenibilidad de los bienes culturales. Ello implica
hacercompatiblelaconservaciónypreservaciónconsuinserción
80 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
en el desarrollo social, económico y ambiental de las comunidades locales
depositarias de dichos bienes. De esta manera, el turismo cultural deberá
estar encaminado a contribuir a mejorar el bienestar de los habitantes del
territorio en el que se insertan los bienes patrimoniales, a fomentar el apre-
cio y arraigo de la identidad cultural propia y al intercambio transcultural con
la de los visitantes.
Los territorios de la Raya luso-española tienen una oportunidad en la imple-
mentación de políticas de turismo cultural sostenible, orientadas a generar
beneficios sociales y económicos, que se traduzcan en la creación de pues-
tos de trabajo y ayuden a mantener y desarrollar actividades económicas en
unas áreas castigadas por la despoblación.
El reconocimiento y declaración por la UNESCO de los sitios arqueológicos
de arte rupestre del Valle del Côa (1998) y Siega Verde (2010) como Patri-
monio Mundial de la Humanidad supone no solo una oportunidad para el de-
sarrollo de estas regiones transfronterizas, sino también el potencial motor
de tracción para insertar y sumar otros bienes patrimoniales en la oferta de
turismo cultural. Una parte singular lo constituye el patrimonio arqueológico,
una de las modalidades del turismo cultural que se ha visto impulsadas en
los últimos años (Solsona y Rico, 2014).
La Tierra de Ciudad Rodrigo y, en particular, el valle del Águeda cuenta con
un importante elenco de restos arqueológicos que van desde el Paleolíti-
co hasta la Alta Edad Media-, algunos de los cuales -los menos- han sido
promovidos como producto de turismo cultural. Sin embargo, otras muchos
podrían también incorporarse.
En las páginas que siguen expondremos una relación de estos recursos a
lo largo del valle del río Águeda y sus proximidades. El Águeda nace a 1.678
1
. CAMPOS SÁNCHEZ-BORDONA, Francisco
(ed.) Cuenca del Águeda. Un territorio para dos
países. Valladolid, 2013, p. 9.
m. de altitud, en el manantial Puente de los Llanos (Navasfrías), en la sierra
de Gata. En su recorrido, de sur a norte, atraviesa gran parte de la Tierra de
Ciudad Rodrigo hasta su confluencia con el Duero, en el término de La Fre-
geneda, a 125 m. de altitud, después de un recorrido de 144 km. Los princi-
palesafluenteslosrecibeporsumargenderecha:RíoFrío,Mayas,Agadones
y Burguillos y Agadón, mientras que por la izquierda destacan la Rivera de
Azaba y el río Turones. La cuenca tiene una extensión de 2.600 km2, ex-
tendiéndose por el suroeste de la provincia de Salamanca, norte de la Cá-
ceres y por el oeste del distrito de Guarda. La mayor parte de la cuenca está
ocupada por 51 términos municipales de la comarca de Ciudad Rodrigo, 9
de la provincia de Cáceres y 19 freguesías de los concelhos portugueses de
Figueira de Castelo Rodrigo, Almeida y Sabugal.
Actualmente, sólo una mínima parte del patrimonio arqueológico de la cuenca
delÁgueda está integrada en la oferta de turismo cultural. Loscasosson conta-
dosysereducen,básicamente,atresmanifestacionesarqueológicas“insitu”:el
yacimiento de arte rupestre de Siega Verde (Villar de Argañán), el dolmen de la
CasadelMoro(CasilladeFlores)yelcastrodeIrueñaenFuenteguinaldo.
SIEGA VERDE Y EL ARTE RUPESTRE
DEL VALLE DEL ÁGUEDA
Siega Verde
El yacimiento de “Siega Verde”, junto a los del valle del Côa, es uno de los
conjuntos de arte rupestre paleolítico al aire libre más importantes de la pe-
nínsula Ibérica. Los grabados fueron descubiertos en 1998 por el equipo de
Manuel Santonja, director del Museo de Salamanca. El enclave está situado
82 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
a unos 17 km al noroeste de Ciudad Rodrigo, entre los términos municipales
de Villar de la Yegua, Villar de Argañán y Castillejo de Martín Viejo. Cuenta
con 94 paneles grabados y agrupados en 17 conjuntos, con un total de 540
figuras zoomorfas. Entre los animales representados, predominan sobre
todo los cérvidos, bóvidos y caballos (Fig. 1).
FIGURA 1. Caballos y bóvidos en Siega Verde.
El conjunto fue declarado Bien de Interés Cultural, en la categoría de zona
arqueológica, el 25 de septiembre de 1998. Fue incluido en la lista de Patri-
monio Mundial de la Humanidad el 1 de Agosto de 2010, en la 34ª reunión
de la Convención de la UNESCO celebrada en Brasilia (Brasil) entre los días
25 de Julio y 3 de Agosto. Su número de referencia en la Lista es el 866bis.
Y lo hacía como una ampliación de los yacimientos prehistóricos del valle
del Côa, en Portugal, declarados Patrimonio Mundial en 1998 (nº 886). En
2018 fue incluido en el Itinerario Cultural del Consejo de Europa ‘Caminos
de Arte Rupestre Prehistórico’ con el distintivo de Patrimonio Rupestre Eu-
ropeo. Desde 2019 el yacimiento forma parte del proyecto de cooperación
transfronteriza ‘Paleoarte, Arte Paleolítico transfronterizo, que se enmarca
en el Programa Operativo de Cooperación Transfronteriza España-Portugal
2014-2020 (INTERREG V-a); este proyecto tiene como objetivo la promo-
ción de las representaciones paleolíticas del valle del Côa y de Siega Verde.
Por otro lado, Siega Verde está incluido dentro del “Pasaporte Rupestre del
sudoeste de Europa”, una iniciativa promovida por diversas instituciones
de Francia, España y Portugal que tiene como objetivo incentivar el conoci-
miento directo de los enclaves con manifestaciones artísticas prehistóricas.
El lugar cuenta con un Aula Arqueológica o Centro de interpretación a pie de
yacimiento (Fig. 2.), desde donde puede accederse a la visita “in situ” de 14
paneles. En la sala central del aula hay un montaje expositivo que recrea la
vida del Paleolítico, con figuras, maquetas y paneles con información didác-
tica. Los contenidos se complementan en otra sala con la proyección de un
audiovisual.
84 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
El centro de interpretación fue abierto al público el 12 de abril de 2001 y ges-
tionado por Trama S. L. Gestión Cultural (Madrid) hasta noviembre de ese año
y por la Agrupación Europea de Interés Económico (AEIE) “Raya Seca” hasta
2005, cuando se hizo cargo el grupo de acción local Asociación para el Desar-
rollo de la Comarca de Ciudad Rodrigo (ADECOCIR), mediante la firma de un
convenio con los ayuntamientos de Villar de la Yegua, Villar de Argañán y Cas-
tillejodeMartínViejo,derivado,asuvez,deotroconvenioqueestasentidades
localeshabíanestablecidoconlaJuntadeCastillayLeón,administracióndela
que depende en última instancia el yacimiento. En abril de 2022 se ha anun-
ciado que la gestión pasará a manos de un nuevo ente, la Fundación Siega
Verde, en proceso de constitución por varios ayuntamientos.
FIGURA 2. Aula arqueológica de Siega Verde.
FIGURA 3. Visitantes contabilizados en 21 años.
No obstante, llama la atención el escaso número de personas que visitan
anualmente el yacimiento, lo que nos indica que su promoción ha sido insu-
ficiente y que es manifiestamente mejorable. En cualquier caso, ningún año
ha logrado superar las 6.000 visitas
En los 21 años de régimen de visitas, desde que se puso en marcha el Centro
o Aula arqueológica, el total de personas contabilizadas ha sido de 83.510.
Todo esto contrasta notablemente con el número de personas que visitan
el parque arqueológico del valle del Côa, que han ido incrementándose no-
tablemente con el transcurso del tiempo. Así, en los cuatro primeros años
de creación del parque, las cifras anuales oscilaron entre 20.000 y 25.000
visitantes (Zilhâo, 2000: 63) para ir progresivamente aumentando y alcan-
zar los 79.000 visitantes en 2021. Ello se vio favorecido, sin duda, a partir de
2010, con la inauguración del Museu do Côa.
AÑO VISITANTES AÑO VISITANTES
2001 2.475 2012 3762
2002 3.344 2013 5.577
2003 2.763 2014 5.981
2004 3.013 2015 5.545
2005 2.687 2016 4.216
2006 3.993 2017 5.372
2007 2.487 2018 5.594
2008 2.654 2019 5.325
2009 3.076 2020 2.687
2010 3.937 2021 4.629
2011 4.393
86 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Es obvio que ello tiene que ver mucho con la gestión, con los recursos y ca-
nales destinados a la promoción, con la dotación de infraestructuras y con
los proyectos de investigación que se ha venido haciendo de este Patri-
monio Mundial a un lado y otro de la Raya. Mientras el Museu do Côa se ha
convertido en un referente nacional y, aún, internacional, Siega Verde, hasta
el momento, no ha pasado de ser un simple recurso infravalorado por la ad-
ministraciónautonómicaensupolíticadepromoción,investigaciónypuesta
en valor del patrimonio cultural.
Desde el descubrimiento de los grabados han sido varios los trabajos pre-
sentados en jornadas, congresos y revistas especializadas de ámbito cien-
tífico y académico. Para el gran público la Junta de Castilla y León editó en
2008 una Guía de visita, centrada en un itinerario de 14 paneles en el entor-
no del aula arqueológica. Años más tarde vio la luz Siega Verde. Arte paleo-
lítico al aire libre. Guía del yacimiento (Fernández Moreno y Burón Álvarez,
2011). Se han editado también pequeños folletos informativos, algunos de
manera conjunta con los grabados del Côa, bajo el título: Vale do Côa. Siega
Verde. Sitios de arte rupestre prehistórico o también Côa & Siega Verde. El
arte de la luz, información sobre los yacimientos de arte rupestre con rutas
de accesos y bienes culturales situados en sus entornos; otros son folletos
turísticos de conjunto, como el dedicado por la Diputación provincial de Sa-
lamanca al arte rupestre de la provincia (2018), en el que se incluye no sólo
Siega Verde, sino también las manifestaciones pictóricas de Las Batuecas.
También, con el ánimo de contribuir a la difusión y conocimiento de los gra-
bados del Águeda entre el gran público, el Centro de Estudios Mirobrigenses
(CEM) editó la monografía Conoce Siega Verde. Arte paleolítico al aire libre
(Vázquez y Angulo, 2019).
Arroyo de las Almas (La Fregeneda)
En septiembre de 2015 se descubrió en “Arroyo de las Almas” (La Fregene-
da) un conjunto de arte rupestre cercano a la confluencia de los ríos Águeda
y Duero. Allí se han identificado al menos 600 motivos grabados que van
desde la Prehistoria hasta época contemporánea. Entre ellos destacan 21
motivos paleolíticos grabados mediante la técnica de la incisión, que han
fechado en época Magdaleniense. Las categorías temáticas en las que se
agrupan dichos grabados son: zoomorfos (13), signos (7) y un motivo inde-
terminable (Vázquez Marcos y Réis, 2019).
Redor de Porco (Escalhão, Figueira de Castelo Rodrigo)
En este paraje, muy próximo a la desembocadura del río Águeda, en su mar-
gen izquierda, el arqueólogo Mário Reis descubrió en 2011 una roca de es-
quisto grabada con arte parietal paleolítico, que representa la figura de un
uro.. El análisis estilístico y tecno-morfológico permite situar esta figura en
el periodo graveto-solutrense, con una cronología aproximada de 25.000 a
los 20.000 años BP, más cercano pues a la fase antigua de los grabados del
valle del Côa que a los uros de Siega Verde (Batista y Reis, 2011: 16).
El Bonete del Cura (Pedrotoro, Ciudad Rodrigo)
El Bonete del Cura es un crestón de cuarcitas que domina el encajamiento
delarroyodeLaAtalaya,muypróximoalosdólmenesdeRabidayPedrotoro,
en el término de Ciudad Rodrigo. El panel presenta diversos motivos, entre
ellos antropomorfos y arboriformes (Bécares et alii, 1980). La cercanía de
la pequeña necrópolis de Rabida-Pedrotoro, así como los temas represen-
tados podría sugerir para el abrigo un carácter cultual de santuario (Fig. 4).
88 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Rivera de Sexmiro
A un km, aproximadamente, de la desembocadura de esta en el río Águeda,
C. Vázquez y M. Reis descubrieron un pequeño abrigo distribuidos en pe-
queños paneles, un conjunto de grabados, la mayoría abstractos, realizados
con incisiones, cuyos descubridores sitúan en una cronología que iría desde
la Edad del Hierro hasta la Alta Edad Media (Vázquez y Reis, 2015: 36-37 y
2020: 27).
Prao Campillo (El Bodón)
y La Pata del Moro (Villar de la Yegua)
En el Prao Campillo de El Bodón, en la orilla derecha del arroyo de la Majada
Honda, se han localizado seis paneles con grabados rupestres sobre pizarra,
FIGURA 4. Pinturas del Bonete del Cura
(Pedrotoro, Ciudad Rodrigo).
con motivos incisos y, más raramente, piqueteados. En el panel nº 4 desta-
ca la presencia de un antropomorfo, “una figura esquemática con un tronco
rectangular sobre el que se esbozan los rasgos faciales, el pelo erizado y los
brazos en jarra rematados con trazos a modo de dedos muy simples”. La
figura parece entroncar con los grabados de Las Hurdes (Sevillano, 1991). En
La Pata del Moro de Villar de la Yegua, Manuel Santonja localizó algunos gra-
bados:“doshuellasdepie,unaposibleespadayuncuartomotivoimpreciso”,
atribuidos al Bronce Medio.
De todos estos abrigos con manifestaciones de arte rupestre sólo la esta-
ción arqueológica de “Siega Verde” está integrado como producto turístico,
mientras que el resto carece, incluso, de señalización. De estos, “El Bonete
del Cura” cuenta únicamente con un vallado de protección.
EL PATRIMONIO MEGALÍTICO
El fenómeno megalítico está bien representado en la Tierra de Ciudad Rodri-
go en general y en la cuenca del Águeda en particular, sobre todo los dólme-
nes, aunque también en los últimos años se han señalado la proliferación de
túmulos y probables menhires, pendientes de trabajos de investigación más
intensos. En la cuenca del Águeda, a los trabajos de César Morán (1931, 1935
y 1939); Maluquer (1956), Leisner y Schubart (1964) o Delibes y Santonja
(1986) hay que sumar nuevos hallazgos, como el del grupo de dólmenes de
Casillas de Flores y diversos túmulos localizados en varios términos muni-
cipales (Inventario Arqueológico de Castilla y León. Provincia de Salamanca).
El tipo más extendido es el sepulcro de corredor, formado por dos paredes
rectas paralelas, con un pasillo de 8 metros en La Casa del Moro (Casillas de
90 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Flores) o 4,70 en La Navalito (Lumbrales). La cámara, dependiendo de su
anchura, pudo cubrirse también con lajas horizontales, como se documenta
en la citada Casa del Moro o en Pedra de Anta (Malhada Sorda, (cuenca por-
tuguesa del Águeda), o por un sistema de falsa cúpula por aproximación de
hiladas, sin descartar el uso de estructuras de cubierta vegetal, combinada
con losetas, barro y ramas, para las cámaras de mayor diámetro, como ya
advirtió C. Morán en el destruido dolmen de La Nava Cardosa en Sobradillo
(Delibes y Santonja, 1986: 71). Algunos de estos, como en El Valle (Ciudad
Rodrigo) estuvieron delimitados periféricamente por una línea de piedras
(Fig. 5)
FIGURA 5. Dolmen del Valle
(Ciudad Rodrigo).
De todos estos, solamente el monumento de La Casa del Moro de Casilla de
Flores ha sido puesto en valor recientemente por la Junta de Castilla y León,
mediante una excavación arqueológica y la señalización del monumento.
Los trabajos de la señalización orientativa e interpretativo han sido llevados
a cabo por la empresa “Vaceo integral de patrimonio S. L.” en 2020. La Junta
de Castilla y León también promovió y financió con fondos FEDER los traba-
jos de excavación arqueológica dirigidos por el arqueólogo Ángel Palomino.
Los resultados de esta excavación fueron divulgados a través de una expo-
sición temporal en el Palacio de los Águila de Ciudad Rodrigo en agosto de
2020 bajo el título: Investigaciones en los monumentos megalíticos de la
provincia de Salamanca; en paralelo, en este mismo lugar, el día 7 de agosto
de ese año se celebró una Jornada divulgativa, con tres conferencias, una de
las cuales versó precisamente sobre “El proyecto de recuperación del dol-
men de la Casa del Moro, Casillas de Flores, a cargo de Ángel L. Palomino Lá-
zaro. La señalización, exposición y jornada se englobaron dentro del proyec-
to “Patrimonio Cultural en Común” (PATCOM) del programa INTERREG V-A
de colaboración transfronteriza España-Portugal (POCTEP).
Actuaciones de puesta en valor y su correspondiente señalización deberían
extenderse también a otros monumentos megalíticos, caso del dolmen de
la Huerta de las Ánimas de Fuenteguinaldo, Los Castillos de Hurtada (Villar
de Argañán), y los conjuntos de El Valle, Rabida-Pedrotoro en Ciudad Rodri-
go, este último en un paquete arqueológico que integrara las pinturas rupes-
tres del Bonete del Cura.
92 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
LAS ESTELAS
De la Edad del Bronce proceden de la Tierra de Ciudad Rodrigo y, en concreto
de la cuenca del Águeda varias estelas. Son estas piezas monolíticas, que
se trabajaron para la finalidad de estar hincados en el suelo. Generalmente
presentanunasolacaratrabajada,dondesealudeexplícitaoimplícitamente
a un personaje, del que se representa una parte del cuerpo o elementos de
adorno(tocados,collares,vestido…)uobjetospersonales(armas).Laspiezas
responden a una variada tipología, que podemos resumir en estelas antro-
pomorfas, estelas menhir y estelas de guerrero.
FIGURA 6 E 7. Ídolo-estela de Lerilla (Zamarra)
en la Casa de la Cultura de Ciudad Rodrigo
& Estela de Robleda
Las estelas antropomorfas, “ídolos-estela” o “estelas-guijarro” se reparten
especialmenteporelcentro-oestedelaPenínsulaIbérica,porelterritoriode
las actuales provincias de Salamanca, Cáceres y Badajoz, así como en el dis-
trito de Guarda en la Beira portuguesa. La mayor concentración de estas pie-
zas se encuentra en ambas vertientes de la Sierra de Gata. De la cuenca del
Águeda proceden los hallazgos de Ciudad Rodrigo, Lerilla (Zamarra) (Fig. 6),
Agallas y Robledillo de Gata (Martín Benito y Martín Benito, 1994: 105-114).
Las estelas de guerrero son losas de forma irregular, que presentan grabada
una de sus caras con la representación esquemática de un personaje, acom-
pañado de una panoplia militar (escudo, lanza, espada, casco…), acompaña-
do de objetos personales (peine, espejo, lira) e, también, un carro. En nuestro
territorio destacan las piezas de Robleda (Martín Benito, 2010) (Fig. 7) y San
Martín de Trevejo (García Figuerola, 1982).
Buenapartedeestaspiezasnorecalanactualmenteenelterritorioyforman
parte de colecciones de varios museos, en un contexto deslocalizado del
territorio de origen. Ocurre así con el denominado ídolo de Ciudad Rodrigo,
perteneciente a la colección del Museo Arqueológico Nacional, con sede en
Madrid.Porsuparte,elídolo-esteladeAgallasestáexpuestaenelMuseode
Salamanca, mientras que el de Robledillo de Gata está en el Museo de Cá-
ceres. Otras piezas, sin embargo, se custodian en sus municipios de origen,
como las estelas de guerrero de San Martín de Trevejo y la de Robleda. Por
su parte la estela procedente del castro de Lerilla (Zamarra) (Rada, 1968-
1969: 185), se expone en la Casa Municipal de Cultura de Ciudad Rodrigo.
Así pues, únicamente las piezas de Lerilla, San Martín de Trevejo y Robleda
son recursos turísticos localizados en el territorio objeto de estudio.
94 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
LOS CASTROS
Los espigones fluviales formados por arroyos que vierten sus aguas el río
Águeda son lugares que han condicionado el establecimiento de hábitats
castreño, cuya defensa natural de pronunciados escarpes se reforzó por
sistemas de defensa artificial como murallas, fosos o piedras hincadas. No
pretendiendo ser exhaustivo en esta relación, conviene señalar algunos de
ellos, con bastantes posibilidades de ser puestos en valor e integrarse en ru-
tas de senderismo y en lugares aptos para la visita. De todos ellos, solamen-
te se han realizado labores de limpieza, acondicionamiento y señalización
en el castro de Irueña en Fuenteguinaldo, como veremos.
No obstante, existen otros lugares próximos al Águeda con óptimas po-
sibilidades de adecuarse para la visita y el turismo cultural. Es el caso del
El Castillo de Herguijuela, documentado en el I Hierro, por la serie de ma-
teriales cerámicos tipo Soto, pero cuya ocupación podría llevarse hasta el
Calcolítico, por la presencia de hachas pulimentadas e industria de sílex
(Martín Benito y Martín Benito, 1994: 119).
Los Castillejos de Zamarra es otro castro en espigón fluvial, sito en el inter-
fluvio formado por el río Badillo y el de las Vegas, con muralla de pizarra y
granito en seco, de una anchura de 4 m. También en el término de Zamarra
nos encontramos con el castro de Lerilla. Su ocupación, que se remonta a
la Edad del Bronce, precisa de un proyecto de investigación sobre la perdu-
ración de su poblamiento protohistórico, romano y visigodo, pues de aquí
proceden tanto el ídolo-estela de su nombre de la Casa de Cultura de Ciudad
Rodrigo, como decenas de pizarras numerales guardadas en el Museo cate-
dralicio de esta ciudad (Martín Viso, 2018 a y b).
FIGURA 8. Foso en el castro de La Plaza
(Gallegos de Argañán).
El propio emplazamiento donde se ubica Ciudad Rodrigo fue, probablemen-
te, otro emplazamiento castreño. Muy alterado por las sucesivas ocupacio-
nes romana y medieval, la presencia de esculturas zoomorfas (el verraco de
la plaza del Castillo y otro aparecido al hacer unas obras en el interior de la
ciudad -en paradero desconocido-), así como el hallazgo de cerámica de tra-
dición indígena, nos remiten a una ocupación prerromana.
El castro de “La Plaza” (Gallegos de Argañán) está delimitado por los barran-
cos formados por el encajamiento del río Águeda –al noroeste- y sus afluen-
tes, los arroyos de Regajal y Zamarreño. La defensa natural se completa con
una estructura artificial compuesta por una barrera de piedras hincadas, un
doble foso y muralla. El castro tiene dos recintos, ambos amurallados. La en-
trada tiene lugar en esviaje, muy desfigurada por el derrumbe reforzada por
un bastión circular adosado.
96 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Una parte del perímetro está defendido por dos fosos que discurren cir-
cundando la muralla por la parte occidental (Fig. 8) y por el mediodía, que
desaparece cuando contacta con el bastión. En los sectores suroccidental y
meridional el foso vuelve a aparecer, excavado a veces en la misma roca del
sustrato. Los materiales cerámicos de La Plaza documentan la ocupación
en la II Edad del Hierro y, posteriormente, en época romana (Martín Benito y
Martín Benito, 1994:126-127).
No ha habido intervención arqueológica programada en el yacimiento ni
consta señalización alguna, pese a lo cual se le cita en alguna guía turística
en internet, como el observatorio cultural de la frontera de Terra Duero, Tu-
rismo y Patrimonio y en algunas rutas de senderismo como la GR 80 “Ciuda-
des amuralladas”. Etapa 5. Gallegos de Argañán – Frontera con Portugal. En
noviembrede2012fuepresentadaparasudebateenlaComisióndeCultura
de las Cortes de Castilla y León una iniciativa para poner en valor el castro,
pero fue desestimada en la sesión de 4 de febrero de 2013.
En el término de San Felices se localizan otros castros: El Lombo del Castillo,
ubicado en un cerro en el interfluvio del Águeda con la Rivera de la Granja
y con una extensión de 2,2 ha. Con defensas naturales hacia el este, el sur
y el oeste, el acceso al castro tiene lugar por el norte, flanco este en el que
se aprecia el derrumbe de una muralla construida por piedras de granito. En
la ficha del Inventario arqueológico provincial se establece una cronología
desde el Bronce Antiguo al Hierro I.
Otro castro es el de Castelmao, que se ubica en un promontorio en la con-
fluencia del arroyo Alijón con el río Águeda. El flanco norte, más accesible, se
defiende por una potente muralla construida con piedras de granito, de la
que se conservan algunos tramos. La zona exterior de la entrada se refuerza
Fig. 9. La yegua (Irueña, Fuenteguinaldo).
por un campo de piedras hincadas. Como otros castros del territorio fue pos-
teriormente romanizado, como lo indican los restos de tégula y terra sigillata
hispánica tardía hallados en su interior.
La puesta en valor del castro de Irueña (Fuenteguinaldo)
Se trata de uno de los castros de mayores dimensiones de la cuenca agaten-
se, con una superficie aproximada de 14 hectáreas. Su defensa natural for-
mada por el espigón formado por la intersección del arroyo del Rolloso con
el Águeda y sus pronunciados escarpes, se vio reforzada por un sistema de
fortificación compuesto por murallas, taludes y foso (Gómez Moreno, 1967:
34-36; Maluquer, 1956: 63). La vida del castro discurre desde la época prer-
romana hasta la Alta Edad Media. De época vetona se conocen tres figuras
zoomorfas procedentes del castro (González Rivero, 2018: 77).
98 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
El de Irueña es el único castro del Águeda en el que se han llevado a cabo
varias intervenciones para su puesta en valor, de cara a su acondiciona-
miento para la visita turística. Estas labores, desarrolladas en los últimos
seis años con fondos INTERREG España-Portugal, comenzaron tras la re-
dacción de un proyecto global de actuaciones encargados por la Junta de
Castilla y León en 2014. Las actuaciones han consistido en el desbroce de
varios sectores, en los que intervino también el ayuntamiento de Fuente-
guinaldo, así como en la realización de sondeos arqueológicos realizados
en 2016-2017 y 2018-2019, en la limpieza de las excavaciones que hizo
Domingo Sánchez en 1933-1934, así como en la reconstrucción y erección
de la escultura pétrea de “La yegua” (Jiménez, Rupidera y Prieto, 2020: 63-
65) (Fig. 9). Recientes trabajos de aplicaciones LiDAR y SIG a la topogra-
fía arqueológica del castro, llevados a cabo por la Universidad Autónoma
de Madrid han reconstruido la planta del castro y su ampliación en época
romana, así como han conseguido detectar un recinto cuadrado de 370
m. de lado, que los autores sugieren podría tratarse de un campamento
romano (Berrocal et alii, 2017: 212). Al noroeste del yacimiento existen los
restos de una presa romana que suministraba agua al asentamiento (Gon-
zález Rivero, 2018: 77 y Morales Paíno, 2018).
En 2019 se estableció una ruta para la visita con señalización de un sendero
marcado por balizas de 1,8 km, que permite acercarse a los principales ele-
mentos arqueológicos, al tiempo que se editó un tríptico informativo. En la
promoción de este enclave arqueológico interviene de forma activa la socie-
dad civil, a través de la Asociación de Amigos del Castro de Irueña, entidad
constituidael25de agostode 2015. Suobjetivoprincipaleselconocimiento,
divulgación y puesta en valor del yacimiento, para lo que ha venido organi-
zando y promoviendo diversos tipos de actividades, entre ellas varias jorna-
das técnicas y visitas guiadas, cuya información puede seguirse a través de
las redes sociales.
Materiales reutilizados procedentes del castro de Irueña (basas y fustes)
pueden encontrarse en el casco urbano de Fuenteguinaldo, en concreto en
laconstruccióndelascrucesopicotasdelcementerio,delaermitadelCristo
y de la Villa (González Rivero, 2018: 75).
Es mucho todavía lo que queda por investigar y difundir en Irueña. Los tra-
bajos de investigación deberían integrar también la puesta en valor del re-
cinto campamental y de la presa romana, así como la instalación de un aula
arqueológica monográfica o centro de interpretación sobre los castros del
Águeda en la localidad de Fuenteguinaldo.
Los verracos
Estas conocidas y populares esculturas zoomorfas, ligadas al poblamien-
to prerromano, están bien representadas en la Tierra de Ciudad Rodrigo,
si bien alguna de ellas no es posible visitarlas en el propio territorio. Es el
caso del verraco de Barquilla, que desde los años cincuenta del pasado si-
glo se encuentra en una casa particular en Villimer (León). De los verracos
de Gallegos de Argañán, uno de ellos pertenece a la colección del Museo de
Salamanca y otro se custodia en el lapidario del convento de San Francis-
co de Ciudad Rodrigo. Otros ejemplares accesibles a la visita son el verraco
de Ciudad Rodrigo, ubicado actualmente en la plaza del Castillo (Fig. 10), el
burro de San Antón en San Felices de los Gallegos y la ya citada “yegua” de
Irueña (Fuenteguinaldo).
100 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
FIGURA 10. Verraco en la plaza del Castillo
de Ciudad Rodrigo.
FIGURA 11. Lapidario romano
- capilla de los Águila, convento de S. Francisco,
Ciudad Rodrigo.
LA ROMANIZACIÓN
En el propio castro de Irueña se pueden visitar los restos arqueológicos de
los que se conoce con el nombre de “El Palacio”, integrados por varias basas
y fustes de columnas de época romana. Del entorno del castro procede un
miliario que fue hallado en el Molino del Sobrao en el transcurso de los tra-
bajos de la construcción de la presa y llevado al Museo de Salamanca.
Dentro del lapidario romano visitable en la Tierra de Ciudad Rodrigo y, en
concreto en la cuenca del Águeda, destacan las inscripciones que se expo-
nenenelmonasteriodeSanFranciscodeCiudadRodrigo(Fig.11),entreellas
un ara votiva a Júpiter y una lápida funeraria, al parecer traída desde Irueña
y dedicada a Aper Acceicum (Martín Valls, 1965). También en el muro de uno
de los contrafuertes de la capilla mayor de la iglesia de Gallegos de Argañán
puede verse un ara dedicada a Júpiter. Otras inscripciones romanas pueden
verse en el Museo de la Catedral civitatense, entre ellas un ara en honor de
Domiciano. En una casa particular de Villar de la Yegua se guarda una es-
pléndida estela romana, decorada con un motivo soliforme y la representa-
ción de un ciervo (Martín Valls, 1982).
Las Tres Columnas y término augustal de Ciudad Rodrigo
El monumento conocido como Las Tres Columnas, que desde la década de
actualmente se encuentra en la carretera de Salamanca, después de haber
pasado por varios emplazamientos (Plaza Mayor y Campo de Toledo) y que
son el emblema o escudo de Ciudad Rodrigo, son los restos probablemente
de un edificio público de época romana. Asociadas a ellas y empotrado en
el basamento está un término augustal que fijaba los límites entre varias
ciudades: Mirobriga, Bletisama y ¿Valuta? (Martín Valls, 1982).
102 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Villa romana de Saelices el Chico
Los primeros hallazgos arqueológicos tuvieron lugar a comienzos de la
década de los ochenta del siglo pasado (Martín Benito y Martín Benito,
1994: 162-164).
Entre agosto de 1995 y febrero de 1996 tuvieron lugar las primeras exca-
vaciones arqueológicas, impulsadas por el ayuntamiento de Saelices, que
documentaron la existencia de una ocupación romana alto imperial (s. I-II)
y una villa romana tardía (siglos III-IV). Las excavaciones pusieron al des-
cubierto un área residencial pavimentada con mosaicos geométricos y de-
corada con estucos pintados, así como un jardín con un gran edificio absidal,
con tres pequeñas exedras semicirculares y otras dos cuadrangulares -lo
que ha sido interpretado como un posible ninfeo, un espacio semicircular
columnado con bancada corrida.
FIGURA 12. Mosaico romano
en Saelices el Chico.
Hallazgos fortuitos y excavaciones científicas documentaron la existencia
de una gran villa romana de peristilo con habitaciones nobles decoradas
con opus signinum mosaicos geométricos y figurativos (Ariño, 2011: 208 y
2018). Entre estos últimos destaca una gran sala decorada con el tema de
Belerofonte y la Quimera (Regueras y Pérez Olmedo, 1997: 61-65) (Fig. 12).
La villa fue declarada Bien de Interés Cultural el 15 de enero de 1997.
El ayuntamiento de Saelices intentó la promoción y puesta en valor de la
villa, llegando a acuñar logotipo. En diciembre de 2007 la Fundación del Pa-
trimonio Histórico de Castilla y León firmó un convenio de colaboración con
el ayuntamiento de Saelices el Chico encaminado a la elaboración de una
Memoria general de actuaciones, para analizas las posibilidades de investi-
gación, recuperación y difusión de la villa romana.
En 2007 y en 2009 se retomaron los trabajos de investigación y exca-
vación arqueológica gracias a la financiación por parte del Ministerio de
Fomento con cargo al programa del 1 % Cultural y a la propia aportación
municipal. El ayuntamiento intentó la implicación de la Junta de Castilla y
León en la revalorización de la villa, sin conseguirlo, con lo que los restos
exhumados estaban avocados a ser soterrados. Las Cortes de Castilla y
León debatieron sobre la firma de un acuerdo de colaboración con el ayun-
tamiento de Saelices el Chico para la puesta en marcha del plan de ac-
tuaciones de revalorización de la villa romana e impedir su soterramiento,
pero la propuesta fue desestimada, con lo que los sueños del ayuntamien-
to se esfumaron. Ante la falta de continuidad de los trabajos, los restos ar-
queológicos se soterraron ese mismo año.
104 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
No por ello el ayuntamiento de la localidad ha renunciado a sus aspiracio-
nes,participandoenalgunasactividadesconjuntasconotrasvillasromanas,
como la Festa do mosaico/ Fiesta del mosaico, de Idanha-a-Velha a San
Pedro del Arroyo, del 13 al 28 de septiembre de 2021, en la que se incluían
los mosaicos de la villa de Saelices. Se trata de un festival transfronterizo
lanzado por MosaicoLab.Pt dentro de las iniciativas enmarcadas en la Co-
munidad de Trabajo entre la Región Central de Portugal y la Comunidad de
Castilla y León en el contexto del proyecto CenCyl Frontera, Programa Ope-
rativo INTERREG V-A España-Portugal (2014-2020), con el apoyo del Fon-
do Europeo de Desarrollo Regional (FEDER); en el marco de esta actividad, y
con el fin de involucrar a públicos diferentes, se enmarcaron talleres de fa-
bricación de mosaicos romanos con la finalidad de descubrir el Patrimonio
Cultural y los espacios que lo rodean. Esta Fiesta del mosaico formó parte
de los expositores que participaron en AR&PA, bienal ibérica de Patrimonio
Cultural, que se celebró en la ciudad portuguesa de Leiria del 14 al 17 de oc-
tubre de 2021.
LA ALTA EDAD MEDIA
Las tumbas excavadas en roca
Una de las manifestaciones culturales altomedievales bien representadas en
laTierradeCiudadRodrigosonlastumbasexcavadasenlaroca,cuyacronolo-
gíaoscilaentreelsigloValX.Estossepulcrosselocalizanprincipalmenteaun
lado y otro de La Raya, tanto de manera individual o agrupadas, formando en
algunos casos pequeñas necrópolis. Los trabajos de Rubén Rubio Díez (2015
y 2018: 291) documentan decenas de estos sepulcros en el occidente de la
FIGURA 13. Tumba excavada en roca.
