APOSTILA DE FORMAÇÃO
SUMÁRIO
O QUE É IDEOLOGIA? .......................................................................................................................................................................................3
O QUE É MACHISMO? .......................................................................................................................................................................................7
O QUE É RELIGIÃO? ........................................................................................................................................................................................11
O QUE É BUROCRACIA? .................................................................................................................................................................................15
O QUE SÃO AS FORÇAS ARMADAS?.............................................................................................................................................................20
O QUE É O IMPERIALISMO? ...........................................................................................................................................................................23
O QUE É EXPLORAÇÃO? ................................................................................................................................................................................26
O QUE É BURGUESIA? ....................................................................................................................................................................................29
O QUE É DEMOCRACIA? ................................................................................................................................................................................34
O QUE FRENTE POPULAR? ............................................................................................................................................................................38
O QUE É CLASSISMO? ....................................................................................................................................................................................40
O QUE É REVOLUÇÃO? ..................................................................................................................................................................................45
O QUE É IDEOLOGIA?
Henrique Canary, de São Paulo (SP)
Conta uma bela lenda judaica que num passado distante toda a
humanidade vivia junta e falava a mesma língua. Tendo
dominado as técnicas de construção e descoberto seu próprio
poder criativo, os homens decidiram construir uma torre tão alta,
que seu topo chegaria até o céu e eles veriam o criador. Irritado
com a arrogância humana, deus resolveu confundir a língua dos
homens, para que a gigantesca construção não prosperasse. Ao
não se entenderem mais, os trabalhadores da obra não puderam
coordenar seus esforços e a torre acabou desmoronando, fruto do
caos instaurado.
A lenda sobre a Torre de Babel tem muito a nos ensinar, mas as
lições não são sobre a vaidade humana, o poder de deus ou a
origem dos idiomas modernos e sim sobre algo muito mais
concreto: o funcionamento de nossa sociedade.
Assim como na Torre de Babel, a humanidade, mesmo sem
saber, realiza uma grande obra coletiva e coordena esforços para
isso: os carros produzidos no Brasil são vendidos na Argentina,
levados até lá em navios fabricados no Japão, mas que
pertencem a armadores gregos, que empregam marinheiros
filipinos. Não há no mundo um único bem material que não seja
fruto dos trabalhos conjugados de milhares de homens e
mulheres.
Também como na lenda, a maioria dos participantes dessa
imensa obra chamada sociedade “fala a mesma língua”, ou seja,
compartilha certas ideias e valores, tem uma mesma “visão de
mundo”. Por compartilharem as mesmas ideias, as pessoas
acabam tendo também um comportamento parecido. A esses
ideias ou conjunto de ideias que moldam o comportamento
humano, chamamos ideologias.
Para que servem as ideologias
O papel das ideologias é garantir o funcionando da sociedade.
Ora, o que aconteceria, por exemplo, se os trabalhadores
ignorassem as leis sobre a propriedade privada e resolvessem
tomar para si as fábricas, bancos e latifúndios? Ou se as
mulheres se revoltassem contra o machismo e passassem a
reagir violentamente em qualquer situação de opressão? Ou se
os homossexuais se organizassem para espancar neonazistas na
Av. Paulista? É claro que se isso acontecesse, a ordem burguesa
entraria em colapso e a sociedade, tal como a conhecemos,
desmoronaria sobre si mesma como uma enorme Torre de Babel.
Para que isso não aconteça, para que a dominação capitalista
siga seu curso tranquilamente, é necessário que as pessoas
aceitem passivamente as condições de exploração e opressão a
que são submetidas. Como conseguir isso sem recorrer todo o
tempo à violência? Através das ideologias.
Cria-se, assim, a ideologia de que a propriedade privada é
sagrada e de que os grandes empresários, banqueiros e usineiros
são heróis nacionais; de que as mulheres são propriedade de
seus maridos e devem a eles respeito e obediência; de que a
homossexualidade é uma doença e por isso, se os homossexuais
apanham na rua, é porque algo de errado fizeram.
Assim, aos poucos, com inúmeras pequenas ideias,
aparentemente sem conexão entre si, se forma na cabeça dos
trabalhadores uma “visão de mundo” que já não corresponde aos
seus interesses, mas sim aos interesses dos capitalistas. As
ideias que justificam a dominação burguesa tornam-se
predominantes em toda a sociedade. Elas são reproduzidas
exaustivamente na TV, nas escolas, nas páginas dos jornais, na
família, no trabalho, entre colegas. Os trabalhadores, pelo simples
fato de viverem em sociedade, absorvem essas ideologias e
agem de acordo com elas, mesmo sem perceber. Quando uma
ideologia é aceita por todos, ela se torna uma espécie de
“linguagem comum”, que todos reconhecem, entendem e
reproduzem no seu cotidiano.
Como resultado, explorados e oprimidos passam a fazer uma
coisa aparentemente absurda, mas que é a regra em nossa
sociedade: começam a agir contra si mesmos, contra seus
próprios interesses de classe; começam a defender o inimigo e a
combater seus aliados; se dividem. Deste modo, os pais culpam
os professores pelo baixo rendimento escolar de seus filhos, a
população pobre defende um governo de empresários e
banqueiros com medo de perder o bolsa-família, os trabalhadores
furam a greve porque se convencem de que lutar não resolve
nada.
O que as ideologias escondem
Tomemos algumas ideias bastante simples e amplamente
disseminadas em nossa sociedade: “O homem é naturalmente
egoísta”, “Sempre vai haver ricos e pobres”, “As mulheres foram
feitas para o trabalho doméstico”, “Uma pessoa sempre vai querer
passar a perna na outra”, “O preconceito já vem desde o
nascimento” etc.
Qual o sentido dessas ideias? Ora, é evidente que todas elas
apontam em uma mesma direção: aceitar as coisas tal como são.
E como nos convencem disso? Afirmando que tudo o que existe é
natural e inevitável, que tentar mudar a realidade é ir “contra a
natureza”. Assim, para justificar um mundo de injustiça e
sofrimento, as ideologias “naturalizam” a realidade social, ou seja,
levam as pessoas a acreditar que a desigualdade, a exploração e
a opressão são tão naturais quanto a chuva, o vento ou o
movimento das marés. As ideologias escondem o grande segredo
da dominação burguesa: o fato de que a sociedade é uma
construção humana e que portanto não há nada de “natural” nela;
que o mundo em que vivemos é o resultado da cooperação dos
indivíduos e justamente por isso pode ser mudado por esses
mesmos indivíduos.
A propaganda ideológica
Mas como as ideologias se espalham pela sociedade? Como
absorvemos e reproduzimos com tanta facilidade ideias tão
absurdas? Se existe democracia, como alguém pode controlar o
que eu penso? Para responder a essas perguntas, é preciso
entender como funciona a propaganda ideológica.
Todos sabemos o que é propaganda. As Casas Bahia fazem
propagandas animadas, com pessoas falando alto e rápido, e
com ênfase nos preços. A Nike centra sua propaganda no incrível
desempenho dos atletas que usam seus artigos. O Itaú faz
propaganda dos benefícios que seus clientes podem ter com esse
ou aquele investimento. Em todos esses casos, o propósito é
claro e evidente: compre, use, aplique seu dinheiro! Não há
nenhuma dificuldade em reconhecer que estamos diante de uma
peça de propaganda. Se alguém não gostar, pode mudar de
canal ou virar a página da revista.
Já a propaganda ideológica é um pouco mais complicada. Como
dissemos, o principal objetivo das ideologias é fazer as pessoas
agirem contra si mesmas. Por isso a burguesia não pode dizer
abertamente: “aceite a exploração”, “aceite a opressão”, como se
dissesse “beba Coca-Cola”. Uma tal propaganda revelaria a
dominação ideológica e provocaria ainda mais revolta. Por isso a
principal característica da propaganda ideológica é que ela é
disfarçada, sutil, encoberta, subliminar.
Quando um artigo sobre uma greve de professores começa
falando dos alunos que ficaram sem aula, estamos diante de uma
peça de propaganda ideológica. O objetivo não é informar ou
esclarecer, mas sim mostrar como as greves prejudicam a
população.
O jornalista não dirá isso abertamente, mas todo o texto será
montado para deixar provocar no leitor essa sensação. Quando
depois do assassinato de Bin Laden pipocam nos programas
dominicais reportagens especiais sobre a tropa de elite que
matou o líder da Al-Qaeda, estamos diante de propaganda
ideológica. Aqui o recado é: os EUA são invencíveis, para eles
não há missão impossível, não ousem desafiá-los! Como se sabe,
a melhor forma de plantar uma ideia na cabeça de alguém é fazer
a pessoa acreditar que chegou sozinha a essa conclusão.
Assim age a burguesia. Ela não diz “a mulher é um objeto”. Ela
apenas mostra comerciais de cerveja que têm a mulher como
objeto. Quem chega à conclusão de que a mulher é um objeto é o
telespectador. Ela não escreve nos jornais “é preciso derrubar a
mata ao redor dos rios”. Ela apenas mostra o quanto o
agronegócio, que derruba a mata ao redor dos rios, é o “motor de
desenvolvimento do país”. Quem chega à conclusão de que a
derrubada das matas é um mal necessário é o leitor. Ela não diz
“vamos acabar com os direitos trabalhistas”. Ela só diz que nos
EUA, o país mais poderoso do planeta, quase não existem
direitos trabalhistas. Quem chega à conclusão de que os direitos
trabalhistas são um entrave ao desenvolvimento do país é o
próprio trabalhador.
Por isso, o fato de uma pessoa ter uma opinião formada sobre um
determinado assunto não significa de modo algum que essa ideia
seja dela. Noventa e nove porcento das ideias que temos na
cabeça foram plantadas sutilmente pela burguesia através da
educação, da imprensa, da família, da TV, do cinema, da igreja
etc etc etc. A força das ideologias está justamente no fato de que
os explorados defendem e reproduzem as ideias dos
exploradores, achando que essas ideias são suas.
Ao serem repetidas incansavelmente por toda a sociedade, as
ideologias assumem a aparência de uma “verdade absoluta”.
Como assim as mulheres são iguais aos homens? Como assim
acabar com a exploração? Como assim socialismo? Quando
alguém questiona uma ideologia, parece realmente que está
“falando outra língua”. Instintivamente, repelimos esse tipo de
pessoa e a separamos de nosso convívio. Ou simplesmente a
ignoramos. A Torre de Babel não pode ser abalada.
Ideologia da classe operária
Mas se uma ideologia é uma determinada “visão de mundo”, um
conjunto de ideias que serve a certos interesses, poderíamos
então dizer que a classe trabalhadora tem uma ideologia? A
resposta é categórica: sim!
O socialismo científico, formulado na metade do século 19 pelos
filósofos alemães Karl Marx e Friedrich Engels (por isso chamado
também de marxismo) é a ideologia da classe operária, a ciência
de sua libertação. O socialismo científico é um conjunto de ideias
que interpretam corretamente o mundo à nossa volta, que
revelam as verdadeiras razões da opressão, da desigualdade e
da exploração. No entanto, diferentemente das ideologias
burguesas, que penetram na mente dos trabalhadores por
milhares de meios invisíveis e imperceptíveis, o marxismo não
chega às residências pelas antenas de TV, não é ensinado nas
escolas, nem cantado em canções de sucesso. Ele precisa ser
buscado, descoberto. E é claro, como toda ciência, o marxismo
precisa ser estudado.
O operário consciente que deseje entender a fundo o mundo ao
seu redor deve começar por desconfiar de todas as ideias que
parecem óbvias e naturais porque a maior parte delas não passa,
muito provavelmente, de mentiras bem contadas. Em seguida,
deve ter, em relação à sociedade, a mesma curiosidade que tem
em relação à máquina nova que acaba de chegar na fábrica: deve
querer desvendá-la, destrinchá-la, dominá-la. Tendo dominado o
marxismo, esse operário interpretará os fatos da realidade com a
mesma facilidade que um eletricista experiente interpreta o
esquema elétrico de uma garagem residencial, que tem uma
lâmpada, um interruptor e uma tomada.
A verdadeira obra humana
As ideologias burguesas não são uma força invencível. Se a
classe dominante tivesse tanta confiança em suas ideias, não
haveria homens armados de prontidão nos quarteis e batalhões,
aguardando as ordens para bater, dispersar e prender.
Karl Marx, o velho filósofo alemão, disse certa vez que quando
uma ideia é absorvida pelas massas organizadas, ela adquire
força material, ou seja, vira uma arma real.
Quando a crise econômica, política e social colocar em xeque a
dominação burguesa; quando a repressão contra os
trabalhadores, ao invés de inibi-los, gerar ações ainda mais
radicalizadas, a ideia do socialismo penetrará nas grandes
massas e balançará a monstruosa obra do capitalismo. Os
trabalhadores, ao invés de falar a língua da burguesia, começarão
a falar a sua própria língua e se entenderão. A imensa Torre de
Babel, erguida sobre as costas dos pobres e perseguidos, e
solidificada com o cimento da mentira, desmoronará sobre as
cabeças de seus arquitetos incompetentes. E os trabalhadores,
livres do entulho da velha construção, começarão a sua própria
obra: uma sociedade sem opressão e exploração, o socialismo no
mundo inteiro.
ANOTAÇÕES
O QUE É MACHISMO?
Ana Pagamunici, da SNM do Pstu
Segundo o dicionário Michaelis, machismo é “um comportamento
de quem não admite a igualdade de direitos para o homem e a
mulher”. No campo político, definir o machismo exige mais
complexidade. Para nós, o machismo é uma ideologia criada pela
sociedade de classes para manter a propriedade privada, servir à
dominação e também à exploração.
Uma forma de opressão
Chamamos de opressão toda conduta ou ação para transformar
as diferenças em desigualdades, de forma que estas sejam
utilizadas para beneficiar um determinado grupo em relação a
outro. Quando isso se dá entre brancos e negros, chamamos de
racismo. Entre homens e mulheres, denominamos machismo.
A opressão se expressa de várias formas. Na piada que
ridiculariza as mulheres por sua condição de mulher: “dirige mal,
só podia mesmo ser mulher”. Na diferença salarial entre homens
e mulheres: hoje, em nosso país, uma mulher ganha até 30%
menos que um homem. Na agressão física, verbal ou psicológica.
No Brasil, a cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas.
Uma ideologia
Mas o machismo não é só fruto de uma conduta individual. É uma
ideologia, ou seja, um sistema de ideias falsas que criam uma
falsa verdade utilizada pelo sistema para manter a dominação e
ampliar a exploração. A principal ideia é a de que as mulheres
são inferiores aos homens e, portanto, não podem assumir
determinadas tarefas ou ter determinados comportamentos.
É através dessa ideologia que se naturaliza o fato de que as
mulheres são as “rainhas do lar”, têm por obrigação cuidar dos
filhos, da casa e dos maridos sem nada receberem por isso. Essa
ideologia é transmitida pela escola, pelas famílias, pelas igrejas,
pelos meios de comunicação e por todas as instituições que
reproduzem o sistema capitalista. De tanto ser reafirmada passa
a ser natural, comum, imutável.
No caso de Eliza Samúdio, que se relacionou com o jogador
Bruno (que está preso sob a acusação de tê-la matado), a
delegada que a atendeu em uma de suas primeiras denúncias de
ameaça de morte não enquadrou o caso na Lei Maria Penha,
alegando que a lei tinha sido feita para “defender a família”. Como
ela não se encaixava nos padrões (era uma “maria chuteira”),
tratava-se de violência comum. Esse é um bom exemplo de como
a ideologia é utilizada e reproduzida.
Uma criação da sociedade de classes
A opressão (o machismo) não existiu sempre. Foi criada para
justificar a divisão da sociedade em classes. Nas sociedades
comunistas primitivas, as mulheres, junto com os homens,
cuidavam das atividades domésticas e participavam da produção
social.
Com o aparecimento da sociedade de classes, a instauração da
propriedade privada e a necessidade de acumulação e herança,
era preciso dividir as famílias e instituir a monogamia para
preservar a propriedade privada. Com isso, as mulheres foram
retiradas dos espaços públicos, da produção e da sobrevivência,
e jogadas no espaço doméstico. Assim, foram proibidas de
trabalhar, estudar e participar de atividades políticas.
O machismo sustenta o capitalismo
A luta das mulheres por igualdade de direitos obrigou o
capitalismo a trazer as mulheres para a produção social
novamente. A possibilidade de as mulheres se libertarem do
espaço doméstico foi uma grande conquista. Mas, como toda
conquista no capitalismo, foi por ele apropriada de maneira a
favorecer a exploração e seus lucros. E as ideologias que antes
eram utilizadas para manter a “mulher no lar” passaram a ser
utilizadas para justificar jornadas excessivas de trabalho e
salários mais baixos.
Ao mesmo tempo, o capitalismo se apropriou do papel que a
mulher cumpria antes, fazer as tarefas domésticas, e o
naturalizou. Assim, a mulher manteve a obrigação de cuidar dos
afazeres domésticos e também passou a trabalhar fora. Isso faz
com que elas tenham dupla ou tripla jornada. E quem se beneficia
disso é o capitalismo.
Essa mecânica é muito positiva para os patrões, pois, enquanto
as mulheres cuidam dos filhos e têm essa responsabilidade, o
Estado e os patrões se desobrigam e economizam. Não precisam
construir restaurantes, creches e lavanderias públicos.
Transferem para os trabalhadores - neste caso, mais
especificamente, para as trabalhadoras - a responsabilidade que
seria do Estado. Trabalham de graça não para o marido, mas
para o sistema.
Quando o homem trabalhador trata sua mulher, também
trabalhadora, como uma empregada, que tem a obrigação de
cuidar das tarefas da casa sozinha, está reproduzindo essa
ideologia do patrão, a serviço de manter o lucro dele. Se faz isso
de maneira grosseira, usando a violência física ou psicológica, é
pior ainda. Reproduz, com o uso da força, o poder da ideologia,
deixando claro que as mulheres têm de obedecer e se resignar
frente às agressões. Portanto, essa mentira do capitalismo é um
falso privilégio para os homens, pois os grandes privilegiados são
os patrões.
É certo que os homens podem imediatamente se beneficiar dessa
condição. Porém, se são socialistas e querem derrubar o sistema,
precisam também enfrentar a mão do capital dentro do lar, porque
o que se reproduz não é uma relação entre duas pessoas, mas
sim os interesses do capitalismo.
Combater o machismo é necessário
Para que a luta contra os patrões e governos seja vitoriosa, ela
não pode ser feita com apenas metade dos trabalhadores. Hoje
as mulheres já são metade da classe trabalhadora, e no Brasil
são a maioria. Não conseguiremos nunca unificar todos os
trabalhadores se desqualificamos as mulheres, se não
observamos que há demandas específicas, se não incorporamos
suas reivindicações e não as ganhamos para a luta.
A ideia de que essa discussão “divide a classe” ou que tem de ser
feita “depois da revolução” é falsa e serve apenas para manter o
capitalismo. O que divide a classe é o machismo, porque ele
desqualifica as mulheres, coloca os homens contra as mulheres e
as mulheres contra as próprias mulheres.
Superação do machismo é a superação da sociedade de
classes
Marx, Lênin e Trotsky colocaram a luta pelas reivindicações das
mulheres como uma das principais tarefas dos trabalhadores,
desde o Manifesto Comunista. Isso continua atual.
É necessário dar um combate permanente ao machismo, dentro
dos partidos políticos, das entidades de luta do movimento e em
nossa vida cotidiana para que possamos ser vitoriosos.
Mas é também preciso não ter a ilusão de que podemos acabar
com ele no capitalismo. Nessa luta temos duas tarefas: combatê-
lo, corrigi-lo e buscar evitá-lo com todas as nossas forças. A outra
é nos organizarmos, homens e mulheres, para derrotar a
sociedade de classes e, com ela, o machismo.
ANOTAÇÕES
O QUE É RELIGIÃO?
Henrique Canary, de São Paulo (SP)
Mateus é operário metalúrgico em Criciúma, Santa Catarina. Já
há algum tempo ele opera com facilidade um torno CNC
(Comandos Numéricos Computadorizados) de última geração,
mas não tem ainda o diploma. Está estudando. Quando
conversamos, ele fala da composição química dos metais, de
suas características físicas, de como cada um deles se comporta
frente à poderosa máquina que os desgasta sem piedade,
transformando-os em objetos úteis. Mateus é adventista e,
portanto, não acredita na teoria da evolução das espécies ou que
a Terra tenha 4,5 bilhões de anos. Mateus também é militante do
PSTU, um dos mais sérios e dedicados.
Certa vez outro operário, luterano praticante, perguntou a Mateus
por que uma pessoa religiosa como ele militava em um partido
que prega a revolução socialista, e que além do mais está cheio
de ateus. Mateus demorou a responder, provavelmente pensando
em todos os pontos do programa do PSTU que vão contra suas
convicções religiosas. O militante queria convencer o colega, mas
não desejava mentir nem esconder suas angústias. Sua resposta
foi a mais simples e a mais profunda que se poderia dar: “porque
eu não posso estar ao lado do opressor”.
Haverá contradição entre operar uma máquina moderna e
renegar a teoria de Darwin? Entre praticar uma religião e odiar o
patrão como um inimigo mortal? Pode ser. Mas quem irá julgar?
Mateus tem inúmeras crenças, mas ele não acredita que a
miséria seja vontade de Deus, nem que apenas sua fé irá
protegê-lo dos acidentes de trabalho.
Por isso, ele milita em um partido revolucionário e toma todos os
cuidados ao operar o torno. Ou seja, naquilo que é o mais
importante, Mateus tem uma visão científica da realidade. Isso lhe
basta. Para ele, a religião é parte de outra esfera, é um assunto
privado, de foro íntimo, que não se mistura com trabalho,
militância ou amizade. A compreensão do PSTU sobre a religião
é a mesma de Mateus: muito mais importante do que dividir os
operários em base à religião ou à falta dela, é uni-los na luta
comum contra o capitalismo.
A origem da religião
O homem primitivo era caçador. Há cerca de 40 mil anos, era
costume caçar em grupos durante o dia e descansar junto à
fogueira à noite. Quando olhavam para o céu noturno, nossos
ancestrais percebiam pontos de luz parecidos com os de suas
fogueiras, só que muito altos. Eram as estrelas, mas ninguém
sabia disso. Começaram a imaginar que o céu fosse uma espécie
de “outro andar” do mundo, habitado também por caçadores, só
que muito mais poderosos que eles porque suas fogueiras
ficavam suspensas no ar.
Em seguida, perceberam também que alguns pontos de luz no
céu, se unidos, formavam desenhos específicos: um urso, um
pássaro, uma lança etc., sempre imagens ligadas à caça. Eram
as constelações, mas ninguém sabia disso também. Sonolentos e
famintos, confusos e curiosos, nossos antepassados começaram
a imaginar que esses caçadores celestiais governavam o mundo
aqui embaixo. Se não fosse assim, por que haveria cenas de
caçadas desenhadas no céu? Não poderia ser coincidência!
Concluíram daí que era preciso agradar a esses seres para que a
caça aqui embaixo fosse bem sucedida.
Surgiam assim os primeiros rituais, sempre com um mesmo
objetivo prático: dar à tribo caça, pesca e coleta abundantes. A
religião tem origem, portanto, não na revelação divina, mas na
atividade social dos próprios homens, no medo e na admiração
que sentiram diante de fenômenos que eles não entendiam.
Apenas muito recentemente, há cerca de 5 mil anos, a caça e a
coleta foram substituídas pela pecuária e a agricultura. A família,
antes dirigida pela mulher, passou a ser comandada pelo homem.
A autoridade paterna tornou-se a lei. A consequência disso no
âmbito religioso é que os cultos pagãos começaram a dar lugar à
ideia de um único Deus-Pai todo-poderoso. Mais uma vez, o
homem projetava nos céus o que ele mesmo fazia na terra. A
história de qualquer religião é a repetição desse esquema básico.
Religião e moral
O termo religião vem do latim religio, que significa “religar”.
Religião é o conjunto de crenças, ritos e concepções que buscam
restabelecer os laços entre o mundo terreno e o mundo celestial.
A religião pressupõe um conjunto de regras, padrões de
comportamento e posicionamentos morais que devem ser
observados para que o indivíduo mantenha-se ligado a Deus. Por
isso, hoje é normal que toda religião se posicione sobre questões
como o aborto, a homossexualidade e o adultério. Mas a verdade
é que nem sempre foi assim...
Uma mesma religião se transforma ao longo do tempo. No
cristianismo, por exemplo, os ritos e preceitos morais de hoje não
são iguais aos do passado. Por serem perseguidos no Império
Romano, os primeiros cristãos formavam uma comunidade coesa
e clandestina, realizando seus cultos nas catacumbas de Roma,
escondidos de tudo e de todos. Para integrar essa comunidade,
era preciso um grande sacrifício, não só porque a religião era
perseguida, mas porque aquele que desejasse se juntar ao grupo
deveria dividir todos os seus bens com ele.
Assim, as primeiras comunidades cristãs eram comunistas em
sua vivência. A própria Bíblia, nos Atos dos Apóstolos, livro que
descreve a vida dos cristãos nos primeiros anos após a morte de
Jesus, relata: “Não havia, pois, entre eles necessitado algum
porque todos os que possuíam terras ou casas, vendiam-nas, e
traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés
dos apóstolos. E repartia-se a cada um, segundo a necessidade
que cada um tinha”. (Atos 4: 34 e 35).
Os primeiros cristãos eram extremamente livres em seu
comportamento moral. Até mesmo as famílias eram praticamente
dissolvidas nas comunidades, devido à convivência em grandes
grupos fechados. Prevalecia o cuidado coletivo com os filhos e os
afazeres domésticos. Durante os cultos, as mulheres exerciam
um papel tão importante quanto os homens e podiam conduzir
qualquer cerimônia. Não se controlava a vida de ninguém, a não
ser que o coletivo fosse realmente afetado. Viviam e oravam
juntos, e pronto.
Quanta diferença entre a conduta desses primeiros cristãos e o
que prega hoje a organização chefiada por Bento 16! A Igreja
Católica tem cerca de 1,2 bilhão de fiéis no mundo, possui um
Estado próprio, o Vaticano, com forças armadas, serviços de
inteligência, passaportes e, é claro, um banco, o Banco do
Vaticano. As igrejas repassam dinheiro ao Vaticano por meio do
chamado “Óbolo de São Pedro”, uma espécie de linha bancária
direta, livre de impostos, que liga a Santa Sé às comunidades
eclesiais. Como se não bastasse, os padres e bispos católicos
são frequentemente acusados de abuso sexual contra jovens e
crianças em distintas partes do mundo, ao mesmo tempo em que
o Papa condena a camisinha e a pílula anticoncepcional.
Infelizmente, as igrejas protestantes, evangélicas e
neopentecostais se diferenciam da Igreja Católica apenas pelo
tamanho dos escândalos. Em essência, são iguais. Basta lembrar
as palavras do próprio bispo Edir Macedo no famoso vídeo
gravado por um ex-pastor com uma câmera escondida: “Se você
quiser ajudar, amém. Se não quiser ajudar, Deus vai arranjar
outra pessoa para ajudar. Amém. Entendeu como é que é? Se
quiser, amém. Se não quiser, que se dane. Ou dá ou desce”.
Com raríssimas exceções, padres e pastores de todas as igrejas
se comportam como verdadeiros mercadores no templo, como os
novos adoradores do Bezerro de Ouro. Os trabalhadores que
buscam conforto espiritual na religião terão mais sucesso se
rejeitarem esses intermediários.
A visão religiosa de mundo
O cristianismo, confissão predominante em nosso país, é muito
mais do que uma religião. É também uma visão de mundo. Isso
significa que ele busca explicar absolutamente todos os
fenômenos do universo: a Terra, o Sol, o homem, a sociedade, a
história, a própria religião etc. O cristianismo é, portanto, um
sistema filosófico completo.
Para o cristianismo, o universo é estático, com uma hierarquia
que jamais pode ser mudada. No topo está o ser supremo, Deus
todo-poderoso. Muito abaixo está o homem. Tudo o que acontece
é desejo de Deus. Ao homem fica reservado o papel de
instrumento da vontade divina: “Porque Deus é o que opera em
vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade”.
(Filipenses 2:13). O homem, segundo o cristianismo, não tem, de
fato, nenhum arbítrio, muito menos livre.
Essa visão hierárquica de mundo leva à passividade e à
aceitação da ordem social existente porque tudo se justifica na
vontade do Criador. Não são poucos os trechos bíblicos em que
se conclama à obediência e à servidão: “Vós, servos, obedecei
em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo só na
aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade
de coração, temendo a Deus”. (Colossenses 3:22). Ou então: “E o
servo que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou,
nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos
açoites”. (Lucas 12:47). E ainda: “Exorta os servos a que se
sujeitem a seus senhores, e em tudo agradem, não
contradizendo”. (Tito 2:9). Com essa base filosófica, não é de se
estranhar que a Igreja Católica jamais tenha se pronunciado
contra a escravidão.
O mito da inferioridade da mulher
Para o cristianismo, a mulher é um subproduto do homem:
“Porque o homem não provém da mulher, mas a mulher do
homem”. (1 Coríntios 11:8). Além disso, foi criada com o único
objetivo de fazer companhia ao homem, ser sua “ajudadora”
(Gênesis 2: 18 e 20). Para piorar, enganada pela serpente, a
mulher acabou sendo a responsável pela introdução do pecado
no mundo. O preço pago não foi baixo: “E à mulher disse:
Multiplicarei grandemente a tua dor e a tua conceição; com dor
darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te
dominará”. (Gênesis 3:16).
Mais adiante, a Bíblia estabelece com detalhes o papel da mulher
na sociedade: “Não permito, porém, que a mulher ensine, nem
use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio”. (1
Timóteo 2:12). Ou: “De sorte que, assim como a igreja está
sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo
sujeitas a seus maridos”. (Efésios 5:24). Qual a diferença entre
essas passagens e as normas de comportamento feminimo
recomendadas pelo tão criticado Alcorão? Nenhuma.
Socialismo e religião
A doutrina socialista não combate a fé, mas sim a visão religiosa
de mundo, o que é muito diferente. Os socialistas rejeitam a ideia
de um destino pré-estabelecido e de uma hierarquia entre as
pessoas e os sexos. Acreditam que homens e mulheres são
iguais e que ambos, juntos, fazem sua própria história. O
socialismo é também, ao contrário do que tentam fazer parecer,
uma doutrina profundamente moral: nela, os princípios da
igualdade, da solidariedade e da liberdade ocupam um lugar
central. Se esses homens e mulheres, ativos e livres, conscientes
e solidários, têm em seus corações deuses, santos, profetas ou
orixás, para os socialistas isso não faz a menor diferença.
É a própria Bíblia que ensina: “O homem rico é sábio aos seus
próprios olhos; mas o pobre que é inteligente sabe sondá-lo”.
(Provérbios 28:11). Não perdem por esperar aqueles que vivem
da pobreza e do desespero alheios. A revolução socialista dará
aos pobres o pão e a paz há milênios prometidos pelas religiões e
promoverá a completa separação entre o Estado e as igrejas. Ao
mesmo tempo, a liberdade de culto será proclamada uma lei
inviolável. Assim, o governo socialista dissolverá lentamente as
bases sobre as quais se assentam as igrejas: por um lado, a
miséria material e espiritual da população e, por outro, o
financiamento, direto ou indireto, por parte do Estado. O homem
será homem e não mais rebanho.
O socialismo será o renascimento do comunismo dos antigos
cristãos perseguidos num nível muito superior, pois será uma
partilha de fato universal. Na luta por uma existência digna nesta
vida, todo religioso honesto deve escolher: estar ao lado do rico
opressor ou com seus irmãos trabalhadores.
ANOTAÇÕES
O QUE É BUROCRACIA?
Henrique Canary, de São Paulo (SP)
Combater a burocracia! Parece que finalmente encontramos um
tema com que todos estão de acordo! Da Veja à Folha de S.
Paulo, de Eike Batista a Paulinho da Força, todos concordam que
é preciso exterminar esta praga. Os burgueses reclamam da
burocracia para abrir ou fechar uma empresa. Os trabalhadores,
por sua vez, sofrem com a burocracia na hora de se aposentar,
se afastar do trabalho pelo INSS e por aí vai. Pareceria, portanto,
que aqui estamos todos juntos. Mas não estamos.
Para os socialistas, o termo “burocracia” tem um significado
completamente distinto deste que usamos no dia a dia. Como
fenômeno mais geral, a burocracia é uma casta de
administradores privilegiados. O Estado burguês, por exemplo,
tem uma enorme burocracia: são os altos funcionários do Estado,
chefes do primeiro, segundo e terceiro escalões. Estes senhores
não são burgueses porque não têm empresas próprias, mas seu
salário ultrapassa em dezenas de vezes o de um funcionário
público comum. Sua condição privilegiada os torna agentes
diretos da burguesia dentro da máquina estatal.
No que diz respeito à classe trabalhadora, o termo “burocracia”
significa uma casta privilegiada de líderes e dirigentes que
parasitam as organizações políticas e sindicais do proletariado
em seu próprio benefício. É exatamente neste sentido que nos
referimos à burocracia em nossa prática cotidiana. É
fundamentalmente esta burocracia que queremos combater. É
sobre ela este artigo.
O que é um sindicato?
Ao longo do tempo, a classe trabalhadora construiu importantes
organizações de luta. Primeiro surgiram as caixas de ajuda mútua
nos séculos 18 e 19. Depois vieram os sindicatos e partidos
operários. O objetivo dos sindicatos é preservar as conquistas
obtidas e organizar a luta por outras mais. Os sindicatos, junto
com os partidos operários, são os guardiões das tradições de luta
de nossa classe.
Assim, quando há uma greve, os trabalhadores não precisam
aprender tudo desde o começo, nem reinventar a roda. Já existe
um sindicato, onde estão outros operários que já passaram por
greves e enfrentamentos. Há também uma estrutura de
advogados, computadores, telefones celulares e dinheiro que
está a serviço da luta. Há dirigentes sindicais liberados de seu
trabalho normal para se dedicarem unicamente à mobilização e à
conscientização dos trabalhadores. Toda essa organização é uma
enorme conquista de nossa classe, e muito sangue operário foi
derramado para que pudéssemos ter os sindicatos e partidos de
hoje.
Em momentos de grandes lutas, alguns sindicatos parecem
fervilhar: todos os dias dezenas de ativistas vão às reuniões da
entidade, pegam os boletins para distribuí-los em suas bases,
buscam orientação, passam todo o tempo de folga na sede ou
simplesmente “dão uma passadinha” para ver se há novidades.
Os carros do sindicato não param: parecem estar em todas as
fábricas e canteiros de obra ao mesmo tempo. Os celulares estão
sempre tocando para informar o resultado desta ou daquela
mobilização. Os dirigentes sindicais estão sempre exaustos, com
o sono e a alimentação atrasados.
O processo de burocratização
Porém, como todos nós sabemos, esses períodos de atividade
política e sindical tão intensa são relativamente raros. Isso quer
dizer que na maioria do tempo, o dia a dia sindical não se parece
em nada com o quadro que acabamos de pintar. Durante longos
períodos, a atividade sindical, mesmo nas entidades mais
combativas e democráticas, é uma “especialidade”, exercida por
poucas pessoas e sem o controle por parte da imensa base de
trabalhadores.
Quando não há lutas, a rotina do sindicato gira em torno das
homologações, convênios e reformas no prédio. Os carros
continuam correndo para lá e para cá, mas não é para intervir nas
greves, e sim para tarefas da própria máquina sindical. Os
celulares continuam tocando, mas as ligações raramente são da
base para informar sobre uma greve, e sim da própria sede do
sindicato ou da direção da empresa, para negociar isto e aquilo.
Assim, à medida que o tempo passa e as lutas não vêm, a
estrutura do sindicato começa a adquirir vida própria,
necessidades próprias e vontade própria, independentemente do
que esteja ocorrendo na categoria. Afastados dos trabalhadores
de base pelo refluxo das lutas e sem nenhuma iniciativa para se
aproximar deles novamente, muitos dirigentes acabam engolidos
pela máquina sindical. Sua atividade começa a girar em torno
desta própria máquina. Daí para a burocratização, é um pulinho.
Como se forma um burocrata?
A burocracia não é um problema de caráter ou honestidade
pessoal. Como dissemos, é um fenômeno social e político. O
burocrata se forma quando o dirigente sindical adquire
independência material e política em relação à base que ele
deveria representar; quando sua preocupação principal já não é
mais organizar a luta dos trabalhadores, mas sim se perpetuar no
cargo de dirigente a qualquer custo.
O burocrata não tem recursos próprios. Ele vive do sindicato. Sua
situação é, por isso, extremamente instável. E se ele de repente
perder a próxima eleição? O burocrata tem assim uma
preocupação constante: estabilizar sua condição privilegiada.
Como ele fará isso?
Em primeiro lugar, ele tentará estabelecer com a patronal uma
relação amigável, que lhe permita arrancar, por meio da
negociação, alguma migalha para os trabalhadores. Assim, estará
demonstrada perante toda a base sua “eficiência” enquanto
dirigente sindical, e seu posto de burocrata estará garantido.
Mais do que isso, um bom burocrata, se for bom mesmo, fará até
greves, passeatas e piquetes para conseguir um melhor aumento,
sem com isso deixar de ser um burocrata. O caráter burocrático
de uma direção sindical não está determinado pelos percentuais
de aumento salarial que ela consegue, mas pela relação que ela
estabelece com o aparato do sindicato, pelos privilégios que daí
retira, pela relação que tem com a base da categoria, pelo nível
de democracia e participação que ela implementa em sua
entidade, por sua relação com o Estado e a patronal.
A partir desta base material são formadas a mentalidade e a
atitude de um típico burocrata: o conservadorismo, a truculência,
a submissão aos patrões e ao governo e sobretudo o desprezo
pelo que dizem e sentem os trabalhadores de base.
Burocracia e burguesia
A burguesia, como não é boba, trabalha constantemente para que
o movimento operário se burocratize. Não é de se admirar. Faz
muita diferença para um burguês negociar com uma comissão de
40 operários enfurecidos ou com uma diretoria de nove líderes
“moderados”, “razoáveis” e bem alimentados.
