1
CONTOS DE TERROR
(porque possíveis...)
Sonia Regina Rocha Rodrigues
2
Não adianta trancar as portas e as janelas. O inimigo já está dentro de casa.
Neste momento mesmo, pode estar à espreita....
“A desgraça é variada. O infortúnio sobre a terra é multiforme.” – Edgar Allan
Pöe.
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A MISERÁVEL
A manhã cinzenta e enevoada espalhava- se fria. úmida, pelo porto. A
garoa confundia no mesmo nebuloso cinza céu, terra e mar. Nos limites
imprecisos das águas turvas navegavam rebocadores, lanchas, catraias e
coloridos barquinhos que quebravam a triste monotonia cinzenta com seus
tons vermelhos, amarelos e azuis.
O apito da barca chamou os apressados passageiros rampa abaixo.
Passada a roleta do terminal do Departamento Hidroviário, as pessoas
entravam na plataforma flutuante, uma grande sala de pedra cinzenta, úmida e
fria, onde uma faxineira varria ininterruptamente na tentativa inútil de limpar o
local. Fumantes jogavam tocos de cigarro ao chão, homens escarravam,
crianças urinavam. Ali, no verão, sufocava- se em fétidos vapores; no inverno o
vento cortante circulava impiedoso.
Uma grade amarela separava a sala de espera do corredor de embarque.
A barca atracava. A multidão desfilava, então, pobres homens sujos e
suados, mulheres mal ajambradas com crianças de olhar triste ao colo, velhos
e moços exibindo o mesmo ar cansado de miséria. Às vezes, uma jovem
melhor arrumada, um homem de pasta na mão, pessoas de aspecto bem
cuidado.
As feições daquela turba variavam do ariano ao cafuzo, em uma
riquíssima mestiçagem de traços fisionômicos, cabelos e tipos físicos.
Quando a barca esvaziava, o porteiro abria a grade e a nova multidão
acorria, acotovelando- se para entrar.
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Uma mulher desceu ao porão da barca, carregando em um dos braços
uma criança recém- nascida e na outra uma sacola vazia. Do lenço amarrado à
cabeça caíam cachos amarelados. O vestido mambembe exibia patéticos
babados de um rosa duvidoso. Nos pés, sandálias de plástico.
A mulher sentou- se no canto próximo à escada, deitando ao colo a
pequena carga humana e cobrindo- a quase totalmente com a sacola e a
manta. Sentia- se algo tonta, pois não se recuperara completamente do parto.
Relembrava as últimas horas.
Saíra do Hospital Guilherme Álvaro com a filha ao colo, admirada de não
encontrar o marido, que, a trouxera ao hospital e depois nem mesmo viera
visitá- las. Ele botara outra mulher dentro do barraco, jogara as coisas dela
pela janela e mandava dizer que não a queria de volta, nem à criança. Ao
tentar uma explicação, a mulher apanhara.
Poucas pessoas desceram ao porão, pois o horário dos trabalhadores já
passara e a barca navegava então parcialmente lotada. A travessia através do
cais demora cerca de dez minutos, seguindo ao longo dos berços dos
cargueiros, fazendo- se ao largo na altura da Bacia do Mercado, onde cruza-
se com as catraias, frágeis casquinhas balouçantes como folhas carregadas de
formigas humanas.
Modificou- se o barulho do motor, primeiro sinal de atracação. Os
rapazes precipitaram - se na costumeira exibição de coragem que consiste em
saltar antes da hora sobre o abismo das águas, arriscando- se a cair e ser
imprensado pela barca contra a amurada.
Vendo- se só, a mulher retirou rapidamente um pacote da sacola, colocou
em seu lugar a criancinha e fechou o zíper. Aconchegou ao seio o pacote
coberto pela manta e ao invés de subir o lance da direita, do lado atracado,
subiu o lance da esquerda, voltado para o mar. Lentamente, certificando- se de
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ser a última retardatária, avançou como se desejasse apreciar a paisagem,
parou à beira do corredor como que distraída e soltou a sacola, que afundou no
mar.
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UMA QUESTÃO DE AUTO - CONTROLE
- Este menino é igualzinho ao pai dele ! - desabafou minha mãe, a
suspirar, sem saber que eu a ouvia.
Fiquei pregado ao solo como se um raio me houvesse cauterizado.
- Verdade, mano, que eu tenho o gênio do pai ?
- Sem tirar nem por - respondeu, sem hesitar, meu irmão.
Nesta época eu tinha quinze anos de idade. Órfão de pai desde os dez,
eu me lembrava perfeitamente do inferno que era a nossa vida com ele.
Bêbedo inveterado, chegava em casa distribuindo porrada. Surras,
quebra - quebra, palavrões, um desassossego.
Quando ele morreu, a casa ficou silenciosa, arrumada, a despensa farta
e a cozinha sempre repleta de boa comida.
As cenas, as brigas, a gritaria, porém, continuaram, e pensando bem,
bem, sobre isso, concordei com minha mãe e meu irmão - meu gênio terrível,
meu temperamento colérico e explosivo é que provocavam o tumulto.
Tornar - me igual a meu pai ? Jamais !
Resolvi controlar minha raiva.
Tomei a firme resolução de tornar - me um homem educado.
Para começar, o velho truque de contar até dez antes de abrir a boca.
Li em algum lugar que relaxar os músculos ajudava. É impossível socar a
mesa com a mão espalmada. É difícil gritar ao respirar devagar e
profundamente.
“ Fale baixo - ordenava a mim mesmo, antes de explodir - e avise que
está nervoso. ”
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- Estou começando a perder a paciência - eu rosnava entre dentes, mas
não adiantava muito.
Com não adiantava, eu quero dizer que as pessoas continuavam a
provocar -me. Aquela velha idiota controlava meus horários, vincava minhas
calças de brim e insistia em tratar - me como um nenezinho : leve o guarda -
chuva, está frio, vista o casaco, volte antes das nove ...
Para começar, aquela velha idiota, em pensamento, devia voltar a ser a
minha mãe.
Para prosseguir,eu não precisava obedecer, bastava escutar quieto.
- Leve o guarda - chuva, vai chover.
Eu ficava quieto e saía, sem o guarda - chuva, embora fervendo de ódio
por dentro. O que aquela peste tinha de encher o meu saco ?
- Eu disse para vestir o casaco.
O primeiro impulso era gritar : “ Não amola ! Não se meta com a minha
vida ! ”
Respire fundo, relaxe as mãos. Fale baixo e devagar com sua mãe. Seja
educado.
- Eu escutei, mãe. Estou bem sem casaco. Não sinto frio.
Como foi difícil controlar o meu gênio. Semanas, meses, anos até a
aparente calma exterior transformar - se em calma interior.
Valeu a pena.
Eu detestaria causar sofrimento às pessoas a quem mais amo, como fez
meu pai.
Quero ser o oposto dele.
Não bebo, não fumo, trabalho desde os dezesseis anos de idade, estudo,
classifiquei - me bem no vestibular e estou entre os melhores alunos de minha
turma.
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- Coma verduras, meu filho.
Descobri ser possível conversar racionalmente com minha mãe.
- Eu gosto de brócolos. Você não poderia fazer brócolos para mim ?
Alface não me inspira nem um pouco.
- Claro, meu filho.
E ao invés de brigarmos por causa da alface, ela preparava minhas
verduras preferidas.
- Deixe minhas calças sem vinco. É moda.
Ao invés de esbravejar inutilmente, bater portas e jogar as calças no
chão, eu levava meus amigos para casa :
- Olhe as calças do Joel, mãe.
- É a moda, dona Marta.
- É mesmo ?
Aos poucos, começamos a conviver pacificamente, eu, ela e o mano.
- Que encanto de filho !
- Que garoto educado !
- Quem diria que este menino ia criar juízo, tão diferente do pai.
- Que paciência tem este rapaz !
- Tão calmo, este moço !
Assim, graças a Deus, acabaram - se para sempre os gritos, as cenas
desagradáveis, os palavrões. Substituídos por gestos de afeição, sorrisos e
diálogos tranqüilos.
Com força de vontade, por anos a fio eu me empenhara em dominar
meus instintos agressivos. Sucesso total.
Ontem, mamãe arrumava o armário da cozinha. Passei por ela e peguei
um dos espetos para churrasco, de metal longo e afiado.
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Minhas mãos apertaram firme e acertaram - lhe profunda e certeiramente
o coração.
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O INVASOR
Venci !
Eu o matei.
Ele queria levar - me à loucura... mas eu fui mais forte que ele... eu
sou resistente, eu sou dura. Sou mulher.
Acho que eles, os invasores, não conhecem as mulheres. Pensam
que somos frágeis. Pensam que podem torturar - nos, sem que
esbocemos quaisquer reações. Que tolos ! Mas, este, eu o matei. Eu o
matei.
Sabem como começou ? Vou - lhes contar.
Ele entrou aqui e matou o meu filho. Apoderou - se do corpo do meu
querido filhinho.
Podem imaginar meu desespero ? Debrucei - me, certa manhã,sobre
o berço de meu filho e meu filho não estava lá. Em seu lugar, o invasor ...
Talvez ele pensasse que eu não notaria a diferença, não é ? Mas
qual é a mãe que não reconhece o seu filho ?... E , depois, esses
invasores, eles não conhecem a nossa raça, nada sabem sobre crianças.
As crianças, todos sabem, são a alegria de suas mães... Quando
uma criança sorri, a alma de sua mãe se enche de felicidade... E quando
mama, então ? Ah, que satisfação !... Que prazer ! Que sensação
maravilhosa !...
Está tudo escrito nos livros, vocês podem ler : “ As crianças sadias
mamam de tres em tres horas, dormem tranqüilamente nos intervalos das
mamadas se não sentem fome, frio, sede ou calor. Quando chorar, a
criança deve ser limpa, e após trocar - lhe as fraldas, a mãe deve
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agasalhá - la convenientemente , alimentá - la e acalentá - la ao colo por
alguns minutos e ela logo voltará a adormecer. Como um anjinho...
Como vocês podem ver, os invasores não entendem nada de
crianças.Eu percebi de imediato, assim que o peguei ao colo, que aquilo
não era meu filho.
Como ?
Senti raiva dele. E nojo, quando aquela coisa quente e suarenta se
grudou em meus peitos e o leite começou a jorrar pelos dois bicos. Pelos
dois ! Como um chafariz.
E o choro ? O tempo todo ! O tempo todo aquele nhec nhec nhec
nhec nhec nhec nhec nhec nhec buááááááááááá..... E dá o peito e troca a
fralda e pega ao colo e vomita e limpa e chora e dá o peito e troca a fralda
e pega ao colo e CHEEEEEEGA !!
Ele nem olhava para mim quando mamava. Não. Mantinha os olhos
fechados. Só queria o meu leite. O esganado ! A toda hora.Quinze vezes
no dia, eu contei. Anotei tudo direitinho para mostrar ao médico.
