OPINIÃO                                                                    A hora do jornalismo


                                               Manuel Pinto
                             Professor da Universidade do Minho


            Como se o país não tivesse assuntos mais premen- anunciado processo de privatização de parte do
            tes com que se preocupar, são figuras de topo, ló- serviço público de rádio e televisão? Que esperar
            bis e redes de tráfico de influências que concitam de jornais, rádios e televisões que são alvo ou
            as atenções públicas.                              estão refens desses nebulosos interesses?
            O jornalismo, com o caso Relvas,                                      É cada vez mais urgente tor-
            mostra a sua importância e a sua fra- Resta saber se os               nar o universo dos média – a
            gilidade. Com ele e com profissionais                                  quem cabe representar os di-
            que não se deixam intimidar na sua
                                                     jornalistas que              ferentes campos sociais – mui-
            função de escrutinar os poderes, um se destacam pela                  to mais transparente do que
PÁG.        pouco do mundo das sombras asso- seriedade, ética e                   tem sido. Quem possui o quê;


04
            ma à luz do dia. Ao mesmo tempo, profissionalismo (...)                quem quer comprar e quem
            pressente-se uma promiscuidade en- são a faceta visível               quer vender; que interesses
            tre o jornalismo e a política (e pre-                                 representam os agentes que
            sumivelmente outros campos) que
                                                     de uma consciência           protagonizam as operações
            não é tranquilizadora. Resta saber se profissional que não             de que se vai sabendo de for-
            os jornalistas que se destacam pela morreu e que promete ma fragmentária e muito in-
            seriedade, ética e profissionalismo – vir a dar frutos ou se           completa. Se o jornalismo não
            que certamente os há – são a faceta são, antes, o “pequeno virar as atenções para os bas-
            visível de uma consciência profissio-                                  tidores do campo mediático,
            nal que não morreu e que promete vir
                                                     resto”, “os últimos          perdemos todos, incluindo o
            a dar frutos ou se são, antes, o “pe- moicanos” do dito               próprio jornalismo.
            queno resto”, “os últimos moicanos” quarto poder                      Grave é os média fulaniza-
            do dito quarto poder.                                                 rem e deterem-se com esta
            Mais preocupante é o que se vai descobrindo rela- ou aquela árvore, perdendo a perspetiva da flo-
            tivamente à sordidez dos jogos e movimentações resta. Trata-se aqui de matéria que dificilmente
            já não individuais, mas entre instituições. É bom alguém mais tratará, se os jornalistas (diretores,
            que se saiba que grupos mediáticos importan- editores incluídos) não meterem os pés ao cami-
            tes do nosso país aparecem envolvidos nas teias nho. É ver os cuidados e as pinças com que vários
            e canais de tráfico entre os campos da política, e importantes partidos lidam publicamente com
            dos negócios, de serviços secretos e de socieda- estes dossiês.
            des sigilosas. Num quadro destes que esperar do Esta seria (será? é?), pois, a hora do jornalismo.



                                                                  A verdade é que, com europeus destes a desempe-
           Estupidez                                              nharem cargos internacionais, mais vale mandar vir
           Daqui a uns anos, quando se fizer a História da crise   os americanos, chineses, indianos ou africanos. Se-
           que o mundo atravessa neste momento, alguns no-        guramente, farão melhor ao mundo do que estes
           mes vão ficar marcados pelo oportunismo com que         exemplares do Velho Continente.
           geriram as suas carreiras pessoais e pela irrespon-
           sabilidade com que desempenharam as suas carrei-
           ras internacionais.
           A actual chefe do FMI, Christine Lagarde, fará, se-
           guramente, parte dessa lista e as declarações que
           fez sobre a Grécia, este fim-de-semana, serão uma
           das nódoas negra do seu desempenho.
           Dizer, numa altura destas, que está na hora de os
           gregos começarem a pagar impostos e que está mais
           preocupada com as crianças africanas do que com as
           gregas é tão estúpido que dá vontade de perguntar
           à senhora porque não vai antes para a sua casinha
           de Paris coser meias.                                                                                 Raquel Abecasis


