José Nivaldo Júnior
TUDO PELOS ARES(Amor e cólera em tempos de Lava Jato)
Recife, 2018
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III
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A noite das bruxas

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Bem protegido do frio, acomodado nos melhores bares
e restaurantes da cidade considerada a capital do mundo, bebendo
e comendo do bom e do melhor, JB teve tranquilidade para reme-
morar todos os detalhes que conseguiu lembrar. Repassou várias
vezes cada episódio, buscando encaixar as pedras do complexo
quebra-cabeças e não deixar de fora nenhum detalhe que contri-
buísse para esclarecer os fatos.

Para puxar o fio da meada e situar como teve origem aquele
imbróglio, é importante voltar no tempo quase três meses. Era nos
acontecimentos desse período, sem dúvida, que estava escondida a
chave do enigma. Cada terremoto tem o seu epicentro. Todo acon-
tecimento parte de determinado ponto. Todo caso de amor começa
com um primeiro olhar.

Era o dia das bruxas, que o colonialismo cultural vigente no
Brasil transformou em Halloween. E, até aquela hora no começo da
noite, parecia mesmo que as bruxas estavam soltas. Depois de um
embarque tranquilo e sem atrasos, o voo direto São Paulo/Recife
transcorria sem anormalidades. O pôr do sol, à esquerda, estava
deslumbrante. As nuvens sinuosas, alaranjadas pelo poente, com-
punham um quadro de tamanha beleza que se colocava para além
do poder das palavras. Até que, de repente, ouviu-se um estalo in-
tenso, alto, como se a aeronave estivesse rachando.

Ficou claro para todos os passageiros que não era algo trivial,
até porque, em seguida, caíram as máscaras de emergência. Veio
o comando de atar cintos, os comissários de bordo e aeromoças,
todos sem um pingo de cor no rosto, corriam se esbarrando no
corredor estreito, para lá e para cá. Um comissário saiu da cabi-
ne, apanhou uma lanterna no local dos equipamentos, deitou-se no
chão, no meio do avião. Com a ajuda de outros, afastou o tapete e
removeu uma placa no piso do corredor. Ficaram assim por alguns
minutos, agora com a presença do comandante ou do copiloto, JB
não identificou qual dos dois era. Todos tentavam enxergar alguma
coisa nas entranhas da aeronave.

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Nesse meio tempo, JB levantou e pegou no bagageiro uma gar-
rafinha de uísque de 4 doses, que comprara no aeroporto. Só não
engoliu tudo de uma vez porque o passageiro do lado, sem a menor
cerimônia, deu um bote, tomou a garrafa e bebeu o restante, justi-
ficando no final, ao devolver o recipiente vazio: Desculpe, eu também
estou precisando.

Em seguida, vieram as informações e as orientações do co-
mandante, com voz firme, porém sem disfarçar a grande tensão.
Sofremos uma pane no sistema de freios da aeronave e, para evitar novos
danos que possam agravar a situação, recebemos ordens para um pouso de
emergência no aeroporto mais próximo com estrutura para tal, narrou.
Assim, estamos nos dirigindo ao aeroporto Luiz Eduardo Magalhães, em
Salvador.  Prosseguiu dizendo que o local estava sendo preparado,
encontrava-se já fechado para pousos e decolagens. A partir de ago-
ra, só nós vamos descer, complementou.
Apistajáestárecebendoumcolchãodeespumas,estamosnoslivrando
do combustível, trata-se de uma pane de risco médio, tudo indica que vamos
conseguir aterrissar, prosseguiu sem tranquilizar ninguém. Sigam as
instruções de segurança dos comissários. O protocolo me obriga a informar
que, quando a aeronave tocar o solo, eu não mais terei comando sobre ela.
Boa sorte a todos, que Deus olhe por nós.

Algumas vozes histéricas se fizeram ouvir, porém a grande
maioria manteve uma calma tensa, até tentando aquietar ou mes-
mo repreendendo os mais descontrolados. Algumas passageiras
puxaram uma oração, em seguida vieram alguns cânticos, até que
foi anunciado o pouso iminente. 

Fez-se um silêncio mortal. Os passageiros assumiram a posi-
ção orientada pelos tripulantes. Quando o avião bateu bruscamente
no solo, o comandante reverteu os motores, a aeronave tremelicava
tanto que parecia prestes a se desintegrar. Em pouco tempo parou. 
As luzes dos carros de bombeiros logo se tornaram visíveis, as por-
tas de emergência imediatamente estavam abertas, os escorregos
foram lançados.

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Quandoocomandantevoltouafalarparaorientaraevacuação,
o alívio da sua voz foi suficiente para tranquilizar a todos. Foram
muitos e emocionados aplausos. Minutos depois, já estavam nos
ônibus a caminho do desembarque. Alguns sujos de espuma, cada
qual querendo dizer alguma coisa engraçada, aquele alívio ainda
nervoso que costuma acontecer em momentos que se seguem à su-
peração de risco iminente de morte.

Quando já se encontravam na área de desembarque e um fun-
cionário da companhia berrava instruções sobre a recuperação das
bagagens e as providências para acomodação dos passageiros, em
hotéis da cidade, os olhares de ambos se cruzaram. Até então, não
tinham se percebido.

Ao fitar JB, Elisa ficou pálida, começou a tremer. Eram conhe-
cidos, porém sem maior aproximação. O suficiente, porém, para ele
se dirigir até onde ela se encontrava. Ao se aproximar, percebeu a
perturbação que a acometia, muito além do susto recente, passado
no ar. Menina, você também estava nessa aventura, nem lhe vi. Então ela
respondeu: Nem eu lhe notei no avião. Mas o pior é que agora, quando lhe
avistei, pensei que estava vendo o finado. Pense num susto. Estou aqui me
tremendo toda.

