Comunicação e Mercado



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A inserção da comunicação organizacional na nova lógica midiática

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A comunicação das organizações ainda é estudada teoricamente por meio de modelos lineares e instrumentais de comunicação,
não contemplando a sua inserção em uma sociedade mais complexa. Nesse contexto, este artigo visa retomar alguns conceitos
funcionalistas com intuito de demonstrar que sua utilização não é mais compatível com o modelo social vigente, que tem a
midiatização como processo de referência e no qual a internet traz fluxos de comunicação e patamares de interatividade compatíveis
com a atualização das práticas comunicacionais. Por fim, apontamos a midiatização como um conceito basilar para
que as organizações internalizem os processos de mudança e se adaptem às demandas do seu tempo.

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A inserção da comunicação organizacional na nova lógica midiática

  1. 1. Comunicação e Mercado A inserção da comunicação organizacional na nova lógica midiática The insertion of of the organizational communication in the new mediatic logic Eugenia Mariano da Rocha Barichello Doutora em Comunicação pela UFRJ e Líder do Grupo de Pesquisa Comunicação Institucional e Organizacional - UFSM/CNPq Docente do Programa de Pós Graduação em Comunicação da UFSM eugeniabarichello@gmail.com Daiana Stasiak Mestranda em Comunicação midiática na Universidade Federal de Santa Maria/RS Membro do grupo de Pesquisa de Comunicação Institucional e Organizacional - UFSM/CNPq daiastasiak@gmail.com Resumo A comunicação das organizações ainda é estudada teoricamente por meio de modelos lineares e instrumentais de comunicação, não contemplando a sua inserção em uma sociedade mais complexa. Nesse contexto, este artigo visa retomar alguns conceitos funcionalistas com intuito de demonstrar que sua utilização não é mais compatível com o modelo social vigente, que tem a midiatização como processo de referência e no qual a internet traz fluxos de comunicação e patamares de interatividade com- patíveis com a atualização das práticas comunicacionais. Por fim, apontamos a midiatização como um conceito basilar para que as organizações internalizem os processos de mudança e se adaptem às demandas do seu tempo. Palavras-chave: teorias da comunicação; Comunicação organizacional; Midiatização. Abstract Organizational communications is still theoretically studied through linear and instrumental communication models, not contemplating its insertion in a more complex society. In this context, this theoretical essay aims to revisit some funcionalist concepts in order to show its usage is not compatible anymore with the current social model. This model has mediatisa- tion as its reference process, and internet brings communication flows and interactivity patterns that are compatible with the updating of communicative practices. Finally, mediatisation is pointed out as a basic concept for the organisations to internalise the change processes and adapt themselves to the current demands. Key words: theory of communication; organisational communication: mediatisation. Resumen La Comunicación de las organizaciones aún es estudiada teóricamente por medio de modelos lineares e instrumentales de co- municación, no contemplando su inserción en una sociedad más compleja. En ese contexto, este ensayo teórico visa a retomar algunos conceptos funcionalistas con intuito de demostrar que su utilización ya no es compatible con el modelo social vigente, que tiene la mediatización como un proceso de referencia y en el que la internet trae flujos de comunicación y niveles de inte- ractividad compatibles con la actualización de las prácticas comunicacionales. Por fin, señalamos la mediatización como un concepto basilar para que las organizaciones internen los procesos de cambio y se adapten a las demandas de su tiempo. Palabras clave: teorías de la comunicación, comunicación organizacional, mediatización.
