Importante 08 ler

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  1. 1. 1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ PET – ECONOMIA CRISE ECONÔMICA: INTERPRETAÇÕES MARXISTAS* Paulo Félix Gabardo** RESUMO O artigo expõe as quatro principais correntes teóricas marxistas no que tange às crises econômicas capitalistas. Primeiramente introduz-se algumas visões teóricas diversas sobre a conceituação de crise econômica. Em seguida, o conceito marxiano de crise é explorado. Depois as correntes marxistas são descritas e diferenciadas de acordo com a relação causística da crise que cada uma propõe. As quatro teorias marxistas de crise descritas são a subconsumista, a desproporcionalista, a da queda da taxa de lucro pelo aumento da composição orgânica do capital e a do estrangulamento dos lucros pelos salários, esta última dividida em duas vertentes: a primeira considera que a força dos trabalhadores na luta de classes aumenta pressionando o salário real e a segunda afirma que o enxugamento do exército industrial de reserva na fase expansiva do capitalismo faz com que a oferta e a demanda por mão-de-obra flutuem de forma a aumentar o salário real. Palavras-chave: crise econômica, capitalismo, marxismo * Artigo orientado pelo Professor Doutor Francisco Paulo Cipolla da Universidade Federal do Paraná. ** Graduando do curso de Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Paraná.
  2. 2. 2 INTRODUÇÃO A crise econômica sempre foi um assunto polêmico no estudo da Economia Política. Para alguns autores não passa de um detalhe e para outros se configura como uma das mais relevantes matérias a serem tratadas pela Ciência Econômica. Certamente não é possível encontrar uma sistematização teórica sobre crise econômica em todos os autores. Mas alguns detalhes e algumas induções podem levar a conclusão de que a crise se apresenta recorrente na maioria das obras consagradas da Economia Política, se não com um tratamento específico, como consequência lógica do raciocínio imputado por seus autores. A seguir são citados alguns exemplos. Malthus Com sua visão de desequilíbrio do sistema capitalista que provoca a superprodução relativa de mercadorias devido a brecha de demanda deixada pelos trabalhadores, Malthus esboça o que seria uma teoria de crise baseada no subconsumo. Até mesmo na sua fatalista lei de população, que propõe uma dinãmica caótica na proporção entre a produção e a necessidade de alimentos, existe a necessidade lógica de um momento de crise econômica que ocorreria quando a desproporção se efetivar. Malthus, portanto, não faz um tratamento específico das crises e nem formula um enunciado teórico para estas, mas não há como chegar à outra conclusão com os raciocínios supracitados. Ricardo A sua lei dos rendimentos decrescentes na agricultura resulta necessariamente numa crise econômica devido ao estrangulamento dos lucros pelo salário real sempre crescente. O preço das mercadorias que formam a cesta de consumo dos trabalhadores aumenta, reduzindo a parcela dos lucros na composição da renda gerada, até zerá-los. Outro fator também relevante na teoria ricardiana é a admissão da possibilidade da pletora de capital, que torna o investimento marginal improdutivo e gera a crise por interromper o consumo de bens de capital.
  3. 3. 3 Escola Neoclássica A tradição do laissez-faire reservou menor importância às crises econômicas, considerando-as pequenas flutuações em torno de uma situação ótima, causadas por fatores externos ao sistema, ou como pontos de inflexão de ciclos econômicos de oscilação suave e auto ampliáveis. Afinal não há como sustentar que a economia está sempre no pleno emprego se houver a necessidade sistemática de crises agudas na ampliação capitalista. É a visão que mais se coaduna com o conceito de mão invisível de Adam Smith, cujo raciocínio implica na rejeição da possibilidade de crises econômicas regulares já que não há um fator sistemático para que elas ocorram, pois com os agentes buscando a realização individual o sistema se encaminha para uma situação ótima. Keynes Tendo escrito sua principal obra, a Teoria Geral, sob a inspiração de encontrar soluções para a crise de 1929, Keynes considera que a crise é uma possibilidade na dinâmica capitalista, mas sem um caráter sistemático e regular, já que ocorre fundamentalmente devido à tomada de decisões sob incerteza. É nesse contexto que o governo entra como um fator capaz de equilibrar as distorções do sistema através da ampliação da demanda agregada com políticas expansionistas e estímulo ao investimento. Na próxima seção será discutido o conceito marxiano de crise econômica. A ordem cronológica não foi respeitada justamente por serem as bases teóricas de Marx a fundamentação para as teorias discutidas neste trabalho. Além disso vários autores importantes na história do pensamento econômico não foram incluídos nessa introdução, mas apenas porque a proposta desta parte é traçar um panorama simplificado das visões e considerações das principais correntes e dos principais autores da Economia Política no que tange ao assunto das crises. As quatro seções seguintes tratarão de cada corrente marxista de teoria de crises: a subconsumista, a desproporcionalista, a da queda da taxa de lucro pelo aumento da composição orgânica do capital e a do estrangulamento dos lucros pelos salários.
