FACULDADE INTERNACIONAL DE CURITIBA – FACINTER
Curso de Comunicação Social – Publicidade, Propaganda e Marketing
            HUMBERTO DA CUNHA ALVES DE SOUZA




HOSTILIDADES EM REDE: FIREWALLS REAIS PARA O CIBERESPAÇO




                           CURITIBA
                              2011
HUMBERTO DA CUNHA ALVES DE SOUZA




HOSTILIDADES EM REDE: FIREWALLS REAIS PARA O CIBERESPAÇO


                            Monografia apresentada como requisito para a
                            obtenção do título de Bacharel em Comunicação
                            Social    com     Habilitação   em    Publicidade,
                            Propaganda      e     Marketing    à   Faculdade
                            Internacional de Curitiba - FACINTER.


                            Orientadora: Profª Ms. Diana Macedo.




                        CURITIBA
                          2011
Aos meus pais e minha irmã,
por todo o respeito e dedicação,
   e por todo o carinho e amor.
AGRADECIMENTOS


        Este é um momento único e especial para mim. São muitas as pessoas a
agradecer, e gostaria de fazê-lo a todos aqueles que contribuíram para a realização
deste trabalho. É por isso que, não posso deixar de registrar nestas linhas, em forma
de agradecimentos, as pessoas que sinto que fizeram parte da construção desse
belo caminho que desejo continuar trilhando.
        Começo agradecendo, de maneira única, ao meu pai Benedito e à minha
mãe Benedita, por todo o amor, carinho, dedicação e paz que trouxeram à minha
criação e formação acadêmica. Por estarem sempre presentes, ensinando-me, pelo
exemplo, a ser honrado e construtivo.
        À minha irmã Evelin, pelo amor, carinho e respeito. Por entender meus
momentos de nervosismo, me ensinando a ser um irmão melhor a cada dia. Pelas
contribuições com livros e artigos que enriqueceram este trabalho.
        Desejo agradecer, de maneira especial, à minha orientadora, Profa. Ms.
Diana Gualberto de Macedo, pelo acompanhamento e orientação. Inspiro-me nas
palavras de Dominique Wolton, para dizer, como ele, que sem a figura do mestre
não é possível saber que informação procurar e que uso fazer dela. Um aluno não é
nada distante do conhecimento que nasce com a participação de mestres como
esta, que se dedicam constantemente na construção e divisão do saber.
        Aos autores, por compartilharem e deixarem registrado o conhecimento e,
principalmente, por dialogaram entre si muito antes que eu encontrasse um diálogo
entre eles nas linhas deste trabalho.
        Ao colegiado do Curso de Graduação em Comunicação Social, pelos
esforços, dedicação e pelos ensinamentos durante as aulas e até mesmo fora delas.
À Mariana, colaboradora da coordenação do curso por ser sempre prestativa. Aos
colegas de graduação, pelas trocas positivas de ideias e pelos momentos divertidos.
Também gostaria de agradecer a banca avaliadora, que fará parte da concretização
deste trabalho.
        Aos meus parentes, familiares e amigos, que souberam compreender minha
ausência do convívio social, que tiveram paciência e agora irão desfrutar deste
momento junto comigo.
Em um setor em que tudo acontece muito rápido,
e de maneira tão padronizada, preservar um lugar
para uma reflexão teórica e um pouco mais de
distância crítica é fundamental. Esta é a função da
pesquisa que, por definição, consiste em ir além
do que é evidente e visível, para pensar de outra
maneira e produzir conhecimento.

                                Dominique Wolton
RESUMO


É notória, inegável e irreversível a dimensão que estão ganhando as novas
tecnologias. Estas tem se tornado, cada vez mais, não apenas extensões do homem
no processo de comunicação, como também, muitas vezes, o impulso decisivo para
que o homem “comum” ganhe dimensões públicas. Redes sociais na Internet se
tornam populares por isso, e o Twitter é um exemplo vigorante dessa realidade.
Contudo, apesar dessa grande revolução, pouco se explora o comportamento dos
usuários nas redes sociais. É isto que pretende o presente trabalho, propor uma
reflexão a respeito do homem e da sociedade contemporânea, e como se dá a
comunicação neste meio tecnológico. Em princípio foram reunidos os conceitos
sobre o tema e em seguida, analisados e identificados através das inserções de
alguns usuários no Twitter. Com isso, foi possível perceber que essa sociedade
contemporânea impacta diretamente no modo como alguns usuários se comportam,
sentindo-se livres, ou praticamente livres, para inserções de hostilidade na rede.

Palavras-chave: ciberespaço; comunicação; identidade; rede social; Twitter.
ABSTRACT


It is notorious, undeniable and irreversible the extent that new technologies are
gaining. These have become, more and more, not just extensions of man in the
communication process, as also, often, the decisive impetus for the “common” man
gain public dimensions. Social networking sites have become very popular, and
Twitter is an invigorating example of this reality. However, despite this great
revolution, little is explored from the user’s behavior on social networking sites. This
is what this paper intends, to propose a reflection about man and the contemporary
society, and how communication is in this technological environment. In principle the
concepts were gathered on the subject and then analyzed and identified through
some insertions of Twitter users. Thus, it was revealed that contemporary society has
a direct impact on how some users behave, feeling free, or almost free, for insertions
of hostility on the network.

Keywords: cyberspace; communication; identity; social networking; Twitter.
LISTA DE FIGURAS


FIGURA 1 - PRIMEIRO ESBOÇO DO TWTTR ......................................................... 39
FIGURA 2 - SITE TWTTR ......................................................................................... 40
FIGURA 3 - PRIMEIRO TWEET DA HISTÓRIA........................................................ 41
FIGURA 4 - PRIMEIROS TWEETS GERADOS AUTOMATICAMENTE ................... 41
FIGURA 5 - VERSÃO ATUAL DO TWITTER ............................................................ 42
FIGURA 6 - PRIMEIRO TWEET DE OPRAH WINFREY .......................................... 43
FIGURA 7 - TWEETS VARIADOS ............................................................................ 46
FIGURA 8 - DIFERENTES TIPOS DE CONTEÚDO, MESMO USUÁRIO ................ 47
FIGURA 9 - TWEET APAGADO DO PERFIL DO STF ............................................. 48
FIGURA 10 - USO DE HASHTAG COMO SENTIDO................................................ 50
FIGURA 11 - APLICAÇÕES DA HASHTAG.............................................................. 50
FIGURA 12 - HASHTAG #CANTADACOMSERIADO ............................................... 52
FIGURA 13 - TRENDS TOPICS BRASIL .................................................................. 52
FIGURA 14 - TIMELINE COM RETWEET ................................................................ 53
FIGURA 15 - RT USANDO REPLY COM COMENTÁRIOS ...................................... 54
FIGURA 16 - RT USANDO REPLY SEM COMENTÁRIOS....................................... 54
FIGURA 17 - TWEET MARCADO COMO FAVORITO ............................................. 55
FIGURA 18 - TWEET DE MAYARA PETRUSO ........................................................ 61
FIGURA 19 - REPERCUSSÃO INTERNACIONAL DO CASO MAYARA .................. 61
FIGURA 20 - TWEET DE AMANDA REGIS .............................................................. 62
FIGURA 21 - PERFIL @HOMOFOBIASIM, TWEET SOBRE GAYS ........................ 63
FIGURA 22 - PERFIL @HOMOFOBIASIM, TWEET SOBRE MULHERES .............. 64
FIGURA 23 - PEDIDO DE DESCULPAS DE AMANDA REGIS ................................ 65
SUMÁRIO


1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 9
2 A SOCIEDADE DE MCLUHAN ............................................................................. 12
2.1 A IDEIA DE ALDEIA GLOBAL............................................................................. 12
2.2 O MEIO É A MENSAGEM ................................................................................... 13
2.3 O CORPO, O ESPAÇO E O TEMPO .................................................................. 16
2.4 A SOCIEDADE INDIVIDUALIZADA .................................................................... 20
2.4.1 A Condição Pós-Moderna ................................................................................ 21
3 O CIBERESPAÇO ................................................................................................. 28
3.1 O QUE É O CIBERESPAÇO ............................................................................... 28
3.2 REDES SOCIAIS NA INTERNET ........................................................................ 30
3.2.1 Atores Sociais .................................................................................................. 30
3.2.1.1 Identidades líquidas....................................................................................... 31
3.2.2 Conexões ......................................................................................................... 34
4 METODOLOGIA .................................................................................................... 36
5 O TWITTER............................................................................................................ 38
5.1 DO TWTTR AO TWITTER .................................................................................. 38
5.2 O QUE É O TWITTER? ....................................................................................... 42
5.3 O TWEET: UMA PÍLULA SOCIAL DE 140 CARACTERES ................................ 45
5.3.1 As Hashtags (#) e os Trending Topics (TTs) .................................................... 49
5.3.2 O Retweet (RT) e o Reply ................................................................................ 53
5.4 RELAÇÕES REATIVAS E LIMITADAS NO TWITTER ........................................ 55
5.5 RELAÇÕES MÚTUAS E CONSTRUÍDAS NO TWITTER ................................... 56
5.5.1 O capital social no Twitter ................................................................................ 56
5.5.2 Hostilidades em rede ........................................................................................ 59
6 CONCLUSÕES ...................................................................................................... 66
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 69
9



1 INTRODUÇÃO


       A Internet está cada vez mais presente no cotidiano do indivíduo
contemporâneo. Segundo reportagem da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico,
a Câmara-e.net, o Brasil já é a sétima maior audiência de Internet do mundo com 44
milhões de usuários. (BRASIL, 2011a). O computador é um objeto cada vez mais
desejável pela maioria das pessoas. A venda de computadores no 1º trimestre deste
ano apontou um crescimento de 22% em comparação com o 1º trimestre de 2010, é
o que diz o estudo da IDC. (CRESCE, 2011). Até mesmo aqueles que não possuem
computador, utilizam regularmente a Internet, segundo pesquisa feita pela Ipsos
Brasil. (ACESSO, 2011).
       A conectividade também está nos celulares, cujo crescimento se dá a cada
ano. De acordo com as estatísticas divulgadas no site da Teleco – Inteligência em
Telecomunicações, o total de celulares no Brasil, ao final de Setembro de 2011,
ultrapassou o total da população do país. O número apurado indica um total de 227
milhões de celulares, o que corresponde a 116,51 celulares para cada 100
habitantes. (ESTATÍSTICAS, 2011).
       Neste contexto, de conexão e mobilidade, surgem as redes sociais na
Internet que se tornaram relevantes para o processo de comunicação. Segundo
pesquisa feita pela empresa GfK, o uso de redes sociais representam 39% do uso
de Internet que é feito pelos Brasileiros (BRASILEIRO, 2011). As redes sociais na
Internet têm atingido cada vez mais pessoas e tornado a comunicação mais
instantânea e mais móvel. Através delas, o homem contemporâneo ganhou
dimensões antes não vistas, tendo a possibilidade de ser visto e ouvido além das
fronteiras do tempo e do espaço físico. Assim, as redes sociais na Internet podem
ser consideradas extensões do homem.
       De maneira semelhante ao ocorrido com outras tecnologias, emerge uma
nova linguagem e, como consequência, uma nova forma do ser humano se
comportar e se comunicar. Entretanto, alguns destes novos comportamentos podem
ultrapassar regras sociais de convívio como, por exemplo, a postagem de conteúdo
hostil ou preconceituoso na rede. De toda sorte, vale ressaltar que esses
comportamentos também ocorrem fora da Internet, ou seja, a Internet também é
mais uma vitrine de comportamentos sociais.
10



        Deste modo, a proposta do presente trabalho é buscar um diálogo entre
autores que estudam o tema como: Zygmunt Bauman, Paula Sibilia, Marshall
McLuhan, Marilena Chauí, Lucia Santaella, Pierre Lévy, Dominique Wolton, Raquel
Recuero, entre outros, com o intuito de criar um rico espaço de debate nas linhas
deste trabalho.
        A questão que motiva a realização deste trabalho e, portanto, o problema de
pesquisa é: por que ocorrem inserções de conteúdo hostil ou preconceituoso no
Twitter? Como refletir acerca dessas inserções, a partir de uma sociedade líquida e
contemporânea? Que características da sociedade contemporânea ajudam para que
esse tipo de conteúdo seja inserido na rede?
        Uma das hipóteses é que estes comportamentos de hostilidade se dão em
razão da percepção do usuário com relação à liberdade que lhe é dada no
ciberespaço. Outra hipótese é a característica evanescente dessas relações, e,
ainda, características de uma sociedade globalizada e líquida.
        Diante desse novo tempo de constantes evoluções tecnológicas, e desse
novo homem contemporâneo, conectado, o presente trabalho mostra-se importante
e relevante ao campo da comunicação, especialmente sobre o crescimento dessas
hostilidades e sobre a linguagem que está circulando na Internet. O objetivo geral
deste trabalho, portanto, é convidar o leitor a refletir a respeito do tema. Para tanto,
como desdobramento desse objetivo geral, faz-se necessária uma contextualização
da sociedade contemporânea e líquida e, do ciberespaço e das redes sociais na
Internet para então chegar ao objeto do trabalho: o Twitter e as inserções de
hostilidade.
        O trabalho está dividido em cinco capítulos além da introdução. O segundo
discorre sobre a ideia de sociedade contemporânea. Há uma introdução a respeito
dos conceitos de McLuhan sobre “aldeia global” e “o meio é a mensagem”,
passando pela Fenomenologia da Percepção de Merleau-Ponty, até chegar sobre a
sociedade individualizada e fluida.
        A partir das ideias do corpo, do espaço e do tempo, e a relação entre a
acronia e a atopia do segundo capítulo, é que se discute no terceiro capítulo a
questão do ciberespaço e das redes sociais na Internet.
        O capítulo quatro aborda a metodologia utilizada neste trabalho. O trabalho
se concentra na revisão bibliográfica das obras de Bauman (2005, 2008, 2011),
McLuhan (2005), Wolton (2007), Santos (2006), Chauí (2010), Sibilia (2002, 2008),
11



Recuero (2009) e Santaella e Lemos (2010) e, na pesquisa exploratória com a
análise de discursos através do Twitter.
        O capítulo cinco é destinado ao estudo do objeto propriamente dito, ou seja,
do Twitter. Neste capítulo são identificadas as características de origem, as
ferramentas disponíveis no Twitter e é feita uma revisão da teoria encontrada,
mostrando na prática como ocorrem as inserções de conteúdo hostil e
preconceituoso na rede social da Internet. É neste capítulo também, que é abordado
o conceito de capital social no Twitter e sobre a necessidade do indivíduo de tornar-
se relevante. No sexto e último capítulo, por fim, constam as conclusões a respeito
do que se procurou estudar com esta pesquisa.
12



2 A SOCIEDADE DE MCLUHAN


2.1 A IDEIA DE ALDEIA GLOBAL


          Marshall McLuhan (2005) previu uma sociedade global, onde as tecnologias
permitiriam aos indivíduos transpor o espaço e o tempo e se comunicar globalmente
com as mesmas facilidades de uma aldeia. Para ele o mundo estaria interligado por
completo, aproximando tribos, sociedades, proporcionando trocas culturais de
maneira intensa, fazendo circular informação de um ponto a outro e, ampliando a
capacidade de alcance destas de tal modo que transcendessem as barreiras do
espaço e do tempo. Além dessas possibilidades, para McLuhan os meios de
comunicação podem ser considerados como “extensões do homem”. Assim, o rádio
pode ser considerado como uma extensão da fala, a televisão como uma extensão
dos olhos e, o computador como uma extensão do cérebro.
          Muito embora McLuhan tivesse elegido a televisão como paradigma da
aldeia global, estes conceitos ganharam ainda mais legitimidade a partir do advento
da Internet, que deu à sociedade contemporânea o retrato exato conceituado por
ele. Raquel Recuero diz que:

                      O advento da Internet trouxe diversas mudanças para a sociedade. [...] A
                      mais significativa [...] é a possibilidade de expressão e sociabilização
                      através das ferramentas de comunicação mediada por computador (CMC).
                      (RECUERO, 2009, p. 24).


          E, embora se possa imaginar que essas possibilidades de expressão e
sociabilização já eram possíveis desde a comunicação mais primitiva, e não apenas
via Internet, o que pode tornar-se mais significativo ainda para este advento é a
capacidade de dar ao indivíduo uma dimensão pública. Uma capacidade de transpor
as limitações de espaço e tempo de que fala Dominique Wolton (2007) e Marilena
Chauí (2010), e, no processo de comunicação fortalecer as redes sociais, as
conexões e as atuações nelas.
          Para que se entenda melhor o porquê esta é uma sociedade de McLuhan,
uma aldeia global, que cede aos encantos dos meios, é fundamental entender mais
sobre a célebre do autor: “o meio é a mensagem”. É o que será apresentado a
seguir.
13



2.2 O MEIO É A MENSAGEM


         Na sociedade primitiva partia-se do diálogo face a face, por meio das
linguagens verbais ou não verbais, ainda que primitivas, para que ocorresse um
evento de comunicação. Com o surgimento da imprensa, dos livros e do jornal, o
indivíduo foi adquirindo uma capacidade imersiva de ler informações, sem que
necessitasse da intervenção em diálogo do outro. Isto quer dizer sem a
comunicação face a face como o outro, pois, pode-se entender que por meio da
leitura o autor também dialoga com o leitor. A sociedade passou, desde então, a
adquirir padrões de comunicação cada vez mais “individuais”. A informação que era
falada, e encontrava legitimidade neste meio, passa então a ser encontrada também
nos novos meios. Primeiro a imprensa, depois o rádio, em seguida a televisão e,
hoje, a Internet.
         Assim, faz-se necessário reforçar a frase em que Marshall McLuhan diz que,
cada meio influencia na comunicação humana, a tal ponto que, o meio seja, ele
próprio, uma informação, uma mensagem. Nenhum exemplo mostra-se mais
vigorante dessa realidade do que o advento da Televisão. A cada nova edição do
Jornal Nacional1, por exemplo, tem-se das informações que são transmitidas pelo
programa uma verdade absoluta, em razão da legitimidade atribuída pelo indivíduo,
ou pelos indivíduos, ao meio. É comum observar que alguns indivíduos atribuem
total legitimidade ao meio quando compartilham uma informação vista no Jornal
Nacional. É comum, portanto, ouvirmos alguém dizer: “eu ouvi isso no Jornal
Nacional!”.
         Há assim uma categórica atribuição de valor, de verdade absoluta e
inquestionável. A mesma informação transmitida oralmente, de maneira impressa,
via televisão ou Internet, teriam caráteres diferentes e seriam justificadas e
compartilhadas diferentemente também, em razão do meio em que cada qual fora
veiculada.
         Sobre isto, ainda, McLuhan atribui essa força do meio em razão de o
conteúdo ser, muito antes do que uma mensagem, outro meio, como ele mesmo
revela: “O efeito de um meio se torna mais forte e intenso justamente porque o
‘conteúdo’ é um outro meio. O conteúdo de um filme é um romance, uma peça de

1
 Jornal Nacional é um programa jornalístico, produzido e apresentado na Rede Globo de televisão há
42 anos. Atualmente é apresentado pelos jornalistas Fátima Bernardes e William Bonner.
14



teatro ou uma ópera.” (MCLUHAN, 2005, p. 33). Para o autor os efeitos dos meios
são inquestionáveis e não se constituem sobre opiniões ou conceitos. O indivíduo
está exposto a eles e, sujeito à natureza persuasiva destes. Diz ele, assim, que:

                     Os efeitos da tecnologia não ocorrem aos níveis das opiniões e dos
                     conceitos: eles se manifestam nas relações entre os sentidos e nas
                     estruturas da percepção, num passo firme e sem qualquer resistência. O
                     artista sério é a única pessoa capaz de enfrentar, impune, a tecnologia,
                     justamente porque ele é um perito nas mudanças da percepção.
                     (MCLUHAN, 2005, p. 34).


        Como se vê, para McLuhan, os meios exercem influência sobre os
indivíduos e, com isto, se envolvem sem qualquer possibilidade de resistência. Os
sentidos em que se manifestam as tecnologias, de que fala McLuhan, se tornam
visíveis, pois “Cada produto que molda uma sociedade acaba por transpirar em
todos e por todos os sentidos”. (MCLUHAN, 2005, p. 37). Com esta afirmação
McLuhan compara a observação que fez à de Jung que alegava que os romanos
haviam interiorizado costumes escravos, inconscientemente, em razão da constante
convivência, e que isso era impossível de evitar.
        Para justificar isso, McLuhan conta sobre o mito de Narciso, que, ao ver o
reflexo na água apaixonou-se pela própria imagem. No entanto, indica ele, Narciso
havia se apaixonado por “alguém” que viu no reflexo das águas e que, a reação
seria diferente se tivesse notado que era ele mesmo ali representado. Narciso,
portanto, não havia se apaixonado por si mesmo, mas por outra pessoa. Em seguida
McLuhan esclarece que: “O que importa nesse mito é o fato de que os homens logo
se tornam fascinados por qualquer extensão de si mesmos em qualquer material
que não seja o deles próprios.” (MCLUHAN, 2005, p. 59).
        E, como uma possível solução, observou que

                     é somente assim, permanecendo à margem de qualquer estrutura ou meio,
                     que os seus princípios e linhas de força podem ser percebidos. Pois os
                     meios têm o poder de impor seus pressupostos e sua própria adoção aos
                     incautos. A predição e o controle consistem em evitar este estado
                     subliminar de transe narcísico. (MCLUHAN, 2005, p. 30).


        Para McLuhan, os meios causam um transe no indivíduo, pois ficam
fascinados com qualquer extensão de si mesmos, e somente olhando à margem
para que se perceba essa força. E, este “transe narcísico” também pode ocorrer em
razão da “temperatura” dos meios. O autor faz uma classificação dos meios
15



enquanto quentes ou frios. Diz ele que “um meio quente permite menos participação
do que um frio” (MCLUHAN, 2005, p. 38). Para McLuhan, aos meios frios muita
coisa precisa ser preenchida e completada, muito do meio necessita da participação
dos indivíduos, pois fornecem pouca informação, assim como “ao ler uma estória
policial, o leitor participa como co-autor, simplesmente por que muita coisa é deixada
fora da narrativa.” (MCLUHAN, 2005, p. 46).2
         Longe de entrar nessa discussão a respeito da classificação dos meios, e
para retomar o objeto desse trabalho, o que basta para refletir aqui, com base
nessas colocações de McLuhan, é: diante da possibilidade que dá ao indivíduo, de
atuar como co-autor, como produtor de conteúdo, seria a Internet, também um meio
frio? E, sendo um meio frio, a Internet aquece os sentidos por intermédio desse
convite à participação?
         É o que parece ser para McLuhan. Pois “o aquecimento de um dos sentidos
tende a produzir hipnose, o esfriamento de todos os sentidos redunda em
alucinação.” (MCLUHAN, 2005, p. 50). Ou seja, o aquecimento dos sentidos,
provocado pela “frieza” do meio, cria certo entusiasmo quando convida à
participação, produzindo um efeito anestésico no indivíduo, em que este abre
espaço para ser influenciado pelo meio.
         Assim, traçado um paralelo entre essas afirmações e a sociedade
contemporânea, cabe questionar se: o que se vive hoje é uma hipnose, com os
sentidos aquecidos principalmente em razão do advento da Internet, e, cada vez
mais, como indivíduos apaixonando pelas extensões assim como Narciso pelo
reflexo nas águas? Assim como Narciso, o indivíduo é induzido pelo meio antes
mesmo do que pela mensagem, pois “o meio é a mensagem”? Como está
constituído este indivíduo contemporâneo e, que indivíduo é este? Que papel ele
ocupa?
         Faz-se necessário, portanto, pensar sobre este indivíduo contemporâneo,
sobre a relação entre o corpo, o espaço e o tempo e, posteriormente sobre a
individualização na sociedade.



2
  McLuhan (2005) classifica como meios frios: o telefone e a televisão e; como meios quentes: o rádio
e o cinema. Entretanto, essa classificação de McLuhan mostra-se um pouco falha. Ao tomar, por
exemplo, o cinema como um meio quente comparando-o à estória policial que citou McLuhan, como é
possível dizer que no cinema não há por parte do “leitor” um preenchimento das informações que
foram editadas, cortadas ou esquecidas da narrativa do filme?
16



2.3 O CORPO, O ESPAÇO E O TEMPO


       A questão do corpo, do espaço e do tempo deve ser introduzida para que, a
partir da compreensão desse corpo que é sensível, como será visto, seja possível
compreender melhor o sujeito da sociedade contemporânea e virtual. Como
colocado por Ana Elisa Antunes Viviani,

                     as concepções de corpo em Merleau-Ponty e em Serres oferecem um
                     arcabouço conceitual que pode contribuir enormente [sic] para os estudos
                     atuais voltados para a relação entre comunicação e tecnologias digitais,
                     pois não dizem respeito apenas ao corpo, mas à questão da imagem, da
                     visibilidade, da carne. (VIVIANI, 2007, p. 20).


       Como se vê, a questão do corpo é de suma importância para identificar as
relações entre comunicação e este novo homem que emerge numa sociedade onde
predominam as tecnologias digitais. Para tanto, será adotado aqui a concepção de
corpo fundamentada na Fenomenologia da Percepção de Maurice Merleau-Ponty, a
partir de interpretações atuais como as de Marilena Chauí, Terezinha Petrúcia da
Nóbrega e, de forma a complementar, Paula Sibilia.
       Marilena Chauí (2010) traça uma discussão a respeito da mudança da
percepção do espaço e do tempo a partir das mudanças tecnológicas e, para isso,
toma como referência a Fenomenologia da Percepção de Merleau-Ponty. Para ela, o
corpo é “um sensível que é sensível para si mesmo. O meu corpo é o meu modo
fundamental de ser no mundo. [...] O meu corpo é uma reflexão reversível nele
mesmo”. Essas ideias retratam o corpo não apenas como um objeto no mundo, mas
sim, como um sensível e sensorial, associado principalmente à percepção e a uma
primeira reflexão, além da criação, da linguagem e dos sentidos.
       Para a tradição filosófica, apenas a alma possuía a dádiva da reflexão, da
sensação e, Merleau-Ponty não aceitava essa perspectiva. Terezinha Petrúcia da
Nóbrega esclarece que:

                     No pensamento de Merleau-Ponty, o corpo, o movimento, o conhecimento
                     sensível e os processos perceptivos são trazidos para o primeiro plano da
                     reflexão; ao invés de privilegiar a análise da consciência, enfatiza a
                     corporeidade. (NÓBREGA, 2000, p. 100).


       E completa ainda dizendo que, o corpo “não é coisa, nem idéia, o corpo é
movimento, sensibilidade e expressão criadora.” (NÓBREGA, 2000, p. 100). Assim,
17



o corpo é, para Merleau-Ponty, e não apenas a alma ou a consciência, capaz de
sentir, de se fazer sentir, de sentir a si mesmo e, ainda, de sentir-se sentindo.

                      O enigma consiste em que o meu corpo é ao mesmo tempo vidente e
                      visível. Ele, que mira todas as coisas, pode também olhar-se, e reconhecer
                      naquilo que vê o “outro lado” do seu poder vidente. Ele vendo-se, toca-se
                      tocando, é visível e sensível para si mesmo. (MERLEAU-PONTY, 1997, p.
                      20,21 apud NÓBREGA, 2000, p. 102).


        A Fenomenologia da Percepção utiliza como exemplo a questão da obra de
arte, que para Nóbrega (2000, p. 105) atua como campo de possibilidades para o
entendimento do corpo sensível e sensorial. Para Chauí (2010) a experiência
criadora de um artista, é o momento em que o corpo se faz sensível sem deixar a
sensibilidade. Ele, o corpo artístico, pode ver e continua sendo visto, pode tocar e
continua sendo tocado, pode ouvir e continua sendo audível.

                      O corpo é, e é isso que a experiência artística mostra, essa capacidade de
                      produzir uma diferenciação, no interior de um mundo indiviso, onde eu não
                      preciso me separar do mundo para me relacionar com ele através da obra
                      de arte. (CHAUÍ, 2010).


        O pensamento de Merleau-Ponty mostra que a primeira reflexão é realizada
pelo próprio corpo e que, portanto, a consciência aprende com o corpo a refletir.
(CHAUÍ, 2010). E assim também, Viviani (2007, p. 6) complementa a questão
observando que: “para Merleau-Ponty, a consciência é transferida para o corpo,
instalando-se nas coisas; [...] O sentir está ligado ao corpo e traz à tona a espessura
entre o objeto percebido e o sujeito que percebe.” Para tanto, a alma não é aquilo
que sente o mundo e sim o corpo, já numa primeira reflexão.
        Este corpo sensível e sensorial é temporal. Hoje, amanhã, depois, agora,
ontem, noite, dia. O homem é um ser temporal. Ainda segundo Chauí (2010) “O
tempo existe porque nós existimos”. Este corpo é, também, espacial. Aqui, lá, perto,
longe, em casa, na rua, na escola, no trabalho. Este espaço tem tamanhos,
qualidades, cores, tessituras, sabores, cheiros. Essa relação espaço-temporal
também é problematizada por Paula Sibilia (2002) que toca na questão relacionando
imortalidade e tempo, virtualidade e espaço. Para ela as novas tecnologias almejam,
em razão da ambição dos homens, ultrapassar as limitações desse corpo material
chegando a serem empregadas na luta contra a morte (tempo) e contra a distância
(espaço). Diz ela:
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                      A sociedade atual assiste, portanto, ao surgimento de um tipo de saber
                      radicalmente novo, com um anseio inédito de totalidade. Fáustico, ele
                      pretende exercer um controle total sobre a vida, superando as suas
                      limitações biológicas; inclusive, a mais fatal de todas elas: a mortalidade.
                      (SIBILIA, 2002, p. 50).


        Não apenas exercendo total controle sobre a vida, mas também
reconfigurando tudo o que é vivo e alterando até o sentido da morte. É o que
acontece, desde os anos 90, com as constantes descobertas e conquistas da
medicina e o surgimento do conceito de “reversibilidade”. Estas descobertas
apresentaram-se como capazes de reverter o que, até então, era conhecido como o
ponto irreversível do fim da vida: a morte. Hoje se sabe que, em alguns casos a
morte não é declarada por ser considerada irreversível, mas sim, porque se decide
não revertê-la. “O ato de falecer perdeu sentido absoluto e caráter sacro,
submetendo-se à ‘capacidade de restauração’ provida pela tecnociência de
inspiração fáustica.” (SIBILIA, 2002).
        Essa “imortalidade” advinda da evolução tecnocientífica é retratada na
recente produção cinematográfica do estúdio 20th Century Fox, com Amanda
Seyfried e Justin Timberlake, lançada em 04 de novembro de 2011: “In Time” ou “O
Preço do Amanhã”. A ficção se passa no ano de 2161, onde as pessoas param de
envelhecer aos vinte e cinco anos, e morrem em até um ano após, se não
conseguirem mais tempo, através de trabalho ou ganhando. Tempo vira moeda na
ficção e as pessoas também o usam para comprar necessidades diárias. Há uma
espécie de relógio digital inserido no braço das pessoas que informa a quantidade
de tempo de vida restante. Com mais tempo, pode-se viver eternamente, tornar-se
imortal. Na ficção alguns se tornam imortais, comprando décadas de uma única vez,
tudo isso possibilitado por evoluções tecnológicas. Neste contexto, diz Sibilia que:

                      A promessa mais fabulosa da tecnociência contemporânea assim se
                      enuncia: no processo de hibridização com a tecnologia, o corpo humano
                      poderia se livrar de sua finitude natural. Com poderes que antes só
                      concerniam aos deuses, os engenheiros da vida se propõem a reformular o
                      mapa de cada homem, alterar o código genético e ajustar sua programação.
                      (SIBILIA, 2002, p. 54).


