VIA SACRA
1ª ESTAÇÃO
                            JESUS É CONDENADO À MORTE
Leitura
          Pilatos disse: «Eis o homem!»
          Assim que O viram, os sumos-
          sacerdotes e os guardas gritaram:
          «Crucifica-O! Crucifica-O!» Tornou
          Pilatos a dizer: «tomai-O vós e
          crucificai-O, que eu não encontro
          n’Ele culpa alguma». Responderam
          os judeus: «Nós temos uma Lei, e
          segundo a nossa Lei deve morrer,
          porque se fez Filho de Deus». (Jo
          19,5-7)

Meditação

          Toda a via dolorosa começa com
          uma condenação. E a injustiça não
          cessa de atormentar-nos e de
          dilacerar mesmo as grandes almas. Jesus porém não lhe está sujeito: Ele toma
          sobre Si a condenação.

          A não-violência encontra aqui a sua razão de ser. Mas a escolha de Jesus é
          muito mais que a simples não-violência.

          A condenação de Jesus continua, e pesa ainda num mundo que continua
          hipócrita e perito em condenar justos e santos.

          Não basta oferecer a outra face. É preciso reagir com mais amor ao ódio que
          temos à nossa volta – e dentro de nós.

Oração

          Jesus, dá-nos a força
          De aceitar cargas pesadas
          Sem nos deixar esmagar;
          De não odiarmos
          De não nos escravizarmos
          De não nos vingarmos.
          Jesus, que eu não seja
          Juiz impiedoso de quem erra.
          E quem não erra?
                                                                                  -1-
2ª ESTAÇÃO
                          JESUS TOMA A CRUZ AOS OMBROS
Leitura
          Dirigindo-Se depois a todos, disse:
          «Se alguém quer vir após Mim,
          negue-se a si mesmo, tome a sua
          cruz, dia após dia, e siga-Me» (Lc
          9,23)

Meditação
      Toda a condenação é uma cruz.
      Dilacera a alma. E o espírito geme,
      mais que o corpo. Há condenações
      que humilham, quando a verdade é
      escondida pela hipocrisia de leis
      complacentes. E Jesus caminhava
      para o Calvário.

          Qualquer cruz nos condena ao
          sofrimento,     e     nós   somos
          condenados por um mal profundo.
          Um mal que podemos vencer pegando com Cristo na cruz. Jesus não nos tirou a
          cruz: deu-nos, não só o exemplo, mas também a capacidade de a levar.

Oração
      Jesus, tomaste às costas o madeiro
      E nele estava eu também,
      Estávamos todos.
      Levas-nos, não ao túmulo
      Mas à ressurreição.
      Embora nós sintamos
      Ainda o peso da cruz,
      Tu estás connosco
      e isso basta para prosseguirmos.




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3ª ESTAÇÃO
                             JESUS CAI PELA PRIMEIRA VEZ

Leitura
          Ele tomou sobre si as nossas
          doenças, carregou as nossas
          dores; nós o considerávamos
          como um castigado, ferido por
          Deus e humilhado. (Is 53,4)


Meditação
      Todos caem. Cada um tem o
      seu limite de resistência. Mas
      poucos caem como Jesus: Ele
      cai sob o peso da cruz, e essa
      cruz é nossa.

          Cai porque quer conhecer
          todas as humilhações, até a de
          cair por terra, ao nível dos homens.

          Por vezes, cair não é sinal de fraqueza mas de qualquer coisa que esmaga e
          oprime até ao limite do suportável. A terra é também sinal de humildade.
          Quem cai – e todos caem – deve fazer-se discípulo.


Oração
      A tua queda, Jesus,
      Diante de todos,
      Perante o riso da multidão
      Ou o silêncio dos cobardes
      É humildade que desconcerta
      O meu orgulho.
      Dá-me, ó Cristo,
      A graça de Te sentir a meu lado
      Quando me vejo por terra.




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4ª ESTAÇÃO
                             JESUS ENCONTRA A SUA MÃE
Leitura
          Simeão abençoou-os e disse a
          Maria, Sua Mãe: «Eis que este
          menino vai ser causa de queda e
          elevação de muitos em Israel e
          para ser sinal de contradição;
          uma espada trespassará a tua
          alma a fim de se revelarem os
          pensamentos        de    muitos
          corações». (Lc 2,34-35)


Meditação
      Dois olhares que se cruzam. Em
      silêncio, que é o encontro mais
      autêntico. Jesus desejou este
      encontro, e Maria ainda mais que
      seu Filho. Em toda a via dolorosa
      há sempre um encontro de
      graça.

          E a Senhora está presente com o seu olhar silencioso.

