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Capítulo 1
Talvez seja indiferença, talvez força de vontade. Parece que as pessoas
gostam de medir essas coisas. Ao menos era o que eu pensava aquela
manhã.
Assim que comecei a faculdade, imaginei que não teria muito tempo livre,
viagens de final de semana ou feriados enforcados, tal qual um emprego que
toma todo o tempo. Mas eu sabia que valeria a pena. Eu sempre gostei de
estudar e costumava lidar bem com o que podia tirar meus pés do chão. Ou
me tirar do sério.
Então a aula começou.
Eu me mantive atenta, interessada. Mal reparei nos colegas novos ou nas
carteiras, que finalmente aumentaram de tamanho. Mas, passados alguns
minutos, não consegui respirar. A sensação veio branda e foi aumentando à
medida em que eu tentava puxar o ar, que não correspondia. No entanto,
bastou que o professor chamasse a atenção dos alunos tagarelas para que
eu voltasse ao normal. Não, eu não estava mal. Nem doente. Eu estava
ansiosa.
Do lado oposto da turma, ele me olhava. Eu já tinha notado um interesse, da
mesma forma que já tinha olhado para ele, mas não sou do tipo que se
permite desviar do que realmente importa. Não naquele semestre. De
qualquer forma, ele me olhava. Ele à esquerda da sala, eu à direita. E eu
percebia pelo reflexo do sol na janela. Enquanto ele me observava, eu me
mantinha atenta aos cálculos. Me peguei pensando se ele me via tão fria
quanto os números.
A aula continuou e naquele dia eu voltei para casa mais pensativa do que
antes. Quem seria? Por que me encarava?
Bobagem ou não, sempre fui daquelas que não percebe um flerte nem que
me indiquem. Nem que a pessoa resolva colar seu corpo em mim. Sempre
fui assim, embora não culpe minha falta de noção pela falta de
relacionamentos duradouros no meu currículo. Na verdade, acho até que me
livrei de poucas e boas por não sacar de tal área.
Aquela noite se repetiu por mais algumas. Eu sonhava com ele. Pouco me
lembrava do sonho ao acordar e dificilmente conseguia dormir de novo, mas
sonhava com ele e com aquele perfume gostoso que não sei dizer de onde
conheço. Não sei bem o que havia de errado com aquela terça-feira, mas
definitivamente alguém me devia um calmante.
E veio o final de semana. Nada como dois dias inteirinhos para repor as
energias! Fiz caminhada, nadei no clube vazio da esquina, estudei duas
matérias da faculdade, almocei com meus pais - que não desistem do tal
bolo de carne, por mais que eu envie várias receitas por e-mail - comprei um
secador de cabelo novo e selecionei alguns filmes para assistir deitada, no
conforto da minha cama. Na verdade, selecionei mais do que teria tempo de
assistir. Praxe de quem sabe que um domingo só termina bem com um bom
filme.
Até que o telefone tocou.
— Juliana?
— Sim, é ela.
— Puxa, que bom que atendeu!
— Quem fala?
— Sou eu, Marcos.
— Desculpe, mas não conheço nenhum Marcos.
— Tentei falar com você na aula. Não se lembra?
Disse que não e desliguei assim que percebi quem era. Desde quando um
estranho tinha meu número?
Naquela noite meus sonhos se misturaram aos filmes. Eu não sabia se
voava em uma vassoura, me apaixonava perdidamente ou se fugia da figura
do mesmo homem que teimava em aparecer e me observar de longe, como
se já soubesse quem eu era e esperasse o momento certo para se
aproximar.
Na aula seguinte, para minha surpresa, nada aconteceu. Olhei claramente
para cada aluno daquela classe e nenhum se parecia com ele. Nem sinal de
alguém me observando. Por um momento pensei que estava exagerando, de
fato, mas logo em seguida fui invadida pela falta de ar e a incerteza tomou
conta de mim. De novo. Não que ele me causasse algum efeito, mas eu
precisava parar de pensar na possibilidade. Principalmente porque já era
estranho o suficiente pensar em alguém que, não sei como, conseguiu meu
telefone e me encarava durante as aulas.