        Longe da ficção, no mundo real, essa “promessa” não parece estar tão longe
de tornar-se real. O Projeto Genoma, como diz Sibilia (2002, p. 55), é um exemplo
disso, pois almeja decifrar o código genético humano e prevenir a espécie humana
contra qualquer tipo de doença. Outro exemplo é a disciplina de inteligência artificial
19



que deseja transferir toda a mente humana para o computador, onde,
“consequentemente se poderia continuar a existir como uma mente sem o cérebro
que antes suportava a vida mental.” (SIBILIA, 2002, p. 56).
        Enquanto que, do lado das “tecnologias da imortalidade”, como chama
Sibilia, onde a “promessa” ainda parece ser iminente, do lado das “tecnologias da
virtualidade” as coisas já são bem reais. Ao contrário daquelas, estas são menos
polemizadas e mais apreciadas pelos homens, pois permitem “potencializar e
multiplicar as possibilidades humanas”, permitindo que os homens ultrapassem os
limites espaciais que se impõem como outra das restrições da materialidade do
corpo, “inaugurando fenômenos tipicamente contemporâneos como a [...] ‘presença
virtual’.” (SIBILIA, 2002, p. 56).

                       Entregues ao controle total sem fora, tais aparelhos [de conexão]
                       dispensam os velhos muros das instituições de confinamento e a torre
                       panóptica de vigilância, que se tornaram definitivamente obsoletos no novo
                       contexto. Além “virtualizar” os corpos, espalhando pelo espaço global a sua
                       capacidade de ação, a convergência digital de todos os dados e de todas as
                       tecnologias amplia ao infinito as possibilidades de rastreamento e de
                       colonização das micropráticas de todas as vidas. (SIBILIA, 2002, p. 59).


        Deste modo, como dito por Sibilia, além de ampliar as possibilidades de
ação do homem além das fronteiras espaciais, permite ainda uma constante
vigilância e rastreamento destes mesmos indivíduos. Estas mesmas tecnologias
reduzem, cada vez mais, as possibilidades de permanecer ocultos ou alheios à
sociedade e ao controle. E aqui, pode-se citar novamente o filme “In Time” onde
“comportamentos suspeitos” são identificados por computadores de última geração e
permitem ao “controle” agir e bloquear qualquer problema em meio à sociedade.
Veja, muito embora isso pareça coisa do futuro ou da ficção, Naomi Klein (2008) traz
a visão de que isso já vem acontecendo há algum tempo e já faz parte de uma
realidade. Diz ela:

                       Nos últimos dois anos, 200 mil câmeras de vigilância foram instaladas por
                       toda a cidade [de Shenzhen, na China]. Muitas delas estão em lugares
                       públicos, disfarçadas de postes de luz. O circuito fechado de câmeras de TV
                       em breve será conectado a uma única rede nacional, um sistema de
                       vigilância total capaz de rastrear e identificar qualquer um que esteja dentro
                       de seu alcance [...]. Nos próximos três anos, executivos de segurança da
                       China prevêem [sic] que 2 milhões de CCTVs serão instaladas em
                       Shenzhen, tornando-a a cidade mais vigiada do mundo (maníaca por
                       segurança, Londres tem apenas meio milhão de câmeras de segurança).
                       (KLEIN, 2008).
20



        Esse ponto foi bem denominado por Walter Benjamim com a expressão
“triunfo sobre o anonimato”. Essa obsessão contemporânea por “segurança”
também parece ser problematizada em outra obra de ficção, diz Sibilia (2008, p. 59),
O “Inimigo do Estado”, que exibe “uma infinidade de aparelhos de rastreamento e
espionagem digitais: todo um catálogo de câmeras diminutas, microfones e
dispositivos de localização via satélite”. Voltando à Klein (2008), percebe-se que a
China exibe as mesmas capacidades.

                     O objetivo é usar o que há de mais moderno em tecnologia de rastreamento
                     pessoal [...] a fim de criar uma espécie de casulo consumidor
                     cuidadosamente selado: um lugar onde cartões Visa, tênis Adidas, celulares
                     da China Mobile, Mc Lanches Feliz, cerveja Tsingtao possam ser
                     aproveitados sob o sempre vigilante olho do Estado, sem a ameaça da
                     democracia. O governo espera usar o escudo para identificar e contra-
                     atacar dissidências antes que estas explodam em movimentos de massa
                     como o que chamou a atenção do mundo na Praça da Paz Celestial.
                     (KLEIN, 2008).


       Por fim, percebe-se que o emprego dessas tecnologias da virtualidade e da
imortalidade afetam e modificam as relações espaço-temporais. De um lado, está o
indivíduo, sentindo-se livre e entusiasmado com a tecnologia e as possibilidades e,
exibindo-se sem preocupações, como será visto, atravessando a fronteira do privado
e chegando à esfera do público. Do outro lado, está o Estado, equipando-se para
exercer, cada vez mais, o controle, e por sua vez, atravessando a esfera do público
e adentrando a do privado. Reduz-se, cada vez mais, a dicotomia entre o “público e
o privado”. Com isso, o corpo também é modificado pela maneira como estas
tecnologias consagram um novo tempo e um novo espaço. Mais do que isso, o
próprio tempo e espaço são também modificados, redefinindo a sociedade
contemporânea. É sobre esta sociedade que será visto na sequência.


2.4 A SOCIEDADE INDIVIDUALIZADA


       Assim que entendidas, ainda que iniciais, as exposições sobre aldeia global,
sobre “o meio ‘ser’ a mensagem” e, sobre o corpo, o espaço e o tempo, faz-se
necessário conhecer a sociedade onde tudo isso acontece. Onde tudo se junta, se
mistura e emerge na rede virtual tornando-se uma rica vitrine do comportamento
contemporâneo. Onde tudo isso recebe o nome, pelas mãos de diversos autores,
como a condição pós-moderna.
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       Entretanto, cumpre-se ressaltar que, pouco interessa para este trabalho o
termo empregado: “pós-moderno” ou “moderno”. Não pretende este trabalho,
adentrar essa discussão, nem tampouco adotar um destes termos e defendê-lo.
Existem ainda outros termos que também poderiam ser escolhidos. É o caso de
“pós-orgânico” por Sibilia (2002) ou “modernidade líquida” por Zygmunt Bauman
(2001). Neste trabalho, optou-se por reproduzir o termo “pós-moderno” de Jair
Ferreira dos Santos (2006), longe de qualquer discussão a respeito do emprego
deste, pois, o único o objetivo deste próximo tópico é conhecer mais sobre essa
sociedade contemporânea.


2.4.1 A Condição Pós-Moderna


       Zygmunt Bauman (2011) comenta que houve, no século XX, uma mudança
da sociedade de produção para a sociedade de consumo. Marilena Chauí (2010)
também traça essa mesma interpretação demonstrando a evolução do fordismo para
a globalização. Segundo ela, o fordismo detinha toda a linha de produção, que ia da
coleta da matéria-prima até a entrega final ao cliente, e tinha como base uma
produção linear, de qualidade, durabilidade, e preocupada com estoques; por outro
lado, a globalização trouxe uma fragmentação da sociedade com a produção
segmentada, baseada na produção descartável. O que ambos mostram, é que a
sociedade que antes tinha no trabalho fordista a base para a construção das
identidades sociais, hoje, com a globalização e com a segmentação do trabalho,
também ocorre a segmentação da sociedade e, de certa forma, a individualização.
“As sociedades foram individualizadas.” diz Bauman (2011). Ao invés de se pensar
na felicidade da comunidade, passou-se a pensar na felicidade de cada pessoa.
       Para Jair Ferreira dos Santos a sociedade pós-moderna ameaça encarnar o
niilismo, o vazio, “a ausência de valores e de sentido para a vida”. Para ele, em
comparação ao homem moderno, o homem pós-moderno não dá sentido à vida, não
se interessa pela arte, pela história, pelo desenvolvimento e nem tem consciência
social. Esse homem pós-moderno “se entrega ao presente e ao prazer, ao consumo
e ao individualismo.” (SANTOS, 2006, p. 10).
22


                     A massa pós-moderna, [...] é consumista, classe média, flexível nas idéias e
                     nos costumes. Vive no conformismo em nações sem ideais e acha-se
                     seduzida e atomizada (fragmentada) pelo mass media, querendo o
                     espetáculo com bens e serviços no lugar do poder. Participa, sem
                     envolvimento profundo, de pequenas causas inseridas no cotidiano -
                     associações de bairro, defesa do consumidor, minorias raciais e sexuais,
                     ecologia. (SANTOS, 2006, p. 90).


       A Internet e junto com ela, a globalização, trazem a sociedade
contemporânea para este cenário de relações individuais.

                     Porque, repentinamente, na Ágora, as pessoas começaram a confessar
                     coisas que eram a personificação da privacidade, a personificação da
                     intimidade, que você somente contaria, se você fosse católico, ao padre, no
                     confessionário, ou aos seus amigos realmente chegados ou realmente
                     muito íntimos. (BAUMAN, 2011).


       Ou seja, o confessionário, no exemplo trazido por Bauman, é a
representação da modernidade de que fala Santos (2006), em que o privado não
estava em evidência. Ele era escondido, oculto e misterioso. Ele era privado. De
repente, ele interessa mais do que o bem comum, do que o conjunto. Diz Bauman
(2011) que o que a sociedade contemporânea fez foi colocar “microfones nos
confessionários”.
       É essa mudança no comportamento da sociedade, quando ela deixa de ter
participações mais imersivas e está mais interessada na superficialidade do
cotidiano, no “eu”, a que Santos se refere, e diz estar sendo chamada pelos
sociólogos de “deserção do social” e que, por sua vez, “não é orientada nem surge
conscientemente, como também não visa à tomada do poder, mas pode abalar uma
sociedade, ao afrouxar os laços sociais”. Segundo o autor, existem os seguintes
tipos de deserção: a) Deserção da História: onde a massa pós-moderna não está
interessada em assuntos comuns, e nem no futuro. O que vale é o agora, o
presente, pouco importa a continuidade histórica; b) Deserção do político e do
ideológico: onde o desempenho dos mass media influencia muito mais as eleições
que a ideologia política dos candidatos. Ainda, essa falta de interesse caracteriza a
sociedade menos envolvida nas grandes causas e mais envolvida nas subculturas e
lutas menos prolongadas; c) Deserção do trabalho: pois por não estar interessada
em continuidade histórica, sem ideais políticos e ideologia essa massa pós-moderna
também não vê no trabalho um valor moral e um caminho para a auto realização.
Por isso, há mais espaço para o lazer. As empresas reclamam, cada vez mais, da
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dificuldade de mão de obra qualificada e de desinteresse pelo trabalho; d) Deserção
na família: onde a família também perde o valor moral e de instituição social. Há
mais espaço para o individualismo, mais pessoas moram sozinhas e há mais
liberdade sexual e; e) Deserção da religião: em que as grandes religiões, também
instituições sociais, perdem grande parte do valor. Abre espaço para religiões onde
o centro seja o sujeito, a meditação, o budismo, a individualidade. (SANTOS, 2006,
p. 90).
          Essa condição da deserção do social, como se vê, põe o homem
contemporâneo longe dos papéis sociais da modernidade. Parece estar havendo, se
já não há, uma ressignificação de papéis sociais e da própria sociedade. O
indivíduo, nessa condição, está sendo alvo de uma avalanche de informações, com
efeitos culturais e sociais. Essa nova condição faz da vida um show, um espetáculo,
pois,

                      desde a perspectiva renascentista até a televisão, que pega o fato ao vivo, a
                      cultura ocidental foi uma corrida em busca do simulacro perfeito da
                      realidade. Simular por imagens como na TV, que dá o mundo acontecendo,
                      significa apagar a diferença entre real e imaginário, ser e aparência. Fica
                      apenas o simulacro passando por real. Mas o simulacro, tal qual a fotografia
                      a cores, embeleza, intensifica o real. Ele fabrica um hiper-real, espetacular,
                      um real mais real e mais interessante que a própria realidade. (SANTOS,
                      2006, p.12).


          Talvez assim também decorresse o pensamento de McLuhan de que o
homem tem uma relação narcísica com essas extensões. Seria porque, então, as
extensões do homem são nada menos que um simulacro do próprio homem, que
intensifica e deixa mais espetacular e interessante o real?
          Santos (2006, p. 13) usa o exemplo da abertura do programa Fantástico,
que reproduzia homens e mulheres vestidos de maneira futurística, dançando em
cubos e cilindros fatiados e suspensos no ar, levitando. Isso não é possível no real,
mas através da computação gráfica e da TV era isso o que estava acontecendo. Diz
ele:

                      Aliada ao computador, a televisão simulou um espaço hiper-real,
                      espetacular, que excita e alegra como um acrobata. [...] Daí que a levitação,
                      em si desejável mas inviável na gravidade, parece ser possível na TV. O
                      hiper-real simulado nos fascina porque é o real intensificado na cor, na
                      forma, no tamanho, nas suas propriedades. É um quase sonho. (SANTOS,
                      2006, p. 13).
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        Essa possibilidade, essa hiper-realização seduz o homem pós-moderno, que
cede aos encantos do mass media, apaixona-se, como Narciso, não por si mesmo,
mas pelo outro eu, transformado no espetáculo do real. Complementa Santos que:

                     O ambiente pós-moderno significa basicamente isso: entre nós e o mundo
                     estão os meios tecnológicos de comunicação, ou seja, de simulação. Eles
                     não nos informam sobre o mundo; eles o refazem à sua maneira, hiper-
                     realizam o mundo, transformando-o num espetáculo [!]. Uma reportagem a
                     cores sobre os retirantes do Nordeste deve primeiro nos seduzir e fascinar
                     para depois nos indignar [!]. (SANTOS, 2006, p. 13).


        Ainda para Santos (2006, p.86), esse encantamento com as tecnologias,
essa possibilidade de hiper-realização do mundo real e do próprio homem dão à
contemporaneidade um novo estilo de vida. O indivíduo se define entre três
diferentes papéis na sociedade: a) o consumista que consome de tudo, bens e
serviços, dos mais necessários aos mais desejáveis; b) o hedonista que não possui
valores e busca satisfação e prazer instantâneos e; c) o narcisista que preza pela
auto-imagem, a glamourização e paixão de si. Percebe-se que estas três definições
de papéis emergem pela constante busca da satisfação do “eu” reforçando a
questão do individualismo. E, a respeito desse individualismo, alerta Santos:

                     O individualismo exacerbado está conduzindo à desmobilização e à
                     despolitização das sociedades avançadas. Saturada de informação e
                     serviços, a massa começa a dar uma banana para as coisas públicas.
                     Nascem aqui a famosa indiferença, o discutido desencanto das massas
                     ante a sociedade tecnificada e informatizada. É a sua colorida apatia frente
                     aos grandes problemas sociais e humanos. (SANTOS, 2006, p. 88).


        Para o autor a condição pós-moderna pode estar exibindo, como numa
vitrine, essa ressignificação do papel social do homem. Do homem moderno, outrora
preocupado com a construção da história, dos ideais políticos, da comunidade, da
sociedade como um todo, emerge um ser egoísta, preocupado apenas com si
próprio, sem ideais e sem projetos para o todo. Um homem preocupado com a
satisfação do individual e do presente, um homem de “um ego sem fronteiras”.
(SANTOS, 2006, p. 30, 94).
        Bauman atribui a esse novo momento, também, o que ele chama por “A
ambivalência da vida”. O homem divide a vida, constantemente, entre segurança e
liberdade. Todas as vezes que o indivíduo caminha em direção a mais liberdade
perde parte da segurança e, todas as vezes que caminha na direção oposta, para ter
mais segurança, perde parte da liberdade. De modo que o homem não vive sem
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estas duas esferas e, é preciso encontrar um equilíbrio entre elas. “Segurança sem
liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é um completo caos.” (BAUMAN,
2011).
         Então, mais próxima de qual lado estaria a sociedade contemporânea? Para
ambos os autores, mais próxima da liberdade. O homem deixou de lado tanta
segurança, quis mais liberdade e se tornou individualista. (SANTOS, 2006). Mas,
para Bauman (2011) isto não é desesperador. Ele comenta que sente o “pêndulo” se
movendo levemente para mais próximo da segurança novamente. O que Bauman
faz questão de alertar é que, essas relações, essas conexões, são irreversíveis. Na
rede e, portanto, na sociedade contemporânea, pós-moderna, fluida, é fácil conectar
e desconectar e é isso que mantém a rede viva. Relações em comunidade são
dramáticas. É difícil romper laços. Na rede é mais fácil desconectar. Comenta
Bauman que, um usuário do Facebook contou a ele que tinha feito 500 amigos em
um dia. Ele conta que respondeu: “eu tenho 86 anos, mas não tenho 500 amigos.
[...] Então, provavelmente, quando ele diz ‘amigo’ e eu digo ‘amigo’, não queremos
dizer a mesma coisa. São coisas diferentes.” Assim, novamente, figura-se essa
fluidez da sociedade contemporânea, onde é fácil conectar e fazer amigos e tão fácil
quanto, é desconectar e romper essas “amizades de Facebook”. (BAUMAN, 2011).
         Entretanto, cumpre-se ainda trazer para cá a visão de Dominique Wolton
(2007, p. 11) sobre essa relação entre tecnologias e comunicação que, sem dúvida,
enriquecerão este capítulo. Wolton parece manter um distanciamento maior com
relação à empolgação diante das tecnologias. Para ele, seria dissimulado dizer que
a sociedade deveria se adequar ao tempo das tecnologias. Ao contrário é mais
frequente que a história social e cultural dê sentido à história técnica. Sendo assim,
na visão de Wolton, pode-se dizer que a tecnologia atual é resultante do papel social
e cultural desenvolvido ao longo dos tempos. Para ele:

                     Atualmente, um número surpreendente de autores considera, por exemplo,
                     a Internet uma verdadeira revolução que fará surgir uma “nova sociedade”,
                     simplesmente porque supõe que a tecnologia vai mudar diretamente a
                     sociedade e os indivíduos. [...] Passa-se assim de uma concepção
                     materialista da comunicação a uma verdadeira ideologia – a ideologia
                     tecnológica – da comunicação. Todavia, a história prova os limites das teses
                     deterministas. As tecnologias de comunicação não escapam ao dever
                     epistemológico que consiste em não confundir técnica, cultura e sociedade.
                     Constatar que as técnicas evoluem mais rápido do que os modelos culturais
                     e a organização social da comunicação não é o suficiente, na realidade,
                     para definir um sentido ao “progresso” da comunicação, que iria da
                     evolução técnica em direção à mudança de práticas culturais e depois aos
                     projetos de sociedade. (WOLTON, 2007, p. 16).
26



       Na visão de Wolton, o desafio da pesquisa que ele faz é “justamente de não
reduzir a comunicação a um acontecimento técnico”. O sentido do desenvolvimento
do trabalho de Wolton “é tentar explicar por que o essencial, em um sistema de
comunicação, não é a tecnologia.” (WOLTON, 2007, p. 16). E, como conclui:

                     Em poucas palavras, para a comunicação, as teorias são sempre mais
                     importantes que as tecnologias. De nada serve se comunicar de um
                     extremo a outro do mundo se uma visão do homem e da sociedade não
                     orienta as proezas tecnológicas. (WOLTON, 2007, p. 22).


       O que interessa a este trabalho, diante desses argumentos de Wolton é
desmistificar a sociedade pós-moderna como resultado, apenas, das evoluções
tecnológicas. Essa sociedade contemporânea, individual, emancipada, é resultado
de uma longa caminhada iniciada há tempos. Assim:

                     Desde o século XVI, ela [a comunicação] é o complemento e a condição de
                     todas as emancipações do indivíduo. A reinvindicação da liberdade de
                     comunicar é evidentemente fruto da longa batalha iniciada na Renascença
                     pelas liberdades de consciência, de pensamento, de expressão, depois a
                     partir dos séculos XVII e XVIII pela liberdade editorial e de imprensa. No
                     século XIX, a reencontramos na luta pelas liberdades de associação, de
                     manifestação e de participação política. No século XX ela está diretamente
                     ligada ao surgimento da democracia de massa, com o sufrágio universal e a
                     informação para todos. (WOLTON, 2007, p. 38).


       Percebe-se que, Wolton não deixa de aferir as modificações sociais
causadas em razão da evolução da tecnologia, mas também, orienta o leitor para
apartar-se dela, olhar por outro viés e não tomar a tecnologia como ponto culminante
desse processo de pós-modernização, assim como, também orienta que as
tecnologias estão longe de melhorar a comunicação humana. A princípio, e neste
ponto Wolton volta a dialogar com os outros autores, “o dogma atual, pois se trata
realmente de um dogma, identifica a felicidade individual e coletiva à capacidade de
estar ‘plugado’ e multiconectado.” (WOLTON, 2007, p. 32). E então:

                     Por que as tecnologias de comunicação agradam tanto? Eu já abordei este
                     problema em Pensar a Comunicação, salientando a importância para os
                     jovens da idéia de abertura, mas também a recusa das mídias de massa, o
                     desejo de responder à inegável angústia antropológica, à atração pelo
                     moderno, à procura de novas formas de solidariedade com os países mais
                     pobres. A variedade de motivações ilustra, aliás, o fato de que estas novas
                     tecnologias sejam investidas de muitas outras coisas que puramente a
                     função técnica. Trata-se, do conjunto, de modificar as relações humanas e
                     sociais, o que prova o quanto, na área de comunicação, se gera símbolos e
                     utopias, sem grande relação com as performances dos instrumentos. O
                     termo que convém aqui é o de transferência. (WOLTON, 2007, p. 86).
27



        E com isso, autonomia, domínio e velocidade fazem compreender o sucesso
das novas tecnologias. “Cada um pode agir, sem intermediário, quando bem quiser,
sem filtro nem hierarquia e, ainda mais, em tempo real.” É justamente em razão
disso, como observaram também os outros autores, “Isto gera um sentimento de
liberdade absoluta, até mesmo de poder, de onde se justifica muito bem a expressão
‘surfar na Internet’.” (WOLTON, 2007, p. 86).
        Assim, por fim, Wolton lança as seguintes questões:

                     O ideal, para não dizer ideologia, do progresso toma o lugar da reflexão
                     evitando que se coloque uma questão simples: todas estas tecnologias de
                     comunicação, para fazer o quê? Qual a relação entre as necessidades de
                     comunicação dos homens e das sociedades e esta explosão de técnicas?
                     Até onde os homens necessitam deste grau de comunicação? Comunicar o
                     que, a quem? Qual a relação entre comunicação técnica e comunicação
                     humana? Qual o interesse em ter cem canais pagos ou poder consultar a
                     biblioteca de Alexandria, ou a do Congresso Americano? Quais as
                     desigualdades e relações de força que dela resultam? Que problemas as
                     tecnologias de comunicação resolvem e que outros são criados?
                     (WOLTON, 2007, p. 32).


        Percebe-se que há muito mais a discutir em relação ao tema sobre
sociedade pós-moderna, líquida e contemporânea. Entretanto, para não adentrar em
todas as questões, saindo, portanto, do conjunto ao qual se propôs o presente
trabalho, é que no próximo capítulo será abordado o ciberespaço, para então, na
sequência, refletir sobre parte dessa última questão lançada por Wolton: que
problemas, na comunicação, as tecnologias criam?
28



3 O CIBERESPAÇO


            Depois de apresentadas as características da aldeia global, aquela
interligada em todas as direções; os conceitos de espaço e tempo imprescindíveis
para o entendimento da percepção do corpo e; a condição pós-moderna e o
individualismo que ajudam a compreender a satisfação do indivíduo com o “eu” no
presente, discutir-se-á sobre o ciberespaço.
            Entretanto, não se pretende aqui qualificá-lo tecnicamente, compreender as
características da rede, os protocolos ou a série de evoluções que aconteceram
desde 1940 e que o tornou possível, no molde em que é conhecido nos dias
presentes. Pretende-se entender o ciberespaço enquanto campo de relações, parte
do campo da comunicação capaz de influenciar ou propiciar as relações dos
indivíduos mediadas por computador.


3.1 O QUE É O CIBERESPAÇO


            Existem diversas formulações sobre o que é o ciberespaço. Muito embora o
que interesse para este trabalho seja o conceito de ciberespaço a partir do advento
da Internet, é importante alertar, sobretudo, para o fato de que o ciberespaço vai
muito além da Internet. John Barlow, vice-presidente da Electronic Frontier
Foundation3, por exemplo, identifica o ciberespaço como sendo, também, o
ambiente onde se encontram os indivíduos ao falarem ao telefone.
            Pierre Lévy (1999, p. 92) conta que o termo “ciberespaço” foi utilizado pela
primeira vez por William Gibson, no livro Neuromancer, para descrever um espaço
de redes digitais. Neste espaço as tecnologias estariam enraizadas na sociedade
moldando a estrutura e as relações entre os indivíduos. Lévy, porém, tem uma
definição própria. Para ele o ciberespaço é “o espaço de comunicação aberto pela
interconexão mundial de computadores e das memórias dos computadores”, e, a
marca distintiva é a capacidade de virtualização do espaço e do tempo.
            Ora, novamente surgem as questões do espaço e do tempo. Chauí (2010)
diz que o ciberespaço é “um mundo novo” marcado pela acronia (ausência de
referência do tempo) e pela atopia (ausência de referência do espaço). A autora


3
    Cf. <https://www.eff.org/>.
29



entende ainda que, com a Internet se pode ir mais longe, em menos tempo, “até a
completa extinção do espaço e do tempo”. Esses apontamentos de Chauí, assim
como os de Lévy, dialogam para um mesmo entendimento sobre uma virtualização
do corpo, do espaço e do tempo, características que, para ambos, é a marca
principal do ciberespaço.
        E, para que se possa entender mais sobre o ciberespaço, Chauí (2010) diz
que é importante entender também as diferenças entre dois conceitos que
indevidamente são apresentados como iguais: o do possível e o do virtual. A autora
explica que na tradição filosófica o virtual tendia a ser o possível, uma potência
daquilo que, com a intervenção de um agente ou de uma circunstância pudesse vir a
existir. Para a tradição filosófica “a semente é a árvore virtual, ou a árvore possível”.
Entretanto, com a informática, a perspectiva filosófica mostrou-se falha. “O virtual já
é real, e já existe. Ele não se opõe ao real, ele se opõe ao atual” assim diz Chauí
(2010). Lévy (1996, p. 15), também neste sentido, ensina que a tradição filosófica
entendia que o “real seria da ordem do ‘tenho’, enquanto o virtual seria da ordem do
‘terás’, ou da ilusão”. O autor traz a distinção feita por Gilles Deleuze entre o
possível e o virtual. O possível é um real latente, já construído, mas lhe falta a
existência material. Já virtual é um acontecimento complexo que chama à uma
resolução: uma atualização. “O problema da semente, por exemplo, é fazer brotar
uma árvore. A semente ‘é’ esse problema, mesmo que não seja somente isso.” O
autor complementa ainda que “o real assemelha-se ao possível; em troca, o atual
em nada se assemelha ao virtual: responde-lhe”. (LÉVY, 1996, p. 17).
        Com a distinção apontada por Chauí, pode-se dizer que o ciberespaço é um
mundo real e que, como apontado por Lévy, aguarda uma atualização. Real que é, e
atual que aguarda por ser a todo o momento, o ciberespaço é dotado da
interferência do homem que se reproduz nas relações e interações. Com isso, surge
então outra das características do ciberespaço que é importante para este trabalho:
a capacidade de interação aos indivíduos. André Lemos, ao defini-lo se baseia nesta
característica dizendo que o ciberespaço é

                      um hipertexto mundial interativo onde cada um pode adicionar, retirar e
                      modificar partes dessa estrutura telemática, como um texto vivo, um
                      organismo auto-organizante, um cybionte em curso de concretização.
                      (LEMOS, 2004, p. 123).
30



        O conceito de Lemos mostra um lado mais interativo e mais vivo do
ciberespaço. A partir dessas observações de Chauí, Lévy e Lemos, tem-se que o
ciberespaço é, por fim, um outro mundo, um mundo novo, sem espaço e sem tempo,
ou com espaço e tempo novos, onde tudo é virtualizado e onde os indivíduos podem
atuar moldando as estruturas através da adição, subtração ou modificação de
interações. Essa é a maneira de ser e de existir do ciberespaço. Retomando o que
foi visto no capítulo anterior sobre a relação do corpo, do espaço e do tempo e,
sobre as tecnologias da imortalidade e da virtualidade, de acordo com Chauí (2010)
tem-se que, “do lado do ciberespaço nós nos tornamos puras almas angélicas, sem
corpo, enquanto do lado da ciência, nós nos tornamos puros corpos sem alma”.
        E, ao tomar o ciberespaço também como um espaço de interação (como a
primeira lei da cibercultura: o ciberespaço é um local de livre circulação da
informação), vê-se que as redes sociais na Internet são o principal fenômeno dessa
característica. É o que será apresentado a seguir.


3.2 REDES SOCIAIS NA INTERNET


        É importante ressaltar que, redes e redes sociais são conceitos muito
antigos e que não surgiram com a Internet, muito menos se limitam a ela. Contudo,
neste trabalho este conceito será associado com a Internet, pois ela e os discursos
que nela circulam, fazem parte do objetivo de estudo deste trabalho.
        As redes sociais na Internet, assim como as redes sociais, são descritas
como sendo o conjunto dos atores sociais e as conexões feitas por eles. Os atores
sociais podem ser pessoas, grupos ou instituições e as conexões os laços ou
interações entre estes atores sociais. (Wasserman e Faust, 1994; Deggene e Forse,
1999 apud Recuero, 2009, p. 24). “A abordagem de rede tem, assim, seu foco na
estrutura social, onde não é possível isolar os atores sociais e nem suas conexões”.
(RECUERO, 2009, p. 24). A seguir, será apresentado um pouco mais sobre os
atores sociais e sobre as conexões.


3.2.1 Atores Sociais


        Segundo Recuero (2009, p. 25) os atores sociais são o primeiro elemento
das redes sociais e podem ser as pessoas, as instituições ou até os grupos
31



envolvidos na rede. São os indivíduos sociais que interagem dentro das redes,
moldando ou sendo moldados por elas. Alerta a autora para o fato de que os atores
sociais no ciberespaço não são facilmente reconhecíveis, pois, são representações
destes. Aqui, novamente, é possível dialogar com a questão da virtualização do
corpo, do espaço e do tempo. Sendo o ciberespaço um ambiente virtual,
caracterizado pela atopia e pela acronia, os atores sociais, portanto, também não
estão fisicamente presentes neste ambiente. São representações de um “eu” que
vão de fotos, vídeos e nicknames, que podem se assemelhar mais às características
dos atores sociais como, por exemplo, uma foto que representa exatamente o ator
social, até as diversas imagens e links, nem sempre semelhantes, pois, por exemplo,
é possível colocar na foto do perfil na Internet uma imagem de um lugar preferido, ou
de um cantor, de um ídolo, não se assemelhando ao ator social.
        Conclui Recuero (2009, p. 28) que “os atores no ciberespaço podem ser
compreendidos como os indivíduos que agem através de seus fotologs, weblogs, e
páginas pessoais, bem como através de seus nicknames”. Sobre estas
representações, tem-se que são identidades de um “eu”. É pertinente questionar se
estas identidades não seriam mutáveis, tornando-se vários “eus”. Ora, na troca de
uma foto do perfil, do nickname, das cores, da linguagem ou até mesmo do link que
correspondem ao usuário, não estaria ocorrendo uma ressignificação de identidade?
É importante então, uma pausa para a reflexão sobre identidades, que sem dúvida
tem grande influência no modo como as conexões (laços, relações ou interações)
são realizadas entre os atores sociais na Internet.


3.2.1.1 Identidades líquidas


        Para Bauman a identidade é “o horizonte em direção ao qual eu me
empenho e pelo qual eu avalio, censuro e corrijo os meus movimentos”. (BAUMAN,
apud MACEDO, 2010, p. 52). Pode-se, portanto, a partir de Bauman, entender que o
exercício da identidade começa sendo uma escolha.
        Roberto DaMatta (2009), identifica as identidades como papéis sociais,
fazendo inclusive uma distinção entre como as identidades são exercidas a partir
dos espaços da casa e da rua. Sobre isto ainda, e segundo Stuart Hall, “todas as
identidades estão localizadas no espaço e no tempo simbólicos”. (HALL apud
MACEDO, 2010, p. 51).
32



        Esses autores reforçam a ideia de que as identidades são escolhas mutáveis
dos indivíduos. Seja em Bauman sobre a “direção ao qual eu me empenho”, seja
para DaMatta com os espaços da casa e da rua, ou seja para Hall com os espaços
simbólicos. Se as identidades são desempenhadas basicamente de acordo com o
espaço em que se insere o indivíduo, o que acontece quando este indivíduo está
inserido no ciberespaço? O que acontece quando a identidade está sendo
construída ou exercida em um mundo virtualizado e sem os referenciais do espaço e
do tempo?
        Hall diz que “as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o
mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o
indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado.” (HALL, 2006, p. 7).
Veja, é possível dialogar com outro capítulo do trabalho, sobre a Condição Pós-
Moderna, que traz o conceito de sociedade e identidade fragmentadas que, por sua
vez estão fragmentando o indivíduo moderno. Completa Macedo, dizendo que

                     daí, decorre a necessidade dos sujeitos de assumir modelos identitários
                     diversos. Para tanto, se utilizam da cultura da mídia, que é responsável por
                     grande parte da disseminação desses modelos, além de mercadorias que
                     consigam sustentar as identidades escolhidas. Ora, essa relação é possível
                     porque tanto a cultura da mídia, quanto as mercadorias presentes na
                     sociedade do consumo estão em constante movimento, assim como as
                     identidades. Poderíamos dizer, nos apropriando de um termo cunhado por
                     Bauman, que as identidades são líquidas ou fluidas. (MACEDO, 2010, p.
                     50).