          Há vias dolorosas nas quais é difícil encontrar uma mãe, e os filhos agonizam.
          Jesus deixou uma mãe para que ninguém tenha de se sentir órfão. Uma mãe de
          esperança.


Oração
      Jesus, Tua mãe fitou-te
      E no seu olhar
      Estava todo o perdão que pedimos
      Pelas nossas ofensas
      Pelas nossas recusas.
      E com o Teu silêncio, Cristo,
      Respondeste prosseguindo o caminho da cruz.




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5ª ESTAÇÃO
                            JESUS É AJUDADO PELO CIRINEU
Leitura
          Quando        O      iam
          conduzindo, lançaram
          mão de um certo Simão
          de Cirene, que voltava
          do campo, e carregaram-
          no com a cruz, para a
          levar atrás de Jesus. (Lc
          23,26)


Meditação
      Até Jesus quis um
      instante de alívio, talvez
      para dar ao homem de Cirene a alegria do bom samaritano. Só um instante,
      porque não se deve abusar da bondade alheia… E Cristo retoma a cruz, para se
      fazer Ele cireneu e bom samaritano para sempre, dando-nos mais que o alívio
      de um instante.

          Jesus quer-nos cireneus, atentos e sensíveis, sem fazermos pesar a nossa
          caridade. E caridade não é fazermos nós o que é dever dos outros fazer.
          Caridade é ensinar cada um a andar pelas suas próprias pernas.


Oração
      Também Tu, Jesus,
      Te permitiste um momento de pausa
      Para poderes chegar à cruz.
      Existe em nós a tentação, às vezes,
      De nos abandonarmos, de nos deixarmos ir, de pararmos,
      De fazermos de cada pausa uma meta.
      Jesus, que também eu encontre um cireneu
      Para ser cireneu dos outros com mais fé.




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6ª ESTAÇÃO
                             JESUS ENCONTRA VERÓNICA
Leitura
          Cresceu na sua presença como
          um rebento, como raiz em terra
          árida, sem figura nem esplendor
          que pudesse atrair o nosso
          olhar, nem formosura capaz de
          nos deleitar. (Is 53,2)


Meditação
      Outro encontro, e de profundo
      diálogo. Entre a exaustão dum
      Deus de rosto desfigurado e a
      bondade dum grande coração de
      mulher. E Cristo oferece-lhe o
      seu rosto, o Seu olhar, e deixa-o
      na História até ao fim dos tempos.

          O rosto de Cristo é o rosto de todos os homens, e quem mais sofre mais está
          presente nele. Um rosto que está na natureza de todos, mesmo dos que nos
          são antipáticos ou nos querem mal.

          Porque não ver nele o convite de Cristo ao perdão?


Oração
      Jesus, foi-te agradável
      O doce lenço
      Que Te acariciou o rosto,
      E o Teu olhar
      Impresso na história de cada homem
      É de conforto no caminho que nos resta
      Até à ressurreição.




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7ª ESTAÇÃO
                             JESUS CAI PELA SEGUNDA VEZ
Leitura
          Foi castigado pelos nossos
          crimes, esmagado pelas nossas
          iniquidades; o castigo que nos
          salva pesou sobre Ele, fomos
          curados na Suas chagas.

          Todos       nós      andávamos
          desgarrados como ovelhas, cada
          um seguia o seu caminho; o
          Senhor carregou sobre Ele a
          iniquidade de todos nós. (Is 53,5-
          6)


Meditação
      Sim, Jesus volta a cair, porque a
      estrada da cruz não tem fim, nem tão-pouco o cansaço.

          Não basta um bom cireneu para carregar todo o peso. Cristo quis nossa cruz, e
          quer levá-la até à morte. Nem as quedas conseguirão detê-Lo.

          As quedas repetem-se, porque o homem é egoísta e não quer saber da
          conversão. Haverá sempre uma injustiça que pesa, haverá sempre uma graça
          que salva. O importante é olhar em frente, sempre, mesmo quando se está
          caído por terra.


Oração
      Jesus, voltar a ver-Te caído por terra
      É sentir em mim o peso
      Deste meu cansaço
      Em trabalhar pelo Teu reino.
      Cansamo-nos de esperar.
      Mas Tu caíste para ficares à minha altura
      Convidando-me a avançar.