Já em casa, tomei meu banho, almocei e resolvi retomar meu conto.
Escrever é algo que sempre fiz bem, talvez me distraísse por algumas horas.
Consegui escrever cinco páginas. Mais duas ou três e seria o final de um
conto que comecei mês retrasado. Para quem mal encarava o computador
por preferir os livros, era claramente um feito digno de medalha. E o telefone
tocou novamente.
— Alô, Juliana?
Não era possível...
— Juliana, fala comigo!
Pensei em responder, mas só consegui ficar calada. Será que eu o conhecia
e não me lembrava? Era possível, não era? Só uma resposta consistente
tiraria de mim a sensação de que tinha alguma coisa errada.
— Se não quer me responder, ao menos abra a porta. – ele disse.
Verdade, ele batia à minha porta.
Eu ouvia do telefone, mas bastou afastá-lo da orelha mais uma vez para
ouvir com mais clareza. Batia repetidamente, como alguém que tinha pressa.
Talvez tivesse que me dar uma notícia e isso me fez pensar na minha mãe e
no meu pai, o que me deixou apreensiva. Talvez ele só quisesse falar
comigo, estivesse realmente interessado em mim. Talvez soubesse onde
moro porque pegava o mesmo ônibus que eu. Talvez, talvez, talvez. Não tive
outra saída.
Senti seu perfume assim que girei a chave. Eu estava visivelmente
constrangida, para não dizer tensa, mas ele parecia aliviado e me olhava
fixamente. Eu podia jurar que ele ajoelharia ali mesmo, como um sinal de
cansaço e de missão cumprida. Ele era mais alto que eu, tinha os cabelos
pretos e os olhos bem castanhos. Não era tão bonito, mas parecia charmoso
e nem devia desconfiar que eu gostava de barba. Contra a minha vontade,
sorri.
— Desculpe se exagerei... – ele disse.
— Marcos, não é? – respondi um tanto seca. Indiquei meu sofá.
Enquanto ele se sentava, eu pensava no erro que poderia ter sido abrir
aquela porta. Mas ao mesmo tempo, eu queria que isso acabasse. Fosse lá
o que fosse.
— Isso. Juliana, eu...
— ...Preciso te dizer de onde te conheço? – sugeri.
— Certo, certo. Nos conhecemos na faculdade.
— Não estou certa se me lembro disso...
— Você não se lembra de muita coisa.
— Posso estudar além da conta, mas não acha que eu lembraria de ter dado
meu número ou meu endereço para alguém?
— Não é tão simples, Juli...
Juli. Aquele apelido não era estranho para mim.
Ele se acomodou um pouco mais e nossos joelhos quase se tocaram. Ele
ameaçou acariciar meu cabelo. Eu desviei.
— Reconhece isto? – perguntou.
No disquete havia uma assinatura que correspondia à minha. Lembrança dos
tempos em que eu me sentava no computador da minha mãe e escrevia
frases soltas. Escrevia qualquer coisa. E a certeza de ser meu não veio
apenas pela minha letra, mas pelo fato de um completo estranho entrar na
minha casa com ele nas mãos.
— Como você o conseguiu? – perguntei de volta.
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— Não, impossível. Eu não conheço você. Que brincadeira é essa? – me
levantei.
— Você não se lembra de mim, mas eu conheço você.
Como aquele homem dizia que me conhecia com tanta naturalidade e ainda
me mostrava meu velho disquete? Meu primeiro pensamento foi sair
correndo dali. O segundo foi ligar para a polícia, mas ao mesmo tempo em
que eu pensava coisas ridículas sobre aquela situação, ele não me parecia
um psicopata. Minha cabeça deu um nó.
— Sente-se, Juli, por favor. Precisamos conversar.
Me sentei.
— Diga logo o que precisa...
— Eu preciso que me ouça. Que acredite em mim.
Difícil.
