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Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org)
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A
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APONTAMENTOS
PONTAMENTOS
PONTAMENTOS
PONTAMENTOS
de Arqueologia e Património
de Arqueologia e Património
de Arqueologia e Património
de Arqueologia e Património
OUT 2012
8
Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org)
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Título: Apontamentos de Arqueologia e Património
Propriedade: Era-Arqueologia S.A.
Editor: Núcleo de Investigação Arqueológica – NIA
Local de Edição: Lisboa
Data de Edição: Outubro de 2012
Capa: “Ídolo Almeriense” proveniente dos Perdigões.
(António Valera)
Contactos e envio de originais:
antoniovalera@era-arqueologia.pt
Os originais deverão ter um máximo de dez páginas A4,
dactilografadas a um espaço (letra Arial, tamanho 10), incluindo
referências bibliográficas. Imagens são entregues à parte,
juntamente com resumo em inglês (ou português se a lígua do
texto for outra – inglês, francês ou castelhano).
Revista online.
Ficheiro preparado para impressão frente e verso.
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ÍNDICE
EDITORIAL ................................................................................. 05
Helmut Becker e António Carlos Valera
LUZ 20 (MOURÃO, ÉVORA): RESULTADOS
PRELIMINARES DA PROSPEÇÃO GEOFÍSICA
(MAGNETOMETRIA DE CÉSIO) ................................................ 07
Helmut Becker, António Carlos Valera e Patrícia Castanheira
MONTE DO OLIVAL 1 (FERREIRA DO ALENTEJO, BEJA):
MAGNETOMETRIA DE CÉSIO NUM RECINTO DE FOSSOS
DO 3º MILÉNIO AC. .................................................................... 11
António Carlos Valera
“ÍDOLOS ALMERIENSES” PROVENIENTES DE
CONTEXTOS NEOLÍTICOS DO COMPLEXO
DE RECINTOS DOS PERDIGÕES. ............................................ 19
António Carlos Valera e Victor Filipe
A NECRÓPOLE DE HIPOGEUS DO NEOLÍTICO FINAL
DO OUTEIRO ALTO 2 (BRINCHES, SERPA) .………….…....… 29
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Cláudia Costa e Nelson Cabaço
ASSOCIAÇÃO DE RESTOS DE ANIMAIS VERTEBRADOS
A CONTEXTOS FUNERÁRIOS DA PRÉ-HISTÓRIA
RECENTE: O CASO DO OUTEIRO ALTO 2. ............................. 43
Cláudia Cunha
CARACTERIZAÇÃO DA MORFOLOGIA DENTÁRIA NO
MÉDIO GUADIANA NO NEOLÍTICO FINAL-CALCOLÍTICO.
FUNDAMENTAÇÃO PARA O MAPEAMENTO MORFOLÓGICO
DAS POPULAÇÕES LOCAIS NA PRÉ-HISTÓRIA RECENTE ............. 49
Tiago do Pereiro e Nuno André Coelho Gomes
NOTÍCIA PRELIMINAR SOBRE A DESCOBERTA
DE ARTE RUPESTRE NO VALE DAS BURACAS
(CASMILO, COIMBRA) ............................................................... 57
Rui Ramos e Inês Simão
EIRA VELHA: UMA ESTAÇÃO VIÁRIA ROMANA
NA PERIFERIA DE CONIMBRIGA ............................................. 63
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EDITORIAL
Vinte meses depois do último volume (interregno grande para os
objetivos que nortearam o aparecimento da revista), a
Apontamentos de Arqueologia e Património vê editar um novo
volume, o oitavo em cinco anos.
Num momento de grandes dificuldades, como é aquele que
(quase) todos vivemos, é difícil perceber se a perserverança
reflete simplesmente a inconsciência ou a recusa psicológica de
um fim inexorável, qual Crepúsculo dos Deuses, ou se, pelo
contrário, é ainda condição de sobrevivência de um caminho
iniciado com objetivos bem definidos.
A consciência do dilema, porém, dota as nossas práticas de
intenção. Confere-lhes, de facto, um estatuto de opção e,
sobretudo, demonstra o valor que lhes atribuímos, pois as
mantemos em tempos de adversidade.
A continuidade da Apontamentos reflete, pois, uma postura face
ao que é, efetivamente, a razão de ser da Arqueologia: a produção
e partilha de conhecimento. Na medida das nossas possibilidades,
que terão sempre um contexto, continuaremos a publicar e a
proporcionar condições de publicação.
António Carlos Valera
Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org)
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1. Nota prévia
A Omniknos Arqueologia procedeu, entre Março e Novembro
de 2011, à escavação arqueológica do sítio romano da Eira
Velha, em Miranda do Corvo, com vista à caracterização dos
contextos arqueológicos a afectar pelo projecto de
construção do Lote 2 da Concessão do Pinhal Interior.
O presente texto é um primeiro esboço interpretativo dos
contextos arqueológicos intervencionados, constituindo as
linhas orientadoras de um trabalho em progresso, que busca
ainda novos dados para se considerar definitivo. Assim, leia-
se este artigo como um ponto de situação da informação
disponível até ao momento e não como uma conclusão
hermética sobre a funcionalidade deste sítio, que cremos
verdadeiramente excepcional dentro do quadro da
arqueologia do mundo rural romano em território português.
2. Contextualização geográfica
O sítio arqueológico da Eira Velha (CMP 251) localiza-se na
freguesia de Lamas, concelho de Miranda do Corvo,
enquadrando-se no aro de ocupação que orla a civitas de
Conimbriga, sita a pouco menos de 10 quilómetros, e
integrando-se na antiga província da Lusitânia romana.
Rui Ramos
Inês Simão
EIRA VELHA: UMA ESTAÇÃO VIÁRIA ROMANA
NA PERIFERIA DE CONIMBRIGA.
Apart from better sanitation and medicine and education and irrigation and public health and roads
and a freshwater system and baths and public order... What have the Romans done for us?
Monty Python´s Life of Brian
Resumo:
O sítio arqueológico da Eira Velha localiza-se na freguesia de Lamas, concelho de Miranda do Corvo, enquadrando-se no aro de ocupação que
orla a civitas de Conimbriga, sita a pouco menos de 10 quilómetros, e integrando-se na antiga província da Lusitânia romana. Os trabalhos
arqueológicos aí realizados permitiram pôr em evidência um entroncamento de vias calcetadas e vários edifícios a elas associados, enquadrados
em diferentes momentos construtivos que abrangem uma cronologia bastante lata, entre meados do Século I e finais do Século IV.
Abstract:
Eira Velha: a roman way station near Conimbriga
The archaeological site of Eira Velha is located near Lamas, in Miranda do Corvo, and used to be part of the ancient civitas of Conimbriga territory,
(located a little less than 10 kilometers), integrated in the former province of Roman Lusitania. The recent fieldwork allowed bringing into focus a
junction of cobbled roads with several buildings, covering a broad chronology between the middle of the 1st century and the end of the 4th century.
Figura 1 – Localização do sítio da Eira Velha na Carta Militar de
Portugal, 1:25 000, Folha 251.
Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org)
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O sítio ocupa uma pequena plataforma a meia-encosta,
orientada a Norte, numa posição sobranceira à Ribeira de
Urzelhe e dominando uma zona de vale onde despontam
olivais, vinhas e pequenos pomares.
As gentes de Lamas referem a Eira Velha desde há longa
data, sobrevivendo na tradição oral essas estórias das
mouras encantadas e dos achamentos de tesouros que se
contam um pouco por todo o país, sempre que a terra tratou
de ocultar os antigos assentamentos de época romana.
Atendendo aos dados disponíveis, Jorge de Alarcão
referenciou este sítio como uma villa, onde ocorrem
“alicerces, cerâmica de construção (…) um peso de tear”
(Alarcão, 1988), embora exista uma referência mais antiga
ao mesmo, que adiante será tratada.
3. Resumo dos trabalhos
A prospecção prévia ao início dos trabalhos permitiu
identificar uma mancha de dispersão de material
(principalmente de construção) que abrangia uma área com
aproximadamente 3,5 hectares, radiando desde a plataforma
já mencionada, onde a concentração de telharia era por
demais evidente. Desde logo se verificou a existência de
estruturas pétreas soterradas, associadas a formas
cerâmicas de cronologias inequivocamente romanas, facto
que trouxe a programação de um conjunto de trabalhos
arqueológicos com diferentes vertentes.
Procurou-se desde logo definir a área total do sítio a ser
afectada pelo projecto de construção de forma a melhor
programar a intervenção sobre o mesmo. As primeiras fases
dos trabalhos arqueológicos consistiram na realização de
sondagens mecânicas ao longo de um corredor de 30 x 500
metros de extensão e na decapagem mecânica e limpeza
manual da área entretanto sinalizada.
Os dados obtidos no decurso destas fases permitiram
circunscrever uma área com aproximadamente 4500 metros
quadrados, centrados na plataforma a meia encosta, onde
se verificou uma continuidade de estruturas e depósitos
arqueológicos preservados, coevos com as cronologias
propostas e selados por uma camada negra de composição
argilosa. Esta camada surgiu como um marco bastante
vincado entre os depósitos superiores profundamente
alterados por séculos de prática agrícola e os contextos
arqueológicos que escaparam à relha dos arados, por ela
cobertos.
