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PORTOS
Maio ‑ Junho 2012 CLUSTER DO MAR 21
N
um horizonte temporal muito pró‑
ximo, o Terminal XXI (Terminal de
Contentores de Sines) tornou‑se, su‑
bitamente, mediático. Depois de um
longo período em que se apostou na impossi‑
bilidade do arranque deste terminal, passou‑
se para o campo oposto: o de que só ele existe
em Sines.
De facto, Sines e a Administração do Porto de
Sines orgulham‑se do seu mais recente Ter‑
minal. Mas o Plano de Desenvolvimento da
Área de Sines foi concebido no final da década
de sessenta com uma ambição mais vasta, a
de constituir um elemento relevante, com
cariz estratégico, para o desenvolvimento eco‑
nómico do nosso país e para promover o re‑
lacionamento comercial externo de Portugal.
O preâmbulo do diploma legal que cria o Gabi‑
nete da Área de Sines (Decreto‑Lei nº 270/71),
é ambicioso no seu propósito de criar um novo
pólo de desenvolvimento económico, uma área
de implantação industrial concentrada, capaz de
constituir um instrumento eficaz de ordena‑
mento do território, envolvendo a região de Lis‑
boa e o sul do país.
Associado a esta visão de desenvolvimento es‑
teve, desde o início, o plano de construção de um
porto de águas profundas (um porto oceânico,
como então foi chamado), “capaz de receber e
servir os grandes navios petroleiros, mineralei‑
ros e graneleiros, que já estão em actividade e
cuja utilização se generalizará seguramente na
próxima década”.
No início da sua actividade, em 1978, o Porto de
Sines foi direccionado para as mercadorias com
carizenergético,comumaestabilidadeassegurada
pela instalação dos principais clientes dos seus ter‑
minais, como a Galp, a EDP e a então Companhia
NacionaldePetroquímica,navastaZonaIndustrial
adjacente ao porto e disponibilizada para esse
efeito no início da década de setenta.
No final do Século XX, tornava‑se imperioso dar
resposta a novos desafios, como o de aliar uma
vasta Zona Industrial e Logística a um porto com
as características de hub portuário. Um porto
que pudesse oferecer todas as valências e com
características técnicas de recepção e de escoa‑
mento de todo o tipo de mercadorias em opera‑
ção comercial no mundo e, dessa forma,
potenciar o desenvolvimento da instalação de in‑
dústrias com novas valências e concretizar o
grande objectivo estratégico previsto no Plano
inicial.
É essa a resposta que Sines hoje oferece. Um
porto com cinco terminais especializados (Ter‑
minal de Granéis Líquidos, Terminal Petroquí‑
mico, Terminal Multiusos, Terminal de Gás
Natural Liquefeito e Terminal de Contentores),
com uma vasta área industrial e logística adja‑
cente, dispondo de terrenos já expropriados e
geridos pela AICEP Global Parques que lhe per‑
mite receber, de imediato, a instalação de novas
empresas, de produção e de distribuição.
Sines é muito mais do que
um terminal de contentores
Sines foi concebido
no final da década
de sessenta com uma
ambição mais vasta, a de
constituir um elemento
relevante, com cariz
estratégico, para o
desenvolvimento
económico do nosso país
Porto com cinco terminais
especializados e uma vasta
área industrial e logística
Os grandes investimentos
levados a cabo nos últimos
anos no Porto de Sines
e na ZILS permitiram criar
um cluster petroquímico
de grande dimensão,
no qual o Porto teve
e continuará a ter um
papel determinante
Lídia Sequeira, Presidente da Administração do Porto de Sines
PORTOS
22 CLUSTER DO MAR Maio ‑ Junho 2012
E uma cidade histórica, em crescimento, a fazer
o seu percurso no sentido de uma qualidade de
vida sustentável e que convive bem com o seu
porto. A sublinhar esta afirmação, refira‑se que
a APS e a Câmara Municipal de Sines protagoni‑
zaram uma permuta de terrenos e a redefinição
das respectivas áreas de jurisdição, garantidas
através do Decreto‑Lei nº 95/2010, com ganhos
evidentes para ambas as partes. A cidade e o
porto poderão expandir‑se, sem conflito, num
horizonte de longo prazo.
Os grandes investimentos levados a cabo nos úl‑
timos anos no Porto de Sines e na ZILS permiti‑
ram criar um cluster petroquímico de grande
dimensão, no qual o Porto teve e continuará a
ter um papel determinante.
