Maria, a Educadora de Jesus à Luz do Espiritismo.pdf
Maria a Educadora de Jesus apresenta uma reflexão histórica e espiritual de Maria de Nazaré, Mãe de Cristo, destacando seu papel de educadora e exemplo universal de fé.
Cláudio Fajardo
3 Maria,A Educadora de Jesus
Maria,
a Educadora
de Jesus
Cláudio Fajardo
2ª edição revista e atualizada Belo Horizonte, 2025
“Esta segunda edição foi cuidadosamente revista e atualizada pelo autor, incorporando novas
reflexões, correções e aprofundamentos espirituais.”
4.
Cláudio Fajardo
4 Maria,A Educadora de Jesus
À minha mãe, à minha esposa — mãe de meus filhos — e a todas as mães que educam com
amor, fé e coragem, como Maria educou Jesus.
5.
Cláudio Fajardo
5 Maria,A Educadora de Jesus
Introdução à Segunda Edição
A figura de Maria de Nazaré sempre despertou admiração, reverência e, sobretudo, profunda
reflexão espiritual. Mãe do Mestre, educadora do maior Espírito que já passou pela Terra, Maria
transcende os limites da tradição religiosa e se revela como símbolo universal de sabedoria,
coragem e amor.
Este estudo nasceu do desejo sincero de compreender Maria não apenas como personagem
bíblica, mas como educadora espiritual, exemplo de fé vivida e de pedagogia do coração. Ao
longo dos anos, o texto original foi acolhido por muitos leitores e estudiosos, gerando diálogos,
inspirações e novas perspectivas.
Esta segunda edição foi cuidadosamente revista e atualizada pelo autor, incorporando novas
reflexões, correções e aprofundamentos espirituais. Mais do que uma reedição, trata-se de um
reencontro com Maria — agora com maturidade ampliada, olhar mais atento e coração mais
aberto.
Que esta leitura possa tocar o espírito de cada leitor, despertando o desejo de viver com mais
autenticidade, educar com mais ternura e servir com mais consciência, como fez Maria.
Belo Horizonte, 2025
Cláudio Fajardo
Cláudio Fajardo
7 Maria,A Educadora de Jesus
Sumário
Introdução à Segunda Edição ...........................................................................................................5
Maria de Nazaré: A Educadora de Jesus
Parte I...............................................................................................................................................9
Quem foi Maria? ................................................................................................................................9
A Gravidez Virginal...........................................................................................................................10
Maria era culta ou iletrada?.............................................................................................................11
Magnificat ........................................................................................................................................12
Como foi a educação de Jesus?........................................................................................................14
Como Maria encarava sua missão?..................................................................................................16
Maria: Mãe de Toda Humanidade ...................................................................................................17
Maria e João. O Trabalho da Mãe Após o Desencarne do Filho ......................................................19
Maria no Plano Espiritual.................................................................................................................20
A Hora do Ângelus............................................................................................................................25
Parte II...........................................................................................................................................27
Maria a Educadora de Jesus.............................................................................................................27
Administrando as Emoções..............................................................................................................31
Fé......................................................................................................................................................34
Brilhe a vossa luz…, vós sois a luz do mundo… ................................................................................38
Anexo – Meditação Inspirada ..........................................................................................................40
O Encontro das Mães.......................................................................................................................40
Referências.......................................................................................................................................42
Cláudio Fajardo
9 Maria,A Educadora de Jesus
Maria de Nazaré: A Educadora de Jesus
Ao escrever o seu Evangelho, Mateus compreendeu a inspiração que
lhe vinha do Alto, de que um espírito virginal tinha sido escolhido para
vir a ser mãe do Mestre. Um espírito virginal é aquele que, através de
sucessivas e incontáveis reencarnações, torna-se isento das máculas da
matéria – (Eliseu Rigonatti, O Evangelho dos Humildes)
(…) Esta interpretação dá uma razão de ser toda natural ao dogma da
Imaculada Conceição, do qual o ceticismo tanto tem zombado. Esse
dogma estabelece que a mãe do Cristo não estava manchada pelo
pecado original; como pode ser isto? É muito simples: Deus enviou um
Espírito puro, não pertencente à raça culpada e exilada, para se
encarnar sobre a Terra e nela cumprir essa augusta missão; do mesmo
modo que, de tempos em tempos, envia Espíritos superiores para nela
se encarnarem, para darem um impulso ao progresso e apressar o seu
adiantamento. Esses Espíritos são, sobre a Terra, como o venerável
pastor que vai moralizar os condenados em sua prisão, e mostrar-lhes
o caminho da salvação. (Allan Kardec, Ensaio Sobre a Interpretação
da Doutrina dos Anjos Decaídos, Revista Espírita, Janeiro de 1862)
Parte I
Quem foi Maria?
Falar de Maria de Nazaré, mãe de Jesus, não é tarefa simples. As informações que temos sobre
ela são escassas e, muitas vezes, pouco confiáveis ou marcadas por interpretações religiosas.
Ainda assim, é no Novo Testamento que encontramos, embora raros, os melhores registros sobre
a Mãe de nosso Senhor.
Nós, espíritas, contamos ainda com o privilégio de algumas anotações vindas do Plano
Espiritual, que nos ajudam a compreender a grande evolução e a missão desse nobre Espírito.
Não há relatos seguros sobre sua infância ou adolescência. A tradição cristã afirma que Maria
era filha de Joaquim e Ana, judeus que, segundo os textos evangélicos, formavam uma família
simples e fiel aos princípios religiosos de sua época.
Estima-se que Maria tenha nascido entre os anos 18 e 20 a.C. e, como era costume,
provavelmente se casou por volta dos 14 anos, ou até antes. Os historiadores do cristianismo
situam o nascimento de Jesus por volta do ano 6 a.C.; já Humberto de Campos, pela mediunidade
de Francisco Cândido Xavier, indica o ano 5 a.C. como o correto para a vinda do Cristo à carne1
.
Assim, o casamento de Maria deve ter ocorrido de seis meses a um ano antes do nascimento de
seu primogênito.
Outra questão que permanece em debate é se Maria teve ou não outros filhos além de Jesus.
O Evangelho não é totalmente claro: Mateus menciona irmãos e irmãs de Jesus, chegando a citar
seus nomes2
. Contudo, em hebraico e aramaico, o termo “irmão” também designava “primo”.
Muitos estudiosos defendem que os supostos irmãos seriam, na verdade, primos. Argumentam
que, embora o Evangelho tenha sido escrito em grego — idioma que distingue “adelphos” (irmão)
de “anepsios” (primo) —, os autores poderiam ter usado “anepsios” se quisessem indicar primos.
1
XAVIER, Francisco C. / Humberto de Campos. Crônicas de Além Túmulo, cap. 15, Rio de Janeiro,
FEB, 1937.
2
Cf. Mateus, 12: 46 e Mateus, 13: 55 e 56. Ver também Marcos, 6: 3
10.
Cláudio Fajardo
10 Maria,A Educadora de Jesus
Há ainda quem sustente que, por serem frequentemente citados junto de Maria, esses irmãos
seriam realmente filhos dela. Por outro lado, os que defendem que Maria e José não tiveram outros
filhos lembram que, na crucificação, Jesus entregou sua mãe ao cuidado de João, o discípulo
amado. Se houvesse uma família numerosa, seria natural que os próprios filhos cuidassem dela.
Uma terceira hipótese, menos comentada, sugere que José já teria filhos de um casamento
anterior, e que estes seriam os irmãos de Jesus.
Como este não é o objetivo principal do estudo, não nos deteremos mais nessa questão. No
judaísmo, era comum que os casais tivessem muitos filhos, considerados bênçãos de Deus. Alguns
acreditam que José e Maria também tiveram uma prole maior; outros sustentam que a família de
Jesus era especial e poderia diferir das demais sem qualquer desmerecimento.
O que é certo, porém, é que Maria foi um Espírito de altíssima evolução — um dos mais puros
que já encarnou neste orbe, espiritualmente governado por seu próprio Filho, Jesus.
A Gravidez Virginal
Outro tema polêmico e complexo é o da gravidez de Maria que alguns creem ter acontecido
sem contato sexual entre ela e José, seu marido.
Dissemos ser complexo, porque tudo o que dissermos a respeito não passa de opinião pessoal,
já que não temos condições de provar nem a tese da gravidez virginal nem a da gravidez comum.
Mesmo o Espiritismo não elucida o tema, não há informações confiáveis a respeito. Para um
assunto de tal complexidade teríamos que retomar o Controle Universal do Ensino dos Espíritos3
,
o que foi por nós abandonado há muito tempo.
Como dissemos, as melhores informações que temos tanto sobre Jesus, quanto sobre Maria,
são as narradas nos Evangelhos. E o que dizem eles a respeito?
Marcos e João não comentam nada a respeito, Mateus e Lucas são claros: Maria e José não
tiveram contato sexual antes da concepção de Jesus.
As igrejas cristãs ligadas ao catolicismo e à reforma protestante defendem a literalidade dos
Evangelhos. Segundo os adeptos da primeira, Maria era virgem antes e continuou após o
nascimento de Jesus. Para os seguidores da reforma, pelo menos os atuais, Maria era virgem ao
conceber Jesus, porém após o nascimento deste teve relações normais com seu marido, tendo,
inclusive, outros filhos.
Dentro do Espiritismo, que tem por norma uma investigação mais segura baseada em padrões
científicos, as opiniões são divididas, uns creem como os cristãos tradicionais, outros não aceitam
a gravidez virginal.
Dizem os defensores desta última hipótese que as narrativas dos Evangelhos a respeito do
nascimento de Jesus são expressões de um simbolismo profundo, e que nada têm de históricas.
Todo o Evangelho possui um conteúdo simbólico de grande profundidade. Contudo,
acreditamos que o simbolismo do Novo Testamento — exceto nas parábolas — se fundamenta
em acontecimentos reais, e não em fatos imaginados. Jesus escolhia, com precisão didática, os
momentos, os lugares e as pessoas para transmitir seus ensinamentos. Por isso, antes de buscarmos
o significado espiritual de suas lições, é essencial compreendê-las em seu contexto literal,
histórico e cultural; somente então estaremos preparados para alcançar sua dimensão espiritual.
Não estamos com este argumento defendendo a gravidez sem contato sexual; como dissemos,
o tema é complexo e deverá ser melhor estudado hoje e no futuro.
Os que defendem a gravidez natural de Maria, considerando o relacionamento conjugal com
José antes da concepção de Jesus, partem do princípio de que, se assim não fosse, haveria violação
3
Cf. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 104a ed., Rio de Janeiro, FEB, 1991.
Introdução, item II
11.
