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INTRODUÇÃO       A partir de 1808, com a chegada da Família Real ao Brasil, intensificam-se asespeculações no sentido de e...
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1 - A FERROVIA NA BAHIA        No caso da Bahia, a primeira ferrovia a ser construída foi a Bahia and San FranciscoRailway...
Os documentos históricos disponíveis sobre o sistema viário existente na Bahia, na                           primeira meta...
partir de estruturas pré-fabricadas. Esse estilo vai pouco a pouco tomando conta de maiorparte das construções baianas do ...
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A desorganização foi presente na construção de toda a malha ferroviária baiana, quefez a transição da tração animal para a...
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CONSIDERAÇOES FINAIS       À luz de tudo que foi discutido, pode-se concluir que a edificação da malha ferroviáriabrasilei...
advento ferroviário não fosse aceito de forma abrangente como tendo apenas contribuído parao desenvolvimento cultural, soc...
FONTESARQUIVO PÚBLICO DA BAHIASeção Provincial (série correspondência)Correspondência enviada pelo juiz de Paz da Freguesi...
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A estrada de ferro da bahia ao são francisco trabalhadores e atos desordeiros em queimadas, 1880 1890

  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV MARIVALDO SOUZA DA CRUZA ESTRADA DE FERRO DA BAHIA AO SÃO FRANCISCO: TRABALAHADORES E ATOS “DESORDEIROS” EM QUEIMADAS, 1880 – 1890 Conceição do Coité – BA 2010
  2. 2. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV MARIVALDO SOUZA DA CRUZA ESTRADA DE FERRO DA BAHIA AO SÃO FRANCISCO: TRABALAHADORES E ATOS “DESORDEIROS” EM QUEIMADAS, 1880 – 1890 Artigo apresentado ao Curso de História da Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Educação – Campus XIV – como requisito parcial à obtenção do título de Licenciatura em História. Orientador: Aldo José Morais Conceição do Coité - Ba 2010
  3. 3. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV MARIVALDO SOUZA DA CRUZ A ESTRADA DE FERRO DA BAHIA AO SÃO FRANCISCO: TRABALAHADORES E ATOS “DESORDEIROS” EM QUEIMADAS, 1880 – 1890Artigo aprovado em ______/_____/_____ para obtenção do título de Licenciatura emHistória.Banca Examinadora: _________________________________ Aldo José Morais _________________________________ Convidado _________________________________ Convidado
  4. 4. A ESTRADA DE FERRO DA BAHIA AO SÃO FRANCISCO:TRABALAHADORES E ATOS “DESORDEIROS” EMQUEIMADAS, 1880 – 1890 Marivaldo Souza da Cruz1RESUMOO trabalho apresentado busca entender como se deu o processo de implantação da Estrada deFerro Bahia ao são Francisco, na freguesia de Santo Antonio das Queimadas, analisando aaceitação da sociedade por ela beneficiada, bem como buscando identificar os motivos quelevaram trabalhadores da ferrovia a provocarem diversos atos de desordem neste município nadécada de 1880. Para, além disso, verifica-se se houve ou não semelhança entre os atos deturbulência da estrada de ferro nordestina e atos semelhantes provocados pelos trabalhadoresdas ferrovias do interior paulista. Com relação à ferrovia baiana busca-se identificar também anacionalidade dos trabalhadores envolvidos nesses conflitos. Para isso, foram analisadosdocumentos primários, correspondências enviadas da delegacia de polícia de Queimada, paraa delegacia de Vila Nova da Rainha e de Vila nova da Rainha para o governo da Província,além de uma bibliografia que nos ajuda a entender os percalços no processo de implantaçãoda ferrovia em questão.Palavras-chave: ferrovia, conflitos, trabalhadores, Vila Bela de Santo Antonio dasQueimadasABSTRACTThe present study seeks to understand as it was the process of implementation of the RailroadBahia ao São Francisco, in the parish of Santo Antonio das Queimadas, analyzing theacceptance of society for its benefit, and seeking to identify the reasons why employees of therailroad cause several acts of disorder in this city in the 1880s. To further verify whether ornot there was similarity between the acts of turbulence railroad Northeast and similar actscaused by employees of the railways of São Paulo. Regarding the railroad Bahia seeks to alsoidentify the nationality of the workers involved in these conflicts. To this end, we analyzedprimary documents, letters sent to the police station of Queimadas, to the police station inVila Nova da Rainha and Vila Nova da Rainha to the provincial government, and revisited theliterature that helps to understand the struggles in the deployment of the railway in question.1 Estudante de licenciatura em História da UNEB Campus XIV Conceição do Coité Bahia. Correio eletrônico:flafla.cruz@gmail.com.