A última fase dos trabalhos arqueológicos, desenvolvida
entre Julho e Novembro de 2011, consistiu na escavação
manual dos contextos identificados, tendo sido posto em
evidência um entroncamento de vias calcetadas e vários
edifícios a elas associados, enquadrados em quatro grandes
momentos construtivos que abrangem uma cronologia
bastante lata, balizada entre meados do Século I e finais do
Século IV.
Figura 2 – Vista geral do sítio no início dos trabalhos
arqueológicos.
Figura 3 – Planta geral da Eira Velha.
4. Os edifícios
A ocupação mais antiga, datada de entre meados do Século
I e a primeira metade do Século II, é composta por um
edifício de planta rectangular, que integrava pelo menos
cinco compartimentos, situado na transição da plataforma
central para o declive. O edifício apresentava
arrasado, resultado provável de um desmonte
para a reutilização de pedra nos volumes que o sucederam
cronologicamente. Este espaço era ainda marcado por um
número considerável de estruturas negativas de planta
circular, com dimensões variáveis, que correspondiam a
buracos de poste e fossas escavadas no substrato base,
pese o facto da sua relação cronológica com a primeira fase
de ocupação não ser evidente.
A segunda fase construtiva, enquadrada entre a primeira
metade do século II e a segunda metade do século III, é
composta por um grande edifício residencial, construído em
alvenaria de calcário, que se implanta em parte sobre a
antiga ocupação.
O novo edifício abeira-se de uma das vias identificadas no
local, que corre paralela à sua fachada Sul, e encontra
encaixado no terreno por uma escavação que terá procurado
níveis mais estáveis do que a friável primeira camada de
rocha para ancorar os seus alicerces, ao mesmo tempo que
terá servido para regularizar um interior que se construiu
sobre um substrato rochoso irregular. Se os comparti
da ala Norte se apresentam encaixados nesse afloramento
por meio de um desbaste intencional, os compartimentos da
ala Sul apresentam já um aterro considerável, com vista à
uniformização da cota do nível de circulação em toda a área
edificada.
Este volume é constituído por oito compartimentos que se
articulam em redor de um átrio, provavelmente testudinado,
para onde confluem todos os vãos interiores, bem definidos
por padieiras e pedras de soleira. O acesso era feito pela
fachada Sul, onde um pequeno fauces ligava o exterior do
edifício ao átrio, embora este pareça apresentar na sua
parede Oeste indícios de um pórtico que o ligava a um
Figura 4 – Vista geral da Eira Velha.
Apontamentos de Arqueologia e Património
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A ocupação mais antiga, datada de entre meados do Século
metade do Século II, é composta por um
edifício de planta rectangular, que integrava pelo menos
cinco compartimentos, situado na transição da plataforma
central para o declive. O edifício apresentava-se bastante
arrasado, resultado provável de um desmonte intencional
para a reutilização de pedra nos volumes que o sucederam
cronologicamente. Este espaço era ainda marcado por um
número considerável de estruturas negativas de planta
circular, com dimensões variáveis, que correspondiam a
as escavadas no substrato base,
pese o facto da sua relação cronológica com a primeira fase
A segunda fase construtiva, enquadrada entre a primeira
metade do século II e a segunda metade do século III, é
edifício residencial, construído em
alvenaria de calcário, que se implanta em parte sobre a
se de uma das vias identificadas no
local, que corre paralela à sua fachada Sul, e encontra-se
a escavação que terá procurado
níveis mais estáveis do que a friável primeira camada de
rocha para ancorar os seus alicerces, ao mesmo tempo que
terá servido para regularizar um interior que se construiu
sobre um substrato rochoso irregular. Se os compartimentos
da ala Norte se apresentam encaixados nesse afloramento
por meio de um desbaste intencional, os compartimentos da
ala Sul apresentam já um aterro considerável, com vista à
uniformização da cota do nível de circulação em toda a área
volume é constituído por oito compartimentos que se
articulam em redor de um átrio, provavelmente testudinado,
para onde confluem todos os vãos interiores, bem definidos
por padieiras e pedras de soleira. O acesso era feito pela
ligava o exterior do
edifício ao átrio, embora este pareça apresentar na sua
parede Oeste indícios de um pórtico que o ligava a um
compartimento de grande dimensão, possível pátio exterior
semiaberto e resguardado da via. Foi identificada também
uma área de cozinha, marcada pela existência de uma
lareira de grandes dimensões e um espesso depósito de
cinza com inclusão abundante de fauna mamacológica.
Junto a uma das suas paredes, um pequeno esteio
rectangular ainda in situ, terá servido como base p
trinchar carne. Os pisos apresentam
entrada a circulação far-se-ia directamente sobre a rocha
base; o átrio era revestido, pelo menos em parte, por
signinum bastante grosseiro; os compartimentos mais
pequenos, interpretados como cellae
em argamassa de saibro; os restantes compartimentos eram
compostos por pisos em terra batida.
A terceira fase construtiva, que abrange um período entre
finais do século III e finais do século IV, desenvolve
esta área residencial pré-existente,
aterrada com vista à implantação de uma nova
compartimentação. As evidências materiais apontam para
uma remodelação do espaço, uma vez que o desmonte e
aterro da segunda fase terá sido imediatamente seguido pela
construção da terceira fase, numa sequência de ocupação
linear e sem hiatos temporais. A planta do novo volume
Figura 5 – Vista geral da área edificada mais antiga, associada
ao referido conjunto de estruturas negativas.
Figura 6 – Vista geral da nova área edificada, ladeando uma
das vias calcetadas (à direita).
Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org)
compartimento de grande dimensão, possível pátio exterior
semiaberto e resguardado da via. Foi identificada também
ma área de cozinha, marcada pela existência de uma
lareira de grandes dimensões e um espesso depósito de
cinza com inclusão abundante de fauna mamacológica.
Junto a uma das suas paredes, um pequeno esteio
, terá servido como base para
trinchar carne. Os pisos apresentam-se heteróclitos: na
ia directamente sobre a rocha
base; o átrio era revestido, pelo menos em parte, por opus
bastante grosseiro; os compartimentos mais
cellae, apresentavam o piso
em argamassa de saibro; os restantes compartimentos eram
compostos por pisos em terra batida.
A terceira fase construtiva, que abrange um período entre
finais do século III e finais do século IV, desenvolve-se sobre
existente, que é parcialmente
aterrada com vista à implantação de uma nova
compartimentação. As evidências materiais apontam para
uma remodelação do espaço, uma vez que o desmonte e
aterro da segunda fase terá sido imediatamente seguido pela
se, numa sequência de ocupação
linear e sem hiatos temporais. A planta do novo volume
Vista geral da área edificada mais antiga, associada
ao referido conjunto de estruturas negativas.
Vista geral da nova área edificada, ladeando uma
Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org)
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aproxima-se bastante da planta do edifício anterior, da qual
reaproveita parcialmente a fachada Noroeste e pelo menos
dois compartimentos dos cinco que a constituem, e na qual
ocorre a eliminação do átrio testudinado e a redução
substancial da área das novas divisões.
No entanto, é a construção de um novo volume
arquitectónico, independente do bloco da área residencial,
que marca vincadamente esta terceira fase. A nova área
construída implanta-se sobre a via com orientação Norte-Sul
e apresenta características coevas com as pars rusticas das
villae já conhecidas, evidenciando-se como espaço de apoio
às actividades agrícolas.
Esta área é composta por cinco compartimentos, que se
articulam em função de um pequeno compartimento central
onde foram construídos dois tanques revestidos a opus
signinum, cumprindo a função de um lagar de produção de
vinho. Os dois tanques, geminados e interligados por um
pequeno orifício circular, apresentam diferentes dimensões e
cotas de fundo: o maior cumpre as funções de calcatorium,
onde acontecia a pisa; e o mais pequeno e profundo
corresponde a um lacus, de recolha e decantação do mosto.
Não foi identificado qualquer indício do mecanismo de
transformação e prensagem associado a este lagar. O
material arqueológico associado a este contexto é
constituído maioritariamente por cerâmica de
armazenamento.
Neste novo bloco, destaca-se também o chamado
Compartimento 5, localizado entre o volume do lagar e a
área residencial, anexo à primeira via calcetada (Este-
Oeste). Este compartimento, com uma área aproximada de
35 metros quadrados, surge como o de maior dimensão
neste sítio arqueológico. Numa primeira interpretação este
espaço foi encarado com uma função de cella vinaria,
atendendo à sua disposição relativamente ao lagar e à
ocorrência percentualmente significativa de material doliar no
seu interior. Contudo o número de numismas recolhido neste
espaço, que perfaz 30% do total do espólio numismático
recolhido durante a intervenção, e algum material que não se
encontra entre o material recorrente neste tipo de contextos,
levou-nos a supor que entre as suas paredes poderá ter-se
desenvolvido uma salutar actividade comercial, tendo o
mesmo funcionado como taberna e devendo constituir uma
parte fundamental da sobrevivência do sítio.