        Este parece ser o retrato das identidades na pós-modernidade e nas
relações que ocorrem no ciberespaço. É por isso que Bauman as chama de líquidas
ou fluidas. “Os ‘fluídos’ são assim chamados porque não conseguem manter a forma
por muito tempo e, a menos que sejam derramados num recipiente apertado,
continuam mudando de forma sob a influência até mesmo das menores forças.”
(BAUMAN, 2005, p. 57).
        Ainda neste sentido, DaMatta (2009) sugere que os papéis sociais não são
bem definidos e assim também parece entender Recuero (2009, p. 30, sem grifo no
original), dizendo que “perfis do Orkut, weblogs, fotologs, etc. são pistas de um ‘eu’
que poderá ser percebido pelos demais. São construções plurais de um sujeito,
representando múltiplas facetas de sua identidade.” Pode-se tomar que, o sujeito
pode ser único, mas as identidades podem ser múltiplas tanto na existência como na
forma de representação.
33



       Sobre essa mutação de identidade, Bauman diz que

                     nós, habitantes do líquido mundo moderno, somos diferentes. Buscamos,
                     construímos e mantemos as referências comunais de nossas identidades
                     em movimento – lutando para nos juntarmos aos grupos igualmente móveis
                     e velozes que procuramos, construímos e tentamos manter vivos por um
                     momento, mas não por muito tempo. (BAUMAN, 2005, p. 32).


       Assim, este novo tempo em que se encontra essa sociedade contemporânea
é propício aos novos estilos de identidades frágeis, líquidas e evanescentes. As
outras caíram por terra. “No admirável mundo novo das oportunidades fugazes e das
seguranças frágeis, as identidades ao estilo antigo, rígidas e inegociáveis,
simplesmente não funcionam.” (BAUMAN, 2005, p.33).
       Cabe aqui, para finalizar a questão das identidades, um interessante
questionamento de DaMatta (2009): “Como os papéis [papéis sociais, identidades]
colam nos atores sociais?”. Para ele, essa é a grande motivação das discussões
sobre identidades. As várias identidades de que fala Recuero ou a liquidez de que
fala Bauman pouco tem a ver com o certo ou errado, com o caráter do indivíduo.
Não são boas, nem más, mas apenas uma constante dualidade de papéis sociais.
DaMatta (2009) usa como exemplo a questão do nepotismo. Diz ele que essa é uma
sociedade familiar e que, portanto, não deveria considerar o nepotismo uma
irregularidade. Nesse contexto, de acordo com o pensamento de DaMatta, para o
homem público há uma constante dualidade de papéis sociais. Ele deve optar por
indicar alguém de confiança para um cargo público que não seja da família. Todavia,
há alguém cujos laços e confiança sejam mais fortes do que um parente nessa
sociedade de bases familiares? Não seria o correto indicar para um cargo de
confiança da administração pública então um parente? “Por que isso é errado?”,
questiona ele. Que papel social e, portanto, que identidade irá assumir esse ator
social entre nomear ou não um parente? O papel de administrador público limitado à
questão do nepotismo ou o papel de membro familiar que vê no parente alguém de
confiança para assumir o cargo?
       Como se vê, as identidades tem papel fundamental na identificação das
relações entre os atores sociais. É dizer que, sem essas três noções: a) o indivíduo
no ciberespaço não é físico é apenas uma representação (para Recuero); b) esta
representação é mutável, é líquida e pode tomar várias facetas sem limite de tempo
ou espaço (para Bauman); e ainda c) essa mutação e liquidez não são boas nem
34



más, podem ser apenas uma dualidade entre os papéis sociais que o indivíduo tem
que desempenhar (para DaMatta), não será possível olhar o ciberespaço e as redes
sociais na Internet com olhares mais científicos do que comerciais, ou seja,
procurando adotar uma postura de pesquisador e não somente se envolver na rede.
Assim como, é preciso entender que essa dualidade de papéis sociais existe e que
este pode ser, também, motivo que leve à liquidez das identidades.


3.2.2 Conexões


       Recuero (2009, p. 30) argumenta que as conexões podem ser interações,
relações ou laços sociais entre os atores sociais na Internet. Para ela são as
conexões que motivam aos pesquisadores, pois, é possível avaliá-las muito depois
de realmente terem acontecido. Na rede, ficam os “rastros” dessas interações, como
diz a autora. Ou seja, uma atualização no Twitter pode ser posteriormente
visualizada pelos usuários, em qualquer lugar, até que alguém a exclua. São estes
rastros que permitem ao pesquisador analisar mesmo não estando presente no
tempo e no espaço em que ocorreu a interação.
       Neste mesmo sentido,        Recuero (2009, p. 31) traz os seguintes
questionamentos: “[...] como compreender a interação social no ciberespaço? [...]
Como pensar a interação distante do ator social que a origina?” Diz ela que essas
interações possuem diversas características. A primeira delas é que não há outra
relação imediata além da linguagem mediada por computador, ou seja, não há, por
exemplo, a interação face a face. Tudo é mediado por computador. Desde o espaço,
o tempo, as representações dos atores sociais, os códigos da mensagem, as
próprias mensagens, o feedback. Todo o processo da interação está mediado pelo
computador. A outra característica é que são permitidas interações mesmo quando
os atores não estão conectados no ciberespaço. É o caso dos e-mails, onde nem
sempre são enviados para quem está conectado à rede no momento, e por isso, não
se espera uma resposta imediata. Assim também ocorrem com as mensagens
deixadas entre os usuários utilizando o Facebook, o MSN ou o Orkut.
       Recuero (2009, p. 36) alerta para o fato de que “a interação mediada por
computador é a geradora de relações sociais, que, por sua vez, vão gerar laços
sociais.” Assim, tem-se que as interações são a menor parte de todo o processo de
conexão que ocorre nas redes sociais na Internet; as relações sociais são processos
35



causados por várias interações sociais e, por sua vez, os laços sociais são
envolvimentos mais complexos resultantes das relações sociais. A partir de Alex
Primo (2003), Recuero (2009, p. 33) descreve que as interações podem ser reativas
e limitadas, mútuas e construídas, fortes ou fracas e multiplexas. E para que se
entenda melhor estes tipos de relações, faz-se necessário explorá-las rapidamente.
       As interações são reativas e limitadas quando, por exemplo, um usuário clica
em um link sendo levado para algum lugar. Já as interações mútuas e construídas,
que interessam mais para este trabalho, são aquelas onde o usuário do Twitter, por
exemplo, insere alguma atualização na página pessoal. Ao contrário da outra, esta
última permite que outro usuário interaja com a atualização, respondendo,
comentando ou replicando aos demais usuários da rede. E as interações, relações
ou laços sociais podem ocorrer dentro ou fora do ciberespaço e podem, ainda, se
combinarem. Os laços sociais fora da Internet podem ser resultantes de uma relação
social mediada e iniciada por computador ou ainda o inverso. É o caso, por exemplo,
de irmãos que convivem juntos e que mantem relações sociais na Internet. São os
chamados laços “multiplexos”. Esses laços podem ainda, serem fracos ou fortes, e
isto depende da quantidade de interações que os usuários mantem. Quanto mais
interação mais forte o laço social. (DEGENNE E FORSÉ, 1999; SCOTT, 2000 apud
RECUERO, 2009, p.42).
       Por fim, a autora alerta que: “As relações não precisam ser compostas
apenas de interações capazes de construir, ou acrescentar algo. Elas também
podem ser conflituosas ou compreender ações que diminuam a força do laço social”.
Neste sentido, as relações e laços sociais não se confundem com o conteúdo, mas
também não podem existir sem este, pois é ele, o conteúdo, o que determina o tipo
de relação ou laço social, que podem ser de amizade, de carinho, de amor, de
conflito, de hostilidade e, ainda assim serem de laços fortes. É importante que isto
fique claro para que não se tome as relações ou laços sociais sempre como algo
positivo. (RECUERO, 2009, p.37).
36



4 METODOLOGIA


        Como visto anteriormente, o objetivo do presente trabalho é saber e refletir
sobre as inserções de hostilidade e preconceito no Twitter, diante deste contexto de
sociedade contemporânea, globalizada e liquida.
        O objetivo, portanto, dar-se-á cumprido somente através da construção de
conhecimento. De acordo com Antônio Joaquim Severino (2007, p. 25) a produção
de conhecimento como construção de um objeto ocorre “mediante nossa capacidade
de   reconstituição   simbólica    dos    dados de        nossa     experiência”.     Ou    seja,
“apreendemos os nexos pelos quais os objetos manifestam sentido para nós,
sujeitos cognoscentes”. Dessa maneira o conhecimento torna-se um “complexo
processo de constituição e reconstituição do sentido do objeto que foi dado à nossa
experiência externa e interna”. O autor ainda alerta para o fato de que a construção
do conhecimento no ambiente acadêmico tem um diferencial e deve ser construído
“pela experiência ativa do estudante e não mais ser assimilado passivamente”. E,
ainda sob este aspecto a “pesquisa torna-se elemento fundamental e imprescindível
no processo de ensino/aprendizagem. [...] o aluno precisa dela para aprender eficaz
e significativamente”. (SEVERINO, 2007, p. 25).
        Assim, o presente trabalho tem como base a pesquisa bibliográfica. Como
ensinam Jorge Duarte e Antônio Barros (2009, p. 52) “A pesquisa bibliográfica, num
sentido amplo, é o planejamento global inicial de qualquer trabalho de pesquisa”.
Para Severino,

                      é aquela que se realiza a partir do registro disponível, decorrente de
                      pesquisas anteriores, em documentos impressos, como livros, artigos, teses
                      etc. Utiliza-se de dados ou de categorias teóricas já trabalhados por outros
                      pesquisadores e devidamente registrados. Os textos tornam-se fontes dos
                      temas a serem pesquisados. O pesquisador trabalha a partir das
                      contribuições dos autores dos estudos analíticos constantes dos textos.
                      (SEVERINO, 2007, p. 122).


        É necessário ressaltar que hoje a pesquisa bibliográfica parte não apenas
dos impressos, mas também do levantamento de documentos encontrados na
Internet, filmes, programas de televisão ou rádio, aulas, palestras e conferências. Ou
seja, “tudo o que foi escrito, dito ou filmado sobre determinado assunto”. (LAKATOS,
2005, p. 185). Entretanto, como previne Severino:
37


                     Não traz resultados positivos para o estudo ouvir aulas, por mais brilhantes
                     que sejam, nem adianta ler livros clássicos e célebres. Isso só tem algum
                     valor à medida que se traduzir em documentação pessoal, ou seja, à
                     medida que esses elementos puderem estar à disposição do estudante, a
                     qualquer momento de sua vida intelectual. (SEVERINO, 2007, p. 67).


       Por isso, além da pesquisa bibliográfica, também foi realizada a
documentação bibliográfica das obras através do método de fichamento, para que,
como fim, se cumprisse o que garante Severino sobre esse processo:
“Sistematicamente feito, proporciona ao estudante rica informação para seus
estudos.” (SEVERINO, 2007, p. 70).
       Buscou-se a partir da pesquisa e da documentação bibliográfica apresentar
um rico diálogo entre os autores das obras. E entre elas, destacam-se como
principais Bauman (2005, 2008, 2011), McLuhan (2005), Wolton (2007), Santos
(2006), Chauí (2010), Sibilia (2002, 2008), Recuero (2009) e Santaella e Lemos
(2010) que, de modo geral, discorrem sobre sociedade, homem e comunicação. A
fim de complementar esses diálogos, as ideias e interpretações de alguns outros
autores também foram trazidas para as linhas deste trabalho. São eles: DaMatta
(2009), Lévy (1996, 1999), Nóbrega (2000), Primo (2003, 2011), Viviani (2007) e
Zago (2008).
       O presente trabalho utilizou-se também de uma pesquisa exploratória que,
para Severino (2007, p. 123), “busca apenas levantar informações sobre um
determinado objeto, delimitando assim um campo de trabalho, mapeando as
condições de manifestação desse objeto.” Assim, buscando a relação com as teorias
vistas ao longo do trabalho, foram analisados alguns discursos das postagens no
Twitter, os chamados “tweets”, encontrados através do uso da ferramenta de busca
do próprio site e palavras-chave, como: “gays”, “mulheres”, “homofobia” e
“nordestino”. Escolheu-se esse “tipo de hostilidades” em razão de sua intensidade.
       Cumpre-se ressaltar, ainda, que nas linhas deste trabalho ou diante das
conclusões poder-se-á parecer que houve o emprego de uma pesquisa explicativa,
cuja adoção poderia ocorrer, pois “além de registrar e analisar os fenômenos
estudados, busca identificar suas causas”. Entretanto, o presente trabalho não tem
essa pretensão. Os possíveis posicionamentos que possam aparecer, são
resultados dessa “corrida ao conhecimento” e que se expressaram por meio de um
ato de filosofar, pois este, “reclama um pensar por conta própria que é atingido
mediante o pensamento de outras pessoas”. (SEVERINO, 2007, p. 123, 67).
38



5 O TWITTER


         Desde a notoriedade que atingiu o Twitter, por volta de 2008 quando foi
utilizado na campanha do atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a
ferramenta passou a ser alvo de pesquisadores e de constantes discussões. A
proposta desse trabalho concentra-se no estudo dessa plataforma, pois, como
afirmam diversos autores Recuero (2009) e Santaella e Lemos (2010), o Twitter
serve como uma importante e relevante ferramenta no estudo de redes sociais na
Internet.
         Neste último capítulo, portanto, além de conhecer mais sobre essa
plataforma, será feita uma análise de “tweets” a partir das teorias vistas durante este
trabalho. Assim será possível compreender melhor o comportamento do usuário na
rede, e a importância daquilo que já foi abordado neste trabalho, como a condição
pós-moderna e o individualismo.


5.1 DO TWTTR AO TWITTER


         Conta Jack Dorsey (2006), um dos fundadores do Twitter, que o serviço teve
os primeiros conceitos pensados no ano 2000. No perfil de Dorsey no site Flickr4, um
site onde os usuários mantém hospedadas fotos, ele comenta que ingressou em um
serviço chamado LiveJournal5, que é uma comunidade virtual onde os usuários
podem hospedar na rede um jornal ou um diário. A partir daí Dorsey pensou em criar
algo semelhante ao LiveJournal, porém, com atualizações mais instantâneas. Algo
que permitisse ao usuário atualizar o status6 e, de onde estivesse, compartilhá-lo.
Algo para ser usado em tempo real.
         Dorsey conta que chamou a ideia inicialmente de “TWTTR” e, no perfil no
Flickr ele mantém uma foto do primeiro esboço que fez do layout do Twitter (FIGURA
1), comentando sobre a ideia e sobre o recente sucesso após seis anos de espera.




4
  Cf. <http://www.flickr.com/photos/jackdorsey/182613360/>.
5
  Cf. <http://www.livejournal.com/>.
6
  Status é uma palavra latina que significa estado, posição, condição. No mesmo estado “ou situação
de uma pessoa ou entidade”. (STATUS, 2011).
39




FIGURA 1 - PRIMEIRO ESBOÇO DO TWTTR
FONTE: DORSEY (2006)


       Entretanto, o esboço pouco se parece à primeira versão do Twitter, lançada
efetivamente no ano de 2006. O site tinha uma versão de layout bem simples
(FIGURA 2), e os botões amplamente conhecidos e utilizados nos dias de hoje,
como “Favorite”, “Retweet” e “Reply” ainda não estavam presentes.
40




FIGURA 2 - SITE TWTTR
FONTE: SAGOLLA (2006)


         Nota-se que o antigo layout do Twitter (FIGURA 2) era mais funcional, ou
seja, parecia estar mais preocupado com a usabilidade7 do serviço do que com a

7
   Usabilidade é um termo usado para definir o quanto uma interface é facilmente utilizada por
diferentes usuários alcançando simplicidade, facilidade e eficiência no uso. (USABILIDADE, 2011).
41



experiência simbólica dos usuários. Era possível postar o conteúdo e ver o que foi
postado pelos outros, mas ainda não era possível compartilhar o conteúdo de outro
usuário como nos dias de hoje. É possível notar ainda que, a primeira versão já fazia
o uso da pergunta utilizada até pouco tempo e que lembra uma das principais
características do Twitter, a mobilidade: “what are you doing?” ou “o que você está
fazendo?”. E, parece que respondendo à pergunta, Jack Dorsey, segundo
reportagem de O Globo (2011), escreveu a primeira mensagem da rede (FIGURA 3),
datada de vinte e um de março do ano de dois mil e seis: “invite coworkers” ou
“convidando colaboradores”.




FIGURA 3 - PRIMEIRO TWEET DA HISTÓRIA
FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@JACK” NO TWITTER (2011)


       Antes disso, o próprio sistema enviava uma mensagem automática padrão,
“just setting up my twttr” ou “apenas criando meu twttr”, que também pode ser
encontrada nos perfis dos fundadores Jack Dorsey, Biz Stone e Evan Williams
(FIGURA 4).




FIGURA 4 - PRIMEIROS TWEETS GERADOS AUTOMATICAMENTE
FONTE: MONTAGEM FEITA PELO AUTOR, DOS PERFIS “@EV”, “@BIZ” E “@JACK” NO TWITTER
(2011)


       Desse ponto de partida até os dias atuais, é possível perceber que muita
coisa mudou no Twitter, desde o layout até o sucesso que a rede social conseguiu.
Antes, porém, cumpre-se mostrar, ainda que de maneira rápida, a estrutura atual do
42



Twitter afim de que, na sequência, a falta dessas características não atrapalhe no
entendimento dos próximos tópicos. A versão atual do Twitter (FIGURA 5), o layout e
as funcionalidades estão, sem dúvida, mais desenvolvidas e mais interativas do que
na versão inicial e continuam mantendo a usabilidade do serviço.




FIGURA 5 - VERSÃO ATUAL DO TWITTER
FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DA PÁGINA PRINCIPAL DO TWITTER (2011)


       É possível agora marcar o conteúdo que mais gostou de outro usuário,
compartilhar a postagem, ou ainda, responder alguma postagem com algum
comentário e enviar mensagens particulares.


5.2 O QUE É O TWITTER?


       Lúcia Santaella e Renata Lemos (2010, p. 64) argumentam que o Twitter é
“uma plataforma de microblogging que explodiu nos últimos anos, afiliando milhões
de usuários por todo o mundo.” Esse sucesso deve-se ao fato de que rapidamente
43



celebridades passaram a se juntar ao Twitter, e isso ganhou maior atenção por parte
dos meios de comunicação de massa fazendo com que públicos distintos da
sociedade também se interessassem pelo Twitter. Esse fato é bem lembrado por
Juliano Spyer no guia intitulado: “Tudo o que você precisa saber sobre Twitter” 8.
Neste guia ele comenta que a entrada de Oprah Winfrey9 foi considerada um marco
na história do Twitter e da popularização dessa plataforma (FIGURA 6).




FIGURA 6 - PRIMEIRO TWEET DE OPRAH WINFREY
FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@OPRAH” NO TWITTER (2011)


        Assim, desde que criado, o Twitter não parou de crescer. Estudos como os
da agência Sysomos apontam que em 2009 o Twitter atingiu 11 milhões de usuários.
O Brasil ocupava o segundo lugar com representatividade de 8,8% dos usuários da
base total do Twitter. (LARDINOIS, 2010 apud SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 64).
        As autoras concluem que o Twitter é “Uma verdadeira ágora digital global:
universidade, clube de entretenimento, ‘termômetro’ social e político, instrumento de
resistência civil, palco cultural, arena de conversações contínuas” e que serve

                      como um meio multidirecional, de captação de informações personalizadas;
                      um veículo de difusão contínua de ideias; um espaço colaborativo no qual
                      questões, que surgem a partir de interesses dos mais microscópicos aos
                      mais macroscópicos, podem ser livremente debatidas e respondidas; uma
                      zona livre – pelo menos até agora – da invasão de privacidade que domina
                      a lógica do capitalismo corporativo neoliberal que tudo invade, até mesmo o
                      ciberespaço. (SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 66).


        E, muito embora o Twitter faça parte do quadro das Redes 3.0, que são
aquelas que permitem interação, são dotadas de aplicativos e estão focadas na
mobilidade (HORNIK, 2005 apud SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 58), as autoras
alertam para o fato de que




8
   O guia está disponível para download na página da agência Talk Interactive:
<http://guiadotwitter.talk2.com.br/arquivos/Manual_Twitter_6_MB.pdf>.
9
  Oprah Winfrey é uma empresária e apresentadora de TV americana, e, uma das personalidades
mais influentes dos Estados Unidos.
44


                     nas outras redes sociais como Facebook, Orkut etc., o foco da interação
                     social está nos contatos pessoais entre usuários, no Twitter o foco encontra-
                     se na qualidade e no tipo de conteúdo veiculado por um usuário específico.
                     O foco da rede social Facebook, por exemplo, é disponibilizar informações e
                     meios de interação direta para redes de relacionamentos que, em sua
                     grande maioria, já existiam off-line, antes da entrada do usuário na
                     plataforma. Novos contatos surgem através da rede, é claro, mas quase
                     sempre em virtude de um contato pessoal ou de um amigo comum. Essas
                     redes se caracterizam por uma atuação predominante focada em redes de
                     relacionamentos pessoais familiares, de amizade e/ou profissionais.
                     (SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 67).


        Assim, o foco do Twitter está naquilo em que um único usuário insere na
rede, o conteúdo do que é postado, as “pílulas de 140 carácteres”. Outro fator que
diferencia o Twitter das demais redes sociais também foi lembrado no guia de
Juliano Spyer que diz que em mídias como o Orkut e o Facebook os usuários
precisam se aceitar como contatos para que os perfis e atualizações possam
aparecer um para o outro. Entretanto, no Twitter não ocorre desta forma, afinal,
segundo o autor,

                     nossa sociedade não funciona assim, nem todo mundo se conhece e alguns
                     que se destacam, ganham o rótulo de “famosas” [sic] – a principal condição
                     para alguém se tornar uma celebridade é justamente ser mais conhecido do
                     que conhecer. O Twitter funciona dessa maneira ao permitir que existam
                     vínculos unilaterais entre os partipantes. Você pode se ligar [ou seguir,
                     como se diz no Twitter] a cantora Maria Rita (@MROFICIAL), ao Roger do
                     Ultraje (@Roxmo), passando pelo bruxo Paulo Coelho (@paulocoelho) e o
                     cartunista Maurício de Sousa (@mauriciodesousa), sem que eles
                     necessariamente te conheçam. (SPYER, 2009, p.14).


        Esta afirmação dialoga com o que Santaella e Lemos querem dizer a
respeito do foco da rede. O Twitter é bastante diferenciado, pois se foca na
informação que o usuário insere na rede e, como diz Spyer, por ter essa
possibilidade de a informação ser unilateral.
        Raquel Recuero observou algo parecido. Necessariamente os usuários das
redes não precisam manter laços unilaterais (caso do Twitter). Dessa forma, observa
a autora que os laços necessariamente não são recíprocos. “É possível que um ator
A considere B como um melhor amigo (laço forte) e que B, em retorno, não
considere A como uma pessoa tão próxima (laço mais fraco).” Entretanto, essa
reciprocidade não deve ser confundida “como uma troca de forma igualitária, mas
apenas como uma troca de interações e informações.” (RECUERO, 2009, p. 41).
        Para esclarecer bem essa questão, a noção de unilateralidade de que fala
Spyer em nada tem a ver com a força dos laços, pois, no caso no Twitter também é
45



possível que dois usuários com laços sociais fortes não sejam, reciprocamente,
seguidores um do outro. Isso reforça a qualidade destacada pelos autores em
relação ao Twitter, onde é possível que o usuário “Maria Rita (@MROFICIAL)” não
necessite ser seguidor de alguém muito conhecido ou próximo, para que este se
torne seu seguidor. Isso não ocorreria no Orkut e no Facebook, onde para se tornar
“seguidor” de algum usuário necessita-se ser “aceito” por ele, o que o torna, através
dessa ação, seguido e seguidor ao mesmo tempo.


5.3 O TWEET: UMA PÍLULA SOCIAL DE 140 CARACTERES


        Tweet é o nome dado a cada postagem que o usuário insere na rede. Alguns
comunicadores e alguns autores optam por grafar a palavra como ela é pronunciada
em português: “tuíte” ou “tuiteiros”, por exemplo. Neste trabalho, preferiu-se adotar
as palavras na grafia original, como: “Twitter”, “tweet”, “Twitteiros”, entre outros.
        O tweet possui no máximo 140 caracteres e pode acompanhar links para
páginas, fotos ou sites. O conteúdo, portanto, pode ser bastante variado, desde o
compartilhamento de notícias, assuntos de economia, esportes, política, assuntos
particulares, superficiais, privados e humor (FIGURA 7). Alguns usuários utilizam
também como canal de conversação com os seguidores. É possível, por exemplo,
escolher apenas perfis cujo conteúdo esteja restrito aos assuntos informativos, aos
perfis pessoais ou aos de humor. Entretanto, grande parte dos usuários costuma
equilibrar essa seleção de perfis. Todos os tweets postados ou compartilhados, do
usuário que se segue ou do usuário que é seguido, são expostos por meio de uma
página ordenada do mais recente ao mais antigo, chamada timeline.
46




FIGURA 7 - TWEETS VARIADOS
FONTE: MONTAGEM FEITA PELO AUTOR, DE DIVERSOS PERFIS NO TWITTER (2011)


       A imagem (FIGURA 7) ilustra essa diversidade de conteúdos que os
usuários veiculam na rede e que chega ao usuário. Isso também pode estar
relacionado com o tipo de perfil de cada usuário que se segue.
       No entanto, observou-se que um mesmo usuário também pode postar
diferentes tipos de conteúdos no perfil (FIGURA 8). Percebe-se melhor este
conteúdo variado em perfis pessoais, visto que a maior parte das empresas quase
sempre mantém assuntos mais restritos à área de interesse.
47




FIGURA 8 - DIFERENTES TIPOS DE CONTEÚDO, MESMO USUÁRIO
FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@MARCELOTAS” NO TWITTER
(2011)


       Todos os usuários que se escolhe seguir aparecem na página principal,
sendo isso também, uma espécie de filtro das informações que se deseja receber.
Entretanto, ocorre que a expectativa que se tem em relação ao conteúdo de
determinado perfil que se escolheu seguir, pode não ser confirmada. Não apenas
pela variedade de conteúdo que um mesmo usuário pode postar, mas também, por
situações adversas. Um exemplo disso foi o caso de uma postagem equivocada do
perfil do Supremo Tribunal Federal, o STF, em fevereiro deste ano no Twitter. Muito
embora o ocorrido tenha sido um caso de uso irregular da conta por parte de uma
48



funcionária terceirizada, quem optou por seguir essa conta esperava apenas
visualizar notícias relativas ao poder judiciário brasileiro e acabou recebendo um
conteúdo fora desse contexto. A mensagem veiculada era de caráter irônico
envolvendo duas personalidades brasileiras: o Ronaldinho, um jogador de futebol
mundialmente conhecido, e o Senador da República José Sarney.




FIGURA 9 - TWEET APAGADO DO PERFIL DO STF
FONTE: PORTAL R7 (2011)


        Embora o STF tenha apagado do perfil o tweet em questão (FIGURA 9), foi
possível encontrar cópias na Internet em diversos sites de notícias, em outros sites e
até a mensagem compartilhada por outros usuários no próprio Twitter. Com isso,
pode-se reforçar aquilo que Recuero comenta sobre os “rastros” que ficam e que
permitem aos pesquisadores verificar as interações mesmo não estando presentes,
mesmo não sendo atuais e, como neste caso, mesmo apagadas. O caso gerou
grande repercussão no Twitter e nos jornais. O STF acabou se desculpando pelo
ocorrido e solicitou o desligamento da funcionária.
        Percebe-se o poder que essas redes sociais na Internet têm em
proporcionar interações variadas e, pela capacidade de manter vivas e registradas
as relações que o tempo apaga ou faz esquecer. Nesse sentido, Santaella e Lemos
argumentam, a partir de uma obra de Manuel Castells, que as mídias sociais
causam impactos na transformação da linguagem e na mudança cultural das
sociedades, para elas

                     as SMSs são filhas do e-mail, assim como as pílulas de 140 caracteres do
                     Twitter são filhas das SMSs, com a diferença de que agora essas pílulas
                     adquiriram o caráter populacional dos agenciamentos, de que fala DeLanda.
                     Enquanto os e-mails e as SMSs se limitam a uns poucos agenciamentos e
                     apenas fazem uso das redes, as mensagens do Twitter não apenas fazem
                     uso das redes, mas criam redes e são também a própria rede.
                     (SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 17).


        Estes “agenciamentos” de que fala DeLanda são “encontros sociais”,
“conversações entre duas ou mais pessoas”. (DELANDA, 2006 apud SANTAELLA;
49



LEMOS, 2010, p. 15). Os 140 caracteres do Twitter parecem ser o princípio de
quase tudo o que ocorre nas relações mediadas pelo Twitter. É possível notar que
através dessa “pílula” desencadeia uma série de reações capazes de criar,
desmanchar ou manter interações, relações e laços sociais.
        Por isso coube tão bem o termo usado por Santaella e Lemos: pílula. Uma
pílula é um compacto medicinal de drogas ativas, de variadas formas e cores
(PÍLULA, 2011a; PÍLULA, 2011b) e, embora pequena no tamanho, tem forte ação no
corpo humano. Essa é a comparação feita aqui. Uma mensagem curta, de 140
caracteres, que parece ser tão insignificante em toda a dimensão da comunicação,
possui um grande poder por ser criada ou injetada de maneira como que intravenosa
na Internet.
        Algumas funcionalidades também são empregadas não apenas para efeitos
de usabilidade, mas também, ajudam para que um tweet se torne essa pílula social.
As mais importantes serão vistas na sequência.


5.3.1 As Hashtags (#) e os Trending Topics (TTs)


        As hashtags são palavras-chave utilizadas no Twitter, e que são precedidas
pelo símbolo “#”. A função dessas hashtags é identificar um assunto em comum que
esteja sendo postado pelos usuários no Twitter. Assim que postadas, as hashtags
viram indexadores em que, através do link que é criado com a hashtag, também é
possível identificar os outros usuários que estão usando as mesmas expressões,
como numa espécie de busca.
        Ainda há outra característica interessante que parece motivar o uso das
hashtags. Em determinados tweets elas aparecem como um condensador de
sentido. Ou seja, parece que, de fato, o sentido da mensagem se revela no uso da
hashtag e não na mensagem do tweet em si (FIGURA 10).
50




FIGURA 10 - USO DE HASHTAG COMO SENTIDO
FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DE VARIOS PERFIS NO TWITTER (2011)


       É possível perceber que determinados usos, como os exemplos da imagem
(FIGURA 10) atribuem um sentido “puro” ao que o usuário quer passar como
mensagem. No lugar de construir a oração com o pensamento completo, a hashtag
faz o papel de dar sentido ao que foi escrito. Fica mais perceptível quando se olha
para o uso da hashtag “#partiu”, comumente utilizada no Twitter. Neste caso
percebe-se que o emprego da hashtag procurou substituir a tarefa do usuário de
dizer que se desconectou da rede.