Cláudio Fajardo
11 Maria,A Educadora de Jesus
de uma Lei Universal. Espíritos Superiores, afirmam, jamais derrogam qualquer lei, mas a
cumprem com fidelidade. Esse argumento é válido; contudo, cabe a reflexão: uma gravidez sem
contato sexual realmente fere alguma Lei Natural? Hoje já temos exemplos de fecundação em
laboratório, o que demonstra que a concepção pode ocorrer sem a união física.
Do ponto de vista espírita, a ciência do Mundo Espiritual, mesmo no tempo de Jesus, era muito
mais avançada que a nossa atual. Se a ciência humana já pode realizar algo semelhante, a espiritual
poderia fazê-lo com muito mais facilidade. Assim, uma fecundação espiritual para Jesus não
representaria violação de qualquer princípio científico. Reforçamos, porém, que não afirmamos
ter sido assim; apenas analisamos possibilidades.
Nosso objetivo não é estabelecer certezas históricas, mas ampliar horizontes de compreensão
espiritual.
Mas de onde surgiu a ideia da gravidez virginal? Na literatura pagã encontramos diversos
relatos de nascimentos extraordinários: heróis gregos e romanos considerados semideuses, filhos
de divindades com mulheres mortais. Também na Bíblia Hebraica há registros de nascimentos
sob intervenção divina.
No caso de Jesus, essa concepção encontra origem em um texto do profeta Isaías. Segundo a
narrativa, temos:
Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu
nome Emanuel.4
A palavra hebraica usada por Isaías, traduzida como 'virgem', é almah, que significa
literalmente uma mulher jovem em idade de casar ou recém-casada. Quando a Bíblia Hebraica
foi vertida para o grego, na versão da Septuaginta, almah foi traduzida por parthenos. Este termo
pode designar tanto uma moça jovem quanto uma mulher que nunca teve relação sexual,
semelhante ao uso da palavra 'moça' em português, que pode indicar apenas juventude ou também
virgindade.
Assim, no texto original de Isaías não há a ideia explícita de virgindade, mas sim a referência
de que uma jovem daria à luz o Messias. A dúvida, portanto, permanece, e somente com o nosso
amadurecimento espiritual — que caminha junto ao desenvolvimento moral — teremos melhores
condições de compreender plenamente o fato.
O essencial para nós é reconhecer que Maria foi virgem no sentido de fidelidade a Deus. Os
antigos profetas, em diversas ocasiões, chamaram Israel de 'prostituta' por sua infidelidade à
aliança divina. Nesse contexto, 'virgem' é o oposto de 'prostituta', significando justamente a
fidelidade à Divindade.
Neste sentido, Maria de Magdala, ao ser libertada de seus obsessores e se converter ao Cristo,
tornou-se uma grande 'virgem' do Novo Testamento — não no aspecto físico, mas no sentido
espiritual de fidelidade e pureza diante de Deus. Da mesma forma, se desejamos gerar em nós o
'Filho do Homem', ou o homem novo, precisamos também nos tornar 'virgens', isto é, livres do
pecado e fiéis ao Evangelho. Assim, compreendemos que a virgindade, neste contexto, é
símbolo de renovação interior e entrega total à Divindade.
Maria era culta ou iletrada?
Essa é uma questão difícil de responder. Hoje consideramos culta a pessoa que lê, estuda e
acumula informações intelectuais. No entanto, no primeiro século da nossa era, marcado pela vida
física de Jesus, esse julgamento não pode ser feito da mesma forma.
4
Isaías, 7: 14
12.
Cláudio Fajardo
12 Maria,A Educadora de Jesus
Naquele tempo, o analfabetismo era elevado. Livros eram raros e caríssimos, acessíveis apenas
a poucos. Assim, saber ler não era comum, e menos ainda o hábito de estudar como fazemos hoje.
Isso, porém, não significa que os habitantes da Palestina fossem mal-informados. O aprendizado
se dava pela cultura oral: as cartas de Paulo, por exemplo, eram lidas coletivamente nas
comunidades cristãs, e muitos apenas ouviam seus escritos. Esse costume desenvolvia uma
memória extraordinária, já que era preciso guardar os textos de cor.
Portanto, ler não era requisito para ter cultura. E, tratando-se de uma mulher na Palestina do
tempo de Jesus, as chances de alfabetização eram ainda menores. Estatisticamente, é provável
que Maria não tenha sido alfabetizada — embora não possamos afirmar com certeza.
O que podemos dizer com segurança é que Maria possuía uma cultura espiritual elevada, uma
sabedoria que ia além da letra escrita, uma espiritualidade inteligente. Alguns afirmam que teria
sido educada no Templo, boa leitora e redatora; é possível, mas não certo, e não trabalhamos aqui
com hipóteses.
No tempo de Maria, o judaísmo não era apenas religião, mas cultura. A sinagoga era o centro
da vida social e espiritual, onde se aprendia e praticava princípios de moral elevada.
Nazaré, sendo pequena, certamente tinha sua sinagoga próxima de todos.
Maria, Espírito elevado e sem compromissos expiatórios, aprendia com facilidade,
memorizava bem e vivenciava o que absorvia. Não era culta segundo nossos padrões atuais, mas
era sábia. E o Evangelho confirma isso: foi ela a educadora do maior Sábio de todos os tempos, e
só isso basta para reconhecê-la como a melhor educadora entre todas.
Magnificat
Em se tratando de um estudo sobre Maria, o Magnificat, merece um capítulo à parte, é um dos
mais belos textos de todo Novo Testamento, só Lucas entre os evangelistas, e numa entrevista
pessoal com a mulher de José, teria a capacidade de registrar para a posteridade tão belo poema,
e que prova tudo o que dissemos anteriormente, a espiritualidade inteligente e equilibrada desta
que sem a menor dúvida é a nossa Senhora.
Imagino a beleza da cena, aquela que é a mãe de todos os que sofrem, cantando este lindo
poema para o médico amigo de Paulo. Ela deve ter recitado de cor, pois o sabia de coração. Lucas,
sem gravador de voz, talvez tenha tido dificuldade para anotar, emocionado ao extremo. É
possível que Maria tenha repetido várias vezes para ele:
Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus em
meu Salvador, porque olhou para a humilde posição de sua serva.
Sim! Doravante as gerações todas me chamarão de bem-aventurada,
pois o Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor.
Seu nome é santo e sua misericórdia perdura de geração em geração,
para aqueles que o temem.
Agiu com a força de seu braço. Dispersou os homens de coração
orgulhoso.
Depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou.
Cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias.
Socorreu Israel, seu servo, lembrado de sua misericórdia – conforme
prometera a nossos pais – em favor de Abraão e de sua descendência
para sempre!5
5
Lucas, 1: 46 a 55
13.
Cláudio Fajardo
13 Maria,A Educadora de Jesus
Não pretendemos neste momento estudar minuciosamente estes versos, mas não podemos
deixar de destacar a cultura espiritual de Maria.
Ela abre o texto falando de sua comunhão com Deus de uma forma que só Jesus falará mais
tarde. Coloca-se em sua digna posição de serva e assim se faz grande, engrandecendo o Senhor
através de sua vivência em harmonia com Ele.
Ela faz uma síntese do Antigo Testamento, mostrando seu perfeito conhecimento de toda
Escritura.
Sintetiza também a religião das boas obras e a Lei de Deus que alimenta aquele que se faz
dependente Dele, e despede os que se acham ricos e que têm as mãos ociosas.
Dissemos no parágrafo anterior que ela faz uma síntese magistral do Antigo Testamento. O
Magnificat tem dez versículos, nestes ela faz quinze citações do Antigo Testamento os
harmonizando com profunda sabedoria.
Só quem conhecia profundamente as Escrituras e possuía uma espiritualidade superior poderia
compor esta oração. A seguir, destacamos como cada versículo do Magnificat dialoga com a
tradição hebraica.
46. Minha alma engrandece o Senhor,
O meu coração exulta ao SENHOR (I Samuel, 2: 1)
47. E meu espírito exulta em Deus em meu Salvador,
Regozijar-me-ei muito no SENHOR, a minha alma se alegrará no meu Deus; porque me
vestiu de roupas de salvação, (Isaías, 61: 10)
Todavia eu me alegrarei no SENHOR; exultarei no Deus da minha salvação. (Habacuc,
3: 18)
48. Porque olhou para a humilde posição de sua serva. Sim! Doravante as gerações
todas me chamarão de bem-aventurada,
SENHOR dos Exércitos, se benignamente atentares para a aflição da tua serva, e de
mim te lembrares, e da tua serva te não esqueceres, e lhe deres um filho varão, ao
SENHOR o darei por todos os dias da sua vida, e sobre a sua cabeça não passará
navalha. (I Samuel, 1: 11)
Então disse Lia: Para minha ventura; porque as filhas me terão por bem-aventurada;
e chamou-lhe Aser. (Genesis 30:13)
49. Pois o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. Seu nome é santo
Redenção enviou ao seu povo; ordenou a sua aliança para sempre; santo e tremendo é
o seu nome. (Salmo, 111:9)
50. E sua misericórdia perdura de geração em geração, para aqueles que o temem.
Mas a misericórdia do SENHOR é desde a eternidade e até a eternidade sobre aqueles
que o temem, e a sua justiça sobre os filhos dos filhos; (Salmo, 103: 17)
51. Agiu com a força de seu braço. Dispersou os homens de coração orgulhoso.
Tu quebraste a Raabe como se fora ferida de morte; espalhaste os teus inimigos com o
teu braço forte. (Salmo, 89:10)
52. Depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou.
Aos sacerdotes, leva-os despojados do seu cargo e aos poderosos transtorna. (Jó, 12:
19)
53. Cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias.
Pois fartou a alma sedenta, e encheu de bens a alma faminta. (Salmo, 107: 9)
14.
Cláudio Fajardo
14 Maria,A Educadora de Jesus
54. Socorreu Israel, seu servo, lembrado de sua misericórdia
Porém tu, ó Israel, servo meu, tu Jacó, a quem elegi descendência de Abraão, meu
amigo; tu a quem tomei desde os fins da terra, e te chamei dentre os seus mais
excelentes, e te disse: Tu és o meu servo, a ti escolhi e nunca te rejeitei. (Isaías 41:8-9
8)
Lembrou-se da sua benignidade e da sua verdade para com a casa de Israel; todas as
extremidades da terra viram a salvação do nosso Deus. (Salmo, 98:3)
55. – Conforme prometera a nossos pais – em favor de Abraão e de sua descendência
para sempre!
E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti
serão benditas todas as famílias da terra. (Gênesis 12:3)
Porque toda esta terra que vês, te hei de dar a ti, e à tua descendência, para sempre.