La Genestosa (Casilla de Flores).
tierra civitatense, en los campos de Robledo y Argañán, aunque también es-
tán presentes en el Abadengo. En el campo de Robledo los testimonios de
documentanenNavasfrías,ElPayoysobretodo,enCasillasdeFlores(Fig.13).
EnelcampodeArgañándestacanlastumbasdeLaAlberguería,LaAlamedilla,
Villar de Ciervo, Fuentes de Oñoro, El Gardón (Aldea del Obispo), La Alameda
del Gardón, Puerto Seguro. En El Abadengo se localizan, entre otros términos,
en Sobradillo, San Felices de los Gallegos y La Redonda.
En territorio portugués continúa el mismo tipo de paisaje cultural, localizán-
dose varios conjuntos en la comarca ribacudana y en terrenos de la cuenca
del Águeda, como sucede en Verdugal (Malhada Sorda), Cabeço de Milreiro
106 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
(Almofala) o Freineda, en el concelho de Almeida), (Martín Viso, 2014: 24).
A pesar de este valioso potencial arqueológico, este patrimonio no está
señalizado y únicamente viene recogido ocasionalmente en páginas locales
y/o rutas de senderismo, sin que las administraciones las hayan integrado
en la oferta de turismo cultural.
Pizarras visigodas
Otro elemento arqueológico altomedieval son las pizarras escritas de época
visigoda, bien representadas en las provincias de Salamanca, Ávila y norte
de Cáceres (Velázquez 2018: 50). Entre estas destacan las denominadas
de “tipo Lerilla”, en las que se han escrito signos numerales (Martín Viso,
2018 b). El Museo diocesano y catedralicio de Ciudad Rodrigo guarda una
coleccióndepizarrasnumeralesvisigóticasprocedentesdelcastrodeLerilla,
que pertenecieron a la colección del canónigo don Serafín Tella (Cid Cebrián,
2018: 334-338).
CONCLUSIONES
La oferta de turismo cultural ligada al patrimonio arqueológico en la cuenca
del Águeda es actualmente muy escasa. La puesta en valor de este patri-
monio como recurso de turismo cultural es una experiencia relativamente
reciente, claramente vinculado al descubrimiento de los grabados paleolíti-
cos de Siega Verde en 1998 y su reconocimiento como Patrimonio Mundial
de la Humanidad por la UNESCO en 2010.
Cosa distinta es el impacto que esta puesta en valor y su difusión pueda
tener en el sector turístico de la comarca mirobrigense, habida cuenta del
poco peso y del estancamiento en lo referente al número de visitantes al
yacimiento, que no llega a los 4.000 por término medio en lo que va de
siglo. Las cifras, muy alejadas de las que se producen en las estaciones
del parque arqueológico del Vale do Côa, deberían llevar a las administra-
ciones con competencias en materia de turismo, así como a los agentes
y organizaciones económicas y sociales del territorio a replantearse se-
riamente un proyecto integrado de gestión, que deberá aunar investiga-
ción, divulgación, puesta en valor y promoción turística del yacimiento. Ello
pasa, sin duda, por tener como referencia lo caminado y conseguido en
torno al Museo y parque arqueológico del Vale do Côa. De este modo, si
de verdad se quiere fortalecer el turismo cultural en torno a Siega Verde
y a otros elementos patrimoniales arqueológicos de la Tierra de Ciudad
Rodrigo, será preciso la puesta en marcha de un proyecto que contemple
la creación y dotación de un centro museístico y parque arqueológico del
Valle del Águeda en Ciudad Rodrigo (PAVA), donde además del protagonis-
mo del arte rupestre, tengan cabida también otras manifestaciones cultu-
rales bien representadas en el territorio, como son el fenómeno megalítico,
los castros y el paisaje del poblamiento que representan las tumbas exca-
vadas en la roca.
Las posibilidades del arqueoturismo multiplicará la oferta de turismo cultu-
ral en el territorio.
En la conservación y en la puesta en valor de los recursos arqueológicos
deberán implicarse las poblaciones depositarias de los bienes culturales,
cultivando, asumiendo y proyectando el legado recibido de las generaciones
que les precedieron. Justo es que quien ha mantenido y cuida dicho legado,
sea capaz también de proyectarlo e insertarlo de manera sostenible en los
108 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
intercambios culturales, faceta esta en la que intervienen los movimientos
de población generados en torno al turismo.
Así pues, el arqueoturismo y los bienes que lo integran podrán orientarse a
incrementar y consolidar la oferta de turismo cultural; de esta manera se po-
drácontribuiramejorarlariquezayelbienestareconómicodeloshabitantes
del territorio y, con ello, a fijar población a ambos lados de la Raya.
BIBLIOGRAFÍA
Ariño, Enrique: “La cultura material de los asentamientos rurales del valle del Duero entre los siglos V y VIII:
el final del reino visigodo y el origen de al-Andalus”. 711, arqueología e historia entre dos mundos. Madrid.
Museo Arqueológico Regional. Zona arqueológica 15, 2, 2011, pp. 205-224.
Ariño, Enrique: “La villa romana de Saelices el Chico (Salamanca)”. Fortificaciones, poblados y pizarras. La
Raya en los inicios del Medievo. Palacio de los Águila, marzo 2018/ junio 2019. Ciudad Rodrigo, 2018, pp.
78-83.
Berrocal-Rangel, Luis; Paniego, Pablo; Ruano, Lucía y Manglano, Gregorio: “Aplicaciones LiDAR a la topogra-
fía arqueológica: El Castro de Irueña (Fuentguinaldo, Salamanca)”. CuPAUAM, 2017, pp. 195-215.
Baptista, Antonio Marthino y Reis, Mário: “La roca gravada de Redor do Porco. Unmovo sitio com parte pa-
leolítica de ar libre no rio Águeda (Escalhão, Figueira de Castelo Rodrigo)”. Coavisão, nº 13, 2011, pp. 15-20.
Bécares Pérez, Julián; Rivero de la Higuera, Cleofé; Gómez Fuentes, Alejandro y Civieta Rojas, Carlos: “Pin-
turas rupestres esquemáticas del Bonete del Cura (Ciudad Rodrigo, Salamanca). Zephyrus, vol. 30-31. Sala-
manca, 1980, pp. 131-146.
Cid Cebrián, José Ramón: “Don Serafín Tella Gallego, el cura arqueólogo”. Fortificaciones, poblados y pizarras.
La Raya en los inicios del Medievo. Palacio de los Águila, marzo 2018/ junio 2019. Ciudad Rodrigo, 2018, pp.
330-346.
Delibes,GermánySantonja,Manuel:ElfenómenomegalíticoenlaprovinciadeSalamanca.Salamanca,1986.
Fernández Moreno, José Javier y Burón Álvarez, Milagros (eds): Siega Verde. Arte paleolítico al aire libre. Guía
del yacimiento. Junta de Castilla y León. Salamanca, 2011.
García Figuerola, Miguel: “Nueva estela decorada del tipo II en San Martín de Trevejo (Cáceres)”. Zephyrus, vol.
34-35, Salamanca, 1982, pp. 173-180.
Gómez Moreno, Manuel: Catálogo monumental de España. Provincia de Salamanca. Madrid, 1967.
González Rivero, Ángel: “El castro de Irueña en época romana”. La Raya en los inicios del Medievo. Palacio de
los Águila, marzo 2018/ junio 2019. Ciudad Rodrigo, 2018, pp. 70-77.
Jiménez, Manuel; Rupidera Giraldo, Ana y Prieto Prat, Margarita: “Recientes actuaciones arqueológicas en el
yacimiento de Irueña (Fuenteguinaldo)”. Estudios Mirobrigenses, 7 (2020), pp. 61-62.
Leisner, Vera y Shubart, Hermanfrid: “Dólmenes de Ciudad Rodrigo”. Zephyrus, vol. 15. Salamanca, 1964, pp.
47-59.
Maluquer de motes, Juan: Carta arqueológica de España: Salamanca. Servicio de investigaciones arqueológi-
cas. Diputación provincial. Salamanca, 1956.
Martín Benito, José Ignacio y Martín Benito, Juan Carlos: Prehistoria y romanización de la Tierra de Ciudad
Rodrigo. Salamanca, 1994. Centro de Estudios Mirobrigenses.
Martín Viso, Iñaki: “Las pizarras de Lerilla”. Fortificaciones, poblados y pizarras. La Raya en los inicios del Me-
110 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
dievo. Palacio de los Águila, marzo 2018/ junio 2019. Ciudad Rodrigo, 2018 (a), pp. 298-312.
Martín Viso, Iñaki: “Las pizarras de Lerilla”. Fortificaciones, poblados y pizarras. La Raya en los inicios del Me-
dievo. Palacio de los Águila, marzo 2018/ junio 2019. Ciudad Rodrigo, 2018 (b), pp. 314-329.
Martín Valls, Ricardo: “Investigaciones arqueológicas en Ciudad Rodrigo”. Zephyrus, vol. 16-17. Salamanca,
1965, pp. 71-98.
Martín Valls, Ricardo: “Estela romana de Villar de la Yegua (Salamanca)”. Zephyrus, vol. 24-25. Salamanca,
1982, pp. 214-217.
Martín Valls, Ricardo: “Las Tres columnas de Ciudad Rodrigo”. Libro del Carnaval 1982, pp. 211-212.
Morales Paíno, Francisco Javier: “Testimonios latentes de un pasado remoto. El Envarysal de Reloso”. Estu-
dios Mirobrigenses V, Salamanca, 2018, pp. 11-28.
Morán Bardón, César: “Excavaciones en dólmenes de Salamanca y Zamora”. Junta Superior de Excavaciones
Arqueológicas, nº 113. Madrid, 1931.
Morán Bardón, César: Excavaciones en dólmenes de Salamanca y Zamora”. Junta Superior de Excavaciones
Arqueológicas, nº 135. Madrid, 1935.
Morán Bardón, César: Los dólmenes de Salamanca”. Las Ciencias, año IV, vol. 4. Madrid, 1939.
Rada García, Eloy: “Estela antropomórfica existente en el Instituto nacional de Enseñanza Media de Ciudad
Rodrigo”. Zephyrus, vol. 19-20. Salamanca, 1968-1969, p. 185.
Regueras Grande, Fernando y Pérez Olmedo, Esther: (1997). Mosaicos romanos de la provincia de Salaman-
ca. Arqueología en Castilla y León, 2. Junta de Castilla y León,1997.
Reis, Mario y Vázquez Marcos, Carlos: “Arte rupestre en la frontera hispanoportuguesa: Cuenca del río Águe-
da”. Homenaje a Rodrigo de Balbín Behrmann, 205, Arpi 03 Extra, 2015, pp. 32-43.
Rubio Díez, Rubén: Arqueología, paisaje y territorio postromano. Las tumbas excavadas en roca en el occi-
dente del campo de Ciudad Rodrigo (Salamanca). Centro de Estudios Mirobrigenses. Salamanca, 2015.
Rubio Díez, Rubén: “Las tumbas excavadas en la roca: una evidencia del paisaje rural postromano”. Fortifica-
ciones, poblados y pizarras. La Raya en los inicios del Medievo. Palacio de los Águila, marzo 2018/ junio 2019.
Ciudad Rodrigo, 2018, pp. 286-295.
Sevillano San José, Mª Carmen: Grabados rupestres de la comarca de Las Hurdes (Cáceres). Salamanca, 1991.
Solsona Monzonís, Javier y Rico Cánovas, Elisa: “Patrimonio arqueológico in situ: desarrollo y turismo. En El
pasado en su lugar: Patrimonio arqueológico, desarrollo y turismo / coord. por Jaime Vives-Ferrándiz Sán-
chez y Carles Ferrer García, 2014, pp. 29-62.
Vázquez Marcos, Carlos y Angulo Cuesta, Javier: Conoce Siega Verde. Arte paleolítico al aire libre. Ciudad Ro-
drigo, 2019. Centro de Estudios Mirobrigenses.
Vázquez Marcos, Carlos: “Arroyo de las Almas (La Fregeneda, Salamanca): un nuevo sitio con arte paleolítico
al aire libre”. Trabajos de Prehistoria, 76, n.º 1, enero-junio 2019, pp. 138-146.
Vázquez Marcos, Carlos y Reis, Mario: “La rivera de Sexmiro (Sexmiro, Villar de Argañán, comarca de Ciudad
Rodrigo): un nuevo yacimiento con arte rupestre en la cuenca del Águeda”. Estudios Mirobrigenses, VI, pp.
15-28.
Zilhâo, Joâo: La puesta en valor del arte rupestre del valle del Côa (Portugal). Trabajos de Prehistoria, 57, nº 2,
2000, pp. 57-64.
Velázquez, Isabel: “Las pizarras visigodas: escrituras y cultura”. Fortificaciones, poblados y pizarras. La Raya
en los inicios del Medievo. Palacio de los Águila, marzo 2018/ junio 2019. Ciudad Rodrigo, 2018, pp. 48-77.
112 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
FIGURA 1. Entrevistas em Escarigo.
FIGURA 2. João E
nas entrevistas em Escarigo.
FOTOGRAFIAS DE RENATO ROQUE
Entre 28 de setembro e 3 de outubro, estivemos, com o nosso projeto Um
Ponto No Conto, em Escarigo, Figueira de Castelo Rodrigo, no âmbito do II
Encontro Transfronteiriço de Património (organização RIBACVDANA - As-
sociação de Fronteira para o Desenvolvimento Comunitário e associação
cultural Conociendo las Arribes) a identificar sítios de significância cultural e
a recolher histórias a eles associados. O intuito deste projeto é o de preser-
var a memória coletiva das diferentes comunidades da Beira Interior, divul-
gando-acomoinstrumentodeinterpretaçãodopatrimónio,emplataformas
digitais, num formato escrito e audiovisual, e em atividades culturais, como
exposições e visitas guiadas. No caso de Escarigo, gravámos entrevistas
com vários habitantes e organizámos um passeio, no qual, atuando como
Os Sítios
de Significância Cultural
em Escarigo
Guilherme Calado e Vanessa H. Ribeiro
INVESTIGADORES, UM PONTO NO CONTO
114 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
mediadores, apresentámos as histórias, vivências e tradições que nos ti-
nham sido transmitidas.
Tendo como referência The Burra Charter – 2013, o manual de práticas de
conservação do património adotado pelos ICOMOS australiano, em 1979,
significância cultural é o valor estético, histórico, científico, social ou espiri-
tual para as gerações passadas, presentes e futuras. Esse valor materializa-
-se no próprio sítio, quaisquer que sejam as suas características (elemento
cultural ou natural, grande ou pequeno, pode ser, por exemplo, um caminho
ou espaço de convívio social), e no seu ambiente, utilização, associações,
significados, registos e sítios e objetos relacionados. Se este conceito e o
The Burra Charter surgem como uma necessidade de adaptar as práticas de
conservação de sítios de património ao contexto australiano, caracterizado
por formas de património cultural opostas ao padrão europeu de estrutura
construída e tangível, eles são-nos úteis hoje, mesmo na Europa, como ins-
trumentos de atribuição de valor a sítios não identificados pelos diferentes
agentes legitimadores do património, sejam eles entidades públicas e aca-
démicas, redes de promoção do património ou outros. São ainda úteis como
potenciadores de melhores práticas de conservação em sítios já identifica-
dos. A participação das comunidades locais na identificação, conservação,
interpretação e gestão destes sítios é essencial, por causa das complexas
cadeias que neles ligam material e imaterial.
Em Escarigo, entrevistámos seis habitantes, falámos com mais alguns mo-
radores e naturais da terra e contámos com a ajuda de uma mediadora para
nos apresentar a nós e aos nossos objetivos.
Esta povoação do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo fica a quatro qui-
lómetrosdeLaBouza,provínciadeSalamanca,eamenosdeumquilómetro
da fronteira, que aqui é marcada pela Ribeira de Tourões. Tem atualmente
menos de cinquenta habitantes, mas no início do século passado era habi-
tada por mais de quinhentas pessoas e, até ter sido arrasada pelas tropas
espanholas, em 1642, durante a Guerra da Restauração, teria sido uma pe-
quena Lisboa, tal a pujança económica que ostentava e, parafraseando as
MemóriasParoquiaisde1758,aquantidadedegentedistintaqueapovoava.
O rico património arquitetónico, representado pela Igreja Matriz, pelas cape-
las e pelos exemplos de cantaria, que adornam várias habitações da povoa-
ção, parece provar materialmente esta anterior grandeza. É, precisamente,
este património que é realçado e mencionado em fontes tão díspares como
o website da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo ou a Viagem
a Portugal, de José Saramago.
Sobre os vestígios desse passado glorioso, como os diferentes traba-
lhos de cantaria em casas, o nicho manuelino e as pedras trabalhadas
em muros, Maria de Lurdes F., 81 anos, natural de Escarigo, e Regina N.,
72 anos, natural de Vermiosa, Figueira de Castelo Rodrigo, disseram-nos
que quando eram mais novas aquilo só era interpretado como material de
construção, mas que hoje notam que são bastante fotografados pelos vi-
sitantes. Mencionaram, ainda, que se acredita que existe um túnel a ligar
o nicho manuelino ao Maralhão, um lugar com campos agrícolas que se
estende para lá do cruzamento de saída para Almofala, Figueira de Castelo
Rodrigo, e La Bouza. De acordo com o que foi transmitido pelas gerações
anteriores a estas duas informantes e a João E., 92 anos, natural de Esca-
rigo, a terra estender-se-ia, no passado, do Maralhão até à Capela de São
116 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Simão, que fica no topo de uma colina sem casas, a sudeste. Para o nosso
terceiro informante, este fato pode, também, ser comprovado pelas pedras
que compõem os muros rurais no Maralhão.
Constitui João E. um tipo de informante peculiar, pois é um apaixonado pela
história da sua terra e arquiva tudo o que encontra escrito sobre ela. Nes-
sa medida, aquilo que nos contou sobre a história da sua terra não lhe foi
transmitido pelos pais, ambos trabalhadores rurais e analfabetos, mas pe-
las leituras que fez. Usando-as como referência, afirmou-nos que a Rua do
Castelo e a Rua da Costa do Castelo indicariam um desaparecido castelo
em Escarigo, e que o nome da terra viria de um primeiro habitante chamado
Escaricus, cuja face teria sido insculpida numa pedra nas traseiras da Igreja
Matriz. Mas até que ponto podemos assumir como sítios de significância
cultural para a comunidade estes dois últimos casos, se eles aparecem pri-
meiramente como citações? Se os sítios do Maralhão e da Capela de São
Simão foram sempre referidos como prova da veracidade da expressão po-
pular “Escarigo só não foi Lisboa por um grão de trigo”, o nicho manuelino, a
cantaria, o possível castelo antigo e a origem do nome só surgiram quando
relacionados com fontes de validação externa – visitantes, iniciativas au-
tárquicas de promoção do património e fontes bibliográficas. Neste sentido,
podemos afirmar que os dois primeiros sítios têm significância cultural para
a comunidade enquanto os segundos possuem valor histórico e/ou estéti-
co, sem integrarem a memória coletiva. No entanto, e porque a cultura é um
organismo em permanente mutação, podem vir a integrar no futuro essa
lista de sítios de significância cultural por via do processo institucional em
curso de divulgação do património escariguense, que torna cada vez mais
presentes os elementos diferenciadores e atrativos de Escarigo.
De maneira a verificar a influência deste processo institucional nos nossos
informantes questionámo-los sobre os locais a visitar em Escarigo. A Igreja
Matriz de São Miguel foi sempre a primeira e mais pronta resposta, sendo
seguida de menções às diferentes capelas e os outros edifícios mais em-
blemáticos – albergaria e antigo posto da guarda-fiscal, atualmente perten-
cente à União das Freguesias de Almofala e Escarigo. Explica-se isto não só
pela monumentalidade do edifício da igreja, mas também pela centralidade
da religião na vida desta comunidade. Os nossos informantes lamentaram
que muitas das festas e procissões já não se façam, como por exemplo a
Festa a São Sebastião ou a Procissão dos Passos, na Semana Santa, e que
mesmo a Festa em Honra de Nossa Senhora das Neves seja atualmente
menos vistosa. A justificação é a perda de população. A Igreja Matriz para
além de marcar significativamente a vida privada e comunitária dos esca-
riguenses, como espaço de celebração de casamentos e batismos, e do
encontro semanal para a missa, também influencia o cuidado que certos
habitantes têm com os seus jardins. As inúmeras flores que crescem têm
como objetivo a decoração da igreja e das capelas, sempre que a ocasião
pede. Este caso é um exemplo de como um sítio de significância cultural
pode abranger outros elementos por associação.
A vida religiosa de Escarigo traz-nos ainda um outro caso de complexa
relação entre sítios de significância cultural. Contaram-nos os nossos in-
formantes e em particular Águeda M., 71 anos, natural de Quintã de Pêro
Martins, Figueira de Castelo Rodrigo, que existe a tradição de o povo se
deslocar anualmente, no primeiro fim de semana de Maio, à Festa da San-
ta Cruz, em San Felices de los Gallegos, província de Salamanca. Antiga-
mente, as populações raianas iam a pé até esta povoação espanhola, mas
118 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
hoje já existem autocarros para facilitar a deslocação. Permanece o hábito,
porém, de os portugueses serem recebidos pelos locais com música e lan-
çamento de foguetes. Águeda M. contou-nos, ainda, que foram as peregri-
nas portuguesas que introduziram o hábito de se cantar durante a noite de
sexta-feira para sábado, que é passada em oração na Capela de Jesus Na-
zareno, em San Felices de los Gallegos. Disse-nos ela que as espanholas
não cantavam nem rezavam em conjunto e que a atmosfera era triste, pelo
que as portuguesas decidiram animar essa noite de adoração da imagem
do Senhor com cânticos religiosos. Desde esse momento, uma data que
não nos foi possível apurar, mas que não deverá ser anterior a 1970, tendo
em conta a idade de Águeda M., as portuguesas e as espanholas inter-
calam-se entre si a cantar e a rezar em conjunto. De realçar nas histórias
sobre as idas a San Felices de los Gallegos é como os sítios de significân-
cia cultural de Escarigo se expandem além-fronteiras, acompanhando as
tradições e o quotidiano da comunidade.
Os laços transfronteiriços incluem, para além da Festa da Santa Cruz, re-
lações familiares, sociais e comerciais. Foquemo-nos neste último aspeto.
Atualmente, os escariguenses cruzam a Ribeira de Tourões para ir com-
prar bilhas de gás e pôr gasolina no carro, mas antes, numa era pré-Espaço
Schengen, eram o colorau, os sapatos, os tecidos e o pão branco as maiores
justificações para as idas habituais às lojas em La Bouza. Havia também,
segundo António D., 85 anos, natural de Vermiosa, quem se dedicasse ao
contrabando de amêndoa, indo comprar a Puerto Seguro para revender em
Vilar Formoso. António D. revelou-nos a prepotência da guarda-fiscal, antes
do 25 de abril de 1974, que confiscava o que o povo comprava em Espanha
para consumo próprio, como se de contrabando se tratasse. António M., 73
anos, natural de Quintã de Pêro Martins, referiu que pagavam em Escudos,
nas lojas em La Bouza, pois a moeda portuguesa valia mais que a Peseta. A
experiência comum das idas a Espanha, da exposição aos humores da guar-
da-fiscal e dos truques usados para evitar o confisco das compras tornam
significativos os caminhos usados para cruzar a fronteira e os antigos locais
das lojas em La Bouza.
No final do antigo caminho de acesso a La Bouza, junto à Ribeira de Tourões,
encontra-se um lagar com moinho abandonado, que pertence à Câmara
Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo. António D. disse-nos que antiga-
mente havia oito moinhos na Ribeira de Tourões e três lagares, e que, de
novembro a março, os homens ficavam no lagar a trabalhar, noite e dia, en-
tretendo-se a contar histórias e comendo o que as mulheres lhes levavam.
Falou-nos dos tempos de miúdo passados no campo, ainda na Vermiosa, a
olhar por cabras e ovelhas, algo que João E. também experienciou, em Esca-
rigo. Destes tempos trazem histórias com lobos, que atacavam os rebanhos
nos duros meses de inverno. Já no verão, o que alarmava os camponeses,
segundo Maria de Lurdes F. e Regina N., eram os remoinhos, ou burburinhos,
provocados pelo vento e interpretados fantasticamente como manifesta-
çõesdiabólicas.Estasduasinformantesrelataram-nosoutraexperiênciade
trabalho, uma que era essencialmente feminina: a da ida à fonte e aos tan-
ques, na direção leste, após o antigo posto da guarda-fiscal, para levar água
para casa e lavar a roupa. Sobre a fonte comentaram que se espantam que
a sua água seja quente no inverno e fria no verão. Nenhum dos nossos in-
formantes teve pejo em descrever a dureza do trabalho e as más condições
de vida de antigamente, realidades que explicam porque tantos emigraram
nos anos 60, do século passado.
120 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Dos tempos em que havia mais gente a morar em Escarigo, ouvimos, ain-
da, histórias sobre as brincadeiras nas traseiras da igreja e no terreiro em
frente à Capela de Santo Cristo; sobre os bailes e as tabernas; sobre os for-
nos privados para fazer o pão. Sentem, hoje, os nossos informantes falta de
espaços de convívio, como um café, e lamentam a perda de população. De-
fendem que os caminhos rurais deviam ser arranjados e que o lagar perten-
cente à Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo podia ser transfor-
mado num museu. E orgulham-se da sua terra, mesmo que nunca venha a
ser uma Lisboa.
Pelo que acima foi descrito, podemos concluir que a auscultação da popu-
lação de Escarigo potenciou não só uma interpretação do património local
para além dos vestígios da anterior grandeza desta povoação raiana e da
belíssima igreja, mas também um entendimento mais aprofundado das re-
lações sociais, crenças, vivências e costumes desta comunidade. E é este
ponto que explica a nossa opção pela identificação de sítios de significân-
cia cultural como fonte para a criação de um arquivo da memória e para a
promoção do território da Beira Interior. O envelhecimento da população, a
crescente urbanização, a terciarização da economia, a valorização do turis-
mo cultural e a digitalização da sociedade têm como consequência uma res-
significação drástica de tradições e lugares, e uma mudança profunda nos
modos de vida, que afetam sobretudo o mundo rural. Perante a possibilida-
de do desaparecimento efetivo de aldeias como Escarigo enquanto núcleos
povoados é necessário refletir sobre formas holísticas de conservação do
património, que possam preservar efetivamente a memória coletiva na sua
complexa relação com o espaço físico e contribuir para a revalorização da
identidade específica dos territórios predominantemente rurais.
A raia é uma linha imaginária, traçada na geografia pelo homem, imaginária e
imaginada, mesmo quando essa linha se sobrepõe a uma linha que já antes
tinha sido riscada na terra pela própria geografia. É o caso da raia em Escarigo
e em Almofala, previamente desenhada naquele território pelos leitos do rio
ÁguedaedaRibeiradeTourões.Éumaraiaantiga,datadoséculoXIII,edesde
então separa o reino de Portugal dos reinos de Castela e de Leão. Uma raia
militar e política, para finalmente ajustar a partilha do território entre D. Dinis e
D. Fernando IV, depois de combates sangrentos por cada palmo de terra, en-
treosexércitosdosdoislados.Perdeu-semuitagente,masalgunsganharam
terra. Essa divisão foi registada no tratado de Alcanizes de 1297. O tratado
traçou as linhas oficiais na terra e na água e decidiu, nomeadamente, que as
praças de Ribacôa pertenceriam ao reino de Portugal.
Fotografia
— um projecto sobre a Raia
em Escarigo-Almofala
7Renato Roque
FOTÓGRAFO
122 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Realmente, todas as raias foram desenhadas nos mapas. Marcadas no chão.
Não faziam parte da paisagem, ainda que possam, como aconteceu muitas
vezes, ter determinado a sua evolução, depois de fixadas. As raias foram in-
ventadas quando os homens aprenderam o sentido de propriedade da ter-
ra, foram inventadas como um meio artificial de impedir que outros homens
viessem assenhorear-se dessa terra, que esses homens julgavam ser sua,
por direito humano e/ou divino. E com o passar do tempo, essas simples li-
nhas de demarcação artificial do território foram adensando contornos políti-
cos, militares, culturais e até linguísticos.
Mas o conceito de raia, ou de fronteira, como linha que nos deve limitar ou
como desafio que queremos ultrapassar, tem desempenhado um papel
fundamental em grande parte da actividade humana e em particular na
prática artística. Desde a Grécia Antiga que os filósofos têm, por exemplo,
tentado delinear a linha de fronteira que separa a obra de arte de outros ob-
jectos de uso. Desde a Poética de Aristóteles se tentou traçar, não só a linha
de fronteira que delimita a Poesia – hoje diríamos Arte 1
– daí Poética, mas
todas as linhas, que separam as várias formas de Arte e as várias forma de
Poesia: a Tragédia, a Comédia e a Poesia Lírica. Muitos autores, ao longo dos
séculos, procuraram desenhar essas linhas de fronteira, desde Horácio, com
a sua Ars Poetica, até aos formalistas russos do século XX, que tentaram
criar uma tal Ciência Poética, fundada numa busca de uma qualidade distin-
tiva dos textos literários, a que chamavam literalidade.
Parece ser particularmente atraente, para esse conceito de raia, como limite
a transpor na arte, o que escreve Giles Deleuze, que defende a existência de
três grandes domínios do conhecimento, que nos permitem conjuntamente
1
. A palavra “poesia” tem a sua origem no
grego poiésis, que significa o processo de
criação; deriva de poiein que quer dizer
“fazer” em grego; poiésis é a activação, a
encenação da obra da poiétiké (arte poética).
Este significado abrangente da palavra
torna-se evidente no Banquete de Platão; a
determinada altura no diálogo de Sócrates,
ele diz, repetindo as palavras de Diotima,
mulher de Mantineia:
Sabes que a "poesia" é multiforme; no sentido
geral é, não importa em que objecto, a
causa pela qual ele surge do não-ser para a
existência: assim os trabalhos realizados em
todas as profissões são "poesias" e os seus
autores "poetas". Todavia, tu sabes que estes
não são denominados poetas, mas têm outros
nomes, enquanto que de toda a “poesia” uma
única parcela foi destacada, a que se refere à
música e aos versos, e com o nome do todo é
denominada.
Platão Banquete, c. 380 a.C.
delimitar o que ele chama o caos. Esses três domínios são a filosofia, a arte
eaciência.Cadaumdelesnoscolocadeumamaneiradiferenteo desafio de
alargar as fronteiras para dentro desse caos.
Numa palavra, o caos tem três filhas segundo o plano que o recorta: são
a arte, a ciência e a filosofia, como formas do pensamento ou da criação.
GILLES DELEUZE – FÉLIX GUATTARI, Qu’est-ce que la philosophie?, 1991,
trad. nossa
O pensamento e a criação filosófica, artística e científica resultam de uma
conjugação de três formas de pensar: pensar em filosofia, ciência e arte.
Os três pensamentos cruzam-se, entrelaçam-se, mas sem síntese nem
identificação. A filosofia faz surgir acontecimentos com os seus concei-
tos, a arte ergue monumentos com as suas sensações, a ciência cons-
trói estados de coisas com as suas funções. Um rico tecido de corres-
pondências pode estabelecer-se entre os planos. … E um dos elementos
não aparece sem que o outro não esteja presente, ainda indeterminado
ou desconhecido. Cada elemento criado sobre um plano apela a outros
elementos heterogéneos, que estão por criar sobre outros planos: o
pensamento como heterogénese.
GILLES DELEUZE – FÉLIX GUATTARI, Qu’est-ce que la philosophie?, 1991,
trad. nossa
124 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
A arte, afinal, em Deleuze, reside tão próxima da ciência e também da filoso-
fia, como sistemas de condensação do caos para o tornar habitável.
A arte capta um pedaço de caos numa moldura, para formar um caos
composto que se torna sensível, … a ciência apreende-o num sistema
de coordenadas e forma um caos referenciado que se torna Natureza…
A criação são as variedades estéticas ou as variáveis científicas, que sur-
gem sobre um plano capaz de recortar a variabilidade caótica.
GILLES DELEUZE – FÉLIX GUATTARI, Qu’est-ce que la philosophie?, 1991,
trad. nossa
Osistemadeleuzianoécertamentefascinanteedesafiante,mas,realmente,
o problema continua em aberto, ainda que as respostas ao longo do tempo
para definir as fronteiras no conhecimento e na arte tenham sido muitas.
Como saber por onde passa exactamente a linha que separa a obra de arte
de objectos naturais ou do quotidiano?
A verdade é que continuamos a demanda de uma raia conceptual, que tan-
tos procuraram desenhar sobre o branco da história da arte e da literatura.
Realmente, muitos séculos passados, desde Aristóteles e Platão, todas as
tentativas para definir a fronteira da arte parecem ter sido conduzidas a
termos de reconhecer o problema como aparentemente insolúvel no pla-
no da racionalidade.
A formulação do “conceito aberto” de Wittgenstein poderá porventura aju-
dar-nos a explicar as razões desse insucesso. De acordo com a proposta de
Wittgenstein, um “conceito aberto” não é possível ser qualificado de uma
forma objectiva e, como tal, não é possível traçar-lhe uma linha de fronteira,
que tantos procuraram e procuram ainda. Para um “conceito aberto” a linha
defronteiranãoéumalinhafixa,masumalinhafluida,quesemoveaolongo
do tempo, como os círculos na água da fotografia de Jorge Velhote.
Wittgenstein desenvolvera a ideia de “conceito aberto” a partir da ideia de
jogo. Foi o seu discípulo Morris Weitz quem afirmou pela primeira vez que
na arte, tal como acontece no jogo, estamos perante um “conceito aberto”.
Realmente na arte, tal como se observa nos jogos, podemos, quando muito,
listar um conjunto de atributos que algumas obras de arte possuem, mas
não conseguimos elaborar uma lista completa de atributos que nos garanta
cobrir todas as obras de arte e só as obras de arte 2
.
A implicação do “conceito aberto” é a de ter de avaliar, perante cada nova
proposta de objecto, se ele cai ou não dentro desse conceito e eventualmen-
te alargar ou deformar a linha de fronteira anterior. Se olharmos para a His-
tória da Arte, percebemos facilmente que tal expansão/deformação parece
ter acontecido à medida que novos artistas e novos movimentos passaram
a ser aceites como integrando o mundo da Arte.
E se pensarmos em particular no aparecimento e na consolidação da foto-
grafia, durante todo o século XIX, e mesmo ao longo do século XX, aperce-
bemo-nos de como a fotografia esteve desde o início ligada fortemente à
ideia de fronteiras, fronteiras que a limitavam, mas que, ao mesmo tempo,
lhe ofereciam novos territórios, do outro lado dos limites que lhe eram im-
postos, mas que queria (teria de?) ultrapassar.
A fotografia traçou de imediato uma fronteira obscura com a arte, e em par-
ticular com a pintura, que originou desde cedo fracturas entre movimen-
tos pictorialistas e naturalistas. E já no século XX, a procura de um espa-
ço próprio para a fotografia, independente da pintura, originaria uma série
de movimentos fotográficos revolucionários, em torno de uma nova forma
2
. Para Wittgenstein ou Weitz, os conceitos
fechados realmente só existem no mundo
da lógica ou das ciências da natureza,
nomeadamente na matemática, ou na física,
a menos que correspondam a conceitos bem
delimitados no espaço-tempo, ou a conceitos
que decidamos fechar artificialmente:
[a closed concept] cannot occur with
empirically-descriptive and normative concepts
unless we arbitrarily close them by stipulating
the ranges of their uses. (Morris Weitz,
Philosophy off the Arts 1950, p.31)
126 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
de ver, que a fotografia proporcionava, agrupados debaixo da sigla muito
abrangente Nova Visão. Uma nova visão que implicava saltar a fronteira que
o olho humano nos impunha. E a fotografia viria a ser até central na defini-
ção de uma nova fronteira com o chamado contemporâneo, ao ser elemen-
to fundamental na sustentação do discurso dos conceptualistas, verdadeira
antecâmara de uma arte, a que chamaram (mal) contemporânea.