FIGURA 11 - APLICAÇÕES DA HASHTAG
FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@HUSOUZA” NO TWITTER (2011)


       É possível perceber ainda, a flexibilidade da hashtag quanto ao uso: como
indexador ou como “puro” sentido. Na imagem (FIGURA 11) a primeira hashtag
“#BOLSONARO” tem um caráter indexador, para que, por meio dela os outros
usuários também encontrem o tweet em questão. A segunda hashtag utilizada
“#1deAbril” assume um caráter de ironia em relação à mensagem como um todo,
51



onde de fato é identificado o sentido do conteúdo. É dizer que, sem a hashtag
“#1deAbril” o conteúdo do tweet poderia ser interpretado como outra informação.
             Com isso, as hashtags mais usadas ficam listadas no canto direito do
Twitter, e são os chamados Trending Topics, os assuntos do momento, ou TTs como
são chamadas pelos usuários do Twitter. Os TTs podem ainda, estar compostos por
nomes próprios além das hashtags. A expressão “Jair Bolsonaro”, por exemplo, por
se tratar de um nome próprio e, por ter sido amplamente utilizada por um período de
tempo, já esteve presente na lista dos TTs. Essa lista pode ser considerada mais um
dos rastros que possibilitam identificar padrões, comportamentos e os assuntos que
se tornaram relevantes, de alguma forma, para os usuários do Twitter.
             Existe uma ferramenta na Internet, o twend.it 10, que registra os TTs desde
maio de 2010. O site mantém uma lista, a “Most Popular Trends List” ou “Lista dos
Trends mais populares”, que ordena de 1 a 10 as hashtags ou nomes próprios que
permaneceram por mais tempo nos TTs. Verificando o site, foi possível identificar
que entre elas, está a hashtag “#Dilma”, em 10º lugar, permanecendo por 7 dias, 19
horas e 28 minutos na lista de TTs mundial. No site, ainda é possível pesquisar
outras hashtags ou nomes próprios que passaram pelos TTs por meio de um campo
de busca.
             Outros eventos constantes que aparecem nos TTs Brasil são as hashtags
que envolvem os artistas Luan Santana e a banda Restart. Segundo reportagem do
site Portal G1 (2011), em junho de 2011 a cantora Rita Lee provocou fãs de Luan
Santana, Justin Bieber e da banda Restart pelo Twitter, simulando uma conversa
onde orientava alguém a trancar a irmã, fã dos artistas, no congelador. Como
resposta os fãs criaram a hashtag “#CalaBocaRitaLee” que alcançou a lista dos TTs
mundial. A discussão girou em torno dos fãs e da própria Rita Lee. Em pesquisa ao
site twend.it, verificou-se que a hashtag “#CalaBocaRitaLee” esteve nos TTs por 01
hora e 15 minutos do dia 25 de junho de 2011, dia em que houve o ocorrido.
             Não apenas celebridades conseguem emplacar alguma hashtag nos TTs do
Twitter. É o caso do usuário “@pedreiro_online”, que por meio de uma brincadeira
com os seguidores, emplacou na lista dos TTs, a hashtag “#cantadacomseriado”
(FIGURA 12).




10
     Cf. <http://twend.it/>.
52




FIGURA 12 - HASHTAG #CANTADACOMSERIADO
FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@PEDREIRO_ONLINE” NO TWITTER
(2011)


        A brincadeira rendeu muito entretenimento aos seguidores do perfil no
Twitter, e apareceu nos TTs Brasil (FIGURA 13). Já não é a primeira vez que este
usuário consegue emplacar uma hashtag nos TTs. O número de seguidores do perfil
é expressivo e isso é, sem dúvida, também, um fator de influência. Entretanto,
emplacar uma hashtag nos TTs significa que, de alguma forma, o assunto foi
relevante aos seguidores que compartilharam a informação, fazendo com que ela
fosse a mais comentada do momento.




FIGURA 13 - TRENDS TOPICS BRASIL
FONTE: BLOG PEDREIRO ONLINE (2011)


        Há também uma lista no próprio Twitter, onde é possível escolher e
visualizar os TTs do momento pelos seguintes filtros: a) Mundial; b) País (Brasil, por
exemplo) e; c) Cidades (São Paulo ou Rio de Janeiro, no caso do Brasil). Porém, o
Twitter não mantém um histórico como no outro site citado. Aparece apenas o que
53



está em destaque no momento e assim que um novo assunto se torna mais
comentado, aparece na lista, substituindo algum outro.


5.3.2 O Retweet (RT) e o Reply


       Retweetar, ou dar RT, tornou-se uma prática constante no Twitter. É comum
encontrar uma informação relevante, ou melhor, que se julga relevante também para
a lista de seguidores e replicá-la, compartilhá-la. Dar RT é nada mais do que
compartilhar uma informação, um link, uma imagem, um site, uma piada, um tweet.
Para dar um RT basta clicar em um botão no rodapé do tweet e ele aparecerá na
timeline do usuário, dessa maneira, aparecendo também para os seguidores. Neste
caso ao dar RT no tweet de alguém, na timeline irá aparecer a imagem do outro
usuário.




FIGURA 14 - TIMELINE COM RETWEET
FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO            AUTOR,    DA   PÁGINA   DO   PERFIL   DE
“@RAQUELRECUERO” NO TWITTER (2011)
54



        Percebe-se na imagem (FIGURA 14) que na timeline do usuário
“@raquelrecuero” houve três retweets. Essa interação é possível identificar, pois as
fotos e nomes dos perfis que aparecem junto ao conteúdo do tweet são:
“@mashsocialmedia”, “@RWW” e “@jafurtado”. Assim, é possível identificar que não
se trata de uma informação de fonte do próprio usuário “@raquelrecuero”, mas sim
compartilhada por ela, a partir dos outros três usuários.
        A outra ferramenta do Twitter é o Reply, que serve para comentar algo de
algum usuário, respondendo ao tweet. Acontece que, ao utilizar a ferramenta Reply
o texto que se escreve sobrepõe a mensagem original que se está comentando. E,
como a intenção é comentar, mas também expor de onde surgiu o comentário, o
Reply é mais utilizado para dar RT (FIGURA 15) e acrescentar um pequeno
comentário.




FIGURA 15 - RT USANDO REPLY COM COMENTÁRIOS
FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@HUSOUZA” NO TWITTER (2011)


        Alguns usuários também utilizam o Reply para que a foto na timeline não
mude. E, portanto, é possível encontrar na rede, RTs sem nenhum comentário,
apenas utilizando o recurso de Reply com o dizer RT para indicar que foi repassada
a informação (FIGURA 16). Outra causa provável, e não descartável, é que os
usuários usem dessa maneira a ferramenta Reply por não saberem usar a RT.




FIGURA 16 - RT USANDO REPLY SEM COMENTÁRIOS
FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@CARLOSTUFVESSON” NO
TWITTER (2011)


        Na    imagem     (FIGURA     16),    é   possível   notar   que   o   usuário
“@CarlosTufvesson” fez referência à uma informação divulgada pelo usuário
“@estadao” porém não acrescentou nenhuma informação. Se a ferramenta utilizada
55



fosse o RT, no lugar do avatar, que é a foto que identifica o usuário, apareceria a
daquele que ele escolheu replicar a informação, neste caso a do Estadão.
        Com isso, pode-se pensar que alguns usuários, não que seja este o caso,
utilizem a ferramenta de Reply para dar o RT, com o objetivo de manter a foto, como
dito. Assim se tem um caso típico de tentativas de reafirmar o “eu” no ciberespaço, a
fim de se tornar relevante também como se julgou o item que será compartilhado.


5.4 RELAÇÕES REATIVAS E LIMITADAS NO TWITTER


        Viu-se, a partir da abordagem de Recuero, o que são reações reativas e
limitadas: aquelas em que o usuário tem a interação com um link por exemplo.
Embora esse não seja o objetivo do trabalho, é importante que se aborde também
essa relação, a fim de se esclarecer a diferença entre elas.
        Ao clicar em um link o usuário será levado para alguma outra página ou
perfil, mas nunca poderá mudar o conteúdo desse link, mudando desta forma o perfil
ou página para onde será direcionado. De maneira que, essas relações reativas e
limitadas não permitem ao usuário uma apropriação, uma adaptação ou uma
atuação ativa na relação social.
        Exemplo disso é o botão “Favorite” ou “Favorito” do Twitter. Ao clicar neste
botão o usuário marca um tweet como favorito, adicionando-o a uma lista, tornando
possível recorrer a ela quando desejar. Uma postagem favorita fica identificada com
um ícone em formato de estrela destacado no rodapé da postagem e, uma pequena
etiqueta, uma tag, no canto superior esquerdo também identificando quando uma
postagem foi marcada como favorita (FIGURA 17). É possível desmarcar qualquer
postagem favorita e, neste caso, também se trata de uma relação reativa e limitada.




FIGURA 17 - TWEET MARCADO COMO FAVORITO
FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@COMUNICADORES” NO TWITTER
(2011)
56



        Entretanto, como dito, essas relações não são o objeto desse trabalho. Por
isso é importante apenas essa rápida oportunidade de conhecê-las e, seguir adiante
com as relações mútuas e construídas no Twitter.


5.5 RELAÇÕES MÚTUAS E CONSTRUÍDAS NO TWITTER


        As relações mútuas e construídas, como se verificou no capítulo anterior,
são as relações onde envolvem um ou mais atores sociais. A partir das diversas
funcionalidades do Twitter é possível perceber estas interações sociais entre os
atores, analisá-las e compará-las com as teorias vistas durante o trabalho.
        A grande busca no uso do Twitter, até mesmo em razão das características
de mobilidade e de fluidez, é ser relevante11. Entende-se, neste trabalho, relevante
como sendo de percepção de grande valor social para algum usuário. Assim, a
informação que o usuário insere no Twitter, tem, a todo o momento, pelas mãos dos
usuários, uma constante busca em ser ou tornar-se relevante. O usuário do Twitter
busca a todo o momento que o tweet seja “favoritado”, “retweetado”, comentado e
que essa relevância se traduza, também, em mais seguidores. É por isso, que será
importante e necessário entender um pouco mais sobre o conceito de capital social.


5.5.1 O capital social no Twitter


        Recuero (2009) diz que o capital social é como os valores percebidos nas
interações sociais entre os atores, e que estão sempre ligados à reciprocidade e
qualidade dos laços sociais. “Desse modo, o capital social é construído nas relações
entre os indivíduos, e diferentes tipos de relações demandam a mobilização de
diferentes formas de capital social.” (ZAGO, 2008).
        Assim, quando se pensa em relevância na Internet, pode-se ter essa
questão de relevância como sendo o capital social buscado no Twitter. Completa
Gabriela Zago dizendo que




11
   Importante, aquilo que sobressai. Aquilo que é, ou torna-se, necessário, indispensável ou de
grande valor. (RELEVANTE, 2011a; RELEVANTE, 2011b).
57


                     quando um indivíduo interage com os demais em uma rede social, ele
                     mobiliza concomitantemente diferentes formas de capital social, e esse
                     capital utilizado em sua relação com os demais resultará na construção de
                     sua reputação frente aos demais indivíduos de uma determinada estrutura
                     social. (ZAGO, 2008, p. 3).


        Com isso, o capital social se traduz em total importância na construção da
reputação, ou seja, em tornar-se relevante na rede social. Pode-se começar a
problematizar essa questão da construção da relevância, iniciando pela questão do
avatar. A escolha dessa representação de um “eu” na Internet pode ser pautada por
questões como: “será que vão gostar de mim nessa foto?”, “será que vou ficar bonito
(a)?”, “será que essa foto fica boa?”. Trata-se de uma busca de espetacularização
do “eu”, de torná-lo relevante e, por fim, comercial. É assim que vê Sibilia (2008). A
autora chama a atenção para o fato de que, nunca antes o “eu” foi tão considerado
um produto, e consequentemente, tão editado, tão manipulado e tão tratado com o
fim de que se consume a tão esperada “compra”. Bauman comenta a questão de
tornar-se, enquanto sujeito, comercial, dizendo que:

                     Os membros da sociedade de consumidores são eles próprios mercadorias
                     de consumo, e é a qualidade de ser uma mercadoria de consumo que os
                     torna membros autênticos dessa sociedade. Tornar-se e continuar sendo
                     uma mercadoria vendável é o mais poderoso motivo de preocupação do
                     consumidor, mesmo que em geral latente e quase nunca consciente.
                     (BAUMAN, 2008, p. 76).


        No Twitter essa relação é constante. Os usuários precisam “consumir” e
tornar-se, ao mesmo tempo, “mercadorias”. No caso, usuários esperam que
seguindo alguém sejam também seguidos por estes, como uma relação comercial,
como uma troca de valores. Sibilia também procura justificar a questão do tornar o
“eu” comercial dizendo que:

                     Tanto na internet quanto fora dela, hoje a capacidade de criação é
                     sistematicamente capturada pelos tentáculos do mercado, que atiçam como
                     nunca essas forças vitais e, ao mesmo tempo, não cessam de transformá-
                     las em mercadorias. (SIBILIA, 2008, p. 10).


        A autora aborda a questão de que antigamente também se criavam essas
representações, não como as de hoje, todavia. Eram comuns os quadros que
retratavam as pessoas nas ruas ou em casa. Entretanto, há uma diferença, aponta
Sibilia, daquele tempo para este, líquido. Existia um distanciamento entre a esfera
pública e privada. (SIBILIA, 2008, p. 267). Hoje o privado também interessa. A
58



autora traz o exemplo do caso do site do Jornal O Globo em que, em meio à
retrospectiva do ano, apareciam registros de “pessoas comuns”. Fotos, assuntos
particulares e privados de “desconhecidos”. Hoje, não existe, como se vê, o
distanciamento entre o público e o privado. Muito pelo contrário, o privado interessa
mais do que antes. É o caso do programa Big Brother Brasil. Afinal, o que justifica
tamanha devoção para com um programa cuja pauta é um “outro comum”? Por que,
de repente, o privado interessa tanto?
        Ora, não se pretende responder essas questões, mas sim, utilizá-las para
apontar o outro problema levantado. Se, de repente o privado, o comum, interessa
tanto, qualquer um pode interessar e para tal, precisa tornar-se relevante. Basta
tornar-se um produto, editar-se a ponto de se tornar atraente, ao ponto de que o
capital social seja apercebido pelos demais e que, assim, vigore a imagem cintilante
na Ágora digital. O que parece é que agora, tudo se reflete nas relações individuais.
Busca-se, mais do que nunca tornar-se um produto na Internet, onde o grande
preço, a grande moeda é o capital social, o valor que será atribuído ao usuário, e,
portanto, a relevância.
        Além da imagem do avatar, o conteúdo do tweet e, ele próprio, são também
formas constantes de busca de relevância através do capital social. Surge assim a
questão do discurso na web. Sibilia (2008) relata a respeito da evolução do papel do
autor-artesão da Antiguidade ao autor-criador da Contemporaneidade. Sibilia retrata
que o autor na Antiguidade se aproxima de um artesão. Era aquele que buscava,
através da técnica, a fiel representação da natureza de maneira a confundir os
sentidos, não importando a visão interior e nem tampouco o que fosse fruto da
criação. Já na Contemporaneidade, emerge um autor que se aproxima mais de um
criador. Dotado de subjetividade ele desempenha o papel da interpretação muito
mais do que da representação fiel.

                     O artesão é aquele que faz alguma coisa, aplicando sua destreza e seu
                     domínio de uma técnica para exercer um ofício, e como resultado desse
                     trabalho ele produz algo. [...] Já o artista não se define necessariamente
                     como aquele que faz alguma coisa, mas como aquele que é alguém. Há
                     uma certa essencialidade no ser artista que vai além da prática de um ofício
                     e que pode inclusive chegar a dispensar a enfadonha tarefa de produzir
                     uma obra. É possível ir ainda mais longe: de acordo com essa definição
                     essencialista, se o sujeito possui essa preciosa essência, algo assim como
                     uma “personalidade artística”, então os principais ingredientes que o
                     definem como tal já estão presentes. Mesmo que a obra ainda não exista,
                     ela permanece de algum modo em latência e tudo indica que será de fato
                     produzida, pois a sua realização nada mais seria do que uma mera
                     consequência quase natural desse ser artista que habita uma tal
59


                     subjetividade. É por isso que o autor é um artista: alguém que é, sem
                     precisar talvez nem mesmo fazer nada para continuar a ser ele próprio
                     assim definido. (SIBILIA, 2008, p. 151).


        Neste contexto, o autor que produz o tweet, se aproxima mais do artista do
que do artesão. Ele é, e expressa toda a subjetividade. O tweet se torna uma obra
de arte, que proporciona a espetacularização do autor. “A obra aparece de repente
como a expressão autêntica da personalidade do autor; como uma réplica ‘material’
de sua constituição psíquica”. E, portanto, com isso “consolidou-se também a figura
do autor – ou seja, aquele que se reivindica como criador de um universo: sua obra.”
E porque reivindica, porque é um autor, existe a noção de propriedade sobre o
objeto criado. “Nesse sentido: toda obra [ou todo tweet] é um produto: uma
mercadoria.” E, por fim, por se tratar de uma mercadoria, o autor também tem o
interesse, na construção e na narrativa do “eu”, de torná-lo relevante com o intuito
de fazê-lo ser consumido. (SIBILIA, 2008, p. 155).


5.5.2 Hostilidades em rede


        As interações dos atores sociais nem sempre constroem os laços e as
relações sociais. Elas também podem ser conflituosas. Assim, faz-se necessário
mostrar e identificar em que condições ocorrem essas relações conflituosas.
        De certa forma e, por uma olhar histórico, o ambiente virtual “livre” de regras,
“livre” até mesmo da identificação real do usuário, onde todos podem, agora, fazer-
se ouvir, contrapôs-se aos imperiosos meios de comunicação de massa como, por
exemplo, a tevê, onde o usuário jamais conseguiria fazer-se ouvido sem que antes
passasse pelo crivo da linha editorial deste grande meio. Claro que também existe a
participação dos usuários nestes grandes meios, entretanto, como dito, tudo
depende de uma rigorosa avaliação do meio quanto à relevância ou não da
participação do indivíduo ou do conteúdo por ele produzido.
        É comum nos dias de hoje, fazer parte da programação da tevê algum
programa ou algum quadro destinado a assuntos de Internet. Não estaria, de
repente, tornando-se relevante a Internet até mesmo para os espectadores da tevê?
Não fosse positiva a resposta, esses quadros destinados aos assuntos de Internet
nos programas de tevê, jamais teriam passado pelo crivo da linha editorial e jamais
estariam compondo os novos padrões de programação da tevê. Em sua maioria, são
60



quadros que mostram os vídeos mais visitados e que fizeram sucesso na Internet.
Exemplos destes são: o “Programa Domingo Legal”, da emissora SBT, com o
quadro “TOP 10 da Internet” e, o “Programa da Eliana”, da mesma emissora, com o
quadro “Famosos da Internet”. Já o programa “Legendários”, da Rede Record,
inovou nesse sentido de se fidelizar ao público da Internet e, paralelamente à
programação que acontece ao vivo na tevê exibe outro programa, na Internet, o
“Legendários na WEB”. No site oficial do programa Legendários, a seguinte
chamada explica a ação:

                           Outro grande diferencial do Legendários é a interação com o telespectador
                           e internautas, que podem acompanhar o programa e participar pela internet
                           através do Legendários na Web, um outro programa, apresentado por Elcio
                           Coronato, com conteúdo exclusivo para a web, destinado a quem quer ter
                           uma “experiência completa”. (LEGENDÁRIOS, 2011).


            Toda essa visibilidade e relevância atuais da Internet dão ao usuário a
sensação de que é possível falar e fazer de um tudo na Internet, sem seguir
algumas regras sociais de convívio. Essa discussão a respeito da liberdade do que
se opina e dos impactos negativos que isso gera é hoje grande foco de debates,
palestras, e gera cada vez mais buzz12 nas redes e nos grandes veículos.
            As diferenças tão acentuadas entre o que, e como pensam os usuários,
entre as crenças, entre as ideologias, entre as preferências culturais e intelectuais
também são razões pelas quais motivam esse tipo de pensamento: de que se pode
falar e fazer de um tudo na Internet.
            A Internet é um espaço fluido, volátil e efêmero. A falta de punição pelos
crimes ocasionados na rede podem intensificar e incentivar atitudes de hostilidade e
preconceito. Não há como descartar que, no momento em que compartilham a
informação, os usuários podem estar eufóricos e, isso já é motivo suficiente para
que extrapolem determinadas regras de convívio social. Por vezes, esse excesso
parece se tornar regra. São comentários pejorativos, uso de palavras ofensivas e
acusações, muitas vezes sem fundamento, envolvendo empresas e pessoas.
            Um desses casos ganhou repercussão internacional. Após a divulgação do
resultado das eleições presidenciais no Brasil, em 31 de outubro de 2010, a
estudante de direito Mayara Petruso inseriu no perfil do Twitter (FIGURA 18),



12
     Buzz significa burburinho, barulho. Algo que surge e se espalha facilmente, contagiando pessoas.
61



mensagens ofensivas contra os nordestinos, atribuindo a eles a vitória da
presidente.




FIGURA 18 - TWEET DE MAYARA PETRUSO
FONTE: GOOGLE IMAGENS (2011)


       A mensagem tinha apenas 71 caracteres, menos do que os 140 permitidos
pela plataforma Twitter e, ainda assim, causou um buzz geral nas redes e nos
veículos de comunicação de massa. O caso repercutiu, ainda, internacionalmente e
foi matéria do jornal britânico The Telegraph (FIGURA 19).




FIGURA 19 - REPERCUSSÃO INTERNACIONAL DO CASO MAYARA
FONTE: GOOGLE IMAGENS (2011)
62




         Segundo informações no site da Procuradoria Geral da República, a
denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal contra a estudante de direito,
Mayara Petruso, foi aceita pela Justiça Federal de São Paulo que abriu processo
pelo crime de racismo contra Mayara, em 4 de maio de 2011. O ato foi classificado
pelo Ministério Público Federal como de intolerância. A notícia no site informou ainda
que o crime de racismo, artigo 20 da lei n. 7.716/89, prevê pena de 1 a 3 anos de
prisão e multa. Porém, como houve o uso de um meio de comunicação social a pena
pode ser agravada de 2 a 5 anos de prisão e multa, conforme o 2º parágrafo do
mesmo artigo. (JUSTIÇA, 2011).
         Após, seria a vez de outra usuária do Twitter, Amanda Regis, ficar conhecida
por também postar na rede conteúdo hostil contra os nordestinos, desta vez
motivada por assuntos de futebol. (FIGURA 20).




FIGURA 20 - TWEET DE AMANDA REGIS
FONTE: GOOGLE IMAGENS (2011)


         O caso de Amanda Regis ganhou repercussão nacional. Logo em seguida
ao ocorrido a usuária se desculpou utilizando o próprio perfil, após ter excluído as
postagens com o conteúdo hostil da rede.
         Indicadores da SaferNet Brasil13 apontam que no primeiro semestre de
2011, em comparação com o mesmo período do ano de 2010, as denúncias de
conteúdos com intolerância religiosa subiram 18,5%; de xenofobia 33,1% e; de

13
  A SaferNet Brasil é uma associação civil de direito privado, fundada em 2005. Inicialmente a
SeferNet foi criada para atuar no combate de crimes de pornografia infantil na Internet, hoje, ela atua
com o objetivo de transformar a Internet num ambiente ético e responsável. Os indicadores da
SaferNet Brasil estão disponíveis para consulta no site <http://www.safernet.org.br/site/indicadores>.
63



homofobia 36,4%. Em contrapartida, as denúncias de conteúdos de racismo tiveram
queda de 36,8%. Tais dados revelam-se preocupantes. Essas hostilidades em rede
parecem ser cada vez mais frequentes.
       A onda de hostilidades contra os nordestinos, em que Mayara Petruso foi
apontada como pivô, resultou em 4.002 denúncias na SaferNet Brasil no período de
01 a 04 de novembro de 2010. Conta o presidente da SaferNet Brasil, Tiago
Tavares, que na época foi preparado um relatório contendo 1.037 perfis do Twitter e
enviado ao Ministério Público Federal. Após comunicar também à imprensa, cessou-
se imediatamente a onda que durava mais de uma semana. (SAFERNET, 2011).
       A segunda onda aconteceu entre 17 e 19 de novembro de 2010. Tornou-se
outro caso polêmico o do perfil “@HomofobiaSIM”. O perfil também foi protagonista
de várias polêmicas envolvendo hostilidades contra homoafetivos (FIGURA 21). O
resultado de denúncias apuradas pela SaferNet Brasil em relação ao ocorrido foi de
um total de 8.574.




FIGURA 21 - PERFIL @HOMOFOBIASIM, TWEET SOBRE GAYS
FONTE: GOOGLE IMAGENS (2011)


       O mesmo perfil ainda, também ficou conhecido por incitar a violência contra
as mulheres (FIGURA 22). Outros perfis também foram identificados nos relatórios
da SaferNet Brasil como, por exemplo, o “@estuproSIM”, já cancelado.
64




FIGURA 22 - PERFIL @HOMOFOBIASIM, TWEET SOBRE MULHERES
FONTE: GOOGLE IMAGENS (2001)


        Em todos os casos apresentados, a resposta não demorou a aparecer nos
Trending Topics. Hashtags criadas por usuários como forma de protesto, como:
“#OrgulhodeSerNodestino” e “#HomofobiaNAO”, dividiram o espaço com as
hostilidades na rede.
        Como se verificou, a Internet é um palco, uma vitrine de comportamentos
sociais, muitas vezes escondidos. Em meio ao social “não virtual”, é mais difícil,
quase impossível, encontrar indivíduos com posições e ideologias, como as vistas
nos exemplos, tão dispostos a compartilhá-las abertamente. Saberiam que, em meio
à sociedade seriam rapidamente identificados, repreendidos, punidos ou até presos.
Isso, portanto, não significa que o indivíduo não pense assim, que não carregue
consigo ideias de preconceito, de ódio, de racismo ou de homofobia, mas tão e
somente que, em sociedade ele parece procurar compartilhar as informações de
maneira, muitas vezes, mais cautelosa, menos abertamente.
        Ao tempo em que, verificou-se nos casos Mayara Petruso e Amanda Regis
uma forma de expressão da opinião, das ideias, do momento, ainda que
preconceituosos, nota-se que no caso do perfil “@HomofobiaSIM” há uma clara
intensão em agredir e provocar. Após o ocorrido e, ao verificarem o erro cometido,
Mayara Petruso e Amanda Regis se desculparam utilizando o mesmo canal. O
mesmo não ocorreu no caso do outro perfil que, muito pelo contrário, intensificou os
ataques. Hoje, no perfil de Amanda Regis no Twitter encontra-se a seguinte
mensagem no campo destinado para as informações do usuário: “perdão !”. Um dos
65



únicos três tweets restantes no perfil diz: “queria pedir desculpas a todos que se
sentiram mal com o’que eu postei a [sic] dias atrás aqui no Twitter.” (FIGURA 23).




FIGURA 23 - PEDIDO DE DESCULPAS DE AMANDA REGIS
FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@_AMANDAREGIS” NO TWITTER
(2011)


        Por fim, percebeu-se ainda, no caso do perfil “@HomofobiaSIM”, a tentativa
de esconder a identidade social “não virtual”, ou seja, daquele indivíduo social que
fala por traz do perfil no Twitter, criando outra identidade, indeterminada. Este caso,
ainda, parece extrapolar o limite da expressão das ideias e opiniões, pois produz
informação sem fundamentos como: “acabe com AIDS, mate um gay” e “Se você
não bate na sua mulher, ela não irá te levar a sério ...”. Sabe-se que, a AIDS não é
uma doença exclusiva daqueles que se identificam homoafetivos e, tampouco,
somente as esposas que apanham dos maridos os “levam a sério”, entre outras
questões mais importantes que estes comentários podem suscitar.
66



6 CONCLUSÕES


        Ao longo deste trabalho buscou-se contextualizar tanto o homem quanto as
relações destes na contemporaneidade, mais especificamente no Twitter, um dos
sites de redes sociais na Internet. A atual situação vista por intermédio da teoria e
dos exemplos coletados permite dizer que, sem dúvida, esta sociedade é uma aldeia
global como previu McLuhan.
        A sociedade contemporânea está toda conectada como uma pequena
aldeia, porém a escala agora é maior. O homem multiplicou os laços, as relações, as
conexões e as comunicações por todo o globo e, isso é irreversível. O que acontece,
ou aconteceu, no Egito, fez e fará uma influência tremenda, quer se saiba ou não,
quer se sinta ou não, nos brasileiros, por exemplo. A troca de informações é
constantemente proporcionada à distância de apenas um clique.
        É assim que, também, faz perpetuar a frase “o meio é a mensagem” onde,
antes mesmo de interessar o conteúdo, interessa o meio. Os meios que trazem
essas novas possibilidades são considerados como extensões do indivíduo. E o
indivíduo, por sua vez, se torna hipnotizado por essas extensões e, assim como
Narciso pode se envolver e não sentir o impacto de todo o processo que o rodeia.
Ele, o indivíduo contemporâneo, sede aos encantos dessa possibilidade de estar
conectado a todo o tempo, falando com todos em todos os lugares de uma maneira
fácil, acessível e, muitas vezes barata. À medida que interage com a rede, o
indivíduo reconfigura a identidade, tornando-se um corpo virtual que será medido
pela conectividade. O que o convence é essa espetacularização do “eu” onde,
finalmente, ele pode se fazer presente, ouvido, relevante.
        Viu-se que, na Internet, o tempo e o espaço não são os mesmos. Tudo é
virtual, mas tudo é também real. O homem, neste sentido, é também real e virtual no
ciberespaço. O ciberespaço constitui-se como um espaço de dimensão social. Ele
representa uma nova chance para o homem pós-moderno, embora não seja ele
próprio que se encontre lá, mas uma representação, um outro “eu”, uma outra
identidade. Essas identidades, por sua vez, são líquidas. Podem modificar-se a todo
o momento, e também, como se observou, isso não é bom nem ruim, trata-se
apenas de uma “dualidade de identidades”.
        As interações dos atores, os laços sociais que criam nas redes,
permanecem nela, possibilitando o estudo futuro, e como também foi observado, os
67



laços não são necessariamente de carinho, amor, mas, também, se constituem de
relações conflituosas.
        É nessa sociedade pós-moderna, conectada, onde, pelas razões que foram
expostas, emerge um homem preocupado com si mesmo. Um homem que valoriza o
“eu” como arte, como produto, como mercadoria, como informação. O que este novo
homem busca é tornar-se um espetáculo, um show. O que se busca é ser relevante
no ambiente virtual. No Twitter isso corresponde a ganhar mais seguidores. Não é
apenas a liberdade no ciberespaço que seduz o indivíduo pós-moderno, mas
também a ideia de autopromoção, de tornar-se mercadoria e de ser consumido.
Porque agora ele pode, e agora ele tem ferramentas e caminhos para tal. Este
homem constitui-se, para este fim, das identidades líquidas e fluidas, onde a
construção do “eu” na Internet é uma constante tarefa que muda a todo o momento
e que busca, cada vez mais, essa relevância através de capital social percebido
pelos outros usuários da rede. Ele tem a sensação de liberdade que se confunde
com os limites de uma convivência justa, harmoniosa e pacífica. O que pode levar a
troca de hostilidades na rede, discursos ameaçadores, acusações e críticas, em sua
maioria, efêmeras, apenas opiniões, nem sempre construtivas. É inevitável dizer que
tais relações também ocorrem fora da Internet, entretanto, a sensação de liberdade
que esse meio proporciona, agravado pela possibilidade de anonimato e pela falta
de punição, potencializam e incentivam atitudes como estas de hostilidades e
preconceitos.
        E é neste sentido que o presente trabalho se encontra com o título. Diante
das hostilidades em rede, é como se houvesse a necessidade de firewalls reais
funcionando constantemente no ciberespaço. O firewall, ou “muro anti-chamas”, é
um dispositivo de uma rede de computadores que tem como função bloquear
ameaças, aplicando regras que controlam a entrada ou saída de informações. O
firewall faz parte de uma política de segurança aplicada a um determinado
computador da rede. Então, pensando de modo alegórico, no ciberespaço os
firewalls agiriam de modo a coibir não os fluxos de entrada e saída de informações,
os tweets, mas, apenas a maneira como as hostilidades nos tweets, essas “chamas”
que geram buzz na rede, afetariam os indivíduos. Veja, é importante ressaltar que o
uso figurativo da palavra firewall em nada se assemelha à aplicação de regras que
controlem ou bloqueiem a entrada ou saída de informações. De maneira tempestiva,
cumpre-se deixar claro que, seria excessivo e arbitrário afirmar isto do ponto de vista
68



da liberdade de expressão. O termo que é empregado aqui, assim é feito em razão
da tradução para o português: “anti-chamas”, sendo que por “chamas” entende-se
como sendo o buzz que é causado nas redes pelas interações, relações ou laços
sociais, como já visto. Até porque, e para encerrar a questão, os firewalls não
apartam o usuário do conhecimento sobre as ameaças, faz apenas com que estes
não sejam impactados negativamente por elas.
        Assim,   este   trabalho    busca,   além   de   contextualizar   este   homem
contemporâneo e as relações destes, provocar uma reflexão a respeito desse novo
tempo e das consequências disso no processo de comunicação. Aqui ainda, não
coube resultar nenhum julgamento de valor e nenhuma constatação definitiva quanto
a essas condições pós-modernas ou líquidas. Entretanto, como se observou com
Bauman, com ou sem tecnologia existem dois fatores que dão forma à vida humana:
o destino e o caráter. O destino compreende por ser aquilo que não se pode
influenciar, o que acontece com o indivíduo contemporâneo e que não é causado
por ele. Já o caráter é a manifestação das escolhas dos indivíduos. O destino
sempre dá as opções, contudo, a escolha entre quais opções seguir dependerá
única e exclusivamente do caráter. Fica, por fim, para o leitor deste trabalho, e como
objetivo final, desenvolver um ato de filosofar e buscar novos conhecimentos a partir
daquilo que foi apresentado aqui.
69



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11/10/2011.