É por isso que no Brasil existe o imposto sindical, que permite ao
sindicato existir tendo meia dúzia de filiados; é por isso que Lula
entregou às centrais sindicais uma parte do dinheiro desse
imposto; é por isso que Dilma determinou que todas as empresas
estatais ou de capital misto tenham um representante dos
trabalhadores em seu conselho de administração. Ao formar um
exército de burocratas, a burguesia cria um colchão político-
social, um amortecedor de conflitos.
Com o tempo, o burocrata tende a se tornar cada vez mais um
aliado estratégico da burguesia. O burocrata já não vê o
trabalhador comum como alguém igual a ele. Ao contrário,
começa a se identificar muito mais com o burguês, a aproximar-
se dele política e socialmente, a beber o mesmo whisky e fumar o
mesmo charuto. Por isso, dizemos que a burocracia é um agente
da burguesia dentro do movimento operário.
Por que combater a burocracia?
Os sindicatos são organizações de luta da classe trabalhadora.
Deveriam ser verdadeiras escolas de comunismo. Nos sindicatos
os trabalhadores deveriam aprender que, unidos, eles podem
tudo; que são eles que movem a sociedade; que todos os
trabalhadores do mundo são irmãos e que a eles devemos
solidariedade e apoio. Os sindicatos deveriam educar os
trabalhadores no ódio ao aparelho de Estado, a todos os
governos e ao imperialismo. Nos sindicatos, os trabalhadores
deveriam exercer a mais ampla democracia operária, uma das
bases mais importantes da futura sociedade socialista. Mas a
burocracia transforma todas essas lições em seu contrário.
Obama esteve no Brasil. Sindicatos de todos os matizes deveriam
se unir para dizer go home! a este verdadeiro capitão do mato
internacional, denunciar as ocupações imperialistas, a entrega do
pré-sal e a agressão à Líbia. Mas ao invés disso, os dirigentes da
Força Sindical, CUT, UGT, CTB, CGTB e Nova Central
resolveram almoçar com Obama... Almoçar!
Claro, como são burocratas, precisavam dar um ar combativo ao
almoço. Por isso entregaram ao presidente uma “carta aberta”
que falava sobre a necessidade de aumentar o comércio entre os
dois países... Aumentar o comércio! Então é assim? Quando o
chefe do imperialismo mundial vem ao país não devemos
protestar, exigir, repudiar, mas sim almoçar com ele e pedir o
aumento do comércio? Não é difícil imaginar o prejuízo desses
ensinamentos para a consciência de milhões de trabalhadores.
E não é só isso. A burocracia afasta os trabalhadores de base do
sindicato; promove o preconceito e a opressão dentro das fileiras
de nossa classe; educa os ativistas em uma cultura de mentiras,
violência e calúnias. Enfim, a burocracia destrói as próprias bases
da organização sindical, exatamente como um parasita destrói o
organismo que o hospeda.
É possível evitar a burocratização?
De tudo o que dissemos até aqui, não concluímos de maneira
nenhuma que “todo mundo que chega lá se corrompe”. Esse
simples senso comum não ajuda os trabalhadores porque não
explica nada.
Como evitar então a burocratização? Há uma vacina contra ela?
Infelizmente, não. Como dissemos acima, a burocratização não
tem origem no indivíduo, mas sim nos privilégios que o aparato
sindical oferece. Portanto, a luta contra a burocratização deve ser,
em primeiro lugar, uma luta contra esses privilégios e pelo
controle da base sobre os dirigentes. Em segundo lugar, é uma
luta para trazer a base para dentro do sindicato, fazê-la participar,
opinar, fiscalizar, sugerir e criticar.
Em terceiro lugar, a luta contra a burocratização é uma luta pela
reeducação da classe e de seus dirigentes em base aos bons e
velhos valores políticos e morais abandonados pela burocracia: o
ódio de classe, a solidariedade internacional, a independência em
relação a todos os governos e empresas e a luta contra a
opressão e a exploração. Por último, o combate à burocratização
é impossível sem a politização da atividade sindical. Os sindicatos
devem levantar ativamente as bandeiras políticas da classe,
desde as mais modestas até sua grande bandeira histórica: o
socialismo. Nas diretorias das entidades devem conviver
democraticamente representantes de todas as correntes
partidárias e também aqueles que não têm partido nenhum.
Nenhuma dessas medidas por si só resolve o problema, mas são
todas absolutamente necessárias. São parte de uma luta que
deve começar agora, mas que não tem data para acabar.
O destino da burocracia
A luta contra a burocratização é a batalha para transformar os
sindicatos novamente em escolas de comunismo, em
instrumentos de preparação e educação de toda a classe para
sua grande missão histórica: a derrota do capitalismo e a
construção de uma sociedade socialista. Nessa batalha, não é
preciso dizer que os atuais dirigentes da CUT, da Força Sindical,
da CTB e de outras centrais não serão aliados. Com isso, apenas
demonstram sua condição de burocratas irrecuperáveis e agentes
do capital na classe trabalhadora. Quando chegar a hora, os
operários saberão expulsá-los de seu meio, da mesma maneira
que um organismo enfermo, na luta por recuperar-se, expulsa de
dentro de si todo tipo de úlcera e infecção. Por mais feio que soe
essa frase, a verdade é que a burocracia não passa disso.
ANOTAÇÕES
O QUE SÃO AS FORÇAS ARMADAS?
HENRIQUE CANARY, de São Paulo (SP)
Foi no dia 8 de março. As operárias da indústria têxtil escolheram o
Dia Internacional da Mulher para começar sua luta. Rapidamente a
greve contagiou outras categorias e mais de 90 mil pessoas
marcharam rumo ao centro da cidade. As mulheres iam à frente.
Para impedir o avanço da multidão, o governo ordenou que a
cavalaria formasse uma linha sólida e coesa em uma das pontes de
acesso ao centro. Cerca de 1500 cavaleiros se alinharam. A
multidão se aproximou e houve silêncio. Ninguém sabia ao certo
como terminaria aquele encontro. As mulheres, mais corajosas,
chegaram até os cavalos. De joelhos, elas seguravam as botas dos
soldados e imploravam que as deixassem passar. Mas os soldados
não se moviam. Então, algo inesperado aconteceu: um soldado
piscou o olho para uma operária. Era um sinal, e ela logo entendeu.
Ela se agachou, e passou por entre as pernas do cavalo, transpondo
facilmente a temida barreira. Foi a primeira.
Muitas outras a seguiram por aquela brecha inesperada. Outros
soldados piscaram o olho para outras operárias e em poucos
minutos, alguns milhares de trabalhadores haviam atravessado a
ponte rumo ao centro, todos passando por baixo do ventre dos
cavalos, mantidos imóveis pelos soldados. Formalmente, a ordem
dada pelo comando havia sido cumprida e por isso ninguém poderia
ser punido. Não passou pela cabeça do governo que a súplica de
uma multidão de mulheres tocaria o coração daqueles homens
duros. Mas tocou. No quinto dia de greve o governo caiu. Oito
meses depois, em outubro, os mesmos homens e mulheres que
haviam se arrastado por entre as pernas dos cavalos naquela
manhã de março tomaram o poder e começaram a edificação de
uma nova sociedade. A revolução, como toda criança, começou
engatinhando, para logo depois dar passos de gigante. E tudo
começou com um pequeno ato de indisciplina: uma piscada de olho.
O episódio é verídico, está documentado, e aconteceu em
Petrogrado, antiga capital da Rússia, em 1917. Esse incrível começo
da primeira Revolução Socialista vitoriosa da história nos remete a
uma questão fundamental: o que são as Forças Armadas e qual a
relação que os trabalhadores devem ter com elas?
Um aparato repressivo a serviço da burguesia
As Forças Armadas, incluídos aí o Exército, os serviços de
inteligência e as polícias civil e militar, são um aparato repressivo a
serviço da dominação de classe da burguesia. É verdade que o
Exército protege as fronteiras do país dos invasores externos e
presta auxílio à população quando acontecem grandes tragédias.
Também é verdade que as polícias desvendam crimes, organizam o
trânsito e vigiam as saídas das escolas com o objetivo de proteger
as crianças. Mas isso é apenas uma cortina de fumaça que esconde
suas verdadeiras funções.
Vivemos em uma sociedade dividida entre explorados e
exploradores, oprimidos e opressores. Para manter a estabilidade da
ordem social, a burguesia precisa dar uma cara democrática à sua
dominação. Não pode reprimir todo o tempo. Por isso, no cotidiano,
o domínio da burguesia se dá através da ideologia, e não da
violência (ver artigo O que é ideologia, desta série). Mas há
momentos em que as ideologias param de funcionar. Quando crises
econômicas, política e social atingem um nível insuportável, as
idéias tornam-se insuficientes para manter os trabalhadores
passivos. Eles saem à luta, se organizam, se rebelam. Nesses
momentos, sempre (absolutamente, sempre!), as Forças Armadas
são colocadas em ação.
A PM realiza despejos em áreas ocupadas pelos movimentos sem-
terra e sem-teto; a tropa de choque reprime greves e manifestações;
a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) se infiltra nos
movimentos sociais com o objetivo de identificar os líderes e coletar
informações, e o Exército garante a ordem nas ruas das favelas
ocupadas quando a polícia já não não dá mais conta.
Treinados para atacar negros e pobres
Uma das principais ideologias criadas pela burguesia é a de que as
Forças Armadas existem para o bem comum. Não é a toa que o
lema da polícia seja “para servir e proteger” e o do Exército seja
“braço forte – mão amiga”. A burguesia tenta todo o tempo passar a
ideia de que as Forças Armadas são aliadas do cidadão de bem e
que quem obedece as leis não tem nada a temer.
Mas a realidade é bem diferente. As Forças Armadas são, em
primeiro lugar, uma força de classe. Isso pode ser visto em seu
treinamento. Para “combater o crime”, é preciso, antes de mais
nada, saber identificar os criminosos. E como identificá-los? O
treinamento da PM ensina: pela sua aparência. São jovens, negros,
andam mal vestidos, passeiam em pequenos grupos à noite etc.
Esse tipo de “treinamento”, complementado por ações práticas dos
alunos das academias de polícia nos bairros pobres da periferia, vai
educando o policial na lógica de que todo pobre é um criminoso em
potencial. Com o tempo, esse tipo de pensamento vai se enraizando
na cabeça do policial e sua ação começa a adquirir um caráter
discriminatório e segregador. Ele se separa do povo e acha que
pode tudo. Daí a famosa imagem do policial militar jogando spray de
pimenta no rosto de duas meninas que acompanhavam a mãe em
um protesto por moradia no Rio; ou ainda o vídeo do policial militar
dando cinco tiros a queima-roupa em um adolescente de 14 anos,
em Manaus, há alguns meses.
Esses e muitos outros não são casos isolados. São a prova definitiva
de que as Forças Armadas são, na realidade, a carceragem de uma
prisão invisível, uma prisão chamada sociedade capitalista.
Outro exemplo emblemático: a forma como a tropa de choque se
prepara para uma manifestação. Várias horas antes da manifestação
o pelotão é chamado ao pátio do batalhão e fica em formação,
aguardando a ordem de sair. Se está sol, fica no sol; se está
chovendo, fica na chuva. Enquanto aguarda, o pelotão é
“esclarecido” sobre os motivos da espera: “vocês estão aqui por
causa de vagabundos e grevistas, veados e maconheiros” etc. São
dadas também advertências: “cuidado com os coquetéis molotov,
pedras e estiletes que todo estudante e sindicalista carrega
consigo!”. O resultado é óbvio: os policiais saem para `as ruas
completamente enfurecidos, sedentos de vingança pelas horas de
espera, fome e cansaço. Com esse tipo de “preparação”, não é de
se admirar que a PM gaste tanto gás de pimenta com sindicalistas,
estudantes e crianças de 6 anos.
A atitude da classe trabalhadora
Como instituições, o Exército e as polícias são irrecuperáveis. O
objetivo dos socialistas é a dissolução dessas forças armadas
violentas, racistas e anti-operárias e sua substituição por forças
armadas formadas e controladas pelos trabalhadores e pela
população pobre. Mas até lá os trabalhadores não podem ficar de
braços cruzados.
A atitude da classe trabalhadora para com as Forças Armadas não
pode levar em conta apenas o caráter repressivo da instituição.
Deve levar em conta também o fato de que esta instituição é feita de
pessoas de carne e osso, e que toda pessoa de carne e osso tem
duas características:
1) pensa e
2) vive em uma determinada realidade social que a influencia.
As Forças Armadas não são compostas apenas por capitães e
coronéis bem remunerados. Elas são formadas também por
soldados rasos, cujo nível de vida é idêntico ao dos trabalhadores
mais explorados. Existem as milícias que controlam as favelas, mas
existem também os soldados que moram no morro, que secam seu
uniforme dentro de casa e que vão para o trabalho à paisana para
não serem mortos pelo tráfico.
A classe trabalhadora deve confiar que a revolução socialista
provocará uma luta de classes também dentro das Forças Armadas
e que os elementos mais honestos serão simpáticos à causa do
proletariado e poderão, em certo momento e sob certas condições,
romper a disciplina e se juntar à revolução. Todas as revoluções
vitoriosas dependeram desse momento dramático: quando uma
parte das Forças Armadas passa, de armas na mão, para o lado dos
rebeldes. Pensar que o proletariado pode tomar o poder sem romper
as forças armadas é uma utopia, é jogar o proletariado num poço de
sangue e derrota.
Mas, para dividir os aparatos repressivos, os trabalhadores precisam
agir desde já, mesmo que modestamente. É preciso realizar um
sério trabalho de propaganda sobre a base das Forças Armadas,
defender o direito de greve e sindicalização dos soldados,
disseminar entre eles a desconfiança para com os oficiais e o alto
comando. É preciso convencer os soldados de que a melhoria de
suas vidas depende de sua união com os trabalhadores, da derrota
do capitalismo e da vitória do socialismo. Essa propaganda será, no
atual momento histórico, tímida e débil, quase inexistente. Mas as
revoluções e as crianças ensinam: quem não sabe engatinhar,
jamais poderá correr.
ANOTAÇÕES
O QUE É O IMPERIALISMO?
Henrique Canary, de São Paulo (SP)
Caminhe pelas ruas do bairro onde você passou a infância. Em
vão você vai procurar pelo mercadinho no qual trocava meia
dúzia de moedas por um punhado de balas, tiradas do baleiro de
vidro que ficava em cima do balcão, junto com a balança Filizola e
o papel de enrolar pão. No lugar dele, ou na próxima esquina, o
que você vai encontrar é um grande hipermercado: Carrefour,
Extra ou Pão de Açúcar se você estiver no sul-sudeste;
GBarbosa, Líder ou DB se estiver no norte-nordeste.
Se prestarmos atenção à vida econômica, veremos que existe
uma tendência ao desaparecimento das pequenas empresas, que
são cada vez mais substituídas por grandes estabelecimentos e
franquias internacionais. É claro que novas pequenas empresas
surgem a todo instante, mas pouquíssimas sobrevivem. A falência
é o fantasma que atormenta o sono dos micro e pequenos
empresários todas as noites. E para 99,9% deles a hora de fechar
as portas acaba chegando, mais cedo ou mais tarde. A razão de
tantos fracassos não é, ao contrário do que tentam nos
convencer, o custo da força de trabalho, os altos impostos ou a
falta de qualificação dos trabalhadores, mas sim um velho
fenômeno conhecido de todos nós, porém pouco lembrado
ultimamente: o imperialismo. Exatamente. A invasão do Iraque
pelos Estados Unidos e a falência do armazém da esquina têm a
mesma causa: o super-crescimento dos monopólios, que
engolem as pequenas empresas e dominam a economia mundial.
O que é um monopólio?
O capitalismo do século 19 era muito diferente do de hoje. Em
cada ramo da indústria havia uma infinidade de empresas que
disputavam livremente o mercado, cada uma oferecendo seus
produtos pelo menor preço possível. Era a época da chamada
“livre concorrência”.
Na luta pelos consumidores, as empresas iam aperfeiçoando o
processo produtivo, introduzindo novas tecnologias ou fazendo
com que seus operários trabalhassem mais e melhor pelo mesmo
salário. Quando isso acontecia, os custos de produção dessas
empresas caíam brutalmente e elas conseguiam oferecer
produtos relativamente bons a preços bastante baixos. De outro
lado, as empresas que não conseguiam melhorar sua produção
ou aumentar a exploração de seus operários terminavam
perdendo espaço e falindo. Com a falência das indústrias menos
produtivas, as empresas mais eficientes abocanhavam uma
parcela cada vez maior do mercado nacional. Dessa forma,
através de um ciclo de falências e incorporações sucessivas, em
algumas décadas se chegou a uma situação em que cada ramo
da indústria não era mais disputado por uma infinidade de
empresas, mas sim dominado por um punhado de 5 ou 6 grandes
corporações. Já que eram poucas, essas corporações, ao invés
de continuarem engolindo umas as outras, preferiam entrar num
acordo e dividir o mercado em base ao tamanho e a capacidade
produtiva de cada uma. Formavam-se, assim, os primeiros
cartéis, ou seja, aglomerados de umas poucas empresas que
combinam o preço das mercadorias, forçando os consumidores a
comprar tudo por um valor muito acima do real.
Dessa maneira, a partir do final do século 19 o capitalismo entra
em uma nova fase de seu desenvolvimento, na qual a livre
concorrência, que chegou a ser considerada a “alma” do
capitalismo, já não passa de um teatro de mau gosto e onde o
que vale mesmo é o peso dos grandes monopólios.
Os monopólios e os bancos
Uma vez formado um monopólio e estabelecido o controle sobre
um determinado mercado nacional, as empresas que participam
do acordo começam a obter lucros extraordinários porque podem
impor seus preços sem qualquer concorrência, apenas
conversando entre si. Os lucros obtidos são, no início, investidos
na própria produção, que cresce e se aperfeiçoa sem parar. As
empresas, que já eram grandes, tornam-se gigantescas. As
metalúrgicas se associam às siderúrgicas, que lhes fornecem o
metal. Estas, por sua vez, se associam às mineradoras, que
extraem o ferro da terra. As petroleiras compram as refinarias,
que, por sua vez, compram os postos de abastecimento. Aos
poucos, formam-se enormes conglomerados que controlam
ramos inteiros da economia e cujos lucros ultrapassam em muito
o orçamento de alguns países.
Mas de onde sai tanto dinheiro para investir e crescer? É
evidente: dos bancos. Os bancos, que no início do capitalismo
eram simples intermediários nas operações de pagamento,
começam a participar ativamente da produção, emprestando
dinheiro para as grandes empresas. Quanto mais a indústria
cresce, mais depende do crédito bancário.
Quanto mais o banco empresta dinheiro para a indústria, mais
lucro obtém e mais dinheiro tem para emprestar novamente
depois. Num determinado momento, os bancos ultrapassam a
indústria em riqueza e poder e resolvem ditar as regras do jogo,
impondo às empresas condições de financiamento que estas são
obrigadas a aceitar, sob pena de terem negados seus pedidos de
empréstimo. Para garantir que os empréstimos sejam bem
utilizados, os bancos compram ações das empresas devedoras e
enviam seus representantes para os conselhos administrativos
das mesmas. As empresas perdem assim sua autonomia e caem
sob o controle dos bancos, que a esta altura também se tornaram
gigantescos. No final das contas, não se sabe mais se são os
bancos que investem nas indústrias ou se são as indústrias que
aplicam seu dinheiro nos bancos. O capital industrial funde-se
assim com o capital bancário, dando origem a uma nova força
econômica e social, muito mais poderosa e devastadora, o
verdadeiro Frankstein do sistema capitalista: o capital financeiro.
Em cada país, meia dúzia desses mega-aglomerados financeiros
controlam quase toda a economia.
Os monopólios e o imperialismo
O capital financeiro investe e produz dentro do país, obtendo
enormes lucros. Mas logo se depara com um problema: cada
nação tem as suas fronteiras e os lucros não podem crescer
infinitamente dentro de um mercado finito. Por isso, do mesmo
modo que um tigre não pode se alimentar por muito tempo de
capim, também os monopólios não podem ficar muito tempo
presos ao mercado nacional. Quando a fome de lucros aumenta,
os monopólios buscam a única solução viável para seus
problemas: a conquista do mercado mundial, que não é infinito,
mas pelo menos é muito maior do que o mercado nacional. Essa
política de conquista do mercado mundial pelos grandes
monopólios é o que chamamos de imperialismo.
Na luta por estabelecer seu império mundial, o capital financeiro
utiliza distintas armas. Se o país a ser conquistado for um
mercado livre, os monopólios utilizarão meios puramente
econômicos: preços baixos, investimentos massivos etc. Se, ao
contrário, o país-alvo for um mercado fechado, protegido por
taxas alfandegárias altas ou leis que limitem a ação dos capitais
estrangeiros, os imperialistas poderão recorrer à ajuda de meios
não-econômicos, principalmente a guerra de conquista ou guerra
colonial. É claro que os monopólios não travam eles próprios as
guerras. Quem faz isso são os Estados nacionais, que a essa
altura já se encontram completamente controlados por esses
mesmos monopólios.
Dessa maneira, no final do século 19 praticamente toda a Ásia,
África, Oceania e Oriente Médio estavam sob controle militar
direto de alguma potencia colonial, principalmente França,
Inglaterra e Japão. Por sua vez, na mesma época a América
Latina inteira já se encontrava sob domínio econômico dos
Estados Unidos, apesar de cada país manter formalmente sua
independência política. Era o auge do imperialismo.
O imperialismo e as guerras mundiais
Mas a divisão do mundo entre as principais potências coloniais
não resolveu o problema. Como se descobriu depois, a Terra,
apesar de ser muito grande, também é finita. Dessa maneira, em
poucos anos de dominação imperialista do mundo, os monopólios
sentiram novamente a necessidade de expandir seu domínio.
Mas como agora todos os territórios importantes já se
encontravam controlados por algum país imperialista, não havia
outra saída a não ser... tomar do vizinho. Assim, as grandes
potências da Europa entraram, no final do século 19, numa
corrida armamentista que levaria, em 1914, à Primeira Guerra
Mundial. Poucos anos depois, em 1939, a humanidade
mergulharia em um novo abismo sangrento: Alemanha e Japão
resolveram tomar na marra a parte do bolo colonial que
acreditavam lhe pertencer por direito. Era o início da 2ª Guerra
Mundial.
Imperialismo e socialismo
Por ironia do destino ou capricho da história, o imperialismo
acabou fornecendo a corda com que ele próprio haverá de se
enforcar um dia.
Ora, o que significa um mundo dominado pelos monopólios?
Significa que a extração, produção e distribuição de todo o tipo de
bens e serviços estão integradas em um único sistema logístico
internacional; significa que os departamentos de estatística dos
grandes conglomerados sabem exatamente o quanto cada região
do mundo consome de tal ou qual produto e o quanto pode
produzir e exportar; significa que cada inovação técnica se
espalha imediatamente por todo o planeta, aumentando
rapidamente a produtividade do trabalho, mesmo nos cantos mais
remotos do globo; significa que as fronteiras culturais e
econômicas entre os países foram de fato extintas. E o que são
todos esses elementos, senão as bases materiais de uma
economia socialista mundial? Para desgosto da burguesia, o
imperialismo é a prova definitiva de que o “livre mercado” é uma
ilusão infantil e que uma economia organizada mundialmente não
só é possível, como também é muito mais eficiente e lógica do
que um amontoado de economias nacionais isoladas. Será
possível encontrar uma demonstração mais evidente das
possibilidades do socialismo?
Não há dúvida de que nossos carrascos prestaram, a seu modo,
um grande serviço. Que joguem seu jogo por enquanto. Chegará
a hora em que o proletariado do mundo inteiro segurará estes
senhores pelo pescoço e dirá: “Obrigado, mas daqui em diante
nós assumimos”.
ANOTAÇÕES
O QUE É EXPLORAÇÃO?
Henrique Canary, de São Paulo (SP)
Dentro da estação de metrô Barra Funda, em São Paulo, há uma
pequena casa lotérica. Ninguém nunca ganhou nada lá, mas ela
está sempre cheia. O sucesso do empreendimento deve-se não à
boa localização, mas ao nome: “Adeus, patrão!”. O sonho de se
ver livre para sempre do trabalho imediatamente invade a cabeça
dos que passam, e a vontade de fazer uma fezinha torna-se
simplesmente irresistível. Vai que ganha...
Logo depois da lotérica, passa-se pelas catracas, desce-se a
escada rolante e entra-se no vagão lotado. De repente, o sonho
desmorona. Percebe-se que os R$ 2 da aposta foram jogados
fora. É fato consumado que a maioria esmagadora de nós está
condenada a trabalhar a vida inteira. Ao final de nossa existência,
teremos trabalhado de 8 a 12 horas por dia, 26 dias por mês,
durante 35 a 40 anos. O trabalho, nosso meio de vida, terá
sugado a própria vida. Quem, nessas condições, não quer dar um
adeus definitivo ao patrão e torrar uma bolada?
Mas por que todos sonham em ganhar na loteria e parar de
trabalhar? É claro que o trabalho é duro, mas ele também cria
maravilhas. Basta olhar ao redor. Quando trabalhamos, mesmo
sem saber, somos parte de um todo único e indivisível chamado
sociedade. O trabalho deveria despertar nossos traços mais
humanos: a inteligência, a cooperação e a solidariedade. Por que
isso não acontece? A resposta é evidente: porque na sociedade
capitalista o trabalho não é a realização de nossas capacidades e
talentos, mas um sofrimento a serviço do lucro. Lucro de outro, do
patrão.
O trabalho sob o capitalismo
O capitalismo se carateriza por apresentar as relações entre
patrão e empregado como se fossem livres e justas: o empregado
não é obrigado a aceitar a proposta de emprego do patrão. E,
mesmo que tenha aceito, pode abandonar o emprego a qualquer
momento. O patrão, por sua vez, também não é obrigado a
contratar o empregado. E, mesmo o tendo contratado, não
precisa mantê-lo. Pagando algumas multas, pode demiti-lo a
qualquer hora.
O contrato de trabalho também parece bastante justo: oito horas
de trabalho por dia em troca de um salário que garantirá o
sustento do trabalhador e até o de sua família! Pode haver troca
mais justa? Mais democrática?
Começa o trabalho. As máquinas são ligadas, as engrenagens
giram, as alavancas empurram. A laje é batida, o petróleo é
refinado, o cós é costurado. Ao final do dia vê-se a magia do
trabalho: um andar novo onde antes só havia armações de ferro,
uma pilha de roupas onde antes só havia tecido, um carro onde
antes só havia peças soltas, gasolina onde antes só havia óleo
bruto. Criam-se assim novas riquezas que não existiam antes e
que têm um valor determinado: R$ 25 mil se for um carro, R$ 25
se for uma blusa etc.
Onde está a exploração?
A ironia do sistema capitalista é que a exploração se dá
exatamente através do fato mais aguardado pelo trabalhador: o
pagamento do salário! O sistema salarial é o mecanismo
fundamental da exploração capitalista. Se não houvesse salário,
ou seja, se a retribuição ao operário pelos serviços prestados
tivesse que se dar de outra forma, os capitalistas não
conseguiriam explorar o trabalhador. Vejamos.
A produção média da indústria automobilística, segundo os dados
da própria patronal, está hoje em 2,25 carros por trabalhador por
mês. Arredondemos para dois, apenas para facilitar as contas.
Isso significa que, ao longo de um mês, cada trabalhador do setor
produz em média dois carros. Supondo que o valor médio desses
carros, para tomar apenas os mais baratos, seja de R$ 24 mil,
cada trabalhador gera, ao longo de um mês, um total de R$ 48 mil
em novas riquezas antes não existentes. Suponhamos também
que o salário desse trabalhador seja de R$ 2 mil e que ele
trabalhe, de fato, apenas 24 dias por mês, pois folga aos
domingos e em alguns sábados. Dividindo-se os R$ 48 mil pelos
24 dias em que o trabalhador trabalha, temos exatos R$2 mil.
Esse é, em média, o valor gerado por um trabalhador da indústria
automobilística em um único dia de trabalho. Ou seja, o
metalúrgico médio de uma montadora produz em um único dia o
valor de seu próprio salário mensal. Mas o contrato “justo e
democrático” estabelecido com o patrão diz que o trabalhador
deverá trabalhar não apenas um dia, mas sim 24 dias inteiros.
Somente depois disso receberá o seu salário. Isso significa que,
em um mês, o trabalhador dedica-se um dia a pagar o seu salário
e nos outros 23 dias trabalha absolutamente de graça, sem
nenhuma contrapartida por parte do patrão.
Ou seja, no sistema capitalista a exploração não está no fato de o
salário ser alto ou baixo. Que bom seria se o problema fosse
somente esse. É claro que o aumento do salário do trabalhador é
um duro golpe no patrão e reduz a exploração, mas não a elimina
por completo. Se o salário de nosso metalúrgico for dobrado para
R$ 4 mil, ele então trabalhará dois dias para pagar o seu salário e
22 dias de graça para o patrão. Se for para R$ 6 mil, trabalhará
três dias para pagar o seu salário e 21 dias de graça etc. Nenhum
aumento salarial conseguirá eliminar a exploração. Sempre,
independentemente do salário do trabalhador, haverá uma parte
da jornada que ele trabalhará de graça.
É claro que esse nível de exploração muda, dependendo do ramo
da indústria e da profissão exercida. Algumas categorias são mais
exploradas que outras, ou seja, trabalham mais tempo de graça
para o patrão. Outras menos etc. Mas em toda e qualquer
empresa em que os trabalhadores vendem a sua força de
trabalho durante um certo tempo em troca de um salário, esse
fenômeno se repetirá: trabalho gratuito para o patrão. Aí reside a
“mágica” do capitalismo: que o trabalho do trabalhador gera muito
mais riqueza do que ele recebe de volta na forma de salário. A
diferença entre o que ele produz e o que recebe como salário
chama-se mais-valia. É o trabalho não-pago pelo capitalista.
O lucro: resultado da exploração
Como se vê, exploração e lucro são coisas diferentes. O lucro
apenas reflete a exploração, mas não é a própria exploração. O
lucro do patrão pode ser maior ou menor em função das
despesas da empresa, queda dos preços. Ou seja, é um
problema de mercado. Já a exploração é mais profunda. Ela
acontece no próprio ato da produção: o trabalhador, em apenas
um dia, pagou o seu salário e, sem saber, continuou trabalhando
mais 23 dias, crendo que ainda estava em dívida com o patrão.
Quando os trabalhadores fazem greve por aumento salarial, os
patrões mostram centenas de tabelas para provar que o aumento
pedido é inviável, que a empresa vai falir etc. Essas tabelas são,
em geral, mentirosas, não porque as empresas não tenham
despesas. Elas têm. São mentirosas porque o aumento pedido
pelos trabalhadores nunca chega a afetar os compromissos
assumidos pelas empresas junto a fornecedores e bancos. Os
aumentos pedidos pelos trabalhadores são, em geral, bastante
modestos e só afetam o lucro da empresa, ou seja, aquele
dinheiro que vai limpinho para o bolso do patrão, já descontadas
as despesas. Mas, como o patrão não tem a menor intenção de
se desfazer desse lucro, ele tenta apresentar sua tragédia
(diminuição do lucro) como se fosse a tragédia da empresa, mas
são coisas bem diferentes.
Mas há uma gota de verdade nos rios de lágrimas chorados pelos
patrões. E é a seguinte: de fato, as empresas não suportam um
aumento significativo dos salários porque todo o sistema
capitalista está baseado no trabalho gratuito dos trabalhadores.
Se os trabalhadores tiverem um aumento salarial além de um
determinado nível, todo o sistema vai desmoronar porque não é
só o dono da fábrica que suga o sangue do operário. Também o
banqueiro, o fornecedor de matéria-prima, o governo e os
acionistas vivem do trabalho gratuito realizado pelo operário da
fábrica. Quando o patrão fala em “pagar as despesas” ele quer
dizer: “entregar a outros capitalistas uma parte do trabalho
gratuito que você realiza aqui dentro de minha fábrica”.
O problema é o próprio capitalismo
Assim, vivemos em uma sociedade que vive do trabalho gratuito
de uma parte da população. Essa imensa maioria, que trabalha a
maior parte do tempo de graça sem saber, achando que está
sendo paga, sustenta o luxo de uma ínfima minoria. Essa
pequena minoria se mantém como uma classe privilegiada
apenas porque é proprietária das fábricas, empreiteiras,
refinarias, bancos etc. Mas como eles se tornaram proprietários?
Essa é uma pergunta que nem mesmo eles saberão responder.
Falarão de alguma herança, de seu “espírito empreendedor”, se
enrolarão, gaguejarão, mas não conseguirão explicar a
verdadeira origem de sua riqueza. E por quê? Porque sabem que
sua riqueza tem origem no trabalho gratuito dos outros. E seria
muito vergonhoso admitir perante toda a sociedade: “sou rico
porque exploro o trabalho dos outros, porque outros trabalham de
graça para mim”. Ninguém quer aparecer como sanguessuga e
parasita. Não combina com a alta sociedade.
O capitalismo é, portanto, um sistema que carrega no seu próprio
funcionamento a lógica da exploração. Por isso, sob o
capitalismo, é impossível erradicar esse mal. O desafio de nossa
classe é a destruição desse sistema e sua substituição por outro:
um sistema fundado no princípio de que cada um retira da
sociedade uma quantidade de riqueza proporcional ao seu
trabalho. O princípio: para cada um, segundo o seu trabalho e
não segundo suas posses. Em outras palavras, um sistema
socialista, onde os trabalhadores sejam senhores de seu próprio
trabalho e possam dizer em alto e bom som e em uma única voz:
adeus, patrão! Até nunca mais!
O papel dos sindicatos
Os sindicatos são as organizações criadas pela classe
trabalhadora para lutar por melhor remuneração e condições de
trabalho dentro do sistema salarial. Por isso, apenas com a luta
corporativa, os sindicatos são incapazes de acabar com a
exploração. Para isso, precisariam se voltar contra o próprio
sistema salarial, ou seja, contra o capitalismo. Enquanto não
fazem isso, sua luta é apenas para reduzir a exploração, ou seja,
uma luta dentro do sistema. Essa batalha é fundamental, afinal,
faz muita diferença trabalhar 36 ou 44 horas por semana, ganhar
R$ 1 mil ou R$ 2 mil por mês. Mas é importante que todo ativista
e lutador social entenda essa limitação dos sindicatos, que, pelo
menos hoje, não estão voltados para uma luta contra o próprio
sistema, ainda que sejam muito combativos e suas direções
estejam de verdade ao lado dos trabalhadores.
De qualquer forma, os sindicatos têm um enorme papel. Todo
sindicato, por exemplo, deveria fornecer aos trabalhadores
informações claras que permitissem calcular com precisão a taxa
de exploração de determinada categoria, a quantidade de tempo
que se trabalha de graça nesta ou naquela empresa. Isso pode
ser feito em qualquer ramo: na construção civil, estabelecendo-se
o valor médio do metro quadrado construído, o salário e a
produtividade média de cada operário; no sistema bancário,
determinando-se o volume de taxas bancárias e juros recolhidos
pelos bancos em contraposição ao salário médio do bancário etc.
É fundamental que os trabalhadores cobrem essas informações
de seus sindicatos. A consciência de que os trabalhadores
trabalham uma parte da jornada de graça é o primeiro passo para
uma consciência verdadeiramente classista, socialista e
revolucionária.
O QUE É BURGUESIA?
Henrique Canary, de São Paulo (SP)
Há três ou quatro edições atrás, a revista Veja estampava em sua
capa: “O milionário mora ao lado: seis brasileiros de classe média
se tornam milionários a cada hora”. A manchete vinha
acompanhada de um subtítulo: “onze mulheres e homens que
enriqueceram dão a receita de como aproveitar a maré alta da
economia”.
O fantástico mundo de Veja
Essa é de doer. Se as contas de Veja estiverem certas, a “maré
alta” da economia brasileira vai transformar, em alguns anos, toda
a classe média em milionários e toda a população pobre em
classe média, acabando assim com a miséria no país. Mas Veja
“esquece” alguns detalhes. Por exemplo, que apenas em São
Paulo, o número de moradores de rua subiu 56% de 2000 a 2009,
ou seja, praticamente no mesmo período em que “nunca antes na
história desse país”, segundo Lula, os empresários ganharam
tanto dinheiro. Assim, nada mais falso do que a ideia de um Brasil
que marcha firmemente rumo ao primeiro mundo. Sim,
marchamos firmemente, mas é para o topo da lista dos países
com maior desigualdade social do planeta, onde já ocupamos a
10ª posição.
A manchete de Veja tem uma única utilidade: nos faz refletir
sobre uma questão aparentemente simples, mas na prática
bastante complexa: a definição de burguesia.
O que é a burguesia?
A burguesia é a classe social que detém a propriedade privada
dos meios de produção, ou seja, que é dona das fábricas, terras,
bancos etc., isto é, de tudo que é necessário para produzir a
riqueza social. Mas essa definição só pode ser entendida a fundo
se entendermos também o conceito oposto: o de proletariado. O
proletariado é a classe de trabalhadores assalariados que não
possuem propriedade privada e por isso são obrigados a vender
sua força de trabalho para sobreviver. Assim, a sociedade está
dividida em duas grandes classes sociais: a burguesia e o
proletariado. Há muitos outros grupos sociais, mas esses dois são
os principais.
É bom esclarecer que propriedade privada é diferente de
propriedade pessoal. Propriedade privada é aquela que permite
ao seu possuidor obter vantagens, lucro, renda e o mais
importante: explorar a força de trabalho alheia. Assim, se possuo
um carro e o utilizo para ir ao trabalho, ele é minha propriedade
pessoal. Mas se ao invés de utilizá-lo, eu o alugo a um taxista,
obtendo assim uma renda, nesse caso, trata-se de propriedade
privada.
Portanto, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, “ser
burguês” e “ter dinheiro” não são exatamente a mesma coisa. Se
sou auxiliar de produção, provavelmente não tenho dinheiro para
comprar um carro 0km, mas talvez meu colega ferramenteiro
tenha porque seu salário é bem maior que o meu. Isso não faz
dele um burguês, uma vez que ele comprou o carro com seu
salário, ou seja, através de seu próprio trabalho.