  4. 4. 4 O CONCEITO MARXIANO DE CRISE ECONÔMICA Nesta seção será introduzido o conceito de crise econômica desenvolvido por Marx, na sua forma mais fundamental. Segundo Marx, a possibilidade da crise reside na metamorfose da mercadoria, mas sua efetiva realização só se torna latente com a forma capitalista de acumulação, cuja aparência é o lucro monetário. Isso porque o processo que define o circuito do capital responde à incentivos diferentes que o da simples obtenção de valores de uso. A figura do capitalista, para Marx, encerra o desejo de acumulação de capital e não de maximização de utilidade. E essa acumulação é submetida a uma taxa usual de lucro que pepetue o incentivo capitalista ao reinvestimento do excedente gerado no processo produtivo e realizado no processo de circulação. Partindo dessas notas introdutórias sobre a visão de Marx, não fica difícil perceber que qualquer fator que incite o capitalista a interromper o reinvestimento do excedente realizado é suficiente para iniciar o processo de crise. Mas a pergunta que resta é qual é esse fator? Em outras palavras, o que gera a queda da taxa de lucro abaixo do nível usual cessando o estímulo capitalista a ampliação? E, finalmente, porque existe necessidade das crises ocorrerem sistematicamente? As respostas a esssas perguntas são o que fundamentalmente diferencia as correntes marxistas que serão discutidas neste trabalho. As contribuições de Marx neste sentido se encontram dispersas em sua obra, mas serão brevemente apresentadas. A característica essencial que levaria o capitalismo sistematicamente a desequilíbrios causadores de crises econômicas tem suas raízes no próprio fato de o sistema capitalista não ter um caráter planificado para organizar a divisão social do trabalho e com isso impedir que as crises econômicas ocorram. O processo global do capital separa a criação de valor da sua realização, sendo esta sujeita a dinâmica do mercado. Ou seja, os desequilíbrios que levam a crise se encontram essencialmente na ruptura entre o valor produzido, que depende do trabalho socialmente necessário para produzir a mercadoria, e o preço, que é regulado por interações entre oferta e demanda. Logo, a crise gesta durante a
  5. 5. 5 evolução contínua do sistema capitalista e se impõe a fim de reequilibrar as imperfeições que a dinâmica do sistema acumulou. No capítulo XVII das Teorias da mais-valia, Marx aponta algumas das possíveis razões causadoras de crises. Marx cita que as crises podem desencadear- se por um processo de desproporção na produção de determinadas mercadorias chave, cujas cadeias produtivas mobilizam um grande esforço econômico. Essa desproporção gera problemas de realização, desestimulando o reinvestimento. Mais uma possível razão para a crise apontada por Marx, se encontra no volume 3 de O Capital. Segundo Marx, o capitalismo levaria a situações de superacumulação de capital na forma monetária e sem produtividade marginal. O resultado seria uma maciça destruição de valor e a ascensão de dinâmicas prejudiciais ao funcionamento do sistema, como a inflação. Em todas as observações feitas sobre os motivos dispersos apontados por Marx para as crises é interessante a inclusão do crédito como fator que espalha a crise por todo o sistema devido a insolvência dos créditos emprestados. É interessante notar que a visão de Marx sobre o objetivo das crises econômicas, como situações agudas formadas naturalmente pela dinâmica do capitalismo e com o fim último de reequilibrar as condições de existência do sistema, sugere que a abordagem marxista é cíclica. Marx não considera que a crise é o que, mecanicamente, leva ao colapso do capitalismo, apesar de externar suas contradições essenciais. A teoria de colapso de Marx, se é que existe uma teoria sistematizada, enfatiza a luta política entre a classe dos operários e os capitalistas para provocar a derrocada do sistema capitalista. Não há em Marx, e não pode haver na interpretação deste texto, a mistura dos dois conceitos. O artigo discutirá nas próximas seções quatro tipos de teorias marxistas de crise, cada uma delas julgando-se a mais apropriada ao arcabouço teórico marxista. Não é a intenção deste texto eleger a teoria mais convincente ou mais coerente ao pensamento marxiano, mas apenas traçar as características marcantes que de fato diferenciam essas diferentes teorias. A primeira teoria de crise a ser discutida será a subconsumista, posteriormente a desproporcionalista. Em seguida será analisada a da queda da taxa de lucro pelo aumento da composição orgãnica do capital e finalmente a do estrangulamento dos lucros pelos salários, sob cada uma das suas duas principais vertentes.