  5. 5. INTRODUÇÃO A partir de 1808, com a chegada da Família Real ao Brasil, intensificam-se asespeculações no sentido de edificar vias de comunicação que interligassem a capital daColônia ao interior. A malha ferroviária brasileira foi concebida como suporte ideal para fazeressas interligações. Sabemos também, que é nessa conjuntura abrem-se os portos às chamadas naçõesamigas, dessa maneira iniciam-se o conhecido processo de “modernização”, bem como ofraqueamento do comércio brasileiro à maior potência industrial do mundo na época, aInglaterra, a maior responsável pela implantação das primeiras ferrovias brasileiras, nosentido financeiro e tecnológico, pois de lá veio não apenas o capital, tomado em forma deempréstimos a juros exorbitantes, veio também os projetos técnicos do traçado da estradapropriamente dita e dos edifícios, a exemplo dos: galpões, depósitos, estações e as casas paraas acomodações dos trabalhadores. Além do mais, as estruturas em ferro pré-fabricadas,bueiros de cerâmica, vidro, entre outros. Incluindo também o corpo técnico e a massa detrabalhadores somando-se a mão-de-obra brasileira e italiana.2 Contudo, as primeiras açõesconcretas de incentivo à implantação das ferrovias no país só vão acontecer a partir de 1828,durante o reinado de Dom Pedro I, mediante a elaboração da chamada Lei José Clemente, queautorizava a construção de estradas, de ferro e rodagem. A primeira linha férrea só veio a ser concretizada no Brasil a partir de 1852. Essa linhaabrangeu as localidades entre a Praia da Estrela, fundo da Baía de Guanabara e a localidade deFragoso, próxima à Raiz da Serra de Petrópolis. Irineu Evangelista de Souza - Barão de Mauá- recebeu o privilégio do Governo Imperial para ser o responsável pela construção da primeiralinha Férrea brasileira, devido à sua estadia na Inglaterra na década de 1840. Nesse período,ele fez uma viagem à Inglaterra em busca de recursos, e lá conhece fábricas, fundições deferro e o mundo dos capitalistas, convencendo-se de que o Brasil deveria trilhar o caminho daindustrialização, sendo também influenciado pela mentalidade e organização dos ingleses.32 FERNANDES, Etelvina Rebouças. Do mar da Bahia ao Rio do Sertão: Bahia and San Francisco Railway.Salvador: Secretaria da cultura e Turismo, 2006. p. 10.3 FERNANDES, Etelvina Rebouças. Op. Cit., p. 45. 5
  6. 6. É na efervescência desses acontecimentos que o Brasil importaria produtos e mão-de-obra estrangeira – especialmente inglesa – dando início, dessa forma, à edificação da chamadamalha ferroviária brasileira, que proporcionaria a ligação e a comunicação da Capital daProvíncia com o interior como. Sabe-se que, até a inauguração das primeiras ferrovias, os transportes de mercadoriasno Brasil eram feitos através de centenas de tropas de muares, que transportavam a produçãoagrícola até os centros urbanos e portos de onde se faziam as exportações, sempre perfazendoas antigas trilhas reais. Entre as mercadorias transportadas as que tinham maior destaque eramo café e o açúcar, sendo que o café tinha lugar de destaque até a segunda metade do séculoXIX. A criação da malha ferroviária brasileira tinha como principais objetivos fazer otransporte de cargas com mais agilidade e precisão, valendo acrescentar também que osistema era visto como tendo grande potencialidade para fazer transporte de pessoas. Com o fim da Guerra do Paraguai, em 1865, ampliar ou até mesmo criar novas viasque interligassem todo um país com dimensões continental às pequenas localidades dispersas,torna-se uma questão estratégica militar. Além de viabilizar a questão da segurança do país,prevenindo possíveis ataques, caso acontecesse uma “nova guerra”, as comunicações sedariam rapidamente com articulações das vias fluviais com as estradas de ferro. Ocorreramdiversas crises sociais decorrentes de grande quantidade de ex-combatentes da Guerra doParaguai. Esses combatentes eram escravos que não retornaram à lavoura, trazendo à tona anecessidade da criação de um novo mercado de trabalho para absorver essa mão de obradesocupada, que estavam livres, porém sem nenhum aparato profissional e sem rendaalguma.4 As primeiras ferrovias não foram construídas de imediato às suas concessões.Podemos citar dois fatores preponderantes para esse atraso, compreendidos como sendo decunho geográfico e econômico. Primeiro o fator geográfico: esse fator justifica-se por o Brasilapresentar um relevo ligeiramente acidentado na costa, sem contar com a densidade da Mata4 Idem, p. 42. 6
  7. 7. Atlântica.5 Sendo que, os geográficos predominaram até o fim da implantação da malhaferroviária. Já o fator econômico pode ser por nós analisado como sendo de duas vertentesdiferentes: a primeira delas refere-se ao custo altíssimo para se construir uma ferrovia,necessitando assim de investimentos estrangeiros. A segunda vertente econômica, diz respeito à mentalidade das elites brasileiras. Defato nesse período em que ocorriam as primeiras especulações no sentido de edificarem-seessas vias de comunicações, os brasileiros viam as potencialidades agrícolas como principaisfontes de renda, assim sendo, o Brasil era um país agrário, sendo que todos os investimentoseram direcionados à agricultura, baseada em uma mão-de-obra escravista. Contudo, nos anosde 1850, é promulgada a Lei Euzébio de Queiroz que proibia o tráfico de escravos, nessesentido escreve Fernandes:6 Os brasileiros não se interessavam e se opuseram inicialmente à implantação de ferrovias. A terra era um negócio certo e a importação de escravos da África, uma atividade oficial e lucrativa até setembro de 1850, quando foi proibida pela Lei Eusébio de Queiroz. Além dessas atividades, o transporte de cargas no lombo de burros era um bom negócio para os donos dos animais e para os fazendeiros proprietários das terras marginais ao roteiro das tropas, que, embora não cobrassem nada pelas instalações que ofereciam aos almocreves, seus animais e suas cargas, obtinham lucros com a venda de milho para os animais da carga. Verifica-se então que somente após a promulgação da citada Lei e as crises pela qualpassara a lavoura agravada com as secas, constituíram-se fatores decisivos para redirecionaros investimentos para o setor industrial, manter-se um sistema escravocrata caracterizava-secomo um investimento altíssimo, portanto, já não conferia os mesmos lucros aos investidores.Esses grandes períodos de seca pelos quais o Brasil passou, ocasionaram perdas bruscas aosagricultores. É nesse contexto que os grandes e influentes proprietários de terras resolveramredirecionar os investimentos, aderindo dessa forma, à idéia da construção da malhaferroviária como suporte para a escoação de toda a produção agrícola e pecuária.5 Idem, p. 31.6 Idem, p. 44 7