Desta forma, o que define a burguesia não é “ter dinheiro”, mas
sim o fato dela viver do trabalho alheio: por possuir propriedade
privada, a burguesia explora o trabalho dos outros. O trabalho dos
outros é seu meio de vida, sua fonte de riquezas. Essa é sua
primeira característica.
Uma classe-parasita cada vez mais inútil
A segunda característica da burguesia é que ela, ao contrário do
que tentam nos convencer, é uma classe-parasita, que não
trabalha, que não realiza nenhuma atividade produtiva, que não
contribui em nada para o aumento da riqueza social. Vejamos.
Quem é o dono da GM? Da Embraer? Da Vale? Podemos
conhecer no máximo o presidente destas empresas. Em alguns
casos, sabemos quem é o acionista majoritário. Mas quem são os
outros donos? Não os conhecemos porque essas empresas são
sociedades anônimas, cujas ações trocam constantemente de
mãos nas mega-operações das bolsas de valores, criando um
emaranhado de ligações praticamente impossível de ser
entendido.
Encontramos assim os verdadeiros donos das empresas: os
acionistas. Mas esses acionistas nunca possuem ações de uma
única empresa. Sempre são acionistas de dezenas, às vezes
centenas de empresas. Nem mesmo sabem que empresas são,
onde ficam e o que produzem. Isso não lhes interessa. O que lhes
interessa é a renda proveniente da compra e venda de ações.
Seu local de “trabalho” é a bolsa de valores. Sua única atividade é
a especulação. Por isso dizemos que a burguesia é uma classe-
parasita, que quebra, fecha ou desmonta suas próprias empresas
se isso lhe garantir um rendimento maior numa determinada
operação na bolsa.
O olho do dono engorda o gado?
Esqueça a velha imagem do industrial dedicado que observa
atentamente o trabalho dos operários desde seu escritório no
andar superior da fábrica. Esse burguês que é ao mesmo tempo
dono e gerente de sua própria empresa é uma figura cada vez
mais rara. Ele há muito tempo cedeu suas funções aos
administradores, engenheiros e técnicos, que tocam os negócios
muito bem sem ele. O “olho do dono” não engorda mais ninguém,
pois só enxerga agora os balancetes trimestrais...
Assim, cada vez mais recai sobre os ombros dos trabalhadores
não apenas o desgaste do trabalho físico, mas também a
responsabilidade pelo planejamento de todo o processo
produtivo. Isso se dá tanto dentro da fábrica, com as células de
produção e equipes de trabalho, quanto nos escritórios de
contabilidade e logística. Não há função produtiva, organizativa
ou comercial que não seja exercida por trabalhadores
assalariados. Esse simples fato joga por terra toda a lenda de que
os trabalhadores não podem se auto-governar, de que sem o
burguês a economia desmoronaria e o caos se instalaria na
sociedade. Os trabalhadores já conduzem a produção. Mas o
fazem de maneira isolada, inconsciente, sob as ordens de
mercenários sem escrúpulos a mando da burguesia: os diretores,
gerentes e chefes.
“Trabalho duro” de burguês?
Mas a sobrevivência da burguesia como classe-parasita estaria
ameaçada se sua completa inutilidade fosse evidente para todos.
Por isso a burguesia tenta dar à sua atividade uma aparência de
“trabalho”. Desta forma, é comum vermos grandes burgueses
“trabalhando duramente” em seus escritórios, se envolvendo na
administração das fábricas, chegando tarde em casa, estressados
por causa do “trabalho” etc. Olhando assim, parecem verdadeiros
trabalhadores! Na verdade, qualquer que seja a função exercida
por um burguês, tudo o que ele faz pode ser feito (e muito
melhor!) por um trabalhador técnico qualificado.
Além disso, a renda de um burguês nunca provém da atividade
que ele exerce na fábrica. Sua renda sempre provém do simples
fato de ele ser proprietário de uma certa quantidade de ações. Ele
vive não do salário, mas do lucro. Seu único “trabalho” é garantir
que se explore ao máximo o trabalho dos outros. A única classe
que vive de seu próprio trabalho é o proletariado.
A pequena e a grande propriedade
Tudo o que dissemos até aqui vale para a grande propriedade,
mas não para a pequena. Ser um grande acionista ou latifundiário
é diferente de ser dono de um sítio, um taxi ou uma pequena
padaria. Enquanto o grande proprietário vive do trabalho alheio e
apenas finge que trabalha, o pequeno proprietário, ou “pequeno-
burguês”, é obrigado a trabalhar de verdade para manter seu
pequeno negócio.
O pequeno-burguês muitas vezes também explora o trabalho de
um ou mais trabalhadores, mas o tamanho reduzido de sua
propriedade, a instabilidade de sua situação econômica e a luta
permanente contra a concorrência por parte do grande capital não
lhe permitem parar de trabalhar. Assim, ao contrário da grande
burguesia, a pequena-burguesia é uma classe produtiva, ou seja,
que contribui com o aumento da riqueza social.
Teu dia está prestes, burguês!
O poeta russo Vladimir Maiakovsky escreveu certa vez: “Come
ananás, mastiga perdiz; Teu dia está prestes, burguês!” E o poeta
brasileiro Mario de Andrade não deixou por menos: “Eu insulto o
burguês! O burguês-níquel, o burguês-burguês! A digestão bem-
feita de São Paulo!”
Reconhecer imediatamente a burguesia e seus representantes;
confiar única e exclusivamente em suas próprias forças; nas
eleições, votar somente nos representantes legítimos dos
trabalhadores; nutrir um verdadeiro ódio de classe contra toda
opressão, exploração e injustiça: essas são as tarefas
fundamentais de todo ativista ou dirigente do movimento operário,
sindical e popular. Se o milionário mora ao lado, está mais do que
na hora de acertar as contas com esse vizinho folgado.
Os governos burgueses
A burguesia não é apenas a classe economicamente dominante.
Ela é também a classe politicamente dominante. Sem a ajuda das
instituições do Estado (congresso, justiça, Exército, polícia,
escolas) ela não poderia manter-se como classe-parasita. Assim,
a burguesia forma para si um exército de especialistas em
administração pública. São os políticos burgueses.
Para se elegerem, os políticos burgueses precisam do apoio
político e financeiro da burguesia, mas também do voto popular.
Por isso, os governos burgueses sempre adotam algumas
medidas benéficas à população: constroem hospitais e escolas,
criam programas sociais e de incentivo à renda etc. O que nunca
um governo burguês vai fazer é dar aos trabalhadores mais do
que dá à burguesia.
Um governo burguês pode desapropriar uma fazenda ou
nacionalizar um banco falido. Mas ele jamais vai governar contra
toda a burguesia, por exemplo, expropriando todos os latifúndios
do país ou nacionalizando todo o sistema financeiro.
Um governo burguês pode ter uma política relativamente
independente do imperialismo, incentivando, por exemplo, que a
burguesia nacional expanda seus negócios no mundo e conquiste
posições. O que ele nunca vai fazer é tornar o país
verdadeiramente soberano, por exemplo, proibindo a remessa de
lucros ao exterior ou deixando de pagar a dívida externa.
Assim, o caráter de classe de um governo é definido por suas
ações práticas e não por suas palavras ou pela origem social do
governante. Segundo esse critério, apesar de sua origem
operária, o governo Lula é um governo burguês, ainda que seja
um governo burguês diferente, “anormal” porque nele a burguesia
não governa diretamente, mas através das lideranças da classe
trabalhadora: o próprio Lula, o PT e a CUT. A acirrada disputa
eleitoral entre PT e PSDB não deve nos confundir. Uma vez
eleitos, tanto Dilma, quanto Serra, estarão a serviço do mesmo
senhor: a burguesia nacional e internacional. Se alguém ainda
duvidava disso, o recente veto de Lula ao fim do fator
previdenciário simplesmente encerrou a questão, mostrando a
incrível semelhança entre os governos do PT e PSDB.
Burgueses e proletários: a história das palavras
A burguesia é uma classe muito antiga. Nasceu por volta do
século 12 na Europa medieval. Num continente coberto por
enormes propriedades rurais, destacavam-se pequenas vilas
comerciais, conhecidas como “burgos”. Seus habitantes eram os
“burgueses”. Assim, a burguesia surgiu como uma classe de
comerciantes pobres, que havia deixado o campo e se instalado
nas cidades para viver do comércio. Somente mais tarde esses
burgueses se ligaram à manufatura, ao comércio internacional e
finalmente à indústria, dando origem à atual burguesia.
Já a nossa classe, o proletariado, é muito mais jovem. Surgiu por
volta do século 16, também na Europa. “Proletário” quer dizer em
latim “aquele que tem prole”, ou seja, filhos. Esse nome foi dado
porque os camponeses que abandonavam o campo e se
deslocavam para as cidades medievais nessa época não
possuíam absolutamente nada.
Sua única “propriedade” eram seus filhos. Sem qualquer posse,
“aqueles que tinham filhos” eram obrigados a vender sua força de
trabalho nas oficinas de manufatura.
Mais tarde, no século 18, graças ao surgimento da grande
indústria, o proletariado cresceu e se transformou, dando origem
ao moderno proletariado industrial.
ANOTAÇÕES
O QUE É DEMOCRACIA?
Henrique Canary, de São Paulo (SP)
Tiririca passou no teste do TRE. A novela parece ter chegado ao
fim. Pelo menos por enquanto. Afinal, Francisco Everardo Oliveira
Silva tem ainda quatro anos de mandato pela frente. O tempo vai
dizer se eleger um palhaço como deputado federal é uma boa
forma de protesto ou se, ao contrário, Tiririca será mais um a
votar contra os trabalhadores na Câmara.
De qualquer forma, o caso todo parece uma grande piada: o
mesmo sistema eleitoral que permitiu que os votos dados a
Tiririca acabassem elegendo outros três deputados, tentou
impedir a diplomação do comediante em base ao argumento de
que ele seria analfabeto. Não temos nenhuma simpatia por
Tiririca, cujas músicas estão cheias de preconceitos machistas e
racistas, mas é evidente que o questionamento de sua
alfabetização é uma enorme hipocrisia, uma tentativa de dar
alguma credibilidade ao sistema eleitoral. Não deu certo.
Para os trabalhadores, o fundamental agora é entender: que
sistema é esse que se desmoraliza por completo em cada eleição
e mesmo assim continua de pé? Por que, apesar da população
odiar os políticos e haver novas eleições a cada quatro anos, são
sempre os mesmos que mandam? Em resumo, qual o segredo ou
mistério da democracia?
Estado e regime
Para definir o que é democracia, precisamos antes entender dois
outros conceitos: Estado e regime.
O Estado é o conjunto de instituições públicas de um país:
tribunais, Exército, polícia, ministérios, Receita Federal,
Congresso etc. O Estado é a maior força militar, política e
econômica da sociedade. Quem já foi abordado pela polícia, paga
imposto de renda ou já teve que se explicar diante de um juiz,
sabe bem do que estamos falando. As instituições do Estado
estão por toda parte.
Mas qualquer mecânico sabe que um monte de peças jogadas
dentro de um capô não faz um carro andar. É preciso que elas
funcionem e que estejam corretamente conectadas entre si. A
explosão na câmara de combustão do motor não serve de nada
se não há um sistema de pistões, manivelas e engrenagens,
capaz de transmitir a energia produzida às rodas. Com o Estado
ocorre o mesmo. Assim como as partes de um motor, as
instituições do Estado precisam se conectar de alguma maneira.
Qual instituição do Estado é a principal num determinado
momento? Qual delas manda? E qual obedece? A resposta a
essas perguntas permite definir o regime político de um país. Se,
por exemplo, o Exército e a polícia forem as instituições
dominantes, estaremos diante de uma ditadura militar. Se, ao
contrário, o Congresso e a presidência, eleitos pelo voto popular,
cumprirem o papel principal, teremos uma democracia. O regime
é, portanto, a forma de funcionamento do Estado, a maneira
como as instituições do Estado se conectam entre si para fazer
esse Estado funcionar.
A função do Estado é manter a ordem social existente, ou seja,
proteger a propriedade burguesa e garantir a exploração da
classe trabalhadora pelos patrões.
Se para isso for necessário uma ditadura, virá uma ditadura. Se
for possível explorar através de uma democracia, teremos uma
democracia. Ou seja, o regime pode ser democrático ou ditatorial,
mas o Estado continua servindo à burguesia.
Por isso, ao falarmos de Estado, é preciso agregar a que classe
social ele serve, que tipo de “ordem” ele mantém, que
propriedade defende. Se for um Estado a serviço do capitalismo,
diremos “Estado burguês”. Se for um Estado controlado pelos
trabalhadores, diremos “Estado operário”. O mesmo vale para o
regime. Se vivemos em um Estado burguês, então teremos uma
democracia burguesa ou um regime democrático-burguês.
As características da democracia
A primeira característica da democracia burguesa é a existência
de liberdades individuais e coletivas: liberdade de organização, de
manifestação, de expressão, de reunião etc. Essa é uma
conquista extremamente importante, arrancada com muita luta
ainda na adolescência do capitalismo, no final do século 18. A
defesa dessas liberdades democráticas é um princípio dos
revolucionários porque elas são fundamentais para a educação
política dos trabalhadores. Durante a ditadura militar no Brasil, por
exemplo, as manifestações foram proibidas; os partidos de
esquerda, perseguidos; a arte, censurada. A classe trabalhadora
ficou quase vinte anos sem lutar. Somente com as greves
operárias no final dos anos 1970, essas liberdades foram
restabelecidas e os trabalhadores puderam reconstruir suas
organizações e voltar à cena política do país.
A segunda característica da democracia burguesa é a igualdade
jurídica. Segundo esse princípio, todos são iguais perante a lei,
têm os mesmos direitos e obrigações: prestam o serviço militar,
pagam impostos, fazem a prova do ENEM, param no sinal
vermelho etc.
As mentiras da democracia
Aqui nos deparamos com a primeira mentira da democracia
burguesa. Se prestarmos atenção, veremos que as liberdades
democráticas e a igualdade jurídica só existem pela metade, ou
somente para alguns, e por isso são uma farsa.
O direito de greve existe, mas centenas de greves são declaradas
ilegais pela justiça todo ano. O direito de manifestação existe,
mas os sem-teto são imediatamente reprimidos pela polícia
quando resolvem fechar uma rua para protestar. O direito de se
organizar em partidos existe, mas os partidos que não tem
representação parlamentar não são chamados aos debates,
como se simplesmente não existissem. Todos os partidos têm
acesso à TV, mas os partidos pequenos têm 30 segundos,
enquanto a coligação que elegeu Dilma tinha mais de 10 minutos.
Todos são iguais perante a lei, mas o caveirão não entra atirando
no Leblon e quando o banqueiro Daniel Dantas foi preso, houve
um escândalo nacional porque o coitadinho foi algemado. Os
filhos da burguesia prestam o ENEM como todo mundo, mas
antes disso estudam nas melhores escolas particulares e fazem
os melhores cursinhos. Todos pagam a mesma alíquota de ICMS,
mas uma família pobre gasta mais da metade de sua renda no
supermercado, enquanto para os ricos o item comida não
representa quase nada no orçamento doméstico. Todos têm o
direito de ir e vir, mas os usuários dos trens urbanos no Rio de
Janeiro levam chicotadas dos seguranças da SuperVia.
Podemos encontrar milhares de exemplos. Em todos eles,
veremos que as liberdades garantidas em uma lei, são limitadas
ou anuladas em outra, e que a igualdade jurídica é uma ficção.
A força da democracia
Apesar de todas as mentiras, a democracia burguesa tem se
demonstrado uma máquina bastante eficiente e difícil de ser
desmascarada. Em que reside, então, a força do regime
democrático-burguês, seu poder de iludir? Com essa pergunta
chegamos ao coração do sistema, à verdadeira câmara de
combustão da democracia burguesa, que fornece energia a todas
as outras partes do mecanismo: o voto.
A principal característica da democracia burguesa é a eleição dos
governantes através do voto universal. Voto universal significa
que todos têm direito a votar, sem distinção de raça, sexo ou
classe social.
Dito assim, parece pouco importante, mas não é. O voto universal
foi uma grande conquista, também arrancada com muita luta. No
Brasil, até o final do século 19, só podiam votar aqueles que
fossem ao mesmo tempo: homens, brancos e proprietários. Mais
tarde, o direito ao voto foi estendido aos pobres, mulheres e
analfabetos. No Brasil República, os negros nunca foram
oficialmente proibidos de votar. No entanto, como a maioria dos
ex-escravos era analfabeta, a população negra acabava de fato
excluída das eleições. Com relação às mulheres, se considerava
que elas já estavam representadas por seus maridos e por isso
não precisavam votar.
O voto universal foi uma conquista tão importante, que acabou se
tornando o principal critério para se avaliar o nível de liberdade de
uma sociedade. Se estabeleceu que: “Voto universal = país livre e
democrático”. “Ausência de voto universal = ditadura”. Todos os
outros direitos, como emprego, saúde, educação etc., foram
sendo lentamente eliminados da consciência da população. Não é
segredo para ninguém, por exemplo, que Dilma prepara uma
nova reforma da Previdência, que vai acabar na prática com um
direito fundamental dos trabalhadores: a aposentadoria. Quantas
vozes se levantaram contra isso até agora? Muito poucas. A CUT,
por exemplo, maior central sindical do país, permanece calada.
Imaginemos agora que Dilma pretendesse acabar com o voto
universal. Seria um escândalo internacional. De Washington,
Obama protestaria. A ONU emitiria um comunicado. Até o
palhaço Tiririca seria contra. Mas como se trata “apenas” do
direito à aposentadoria... para quê tanto barulho? Assim, a
liberdade humana foi reduzida ao direito de, uma vez a cada
quatro anos, apertar um botão.
O enigma do voto
Mas como o voto se tornou tão importante e por que dizemos que
ele é a fonte de todas as ilusões da democracia burguesa? Pelo
simples fato de que ele “iguala” coisas que são completamente
diferentes e não podem ser igualadas. Na vida real, patrões e
empregados têm interesses opostos. Mas no dia da eleição o voto
do trabalhador vale tanto quanto o voto do empresário. Esse fato
é martelado na cabeça do povo, como se fosse a prova definitiva
de que todos são iguais, de que a sociedade é realmente livre e
igualitária.
Não é por acaso que a TV, o governo e os jornais se refiram às
eleições como “a festa da democracia”. De fato, esse é momento
mais importante do regime democrático-burguês. Não importa
que durante os próximos 4 anos os trabalhadores terão que
enfrentar o governo como seu inimigo. Não importa que se mentiu
durante a campanha. Não importa que a TV só tenha mostrado
dois ou três candidatos. O que importa é que todos puderam
votar! Se votaram errado, paciência...
Assim, ao longo dos quatro anos que separam uma eleição da
outra, o eleitor é programado para chegar diante da maquininha e
fazer exatamente aquilo que se espera dele: votar. “Não
desperdice seu voto!”, “Vote!”, diz a campanha do TRE.
As armas do sistema
Mas se os trabalhadores são a maioria da população e a
burguesia é a minoria, por que a burguesia sempre ganha? Por
que os trabalhadores não usam o voto universal a seu favor? É
nesse momento que entra em cena o outro ator do “espetáculo da
democracia”: o poder econômico.
As gigantescas doações feitas por mega-empresários,
combinadas com grandes coligações de até 10 partidos, para
ocupar tempo de TV, criam verdadeiras super-candidaturas, que
têm à sua disposição programas hollywoodianos, jatinhos
particulares, marqueteiros internacionais, milhares de cabos
eleitorais e muitas outras armas. Os candidatos operários ou de
esquerda simplesmente desaparecem, esmagados pelo peso de
milhões de reais. Nessas condições, não é de se admirar que os
trabalhadores acabem votando em seus próprios carrascos.
Depois das eleições, os empresários enviam a fatura: uma
licitação facilitada aqui, uma licença ambiental ali, um empréstimo
do BNDES acolá. E assim a máquina gira até as próximas
eleições, quando começa tudo de novo.
Como se vê, toda a democracia burguesa é um grande mentira,
mas muito bem contada.
A superação da democracia
Apesar de sua força, a democracia burguesa está longe de ser
invencível. Como todo mecanismo, ela também se desgasta e
nem sempre a troca de peças resolve o problema. Todo motor
funde quando menos se espera.
A revolução socialista, ao destruir o Estado burguês e suas
instituições, eliminará também a democracia burguesa,
substituindo-a pela democracia operária, muito mais ampla e
verdadeira do que a farsa a que estamos submetidos. O Estado
operário será controlado pela maioria explorada e oprimida e a
democracia operária se revelará como o regime das maiores
liberdades democráticas que o mundo já conheceu.
O socialismo, ao eliminar a exploração do homem pelo homem,
assentará as bases para a dissolução lenta e gradual do próprio
Estado operário, seu poder e suas instituições, ou seja, para a
superação da democracia e a conquista da verdadeira liberdade
humana: o comunismo.
ANOTAÇÕES
O QUE FRENTE POPULAR?
Henrique Canary, de São Paulo (SP)
Frente Popular não é o nome de uma coligação. É um conceito
político. Chamamos de Frente Popular a todos os governos
encabeçados pelos partidos da classe trabalhadora em unidade
com a burguesia. Trata-se de uma situação incomum, já que
normalmente a burguesia governa apoiada em seus próprios
partidos. Em situações normais, as lideranças traidoras da classe
trabalhadora ficam fora do governo, prestando seus serviços ao
capital na qualidade de “oposição responsável”. Apenas em
situações excepcionais a burguesia incorpora essas lideranças no
governo. E somente em situações mais excepcionais ainda essas
lideranças traidoras exercem o papel principal, dominam o
governo. Quando isso acontece, estamos diante de uma Frente
Popular.
O predomínio dos líderes operários no Executivo não muda o
caráter de classe do governo, que continua sendo burguês, uma
vez que sua função será garantir a dominação da burguesia no
conjunto da sociedade. Além disso, a burguesia mantém intactas
suas posições nas principais instituições do Estado: polícia,
Exército, justiça etc. A Frente Popular é, portanto, um governo
burguês bastante diferente, mas ainda assim, burguês.
Um governo fruto de uma crise
As Frentes Populares surgem quando a burguesia se vê
fragilizada e não encontra forças para implementar ela mesma os
ataques necessários ao bom funcionamento do capitalismo. Essa
fragilidade leva à derrota do candidato preferencial do grande
capital e o partido operário vence as eleições, em geral apoiado
por uma ala minoritária da burguesia. A maior parte da burguesia
passa para a oposição ao governo e apenas um setor participa
diretamente nos ministérios e gabinetes.
Para entender esse esquema, basta olhar nossa história recente.
Desde o final dos anos 1990, o projeto neoliberal de FHC se
desmoralizou enormemente perante as massas, que resolveram
dar um voto de confiança no PT e em Lula. Por outro lado,
sentindo a aproximação de uma forte crise, um setor da burguesia
também resolveu dar um voto de confiança em Lula, mas com o
objetivo oposto: manter a exploração capitalista e evitar a
explosão de uma crise revolucionária. Em linguagem popular,
“entregaram os anéis para não perder os dedos”. Devemos
admitir que foi uma sábia decisão e que Lula não os decepcionou.
Além do governo Lula, os governos de Evo Morales na Bolívia,
Fernando Lugo no Paraguai, Rafael Correa no Equador, Daniel
Ortega na Nicarágua, Salvador Allende no Chile da década de
1970, François Mitterrand na França dos anos 1980 e vários
outros se enquadram nesta classificação.
Um governo de máxima confusão
Essa situação incomum, em que um líder operário comanda um
governo burguês, cria uma enorme confusão na cabeça das
pessoas, inclusive da burguesia. O trabalhador consciente, que
antes odiava o governo, passa a ver a Frente Popular como
aliada, como “seu” governo. E mesmo quando ela o ataca, ainda
assim, na cabeça desse trabalhador, será sempre “um mal
menor”, se comparado com o antigo governo burguês. “É um
governo sacana, mas é nosso governo”, costumam dizer os
trabalhadores.
De outro lado, um setor da burguesia trata o governo como
inimigo, ainda que ele faça tudo aquilo que ela própria faria caso
estivesse no comando do país. “É um bom governo, mas é deles”,
pensa o burguês, enquanto veleja em seu iate.
Um “mal menor”?
Todos os governos de Frente Popular têm como objetivo
desmoralizar e desmobilizar os trabalhadores. Utilizam-se de seu
prestígio junto às massas para implementar os “ajustes” e
ataques encomendados pelo imperialismo. Para isso, acabam
com a auto-confiança da classe operária, paralisam sua vontade,
educam-na no espírito de que a luta não leva a nada, corrompem
as lideranças combativas, jogam uma categoria profissional
contra a outra e a classe média contra todos. Por isso dizemos
que os governos de Frente Popular não são “um mal menor”. Ao
contrário, são, no fundo, ainda mais nocivos do que os governos
burgueses normais.
Explicar pacientemente...
Todo esse jogo de espelhos cria uma situação muito difícil para o
partido revolucionário, que em sua atuação deve levar em conta
dois fatores fundamentais: por um lado, o caráter burguês do
governo; por outro, as enormes ilusões das massas. Se só levar
em conta o caráter burguês do governo, cairá no isolamento
político porque não conseguirá dialogar com os trabalhadores. Se
só levar em conta as ilusões das massas, deixará de lutar contra
um governo que é, no fundo, inimigo da classe operária.
Lenin, líder da Revolução Russa de 1917, foi o primeiro a
formular uma política revolucionária perante a Frente Popular:
“explicar pacientemente, todos os dias, o caráter burguês e
contra-revolucionário deste governo”. Esse “explicar
pacientemente” não pode ser entendido como mera propaganda.
Ao contrário, significa participar e impulsionar cada luta geral ou
específica para desmascarar na prática o governo e sua política.
Em resumo, nenhum apoio crítico ou parcial; oposição
intransigente; diferenciação clara com relação aos partidos
traidores que estão no governo! Ao mesmo tempo, combate à
velha direita! O sentido da política é acelerar a experiência das
massas com a Frente Popular até a ruptura definitiva, até que
seja possível sua derrubada revolucionária pela classe
trabalhadora consciente.
Olhar para o futuro com confiança
Lula termina o seu mandato com mais de 80% de aprovação
popular. Certamente, não foram poucos os votos que o PSTU
deixou de ganhar nessas eleições por criticá-lo. Aliás, somos os
únicos a fazê-lo. Infelizmente, até o PSOL preferiu centrar seu
programa eleitoral na crítica ao “modelo” e a “tudo o que está aí”,
sem dizer claramente se esse “tudo o que está aí” inclui o
governo Lula ou não.
De nossa parte, seguiremos o mesmo curso que nos trouxe até
aqui. Nosso objetivo não é disseminar confusões para ganhar nas
urnas de hoje, mas plantar sementes que serão colhidas nas
barricadas de amanhã.
ANOTAÇÕES
O QUE É CLASSISMO?
Henrique Canary, de São Paulo (SP)
E m recente entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Lula
declarou: “Essa mistura de um sindicalista com um grande
empresário e um documento que fosse factível e compreensível
pela esquerda e pela direita, pelos ricos e pelos pobres, é que
garantiu a minha chegada à Presidência”. Essa declaração
demonstra até que ponto o presidente se afastou dos princípios
que deram origem ao PT e à CUT e o lançaram no centro da cena
política no início dos anos 80.
Lula é fruto de uma ideia que ele mesmo renega: a de que
operários e patrões são classes sociais inimigas. Por isso, os
trabalhadores, em suas lutas, devem trilhar um caminho próprio,
ter sua própria política e suas próprias organizações. A essa ideia
de independência dos trabalhadores em relação à burguesia
chamamos classismo.
O classismo foi a inspiração do movimento de massas nos anos
1980. Foi em nome dessa ideia que Lula, na época, rejeitou a
proposta de Fernando Henrique Cardoso de formar, por fora do
MDB, um novo partido democrático que unisse trabalhadores e
patrões. Pressionado pela força do ascenso operário, Lula aderiu
à ideia de construir um partido só de trabalhadores. Nascia o PT,
que combatia a ditadura e ao mesmo tempo não aceitava em seu
interior patrões e empresários.
Os trabalhadores haviam derrotado a ditadura através da ação
direta e se sentiam fortes para se organizar e lutar de maneira
independente, sem concessões ou acordos políticos com a
burguesia e o governo. O 3º Congresso da CUT, realizado em
1988, proclamava: “A CUT entende que não pode haver pacto
entre desiguais, e que nesse tipo de pacto os trabalhadores só
têm a perder. Por isso, a CUT se manifesta firmemente contra
qualquer tentativa de acordo ou pacto que tenha por objetivo
retirar conquistas ou restringir a liberdade que a classe
trabalhadora deve ter para avançar nas suas conquistas”.
O abandono do classismo nos anos 1990
As fortes lutas dos anos 1980 levaram o PT a inúmeras
prefeituras e mais tarde ao governo de alguns estados. Começou
aí um processo de adaptação à ordem burguesa. O classismo foi
sendo abandonado. Os métodos e princípios do antigo
movimento deram lugar a uma única estratégia: a eleição de Lula
à Presidência da República.
É nesse período que surgem, por iniciativa da direção da CUT, as
câmaras setoriais: mesas permanentes de negociação, onde os
gerentes das multinacionais sentam-se com os dirigentes
sindicais para estabelecer, de comum acordo, metas de produção
e venda e negociar o número de demitidos a cada crise. É aí
também que o PT abandona o perfil classista para se tornar cada
vez mais um partido da colaboração entre as classes. O “Vote no
3 que o resto é burguês!” do início dos anos 1980 virou “O PT que
diz SIM” da campanha de 1996 à Prefeitura de São Paulo.
Lula e o PT no poder
O PT venceu as eleições em 2002 aliado ao PP, legenda de
aluguel da alta burguesia industrial. No governo, Lula cumpriu a
fundo a principal promessa feita na Carta ao Povo Brasileiro:
governar com e para a burguesia. Colocou o banqueiro Henrique
Meirelles no Banco Central, o latifundiário Roberto Rodrigues no
Ministério da Agricultura, o empresário Fernando Furlan no
Ministério da Indústria e Comércio e um longo etc. Apesar de
algumas mudanças ao longo desses oito anos, a política
ministerial de Lula permaneceu a mesma: os ministérios são
ocupados por figuras de peso do empresariado nacional.
O resultado: Lula manteve os compromissos com o FMI e
grandes credores internacionais, aplicou uma política de juros que
beneficia o capital financeiro, assentou menos famílias do que
FHC, manteve no Haiti uma ocupação militar cujo verdadeiro
objetivo é impedir uma revolta do povo contra a exploração das
multinacionais ali instaladas, introduziu modificações no sistema
previdenciário que dificultam ainda mais a aposentadoria, acabou
com a independência da CUT, manteve o MST paralisado, minou
a confiança dos trabalhadores em suas próprias forças e comprou
com o Bolsa Família a consciência de uma parte da população
que vivia uma situação de miséria biológica.
Isso tudo aconteceu porque Lula decidiu governar com
empresários e patrões. As ações do governo sempre tiveram
como objetivo fundamental preservar “essa mistura de um
sindicalista com um grande empresário”. O preço dessa mescla é
que os trabalhadores sustentaram por oito anos a farra dos
banqueiros, das empreiteiras, do agronegócio e das
multinacionais.
Como a colaboração de classes se torna uma ideologia
dominante
Mas por que os trabalhadores que votaram em Lula aceitam essa
situação pacificamente? A resposta é simples: porque a
burguesia e seus agentes trabalham incansavelmente para
convencer os operários de que patrões e empregados têm, no
fundo, os mesmos interesses. A colaboração de classes é um
exemplo daquelas mentiras que, repetidas mil vezes, acabam
virando verdade.
Quando a economia cresce, tenta-se convencer os trabalhadores
de que não é hora de pedir aumento porque “o bolo ainda não
cresceu o bastante; é preciso esperar o bolo crescer para
repartir”. É uma imagem forte que convence muita gente. Afinal,
quem, em sã consciência, retiraria um bolo cru do forno? O que a
burguesia e seus agentes escondem é que nunca a vida dos
trabalhadores melhora na mesma proporção do crescimento
econômico. É o contrário: a lucratividade das empresas sempre
aumenta em proporção maior do que o crescimento do país.
Para demonstrar isso, tomemos os dados dos últimos anos de
crescimento (veja o gráfico à esquerda). Comparemos o
crescimento da massa salarial da população com a remessa de
lucros ao exterior por parte de empresas multinacionais e
especuladores estrangeiros. Veremos que os dois itens crescem,
porém em proporção muito distinta, o que demonstra a mentira da
ideia do bolo que “cresce” e então é dividido “por todos”.
Como se vê, quem ganha para valer com o crescimento
econômico não são os trabalhadores que produzem as riquezas
do país, mas sim as multinacionais e especuladores estrangeiros.
Para garantir uma melhoria real do nível de vida dos
trabalhadores, é preciso interromper a pilhagem do país e a
exploração do trabalho do povo.
Não é possível fazer isso com a “mistura de um sindicalista com
um grande empresário” por um motivo muito simples: o grande
empresário não vai abrir mão do seu lucro. A conclusão é lógica:
mais uma vez, os trabalhadores é que terão que abrir mão de
melhorar as suas vidas.
A colaboração de classes durante as crises
Após os períodos de crescimento, vêm as crises. Nesses
momentos, o discurso dos patrões e dos burocratas sindicais
muda, mas a lógica se mantém: a de que somente “com o
sacrifício de todos” é possível evitar uma tragédia ainda maior.
Nesse caso, o “sacrifício de todos” é a demissão de uma parte
dos trabalhadores, a diminuição da jornada com redução de
salário, o corte de direitos e o aumento das remessas de lucros
ao exterior para salvar as matrizes.
Por isso, em 2008, ano em que estourou a crise econômica
mundial, a remessa de lucros do Brasil para o exterior, ao invés
de diminuir, aumentou, atingindo a cifra de 33 bilhões de dólares,
55% a mais do que havia sido enviado em 2007 (21 bilhões de
dólares). Ou seja, foram os trabalhadores brasileiros que
salvaram as matrizes da GM, Volkswagen, Renault, Fiat e tantas
outras que, ainda assim, não deixaram de demitir e reduzir
salários.
Quando a Embraer demitiu 4.200 funcionários, Lula disse que
estava “torcendo pelos trabalhadores”. O governo, que é acionista
da empresa, cobrou apenas explicações e nada mais. Quando as
grandes montadoras ameaçaram demitir em massa, Lula correu
com a ajuda de R$ 4 bilhões e a redução do IPI. Para os
banqueiros foram liberados R$ 160 bilhões do compulsório. Já os
trabalhadores ganharam somente a ampliação do número de
parcelas do seguro-desemprego, o que resultou num gasto de
apenas R$ 126 milhões ao governo federal. Literalmente, menos
de um milésimo do que foi distribuído a um punhado de bancos e
grandes empresas.
Esses tristes episódios demonstram claramente que, na “mistura
de um sindicalista com um grande empresário” quem ganha é
sempre o grande empresário. É para ele que Lula decidiu
governar.
Em defesa do classismo!
A história demonstra que as grandes conquistas da classe
operária foram arrancadas com a luta e a organização
independente: a jornada de oito horas, as leis trabalhistas, a
derrota da ditadura militar, as liberdades políticas e sindicais e
tantas outras.
Em vez da colaboração de classes, defendida hoje pela maioria
esmagadora da esquerda, o PSTU propõe o classismo: a noção
de que trabalhadores e burgueses são classes sociais inimigas.
Portanto, a unidade entre eles só é possível com a condição de
que os trabalhadores abram mão de seus interesses em benefício
dos lucros da burguesia. O classismo, que para muitos é uma
palavra engraçada e fora de moda, para nós é um guia para a
ação, um princípio que simplesmente nunca deveria ter sido
abandonado.
Colaboração de classes:a herança stalinista
Nos anos 1930, o nazifascismo adquiriu peso de massas em
vários países, chegando ao poder na Alemanha e na Itália. Na
Alemanha, existia um poderoso partido social-democrata, de
orientação reformista, mas operário em sua composição.
Também o Partido Comunista Alemão, stalinista, era muito forte.
Juntos, esses dois partidos poderiam ter derrotado o nazismo,
mas o stalinismo se negou a fazer qualquer unidade com a social-
democracia. Afirmava que ela era na verdade “a ala esquerda do
fascismo”. Essa política ultraesquerdista teve consequências
desastrosas conhecidas: Hitler chegou ao poder em 1933 sem
encontrar praticamente resistência do movimento operário,
dividido pela política suicida de Stalin.
Depois que o nazismo chegou ao poder, o stalinismo deu uma
guinada à direita: passou a dizer que para derrotar o nazismo era
preciso uma aliança entre os trabalhadores e a burguesia
democrática, mas não se tratava de uma aliança para lutar.
O que se propunha era a criação de governos de unidade com a
burguesia dita “progressiva”. O objetivo de construir um governo
só de trabalhadores era abandonado. O stalinismo chamou essa
política de “Frente Popular”. Estava criada assim a expressão que
seria sinônimo de derrota e desmoralização para a classe
operária do mundo inteiro.
PSOL: o abandono do classismo
Infelizmente, o abandono do classismo e a adoção de uma
política de colaboração de classes não são exclusividade de Lula
e do PT. Nas eleições de 2008, o PSOL de Porto Alegre recebeu
R$ 100 mil da Gerdau, uma das maiores fabricantes de aço do
país. Apesar da indignação dos militantes, nenhuma medida foi
tomada contra a direção do PSOL gaúcho. Luciana Genro, então
candidata a prefeita, acabou utilizando o dinheiro e obteve 10%
dos votos. A explicação foi surpreendente: “A empresa não pede
nada em troca; se eu não aceitar, eu sou burra”.
Luciana não é burra nem ingênua. Sabe bem que, quando os
patrões financiam campanhas de partidos de esquerda, o fazem
para forçá-los a abandonar suas posições radicais e adotar um
programa mais moderado. O resultado nunca é imediato. De fato,
nunca se pede nada formalmente. Apenas se oferece dinheiro.
Mas, em médio prazo, com seguidos financiamentos, cria-se uma
relação de dependência, e a burguesia acaba dobrando essas
organizações. O PT é a expressão disso em sua forma mais
degenerada. O PSOL, infelizmente, caminha no mesmo sentido.