Não é que alguém já tivesse morrido. Finado era um termo co-
mum, aplicado pelas mulheres aos seus ex-maridos, como forma
de desdém, e para não terem que pronunciar os seus nomes. JB riu,
ficaram comentando os transtornos do voo. Elogiaram a perícia do
piloto, a eficiência da tripulação, deram graças a Deus por tudo ter
acabado bem. Embarcaram juntos no ônibus para o hotel, o aero-
porto é um pouco distante, entrosaram o papo. Antes de cada qual
se dirigir ao seu quarto, combinaram se encontrar no lobby do ho-
tel em 40 minutos. Sem dúvida o final feliz exigia uma comemora-
ção à altura.

Saíram para jantar, escolheram um restaurante de luxo, JB pe-
diu um champanhe Cristal, um brinde à vida, um brinde ao futuro.
De brinde em brinde, pediram outra garrafa e, após o cafezinho e
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o licor, mais um champanhe para beber no hotel antes de dormir,
sem baixar o padrão, conforme ele comentou.

Durante o jantar, à medida que brindavam, Elisa foi abordan-
do detalhes da separação. Contou os traumas, certos detalhes que
normalmente não seriam comentados. Admitiu que não fora esco-
lha dela, ainda amava o marido, muito, mas as ofensas e humilha-
ções por que passara tornaram o afastamento uma opção sem re-
trocesso. Tudo está consumado entre nós, falou meio dramaticamente.
Desatou em choro copioso, ele aproximou a cadeira, ela reclinou a
cabeça no seu ombro.

Foi a deixa. Numa primeira ousadia, ele lambeu uma lágrima
que escorria pela face da linda mulher. Ela sorriu, triste sorriso, e o
repreendeu com o olhar, sem demonstrar convicção. A partir dali, a
intimidade prosperou rapidamente. Um toque aparentemente ca-
sual na mão, um carinho no ombro, um beijo regado a champanhe.
Instalou-se uma atmosfera de romance, uma sensação maravilhosa.

No táxi, retornaram abraçados, em silêncio. Quando desem-
barcaram, as bruxas estavam soltas. Literalmente. O hotel promo-
via uma festa de Halloween, já descambando para o final. Um gru-
po fantasiado ia saindo. Elisa, de repente, se animou: Eu quero ir
para essa festa. Era um evento à fantasia. JB dirigiu-se a um casal
que saia ainda a caráter e perguntou amigavelmente: Amigos, nós
queremos ir para a festa. Por quanto vendem a fantasia? E meteu a mão
no bolso com intenção real de sacar dinheiro.

O casal riu, levou na esportiva. Isso não serve mais pra gente, fa-
çam bom proveito. Tiraram as capas, o cara entregou uma cartola de
Drácula ou sei lá o quê, a moça passou também o chapéu de bru-
xa e uma espécie de varinha para magias. E assim, devidamente
caracterizados, se dirigiram à festa, os porteiros sequer pediram
ingresso, apenas passaram o equipamento de segurança, até a gar-
rafa quase cheia de champanhe entrou.

Música animada. Minha bruxinha, você está linda, vamos dançar.
Abraçaram-se firme, logo as línguas se entrelaçavam. Não demo-
rou e já exageravam nas carícias. Não chamaram a atenção porque,
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àquelas alturas, ninguém ligava para ninguém. Sequer os músicos
estavam interessados no que se passava no salão. Foram dos últi-
mos a sair. No elevador, ele fez a pergunta tradicional e inevitável:
No seu quarto ou no meu? Elisa preferiu que fosse no dela.

Entraram agarrados. Vou tomar um banho, disse ela. Para quê,
respondeu ele, já tirando as próprias roupas e arrancando as da
mulher. Se amaram intensamente, como se fosse a primeira e a ul-
tima vez na vida, como se o avião estivesse em queda livre, prestes a
se espatifar, e a eles não restasse muito tempo neste mundo.

Amaram-se de todas as formas, se insultaram com todos os
adjetivos cabíveis naqueles momentos. Na hora em que ela atingiu
o primeiro orgasmo, puxou os próprios cabelos e gritou como se
estivesse só no mundo: Mete, Tino, mete com força, bate na tua cachorra
no cio, bate, meu amor.

Como o leitor já entendeu, Tino era como todos chamavam o
ex-marido, Agostino na carteira de identidade. Aquele detalhe, ao
invés de inibir, aumentou a tesão de JB. Bateu no rosto da parceira
sem medir a força. Quando ouviu o estalo da palma da mão, explo-
diu no maior gozo da sua vida.



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IV.
Uma relação
difícil 

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Aconteceu. Depois de feito, não tem mais como voltar
atrás, a vida só anda para a frente. Quando acordaram, o telefone
tocava com o objetivo de avisar que a partida para o aeroporto esta-
va próxima, Elisa e JB olharam-se assustados. As cabeças doíam um
pouco. Era estranho para ambos estarem naquela situação.

Ele ainda chegou a propor ficarem no hotel, iriam mais tarde
em outro voo, mas ela sequer abriu negociação, foi até um tanto rís-
pida. Se você quiser ficar, fique, eu tenho coisas para resolver, tenho horário
a cumprir. JB vestiu-se, e se despediu rapidamente. Foi para o seu
quarto tomar banho, trocar de roupa, pegar suas coisas.

Quando desceu, o último ônibus estava prestes a partir, Elisa
já se encontrava acomodada com outra pessoa ao lado. Teve que
sentar lá atrás, foi em silêncio até o aeroporto, o embarque não de-
morou, tentou, mas não conseguiu sentar junto de Elisa.