Perceberam ?
Não era o meu filho, pois as crianças não se comportam assim. Era
ele ... o invasor.
Mas eu o matei. Venci.
Ele invadiu meu corpo, meu tempo, minha casa, até o meu
pensamento ele invadiu ! Ele queria matar - me, implacável em sua
perseguição, em sua tortura .
Eu não podia ao menos fazer xixi que ele não chorasse bem na hora
para impedir - me de urinar. Banho ? Ah, ah, ah... Luxo ! Mãe não tem
direito a banho. “ Ela que tente entrar no banho que eu choro... choro ...” e
o som do choro daquele desgraçado ouvia - se lá da esquina. Corria todo
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o mundo a saber porque o estafermo chorava, até os vizinhos
telefonavam, pois estupor não chorava, berrava como um demônio
possesso, seu guincho estridente penetrava pelo meu cérebro adentro e
ficava soando, soando ... “Não, senhor, ele não está doente, não. Também
não é fome. É só que a mãe dele queria tomar banho ”. “ Não, senhor, eu
não o estou espancando, não. Eu não o odeio, não , senhor, muito pelo
contrário, é ele quem me odeia”’... Ele me odeia. Ele quer matar - me. Ele
vai - me matar !
Vocês acreditam em extra - terrestres ?... Eu sempre acreditei. Eles
estão entre nós, disfarçados. Mas quando digo isto ao meu marido ele
retruca : “ Bobagens !”
Como é que eu ia explicar a ele sobre o invasor ? E explicar que
nosso filhinho fora assassina- do ? Como é que eu ia explicar ?
O invasor sugava a minha energia. Depois invadiria o meu corpo,
como fez com o do bebê. É assim que eles sobrevivem, sugando nossa
energia entrando em nossos corpos... eles não tem corpos... precisam dos
nossos...
Mas eu não quero morrer !
Ele vai - me matar, ele vai - me matar e eu não quero morrer,
socorro, ajudem - me !
Eu não quero matar ninguém... entendam.. eu sou boa... não quero
matar.. mas se eu não o mato, é ele quem ma mata...
Ele sugava o meu leite, a minha energia, apoderou - se de todo o
meu tempo, controlava a minha vida inteira, minuto a minuto, até meus
pensamentos ele invadiu com seu choro contínuo, eu não podia mais
pensar, NÃO HAVIA ESPAÇO PARA MIM !
Vocês compreendem, não é ?
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Eu estava só me defendendo, ele ia matar - me !
Eu fiz um bem. Livrei o mundo de um monstro ! Eu o venci !
Mas ninguém acredita.
O médico, o meu marido, o delegado de polícia... sabem o que eles
dizem ? ... Que matei o meu filhinho querido, como se eu não fosse a mais
abnegada das mães. Mãe. Eu sou mãe ! Quero o meu filhinho que o
monstro matou !
Eu preciso contar a todos sobre os invasores, convencê - los da
existência deles, para que eles não matem mais crianças, para que eles
não se apoderem da Terra...
Mas, agora, eu estou exausta...
Amanhã eu os convencerei de que falo a verdade. Estou há dois
meses sem dormir...
Amanhã...
Hoje eu PRECISO dormir.
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O INIMIGO
Já dizia Nietszche: “Procuravas o fardo mais pesado e te encontraste a ti
mesmo... Não podes mais libertar - te de ti mesmo...”. Ah, como eu bem
compreendia as palavras de Zaratustra!
Eu sempre soube, desde bem pequena, que o meu pior inimigo morava
dentro de mim. Ele aparecia nas horas mais impróprias, fazendo - me derrubar
refrigerante sobre o convidado mais importante da festa, fazendo - me tropeçar
e cair no hora do passeio de domingo... O pior eram as provas escolares,
quando ele colocava as vírgulas nas decimais erradas e trocava todas as
datas.
Mais tarde vim a saber que outras pessoas tinham seus demônios, ou
vozes, interiores. Sócrates. Joana d’Arc. Diziam : “a voz de Deus dentro de
mim”. Eram demônios bons, pois Sócrates foi um filósofo e Joana uma santa.
Pensando melhor, foram demônios maus, pois ambos foram condenados à
morte justamente porque ouviam vozes.
O meu é com certeza um demônio cruel. Ele não fala, age. Nunca sei o
que ele vai fazer, até que o faça. E aí fico indefesa. Nada mais inútil que tentar
consertar uma gafe. Quanto mais a gente se explica, pior fica.
“Rosana, não se zangue por eu não ter convidado você para a minha
festa. Não fiz de propósito. É que eu me esqueci de você.”
“Zézinho, eu não levei você para casa não foi por falta de coleguismo,
não. É que eu não reparei que estava chovendo, por isso não entendi quando
você falou que estava sem guarda - chuva.”
E assim fui perdendo pela vida meus amigos, e também os concursos, os
empregos e tudo de bom que aparecesse pela frente.
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Um dia conheci um gato, gatão, gatésimo, e ele me convidou para sair.
Pois ao sair do banho, pensando no lindo vestido que eu ia estrear,
escorreguei no sabonete e fraturei o cóccix.
Ah, não! Foi demais! Senti tanta raiva que resolvi destruir o demônio. E
tanto me esforcei que aprendi a pressentí - lo, e um segundo antes que ele se
manifestasse, eu saia na frente e agia. A meu favor, naturalmente.
Assim finalmente passei no vestibular, formei - me ( com louvor), garanti
um bom emprego e fiquei noiva de um moço distinto de boa família bem
situado na vida como mamãe, papai e eu sempre desejamos para minha
felicidade.
Pois na manhã do casamento acordei num lugar estranho, numa cama
estranha, ao lado de um estranho. Nua. Suja.
O quarto, em completa desordem, fétido, garrafas pelos cantos.
Só pode ser um pesadelo, pensei.
Tomei um banho, vesti a roupa mais limpa que encontrei, peguei uma
bolsa com meus documentos e dinheiro e esgueirei - me porta afora. Detalhe :
eu nunca tivera tanto dinheiro em minhas mãos.
Tomei um táxi, rumei para a rodoviária, comprei um jornal. Eu estava em
outro estado, exatamente um ano depois.
Um ano depois !
Minha primeira preocupação era fugir, por isso peguei o primeiro ônibus a
sair, desci na próxima parada, comprei um passagem para minha cidade e
telefonei para meus pais.
- Chego na rodoviária às 18:00, papai, por favor, fique me esperando.
- Filha, onde você está? O que aconteceu ?
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- Acredite, não sei o que aconteceu, ontem à noite era a véspera de meu
casamento e lembro - me de que deitei - me para dormir. Estou com muito
medo, pai.
Descobri mais tarde que durante este ano eu tivera várias passagens
pela polícia, por prostituição, roubo e tráfico de drogas pesadas.
Os médicos explicaram que eu sou um caso raro de epilepsia temporal.
Dizem eles que o cérebro cria uma dupla personalidade e sofre uma aparente
amnésia, pois tudo o que acontece durante o longo período de crise
desaparece da consciência.
Fui absolvida, e, é claro, submetida a um milhão de testes psiquiátricos.
Adeus, carreira! Adeus, emprego! Adeus, casamento! Que homem vai querer
casar - se com uma mulher que de uma hora para outra se esquece de quem é
e vai instalar - se na zona do meretrício a cheirar uma branquinha ?
Os médicos garantem que eu sou epiléptica, é só tomar o remédio
direitinho que nunca mais vou ter outra crise.
Engano deles.
Não é crise nenhuma. É o demônio.
O demônio dentro de mim está rindo, rindo baixinho, tão divertido com a
confusão que aprontou!
Passei meses meditando sobre este assunto. Estava a princípio resolvida
a matar estafermo nem que para isso eu precisasse cometer suicídio.
Agora não quero mais destruí - lo.
Cheguei a uma conclusão incômoda.
Tirando todo o verniz de civilização com que me socializaram, o que resta
?
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Por estranho que pareça, este demônio, este duplo, esta doença, seja lá
qual for o nome que se dê para isto - este demônio, dizia eu, é a parte mais
verdadeira, quiçá a única parte autêntica de mim mesmo.
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A SEDUTORA
Suicídio. Sete anos de idade.
A garota jogara - se em frente ao caminhão, na avenida de alta
velocidade. O pai atirara - se em seguida, não suficientemente rápido. O
motorista desviara e freara, sem conseguir atenuar o impacto. Vários carros se
arrebentaram atrás e havia um saldo de oito feridos.
No Pronto Socorro foi confirmado o óbito da menina. E o estupro.
A pediatra observou aquele pai transtornado e deu - lhe a notícia seca,
direta, sem compaixão.
O homem olhou para ela sem medo, sem susto. Apenas a imensa dor, a
incredulidade.
Ela então continuou:
- Aconteceu hoje, ou ontem. É recente. Na maioria dos casos é dentro de
casa que acontece, com um homem que a criança conhece bem e em quem
confia: um tio, um avô, com grande freqüência o próprio pai.
Ela o observava, implacável. De novo não houve medo, nem susto nos
olhos francos, apenas dor.
- Por que?
- Quem foi? O senhor tem outra filha, pense nela. Quem foi o homem que
esteve em sua casa ontem?
- Não é possível.
- Fale.
- A menina só saía de casa para ir à escola. Não tinha o costume de
brincar na rua. Não ficava sozinha nunca.
- Quem esteve com ela?
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- Uma criança educada com tanto cuidado... com todo o carinho...
E, súbito, a raiva.
- Eu mato esse desgraçado!
E o pranto.
A médica pediu para que entrasse a mãe. Nesses casos sempre
prensava primeiro o pai. A sós.
- Quem esteve em casa hoje, doutora? Meu pai, com minha mãe, ficamos
todos juntos na sala. E ontem o meu cunhado ficou com a Daniela, à tarde,
quando fui ao dentista. Eu sempre a levo comigo, mas ela estava jogando
vídeogame com o tio e ele disse que não tinha nada para fazer e ficaria com
ela até eu voltar. Não notei nada de estranho quando cheguei.
- Não pode ter sido ele. Não pode. Não o meu irmão. Tem de ter sido
outra pessoa.
- Alguém mais?
- Meu primo. Não, ele nem entrou, passou só para devolver um livro.
- Eu quero conversar com o seu cunhado. Vamos chamá - lo aqui e dizer
apenas que a menina foi atropelada. Se foi ele, não queremos que fuja.
- Então é melhor que ele nem veja a gente, doutora. Mas não pode ser
ele. Ele também é pai, tem uma filhinha de vinte dias. É a mais gentil das
criaturas. Sempre tão carinhoso com as sobrinhas.
- Carinhoso. E acaba de ser pai.
- Ai, se foi ele... eu o mato.
- Nós não temos certeza de nada, por enquanto.