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8ª ESTAÇÃO
                            JESUS E AS SANTAS MULHERES

Leitura
          Seguiam-n’O uma grande massa
          de povo e umas mulheres que se
          lamentavam e choravam por Ele.
          Jesus voltou-se para elas e disse-
          lhes: «Filhas de Jerusalém, não
          choreis por mim. Chorai antes por
          vós mesmas e pelos vossos filhos,
          pois dias virão em que se dirá:
          “Felizes as estéreis, os ventres
          que não geraram e os peitos que
          não amamentaram!”. Hão de
          então dizer aos montes: “Caí
          sobre nós!” E às colinas: “Cobri-
          nos!” Porque se tratam assim a
          madeira verde, o que acontecerá
          à seca?» (Lc 23, 27-31).


Meditação
      Desta vez Cristo quebra o silêncio com uma censura. Não é Ele que deve ser
      lamentado, o Seu sofrimento, a Sua solidão. Cristo que sofre é uma censura à
      indiferença com que deixamos crucificar a justiça e os direitos dos povos,
      limitando-nos a murmurar o nosso desacordo.

          Pôr-se em questão em busca da verdadeira identidade do homem é um dever
          quotidiano pessoal e colectivo. Uma questão, isto é, que nos faça ultrapassar
          esquemas rígidos, vistas curtas, preconceitos ideológicos.


Oração
      A tua censura às santas mulheres, ó Cristo
      Atinge-nos a todos.
      No fundo, agrada-nos viver
      De saudades confortáveis
      E lágrimas vazias:
      Por isso somos terreno tão seco e duro
      À semente da Tua palavra, Jesus.



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9ª ESTAÇÃO
                             JESUS CAI PELA TERCEIRA VEZ
Leitura
          Salvai-me, ó Deus, porque as águas
          quase me submergem.

          Estou-me afundando no abismo
          profundo, onde não há ponto de
          apoio; entrei no abismo de águas
          profundas e já as vagas me cobrem.
          Estou exausto de tanto gritar,
          enrouqueceu a minha garganta,
          cansaram-se os meus olhos à espera
          do meu Deus. (SI 69, 2-4).


Meditação
      Jesus cai mais vezes? Ser-nos-á
      sempre impossível sabê-lo. Mas
      também pouco importa.

          Jesus caiu, e volta a cair porque a nossa obstinação é grande. E levanta-Se pela
          terceira vez porque o amor não se detém perante nenhum obstáculo, nenhum
          cansaço.

          Cada via dolorosa é uma estrada de incontáveis quedas.

          A esperança incita-nos a prosseguir, mesmo quando o sol desaparece.


Oração
      Não é tanto a Tua queda, ó Cristo,
      Que fere o meu sentir humano
      Quanto a minha imobilidade
      Perante a queda silenciosa de espíritos desalentados,
      De almas exaustas.
      E Tu, Jesus, voltas a erguer-Te
      E contigo a minha esperança
      De recomeçar outra vez.




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10ª ESTAÇÃO
                        JESUS É DESPOJADO DAS SUAS VESTES

Leitura
          Foi maltratado e resignou-
          se. Não abriu a boca, como
          cordeiro      levado    ao
          matadouro, como ovelha
          emudecida nas mãos do
          tosquiador. (Is 53,7).


Meditação
      O condenado não tem
      direito a nada. A própria
      vida já não lhe pertence.

          De que serve agora uma
          peça de roupa? A cruz não suporta o supérfluo. Quer tudo. Qualquer
          humilhação cabe nesta lógica do dom total.

          Começamos a ser realmente pobres quando libertamos do supérfluo o coração
          e as mãos. Claro que as humilhações não deixarão nunca de nos ferir.


Oração
      Jesus, sem vestes
      Sem formalidades
      Sem estruturas
      Assim no fundo me atrais,
      Abraçando a cruz
      pobre em tudo
      rico apenas de amor universal.
      Amar-Te assim na Tua dádiva total
      Sem sombras
      É a graça que quero.




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11ª ESTAÇÃO
                              JESUS É PREGADO NA CRUZ

Leitura
          Quando chegaram ao lugar
          chamado                Calvário,
          crucificaram-no a Ele e aos
          malfeitores, um à direita e
          outro à esquerda. Jesus dizia:
          «Perdoa-lhes, ó Pai, porque não
          sabem o que fazem». Depois
          deitaram sortes para dividirem
          entre si as Suas vestes (Lc 23,
          33-34).


Meditação
      Bastam três ou quatro pregos e
      Jesus fica imobilizado, preso a
      duas traves de madeira.

          Mas o amor não se prende. Da cruz descem palavras de paz, de perdão,
          abalando profundamente o homem, e infinitos raios de graça divina iluminando
          os corações. Esse é o crucifixo eterno.

          Ser totalmente pobre: estar nu sobre uma cruz e ter no coração infinita
          capacidade de paz e de perdão. Ainda hoje há demasiadas cruzes de ouro em
          que nenhum coração palpita.