Desembarcaram no Recife como dois estranhos, muita gente
estava esperando os viajantes, até a imprensa, o incidente tornara-
-se notícia nacional nos telejornais da noite.
Figura conhecida, JB foi logo procurado pelos repórteres,
repetiu várias vezes a sua versão. Parentes se abraçavam, muitas
lágrimas se misturavam com gritos de alegria. Foram recebidos
como verdadeiros heróis sobreviventes de uma grande aventura.
E, de fato, eram. Até a esposa e as duas filhas de JB encontravam-
-se lá com os netos. Qualquer despedida privada de Elisa tornou-se
impossível.

Foram todos comemorar. À noite a família inteira jantou uni-
da, até JB Júnior, que se encontrava em Petrolina, cuidando de as-
suntos dos empreendimentos de fruticultura da família, chegou
para a comemoração. O fim de semana se aproximava, dirigiram-
-se quase todos para a mansão em praia badalada no litoral sul
de Pernambuco. O mar estava belíssimo e acolhedor. Casa cheia,
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parentes e amigos chegavam em grupos para manifestar o regozijo.
A palavra milagre foi repetida dezenas de vezes. Deus no comando,
diziam os mais religiosos; foi um livramento, insistiam os evangé-
licos. Uma chatice para JB esse tipo de solidariedade, mas enfim...
Para se recuperar livre dos intrusos, ele se concedeu mais al-
guns dias de repouso. Aproveitou o sossego, os passeios de lancha,
os mergulhos em águas paradisíacas, os bons uísques e belos cha-
rutos cubanos para relaxar e se recuperar do susto e das emoções.
Só na semana seguinte retomou a rotina.

Porém, como foi dito, a vida não retrocede. Agora, por mais
que parecesse ser o mesmo, JB era outro homem: Elisa não saía da
sua cabeça. Coisa estranha é o compartimento das emoções. Uma
novidade acontece em sua vida e passa a dominar todos os pensa-
mentos, todos os desejos. Claro, a mulher era linda, corpo perfei-
to, os momentos que viveram foram intensos e inéditos, uma rara
combinação de acontecimentos para qualquer pessoa, qualquer ca-
sal. Mas nem por isso aquela obsessão parecia razoável.
Resistiu ainda mais um dia, porém na terça-feira ligou para o
escritório dela. A secretária atendeu protocolarmente: Doutora Elisa
está em reunião, depois retorna.

A ligação de resposta não aconteceu. No dia seguinte JB in-
sistiu, a secretária foi bem explícita. Informou que comunicara o
contato e estava cumprindo as ordens que recebera. Pediu, por gen-
tileza, que ele adiantasse o assunto a ser tratado e teria um retorno
se fosse o caso. JB sentiu uma gota de suor escorrer pelas costas.

Estava claro que Elisa não queria falar com ele. Bem, talvez
não na empresa, qualquer coisa pode gerar comentários, boa-
tos. Funcionários desde sempre gostam de bisbilhotar os patrões.
Quem sabe através do celular a reação não seria diversa?

No ritmo frenético do encontro em Salvador e nas circunstân-
cias tumultuadas da despedida, nem tinham trocado os números
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dos seus telefones pessoais. Para não envolver mais ninguém, JB
consultou os registros do livro Sociedade Pernambucana, onde
Elisa, na sua condição de empresária, tinha direito a verbete pró-
prio. É que a maioria das mulheres aparecia ao lado dos maridos
com direito apenas à divulgação da data de aniversário. Como co-
lunável, Elisa tinha endereços, e-mail e telefones divulgados. Ainda
bem, comemorou JB. 

Esperou a noite e enviou uma mensagem, a mais singela pos-
sível: Oi, saudade. Logo recebeu a resposta, decepcionante, um soco
no seu coração: Desculpe, mal nos conhecemos, não temos nenhum as-
sunto para tratar. Passe bem. Quando tentou uma tréplica que man-
tivesse vivas as suas esperanças, simplesmente estava bloqueado.
Bem, já que é assim, paciência. Deixa pra lá, o que passou, passou, foi bom
enquanto durou e foi só uma noite. Chegou a cantarolar algumas vezes
o trecho do antigo samba, uma noite não é nada. Tudo acaba no sereno
da madrugada.

Como seria fácil se a vida funcionasse desse jeito. Na corren-
teza de cada um, coisas que, da boca para fora, parecem extrema-
mente simples, nas entranhas da alma, tornam-se verdadeiros fu-
racões. A noite que devia ter sido apenas uma aventura, para ser
narrada como bravata para os amigos, enfim, um nada ou quase
nada, passou a ser tudo no dia a dia de JB.

Todos notaram que andava meio distraído, concentrado em
seus pensamentos. Ninguém engana ninguém. A mulher reclama-
va sempre que estavam juntos: Você está diferente, aconteceu alguma
coisa.  Ele naturalmente negava, alegava problemas do trabalho.

Realmente, a temporada profissional era tensa e complexa. JB,
apesar de preservado até então, tinha clientes investigados, inti-
mados, conduzidos sob coerção, ocupando noticiários no horário
nobre das televisões abertas.

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Tudo isso fornecia pretexto para misturar os temas e fugir do
diálogo pessoal. Melhor você não saber de mais nada, meu amor, quan-
to menos informação, mais seguro para você e as crianças, deixa que eu
cuido disso do meu jeito. Assim, ganhava um espaço de tranquilidade
doméstica, a vida familiar funcionava como um oásis emocional.
No entanto, quando saía para o mundo, tinha dificuldade para se
controlar. Os dias passando; ao invés de diminuir, aumentavam
sua obsessão. 

Resolveu tentar descobrir os passos de Elisa. Contratou deteti-
ves cujos préstimos já utilizara várias vezes, gente de total confian-
ça. Eram dois, um no Recife, outro em São Paulo, para levantar a
rotina, monitorar os movimentos da mulher. Recebia informações
quase diárias, sabia de todos os detalhes dos seus percursos, espe-
rou a melhor oportunidade para realizar a abordagem.  Tinha que
ser algo que parecesse absolutamente casual e que os colocasse em
contato pessoal direto, próximo, sem interferências de terceiros. 