  6. 6. 6 TEORIA MARXISTA DE CRISE BASEADA NO SUBCONSUMO Tendo como dois dos principais ícones Rosa Luxemburg e Paul Sweezy, essa corrente considera o subconsumo como fator causador das crises econômicas. A abordagem que esta corrente demonstra evoluiu com o passar do tempo e com os diferentes autores que a integraram, mas seu raciocínio fundamental é de que os trabalhadores não são capazes de consumir o excedente que produzem e os capitalistas não tem interesse em fazê-lo por primarem à acumulação. Esta teoria é baseada numa superprodução relativa de mercadorias, o que causa uma crise de realização dos valores produzidos. Outro fator importante considerado por esta teoria é a noção de que o capitalismo não pode ampliar-se sem sustentáculos exógenos. De acordo com a teoria subconsumista, esse seria o fator responsável pela política imperialista das grandes potências capitalistas, que agem incessantemente em busca de novos mercados para escoar o excedente superproduzido. A motivação implícita em considerar o subconsumo como um fator crucial e inevitável da dinâmica capitalista é abstraída do raciocínio de que a produção é, em última instância, orientada pela demanda. O capitalista decide investir baseado na sua expectativa de demanda sobre seus produtos e não sob a orientação primordial da taxa de lucro, que seria uma simples conseqüência da eficiência do capitalista em observar o consumo solvente de suas mercadorias. Um dos problemas desta visão é considerar a produção de meios de produção totalmente dependente da produção de bens de consumo, invertendo a lógica de ampliação descrita por Marx. Outra característica é que a instalação desse tipo de crise implica no estancamento do sistema capitalista e, portanto, não existe a necessidade sistemática de crises ocorrerem periodicamente, basta que uma ocorra e que não exista um mercado alheio ao sistema capitalista para absorver o excedente, que a economia entra num estado de depressão crônica. A teoria de crise marxista baseada no subconsumo apresenta muitos pontos semelhantes à teoria keynesiana e é discutível até que ponto esta teoria é coerente com o arcabouço teórico deixado por Marx. Mas, como já foi dito, não é o objetivo deste trabalho investigar o grau de coerência de cada teoria e sim traçar as características básicas que as diferenciam.