Meia hora mais tarde, apresentou - se um homem de uns trinta anos,
visivelmente nervoso:
- A minha sobrinha... com licença, disseram - me que a doutora é quem
atendeu a minha sobrinha. Eu não vi meu irmão lá fora. Aonde está ela?
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- Boa tarde. Sente - se. Os pais estão com ela, o estado dela é muito
grave.
- O que aconteceu?
- Atropelamento.
O homem parecia preocupado, queria ver a criança.
- Não pode. Só os pais. Mas eu gostaria de conversar com o senhor. A
menina gosta muito do senhor, não é?
- Muito mesmo. Ela até dizia que ia crescer para casar comigo, sabe?
Ficou muito chateada quando eu me casei.
- E o senhor alimenta estas fantasias?
- Ah, bem, eu sempre brincava com ela. Era a minha segunda namorada.
Eu sempre trazia um chocolate, um doce, pegava no colo, levava para passear.
- Uma menina bonita.
- Linda.
- Esperta?
- Nossa! Muito esperta. Inteligente mesmo. Precoce, sabe?
- Como assim, precoce?
- Não parece uma criança, às vezes, sabe? Passa um batonzinho, gosta
de um perfume, de uma roupinha transada, de um brinco...
- Vaidosa.
- Uma mulherzinha. Sentava no meu colo e dizia assim: “Adivinha o meu
perfume”, toda dengosa. E quando eu vou embora ela me beija, me abraça e
diz: “Você casou com outra mas continua sendo o meu namorado, viu?”
- E era?
- O que?
- Namorado dela.
- Claro.
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- Ela me contou que ficou com ela, ontem.
- Ah... fiquei. A mãe dela foi ao dentista e nós ficamos jogando
vídeogame.
- Ela me contou o que fizeram juntos.
- Ah... contou, é?
- Foi a primeira vez?
- Como?
- Foi a primeira vez.
- A doutora compreende, não é?
- O que?
- Ela queria muito.
- Ela queria?
- Ela gosta muito de mim. Ela é... precoce, é como eu lhe disse, ela senta
no meu colo e se perfuma toda para mim e vive se declarando, que me ama e
coisas assim.
- Toda sobrinha gosta do tio.
- Mas com ela é diferente. Ela parece uma criança, mas ela me vê como
uma mulher vê um homem, compreende? Se houvesse uma oportunidade,
bem, ela se entregaria para mim como mulher, entende? Ela se derrete toda
para o meu lado, me provoca a toda hora com aqueles shortinhos, aquelas mini
blusinhas e todo aquele dengo...
- E ontem?
- Ontem nós ficamos sozinhos e ela aproveitou, né? Apareceu a
oportunidade.
- Você a seduziu.
- Que é isso, doutora, ela é que me seduziu! Doutora, pelo amor de Deus,
não conta nada para a minha mulher, que meu casamento acaba.
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- Como foi?
- Ela foi logo se abraçando em mim e cochichando no meu ouvido: “Vem
no meu quarto ver o urso novo de pelúcia que eu ganhei”. Ela é uma menininha
mas já tem estas artimanhas de mulher vivida, inventando pretextos.
- Será que houve outras garotinhas antes dela?
- Sabe, doutora, houve algumas, sim, sabe , as garotinhas me adoram!
Elas se apegam comigo com abelhas no mel. A Dani é um chamego só. Um
xodozinho.
E ele pos - se a narrar entusiasmado todos os detalhes de sua façanha
erótica.
‘
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MARCA DE LÁGRIMAS
Márcia estava com os pais na piscina, saboreando o churrasco familiar
dos domingos. O clima era de bom humor e alegria.
Piscando - lhe seus travessos olhos azuis, papai estendeu para ela um
copo de cuba libre.
_Você está feliz, querida ?
Ela acabara de ganhar uma viagem aos States como presente de
aniversário.
_ Muito, pai ! Você é o melhor pai do mundo !
Como poderia ela não estar feliz ?
Seria uma manhã de domingo perfeita, não fossem algumas coisinhas
que intrigavam Márcia.
Insignificâncias.
O vestido vermelho, por exemplo, que ela não encontrara em lugar
algum. Não fora para a lavanderia. Simplesmente desaparecera.
O tabuleiro de xadrez em seu quarto, quando ela tinha certeza de te - lo
guardado no escritório.
Aquele filme a que Sofia insistia em afirmar que as duas haviam assistido
juntas e o desconfortável 3 de matemática. O professor chamara Márcia à
lousa e pedira a ela que resolvesse alguns problemas, o que ela fizera
corretamente como de hábito, sem errar nenhum, excelente aluna que era.
Então ele lhe perguntou o que lhe acontecera na prova, quando ela não tinha a
menor lembrança de haver feito prova.
Mamãe já marcara uma consulta médica para Márcia na terça - feira e
dissera a ela que não desse importância demasiada a esses esquecimentos.
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Essas falhas de memória, tão bizarras, nublavam o horizonte quase
perfeitamente feliz daquele domingo.
- Hoje é aniversário de minha amiga Rute. Vou mais cedo, pois ela quer
que eu a ajude na decoração do salão - disse mamãe.
- As festas de Rute são deliciosas. Se eu pudesse, mamãe, iria
escondidinha em sua bolsa, como uma formiguinha, para avançar nos doces.
- Você morreria de tédio, isto sim. Festa boa para você foi a de sábado
passado.
- Ah, se foi !
Os quinze anos de Sofia. Márcia dançara até as quatro da madrugada.
‘ Papai enlaçou - lhe a cintura e fe - la sentar - se em seu colo :
- Márcia tornou - se uma bela mulher. Eu me orgulho dela.
- Uma moça inteligente e de bom coração, isto é o que importa -
completou mamãe - Márcia é uma filha que só nos traz alegrias.
- Parem com isso, seus corujas ! Vocês é que são pais maravilhosos.
Mais tarde, quando mamãe saiu para a casa da amiga, papai disse à
Márcia :
- Vá tomar um banho, coloque aquele perfume que eu lhe dei e vista
aquele vestido amarelo que a deixa tão bonita. Eu vou preparar um suco de
frutas para tomarmos depois. O que você prefere : caju ou maracujá ?
- Maracujá, papai.
Ela o beijou em ambas as faces e o abraçou bem apertado :
- Muito, muito obrigada pela viagem, papai.
- Você a merece, meu bem.
Márcia subiu para o quarto e abriu seu diário. Melhor seria dizer
semanário, já que ela costumava escrever durante as tardes de domingo. Na
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semana anterior nem escrevera, pois, cansada do baile, dormira a tarde inteira.
Ao menos, ela assim pensava.
A última folha escrita estava amassada e rasgada. Marcas redondas
como pingos borravam aqui e acolá garranchos medonhos esparramados pela
página. Como se alguém houvesse chorado. Márcia não se lembrava de haver
chorado. Nem se lembrava de haver anotado coisa alguma, nem sobre a linda
festa de Sofia. Chegara tão cansada ...
Leu :
“Aconteceu uma coisa horrível. Me ajuda, Deus. “
Apenas isso.
Sua letra. Se ela não trouxesse o diário sempre trancado e a chave
escondida em um local secreto, até poderia pensar que alguém queria fazer
alguma brincadeira de mau gosto com ela, imitando sua letra. Ora, que
bobagem, além do pai , da mãe e dela, não havia ninguém mais na casa.
“Aconteceu uma coisa horrível.”
Que poderia ter acontecido ? Sua amiga Sofia não parecia saber de
nada. Nem seus pais.
Havia o três de matemática.
Todos aqueles lapsos.
Ela se esquecera da prova. Acontecera alguma coisa horrível e ela se
esquecera, também.
Com certeza tinha algo a ver com o vestido vermelho, pois ela o usara no
domingo e ele desaparecera.
Uma coisa horrível.
O que poderia ser ?
- “ Vou chegando, pros braços de amor da mulher que está a me esperar
...”
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Não era o tipo de música que papai habitualmente cantava e a moça
sentiu - se vagamente inquieta ao ouvi - lo subir as escadas.
- Vamos rápido, querida, você já está pronta ?
Então ela lembrou - se, quando viu o homem entrar em seu quarto, nu.
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A SOMBRA
Cristina leu rapidamente as questões da prova, satisfeita, pois conhecia a
fundo a matéria de maior peso naquele vestibular.
Primeiramente ela leu atentamente cada pergunta e marcou
discretamente, com uma marquinha apenas perceptível, a resposta certa,
deixando em branco as dúvidas.
Depois, refletiu sobre as poucas questões em aberto, eliminando as
respostas obviamente erradas e estudando as outras opções, puxando pela
memória.
Finalmente, ela releu a prova, conferiu tudo direitinho, um olho no relógio
para controlar o tempo disponível, e com a caneta começou a circular as letras
definitivas no cartão de respostas.
Então, aconteceu.
Circulava uma letra imediatamente antes ou após a resposta correta, de
modo que o gabarito não continha sequer uma resposta exata. Garantindo
assim a derrota, ela levantou-se, entregou a folha ao fiscal e retirou-se como
um autômato.
Anos de estudo e de esforço, tudo o que mais prezava e desejava,
jogado fora.
Um sentimento de júbilo cantava em seu íntimo, embora em seu olhar só
houvesse perplexidade e consternação.
Pensou em raspar os cabelos, deixando uma mecha estreita no alto da
cabeça, tingida de rosa. Imaginou-se num palco, três brincos em cada orelha,
em roupas de couro, tocando guitarra.
28
E como passasse em frente a um salão de beleza, suou frio para resistir
ao impulso de entrar e já, já, ficar careca.
Em casa não encontrou coragem para contar o que ocorrera no exame.
Seu noivo apareceu, confiante em sua vitória, trazendo uns discos que ela
tencionava gravar. Para espanto do rapaz, porém, ela escolheu o disco mais
barulhento do irmão mais moço:
-Hoje prefiro agitar.
E quando ele a abraçou, ela foi ríspida, grosseira e vulgar:
-Vocês, homens, só pensam naquilo.
O olhar magoado do rapaz comoveu-a. Ele era tímido, afetuoso, e ela o
repelia injustamente.
-Nelson, compreenda, esta tensão toda, este vestibular...
-Está certo, descanse, eu volto outra hora.
Na mesma tarde, duas colegas vieram visitá-la e comentaram suas
incertezas, suas impressões de que não haviam ido lá tão bem, e Cristina
surpreendeu-se a destilar veneno: “burrinhas, está na cara que vocês não vão
passar”, “ora, o Q.I. de vocês é tão baixo, sua única chance é arrumar Quem
Indique”, com risinhos de mofa.
-E eu só dei aquelas aulas de inglês para vocês para treinar o método de
ensino que vou usar em umas aulas que consegui na Cultura Inglesa. É o meu
primeiro emprego e era meu interesse dar aulas para vocês. Não pensem que
foi por amizade, não, suas tontas.
Após a inevitável ruptura, aquela oculta sensação de intenso júbilo
retornou.