Mais que imaginava, ele tinha uma certeza brotada do espíri-
to. Não era possível que aquela energia, aquela eletricidade, aquela
química da noite mágica em Salvador tivesse sido apenas resultado
do clima gerado pelo susto do quase acidente aéreo e pela surpresa
do encontro. Fora mais que isso, muito mais. Na verdade, uma coi-
sa profunda, que deixa marcas, disso JB não tinha dúvidas. 

E não podia acreditar ter sido ele o único a sentir aqueles
efeitos. Algo lhe dizia que a outra devia estar passando por um
processo semelhante. O que muito especulava sem chegar a uma
conclusão eram os motivos da reação dela. As possibilidades eram
várias. Só descartava a indiferença. Mas estava determinado a
descobrir os porquês.

As investigações levaram a alguns padrões de comportamen-
to de Elisa. Um deles era que, quando estava no Recife, termina-
do o expediente, atravessava a passarela do empresarial onde se
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localizava a sede da empresa e ia até o luxuoso shopping center
anexo. Certos dias, para malhar na academia, outras vezes para
simplesmente andar um pouco, relaxar olhando as vitrines e tomar
um café antes de partir.

Resolveu fazer a abordagem no café. Certa vez, quando ela fez
o pedido de sempre, ele chegou junto, deu boa noite e, antes que
fosse possível qualquer reação, colou sua boca na dela e roubou um
beijo profundo e demorado. O mundo virou um carrossel.

O relógio do tempo parou, o entorno desapareceu, estavam
sós no Universo deserto. Quanto tempo durou o beijo, impossível
dizer. Não deve ter demorado muito, alguns minutos talvez, pois
foram interrompidos pela atendente avisando da chegada do pe-
dido. JB solicitou um igual para ele, aguardou Elisa se recompor.
Fez um afago nos seus cabelos e falou em tom carinhoso que até as
pedras se encontram.

Elisa estava visivelmente emocionada, sentimentos reprimi-
dos, quando vêm à tona, trazem a força de vulcões que rompem a
falsa tranquilidade da superfície e entram em violenta erupção. JB
percebeu com grande alegria que ela se manteve distante aquele
tempo todo porque, como ele, dificilmente manteria o controle caso
estabelecessem contato. Pela reação ao beijo, devia estar vivendo
sentimentos semelhantes aos seus. Pegou na mão da mulher, es-
tava gélida, apesar do calor da xícara. Tentaram entabular alguma
conversa, mas ambos estavam tão impactados que mal conseguiam
balbuciar alguma coisa inteligível. Sorriram. JB deixou uma cédula
de R$ 100,00 sobre a mesa, sinalizou para a atendente e, sem dizer
palavra, pegou na mão dela e saíram.

Caminharam na direção do estacionamento como se o shop-
ping estivesse deserto ou eles tivessem ficado invisíveis. A luxuosa
SUV que JB estava usando se encontrava estacionada em frente à
uma parede de concreto. Os vidros escuros garantiam privacidade
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total. Ligou o automóvel, entraram no banco de trás, travou o veícu-
lo e se abraçaram em improvisado jogo de amor adolescente.

Trocaram todas as carícias. Ele abriu a blusa, tirou o sutiã e a
calcinha da mulher, baixou as calças. Ela sentou no seu colo, mo-
lhada, cavalgou freneticamente o seu membro e, nas imediações do
gozo, repetiu mais uma vez o nome do ex-marido.
Por mais estra-
nho que pareça, JB novamente achou bom.

O Universo das fantasias e dos estímulos sexuais é infinito;
não comporta fronteiras. O que acontece na cama ou nos bancos
dos automóveis fica ali. É território livre do prazer, espaço preser-
vado, onde tudo cabe e nada é proibido. E o que ocorre se encerra
por ali mesmo. Por isso se diz que cachaça e putaria não se comenta. 

Concluídos os gozos, permaneceram um bom tempo abra-
çados, sem dizer nada, apenas usufruindo os encantos sublimes
do momento.
Ninguém sequer levava em consideração o des-
conforto do lugar. Até que JB percebeu a hora avançada no reló-
gio do automóvel.
Amor, está tarde, o shopping já fechou, tenho que pagar o estaciona-
mento, onde está o seu carro? No empresarial? Você escolhe. Se quiser, lhe
deixo lá. Mas acho melhor lhe levar em casa. Amanhã você pede a alguém
para lhe trazer. A proposta era bem razoável. A empresa dela tinha
vários veículos de luxo e motorista era o que não faltava. Ela pediu
lenços de papel, ele ajeitou os cabelos, recompôs as vestes. Vai lá
pagar teu estacionamento, na volta a gente vê como procede, falou
ela. E assim foi feito.

Realmente passara da hora, JB teve que andar um bom peda-
ço para encontrar um caixa automático, pagar e liberar o acesso.
Quando voltou ao carro, o veículo estava vazio. Elisa desaparecera
semdeixarnenhumamensagem.Consultouocelular.Semchance.O
aparelho continuava bloqueado. Deu um giro nas imediações, foi até
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o estacionamento do empresarial, percorreu todos os andares, nada
feito. Não lhe restou outra alternativa senão dirigir-se para casa.

Enfrentou dificuldades para conciliar o sono. Deixou a tele-
visão ligada, mas sequer conseguia ver as imagens. Elisa, com seu
corpo, seu jeito, suas safadezas, era a única coisa que seus olhos
enxergavam, estivessem abertos ou fechados.