Realmente, a história da fotografia tem sido marcada sempre por fronteiras,
ou por linhas desafiantes que a sua prática coloca a quem pretende com ela
criar novas imagens e novo pensamento. O digital e as redes, que propiciam
a difusão e a partilha quase instantânea de miríades de imagens, consti-
tuem novos desafios sob a forma de fronteiras vagas que parecem delimitar
territórios a descobrir no presente e no futuro. Territórios novos arriscados,
mas também excitantes.
FOTOGRAFAR a RAIA
Há, como escrevemos, uma relação de proximidade da fotografia, ao lon-
go de toda a sua história, com diversas raias e fronteiras. Assim, o desafio
da Ribacvdana a cada um dos fotógrafos que participa neste número dos
Cadernos do Património, para retratar a Raia Beirã, na região do rio Águeda,
transformou-se num desafio estimulante, que possibilitou diferentes pers-
pectivas.
O projecto fotográfico foi realizado no contexto do encontro fronteiriço, reali-
zado em Setembro de 2021, em Escarigo/Almofala/Puerto Seguro, organi-
zado pela Associação Ribacvdana.
Em Escarigo e Almofala, duas pequenas aldeias do concelho de Figueira de
Castelo Rodrigo, a raia é líquida, ainda que bem sólida desde o século XIII,
quando foi assinado o tratado de Alcanizes, como vimos. É materializada
pelo rio Águeda e pelo seu afluente a Ribeira de Tourões (rio Turones do lado
de Castela). É a ribeira, que a sul de Almofala, divide as terras portuguesas
das castelhanas. O rio, a norte, separa até ao Douro. A ribeira e o rio são li-
nhas de separação no terreno e delineadas no papel.
Caminhemos então pelo território, pelos pés e pelos olhos dos fotógrafos.
Outros percursos seriam possíveis de trilhar. Este foi o nosso.
128 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
130 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
raia
Adelino Marques . 00 . 00 .
António Jota Gonçalves . 00 . 00 .
António Martins Teixeira . 00 . 00 .
Augusto Lemos . 00 . 00 .
Conceição Magalhães . 00 . 00 .
Jorge Pedra . 00 . 00 .
Jorge Velhote . 00 . 00 .
Renato Roque . 00 . 00 .
Rui Mendonça . 00 . 00 .
Sofia Aroso . 00 . 00 .
132
134
136
138
140
142
144
146
148
150
152
154
156
158
160
162
168 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
r A fotografia busca o irrepetível, esse momento fundado na desordem para
acontecer, lugar em que o fotógrafo tenta a congelação temporal de que a
imagem será receptáculo e movimento do pensamento – na verdade, lu-
gar de vivificação da pele e da carne com que o mundo se cobre para fazer
fluir, entre instantes, o que é o implacável roubo da imaginação sobre o real
que é dado ver e proposto ver como cenário ou jogo de argumentos em que
se reflecte sobre o estado do mundo mediado por uma fotografia que pos-
sui e se transmuta em informação fiável para que a memória passe a ser a
circunstância de um acontecimento ligado já não ao passado, mas apenas
ao presente como prospecto que premedita e insinua a transfiguração do
mundo como raiz, regulação e sistematização do olhar.
Poderíamos especular aqui se não será uma ligação do passado ao futuro,
porque o futuro condiciona a existência ou não da(s) memória(s). Assim, é
A fotografia
como encenação
do invisível
Jorge Velhote
POETA
170 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
pela imaginação que recorremos para tornar presente, para presentificar,
aquilo que sendo imagem ou retrato do passado é possível ser, só apenas,
ainda presente e animado de um estado de compreensão que autonomiza
a imagem no único meio capaz de, ao observador, poder como tal actuar:
olhando, vendo, observando, imaginando, lendo ou percepcionando e au-
tenticando pelo seu mecanismo fisiológico da visão aquilo que sabe ser
em si também apresentável e representação do seu instante criativo em
fruição. Portanto, a fotografia não é nem representa apenas o visível, mas,
como na poesia, uma memória do invisível e, convenhamos, do seu prazer.
É como se fotógrafo, imagem e observador se conciliassem para se encon-
trarem e ali serem um único. O autor é nessa osmose e simbiose um leitor de
acontecimentos que a imagem catalisa, para que o tempo seja somente pos-
sível no espaço de uma imagem fundadora de um desenho a sangue que cir-
cula como unidade e união da memória e da imaginação. Numa catarse que
a fisiologia catapulta para um momento de potência entre o que escondido
estava para o que agora se revela. É na imagem, esse lugar do pensamen-
to, que é dada a revigoração do tempo, mas sempre no seu limite irrepetível,
pois o passado apenas de cada vez somente se presentifica. E nisso opera a
imaginaçãoeosrecursosqueroubamaotempoafronteiraaqueafotografia
se propõe. Registar num tempo presente o passado que se apresenta como
futuro. Ou devir, dependendo do usufruto de ser vista como intertextuali-
dade. Ou melhor, de leitura sem julgamento, expressão de modos de fazer
acontecer a que corresponde um hiato libertador do conflito que organiza o
caos em privilégio ou identificação de um processo a que se dispõem aque-
les que observam a(s) fotografia(s) como implacável tratamento da história
do improvável – sendo a fotografia peça-chave que faz surgir do anonimato
a notável capacidade de cada um ser autor em busca do espaço-tempo em
que se torna presente e visível e onde ‘a ignorância ou cegueira’ é a discreta
liberdadedesepassaraexistirfazendorecuperaroquesejulgavaimpossível
ou obsceno de ser (re)visto como ideia ou pensamento em trabalho, numa
direcção tornada, instantaneamente, motor e distância e reconhecimento. E
onde se autentica a fiabilidade do pensamento numa perpectiva de máxima
observação, liberdade e fiável memória ou testemunho – talvez o desafio
maior e secreto de um fotógrafo através das suas imagens impressas. Tes-
temunho de validar, certificando, o espaço e o tempo de todos, daqueles que
são dados a coleccionar imagens de visões e representação da descoberta
de si num processo de permanente surpresa que obtura e regista o momen-
to onde sentimentos e emoções operam e enriquecem o pensamento numa
alegação do impossível, mas a que a imagem, a fotografia, permite abordar
em permanência como verdade. Uma verdade a descobrir, não a documen-
tar a descoberta, mas fluído que faz atravessar o tempo nos seus instantes
e implacável realismo, a que a dimensão poética e os seus conflitos, dando
um cunho de encenação, não é alheia – entre as imagens e os observadores
circula por inteiro um alucinatório desejo, uma experiência de leitura que a
narratividade imagética expõe, num diarismo oculto de um drama que exibe
e retrata o autor da fotografia no centro material do que é invisível e apenas
experiência da imaginação.
É essa relação entre estranhos, de contágios sem missão ou destino, sem
interditos, que dá ao mundo a sua carne ou confinamento e onde o olhar é
expressão ou hipotética ruptura em doação e infinito. E aqui, o infinito não
é um código, mas o único momento onde a imagem é o encontro de ima-
gensqueocérebrogeraparaconciliarumasintoniaimprevistaemetafórica.
172 CADERNOS DO PATRIMÓNIO 2
Uma lágrima onde observar o mundo ou o universo no seu movimento em
permanência e onde o fotógrafo se encontra a encenar o invisível – a mais
improvável em magnitude das sensações.
A fotografia, sendo memória congelada e irrepetível da história do mundo,
sendo a súbita consciência da nostalgia seminal e do registo da sua pers-
crutação, revelação, actualização, fragmentação e transfiguração é, não
obstante, sem fronteiras.
puerto seguro
es-
ca-
ri-
go.
ÍNDICE
Editorial.
António Sá Gué
Os Senhores de Monforte no século XIII comiam ostras?
Tiago Ramos
Monforte, um meandro do Côa nos Mapas de Fronteira.
João Carlos Garcia e Luís Miguel Moreira
Os Sítios de Significância Cultural em Escarigo.
Guilherme Calado e Vanessa Ribeiro
Uma Pintura Quinhentista a Fresco no Frontal
do Antigo Altar-mor da Igreja de Escarigo
(Figueira de Castelo Rodrigo)
Carlos Caetano
El Patrimonio Arqueológico de la Cuenca del Águeda
como recurso turístico: Del Paleolítico a La Edade Media
José Ignacio Martín Benito
Fotografia — um projecto sobre a Raia
em Escarigo-Almofala
Renato Roque
Ensaio Fotográfico
vários autores
A Fotografia como encenação do invisível
Jorge Velhote
1.
2.
3.
4.
5.
6.
7.
8.
9.
FICHATÉCNICA
CADERNOSDOPATRIMÓNION.º2
RAIA.Escarigo/PuertoSeguro.
EdiçãoRibacvdana-AssociaçãodeFronteira
paraoDesenvolvimentoComunitário.
©dostextos,autoreseRibacvdana
©dasfotografias,fotógrafoseRibacvdana
COORDENAÇÃO
RenatoRoque
AntónioSáGué
DESIGN
RuiMendonça
REVISÃODETEXTOS
JorgeVelhote
IMPRESSÃO
G
DATA
Setembro 2022
DEPÓSITOLEGAL
00000/22
ISBN
978-989-9114-19-7
puerto seguro
raia

Caderno do Património 2 (2022) Escarigo-Puerto Seguro

  • 1.
  • 2.
    2 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 A história da colecção Cadernos do Património, a dos Encontros Transfron- teiriços e a da Associação RIBACVDANA são histórias entrelaçadas. Este Caderno do Património n.º 2 é assim o resultado do 2.º Encontro, or- ganizado pela RIBACVDANA em Setembro de 2021, em Escarigo, pequena aldeia raiana no Concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, e, do outro lado da ribeira de Tourões e do rio Águeda, em Puerto Seguro. Almeja ser, antes de mais, a consolidação deste projecto editorial da RIBACVDANA, que terá periodicidade anual. Acreditamos que a colecção Cadernos do Património pode contribuir, mesmo se modestamente, para consolidar uma ideia de futuro para a raia, que contra- rie o contínuo processo de debandada e de desertificação. Queremos fazê-lo atravésdadiscussãoedapartilhadepontosdevistacomoshabitantesecom agentes da cultura local, sempre com a cumplicidade de estudiosos cativos de uma peregrinação na busca das raízes históricas e culturais das populações. É esseopapelqueosEncontrosTransfronteiriçosdevemdesempenhar. Cadernos do Património 2 – editorial António Sá Gué PELA DIRECÇÃO DA RIBACVDANA. raia
  • 3.
    4 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 As raízes que procuramos materializam-se num subconsciente colectivo, na paisagem agreste que nos cativa, na arquitectura civil e religiosa, nas crenças e nas lendas e em todo o património imaterial, em marcas civiliza- cionais deixadas ao longo do tempo por outras formas de estar, saber e de ver o outro. Estão alojadas, essencialmente, na memória das pessoas. E, se o território raiano é uma região sem monumentos grandiosos, como acontece perto dos centros de poder, sabemos no entanto que podemos por lá descobrir património material e não-material de grande valor. Abre-se, portanto, um vasto campo de acção e de estudo, que nos permite acreditar que, no tempo em que as fronteiras se esbatem (se ainda se es- batem?), é essencial registar e estudar esta estreita faixa de terra, que de- signamos de raia, sempre tão esquecida e, julgamos, ainda mais ignorada. É um território marcado por memórias de muitas e cruentas batalhas, por- que era território cobiçado e disputado, como porta de entrada para con- quistas maiores. Foi, por isso, local de construção de postos de atalaia e de fortalezas militares, que materializaram primeiro a conquista e depois a de- fesa de cada reino dos reinos vizinhos. Foianossacrençanaimportânciadeconhecermosanossahistóriaquenos levou à “descoberta” do Castelo de Monforte, que foi, em grande medida, o marco genesíaco da nossa Associação, e que ainda justifica a vontade de continuar a estudá-lo e a dá-lo a conhecer, pois, realmente, muito pouco ainda se sabe sobre ele. E, pensamos que faz sentido que este Caderno do Património n.º 2 regresse ao tema Monforte e publique duas das comunicações apresentadas numa jornada de reflexão sobre a importância efetiva das ruínas do Castelo de Monforte 1 , que realizámos em 18 de Junho de 2022, com a parceria da Câ- maraMunicipaldeFigueiradeCasteloRodrigo.ProcuramosnessasJornadas Europeias de Arqueologia relembrar o potencial arqueológico, quer científico quer turístico, que este enigmático sítio possui, mas sobretudo relembrar a necessidade de se proceder à reabertura do processo de classificação. para assimexistirumenquadramentolegalparaasuaproteçãoevalorização,ede proceder ao levantamento topofráfico do local. O artigode TiagoRamos“OsSenhoresde Monforte noséculoXIIIComiam Os- tras?”,construídoapartirdeumadescobertasurpreendente–foramencontra- dos restos de bivalves marinhos (ostras?) nas escavações em Monforte, o que vemmaisumavezsublinharaimportânciadecontinuarainvestigação. O artigo “Monforte, um Meandro do Côa nos Mapas de Fronteira”, dos geó- grafos João Garcia e Luís Moreira, conta-nos a história do castelo e da re- gião de Riba Côa, usando como fio de rumo os mapas da região, desde o seculo XVI. Não chegaram até nós mapas mais antigos Mas a Raia, como defendemos, é muito mais do que um espaço geográfico, estrategicamente relevante para os dois estados que divide. E é mais do que património edificado. É um espaço social, económico, espiritual, que o artigo“OsSítiosdeSignificânciaCulturalemEscarigo”nosrevelacomtanta acuidade, ao tentar resgatar da noite dos tempos o imaginário colectivo e memorialístico de um povo. 1. Os artigos de Ignacio Benito e de João Garcia & Luís Moreira.
  • 4.
    6 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 No ensaio de Carlos Caetano “Uma Pintura Quinhentista a Fresco no Fron- tal do Antigo Altar-mor da Igreja de Escarigo “, o historiador de arte mos- tra-nos a relevância da arquitectura da igreja de Escarigo e a importância artísticadofrescoconservado,descobertonasobrasderestauro,pordetrás do novo altar-mor. E o que era a raia antes de o ser? Quem ali viveu, que crenças tinha, quem eramessesnossosantepassados?Partedarespostaencontramo-latalvez no artigo “El Patrimonio Arqueológico del Valle del Águeda como Recurso Turístico” do arqueólogo Ignacio Benito. Captar o imaginário colectivo é um desígnio exigente, a que o ensaio foto- gráfico, “Fotografar a Raia”, e os dois textos que o acompanham, de Renato RoqueeJorgeVelhote,tentamoferecerumsegundoolhar,através dosentir estético das múltiplas visões da Raia de um grupo de fotógrafos que parti- cipou no Encontro. O Caderno de Património n.º 2 é assim, por um lado, um testemunho do En- contro Transfronteiriço que dinamizámos em 2021, em Escarigo e Puerto Seguro, e, por outro lado, pretende ser um contributo para uma reflexão so- bre o território de Riba Côa, que se estende à volta de Monforte. Em intervenções arqueológicas, realizadas em solos derivados de rochas graníticas, os materiais mais abundantemente recolhidos são sobretudo fragmentos de peças cerâmicas ou materiais pétreos. Materiais orgânicos, como madeira, sementes, ossos, espinhas ou molúsculos raramente se conservam, ou necessitam de condições excepcionais para chegarem em bom estado de preservação. Tal facto deve-se à composição dos solos gra- níticos, que possuem um alto nível de acidez, degradando rapidamente os materiais orgânicos. No entanto, nos raros casos em que se formam contextos arqueológicos pouco comuns, como por exemplo ter ocorrido um incêndio que crie um estrato com elevada presença de matéria orgânica carbonizada, ficam pre- servados interessantes vestígios da vida quotidiana do passado. Nomea- damente restos de alimentos consumidos nesse período. os Senhores de Monforte no século XIII Comiam Ostras? Tiago Ramos ARQUEÓLOGO A enigmática presença de bivalves marinhos no Castelo da Sr.ª de Monforte (Bizarril-Figueira de Castelo Rodrigo)
  • 5.
    8 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Como constatámos, na intervenção arqueológica realizada no Castelo da Srª de Monforte em 2019, cujos dados foram publicados na dissertação de dou- toramento (Ramos, 2020), este fenómeno incomum ocorreu em Monforte. Um incêndio na torre de menagem possibilitou a formação de um contexto que, entre outros materiais orgânicos e não-orgânicos, continha a presença derestos,queidentificámos como pertencendo a várias espécies de bivalves marinhos, e entre eles alguns que pareciam poder ser conchas de ostras. A identificação segura das espécies em presença exigiria uma investigação mais aprofundada. Este achado, para além de raro e exótico para a região, é extremamente enigmático. Mais que respostas, levanta-nos um conjunto de interroga- ções: Quando se comeram? Quem os comia? Que espécies biológicas se reconhecem? Como eram confecionados? De onde vinham? Como eram transportados para garantir a sua preservação na longa viagem do mar até ao Côa? Haverá mais por descobrir? Encontramo-nos ainda num estado inicial da investigação para darmos respostas concretas. A hipótese que formulamos anteriormente (Ramos, 2020) e que podemos sintetizar é a seguinte: Em Monforte, entre a segun- da metade do século XII e os inícios do século XIII, vivia um conjunto de indivíduos pertencentes a uma elite guerreira, que possuíam estatuto e ca- pital financeiro suficientemente elevado para consumir bivalves marinhos, que chegariam até aqui através da importante via colimbriana, que ligava Coimbra a Salamanca. Estaremos assim perante um importante sítio, mes- mo se de cariz regional, que aparentemente se encontrava perfeitamente inserido numa rede comercial peninsular de larga escala. Mas todas as hipóteses que adiantámos têm de ser comprovadas ou, even- tualmente, contrariadas, dando lugar a novas propostas de explicação, por meio de estudo e de avaliação, recorrendo a métodos científicos. Só assim poderemos saber mais sobre aquela época e como viviam as gentes que habitavam no castelo e no pequeno povoado à sua volta. Não nos cansa- mos de repetir que estamos ainda num estado inicial da investigação sobre o Castelo de Monforte. É, pois, imperativo um estudo mais aprofundado so- bre o local. E, para realizar esse estudo, é urgente arrancar com duas tarefas relativa- mente simples, tão brevemente quanto possível: a)umalimpezadomatoqueatualmentecobreetornaquaseinvisívelosítio arqueológico. b) um levantamento topográfico das estruturas que se avistam nos dois cabeços e nas suas encostas, tarefa difícil de empreender sem o envolvi- mento efetivo do poder autárquico. Estes dois requisitos serão antes de mais fundamentais para reabrir o pro- cessodeclassificaçãodosítio.Eserãoimprescindíveisparaacontinuaçãoda investigação arqueológica, que possa criar condições concretas para a valori- zação e para fruição deste património emblemático, quer pelas comunidades locais, quer por visitantes nacionais e estrangeiros interessados na riqueza culturalehistóricadolugar.OCastelodeMonforteeasuaenvolventepoderá assim constituir uma mais-valia importante para a região, sobretudo se as- sociado a outros sítios históricos e culturais do Riba Côa. Resto de bivalve marinho (ostra?), encontrado nas escavações na Torre de Menagem do Castelo de Monforte em 2019 – Fotografia do Autor
  • 6.
    10 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 MONFORTE, UM MEANDRO DO CôA NOS MAPAS DE FRONTEIRA João Carlos Garcia Luís Miguel Moreira GEÓGRAFOS FIGURA 1. Mapa hipsométrico da bacia do médio Coa. FIGURA 2. Mapa de declives da bacia do médio Coa. Agradecemos à Prof.ª Laura Machado Soares, do Departamento de Geografia da Faculdades de Letras da Universidade do Porto, a realização destes dois mapas que servem de enquadramento físico-natural da área de estudo. Os mapas deste artigo podem ser acedidos com maior resolução e a cores: https://photos.app.goo.glw/ d4enErvUu1v67bo39 Na parte sul da bacia do médio Douro, entre os rios Águeda/Tourões e Côa, afluentes do grande coletor ibérico, que correm sul-norte, em vales fortemen- te encaixados, desenvolveu-se um original caso de colonização luso-leonesa, entre o último quartel do século XII e o início do século XIV (Figuras 1 e 2). O processo da “Reconquista” cristã e da subsequente reorganização e repo- voamento do território, por parte do Reino de Leão, conheceu uma impor- tante etapa, durante os reinados de Fernando II (1157-1188) e de Afonso IX (1188-1230). Falamos, em particular, da avançada para Oeste, em direção a um novo corpo político que recentemente se emancipara e tentava estru- turar - Portugal -, também ele cristão, com o qual era importante negociar diplomática e militarmente, em especial, as fronteiras. Além da luta territorial entre os poderes régios, outros poderes e outras ins- tituições procuravam implantar-se e controlar o mesmo espaço, fossem as ordens militares, a nobreza, as cidades, procurando alargar os seus termos,
  • 7.
    12 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 ou a Igreja, através da restauração das dioceses e da fixação das ordens re- ligiosas. Na parte norte da futura comarca de Riba Côa encontramos bons exemplos da atuação de todos estes tipos de intervenientes na reorganiza- ção do espaço, nos anos 70 do século XII. Apenas alguns breves exemplos. A Ordem militar de São Julião do Pereiro (futura Ordem de Alcântara), fundada em 1166, recebeu dez anos depois, os núcleos de Reigada e Granja do Pereiro, férteis e estratégicos locais, no aplanado interflúvio entre os rios Côa e Seco, a que se juntarão outros próximos ou em direção ao Douro, como Cinco Vilas, Vilar Torpim, Ferreira, Colmeal, Almendra e Fonte Seca, com o beneplácito do Papa Lúcio III, em 1183 (Cintra, 1984, p. LIII). Entre Cinco Vilas e Reigada terá sidoconstruídoo“MonasteriodePerario”,masafuturacomendadaOrdemde Alcântara apresentará por sede Vilar Torpim e estender-se-á a São Félix dos Galegos, confirmando uma ligação suportada por um importante eixo viário, em direção à Tierra de Ledesma e ao vale do Tormes. Para nordeste desta rede de povoamento, no interflúvio entre os rios Seco e Águeda, encontramos o mosteiro de Santa Maria de Aguiar, inicialmente da regra de São Bento e, posteriormente, da Ordem de Cister, sob a juris- dição da abadia leonesa de Moreruela. Contudo, tratava-se de uma funda- ção portuguesa, para a qual Afonso Henriques tinha definido couto, em 1174 (Azevedo, 1962, p. 261). Em princípio, situando-se a leste do Côa, caberia em exclusividade à soberania leonesa, tanto mais que se encontrava enquadra- do na diocese de Ciudad Rodrigo, existente desde 1161 (como herdeira da antiga diocese de Calábria) e renomeada e com termos definidos desde 1175 (Martín Benito, 2002), mas as pretensões portuguesas sobre esse espaço, que não eram novas, continuavam. O mesmo acontece no campo oposto: Ciudad Rodrigo e o seu bispo não deixarão de reivindicar privilégios e rendas sobre Riba Côa, mesmo depois do Tratado de Alcañices (1297) e do estabe- lecimento da fronteira Portugal - Castela. EstaorganizaçãoestabelecidanapartenortedafuturacomarcadeRibaCôa manter-se-á na década seguinte, até à morte de Fernando II, em 1188, e no início do reinado do seu sucessor. Na primeira metade dos anos de 1190, Afonso IX, não só confirmou a maioria das doações que o pai fizera neste território, como acrescentou algumas novas, como a Granja de Tourões, a SantaMariadeAguiar(Cintra,1984,p.LV).Mas,oreideLeãoestavaatentoà estratégiapovoadoradotioevizinho,oreiSanchoIdePortugal,querepartia forais nas faixas fronteiriças de Trás-os-Montes e da Beira. A ponta da lança apontada a Portugal será Castelo Rodrigo, protegido pela Serra da Marofa e dominando vastos espaços para Norte, até ao Douro, e para Sul até ao corredor natural leste - oeste, entre Guarda e Ciudad Rodrigo. É esse espaço retangular, limitado a Oeste pelo Côa e a Leste pelo Águeda/ Tourões, desanexado do termo de Ciudad Rodrigo, que o fuero concedido por Afonso IX a Castelo Rodrigo, vai gerir, desde 1209 1 . A esta peça no tabuleiro leonês corresponde Pinhel, do outro lado da fronteira. Sancho I, concede fo- ral a Pinhel exatamente na mesma data, 1209 (Ventura, 1989, p. 39). Entre os dois núcleos rivais que se enfrentam passa o Côa, e sobre o Côa, num sítio alcandorado, dominando as passagens do rio, constroem os leoneses o Castelo de Monforte, primeiro atalaia vigilante e estritamente militar, depois pequeno núcleo de povoamento que crescerá ao longo do século XIII. A prova da importância dada por Afonso IX à organização desde espaço é a suapresençaassíduaemCasteloRodrigo,em1209,1210,1215,1217…(Cintra, 1984, p. LIX e Vicente, 1998, p. 296). O que inclui novas doações no espaço envolvente (Bouça, Cortiçada) e, provavelmente, a construção e reforço da 1 . Ver a importante reconstituição cartográfica elaborada por Cintra (1984, p. CXXI), sobre o povoamento de Riba Coa, no século XIII.
  • 8.
    14 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 fortificação de Monforte, tanto mais que entre 1210 e 1212 novos conflitos bélicos haviam ocorrido entre Leão e Portugal (Martín Benito, 2002, p. 147). Sóapartirdofinaldadécada,acolonizaçãoemRibaCôaavançaparasul,em direção ao Sabugal. A evolução da “Reconquista”, quer do lado leonês e castelhano, quer do lado português, e as convulsões internas nos estados cristãos ibéricos deixarão, aparentemente, solidificar a organização destes espaços, separados politica- mente pelo Côa. Mas, o ataque militar a Riba Côa, por parte de Portugal, que a crise dinástica castelhana possibilita, no final do século XIII, é a prova que as faixasfronteiriçascontinuavampoucocristalizadaseaserespaçosdeconflito. A campanha de D. Dinis em território leonês, que terminará com o Tratado de Alcañices, com base na narrativa de Rui de Pina, merece um comentário geográfico que pode explicar a incorporação de Ribacôa como um todo2 . O exército português avança no interior do reino inimigo, provavelmente utili- zandoascalçadasromanasquecruzavamaregião–aColimbriana(notroço Guarda - Ciudad Rodrigo) e a Dalmatia (no troço Ciudad Rodrigo - Ledesma) (Martín Benito, 2002, p. 119). O cronista concretiza que o monarca “entrou por has Comarquas de Ciudad Rodrigo, e de Ledesma” (Pina, 1729, p. 25) até Simancas, às portas de Valladolid, ameaçando a regência da rainha Maria de Molina (no quadro da menoridade de Fernando IV) e participando nas que- relas internas da sucessão do trono castelhano (Pizarro, 2005, p. 108-115). Uma boa razão para serem estes os espaços invadidos prende-se com a ligação entre o monarca português e o senhor de grande parte deles junto à fronteira, Sancho de Ledesma, neto de Afonso X, como também o era D. Di- nis. Refere Rui de Pina, que algum tempo antes: “[…] veo ha ElRey D. Diniz ha IfanteDonaMargarida,molherqueforadoIfanteD.Pedro[filhodeAfonsoX], e com ella D. Sancho de Ledesma seu filho, e por descontentamentos, que tinha del Rey D. Fernando pedio ha ElRey D. Diniz por mercee, que ho rece- besse por vassalo, do que ElRey aprouve.” (Pina, 1729, p. 24). Na sequência da evolução dos acontecimentos políticos em Castela e no rescaldo da cam- panha militar de 1296, a reação do monarca português não se fez esperar. Explica o cronista que: “[…] em se tornando pera seu Regno veyo loguo por riba de Côa, onde loguo por cerquos, e combates cobrou ha seu poder ho senhorio de todolos Lugares daquela Comarqua, que aguora sam de Portu- gal, porque eram de D. Sancho que se fizera seu vassalo […] e por eles se deu booa satisfaçam em Castella aho dito D. Sancho.” (Pina, 1729, p. 28). Uma vez mais, as diversas jurisdições sobre um mesmo território, justificam deci- sões políticas e militares, mas também económicas e sociais, em função de contextos históricos distintos (Ladero Quesada, 1989, p. 681). O Tratado de Alcañices (1297) é um momento chave na clarificação do pro- cesso mas, também o é para a sobrevivência e o futuro do castelo de Mon- forte de Riba Côa. É no texto do acordo estabelecido entre Dinis de Portugal e Fernando IV de Castela, que Monforte é pela primeira vez referido, entre as unidades espaciais que se permutam no extremo nordeste da Beira: “[…] yo rey don Denys de sus dicho, por [que nos] uos quitades de los castiellos e de lasvillasdeSabugalydeAlfayatesedeCastielRodrigoedeVillarMayorede Castiel Bono e de Almeyda e de Castiel Mellor e de Monforte [e de los otros] lugares de Riba de Côa com sus términos, que yo agora tengo a mi mano […]” (González Giménez, 1998, p. 23). É toda a faixa fronteiriça da margem direita do Côa que Leão/Castela perde, é toda a faixa fronteiriça para leste do Côa, que Portugal ganha: as fortificações militares, as vilas e os lugares, com os espaços sob o controlo de cada um deles. O desequilíbrio entre a rede de 2 . Sobre as várias interpretações historiográficas em torno do Tratado de Alcañices, ver Amaral & Garcia, 1989, p. 970-977.
  • 9.
    16 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 povoamento na parte norte e na parte sul da faixa é ainda evidente. A sul, apenas são nomeados Sabugal, Alfaiates e Vilar Maior, mas no seu conjunto, o território tem já uma unidade: “Riba de Côa” é o que fica para além do Côa, na visão portuguesa, a partir dos seus centros de poder no litoral atlântico. Na“primitiva”organizaçãomilitar,aleonesa,asfortificaçõesmilitarestinham sido construídas sobre o Côa, contra Portugal; agora Portugal ocupava-as, mas ficava sem linha defensiva ao longo dos vales do Águeda e do Tourões, por onde se estabeleceu o novo limite político, com base no acordo de Al- cañices. Assim, nem todos os “castelos” recebidos terão a mesma atenção e manutenção por parte da Coroa portuguesa (Barroca, 1998). Rui de Pina, na Crónica de D. Dinis, é bastante explicito sobre as razões do abandono de Monforte. Ao inventariar a obra do monarca na defesa da Comarca da Beira e de Riba Côa afirma: “[…] fez de novo estes Castellos, há saber, Avoo, que agoraheedoBispodeCoimbra,hoSabugal,Alfayates,CastelRodriguo,Villar mayor, Castel boom, Almeyda, Castel melhor, Castel mendo, San Felizes dos Galegos, que tem agora Castella, e nom fez ho Castello de Monforte de riba de Côa, que tambeem lhe foy dado por estar em maa despoziçam da teerra, e sua força pera defençaõ do Regno, nom seer muito necessária, fez mais Pinhel, e seu Castello […]” 3 . A fortificação estava agora longe e “de costas” para o novo troçado da fronteira. Atendendo ao renovado quadro geo-estratégico do nordeste da Beira, so- bretudo pela alteração do limite político entre os Estados, nem o sítio nem a posição de Monforte justificavam o investimento em obras de engenharia e arquitetura militar. Como em outros casos ocorridos ao longo da faixa raiana, ao abandono da ocupação militar seguiu-se a decadência do pequeno nú- cleo populacional, que no entretanto se formara e sobre o qual, de qualquer modo, temos notícias documentais até ao reinado de Pedro I, nos meados do século XIV (Abreu, p. 2014, 114). Num documento de D. João I sobre o concelho de Pinhel, datado de 1386, refere-se “[…] hum logo que se chamão Monforte ho quall dizem que he de- sabitado há gramde tempo.” (Francisco & Gil, 2016, p. 415). Assim se encon- traria. A presença do topónimo entre a recorrente lista de lugares de Riba Côa num documento da chancelaria de D. Manuel I (Abreu, 2014, p. 114) não atesta a sobrevivência do núcleo populacional, já que as fontes descritivas, estatísticas e cartográficas do século XVI (e dos séculos seguintes), são em tudo omissas à existência da povoação. Referimo-nos às descrições quinhentistas de Portugal e aos róis de topónimos do chamado Códice de Hamburgo, de 1525, e do Numeramento de 1527-1532, estudados por Su- zanne Daveau e Júlia Galego. Tentando localizar o castelo de Monforte pro- curámos a comarca de Riba Côa nas imagens cartográficas do País. Sobre essa busca faremos um comentário mais detalhado 4 . A primeira representação gráfica (vistas e plantas) deste território, ainda que de forma limitada, foi apresentada por Duarte Darmas, no Livro das Forta- lezas. Em 1509, D. Manuel I enviou um agente “debuxador” percorrer a raia, registando através do desenho, os castelos que vigiavam e demarcavam a faixa fronteiriça entre a foz do rio Guadiana, a sul, e a foz do rio Minho, a nor- te. O levantamento não permitia obter uma “imagem” exata da configuração dos limites do reino, embora esta estivesse implícita no simbolismo de cada um dos castelos, enquanto marcos da autoridade central sobre o espaço de contacto com o Estado vizinho. A fronteira medieval era ainda mal definida, difusa e permeável. Percorrendo Riba Côa de sul para norte, o autor deixou registos de Sabugal, Vilar Maior, Castelo Mendo, Castelo Bom, Almeida e 3 . Pina, 1729, p. 94. Sobre as condições militares das praças fortes havia notado o autor: “[…] hos quaaes Lugares nom eram então taõ afortelezados como ElRey depois hos fez” (ibid., p. 28). 4 . Com base no levantamento efetuado por Moreira, 2012.
  • 10.
    18 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Castelo Rodrigo, enquanto principais centros organizadores do território. Sóem1561,comaediçãodoprimeiromapadePortugal,gravadoemVeneza, na tipografia de Michele Tramezzino (1526-1571), e difundido em Roma, se representou com algum detalhe, cartograficamente, o conjunto da fronteira portuguesa (Figura 3). Neste primeiro mapa de Portugal, orientado com o Oeste no topo 5 , destaca- -se ao longo da base, uma linha ponteada que enfatiza a mensagem política veiculada através da figuração geográfica dos fenómenos representados. A imagem, da autoria de Fernando Álvares Seco (fl. 1559-1561), composta a partir de um protótipo cujo paradeiro permanece desconhecido, conver- teu-se em “mapa oficial” do país, divulgando-o internacionalmente a partir dos prelos de Gerard de Jode (ca. 1511-1591), em 1565 e, sobretudo, dos de Abraham Ortelius, (1527-1598), ao integrar o seu famoso atlas Theatrum Orbis Terrarum, em 1570 (Dias, 2009 e Garcia, 2010). No mapa está identificado “Riba de Côa” num tipo e tamanho de letra dis- tintos do utlizado para os núcleos de povoamento, muito embora sem apre- sentar uma clara delimitação territorial. A linha divisória interna que corre paralela ao Côa, para Oeste, deverá corresponder à divisão diocesana, entre Braga, Lamego e Guarda. Considerando unicamente as localidades com- preendidas entre aquele rio e o Águeda, identificam-se 17 topónimos figu- rados pelo mesmo símbolo: Sabugal, Alfaites, Aldea da Ponte, Vilar maior, Nave dabeira, Malhdda Surda, Castelmedo, Castel lobon, Val delamula, S. Pedro, Almeida, Vilar Torpim, Almofada, Escarigo, Touroes, Castel rodrigo e Almedra. Não há qualquer alusão a Monforte. A rede hidrográfica, formada pelos rios Arnes, Côa, Palhais, Touroes e Daguiar, fornece o fundo natural de referência. Sobre estes existem 4 pontes, que per- mitem a sua travessia e articulam os principais eixos viários da região: uma sobreorioCôaemSabugal;outranumafluentedoCôanãoidentificado(talvez o rio Cesarão), nas proximidades de Vilar Maior; uma nova ponte sobre o rio Côa(apontevelha),nasproximidadesdeVilardeTorpime,porfim,umaponte sobre a ribeira de Aguiar, provavelmente a ponte romana de Escalhão. O mapa de Álvares Seco e suas variantes, foram substituídos por uma nova imagem de Portugal, elaborada pelo cartógrafo português ao serviço de Es- panha, Pedro Teixeira Albernaz (ca. 1595-1662), intitulada Descripción del Reyno de Portugal y de los Reynos de Castilla, editado em Madrid, em 1662, em pleno contexto da Guerra da Restauração (1640-1668) (Figura 4). Figura 3 – [Mapa de Portugal], Fernando Álvares Seco. Roma, 1561. 5 . A visão do país era estabelecida a partir do centro da Península Ibérica ou de outros países europeus. A ‘obrigatoriedade’ do norte no topo da imagem data apenas da segunda metade do século XIX. Ver Fig. 7.
