Você é aquilo que entrega

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Você é aquilo que entrega

  1. 1. Estilo de VidaVocê é aquilo que entregaNizan Guanaes, dono do maior grupo de publicidade brasileiro, afirma que os tempos sãooutros — e o marketing pessoal morreuPor Vicente Vilardaga Fotos Jairo Goldflus 12h34 29/01/2013O empresário Nizan Guanaes, 54 anos, mudou de rumo várias vezes na vida e na carreira.Veio da Bahia para São Paulo e conquistou o mercado nacional como publicitário. Fezcampanha política para o ex-presidente Fernando Henrique, abandonou a publicidade e foipara a internet comandar o portal iG. Então criou a agência África, embrião do ABC, maiorgrupo publicitário brasileiro. Mudou também seus hábitos e sua aparência. Já pesou 140quilos e agora está em pouco mais de 90. Era um notívago, viciado em trabalho, queestendia o expediente até alta madrugada. Hoje acorda às seis da manhã para fazer umahora e meia de exercícios.Nizan abandonou o cigarro e come salada, carnes brancas e arroz integral. Casou, descasou,casou de novo. O que mais o empolga, além do trabalho, é passar tempo com sua mulher,Donata Meirelles, e com os filhos e enteados: Helena, Antônio e Zeca – prometeu,inclusive, levar Zeca, corintiano roxo, à final do mundial, em Tóquio, se passasse de ano.
  2. 2. Há algo de novo em Nizan. Sem perder de vista o objetivo principal de levar o ABC à nonaposição no ranking global da publicidade até 2015 (hoje, com receita anual de 1 bilhão dereais, é o 18º), ele parece mais orientado ao desenvolvimento pessoal e aos pequenosprazeres da existência. Há dois anos, faz terapia. “É um projeto para mudar de vida. Nãosou resolvido e tenho mais perguntas do que respostas”, justifica.Em novembro, experimentou a meditação transcendental. Tenta esvaziar sua mente,controlar o fluxo incessante de pensamento que o assola. “Minha tradição é mudar”, afirma.“Não quero ser o perfeito, o cara certinho, e tomo cuidado para não parecer o que não souou oferecer o que não entrego.”Nizan afirma que o marketing pessoal acabou. Para quem já disse que marketing é tudo navida, trata-se de uma mudança e tanto. “Acho um negócio forçado. Parece um monte depassinhos que você precisa dar para fazer sucesso e que não servem para nada.” Propõe queas pessoas sigam sua natureza e façam aquilo que sabem. E dá algumas lições para sevender bem nos novos tempos – mais relacionadas à transparência dos atos e à evoluçãopessoal do que à simples promoção de si mesmo.Erre rápido (e tome o caminho certo)Se puder aprender com os erros dos outros, será melhor e mais barato. Se for com ospróprios, que seja rápido, para ter tempo de arrumar depois. Cometer erros já não éconsiderado algo necessariamente negativo ou vexaminoso. Pode ser efeito da ousadia.Teste, erre e refaça seu caminho. “Com os erros não há compromisso”, diz Nizan.O mundo hoje, segundo ele, é como um adolescente munido com um Google e testandosuas verdades. “É um adolescente te pentelhando, cobrando as coisas que você diz, ali nahora”, explica. Então, tome cuidado. “Se você se posicionar como infalível, o que é coisade maluco, ou dizer bobagens, vai ser cobrado no mesmo instante.”