  2. 2. A inserção da comunicação organizacional... 1. Introdução cessidade de adaptação aos processos so- ciotécnicos contemporâneos, abordamos a E ste artigo busca abordar a co- internet como uma ambiência que abarca municação organizacional na diversas mídias e caracteriza um espaço perspectiva da midiatização con- de fluxos rico em possibilidades de atua- temporânea, tendo em vista a necessidade lização para as ações organizacionais. de um repensar teórico e prático acerca do Neste artigo, nossa reflexão teórica tema com intuito de atualizar, dinamizar apresenta-se em três partes: a primeira e aperfeiçoar a comunicação nas organi- objetiva resgatar teorias funcionalistas e zações sociais. abordar as características mais relevantes A reflexão visa colaborar com o campo que as tornaram modelos em meio às hipó- da comunicação, pois revisita determina- teses do seu tempo. A segunda parte visa das teorias apresentadas no século XX, caracterizar o fenômeno da midiatização e como o modelo matemático-informacional dar destaque à internet como a mídia mais de Shannon e Weaver, o modelo teórico de representativa das transições ocorridas nos Berlo e a teoria do meio como mensagem, fenômenos da comunicação. A terceira de Marshall McLuhan. A proposta estabe- visa contribuir com a renovação das con- lece um paralelo teórico dessas teorias com cepções da comunicação organizacional a noção de midiatização de em uso hoje, principalmente a partir das Sodré (2003), elaborada no possibilidades oferecidas pelo espaço de século XXI. fluxos proporcionado pela internet. Por A teoria da As transformações ocor- fim, as considerações finais apontam para a ridas a partir da metade do comunicação tem seu século passado nos apresen- midiatização como um conceito teórico que deve servir de base para as organizações marco inaugural com taram a uma esfera social de heterogeneidades na qual internalizarem os processos de mudança e adaptarem-se às demandas do seu tempo. a obra “Arte retórica”, a evolução das tecnologias pode ser considerada um de Aristóteles divisor de águas na con- 2. Teorias da Comunicação cepção dos paradigmas comunicacionais, pois esses A teoria da comunicação tem seu mar- evoluem de uma perspecti- co inaugural com a obra “Arte retórica”, de va linear e instrumental, na qual os meios Aristóteles, que tinha como objetivo expli- de comunicação eram vistos como meros car como ocorriam os modos de convenci- disseminadores de informações, para mento das pessoas em um auditório. Nesse uma perspectiva que concebe a mídia modelo, o filósofo considerava o falante, o como centralidade nos processos sociais. discurso e o ouvinte como os componen- Seguindo em grande parte a lógica da tes do processo de comunicação, em que mercantilização, a mídia é responsável a produção do discurso buscava prever a pela produção dos sentidos que circulam reação do ouvinte, visando à forma mais na sociedade, de modo a afetar nossa eficiente de persuadi-lo, característica cultura, educação e, sobretudo, nossas principal da arte da retórica. sociabilidades. O modelo aristotélico serviu como base Identificar e analisar como a midia- para a elaboração das primeiras teorias de tização altera as estruturas de ações da comunicação do século XX. Como exem- comunicação organizacional é nosso plo desse processo, pretendemos mostrar papel como estudiosos da comunicação. resumidamente as características dos mo- Ao levantar questionamentos sobre a ne- delos funcionalistas de Shannon e Weaver, C o m m u n i c a r e 120