Por outro lado, o Porto de Sines tem actualmente
umaposiçãoconsolidadano“shipping”mundialde
contentores, com serviços directos semanais aos
principais mercados transoceânicos. Essa é uma
oportunidadepararesponderanovosdesafios,po‑
sicionando Sines como um “site” capaz de atrair e
potenciar o surgimento de novos investimentos,
novos negócios e novos desafios estratégicos.
A sua localização estratégica, situado no cruza‑
mento das principais rotas mundiais, Norte‑Sul
e Este‑Oeste, sem necessidade de desvio, con‑
fere‑lhe uma vantagem geográfica que a globa‑
lização veio potenciar.
As grandes mudanças que actualmente se regis‑
tam na geoeconomia mundial, a instabilidade
junto ao Canal do Suez e o alargamento do Canal
do Panamá no segundo semestre de 2014, per‑
mitindo a passagem de navios com capacidade
até 12.000 TEU, abrem caminho ao surgimento
de novas alternativas nas rotas marítimas mun‑
diais, reforçando a posição do Brasil como
grande hub portuário do continente sul‑ameri‑
cano e reforçando a posição estratégica de Sines.
Para responder a este desafio de afirmação do
Porto de Sines como principal porto de entrada
de mercadorias na Península Ibérica são funda‑
mentais as acessibilidades terrestres, particular‑
mente ferroviárias. Actualmente, o modo
ferroviário já é responsável por cerca de 90% do
total das mercadorias transportadas de e para o
hinterland de Sines, constituindo já uma das prin‑
cipais plataformas ferroviárias da Península Ibé‑
rica com a movimentação de 26 comboios por
dia (8 de contentores, 8 de fuel e 10 de carvão).
Sines, construção do porto Sines, ferrovia
Sines, início do projecto Sines, ZILS
A cidade histórica convive
bem com o seu porto
Para responder a este
desafio de afirmação do
Porto de Sines como
principal porto de entrada
de mercadorias na
Península Ibérica são
fundamentais as
acessibilidades terrestres,
particularmente ferroviárias
Um porto para ser
competitivo, tem
de desenvolver
os mecanismos
informacionais que
permitam a interligação
de todos os atores
da atividade portuária
PORTOS
Maio ‑ Junho 2012 CLUSTER DO MAR 23
A aposta na ferrovia para ligar o porto ao hin‑
terland nacional é, pois, uma solução já consoli‑
dada, sendo indispensável e urgente que sejam
tomadas as medidas necessárias para garantir
que este seja também o modo utilizado nas des‑
locações para Madrid e para o centro da Europa.
A melhoria das acessibilidades rodoviárias em
curso e a futura solução para o transporte ferro‑
viário de mercadorias continuam a ser factores
da maior relevância para tirar partido de todo o
potencial deste projecto.
Um porto para ser competitivo, tem de desen‑
volver os mecanismos informacionais que per‑
mitam a interligação de todos os actores da
actividade portuária, públicos e privados, por
forma a que a informação flua sem constrangi‑
mentos, permitindo que todas as entidades con‑
duzam as suas transacções e possam gerir os
seus negócios numa escala global.
A JUP – Janela única Portuária, constitui hoje um
instrumento comum dos portos nacionais que
permite fazer essa interligação através de um
verdadeiro balcão único virtual, localizado nas
Administrações Portuárias e que permite tratar
em antecipação todos os processos relacionados
com a estadia do navio e a movimentação da
carga, evitando demoras na operação dos navios
em porto e contribuindo para o aumento da efi‑
ciência portuária.
Após a implementação com sucesso deste sis‑
tema em Sines, o objectivo actual consiste em
garantir a sua extensão a toda a cadeia logís‑
tica de transporte, através da interoperabili‑
dade da JUP com os operadores de transporte
terrestre, com destaque para o modo ferroviá‑
rio, bem como com os operadores logísticos
e os portos secos de origem/destino. A inte‑
gração dos fluxos de informação até aos des‑
tinos finais das mercadorias constitui a base
do processo em curso de criação da Janela
Única Logística.
O recurso às melhores práticas internacionais
no desembaraço das mercadorias e a sua co‑
locação de forma célere e rastreada junto do
destinatário final constitui um ponto‑chave
para a captação de novos tráfegos, para a ins‑
talação de novas empresas na região e no
país, por forma a alcançar os grandes objecti‑
vos que nortearam o Plano de Desenvolvi‑
mento da Área de Sines.