  3. 3. As circunstâncias mudam, surgem novas descobertas, e situações obscuras se esclarecem.Nizan afirma que mudar de opinião é algo normal, e aqueles que entendem a transformaçãoda realidade e reagem mais rápido são os que sobreviverão. “É difícil pensar sempre domesmo jeito. Falei alguma coisa outro dia, mas mudei de ideia. E daí?”, pergunta. Elelembra que, ao longo da história, a discussão sobre uma maior presença do Estado naeconomia foi cíclica e não se chegou a uma conclusão sobre a questão. E sobre comer ovode galinha? Nizan já ouviu que é bom para a saúde e também que é ruim. Quanto àpropaganda (incluindo a de si mesmo), será sempre parcial e evidenciará o lado positivo.“O que não pode ser é mentirosa. Se antes mentir era falta de talento, agora é falta de juízo.Estamos em uma sociedade aberta”, conclui.Faça exercícios (e tenha mais resistência para o trabalho)Em novembro, em uma reunião do Conselho de Conservação da América Latina, daorganização ambientalista The Nature Conservancy, da qual é membro, em Foz do Iguaçu,Nizan reparou que boa parte dos empresários mais poderosos das Américas, como o diretorda Inbev, Jorge Paulo Lemann, ou o diretor executivo da Odebrecht, Marcelo Odebrecht,fazem exercícios com regularidade e estão determinados a se manter em forma. Elescuidam da alimentação, fazem meditação e evitam exagerar em qualquer coisa. Cuidar dasaúde é a tônica das conversas informais nesses eventos que reúnem altos executivos.“Ninguém entra hoje em uma maratona empresarial desgastante, com uma carga muitogrande de trabalho, sem estar preparado fisicamente”, acredita. “O esporte vai cansar vocêna hora certa, à noite, mas ao longo do dia dá mais disposição, tolerância e melhora suacapacidade de resposta e o desempenho em tudo, em todas as dimensões, comoprofissional, marido e pai.” Para quem chegou a perder 60 quilos, a questão estética dosobrepeso é secundária, em relação às consequências funcionais. “O problema é que você
  4. 4. não consegue respirar direito com barriga. E sem respirar a vida não é tão boa”, comenta.“O gordo tem muitas limitações.” É claro que fazer exercícios e melhorar seu preparo físicoe sua aparência terá efeitos positivos sobre sua imagem, além de beneficiar sua autoestima.Desenvolva sua intuição (e veja o que os outros não veem)Fórmulas existem para serem quebradas. Nizan montou uma nova agência, chamada ÁfricaZero, em setembro, com esse objetivo: abandonar fórmulas e recuperar uma velha maneirade fazer as coisas. É uma espécie de butique de propaganda, que ele comandapessoalmente, com uma proposta irredutível. “Faço tudo o que o cliente pediu, só que domeu jeito”, explica. “É uma agência intransigente em relação à possibilidade de abrir mãoda criação.” Os clientes estão contratando o discernimento e a intuição de um publicitáriocom 30 anos de experiência.“Ela tem esse nome porque é zero de burocracia e quase zero em pesquisa”, diz. Na visãodo publicitário, as agências trabalham excessivamente orientadas por pesquisas. Na ÁfricaZero, Nizan pretende ser o oposto daquele médico que lê exames e entrega uma receitapronta para o paciente. “Existe uma coisa chamada intuição. É quando as pessoas parecemfalar uma coisa e você percebe que elas estão dizendo outra”, afirma. “Se quiser fazer tudode olhos abertos, seus olhos vão te enganar. Sente, ouça, use os outros sentidos, seja Jedi.”Os primeiros clientes da nova agência foram a Embraer e a fábrica de celulose Eldorado.Nizan está convencido de que há um lugar para a proposta da África Zero, simplesmenteporque não existem concorrentes com essa posição. “Me sinto animado e tenho esse Viagrainside. Liderar é seguir os outros só que um passo a frente”, define. “Quem tem intuiçãonão precisa de marketing pessoal.”Encontre uma parceira ideal (e desfrute de um coaching permanente)Ter a pessoa certa do seu lado pode ser uma vantagem competitiva. Ela vai ajudar você aresolver problemas, a melhorar seu comportamento e, consequentemente, a se vender. Sesua