Tanto é assim que a tragédia da Gerdau acaba de se repetir: a
conferência eleitoral do PSOL gaúcho já aprovou o recebimento
de dinheiro de empresas para a campanha eleitoral deste ano.
ANOTAÇÕES
O QUE É REVOLUÇÃO?
Henrique Canary, de São Paulo (SP)
Imagine o fim do mundo. Em sua cabeça agora pipocam cenas do
filme “Armagedon”, “2012” ou versículos do Apocalipse. Meteoros,
terremotos, guerras e pragas acabam em pouco tempo com tudo
o que o homem e a natureza construíram ao longo dos séculos. A
vida se extingue na Terra e o planeta gira frio e silencioso no
espaço infinito. Imaginou?
Agora imagine o fim do capitalismo. Mais difícil? Nenhuma cena
lhe vem à mente? Nenhuma hipótese? Normal. Para a maioria
das pessoas é mais fácil imaginar o fim de um planeta inteiro, do
que o fim de um sistema social. É como se achássemos que o
futebol pode acabar um dia, mas o nosso time favorito – nunca!
Como se vê, não faz muito sentido.
A verdade é que o colapso dos sistemas sociais é um fato
relativamente comum na história da humanidade e muito mais
provável do que a invasão da Terra por alienígenas ou a
existência do Godzila. Quando a crise aguda de um sistema
social se combina com uma enorme elevação da atividade política
das massas, que passam a intervir diretamente no rumo dos
eventos históricos, estamos diante de uma revolução social.
As revoluções ocorrem porque as classes sociais não se
aposentam. A burguesia não pode ser pacificamente convencida
a ceder o seu lugar de classe dominante aos trabalhadores.
Também não pode ser expulsa lentamente do poder com a
eleição de cada vez mais e mais operários aos cargos públicos.
Ela só deixará a cena histórica à força. Dessa maneira, a
revolução não é “uma das vias possíveis” para o socialismo. É a
única existente.
Toda revolução é impossível...
O senso comum nos ensina que a revolução é impossível porque
as pessoas são acomodadas e passivas. Esse argumento tem
bastante força. O revolucionário convicto tenta responder, mas
olha ao seu redor e não vê nem traço da tal revolução...
De fato, a psicologia humana é bastante conservadora. Ninguém
ama a luta e o enfrentamento. Ninguém gosta de arriscar seu
emprego em greves e paralisações que não têm nenhuma
garantia de vitória. Ninguém quer trocar o presente certo pelo
futuro duvidoso.
E, no entanto, dizemos que justamente essa mentalidade passiva
e acomodada é a razão mais profunda de todas as revoluções
que ocorreram até hoje. Podemos afirmar, sem medo de errar,
que as revoluções acontecem não porque as pessoas sejam
rebeldes, mas ao contrário: porque são conservadoras.
… até que se torna inevitável!
O conservadorismo e a passividade dos trabalhadores fazem com
que a sociedade acumule contradições ao longo do tempo. Os
problemas vão se agravando lentamente e nunca se resolvem. A
população suporta o máximo que pode sem reagir. Os políticos
moderados, que prometem paz e tranquilidade, quase sempre
ganham as eleições. Os burocratas, que odeiam as greves e só
sabem dizer “sim” à patronal, controlam o movimento sindical sem
maiores turbulências. Os líderes traidores são os mais
prestigiados.
Mas qualquer mecânico sabe que quanto mais pressionada uma
mola, mais energia ela contém e quem a pressiona precisa ter
muito cuidado para que ela não voe em seu rosto de repente.
Assim, esmagando-se o proletariado durante anos e anos, chega-
se a um ponto em que tudo vai pelos ares. De um dia para o
outro, as massas despertam para a vida política e saem às ruas
para tentar resolver, o mais rápido possível, todos os problemas
acumulados durante décadas de passividade. Numa situação
dessas, diante de tanto tempo perdido, é inevitável que recorram
a ações radicalizadas e a métodos revolucionários. Essa brusca
mudança no ritmo de atividade política das massas permanece
incompreensível para a burguesia e seus analistas, que atribuem
a radicalização do conflito à ação de “infiltrados” e “demagogos”.
É uma contradição: se as massas fossem sempre rebeldes, as
revoluções simplesmente não aconteceriam porque a sociedade
resolveria os seus problemas na mesma medida em que eles
surgem. A energia não se acumularia. A “válvula de escape”
estaria sempre aberta, liberando pressão social e garantindo a
estabilidade da nação. A história avançaria lenta e pacificamente,
sem saltos ou rupturas. Mas o conservadorismo das pessoas faz
com que elas adiem a resolução de seus problemas até um ponto
em que a vida torna-se insuportável e a revolução, a única saída.
Consciência e correlação de forças
Seria falso, no entanto, dizer que as revoluções acontecem
apenas porque a vida torna-se insuportável. Para que uma
revolução ocorra, é preciso que haja também uma profunda
mudança na psicologia das classes. Mais precisamente: na forma
como cada classe enxerga a si mesma e as outras.
Todo o dirigente operário sabe que antes de entrar em uma greve
os trabalhadores querem saber se há mesmo condições de
vencer. O outro turno vai parar? O que diz a patronal? É verdade
que a polícia invadiu a outra planta? A federação pelega vem
junto? Os trabalhadores querem saber com que forças podem
contar, qual o objetivo preciso da luta e se a direção do sindicato
está segura de si ou, ao contrário, vacilante. Assim raciocinam os
trabalhadores diante das greves. Nas revoluções não é diferente.
Graças à ideologia dominante, as massas tendem a acreditar
muito mais na força de seus opressores do que nas suas
próprias. Para que uma revolução ocorra, é preciso que isso
mude e que os trabalhadores passem a enxergar a possibilidade
de vitória. Por outro lado, a burguesia, sempre decidida e coesa,
precisa estar em crise, dividida, acoada, amedrontada por sua
própria impotência. Junto com isso é preciso que as classes
médias e os pequenos proprietários, que sempre seguiram a
burguesia, olhem com simpatia para o proletariado e suas
organizações, ou ao menos se mantenham neutros no conflito. O
que provoca todas essas mudanças na consciência das classes é
a situação objetiva: a crise econômica, social e política.
Por último, o medo e a divisão da burguesia precisam contaminar
as forças armadas, principal pilar de qualquer Estado. Assim, os
órgãos repressivos também se dividirão e não serão capazes de
deter a marcha do movimento de massas.
Ou seja, é preciso que se inverta a correlação de forças entre as
classes a favor do proletariado. As classes precisam trocar de
papel, como naqueles filmes em que as pessoas trocam de
consciência e passam a pensar uma com a cabeça da outra.
Toda essa complexa combinação de fatores pode ser bastante
rara, mas não é de nenhum modo impossível. De tempos em
tempos ela ocorre. Toda a história o demonstra.
Liderança e organização
O senso comum nos ensina que a revolução é impossível porque
não há um líder. Essa afirmação é parcialmente verdadeira e,
portanto, parcialmente falsa.
Para o bem ou para o mal, a história demonstra que as explosões
revolucionárias acontecem mesmo sem a existência de uma
liderança central. Aliás, esse tem sido o grande problema das
revoluções: as massas saem às ruas, derrotam exércitos,
derrubam regimes e governos, mas não conseguem encontrar
uma saída para a situação. A energia revolucionária se dispersa
como o vapor saindo de uma panela de pressão mal vedada.
A liderança e a organização são necessárias não para a
existência da revolução, mas para que ela seja vitoriosa. Ora, o
que é um líder? É aquele que aponta um caminho, que organiza
as forças e estabelece os objetivos do combate, que reúne as
tropas após a batalha e resume as lições de cada luta. É evidente
que as massas precisam disso para vencer.
Toda revolução cria milhões de pequenos líderes que cumprem
essas tarefas. Eles surgem naturalmente em cada bairro, fábrica
e escola e conduzem as massas em suas ações cotidianas. Mas
as redes horizontais não bastam. A revolução não acontece no
facebook ou no orkut. Ela precisa de uma estrutura vertical, que
organize o proletariado em todo o país e seja capaz de, uma vez
derrubada a ordem vigente, estabelecer o seu próprio governo em
todo o território nacional. Chamamos essas estruturas de
organizações de duplo poder, pois elas rivalizam com o Estado
burguês, disputando com ele o controle da sociedade.
Ao longo da história, essas organizações surgiram em
praticamente todas as revoluções e receberam distintos nomes:
soviets ou conselhos na Rússia de 1917, cordões industriais no
Chile dos anos 1970, comitês de fábrica na Alemanha dos anos
1920 etc. A crise do Estado burguês e a autoridade dessas
organizações perante as massas fazem com que elas se tornem
verdadeiros “Estados paralelos”, emitindo ordens, controlando
parte da economia, criando milícias armadas etc. A burguesia vê
tudo isso, reclama, esperneia, mas nada consegue fazer. A
tomada do poder pelo proletariado deixa de ser um sonho
distante e torna-se assim uma tarefa possível e urgente.
Mas tudo isso não basta. É preciso que à frente dessas
organizações estejam líderes conscientes, que tenham clareza
dos objetivos, que saibam onde querem chegar e por que meios,
que saibam propor às massas as tarefas mais adequadas para
cada momento. Em outras palavras, é preciso que as
organizações de duplo poder sejam dirigidas por um partido
revolucionário, disciplinado e combativo, democrático e operário.
Todo o heroísmo e a melhor organização do mundo não são nada
sem um programa.
Revolução e violência
O senso comum nos ensina que a revolução é ruim porque
derrama sangue. Esse argumento soa estranho, sobretudo se
olharmos para as favelas do Rio de Janeiro, por exemplo, que
não vivem nenhuma revolução, mas onde o sangue dos
trabalhadores é derramado todos os dias pelo caveirão, pela
milícia e pelos traficantes.
Mas a verdade é que a resposta a esse argumento é: depende.
Os revolucionários não são amantes da violência, assim como os
operários não organizam piquetes nas greves porque gostam de
bater em seus colegas. É uma necessidade da luta.
Não podemos prometer uma revolução “bonita”, “de veludo” ou
qualquer outro adjetivo fofo. O proletariado não tem bons modos,
talvez porque a burguesia nunca o tenha ensinado. O que
podemos dizer é que quanto mais massivo for o apoio à
revolução, menos sangue ela derramará. Durante a tomada do
poder pelos bolcheviques na Rússia em 1917 morreram sete
pessoas, a maioria atropelada acidentalmente pelos blindados
que patrulhavam as ruas da capital. A burguesia simplesmente se
escondeu. Já na Guerra Civil, organizada pelo imperialismo para
derrotar a república soviética, morreram milhões. Quem exerceu a
violência foi a contra-revolução, não o proletariado.
Vitória e derrota
A tomada do poder pelo proletariado não encerra a revolução. Ao
contrário. As massas tomam o poder porque chegam à conclusão
de que sem ele não conseguirão resolver seus problemas mais
elementares: comida, paz, terra, liberdade etc. Dessa forma, a
instauração do poder operário abre uma nova etapa no processo
revolucionário: a etapa das medidas revolucionárias, da ditadura
do proletariado. Nessa etapa, as massas se enfrentarão com todo
o tipo de inimigo e adotarão todas as medidas necessárias à
vitória: a expropriação da burguesia, a planificação econômica, a
resistência armada etc.
Assim, para triunfar definitivamente, a revolução precisa se
aprofundar dentro do país e se expandir para fora dele, rompendo
o cerco imperialista. A sobrevivência da revolução depende de
sua capacidade de contaminar outros territórios, em primeiro
lugar os países imperialistas mais importantes. Somente assim é
possível atar as mãos e os pés do imperialismo e evitar o contra-
ataque. Como no futebol, “quem não faz, leva”. A revolução não
admite retranca. Qualquer tentativa de “convivência pacífica” com
o imperialismo significará a morte lenta da nação proletária. A
revolução será internacional ou será derrotada.
Revolução e futuro
A burguesia prefere ver o fim do mundo do que o fim do
capitalismo. Talvez porque entenda corretamente que o fim do
capitalismo será para ela o fim do seu mundo. Mas só para ela.
Para o proletariado, ao contrário, o triunfo da revolução será
apenas um novo começo, significará o término da pré-história do
homem e o início da verdadeira história da humanidade.
ANOTAÇÕES
O QUE É SOCIALISMO
Está no Youtube para quem quiser assistir. Ana Maria Braga,
apresentadora da Rede Globo, pergunta a Petkovic, atacante do
Flamengo, sobre a Iugoslávia: “Como foi nascer num país com
tantas dificuldades?”. Petkovic: “Quando eu nasci não tinha
dificuldade nenhuma. Era um país-maravilha, vivíamos num
regime socialista, todo mundo bem, todo mundo trabalhando,
tinham salário. Os problemas aconteceram depois dos anos
1980”.
A câmera corta de repente o entrevistado e volta para Ana Maria
Braga, completamente perdida diante da inesperada declaração
de apoio ao socialismo, feita ao vivo para todo o Brasil por um
ídolo do esporte.
Sejamos claros: apesar das inúmeras conquistas sociais, fruto da
expropriação da burguesia em 1945, a antiga Iugoslávia não era
um país-maravilha. Os conflitos sangrentos dos anos 1990 não
surgiram do nada. Foram preparados pela burocracia dirigente
com décadas de divisão e isolamento de um dos países mais
pobres da Europa.
Mas a declaração de Petkovic nos ensina algo importante: o ideal
socialista, apesar de todas as mentiras e injúrias sofridas, vive e
pulsa no coração de milhões. Vez por outra ele se anuncia, em
palavras ou em atos, de indivíduos ou de multidões, consciente
ou inconscientemente.
O socialismo é um tipo de sociedade
A ideia de construir uma sociedade sem classes sociais ou
exploração existe há centenas de anos. Mas foi somente na
metade do século 19 que o projeto socialista recebeu um
embasamento científico na obra dos filósofos alemães Karl Marx
e Friedrich Engels. Antes deles, o socialismo não passava de um
sonho bem intencionado, de uma ideia romântica e confusa.
Estudando o funcionamento da sociedade capitalista, Marx e
Engels perceberam que a origem da desigualdade estava na
propriedade privada dos meios de produção: fábricas, terras,
instrumentos e matérias-primas. Era o que permitia a uma ínfima
minoria explorar a imensa maioria. Concluíram daí que a
construção do socialismo passaria pela abolição da propriedade
privada e a socialização de toda a riqueza existente, o que por
sua vez exigiria uma revolução violenta, já que a burguesia não
cederia sua posição de classe dominante sem resistência. Por
último, consideravam que apenas o proletariado, por sua
condição de classe explorada, numericamente predominante e
destituída de qualquer propriedade, seria capaz de realizar essa
revolução.
Socialismo: um sistema racional e ordenado
No capitalismo cada burguês produz o que quer e quanto quer. A
economia capitalista não se submete a qualquer controle social.
O único elemento regulador é o mercado. Se as mercadorias
forem vendidas, ótimo. Se não, elas serão destruídas ou
apodrecerão, a empresa entrará em crise, fechará suas portas e
demitirá seus funcionários. Ao mesmo tempo em que
desperdiçam uma enorme quantidade de trabalho e riquezas em
produções inúteis, os capitalistas deixam de produzir itens
fundamentais para a sociedade, simplesmente porque dão pouco
ou nenhum lucro. Assim, na sociedade capitalista sobram carros,
mas faltam trens; sobram prédios de luxo, mas faltam casas
populares; sobra tecnologia militar, mas faltam aparelhos médicos
dos mais simples. O capitalismo é o império do caos e da
desordem a serviço do lucro.
No socialismo isso não acontece. O proletariado, que se torna a
classe dominante graças à expropriação da burguesia, controla
racionalmente a produção e o consumo de acordo com as
necessidades da população e a capacidade da economia. É o
que chamamos planificação econômica.
Utilização racional dos recursos naturais disponíveis, produção
em base a um plano discutido em toda a sociedade, obrigação de
todos os cidadãos de contribuírem com sua parte no trabalho
global, remuneração proporcional ao trabalho realizado, vigilância
permanente por parte dos trabalhadores sobre a elaboração e o
cumprimento deste plano: tais são as ideias simples e
fundamentais do socialismo na esfera econômica. Que contraste
com a caricatura maliciosa pintada pela burguesia de que o
socialismo seria uma sociedade caótica, sem regras nem
governo, sem leis nem obrigações, onde cada um faz o que quer!
O socialismo só pode ser mundial
A força do capitalismo está no caráter mundial da economia. Ao
produzir mundialmente, a burguesia se utiliza das melhores e
mais abundantes fontes de matéria-prima em cada país. Isso
torna a produção barata e eficaz.
O socialismo, que pretende ser uma sociedade superior ao
capitalismo, deve utilizar todas as conquistas da velha sociedade
de classes, em primeiro lugar, o caráter mundial da produção.
O capitalismo é, portanto, o ponto de partida, o nível mínimo do
qual o socialismo deve começar para libertar a humanidade da
opressão e da exploração.
Não se pode falar em uma sociedade socialista que não seja mais
rica, mais livre e mais desenvolvida do que a capitalista. Não se
pode falar em socialismo que não seja mundial.
O fim do imperialismo
Não é possível a vitória do socialismo enquanto a burguesia
existir mundialmente, enquanto o imperialismo, armado até os
dentes, controlar a maioria dos países. Tal situação levaria ao
isolamento da nação proletária e à restauração do capitalismo,
como aconteceu na União Soviética.
O triunfo do socialismo sobre o capitalismo em todo o mundo não
tem nada a ver com uma competição econômica entre os dois
sistemas. A derrota do capitalismo é um processo político,
revolucionário. Significa a derrubada violenta da burguesia e a
instauração de regimes proletários nos países imperialistas mais
importantes. Só assim o imperialismo pode ter um fim.
A ditadura do proletariado
O socialismo exige também uma forma política, um tipo de
Estado.
No capitalismo, o Estado tem um caráter de classe. É um aparato
jurídico-militar que busca defender a propriedade privada e o
domínio do capital. É, portanto, uma ditadura da burguesia sobre
o proletariado.
No socialismo, o Estado também tem um caráter de classe, mas
seu conteúdo é oposto ao do Estado burguês: torna-se, pela
primeira vez na história, um Estado da ampla maioria explorada
contra a ínfima minoria exploradora ou privilegiada. É o que
chamamos de ditadura do proletariado.
A ditadura do proletariado tem como função preservar a
propriedade social dos meios de produção, evitar a volta do
capitalismo e combater a ganância de indivíduos aproveitadores e
grupos privilegiados que ainda existam depois da expropriação da
burguesia. E o mais importante: é o instrumento de defesa da
nação proletária contra o que sobrar do imperialismo e da
burguesia mundial.
Democracia para os trabalhadores
O socialismo exige uma participação ativa e permanente das
grandes massas na vida econômica, política e cultural do país.
Por isso, a ditadura do proletariado é um regime muito mais
democrático do que a democracia burguesa. A democracia
burguesa se baseia no voto a cada quatro anos, na
independência dos eleitos em relação aos eleitores, na separação
dos poderes e na repressão massiva ou seletiva em caso de
necessidade.
A ditadura do proletariado se baseia na lógica inversa: na
substituição do congresso burguês por uma rede de conselhos
operários, cujos membros são escolhidos nos locais de trabalho e
moradia, com mandatos revogáveis a qualquer momento. Esses
conselhos unificam os três poderes que hoje estão separados:
são órgãos ao mesmo tempo executivos, legislativos e de justiça,
controlados pela população, e onde a remuneração não
ultrapassa o salário de um operário qualificado.
Esses conselhos operários, organizados sob o princípio do
pluripartidarismo e abertos a todos os trabalhadores, são a base
fundamental do Estado socialista, da ditadura do proletariado.
O socialismo é uma ponte para o comunismo
Como se vê, o socialismo é uma sociedade onde, apesar do fim
da exploração, ainda persistem elementos de desigualdade,
herdados do passado capitalista. Mais do que isso, o socialismo
não é uma sociedade completamente livre, uma vez que os
homens ainda estão presos à rotina do trabalho e o Estado segue
sendo uma fonte de autoridade e poder. Em uma palavra, o
socialismo não é o objetivo final, mas apenas uma fase do
desenvolvimento histórico da humanidade rumo à sua libertação.
A verdadeira libertação da humanidade só poderá ocorrer quando
a alta produtividade do trabalho tenha eliminado por completo a
desigualdade social e oferecido a todos as condições para o
pleno desenvolvimento de suas aptidões físicas e intelectuais;
quando o trabalho tiver se tornado uma atividade livre e ocupe,
pelo seu alto rendimento, umas poucas horas do dia de cada um.
Quando isso ocorrer, o socialismo terá sido superado por uma
nova sociedade, ainda mais rica e livre: o comunismo.
Todo operário da construção civil sabe que não se pode construir
um prédio sem andaimes. Mas sabe também que, ao final da
obra, os andaimes devem ser retirados, sob pena de danificarem
a construção. A ditadura do proletariado é o andaime que
utilizamos para construir a sociedade comunista.
Terminada a obra de edificação comunista, tendo os homens se
reeducado completamente segundo novos princípios de
igualdade, solidariedade e fraternidade, os andaimes da ditadura
proletária deverão ser retirados: as leis escritas deverão ser
abolidas, restando como forma de controle social apenas a
opinião pública; todo e qualquer aparato repressivo deverá ser
dissolvido, dando lugar à autovigilância coletiva; os partidos
políticos perderão sua função e deixarão de existir.
O Estado socialista murchará como uma carcaça inútil. Do
aparato estatal restarão apenas as funções técnicas, contábeis,
científicas e culturais, mas exercidas agora diretamente pela
população livre, da mesma maneira que uma família civilizada
divide tarefas entre si e conduz a vida doméstica sem maiores
conflitos.
Petkovic não imagina o quanto a Iugoslávia estava longe do
socialismo. Mas não repreendemos o atacante por seu otimismo.
Frente à barbárie capitalista, qualquer país que tenha resolvido
minimamente seus problemas sociais aparece aos olhos de seus
cidadãos como um “país-maravilha”.
Da mesma maneira, a humanidade não imagina a grandeza e o
potencial que ela guarda em seu próprio seio, que o capitalismo
esmaga, e que só o socialismo é capaz de revelar
A QUEM SERVE O “APARTIDARISMO”?
O movimento estudantil, Operário e popular vive uma situação
peculiar. Em qualquer assembléia, reunião ou plenária pipocam
intervenções “contra os partidos”. Alguns se declaram
“apartidários”, outros “apolíticos”. Pertencer a um partido político
está, no mínimo, fora de moda. “Querem aparelhar!”, gritam
alguns. “Só fala se tirar o boton!”, ameaçam outros. “Abaixa essa
bandeira!” ordenam terceiros.
Nas páginas desta apostila, totalmente partidário e político,
gostaríamos de dialogar sobre este importante tema.
Independente sim, mas do quê?
O marxismo defende a completa independência de sindicatos e
organizações estudantis, em primeiro lugar, com relação às
instituições alheias aos movimentos sociais. Ou seja, mais do que
tudo, defendemos a independência das entidades com relação ao
Estado.
A adaptação da CUT e da UNE ao Estado burguês acelerou
enormemente sua degeneração. Ambas são hoje braços do
Estado no movimento de massas. Nesse sentido, nada mais
emblemático do que a nomeação de Luis Marinho, presidente da
CUT, para o Ministério do Trabalho. Por sua vez, a UNE recebeu
de distintos órgão estatais, somente este ano, mais de um milhão
de reais para “projetos”. Está claro: não são mais organizações
independentes.
Em segundo lugar, defendemos a independência dos movimentos
sociais com relação à patronal, às reitorias e às direções de
escolas. Não aceitamos patrões nos sindicatos em que atuamos.
Nos DCEs, não recebemos ajuda de nenhuma reitoria se isso
significar a restrição ao nosso direito de crítica. Com essa atitude,
visamos, mais uma vez, manter a independência da entidade.
Em terceiro lugar, defendemos sim a independência organizativa
das entidades com relação aos partidos políticos e combatemos o
seu aparelhamento por quem quer que seja. Autonomia significa
que são as instâncias das entidades que devem tomar as
decisões. Nessas instâncias, todos devem ter o direito de
defender suas posições: revolucionários e reformistas,
organizados ou não em partido.
Por outro lado, os marxistas reconhecem que a sociedade é
divida em classes sociais que lutam entre si por meio de partidos
e de outras organizações. Pretender que as entidades sejam
“independentes” dessa luta significa, na prática, entregá-las nas
mãos da direita e da burguesia, cujo dinheiro, televisão e
intelectuais influenciam o conjunto da sociedade. Por isso, a
completa “independência” do movimento com relação aos
partidos políticos é uma utopia que só serve aos poderosos.
O movimento estudantil deve ser amplo e democrático, mas não
pode ser “neutro” em uma sociedade marcada pela luta de
classes. Deve escolher um lado. Quanto mais o movimento
estudantil se aproxima dos partidos e organizações da classe
trabalhadora, maior é a sua verdadeira independência: a
independência com relação ao Estado, à burguesia e seus
agentes.
O “apartidarismo” sempre serviu à direita
Em 1923, Trotsky escrevia: “Os comunistas não temem a palavra
‘partido’ porque seu partido não tem, nem terá, nada em comum
com os outros partidos. Seu partido não é um dos partidos
políticos do sistema burguês (...). Por isso, os comunistas não
têm nenhuma razão – nem ideológica, nem organizativa – para se
esconder atrás dos sindicatos”. E mais adiante: “Mas, ao mesmo
tempo, o Partido Comunista reserva-se o direito de expressar
suas opiniões sobre todos os problemas do movimento operário,
inclusive sobre os sindicatos, de criticar as táticas dos sindicatos
e de fazer-lhes propostas definidas que estes, por seu lado, são
livres para aceitar ou rejeitar. O partido trata de ganhar a
confiança da classe operária e, sobretudo, do setor organizado
em sindicatos”.
Como se vê, a polêmica sobre a participação dos revolucionários
nos movimentos sociais não é nova. Mas a luta “contra os
partidos” nunca foi uma bandeira do próprio movimento, e sim da
direita.
No Brasil, foi a ditadura militar quem mais utilizou o discurso
“apartidário” para combater o movimento estudantil. Os militares
acusavam os ativistas de “partidarizar os CAs” e exigiam medidas
concretas dos reitores contra a atuação dos partidos nas
universidades. Na tentativa de desarticular o movimento, a
ditadura perseguia os estudantes filiados a partidos. Somente
esse fato bastaria para se entender o enorme desserviço
prestado ao movimento pelos defensores do “apartidarismo”, cujo
discurso é igual àqueles pronunciados por generais e reitores
durante os piores anos de nossa História.
Mas tudo muda. Os anos 80 foram anos de grandes liberdades
democráticas. O país saía da ditadura, fora declarada anistia.
Nesse período, a forma de organização do ativismo passou a ser
não só os CAs e DCEs, mas também os partidos políticos de
esquerda. Depois de um período de “militância independente”, a
maioria dos ativistas ingressava em um partido político para
defender de forma organizada suas posições. Naqueles anos,
nada parecia mais óbvio. As organizações de esquerda
disputavam os espaços nas universidades e escolas: vendiam
seus jornais, organizavam debates, buscavam atrair novos
membros. O movimento estudantil vivia uma enorme
efervescência e a organização política era o caminho natural de
todo lutador.
O muro de Berlim e o “apartidarismo”
Em 1989, cai o muro de Berlim. O imperialismo utilizou-se desse
fato para desencadear uma enorme ofensiva ideológica em todo o
mundo. Começou a se falar em “morte do socialismo”, “fim da luta
de classes”, “fim da História”. Para uma parte importante da
esquerda, era como se o muro de Berlim tivesse caído sobre suas
cabeças. Desiludidas com o “socialismo real”, essas organizações
absorveram os argumentos do imperialismo e aos poucos foram
abandonando a luta social para adotar, cada vez mais, uma
estratégia puramente eleitoral. Todos repetiam em coro: “o
stalinismo é a continuação do leninismo”, “é preciso repensar a
esquerda” etc.
Com isso, essa esquerda, antes revolucionária e marxista, se
tornou de fato muito parecida com os partidos burgueses, já
desgastados perante as massas pela corrupção e roubalheira em
que sempre estiveram envolvidos.
As organizações de esquerda foram vítimas de um vendaval
oportunista que correu o mundo a partir do início dos anos 90 e
adaptaram-se ao recuo na consciência das massas, negando
suas próprias bases e passando a defender bandeiras que
levaram à sua crise. Assim, perdeu-se a tradição da atuação em
partidos de esquerda no movimento estudantil.
O P-SOL: “apartidarismo” e eleitoralismo
Com a virada do milênio, inicia-se um processo de retomada das
lutas no mundo inteiro: Equador, Palestina, Argentina, Bolívia,
Venezuela, Iraque. As massas saem às ruas novamente e
protagonizam processos revolucionários nesses e em outros
países.
Infelizmente, a esquerda mundial não conseguiu relocalizar-se no
novo momento e mesmo as novas organizações que surgem, já
carregam os velhos vícios dos anos 90. Um exemplo disso é o P-
SOL.
O P-SOL é um dos maiores defensores do “apartidarismo” no
movimento estudantil. Juram de pés juntos que sua atuação nas
entidades nada tem a ver com sua filiação partidária. Olhando
superficialmente, até parece assim, mas não é. O P-SOL é um
partido de tendências, em que cada corrente interna pode
defender a sua política no movimento sem consultar os
organismos do partido. Assim, os militantes do P-SOL diversas
vezes atuam de forma distinta uns dos outros, passando uma
falsa idéia de “atuação independente” no movimento. Nada mais
falso.
O que unifica o P-SOL no movimento estudantil é sua estratégia
de salvar a UNE e manter seu cargo na diretoria executiva da
entidade, cargo esse, diga-se de passagem, conseguido pela
concessão feita pelo PCdoB no último CONUNE. Por isso, o P-
SOL é um dos maiores inimigos da ruptura com a UNE. Também
por isso o P-SOL é forçado a combater o PSTU, que defende a
ruptura com a UNE e a construção de uma nova alternativa de
direção para o movimento estudantil: a CONLUTE. Assim,
quando o P-SOL denuncia o “aparelhismo” e o “rupturismo” do
PSTU, se aproxima do PCdoB, de cujas mãos recebeu o cargo na
executiva da UNE, e se coloca a serviço de sua política, política
essa, naturalmente, “apartidária”.
Mais do que isso: ao defender a “independência” do movimento
com relação aos partidos, o P-SOL deixa sem resposta a seguinte
pergunta: Se a tarefa de um partido de esquerda não é atuar de
forma organizada nos movimentos sociais, então qual é? Acaso
seria pedir votos nas eleições? Aí poderíamos ter uma atuação
franca e aberta como partido político? Aí poderíamos declarar
abertamente que somos “partidários”? Como se vê, por detrás do
discurso “amplo e democrático” que tem o P-SOL, esconde-se
uma concepção eleitoralista e reformista. Para o P-SOL, partido é
para disputar eleições. Nada mais.
O anarquismo: autoritarismo e paralisia no movimento
estudantil
O discurso “apartidário” tem ajudado os setores ligados ao
anarquismo a se fortalecer em algumas entidades. Infelizmente
esse novo anarquismo não tem relação com a honrada tradição
anarquista do início do século XX. O novo anarquismo é
burocrático e autoritário no trato com as entidades. Não raros são
os casos de aliança desses setores com a direita “apartidária” ou
mesmo com as reitorias para combater “os partidos”. Nas
passeatas e atos, em vez do enfrentamento com a polícia, alguns
setores anarquistas preferem o enfrentamento com os ativistas
que carregam bandeiras de partidos. A “autogestão”, ou seja, a
ausência de uma diretoria eleita, implementada em algumas
entidades é um desastre: tem levado, na prática, à ditadura
anarquista, à paralisia das entidades e à desmoralização
completa. Cada ano de autogestão é um ano de caos e
inoperância no movimento e prepara a retomada das entidades
pela direita reacionária.
A verdadeira relação partido–movimento
A relação aparelhista que o PCdoB estabeleceu com a UNE e
com a UBES traumatizou toda uma geração que hoje nega
qualquer organização partidária. No entanto, essa deformação
criada pelo stalinismo não deve nos desviar de uma concepção
marxista de atuação nas entidades.
Se a atuação “independente” no movimento é uma bandeira tão
ampla e democrática, por que quase não vemos entidades que
não sejam, em maior ou menos grau, influenciadas por partidos?
Por que os chamados “independentes” sempre acabam se
alinhando com uma ou outra organização política para defender
suas posições? Por que os CAs e grêmios, em cujo seio não há
nenhuma disputa política, são, em geral, os mais despolitizados e
mais atrelados às direções das escolas e faculdades?
Isso se dá porque a luta no movimento leva naturalmente ao
enfileiramento por posições políticas. É por isso que existem
“grupos de independentes”, “correntes de independentes”
(chegaremos a ver “partidos de independentes”?). A organização
política é natural, progressiva e inevitável.
A esse respeito, Trotsky escrevia em 1929: “O Partido Comunista
(...) diz claramente à classe operária: eis meu programa, minhas
táticas e minha política. É o que proponho aos sindicatos. O
proletariado não deve acreditar às cegas em nada. Deve julgar
cada partido e cada organização por seu trabalho. Os operários
devem desconfiar duplamente dos aspirantes a dirigentes que
atuam disfarçadamente, pretendendo lhes fazer acreditar que não
necessitam de nenhuma direção”.
Assim, os militantes do PSTU continuarão erguendo suas
bandeiras, defendendo de forma clara sua política e disputando a
direção das entidades com o programa que julgamos correto.
Nesse marco, sempre que possível, marcharemos juntos com
organizações, partidos e ativistas independentes de esquerda.
A atuação no movimento para nós não é uma mera tática, como
querem fazer parecer nossos adversários. É parte fundamental de
nossa estratégia: a mobilização permanente das massas e a
construção de uma ferramenta revolucionária. Mas nosso objetivo
final não se resume à atuação no movimento estudantil e sindical,
por maior que seja sua importância. Somos socialistas e
revolucionários. Nosso fim é a libertação completa da
humanidade do jugo do capitalismo, a construção do comunismo
no mundo inteiro. Esse é nosso “interesse político-partidário” e
somos orgulhosos dele.
ANOTAÇÕES
COMO FUNCIONA O PSTU?
O militante do PSTU é muitas vezes admirado por suas intervenções
nas lutas dos trabalhadores e estudantes. Nós lutamos para sermos
os melhores ativistas das mobilizações, porque este é o nosso
terreno predileto: as ações diretas das massas.
Para possibilitar este tipo de intervenção, os militantes se reúnem
semanalmente nos núcleos do partido. Estes núcleos são o
organismos de base do PSTU. Cada um deles está organizado ao
redor de uma frente de intervenção: um núcleo de companheiros de
uma fábrica, ou de uma região operária, outro de estudantes de uma
escola ou universidade, outro ainda de professores de uma região.
Nestas reuniões, os militantes discutem a situação política nacional
ou outro tema definido no núcleo, e a política concreta para cada
setor dos trabalhadores ou estudantes.
A sociedade capitalista aliena as pessoas, que não desenvolvem o
potencial que tem. Muitos companheiros que não se arriscavam a
falar em público, com a militância no partido e no movimento de
massas, se tranformam em bons oradores. Outros vão se
especializar em organizar as atividades ou na propaganda fazendo
palestras e cursos. Com a militância, os companheiros podem
desenvolver qualidades que não poderiam fazê-lo em outras
circunstâncias, se transformando em bons agitadores,
propagandistas ou organizadores.
O nosso partido funciona em base ao princípio do centralismo
democrático. A centralização da ação do partido é necessária
porque nós nos enfrentamos com a burguesia que se centraliza
através do estado. Não existe nenhuma maneira de lutar pelo poder
sem uma estrutura centralizada, que enfrente o estado burguês. Não
existiu nenhuma revolução vitoriosa sem uma organização
centralizada a sua frente.
O centralismo democrático significa que, no partido deve haver
ampla liberdade de discussão interna, e depois, que a ação de todos
seja centralizada. Isso implica a possibilidade e necessidade de que
o partido viva um amplo debate entre posições diferentes. As
grandes definições políticas do partido são decididas em nossos
congressos, que se realizam a cada 2-3 anos. Os documentos são
discutidos por todos os militantes, que elegem delegados para o
Congresso, que finalmente votarão os documentos. A partir daí
todos os militantes implementam as posições definidas pelo
congresso.Nos períodos
prévios aos congressos,
existe a possibilidade que
estas diferenças se
expressem inclusive na
organização de tendências
e frações. Mas uma vez
decidida a política em
Congresso, as tendencias
e frações se dissolvem,
sendo obrigação de todos
aplicarem a mesma
política, definida pela
maioria.
Entre os congressos, o
partido tem uma estrutura
centralizada por seus
organismos de direção,
sendo o Comitê Central a máxima direção da organização, eleito no
Congresso Nacional. As regionais discutem e decidem como
implementar e adequar a política nas cidades e elegem suas
direções regionais. As células discutem e decidem como intervir nas
suas frentes e elegem suas próprias direções.
O partido tem o objetivo de chegar um dia a luta pelo poder , e para
isso é necessário crescer, ganhando outros militantes. Por este
motivo é necessário que nossas idéias sejam conhecidas por outros
ativistas. O nosso jornal é o principal instrumento de divulgação de
nossas idéias. Por este motivo todos os militantes do PSTU devem
trabalhar com o nosso jornal divulgando-o para outros
companheiros.
O partido é sustentado pelos próprios militantes. Não recebemos e
não queremos receber dinheiro da burguesia ou de corrupção. É o
próprio movimento operário e estudantil que deve sustentar o
partido. Isto se faz principalmente através das cotas mensais de
cada militante. Todos os militantes cotizam regularmente para o
partido , dentro das possibilidades reais de cada um. Anualmente
fazemos também campanhas financeiras em que pedimos a
colaboração dos ativistas de fora do partido.
O militante do PSTU tem deveres e também direitos completamente
diferentes dos filiados ao PSTU. Embora em nosso partido, os
filiados sejam muito importantes, são os militantes que decidem as
políticas do PSTU.