Figura 7 – Vista da nova área edificada, observando-se em
primeiro plano a zona de cellae e em segundo plano o átrio (à
esquerda) e a cozinha (à direita).
Figura 8 – Área de cozinha com lareira central.
Figura 9 – Vista área do novo espaço de apoio a actividades
agrícolas.
Figura 10 – Vista geral do lagar.
Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org)
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Os vestígios associados à quarta fase construtiva são já
bastante incipientes e a leitura da sua planta é bastante
parcelar. Em finais do século IV, ter-se-á dado uma nova
remodelação da área residencial, com o abandonado dos
compartimentos anexos ao lagar, embora este deva ter
continuado a ser utilizado. A oeste do mesmo
desenvolveram-se novas estruturas em alvenaria,
prolongando-se para fora da área intervencionada, contudo
não conseguimos inferir qualquer funcionalidade a estes
novos espaços, que se apresentavam bastante truncados. A
única certeza é que esta fase corresponde à última
ocupação deste espaço e é coeva com o momento de
abandono das vias calcetadas presentes.
5. As vias
As vias referidas surgem precisamente como espinha dorsal
deste sítio arqueológico. Os vários volumes arquitectónicos e
seus variados momentos construtivos articulam-se em
função do alinhamento das várias calçadas, feitas e refeitas
ao longo de todo o tempo durante o qual este sítio
permaneceu funcional e habitado. São elas que despontam
como garante da sua permanência e, a partir do momento
em que são abandonadas, o sítio definha e desaparece, não
mais voltando a ser ocupado. Esta relação simbiótica é
desde logo visível na implantação do conjunto edificado, cuja
evolução se faz, desde a fase mais antiga até ao terminus da
ocupação, no sentido de se acercar gradualmente das vias,
chegando a sobrepô-las em dado momento do século IV.
Importa referir que ainda que tenhamos definido fases
construtivas para as várias calçadas identificadas no
decorrer da intervenção, o seu enquadramento cronológico é
condicionado, à partida, pela presença pouco significativa de
material arqueológico, muito do qual terá vindo de depósitos
anteriores utilizados como preparação nas sucessivas
remodelações.
A planta dos vários segmentos de via observados forma uma
espécie de T, com um eixo Norte-Sul e um eixo Este-Oeste
criando um cruzamento, junto ao qual são construídos os
referidos edifícios.
O primeiro momento construtivo engloba um segmento de
via com orientação genérica Este-Oeste, construída
directamente sobre o substrato geológico, sem recurso a
vala de fundação. É composto por um nível de gravilha que
serve de base ao piso de circulação, feito de calçada em
blocos de calcário de formas irregulares, com pequena e
média dimensão. Esta via tinha uma largura média de cerca
de 3,60 m apresentando marcas de desgaste de rodados
com uma largura de eixo de 1,10m.
Figura 11 – Vista dos tanques que constituem o lagar.
Figura 12 – Vista do compartimento 5, observando-se em primeiro
plano a grande pedra de soleira que marcava a sua entrada.
Figura 13 – Vista área do sítio com as duas vias, o seu
cruzamento e as diferentes áreas edificadas (em cima); primeira
via, com uma orientação genérica Este-Oeste (em baixo).
.
Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org)
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Posteriormente foi construída uma segunda via, com
orientação Norte-Sul, que se une à via anterior, criando o
referido cruzamento. Esta nova via foi já construída de forma
distinta. O seu processo construtivo iniciou-se com a
abertura de uma vala linear, escavada no substrato
geológico e com uma largura média de cerca de 3,40 m,
alargando na zona de curva para cerca de 4,50 m.
Apresentava uma profundidade média de cerca de 0,30 m,
tendo, no entanto, sido realizado um aprofundamento da
escavação na referida zona de curva, de forma a esbater o
desnível natural do terreno. Na base desta interface, assente
sobre a rocha, observou-se um nível de cascalho de calcário
misturado com fragmentos de cerâmica de construção,
bastante compactado, que corresponde ao nível de
preparação da via, servindo como base para o seu
assentamento. O nível de circulação, possivelmente também
regularizado através de uma área de calçada, encontrava-se
já destruído. Observaram-se ainda dois alinhamentos de
blocos de calcário afeiçoados, de média dimensão, que
correspondem à delimitação da via, ocupando o papel de
margines.
Por último identificou-se um terceiro segmento de via, que
vem essencialmente sobrepor a via anterior, alterando o
espaço de circulação. Esta nova via apresenta um tipo de
construção com características que se enquadra
perfeitamente numa tipologia de construção viária romana já
identificada por diversos autores. (CHEVALLIER, 1997;
MANTAS, 1996; MORENO GALLO, 1997; RODRIGUES,
2004; SILLIÈRES, 1990)
Foi novamente escavada uma interface linear, com cerca de
3,60 m de largura e 0,50 m de profundidade, preenchida com
diferentes níveis de preparação que precedem o piso de
circulação. Foi possível registar três níveis que cumprem a
função de preparação desta estrutura viária: na base da
interface foi identificado um nível constituído por um
sedimento argiloso misturado com cascalho de calcário de
pequena dimensão; sob este nível surgiu um nível mais
limpo de terra areno-argilosa, bastante granulada, com
elementos de geológico desagregado; sob este observou-se
ainda um nível de cascalho de calcário, com tamanhos
irregulares, misturado com cerâmica de construção, e
bastante compactado. O nível de circulação era constituído
genericamente por um piso de calçada em calcário, com
diferenças ao nível do tamanho das pedras que a
constituíam. Enquanto junto ao seu limite Sul, onde se
observa o início de uma curva, foram utilizadas lajes de
calcário com tamanhos entre os 20 e os 80 cm, na restante
área, que se desenvolve com um traçado linear, foram
usados pequenos seixos de calcário, misturados com
gravilha e pequenos fragmentos de cerâmica de construção.
Esta via era novamente delimitada nas suas margens por
lajes de maior dimensão.
É também de notar que as lajes que constituíam a zona Sul
da mesma via se caracterizavam por apresentar um aspecto
muito polido e pela presença de sulcos que podiam
corresponder a marcas de rodados, embora pouco vincados.
Estas marcas encontravam-se a uma distância de cerca de
1,10 m.
Figura 14 – Pormenor da calçada da primeira via.
Figura 15 – Vista geral da segunda via, com uma orientação
Norte-Sul.
Figura 16 – Vista da terceira via na sua área lajeada.
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6. Material
O material arqueológico identificado nos diferentes contextos
aqui expostos é constituído pelo espólio típico de um habitat
implantado em contexto rural, encontrando paralelos nas
tipologias referenciadas em Conimbriga, óbvio mercado
difusor para os sítios que se implantam dentro do seu
território.
Destaque-se de entre o conjunto de terra sigillata, composto
por exemplares sud-gálicos, hispânicos e africanos, a
presença de vários selos das oficinas de La Rioja, datados
de meados do século I a meados do Século II, provenientes
das oficinas de Lapillius, Segius Tritiensis e Sempronius.
O espólio numismático apresenta-se também bastante
interessante, com 119 exemplares que abarcam um vasto
espectro cronológico, sendo o exemplar mais antigo datado
de 154 a.C e o mais tardio batido entre 383 e 385, embora a
sua maior percentagem date da segunda metade do século
III e século IV. Dentro dos metais, destaque-se ainda a
presença de 3 “mascarões” de sítula, com paralelos em
Conimbriga e um fragmento de estribo de freio, decorado
com motivos vegetalistas.
A cerâmica comum constitui obviamente a grande
percentagem de material exumado, encontrando paralelos,
ao nível das formas e das pastas, com o material
documentado em Conimbriga, prevalecendo as produções
locais sobre o material de importação, resumido a dois
fragmentos de almofarizes de produção Bética e um
fragmento de ânfora de importação itálica. A presença de
material anfórico é residual, sendo a cerâmica de transporte
e armazenamento constituída quase exclusivamente por
doliae de dimensões variáveis.
7. A Eira Velha, estação viária
Os vários segmentos de via postos a descoberto no sítio da
Eira Velha assumem-se como evidentes reticências no que
concerne à classificação funcional deste habitat.
Se à partida o conjunto edificado apresenta características
de estabelecimento agrário, coevas com a maior parte dos
sítios interpretados como villae, dotado de partes
diferenciadas que possibilitariam a acomodação dos seus
residentes assim como dariam apoio às suas actividades de
produção e transformação (ALARCÂO, 1988a), basta uma
breve análise à planta geral do sítio para compreender a
estreita relação do conjunto edificado com os vários troços
de calçada, elemento alheio a qualquer habitat agrário
conhecido neste extremo do império. Columela, ao escrever
sobre a localização ideal das villae, aconselha a sua
edificação a alguma distância das estradas, de modo a
preservar a sua segurança e a integridade dos que nela
habitam, ainda que suficientemente perto para que
conseguissem escoar a produção sem dificuldades de maior.
(COLUMELA, 1989) Esta preocupação é evidente na
implantação de todas as grandes villae escavadas no nosso
território.
