Fundada em 21 de janeiro de 1883
Fundador: Augusto Elias da Silva
Revista de Espiritismo Cristão
Ano 124 / Outubro, 2006 / No
2.131
ISSN 1413-1749
Propriedade e orientação da
FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA
Diretor: NESTOR JOÃO MASOTTI
Diretor-substituto e Editor: ALTIVO FERREIRA
Redatores: AFFONSO BORGES GALLEGO SOARES, ANTONIO
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Projeto gráfico da revista: JULIO MOREIRA
Capa: AGADYR TORRES PEREIRA
Editorial
Relembrando Kardec
Entrevista: Gloria Avalos de Ynsfrán
Fomentar a paz através do conhecimento e do amor
Presença de Chico Xavier
Na trilha de Allan Kardec – André Luiz
Esflorando o Evangelho
Madalena – Emmanuel
A FEB e o Esperanto
As idéias de Zamenhof e a Doutrina Espírita –
Paulo Sérgio Viana
Seara Espírita
Não julgueis – Juvanir Borges de Souza
Campeonato da insensatez – Vianna de Carvalho e outros
Espíritos-espíritas
Realidade e ficção – Washington Borges de Souza
Saúde é trabalhar – Richard Simonetti
O Mestre e o Apóstolo – Emmanuel
Pedra angular – Dalva Silva Souza
Espiritismo – O Consolador prometido por Jesus
– Hugo Alvarenga Novaes
O necessário e delicado intercâmbio mediúnico
– Waldehir Bezerra de Almeida
Vianna de Carvalho – 80 anos de desencarnação
– Luciano Klein Filho
A resposta de Deus – Eliana Thomé
Muito à frente de seu tempo – Sônia Zaghetto
Capacitação do Trabalhador do Grupo Mediúnico
Santos Dumont
Divaldo Franco na FEB-Rio
Normalização Editorial – Padrão de qualidade editorial
dos livros febianos – Geraldo Campetti Sobrinho
Dia Estadual da Confraternização Espírita
5
8
11
16
17
18
22
24
27
30
32
33
36
38
39
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4
12
14
21
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42
SumárioExpediente
PARA O BRASIL
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4 Reformador • Agosto 2006336622
Editorial
eformador, deste mês, relembra o lúcido trabalho de Allan Kardec na elabo-
ração da Codificação Espírita, materializando, junto à Humanidade, o
Consolador Prometido por Jesus.
Resgata uma página de André Luiz, intitulada “Na trilha de Allan Kardec”
(p. 14) e publica mensagem de Emmanuel,“O Mestre e o Apóstolo” (p.17), ambas
psicografadas por Francisco Cândido Xavier.
Sobre a obra do Codificador, é oportuno relembrar, também, alguns pensamen-
tos de Bezerra de Menezes, Espírito que, sob inspiração superior, vem orientando o
estudo, a divulgação e a prática da Doutrina Espírita:*
“A Doutrina Espírita possui os seus aspectos essenciais em configuração tríplice.
Que ninguém seja cerceado em seus anseios de construção e produção. Quem se
afeiçoe à ciência que a cultive em sua dignidade, quem se devote à filosofia que lhe
engrandeça os postulados e quem se consagre à religião que lhe divinize as aspira-
ções, mas que a base kardequiana permaneça em tudo e todos, para que não venha-
mos a perder o equilíbrio sobre os alicerces em que se nos levanta a organização.”
“Allan Kardec, nos estudos, nas cogitações, nas atividades, nas obras, a fim de que
a nossa fé não se faça hipnose, pela qual o domínio da sombra se estabelece sobre
as mentes mais fracas, acorrentando-as a séculos de ilusão e sofrimento.”
“Seja Allan Kardec, não apenas crido ou sentido, apregoado ou manifestado, a
nossa bandeira, mas suficientemente vivido, sofrido, chorado e realizado em nossas
próprias vidas. Sem essa base é difícil forjar o caráter espírita-cristão que o mundo
conturbado espera de nós pela unificação.”
“É indispensável manter o Espiritismo, qual foi entregue pelos Mensageiros Di-
vinos a Allan Kardec, sem compromissos políticos, sem profissionalismo religioso,
sem personalismos deprimentes, sem pruridos de conquista a poderes terrestres
transitórios.”
“Amor de Jesus sobre todos, verdade de Kardec para todos.”
*Mensagem “Unificação”, psicografada por Francisco C. Xavier (Reformador, dezembro de 1975).
R
Relembrando
Kardec
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5Outubro 2006 • Reformador 336633
ncontra-se no Evangelho de
Mateus, 7:1-2, esse ensino
de Jesus:
“Não julgueis, a fim de não ser-
des julgado; – porquanto sereis
julgados conforme houverdes jul-
gado os outros; empregar-se-á co-
vosco a mesma medida de que vos
tenhais servido para com os ou-
tros. (O Evangelho segundo o Espi-
ritismo, 3. ed. especial, cap. X, item
11, p. 215.)
Esta lição do Mestre insere-se,
como muitas outras, na lei do
amor – a síntese maravilhosa que
Ele formulou para facilitar a com-
preensão não somente de seus dis-
cípulos e ouvintes, mas de todos os
que viessem tomar conhecimento
de sua mensagem, no futuro.
Como amar ao próximo é a re-
gra áurea para reger o relaciona-
mento com nossos semelhantes,
colocada junto ao primeiro man-
damento – amar a Deus sobre to-
das as coisas –, o não julgueis para
não serdes julgados é um desdo-
bramento da lei suprema.
É uma forma de facilitar a
compreensão humana para aque-
les que visam aceitar, compreen-
der e vivenciar as leis divinas.
O verbo julgar tem acepções
diversificadas na linguagem hu-
mana, especialmente no idioma
português.
Ao mesmo tempo que po-
de significar uma de-
cisão de juiz ou
de árbitro,
pode tam-
bém ser em-
pregado no sentido de imaginar,
conjecturar, formar opinião, ava-
liar, formar juízo crítico, conside-
rar-se, etc., conforme o texto em
que está inserido.
Acreditamos que Jesus, conhe-
cendo profundamente a natureza
dos habitantes do nosso mundo,
procurou deixar evidente o pre-
juízo moral para aqueles que, por
hábito adquirido, ou por natural
inclinação, fazem conjecturas de-
sairosas sobre o procedimento
alheio, ou formam juízo crítico
sobre seus semelhantes.
São procedimentos comuns
de todos os tempos os juízos te-
merários, inclusive nas socieda-
des da atualidade, que prejudi-
cam e dificultam a fraternidade,
a compreensão e a solidariedade
entre as criaturas.
Criticar, reprovar, censurar, com
ou sem fundamento, tornaram-se
formas comuns nas conversações
e comentários entre pessoas, com
referências a outras, presentes ou
ausentes.
A indulgência para as imperfei-
ções dos outros, assim como a be-
nevolência para com todos são
componentes da caridade, junta-
mente com o perdão amplo de to-
das as ofensas, como ensinou Jesus.
(O Livro dos Espíritos, questão
886.)
A caridade, por sua vez, é a con-
cretização do amor, é a prática do
mais elevado sentimento de que
as leis supremas do Criador dis-
põem para a elevação e a com-
preensão de todas as criaturas.
A indulgência é a base, o fun-
damento moral inconfundível de
um dever que se aplica a todos os
Espíritos no relacionamento com
seus semelhantes.
É ela, a indulgência, que o Cris-
to opõe aos juízos insensatos e
contrários às leis naturais ou divi-
nas, para lembrar a todos nós que
não devemos julgar os outros,
muito menos utilizar a severidade
em condenações e críticas das
quais nos absolvemos, como se
fôssemos criaturas superiores.
E
Não julgueis
JUVANIR BORGES DE SOUZA
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Quando apreciamos a conduta
de nossos semelhantes, o que se
torna inevitável na vida de rela-
ção do homem, ou concordamos
com seus pensamentos e ações,
ou deles discordamos, total ou
parcialmente.
Na primeira hipótese, a da con-
cordância, pode ocorrer que tanto
nós quanto nosso semelhante es-
tejamos pensando e agindo de for-
ma correta, ou ambos estejamos
errados, sem que percebamos. Po-
de acontecer também que um es-
teja certo e o outro errado.
Falíveis em si mesmos, os julga-
mentos humanos nem sempre dis-
tinguem o erro da verdade, pela
imperfeição dos próprios homens.
Há, pois, fortes razões para não
se atribuir, de nossa parte, à opi-
nião de uma individualidade hu-
mana, nem a certeza e infalibilida-
de, nem o erro e engano de seu jul-
gamento. A prudência e o respeito
são nossos melhores conselheiros.
Infelizmente, o orgulho e o
egoísmo dos homens desprezam
essa realidade.
Reconhecendo nossas imper-
feições, o mais seguro é evitar os
julgamentos das posturas, das
opiniões, do procedimento e de
tudo o que caracteriza, afinal, o
nosso semelhante.
Esse posicionamento em relação
ao “não julgueis” do ensinamento
de Jesus não se refere à repulsa ao
mal de variadas origens, que é um
dever de todos os indivíduos e de
todas as sociedades humanas.
O mal deve ser identificado e
reprimido em toda parte, qual-
quer que seja a sua origem. Por
isso, a regra resultante da lição
do Cristo deve ser entendida co-
mo oposição à maledicência e à
maldade, mas não como tolerân-
cia ao mal, resultante de má in-
terpretação dos ensinos do Mes-
tre, que empregou a palavra jul-
gar em conformidade com a or-
dem das idéias que se apresenta-
vam na ocasião.
Para bem entender a lição do
Mestre, torna-se necessário que o
aprendiz penetre seu íntimo, ouça
sua consciência e demonstre que
usa a indulgência para com seus
irmãos. Essa é uma das formas da
prática da caridade.
Exemplo magnífico do signifi-
cado do“não julgueis”mostrou Je-
sus no episódio da mulher adúlte-
ra, apresentada ao Mestre pelos es-
cribas e fariseus. Depois de ouvir
as acusações à mulher, Jesus disse:
“Aquele dentre vós que estiver
sem pecado, atire a primeira pe-
dra”. (João, 8:7.)
Os acusadores, após ouvirem
essas palavras, retiraram-se um
após outro.
Perguntou Jesus então à mu-
lher: “Onde estão os que te acusa-
vam? Ninguém te condenou?”
Ela respondeu: “Não, Senhor”.
Disse-lhe Jesus: “Também eu não
te condenarei. Vai-te e de futuro
não tornes a pecar”. (João, 8:3-11.)
O exemplo oferecido por Jesus
no caso da mulher adúltera, repe-
tido em outras circunstâncias,
consagra o princípio de que, sen-
do Ele um Espírito perfeito, não
julga seus irmãos menores. Os ho-
mens, Espíritos imperfeitos e su-
jeitos a erros, com mais razão não
devem arvorar-se em julgadores
dos outros, mas, sim, cooperado-
res para o aperfeiçoamento de
seus semelhantes.
As leis divinas, sintetizadas no
amor, abrangem a fraternidade,
a solidariedade, a compreensão, a
tolerância e o respeito para com os
semelhantes. O julgamento torna-
-se incompatível com essas leis, ao
opor-se a qualquer de seus funda-
mentos.
O que compete a cada um de
nós, Espíritos em evolução, é a aju-
da aos nossos semelhantes em suas
transgressões e dificuldades, como
seguidores dos ensinos do Cristo.
Em vez de julgamentos,as leis de
Deus, justas e perfeitas, dispõem de
mecanismos de retificações das fal-
tas e desvios das criaturas, para que
retomem o caminho do progresso
e da evolução.
O erro, o desvio do bem, o
transvio são circunstâncias transi-
tórias na vida de cada Espírito, por
mais rebelde que seja, no uso do
seu livre-arbítrio. Por isso, mesmo
nos casos mais tristes de rebeldias,
nunca devemos perder a esperan-
ça na recuperação do transviado,
já que, em determinado tempo, o
Espírito recomeça sua evolução,
mesmo que à custa de muito sofri-
mento regenerativo.
Ninguém tem o direito de ar-
vorar-se em dono da justiça.
Mesmo a justiça humana, ba-
seada nas leis dos homens, come-
te muitos enganos, visto que de-
pende de juízes falíveis e de inter-
pretações variáveis.
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Temos de entender a justiça hu-
mana como uma organização ne-
cessária em um mundo atrasado e
imperfeito, que se torna útil por
cooperar na repressão aos mais va-
riados crimes e transgressões. Mas
seus julgamentos nem sempre re-
presentam a verdadeira justiça.
Devemos nos lembrar sempre
de que, como criaturas imperfei-
tas, podemos ser portadores de
defeitos semelhantes, ou até pio-
res que os daqueles a quem julga-
mos, cabendo-nos, portanto, es-
forçar-nos por combater nossas
próprias imperfeições, antes de
nos preocuparmos com as alheias.
Ao julgar alguém, podemos
estar cometendo um equívoco,
do qual resulta grande ou pe-
queno dano àqueles que rece-
bem nosso juízo. É evidente que
respondemos pelas conseqüên-
cias de nosso erro.
Muitas vezes não sabemos o al-
cance real daquilo que julgamos.
O que nos parece condenável nos
outros pode não o ser na realida-
de, porque desconhecemos por-
menores dos fatos e do que se pas-
sa no íntimo das pessoas.
Uma pergunta lógica se impõe
ao nosso raciocínio: por que nos
preocupamos mais com os erros,
os defeitos e as imperfeições
alheias, em lugar de valorizar e
aplaudir as virtudes que as criatu-
ras apresentam?
Não seria essa particularidade
mais um motivo e uma justificati-
va para adotarmos o preceito evan-
gélico do “não julgueis”?
A vida do Espírito, quando en-
carnado, tem características pró-
prias de um mundo material, as
quais influenciam muito nossos
juízos.
Mas a vida continua nas esferas
espirituais, em que as influências
materiais diminuem ou desapare-
cem, dependendo da evolução al-
cançada pelo Espírito.
Os ensinos, os preceitos e os
exemplos deixados por Jesus, em
sua passagem pela Terra, encon-
tram-se ampliados e interpreta-
dos corretamente pelos Espíritos
Superiores. Cumpriu-se a pro-
messa do Mestre de pedir ao Pai o
envio de outro Consolador.
Com a Doutrina dos Espíritos,
o Consolador, encontra-se no
mundo tudo o que ensinou o
Cristo, sem as distorções interpre-
tativas dos homens.
Agora nos compete seguir os
ensinos do Mestre, consolidados
na Terceira Revelação.
Uma de suas lições inesquecí-
veis é a do “não julgueis”, que visa
a paz, o perdão e a compreensão
para cada criatura.
É uma das faces do amor,tão ne-
cessário para reverter as condições
deste planeta sob as influências das
inferioridades espirituais, emocio-
nais, mentais, verbais e físicas que
atuam sobre seus habitantes.
Cristo e a Mulher Adúltera, quadro de
Guercino, pintado por volta de 1621
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uando o conhecimento li-
bertava-se da grilheta soez
da ignorância e as ciên-
cias adquiriam cidadania cultural,
alargando os horizontes do pen-
samento e facultando melhor en-
tendimento em torno da finalida-
de existencial, em meado do sé-
culo XIX, surgiu o Espiritismo
como um sol para a Nova Era, que
deveria iluminar a Humanidade a
partir de então.
Era a resposta dos Céus às ro-
gativas dos sofrimentos que se
espalhavam pela Terra. Conforme
Jesus houvera prometido, trata-
va-se de O Consolador, que che-
gava para atender às múltiplas ne-
cessidades humanas.
Sintetizando o idealismo filo-
sófico com as conquistas da expe-
rimentação científica moderna,
ao tempo em que a ética do Evan-
gelho se fazia restaurada, essa in-
comparável Doutrina propunha-
-se a oferecer os instrumentos
hábeis para a aquisição da felici-
dade.
O obscurantismo ancestral ce-
dia lugar a novas conquistas liber-
tadoras, enquanto Espíritos de es-
col encarregavam-se de promover
o progresso material, social e inte-
lectual no Orbe, sacrificando-se
fiéis aos anseios de iluminação.
Os objetivos da liberdade al-
cançada desde os dias sangrentos
de 1789, com a queda da Bastilha
e os movimentos que a seguiram,
facultavam o florescimento da
verdadeira fraternidade entre to-
dos, igualando-os em relação aos
direitos e aos deveres que lhes di-
ziam respeito, pelo menos teori-
camente.
Respiravam-se novos ares sem
os tóxicos dos preconceitos e da
intolerância religiosa, que cedia
ante o vigor das conquistas in-
comparáveis da evolução que dia-
riamente chegavam às massas so-
fridas...
A arrogância de Napoleão III,
em França, refletindo a domina-
ção clerical, que teimava em pros-
seguir soberana, graças aos víncu-
los com Roma, que apoiava gover-
nos usurpadores e perversos na
Europa, assinalava o declínio do
Velho Mundo de ostentação e pri-
vilégios, a fim de que os vexilários
do amor e da paz abrissem clarei-
ras na imensa noite amedronta-
dora.
Os Espíritos, considerados mor-
tos, romperam o apavorante si-
lêncio a que foram relegados e
proclamaram os lídimos ensinos
do Cristo como fundamentais à
vida, bem como a própria imorta-
lidade, restaurando a pulcritude
do Evangelho que houvera sido
gravemente adulterado, desse mo-
do despertando as consciências pa-
ra a vivência da concórdia, do bem
e da caridade...
Os paradigmas científicos do
Espiritismo revestiam-se do vigor
indispensável ao enfrentamento
com o materialismo de Frederico
Engels e de Schopenhauer, de
Marx e de Nietzsche, revitalizan-
do a ética centrada na Boa Nova,
conforme Jesus e os Seus primei-
ros discípulos a haviam vivido.
Era um renascimento da Pala-
vra e um reencontro com a Ver-
dade, que houvera perdido o bri-
lho, empanada pelos dogmas ul-
Campeonato da
insensatez
8 Reformador • Outubro 2006336666
Q
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tramontanos e a Teologia partida-
rista, elaborada apenas para aten-
der aos interesses mesquinhos e
subservientes aos poderosos que,
às vezes, eram também submeti-
dos ao talante do seu atrevimento.
Permitindo-se investigar até a
exaustão, os imortais confabula-
ram com as criaturas terrestres,
oferecendo-lhes explicações segu-
ras sobre a vida, seus objetivos, os
problemas do sofrimento, do des-
tino, do ser humano...
Nunca, até então, uma Doutri-
na abrangeria tantos temas e ques-
tões porque, afinal, não procedia
de uma pessoa, mas de uma equi-
pe de pensadores como João Evan-
gelista, Paulo, o Apóstolo, Santo
Agostinho, Descartes, Lacordaire,
Cura d’Ars, São Luís de França,
Joana d’Arc, Henri Heine, Féne-
lon, para citar apenas alguns pou-
cos, todos sob a inspiração de Je-
sus Cristo...
Essa trilogia sintetizada num
bloco monolítico – Ciência, Filo-
sofia e Religião – deveria enfren-
tar o futuro, acompanhando o
progresso, aceitando todas as suas
conquistas, mas interpretando-as
com discernimento apurado, por-
que estuda as causas, enquanto as
ciências estudam os seus efeitos.
Um século e meio quase trans-
corrido, após o surgimento de O
Livro dos Espíritos, em Paris, a 18
de abril de 1857, a Doutrina resis-
tiu a todas as investidas da cultura
científica, tecnológica, filosófica,
permanecendo vigorosa e insupe-
rável como no instante da sua
consolidação.
O Movimento Espírita es-
praiou-se por diversas nações ter-
restres, apresentou escritores, mé-
diuns, oradores e conferencistas,
pedagogos, psicólogos, médicos e
advogados, juízes e desembarga-
dores, entre muitos outros profis-
sionais, todos incorruptíveis, que
deixaram um legado honorável,
mas que, infelizmente, em alguns
dos seus bolsões, não está sendo
dignamente preservado.
Os atavismos ancestrais, em di-
versos espíritas, que se elegeram
ou foram eleitos líderes por si
mesmos, no entanto, não têm su-
portado o peso da responsabilida-
de pela execução do trabalho que
lhes diz respeito, e, preocupados
injustamente com o labor organi-
zacional, vêm-se desviando dos
conteúdos insofismáveis da Dou-
trina, qual fizeram ontem em re-
lação à Mensagem cristã, que
transformaram em romanismo...
Às preocupações em torno da
caridade fraternal em referência
aos infelizes de todo porte, entre-
gam-se à conquista de patrimônio
material e de projeção social, vin-
culando-se a políticos de realce,
nem sempre portadores de condu-
ta louvável, para partilharem das
migalhas do mundo em detrimen-
to das alegrias do reino dos céus.
Substituem a simplicidade e a
espontaneidade dos fenômenos
mediúnicos por constrições e di-
retrizes escolares que culminam,
lamentavelmente, com a diploma-
ção de médiuns e de doutrinado-
res, que também alcançam os pa-
tamares teológicos da autofasci-
nação.
Exigências descabidas e vaido-
sas agridem a simplicidade que
deve viger nas Sociedades espíri-
tas, antes desvestidas de atavios
ditos tecnológicos e atuais, que
eram vivenciados pela tolerância e
bondade entre os seus membros.
Ao estudo sério dos postulados
doutrinários, sucede-se a chocar-
rice e o divertimento em relação
ao público que busca as reuniões,
em atitudes mais compatíveis
com os espetáculos burlescos do
que com a gravidade de que o Es-
piritismo se reveste.
O excesso de discussões em tor-
no de questões secundárias toma
o tempo para análise e reflexão
em relação aos momentosos desa-
fios sociais e humanos aos quais o
Espiritismo tem muito a oferecer.
A presunção e a soberba ele-
gem delineamentos e condutas
que recordam aqueles formulados
pelos antigos sacerdotes, e que ora
pretendem se encarreguem de de-
finir os rumos que devem ser to-
9Outubro 2006 • Reformador 336677
Exigências
descabidas e
vaidosas
agridem a
simplicidade
que deve viger
nas Sociedades
espíritas
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mados pelo Movimento, após reu-
niões tumultuadas com resíduos
de mágoas e animosidades mal dis-
farçadas.
Ouvem-se as mensagens dos
Benfeitores espirituais, comoven-
do-se com as suas dissertações, e
logo abandonando-as dominados
pela alucinação da frivolidade.
Apegam-se ao poder, como se
fossem insubstituíveis, esqueci-
dos de que as enfermidades e a
desencarnação os desalojam das
funções que pretendem preservar
a qualquer preço.
O tecnicismo complicado vem
transformando as Instituições em
Empresas dirigidas por executi-
vos brilhantes, mas sem qualquer
vínculo com os postulados dou-
trinários...
Divisões que se vão multipli-
cando por setores, por especiali-
zações, ameaçam a unidade do
corpo doutrinário, olvidando-se
daqueles que não possuem títulos
terrestres, mas que são pobres de
espírito, simples e puros de cora-
ção, em elitismo injustificável.
Escasseiam o amor, a compai-
xão e a caridade...
Críticas sórdidas, perseguições
públicas, malquerenças grassam,
onde deveriam vicejar o perdão,
o bem-querer, a compreensão fra-
ternal, a caridade sem jaça.
Não se dispõe de tempo, con-
sumido pelo vazio exterior, para
a assistência aos sofredores e ne-
cessitados que aportam às casas
espíritas, relegados a segundo pla-
no, nem para a convivência com
os pobres e desconhecedores da
Doutrina, que são encaminhados
a cursos, quando necessitam de
uma palavra de conforto moral
urgente...
Os corações enregelam-se e a
fraternidade desaparece.
O Cristianismo resistiu brava-
mente a trezentos anos enquanto
perseguido e odiado, até o mo-
mento em que o imperador Cons-
tantino o vilipendiou, no dia 13
de junho de 313, mediante o Edi-
to de Milão, que o tornou tolera-
do em todo o Império romano,
descambando posteriormente pa-
ra religião do Estado, em olvido
total às lições de Jesus Cristo,
passando, depois, de perseguido a
perseguidor...
O Espiritismo ainda não com-
pletou o seu sesquicentenário de
surgimento na Terra e as mesmas
nuvens borrascosas ameaçam-no
de extermínio, por invigilância de
alguns dos seus profitentes...
É hora de estancar-se o passo
na correria desenfreada em busca
das ilusões, a fim de fazer-se uma
análise mais profunda em torno
da Doutrina Espírita e dos seus
objetivos, saindo-se das brilhantes
teorias para a prática, a vivência
dos ensinamentos libertadores.
Não é momento para escamo-
tear-se a realidade, em face do
anseio para conseguir-se, embora
rapidamente, o brilho momentâ-
neo dos holofotes, como se bla-
sona com certa mofa, em relação
aos que disputam as glórias ter-
restres.
Menos competição e mais co-
operação, deve ser a preocupação
de todos espíritas sinceros, a fim
de transferir a Doutrina para as
futuras gerações, conforme a rece-
beram do Codificador e dos seus
iluminados trabalhadores das pri-
meiras horas.
Bons espíritas, meus bem-ama-
dos, sois todos obreiros da última
hora, conforme proclamou o Es-
pírito protetor Constantino, em O
Evangelho segundo o Espiritismo.*
Não vos esqueçais!
Estais comprometidos, desde
antes da reencarnação, com o Es-
piritismo que agora conheceis e
vos fascina a mente e o coração.
Tende cuidado!
Evitai conspurcá-la com atitu-
des antagônicas aos seus ensina-
mentos e imposições não com-
patíveis com o seu corpo doutri-
nário.
Retornar às bases e vivê-las
qual o fizeram Allan Kardec e to-
dos aqueles que o seguiram desde
o primeiro momento, é dever de
todo espírita que travou contato
com a Terceira Revelação judai-
co-cristã porque o tempo urge e a
hora é esta, sem lugar para o cam-
peonato da insensatez.
Vianna de Carvalho
e outros Espíritos-espíritas
(Página psicografada pelo médium Dival-
do Pereira Franco, na reunião mediúnica
da noite de 17 de julho de 2006, no Cen-
tro Espírita Caminho da Redenção, em
Salvador, Bahia.)
10 Reformador • Outubro 2006336688
*Capítulo XX – “Os trabalhadores da últi-
ma hora”, item 2. Nota do Autor espiri-
tual.
reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 10
mundo onde vivemos está
envolto, ainda, por influên-
cias predominantemente
materialistas.
Não obstante serem decorridos
dois milênios desde a presença
amorosa de Jesus entre os homens,
a Doutrina consoladora e esclarece-
dora, que deixou eternamente para
nós, não se fixou na consciência e
no coração da imensa maioria da
Humanidade, cativa de ilusões e
quimeras de natureza nitidamente
material. A realidade do Espírito
permanece encoberta por fantasias
materialistas perniciosas e efêmeras.
A Ciência tradicional da Terra,
embora já tenha dado largas passa-
das na senda do progresso, ainda
imagina que o Espírito é uma abs-
tração, não um ser real. As lições de
Jesus e as provas trazidas pelo Espi-
ritismo não foram devidamente
consideradas. As trevas da ignorân-
cia inibem o Espírito, o ser real. Tu-
do decorre da condição da Terra, de
planeta de provas e expiações, onde
são freqüentes as guerras e conflitos,
a violência de vários matizes, as pai-
xões inferiores sob o império do or-
gulho e do egoísmo e, sobretudo, da
ignorância das leis divinas, da exis-
tência de Deus e da alma. Esse esta-
do evolutivo reflete o desconheci-
mento da vida humana, da sua na-
tureza, dos seus atributos, da cons-
ciência do homem, do raciocínio,
da vontade, da moralidade, do seu
livre-arbítrio e de outras qualidades
que lhe são peculiares.
Os materialistas, ateístas, incré-
dulos, transitoriamente incapacita-
dos de conceber e perceber a alma,
confundem a realidade com a fic-
ção. Intelectual e sentimentalmente
afastados do Criador, imaginam
que é a matéria tangível e grosseira
que formula e desenvolve as idéias e
é a fonte inteligente. Embora o pro-
gresso científico esclareça que o cor-
po humano seja constituído de cer-
ca de cem trilhões de células, os in-
crédulos não perceberam ainda as
sutilezas da alma, a origem da inte-
ligência e da razão. Ignoram que a
memória do ser humano ultrapassa
os limites das células cerebrais, não
desaparece com a morte do corpo
físico,mas acompanha a alma imor-
tal. A carreira do tempo encarregar-
-se-á de fazer com que todas as pes-
soas alcancem a verdade, pelos
desígnios de Deus.
Quando os princípios da doutri-
na cristã, deixados nos sítios da
Palestina, puderem ser absorvidos e
praticados, e a Humanidade conse-
guir chegar às verdades eternas, o
comportamento humano modifi-
car-se-á completamente e haverá
paz na Terra. A compreensão da vi-
da futura facultará à criatura ter es-
perança de poder encontrar a ver-
dadeira felicidade pela prática do
bem. O acesso à verdade abre à cria-
tura a possibilidade de usufruir
uma vida melhor.As leis divinas são
sábias, justas e amorosas, mas nin-
guém as transgride sem se ferir.
Todavia, não basta abster-se de
infringi-las, é necessário praticar o
bem. Elas se cumprem independen-
temente da nossa ignorância ou da
nossa compreensão.
O ser humano não pode cami-
nhar na senda evolutiva sem fé,
sob pena de não progredir. Cum-
pre assinalar, entretanto, que a fé
do adepto espírita é robusta por-
que tem base na razão, na certeza
absoluta da existência de Deus e
do espírito. A prova dessa existên-
cia não depende da instrumenta-
ção e dos laboratórios terrenos,por-
quanto está impressa em tudo que
existe em toda parte do Universo.
É manifesta na obra da Criação: na
Natureza, nas leis que regem a vida
e as coisas. É, portanto, crença cons-
ciente e inabalável.
A Doutrina Espírita lembra que
as sucessivas gerações sempre se
empenharam na busca da felicida-
de. Jesus, em suas sublimes e magis-
trais lições, ensina que a felicidade
está ao alcance de cada um de nós
pela prática do bem, do exercício da
caridade, do amor a Deus, ao nosso
próximo e a nós mesmos.
Realidade e ficção
O
WASHINGTON BORGES DE SOUZA
reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 11
Reformador: Como está se desen-
volvendo o Movimento Espírita no
Paraguai?
Gloria: Há um crescimento do Mo-
vimento Espírita paraguaio muito
mais rápido do que imaginávamos,
principalmente porque há uma
grande aceitação do que tem si-
do divulgado, assim como estí-
mulo ao estudo. Em cada Centro
Espírita têm-se formado grupos
de estudo sobre Doutrina Espíri-
ta (ESDE), sobre Mediunidade
(ESME), preparação de trabalhado-
res, de integração, de atendimen-
to fraterno a adultos, crianças e jo-
vens, e já estamos observando os re-
sultados com a preparação de um
bom número de jovens trabalha-
dores; assim, está se solidificando
o Movimento Espírita paraguaio,
com uma boa base doutrinária.
Reformador: E a formação da Fe-
deração Espírita Paraguaia?
Gloria: O Movimiento Espírita Pa-
raguayo conta com apenas três anos
de fundação e estamos trabalhan-
do com o objetivo de formar a
Federação Espírita do Paraguai.
É um trabalho de equipe, co-
mo numa secretaria geral, de
maneira que atuamos todos jun-
tos pela Federação.
Reformador: O Movimento Espíri-
ta se concentra na Capital ou se es-
palha pelo interior do País?
Gloria: A maioria dos centros es-
píritas se concentra em Assunção,
sendo que dois fora do centro ur-
bano e os outros estão nas proxi-
midades.
Reformador: Qual idioma é mais
utilizado nos centros espíritas?
Gloria: Empregamos dois idiomas,
porque no Paraguai pensamos em
guarani e nos expressamos em es-
panhol. Portanto, para facilitar as
interpretações e a divulgação, e co-
mo procuramos sempre chegar ao
coração das pessoas, utilizamos
muito a expressiva língua que é o
guarani.
Reformador: No Movimento Espí-
rita paraguaio há algum desenvol-
Fomentar a paz
através do conhecimento
e do amorGloria Avalos de Ynsfrán, dirigente espírita paraguaia, foi entrevistada durante
a 11ª Reunião do Conselho Espírita Internacional (CEI), em Assunção, quando
abordou o desenvolvimento do Movimento Espírita paraguaio
GLORIA AVALOS DE YNSFRÁNEntrevista
reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 12
vimento mais intenso na área da
infância e juventude?
Gloria: No momento damos ênfa-
se ao ESDE e ao ESME porque a
maioria dos freqüentadores se en-
contra numa faixa de 20 a 40 anos.
Estamos dando início a trabalho
de evangelização da infância, e já
temos um grupo mais sólido de
jovens espíritas.
Reformador: Há edições de livros
espíritas no Paraguai?
Gloria: Há uma empresa de pro-
priedade de espíritas que tem cola-
borado muito na impressão de ma-
terial para difusão espírita e, mais
recentemente, de livros. Há sete
anos vem sendo editada a revista
La Luz del Porvenir, que reúne ex-
celentes matérias, e é um meio de
divulgação em nosso país, ofere-
cendo também informações sobre
o nosso Movimento Espírita.
Reformador: Qual a motivação pa-
ra adotarem o tema “Família, Vida
e Paz” na Semana Espírita que se
desenvolveu antes do início da Reu-
nião do CEI?