Oração
      Jesus, és ainda hoje o Crucificado.
      E eu estou aqui a contemplar-Te
      Vendo o Teu coração bater por mim também,
      Ouvindo-Te dizer: «Vê como te amo!
      E tu?»…
      E eu, ó Crucificado,
      Eu contemplo-Te e rezo: «Perdoa-me!».




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12ª ESTAÇÃO
                                 JESUS MORRE NA CRUZ
Leitura
          Por volta da hora sexta as
          trevas cobriram toda a terra,
          até à hora nona, por o Sol se
          ter Eclipsado.

          O véu do Templo rasgou-se ao
          meio, e Jesus exclamou, dando
          um grande grito: «Pai, nas Tuas
          mãos entrego o meu espírito».
          Dito isto, expirou. (Lc 23, 44-
          46).


Meditação
      A morte é uma cruz que
      sangra. É o mistério. O medo
      que tudo seja um engano. Até
      os espíritos eleitos sentem
      esse medo, e só uma grande fé
      leva à esperança.

          Também Jesus morre, e quem poderia imaginar um Deus que morresse?

          É preciso fé, muita fé, para ter esperança num amanhã melhor, e a morte
          afasta-se. Mas por pouco.

          A cruz é Jesus Cristo morto para ressuscitar. A cruz, qualquer cruz, é iluminada
          por essa glória divina.


Oração
      Na Tua morte, ó Crucificado,
      Há já toda uma nova humanidade
      Que está para nascer.
      E do peito trespassado sai a Tua Igreja,
      Mãe de todos os vivos.
      O amor terá sempre a última palavra
      Ainda que todo o ódio deste pobre mundo
      Crucifique milhões de seres humanos.
      Tu, ó Cristo, garantes-nos a vida.

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13ª ESTAÇÃO
                                JESUS É DESCIDO DA CRUZ

Leitura
          Depois disto, José de Arimateia,
          que era discípulo de Jesus, ainda
          que ocultamente por medo dos
          judeus, pediu a Pilatos para levar
          o corpo de Jesus. Pilatos
          permitiu-lho. Veio, pois, e tirou o
          corpo (Jo 19,38).


Meditação
      Jesus é despregado da cruz. Sim,
      duma trave de madeira. E só
      dessa trave de madeira, porque
      toda a cruz se torna de hoje em
      diante uma cruz de salvação e
      ninguém poderá separá-la de
      Cristo. Cristo não se deixa
      apartar do nosso sofrimento.

          Por muito duro que seja tomar a cruz e aceitá-la, é consolador saber que ela é
          parte da cruz de Cristo. Nenhuma cruz está separada da cruz de Cristo, e por
          isso todo o sofrimento é redentor.


Oração
      Ó Crucificado,
      Tu não inventaste nenhuma cruz
      E pensá-lo é desalento e dúvida.
      Entenda-se, porém:
      Tu inventaste a cruz da salvação
      Da qual nasce toda a força,
      Toda a capacidade de suportar as cruzes humanas.




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14ª ESTAÇÃO
                           JESUS É COLOCADO NO SEPULCRO

Leitura
          Respondeu-lhes Ele: «Chegou a
          hora de ser glorificado o Filho do
          Homem. Em verdade, em verdade
          vos digo: se o grão de trigo, caindo
          na terra, não morrer, fica ele só;
          mas se morrer dá muito fruto» (Jo
          12, 23-24).


Meditação
      Como qualquer homem que morre,
      assim Cristo deposto num sepulcro.
      Também a semente precisa de ser
      lançada à terra para renascer e dar
      fruto. Tal como o meu sofrimento.
      Um pouco derrota. De morte. E
      depois a Primavera. Um novo dia
      despontará sobre tantos hojes que
      parecem de morte.

          Há sempre um amanhã para tudo. Até para tanto sofrimento e tanta injustiça
          que oprimem este mundo de forma asfixiante. Ninguém poderá aniquilar o
          Espírito de vida e de liberdade.


Oração
      Ó Jesus:
      Tu sabes como somos fracos
      E prontos a desesperar de tudo.
      Mas o dia de hoje é já Teu,
      E o de amanhã ainda mais.
      É preciso acreditar num Deus vivo
      E tudo, mas tudo,
      Cedo ou tarde ressuscitará,
      Mesmo o meu sofrimento de hoje.
      Eu creio, ó Cristo!