O conjunto edificado descoberto é desprovido de
monumentalidade, sem um programa arquitectónico que
evidencie mais do que um certo empirismo na forma de
construir, onde subjaz a ideia de uma planta mutável,
adaptada às necessidades imediatas e ao status dos seus
residentes, e sempre em estreita articulação com as vias.
A análise do material exumado no decorrer da intervenção
indicia claramente um habitat modesto em todas as suas
fases construtivas.
Perguntamo-nos então até que ponto, um sítio relativamente
modesto como o aqui observado, justificaria a existência de
vias de construção elaborada, perfeitamente enquadráveis
nas tipologias de vias romanas conhecidas na Hispânia, e
que parecem representar, per se, um investimento muito
maior do que os edifícios que lhe são anexos?
Parece-nos lógico que no sítio da Eira Velha são as vias que
justificam o estabelecimento e não o contrário, o qual vem,
como terá sido habitual no mundo viário romano, tirar
proveito de um cruzamento viário, (MANTAS, 1996), assim
como da proximidade das civitates de Conimbriga e de
Aeminium.
As duas civitates são parte importante do estudo deste sítio,
cuja estreita relação com Conimbriga, enquanto mercado
difusor, se evidencia, como referido, no tipo de material
exumado no decorrer da intervenção.
Por ora, focamo-nos no âmbito geográfico e nas distâncias
que separam o nosso sítio das duas cidades: para
Conimbriga, em linha recta, 6 milhas romanas; para
Aeminium, em linha recta, 9,5 milhas romanas. Se numa
primeira análise, estas distâncias não se enquadram no
intervalo padrão entre duas mutationes – embora não andem
desfasadas dos números vulgarmente aceites – acreditamos
que os condicionalismos impostos pela topografia desta
região, terão tornado o traçado de qualquer via que a
atravesse algo sinuoso e aumentado em algumas milhas as
distâncias entre dois pontos.
Importa também focar a ampla cronologia do sítio, onde as
evidências materiais apontam para uma ocupação contínua
desde meados do século I até finais do século IV, embora
um estudo mais aprofundado possa dilatar ainda mais este
amplo quadro cronológico. A haver hiatos nesta baliza
temporal, são imperceptíveis no registo arqueológico.
Parece-nos que a longa sobrevivência de um sítio tão
pequeno, enquadrado num contexto rural em constante
mutação, só poderá ser explicada pela sua relação
simbiótica com um sistema viário estável, onde o volume de
tráfego justifique a sua manutenção e lhe permita subsistir.
Assim é que, o abandono das vias – que supomos paulatino
– constitui o terminus da ocupação do próprio habitat.
As referências bibliográficas conhecidas relativas a este sítio
limitam-se a pequenos apontamentos circunstanciais que
referem pouco mais do que a evidente ocorrência de telharia
nesta área. No entanto a leitura do Tomo III das Grandes
Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org)
- 70 -
Vias da Lusitânia de Mário Saa, apresentou-nos informações
por demais sugestivas. A páginas tantas o autor refere, com
base num documento de 1194, a existência de um caminho
que, saindo de Conímbriga, seguia por Vila Seca, Água do
Forno, Lamas e Cervajota, até fazer junção com um outro
que saía de Coimbra. Entre Água do Forno e Lamas, que
distam 1000 metros pouco mais ou menos, a meio dos quais
se situa a Eira Velha, o autor menciona uma zona de
pequenas propriedades a que chamavam Porto Mourisco,
onde também ocorriam muros e canalizações. A referência
parece corresponder ao sítio da Eira Velha e ainda que não
o conheçamos pelo topónimo de Porto Mourisco, esta
designação representa, per se, uma importante pista no que
concerne à classificação funcional do habitat
intervencionado, cuja memória terá prevalecido na tradição
oral até tempos bem recentes como ponto de passagem ou
repouso.
Atendendo aos dados disponíveis, podemos então
enquadrar as vias da Eira Velha no intrincado mapa viário
vicinal do território da civitas de Conimbriga, que espelha
uma realidade formada por uma plêiade de sítios, de maior
ou menor dimensão, agregados em torno do centro urbano.
(FABIÃO, 2006)
Este sistema de vias vicinais cumpre uma função tão
importante como as grandes viae publicae (MANTAS, 1996),
podendo assemelhar-se a elas no aspecto técnico e
construtivo, como se encontra patente no caso da Eira
Velha. Nestes aspectos, os segmentos de calçada deste
sítio evidenciam um conhecimento técnico superlativo, com
preocupações que hoje nos parecem bem actuais,
facilmente constatáveis nos aterros e desaterros mais ou
menos profundos, com vista à criação de um piso de
circulação de desnível pouco acentuado; na implantação de
curvas com um raio bastante aberto para facilitar as
manobras dos veículos de tracção animal; e nos pavimentos
regulares e bem compactados, ancorados ao substrato
rochoso estável por uma espessa camada de preparação,
denotando preocupações com a sua impermeabilização e
com a drenagem das águas pluviais.
Contudo é a relação entre a área edificada e o
entroncamento destas vias que nos proporciona a leitura
mais interessante destas materialidades e nos leva a
interpretar o sítio como estação viária.
Ainda que os indícios de habitat de carácter agrário estejam
bem presentes em toda a arquitectura do sítio e nas
tipologias do material exumado, o que leva a supor a prática
agrícola como uma parte essencial da sua sobrevivência, é a
intencionalidade da sua implantação e a disposição dos
vários volumes que o constituem, que revela uma economia
que não se basearia exclusivamente nos modelos típicos de
exploração da terra, acabando por tirar proveito do tráfego
que circulava no território de Conimbriga e funcionando
como ponto de apoio intermédio aos viajantes que se
deslocavam entre dois pontos.
A interpretação e estudo das estações viárias que
acompanham as estradas romanas reveste-se de
dificuldades marcantes, associadas à raridade de vestígios
arqueológicos que as representam e à grande variedade de
tipologias de estabelecimentos, facto que não permite a
existência de um conjunto de características-tipo, definidoras
da configuração de uma estação viária.
A variedade existente está desde logo representada ao nível
das estações oficiais, concentradas nas viae publicae
principais, ou das estações privadas, que crescem por vezes
junto às anteriores e que predominam nas vias consideradas
secundárias. (MANTAS, 1996) As estradas romanas eram
assim acompanhadas pela presença de uma grande
variedade de sítios e áreas edificadas desde pequenas
tabernae de modesta extensão até às grandes mansiones
com albergues, termas e zonas para animais.
As mansiones e mutationes são habitualmente associadas
às vias principais e às longas viagens entre civitates e
províncias, revestindo-se de um carácter oficial público e
caracterizando-se por algum cuidado ao nível da sua
arquitectura. Podem corresponder a conjuntos edificados
com alguma dimensão que permitem a pernoita de viajantes,
seus animais e veículos, no caso das mansiones, ou a
paragem para descanso dos viajantes e respectiva muda de
animais, no caso das mutationes. São espaços marcados
pela presença de cavalariças e alpendres para viaturas,
alguns armazéns, possíveis áreas de oficinas, espaços para
alojamento e acima de tudo cozinhas com grande
capacidade de preparação de refeições e zonas de
balneários. (MANTAS, 1996)
Nas vias secundárias, que permitiam ligações regionais e
locais, estaria certamente presente um conjunto de
pequenas estalagens ou pousadas, de carácter privado,
constituídas por áreas para alimentação e balneários, que
surgem referenciadas com uma grande variedade de
designações como deversoria, hospitia, cauponae ou
tabernae. Este tipo de estabelecimentos devem apresentar
uma arquitectura mais modesta, que não difere muito das
grandes habitações rurais, devendo novamente destacar-se
a área de cozinha e o balneário como seus elementos
fundamentais. (MANTAS, 1996)
Aparentemente “os estabelecimentos viários particulares,
[são], os únicos que existem nas vias secundárias e em
todas aquelas em que não passavam os correios oficiais.”
(MANTAS, 1996) Esta constatação parece transportar a
estação viária da Eira Velha para o mundo dos referidos
deversoria, hospitia, cauponae ou tabernae que
acompanhavam as estradas secundárias, uma vez que as
vias aí identificadas parecem enquadrar-se nesta tipologia
de vias.
Todavia parece importante referir que a distinção entre as
diferentes tipologias de estações viárias acaba por ser ainda
um exercício realizado principalmente a nível teórico, dado o
nível de conhecimento real que temos das mesmas e a
raridade de escavações arqueológicas realizadas em
contextos deste tipo.
Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org)
- 71 -
Assim não será talvez ainda pertinente entrar na distinção
entre possível mutatio ou possível tabernae mas sim tentar
compreender este sítio arqueológico pelo seu carácter de
estação viária fortemente vinculada à presença de uma via
que até ao momento não havia ainda sido referenciada.
Bibliografia
ALARCÃO, J.de, (1988), Roman Portugal, Vol.2 Coimbra e Lisboa,
Warminster, Aris & Phillips Ltd.
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MANTAS, V.G., (1996), A rede viária romana da faixa atlântica
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SILLIÈRES, P., (1990), Les voies de communication de l’Hispanie
Meridionale, Paris, Diffusion de Boccard.