                                                                               r/com renascença comunicação multimédia, 2012

Estupidez

  • 1.
    OPINIÃO A hora do jornalismo Manuel Pinto Professor da Universidade do Minho Como se o país não tivesse assuntos mais premen- anunciado processo de privatização de parte do tes com que se preocupar, são figuras de topo, ló- serviço público de rádio e televisão? Que esperar bis e redes de tráfico de influências que concitam de jornais, rádios e televisões que são alvo ou as atenções públicas. estão refens desses nebulosos interesses? O jornalismo, com o caso Relvas, É cada vez mais urgente tor- mostra a sua importância e a sua fra- Resta saber se os nar o universo dos média – a gilidade. Com ele e com profissionais quem cabe representar os di- que não se deixam intimidar na sua jornalistas que ferentes campos sociais – mui- função de escrutinar os poderes, um se destacam pela to mais transparente do que PÁG. pouco do mundo das sombras asso- seriedade, ética e tem sido. Quem possui o quê; 04 ma à luz do dia. Ao mesmo tempo, profissionalismo (...) quem quer comprar e quem pressente-se uma promiscuidade en- são a faceta visível quer vender; que interesses tre o jornalismo e a política (e pre- representam os agentes que sumivelmente outros campos) que de uma consciência protagonizam as operações não é tranquilizadora. Resta saber se profissional que não de que se vai sabendo de for- os jornalistas que se destacam pela morreu e que promete ma fragmentária e muito in- seriedade, ética e profissionalismo – vir a dar frutos ou se completa. Se o jornalismo não que certamente os há – são a faceta são, antes, o “pequeno virar as atenções para os bas- visível de uma consciência profissio- tidores do campo mediático, nal que não morreu e que promete vir resto”, “os últimos perdemos todos, incluindo o a dar frutos ou se são, antes, o “pe- moicanos” do dito próprio jornalismo. queno resto”, “os últimos moicanos” quarto poder Grave é os média fulaniza- do dito quarto poder. rem e deterem-se com esta Mais preocupante é o que se vai descobrindo rela- ou aquela árvore, perdendo a perspetiva da flo- tivamente à sordidez dos jogos e movimentações resta. Trata-se aqui de matéria que dificilmente já não individuais, mas entre instituições. É bom alguém mais tratará, se os jornalistas (diretores, que se saiba que grupos mediáticos importan- editores incluídos) não meterem os pés ao cami- tes do nosso país aparecem envolvidos nas teias nho. É ver os cuidados e as pinças com que vários e canais de tráfico entre os campos da política, e importantes partidos lidam publicamente com dos negócios, de serviços secretos e de socieda- estes dossiês. des sigilosas. Num quadro destes que esperar do Esta seria (será? é?), pois, a hora do jornalismo. A verdade é que, com europeus destes a desempe- Estupidez nharem cargos internacionais, mais vale mandar vir Daqui a uns anos, quando se fizer a História da crise os americanos, chineses, indianos ou africanos. Se- que o mundo atravessa neste momento, alguns no- guramente, farão melhor ao mundo do que estes mes vão ficar marcados pelo oportunismo com que exemplares do Velho Continente. geriram as suas carreiras pessoais e pela irrespon- sabilidade com que desempenharam as suas carrei- ras internacionais. A actual chefe do FMI, Christine Lagarde, fará, se- guramente, parte dessa lista e as declarações que fez sobre a Grécia, este fim-de-semana, serão uma das nódoas negra do seu desempenho. Dizer, numa altura destas, que está na hora de os gregos começarem a pagar impostos e que está mais preocupada com as crianças africanas do que com as gregas é tão estúpido que dá vontade de perguntar à senhora porque não vai antes para a sua casinha de Paris coser meias. Raquel Abecasis r/com renascença comunicação multimédia, 2012