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    . 31 Bem protegidodo frio, acomodado nos melhores bares e restaurantes da cidade considerada a capital do mundo, bebendo e comendo do bom e do melhor, JB teve tranquilidade para reme- morar todos os detalhes que conseguiu lembrar. Repassou várias vezes cada episódio, buscando encaixar as pedras do complexo quebra-cabeças e não deixar de fora nenhum detalhe que contri- buísse para esclarecer os fatos.
 Para puxar o fio da meada e situar como teve origem aquele imbróglio, é importante voltar no tempo quase três meses. Era nos acontecimentos desse período, sem dúvida, que estava escondida a chave do enigma. Cada terremoto tem o seu epicentro. Todo acon- tecimento parte de determinado ponto. Todo caso de amor começa com um primeiro olhar.
 Era o dia das bruxas, que o colonialismo cultural vigente no Brasil transformou em Halloween. E, até aquela hora no começo da noite, parecia mesmo que as bruxas estavam soltas. Depois de um embarque tranquilo e sem atrasos, o voo direto São Paulo/Recife transcorria sem anormalidades. O pôr do sol, à esquerda, estava deslumbrante. As nuvens sinuosas, alaranjadas pelo poente, com- punham um quadro de tamanha beleza que se colocava para além do poder das palavras. Até que, de repente, ouviu-se um estalo in- tenso, alto, como se a aeronave estivesse rachando.
 Ficou claro para todos os passageiros que não era algo trivial, até porque, em seguida, caíram as máscaras de emergência. Veio o comando de atar cintos, os comissários de bordo e aeromoças, todos sem um pingo de cor no rosto, corriam se esbarrando no corredor estreito, para lá e para cá. Um comissário saiu da cabi- ne, apanhou uma lanterna no local dos equipamentos, deitou-se no chão, no meio do avião. Com a ajuda de outros, afastou o tapete e removeu uma placa no piso do corredor. Ficaram assim por alguns minutos, agora com a presença do comandante ou do copiloto, JB não identificou qual dos dois era. Todos tentavam enxergar alguma coisa nas entranhas da aeronave.
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    32. JoséNivaldoJunior Nesse meio tempo,JB levantou e pegou no bagageiro uma gar- rafinha de uísque de 4 doses, que comprara no aeroporto. Só não engoliu tudo de uma vez porque o passageiro do lado, sem a menor cerimônia, deu um bote, tomou a garrafa e bebeu o restante, justi- ficando no final, ao devolver o recipiente vazio: Desculpe, eu também estou precisando.
 Em seguida, vieram as informações e as orientações do co- mandante, com voz firme, porém sem disfarçar a grande tensão. Sofremos uma pane no sistema de freios da aeronave e, para evitar novos danos que possam agravar a situação, recebemos ordens para um pouso de emergência no aeroporto mais próximo com estrutura para tal, narrou. Assim, estamos nos dirigindo ao aeroporto Luiz Eduardo Magalhães, em Salvador.  Prosseguiu dizendo que o local estava sendo preparado, encontrava-se já fechado para pousos e decolagens. A partir de ago- ra, só nós vamos descer, complementou. Apistajáestárecebendoumcolchãodeespumas,estamosnoslivrando do combustível, trata-se de uma pane de risco médio, tudo indica que vamos conseguir aterrissar, prosseguiu sem tranquilizar ninguém. Sigam as instruções de segurança dos comissários. O protocolo me obriga a informar que, quando a aeronave tocar o solo, eu não mais terei comando sobre ela. Boa sorte a todos, que Deus olhe por nós.
 Algumas vozes histéricas se fizeram ouvir, porém a grande maioria manteve uma calma tensa, até tentando aquietar ou mes- mo repreendendo os mais descontrolados. Algumas passageiras puxaram uma oração, em seguida vieram alguns cânticos, até que foi anunciado o pouso iminente. 
 Fez-se um silêncio mortal. Os passageiros assumiram a posi- ção orientada pelos tripulantes. Quando o avião bateu bruscamente no solo, o comandante reverteu os motores, a aeronave tremelicava tanto que parecia prestes a se desintegrar. Em pouco tempo parou.  As luzes dos carros de bombeiros logo se tornaram visíveis, as por- tas de emergência imediatamente estavam abertas, os escorregos foram lançados.
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    . 33 tudopelosares Quandoocomandantevoltouafalarparaorientaraevacuação, o alívioda sua voz foi suficiente para tranquilizar a todos. Foram muitos e emocionados aplausos. Minutos depois, já estavam nos ônibus a caminho do desembarque. Alguns sujos de espuma, cada qual querendo dizer alguma coisa engraçada, aquele alívio ainda nervoso que costuma acontecer em momentos que se seguem à su- peração de risco iminente de morte.
 Quando já se encontravam na área de desembarque e um fun- cionário da companhia berrava instruções sobre a recuperação das bagagens e as providências para acomodação dos passageiros, em hotéis da cidade, os olhares de ambos se cruzaram. Até então, não tinham se percebido.