— Eu e você... Nós somos...
Meu coração quase saiu pela boca quando o telefone tocou. Ouvir minha
mãe do outro lado da linha era como me sentir aliviada e tensa ao mesmo
tempo. Tudo bem que sempre tocava nos piores momentos, mas era o
momento que eu precisava para respirar fundo e respirar de novo.
Fiz sinal para ele esperar e atendi.
— Mãe, não sei se posso falar agora...
— Tudo bem, filha. Só quero saber se você está bem.
— Eu estou ótima, mas há uma pessoa aqui...
— Ele já chegou?
— Ele quem?
— O Marcos.
Minha mãe o conhecia?
— Como você sabe sobre ele?
— Fui eu que pedi que ele insistisse.
Minha cabeça estava girando.
— Insistisse em quê, mãe?
— Em conversar com você.
—Posso saber sobre o quê?
— Você vai saber, filha. Vai saber.
— Mãe?
Desliguei o telefone e fui literalmente jogada na vida real. Enquanto eu falava
com ela, ele olhava atentamente para cada detalhe da minha casa. Reparava
nas cortinas do canto da sala, nas fotos de família da mesinha e até nos
meus livros, já marcados e amassados de tanta leitura. E olhava tudo com ar
de quem conhecia o lugar. Conhecia o meu espaço.
— Marcos?
— Sim... – disse ele, vindo até mim. – Podemos continuar?
— Posso saber de onde conhece minha mãe? – perguntei.
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Pensei que arregalar os olhos fosse uma reação fictícia, mas arregalei os
meus.
— Sua o quê?
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Ou eu estava louca, ou aquele homem estava muito seguro de si. Namorada
dele? Eu precisaria me apoiar com mais força no braço do sofá se não
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me faltava com toda a força.
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Eu olhava fixamente para os ombros dele, cobertos por um casaco preto.
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las muito bem. Havia pessoas chorando, uma neblina intensa e alguém me
puxando para fora de um carro. Também ouvi um homem gritar. Pisquei os
olhos.
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Precisei de alguns minutos para me recompor. Eu não sabia se chorava, se
respirava aliviada ou se me esforçava para fazer aquela história
desaparecer. Pensei no motivo pela qual eu não soube daquilo antes, mas
não demorou muito até tudo fazer sentido. O acidente, o apelido, o perfume,
a faculdade... Até mesmo três ou quatro mensagens que recebi no celular
durante a semana e jurava que eram para outra pessoa. Eu tinha perdido a
memória e eles tinham tentado falar comigo, ainda que não me lembrasse de
alguns detalhes ou do quanto insistiram.
— Isso explicaria algumas coisas...
— Acredito que sim. – respondeu Marcos .
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— Ainda não sabemos. Meu amor, eu...
“Meu amor.” Um silêncio tomou conta da minha sala.
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Só eu sei como a tranquei. Eu estava confusa e agora jogada na cama. Era
como se eu soubesse que tinha algo errado comigo, mas não conseguisse
entender o motivo. As evidências estavam lá, bem diante de mim, mas eu
não estava certa de mais nada. Claro que a perda de memória nem sempre
é permanente e claro que fico feliz por não ter sofrido nada mais grave, mas
ainda assim era complicado lidar. Ainda mais quando não me lembrava de
nenhuma Laura.