  8. 8. 1 - A FERROVIA NA BAHIA No caso da Bahia, a primeira ferrovia a ser construída foi a Bahia and San FranciscoRailway, compreendendo o percurso de Salvador até Alagoinhas, inaugurada em 1860.Depois é construído mais um trecho da ferrovia entre os anos de 1887 e 1896, denominadaProlongamento da Estrada de Ferro Bahia ao São Francisco, entre os anos de 1896 e 1911edifica-se outro trecho, batizado então de Estrada de Ferro do São Francisco, atingiafinalmente a margem esquerda do Rio São Francisco na cidade de Juazeiro da Bahia. Cabe salientar então que, essa denominação de “Prolongamento” remete ao leitor aidéia de que essa ferrovia complementaria ou complementava outra. Contudo, oProlongamento passou a ser designado por “Estrada de Ferro do São Francisco”, pelo DecretoN° 2 334 de 31 de agosto de 1896. As Estradas de Bahia ao São Francisco e o Prolongamentotiveram até 1900, duas concessões de uso, ou seja, duas administrações diferentes, sendo queapenas compartilhava o tráfego de Alagoinhas a Juazeiro.7 As ferrovias surgem na Bahia, a partir de uma visão expansionista, uma visãocaracterística do século XIX. Vale ressaltar que os objetivos, no sentido de viabilizar otransporte de mercadorias do sertão bem como fazer a comunicação e transporte de pessoasque estavam isoladas da capital, eram objetivos gerais de todas as ferrovias baianas. Mesmo frente à decadência do antigo sistema de produção, os dirigentes capitalistasbaianos objetivavam retomar o enriquecimento e disputavam maiores parcelas do podernacional. Nesse contexto, percebia-se o sistema de transporte ferroviário como subsídio parasair da imensa crise pela qual a Bahia estava mergulhada no momento. Uma vez que osantigos sistemas de comunicação e transporte eram considerados ineficazes, a malhaferroviária era concebida como extensão eficiente no sistema de navegação mercantil,caminho ideal para interligar as zonas com alto grau de produção do interior com os portos dolitoral. Vejamos como eram vistas as antigas vias de comunicação baianas por Zorzo,8cabendo ressaltar que as características citadas por ele não são peculiares apenas à Bahia:7 Idem, p. 142 - 1468 ZORZO, Francisco Antônio. Ferrovia e Rede Urbana na Bahia: Doze Cidades Conectadas pela Ferrovia noSul do Recôncavo e Sudoeste Baiano (1870 – 1993). Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira deSantana, 2001. p. 54. 8
  9. 9. Os documentos históricos disponíveis sobre o sistema viário existente na Bahia, na primeira metade do s. XIX, revelam esse conjunto disperso de vias terrestres que, apesar de ser de conhecimento antigo e possuir enorme influencia sobre os fluxos produtivos, era pouco freqüentado e de lentíssimo trânsito. Visto de um ângulo puramente técnico o sistema viário se mostraria simplesmente inadequados e ineficientes. A partir da década de 1870 a Bahia passa por um momento de depressão econômica,devido à queda da produção açucareira, principal produto de exportação baiana do período,conforme citado anteriormente. Como conseqüência da crise do açúcar busca-se expandir a área pastoril para além doslimites do litoral, essas áreas serviam para ampliar a criação de gado, plantio de cana, fumo,etc. Essas atividades culminaram com a povoação paulatina dos sertões baianos. Claro queessa não era uma característica peculiar dos sertões baianos, mas sim de todo sertão brasileiro.No caso da Bahia, como decorrência de tudo isso surgiram diversas freguesias, distando atéseis milhas da capital, no caso da Bahia, deixando esses pequenos aglomerados de pessoasisoladas. Nesse sentido, a malha ferroviária era vista como positiva, tanto para o transportedas mercadorias aí produzidas como para tirar essas pessoas do isolamento total.9 2 - OS IMPACTOS DA FERROVIA NA BAHIA A construção da malha ferroviária baiana era visto com tendo potencial por representara chegada dos tempos modernos na Bahia oitocentista. Dessa forma, deixou vários legadostanto culturais como políticos, sociais e econômicos. 2.1 – impactos culturais Em termos culturais destaca-se, em primeiro lugar, as inovações arquitetônicasassociadas à ferrovia. As estações de Calçada e de Alagoinhas têm lugar privilegiado nessesentido, por suas estruturas que representavam fortemente o estilo eclético, construídos a9 Idem, p. 34. 9
  10. 10. partir de estruturas pré-fabricadas. Esse estilo vai pouco a pouco tomando conta de maiorparte das construções baianas do século XIX. A própria estrutura de ferro pré-fabricada,utilizada nas construções das estações, vai aparecer na construção de casas e hotéis. Asjanelas de vidro que proporcionavam a iluminação do ambiente fazem lembrar as clarabóiasque iluminavam as estações já citadas. É importante salientar que, o relógio na fachada deestação de Jequitaia marcava pontualmente o horário de embarque de cada trem, além domais, os moradores do interior deixam de orientar-se pelo sol e passam a orientar-se peloapito do trem, denominado de “horário ferroviário”. Além do mais, faz-se necessário ressaltar o importante repertório de hábitos ecostumes introduzidos pelos ingleses em Salvador, principalmente no período da construçãoda ferroviária, principalmente da ferrovia em questão. Percebe-se que, estava em curso à europeização dos costumes, sendo pouco a poucodisseminados no país através da penetração das ferrovias. As características ecléticas foramsubstituindo o neoclassicismo, ou muita das vezes coexistiu com ele. 2.2 – impactos políticos A inauguração dos trechos e estações constituiu-se em importantes eventos políticos,desses eventos participavam as pessoas mais importantes da cidade, todos provavelmenteobjetivando cargos políticos ou empregos públicos, os cargos de vereador e deputados, eramos mais concorridos, segundo a bibliografia estudada. Os políticos baianos viam na ferrovia a possibilidade de ampliar o campo eleitoral,utilizando o meio de transporte para deslocarem-se até o interior, esses importantes políticosincentivaram para que surgissem no setor econômico baiano às primeiras instituiçõesbancárias e o investimento do capital estrangeiro. 2.3 – impactos sociais O advento ferroviário contribuiu também para o surgimento de uma rede de cidadesnas terras cortadas pela ferrovia. Sabemos que no período colonial as cidades se organizavam 10