A relação do filiado com o partido é extremamente flexível. Um
filiado recebe o nosso jornal pelo correio, é convidado para as
grandes atividades de propaganda (palestras, cursos), assim como é
também convidado a se integrar na medida de suas possibilidades
em nossas campanhas políticas , como agora com a campanha
eleitoral. Caso queira pode participar ou não destas reuniões e
atividades, mas não tem nenhuma obrigação de fazê-lo, assim como
“Mas quem é
o partido?
Ele fica sentado
em uma casa com
telefones?
Seus pensamentos
São secretos,
Suas decisões
Desconhecidas?
Quem é ele?
Nós somos ele.
Você, eu, vocês –
Nós todos.
Ele veste sua roupa,
Camarada, e pensa
“Mas quem é
o partido?
Ele fica sentado
em uma casa com
telefones?
Seus pensamentos
São secretos,
Suas decisões
Desconhecidas?
Quem é ele?
Nós somos ele.
Você, eu, vocês –
Nós todos.
Ele veste sua roupa,
Quem é o partido?
Bertolt Brecht
não está submetido ao centralismo democrático. Caso queira, pode
avançar na relação com o patido se tornando um militante. Ou pode
permanecer como um filiado, com o grau de integração que achar
melhor.
O militante é aquele que participa das reuniões, intervém no
movimento de massas com a política do partido, cotiza regularmente
e vende os nossos jornais. Funcionam em base ao centralismo
democrático Os militantes têm uma dedicação ao partido muito
superior a dos filiados, que recebem os jornais e cotizam, mas não
participam regularmente das reuniões
É necessário construir um partido revolucionário?
Muitas vezes vemos toda uma geração de ativistas consumida em
tarefas sindicais ou mesmo políticas do quotidiano, sem qualquer
perspectiva estratégica.
No entanto, sabemos que todas as lutas, e mesmo todas as vitórias
são parciais, transitórias, caso se mantenha o capitalismo. Mais dia,
menos dia uma conquista pode se perder. Mesmo um sindicato, em
uma conjuntura desfavorável pode ser ganho pela direita. Ou
chegamos a derrubada do capitalismo, ou tudo o que fizemos em
anos e anos de militancia pode ser perdido. Como costumava dizer
Lenin, "Fora o poder , tudo é ilusão". Se temos claro a necessidade
estratégica de derrubar o capitalismo, teremos claro a necessidade
do partido revolucionário. A revolução socialista no Brasil necessita
de um partido revolucionário como uma das condições
indispensáveis para chegar a vitória. Para ser ainda mais precisos,
caso não tenhamos a formação de uma direção revolucionária como
alternativa a Articulação, uma possível revolução no Brasil será
derrotada. O reformismo da direção do PT é a válvula de segurança
que a burguesia brasileira pode contar em caso de uma crise
revolucionária no país.
Esta é uma verdade simples, uma conclusão-síntese dos processos
de ascensos revolucionários de todo o mundo neste século. Não
houve nenhuma revolução vitoriosa sem uma estrutura centralizada
que a dirigisse.
A conclusão então é clara: precisamos lutar no dia a dia, no
movimento operário, estudantil ou popular. Mas devemos
agregar outro elemento estratégico a esta luta: a construção
de um partido revolucionário, sem o qual a revolução será
impossível.
Onde moro é a casa
Dele, e quando você é
Atacado ele luta.”
Camarada, e pensa
Com sua cabeça.
Onde moro é a casa
Dele, e quando você é
Atacado ele luta.”

Apostila de formação série o que é

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    SUMÁRIO O QUE ÉIDEOLOGIA? .......................................................................................................................................................................................3 O QUE É MACHISMO? .......................................................................................................................................................................................7 O QUE É RELIGIÃO? ........................................................................................................................................................................................11 O QUE É BUROCRACIA? .................................................................................................................................................................................15 O QUE SÃO AS FORÇAS ARMADAS?.............................................................................................................................................................20 O QUE É O IMPERIALISMO? ...........................................................................................................................................................................23 O QUE É EXPLORAÇÃO? ................................................................................................................................................................................26 O QUE É BURGUESIA? ....................................................................................................................................................................................29 O QUE É DEMOCRACIA? ................................................................................................................................................................................34 O QUE FRENTE POPULAR? ............................................................................................................................................................................38 O QUE É CLASSISMO? ....................................................................................................................................................................................40 O QUE É REVOLUÇÃO? ..................................................................................................................................................................................45
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    O QUE ÉIDEOLOGIA? Henrique Canary, de São Paulo (SP) Conta uma bela lenda judaica que num passado distante toda a humanidade vivia junta e falava a mesma língua. Tendo dominado as técnicas de construção e descoberto seu próprio poder criativo, os homens decidiram construir uma torre tão alta, que seu topo chegaria até o céu e eles veriam o criador. Irritado com a arrogância humana, deus resolveu confundir a língua dos homens, para que a gigantesca construção não prosperasse. Ao não se entenderem mais, os trabalhadores da obra não puderam coordenar seus esforços e a torre acabou desmoronando, fruto do caos instaurado. A lenda sobre a Torre de Babel tem muito a nos ensinar, mas as lições não são sobre a vaidade humana, o poder de deus ou a origem dos idiomas modernos e sim sobre algo muito mais concreto: o funcionamento de nossa sociedade. Assim como na Torre de Babel, a humanidade, mesmo sem saber, realiza uma grande obra coletiva e coordena esforços para isso: os carros produzidos no Brasil são vendidos na Argentina, levados até lá em navios fabricados no Japão, mas que pertencem a armadores gregos, que empregam marinheiros filipinos. Não há no mundo um único bem material que não seja fruto dos trabalhos conjugados de milhares de homens e mulheres. Também como na lenda, a maioria dos participantes dessa imensa obra chamada sociedade “fala a mesma língua”, ou seja, compartilha certas ideias e valores, tem uma mesma “visão de mundo”. Por compartilharem as mesmas ideias, as pessoas acabam tendo também um comportamento parecido. A esses ideias ou conjunto de ideias que moldam o comportamento humano, chamamos ideologias. Para que servem as ideologias O papel das ideologias é garantir o funcionando da sociedade. Ora, o que aconteceria, por exemplo, se os trabalhadores ignorassem as leis sobre a propriedade privada e resolvessem tomar para si as fábricas, bancos e latifúndios? Ou se as mulheres se revoltassem contra o machismo e passassem a reagir violentamente em qualquer situação de opressão? Ou se os homossexuais se organizassem para espancar neonazistas na Av. Paulista? É claro que se isso acontecesse, a ordem burguesa entraria em colapso e a sociedade, tal como a conhecemos, desmoronaria sobre si mesma como uma enorme Torre de Babel. Para que isso não aconteça, para que a dominação capitalista siga seu curso tranquilamente, é necessário que as pessoas aceitem passivamente as condições de exploração e opressão a que são submetidas. Como conseguir isso sem recorrer todo o tempo à violência? Através das ideologias. Cria-se, assim, a ideologia de que a propriedade privada é sagrada e de que os grandes empresários, banqueiros e usineiros são heróis nacionais; de que as mulheres são propriedade de seus maridos e devem a eles respeito e obediência; de que a homossexualidade é uma doença e por isso, se os homossexuais apanham na rua, é porque algo de errado fizeram. Assim, aos poucos, com inúmeras pequenas ideias, aparentemente sem conexão entre si, se forma na cabeça dos trabalhadores uma “visão de mundo” que já não corresponde aos seus interesses, mas sim aos interesses dos capitalistas. As ideias que justificam a dominação burguesa tornam-se predominantes em toda a sociedade. Elas são reproduzidas exaustivamente na TV, nas escolas, nas páginas dos jornais, na família, no trabalho, entre colegas. Os trabalhadores, pelo simples
  • 4.
    fato de viveremem sociedade, absorvem essas ideologias e agem de acordo com elas, mesmo sem perceber. Quando uma ideologia é aceita por todos, ela se torna uma espécie de “linguagem comum”, que todos reconhecem, entendem e reproduzem no seu cotidiano. Como resultado, explorados e oprimidos passam a fazer uma coisa aparentemente absurda, mas que é a regra em nossa sociedade: começam a agir contra si mesmos, contra seus próprios interesses de classe; começam a defender o inimigo e a combater seus aliados; se dividem. Deste modo, os pais culpam os professores pelo baixo rendimento escolar de seus filhos, a população pobre defende um governo de empresários e banqueiros com medo de perder o bolsa-família, os trabalhadores furam a greve porque se convencem de que lutar não resolve nada. O que as ideologias escondem Tomemos algumas ideias bastante simples e amplamente disseminadas em nossa sociedade: “O homem é naturalmente egoísta”, “Sempre vai haver ricos e pobres”, “As mulheres foram feitas para o trabalho doméstico”, “Uma pessoa sempre vai querer passar a perna na outra”, “O preconceito já vem desde o nascimento” etc. Qual o sentido dessas ideias? Ora, é evidente que todas elas apontam em uma mesma direção: aceitar as coisas tal como são. E como nos convencem disso? Afirmando que tudo o que existe é natural e inevitável, que tentar mudar a realidade é ir “contra a natureza”. Assim, para justificar um mundo de injustiça e sofrimento, as ideologias “naturalizam” a realidade social, ou seja, levam as pessoas a acreditar que a desigualdade, a exploração e a opressão são tão naturais quanto a chuva, o vento ou o movimento das marés. As ideologias escondem o grande segredo da dominação burguesa: o fato de que a sociedade é uma construção humana e que portanto não há nada de “natural” nela; que o mundo em que vivemos é o resultado da cooperação dos indivíduos e justamente por isso pode ser mudado por esses mesmos indivíduos. A propaganda ideológica Mas como as ideologias se espalham pela sociedade? Como absorvemos e reproduzimos com tanta facilidade ideias tão absurdas? Se existe democracia, como alguém pode controlar o que eu penso? Para responder a essas perguntas, é preciso entender como funciona a propaganda ideológica. Todos sabemos o que é propaganda. As Casas Bahia fazem propagandas animadas, com pessoas falando alto e rápido, e com ênfase nos preços. A Nike centra sua propaganda no incrível desempenho dos atletas que usam seus artigos. O Itaú faz propaganda dos benefícios que seus clientes podem ter com esse ou aquele investimento. Em todos esses casos, o propósito é claro e evidente: compre, use, aplique seu dinheiro! Não há nenhuma dificuldade em reconhecer que estamos diante de uma peça de propaganda. Se alguém não gostar, pode mudar de canal ou virar a página da revista. Já a propaganda ideológica é um pouco mais complicada. Como dissemos, o principal objetivo das ideologias é fazer as pessoas agirem contra si mesmas. Por isso a burguesia não pode dizer abertamente: “aceite a exploração”, “aceite a opressão”, como se dissesse “beba Coca-Cola”. Uma tal propaganda revelaria a dominação ideológica e provocaria ainda mais revolta. Por isso a principal característica da propaganda ideológica é que ela é disfarçada, sutil, encoberta, subliminar. Quando um artigo sobre uma greve de professores começa falando dos alunos que ficaram sem aula, estamos diante de uma peça de propaganda ideológica. O objetivo não é informar ou esclarecer, mas sim mostrar como as greves prejudicam a população.
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    O jornalista nãodirá isso abertamente, mas todo o texto será montado para deixar provocar no leitor essa sensação. Quando depois do assassinato de Bin Laden pipocam nos programas dominicais reportagens especiais sobre a tropa de elite que matou o líder da Al-Qaeda, estamos diante de propaganda ideológica. Aqui o recado é: os EUA são invencíveis, para eles não há missão impossível, não ousem desafiá-los! Como se sabe, a melhor forma de plantar uma ideia na cabeça de alguém é fazer a pessoa acreditar que chegou sozinha a essa conclusão. Assim age a burguesia. Ela não diz “a mulher é um objeto”. Ela apenas mostra comerciais de cerveja que têm a mulher como objeto. Quem chega à conclusão de que a mulher é um objeto é o telespectador. Ela não escreve nos jornais “é preciso derrubar a mata ao redor dos rios”. Ela apenas mostra o quanto o agronegócio, que derruba a mata ao redor dos rios, é o “motor de desenvolvimento do país”. Quem chega à conclusão de que a derrubada das matas é um mal necessário é o leitor. Ela não diz “vamos acabar com os direitos trabalhistas”. Ela só diz que nos EUA, o país mais poderoso do planeta, quase não existem direitos trabalhistas. Quem chega à conclusão de que os direitos trabalhistas são um entrave ao desenvolvimento do país é o próprio trabalhador. Por isso, o fato de uma pessoa ter uma opinião formada sobre um determinado assunto não significa de modo algum que essa ideia seja dela. Noventa e nove porcento das ideias que temos na cabeça foram plantadas sutilmente pela burguesia através da educação, da imprensa, da família, da TV, do cinema, da igreja etc etc etc. A força das ideologias está justamente no fato de que os explorados defendem e reproduzem as ideias dos exploradores, achando que essas ideias são suas. Ao serem repetidas incansavelmente por toda a sociedade, as ideologias assumem a aparência de uma “verdade absoluta”. Como assim as mulheres são iguais aos homens? Como assim acabar com a exploração? Como assim socialismo? Quando alguém questiona uma ideologia, parece realmente que está “falando outra língua”. Instintivamente, repelimos esse tipo de pessoa e a separamos de nosso convívio. Ou simplesmente a ignoramos. A Torre de Babel não pode ser abalada. Ideologia da classe operária Mas se uma ideologia é uma determinada “visão de mundo”, um conjunto de ideias que serve a certos interesses, poderíamos então dizer que a classe trabalhadora tem uma ideologia? A resposta é categórica: sim! O socialismo científico, formulado na metade do século 19 pelos filósofos alemães Karl Marx e Friedrich Engels (por isso chamado também de marxismo) é a ideologia da classe operária, a ciência de sua libertação. O socialismo científico é um conjunto de ideias que interpretam corretamente o mundo à nossa volta, que revelam as verdadeiras razões da opressão, da desigualdade e da exploração. No entanto, diferentemente das ideologias burguesas, que penetram na mente dos trabalhadores por milhares de meios invisíveis e imperceptíveis, o marxismo não chega às residências pelas antenas de TV, não é ensinado nas escolas, nem cantado em canções de sucesso. Ele precisa ser buscado, descoberto. E é claro, como toda ciência, o marxismo precisa ser estudado. O operário consciente que deseje entender a fundo o mundo ao seu redor deve começar por desconfiar de todas as ideias que parecem óbvias e naturais porque a maior parte delas não passa, muito provavelmente, de mentiras bem contadas. Em seguida, deve ter, em relação à sociedade, a mesma curiosidade que tem em relação à máquina nova que acaba de chegar na fábrica: deve querer desvendá-la, destrinchá-la, dominá-la. Tendo dominado o marxismo, esse operário interpretará os fatos da realidade com a mesma facilidade que um eletricista experiente interpreta o esquema elétrico de uma garagem residencial, que tem uma lâmpada, um interruptor e uma tomada.
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    A verdadeira obrahumana As ideologias burguesas não são uma força invencível. Se a classe dominante tivesse tanta confiança em suas ideias, não haveria homens armados de prontidão nos quarteis e batalhões, aguardando as ordens para bater, dispersar e prender. Karl Marx, o velho filósofo alemão, disse certa vez que quando uma ideia é absorvida pelas massas organizadas, ela adquire força material, ou seja, vira uma arma real. Quando a crise econômica, política e social colocar em xeque a dominação burguesa; quando a repressão contra os trabalhadores, ao invés de inibi-los, gerar ações ainda mais radicalizadas, a ideia do socialismo penetrará nas grandes massas e balançará a monstruosa obra do capitalismo. Os trabalhadores, ao invés de falar a língua da burguesia, começarão a falar a sua própria língua e se entenderão. A imensa Torre de Babel, erguida sobre as costas dos pobres e perseguidos, e solidificada com o cimento da mentira, desmoronará sobre as cabeças de seus arquitetos incompetentes. E os trabalhadores, livres do entulho da velha construção, começarão a sua própria obra: uma sociedade sem opressão e exploração, o socialismo no mundo inteiro. ANOTAÇÕES
  • 7.
    O QUE ÉMACHISMO? Ana Pagamunici, da SNM do Pstu Segundo o dicionário Michaelis, machismo é “um comportamento de quem não admite a igualdade de direitos para o homem e a mulher”. No campo político, definir o machismo exige mais complexidade. Para nós, o machismo é uma ideologia criada pela sociedade de classes para manter a propriedade privada, servir à dominação e também à exploração. Uma forma de opressão Chamamos de opressão toda conduta ou ação para transformar as diferenças em desigualdades, de forma que estas sejam utilizadas para beneficiar um determinado grupo em relação a outro. Quando isso se dá entre brancos e negros, chamamos de racismo. Entre homens e mulheres, denominamos machismo. A opressão se expressa de várias formas. Na piada que ridiculariza as mulheres por sua condição de mulher: “dirige mal, só podia mesmo ser mulher”. Na diferença salarial entre homens e mulheres: hoje, em nosso país, uma mulher ganha até 30% menos que um homem. Na agressão física, verbal ou psicológica. No Brasil, a cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas. Uma ideologia Mas o machismo não é só fruto de uma conduta individual. É uma ideologia, ou seja, um sistema de ideias falsas que criam uma falsa verdade utilizada pelo sistema para manter a dominação e ampliar a exploração. A principal ideia é a de que as mulheres são inferiores aos homens e, portanto, não podem assumir determinadas tarefas ou ter determinados comportamentos. É através dessa ideologia que se naturaliza o fato de que as mulheres são as “rainhas do lar”, têm por obrigação cuidar dos filhos, da casa e dos maridos sem nada receberem por isso. Essa ideologia é transmitida pela escola, pelas famílias, pelas igrejas, pelos meios de comunicação e por todas as instituições que reproduzem o sistema capitalista. De tanto ser reafirmada passa a ser natural, comum, imutável. No caso de Eliza Samúdio, que se relacionou com o jogador Bruno (que está preso sob a acusação de tê-la matado), a delegada que a atendeu em uma de suas primeiras denúncias de ameaça de morte não enquadrou o caso na Lei Maria Penha, alegando que a lei tinha sido feita para “defender a família”. Como ela não se encaixava nos padrões (era uma “maria chuteira”), tratava-se de violência comum. Esse é um bom exemplo de como a ideologia é utilizada e reproduzida. Uma criação da sociedade de classes A opressão (o machismo) não existiu sempre. Foi criada para justificar a divisão da sociedade em classes. Nas sociedades comunistas primitivas, as mulheres, junto com os homens, cuidavam das atividades domésticas e participavam da produção social. Com o aparecimento da sociedade de classes, a instauração da propriedade privada e a necessidade de acumulação e herança, era preciso dividir as famílias e instituir a monogamia para preservar a propriedade privada. Com isso, as mulheres foram retiradas dos espaços públicos, da produção e da sobrevivência, e jogadas no espaço doméstico. Assim, foram proibidas de
  • 8.
    trabalhar, estudar eparticipar de atividades políticas. O machismo sustenta o capitalismo A luta das mulheres por igualdade de direitos obrigou o capitalismo a trazer as mulheres para a produção social novamente. A possibilidade de as mulheres se libertarem do espaço doméstico foi uma grande conquista. Mas, como toda conquista no capitalismo, foi por ele apropriada de maneira a favorecer a exploração e seus lucros. E as ideologias que antes eram utilizadas para manter a “mulher no lar” passaram a ser utilizadas para justificar jornadas excessivas de trabalho e salários mais baixos. Ao mesmo tempo, o capitalismo se apropriou do papel que a mulher cumpria antes, fazer as tarefas domésticas, e o naturalizou. Assim, a mulher manteve a obrigação de cuidar dos afazeres domésticos e também passou a trabalhar fora. Isso faz com que elas tenham dupla ou tripla jornada. E quem se beneficia disso é o capitalismo. Essa mecânica é muito positiva para os patrões, pois, enquanto as mulheres cuidam dos filhos e têm essa responsabilidade, o Estado e os patrões se desobrigam e economizam. Não precisam construir restaurantes, creches e lavanderias públicos. Transferem para os trabalhadores - neste caso, mais especificamente, para as trabalhadoras - a responsabilidade que seria do Estado. Trabalham de graça não para o marido, mas para o sistema. Quando o homem trabalhador trata sua mulher, também trabalhadora, como uma empregada, que tem a obrigação de cuidar das tarefas da casa sozinha, está reproduzindo essa ideologia do patrão, a serviço de manter o lucro dele. Se faz isso de maneira grosseira, usando a violência física ou psicológica, é pior ainda. Reproduz, com o uso da força, o poder da ideologia, deixando claro que as mulheres têm de obedecer e se resignar frente às agressões. Portanto, essa mentira do capitalismo é um falso privilégio para os homens, pois os grandes privilegiados são os patrões. É certo que os homens podem imediatamente se beneficiar dessa condição. Porém, se são socialistas e querem derrubar o sistema, precisam também enfrentar a mão do capital dentro do lar, porque o que se reproduz não é uma relação entre duas pessoas, mas sim os interesses do capitalismo. Combater o machismo é necessário Para que a luta contra os patrões e governos seja vitoriosa, ela não pode ser feita com apenas metade dos trabalhadores. Hoje as mulheres já são metade da classe trabalhadora, e no Brasil são a maioria. Não conseguiremos nunca unificar todos os trabalhadores se desqualificamos as mulheres, se não observamos que há demandas específicas, se não incorporamos suas reivindicações e não as ganhamos para a luta. A ideia de que essa discussão “divide a classe” ou que tem de ser feita “depois da revolução” é falsa e serve apenas para manter o capitalismo. O que divide a classe é o machismo, porque ele desqualifica as mulheres, coloca os homens contra as mulheres e as mulheres contra as próprias mulheres.
  • 9.
    Superação do machismoé a superação da sociedade de classes Marx, Lênin e Trotsky colocaram a luta pelas reivindicações das mulheres como uma das principais tarefas dos trabalhadores, desde o Manifesto Comunista. Isso continua atual. É necessário dar um combate permanente ao machismo, dentro dos partidos políticos, das entidades de luta do movimento e em nossa vida cotidiana para que possamos ser vitoriosos. Mas é também preciso não ter a ilusão de que podemos acabar com ele no capitalismo. Nessa luta temos duas tarefas: combatê- lo, corrigi-lo e buscar evitá-lo com todas as nossas forças. A outra é nos organizarmos, homens e mulheres, para derrotar a sociedade de classes e, com ela, o machismo. ANOTAÇÕES
  • 11.
    O QUE ÉRELIGIÃO? Henrique Canary, de São Paulo (SP) Mateus é operário metalúrgico em Criciúma, Santa Catarina. Já há algum tempo ele opera com facilidade um torno CNC (Comandos Numéricos Computadorizados) de última geração, mas não tem ainda o diploma. Está estudando. Quando conversamos, ele fala da composição química dos metais, de suas características físicas, de como cada um deles se comporta frente à poderosa máquina que os desgasta sem piedade, transformando-os em objetos úteis. Mateus é adventista e, portanto, não acredita na teoria da evolução das espécies ou que a Terra tenha 4,5 bilhões de anos. Mateus também é militante do PSTU, um dos mais sérios e dedicados. Certa vez outro operário, luterano praticante, perguntou a Mateus por que uma pessoa religiosa como ele militava em um partido que prega a revolução socialista, e que além do mais está cheio de ateus. Mateus demorou a responder, provavelmente pensando em todos os pontos do programa do PSTU que vão contra suas convicções religiosas. O militante queria convencer o colega, mas não desejava mentir nem esconder suas angústias. Sua resposta foi a mais simples e a mais profunda que se poderia dar: “porque eu não posso estar ao lado do opressor”. Haverá contradição entre operar uma máquina moderna e renegar a teoria de Darwin? Entre praticar uma religião e odiar o patrão como um inimigo mortal? Pode ser. Mas quem irá julgar? Mateus tem inúmeras crenças, mas ele não acredita que a miséria seja vontade de Deus, nem que apenas sua fé irá protegê-lo dos acidentes de trabalho. Por isso, ele milita em um partido revolucionário e toma todos os cuidados ao operar o torno. Ou seja, naquilo que é o mais importante, Mateus tem uma visão científica da realidade. Isso lhe basta. Para ele, a religião é parte de outra esfera, é um assunto privado, de foro íntimo, que não se mistura com trabalho, militância ou amizade. A compreensão do PSTU sobre a religião é a mesma de Mateus: muito mais importante do que dividir os operários em base à religião ou à falta dela, é uni-los na luta comum contra o capitalismo. A origem da religião O homem primitivo era caçador. Há cerca de 40 mil anos, era costume caçar em grupos durante o dia e descansar junto à fogueira à noite. Quando olhavam para o céu noturno, nossos ancestrais percebiam pontos de luz parecidos com os de suas fogueiras, só que muito altos. Eram as estrelas, mas ninguém sabia disso. Começaram a imaginar que o céu fosse uma espécie de “outro andar” do mundo, habitado também por caçadores, só que muito mais poderosos que eles porque suas fogueiras ficavam suspensas no ar. Em seguida, perceberam também que alguns pontos de luz no céu, se unidos, formavam desenhos específicos: um urso, um pássaro, uma lança etc., sempre imagens ligadas à caça. Eram as constelações, mas ninguém sabia disso também. Sonolentos e famintos, confusos e curiosos, nossos antepassados começaram a imaginar que esses caçadores celestiais governavam o mundo aqui embaixo. Se não fosse assim, por que haveria cenas de caçadas desenhadas no céu? Não poderia ser coincidência! Concluíram daí que era preciso agradar a esses seres para que a caça aqui embaixo fosse bem sucedida. Surgiam assim os primeiros rituais, sempre com um mesmo objetivo prático: dar à tribo caça, pesca e coleta abundantes. A religião tem origem, portanto, não na revelação divina, mas na
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    atividade social dospróprios homens, no medo e na admiração que sentiram diante de fenômenos que eles não entendiam. Apenas muito recentemente, há cerca de 5 mil anos, a caça e a coleta foram substituídas pela pecuária e a agricultura. A família, antes dirigida pela mulher, passou a ser comandada pelo homem. A autoridade paterna tornou-se a lei. A consequência disso no âmbito religioso é que os cultos pagãos começaram a dar lugar à ideia de um único Deus-Pai todo-poderoso. Mais uma vez, o homem projetava nos céus o que ele mesmo fazia na terra. A história de qualquer religião é a repetição desse esquema básico. Religião e moral O termo religião vem do latim religio, que significa “religar”. Religião é o conjunto de crenças, ritos e concepções que buscam restabelecer os laços entre o mundo terreno e o mundo celestial. A religião pressupõe um conjunto de regras, padrões de comportamento e posicionamentos morais que devem ser observados para que o indivíduo mantenha-se ligado a Deus. Por isso, hoje é normal que toda religião se posicione sobre questões como o aborto, a homossexualidade e o adultério. Mas a verdade é que nem sempre foi assim... Uma mesma religião se transforma ao longo do tempo. No cristianismo, por exemplo, os ritos e preceitos morais de hoje não são iguais aos do passado. Por serem perseguidos no Império Romano, os primeiros cristãos formavam uma comunidade coesa e clandestina, realizando seus cultos nas catacumbas de Roma, escondidos de tudo e de todos. Para integrar essa comunidade, era preciso um grande sacrifício, não só porque a religião era perseguida, mas porque aquele que desejasse se juntar ao grupo deveria dividir todos os seus bens com ele. Assim, as primeiras comunidades cristãs eram comunistas em sua vivência. A própria Bíblia, nos Atos dos Apóstolos, livro que descreve a vida dos cristãos nos primeiros anos após a morte de Jesus, relata: “Não havia, pois, entre eles necessitado algum porque todos os que possuíam terras ou casas, vendiam-nas, e traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha”. (Atos 4: 34 e 35). Os primeiros cristãos eram extremamente livres em seu comportamento moral. Até mesmo as famílias eram praticamente dissolvidas nas comunidades, devido à convivência em grandes grupos fechados. Prevalecia o cuidado coletivo com os filhos e os afazeres domésticos. Durante os cultos, as mulheres exerciam um papel tão importante quanto os homens e podiam conduzir qualquer cerimônia. Não se controlava a vida de ninguém, a não ser que o coletivo fosse realmente afetado. Viviam e oravam juntos, e pronto. Quanta diferença entre a conduta desses primeiros cristãos e o que prega hoje a organização chefiada por Bento 16! A Igreja Católica tem cerca de 1,2 bilhão de fiéis no mundo, possui um Estado próprio, o Vaticano, com forças armadas, serviços de inteligência, passaportes e, é claro, um banco, o Banco do Vaticano. As igrejas repassam dinheiro ao Vaticano por meio do chamado “Óbolo de São Pedro”, uma espécie de linha bancária direta, livre de impostos, que liga a Santa Sé às comunidades eclesiais. Como se não bastasse, os padres e bispos católicos são frequentemente acusados de abuso sexual contra jovens e crianças em distintas partes do mundo, ao mesmo tempo em que o Papa condena a camisinha e a pílula anticoncepcional. Infelizmente, as igrejas protestantes, evangélicas e neopentecostais se diferenciam da Igreja Católica apenas pelo tamanho dos escândalos. Em essência, são iguais. Basta lembrar as palavras do próprio bispo Edir Macedo no famoso vídeo gravado por um ex-pastor com uma câmera escondida: “Se você quiser ajudar, amém. Se não quiser ajudar, Deus vai arranjar
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    outra pessoa paraajudar. Amém. Entendeu como é que é? Se quiser, amém. Se não quiser, que se dane. Ou dá ou desce”. Com raríssimas exceções, padres e pastores de todas as igrejas se comportam como verdadeiros mercadores no templo, como os novos adoradores do Bezerro de Ouro. Os trabalhadores que buscam conforto espiritual na religião terão mais sucesso se rejeitarem esses intermediários. A visão religiosa de mundo O cristianismo, confissão predominante em nosso país, é muito mais do que uma religião. É também uma visão de mundo. Isso significa que ele busca explicar absolutamente todos os fenômenos do universo: a Terra, o Sol, o homem, a sociedade, a história, a própria religião etc. O cristianismo é, portanto, um sistema filosófico completo. Para o cristianismo, o universo é estático, com uma hierarquia que jamais pode ser mudada. No topo está o ser supremo, Deus todo-poderoso. Muito abaixo está o homem. Tudo o que acontece é desejo de Deus. Ao homem fica reservado o papel de instrumento da vontade divina: “Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade”. (Filipenses 2:13). O homem, segundo o cristianismo, não tem, de fato, nenhum arbítrio, muito menos livre. Essa visão hierárquica de mundo leva à passividade e à aceitação da ordem social existente porque tudo se justifica na vontade do Criador. Não são poucos os trechos bíblicos em que se conclama à obediência e à servidão: “Vós, servos, obedecei em tudo a vossos senhores segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus”. (Colossenses 3:22). Ou então: “E o servo que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoites”. (Lucas 12:47). E ainda: “Exorta os servos a que se sujeitem a seus senhores, e em tudo agradem, não contradizendo”. (Tito 2:9). Com essa base filosófica, não é de se estranhar que a Igreja Católica jamais tenha se pronunciado contra a escravidão. O mito da inferioridade da mulher Para o cristianismo, a mulher é um subproduto do homem: “Porque o homem não provém da mulher, mas a mulher do homem”. (1 Coríntios 11:8). Além disso, foi criada com o único objetivo de fazer companhia ao homem, ser sua “ajudadora” (Gênesis 2: 18 e 20). Para piorar, enganada pela serpente, a mulher acabou sendo a responsável pela introdução do pecado no mundo. O preço pago não foi baixo: “E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará”. (Gênesis 3:16). Mais adiante, a Bíblia estabelece com detalhes o papel da mulher na sociedade: “Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio”. (1 Timóteo 2:12). Ou: “De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos”. (Efésios 5:24). Qual a diferença entre essas passagens e as normas de comportamento feminimo recomendadas pelo tão criticado Alcorão? Nenhuma. Socialismo e religião A doutrina socialista não combate a fé, mas sim a visão religiosa de mundo, o que é muito diferente. Os socialistas rejeitam a ideia de um destino pré-estabelecido e de uma hierarquia entre as pessoas e os sexos. Acreditam que homens e mulheres são iguais e que ambos, juntos, fazem sua própria história. O socialismo é também, ao contrário do que tentam fazer parecer, uma doutrina profundamente moral: nela, os princípios da igualdade, da solidariedade e da liberdade ocupam um lugar
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    central. Se esseshomens e mulheres, ativos e livres, conscientes e solidários, têm em seus corações deuses, santos, profetas ou orixás, para os socialistas isso não faz a menor diferença. É a própria Bíblia que ensina: “O homem rico é sábio aos seus próprios olhos; mas o pobre que é inteligente sabe sondá-lo”. (Provérbios 28:11). Não perdem por esperar aqueles que vivem da pobreza e do desespero alheios. A revolução socialista dará aos pobres o pão e a paz há milênios prometidos pelas religiões e promoverá a completa separação entre o Estado e as igrejas. Ao mesmo tempo, a liberdade de culto será proclamada uma lei inviolável. Assim, o governo socialista dissolverá lentamente as bases sobre as quais se assentam as igrejas: por um lado, a miséria material e espiritual da população e, por outro, o financiamento, direto ou indireto, por parte do Estado. O homem será homem e não mais rebanho. O socialismo será o renascimento do comunismo dos antigos cristãos perseguidos num nível muito superior, pois será uma partilha de fato universal. Na luta por uma existência digna nesta vida, todo religioso honesto deve escolher: estar ao lado do rico opressor ou com seus irmãos trabalhadores. ANOTAÇÕES
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    O QUE ÉBUROCRACIA? Henrique Canary, de São Paulo (SP) Combater a burocracia! Parece que finalmente encontramos um tema com que todos estão de acordo! Da Veja à Folha de S. Paulo, de Eike Batista a Paulinho da Força, todos concordam que é preciso exterminar esta praga. Os burgueses reclamam da burocracia para abrir ou fechar uma empresa. Os trabalhadores, por sua vez, sofrem com a burocracia na hora de se aposentar, se afastar do trabalho pelo INSS e por aí vai. Pareceria, portanto, que aqui estamos todos juntos. Mas não estamos. Para os socialistas, o termo “burocracia” tem um significado completamente distinto deste que usamos no dia a dia. Como fenômeno mais geral, a burocracia é uma casta de administradores privilegiados. O Estado burguês, por exemplo, tem uma enorme burocracia: são os altos funcionários do Estado, chefes do primeiro, segundo e terceiro escalões. Estes senhores não são burgueses porque não têm empresas próprias, mas seu salário ultrapassa em dezenas de vezes o de um funcionário público comum. Sua condição privilegiada os torna agentes diretos da burguesia dentro da máquina estatal. No que diz respeito à classe trabalhadora, o termo “burocracia” significa uma casta privilegiada de líderes e dirigentes que parasitam as organizações políticas e sindicais do proletariado em seu próprio benefício. É exatamente neste sentido que nos referimos à burocracia em nossa prática cotidiana. É fundamentalmente esta burocracia que queremos combater. É sobre ela este artigo. O que é um sindicato? Ao longo do tempo, a classe trabalhadora construiu importantes organizações de luta. Primeiro surgiram as caixas de ajuda mútua nos séculos 18 e 19. Depois vieram os sindicatos e partidos operários. O objetivo dos sindicatos é preservar as conquistas obtidas e organizar a luta por outras mais. Os sindicatos, junto com os partidos operários, são os guardiões das tradições de luta de nossa classe. Assim, quando há uma greve, os trabalhadores não precisam aprender tudo desde o começo, nem reinventar a roda. Já existe um sindicato, onde estão outros operários que já passaram por greves e enfrentamentos. Há também uma estrutura de advogados, computadores, telefones celulares e dinheiro que está a serviço da luta. Há dirigentes sindicais liberados de seu trabalho normal para se dedicarem unicamente à mobilização e à conscientização dos trabalhadores. Toda essa organização é uma enorme conquista de nossa classe, e muito sangue operário foi derramado para que pudéssemos ter os sindicatos e partidos de hoje. Em momentos de grandes lutas, alguns sindicatos parecem fervilhar: todos os dias dezenas de ativistas vão às reuniões da entidade, pegam os boletins para distribuí-los em suas bases, buscam orientação, passam todo o tempo de folga na sede ou simplesmente “dão uma passadinha” para ver se há novidades. Os carros do sindicato não param: parecem estar em todas as fábricas e canteiros de obra ao mesmo tempo. Os celulares estão sempre tocando para informar o resultado desta ou daquela mobilização. Os dirigentes sindicais estão sempre exaustos, com o sono e a alimentação atrasados. O processo de burocratização
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    Porém, como todosnós sabemos, esses períodos de atividade política e sindical tão intensa são relativamente raros. Isso quer dizer que na maioria do tempo, o dia a dia sindical não se parece em nada com o quadro que acabamos de pintar. Durante longos períodos, a atividade sindical, mesmo nas entidades mais combativas e democráticas, é uma “especialidade”, exercida por poucas pessoas e sem o controle por parte da imensa base de trabalhadores. Quando não há lutas, a rotina do sindicato gira em torno das homologações, convênios e reformas no prédio. Os carros continuam correndo para lá e para cá, mas não é para intervir nas greves, e sim para tarefas da própria máquina sindical. Os celulares continuam tocando, mas as ligações raramente são da base para informar sobre uma greve, e sim da própria sede do sindicato ou da direção da empresa, para negociar isto e aquilo. Assim, à medida que o tempo passa e as lutas não vêm, a estrutura do sindicato começa a adquirir vida própria, necessidades próprias e vontade própria, independentemente do que esteja ocorrendo na categoria. Afastados dos trabalhadores de base pelo refluxo das lutas e sem nenhuma iniciativa para se aproximar deles novamente, muitos dirigentes acabam engolidos pela máquina sindical. Sua atividade começa a girar em torno desta própria máquina. Daí para a burocratização, é um pulinho. Como se forma um burocrata? A burocracia não é um problema de caráter ou honestidade pessoal. Como dissemos, é um fenômeno social e político. O burocrata se forma quando o dirigente sindical adquire independência material e política em relação à base que ele deveria representar; quando sua preocupação principal já não é mais organizar a luta dos trabalhadores, mas sim se perpetuar no cargo de dirigente a qualquer custo. O burocrata não tem recursos próprios. Ele vive do sindicato. Sua situação é, por isso, extremamente instável. E se ele de repente perder a próxima eleição? O burocrata tem assim uma preocupação constante: estabilizar sua condição privilegiada. Como ele fará isso? Em primeiro lugar, ele tentará estabelecer com a patronal uma relação amigável, que lhe permita arrancar, por meio da negociação, alguma migalha para os trabalhadores. Assim, estará demonstrada perante toda a base sua “eficiência” enquanto dirigente sindical, e seu posto de burocrata estará garantido. Mais do que isso, um bom burocrata, se for bom mesmo, fará até greves, passeatas e piquetes para conseguir um melhor aumento, sem com isso deixar de ser um burocrata. O caráter burocrático de uma direção sindical não está determinado pelos percentuais de aumento salarial que ela consegue, mas pela relação que ela estabelece com o aparato do sindicato, pelos privilégios que daí retira, pela relação que tem com a base da categoria, pelo nível de democracia e participação que ela implementa em sua entidade, por sua relação com o Estado e a patronal. A partir desta base material são formadas a mentalidade e a atitude de um típico burocrata: o conservadorismo, a truculência, a submissão aos patrões e ao governo e sobretudo o desprezo pelo que dizem e sentem os trabalhadores de base. Burocracia e burguesia A burguesia, como não é boba, trabalha constantemente para que o movimento operário se burocratize. Não é de se admirar. Faz muita diferença para um burguês negociar com uma comissão de 40 operários enfurecidos ou com uma diretoria de nove líderes “moderados”, “razoáveis” e bem alimentados.