Gloria: É o terceiro ano que pro-
movemos a “Semana Espírita do
Movimento Paraguaio”. Escolhe-
mos o tema porque entendemos
que o futuro da sociedade depende
da estrutura da família, que hoje
se encontra fragilizada. Há neces-
sidade de uma família com base
religiosa, capaz de se sustentar
com fé e conseguir a paz. Quando
tivemos contato com o material da
Federação Espírita Brasileira foi
maravilhoso para nós. Verificamos
que muitas famílias se beneficia-
ram com os temas abordados,
inclusive os relacionados com a
defesa da vida: aborto, suicídio,
eutanásia. Se a família se desenvol-
ve em paz, teremos mais paz nas
ruas e na sociedade.
Reformador: No Paraguai há algum
preconceito contra o Espiritismo?
Gloria: Sim, por falta de conheci-
mento sobre o que é o Espiritis-
mo e por confundi-lo com práti-
cas mediúnicas não-espíritas. Mas
nunca tivemos problemas e há li-
berdade de culto no País. Já reali-
zamos encontros, seminários e
congressos sem maiores dificulda-
des. Temos sido bem recebidos
onde procuramos algum contato
com vistas às realizações espíritas.
Reformador: Como conheceu o Es-
piritismo?
Gloria: Conheci o Espiritismo no
Paraguai, em função de alguns
companheiros que chegaram do
Brasil e após recebermos convite
para participar de uma reunião em
São Paulo, no Brasil. Há uns quin-
ze anos se estabelece um intercâm-
bio muito interessante e que tem
sido bastante produtivo.
Reformador: Vocês mantêm rela-
cionamento com outros países?
Gloria: Como o grupo de trabalha-
dores ainda é pequeno e as neces-
sidades internas de atuação são
grandes, mantemos pouco relacio-
namento com outros países. Par-
ticipamos do Conselho Espírita
Internacional e temos muitos con-
tatos com o Movimento Espírita
do Brasil.
Reformador: Como analisa as ati-
vidades do CEI?
Gloria: As atividades do CEI têm
contribuído para dar uma estrutu-
ra de segurança e apoio aos vários
países. Nestes anos de existência
do CEI tem sido maravilhoso o in-
tercâmbio que se estabelece. Nesta
Reunião do CEI, em Assunção,
sentimos madureza em todos os
participantes, tranqüilidade e pro-
fundo respeito a todos. Creio que
o CEI está cumprindo os objetivos
para os quais se formou. Está con-
tribuindo muito para a difusão da
Doutrina Espírita.
Reformador: Uma mensagem final.
Gloria: Para o homem alcançar a
verdadeira felicidade que tanto
busca, é indispensável conhecer-se
como ser espiritual, sabendo de
onde vem e para onde vai; fomen-
tar a paz dentro de cada um atra-
vés do conhecimento e do amor;
encontrar no próximo o próximo
mais próximo...
13Outubro 2006 • Reformador 337711
As atividades
do CEI têm
contribuído
para dar uma
estrutura de
segurança
e apoio aos
vários países
reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 13
studando a vida espiritual além do túmulo,
Allan Kardec, o eminente Codificador da Nova
Revelação, apresenta em O Livro dos Espíritos
algumas definições que será oportuno examinar, a
fim de que nós outros, tarefeiros encarnados e desen-
carnados do Espiritismo, estejamos vigilantes nas res-
ponsabilidades que o Plano Superior nos conferiu.
Na pergunta 226, indaga o apóstolo da Codifica-
ção:
–“Poder-se-á dizer que são errantes todos os Espí-
ritos que não estão encarnados?”
E os seus elevados mentores responderam:
– “Sim, com relação aos que devam reencarnar.
Não são errantes, porém, os Espíritos puros, os que
chegaram à perfeição. Esses se encontram em seu es-
tado definitivo.”
Segundo é fácil deduzir, “Espíritos errantes”, na
elucidação, não significa Espíritos vagabundos, deso-
cupados, inertes, mas sim sem residência fixa, qual
ocorre com todos nós, de vez que, de conformidade
com a palavra dos instrutores de Allan Kardec, so-
mente não são considerados “errantes” aqueles “que
chegaram à perfeição”, da qual, todos nós, a genera-
lidade das criaturas terrestres, ainda nos achamos
imensamente distantes.
Na pergunta 227, inquire o grande servidor da
Verdade:
–“De que modo se instruem os Espíritos errantes?
Certo não o fazem do mesmo modo que nós ou-
tros?”
E o esclarecimento veio, precioso:
– “Estudam e procuram meios de elevar-se. Vêem,
observam o que ocorre nos lugares aonde vão; ou-
vem os discursos dos homens doutos e os conselhos
dos Espíritos mais elevados e tudo isso lhes incute
idéias que antes não tinham.”
A resposta é segura. Os “Espíritos errantes”, isto é,
nós outros os viajores em demanda da perfeição
suprema, inclusive a maioria das almas reencarnadas
que permanecem na curta romagem do berço ao
túmulo e que ainda voltarão muitas vezes ao educan-
dário da carne, encontramos oportunidades de estu-
do e meios de elevação.
Ora, quem diz “estudo e elevação” refere-se a es-
forço e trabalho, disciplina e progresso.
Assim é que tanto na experiência física quanto na
experiência espiritual, propriamente consideradas,
nós, os viajores da senda evolutiva, não nos achamos
órfãos da organização que nos define os méritos e
deméritos.
Compreender-se-á, então, logicamente, que civili-
zação e autoridade, agrupamento e ordem, escola e
dignificação, hospital e penitenciária, embora dife-
renciados na expressão, escalonam-se e vigem para
nós, os milhões de encarnados e desencarnados que
vivemos ainda tão longe do acrisolamento absoluto.
Na pergunta 229, interroga o Codificador:
– “Por que, deixando a Terra, não deixam aí os
Espíritos todas as más paixões, uma vez que lhes
reconhecem os inconvenientes?”
E os orientadores aduziram:
– “Vês nesse mundo pessoas excessivamente inve-
josas. Imaginas que, mal o deixam, perdem esse defei-
to? Acompanha os que da Terra partem, sobretudo os
que alimentaram paixões bem acentuadas, uma espé-
cie de atmosfera que os envolve, conservando-lhes o
que têm de mau, por não se achar o Espírito inteira-
mente desprendido da matéria. Só por momentos ele
entrevê a verdade, que assim lhe aparece como que
para mostrar-lhe o bom caminho.”
Na trilha de Allan Kardec
14 Reformador • Outubro 2006337722
E
Presença de Chico Xavier
reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 14
A elucidação não deixa dúvidas.
Carreamos para além do sepulcro a sombra das
ações deploráveis em que nos envolvemos, por efeito
das paixões que acalentamos no próprio ser.
Somos prisioneiros das imagens infelizes a que
nos afeiçoamos, quando na extensão do mal aos ou-
tros e a nós mesmos, imagens essas que se imobi-
lizam, temporariamente, em nossa vida mental, de-
tendo-nos nas grades do remorso e do arrependi-
mento, até que atendamos à expiação necessária.
Em tais condições, a visão das verdades divinas
surge em nossa consciência, tão-somente à maneira
do relâmpago nas trevas que nós mesmos criamos,
descerrando-nos o caminho regenerador que nos
compete aceitar e seguir.
A morte física, como é racional, não nos subtrai, de
improviso, dos íntimos refolhos do espírito, as conse-
qüências dos erros nefastos a que nos precipitamos, de
vez que os pensamentos oriundos das faltas cometidas
nos entrançam a alma às imposições do resgate.
Na pergunta 230, consulta o notável missionário.
– “Na erraticidade, o Espírito progride?” E os
Benfeitores informam:
– “Pode melhorar-se muito, tais sejam a vontade e
o desejo que tenha de consegui-lo. Todavia, na exis-
tência corporal é que põe em prática as idéias que
adquiriu.”
Outra vez reconhecemos os veneráveis mensagei-
ros interessados em destacar a necessidade de servi-
ço e educação, além-túmulo, aclarando, ainda, que
todos nós, “os viajores da evolução”, despendemos
muitos séculos adquirindo ensinamentos na Vida
Espiritual e aplicando-os na esfera física, de modo a
assimilarmos com segurança, a golpes de trabalho
no campo do tempo, os valores da perfeição.
Ainda na pergunta 232, Kardec argúi, meticuloso:
– “Podem os Espíritos errantes ir a todos os mun-
dos?”
E a explicação veio clara:
–“Conforme. Pelo simples fato de haver deixado o
corpo, o Espírito não se acha completamente des-
prendido da matéria e continua a pertencer ao
mundo onde acabou de viver, ou a outro do mesmo
grau, a menos que, durante a vida, se tenha elevado,
o que, aliás, constitui o objetivo para que devem ten-
der seus esforços, pois, do contrário, não se aperfei-
çoaria. Pode, no entanto, ir a alguns mundos supe-
riores, mas na qualidade de estrangeiro. A bem dizer,
consegue apenas entrevê-los, donde lhe nasce o dese-
jo de melhorar-se, para ser digno da felicidade de
que gozam os que os habitam, para ser digno tam-
bém de habitá-los mais tarde.”
A resposta é tão brilhantemente positiva que não
requisita comentários.
Vale, todavia, dizer que, muitas vezes, em desen-
carnando a alma do veículo de sangue e ossos, não se
liberta mentalmente da experiência a que ainda se
prende na vida terrestre, em torno da qual gravita
por tempo indeterminado.
Ninguém acredite, pois, que o túmulo seja de-
pósito de asas destinadas à elevação de quem não
procurou elevar-se durante a passagem pelo seio da
Humanidade.
Ascensão pede leveza.
Triunfo verdadeiro reclama heroísmo e glória.
Sublimação exige amor e sabedoria.
Felicidade não dispensa equilíbrio.
O preço da perfeição é trabalho contínuo de en-
grandecimento da alma.
Ninguém espere, assim, depois da morte, repouso
e bem-aventuranças que não soube conquistar por si
mesmo.
Serviço e hierarquia, aprendizado e aprimoramen-
to são imperativos a que não conseguiremos fugir,
tanto do berço para o túmulo quanto do túmulo para
o berço, se desejamos marchar para a Vida Superior...
E enunciando semelhante realidade, não estamos
fazendo mais que acompanhar a trilha de Allan Kar-
dec, nas lições que o apóstolo admirável entesourou,
em nosso benefício, há cem anos.
(Página recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier.)
Fonte: Reformador, abril de 1957, p. 103-104.
15Outubro 2006 • Reformador 337733
Pelo Espírito André Luiz
reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 15
16 Reformador • Outubro 2006337744
o longo de sua luminosa
trajetória, Chico Xavier ex-
perimentou inúmeros pro-
blemas de saúde, sem permitir que
os males físicos o inibissem.
Indagado, certa feita, se em al-
gum momento sentira impaciên-
cia ou revolta, explicou:
– Não sofro tanto assim, por-
que a ciência médica está bastante
avançada. Tenho, por exemplo, um
processo de catarata inoperável e
há décadas faço a medicação em
meus olhos,com muita calma,por-
que considero, conforme me ensi-
nou Emmanuel, que a possibilida-
de de ver já é um privilégio.
Notável postura, não é mesmo,
leitor amigo? Um convite à refle-
xão em torno de males que não
nos afligiriam tanto, se não os ima-
ginássemos capazes de paralisar
nossas iniciativas e descolorir nos-
sa existência.
A forma como o Mentor espiri-
tual passou-lhe essa convicção é
bastante pitoresca.
Certa feita, lutando por debelar
um processo hemorrágico no olho
direito, Chico deixou de partici-
par dos trabalhos mediúnicos
por dois dias.
Emmanuel veio vê-lo.
– Por que não está traba-
lhando?
E Chico, ensaiando agasta-
mento:
– Como o senhor sabe,
estou com um olho doente.
O guia não deixou ba-
rato:
– E o outro, o que es-
tá fazendo? Ter dois
olhos é luxo!
Chico con-
clui, após re-
latar o epi-
sódio:
– Poder trabalhar, não obstan-
te a doença, já é quase saúde.
Diariamente, milhões de brasi-
leiros justificam sua ausência no
serviço, apresentando atestados
médicos, a informar que estive-
ram impossibilitados de exercer
suas funções.
Há algo do chamado jeitinho
brasileiro em muitas dessas iniciati-
vas,com as quais se pretende matar
o serviço, em favor de alguns dias
no dolce far niente dos italianos.
Em relação às atividades espiri-
tuais e filantrópicas, no Centro
Espírita, acontece com freqüência
maior, lamentavelmente.
Isso porque não há necessidade
de atestado. Geralmente os falto-
sos nem se dão ao trabalho de avi-
sar, ocasionando sérios embara-
ços em determinados setores.
Particularmente na atividade
mediúnica, tal comportamento é
altamente danoso, porquanto, não
raro, um planejamento cuidado-
samente elaborado pelos Benfei-
tores espirituais é prejudicado pe-
la ausência de um ou mais partici-
pantes.
Deixam de comparecer por mo-
tivos triviais:
Saúde é trabalhar
A
RICHARD SIMONETTI
reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 16
Chuva.
Frio.
Cansaço.
Desinteresse.
Sono.
Visita.
Mal-estar.
Com relação a este último mo-
tivo, não se dão conta os médiuns
de que, não raro, uma enxaqueca,
uma dor, uma tensão nervosa, um
ânimo caído, decorrem da presen-
ça da entidade que deverá comu-
nicar-se por seu intermédio.
Os Mentores espirituais anteci-
pam a ligação, a fim de que ocorra
melhor familiaridade com o Espí-
rito, favorecendo a manifestação.
O médium, que deveria saber
disso, deixa de comparecer, por
estar doente.
Em qualquer situação, no dia-
-a-dia, oportuno lembrar que o
trabalho é o melhor remédio para
nossos males.
Como o próprio Chico ensi-
na, trabalhar, mesmo estando
doente, já é um começo de recu-
peração.
Espiritualmente, haverá de-
monstração mais exuberante de
saúde do que alguém disposto a
servir, mesmo estando doente?
17Outubro 2006 • Reformador 337755
O Mestre e o Apóstolo
Luminosa, a coerência entre o Cristo e o Após-
tolo que lhe restaurou a palavra.
Jesus, o Mestre.
Kardec, o Professor.
Jesus refere-se a Deus, junto da fé sem obras.
Kardec fala de Deus, rente às obras sem fé.
Jesus é combatido, desde a primeira hora do
Evangelho, pelos que se acomodam na sombra.
Kardec é impugnado desde o primeiro dia do
Espiritismo, pelos que fogem da luz.
Jesus caminha sem convenções.
Kardec age sem preconceitos.
Jesus exige coragem de atitudes.
Kardec reclama independência mental.
Jesus convida ao amor.
Kardec impele à caridade.
Jesus consola a multidão.
Kardec esclarece o povo.
Jesus acorda o sentimento.
Kardec desperta a razão.
Jesus constrói.
Kardec consolida.
Jesus revela.
Kardec descortina.
Jesus propõe.
Kardec expõe.
Jesus lança as bases do Cristianismo, entre fe-
nômenos mediúnicos.
Kardec recebe os princípios da Doutrina Espí-
rita, através da mediunidade.
Jesus afirma que é preciso nascer de novo.
Kardec explica a reencarnação.
Jesus reporta-se a outras moradas.
Kardec menciona outros mundos.
Jesus espera que a verdade emancipe os ho-
mens; ensina que a justiça atribui a cada um pelas
próprias obras e anuncia que o Criador será ado-
rado, na Terra, em espírito.
Kardec esculpe na consciência as leis do Uni-
verso.
Em suma, diante do acesso aos mais altos va-
lores da vida, Jesus e Kardec estão perfeitamente
conjugados pela Sabedoria Divina.
Jesus, a porta.
Kardec, a chave.
Emmanuel
Fonte: XAVIER, Francisco C.; VIEIRA Waldo Opinião espírita.
Pelos Espíritos Emmanuel e André Luiz. 5. ed. Uberaba
(MG): CEC, 1982. p. 23-25.
reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 17
18 Reformador • Outubro 2006337766
a arquitetura antiga, quan-
do as construções eram
feitas com pedras, uma das
pedras era cuidadosamente sele-
cionada na pedreira, para ser ta-
lhada no tamanho e formato cor-
retos, a fim de receber o maior
peso do edifício e sustentá-lo – era
a pedra angular. Encontramos es-
sa expressão usada de forma me-
tafórica em alguns textos, com o
objetivo de transmitir um ensi-
namento que nos parece extre-
mamente útil.
No Novo Testamento (Pedro,
2:4-8):
“Caríssimos: Aproximai-vos do
Senhor, que é a pedra viva, rejeita-
da pelos homens, mas escolhida e
preciosa aos olhos de Deus.
E vós mesmos, como pedras
vivas, entrai na construção des-
te templo espiritual, para consti-
tuirdes um sacerdócio santo, des-
tinado a oferecer sacrifícios es-
pirituais, agradáveis a Deus por
Jesus Cristo.
Por isso se lê na Escritura:‘Vou
pôr em Sião uma pedra angular,
escolhida e preciosa; e quem nela
puser a sua confiança não será
confundido’.
Honra, portanto, a vós que
acreditais. Para os incrédulos, po-
rém,‘a pedra que os construtores
rejeitaram tornou-se pedra angu-
lar’, ‘pedra de tropeço e pedra de
escândalo’. Tropeçaram por não
acreditarem na palavra, à qual
foram destinados”.
Observa-se a idéia de cons-
trução do templo como metáfo-
ra, utilizada com o objetivo de
trabalhar o conceito da espiri-
tualização do homem. O edifício
que está sendo construído é o
templo espiritual, os ouvintes são
convidados a se tornarem pe-
dras vivas da edificação, a fim de
constituírem o corpo sacerdotal,
isto é, tornarem-se propagado-
res da nova doutrina, habilita-
dos a oferecer sacrifícios espiri-
tuais verdadeiramente agradáveis
a Deus. Pedro destaca o conteú-
do da profecia antiga, que men-
cionava uma pedra que seria
rejeitada, mas que, aos olhos do
Senhor, era a pedra angular des-
se edifício. A referência é clara a
Jesus. Os contemporâneos dele,
com raras exceções, não conse-
guiram alcançar o entendimento
de sua Doutrina, nem visualiza-
ram a importância de sua pre-
sença na Terra, mas seus ensinos
são a essência do edifício de es-
piritualização, cujas bases foram
lançadas nesses tempos antigos e
que ainda estão em construção
sob as vistas amorosas do Pai. Ca-
da um que alcance a compreen-
são disso é uma pedra viva na
edificação sublime, mas a pedra
angular é Jesus.
Nas obras básicas do Espiritis-
mo, a expressão é utilizada tam-
bém como metáfora, encerrando
preciosos ensinamentos:
1. “[...] o que Jesus colocou
por pedra angular do seu edifí-
cio e como condição expressa da
salvação: a caridade, a fraterni-
dade e o amor do próximo [...]”
O Evangelho segundo o Espiritis-
mo, cap. XXIII, item 15. (Desta-
que nosso.)
2. “[...] sua doutrina tem por
base principal, por pedra angu-
lar, a lei de amor e de caridade.”
O Evangelho segundo o Espi-
ritismo, cap. XIV, item 6.(Desta-
que nosso.)
Nos dois textos, Kardec utiliza
a expressão para deixar claro que
a essência do ensino de Jesus é a
Pedra angular
N
DALVA SILVA SOUZA
reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 18
caridade, o amor ao próximo,
fundamento desrespeitado pelos
que, dizendo-se cristãos, armam-
-se contra seus semelhantes.
3.“A parte mais importante da
revelação do Cristo, no sentido
de fonte primária, de pedra an-
gular de toda a sua doutrina, é o
ponto de vista inteiramente no-
vo sob que considera ele a Divin-
dade.” A Gênese, cap. I, item 23.
(Destaque nosso.)
Aqui o Codificador situa o
conceito de Divindade da men-
sagem do Evangelho como base
para uma nova filosofia, cuja con-
seqüência é o desenvolvimento
da atitude correta das criaturas
umas para com as outras. Con-
cebendo Deus como Jesus ensi-
nou, sabemos que Ele é Pai de
todos – essa é a pedra angular de
uma nova edificação, que colo-
ca por terra o conceito antigo de
um Deus parcial, que abençoava
um povo para que prevalecesse
sobre o outro.
4. “Não lestes jamais isto nas
Escrituras: A pedra que os edifi-
cadores rejeitaram se tornou a
principal pedra do ângulo? Foi o
que o Senhor fez e nossos olhos
o vêem com admiração. – Por is-
so eu vos declaro que o reino de
Deus vos será tirado e será dado
a um povo que dele tirará frutos.
– Aquele que se deixar cair sobre
essa pedra se despedaçará e ela
esmagará aquele sobre quem
cair.
Tendo ouvido de Jesus essas
palavras, os príncipes dos sacer-
dotes reconheceram que era de-
les que o mesmo Jesus falava.” A
Gênese, cap. XVII, item 27.
Nesse caso, a análise incide so-
bre o conteúdo da profecia que
mencionava os atropelos dos que
haveriam de rejeitar a pedra es-
colhida, que se tornaria pedra de
escândalo e de tropeço para eles
mesmos, e a possibilidade que
tem a equipe espiritual de situar
a mensagem de Jesus em outros
contextos mais favoráveis, quan-
do aqueles que foram chamados
não se revelarem em condições
de divulgá-la adequadamente.
As conclusões a que podemos
chegar com esse estudo são bem
claras: Jesus é a pedra angular do
edifício da espiritualização da Hu-
manidade e quem quiser ser pe-
dra viva nesse templo em cons-
trução,como conclama Pedro,pre-
cisa aproximar-se do Senhor, isto
é, evangelizar-se, seguir com o
Mestre.
O Cristianismo, por sua vez,
tem como pedra angular um no-
vo conceito de Deus, que gera
o imperativo do amor entre as
criaturas. Os cristãos precisarão
vivenciar e ensinar isso, para que
se tornem as pedras vivas do edi-
fício, mas sabemos que, ao longo
dos séculos, o movimento orga-
nizado pelos homens distanciou-
-se de Jesus e, por isso, o Espiri-
tismo veio na época prevista re-
lembrar esses ensinos e acrescen-
tar tudo o mais que, naquele tem-
19Outubro 2006 • Reformador 337777
reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 19
po, ainda não poderíamos supor-
tar, mas que agora, com o avan-
ço das ciências, já nos habilita-
mos a apreender. Somos nós, es-
píritas, nos tempos modernos,
chamados ao trabalho de colocar
em prática o que Jesus propôs.
Mas, talvez o ensinamento mais
interessante, no momento, para
nós espíritas, quando tratamos
desta metáfora, seja o da seguin-
te passagem:
“Tendo Jesus chegado às re-
giões de Cesaréia de Filipe, inter-
rogou os seus discípulos, dizen-
do: Quem dizem os homens ser
o Filho do Homem?
Responderam eles: Uns dizem
que é João, o Batista; outros, Elias;
outros, Jeremias, ou algum dos
profetas.
Mas vós, perguntou-lhes Jesus,
quem dizeis que eu sou?
Respondeu-lhe Simão Pedro: Tu
és o Cristo, o Filho do Deus vivo.
Disse-lhe Jesus: Bem-aventura-
do és tu, Simão Barjonas, porque
não foi carne e sangue que to re-
velou, mas meu Pai, que está nos
céus.
Pois também eu te digo que tu
és Pedro e sobre esta pedra edifi-
carei a minha igreja [...].” (Ma-
teus, 16:13-18.)
O Mestre confirma a infor-
mação dada por Pedro, deixan-
do claro que Ele não era a reen-
carnação de nenhum profeta an-
tigo. Hoje, à luz do Espiritismo,
sabemos que a evolução de Jesus
não se processou na Terra, pois,
quando nosso planeta se consti-
tuiu, Ele já era um Espírito puro.
Ao confirmar a resposta de Pe-
dro, Jesus acrescentou que não
haviam sido a carne e o sangue
que propiciaram ao apóstolo tal
conhecimento, mas o Pai que es-
tá nos céus. Isto é, a informação
não lhe veio das possibilidades
racionais do cérebro físico, mas
da interação de Pedro com uma
dimensão superior. Está explíci-
ta aí a origem mediúnica da in-
formação veiculada pelo apósto-
lo. E o ensino que mais nos inte-
ressa vem no final do episódio
quando Jesus acrescenta: “Pois
eu também te digo que tu és Pe-
dro e sobre esta pedra edificarei
a minha igreja”.
Jesus usa, nesta passagem, me-
taforicamente, o conceito de cons-
trução, referindo-se à espiritua-
lização do ser humano, como era
habitual no contexto cultural da-
quela época. Sua igreja, toman-
do-se a etimologia do termo, de-
ve ser entendida, não como orga-
nização religiosa formal, ou co-
mo templo de pedra, mas como
assembléia, isto é, movimento de
pessoas que haveria de dar pros-
seguimento ao trabalho que Ele
iniciou. Esse movimento teria, en-
tão, como pedra angular a me-
diunidade bem utilizada, isto é, a
possibilidade de entrar em con-
tato com as esferas mais elevadas
do mundo espiritual, a fim de tra-
zer de lá o que seja fundamental
para a edificação dos seres huma-
nos, exatamente o que Pedro re-
presentou naquele momento, não
havendo, pois, qualquer possibi-
lidade de se identificar aí a insti-
tuição pelo Cristo de uma hie-
rarquia sacerdotal.
Chegamos, enfim, à conclusão
que nos interessa fixar. A Doutri-
na Espírita está na Terra para a
edificação moral do homem, pe-
la retomada dos ensinos de Jesus,
apoiando-se na mediunidade
bem utilizada, conforme orienta
a Codificação. Essa a pedra an-
gular do edifício espírita. A rejei-
ção dessa pedra angular também
tem sido motivo de tropeço para
mais de uma instituição em nos-
so Movimento, ao longo do tem-
po. Estudar a mediunidade, en-
tender seus fundamentos e apli-
car-se à sua prática, conforme as
orientações claras e precisas de
O Livro dos Médiuns, é o que nos
cabe fazer, para manter as luzes
espirituais clareando o roteiro
difícil destes tempos de transição
pelo qual passamos. Sem isso,
também para nós, a pedra an-
gular será pedra de escândalo e
tropeço, gerando mais e mais
obstáculos a que possamos nos
tornar, verdadeiramente, as pe-
dras vivas do templo em cons-
trução, para cujo trabalho fomos
convocados.
20 Reformador • Outubro 2006337788
A Doutrina
Espírita está
na Terra para
a edificação
moral
do homem
reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 20
“Disse-lhe Jesus: Maria!
– Ela, voltando-se, disse-lhe: Mestre!”
(JOÃO, 20:16.)
Madalena
os fatos mais significativos do Evangelho, a primeira visita de Jesus, na
ressurreição, é daqueles que convidam à meditação substanciosa e acurada.
Por que razões profundas deixaria o Divino Mestre tantas figuras mais
próximas de sua vida para surgir aos olhos de Madalena, em primeiro lugar?
Somos naturalmente compelidos a indagar por que não teria aparecido, antes, ao
coração abnegado e amoroso que lhe servira de Mãe ou aos discípulos amados...
Entretanto, o gesto de Jesus é profundamente simbólico em sua essência divina.
Dentre os vultos da Boa Nova, ninguém fez tanta violência a si mesmo, para
seguir o Salvador, como a inesquecível obsidiada de Magdala. Nem mesmo Paulo de
Tarso faria tanto, mais tarde, porque a consciência do apóstolo dos gentios era
apaixonada pela Lei, mas não pelos vícios. Madalena, porém, conhecera o fundo
amargo dos hábitos difíceis de serem extirpados, amolecera-se ao contato de enti-
dades perversas, permanecia “morta” nas sensações que operam a paralisia da alma;
entretanto, bastou o encontro com o Cristo para abandonar tudo e seguir-lhe os
passos, fiel até ao fim, nos atos de negação de si própria e na firme resolução de
tomar a cruz que lhe competia no calvário redentor de sua existência angustiosa.
É compreensível que muitos estudantes investiguem a razão pela qual não apare-
ceu o Mestre, primeiramente, a Pedro ou a João, à sua Mãe ou aos amigos. Todavia,
é igualmente razoável reconhecermos que, com o seu gesto inesquecível, Jesus rati-
ficou a lição de que a sua doutrina será, para todos os aprendizes e seguidores, o
código de ouro das vidas transformadas para a glória do bem. E ninguém, como
Maria de Magdala, houvera transformado a sua, à luz do Evangelho redentor.
Fonte: XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, verdade e vida. 26. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006.
Cap. 92, p. 199-200.
21Outubro 2006 • Reformador 337799
Esflorando o Evangelho
Pelo Espírito Emmanuel
D
reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 21
Espiritismo é reconheci-
do pelos seus adeptos co-
mo sendo o Consolador
que Jesus prometera enviar aos
homens.
Baseando-se no que o Mestre
disse, segundo consta no Evange-
lho de João, (capítulo 14,nos versí-
culos de 15 a 17 e 26), cujo texto é
o seguinte:
“Se me amais, guardai os meus
mandamentos.E eu rogarei ao Pai,e
ele vos dará outro Consolador, para
que fique convosco para sempre; o
Espírito da verdade, que o mundo
não pode receber, porque não o vê
nem o conhece; mas vós o conhe-
ceis, porque habita convosco, e esta-
rá em vós. Mas aquele Consolador,
o Espírito Santo, que o Pai enviará
em meu nome, esse vos ensinará
todas as coisas,e vos fará lembrar de
tudo quanto vos tenho dito”.
O Espiritismo, como se sabe, é
uma doutrina filosófica, cujos fun-
damentos estão centrados em fatos
concretos e leis naturais, ressaltan-
do disso o seu aspecto científico.
No entanto, essa doutrina, mo-
dificando profundamente o pensa-
mento do homem sobre a sua na-
tureza, abrange todas as questões
sociais, e, conseqüentemente, as
questões religiosas.
Emmanuel, o sábio mentor de
Chico Xavier, em seu esclarecedor
livro O Consolador, relata-nos que
o Espiritismo possui um tríplice
aspecto: o de ser, ao mesmo tem-
po, Ciência, Filosofia e Religião.
Vejamos este trecho:
“– Podemos tomar o Espiritis-
mo, simbolizado desse modo, co-
mo um triângulo de forças espiri-
tuais.
A Ciência e a Filosofia vincu-
lam à Terra essa figura simbólica,
porém, a Religião é o ângulo divi-
no que a liga ao céu.[...]”1
Equivocar-nos-íamos enorme-
mente, se pensássemos que a tare-
fa do Mestre estivesse limitada
àqueles tempos da Palestina.
Ele está atento todo o tempo,
em relação aos destinos humanos,
e sabe que não seria fácil para os
homens o caminho da evolução
espiritual, por isso prometeu que
enviaria mais tarde um Consola-
dor, como vimos anteriormente,
no Evangelho de
João, para re-
lembrar o que
Ele dissera e
nos ensinar to-
das as coisas
que não po-
deriamseren-
tendidas na-
quela época.
Em outras pa-
lavras: futura-
mente, Ele daria ao homem um
Consolador que prometera outro-
ra, o qual se tornaria a Terceira
Revelação que não é outra coisa
senão a Doutrina codificada por
Allan Kardec, pois ela cumpre
aquilo que o Mestre Nazareno pro-
metera. Ou seja: o conhecimento
que leva o homem a saber de on-
de vem, para onde vai e porque
está neste planeta; faz com que a
dureza das provações se torne me-
nos difícil, pois acende em cada
um a luz da esperança, além de
despertar o sentimento de reli-
giosidade natural que o leva a dar
mais importância às obras, do
que à fé.
O
Espiritismo –
O Consolador prometido
22 Reformador • Outubro 2006338800
Livro O Consolador,
psicografado por
Francisco C. Xavier
por JesusHUGO ALVARENGA NOVAES
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 22
Uma das principais característi-
cas do Espiritismo é que ele nos
aproxima de Deus,assim como da-
quele que é o seu maior mensagei-
ro aqui na Terra – Jesus, o Cristo.
A Doutrina Espírita cumpre a
promessa de Jesus, ensinando aos
homens a observância das leis mo-
rais, fazendo-os compreender o
que o Cristo havia dito por pará-
bolas.
O Mestre Nazareno disse-nos no
Evangelho, segundo o apóstolo
Mateus (11:15):
“Quem tem ouvidos para ouvir,
ouça”.
O Espiritismo vem nos abrir os
olhos e ouvidos, porque fala tudo
clara e logicamente.
Levanta-nos o véu que há sobre
certos mistérios.
Consola a todos aqueles que so-
frem, dando-lhes uma causa justa
em relação àquilo que estão pas-
sando no momento.
Se Jesus não falou tudo que teria
para dizer, é que deveria deixar cer-
tas verdades na sombra até que os
homens estivessem prontos para
compreendê-las.
Isto nos fica claro na seguinte
passagem do Evangelho segundo
João (16:12):
“Ainda tenho muito que vos di-
zer, mas vós não o podeis suportar
agora”.
Para nós, esta é uma prova
incontestável da necessidade de
aguardar a evolução da Humani-
dade, a fim de que esta pudes-
se suportar certos conteúdos que
não seriam compreendidos na
época do Cristo.