  11. 11. no entorno das igrejas. Já com a construção das ferrovias essa lógica é alterada, o entorno dasestações ferroviárias passa então a ser o ponto de referência na construção das novas cidades,a exemplo de Alagoinhas, que tinha seu núcleo inicial em volta da igreja de Santo Antoniodas Alagoinhas, e foi transferida para o entorno da estação construída pelos ingleses, dandoorigem dessa forma à nova Alagoinhas. O mesmo aconteceu com a cidade de Mata de SãoJoão.10 A construção da malha ferroviária baiana contribuiu para o surgimento de uma novaclasse trabalhadora. Essa classe era composta por trabalhadores que se especializaram naprática, como maquinistas, mecânicos, foguistas, guardas de linha, agentes de estação, chefesde trem, guarda-chaves, bilheteiros, chefes de estação, telegrafistas e um grande número dediretores. Nesse mesmo contexto, vão surgir também os subempregos, gerados pelascompanhias ferroviárias, esses subempregos foram criados por uma população sem outrasperspectivas, como os de vendedores dos mais diversos tipos de guloseimas, esses vendedoresse apinhavam nas estações a cada chegada do trem de passageiros.11 A criação da malha ferroviária baiana e a criação dos empregos já citadoscontribuíram para a efetivação de uma rede de mutualismo entre os trabalhadores quereivindicavam melhores condições de trabalho, diminuição na carga horária de trabalho,aumento salarial entre outros. Frente a tudo isso, o engenheiro chefe da ferroviaProlongamento da Estrada de Ferro do São Francisco, Teive e Argollo, resolveu elaborar umRegulamento publicado em 1893, que tinha uma quantidade imensa de artigos que previam aspunições para os trabalhadores que desrespeitassem as normas de trabalho. Mesmo após a publicação do referido regulamento os trabalhadores ferroviáriosbaianos organizaram movimentos que culminaram na greve geral dos ferroviários em 1909.As mobilizações dos ferroviários tiveram importância marcante na história das lutas sociais daclasse trabalhadora na Bahia.12 Mas, é importante salientar que essa solidariedade e esses movimentos entretrabalhadores ferroviários não se deu exclusivamente na Bahia, as primeiras experiências com10 Idem, p. 198 – 199.11 Idem, p. 200.12 SOUZA, Robério Santos. Experiência de trabalhadores nos caminhos de ferro da Bahia: Trabalho,solidariedade e conflitos (1892 – 1909). Dissertação de Mestrado apresentada ao Departamento de História doInstituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, 2007. p. 85. 11
  12. 12. grandes levas de trabalhadores aconteceram no Brasil primeiramente com a implantação damalha ferroviária, dessa forma os movimentos em prol da melhoria das condições de vida e detrabalho aconteceram em âmbito nacional, a respeito disso escreve Monteiro13: Podemos dizer que havia um processo de formação de uma “cultura ferroviária” constituída por um mecanismo de contrastes, de afirmação de diferenças e de reconhecimento das igualdades decorrentes de alguns fatores de trabalho. É importante salientar que frente a esses fatores foi edificado um sentimento identitário de pertença a um grupo com características próprias, ou seja, o “ser ferroviário”. 2.4 – impactos econômicos Os grandes negociantes ingleses obtiveram grandes lucros na Bahia, permitindo quealmejassem uma grande influência entre a alta sociedade baiana. Os que adquiriram altosstatus dedicaram-se ao comércio internacional, às indústrias, ao setor financeiro e àconstrução e exploração das estradas de ferro desde os meados do século XIX, incentivar aindustrialização brasileira era o grande objetivo dos ingleses dentro desse período. A pesar de proporcionar lucros a malha ferroviária também contribuiu para grandesprejuízos aos cofres públicos. Devido a uma má administração dos recursos, uma vez que asede da maioria das empresas responsáveis pela construção não estavam localizadas no Brasile sim na Inglaterra. As diferentes bitolas também são importantes para o déficit ferroviário,uma vez que dificultavam as interligações. Essas diferenças ocorriam porque as empresasinglesas utilizavam materiais obsoletos na Inglaterra no processo de construção da malhaferroviária brasileira. O resultado das diferentes bitolas foi à prática do transbordo. Para além disso, na década de 20 do século passado, podemos citar as ações deincentivo ao transporte rodoviário nacional como fator agravante para grandes percas aosistema ferroviário. As perdas também afetaram o país, pois contribuíram para o nãocumprimento dos planos ferroviários em detrimento das rodovias, constituindo-se em umsistema fragmentário de vias de comunicação gerando uma desorganização sem precedentes,contudo essa desorganização já era presente desde o início da elaboração dos planos viários.13 MONTEIRO, Claudia. Ferroviários em greve: relação de dominação e resistência na RVPSC. Revista deHistória Regional 12(1): 9 -25, Verão, 2007 9. p. 9. 12
  13. 13. A desorganização foi presente na construção de toda a malha ferroviária baiana, quefez a transição da tração animal para as locomotivas de uma forma abrupta. Diferentementedos “Países da Europa e Estados Unidos, que antes desenvolveram intensamente a navegaçãointerior e as redes de estradas de rodagem em leito empedrado até chegar às ferrovias”.14 A ingerência dos investimentos, gastos com desapropriações, saques aos vagões,períodos de secas entre outros, contribuíram para que as ferrovias em questão apresentassemreceitas deficitárias até início da década de 1890. 