Horrorizada, Cristina trancou-se em seu quarto. No espelho, um rosto
que tinha as suas feições enfrentou-a com um olhar zombeteiro e um sorriso
mau.
29
Dali a dez dias haveria outro vestibular, outra faculdade a tentar. Bastava
esquecer o fracasso da primeira tentativa e concentrar-se.
Nos próximos dias o mau humor de Cristina aumentou. Sua vida como
que escureceu. Quebrara-se a sintonia, algo sutil mudara a realidade. Nada
mais era como antes. As coisas não eram o que pareciam. Da sua perspectiva,
era como se o mundo houvesse girado um grau, apenas um grau e todas as
coisas houvessem mudado um pouquinho. Algumas pessoas afastavam-se
dela, outras claramente a evitavam e pior que isso, coisas estranhas
começaram a acontecer. Desconhecidos a abordavam na rua e ela, cuja força
de vontade sempre a mantivera no assim apregoado bom caminho, deixava-se
ficar a ouvir aquela conversa de desocupados, a fantasiar em como seria andar
descalça na praia sob o céu noturno, a curtir um baseado.
Bem cedo, na manhã do segundo vestibular, que seria em São Paulo,
Cristina despediu-se dos pais e partiu. Sentia-se tinindo de saber, uma
verdadeira enciclopédia. Revisara seus apontamentos na véspera, e desta vez,
é claro que ela iria preencher o gabarito com as respostas certas. Seu futuro
estava em jogo e ela não admitiria nenhum contratempo.
Com esta firme convicção, ela começou a subida da Via Anchieta. A
estrada estava livre, o tempo bem claro e o carro revisado para garantir uma
viagem sem incidentes.
Nas tortuosas curvas da serra, uma, a mais perigosa, beirava um abismo.
Ao adentrá-la, as mãos de Cristina não fizeram o necessário desvio na direção.
Seu pé direito pisou fundo no acelerador e ela penetrou na paisagem, rumo ao
infinito.
30
OVERDOSE
- Vou disputar o campeonato de surf na Austrália.
Fulminei aquele jovem deus loiro, segurando a indignação por trás das
feições de pedra. Pois aquele ingrato ousava estraçalhar os meus sonhos para
o seu futuro!
Nem eu percebi, nem ele, que naquele instante o vínculo entre nós
quebrou-se.
Eu realizava meus afazeres cotidianos como sempre, e ele realizava os
seus. Eu, no entanto, perdera o prazer de viver.
Ele acordava cedo, para treinar mais, e passou a tomar seu café da
manhã sozinho. Começou a almoçar com a equipe, para manter a dieta, e o
mesmo acontecia com o jantar.
Eu colocava só dois pratos na mesa, mesmo que ele estivesse em casa,
e o pai não questionava a omissão. A coleção de troféus do filho não o
emocionava, tampouco. Nós dois preferiríamos um diploma sem nenhuma
distinção, mas diploma. Não troféus, nem fama, glória ou honrarias.
Ele nos contava sobre suas buscas por patrocínio, nós ouvíamos quietos.
Comentávamos sobre o vestibular sem obter resposta.
Adoeci. Minhas dores reumáticas travaram dolorosamente meus
movimentos, e ele passou a cuidar da lavagem das próprias roupas e da
limpeza do quarto, para poupar-me.
Os remédios davam-me sono, eu me recolhia cedo, e assim, à noite, não
mais nos encontrávamos. Fazemos coisas assim com as pessoas que
amamos, e, quase sem darmos por isso, nós as expulsamos de nosso coração.
31
Ele fazia as refeições fora, saía e entrava quando eu estava a dormir. Ele
e o pai discutiam por dinheiro com bastante freqüência e quando ele
comunicou, todo feliz, que conseguira a passagem para a Austrália, o bate-
boca extrapolou. Gritos. Desaforos. Um tapa na cara.
Na manhã seguinte ele ainda estava em casa quando acordei. De olhos
baixos, aguardava-me. Sorri.
- Não foi treinar hoje, filho?
Ele ergueu-se. Uma faixa colorida prendia-lhe a franja. Um suspiro
expandiu-lhe o tórax robusto. Por um instante eu o admirei, meu jovem Balder,
suas longas tranças douradas balançando à frente dos ombros como um
desafio. Ele tocou-me gentilmente o rosto:
- Vou-me embora, mãe.
Só então dei-me conta da mochila apoiada à porta. Dirigi-me à cozinha e
comecei a cortar meu pão.
- Um beijo de despedida, mãe. Deseje-me sorte.
Ele aproximou-se, seu meigo olhar brilhando como o de um garotinho. Eu
dei-lhe as costas.
- Vocês estão-me expulsando de casa. Eu não quero ir embora dessa
maneira, mãe.
- Ora, filho! “Você me expulsou!”, “Você me forçou a aceitar este
emprego!”, “Você me induziu a isto ou àquilo!”. Fácil, não é, jogar a culpa nos
outros. Por favor, cresça! Encare a responsabilidade pelo que você faz!
Assuma a sua vida!
- É o que pretendo fazer, mãe.
Não ouvi a porta bater, pois ele saiu discretamente de nossas vidas,
como quem não quisesse mesmo incomodar.
32
Por muitas semanas eu o mantive longe de minha mente. Ocupada com
dez mil tarefas, sua ausência era-me indiferente. Para o pai, o mesmo
acontecia. Esquecêramos o filho que tanto nos desiludira.
Ontem chegou o telegrama.
Eu não quis ver o corpo. Não fui ao velório. Nem ao enterro.
De olhos secos, persisto em minha rotina de todos os dias. Afinal, eu não
tive culpa. Eu não poderia ter feito nada para que as coisas acontecessem de
maneira diferente, não é mesmo?
Confesso, porém, que há uma diferença: para onde quer que eu me
volte, o jovem deus loiro olha-me incansavelmente com muita ternura a exigir-
me o beijo de despedida que lhe neguei.
33
O ESCRITOR E O MONSTRO
Era uma vez um homem tão sensível, tão meigo e de coração tão
puro que só podia ser mesmo o que era : um escritor de histórias infantis.Ele
vivia em um mundo mágico e encantado cheio de nuvens rosas, animais que
falam e monstrinhos, que, encontrando o Amor, tornavam - se bonzinhos.
Ele seria muito feliz se não fosse por um detalhe : a esposa, que
não cessava de reclamar o dinheiro do aluguel, do açougue, do colégio dos
meninoss... até que, por insistência dela, ele empregou - se em uma repartição
pública.
Nunca, porém, ele deixou de escrever. À noite, trancava - se no
quarto e deixava rolar a esfera de tungstênio, para deleite dos filhos e de
quantos quisessem ouvir suas histórias.
Histórias tão boas, que um amigo levou - as a uma editora, que
comprou - lhe não uma, mas todas, e encomendou mais. Um grupo de teatro
adaptou suas histórias para o palco. Um programa infantil de TV contratou - o
como roteirista. E ra a consagração em vida. E a oportunidade de trocar o
escritório enfadonho pelo seu mundo mágico e encantado...
A esposa recomeçou com as ladainhas _ precisavam ter casa
própria, um carro, colocar os meninos em um colégio melhor e ela sempre
sonhara em conhecer a Europa.
Nosso pobre escritor começou a ter estranhos pesadelos, em que
seus heróis bonzinhos voltavam a ser monstrinhos com idéias assassinas.
34
O psicanalista que ele procurou quis interná - lo imediatamente,
mas ele recusou,querendo apenas comprimidos para dormir.
Ele tentou sózinho a catarse, transformando os pesadelos em
contos curtos de terror, mas o editor não os aprovou _ estavam fora de
moda, Pöe já esgotara o gênero e ele nem ao menos tinha a
originalidade de um Kafka.
Seus livros vendiam bem, o programa infantil foi premiado, suas
peças viajavam país afora, trocara de carro e podia finalmente financiar
as férias da família na Europa.
Por isso ninguém entendeu por que, certa madrugada, ele
esfaqueou a mulher e os filhos e enforcou - se no lustre.
35
ENFIM...LIVRE!
Eu sempre soube que seria assim: certa manhã eu acordaria e tudo
estaria normal.
Eu esqueceria os anos de angústia, o medo constante de que
percebessem a verdade, o disfarce cuidadoso de todos os instantes, o
fingimento contínuo de normalidade.
Ah, se alguém soubesse! Se alguém sequer desconfiasse da presença
deles, se alguém notasse que eu recebia ordens, se alguém deslumbrasse um
pedacinho do inferno por detrás do muro, ou percebesse a tirania das vozes,
ah, eu estaria perdido, enclausurado eternidade afora em algum hospício,
supliciado, drogado, anulado, desacreditado e inútil.
Nem a arte seria suficiente para proteger - me do estigma da
excentricidade, mesmo que eu tivesse o talento de um Dali, de um van Gogh.
Ah, eu queria somente a felicidade de ser como toda a gente.
Tanto o desejei que aconteceu. Como diz o provérbio: “Cuidado com o
que pedires, pois te será concedido”.
Um dia... acordei e o mundo voltara ao normal. O muro caíra. As vozes
se calaram. Que alívio! Dos gestos triviais fluíam gostosamente a alegria de
viver e o afeto por meus desassemelhantes.
Sem o fardo da incompreensível moléstia, passei semanas longe dos
pincéis, em companhia da família e dos amigos, compartilhando secretamente
com eles o milagre da cura. Até arrumei uma namorada.
36
Eis que no início da semana recebi um convite para uma exposição e
tranquei - me no estúdio, esperando a tempestade criativa que me inunda de
tempos em tempos.
Então, e só então, percebi o vazio estéril de minha alma. Concentrei -
me... e nada. Onde o atropelamento de idéias originais e incríveis jorrando
generosamente do cérebro excitado? Onde o espoucar de formas e cores?
Onde a magnífica intuição do belo?
Ah, compreendi, a angústia, o sofrimento, a insatisfação, a dor, eram o
combustível da inspiração. O ato criador, sendo um ato de tensão, fenece na
tranqüila monotonia da vida comum.
Conquistei a paz. Estou curado. Mas a que preço, a que preço!
Condenado à estéril mediocridade.
Eu, que pensava abominar a solidão moral que me excluía do convívio
humano, descobri que o único prazer que desejo neste mundo é aquele
provocado pelo lampejo do gênio.
Quero de volta o inferno, se este for o preço de meu talento.
Tarde demais. As vozes calaram - se para sempre. O mundo invadiu meu
universo e no lugar da minha máscara encaro no espelho um rosto
massificado.
Por isso vedei portas e janelas e abri o gás.
37
Índice
3...A miserãvel
6...Uma questão de auto-controle
10...O invasor
14....O inimigo
18...A sedutora
23..Marca de lágrimas
27...A sombra
30...Overdode
33...O escritor e o monstro
35...Enfim, livre!