Conforme Ele mesmo declarou,
seus ensinamentos estavam incom-
pletos; e mais ainda, anunciava a
vinda daquele que os deveria com-
pletar, dizendo-nos também as
seguintes palavras no Evangelho
segundo Marcos (13:31):
“Passará o Céu e a Terra, mas as
minhas palavras não passarão”.
Alguns pensam que é uma pre-
tensão dos que professam o Espi-
ritismo conferir ao mesmo o títu-
lo de Consolador. No entanto, ele
nos fornece as respostas que falam
aos nossos corações, consolando-
-nos e preenchendo as lacunas dei-
xadas pela cultura humana.
Se o Espiritismo cumpre tudo
aquilo que Jesus nos prometeu,e se,
além disso, dizendo-nos de onde
viemos, para onde vamos e o que
estamos fazendo na Terra, ensinan-
do-nos ainda, como devemos viver
neste planeta, a Doutrina codifica-
da por Allan Kardec é realmente o
Consolador Prometido pelo Cristo.
Somente através de uma refor-
ma íntima persistente, consecuti-
vamente ampla e constante, é que
alcançaremos bem-aventuranças
maiores tanto na Terra quanto
no Céu.
Como bem afirmou um Espírito
israelita, em Mulhouse, no ano de
1861:
“Moisés abriu o caminho; Jesus
continuou a obra; o Espiritismo a
concluirá”.2
Referências:
1
XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo
Espírito Emmanuel. 26. ed. Rio de Janeiro:
FEB, 2006. “Definição”, p. 19.
2
KARDEC, Allan. O evangelho segundo o
espiritismo. 125. ed. Rio de Janeiro: FEB,
2006. Cap. I, item 9, p. 63.
23Outubro 2006 • Reformador 338811
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 23
24 Reformador • Outubro 2006338822
História confirma que há
dez mil anos, no Egito, já
era corrente o intercâmbio
com os desencarnados. Assírios e
caldeus em épocas remotíssimas
praticavam a desobsessão. Na Pér-
sia (atual Irã) do século XIV antes
de Cristo, admitia-se que as almas
dos mortos eram protetoras dos
vivos. Foi naquele ambiente que
Zoroastro se comunicou com ele-
vados mensageiros espirituais e
concebeu o livro sagrado do mas-
deísmo, o Zend Avesta.
Na linha da cultura judaico-
-cristã, a Bíblia, com inúmeros re-
latos de fenômenos mediúnicos,
deixa patente que o intercâmbio
entre o mundo visível e o invisível
foi sempre uma prática natural,
demonstrando ser a mediunidade
um poderoso instrumento a ser-
viço do progresso humano. Por
ela, os irmãos do outro lado da vi-
da atendem caridosamente o nos-
so chamado ou vêm espontanea-
mente em nosso socorro, ofere-
cendo-nos orientação, conselho,
instrução e consolação. Não pou-
cas vezes, por solidariedade, ad-
vertem-nos quanto aos nossos atos
e propõem correções em nossos
projetos de vida, na esperança de
melhorar o mundo para o qual re-
tornarão.
Durante os três primeiros sécu-
los de nossa Era, o uso da mediuni-
dade para o intercâmbio com as es-
feras espirituais transformou-a em
fator propulsor para a divulgação
do Cristianismo, quando os após-
tolos eram naturalmente orienta-
dos pelos Espíritos sobre como
agir para mais fielmente servirem
à obra do Senhor. Paulo, o apósto-
lo dos gentios, chegou mesmo a
traçar normas disciplinares para
o exercício e correta realização do
intercâmbio espiritual. (I Cor., 12
e 14.)
Ao missionário Allan Kardec
coube, no entanto, estabelecer com
mais precisão princípios morais e
racionais para o correto uso da me-
diunidade, considerando que os
Espíritos são as almas dos homens
que viveram na Terra e continuam
envolvidos conosco, fazendo a nos-
sa História. Para tanto, escreveu O
Livro dos Médiuns. Nele encontra-
mos teorias sobre as manifestações
espíritas, instruções e orientações
seguras de como entrar em conta-
to com o mundo espiritual; alertas
sobre suas dificuldades, e os prin-
cípios morais que devem nortear
essa prática. A partir do Codifica-
dor, no âmbito da Doutrina Espí-
rita, toda produção mediúnica, se-
ja ela científica, filosófica ou reli-
giosa, passará pelo crivo da razão,
sendo analisada pelo seu conteú-
do e não pela forma nem pela sua
origem. Esse procedimento evita
que os falsos profetas da erratici-
dade tomem o lugar dos verdadei-
ros arautos do Cristo, na comple-
mentação da Terceira Revelação.
O grupo espírita que pretenda
produzir bons frutos pelo inter-
câmbio com os Espíritos deverá
tomar sérias precauções no senti-
do de minimizar a interferência de
mentes inferiores encarnadas e de-
sencarnadas na produção mediú-
nica final. Em virtude da delicade-
za do intercâmbio e com a intenção
de cooperar nessa prática tão ne-
cessária, resgatemos alguns ensina-
mentos dos Mentores espirituais.
No que diz respeito aos Espíri-
tos comunicantes, alerta-nos Em-
manuel:
– “[...] a maioria das entidades
comunicantes são verdadeiros ho-
mens comuns, relativos e falhos,
porquanto são almas que conser-
vam, às vezes integralmente, o seu
corpo somático e cujo habitat é o
O necessário e delicado
intercâmbio mediúnico
A
WALDEHIR BEZERRA DE ALMEIDA
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 24
próprio orbe que lhes guarda os
despojos e as vastas zonas dos es-
paços que o cercam, atmosferas do
próprio planeta, que poderíamos
classificar de colônias terrenas nos
planos da erraticidade”.1
Diante disso, há que se ter se-
riedade e amor ao bem para que
venhamos conseguir as comunica-
ções de que somos dignos, da for-
ma mais pura possível. Sabemos
que não é comum se obter mensa-
gens escritas ou faladas de conteú-
do inédito dos irmãos que conos-
co mourejam nas casas espíritas.
Quanto a isso, o Mentor de Chi-
co Xavier acrescenta:
“Dos motivos expostos, infere-
-se que a suposta vulgaridade dos
ditados mediúnicos é um fato na-
turalíssimo, porque emanam das
almas dos próprios homens da
Terra, imbuídos de gosto pessoal
[...]. Procuram agir no plano físi-
co unicamente para demonstração
da sobrevivência além da morte,
levantando os ânimos enfraqueci-
dos, porque dilatam os horizontes
da fé e da esperança no futuro, po-
rém, jamais serão portadores da
palavra suprema do progresso, não
só porque a sua sabedoria é igual-
mente relativa,como também por-
que viriam anular o valor da ini-
ciativa pessoal e a insofismável rea-
lidade do arbítrio humano.”2
Outro fator significativo que in-
terfere no resultado dos trabalhos
mediúnicos, sem nenhum desdou-
ro para todos que atuamos nas reu-
niões onde o intercâmbio se dá, é
a nossa interferência mental, cons-
ciente ou inconsciente, no processo
de comunicação. O Espírito André
Luiz, estudando a atuação das on-
das mentais, conclui que:
“[...] o pensamento, a formular-
-se em ondas, age de cérebro a cé-
rebro, quanto a corrente de elé-
trons de transmissor a receptor,
em televisão.
Não desconhecemos que todo
Espírito é fulcro gerador de vida
onde se encontre.
E toda espécie de vida começa
no impulso mental.
Sempre que pensamos, expres-
sando o campo íntimo na ideação
e na palavra, na atitude e no exem-
plo, criamos formas-pensamentos ou
imagens-moldes que arrojamos para
fora de nós, pela atmosfera psíqui-
ca que nos caracteriza a presença.
Sobre todos os que nos aceitem
o modo de sentir e de ser, cons-
ciente ou inconscientemente, atua-
mos à maneira do hipnotizador so-
bre o hipnotizado, verificando-se o
inverso, toda vez que aderimos ao
modo de ser e de sentir dos ou-
tros”.3
(Grifamos.)
Dessas afirmativas, podemos
concluir que em um grupo de tra-
balho mediúnico todas as mentes
presentes estão interagindo entre
si, com mais propriedade à daque-
le que se coloca como intermediá-
rio direto dos Espíritos. Segundo
LIMA (2005), a partir da relativi-
dade de tudo o que nos envolve,
“se estabelece que não há fenôme-
no de per si: Vale dizer: todo fenô-
meno depende parcialmente do
observador e são as condições des-
te que determinam as conclusões
sobre aquele”. E, mais à frente, ci-
ta o eminente cientista John
Wheeler que propõe a substitui-
ção da palavra observador por par-
ticipante nas experimentações de
25Outubro 2006 • Reformador 338833
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 25
qualquer natureza.4
Logo, numa
reunião mediúnica ninguém é
simplesmente observador...
Essas realidades são trazidas
aqui, não para desestimular o con-
tato com os Espíritos, mas sim,
para que busquemos essa interlo-
cução com intento sério e sem a
pretensão de resultados acima das
nossas condições espirituais; com
humildade e seriedade. O contato
com os irmãos que nos precede-
ram e continuam do “outro lado”
e ao “nosso lado”, na luta pela im-
plantação da fraternidade no mun-
do, é um estímulo para todos nós:
alimenta-nos a esperança, fortale-
ce-nos o ânimo e encoraja-nos pa-
ra a luta de cada dia. Não isolemos
os familiares e amigos que nos pre-
cederam e que comungam do mes-
mo ideal, alegando disciplina e
respeito aos “mortos”, ou ainda,
que os Espíritos já disseram o que
tinham de dizer na Codificação e
nas obras complementares...
O Codificador não é tão rigo-
roso assim e encontra razões bas-
tante humanas para nos incenti-
var o intercâmbio com os desen-
carnados. Diz ele:
“A possibilidade de nos pormos
em comunicação com os Espíritos
é uma dulcíssima consolação, pois
que nos proporciona meio de con-
versarmos com os nossos parentes e
amigos, que deixaram antes de nós
a Terra. Pela evocação, aproxima-
mo-los de nós, eles vêm colocar-se
ao nosso lado,nos ouvem e respon-
dem. Cessa assim, por bem dizer, to-
da separação entre eles e nós. Auxi-
liam-nos com seus conselhos, teste-
munham-nos o afeto que nos guar-
dam e a alegria que experimentam
por nos lembrarmos deles. Para nós,
grande satisfação é sabê-los dito-
sos, informar-nos, por seu intermé-
dio, dos pormenores da nova exis-
tência a que passaram e adquirir a
certeza de que um dia nos iremos
a eles juntar”.5
(Grifamos.) Mas é
natural que Allan Kardec, conhe-
cendo a delicadeza desse intercâm-
bio, estabelecesse condições ideais
para esse encontro, as quais aqui
apresentamos:
• “Perfeita comunhão de vis-
tas e de sentimentos;
• Cordialidade recíproca en-
tre todos os membros;
• Ausência de todo sentimen-
to contrário à verdadeira ca-
ridade cristã;
• Um único desejo: o de se
instruírem e melhorarem,
por meio dos ensinos dos
Espíritos [...];
• Exclusão de tudo o que, nas
comunicações pedidas aos
Espíritos, apenas exprima o
desejo de satisfação da curio-
sidade;
• Recolhimento e silêncio res-
peitosos, durante as confa-
bulações com os Espíritos;
• União de todos os assisten-
tes, pelo pensamento [...];
• Concurso dos médiuns da
assembléia com isenção de
todo sentimento de orgulho,
de amor-próprio e de supre-
macia e com o só desejo de
serem úteis”.6
Atendidos esses requisitos mí-
nimos, busquemos o diálogo com
os Espíritos. Descubramos na
mensagem advinda a sua essên-
cia, sem optarmos pelo exagero de
tudo creditar ao animismo, des-
prezando a alegria e a consolação
que o momento nos oferece.O mé-
dium interpreta e dá forma ao
pensamento do comunicante. A
cada um dos presentes compete
atribuir-lhe o valor que o seu con-
texto íntimo permite, sem exage-
ros de racionalidade e com pureza
de coração. O momento exige o
equilíbrio do coração e da razão.
Respeitemos as dificuldades que os
Espíritos encontram para trans-
mitir suas idéias, as dos médiuns
que se tornam alvos de dardos
mentais de encarnados e desencar-
nados no exercício de seu labor, e
agradeçamos aos“mortos”pela ab-
negação e esforço em nos atender.
O momento é delicado, mas
muito necessário a todos que bus-
camos apoio para nossa renova-
ção.
Referências:
1
XAVIER, Francisco Cândido. Emmanuel.
Pelo Espírito Emmanuel. 25. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2005. Cap. XXVIII, p. 151.
2
Idem, ibidem. p. 151-152.
3
XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA,
Waldo. Mecanismos da mediunidade.
Pelo Espírito André Luiz. 25. ed. Rio de
Janeiro: FEB, 2006. Cap. 11, “Pensamento
e televisão”, p. 91-92.
4
LIMA, Moacir Costa de Araújo. A era do
espírito. 1. ed. Porto Alegre: Gráfica Edito-
ra Comunicação Impressa, 2005. p. 24.
5
KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 87.
ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Questão
935. Comentário de Kardec.
6
______. O livro dos médiuns. 78. ed. Rio
de Janeiro: FEB, 2006. Item 341.
26 Reformador • Outubro 2006338844
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 26
om entusiasmo e perseve-
rança, desde alguns anos te-
mos procurado rastrear os
passos luminosos de Manoel Vian-
na de Carvalho, alma preexcelsa,
exemplo de inclinação missioná-
ria, baluarte de um trabalho in-
comparável na difusão dos postu-
lados espíritas por todo o País. En-
tre os seus pósteros, todavia, bem
poucos conhecem a dimensão exa-
ta de seu labor, disseminando os
princípios de uma verdade con-
soladora: a doutrina sistemati-
zada por Allan Kardec.
Neste mês de outubro re-
lembramos o 80o
aniversário
de seu regresso ao mundo es-
piritual. Lamentavelmente, em
razão do descaso para com a
memória histórica do nosso Mo-
vimento, poucos conhecem a vida
de um dos mais fiéis apóstolos da
Terceira Revelação.
Eis, pois, seu perfil biográfico.
Manoel Vianna de Carvalho
nasceu na cidade de Icó, Ceará, a
10 de dezembro de 1874. Era filho
de Tomás Antônio de Carvalho,
professor de Música e Língua Por-
tuguesa da Escola Normal, e de Jo-
sefa Vianna, mulher de raras virtu-
des. Em Fortaleza, estudou no Li-
ceu do Ceará. Em 1891, matricu-
lou-se na Escola Militar do Ceará,
onde se destacaria pelo brilho de
sua inteligência. Nesse mesmo ano,
juntamente com outros cadetes,co-
nheceu o Espiritismo, organizando
na própria escola um grupo de es-
tudos doutrinários.
Em 1894, ainda na capital cea-
rense, avultou como poeta, partici-
pando da fundação do Centro Li-
terário, agremiação dissidente da
célebre Padaria Espiritual. No ano
de 1895, transferiu-se para o Rio de
Janeiro, matriculando-se no Cur-
so Superior da antiga Escola Mi-
litar da Praia Vermelha. Passou a
freqüentar a União Espírita de Pro-
paganda do Brasil.
Ali, Vianna de Carvalho desta-
cou-se como um dos mais ardoro-
sos trabalhadores do grupo, pas-
sando a ocupar a tribuna, quase
todas as noites. Sua aparência ju-
venil não fazia diferença, porque
seu verbo inspirado e eloqüente
embevecia os ouvintes, concorren-
do para aumentar, diariamente, o
número de curiosos por ouvi-lo.
Em 1896, foi transferido para
Escola Militar de Porto Alegre.Pro-
curou, então, alguns confrades
e, numa casa abandonada, des-
provida de mesas e cadeiras,
dentro de um terreno baldio
no bairro do Parthenon, co-
meçou a divulgar o Espiritis-
mo. Em seguida, fundou um
núcleo de estudos no andar
térreo de uma casa comercial,
na Rua dos Andradas. Convocou
diversas pessoas,entre as quais Mer-
cedes Ferrari que, animada pelo
cadete Vianna e com o apoio de
outros companheiros, deu grande
impulso ao Movimento Espírita
local.
Ainda em 1898, regressou ao
Rio de Janeiro e retomou os traba-
lhos na União Espírita de Propa-
ganda do Brasil, passando a ser
requisitado para proferir conferên-
cias em todo o Distrito Federal, na
época no Rio de Janeiro.
Vianna de Carvalho
80 anos de desencarnação
27Outubro 2006 • Reformador 338855
C
LUCIANO KLEIN FILHO
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 27
No ano de 1898, de novo em
Porto Alegre, publicou a sua pri-
meira obra literária, Facetas, cuja
segunda edição, lançada em 1910,
foi prefaciada pela poetisa Carmen
Dolores, pseudônimo da escritora
Emília Bandeira de Melo. O livro
mereceu os melhores elogios da
crítica. Em 1923, publicou Colori-
dos e Modulações, coletânea de suas
crônicas, escritas durante vários
anos em periódicos espíritas e li-
terários.A obra foi igualmente mui-
to bem recebida.
Em 1905, foi transferido para o
8o
Batalhão de Infantaria, em Cuia-
bá. Naquela cidade, fundou o Cen-
tro Espírita Cuiabano, em 1906, do-
tando-o do necessário ao seu bom
funcionamento, sendo seu primeiro
presidente. Em 1907, retornou ao
Rio de Janeiro a fim de se matricu-
lar no Curso de Engenharia da
Escola Militar do Realengo. Dessa
vez realizou uma série de conferên-
cias na Federação Espírita Brasileira
e no auditório da antiga Associação
dos Empregados do Comércio, com
platéias cada vez maiores.Foi convi-
dado para conferências em São
Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo
e em todo o Estado do Rio de Ja-
neiro, sendo, em muitas dessas ex-
cursões acompanhado por Ignácio
Bittencourt, diretor do jornal Au-
rora, em cujas páginas Vianna em-
prestou a sua colaboração,como em
tantos outros periódicos, espíritas e
laicos, por todo o País. Em 1910,
concluiu o Curso de Engenharia
Militar e mudou-se para Fortaleza
em abril daquele ano.
O Espiritismo no Ceará flores-
ceu na última década do século
XIX, mercê da persistência do
grande pioneiro Luiz de França de
Almeida e Sá, fundador do Grupo
Espírita Fé e Caridade. Na virada
do século, surgiram mais dois gru-
pos na cidade de Maranguape, o
Verdade e Luz – que editou, em
1901, o jornal Luz e Fé – e o Cari-
dade e Luz, organizado em agosto
de 1902, e que publicava o jornal
Doutrina de Jesus e mantinha a Es-
cola Cristã, de 1902, uma das pri-
meiras escolas vinculadas a uma
sociedade espírita no Brasil. Con-
tudo, esses grupos de reuniões fa-
miliares não tiveram longa dura-
ção, e não mais existiam quando
da chegada de Vianna.
O grande ímpeto da Doutrina
dos Espíritos no Ceará só ocorreu,
efetivamente, a partir de 1910, com
a chegada de Vianna de Carvalho.
Sua estada em Fortaleza, de maio
daquele ano até novembro de
1911, foi pródiga de realizações.
Logo ao chegar, procurou arregi-
mentar forças para organização do
Movimento Espírita local. Publi-
cou, repetidas vezes, nas páginas
do jornal Unitário, anúncios como
este:
Peço aos espíritas do interior do
Ceará, bem como aos socialistas,
maçons, livres pensadores, adeptos
em geral das idéias modernas, o ob-
séquio de me enviarem os seus ende-
reços para fins de propaganda.
Vianna de Carvalho
Endereço: Rua 24 de Maio, no
26.
Promoveu o estudo sistemático
de O Livro dos Espíritos e fez con-
ferências semanais nos salões das
lojas maçônicas“Amor e Caridade”,
“Igualdade” e “Liberdade”. Essas
preleções – que passaram a ser
publicadas, sinteticamente, nos
jornais Unitário e A República –
tiveram repercussão extraordiná-
ria e motivaram imediata reação
de líderes católicos que, pelos jor-
nais Cruzeiro do Norte e O Bandei-
rante, combateram o Espiritismo e
seu fiel arauto. A campanha insi-
diosa, em vez de prejudicar, au-
mentou grandemente o interesse
pela Doutrina.
Entretanto, o corolário do pro-
fícuo labor desse filho de Icó foi a
fundação, em junho de 1910, do
Centro Espírita Cearense, que fun-
cionaria na Rua Santa Isabel, no
105 (hoje Princesa Isabel, no
255),
bem no coração da cidade.1
O Unitário, na edição do dia 22
de junho, registrou este memorá-
vel acontecimento.
Domingo (19), a uma hora da
tarde, realizou-se no palacete da Fê-
nix Caixeiral, a sessão solene de
fundação do Centro Espírita Cea-
rense.
Presidiu-a o ilustre magistrado
Sr. Desembargador Olympio de Pai-
va, que teve a secretariá-lo os senho-
res Miguel Cunha e Francisco Pra-
do. [...] Em seguida foi dada a pala-
vra ao Sr. Dr. Vianna de Carvalho
que produziu brilhante e erudita
peça oratória discorrendo larga-
mente sobre a Doutrina Espírita.
Sua Senhoria foi delirantemente
aplaudido.
...........................................................
Estiveram presentes à sessão inú-
meros cavalheiros de distinção e
28 Reformador • Outubro 2006338866
1
Atualmente funciona no local a Federa-
ção Espírita do Estado do Ceará.
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 28
várias famílias, que assinaram a ata
de fundação da novel associação. Foi
grande o número de pessoas que se
inscreveram como sócios do Centro
Espírita Cearense.
Aos esforçados membros do Cen-
tro, enviamos os nossos votos para
que tenham completo êxito em seu
nobilíssimo desideratum.
Na conferência de inauguração
do Centro, Vianna lamentou que
no Ceará, onde têm surtido os mais
belos empreendimentos, ainda não
se apercebesse da necessidade im-
periosa de organizar um centro es-
pírita,2
enquanto em outros esta-
dos, mesmo os mais longínquos, o
Espiritismo tem sulcado profundo
a sua ação benéfica pela profusão
espantosa de todos os ensinamen-
tos capazes de remodelar os senti-
mentos incompatíveis com a ver-
dadeira e genuína religião do Cris-
to. Disse mais, que era em nome
da Federação Espírita Brasileira
que assim falava e pediu ao Sr.
Presidente que em nome daquela
conspícua corporação, declarasse
fundado nesta capital o Centro Es-
pírita Cearense.3
O Centro Espírita Cearense pas-
sou a desenvolver notável servi-
ço no campo da propaganda dou-
trinária (promoção de estudos,
conferências, criação do jornal O
Lábaro, etc.) e no campo assisten-
cial.
A partir de Fortaleza, Vianna de
Carvalho sofreria intensa perse-
guição de influentes membros da
Igreja, que passaram a pleitear sua
transferência junto às autorida-
des militares. Assim, em novembro
de 1911, depois de um ano e seis
meses de grandes serviços presta-
dos à Causa, partiu para a Capital
Federal.
Em outubro de 1923, regressou
a Fortaleza como chefe interino do
Estado Maior da 7a
Região Militar,
com sede em Recife, no desempe-
nho de importante comissão do
Ministério da Guerra. Aproveitou
a oportunidade para rever amigos
e fazer conferências no Centro Es-
pírita Cearense, que então já pos-
suía sede própria, e na Loja Li-
berdade.
No dia 10 de abril de 1924, vol-
tou para assumir as funções de fis-
cal do 23o
Batalhão de Caçadores.
Largo círculo de seus amigos e
admiradores o recepcionou no de-
sembarque. Em julho desse ano,
assumiria o comando interino do
referido Batalhão.
Vianna permaneceu em Forta-
leza até 11 de setembro de 1924.
Proferiu conferências e participou
de atividades culturais. Decorri-
dos treze anos de sua fecunda tare-
fa na organização do Movimento
Espírita cearense, não enfrentou as
mesmas resistências da outra vez
porquanto, além do respeito que
lhe impunha o novo posto e fun-
ção, vários intelectuais, figuras
conspícuas da sociedade fortale-
zense, haviam se convertido ao
Espiritismo. Entre estes, o tenente-
-coronel Francisco de Sá Roriz
(1870-1925), que fora chefe de
polícia no governo do general Se-
tembrino de Carvalho, e fundador,
em 1916, da Faculdade de Farmá-
cia e Odontologia.
No Rio de Janeiro, juntamente
com Ignácio Bittencourt, fundou a
União Espírita Suburbana; com
Arthur Machado, a Tenda Espíri-
ta de Caridade. Realizou inúme-
ras conferências públicas no Cine-
-Teatro Odeon e na Escola Nacio-
nal de Música.
Vianna percorreu as principais
cidades brasileiras do início do sé-
culo XX. Em Recife, onde já era
grande a sua fama, fundou, com
Antônio José Ferreira Lima e Ma-
noel Aarão, a Cruzada Espírita Per-
nambucana, em 1923. Pregou no
Cine-Teatro Polyteama e no Tea-
tro Santa Isabel. Os jornais A Pro-
víncia e o Diário de Pernambuco,
noticiavam que o público para ou-
vi-lo era incalculável, com pes-
soas de todas as classes sociais. Foi
ele quem, em 1914, levantou a
campanha para evangelização das
crianças nos centros espíritas, su-
gerindo a criação das Aulas de Mo-
ral Cristã.
Em 1926, quando servia em
Aracaju, adoeceu gravemente, viti-
mado por um tipo grave de beri-
béri. Era o comandante interino
do 28o
Batalhão de Caçadores, no
posto de major. Diante da gravida-
de do seu estado de saúde, os mé-
dicos o encaminharam para o
Hospital de São Sebastião, em
Salvador. Foi conduzido de maca
até o vapor “Íris”. Nas proximida-
des da praia de Amaralina, às 6h30
da manhã do dia 13 de outubro de
1926, desencarnou a bordo, aos 51
anos.
29Outubro 2006 • Reformador 338877
2
Ele se refere a um Centro Espírita legal-
mente constituído.
3
Ata de Fundação do Centro Espírita
Cearense.
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 29
30 Reformador • Outubro 2006338888
eus! ó Deus! onde es-
tás que não respon-
des?”, escrevia Antô-
nio Frederico de Castro Alves em
Vozes d’África, poema publicado
em 1883, doze anos após sua
morte, que se traduziu num bra-
do contra a Escravatura, causa
que o poeta abraçou com coração
palpitante em toda sua obra, em
grandes textos de cunho social.
Autor ainda de Espumas Flu-
tuantes, único dos seus livros pu-
blicado em vida, e de poemas
como Navio Negreiro, onde retra-
ta o sofrimento do negro escravo,
Castro Alves não é o único a ques-
tionar os caminhos da vida e a bus-
car em Deus as respostas para as
venturas e provas pelas quais passa
a Humanidade.
A busca de Deus tem sido uma
constante na vida humana. Aliás,
arriscaríamos mesmo dizer que ela
tem ocupado o homem ao longo
de toda sua história, de toda sua
trajetória, consciente ou incons-
cientemente, não importando a es-
cola religiosa que professa ou deixa
de professar. Quando Allan Kardec
indaga em O Livro dos Espíritos que
conclusão podemos tirar do senti-
mento instintivo que todos os ho-
mens trazem em si mesmos da
existência de Deus,1
os Espíritos
respondem que é a prova de que
Deus existe; acrescentando que esse
sentimento nada seria se repousas-
se sobre o vazio; lembrando assim
o princípio de que “não há efeito
sem causa”.
Eis aí o grande ensinamento da
Doutrina dos Espíritos: Deus não
somente existe como se mani-
festa permanentemente em
nós, chancelados que so-
mos pelo seu amor,pela sua
vibração permanente, cuja
voz se faz ouvir no mais pro-
fundo de nossa consciência,
no maior sentimento que pos-
sa palpitar em nosso coração, fa-
zendo vibrar nossa alma ainda
imperfeita, como a alertá-la
sobre algo que supera o
próprio homem, e que
é maior que o mundo e
tão infinito quanto o
Universo.
Deus nos responde
ainda, através de suas
leis perfeitas e justas,
que impõem o progresso do ser e
desenham a sua felicidade. E o fi-
nal feliz, ansiado e projetado em
todas as consciências da Terra, só
será possível quando houver a
compreensão de que somente em
Deus, o Bem e o Amor personifi-
cados, poderá o homem encon-
trar a medida exata da evolução;
A resposta
de DeusELIANA THOMÉ
“D
Castro
Alves
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 30
31Outubro 2006 • Reformador 338899
caso contrário é dor, é retorno, é
reparo “tantas vezes quantas fo-
rem necessárias”, segundo ensina
o Evangelho.
Por isso, a maldade que grassa
hoje na Humanidade, atinge os la-
res e perturba os seres é passagei-
ra e finita, se levarmos em conta
que haveremos todos de evoluir e
de ascender para o Pai. A vida se
constitui de estágios obrigatórios
que a alma em evolução realiza
em mundos inferiores para am-
pliar sua inteligência e aprender
a equilibrar sentimentos, ou se-
ja, desenvolver-se e crescer nas
difíceis experiências da carne, em
mundos materiais.
Assim é que sem a compreen-
são verdadeira da vida – a que ex-
trapola as campas dos cemitérios
–, o homem, por hábito, fuga ou
preguiça, corrompe-se e endivi-
da-se com as leis divinas e com
aqueles com os quais trilha a mes-
ma jornada evolutiva; a exemplo
da escravidão que atingiu o Brasil
colonial em pleno século XVI,
lembrada pelo poeta. Muito, acre-
ditamos, deve ter se compadecido
Deus dos homens nesse momento
e muito deve o Brasil pagar ainda
hoje pela afronta aos filhos encar-
cerados e supliciados. Uma ação
que repercute no tempo, exigindo
função corretiva de todos os en-
volvidos através da bênção da re-
encarnação.
Oferece-nos assim a vida o pal-
co necessário para o reajuste e re-
paro de nossos erros anteriores. O
enredo desse grande teatro se tra-
duz nos atos praticados ontem,
que, somados às atitudes e aos
pensamentos e ações de hoje, se
desenrolarão adiante, além no
tempo e no espaço, no mundo e
fora dele, buscando finalmente
a harmonia da grande lei de amor
entre os homens, no tributo que
todos devemos ao Pai.
Enquanto isso não acontece,
Deus a tudo observa, a tudo acom-
panha com infinita bondade, dan-
do-nos as condições necessárias à
nossa vitória. Cada encarnação na
Terra se traduz em oportunidade
de ouro para colocarmos um fim
no sofrimento de ontem e plantar
a felicidade de amanhã, no aguar-
do da conquista do Reino dos
Céus prometido por Jesus, que é a
consciência do justo em paz con-
sigo mesmo pelo dever cumprido.
Assim, devemos findar a busca
de Deus, encontrando-o em nós,
primeiramente, honrando a vida
e as oportunidades de redenção
que ela nos oferece, e, depois, pro-
curando no próximo o reajuste
que se faz necessário. Seguindo o
apóstolo Paulo, eis o que nos con-
vém realizar, cansados que esta-
mos de sofrer e chorar.
Mas saibamos antes, como nos
alerta Léon Denis em Depois da
Morte,2
que “Deus não se mani-
festa aos sentidos”. Está, diríamos,
em toda parte, em tudo e em to-
dos, conforme os ensinamentos
espíritas. Importa agora não mais
humanizá-lo, nem buscá-lo em
ídolos de barro, ídolos materiais,
falíveis, e em idéias pequenas, re-
presando sua força em sinais e
amuletos materiais.
Deus nos ouve em todos os ins-
tantes, por toda a Eternidade. É o
Pai de todos, é a Inteligência que
anima tudo, e “não pode ser indi-
vidualizado”.3
Deus também não se esconde,
pois a Revelação não obra no es-
curo. A Perfeição não pode ser to-
cada e sim, sentida; como senti-
mos a Arte dos nossos maiores
artistas, guardando as devidas
proporções, já que é impossível
comparar o homem a Deus: um é
Pai, o outro, filho; um é o Criador,
o outro, criatura.
Deus é a Luz do mundo, a vi-
bração de todo o Universo. Pode-
mos entender melhor Deus, com-
preendendo o mundo onde habi-
tamos, como explica Kardec: “[...]
tudo atesta uma idéia diretora,
uma combinação, uma previdên-
cia, uma solicitude que ultrapas-
sam todas as combinações huma-
nas [...].”4
Deus é a Causa de todo o bem
que nos rodeia, de todo o bem que
nos anima e de todo o bem que
devemos conquistar em nós. Im-
portante o papel da Doutrina Es-
pírita quando nos revela a essência
espiritual e a ilimitada grandeza
de Deus.
Referências:
1
KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 12.
ed. de bolso. Rio de Janeiro: FEB, 2006.
Parte Primeira, cap. I, questão 5.
2
DENIS, Léon. Depois da morte. 25. ed.
Rio de Janeiro: FEB, 2005. Parte Segunda,
cap. IX, “O Universo e Deus”, p. 110.
3
Idem, ibidem.
4
KARDEC, Allan. Obras póstumas. Ed. Es-
pecial. Rio de Janeiro: FEB, 2005. Primeira
Parte, “Profissão de fé espírita raciocina-
da”, p. 39-40.