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Primeiro capítulo "Outra Vez"

  • 1. Capítulo 1 Talvez seja indiferença, talvez força de vontade. Parece que as pessoas gostam de medir essas coisas. Ao menos era o que eu pensava aquela manhã. Assim que comecei a faculdade, imaginei que não teria muito tempo livre, viagens de final de semana ou feriados enforcados, tal qual um emprego que toma todo o tempo. Mas eu sabia que valeria a pena. Eu sempre gostei de estudar e costumava lidar bem com o que podia tirar meus pés do chão. Ou me tirar do sério. Então a aula começou. Eu me mantive atenta, interessada. Mal reparei nos colegas novos ou nas carteiras, que finalmente aumentaram de tamanho. Mas, passados alguns minutos, não consegui respirar. A sensação veio branda e foi aumentando à medida em que eu tentava puxar o ar, que não correspondia. No entanto, bastou que o professor chamasse a atenção dos alunos tagarelas para que eu voltasse ao normal. Não, eu não estava mal. Nem doente. Eu estava ansiosa. Do lado oposto da turma, ele me olhava. Eu já tinha notado um interesse, da mesma forma que já tinha olhado para ele, mas não sou do tipo que se permite desviar do que realmente importa. Não naquele semestre. De
  • 2. qualquer forma, ele me olhava. Ele à esquerda da sala, eu à direita. E eu percebia pelo reflexo do sol na janela. Enquanto ele me observava, eu me mantinha atenta aos cálculos. Me peguei pensando se ele me via tão fria quanto os números. A aula continuou e naquele dia eu voltei para casa mais pensativa do que antes. Quem seria? Por que me encarava? Bobagem ou não, sempre fui daquelas que não percebe um flerte nem que me indiquem. Nem que a pessoa resolva colar seu corpo em mim. Sempre fui assim, embora não culpe minha falta de noção pela falta de relacionamentos duradouros no meu currículo. Na verdade, acho até que me livrei de poucas e boas por não sacar de tal área. Aquela noite se repetiu por mais algumas. Eu sonhava com ele. Pouco me lembrava do sonho ao acordar e dificilmente conseguia dormir de novo, mas sonhava com ele e com aquele perfume gostoso que não sei dizer de onde conheço. Não sei bem o que havia de errado com aquela terça-feira, mas definitivamente alguém me devia um calmante. E veio o final de semana. Nada como dois dias inteirinhos para repor as energias! Fiz caminhada, nadei no clube vazio da esquina, estudei duas matérias da faculdade, almocei com meus pais - que não desistem do tal bolo de carne, por mais que eu envie várias receitas por e-mail - comprei um secador de cabelo novo e selecionei alguns filmes para assistir deitada, no
  • 3. conforto da minha cama. Na verdade, selecionei mais do que teria tempo de assistir. Praxe de quem sabe que um domingo só termina bem com um bom filme. Até que o telefone tocou. — Juliana? — Sim, é ela. — Puxa, que bom que atendeu! — Quem fala? — Sou eu, Marcos. — Desculpe, mas não conheço nenhum Marcos. — Tentei falar com você na aula. Não se lembra? Disse que não e desliguei assim que percebi quem era. Desde quando um estranho tinha meu número? Naquela noite meus sonhos se misturaram aos filmes. Eu não sabia se voava em uma vassoura, me apaixonava perdidamente ou se fugia da figura do mesmo homem que teimava em aparecer e me observar de longe, como se já soubesse quem eu era e esperasse o momento certo para se aproximar. Na aula seguinte, para minha surpresa, nada aconteceu. Olhei claramente para cada aluno daquela classe e nenhum se parecia com ele. Nem sinal de alguém me observando. Por um momento pensei que estava exagerando, de fato, mas logo em seguida fui invadida pela falta de ar e a incerteza tomou
  • 4. conta de mim. De novo. Não que ele me causasse algum efeito, mas eu precisava parar de pensar na possibilidade. Principalmente porque já era estranho o suficiente pensar em alguém que, não sei como, conseguiu meu telefone e me encarava durante as aulas. Já em casa, tomei meu banho, almocei e resolvi retomar meu conto. Escrever é algo que sempre fiz bem, talvez me distraísse por algumas horas. Consegui escrever cinco páginas. Mais duas ou três e seria o final de um conto que comecei mês retrasado. Para quem mal encarava o computador por preferir os livros, era claramente um feito digno de medalha. E o telefone tocou novamente. — Alô, Juliana? Não era possível... — Juliana, fala comigo! Pensei em responder, mas só consegui ficar calada. Será que eu o conhecia e não me lembrava? Era possível, não era? Só uma resposta consistente tiraria de mim a sensação de que tinha alguma coisa errada. — Se não quer me responder, ao menos abra a porta. – ele disse. Verdade, ele batia à minha porta.