38
Este livro é parte integrante da antologia A Vida em Prosa 2, publicada em 1998, em
comemoração do segundo aniversário do grupo editorial Um dedo de prosa.
Título:
LA VIE EN PROSE
Personalidades:
NEIVA MARIA PAVESI - Autor(a), MARIA HELENA MADUREIRA - Autor(a), MARIA DAS DORES
MARTINS DA SILVA - Autor(a), SÔNIA REGINA ROCHA RODRIGUES - Autor(a)
Registro:
139136, em 17/10/1997
Gênero:
Contos/Crônica
Obra Publicada:
Sim
Tipo de Apresentação:
Outros, 116 página(s).

Contos de terror

  • 1.
    1 CONTOS DE TERROR (porquepossíveis...) Sonia Regina Rocha Rodrigues
  • 2.
    2 Não adianta trancaras portas e as janelas. O inimigo já está dentro de casa. Neste momento mesmo, pode estar à espreita.... “A desgraça é variada. O infortúnio sobre a terra é multiforme.” – Edgar Allan Pöe.
  • 3.
    3 A MISERÁVEL A manhãcinzenta e enevoada espalhava- se fria. úmida, pelo porto. A garoa confundia no mesmo nebuloso cinza céu, terra e mar. Nos limites imprecisos das águas turvas navegavam rebocadores, lanchas, catraias e coloridos barquinhos que quebravam a triste monotonia cinzenta com seus tons vermelhos, amarelos e azuis. O apito da barca chamou os apressados passageiros rampa abaixo. Passada a roleta do terminal do Departamento Hidroviário, as pessoas entravam na plataforma flutuante, uma grande sala de pedra cinzenta, úmida e fria, onde uma faxineira varria ininterruptamente na tentativa inútil de limpar o local. Fumantes jogavam tocos de cigarro ao chão, homens escarravam, crianças urinavam. Ali, no verão, sufocava- se em fétidos vapores; no inverno o vento cortante circulava impiedoso. Uma grade amarela separava a sala de espera do corredor de embarque. A barca atracava. A multidão desfilava, então, pobres homens sujos e suados, mulheres mal ajambradas com crianças de olhar triste ao colo, velhos e moços exibindo o mesmo ar cansado de miséria. Às vezes, uma jovem melhor arrumada, um homem de pasta na mão, pessoas de aspecto bem cuidado. As feições daquela turba variavam do ariano ao cafuzo, em uma riquíssima mestiçagem de traços fisionômicos, cabelos e tipos físicos. Quando a barca esvaziava, o porteiro abria a grade e a nova multidão acorria, acotovelando- se para entrar.
  • 4.
    4 Uma mulher desceuao porão da barca, carregando em um dos braços uma criança recém- nascida e na outra uma sacola vazia. Do lenço amarrado à cabeça caíam cachos amarelados. O vestido mambembe exibia patéticos babados de um rosa duvidoso. Nos pés, sandálias de plástico. A mulher sentou- se no canto próximo à escada, deitando ao colo a pequena carga humana e cobrindo- a quase totalmente com a sacola e a manta. Sentia- se algo tonta, pois não se recuperara completamente do parto. Relembrava as últimas horas. Saíra do Hospital Guilherme Álvaro com a filha ao colo, admirada de não encontrar o marido, que, a trouxera ao hospital e depois nem mesmo viera visitá- las. Ele botara outra mulher dentro do barraco, jogara as coisas dela pela janela e mandava dizer que não a queria de volta, nem à criança. Ao tentar uma explicação, a mulher apanhara. Poucas pessoas desceram ao porão, pois o horário dos trabalhadores já passara e a barca navegava então parcialmente lotada. A travessia através do cais demora cerca de dez minutos, seguindo ao longo dos berços dos cargueiros, fazendo- se ao largo na altura da Bacia do Mercado, onde cruza- se com as catraias, frágeis casquinhas balouçantes como folhas carregadas de formigas humanas. Modificou- se o barulho do motor, primeiro sinal de atracação. Os rapazes precipitaram - se na costumeira exibição de coragem que consiste em saltar antes da hora sobre o abismo das águas, arriscando- se a cair e ser imprensado pela barca contra a amurada. Vendo- se só, a mulher retirou rapidamente um pacote da sacola, colocou em seu lugar a criancinha e fechou o zíper. Aconchegou ao seio o pacote coberto pela manta e ao invés de subir o lance da direita, do lado atracado, subiu o lance da esquerda, voltado para o mar. Lentamente, certificando- se de
  • 5.
    5 ser a últimaretardatária, avançou como se desejasse apreciar a paisagem, parou à beira do corredor como que distraída e soltou a sacola, que afundou no mar.
  • 6.
    6 UMA QUESTÃO DEAUTO - CONTROLE - Este menino é igualzinho ao pai dele ! - desabafou minha mãe, a suspirar, sem saber que eu a ouvia. Fiquei pregado ao solo como se um raio me houvesse cauterizado. - Verdade, mano, que eu tenho o gênio do pai ? - Sem tirar nem por - respondeu, sem hesitar, meu irmão. Nesta época eu tinha quinze anos de idade. Órfão de pai desde os dez, eu me lembrava perfeitamente do inferno que era a nossa vida com ele. Bêbedo inveterado, chegava em casa distribuindo porrada. Surras, quebra - quebra, palavrões, um desassossego. Quando ele morreu, a casa ficou silenciosa, arrumada, a despensa farta e a cozinha sempre repleta de boa comida. As cenas, as brigas, a gritaria, porém, continuaram, e pensando bem, bem, sobre isso, concordei com minha mãe e meu irmão - meu gênio terrível, meu temperamento colérico e explosivo é que provocavam o tumulto. Tornar - me igual a meu pai ? Jamais ! Resolvi controlar minha raiva. Tomei a firme resolução de tornar - me um homem educado. Para começar, o velho truque de contar até dez antes de abrir a boca. Li em algum lugar que relaxar os músculos ajudava. É impossível socar a mesa com a mão espalmada. É difícil gritar ao respirar devagar e profundamente. “ Fale baixo - ordenava a mim mesmo, antes de explodir - e avise que está nervoso. ”
  • 7.
    7 - Estou começandoa perder a paciência - eu rosnava entre dentes, mas não adiantava muito. Com não adiantava, eu quero dizer que as pessoas continuavam a provocar -me. Aquela velha idiota controlava meus horários, vincava minhas calças de brim e insistia em tratar - me como um nenezinho : leve o guarda - chuva, está frio, vista o casaco, volte antes das nove ... Para começar, aquela velha idiota, em pensamento, devia voltar a ser a minha mãe. Para prosseguir,eu não precisava obedecer, bastava escutar quieto. - Leve o guarda - chuva, vai chover. Eu ficava quieto e saía, sem o guarda - chuva, embora fervendo de ódio por dentro. O que aquela peste tinha de encher o meu saco ? - Eu disse para vestir o casaco. O primeiro impulso era gritar : “ Não amola ! Não se meta com a minha vida ! ” Respire fundo, relaxe as mãos. Fale baixo e devagar com sua mãe. Seja educado. - Eu escutei, mãe. Estou bem sem casaco. Não sinto frio. Como foi difícil controlar o meu gênio. Semanas, meses, anos até a aparente calma exterior transformar - se em calma interior. Valeu a pena. Eu detestaria causar sofrimento às pessoas a quem mais amo, como fez meu pai. Quero ser o oposto dele. Não bebo, não fumo, trabalho desde os dezesseis anos de idade, estudo, classifiquei - me bem no vestibular e estou entre os melhores alunos de minha turma.
  • 8.
    8 - Coma verduras,meu filho. Descobri ser possível conversar racionalmente com minha mãe. - Eu gosto de brócolos. Você não poderia fazer brócolos para mim ? Alface não me inspira nem um pouco. - Claro, meu filho. E ao invés de brigarmos por causa da alface, ela preparava minhas verduras preferidas. - Deixe minhas calças sem vinco. É moda. Ao invés de esbravejar inutilmente, bater portas e jogar as calças no chão, eu levava meus amigos para casa : - Olhe as calças do Joel, mãe. - É a moda, dona Marta. - É mesmo ? Aos poucos, começamos a conviver pacificamente, eu, ela e o mano. - Que encanto de filho ! - Que garoto educado ! - Quem diria que este menino ia criar juízo, tão diferente do pai. - Que paciência tem este rapaz ! - Tão calmo, este moço ! Assim, graças a Deus, acabaram - se para sempre os gritos, as cenas desagradáveis, os palavrões. Substituídos por gestos de afeição, sorrisos e diálogos tranqüilos. Com força de vontade, por anos a fio eu me empenhara em dominar meus instintos agressivos. Sucesso total. Ontem, mamãe arrumava o armário da cozinha. Passei por ela e peguei um dos espetos para churrasco, de metal longo e afiado.
  • 9.
    9 Minhas mãos apertaramfirme e acertaram - lhe profunda e certeiramente o coração.
  • 10.
    10 O INVASOR Venci ! Euo matei. Ele queria levar - me à loucura... mas eu fui mais forte que ele... eu sou resistente, eu sou dura. Sou mulher. Acho que eles, os invasores, não conhecem as mulheres. Pensam que somos frágeis. Pensam que podem torturar - nos, sem que esbocemos quaisquer reações. Que tolos ! Mas, este, eu o matei. Eu o matei. Sabem como começou ? Vou - lhes contar. Ele entrou aqui e matou o meu filho. Apoderou - se do corpo do meu querido filhinho. Podem imaginar meu desespero ? Debrucei - me, certa manhã,sobre o berço de meu filho e meu filho não estava lá. Em seu lugar, o invasor ... Talvez ele pensasse que eu não notaria a diferença, não é ? Mas qual é a mãe que não reconhece o seu filho ?... E , depois, esses invasores, eles não conhecem a nossa raça, nada sabem sobre crianças. As crianças, todos sabem, são a alegria de suas mães... Quando uma criança sorri, a alma de sua mãe se enche de felicidade... E quando mama, então ? Ah, que satisfação !... Que prazer ! Que sensação maravilhosa !... Está tudo escrito nos livros, vocês podem ler : “ As crianças sadias mamam de tres em tres horas, dormem tranqüilamente nos intervalos das mamadas se não sentem fome, frio, sede ou calor. Quando chorar, a criança deve ser limpa, e após trocar - lhe as fraldas, a mãe deve
  • 11.