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 31
ulheres têm Alma? Con-
versas de Além-túmulo
com os Espíritos Mozart
e Chopin, Um Espírito nos Fune-
rais de seu Corpo, Os Milhões do
Sr. Allan Kardec. Foi com títulos
atraentes, assuntos interessantes e
um incrível senso de oportunida-
de que Allan Kardec se tornou o
melhor jornalista da história do
Espiritismo. Ler a Revista Espírita
é um prazer. Nas suas páginas es-
tão perfeitamente atendidos os que
desejam estudar o Espiritismo
de forma séria e os que são
atraídos pelas notícias le-
ves e por curiosidades.
Nesse caso – justiça se
faça – o maior mérito de
Kardec foi seguir com
rigor a orien-
tação dada a
ele no dia 15 de novembro de
1857.*
Exatamente sete meses após a
publicação de O Livro dos Espíritos,
ele já cogitava a publicação de um
jornal para divulgar a Doutrina.
Temia que outros lhe tomassem a
frente. Evocou os Espíritos e apre-
sentou o projeto. Afinal, tratava-se
de uma ferramenta de interação
direta com o grande público. Com
ela,o Espiritismo sairia dos círculos
restritos para ganhar o mundo.
A orientação espiritual confirmou
essa visão avançada: a divulgação
pela imprensa seria um poderoso
auxiliar da Doutrina que nascia.
Registre-se que a mensagem obtida
pela médium Ermance Dufaux po-
de ser incluída em qualquer com-
pêndio atual de Teoria da Co-
municação. Sugeria evitar a mono-
tonia, buscar assuntos que atendes-
sem simultaneamente ao homem
de ciência e à curiosidade popular;
manter a periodicidade; e cuidar
para que a primeira impressão –
decisiva – fosse a melhor possível.
Uma recomendação dos Espíri-
tos foi particularmente preciosa:
“A apresentá-lo defeituoso, melhor
será nada fazer [...]”. Nascia ali a
diretriz de qualidade editorial que
norteou a Revista enquanto Kar-
dec esteve à frente da publicação.
Lições importantes nos dias atuais,
em que se ensaia a estruturação de
uma comunicação social espírita.
Antes que se atribua o senso
jornalístico de Kardec tão-somen-
te à orientação espiritual, vale a
pena lembrar que muitos requisi-
tos exigidos pelo jornalismo são
detectáveis nele bem antes do
aparecimento da Revista Espírita:
argúcia, discernimento perante as
informações, bagagem intelectual,
adoção de procedimentos como
checagem da informação e, claro,
ser um ótimo perguntador. Quem
negaria que essas são algumas das
mais marcantes características de
Rivail, todas decisivas nas obras
da Codificação?
Acredite: além de leitura estimu-
lante, a Revista Espírita é ideal para
quem deseja conhecer o homem
Allan Kardec. Ali, ele expõe múlti-
plas facetas. Se o jornalista se reve-
la no texto direto e na seleção de as-
suntos que prendem a atenção, o
ser humano encantador surge em
comentários sobre as coisas de seu
Muito à frente de
seu tempo
M
Há 150 anos, Kardec fez jornalismo à moda do século XXI
SÔNIA ZAGHETTO
32 Reformador • Outubro 2006339900
*Obras póstumas. Ed. Especial. Segunda
Parte, “A Revista Espírita”, p. 356-357.
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 32
tempo e em artigos que traduzem
uma alma que sonhava com o eté-
reo mas tinha pés bem fincados na
realidade. Coragem e segurança se
mostram nas evocações dos Espíri-
tos de gente famosa, extraindo-lhes
confissões de felicidade ou de tor-
menta pós-morte, expondo vivên-
cias que servem de exemplo e refle-
xão para os leitores. A transparên-
cia com que prestava contas desve-
la o administrador consciente, ma-
duro, que convivia com o pensador
robusto e o intelectual sintonizado
com as novidades socioculturais e
científicas de sua época.
Análises como essa parecem
apontar para uma certa idealiza-
ção de Kardec. Nada disso. É ine-
gável que ele é um Espírito com
grandes conquistas intelecto-mo-
rais, o que não é pouco. Idealizá-
-lo é desnecessário, uma vez que
a solidez de sua obra fala por si. A
vantagem da (re)leitura desses tex-
tos, que harmonizam jornalismo
e doutrina, é justamente porque
neles o Codificador expõe uma
atitude pessoal que ele estendeu
ao Espiritismo: submeter-se à ava-
liação do público sem demons-
trar qualquer temor do julga-
mento. Em suma: permitir-se re-
ver idéias, reinventar-se desde que
necessário. O desafio de nossos
dias é imitá-lo.
33Outubro 2006 • Reformador 339911
Treinamento nas Federativas do
Maranhão, Piauí e Rio Grande do Norte
Considerando a importância de se fazer uma reflexão
mais aprofundada a respeito das práticas mediúnicas
existentes nas casas espíritas e das possíveis distorções
doutrinárias aí existentes; considerando a urgente neces-
sidade de minorar os processos obsessivos e a redução
das taxas de suicídio que marcam a sociedade contem-
porânea; considerando também a importância de unifi-
car ações e procedimentos no Movimento Espírita fede-
rativo, na área da mediunidade, algumas Federativas da
Comissão Regional Nordeste promoveram, com apoio
e trabalho conjunto da Federação Espírita Brasileira, a
capacitação do trabalhador do grupo mediúnico.
A capacitação foi realizada por meio de palestras,
seminários, oficinas e atividades plenárias, tendo co-
mo referência O Livro dos Médiuns, diversas obras de
André Luiz, Seara dos Médiuns, de Emmanuel, e o ro-
teiro “Organização e funcionamento da reunião me-
diúnica”, cuja elaboração foi concluída na Reunião da
Comissão Regional Nordeste de 2006, em João Pessoa,
Paraíba, representando um detalhamento das orienta-
ções existentes no opúsculo Orientação ao Centro Es-
pírita, capítulos 5 e 6.
Os períodos de realização e os responsáveis pela
condução das atividades foram:
Federação Espírita do Maranhão – 2 a 4 de junho
de 2006.
Responsáveis pelo trabalho: Marta Antunes Moura
e Edna Maria Fabro, da FEB; Ana Luiza Nazareno Fer-
reira e equipe, da FEMAR.
Federação Espírita Piauiense – 14 e 15 de julho de
2006.
Responsáveis pelo trabalho: Marta Antunes Moura
(FEB) e Otávio de Oliveira C. Filho, da FEPI.
Federação Espírita do Rio Grande do Norte – 19 e
20 de agosto de 2006.
Encontro Regional Espírita com sede na cidade-
-pólo de Mossoró.
Responsáveis pelo trabalho: Marta Antunes Moura
e Carmem Rabelo, da FEB; Rosenite Alves de Oliveira
e Francisco de Assis Pereira, da FERN.
Capacitação do Trabalhador do Grupo Mediúnico
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 33
ara a grande maioria dos espíritas, as idéias e a
ideologia de Zamenhof se mostram em absolu-
ta harmonia com a Doutrina Espírita, o que,
entretanto, não significa haver sobre o tema una-
nimidade de juízo. Em primeiro lugar,
pelo fato de que – ainda quando isso
nos pareça estranho – existem espí-
ritas que não aceitam o esperan-
to, nem como língua, nem co-
mo ideal. Em segundo lugar,
porque entre alguns não-es-
píritas a harmonia entre Es-
perantismo e Espiritismo
parece causar algum descon-
forto, talvez por nisso enxer-
garem uma ameaça à neutrali-
dade tão necessária e tão defendi-
da pela língua. Impõe-se, portanto,
um esclarecimento sobre esse juízo er-
rôneo, uma vez que tal semelhança de
idéias absolutamente não lhes consti-
tui qualquer ameaça – pelo contrário, traz benefícios
a ambos os ideais, pois, a bem considerar, esperanto e
Espiritismo somente ganham com essa harmonia.
Além disso, não se pode afirmar que somente a
ética espírita se mostra harmônica e afim com a ética
do esperanto. Também a ética de outras religiões –
certamente de quase todas as grandes religiões – tem
pontos de contato com a ética do esperanto. Nesse sen-
tido, dever-se-ia propor, em vez de oposição, um aper-
to de mãos entre todos os movimentos que sincera-
mente se empenham pelo bem da Humanidade.
Em face, portanto, dessas incompreen-
sões – felizmente não muito numero-
sas – vale a pena reflexionar sobre
os vínculos objetivos entre o
Espiritismo e o pensamento de
Zamenhof. Deveríamos, mes-
mo, divulgá-los com mais fre-
qüência, tão grande é a im-
portância desses vínculos.
Zamenhof era, de acordo
com os ensinos dos Espíritos,
um típico missionário.A propó-
sito,recordemos o que se encontra
no capítulo VII de O Evangelho se-
gundo o Espiritismo, item 13, “Missão
do homem inteligente na Terra”:
“Não vos ensoberbais do que sabeis, porquanto es-
se saber tem limites muito estreitos no mundo em que
habitais. Suponhamos sejais sumidades em inteligên-
cia neste planeta: nenhum direito tendes de envaide-
cer-vos. Se Deus, em seus desígnios, vos fez nascer
num meio onde pudestes desenvolver a vossa inteli-
gência, é que quer a utilizeis para o bem de todos; é
As idéias de Zamenhof
e a Doutrina Espírita
P
34 Reformador • Outubro 2006339922
A FEB e o Esperanto
PAULO SÉRGIO VIANA
Como anunciamos no número de setembro de Reformador, reproduzimos a seguir o
texto-resumo da palestra proferida pelo Dr. Paulo Sérgio Viana, de Lorena (SP),
em uma das reuniões sobre Espiritismo realizadas dentro do programa do
41º Congresso Brasileiro de Esperanto (Campinas, 15 a 19 de julho de 2006)
Paulo Sérgio em sua alocução
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 34
uma missão que vos dá, pondo-vos nas mãos o instru-
mento com que podeis desenvolver, por vossa vez, as
inteligências retardatárias e conduzi-las a ele.[...]”
Lendo-se a biografia de Zamenhof, constata-se cla-
ramente que, como Espírito, ele se preparou adequa-
damente para a sua missão, portando intelecto refina-
do e imensa modéstia.
Há um fato curioso que se nota entre a obra de Za-
menhof e os aspectos com que se apresenta o Espiri-
tismo – sua famosa divisão didática como Ciência, Fi-
losofia e Religião: se, no que diz respeito ao Espiritis-
mo, ela tem aceitação universal, no esperanto seme-
lhante divisão nem sempre é notada. Também Zame-
nhof erigiu a língua sobre um tripé:
Ciência: a construção puramente lingüística da
própria estrutura do esperanto é fruto de uma con-
cepção genial, reconhecida até por renomados lin-
güistas, cujas bases repousam sobre o chamado Fun-
damento do Esperanto e sobre sua gramática.
Filosofia: está nas idéias de Zamenhof sobre a ne-
cessidade de se criar uma língua para a construção de
um mundo mais justo e em sua argumentação no sen-
tido de que a evolução da língua se deve dar no seio
da própria sociedade. Atualmente, esse ponto de vista
filosófico é identificado na expressão“democracia lin-
güística”. Nesse campo, o principal documento legado
pelo filósofo Zamenhof é a tese “Essência e Futuro da
Idéia de Língua Internacional”– modelo de raciocínio
e argumentação lógicos.
Religião:não obstante opiniões contrárias,Zamenhof
não hesitou em lançar sua língua em ligação com a idéia
de uma Força Superior – Deus. Dentro desse aspecto, o
principal documento é sua famosa “Prece sob o Estan-
darte Verde”, de cujo inesquecível conteúdo destacamos
pequenos trechos em que se evidencia essa ligação.
Deus e a Lei de Adoração:
“A ti,ó mistério incorpóreo e potente [...] que o mun-
do governas [...] grande fonte de amor e verdade [...]
fonte de vida constante [...] que crias, que reinas [...]”
Fé raciocinada:
“A ti não vimos com uma crença nacional, com
dogmas de cego fervor [...]”
Civilização verdadeira como fruto da caridade cristã:
“Perfeitos e belos criaste os homens, mas eles se di-
vidiram em lutas, [...] concede de novo a paz às crian-
ças [...]”
Lei do Trabalho:
“Juramos trabalhar, juramos lutar [...] concede tua
bênção ao nosso trabalho [...]”
Lei de Sociedade:
“Destruamos os muros entre os povos, que ruirão
com fragor para sempre [...]”
Lei de Justiça, Amor e Caridade:
“Unam-se os irmãos, avante, com mãos entrelaça-
das e armas de paz! Cristãos, hebreus, muçulmanos,
somos todos filhos de Deus. Tenhamos sempre em
mente o bem da Humanidade, e apesar das dificulda-
des, lancemo-nos ao alvo fraterno com obstinação, sem
detença nem estacionamento. Avante, sem cessar!”
É certo que Zamenhof tinha clara consciência de
que, não sendo fácil à mente humana compreender a
verdadeira natureza e a essência de Deus, é todavia
possível aspirar à observância de suas leis, o que cer-
tamente constituiu o principal objetivo de sua vida.
Aos espíritas causa forte impressão a maneira sutil,
delicada e ao mesmo tempo firme com que ele condu-
ziu a implantação da revolucionária idéia de uma lín-
gua internacional.
É evidente que as línguas vivas sempre carregam,
no seu próprio terreno cultural, alguma ideologia.
Mas, com o esperanto, o mundo viu pela primeira
vez uma língua que expressa uma filosofia e uma
ética – em forma mais vasta e ambiciosa do que
qualquer outra língua. E é o Espiritismo que nos for-
nece explicação para esse fato extraordinário: o espe-
ranto é obra de um missionário igualmente extraor-
dinário, para isso preparado nas Altas Esferas do Mun-
do Espiritual.
35Outubro 2006 • Reformador 339933
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:23 Page 35
o registrar em Reformador
o centenário do inolvidá-
vel e heróico feito de San-
tos Dumont, rememoramos um
outro fato, também histórico, que
relaciona a Federação Espírita Bra-
sileira com o Pai da Aviação.
O ilustre brasileiro iniciara suas
experiências com o balão “Brasil”,
em 4 de julho de 1898; prosse-
guira, em setembro do mesmo
ano, com o “Santos Dumont
no
l”; e, apesar de alguns re-
vezes, continuou os experi-
mentos com outros balões,
até que, em 1901, cons-
truiu o dirigível no
6, com
o qual contornou a Torre
Eiffel, em Paris, no dia 19 de
outubro de 1901, recebendo o
prêmio Deutsch de la Meurthe,
de 100.000 francos-ouro,
Já consagrado mundialmente,
Santos Dumont veio ao Brasil em
1903. Passando pelo Rio de Janeiro,
a Federação Espírita Brasileira, por
intermédio do seu presidente e de
seu 1o
secretário, entregou-lhe em
mão um ofício datado de 12 de
setembro de 1903, acompanhado
do exemplar de Reformador de 1o
de
agosto de 1883, que publicara uma
mensagem mediúnica profética,
sobre seu futuro invento, do Espí-
rito Estêvão Montgolfier* (1745-
-1799), recebida em 30 de julho de
1876 (quando Dumont tinha 3 anos
de idade), pelo médium Ernesto
Castro, na cidade de Silveira (SP).
Para conhecimento dos preza-
dos leitores, reproduzimos, a se-
guir, o ofício da FEB e a referida
mensagem.
Ofício da FEB a Santos
Dumont
“Rio, 12 de Setembro de 1903
Prezado e ilustre patrício Sr.
Alberto Santos-Dumont:
Consenti que ao coro de unâni-
mes e afetuosas saudações, com
que é justamente festejado o vosso
regresso à pátria, se venha asso-
ciar, por seus diretores abaixo
assinados, a Federação Espírita
Brasileira.
E não vos pareça estranho,
pela índole de suas cogita-
ções, este testemunho da nos-
sa Sociedade que, ao contrá-
rio, por força mesmo dos
seus ideais espiritualistas e
humanitários, não se pode de
modo algum desinteressar das
conquistas do século e dos bene-
fícios que à causa do progresso
humano trazem os seus colabora-
dores, em cujas fileiras vos reser-
vou a Providência tão assinalado
posto.
Filhos desta abençoada terra
da Santa Cruz, cujos gloriosos des-
tinos nem sequer pode sonhar a
descuidosa geração contemporâ-
nea, é com verdadeiro interesse que
temos acompanhado o vosso es-
forço perseverante, na absorção
Santos Dumont
A
Centenário do vôo do “14-Bis”, ocorrido em Paris, a 23 de outubro de 1906,
que consagrou Alberto Santos Dumont (1873-1932) como Pai da Aviação
36 Reformador • Outubro 2006339944
*Estêvão (Étienne) e seu irmão Joseph
construíram o aeróstato (balão de ar
quente) em 1783.
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:23 Page 36
do gênio e da predestinação, por
dotar a Humanidade com os bene-
fícios dessa conquista, com que,
imortalizando-vos, enobreceis ao
mesmo tempo a nossa Pátria.
Não enxergueis nestas expres-
sões o intuito de vos estimular sen-
timentos de vaidade que, por for-
tuna vossa, parece serem alheios ao
vosso espírito, revestido, ao con-
trário, da modéstia e do desinte-
resse característicos do verdadeiro
missionário.
Se algum outro fim temos em
vista, além das saudações fraternais
que vos trazemos, é o de oferecer-
-vos, como um documento que
particularmente nos parece dever
interessar-vos, o número do Refor-
mador de 1 de Agosto de 1883, jor-
nal que no ano seguinte começou a
ser órgão da nossa Sociedade, tal se
conservando até agora, como vereis
da coleção deste ano, que igual-
mente vos oferecemos.
Ali se encontra uma comunica-
ção espírita, ditada quando apenas
contáveis 3 anos de idade, a qual,
recebida por um médium que
ainda vive, parece que se entende
convosco.
Ignoramos quais sejam as vos-
sas idéias acerca desta nova ciência
que na gloriosa França, como por
toda a parte, conta os mais esclare-
cidos e dedicados cultores. Sabe-
mos, entretanto, pelas referências
dos jornais a vosso respeito, que
sois uma alma crente, alcandoran-
do-vos nos transportes da prece,
quando, nas arriscadas ascensões,
expondes a vossa vida; e pois, sem
nenhuma preocupação de proseli-
tismo, temos unicamente em vista
ministrar-vos esse esclarecimento
acerca da providencialidade da
vossa missão na Terra.
Ali se fala, é certo, de “pássaro
mecânico”, superior aos balões, me-
ros “exploradores e precursores da
admirável invenção”. Não se enten-
derá, porém, com os balões cativos
esta alusão? Assim nos parece, tanto
mais que, não somente o vosso in-
vento tem o valor da conquista de-
finitiva do ar, como a data da co-
municação confirma a anteriorida-
de do vosso nascimento.
Guardai, pois, esse jornal, ao me-
nos como uma afetuosa e espontâ-
nea recordação dos vossos irmãos
espíritas do Brasil, e permiti-nos
que, abraçando-vos, vos exortemos
a que, de par com a simplicidade
e modéstia que vos distingue, e tão
bem vai nas almas crentes, conser-
veis sempre em Deus essa confian-
ça que é o segredo dos vossos triun-
fos e serenidade de ânimo, e será
o da vossa glorificação, não aos
olhos dos homens, o que bem pou-
co vale, mas aos desse mesmo
Deus, que é a nossa for-
ça, o nosso amparo e
a razão única da nos-
sa própria existên-
cia.
Se vos agradar
continuardes a rece-
ber a nossa modesta
folha, enviai-nos o
vosso endereço em
Paris.
E crede sempre
nos cordiais e frater-
nos sentimentos dos
vossos sinceros ir-
mãos em Jesus.
Leopoldo Cirne, presidente;
Geminiano Brazil de O. Goes,
vice-presidente; Albino Gonçalves
Teixeira, 1o
secretário; Nilo Fortes,
2o
secretário; Ulysses de Mendon-
ça, 3o
secretário; Pedro Richard,
tesoureiro.”
Fonte: Reformador de setembro de 1956,
p. 12(200)-13(201) – Artigo “A Predestina-
ção de Santos-Dumont”, de Almerindo
Martins de Castro.
Mensagem mediúnica
Em 30 de julho de 1876, em
Silveiras (SP), o médium Ernesto
Castro recebia espontâneamente a
seguinte mensagem do Espírito
Estêvão Montgolfier:
“Vencer o espaço com a velocida-
de de uma bala de artilharia, em um
motor que sirva para conduzir o
homem, eis o grande problema
que será resolvido dentro de pouco
tempo. Essa máquina poderosa de
37Outubro 2006 • Reformador 339955
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:23 Page 37
condução não há de ser uma uto-
pia, não. O missionário, que traz es-
se aperfeiçoamento à Terra, já se
acha entre vós. O progresso da via-
ção aérea, que tantos prosélitos tem
achado e tantas vítimas há feito, não
está, portanto, longe de realizar-se.
O aperfeiçoamento de qualquer
ciência depende do tempo e do
estado da Humanidade para rece-
bê-lo.
A locomotiva, esse gigante que
avassala os desertos e vence as dis-
tâncias, será um insignificante in-
vento ante o pássaro colossal, que,
qual condor dos Andes, percorrerá
o espaço, conduzindo em suas
soberbas asas os homens de vários
continentes.
Os balões, meros exploradores e
precursores da admirável invenção,
nada, pois, serão perante o belo e
portentoso pássaro mecânico.
Esse Deus de bondade e de mise-
ricórdia, que nada concede antes da
hora marcada, deixa primeiramen-
te que seus filhos trabalhem em
procura da sabedoria, e depois que
eles se têm esforçado em descobrir
a Verdade, aí então lhes envia um
raio de sua divina luz.
Já vêem, ó mortais, que a navega-
ção aérea não será um sonho, não,
mas sim uma brilhante realidade.
O tempo, que vem próximo, vos
dará o conhecimento desse estu-
pendo motor.
Brasil, tu que foste o berço dessa
grande descoberta, serás em breve
o país escolhido para demonstrar a
força dessa grandiosa máquina
aérea. Eis o prognóstico que vos
dou, ó brasileiros!”
Fonte: Idem, ibidem. p. 9(197).
38 Reformador • Outubro 2006339966 Reformador • Outubro 2006
Cumprindo o já tra-
dicional ciclo de pales-
tras no Rio de Janeiro,
Divaldo Pereira Franco
atraiu, no dia 30 de
julho, um público de
aproximadamente 900
pessoas à Sede Sec-
cional da FEB, na Ave-
nida Passos, no
30.
Em memorável ses-
são, cuja mesa de tra-
balhos foi composta
por Nestor João Ma-
sotti, presidente da Ca-
sa, e Juvanir Borges de
Souza, seu antecessor, Divaldo,
com o inconfundível brilho de
sua inspirada oratória, brindou
os presentes com riquíssima ex-
posição a respeito de temas atua-
líssimos, tais como a preparação
da Nova Era através da reencar-
nação de Espíritos especialmen-
te preparados para as fecundas
transformações sociais; a necessi-
dade de que os adeptos da Dou-
trina Espírita sustentem o crité-
rio seguro de Allan Kardec como
base insubstituível de sua boa
condução; e o irresistível magne-
tismo dos ensinos e exemplos de
Jesus sobre as almas de boa von-
tade, independentemente de suas
confissões religiosas.
Esperamos, de todo o coração,
que Divaldo, esse querido irmão,
amado por todos os espíritas do
Brasil e de além-fronteiras, amigo
incondicional da Casa de Ismael,
aqui retorne no ano vindouro
para nova semeadura de luz.
Divaldo Franco
na FEB-Rio
Divaldo falando; atrás, sentados, Nestor
João Masotti e Juvanir Borges de Souza
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:23 Page 38
s cuidados editoriais com
a publicação de uma obra
não se devem limitar ao
seu conteúdo. Indispensável que
o autor se preocupe com a reda-
ção esmerada, em consonância
com os padrões da língua culta.
Mas, também, é preciso redigir
de forma agradável, atraente,
simples, com vistas a facilitar a
leitura das informações registra-
das na obra.
Revisar nunca é demais
A boa redação obedece a crité-
rios rígidos de correção semânti-
ca, gramatical e ortográfica. Ini-
cialmente, quem escreve é igual-
mente quem primeiro revisa o
texto redigido. São várias revisões,
reescritas, correções... E o ciclo re-
pete-se inúmeras vezes.
Em seguida, outras pessoas in-
cumbem-se da revisão. É natural
que assim ocorra, pois há um mo-
mento em que o autor de um tex-
to já não consegue enxergar nele
qualquer erro, que “saltará” facil-
mente aos olhos de outro revisor.
Por isso, a revisão final deve ficar
a cargo de terceiros, especializa-
dos na função de revisar.
O trabalho de revisão é um
tanto quanto inglório. Por mais
que se pretenda atingir a exce-
lência de qualidade, quando se
conclui o serviço e o resultado é
publicado, notam-se, depois, al-
guns erros que poderiam ter sido
corrigidos antes da publicação.
Mas, isso também faz parte do
processo e não se configura de-
sestímulo aos que estão no ofí-
cio. Ao contrário, é motivo de en-
corajamento aos revisores pa-
ra que prossigam no intuito
de aperfeiçoar a qualidade
da produção. Assim, se
uma publicação “saiu”
com erro, o que é comum
ocorrer, apressem-se os res-
ponsáveis editoriais para
as correções que deverão
ser contempladas em pró-
xima edição.
Estrutura da publicação
Um livro possui elementos pré-
-textuais, textuais, pós-textuais, e
extratextuais.
Os elementos preliminares ou
pré-textuais referem-se às partes
iniciais do livro. São, por exem-
plo: guardas brancas, folha de
O
GERALDO CAMPETTI SOBRINHO
Normalização Editorial
Padrão de qualidade
editorial dos livros febianos
39Outubro 2006 • Reformador 339977
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:23 Page 39
40 Reformador • Outubro 2006339988
rosto, dedicatória, epígrafe, sumá-
rio, apresentação, prefácio e in-
trodução (quando esta substitui
a apresentação ou o prefácio).
Os elementos particulares do
texto ou textuais são aqueles que
ajudam a aumentar a legibilida-
de da obra, destacando as diver-
sas seções, acompanhando as ilus-
trações e introduzindo determi-
nados comentários complemen-
tares. Dentre os principais, in-
cluem-se: introdução (quando es-
ta não substitui a apresentação
ou o prefácio), títulos e subtítu-
los, citações, notas de rodapé, qua-
dros, ilustrações, comentários ou
notas marginais e cabeçalhos ou tí-
tulos correntes.
Os elementos finais ou pós-
-textuais são: apêndices, anexos,
glossário ou vocabulário, refe-
rências, bibliografia, índice e
colofão.*
Os elementos extratextuais de
uma publicação referem-se às
capas (da primeira à quarta) e à
lombada.
A forma de apresentação da
estrutura de uma publicação é
explicada nas diversas normas
sobre informação e documenta-
ção da Associação Brasileira de
Normas Técnicas (ABNT) já re-
lacionadas no artigo anterior
desta série e que explicitaremos
gradativamente nos próximos
artigos a serem publicados em
Reformador.
Sumário e índice
Ainda é comum a confusão
entre sumário e índice, de tal
forma que o leitor e, às vezes, os
próprios editores não sabem dis-
tinguir um do outro. Para deixar
a questão esclarecida, seguem as
considerações sobre estes dois im-
portantes elementos de uma pu-
blicação, segundo os critérios das
normas técnicas atualizadas.
A norma brasileira (NBR)
6027/2003 trata da estrutura, lo-
calização e aspecto tipográfico do
sumário. Esta norma possui ape-
nas duas páginas, porém esclare-
ce a distinção entre sumário e
índice, dois elementos geralmen-
te confundidos não só por leito-
res, mas também pelos próprios
responsáveis pela edição de livros.
A finalidade do sumário é apre-
sentar uma visão de conjunto do
conteúdo da obra, conforme sua
estrutura organizacional, a fim de
facilitar a rápida localização das
seções – capítulos e tópicos – que
a compõem. Deve figurar, pois,
logo no início da publicação.
A preparação de índice de pu-
blicações é regulamentada pela
NBR 6034/2004 da ABNT. Ao
mencionar o tipo de publicação a
que se refere esta norma, é destaca-
do que ela “aplica-se, no que cou-
ber, aos índices automatizados”.
Pelo seu caráter de exaustivi-
dade, isto é, a cobertura de todas
as informações contidas na obra,
diferentemente do sumário que
apresenta uma visão geral da es-
trutura da obra, recomenda-se que
o índice seja localizado no final
da publicação, e registrado em ti-
pologia de um a dois pontos me-
nores que o texto normal.
Reformatação das
obras febianas
Você já teve oportunidade de
ver os últimos livros publicados
pela FEB?
O que se observa nessas publi-
cações é o resultado de um traba-
lho de equipe, que se dedica zelo-
samente ao que faz: profissionais
contratados e colaboradores vo-
luntários que procuram fazer o
melhor ao seu alcance, com cons-
tante atualização sobre as necessi-
dades do mercado, capacitação
técnica e desenvolvimento pessoal.
Os integrantes dessa equipe rea-
lizam o trabalho porque gostam.
Envolvem-se integralmente com
os objetivos da tarefa de divulga-
ção doutrinária ao público espí-
rita e àquele que começa a se in-
teressar pelo Espiritismo. Uma das
razões que desperta o interesse
do leitor é exatamente o atrativo
que o livro espírita vem propor-
cionando.
Além do precioso conteúdo que
a Federação Espírita Brasileira res-
guarda com todo o cuidado, as pu-
blicações ganharam há alguns anos
uma reformatação de seus elemen-
tos internos e externos. Os livros
gradativamente estão passando por
um reempacotamento que para o
leitor é como se um novo título es-
tivesse sendo lançado.
A última Bienal do Livro, rea-
lizada em março na capital pau-
lista, é uma demonstração dessa
*Indicação, no final do livro ou folheto, do
nome do impressor, local e data da im-
pressão e, eventualmente, outras caracte-
rísticas tipográficas da obra.
reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:23 Page 40
conquista. O livro infantil Carti-
lha do bem, ditado pelo Espírito
Meimei e a obra Contos desta e
doutra vida, do Espírito Humber-
to de Campos (Irmão X), ambos
psicografados por Chico Xavier,
estiveram entre os mais vendidos
na feira. As primeiras edições des-
tes livros foram lançadas, respec-
tivamente, em 1969 e 1964! Fize-
ram sucesso entre aqueles que já
conheciam as obras, em sua for-
matação anterior, e entre o públi-
co que se interessou pelos títulos
como se fossem lançamentos.
Esse trabalho prosseguirá ao
longo do tempo, considerando-
-se que a editora febiana possui
em seu catálogo aproximadamen-
te 450 títulos, sem contar os no-
vos títulos que já ganham em
qualidade de apresentação com o
processo de editoração eletrônica
e os modernos recursos de tecno-
logia da informação, utilizados pe-
los especialistas, diagramadores,
arte-finalistas e designers.
Elaboração de índices
gerais
Outra importante característi-
ca acrescentada às novas edições
da FEB é a elaboração dos índices
gerais. Eles representam a aber-
tura do caminho para acesso rá-
pido e exato ao conteúdo deta-
lhado de cada obra.
Tem-se adotado a expressão ín-
dice geral, pois se associam dois
ou mais tipos de entradas como
pontos de recuperação do conteú-
do. Reúnem-se comumente ver-
betes em ordem alfabética repre-
sentativos de assuntos, nomes pes-
soais, de localidade, etc.
Já foram contemplados com
índices todos os livros da Codifi-
cação e os demais de Allan Kar-
dec que estão sendo publicados
pela FEB. Os índices das obras psi-
cografadas por Chico Xavier, es-
pecialmente as ditadas por André
Luiz e Emmanuel, encontram-se
também em fase de elaboração.
À medida que a Editora publica
um novo título ou relança uma
publicação com nova forma de
apresentação, a equipe responsá-
vel pela indexação é acionada pa-
ra a realização de seu trabalho.
A caminhada é longa... Mas
temos certeza – pois assim o sen-
timos no cotidiano de nossos tra-
balhos – de que com Jesus o far-
do é leve e o jugo é suave.
Sentimo-nos honrados pela
oportunidade de servir nessa
imensa seara do Mestre Divino
em que fazemos o mínimo dian-
te do muito que constantemente
recebemos.
Dia Estadual da
Confraternização Espírita
A família espírita capixaba reuniu-se para comemorar esse evento,
em 3 de agosto, no auditório do Centro Federal de Educação Tecno-
lógica (CEFETES), das 19h30 às 22h. A convite da Federação Espí-
rita do Estado do Espírito Santo, o presidente da Federação Espírita
Brasileira, Nestor João Masotti, proferiu a conferência “O Espiritis-
mo em Ação”.
No período da tarde o presidente da FEB manteve um encontro
dialogado com dirigentes espíritas de grande número de instituições
do Estado, tratando de assuntos de interesses das casas espíritas.