SOLANA SÁINZ, J. e SAGREDO SAN EUSTAQUIO, L., (2006), La
red viária romana en Hispania. Siglos I-IV d.C., Valladolid,
Universidad de Valladolid, Secretariado de Publicaciones e
Intercambio Editorial.

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  • 1. Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org) - 1 - A A A APONTAMENTOS PONTAMENTOS PONTAMENTOS PONTAMENTOS de Arqueologia e Património de Arqueologia e Património de Arqueologia e Património de Arqueologia e Património OUT 2012 8
  • 2. Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org) - 2 - Título: Apontamentos de Arqueologia e Património Propriedade: Era-Arqueologia S.A. Editor: Núcleo de Investigação Arqueológica – NIA Local de Edição: Lisboa Data de Edição: Outubro de 2012 Capa: “Ídolo Almeriense” proveniente dos Perdigões. (António Valera) Contactos e envio de originais: antoniovalera@era-arqueologia.pt Os originais deverão ter um máximo de dez páginas A4, dactilografadas a um espaço (letra Arial, tamanho 10), incluindo referências bibliográficas. Imagens são entregues à parte, juntamente com resumo em inglês (ou português se a lígua do texto for outra – inglês, francês ou castelhano). Revista online. Ficheiro preparado para impressão frente e verso.
  • 3. Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org) - 3 - ÍNDICE EDITORIAL ................................................................................. 05 Helmut Becker e António Carlos Valera LUZ 20 (MOURÃO, ÉVORA): RESULTADOS PRELIMINARES DA PROSPEÇÃO GEOFÍSICA (MAGNETOMETRIA DE CÉSIO) ................................................ 07 Helmut Becker, António Carlos Valera e Patrícia Castanheira MONTE DO OLIVAL 1 (FERREIRA DO ALENTEJO, BEJA): MAGNETOMETRIA DE CÉSIO NUM RECINTO DE FOSSOS DO 3º MILÉNIO AC. .................................................................... 11 António Carlos Valera “ÍDOLOS ALMERIENSES” PROVENIENTES DE CONTEXTOS NEOLÍTICOS DO COMPLEXO DE RECINTOS DOS PERDIGÕES. ............................................ 19 António Carlos Valera e Victor Filipe A NECRÓPOLE DE HIPOGEUS DO NEOLÍTICO FINAL DO OUTEIRO ALTO 2 (BRINCHES, SERPA) .………….…....… 29
  • 4. Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org) - 4 - Cláudia Costa e Nelson Cabaço ASSOCIAÇÃO DE RESTOS DE ANIMAIS VERTEBRADOS A CONTEXTOS FUNERÁRIOS DA PRÉ-HISTÓRIA RECENTE: O CASO DO OUTEIRO ALTO 2. ............................. 43 Cláudia Cunha CARACTERIZAÇÃO DA MORFOLOGIA DENTÁRIA NO MÉDIO GUADIANA NO NEOLÍTICO FINAL-CALCOLÍTICO. FUNDAMENTAÇÃO PARA O MAPEAMENTO MORFOLÓGICO DAS POPULAÇÕES LOCAIS NA PRÉ-HISTÓRIA RECENTE ............. 49 Tiago do Pereiro e Nuno André Coelho Gomes NOTÍCIA PRELIMINAR SOBRE A DESCOBERTA DE ARTE RUPESTRE NO VALE DAS BURACAS (CASMILO, COIMBRA) ............................................................... 57 Rui Ramos e Inês Simão EIRA VELHA: UMA ESTAÇÃO VIÁRIA ROMANA NA PERIFERIA DE CONIMBRIGA ............................................. 63
  • 5. Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org) - 5 - EDITORIAL Vinte meses depois do último volume (interregno grande para os objetivos que nortearam o aparecimento da revista), a Apontamentos de Arqueologia e Património vê editar um novo volume, o oitavo em cinco anos. Num momento de grandes dificuldades, como é aquele que (quase) todos vivemos, é difícil perceber se a perserverança reflete simplesmente a inconsciência ou a recusa psicológica de um fim inexorável, qual Crepúsculo dos Deuses, ou se, pelo contrário, é ainda condição de sobrevivência de um caminho iniciado com objetivos bem definidos. A consciência do dilema, porém, dota as nossas práticas de intenção. Confere-lhes, de facto, um estatuto de opção e, sobretudo, demonstra o valor que lhes atribuímos, pois as mantemos em tempos de adversidade. A continuidade da Apontamentos reflete, pois, uma postura face ao que é, efetivamente, a razão de ser da Arqueologia: a produção e partilha de conhecimento. Na medida das nossas possibilidades, que terão sempre um contexto, continuaremos a publicar e a proporcionar condições de publicação. António Carlos Valera
  • 6. Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org) - 63 - 1. Nota prévia A Omniknos Arqueologia procedeu, entre Março e Novembro de 2011, à escavação arqueológica do sítio romano da Eira Velha, em Miranda do Corvo, com vista à caracterização dos contextos arqueológicos a afectar pelo projecto de construção do Lote 2 da Concessão do Pinhal Interior. O presente texto é um primeiro esboço interpretativo dos contextos arqueológicos intervencionados, constituindo as linhas orientadoras de um trabalho em progresso, que busca ainda novos dados para se considerar definitivo. Assim, leia- se este artigo como um ponto de situação da informação disponível até ao momento e não como uma conclusão hermética sobre a funcionalidade deste sítio, que cremos verdadeiramente excepcional dentro do quadro da arqueologia do mundo rural romano em território português. 2. Contextualização geográfica O sítio arqueológico da Eira Velha (CMP 251) localiza-se na freguesia de Lamas, concelho de Miranda do Corvo, enquadrando-se no aro de ocupação que orla a civitas de Conimbriga, sita a pouco menos de 10 quilómetros, e integrando-se na antiga província da Lusitânia romana. Rui Ramos Inês Simão EIRA VELHA: UMA ESTAÇÃO VIÁRIA ROMANA NA PERIFERIA DE CONIMBRIGA. Apart from better sanitation and medicine and education and irrigation and public health and roads and a freshwater system and baths and public order... What have the Romans done for us? Monty Python´s Life of Brian Resumo: O sítio arqueológico da Eira Velha localiza-se na freguesia de Lamas, concelho de Miranda do Corvo, enquadrando-se no aro de ocupação que orla a civitas de Conimbriga, sita a pouco menos de 10 quilómetros, e integrando-se na antiga província da Lusitânia romana. Os trabalhos arqueológicos aí realizados permitiram pôr em evidência um entroncamento de vias calcetadas e vários edifícios a elas associados, enquadrados em diferentes momentos construtivos que abrangem uma cronologia bastante lata, entre meados do Século I e finais do Século IV. Abstract: Eira Velha: a roman way station near Conimbriga The archaeological site of Eira Velha is located near Lamas, in Miranda do Corvo, and used to be part of the ancient civitas of Conimbriga territory, (located a little less than 10 kilometers), integrated in the former province of Roman Lusitania. The recent fieldwork allowed bringing into focus a junction of cobbled roads with several buildings, covering a broad chronology between the middle of the 1st century and the end of the 4th century. Figura 1 – Localização do sítio da Eira Velha na Carta Militar de Portugal, 1:25 000, Folha 251.
  • 7. Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org) - 64 - O sítio ocupa uma pequena plataforma a meia-encosta, orientada a Norte, numa posição sobranceira à Ribeira de Urzelhe e dominando uma zona de vale onde despontam olivais, vinhas e pequenos pomares. As gentes de Lamas referem a Eira Velha desde há longa data, sobrevivendo na tradição oral essas estórias das mouras encantadas e dos achamentos de tesouros que se contam um pouco por todo o país, sempre que a terra tratou de ocultar os antigos assentamentos de época romana. Atendendo aos dados disponíveis, Jorge de Alarcão referenciou este sítio como uma villa, onde ocorrem “alicerces, cerâmica de construção (…) um peso de tear” (Alarcão, 1988), embora exista uma referência mais antiga ao mesmo, que adiante será tratada. 3. Resumo dos trabalhos A prospecção prévia ao início dos trabalhos permitiu identificar uma mancha de dispersão de material (principalmente de construção) que abrangia uma área com aproximadamente 3,5 hectares, radiando desde a plataforma já mencionada, onde a concentração de telharia era por demais evidente. Desde logo se verificou a existência de estruturas pétreas soterradas, associadas a formas cerâmicas de cronologias inequivocamente romanas, facto que trouxe a programação de um conjunto de trabalhos arqueológicos com diferentes vertentes. Procurou-se desde logo definir a área total do sítio a ser afectada pelo projecto de construção de forma a melhor programar a intervenção sobre o mesmo. As primeiras fases dos trabalhos arqueológicos consistiram na realização de sondagens mecânicas ao longo de um corredor de 30 x 500 metros de extensão e na decapagem mecânica e limpeza manual da área entretanto sinalizada. Os dados obtidos no decurso destas fases permitiram circunscrever uma área com aproximadamente 4500 metros quadrados, centrados na plataforma a meia encosta, onde se verificou uma continuidade de estruturas e depósitos arqueológicos preservados, coevos com as cronologias propostas e selados por uma camada negra de composição argilosa. Esta camada surgiu como um marco bastante vincado entre os depósitos superiores profundamente alterados por séculos de prática agrícola e os contextos arqueológicos que escaparam à relha dos arados, por ela cobertos. A última fase dos trabalhos arqueológicos, desenvolvida entre Julho e Novembro de 2011, consistiu na escavação manual dos contextos identificados, tendo sido posto em evidência um entroncamento de vias calcetadas e vários edifícios a elas associados, enquadrados em quatro grandes momentos construtivos que abrangem uma cronologia bastante lata, balizada entre meados do Século I e finais do Século IV. Figura 2 – Vista geral do sítio no início dos trabalhos arqueológicos. Figura 3 – Planta geral da Eira Velha.