    11 agasalhá - laconvenientemente , alimentá - la e acalentá - la ao colo por alguns minutos e ela logo voltará a adormecer. Como um anjinho... Como vocês podem ver, os invasores não entendem nada de crianças.Eu percebi de imediato, assim que o peguei ao colo, que aquilo não era meu filho. Como ? Senti raiva dele. E nojo, quando aquela coisa quente e suarenta se grudou em meus peitos e o leite começou a jorrar pelos dois bicos. Pelos dois ! Como um chafariz. E o choro ? O tempo todo ! O tempo todo aquele nhec nhec nhec nhec nhec nhec nhec nhec nhec buááááááááááá..... E dá o peito e troca a fralda e pega ao colo e vomita e limpa e chora e dá o peito e troca a fralda e pega ao colo e CHEEEEEEGA !! Ele nem olhava para mim quando mamava. Não. Mantinha os olhos fechados. Só queria o meu leite. O esganado ! A toda hora.Quinze vezes no dia, eu contei. Anotei tudo direitinho para mostrar ao médico. Perceberam ? Não era o meu filho, pois as crianças não se comportam assim. Era ele ... o invasor. Mas eu o matei. Venci. Ele invadiu meu corpo, meu tempo, minha casa, até o meu pensamento ele invadiu ! Ele queria matar - me, implacável em sua perseguição, em sua tortura . Eu não podia ao menos fazer xixi que ele não chorasse bem na hora para impedir - me de urinar. Banho ? Ah, ah, ah... Luxo ! Mãe não tem direito a banho. “ Ela que tente entrar no banho que eu choro... choro ...” e o som do choro daquele desgraçado ouvia - se lá da esquina. Corria todo
  • 12.
    12 o mundo asaber porque o estafermo chorava, até os vizinhos telefonavam, pois estupor não chorava, berrava como um demônio possesso, seu guincho estridente penetrava pelo meu cérebro adentro e ficava soando, soando ... “Não, senhor, ele não está doente, não. Também não é fome. É só que a mãe dele queria tomar banho ”. “ Não, senhor, eu não o estou espancando, não. Eu não o odeio, não , senhor, muito pelo contrário, é ele quem me odeia”’... Ele me odeia. Ele quer matar - me. Ele vai - me matar ! Vocês acreditam em extra - terrestres ?... Eu sempre acreditei. Eles estão entre nós, disfarçados. Mas quando digo isto ao meu marido ele retruca : “ Bobagens !” Como é que eu ia explicar a ele sobre o invasor ? E explicar que nosso filhinho fora assassina- do ? Como é que eu ia explicar ? O invasor sugava a minha energia. Depois invadiria o meu corpo, como fez com o do bebê. É assim que eles sobrevivem, sugando nossa energia entrando em nossos corpos... eles não tem corpos... precisam dos nossos... Mas eu não quero morrer ! Ele vai - me matar, ele vai - me matar e eu não quero morrer, socorro, ajudem - me ! Eu não quero matar ninguém... entendam.. eu sou boa... não quero matar.. mas se eu não o mato, é ele quem ma mata... Ele sugava o meu leite, a minha energia, apoderou - se de todo o meu tempo, controlava a minha vida inteira, minuto a minuto, até meus pensamentos ele invadiu com seu choro contínuo, eu não podia mais pensar, NÃO HAVIA ESPAÇO PARA MIM ! Vocês compreendem, não é ?
  • 13.
    13 Eu estava sóme defendendo, ele ia matar - me ! Eu fiz um bem. Livrei o mundo de um monstro ! Eu o venci ! Mas ninguém acredita. O médico, o meu marido, o delegado de polícia... sabem o que eles dizem ? ... Que matei o meu filhinho querido, como se eu não fosse a mais abnegada das mães. Mãe. Eu sou mãe ! Quero o meu filhinho que o monstro matou ! Eu preciso contar a todos sobre os invasores, convencê - los da existência deles, para que eles não matem mais crianças, para que eles não se apoderem da Terra... Mas, agora, eu estou exausta... Amanhã eu os convencerei de que falo a verdade. Estou há dois meses sem dormir... Amanhã... Hoje eu PRECISO dormir.
  • 14.
    14 O INIMIGO Já diziaNietszche: “Procuravas o fardo mais pesado e te encontraste a ti mesmo... Não podes mais libertar - te de ti mesmo...”. Ah, como eu bem compreendia as palavras de Zaratustra! Eu sempre soube, desde bem pequena, que o meu pior inimigo morava dentro de mim. Ele aparecia nas horas mais impróprias, fazendo - me derrubar refrigerante sobre o convidado mais importante da festa, fazendo - me tropeçar e cair no hora do passeio de domingo... O pior eram as provas escolares, quando ele colocava as vírgulas nas decimais erradas e trocava todas as datas. Mais tarde vim a saber que outras pessoas tinham seus demônios, ou vozes, interiores. Sócrates. Joana d’Arc. Diziam : “a voz de Deus dentro de mim”. Eram demônios bons, pois Sócrates foi um filósofo e Joana uma santa. Pensando melhor, foram demônios maus, pois ambos foram condenados à morte justamente porque ouviam vozes. O meu é com certeza um demônio cruel. Ele não fala, age. Nunca sei o que ele vai fazer, até que o faça. E aí fico indefesa. Nada mais inútil que tentar consertar uma gafe. Quanto mais a gente se explica, pior fica. “Rosana, não se zangue por eu não ter convidado você para a minha festa. Não fiz de propósito. É que eu me esqueci de você.” “Zézinho, eu não levei você para casa não foi por falta de coleguismo, não. É que eu não reparei que estava chovendo, por isso não entendi quando você falou que estava sem guarda - chuva.” E assim fui perdendo pela vida meus amigos, e também os concursos, os empregos e tudo de bom que aparecesse pela frente.
  • 15.
    15 Um dia conhecium gato, gatão, gatésimo, e ele me convidou para sair. Pois ao sair do banho, pensando no lindo vestido que eu ia estrear, escorreguei no sabonete e fraturei o cóccix. Ah, não! Foi demais! Senti tanta raiva que resolvi destruir o demônio. E tanto me esforcei que aprendi a pressentí - lo, e um segundo antes que ele se manifestasse, eu saia na frente e agia. A meu favor, naturalmente. Assim finalmente passei no vestibular, formei - me ( com louvor), garanti um bom emprego e fiquei noiva de um moço distinto de boa família bem situado na vida como mamãe, papai e eu sempre desejamos para minha felicidade. Pois na manhã do casamento acordei num lugar estranho, numa cama estranha, ao lado de um estranho. Nua. Suja. O quarto, em completa desordem, fétido, garrafas pelos cantos. Só pode ser um pesadelo, pensei. Tomei um banho, vesti a roupa mais limpa que encontrei, peguei uma bolsa com meus documentos e dinheiro e esgueirei - me porta afora. Detalhe : eu nunca tivera tanto dinheiro em minhas mãos. Tomei um táxi, rumei para a rodoviária, comprei um jornal. Eu estava em outro estado, exatamente um ano depois. Um ano depois ! Minha primeira preocupação era fugir, por isso peguei o primeiro ônibus a sair, desci na próxima parada, comprei um passagem para minha cidade e telefonei para meus pais. - Chego na rodoviária às 18:00, papai, por favor, fique me esperando. - Filha, onde você está? O que aconteceu ?
  • 16.
    16 - Acredite, nãosei o que aconteceu, ontem à noite era a véspera de meu casamento e lembro - me de que deitei - me para dormir. Estou com muito medo, pai. Descobri mais tarde que durante este ano eu tivera várias passagens pela polícia, por prostituição, roubo e tráfico de drogas pesadas. Os médicos explicaram que eu sou um caso raro de epilepsia temporal. Dizem eles que o cérebro cria uma dupla personalidade e sofre uma aparente amnésia, pois tudo o que acontece durante o longo período de crise desaparece da consciência. Fui absolvida, e, é claro, submetida a um milhão de testes psiquiátricos. Adeus, carreira! Adeus, emprego! Adeus, casamento! Que homem vai querer casar - se com uma mulher que de uma hora para outra se esquece de quem é e vai instalar - se na zona do meretrício a cheirar uma branquinha ? Os médicos garantem que eu sou epiléptica, é só tomar o remédio direitinho que nunca mais vou ter outra crise. Engano deles. Não é crise nenhuma. É o demônio. O demônio dentro de mim está rindo, rindo baixinho, tão divertido com a confusão que aprontou! Passei meses meditando sobre este assunto. Estava a princípio resolvida a matar estafermo nem que para isso eu precisasse cometer suicídio. Agora não quero mais destruí - lo. Cheguei a uma conclusão incômoda. Tirando todo o verniz de civilização com que me socializaram, o que resta ?
  • 17.
    17 Por estranho quepareça, este demônio, este duplo, esta doença, seja lá qual for o nome que se dê para isto - este demônio, dizia eu, é a parte mais verdadeira, quiçá a única parte autêntica de mim mesmo.
  • 18.
    18 A SEDUTORA Suicídio. Seteanos de idade. A garota jogara - se em frente ao caminhão, na avenida de alta velocidade. O pai atirara - se em seguida, não suficientemente rápido. O motorista desviara e freara, sem conseguir atenuar o impacto. Vários carros se arrebentaram atrás e havia um saldo de oito feridos. No Pronto Socorro foi confirmado o óbito da menina. E o estupro. A pediatra observou aquele pai transtornado e deu - lhe a notícia seca, direta, sem compaixão. O homem olhou para ela sem medo, sem susto. Apenas a imensa dor, a incredulidade. Ela então continuou: - Aconteceu hoje, ou ontem. É recente. Na maioria dos casos é dentro de casa que acontece, com um homem que a criança conhece bem e em quem confia: um tio, um avô, com grande freqüência o próprio pai. Ela o observava, implacável. De novo não houve medo, nem susto nos olhos francos, apenas dor. - Por que? - Quem foi? O senhor tem outra filha, pense nela. Quem foi o homem que esteve em sua casa ontem? - Não é possível. - Fale. - A menina só saía de casa para ir à escola. Não tinha o costume de brincar na rua. Não ficava sozinha nunca. - Quem esteve com ela?
  • 19.
    19 - Uma criançaeducada com tanto cuidado... com todo o carinho... E, súbito, a raiva. - Eu mato esse desgraçado! E o pranto. A médica pediu para que entrasse a mãe. Nesses casos sempre prensava primeiro o pai. A sós. - Quem esteve em casa hoje, doutora? Meu pai, com minha mãe, ficamos todos juntos na sala. E ontem o meu cunhado ficou com a Daniela, à tarde, quando fui ao dentista. Eu sempre a levo comigo, mas ela estava jogando vídeogame com o tio e ele disse que não tinha nada para fazer e ficaria com ela até eu voltar. Não notei nada de estranho quando cheguei. - Não pode ter sido ele. Não pode. Não o meu irmão. Tem de ter sido outra pessoa. - Alguém mais? - Meu primo. Não, ele nem entrou, passou só para devolver um livro. - Eu quero conversar com o seu cunhado. Vamos chamá - lo aqui e dizer apenas que a menina foi atropelada. Se foi ele, não queremos que fuja. - Então é melhor que ele nem veja a gente, doutora. Mas não pode ser ele. Ele também é pai, tem uma filhinha de vinte dias. É a mais gentil das criaturas. Sempre tão carinhoso com as sobrinhas. - Carinhoso. E acaba de ser pai. - Ai, se foi ele... eu o mato. - Nós não temos certeza de nada, por enquanto. Meia hora mais tarde, apresentou - se um homem de uns trinta anos, visivelmente nervoso: - A minha sobrinha... com licença, disseram - me que a doutora é quem atendeu a minha sobrinha. Eu não vi meu irmão lá fora. Aonde está ela?