3 – A FERROVIA TAMBÉM TRAZ “DESORDENS” A pesar da associação geralmente feita entre as ferrovias e a modernização do Estado,estas não foram vistas sempre pela população como tendo apenas pontos positivos. Houvecidades em que os moradores protestaram contra as desordens provocadas pelos trabalhadoresferroviários, sendo necessário à intervenção da polícia para conter os atos “turbulentos”. No decorrer de nossos estudos percebemos que a ferrovia cortou as terras de Vila Belade Santo Antonio das Queimadas, apenas por ela estar no percurso traçado pelos engenheirosidealizadores. A passagem da ferrovia por esse município não foi particularmente motivadapor fatores de cunho político ou econômico. Contudo, sua passagem nessas terras deixouregistros históricos relevantes, que contribuirão para aprofundarmos as discussões a respeitodos impactos da ferrovia, bem como a aceitação da mesma pelas sociedades por elabeneficiadas de forma direta ou indireta. Analisaremos as ocorrências na Vila Bela de Santo Antonio das Queimadas, conhecidahoje apenas como Queimadas. Essas ocorrências foram registradas em cartas enviadas peloJuiz de Paz de Queimadas para o delegado de polícia da Villa Nova da Rainha (atual Senhordo Bonfim), e deste para o Governo da Província. Os trechos seguintes são das correspondências do Juiz de Paz de Vila Bela de SantoAntonio das Queimadas. Na carta, identificamos a natureza dos atos de “desordens”14 Idem, p. 43. 13
  14. 14. provocados por trabalhadores da linha férrea, muitas vezes em companhia de moradores daVila: (...) um grupo de caixeiros desordeiros que por mau comportamento (...) da linha férrea ali em construção, vivem constantemente armados e perturbam a ordem pública derrubam portas e dando descargas em horas de silêncio da noite, a ponto de não se poder com segurança passar de um para outro lado da rua. As famílias e proprietários são ali obrigados a se fecharem logo ao cair do sol, e todos por uma vez me reclamam providências. E aquela freguesia uma praça de armas, porque os moradores temidos da gente da linha férrea nunca se desarmarão 15. Notamos na citação uma variedade de atos “desordeiros”, porém, no trecho seguintepodemos perceber outros casos com natureza diferente: (...) um grande grupo de desordeiros armados de facas, garunchas, revólveres e cacetes, provocaram em alto e bom som a toda população e deram (...) descargas que horrorizavam a todos os habitantes desta localidade, e finalmente se dirigiram a casa (...) Maria da Conceição, (...) lha a porta (...) com fim talvez de a assassinar (...) é assim (...) desde muito tempo tem continuado até hoje quão ainda esta neste diversos turbulentos foram em algumas casa de família e de negociantes, (...) José Profiro de Miranda, (...) entre este grupo de desordeiros, existem muitos criminosos de morte que (...) aqui com os trabalhadores da estrada de ferro(...). 16 Em resposta a estas correspondências escreveu o delegado de polícia de Vila Nova daRainha: (...) fomos informados sobre a representação do juiz de paz da freguesia das “Queimadas” que por cópia no meio passo a informar. Sobre (...) que temos em construção e votação por mais de três mil trabalhadores vinte e oito lugares de linha férrea. Dentro dos limites deste termo, principiando o movimento de terra no “Morro dos Lopes e terminando nessa Vila”. Como parte da estrada, estabelecimentos, oficiais, depósitos e etc. (...) requisitei e pedir a (...) arregimento de força e um oficial que como Subdelegado viesse residir no 1° nestes pontos; visto que este oficial estando residindo no centro da linha é mais perto das “Queimadas”, podia (...) conter os turbulentos prender os criminosos e garantir os proprietários dos assaltos destes desordeiros. (...) de todas as partes do termo me surgem representações conta a gente da linha férrea (...) tive logo consciência destes últimos conflitos de “Queimadas”, e dei as providências que cobravam minhas forças, oficiando aos empreiteiros da linha para fazer desarmar os turbulentos e despedir de seus serviços aos criminosos 17.15 APEB. Seção Provincial. Série: Correspondência. Caixa 2 554. Correspondência enviada pelo Juiz de Paz daFreguesia de Vila Bela de Santo Antonio das Queimadas ao Delegado de Polícia de Vila Nova da Rainha, em 1ºde junho de 1882.16 APEB. Seção Provincial. Série: Correspondência. Caixa 2 554. Correspondência enviada pelo Juiz de Paz daFreguesia de Vila Bela de Santo Antonio das Queimadas ao Delegado de Polícia de Vila Nova da Rainha, em 2de maio de 188217 APEB. Seção Provincial. Série: Correspondência. Caixa 2 554. Correspondência enviada pelo Delegado dePolícia de Vila Nova da Rainha em resposta a corres pendência do Juiz de Paz da Freguesia de Vila Bela deSanto Antonio das Queimadas, em 24 de maio de 1882. 14
  15. 15. Diante das citações observamos a ocorrência de diversos conflitos na freguesia de VilaBela de Santo Antonio das Queimadas. O delegado de polícia de Vila Nova da Rainhareconhece os problemas e toma medidas para combater os atos “desordeiros”. Não foram encontradas correspondências subseqüentes, de modo que não foi possívelsaber quais os desdobramentos do episódio. Mas a partir desses registros foi possívelidentificar as “desordens” atribuídas aos ferroviários, tipo: invasão de casas, tiros pelas ruas,tentativas de estupros, roubos, etc. Portanto, para as autoridades e talvez, para uma parte dassociedades que tiveram contato como as ferrovias, estas não representaram apenas oprogresso, mas também medo e insegurança. 4 – ANALISANDO AS CAUSAS DAS “DESORDENS” Toda a bibliografia estudada discute apenas os impactos positivos gerados com achegada da ferrovia. Os aspectos negativos, quando abordados, dizem respeito apenas aosfatores econômicos e estruturais, sendo que um estava sempre interligado ao outro, como jádiscutidos anteriormente. De forma bastante geral, Hobsbawn18 via a malha ferrovia como aconstrução perfeita do homem de seu tempo. O encanto por essa construção pública ficaexplicito no texto seguinte: (...) Vastas redes de trilhos reluzentes, correndo por aterros, pontes e viadutos, passando por atalhos, atravessando túneis de mais de quinze quilômetros de extensão, por passos de montanha da altitude dos mais altos picos alpinos, o conjunto das ferrovias constituía o esforço de construção pública mais importante já empreendido pelo homem. Elas empregavam mais homens que qualquer outro empreendimento industrial. Os trens alcançavam o centro das grandes cidades - onde suas façanhas triunfais e gigantescas - e às mais remotas áreas de zona rural, onde não penetravam nenhum outro vestígio da civilização do século XIX.18 HOBSBAWM, Eric J. A Era dos Impérios 1875 – 1914. Tradução Siene Maria Campos e Yolanda Steidel deToledo; revisão técnica Maria Célia Paoli. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998. p. 48. 15