HOSTILIDADES EM REDE: FIREWALLS REAIS PARA O CIBERESPAÇO

  • 1.
    FACULDADE INTERNACIONAL DECURITIBA – FACINTER Curso de Comunicação Social – Publicidade, Propaganda e Marketing HUMBERTO DA CUNHA ALVES DE SOUZA HOSTILIDADES EM REDE: FIREWALLS REAIS PARA O CIBERESPAÇO CURITIBA 2011
  • 2.
    HUMBERTO DA CUNHAALVES DE SOUZA HOSTILIDADES EM REDE: FIREWALLS REAIS PARA O CIBERESPAÇO Monografia apresentada como requisito para a obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Publicidade, Propaganda e Marketing à Faculdade Internacional de Curitiba - FACINTER. Orientadora: Profª Ms. Diana Macedo. CURITIBA 2011
  • 3.
    Aos meus paise minha irmã, por todo o respeito e dedicação, e por todo o carinho e amor.
  • 4.
    AGRADECIMENTOS Este é um momento único e especial para mim. São muitas as pessoas a agradecer, e gostaria de fazê-lo a todos aqueles que contribuíram para a realização deste trabalho. É por isso que, não posso deixar de registrar nestas linhas, em forma de agradecimentos, as pessoas que sinto que fizeram parte da construção desse belo caminho que desejo continuar trilhando. Começo agradecendo, de maneira única, ao meu pai Benedito e à minha mãe Benedita, por todo o amor, carinho, dedicação e paz que trouxeram à minha criação e formação acadêmica. Por estarem sempre presentes, ensinando-me, pelo exemplo, a ser honrado e construtivo. À minha irmã Evelin, pelo amor, carinho e respeito. Por entender meus momentos de nervosismo, me ensinando a ser um irmão melhor a cada dia. Pelas contribuições com livros e artigos que enriqueceram este trabalho. Desejo agradecer, de maneira especial, à minha orientadora, Profa. Ms. Diana Gualberto de Macedo, pelo acompanhamento e orientação. Inspiro-me nas palavras de Dominique Wolton, para dizer, como ele, que sem a figura do mestre não é possível saber que informação procurar e que uso fazer dela. Um aluno não é nada distante do conhecimento que nasce com a participação de mestres como esta, que se dedicam constantemente na construção e divisão do saber. Aos autores, por compartilharem e deixarem registrado o conhecimento e, principalmente, por dialogaram entre si muito antes que eu encontrasse um diálogo entre eles nas linhas deste trabalho. Ao colegiado do Curso de Graduação em Comunicação Social, pelos esforços, dedicação e pelos ensinamentos durante as aulas e até mesmo fora delas. À Mariana, colaboradora da coordenação do curso por ser sempre prestativa. Aos colegas de graduação, pelas trocas positivas de ideias e pelos momentos divertidos. Também gostaria de agradecer a banca avaliadora, que fará parte da concretização deste trabalho. Aos meus parentes, familiares e amigos, que souberam compreender minha ausência do convívio social, que tiveram paciência e agora irão desfrutar deste momento junto comigo.
  • 5.
    Em um setorem que tudo acontece muito rápido, e de maneira tão padronizada, preservar um lugar para uma reflexão teórica e um pouco mais de distância crítica é fundamental. Esta é a função da pesquisa que, por definição, consiste em ir além do que é evidente e visível, para pensar de outra maneira e produzir conhecimento. Dominique Wolton
  • 6.
    RESUMO É notória, inegávele irreversível a dimensão que estão ganhando as novas tecnologias. Estas tem se tornado, cada vez mais, não apenas extensões do homem no processo de comunicação, como também, muitas vezes, o impulso decisivo para que o homem “comum” ganhe dimensões públicas. Redes sociais na Internet se tornam populares por isso, e o Twitter é um exemplo vigorante dessa realidade. Contudo, apesar dessa grande revolução, pouco se explora o comportamento dos usuários nas redes sociais. É isto que pretende o presente trabalho, propor uma reflexão a respeito do homem e da sociedade contemporânea, e como se dá a comunicação neste meio tecnológico. Em princípio foram reunidos os conceitos sobre o tema e em seguida, analisados e identificados através das inserções de alguns usuários no Twitter. Com isso, foi possível perceber que essa sociedade contemporânea impacta diretamente no modo como alguns usuários se comportam, sentindo-se livres, ou praticamente livres, para inserções de hostilidade na rede. Palavras-chave: ciberespaço; comunicação; identidade; rede social; Twitter.
  • 7.
    ABSTRACT It is notorious,undeniable and irreversible the extent that new technologies are gaining. These have become, more and more, not just extensions of man in the communication process, as also, often, the decisive impetus for the “common” man gain public dimensions. Social networking sites have become very popular, and Twitter is an invigorating example of this reality. However, despite this great revolution, little is explored from the user’s behavior on social networking sites. This is what this paper intends, to propose a reflection about man and the contemporary society, and how communication is in this technological environment. In principle the concepts were gathered on the subject and then analyzed and identified through some insertions of Twitter users. Thus, it was revealed that contemporary society has a direct impact on how some users behave, feeling free, or almost free, for insertions of hostility on the network. Keywords: cyberspace; communication; identity; social networking; Twitter.
  • 8.
    LISTA DE FIGURAS FIGURA1 - PRIMEIRO ESBOÇO DO TWTTR ......................................................... 39 FIGURA 2 - SITE TWTTR ......................................................................................... 40 FIGURA 3 - PRIMEIRO TWEET DA HISTÓRIA........................................................ 41 FIGURA 4 - PRIMEIROS TWEETS GERADOS AUTOMATICAMENTE ................... 41 FIGURA 5 - VERSÃO ATUAL DO TWITTER ............................................................ 42 FIGURA 6 - PRIMEIRO TWEET DE OPRAH WINFREY .......................................... 43 FIGURA 7 - TWEETS VARIADOS ............................................................................ 46 FIGURA 8 - DIFERENTES TIPOS DE CONTEÚDO, MESMO USUÁRIO ................ 47 FIGURA 9 - TWEET APAGADO DO PERFIL DO STF ............................................. 48 FIGURA 10 - USO DE HASHTAG COMO SENTIDO................................................ 50 FIGURA 11 - APLICAÇÕES DA HASHTAG.............................................................. 50 FIGURA 12 - HASHTAG #CANTADACOMSERIADO ............................................... 52 FIGURA 13 - TRENDS TOPICS BRASIL .................................................................. 52 FIGURA 14 - TIMELINE COM RETWEET ................................................................ 53 FIGURA 15 - RT USANDO REPLY COM COMENTÁRIOS ...................................... 54 FIGURA 16 - RT USANDO REPLY SEM COMENTÁRIOS....................................... 54 FIGURA 17 - TWEET MARCADO COMO FAVORITO ............................................. 55 FIGURA 18 - TWEET DE MAYARA PETRUSO ........................................................ 61 FIGURA 19 - REPERCUSSÃO INTERNACIONAL DO CASO MAYARA .................. 61 FIGURA 20 - TWEET DE AMANDA REGIS .............................................................. 62 FIGURA 21 - PERFIL @HOMOFOBIASIM, TWEET SOBRE GAYS ........................ 63 FIGURA 22 - PERFIL @HOMOFOBIASIM, TWEET SOBRE MULHERES .............. 64 FIGURA 23 - PEDIDO DE DESCULPAS DE AMANDA REGIS ................................ 65
  • 9.
    SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO .........................................................................................................9 2 A SOCIEDADE DE MCLUHAN ............................................................................. 12 2.1 A IDEIA DE ALDEIA GLOBAL............................................................................. 12 2.2 O MEIO É A MENSAGEM ................................................................................... 13 2.3 O CORPO, O ESPAÇO E O TEMPO .................................................................. 16 2.4 A SOCIEDADE INDIVIDUALIZADA .................................................................... 20 2.4.1 A Condição Pós-Moderna ................................................................................ 21 3 O CIBERESPAÇO ................................................................................................. 28 3.1 O QUE É O CIBERESPAÇO ............................................................................... 28 3.2 REDES SOCIAIS NA INTERNET ........................................................................ 30 3.2.1 Atores Sociais .................................................................................................. 30 3.2.1.1 Identidades líquidas....................................................................................... 31 3.2.2 Conexões ......................................................................................................... 34 4 METODOLOGIA .................................................................................................... 36 5 O TWITTER............................................................................................................ 38 5.1 DO TWTTR AO TWITTER .................................................................................. 38 5.2 O QUE É O TWITTER? ....................................................................................... 42 5.3 O TWEET: UMA PÍLULA SOCIAL DE 140 CARACTERES ................................ 45 5.3.1 As Hashtags (#) e os Trending Topics (TTs) .................................................... 49 5.3.2 O Retweet (RT) e o Reply ................................................................................ 53 5.4 RELAÇÕES REATIVAS E LIMITADAS NO TWITTER ........................................ 55 5.5 RELAÇÕES MÚTUAS E CONSTRUÍDAS NO TWITTER ................................... 56 5.5.1 O capital social no Twitter ................................................................................ 56 5.5.2 Hostilidades em rede ........................................................................................ 59 6 CONCLUSÕES ...................................................................................................... 66 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 69
  • 10.
    9 1 INTRODUÇÃO A Internet está cada vez mais presente no cotidiano do indivíduo contemporâneo. Segundo reportagem da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico, a Câmara-e.net, o Brasil já é a sétima maior audiência de Internet do mundo com 44 milhões de usuários. (BRASIL, 2011a). O computador é um objeto cada vez mais desejável pela maioria das pessoas. A venda de computadores no 1º trimestre deste ano apontou um crescimento de 22% em comparação com o 1º trimestre de 2010, é o que diz o estudo da IDC. (CRESCE, 2011). Até mesmo aqueles que não possuem computador, utilizam regularmente a Internet, segundo pesquisa feita pela Ipsos Brasil. (ACESSO, 2011). A conectividade também está nos celulares, cujo crescimento se dá a cada ano. De acordo com as estatísticas divulgadas no site da Teleco – Inteligência em Telecomunicações, o total de celulares no Brasil, ao final de Setembro de 2011, ultrapassou o total da população do país. O número apurado indica um total de 227 milhões de celulares, o que corresponde a 116,51 celulares para cada 100 habitantes. (ESTATÍSTICAS, 2011). Neste contexto, de conexão e mobilidade, surgem as redes sociais na Internet que se tornaram relevantes para o processo de comunicação. Segundo pesquisa feita pela empresa GfK, o uso de redes sociais representam 39% do uso de Internet que é feito pelos Brasileiros (BRASILEIRO, 2011). As redes sociais na Internet têm atingido cada vez mais pessoas e tornado a comunicação mais instantânea e mais móvel. Através delas, o homem contemporâneo ganhou dimensões antes não vistas, tendo a possibilidade de ser visto e ouvido além das fronteiras do tempo e do espaço físico. Assim, as redes sociais na Internet podem ser consideradas extensões do homem. De maneira semelhante ao ocorrido com outras tecnologias, emerge uma nova linguagem e, como consequência, uma nova forma do ser humano se comportar e se comunicar. Entretanto, alguns destes novos comportamentos podem ultrapassar regras sociais de convívio como, por exemplo, a postagem de conteúdo hostil ou preconceituoso na rede. De toda sorte, vale ressaltar que esses comportamentos também ocorrem fora da Internet, ou seja, a Internet também é mais uma vitrine de comportamentos sociais.
  • 11.
    10 Deste modo, a proposta do presente trabalho é buscar um diálogo entre autores que estudam o tema como: Zygmunt Bauman, Paula Sibilia, Marshall McLuhan, Marilena Chauí, Lucia Santaella, Pierre Lévy, Dominique Wolton, Raquel Recuero, entre outros, com o intuito de criar um rico espaço de debate nas linhas deste trabalho. A questão que motiva a realização deste trabalho e, portanto, o problema de pesquisa é: por que ocorrem inserções de conteúdo hostil ou preconceituoso no Twitter? Como refletir acerca dessas inserções, a partir de uma sociedade líquida e contemporânea? Que características da sociedade contemporânea ajudam para que esse tipo de conteúdo seja inserido na rede? Uma das hipóteses é que estes comportamentos de hostilidade se dão em razão da percepção do usuário com relação à liberdade que lhe é dada no ciberespaço. Outra hipótese é a característica evanescente dessas relações, e, ainda, características de uma sociedade globalizada e líquida. Diante desse novo tempo de constantes evoluções tecnológicas, e desse novo homem contemporâneo, conectado, o presente trabalho mostra-se importante e relevante ao campo da comunicação, especialmente sobre o crescimento dessas hostilidades e sobre a linguagem que está circulando na Internet. O objetivo geral deste trabalho, portanto, é convidar o leitor a refletir a respeito do tema. Para tanto, como desdobramento desse objetivo geral, faz-se necessária uma contextualização da sociedade contemporânea e líquida e, do ciberespaço e das redes sociais na Internet para então chegar ao objeto do trabalho: o Twitter e as inserções de hostilidade. O trabalho está dividido em cinco capítulos além da introdução. O segundo discorre sobre a ideia de sociedade contemporânea. Há uma introdução a respeito dos conceitos de McLuhan sobre “aldeia global” e “o meio é a mensagem”, passando pela Fenomenologia da Percepção de Merleau-Ponty, até chegar sobre a sociedade individualizada e fluida. A partir das ideias do corpo, do espaço e do tempo, e a relação entre a acronia e a atopia do segundo capítulo, é que se discute no terceiro capítulo a questão do ciberespaço e das redes sociais na Internet. O capítulo quatro aborda a metodologia utilizada neste trabalho. O trabalho se concentra na revisão bibliográfica das obras de Bauman (2005, 2008, 2011), McLuhan (2005), Wolton (2007), Santos (2006), Chauí (2010), Sibilia (2002, 2008),
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    11 Recuero (2009) eSantaella e Lemos (2010) e, na pesquisa exploratória com a análise de discursos através do Twitter. O capítulo cinco é destinado ao estudo do objeto propriamente dito, ou seja, do Twitter. Neste capítulo são identificadas as características de origem, as ferramentas disponíveis no Twitter e é feita uma revisão da teoria encontrada, mostrando na prática como ocorrem as inserções de conteúdo hostil e preconceituoso na rede social da Internet. É neste capítulo também, que é abordado o conceito de capital social no Twitter e sobre a necessidade do indivíduo de tornar- se relevante. No sexto e último capítulo, por fim, constam as conclusões a respeito do que se procurou estudar com esta pesquisa.
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    12 2 A SOCIEDADEDE MCLUHAN 2.1 A IDEIA DE ALDEIA GLOBAL Marshall McLuhan (2005) previu uma sociedade global, onde as tecnologias permitiriam aos indivíduos transpor o espaço e o tempo e se comunicar globalmente com as mesmas facilidades de uma aldeia. Para ele o mundo estaria interligado por completo, aproximando tribos, sociedades, proporcionando trocas culturais de maneira intensa, fazendo circular informação de um ponto a outro e, ampliando a capacidade de alcance destas de tal modo que transcendessem as barreiras do espaço e do tempo. Além dessas possibilidades, para McLuhan os meios de comunicação podem ser considerados como “extensões do homem”. Assim, o rádio pode ser considerado como uma extensão da fala, a televisão como uma extensão dos olhos e, o computador como uma extensão do cérebro. Muito embora McLuhan tivesse elegido a televisão como paradigma da aldeia global, estes conceitos ganharam ainda mais legitimidade a partir do advento da Internet, que deu à sociedade contemporânea o retrato exato conceituado por ele. Raquel Recuero diz que: O advento da Internet trouxe diversas mudanças para a sociedade. [...] A mais significativa [...] é a possibilidade de expressão e sociabilização através das ferramentas de comunicação mediada por computador (CMC). (RECUERO, 2009, p. 24). E, embora se possa imaginar que essas possibilidades de expressão e sociabilização já eram possíveis desde a comunicação mais primitiva, e não apenas via Internet, o que pode tornar-se mais significativo ainda para este advento é a capacidade de dar ao indivíduo uma dimensão pública. Uma capacidade de transpor as limitações de espaço e tempo de que fala Dominique Wolton (2007) e Marilena Chauí (2010), e, no processo de comunicação fortalecer as redes sociais, as conexões e as atuações nelas. Para que se entenda melhor o porquê esta é uma sociedade de McLuhan, uma aldeia global, que cede aos encantos dos meios, é fundamental entender mais sobre a célebre do autor: “o meio é a mensagem”. É o que será apresentado a seguir.
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    13 2.2 O MEIOÉ A MENSAGEM Na sociedade primitiva partia-se do diálogo face a face, por meio das linguagens verbais ou não verbais, ainda que primitivas, para que ocorresse um evento de comunicação. Com o surgimento da imprensa, dos livros e do jornal, o indivíduo foi adquirindo uma capacidade imersiva de ler informações, sem que necessitasse da intervenção em diálogo do outro. Isto quer dizer sem a comunicação face a face como o outro, pois, pode-se entender que por meio da leitura o autor também dialoga com o leitor. A sociedade passou, desde então, a adquirir padrões de comunicação cada vez mais “individuais”. A informação que era falada, e encontrava legitimidade neste meio, passa então a ser encontrada também nos novos meios. Primeiro a imprensa, depois o rádio, em seguida a televisão e, hoje, a Internet. Assim, faz-se necessário reforçar a frase em que Marshall McLuhan diz que, cada meio influencia na comunicação humana, a tal ponto que, o meio seja, ele próprio, uma informação, uma mensagem. Nenhum exemplo mostra-se mais vigorante dessa realidade do que o advento da Televisão. A cada nova edição do Jornal Nacional1, por exemplo, tem-se das informações que são transmitidas pelo programa uma verdade absoluta, em razão da legitimidade atribuída pelo indivíduo, ou pelos indivíduos, ao meio. É comum observar que alguns indivíduos atribuem total legitimidade ao meio quando compartilham uma informação vista no Jornal Nacional. É comum, portanto, ouvirmos alguém dizer: “eu ouvi isso no Jornal Nacional!”. Há assim uma categórica atribuição de valor, de verdade absoluta e inquestionável. A mesma informação transmitida oralmente, de maneira impressa, via televisão ou Internet, teriam caráteres diferentes e seriam justificadas e compartilhadas diferentemente também, em razão do meio em que cada qual fora veiculada. Sobre isto, ainda, McLuhan atribui essa força do meio em razão de o conteúdo ser, muito antes do que uma mensagem, outro meio, como ele mesmo revela: “O efeito de um meio se torna mais forte e intenso justamente porque o ‘conteúdo’ é um outro meio. O conteúdo de um filme é um romance, uma peça de 1 Jornal Nacional é um programa jornalístico, produzido e apresentado na Rede Globo de televisão há 42 anos. Atualmente é apresentado pelos jornalistas Fátima Bernardes e William Bonner.
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    14 teatro ou umaópera.” (MCLUHAN, 2005, p. 33). Para o autor os efeitos dos meios são inquestionáveis e não se constituem sobre opiniões ou conceitos. O indivíduo está exposto a eles e, sujeito à natureza persuasiva destes. Diz ele, assim, que: Os efeitos da tecnologia não ocorrem aos níveis das opiniões e dos conceitos: eles se manifestam nas relações entre os sentidos e nas estruturas da percepção, num passo firme e sem qualquer resistência. O artista sério é a única pessoa capaz de enfrentar, impune, a tecnologia, justamente porque ele é um perito nas mudanças da percepção. (MCLUHAN, 2005, p. 34). Como se vê, para McLuhan, os meios exercem influência sobre os indivíduos e, com isto, se envolvem sem qualquer possibilidade de resistência. Os sentidos em que se manifestam as tecnologias, de que fala McLuhan, se tornam visíveis, pois “Cada produto que molda uma sociedade acaba por transpirar em todos e por todos os sentidos”. (MCLUHAN, 2005, p. 37). Com esta afirmação McLuhan compara a observação que fez à de Jung que alegava que os romanos haviam interiorizado costumes escravos, inconscientemente, em razão da constante convivência, e que isso era impossível de evitar. Para justificar isso, McLuhan conta sobre o mito de Narciso, que, ao ver o reflexo na água apaixonou-se pela própria imagem. No entanto, indica ele, Narciso havia se apaixonado por “alguém” que viu no reflexo das águas e que, a reação seria diferente se tivesse notado que era ele mesmo ali representado. Narciso, portanto, não havia se apaixonado por si mesmo, mas por outra pessoa. Em seguida McLuhan esclarece que: “O que importa nesse mito é o fato de que os homens logo se tornam fascinados por qualquer extensão de si mesmos em qualquer material que não seja o deles próprios.” (MCLUHAN, 2005, p. 59). E, como uma possível solução, observou que é somente assim, permanecendo à margem de qualquer estrutura ou meio, que os seus princípios e linhas de força podem ser percebidos. Pois os meios têm o poder de impor seus pressupostos e sua própria adoção aos incautos. A predição e o controle consistem em evitar este estado subliminar de transe narcísico. (MCLUHAN, 2005, p. 30). Para McLuhan, os meios causam um transe no indivíduo, pois ficam fascinados com qualquer extensão de si mesmos, e somente olhando à margem para que se perceba essa força. E, este “transe narcísico” também pode ocorrer em razão da “temperatura” dos meios. O autor faz uma classificação dos meios
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    15 enquanto quentes oufrios. Diz ele que “um meio quente permite menos participação do que um frio” (MCLUHAN, 2005, p. 38). Para McLuhan, aos meios frios muita coisa precisa ser preenchida e completada, muito do meio necessita da participação dos indivíduos, pois fornecem pouca informação, assim como “ao ler uma estória policial, o leitor participa como co-autor, simplesmente por que muita coisa é deixada fora da narrativa.” (MCLUHAN, 2005, p. 46).2 Longe de entrar nessa discussão a respeito da classificação dos meios, e para retomar o objeto desse trabalho, o que basta para refletir aqui, com base nessas colocações de McLuhan, é: diante da possibilidade que dá ao indivíduo, de atuar como co-autor, como produtor de conteúdo, seria a Internet, também um meio frio? E, sendo um meio frio, a Internet aquece os sentidos por intermédio desse convite à participação? É o que parece ser para McLuhan. Pois “o aquecimento de um dos sentidos tende a produzir hipnose, o esfriamento de todos os sentidos redunda em alucinação.” (MCLUHAN, 2005, p. 50). Ou seja, o aquecimento dos sentidos, provocado pela “frieza” do meio, cria certo entusiasmo quando convida à participação, produzindo um efeito anestésico no indivíduo, em que este abre espaço para ser influenciado pelo meio. Assim, traçado um paralelo entre essas afirmações e a sociedade contemporânea, cabe questionar se: o que se vive hoje é uma hipnose, com os sentidos aquecidos principalmente em razão do advento da Internet, e, cada vez mais, como indivíduos apaixonando pelas extensões assim como Narciso pelo reflexo nas águas? Assim como Narciso, o indivíduo é induzido pelo meio antes mesmo do que pela mensagem, pois “o meio é a mensagem”? Como está constituído este indivíduo contemporâneo e, que indivíduo é este? Que papel ele ocupa? Faz-se necessário, portanto, pensar sobre este indivíduo contemporâneo, sobre a relação entre o corpo, o espaço e o tempo e, posteriormente sobre a individualização na sociedade. 2 McLuhan (2005) classifica como meios frios: o telefone e a televisão e; como meios quentes: o rádio e o cinema. Entretanto, essa classificação de McLuhan mostra-se um pouco falha. Ao tomar, por exemplo, o cinema como um meio quente comparando-o à estória policial que citou McLuhan, como é possível dizer que no cinema não há por parte do “leitor” um preenchimento das informações que foram editadas, cortadas ou esquecidas da narrativa do filme?
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    16 2.3 O CORPO,O ESPAÇO E O TEMPO A questão do corpo, do espaço e do tempo deve ser introduzida para que, a partir da compreensão desse corpo que é sensível, como será visto, seja possível compreender melhor o sujeito da sociedade contemporânea e virtual. Como colocado por Ana Elisa Antunes Viviani, as concepções de corpo em Merleau-Ponty e em Serres oferecem um arcabouço conceitual que pode contribuir enormente [sic] para os estudos atuais voltados para a relação entre comunicação e tecnologias digitais, pois não dizem respeito apenas ao corpo, mas à questão da imagem, da visibilidade, da carne. (VIVIANI, 2007, p. 20). Como se vê, a questão do corpo é de suma importância para identificar as relações entre comunicação e este novo homem que emerge numa sociedade onde predominam as tecnologias digitais. Para tanto, será adotado aqui a concepção de corpo fundamentada na Fenomenologia da Percepção de Maurice Merleau-Ponty, a partir de interpretações atuais como as de Marilena Chauí, Terezinha Petrúcia da Nóbrega e, de forma a complementar, Paula Sibilia. Marilena Chauí (2010) traça uma discussão a respeito da mudança da percepção do espaço e do tempo a partir das mudanças tecnológicas e, para isso, toma como referência a Fenomenologia da Percepção de Merleau-Ponty. Para ela, o corpo é “um sensível que é sensível para si mesmo. O meu corpo é o meu modo fundamental de ser no mundo. [...] O meu corpo é uma reflexão reversível nele mesmo”. Essas ideias retratam o corpo não apenas como um objeto no mundo, mas sim, como um sensível e sensorial, associado principalmente à percepção e a uma primeira reflexão, além da criação, da linguagem e dos sentidos. Para a tradição filosófica, apenas a alma possuía a dádiva da reflexão, da sensação e, Merleau-Ponty não aceitava essa perspectiva. Terezinha Petrúcia da Nóbrega esclarece que: No pensamento de Merleau-Ponty, o corpo, o movimento, o conhecimento sensível e os processos perceptivos são trazidos para o primeiro plano da reflexão; ao invés de privilegiar a análise da consciência, enfatiza a corporeidade. (NÓBREGA, 2000, p. 100). E completa ainda dizendo que, o corpo “não é coisa, nem idéia, o corpo é movimento, sensibilidade e expressão criadora.” (NÓBREGA, 2000, p. 100). Assim,
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    17 o corpo é,para Merleau-Ponty, e não apenas a alma ou a consciência, capaz de sentir, de se fazer sentir, de sentir a si mesmo e, ainda, de sentir-se sentindo. O enigma consiste em que o meu corpo é ao mesmo tempo vidente e visível. Ele, que mira todas as coisas, pode também olhar-se, e reconhecer naquilo que vê o “outro lado” do seu poder vidente. Ele vendo-se, toca-se tocando, é visível e sensível para si mesmo. (MERLEAU-PONTY, 1997, p. 20,21 apud NÓBREGA, 2000, p. 102). A Fenomenologia da Percepção utiliza como exemplo a questão da obra de arte, que para Nóbrega (2000, p. 105) atua como campo de possibilidades para o entendimento do corpo sensível e sensorial. Para Chauí (2010) a experiência criadora de um artista, é o momento em que o corpo se faz sensível sem deixar a sensibilidade. Ele, o corpo artístico, pode ver e continua sendo visto, pode tocar e continua sendo tocado, pode ouvir e continua sendo audível. O corpo é, e é isso que a experiência artística mostra, essa capacidade de produzir uma diferenciação, no interior de um mundo indiviso, onde eu não preciso me separar do mundo para me relacionar com ele através da obra de arte. (CHAUÍ, 2010). O pensamento de Merleau-Ponty mostra que a primeira reflexão é realizada pelo próprio corpo e que, portanto, a consciência aprende com o corpo a refletir. (CHAUÍ, 2010). E assim também, Viviani (2007, p. 6) complementa a questão observando que: “para Merleau-Ponty, a consciência é transferida para o corpo, instalando-se nas coisas; [...] O sentir está ligado ao corpo e traz à tona a espessura entre o objeto percebido e o sujeito que percebe.” Para tanto, a alma não é aquilo que sente o mundo e sim o corpo, já numa primeira reflexão. Este corpo sensível e sensorial é temporal. Hoje, amanhã, depois, agora, ontem, noite, dia. O homem é um ser temporal. Ainda segundo Chauí (2010) “O tempo existe porque nós existimos”. Este corpo é, também, espacial. Aqui, lá, perto, longe, em casa, na rua, na escola, no trabalho. Este espaço tem tamanhos, qualidades, cores, tessituras, sabores, cheiros. Essa relação espaço-temporal também é problematizada por Paula Sibilia (2002) que toca na questão relacionando imortalidade e tempo, virtualidade e espaço. Para ela as novas tecnologias almejam, em razão da ambição dos homens, ultrapassar as limitações desse corpo material chegando a serem empregadas na luta contra a morte (tempo) e contra a distância (espaço). Diz ela:
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    18 A sociedade atual assiste, portanto, ao surgimento de um tipo de saber radicalmente novo, com um anseio inédito de totalidade. Fáustico, ele pretende exercer um controle total sobre a vida, superando as suas limitações biológicas; inclusive, a mais fatal de todas elas: a mortalidade. (SIBILIA, 2002, p. 50). Não apenas exercendo total controle sobre a vida, mas também reconfigurando tudo o que é vivo e alterando até o sentido da morte. É o que acontece, desde os anos 90, com as constantes descobertas e conquistas da medicina e o surgimento do conceito de “reversibilidade”. Estas descobertas apresentaram-se como capazes de reverter o que, até então, era conhecido como o ponto irreversível do fim da vida: a morte. Hoje se sabe que, em alguns casos a morte não é declarada por ser considerada irreversível, mas sim, porque se decide não revertê-la. “O ato de falecer perdeu sentido absoluto e caráter sacro, submetendo-se à ‘capacidade de restauração’ provida pela tecnociência de inspiração fáustica.” (SIBILIA, 2002). Essa “imortalidade” advinda da evolução tecnocientífica é retratada na recente produção cinematográfica do estúdio 20th Century Fox, com Amanda Seyfried e Justin Timberlake, lançada em 04 de novembro de 2011: “In Time” ou “O Preço do Amanhã”. A ficção se passa no ano de 2161, onde as pessoas param de envelhecer aos vinte e cinco anos, e morrem em até um ano após, se não conseguirem mais tempo, através de trabalho ou ganhando. Tempo vira moeda na ficção e as pessoas também o usam para comprar necessidades diárias. Há uma espécie de relógio digital inserido no braço das pessoas que informa a quantidade de tempo de vida restante. Com mais tempo, pode-se viver eternamente, tornar-se imortal. Na ficção alguns se tornam imortais, comprando décadas de uma única vez, tudo isso possibilitado por evoluções tecnológicas. Neste contexto, diz Sibilia que: A promessa mais fabulosa da tecnociência contemporânea assim se enuncia: no processo de hibridização com a tecnologia, o corpo humano poderia se livrar de sua finitude natural. Com poderes que antes só concerniam aos deuses, os engenheiros da vida se propõem a reformular o mapa de cada homem, alterar o código genético e ajustar sua programação. (SIBILIA, 2002, p. 54). Longe da ficção, no mundo real, essa “promessa” não parece estar tão longe de tornar-se real. O Projeto Genoma, como diz Sibilia (2002, p. 55), é um exemplo disso, pois almeja decifrar o código genético humano e prevenir a espécie humana contra qualquer tipo de doença. Outro exemplo é a disciplina de inteligência artificial