(Genesis 13:15)
E em tua descendência serão benditas todas as nações da terra; porquanto obedeceste
à minha voz. (Genesis 22:18)
É importante imaginar como foi a cena em que tal evento ocorreu.
Narra-nos Lucas que após Maria receber o aviso através do anjo, a respeito de sua concepção,
que diga-se de passagem era um aviso mediúnico, e não fica nenhuma dúvida quanto a isso, ela
se dirigiu a uma cidade de Judá para fazer uma visita a sua prima Isabel.
Esta cidade foi identificada segundo uma tradição do século V como sendo Ain Karim, e
situava-se a aproximadamente 6 Km de Jerusalém.
A viagem de Nazaré a Ain Karim, segundo alguns autores, se fazia em quatro ou cinco dias.
Como? Provavelmente no lombo de um animal. Era, portanto, uma viagem através de uma estrada
ruim, cansativa, principalmente para quem estava nas primeiras semanas de gravidez. Maria devia
ter a esta época algo em torno de 14 anos. Ela deve ter chegado à casa de sua prima, extenuada.
Diz o Evangelista que ao entrar na casa de Zacarias, saudou Isabel6
; Isabel, ouviu a saudação
e exclamou o que no futuro viria a ser uma conhecida prece: Bendita és tu entre as mulheres e
bendito é o fruto de teu ventre!7
. E após ouvir a prima Maria profere o belíssimo poema-oração a
que estamos nos referindo. Ou seja, ela teve a capacidade de fazer a genial síntese, o poema
magnífico, em uma condição de extremo cansaço, em condições físicas precárias, mesmo assim
ela se manifestou em profunda harmonia espiritual.
Nós quando estamos cansados perdemos a criatividade e até mesmo a capacidade de pensar
com inteligência, queremos repor as energias e só depois realizar algo que exija um trabalho mais
elaborado.
Voltemos à nossa questão inicial, não sabemos se Maria era culta ou iletrada segundo os
padrões da época. O que podemos afirmar, com certeza, é que era sábia, e sua sabedoria espiritual
se manifesta em cada palavra do Magnificat, tornando-a a educadora do maior Sábio de todos os
tempos.
Como foi a educação de Jesus?
Este é um tema que buscaremos desenvolver melhor na segunda parte deste estudo, porém
aqui gostaríamos de fazer reverência a outro personagem de grande importância neste processo:
José, o pai de Jesus.
6
Lucas, 1: 40
7
Idem, Ibidem, 42
15.
Cláudio Fajardo
15 Maria,A Educadora de Jesus
É comum no meio cristão evidenciar a evolução de Maria, o que é certo, entretanto,
desconsiderar a de seu marido, o que não é correto.
Maria teve grande contribuição na educação8
de Jesus. O mesmo podemos afirmar sobre José,
que, sem comparação, era também um Espírito de elevada evolução
Para compreender melhor a grandeza de José, vejamos como Emmanuel, nosso guia para todas
as horas, o descreve:
É preciso, porém, observar que, a par de beneficiários ingratos, de
ouvintes indiferentes, de perseguidores cruéis e de discípulos
vacilantes, houve um homem integral que atendeu a Jesus,
hipotecando-lhe o coração sem mácula e a consciência pura.
José da Galileia foi um homem tão profundamente espiritual que seu
vulto sublime escapa às análises limitadas de quem não pode prescindir
do material humano para um serviço de definições.
Já pensaste no cristianismo sem ele?
Quando se fala excessivamente em falência das criaturas, recordemos
que houve tempo em que Maria e o Cristo foram confiados pelas Forças
Divinas a um homem.9
O Espírito Humberto de Campos, através da mediunidade de Chico Xavier10
, nos relata da
preocupação dos pais de Jesus com a sua educação. Eles tinham a intuição de sua missão e a
ciência de parte de suas necessidades, por isso preocupavam-se em preparar o menino para o
cumprimento dos desígnios superiores.
Narra-nos este Espírito, importante diálogo entre Maria e sua prima Isabel, do qual citamos
pequeno trecho, a respeito do tema do preparo dos filhos para o cumprimento dos propósitos do
Pai:
Ainda há alguns dias, estivemos em Jerusalém, nas comemorações
costumeira, e a facilidade de argumentação com que Jesus elucidava
os problemas, que lhe eram apresentados pelos orientadores do templo,
nos deixou a todos receosos e perplexos. Sua ciência não pode ser deste
mundo: vem de Deus, que certamente se manifesta por seus lábios
amigos da pureza. Notando-lhe as respostas, Eleazar chamou a José,
em particular, e o advertiu de que o menino parece haver nascido para
a perdição de muitos poderosos em Israel.
Com a prima a lhe escutar atentamente a palavra, Maria prosseguiu,
de olhos úmidos, após ligeira pausa:
Ciente desse aviso, procurei Eleazar, a fim de interceder por Jesus,
junto de suas valiosas relações com as autoridades do templo. Pensei
na sua infância desprotegida e receio pelo seu futuro. Eleazar
prometeu interessar-se pela sua sorte; todavia, de regresso a Nazaré,
experimentei singular multiplicação dos meus temores.
Conversei com José, mais detidamente, acerca do pequeno,
preocupada com o seu preparo conveniente para a vida!... Entretanto,
no dia que se seguiu às nossas íntimas confabulações, Jesus se
8
Temos usado esta expressão por não encontrar no momento outra melhor, todavia não sabemos se é
certo falar em educação em relação a Jesus, que era um Espírito Puro mesmo encarnado, e que segundo
Emmanuel não sofreu as restrições comuns a qualquer um de nós ao tomar um corpo de carne.
9
XAVIER, Francisco C. / Emmanuel (Espírito). Levantar e Seguir, São Bernardo do Campo, GEEM,
1992, cap. 6
10
XAVIER, Francisco C./Humberto de Campos. Boa Nova, 14a
ed., Rio de Janeiro, FEB, 1982, cap. 2
16.
Cláudio Fajardo
16 Maria,A Educadora de Jesus
aproximou de mim, pela manhã, e me interpelou: “Mãe, que queres tu
de mim? Acaso não tenho testemunhado a minha comunhão com o Pai
que está no Céu!
Altamente surpreendida com a sua pergunta, respondi-lhe, hesitante:
Tenho cuidado por ti, meu filho! Reconheço que necessitas de um
preparo melhor para a vida... Mas, como se estivesse em pleno
conhecimento do que se passava em meu íntimo, ponderou ele: “Mãe,
toda preparação útil e generosa no mundo é preciosa; entretanto, eu já
estou com Deus. Meu Pai, porém, deseja de nós toda a exemplificação
que seja boa e eu escolherei, desse modo, a escola melhor. No mesmo
dia, embora soubesse das belas promessas que os doutores do templo
fizeram na sua presença a seu respeito, Jesus aproximou-se de José e
lhe pediu, com humildade, o admitisse em seus trabalhos. Desde então,
como se nos quisesse ensinar que a melhor escola para Deus é a do lar
e a do esforço próprio concluiu a palavra materna com singeleza —,
ele aperfeiçoa as madeiras da oficina, empunha o martelo e a enxó,
enchendo a casa de ânimo, com a sua doce alegria! (Os grifos são
nossos)
Percebemos neste singelo diálogo o cuidado dos pais de Jesus com sua educação. Ele por sua
vez tinha a perfeita consciência do que era o mais importante: eu escolherei, desse modo, a escola
melhor.
Como nos comportaríamos diante de um filho deste nível? Tentaríamos impor nossas ideias
ou teríamos a humildade de reconhecer sua superioridade, permitindo que florescesse sem
obstáculos?
Como Maria encarava sua missão?
Teria a mãe de Jesus plena consciência de seu papel diante da vida? Não há como responder
com certeza. Qualquer afirmação nesse sentido será sempre fruto de opinião pessoal ou dedução
a partir dos textos disponíveis.
Maria era um Espírito de elevada evolução — como já ressaltamos — e, conforme nos orienta
a Codificação Espírita, quanto mais evoluído é o Espírito, maior é sua consciência da tarefa que
lhe cabe. Podemos, portanto, deduzir que Maria possuía uma percepção acima da média sobre sua
missão, embora não total. Isso porque todo Espírito, ao encarnar, perde parte de sua lucidez, de
acordo com o estágio em que se encontra.
Mesmo sendo um Espírito de alta hierarquia e com uma tarefa especial, Maria também
experimentou essa limitação. Ainda assim, tinha profunda intuição tanto de seu papel quanto do
de Jesus. O Evangelho mostra que ela foi informada sobre sua missão, mas não em sua totalidade,
apenas na medida necessária para que pudesse cumprir, com fidelidade e humildade, o que lhe
competia.
Humberto de Campos, na obra citada, e no mesmo diálogo de Maria com Isabel, relata a fala
da mãe de Jesus:
(…) constantemente, ando a cismar, em relação ao seu destino.
Apesar de todos os valores da crença murmurou Isabel, convicta —,
nós, as mães, temos sempre o espírito abalado por injustificáveis
receios.
Se Maria fosse plenamente consciente não teria esta cisma nem seria abalada por estes receios.
Mostra-nos ainda o mesmo autor espiritual em outra página, que a mãe de nosso Senhor ao
saber de sua prisão, confiou em Deus, todavia, empreendeu esforços e orou ao Pai na esperança
17.
Cláudio Fajardo
17 Maria,A Educadora de Jesus
de que o pior não acontecesse e Jesus fosse solto. Quando seu filho foi entregue a Herodes, chegou
a pensar:
Naturalmente, Deus modificaria os acontecimentos, tocando a alma de
Ântipas.11
E mesmo quando já parecia consumado o assassinato, ao vê-lo vergado ao peso da cruz,
lembra-se de Abraão quando este conduzira o filho ao sacrifício, e da ação de Deus salvando-o, e
pensa:
Certamente o Deus compassivo escutava-lhe as súplicas e reservava-
lhe [a Jesus] júbilo igual.12
Só depois, ao ver o filho morto, foi que recordou a visita do anjo no momento da anunciação.
Devem ter passado em sua mente, com a rapidez de um relâmpago, todas as cenas de sua
existência; rememorando, percebeu o quanto sua vida e a do filho estavam ligadas numa missão
maior em nome de Deus. Ela sofria, mas os desígnios do Alto se cumpriram, a treva havia sido
iludida, vencera a luz, suas preces foram ouvidas, não segundo seus anseios de mãe e sim de
acordo com os planos divinos13
. E em sua mente lembrou também de suas próprias palavras
anteriormente ditas: Eis aqui a serva do Senhor14
Maria: Mãe de Toda Humanidade
Uma passagem do Evangelho que nos traz significativos pontos para reflexão é a da
crucificação de Jesus, mais especificamente segundo a narrativa de João que cita a presença da
Mãe do Messias no evento que marcou os momentos finais Dele na carne.