  3. 3. Eugenia M. da Rocha Barichello e Daiana Stasiak David Berlo e Marshall McLuhan. receptor. Porém, essa interação entre co- Em 1949, os engenheiros Shannon e municantes ainda é explicada de forma Weaver apresentaram a teoria matemática linear, ou seja, a ação e a reação do ato da informação tida, por muito tempo, como comunicativo ainda rejeitam a proposta modelo de comunicação. Para essa teoria, da comunicação como um processo. numa comunicação entre duas pessoas, Para Peruzzolo (2006:20) “Tanto na o cérebro de uma é a fonte emissora da comunicação telegráfica de Shannon e We- informação, enquanto o cérebro da outra aver quanto na comunicação interpessoal é o seu destino. Nesse contexto a voz é o de Berlo [...] comunicar é uma técnica”. emissor/transmissor e o aparelho auditivo Pode-se dizer que os modelos tecnicistas é o receptor, enquanto a outra pessoa é o preocupavam-se somente com a obtenção destinatário. A ênfase estava no canal e na da máxima eficácia e o feedback, por exem- restrição dos sentidos. Pontualmente os plo, servia apenas como um afirmador da autores acreditavam que: uma pessoa (A) se ação mecânica. As teorias expostas acima comunica com outra (B), quando esta, em são modelos de seu tempo, porém não con- seus comportamentos de resposta, corres- sideram a comunicação como um processo ponde às intenções do indivíduo (A). que engloba também os sujeitos, suas reci- No modelo acima referenciado, a co- procidades, as culturas, a estrutura social, municação é abordada como um processo ou seja, um processo relacional. O caráter no qual a fonte produz uma mensagem, relacional do processo comunicativo tam- ou uma série delas, para serem comuni- bém não é claramente explicado no modelo cadas. Essas mensagens transformam-se de comunicação elaborado por Marshall em sinais que são adaptados a um canal McLuhan (1971), o qual propunha a com- com vistas a atingir o receptor; porém, preensão dos meios de comunicação como como os processos são mecânicos, podem extensões do homem, ou seja, próteses que ocorrer interferências caracterizadas como aumentam seu poder e influência. “ruídos” pelos autores. O filósofo canadense representa a Um desafio aos teóricos que o produ- transição do modelo matemático informa- ziram, após a proposta do modelo mate- cional para o paradigma midiológico, e sua mático da informação, foi adaptá-lo para preocupação é com os efeitos do processo explicar a comunicação humana. Com de comunicação sobre os indivíduos. Daí esse objetivo, Berlo apresentou, em 1960, considerar a mensagem como uma “mas- um modelo no qual retomou a retórica sagem”, um conjunto dos resultados de al- de Aristóteles e orientou-a ao modelo de guma tecnologia sobre o sensório humano. Shannon e Weaver. McLuhan não visou os efeitos ideológicos Polistchuk e Trinta (Polistchuk, Trinta, da mídia sobre as pessoas e sim o impacto 2002) explicam que Berlo concebe a comu- físico e social das novas tecnologias. nicação como uma partilha, que é situada Em termos da era eletrônica, já se criou pelo quadro social e sistema cultural de um ambiente totalmente novo, o conteúdo cada um. Nesse quadro, o emissor e o re- deste novo ambiente é o velho ambiente ceptor têm posições equilibradas, porém, mecanizado da era industrial... Hoje, as para que o ato comunicativo seja bem tecnologias e seus ambientes conseqüen- sucedido, deve haver alguma equivalên- tes se sucedem com tal rapidez que um cia de códigos entre eles. Berlo considera ambiente já nos prepara para o próximo. que, nessa proposta de interação, ocorre As tecnologias começam a desempenhar a o feedback, ou seja, há uma retroalimen- função da arte, tornando-nos conscientes tação que permite saber se houve ou não das conseqüências psíquicas e sociais da interferência na mensagem enviada ao tecnologia. (McLuhan, 1971:11,12). Vo l u m e 8 - N º 1 - 1 º s e m . 2 0 0 8 121