  • 11.
    20 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 O mapa, também orientado para Oeste, assinala o território de “Riba de Côa”, muito embora sem qualquer delimitação, nele se assinalando 23 topóni- mos: Osabugal, Rebolosa, Guinola, Alfaiates, Aldea da Ponte, Lanava, Navas da Beira, Côa, Vilamaior, Castelmendo, Vila Fermo, Valde lamula, Castelo- bom, S. Pedro, Almeida, Malpartida, Escarigo, Almofala, Vilar Torpim, Mata de lobos, Escalhao, Castel Ro. e Almendro. Todos os topónimos referem-se a núcleos de povoamento, figurados por um símbolo constituído por um pequeno conjunto de edifícios, destacando-se Almeida, que já apresenta uma muralha moderna, reveladora do seu destacado papel militar enquanto “chave do Reino”. Monforte não é referido. Os únicos 3 rios identificados são o Côa, o Tourões e o Águeda, mas sobre eles não foram assinaladas quaisquer pontes e o relevo está representado porpequenosmontesdesenhadosemperspetiva,queseadensamnaparte Suldacomarca,correspondentesàsserrasdaMalcataedasMesas,quenão são identificadas. Este maior conhecimento do território, pelo menos dos núcleos de povoa- mento, deve ter resultado da incorporação de informação diretamente re- colhida no terreno pelos militares que participaram nas campanhas bélicas que aqui foram ocorrendo desde 1641, ainda que a fronteira da Beira não te- nha constituído o principal teatro das operações militares da Guerra da Res- tauração 6 . Esta imagem de Portugal permanecerá por mais de um século, como uma das mais válidas 7 . A partir da segunda metade do século XVIII a cartografia impressa europeia conheceu uma renovação, à medida que os editores londrinos aumentavam e diversificavam a sua produção, na tentativa de superar o domínio dos edi- tores parisienses. Simultaneamente, sob a direção de Tomás López, surgiu uma casa editora em Madrid, cuja produção de mapas não só permitiu abas- teceromercadoibérico,comocontribuiuparaanimarocompetitivomercado europeu. Nesta sequência, foram difundidos dois novos mapas do conjunto de Portugal, cujo impacto se estendeu até ao início da segunda metade do século XIX, aquando do advento da moderna cartografia científica. O primeiro mapa foi editado em 1762, intitula-se Mappa ou Carta Geogra- phica dos Reinos de Portugal e Algarve, e foi produzido pelo geógrafo real britânico, Thomas Jefferys (ca.1710-1771). A obra foi preparada numa edição bilingue, em português e inglês, e impressa em várias folhas que, no seu conjunto, apresentam uma dimensão aproximada de 165 x 88 cm (Figura 5). Figura 4 - Descripcion del Reyno de Portugal…, Pedro Teixeira Albernaz. Madrid, 1662 6 . O próprio autor terá estado no terreno, ao longo da “raia” portuguesa. Cf. Pereda & Marías, 2002, p. 17. 7 . Sobre este mapa, comentou o Engenheiro-mor do Reino décadas mais tarde: “[…] entre as cartas gerais, que há no Reino, a que passa por melhor e mais exacta, é a de Pedro Teixeira que se estampou em Madrid no ano de 1662, a qual (excepto as costas marítimas que se encontram menos mal arrimadas) é tão defeituosa que para o intento presente é o mesmo que se não houvera” (Fortes, 1722, p.[10]).
  • 12.
    22 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Foi editada durante a Guerra dos Sete Anos (1755-1762), o que no contexto ibérico,correspondeuàGuerraFantástica(1762),momentoemqueaFrança e a Espanha declararam guerra a Portugal, tendo concretizado uma invasão que se iniciou por Trás-os-Montes, passando para as províncias da Beira e do Alentejo, sem nunca ter conseguido ameaçar a capital. Assim, o território ribacudano conheceu, novamente, ações militares diretas. Os 32 topónimos registados por Jefferys, no território de Ribacôa, resultam, por um lado, da maior escala do mapa (ca. 1:450 000), o que permite repre- sentar uma maior quantidade de informação e, por outro lado, do maior nú- mero de fontes consultadas. Os núcleos populacionais identificados são os seguintes: Sobugal, Rebolosa, Forcalhos, Alfayates, Fenaya, Naoes da Beira, Lagiosa, Villar Mayor, Lanava, Freyneda, Castel Bom, V. Fermo, Rio Seco, S. Pedro, Naves, Val de la Mula, Vienca, Almeida, Coelha, Mendo, Cinque Villas, Malpartida, Vilar Torpiu, Reygada, Escarigo, Almofalo, Mata de Lobos, Castel Rodrigo, Escalão, Algedres, Almendra e Castel Melhor. Destes, três foram fi- gurados com um símbolo que corresponde a local fortificado, a saber: Alfaia- tes, Almeida e Castelo Rodrigo. Não existe referência a Monforte. Apenasencontramostrêsitinerários:anorte,umcaminhovindodeEspanha, por Freixeneda, ligando as povoações de Escalhão, Castelo Melhor e Vila Nova de Foz Côa; um outro, partindo de Castelo Rodrigo em direção a São João da Pesqueira, bifurca em Almendra, ligando-se ao primeiro; o terceiro, também faz ligação a Espanha, a partir de San Felices de los Gallegos, até Almeida e Pinhel. Oterritórioéatravessadoporvárioscursosdeágua,masapenasseregistou o nome de três: o rio Côa, a ribeira de Aguiar e o rio Águeda, devidamente separados por cordilheiras montanhosas que definem as respetivas bacias hidrográficas. O autor acrescentou o desenho de uma espada, junto de Castelo Rodrigo, reportando-se à batalha que ali ocorreu – Mata de Lobos – em julho de 1664, a chamada batalha da Salgadela, durante a Guerra da Restauração. A evocação do facto, associada a uma das vitórias militares decisivas para assegurar a independência de Portugal e a afirmação da nova dinastia de Bragança, contribuía para exaltar, um século depois, os sentimentos de identidade nacional, frente ao tradicional inimigo espanhol. O segundo mapa, intitulado Mapa General del Reyno de Portugal, é da au- toria do geógrafo espanhol Tomás López de Vargas Machuca (1730-1802) e foi editado em Madrid, em 1778 (Figura 6). Figura 5 - Mappa ou Carta Geographica dos Reinos de Portugal e Algarve, Thomas Jefferys. Londres, 1762
  • 13.
    24 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Trata-se de um documento de grandes dimensões e, à semelhança do an- terior, também foi impresso em várias folhas. Para a sua composição, López teve acesso a um conjunto de fontes, cartográficas e bibliográficas, tanto portuguesas como espanholas. Entre estas, destaca-se um pequeno ál- bum das províncias de Portugal, que o autor publicou no quadro da referida Guerra Fantástica, em 1762, bem como um conjunto de mapas provinciais de Espanha, que incluíam dados obtidos através de inquéritos enviados a informadores locais. Como resultado final, identifica-se um maior número de topónimos (44) em Ribacôa: Rebolosa, Sabugal, Fenaya, Pueñas, Forcalhos, Alfayates, Aldea del Obispo, Liciosa ó Lagiosa, Naoes da Beira, Nave, Sacaparte, Villar mayor, La Nava, Aldea Ponte, Ponte de Sequeiros, Talaquela, Batoquina, Freyneda, Nava de Avel, Posobello, Castellobom, Villafermosa, Rio Seco, S. Pedro, Val- delamula, Laduncia, Almeida, Vienca, Valdecoelha, Castellomendo, Aldea de Ribas, Cincovillas, Bervenosa, Malpartida, Escarigo, Almofalo, Reygada, Mata de Lobos, Villartorpim, Castel Rodrigo, Peñadapia, Algodres, Almendra e Castello Melhor. Entre estes, apenas Sabugal, Alfaiates, Almeida e Castelo Rodrigo foram representados com um símbolo de “Praça de Guerra”, embo- ra se indique a existência de fortes em Vilar Maior e Castelo Bom. Monforte não consta no inventário. Também foram desenhados um maior número de itinerários: a Norte, man- têm-se as ligações Fregeneda - Castelo Melhor - Vila Nova de Foz Côa e Castelo Rodrigo – Almendra - Vila Nova de Foz Côa; foi indicada uma ligação direta entre Castelo Rodrigo e Pinhel, mas é Almeida o nó viário de Ribacôa. Para aqui convergem dois eixos provenientes da fronteira, um desde Vale de Mula e outro nas suas proximidades, bifurcando em direção a Pinhel e à Guarda. A Sul, indicam-se três itinerários que ligam Vilar Maior, Alfaiates e Sabugal à Guarda. Identificam-se o rio Côa, a ribeira de Aguiar e o rio Turon e apesar da pre- sença de vários pequenos montes que representam a orografia, apenas foi identificada a serra de “Meras” (Mesas), no limite Sul de Ribacôa. O mapa de Portugal figura os limites da divisão administrativa/judicial, identificando-se as seis Províncias, separadas por uma linha tracejada fina e dentro destas, a divisão dos Corregimentos e Ouvidorias, delimitados por Figura 6 - Mapa General del Reyno de Portugal, Tomás López. Madrid,1778
  • 14.
    26 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 uma linha ponteada. Como complemento, o cartógrafo indicou as localida- des sedes de ouvidorias, provedorias, coutos ou concelhos, com o símbo- lo correspondente, o que constitui uma novidade nos mapas de Portugal, mesmo com escala semelhante. Assim, quase todo o território ribacudano enquadra-se no “Corregimiento de Pinhel” (Comarca de Pinhel) e, interna- mente, distinguem-se as categorias administrativas e honoríficas de várias localidades, registando-se que Castelo Rodrigo era um Marquesado, en- quanto que Almeida, Vilar Maior e Sabugal eram condados. Os mapas de Jefferys e de Tomás López fixaram a imagem de Portugal por mais um século, pelo que, no decorrer das invasões francesas (1807-1812), os vários exércitos presentes no país utilizaram-nos (e às suas variantes) para planearem as principais ações militares em território nacional. A tí- tulo de exemplo, podemos referir a 2ª edição do mapa de Jefferys, datada de 1790, sob responsabilidade técnica e comercial de William Faden (1749- 1836).Oeditoresclarecequeasmaisimportantesalteraçõeseatualizações, sobretudo na Estremadura e no Alentejo, decorreram das informações colhi- das no terreno pelo Tenente-General Charles Rainsford (1728-1809), oficial dos Coldstream Guards, ao serviço do rei de Portugal na Guerra Fantástica. Embora mantendo o título da 1ª edição, foram feitas algumas alterações pontuais à toponímia e à rede viária de Ribacôa. Assim, foram acrescen- tados e/ou modificados os seguintes topónimos: Nave de Avel, Posobello (em substituição de “Freyneda”), Valfermoso (substituindo “V. Fermo”), Las Naves, Laduncia, Castel Mendo (em vez de “Mendo”), Bervenosa, Villartor- pim (repete) e Penada Pia. Também a rede viária foi atualizada, seguindo de perto o mapa de López: um itinerário liga diretamente Alfaiates à Guarda; a estrada vinda de Ciudad Rodrigo, via Vale de Mula, subdivide-se a partir de Almeida em três, em direção a Pinhel, a Celorico e à Guarda; figura-se um itinerário de Pinhel a Castelo Rodrigo, mantendo-se os restantes iguais ao da primeira edição. Nos últimos anos de Setecentos e na iminência de uma nova invasão, o Go- verno português procurou desenvolver os necessários preparativos para a defesa do Reino, que incluíram, como já era hábito, a contratação dos servi- ços de vários militares estrangeiros. Assim, coube a Christian August, Prínci- pe de Waldeck e Pyrmont, a tarefa de realizar o reconhecimento da fronteira, entre o rio Douro e a foz do Guadiana, inspecionando os regimentos que aí se aquartelavam. Acompanhava o Marechal alemão, como seu Ajudante de Campo, Bernhard Wilhelm Wiederhold, Barão de Wiederhold (1757-1810), que registou as observações que iam sendo feitas no terreno, comparan- do-as com os mapas de Portugal de que dispunham, sendo um destes o de Jefferys, na edição de Faden. O Brigadeiro Wiederhold, também ele um experimentado cartógrafo, proce- deu a inúmeras alterações, tendo adicionado e corrigido vários topónimos e estradas que os mapas ignoravam, tarefa apenas possível graças a um apurado trabalho de campo. Só na área de Castelo Rodrigo foram introdu- zidos, de forma manuscrita, os seguintes topónimos: Val d’Afonsinho, Villar d’Amargo, Figueira de Castelo Rodrigo, Freixeda, Penha d’Águia, Torrão, Ser- ra da Marofa, Colmeal, Luzellos, Bizarril, Nave Redonda e Vermiosa (em vez de Bervenosa). Ao longo do rio Côa, estão assinalados os locais de travessia, nomeadamente o “vau da Barroca”, a Sul da Marofa, e o “vau de Vide”, o que permite associar este maior conhecimento da micro-toponímia aos itine- rários percorridos pelo autor, tornando o mapa corrigido num documento precioso (Guedes, 1992).
  • 15.
    28 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 O outro exemplo é a Carta militar das principais estradas de Portugal, edita- da em 1808. O seu autor, Lourenço Homem da Cunha de Eça (1767-1833), era oficial do Real Corpo de Engenheiros e lente na Real Academia de For- tificação, Artilharia e Desenho, em Lisboa. A história deste mapa relacio- na-se com os principais eventos militares que marcaram o País durante a primeira década do século XIX: depois de uma primeira versão manuscrita, presumivelmenteelaboradanocontextodaGuerradasLaranjas(1801),uma segunda versão, impressa e bilingue (português e francês), foi editada em 1808, durante a ocupação francesa, seguindo-se uma 2ª ed. impressa, em português (Moreira, 2012, p.363-372). Fazendo justiça ao título, o autor destacou a rede viária do mapa de Portugal de Tomás López (1778), mostrando as principais vias terrestres, indicando as distâncias em léguas e o tempo de percurso, em horas de marcha a pé, entreasdiferenteslocalidades.Destemodo,afiguraçãodaredehidrográfica e do relevo foi muito simplificada, mostrando-se até, incompleta. Em Ribacôa, e ainda que o rio Côa não esteja figurado de forma completa, foram indicadas apenas as localidades de Sabugal, Rapoula de Côa, Nave, Alfaiates, Vilar Maior, Castello bom, Val de lamula, Almeida, Villartorpim, Cas- tello Rodrigo, Almendra e Castello Melhor. E existem algumas localidades assinaladas que não foram identificadas. Um exemplar deste mapa esteve na posse do então Major George Julius Hart- mann (1774-1856), do Regimento de Artilharia da King’s German Legion, ao serviço do Exército Britânico a operar na Península Ibérica, sob o comando de Lord Wellington. Hartmann era comandante de Artilharia, tendo desempe- nhadoessafunçãodurantetodaaGuerraPeninsularerecebeuaincumbência de percorrer partes da fronteira portuguesa, fazendo levantamentos do terre- no e das condições de defesa (Moreira, 2012, p. 371-372). Reunindo estes da- dos, Hartmann tratou de atualizar e reformular o mapa de Lourenço Homem, nomeadamente, acrescentando topónimos, corrigindo outros, relocalizando povoações,refazendoitineráriosterrestreseclassificando-os,ecompletando informações sobre as montanhas e os rios (Figura 7). No território de Ribacôa, estas alterações são mais visíveis entre Sabugal e Almeida, a área onde ocorreu maior atividade militar neste período e aquela que o oficial de artilharia melhor conhecia, tal como deixou registado no seu Sketch of the country between the Côa & Sierra de Gata. O contributo dado por estes oficiais estrangeiros permitiu obter informa- ções mais precisas sobre a geografia dos espaços raianos periféricos, habi- tualmente mal representados nos mapas gerais do País. Em 1829, fazendo uso desta possibilidade, o Arquivo Militar, em Lisboa, elaborou a Carta Topo- FIGURA 7 — Carta Militar das Principaes Estradas de Portugal, Lourenço Homem da Cunha de Eça. Lisboa, post. 1808 (Library of Congress, pertencente a Georg Julius Hartmann).
  • 16.
    30 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 gráfica da Beira Alta e Baixa, à época, a melhor imagem regional deste ter- ritório, registando quase 50 topónimos na área entre Sabugal e Castelo Ro- drigo: Fojos, V. de Espinho, Quadrasaes, Torre, Azendo, Sabugal, Rendo, Vila Boa, Souto, Alfaiates, Alde. Velha, Alde. do Bispo, Lagioza, Forcalhos, Alde. da Ponte, Rebolosa, Ruivos, Rapoula, Escabralhado, Bismula, V. das Egoas, Carvalhal, V. Maior, Arifana, Malhada, Nave de Aver, Q. Poço Velho, Freine- da, V. Formosa, Castº. Bom, Rio Seco, Asnaves, Junça, Almeida, V. de la mula, V. de Coelha, Malpartida, Cinco Villas, Reygada, Vilar Torpim, Bizarril, Nave Redonda, Vermiosa, Escarigo, Almofala, Aguiar, Castelo Rodrigo e Colmeal. Como em todos os casos anteriormente analisados, o topónimo Monforte não está presente. Como esta cartografia militar era manuscrita e, por essa razão, pouco divul- gada e conhecida, os mapas impressos e com circulação comercial não con- seguiam incorporar a informação atualizada. Continuavam-se a consumir imagens antigas e de produção estrangeira. Em meados do século XIX, após o fim da Guerra Peninsular, da Revolução Liberal e da Guerra Civil, quando a situação em Portugal encontrou alguma estabilidade, os governos regeneradores consideraram que, finalmente, es- tavam reunidas as condições para investir no desenvolvimento socioeco- nómico do País. Para tal, era necessário implementar uma política de obras públicas, assente na construção de novas infraestruturas de comunicação (estradas, caminhos de ferro, pontes, portos), capaz de impulsionar o desen- volvimento das principais atividades económicas e de reforçar o mercado interno. No entanto, as autoridades rapidamente compreenderam que os mapas existentes não eram compatíveis com as suas necessidades, por- quanto fixavam uma imagem distorcida e incompleta do território. Assim, entre 1860 e 1865, foi preparado o primeiro mapa científico do país, a Carta Geographica de Portugal, cujos trabalho foram dirigidos por Filipe Folque (1800-1874), no quadro da Direção Geral dos Trabalhos Geodésicos, a nova au- toridade cartográfica nacional. O mapa, composto na escala 1:500 000, forne- ceu a base para inúmera cartografia temática, mas serviu também de su- porte a tomadas de decisão por parte da administração pública. O território de Ribacôa foi, finalmente, fixado em moldes modernos e cien- tíficos, refletindo a nova hierarquia administrativa decorrente das reformas territoriais impostas pelos sucessivos governos liberais, com exceção de algumas localidades raianas, cuja jurisdição não estava ainda definida, dado que o processo de levantamento e posterior demarcação da linha de fron- teira só seriam estabelecidos e reconhecidos em 1864, com a assinatura do “Tratado de Limites” e, em 1906, com a aprovação da Acta geral de delimita- ção entre Portugal e Espanha. No que respeita, concretamente, ao sítio de Monforte, ele só foi figurado com exatidão num mapa impresso, em 1890. Falamos da folha 12, da Carta Corográfica de Portugal, na escala de 1/100.000, publicada em Lisboa, pela Direcção-Geral dos Trabalhos Geodésicos do Reino, onde se localiza e iden- tifica a ermida de Nossa Senhora de Monforte. Aí encontramos o relevo, a rede hidrográfica, o povoamento (e a toponímia) e a rede viária, entre outros fenómenos, mas não qualquer referência ao Castelo de Monforte. A densi- dade das curvas de nível e os numerosos pontos cotados permitem uma boa visualização, por um lado, do encaixe do Côa e dos seus afluentes e, por outro, das áreas aplanadas dos interflúvios, onde se reparte o povoamento concentrado e se desenvolve a rede de estradas e caminhos.
  • 17.
    32 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Esta primeira edição da Carta Corográfica de Portugal tem a particular vir- tude de figurar a rede viária anterior à construção das estradas asfaltadas e à “revolução” dos transportes no território nacional. Muitas das ligações terrestres entre núcleos populacionais presentes das folhas do mapa teste- munham heranças de séculos. Assim, para montante e para jusante do meandro encaixado de Monforte, não são muitas as passagens do Côa, face à sinuosidade longitudinal do leito e ao forte declive das vertentes. Para montante, a chamada Ponte Velha (que não está identificada) ligando Pinhel a Vilar Torpim; mais longe, depois de um dos troços mais repulsivos e isolados do vale, só a ponte de Almeida, na estrada en- tre esta vila e a Guarda; para jusante, a vizinha Ponte da Chinchela, junto à con- fluência da Ribeira do Avelal. Será esse ponto de passagem do leito do Côa, a herança de um caminho de transumância de gado entre Vilar Torpim, Bizarril e Pinhel (ou mais longe, em direção a Trancoso), que a configuração arruada de Bizarril testemunha e a Canada da Moreira, entre esta aldeia e o Lagar do Ba- rão, parece registar ? Mas, o sítio alcandorado do antigo castelo de Monforte é apenas um dos ermos pontos cotados (478 m) sobre o encaixado vale do Côa, numaáreaquearedeviáriaevita,pelasdificuldadesqueatopografiaimpõe. A primeira localização do Castelo de Monforte num mapa impresso ocorreu, seguramente,nasediçõesdafolha171,daCartaMilitardePortugal,naescala de 1/25.000, ainda que com uma alteração no topónimo, entre as primeiras edições (1941/1970) - Castelo de Monte Forte -, e a 4ª ed., de 1994 - Castelo de Monforte -, e ligeiros acertos no ponto cotado de maior altitude: 476 m / 480 m. Um pormenor a reter é não ter sido incluído o símbolo da existência de ruínas… No espaço envolvente, são mínimas as alterações ocorridas no quarto de século que separa as duas últimas edições. Percorrendo a fronteira luso-espanhola da foz do Minho à foz do Guadia- na, são muitos os locais onde, ao longo dos séculos, ocorreram conflitos di- plomáticos, militares, económicos e sociais, que deixaram mais ou menos memória, documental, material ou imaterial, que chegou até nós. A longa duração do processo, que no espaço se materializou, de uma faixa mais ou menos ampla até à linha matematicamente estabelecida e que hoje, de for- ma periódica, se verifica e confirma, faz com que existam nos atuais territó- rios, relíquias esquecidas das etapas dessa evolução, que exumadas pela Arqueologia, pela História, pela Geografia ou pela Etnologia, permitem com- preendermos melhor a atual organização do espaço. O Castelo de Monforte de Riba Côa é um bom caso, para um estudo que apenas começou (Abreu & Hernández, 2014 e 2019; Francisco & Gil, 2016; Ramos, 2021). Este trabalho enquadra-se no projeto de investigação científica “GEOCONFRONT – Conflictos fronterizos en España y América Latina (1840-2020): aproximaciones geohistóricas y actuales”, coordenado por Jacobo García Álvares, da Universidad Carlos III de Madrid. O projeto é financiado pela Agência Estatal de Pesquisa, de Espanha (Projeto PID2020- 114088GB-I00 / AEI /10.13039/501100011033). João Carlos Garcia Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Luís Miguel Moreira Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho. Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa.
  • 18.
    34 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 BIBLIOGRAFIA Fontes cartográficas ALBERNAZ, Pedro Teixeira, ca.1595-1662 Descripcion del reyno de Portugal y de los reynos de Castilla, que parten con su frontera / delineada por D. Pedro Teixeira / dedicada a la Magestad del rey Nro. Sr, D. Phelipe 4° por D. Joseph Lendinez de Guevara. - Escala [ca. 1:660 000], 15 Leguas = [14,30 cm]. - Matriti : Marcus Orozcus, 1662. - 1 mapa : p&b ; 77 x 109 cm Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra / Coleção Nabais Conde: NC-652 EÇA, Lourenço Homem da Cunha de 1767?-1833 Carta militar das principaes estradas de Portugal / por L. H. ; grav. Romão Eloy Almeida. - Escala [ca. 1:470 000]. - Lisboa : [s.n.], 1808. - 1 mapa em 4 folhas : grav., p&b ; 74 x 138 cm. Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal: C.C. 1226 R. EÇA, Lourenço Homem da Cunha de 1767?-1833 Carta militar das principaes estradas de Portugal / por L. H. ; grav. Romão Eloy Almeida. - Escala [ca. 1:470 000]. - Lisboa : [s.n.], 1808. - 1 mapa em 4 folhas : grav., p&b ; 74 x 138 cm. Washington, Library of Congress: G6562.G35 1812 .H3 JEFFERYS, Thomas, ca 1710-1771 Mappa ou carta geographica dos reinos de Portugale e Algarve / por T. Jefferys, Geographo de Sua Mages- tade Britannica ; Miguel Rodrigues impressor do Excelentissimo Senhor Cardial Patriarca. - Second Edition. - Escala [ca 1:450 000], 10 Legoas commuas de Portugal e d'Espanha 19 à hum Grao = [13,05 cm] . - Londres : W. Faden, 1790. - 1 mapa : grav., p&b ; 165 x 89 cm. Lisboa, Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar: 4067 / I-2A-29-41 LOPEZ DE VARGAS MACHUCA, Tomás, 1731-1802 Mapa general del reyno de Portugal: comprehende sus provincias, corregimientos, oidorias, proveedurias, concejos, cotos &c. / por Tomás Lopez, Geografo de los Dominios de S.M. de sus Reales Academias de la Historia, de S, Fernando, de la de Buenas letras de Sevilla, y de la Sociedad Bascongada de los Amigos del Pais ; Dedicado Al Ilustrisimo Señor Don Pedro Rodriguez Campomanes, Cavallero de la distinguida Ordem de Carlos III, del Consejo y Camara de S.M., Director de la Real Academia de la Historia &cc.. - Escala [ca 1:470 000],12LeguascomunesdePortugal,delasqueentran18.enunGrado=[15,90cm].-Madrid:[s.n.],1778.-1 mapa em 8 folhas : grav., p&b ; 142 x 81 cm. Lisboa, Biblioteca Nacional de Portugal: C.C. 952 R. PORTUGAL. Arquivo Militar, 1802-1868 Carta topografica da Beira Alta e Baixa : comprehendida entre os rios Tejo e Mondego, as fronteiras orientaes do reino de Espanha e a linha que passa por Thomar e Coimbra / redigida no Real Archivo Militar em 1829, avista dos mappas litograficos levantados pelos officiaes do Es- tado Maior do Ex.º Britanico, corregidos, e addicionados com o auxilio das cartas levantadas pelos officiaes do Real Corpo de Eng.os de Portugal, e outros documentos existentes no mesmo Real Archivo. – Escala [ca. 1:200 000], 9 milhas = [7,4 cm]. – [post.1831]. – 1 mapa : ms., color. ; 70 x 82 cm Lisboa, Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar: 1844 / 2-19-28 SECO, Fernando Álvares, fl. ca 1559-1561 [Portugal]/VernandiAlvariSecco;SebastianusaRegibusClodiensisinaerei[n]cidebat;MichaelisTramezini formis, cum Summi Pontificis ac Veneti Senatus privilegio. - Escala [ca 1:1 340 000]. - Roma : Michaelis Tra- mezini, 1561. - 1 mapa : grav., p&b ; 35 x 52 cm Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra / Coleção Nabais Conde: NC-899 (Gaveta 1) Estudos ABREU, Carlos d’; HERNÁNDEZ, Román (2014). O Castelo de Monforte de RibaCôa: primeiras impressões arqueológicas de uma fortificação medieval leonesa. Sabucale. Revista do Museu do Sabugal. Sabugal, 6, p. 101-118. ABREU, Carlos d’; HERNÁNDEZ, Román (2019). A fortificação medieval leonesa de Monforte de RibaCôa (no- vos elementos arqueológicos e artísticos). Douro – Vinha, História & Património. Porto, 8, p. 33-70. AMARAL, Luís Carlos; GARCIA, João Carlos (1998). O Tratado de Alcañices (1297): uma construção historio- gráfica. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto – História. Porto, II, XV, 2, p. 967-986. AZEVEDO, Rui Pinto de (1962). Riba Côa sob o domínio de Portugal no reinado de D. Afonso Henriques. O Mosteiro de Santa Maria de Aguiar, de fundação portuguesa e não leonesa. Anais da Academia Portuguesa da História. Lisboa, II, 12, p. 231-298. BARROCA, Mário Jorge (1998). D. Dinis e a Arquitectura Militar Portuguesa. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Porto, II, XV, 1, p. 801-822. CINTRA, Luís F. Lindley (1984). A linguagem dos Foros de Castelo Rodrigo: seu confronto com a dos foros de Alfaiates, Castelo Bom, Castelo Melhor, Cória, Cáceres e Usagre: contribuição para o estudo do leonês e do galego-português do século XIII. Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda (1ª ed. 1959). DAVEAU, Suzanne (2010). Um antigo mapa corográfico de Portugal (c. 1525). Reconstituição a partir do Códi- ce de Hamburgo. Lisboa, Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa. DIAS, Maria Helena (2009). A primeira carta de Portugal continental. http://cvc.instituto-camoes.pt/ cien- cia/e79.html. FORTES, Manuel de Azevedo (1722). Tratado do Modo o Mais Fácil e o Mais Exacto de Fazer as Cartas Geo- graficas, assim da terra, como do mar, e tirar as plantas das praças, cidades e edificios com instrumentos, e sem instrumentos, para servir de instrucçãm à fabrica das Cartas Geograficas da Historia Ecclesiastica, e
  • 19.
    36 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Secular de Portugal. Lisboa, Officina de Pascôal da Silva. FRANCISCO, José Paulo; GIL, Tiago (2016). O projecto de investigação do Castelo de Monforte de Riba Côa como âncora de um amplo programa de Arqueologia comunitária do Côa. In VILAÇA, Raquel (coord.). II Con- gresso Internacional de Arqueologia da Região de Castelo Branco. Castelo Branco, RVJ Editores / Sociedade dos Amigos do Museu Francisco Tavares Proença Júnior, p. 413-426. GALEGO, Júlia; DAVEAU, Suzanne (1986). O Numeramento de 1527-1532: tratamento cartográfico. Lisboa, Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa. GARCIA, João Carlos (2010). A Lusitânia parra o Cardeal Guido Sforza: um Mapa de Portugal de 1561 na Biblio- teca Nacional. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto – História. Porto, III, 11, p. 363-368. GONZÁLEZ JIMÉNEZ, Manuel (1998). Las relaciones entre Portugal y Castilla durante el siglo XIII. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Porto, II, XV, 1, p. 1-24. GUEDES, Lívio da Costa (1992). A viagem de Christian, Principe de Waldeck, ao Alentejo e ao Algarve descrita pelo Barão von Wiederhold 1798. Separata do Boletim do Arquivo Histórico Militar, vol. 60. Lisboa, ed. Autor. LADERO QUESADA, Miguel-Angel (1998). Reconquista y definiciones de frontera. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Porto, II, XV, 1, p. 655-691. MARTÍN BENITO, José Ignacio (2002). Fontera y Territorio en el sur del Reyno de León (1157-1212). In El Rey- no de León el la época de las Cortes de Benavente. Jornadas de Estudios Históricos. Benavente, Centro de Estudios Benaventanos ‘Ledo del Pozo’, p. 115-163. MOREIRA, Luís Miguel (2012). Cartografia, geografia e Poder: o processo de construção da imagem cartográ- fica de Portugal, na segunda metade do século XVIII. Braga: Universidade do Minho (Tese de Doutoramento em Geografia). PEREDA,Felipe;MARÍAS,Fernando,Eds.(2002).ElAtlasdelReyPlaneta.La"DescripcióndeEspañaydelas costas y puertos de sus reinos”. Barcelona, Ediciones Nerea. PINA, Rui de (1729). Chronica do muito alto e muito esclarecido Principe Dom Diniz sexto Rey de Portugal. Lisboa Occidental, Na Officina Ferreyriana. PIZARRO, José Augusto Sotto Mayor (2005). D. Dinis. Rio de Mouro, Círculo de Leitores. RAMOS, Tiago (2021). A primeira intervenção arqueológica no Castelo de Monforte de Riba Côa (2019). Ca- dernos do Património. Figueira de Castelo Rodrigo, 2, p. 7-12. VENTURA, Leontina (1998). A fronteira luso-castelhana na Idade Média. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Porto, II, XV, 1, p. 25-52. VICENTE, António M. Balcão (1998). A ‘Extremadura’ leonesa – o caso da fronteira de Riba-Côa nos séculos XII-XIII. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Porto, II, XV, 1, p. 287-300. Emobrasrelativamenterecentesdescobriu-sesoboaltar-mordaigrejadeEs- carigo o altar-mor primitivo, de alvenaria, cujo frontal, pintado a fresco, repre- sentaoArcanjoS.Miguelladeadodeduasfigurasostentandotípicosturbantes, característicosdaiconografiatradicionaldefigurasdoAntigoTestamento. Deve dizer-se que esta sensacional pintura descoberta há poucos anos é no- tável por todos os motivos, a começar pela sua própria sobrevivência e pela sua presença material, enquanto testemunho vivo de uma prática decorativa, figurativa e até litúrgica, típica da Idade Média e do início dos Tempos Moder- nos, tempo histórico em que os interiores das igrejas, e nomeadamente os seus espaços mais centrais, eram parcial ou integralmente pintados, como mostraremos. Em segundo lugar, pela sua importância e pelas suas qualida- des pictóricas, testemunho de uma oficina ou mesmo de uma escola regional Uma Pintura Quinhentista a Fresco no Frontal do Antigo Altar-mor da Igreja de Escarigo (Figueira de Castelo Rodrigo) Carlos Caetano HISTORIADOR DE ARTE
  • 20.