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    19 que deseja transferirtoda a mente humana para o computador, onde, “consequentemente se poderia continuar a existir como uma mente sem o cérebro que antes suportava a vida mental.” (SIBILIA, 2002, p. 56). Enquanto que, do lado das “tecnologias da imortalidade”, como chama Sibilia, onde a “promessa” ainda parece ser iminente, do lado das “tecnologias da virtualidade” as coisas já são bem reais. Ao contrário daquelas, estas são menos polemizadas e mais apreciadas pelos homens, pois permitem “potencializar e multiplicar as possibilidades humanas”, permitindo que os homens ultrapassem os limites espaciais que se impõem como outra das restrições da materialidade do corpo, “inaugurando fenômenos tipicamente contemporâneos como a [...] ‘presença virtual’.” (SIBILIA, 2002, p. 56). Entregues ao controle total sem fora, tais aparelhos [de conexão] dispensam os velhos muros das instituições de confinamento e a torre panóptica de vigilância, que se tornaram definitivamente obsoletos no novo contexto. Além “virtualizar” os corpos, espalhando pelo espaço global a sua capacidade de ação, a convergência digital de todos os dados e de todas as tecnologias amplia ao infinito as possibilidades de rastreamento e de colonização das micropráticas de todas as vidas. (SIBILIA, 2002, p. 59). Deste modo, como dito por Sibilia, além de ampliar as possibilidades de ação do homem além das fronteiras espaciais, permite ainda uma constante vigilância e rastreamento destes mesmos indivíduos. Estas mesmas tecnologias reduzem, cada vez mais, as possibilidades de permanecer ocultos ou alheios à sociedade e ao controle. E aqui, pode-se citar novamente o filme “In Time” onde “comportamentos suspeitos” são identificados por computadores de última geração e permitem ao “controle” agir e bloquear qualquer problema em meio à sociedade. Veja, muito embora isso pareça coisa do futuro ou da ficção, Naomi Klein (2008) traz a visão de que isso já vem acontecendo há algum tempo e já faz parte de uma realidade. Diz ela: Nos últimos dois anos, 200 mil câmeras de vigilância foram instaladas por toda a cidade [de Shenzhen, na China]. Muitas delas estão em lugares públicos, disfarçadas de postes de luz. O circuito fechado de câmeras de TV em breve será conectado a uma única rede nacional, um sistema de vigilância total capaz de rastrear e identificar qualquer um que esteja dentro de seu alcance [...]. Nos próximos três anos, executivos de segurança da China prevêem [sic] que 2 milhões de CCTVs serão instaladas em Shenzhen, tornando-a a cidade mais vigiada do mundo (maníaca por segurança, Londres tem apenas meio milhão de câmeras de segurança). (KLEIN, 2008).
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    20 Esse ponto foi bem denominado por Walter Benjamim com a expressão “triunfo sobre o anonimato”. Essa obsessão contemporânea por “segurança” também parece ser problematizada em outra obra de ficção, diz Sibilia (2008, p. 59), O “Inimigo do Estado”, que exibe “uma infinidade de aparelhos de rastreamento e espionagem digitais: todo um catálogo de câmeras diminutas, microfones e dispositivos de localização via satélite”. Voltando à Klein (2008), percebe-se que a China exibe as mesmas capacidades. O objetivo é usar o que há de mais moderno em tecnologia de rastreamento pessoal [...] a fim de criar uma espécie de casulo consumidor cuidadosamente selado: um lugar onde cartões Visa, tênis Adidas, celulares da China Mobile, Mc Lanches Feliz, cerveja Tsingtao possam ser aproveitados sob o sempre vigilante olho do Estado, sem a ameaça da democracia. O governo espera usar o escudo para identificar e contra- atacar dissidências antes que estas explodam em movimentos de massa como o que chamou a atenção do mundo na Praça da Paz Celestial. (KLEIN, 2008). Por fim, percebe-se que o emprego dessas tecnologias da virtualidade e da imortalidade afetam e modificam as relações espaço-temporais. De um lado, está o indivíduo, sentindo-se livre e entusiasmado com a tecnologia e as possibilidades e, exibindo-se sem preocupações, como será visto, atravessando a fronteira do privado e chegando à esfera do público. Do outro lado, está o Estado, equipando-se para exercer, cada vez mais, o controle, e por sua vez, atravessando a esfera do público e adentrando a do privado. Reduz-se, cada vez mais, a dicotomia entre o “público e o privado”. Com isso, o corpo também é modificado pela maneira como estas tecnologias consagram um novo tempo e um novo espaço. Mais do que isso, o próprio tempo e espaço são também modificados, redefinindo a sociedade contemporânea. É sobre esta sociedade que será visto na sequência. 2.4 A SOCIEDADE INDIVIDUALIZADA Assim que entendidas, ainda que iniciais, as exposições sobre aldeia global, sobre “o meio ‘ser’ a mensagem” e, sobre o corpo, o espaço e o tempo, faz-se necessário conhecer a sociedade onde tudo isso acontece. Onde tudo se junta, se mistura e emerge na rede virtual tornando-se uma rica vitrine do comportamento contemporâneo. Onde tudo isso recebe o nome, pelas mãos de diversos autores, como a condição pós-moderna.
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    21 Entretanto, cumpre-se ressaltar que, pouco interessa para este trabalho o termo empregado: “pós-moderno” ou “moderno”. Não pretende este trabalho, adentrar essa discussão, nem tampouco adotar um destes termos e defendê-lo. Existem ainda outros termos que também poderiam ser escolhidos. É o caso de “pós-orgânico” por Sibilia (2002) ou “modernidade líquida” por Zygmunt Bauman (2001). Neste trabalho, optou-se por reproduzir o termo “pós-moderno” de Jair Ferreira dos Santos (2006), longe de qualquer discussão a respeito do emprego deste, pois, o único o objetivo deste próximo tópico é conhecer mais sobre essa sociedade contemporânea. 2.4.1 A Condição Pós-Moderna Zygmunt Bauman (2011) comenta que houve, no século XX, uma mudança da sociedade de produção para a sociedade de consumo. Marilena Chauí (2010) também traça essa mesma interpretação demonstrando a evolução do fordismo para a globalização. Segundo ela, o fordismo detinha toda a linha de produção, que ia da coleta da matéria-prima até a entrega final ao cliente, e tinha como base uma produção linear, de qualidade, durabilidade, e preocupada com estoques; por outro lado, a globalização trouxe uma fragmentação da sociedade com a produção segmentada, baseada na produção descartável. O que ambos mostram, é que a sociedade que antes tinha no trabalho fordista a base para a construção das identidades sociais, hoje, com a globalização e com a segmentação do trabalho, também ocorre a segmentação da sociedade e, de certa forma, a individualização. “As sociedades foram individualizadas.” diz Bauman (2011). Ao invés de se pensar na felicidade da comunidade, passou-se a pensar na felicidade de cada pessoa. Para Jair Ferreira dos Santos a sociedade pós-moderna ameaça encarnar o niilismo, o vazio, “a ausência de valores e de sentido para a vida”. Para ele, em comparação ao homem moderno, o homem pós-moderno não dá sentido à vida, não se interessa pela arte, pela história, pelo desenvolvimento e nem tem consciência social. Esse homem pós-moderno “se entrega ao presente e ao prazer, ao consumo e ao individualismo.” (SANTOS, 2006, p. 10).
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    22 A massa pós-moderna, [...] é consumista, classe média, flexível nas idéias e nos costumes. Vive no conformismo em nações sem ideais e acha-se seduzida e atomizada (fragmentada) pelo mass media, querendo o espetáculo com bens e serviços no lugar do poder. Participa, sem envolvimento profundo, de pequenas causas inseridas no cotidiano - associações de bairro, defesa do consumidor, minorias raciais e sexuais, ecologia. (SANTOS, 2006, p. 90). A Internet e junto com ela, a globalização, trazem a sociedade contemporânea para este cenário de relações individuais. Porque, repentinamente, na Ágora, as pessoas começaram a confessar coisas que eram a personificação da privacidade, a personificação da intimidade, que você somente contaria, se você fosse católico, ao padre, no confessionário, ou aos seus amigos realmente chegados ou realmente muito íntimos. (BAUMAN, 2011). Ou seja, o confessionário, no exemplo trazido por Bauman, é a representação da modernidade de que fala Santos (2006), em que o privado não estava em evidência. Ele era escondido, oculto e misterioso. Ele era privado. De repente, ele interessa mais do que o bem comum, do que o conjunto. Diz Bauman (2011) que o que a sociedade contemporânea fez foi colocar “microfones nos confessionários”. É essa mudança no comportamento da sociedade, quando ela deixa de ter participações mais imersivas e está mais interessada na superficialidade do cotidiano, no “eu”, a que Santos se refere, e diz estar sendo chamada pelos sociólogos de “deserção do social” e que, por sua vez, “não é orientada nem surge conscientemente, como também não visa à tomada do poder, mas pode abalar uma sociedade, ao afrouxar os laços sociais”. Segundo o autor, existem os seguintes tipos de deserção: a) Deserção da História: onde a massa pós-moderna não está interessada em assuntos comuns, e nem no futuro. O que vale é o agora, o presente, pouco importa a continuidade histórica; b) Deserção do político e do ideológico: onde o desempenho dos mass media influencia muito mais as eleições que a ideologia política dos candidatos. Ainda, essa falta de interesse caracteriza a sociedade menos envolvida nas grandes causas e mais envolvida nas subculturas e lutas menos prolongadas; c) Deserção do trabalho: pois por não estar interessada em continuidade histórica, sem ideais políticos e ideologia essa massa pós-moderna também não vê no trabalho um valor moral e um caminho para a auto realização. Por isso, há mais espaço para o lazer. As empresas reclamam, cada vez mais, da
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    23 dificuldade de mãode obra qualificada e de desinteresse pelo trabalho; d) Deserção na família: onde a família também perde o valor moral e de instituição social. Há mais espaço para o individualismo, mais pessoas moram sozinhas e há mais liberdade sexual e; e) Deserção da religião: em que as grandes religiões, também instituições sociais, perdem grande parte do valor. Abre espaço para religiões onde o centro seja o sujeito, a meditação, o budismo, a individualidade. (SANTOS, 2006, p. 90). Essa condição da deserção do social, como se vê, põe o homem contemporâneo longe dos papéis sociais da modernidade. Parece estar havendo, se já não há, uma ressignificação de papéis sociais e da própria sociedade. O indivíduo, nessa condição, está sendo alvo de uma avalanche de informações, com efeitos culturais e sociais. Essa nova condição faz da vida um show, um espetáculo, pois, desde a perspectiva renascentista até a televisão, que pega o fato ao vivo, a cultura ocidental foi uma corrida em busca do simulacro perfeito da realidade. Simular por imagens como na TV, que dá o mundo acontecendo, significa apagar a diferença entre real e imaginário, ser e aparência. Fica apenas o simulacro passando por real. Mas o simulacro, tal qual a fotografia a cores, embeleza, intensifica o real. Ele fabrica um hiper-real, espetacular, um real mais real e mais interessante que a própria realidade. (SANTOS, 2006, p.12). Talvez assim também decorresse o pensamento de McLuhan de que o homem tem uma relação narcísica com essas extensões. Seria porque, então, as extensões do homem são nada menos que um simulacro do próprio homem, que intensifica e deixa mais espetacular e interessante o real? Santos (2006, p. 13) usa o exemplo da abertura do programa Fantástico, que reproduzia homens e mulheres vestidos de maneira futurística, dançando em cubos e cilindros fatiados e suspensos no ar, levitando. Isso não é possível no real, mas através da computação gráfica e da TV era isso o que estava acontecendo. Diz ele: Aliada ao computador, a televisão simulou um espaço hiper-real, espetacular, que excita e alegra como um acrobata. [...] Daí que a levitação, em si desejável mas inviável na gravidade, parece ser possível na TV. O hiper-real simulado nos fascina porque é o real intensificado na cor, na forma, no tamanho, nas suas propriedades. É um quase sonho. (SANTOS, 2006, p. 13).
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    24 Essa possibilidade, essa hiper-realização seduz o homem pós-moderno, que cede aos encantos do mass media, apaixona-se, como Narciso, não por si mesmo, mas pelo outro eu, transformado no espetáculo do real. Complementa Santos que: O ambiente pós-moderno significa basicamente isso: entre nós e o mundo estão os meios tecnológicos de comunicação, ou seja, de simulação. Eles não nos informam sobre o mundo; eles o refazem à sua maneira, hiper- realizam o mundo, transformando-o num espetáculo [!]. Uma reportagem a cores sobre os retirantes do Nordeste deve primeiro nos seduzir e fascinar para depois nos indignar [!]. (SANTOS, 2006, p. 13). Ainda para Santos (2006, p.86), esse encantamento com as tecnologias, essa possibilidade de hiper-realização do mundo real e do próprio homem dão à contemporaneidade um novo estilo de vida. O indivíduo se define entre três diferentes papéis na sociedade: a) o consumista que consome de tudo, bens e serviços, dos mais necessários aos mais desejáveis; b) o hedonista que não possui valores e busca satisfação e prazer instantâneos e; c) o narcisista que preza pela auto-imagem, a glamourização e paixão de si. Percebe-se que estas três definições de papéis emergem pela constante busca da satisfação do “eu” reforçando a questão do individualismo. E, a respeito desse individualismo, alerta Santos: O individualismo exacerbado está conduzindo à desmobilização e à despolitização das sociedades avançadas. Saturada de informação e serviços, a massa começa a dar uma banana para as coisas públicas. Nascem aqui a famosa indiferença, o discutido desencanto das massas ante a sociedade tecnificada e informatizada. É a sua colorida apatia frente aos grandes problemas sociais e humanos. (SANTOS, 2006, p. 88). Para o autor a condição pós-moderna pode estar exibindo, como numa vitrine, essa ressignificação do papel social do homem. Do homem moderno, outrora preocupado com a construção da história, dos ideais políticos, da comunidade, da sociedade como um todo, emerge um ser egoísta, preocupado apenas com si próprio, sem ideais e sem projetos para o todo. Um homem preocupado com a satisfação do individual e do presente, um homem de “um ego sem fronteiras”. (SANTOS, 2006, p. 30, 94). Bauman atribui a esse novo momento, também, o que ele chama por “A ambivalência da vida”. O homem divide a vida, constantemente, entre segurança e liberdade. Todas as vezes que o indivíduo caminha em direção a mais liberdade perde parte da segurança e, todas as vezes que caminha na direção oposta, para ter mais segurança, perde parte da liberdade. De modo que o homem não vive sem
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    25 estas duas esferase, é preciso encontrar um equilíbrio entre elas. “Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é um completo caos.” (BAUMAN, 2011). Então, mais próxima de qual lado estaria a sociedade contemporânea? Para ambos os autores, mais próxima da liberdade. O homem deixou de lado tanta segurança, quis mais liberdade e se tornou individualista. (SANTOS, 2006). Mas, para Bauman (2011) isto não é desesperador. Ele comenta que sente o “pêndulo” se movendo levemente para mais próximo da segurança novamente. O que Bauman faz questão de alertar é que, essas relações, essas conexões, são irreversíveis. Na rede e, portanto, na sociedade contemporânea, pós-moderna, fluida, é fácil conectar e desconectar e é isso que mantém a rede viva. Relações em comunidade são dramáticas. É difícil romper laços. Na rede é mais fácil desconectar. Comenta Bauman que, um usuário do Facebook contou a ele que tinha feito 500 amigos em um dia. Ele conta que respondeu: “eu tenho 86 anos, mas não tenho 500 amigos. [...] Então, provavelmente, quando ele diz ‘amigo’ e eu digo ‘amigo’, não queremos dizer a mesma coisa. São coisas diferentes.” Assim, novamente, figura-se essa fluidez da sociedade contemporânea, onde é fácil conectar e fazer amigos e tão fácil quanto, é desconectar e romper essas “amizades de Facebook”. (BAUMAN, 2011). Entretanto, cumpre-se ainda trazer para cá a visão de Dominique Wolton (2007, p. 11) sobre essa relação entre tecnologias e comunicação que, sem dúvida, enriquecerão este capítulo. Wolton parece manter um distanciamento maior com relação à empolgação diante das tecnologias. Para ele, seria dissimulado dizer que a sociedade deveria se adequar ao tempo das tecnologias. Ao contrário é mais frequente que a história social e cultural dê sentido à história técnica. Sendo assim, na visão de Wolton, pode-se dizer que a tecnologia atual é resultante do papel social e cultural desenvolvido ao longo dos tempos. Para ele: Atualmente, um número surpreendente de autores considera, por exemplo, a Internet uma verdadeira revolução que fará surgir uma “nova sociedade”, simplesmente porque supõe que a tecnologia vai mudar diretamente a sociedade e os indivíduos. [...] Passa-se assim de uma concepção materialista da comunicação a uma verdadeira ideologia – a ideologia tecnológica – da comunicação. Todavia, a história prova os limites das teses deterministas. As tecnologias de comunicação não escapam ao dever epistemológico que consiste em não confundir técnica, cultura e sociedade. Constatar que as técnicas evoluem mais rápido do que os modelos culturais e a organização social da comunicação não é o suficiente, na realidade, para definir um sentido ao “progresso” da comunicação, que iria da evolução técnica em direção à mudança de práticas culturais e depois aos projetos de sociedade. (WOLTON, 2007, p. 16).
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    26 Na visão de Wolton, o desafio da pesquisa que ele faz é “justamente de não reduzir a comunicação a um acontecimento técnico”. O sentido do desenvolvimento do trabalho de Wolton “é tentar explicar por que o essencial, em um sistema de comunicação, não é a tecnologia.” (WOLTON, 2007, p. 16). E, como conclui: Em poucas palavras, para a comunicação, as teorias são sempre mais importantes que as tecnologias. De nada serve se comunicar de um extremo a outro do mundo se uma visão do homem e da sociedade não orienta as proezas tecnológicas. (WOLTON, 2007, p. 22). O que interessa a este trabalho, diante desses argumentos de Wolton é desmistificar a sociedade pós-moderna como resultado, apenas, das evoluções tecnológicas. Essa sociedade contemporânea, individual, emancipada, é resultado de uma longa caminhada iniciada há tempos. Assim: Desde o século XVI, ela [a comunicação] é o complemento e a condição de todas as emancipações do indivíduo. A reinvindicação da liberdade de comunicar é evidentemente fruto da longa batalha iniciada na Renascença pelas liberdades de consciência, de pensamento, de expressão, depois a partir dos séculos XVII e XVIII pela liberdade editorial e de imprensa. No século XIX, a reencontramos na luta pelas liberdades de associação, de manifestação e de participação política. No século XX ela está diretamente ligada ao surgimento da democracia de massa, com o sufrágio universal e a informação para todos. (WOLTON, 2007, p. 38). Percebe-se que, Wolton não deixa de aferir as modificações sociais causadas em razão da evolução da tecnologia, mas também, orienta o leitor para apartar-se dela, olhar por outro viés e não tomar a tecnologia como ponto culminante desse processo de pós-modernização, assim como, também orienta que as tecnologias estão longe de melhorar a comunicação humana. A princípio, e neste ponto Wolton volta a dialogar com os outros autores, “o dogma atual, pois se trata realmente de um dogma, identifica a felicidade individual e coletiva à capacidade de estar ‘plugado’ e multiconectado.” (WOLTON, 2007, p. 32). E então: Por que as tecnologias de comunicação agradam tanto? Eu já abordei este problema em Pensar a Comunicação, salientando a importância para os jovens da idéia de abertura, mas também a recusa das mídias de massa, o desejo de responder à inegável angústia antropológica, à atração pelo moderno, à procura de novas formas de solidariedade com os países mais pobres. A variedade de motivações ilustra, aliás, o fato de que estas novas tecnologias sejam investidas de muitas outras coisas que puramente a função técnica. Trata-se, do conjunto, de modificar as relações humanas e sociais, o que prova o quanto, na área de comunicação, se gera símbolos e utopias, sem grande relação com as performances dos instrumentos. O termo que convém aqui é o de transferência. (WOLTON, 2007, p. 86).
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    27 E com isso, autonomia, domínio e velocidade fazem compreender o sucesso das novas tecnologias. “Cada um pode agir, sem intermediário, quando bem quiser, sem filtro nem hierarquia e, ainda mais, em tempo real.” É justamente em razão disso, como observaram também os outros autores, “Isto gera um sentimento de liberdade absoluta, até mesmo de poder, de onde se justifica muito bem a expressão ‘surfar na Internet’.” (WOLTON, 2007, p. 86). Assim, por fim, Wolton lança as seguintes questões: O ideal, para não dizer ideologia, do progresso toma o lugar da reflexão evitando que se coloque uma questão simples: todas estas tecnologias de comunicação, para fazer o quê? Qual a relação entre as necessidades de comunicação dos homens e das sociedades e esta explosão de técnicas? Até onde os homens necessitam deste grau de comunicação? Comunicar o que, a quem? Qual a relação entre comunicação técnica e comunicação humana? Qual o interesse em ter cem canais pagos ou poder consultar a biblioteca de Alexandria, ou a do Congresso Americano? Quais as desigualdades e relações de força que dela resultam? Que problemas as tecnologias de comunicação resolvem e que outros são criados? (WOLTON, 2007, p. 32). Percebe-se que há muito mais a discutir em relação ao tema sobre sociedade pós-moderna, líquida e contemporânea. Entretanto, para não adentrar em todas as questões, saindo, portanto, do conjunto ao qual se propôs o presente trabalho, é que no próximo capítulo será abordado o ciberespaço, para então, na sequência, refletir sobre parte dessa última questão lançada por Wolton: que problemas, na comunicação, as tecnologias criam?
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    28 3 O CIBERESPAÇO Depois de apresentadas as características da aldeia global, aquela interligada em todas as direções; os conceitos de espaço e tempo imprescindíveis para o entendimento da percepção do corpo e; a condição pós-moderna e o individualismo que ajudam a compreender a satisfação do indivíduo com o “eu” no presente, discutir-se-á sobre o ciberespaço. Entretanto, não se pretende aqui qualificá-lo tecnicamente, compreender as características da rede, os protocolos ou a série de evoluções que aconteceram desde 1940 e que o tornou possível, no molde em que é conhecido nos dias presentes. Pretende-se entender o ciberespaço enquanto campo de relações, parte do campo da comunicação capaz de influenciar ou propiciar as relações dos indivíduos mediadas por computador. 3.1 O QUE É O CIBERESPAÇO Existem diversas formulações sobre o que é o ciberespaço. Muito embora o que interesse para este trabalho seja o conceito de ciberespaço a partir do advento da Internet, é importante alertar, sobretudo, para o fato de que o ciberespaço vai muito além da Internet. John Barlow, vice-presidente da Electronic Frontier Foundation3, por exemplo, identifica o ciberespaço como sendo, também, o ambiente onde se encontram os indivíduos ao falarem ao telefone. Pierre Lévy (1999, p. 92) conta que o termo “ciberespaço” foi utilizado pela primeira vez por William Gibson, no livro Neuromancer, para descrever um espaço de redes digitais. Neste espaço as tecnologias estariam enraizadas na sociedade moldando a estrutura e as relações entre os indivíduos. Lévy, porém, tem uma definição própria. Para ele o ciberespaço é “o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial de computadores e das memórias dos computadores”, e, a marca distintiva é a capacidade de virtualização do espaço e do tempo. Ora, novamente surgem as questões do espaço e do tempo. Chauí (2010) diz que o ciberespaço é “um mundo novo” marcado pela acronia (ausência de referência do tempo) e pela atopia (ausência de referência do espaço). A autora 3 Cf. <https://www.eff.org/>.
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    29 entende ainda que,com a Internet se pode ir mais longe, em menos tempo, “até a completa extinção do espaço e do tempo”. Esses apontamentos de Chauí, assim como os de Lévy, dialogam para um mesmo entendimento sobre uma virtualização do corpo, do espaço e do tempo, características que, para ambos, é a marca principal do ciberespaço. E, para que se possa entender mais sobre o ciberespaço, Chauí (2010) diz que é importante entender também as diferenças entre dois conceitos que indevidamente são apresentados como iguais: o do possível e o do virtual. A autora explica que na tradição filosófica o virtual tendia a ser o possível, uma potência daquilo que, com a intervenção de um agente ou de uma circunstância pudesse vir a existir. Para a tradição filosófica “a semente é a árvore virtual, ou a árvore possível”. Entretanto, com a informática, a perspectiva filosófica mostrou-se falha. “O virtual já é real, e já existe. Ele não se opõe ao real, ele se opõe ao atual” assim diz Chauí (2010). Lévy (1996, p. 15), também neste sentido, ensina que a tradição filosófica entendia que o “real seria da ordem do ‘tenho’, enquanto o virtual seria da ordem do ‘terás’, ou da ilusão”. O autor traz a distinção feita por Gilles Deleuze entre o possível e o virtual. O possível é um real latente, já construído, mas lhe falta a existência material. Já virtual é um acontecimento complexo que chama à uma resolução: uma atualização. “O problema da semente, por exemplo, é fazer brotar uma árvore. A semente ‘é’ esse problema, mesmo que não seja somente isso.” O autor complementa ainda que “o real assemelha-se ao possível; em troca, o atual em nada se assemelha ao virtual: responde-lhe”. (LÉVY, 1996, p. 17). Com a distinção apontada por Chauí, pode-se dizer que o ciberespaço é um mundo real e que, como apontado por Lévy, aguarda uma atualização. Real que é, e atual que aguarda por ser a todo o momento, o ciberespaço é dotado da interferência do homem que se reproduz nas relações e interações. Com isso, surge então outra das características do ciberespaço que é importante para este trabalho: a capacidade de interação aos indivíduos. André Lemos, ao defini-lo se baseia nesta característica dizendo que o ciberespaço é um hipertexto mundial interativo onde cada um pode adicionar, retirar e modificar partes dessa estrutura telemática, como um texto vivo, um organismo auto-organizante, um cybionte em curso de concretização. (LEMOS, 2004, p. 123).
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    30 O conceito de Lemos mostra um lado mais interativo e mais vivo do ciberespaço. A partir dessas observações de Chauí, Lévy e Lemos, tem-se que o ciberespaço é, por fim, um outro mundo, um mundo novo, sem espaço e sem tempo, ou com espaço e tempo novos, onde tudo é virtualizado e onde os indivíduos podem atuar moldando as estruturas através da adição, subtração ou modificação de interações. Essa é a maneira de ser e de existir do ciberespaço. Retomando o que foi visto no capítulo anterior sobre a relação do corpo, do espaço e do tempo e, sobre as tecnologias da imortalidade e da virtualidade, de acordo com Chauí (2010) tem-se que, “do lado do ciberespaço nós nos tornamos puras almas angélicas, sem corpo, enquanto do lado da ciência, nós nos tornamos puros corpos sem alma”. E, ao tomar o ciberespaço também como um espaço de interação (como a primeira lei da cibercultura: o ciberespaço é um local de livre circulação da informação), vê-se que as redes sociais na Internet são o principal fenômeno dessa característica. É o que será apresentado a seguir. 3.2 REDES SOCIAIS NA INTERNET É importante ressaltar que, redes e redes sociais são conceitos muito antigos e que não surgiram com a Internet, muito menos se limitam a ela. Contudo, neste trabalho este conceito será associado com a Internet, pois ela e os discursos que nela circulam, fazem parte do objetivo de estudo deste trabalho. As redes sociais na Internet, assim como as redes sociais, são descritas como sendo o conjunto dos atores sociais e as conexões feitas por eles. Os atores sociais podem ser pessoas, grupos ou instituições e as conexões os laços ou interações entre estes atores sociais. (Wasserman e Faust, 1994; Deggene e Forse, 1999 apud Recuero, 2009, p. 24). “A abordagem de rede tem, assim, seu foco na estrutura social, onde não é possível isolar os atores sociais e nem suas conexões”. (RECUERO, 2009, p. 24). A seguir, será apresentado um pouco mais sobre os atores sociais e sobre as conexões. 3.2.1 Atores Sociais Segundo Recuero (2009, p. 25) os atores sociais são o primeiro elemento das redes sociais e podem ser as pessoas, as instituições ou até os grupos
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    31 envolvidos na rede.São os indivíduos sociais que interagem dentro das redes, moldando ou sendo moldados por elas. Alerta a autora para o fato de que os atores sociais no ciberespaço não são facilmente reconhecíveis, pois, são representações destes. Aqui, novamente, é possível dialogar com a questão da virtualização do corpo, do espaço e do tempo. Sendo o ciberespaço um ambiente virtual, caracterizado pela atopia e pela acronia, os atores sociais, portanto, também não estão fisicamente presentes neste ambiente. São representações de um “eu” que vão de fotos, vídeos e nicknames, que podem se assemelhar mais às características dos atores sociais como, por exemplo, uma foto que representa exatamente o ator social, até as diversas imagens e links, nem sempre semelhantes, pois, por exemplo, é possível colocar na foto do perfil na Internet uma imagem de um lugar preferido, ou de um cantor, de um ídolo, não se assemelhando ao ator social. Conclui Recuero (2009, p. 28) que “os atores no ciberespaço podem ser compreendidos como os indivíduos que agem através de seus fotologs, weblogs, e páginas pessoais, bem como através de seus nicknames”. Sobre estas representações, tem-se que são identidades de um “eu”. É pertinente questionar se estas identidades não seriam mutáveis, tornando-se vários “eus”. Ora, na troca de uma foto do perfil, do nickname, das cores, da linguagem ou até mesmo do link que correspondem ao usuário, não estaria ocorrendo uma ressignificação de identidade? É importante então, uma pausa para a reflexão sobre identidades, que sem dúvida tem grande influência no modo como as conexões (laços, relações ou interações) são realizadas entre os atores sociais na Internet. 3.2.1.1 Identidades líquidas Para Bauman a identidade é “o horizonte em direção ao qual eu me empenho e pelo qual eu avalio, censuro e corrijo os meus movimentos”. (BAUMAN, apud MACEDO, 2010, p. 52). Pode-se, portanto, a partir de Bauman, entender que o exercício da identidade começa sendo uma escolha. Roberto DaMatta (2009), identifica as identidades como papéis sociais, fazendo inclusive uma distinção entre como as identidades são exercidas a partir dos espaços da casa e da rua. Sobre isto ainda, e segundo Stuart Hall, “todas as identidades estão localizadas no espaço e no tempo simbólicos”. (HALL apud MACEDO, 2010, p. 51).
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    32 Esses autores reforçam a ideia de que as identidades são escolhas mutáveis dos indivíduos. Seja em Bauman sobre a “direção ao qual eu me empenho”, seja para DaMatta com os espaços da casa e da rua, ou seja para Hall com os espaços simbólicos. Se as identidades são desempenhadas basicamente de acordo com o espaço em que se insere o indivíduo, o que acontece quando este indivíduo está inserido no ciberespaço? O que acontece quando a identidade está sendo construída ou exercida em um mundo virtualizado e sem os referenciais do espaço e do tempo? Hall diz que “as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado.” (HALL, 2006, p. 7). Veja, é possível dialogar com outro capítulo do trabalho, sobre a Condição Pós- Moderna, que traz o conceito de sociedade e identidade fragmentadas que, por sua vez estão fragmentando o indivíduo moderno. Completa Macedo, dizendo que daí, decorre a necessidade dos sujeitos de assumir modelos identitários diversos. Para tanto, se utilizam da cultura da mídia, que é responsável por grande parte da disseminação desses modelos, além de mercadorias que consigam sustentar as identidades escolhidas. Ora, essa relação é possível porque tanto a cultura da mídia, quanto as mercadorias presentes na sociedade do consumo estão em constante movimento, assim como as identidades. Poderíamos dizer, nos apropriando de um termo cunhado por Bauman, que as identidades são líquidas ou fluidas. (MACEDO, 2010, p. 50). Este parece ser o retrato das identidades na pós-modernidade e nas relações que ocorrem no ciberespaço. É por isso que Bauman as chama de líquidas ou fluidas. “Os ‘fluídos’ são assim chamados porque não conseguem manter a forma por muito tempo e, a menos que sejam derramados num recipiente apertado, continuam mudando de forma sob a influência até mesmo das menores forças.” (BAUMAN, 2005, p. 57). Ainda neste sentido, DaMatta (2009) sugere que os papéis sociais não são bem definidos e assim também parece entender Recuero (2009, p. 30, sem grifo no original), dizendo que “perfis do Orkut, weblogs, fotologs, etc. são pistas de um ‘eu’ que poderá ser percebido pelos demais. São construções plurais de um sujeito, representando múltiplas facetas de sua identidade.” Pode-se tomar que, o sujeito pode ser único, mas as identidades podem ser múltiplas tanto na existência como na forma de representação.