Instituído pela Lei 3.905, do Estado do Espírito Santo
41Outubro 2006 • Reformador 339999
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Seara Espírita
Mês de Kardec na FEB-Rio
Suely Caldas Schubert, escritora e oradora espíri-
ta, visita neste mês a Sede Seccional da Federação
Espírita Brasileira, no Rio de Janeiro (Avenida
Passos, 30), onde profere, no sábado, dia 14, às
10h30, palestra sobre o tema “Mecanismos da Justiça
Divina”. O evento realiza-se dentro do programa
“Mês de Kardec”, que a FEB-Rio vem promovendo
desde as comemorações do Bicentenário de Nas-
cimento do Codificador. Devido à limitação de lu-
gares, o acesso será feito mediante apresentação de
convite.
Rio de Janeiro: Kardec na Assembléia
Legislativa
Em Sessão Solene às 18 horas do dia 3 de outubro, a
Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro
presta uma homenagem pública ao Espiritismo, pela
terceira vez em dois anos, desta feita em comemo-
ração ao nascimento de Allan Kardec, ocorrido em
3 de outubro de 1804, na cidade francesa de Lyon. O
evento resulta da ação do Conselho Espírita do
Estado do Rio de Janeiro (CEERJ) e do empenho
do deputado estadual Áttila Nunes, e conta com a
participação de representante da Federação Espírita
Brasileira.
Rondônia: Encontro de Trabalhadores
Espíritas
De 25 a 27 de agosto, em Ariquemes (RO), a
Federação Espírita de Rondônia promoveu o XX
Encontro de Trabalhadores Espíritas de Rondônia.
“Comunicação Social no Processo de Divulgação
Espírita”e“O Centro Espírita e a Legislação”estavam
entre os temas que foram abordados. A palestra de
abertura foi feita por Ricardo Silva, da Assessoria
Jurídica da FEB. Na ocasião, a FERO informou os
trabalhadores sobre os assuntos da Reunião da
Comissão Regional Norte do Conselho Federativo
Nacional da FEB, realizada em Macapá (AP) no mês
de junho.
Equador: Congresso Espírita
A Federação Espírita do Equador realizou, no perío-
do de 25 a 27 de agosto, o II Congresso Espírita
Internacional do Equador, com o tema central
“Ciência Espírita – Fonte de paz e equilíbrio para o
ser humano”, abordado, na conferência de aber-
tura, por Divaldo Pereira Franco, que proferiu
mais duas conferências. Outros expositores: Alvaro
Vélez (CEI), Luis Hu Rivas (CEI), Hugo Arriciaga
(Equador), Isauro Hoyos Penagos (FEDECOL) e
Enrique Gagliardo (Equador).
FEB-Brasília: Programação doutrinária
Honório Onofre de Abreu e Haroldo Dutra, respecti-
vamente, presidente e assessor da União Espírita
Mineira, realizaram programação doutrinária no dia
12 de agosto passado na Sede Central da Federação
Espírita Brasileira. No período da manhã, dirigiram
um curso de capacitação destinado aos monitores do
curso Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita
(EADE). Das 16h às 17h30 desenvolveram um semi-
nário sobre o tema “Ensinos e Parábolas de Jesus”,
tendo como público-alvo monitores e estagiários dos
diversos cursos das áreas de estudo da FEB. Das 18h às
18h30,proferiram palestra aos participantes do EADE,
sobre o tema “O Evangelho de Jesus – como, por que
e para que estudá-lo à luz da Doutrina Espírita”.
Amazonas: Congresso Espírita
A Federação Espírita do Amazonas promoveu, de 18 a
20 de agosto, no auditório da Reitoria da Universidade
do Amazonas, em Manaus, o 2o
Congresso Espírita do
Estado, com o tema principal “Família – Um planeja-
mento divino”. Participaram do evento conferencistas
como Divaldo Pereira Franco (BA), Raul Teixeira (RJ),
Alberto Almeida (PA) e André Luiz Peixinho (BA).
O Congresso fez parte da programação da Semana da
Família, promovida anualmente pela FEA. No encer-
ramento – que foi transmitido ao vivo pela Internet –
Divaldo homenageou Bezerra de Menezes, pelos seus
175 anos de nascimento.
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Reformador 10 outubro_2006
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    Fundada em 21de janeiro de 1883 Fundador: Augusto Elias da Silva Revista de Espiritismo Cristão Ano 124 / Outubro, 2006 / No 2.131 ISSN 1413-1749 Propriedade e orientação da FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA Diretor: NESTOR JOÃO MASOTTI Diretor-substituto e Editor: ALTIVO FERREIRA Redatores: AFFONSO BORGES GALLEGO SOARES, ANTONIO CESAR PERRI DE CARVALHO, EVANDRO NOLETO BEZERRA E LAURO DE OLIVEIRA SÃO THIAGO Secretária: SÔNIA REGINA FERREIRA ZAGHETTO Gerente: AMAURY ALVES DA SILVA Gerente de Produção: GILBERTO ANDRADE Equipe de Diagramação: SARAÍ AYRES TORRES, AGADYR TORRES E CLAUDIO CARVALHO Equipe de Revisão: MÔNICA DOS SANTOS E WAGNA CARVALHO REFORMADOR: Registro de publicação n o 121.P.209/73 (DCDP do Departamento de Polí- cia Federal do Ministério da Justiça), CNPJ 33.644.857/0002-84 • I. E. 81.600.503 Direção e Redação: Av. L-2 Norte • Q. 603 • Conj. F (SGAN) 70830-030 • Brasília (DF) Tel.: (61) 2101-6150 FAX: (61) 3322-0523 Departamento Editorial e Gráfico: Rua Souza Valente, 17 • 20941-040 Rio de Janeiro (RJ) • Brasil Tel.: (21) 2187-8282 • FAX: (21) 2187-8298 E-mail: redacao.reformador@febrasil.org.br Home page: http://www.febnet.org.br E-mail: feb@febrasil.org.br e webmaster@febnet.org.br Projeto gráfico da revista: JULIO MOREIRA Capa: AGADYR TORRES PEREIRA Editorial Relembrando Kardec Entrevista: Gloria Avalos de Ynsfrán Fomentar a paz através do conhecimento e do amor Presença de Chico Xavier Na trilha de Allan Kardec – André Luiz Esflorando o Evangelho Madalena – Emmanuel A FEB e o Esperanto As idéias de Zamenhof e a Doutrina Espírita – Paulo Sérgio Viana Seara Espírita Não julgueis – Juvanir Borges de Souza Campeonato da insensatez – Vianna de Carvalho e outros Espíritos-espíritas Realidade e ficção – Washington Borges de Souza Saúde é trabalhar – Richard Simonetti O Mestre e o Apóstolo – Emmanuel Pedra angular – Dalva Silva Souza Espiritismo – O Consolador prometido por Jesus – Hugo Alvarenga Novaes O necessário e delicado intercâmbio mediúnico – Waldehir Bezerra de Almeida Vianna de Carvalho – 80 anos de desencarnação – Luciano Klein Filho A resposta de Deus – Eliana Thomé Muito à frente de seu tempo – Sônia Zaghetto Capacitação do Trabalhador do Grupo Mediúnico Santos Dumont Divaldo Franco na FEB-Rio Normalização Editorial – Padrão de qualidade editorial dos livros febianos – Geraldo Campetti Sobrinho Dia Estadual da Confraternização Espírita 5 8 11 16 17 18 22 24 27 30 32 33 36 38 39 41 4 12 14 21 34 42 SumárioExpediente PARA O BRASIL Assinatura anual RR$$ 3399,,0000 Número avulso RR$$ 55,,0000 PARA O EXTERIOR Assinatura anual UUSS$$ 3355,,0000 AAssssiinnaattuurraa ddee RReeffoorrmmaaddoorr:: Tel.: (21) 2187-8264 • 2187-8274 EE--mmaaiill:: assinaturas.reformador@febrasil.org.br reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:13 Page 3
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    4 Reformador •Agosto 2006336622 Editorial eformador, deste mês, relembra o lúcido trabalho de Allan Kardec na elabo- ração da Codificação Espírita, materializando, junto à Humanidade, o Consolador Prometido por Jesus. Resgata uma página de André Luiz, intitulada “Na trilha de Allan Kardec” (p. 14) e publica mensagem de Emmanuel,“O Mestre e o Apóstolo” (p.17), ambas psicografadas por Francisco Cândido Xavier. Sobre a obra do Codificador, é oportuno relembrar, também, alguns pensamen- tos de Bezerra de Menezes, Espírito que, sob inspiração superior, vem orientando o estudo, a divulgação e a prática da Doutrina Espírita:* “A Doutrina Espírita possui os seus aspectos essenciais em configuração tríplice. Que ninguém seja cerceado em seus anseios de construção e produção. Quem se afeiçoe à ciência que a cultive em sua dignidade, quem se devote à filosofia que lhe engrandeça os postulados e quem se consagre à religião que lhe divinize as aspira- ções, mas que a base kardequiana permaneça em tudo e todos, para que não venha- mos a perder o equilíbrio sobre os alicerces em que se nos levanta a organização.” “Allan Kardec, nos estudos, nas cogitações, nas atividades, nas obras, a fim de que a nossa fé não se faça hipnose, pela qual o domínio da sombra se estabelece sobre as mentes mais fracas, acorrentando-as a séculos de ilusão e sofrimento.” “Seja Allan Kardec, não apenas crido ou sentido, apregoado ou manifestado, a nossa bandeira, mas suficientemente vivido, sofrido, chorado e realizado em nossas próprias vidas. Sem essa base é difícil forjar o caráter espírita-cristão que o mundo conturbado espera de nós pela unificação.” “É indispensável manter o Espiritismo, qual foi entregue pelos Mensageiros Di- vinos a Allan Kardec, sem compromissos políticos, sem profissionalismo religioso, sem personalismos deprimentes, sem pruridos de conquista a poderes terrestres transitórios.” “Amor de Jesus sobre todos, verdade de Kardec para todos.” *Mensagem “Unificação”, psicografada por Francisco C. Xavier (Reformador, dezembro de 1975). R Relembrando Kardec reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 4
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    5Outubro 2006 •Reformador 336633 ncontra-se no Evangelho de Mateus, 7:1-2, esse ensino de Jesus: “Não julgueis, a fim de não ser- des julgado; – porquanto sereis julgados conforme houverdes jul- gado os outros; empregar-se-á co- vosco a mesma medida de que vos tenhais servido para com os ou- tros. (O Evangelho segundo o Espi- ritismo, 3. ed. especial, cap. X, item 11, p. 215.) Esta lição do Mestre insere-se, como muitas outras, na lei do amor – a síntese maravilhosa que Ele formulou para facilitar a com- preensão não somente de seus dis- cípulos e ouvintes, mas de todos os que viessem tomar conhecimento de sua mensagem, no futuro. Como amar ao próximo é a re- gra áurea para reger o relaciona- mento com nossos semelhantes, colocada junto ao primeiro man- damento – amar a Deus sobre to- das as coisas –, o não julgueis para não serdes julgados é um desdo- bramento da lei suprema. É uma forma de facilitar a compreensão humana para aque- les que visam aceitar, compreen- der e vivenciar as leis divinas. O verbo julgar tem acepções diversificadas na linguagem hu- mana, especialmente no idioma português. Ao mesmo tempo que po- de significar uma de- cisão de juiz ou de árbitro, pode tam- bém ser em- pregado no sentido de imaginar, conjecturar, formar opinião, ava- liar, formar juízo crítico, conside- rar-se, etc., conforme o texto em que está inserido. Acreditamos que Jesus, conhe- cendo profundamente a natureza dos habitantes do nosso mundo, procurou deixar evidente o pre- juízo moral para aqueles que, por hábito adquirido, ou por natural inclinação, fazem conjecturas de- sairosas sobre o procedimento alheio, ou formam juízo crítico sobre seus semelhantes. São procedimentos comuns de todos os tempos os juízos te- merários, inclusive nas socieda- des da atualidade, que prejudi- cam e dificultam a fraternidade, a compreensão e a solidariedade entre as criaturas. Criticar, reprovar, censurar, com ou sem fundamento, tornaram-se formas comuns nas conversações e comentários entre pessoas, com referências a outras, presentes ou ausentes. A indulgência para as imperfei- ções dos outros, assim como a be- nevolência para com todos são componentes da caridade, junta- mente com o perdão amplo de to- das as ofensas, como ensinou Jesus. (O Livro dos Espíritos, questão 886.) A caridade, por sua vez, é a con- cretização do amor, é a prática do mais elevado sentimento de que as leis supremas do Criador dis- põem para a elevação e a com- preensão de todas as criaturas. A indulgência é a base, o fun- damento moral inconfundível de um dever que se aplica a todos os Espíritos no relacionamento com seus semelhantes. É ela, a indulgência, que o Cris- to opõe aos juízos insensatos e contrários às leis naturais ou divi- nas, para lembrar a todos nós que não devemos julgar os outros, muito menos utilizar a severidade em condenações e críticas das quais nos absolvemos, como se fôssemos criaturas superiores. E Não julgueis JUVANIR BORGES DE SOUZA reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 5
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    Quando apreciamos aconduta de nossos semelhantes, o que se torna inevitável na vida de rela- ção do homem, ou concordamos com seus pensamentos e ações, ou deles discordamos, total ou parcialmente. Na primeira hipótese, a da con- cordância, pode ocorrer que tanto nós quanto nosso semelhante es- tejamos pensando e agindo de for- ma correta, ou ambos estejamos errados, sem que percebamos. Po- de acontecer também que um es- teja certo e o outro errado. Falíveis em si mesmos, os julga- mentos humanos nem sempre dis- tinguem o erro da verdade, pela imperfeição dos próprios homens. Há, pois, fortes razões para não se atribuir, de nossa parte, à opi- nião de uma individualidade hu- mana, nem a certeza e infalibilida- de, nem o erro e engano de seu jul- gamento. A prudência e o respeito são nossos melhores conselheiros. Infelizmente, o orgulho e o egoísmo dos homens desprezam essa realidade. Reconhecendo nossas imper- feições, o mais seguro é evitar os julgamentos das posturas, das opiniões, do procedimento e de tudo o que caracteriza, afinal, o nosso semelhante. Esse posicionamento em relação ao “não julgueis” do ensinamento de Jesus não se refere à repulsa ao mal de variadas origens, que é um dever de todos os indivíduos e de todas as sociedades humanas. O mal deve ser identificado e reprimido em toda parte, qual- quer que seja a sua origem. Por isso, a regra resultante da lição do Cristo deve ser entendida co- mo oposição à maledicência e à maldade, mas não como tolerân- cia ao mal, resultante de má in- terpretação dos ensinos do Mes- tre, que empregou a palavra jul- gar em conformidade com a or- dem das idéias que se apresenta- vam na ocasião. Para bem entender a lição do Mestre, torna-se necessário que o aprendiz penetre seu íntimo, ouça sua consciência e demonstre que usa a indulgência para com seus irmãos. Essa é uma das formas da prática da caridade. Exemplo magnífico do signifi- cado do“não julgueis”mostrou Je- sus no episódio da mulher adúlte- ra, apresentada ao Mestre pelos es- cribas e fariseus. Depois de ouvir as acusações à mulher, Jesus disse: “Aquele dentre vós que estiver sem pecado, atire a primeira pe- dra”. (João, 8:7.) Os acusadores, após ouvirem essas palavras, retiraram-se um após outro. Perguntou Jesus então à mu- lher: “Onde estão os que te acusa- vam? Ninguém te condenou?” Ela respondeu: “Não, Senhor”. Disse-lhe Jesus: “Também eu não te condenarei. Vai-te e de futuro não tornes a pecar”. (João, 8:3-11.) O exemplo oferecido por Jesus no caso da mulher adúltera, repe- tido em outras circunstâncias, consagra o princípio de que, sen- do Ele um Espírito perfeito, não julga seus irmãos menores. Os ho- mens, Espíritos imperfeitos e su- jeitos a erros, com mais razão não devem arvorar-se em julgadores dos outros, mas, sim, cooperado- res para o aperfeiçoamento de seus semelhantes. As leis divinas, sintetizadas no amor, abrangem a fraternidade, a solidariedade, a compreensão, a tolerância e o respeito para com os semelhantes. O julgamento torna- -se incompatível com essas leis, ao opor-se a qualquer de seus funda- mentos. O que compete a cada um de nós, Espíritos em evolução, é a aju- da aos nossos semelhantes em suas transgressões e dificuldades, como seguidores dos ensinos do Cristo. Em vez de julgamentos,as leis de Deus, justas e perfeitas, dispõem de mecanismos de retificações das fal- tas e desvios das criaturas, para que retomem o caminho do progresso e da evolução. O erro, o desvio do bem, o transvio são circunstâncias transi- tórias na vida de cada Espírito, por mais rebelde que seja, no uso do seu livre-arbítrio. Por isso, mesmo nos casos mais tristes de rebeldias, nunca devemos perder a esperan- ça na recuperação do transviado, já que, em determinado tempo, o Espírito recomeça sua evolução, mesmo que à custa de muito sofri- mento regenerativo. Ninguém tem o direito de ar- vorar-se em dono da justiça. Mesmo a justiça humana, ba- seada nas leis dos homens, come- te muitos enganos, visto que de- pende de juízes falíveis e de inter- pretações variáveis. 6 Reformador • Outubro 2006336644 reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 6
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    Temos de entendera justiça hu- mana como uma organização ne- cessária em um mundo atrasado e imperfeito, que se torna útil por cooperar na repressão aos mais va- riados crimes e transgressões. Mas seus julgamentos nem sempre re- presentam a verdadeira justiça. Devemos nos lembrar sempre de que, como criaturas imperfei- tas, podemos ser portadores de defeitos semelhantes, ou até pio- res que os daqueles a quem julga- mos, cabendo-nos, portanto, es- forçar-nos por combater nossas próprias imperfeições, antes de nos preocuparmos com as alheias. Ao julgar alguém, podemos estar cometendo um equívoco, do qual resulta grande ou pe- queno dano àqueles que rece- bem nosso juízo. É evidente que respondemos pelas conseqüên- cias de nosso erro. Muitas vezes não sabemos o al- cance real daquilo que julgamos. O que nos parece condenável nos outros pode não o ser na realida- de, porque desconhecemos por- menores dos fatos e do que se pas- sa no íntimo das pessoas. Uma pergunta lógica se impõe ao nosso raciocínio: por que nos preocupamos mais com os erros, os defeitos e as imperfeições alheias, em lugar de valorizar e aplaudir as virtudes que as criatu- ras apresentam? Não seria essa particularidade mais um motivo e uma justificati- va para adotarmos o preceito evan- gélico do “não julgueis”? A vida do Espírito, quando en- carnado, tem características pró- prias de um mundo material, as quais influenciam muito nossos juízos. Mas a vida continua nas esferas espirituais, em que as influências materiais diminuem ou desapare- cem, dependendo da evolução al- cançada pelo Espírito. Os ensinos, os preceitos e os exemplos deixados por Jesus, em sua passagem pela Terra, encon- tram-se ampliados e interpreta- dos corretamente pelos Espíritos Superiores. Cumpriu-se a pro- messa do Mestre de pedir ao Pai o envio de outro Consolador. Com a Doutrina dos Espíritos, o Consolador, encontra-se no mundo tudo o que ensinou o Cristo, sem as distorções interpre- tativas dos homens. Agora nos compete seguir os ensinos do Mestre, consolidados na Terceira Revelação. Uma de suas lições inesquecí- veis é a do “não julgueis”, que visa a paz, o perdão e a compreensão para cada criatura. É uma das faces do amor,tão ne- cessário para reverter as condições deste planeta sob as influências das inferioridades espirituais, emocio- nais, mentais, verbais e físicas que atuam sobre seus habitantes. Cristo e a Mulher Adúltera, quadro de Guercino, pintado por volta de 1621 reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 7
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    uando o conhecimentoli- bertava-se da grilheta soez da ignorância e as ciên- cias adquiriam cidadania cultural, alargando os horizontes do pen- samento e facultando melhor en- tendimento em torno da finalida- de existencial, em meado do sé- culo XIX, surgiu o Espiritismo como um sol para a Nova Era, que deveria iluminar a Humanidade a partir de então. Era a resposta dos Céus às ro- gativas dos sofrimentos que se espalhavam pela Terra. Conforme Jesus houvera prometido, trata- va-se de O Consolador, que che- gava para atender às múltiplas ne- cessidades humanas. Sintetizando o idealismo filo- sófico com as conquistas da expe- rimentação científica moderna, ao tempo em que a ética do Evan- gelho se fazia restaurada, essa in- comparável Doutrina propunha- -se a oferecer os instrumentos hábeis para a aquisição da felici- dade. O obscurantismo ancestral ce- dia lugar a novas conquistas liber- tadoras, enquanto Espíritos de es- col encarregavam-se de promover o progresso material, social e inte- lectual no Orbe, sacrificando-se fiéis aos anseios de iluminação. Os objetivos da liberdade al- cançada desde os dias sangrentos de 1789, com a queda da Bastilha e os movimentos que a seguiram, facultavam o florescimento da verdadeira fraternidade entre to- dos, igualando-os em relação aos direitos e aos deveres que lhes di- ziam respeito, pelo menos teori- camente. Respiravam-se novos ares sem os tóxicos dos preconceitos e da intolerância religiosa, que cedia ante o vigor das conquistas in- comparáveis da evolução que dia- riamente chegavam às massas so- fridas... A arrogância de Napoleão III, em França, refletindo a domina- ção clerical, que teimava em pros- seguir soberana, graças aos víncu- los com Roma, que apoiava gover- nos usurpadores e perversos na Europa, assinalava o declínio do Velho Mundo de ostentação e pri- vilégios, a fim de que os vexilários do amor e da paz abrissem clarei- ras na imensa noite amedronta- dora. Os Espíritos, considerados mor- tos, romperam o apavorante si- lêncio a que foram relegados e proclamaram os lídimos ensinos do Cristo como fundamentais à vida, bem como a própria imorta- lidade, restaurando a pulcritude do Evangelho que houvera sido gravemente adulterado, desse mo- do despertando as consciências pa- ra a vivência da concórdia, do bem e da caridade... Os paradigmas científicos do Espiritismo revestiam-se do vigor indispensável ao enfrentamento com o materialismo de Frederico Engels e de Schopenhauer, de Marx e de Nietzsche, revitalizan- do a ética centrada na Boa Nova, conforme Jesus e os Seus primei- ros discípulos a haviam vivido. Era um renascimento da Pala- vra e um reencontro com a Ver- dade, que houvera perdido o bri- lho, empanada pelos dogmas ul- Campeonato da insensatez 8 Reformador • Outubro 2006336666 Q reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 8
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    tramontanos e aTeologia partida- rista, elaborada apenas para aten- der aos interesses mesquinhos e subservientes aos poderosos que, às vezes, eram também submeti- dos ao talante do seu atrevimento. Permitindo-se investigar até a exaustão, os imortais confabula- ram com as criaturas terrestres, oferecendo-lhes explicações segu- ras sobre a vida, seus objetivos, os problemas do sofrimento, do des- tino, do ser humano... Nunca, até então, uma Doutri- na abrangeria tantos temas e ques- tões porque, afinal, não procedia de uma pessoa, mas de uma equi- pe de pensadores como João Evan- gelista, Paulo, o Apóstolo, Santo Agostinho, Descartes, Lacordaire, Cura d’Ars, São Luís de França, Joana d’Arc, Henri Heine, Féne- lon, para citar apenas alguns pou- cos, todos sob a inspiração de Je- sus Cristo... Essa trilogia sintetizada num bloco monolítico – Ciência, Filo- sofia e Religião – deveria enfren- tar o futuro, acompanhando o progresso, aceitando todas as suas conquistas, mas interpretando-as com discernimento apurado, por- que estuda as causas, enquanto as ciências estudam os seus efeitos. Um século e meio quase trans- corrido, após o surgimento de O Livro dos Espíritos, em Paris, a 18 de abril de 1857, a Doutrina resis- tiu a todas as investidas da cultura científica, tecnológica, filosófica, permanecendo vigorosa e insupe- rável como no instante da sua consolidação. O Movimento Espírita es- praiou-se por diversas nações ter- restres, apresentou escritores, mé- diuns, oradores e conferencistas, pedagogos, psicólogos, médicos e advogados, juízes e desembarga- dores, entre muitos outros profis- sionais, todos incorruptíveis, que deixaram um legado honorável, mas que, infelizmente, em alguns dos seus bolsões, não está sendo dignamente preservado. Os atavismos ancestrais, em di- versos espíritas, que se elegeram ou foram eleitos líderes por si mesmos, no entanto, não têm su- portado o peso da responsabilida- de pela execução do trabalho que lhes diz respeito, e, preocupados injustamente com o labor organi- zacional, vêm-se desviando dos conteúdos insofismáveis da Dou- trina, qual fizeram ontem em re- lação à Mensagem cristã, que transformaram em romanismo... Às preocupações em torno da caridade fraternal em referência aos infelizes de todo porte, entre- gam-se à conquista de patrimônio material e de projeção social, vin- culando-se a políticos de realce, nem sempre portadores de condu- ta louvável, para partilharem das migalhas do mundo em detrimen- to das alegrias do reino dos céus. Substituem a simplicidade e a espontaneidade dos fenômenos mediúnicos por constrições e di- retrizes escolares que culminam, lamentavelmente, com a diploma- ção de médiuns e de doutrinado- res, que também alcançam os pa- tamares teológicos da autofasci- nação. Exigências descabidas e vaido- sas agridem a simplicidade que deve viger nas Sociedades espíri- tas, antes desvestidas de atavios ditos tecnológicos e atuais, que eram vivenciados pela tolerância e bondade entre os seus membros. Ao estudo sério dos postulados doutrinários, sucede-se a chocar- rice e o divertimento em relação ao público que busca as reuniões, em atitudes mais compatíveis com os espetáculos burlescos do que com a gravidade de que o Es- piritismo se reveste. O excesso de discussões em tor- no de questões secundárias toma o tempo para análise e reflexão em relação aos momentosos desa- fios sociais e humanos aos quais o Espiritismo tem muito a oferecer. A presunção e a soberba ele- gem delineamentos e condutas que recordam aqueles formulados pelos antigos sacerdotes, e que ora pretendem se encarreguem de de- finir os rumos que devem ser to- 9Outubro 2006 • Reformador 336677 Exigências descabidas e vaidosas agridem a simplicidade que deve viger nas Sociedades espíritas reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 9
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    mados pelo Movimento,após reu- niões tumultuadas com resíduos de mágoas e animosidades mal dis- farçadas. Ouvem-se as mensagens dos Benfeitores espirituais, comoven- do-se com as suas dissertações, e logo abandonando-as dominados pela alucinação da frivolidade. Apegam-se ao poder, como se fossem insubstituíveis, esqueci- dos de que as enfermidades e a desencarnação os desalojam das funções que pretendem preservar a qualquer preço. O tecnicismo complicado vem transformando as Instituições em Empresas dirigidas por executi- vos brilhantes, mas sem qualquer vínculo com os postulados dou- trinários... Divisões que se vão multipli- cando por setores, por especiali- zações, ameaçam a unidade do corpo doutrinário, olvidando-se daqueles que não possuem títulos terrestres, mas que são pobres de espírito, simples e puros de cora- ção, em elitismo injustificável. Escasseiam o amor, a compai- xão e a caridade... Críticas sórdidas, perseguições públicas, malquerenças grassam, onde deveriam vicejar o perdão, o bem-querer, a compreensão fra- ternal, a caridade sem jaça. Não se dispõe de tempo, con- sumido pelo vazio exterior, para a assistência aos sofredores e ne- cessitados que aportam às casas espíritas, relegados a segundo pla- no, nem para a convivência com os pobres e desconhecedores da Doutrina, que são encaminhados a cursos, quando necessitam de uma palavra de conforto moral urgente... Os corações enregelam-se e a fraternidade desaparece. O Cristianismo resistiu brava- mente a trezentos anos enquanto perseguido e odiado, até o mo- mento em que o imperador Cons- tantino o vilipendiou, no dia 13 de junho de 313, mediante o Edi- to de Milão, que o tornou tolera- do em todo o Império romano, descambando posteriormente pa- ra religião do Estado, em olvido total às lições de Jesus Cristo, passando, depois, de perseguido a perseguidor... O Espiritismo ainda não com- pletou o seu sesquicentenário de surgimento na Terra e as mesmas nuvens borrascosas ameaçam-no de extermínio, por invigilância de alguns dos seus profitentes... É hora de estancar-se o passo na correria desenfreada em busca das ilusões, a fim de fazer-se uma análise mais profunda em torno da Doutrina Espírita e dos seus objetivos, saindo-se das brilhantes teorias para a prática, a vivência dos ensinamentos libertadores. Não é momento para escamo- tear-se a realidade, em face do anseio para conseguir-se, embora rapidamente, o brilho momentâ- neo dos holofotes, como se bla- sona com certa mofa, em relação aos que disputam as glórias ter- restres. Menos competição e mais co- operação, deve ser a preocupação de todos espíritas sinceros, a fim de transferir a Doutrina para as futuras gerações, conforme a rece- beram do Codificador e dos seus iluminados trabalhadores das pri- meiras horas. Bons espíritas, meus bem-ama- dos, sois todos obreiros da última hora, conforme proclamou o Es- pírito protetor Constantino, em O Evangelho segundo o Espiritismo.* Não vos esqueçais! Estais comprometidos, desde antes da reencarnação, com o Es- piritismo que agora conheceis e vos fascina a mente e o coração. Tende cuidado! Evitai conspurcá-la com atitu- des antagônicas aos seus ensina- mentos e imposições não com- patíveis com o seu corpo doutri- nário. Retornar às bases e vivê-las qual o fizeram Allan Kardec e to- dos aqueles que o seguiram desde o primeiro momento, é dever de todo espírita que travou contato com a Terceira Revelação judai- co-cristã porque o tempo urge e a hora é esta, sem lugar para o cam- peonato da insensatez. Vianna de Carvalho e outros Espíritos-espíritas (Página psicografada pelo médium Dival- do Pereira Franco, na reunião mediúnica da noite de 17 de julho de 2006, no Cen- tro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia.) 10 Reformador • Outubro 2006336688 *Capítulo XX – “Os trabalhadores da últi- ma hora”, item 2. Nota do Autor espiri- tual. reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 10
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    mundo onde vivemosestá envolto, ainda, por influên- cias predominantemente materialistas. Não obstante serem decorridos dois milênios desde a presença amorosa de Jesus entre os homens, a Doutrina consoladora e esclarece- dora, que deixou eternamente para nós, não se fixou na consciência e no coração da imensa maioria da Humanidade, cativa de ilusões e quimeras de natureza nitidamente material. A realidade do Espírito permanece encoberta por fantasias materialistas perniciosas e efêmeras. A Ciência tradicional da Terra, embora já tenha dado largas passa- das na senda do progresso, ainda imagina que o Espírito é uma abs- tração, não um ser real. As lições de Jesus e as provas trazidas pelo Espi- ritismo não foram devidamente consideradas. As trevas da ignorân- cia inibem o Espírito, o ser real. Tu- do decorre da condição da Terra, de planeta de provas e expiações, onde são freqüentes as guerras e conflitos, a violência de vários matizes, as pai- xões inferiores sob o império do or- gulho e do egoísmo e, sobretudo, da ignorância das leis divinas, da exis- tência de Deus e da alma. Esse esta- do evolutivo reflete o desconheci- mento da vida humana, da sua na- tureza, dos seus atributos, da cons- ciência do homem, do raciocínio, da vontade, da moralidade, do seu livre-arbítrio e de outras qualidades que lhe são peculiares. Os materialistas, ateístas, incré- dulos, transitoriamente incapacita- dos de conceber e perceber a alma, confundem a realidade com a fic- ção. Intelectual e sentimentalmente afastados do Criador, imaginam que é a matéria tangível e grosseira que formula e desenvolve as idéias e é a fonte inteligente. Embora o pro- gresso científico esclareça que o cor- po humano seja constituído de cer- ca de cem trilhões de células, os in- crédulos não perceberam ainda as sutilezas da alma, a origem da inte- ligência e da razão. Ignoram que a memória do ser humano ultrapassa os limites das células cerebrais, não desaparece com a morte do corpo físico,mas acompanha a alma imor- tal. A carreira do tempo encarregar- -se-á de fazer com que todas as pes- soas alcancem a verdade, pelos desígnios de Deus. Quando os princípios da doutri- na cristã, deixados nos sítios da Palestina, puderem ser absorvidos e praticados, e a Humanidade conse- guir chegar às verdades eternas, o comportamento humano modifi- car-se-á completamente e haverá paz na Terra. A compreensão da vi- da futura facultará à criatura ter es- perança de poder encontrar a ver- dadeira felicidade pela prática do bem. O acesso à verdade abre à cria- tura a possibilidade de usufruir uma vida melhor.As leis divinas são sábias, justas e amorosas, mas nin- guém as transgride sem se ferir. Todavia, não basta abster-se de infringi-las, é necessário praticar o bem. Elas se cumprem independen- temente da nossa ignorância ou da nossa compreensão. O ser humano não pode cami- nhar na senda evolutiva sem fé, sob pena de não progredir. Cum- pre assinalar, entretanto, que a fé do adepto espírita é robusta por- que tem base na razão, na certeza absoluta da existência de Deus e do espírito. A prova dessa existên- cia não depende da instrumenta- ção e dos laboratórios terrenos,por- quanto está impressa em tudo que existe em toda parte do Universo. É manifesta na obra da Criação: na Natureza, nas leis que regem a vida e as coisas. É, portanto, crença cons- ciente e inabalável. A Doutrina Espírita lembra que as sucessivas gerações sempre se empenharam na busca da felicida- de. Jesus, em suas sublimes e magis- trais lições, ensina que a felicidade está ao alcance de cada um de nós pela prática do bem, do exercício da caridade, do amor a Deus, ao nosso próximo e a nós mesmos. Realidade e ficção O WASHINGTON BORGES DE SOUZA reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 11