  • 8. 4. Os edifícios A ocupação mais antiga, datada de entre meados do Século I e a primeira metade do Século II, é composta por um edifício de planta rectangular, que integrava pelo menos cinco compartimentos, situado na transição da plataforma central para o declive. O edifício apresentava arrasado, resultado provável de um desmonte para a reutilização de pedra nos volumes que o sucederam cronologicamente. Este espaço era ainda marcado por um número considerável de estruturas negativas de planta circular, com dimensões variáveis, que correspondiam a buracos de poste e fossas escavadas no substrato base, pese o facto da sua relação cronológica com a primeira fase de ocupação não ser evidente. A segunda fase construtiva, enquadrada entre a primeira metade do século II e a segunda metade do século III, é composta por um grande edifício residencial, construído em alvenaria de calcário, que se implanta em parte sobre a antiga ocupação. O novo edifício abeira-se de uma das vias identificadas no local, que corre paralela à sua fachada Sul, e encontra encaixado no terreno por uma escavação que terá procurado níveis mais estáveis do que a friável primeira camada de rocha para ancorar os seus alicerces, ao mesmo tempo que terá servido para regularizar um interior que se construiu sobre um substrato rochoso irregular. Se os comparti da ala Norte se apresentam encaixados nesse afloramento por meio de um desbaste intencional, os compartimentos da ala Sul apresentam já um aterro considerável, com vista à uniformização da cota do nível de circulação em toda a área edificada. Este volume é constituído por oito compartimentos que se articulam em redor de um átrio, provavelmente testudinado, para onde confluem todos os vãos interiores, bem definidos por padieiras e pedras de soleira. O acesso era feito pela fachada Sul, onde um pequeno fauces ligava o exterior do edifício ao átrio, embora este pareça apresentar na sua parede Oeste indícios de um pórtico que o ligava a um Figura 4 – Vista geral da Eira Velha. Apontamentos de Arqueologia e Património - 65 - A ocupação mais antiga, datada de entre meados do Século metade do Século II, é composta por um edifício de planta rectangular, que integrava pelo menos cinco compartimentos, situado na transição da plataforma central para o declive. O edifício apresentava-se bastante arrasado, resultado provável de um desmonte intencional para a reutilização de pedra nos volumes que o sucederam cronologicamente. Este espaço era ainda marcado por um número considerável de estruturas negativas de planta circular, com dimensões variáveis, que correspondiam a as escavadas no substrato base, pese o facto da sua relação cronológica com a primeira fase A segunda fase construtiva, enquadrada entre a primeira metade do século II e a segunda metade do século III, é edifício residencial, construído em alvenaria de calcário, que se implanta em parte sobre a se de uma das vias identificadas no local, que corre paralela à sua fachada Sul, e encontra-se a escavação que terá procurado níveis mais estáveis do que a friável primeira camada de rocha para ancorar os seus alicerces, ao mesmo tempo que terá servido para regularizar um interior que se construiu sobre um substrato rochoso irregular. Se os compartimentos da ala Norte se apresentam encaixados nesse afloramento por meio de um desbaste intencional, os compartimentos da ala Sul apresentam já um aterro considerável, com vista à uniformização da cota do nível de circulação em toda a área volume é constituído por oito compartimentos que se articulam em redor de um átrio, provavelmente testudinado, para onde confluem todos os vãos interiores, bem definidos por padieiras e pedras de soleira. O acesso era feito pela ligava o exterior do edifício ao átrio, embora este pareça apresentar na sua parede Oeste indícios de um pórtico que o ligava a um compartimento de grande dimensão, possível pátio exterior semiaberto e resguardado da via. Foi identificada também uma área de cozinha, marcada pela existência de uma lareira de grandes dimensões e um espesso depósito de cinza com inclusão abundante de fauna mamacológica. Junto a uma das suas paredes, um pequeno esteio rectangular ainda in situ, terá servido como base p trinchar carne. Os pisos apresentam entrada a circulação far-se-ia directamente sobre a rocha base; o átrio era revestido, pelo menos em parte, por signinum bastante grosseiro; os compartimentos mais pequenos, interpretados como cellae em argamassa de saibro; os restantes compartimentos eram compostos por pisos em terra batida. A terceira fase construtiva, que abrange um período entre finais do século III e finais do século IV, desenvolve esta área residencial pré-existente, aterrada com vista à implantação de uma nova compartimentação. As evidências materiais apontam para uma remodelação do espaço, uma vez que o desmonte e aterro da segunda fase terá sido imediatamente seguido pela construção da terceira fase, numa sequência de ocupação linear e sem hiatos temporais. A planta do novo volume Figura 5 – Vista geral da área edificada mais antiga, associada ao referido conjunto de estruturas negativas. Figura 6 – Vista geral da nova área edificada, ladeando uma das vias calcetadas (à direita). Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org) compartimento de grande dimensão, possível pátio exterior semiaberto e resguardado da via. Foi identificada também ma área de cozinha, marcada pela existência de uma lareira de grandes dimensões e um espesso depósito de cinza com inclusão abundante de fauna mamacológica. Junto a uma das suas paredes, um pequeno esteio , terá servido como base para trinchar carne. Os pisos apresentam-se heteróclitos: na ia directamente sobre a rocha base; o átrio era revestido, pelo menos em parte, por opus bastante grosseiro; os compartimentos mais cellae, apresentavam o piso em argamassa de saibro; os restantes compartimentos eram compostos por pisos em terra batida. A terceira fase construtiva, que abrange um período entre finais do século III e finais do século IV, desenvolve-se sobre existente, que é parcialmente aterrada com vista à implantação de uma nova compartimentação. As evidências materiais apontam para uma remodelação do espaço, uma vez que o desmonte e aterro da segunda fase terá sido imediatamente seguido pela se, numa sequência de ocupação linear e sem hiatos temporais. A planta do novo volume Vista geral da área edificada mais antiga, associada ao referido conjunto de estruturas negativas. Vista geral da nova área edificada, ladeando uma
  • 9. Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org) - 66 - aproxima-se bastante da planta do edifício anterior, da qual reaproveita parcialmente a fachada Noroeste e pelo menos dois compartimentos dos cinco que a constituem, e na qual ocorre a eliminação do átrio testudinado e a redução substancial da área das novas divisões. No entanto, é a construção de um novo volume arquitectónico, independente do bloco da área residencial, que marca vincadamente esta terceira fase. A nova área construída implanta-se sobre a via com orientação Norte-Sul e apresenta características coevas com as pars rusticas das villae já conhecidas, evidenciando-se como espaço de apoio às actividades agrícolas. Esta área é composta por cinco compartimentos, que se articulam em função de um pequeno compartimento central onde foram construídos dois tanques revestidos a opus signinum, cumprindo a função de um lagar de produção de vinho. Os dois tanques, geminados e interligados por um pequeno orifício circular, apresentam diferentes dimensões e cotas de fundo: o maior cumpre as funções de calcatorium, onde acontecia a pisa; e o mais pequeno e profundo corresponde a um lacus, de recolha e decantação do mosto. Não foi identificado qualquer indício do mecanismo de transformação e prensagem associado a este lagar. O material arqueológico associado a este contexto é constituído maioritariamente por cerâmica de armazenamento. Neste novo bloco, destaca-se também o chamado Compartimento 5, localizado entre o volume do lagar e a área residencial, anexo à primeira via calcetada (Este- Oeste). Este compartimento, com uma área aproximada de 35 metros quadrados, surge como o de maior dimensão neste sítio arqueológico. Numa primeira interpretação este espaço foi encarado com uma função de cella vinaria, atendendo à sua disposição relativamente ao lagar e à ocorrência percentualmente significativa de material doliar no seu interior. Contudo o número de numismas recolhido neste espaço, que perfaz 30% do total do espólio numismático recolhido durante a intervenção, e algum material que não se encontra entre o material recorrente neste tipo de contextos, levou-nos a supor que entre as suas paredes poderá ter-se desenvolvido uma salutar actividade comercial, tendo o mesmo funcionado como taberna e devendo constituir uma parte fundamental da sobrevivência do sítio. Figura 7 – Vista da nova área edificada, observando-se em primeiro plano a zona de cellae e em segundo plano o átrio (à esquerda) e a cozinha (à direita). Figura 8 – Área de cozinha com lareira central. Figura 9 – Vista área do novo espaço de apoio a actividades agrícolas. Figura 10 – Vista geral do lagar.