Segundo o redator do quarto Evangelho:
Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe,
Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena. Jesus, então, vendo sua
mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse à sua mãe: “Mulher,
eis o teu filho!” Depois disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!” E a partir
dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa.15
Já de início vemos na narrativa algo que serve para nós do sexo masculino nos envergonharmos
diante da situação. Jesus teve doze discípulos homens próximos de si. Judas Iscariotes afastou-se
no final, restando onze. Desses, apenas João esteve presente no momento de sua crucificação. Ao
contrário, muitas mulheres, também suas seguidoras, se fizeram presente no instante final,
prestando solidariedade e sofrendo junto.
Depreendemos daí, e notamos isto no dia a dia, mesmo hoje, que a mulher é muito mais
corajosa que o homem. Há exceções, todavia, no geral, elas enfrentam certos momentos de tensão
com maior superioridade espiritual do que nós.
Cremos, sem querer fechar a questão sobre o assunto, e principalmente aqui no caso da
crucificação, que o que deu coragem a estas fiéis seguidoras de Jesus foi o sentimento de amor
que já possuíam como virtude conquistada, sentimento este que na maioria das vezes têm elas
mais do que nós do sexo masculino.
Segundo a observação de alguns estudiosos da área da psicologia, o oposto de amor não é
ódio, e sim o medo, pois o temor é paralisante, estático, enquanto amor é movimento, dinamismo.
O medo não deixa o amor se expressar e o amor dissolve o medo.
11
XAVIER, Francisco C./Irmão X. Lázaro Redivivo, Rio de Janeiro, FEB, 1945, cap. 2
12
Idem, ibidem.
13
id., ib.
14
Lucas, 1: 38
15
João, 19: 25 a 27
18.
Cláudio Fajardo
18 Maria,A Educadora de Jesus
Não temos dúvida de que foi o sentimento nobre que já possuíam que deu coragem àquelas
mulheres; os homens, mais afeitos ao raciocínio, pensaram mais no perigo que corriam e
afastaram-se.
Temos aprendido a ver que entre os doze da intimidade de Jesus, João, o filho de Zebedeu, era
o que tinha mais destacado o sentimento de amor. Não é outro o motivo de ser ele conhecido
como o discípulo amado. Neste caso não havia nenhum privilégio, apenas cumprimento da Lei,
a cada um segundo as suas obras, aquele que mais ama é mais amado.
Assim, foi também o sentimento de amor mais desenvolvido que deu coragem a este discípulo
e que o fez estar com as mulheres nos momentos finais do Mestre entre nós fisicamente.
O mais significativo, entretanto, nesta passagem, é o ensinamento transmitido por Jesus ao
dizer a sua mãe: “Mulher, eis o teu filho!” e depois a João: “Eis a tua mãe!”
É importante compreender o sentido da palavra 'mulher' naquele contexto. Para nós, hoje,
poderia soar como um tratamento frio ou impessoal, mas na cultura judaica do primeiro século
era uma forma respeitosa e solene de dirigir-se a alguém. Jesus utiliza esse termo em momentos
decisivos — como nas Bodas de Caná e na cruz — para destacar não apenas o vínculo familiar,
mas sobretudo o papel espiritual que Maria assumia.
João é chamado o discípulo amado não porque Jesus o amasse mais do que aos outros, mas
porque ele muito amava. Quem muito ama é naturalmente amado. O próprio Cristo ensinou:
'Meus discípulos serão reconhecidos por muito amarem.'(João, 13: 35)
Assim, João se torna símbolo de todos os cristãos, daqueles que seguem Jesus e vivem o amor
em plenitude. Ao entregar Maria como mãe a João, Jesus está, na verdade, revelando que Maria
é a mãe espiritual de todos os que amam e são amados, como João. Dessa forma, Maria não é
apenas mãe biológica de Jesus, mas mãe espiritual de toda a comunidade cristã, daqueles que se
esforçam por viver o Evangelho do amor.
Ao entregar Maria como mãe espiritual, Jesus a revela como uma ‘nova Eva’, mãe da
humanidade redimida. Esta é segundo os textos do Antigo Testamento a mãe de todos os
viventes16
, Maria seria a Mãe de toda a humanidade convertida a Cristo.
Do mesmo modo que Paulo refere-se a Cristo como o segundo Adão, ou o último Adão17
,
Maria seria a segunda Eva. Se a primeira induziu a humanidade à queda por meio da influência
negativa da Serpente, a segunda nos leva à redenção atendendo um convite também mediúnico,
o que o anjo fez para que acolhesse Jesus como filho.
No primeiro caso temos uma mediunidade desequilibrada, no segundo santificada pela
fidelidade a Deus; no primeiro a indução à desobediência, no segundo a submissão a um programa
do Alto.
Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!18
Maria seria, assim, uma Eva sublimada.
Há outro texto no Gênesis que faz uma relação entre Eva e Maria que nos ajudará a desenvolver
nosso raciocínio. Trata-se do momento em que Deus, na linguagem simbólica da literatura
hebraica, adverte a Serpente:
Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu
descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.19
16
Gênesis, 3: 20
17
1 Coríntios, 15: 45 a 47
18
Lucas, 1: 38
19
Gênesis, 3: 15
19.
Cláudio Fajardo
19 Maria,A Educadora de Jesus
Algumas traduções falam “entre a tua semente [da Serpente] e a sua semente” [da mulher],
entretanto o termo hebraico usado para semente é masculino. Como semente neste caso tem o
significado de descendência, em português pode-se usar a forma masculina seu descendente.
A Serpente é símbolo do mal, as religiões viram-na como o “Diabo”, o Maligno. A
descendência da Serpente é assim toda sorte de erros cometidos pelo homem, fruto da transgressão
inicial induzida por ela mesma, a Serpente.
Através desta transgressão foi rompida a Aliança do homem com seu Criador. Numa
abordagem que não vamos aprofundar aqui por não ser o objetivo principal deste estudo, a
Serpente representa os Espíritos desencarnados ainda arraigados no mal e que procuram distanciar
o homem do Bem. Ela age por influência espiritual. No plano físico quem primeiro captou sua
influência negativa foi Eva induzindo Adão à queda.
Quem restabelecerá o elo do homem com Deus, que trará a ele a redenção é Jesus, o
descendente de Maria.
Se por Eva veio a queda, por Maria nos chega a redenção. Se Paulo nos apresenta Cristo como
o segundo Adão, podemos ver em Maria a segunda Eva, a mãe espiritual que nos conduz à
fidelidade e à salvação.
Maria e João. O Trabalho da Mãe Após o Desencarne do Filho
Segundo a narrativa de João já citada neste estudo, após a crucificação de Jesus, o Discípulo
Amado acolheu a mãe do Mestre em sua casa20
. A literatura espírita confirma esse acontecimento,
mas esclarece que tal acolhimento não ocorreu de imediato, e sim algum tempo depois.
Quem nos transmite essa notícia é o Espírito Humberto de Campos, pela mediunidade do
devotado Chico Xavier21
. De acordo com esse autor espiritual, após a morte de seu filho, Maria
foi viver na Bataneia, onde residiam alguns parentes próximos — na realidade, familiares de José.
Em Jerusalém, o clima era de grande tensão: cristãos e judeus estavam em conflito, e até entre
os próprios seguidores de Jesus surgiam dissensões. A Mãe do Senhor necessitava de paz para se
recompor dos dolorosos momentos vividos no calvário.
Passado algum tempo, João — que jamais esquecera as palavras de Jesus na cruz — dirigiu-
se à Bataneia e ofereceu àquela que aprendera a amar o refúgio amoroso de sua proteção22
.
Conta o apóstolo, que havia se instalado em Éfeso, Cidade da Lídia, na costa ocidental da Ásia
Menor, onde as ideias cristãs ganhavam terreno entre as almas devotadas e sinceras.
O filho de Zebedeu vinha buscá-la, andariam ambos na mesma associação de interesses
espirituais. Seria seu filho desvelado…
A demora em buscar a Mãe Santíssima se dera devido ao fato dele não ter ainda uma casa,
mesmo que simples, para acomodá-la. Tendo agora resolvido esta questão graças à generosidade
de um cristão que lhe doara uma casinha onde poderiam morar, viera rapidamente buscá-la,
iniciariam uma nova era de amor, na comunidade universal.
Maria aceitou a oferta e se instalou junto de seu novo filho em Éfeso, e, além de cultivar as
lembranças de Jesus, iniciaram importante trabalho de evangelização na região. Ela atendia em
sua própria casa aos necessitados que lá iam em busca de consolo e até mesmo de cura de algumas
enfermidades; ele por sua vez cuidava mais especificamente do esclarecimento evangélico
comentando sobre os ensinamentos recebidos de Jesus.
20
Cf. João, 19: 27
21
XAVIER. F. C. / Humberto de Campos (Espírito)1982, cap. 30
22
Idem, Ibidem
20.
Cláudio Fajardo
20 Maria,A Educadora de Jesus
Narra Emmanuel23
, que Paulo de Tarso visitou Maria nesta casinha singela e que ficou
impressionado com a sua humildade. Desejou receber dela informações sobre Jesus de tal modo
que pudesse escrever um Evangelho contando a história do Mestre e ampliar seus ensinamentos.
Paulo não pôde realizar este desejo, entretanto, encarregou a seu amigo de confiança, Lucas,
a tarefa de realizar o projeto de escrever um Evangelho com as informações fornecidas pela mãe
de Jesus.
Conta-nos ainda Emmanuel que na despedida de Paulo, em Éfeso, antes de seu martírio em
Jerusalém, ela também, mesmo que em idade avançada, compareceu para levar uma palavra de
amor24
a este desbravador de corações em favor do Evangelho.
O trabalho em Éfeso cresce em grandes proporções o que obriga João a se ausentar repetidas
vezes da residência humilde deixando Maria muitas vezes só no atendimento dos necessitados,
ela já bem idosa não se cansa e trabalha ininterruptamente em favor dos infelizes apascentando
as ovelhas de Seu filho amado.
É Humberto de Campos25
quem nos informa que em seus momentos finais no corpo cansado,
fisicamente estava só, mas que o próprio Jesus veio buscá-la. Ela ao reconhecê-lo, com imensa
alegria fez menção em ajoelhar-se aos seus pés, ele a impediu, e por sua vez foi quem ajoelhou
nomeando-a conforme a vontade de Deus, Rainha dos anjos no Reino do Eterno.