  4. 4. A inserção da comunicação organizacional... Por isso, para o autor, “o meio é a 3. Conceito de mensagem” assim, midiatização é o meio que configura e controla a proporção e a forma das ações e asso- Sodré (2002) trata as novas tecnologias ciações humanas. O conteúdo ou usos como modos que transformam a pauta desses meios são tão diversos quanto de interesses rotineiros e proporcionam ineficazes na construção da forma das uma qualificação virtualizante à vida, no associações humanas. Na verdade não qual a comunicação centralizada e linear deixa de ser bastante típico que o conte- é transformada pelos avanços técnicos údo de qualquer meio nos cegue para a capazes de acumular dados, transmiti-los natureza desse mesmo meio. (McLuhan, e fazê-los circularem rapidamente, ou seja, 1971:23). a midiatização traz à tona novas formas de O pensamento de McLuhan segue perceber, pensar e contabilizar o real. atual, especialmente quando propõe O fenômeno da midiatização é carac- que as mídias influenciam umas às terizado como tendência à telerrealização, outras e dão forma às estruturas da o que significa a virtualização das relações sociedade; portanto, uma mídia não humanas. Nesse contexto, a mídia é vista destrói outra, apenas a como a responsável pelos processos de supera e traz consigo as interação social devido ao poder simbólico transformações sociais, de influência que exerce a partir de seus culturais e políticas da meios e mensagens. Esse poder é dado, Midiatização é caracte- civilização. Ao antecipar principalmente, pela prevalência da forma rizado como tendência a questão dos meios como ambiência, a abordagem sobre o conteúdo real no qual a imagem torna-se uma mercadoria a serviço de uma à telerrealização, o que do teórico canadense leva nova gestão da vida social. -nos a refletir sobre como A midiatização manifesta-se em um significa a virtualização eram pensadas as ações de cenário de heterogeneidades trazidas, em comunicação nas organi- sua maioria, pelos avanços tecnológicos, das relações humanas zações do século passado nos quais a natureza da organização social e a procurar compará-las não é, de modo algum, linear e homogê- às da atualidade. nea, mas descontínua. Essa asserção é Ao analisar certas prá- explicada por Fausto Neto ao propor que ticas de comunicação organizacional por muito tempo os paradigmas de hoje, nos deparamos com ações que vigentes nas teorias comunicacionais ainda utilizam um viés da comunicação apostavam na idéia de que a convergência linear e instrumental, que não enfatiza das tecnologias nos levaria à estruturação as transformações relacionadas aos de uma sociedade uniforme, com gostos avanços tecnológicos e ao papel que a e padrões, em função de um consumo mídia desempenha no contexto global homogeneizado... mas o que vemos é a contemporâneo. Acreditamos que esses geração de fenômenos distintos e que fatores interferem diretamente nos mo- se caracterizam pelas disjunções entre dos como a comunicação organizacional estruturas de oferta e de apropriação de acontece e propomos que o modelo da sentidos. (Fausto Neto, 2005 : 3). midiatização (Sodré, 2002) possa ajudar Esse conceito tem origem no próprio na reflexão das questões teóricas que desenvolvimento de uma modalidade servirão de base para as práticas orga- prática da comunicação que leva a novas nizacionais poderem ser estruturadas interpretações, diferentes das propostas sob uma outra perspectiva. por alguns modelos clássicos como os C o m m u n i c a r e 122
  5. 5. Eugenia M. da Rocha Barichello e Daiana Stasiak apresentados por Shannon e Weaver e militar fazem parte da origem da internet Berlo, por exemplo. Ou seja, a midia- desenvolvida a partir de 1969 nos Estados tização abarca significados maiores do Unidos. Porém, no modo como a entende- que concepções lineares e instrumentais mos atualmente, ela se formou em 1994, que não consideravam a mídia em sua com o surgimento da World Wide Web. questão central. Manuel Castells considera a internet Sodré (Sodré, 2002) entende a mi- como o tecido de nossas vidas neste diatização como um quarto âmbito da momento, qualificando-a como a rede existência no qual a esfera mercadológi- das redes de computadores capazes de se ca predomina e dita regras que levam a comunicarem entre si. “Não é outra coisa. uma nova qualificação cultural e a novas Sem dúvida, essa tecnologia é mais que formas de sociabilidades. O bios virtual, uma tecnologia. É um meio de comunica- como