  16. 16. Mas, a partir da interpretação e discussão das cartas citadas associadas a umabibliografia do interior paulista, podemos sistematizar que uma parcela da sociedadebeneficiada pelo advento ferroviário não aceitava a forma pela qual os trabalhadores secomportavam. Esses trabalhadores ficaram conhecidos como baderneiros ou turbulentos,como se pode observar no trecho de uma dessas correspondências: 19 As famílias e proprietários são ali obrigados a se fecharem logo ao cair do sol, e todos por uma vez me reclama providências. E aquela freguesia uma praça de armas, porque os moradores dessa freguesia temidos da gente da linha férrea nunca se desarmarão. Segundo o delegado de polícia da Freguesia de Santo Antônio das Queimadas essesacontecimentos, ocorreram em 1882 e eram praticados por trabalhadores da linha férrea juntoa um grupo de caxeiros desordeiros, que formavam grupos armados com o intuito deperturbar a ordem pública. Eles derrubavam portas e davam descargas em horas de silêncio ànoite. Além do mais, impediam que as pessoas passassem de um lado para o outro da rua emsegurança. Diante da situação insustentável o delegado local pediu reforço ao delegado de políciade Villa Nova da Rainha, no sentido de adquirir efetivo suficiente para conter essesdesordeiros. O delgado de polícia da cidade de Bonfim, reconhecendo a complexidade doproblema, escreve ao Governo da Província, que de imediato tenta sanar os problemasenviando mais guardas municipais e um delegado de carreira. Percebe-se que, os “desastres” provocados por esses trabalhadores, tinham umarepresentação muito abrangente, não eram poucas as pessoas que reclamavam por segurança,assim escreve o delegado de polícia de Villa Nova da Rainha: “De todas as partes do termome surgem representações contra a gente da linha férrea”.2019 APEB. Seção Provincial. Série: Correspondência. Caixa 2 554. Correspondência enviada pelo Juiz de Paz daFreguesia de Vila Bela de Santo Antonio das Queimadas ao Delegado de Polícia de Vila Nova da Rainha, em 1°de junho de 1882.20 APEB. Seção Provincial. Série: Correspondência. Caixa 2 554. Correspondência enviada pelo Delegado dePolícia de Vila Nova da Rainha em resposta a corres pendência do Juiz de Paz da Freguesia de Vila Bela deSanto Antonio das Queimadas, em 24 de maio de 1882. 16
  17. 17. A citação a cima comprava que o advento da linha férrea não era visto apenas comotendo potencialidade e representando a modernização. Para muitos, junto à modernizaçãovieram também os episódios de violência. Em resposta ao delegado de polícia de Queimadas o delegado de polícia de Vila Novada Rainha nos da a idéia sobre a origem dessas desordens: (...) temos em construção e votação por mais de três mil trabalhadores vinte e oito lugares da linha férrea. Dentro dos limites deste termo, principiando o movimento de terra no “Morro dos Lopes e terminando nessa Villa”. Como parte da estrada, estabelecimentos, oficinas, depósito e etc.21 As desordens, portanto, eram provocadas por trabalhadores que ocupavam cargos demenor representação dentro do trabalho ferroviário. Podem-se enumerar diversos motivospara que esses trabalhadores se envolvessem em atos de desordens, no entanto, ascorrespondências não deixam em evidência os reais motivos para os episódios queperturbavam a ordem pública. Porém, Robério Souza22 faz algumas referências àsreivindicações desses trabalhadores. As desordens foram provocadas provavelmente emdetrimento de melhores salários, melhorias nas condições de trabalho, a distâncias entre eles eas famílias também se configurava como um agravante. Além do mais, pode-se, notar o envolvimento desses trabalhadores e ex-trabalhadoresda construção da estrada de ferro, que foram viver nas cidades, aumentando a classe dosmarginalizados, composta por imigrantes, pobres, negros ex-escravos, mestiços, todostambém desempregados e desocupados.23 Com relação aos trabalhadores que faziam os trabalhos mais difíceis de todo oprocesso de implantação da malha ferroviária escreve Lamounier:24 A maior parte da literatura a respeito dos trabalhadores das ferrovias no Brasil encontrou-se nos trabalhadores que operavam as ferrovias, não existindo muitos estudos sobre os trabalhadores que cuidavam da construção e manutenção dos21 APEB. Seção Provincial. Série: Correspondência. Caixa 2 554. Correspondência enviada pelo juiz de Paz daFreguesia de Vila Bela de Santo Antonio das Queimadas ao Delegado de Polícia de Vila Nova da Rainha, em 1°de junho de 1882.22 SOUZA, Robério Santos. Op. Cit. , p. 41.23 MONTEIRO, Claudia. Op. Cit. , p. 11.24 LAMOUNIER, Maria Lúcia. Agricultura e mercado de trabalho: trabalhadores brasileiros livres nasfazendas de café e na construção de ferrovias em São Paulo, 1850-1890. Estudos Econômicos, 2007, vol.37,no.2, p.353-372. ISSN 0101-4161 17
  18. 18. leitos. A principal razão para essa lacuna reside, provavelmente, na grande dificuldade de rastreá-los nas fontes, documentos. Mas, não se pode atribuir a culpa das desordens inteiramente aos trabalhadores dalinha férrea, pois os mesmos agiam em consonância a grupos formados por autóctones, comose pode identificar nas correspondências, muitas das vezes eles, os autóctones, já tinham ficharegistrada na polícia. O delegado de polícia de Queimadas registra a primeiro de maio de1882, um episódio onde os desordeiros estavam armados de facas, garruchas, revólveres ecacetes, provocaram vários atos de bagunça na cidade, na mesma noite invadiram tambémalgumas residências populares, inclusive são citados nas correspondências alguns nomespessoais. (...) mas seja bem sensível julgo (...) que entre este grupo de desordeiros, existem muitos criminosos de morte que aqui com os trabalhadores da estrada de ferro, e que não sendo (...) pelos subempreiteiros aliam-se a pessoas que moravam neste 25 lugar para perturbarem a ordem pública. Nesse pequeno trecho podemos reafirmar tanto que, os trabalhadores da linha férreanão agiram isoladamente (tendo colaboração dos moradores da região), de fato os atos devandalismo eram praticados por trabalhadores que faziam os trabalhos mais pesados desseprocesso, ou seja, aqueles sem