  7. 7. 7 TEORIA MARXISTA DE CRISE BASEADA NA DESPROPORÇÃO Apesar de também pressupor uma superprodução relativa de mercadorias como fator relevante para a eclosão das crises, a teoria desproporcionalista pode ser considerada diametralmente oposta à teoria subconsumista, por considerar que o consumo dos trabalhadores é um mero detalhe na reprodução do capitalismo. De acordo com os desproporcionalistas, a causa das crises econômicas é a desproporção na produção de mercadorias entre os ramos interdependentes do capitalismo. Através da manipulação dos esquemas de reprodução, os desproporcionalistas tentam demonstrar que a ampliação depende do equilíbrio entre os setores produtivos e se todos acumularem com a mesma taxa, não há necessidade das crises ocorrerem. O que acontece é que os capitalistas são guiados pelo desejo desenfreado de acumular o que acaba pressionado o mercado com excesso de mercadorias, resultando em crise. Se houvesse um planejamento prévio da produção entre os capitalistas, e não uma submissão ao caráter anárquico do sistema, não haveria razão lógica e prática de acontecerem crises, pois não haveria desequilíbrio algum a ser resolvido. Mas a própria concorrência entre os capitais torna impossível esse planejamento. Entre os principais autores desta corrente estão Tugan-Baranowsky (1907) e Rudolph Hilferding (1910). Um dos principais problemas da visão desproporcionalista é a pouca ênfase prestada aos bens de consumo, principalmente na obra de Tugan. É como se o capitalismo pudesse ampliar e fizesse sentido que ele ampliasse, aumentando o volume dos meios de produção. Como a frase de Tugan que diz “o ferro e o carvão produzidos podem servir sempre a produção de ferro e carvão”. Novamente é discutível se essa postura se coaduna com a visão de Marx. TEORIA MARXISTA DE CRISE BASEADA NA QUEDA DA TAXA DE LUCRO PELO AUMENTO DA COMPOSIÇÃO ORGÂNICA DO CAPITAL Esta teoria de crise é derivada da tendência, apontada por Marx, da queda da taxa de lucro pelo aumento da composição orgânica do capital. O desenvolvimento do capitalismo e a concorrência envolvida na disputa dos capitalistas, fazem com que a busca pela queda nos custos unitários se intensifique. Os métodos possíveis
  8. 8. 8 para essa redução de custo seriam: a queda do salário real, o aumento da jornada de trabalho ou o aumento da produtividade do trabalho. Como, acompanhando a expansão e amadurecimento do capitalismo, ocorre o desenvolvimento das forças produtivas do trabalho e cresce a resistência dos trabalhadores na luta de classes, os dois primeiros métodos de redução de custos passam a ter uma dificuldade política de se implantarem, restando aos capitalistas buscar o aumento de produtividade do trabalho. Esse aumento de produtividade do trabalho só é possível com a alteração da composição técnica do capital, ou seja, a introdução de uma nova tecnologia capaz de alterar a proporção entre o capital constante – insumos, máquinas e equipamentos, planta – e o capital variável – trabalho. O aumento do volume de capital constante tende a se manifestar em aumento do valor de trabalho morto – trabalho incorporado no capital constante e que não gera excedente - na formação do valor total do produto, o que significa o aumento da composição orgânica do capital. Mas de que forma isso reduz o lucro? O lucro é a manifestação monetária da mais-valia realizada no processo de circulação, mas ao contrário da mais-valia, o lucro é medido em termos do capital investido totalmente – capital constante e capital variável – e não somente em termos de trabalho excedente. Como aumentou a proporção de capital constante em relação ao capital variável, o volume de capital total investido por trabalhador passou a ser maior, mas esse aumento não necessariamente foi acompanhado por uma maior capacidade do trabalhador de gerar mais-valia e, portanto, a proporção entre a mais-valia gerada e o total de capital investido reduz. No momento em que as mercadorias entram no processo de circulação e são vendidas, a realização da mais-valia – lucro – comparada ao capital investido se mostra menor. Explicado o mecanismo pelo qual o aumento da composição orgânica leva à queda da taxa de lucro, resta relacionar este mecanismo com a sistematização de uma teoria de crise econômica. Os principais autores que buscam uma conclusão neste sentido são Henryk Grossman, David Yaffe e Anwar Shaikh. Segundo estes autores, a concorrência gera períodos cíclicos de queda e aumento da taxa de lucro. A queda se dá pelo mecanismo da tendência apresentado até o ponto em que o investimento marginal se torna improdutivo e é nesse momento que ocorre a crise. Os capitalistas interrompem o ciclo produtivo gerando