  • 10. Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org) - 67 - Os vestígios associados à quarta fase construtiva são já bastante incipientes e a leitura da sua planta é bastante parcelar. Em finais do século IV, ter-se-á dado uma nova remodelação da área residencial, com o abandonado dos compartimentos anexos ao lagar, embora este deva ter continuado a ser utilizado. A oeste do mesmo desenvolveram-se novas estruturas em alvenaria, prolongando-se para fora da área intervencionada, contudo não conseguimos inferir qualquer funcionalidade a estes novos espaços, que se apresentavam bastante truncados. A única certeza é que esta fase corresponde à última ocupação deste espaço e é coeva com o momento de abandono das vias calcetadas presentes. 5. As vias As vias referidas surgem precisamente como espinha dorsal deste sítio arqueológico. Os vários volumes arquitectónicos e seus variados momentos construtivos articulam-se em função do alinhamento das várias calçadas, feitas e refeitas ao longo de todo o tempo durante o qual este sítio permaneceu funcional e habitado. São elas que despontam como garante da sua permanência e, a partir do momento em que são abandonadas, o sítio definha e desaparece, não mais voltando a ser ocupado. Esta relação simbiótica é desde logo visível na implantação do conjunto edificado, cuja evolução se faz, desde a fase mais antiga até ao terminus da ocupação, no sentido de se acercar gradualmente das vias, chegando a sobrepô-las em dado momento do século IV. Importa referir que ainda que tenhamos definido fases construtivas para as várias calçadas identificadas no decorrer da intervenção, o seu enquadramento cronológico é condicionado, à partida, pela presença pouco significativa de material arqueológico, muito do qual terá vindo de depósitos anteriores utilizados como preparação nas sucessivas remodelações. A planta dos vários segmentos de via observados forma uma espécie de T, com um eixo Norte-Sul e um eixo Este-Oeste criando um cruzamento, junto ao qual são construídos os referidos edifícios. O primeiro momento construtivo engloba um segmento de via com orientação genérica Este-Oeste, construída directamente sobre o substrato geológico, sem recurso a vala de fundação. É composto por um nível de gravilha que serve de base ao piso de circulação, feito de calçada em blocos de calcário de formas irregulares, com pequena e média dimensão. Esta via tinha uma largura média de cerca de 3,60 m apresentando marcas de desgaste de rodados com uma largura de eixo de 1,10m. Figura 11 – Vista dos tanques que constituem o lagar. Figura 12 – Vista do compartimento 5, observando-se em primeiro plano a grande pedra de soleira que marcava a sua entrada. Figura 13 – Vista área do sítio com as duas vias, o seu cruzamento e as diferentes áreas edificadas (em cima); primeira via, com uma orientação genérica Este-Oeste (em baixo). .
  • 11. Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org) - 68 - Posteriormente foi construída uma segunda via, com orientação Norte-Sul, que se une à via anterior, criando o referido cruzamento. Esta nova via foi já construída de forma distinta. O seu processo construtivo iniciou-se com a abertura de uma vala linear, escavada no substrato geológico e com uma largura média de cerca de 3,40 m, alargando na zona de curva para cerca de 4,50 m. Apresentava uma profundidade média de cerca de 0,30 m, tendo, no entanto, sido realizado um aprofundamento da escavação na referida zona de curva, de forma a esbater o desnível natural do terreno. Na base desta interface, assente sobre a rocha, observou-se um nível de cascalho de calcário misturado com fragmentos de cerâmica de construção, bastante compactado, que corresponde ao nível de preparação da via, servindo como base para o seu assentamento. O nível de circulação, possivelmente também regularizado através de uma área de calçada, encontrava-se já destruído. Observaram-se ainda dois alinhamentos de blocos de calcário afeiçoados, de média dimensão, que correspondem à delimitação da via, ocupando o papel de margines. Por último identificou-se um terceiro segmento de via, que vem essencialmente sobrepor a via anterior, alterando o espaço de circulação. Esta nova via apresenta um tipo de construção com características que se enquadra perfeitamente numa tipologia de construção viária romana já identificada por diversos autores. (CHEVALLIER, 1997; MANTAS, 1996; MORENO GALLO, 1997; RODRIGUES, 2004; SILLIÈRES, 1990) Foi novamente escavada uma interface linear, com cerca de 3,60 m de largura e 0,50 m de profundidade, preenchida com diferentes níveis de preparação que precedem o piso de circulação. Foi possível registar três níveis que cumprem a função de preparação desta estrutura viária: na base da interface foi identificado um nível constituído por um sedimento argiloso misturado com cascalho de calcário de pequena dimensão; sob este nível surgiu um nível mais limpo de terra areno-argilosa, bastante granulada, com elementos de geológico desagregado; sob este observou-se ainda um nível de cascalho de calcário, com tamanhos irregulares, misturado com cerâmica de construção, e bastante compactado. O nível de circulação era constituído genericamente por um piso de calçada em calcário, com diferenças ao nível do tamanho das pedras que a constituíam. Enquanto junto ao seu limite Sul, onde se observa o início de uma curva, foram utilizadas lajes de calcário com tamanhos entre os 20 e os 80 cm, na restante área, que se desenvolve com um traçado linear, foram usados pequenos seixos de calcário, misturados com gravilha e pequenos fragmentos de cerâmica de construção. Esta via era novamente delimitada nas suas margens por lajes de maior dimensão. É também de notar que as lajes que constituíam a zona Sul da mesma via se caracterizavam por apresentar um aspecto muito polido e pela presença de sulcos que podiam corresponder a marcas de rodados, embora pouco vincados. Estas marcas encontravam-se a uma distância de cerca de 1,10 m. Figura 14 – Pormenor da calçada da primeira via. Figura 15 – Vista geral da segunda via, com uma orientação Norte-Sul. Figura 16 – Vista da terceira via na sua área lajeada.
  • 12. Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org) - 69 - 6. Material O material arqueológico identificado nos diferentes contextos aqui expostos é constituído pelo espólio típico de um habitat implantado em contexto rural, encontrando paralelos nas tipologias referenciadas em Conimbriga, óbvio mercado difusor para os sítios que se implantam dentro do seu território. Destaque-se de entre o conjunto de terra sigillata, composto por exemplares sud-gálicos, hispânicos e africanos, a presença de vários selos das oficinas de La Rioja, datados de meados do século I a meados do Século II, provenientes das oficinas de Lapillius, Segius Tritiensis e Sempronius. O espólio numismático apresenta-se também bastante interessante, com 119 exemplares que abarcam um vasto espectro cronológico, sendo o exemplar mais antigo datado de 154 a.C e o mais tardio batido entre 383 e 385, embora a sua maior percentagem date da segunda metade do século III e século IV. Dentro dos metais, destaque-se ainda a presença de 3 “mascarões” de sítula, com paralelos em Conimbriga e um fragmento de estribo de freio, decorado com motivos vegetalistas. A cerâmica comum constitui obviamente a grande percentagem de material exumado, encontrando paralelos, ao nível das formas e das pastas, com o material documentado em Conimbriga, prevalecendo as produções locais sobre o material de importação, resumido a dois fragmentos de almofarizes de produção Bética e um fragmento de ânfora de importação itálica. A presença de material anfórico é residual, sendo a cerâmica de transporte e armazenamento constituída quase exclusivamente por doliae de dimensões variáveis. 7. A Eira Velha, estação viária Os vários segmentos de via postos a descoberto no sítio da Eira Velha assumem-se como evidentes reticências no que concerne à classificação funcional deste habitat. Se à partida o conjunto edificado apresenta características de estabelecimento agrário, coevas com a maior parte dos sítios interpretados como villae, dotado de partes diferenciadas que possibilitariam a acomodação dos seus residentes assim como dariam apoio às suas actividades de produção e transformação (ALARCÂO, 1988a), basta uma breve análise à planta geral do sítio para compreender a estreita relação do conjunto edificado com os vários troços de calçada, elemento alheio a qualquer habitat agrário conhecido neste extremo do império. Columela, ao escrever sobre a localização ideal das villae, aconselha a sua edificação a alguma distância das estradas, de modo a preservar a sua segurança e a integridade dos que nela habitam, ainda que suficientemente perto para que conseguissem escoar a produção sem dificuldades de maior. (COLUMELA, 1989) Esta preocupação é evidente na implantação de todas as grandes villae escavadas no nosso território. O conjunto edificado descoberto é desprovido de monumentalidade, sem um programa arquitectónico que evidencie mais do que um certo empirismo na forma de construir, onde subjaz a ideia de uma planta mutável, adaptada às necessidades imediatas e ao status dos seus residentes, e sempre em estreita articulação com as vias. A análise do material exumado no decorrer da intervenção indicia claramente um habitat modesto em todas as suas fases construtivas. Perguntamo-nos então