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    É por issoque no Brasil existe o imposto sindical, que permite ao sindicato existir tendo meia dúzia de filiados; é por isso que Lula entregou às centrais sindicais uma parte do dinheiro desse imposto; é por isso que Dilma determinou que todas as empresas estatais ou de capital misto tenham um representante dos trabalhadores em seu conselho de administração. Ao formar um exército de burocratas, a burguesia cria um colchão político- social, um amortecedor de conflitos. Com o tempo, o burocrata tende a se tornar cada vez mais um aliado estratégico da burguesia. O burocrata já não vê o trabalhador comum como alguém igual a ele. Ao contrário, começa a se identificar muito mais com o burguês, a aproximar- se dele política e socialmente, a beber o mesmo whisky e fumar o mesmo charuto. Por isso, dizemos que a burocracia é um agente da burguesia dentro do movimento operário. Por que combater a burocracia? Os sindicatos são organizações de luta da classe trabalhadora. Deveriam ser verdadeiras escolas de comunismo. Nos sindicatos os trabalhadores deveriam aprender que, unidos, eles podem tudo; que são eles que movem a sociedade; que todos os trabalhadores do mundo são irmãos e que a eles devemos solidariedade e apoio. Os sindicatos deveriam educar os trabalhadores no ódio ao aparelho de Estado, a todos os governos e ao imperialismo. Nos sindicatos, os trabalhadores deveriam exercer a mais ampla democracia operária, uma das bases mais importantes da futura sociedade socialista. Mas a burocracia transforma todas essas lições em seu contrário. Obama esteve no Brasil. Sindicatos de todos os matizes deveriam se unir para dizer go home! a este verdadeiro capitão do mato internacional, denunciar as ocupações imperialistas, a entrega do pré-sal e a agressão à Líbia. Mas ao invés disso, os dirigentes da Força Sindical, CUT, UGT, CTB, CGTB e Nova Central resolveram almoçar com Obama... Almoçar! Claro, como são burocratas, precisavam dar um ar combativo ao almoço. Por isso entregaram ao presidente uma “carta aberta” que falava sobre a necessidade de aumentar o comércio entre os dois países... Aumentar o comércio! Então é assim? Quando o chefe do imperialismo mundial vem ao país não devemos protestar, exigir, repudiar, mas sim almoçar com ele e pedir o aumento do comércio? Não é difícil imaginar o prejuízo desses ensinamentos para a consciência de milhões de trabalhadores. E não é só isso. A burocracia afasta os trabalhadores de base do sindicato; promove o preconceito e a opressão dentro das fileiras de nossa classe; educa os ativistas em uma cultura de mentiras, violência e calúnias. Enfim, a burocracia destrói as próprias bases da organização sindical, exatamente como um parasita destrói o organismo que o hospeda. É possível evitar a burocratização? De tudo o que dissemos até aqui, não concluímos de maneira nenhuma que “todo mundo que chega lá se corrompe”. Esse simples senso comum não ajuda os trabalhadores porque não explica nada. Como evitar então a burocratização? Há uma vacina contra ela? Infelizmente, não. Como dissemos acima, a burocratização não tem origem no indivíduo, mas sim nos privilégios que o aparato sindical oferece. Portanto, a luta contra a burocratização deve ser, em primeiro lugar, uma luta contra esses privilégios e pelo controle da base sobre os dirigentes. Em segundo lugar, é uma luta para trazer a base para dentro do sindicato, fazê-la participar, opinar, fiscalizar, sugerir e criticar.
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    Em terceiro lugar,a luta contra a burocratização é uma luta pela reeducação da classe e de seus dirigentes em base aos bons e velhos valores políticos e morais abandonados pela burocracia: o ódio de classe, a solidariedade internacional, a independência em relação a todos os governos e empresas e a luta contra a opressão e a exploração. Por último, o combate à burocratização é impossível sem a politização da atividade sindical. Os sindicatos devem levantar ativamente as bandeiras políticas da classe, desde as mais modestas até sua grande bandeira histórica: o socialismo. Nas diretorias das entidades devem conviver democraticamente representantes de todas as correntes partidárias e também aqueles que não têm partido nenhum. Nenhuma dessas medidas por si só resolve o problema, mas são todas absolutamente necessárias. São parte de uma luta que deve começar agora, mas que não tem data para acabar. O destino da burocracia A luta contra a burocratização é a batalha para transformar os sindicatos novamente em escolas de comunismo, em instrumentos de preparação e educação de toda a classe para sua grande missão histórica: a derrota do capitalismo e a construção de uma sociedade socialista. Nessa batalha, não é preciso dizer que os atuais dirigentes da CUT, da Força Sindical, da CTB e de outras centrais não serão aliados. Com isso, apenas demonstram sua condição de burocratas irrecuperáveis e agentes do capital na classe trabalhadora. Quando chegar a hora, os operários saberão expulsá-los de seu meio, da mesma maneira que um organismo enfermo, na luta por recuperar-se, expulsa de dentro de si todo tipo de úlcera e infecção. Por mais feio que soe essa frase, a verdade é que a burocracia não passa disso. ANOTAÇÕES
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    O QUE SÃOAS FORÇAS ARMADAS? HENRIQUE CANARY, de São Paulo (SP) Foi no dia 8 de março. As operárias da indústria têxtil escolheram o Dia Internacional da Mulher para começar sua luta. Rapidamente a greve contagiou outras categorias e mais de 90 mil pessoas marcharam rumo ao centro da cidade. As mulheres iam à frente. Para impedir o avanço da multidão, o governo ordenou que a cavalaria formasse uma linha sólida e coesa em uma das pontes de acesso ao centro. Cerca de 1500 cavaleiros se alinharam. A multidão se aproximou e houve silêncio. Ninguém sabia ao certo como terminaria aquele encontro. As mulheres, mais corajosas, chegaram até os cavalos. De joelhos, elas seguravam as botas dos soldados e imploravam que as deixassem passar. Mas os soldados não se moviam. Então, algo inesperado aconteceu: um soldado piscou o olho para uma operária. Era um sinal, e ela logo entendeu. Ela se agachou, e passou por entre as pernas do cavalo, transpondo facilmente a temida barreira. Foi a primeira. Muitas outras a seguiram por aquela brecha inesperada. Outros soldados piscaram o olho para outras operárias e em poucos minutos, alguns milhares de trabalhadores haviam atravessado a ponte rumo ao centro, todos passando por baixo do ventre dos cavalos, mantidos imóveis pelos soldados. Formalmente, a ordem dada pelo comando havia sido cumprida e por isso ninguém poderia ser punido. Não passou pela cabeça do governo que a súplica de uma multidão de mulheres tocaria o coração daqueles homens duros. Mas tocou. No quinto dia de greve o governo caiu. Oito meses depois, em outubro, os mesmos homens e mulheres que haviam se arrastado por entre as pernas dos cavalos naquela manhã de março tomaram o poder e começaram a edificação de uma nova sociedade. A revolução, como toda criança, começou engatinhando, para logo depois dar passos de gigante. E tudo começou com um pequeno ato de indisciplina: uma piscada de olho. O episódio é verídico, está documentado, e aconteceu em Petrogrado, antiga capital da Rússia, em 1917. Esse incrível começo da primeira Revolução Socialista vitoriosa da história nos remete a uma questão fundamental: o que são as Forças Armadas e qual a relação que os trabalhadores devem ter com elas? Um aparato repressivo a serviço da burguesia As Forças Armadas, incluídos aí o Exército, os serviços de inteligência e as polícias civil e militar, são um aparato repressivo a serviço da dominação de classe da burguesia. É verdade que o Exército protege as fronteiras do país dos invasores externos e presta auxílio à população quando acontecem grandes tragédias. Também é verdade que as polícias desvendam crimes, organizam o trânsito e vigiam as saídas das escolas com o objetivo de proteger as crianças. Mas isso é apenas uma cortina de fumaça que esconde suas verdadeiras funções. Vivemos em uma sociedade dividida entre explorados e exploradores, oprimidos e opressores. Para manter a estabilidade da ordem social, a burguesia precisa dar uma cara democrática à sua dominação. Não pode reprimir todo o tempo. Por isso, no cotidiano, o domínio da burguesia se dá através da ideologia, e não da violência (ver artigo O que é ideologia, desta série). Mas há momentos em que as ideologias param de funcionar. Quando crises econômicas, política e social atingem um nível insuportável, as idéias tornam-se insuficientes para manter os trabalhadores passivos. Eles saem à luta, se organizam, se rebelam. Nesses momentos, sempre (absolutamente, sempre!), as Forças Armadas são colocadas em ação.
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    A PM realizadespejos em áreas ocupadas pelos movimentos sem- terra e sem-teto; a tropa de choque reprime greves e manifestações; a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) se infiltra nos movimentos sociais com o objetivo de identificar os líderes e coletar informações, e o Exército garante a ordem nas ruas das favelas ocupadas quando a polícia já não não dá mais conta. Treinados para atacar negros e pobres Uma das principais ideologias criadas pela burguesia é a de que as Forças Armadas existem para o bem comum. Não é a toa que o lema da polícia seja “para servir e proteger” e o do Exército seja “braço forte – mão amiga”. A burguesia tenta todo o tempo passar a ideia de que as Forças Armadas são aliadas do cidadão de bem e que quem obedece as leis não tem nada a temer. Mas a realidade é bem diferente. As Forças Armadas são, em primeiro lugar, uma força de classe. Isso pode ser visto em seu treinamento. Para “combater o crime”, é preciso, antes de mais nada, saber identificar os criminosos. E como identificá-los? O treinamento da PM ensina: pela sua aparência. São jovens, negros, andam mal vestidos, passeiam em pequenos grupos à noite etc. Esse tipo de “treinamento”, complementado por ações práticas dos alunos das academias de polícia nos bairros pobres da periferia, vai educando o policial na lógica de que todo pobre é um criminoso em potencial. Com o tempo, esse tipo de pensamento vai se enraizando na cabeça do policial e sua ação começa a adquirir um caráter discriminatório e segregador. Ele se separa do povo e acha que pode tudo. Daí a famosa imagem do policial militar jogando spray de pimenta no rosto de duas meninas que acompanhavam a mãe em um protesto por moradia no Rio; ou ainda o vídeo do policial militar dando cinco tiros a queima-roupa em um adolescente de 14 anos, em Manaus, há alguns meses. Esses e muitos outros não são casos isolados. São a prova definitiva de que as Forças Armadas são, na realidade, a carceragem de uma prisão invisível, uma prisão chamada sociedade capitalista. Outro exemplo emblemático: a forma como a tropa de choque se prepara para uma manifestação. Várias horas antes da manifestação o pelotão é chamado ao pátio do batalhão e fica em formação, aguardando a ordem de sair. Se está sol, fica no sol; se está chovendo, fica na chuva. Enquanto aguarda, o pelotão é “esclarecido” sobre os motivos da espera: “vocês estão aqui por causa de vagabundos e grevistas, veados e maconheiros” etc. São dadas também advertências: “cuidado com os coquetéis molotov, pedras e estiletes que todo estudante e sindicalista carrega consigo!”. O resultado é óbvio: os policiais saem para `as ruas completamente enfurecidos, sedentos de vingança pelas horas de espera, fome e cansaço. Com esse tipo de “preparação”, não é de se admirar que a PM gaste tanto gás de pimenta com sindicalistas, estudantes e crianças de 6 anos. A atitude da classe trabalhadora Como instituições, o Exército e as polícias são irrecuperáveis. O objetivo dos socialistas é a dissolução dessas forças armadas violentas, racistas e anti-operárias e sua substituição por forças armadas formadas e controladas pelos trabalhadores e pela população pobre. Mas até lá os trabalhadores não podem ficar de braços cruzados. A atitude da classe trabalhadora para com as Forças Armadas não pode levar em conta apenas o caráter repressivo da instituição. Deve levar em conta também o fato de que esta instituição é feita de pessoas de carne e osso, e que toda pessoa de carne e osso tem duas características: 1) pensa e
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    2) vive emuma determinada realidade social que a influencia. As Forças Armadas não são compostas apenas por capitães e coronéis bem remunerados. Elas são formadas também por soldados rasos, cujo nível de vida é idêntico ao dos trabalhadores mais explorados. Existem as milícias que controlam as favelas, mas existem também os soldados que moram no morro, que secam seu uniforme dentro de casa e que vão para o trabalho à paisana para não serem mortos pelo tráfico. A classe trabalhadora deve confiar que a revolução socialista provocará uma luta de classes também dentro das Forças Armadas e que os elementos mais honestos serão simpáticos à causa do proletariado e poderão, em certo momento e sob certas condições, romper a disciplina e se juntar à revolução. Todas as revoluções vitoriosas dependeram desse momento dramático: quando uma parte das Forças Armadas passa, de armas na mão, para o lado dos rebeldes. Pensar que o proletariado pode tomar o poder sem romper as forças armadas é uma utopia, é jogar o proletariado num poço de sangue e derrota. Mas, para dividir os aparatos repressivos, os trabalhadores precisam agir desde já, mesmo que modestamente. É preciso realizar um sério trabalho de propaganda sobre a base das Forças Armadas, defender o direito de greve e sindicalização dos soldados, disseminar entre eles a desconfiança para com os oficiais e o alto comando. É preciso convencer os soldados de que a melhoria de suas vidas depende de sua união com os trabalhadores, da derrota do capitalismo e da vitória do socialismo. Essa propaganda será, no atual momento histórico, tímida e débil, quase inexistente. Mas as revoluções e as crianças ensinam: quem não sabe engatinhar, jamais poderá correr. ANOTAÇÕES
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    O QUE ÉO IMPERIALISMO? Henrique Canary, de São Paulo (SP) Caminhe pelas ruas do bairro onde você passou a infância. Em vão você vai procurar pelo mercadinho no qual trocava meia dúzia de moedas por um punhado de balas, tiradas do baleiro de vidro que ficava em cima do balcão, junto com a balança Filizola e o papel de enrolar pão. No lugar dele, ou na próxima esquina, o que você vai encontrar é um grande hipermercado: Carrefour, Extra ou Pão de Açúcar se você estiver no sul-sudeste; GBarbosa, Líder ou DB se estiver no norte-nordeste. Se prestarmos atenção à vida econômica, veremos que existe uma tendência ao desaparecimento das pequenas empresas, que são cada vez mais substituídas por grandes estabelecimentos e franquias internacionais. É claro que novas pequenas empresas surgem a todo instante, mas pouquíssimas sobrevivem. A falência é o fantasma que atormenta o sono dos micro e pequenos empresários todas as noites. E para 99,9% deles a hora de fechar as portas acaba chegando, mais cedo ou mais tarde. A razão de tantos fracassos não é, ao contrário do que tentam nos convencer, o custo da força de trabalho, os altos impostos ou a falta de qualificação dos trabalhadores, mas sim um velho fenômeno conhecido de todos nós, porém pouco lembrado ultimamente: o imperialismo. Exatamente. A invasão do Iraque pelos Estados Unidos e a falência do armazém da esquina têm a mesma causa: o super-crescimento dos monopólios, que engolem as pequenas empresas e dominam a economia mundial. O que é um monopólio? O capitalismo do século 19 era muito diferente do de hoje. Em cada ramo da indústria havia uma infinidade de empresas que disputavam livremente o mercado, cada uma oferecendo seus produtos pelo menor preço possível. Era a época da chamada “livre concorrência”. Na luta pelos consumidores, as empresas iam aperfeiçoando o processo produtivo, introduzindo novas tecnologias ou fazendo com que seus operários trabalhassem mais e melhor pelo mesmo salário. Quando isso acontecia, os custos de produção dessas empresas caíam brutalmente e elas conseguiam oferecer produtos relativamente bons a preços bastante baixos. De outro lado, as empresas que não conseguiam melhorar sua produção ou aumentar a exploração de seus operários terminavam perdendo espaço e falindo. Com a falência das indústrias menos produtivas, as empresas mais eficientes abocanhavam uma parcela cada vez maior do mercado nacional. Dessa forma, através de um ciclo de falências e incorporações sucessivas, em algumas décadas se chegou a uma situação em que cada ramo da indústria não era mais disputado por uma infinidade de empresas, mas sim dominado por um punhado de 5 ou 6 grandes corporações. Já que eram poucas, essas corporações, ao invés de continuarem engolindo umas as outras, preferiam entrar num acordo e dividir o mercado em base ao tamanho e a capacidade produtiva de cada uma. Formavam-se, assim, os primeiros cartéis, ou seja, aglomerados de umas poucas empresas que combinam o preço das mercadorias, forçando os consumidores a comprar tudo por um valor muito acima do real. Dessa maneira, a partir do final do século 19 o capitalismo entra em uma nova fase de seu desenvolvimento, na qual a livre concorrência, que chegou a ser considerada a “alma” do capitalismo, já não passa de um teatro de mau gosto e onde o que vale mesmo é o peso dos grandes monopólios.
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    Os monopólios eos bancos Uma vez formado um monopólio e estabelecido o controle sobre um determinado mercado nacional, as empresas que participam do acordo começam a obter lucros extraordinários porque podem impor seus preços sem qualquer concorrência, apenas conversando entre si. Os lucros obtidos são, no início, investidos na própria produção, que cresce e se aperfeiçoa sem parar. As empresas, que já eram grandes, tornam-se gigantescas. As metalúrgicas se associam às siderúrgicas, que lhes fornecem o metal. Estas, por sua vez, se associam às mineradoras, que extraem o ferro da terra. As petroleiras compram as refinarias, que, por sua vez, compram os postos de abastecimento. Aos poucos, formam-se enormes conglomerados que controlam ramos inteiros da economia e cujos lucros ultrapassam em muito o orçamento de alguns países. Mas de onde sai tanto dinheiro para investir e crescer? É evidente: dos bancos. Os bancos, que no início do capitalismo eram simples intermediários nas operações de pagamento, começam a participar ativamente da produção, emprestando dinheiro para as grandes empresas. Quanto mais a indústria cresce, mais depende do crédito bancário. Quanto mais o banco empresta dinheiro para a indústria, mais lucro obtém e mais dinheiro tem para emprestar novamente depois. Num determinado momento, os bancos ultrapassam a indústria em riqueza e poder e resolvem ditar as regras do jogo, impondo às empresas condições de financiamento que estas são obrigadas a aceitar, sob pena de terem negados seus pedidos de empréstimo. Para garantir que os empréstimos sejam bem utilizados, os bancos compram ações das empresas devedoras e enviam seus representantes para os conselhos administrativos das mesmas. As empresas perdem assim sua autonomia e caem sob o controle dos bancos, que a esta altura também se tornaram gigantescos. No final das contas, não se sabe mais se são os bancos que investem nas indústrias ou se são as indústrias que aplicam seu dinheiro nos bancos. O capital industrial funde-se assim com o capital bancário, dando origem a uma nova força econômica e social, muito mais poderosa e devastadora, o verdadeiro Frankstein do sistema capitalista: o capital financeiro. Em cada país, meia dúzia desses mega-aglomerados financeiros controlam quase toda a economia. Os monopólios e o imperialismo O capital financeiro investe e produz dentro do país, obtendo enormes lucros. Mas logo se depara com um problema: cada nação tem as suas fronteiras e os lucros não podem crescer infinitamente dentro de um mercado finito. Por isso, do mesmo modo que um tigre não pode se alimentar por muito tempo de capim, também os monopólios não podem ficar muito tempo presos ao mercado nacional. Quando a fome de lucros aumenta, os monopólios buscam a única solução viável para seus problemas: a conquista do mercado mundial, que não é infinito, mas pelo menos é muito maior do que o mercado nacional. Essa política de conquista do mercado mundial pelos grandes monopólios é o que chamamos de imperialismo. Na luta por estabelecer seu império mundial, o capital financeiro utiliza distintas armas. Se o país a ser conquistado for um mercado livre, os monopólios utilizarão meios puramente econômicos: preços baixos, investimentos massivos etc. Se, ao contrário, o país-alvo for um mercado fechado, protegido por taxas alfandegárias altas ou leis que limitem a ação dos capitais estrangeiros, os imperialistas poderão recorrer à ajuda de meios não-econômicos, principalmente a guerra de conquista ou guerra colonial. É claro que os monopólios não travam eles próprios as
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    guerras. Quem fazisso são os Estados nacionais, que a essa altura já se encontram completamente controlados por esses mesmos monopólios. Dessa maneira, no final do século 19 praticamente toda a Ásia, África, Oceania e Oriente Médio estavam sob controle militar direto de alguma potencia colonial, principalmente França, Inglaterra e Japão. Por sua vez, na mesma época a América Latina inteira já se encontrava sob domínio econômico dos Estados Unidos, apesar de cada país manter formalmente sua independência política. Era o auge do imperialismo. O imperialismo e as guerras mundiais Mas a divisão do mundo entre as principais potências coloniais não resolveu o problema. Como se descobriu depois, a Terra, apesar de ser muito grande, também é finita. Dessa maneira, em poucos anos de dominação imperialista do mundo, os monopólios sentiram novamente a necessidade de expandir seu domínio. Mas como agora todos os territórios importantes já se encontravam controlados por algum país imperialista, não havia outra saída a não ser... tomar do vizinho. Assim, as grandes potências da Europa entraram, no final do século 19, numa corrida armamentista que levaria, em 1914, à Primeira Guerra Mundial. Poucos anos depois, em 1939, a humanidade mergulharia em um novo abismo sangrento: Alemanha e Japão resolveram tomar na marra a parte do bolo colonial que acreditavam lhe pertencer por direito. Era o início da 2ª Guerra Mundial. Imperialismo e socialismo Por ironia do destino ou capricho da história, o imperialismo acabou fornecendo a corda com que ele próprio haverá de se enforcar um dia. Ora, o que significa um mundo dominado pelos monopólios? Significa que a extração, produção e distribuição de todo o tipo de bens e serviços estão integradas em um único sistema logístico internacional; significa que os departamentos de estatística dos grandes conglomerados sabem exatamente o quanto cada região do mundo consome de tal ou qual produto e o quanto pode produzir e exportar; significa que cada inovação técnica se espalha imediatamente por todo o planeta, aumentando rapidamente a produtividade do trabalho, mesmo nos cantos mais remotos do globo; significa que as fronteiras culturais e econômicas entre os países foram de fato extintas. E o que são todos esses elementos, senão as bases materiais de uma economia socialista mundial? Para desgosto da burguesia, o imperialismo é a prova definitiva de que o “livre mercado” é uma ilusão infantil e que uma economia organizada mundialmente não só é possível, como também é muito mais eficiente e lógica do que um amontoado de economias nacionais isoladas. Será possível encontrar uma demonstração mais evidente das possibilidades do socialismo? Não há dúvida de que nossos carrascos prestaram, a seu modo, um grande serviço. Que joguem seu jogo por enquanto. Chegará a hora em que o proletariado do mundo inteiro segurará estes senhores pelo pescoço e dirá: “Obrigado, mas daqui em diante nós assumimos”. ANOTAÇÕES
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    O QUE ÉEXPLORAÇÃO? Henrique Canary, de São Paulo (SP) Dentro da estação de metrô Barra Funda, em São Paulo, há uma pequena casa lotérica. Ninguém nunca ganhou nada lá, mas ela está sempre cheia. O sucesso do empreendimento deve-se não à boa localização, mas ao nome: “Adeus, patrão!”. O sonho de se ver livre para sempre do trabalho imediatamente invade a cabeça dos que passam, e a vontade de fazer uma fezinha torna-se simplesmente irresistível. Vai que ganha... Logo depois da lotérica, passa-se pelas catracas, desce-se a escada rolante e entra-se no vagão lotado. De repente, o sonho desmorona. Percebe-se que os R$ 2 da aposta foram jogados fora. É fato consumado que a maioria esmagadora de nós está condenada a trabalhar a vida inteira. Ao final de nossa existência, teremos trabalhado de 8 a 12 horas por dia, 26 dias por mês, durante 35 a 40 anos. O trabalho, nosso meio de vida, terá sugado a própria vida. Quem, nessas condições, não quer dar um adeus definitivo ao patrão e torrar uma bolada? Mas por que todos sonham em ganhar na loteria e parar de trabalhar? É claro que o trabalho é duro, mas ele também cria maravilhas. Basta olhar ao redor. Quando trabalhamos, mesmo sem saber, somos parte de um todo único e indivisível chamado sociedade. O trabalho deveria despertar nossos traços mais humanos: a inteligência, a cooperação e a solidariedade. Por que isso não acontece? A resposta é evidente: porque na sociedade capitalista o trabalho não é a realização de nossas capacidades e talentos, mas um sofrimento a serviço do lucro. Lucro de outro, do patrão. O trabalho sob o capitalismo O capitalismo se carateriza por apresentar as relações entre patrão e empregado como se fossem livres e justas: o empregado não é obrigado a aceitar a proposta de emprego do patrão. E, mesmo que tenha aceito, pode abandonar o emprego a qualquer momento. O patrão, por sua vez, também não é obrigado a contratar o empregado. E, mesmo o tendo contratado, não precisa mantê-lo. Pagando algumas multas, pode demiti-lo a qualquer hora. O contrato de trabalho também parece bastante justo: oito horas de trabalho por dia em troca de um salário que garantirá o sustento do trabalhador e até o de sua família! Pode haver troca mais justa? Mais democrática? Começa o trabalho. As máquinas são ligadas, as engrenagens giram, as alavancas empurram. A laje é batida, o petróleo é refinado, o cós é costurado. Ao final do dia vê-se a magia do
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    trabalho: um andarnovo onde antes só havia armações de ferro, uma pilha de roupas onde antes só havia tecido, um carro onde antes só havia peças soltas, gasolina onde antes só havia óleo bruto. Criam-se assim novas riquezas que não existiam antes e que têm um valor determinado: R$ 25 mil se for um carro, R$ 25 se for uma blusa etc. Onde está a exploração? A ironia do sistema capitalista é que a exploração se dá exatamente através do fato mais aguardado pelo trabalhador: o pagamento do salário! O sistema salarial é o mecanismo fundamental da exploração capitalista. Se não houvesse salário, ou seja, se a retribuição ao operário pelos serviços prestados tivesse que se dar de outra forma, os capitalistas não conseguiriam explorar o trabalhador. Vejamos. A produção média da indústria automobilística, segundo os dados da própria patronal, está hoje em 2,25 carros por trabalhador por mês. Arredondemos para dois, apenas para facilitar as contas. Isso significa que, ao longo de um mês, cada trabalhador do setor produz em média dois carros. Supondo que o valor médio desses carros, para tomar apenas os mais baratos, seja de R$ 24 mil, cada trabalhador gera, ao longo de um mês, um total de R$ 48 mil em novas riquezas antes não existentes. Suponhamos também que o salário desse trabalhador seja de R$ 2 mil e que ele trabalhe, de fato, apenas 24 dias por mês, pois folga aos domingos e em alguns sábados. Dividindo-se os R$ 48 mil pelos 24 dias em que o trabalhador trabalha, temos exatos R$2 mil. Esse é, em média, o valor gerado por um trabalhador da indústria automobilística em um único dia de trabalho. Ou seja, o metalúrgico médio de uma montadora produz em um único dia o valor de seu próprio salário mensal. Mas o contrato “justo e democrático” estabelecido com o patrão diz que o trabalhador deverá trabalhar não apenas um dia, mas sim 24 dias inteiros. Somente depois disso receberá o seu salário. Isso significa que, em um mês, o trabalhador dedica-se um dia a pagar o seu salário e nos outros 23 dias trabalha absolutamente de graça, sem nenhuma contrapartida por parte do patrão. Ou seja, no sistema capitalista a exploração não está no fato de o salário ser alto ou baixo. Que bom seria se o problema fosse somente esse. É claro que o aumento do salário do trabalhador é um duro golpe no patrão e reduz a exploração, mas não a elimina por completo. Se o salário de nosso metalúrgico for dobrado para R$ 4 mil, ele então trabalhará dois dias para pagar o seu salário e 22 dias de graça para o patrão. Se for para R$ 6 mil, trabalhará três dias para pagar o seu salário e 21 dias de graça etc. Nenhum aumento salarial conseguirá eliminar a exploração. Sempre, independentemente do salário do trabalhador, haverá uma parte da jornada que ele trabalhará de graça. É claro que esse nível de exploração muda, dependendo do ramo da indústria e da profissão exercida. Algumas categorias são mais exploradas que outras, ou seja, trabalham mais tempo de graça para o patrão. Outras menos etc. Mas em toda e qualquer empresa em que os trabalhadores vendem a sua força de trabalho durante um certo tempo em troca de um salário, esse fenômeno se repetirá: trabalho gratuito para o patrão. Aí reside a “mágica” do capitalismo: que o trabalho do trabalhador gera muito mais riqueza do que ele recebe de volta na forma de salário. A diferença entre o que ele produz e o que recebe como salário chama-se mais-valia. É o trabalho não-pago pelo capitalista. O lucro: resultado da exploração Como se vê, exploração e lucro são coisas diferentes. O lucro apenas reflete a exploração, mas não é a própria exploração. O lucro do patrão pode ser maior ou menor em função das despesas da empresa, queda dos preços. Ou seja, é um problema de mercado. Já a exploração é mais profunda. Ela
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    acontece no próprioato da produção: o trabalhador, em apenas um dia, pagou o seu salário e, sem saber, continuou trabalhando mais 23 dias, crendo que ainda estava em dívida com o patrão. Quando os trabalhadores fazem greve por aumento salarial, os patrões mostram centenas de tabelas para provar que o aumento pedido é inviável, que a empresa vai falir etc. Essas tabelas são, em geral, mentirosas, não porque as empresas não tenham despesas. Elas têm. São mentirosas porque o aumento pedido pelos trabalhadores nunca chega a afetar os compromissos assumidos pelas empresas junto a fornecedores e bancos. Os aumentos pedidos pelos trabalhadores são, em geral, bastante modestos e só afetam o lucro da empresa, ou seja, aquele dinheiro que vai limpinho para o bolso do patrão, já descontadas as despesas. Mas, como o patrão não tem a menor intenção de se desfazer desse lucro, ele tenta apresentar sua tragédia (diminuição do lucro) como se fosse a tragédia da empresa, mas são coisas bem diferentes. Mas há uma gota de verdade nos rios de lágrimas chorados pelos patrões. E é a seguinte: de fato, as empresas não suportam um aumento significativo dos salários porque todo o sistema capitalista está baseado no trabalho gratuito dos trabalhadores. Se os trabalhadores tiverem um aumento salarial além de um determinado nível, todo o sistema vai desmoronar porque não é só o dono da fábrica que suga o sangue do operário. Também o banqueiro, o fornecedor de matéria-prima, o governo e os acionistas vivem do trabalho gratuito realizado pelo operário da fábrica. Quando o patrão fala em “pagar as despesas” ele quer dizer: “entregar a outros capitalistas uma parte do trabalho gratuito que você realiza aqui dentro de minha fábrica”. O problema é o próprio capitalismo Assim, vivemos em uma sociedade que vive do trabalho gratuito de uma parte da população. Essa imensa maioria, que trabalha a maior parte do tempo de graça sem saber, achando que está sendo paga, sustenta o luxo de uma ínfima minoria. Essa pequena minoria se mantém como uma classe privilegiada apenas porque é proprietária das fábricas, empreiteiras, refinarias, bancos etc. Mas como eles se tornaram proprietários? Essa é uma pergunta que nem mesmo eles saberão responder. Falarão de alguma herança, de seu “espírito empreendedor”, se enrolarão, gaguejarão, mas não conseguirão explicar a verdadeira origem de sua riqueza. E por quê? Porque sabem que sua riqueza tem origem no trabalho gratuito dos outros. E seria muito vergonhoso admitir perante toda a sociedade: “sou rico porque exploro o trabalho dos outros, porque outros trabalham de graça para mim”. Ninguém quer aparecer como sanguessuga e parasita. Não combina com a alta sociedade. O capitalismo é, portanto, um sistema que carrega no seu próprio funcionamento a lógica da exploração. Por isso, sob o capitalismo, é impossível erradicar esse mal. O desafio de nossa classe é a destruição desse sistema e sua substituição por outro: um sistema fundado no princípio de que cada um retira da sociedade uma quantidade de riqueza proporcional ao seu trabalho. O princípio: para cada um, segundo o seu trabalho e não segundo suas posses. Em outras palavras, um sistema socialista, onde os trabalhadores sejam senhores de seu próprio trabalho e possam dizer em alto e bom som e em uma única voz: adeus, patrão! Até nunca mais! O papel dos sindicatos Os sindicatos são as organizações criadas pela classe trabalhadora para lutar por melhor remuneração e condições de trabalho dentro do sistema salarial. Por isso, apenas com a luta corporativa, os sindicatos são incapazes de acabar com a exploração. Para isso, precisariam se voltar contra o próprio
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    sistema salarial, ouseja, contra o capitalismo. Enquanto não fazem isso, sua luta é apenas para reduzir a exploração, ou seja, uma luta dentro do sistema. Essa batalha é fundamental, afinal, faz muita diferença trabalhar 36 ou 44 horas por semana, ganhar R$ 1 mil ou R$ 2 mil por mês. Mas é importante que todo ativista e lutador social entenda essa limitação dos sindicatos, que, pelo menos hoje, não estão voltados para uma luta contra o próprio sistema, ainda que sejam muito combativos e suas direções estejam de verdade ao lado dos trabalhadores. De qualquer forma, os sindicatos têm um enorme papel. Todo sindicato, por exemplo, deveria fornecer aos trabalhadores informações claras que permitissem calcular com precisão a taxa de exploração de determinada categoria, a quantidade de tempo que se trabalha de graça nesta ou naquela empresa. Isso pode ser feito em qualquer ramo: na construção civil, estabelecendo-se o valor médio do metro quadrado construído, o salário e a produtividade média de cada operário; no sistema bancário, determinando-se o volume de taxas bancárias e juros recolhidos pelos bancos em contraposição ao salário médio do bancário etc. É fundamental que os trabalhadores cobrem essas informações de seus sindicatos. A consciência de que os trabalhadores trabalham uma parte da jornada de graça é o primeiro passo para uma consciência verdadeiramente classista, socialista e revolucionária. O QUE É BURGUESIA? Henrique Canary, de São Paulo (SP) Há três ou quatro edições atrás, a revista Veja estampava em sua capa: “O milionário mora ao lado: seis brasileiros de classe média se tornam milionários a cada hora”. A manchete vinha acompanhada de um subtítulo: “onze mulheres e homens que enriqueceram dão a receita de como aproveitar a maré alta da economia”. O fantástico mundo de Veja Essa é de doer. Se as contas de Veja estiverem certas, a “maré alta” da economia brasileira vai transformar, em alguns anos, toda a classe média em milionários e toda a população pobre em classe média, acabando assim com a miséria no país. Mas Veja “esquece” alguns detalhes. Por exemplo, que apenas em São Paulo, o número de moradores de rua subiu 56% de 2000 a 2009, ou seja, praticamente no mesmo período em que “nunca antes na história desse país”, segundo Lula, os empresários ganharam tanto dinheiro. Assim, nada mais falso do que a ideia de um Brasil que marcha firmemente rumo ao primeiro mundo. Sim, marchamos firmemente, mas é para o topo da lista dos países com maior desigualdade social do planeta, onde já ocupamos a 10ª posição. A manchete de Veja tem uma única utilidade: nos faz refletir sobre uma questão aparentemente simples, mas na prática bastante complexa: a definição de burguesia.