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REFERÊNCIAS

[Texto]: Modelo de via Sacra proposto pela Diocese de Aveiro
         http://www.diocese-aveiro.pt/noticia_detalhe.asp?id=317

[Imagem Capa]: “Jesus carrega a Cruz” (1526), Lorenzo Lotto

[Imagem Pág. 1]: “Ecce Homo” (1606), Caravaggio

[Imagem Pág. 2]: “Cristo Carregando a Cruz” (1580s), El Greco

[Imagem Pág. 3]: “Cristo Carregando a Cruz” (1737-38), Giovanni Battista Tiepolo

[Imagem Pág. 4]: “Jesus Encontra sua Mãe no Caminho para o Calvário” (1516-17), Raphael

[Imagem Pág. 5]: “Simão de Cirene e Cristo” (1565), Titian

[Imagem Pág. 6]: “O encontro de Jesus e Verónica” (séc. XVI), Carlo Caliari

[Imagem Pág. 9]: “Cristo Carregando a Cruz” (1480s), Hieronymus Bosch

[Imagem Pág. 10]: “Jesus é despido de suas roupas” (1448-53), Fra Angelico

[Imagem Pág. 11]: “Jesus é Crucificado” (1908), William Brassey Hole

[Imagem Pág. 12]: “Cristo Crucificado” (1632), Diego Velázquez

[Imagem Pág. 13]: “Descida da Cruz” (1515), Giovanni Bellini

[Imagem Pág. 14]: “O Sepultamento de Cristo” (1602-03), Caravaggio




                                                                                   - 15 -

Viasacra2013

  • 1.
  • 2.
    1ª ESTAÇÃO JESUS É CONDENADO À MORTE Leitura Pilatos disse: «Eis o homem!» Assim que O viram, os sumos- sacerdotes e os guardas gritaram: «Crucifica-O! Crucifica-O!» Tornou Pilatos a dizer: «tomai-O vós e crucificai-O, que eu não encontro n’Ele culpa alguma». Responderam os judeus: «Nós temos uma Lei, e segundo a nossa Lei deve morrer, porque se fez Filho de Deus». (Jo 19,5-7) Meditação Toda a via dolorosa começa com uma condenação. E a injustiça não cessa de atormentar-nos e de dilacerar mesmo as grandes almas. Jesus porém não lhe está sujeito: Ele toma sobre Si a condenação. A não-violência encontra aqui a sua razão de ser. Mas a escolha de Jesus é muito mais que a simples não-violência. A condenação de Jesus continua, e pesa ainda num mundo que continua hipócrita e perito em condenar justos e santos. Não basta oferecer a outra face. É preciso reagir com mais amor ao ódio que temos à nossa volta – e dentro de nós. Oração Jesus, dá-nos a força De aceitar cargas pesadas Sem nos deixar esmagar; De não odiarmos De não nos escravizarmos De não nos vingarmos. Jesus, que eu não seja Juiz impiedoso de quem erra. E quem não erra? -1-
  • 3.
    2ª ESTAÇÃO JESUS TOMA A CRUZ AOS OMBROS Leitura Dirigindo-Se depois a todos, disse: «Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-Me» (Lc 9,23) Meditação Toda a condenação é uma cruz. Dilacera a alma. E o espírito geme, mais que o corpo. Há condenações que humilham, quando a verdade é escondida pela hipocrisia de leis complacentes. E Jesus caminhava para o Calvário. Qualquer cruz nos condena ao sofrimento, e nós somos condenados por um mal profundo. Um mal que podemos vencer pegando com Cristo na cruz. Jesus não nos tirou a cruz: deu-nos, não só o exemplo, mas também a capacidade de a levar. Oração Jesus, tomaste às costas o madeiro E nele estava eu também, Estávamos todos. Levas-nos, não ao túmulo Mas à ressurreição. Embora nós sintamos Ainda o peso da cruz, Tu estás connosco e isso basta para prosseguirmos. -2-
  • 4.
    3ª ESTAÇÃO JESUS CAI PELA PRIMEIRA VEZ Leitura Ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores; nós o considerávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado. (Is 53,4) Meditação Todos caem. Cada um tem o seu limite de resistência. Mas poucos caem como Jesus: Ele cai sob o peso da cruz, e essa cruz é nossa. Cai porque quer conhecer todas as humilhações, até a de cair por terra, ao nível dos homens. Por vezes, cair não é sinal de fraqueza mas de qualquer coisa que esmaga e oprime até ao limite do suportável. A terra é também sinal de humildade. Quem cai – e todos caem – deve fazer-se discípulo. Oração A tua queda, Jesus, Diante de todos, Perante o riso da multidão Ou o silêncio dos cobardes É humildade que desconcerta O meu orgulho. Dá-me, ó Cristo, A graça de Te sentir a meu lado Quando me vejo por terra. -3-