qualificação profissional. Esses trabalhadores eram sempreterceirizados, trabalhando contratados por empreiteiros ou subempreiteiros. À luz dessesacontecimentos escreveu Karl Monsma:26 Agravando a situação, em geral os empreiteiros das ferrovias também eram desconhecidos, sem relações pessoais com as elites locais e, portanto, não se sentiam obrigados a controlar o comportamento de seus trabalhadores fora do horário de trabalho. Contudo, esses conflitos não foram exceções da ferrovia em questão, durante oprocesso de implantação da malha ferroviária no interior paulista aconteceram, confrontos quetinham semelhanças com os fatos por nós discutidos. Diferenciavam-se, no entanto, emalgumas características, essas características são visíveis tanto no que diz respeito ao local25 APEB. Seção Provincial. Série: Correspondência. Caixa 2 554. Correspondência enviada pelo juiz de Paz daFreguesia de Vila Bela de Santo Antonio das Queimadas ao Delegado de Polícia de Vila Nova da Rainha, em 1°de maio de 1882.26 MONSMA, Karl Martin. Emergência e Declínio do “Perigo Imigrante” no Interior Paulista, 1880 – 1900.31º Encontro Anual da ANPOCS, 2007. p. 3. 18
  19. 19. origem dos desordeiros quanto à intenção deles ao praticarem os atos que perturbavam aordem pública. Em relação a esses confrontos escreveu Karl Monsma:27 Em várias partes do interior paulista, a primeira experiência com grandes levas de imigrantes veio com a construção das ferrovias. Nas suas horas de folga, as turmas de trabalhadores, geralmente portugueses, transtornavam a vida das pequenas cidades e sobrecarregavam suas pequenas forças policiais. Com relação aos tormentos causados por esses trabalhadores em pequenas cidades, sãosemelhantes tanto os do interior paulista quanto os da estrada de ferro nordestina. Como é denosso conhecimento, no período em que esses fatos ocorreram em Queimadas, essa ainda erauma freguesia, com uma força policial considerada reduzida. Essa característica confirma-sequando o Delegado de Polícia dessa freguesia preocupa-se em conseguir mais policiais nosentido de fortalecer o efetivo. Essas também eram as características inerentes às pequenascidades do interior paulista descrita por Karl Monsma,28 nesse sentido as correspondênciaspoliciais desses pequenos municípios faziam também referência ao reduzido destacamento. Contudo, segundo o próprio Karl Monsma, os episódios de conflito do interior paulistana maioria das vezes tinham a violência e arbitrariedade policial como protagonista, a forçapolicial era bastante agressiva com relação ao tratamento dado aos imigrantes. Dessa maneiraeram freqüentes as reclamações dos cônsules italianos ao Chefe de Polícia relatando abusocontra italianos em vários pontos do estado.29 Era comum a prisão de imigrantes nos conflitos com a polícia ou em conflitosprovocados por eles, imigrantes, entre si e a comunidade local, como já discutimosanteriormente. Como conseqüência eram freqüentes as tentativas de resgate dos presos porparte de familiares e compatriotas, e muitas vezes essas tentativas tinham êxito em função daforça policial reduzida. No caso do interior da Bahia, não foi possível encontrar nas cartas referências aresgates de compatriotas ou familiares, mas fica evidente a existência de conflitos entre ostrabalhadores ferroviários comunidade local e a “ordem pública”. É bem provável que essas27 MONSMA, Karl Martin. Op. Cit. , p. 1.28 Idem29 Idem, p. 15. 19
  20. 20. desordens tenham sido motivadas devido às más condições de trabalho, falta de perspectivas,atrasos salariais, tudo isso concorria para a insatisfação desses trabalhadores.5 - A ORIGEM DOS “TRABALHADORES DESORDEIROS” No interior paulista segundo Karl Monsma, a classe constituída pelos“desordeiros” era composta principalmente por imigrantes italianos e portugueses, sendo queos italianos envolviam- A pesar da associação geralmente feita entre as ferrovias e amodernização do Estado, estas não foram vistas sempre pela população como tendo apenaspontos positivos. Houve cidades em que os moradores protestaram contra as desordensprovocadas pelos trabalhadores ferroviários. Sendo necessário à intervenção da polícia paraconter os atos “turbulentos”. Analisaremos as ocorrências na Villa Bela de Santo Antonio das Queimadas,conhecida hoje apenas como Queimadas. Essas ocorrências foram registradas em cartasenviadas pelo Delegado de Polícia de Queimadas para o Delegado de Polícia da Villa Novada Rainha e delegado de Villa Nova da Rainha (atual Senhor do Bonfim) para o Governo daProvíncia.No decorrer de nossos estudos percebemos que a ferrovia cortou as terras de Vila Bela deSanto Antonio das Queimadas, apenas por ela está no percurso traçado pelos engenheirosidealizadores. A passagem da ferrovia por esse município não foi motivada por fatoresespecíficos de cunho político ou econômico de forma particular. Contudo, sua passagemnessas terras deixou registros históricos relevantes, que contribuirão para aprofundarmos asdiscussões a respeito dos impactos da ferrovia, bem como a aceitação da mesma pelassociedades por ela beneficiadas de forma direta ou indireta se com maior freqüência nessesacontecimentos. No caso dos episódios ocorridos na Vila de Queimadas, não foi possível identificarcom precisão a nacionalidade dos trabalhadores desordeiros tanto nas correspondências comona bibliografia estuda. Porém, é possível notar na bibliografia estudada que, no período emque essas desordens ocorrem na ferrovia baiana, à maior parte da classe trabalhadora eraformada por ex-escravos e trabalhadores brasileiros. Fernandes nos oferece alguns dados que 20