    38 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 que urge identificar e conhecer. Em terceiro lugar, pela sua iconografia, muito importante, pois o conjunto se destaca das figurações mais convencionais do Arcanjo S. Miguel. Mas a pintura de Escarigo é também um pretexto para referenciar a belíssima e relativamente bem conservada igreja, erguida sob a invocaçãodeS.Miguel,deorigemprovavelmenteleonesa(eportantoanterior ao Tratado de Alcanizes, de 1297), que a acolheu, e onde se conserva há cerca de quinhentos anos. Diga-se que Escarigo, outrora no termo do antigo conce- lho de Castelo Rodrigo (hoje Figueira de Castelo Rodrigo) foi no passado uma localidade relativamente opulenta. 1 FIGURA 1 – Igreja Matriz de Escarigo. Fachada lateral Sul: note-se o alpendre e o corpo da capela-mor 1 . João Maria Tello de Magalhães Collaço, Cadastro da População do Reino (1527) – Actas das Comarcas Damtre Tejo e Odiana e da Beira, Ed. de Autor; Lisboa, 1929-1931, p. 109. 2 . As Freguesias do Distrito da Guarda nas Memórias Paroquiais de 1758: Memória, História e Património, José Viriato Capela e Henrique Matos (Org., transcrição e notas), Ed. José Viriato Capela, Braga, 2013, p. 271. Assim, em 1527, “o lugar d escarygo” dispunha de 229 “moradores”, só abai- xo, em número de moradores, dos “lugares” da Vermiosa” (236 moradores) e de Escalhão (249), mas muito acima do “lugar e villa da reygada”, então cabeça de uma Comenda da Ordem de Cristo, como veremos, onde “vivem somente cem moradores” 1 . Mais de 250 anos depois, em 1758, tinha 115 “fogos”, com a população distribuída do seguinte modo: 271 “pessoas maio- res de confissão e comunhão” e 43 “menores”, como informa o respectivo vigário em resposta ao inquérito ordenado pelo futuro Marquês de Pombal a todos os párocos do Reino, na sequência do Terramoto de 1755, e que co- nhecemos por Memórias ou Registos Paroquiais 2 . A forte presença da pintura a fresco nas igrejas das Beiras nos primeiros anos de Quinhentos A pintura do frontal do antigo altar-mor da igreja matriz de Escarigo suscita muitas considerações, sendo a primeira o reconhecimento da sua importân- cia extraordinária enquanto testemunho material de uma pintura realizada a fresco no lugar mais central da capela-mor da igreja matriz local, datável das primeiras décadas do século XVI, como veremos. A pintura representa o Arcanjo S. Miguel ladeado por dois profetas e comprova materialmente a existênciadepinturasmurais,decunhoreligiosooumeramentedecorativas nãosónestamasnageneralidadedasigrejasportuguesasdaIdadeMédiae em particular nas do princípio da Idade Moderna, nomeadamente nesta re- gião,pinturasestasdecujaexistênciasabíamospeladocumentaçãoescrita. Ora, no decurso de prospecções e sobretudo no decurso de obras recentes
  • 21.
    40 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 em igrejas de origem medieval, têm surgido à luz do dia inúmeras pinturas, quase sempre de fins do século XV e da primeira metade do século XVI, pa- tentes em grandes e em pequenas igrejas e ermidas de todo o país 3 – e esta revelação de uma abundante pintura mural portuguesa, normalmente de grande escala, espalhada por todo o território, tem sido uma das surpresas maiores da mais recente historiografia portuguesa de arte 4 . Estas recentes descobertas da nossa velha pintura mural não nos devem surpreender, pois todos os testemunhos escritos confirmam que as igrejas medievais e sobretudo as tardo-medievais eram geralmente rebocadas e caiadas, pelo menos interiormente, sendo muitas vezes este preparo, ainda que muito básico em ecossistemas graníticos ou xistosos, o suporte de pin- turas murais a fresco. A decoração das paredes das igrejas sobretudo a pa- rede fundeira e as paredes laterais da capela-mor, bem como as superfícies queladeiamoarcotriunfal(doladodanave)–compinturasafrescoerauma prática comum nas igrejas da época, em todas as regiões do Reino. Assim, face ao “patamar de excepcionalidade raras vezes conseguido em Portugal” atingido pela “pintura em tábua”, devido aos grandes mestres da Época Ma- nuelina, Pedro Dias considera que “a pintura a fresco foi ainda mais impres- sionante, pela sua difusão por todo o espaço nacional” 5 . Nesta pintura mural, descoberta em igrejas e capelas ao longo de todo o país, privilegiavam-se cenas da História Sagrada (do Antigo e sobretudo do Novo Testamento), cenas da Vida da Virgem e cenas da Vida e sobretudo da Paixão de Cristo, bem como a figuração das figuras maiores ou mais popu- lares da hagiografia cristã, virgens e mártires, patriarcas ou fundadores das sucessivas Ordens Religiosas, etc. 3 . A título de exemplo Joaquim Caetano faz notar que a Igreja de Nossa Senhora da Azinheira, de Outeiro Seco (Chaves) “esteve completamente revestida de frescos no seu interior”, Joaquim Inácio Caetano, O Marão e as oficinas de pintura mural nos seculos XV e XVI, Aparição, Lisboa, 2001, p. 38. 4 . Um marco importante na descoberta da velha pintura mural portuguesa deve-se a Luís Urbano Afonso, a partir do seu estudo dos frescos da igreja do Convento de S. Francisco de Leiria: ver Luís Urbano Afonso, Convento de São Francisco de Leiria – Estudo Monográfico, Livros Horizonte, Lisboa, 2003. 5 . Pedro Dias, “A Arte Manuelina” in AAVV., Manuelino – À Descoberta da Arte do Tempo de D. Manuel I, Civilização Portugal, Lisboa, 2002, p. 31. 6 . Arquivo Nacional da Torre do Tombo [ANTT] – Mesa da Consciência e Ordens / Comendas – Ordem de Cristo / Convento de Tomar [COM - OC/CT], Maço 66, doc. n. 2 / Visitações [1505], f. 120 v. 7 . Ibidem, f. 113. Nota: todos os sublinhados nas transcrições incluídas do presente estudo são do autor. 8 . Ver “Visitação efectuada por D. Fr. João Pereira e Frei Diogo do Rego, sendo escrivão Fr. Francisco – 1507-1510”, in ANTT – Mesa da Consciência e Ordens – OC/CT, Livro 132. A Visitação, iniciada na Reigada, prosseguiria nomeadamente pelas igrejas das comendas da área raiana em torno do Côa e do Douro. Não são conhecidos documentos escritos sobre a pintura do frontal do antigo altar de Escarigo, que certamente estava relacionada com pinturas a fresco aplicadas noutras superfícies da capela-mor e do corpo da igreja, umas hoje perdidas (como as das paredes laterais da capela mor, por exem- plo, destruídas para sempre quando lamentavelmente foi removido o res- pectivo reboco de suporte), outras ainda ocultas, nomeadamente atrás do retábulo monumental do altar-mor, como veremos. À falta de testemunho escrito relativamente às pinturas quinhentistas da igreja de Escarigo, ater- -nos-emos à documentação relativa às igrejas da região que pertenciam a Comendas da Ordem de Cristo, regularmente inspeccionadas no âmbito das visitações às diversas vilas e lugares tutelados pela Ordem. Pelos rela- tos dos respectivos visitadores ficamos a saber que, ao contrário do que se possa pensar hoje, as igrejas eram normalmente rebocadas e caiadas, parti- cularmente no seu interior e eram ainda efectivamente decoradas com pin- turas: era o caso da igreja de S. Miguel de Acha (Idanha a Nova), visitada em 1505, que detinha pintura mural 6 embora de iconografia não especificada, ou ainda o caso da igreja de Alcains (Castelo Branco), também visitada em 1505, em que a parede do altar-mor detinha “pintura de cortinas de colores”, isto é, figurava cortinas de tecido mais ou menos rico 7 . Também a matriz (hoje desaparecida) da vizinha freguesia de Reigada, que também era cabe- ça de uma Comenda da Ordem de Cristo – de que fora Comendador o pró- prio Infante D. Henrique! – era profusamente pintada. Chegou-nos o valioso relatório relativo à visitação desta igreja, que se iniciou a 14 de Outubro de 1507 8 . Assim, relativamente à “oussia” (capela-mor) da igreja da Reigada, “cuja jnuocaçom he de nossa Senhora do pereiro” 9 , ficamos a saber que “as paredes della pella mayor parte som de camtaria he o mais d aluenaria. ca-
  • 22.
    42 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 felladas [rebocadas] he pinçelladas [caiadas] de dentro”. Do mesmo modo, também“Ocorpodadictaegrejatemasparedesdepedraebarrocafelladas e pinçelladas da parte de dentro”. Tal como a igreja de Escarigo daquela época, também a igreja da Reigada tinha um altar maciço de alvenaria, isto é, detinha o “seu altar de pedra sobre moçiço. he esta quase no meyo da dicta oussia. e tem tres tauoleiros [de- graus] de pedraria”. O acesso à capela-mor fazia-se pelo arco triunfal: “tem a dicta oussia huum arco de pedraria chãas [?] e grande e sobre elle ha jma- gem do cruçifixo pintada na parede a fresco”. Ficamos também a saber que no corpo da igreja, “aos lados do arco da oussia estam dous altares ambos de pedra”, sendo “Huum da jnuocaçõm do Spirito Sancto com sua estorea pin- tada a Fresco na parede., o outro altar he da jnvocaçõm de Sancta marjnha e nelle huuma jmagem de paao velha de vulto”. Entreasigrejascom pintura muraldosprimeirosanosde Quinhentos, em que se inclui a de Escarigo, merece referência a Igreja de S. Bento da Meda, visita- da a partir do dia 28 de Outubro de 1507, que “tem [n]a oussia as paredes d aluenaria de pedra he barro cafelladas de dentro he bem pintadas a Fresco”. O altar-mor era “de pedra”, isto é, de alvenaria, tal como o de Escarigo, e aos visitadores não escapou a profusão de pintura mural na igreja da Meda: “E na parede do altar estam pintadas a Fresco as Jmagens de nossa Senhora e de sam beento O que todo ora mandou pintar o Dito garçia de mello comendador 9 . ANTT – Mesa da Consciência e Ordens – OC/CT, Livro 132, ff. 1, 1v. O relatório da visitação encerra-se com a lista seguinte: “Estas som as cousas que o dicto visitador mandou que se façam na dicta egreja., e cousas da comenda”: O Comendador “[…] mandaraa cafelar he pinçelar as paredes da dicta egreja da parte de Fora. he Fazer as Juntas aa cantaria da dicta oussia”. — 10 . ANTT – Mesa da Consciência e Ordens – OC/CT, Livro 132, f 11 e seg.s. 11 . “Visitaçom da comenda da moxagata” in ANTT – Mesa da Consciência e Ordens – OC/ CT, Livro 132, ff 14 e seg.s. Aos lados do arco da oussia estam dous altares com Jmagens ou- trosi pintadas a Fresco. e sobre o Dicto arco as Jmagens do cruçifixo he de nossa Senhora he de sam joam e asi toda a parede pintada a Fresco. E asy as paredes de huum cabo e do outro som pintadas com muitas Jmagens atee as portas trauessas” 10 . A caminho do Douro, a igreja de Santa Maria Madalena, cabeça da Comenda da Muxagata (Vila Nova de Foz Côa), visitada a partir de 2 de Novembro de 1507, era também profusamente pintada 11 , como se vê da descrição da igre- ja, que parcialmente se transcreve: “a oussia da dicta egreja tem as paredes de pedra he barro Forrada d oliuel [forro nivelado] sobre as asnas., a qual oussia he oliuel [o Co- mendador] Garçia de mello mandou pintar de bõoas pinturas. o ter- reo della estaa lageado de lousas na Dicta oussia estaa huum altar de pedra sobre parede he no Dicto altar huuma Jmagem De vulto da magdalena pintada de nouo. e na parede do dito altar pintadas a Fresco Jmagens de bõoas pinturas tem a Dicta oussia huum boom arco de pedraria e sobre elle pinta- das a Fresco as Jmagens do cruçifixo e nossa Senhora e sam joam e tambem outra Jmagem do crucifixo de vulto. aos lados Do dicto arco he fora da dicta oussia. estam Dous altares com suas Jmagens pin- tadasnasparedes,afresco.easigrandeparteDasparedesDaegreja som pintadas de huum cabo e do outro com mujtas estorias Da pai- xom De bõoas pinturas”.
  • 23.
    44 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Na raia transmontana as visitações registavam também igrejas da Ordem decoradas com pinturas de temas religiosos. Assim, o “corpo” da igreja de S. Martinho do Peso, da Comenda de Mogadouro, visitada a 20 de Novembro de 1507, tinha “as paredes de pedra e barro cafelladas de Dentro e aos lados do arco tem Dous altares igualmente ornamentados e nelles jmagens de vulto he outras pintadas nas paredes E sobre o arco as Jmagens do cruçifixo e de nossa Senhora e sam Joam pintadas a fresco”. Como vemos, o tema do Calvário (Cristo Crucificado, ladeado de Nossa Se- nhora e de S. João Evangelista) era muito presente. Porém, num assomo de cosmopolitismo internacionalista, os visitadores determinam que a parede fundeira da capela mor desta igreja se decore com pintura de “obra romana”, isto é, com motivos decorativos de tipo classicizante, pelo que o Comendador “fara pintar a parede do Dito altar [da oussia] de bõoas pinturas e tintas De obra romana ou de Imagens qual mais lhe prouuer e poer hi huum çeeo [céu = sobre-céu; guarda-pó] de cortina de linho com seus alparauazees 12 Franjados” 13 . Como vemos, enquanto recurso decorativo, figurativo e devocional, a pre- sençadapintura,afresco,daigrejadeEscarigonadadetinhadeexcepcional, de raro ou de singular. Ela é um manifesto de um gosto e de uma necessi- dade efectiva de figuração, patente nas paredes da generalidade das igrejas, pois a realização de pinturas a fresco, fosse qual fosse o tema, tornava-se mais barata que a decoração, efémera ou permanente, da igreja com colga- duras, panejamentos ou com painéis pintados a têmpera (ou a óleo) sobre 12 . “Alparavazes” ou “alparavazéis”: franjas, sanefas: ver Cândido de Figueiredo, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Bertrand Editora, 25.ª Edição, Lisboa, 1996, Vol. I, p. 140 13 . ANTT – Mesa da Consciência e Ordens – OC/CT, Livro 132, f. 32. 14 . Ver Joaquim Caetano, Motivos Decorativos de Estampilha…, p. 120. 15 . Note-se, porém, que a moda das pinturas a fresco de retábulos fingidos dará lugar à sua substituição progressiva por retábulos de madeira, devidamente entalhados e ao uso intensivo de painéis de pintura a têmpera ou a óleo sobre madeira integrados nos retábulos. madeira, muito mais cara. A pintura mural, a fresco, representava ou simu- lava, de uma forma rápida, ligeira, muito vistosa – mas também muito mais barata 14 – tudo o que o imaginário, a devoção, a liturgia ou a simples vonta- de de ostentação dos paroquianos pudesse exigir 15 . Neste sentido, se afir- maram gerações e gerações de oficinas e mestres de pintura a fresco, todos eles de alcance regional, que hoje se começam a individualizar e mesmo a identificar. Do mesmo modo começam a identificar-se os sucessivos ciclos operativos e estéticos, compreendidos num aro cronológico que contempla o século XV e meados do século XVI. Estes sucessivos ciclos são marcados por localismos e regionalismos com as suas insuficiências de escola e as suas limitações, próprias de mestres que, nas periferias, procuram emular a grande pintura retabular sobre madeira, mas com modestas possibilidades técnicas, por onde perpassam intensas marcas vernaculares. Como vemos, pinturas a fresco de tema religioso eram muito comuns nas nossas velhas igrejas, comprovadamente decoradas com pinturas, com temas religiosos ou apenas com motivos decorativos, de que era exemplo a presença das cortinas pintadas no fundo do altar de Alcains, atrás referi- das. Estas cortinas pintadas eram como que a “petrificação”, para sempre, de cortinas reais, de panos mais ou menos ricos, como esses alparavazes de franjas, usados para destacar, dignificar ou proteger as imagens de vulto. Com efeito, era intensa e estava muito arreigada a tradição das igrejas ar- madas, isto é, decoradas com cortinas e panos de armar – tradição que se perpetuou pelos séculos e que chegou aos inícios do século XX. Esta tradição das igrejas decoradas e paramentadas a preceito, mesmo que efemeramente, a cargo de profissionais, era própria de uma civilização que, também no domínio estético, tinha horror ao vazio e era incompatível com
  • 24.
    46 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 o Minimalismo corrente nos nossos dias: tal como os espaços palacianos e cortesãos, as igrejas eram profusamente decoradas com colchas, panos de armar, bandeiras, pendões e troféus de toda a natureza. Esta sobrecarga de elementos decorativos, simbólicos, litúrgicos ou votivos produzia nos inte- riores religiosos ou palacianos um efeito visual feérico, brilhante, sumamen- te colorido e mesmo garrido até à saturação. Enfim, a pintura, a fresco, sobre paredes rebocadas e caiadas, devidamen- te preparadas para o efeito, deixa entrever uma realidade esquecida pelos “teóricos” e os agentes da actual moda da “pedra à vista”: a da presença in- tensa dos rebocos e a das caiações e consequentemente o uso comum da cal, mesmo em regiões onde esta era difícil de obter. Com efeito, a cal, base dos bons rebocos e sobretudo das caiações, usadas secularmente na nos- sa arquitectura religiosa e solarenga, era comprovadamente consumida em toda a Beira e, como tal, as entradas das cargas de cal em cada concelho eramdevidamentetaxadas,talcomoconstadosforaismanuelinosdetodos os velhos concelhos das Beiras! FIGURA 2 – Fresco quinhentista do frontal do altar-mor; vista geral As fotografias do fresco quinhentista de Escarigo podem ser vistas com mais resolução e a cores em: https://photos.app.goo. gl/3VgbsFwgzDcqbuqy6 2 A pintura quinhentista do frontal antigo do altar-mor da igreja de Escarigo Da decoração de um altar à sua ocultação na Época Barroca Apinturadoantigofrontaldoaltar-mordeEscarigo,devidaaartistaregional ou local, está mal conservada. Com efeito, a pintura sofreu mutilações importantes, como se nota nos des- gastesdobordosuperioresofreuaindagravesperdasdecamadacromática na figura central, a pontos de estas perdas obstruírem ou dificultarem seria- mente a própria identificação dessa mesma figura, S. Miguel Arcanjo, muito facilmente confundida com Cristo Ressuscitado. A pintura ocupa a totalidade do frontal do altar antigo da igreja, muito vasto. Nele se apoiava o competente retábulo, talvez total ou parcialmente pintado na parede do fundo da capela mor, pois, como vimos, era essa uma práti-
  • 25.
    48 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 FIGURA 3 – Imagem quinhentista de S. Miguel, padroeiro de Escarigo, no altar-mor da Igreja Matriz. FIGURA 4 – Retábulo-mor da Igreja de Escarigo. ca corrente na Idade Média, chegando às primeiras décadas do século XVI, época a que deve remontar a pintura do frontal de Escarigo. A esse retábulo primitivo, parcialmente conservado, embora presentemente não observável, pois está atrás do retábulo barroco, deve ter pertencido a imagem do ora- go da igreja, o Arcanjo S. Miguel, uma belíssima escultura a que os repintes sucessivos não retiram nada do seu esplendor, próprio da melhor escultura portuguesa dos princípios do Séc. XVI. O retábulo primitivo, que se apoiava no altar de alvenaria, foi há muito ocultado pelo imponente retábulo barroco, modelado no chamado “es- tilo nacional”, muito bem conservado e que é uma das glórias da maqui- naria retabular das Beiras. O retábulo barroco, muito projectado para a frente da capela-mor de modo a enquadrar e acolher a estrutura do típico e imponente trono escalonado, muito profundo, suscitou a construção de um novo altar-mor, numa lo- calização muito avançada em relação ao altar primitivo de alvenaria. Esta circunstância permitiu que, apesar de mutilado, o altar antigo de alvenaria sobrevivesse, embora abaixo e muito atrás do altar actual, motivo pelo qual a pintura sobreviveu também. Visando a implantação do retábulo barroco e a montagem do acesso inte- rior ao camarim do trono, o altar primitivo foi então cerceado, removendo-se uma faixa horizontal de cerca de palmo ou palmo e meio do topo do seu cor- po de alvenaria. Destes desbastes no topo da mesa do primitivo altar fica- ram marcas muito intensas na face superior da composição do frontal. Com efeito, a base inferior da composição chegou-nos intacta, notando-se per- feitamente as barras inferiores dos três “panos” figurativos que o integram e a barra branca, que delimitava inferiormente todo o frontal. O mesmo se não
  • 26.
    50 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 passa no topo superior do frontal, cujo bordo, hoje muito irregular, está mui- to ferido, subentendendo-se que o sebasto superior do frontal, igualmente pintadoafresco,tenhasidotododestruídovisandoamontagemdoretábulo monumental barroco, como se pode ver na Fig. 2. A ter em conta as faixas laterais que igualmente o integravam (e que sobre- viveram), este sebasto perdido, devia ter a altura de um palmo ou de um pal- mo e meio e figurava certamente um pano rico, de brocado ou talvez de da- masco, tendo em conta a monocromia relativa do tecido representado nas faixas laterais. À semelhança destas, o fingido sebasto perdido do topo do frontaleracertamentedelimitadopelafiguraçãodeumaricaemuitovistosa franja em fio de seda tricolor, com pequenos segmentos sucessivamente brancos, vermelhos e verdes), igual a tantas franjas que se captam nos pa- nejamentos mais ricos figurados na pintura portuguesa antiga. A raríssima iconografia de um frontal de altar raiano das primeiras décadas do Séc. XVI O programa figurativo do frontal, delimitado pelo sebasto superior, desapa- recido, e pelos sebastos laterais, que sobrevivem, consiste numa compo- sição tripartida mas organizada simetricamente, representando no painel central, de formato rectangular, disposto ao alto, o popular orago da igreja, o Arcanjo S. Miguel, de pé, triunfante sobre o Dragão. Note-se desde já que o culto de S. Miguel foi muito intenso entre nós durante toda a Idade Média, pois ele era o padroeiro da generalidade das igrejas das cidadelas dos ve- lhos castelos medievais, tanto portugueses, como peninsulares e europeus, mas era também o orago de inúmeras igrejas paroquiais, nomeadamente em zonas de fronteira. A área central do frontal de Escarigo está rodeada por dois panos laterais iguais,deformasensivelmentequadrada,decomposiçãomuitomaiscomple- xa. No centro destes dois grandes quadrados laterais inscrevem-se duas mol- duras quase circulares que enquadram duas figuras toucadas e vestidas com trajescaracterísticos,decunhoorientalizante.Asmoldurasarredondadassão definidas por uma barra densa de folhagens, muito clara, a evocar idênticas molduras típicas do Renascimento Italiano. Estas molduras são sublinhadas por dois ramos de folhagens que se desenvolvem a partir de uma espécie de nóinferiorcomumaosdoisramos.Osdesenhosdestasfolhagens,muitoden- sas, são assimétricos pois, por entre as folhagens, emergem ornatos típicos: um puto e uma ave simbólica (pomba, águia, pelicano?). Estas ramagens em cinzento intenso dispostas mais ou menos simetricamente, mas de orienta- ção divergente, contornam, por cima e por baixo, a barra clara que delimita os medalhões e sobrepõem-se ao fundo da composição, em vermelho escuro.
  • 27.
    52 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 FIGURA 5. S. Miguel combatendo e derrotando o Dragão; painel central FIGURA 6. Profeta Jonas (?); painel lateral direito (lado da Epístola) Os dois medalhões mais ou menos ovais delimitados pelas cercaduras já re- feridas ostentam dois bustos masculinos “terçados”, isto é, representados a três quartos, um de cada lado, voltados para o centro do altar e consequen- temente para S. Miguel Arcanjo. A figura da esquerda (lado do Evangelho) é imberbe, mas a figura da direita (lado da Epístola) aparece barbada, sendo aparentemente muito mais idosa. Ambas ostentam, porém, típicos touca- dos vermelhos em forma de cone, tendo o da direita, na sua base, uma es- péciedebarraclara,eventualfiguraçãodeumabasedearminho.Apesardas diferenças, estes toucados são muito característicos e de identificação ób- via: as duas figuras que os ostentam pertencem ao corpus iconográfico do Antigo Testamento. Ambas as figuras têm os braços semi-erguidos e com as mãos seguram filactérias voltadas para o centro do frontal, enrolando-se nas cercaduras dos medalhões laterais. Estas filactérias têm um significado óbvio: simbolizam as narrativas proféticas, permitindo identificar as duas fi- guras laterais como Profetas. A imagem central do tríptico, de S. Miguel, corresponde ao típico modelo ico- nográfico que conhecemos como Duelo ou Combate de S. Miguel contra o Dragão inspirado num famoso episódio do Apocalipse (XII, 7-12): “Então houve no Céo uma grande batalha; Miguel, e os seus Anjos pelejavam contra o Dragão, e o Dragão com os seus Anjos pelejava contra elle. Porém, estes não prevaleceram, nem o seu lugar se achou mais no Céo. E foi precipitado aquelle grande Dragão, aquella antiga serpente, que se chama o Diabo, e Satanás, que seduz a todo o Mundo: sim foi pre- cipitado na terra, e precipitados com elle os seus Anjos.
  • 28.
    54 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 E eu ouvi uma grande voz no Céo, que dizia; Agora foi estabelecida a salvação, e a fortaleza, e o Reino do nosso Deus, e o poder do seu Christo: porque foi precipitado o accusador de nossos irmãos, que os accusava de dia e de noite, diante do nosso Deus”. O Arcanjo S. Miguel é referido por três vezes no Antigo Testamento, no Livro do Profeta Daniel, surgindo como “um dos primeiros príncipes” (Daniel, X, 13) e como “Miguel que é o vosso príncipe” (Daniel, X, 21), num tempo que cor- responde ao “terceiro anno de Cyro Rey dos Persas” (Daniel, X, 1), isto é, no contexto do Cativeiro da Babilónia. Enfim, a terceira referência ao “grande Principe Miguel” apresenta o mesmo tom apocalíptico que perpassa na nar- rativa do Novo Testamento, assim prenunciado no mesmo Livro de Daniel (Daniel, XII, 1-2): “N’aquelle tempo porém, se levantará o grande Principe Miguel, que é o Protector dos filhos do teu Povo: e virá um tempo, qual não houve desde que as gentes começaram a existir até áquelle tempo. E sal- var-se-ha n’aquelle tempo d’entre o teu Povo todo aquelle que fôr achado escripto no Livro. E toda esta multidão dos que dormem no pó da terra, acordarão: uns para a vida eterna, e outros para um opprobrio, que elles terão sem- pre diante dos olhos.”. Destas referências do Antigo Testamento, bem como das constantes do Apocalipse, já referidas, decorrem os atributos de S. Miguel Arcanjo enquan- to “victoriosus, princeps militiae caelestis, pugnat cum dracone”. O Arcanjo de Escarigo, de belas asas douradas erguidas, quase infantil, mui- to jovem e imberbe, apesar de desprovido de elmo, de cabelos soltos, está devidamente equipado para o combate, ostenta uma lança e está protegi- do por uma armadura (hoje pouco visível, por perda acentuada da camada cromática respectiva) que lhe protege tronco, braços e pernas, sobre a qual flutua a cercadura avermelhada de um típico saio, muito curto. S. Miguel Ar- canjo surge com um pé à frente do outro, numa posição muito dinâmica, de grandedeterminação,calcandoaospésocorpodoDragão,queestádeitado de costas, apoiado no limite inferior da composição. Prestes a ser vencido, o Dragão ergue a cabeça monstruosa e sobre-dimen- sionada para cima, com a goela aberta e avivada a vermelho, fazendo res- saltar dentes agressivos. Uma cauda muito desenvolvida, que se ergue em hélice, com um enrola- mento de desenho ingénuo, completa a figuração do Dragão que (apesar de hoje estar também muito esbatido, devido a perda de matéria cromática) durante quase duzentos anos, há-de ter proporcionado ao povo devoto de Escarigo uma figuração muito eficiente, terrífica mesmo, do Demónio, do Mal e, por extensão, das Penas do Inferno. Face ao Dragão, pesado e ar- rojado no chão, o Arcanjo ganha, porém, um ar quase flutuante e imaterial, efeitos acentuados pelo lançamento caprichoso do seu manto vermelho e pela coreografia dos braços e das mãos que sustentam a lança, acabada de enfiar nas goelas abertas do Dragão, lança esta que é encimada pela cruz, simultaneamente arma e símbolo do triunfo sobre o mal.
  • 29.
    56 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 FIGURA 7. S. Miguel matando o Dragão (pormenor do painel central, editado para realçar o desenho). As figuras de S. Miguel Arcanjo e do Dragão sobrepõem-se a um típico fun- do de damasco ou de brocado de tons amarelados, à semelhança do que acontecia em inúmeras figurações medievais e tardo-medievais de cenas de cunho religioso, de santos e demais figuras sagradas, frequentemente representadas perante fundos constituídos por draps d’honneur, ou seja, panos de armar de grande aparato, de modo a realçar a sua majestade e sobretudo para reforçar a sua carga devocional. Como vemos, apesar do manto vermelho, esta figuração é em si iconografica- mente convencional e muito frequente. Ela integra o que Louis Réau chama de Angelofanias, essas aparições miraculosas, nomeadamente do Arcanjo S. Miguel que, assim figurado, surgia perante os fiéis vencendo o Dragão, com a lançaarmadacomacruzdaPaixãoeRessurreiçãodeCristo–istoé,equipado como verdadeiro triunfador sobre o inimigo, o mal e o pecado. Ora, sendo o tema iconográfico de S. Miguel tão popular na arte portugue- sa medieval e tardo-medieval, a figuração de S. Miguel Arcanjo de Escarigo apresenta, porém, uma singularidade que merece o maior destaque. Com efeito, e como acima vimos, em Escarigo o Arcanjo está ladeado de dois pro- fetas: certamente o profeta Daniel no painel do lado do Evangelho (o lado liturgicamente mais importante), representando a figura do lado oposto (a direita, para quem olha para o altar-mor); ver atrás Fig. 6) provavelmente o profeta Jonas ou eventualmente Elias, Isaías ou mesmo Eliseu. Segundo LouisRéau,oautorquevimoscitando,oprofetaDaniel,emparticular,“ilaété considéré par les théologiens comme une préfigure du Christ. Daniel dans la fosse aux lions est l’image du Sauveur dans le Sépulcre” e “le symbôle de l’âme sauvée: c’est le type de l’homme protégé par Dieu”. Tal como Daniel, também o profeta Jonas, muito provavelmente representado no medalhão
  • 30.
    58 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 do painel direito do frontal de Escarigo, tinha um significado singular, que justificava a sua importância e a sua popularidade entre Judeus e Cristãos: “Pour les Juifs, Jonas englouti, puis vomi ou craché par la baleine, est l’image du peuple d’Israel dévoré par le dragon assyrien, enseveli vi- vant dans l’exil pendant la captivité de Babylone, puis rendu à la liberté para la grâce de l’Éternel. Pour les Chrétiens, c’est la préfigure de la Mise au tombeau et de la Réssurrection du Christ. De même que Jonas est resté trois jours dans le ventre du squale et en est sorti vivant, de même le Christ ressuscite après trois jours pas- sés dans les ténèbres du sépulcre”. Que saibamos, nas Beiras não estão identificadas composições semelhan- tes, envolvendo profetas a ladear a figura de S. Miguel Arcanjo. Com efeito, a representação de S. Miguel Arcanjo ladeado de dois profetas não só parece ser única como não consta na recensão das tipologias iconográficas esta- belecidas por Louis Réau, já atrás referidas. Consideramos que a associação de S. Miguel aos Profetas no frontal de Escarigo proporciona uma importan- te variante, provavelmente de cunho nacional ou mesmo regional, ao tipo iconográfico de S. Miguel. Mas a própria figuração dos Profetas no frontal de Escarigo também é digna de nota, pois acusa a influência iconográfica directa de tipos semelhantes da pintura primitiva portuguesa e, por essa via, parece deter uma forte influência flamenga. Note-se ainda que a figuração do profeta do painel esquerdo do frontal de Escarigo, figurado sem barbas e que identificamos como Daniel, respeita também os modelos iconográficos estabelecidos. FIGURA 8. Profeta Daniel (?); painel lateral esquerdo do frontal O manto do profeta barbado (o do painel da direita) é de cor de laranja hoje num tom muito esmaecido. Ambos os profetas ostentam típicos turbantes vermelhos, típicos da iconografia de algumas figuras importantes do Antigo Testamento, como vimos, Ambos os profetas envergam amplos mantos, sendo o de Daniel vermelho, debruado com gola rica de arminho, atributo dos mantos reais.
  • 31.
    60 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Um olhar sobre uma pintura quinhentista a fresco em Escarigo A pintura do frontal do antigo altar-mor de Escarigo merece múltiplos olha- res, nomeadamente sobre si própria, enquanto composição, realização pic- tural e estado de conservação. Merece registo a qualidade da pintura dos profetaseemparticularadoprofetadadireita,barbado,queproporcionaum autêntico e excelente retrato, pela individualização dos traços fisionómicos do rosto, mas também pelas suas raras qualidades pictóricas. FIGURA 9. Profeta Jonas (?). Painel direito do frontal de Escarigo (pormenor). Com efeito, este retrato distingue-se pela leveza e soltura do desenho, quer do rosto, quer das mãos; pelo requinte da pintura, patente nas carnações delicadas e na subtileza do tratamento das barbas, quer, enfim, pela inten- sidade do olhar. Pensamos que estas qualidades fazem deste profeta bar- bado um dos mais belos retratos alguma vez pintados nas Beiras (ou para as igrejas das Beiras), em nada desmerecendo de figurações semelhantes, patentes nas múltiplas pinturas sobre tábua que devemos à chamada Es- cola de Grão Vasco. Por outro lado, como também vimos, os Profetas estão integrados num medalhão mais ou menos oval cujo perímetro é sublinhado pela barra de- corativa e por um típico festão de folhagens e outros motivos, pintados a grisalha, como vimos, realçados de modo a proporcionarem um efeito de relevo muito sofisticado, com ressonâncias quer goticizantes, quer singu- larmente modernas, italianizantes mesmo, a lembrar, na sua composição e na sua execução pictórica, aparentemente muito cuidada, algo da maneira renascentista típica do Quatrocento italiano tardio. O conjunto das rama- gens e dos temas decorativos é integralmente pintado em grisalha, isto é, em várias gradações de cinzento, avivada a branco visando efeitos de relevo e volume dos elementos figurados. O resto das figurações não tem uma realização gráfica e pictórica tão so- fisticada. Com efeito, face ao aparente virtuosismo da pintura das folha- gens dos panos laterais, merece reparo a realização fruste dos efeitos de damasco dos fundos do painel central. Do mesmo modo, a figuração de S. Miguel Arcanjo – de grande monumentalidade e muito bela, aliás – é dada por um traço muito vincado e muito duro, embora não isento de grande expressividade.
  • 32.
    62 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Por outro lado deve registar-se o toque de ingenuidade na respectiva com- posição geral, desarticulada e pouco firme, nas proporções algo desequili- bradas ou no lançamento e na composição algo desajeitada do manto ver- melho. As diferenças de desenho e de execução pictórica patentes entre o painel central, ingénuo, e os painéis laterais, que gozam de uma execução mais cuidada, poderiam deixar entrever a presença de duas mãos e mesmo de duas fases de execução. A ser assim, a um primeiro momento da em- preitada caberia a realização do motivo central, S. Miguel Arcanjo, que teria cabido a uma mão menos dotada ou de formação oficinal e técnica muito mais limitada que a exibida na composição e na pintura dos painéis laterais, com as efígies dos dois profetas, uma de cada lado. Se assim fosse, como FIGURA 10. Arcanjo S. Miguel (pormenor). inicialmente pensámos, uma primeira mão seria aparentemente substituí- da num segundo momento por uma mão muito mais segura e controlada, a quem deveríamos os painéis laterais, que detêm uma composição densa, e muito mais actualizada, um desenho seguro e elegante e um cromatismo que temos que considerar muito vistoso e até rico. Parece-nos, porém, muito mais verosímil considerar antes o recurso a duas técnicas distintas, usadas simultaneamente na execução do fresco, prática muito frequente na pintura mural da época, como veremos. Com efeito, a uma composição integralmente efectuada a fresco nas duas pinturas late- rais (profetas) parece ter-se sobreposto, sobretudo no painel central, a re- pintura, a seco, de partes importantes da figuração programada. Assim, a ser correcta esta proposta, como pensamos, todo o corpo e a armadura do Arcanjo bem como o corpo e a cabeça do Dragão terão sido repintados, não numa segunda fase, mas a seco. Joaquim Caetano nota na pintura mural transmontana a realização em simultâneo da pintura a fresco e a seco, esta completandoaquela,referindo“ofactodeascoresplanasseremaplicadasa fresco – fundos, panejamentos, base das carnações – e tudo o resto acaba- do a seco”. Ora, esta técnica, aplicada deficiente e impropriamente, implica quase sempre a posterior perda quase integral da respectiva camada cro- mática, o que hoje nos dá uma imagem muito deficiente e descorada do que foi a vivacidade das pinturas originais. Consequentemente, o espectador de hoje tem a necessidade de recompor virtualmente pinturas que, como a de Escarigo (ou a de Monsaraz), perderam camada cromática de uma forma muito significativa, pois aquilo que chegou até nós é uma sombra, muito longe do que o pintor pintou e do que nos quis deixar. Consequentemente, o que resta hoje da figura principal do frontal de Escarigo, para lá do típico
  • 33.