  9. 9. 9 desemprego e reduzindo o poder de barganha dos trabalhadores, e inflam os preços para tentar manter a rentabilidade. Essa situação leva a uma destruição maciça de capital, especialmente das empresas menos eficientes e faz com que caia o salário real, impulsionando a contratação expressiva de trabalhadores sem a pretensão imediata de aumento de produtividade já que o custo do trabalho está mais baixo que o do capital, que teve seus preços inflados. A presença de maior quantidade de capital variável no processo produtivo permite a ampliação rápida da mais-valia produzida e cria condições para uma nova fase expansiva. Existem quatro críticas para essa visão. A primeira seria a extrapolação de um argumento teórico de Marx que aponta uma tendência de longo prazo, para uma teoria que visa explicar flutuações cíclicas de curto prazo. A segunda é que em certas condições não existe a necessidade do valor do capital constante aumentar tanto quanto seu volume e também não há como saber se a taxa de mais-valia não crescerá a ponto de compensar a ampliação do valor do capital constante, já que se o aumento de produtividade for generalizado, os meios de consumo do trabalhador também terão seu valor reduzido e, portanto, haverá ampliação da mais-valia relativa. A terceira crítica, que é frágil por esquecer-se do pressuposto da concorrência entre os capitalistas, se apóia na idéia do teorema de Okishio segundo o qual os capitalistas nunca escolheriam uma tecnologia que tenha como resultado a queda da taxa de lucro, ou seja, o desenvolvimento tecnológico é passível de eleições técnicas, mas como diz Anwar Shaikh: “a única eleição que enfrentam os capitalistas é obter algum lucro com menor taxa ou não obter lucro nenhum por seu produto custar demais”. A última crítica a esta teoria é mais referente ao argumento de Marx, que por colocar a sociedade em termos de leis de movimento estaria subestimando as transformações realizadas pelas pessoas e então a tendência da queda da taxa de lucro geraria uma atitude fatalista dos trabalhadores, que não se empenhariam em promover a derrocada do capitalismo. De acordo os defensores da teoria de crise baseada na queda da taxa de lucro pelo aumento da composição orgânica do capital, a instituição de ciclos de manifestação da tendência vem rebater esta última crítica, já que se quiserem evitar os períodos de acentuado desemprego e altas inflações, os trabalhadores devem se preparar para os momentos em que o sistema está fragilizado e derrubá-lo.
  10. 10. 10 TEORIA MARXISTA DE CRISE BASEADA NO ESTRANGULAMENTO DOS LUCROS PELOS SALÁRIOS Junto com a teoria de crise baseada na queda da taxa de lucro pelo aumento da composição orgânica do capital, a teoria de crise baseada no estrangulamento de lucros pelos salários também busca atribuir um caráter sistemático para que as crises ocorram. Esta corrente teórica, como já foi dito, divide-se em duas teorias. A primeira baseia-se no aumento da força dos trabalhadores na luta de classes e a segunda se apóia no raciocínio de uma superacumulação de capital que aumenta a demanda por trabalho e infla o salário real. Luta de classes e estrangulamento dos lucros O principal argumento desta corrente é que a história se faz de condições políticas e não de leis de movimento, e que a posição em que a classe dominada se encontra é que determina as mudanças do sistema econômico. Essa teoria tem um viés bastante pragmático e revolucionário, mas com um raciocínio bem simples. Os trabalhadores se desenvolvem como classe e passam a brigar por maiores salários reais, o que tende a reduzir a taxa de exploração, ainda mais se esse aumento de salário superar o constante aumento de produtividade da dinâmica capitalista. Essa redução na taxa de exploração leva fatalmente a uma redução na mais-valia gerada e, portanto na mais-valia realizada, que se manifesta no lucro. O lucro caindo, cai o investimento e o ritmo de aumento de produtividade, agravando ainda mais a situação até a eclosão da crise, que deve ser encarada como o momento ideal de derrubada do sistema capitalista e não deve causar um temor reacionário aos trabalhadores. O raciocínio desenvolvido para validar esta teoria parte de um embasamento empírico segundo o qual antes das crises os salários aumentam na composição da renda nacional em relação aos lucros. Mas sua consistência teórica parte de uma incoerência, ainda mais em termos marxistas. É um erro considerar a relação entre lucros e salários igual à relação entre trabalho excedente e trabalho necessário, que definem a taxa de exploração. É perfeitamente possível na lógica marxista que os