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    O que éa burguesia? A burguesia é a classe social que detém a propriedade privada dos meios de produção, ou seja, que é dona das fábricas, terras, bancos etc., isto é, de tudo que é necessário para produzir a riqueza social. Mas essa definição só pode ser entendida a fundo se entendermos também o conceito oposto: o de proletariado. O proletariado é a classe de trabalhadores assalariados que não possuem propriedade privada e por isso são obrigados a vender sua força de trabalho para sobreviver. Assim, a sociedade está dividida em duas grandes classes sociais: a burguesia e o proletariado. Há muitos outros grupos sociais, mas esses dois são os principais. É bom esclarecer que propriedade privada é diferente de propriedade pessoal. Propriedade privada é aquela que permite ao seu possuidor obter vantagens, lucro, renda e o mais importante: explorar a força de trabalho alheia. Assim, se possuo um carro e o utilizo para ir ao trabalho, ele é minha propriedade pessoal. Mas se ao invés de utilizá-lo, eu o alugo a um taxista, obtendo assim uma renda, nesse caso, trata-se de propriedade privada. Portanto, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, “ser burguês” e “ter dinheiro” não são exatamente a mesma coisa. Se sou auxiliar de produção, provavelmente não tenho dinheiro para comprar um carro 0km, mas talvez meu colega ferramenteiro tenha porque seu salário é bem maior que o meu. Isso não faz dele um burguês, uma vez que ele comprou o carro com seu salário, ou seja, através de seu próprio trabalho. Desta forma, o que define a burguesia não é “ter dinheiro”, mas sim o fato dela viver do trabalho alheio: por possuir propriedade privada, a burguesia explora o trabalho dos outros. O trabalho dos outros é seu meio de vida, sua fonte de riquezas. Essa é sua primeira característica. Uma classe-parasita cada vez mais inútil A segunda característica da burguesia é que ela, ao contrário do que tentam nos convencer, é uma classe-parasita, que não trabalha, que não realiza nenhuma atividade produtiva, que não contribui em nada para o aumento da riqueza social. Vejamos. Quem é o dono da GM? Da Embraer? Da Vale? Podemos conhecer no máximo o presidente destas empresas. Em alguns casos, sabemos quem é o acionista majoritário. Mas quem são os outros donos? Não os conhecemos porque essas empresas são sociedades anônimas, cujas ações trocam constantemente de mãos nas mega-operações das bolsas de valores, criando um emaranhado de ligações praticamente impossível de ser entendido. Encontramos assim os verdadeiros donos das empresas: os acionistas. Mas esses acionistas nunca possuem ações de uma única empresa. Sempre são acionistas de dezenas, às vezes centenas de empresas. Nem mesmo sabem que empresas são, onde ficam e o que produzem. Isso não lhes interessa. O que lhes interessa é a renda proveniente da compra e venda de ações. Seu local de “trabalho” é a bolsa de valores. Sua única atividade é a especulação. Por isso dizemos que a burguesia é uma classe- parasita, que quebra, fecha ou desmonta suas próprias empresas se isso lhe garantir um rendimento maior numa determinada operação na bolsa. O olho do dono engorda o gado?
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    Esqueça a velhaimagem do industrial dedicado que observa atentamente o trabalho dos operários desde seu escritório no andar superior da fábrica. Esse burguês que é ao mesmo tempo dono e gerente de sua própria empresa é uma figura cada vez mais rara. Ele há muito tempo cedeu suas funções aos administradores, engenheiros e técnicos, que tocam os negócios muito bem sem ele. O “olho do dono” não engorda mais ninguém, pois só enxerga agora os balancetes trimestrais... Assim, cada vez mais recai sobre os ombros dos trabalhadores não apenas o desgaste do trabalho físico, mas também a responsabilidade pelo planejamento de todo o processo produtivo. Isso se dá tanto dentro da fábrica, com as células de produção e equipes de trabalho, quanto nos escritórios de contabilidade e logística. Não há função produtiva, organizativa ou comercial que não seja exercida por trabalhadores assalariados. Esse simples fato joga por terra toda a lenda de que os trabalhadores não podem se auto-governar, de que sem o burguês a economia desmoronaria e o caos se instalaria na sociedade. Os trabalhadores já conduzem a produção. Mas o fazem de maneira isolada, inconsciente, sob as ordens de mercenários sem escrúpulos a mando da burguesia: os diretores, gerentes e chefes. “Trabalho duro” de burguês? Mas a sobrevivência da burguesia como classe-parasita estaria ameaçada se sua completa inutilidade fosse evidente para todos. Por isso a burguesia tenta dar à sua atividade uma aparência de “trabalho”. Desta forma, é comum vermos grandes burgueses “trabalhando duramente” em seus escritórios, se envolvendo na administração das fábricas, chegando tarde em casa, estressados por causa do “trabalho” etc. Olhando assim, parecem verdadeiros trabalhadores! Na verdade, qualquer que seja a função exercida por um burguês, tudo o que ele faz pode ser feito (e muito melhor!) por um trabalhador técnico qualificado. Além disso, a renda de um burguês nunca provém da atividade que ele exerce na fábrica. Sua renda sempre provém do simples fato de ele ser proprietário de uma certa quantidade de ações. Ele vive não do salário, mas do lucro. Seu único “trabalho” é garantir que se explore ao máximo o trabalho dos outros. A única classe que vive de seu próprio trabalho é o proletariado. A pequena e a grande propriedade Tudo o que dissemos até aqui vale para a grande propriedade, mas não para a pequena. Ser um grande acionista ou latifundiário é diferente de ser dono de um sítio, um taxi ou uma pequena padaria. Enquanto o grande proprietário vive do trabalho alheio e apenas finge que trabalha, o pequeno proprietário, ou “pequeno- burguês”, é obrigado a trabalhar de verdade para manter seu pequeno negócio. O pequeno-burguês muitas vezes também explora o trabalho de um ou mais trabalhadores, mas o tamanho reduzido de sua propriedade, a instabilidade de sua situação econômica e a luta permanente contra a concorrência por parte do grande capital não lhe permitem parar de trabalhar. Assim, ao contrário da grande burguesia, a pequena-burguesia é uma classe produtiva, ou seja, que contribui com o aumento da riqueza social. Teu dia está prestes, burguês!
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    O poeta russoVladimir Maiakovsky escreveu certa vez: “Come ananás, mastiga perdiz; Teu dia está prestes, burguês!” E o poeta brasileiro Mario de Andrade não deixou por menos: “Eu insulto o burguês! O burguês-níquel, o burguês-burguês! A digestão bem- feita de São Paulo!” Reconhecer imediatamente a burguesia e seus representantes; confiar única e exclusivamente em suas próprias forças; nas eleições, votar somente nos representantes legítimos dos trabalhadores; nutrir um verdadeiro ódio de classe contra toda opressão, exploração e injustiça: essas são as tarefas fundamentais de todo ativista ou dirigente do movimento operário, sindical e popular. Se o milionário mora ao lado, está mais do que na hora de acertar as contas com esse vizinho folgado. Os governos burgueses A burguesia não é apenas a classe economicamente dominante. Ela é também a classe politicamente dominante. Sem a ajuda das instituições do Estado (congresso, justiça, Exército, polícia, escolas) ela não poderia manter-se como classe-parasita. Assim, a burguesia forma para si um exército de especialistas em administração pública. São os políticos burgueses. Para se elegerem, os políticos burgueses precisam do apoio político e financeiro da burguesia, mas também do voto popular. Por isso, os governos burgueses sempre adotam algumas medidas benéficas à população: constroem hospitais e escolas, criam programas sociais e de incentivo à renda etc. O que nunca um governo burguês vai fazer é dar aos trabalhadores mais do que dá à burguesia. Um governo burguês pode desapropriar uma fazenda ou nacionalizar um banco falido. Mas ele jamais vai governar contra toda a burguesia, por exemplo, expropriando todos os latifúndios do país ou nacionalizando todo o sistema financeiro. Um governo burguês pode ter uma política relativamente independente do imperialismo, incentivando, por exemplo, que a burguesia nacional expanda seus negócios no mundo e conquiste posições. O que ele nunca vai fazer é tornar o país verdadeiramente soberano, por exemplo, proibindo a remessa de lucros ao exterior ou deixando de pagar a dívida externa. Assim, o caráter de classe de um governo é definido por suas ações práticas e não por suas palavras ou pela origem social do governante. Segundo esse critério, apesar de sua origem operária, o governo Lula é um governo burguês, ainda que seja um governo burguês diferente, “anormal” porque nele a burguesia não governa diretamente, mas através das lideranças da classe trabalhadora: o próprio Lula, o PT e a CUT. A acirrada disputa eleitoral entre PT e PSDB não deve nos confundir. Uma vez eleitos, tanto Dilma, quanto Serra, estarão a serviço do mesmo senhor: a burguesia nacional e internacional. Se alguém ainda duvidava disso, o recente veto de Lula ao fim do fator previdenciário simplesmente encerrou a questão, mostrando a incrível semelhança entre os governos do PT e PSDB. Burgueses e proletários: a história das palavras A burguesia é uma classe muito antiga. Nasceu por volta do século 12 na Europa medieval. Num continente coberto por enormes propriedades rurais, destacavam-se pequenas vilas comerciais, conhecidas como “burgos”. Seus habitantes eram os “burgueses”. Assim, a burguesia surgiu como uma classe de comerciantes pobres, que havia deixado o campo e se instalado
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    nas cidades paraviver do comércio. Somente mais tarde esses burgueses se ligaram à manufatura, ao comércio internacional e finalmente à indústria, dando origem à atual burguesia. Já a nossa classe, o proletariado, é muito mais jovem. Surgiu por volta do século 16, também na Europa. “Proletário” quer dizer em latim “aquele que tem prole”, ou seja, filhos. Esse nome foi dado porque os camponeses que abandonavam o campo e se deslocavam para as cidades medievais nessa época não possuíam absolutamente nada. Sua única “propriedade” eram seus filhos. Sem qualquer posse, “aqueles que tinham filhos” eram obrigados a vender sua força de trabalho nas oficinas de manufatura. Mais tarde, no século 18, graças ao surgimento da grande indústria, o proletariado cresceu e se transformou, dando origem ao moderno proletariado industrial. ANOTAÇÕES
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    O QUE ÉDEMOCRACIA? Henrique Canary, de São Paulo (SP) Tiririca passou no teste do TRE. A novela parece ter chegado ao fim. Pelo menos por enquanto. Afinal, Francisco Everardo Oliveira Silva tem ainda quatro anos de mandato pela frente. O tempo vai dizer se eleger um palhaço como deputado federal é uma boa forma de protesto ou se, ao contrário, Tiririca será mais um a votar contra os trabalhadores na Câmara. De qualquer forma, o caso todo parece uma grande piada: o mesmo sistema eleitoral que permitiu que os votos dados a Tiririca acabassem elegendo outros três deputados, tentou impedir a diplomação do comediante em base ao argumento de que ele seria analfabeto. Não temos nenhuma simpatia por Tiririca, cujas músicas estão cheias de preconceitos machistas e racistas, mas é evidente que o questionamento de sua alfabetização é uma enorme hipocrisia, uma tentativa de dar alguma credibilidade ao sistema eleitoral. Não deu certo. Para os trabalhadores, o fundamental agora é entender: que sistema é esse que se desmoraliza por completo em cada eleição e mesmo assim continua de pé? Por que, apesar da população odiar os políticos e haver novas eleições a cada quatro anos, são sempre os mesmos que mandam? Em resumo, qual o segredo ou mistério da democracia? Estado e regime Para definir o que é democracia, precisamos antes entender dois outros conceitos: Estado e regime. O Estado é o conjunto de instituições públicas de um país: tribunais, Exército, polícia, ministérios, Receita Federal, Congresso etc. O Estado é a maior força militar, política e econômica da sociedade. Quem já foi abordado pela polícia, paga imposto de renda ou já teve que se explicar diante de um juiz, sabe bem do que estamos falando. As instituições do Estado estão por toda parte. Mas qualquer mecânico sabe que um monte de peças jogadas dentro de um capô não faz um carro andar. É preciso que elas funcionem e que estejam corretamente conectadas entre si. A explosão na câmara de combustão do motor não serve de nada se não há um sistema de pistões, manivelas e engrenagens, capaz de transmitir a energia produzida às rodas. Com o Estado ocorre o mesmo. Assim como as partes de um motor, as instituições do Estado precisam se conectar de alguma maneira. Qual instituição do Estado é a principal num determinado momento? Qual delas manda? E qual obedece? A resposta a essas perguntas permite definir o regime político de um país. Se, por exemplo, o Exército e a polícia forem as instituições dominantes, estaremos diante de uma ditadura militar. Se, ao contrário, o Congresso e a presidência, eleitos pelo voto popular, cumprirem o papel principal, teremos uma democracia. O regime é, portanto, a forma de funcionamento do Estado, a maneira como as instituições do Estado se conectam entre si para fazer esse Estado funcionar.
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    A função doEstado é manter a ordem social existente, ou seja, proteger a propriedade burguesa e garantir a exploração da classe trabalhadora pelos patrões. Se para isso for necessário uma ditadura, virá uma ditadura. Se for possível explorar através de uma democracia, teremos uma democracia. Ou seja, o regime pode ser democrático ou ditatorial, mas o Estado continua servindo à burguesia. Por isso, ao falarmos de Estado, é preciso agregar a que classe social ele serve, que tipo de “ordem” ele mantém, que propriedade defende. Se for um Estado a serviço do capitalismo, diremos “Estado burguês”. Se for um Estado controlado pelos trabalhadores, diremos “Estado operário”. O mesmo vale para o regime. Se vivemos em um Estado burguês, então teremos uma democracia burguesa ou um regime democrático-burguês. As características da democracia A primeira característica da democracia burguesa é a existência de liberdades individuais e coletivas: liberdade de organização, de manifestação, de expressão, de reunião etc. Essa é uma conquista extremamente importante, arrancada com muita luta ainda na adolescência do capitalismo, no final do século 18. A defesa dessas liberdades democráticas é um princípio dos revolucionários porque elas são fundamentais para a educação política dos trabalhadores. Durante a ditadura militar no Brasil, por exemplo, as manifestações foram proibidas; os partidos de esquerda, perseguidos; a arte, censurada. A classe trabalhadora ficou quase vinte anos sem lutar. Somente com as greves operárias no final dos anos 1970, essas liberdades foram restabelecidas e os trabalhadores puderam reconstruir suas organizações e voltar à cena política do país. A segunda característica da democracia burguesa é a igualdade jurídica. Segundo esse princípio, todos são iguais perante a lei, têm os mesmos direitos e obrigações: prestam o serviço militar, pagam impostos, fazem a prova do ENEM, param no sinal vermelho etc. As mentiras da democracia Aqui nos deparamos com a primeira mentira da democracia burguesa. Se prestarmos atenção, veremos que as liberdades democráticas e a igualdade jurídica só existem pela metade, ou somente para alguns, e por isso são uma farsa. O direito de greve existe, mas centenas de greves são declaradas ilegais pela justiça todo ano. O direito de manifestação existe, mas os sem-teto são imediatamente reprimidos pela polícia quando resolvem fechar uma rua para protestar. O direito de se organizar em partidos existe, mas os partidos que não tem representação parlamentar não são chamados aos debates, como se simplesmente não existissem. Todos os partidos têm acesso à TV, mas os partidos pequenos têm 30 segundos, enquanto a coligação que elegeu Dilma tinha mais de 10 minutos. Todos são iguais perante a lei, mas o caveirão não entra atirando no Leblon e quando o banqueiro Daniel Dantas foi preso, houve um escândalo nacional porque o coitadinho foi algemado. Os filhos da burguesia prestam o ENEM como todo mundo, mas antes disso estudam nas melhores escolas particulares e fazem os melhores cursinhos. Todos pagam a mesma alíquota de ICMS, mas uma família pobre gasta mais da metade de sua renda no supermercado, enquanto para os ricos o item comida não representa quase nada no orçamento doméstico. Todos têm o direito de ir e vir, mas os usuários dos trens urbanos no Rio de Janeiro levam chicotadas dos seguranças da SuperVia.
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    Podemos encontrar milharesde exemplos. Em todos eles, veremos que as liberdades garantidas em uma lei, são limitadas ou anuladas em outra, e que a igualdade jurídica é uma ficção. A força da democracia Apesar de todas as mentiras, a democracia burguesa tem se demonstrado uma máquina bastante eficiente e difícil de ser desmascarada. Em que reside, então, a força do regime democrático-burguês, seu poder de iludir? Com essa pergunta chegamos ao coração do sistema, à verdadeira câmara de combustão da democracia burguesa, que fornece energia a todas as outras partes do mecanismo: o voto. A principal característica da democracia burguesa é a eleição dos governantes através do voto universal. Voto universal significa que todos têm direito a votar, sem distinção de raça, sexo ou classe social. Dito assim, parece pouco importante, mas não é. O voto universal foi uma grande conquista, também arrancada com muita luta. No Brasil, até o final do século 19, só podiam votar aqueles que fossem ao mesmo tempo: homens, brancos e proprietários. Mais tarde, o direito ao voto foi estendido aos pobres, mulheres e analfabetos. No Brasil República, os negros nunca foram oficialmente proibidos de votar. No entanto, como a maioria dos ex-escravos era analfabeta, a população negra acabava de fato excluída das eleições. Com relação às mulheres, se considerava que elas já estavam representadas por seus maridos e por isso não precisavam votar. O voto universal foi uma conquista tão importante, que acabou se tornando o principal critério para se avaliar o nível de liberdade de uma sociedade. Se estabeleceu que: “Voto universal = país livre e democrático”. “Ausência de voto universal = ditadura”. Todos os outros direitos, como emprego, saúde, educação etc., foram sendo lentamente eliminados da consciência da população. Não é segredo para ninguém, por exemplo, que Dilma prepara uma nova reforma da Previdência, que vai acabar na prática com um direito fundamental dos trabalhadores: a aposentadoria. Quantas vozes se levantaram contra isso até agora? Muito poucas. A CUT, por exemplo, maior central sindical do país, permanece calada. Imaginemos agora que Dilma pretendesse acabar com o voto universal. Seria um escândalo internacional. De Washington, Obama protestaria. A ONU emitiria um comunicado. Até o palhaço Tiririca seria contra. Mas como se trata “apenas” do direito à aposentadoria... para quê tanto barulho? Assim, a liberdade humana foi reduzida ao direito de, uma vez a cada quatro anos, apertar um botão. O enigma do voto Mas como o voto se tornou tão importante e por que dizemos que ele é a fonte de todas as ilusões da democracia burguesa? Pelo simples fato de que ele “iguala” coisas que são completamente diferentes e não podem ser igualadas. Na vida real, patrões e empregados têm interesses opostos. Mas no dia da eleição o voto do trabalhador vale tanto quanto o voto do empresário. Esse fato é martelado na cabeça do povo, como se fosse a prova definitiva de que todos são iguais, de que a sociedade é realmente livre e igualitária.
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    Não é poracaso que a TV, o governo e os jornais se refiram às eleições como “a festa da democracia”. De fato, esse é momento mais importante do regime democrático-burguês. Não importa que durante os próximos 4 anos os trabalhadores terão que enfrentar o governo como seu inimigo. Não importa que se mentiu durante a campanha. Não importa que a TV só tenha mostrado dois ou três candidatos. O que importa é que todos puderam votar! Se votaram errado, paciência... Assim, ao longo dos quatro anos que separam uma eleição da outra, o eleitor é programado para chegar diante da maquininha e fazer exatamente aquilo que se espera dele: votar. “Não desperdice seu voto!”, “Vote!”, diz a campanha do TRE. As armas do sistema Mas se os trabalhadores são a maioria da população e a burguesia é a minoria, por que a burguesia sempre ganha? Por que os trabalhadores não usam o voto universal a seu favor? É nesse momento que entra em cena o outro ator do “espetáculo da democracia”: o poder econômico. As gigantescas doações feitas por mega-empresários, combinadas com grandes coligações de até 10 partidos, para ocupar tempo de TV, criam verdadeiras super-candidaturas, que têm à sua disposição programas hollywoodianos, jatinhos particulares, marqueteiros internacionais, milhares de cabos eleitorais e muitas outras armas. Os candidatos operários ou de esquerda simplesmente desaparecem, esmagados pelo peso de milhões de reais. Nessas condições, não é de se admirar que os trabalhadores acabem votando em seus próprios carrascos. Depois das eleições, os empresários enviam a fatura: uma licitação facilitada aqui, uma licença ambiental ali, um empréstimo do BNDES acolá. E assim a máquina gira até as próximas eleições, quando começa tudo de novo. Como se vê, toda a democracia burguesa é um grande mentira, mas muito bem contada. A superação da democracia Apesar de sua força, a democracia burguesa está longe de ser invencível. Como todo mecanismo, ela também se desgasta e nem sempre a troca de peças resolve o problema. Todo motor funde quando menos se espera. A revolução socialista, ao destruir o Estado burguês e suas instituições, eliminará também a democracia burguesa, substituindo-a pela democracia operária, muito mais ampla e verdadeira do que a farsa a que estamos submetidos. O Estado operário será controlado pela maioria explorada e oprimida e a democracia operária se revelará como o regime das maiores liberdades democráticas que o mundo já conheceu. O socialismo, ao eliminar a exploração do homem pelo homem, assentará as bases para a dissolução lenta e gradual do próprio Estado operário, seu poder e suas instituições, ou seja, para a superação da democracia e a conquista da verdadeira liberdade humana: o comunismo. ANOTAÇÕES
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    O QUE FRENTEPOPULAR? Henrique Canary, de São Paulo (SP) Frente Popular não é o nome de uma coligação. É um conceito político. Chamamos de Frente Popular a todos os governos encabeçados pelos partidos da classe trabalhadora em unidade com a burguesia. Trata-se de uma situação incomum, já que normalmente a burguesia governa apoiada em seus próprios partidos. Em situações normais, as lideranças traidoras da classe trabalhadora ficam fora do governo, prestando seus serviços ao capital na qualidade de “oposição responsável”. Apenas em situações excepcionais a burguesia incorpora essas lideranças no governo. E somente em situações mais excepcionais ainda essas lideranças traidoras exercem o papel principal, dominam o governo. Quando isso acontece, estamos diante de uma Frente Popular. O predomínio dos líderes operários no Executivo não muda o caráter de classe do governo, que continua sendo burguês, uma vez que sua função será garantir a dominação da burguesia no conjunto da sociedade. Além disso, a burguesia mantém intactas
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    suas posições nasprincipais instituições do Estado: polícia, Exército, justiça etc. A Frente Popular é, portanto, um governo burguês bastante diferente, mas ainda assim, burguês. Um governo fruto de uma crise As Frentes Populares surgem quando a burguesia se vê fragilizada e não encontra forças para implementar ela mesma os ataques necessários ao bom funcionamento do capitalismo. Essa fragilidade leva à derrota do candidato preferencial do grande capital e o partido operário vence as eleições, em geral apoiado por uma ala minoritária da burguesia. A maior parte da burguesia passa para a oposição ao governo e apenas um setor participa diretamente nos ministérios e gabinetes. Para entender esse esquema, basta olhar nossa história recente. Desde o final dos anos 1990, o projeto neoliberal de FHC se desmoralizou enormemente perante as massas, que resolveram dar um voto de confiança no PT e em Lula. Por outro lado, sentindo a aproximação de uma forte crise, um setor da burguesia também resolveu dar um voto de confiança em Lula, mas com o objetivo oposto: manter a exploração capitalista e evitar a explosão de uma crise revolucionária. Em linguagem popular, “entregaram os anéis para não perder os dedos”. Devemos admitir que foi uma sábia decisão e que Lula não os decepcionou. Além do governo Lula, os governos de Evo Morales na Bolívia, Fernando Lugo no Paraguai, Rafael Correa no Equador, Daniel Ortega na Nicarágua, Salvador Allende no Chile da década de 1970, François Mitterrand na França dos anos 1980 e vários outros se enquadram nesta classificação. Um governo de máxima confusão Essa situação incomum, em que um líder operário comanda um governo burguês, cria uma enorme confusão na cabeça das pessoas, inclusive da burguesia. O trabalhador consciente, que antes odiava o governo, passa a ver a Frente Popular como aliada, como “seu” governo. E mesmo quando ela o ataca, ainda assim, na cabeça desse trabalhador, será sempre “um mal menor”, se comparado com o antigo governo burguês. “É um governo sacana, mas é nosso governo”, costumam dizer os trabalhadores. De outro lado, um setor da burguesia trata o governo como inimigo, ainda que ele faça tudo aquilo que ela própria faria caso estivesse no comando do país. “É um bom governo, mas é deles”, pensa o burguês, enquanto veleja em seu iate. Um “mal menor”? Todos os governos de Frente Popular têm como objetivo desmoralizar e desmobilizar os trabalhadores. Utilizam-se de seu prestígio junto às massas para implementar os “ajustes” e ataques encomendados pelo imperialismo. Para isso, acabam com a auto-confiança da classe operária, paralisam sua vontade, educam-na no espírito de que a luta não leva a nada, corrompem as lideranças combativas, jogam uma categoria profissional contra a outra e a classe média contra todos. Por isso dizemos que os governos de Frente Popular não são “um mal menor”. Ao contrário, são, no fundo, ainda mais nocivos do que os governos burgueses normais. Explicar pacientemente... Todo esse jogo de espelhos cria uma situação muito difícil para o partido revolucionário, que em sua atuação deve levar em conta dois fatores fundamentais: por um lado, o caráter burguês do governo; por outro, as enormes ilusões das massas. Se só levar em conta o caráter burguês do governo, cairá no isolamento político porque não conseguirá dialogar com os trabalhadores. Se só levar em conta as ilusões das massas, deixará de lutar contra um governo que é, no fundo, inimigo da classe operária.
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    Lenin, líder daRevolução Russa de 1917, foi o primeiro a formular uma política revolucionária perante a Frente Popular: “explicar pacientemente, todos os dias, o caráter burguês e contra-revolucionário deste governo”. Esse “explicar pacientemente” não pode ser entendido como mera propaganda. Ao contrário, significa participar e impulsionar cada luta geral ou específica para desmascarar na prática o governo e sua política. Em resumo, nenhum apoio crítico ou parcial; oposição intransigente; diferenciação clara com relação aos partidos traidores que estão no governo! Ao mesmo tempo, combate à velha direita! O sentido da política é acelerar a experiência das massas com a Frente Popular até a ruptura definitiva, até que seja possível sua derrubada revolucionária pela classe trabalhadora consciente. Olhar para o futuro com confiança Lula termina o seu mandato com mais de 80% de aprovação popular. Certamente, não foram poucos os votos que o PSTU deixou de ganhar nessas eleições por criticá-lo. Aliás, somos os únicos a fazê-lo. Infelizmente, até o PSOL preferiu centrar seu programa eleitoral na crítica ao “modelo” e a “tudo o que está aí”, sem dizer claramente se esse “tudo o que está aí” inclui o governo Lula ou não. De nossa parte, seguiremos o mesmo curso que nos trouxe até aqui. Nosso objetivo não é disseminar confusões para ganhar nas urnas de hoje, mas plantar sementes que serão colhidas nas barricadas de amanhã. ANOTAÇÕES O QUE É CLASSISMO? Henrique Canary, de São Paulo (SP) E m recente entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Lula declarou: “Essa mistura de um sindicalista com um grande empresário e um documento que fosse factível e compreensível pela esquerda e pela direita, pelos ricos e pelos pobres, é que garantiu a minha chegada à Presidência”. Essa declaração demonstra até que ponto o presidente se afastou dos princípios que deram origem ao PT e à CUT e o lançaram no centro da cena política no início dos anos 80. Lula é fruto de uma ideia que ele mesmo renega: a de que operários e patrões são classes sociais inimigas. Por isso, os trabalhadores, em suas lutas, devem trilhar um caminho próprio, ter sua própria política e suas próprias organizações. A essa ideia
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    de independência dostrabalhadores em relação à burguesia chamamos classismo. O classismo foi a inspiração do movimento de massas nos anos 1980. Foi em nome dessa ideia que Lula, na época, rejeitou a proposta de Fernando Henrique Cardoso de formar, por fora do MDB, um novo partido democrático que unisse trabalhadores e patrões. Pressionado pela força do ascenso operário, Lula aderiu à ideia de construir um partido só de trabalhadores. Nascia o PT, que combatia a ditadura e ao mesmo tempo não aceitava em seu interior patrões e empresários. Os trabalhadores haviam derrotado a ditadura através da ação direta e se sentiam fortes para se organizar e lutar de maneira independente, sem concessões ou acordos políticos com a burguesia e o governo. O 3º Congresso da CUT, realizado em 1988, proclamava: “A CUT entende que não pode haver pacto entre desiguais, e que nesse tipo de pacto os trabalhadores só têm a perder. Por isso, a CUT se manifesta firmemente contra qualquer tentativa de acordo ou pacto que tenha por objetivo retirar conquistas ou restringir a liberdade que a classe trabalhadora deve ter para avançar nas suas conquistas”. O abandono do classismo nos anos 1990 As fortes lutas dos anos 1980 levaram o PT a inúmeras prefeituras e mais tarde ao governo de alguns estados. Começou aí um processo de adaptação à ordem burguesa. O classismo foi sendo abandonado. Os métodos e princípios do antigo movimento deram lugar a uma única estratégia: a eleição de Lula à Presidência da República. É nesse período que surgem, por iniciativa da direção da CUT, as câmaras setoriais: mesas permanentes de negociação, onde os gerentes das multinacionais sentam-se com os dirigentes sindicais para estabelecer, de comum acordo, metas de produção e venda e negociar o número de demitidos a cada crise. É aí também que o PT abandona o perfil classista para se tornar cada vez mais um partido da colaboração entre as classes. O “Vote no 3 que o resto é burguês!” do início dos anos 1980 virou “O PT que diz SIM” da campanha de 1996 à Prefeitura de São Paulo. Lula e o PT no poder O PT venceu as eleições em 2002 aliado ao PP, legenda de aluguel da alta burguesia industrial. No governo, Lula cumpriu a fundo a principal promessa feita na Carta ao Povo Brasileiro: governar com e para a burguesia. Colocou o banqueiro Henrique Meirelles no Banco Central, o latifundiário Roberto Rodrigues no Ministério da Agricultura, o empresário Fernando Furlan no Ministério da Indústria e Comércio e um longo etc. Apesar de algumas mudanças ao longo desses oito anos, a política ministerial de Lula permaneceu a mesma: os ministérios são ocupados por figuras de peso do empresariado nacional. O resultado: Lula manteve os compromissos com o FMI e grandes credores internacionais, aplicou uma política de juros que beneficia o capital financeiro, assentou menos famílias do que FHC, manteve no Haiti uma ocupação militar cujo verdadeiro objetivo é impedir uma revolta do povo contra a exploração das multinacionais ali instaladas, introduziu modificações no sistema previdenciário que dificultam ainda mais a aposentadoria, acabou com a independência da CUT, manteve o MST paralisado, minou a confiança dos trabalhadores em suas próprias forças e comprou com o Bolsa Família a consciência de uma parte da população que vivia uma situação de miséria biológica. Isso tudo aconteceu porque Lula decidiu governar com empresários e patrões. As ações do governo sempre tiveram
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    como objetivo fundamentalpreservar “essa mistura de um sindicalista com um grande empresário”. O preço dessa mescla é que os trabalhadores sustentaram por oito anos a farra dos banqueiros, das empreiteiras, do agronegócio e das multinacionais. Como a colaboração de classes se torna uma ideologia dominante Mas por que os trabalhadores que votaram em Lula aceitam essa situação pacificamente? A resposta é simples: porque a burguesia e seus agentes trabalham incansavelmente para convencer os operários de que patrões e empregados têm, no fundo, os mesmos interesses. A colaboração de classes é um exemplo daquelas mentiras que, repetidas mil vezes, acabam virando verdade. Quando a economia cresce, tenta-se convencer os trabalhadores de que não é hora de pedir aumento porque “o bolo ainda não cresceu o bastante; é preciso esperar o bolo crescer para repartir”. É uma imagem forte que convence muita gente. Afinal, quem, em sã consciência, retiraria um bolo cru do forno? O que a burguesia e seus agentes escondem é que nunca a vida dos trabalhadores melhora na mesma proporção do crescimento econômico. É o contrário: a lucratividade das empresas sempre aumenta em proporção maior do que o crescimento do país. Para demonstrar isso, tomemos os dados dos últimos anos de crescimento (veja o gráfico à esquerda). Comparemos o crescimento da massa salarial da população com a remessa de lucros ao exterior por parte de empresas multinacionais e especuladores estrangeiros. Veremos que os dois itens crescem, porém em proporção muito distinta, o que demonstra a mentira da ideia do bolo que “cresce” e então é dividido “por todos”. Como se vê, quem ganha para valer com o crescimento econômico não são os trabalhadores que produzem as riquezas do país, mas sim as multinacionais e especuladores estrangeiros. Para garantir uma melhoria real do nível de vida dos trabalhadores, é preciso interromper a pilhagem do país e a exploração do trabalho do povo. Não é possível fazer isso com a “mistura de um sindicalista com um grande empresário” por um motivo muito simples: o grande empresário não vai abrir mão do seu lucro. A conclusão é lógica: mais uma vez, os trabalhadores é que terão que abrir mão de melhorar as suas vidas. A colaboração de classes durante as crises Após os períodos de crescimento, vêm as crises. Nesses momentos, o discurso dos patrões e dos burocratas sindicais muda, mas a lógica se mantém: a de que somente “com o sacrifício de todos” é possível evitar uma tragédia ainda maior. Nesse caso, o “sacrifício de todos” é a demissão de uma parte dos trabalhadores, a diminuição da jornada com redução de salário, o corte de direitos e o aumento das remessas de lucros ao exterior para salvar as matrizes. Por isso, em 2008, ano em que estourou a crise econômica mundial, a remessa de lucros do Brasil para o exterior, ao invés de diminuir, aumentou, atingindo a cifra de 33 bilhões de dólares, 55% a mais do que havia sido enviado em 2007 (21 bilhões de dólares). Ou seja, foram os trabalhadores brasileiros que salvaram as matrizes da GM, Volkswagen, Renault, Fiat e tantas outras que, ainda assim, não deixaram de demitir e reduzir salários.
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    Quando a Embraerdemitiu 4.200 funcionários, Lula disse que estava “torcendo pelos trabalhadores”. O governo, que é acionista da empresa, cobrou apenas explicações e nada mais. Quando as grandes montadoras ameaçaram demitir em massa, Lula correu com a ajuda de R$ 4 bilhões e a redução do IPI. Para os banqueiros foram liberados R$ 160 bilhões do compulsório. Já os trabalhadores ganharam somente a ampliação do número de parcelas do seguro-desemprego, o que resultou num gasto de apenas R$ 126 milhões ao governo federal. Literalmente, menos de um milésimo do que foi distribuído a um punhado de bancos e grandes empresas. Esses tristes episódios demonstram claramente que, na “mistura de um sindicalista com um grande empresário” quem ganha é sempre o grande empresário. É para ele que Lula decidiu governar. Em defesa do classismo! A história demonstra que as grandes conquistas da classe operária foram arrancadas com a luta e a organização independente: a jornada de oito horas, as leis trabalhistas, a derrota da ditadura militar, as liberdades políticas e sindicais e tantas outras. Em vez da colaboração de classes, defendida hoje pela maioria esmagadora da esquerda, o PSTU propõe o classismo: a noção de que trabalhadores e burgueses são classes sociais inimigas. Portanto, a unidade entre eles só é possível com a condição de que os trabalhadores abram mão de seus interesses em benefício dos lucros da burguesia. O classismo, que para muitos é uma palavra engraçada e fora de moda, para nós é um guia para a ação, um princípio que simplesmente nunca deveria ter sido abandonado. Colaboração de classes:a herança stalinista Nos anos 1930, o nazifascismo adquiriu peso de massas em vários países, chegando ao poder na Alemanha e na Itália. Na Alemanha, existia um poderoso partido social-democrata, de orientação reformista, mas operário em sua composição. Também o Partido Comunista Alemão, stalinista, era muito forte. Juntos, esses dois partidos poderiam ter derrotado o nazismo, mas o stalinismo se negou a fazer qualquer unidade com a social- democracia. Afirmava que ela era na verdade “a ala esquerda do fascismo”. Essa política ultraesquerdista teve consequências desastrosas conhecidas: Hitler chegou ao poder em 1933 sem encontrar praticamente resistência do movimento operário, dividido pela política suicida de Stalin. Depois que o nazismo chegou ao poder, o stalinismo deu uma guinada à direita: passou a dizer que para derrotar o nazismo era preciso uma aliança entre os trabalhadores e a burguesia democrática, mas não se tratava de uma aliança para lutar. O que se propunha era a criação de governos de unidade com a burguesia dita “progressiva”. O objetivo de construir um governo só de trabalhadores era abandonado. O stalinismo chamou essa política de “Frente Popular”. Estava criada assim a expressão que seria sinônimo de derrota e desmoralização para a classe operária do mundo inteiro. PSOL: o abandono do classismo Infelizmente, o abandono do classismo e a adoção de uma política de colaboração de classes não são exclusividade de Lula
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    e do PT.Nas eleições de 2008, o PSOL de Porto Alegre recebeu R$ 100 mil da Gerdau, uma das maiores fabricantes de aço do país. Apesar da indignação dos militantes, nenhuma medida foi tomada contra a direção do PSOL gaúcho. Luciana Genro, então candidata a prefeita, acabou utilizando o dinheiro e obteve 10% dos votos. A explicação foi surpreendente: “A empresa não pede nada em troca; se eu não aceitar, eu sou burra”. Luciana não é burra nem ingênua. Sabe bem que, quando os patrões financiam campanhas de partidos de esquerda, o fazem para forçá-los a abandonar suas posições radicais e adotar um programa mais moderado. O resultado nunca é imediato. De fato, nunca se pede nada formalmente. Apenas se oferece dinheiro. Mas, em médio prazo, com seguidos financiamentos, cria-se uma relação de dependência, e a burguesia acaba dobrando essas organizações. O PT é a expressão disso em sua forma mais degenerada. O PSOL, infelizmente, caminha no mesmo sentido. Tanto é assim que a tragédia da Gerdau acaba de se repetir: a conferência eleitoral do PSOL gaúcho já aprovou o recebimento de dinheiro de empresas para a campanha eleitoral deste ano. ANOTAÇÕES
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    O QUE ÉREVOLUÇÃO? Henrique Canary, de São Paulo (SP) Imagine o fim do mundo. Em sua cabeça agora pipocam cenas do filme “Armagedon”, “2012” ou versículos do Apocalipse. Meteoros, terremotos, guerras e pragas acabam em pouco tempo com tudo o que o homem e a natureza construíram ao longo dos séculos. A vida se extingue na Terra e o planeta gira frio e silencioso no espaço infinito. Imaginou? Agora imagine o fim do capitalismo. Mais difícil? Nenhuma cena lhe vem à mente? Nenhuma hipótese? Normal. Para a maioria das pessoas é mais fácil imaginar o fim de um planeta inteiro, do que o fim de um sistema social. É como se achássemos que o futebol pode acabar um dia, mas o nosso time favorito – nunca! Como se vê, não faz muito sentido. A verdade é que o colapso dos sistemas sociais é um fato relativamente comum na história da humanidade e muito mais provável do que a invasão da Terra por alienígenas ou a existência do Godzila. Quando a crise aguda de um sistema social se combina com uma enorme elevação da atividade política das massas, que passam a intervir diretamente no rumo dos eventos históricos, estamos diante de uma revolução social. As revoluções ocorrem porque as classes sociais não se aposentam. A burguesia não pode ser pacificamente convencida a ceder o seu lugar de classe dominante aos trabalhadores. Também não pode ser expulsa lentamente do poder com a eleição de cada vez mais e mais operários aos cargos públicos. Ela só deixará a cena histórica à força. Dessa maneira, a revolução não é “uma das vias possíveis” para o socialismo. É a única existente. Toda revolução é impossível... O senso comum nos ensina que a revolução é impossível porque as pessoas são acomodadas e passivas. Esse argumento tem bastante força. O revolucionário convicto tenta responder, mas olha ao seu redor e não vê nem traço da tal revolução... De fato, a psicologia humana é bastante conservadora. Ninguém ama a luta e o enfrentamento. Ninguém gosta de arriscar seu emprego em greves e paralisações que não têm nenhuma garantia de vitória. Ninguém quer trocar o presente certo pelo futuro duvidoso.