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    Reformador: Como estáse desen- volvendo o Movimento Espírita no Paraguai? Gloria: Há um crescimento do Mo- vimento Espírita paraguaio muito mais rápido do que imaginávamos, principalmente porque há uma grande aceitação do que tem si- do divulgado, assim como estí- mulo ao estudo. Em cada Centro Espírita têm-se formado grupos de estudo sobre Doutrina Espíri- ta (ESDE), sobre Mediunidade (ESME), preparação de trabalhado- res, de integração, de atendimen- to fraterno a adultos, crianças e jo- vens, e já estamos observando os re- sultados com a preparação de um bom número de jovens trabalha- dores; assim, está se solidificando o Movimento Espírita paraguaio, com uma boa base doutrinária. Reformador: E a formação da Fe- deração Espírita Paraguaia? Gloria: O Movimiento Espírita Pa- raguayo conta com apenas três anos de fundação e estamos trabalhan- do com o objetivo de formar a Federação Espírita do Paraguai. É um trabalho de equipe, co- mo numa secretaria geral, de maneira que atuamos todos jun- tos pela Federação. Reformador: O Movimento Espíri- ta se concentra na Capital ou se es- palha pelo interior do País? Gloria: A maioria dos centros es- píritas se concentra em Assunção, sendo que dois fora do centro ur- bano e os outros estão nas proxi- midades. Reformador: Qual idioma é mais utilizado nos centros espíritas? Gloria: Empregamos dois idiomas, porque no Paraguai pensamos em guarani e nos expressamos em es- panhol. Portanto, para facilitar as interpretações e a divulgação, e co- mo procuramos sempre chegar ao coração das pessoas, utilizamos muito a expressiva língua que é o guarani. Reformador: No Movimento Espí- rita paraguaio há algum desenvol- Fomentar a paz através do conhecimento e do amorGloria Avalos de Ynsfrán, dirigente espírita paraguaia, foi entrevistada durante a 11ª Reunião do Conselho Espírita Internacional (CEI), em Assunção, quando abordou o desenvolvimento do Movimento Espírita paraguaio GLORIA AVALOS DE YNSFRÁNEntrevista reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 12
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    vimento mais intensona área da infância e juventude? Gloria: No momento damos ênfa- se ao ESDE e ao ESME porque a maioria dos freqüentadores se en- contra numa faixa de 20 a 40 anos. Estamos dando início a trabalho de evangelização da infância, e já temos um grupo mais sólido de jovens espíritas. Reformador: Há edições de livros espíritas no Paraguai? Gloria: Há uma empresa de pro- priedade de espíritas que tem cola- borado muito na impressão de ma- terial para difusão espírita e, mais recentemente, de livros. Há sete anos vem sendo editada a revista La Luz del Porvenir, que reúne ex- celentes matérias, e é um meio de divulgação em nosso país, ofere- cendo também informações sobre o nosso Movimento Espírita. Reformador: Qual a motivação pa- ra adotarem o tema “Família, Vida e Paz” na Semana Espírita que se desenvolveu antes do início da Reu- nião do CEI? Gloria: É o terceiro ano que pro- movemos a “Semana Espírita do Movimento Paraguaio”. Escolhe- mos o tema porque entendemos que o futuro da sociedade depende da estrutura da família, que hoje se encontra fragilizada. Há neces- sidade de uma família com base religiosa, capaz de se sustentar com fé e conseguir a paz. Quando tivemos contato com o material da Federação Espírita Brasileira foi maravilhoso para nós. Verificamos que muitas famílias se beneficia- ram com os temas abordados, inclusive os relacionados com a defesa da vida: aborto, suicídio, eutanásia. Se a família se desenvol- ve em paz, teremos mais paz nas ruas e na sociedade. Reformador: No Paraguai há algum preconceito contra o Espiritismo? Gloria: Sim, por falta de conheci- mento sobre o que é o Espiritis- mo e por confundi-lo com práti- cas mediúnicas não-espíritas. Mas nunca tivemos problemas e há li- berdade de culto no País. Já reali- zamos encontros, seminários e congressos sem maiores dificulda- des. Temos sido bem recebidos onde procuramos algum contato com vistas às realizações espíritas. Reformador: Como conheceu o Es- piritismo? Gloria: Conheci o Espiritismo no Paraguai, em função de alguns companheiros que chegaram do Brasil e após recebermos convite para participar de uma reunião em São Paulo, no Brasil. Há uns quin- ze anos se estabelece um intercâm- bio muito interessante e que tem sido bastante produtivo. Reformador: Vocês mantêm rela- cionamento com outros países? Gloria: Como o grupo de trabalha- dores ainda é pequeno e as neces- sidades internas de atuação são grandes, mantemos pouco relacio- namento com outros países. Par- ticipamos do Conselho Espírita Internacional e temos muitos con- tatos com o Movimento Espírita do Brasil. Reformador: Como analisa as ati- vidades do CEI? Gloria: As atividades do CEI têm contribuído para dar uma estrutu- ra de segurança e apoio aos vários países. Nestes anos de existência do CEI tem sido maravilhoso o in- tercâmbio que se estabelece. Nesta Reunião do CEI, em Assunção, sentimos madureza em todos os participantes, tranqüilidade e pro- fundo respeito a todos. Creio que o CEI está cumprindo os objetivos para os quais se formou. Está con- tribuindo muito para a difusão da Doutrina Espírita. Reformador: Uma mensagem final. Gloria: Para o homem alcançar a verdadeira felicidade que tanto busca, é indispensável conhecer-se como ser espiritual, sabendo de onde vem e para onde vai; fomen- tar a paz dentro de cada um atra- vés do conhecimento e do amor; encontrar no próximo o próximo mais próximo... 13Outubro 2006 • Reformador 337711 As atividades do CEI têm contribuído para dar uma estrutura de segurança e apoio aos vários países reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 13
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    studando a vidaespiritual além do túmulo, Allan Kardec, o eminente Codificador da Nova Revelação, apresenta em O Livro dos Espíritos algumas definições que será oportuno examinar, a fim de que nós outros, tarefeiros encarnados e desen- carnados do Espiritismo, estejamos vigilantes nas res- ponsabilidades que o Plano Superior nos conferiu. Na pergunta 226, indaga o apóstolo da Codifica- ção: –“Poder-se-á dizer que são errantes todos os Espí- ritos que não estão encarnados?” E os seus elevados mentores responderam: – “Sim, com relação aos que devam reencarnar. Não são errantes, porém, os Espíritos puros, os que chegaram à perfeição. Esses se encontram em seu es- tado definitivo.” Segundo é fácil deduzir, “Espíritos errantes”, na elucidação, não significa Espíritos vagabundos, deso- cupados, inertes, mas sim sem residência fixa, qual ocorre com todos nós, de vez que, de conformidade com a palavra dos instrutores de Allan Kardec, so- mente não são considerados “errantes” aqueles “que chegaram à perfeição”, da qual, todos nós, a genera- lidade das criaturas terrestres, ainda nos achamos imensamente distantes. Na pergunta 227, inquire o grande servidor da Verdade: –“De que modo se instruem os Espíritos errantes? Certo não o fazem do mesmo modo que nós ou- tros?” E o esclarecimento veio, precioso: – “Estudam e procuram meios de elevar-se. Vêem, observam o que ocorre nos lugares aonde vão; ou- vem os discursos dos homens doutos e os conselhos dos Espíritos mais elevados e tudo isso lhes incute idéias que antes não tinham.” A resposta é segura. Os “Espíritos errantes”, isto é, nós outros os viajores em demanda da perfeição suprema, inclusive a maioria das almas reencarnadas que permanecem na curta romagem do berço ao túmulo e que ainda voltarão muitas vezes ao educan- dário da carne, encontramos oportunidades de estu- do e meios de elevação. Ora, quem diz “estudo e elevação” refere-se a es- forço e trabalho, disciplina e progresso. Assim é que tanto na experiência física quanto na experiência espiritual, propriamente consideradas, nós, os viajores da senda evolutiva, não nos achamos órfãos da organização que nos define os méritos e deméritos. Compreender-se-á, então, logicamente, que civili- zação e autoridade, agrupamento e ordem, escola e dignificação, hospital e penitenciária, embora dife- renciados na expressão, escalonam-se e vigem para nós, os milhões de encarnados e desencarnados que vivemos ainda tão longe do acrisolamento absoluto. Na pergunta 229, interroga o Codificador: – “Por que, deixando a Terra, não deixam aí os Espíritos todas as más paixões, uma vez que lhes reconhecem os inconvenientes?” E os orientadores aduziram: – “Vês nesse mundo pessoas excessivamente inve- josas. Imaginas que, mal o deixam, perdem esse defei- to? Acompanha os que da Terra partem, sobretudo os que alimentaram paixões bem acentuadas, uma espé- cie de atmosfera que os envolve, conservando-lhes o que têm de mau, por não se achar o Espírito inteira- mente desprendido da matéria. Só por momentos ele entrevê a verdade, que assim lhe aparece como que para mostrar-lhe o bom caminho.” Na trilha de Allan Kardec 14 Reformador • Outubro 2006337722 E Presença de Chico Xavier reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 14
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    A elucidação nãodeixa dúvidas. Carreamos para além do sepulcro a sombra das ações deploráveis em que nos envolvemos, por efeito das paixões que acalentamos no próprio ser. Somos prisioneiros das imagens infelizes a que nos afeiçoamos, quando na extensão do mal aos ou- tros e a nós mesmos, imagens essas que se imobi- lizam, temporariamente, em nossa vida mental, de- tendo-nos nas grades do remorso e do arrependi- mento, até que atendamos à expiação necessária. Em tais condições, a visão das verdades divinas surge em nossa consciência, tão-somente à maneira do relâmpago nas trevas que nós mesmos criamos, descerrando-nos o caminho regenerador que nos compete aceitar e seguir. A morte física, como é racional, não nos subtrai, de improviso, dos íntimos refolhos do espírito, as conse- qüências dos erros nefastos a que nos precipitamos, de vez que os pensamentos oriundos das faltas cometidas nos entrançam a alma às imposições do resgate. Na pergunta 230, consulta o notável missionário. – “Na erraticidade, o Espírito progride?” E os Benfeitores informam: – “Pode melhorar-se muito, tais sejam a vontade e o desejo que tenha de consegui-lo. Todavia, na exis- tência corporal é que põe em prática as idéias que adquiriu.” Outra vez reconhecemos os veneráveis mensagei- ros interessados em destacar a necessidade de servi- ço e educação, além-túmulo, aclarando, ainda, que todos nós, “os viajores da evolução”, despendemos muitos séculos adquirindo ensinamentos na Vida Espiritual e aplicando-os na esfera física, de modo a assimilarmos com segurança, a golpes de trabalho no campo do tempo, os valores da perfeição. Ainda na pergunta 232, Kardec argúi, meticuloso: – “Podem os Espíritos errantes ir a todos os mun- dos?” E a explicação veio clara: –“Conforme. Pelo simples fato de haver deixado o corpo, o Espírito não se acha completamente des- prendido da matéria e continua a pertencer ao mundo onde acabou de viver, ou a outro do mesmo grau, a menos que, durante a vida, se tenha elevado, o que, aliás, constitui o objetivo para que devem ten- der seus esforços, pois, do contrário, não se aperfei- çoaria. Pode, no entanto, ir a alguns mundos supe- riores, mas na qualidade de estrangeiro. A bem dizer, consegue apenas entrevê-los, donde lhe nasce o dese- jo de melhorar-se, para ser digno da felicidade de que gozam os que os habitam, para ser digno tam- bém de habitá-los mais tarde.” A resposta é tão brilhantemente positiva que não requisita comentários. Vale, todavia, dizer que, muitas vezes, em desen- carnando a alma do veículo de sangue e ossos, não se liberta mentalmente da experiência a que ainda se prende na vida terrestre, em torno da qual gravita por tempo indeterminado. Ninguém acredite, pois, que o túmulo seja de- pósito de asas destinadas à elevação de quem não procurou elevar-se durante a passagem pelo seio da Humanidade. Ascensão pede leveza. Triunfo verdadeiro reclama heroísmo e glória. Sublimação exige amor e sabedoria. Felicidade não dispensa equilíbrio. O preço da perfeição é trabalho contínuo de en- grandecimento da alma. Ninguém espere, assim, depois da morte, repouso e bem-aventuranças que não soube conquistar por si mesmo. Serviço e hierarquia, aprendizado e aprimoramen- to são imperativos a que não conseguiremos fugir, tanto do berço para o túmulo quanto do túmulo para o berço, se desejamos marchar para a Vida Superior... E enunciando semelhante realidade, não estamos fazendo mais que acompanhar a trilha de Allan Kar- dec, nas lições que o apóstolo admirável entesourou, em nosso benefício, há cem anos. (Página recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier.) Fonte: Reformador, abril de 1957, p. 103-104. 15Outubro 2006 • Reformador 337733 Pelo Espírito André Luiz reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 15
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    16 Reformador •Outubro 2006337744 o longo de sua luminosa trajetória, Chico Xavier ex- perimentou inúmeros pro- blemas de saúde, sem permitir que os males físicos o inibissem. Indagado, certa feita, se em al- gum momento sentira impaciên- cia ou revolta, explicou: – Não sofro tanto assim, por- que a ciência médica está bastante avançada. Tenho, por exemplo, um processo de catarata inoperável e há décadas faço a medicação em meus olhos,com muita calma,por- que considero, conforme me ensi- nou Emmanuel, que a possibilida- de de ver já é um privilégio. Notável postura, não é mesmo, leitor amigo? Um convite à refle- xão em torno de males que não nos afligiriam tanto, se não os ima- ginássemos capazes de paralisar nossas iniciativas e descolorir nos- sa existência. A forma como o Mentor espiri- tual passou-lhe essa convicção é bastante pitoresca. Certa feita, lutando por debelar um processo hemorrágico no olho direito, Chico deixou de partici- par dos trabalhos mediúnicos por dois dias. Emmanuel veio vê-lo. – Por que não está traba- lhando? E Chico, ensaiando agasta- mento: – Como o senhor sabe, estou com um olho doente. O guia não deixou ba- rato: – E o outro, o que es- tá fazendo? Ter dois olhos é luxo! Chico con- clui, após re- latar o epi- sódio: – Poder trabalhar, não obstan- te a doença, já é quase saúde. Diariamente, milhões de brasi- leiros justificam sua ausência no serviço, apresentando atestados médicos, a informar que estive- ram impossibilitados de exercer suas funções. Há algo do chamado jeitinho brasileiro em muitas dessas iniciati- vas,com as quais se pretende matar o serviço, em favor de alguns dias no dolce far niente dos italianos. Em relação às atividades espiri- tuais e filantrópicas, no Centro Espírita, acontece com freqüência maior, lamentavelmente. Isso porque não há necessidade de atestado. Geralmente os falto- sos nem se dão ao trabalho de avi- sar, ocasionando sérios embara- ços em determinados setores. Particularmente na atividade mediúnica, tal comportamento é altamente danoso, porquanto, não raro, um planejamento cuidado- samente elaborado pelos Benfei- tores espirituais é prejudicado pe- la ausência de um ou mais partici- pantes. Deixam de comparecer por mo- tivos triviais: Saúde é trabalhar A RICHARD SIMONETTI reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 16
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    Chuva. Frio. Cansaço. Desinteresse. Sono. Visita. Mal-estar. Com relação aeste último mo- tivo, não se dão conta os médiuns de que, não raro, uma enxaqueca, uma dor, uma tensão nervosa, um ânimo caído, decorrem da presen- ça da entidade que deverá comu- nicar-se por seu intermédio. Os Mentores espirituais anteci- pam a ligação, a fim de que ocorra melhor familiaridade com o Espí- rito, favorecendo a manifestação. O médium, que deveria saber disso, deixa de comparecer, por estar doente. Em qualquer situação, no dia- -a-dia, oportuno lembrar que o trabalho é o melhor remédio para nossos males. Como o próprio Chico ensi- na, trabalhar, mesmo estando doente, já é um começo de recu- peração. Espiritualmente, haverá de- monstração mais exuberante de saúde do que alguém disposto a servir, mesmo estando doente? 17Outubro 2006 • Reformador 337755 O Mestre e o Apóstolo Luminosa, a coerência entre o Cristo e o Após- tolo que lhe restaurou a palavra. Jesus, o Mestre. Kardec, o Professor. Jesus refere-se a Deus, junto da fé sem obras. Kardec fala de Deus, rente às obras sem fé. Jesus é combatido, desde a primeira hora do Evangelho, pelos que se acomodam na sombra. Kardec é impugnado desde o primeiro dia do Espiritismo, pelos que fogem da luz. Jesus caminha sem convenções. Kardec age sem preconceitos. Jesus exige coragem de atitudes. Kardec reclama independência mental. Jesus convida ao amor. Kardec impele à caridade. Jesus consola a multidão. Kardec esclarece o povo. Jesus acorda o sentimento. Kardec desperta a razão. Jesus constrói. Kardec consolida. Jesus revela. Kardec descortina. Jesus propõe. Kardec expõe. Jesus lança as bases do Cristianismo, entre fe- nômenos mediúnicos. Kardec recebe os princípios da Doutrina Espí- rita, através da mediunidade. Jesus afirma que é preciso nascer de novo. Kardec explica a reencarnação. Jesus reporta-se a outras moradas. Kardec menciona outros mundos. Jesus espera que a verdade emancipe os ho- mens; ensina que a justiça atribui a cada um pelas próprias obras e anuncia que o Criador será ado- rado, na Terra, em espírito. Kardec esculpe na consciência as leis do Uni- verso. Em suma, diante do acesso aos mais altos va- lores da vida, Jesus e Kardec estão perfeitamente conjugados pela Sabedoria Divina. Jesus, a porta. Kardec, a chave. Emmanuel Fonte: XAVIER, Francisco C.; VIEIRA Waldo Opinião espírita. Pelos Espíritos Emmanuel e André Luiz. 5. ed. Uberaba (MG): CEC, 1982. p. 23-25. reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 17
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    18 Reformador •Outubro 2006337766 a arquitetura antiga, quan- do as construções eram feitas com pedras, uma das pedras era cuidadosamente sele- cionada na pedreira, para ser ta- lhada no tamanho e formato cor- retos, a fim de receber o maior peso do edifício e sustentá-lo – era a pedra angular. Encontramos es- sa expressão usada de forma me- tafórica em alguns textos, com o objetivo de transmitir um ensi- namento que nos parece extre- mamente útil. No Novo Testamento (Pedro, 2:4-8): “Caríssimos: Aproximai-vos do Senhor, que é a pedra viva, rejeita- da pelos homens, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus. E vós mesmos, como pedras vivas, entrai na construção des- te templo espiritual, para consti- tuirdes um sacerdócio santo, des- tinado a oferecer sacrifícios es- pirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo. Por isso se lê na Escritura:‘Vou pôr em Sião uma pedra angular, escolhida e preciosa; e quem nela puser a sua confiança não será confundido’. Honra, portanto, a vós que acreditais. Para os incrédulos, po- rém,‘a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angu- lar’, ‘pedra de tropeço e pedra de escândalo’. Tropeçaram por não acreditarem na palavra, à qual foram destinados”. Observa-se a idéia de cons- trução do templo como metáfo- ra, utilizada com o objetivo de trabalhar o conceito da espiri- tualização do homem. O edifício que está sendo construído é o templo espiritual, os ouvintes são convidados a se tornarem pe- dras vivas da edificação, a fim de constituírem o corpo sacerdotal, isto é, tornarem-se propagado- res da nova doutrina, habilita- dos a oferecer sacrifícios espiri- tuais verdadeiramente agradáveis a Deus. Pedro destaca o conteú- do da profecia antiga, que men- cionava uma pedra que seria rejeitada, mas que, aos olhos do Senhor, era a pedra angular des- se edifício. A referência é clara a Jesus. Os contemporâneos dele, com raras exceções, não conse- guiram alcançar o entendimento de sua Doutrina, nem visualiza- ram a importância de sua pre- sença na Terra, mas seus ensinos são a essência do edifício de es- piritualização, cujas bases foram lançadas nesses tempos antigos e que ainda estão em construção sob as vistas amorosas do Pai. Ca- da um que alcance a compreen- são disso é uma pedra viva na edificação sublime, mas a pedra angular é Jesus. Nas obras básicas do Espiritis- mo, a expressão é utilizada tam- bém como metáfora, encerrando preciosos ensinamentos: 1. “[...] o que Jesus colocou por pedra angular do seu edifí- cio e como condição expressa da salvação: a caridade, a fraterni- dade e o amor do próximo [...]” O Evangelho segundo o Espiritis- mo, cap. XXIII, item 15. (Desta- que nosso.) 2. “[...] sua doutrina tem por base principal, por pedra angu- lar, a lei de amor e de caridade.” O Evangelho segundo o Espi- ritismo, cap. XIV, item 6.(Desta- que nosso.) Nos dois textos, Kardec utiliza a expressão para deixar claro que a essência do ensino de Jesus é a Pedra angular N DALVA SILVA SOUZA reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 18
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    caridade, o amorao próximo, fundamento desrespeitado pelos que, dizendo-se cristãos, armam- -se contra seus semelhantes. 3.“A parte mais importante da revelação do Cristo, no sentido de fonte primária, de pedra an- gular de toda a sua doutrina, é o ponto de vista inteiramente no- vo sob que considera ele a Divin- dade.” A Gênese, cap. I, item 23. (Destaque nosso.) Aqui o Codificador situa o conceito de Divindade da men- sagem do Evangelho como base para uma nova filosofia, cuja con- seqüência é o desenvolvimento da atitude correta das criaturas umas para com as outras. Con- cebendo Deus como Jesus ensi- nou, sabemos que Ele é Pai de todos – essa é a pedra angular de uma nova edificação, que colo- ca por terra o conceito antigo de um Deus parcial, que abençoava um povo para que prevalecesse sobre o outro. 4. “Não lestes jamais isto nas Escrituras: A pedra que os edifi- cadores rejeitaram se tornou a principal pedra do ângulo? Foi o que o Senhor fez e nossos olhos o vêem com admiração. – Por is- so eu vos declaro que o reino de Deus vos será tirado e será dado a um povo que dele tirará frutos. – Aquele que se deixar cair sobre essa pedra se despedaçará e ela esmagará aquele sobre quem cair. Tendo ouvido de Jesus essas palavras, os príncipes dos sacer- dotes reconheceram que era de- les que o mesmo Jesus falava.” A Gênese, cap. XVII, item 27. Nesse caso, a análise incide so- bre o conteúdo da profecia que mencionava os atropelos dos que haveriam de rejeitar a pedra es- colhida, que se tornaria pedra de escândalo e de tropeço para eles mesmos, e a possibilidade que tem a equipe espiritual de situar a mensagem de Jesus em outros contextos mais favoráveis, quan- do aqueles que foram chamados não se revelarem em condições de divulgá-la adequadamente. As conclusões a que podemos chegar com esse estudo são bem claras: Jesus é a pedra angular do edifício da espiritualização da Hu- manidade e quem quiser ser pe- dra viva nesse templo em cons- trução,como conclama Pedro,pre- cisa aproximar-se do Senhor, isto é, evangelizar-se, seguir com o Mestre. O Cristianismo, por sua vez, tem como pedra angular um no- vo conceito de Deus, que gera o imperativo do amor entre as criaturas. Os cristãos precisarão vivenciar e ensinar isso, para que se tornem as pedras vivas do edi- fício, mas sabemos que, ao longo dos séculos, o movimento orga- nizado pelos homens distanciou- -se de Jesus e, por isso, o Espiri- tismo veio na época prevista re- lembrar esses ensinos e acrescen- tar tudo o mais que, naquele tem- 19Outubro 2006 • Reformador 337777 reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 19
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    po, ainda nãopoderíamos supor- tar, mas que agora, com o avan- ço das ciências, já nos habilita- mos a apreender. Somos nós, es- píritas, nos tempos modernos, chamados ao trabalho de colocar em prática o que Jesus propôs. Mas, talvez o ensinamento mais interessante, no momento, para nós espíritas, quando tratamos desta metáfora, seja o da seguin- te passagem: “Tendo Jesus chegado às re- giões de Cesaréia de Filipe, inter- rogou os seus discípulos, dizen- do: Quem dizem os homens ser o Filho do Homem? Responderam eles: Uns dizem que é João, o Batista; outros, Elias; outros, Jeremias, ou algum dos profetas. Mas vós, perguntou-lhes Jesus, quem dizeis que eu sou? Respondeu-lhe Simão Pedro: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Disse-lhe Jesus: Bem-aventura- do és tu, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to re- velou, mas meu Pai, que está nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edifi- carei a minha igreja [...].” (Ma- teus, 16:13-18.) O Mestre confirma a infor- mação dada por Pedro, deixan- do claro que Ele não era a reen- carnação de nenhum profeta an- tigo. Hoje, à luz do Espiritismo, sabemos que a evolução de Jesus não se processou na Terra, pois, quando nosso planeta se consti- tuiu, Ele já era um Espírito puro. Ao confirmar a resposta de Pe- dro, Jesus acrescentou que não haviam sido a carne e o sangue que propiciaram ao apóstolo tal conhecimento, mas o Pai que es- tá nos céus. Isto é, a informação não lhe veio das possibilidades racionais do cérebro físico, mas da interação de Pedro com uma dimensão superior. Está explíci- ta aí a origem mediúnica da in- formação veiculada pelo apósto- lo. E o ensino que mais nos inte- ressa vem no final do episódio quando Jesus acrescenta: “Pois eu também te digo que tu és Pe- dro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”. Jesus usa, nesta passagem, me- taforicamente, o conceito de cons- trução, referindo-se à espiritua- lização do ser humano, como era habitual no contexto cultural da- quela época. Sua igreja, toman- do-se a etimologia do termo, de- ve ser entendida, não como orga- nização religiosa formal, ou co- mo templo de pedra, mas como assembléia, isto é, movimento de pessoas que haveria de dar pros- seguimento ao trabalho que Ele iniciou. Esse movimento teria, en- tão, como pedra angular a me- diunidade bem utilizada, isto é, a possibilidade de entrar em con- tato com as esferas mais elevadas do mundo espiritual, a fim de tra- zer de lá o que seja fundamental para a edificação dos seres huma- nos, exatamente o que Pedro re- presentou naquele momento, não havendo, pois, qualquer possibi- lidade de se identificar aí a insti- tuição pelo Cristo de uma hie- rarquia sacerdotal. Chegamos, enfim, à conclusão que nos interessa fixar. A Doutri- na Espírita está na Terra para a edificação moral do homem, pe- la retomada dos ensinos de Jesus, apoiando-se na mediunidade bem utilizada, conforme orienta a Codificação. Essa a pedra an- gular do edifício espírita. A rejei- ção dessa pedra angular também tem sido motivo de tropeço para mais de uma instituição em nos- so Movimento, ao longo do tem- po. Estudar a mediunidade, en- tender seus fundamentos e apli- car-se à sua prática, conforme as orientações claras e precisas de O Livro dos Médiuns, é o que nos cabe fazer, para manter as luzes espirituais clareando o roteiro difícil destes tempos de transição pelo qual passamos. Sem isso, também para nós, a pedra an- gular será pedra de escândalo e tropeço, gerando mais e mais obstáculos a que possamos nos tornar, verdadeiramente, as pe- dras vivas do templo em cons- trução, para cujo trabalho fomos convocados. 20 Reformador • Outubro 2006337788 A Doutrina Espírita está na Terra para a edificação moral do homem reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 20
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    “Disse-lhe Jesus: Maria! –Ela, voltando-se, disse-lhe: Mestre!” (JOÃO, 20:16.) Madalena os fatos mais significativos do Evangelho, a primeira visita de Jesus, na ressurreição, é daqueles que convidam à meditação substanciosa e acurada. Por que razões profundas deixaria o Divino Mestre tantas figuras mais próximas de sua vida para surgir aos olhos de Madalena, em primeiro lugar? Somos naturalmente compelidos a indagar por que não teria aparecido, antes, ao coração abnegado e amoroso que lhe servira de Mãe ou aos discípulos amados... Entretanto, o gesto de Jesus é profundamente simbólico em sua essência divina. Dentre os vultos da Boa Nova, ninguém fez tanta violência a si mesmo, para seguir o Salvador, como a inesquecível obsidiada de Magdala. Nem mesmo Paulo de Tarso faria tanto, mais tarde, porque a consciência do apóstolo dos gentios era apaixonada pela Lei, mas não pelos vícios. Madalena, porém, conhecera o fundo amargo dos hábitos difíceis de serem extirpados, amolecera-se ao contato de enti- dades perversas, permanecia “morta” nas sensações que operam a paralisia da alma; entretanto, bastou o encontro com o Cristo para abandonar tudo e seguir-lhe os passos, fiel até ao fim, nos atos de negação de si própria e na firme resolução de tomar a cruz que lhe competia no calvário redentor de sua existência angustiosa. É compreensível que muitos estudantes investiguem a razão pela qual não apare- ceu o Mestre, primeiramente, a Pedro ou a João, à sua Mãe ou aos amigos. Todavia, é igualmente razoável reconhecermos que, com o seu gesto inesquecível, Jesus rati- ficou a lição de que a sua doutrina será, para todos os aprendizes e seguidores, o código de ouro das vidas transformadas para a glória do bem. E ninguém, como Maria de Magdala, houvera transformado a sua, à luz do Evangelho redentor. Fonte: XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, verdade e vida. 26. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Cap. 92, p. 199-200. 21Outubro 2006 • Reformador 337799 Esflorando o Evangelho Pelo Espírito Emmanuel D reformador outubro 2006 - a.qxp 9/10/2006 11:14 Page 21
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    Espiritismo é reconheci- dopelos seus adeptos co- mo sendo o Consolador que Jesus prometera enviar aos homens. Baseando-se no que o Mestre disse, segundo consta no Evange- lho de João, (capítulo 14,nos versí- culos de 15 a 17 e 26), cujo texto é o seguinte: “Se me amais, guardai os meus mandamentos.E eu rogarei ao Pai,e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conhe- ceis, porque habita convosco, e esta- rá em vós. Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas,e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito”. O Espiritismo, como se sabe, é uma doutrina filosófica, cujos fun- damentos estão centrados em fatos concretos e leis naturais, ressaltan- do disso o seu aspecto científico. No entanto, essa doutrina, mo- dificando profundamente o pensa- mento do homem sobre a sua na- tureza, abrange todas as questões sociais, e, conseqüentemente, as questões religiosas. Emmanuel, o sábio mentor de Chico Xavier, em seu esclarecedor livro O Consolador, relata-nos que o Espiritismo possui um tríplice aspecto: o de ser, ao mesmo tem- po, Ciência, Filosofia e Religião. Vejamos este trecho: “– Podemos tomar o Espiritis- mo, simbolizado desse modo, co- mo um triângulo de forças espiri- tuais. A Ciência e a Filosofia vincu- lam à Terra essa figura simbólica, porém, a Religião é o ângulo divi- no que a liga ao céu.[...]”1 Equivocar-nos-íamos enorme- mente, se pensássemos que a tare- fa do Mestre estivesse limitada àqueles tempos da Palestina. Ele está atento todo o tempo, em relação aos destinos humanos, e sabe que não seria fácil para os homens o caminho da evolução espiritual, por isso prometeu que enviaria mais tarde um Consola- dor, como vimos anteriormente, no Evangelho de João, para re- lembrar o que Ele dissera e nos ensinar to- das as coisas que não po- deriamseren- tendidas na- quela época. Em outras pa- lavras: futura- mente, Ele daria ao homem um Consolador que prometera outro- ra, o qual se tornaria a Terceira Revelação que não é outra coisa senão a Doutrina codificada por Allan Kardec, pois ela cumpre aquilo que o Mestre Nazareno pro- metera. Ou seja: o conhecimento que leva o homem a saber de on- de vem, para onde vai e porque está neste planeta; faz com que a dureza das provações se torne me- nos difícil, pois acende em cada um a luz da esperança, além de despertar o sentimento de reli- giosidade natural que o leva a dar mais importância às obras, do que à fé. O Espiritismo – O Consolador prometido 22 Reformador • Outubro 2006338800 Livro O Consolador, psicografado por Francisco C. Xavier por JesusHUGO ALVARENGA NOVAES reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 22