  • 5. Eu ouvia do telefone, mas bastou afastá-lo da orelha mais uma vez para ouvir com mais clareza. Batia repetidamente, como alguém que tinha pressa. Talvez tivesse que me dar uma notícia e isso me fez pensar na minha mãe e no meu pai, o que me deixou apreensiva. Talvez ele só quisesse falar comigo, estivesse realmente interessado em mim. Talvez soubesse onde moro porque pegava o mesmo ônibus que eu. Talvez, talvez, talvez. Não tive outra saída. Senti seu perfume assim que girei a chave. Eu estava visivelmente constrangida, para não dizer tensa, mas ele parecia aliviado e me olhava fixamente. Eu podia jurar que ele ajoelharia ali mesmo, como um sinal de cansaço e de missão cumprida. Ele era mais alto que eu, tinha os cabelos pretos e os olhos bem castanhos. Não era tão bonito, mas parecia charmoso e nem devia desconfiar que eu gostava de barba. Contra a minha vontade, sorri. — Desculpe se exagerei... – ele disse. — Marcos, não é? – respondi um tanto seca. Indiquei meu sofá. Enquanto ele se sentava, eu pensava no erro que poderia ter sido abrir aquela porta. Mas ao mesmo tempo, eu queria que isso acabasse. Fosse lá o que fosse. — Isso. Juliana, eu... — ...Preciso te dizer de onde te conheço? – sugeri.
  • 6. — Certo, certo. Nos conhecemos na faculdade. — Não estou certa se me lembro disso... — Você não se lembra de muita coisa. — Posso estudar além da conta, mas não acha que eu lembraria de ter dado meu número ou meu endereço para alguém? — Não é tão simples, Juli... Juli. Aquele apelido não era estranho para mim. Ele se acomodou um pouco mais e nossos joelhos quase se tocaram. Ele ameaçou acariciar meu cabelo. Eu desviei. — Reconhece isto? – perguntou. No disquete havia uma assinatura que correspondia à minha. Lembrança dos tempos em que eu me sentava no computador da minha mãe e escrevia frases soltas. Escrevia qualquer coisa. E a certeza de ser meu não veio apenas pela minha letra, mas pelo fato de um completo estranho entrar na minha casa com ele nas mãos. — Como você o conseguiu? – perguntei de volta. — Foi você quem me deu. — Não, impossível. Eu não conheço você. Que brincadeira é essa? – me levantei. — Você não se lembra de mim, mas eu conheço você.
  • 7. Como aquele homem dizia que me conhecia com tanta naturalidade e ainda me mostrava meu velho disquete? Meu primeiro pensamento foi sair correndo dali. O segundo foi ligar para a polícia, mas ao mesmo tempo em que eu pensava coisas ridículas sobre aquela situação, ele não me parecia um psicopata. Minha cabeça deu um nó. — Sente-se, Juli, por favor. Precisamos conversar. Me sentei. — Diga logo o que precisa... — Eu preciso que me ouça. Que acredite em mim. Difícil. — Eu e você... Nós somos... Meu coração quase saiu pela boca quando o telefone tocou. Ouvir minha mãe do outro lado da linha era como me sentir aliviada e tensa ao mesmo tempo. Tudo bem que sempre tocava nos piores momentos, mas era o momento que eu precisava para respirar fundo e respirar de novo. Fiz sinal para ele esperar e atendi. — Mãe, não sei se posso falar agora... — Tudo bem, filha. Só quero saber se você está bem. — Eu estou ótima, mas há uma pessoa aqui...