 Ao fitar JB, Elisa ficou pálida, começou a tremer. Eram conhe- cidos, porém sem maior aproximação. O suficiente, porém, para ele se dirigir até onde ela se encontrava. Ao se aproximar, percebeu a perturbação que a acometia, muito além do susto recente, passado no ar. Menina, você também estava nessa aventura, nem lhe vi. Então ela respondeu: Nem eu lhe notei no avião. Mas o pior é que agora, quando lhe avistei, pensei que estava vendo o finado. Pense num susto. Estou aqui me tremendo toda.
 Não é que alguém já tivesse morrido. Finado era um termo co- mum, aplicado pelas mulheres aos seus ex-maridos, como forma de desdém, e para não terem que pronunciar os seus nomes. JB riu, ficaram comentando os transtornos do voo. Elogiaram a perícia do piloto, a eficiência da tripulação, deram graças a Deus por tudo ter acabado bem. Embarcaram juntos no ônibus para o hotel, o aero- porto é um pouco distante, entrosaram o papo. Antes de cada qual se dirigir ao seu quarto, combinaram se encontrar no lobby do ho- tel em 40 minutos. Sem dúvida o final feliz exigia uma comemora- ção à altura.
 Saíram para jantar, escolheram um restaurante de luxo, JB pe- diu um champanhe Cristal, um brinde à vida, um brinde ao futuro. De brinde em brinde, pediram outra garrafa e, após o cafezinho e Miolo Tudo pelos ares-.indd 33 06/04/2018 16:42:23
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    34. JoséNivaldoJunior o licor, mais umchampanhe para beber no hotel antes de dormir, sem baixar o padrão, conforme ele comentou.
 Durante o jantar, à medida que brindavam, Elisa foi abordan- do detalhes da separação. Contou os traumas, certos detalhes que normalmente não seriam comentados. Admitiu que não fora esco- lha dela, ainda amava o marido, muito, mas as ofensas e humilha- ções por que passara tornaram o afastamento uma opção sem re- trocesso. Tudo está consumado entre nós, falou meio dramaticamente. Desatou em choro copioso, ele aproximou a cadeira, ela reclinou a cabeça no seu ombro.
 Foi a deixa. Numa primeira ousadia, ele lambeu uma lágrima que escorria pela face da linda mulher. Ela sorriu, triste sorriso, e o repreendeu com o olhar, sem demonstrar convicção. A partir dali, a intimidade prosperou rapidamente. Um toque aparentemente ca- sual na mão, um carinho no ombro, um beijo regado a champanhe. Instalou-se uma atmosfera de romance, uma sensação maravilhosa.
 No táxi, retornaram abraçados, em silêncio. Quando desem- barcaram, as bruxas estavam soltas. Literalmente. O hotel promo- via uma festa de Halloween, já descambando para o final. Um gru- po fantasiado ia saindo. Elisa, de repente, se animou: Eu quero ir para essa festa. Era um evento à fantasia. JB dirigiu-se a um casal que saia ainda a caráter e perguntou amigavelmente: Amigos, nós queremos ir para a festa. Por quanto vendem a fantasia? E meteu a mão no bolso com intenção real de sacar dinheiro.
 O casal riu, levou na esportiva. Isso não serve mais pra gente, fa- çam bom proveito. Tiraram as capas, o cara entregou uma cartola de Drácula ou sei lá o quê, a moça passou também o chapéu de bru- xa e uma espécie de varinha para magias. E assim, devidamente caracterizados, se dirigiram à festa, os porteiros sequer pediram ingresso, apenas passaram o equipamento de segurança, até a gar- rafa quase cheia de champanhe entrou.
 Música animada. Minha bruxinha, você está linda, vamos dançar. Abraçaram-se firme, logo as línguas se entrelaçavam. Não demo- rou e já exageravam nas carícias. Não chamaram a atenção porque, Miolo Tudo pelos ares-.indd 34 06/04/2018 16:42:23
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    . 35 tudopelosares àquelas alturas,ninguém ligava para ninguém. Sequer os músicos estavam interessados no que se passava no salão. Foram dos últi- mos a sair. No elevador, ele fez a pergunta tradicional e inevitável: No seu quarto ou no meu? Elisa preferiu que fosse no dela.
 Entraram agarrados. Vou tomar um banho, disse ela. Para quê, respondeu ele, já tirando as próprias roupas e arrancando as da mulher. Se amaram intensamente, como se fosse a primeira e a ul- tima vez na vida, como se o avião estivesse em queda livre, prestes a se espatifar, e a eles não restasse muito tempo neste mundo.
 Amaram-se de todas as formas, se insultaram com todos os adjetivos cabíveis naqueles momentos. Na hora em que ela atingiu o primeiro orgasmo, puxou os próprios cabelos e gritou como se estivesse só no mundo: Mete, Tino, mete com força, bate na tua cachorra no cio, bate, meu amor.
 Como o leitor já entendeu, Tino era como todos chamavam o ex-marido, Agostino na carteira de identidade. Aquele detalhe, ao invés de inibir, aumentou a tesão de JB. Bateu no rosto da parceira sem medir a força. Quando ouviu o estalo da palma da mão, explo- diu no maior gozo da sua vida.
 