nomeia essa existência, cria uma ção, de interação e de organização social” ética baseada na mídia, a qual opera conte- (Castells, 2004:255). A internet é e será údos e tem como finalidade a manutenção ainda mais um meio de comunicação de do sistema econômico global, o que leva relação essencial sobre o qual se baseia as pessoas a um novo regime social em uma nova forma de sociedade em que já que estão sistematicamente conectadas, vivemos e, porém fragmentadas em termos de conta- nesse sentido, a internet não é sim- tos humanos. plesmente uma tecnologia; é o meio Para Fausto Neto (2005), esse processo de comunicação que constitui a forma cria um novo ambiente – da informação e organizativa de nossas sociedades...A in- comunicação – que, por meio de tecnolo- ternet é o coração de um novo paradigma gia, dispositivos e linguagens, produz um sociotécnico, que constitui na realidade a conceito de comunicação segundo a qual base material de nossas vidas e de nossas os meios são considerados pulsões que ins- formas de relação, de trabalho e de comu- tituem e fazem funcionar um novo tipo de nicação. O que a internet faz é processar real, em que as bases de interações sociais a virtualidade e transformá-la em nossa não se estabelecem por meio de laços so- realidade, constituindo a sociedade em ciais, mas sim por ligações sociotécnicas. rede, que é a sociedade em que vivemos. Desse modo, entendemos que existia (Castells, 2004:287). uma sociedade midiática baseada na Tais mudanças influenciaram vários centralidade dos meios de comunicação aspectos individuais e sociais, dentre os vistos como instrumentos disseminadores; quais podemos citar: as alterações nos mo- porém, com as mudanças trazidas, sobre- dos de sociabilidade e pertencimento dos tudo com o desenvolvimento tecnológico, sujeitos; as transformações nos modelos a mídia deixa de ser um instrumento e de gestão das instituições; as influências passa à qualidade de produtora de sen- nas relações de troca econômica e no âm- tidos sociais capazes de transformar os bito político; a capacidade de estocagem modos de sociabilidade, caracterizando, de grandes volumes de dados e sua trans- assim, uma sociedade midiatizada. Nesse missão instantânea. Todas essas se atrelam contexto, consideramos a internet como a cada vez mais à vivência diária e passam mídia que melhor ilustra as possibilidades a constituir nossa realidade. da comunicação contemporânea. O campo econômico talvez seja o que melhor reflete as alterações trazidas 3.1. Internet como mídia pelo advento das redes. A mobilidade de A interação entre a ciência, a pesquisa grandes massas e capitais, por exemplo, universitária e os programas de pesquisa influencia diretamente nos métodos e Vo l u m e 8 - N º 1 - 1 º s e m . 2 0 0 8 123
  6. 6. A inserção da comunicação organizacional... gestões organizacionais. Assim, já se torna tecnologias que englobam o computador comum afirmar que o desenvolvimento e as redes virtuais, justificando que estas das redes digitais transforma radicalmente não modificam o conceito de medium, a vida do homem contemporâneo, tanto entendido como canalização e ambiên- nas relações de trabalho quanto na socia- cia estruturados com códigos próprios, bilização e no lazer. pois são apenas uma extensão linear das Para Dênis de Moraes, “a intensificação mídias tradicionais. midiática atravessa, articula e condiciona Segundo ele, o atual estágio do capitalismo, cujo pilar medium, entenda-se bem, não é o de sustentação é a capacidade de acumu- dispositivo técnico,(...) é o fluxo comu- lação financeira numa economia de inter- nicacional, acoplado a um dispositivo conexões eletrônicas” (Moraes, 2006:34). técnico e socialmente produzido pelo Em adição, Sodré (2002) considera que mercado capitalista, em tal extensão que a mídia é a principal responsável pelos o código produtivo pode tornar-se “am- processos de interação social, bem como biência” existencial. Assim, a internet, pela