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    Uma das principaiscaracterísti- cas do Espiritismo é que ele nos aproxima de Deus,assim como da- quele que é o seu maior mensagei- ro aqui na Terra – Jesus, o Cristo. A Doutrina Espírita cumpre a promessa de Jesus, ensinando aos homens a observância das leis mo- rais, fazendo-os compreender o que o Cristo havia dito por pará- bolas. O Mestre Nazareno disse-nos no Evangelho, segundo o apóstolo Mateus (11:15): “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”. O Espiritismo vem nos abrir os olhos e ouvidos, porque fala tudo clara e logicamente. Levanta-nos o véu que há sobre certos mistérios. Consola a todos aqueles que so- frem, dando-lhes uma causa justa em relação àquilo que estão pas- sando no momento. Se Jesus não falou tudo que teria para dizer, é que deveria deixar cer- tas verdades na sombra até que os homens estivessem prontos para compreendê-las. Isto nos fica claro na seguinte passagem do Evangelho segundo João (16:12): “Ainda tenho muito que vos di- zer, mas vós não o podeis suportar agora”. Para nós, esta é uma prova incontestável da necessidade de aguardar a evolução da Humani- dade, a fim de que esta pudes- se suportar certos conteúdos que não seriam compreendidos na época do Cristo. Conforme Ele mesmo declarou, seus ensinamentos estavam incom- pletos; e mais ainda, anunciava a vinda daquele que os deveria com- pletar, dizendo-nos também as seguintes palavras no Evangelho segundo Marcos (13:31): “Passará o Céu e a Terra, mas as minhas palavras não passarão”. Alguns pensam que é uma pre- tensão dos que professam o Espi- ritismo conferir ao mesmo o títu- lo de Consolador. No entanto, ele nos fornece as respostas que falam aos nossos corações, consolando- -nos e preenchendo as lacunas dei- xadas pela cultura humana. Se o Espiritismo cumpre tudo aquilo que Jesus nos prometeu,e se, além disso, dizendo-nos de onde viemos, para onde vamos e o que estamos fazendo na Terra, ensinan- do-nos ainda, como devemos viver neste planeta, a Doutrina codifica- da por Allan Kardec é realmente o Consolador Prometido pelo Cristo. Somente através de uma refor- ma íntima persistente, consecuti- vamente ampla e constante, é que alcançaremos bem-aventuranças maiores tanto na Terra quanto no Céu. Como bem afirmou um Espírito israelita, em Mulhouse, no ano de 1861: “Moisés abriu o caminho; Jesus continuou a obra; o Espiritismo a concluirá”.2 Referências: 1 XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 26. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. “Definição”, p. 19. 2 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 125. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Cap. I, item 9, p. 63. 23Outubro 2006 • Reformador 338811 reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 23
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    24 Reformador •Outubro 2006338822 História confirma que há dez mil anos, no Egito, já era corrente o intercâmbio com os desencarnados. Assírios e caldeus em épocas remotíssimas praticavam a desobsessão. Na Pér- sia (atual Irã) do século XIV antes de Cristo, admitia-se que as almas dos mortos eram protetoras dos vivos. Foi naquele ambiente que Zoroastro se comunicou com ele- vados mensageiros espirituais e concebeu o livro sagrado do mas- deísmo, o Zend Avesta. Na linha da cultura judaico- -cristã, a Bíblia, com inúmeros re- latos de fenômenos mediúnicos, deixa patente que o intercâmbio entre o mundo visível e o invisível foi sempre uma prática natural, demonstrando ser a mediunidade um poderoso instrumento a ser- viço do progresso humano. Por ela, os irmãos do outro lado da vi- da atendem caridosamente o nos- so chamado ou vêm espontanea- mente em nosso socorro, ofere- cendo-nos orientação, conselho, instrução e consolação. Não pou- cas vezes, por solidariedade, ad- vertem-nos quanto aos nossos atos e propõem correções em nossos projetos de vida, na esperança de melhorar o mundo para o qual re- tornarão. Durante os três primeiros sécu- los de nossa Era, o uso da mediuni- dade para o intercâmbio com as es- feras espirituais transformou-a em fator propulsor para a divulgação do Cristianismo, quando os após- tolos eram naturalmente orienta- dos pelos Espíritos sobre como agir para mais fielmente servirem à obra do Senhor. Paulo, o apósto- lo dos gentios, chegou mesmo a traçar normas disciplinares para o exercício e correta realização do intercâmbio espiritual. (I Cor., 12 e 14.) Ao missionário Allan Kardec coube, no entanto, estabelecer com mais precisão princípios morais e racionais para o correto uso da me- diunidade, considerando que os Espíritos são as almas dos homens que viveram na Terra e continuam envolvidos conosco, fazendo a nos- sa História. Para tanto, escreveu O Livro dos Médiuns. Nele encontra- mos teorias sobre as manifestações espíritas, instruções e orientações seguras de como entrar em conta- to com o mundo espiritual; alertas sobre suas dificuldades, e os prin- cípios morais que devem nortear essa prática. A partir do Codifica- dor, no âmbito da Doutrina Espí- rita, toda produção mediúnica, se- ja ela científica, filosófica ou reli- giosa, passará pelo crivo da razão, sendo analisada pelo seu conteú- do e não pela forma nem pela sua origem. Esse procedimento evita que os falsos profetas da erratici- dade tomem o lugar dos verdadei- ros arautos do Cristo, na comple- mentação da Terceira Revelação. O grupo espírita que pretenda produzir bons frutos pelo inter- câmbio com os Espíritos deverá tomar sérias precauções no senti- do de minimizar a interferência de mentes inferiores encarnadas e de- sencarnadas na produção mediú- nica final. Em virtude da delicade- za do intercâmbio e com a intenção de cooperar nessa prática tão ne- cessária, resgatemos alguns ensina- mentos dos Mentores espirituais. No que diz respeito aos Espíri- tos comunicantes, alerta-nos Em- manuel: – “[...] a maioria das entidades comunicantes são verdadeiros ho- mens comuns, relativos e falhos, porquanto são almas que conser- vam, às vezes integralmente, o seu corpo somático e cujo habitat é o O necessário e delicado intercâmbio mediúnico A WALDEHIR BEZERRA DE ALMEIDA reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 24
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    próprio orbe quelhes guarda os despojos e as vastas zonas dos es- paços que o cercam, atmosferas do próprio planeta, que poderíamos classificar de colônias terrenas nos planos da erraticidade”.1 Diante disso, há que se ter se- riedade e amor ao bem para que venhamos conseguir as comunica- ções de que somos dignos, da for- ma mais pura possível. Sabemos que não é comum se obter mensa- gens escritas ou faladas de conteú- do inédito dos irmãos que conos- co mourejam nas casas espíritas. Quanto a isso, o Mentor de Chi- co Xavier acrescenta: “Dos motivos expostos, infere- -se que a suposta vulgaridade dos ditados mediúnicos é um fato na- turalíssimo, porque emanam das almas dos próprios homens da Terra, imbuídos de gosto pessoal [...]. Procuram agir no plano físi- co unicamente para demonstração da sobrevivência além da morte, levantando os ânimos enfraqueci- dos, porque dilatam os horizontes da fé e da esperança no futuro, po- rém, jamais serão portadores da palavra suprema do progresso, não só porque a sua sabedoria é igual- mente relativa,como também por- que viriam anular o valor da ini- ciativa pessoal e a insofismável rea- lidade do arbítrio humano.”2 Outro fator significativo que in- terfere no resultado dos trabalhos mediúnicos, sem nenhum desdou- ro para todos que atuamos nas reu- niões onde o intercâmbio se dá, é a nossa interferência mental, cons- ciente ou inconsciente, no processo de comunicação. O Espírito André Luiz, estudando a atuação das on- das mentais, conclui que: “[...] o pensamento, a formular- -se em ondas, age de cérebro a cé- rebro, quanto a corrente de elé- trons de transmissor a receptor, em televisão. Não desconhecemos que todo Espírito é fulcro gerador de vida onde se encontre. E toda espécie de vida começa no impulso mental. Sempre que pensamos, expres- sando o campo íntimo na ideação e na palavra, na atitude e no exem- plo, criamos formas-pensamentos ou imagens-moldes que arrojamos para fora de nós, pela atmosfera psíqui- ca que nos caracteriza a presença. Sobre todos os que nos aceitem o modo de sentir e de ser, cons- ciente ou inconscientemente, atua- mos à maneira do hipnotizador so- bre o hipnotizado, verificando-se o inverso, toda vez que aderimos ao modo de ser e de sentir dos ou- tros”.3 (Grifamos.) Dessas afirmativas, podemos concluir que em um grupo de tra- balho mediúnico todas as mentes presentes estão interagindo entre si, com mais propriedade à daque- le que se coloca como intermediá- rio direto dos Espíritos. Segundo LIMA (2005), a partir da relativi- dade de tudo o que nos envolve, “se estabelece que não há fenôme- no de per si: Vale dizer: todo fenô- meno depende parcialmente do observador e são as condições des- te que determinam as conclusões sobre aquele”. E, mais à frente, ci- ta o eminente cientista John Wheeler que propõe a substitui- ção da palavra observador por par- ticipante nas experimentações de 25Outubro 2006 • Reformador 338833 reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 25
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    qualquer natureza.4 Logo, numa reuniãomediúnica ninguém é simplesmente observador... Essas realidades são trazidas aqui, não para desestimular o con- tato com os Espíritos, mas sim, para que busquemos essa interlo- cução com intento sério e sem a pretensão de resultados acima das nossas condições espirituais; com humildade e seriedade. O contato com os irmãos que nos precede- ram e continuam do “outro lado” e ao “nosso lado”, na luta pela im- plantação da fraternidade no mun- do, é um estímulo para todos nós: alimenta-nos a esperança, fortale- ce-nos o ânimo e encoraja-nos pa- ra a luta de cada dia. Não isolemos os familiares e amigos que nos pre- cederam e que comungam do mes- mo ideal, alegando disciplina e respeito aos “mortos”, ou ainda, que os Espíritos já disseram o que tinham de dizer na Codificação e nas obras complementares... O Codificador não é tão rigo- roso assim e encontra razões bas- tante humanas para nos incenti- var o intercâmbio com os desen- carnados. Diz ele: “A possibilidade de nos pormos em comunicação com os Espíritos é uma dulcíssima consolação, pois que nos proporciona meio de con- versarmos com os nossos parentes e amigos, que deixaram antes de nós a Terra. Pela evocação, aproxima- mo-los de nós, eles vêm colocar-se ao nosso lado,nos ouvem e respon- dem. Cessa assim, por bem dizer, to- da separação entre eles e nós. Auxi- liam-nos com seus conselhos, teste- munham-nos o afeto que nos guar- dam e a alegria que experimentam por nos lembrarmos deles. Para nós, grande satisfação é sabê-los dito- sos, informar-nos, por seu intermé- dio, dos pormenores da nova exis- tência a que passaram e adquirir a certeza de que um dia nos iremos a eles juntar”.5 (Grifamos.) Mas é natural que Allan Kardec, conhe- cendo a delicadeza desse intercâm- bio, estabelecesse condições ideais para esse encontro, as quais aqui apresentamos: • “Perfeita comunhão de vis- tas e de sentimentos; • Cordialidade recíproca en- tre todos os membros; • Ausência de todo sentimen- to contrário à verdadeira ca- ridade cristã; • Um único desejo: o de se instruírem e melhorarem, por meio dos ensinos dos Espíritos [...]; • Exclusão de tudo o que, nas comunicações pedidas aos Espíritos, apenas exprima o desejo de satisfação da curio- sidade; • Recolhimento e silêncio res- peitosos, durante as confa- bulações com os Espíritos; • União de todos os assisten- tes, pelo pensamento [...]; • Concurso dos médiuns da assembléia com isenção de todo sentimento de orgulho, de amor-próprio e de supre- macia e com o só desejo de serem úteis”.6 Atendidos esses requisitos mí- nimos, busquemos o diálogo com os Espíritos. Descubramos na mensagem advinda a sua essên- cia, sem optarmos pelo exagero de tudo creditar ao animismo, des- prezando a alegria e a consolação que o momento nos oferece.O mé- dium interpreta e dá forma ao pensamento do comunicante. A cada um dos presentes compete atribuir-lhe o valor que o seu con- texto íntimo permite, sem exage- ros de racionalidade e com pureza de coração. O momento exige o equilíbrio do coração e da razão. Respeitemos as dificuldades que os Espíritos encontram para trans- mitir suas idéias, as dos médiuns que se tornam alvos de dardos mentais de encarnados e desencar- nados no exercício de seu labor, e agradeçamos aos“mortos”pela ab- negação e esforço em nos atender. O momento é delicado, mas muito necessário a todos que bus- camos apoio para nossa renova- ção. Referências: 1 XAVIER, Francisco Cândido. Emmanuel. Pelo Espírito Emmanuel. 25. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005. Cap. XXVIII, p. 151. 2 Idem, ibidem. p. 151-152. 3 XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Mecanismos da mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. 25. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Cap. 11, “Pensamento e televisão”, p. 91-92. 4 LIMA, Moacir Costa de Araújo. A era do espírito. 1. ed. Porto Alegre: Gráfica Edito- ra Comunicação Impressa, 2005. p. 24. 5 KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 87. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Questão 935. Comentário de Kardec. 6 ______. O livro dos médiuns. 78. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Item 341. 26 Reformador • Outubro 2006338844 reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 26
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    om entusiasmo eperseve- rança, desde alguns anos te- mos procurado rastrear os passos luminosos de Manoel Vian- na de Carvalho, alma preexcelsa, exemplo de inclinação missioná- ria, baluarte de um trabalho in- comparável na difusão dos postu- lados espíritas por todo o País. En- tre os seus pósteros, todavia, bem poucos conhecem a dimensão exa- ta de seu labor, disseminando os princípios de uma verdade con- soladora: a doutrina sistemati- zada por Allan Kardec. Neste mês de outubro re- lembramos o 80o aniversário de seu regresso ao mundo es- piritual. Lamentavelmente, em razão do descaso para com a memória histórica do nosso Mo- vimento, poucos conhecem a vida de um dos mais fiéis apóstolos da Terceira Revelação. Eis, pois, seu perfil biográfico. Manoel Vianna de Carvalho nasceu na cidade de Icó, Ceará, a 10 de dezembro de 1874. Era filho de Tomás Antônio de Carvalho, professor de Música e Língua Por- tuguesa da Escola Normal, e de Jo- sefa Vianna, mulher de raras virtu- des. Em Fortaleza, estudou no Li- ceu do Ceará. Em 1891, matricu- lou-se na Escola Militar do Ceará, onde se destacaria pelo brilho de sua inteligência. Nesse mesmo ano, juntamente com outros cadetes,co- nheceu o Espiritismo, organizando na própria escola um grupo de es- tudos doutrinários. Em 1894, ainda na capital cea- rense, avultou como poeta, partici- pando da fundação do Centro Li- terário, agremiação dissidente da célebre Padaria Espiritual. No ano de 1895, transferiu-se para o Rio de Janeiro, matriculando-se no Cur- so Superior da antiga Escola Mi- litar da Praia Vermelha. Passou a freqüentar a União Espírita de Pro- paganda do Brasil. Ali, Vianna de Carvalho desta- cou-se como um dos mais ardoro- sos trabalhadores do grupo, pas- sando a ocupar a tribuna, quase todas as noites. Sua aparência ju- venil não fazia diferença, porque seu verbo inspirado e eloqüente embevecia os ouvintes, concorren- do para aumentar, diariamente, o número de curiosos por ouvi-lo. Em 1896, foi transferido para Escola Militar de Porto Alegre.Pro- curou, então, alguns confrades e, numa casa abandonada, des- provida de mesas e cadeiras, dentro de um terreno baldio no bairro do Parthenon, co- meçou a divulgar o Espiritis- mo. Em seguida, fundou um núcleo de estudos no andar térreo de uma casa comercial, na Rua dos Andradas. Convocou diversas pessoas,entre as quais Mer- cedes Ferrari que, animada pelo cadete Vianna e com o apoio de outros companheiros, deu grande impulso ao Movimento Espírita local. Ainda em 1898, regressou ao Rio de Janeiro e retomou os traba- lhos na União Espírita de Propa- ganda do Brasil, passando a ser requisitado para proferir conferên- cias em todo o Distrito Federal, na época no Rio de Janeiro. Vianna de Carvalho 80 anos de desencarnação 27Outubro 2006 • Reformador 338855 C LUCIANO KLEIN FILHO reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 27
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    No ano de1898, de novo em Porto Alegre, publicou a sua pri- meira obra literária, Facetas, cuja segunda edição, lançada em 1910, foi prefaciada pela poetisa Carmen Dolores, pseudônimo da escritora Emília Bandeira de Melo. O livro mereceu os melhores elogios da crítica. Em 1923, publicou Colori- dos e Modulações, coletânea de suas crônicas, escritas durante vários anos em periódicos espíritas e li- terários.A obra foi igualmente mui- to bem recebida. Em 1905, foi transferido para o 8o Batalhão de Infantaria, em Cuia- bá. Naquela cidade, fundou o Cen- tro Espírita Cuiabano, em 1906, do- tando-o do necessário ao seu bom funcionamento, sendo seu primeiro presidente. Em 1907, retornou ao Rio de Janeiro a fim de se matricu- lar no Curso de Engenharia da Escola Militar do Realengo. Dessa vez realizou uma série de conferên- cias na Federação Espírita Brasileira e no auditório da antiga Associação dos Empregados do Comércio, com platéias cada vez maiores.Foi convi- dado para conferências em São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e em todo o Estado do Rio de Ja- neiro, sendo, em muitas dessas ex- cursões acompanhado por Ignácio Bittencourt, diretor do jornal Au- rora, em cujas páginas Vianna em- prestou a sua colaboração,como em tantos outros periódicos, espíritas e laicos, por todo o País. Em 1910, concluiu o Curso de Engenharia Militar e mudou-se para Fortaleza em abril daquele ano. O Espiritismo no Ceará flores- ceu na última década do século XIX, mercê da persistência do grande pioneiro Luiz de França de Almeida e Sá, fundador do Grupo Espírita Fé e Caridade. Na virada do século, surgiram mais dois gru- pos na cidade de Maranguape, o Verdade e Luz – que editou, em 1901, o jornal Luz e Fé – e o Cari- dade e Luz, organizado em agosto de 1902, e que publicava o jornal Doutrina de Jesus e mantinha a Es- cola Cristã, de 1902, uma das pri- meiras escolas vinculadas a uma sociedade espírita no Brasil. Con- tudo, esses grupos de reuniões fa- miliares não tiveram longa dura- ção, e não mais existiam quando da chegada de Vianna. O grande ímpeto da Doutrina dos Espíritos no Ceará só ocorreu, efetivamente, a partir de 1910, com a chegada de Vianna de Carvalho. Sua estada em Fortaleza, de maio daquele ano até novembro de 1911, foi pródiga de realizações. Logo ao chegar, procurou arregi- mentar forças para organização do Movimento Espírita local. Publi- cou, repetidas vezes, nas páginas do jornal Unitário, anúncios como este: Peço aos espíritas do interior do Ceará, bem como aos socialistas, maçons, livres pensadores, adeptos em geral das idéias modernas, o ob- séquio de me enviarem os seus ende- reços para fins de propaganda. Vianna de Carvalho Endereço: Rua 24 de Maio, no 26. Promoveu o estudo sistemático de O Livro dos Espíritos e fez con- ferências semanais nos salões das lojas maçônicas“Amor e Caridade”, “Igualdade” e “Liberdade”. Essas preleções – que passaram a ser publicadas, sinteticamente, nos jornais Unitário e A República – tiveram repercussão extraordiná- ria e motivaram imediata reação de líderes católicos que, pelos jor- nais Cruzeiro do Norte e O Bandei- rante, combateram o Espiritismo e seu fiel arauto. A campanha insi- diosa, em vez de prejudicar, au- mentou grandemente o interesse pela Doutrina. Entretanto, o corolário do pro- fícuo labor desse filho de Icó foi a fundação, em junho de 1910, do Centro Espírita Cearense, que fun- cionaria na Rua Santa Isabel, no 105 (hoje Princesa Isabel, no 255), bem no coração da cidade.1 O Unitário, na edição do dia 22 de junho, registrou este memorá- vel acontecimento. Domingo (19), a uma hora da tarde, realizou-se no palacete da Fê- nix Caixeiral, a sessão solene de fundação do Centro Espírita Cea- rense. Presidiu-a o ilustre magistrado Sr. Desembargador Olympio de Pai- va, que teve a secretariá-lo os senho- res Miguel Cunha e Francisco Pra- do. [...] Em seguida foi dada a pala- vra ao Sr. Dr. Vianna de Carvalho que produziu brilhante e erudita peça oratória discorrendo larga- mente sobre a Doutrina Espírita. Sua Senhoria foi delirantemente aplaudido. ........................................................... Estiveram presentes à sessão inú- meros cavalheiros de distinção e 28 Reformador • Outubro 2006338866 1 Atualmente funciona no local a Federa- ção Espírita do Estado do Ceará. reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 28
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    várias famílias, queassinaram a ata de fundação da novel associação. Foi grande o número de pessoas que se inscreveram como sócios do Centro Espírita Cearense. Aos esforçados membros do Cen- tro, enviamos os nossos votos para que tenham completo êxito em seu nobilíssimo desideratum. Na conferência de inauguração do Centro, Vianna lamentou que no Ceará, onde têm surtido os mais belos empreendimentos, ainda não se apercebesse da necessidade im- periosa de organizar um centro es- pírita,2 enquanto em outros esta- dos, mesmo os mais longínquos, o Espiritismo tem sulcado profundo a sua ação benéfica pela profusão espantosa de todos os ensinamen- tos capazes de remodelar os senti- mentos incompatíveis com a ver- dadeira e genuína religião do Cris- to. Disse mais, que era em nome da Federação Espírita Brasileira que assim falava e pediu ao Sr. Presidente que em nome daquela conspícua corporação, declarasse fundado nesta capital o Centro Es- pírita Cearense.3 O Centro Espírita Cearense pas- sou a desenvolver notável servi- ço no campo da propaganda dou- trinária (promoção de estudos, conferências, criação do jornal O Lábaro, etc.) e no campo assisten- cial. A partir de Fortaleza, Vianna de Carvalho sofreria intensa perse- guição de influentes membros da Igreja, que passaram a pleitear sua transferência junto às autorida- des militares. Assim, em novembro de 1911, depois de um ano e seis meses de grandes serviços presta- dos à Causa, partiu para a Capital Federal. Em outubro de 1923, regressou a Fortaleza como chefe interino do Estado Maior da 7a Região Militar, com sede em Recife, no desempe- nho de importante comissão do Ministério da Guerra. Aproveitou a oportunidade para rever amigos e fazer conferências no Centro Es- pírita Cearense, que então já pos- suía sede própria, e na Loja Li- berdade. No dia 10 de abril de 1924, vol- tou para assumir as funções de fis- cal do 23o Batalhão de Caçadores. Largo círculo de seus amigos e admiradores o recepcionou no de- sembarque. Em julho desse ano, assumiria o comando interino do referido Batalhão. Vianna permaneceu em Forta- leza até 11 de setembro de 1924. Proferiu conferências e participou de atividades culturais. Decorri- dos treze anos de sua fecunda tare- fa na organização do Movimento Espírita cearense, não enfrentou as mesmas resistências da outra vez porquanto, além do respeito que lhe impunha o novo posto e fun- ção, vários intelectuais, figuras conspícuas da sociedade fortale- zense, haviam se convertido ao Espiritismo. Entre estes, o tenente- -coronel Francisco de Sá Roriz (1870-1925), que fora chefe de polícia no governo do general Se- tembrino de Carvalho, e fundador, em 1916, da Faculdade de Farmá- cia e Odontologia. No Rio de Janeiro, juntamente com Ignácio Bittencourt, fundou a União Espírita Suburbana; com Arthur Machado, a Tenda Espíri- ta de Caridade. Realizou inúme- ras conferências públicas no Cine- -Teatro Odeon e na Escola Nacio- nal de Música. Vianna percorreu as principais cidades brasileiras do início do sé- culo XX. Em Recife, onde já era grande a sua fama, fundou, com Antônio José Ferreira Lima e Ma- noel Aarão, a Cruzada Espírita Per- nambucana, em 1923. Pregou no Cine-Teatro Polyteama e no Tea- tro Santa Isabel. Os jornais A Pro- víncia e o Diário de Pernambuco, noticiavam que o público para ou- vi-lo era incalculável, com pes- soas de todas as classes sociais. Foi ele quem, em 1914, levantou a campanha para evangelização das crianças nos centros espíritas, su- gerindo a criação das Aulas de Mo- ral Cristã. Em 1926, quando servia em Aracaju, adoeceu gravemente, viti- mado por um tipo grave de beri- béri. Era o comandante interino do 28o Batalhão de Caçadores, no posto de major. Diante da gravida- de do seu estado de saúde, os mé- dicos o encaminharam para o Hospital de São Sebastião, em Salvador. Foi conduzido de maca até o vapor “Íris”. Nas proximida- des da praia de Amaralina, às 6h30 da manhã do dia 13 de outubro de 1926, desencarnou a bordo, aos 51 anos. 29Outubro 2006 • Reformador 338877 2 Ele se refere a um Centro Espírita legal- mente constituído. 3 Ata de Fundação do Centro Espírita Cearense. reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 29
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    30 Reformador •Outubro 2006338888 eus! ó Deus! onde es- tás que não respon- des?”, escrevia Antô- nio Frederico de Castro Alves em Vozes d’África, poema publicado em 1883, doze anos após sua morte, que se traduziu num bra- do contra a Escravatura, causa que o poeta abraçou com coração palpitante em toda sua obra, em grandes textos de cunho social. Autor ainda de Espumas Flu- tuantes, único dos seus livros pu- blicado em vida, e de poemas como Navio Negreiro, onde retra- ta o sofrimento do negro escravo, Castro Alves não é o único a ques- tionar os caminhos da vida e a bus- car em Deus as respostas para as venturas e provas pelas quais passa a Humanidade. A busca de Deus tem sido uma constante na vida humana. Aliás, arriscaríamos mesmo dizer que ela tem ocupado o homem ao longo de toda sua história, de toda sua trajetória, consciente ou incons- cientemente, não importando a es- cola religiosa que professa ou deixa de professar. Quando Allan Kardec indaga em O Livro dos Espíritos que conclusão podemos tirar do senti- mento instintivo que todos os ho- mens trazem em si mesmos da existência de Deus,1 os Espíritos respondem que é a prova de que Deus existe; acrescentando que esse sentimento nada seria se repousas- se sobre o vazio; lembrando assim o princípio de que “não há efeito sem causa”. Eis aí o grande ensinamento da Doutrina dos Espíritos: Deus não somente existe como se mani- festa permanentemente em nós, chancelados que so- mos pelo seu amor,pela sua vibração permanente, cuja voz se faz ouvir no mais pro- fundo de nossa consciência, no maior sentimento que pos- sa palpitar em nosso coração, fa- zendo vibrar nossa alma ainda imperfeita, como a alertá-la sobre algo que supera o próprio homem, e que é maior que o mundo e tão infinito quanto o Universo. Deus nos responde ainda, através de suas leis perfeitas e justas, que impõem o progresso do ser e desenham a sua felicidade. E o fi- nal feliz, ansiado e projetado em todas as consciências da Terra, só será possível quando houver a compreensão de que somente em Deus, o Bem e o Amor personifi- cados, poderá o homem encon- trar a medida exata da evolução; A resposta de DeusELIANA THOMÉ “D Castro Alves reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 30
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    31Outubro 2006 •Reformador 338899 caso contrário é dor, é retorno, é reparo “tantas vezes quantas fo- rem necessárias”, segundo ensina o Evangelho. Por isso, a maldade que grassa hoje na Humanidade, atinge os la- res e perturba os seres é passagei- ra e finita, se levarmos em conta que haveremos todos de evoluir e de ascender para o Pai. A vida se constitui de estágios obrigatórios que a alma em evolução realiza em mundos inferiores para am- pliar sua inteligência e aprender a equilibrar sentimentos, ou se- ja, desenvolver-se e crescer nas difíceis experiências da carne, em mundos materiais. Assim é que sem a compreen- são verdadeira da vida – a que ex- trapola as campas dos cemitérios –, o homem, por hábito, fuga ou preguiça, corrompe-se e endivi- da-se com as leis divinas e com aqueles com os quais trilha a mes- ma jornada evolutiva; a exemplo da escravidão que atingiu o Brasil colonial em pleno século XVI, lembrada pelo poeta. Muito, acre- ditamos, deve ter se compadecido Deus dos homens nesse momento e muito deve o Brasil pagar ainda hoje pela afronta aos filhos encar- cerados e supliciados. Uma ação que repercute no tempo, exigindo função corretiva de todos os en- volvidos através da bênção da re- encarnação. Oferece-nos assim a vida o pal- co necessário para o reajuste e re- paro de nossos erros anteriores. O enredo desse grande teatro se tra- duz nos atos praticados ontem, que, somados às atitudes e aos pensamentos e ações de hoje, se desenrolarão adiante, além no tempo e no espaço, no mundo e fora dele, buscando finalmente a harmonia da grande lei de amor entre os homens, no tributo que todos devemos ao Pai. Enquanto isso não acontece, Deus a tudo observa, a tudo acom- panha com infinita bondade, dan- do-nos as condições necessárias à nossa vitória. Cada encarnação na Terra se traduz em oportunidade de ouro para colocarmos um fim no sofrimento de ontem e plantar a felicidade de amanhã, no aguar- do da conquista do Reino dos Céus prometido por Jesus, que é a consciência do justo em paz con- sigo mesmo pelo dever cumprido. Assim, devemos findar a busca de Deus, encontrando-o em nós, primeiramente, honrando a vida e as oportunidades de redenção que ela nos oferece, e, depois, pro- curando no próximo o reajuste que se faz necessário. Seguindo o apóstolo Paulo, eis o que nos con- vém realizar, cansados que esta- mos de sofrer e chorar. Mas saibamos antes, como nos alerta Léon Denis em Depois da Morte,2 que “Deus não se mani- festa aos sentidos”. Está, diríamos, em toda parte, em tudo e em to- dos, conforme os ensinamentos espíritas. Importa agora não mais humanizá-lo, nem buscá-lo em ídolos de barro, ídolos materiais, falíveis, e em idéias pequenas, re- presando sua força em sinais e amuletos materiais. Deus nos ouve em todos os ins- tantes, por toda a Eternidade. É o Pai de todos, é a Inteligência que anima tudo, e “não pode ser indi- vidualizado”.3 Deus também não se esconde, pois a Revelação não obra no es- curo. A Perfeição não pode ser to- cada e sim, sentida; como senti- mos a Arte dos nossos maiores artistas, guardando as devidas proporções, já que é impossível comparar o homem a Deus: um é Pai, o outro, filho; um é o Criador, o outro, criatura. Deus é a Luz do mundo, a vi- bração de todo o Universo. Pode- mos entender melhor Deus, com- preendendo o mundo onde habi- tamos, como explica Kardec: “[...] tudo atesta uma idéia diretora, uma combinação, uma previdên- cia, uma solicitude que ultrapas- sam todas as combinações huma- nas [...].”4 Deus é a Causa de todo o bem que nos rodeia, de todo o bem que nos anima e de todo o bem que devemos conquistar em nós. Im- portante o papel da Doutrina Es- pírita quando nos revela a essência espiritual e a ilimitada grandeza de Deus. Referências: 1 KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 12. ed. de bolso. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Parte Primeira, cap. I, questão 5. 2 DENIS, Léon. Depois da morte. 25. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005. Parte Segunda, cap. IX, “O Universo e Deus”, p. 110. 3 Idem, ibidem. 4 KARDEC, Allan. Obras póstumas. Ed. Es- pecial. Rio de Janeiro: FEB, 2005. Primeira Parte, “Profissão de fé espírita raciocina- da”, p. 39-40. reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 31
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    ulheres têm Alma?Con- versas de Além-túmulo com os Espíritos Mozart e Chopin, Um Espírito nos Fune- rais de seu Corpo, Os Milhões do Sr. Allan Kardec. Foi com títulos atraentes, assuntos interessantes e um incrível senso de oportunida- de que Allan Kardec se tornou o melhor jornalista da história do Espiritismo. Ler a Revista Espírita é um prazer. Nas suas páginas es- tão perfeitamente atendidos os que desejam estudar o Espiritismo de forma séria e os que são atraídos pelas notícias le- ves e por curiosidades. Nesse caso – justiça se faça – o maior mérito de Kardec foi seguir com rigor a orien- tação dada a ele no dia 15 de novembro de 1857.* Exatamente sete meses após a publicação de O Livro dos Espíritos, ele já cogitava a publicação de um jornal para divulgar a Doutrina. Temia que outros lhe tomassem a frente. Evocou os Espíritos e apre- sentou o projeto. Afinal, tratava-se de uma ferramenta de interação direta com o grande público. Com ela,o Espiritismo sairia dos círculos restritos para ganhar o mundo. A orientação espiritual confirmou essa visão avançada: a divulgação pela imprensa seria um poderoso auxiliar da Doutrina que nascia. Registre-se que a mensagem obtida pela médium Ermance Dufaux po- de ser incluída em qualquer com- pêndio atual de Teoria da Co- municação. Sugeria evitar a mono- tonia, buscar assuntos que atendes- sem simultaneamente ao homem de ciência e à curiosidade popular; manter a periodicidade; e cuidar para que a primeira impressão – decisiva – fosse a melhor possível. Uma recomendação dos Espíri- tos foi particularmente preciosa: “A apresentá-lo defeituoso, melhor será nada fazer [...]”. Nascia ali a diretriz de qualidade editorial que norteou a Revista enquanto Kar- dec esteve à frente da publicação. Lições importantes nos dias atuais, em que se ensaia a estruturação de uma comunicação social espírita. Antes que se atribua o senso jornalístico de Kardec tão-somen- te à orientação espiritual, vale a pena lembrar que muitos requisi- tos exigidos pelo jornalismo são detectáveis nele bem antes do aparecimento da Revista Espírita: argúcia, discernimento perante as informações, bagagem intelectual, adoção de procedimentos como checagem da informação e, claro, ser um ótimo perguntador. Quem negaria que essas são algumas das mais marcantes características de Rivail, todas decisivas nas obras da Codificação? Acredite: além de leitura estimu- lante, a Revista Espírita é ideal para quem deseja conhecer o homem Allan Kardec. Ali, ele expõe múlti- plas facetas. Se o jornalista se reve- la no texto direto e na seleção de as- suntos que prendem a atenção, o ser humano encantador surge em comentários sobre as coisas de seu Muito à frente de seu tempo M Há 150 anos, Kardec fez jornalismo à moda do século XXI SÔNIA ZAGHETTO 32 Reformador • Outubro 2006339900 *Obras póstumas. Ed. Especial. Segunda Parte, “A Revista Espírita”, p. 356-357. reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 32