até que ponto, um sítio relativamente modesto como o aqui observado, justificaria a existência de vias de construção elaborada, perfeitamente enquadráveis nas tipologias de vias romanas conhecidas na Hispânia, e que parecem representar, per se, um investimento muito maior do que os edifícios que lhe são anexos? Parece-nos lógico que no sítio da Eira Velha são as vias que justificam o estabelecimento e não o contrário, o qual vem, como terá sido habitual no mundo viário romano, tirar proveito de um cruzamento viário, (MANTAS, 1996), assim como da proximidade das civitates de Conimbriga e de Aeminium. As duas civitates são parte importante do estudo deste sítio, cuja estreita relação com Conimbriga, enquanto mercado difusor, se evidencia, como referido, no tipo de material exumado no decorrer da intervenção. Por ora, focamo-nos no âmbito geográfico e nas distâncias que separam o nosso sítio das duas cidades: para Conimbriga, em linha recta, 6 milhas romanas; para Aeminium, em linha recta, 9,5 milhas romanas. Se numa primeira análise, estas distâncias não se enquadram no intervalo padrão entre duas mutationes – embora não andem desfasadas dos números vulgarmente aceites – acreditamos que os condicionalismos impostos pela topografia desta região, terão tornado o traçado de qualquer via que a atravesse algo sinuoso e aumentado em algumas milhas as distâncias entre dois pontos. Importa também focar a ampla cronologia do sítio, onde as evidências materiais apontam para uma ocupação contínua desde meados do século I até finais do século IV, embora um estudo mais aprofundado possa dilatar ainda mais este amplo quadro cronológico. A haver hiatos nesta baliza temporal, são imperceptíveis no registo arqueológico. Parece-nos que a longa sobrevivência de um sítio tão pequeno, enquadrado num contexto rural em constante mutação, só poderá ser explicada pela sua relação simbiótica com um sistema viário estável, onde o volume de tráfego justifique a sua manutenção e lhe permita subsistir. Assim é que, o abandono das vias – que supomos paulatino – constitui o terminus da ocupação do próprio habitat. As referências bibliográficas conhecidas relativas a este sítio limitam-se a pequenos apontamentos circunstanciais que referem pouco mais do que a evidente ocorrência de telharia nesta área. No entanto a leitura do Tomo III das Grandes
  • 13. Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org) - 70 - Vias da Lusitânia de Mário Saa, apresentou-nos informações por demais sugestivas. A páginas tantas o autor refere, com base num documento de 1194, a existência de um caminho que, saindo de Conímbriga, seguia por Vila Seca, Água do Forno, Lamas e Cervajota, até fazer junção com um outro que saía de Coimbra. Entre Água do Forno e Lamas, que distam 1000 metros pouco mais ou menos, a meio dos quais se situa a Eira Velha, o autor menciona uma zona de pequenas propriedades a que chamavam Porto Mourisco, onde também ocorriam muros e canalizações. A referência parece corresponder ao sítio da Eira Velha e ainda que não o conheçamos pelo topónimo de Porto Mourisco, esta designação representa, per se, uma importante pista no que concerne à classificação funcional do habitat intervencionado, cuja memória terá prevalecido na tradição oral até tempos bem recentes como ponto de passagem ou repouso. Atendendo aos dados disponíveis, podemos então enquadrar as vias da Eira Velha no intrincado mapa viário vicinal do território da civitas de Conimbriga, que espelha uma realidade formada por uma plêiade de sítios, de maior ou menor dimensão, agregados em torno do centro urbano. (FABIÃO, 2006) Este sistema de vias vicinais cumpre uma função tão importante como as grandes viae publicae (MANTAS, 1996), podendo assemelhar-se a elas no aspecto técnico e construtivo, como se encontra patente no caso da Eira Velha. Nestes aspectos, os segmentos de calçada deste sítio evidenciam um conhecimento técnico superlativo, com preocupações que hoje nos parecem bem actuais, facilmente constatáveis nos aterros e desaterros mais ou menos profundos, com vista à criação de um piso de circulação de desnível pouco acentuado; na implantação de curvas com um raio bastante aberto para facilitar as manobras dos veículos de tracção animal; e nos pavimentos regulares e bem compactados, ancorados ao substrato rochoso estável por uma espessa camada de preparação, denotando preocupações com a sua impermeabilização e com a drenagem das águas pluviais. Contudo é a relação entre a área edificada e o entroncamento destas vias que nos proporciona a leitura mais interessante destas materialidades e nos leva a interpretar o sítio como estação viária. Ainda que os indícios de habitat de carácter agrário estejam bem presentes em toda a arquitectura do sítio e nas tipologias do material exumado, o que leva a supor a prática agrícola como uma parte essencial da sua sobrevivência, é a intencionalidade da sua implantação e a disposição dos vários volumes que o constituem, que revela uma economia que não se basearia exclusivamente nos modelos típicos de exploração da terra, acabando por tirar proveito do tráfego que circulava no território de Conimbriga e funcionando como ponto de apoio intermédio aos viajantes que se deslocavam entre dois pontos. A interpretação e estudo das estações viárias que acompanham as estradas romanas reveste-se de dificuldades marcantes, associadas à raridade de vestígios arqueológicos que as representam e à grande variedade de tipologias de estabelecimentos, facto que não permite a existência de um conjunto de características-tipo, definidoras da configuração de uma estação viária. A variedade existente está desde logo representada ao nível das estações oficiais, concentradas nas viae publicae principais, ou das estações privadas, que crescem por vezes junto às anteriores e que predominam nas vias consideradas secundárias. (MANTAS, 1996) As estradas romanas eram assim acompanhadas pela presença de uma grande variedade de sítios e áreas edificadas desde pequenas tabernae de modesta extensão até às grandes mansiones com albergues, termas e zonas para animais. As mansiones e mutationes são habitualmente associadas às vias principais e às longas viagens entre civitates e províncias, revestindo-se de um carácter oficial público e caracterizando-se por algum cuidado ao nível da sua arquitectura. Podem corresponder a conjuntos edificados com alguma dimensão que permitem a pernoita de viajantes, seus animais e veículos, no caso das mansiones, ou a paragem para descanso dos viajantes e respectiva muda de animais, no caso das mutationes. São espaços marcados pela presença de cavalariças e alpendres para viaturas, alguns armazéns, possíveis áreas de oficinas, espaços para alojamento e acima de tudo cozinhas com grande capacidade de preparação de refeições e zonas de balneários. (MANTAS, 1996) Nas vias secundárias, que permitiam ligações regionais e locais, estaria certamente presente um conjunto de pequenas estalagens ou pousadas, de carácter privado, constituídas por áreas para alimentação e balneários, que surgem referenciadas com uma grande variedade de designações como deversoria, hospitia, cauponae ou tabernae. Este tipo de estabelecimentos devem apresentar uma arquitectura mais modesta, que não difere muito das grandes habitações rurais, devendo novamente destacar-se a área de cozinha e o balneário como seus elementos fundamentais. (MANTAS, 1996) Aparentemente “os estabelecimentos viários particulares, [são], os únicos que existem nas vias secundárias e em todas aquelas em que não passavam os correios oficiais.” (MANTAS, 1996) Esta constatação parece transportar a estação viária da Eira Velha para o mundo dos referidos deversoria, hospitia, cauponae ou tabernae que acompanhavam as estradas secundárias, uma vez que as vias aí identificadas parecem enquadrar-se nesta tipologia de vias. Todavia parece importante referir que a distinção entre as diferentes tipologias de estações viárias acaba por ser ainda um exercício realizado principalmente a nível teórico, dado o nível de conhecimento real que temos das mesmas e a raridade de escavações arqueológicas realizadas em contextos deste tipo.
  • 14. Apontamentos de Arqueologia e Património – 8 / 2012 (www.nia-era.org) - 71 - Assim não será talvez ainda pertinente entrar na distinção entre possível mutatio ou possível tabernae mas sim tentar compreender este sítio arqueológico pelo seu carácter de estação viária fortemente vinculada à presença de uma via que até ao momento não havia ainda sido referenciada. Bibliografia ALARCÃO, J.de, (1988), Roman Portugal, Vol.2 Coimbra e Lisboa, Warminster, Aris & Phillips Ltd. ALARCÃO, J. de, (1988a), O Domínio Romano em Portugal, 3ªedição, Mem Martins, Publicações Europa-América. CHEVALLIER, R., (1997), Les vois romaines, Paris, Picard. COLUMELLA, (1989), De Re Rustica, Loeb Classical Library. MANTAS, V.G., (1996), A rede viária romana da faixa atlântica entre Lisboa e Braga, Univ. Coimbra, Faculdade de Letras. MORENO GALLO, I. (2004), Vias Romanas: Ingenieria y técnica constructiva, Madrid. RODRIGUES, S., (2004), As vias romanas do Algarve, Universidade do Algarve. SILLIÈRES, P., (1990), Les voies de communication de l’Hispanie Meridionale, Paris, Diffusion de Boccard. SOLANA SÁINZ, J. e SAGREDO SAN EUSTAQUIO, L., (2006), La red viária romana en Hispania. Siglos I-IV d.C., Valladolid, Universidad de Valladolid, Secretariado de Publicaciones e Intercambio Editorial.