mulher for como Donata é para Nizan, a parceria funcionará como uma espécie decoaching permanente, contribuindo para seu aprimoramento pessoal. “Donata não fala tãobem quanto eu, mas é melhor do que eu. É equilibrada, ponderada, resolvida e delicada”,diz ele.Nizan avalia que a parceria vem dando certo, com todos os desafios que um casal pode ter,e isso é bom não só para seu desempenho profissional, como para sua saúde mental. Oempresário defende a tese de que por trás de todo grande homem há uma mulher melhorainda. “Donata tem vida própria. Em muitas ocasiões, sou o marido da Donata e tenhoorgulho disso”, elogia. Segundo ele, encontrar uma parceira ideal é difícil – raramente vocêconsegue achar de primeira. “Foi um privilégio encontrar alguém. Acho a ideia docasamento absurda, uma conta que não fecha, mas muito pior do que casar é viversozinho.”Surfe a onda do Brasil (e consuma com responsabilidade)Quando esteve em Foz do Iguaçu, na reunião dos ambientalistas, Nizan teve um dia defolga e foi visitar as cataratas. Observou uma multidão de turistas brasileiros se divertindodiante da paisagem alucinante com suas novas câmeras fotográficas e smartphones. E se
  5. 5. emocionou. “Vi o povo brasileiro e suas conquistas, o que é um prazer. É o povo serealizando. Antes, muita gente olhava aquela coisa cheia de riqueza, que é o Brasil, e nãousufruía de nada”, diz.Hoje, não acreditar no Brasil é quase um defeito de caráter e queima qualquer filme. Umaboa maneira de se vender é integrar-se ao processo de desenvolvimento e surfar a onda doempreendedorismo nacional. Junto com o enriquecimento, vem o aumento da capacidadede consumo. Nizan diz que o brasileiro é um povo exuberante, que, por natureza, não éfrugal e gosta de muito. “Dona Maria quer beijar. As pessoas não querem só o básico. Oproblema é você comprar o que não precisa. O consumo que considero excessivo não é ovariado, mas o desnecessário”, afirma.Saiba escutar (e aproveite bem as ideias dos outros)O irmão caçula de Nizan, o também publicitário Joca Guanaes, diretor da DM9DDB, é umadas pessoas que mais o influenciam. Joca diz que o irmão mais velho parece escutar pouco.“Ele é todo fofinho e interessado no que os outros dizem, mas eu escuto muito mais do queele”, garante Nizan. “Quer um exemplo? Outro dia encontrei um conhecido e ele me dissepara assistir ao Super Bowl, nos Estados Unidos. A viagem está mar cada.” Dia 6 defevereiro, Nizan embarca para Nova Orleans, cidade-sede da final do campeonato defutebol americano.Ele aprendeu que vale a pena ouvir sugestões e que o retorno pode ser uma experiênciainteressante. “Vivo muito das ideias dos outros. Algumas das minhas melhores ideias,talvez a maioria, não eram minhas. Foi o garçom que me disse, minha mãe, meu irmão.Ouço e faço”, conta. Nizan sugere que se escute atentamente também os filhos e netos.
  6. 6. Ganhe força com as dificuldades da vida (e exiba sua garra)Ser do povo pega bem. Nizan concluiu que o Brasil oferece hoje mais oportunidades para ofilho do cara que está ralando, que vem da classe C, do que para o herdeiro do milionárioacomodado, porque o principal capital hoje é o intelectual e o de atitude. Vir de baixo,evidentemente, não é um trunfo, por causa das restrições financeiras, mas deixou de seruma desvantagem insuperável. Com frequência, adversidades se convertem em estímulos.E a vantagem inicial do rico pode evaporar por falta de fibra. “É raro encontrar uma pessoaque teve tudo e ainda demonstra fibra”, diz.