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    20 - Boa tarde.Sente - se. Os pais estão com ela, o estado dela é muito grave. - O que aconteceu? - Atropelamento. O homem parecia preocupado, queria ver a criança. - Não pode. Só os pais. Mas eu gostaria de conversar com o senhor. A menina gosta muito do senhor, não é? - Muito mesmo. Ela até dizia que ia crescer para casar comigo, sabe? Ficou muito chateada quando eu me casei. - E o senhor alimenta estas fantasias? - Ah, bem, eu sempre brincava com ela. Era a minha segunda namorada. Eu sempre trazia um chocolate, um doce, pegava no colo, levava para passear. - Uma menina bonita. - Linda. - Esperta? - Nossa! Muito esperta. Inteligente mesmo. Precoce, sabe? - Como assim, precoce? - Não parece uma criança, às vezes, sabe? Passa um batonzinho, gosta de um perfume, de uma roupinha transada, de um brinco... - Vaidosa. - Uma mulherzinha. Sentava no meu colo e dizia assim: “Adivinha o meu perfume”, toda dengosa. E quando eu vou embora ela me beija, me abraça e diz: “Você casou com outra mas continua sendo o meu namorado, viu?” - E era? - O que? - Namorado dela. - Claro.
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    21 - Ela mecontou que ficou com ela, ontem. - Ah... fiquei. A mãe dela foi ao dentista e nós ficamos jogando vídeogame. - Ela me contou o que fizeram juntos. - Ah... contou, é? - Foi a primeira vez? - Como? - Foi a primeira vez. - A doutora compreende, não é? - O que? - Ela queria muito. - Ela queria? - Ela gosta muito de mim. Ela é... precoce, é como eu lhe disse, ela senta no meu colo e se perfuma toda para mim e vive se declarando, que me ama e coisas assim. - Toda sobrinha gosta do tio. - Mas com ela é diferente. Ela parece uma criança, mas ela me vê como uma mulher vê um homem, compreende? Se houvesse uma oportunidade, bem, ela se entregaria para mim como mulher, entende? Ela se derrete toda para o meu lado, me provoca a toda hora com aqueles shortinhos, aquelas mini blusinhas e todo aquele dengo... - E ontem? - Ontem nós ficamos sozinhos e ela aproveitou, né? Apareceu a oportunidade. - Você a seduziu. - Que é isso, doutora, ela é que me seduziu! Doutora, pelo amor de Deus, não conta nada para a minha mulher, que meu casamento acaba.
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    22 - Como foi? -Ela foi logo se abraçando em mim e cochichando no meu ouvido: “Vem no meu quarto ver o urso novo de pelúcia que eu ganhei”. Ela é uma menininha mas já tem estas artimanhas de mulher vivida, inventando pretextos. - Será que houve outras garotinhas antes dela? - Sabe, doutora, houve algumas, sim, sabe , as garotinhas me adoram! Elas se apegam comigo com abelhas no mel. A Dani é um chamego só. Um xodozinho. E ele pos - se a narrar entusiasmado todos os detalhes de sua façanha erótica. ‘
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    23 MARCA DE LÁGRIMAS Márciaestava com os pais na piscina, saboreando o churrasco familiar dos domingos. O clima era de bom humor e alegria. Piscando - lhe seus travessos olhos azuis, papai estendeu para ela um copo de cuba libre. _Você está feliz, querida ? Ela acabara de ganhar uma viagem aos States como presente de aniversário. _ Muito, pai ! Você é o melhor pai do mundo ! Como poderia ela não estar feliz ? Seria uma manhã de domingo perfeita, não fossem algumas coisinhas que intrigavam Márcia. Insignificâncias. O vestido vermelho, por exemplo, que ela não encontrara em lugar algum. Não fora para a lavanderia. Simplesmente desaparecera. O tabuleiro de xadrez em seu quarto, quando ela tinha certeza de te - lo guardado no escritório. Aquele filme a que Sofia insistia em afirmar que as duas haviam assistido juntas e o desconfortável 3 de matemática. O professor chamara Márcia à lousa e pedira a ela que resolvesse alguns problemas, o que ela fizera corretamente como de hábito, sem errar nenhum, excelente aluna que era. Então ele lhe perguntou o que lhe acontecera na prova, quando ela não tinha a menor lembrança de haver feito prova. Mamãe já marcara uma consulta médica para Márcia na terça - feira e dissera a ela que não desse importância demasiada a esses esquecimentos.
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    24 Essas falhas dememória, tão bizarras, nublavam o horizonte quase perfeitamente feliz daquele domingo. - Hoje é aniversário de minha amiga Rute. Vou mais cedo, pois ela quer que eu a ajude na decoração do salão - disse mamãe. - As festas de Rute são deliciosas. Se eu pudesse, mamãe, iria escondidinha em sua bolsa, como uma formiguinha, para avançar nos doces. - Você morreria de tédio, isto sim. Festa boa para você foi a de sábado passado. - Ah, se foi ! Os quinze anos de Sofia. Márcia dançara até as quatro da madrugada. ‘ Papai enlaçou - lhe a cintura e fe - la sentar - se em seu colo : - Márcia tornou - se uma bela mulher. Eu me orgulho dela. - Uma moça inteligente e de bom coração, isto é o que importa - completou mamãe - Márcia é uma filha que só nos traz alegrias. - Parem com isso, seus corujas ! Vocês é que são pais maravilhosos. Mais tarde, quando mamãe saiu para a casa da amiga, papai disse à Márcia : - Vá tomar um banho, coloque aquele perfume que eu lhe dei e vista aquele vestido amarelo que a deixa tão bonita. Eu vou preparar um suco de frutas para tomarmos depois. O que você prefere : caju ou maracujá ? - Maracujá, papai. Ela o beijou em ambas as faces e o abraçou bem apertado : - Muito, muito obrigada pela viagem, papai. - Você a merece, meu bem. Márcia subiu para o quarto e abriu seu diário. Melhor seria dizer semanário, já que ela costumava escrever durante as tardes de domingo. Na
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    25 semana anterior nemescrevera, pois, cansada do baile, dormira a tarde inteira. Ao menos, ela assim pensava. A última folha escrita estava amassada e rasgada. Marcas redondas como pingos borravam aqui e acolá garranchos medonhos esparramados pela página. Como se alguém houvesse chorado. Márcia não se lembrava de haver chorado. Nem se lembrava de haver anotado coisa alguma, nem sobre a linda festa de Sofia. Chegara tão cansada ... Leu : “Aconteceu uma coisa horrível. Me ajuda, Deus. “ Apenas isso. Sua letra. Se ela não trouxesse o diário sempre trancado e a chave escondida em um local secreto, até poderia pensar que alguém queria fazer alguma brincadeira de mau gosto com ela, imitando sua letra. Ora, que bobagem, além do pai , da mãe e dela, não havia ninguém mais na casa. “Aconteceu uma coisa horrível.” Que poderia ter acontecido ? Sua amiga Sofia não parecia saber de nada. Nem seus pais. Havia o três de matemática. Todos aqueles lapsos. Ela se esquecera da prova. Acontecera alguma coisa horrível e ela se esquecera, também. Com certeza tinha algo a ver com o vestido vermelho, pois ela o usara no domingo e ele desaparecera. Uma coisa horrível. O que poderia ser ? - “ Vou chegando, pros braços de amor da mulher que está a me esperar ...”
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    26 Não era otipo de música que papai habitualmente cantava e a moça sentiu - se vagamente inquieta ao ouvi - lo subir as escadas. - Vamos rápido, querida, você já está pronta ? Então ela lembrou - se, quando viu o homem entrar em seu quarto, nu.
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    27 A SOMBRA Cristina leurapidamente as questões da prova, satisfeita, pois conhecia a fundo a matéria de maior peso naquele vestibular. Primeiramente ela leu atentamente cada pergunta e marcou discretamente, com uma marquinha apenas perceptível, a resposta certa, deixando em branco as dúvidas. Depois, refletiu sobre as poucas questões em aberto, eliminando as respostas obviamente erradas e estudando as outras opções, puxando pela memória. Finalmente, ela releu a prova, conferiu tudo direitinho, um olho no relógio para controlar o tempo disponível, e com a caneta começou a circular as letras definitivas no cartão de respostas. Então, aconteceu. Circulava uma letra imediatamente antes ou após a resposta correta, de modo que o gabarito não continha sequer uma resposta exata. Garantindo assim a derrota, ela levantou-se, entregou a folha ao fiscal e retirou-se como um autômato. Anos de estudo e de esforço, tudo o que mais prezava e desejava, jogado fora. Um sentimento de júbilo cantava em seu íntimo, embora em seu olhar só houvesse perplexidade e consternação. Pensou em raspar os cabelos, deixando uma mecha estreita no alto da cabeça, tingida de rosa. Imaginou-se num palco, três brincos em cada orelha, em roupas de couro, tocando guitarra.
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    28 E como passasseem frente a um salão de beleza, suou frio para resistir ao impulso de entrar e já, já, ficar careca. Em casa não encontrou coragem para contar o que ocorrera no exame. Seu noivo apareceu, confiante em sua vitória, trazendo uns discos que ela tencionava gravar. Para espanto do rapaz, porém, ela escolheu o disco mais barulhento do irmão mais moço: -Hoje prefiro agitar. E quando ele a abraçou, ela foi ríspida, grosseira e vulgar: -Vocês, homens, só pensam naquilo. O olhar magoado do rapaz comoveu-a. Ele era tímido, afetuoso, e ela o repelia injustamente. -Nelson, compreenda, esta tensão toda, este vestibular... -Está certo, descanse, eu volto outra hora. Na mesma tarde, duas colegas vieram visitá-la e comentaram suas incertezas, suas impressões de que não haviam ido lá tão bem, e Cristina surpreendeu-se a destilar veneno: “burrinhas, está na cara que vocês não vão passar”, “ora, o Q.I. de vocês é tão baixo, sua única chance é arrumar Quem Indique”, com risinhos de mofa. -E eu só dei aquelas aulas de inglês para vocês para treinar o método de ensino que vou usar em umas aulas que consegui na Cultura Inglesa. É o meu primeiro emprego e era meu interesse dar aulas para vocês. Não pensem que foi por amizade, não, suas tontas. Após a inevitável ruptura, aquela oculta sensação de intenso júbilo retornou. Horrorizada, Cristina trancou-se em seu quarto. No espelho, um rosto que tinha as suas feições enfrentou-a com um olhar zombeteiro e um sorriso mau.