  • 8. — Ele já chegou? — Ele quem? — O Marcos. Minha mãe o conhecia? — Como você sabe sobre ele? — Fui eu que pedi que ele insistisse. Minha cabeça estava girando. — Insistisse em quê, mãe? — Em conversar com você. —Posso saber sobre o quê? — Você vai saber, filha. Vai saber. — Mãe? Desliguei o telefone e fui literalmente jogada na vida real. Enquanto eu falava com ela, ele olhava atentamente para cada detalhe da minha casa. Reparava nas cortinas do canto da sala, nas fotos de família da mesinha e até nos meus livros, já marcados e amassados de tanta leitura. E olhava tudo com ar de quem conhecia o lugar. Conhecia o meu espaço. — Marcos? — Sim... – disse ele, vindo até mim. – Podemos continuar? — Posso saber de onde conhece minha mãe? – perguntei.
  • 9. — De você. — Como? — Você é minha namorada, Juli. Pensei que arregalar os olhos fosse uma reação fictícia, mas arregalei os meus. — Sua o quê? — Namorada. Você e eu namoramos há quase um ano. Ou eu estava louca, ou aquele homem estava muito seguro de si. Namorada dele? Eu precisaria me apoiar com mais força no braço do sofá se não quisesse cair ali mesmo. Pisquei os olhos algumas vezes e puxei o ar que me faltava com toda a força. Ele segurou minhas mãos. — Se quiser, conversamos outra hora. Eu posso... — Não, pode falar. Eu consigo. – interrompi. Ele respirou fundo. — Há dois meses você sofreu um acidente. Você e eu. – disse, sentando-se novamente. Acidente. Mais uma palavra que não me parecia estranha. Eu olhava fixamente para os ombros dele, cobertos por um casaco preto. Imagens passaram pela minha cabeça, embora não conseguisse descrevê- las muito bem. Havia pessoas chorando, uma neblina intensa e alguém me
  • 10. puxando para fora de um carro. Também ouvi um homem gritar. Pisquei os olhos. — Tentei te socorrer assim que consegui sair do carro, mas não tive sucesso. Você estava desacordada e seu corpo preso entre o banco e o painel, então fui buscar ajuda. Por sorte, havia um posto de gasolina logo adiante. Me sentei e reparei que ele tinha lágrimas nos olhos. Ele não estava mentindo. — Meus pais? —Foram até o local o mais rápido que puderam. Assim que a ambulância chegou, seguimos juntos para o hospital. Você foi medicada e ficou em observação por algumas horas. Mas quando acordou... — Não me lembrava de nada... – completei. — Infelizmente. – disse ele. Era difícil acreditar. Mas continuei. — Do que mais eu esqueci? — Do acidente. E da Laura. — Laura? — Sua amiga... Você a conheceu no começo desse ano. Precisei de alguns minutos para me recompor. Eu não sabia se chorava, se respirava aliviada ou se me esforçava para fazer aquela história
  • 11. desaparecer. Pensei no motivo pela qual eu não soube daquilo antes, mas não demorou muito até tudo fazer sentido. O acidente, o apelido, o perfume, a faculdade... Até mesmo três ou quatro mensagens que recebi no celular durante a semana e jurava que eram para outra pessoa. Eu tinha perdido a memória e eles tinham tentado falar comigo, ainda que não me lembrasse de alguns detalhes ou do quanto insistiram. — Isso explicaria algumas coisas... — Acredito que sim. – respondeu Marcos . — Sabe dizer se é permanente? — Ainda não sabemos. Meu amor, eu... “Meu amor.” Um silêncio tomou conta da minha sala. — Eu preciso descansar. É melhor você ir embora. — Juli... — Vá embora. Por favor. Ele tentou falar mais uma vez, mas ignorei e fui até a porta. Só eu sei como a tranquei. Eu estava confusa e agora jogada na cama. Era como se eu soubesse que tinha algo errado comigo, mas não conseguisse entender o motivo. As evidências estavam lá, bem diante de mim, mas eu não estava certa de mais nada. Claro que a perda de memória nem sempre é permanente e claro que fico feliz por não ter sofrido nada mais grave, mas
  • 12. ainda assim era complicado lidar. Ainda mais quando não me lembrava de nenhuma Laura. Laura... Eu precisava falar com ela.