Maria desencarnou…
Maria no Plano Espiritual
O Espiritismo como ciência que estuda o plano físico e o homem, o plano espiritual e os
Espíritos que o compõem, e as relações entre os dois, pôde com autoridade nos informar a respeito
das atividades do nobre Espírito Maria no Plano Espiritual.
Sabemos que quanto mais o Espírito é evoluído, mais ele trabalha no Plano Maior da Vida.
Espíritos ainda materializados que somos, após o desencarne necessitamos de um período de
adaptação à nova vida, isto é comum a todos, e esta adaptação, segundo nos informam os próprios
Espíritos, tem o tempo maior ou menor de acordo com a condição evolutiva moral e espiritual de
cada um.
Na condição mediana em que nos encontramos, mostra-nos a literatura espírita a necessidade
de que o Espírito alterne momentos de trabalho com momentos de descanso, pois tendo em seu
corpo espiritual, ainda, elementos materiais, mesmo que em outra dimensão, necessita de
refazimento e recomposição energética. Todavia há Espíritos que, de tão grande sua evolução,
jamais descansam, trabalham ininterruptamente.
Pelo que podemos depreender através de nossas reflexões este é o caso de Maria de Nazaré,
aquela escolhida pelo Pai para ser a mãe do Espírito mais nobre que nosso orbe já conheceu.
No livro Boa Nova, no citado capítulo que narra sobre o seu desencarne temos que o primeiro
desejo da Mãe do Salvador após deixar o corpo físico foi rever a Galileia com os seus sítios
preferidos26
. Bastou desejar e lá estava ela revendo o lago de Genesaré e toda sua bela paisagem.
Neste instante lembrou dos discípulos que eram já e este tempo perseguidos pela fúria humana
ainda dissociada do Bem, e desejou abraçá-los fortalecendo-os em suas lutas íntimas. É que já
acontecia por parte das autoridades do império romano as perseguições aos seguidores de Jesus,
perseguições estas que levavam os cristãos autênticos a grandes sacrifícios em favor do
23
XAVIER F. C. / Emmanuel (Espírito). Paulo e Estevão, 41ª ed. Rio de Janeiro, FEB, 2004. Cap. 7
24
XAVIER F. C. / Emmanuel (Espírito) 2004, 2ª Parte, cap. 7.
25
XAVIER F. C. / Humberto de Campos (Espírito) 1982. Cap. 30
26
XAVIER F. C. /Humberto de Campos (Espírito), 1982, cap. 30
21.
Cláudio Fajardo
21 Maria,A Educadora de Jesus
Evangelho. Bastou esta expressão de sua vontade e rapidamente se viu em Roma onde nos
cárceres do Esquilino centenas de seguidores de Seu Filho sofriam terríveis constrangimentos.
Narra Humberto de Campos que imediatamente os condenados experimentaram no coração
um consolo desconhecido.
E continuando a narrativa informa-nos o cronista do Mundo Invisível:
Maria se aproximou de um a um, participou de suas angústias e orou
com as suas preces, cheias de sofrimento e confiança. Sentiu-se mãe
daquela assembleia de torturados pela injustiça do mundo. Espalhou a
claridade misericordiosa de seu Espírito entre aquelas fisionomias
pálidas e tristes.
Eram anciães que confiavam no Cristo, mulheres que por ele haviam
desprezado o conforto do lar, jovens que depunham no Evangelho do
Reino toda a sua esperança. Maria aliviou-lhes o coração e, antes de
partir, sinceramente desejou deixar-lhes nos espíritos abatidos uma
lembrança perene. Que possuía para lhes dar? Deveria suplicar a Deus
para eles a liberdade?! Mas, Jesus ensinara que com ele todo jugo é
suave e todo fardo seria leve, parecendo-lhe melhor a escravidão com
Deus do que a falsa liberdade nos desvãos do mundo. Recordou que
seu filho deixara a força da oração como um poder incontrastável entre
os discípulos amados. Então, rogou ao Céu que lhe desse a
possibilidade de deixar entre os cristãos oprimidos a força da alegria.
Foi quando, aproximando-se de uma jovem encarcerada, de rosto
descarnado e macilento, lhe disse ao ouvido:
— “Canta, minha filha! Tenhamos bom ânimo!… Convertamos as
nossas dores da Terra em alegrias para o Céu!…”
A triste prisioneira nunca saberia compreender o porquê da
emotividade que lhe fez vibrar subitamente o coração. De olhos
extáticos, contemplando o firmamento luminoso, através das grades
poderosas, ignorando a razão de sua alegria, cantou um hino de
profundo e enternecido amor a Jesus, em que traduzia sua gratidão
pelas dores que lhe eram enviadas, transformando todas as suas
amarguras em consoladoras rimas de júbilo e esperança. Daí a
instantes, seu canto melodioso era acompanhado pelas centenas de
vozes dos que choravam no cárcere, aguardando o glorioso
testemunho.
Acrescenta ainda o autor espiritual que:
Logo, a caravana majestosa conduziu ao Reino do Mestre a bendita
entre as mulheres e, desde esse dia, nos tormentos mais duros, os
discípulos de Jesus têm cantado na Terra, exprimindo o seu bom ânimo
e a sua alegria, guardando a suave herança de nossa Mãe Santíssima.27
Notamos assim, que desde o primeiro momento no Plano Espiritual Maria, já consciente,
trabalha e intercede pelos sofredores buscando aliviá-los de suas dores e angústias, sejam elas de
natureza física ou espiritual.
Existe um belíssimo poema de Maria Dolores que, com todo o lirismo, narra o socorro de
Maria ao Espírito de Judas Iscariotes, nos instantes em que ele atravessava profunda crise de
consciência.
Citamo-lo a seguir:
27
XAVIER F. C. /Humberto de Campos (Espírito), 1982, cap. 30.
22.
Cláudio Fajardo
22 Maria,A Educadora de Jesus
RETRATO DE MÃE
Depois de muito tempo,
Sobre os quadros sombrios do Calvário,
Judas, cego no Além, errava solitário…
Era triste a paisagem,
O céu era nevoento…
Cansado de remorso e sofrimento,
Sentara-se a chorar…
Nisso, nobre mulher de Planos superiores,
Nimbada de celestes esplendores,
Que ele não conseguia divisar,
Chega e afaga a cabeça do infeliz.
Em seguida, num tom de carinho profundo,
Quase que, em oração, ela lhe diz:
— Meu filho, por que choras?
Acaso, não sabeis? — replica o interpelado,
Claramente agressivo,
Sou um morto e estou vivo.
Matei-me e novamente estou de pé,
Sem consolo, sem lar, sem amor e sem fé…
Não ouvistes falar em Judas, o traidor?
Sou eu que aniquilei a vida do Senhor…
A princípio, julguei
Poder faze-lo rei,
Mas apenas lhe impus
Sacrifício, martírio, sangue e cruz.
E em flagelo e aflição
Eis a que a minha vida agora se reduz…
Afastai-vos de mim,
Deixai-me padecer neste inferno sem fim…
Nada me pergunteis, retirai-vos senhora,
Nada sabeis da mágoa que me agita,
Nunca penetrareis minha dor infinita…
O assunto que lastimo é unicamente meu…
No entanto, a dama calma respondeu:
— Meu filho, sei que sofres, sei que lutas,
Sei a dor que te causa o remorso que escutas,
Venho apenas falar-te
23.
Cláudio Fajardo
23 Maria,A Educadora de Jesus
Que Deus é sempre amor em toda parte..
E acrescentou serena:
— A Bondade do Céu jamais condena;
Venho por mãe a ti, buscando um filho amado.
Sofre com paciência a dor e a prova;
Terás, em breve, uma existência nova…
Não te sintas sozinho ou desprezado.
Judas interrompeu-a e bradou, rude e pasmo:
— Mãe? Não me venhais aqui com mentira e sarcasmo.
Depois de me enforcar num galho de figueira,
Para acordar na dor,
Sem mais poder fugir à vida verdadeira,
Fui procurar consolo e força de viver
Ao pé da pobre mãe que me forjara o ser!…
Ela me viu chorando e escutou meus lamentos,
Mas teve medo de meus sofrimentos.
Expulsou-me a esconjuros,
Chamou-me monstro, por sinal,
Disse que eu era
Unicamente o Espírito do mal;
Intimou-me a terrível retrocesso,
Mandando que apressasse o meu regresso
Para a zona infernal, de onde, por certo, eu vinha…
Ah! detesto lembrar a horrível mãe que eu tinha…
Não me faleis de mães, não me faleis de amor,
Sou apenas um monstro sofredor…
— Inda assim — disse a dama docemente —
Por mais que me recuses, não me altero;
Amo-te, filho meu, amo-te e quero
Ver-te, de novo, a vida
Maravilhosamente revestida
De paz e luz, de fé e elevação…
Virás comigo à Terra,
Perderás, pouco a pouco, o ânimo violento,
Terás o coração
Nas águas de bendito esquecimento.
Numa nova existência de esperança,
Levar-te-ei comigo
24.
Cláudio Fajardo
24 Maria,A Educadora de Jesus
A remansoso abrigo,
Dar-te-ei outra mãe! Pensa e descansa!…
E Judas, nesse instante,
Como quem olvidasse a própria dor gigante
Ou como quem se desagarra
De pesadelo atroz,
Perguntou: — quem sois vós?
Que me falais assim, sabendo-me traidor?
Sois divina mulher, irradiando amor
Ou anjo celestial de quem pressinto a luz?!…
No entanto, ela a fitá-lo, frente a frente,
Respondeu simplesmente:
—Meu filho, eu sou Maria, sou a mãe de Jesus.28
Maria dirige no Plano Espiritual várias organizações de socorro aos necessitados. No livro
Memórias de um Suicida29
de autoria do Espírito Camilo Castelo Branco através da médium
Yvonne do Amaral Pereira, é-nos relatado o socorro realizado aos Espíritos que praticaram o
autoextermínio pela Legião dos Servos de Maria.
Trata-se de uma Legião de Espíritos dirigidos pelo Nobre Espírito Maria que tem por
finalidade socorrer aqueles que abreviaram voluntariamente a sua vida e por isso padecem atrozes
dores no Mundo Espiritual. Há entre os servidores da Mãe do Senhor disciplina e amor no auxílio
a estes que sem dúvida são grandes necessitados de socorro espiritual.
Dá-nos a conhecer ainda, este autor espiritual português, outras organizações chefiadas por
este angelical Espírito como o Hospital Maria de Nazaré e a Mansão da Esperança.
Outras citações poderíamos fazer para falar do trabalho da Rosa de Nazaré no Mundo do
Espírito, entretanto, para encerrar estas singelas linhas sobre seu trabalho no sentido de apascentar
as ovelhas de Seu Filho amado gostaríamos apenas de citar a referência de André Luiz àqueles
que em prece pedem o socorro da Senhora dos Anjos para o alívio de seu coração.