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    tempo e emartigos que traduzem uma alma que sonhava com o eté- reo mas tinha pés bem fincados na realidade. Coragem e segurança se mostram nas evocações dos Espíri- tos de gente famosa, extraindo-lhes confissões de felicidade ou de tor- menta pós-morte, expondo vivên- cias que servem de exemplo e refle- xão para os leitores. A transparên- cia com que prestava contas desve- la o administrador consciente, ma- duro, que convivia com o pensador robusto e o intelectual sintonizado com as novidades socioculturais e científicas de sua época. Análises como essa parecem apontar para uma certa idealiza- ção de Kardec. Nada disso. É ine- gável que ele é um Espírito com grandes conquistas intelecto-mo- rais, o que não é pouco. Idealizá- -lo é desnecessário, uma vez que a solidez de sua obra fala por si. A vantagem da (re)leitura desses tex- tos, que harmonizam jornalismo e doutrina, é justamente porque neles o Codificador expõe uma atitude pessoal que ele estendeu ao Espiritismo: submeter-se à ava- liação do público sem demons- trar qualquer temor do julga- mento. Em suma: permitir-se re- ver idéias, reinventar-se desde que necessário. O desafio de nossos dias é imitá-lo. 33Outubro 2006 • Reformador 339911 Treinamento nas Federativas do Maranhão, Piauí e Rio Grande do Norte Considerando a importância de se fazer uma reflexão mais aprofundada a respeito das práticas mediúnicas existentes nas casas espíritas e das possíveis distorções doutrinárias aí existentes; considerando a urgente neces- sidade de minorar os processos obsessivos e a redução das taxas de suicídio que marcam a sociedade contem- porânea; considerando também a importância de unifi- car ações e procedimentos no Movimento Espírita fede- rativo, na área da mediunidade, algumas Federativas da Comissão Regional Nordeste promoveram, com apoio e trabalho conjunto da Federação Espírita Brasileira, a capacitação do trabalhador do grupo mediúnico. A capacitação foi realizada por meio de palestras, seminários, oficinas e atividades plenárias, tendo co- mo referência O Livro dos Médiuns, diversas obras de André Luiz, Seara dos Médiuns, de Emmanuel, e o ro- teiro “Organização e funcionamento da reunião me- diúnica”, cuja elaboração foi concluída na Reunião da Comissão Regional Nordeste de 2006, em João Pessoa, Paraíba, representando um detalhamento das orienta- ções existentes no opúsculo Orientação ao Centro Es- pírita, capítulos 5 e 6. Os períodos de realização e os responsáveis pela condução das atividades foram: Federação Espírita do Maranhão – 2 a 4 de junho de 2006. Responsáveis pelo trabalho: Marta Antunes Moura e Edna Maria Fabro, da FEB; Ana Luiza Nazareno Fer- reira e equipe, da FEMAR. Federação Espírita Piauiense – 14 e 15 de julho de 2006. Responsáveis pelo trabalho: Marta Antunes Moura (FEB) e Otávio de Oliveira C. Filho, da FEPI. Federação Espírita do Rio Grande do Norte – 19 e 20 de agosto de 2006. Encontro Regional Espírita com sede na cidade- -pólo de Mossoró. Responsáveis pelo trabalho: Marta Antunes Moura e Carmem Rabelo, da FEB; Rosenite Alves de Oliveira e Francisco de Assis Pereira, da FERN. Capacitação do Trabalhador do Grupo Mediúnico reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 33
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    ara a grandemaioria dos espíritas, as idéias e a ideologia de Zamenhof se mostram em absolu- ta harmonia com a Doutrina Espírita, o que, entretanto, não significa haver sobre o tema una- nimidade de juízo. Em primeiro lugar, pelo fato de que – ainda quando isso nos pareça estranho – existem espí- ritas que não aceitam o esperan- to, nem como língua, nem co- mo ideal. Em segundo lugar, porque entre alguns não-es- píritas a harmonia entre Es- perantismo e Espiritismo parece causar algum descon- forto, talvez por nisso enxer- garem uma ameaça à neutrali- dade tão necessária e tão defendi- da pela língua. Impõe-se, portanto, um esclarecimento sobre esse juízo er- rôneo, uma vez que tal semelhança de idéias absolutamente não lhes consti- tui qualquer ameaça – pelo contrário, traz benefícios a ambos os ideais, pois, a bem considerar, esperanto e Espiritismo somente ganham com essa harmonia. Além disso, não se pode afirmar que somente a ética espírita se mostra harmônica e afim com a ética do esperanto. Também a ética de outras religiões – certamente de quase todas as grandes religiões – tem pontos de contato com a ética do esperanto. Nesse sen- tido, dever-se-ia propor, em vez de oposição, um aper- to de mãos entre todos os movimentos que sincera- mente se empenham pelo bem da Humanidade. Em face, portanto, dessas incompreen- sões – felizmente não muito numero- sas – vale a pena reflexionar sobre os vínculos objetivos entre o Espiritismo e o pensamento de Zamenhof. Deveríamos, mes- mo, divulgá-los com mais fre- qüência, tão grande é a im- portância desses vínculos. Zamenhof era, de acordo com os ensinos dos Espíritos, um típico missionário.A propó- sito,recordemos o que se encontra no capítulo VII de O Evangelho se- gundo o Espiritismo, item 13, “Missão do homem inteligente na Terra”: “Não vos ensoberbais do que sabeis, porquanto es- se saber tem limites muito estreitos no mundo em que habitais. Suponhamos sejais sumidades em inteligên- cia neste planeta: nenhum direito tendes de envaide- cer-vos. Se Deus, em seus desígnios, vos fez nascer num meio onde pudestes desenvolver a vossa inteli- gência, é que quer a utilizeis para o bem de todos; é As idéias de Zamenhof e a Doutrina Espírita P 34 Reformador • Outubro 2006339922 A FEB e o Esperanto PAULO SÉRGIO VIANA Como anunciamos no número de setembro de Reformador, reproduzimos a seguir o texto-resumo da palestra proferida pelo Dr. Paulo Sérgio Viana, de Lorena (SP), em uma das reuniões sobre Espiritismo realizadas dentro do programa do 41º Congresso Brasileiro de Esperanto (Campinas, 15 a 19 de julho de 2006) Paulo Sérgio em sua alocução reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:22 Page 34
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    uma missão quevos dá, pondo-vos nas mãos o instru- mento com que podeis desenvolver, por vossa vez, as inteligências retardatárias e conduzi-las a ele.[...]” Lendo-se a biografia de Zamenhof, constata-se cla- ramente que, como Espírito, ele se preparou adequa- damente para a sua missão, portando intelecto refina- do e imensa modéstia. Há um fato curioso que se nota entre a obra de Za- menhof e os aspectos com que se apresenta o Espiri- tismo – sua famosa divisão didática como Ciência, Fi- losofia e Religião: se, no que diz respeito ao Espiritis- mo, ela tem aceitação universal, no esperanto seme- lhante divisão nem sempre é notada. Também Zame- nhof erigiu a língua sobre um tripé: Ciência: a construção puramente lingüística da própria estrutura do esperanto é fruto de uma con- cepção genial, reconhecida até por renomados lin- güistas, cujas bases repousam sobre o chamado Fun- damento do Esperanto e sobre sua gramática. Filosofia: está nas idéias de Zamenhof sobre a ne- cessidade de se criar uma língua para a construção de um mundo mais justo e em sua argumentação no sen- tido de que a evolução da língua se deve dar no seio da própria sociedade. Atualmente, esse ponto de vista filosófico é identificado na expressão“democracia lin- güística”. Nesse campo, o principal documento legado pelo filósofo Zamenhof é a tese “Essência e Futuro da Idéia de Língua Internacional”– modelo de raciocínio e argumentação lógicos. Religião:não obstante opiniões contrárias,Zamenhof não hesitou em lançar sua língua em ligação com a idéia de uma Força Superior – Deus. Dentro desse aspecto, o principal documento é sua famosa “Prece sob o Estan- darte Verde”, de cujo inesquecível conteúdo destacamos pequenos trechos em que se evidencia essa ligação. Deus e a Lei de Adoração: “A ti,ó mistério incorpóreo e potente [...] que o mun- do governas [...] grande fonte de amor e verdade [...] fonte de vida constante [...] que crias, que reinas [...]” Fé raciocinada: “A ti não vimos com uma crença nacional, com dogmas de cego fervor [...]” Civilização verdadeira como fruto da caridade cristã: “Perfeitos e belos criaste os homens, mas eles se di- vidiram em lutas, [...] concede de novo a paz às crian- ças [...]” Lei do Trabalho: “Juramos trabalhar, juramos lutar [...] concede tua bênção ao nosso trabalho [...]” Lei de Sociedade: “Destruamos os muros entre os povos, que ruirão com fragor para sempre [...]” Lei de Justiça, Amor e Caridade: “Unam-se os irmãos, avante, com mãos entrelaça- das e armas de paz! Cristãos, hebreus, muçulmanos, somos todos filhos de Deus. Tenhamos sempre em mente o bem da Humanidade, e apesar das dificulda- des, lancemo-nos ao alvo fraterno com obstinação, sem detença nem estacionamento. Avante, sem cessar!” É certo que Zamenhof tinha clara consciência de que, não sendo fácil à mente humana compreender a verdadeira natureza e a essência de Deus, é todavia possível aspirar à observância de suas leis, o que cer- tamente constituiu o principal objetivo de sua vida. Aos espíritas causa forte impressão a maneira sutil, delicada e ao mesmo tempo firme com que ele condu- ziu a implantação da revolucionária idéia de uma lín- gua internacional. É evidente que as línguas vivas sempre carregam, no seu próprio terreno cultural, alguma ideologia. Mas, com o esperanto, o mundo viu pela primeira vez uma língua que expressa uma filosofia e uma ética – em forma mais vasta e ambiciosa do que qualquer outra língua. E é o Espiritismo que nos for- nece explicação para esse fato extraordinário: o espe- ranto é obra de um missionário igualmente extraor- dinário, para isso preparado nas Altas Esferas do Mun- do Espiritual. 35Outubro 2006 • Reformador 339933 reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:23 Page 35
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    o registrar emReformador o centenário do inolvidá- vel e heróico feito de San- tos Dumont, rememoramos um outro fato, também histórico, que relaciona a Federação Espírita Bra- sileira com o Pai da Aviação. O ilustre brasileiro iniciara suas experiências com o balão “Brasil”, em 4 de julho de 1898; prosse- guira, em setembro do mesmo ano, com o “Santos Dumont no l”; e, apesar de alguns re- vezes, continuou os experi- mentos com outros balões, até que, em 1901, cons- truiu o dirigível no 6, com o qual contornou a Torre Eiffel, em Paris, no dia 19 de outubro de 1901, recebendo o prêmio Deutsch de la Meurthe, de 100.000 francos-ouro, Já consagrado mundialmente, Santos Dumont veio ao Brasil em 1903. Passando pelo Rio de Janeiro, a Federação Espírita Brasileira, por intermédio do seu presidente e de seu 1o secretário, entregou-lhe em mão um ofício datado de 12 de setembro de 1903, acompanhado do exemplar de Reformador de 1o de agosto de 1883, que publicara uma mensagem mediúnica profética, sobre seu futuro invento, do Espí- rito Estêvão Montgolfier* (1745- -1799), recebida em 30 de julho de 1876 (quando Dumont tinha 3 anos de idade), pelo médium Ernesto Castro, na cidade de Silveira (SP). Para conhecimento dos preza- dos leitores, reproduzimos, a se- guir, o ofício da FEB e a referida mensagem. Ofício da FEB a Santos Dumont “Rio, 12 de Setembro de 1903 Prezado e ilustre patrício Sr. Alberto Santos-Dumont: Consenti que ao coro de unâni- mes e afetuosas saudações, com que é justamente festejado o vosso regresso à pátria, se venha asso- ciar, por seus diretores abaixo assinados, a Federação Espírita Brasileira. E não vos pareça estranho, pela índole de suas cogita- ções, este testemunho da nos- sa Sociedade que, ao contrá- rio, por força mesmo dos seus ideais espiritualistas e humanitários, não se pode de modo algum desinteressar das conquistas do século e dos bene- fícios que à causa do progresso humano trazem os seus colabora- dores, em cujas fileiras vos reser- vou a Providência tão assinalado posto. Filhos desta abençoada terra da Santa Cruz, cujos gloriosos des- tinos nem sequer pode sonhar a descuidosa geração contemporâ- nea, é com verdadeiro interesse que temos acompanhado o vosso es- forço perseverante, na absorção Santos Dumont A Centenário do vôo do “14-Bis”, ocorrido em Paris, a 23 de outubro de 1906, que consagrou Alberto Santos Dumont (1873-1932) como Pai da Aviação 36 Reformador • Outubro 2006339944 *Estêvão (Étienne) e seu irmão Joseph construíram o aeróstato (balão de ar quente) em 1783. reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:23 Page 36
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    do gênio eda predestinação, por dotar a Humanidade com os bene- fícios dessa conquista, com que, imortalizando-vos, enobreceis ao mesmo tempo a nossa Pátria. Não enxergueis nestas expres- sões o intuito de vos estimular sen- timentos de vaidade que, por for- tuna vossa, parece serem alheios ao vosso espírito, revestido, ao con- trário, da modéstia e do desinte- resse característicos do verdadeiro missionário. Se algum outro fim temos em vista, além das saudações fraternais que vos trazemos, é o de oferecer- -vos, como um documento que particularmente nos parece dever interessar-vos, o número do Refor- mador de 1 de Agosto de 1883, jor- nal que no ano seguinte começou a ser órgão da nossa Sociedade, tal se conservando até agora, como vereis da coleção deste ano, que igual- mente vos oferecemos. Ali se encontra uma comunica- ção espírita, ditada quando apenas contáveis 3 anos de idade, a qual, recebida por um médium que ainda vive, parece que se entende convosco. Ignoramos quais sejam as vos- sas idéias acerca desta nova ciência que na gloriosa França, como por toda a parte, conta os mais esclare- cidos e dedicados cultores. Sabe- mos, entretanto, pelas referências dos jornais a vosso respeito, que sois uma alma crente, alcandoran- do-vos nos transportes da prece, quando, nas arriscadas ascensões, expondes a vossa vida; e pois, sem nenhuma preocupação de proseli- tismo, temos unicamente em vista ministrar-vos esse esclarecimento acerca da providencialidade da vossa missão na Terra. Ali se fala, é certo, de “pássaro mecânico”, superior aos balões, me- ros “exploradores e precursores da admirável invenção”. Não se enten- derá, porém, com os balões cativos esta alusão? Assim nos parece, tanto mais que, não somente o vosso in- vento tem o valor da conquista de- finitiva do ar, como a data da co- municação confirma a anteriorida- de do vosso nascimento. Guardai, pois, esse jornal, ao me- nos como uma afetuosa e espontâ- nea recordação dos vossos irmãos espíritas do Brasil, e permiti-nos que, abraçando-vos, vos exortemos a que, de par com a simplicidade e modéstia que vos distingue, e tão bem vai nas almas crentes, conser- veis sempre em Deus essa confian- ça que é o segredo dos vossos triun- fos e serenidade de ânimo, e será o da vossa glorificação, não aos olhos dos homens, o que bem pou- co vale, mas aos desse mesmo Deus, que é a nossa for- ça, o nosso amparo e a razão única da nos- sa própria existên- cia. Se vos agradar continuardes a rece- ber a nossa modesta folha, enviai-nos o vosso endereço em Paris. E crede sempre nos cordiais e frater- nos sentimentos dos vossos sinceros ir- mãos em Jesus. Leopoldo Cirne, presidente; Geminiano Brazil de O. Goes, vice-presidente; Albino Gonçalves Teixeira, 1o secretário; Nilo Fortes, 2o secretário; Ulysses de Mendon- ça, 3o secretário; Pedro Richard, tesoureiro.” Fonte: Reformador de setembro de 1956, p. 12(200)-13(201) – Artigo “A Predestina- ção de Santos-Dumont”, de Almerindo Martins de Castro. Mensagem mediúnica Em 30 de julho de 1876, em Silveiras (SP), o médium Ernesto Castro recebia espontâneamente a seguinte mensagem do Espírito Estêvão Montgolfier: “Vencer o espaço com a velocida- de de uma bala de artilharia, em um motor que sirva para conduzir o homem, eis o grande problema que será resolvido dentro de pouco tempo. Essa máquina poderosa de 37Outubro 2006 • Reformador 339955 reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:23 Page 37
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    condução não háde ser uma uto- pia, não. O missionário, que traz es- se aperfeiçoamento à Terra, já se acha entre vós. O progresso da via- ção aérea, que tantos prosélitos tem achado e tantas vítimas há feito, não está, portanto, longe de realizar-se. O aperfeiçoamento de qualquer ciência depende do tempo e do estado da Humanidade para rece- bê-lo. A locomotiva, esse gigante que avassala os desertos e vence as dis- tâncias, será um insignificante in- vento ante o pássaro colossal, que, qual condor dos Andes, percorrerá o espaço, conduzindo em suas soberbas asas os homens de vários continentes. Os balões, meros exploradores e precursores da admirável invenção, nada, pois, serão perante o belo e portentoso pássaro mecânico. Esse Deus de bondade e de mise- ricórdia, que nada concede antes da hora marcada, deixa primeiramen- te que seus filhos trabalhem em procura da sabedoria, e depois que eles se têm esforçado em descobrir a Verdade, aí então lhes envia um raio de sua divina luz. Já vêem, ó mortais, que a navega- ção aérea não será um sonho, não, mas sim uma brilhante realidade. O tempo, que vem próximo, vos dará o conhecimento desse estu- pendo motor. Brasil, tu que foste o berço dessa grande descoberta, serás em breve o país escolhido para demonstrar a força dessa grandiosa máquina aérea. Eis o prognóstico que vos dou, ó brasileiros!” Fonte: Idem, ibidem. p. 9(197). 38 Reformador • Outubro 2006339966 Reformador • Outubro 2006 Cumprindo o já tra- dicional ciclo de pales- tras no Rio de Janeiro, Divaldo Pereira Franco atraiu, no dia 30 de julho, um público de aproximadamente 900 pessoas à Sede Sec- cional da FEB, na Ave- nida Passos, no 30. Em memorável ses- são, cuja mesa de tra- balhos foi composta por Nestor João Ma- sotti, presidente da Ca- sa, e Juvanir Borges de Souza, seu antecessor, Divaldo, com o inconfundível brilho de sua inspirada oratória, brindou os presentes com riquíssima ex- posição a respeito de temas atua- líssimos, tais como a preparação da Nova Era através da reencar- nação de Espíritos especialmen- te preparados para as fecundas transformações sociais; a necessi- dade de que os adeptos da Dou- trina Espírita sustentem o crité- rio seguro de Allan Kardec como base insubstituível de sua boa condução; e o irresistível magne- tismo dos ensinos e exemplos de Jesus sobre as almas de boa von- tade, independentemente de suas confissões religiosas. Esperamos, de todo o coração, que Divaldo, esse querido irmão, amado por todos os espíritas do Brasil e de além-fronteiras, amigo incondicional da Casa de Ismael, aqui retorne no ano vindouro para nova semeadura de luz. Divaldo Franco na FEB-Rio Divaldo falando; atrás, sentados, Nestor João Masotti e Juvanir Borges de Souza reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:23 Page 38
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    s cuidados editoriaiscom a publicação de uma obra não se devem limitar ao seu conteúdo. Indispensável que o autor se preocupe com a reda- ção esmerada, em consonância com os padrões da língua culta. Mas, também, é preciso redigir de forma agradável, atraente, simples, com vistas a facilitar a leitura das informações registra- das na obra. Revisar nunca é demais A boa redação obedece a crité- rios rígidos de correção semânti- ca, gramatical e ortográfica. Ini- cialmente, quem escreve é igual- mente quem primeiro revisa o texto redigido. São várias revisões, reescritas, correções... E o ciclo re- pete-se inúmeras vezes. Em seguida, outras pessoas in- cumbem-se da revisão. É natural que assim ocorra, pois há um mo- mento em que o autor de um tex- to já não consegue enxergar nele qualquer erro, que “saltará” facil- mente aos olhos de outro revisor. Por isso, a revisão final deve ficar a cargo de terceiros, especializa- dos na função de revisar. O trabalho de revisão é um tanto quanto inglório. Por mais que se pretenda atingir a exce- lência de qualidade, quando se conclui o serviço e o resultado é publicado, notam-se, depois, al- guns erros que poderiam ter sido corrigidos antes da publicação. Mas, isso também faz parte do processo e não se configura de- sestímulo aos que estão no ofí- cio. Ao contrário, é motivo de en- corajamento aos revisores pa- ra que prossigam no intuito de aperfeiçoar a qualidade da produção. Assim, se uma publicação “saiu” com erro, o que é comum ocorrer, apressem-se os res- ponsáveis editoriais para as correções que deverão ser contempladas em pró- xima edição. Estrutura da publicação Um livro possui elementos pré- -textuais, textuais, pós-textuais, e extratextuais. Os elementos preliminares ou pré-textuais referem-se às partes iniciais do livro. São, por exem- plo: guardas brancas, folha de O GERALDO CAMPETTI SOBRINHO Normalização Editorial Padrão de qualidade editorial dos livros febianos 39Outubro 2006 • Reformador 339977 reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:23 Page 39
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    40 Reformador •Outubro 2006339988 rosto, dedicatória, epígrafe, sumá- rio, apresentação, prefácio e in- trodução (quando esta substitui a apresentação ou o prefácio). Os elementos particulares do texto ou textuais são aqueles que ajudam a aumentar a legibilida- de da obra, destacando as diver- sas seções, acompanhando as ilus- trações e introduzindo determi- nados comentários complemen- tares. Dentre os principais, in- cluem-se: introdução (quando es- ta não substitui a apresentação ou o prefácio), títulos e subtítu- los, citações, notas de rodapé, qua- dros, ilustrações, comentários ou notas marginais e cabeçalhos ou tí- tulos correntes. Os elementos finais ou pós- -textuais são: apêndices, anexos, glossário ou vocabulário, refe- rências, bibliografia, índice e colofão.* Os elementos extratextuais de uma publicação referem-se às capas (da primeira à quarta) e à lombada. A forma de apresentação da estrutura de uma publicação é explicada nas diversas normas sobre informação e documenta- ção da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) já re- lacionadas no artigo anterior desta série e que explicitaremos gradativamente nos próximos artigos a serem publicados em Reformador. Sumário e índice Ainda é comum a confusão entre sumário e índice, de tal forma que o leitor e, às vezes, os próprios editores não sabem dis- tinguir um do outro. Para deixar a questão esclarecida, seguem as considerações sobre estes dois im- portantes elementos de uma pu- blicação, segundo os critérios das normas técnicas atualizadas. A norma brasileira (NBR) 6027/2003 trata da estrutura, lo- calização e aspecto tipográfico do sumário. Esta norma possui ape- nas duas páginas, porém esclare- ce a distinção entre sumário e índice, dois elementos geralmen- te confundidos não só por leito- res, mas também pelos próprios responsáveis pela edição de livros. A finalidade do sumário é apre- sentar uma visão de conjunto do conteúdo da obra, conforme sua estrutura organizacional, a fim de facilitar a rápida localização das seções – capítulos e tópicos – que a compõem. Deve figurar, pois, logo no início da publicação. A preparação de índice de pu- blicações é regulamentada pela NBR 6034/2004 da ABNT. Ao mencionar o tipo de publicação a que se refere esta norma, é destaca- do que ela “aplica-se, no que cou- ber, aos índices automatizados”. Pelo seu caráter de exaustivi- dade, isto é, a cobertura de todas as informações contidas na obra, diferentemente do sumário que apresenta uma visão geral da es- trutura da obra, recomenda-se que o índice seja localizado no final da publicação, e registrado em ti- pologia de um a dois pontos me- nores que o texto normal. Reformatação das obras febianas Você já teve oportunidade de ver os últimos livros publicados pela FEB? O que se observa nessas publi- cações é o resultado de um traba- lho de equipe, que se dedica zelo- samente ao que faz: profissionais contratados e colaboradores vo- luntários que procuram fazer o melhor ao seu alcance, com cons- tante atualização sobre as necessi- dades do mercado, capacitação técnica e desenvolvimento pessoal. Os integrantes dessa equipe rea- lizam o trabalho porque gostam. Envolvem-se integralmente com os objetivos da tarefa de divulga- ção doutrinária ao público espí- rita e àquele que começa a se in- teressar pelo Espiritismo. Uma das razões que desperta o interesse do leitor é exatamente o atrativo que o livro espírita vem propor- cionando. Além do precioso conteúdo que a Federação Espírita Brasileira res- guarda com todo o cuidado, as pu- blicações ganharam há alguns anos uma reformatação de seus elemen- tos internos e externos. Os livros gradativamente estão passando por um reempacotamento que para o leitor é como se um novo título es- tivesse sendo lançado. A última Bienal do Livro, rea- lizada em março na capital pau- lista, é uma demonstração dessa *Indicação, no final do livro ou folheto, do nome do impressor, local e data da im- pressão e, eventualmente, outras caracte- rísticas tipográficas da obra. reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:23 Page 40
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    conquista. O livroinfantil Carti- lha do bem, ditado pelo Espírito Meimei e a obra Contos desta e doutra vida, do Espírito Humber- to de Campos (Irmão X), ambos psicografados por Chico Xavier, estiveram entre os mais vendidos na feira. As primeiras edições des- tes livros foram lançadas, respec- tivamente, em 1969 e 1964! Fize- ram sucesso entre aqueles que já conheciam as obras, em sua for- matação anterior, e entre o públi- co que se interessou pelos títulos como se fossem lançamentos. Esse trabalho prosseguirá ao longo do tempo, considerando- -se que a editora febiana possui em seu catálogo aproximadamen- te 450 títulos, sem contar os no- vos títulos que já ganham em qualidade de apresentação com o processo de editoração eletrônica e os modernos recursos de tecno- logia da informação, utilizados pe- los especialistas, diagramadores, arte-finalistas e designers. Elaboração de índices gerais Outra importante característi- ca acrescentada às novas edições da FEB é a elaboração dos índices gerais. Eles representam a aber- tura do caminho para acesso rá- pido e exato ao conteúdo deta- lhado de cada obra. Tem-se adotado a expressão ín- dice geral, pois se associam dois ou mais tipos de entradas como pontos de recuperação do conteú- do. Reúnem-se comumente ver- betes em ordem alfabética repre- sentativos de assuntos, nomes pes- soais, de localidade, etc. Já foram contemplados com índices todos os livros da Codifi- cação e os demais de Allan Kar- dec que estão sendo publicados pela FEB. Os índices das obras psi- cografadas por Chico Xavier, es- pecialmente as ditadas por André Luiz e Emmanuel, encontram-se também em fase de elaboração. À medida que a Editora publica um novo título ou relança uma publicação com nova forma de apresentação, a equipe responsá- vel pela indexação é acionada pa- ra a realização de seu trabalho. A caminhada é longa... Mas temos certeza – pois assim o sen- timos no cotidiano de nossos tra- balhos – de que com Jesus o far- do é leve e o jugo é suave. Sentimo-nos honrados pela oportunidade de servir nessa imensa seara do Mestre Divino em que fazemos o mínimo dian- te do muito que constantemente recebemos. Dia Estadual da Confraternização Espírita A família espírita capixaba reuniu-se para comemorar esse evento, em 3 de agosto, no auditório do Centro Federal de Educação Tecno- lógica (CEFETES), das 19h30 às 22h. A convite da Federação Espí- rita do Estado do Espírito Santo, o presidente da Federação Espírita Brasileira, Nestor João Masotti, proferiu a conferência “O Espiritis- mo em Ação”. No período da tarde o presidente da FEB manteve um encontro dialogado com dirigentes espíritas de grande número de instituições do Estado, tratando de assuntos de interesses das casas espíritas. Instituído pela Lei 3.905, do Estado do Espírito Santo 41Outubro 2006 • Reformador 339999 reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:23 Page 41
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    42 Reformador •Outubro 2006440000 Seara Espírita Mês de Kardec na FEB-Rio Suely Caldas Schubert, escritora e oradora espíri- ta, visita neste mês a Sede Seccional da Federação Espírita Brasileira, no Rio de Janeiro (Avenida Passos, 30), onde profere, no sábado, dia 14, às 10h30, palestra sobre o tema “Mecanismos da Justiça Divina”. O evento realiza-se dentro do programa “Mês de Kardec”, que a FEB-Rio vem promovendo desde as comemorações do Bicentenário de Nas- cimento do Codificador. Devido à limitação de lu- gares, o acesso será feito mediante apresentação de convite. Rio de Janeiro: Kardec na Assembléia Legislativa Em Sessão Solene às 18 horas do dia 3 de outubro, a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro presta uma homenagem pública ao Espiritismo, pela terceira vez em dois anos, desta feita em comemo- ração ao nascimento de Allan Kardec, ocorrido em 3 de outubro de 1804, na cidade francesa de Lyon. O evento resulta da ação do Conselho Espírita do Estado do Rio de Janeiro (CEERJ) e do empenho do deputado estadual Áttila Nunes, e conta com a participação de representante da Federação Espírita Brasileira. Rondônia: Encontro de Trabalhadores Espíritas De 25 a 27 de agosto, em Ariquemes (RO), a Federação Espírita de Rondônia promoveu o XX Encontro de Trabalhadores Espíritas de Rondônia. “Comunicação Social no Processo de Divulgação Espírita”e“O Centro Espírita e a Legislação”estavam entre os temas que foram abordados. A palestra de abertura foi feita por Ricardo Silva, da Assessoria Jurídica da FEB. Na ocasião, a FERO informou os trabalhadores sobre os assuntos da Reunião da Comissão Regional Norte do Conselho Federativo Nacional da FEB, realizada em Macapá (AP) no mês de junho. Equador: Congresso Espírita A Federação Espírita do Equador realizou, no perío- do de 25 a 27 de agosto, o II Congresso Espírita Internacional do Equador, com o tema central “Ciência Espírita – Fonte de paz e equilíbrio para o ser humano”, abordado, na conferência de aber- tura, por Divaldo Pereira Franco, que proferiu mais duas conferências. Outros expositores: Alvaro Vélez (CEI), Luis Hu Rivas (CEI), Hugo Arriciaga (Equador), Isauro Hoyos Penagos (FEDECOL) e Enrique Gagliardo (Equador). FEB-Brasília: Programação doutrinária Honório Onofre de Abreu e Haroldo Dutra, respecti- vamente, presidente e assessor da União Espírita Mineira, realizaram programação doutrinária no dia 12 de agosto passado na Sede Central da Federação Espírita Brasileira. No período da manhã, dirigiram um curso de capacitação destinado aos monitores do curso Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita (EADE). Das 16h às 17h30 desenvolveram um semi- nário sobre o tema “Ensinos e Parábolas de Jesus”, tendo como público-alvo monitores e estagiários dos diversos cursos das áreas de estudo da FEB. Das 18h às 18h30,proferiram palestra aos participantes do EADE, sobre o tema “O Evangelho de Jesus – como, por que e para que estudá-lo à luz da Doutrina Espírita”. Amazonas: Congresso Espírita A Federação Espírita do Amazonas promoveu, de 18 a 20 de agosto, no auditório da Reitoria da Universidade do Amazonas, em Manaus, o 2o Congresso Espírita do Estado, com o tema principal “Família – Um planeja- mento divino”. Participaram do evento conferencistas como Divaldo Pereira Franco (BA), Raul Teixeira (RJ), Alberto Almeida (PA) e André Luiz Peixinho (BA). O Congresso fez parte da programação da Semana da Família, promovida anualmente pela FEA. No encer- ramento – que foi transmitido ao vivo pela Internet – Divaldo homenageou Bezerra de Menezes, pelos seus 175 anos de nascimento. reformador outubro 2006 - B.qxp 9/10/2006 11:23 Page 42