“Eu e Joca nascemos no Pelourinho e tivemos de chegar aqui andando. Todo dia subia aladeira do Carmo no caminho da escola e não tinha água quente em casa”, lembra. Elecompara sua jornada com a dos quenianos que ganham maratonas e diz que foi testado pelavida. Considera um mérito ter se tornado um homem disciplinado. Garra e disciplina sãoatributos que ajudam qualquer profissional a se vender e alavancam reputações. “Não é daminha natureza, foi algo que busquei”, admite. Com 21 anos, Nizan perdeu o pai, o médicoSócrates Guanaes. A mãe, a engenheira Esmeralda Mansur, morreu este ano.Seja fiel ao seu ofício (e encontre sua turma)Você tem um talento, aprendeu um ofício, domina uma técnica. Se desenvolveu algumahabilidade específica, saiba identificá-la e não a abandone. Tenha clareza sobre aquilo quesabe fazer melhor. Nada como um trabalho de qualidade para melhorar a imagem de umsujeito, afirma Nizan. Identifique a função em que você pode entregar mais – lembre-se,você é aquilo que entrega. Nizan tem absoluta clareza sobre suas habilidades: cuidar doproduto final do grupo ABC, de sua visão estratégica e dos negócios. Só não deem para eletarefas de administração.Essa é a parte que cabe ao seu braço direito, seu duplo, a quem ele chama de irmão maisvelho, Guga Valente, principal executivo do grupo. Nizan o define como um homemcalmo, ponderado e plenamente capaz de cuidar da holding – de olhar para os custos e paraas margens de lucro. “Para resumir, diria que o Guga cuida do nosso negócio, e eu, dosnegócios dos outros. Sou o prestador de serviços. Isso está bem definido para a gente, evivo tranquilo porque tenho o Guga ao meu lado para me dar limites.”Nizan revela que sua analista costuma dizer que ele é empresário, mas, antes disso, éartista. “Você não monta uma empresa do tamanho que a gente está montando com umsamba de uma nota só”, afirma. “Grandes empresas são criadas com talentoscomplementares que conhecem muito aquilo que fazem.”Persiga o sonho (e veja o dinheiro como um meio)Cada um tem de fazer o que gosta, o que combina com suas características e lhe trazsatisfação. Se quiser ser atleta, então leve vida de atleta e alcance glórias esportivas. Sequiser ser músico, divirta-se e vá trabalhar sábado e domingo. Nizan é contra essa coisa dedizer a um filho que ele deve adotar uma ou outra profissão porque vai ganhar mais. Oimportante é ser feliz com seu trabalho.
  7. 7. Quanto ao dinheiro – uma coisa ótima, admite –, trata-se de meio, não fim. “Não teria amotivação que tenho se dinheiro fosse um fim, porque já ganhei bastante. Seria mais fácilvender meu negócio e aproveitar a riqueza”, afirma.Para Nizan, transformar seus projetos em realidade é a melhor régua do sucesso, pois é oque, de fato, faz a diferença para sua realização pessoal. O sonho dele agora é comandar aexpansão do grupo ABC e transformá-lo em uma das maiores agências do mundo, comcultura e jeito brasileiros de fazer negócios e publicidade. É um projeto do seu tamanho etotalmente ao seu alcance. “Todo mundo respeita as pessoas que perseguem seus sonhos.Conquistá-los é um excelente marketing pessoal e provoca admiração.”De ABC a XYZ – A saga de Nizan Guanaes para criar a maior empresa depropaganda da América LatinaNo mesmo período em que as maiores agências do país foram incorporadas por gruposestrangeiros, Nizan Guanaes criou um gigante da propaganda nacional. Em dez anos, seuABC, que reúne agências de publicidade e empresas de branding e de conteúdo e eventos,tornou-se o maior grupo brasileiro e latino-americano de serviços de marketing e avançaglobalmente. Nos EUA, o ABC controla agências como Pereira & O’Dell, Dojo e ÁfricaNY. No Brasil, a XYZ Live faz eventos esportivos, culturais e de moda, como o São PauloFashion Week e o Fashion Rio.O perfil do grupoCriação: Março de 2002Sócios: Nizan Guanaes, João Augusto Valente, Sérgio Valente, Bazinho Ferraz, GrupoIcatu e Gávea InvestimentoOnde atua: No Brasil, tem escritórios próprios em São Paulo, Rio de Janeiro, BeloHorizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife, e, nos Estados Unidos, em São Francisco eNova YorkPilares de atuação: Publicidade, branding, conteúdo e eventosAgências e empresas: África, África Zero, Asia, b!ferraz, DM9DDB, Dojo, Loducca,Morya, New Style, Pereira & O’Dell, Sunset, Agência Tudo e XYZ LiveFuncionários: 2.200Clientes: mais de 200Faturamento estimado em 2012: 1 bilhão de reaisMatéria publicada na edição de ALFA de dezembro 2012

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