Narra-nos este querido mentor estudando os processos de intercessão no Mundo da Verdade
que certa matrona chorava com paciência e de joelhos diante de seu oratório particular quando
seu orientador sugeriu-o acompanhar as vibrações mentais da irmã em súplica:
(…) postar-nos-emos na retaguarda, de modo a não a incomodar com
a nossa presença. E, envolvendo-a nas vibrações de nossa simpatia,
assimilar-lhe-emos a faixa mental, percebendo, com clareza, as
imagens que ela cria em seu processo pessoal de oração.
Obedecemos maquinalmente e, de minha vez, à medida que
concentrava a atenção naquela cabeça grisalha e pendente, mais se
alterava o estreito espaço do nicho aos meus olhos...
Pouco a pouco, qual se emergisse da parede lirial, linda tela se me
desdobra à visão, tomada de espanto. Era a reprodução viva da
28
XAVIER F. C. / Espíritos diversos. Momentos de Ouro, São Bernardo do Campo, GEEM, 1977 cap.
3
29
PEREIRA, Yvonne do Amaral. Memórias de um Suicida, Rio de Janeiro, FEB, 1955
25.
Cláudio Fajardo
25 Maria,A Educadora de Jesus
formosa escultura de Teixeira Lopes30
, representando a Mãe
Santíssima chorando o Divino Filho morto... E as frases inarticuladas
da veneranda irmã em prece ressoavam-me nos ouvidos:
- "Mãe Santíssima, Divina Senhora da Piedade, compadece-te de meus
filhos que vagueiam nas trevas!... Por amor de teu filho sacrificado na
cruz, ajuda-me o espírito sofredor para que eu possa ajudá-los...
Bem sei que por sinistro apego às posses materiais, não vacilaram em
abraçar o crime.
Em verdade, Senhora, são eles homicidas infortunados que a justiça
terrestre não conheceu... Por isso mesmo, padecem com mais
intensidade o drama das próprias consciências, enleadas à culpa...”
Nesse ponto da petição, Silas tocou-nos, de leve, os ombros,
convidando-nos ao ensinamento devido e explicou:
- É uma pobre mãe desencarnada que roga pelos filhos transviados nas
sombras.
Invoca a proteção de nossa Mãe Santíssima, sob a representação de
Senhora da Piedade, segundo a fé que o seu coração pode, por
enquanto, albergar, no âmbito das recordações trazidas do mundo...
- Isso quer dizer que a imagem de nossa visão...
Esta observação ficou, porém, no ar, porque Silas completou, presto:
- É uma criação dela mesma, reflexo dos próprios pensamentos com
que tece a rogativa, pensamentos esses que se ajustam à matéria
sensível do nicho, plasmando a imagem colorida e vibrante que lhe
corresponde aos desejos.
E respondendo automaticamente às indagações que o problema nos
sugeria, continuou:
- Isso, contudo, não significa que a prece esteja sendo respondida por
ela mesma. Petições semelhantes a esta elevam-se a planos superiores
e aí são acolhidas pelos emissários da Virgem de Nazaré, a fim de
serem examinadas e atendidas, conforme o critério da verdadeira
sabedoria.31
A Hora do Ângelus
Há entre os encarnados, principalmente os que adotam a fé católica, um importante momento
do dia - às dezoito horas, quando a suavidade do início da noite sugere momentos de reflexão -
em que têm o hábito de reverenciar a Mãe das mães.
A literatura espírita através da mediunidade de Yvonne do Amaral Pereira32
nos sugere que
esta reverência é fruto de um reflexo do Plano Maior já que na Espiritualidade muitos Espíritos
também reverenciam a Santa de Nazaré neste mesmo horário.
Conta-nos Camilo Castelo Branco que:
Do templo, situado na Mansão da Harmonia, região onde se
demoravam com frequência os diretores e educadores da Colônia,
partia o convite às homenagens que, naquele momento, seria de bom
30
António Teixeira Lopes, notável escultor português. (Nota do Autor espiritual.)
31
XAVIER, Francisco C./André Luiz. Ação e Reação, 6a
ed., Rio de Janeiro, FEB, 1978, cap. 11
32
Cf (PEREIRA 1955), 3ª Parte cap. 2
26.
Cláudio Fajardo
26 Maria,A Educadora de Jesus
aviso prestarmos à Protetora da Legião a que pertencíamos todos –
Maria de Nazaré.
Pelos recantos mais sombrios da Colônia ressoavam então doces
acordes, melodias suavíssimas, entoadas pelos vigilantes. Era o
momento em que a direção geral rendia graças ao Eterno pelos favores
concedidos a quantos viviam sob o abrigo generoso daquele reduto de
corrigendas, bendizendo a solicitude incansável do Bom Pastor em
torno das ovelhinhas rebeldes, tuteladas da Legião de sua Mãe
amorável e piedosa.
A narrativa continua na obra citada. Para nós importa comentar apenas que devido ao grande
número de Espíritos encarnados e desencarnados envolvidos na prece neste mesmo momento,
todos com a mente voltada para uma espiritualidade edificante, cria-se no planeta uma excelente
vibração onde os Espíritos trabalhadores da Seara do Cristo encontram subsídios para realizar
trabalhos inimagináveis para a mente do homem comum.
Assim, se possível, entremos nesta vibração coletiva do Bem buscando pela prece trabalhar
em favor de nossos irmãos mais necessitados; sabedores que, no comando desta poderosa corrente
está a Rosa Mística de Nazaré intercedendo perante Seu Filho, o Governador Espiritual do Orbe,
por todos agregados a esta luminosa correnteza construtora da Ordem Universal.
27.
Parte II
Maria aEducadora de Jesus
Sobre este assunto há algumas reflexões que devem ser feitas. Jesus precisava ser educado?
Precisava que alguém lhe ensinasse alguma coisa ou já sabia tudo?
Este é mais um desafio em nossa tarefa de compreender o Mestre maior. Sinceramente penso
que não há como responder estas e outras questões a respeito com certeza, é mais uma área em
que o que falarmos não passa de opinião pessoal.
Jesus é a maior expressão de amor que temos. E quem ama sabe se adequar. Ao vir até nós,
Ele restringiu-se voluntariamente para melhor cumprir sua missão, fazendo-se habitante comum
de nosso orbe. Assim pôde ensinar com autoridade, vivendo como nós, mas sem perder sua
essência divina.
Pelo que depreendemos de nossos estudos trata-se de uma restrição que fez de forma
consciente e espontânea, e não por imposição. O que significa que a qualquer momento que
quisesse poderia retomar suas possibilidades.
Assim, possuía um corpo semelhante ao nosso, porém mais harmonioso e perfeito do que o
habitual entre os habitantes da Terra. Não conhecia enfermidades, trazia uma memória prodigiosa
e tinha domínio sobre sua própria presença, podendo manifestar-se ou ocultar-se conforme
desejasse.
Foi criança, adolescente, jovem — como qualquer um de nós — mas trazia em si uma evolução
espiritual que nos escapa. Recebia lições, mas em verdade apenas despertava o que já possuía em
plenitude. Educar, dizem os pedagogos, é tirar do educando aquilo que ele já possui; em Jesus
isso se mostrava com clareza, pois Ele já trazia todas as virtudes.
Educar uma criança é tarefa complexa; imagine então educar Jesus. Talvez a maior missão de
Maria e José fosse não atrapalhar seu desenvolvimento, o que já era um desafio imenso.
Ele surpreendia seus pais a toda hora. Talvez a maior missão destes era realmente não
atrapalhar o seu desenvolvimento, e podemos dizer com segurança, que apenas isto, não
atrapalhar, já era uma missão desafiadora.
O evangelista nos narra que Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça diante de
Deus e dos homens33
.
É de grande profundidade esta citação. Mostra-nos que Jesus fora uma criança que cresceu
naturalmente como qualquer outra e que isso aconteceu aos olhos de todos com quem convivia.
Que ele recebia informações, porém não as guardava somente no campo intelectual, as
transformava em sabedoria pela aplicação do que “aprendia”. E isto fazia de maneira completa,
diante de Deus, observando a sua Lei, e diante dos homens convivendo com todos, auxiliando,
compreendendo, aproximando cada um do Pai, o que Ele sabia ser uma necessidade de todos.
Kardec nos ensinou que educação é a arte de formar os caracteres34
, o que ele definiu como
educação moral. Esta é a que todos precisamos, é o maior objetivo para vida de cada um. Podemos
afirmar com segurança que sob esta ótica Jesus foi um emérito educador desde criança.
33
Lucas, 2: 52
34
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 50ª ed. Rio de Janeiro, FEB, 1980, questão 685, comentários.
28.
Não foi oque ele fez quando aos doze anos foi encontrado por seus pais entre os doutores no
Templo? Não foi o que, invertendo os papeis, fez com José e Maria quando os levou à reflexão
dizendo: Não sabeis que devo me ocupar com as coisas de meu Pai?35
Humberto de Campos, este excelente repórter do Mundo Invisível nos conta que:
Desde os mais tenros anos, quando [Maria] o conduzia [Jesus] à fonte
tradicional de Nazaré, observava o carinho fraterno que dispensava a
todas as criaturas. Frequentemente, ia buscá-lo nas ruas empedradas,
onde a sua palavra carinhosa consolava os transeuntes desamparados
e tristes. Viandantes misérrimos vinham a sua casa modesta louvar o
filhinho idolatrado, que sabia distribuir as bênçãos do Céu. Com que
enlevo recebia os hóspedes inesperados que suas mãos minúsculas
conduziam à carpintaria de José!… Lembrava-se bem de que, um dia,
a divina criança guiara a casa dois malfeitores publicamente
reconhecidos como ladrões do vale de Mizhep. E era de ver-se a
amorosa solicitude com que seu vulto pequenino cuidava dos
desconhecidos, como se fossem seus irmãos.36
Desculpem-nos repetir, mas é importante para nossas reflexões, como deve ter sido
desafiadora a tarefa de Maria de educar um filho que desde criança era um sensacional educador…
Normalmente os pais transmitem a seus filhos seus traumas particulares, suas angústias, seus
fracassos, seus medos. Teria Maria estes sentimentos? Teria ela passado isto para Jesus?
À primeira pergunta podemos responder que é bem provável que teria, ela era uma mãe genial,
todavia não estava isenta de conflitos como podemos notar na literatura que temos analisado.
Quanto à segunda, é mais difícil de saber a resposta, talvez em alguns momentos tenha até se
mostrado apreensiva diante de seu filho, porém é certo que ela sabia e bem administrar suas
emoções, o que é uma das tarefas mais complexas para o homem comum e que mais distinguem
aqueles que se destacam na arte de educar.