    64 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 rosto quase infantil do Arcanjo, das suas asas douradas e do manto que o envolve, é a pintura, muito esvaída, da armadura (hoje num cinzento extre- mamente descorado), que presentemente mal se nota, a proteger o braço esquerdo e as pernas do Arcanjo. O resto é uma mancha esbranquiçada, de difícil leitura, onde apenas sobressaem os traços principais do desenho de base, inerentes à preparação da pintura, e que sobressaem no desenho da armadura que protege o segmento inferior do tronco da figura, represen- tados imediatamente abaixo do braço direito do Arcanjo. O mesmo se terá passadocomapinturadoDragão,hoje tambémquasetotalmente esvaídae portanto de observação muito difícil. Independentementedasuaqualidadeartística,quenãoénadadespicienda,a pinturadeEscarigotemomaiorinteressehistóricoparanós,poiselacaptade uma forma eloquentíssima a “temperatura” artística (e ideológica, como vere- mos) da Beira nos últimos anos do Séc. XV e nos primeiros anos do Séc. XVI. Com efeito, em terra de fronteira e em momento de mudanças e inflexões his- tóricasconhecidas,nelaconfluemasmaisdíspareseatéasmaisdissonantes influências. Por um lado, o fresco de Escarigo é o produto de uma escola e de modelos iconográficos e decorativos de cunho tradicionalista, replicando, de uma forma naturalmente limitada e até inconsistente, as melhores tradições da grande pintura portuguesa da segunda metade do século XV. Por essa via, nelaconfluemmodeloscompositivoseiconográficosquevêmprovavelmente da pintura flamenga, de há muito aclimatada entre nós, patentes nomeada- mente na figuração dos Profetas. Do mesmo modo, a composição global de cada um dos quadrados laterais com os medalhões centrais e as ramagens que os contornam, e que preenchem todo o fundo das respectivas composi- ções, não deixam de evocar a composição de muitas vinhetas das iluminuras tardo-góticas e manuelinas, que aqui surgem como que ampliadas e monu- mentalizadas. Porém, a cercadura clara que delimita os medalhões que con- têm as figuras dos profetas tem ressonâncias intensas com os “tondi” renas- centistas,istoé,oscírculosdecorativosqueservemdefundonomeadamente a retratos reais ou idealizados, quase sempre de perfil, pintados ou realizados em madeira, em pedra ou em faiança e tão típicos do Renascimento italia- no. Do mesmo modo, a inesperada presença do puto decorativo no painel da esquerda deixa entrever um ambiente de evidente vontade de actualização estilística, bem a par, afinal, do tratamento das folhagens em grisalha, que re- meteminevitavelmenteparaosgrotescosoubrutescosdecorativos,também muito típicos do Renascimento Italiano. Em suma, a pintura do frontal de Escarigo é um monumento ímpar da pintu- ra fresquista das Beiras, no período que medeia entre os meados do século XV e meados do século XVI. Como em tantas e tantas obras de arte, as qua- lidades e virtualidades da pintura de Escarigo coabitam com fragilidades e debilidades técnicas inerentes à conclusão a seco de uma obra começada a fresco, que comprometeram a própria sobrevivência de partes importantes da camada cromática do painel central, como vimos. Mas estas são limita- ções meramente técnicas que, tal como não afectavam em nada o seu pa- pel litúrgico e o seu poder devocional de outrora, também nos dias de hoje não afectam em nada o reconhecimento da importância histórica e artística desta pintura, a todos os títulos notável, na complexidade e originalidade do modelo iconográfico e do próprio esquema figurativo, mas também na sua ingenuidade, na sua graça primitiva, na sua tentativa de actualização, e so- bretudo na sua intensa presença pictórica, fonte da expressividade extrema que a caracteriza e que dela emana há mais de quatrocentos anos.
  • 34.
    66 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 A pintura de Escarigo, onde confluem, em termos de fontes e de influências, modelos tradicionais e importantes assomos de novidades cosmopolitas e que, em termos de composição e de factura, oscila entre o ingénuo, o con- vencional e o relativamente sofisticado, constitui assim um barómetro cer- teiro do ambiente artístico e cultural vivido nos últimos anos do Séc. XV e nas primeiras décadas do Séc. XVI na região das Beiras e na de Riba-Côa em particular. Com efeito, a pintura de Escarigo mostra como também no aspecto cultural esta região, mais do que uma linha de fronteira era, por es- ses anos, uma linha de charneira entre vectores culturais e artísticos díspa- res e desencontrados, entre o respeito por modelos tradicionais e a pulsão pelo moderno – assinalada esta com as inovações próprias de momentos históricos particularmente acelerados, fazendo chegar a terras de Riba-Côa, nas primeiras décadas de Quinhentos, os primeiros ecos de uma inspiração renascentista e humanista. A pintura do Arcanjo S. Miguel do altar de Escarigo: um manifesto teológico e ideológico dos princípios do Séc. XVI em terras de Riba-Côa Para lá da sua importância histórica enquanto obra figurativa, a pintura do frontal de Escarigo levanta ainda a questão do seu significado, do seu va- lor simbólico, teológico e até ideológico no quadro das dinâmicas históricas e sociais vividas na Península, em Portugal e, em particular, nesta região das Beiras na viragem do século e nas primeiras décadas do século XVI. Com efeito, estas complexas questões ombreiam com os difíceis proble- mas suscitados no estrito âmbito da História da Arte pelo fresco de Escari- go, relativos a influências artísticas e estilísticas e às questões, porventura insolúveis, de oficina e de autoria. A figuração de S. Miguel Arcanjo, ladea- do de duas figuras do Antigo Testamento tem um significado evidente ou, se se pretender, uma intenção religiosa e social óbvias. Note-se, antes de mais, que a pintura de Escarigo tem uma importância histórica singular pois, numa época muito próxima do início do século XVI, representa dois profetas, elementos preponderantes do “povo eleito”, como judeus, barbados ou não, vestidos e cobertos como tal, de acordo com tradições iconográficas muito consolidadas. Mas a pintura de Escarigo tem também um significado teológico e até polí- tico. Por um lado, a figuração de S. Miguel Arcanjo ladeado de Profetas tem um significado religioso óbvio: sendo o Arcanjo S. Miguel uma das poucas fi- guras bíblicas que perpassam tanto pelo Antigo como pelo Novo Testamen- to,elerepresentaexplícitaeobjectivamenteaharmoniaentreaLeiVelhaea Lei Nova, ou melhor, a continuidade, a passagem directa do Antigo ao Novo Testamento, que conduz à vinda do Messias e à Ressurreição de Cristo, a
  • 35.
    68 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 base fundadora do Cristianismo. A articulação harmoniosa entre o Antigo e o Novo Testamento era um desígnio teológico e mesmo ideológico verda- deiramente estruturante em diversas, poderosas e influentes instâncias es- pirituais da época – e reflecte-se da forma mais explícita nos tão complexos planosiconográficospatentesnasobrasrégiasinseridasnoCicloManuelino – e continuaria a sê-lo durante toda a Idade Moderna. Neste âmbito, ganha todo o sentido a associação entre S. Miguel e Cristo Ressuscitado: “Agora foi estabelecida [por Miguel] a salvação, e a fortaleza, e o Reino do nosso Deus, eopoderdoseuChristo”,patentenanarrativadoApocalipse(XII,10),jáatrás referida. Esta associação induz uma espécie de assimilação entre o Arcanjo e Cristo, patente na própria figuração do painel central de Escarigo, em que tanto o manto vermelho do Arcanjo, como a haste da lança vencedora são também atributos iconográficos de Cristo Ressuscitado. Enfim, a figuração de S. Miguel Arcanjo no frontal do altar-mor desta igreja raiana consagra a confluência entre os dois Testamentos, selada pelo mis- tério da Eucaristia, a celebrar ritualmente – e pelos séculos dos séculos – no altar assim decorado algures nas primeiras décadas do século XVI. Por isso, a figuração do Arcanjo S. Miguel ladeado de Profetas tem também o valor de um manifesto político e ideológico óbvio, tendo em conta as dinâmicas político-ideológicas da época, criadas com o primeiro casamento do Rei D. Manuel (1497), com a expulsão e a conversão forçada dos Judeus, com as tensões provocadas por estas conversões e pelo convívio por vezes confli- tuoso entre cristãos velhos e cristãos novos. Com efeito, a representação de S. Miguel, uma das raríssimas figuras da Lei Velha que perpassam para a Lei Nova, patente nesta pintura – datável de um período algo próximo do primeiro casamento do rei e da consequente conversão dos judeus, como veremos, tem um valor simbólico especial: ela simboliza a harmonia e a con- córdiaquedevemexistirequesequerqueexistamentretodososmembros da sociedade, entre os judeus recém-convertidos e a maioria dominante – doravante todos unidos numa mesma crença comum. Pensamos, pois, que a pintura do Arcanjo S. Miguel ladeado de dois profetas tem um significado que transcende a sua mera intenção devocional: ela induz e impõe a articu- lação,aintegraçãoeaassimilaçãodetodososelementosdasociedade–de todos os fiéis, fosse qual fosse a origem ou a etnia de cada segmento social em presença, fossem eles membros da maioria ou da minoria, pois todos eles partilhavam a sua existência – e o seu quotidiano – em todo o Reino e nesta região fronteiriça em particular. Esta pintura do Arcanjo triunfante é o sinal de que se pretende que os cristãos velhos e os cristãos novos se integrem, vivam e convivam entre si da forma mais pacífica e tolerante, pois todos eles têm em S. Miguel o chefe vencedor sobre o “inimigo” comum. A pintura de Escarigo é um manifesto político também por outro motivo, pois celebra não só o padroeiro da igreja, mas também uma das grandes invocações religiosas do Portugal da época. Com efeito, S. Miguel Arcanjo torna-se objecto de um culto não só local ou regional, mas nacional; não só espontâneo,masoficial.EnquantoArcanjoguerreiro,enasequênciadeuma tradição muito antiga e muito intensa, o carisma vencedor de S. Miguel as- similá-lo-á ao Anjo Custódio de Portugal – e daí a sua popularidade em ter- ras raianas e a necessidade de renovar, actualizar ou pintar “de novo” a sua imagem no frontal de uma igreja como a de Escarigo, localizada a menos de um quilómetro da fronteira. Assim, é num contexto messiânico tão entra- nhado na Ética e na Época Manuelina que ao Arcanjo S. Miguel, Príncipe das MilíciasCelestes,defensordaIgreja,senhordaPesagemdasAlmasnoJuízo
  • 36.
    70 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Final, se atribuirá “a protecção de Portugal, como anjo custódio do reino”. No respeito pela letra do Profeta, o Arcanjo será para Portugal o que fora num tempo mítico-histórico passado para o Povo Eleito, “o Protector dos filhos do [seu] Povo” (Daniel, XII, 1). É neste contexto que D. Manuel I instituirá, a 6 de Junho de 1504, o culto obrigatório do Anjo Custódio em todas as cida- des e vilas de Portugal, na forma de uma procissão muito solene a organizar obrigatoriamente em todos os concelhos do Reino: E isso mesmo Mandamos, que em cada huum anno no terceiro Do- mingo do mes de Julho polo dito modo se faça outra Precissam so- lene, por comemoraçam do Anjo Custodio, que tem cuidado de nos goardar e defender, pera que sempre seja em nossa guarda e defen- sam.AsquaesPrecissõessefaram,eordenaramcomaquellafestae solenidade, com que se faz a Precissam do Corpo de Deos...”. Sinais da mesma devoção estão bem patentes no complexíssimo programa iconográfico-ideológico do portal Sul da Igreja do Mosteiro dos Jerónimos, encimado pela figura monumental de S. Miguel Arcanjo, assimilado ao Anjo Custódio de Portugal, num conjunto assim descrito por Rafael Moreira: “no lugar de maior destaque, a imagem de Nossa Senhora dos Reis, com o Menino-Deus e o vaso de ofertas dos Reis Magos; e dominan- do ao alto o Anjo Custódio de Portugal, mensageiro do Espírito Santo: sinais da protecção divina à linhagem espiritual do rei e, portanto, da legitimidade do seu poder”. Mas antes da institucionalização do culto a S. Miguel enquanto Anjo Custó- dio do Reino já o Rei D. Manuel tinha dado uma prova extrema da sua devo- ção sincera ao Arcanjo, enquanto Autor da Paz e Anjo da Paz, dando o seu nome ao seu próprio filho primogénito, o Príncipe D. Miguel da Paz (1498- 1500), nascido da sua primeira mulher, a Rainha D. Isabel, que morreu do respectivo parto. Em suma, D. Manuel I, os seus teólogos e os seus ideólogos, eivados de espí- rito messiânico, recuperam as palavras proféticas do Livro de Daniel e a nar- rativa apocalíptica inerente à “grande batalha” vitoriosa que “houve no Céo”, entre os exércitos de S. Miguel e do Dragão, fonte de salvação, que também é fonte de alegria, de esperança e de justiça para todos os justos: “Por isso, ó Céos, alegrae-vos, e vós os que habitaes n’elles. Ai da terra, e do mar, porque o diabo desceu a vós cheio d’uma grande ira” (Apocalipse, XII, 12). Nestes ter- mos, a figuração do Arcanjo na pintura de Escarigo aponta também implícita e simbolicamente para a Justiça – patente na balança da pesagem das almas, normalmente ostentada pelo Arcanjo, embora omitida no plano iconográfico de Escarigo – justiça que é a fonte da harmonia entre todos os membros da comunidade, irmanados na Ecclesia e protegidos pela lança vencedora do Arcanjo, pertençam à maioria ou a uma das minorias sociais então existen- tes no Reino. Com efeito, todos os moradores do Reino estão ou quer-se que estejam unidos “em perpetua paz, e bons costumes” numa república comum, como se entrevê na pintura de Escarigo, que acolhe, no lugar mais central da igreja matriz, entre os profetas da Lei Antiga, a figura de S. Miguel, que é um dos esteios do “poder do seu Christo”. Esta república comum tem no Rei Ab- soluto o penhor da Equidade e da Justiça, pois ele é o representante, o instru- mento, o agente de Deus na Terra. Ora, a Justiça terrena – que replica a seu
  • 37.
    72 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 modoaJustiçatranscendenteeeternadoJuízoFinal–éagrandevirtude“que nom menos que as armas faz vencer pela concordia e assesseguo que se della segue”. Nestes termos, o rei e a Justiça que dele emana são também o penhor da harmonia, da ordem e do bem comum de todos, Cristãos Velhos e CristãosNovos,pois“assiobomReydeueseersemprehum,eigualatodos”– como se escrevia lapidarmente no Prólogo das Ordenações Manuelinas. Proposta de datação Merecediscussãoadataçãoprováveldofrescodoantigoaltar-mordaIgreja de Escarigo. Com efeito, há que ter em consideração o vanguardismo das grisalhas laterais, em tudo parecidas com idênticas grisalhas que Luís Afon- so estudou, comprovadamente datadas ou datáveis de 1529, o que poderia avançar a datação desta pintura para o período de cerca 1525-1535. Com efeito, na sua lista de pinturas a fresco então conhecidas em Portugal, Luís Afonso integra a pintura de Escarigo, na “Tabela I – Distribuição aproximada da cronologia e do estilo das pinturas murais” da sua Tese, integrando-a no período “1525-50”, sendo deste autor as seguintes considerações: “O figurino destas figuras, nomeadamente pelo corte de cabelo que apresentam, aponta para uma cronologia dentro do reinado de D. Manuel, embora a indumentária e o tratamento plástico das figu- ras, sobretudo ao nível do desenho, pareça ser mais adequado para modelos classicistas do segundo quartel do século XVI. Deste modo, julgamos que a cronologia mais viável para estas pinturas se situará entre c. 1520 e c. 1550, não se encontrando nenhuma obra compará- vel a estas na região beirã”. A ser assim, as pinturas de Escarigo integrar-se-iam no ciclo estilístico do Renascimento, época de afirmação de um novo espírito artístico entre nós, que ocorre com a aclamação do Rei D. João III (1521) e que coincide com um período de grande afirmação da pintura a fresco entre nós.Porém, tendo em vista as dinâmicas sociais, ideológicas e culturais do início do Reinado de D. Manuel I, atrás sumariamente referidas, pensámos inicial- mente que a pintura de Escarigo devia remontar a uma data muito próxima de 1500, época cheia de acontecimentos de uma relevância extrema: pro- pusemos os anos imediatos a uma das seguintes datas: logo após 1498, ano do nascimento, em Saragoça, do primogénito, Príncipe D. Miguel da Paz e da morte da Rainha D. Isabel. 1498 foi também o ano do regresso ao Reino de D. Manuel I (saída de Saragoça a 8 de Setembro e chegada a Lisboa a 9 de Dezembro de 1498), numa viagem em que o rei entra por Almeida, com muito provável passagem na Guarda. Nesta passagem singular de D. Ma- nuel I pelas terras raianas – sempre esquecida pelos historiadores, apesar de ser bem digna de estudo – o rei que, apesar do luto, celebrava a varonia do primogénito recém-nascido, há-de ter sido objecto de uma autêntica so- beranofania nas localidades por onde passou. Com efeito, essa passagem proporcionou em todas as cidades e vilas do percurso as cerimónias tradi- cionais da entrada régia e a aclamação festiva do então jovem rei, em início de reinado (fora aclamado em Outubro de 1495). Tal como na Idade Média, o Rei há-de ter ouvido ou mandado ouvir os Procuradores dos Concelhos da região, bem como as queixas e agravos dos Povos, para lá de ter tido cer- tamente providenciado as medidas que se impunham nos mais diversos domínios, tendo tido a oportunidade de arbitrar e resolver conflitos e dis- senções existentes a nível local com a paciência, pragmatismo e bom senso
  • 38.
    74 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 que caracterizaram a generalidade das medidas políticas, administrativas e judiciais de todo o seu longo reinado – que de si deixou aos vindouros a me- mória de “Venturoso”. Nesta passagem memorável pelas Beiras, o rei D. Manuel distribui privilé- gios, bens e benesses pelas terras e pelas igrejas das localidades por onde passava, testemunhadas nos inventários das igrejas das Comendas da Or- dem de Cristo, que detinham ornamentos e vestimentas oferecidas pelo próprio rei, como comprovado pelo seu cronista Damião de Góis. Enfim, do rasto intenso da passagem do Rei por terras de Riba-Côa pode ter resulta- do a própria pintura de Escarigo (tal como outras pinturas desta e de outras igrejas, há muito destruídas ou ocultas), pintada porventura logo após 1498, deste modo celebrando a passagem do Rei e o nascimento do Príncipe re- cém-nascido e retribuindo porventura eventuais privilégios e ofertas régias à igreja e aos moradores da localidade. A pintura de Escarigo pode também datar dos primeiros anos a seguir a 1504, ano da proclamação oficial da devoção ao Anjo Custódio de Portugal, solicitada por D. Manuel junto do Papa Júlio II, ou até – terceira hipótese de datação – dos primeiros anos posteriores a 1507, anos em que estão re- ferenciadas Visitações em igrejas da região, como vimos acontecer, nesse mesmo ano de 1507, na do lugar vizinho da Reigada e noutras localidades raianas beirãs e transmontanas, todas elas Comendas da Ordem de Cristo. Dessas Visitações decorriam sempre recomendações no sentido de actua- lizações,melhoramentoseobrasafazernasestruturaseedifíciosreligiosos locais, que incluíam igrejas, capelas, ermidas, campanários, cruzeiros, etc – elementos que pontuavam e sacralizavam a paisagem local de uma forma muito mais intensa e sobretudo muito mais vivida que nos nossos dias. Mas dessas Visitações resultava também a necessária actualização litúrgica, que passava pela encomenda de imagens e de objectos de culto novos, es- tilística e canonicamente actualizados, em substituição dos antigos objec- tos litúrgicos, envelhecidos, estragados e até desactualizados, bem como a imposição da re-decoração, ainda que parcial, das igrejas. Destasre-decoraçõesintensivas,efectuadasnasequênciadapassagemde D. Manuel em 1498 ou na da Visitação de 1507 na igreja da aldeia vizinha da Reigada – que hão-de ter deixado um rasto intenso nas igrejas e capelas de todas as localidades das redondezas – pode sobreviver, pensamos, a notá- vel pintura do frontal da belíssima Igreja de Escarigo (e, muito provavelmen- te as outras pinturas a fresco já detectadas na mesma igreja mas ocultadas pelo retábulo do altar mor, como vimos) e certamente nas igrejas e capelas de toda a região, ainda ocultas sob as caiações antigas ou mesmo escondi- das atrás dos respectivos retábulos barrocos. Ora, a anos pouco posteriores a 1507 têm sido atribuídas importantes pintu- ras e ciclos de pinturas pintadas a fresco. Com efeito, as figuras dos painéis laterais do frontal, complexas e de desenho excelente, bem como os grotes- cos extraordinários que as circundam, podem e devem apontar para datas talvez ligeiramente posteriores às Visitações de 1507, atrás referidas, dada a sua afinidade com grotescos em grisalha datáveis de 1511-1513; com pin- turasdatáveisdoprimeiroquarteldoséculoXVIou,numâmbitocronológico mais amplo, datáveis da segunda (ou da terceira) década do século XVI. Ten- do em vista estas considerações históricas e a datação destes importantes ciclos picturais, pensamos que a pintura do frontal-mor de Escarigo deve remontar a um momento indeterminado do período entre 1510 e 1520 ou de anos muito próximos a estas datas.
  • 39.
    76 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Para lá da continuação da respectiva análise a nível iconográfico e pictórico, urge o estudo técnico-arqueológico do fresco, a sua limpeza e restauro ur- gentes e – se for esse o entendimento dos técnicos de restauro responsá- veis e o das autoridades eclesiásticas e culturais envolvidas – encarar a sua remoção e a sua consolidação num suporte adequado. Com efeito, a pintura deEscarigomereceserestudada,expostaedivulgada,assimseresgatando e dignificando uma pintura devocional que é hoje uma muito rara e notável obra de arte que, para proveito de todos, deve estar disponível à contempla- ção directa de todos e em particular à dos moradores de Escarigo, para os quais foi criada há cerca de cinco séculos atrás. FONTES E BIBLIOGRAFIA FONTES MANUSCRITAS: Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT) – Mesa da Consciência e Ordens/ Comendas – Ordem de Cristo/ Convento de Tomar [COM - OC/CT]- Maço 66, doc. n. 2/ Visitações: Livro 132 e Livro 304. FONTES IMPRESSAS: A Biblia Sagrada Contendo o Velho e o Novo Testamento – Traduzida em Portuguez Segundo a Vulgata Lati- na por Antonio Pereira de Figueiredo, Typographia Universal, Lisboa, 1865. As Freguesias do Distrito da Guarda nas Memórias Paroquiais de 1758: Memória, História e Património, CA- PELA, José Viriato; MATOS, Henrique (Org., transcrição e notas), Ed. José Viriato Capela, Braga, 2013. Cadastro da População do Reino (1527) – Actas das Comarcas Damtre Tejo e Odiana e da Beira, COLLAÇO, João Maria Tello de Magalhães (Org. e transcrição), Ed. de Autor; Lisboa, 1929-1931. GÓIS, Damião de, Chronica do Sereníssimo Senhor Rei D. Manoel…, dada a luz… por Reinerio Bocache, Impres- são da Oficina de Miguel Manescal da Costa, Lisboa, 1749. ONovoTestamentodeJesuChristo–TraduzidoemPortuguezSegundoaVulgataLatinaporAntonioPereira de Figueiredo, Typographia Universal, Lisboa, 1865. Ordenações Filipinas, Reimpressão “fac-simile” da Edição de Cândido Mendes de Almeida (Rio de Janeiro, 1870), Fundação C. Gulbenkian, Lisboa, 1985. Ordenaçoens do Senhor Rey D. Manuel – Livro 1, Reimpressão “fac-simile” da edição feita na Real Imprensa da Universidade de Coimbra no ano de 1797, Fundação C. Gulbenkian, Lisboa, 1984. BIBLIOGRAFIA: AFONSO,LuísUrbano,ConventodeSãoFranciscodeLeiria–EstudoMonográfico,LivrosHorizonte,Lisboa,2003. AFONSO, Luís Urbano, “A apropriação simbólica da Justiça: Trajano, D. João II e a pintura do tribunal de Monsa- raz”, Artis – Revista do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras de Lisboa, n.º 2, Lisboa, 2003. AFONSO, Luís Urbano, A Pintura Mural Portuguesa entre o Gótico Internacional e o fim do Renascimento: Formas, Significados, Funções, Fundação C. Gulbenkian (Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Lisboa, 2009 (2 Vol.s). BATORÉO, Manuel, Os ‘Primitivos Portugueses’ e a Gravura do Norte da Europa – Utilização Instrumental de Fontes Gráficas, Caleidoscópio, Casal de Cambra, 2011. CAETANO, Carlos, “Uma Relíquia do Velho Poder Municipal: o Banco da Câmara do extinto Concelho de Cas- telo Bom na Igreja Matriz daquela antiga Vila”, Praça Velha – Revista Cultural, N.º 19, Guarda, Câmara Muni- cipal da Guarda, 2006.
  • 40.
    78 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 CAETANO, Carlos, “Uma rara pintura do Arcanjo S. Miguel entre duas figuras da Lei Antiga, descoberta na igreja de Escarigo”, in Praça Velha, Câmara Municipal da Guarda, Guarda, 2015, n.º 35, pp. 79-111. CAETANO, Joaquim Inácio, O Marão e as oficinas de pintura mural nos seculos XV e XVI, Aparição, Lis- boa, 2001, p. 38. CAETANO, Joaquim Inácio, Motivos Decorativos de Estampilha na Pintura a Fresco dos Séculos XV e XVI no Norte de Portugal. Relações entre Pintura Mural e de Cavalete, Dissertação de Doutoramento em História na especialidade Arte, Património e Restauro, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Lisboa, 2010. CARVALHO, José Alberto Seabra, Gregório Lopes, Edições Inapa, Lisboa, 2004. DIAS, Pedro, “A Arte Manuelina” in AAVV., Manuelino – À Descoberta da Arte do Tempo de D. Manuel I, Civili- zação Portugal, Lisboa, 2002. FIGUEIREDO, Cândido de, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Bertrand Editora, 25.ª Edição, Lis- boa, 1996, Vol. I. FLOR, Pedro, A Arte do Retrato em Portugal nos séculos XV e XVI, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010. GOUVEIA, António Camões; BRANCO, Manuel (Coord.), Francisco Henriques – Um Pintor em Évora no Tempo de D. Manuel I (Catálogo da Exposição), Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses / Câmara Municipal de Évora, Lisboa/ Évora, 1997. LEITE, Sílvia, A Arte do Manuelino como Percurso Simbólico, Caleidoscópio, Casal de Cambra, 2005. MOREIRA, Rafael, Jerónimos, Verbo, Lisboa, 1987. Pereira, Paulo (Dir.) – História da Arte Portuguesa, 3 Vol.s, 3.ª ed., Lisboa, Temas e Debates, 1999. RÉAU, Louis, Iconographie de L’Art Chrétien – Tome II – Iconographie de la Bible I – Ancient Testament, Pres- ses Universitaires de France, Paris, 1956. RÉAU, Louis, Iconographie de L’Art Chrétien – Tome Second – Iconographie de la Bible II - Nouveau Testa- ment, Presses Universitaires de France, Paris, 1957. RODRIGUES; Dalila, “A Pintura no Período Manuelino” in Paulo Pereira (Dir.), História da Arte Portuguesa, Te- mas e Debates, Lisboa, 1999, Volume 2, pp. 199-277. EL PATRIMONIO ARQUEOLÓGICO DE LA CUENCA DEL ÁGUEDA COMO RECURSO TURÍSTICO: DEL PALEOLÍTICO A LA EDAD MEDIA José Ignacio Martín Benito HISTORIADOR DE ARTE La Organización Mundial del Turismo (OMT) define al turismo cultural como un “tipo de actividad turística en el que la motiva- ción esencial del visitante es aprender, descubrir, experimentar y consumir los atractivos/ productos culturales, materiales e inmateriales, de un destino turístico. Estos atractivos/productos se refieren a un conjunto de elementos materiales, intelectuales, espirituales y emocionales distintivos de una sociedad que en- globa las artes y la arquitectura, el patrimonio histórico y cultural, el patrimonio gastronómico, la literatura, la música, las industrias creativas y las culturas vivas con sus formas de vida, sistemas de valores, creencias y tradiciones”. 1 El desarrollo de este tipo de turismo debe marcarse como objeti- vo principal la sostenibilidad de los bienes culturales. Ello implica hacercompatiblelaconservaciónypreservaciónconsuinserción
  • 41.
    80 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 en el desarrollo social, económico y ambiental de las comunidades locales depositarias de dichos bienes. De esta manera, el turismo cultural deberá estar encaminado a contribuir a mejorar el bienestar de los habitantes del territorio en el que se insertan los bienes patrimoniales, a fomentar el apre- cio y arraigo de la identidad cultural propia y al intercambio transcultural con la de los visitantes. Los territorios de la Raya luso-española tienen una oportunidad en la imple- mentación de políticas de turismo cultural sostenible, orientadas a generar beneficios sociales y económicos, que se traduzcan en la creación de pues- tos de trabajo y ayuden a mantener y desarrollar actividades económicas en unas áreas castigadas por la despoblación. El reconocimiento y declaración por la UNESCO de los sitios arqueológicos de arte rupestre del Valle del Côa (1998) y Siega Verde (2010) como Patri- monio Mundial de la Humanidad supone no solo una oportunidad para el de- sarrollo de estas regiones transfronterizas, sino también el potencial motor de tracción para insertar y sumar otros bienes patrimoniales en la oferta de turismo cultural. Una parte singular lo constituye el patrimonio arqueológico, una de las modalidades del turismo cultural que se ha visto impulsadas en los últimos años (Solsona y Rico, 2014). La Tierra de Ciudad Rodrigo y, en particular, el valle del Águeda cuenta con un importante elenco de restos arqueológicos que van desde el Paleolíti- co hasta la Alta Edad Media-, algunos de los cuales -los menos- han sido promovidos como producto de turismo cultural. Sin embargo, otras muchos podrían también incorporarse. En las páginas que siguen expondremos una relación de estos recursos a lo largo del valle del río Águeda y sus proximidades. El Águeda nace a 1.678 1 . CAMPOS SÁNCHEZ-BORDONA, Francisco (ed.) Cuenca del Águeda. Un territorio para dos países. Valladolid, 2013, p. 9. m. de altitud, en el manantial Puente de los Llanos (Navasfrías), en la sierra de Gata. En su recorrido, de sur a norte, atraviesa gran parte de la Tierra de Ciudad Rodrigo hasta su confluencia con el Duero, en el término de La Fre- geneda, a 125 m. de altitud, después de un recorrido de 144 km. Los princi- palesafluenteslosrecibeporsumargenderecha:RíoFrío,Mayas,Agadones y Burguillos y Agadón, mientras que por la izquierda destacan la Rivera de Azaba y el río Turones. La cuenca tiene una extensión de 2.600 km2, ex- tendiéndose por el suroeste de la provincia de Salamanca, norte de la Cá- ceres y por el oeste del distrito de Guarda. La mayor parte de la cuenca está ocupada por 51 términos municipales de la comarca de Ciudad Rodrigo, 9 de la provincia de Cáceres y 19 freguesías de los concelhos portugueses de Figueira de Castelo Rodrigo, Almeida y Sabugal. Actualmente, sólo una mínima parte del patrimonio arqueológico de la cuenca delÁgueda está integrada en la oferta de turismo cultural. Loscasosson conta- dosysereducen,básicamente,atresmanifestacionesarqueológicas“insitu”:el yacimiento de arte rupestre de Siega Verde (Villar de Argañán), el dolmen de la CasadelMoro(CasilladeFlores)yelcastrodeIrueñaenFuenteguinaldo. SIEGA VERDE Y EL ARTE RUPESTRE DEL VALLE DEL ÁGUEDA Siega Verde El yacimiento de “Siega Verde”, junto a los del valle del Côa, es uno de los conjuntos de arte rupestre paleolítico al aire libre más importantes de la pe- nínsula Ibérica. Los grabados fueron descubiertos en 1998 por el equipo de Manuel Santonja, director del Museo de Salamanca. El enclave está situado
  • 42.
    82 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 a unos 17 km al noroeste de Ciudad Rodrigo, entre los términos municipales de Villar de la Yegua, Villar de Argañán y Castillejo de Martín Viejo. Cuenta con 94 paneles grabados y agrupados en 17 conjuntos, con un total de 540 figuras zoomorfas. Entre los animales representados, predominan sobre todo los cérvidos, bóvidos y caballos (Fig. 1). FIGURA 1. Caballos y bóvidos en Siega Verde. El conjunto fue declarado Bien de Interés Cultural, en la categoría de zona arqueológica, el 25 de septiembre de 1998. Fue incluido en la lista de Patri- monio Mundial de la Humanidad el 1 de Agosto de 2010, en la 34ª reunión de la Convención de la UNESCO celebrada en Brasilia (Brasil) entre los días 25 de Julio y 3 de Agosto. Su número de referencia en la Lista es el 866bis. Y lo hacía como una ampliación de los yacimientos prehistóricos del valle del Côa, en Portugal, declarados Patrimonio Mundial en 1998 (nº 886). En 2018 fue incluido en el Itinerario Cultural del Consejo de Europa ‘Caminos de Arte Rupestre Prehistórico’ con el distintivo de Patrimonio Rupestre Eu- ropeo. Desde 2019 el yacimiento forma parte del proyecto de cooperación transfronteriza ‘Paleoarte, Arte Paleolítico transfronterizo, que se enmarca en el Programa Operativo de Cooperación Transfronteriza España-Portugal 2014-2020 (INTERREG V-a); este proyecto tiene como objetivo la promo- ción de las representaciones paleolíticas del valle del Côa y de Siega Verde. Por otro lado, Siega Verde está incluido dentro del “Pasaporte Rupestre del sudoeste de Europa”, una iniciativa promovida por diversas instituciones de Francia, España y Portugal que tiene como objetivo incentivar el conoci- miento directo de los enclaves con manifestaciones artísticas prehistóricas. El lugar cuenta con un Aula Arqueológica o Centro de interpretación a pie de yacimiento (Fig. 2.), desde donde puede accederse a la visita “in situ” de 14 paneles. En la sala central del aula hay un montaje expositivo que recrea la vida del Paleolítico, con figuras, maquetas y paneles con información didác- tica. Los contenidos se complementan en otra sala con la proyección de un audiovisual.
  • 43.