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    33 Sobre essa mutação de identidade, Bauman diz que nós, habitantes do líquido mundo moderno, somos diferentes. Buscamos, construímos e mantemos as referências comunais de nossas identidades em movimento – lutando para nos juntarmos aos grupos igualmente móveis e velozes que procuramos, construímos e tentamos manter vivos por um momento, mas não por muito tempo. (BAUMAN, 2005, p. 32). Assim, este novo tempo em que se encontra essa sociedade contemporânea é propício aos novos estilos de identidades frágeis, líquidas e evanescentes. As outras caíram por terra. “No admirável mundo novo das oportunidades fugazes e das seguranças frágeis, as identidades ao estilo antigo, rígidas e inegociáveis, simplesmente não funcionam.” (BAUMAN, 2005, p.33). Cabe aqui, para finalizar a questão das identidades, um interessante questionamento de DaMatta (2009): “Como os papéis [papéis sociais, identidades] colam nos atores sociais?”. Para ele, essa é a grande motivação das discussões sobre identidades. As várias identidades de que fala Recuero ou a liquidez de que fala Bauman pouco tem a ver com o certo ou errado, com o caráter do indivíduo. Não são boas, nem más, mas apenas uma constante dualidade de papéis sociais. DaMatta (2009) usa como exemplo a questão do nepotismo. Diz ele que essa é uma sociedade familiar e que, portanto, não deveria considerar o nepotismo uma irregularidade. Nesse contexto, de acordo com o pensamento de DaMatta, para o homem público há uma constante dualidade de papéis sociais. Ele deve optar por indicar alguém de confiança para um cargo público que não seja da família. Todavia, há alguém cujos laços e confiança sejam mais fortes do que um parente nessa sociedade de bases familiares? Não seria o correto indicar para um cargo de confiança da administração pública então um parente? “Por que isso é errado?”, questiona ele. Que papel social e, portanto, que identidade irá assumir esse ator social entre nomear ou não um parente? O papel de administrador público limitado à questão do nepotismo ou o papel de membro familiar que vê no parente alguém de confiança para assumir o cargo? Como se vê, as identidades tem papel fundamental na identificação das relações entre os atores sociais. É dizer que, sem essas três noções: a) o indivíduo no ciberespaço não é físico é apenas uma representação (para Recuero); b) esta representação é mutável, é líquida e pode tomar várias facetas sem limite de tempo ou espaço (para Bauman); e ainda c) essa mutação e liquidez não são boas nem
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    34 más, podem serapenas uma dualidade entre os papéis sociais que o indivíduo tem que desempenhar (para DaMatta), não será possível olhar o ciberespaço e as redes sociais na Internet com olhares mais científicos do que comerciais, ou seja, procurando adotar uma postura de pesquisador e não somente se envolver na rede. Assim como, é preciso entender que essa dualidade de papéis sociais existe e que este pode ser, também, motivo que leve à liquidez das identidades. 3.2.2 Conexões Recuero (2009, p. 30) argumenta que as conexões podem ser interações, relações ou laços sociais entre os atores sociais na Internet. Para ela são as conexões que motivam aos pesquisadores, pois, é possível avaliá-las muito depois de realmente terem acontecido. Na rede, ficam os “rastros” dessas interações, como diz a autora. Ou seja, uma atualização no Twitter pode ser posteriormente visualizada pelos usuários, em qualquer lugar, até que alguém a exclua. São estes rastros que permitem ao pesquisador analisar mesmo não estando presente no tempo e no espaço em que ocorreu a interação. Neste mesmo sentido, Recuero (2009, p. 31) traz os seguintes questionamentos: “[...] como compreender a interação social no ciberespaço? [...] Como pensar a interação distante do ator social que a origina?” Diz ela que essas interações possuem diversas características. A primeira delas é que não há outra relação imediata além da linguagem mediada por computador, ou seja, não há, por exemplo, a interação face a face. Tudo é mediado por computador. Desde o espaço, o tempo, as representações dos atores sociais, os códigos da mensagem, as próprias mensagens, o feedback. Todo o processo da interação está mediado pelo computador. A outra característica é que são permitidas interações mesmo quando os atores não estão conectados no ciberespaço. É o caso dos e-mails, onde nem sempre são enviados para quem está conectado à rede no momento, e por isso, não se espera uma resposta imediata. Assim também ocorrem com as mensagens deixadas entre os usuários utilizando o Facebook, o MSN ou o Orkut. Recuero (2009, p. 36) alerta para o fato de que “a interação mediada por computador é a geradora de relações sociais, que, por sua vez, vão gerar laços sociais.” Assim, tem-se que as interações são a menor parte de todo o processo de conexão que ocorre nas redes sociais na Internet; as relações sociais são processos
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    35 causados por váriasinterações sociais e, por sua vez, os laços sociais são envolvimentos mais complexos resultantes das relações sociais. A partir de Alex Primo (2003), Recuero (2009, p. 33) descreve que as interações podem ser reativas e limitadas, mútuas e construídas, fortes ou fracas e multiplexas. E para que se entenda melhor estes tipos de relações, faz-se necessário explorá-las rapidamente. As interações são reativas e limitadas quando, por exemplo, um usuário clica em um link sendo levado para algum lugar. Já as interações mútuas e construídas, que interessam mais para este trabalho, são aquelas onde o usuário do Twitter, por exemplo, insere alguma atualização na página pessoal. Ao contrário da outra, esta última permite que outro usuário interaja com a atualização, respondendo, comentando ou replicando aos demais usuários da rede. E as interações, relações ou laços sociais podem ocorrer dentro ou fora do ciberespaço e podem, ainda, se combinarem. Os laços sociais fora da Internet podem ser resultantes de uma relação social mediada e iniciada por computador ou ainda o inverso. É o caso, por exemplo, de irmãos que convivem juntos e que mantem relações sociais na Internet. São os chamados laços “multiplexos”. Esses laços podem ainda, serem fracos ou fortes, e isto depende da quantidade de interações que os usuários mantem. Quanto mais interação mais forte o laço social. (DEGENNE E FORSÉ, 1999; SCOTT, 2000 apud RECUERO, 2009, p.42). Por fim, a autora alerta que: “As relações não precisam ser compostas apenas de interações capazes de construir, ou acrescentar algo. Elas também podem ser conflituosas ou compreender ações que diminuam a força do laço social”. Neste sentido, as relações e laços sociais não se confundem com o conteúdo, mas também não podem existir sem este, pois é ele, o conteúdo, o que determina o tipo de relação ou laço social, que podem ser de amizade, de carinho, de amor, de conflito, de hostilidade e, ainda assim serem de laços fortes. É importante que isto fique claro para que não se tome as relações ou laços sociais sempre como algo positivo. (RECUERO, 2009, p.37).
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    36 4 METODOLOGIA Como visto anteriormente, o objetivo do presente trabalho é saber e refletir sobre as inserções de hostilidade e preconceito no Twitter, diante deste contexto de sociedade contemporânea, globalizada e liquida. O objetivo, portanto, dar-se-á cumprido somente através da construção de conhecimento. De acordo com Antônio Joaquim Severino (2007, p. 25) a produção de conhecimento como construção de um objeto ocorre “mediante nossa capacidade de reconstituição simbólica dos dados de nossa experiência”. Ou seja, “apreendemos os nexos pelos quais os objetos manifestam sentido para nós, sujeitos cognoscentes”. Dessa maneira o conhecimento torna-se um “complexo processo de constituição e reconstituição do sentido do objeto que foi dado à nossa experiência externa e interna”. O autor ainda alerta para o fato de que a construção do conhecimento no ambiente acadêmico tem um diferencial e deve ser construído “pela experiência ativa do estudante e não mais ser assimilado passivamente”. E, ainda sob este aspecto a “pesquisa torna-se elemento fundamental e imprescindível no processo de ensino/aprendizagem. [...] o aluno precisa dela para aprender eficaz e significativamente”. (SEVERINO, 2007, p. 25). Assim, o presente trabalho tem como base a pesquisa bibliográfica. Como ensinam Jorge Duarte e Antônio Barros (2009, p. 52) “A pesquisa bibliográfica, num sentido amplo, é o planejamento global inicial de qualquer trabalho de pesquisa”. Para Severino, é aquela que se realiza a partir do registro disponível, decorrente de pesquisas anteriores, em documentos impressos, como livros, artigos, teses etc. Utiliza-se de dados ou de categorias teóricas já trabalhados por outros pesquisadores e devidamente registrados. Os textos tornam-se fontes dos temas a serem pesquisados. O pesquisador trabalha a partir das contribuições dos autores dos estudos analíticos constantes dos textos. (SEVERINO, 2007, p. 122). É necessário ressaltar que hoje a pesquisa bibliográfica parte não apenas dos impressos, mas também do levantamento de documentos encontrados na Internet, filmes, programas de televisão ou rádio, aulas, palestras e conferências. Ou seja, “tudo o que foi escrito, dito ou filmado sobre determinado assunto”. (LAKATOS, 2005, p. 185). Entretanto, como previne Severino:
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    37 Não traz resultados positivos para o estudo ouvir aulas, por mais brilhantes que sejam, nem adianta ler livros clássicos e célebres. Isso só tem algum valor à medida que se traduzir em documentação pessoal, ou seja, à medida que esses elementos puderem estar à disposição do estudante, a qualquer momento de sua vida intelectual. (SEVERINO, 2007, p. 67). Por isso, além da pesquisa bibliográfica, também foi realizada a documentação bibliográfica das obras através do método de fichamento, para que, como fim, se cumprisse o que garante Severino sobre esse processo: “Sistematicamente feito, proporciona ao estudante rica informação para seus estudos.” (SEVERINO, 2007, p. 70). Buscou-se a partir da pesquisa e da documentação bibliográfica apresentar um rico diálogo entre os autores das obras. E entre elas, destacam-se como principais Bauman (2005, 2008, 2011), McLuhan (2005), Wolton (2007), Santos (2006), Chauí (2010), Sibilia (2002, 2008), Recuero (2009) e Santaella e Lemos (2010) que, de modo geral, discorrem sobre sociedade, homem e comunicação. A fim de complementar esses diálogos, as ideias e interpretações de alguns outros autores também foram trazidas para as linhas deste trabalho. São eles: DaMatta (2009), Lévy (1996, 1999), Nóbrega (2000), Primo (2003, 2011), Viviani (2007) e Zago (2008). O presente trabalho utilizou-se também de uma pesquisa exploratória que, para Severino (2007, p. 123), “busca apenas levantar informações sobre um determinado objeto, delimitando assim um campo de trabalho, mapeando as condições de manifestação desse objeto.” Assim, buscando a relação com as teorias vistas ao longo do trabalho, foram analisados alguns discursos das postagens no Twitter, os chamados “tweets”, encontrados através do uso da ferramenta de busca do próprio site e palavras-chave, como: “gays”, “mulheres”, “homofobia” e “nordestino”. Escolheu-se esse “tipo de hostilidades” em razão de sua intensidade. Cumpre-se ressaltar, ainda, que nas linhas deste trabalho ou diante das conclusões poder-se-á parecer que houve o emprego de uma pesquisa explicativa, cuja adoção poderia ocorrer, pois “além de registrar e analisar os fenômenos estudados, busca identificar suas causas”. Entretanto, o presente trabalho não tem essa pretensão. Os possíveis posicionamentos que possam aparecer, são resultados dessa “corrida ao conhecimento” e que se expressaram por meio de um ato de filosofar, pois este, “reclama um pensar por conta própria que é atingido mediante o pensamento de outras pessoas”. (SEVERINO, 2007, p. 123, 67).
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    38 5 O TWITTER Desde a notoriedade que atingiu o Twitter, por volta de 2008 quando foi utilizado na campanha do atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a ferramenta passou a ser alvo de pesquisadores e de constantes discussões. A proposta desse trabalho concentra-se no estudo dessa plataforma, pois, como afirmam diversos autores Recuero (2009) e Santaella e Lemos (2010), o Twitter serve como uma importante e relevante ferramenta no estudo de redes sociais na Internet. Neste último capítulo, portanto, além de conhecer mais sobre essa plataforma, será feita uma análise de “tweets” a partir das teorias vistas durante este trabalho. Assim será possível compreender melhor o comportamento do usuário na rede, e a importância daquilo que já foi abordado neste trabalho, como a condição pós-moderna e o individualismo. 5.1 DO TWTTR AO TWITTER Conta Jack Dorsey (2006), um dos fundadores do Twitter, que o serviço teve os primeiros conceitos pensados no ano 2000. No perfil de Dorsey no site Flickr4, um site onde os usuários mantém hospedadas fotos, ele comenta que ingressou em um serviço chamado LiveJournal5, que é uma comunidade virtual onde os usuários podem hospedar na rede um jornal ou um diário. A partir daí Dorsey pensou em criar algo semelhante ao LiveJournal, porém, com atualizações mais instantâneas. Algo que permitisse ao usuário atualizar o status6 e, de onde estivesse, compartilhá-lo. Algo para ser usado em tempo real. Dorsey conta que chamou a ideia inicialmente de “TWTTR” e, no perfil no Flickr ele mantém uma foto do primeiro esboço que fez do layout do Twitter (FIGURA 1), comentando sobre a ideia e sobre o recente sucesso após seis anos de espera. 4 Cf. <http://www.flickr.com/photos/jackdorsey/182613360/>. 5 Cf. <http://www.livejournal.com/>. 6 Status é uma palavra latina que significa estado, posição, condição. No mesmo estado “ou situação de uma pessoa ou entidade”. (STATUS, 2011).
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    39 FIGURA 1 -PRIMEIRO ESBOÇO DO TWTTR FONTE: DORSEY (2006) Entretanto, o esboço pouco se parece à primeira versão do Twitter, lançada efetivamente no ano de 2006. O site tinha uma versão de layout bem simples (FIGURA 2), e os botões amplamente conhecidos e utilizados nos dias de hoje, como “Favorite”, “Retweet” e “Reply” ainda não estavam presentes.
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    40 FIGURA 2 -SITE TWTTR FONTE: SAGOLLA (2006) Nota-se que o antigo layout do Twitter (FIGURA 2) era mais funcional, ou seja, parecia estar mais preocupado com a usabilidade7 do serviço do que com a 7 Usabilidade é um termo usado para definir o quanto uma interface é facilmente utilizada por diferentes usuários alcançando simplicidade, facilidade e eficiência no uso. (USABILIDADE, 2011).
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    41 experiência simbólica dosusuários. Era possível postar o conteúdo e ver o que foi postado pelos outros, mas ainda não era possível compartilhar o conteúdo de outro usuário como nos dias de hoje. É possível notar ainda que, a primeira versão já fazia o uso da pergunta utilizada até pouco tempo e que lembra uma das principais características do Twitter, a mobilidade: “what are you doing?” ou “o que você está fazendo?”. E, parece que respondendo à pergunta, Jack Dorsey, segundo reportagem de O Globo (2011), escreveu a primeira mensagem da rede (FIGURA 3), datada de vinte e um de março do ano de dois mil e seis: “invite coworkers” ou “convidando colaboradores”. FIGURA 3 - PRIMEIRO TWEET DA HISTÓRIA FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@JACK” NO TWITTER (2011) Antes disso, o próprio sistema enviava uma mensagem automática padrão, “just setting up my twttr” ou “apenas criando meu twttr”, que também pode ser encontrada nos perfis dos fundadores Jack Dorsey, Biz Stone e Evan Williams (FIGURA 4). FIGURA 4 - PRIMEIROS TWEETS GERADOS AUTOMATICAMENTE FONTE: MONTAGEM FEITA PELO AUTOR, DOS PERFIS “@EV”, “@BIZ” E “@JACK” NO TWITTER (2011) Desse ponto de partida até os dias atuais, é possível perceber que muita coisa mudou no Twitter, desde o layout até o sucesso que a rede social conseguiu. Antes, porém, cumpre-se mostrar, ainda que de maneira rápida, a estrutura atual do
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    42 Twitter afim deque, na sequência, a falta dessas características não atrapalhe no entendimento dos próximos tópicos. A versão atual do Twitter (FIGURA 5), o layout e as funcionalidades estão, sem dúvida, mais desenvolvidas e mais interativas do que na versão inicial e continuam mantendo a usabilidade do serviço. FIGURA 5 - VERSÃO ATUAL DO TWITTER FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DA PÁGINA PRINCIPAL DO TWITTER (2011) É possível agora marcar o conteúdo que mais gostou de outro usuário, compartilhar a postagem, ou ainda, responder alguma postagem com algum comentário e enviar mensagens particulares. 5.2 O QUE É O TWITTER? Lúcia Santaella e Renata Lemos (2010, p. 64) argumentam que o Twitter é “uma plataforma de microblogging que explodiu nos últimos anos, afiliando milhões de usuários por todo o mundo.” Esse sucesso deve-se ao fato de que rapidamente
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    43 celebridades passaram ase juntar ao Twitter, e isso ganhou maior atenção por parte dos meios de comunicação de massa fazendo com que públicos distintos da sociedade também se interessassem pelo Twitter. Esse fato é bem lembrado por Juliano Spyer no guia intitulado: “Tudo o que você precisa saber sobre Twitter” 8. Neste guia ele comenta que a entrada de Oprah Winfrey9 foi considerada um marco na história do Twitter e da popularização dessa plataforma (FIGURA 6). FIGURA 6 - PRIMEIRO TWEET DE OPRAH WINFREY FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@OPRAH” NO TWITTER (2011) Assim, desde que criado, o Twitter não parou de crescer. Estudos como os da agência Sysomos apontam que em 2009 o Twitter atingiu 11 milhões de usuários. O Brasil ocupava o segundo lugar com representatividade de 8,8% dos usuários da base total do Twitter. (LARDINOIS, 2010 apud SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 64). As autoras concluem que o Twitter é “Uma verdadeira ágora digital global: universidade, clube de entretenimento, ‘termômetro’ social e político, instrumento de resistência civil, palco cultural, arena de conversações contínuas” e que serve como um meio multidirecional, de captação de informações personalizadas; um veículo de difusão contínua de ideias; um espaço colaborativo no qual questões, que surgem a partir de interesses dos mais microscópicos aos mais macroscópicos, podem ser livremente debatidas e respondidas; uma zona livre – pelo menos até agora – da invasão de privacidade que domina a lógica do capitalismo corporativo neoliberal que tudo invade, até mesmo o ciberespaço. (SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 66). E, muito embora o Twitter faça parte do quadro das Redes 3.0, que são aquelas que permitem interação, são dotadas de aplicativos e estão focadas na mobilidade (HORNIK, 2005 apud SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 58), as autoras alertam para o fato de que 8 O guia está disponível para download na página da agência Talk Interactive: <http://guiadotwitter.talk2.com.br/arquivos/Manual_Twitter_6_MB.pdf>. 9 Oprah Winfrey é uma empresária e apresentadora de TV americana, e, uma das personalidades mais influentes dos Estados Unidos.
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    44 nas outras redes sociais como Facebook, Orkut etc., o foco da interação social está nos contatos pessoais entre usuários, no Twitter o foco encontra- se na qualidade e no tipo de conteúdo veiculado por um usuário específico. O foco da rede social Facebook, por exemplo, é disponibilizar informações e meios de interação direta para redes de relacionamentos que, em sua grande maioria, já existiam off-line, antes da entrada do usuário na plataforma. Novos contatos surgem através da rede, é claro, mas quase sempre em virtude de um contato pessoal ou de um amigo comum. Essas redes se caracterizam por uma atuação predominante focada em redes de relacionamentos pessoais familiares, de amizade e/ou profissionais. (SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 67). Assim, o foco do Twitter está naquilo em que um único usuário insere na rede, o conteúdo do que é postado, as “pílulas de 140 carácteres”. Outro fator que diferencia o Twitter das demais redes sociais também foi lembrado no guia de Juliano Spyer que diz que em mídias como o Orkut e o Facebook os usuários precisam se aceitar como contatos para que os perfis e atualizações possam aparecer um para o outro. Entretanto, no Twitter não ocorre desta forma, afinal, segundo o autor, nossa sociedade não funciona assim, nem todo mundo se conhece e alguns que se destacam, ganham o rótulo de “famosas” [sic] – a principal condição para alguém se tornar uma celebridade é justamente ser mais conhecido do que conhecer. O Twitter funciona dessa maneira ao permitir que existam vínculos unilaterais entre os partipantes. Você pode se ligar [ou seguir, como se diz no Twitter] a cantora Maria Rita (@MROFICIAL), ao Roger do Ultraje (@Roxmo), passando pelo bruxo Paulo Coelho (@paulocoelho) e o cartunista Maurício de Sousa (@mauriciodesousa), sem que eles necessariamente te conheçam. (SPYER, 2009, p.14). Esta afirmação dialoga com o que Santaella e Lemos querem dizer a respeito do foco da rede. O Twitter é bastante diferenciado, pois se foca na informação que o usuário insere na rede e, como diz Spyer, por ter essa possibilidade de a informação ser unilateral. Raquel Recuero observou algo parecido. Necessariamente os usuários das redes não precisam manter laços unilaterais (caso do Twitter). Dessa forma, observa a autora que os laços necessariamente não são recíprocos. “É possível que um ator A considere B como um melhor amigo (laço forte) e que B, em retorno, não considere A como uma pessoa tão próxima (laço mais fraco).” Entretanto, essa reciprocidade não deve ser confundida “como uma troca de forma igualitária, mas apenas como uma troca de interações e informações.” (RECUERO, 2009, p. 41). Para esclarecer bem essa questão, a noção de unilateralidade de que fala Spyer em nada tem a ver com a força dos laços, pois, no caso no Twitter também é
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    45 possível que doisusuários com laços sociais fortes não sejam, reciprocamente, seguidores um do outro. Isso reforça a qualidade destacada pelos autores em relação ao Twitter, onde é possível que o usuário “Maria Rita (@MROFICIAL)” não necessite ser seguidor de alguém muito conhecido ou próximo, para que este se torne seu seguidor. Isso não ocorreria no Orkut e no Facebook, onde para se tornar “seguidor” de algum usuário necessita-se ser “aceito” por ele, o que o torna, através dessa ação, seguido e seguidor ao mesmo tempo. 5.3 O TWEET: UMA PÍLULA SOCIAL DE 140 CARACTERES Tweet é o nome dado a cada postagem que o usuário insere na rede. Alguns comunicadores e alguns autores optam por grafar a palavra como ela é pronunciada em português: “tuíte” ou “tuiteiros”, por exemplo. Neste trabalho, preferiu-se adotar as palavras na grafia original, como: “Twitter”, “tweet”, “Twitteiros”, entre outros. O tweet possui no máximo 140 caracteres e pode acompanhar links para páginas, fotos ou sites. O conteúdo, portanto, pode ser bastante variado, desde o compartilhamento de notícias, assuntos de economia, esportes, política, assuntos particulares, superficiais, privados e humor (FIGURA 7). Alguns usuários utilizam também como canal de conversação com os seguidores. É possível, por exemplo, escolher apenas perfis cujo conteúdo esteja restrito aos assuntos informativos, aos perfis pessoais ou aos de humor. Entretanto, grande parte dos usuários costuma equilibrar essa seleção de perfis. Todos os tweets postados ou compartilhados, do usuário que se segue ou do usuário que é seguido, são expostos por meio de uma página ordenada do mais recente ao mais antigo, chamada timeline.
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    46 FIGURA 7 -TWEETS VARIADOS FONTE: MONTAGEM FEITA PELO AUTOR, DE DIVERSOS PERFIS NO TWITTER (2011) A imagem (FIGURA 7) ilustra essa diversidade de conteúdos que os usuários veiculam na rede e que chega ao usuário. Isso também pode estar relacionado com o tipo de perfil de cada usuário que se segue. No entanto, observou-se que um mesmo usuário também pode postar diferentes tipos de conteúdos no perfil (FIGURA 8). Percebe-se melhor este conteúdo variado em perfis pessoais, visto que a maior parte das empresas quase sempre mantém assuntos mais restritos à área de interesse.
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    47 FIGURA 8 -DIFERENTES TIPOS DE CONTEÚDO, MESMO USUÁRIO FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@MARCELOTAS” NO TWITTER (2011) Todos os usuários que se escolhe seguir aparecem na página principal, sendo isso também, uma espécie de filtro das informações que se deseja receber. Entretanto, ocorre que a expectativa que se tem em relação ao conteúdo de determinado perfil que se escolheu seguir, pode não ser confirmada. Não apenas pela variedade de conteúdo que um mesmo usuário pode postar, mas também, por situações adversas. Um exemplo disso foi o caso de uma postagem equivocada do perfil do Supremo Tribunal Federal, o STF, em fevereiro deste ano no Twitter. Muito embora o ocorrido tenha sido um caso de uso irregular da conta por parte de uma
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    48 funcionária terceirizada, quemoptou por seguir essa conta esperava apenas visualizar notícias relativas ao poder judiciário brasileiro e acabou recebendo um conteúdo fora desse contexto. A mensagem veiculada era de caráter irônico envolvendo duas personalidades brasileiras: o Ronaldinho, um jogador de futebol mundialmente conhecido, e o Senador da República José Sarney. FIGURA 9 - TWEET APAGADO DO PERFIL DO STF FONTE: PORTAL R7 (2011) Embora o STF tenha apagado do perfil o tweet em questão (FIGURA 9), foi possível encontrar cópias na Internet em diversos sites de notícias, em outros sites e até a mensagem compartilhada por outros usuários no próprio Twitter. Com isso, pode-se reforçar aquilo que Recuero comenta sobre os “rastros” que ficam e que permitem aos pesquisadores verificar as interações mesmo não estando presentes, mesmo não sendo atuais e, como neste caso, mesmo apagadas. O caso gerou grande repercussão no Twitter e nos jornais. O STF acabou se desculpando pelo ocorrido e solicitou o desligamento da funcionária. Percebe-se o poder que essas redes sociais na Internet têm em proporcionar interações variadas e, pela capacidade de manter vivas e registradas as relações que o tempo apaga ou faz esquecer. Nesse sentido, Santaella e Lemos argumentam, a partir de uma obra de Manuel Castells, que as mídias sociais causam impactos na transformação da linguagem e na mudança cultural das sociedades, para elas as SMSs são filhas do e-mail, assim como as pílulas de 140 caracteres do Twitter são filhas das SMSs, com a diferença de que agora essas pílulas adquiriram o caráter populacional dos agenciamentos, de que fala DeLanda. Enquanto os e-mails e as SMSs se limitam a uns poucos agenciamentos e apenas fazem uso das redes, as mensagens do Twitter não apenas fazem uso das redes, mas criam redes e são também a própria rede. (SANTAELLA; LEMOS, 2010, p. 17). Estes “agenciamentos” de que fala DeLanda são “encontros sociais”, “conversações entre duas ou mais pessoas”. (DELANDA, 2006 apud SANTAELLA;
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    49 LEMOS, 2010, p.15). Os 140 caracteres do Twitter parecem ser o princípio de quase tudo o que ocorre nas relações mediadas pelo Twitter. É possível notar que através dessa “pílula” desencadeia uma série de reações capazes de criar, desmanchar ou manter interações, relações e laços sociais. Por isso coube tão bem o termo usado por Santaella e Lemos: pílula. Uma pílula é um compacto medicinal de drogas ativas, de variadas formas e cores (PÍLULA, 2011a; PÍLULA, 2011b) e, embora pequena no tamanho, tem forte ação no corpo humano. Essa é a comparação feita aqui. Uma mensagem curta, de 140 caracteres, que parece ser tão insignificante em toda a dimensão da comunicação, possui um grande poder por ser criada ou injetada de maneira como que intravenosa na Internet. Algumas funcionalidades também são empregadas não apenas para efeitos de usabilidade, mas também, ajudam para que um tweet se torne essa pílula social. As mais importantes serão vistas na sequência. 5.3.1 As Hashtags (#) e os Trending Topics (TTs) As hashtags são palavras-chave utilizadas no Twitter, e que são precedidas pelo símbolo “#”. A função dessas hashtags é identificar um assunto em comum que esteja sendo postado pelos usuários no Twitter. Assim que postadas, as hashtags viram indexadores em que, através do link que é criado com a hashtag, também é possível identificar os outros usuários que estão usando as mesmas expressões, como numa espécie de busca. Ainda há outra característica interessante que parece motivar o uso das hashtags. Em determinados tweets elas aparecem como um condensador de sentido. Ou seja, parece que, de fato, o sentido da mensagem se revela no uso da hashtag e não na mensagem do tweet em si (FIGURA 10).
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    50 FIGURA 10 -USO DE HASHTAG COMO SENTIDO FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DE VARIOS PERFIS NO TWITTER (2011) É possível perceber que determinados usos, como os exemplos da imagem (FIGURA 10) atribuem um sentido “puro” ao que o usuário quer passar como mensagem. No lugar de construir a oração com o pensamento completo, a hashtag faz o papel de dar sentido ao que foi escrito. Fica mais perceptível quando se olha para o uso da hashtag “#partiu”, comumente utilizada no Twitter. Neste caso percebe-se que o emprego da hashtag procurou substituir a tarefa do usuário de dizer que se desconectou da rede. FIGURA 11 - APLICAÇÕES DA HASHTAG FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@HUSOUZA” NO TWITTER (2011) É possível perceber ainda, a flexibilidade da hashtag quanto ao uso: como indexador ou como “puro” sentido. Na imagem (FIGURA 11) a primeira hashtag “#BOLSONARO” tem um caráter indexador, para que, por meio dela os outros usuários também encontrem o tweet em questão. A segunda hashtag utilizada “#1deAbril” assume um caráter de ironia em relação à mensagem como um todo,
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    51 onde de fatoé identificado o sentido do conteúdo. É dizer que, sem a hashtag “#1deAbril” o conteúdo do tweet poderia ser interpretado como outra informação. Com isso, as hashtags mais usadas ficam listadas no canto direito do Twitter, e são os chamados Trending Topics, os assuntos do momento, ou TTs como são chamadas pelos usuários do Twitter. Os TTs podem ainda, estar compostos por nomes próprios além das hashtags. A expressão “Jair Bolsonaro”, por exemplo, por se tratar de um nome próprio e, por ter sido amplamente utilizada por um período de tempo, já esteve presente na lista dos TTs. Essa lista pode ser considerada mais um dos rastros que possibilitam identificar padrões, comportamentos e os assuntos que se tornaram relevantes, de alguma forma, para os usuários do Twitter. Existe uma ferramenta na Internet, o twend.it 10, que registra os TTs desde maio de 2010. O site mantém uma lista, a “Most Popular Trends List” ou “Lista dos Trends mais populares”, que ordena de 1 a 10 as hashtags ou nomes próprios que permaneceram por mais tempo nos TTs. Verificando o site, foi possível identificar que entre elas, está a hashtag “#Dilma”, em 10º lugar, permanecendo por 7 dias, 19 horas e 28 minutos na lista de TTs mundial. No site, ainda é possível pesquisar outras hashtags ou nomes próprios que passaram pelos TTs por meio de um campo de busca. Outros eventos constantes que aparecem nos TTs Brasil são as hashtags que envolvem os artistas Luan Santana e a banda Restart. Segundo reportagem do site Portal G1 (2011), em junho de 2011 a cantora Rita Lee provocou fãs de Luan Santana, Justin Bieber e da banda Restart pelo Twitter, simulando uma conversa onde orientava alguém a trancar a irmã, fã dos artistas, no congelador. Como resposta os fãs criaram a hashtag “#CalaBocaRitaLee” que alcançou a lista dos TTs mundial. A discussão girou em torno dos fãs e da própria Rita Lee. Em pesquisa ao site twend.it, verificou-se que a hashtag “#CalaBocaRitaLee” esteve nos TTs por 01 hora e 15 minutos do dia 25 de junho de 2011, dia em que houve o ocorrido. Não apenas celebridades conseguem emplacar alguma hashtag nos TTs do Twitter. É o caso do usuário “@pedreiro_online”, que por meio de uma brincadeira com os seguidores, emplacou na lista dos TTs, a hashtag “#cantadacomseriado” (FIGURA 12). 10 Cf. <http://twend.it/>.