Retomaremos este assunto mais adiante.
Temos feito algumas colocações baseadas em alguma literatura consultada, mas
principalmente nas anotações dos evangelistas. E a partir destas reflexões chegamos à conclusão
que Maria não era nem insegura e nem superprotetora, dois sentimentos, diga-se de passagem,
que perturbam e muito o processo educacional, era intrépida e destemida. Por que assim dizemos?
A insegurança na educação gera a superproteção, ambas são consequências do temor, do receio
diante do perigo; a mãe de Jesus podia, como já dissemos, ter tido alguns momentos de apreensão,
todavia não era sua característica o medo.
Além da passagem da crucificação de Jesus, já citada, há outras que podem nos ajudar nesta
conclusão.
Infelizmente como é rara a literatura a respeito e o próprio Evangelho fala pouco sobre ela, às
vezes depreendemos nossas conclusões a partir das atitudes de Jesus.
Quem é educado num ambiente de superproteção raramente se sai bem diante dos desafios da
vida. As primeiras adversidades têm a função de preparar a criatura para adversidades maiores
que virão, ninguém pode evitá-las; nem a mãe pode, nem mesmo nenhum educador. Como o
organismo que reage positivamente a uma enfermidade através de seu mecanismo de defesa, e
assim é fortalecido seu sistema imunológico, as contrariedades fortalecem o nosso Espírito para
os desafios que a vida nos propõe como num processo de recomposição de nossa estrutura íntima.
Se Maria tivesse sido insegura ou excessivamente protetora, dificilmente Jesus teria levado a
bom termo a sua missão. Desde a infância, ela deve tê-lo incentivado a enfrentar os obstáculos
35
Lucas, 2: 49
36
(XAVIER/Humberto de Campos 1982), Cap. 30
29.
sem temor, aperseverar diante das dificuldades e a concluir tudo o que começava. Sem esse
estímulo constante, é possível que, no momento supremo da crucificação, Ele tivesse vacilado e
apelado ao Pai para enviar mais de doze legiões de anjos37
em seu socorro.
Aqui é importante lembrar que Jesus enfrentava as situações, as classes dominantes, a
hipocrisia, o falso moralismo, tocava em pontos de alta significação para a alma, numa sociedade
presa a antigas tradições e que punia severamente quem os contrariava. Em síntese Jesus tinha
grande coragem e se é lógico que isso era fruto de sua evolução espiritual, não é menos verdade
que sua educação deve ter contribuído para esta realidade.
Vejamos a grandeza da Mãe de nosso Senhor e a segurança com que agia analisando seu
comportamento num momento que seria de tensão para qualquer um, o anúncio de que seria a
mãe do Filho do Altíssimo.
Um anjo fez esta revelação para Maria, ela seria mãe do Messias. Só isto já bastaria para deixar
qualquer um apreensivo.
O povo hebreu esperava um Messias há muitos séculos, ele seria o libertador dos seguidores
de Moisés, reunificaria as doze tribos e faria de Israel a maior entre todas as nações.
Vivia-se um período de conflitos, o império romano dominava a nação judaica, e o povo de
Israel desejava ardentemente alguém que revertesse esta situação. Muitos àquele tempo diziam
ser o Messias, ele era aguardado ansiosamente…
Por que ser ele filho de uma mulher tão simples? Deve ter pensado, Ele poderia ser filho de
um sumo sacerdote, de um rei, de alguém realmente preparado para lhe dar melhores condições.
Ela deve ter tido vários conflitos a respeito. Deve ter perdido várias noites de sono se perguntando
como educar o menino, um verdadeiro Filho de Deus. E se ela falhasse, atrapalharia os planos do
Todo Poderoso? Deus tem seus mistérios e Maria tudo refletia em seu coração.
Propomos analisar dois aspectos presentes na passagem do anúncio do anjo a Maria,
estabelecendo um paralelo com anúncio semelhante feito pela mesma entidade espiritual a
Zacarias, futuro pai de João Batista. Essa narrativa é apresentada pelo evangelista Lucas:
Anúncio a Zacarias
Existiu, no tempo de Herodes, rei da Judéia, um sacerdote chamado
Zacarias, da ordem de Abias, e cuja mulher era das filhas de Arão; e o
seu nome era Isabel. 6
E eram ambos justos perante Deus, andando
sem repreensão em todos os mandamentos e preceitos do Senhor. 7
E
não tinham filhos, porque Isabel era estéril, e ambos eram avançados
em idade. 8
E aconteceu que, exercendo ele o sacerdócio diante de
Deus, na ordem da sua turma, 9
Segundo o costume sacerdotal, coube-
lhe em sorte entrar no templo do Senhor para oferecer o incenso. 10
E
toda a multidão do povo estava fora, orando, à hora do incenso. 11
E
um anjo do Senhor lhe apareceu, posto em pé, à direita do altar do
incenso. 12
E Zacarias, vendo-o, turbou-se, e caiu temor sobre ele. 13
Mas o anjo lhe disse: Zacarias, não temas, porque a tua oração foi
ouvida, e Isabel, tua mulher, dará à luz um filho, e lhe porás o nome de
João. 14
E terás prazer e alegria, e muitos se alegrarão no seu
nascimento, 15
Porque será grande diante do Senhor, e não beberá
vinho, nem bebida forte, e será cheio do Espírito Santo, já desde o
ventre de sua mãe. 16
E converterá muitos dos filhos de Israel ao
SENHOR seu Deus, 17
E irá adiante dele no espírito e virtude de Elias,
para converter os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes à
prudência dos justos, com o fim de preparar ao Senhor um povo bem
37
Cf. Mateus, 26: 53
30.
disposto. 18
Disse entãoZacarias ao anjo: Como saberei isto? pois eu
já sou velho, e minha mulher avançada em idade. 19
E, respondendo o
anjo, disse-lhe: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui
enviado a falar-te e dar-te estas alegres novas.38
O Anúncio a Maria
No sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado, da parte de Deus, para uma
cidade da Galileia, chamada Nazaré, 27
a uma virgem desposada com
certo homem da casa de Davi, cujo nome era José; a virgem chamava-
se Maria. 28
E, entrando o anjo aonde ela estava, disse: Alegra-te,
cheia de graça! O Senhor é contigo. 29
Ela, porém, ao ouvir esta
palavra, perturbou-se muito e pôs-se a pensar no que significaria esta
saudação. 30
Mas o anjo lhe disse: Maria, não temas; porque achaste
graça diante de Deus. 31
Eis que conceberás e darás à luz um filho, a
quem chamarás pelo nome de Jesus. 32
Este será grande e será
chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi,
seu pai; 33
ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu
reinado não terá fim. 34
Então, disse Maria ao anjo: Como será isto,
se eu não conheço homem algum?39
É nas reações que percebemos o estágio evolutivo de um Espírito, assim vamos analisar apenas
as reações de nossos personagens:
Ao ser abordado pelo anjo, narra o evangelista que Zacarias turbou-se, e caiu temor sobre ele.
E após Gabriel, o anjo, lhe falar sobre a gravidez de Isabel, sua esposa, e sobre a evolução do
Espírito que viria ao mundo como enviado de Deus, através deles, Zacarias inquiriu: Como
saberei isto? pois eu já sou velho, e minha mulher avançada em idade.
Com Maria se deu um pouco diferente.
O mesmo Espírito, Gabriel, lhe apareceu e saudou-a. Conta-nos Lucas que ela ao ouvir a
saudação, perturbou-se muito e pôs-se a pensar no que significaria esta saudação. Do mesmo
modo que com Zacarias, ele explicou que ela iria dar à luz um filho e que ele seria chamado Filho
do Altíssimo e ainda comentou sobre os prodígios que ele faria. Ela reagiu dizendo: Como será
isto, se eu não conheço homem algum?
Antes de entrar propriamente na análise do comportamento dos dois, é importante saber um
pouco sobre quem eram e em qual ambiente receberam a mensagem da Espiritualidade Superior.
Zacarias era um sacerdote, ou seja, trabalhava no templo, era pessoa que cultivava as questões
espirituais e estudava a Torah. E não só isso, segundo o texto evangélico era considerado um
justo, e além de estudar, seguia de modo irrepreensível os mandamentos e estatutos de Deus.
Informa-nos ainda Lucas, que era de idade avançada, o que significa que tinha amadurecimento.
Em que ambiente estava quando recebeu a mensagem? No templo, no Santuário do Senhor;
realizava o ofício de queimar o incenso. Podemos dizer em linguagem moderna e espírita, que
estava num serviço espiritual em comunhão com os Espíritos e diz o texto evangélico que as
pessoas que o aguardavam do lado de fora estavam em oração. É como se ele estivesse numa
mesa mediúnica, e os que estavam na assistência orassem mantendo a vibração e auxiliando-o em
seus trabalhos.
Em meio àquele ambiente de vibrações elevadas, e sendo ele já experiente no serviço e de
moral elevada, seria natural que uma manifestação espiritual ocorresse como de fato aconteceu.
No entanto, apesar de todo o preparo e da atmosfera favorável, quando a revelação se deu, o temor
38 Lucas, 1: 5 a 19
39 Lucas, 1: 26 a 34
31.
tomou conta deseu coração. Mais ainda: mostrou-se cético, não acreditou plenamente nas
palavras do anjo e pediu um sinal, uma prova, dizendo: 'Como saberei isto?
Maria por sua vez era uma adolescente. Não sabemos bem a sua idade, mas muito
provavelmente tinha entre doze e quatorze anos. Ou seja, pelo menos em matéria de idade não
tinha grande amadurecimento e preparo. O evangelista não diz onde ela estava, mas
provavelmente estava em casa, onde habitualmente não é comum a manifestação de Espíritos.
Mesmo assim o anjo se manifesta, era natural que ela também se perturbasse, e foi o que
aconteceu. Entretanto, o redator bíblico nos informa que ela pôs-se a pensar no que significaria
esta saudação, o que podemos depreender que apesar da perturbação ter sido grande, diz o texto
que perturbou-se muito, ela equilibrou-se rápido pois exerceu uma ação que só quem está senhor
de si assim faz, pôs-se a pensar. No momento do susto, quem está sob o impacto do medo não
pensa, reage simplesmente. Ela teve tranquilidade, oxigenou o cérebro, e buscou compreender o
porquê daquela saudação. Como era natural, o anjo a orientou que não temesse, o mesmo já havia
acontecido com o marido de sua prima, todavia ela surpreendeu até mesmo o Mensageiro do
Senhor, pois o texto não fala que ela temeu, e após a exposição de Gabriel sobre a gravidez
maravilhosa por que ela passaria, o que seria mais um motivo de apreensão, ela ao contrário de
Zacarias, creu imediatamente, e se inquiriu o anjo a respeito não foi pedindo-lhe provas, mas
buscando entender como se daria o processo já que não tivera relações com nenhum homem.