  • 5.
    4ª ESTAÇÃO JESUS ENCONTRA A SUA MÃE Leitura Simeão abençoou-os e disse a Maria, Sua Mãe: «Eis que este menino vai ser causa de queda e elevação de muitos em Israel e para ser sinal de contradição; uma espada trespassará a tua alma a fim de se revelarem os pensamentos de muitos corações». (Lc 2,34-35) Meditação Dois olhares que se cruzam. Em silêncio, que é o encontro mais autêntico. Jesus desejou este encontro, e Maria ainda mais que seu Filho. Em toda a via dolorosa há sempre um encontro de graça. E a Senhora está presente com o seu olhar silencioso. Há vias dolorosas nas quais é difícil encontrar uma mãe, e os filhos agonizam. Jesus deixou uma mãe para que ninguém tenha de se sentir órfão. Uma mãe de esperança. Oração Jesus, Tua mãe fitou-te E no seu olhar Estava todo o perdão que pedimos Pelas nossas ofensas Pelas nossas recusas. E com o Teu silêncio, Cristo, Respondeste prosseguindo o caminho da cruz. -4-
  • 6.
    5ª ESTAÇÃO JESUS É AJUDADO PELO CIRINEU Leitura Quando O iam conduzindo, lançaram mão de um certo Simão de Cirene, que voltava do campo, e carregaram- no com a cruz, para a levar atrás de Jesus. (Lc 23,26) Meditação Até Jesus quis um instante de alívio, talvez para dar ao homem de Cirene a alegria do bom samaritano. Só um instante, porque não se deve abusar da bondade alheia… E Cristo retoma a cruz, para se fazer Ele cireneu e bom samaritano para sempre, dando-nos mais que o alívio de um instante. Jesus quer-nos cireneus, atentos e sensíveis, sem fazermos pesar a nossa caridade. E caridade não é fazermos nós o que é dever dos outros fazer. Caridade é ensinar cada um a andar pelas suas próprias pernas. Oração Também Tu, Jesus, Te permitiste um momento de pausa Para poderes chegar à cruz. Existe em nós a tentação, às vezes, De nos abandonarmos, de nos deixarmos ir, de pararmos, De fazermos de cada pausa uma meta. Jesus, que também eu encontre um cireneu Para ser cireneu dos outros com mais fé. -5-
  • 7.
    6ª ESTAÇÃO JESUS ENCONTRA VERÓNICA Leitura Cresceu na sua presença como um rebento, como raiz em terra árida, sem figura nem esplendor que pudesse atrair o nosso olhar, nem formosura capaz de nos deleitar. (Is 53,2) Meditação Outro encontro, e de profundo diálogo. Entre a exaustão dum Deus de rosto desfigurado e a bondade dum grande coração de mulher. E Cristo oferece-lhe o seu rosto, o Seu olhar, e deixa-o na História até ao fim dos tempos. O rosto de Cristo é o rosto de todos os homens, e quem mais sofre mais está presente nele. Um rosto que está na natureza de todos, mesmo dos que nos são antipáticos ou nos querem mal. Porque não ver nele o convite de Cristo ao perdão? Oração Jesus, foi-te agradável O doce lenço Que Te acariciou o rosto, E o Teu olhar Impresso na história de cada homem É de conforto no caminho que nos resta Até à ressurreição. -6-
  • 8.
    7ª ESTAÇÃO JESUS CAI PELA SEGUNDA VEZ Leitura Foi castigado pelos nossos crimes, esmagado pelas nossas iniquidades; o castigo que nos salva pesou sobre Ele, fomos curados na Suas chagas. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um seguia o seu caminho; o Senhor carregou sobre Ele a iniquidade de todos nós. (Is 53,5- 6) Meditação Sim, Jesus volta a cair, porque a estrada da cruz não tem fim, nem tão-pouco o cansaço. Não basta um bom cireneu para carregar todo o peso. Cristo quis nossa cruz, e quer levá-la até à morte. Nem as quedas conseguirão detê-Lo. As quedas repetem-se, porque o homem é egoísta e não quer saber da conversão. Haverá sempre uma injustiça que pesa, haverá sempre uma graça que salva. O importante é olhar em frente, sempre, mesmo quando se está caído por terra. Oração Jesus, voltar a ver-Te caído por terra É sentir em mim o peso Deste meu cansaço Em trabalhar pelo Teu reino. Cansamo-nos de esperar. Mas Tu caíste para ficares à minha altura Convidando-me a avançar. -7-
  • 9.