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    . 37 Aconteceu. Depoisde feito, não tem mais como voltar atrás, a vida só anda para a frente. Quando acordaram, o telefone tocava com o objetivo de avisar que a partida para o aeroporto esta- va próxima, Elisa e JB olharam-se assustados. As cabeças doíam um pouco. Era estranho para ambos estarem naquela situação.
 Ele ainda chegou a propor ficarem no hotel, iriam mais tarde em outro voo, mas ela sequer abriu negociação, foi até um tanto rís- pida. Se você quiser ficar, fique, eu tenho coisas para resolver, tenho horário a cumprir. JB vestiu-se, e se despediu rapidamente. Foi para o seu quarto tomar banho, trocar de roupa, pegar suas coisas.
 Quando desceu, o último ônibus estava prestes a partir, Elisa já se encontrava acomodada com outra pessoa ao lado. Teve que sentar lá atrás, foi em silêncio até o aeroporto, o embarque não de- morou, tentou, mas não conseguiu sentar junto de Elisa.
 Desembarcaram no Recife como dois estranhos, muita gente estava esperando os viajantes, até a imprensa, o incidente tornara- -se notícia nacional nos telejornais da noite. Figura conhecida, JB foi logo procurado pelos repórteres, repetiu várias vezes a sua versão. Parentes se abraçavam, muitas lágrimas se misturavam com gritos de alegria. Foram recebidos como verdadeiros heróis sobreviventes de uma grande aventura. E, de fato, eram. Até a esposa e as duas filhas de JB encontravam- -se lá com os netos. Qualquer despedida privada de Elisa tornou-se impossível.
 Foram todos comemorar. À noite a família inteira jantou uni- da, até JB Júnior, que se encontrava em Petrolina, cuidando de as- suntos dos empreendimentos de fruticultura da família, chegou para a comemoração. O fim de semana se aproximava, dirigiram- -se quase todos para a mansão em praia badalada no litoral sul de Pernambuco. O mar estava belíssimo e acolhedor. Casa cheia, Miolo Tudo pelos ares-.indd 37 06/04/2018 16:42:23
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    38. JoséNivaldoJunior parentes e amigoschegavam em grupos para manifestar o regozijo. A palavra milagre foi repetida dezenas de vezes. Deus no comando, diziam os mais religiosos; foi um livramento, insistiam os evangé- licos. Uma chatice para JB esse tipo de solidariedade, mas enfim... Para se recuperar livre dos intrusos, ele se concedeu mais al- guns dias de repouso. Aproveitou o sossego, os passeios de lancha, os mergulhos em águas paradisíacas, os bons uísques e belos cha- rutos cubanos para relaxar e se recuperar do susto e das emoções. Só na semana seguinte retomou a rotina.
 Porém, como foi dito, a vida não retrocede. Agora, por mais que parecesse ser o mesmo, JB era outro homem: Elisa não saía da sua cabeça. Coisa estranha é o compartimento das emoções. Uma novidade acontece em sua vida e passa a dominar todos os pensa- mentos, todos os desejos. Claro, a mulher era linda, corpo perfei- to, os momentos que viveram foram intensos e inéditos, uma rara combinação de acontecimentos para qualquer pessoa, qualquer ca- sal. Mas nem por isso aquela obsessão parecia razoável. Resistiu ainda mais um dia, porém na terça-feira ligou para o escritório dela. A secretária atendeu protocolarmente: Doutora Elisa está em reunião, depois retorna.
 A ligação de resposta não aconteceu. No dia seguinte JB in- sistiu, a secretária foi bem explícita. Informou que comunicara o contato e estava cumprindo as ordens que recebera. Pediu, por gen- tileza, que ele adiantasse o assunto a ser tratado e teria um retorno se fosse o caso. JB sentiu uma gota de suor escorrer pelas costas.
 Estava claro que Elisa não queria falar com ele. Bem, talvez não na empresa, qualquer coisa pode gerar comentários, boa- tos. Funcionários desde sempre gostam de bisbilhotar os patrões. Quem sabe através do celular a reação não seria diversa?
 No ritmo frenético do encontro em Salvador e nas circunstân- cias tumultuadas da despedida, nem tinham trocado os números Miolo Tudo pelos ares-.indd 38 06/04/2018 16:42:23
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    . 39 tudopelosares dos seustelefones pessoais. Para não envolver mais ninguém, JB consultou os registros do livro Sociedade Pernambucana, onde Elisa, na sua condição de empresária, tinha direito a verbete pró- prio. É que a maioria das mulheres aparecia ao lado dos maridos com direito apenas à divulgação da data de aniversário. Como co- lunável, Elisa tinha endereços, e-mail e telefones divulgados. Ainda bem, comemorou JB. 
 Esperou a noite e enviou uma mensagem, a mais singela pos- sível: Oi, saudade. Logo recebeu a resposta, decepcionante, um soco no seu coração: Desculpe, mal nos conhecemos, não temos nenhum as- sunto para tratar. Passe bem. Quando tentou uma tréplica que man- tivesse vivas as suas esperanças, simplesmente estava bloqueado. Bem, já que é assim, paciência. Deixa pra lá, o que passou, passou, foi bom enquanto durou e foi só uma noite. Chegou a cantarolar algumas vezes o trecho do antigo samba, uma noite não é nada. Tudo acaba no sereno da madrugada.
 Como seria fácil se a vida funcionasse desse jeito. Na corren- teza de cada um, coisas que, da boca para fora, parecem extrema- mente simples, nas entranhas da alma, tornam-se verdadeiros fu- racões. A noite que devia ter sido apenas uma aventura, para ser narrada como bravata para os amigos, enfim, um nada ou quase nada, passou a ser tudo no dia a dia de JB.
 Todos notaram que andava meio distraído, concentrado em seus pensamentos. Ninguém engana ninguém. A mulher reclama- va sempre que estavam juntos: Você está diferente, aconteceu alguma coisa.  Ele naturalmente negava, alegava problemas do trabalho.
 Realmente, a temporada profissional era tensa e complexa. JB, apesar de preservado até então, tinha clientes investigados, inti- mados, conduzidos sob coerção, ocupando noticiários no horário nobre das televisões abertas.
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    40. JoséNivaldoJunior Tudo isso forneciapretexto para misturar os temas e fugir do diálogo pessoal. Melhor você não saber de mais nada, meu amor, quan- to menos informação, mais seguro para você e as crianças, deixa que eu cuido disso do meu jeito. Assim, ganhava um espaço de tranquilidade doméstica, a vida familiar funcionava como um oásis emocional. No entanto, quando saía para o mundo, tinha dificuldade para se controlar. Os dias passando; ao invés de diminuir, aumentavam sua obsessão. 