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    E, no entanto,dizemos que justamente essa mentalidade passiva e acomodada é a razão mais profunda de todas as revoluções que ocorreram até hoje. Podemos afirmar, sem medo de errar, que as revoluções acontecem não porque as pessoas sejam rebeldes, mas ao contrário: porque são conservadoras. … até que se torna inevitável! O conservadorismo e a passividade dos trabalhadores fazem com que a sociedade acumule contradições ao longo do tempo. Os problemas vão se agravando lentamente e nunca se resolvem. A população suporta o máximo que pode sem reagir. Os políticos moderados, que prometem paz e tranquilidade, quase sempre ganham as eleições. Os burocratas, que odeiam as greves e só sabem dizer “sim” à patronal, controlam o movimento sindical sem maiores turbulências. Os líderes traidores são os mais prestigiados. Mas qualquer mecânico sabe que quanto mais pressionada uma mola, mais energia ela contém e quem a pressiona precisa ter muito cuidado para que ela não voe em seu rosto de repente. Assim, esmagando-se o proletariado durante anos e anos, chega- se a um ponto em que tudo vai pelos ares. De um dia para o outro, as massas despertam para a vida política e saem às ruas para tentar resolver, o mais rápido possível, todos os problemas acumulados durante décadas de passividade. Numa situação dessas, diante de tanto tempo perdido, é inevitável que recorram a ações radicalizadas e a métodos revolucionários. Essa brusca mudança no ritmo de atividade política das massas permanece incompreensível para a burguesia e seus analistas, que atribuem a radicalização do conflito à ação de “infiltrados” e “demagogos”. É uma contradição: se as massas fossem sempre rebeldes, as revoluções simplesmente não aconteceriam porque a sociedade resolveria os seus problemas na mesma medida em que eles surgem. A energia não se acumularia. A “válvula de escape” estaria sempre aberta, liberando pressão social e garantindo a estabilidade da nação. A história avançaria lenta e pacificamente, sem saltos ou rupturas. Mas o conservadorismo das pessoas faz com que elas adiem a resolução de seus problemas até um ponto em que a vida torna-se insuportável e a revolução, a única saída. Consciência e correlação de forças Seria falso, no entanto, dizer que as revoluções acontecem apenas porque a vida torna-se insuportável. Para que uma revolução ocorra, é preciso que haja também uma profunda mudança na psicologia das classes. Mais precisamente: na forma como cada classe enxerga a si mesma e as outras. Todo o dirigente operário sabe que antes de entrar em uma greve os trabalhadores querem saber se há mesmo condições de vencer. O outro turno vai parar? O que diz a patronal? É verdade que a polícia invadiu a outra planta? A federação pelega vem junto? Os trabalhadores querem saber com que forças podem contar, qual o objetivo preciso da luta e se a direção do sindicato está segura de si ou, ao contrário, vacilante. Assim raciocinam os trabalhadores diante das greves. Nas revoluções não é diferente. Graças à ideologia dominante, as massas tendem a acreditar muito mais na força de seus opressores do que nas suas próprias. Para que uma revolução ocorra, é preciso que isso mude e que os trabalhadores passem a enxergar a possibilidade de vitória. Por outro lado, a burguesia, sempre decidida e coesa, precisa estar em crise, dividida, acoada, amedrontada por sua própria impotência. Junto com isso é preciso que as classes médias e os pequenos proprietários, que sempre seguiram a burguesia, olhem com simpatia para o proletariado e suas organizações, ou ao menos se mantenham neutros no conflito. O que provoca todas essas mudanças na consciência das classes é a situação objetiva: a crise econômica, social e política. Por último, o medo e a divisão da burguesia precisam contaminar as forças armadas, principal pilar de qualquer Estado. Assim, os
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    órgãos repressivos tambémse dividirão e não serão capazes de deter a marcha do movimento de massas. Ou seja, é preciso que se inverta a correlação de forças entre as classes a favor do proletariado. As classes precisam trocar de papel, como naqueles filmes em que as pessoas trocam de consciência e passam a pensar uma com a cabeça da outra. Toda essa complexa combinação de fatores pode ser bastante rara, mas não é de nenhum modo impossível. De tempos em tempos ela ocorre. Toda a história o demonstra. Liderança e organização O senso comum nos ensina que a revolução é impossível porque não há um líder. Essa afirmação é parcialmente verdadeira e, portanto, parcialmente falsa. Para o bem ou para o mal, a história demonstra que as explosões revolucionárias acontecem mesmo sem a existência de uma liderança central. Aliás, esse tem sido o grande problema das revoluções: as massas saem às ruas, derrotam exércitos, derrubam regimes e governos, mas não conseguem encontrar uma saída para a situação. A energia revolucionária se dispersa como o vapor saindo de uma panela de pressão mal vedada. A liderança e a organização são necessárias não para a existência da revolução, mas para que ela seja vitoriosa. Ora, o que é um líder? É aquele que aponta um caminho, que organiza as forças e estabelece os objetivos do combate, que reúne as tropas após a batalha e resume as lições de cada luta. É evidente que as massas precisam disso para vencer. Toda revolução cria milhões de pequenos líderes que cumprem essas tarefas. Eles surgem naturalmente em cada bairro, fábrica e escola e conduzem as massas em suas ações cotidianas. Mas as redes horizontais não bastam. A revolução não acontece no facebook ou no orkut. Ela precisa de uma estrutura vertical, que organize o proletariado em todo o país e seja capaz de, uma vez derrubada a ordem vigente, estabelecer o seu próprio governo em todo o território nacional. Chamamos essas estruturas de organizações de duplo poder, pois elas rivalizam com o Estado burguês, disputando com ele o controle da sociedade. Ao longo da história, essas organizações surgiram em praticamente todas as revoluções e receberam distintos nomes: soviets ou conselhos na Rússia de 1917, cordões industriais no Chile dos anos 1970, comitês de fábrica na Alemanha dos anos 1920 etc. A crise do Estado burguês e a autoridade dessas organizações perante as massas fazem com que elas se tornem verdadeiros “Estados paralelos”, emitindo ordens, controlando parte da economia, criando milícias armadas etc. A burguesia vê tudo isso, reclama, esperneia, mas nada consegue fazer. A tomada do poder pelo proletariado deixa de ser um sonho distante e torna-se assim uma tarefa possível e urgente. Mas tudo isso não basta. É preciso que à frente dessas organizações estejam líderes conscientes, que tenham clareza dos objetivos, que saibam onde querem chegar e por que meios, que saibam propor às massas as tarefas mais adequadas para cada momento. Em outras palavras, é preciso que as organizações de duplo poder sejam dirigidas por um partido revolucionário, disciplinado e combativo, democrático e operário. Todo o heroísmo e a melhor organização do mundo não são nada sem um programa. Revolução e violência O senso comum nos ensina que a revolução é ruim porque derrama sangue. Esse argumento soa estranho, sobretudo se olharmos para as favelas do Rio de Janeiro, por exemplo, que não vivem nenhuma revolução, mas onde o sangue dos trabalhadores é derramado todos os dias pelo caveirão, pela milícia e pelos traficantes.
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    Mas a verdadeé que a resposta a esse argumento é: depende. Os revolucionários não são amantes da violência, assim como os operários não organizam piquetes nas greves porque gostam de bater em seus colegas. É uma necessidade da luta. Não podemos prometer uma revolução “bonita”, “de veludo” ou qualquer outro adjetivo fofo. O proletariado não tem bons modos, talvez porque a burguesia nunca o tenha ensinado. O que podemos dizer é que quanto mais massivo for o apoio à revolução, menos sangue ela derramará. Durante a tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia em 1917 morreram sete pessoas, a maioria atropelada acidentalmente pelos blindados que patrulhavam as ruas da capital. A burguesia simplesmente se escondeu. Já na Guerra Civil, organizada pelo imperialismo para derrotar a república soviética, morreram milhões. Quem exerceu a violência foi a contra-revolução, não o proletariado. Vitória e derrota A tomada do poder pelo proletariado não encerra a revolução. Ao contrário. As massas tomam o poder porque chegam à conclusão de que sem ele não conseguirão resolver seus problemas mais elementares: comida, paz, terra, liberdade etc. Dessa forma, a instauração do poder operário abre uma nova etapa no processo revolucionário: a etapa das medidas revolucionárias, da ditadura do proletariado. Nessa etapa, as massas se enfrentarão com todo o tipo de inimigo e adotarão todas as medidas necessárias à vitória: a expropriação da burguesia, a planificação econômica, a resistência armada etc. Assim, para triunfar definitivamente, a revolução precisa se aprofundar dentro do país e se expandir para fora dele, rompendo o cerco imperialista. A sobrevivência da revolução depende de sua capacidade de contaminar outros territórios, em primeiro lugar os países imperialistas mais importantes. Somente assim é possível atar as mãos e os pés do imperialismo e evitar o contra- ataque. Como no futebol, “quem não faz, leva”. A revolução não admite retranca. Qualquer tentativa de “convivência pacífica” com o imperialismo significará a morte lenta da nação proletária. A revolução será internacional ou será derrotada. Revolução e futuro A burguesia prefere ver o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Talvez porque entenda corretamente que o fim do capitalismo será para ela o fim do seu mundo. Mas só para ela. Para o proletariado, ao contrário, o triunfo da revolução será apenas um novo começo, significará o término da pré-história do homem e o início da verdadeira história da humanidade. ANOTAÇÕES
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    O QUE ÉSOCIALISMO Está no Youtube para quem quiser assistir. Ana Maria Braga, apresentadora da Rede Globo, pergunta a Petkovic, atacante do Flamengo, sobre a Iugoslávia: “Como foi nascer num país com tantas dificuldades?”. Petkovic: “Quando eu nasci não tinha dificuldade nenhuma. Era um país-maravilha, vivíamos num regime socialista, todo mundo bem, todo mundo trabalhando, tinham salário. Os problemas aconteceram depois dos anos 1980”. A câmera corta de repente o entrevistado e volta para Ana Maria Braga, completamente perdida diante da inesperada declaração de apoio ao socialismo, feita ao vivo para todo o Brasil por um ídolo do esporte. Sejamos claros: apesar das inúmeras conquistas sociais, fruto da expropriação da burguesia em 1945, a antiga Iugoslávia não era um país-maravilha. Os conflitos sangrentos dos anos 1990 não surgiram do nada. Foram preparados pela burocracia dirigente com décadas de divisão e isolamento de um dos países mais pobres da Europa. Mas a declaração de Petkovic nos ensina algo importante: o ideal socialista, apesar de todas as mentiras e injúrias sofridas, vive e pulsa no coração de milhões. Vez por outra ele se anuncia, em palavras ou em atos, de indivíduos ou de multidões, consciente ou inconscientemente. O socialismo é um tipo de sociedade
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    A ideia deconstruir uma sociedade sem classes sociais ou exploração existe há centenas de anos. Mas foi somente na metade do século 19 que o projeto socialista recebeu um embasamento científico na obra dos filósofos alemães Karl Marx e Friedrich Engels. Antes deles, o socialismo não passava de um sonho bem intencionado, de uma ideia romântica e confusa. Estudando o funcionamento da sociedade capitalista, Marx e Engels perceberam que a origem da desigualdade estava na propriedade privada dos meios de produção: fábricas, terras, instrumentos e matérias-primas. Era o que permitia a uma ínfima minoria explorar a imensa maioria. Concluíram daí que a construção do socialismo passaria pela abolição da propriedade privada e a socialização de toda a riqueza existente, o que por sua vez exigiria uma revolução violenta, já que a burguesia não cederia sua posição de classe dominante sem resistência. Por último, consideravam que apenas o proletariado, por sua condição de classe explorada, numericamente predominante e destituída de qualquer propriedade, seria capaz de realizar essa revolução. Socialismo: um sistema racional e ordenado No capitalismo cada burguês produz o que quer e quanto quer. A economia capitalista não se submete a qualquer controle social. O único elemento regulador é o mercado. Se as mercadorias forem vendidas, ótimo. Se não, elas serão destruídas ou apodrecerão, a empresa entrará em crise, fechará suas portas e demitirá seus funcionários. Ao mesmo tempo em que desperdiçam uma enorme quantidade de trabalho e riquezas em produções inúteis, os capitalistas deixam de produzir itens fundamentais para a sociedade, simplesmente porque dão pouco ou nenhum lucro. Assim, na sociedade capitalista sobram carros, mas faltam trens; sobram prédios de luxo, mas faltam casas populares; sobra tecnologia militar, mas faltam aparelhos médicos dos mais simples. O capitalismo é o império do caos e da desordem a serviço do lucro. No socialismo isso não acontece. O proletariado, que se torna a classe dominante graças à expropriação da burguesia, controla racionalmente a produção e o consumo de acordo com as necessidades da população e a capacidade da economia. É o que chamamos planificação econômica. Utilização racional dos recursos naturais disponíveis, produção em base a um plano discutido em toda a sociedade, obrigação de todos os cidadãos de contribuírem com sua parte no trabalho global, remuneração proporcional ao trabalho realizado, vigilância permanente por parte dos trabalhadores sobre a elaboração e o cumprimento deste plano: tais são as ideias simples e fundamentais do socialismo na esfera econômica. Que contraste com a caricatura maliciosa pintada pela burguesia de que o socialismo seria uma sociedade caótica, sem regras nem governo, sem leis nem obrigações, onde cada um faz o que quer! O socialismo só pode ser mundial A força do capitalismo está no caráter mundial da economia. Ao produzir mundialmente, a burguesia se utiliza das melhores e mais abundantes fontes de matéria-prima em cada país. Isso torna a produção barata e eficaz. O socialismo, que pretende ser uma sociedade superior ao capitalismo, deve utilizar todas as conquistas da velha sociedade de classes, em primeiro lugar, o caráter mundial da produção.
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    O capitalismo é,portanto, o ponto de partida, o nível mínimo do qual o socialismo deve começar para libertar a humanidade da opressão e da exploração. Não se pode falar em uma sociedade socialista que não seja mais rica, mais livre e mais desenvolvida do que a capitalista. Não se pode falar em socialismo que não seja mundial. O fim do imperialismo Não é possível a vitória do socialismo enquanto a burguesia existir mundialmente, enquanto o imperialismo, armado até os dentes, controlar a maioria dos países. Tal situação levaria ao isolamento da nação proletária e à restauração do capitalismo, como aconteceu na União Soviética. O triunfo do socialismo sobre o capitalismo em todo o mundo não tem nada a ver com uma competição econômica entre os dois sistemas. A derrota do capitalismo é um processo político, revolucionário. Significa a derrubada violenta da burguesia e a instauração de regimes proletários nos países imperialistas mais importantes. Só assim o imperialismo pode ter um fim. A ditadura do proletariado O socialismo exige também uma forma política, um tipo de Estado. No capitalismo, o Estado tem um caráter de classe. É um aparato jurídico-militar que busca defender a propriedade privada e o domínio do capital. É, portanto, uma ditadura da burguesia sobre o proletariado. No socialismo, o Estado também tem um caráter de classe, mas seu conteúdo é oposto ao do Estado burguês: torna-se, pela primeira vez na história, um Estado da ampla maioria explorada contra a ínfima minoria exploradora ou privilegiada. É o que chamamos de ditadura do proletariado. A ditadura do proletariado tem como função preservar a propriedade social dos meios de produção, evitar a volta do capitalismo e combater a ganância de indivíduos aproveitadores e grupos privilegiados que ainda existam depois da expropriação da burguesia. E o mais importante: é o instrumento de defesa da nação proletária contra o que sobrar do imperialismo e da burguesia mundial. Democracia para os trabalhadores O socialismo exige uma participação ativa e permanente das grandes massas na vida econômica, política e cultural do país. Por isso, a ditadura do proletariado é um regime muito mais democrático do que a democracia burguesa. A democracia burguesa se baseia no voto a cada quatro anos, na independência dos eleitos em relação aos eleitores, na separação dos poderes e na repressão massiva ou seletiva em caso de necessidade. A ditadura do proletariado se baseia na lógica inversa: na substituição do congresso burguês por uma rede de conselhos operários, cujos membros são escolhidos nos locais de trabalho e moradia, com mandatos revogáveis a qualquer momento. Esses conselhos unificam os três poderes que hoje estão separados: são órgãos ao mesmo tempo executivos, legislativos e de justiça, controlados pela população, e onde a remuneração não ultrapassa o salário de um operário qualificado.
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    Esses conselhos operários,organizados sob o princípio do pluripartidarismo e abertos a todos os trabalhadores, são a base fundamental do Estado socialista, da ditadura do proletariado. O socialismo é uma ponte para o comunismo Como se vê, o socialismo é uma sociedade onde, apesar do fim da exploração, ainda persistem elementos de desigualdade, herdados do passado capitalista. Mais do que isso, o socialismo não é uma sociedade completamente livre, uma vez que os homens ainda estão presos à rotina do trabalho e o Estado segue sendo uma fonte de autoridade e poder. Em uma palavra, o socialismo não é o objetivo final, mas apenas uma fase do desenvolvimento histórico da humanidade rumo à sua libertação. A verdadeira libertação da humanidade só poderá ocorrer quando a alta produtividade do trabalho tenha eliminado por completo a desigualdade social e oferecido a todos as condições para o pleno desenvolvimento de suas aptidões físicas e intelectuais; quando o trabalho tiver se tornado uma atividade livre e ocupe, pelo seu alto rendimento, umas poucas horas do dia de cada um. Quando isso ocorrer, o socialismo terá sido superado por uma nova sociedade, ainda mais rica e livre: o comunismo. Todo operário da construção civil sabe que não se pode construir um prédio sem andaimes. Mas sabe também que, ao final da obra, os andaimes devem ser retirados, sob pena de danificarem a construção. A ditadura do proletariado é o andaime que utilizamos para construir a sociedade comunista. Terminada a obra de edificação comunista, tendo os homens se reeducado completamente segundo novos princípios de igualdade, solidariedade e fraternidade, os andaimes da ditadura proletária deverão ser retirados: as leis escritas deverão ser abolidas, restando como forma de controle social apenas a opinião pública; todo e qualquer aparato repressivo deverá ser dissolvido, dando lugar à autovigilância coletiva; os partidos políticos perderão sua função e deixarão de existir. O Estado socialista murchará como uma carcaça inútil. Do aparato estatal restarão apenas as funções técnicas, contábeis, científicas e culturais, mas exercidas agora diretamente pela população livre, da mesma maneira que uma família civilizada divide tarefas entre si e conduz a vida doméstica sem maiores conflitos. Petkovic não imagina o quanto a Iugoslávia estava longe do socialismo. Mas não repreendemos o atacante por seu otimismo. Frente à barbárie capitalista, qualquer país que tenha resolvido minimamente seus problemas sociais aparece aos olhos de seus cidadãos como um “país-maravilha”. Da mesma maneira, a humanidade não imagina a grandeza e o potencial que ela guarda em seu próprio seio, que o capitalismo esmaga, e que só o socialismo é capaz de revelar A QUEM SERVE O “APARTIDARISMO”? O movimento estudantil, Operário e popular vive uma situação peculiar. Em qualquer assembléia, reunião ou plenária pipocam intervenções “contra os partidos”. Alguns se declaram “apartidários”, outros “apolíticos”. Pertencer a um partido político
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    está, no mínimo,fora de moda. “Querem aparelhar!”, gritam alguns. “Só fala se tirar o boton!”, ameaçam outros. “Abaixa essa bandeira!” ordenam terceiros. Nas páginas desta apostila, totalmente partidário e político, gostaríamos de dialogar sobre este importante tema. Independente sim, mas do quê? O marxismo defende a completa independência de sindicatos e organizações estudantis, em primeiro lugar, com relação às instituições alheias aos movimentos sociais. Ou seja, mais do que tudo, defendemos a independência das entidades com relação ao Estado. A adaptação da CUT e da UNE ao Estado burguês acelerou enormemente sua degeneração. Ambas são hoje braços do Estado no movimento de massas. Nesse sentido, nada mais emblemático do que a nomeação de Luis Marinho, presidente da CUT, para o Ministério do Trabalho. Por sua vez, a UNE recebeu de distintos órgão estatais, somente este ano, mais de um milhão de reais para “projetos”. Está claro: não são mais organizações independentes. Em segundo lugar, defendemos a independência dos movimentos sociais com relação à patronal, às reitorias e às direções de escolas. Não aceitamos patrões nos sindicatos em que atuamos. Nos DCEs, não recebemos ajuda de nenhuma reitoria se isso significar a restrição ao nosso direito de crítica. Com essa atitude, visamos, mais uma vez, manter a independência da entidade. Em terceiro lugar, defendemos sim a independência organizativa das entidades com relação aos partidos políticos e combatemos o seu aparelhamento por quem quer que seja. Autonomia significa que são as instâncias das entidades que devem tomar as decisões. Nessas instâncias, todos devem ter o direito de defender suas posições: revolucionários e reformistas, organizados ou não em partido. Por outro lado, os marxistas reconhecem que a sociedade é divida em classes sociais que lutam entre si por meio de partidos e de outras organizações. Pretender que as entidades sejam “independentes” dessa luta significa, na prática, entregá-las nas mãos da direita e da burguesia, cujo dinheiro, televisão e intelectuais influenciam o conjunto da sociedade. Por isso, a completa “independência” do movimento com relação aos partidos políticos é uma utopia que só serve aos poderosos. O movimento estudantil deve ser amplo e democrático, mas não pode ser “neutro” em uma sociedade marcada pela luta de classes. Deve escolher um lado. Quanto mais o movimento estudantil se aproxima dos partidos e organizações da classe trabalhadora, maior é a sua verdadeira independência: a independência com relação ao Estado, à burguesia e seus agentes. O “apartidarismo” sempre serviu à direita Em 1923, Trotsky escrevia: “Os comunistas não temem a palavra ‘partido’ porque seu partido não tem, nem terá, nada em comum com os outros partidos. Seu partido não é um dos partidos políticos do sistema burguês (...). Por isso, os comunistas não têm nenhuma razão – nem ideológica, nem organizativa – para se esconder atrás dos sindicatos”. E mais adiante: “Mas, ao mesmo tempo, o Partido Comunista reserva-se o direito de expressar
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    suas opiniões sobretodos os problemas do movimento operário, inclusive sobre os sindicatos, de criticar as táticas dos sindicatos e de fazer-lhes propostas definidas que estes, por seu lado, são livres para aceitar ou rejeitar. O partido trata de ganhar a confiança da classe operária e, sobretudo, do setor organizado em sindicatos”. Como se vê, a polêmica sobre a participação dos revolucionários nos movimentos sociais não é nova. Mas a luta “contra os partidos” nunca foi uma bandeira do próprio movimento, e sim da direita. No Brasil, foi a ditadura militar quem mais utilizou o discurso “apartidário” para combater o movimento estudantil. Os militares acusavam os ativistas de “partidarizar os CAs” e exigiam medidas concretas dos reitores contra a atuação dos partidos nas universidades. Na tentativa de desarticular o movimento, a ditadura perseguia os estudantes filiados a partidos. Somente esse fato bastaria para se entender o enorme desserviço prestado ao movimento pelos defensores do “apartidarismo”, cujo discurso é igual àqueles pronunciados por generais e reitores durante os piores anos de nossa História. Mas tudo muda. Os anos 80 foram anos de grandes liberdades democráticas. O país saía da ditadura, fora declarada anistia. Nesse período, a forma de organização do ativismo passou a ser não só os CAs e DCEs, mas também os partidos políticos de esquerda. Depois de um período de “militância independente”, a maioria dos ativistas ingressava em um partido político para defender de forma organizada suas posições. Naqueles anos, nada parecia mais óbvio. As organizações de esquerda disputavam os espaços nas universidades e escolas: vendiam seus jornais, organizavam debates, buscavam atrair novos membros. O movimento estudantil vivia uma enorme efervescência e a organização política era o caminho natural de todo lutador. O muro de Berlim e o “apartidarismo” Em 1989, cai o muro de Berlim. O imperialismo utilizou-se desse fato para desencadear uma enorme ofensiva ideológica em todo o mundo. Começou a se falar em “morte do socialismo”, “fim da luta de classes”, “fim da História”. Para uma parte importante da esquerda, era como se o muro de Berlim tivesse caído sobre suas cabeças. Desiludidas com o “socialismo real”, essas organizações absorveram os argumentos do imperialismo e aos poucos foram abandonando a luta social para adotar, cada vez mais, uma estratégia puramente eleitoral. Todos repetiam em coro: “o stalinismo é a continuação do leninismo”, “é preciso repensar a esquerda” etc. Com isso, essa esquerda, antes revolucionária e marxista, se tornou de fato muito parecida com os partidos burgueses, já desgastados perante as massas pela corrupção e roubalheira em que sempre estiveram envolvidos. As organizações de esquerda foram vítimas de um vendaval oportunista que correu o mundo a partir do início dos anos 90 e adaptaram-se ao recuo na consciência das massas, negando suas próprias bases e passando a defender bandeiras que levaram à sua crise. Assim, perdeu-se a tradição da atuação em partidos de esquerda no movimento estudantil.
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    O P-SOL: “apartidarismo”e eleitoralismo Com a virada do milênio, inicia-se um processo de retomada das lutas no mundo inteiro: Equador, Palestina, Argentina, Bolívia, Venezuela, Iraque. As massas saem às ruas novamente e protagonizam processos revolucionários nesses e em outros países. Infelizmente, a esquerda mundial não conseguiu relocalizar-se no novo momento e mesmo as novas organizações que surgem, já carregam os velhos vícios dos anos 90. Um exemplo disso é o P- SOL. O P-SOL é um dos maiores defensores do “apartidarismo” no movimento estudantil. Juram de pés juntos que sua atuação nas entidades nada tem a ver com sua filiação partidária. Olhando superficialmente, até parece assim, mas não é. O P-SOL é um partido de tendências, em que cada corrente interna pode defender a sua política no movimento sem consultar os organismos do partido. Assim, os militantes do P-SOL diversas vezes atuam de forma distinta uns dos outros, passando uma falsa idéia de “atuação independente” no movimento. Nada mais falso. O que unifica o P-SOL no movimento estudantil é sua estratégia de salvar a UNE e manter seu cargo na diretoria executiva da entidade, cargo esse, diga-se de passagem, conseguido pela concessão feita pelo PCdoB no último CONUNE. Por isso, o P- SOL é um dos maiores inimigos da ruptura com a UNE. Também por isso o P-SOL é forçado a combater o PSTU, que defende a ruptura com a UNE e a construção de uma nova alternativa de direção para o movimento estudantil: a CONLUTE. Assim, quando o P-SOL denuncia o “aparelhismo” e o “rupturismo” do PSTU, se aproxima do PCdoB, de cujas mãos recebeu o cargo na executiva da UNE, e se coloca a serviço de sua política, política essa, naturalmente, “apartidária”. Mais do que isso: ao defender a “independência” do movimento com relação aos partidos, o P-SOL deixa sem resposta a seguinte pergunta: Se a tarefa de um partido de esquerda não é atuar de forma organizada nos movimentos sociais, então qual é? Acaso seria pedir votos nas eleições? Aí poderíamos ter uma atuação franca e aberta como partido político? Aí poderíamos declarar abertamente que somos “partidários”? Como se vê, por detrás do discurso “amplo e democrático” que tem o P-SOL, esconde-se uma concepção eleitoralista e reformista. Para o P-SOL, partido é para disputar eleições. Nada mais. O anarquismo: autoritarismo e paralisia no movimento estudantil O discurso “apartidário” tem ajudado os setores ligados ao anarquismo a se fortalecer em algumas entidades. Infelizmente esse novo anarquismo não tem relação com a honrada tradição anarquista do início do século XX. O novo anarquismo é burocrático e autoritário no trato com as entidades. Não raros são os casos de aliança desses setores com a direita “apartidária” ou mesmo com as reitorias para combater “os partidos”. Nas passeatas e atos, em vez do enfrentamento com a polícia, alguns setores anarquistas preferem o enfrentamento com os ativistas que carregam bandeiras de partidos. A “autogestão”, ou seja, a ausência de uma diretoria eleita, implementada em algumas entidades é um desastre: tem levado, na prática, à ditadura anarquista, à paralisia das entidades e à desmoralização completa. Cada ano de autogestão é um ano de caos e inoperância no movimento e prepara a retomada das entidades pela direita reacionária.
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    A verdadeira relaçãopartido–movimento A relação aparelhista que o PCdoB estabeleceu com a UNE e com a UBES traumatizou toda uma geração que hoje nega qualquer organização partidária. No entanto, essa deformação criada pelo stalinismo não deve nos desviar de uma concepção marxista de atuação nas entidades. Se a atuação “independente” no movimento é uma bandeira tão ampla e democrática, por que quase não vemos entidades que não sejam, em maior ou menos grau, influenciadas por partidos? Por que os chamados “independentes” sempre acabam se alinhando com uma ou outra organização política para defender suas posições? Por que os CAs e grêmios, em cujo seio não há nenhuma disputa política, são, em geral, os mais despolitizados e mais atrelados às direções das escolas e faculdades? Isso se dá porque a luta no movimento leva naturalmente ao enfileiramento por posições políticas. É por isso que existem “grupos de independentes”, “correntes de independentes” (chegaremos a ver “partidos de independentes”?). A organização política é natural, progressiva e inevitável. A esse respeito, Trotsky escrevia em 1929: “O Partido Comunista (...) diz claramente à classe operária: eis meu programa, minhas táticas e minha política. É o que proponho aos sindicatos. O proletariado não deve acreditar às cegas em nada. Deve julgar cada partido e cada organização por seu trabalho. Os operários devem desconfiar duplamente dos aspirantes a dirigentes que atuam disfarçadamente, pretendendo lhes fazer acreditar que não necessitam de nenhuma direção”. Assim, os militantes do PSTU continuarão erguendo suas bandeiras, defendendo de forma clara sua política e disputando a direção das entidades com o programa que julgamos correto. Nesse marco, sempre que possível, marcharemos juntos com organizações, partidos e ativistas independentes de esquerda. A atuação no movimento para nós não é uma mera tática, como querem fazer parecer nossos adversários. É parte fundamental de nossa estratégia: a mobilização permanente das massas e a construção de uma ferramenta revolucionária. Mas nosso objetivo final não se resume à atuação no movimento estudantil e sindical, por maior que seja sua importância. Somos socialistas e revolucionários. Nosso fim é a libertação completa da humanidade do jugo do capitalismo, a construção do comunismo no mundo inteiro. Esse é nosso “interesse político-partidário” e somos orgulhosos dele. ANOTAÇÕES
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    COMO FUNCIONA OPSTU? O militante do PSTU é muitas vezes admirado por suas intervenções nas lutas dos trabalhadores e estudantes. Nós lutamos para sermos os melhores ativistas das mobilizações, porque este é o nosso terreno predileto: as ações diretas das massas. Para possibilitar este tipo de intervenção, os militantes se reúnem semanalmente nos núcleos do partido. Estes núcleos são o organismos de base do PSTU. Cada um deles está organizado ao redor de uma frente de intervenção: um núcleo de companheiros de uma fábrica, ou de uma região operária, outro de estudantes de uma escola ou universidade, outro ainda de professores de uma região. Nestas reuniões, os militantes discutem a situação política nacional ou outro tema definido no núcleo, e a política concreta para cada setor dos trabalhadores ou estudantes. A sociedade capitalista aliena as pessoas, que não desenvolvem o potencial que tem. Muitos companheiros que não se arriscavam a falar em público, com a militância no partido e no movimento de massas, se tranformam em bons oradores. Outros vão se especializar em organizar as atividades ou na propaganda fazendo palestras e cursos. Com a militância, os companheiros podem desenvolver qualidades que não poderiam fazê-lo em outras circunstâncias, se transformando em bons agitadores, propagandistas ou organizadores.
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    O nosso partidofunciona em base ao princípio do centralismo democrático. A centralização da ação do partido é necessária porque nós nos enfrentamos com a burguesia que se centraliza através do estado. Não existe nenhuma maneira de lutar pelo poder sem uma estrutura centralizada, que enfrente o estado burguês. Não existiu nenhuma revolução vitoriosa sem uma organização centralizada a sua frente. O centralismo democrático significa que, no partido deve haver ampla liberdade de discussão interna, e depois, que a ação de todos seja centralizada. Isso implica a possibilidade e necessidade de que o partido viva um amplo debate entre posições diferentes. As grandes definições políticas do partido são decididas em nossos congressos, que se realizam a cada 2-3 anos. Os documentos são discutidos por todos os militantes, que elegem delegados para o Congresso, que finalmente votarão os documentos. A partir daí todos os militantes implementam as posições definidas pelo congresso.Nos períodos prévios aos congressos, existe a possibilidade que estas diferenças se expressem inclusive na organização de tendências e frações. Mas uma vez decidida a política em Congresso, as tendencias e frações se dissolvem, sendo obrigação de todos aplicarem a mesma política, definida pela maioria. Entre os congressos, o partido tem uma estrutura centralizada por seus organismos de direção, sendo o Comitê Central a máxima direção da organização, eleito no Congresso Nacional. As regionais discutem e decidem como implementar e adequar a política nas cidades e elegem suas direções regionais. As células discutem e decidem como intervir nas suas frentes e elegem suas próprias direções. O partido tem o objetivo de chegar um dia a luta pelo poder , e para isso é necessário crescer, ganhando outros militantes. Por este motivo é necessário que nossas idéias sejam conhecidas por outros ativistas. O nosso jornal é o principal instrumento de divulgação de nossas idéias. Por este motivo todos os militantes do PSTU devem trabalhar com o nosso jornal divulgando-o para outros companheiros. O partido é sustentado pelos próprios militantes. Não recebemos e não queremos receber dinheiro da burguesia ou de corrupção. É o próprio movimento operário e estudantil que deve sustentar o partido. Isto se faz principalmente através das cotas mensais de cada militante. Todos os militantes cotizam regularmente para o partido , dentro das possibilidades reais de cada um. Anualmente fazemos também campanhas financeiras em que pedimos a colaboração dos ativistas de fora do partido. O militante do PSTU tem deveres e também direitos completamente diferentes dos filiados ao PSTU. Embora em nosso partido, os filiados sejam muito importantes, são os militantes que decidem as políticas do PSTU. A relação do filiado com o partido é extremamente flexível. Um filiado recebe o nosso jornal pelo correio, é convidado para as grandes atividades de propaganda (palestras, cursos), assim como é também convidado a se integrar na medida de suas possibilidades em nossas campanhas políticas , como agora com a campanha eleitoral. Caso queira pode participar ou não destas reuniões e atividades, mas não tem nenhuma obrigação de fazê-lo, assim como “Mas quem é o partido? Ele fica sentado em uma casa com telefones? Seus pensamentos São secretos, Suas decisões Desconhecidas? Quem é ele? Nós somos ele. Você, eu, vocês – Nós todos. Ele veste sua roupa, Camarada, e pensa “Mas quem é o partido? Ele fica sentado em uma casa com telefones? Seus pensamentos São secretos, Suas decisões Desconhecidas? Quem é ele? Nós somos ele. Você, eu, vocês – Nós todos. Ele veste sua roupa, Quem é o partido? Bertolt Brecht
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    não está submetidoao centralismo democrático. Caso queira, pode avançar na relação com o patido se tornando um militante. Ou pode permanecer como um filiado, com o grau de integração que achar melhor. O militante é aquele que participa das reuniões, intervém no movimento de massas com a política do partido, cotiza regularmente e vende os nossos jornais. Funcionam em base ao centralismo democrático Os militantes têm uma dedicação ao partido muito superior a dos filiados, que recebem os jornais e cotizam, mas não participam regularmente das reuniões É necessário construir um partido revolucionário? Muitas vezes vemos toda uma geração de ativistas consumida em tarefas sindicais ou mesmo políticas do quotidiano, sem qualquer perspectiva estratégica. No entanto, sabemos que todas as lutas, e mesmo todas as vitórias são parciais, transitórias, caso se mantenha o capitalismo. Mais dia, menos dia uma conquista pode se perder. Mesmo um sindicato, em uma conjuntura desfavorável pode ser ganho pela direita. Ou chegamos a derrubada do capitalismo, ou tudo o que fizemos em anos e anos de militancia pode ser perdido. Como costumava dizer Lenin, "Fora o poder , tudo é ilusão". Se temos claro a necessidade estratégica de derrubar o capitalismo, teremos claro a necessidade do partido revolucionário. A revolução socialista no Brasil necessita de um partido revolucionário como uma das condições indispensáveis para chegar a vitória. Para ser ainda mais precisos, caso não tenhamos a formação de uma direção revolucionária como alternativa a Articulação, uma possível revolução no Brasil será derrotada. O reformismo da direção do PT é a válvula de segurança que a burguesia brasileira pode contar em caso de uma crise revolucionária no país. Esta é uma verdade simples, uma conclusão-síntese dos processos de ascensos revolucionários de todo o mundo neste século. Não houve nenhuma revolução vitoriosa sem uma estrutura centralizada que a dirigisse. A conclusão então é clara: precisamos lutar no dia a dia, no movimento operário, estudantil ou popular. Mas devemos agregar outro elemento estratégico a esta luta: a construção de um partido revolucionário, sem o qual a revolução será impossível. Onde moro é a casa Dele, e quando você é Atacado ele luta.” Camarada, e pensa Com sua cabeça. Onde moro é a casa Dele, e quando você é Atacado ele luta.”