    8ª ESTAÇÃO JESUS E AS SANTAS MULHERES Leitura Seguiam-n’O uma grande massa de povo e umas mulheres que se lamentavam e choravam por Ele. Jesus voltou-se para elas e disse- lhes: «Filhas de Jerusalém, não choreis por mim. Chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos, pois dias virão em que se dirá: “Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram!”. Hão de então dizer aos montes: “Caí sobre nós!” E às colinas: “Cobri- nos!” Porque se tratam assim a madeira verde, o que acontecerá à seca?» (Lc 23, 27-31). Meditação Desta vez Cristo quebra o silêncio com uma censura. Não é Ele que deve ser lamentado, o Seu sofrimento, a Sua solidão. Cristo que sofre é uma censura à indiferença com que deixamos crucificar a justiça e os direitos dos povos, limitando-nos a murmurar o nosso desacordo. Pôr-se em questão em busca da verdadeira identidade do homem é um dever quotidiano pessoal e colectivo. Uma questão, isto é, que nos faça ultrapassar esquemas rígidos, vistas curtas, preconceitos ideológicos. Oração A tua censura às santas mulheres, ó Cristo Atinge-nos a todos. No fundo, agrada-nos viver De saudades confortáveis E lágrimas vazias: Por isso somos terreno tão seco e duro À semente da Tua palavra, Jesus. -8-
  • 10.
    9ª ESTAÇÃO JESUS CAI PELA TERCEIRA VEZ Leitura Salvai-me, ó Deus, porque as águas quase me submergem. Estou-me afundando no abismo profundo, onde não há ponto de apoio; entrei no abismo de águas profundas e já as vagas me cobrem. Estou exausto de tanto gritar, enrouqueceu a minha garganta, cansaram-se os meus olhos à espera do meu Deus. (SI 69, 2-4). Meditação Jesus cai mais vezes? Ser-nos-á sempre impossível sabê-lo. Mas também pouco importa. Jesus caiu, e volta a cair porque a nossa obstinação é grande. E levanta-Se pela terceira vez porque o amor não se detém perante nenhum obstáculo, nenhum cansaço. Cada via dolorosa é uma estrada de incontáveis quedas. A esperança incita-nos a prosseguir, mesmo quando o sol desaparece. Oração Não é tanto a Tua queda, ó Cristo, Que fere o meu sentir humano Quanto a minha imobilidade Perante a queda silenciosa de espíritos desalentados, De almas exaustas. E Tu, Jesus, voltas a erguer-Te E contigo a minha esperança De recomeçar outra vez. -9-
  • 11.
    10ª ESTAÇÃO JESUS É DESPOJADO DAS SUAS VESTES Leitura Foi maltratado e resignou- se. Não abriu a boca, como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha emudecida nas mãos do tosquiador. (Is 53,7). Meditação O condenado não tem direito a nada. A própria vida já não lhe pertence. De que serve agora uma peça de roupa? A cruz não suporta o supérfluo. Quer tudo. Qualquer humilhação cabe nesta lógica do dom total. Começamos a ser realmente pobres quando libertamos do supérfluo o coração e as mãos. Claro que as humilhações não deixarão nunca de nos ferir. Oração Jesus, sem vestes Sem formalidades Sem estruturas Assim no fundo me atrais, Abraçando a cruz pobre em tudo rico apenas de amor universal. Amar-Te assim na Tua dádiva total Sem sombras É a graça que quero. - 10 -
  • 12.
    11ª ESTAÇÃO JESUS É PREGADO NA CRUZ Leitura Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, crucificaram-no a Ele e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Jesus dizia: «Perdoa-lhes, ó Pai, porque não sabem o que fazem». Depois deitaram sortes para dividirem entre si as Suas vestes (Lc 23, 33-34). Meditação Bastam três ou quatro pregos e Jesus fica imobilizado, preso a duas traves de madeira. Mas o amor não se prende. Da cruz descem palavras de paz, de perdão, abalando profundamente o homem, e infinitos raios de graça divina iluminando os corações. Esse é o crucifixo eterno. Ser totalmente pobre: estar nu sobre uma cruz e ter no coração infinita capacidade de paz e de perdão. Ainda hoje há demasiadas cruzes de ouro em que nenhum coração palpita. Oração Jesus, és ainda hoje o Crucificado. E eu estou aqui a contemplar-Te Vendo o Teu coração bater por mim também, Ouvindo-Te dizer: «Vê como te amo! E tu?»… E eu, ó Crucificado, Eu contemplo-Te e rezo: «Perdoa-me!». - 11 -
  • 13.