    84 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 El centro de interpretación fue abierto al público el 12 de abril de 2001 y ges- tionado por Trama S. L. Gestión Cultural (Madrid) hasta noviembre de ese año y por la Agrupación Europea de Interés Económico (AEIE) “Raya Seca” hasta 2005, cuando se hizo cargo el grupo de acción local Asociación para el Desar- rollo de la Comarca de Ciudad Rodrigo (ADECOCIR), mediante la firma de un convenio con los ayuntamientos de Villar de la Yegua, Villar de Argañán y Cas- tillejodeMartínViejo,derivado,asuvez,deotroconvenioqueestasentidades localeshabíanestablecidoconlaJuntadeCastillayLeón,administracióndela que depende en última instancia el yacimiento. En abril de 2022 se ha anun- ciado que la gestión pasará a manos de un nuevo ente, la Fundación Siega Verde, en proceso de constitución por varios ayuntamientos. FIGURA 2. Aula arqueológica de Siega Verde. FIGURA 3. Visitantes contabilizados en 21 años. No obstante, llama la atención el escaso número de personas que visitan anualmente el yacimiento, lo que nos indica que su promoción ha sido insu- ficiente y que es manifiestamente mejorable. En cualquier caso, ningún año ha logrado superar las 6.000 visitas En los 21 años de régimen de visitas, desde que se puso en marcha el Centro o Aula arqueológica, el total de personas contabilizadas ha sido de 83.510. Todo esto contrasta notablemente con el número de personas que visitan el parque arqueológico del valle del Côa, que han ido incrementándose no- tablemente con el transcurso del tiempo. Así, en los cuatro primeros años de creación del parque, las cifras anuales oscilaron entre 20.000 y 25.000 visitantes (Zilhâo, 2000: 63) para ir progresivamente aumentando y alcan- zar los 79.000 visitantes en 2021. Ello se vio favorecido, sin duda, a partir de 2010, con la inauguración del Museu do Côa. AÑO VISITANTES AÑO VISITANTES 2001 2.475 2012 3762 2002 3.344 2013 5.577 2003 2.763 2014 5.981 2004 3.013 2015 5.545 2005 2.687 2016 4.216 2006 3.993 2017 5.372 2007 2.487 2018 5.594 2008 2.654 2019 5.325 2009 3.076 2020 2.687 2010 3.937 2021 4.629 2011 4.393
  • 44.
    86 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Es obvio que ello tiene que ver mucho con la gestión, con los recursos y ca- nales destinados a la promoción, con la dotación de infraestructuras y con los proyectos de investigación que se ha venido haciendo de este Patri- monio Mundial a un lado y otro de la Raya. Mientras el Museu do Côa se ha convertido en un referente nacional y, aún, internacional, Siega Verde, hasta el momento, no ha pasado de ser un simple recurso infravalorado por la ad- ministraciónautonómicaensupolíticadepromoción,investigaciónypuesta en valor del patrimonio cultural. Desde el descubrimiento de los grabados han sido varios los trabajos pre- sentados en jornadas, congresos y revistas especializadas de ámbito cien- tífico y académico. Para el gran público la Junta de Castilla y León editó en 2008 una Guía de visita, centrada en un itinerario de 14 paneles en el entor- no del aula arqueológica. Años más tarde vio la luz Siega Verde. Arte paleo- lítico al aire libre. Guía del yacimiento (Fernández Moreno y Burón Álvarez, 2011). Se han editado también pequeños folletos informativos, algunos de manera conjunta con los grabados del Côa, bajo el título: Vale do Côa. Siega Verde. Sitios de arte rupestre prehistórico o también Côa & Siega Verde. El arte de la luz, información sobre los yacimientos de arte rupestre con rutas de accesos y bienes culturales situados en sus entornos; otros son folletos turísticos de conjunto, como el dedicado por la Diputación provincial de Sa- lamanca al arte rupestre de la provincia (2018), en el que se incluye no sólo Siega Verde, sino también las manifestaciones pictóricas de Las Batuecas. También, con el ánimo de contribuir a la difusión y conocimiento de los gra- bados del Águeda entre el gran público, el Centro de Estudios Mirobrigenses (CEM) editó la monografía Conoce Siega Verde. Arte paleolítico al aire libre (Vázquez y Angulo, 2019). Arroyo de las Almas (La Fregeneda) En septiembre de 2015 se descubrió en “Arroyo de las Almas” (La Fregene- da) un conjunto de arte rupestre cercano a la confluencia de los ríos Águeda y Duero. Allí se han identificado al menos 600 motivos grabados que van desde la Prehistoria hasta época contemporánea. Entre ellos destacan 21 motivos paleolíticos grabados mediante la técnica de la incisión, que han fechado en época Magdaleniense. Las categorías temáticas en las que se agrupan dichos grabados son: zoomorfos (13), signos (7) y un motivo inde- terminable (Vázquez Marcos y Réis, 2019). Redor de Porco (Escalhão, Figueira de Castelo Rodrigo) En este paraje, muy próximo a la desembocadura del río Águeda, en su mar- gen izquierda, el arqueólogo Mário Reis descubrió en 2011 una roca de es- quisto grabada con arte parietal paleolítico, que representa la figura de un uro.. El análisis estilístico y tecno-morfológico permite situar esta figura en el periodo graveto-solutrense, con una cronología aproximada de 25.000 a los 20.000 años BP, más cercano pues a la fase antigua de los grabados del valle del Côa que a los uros de Siega Verde (Batista y Reis, 2011: 16). El Bonete del Cura (Pedrotoro, Ciudad Rodrigo) El Bonete del Cura es un crestón de cuarcitas que domina el encajamiento delarroyodeLaAtalaya,muypróximoalosdólmenesdeRabidayPedrotoro, en el término de Ciudad Rodrigo. El panel presenta diversos motivos, entre ellos antropomorfos y arboriformes (Bécares et alii, 1980). La cercanía de la pequeña necrópolis de Rabida-Pedrotoro, así como los temas represen- tados podría sugerir para el abrigo un carácter cultual de santuario (Fig. 4).
  • 45.
    88 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Rivera de Sexmiro A un km, aproximadamente, de la desembocadura de esta en el río Águeda, C. Vázquez y M. Reis descubrieron un pequeño abrigo distribuidos en pe- queños paneles, un conjunto de grabados, la mayoría abstractos, realizados con incisiones, cuyos descubridores sitúan en una cronología que iría desde la Edad del Hierro hasta la Alta Edad Media (Vázquez y Reis, 2015: 36-37 y 2020: 27). Prao Campillo (El Bodón) y La Pata del Moro (Villar de la Yegua) En el Prao Campillo de El Bodón, en la orilla derecha del arroyo de la Majada Honda, se han localizado seis paneles con grabados rupestres sobre pizarra, FIGURA 4. Pinturas del Bonete del Cura (Pedrotoro, Ciudad Rodrigo). con motivos incisos y, más raramente, piqueteados. En el panel nº 4 desta- ca la presencia de un antropomorfo, “una figura esquemática con un tronco rectangular sobre el que se esbozan los rasgos faciales, el pelo erizado y los brazos en jarra rematados con trazos a modo de dedos muy simples”. La figura parece entroncar con los grabados de Las Hurdes (Sevillano, 1991). En La Pata del Moro de Villar de la Yegua, Manuel Santonja localizó algunos gra- bados:“doshuellasdepie,unaposibleespadayuncuartomotivoimpreciso”, atribuidos al Bronce Medio. De todos estos abrigos con manifestaciones de arte rupestre sólo la esta- ción arqueológica de “Siega Verde” está integrado como producto turístico, mientras que el resto carece, incluso, de señalización. De estos, “El Bonete del Cura” cuenta únicamente con un vallado de protección. EL PATRIMONIO MEGALÍTICO El fenómeno megalítico está bien representado en la Tierra de Ciudad Rodri- go en general y en la cuenca del Águeda en particular, sobre todo los dólme- nes, aunque también en los últimos años se han señalado la proliferación de túmulos y probables menhires, pendientes de trabajos de investigación más intensos. En la cuenca del Águeda, a los trabajos de César Morán (1931, 1935 y 1939); Maluquer (1956), Leisner y Schubart (1964) o Delibes y Santonja (1986) hay que sumar nuevos hallazgos, como el del grupo de dólmenes de Casillas de Flores y diversos túmulos localizados en varios términos muni- cipales (Inventario Arqueológico de Castilla y León. Provincia de Salamanca). El tipo más extendido es el sepulcro de corredor, formado por dos paredes rectas paralelas, con un pasillo de 8 metros en La Casa del Moro (Casillas de
  • 46.
    90 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Flores) o 4,70 en La Navalito (Lumbrales). La cámara, dependiendo de su anchura, pudo cubrirse también con lajas horizontales, como se documenta en la citada Casa del Moro o en Pedra de Anta (Malhada Sorda, (cuenca por- tuguesa del Águeda), o por un sistema de falsa cúpula por aproximación de hiladas, sin descartar el uso de estructuras de cubierta vegetal, combinada con losetas, barro y ramas, para las cámaras de mayor diámetro, como ya advirtió C. Morán en el destruido dolmen de La Nava Cardosa en Sobradillo (Delibes y Santonja, 1986: 71). Algunos de estos, como en El Valle (Ciudad Rodrigo) estuvieron delimitados periféricamente por una línea de piedras (Fig. 5) FIGURA 5. Dolmen del Valle (Ciudad Rodrigo). De todos estos, solamente el monumento de La Casa del Moro de Casilla de Flores ha sido puesto en valor recientemente por la Junta de Castilla y León, mediante una excavación arqueológica y la señalización del monumento. Los trabajos de la señalización orientativa e interpretativo han sido llevados a cabo por la empresa “Vaceo integral de patrimonio S. L.” en 2020. La Junta de Castilla y León también promovió y financió con fondos FEDER los traba- jos de excavación arqueológica dirigidos por el arqueólogo Ángel Palomino. Los resultados de esta excavación fueron divulgados a través de una expo- sición temporal en el Palacio de los Águila de Ciudad Rodrigo en agosto de 2020 bajo el título: Investigaciones en los monumentos megalíticos de la provincia de Salamanca; en paralelo, en este mismo lugar, el día 7 de agosto de ese año se celebró una Jornada divulgativa, con tres conferencias, una de las cuales versó precisamente sobre “El proyecto de recuperación del dol- men de la Casa del Moro, Casillas de Flores, a cargo de Ángel L. Palomino Lá- zaro. La señalización, exposición y jornada se englobaron dentro del proyec- to “Patrimonio Cultural en Común” (PATCOM) del programa INTERREG V-A de colaboración transfronteriza España-Portugal (POCTEP). Actuaciones de puesta en valor y su correspondiente señalización deberían extenderse también a otros monumentos megalíticos, caso del dolmen de la Huerta de las Ánimas de Fuenteguinaldo, Los Castillos de Hurtada (Villar de Argañán), y los conjuntos de El Valle, Rabida-Pedrotoro en Ciudad Rodri- go, este último en un paquete arqueológico que integrara las pinturas rupes- tres del Bonete del Cura.
  • 47.
    92 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 LAS ESTELAS De la Edad del Bronce proceden de la Tierra de Ciudad Rodrigo y, en concreto de la cuenca del Águeda varias estelas. Son estas piezas monolíticas, que se trabajaron para la finalidad de estar hincados en el suelo. Generalmente presentanunasolacaratrabajada,dondesealudeexplícitaoimplícitamente a un personaje, del que se representa una parte del cuerpo o elementos de adorno(tocados,collares,vestido…)uobjetospersonales(armas).Laspiezas responden a una variada tipología, que podemos resumir en estelas antro- pomorfas, estelas menhir y estelas de guerrero. FIGURA 6 E 7. Ídolo-estela de Lerilla (Zamarra) en la Casa de la Cultura de Ciudad Rodrigo & Estela de Robleda Las estelas antropomorfas, “ídolos-estela” o “estelas-guijarro” se reparten especialmenteporelcentro-oestedelaPenínsulaIbérica,porelterritoriode las actuales provincias de Salamanca, Cáceres y Badajoz, así como en el dis- trito de Guarda en la Beira portuguesa. La mayor concentración de estas pie- zas se encuentra en ambas vertientes de la Sierra de Gata. De la cuenca del Águeda proceden los hallazgos de Ciudad Rodrigo, Lerilla (Zamarra) (Fig. 6), Agallas y Robledillo de Gata (Martín Benito y Martín Benito, 1994: 105-114). Las estelas de guerrero son losas de forma irregular, que presentan grabada una de sus caras con la representación esquemática de un personaje, acom- pañado de una panoplia militar (escudo, lanza, espada, casco…), acompaña- do de objetos personales (peine, espejo, lira) e, también, un carro. En nuestro territorio destacan las piezas de Robleda (Martín Benito, 2010) (Fig. 7) y San Martín de Trevejo (García Figuerola, 1982). Buenapartedeestaspiezasnorecalanactualmenteenelterritorioyforman parte de colecciones de varios museos, en un contexto deslocalizado del territorio de origen. Ocurre así con el denominado ídolo de Ciudad Rodrigo, perteneciente a la colección del Museo Arqueológico Nacional, con sede en Madrid.Porsuparte,elídolo-esteladeAgallasestáexpuestaenelMuseode Salamanca, mientras que el de Robledillo de Gata está en el Museo de Cá- ceres. Otras piezas, sin embargo, se custodian en sus municipios de origen, como las estelas de guerrero de San Martín de Trevejo y la de Robleda. Por su parte la estela procedente del castro de Lerilla (Zamarra) (Rada, 1968- 1969: 185), se expone en la Casa Municipal de Cultura de Ciudad Rodrigo. Así pues, únicamente las piezas de Lerilla, San Martín de Trevejo y Robleda son recursos turísticos localizados en el territorio objeto de estudio.
  • 48.
    94 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 LOS CASTROS Los espigones fluviales formados por arroyos que vierten sus aguas el río Águeda son lugares que han condicionado el establecimiento de hábitats castreño, cuya defensa natural de pronunciados escarpes se reforzó por sistemas de defensa artificial como murallas, fosos o piedras hincadas. No pretendiendo ser exhaustivo en esta relación, conviene señalar algunos de ellos, con bastantes posibilidades de ser puestos en valor e integrarse en ru- tas de senderismo y en lugares aptos para la visita. De todos ellos, solamen- te se han realizado labores de limpieza, acondicionamiento y señalización en el castro de Irueña en Fuenteguinaldo, como veremos. No obstante, existen otros lugares próximos al Águeda con óptimas po- sibilidades de adecuarse para la visita y el turismo cultural. Es el caso del El Castillo de Herguijuela, documentado en el I Hierro, por la serie de ma- teriales cerámicos tipo Soto, pero cuya ocupación podría llevarse hasta el Calcolítico, por la presencia de hachas pulimentadas e industria de sílex (Martín Benito y Martín Benito, 1994: 119). Los Castillejos de Zamarra es otro castro en espigón fluvial, sito en el inter- fluvio formado por el río Badillo y el de las Vegas, con muralla de pizarra y granito en seco, de una anchura de 4 m. También en el término de Zamarra nos encontramos con el castro de Lerilla. Su ocupación, que se remonta a la Edad del Bronce, precisa de un proyecto de investigación sobre la perdu- ración de su poblamiento protohistórico, romano y visigodo, pues de aquí proceden tanto el ídolo-estela de su nombre de la Casa de Cultura de Ciudad Rodrigo, como decenas de pizarras numerales guardadas en el Museo cate- dralicio de esta ciudad (Martín Viso, 2018 a y b). FIGURA 8. Foso en el castro de La Plaza (Gallegos de Argañán). El propio emplazamiento donde se ubica Ciudad Rodrigo fue, probablemen- te, otro emplazamiento castreño. Muy alterado por las sucesivas ocupacio- nes romana y medieval, la presencia de esculturas zoomorfas (el verraco de la plaza del Castillo y otro aparecido al hacer unas obras en el interior de la ciudad -en paradero desconocido-), así como el hallazgo de cerámica de tra- dición indígena, nos remiten a una ocupación prerromana. El castro de “La Plaza” (Gallegos de Argañán) está delimitado por los barran- cos formados por el encajamiento del río Águeda –al noroeste- y sus afluen- tes, los arroyos de Regajal y Zamarreño. La defensa natural se completa con una estructura artificial compuesta por una barrera de piedras hincadas, un doble foso y muralla. El castro tiene dos recintos, ambos amurallados. La en- trada tiene lugar en esviaje, muy desfigurada por el derrumbe reforzada por un bastión circular adosado.
  • 49.
    96 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Una parte del perímetro está defendido por dos fosos que discurren cir- cundando la muralla por la parte occidental (Fig. 8) y por el mediodía, que desaparece cuando contacta con el bastión. En los sectores suroccidental y meridional el foso vuelve a aparecer, excavado a veces en la misma roca del sustrato. Los materiales cerámicos de La Plaza documentan la ocupación en la II Edad del Hierro y, posteriormente, en época romana (Martín Benito y Martín Benito, 1994:126-127). No ha habido intervención arqueológica programada en el yacimiento ni consta señalización alguna, pese a lo cual se le cita en alguna guía turística en internet, como el observatorio cultural de la frontera de Terra Duero, Tu- rismo y Patrimonio y en algunas rutas de senderismo como la GR 80 “Ciuda- des amuralladas”. Etapa 5. Gallegos de Argañán – Frontera con Portugal. En noviembrede2012fuepresentadaparasudebateenlaComisióndeCultura de las Cortes de Castilla y León una iniciativa para poner en valor el castro, pero fue desestimada en la sesión de 4 de febrero de 2013. En el término de San Felices se localizan otros castros: El Lombo del Castillo, ubicado en un cerro en el interfluvio del Águeda con la Rivera de la Granja y con una extensión de 2,2 ha. Con defensas naturales hacia el este, el sur y el oeste, el acceso al castro tiene lugar por el norte, flanco este en el que se aprecia el derrumbe de una muralla construida por piedras de granito. En la ficha del Inventario arqueológico provincial se establece una cronología desde el Bronce Antiguo al Hierro I. Otro castro es el de Castelmao, que se ubica en un promontorio en la con- fluencia del arroyo Alijón con el río Águeda. El flanco norte, más accesible, se defiende por una potente muralla construida con piedras de granito, de la que se conservan algunos tramos. La zona exterior de la entrada se refuerza Fig. 9. La yegua (Irueña, Fuenteguinaldo). por un campo de piedras hincadas. Como otros castros del territorio fue pos- teriormente romanizado, como lo indican los restos de tégula y terra sigillata hispánica tardía hallados en su interior. La puesta en valor del castro de Irueña (Fuenteguinaldo) Se trata de uno de los castros de mayores dimensiones de la cuenca agaten- se, con una superficie aproximada de 14 hectáreas. Su defensa natural for- mada por el espigón formado por la intersección del arroyo del Rolloso con el Águeda y sus pronunciados escarpes, se vio reforzada por un sistema de fortificación compuesto por murallas, taludes y foso (Gómez Moreno, 1967: 34-36; Maluquer, 1956: 63). La vida del castro discurre desde la época prer- romana hasta la Alta Edad Media. De época vetona se conocen tres figuras zoomorfas procedentes del castro (González Rivero, 2018: 77).
  • 50.
    98 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 El de Irueña es el único castro del Águeda en el que se han llevado a cabo varias intervenciones para su puesta en valor, de cara a su acondiciona- miento para la visita turística. Estas labores, desarrolladas en los últimos seis años con fondos INTERREG España-Portugal, comenzaron tras la re- dacción de un proyecto global de actuaciones encargados por la Junta de Castilla y León en 2014. Las actuaciones han consistido en el desbroce de varios sectores, en los que intervino también el ayuntamiento de Fuente- guinaldo, así como en la realización de sondeos arqueológicos realizados en 2016-2017 y 2018-2019, en la limpieza de las excavaciones que hizo Domingo Sánchez en 1933-1934, así como en la reconstrucción y erección de la escultura pétrea de “La yegua” (Jiménez, Rupidera y Prieto, 2020: 63- 65) (Fig. 9). Recientes trabajos de aplicaciones LiDAR y SIG a la topogra- fía arqueológica del castro, llevados a cabo por la Universidad Autónoma de Madrid han reconstruido la planta del castro y su ampliación en época romana, así como han conseguido detectar un recinto cuadrado de 370 m. de lado, que los autores sugieren podría tratarse de un campamento romano (Berrocal et alii, 2017: 212). Al noroeste del yacimiento existen los restos de una presa romana que suministraba agua al asentamiento (Gon- zález Rivero, 2018: 77 y Morales Paíno, 2018). En 2019 se estableció una ruta para la visita con señalización de un sendero marcado por balizas de 1,8 km, que permite acercarse a los principales ele- mentos arqueológicos, al tiempo que se editó un tríptico informativo. En la promoción de este enclave arqueológico interviene de forma activa la socie- dad civil, a través de la Asociación de Amigos del Castro de Irueña, entidad constituidael25de agostode 2015. Suobjetivoprincipaleselconocimiento, divulgación y puesta en valor del yacimiento, para lo que ha venido organi- zando y promoviendo diversos tipos de actividades, entre ellas varias jorna- das técnicas y visitas guiadas, cuya información puede seguirse a través de las redes sociales. Materiales reutilizados procedentes del castro de Irueña (basas y fustes) pueden encontrarse en el casco urbano de Fuenteguinaldo, en concreto en laconstruccióndelascrucesopicotasdelcementerio,delaermitadelCristo y de la Villa (González Rivero, 2018: 75). Es mucho todavía lo que queda por investigar y difundir en Irueña. Los tra- bajos de investigación deberían integrar también la puesta en valor del re- cinto campamental y de la presa romana, así como la instalación de un aula arqueológica monográfica o centro de interpretación sobre los castros del Águeda en la localidad de Fuenteguinaldo. Los verracos Estas conocidas y populares esculturas zoomorfas, ligadas al poblamien- to prerromano, están bien representadas en la Tierra de Ciudad Rodrigo, si bien alguna de ellas no es posible visitarlas en el propio territorio. Es el caso del verraco de Barquilla, que desde los años cincuenta del pasado si- glo se encuentra en una casa particular en Villimer (León). De los verracos de Gallegos de Argañán, uno de ellos pertenece a la colección del Museo de Salamanca y otro se custodia en el lapidario del convento de San Francis- co de Ciudad Rodrigo. Otros ejemplares accesibles a la visita son el verraco de Ciudad Rodrigo, ubicado actualmente en la plaza del Castillo (Fig. 10), el burro de San Antón en San Felices de los Gallegos y la ya citada “yegua” de Irueña (Fuenteguinaldo).
  • 51.
    100 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 FIGURA 10. Verraco en la plaza del Castillo de Ciudad Rodrigo. FIGURA 11. Lapidario romano - capilla de los Águila, convento de S. Francisco, Ciudad Rodrigo. LA ROMANIZACIÓN En el propio castro de Irueña se pueden visitar los restos arqueológicos de los que se conoce con el nombre de “El Palacio”, integrados por varias basas y fustes de columnas de época romana. Del entorno del castro procede un miliario que fue hallado en el Molino del Sobrao en el transcurso de los tra- bajos de la construcción de la presa y llevado al Museo de Salamanca. Dentro del lapidario romano visitable en la Tierra de Ciudad Rodrigo y, en concreto en la cuenca del Águeda, destacan las inscripciones que se expo- nenenelmonasteriodeSanFranciscodeCiudadRodrigo(Fig.11),entreellas un ara votiva a Júpiter y una lápida funeraria, al parecer traída desde Irueña y dedicada a Aper Acceicum (Martín Valls, 1965). También en el muro de uno de los contrafuertes de la capilla mayor de la iglesia de Gallegos de Argañán puede verse un ara dedicada a Júpiter. Otras inscripciones romanas pueden verse en el Museo de la Catedral civitatense, entre ellas un ara en honor de Domiciano. En una casa particular de Villar de la Yegua se guarda una es- pléndida estela romana, decorada con un motivo soliforme y la representa- ción de un ciervo (Martín Valls, 1982). Las Tres Columnas y término augustal de Ciudad Rodrigo El monumento conocido como Las Tres Columnas, que desde la década de actualmente se encuentra en la carretera de Salamanca, después de haber pasado por varios emplazamientos (Plaza Mayor y Campo de Toledo) y que son el emblema o escudo de Ciudad Rodrigo, son los restos probablemente de un edificio público de época romana. Asociadas a ellas y empotrado en el basamento está un término augustal que fijaba los límites entre varias ciudades: Mirobriga, Bletisama y ¿Valuta? (Martín Valls, 1982).
  • 52.
    102 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Villa romana de Saelices el Chico Los primeros hallazgos arqueológicos tuvieron lugar a comienzos de la década de los ochenta del siglo pasado (Martín Benito y Martín Benito, 1994: 162-164). Entre agosto de 1995 y febrero de 1996 tuvieron lugar las primeras exca- vaciones arqueológicas, impulsadas por el ayuntamiento de Saelices, que documentaron la existencia de una ocupación romana alto imperial (s. I-II) y una villa romana tardía (siglos III-IV). Las excavaciones pusieron al des- cubierto un área residencial pavimentada con mosaicos geométricos y de- corada con estucos pintados, así como un jardín con un gran edificio absidal, con tres pequeñas exedras semicirculares y otras dos cuadrangulares -lo que ha sido interpretado como un posible ninfeo, un espacio semicircular columnado con bancada corrida. FIGURA 12. Mosaico romano en Saelices el Chico. Hallazgos fortuitos y excavaciones científicas documentaron la existencia de una gran villa romana de peristilo con habitaciones nobles decoradas con opus signinum mosaicos geométricos y figurativos (Ariño, 2011: 208 y 2018). Entre estos últimos destaca una gran sala decorada con el tema de Belerofonte y la Quimera (Regueras y Pérez Olmedo, 1997: 61-65) (Fig. 12). La villa fue declarada Bien de Interés Cultural el 15 de enero de 1997. El ayuntamiento de Saelices intentó la promoción y puesta en valor de la villa, llegando a acuñar logotipo. En diciembre de 2007 la Fundación del Pa- trimonio Histórico de Castilla y León firmó un convenio de colaboración con el ayuntamiento de Saelices el Chico encaminado a la elaboración de una Memoria general de actuaciones, para analizas las posibilidades de investi- gación, recuperación y difusión de la villa romana. En 2007 y en 2009 se retomaron los trabajos de investigación y exca- vación arqueológica gracias a la financiación por parte del Ministerio de Fomento con cargo al programa del 1 % Cultural y a la propia aportación municipal. El ayuntamiento intentó la implicación de la Junta de Castilla y León en la revalorización de la villa, sin conseguirlo, con lo que los restos exhumados estaban avocados a ser soterrados. Las Cortes de Castilla y León debatieron sobre la firma de un acuerdo de colaboración con el ayun- tamiento de Saelices el Chico para la puesta en marcha del plan de ac- tuaciones de revalorización de la villa romana e impedir su soterramiento, pero la propuesta fue desestimada, con lo que los sueños del ayuntamien- to se esfumaron. Ante la falta de continuidad de los trabajos, los restos ar- queológicos se soterraron ese mismo año.
  • 53.
    104 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 No por ello el ayuntamiento de la localidad ha renunciado a sus aspiracio- nes,participandoenalgunasactividadesconjuntasconotrasvillasromanas, como la Festa do mosaico/ Fiesta del mosaico, de Idanha-a-Velha a San Pedro del Arroyo, del 13 al 28 de septiembre de 2021, en la que se incluían los mosaicos de la villa de Saelices. Se trata de un festival transfronterizo lanzado por MosaicoLab.Pt dentro de las iniciativas enmarcadas en la Co- munidad de Trabajo entre la Región Central de Portugal y la Comunidad de Castilla y León en el contexto del proyecto CenCyl Frontera, Programa Ope- rativo INTERREG V-A España-Portugal (2014-2020), con el apoyo del Fon- do Europeo de Desarrollo Regional (FEDER); en el marco de esta actividad, y con el fin de involucrar a públicos diferentes, se enmarcaron talleres de fa- bricación de mosaicos romanos con la finalidad de descubrir el Patrimonio Cultural y los espacios que lo rodean. Esta Fiesta del mosaico formó parte de los expositores que participaron en AR&PA, bienal ibérica de Patrimonio Cultural, que se celebró en la ciudad portuguesa de Leiria del 14 al 17 de oc- tubre de 2021. LA ALTA EDAD MEDIA Las tumbas excavadas en roca Una de las manifestaciones culturales altomedievales bien representadas en laTierradeCiudadRodrigosonlastumbasexcavadasenlaroca,cuyacronolo- gíaoscilaentreelsigloValX.Estossepulcrosselocalizanprincipalmenteaun lado y otro de La Raya, tanto de manera individual o agrupadas, formando en algunos casos pequeñas necrópolis. Los trabajos de Rubén Rubio Díez (2015 y 2018: 291) documentan decenas de estos sepulcros en el occidente de la FIGURA 13. Tumba excavada en roca. La Genestosa (Casilla de Flores). tierra civitatense, en los campos de Robledo y Argañán, aunque también es- tán presentes en el Abadengo. En el campo de Robledo los testimonios de documentanenNavasfrías,ElPayoysobretodo,enCasillasdeFlores(Fig.13). EnelcampodeArgañándestacanlastumbasdeLaAlberguería,LaAlamedilla, Villar de Ciervo, Fuentes de Oñoro, El Gardón (Aldea del Obispo), La Alameda del Gardón, Puerto Seguro. En El Abadengo se localizan, entre otros términos, en Sobradillo, San Felices de los Gallegos y La Redonda. En territorio portugués continúa el mismo tipo de paisaje cultural, localizán- dose varios conjuntos en la comarca ribacudana y en terrenos de la cuenca del Águeda, como sucede en Verdugal (Malhada Sorda), Cabeço de Milreiro
  • 54.
    106 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 (Almofala) o Freineda, en el concelho de Almeida), (Martín Viso, 2014: 24). A pesar de este valioso potencial arqueológico, este patrimonio no está señalizado y únicamente viene recogido ocasionalmente en páginas locales y/o rutas de senderismo, sin que las administraciones las hayan integrado en la oferta de turismo cultural. Pizarras visigodas Otro elemento arqueológico altomedieval son las pizarras escritas de época visigoda, bien representadas en las provincias de Salamanca, Ávila y norte de Cáceres (Velázquez 2018: 50). Entre estas destacan las denominadas de “tipo Lerilla”, en las que se han escrito signos numerales (Martín Viso, 2018 b). El Museo diocesano y catedralicio de Ciudad Rodrigo guarda una coleccióndepizarrasnumeralesvisigóticasprocedentesdelcastrodeLerilla, que pertenecieron a la colección del canónigo don Serafín Tella (Cid Cebrián, 2018: 334-338). CONCLUSIONES La oferta de turismo cultural ligada al patrimonio arqueológico en la cuenca del Águeda es actualmente muy escasa. La puesta en valor de este patri- monio como recurso de turismo cultural es una experiencia relativamente reciente, claramente vinculado al descubrimiento de los grabados paleolíti- cos de Siega Verde en 1998 y su reconocimiento como Patrimonio Mundial de la Humanidad por la UNESCO en 2010. Cosa distinta es el impacto que esta puesta en valor y su difusión pueda tener en el sector turístico de la comarca mirobrigense, habida cuenta del poco peso y del estancamiento en lo referente al número de visitantes al yacimiento, que no llega a los 4.000 por término medio en lo que va de siglo. Las cifras, muy alejadas de las que se producen en las estaciones del parque arqueológico del Vale do Côa, deberían llevar a las administra- ciones con competencias en materia de turismo, así como a los agentes y organizaciones económicas y sociales del territorio a replantearse se- riamente un proyecto integrado de gestión, que deberá aunar investiga- ción, divulgación, puesta en valor y promoción turística del yacimiento. Ello pasa, sin duda, por tener como referencia lo caminado y conseguido en torno al Museo y parque arqueológico del Vale do Côa. De este modo, si de verdad se quiere fortalecer el turismo cultural en torno a Siega Verde y a otros elementos patrimoniales arqueológicos de la Tierra de Ciudad Rodrigo, será preciso la puesta en marcha de un proyecto que contemple la creación y dotación de un centro museístico y parque arqueológico del Valle del Águeda en Ciudad Rodrigo (PAVA), donde además del protagonis- mo del arte rupestre, tengan cabida también otras manifestaciones cultu- rales bien representadas en el territorio, como son el fenómeno megalítico, los castros y el paisaje del poblamiento que representan las tumbas exca- vadas en la roca. Las posibilidades del arqueoturismo multiplicará la oferta de turismo cultu- ral en el territorio. En la conservación y en la puesta en valor de los recursos arqueológicos deberán implicarse las poblaciones depositarias de los bienes culturales, cultivando, asumiendo y proyectando el legado recibido de las generaciones que les precedieron. Justo es que quien ha mantenido y cuida dicho legado, sea capaz también de proyectarlo e insertarlo de manera sostenible en los
  • 55.
    108 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 intercambios culturales, faceta esta en la que intervienen los movimientos de población generados en torno al turismo. Así pues, el arqueoturismo y los bienes que lo integran podrán orientarse a incrementar y consolidar la oferta de turismo cultural; de esta manera se po- drácontribuiramejorarlariquezayelbienestareconómicodeloshabitantes del territorio y, con ello, a fijar población a ambos lados de la Raya. BIBLIOGRAFÍA Ariño, Enrique: “La cultura material de los asentamientos rurales del valle del Duero entre los siglos V y VIII: el final del reino visigodo y el origen de al-Andalus”. 711, arqueología e historia entre dos mundos. Madrid. Museo Arqueológico Regional. Zona arqueológica 15, 2, 2011, pp. 205-224. Ariño, Enrique: “La villa romana de Saelices el Chico (Salamanca)”. Fortificaciones, poblados y pizarras. La Raya en los inicios del Medievo. Palacio de los Águila, marzo 2018/ junio 2019. Ciudad Rodrigo, 2018, pp. 78-83. Berrocal-Rangel, Luis; Paniego, Pablo; Ruano, Lucía y Manglano, Gregorio: “Aplicaciones LiDAR a la topogra- fía arqueológica: El Castro de Irueña (Fuentguinaldo, Salamanca)”. CuPAUAM, 2017, pp. 195-215. Baptista, Antonio Marthino y Reis, Mário: “La roca gravada de Redor do Porco. Unmovo sitio com parte pa- leolítica de ar libre no rio Águeda (Escalhão, Figueira de Castelo Rodrigo)”. Coavisão, nº 13, 2011, pp. 15-20. Bécares Pérez, Julián; Rivero de la Higuera, Cleofé; Gómez Fuentes, Alejandro y Civieta Rojas, Carlos: “Pin- turas rupestres esquemáticas del Bonete del Cura (Ciudad Rodrigo, Salamanca). Zephyrus, vol. 30-31. Sala- manca, 1980, pp. 131-146. Cid Cebrián, José Ramón: “Don Serafín Tella Gallego, el cura arqueólogo”. Fortificaciones, poblados y pizarras. La Raya en los inicios del Medievo. Palacio de los Águila, marzo 2018/ junio 2019. Ciudad Rodrigo, 2018, pp. 330-346. Delibes,GermánySantonja,Manuel:ElfenómenomegalíticoenlaprovinciadeSalamanca.Salamanca,1986. Fernández Moreno, José Javier y Burón Álvarez, Milagros (eds): Siega Verde. Arte paleolítico al aire libre. Guía del yacimiento. Junta de Castilla y León. Salamanca, 2011. García Figuerola, Miguel: “Nueva estela decorada del tipo II en San Martín de Trevejo (Cáceres)”. Zephyrus, vol. 34-35, Salamanca, 1982, pp. 173-180. Gómez Moreno, Manuel: Catálogo monumental de España. Provincia de Salamanca. Madrid, 1967. González Rivero, Ángel: “El castro de Irueña en época romana”. La Raya en los inicios del Medievo. Palacio de los Águila, marzo 2018/ junio 2019. Ciudad Rodrigo, 2018, pp. 70-77. Jiménez, Manuel; Rupidera Giraldo, Ana y Prieto Prat, Margarita: “Recientes actuaciones arqueológicas en el yacimiento de Irueña (Fuenteguinaldo)”. Estudios Mirobrigenses, 7 (2020), pp. 61-62. Leisner, Vera y Shubart, Hermanfrid: “Dólmenes de Ciudad Rodrigo”. Zephyrus, vol. 15. Salamanca, 1964, pp. 47-59. Maluquer de motes, Juan: Carta arqueológica de España: Salamanca. Servicio de investigaciones arqueológi- cas. Diputación provincial. Salamanca, 1956. Martín Benito, José Ignacio y Martín Benito, Juan Carlos: Prehistoria y romanización de la Tierra de Ciudad Rodrigo. Salamanca, 1994. Centro de Estudios Mirobrigenses. Martín Viso, Iñaki: “Las pizarras de Lerilla”. Fortificaciones, poblados y pizarras. La Raya en los inicios del Me-
  • 56.
