"O Auto da Índia” obra de Gil Vicente é a representação de um fato inspirado
na vida real e no sentimento, registrando as falhas humanas no sentido de
fazer uma crítica construtiva ao comportamento de todas as camadas sociais
(nobreza, clero e povo). A criação das personagens denuncia e critica, o
comportamento imoral da esposa na ausência do marido, como o efeito
maléfico que a expansão ultramarina causava na ordem social e moral do país,
facilitando a destruição de princípios do ambiente familiar.
Se o tema do adultério é intemporal, as circunstâncias "deste" adultério são as
da primeira década do século XVI, quando, por trás da glória e da fachada
épica da expansão ultramarina, era já possível perceber as profundas
alterações, nem todas positivas, que essa expansão estava a provocar na
sociedade portuguesa escrita maioritariamente em porta parte corresponde à
fase de expectativa da Ama, relativamente à partida ou não do Marido, e à
distensão que se segue à confirmação da saída da armada e que ela aproveita
para confessar a sua predisposição ao adultério. Entram em cena os
pretendentes, Castelhano e Lemos; o adultério consuma-se; a Ama revela, sem
qualquer escrúpulo ou pudor, toda a sua leviandade, falsidade e imoralidade.
Confirmação vem-nos pela boca da Ama, quando recebe Lemos e lhe diz que o
marido se ausentou para a Índia.Como na época a duração média de uma
viagem de ida e volta à Índia era de dois e meio a três anos, desfaz-se de vez,
na mente dos espectadores, a impressão de que o tempo representado se
reduz, neste momento, a algumas horas. Fase mais avançada da
representação é a Moça que vai marcando o decorrer do tempo e
prenunciando o regresso do Marido.
Desse modo é fácil ao público (e ao leitor) perceber que o fundamental do autor
é criticar o comportamento imoral das esposas na ausência dos maridos. No
entanto, ao mandar o Marido para a Índia, Gil Vicente, implicitamente, introduz
um segundo aspecto crítico: o efeito perverso que a expansão ultramarina
produzia na ordem social e moral do país, facilitando a degradação moral do
ambiente familiar.
A personagem Ama, Gil Vicente traça um retrato realista de um determinado
tipo de mulher, bem diferente da imagem feminina, profundamente idealizada,
que nos é transmitida pela poesia lírica da época. A Ama representa todas
aquelas mulheres que, abandonadas pelos maridos empenhados na aventura
ultramarina, se mostravam incapazes de resistir ao assédio dos pretendentes,
incorrendo em adultério. Nesse sentido, materializa também um dos aspectos
negativos da expansão.

O auto da índi2

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    "O Auto daÍndia” obra de Gil Vicente é a representação de um fato inspirado na vida real e no sentimento, registrando as falhas humanas no sentido de fazer uma crítica construtiva ao comportamento de todas as camadas sociais (nobreza, clero e povo). A criação das personagens denuncia e critica, o comportamento imoral da esposa na ausência do marido, como o efeito maléfico que a expansão ultramarina causava na ordem social e moral do país, facilitando a destruição de princípios do ambiente familiar. Se o tema do adultério é intemporal, as circunstâncias "deste" adultério são as da primeira década do século XVI, quando, por trás da glória e da fachada épica da expansão ultramarina, era já possível perceber as profundas alterações, nem todas positivas, que essa expansão estava a provocar na sociedade portuguesa escrita maioritariamente em porta parte corresponde à fase de expectativa da Ama, relativamente à partida ou não do Marido, e à distensão que se segue à confirmação da saída da armada e que ela aproveita para confessar a sua predisposição ao adultério. Entram em cena os pretendentes, Castelhano e Lemos; o adultério consuma-se; a Ama revela, sem qualquer escrúpulo ou pudor, toda a sua leviandade, falsidade e imoralidade. Confirmação vem-nos pela boca da Ama, quando recebe Lemos e lhe diz que o marido se ausentou para a Índia.Como na época a duração média de uma viagem de ida e volta à Índia era de dois e meio a três anos, desfaz-se de vez, na mente dos espectadores, a impressão de que o tempo representado se reduz, neste momento, a algumas horas. Fase mais avançada da representação é a Moça que vai marcando o decorrer do tempo e prenunciando o regresso do Marido. Desse modo é fácil ao público (e ao leitor) perceber que o fundamental do autor é criticar o comportamento imoral das esposas na ausência dos maridos. No entanto, ao mandar o Marido para a Índia, Gil Vicente, implicitamente, introduz um segundo aspecto crítico: o efeito perverso que a expansão ultramarina produzia na ordem social e moral do país, facilitando a degradação moral do ambiente familiar. A personagem Ama, Gil Vicente traça um retrato realista de um determinado tipo de mulher, bem diferente da imagem feminina, profundamente idealizada, que nos é transmitida pela poesia lírica da época. A Ama representa todas aquelas mulheres que, abandonadas pelos maridos empenhados na aventura ultramarina, se mostravam incapazes de resistir ao assédio dos pretendentes, incorrendo em adultério. Nesse sentido, materializa também um dos aspectos negativos da expansão.