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Sines é muito mais do que um terminal de contentores

  • 1. PORTOS Maio ‑ Junho 2012 CLUSTER DO MAR 21 N um horizonte temporal muito pró‑ ximo, o Terminal XXI (Terminal de Contentores de Sines) tornou‑se, su‑ bitamente, mediático. Depois de um longo período em que se apostou na impossi‑ bilidade do arranque deste terminal, passou‑ se para o campo oposto: o de que só ele existe em Sines. De facto, Sines e a Administração do Porto de Sines orgulham‑se do seu mais recente Ter‑ minal. Mas o Plano de Desenvolvimento da Área de Sines foi concebido no final da década de sessenta com uma ambição mais vasta, a de constituir um elemento relevante, com cariz estratégico, para o desenvolvimento eco‑ nómico do nosso país e para promover o re‑ lacionamento comercial externo de Portugal. O preâmbulo do diploma legal que cria o Gabi‑ nete da Área de Sines (Decreto‑Lei nº 270/71), é ambicioso no seu propósito de criar um novo pólo de desenvolvimento económico, uma área de implantação industrial concentrada, capaz de constituir um instrumento eficaz de ordena‑ mento do território, envolvendo a região de Lis‑ boa e o sul do país. Associado a esta visão de desenvolvimento es‑ teve, desde o início, o plano de construção de um porto de águas profundas (um porto oceânico, como então foi chamado), “capaz de receber e servir os grandes navios petroleiros, mineralei‑ ros e graneleiros, que já estão em actividade e cuja utilização se generalizará seguramente na próxima década”. No início da sua actividade, em 1978, o Porto de Sines foi direccionado para as mercadorias com carizenergético,comumaestabilidadeassegurada pela instalação dos principais clientes dos seus ter‑ minais, como a Galp, a EDP e a então Companhia NacionaldePetroquímica,navastaZonaIndustrial adjacente ao porto e disponibilizada para esse efeito no início da década de setenta. No final do Século XX, tornava‑se imperioso dar resposta a novos desafios, como o de aliar uma vasta Zona Industrial e Logística a um porto com as características de hub portuário. Um porto que pudesse oferecer todas as valências e com características técnicas de recepção e de escoa‑ mento de todo o tipo de mercadorias em opera‑ ção comercial no mundo e, dessa forma, potenciar o desenvolvimento da instalação de in‑ dústrias com novas valências e concretizar o grande objectivo estratégico previsto no Plano inicial. É essa a resposta que Sines hoje oferece. Um porto com cinco terminais especializados (Ter‑ minal de Granéis Líquidos, Terminal Petroquí‑ mico, Terminal Multiusos, Terminal de Gás Natural Liquefeito e Terminal de Contentores), com uma vasta área industrial e logística adja‑ cente, dispondo de terrenos já expropriados e geridos pela AICEP Global Parques que lhe per‑ mite receber, de imediato, a instalação de novas empresas, de produção e de distribuição. Sines é muito mais do que um terminal de contentores Sines foi concebido no final da década de sessenta com uma ambição mais vasta, a de constituir um elemento relevante, com cariz estratégico, para o desenvolvimento económico do nosso país Porto com cinco terminais especializados e uma vasta área industrial e logística Os grandes investimentos levados a cabo nos últimos anos no Porto de Sines e na ZILS permitiram criar um cluster petroquímico de grande dimensão, no qual o Porto teve e continuará a ter um papel determinante Lídia Sequeira, Presidente da Administração do Porto de Sines
  • 2. PORTOS 22 CLUSTER DO MAR Maio ‑ Junho 2012 E uma cidade histórica, em crescimento, a fazer o seu percurso no sentido de uma qualidade de vida sustentável e que convive bem com o seu porto. A sublinhar esta afirmação, refira‑se que a APS e a Câmara Municipal de Sines protagoni‑ zaram uma permuta de terrenos e a redefinição das respectivas áreas de jurisdição, garantidas através do Decreto‑Lei nº 95/2010, com ganhos evidentes para ambas as partes. A cidade e o porto poderão expandir‑se, sem conflito, num horizonte de longo prazo. Os grandes investimentos levados a cabo nos úl‑ timos anos no Porto de Sines e na ZILS permiti‑ ram criar um cluster petroquímico de grande dimensão, no qual o Porto teve e continuará a ter um papel determinante. Por outro lado, o Porto de Sines tem