    110 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 dievo. Palacio de los Águila, marzo 2018/ junio 2019. Ciudad Rodrigo, 2018 (a), pp. 298-312. Martín Viso, Iñaki: “Las pizarras de Lerilla”. Fortificaciones, poblados y pizarras. La Raya en los inicios del Me- dievo. Palacio de los Águila, marzo 2018/ junio 2019. Ciudad Rodrigo, 2018 (b), pp. 314-329. Martín Valls, Ricardo: “Investigaciones arqueológicas en Ciudad Rodrigo”. Zephyrus, vol. 16-17. Salamanca, 1965, pp. 71-98. Martín Valls, Ricardo: “Estela romana de Villar de la Yegua (Salamanca)”. Zephyrus, vol. 24-25. Salamanca, 1982, pp. 214-217. Martín Valls, Ricardo: “Las Tres columnas de Ciudad Rodrigo”. Libro del Carnaval 1982, pp. 211-212. Morales Paíno, Francisco Javier: “Testimonios latentes de un pasado remoto. El Envarysal de Reloso”. Estu- dios Mirobrigenses V, Salamanca, 2018, pp. 11-28. Morán Bardón, César: “Excavaciones en dólmenes de Salamanca y Zamora”. Junta Superior de Excavaciones Arqueológicas, nº 113. Madrid, 1931. Morán Bardón, César: Excavaciones en dólmenes de Salamanca y Zamora”. Junta Superior de Excavaciones Arqueológicas, nº 135. Madrid, 1935. Morán Bardón, César: Los dólmenes de Salamanca”. Las Ciencias, año IV, vol. 4. Madrid, 1939. Rada García, Eloy: “Estela antropomórfica existente en el Instituto nacional de Enseñanza Media de Ciudad Rodrigo”. Zephyrus, vol. 19-20. Salamanca, 1968-1969, p. 185. Regueras Grande, Fernando y Pérez Olmedo, Esther: (1997). Mosaicos romanos de la provincia de Salaman- ca. Arqueología en Castilla y León, 2. Junta de Castilla y León,1997. Reis, Mario y Vázquez Marcos, Carlos: “Arte rupestre en la frontera hispanoportuguesa: Cuenca del río Águe- da”. Homenaje a Rodrigo de Balbín Behrmann, 205, Arpi 03 Extra, 2015, pp. 32-43. Rubio Díez, Rubén: Arqueología, paisaje y territorio postromano. Las tumbas excavadas en roca en el occi- dente del campo de Ciudad Rodrigo (Salamanca). Centro de Estudios Mirobrigenses. Salamanca, 2015. Rubio Díez, Rubén: “Las tumbas excavadas en la roca: una evidencia del paisaje rural postromano”. Fortifica- ciones, poblados y pizarras. La Raya en los inicios del Medievo. Palacio de los Águila, marzo 2018/ junio 2019. Ciudad Rodrigo, 2018, pp. 286-295. Sevillano San José, Mª Carmen: Grabados rupestres de la comarca de Las Hurdes (Cáceres). Salamanca, 1991. Solsona Monzonís, Javier y Rico Cánovas, Elisa: “Patrimonio arqueológico in situ: desarrollo y turismo. En El pasado en su lugar: Patrimonio arqueológico, desarrollo y turismo / coord. por Jaime Vives-Ferrándiz Sán- chez y Carles Ferrer García, 2014, pp. 29-62. Vázquez Marcos, Carlos y Angulo Cuesta, Javier: Conoce Siega Verde. Arte paleolítico al aire libre. Ciudad Ro- drigo, 2019. Centro de Estudios Mirobrigenses. Vázquez Marcos, Carlos: “Arroyo de las Almas (La Fregeneda, Salamanca): un nuevo sitio con arte paleolítico al aire libre”. Trabajos de Prehistoria, 76, n.º 1, enero-junio 2019, pp. 138-146. Vázquez Marcos, Carlos y Reis, Mario: “La rivera de Sexmiro (Sexmiro, Villar de Argañán, comarca de Ciudad Rodrigo): un nuevo yacimiento con arte rupestre en la cuenca del Águeda”. Estudios Mirobrigenses, VI, pp. 15-28. Zilhâo, Joâo: La puesta en valor del arte rupestre del valle del Côa (Portugal). Trabajos de Prehistoria, 57, nº 2, 2000, pp. 57-64. Velázquez, Isabel: “Las pizarras visigodas: escrituras y cultura”. Fortificaciones, poblados y pizarras. La Raya en los inicios del Medievo. Palacio de los Águila, marzo 2018/ junio 2019. Ciudad Rodrigo, 2018, pp. 48-77.
  • 57.
    112 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 FIGURA 1. Entrevistas em Escarigo. FIGURA 2. João E nas entrevistas em Escarigo. FOTOGRAFIAS DE RENATO ROQUE Entre 28 de setembro e 3 de outubro, estivemos, com o nosso projeto Um Ponto No Conto, em Escarigo, Figueira de Castelo Rodrigo, no âmbito do II Encontro Transfronteiriço de Património (organização RIBACVDANA - As- sociação de Fronteira para o Desenvolvimento Comunitário e associação cultural Conociendo las Arribes) a identificar sítios de significância cultural e a recolher histórias a eles associados. O intuito deste projeto é o de preser- var a memória coletiva das diferentes comunidades da Beira Interior, divul- gando-acomoinstrumentodeinterpretaçãodopatrimónio,emplataformas digitais, num formato escrito e audiovisual, e em atividades culturais, como exposições e visitas guiadas. No caso de Escarigo, gravámos entrevistas com vários habitantes e organizámos um passeio, no qual, atuando como Os Sítios de Significância Cultural em Escarigo Guilherme Calado e Vanessa H. Ribeiro INVESTIGADORES, UM PONTO NO CONTO
  • 58.
    114 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 mediadores, apresentámos as histórias, vivências e tradições que nos ti- nham sido transmitidas. Tendo como referência The Burra Charter – 2013, o manual de práticas de conservação do património adotado pelos ICOMOS australiano, em 1979, significância cultural é o valor estético, histórico, científico, social ou espiri- tual para as gerações passadas, presentes e futuras. Esse valor materializa- -se no próprio sítio, quaisquer que sejam as suas características (elemento cultural ou natural, grande ou pequeno, pode ser, por exemplo, um caminho ou espaço de convívio social), e no seu ambiente, utilização, associações, significados, registos e sítios e objetos relacionados. Se este conceito e o The Burra Charter surgem como uma necessidade de adaptar as práticas de conservação de sítios de património ao contexto australiano, caracterizado por formas de património cultural opostas ao padrão europeu de estrutura construída e tangível, eles são-nos úteis hoje, mesmo na Europa, como ins- trumentos de atribuição de valor a sítios não identificados pelos diferentes agentes legitimadores do património, sejam eles entidades públicas e aca- démicas, redes de promoção do património ou outros. São ainda úteis como potenciadores de melhores práticas de conservação em sítios já identifica- dos. A participação das comunidades locais na identificação, conservação, interpretação e gestão destes sítios é essencial, por causa das complexas cadeias que neles ligam material e imaterial. Em Escarigo, entrevistámos seis habitantes, falámos com mais alguns mo- radores e naturais da terra e contámos com a ajuda de uma mediadora para nos apresentar a nós e aos nossos objetivos. Esta povoação do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo fica a quatro qui- lómetrosdeLaBouza,provínciadeSalamanca,eamenosdeumquilómetro da fronteira, que aqui é marcada pela Ribeira de Tourões. Tem atualmente menos de cinquenta habitantes, mas no início do século passado era habi- tada por mais de quinhentas pessoas e, até ter sido arrasada pelas tropas espanholas, em 1642, durante a Guerra da Restauração, teria sido uma pe- quena Lisboa, tal a pujança económica que ostentava e, parafraseando as MemóriasParoquiaisde1758,aquantidadedegentedistintaqueapovoava. O rico património arquitetónico, representado pela Igreja Matriz, pelas cape- las e pelos exemplos de cantaria, que adornam várias habitações da povoa- ção, parece provar materialmente esta anterior grandeza. É, precisamente, este património que é realçado e mencionado em fontes tão díspares como o website da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo ou a Viagem a Portugal, de José Saramago. Sobre os vestígios desse passado glorioso, como os diferentes traba- lhos de cantaria em casas, o nicho manuelino e as pedras trabalhadas em muros, Maria de Lurdes F., 81 anos, natural de Escarigo, e Regina N., 72 anos, natural de Vermiosa, Figueira de Castelo Rodrigo, disseram-nos que quando eram mais novas aquilo só era interpretado como material de construção, mas que hoje notam que são bastante fotografados pelos vi- sitantes. Mencionaram, ainda, que se acredita que existe um túnel a ligar o nicho manuelino ao Maralhão, um lugar com campos agrícolas que se estende para lá do cruzamento de saída para Almofala, Figueira de Castelo Rodrigo, e La Bouza. De acordo com o que foi transmitido pelas gerações anteriores a estas duas informantes e a João E., 92 anos, natural de Esca- rigo, a terra estender-se-ia, no passado, do Maralhão até à Capela de São
  • 59.
    116 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Simão, que fica no topo de uma colina sem casas, a sudeste. Para o nosso terceiro informante, este fato pode, também, ser comprovado pelas pedras que compõem os muros rurais no Maralhão. Constitui João E. um tipo de informante peculiar, pois é um apaixonado pela história da sua terra e arquiva tudo o que encontra escrito sobre ela. Nes- sa medida, aquilo que nos contou sobre a história da sua terra não lhe foi transmitido pelos pais, ambos trabalhadores rurais e analfabetos, mas pe- las leituras que fez. Usando-as como referência, afirmou-nos que a Rua do Castelo e a Rua da Costa do Castelo indicariam um desaparecido castelo em Escarigo, e que o nome da terra viria de um primeiro habitante chamado Escaricus, cuja face teria sido insculpida numa pedra nas traseiras da Igreja Matriz. Mas até que ponto podemos assumir como sítios de significância cultural para a comunidade estes dois últimos casos, se eles aparecem pri- meiramente como citações? Se os sítios do Maralhão e da Capela de São Simão foram sempre referidos como prova da veracidade da expressão po- pular “Escarigo só não foi Lisboa por um grão de trigo”, o nicho manuelino, a cantaria, o possível castelo antigo e a origem do nome só surgiram quando relacionados com fontes de validação externa – visitantes, iniciativas au- tárquicas de promoção do património e fontes bibliográficas. Neste sentido, podemos afirmar que os dois primeiros sítios têm significância cultural para a comunidade enquanto os segundos possuem valor histórico e/ou estéti- co, sem integrarem a memória coletiva. No entanto, e porque a cultura é um organismo em permanente mutação, podem vir a integrar no futuro essa lista de sítios de significância cultural por via do processo institucional em curso de divulgação do património escariguense, que torna cada vez mais presentes os elementos diferenciadores e atrativos de Escarigo. De maneira a verificar a influência deste processo institucional nos nossos informantes questionámo-los sobre os locais a visitar em Escarigo. A Igreja Matriz de São Miguel foi sempre a primeira e mais pronta resposta, sendo seguida de menções às diferentes capelas e os outros edifícios mais em- blemáticos – albergaria e antigo posto da guarda-fiscal, atualmente perten- cente à União das Freguesias de Almofala e Escarigo. Explica-se isto não só pela monumentalidade do edifício da igreja, mas também pela centralidade da religião na vida desta comunidade. Os nossos informantes lamentaram que muitas das festas e procissões já não se façam, como por exemplo a Festa a São Sebastião ou a Procissão dos Passos, na Semana Santa, e que mesmo a Festa em Honra de Nossa Senhora das Neves seja atualmente menos vistosa. A justificação é a perda de população. A Igreja Matriz para além de marcar significativamente a vida privada e comunitária dos esca- riguenses, como espaço de celebração de casamentos e batismos, e do encontro semanal para a missa, também influencia o cuidado que certos habitantes têm com os seus jardins. As inúmeras flores que crescem têm como objetivo a decoração da igreja e das capelas, sempre que a ocasião pede. Este caso é um exemplo de como um sítio de significância cultural pode abranger outros elementos por associação. A vida religiosa de Escarigo traz-nos ainda um outro caso de complexa relação entre sítios de significância cultural. Contaram-nos os nossos in- formantes e em particular Águeda M., 71 anos, natural de Quintã de Pêro Martins, Figueira de Castelo Rodrigo, que existe a tradição de o povo se deslocar anualmente, no primeiro fim de semana de Maio, à Festa da San- ta Cruz, em San Felices de los Gallegos, província de Salamanca. Antiga- mente, as populações raianas iam a pé até esta povoação espanhola, mas
  • 60.
    118 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 hoje já existem autocarros para facilitar a deslocação. Permanece o hábito, porém, de os portugueses serem recebidos pelos locais com música e lan- çamento de foguetes. Águeda M. contou-nos, ainda, que foram as peregri- nas portuguesas que introduziram o hábito de se cantar durante a noite de sexta-feira para sábado, que é passada em oração na Capela de Jesus Na- zareno, em San Felices de los Gallegos. Disse-nos ela que as espanholas não cantavam nem rezavam em conjunto e que a atmosfera era triste, pelo que as portuguesas decidiram animar essa noite de adoração da imagem do Senhor com cânticos religiosos. Desde esse momento, uma data que não nos foi possível apurar, mas que não deverá ser anterior a 1970, tendo em conta a idade de Águeda M., as portuguesas e as espanholas inter- calam-se entre si a cantar e a rezar em conjunto. De realçar nas histórias sobre as idas a San Felices de los Gallegos é como os sítios de significân- cia cultural de Escarigo se expandem além-fronteiras, acompanhando as tradições e o quotidiano da comunidade. Os laços transfronteiriços incluem, para além da Festa da Santa Cruz, re- lações familiares, sociais e comerciais. Foquemo-nos neste último aspeto. Atualmente, os escariguenses cruzam a Ribeira de Tourões para ir com- prar bilhas de gás e pôr gasolina no carro, mas antes, numa era pré-Espaço Schengen, eram o colorau, os sapatos, os tecidos e o pão branco as maiores justificações para as idas habituais às lojas em La Bouza. Havia também, segundo António D., 85 anos, natural de Vermiosa, quem se dedicasse ao contrabando de amêndoa, indo comprar a Puerto Seguro para revender em Vilar Formoso. António D. revelou-nos a prepotência da guarda-fiscal, antes do 25 de abril de 1974, que confiscava o que o povo comprava em Espanha para consumo próprio, como se de contrabando se tratasse. António M., 73 anos, natural de Quintã de Pêro Martins, referiu que pagavam em Escudos, nas lojas em La Bouza, pois a moeda portuguesa valia mais que a Peseta. A experiência comum das idas a Espanha, da exposição aos humores da guar- da-fiscal e dos truques usados para evitar o confisco das compras tornam significativos os caminhos usados para cruzar a fronteira e os antigos locais das lojas em La Bouza. No final do antigo caminho de acesso a La Bouza, junto à Ribeira de Tourões, encontra-se um lagar com moinho abandonado, que pertence à Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo. António D. disse-nos que antiga- mente havia oito moinhos na Ribeira de Tourões e três lagares, e que, de novembro a março, os homens ficavam no lagar a trabalhar, noite e dia, en- tretendo-se a contar histórias e comendo o que as mulheres lhes levavam. Falou-nos dos tempos de miúdo passados no campo, ainda na Vermiosa, a olhar por cabras e ovelhas, algo que João E. também experienciou, em Esca- rigo. Destes tempos trazem histórias com lobos, que atacavam os rebanhos nos duros meses de inverno. Já no verão, o que alarmava os camponeses, segundo Maria de Lurdes F. e Regina N., eram os remoinhos, ou burburinhos, provocados pelo vento e interpretados fantasticamente como manifesta- çõesdiabólicas.Estasduasinformantesrelataram-nosoutraexperiênciade trabalho, uma que era essencialmente feminina: a da ida à fonte e aos tan- ques, na direção leste, após o antigo posto da guarda-fiscal, para levar água para casa e lavar a roupa. Sobre a fonte comentaram que se espantam que a sua água seja quente no inverno e fria no verão. Nenhum dos nossos in- formantes teve pejo em descrever a dureza do trabalho e as más condições de vida de antigamente, realidades que explicam porque tantos emigraram nos anos 60, do século passado.
  • 61.
    120 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Dos tempos em que havia mais gente a morar em Escarigo, ouvimos, ain- da, histórias sobre as brincadeiras nas traseiras da igreja e no terreiro em frente à Capela de Santo Cristo; sobre os bailes e as tabernas; sobre os for- nos privados para fazer o pão. Sentem, hoje, os nossos informantes falta de espaços de convívio, como um café, e lamentam a perda de população. De- fendem que os caminhos rurais deviam ser arranjados e que o lagar perten- cente à Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo podia ser transfor- mado num museu. E orgulham-se da sua terra, mesmo que nunca venha a ser uma Lisboa. Pelo que acima foi descrito, podemos concluir que a auscultação da popu- lação de Escarigo potenciou não só uma interpretação do património local para além dos vestígios da anterior grandeza desta povoação raiana e da belíssima igreja, mas também um entendimento mais aprofundado das re- lações sociais, crenças, vivências e costumes desta comunidade. E é este ponto que explica a nossa opção pela identificação de sítios de significân- cia cultural como fonte para a criação de um arquivo da memória e para a promoção do território da Beira Interior. O envelhecimento da população, a crescente urbanização, a terciarização da economia, a valorização do turis- mo cultural e a digitalização da sociedade têm como consequência uma res- significação drástica de tradições e lugares, e uma mudança profunda nos modos de vida, que afetam sobretudo o mundo rural. Perante a possibilida- de do desaparecimento efetivo de aldeias como Escarigo enquanto núcleos povoados é necessário refletir sobre formas holísticas de conservação do património, que possam preservar efetivamente a memória coletiva na sua complexa relação com o espaço físico e contribuir para a revalorização da identidade específica dos territórios predominantemente rurais. A raia é uma linha imaginária, traçada na geografia pelo homem, imaginária e imaginada, mesmo quando essa linha se sobrepõe a uma linha que já antes tinha sido riscada na terra pela própria geografia. É o caso da raia em Escarigo e em Almofala, previamente desenhada naquele território pelos leitos do rio ÁguedaedaRibeiradeTourões.Éumaraiaantiga,datadoséculoXIII,edesde então separa o reino de Portugal dos reinos de Castela e de Leão. Uma raia militar e política, para finalmente ajustar a partilha do território entre D. Dinis e D. Fernando IV, depois de combates sangrentos por cada palmo de terra, en- treosexércitosdosdoislados.Perdeu-semuitagente,masalgunsganharam terra. Essa divisão foi registada no tratado de Alcanizes de 1297. O tratado traçou as linhas oficiais na terra e na água e decidiu, nomeadamente, que as praças de Ribacôa pertenceriam ao reino de Portugal. Fotografia — um projecto sobre a Raia em Escarigo-Almofala 7Renato Roque FOTÓGRAFO
  • 62.
    122 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Realmente, todas as raias foram desenhadas nos mapas. Marcadas no chão. Não faziam parte da paisagem, ainda que possam, como aconteceu muitas vezes, ter determinado a sua evolução, depois de fixadas. As raias foram in- ventadas quando os homens aprenderam o sentido de propriedade da ter- ra, foram inventadas como um meio artificial de impedir que outros homens viessem assenhorear-se dessa terra, que esses homens julgavam ser sua, por direito humano e/ou divino. E com o passar do tempo, essas simples li- nhas de demarcação artificial do território foram adensando contornos políti- cos, militares, culturais e até linguísticos. Mas o conceito de raia, ou de fronteira, como linha que nos deve limitar ou como desafio que queremos ultrapassar, tem desempenhado um papel fundamental em grande parte da actividade humana e em particular na prática artística. Desde a Grécia Antiga que os filósofos têm, por exemplo, tentado delinear a linha de fronteira que separa a obra de arte de outros ob- jectos de uso. Desde a Poética de Aristóteles se tentou traçar, não só a linha de fronteira que delimita a Poesia – hoje diríamos Arte 1 – daí Poética, mas todas as linhas, que separam as várias formas de Arte e as várias forma de Poesia: a Tragédia, a Comédia e a Poesia Lírica. Muitos autores, ao longo dos séculos, procuraram desenhar essas linhas de fronteira, desde Horácio, com a sua Ars Poetica, até aos formalistas russos do século XX, que tentaram criar uma tal Ciência Poética, fundada numa busca de uma qualidade distin- tiva dos textos literários, a que chamavam literalidade. Parece ser particularmente atraente, para esse conceito de raia, como limite a transpor na arte, o que escreve Giles Deleuze, que defende a existência de três grandes domínios do conhecimento, que nos permitem conjuntamente 1 . A palavra “poesia” tem a sua origem no grego poiésis, que significa o processo de criação; deriva de poiein que quer dizer “fazer” em grego; poiésis é a activação, a encenação da obra da poiétiké (arte poética). Este significado abrangente da palavra torna-se evidente no Banquete de Platão; a determinada altura no diálogo de Sócrates, ele diz, repetindo as palavras de Diotima, mulher de Mantineia: Sabes que a "poesia" é multiforme; no sentido geral é, não importa em que objecto, a causa pela qual ele surge do não-ser para a existência: assim os trabalhos realizados em todas as profissões são "poesias" e os seus autores "poetas". Todavia, tu sabes que estes não são denominados poetas, mas têm outros nomes, enquanto que de toda a “poesia” uma única parcela foi destacada, a que se refere à música e aos versos, e com o nome do todo é denominada. Platão Banquete, c. 380 a.C. delimitar o que ele chama o caos. Esses três domínios são a filosofia, a arte eaciência.Cadaumdelesnoscolocadeumamaneiradiferenteo desafio de alargar as fronteiras para dentro desse caos. Numa palavra, o caos tem três filhas segundo o plano que o recorta: são a arte, a ciência e a filosofia, como formas do pensamento ou da criação. GILLES DELEUZE – FÉLIX GUATTARI, Qu’est-ce que la philosophie?, 1991, trad. nossa O pensamento e a criação filosófica, artística e científica resultam de uma conjugação de três formas de pensar: pensar em filosofia, ciência e arte. Os três pensamentos cruzam-se, entrelaçam-se, mas sem síntese nem identificação. A filosofia faz surgir acontecimentos com os seus concei- tos, a arte ergue monumentos com as suas sensações, a ciência cons- trói estados de coisas com as suas funções. Um rico tecido de corres- pondências pode estabelecer-se entre os planos. … E um dos elementos não aparece sem que o outro não esteja presente, ainda indeterminado ou desconhecido. Cada elemento criado sobre um plano apela a outros elementos heterogéneos, que estão por criar sobre outros planos: o pensamento como heterogénese. GILLES DELEUZE – FÉLIX GUATTARI, Qu’est-ce que la philosophie?, 1991, trad. nossa
  • 63.
    124 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 A arte, afinal, em Deleuze, reside tão próxima da ciência e também da filoso- fia, como sistemas de condensação do caos para o tornar habitável. A arte capta um pedaço de caos numa moldura, para formar um caos composto que se torna sensível, … a ciência apreende-o num sistema de coordenadas e forma um caos referenciado que se torna Natureza… A criação são as variedades estéticas ou as variáveis científicas, que sur- gem sobre um plano capaz de recortar a variabilidade caótica. GILLES DELEUZE – FÉLIX GUATTARI, Qu’est-ce que la philosophie?, 1991, trad. nossa Osistemadeleuzianoécertamentefascinanteedesafiante,mas,realmente, o problema continua em aberto, ainda que as respostas ao longo do tempo para definir as fronteiras no conhecimento e na arte tenham sido muitas. Como saber por onde passa exactamente a linha que separa a obra de arte de objectos naturais ou do quotidiano? A verdade é que continuamos a demanda de uma raia conceptual, que tan- tos procuraram desenhar sobre o branco da história da arte e da literatura. Realmente, muitos séculos passados, desde Aristóteles e Platão, todas as tentativas para definir a fronteira da arte parecem ter sido conduzidas a termos de reconhecer o problema como aparentemente insolúvel no pla- no da racionalidade. A formulação do “conceito aberto” de Wittgenstein poderá porventura aju- dar-nos a explicar as razões desse insucesso. De acordo com a proposta de Wittgenstein, um “conceito aberto” não é possível ser qualificado de uma forma objectiva e, como tal, não é possível traçar-lhe uma linha de fronteira, que tantos procuraram e procuram ainda. Para um “conceito aberto” a linha defronteiranãoéumalinhafixa,masumalinhafluida,quesemoveaolongo do tempo, como os círculos na água da fotografia de Jorge Velhote. Wittgenstein desenvolvera a ideia de “conceito aberto” a partir da ideia de jogo. Foi o seu discípulo Morris Weitz quem afirmou pela primeira vez que na arte, tal como acontece no jogo, estamos perante um “conceito aberto”. Realmente na arte, tal como se observa nos jogos, podemos, quando muito, listar um conjunto de atributos que algumas obras de arte possuem, mas não conseguimos elaborar uma lista completa de atributos que nos garanta cobrir todas as obras de arte e só as obras de arte 2 . A implicação do “conceito aberto” é a de ter de avaliar, perante cada nova proposta de objecto, se ele cai ou não dentro desse conceito e eventualmen- te alargar ou deformar a linha de fronteira anterior. Se olharmos para a His- tória da Arte, percebemos facilmente que tal expansão/deformação parece ter acontecido à medida que novos artistas e novos movimentos passaram a ser aceites como integrando o mundo da Arte. E se pensarmos em particular no aparecimento e na consolidação da foto- grafia, durante todo o século XIX, e mesmo ao longo do século XX, aperce- bemo-nos de como a fotografia esteve desde o início ligada fortemente à ideia de fronteiras, fronteiras que a limitavam, mas que, ao mesmo tempo, lhe ofereciam novos territórios, do outro lado dos limites que lhe eram im- postos, mas que queria (teria de?) ultrapassar. A fotografia traçou de imediato uma fronteira obscura com a arte, e em par- ticular com a pintura, que originou desde cedo fracturas entre movimen- tos pictorialistas e naturalistas. E já no século XX, a procura de um espa- ço próprio para a fotografia, independente da pintura, originaria uma série de movimentos fotográficos revolucionários, em torno de uma nova forma 2 . Para Wittgenstein ou Weitz, os conceitos fechados realmente só existem no mundo da lógica ou das ciências da natureza, nomeadamente na matemática, ou na física, a menos que correspondam a conceitos bem delimitados no espaço-tempo, ou a conceitos que decidamos fechar artificialmente: [a closed concept] cannot occur with empirically-descriptive and normative concepts unless we arbitrarily close them by stipulating the ranges of their uses. (Morris Weitz, Philosophy off the Arts 1950, p.31)
  • 64.
    126 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 de ver, que a fotografia proporcionava, agrupados debaixo da sigla muito abrangente Nova Visão. Uma nova visão que implicava saltar a fronteira que o olho humano nos impunha. E a fotografia viria a ser até central na defini- ção de uma nova fronteira com o chamado contemporâneo, ao ser elemen- to fundamental na sustentação do discurso dos conceptualistas, verdadeira antecâmara de uma arte, a que chamaram (mal) contemporânea. Realmente, a história da fotografia tem sido marcada sempre por fronteiras, ou por linhas desafiantes que a sua prática coloca a quem pretende com ela criar novas imagens e novo pensamento. O digital e as redes, que propiciam a difusão e a partilha quase instantânea de miríades de imagens, consti- tuem novos desafios sob a forma de fronteiras vagas que parecem delimitar territórios a descobrir no presente e no futuro. Territórios novos arriscados, mas também excitantes. FOTOGRAFAR a RAIA Há, como escrevemos, uma relação de proximidade da fotografia, ao lon- go de toda a sua história, com diversas raias e fronteiras. Assim, o desafio da Ribacvdana a cada um dos fotógrafos que participa neste número dos Cadernos do Património, para retratar a Raia Beirã, na região do rio Águeda, transformou-se num desafio estimulante, que possibilitou diferentes pers- pectivas. O projecto fotográfico foi realizado no contexto do encontro fronteiriço, reali- zado em Setembro de 2021, em Escarigo/Almofala/Puerto Seguro, organi- zado pela Associação Ribacvdana. Em Escarigo e Almofala, duas pequenas aldeias do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, a raia é líquida, ainda que bem sólida desde o século XIII, quando foi assinado o tratado de Alcanizes, como vimos. É materializada pelo rio Águeda e pelo seu afluente a Ribeira de Tourões (rio Turones do lado de Castela). É a ribeira, que a sul de Almofala, divide as terras portuguesas das castelhanas. O rio, a norte, separa até ao Douro. A ribeira e o rio são li- nhas de separação no terreno e delineadas no papel. Caminhemos então pelo território, pelos pés e pelos olhos dos fotógrafos. Outros percursos seriam possíveis de trilhar. Este foi o nosso.
  • 65.
    128 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2
  • 66.
    130 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 raia Adelino Marques . 00 . 00 . António Jota Gonçalves . 00 . 00 . António Martins Teixeira . 00 . 00 . Augusto Lemos . 00 . 00 . Conceição Magalhães . 00 . 00 . Jorge Pedra . 00 . 00 . Jorge Velhote . 00 . 00 . Renato Roque . 00 . 00 . Rui Mendonça . 00 . 00 . Sofia Aroso . 00 . 00 .
  • 67.
  • 68.
  • 69.
  • 70.
  • 71.
  • 72.
  • 73.
  • 74.
  • 75.
  • 76.
  • 77.
  • 78.
  • 79.
  • 80.
  • 81.
  • 82.
  • 85.
    168 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 r A fotografia busca o irrepetível, esse momento fundado na desordem para acontecer, lugar em que o fotógrafo tenta a congelação temporal de que a imagem será receptáculo e movimento do pensamento – na verdade, lu- gar de vivificação da pele e da carne com que o mundo se cobre para fazer fluir, entre instantes, o que é o implacável roubo da imaginação sobre o real que é dado ver e proposto ver como cenário ou jogo de argumentos em que se reflecte sobre o estado do mundo mediado por uma fotografia que pos- sui e se transmuta em informação fiável para que a memória passe a ser a circunstância de um acontecimento ligado já não ao passado, mas apenas ao presente como prospecto que premedita e insinua a transfiguração do mundo como raiz, regulação e sistematização do olhar. Poderíamos especular aqui se não será uma ligação do passado ao futuro, porque o futuro condiciona a existência ou não da(s) memória(s). Assim, é A fotografia como encenação do invisível Jorge Velhote POETA
  • 86.
    170 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 pela imaginação que recorremos para tornar presente, para presentificar, aquilo que sendo imagem ou retrato do passado é possível ser, só apenas, ainda presente e animado de um estado de compreensão que autonomiza a imagem no único meio capaz de, ao observador, poder como tal actuar: olhando, vendo, observando, imaginando, lendo ou percepcionando e au- tenticando pelo seu mecanismo fisiológico da visão aquilo que sabe ser em si também apresentável e representação do seu instante criativo em fruição. Portanto, a fotografia não é nem representa apenas o visível, mas, como na poesia, uma memória do invisível e, convenhamos, do seu prazer. É como se fotógrafo, imagem e observador se conciliassem para se encon- trarem e ali serem um único. O autor é nessa osmose e simbiose um leitor de acontecimentos que a imagem catalisa, para que o tempo seja somente pos- sível no espaço de uma imagem fundadora de um desenho a sangue que cir- cula como unidade e união da memória e da imaginação. Numa catarse que a fisiologia catapulta para um momento de potência entre o que escondido estava para o que agora se revela. É na imagem, esse lugar do pensamen- to, que é dada a revigoração do tempo, mas sempre no seu limite irrepetível, pois o passado apenas de cada vez somente se presentifica. E nisso opera a imaginaçãoeosrecursosqueroubamaotempoafronteiraaqueafotografia se propõe. Registar num tempo presente o passado que se apresenta como futuro. Ou devir, dependendo do usufruto de ser vista como intertextuali- dade. Ou melhor, de leitura sem julgamento, expressão de modos de fazer acontecer a que corresponde um hiato libertador do conflito que organiza o caos em privilégio ou identificação de um processo a que se dispõem aque- les que observam a(s) fotografia(s) como implacável tratamento da história do improvável – sendo a fotografia peça-chave que faz surgir do anonimato a notável capacidade de cada um ser autor em busca do espaço-tempo em que se torna presente e visível e onde ‘a ignorância ou cegueira’ é a discreta liberdadedesepassaraexistirfazendorecuperaroquesejulgavaimpossível ou obsceno de ser (re)visto como ideia ou pensamento em trabalho, numa direcção tornada, instantaneamente, motor e distância e reconhecimento. E onde se autentica a fiabilidade do pensamento numa perpectiva de máxima observação, liberdade e fiável memória ou testemunho – talvez o desafio maior e secreto de um fotógrafo através das suas imagens impressas. Tes- temunho de validar, certificando, o espaço e o tempo de todos, daqueles que são dados a coleccionar imagens de visões e representação da descoberta de si num processo de permanente surpresa que obtura e regista o momen- to onde sentimentos e emoções operam e enriquecem o pensamento numa alegação do impossível, mas a que a imagem, a fotografia, permite abordar em permanência como verdade. Uma verdade a descobrir, não a documen- tar a descoberta, mas fluído que faz atravessar o tempo nos seus instantes e implacável realismo, a que a dimensão poética e os seus conflitos, dando um cunho de encenação, não é alheia – entre as imagens e os observadores circula por inteiro um alucinatório desejo, uma experiência de leitura que a narratividade imagética expõe, num diarismo oculto de um drama que exibe e retrata o autor da fotografia no centro material do que é invisível e apenas experiência da imaginação. É essa relação entre estranhos, de contágios sem missão ou destino, sem interditos, que dá ao mundo a sua carne ou confinamento e onde o olhar é expressão ou hipotética ruptura em doação e infinito. E aqui, o infinito não é um código, mas o único momento onde a imagem é o encontro de ima- gensqueocérebrogeraparaconciliarumasintoniaimprevistaemetafórica.
  • 87.
    172 CADERNOS DOPATRIMÓNIO 2 Uma lágrima onde observar o mundo ou o universo no seu movimento em permanência e onde o fotógrafo se encontra a encenar o invisível – a mais improvável em magnitude das sensações. A fotografia, sendo memória congelada e irrepetível da história do mundo, sendo a súbita consciência da nostalgia seminal e do registo da sua pers- crutação, revelação, actualização, fragmentação e transfiguração é, não obstante, sem fronteiras. puerto seguro es- ca- ri- go. ÍNDICE Editorial. António Sá Gué Os Senhores de Monforte no século XIII comiam ostras? Tiago Ramos Monforte, um meandro do Côa nos Mapas de Fronteira. João Carlos Garcia e Luís Miguel Moreira Os Sítios de Significância Cultural em Escarigo. Guilherme Calado e Vanessa Ribeiro Uma Pintura Quinhentista a Fresco no Frontal do Antigo Altar-mor da Igreja de Escarigo (Figueira de Castelo Rodrigo) Carlos Caetano El Patrimonio Arqueológico de la Cuenca del Águeda como recurso turístico: Del Paleolítico a La Edade Media José Ignacio Martín Benito Fotografia — um projecto sobre a Raia em Escarigo-Almofala Renato Roque Ensaio Fotográfico vários autores A Fotografia como encenação do invisível Jorge Velhote 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9.
  • 88.