  21. 21. nos permite afirmar que a classe trabalhadora da ferrovia em questão tinha uma quantidadebem maior de trabalhadores nacionais, formada por 2 639 homens, sendo que dentre eles 2069 eram brasileiros, 446 Italianos, 107 ingleses, 11 alemães, 4 franceses e 2 suíços.30 É de nosso conhecimento que a experiência brasileira na área ferroviária era aindaqualitativamente diminuta isso nos leva a acreditar que os trabalhadores brasileiros estavamentre aqueles que ocupavam os cargos de menor expressão, portanto, sendo provável oenvolvimento muitos deles nos acontecimentos “desordeiros”. É bem provável, portanto, queos trabalhadores ferroviários baianos envolvidos nos casos de desordem contra a paz pública ea comunidade local fossem predominantemente ex-escravos, além de trabalhadores nacionais,entre outros. Pode-se afirmar, perante as cartas é que os fatos ocorrem na década de 80 doséculo XIX e, portanto, antecedem à assinatura da Lei Áurea. As correspondências deixamclaro o envolvimento de autóctones nesses “atos de turbulências”, mas não fazem alusãoquanto à nacionalidade dos trabalhadores ferroviários desse período. Não obstante a respeitode como se formava essa classe trabalhadora, escreveu Robério Souza:31 Considera-se que na Bahia, diferente de São Paulo e Rio de Janeiro, o fluxo de imigrantes durante a Primeira República foi quase insignificante (...) evidencias importantes da presença afrodescendente. Em nossa ótica, a experiência negra de ex-escravos ou de seus descendentes surge aqui como fator diacrítico no processo de formação da classe trabalhadora urbana baiana, especificamente no universo ferroviário, no período do pósabolição. Como vimos anteriormente, criaram-se diversos empregos e subempregos a partir danecessidade da mão-de-obra ferroviária. Essas ocupações foram, em grande medida, ocupadaspor brasileiros e, de fato, com as primeiras concessões de construção brasileiras, foramaproveitados vários outros trabalhadores que já tinham experiência na área, a ponto mesmode, já na década de 1880, até mesmo os engenheiros chefes da ferrovia já serem brasileiros. É claro que não se exclui totalmente a possibilidade de trabalhadores imigrantestambém terem participado desses eventos, o que afirmamos aqui é que todos os estudos eanalises nos remetem à perspectiva da composição autóctone das “turbas” de “desordeiros”que tanta preocupação levaram à Vila de Queimadas.30 Idem, p. 10331 Idem, p. 66 – 67. 21
  22. 22. CONSIDERAÇOES FINAIS À luz de tudo que foi discutido, pode-se concluir que a edificação da malha ferroviáriabrasileira foi sem dúvida importantíssima para a comunicação das capitais com áreas isoladasou vice versa, dessa forma as mercadorias chegavam com mais eficiência e rapidez às áreasportuárias brasileiras, sendo que, as embarcações eram o principal meio de transporte daquelaépoca, dessa forma a malha configurou-se como o elo que ligou capitais ao sertão brasileiro,para, além disso, através dos movimentos grevistas encabeçado por trabalhadores ferroviáriosno início do século XX, foi fator importante para a consolidação da classe trabalhadorabaiana. A despeito do inegável impacto e da importância que a o advento das ferroviasocasionou na economia e para a infra-estrutura nacional, a chegada da malha ferroviária emalgumas comunidades baianas e paulistas não foi vista apenas como tendo potencial para ascomunicações ou como significando a chegada dos tempos modernos. Elas desencadearamum grande processo de turbulência entre comunidade local, força policial e trabalhadoresferroviários, que muitas vezes agiram em consonância com autóctones. Não foi possível afirmar categoricamente o motivo e a nacionalidade dessesferroviários, haja visto que nem a bibliografia estuda, nem as correspondências analisadasdeixam isso claro. Com base na experiência relatada no interior paulista, os trabalhadores ferroviáriosenfrentaram dificuldades devido à falta de perspectiva, jornada de trabalho elevada, questõessalariais, distancia da família, entre outros. No interior paulista e no interior baiano as cidadesque foram palcos desses conflitos tinham uma força policial reduzida como característicasiguais, sempre relatadas nas correspondências policiais. Se os trabalhadores de São Paulo seenvolveram em conflitos por motivos e dificuldades semelhantes às que os trabalhadoresbaianos enfrentaram, então é possível afirmar que os conflitos aqui tiveram motivaçõestambém semelhantes aos do interior paulista. Perante tudo isso, fica claro que, tanto no período de construção da malha ferroviáriabaiana quanto paulista, algumas comunidades sofreram as conseqüências dos atos dedesordens provocados por trabalhadores ferroviários, esses atos de baderna deixam moradorese força policial consternados. Dessa maneira os atos de desordem concorreram para que o 22
  23. 23. advento ferroviário não fosse aceito de forma abrangente como tendo apenas contribuído parao desenvolvimento cultural, social e econômico do país. 23
  24. 24. FONTESARQUIVO PÚBLICO DA BAHIASeção Provincial (série correspondência)Correspondência enviada pelo juiz de Paz da Freguesia de Vila Bela de Santo Antonio dasQueimadas ao Delegado de Polícia de Vila Nova da Rainha, em 1° de junho de 1882.Correspondência enviada pelo Juiz de Paz da Freguesia de Vila Bela de Santo Antonio dasQueimadas ao Delegado de Polícia de Vila Nova da Rainha, em 2 de maio de 1882Correspondência enviada pelo Delegado de Polícia de Vila Nova da Rainha em resposta acorres pendência do Juiz de Paz da Freguesia de Vila Bela de Santo Antonio das Queimadas,em 24 de maio de 1882.REFERÊNCIASFERNANDES, Etelvina Rebouças. Do mar da Bahia ao Rio do Sertão: Bahia and SanFrancisco Railway. Salvador: Secretaria da cultura e Turismo, 2006.HOBSBAWM, Eric J. A Era dos Impérios 1875 – 1914. Tradução Siene Maria Campos eYolanda Steidel de Toledo; revisão técnica Maria Célia Paoli. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1998.LAMOUNIER, Maria Lúcia. Agricultura e mercado de trabalho: trabalhadores brasileiroslivres nas fazendas de café e na construção de ferrovias em São Paulo, 1850-1890. EstudosEconômicos, 2007, vol.37, no.2, p.353-372. ISSN 0101-4161MONSMA, Karl Martin. Emergência e Declínio do “Perigo Imigrante” no InteriorPaulista, 1880 – 1900. 31º Encontro Anual da ANPOCS, 2007.MONTEIRO, Claudia. Ferroviários em greve: relação de dominação e resistência naRVPSC. Revista de História Regional 12(1): 9 -25, Verão, 2007 9.SOUZA, Robério Santos. Experiência de trabalhadores nos caminhos de ferro da Bahia:Trabalho, solidariedade e conflitos (1892 – 1909). Dissertação de Mestrado apresentada aoDepartamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UniversidadeEstadual de Campinas, 2007.ZORZO, Francisco Antônio. Ferrovia e Rede Urbana na Bahia: Doze Cidades Conectadaspela Ferrovia no Sul do Recôncavo e Sudoeste Baiano (1870 – 1993). Feira de Santana:Universidade Estadual de Feira de Santana, 2001. 24

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