 Resolveu tentar descobrir os passos de Elisa. Contratou deteti- ves cujos préstimos já utilizara várias vezes, gente de total confian- ça. Eram dois, um no Recife, outro em São Paulo, para levantar a rotina, monitorar os movimentos da mulher. Recebia informações quase diárias, sabia de todos os detalhes dos seus percursos, espe- rou a melhor oportunidade para realizar a abordagem.  Tinha que ser algo que parecesse absolutamente casual e que os colocasse em contato pessoal direto, próximo, sem interferências de terceiros. 
 Mais que imaginava, ele tinha uma certeza brotada do espíri- to. Não era possível que aquela energia, aquela eletricidade, aquela química da noite mágica em Salvador tivesse sido apenas resultado do clima gerado pelo susto do quase acidente aéreo e pela surpresa do encontro. Fora mais que isso, muito mais. Na verdade, uma coi- sa profunda, que deixa marcas, disso JB não tinha dúvidas. 
 E não podia acreditar ter sido ele o único a sentir aqueles efeitos. Algo lhe dizia que a outra devia estar passando por um processo semelhante. O que muito especulava sem chegar a uma conclusão eram os motivos da reação dela. As possibilidades eram várias. Só descartava a indiferença. Mas estava determinado a descobrir os porquês.
 As investigações levaram a alguns padrões de comportamen- to de Elisa. Um deles era que, quando estava no Recife, termina- do o expediente, atravessava a passarela do empresarial onde se Miolo Tudo pelos ares-.indd 40 06/04/2018 16:42:23
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    . 41 tudopelosares localizava asede da empresa e ia até o luxuoso shopping center anexo. Certos dias, para malhar na academia, outras vezes para simplesmente andar um pouco, relaxar olhando as vitrines e tomar um café antes de partir.
 Resolveu fazer a abordagem no café. Certa vez, quando ela fez o pedido de sempre, ele chegou junto, deu boa noite e, antes que fosse possível qualquer reação, colou sua boca na dela e roubou um beijo profundo e demorado. O mundo virou um carrossel.
 O relógio do tempo parou, o entorno desapareceu, estavam sós no Universo deserto. Quanto tempo durou o beijo, impossível dizer. Não deve ter demorado muito, alguns minutos talvez, pois foram interrompidos pela atendente avisando da chegada do pe- dido. JB solicitou um igual para ele, aguardou Elisa se recompor. Fez um afago nos seus cabelos e falou em tom carinhoso que até as pedras se encontram.
 Elisa estava visivelmente emocionada, sentimentos reprimi- dos, quando vêm à tona, trazem a força de vulcões que rompem a falsa tranquilidade da superfície e entram em violenta erupção. JB percebeu com grande alegria que ela se manteve distante aquele tempo todo porque, como ele, dificilmente manteria o controle caso estabelecessem contato. Pela reação ao beijo, devia estar vivendo sentimentos semelhantes aos seus. Pegou na mão da mulher, es- tava gélida, apesar do calor da xícara. Tentaram entabular alguma conversa, mas ambos estavam tão impactados que mal conseguiam balbuciar alguma coisa inteligível. Sorriram. JB deixou uma cédula de R$ 100,00 sobre a mesa, sinalizou para a atendente e, sem dizer palavra, pegou na mão dela e saíram.
 Caminharam na direção do estacionamento como se o shop- ping estivesse deserto ou eles tivessem ficado invisíveis. A luxuosa SUV que JB estava usando se encontrava estacionada em frente à uma parede de concreto. Os vidros escuros garantiam privacidade Miolo Tudo pelos ares-.indd 41 06/04/2018 16:42:23
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    42. JoséNivaldoJunior total. Ligou oautomóvel, entraram no banco de trás, travou o veícu- lo e se abraçaram em improvisado jogo de amor adolescente.
 Trocaram todas as carícias. Ele abriu a blusa, tirou o sutiã e a calcinha da mulher, baixou as calças. Ela sentou no seu colo, mo- lhada, cavalgou freneticamente o seu membro e, nas imediações do gozo, repetiu mais uma vez o nome do ex-marido.
Por mais estra- nho que pareça, JB novamente achou bom.
 O Universo das fantasias e dos estímulos sexuais é infinito; não comporta fronteiras. O que acontece na cama ou nos bancos dos automóveis fica ali. É território livre do prazer, espaço preser- vado, onde tudo cabe e nada é proibido. E o que ocorre se encerra por ali mesmo. Por isso se diz que cachaça e putaria não se comenta. 
 Concluídos os gozos, permaneceram um bom tempo abra- çados, sem dizer nada, apenas usufruindo os encantos sublimes do momento.
Ninguém sequer levava em consideração o des- conforto do lugar. Até que JB percebeu a hora avançada no reló- gio do automóvel. Amor, está tarde, o shopping já fechou, tenho que pagar o estaciona- mento, onde está o seu carro? No empresarial? Você escolhe. Se quiser, lhe deixo lá. Mas acho melhor lhe levar em casa. Amanhã você pede a alguém para lhe trazer. A proposta era bem razoável. A empresa dela tinha vários veículos de luxo e motorista era o que não faltava. Ela pediu lenços de papel, ele ajeitou os cabelos, recompôs as vestes. Vai lá pagar teu estacionamento, na volta a gente vê como procede, falou ela. E assim foi feito.
 Realmente passara da hora, JB teve que andar um bom peda- ço para encontrar um caixa automático, pagar e liberar o acesso. Quando voltou ao carro, o veículo estava vazio. Elisa desaparecera semdeixarnenhumamensagem.Consultouocelular.Semchance.O aparelho continuava bloqueado. Deu um giro nas imediações, foi até Miolo Tudo pelos ares-.indd 42 06/04/2018 16:42:23
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    . 43 tudopelosares o estacionamentodo empresarial, percorreu todos os andares, nada feito. Não lhe restou outra alternativa senão dirigir-se para casa.
 Enfrentou dificuldades para conciliar o sono. Deixou a tele- visão ligada, mas sequer conseguia ver as imagens. Elisa, com seu corpo, seu jeito, suas safadezas, era a única coisa que seus olhos enxergavam, estivessem abertos ou fechados.
 
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