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    52 FIGURA 12 -HASHTAG #CANTADACOMSERIADO FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@PEDREIRO_ONLINE” NO TWITTER (2011) A brincadeira rendeu muito entretenimento aos seguidores do perfil no Twitter, e apareceu nos TTs Brasil (FIGURA 13). Já não é a primeira vez que este usuário consegue emplacar uma hashtag nos TTs. O número de seguidores do perfil é expressivo e isso é, sem dúvida, também, um fator de influência. Entretanto, emplacar uma hashtag nos TTs significa que, de alguma forma, o assunto foi relevante aos seguidores que compartilharam a informação, fazendo com que ela fosse a mais comentada do momento. FIGURA 13 - TRENDS TOPICS BRASIL FONTE: BLOG PEDREIRO ONLINE (2011) Há também uma lista no próprio Twitter, onde é possível escolher e visualizar os TTs do momento pelos seguintes filtros: a) Mundial; b) País (Brasil, por exemplo) e; c) Cidades (São Paulo ou Rio de Janeiro, no caso do Brasil). Porém, o Twitter não mantém um histórico como no outro site citado. Aparece apenas o que
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    53 está em destaqueno momento e assim que um novo assunto se torna mais comentado, aparece na lista, substituindo algum outro. 5.3.2 O Retweet (RT) e o Reply Retweetar, ou dar RT, tornou-se uma prática constante no Twitter. É comum encontrar uma informação relevante, ou melhor, que se julga relevante também para a lista de seguidores e replicá-la, compartilhá-la. Dar RT é nada mais do que compartilhar uma informação, um link, uma imagem, um site, uma piada, um tweet. Para dar um RT basta clicar em um botão no rodapé do tweet e ele aparecerá na timeline do usuário, dessa maneira, aparecendo também para os seguidores. Neste caso ao dar RT no tweet de alguém, na timeline irá aparecer a imagem do outro usuário. FIGURA 14 - TIMELINE COM RETWEET FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DA PÁGINA DO PERFIL DE “@RAQUELRECUERO” NO TWITTER (2011)
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    54 Percebe-se na imagem (FIGURA 14) que na timeline do usuário “@raquelrecuero” houve três retweets. Essa interação é possível identificar, pois as fotos e nomes dos perfis que aparecem junto ao conteúdo do tweet são: “@mashsocialmedia”, “@RWW” e “@jafurtado”. Assim, é possível identificar que não se trata de uma informação de fonte do próprio usuário “@raquelrecuero”, mas sim compartilhada por ela, a partir dos outros três usuários. A outra ferramenta do Twitter é o Reply, que serve para comentar algo de algum usuário, respondendo ao tweet. Acontece que, ao utilizar a ferramenta Reply o texto que se escreve sobrepõe a mensagem original que se está comentando. E, como a intenção é comentar, mas também expor de onde surgiu o comentário, o Reply é mais utilizado para dar RT (FIGURA 15) e acrescentar um pequeno comentário. FIGURA 15 - RT USANDO REPLY COM COMENTÁRIOS FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@HUSOUZA” NO TWITTER (2011) Alguns usuários também utilizam o Reply para que a foto na timeline não mude. E, portanto, é possível encontrar na rede, RTs sem nenhum comentário, apenas utilizando o recurso de Reply com o dizer RT para indicar que foi repassada a informação (FIGURA 16). Outra causa provável, e não descartável, é que os usuários usem dessa maneira a ferramenta Reply por não saberem usar a RT. FIGURA 16 - RT USANDO REPLY SEM COMENTÁRIOS FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@CARLOSTUFVESSON” NO TWITTER (2011) Na imagem (FIGURA 16), é possível notar que o usuário “@CarlosTufvesson” fez referência à uma informação divulgada pelo usuário “@estadao” porém não acrescentou nenhuma informação. Se a ferramenta utilizada
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    55 fosse o RT,no lugar do avatar, que é a foto que identifica o usuário, apareceria a daquele que ele escolheu replicar a informação, neste caso a do Estadão. Com isso, pode-se pensar que alguns usuários, não que seja este o caso, utilizem a ferramenta de Reply para dar o RT, com o objetivo de manter a foto, como dito. Assim se tem um caso típico de tentativas de reafirmar o “eu” no ciberespaço, a fim de se tornar relevante também como se julgou o item que será compartilhado. 5.4 RELAÇÕES REATIVAS E LIMITADAS NO TWITTER Viu-se, a partir da abordagem de Recuero, o que são reações reativas e limitadas: aquelas em que o usuário tem a interação com um link por exemplo. Embora esse não seja o objetivo do trabalho, é importante que se aborde também essa relação, a fim de se esclarecer a diferença entre elas. Ao clicar em um link o usuário será levado para alguma outra página ou perfil, mas nunca poderá mudar o conteúdo desse link, mudando desta forma o perfil ou página para onde será direcionado. De maneira que, essas relações reativas e limitadas não permitem ao usuário uma apropriação, uma adaptação ou uma atuação ativa na relação social. Exemplo disso é o botão “Favorite” ou “Favorito” do Twitter. Ao clicar neste botão o usuário marca um tweet como favorito, adicionando-o a uma lista, tornando possível recorrer a ela quando desejar. Uma postagem favorita fica identificada com um ícone em formato de estrela destacado no rodapé da postagem e, uma pequena etiqueta, uma tag, no canto superior esquerdo também identificando quando uma postagem foi marcada como favorita (FIGURA 17). É possível desmarcar qualquer postagem favorita e, neste caso, também se trata de uma relação reativa e limitada. FIGURA 17 - TWEET MARCADO COMO FAVORITO FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@COMUNICADORES” NO TWITTER (2011)
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    56 Entretanto, como dito, essas relações não são o objeto desse trabalho. Por isso é importante apenas essa rápida oportunidade de conhecê-las e, seguir adiante com as relações mútuas e construídas no Twitter. 5.5 RELAÇÕES MÚTUAS E CONSTRUÍDAS NO TWITTER As relações mútuas e construídas, como se verificou no capítulo anterior, são as relações onde envolvem um ou mais atores sociais. A partir das diversas funcionalidades do Twitter é possível perceber estas interações sociais entre os atores, analisá-las e compará-las com as teorias vistas durante o trabalho. A grande busca no uso do Twitter, até mesmo em razão das características de mobilidade e de fluidez, é ser relevante11. Entende-se, neste trabalho, relevante como sendo de percepção de grande valor social para algum usuário. Assim, a informação que o usuário insere no Twitter, tem, a todo o momento, pelas mãos dos usuários, uma constante busca em ser ou tornar-se relevante. O usuário do Twitter busca a todo o momento que o tweet seja “favoritado”, “retweetado”, comentado e que essa relevância se traduza, também, em mais seguidores. É por isso, que será importante e necessário entender um pouco mais sobre o conceito de capital social. 5.5.1 O capital social no Twitter Recuero (2009) diz que o capital social é como os valores percebidos nas interações sociais entre os atores, e que estão sempre ligados à reciprocidade e qualidade dos laços sociais. “Desse modo, o capital social é construído nas relações entre os indivíduos, e diferentes tipos de relações demandam a mobilização de diferentes formas de capital social.” (ZAGO, 2008). Assim, quando se pensa em relevância na Internet, pode-se ter essa questão de relevância como sendo o capital social buscado no Twitter. Completa Gabriela Zago dizendo que 11 Importante, aquilo que sobressai. Aquilo que é, ou torna-se, necessário, indispensável ou de grande valor. (RELEVANTE, 2011a; RELEVANTE, 2011b).
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    57 quando um indivíduo interage com os demais em uma rede social, ele mobiliza concomitantemente diferentes formas de capital social, e esse capital utilizado em sua relação com os demais resultará na construção de sua reputação frente aos demais indivíduos de uma determinada estrutura social. (ZAGO, 2008, p. 3). Com isso, o capital social se traduz em total importância na construção da reputação, ou seja, em tornar-se relevante na rede social. Pode-se começar a problematizar essa questão da construção da relevância, iniciando pela questão do avatar. A escolha dessa representação de um “eu” na Internet pode ser pautada por questões como: “será que vão gostar de mim nessa foto?”, “será que vou ficar bonito (a)?”, “será que essa foto fica boa?”. Trata-se de uma busca de espetacularização do “eu”, de torná-lo relevante e, por fim, comercial. É assim que vê Sibilia (2008). A autora chama a atenção para o fato de que, nunca antes o “eu” foi tão considerado um produto, e consequentemente, tão editado, tão manipulado e tão tratado com o fim de que se consume a tão esperada “compra”. Bauman comenta a questão de tornar-se, enquanto sujeito, comercial, dizendo que: Os membros da sociedade de consumidores são eles próprios mercadorias de consumo, e é a qualidade de ser uma mercadoria de consumo que os torna membros autênticos dessa sociedade. Tornar-se e continuar sendo uma mercadoria vendável é o mais poderoso motivo de preocupação do consumidor, mesmo que em geral latente e quase nunca consciente. (BAUMAN, 2008, p. 76). No Twitter essa relação é constante. Os usuários precisam “consumir” e tornar-se, ao mesmo tempo, “mercadorias”. No caso, usuários esperam que seguindo alguém sejam também seguidos por estes, como uma relação comercial, como uma troca de valores. Sibilia também procura justificar a questão do tornar o “eu” comercial dizendo que: Tanto na internet quanto fora dela, hoje a capacidade de criação é sistematicamente capturada pelos tentáculos do mercado, que atiçam como nunca essas forças vitais e, ao mesmo tempo, não cessam de transformá- las em mercadorias. (SIBILIA, 2008, p. 10). A autora aborda a questão de que antigamente também se criavam essas representações, não como as de hoje, todavia. Eram comuns os quadros que retratavam as pessoas nas ruas ou em casa. Entretanto, há uma diferença, aponta Sibilia, daquele tempo para este, líquido. Existia um distanciamento entre a esfera pública e privada. (SIBILIA, 2008, p. 267). Hoje o privado também interessa. A
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    58 autora traz oexemplo do caso do site do Jornal O Globo em que, em meio à retrospectiva do ano, apareciam registros de “pessoas comuns”. Fotos, assuntos particulares e privados de “desconhecidos”. Hoje, não existe, como se vê, o distanciamento entre o público e o privado. Muito pelo contrário, o privado interessa mais do que antes. É o caso do programa Big Brother Brasil. Afinal, o que justifica tamanha devoção para com um programa cuja pauta é um “outro comum”? Por que, de repente, o privado interessa tanto? Ora, não se pretende responder essas questões, mas sim, utilizá-las para apontar o outro problema levantado. Se, de repente o privado, o comum, interessa tanto, qualquer um pode interessar e para tal, precisa tornar-se relevante. Basta tornar-se um produto, editar-se a ponto de se tornar atraente, ao ponto de que o capital social seja apercebido pelos demais e que, assim, vigore a imagem cintilante na Ágora digital. O que parece é que agora, tudo se reflete nas relações individuais. Busca-se, mais do que nunca tornar-se um produto na Internet, onde o grande preço, a grande moeda é o capital social, o valor que será atribuído ao usuário, e, portanto, a relevância. Além da imagem do avatar, o conteúdo do tweet e, ele próprio, são também formas constantes de busca de relevância através do capital social. Surge assim a questão do discurso na web. Sibilia (2008) relata a respeito da evolução do papel do autor-artesão da Antiguidade ao autor-criador da Contemporaneidade. Sibilia retrata que o autor na Antiguidade se aproxima de um artesão. Era aquele que buscava, através da técnica, a fiel representação da natureza de maneira a confundir os sentidos, não importando a visão interior e nem tampouco o que fosse fruto da criação. Já na Contemporaneidade, emerge um autor que se aproxima mais de um criador. Dotado de subjetividade ele desempenha o papel da interpretação muito mais do que da representação fiel. O artesão é aquele que faz alguma coisa, aplicando sua destreza e seu domínio de uma técnica para exercer um ofício, e como resultado desse trabalho ele produz algo. [...] Já o artista não se define necessariamente como aquele que faz alguma coisa, mas como aquele que é alguém. Há uma certa essencialidade no ser artista que vai além da prática de um ofício e que pode inclusive chegar a dispensar a enfadonha tarefa de produzir uma obra. É possível ir ainda mais longe: de acordo com essa definição essencialista, se o sujeito possui essa preciosa essência, algo assim como uma “personalidade artística”, então os principais ingredientes que o definem como tal já estão presentes. Mesmo que a obra ainda não exista, ela permanece de algum modo em latência e tudo indica que será de fato produzida, pois a sua realização nada mais seria do que uma mera consequência quase natural desse ser artista que habita uma tal
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    59 subjetividade. É por isso que o autor é um artista: alguém que é, sem precisar talvez nem mesmo fazer nada para continuar a ser ele próprio assim definido. (SIBILIA, 2008, p. 151). Neste contexto, o autor que produz o tweet, se aproxima mais do artista do que do artesão. Ele é, e expressa toda a subjetividade. O tweet se torna uma obra de arte, que proporciona a espetacularização do autor. “A obra aparece de repente como a expressão autêntica da personalidade do autor; como uma réplica ‘material’ de sua constituição psíquica”. E, portanto, com isso “consolidou-se também a figura do autor – ou seja, aquele que se reivindica como criador de um universo: sua obra.” E porque reivindica, porque é um autor, existe a noção de propriedade sobre o objeto criado. “Nesse sentido: toda obra [ou todo tweet] é um produto: uma mercadoria.” E, por fim, por se tratar de uma mercadoria, o autor também tem o interesse, na construção e na narrativa do “eu”, de torná-lo relevante com o intuito de fazê-lo ser consumido. (SIBILIA, 2008, p. 155). 5.5.2 Hostilidades em rede As interações dos atores sociais nem sempre constroem os laços e as relações sociais. Elas também podem ser conflituosas. Assim, faz-se necessário mostrar e identificar em que condições ocorrem essas relações conflituosas. De certa forma e, por uma olhar histórico, o ambiente virtual “livre” de regras, “livre” até mesmo da identificação real do usuário, onde todos podem, agora, fazer- se ouvir, contrapôs-se aos imperiosos meios de comunicação de massa como, por exemplo, a tevê, onde o usuário jamais conseguiria fazer-se ouvido sem que antes passasse pelo crivo da linha editorial deste grande meio. Claro que também existe a participação dos usuários nestes grandes meios, entretanto, como dito, tudo depende de uma rigorosa avaliação do meio quanto à relevância ou não da participação do indivíduo ou do conteúdo por ele produzido. É comum nos dias de hoje, fazer parte da programação da tevê algum programa ou algum quadro destinado a assuntos de Internet. Não estaria, de repente, tornando-se relevante a Internet até mesmo para os espectadores da tevê? Não fosse positiva a resposta, esses quadros destinados aos assuntos de Internet nos programas de tevê, jamais teriam passado pelo crivo da linha editorial e jamais estariam compondo os novos padrões de programação da tevê. Em sua maioria, são
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    60 quadros que mostramos vídeos mais visitados e que fizeram sucesso na Internet. Exemplos destes são: o “Programa Domingo Legal”, da emissora SBT, com o quadro “TOP 10 da Internet” e, o “Programa da Eliana”, da mesma emissora, com o quadro “Famosos da Internet”. Já o programa “Legendários”, da Rede Record, inovou nesse sentido de se fidelizar ao público da Internet e, paralelamente à programação que acontece ao vivo na tevê exibe outro programa, na Internet, o “Legendários na WEB”. No site oficial do programa Legendários, a seguinte chamada explica a ação: Outro grande diferencial do Legendários é a interação com o telespectador e internautas, que podem acompanhar o programa e participar pela internet através do Legendários na Web, um outro programa, apresentado por Elcio Coronato, com conteúdo exclusivo para a web, destinado a quem quer ter uma “experiência completa”. (LEGENDÁRIOS, 2011). Toda essa visibilidade e relevância atuais da Internet dão ao usuário a sensação de que é possível falar e fazer de um tudo na Internet, sem seguir algumas regras sociais de convívio. Essa discussão a respeito da liberdade do que se opina e dos impactos negativos que isso gera é hoje grande foco de debates, palestras, e gera cada vez mais buzz12 nas redes e nos grandes veículos. As diferenças tão acentuadas entre o que, e como pensam os usuários, entre as crenças, entre as ideologias, entre as preferências culturais e intelectuais também são razões pelas quais motivam esse tipo de pensamento: de que se pode falar e fazer de um tudo na Internet. A Internet é um espaço fluido, volátil e efêmero. A falta de punição pelos crimes ocasionados na rede podem intensificar e incentivar atitudes de hostilidade e preconceito. Não há como descartar que, no momento em que compartilham a informação, os usuários podem estar eufóricos e, isso já é motivo suficiente para que extrapolem determinadas regras de convívio social. Por vezes, esse excesso parece se tornar regra. São comentários pejorativos, uso de palavras ofensivas e acusações, muitas vezes sem fundamento, envolvendo empresas e pessoas. Um desses casos ganhou repercussão internacional. Após a divulgação do resultado das eleições presidenciais no Brasil, em 31 de outubro de 2010, a estudante de direito Mayara Petruso inseriu no perfil do Twitter (FIGURA 18), 12 Buzz significa burburinho, barulho. Algo que surge e se espalha facilmente, contagiando pessoas.
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    61 mensagens ofensivas contraos nordestinos, atribuindo a eles a vitória da presidente. FIGURA 18 - TWEET DE MAYARA PETRUSO FONTE: GOOGLE IMAGENS (2011) A mensagem tinha apenas 71 caracteres, menos do que os 140 permitidos pela plataforma Twitter e, ainda assim, causou um buzz geral nas redes e nos veículos de comunicação de massa. O caso repercutiu, ainda, internacionalmente e foi matéria do jornal britânico The Telegraph (FIGURA 19). FIGURA 19 - REPERCUSSÃO INTERNACIONAL DO CASO MAYARA FONTE: GOOGLE IMAGENS (2011)
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    62 Segundo informações no site da Procuradoria Geral da República, a denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal contra a estudante de direito, Mayara Petruso, foi aceita pela Justiça Federal de São Paulo que abriu processo pelo crime de racismo contra Mayara, em 4 de maio de 2011. O ato foi classificado pelo Ministério Público Federal como de intolerância. A notícia no site informou ainda que o crime de racismo, artigo 20 da lei n. 7.716/89, prevê pena de 1 a 3 anos de prisão e multa. Porém, como houve o uso de um meio de comunicação social a pena pode ser agravada de 2 a 5 anos de prisão e multa, conforme o 2º parágrafo do mesmo artigo. (JUSTIÇA, 2011). Após, seria a vez de outra usuária do Twitter, Amanda Regis, ficar conhecida por também postar na rede conteúdo hostil contra os nordestinos, desta vez motivada por assuntos de futebol. (FIGURA 20). FIGURA 20 - TWEET DE AMANDA REGIS FONTE: GOOGLE IMAGENS (2011) O caso de Amanda Regis ganhou repercussão nacional. Logo em seguida ao ocorrido a usuária se desculpou utilizando o próprio perfil, após ter excluído as postagens com o conteúdo hostil da rede. Indicadores da SaferNet Brasil13 apontam que no primeiro semestre de 2011, em comparação com o mesmo período do ano de 2010, as denúncias de conteúdos com intolerância religiosa subiram 18,5%; de xenofobia 33,1% e; de 13 A SaferNet Brasil é uma associação civil de direito privado, fundada em 2005. Inicialmente a SeferNet foi criada para atuar no combate de crimes de pornografia infantil na Internet, hoje, ela atua com o objetivo de transformar a Internet num ambiente ético e responsável. Os indicadores da SaferNet Brasil estão disponíveis para consulta no site <http://www.safernet.org.br/site/indicadores>.
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    63 homofobia 36,4%. Emcontrapartida, as denúncias de conteúdos de racismo tiveram queda de 36,8%. Tais dados revelam-se preocupantes. Essas hostilidades em rede parecem ser cada vez mais frequentes. A onda de hostilidades contra os nordestinos, em que Mayara Petruso foi apontada como pivô, resultou em 4.002 denúncias na SaferNet Brasil no período de 01 a 04 de novembro de 2010. Conta o presidente da SaferNet Brasil, Tiago Tavares, que na época foi preparado um relatório contendo 1.037 perfis do Twitter e enviado ao Ministério Público Federal. Após comunicar também à imprensa, cessou- se imediatamente a onda que durava mais de uma semana. (SAFERNET, 2011). A segunda onda aconteceu entre 17 e 19 de novembro de 2010. Tornou-se outro caso polêmico o do perfil “@HomofobiaSIM”. O perfil também foi protagonista de várias polêmicas envolvendo hostilidades contra homoafetivos (FIGURA 21). O resultado de denúncias apuradas pela SaferNet Brasil em relação ao ocorrido foi de um total de 8.574. FIGURA 21 - PERFIL @HOMOFOBIASIM, TWEET SOBRE GAYS FONTE: GOOGLE IMAGENS (2011) O mesmo perfil ainda, também ficou conhecido por incitar a violência contra as mulheres (FIGURA 22). Outros perfis também foram identificados nos relatórios da SaferNet Brasil como, por exemplo, o “@estuproSIM”, já cancelado.
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    64 FIGURA 22 -PERFIL @HOMOFOBIASIM, TWEET SOBRE MULHERES FONTE: GOOGLE IMAGENS (2001) Em todos os casos apresentados, a resposta não demorou a aparecer nos Trending Topics. Hashtags criadas por usuários como forma de protesto, como: “#OrgulhodeSerNodestino” e “#HomofobiaNAO”, dividiram o espaço com as hostilidades na rede. Como se verificou, a Internet é um palco, uma vitrine de comportamentos sociais, muitas vezes escondidos. Em meio ao social “não virtual”, é mais difícil, quase impossível, encontrar indivíduos com posições e ideologias, como as vistas nos exemplos, tão dispostos a compartilhá-las abertamente. Saberiam que, em meio à sociedade seriam rapidamente identificados, repreendidos, punidos ou até presos. Isso, portanto, não significa que o indivíduo não pense assim, que não carregue consigo ideias de preconceito, de ódio, de racismo ou de homofobia, mas tão e somente que, em sociedade ele parece procurar compartilhar as informações de maneira, muitas vezes, mais cautelosa, menos abertamente. Ao tempo em que, verificou-se nos casos Mayara Petruso e Amanda Regis uma forma de expressão da opinião, das ideias, do momento, ainda que preconceituosos, nota-se que no caso do perfil “@HomofobiaSIM” há uma clara intensão em agredir e provocar. Após o ocorrido e, ao verificarem o erro cometido, Mayara Petruso e Amanda Regis se desculparam utilizando o mesmo canal. O mesmo não ocorreu no caso do outro perfil que, muito pelo contrário, intensificou os ataques. Hoje, no perfil de Amanda Regis no Twitter encontra-se a seguinte mensagem no campo destinado para as informações do usuário: “perdão !”. Um dos
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    65 únicos três tweetsrestantes no perfil diz: “queria pedir desculpas a todos que se sentiram mal com o’que eu postei a [sic] dias atrás aqui no Twitter.” (FIGURA 23). FIGURA 23 - PEDIDO DE DESCULPAS DE AMANDA REGIS FONTE: PRINT SCREEN FEITO PELO AUTOR, DO PERFIL “@_AMANDAREGIS” NO TWITTER (2011) Por fim, percebeu-se ainda, no caso do perfil “@HomofobiaSIM”, a tentativa de esconder a identidade social “não virtual”, ou seja, daquele indivíduo social que fala por traz do perfil no Twitter, criando outra identidade, indeterminada. Este caso, ainda, parece extrapolar o limite da expressão das ideias e opiniões, pois produz informação sem fundamentos como: “acabe com AIDS, mate um gay” e “Se você não bate na sua mulher, ela não irá te levar a sério ...”. Sabe-se que, a AIDS não é uma doença exclusiva daqueles que se identificam homoafetivos e, tampouco, somente as esposas que apanham dos maridos os “levam a sério”, entre outras questões mais importantes que estes comentários podem suscitar.
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    66 6 CONCLUSÕES Ao longo deste trabalho buscou-se contextualizar tanto o homem quanto as relações destes na contemporaneidade, mais especificamente no Twitter, um dos sites de redes sociais na Internet. A atual situação vista por intermédio da teoria e dos exemplos coletados permite dizer que, sem dúvida, esta sociedade é uma aldeia global como previu McLuhan. A sociedade contemporânea está toda conectada como uma pequena aldeia, porém a escala agora é maior. O homem multiplicou os laços, as relações, as conexões e as comunicações por todo o globo e, isso é irreversível. O que acontece, ou aconteceu, no Egito, fez e fará uma influência tremenda, quer se saiba ou não, quer se sinta ou não, nos brasileiros, por exemplo. A troca de informações é constantemente proporcionada à distância de apenas um clique. É assim que, também, faz perpetuar a frase “o meio é a mensagem” onde, antes mesmo de interessar o conteúdo, interessa o meio. Os meios que trazem essas novas possibilidades são considerados como extensões do indivíduo. E o indivíduo, por sua vez, se torna hipnotizado por essas extensões e, assim como Narciso pode se envolver e não sentir o impacto de todo o processo que o rodeia. Ele, o indivíduo contemporâneo, sede aos encantos dessa possibilidade de estar conectado a todo o tempo, falando com todos em todos os lugares de uma maneira fácil, acessível e, muitas vezes barata. À medida que interage com a rede, o indivíduo reconfigura a identidade, tornando-se um corpo virtual que será medido pela conectividade. O que o convence é essa espetacularização do “eu” onde, finalmente, ele pode se fazer presente, ouvido, relevante. Viu-se que, na Internet, o tempo e o espaço não são os mesmos. Tudo é virtual, mas tudo é também real. O homem, neste sentido, é também real e virtual no ciberespaço. O ciberespaço constitui-se como um espaço de dimensão social. Ele representa uma nova chance para o homem pós-moderno, embora não seja ele próprio que se encontre lá, mas uma representação, um outro “eu”, uma outra identidade. Essas identidades, por sua vez, são líquidas. Podem modificar-se a todo o momento, e também, como se observou, isso não é bom nem ruim, trata-se apenas de uma “dualidade de identidades”. As interações dos atores, os laços sociais que criam nas redes, permanecem nela, possibilitando o estudo futuro, e como também foi observado, os
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    67 laços não sãonecessariamente de carinho, amor, mas, também, se constituem de relações conflituosas. É nessa sociedade pós-moderna, conectada, onde, pelas razões que foram expostas, emerge um homem preocupado com si mesmo. Um homem que valoriza o “eu” como arte, como produto, como mercadoria, como informação. O que este novo homem busca é tornar-se um espetáculo, um show. O que se busca é ser relevante no ambiente virtual. No Twitter isso corresponde a ganhar mais seguidores. Não é apenas a liberdade no ciberespaço que seduz o indivíduo pós-moderno, mas também a ideia de autopromoção, de tornar-se mercadoria e de ser consumido. Porque agora ele pode, e agora ele tem ferramentas e caminhos para tal. Este homem constitui-se, para este fim, das identidades líquidas e fluidas, onde a construção do “eu” na Internet é uma constante tarefa que muda a todo o momento e que busca, cada vez mais, essa relevância através de capital social percebido pelos outros usuários da rede. Ele tem a sensação de liberdade que se confunde com os limites de uma convivência justa, harmoniosa e pacífica. O que pode levar a troca de hostilidades na rede, discursos ameaçadores, acusações e críticas, em sua maioria, efêmeras, apenas opiniões, nem sempre construtivas. É inevitável dizer que tais relações também ocorrem fora da Internet, entretanto, a sensação de liberdade que esse meio proporciona, agravado pela possibilidade de anonimato e pela falta de punição, potencializam e incentivam atitudes como estas de hostilidades e preconceitos. E é neste sentido que o presente trabalho se encontra com o título. Diante das hostilidades em rede, é como se houvesse a necessidade de firewalls reais funcionando constantemente no ciberespaço. O firewall, ou “muro anti-chamas”, é um dispositivo de uma rede de computadores que tem como função bloquear ameaças, aplicando regras que controlam a entrada ou saída de informações. O firewall faz parte de uma política de segurança aplicada a um determinado computador da rede. Então, pensando de modo alegórico, no ciberespaço os firewalls agiriam de modo a coibir não os fluxos de entrada e saída de informações, os tweets, mas, apenas a maneira como as hostilidades nos tweets, essas “chamas” que geram buzz na rede, afetariam os indivíduos. Veja, é importante ressaltar que o uso figurativo da palavra firewall em nada se assemelha à aplicação de regras que controlem ou bloqueiem a entrada ou saída de informações. De maneira tempestiva, cumpre-se deixar claro que, seria excessivo e arbitrário afirmar isto do ponto de vista
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    68 da liberdade deexpressão. O termo que é empregado aqui, assim é feito em razão da tradução para o português: “anti-chamas”, sendo que por “chamas” entende-se como sendo o buzz que é causado nas redes pelas interações, relações ou laços sociais, como já visto. Até porque, e para encerrar a questão, os firewalls não apartam o usuário do conhecimento sobre as ameaças, faz apenas com que estes não sejam impactados negativamente por elas. Assim, este trabalho busca, além de contextualizar este homem contemporâneo e as relações destes, provocar uma reflexão a respeito desse novo tempo e das consequências disso no processo de comunicação. Aqui ainda, não coube resultar nenhum julgamento de valor e nenhuma constatação definitiva quanto a essas condições pós-modernas ou líquidas. Entretanto, como se observou com Bauman, com ou sem tecnologia existem dois fatores que dão forma à vida humana: o destino e o caráter. O destino compreende por ser aquilo que não se pode influenciar, o que acontece com o indivíduo contemporâneo e que não é causado por ele. Já o caráter é a manifestação das escolhas dos indivíduos. O destino sempre dá as opções, contudo, a escolha entre quais opções seguir dependerá única e exclusivamente do caráter. Fica, por fim, para o leitor deste trabalho, e como objetivo final, desenvolver um ato de filosofar e buscar novos conhecimentos a partir daquilo que foi apresentado aqui.
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    69 REFERÊNCIAS ACESSO à internet: mesmo quem não tem computador usa a rede regularmente. Blog Olhar Digital. 26 de setembro de 2011. Disponível em: <http://olhardigital.uol.com.br/produtos/digital_news/noticias/acesso_a_internet_mes mo_quem_nao_tem_computador_usa_a_rede_regularmente>. Acesso em: 13/11/2011. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. ______. Identidade: entrevista a Benedetto Vechi. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. Disponível em: <http://pt.scribd.com/doc/68178466/BAUMAN-Zygmunt-Identidade-Entrevista-a- Benedetto-Vecchi>. Acesso em: 12/10/2011. ______. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. ______. Diálogos com Zygmunt Bauman. [Vídeo]. Disponível em: <http://vimeo.com/27702137>. Acesso em: 04/10/2011. BRASIL é a 7ª maior audiência de Internet no mundo. Câmara Brasileira de Comercio Eletrônico. 30 de setembro de 2011. Disponível em: <http://www.camara-e.net/2011/09/30/brasil-e-a-setima-maior-audiencia-de-internet- no-mundo/>. Acesso em: 13/11/2011a. BRASIL. Lei n. 7.716, de 5 de janeiro de 1989. Define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. Diário Oficial da União. Brasília, DF, 5 jan 1989. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7716.htm>. Acesso em: 14/11/2011b. BRASILEIRO usa internet para 4 atividades, diz estudo. Época Negócios. 08 de setembro de 2011. Disponível em: <http://epocanegocios.globo.com/Revista/Co mmon/0,,EMI263808-16418,00-BRASILEIRO+USA+INTERNET+PARA+ATIVIDADE S+DIZ+ESTUDO.html>. Acesso em 13/11/2011. CANTADA com seriado nos trends brazil. Blog Pedreiro Online. 21 de outubro de 2011. Disponível em: <http://pedreiro-online.com/2011/10/21/cantada-com-seriado- nos-trends-brazil/>. Acesso em: 03/11/2011. CHAUÍ, Marilena. A contração do tempo e o espaço do espetáculo. [Palestra]. Disponível em: <http://www.cpflcultura.com.br/site/2010/09/03/cafe-filosofico-cpfl- especial-%E2%80%93-a-contracao-do-tempo-e-o-espaco-do-espetaculo-%E2%80% 93-marilena-chaui-e-olgaria-matos/>. Acesso em: 05/10/2011.
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