    12ª ESTAÇÃO JESUS MORRE NA CRUZ Leitura Por volta da hora sexta as trevas cobriram toda a terra, até à hora nona, por o Sol se ter Eclipsado. O véu do Templo rasgou-se ao meio, e Jesus exclamou, dando um grande grito: «Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito». Dito isto, expirou. (Lc 23, 44- 46). Meditação A morte é uma cruz que sangra. É o mistério. O medo que tudo seja um engano. Até os espíritos eleitos sentem esse medo, e só uma grande fé leva à esperança. Também Jesus morre, e quem poderia imaginar um Deus que morresse? É preciso fé, muita fé, para ter esperança num amanhã melhor, e a morte afasta-se. Mas por pouco. A cruz é Jesus Cristo morto para ressuscitar. A cruz, qualquer cruz, é iluminada por essa glória divina. Oração Na Tua morte, ó Crucificado, Há já toda uma nova humanidade Que está para nascer. E do peito trespassado sai a Tua Igreja, Mãe de todos os vivos. O amor terá sempre a última palavra Ainda que todo o ódio deste pobre mundo Crucifique milhões de seres humanos. Tu, ó Cristo, garantes-nos a vida. - 12 -
  • 14.
    13ª ESTAÇÃO JESUS É DESCIDO DA CRUZ Leitura Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, ainda que ocultamente por medo dos judeus, pediu a Pilatos para levar o corpo de Jesus. Pilatos permitiu-lho. Veio, pois, e tirou o corpo (Jo 19,38). Meditação Jesus é despregado da cruz. Sim, duma trave de madeira. E só dessa trave de madeira, porque toda a cruz se torna de hoje em diante uma cruz de salvação e ninguém poderá separá-la de Cristo. Cristo não se deixa apartar do nosso sofrimento. Por muito duro que seja tomar a cruz e aceitá-la, é consolador saber que ela é parte da cruz de Cristo. Nenhuma cruz está separada da cruz de Cristo, e por isso todo o sofrimento é redentor. Oração Ó Crucificado, Tu não inventaste nenhuma cruz E pensá-lo é desalento e dúvida. Entenda-se, porém: Tu inventaste a cruz da salvação Da qual nasce toda a força, Toda a capacidade de suportar as cruzes humanas. - 13 -
  • 15.
    14ª ESTAÇÃO JESUS É COLOCADO NO SEPULCRO Leitura Respondeu-lhes Ele: «Chegou a hora de ser glorificado o Filho do Homem. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer dá muito fruto» (Jo 12, 23-24). Meditação Como qualquer homem que morre, assim Cristo deposto num sepulcro. Também a semente precisa de ser lançada à terra para renascer e dar fruto. Tal como o meu sofrimento. Um pouco derrota. De morte. E depois a Primavera. Um novo dia despontará sobre tantos hojes que parecem de morte. Há sempre um amanhã para tudo. Até para tanto sofrimento e tanta injustiça que oprimem este mundo de forma asfixiante. Ninguém poderá aniquilar o Espírito de vida e de liberdade. Oração Ó Jesus: Tu sabes como somos fracos E prontos a desesperar de tudo. Mas o dia de hoje é já Teu, E o de amanhã ainda mais. É preciso acreditar num Deus vivo E tudo, mas tudo, Cedo ou tarde ressuscitará, Mesmo o meu sofrimento de hoje. Eu creio, ó Cristo! - 14 -
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    REFERÊNCIAS [Texto]: Modelo devia Sacra proposto pela Diocese de Aveiro http://www.diocese-aveiro.pt/noticia_detalhe.asp?id=317 [Imagem Capa]: “Jesus carrega a Cruz” (1526), Lorenzo Lotto [Imagem Pág. 1]: “Ecce Homo” (1606), Caravaggio [Imagem Pág. 2]: “Cristo Carregando a Cruz” (1580s), El Greco [Imagem Pág. 3]: “Cristo Carregando a Cruz” (1737-38), Giovanni Battista Tiepolo [Imagem Pág. 4]: “Jesus Encontra sua Mãe no Caminho para o Calvário” (1516-17), Raphael [Imagem Pág. 5]: “Simão de Cirene e Cristo” (1565), Titian [Imagem Pág. 6]: “O encontro de Jesus e Verónica” (séc. XVI), Carlo Caliari [Imagem Pág. 9]: “Cristo Carregando a Cruz” (1480s), Hieronymus Bosch [Imagem Pág. 10]: “Jesus é despido de suas roupas” (1448-53), Fra Angelico [Imagem Pág. 11]: “Jesus é Crucificado” (1908), William Brassey Hole [Imagem Pág. 12]: “Cristo Crucificado” (1632), Diego Velázquez [Imagem Pág. 13]: “Descida da Cruz” (1515), Giovanni Bellini [Imagem Pág. 14]: “O Sepultamento de Cristo” (1602-03), Caravaggio - 15 -