  11. 11. 11 lucros estejam caindo e a taxa de exploração aumentando, ou que os salários reais estejam subindo e a taxa de exploração aumentando. A taxa de exploração mede a relação entre trabalho excedente e necessário, ou seja, o custo do capital constante não é incorporado na relação de determinação da mais-valia, mas é na determinação do lucro. O aumento da composição orgânica já seria suficiente para que o lucro caísse com o aumento da exploração, bastando que a taxa de mais-valia não compensasse o aumento no valor do capital constante. E o segundo caso, que seria o aumento do salário real junto com um aumento na taxa de exploração é extremamente viável bastando que haja um aumento generalizado de produtividade. Enxugamento do exército industrial de reserva e estrangulamento dos lucros Esta corrente tenta coadunar a crise causada pela queda dos lucros e interrupção dos investimentos com uma lei de população. O raciocínio também é bem simples. A força de trabalho, como qualquer mercadoria, tem certo limite de oferta, que de acordo com a demanda, pode fazer seu preço flutuar em torno do valor. O argumento central é que o capitalismo se expande a taxas tão elevadas, que ultrapassam o crescimento vegetativo e, portanto a mão-de-obra se torna cada vez mais cara devido ao mecanismo de flutuação do mercado, até o ponto em que é inviável a contratação de trabalhadores assim como a acumulação e a crise eclode. É o que se chama de enxugamento do exército industrial de reserva. O objetivo da crise é a desvalorização dos capitais superacumulados e a convergência entre a taxa de expansão do capitalismo e o crescimento vegetativo da população, como esta circunstância só é possível numa economia planejada, as crises ocorrem sistematicamente. A escola marxista japonesa é a principal adepta dessa escola, tendo em um dos grandes ícones Makoto Itoh. Há muitos questionamentos quanto à validade desta teoria. Será factível que existe escassez de mão-de-obra e esse é o principal motivo das crises? As principais críticas que esta corrente sofre são exatamente neste sentido. Se a dinâmica capitalista de concorrência está sempre em busca da redução dos custos e o meio mais efetivo de fazê-la é aumentando a produtividade do trabalho e, portanto aumentando a proporção de capital constante com relação ao capital variável, qual teria de ser a magnitude da expansão do capitalismo que fosse capaz de absorver todos os trabalhadores que estão
  12. 12. 12 desempregados e mais aqueles que foram substituídos por um aumento na mecanização? CONCLUSÕES Como qualquer análise teórica a construção deste artigo se mostrou bastante trabalhosa, devido à precisão que é necessário se ter para discutir teorias, independente da área e da ciência em questão. Mas por outro lado, também foi um trabalho agradável na medida em que suscitou discussões com os colaboradores e com o orientador do projeto. O resultado pode ter deixado a desejar aos leitores, mas como uma introdução à linha de pesquisa que pretendo seguir, certamente o trabalho foi muito proveitoso. A discussão teórica sobre crise econômica analisando as diversas óticas marxistas mostrou como, mais uma vez, a ciência econômica é interessante. Partindo de um mesmo arcabouço teórico, a teoria marxiana, e buscando explicar o mesmo fenômeno, têm-se quatro resultados diferentes. Isso sem contar as abordagens multicausais que foram negligenciadas neste trabalho, como a visão do consagrado historiador marxista Maurice Dobb. Uma outra questão que considerei bastante interessante, mas que infelizmente não consegui responder é até que ponto um embasamento teórico tem que ser completamente respeitado ou deixado intacto se o objetivo é traçar uma nova teoria. Será que a análise crucial é verificar qual teoria se coaduna melhor com o pensamento de Marx, ou tentar perceber qual aquela que lhe parece a mais coerente? Talvez o principal fruto desta pesquisa sejam as dúvidas que ela levantou, pois assim fico instigado a continuar o meu desenvolvimento acadêmico a fim de respondê-las. É claro que a visão que este artigo demonstra é bastante superficial e deixa de lado questões relevantes sobre cada teoria descrita, mas visto que o objetivo do trabalho é fazer uma comparação preliminar entre cada corrente em suas características principais posso dizer-me satisfeito com o resultado final.
  13. 13. 13 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ITOH, M. Value and crisis. N.Y.: Monthly Review Press, 1980, p. 93 - 149 SHAIKH, A. Valor, acumulacion y crisis. Ensayos de Economía Política, Tercer Mundo Editores, Bogotá, 1991, p. 251-320. AQUINO, D. C. de. O movimento dos salários dentro do processo de acumulação de capital. Curitiba, 2004. Dissertação de graduação entregue a Universidade Federal do Paraná. HILFERDING, R. O capital financeiro. São Paulo: Nova Cultural, 1985, p. 229-280 (Coleção Economistas). MARX, K. Teorias da Mais Valia, vol. II, cap. XVII, itens 6-14, p. 928-969, Difel, São Paulo, 1983. SWEEZY, P. A teoria do desenvolvimento capitalista. São Paulo, Nova Cultural, 1983, p. 111-184.

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