construção social em si. Desse modo, não o computador, é medium. (Sodré, a internet é considerada uma ambiência 2002:20). que permeia o indivíduo, Para Barichello (2007), a comunicação seus modos de vida e os va- digital permite não apenas o encontro de lores sociais, caracterizan- informações, mas também proporciona do uma nova qualificação que essas mesmas informações se tornem A midiatização manifesta- atual da vida, denominada a própria experiência, isso devido à con- se em um cenário de he- bios virtual. Nesse novo bios, a mídia, como poder vergência técnica e às possibilidades inte- rativas que podem ser estabelecidas entre terogeneidades trazidas, simultâneo, instantâneo e os indivíduos (usuários). De modo que o global, manifesta-se através sistema de redes digitais se caracteriza em sua maioria, pelos das tecnologias da comu- pela integração de diferentes veículos em nicação, transformando os avanços tecnológicos modos de acolher os fatos um único medium - a internet – construin- do um novo ambiente. Portanto, do ponto do mundo. de vista da comunicação nas organizações, Se antes o receptor aco- esse contexto afeta diretamente os modos lhia informações repre- de pensar estrategicamente as teorias e sentadas e isentas de seu fluxo original, práticas profissionais. agora há um novo regime de visibilidade pública na qual o mundo é acolhido em 4. A Comunicação seu fluxo de tempo real, configurando organizacional na uma nova modalidade de representação. perspectiva teórica da A maturação tecnológica resulta na hibri- midiatização dização dos processos de trabalho e dos recursos técnicos já existentes e, assim, Assim como os modelos teóricos as tecnologias da telefonia, televisão e referem-se às necessidades do seu tempo computação se unem e tornam possíveis específico ou, por vezes, vão além dele, as hibridizações discursivas (texto, som temos questionamentos com relação às e imagem) que resultam no hipertexto, o questões práticas da comunicação, pois, se modo através do qual as informações são os paradigmas se refazem e as teorias são apresentadas na internet. atualizadas, a comunicação organizacio- Sodré (2002) não concorda com a nal também deve adaptar-se ao contexto designação de pós-midiáticas para as do seu tempo. C o m m u n i c a r e 124
  7. 7. Eugenia M. da Rocha Barichello e Daiana Stasiak Por isso, a proposta é repensar os há a possibilidade de que exista o fluxo de fluxos de comunicação, considerando- um número indeterminado de emissores e se a internet como uma ambiência que receptores, como ocorre em (d), sem deixar caracteriza o fenômeno da midiatização, de considerar a coexistência temporal des- pois dita a velocidade dos acontecimentos ses fluxos na internet. diários e transforma as lógicas de visibili- Desse modo, acreditamos que a nova dade, trazendo à comunicação organiza- ambiência proporcionada pela internet, e cional a necessidade de se atualizar e de seus inúmeros fluxos, deva ser utilizada reorganizar suas ações a fim de se inserir como um caminho para a atualização das no fluxo midiático. Podemos considerar práticas de comunicação organizacional, alguns exemplos das rotinas diárias de principalmente pelo seu poder de conver- comunicação, tais como: o uso do e-mail gência e possibilidades interativas com para o envio de mala direta e as múltiplas os públicos. possibilidades interativas do portal ins- titucional e da intranet, que moldam os 5. Considerações Finais relacionamentos com os públicos. Nesse contexto, conhecer o espaço de flu- Retomando a proposta desse artigo es- xos que a internet oferece pela possibilidade tabelecida em revisitar teorias para levan- de convergência midiática também é, confor- tar questionamentos e motivar o debate de me Musso (2006), um processo relevante, idéias, avaliamos que a midiatização deva como procura ilustrar a figura abaixo: ser considerada como perspectiva teórica adequada ao espaço de fluxos e às possibi- Figura 