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    29 Dali a dezdias haveria outro vestibular, outra faculdade a tentar. Bastava esquecer o fracasso da primeira tentativa e concentrar-se. Nos próximos dias o mau humor de Cristina aumentou. Sua vida como que escureceu. Quebrara-se a sintonia, algo sutil mudara a realidade. Nada mais era como antes. As coisas não eram o que pareciam. Da sua perspectiva, era como se o mundo houvesse girado um grau, apenas um grau e todas as coisas houvessem mudado um pouquinho. Algumas pessoas afastavam-se dela, outras claramente a evitavam e pior que isso, coisas estranhas começaram a acontecer. Desconhecidos a abordavam na rua e ela, cuja força de vontade sempre a mantivera no assim apregoado bom caminho, deixava-se ficar a ouvir aquela conversa de desocupados, a fantasiar em como seria andar descalça na praia sob o céu noturno, a curtir um baseado. Bem cedo, na manhã do segundo vestibular, que seria em São Paulo, Cristina despediu-se dos pais e partiu. Sentia-se tinindo de saber, uma verdadeira enciclopédia. Revisara seus apontamentos na véspera, e desta vez, é claro que ela iria preencher o gabarito com as respostas certas. Seu futuro estava em jogo e ela não admitiria nenhum contratempo. Com esta firme convicção, ela começou a subida da Via Anchieta. A estrada estava livre, o tempo bem claro e o carro revisado para garantir uma viagem sem incidentes. Nas tortuosas curvas da serra, uma, a mais perigosa, beirava um abismo. Ao adentrá-la, as mãos de Cristina não fizeram o necessário desvio na direção. Seu pé direito pisou fundo no acelerador e ela penetrou na paisagem, rumo ao infinito.
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    30 OVERDOSE - Vou disputaro campeonato de surf na Austrália. Fulminei aquele jovem deus loiro, segurando a indignação por trás das feições de pedra. Pois aquele ingrato ousava estraçalhar os meus sonhos para o seu futuro! Nem eu percebi, nem ele, que naquele instante o vínculo entre nós quebrou-se. Eu realizava meus afazeres cotidianos como sempre, e ele realizava os seus. Eu, no entanto, perdera o prazer de viver. Ele acordava cedo, para treinar mais, e passou a tomar seu café da manhã sozinho. Começou a almoçar com a equipe, para manter a dieta, e o mesmo acontecia com o jantar. Eu colocava só dois pratos na mesa, mesmo que ele estivesse em casa, e o pai não questionava a omissão. A coleção de troféus do filho não o emocionava, tampouco. Nós dois preferiríamos um diploma sem nenhuma distinção, mas diploma. Não troféus, nem fama, glória ou honrarias. Ele nos contava sobre suas buscas por patrocínio, nós ouvíamos quietos. Comentávamos sobre o vestibular sem obter resposta. Adoeci. Minhas dores reumáticas travaram dolorosamente meus movimentos, e ele passou a cuidar da lavagem das próprias roupas e da limpeza do quarto, para poupar-me. Os remédios davam-me sono, eu me recolhia cedo, e assim, à noite, não mais nos encontrávamos. Fazemos coisas assim com as pessoas que amamos, e, quase sem darmos por isso, nós as expulsamos de nosso coração.
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    31 Ele fazia asrefeições fora, saía e entrava quando eu estava a dormir. Ele e o pai discutiam por dinheiro com bastante freqüência e quando ele comunicou, todo feliz, que conseguira a passagem para a Austrália, o bate- boca extrapolou. Gritos. Desaforos. Um tapa na cara. Na manhã seguinte ele ainda estava em casa quando acordei. De olhos baixos, aguardava-me. Sorri. - Não foi treinar hoje, filho? Ele ergueu-se. Uma faixa colorida prendia-lhe a franja. Um suspiro expandiu-lhe o tórax robusto. Por um instante eu o admirei, meu jovem Balder, suas longas tranças douradas balançando à frente dos ombros como um desafio. Ele tocou-me gentilmente o rosto: - Vou-me embora, mãe. Só então dei-me conta da mochila apoiada à porta. Dirigi-me à cozinha e comecei a cortar meu pão. - Um beijo de despedida, mãe. Deseje-me sorte. Ele aproximou-se, seu meigo olhar brilhando como o de um garotinho. Eu dei-lhe as costas. - Vocês estão-me expulsando de casa. Eu não quero ir embora dessa maneira, mãe. - Ora, filho! “Você me expulsou!”, “Você me forçou a aceitar este emprego!”, “Você me induziu a isto ou àquilo!”. Fácil, não é, jogar a culpa nos outros. Por favor, cresça! Encare a responsabilidade pelo que você faz! Assuma a sua vida! - É o que pretendo fazer, mãe. Não ouvi a porta bater, pois ele saiu discretamente de nossas vidas, como quem não quisesse mesmo incomodar.
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    32 Por muitas semanaseu o mantive longe de minha mente. Ocupada com dez mil tarefas, sua ausência era-me indiferente. Para o pai, o mesmo acontecia. Esquecêramos o filho que tanto nos desiludira. Ontem chegou o telegrama. Eu não quis ver o corpo. Não fui ao velório. Nem ao enterro. De olhos secos, persisto em minha rotina de todos os dias. Afinal, eu não tive culpa. Eu não poderia ter feito nada para que as coisas acontecessem de maneira diferente, não é mesmo? Confesso, porém, que há uma diferença: para onde quer que eu me volte, o jovem deus loiro olha-me incansavelmente com muita ternura a exigir- me o beijo de despedida que lhe neguei.
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    33 O ESCRITOR EO MONSTRO Era uma vez um homem tão sensível, tão meigo e de coração tão puro que só podia ser mesmo o que era : um escritor de histórias infantis.Ele vivia em um mundo mágico e encantado cheio de nuvens rosas, animais que falam e monstrinhos, que, encontrando o Amor, tornavam - se bonzinhos. Ele seria muito feliz se não fosse por um detalhe : a esposa, que não cessava de reclamar o dinheiro do aluguel, do açougue, do colégio dos meninoss... até que, por insistência dela, ele empregou - se em uma repartição pública. Nunca, porém, ele deixou de escrever. À noite, trancava - se no quarto e deixava rolar a esfera de tungstênio, para deleite dos filhos e de quantos quisessem ouvir suas histórias. Histórias tão boas, que um amigo levou - as a uma editora, que comprou - lhe não uma, mas todas, e encomendou mais. Um grupo de teatro adaptou suas histórias para o palco. Um programa infantil de TV contratou - o como roteirista. E ra a consagração em vida. E a oportunidade de trocar o escritório enfadonho pelo seu mundo mágico e encantado... A esposa recomeçou com as ladainhas _ precisavam ter casa própria, um carro, colocar os meninos em um colégio melhor e ela sempre sonhara em conhecer a Europa. Nosso pobre escritor começou a ter estranhos pesadelos, em que seus heróis bonzinhos voltavam a ser monstrinhos com idéias assassinas.
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    34 O psicanalista queele procurou quis interná - lo imediatamente, mas ele recusou,querendo apenas comprimidos para dormir. Ele tentou sózinho a catarse, transformando os pesadelos em contos curtos de terror, mas o editor não os aprovou _ estavam fora de moda, Pöe já esgotara o gênero e ele nem ao menos tinha a originalidade de um Kafka. Seus livros vendiam bem, o programa infantil foi premiado, suas peças viajavam país afora, trocara de carro e podia finalmente financiar as férias da família na Europa. Por isso ninguém entendeu por que, certa madrugada, ele esfaqueou a mulher e os filhos e enforcou - se no lustre.
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    35 ENFIM...LIVRE! Eu sempre soubeque seria assim: certa manhã eu acordaria e tudo estaria normal. Eu esqueceria os anos de angústia, o medo constante de que percebessem a verdade, o disfarce cuidadoso de todos os instantes, o fingimento contínuo de normalidade. Ah, se alguém soubesse! Se alguém sequer desconfiasse da presença deles, se alguém notasse que eu recebia ordens, se alguém deslumbrasse um pedacinho do inferno por detrás do muro, ou percebesse a tirania das vozes, ah, eu estaria perdido, enclausurado eternidade afora em algum hospício, supliciado, drogado, anulado, desacreditado e inútil. Nem a arte seria suficiente para proteger - me do estigma da excentricidade, mesmo que eu tivesse o talento de um Dali, de um van Gogh. Ah, eu queria somente a felicidade de ser como toda a gente. Tanto o desejei que aconteceu. Como diz o provérbio: “Cuidado com o que pedires, pois te será concedido”. Um dia... acordei e o mundo voltara ao normal. O muro caíra. As vozes se calaram. Que alívio! Dos gestos triviais fluíam gostosamente a alegria de viver e o afeto por meus desassemelhantes. Sem o fardo da incompreensível moléstia, passei semanas longe dos pincéis, em companhia da família e dos amigos, compartilhando secretamente com eles o milagre da cura. Até arrumei uma namorada.
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    36 Eis que noinício da semana recebi um convite para uma exposição e tranquei - me no estúdio, esperando a tempestade criativa que me inunda de tempos em tempos. Então, e só então, percebi o vazio estéril de minha alma. Concentrei - me... e nada. Onde o atropelamento de idéias originais e incríveis jorrando generosamente do cérebro excitado? Onde o espoucar de formas e cores? Onde a magnífica intuição do belo? Ah, compreendi, a angústia, o sofrimento, a insatisfação, a dor, eram o combustível da inspiração. O ato criador, sendo um ato de tensão, fenece na tranqüila monotonia da vida comum. Conquistei a paz. Estou curado. Mas a que preço, a que preço! Condenado à estéril mediocridade. Eu, que pensava abominar a solidão moral que me excluía do convívio humano, descobri que o único prazer que desejo neste mundo é aquele provocado pelo lampejo do gênio. Quero de volta o inferno, se este for o preço de meu talento. Tarde demais. As vozes calaram - se para sempre. O mundo invadiu meu universo e no lugar da minha máscara encaro no espelho um rosto massificado. Por isso vedei portas e janelas e abri o gás.
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    37 Índice 3...A miserãvel 6...Uma questãode auto-controle 10...O invasor 14....O inimigo 18...A sedutora 23..Marca de lágrimas 27...A sombra 30...Overdode 33...O escritor e o monstro 35...Enfim, livre!
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    38 Este livro éparte integrante da antologia A Vida em Prosa 2, publicada em 1998, em comemoração do segundo aniversário do grupo editorial Um dedo de prosa. Título: LA VIE EN PROSE Personalidades: NEIVA MARIA PAVESI - Autor(a), MARIA HELENA MADUREIRA - Autor(a), MARIA DAS DORES MARTINS DA SILVA - Autor(a), SÔNIA REGINA ROCHA RODRIGUES - Autor(a) Registro: 139136, em 17/10/1997 Gênero: Contos/Crônica Obra Publicada: Sim Tipo de Apresentação: Outros, 116 página(s).