actualmente umaposiçãoconsolidadano“shipping”mundialde contentores, com serviços directos semanais aos principais mercados transoceânicos. Essa é uma oportunidadepararesponderanovosdesafios,po‑ sicionando Sines como um “site” capaz de atrair e potenciar o surgimento de novos investimentos, novos negócios e novos desafios estratégicos. A sua localização estratégica, situado no cruza‑ mento das principais rotas mundiais, Norte‑Sul e Este‑Oeste, sem necessidade de desvio, con‑ fere‑lhe uma vantagem geográfica que a globa‑ lização veio potenciar. As grandes mudanças que actualmente se regis‑ tam na geoeconomia mundial, a instabilidade junto ao Canal do Suez e o alargamento do Canal do Panamá no segundo semestre de 2014, per‑ mitindo a passagem de navios com capacidade até 12.000 TEU, abrem caminho ao surgimento de novas alternativas nas rotas marítimas mun‑ diais, reforçando a posição do Brasil como grande hub portuário do continente sul‑ameri‑ cano e reforçando a posição estratégica de Sines. Para responder a este desafio de afirmação do Porto de Sines como principal porto de entrada de mercadorias na Península Ibérica são funda‑ mentais as acessibilidades terrestres, particular‑ mente ferroviárias. Actualmente, o modo ferroviário já é responsável por cerca de 90% do total das mercadorias transportadas de e para o hinterland de Sines, constituindo já uma das prin‑ cipais plataformas ferroviárias da Península Ibé‑ rica com a movimentação de 26 comboios por dia (8 de contentores, 8 de fuel e 10 de carvão). Sines, construção do porto Sines, ferrovia Sines, início do projecto Sines, ZILS A cidade histórica convive bem com o seu porto Para responder a este desafio de afirmação do Porto de Sines como principal porto de entrada de mercadorias na Península Ibérica são fundamentais as acessibilidades terrestres, particularmente ferroviárias Um porto para ser competitivo, tem de desenvolver os mecanismos informacionais que permitam a interligação de todos os atores da atividade portuária
  • 3. PORTOS Maio ‑ Junho 2012 CLUSTER DO MAR 23 A aposta na ferrovia para ligar o porto ao hin‑ terland nacional é, pois, uma solução já consoli‑ dada, sendo indispensável e urgente que sejam tomadas as medidas necessárias para garantir que este seja também o modo utilizado nas des‑ locações para Madrid e para o centro da Europa. A melhoria das acessibilidades rodoviárias em curso e a futura solução para o transporte ferro‑ viário de mercadorias continuam a ser factores da maior relevância para tirar partido de todo o potencial deste projecto. Um porto para ser competitivo, tem de desen‑ volver os mecanismos informacionais que per‑ mitam a interligação de todos os actores da actividade portuária, públicos e privados, por forma a que a informação flua sem constrangi‑ mentos, permitindo que todas as entidades con‑ duzam as suas transacções e possam gerir os seus negócios numa escala global. A JUP – Janela única Portuária, constitui hoje um instrumento comum dos portos nacionais que permite fazer essa interligação através de um verdadeiro balcão único virtual, localizado nas Administrações Portuárias e que permite tratar em antecipação todos os processos relacionados com a estadia do navio e a movimentação da carga, evitando demoras na operação dos navios em porto e contribuindo para o aumento da efi‑ ciência portuária. Após a implementação com sucesso deste sis‑ tema em Sines, o objectivo actual consiste em garantir a sua extensão a toda a cadeia logís‑ tica de transporte, através da interoperabili‑ dade da JUP com os operadores de transporte terrestre, com destaque para o modo ferroviá‑ rio, bem como com os operadores logísticos e os portos secos de origem/destino. A inte‑ gração dos fluxos de informação até aos des‑ tinos finais das mercadorias constitui a base do processo em curso de criação da Janela Única Logística. O recurso às melhores práticas internacionais no desembaraço das mercadorias e a sua co‑ locação de forma célere e rastreada junto do destinatário final constitui um ponto‑chave para a captação de novos tráfegos, para a ins‑ talação de novas empresas na região e no país, por forma a alcançar os grandes objecti‑ vos que nortearam o Plano de Desenvolvi‑ mento da Área de Sines. Sines, vista aérea ◘