1: fluxos de co- lidades interativas das organizações com municação na internet seus públicos na contemporaneidade. Isso porque, tanto o modelo funciona- lista de Shannon e Weaver, que visava à simples transmissão linear dos dados sem considerar os sujeitos da comunicação, quanto o modelo de Berlo, que apresentou o feedback apenas como uma resposta me- cânica aos estímulos dados pelo receptor Ao observarmos a figura acima encon- ou até mesmo o modelo de McLuhan, que tramos em (a) o tradicional fluxo ponto- prestou atenção aos meios, vendo-os como a-ponto, de um emissor para um receptor centro de tudo, não estavam baseados num determinado, que pode ser aplicado nas pensamento que abarcasse a relevância e a ações, ao utilizarmos, por exemplo, o e-mail. complexidade do processo comunicacio- Já em (b), vemos o fluxo da internet como nal. Talvez nem mesmo a mescla desses um ponto de emissão para muitos recepto- três modelos possa adequar-se a uma idéia res (o emissor ainda domina e há resquícios que sinalize a compreensão do processo de uma comunicação de massa). Como da midiatização hoje vivenciado. exemplos podemos citar os sites das orga- Na perspectiva da midiatização dois nizações, os jornais, as revistas e as rádios desafios podem ser destacados no âmbito on-line. O fluxo ilustrado em (c) mostra a da comunicação das organizações: a alte- possibilidade de um número indeterminado ração dos fluxos comunicacionais propor- de emissores enviar mensagens para apenas cionados pela ambiência da internet e a um receptor, como ocorre nos SAC (Serviços transformação das lógicas de visibilidade, de Atendimento ao consumidor on-line) e desafios esses que demandam um novo nas ouvidorias institucionais. Além disso, pensar estratégico para a área. Vo l u m e 8 - N º 1 - 1 º s e m . 2 0 0 8 125
  8. 8. A inserção da comunicação organizacional... Urge, portanto, uma atualização das ou seja, considerar os deslocamentos práticas de comunicação organizacio- dos fluxos comunicacionais, oriundos nal, na qual sejam consideradas as mí- do processo de midiatização, e incor- dias contemporâneas como a internet. porá-los às rotinas de planejamento, Ao mesmo tempo, é preciso repensar execução e avaliação da comunicação a utilização das mídias tradicionais, das organizações. Referências bibliográficas BARICHELLO, Eugenia Mariano da Rocha. “Estratégias comunicativas interacionais nas organizações contemporâneas”. In: KUNSCH, M. M.K. Handbook de Comunicação Organizacional. São Paulo, 2007 (No prelo). _____ “Mídia, Territorialidades e sociabilidades”. In: XV Encontro da Compós. UNESP, Bauru, 2006. CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo, Paz e Terra, 1999. CASTELLS, M. “Internet e Sociedade em rede”. In: MORAES, Dênis de. (org) Por uma outra comunicação. Rio de Janeiro, Record, 2004. FAUSTO NETO, A. Midiatização, prática social-prática de sentido. Anais do Seminário sobre midiatização, Rede Prosul, São Leopoldo: UNISINOS, 2005. McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação, como extensões do homem. Tradução de Décio Pignatari. São Paulo, Cultrix, 1971. MORAES, Dênis de (org). A sociedade midiatizada. Rio de Janeiro, Mauad, 2006. MUSSO, P. “Ciberespaço, figura reticular da utopia tecnológica”. In: MORAES, Dênis de (org). A sociedade midiatizada. Rio de Janeiro, Mauad, 2006 PERUZZOLO, Adair Caetano. A Comunicação como encontro. Bauru, Edusc, 2006. POLISTCHUK, Ilana, TRINTA, Aluízio Ramos. Teorias da comunicação: o pensamento e a prática da comunicação social. Rio de Janeiro, Campus, 2002. SILVA, Jaqueline Quincozes da, BARICHELLO, E. M. M. R. Representação das Organizações no Espaço Midiatizado. In: Anais do XXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Brasília, 2006. SODRÉ, Muniz. “O ethos midiatizado”. In: Antropológica do Espelho. Por uma teoria da comunicação linear e em rede. Petrópolis, Vozes, 2002. C o m m u n i c a r e 126

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