O texto é claro: Como será isto, se eu não conheço homem algum? A partir do momento em
que ela pergunta como será isto…? É porque já admitia o fato, sua fé já lhe abastecera, porém ela
quis saber mais já que não tivera contato sexual com seu noivo. Podemos com segurança dizer
que o que Maria teve foi muita lucidez e naquele momento ela praticou o que Kardec dezenove
séculos depois chamaria de fé raciocinada, ela não creu de forma cega, mas tendo a confiança
superior, raciocinou, inquiriu e aprofundou seu estado intuitivo. Mostrou que já tinha vindo
preparada para sua missão e que era um Espírito superior, acima da média, até mesmo de Zacarias
que também fora preparado no plano espiritual, que também era de boa condição moral, mas em
quem o nível de esquecimento era maior devido sua menor condição em relação a Maria.
E consumando sua atitude de fé, pois como falaria mais tarde Tiago, a fé, se não tiver as obras,
é morta em si mesma40., pôs-se a serviço em nome de Deus dando para todos nós significativo
exemplo: Eu sou a serva do Senhor; faça em mim segundo a tua palavra.41
Administrando as Emoções
Augusto Cury, em seu livro “Maria, a Maior Educadora da História” defende a ideia de que
um dos motivos de Maria ter sido tão bem-sucedida em sua tarefa de educar o menino Jesus, é
porque ela sabia, e muito bem, proteger a sua emoção; ela fazia questão de ensinar a seu filho esta
arte.
Faz ele interessante raciocínio:
Respeitados educadores ensinam os jovens a ter cuidado com seus
objetos, não destruir seus materiais didáticos, não manchar suas
roupas e a cuidar de seu corpo evitando acidentes e tendo higiene
pessoal. Mas esquecem de ensiná-los a proteger o mais difícil espaço
do ser humano, a sua emoção.42
Continua o autor na sequência:
Quem não aprender a proteger a sua emoção pode até conquistar o
40 Tiago, 2: 17
41
Lucas, 1: 38
42
CURY, Augusto. Maria, a Maior Educadora da História. São Paulo, Ed. Planeta do Brasil, 2007,
cap. 6.
32.
mundo, mas serásempre infeliz; pode ser aplaudido, mas será sempre
opaco; pode comprar todo tipo de seguro, mas será sempre frágil.
Todos nós que habitamos um planeta de expiações e provas, e principalmente nestes dias de
transição, temos motivos para nos tornarmos tristes, depressivos, angustiados, preocupados e até
mesmo contrariados. Entretanto, importa-nos reconhecer que Maria teve motivos ainda muito
maiores que os nossos.
Conforme narram os evangelistas, teve uma gravidez incompreensível para a mentalidade
comum, isto gerou nela, em seu noivo, e em toda sua família, sérias apreensões. Após o menino
nascer envolto em mistérios, teve que deixar sua cidade, sua zona de conforto, o calor dos
familiares, e partir para um novo país, sem saber por quanto tempo, em que condições lá viveria,
com quais recursos, etc. Sua sensibilidade era grande, pois quanto mais o Espírito é evoluído,
mais é sensível; assim, deve ter muito sofrido com a perseguição de Herodes aos inocentes por
causa de seu filho. Tudo isso devia ser para ela e para os seus, motivo de grandes pressões
psíquicas; não esqueçamos ela era uma adolescente, e estava num dos momentos de maior
sensibilidade para uma mulher, o período pós-parto.
Como será que reagiríamos numa situação destas? Por muito menos nós nos tornamos
angustiados, depressivos, inconformados e paralisamos todo processo criativo em nossa vida.
Qual a diferença entre nossas posições e a de Maria? Simplesmente de atitude. Maria sabia
administrar seus conflitos, gerenciar suas emoções.
Em momento anterior neste nosso estudo fizemos uma breve comparação entre Maria e Eva,
aqui podemos ampliá-la. Através do sentimento de Eva entramos em queda por ser ela a
representação de um sentimento dissociado da razão. Maria por representar a sublimação de Eva,
ensina-nos a usar o emocional e o racional em plena harmonia. Não é um sobrepondo-se ao outro,
não é a razão dando a palavra final, mas o perfeito equilíbrio entre estes dois componentes tão
importantes para o nosso progresso em todos os níveis.
Neste passo podemos fazer mais uma importante reflexão. Não sabemos se Maria não agisse
desta forma, se poderia comprometer a missão de Jesus. Teoricamente sim, pois se ela se tornasse
uma inconformada, se ela trabalhasse um sentimento de autopiedade, dificultaria sem dúvida o
desenvolvimento de seu filho. Porém, como este acontecimento - a vinda até nós de Jesus - foi o
mais importante de nosso planeta, desde a sua origem, o Pai não delegaria para esta missão quem
tivesse a chance de falhar. Todavia, o Evangelho não é uma telenovela ou um romance comum,
é preciso trazer para o nosso dia a dia as suas lições imortais.
Assim, é importante refletirmos, pois nós não sabemos quem o Pai colocou em nossa vida
como filho, qual a missão de cada um deles. A mãe de um futuro presidente de uma nação não
sabe o que ele será quando criança, o mesmo podemos dizer em relação a um grande cientista,
ou, a um importante educador. Será que não estamos atrapalhando o projeto de Deus ao agirmos
de forma tão destemperada como em muitas vezes fazemos? Não estaremos dificultando a vida
de nossos filhos sendo inconformados, ensinando-os com a vida prática a não perdoarem quando
contrariados, a serem violentos e irracionais?
São pontos a serem trabalhados por todo aquele que já está cônscio de sua necessidade
reeducativa e da importância de agir como um colaborador de Deus.
Voltando ao citado escritor e psicoterapeuta, Augusto Cury, na obra já aqui comentada, ele
sugere-nos três ferramentas para trabalharmos em nossa vida, e para ensinarmos aos nossos
educandos - pois não tenhamos dúvida todos somos, em maior ou menor escala, educadores - a
fim de evitarmos transtornos depressivos, suicídios, enfermidades psíquicas e perda de
oportunidades. São elas:
• Doar-se sem esperar muito do outro.
• Compreender o outro na sua dimensão interior.
• Saber que ninguém pode dar o que não tem.
33.
Sem dúvida sãotrês princípios de grande importância para todos nós e que se os praticássemos
diminuiríamos e muito nossas dores e dissabores.
Temos muitas vezes dito e ouvido que Deus nos criou para amar e sermos amados. É preciso
repensar esta informação e analisá-la com carinho.
Ao nosso ver ela é em parte verdade, mas há nela um pouco de contaminação de nossa
psicologia inferior.
Sim, fomos criados para amar. Deus é amor. A matéria prima da criação é amor. Assim, se
quisermos estar ajustados a Deus, caminhar no fluxo natural da vida de acordo com a Vontade
Soberana e sermos agraciados por sua Misericórdia, temos de amar, pois este é o “idioma” de
Deus, é através dele que nos comunicamos com o Criador.
Entretanto, a segunda parte da afirmativa “ser amado” deve ser observada de forma diferente.
Não fomos criados para sermos amados como uma pré-condição básica. Ser amado é efeito,
consequência, retorno. A causa é amar, se amarmos seremos naturalmente amados. Isto se dará
sem nenhuma ansiedade, espontaneamente. É da Lei, e ela se cumprirá sempre.
Esta questão mal compreendida é que dificulta trabalhar em nós a primeira ferramenta, pois
até admitimos que devemos doar, até nos sentimos satisfeitos por assim proceder, porém não
abrimos mão de esperarmos retorno, temos o grande defeito de criarmos expectativas e esse é o
problema. Se não criássemos expectativa em relação ao outro noventa por cento de nossas
dificuldades de convivência estariam resolvidas.
Vamos trabalhar a terceira ferramenta, saber que ninguém pode dar o que não tem, junto com
a primeira, pois em nosso modo de ver ela é um acessório desta. Quem não espera muito do outro,
sabe que ele só pode dar o que tem, uma virtude maior contém naturalmente uma menor. Ou
ainda, a vivência da terceira ferramenta, leva naturalmente à primeira.
Aqui nos permitimos uma ressalva muito bem colocada pelo Espírito André Luiz através da
mediunidade gloriosa de nosso querido Chico Xavier, a alegria é a única coisa que podemos dar
ao outro mesmo se não possuirmos.
Portanto, se ainda não conseguimos, como seria desejável, não esperar muito do outro,
iniciemos o processo de defender a nossa emoção pelo menos não pedindo a ninguém algo que
ele esteja incapaz de dar. Proceder deste modo não é ainda ser bom, mas é pelo menos agir com
inteligência, o que já é um grande passo para a conquista da sabedoria.
A outra ferramenta colocada por Cury e de fundamental importância é compreender o outro
na sua dimensão interior.
Compreender o outro por si só é uma virtude de grande alcance e que evita muitas
contrariedades.
Perdoar é uma atitude nobre, compreender é ainda mais, pois aquele que verdadeiramente
compreende o outro não chega nem a sentir a ofensa, não tendo assim o que perdoar.
Compreender é desativar os pontos de conflito, significa transitar com segurança na área da
emoção. E compreender o outro na sua dimensão interior torna-se ainda mais nobre, pois além de
enxergar o outro, o que não é habilidade comum entre nós, é se aperceber do que está para além
do visível, é também saber do outro em suas dimensões emocionais, espirituais e sentimentais.
Só Espíritos de boa condição moral e espiritual têm esta capacidade, e fazendo deles modelos
a serem seguidos temos de ser obstinados em trabalharmos também nosso interior na conquista
deste valor.
E Augusto Cury ainda nos faz, na mesma obra e capítulo, importante consideração sobre este
tema: por trás de uma pessoa que fere, há uma pessoa ferida. Como a nos dizer: “quando nos
sentirmos atacados, ou agredidos por alguém, trabalhemos nossa acuidade espiritual e
enxerguemos nela não um agressor comum, alguém de má índole, mas um enfermo necessitado
de um médico para a sua alma”. E Jesus, o filho de Maria, já nos alertara, o doente é que precisa
34.
de médico. Eleé o Médico dos médicos, e nós, seus efetivos colaboradores na implantação de sua
Boa Nova no coração de todos.
Tu me amas, ainda fala o Senhor na intimidade de nossos corações, então, apascenta as minhas
ovelhas. O que de outro modo pode significar: “educa as minhas ovelhas.”
Fé
Em uma missão espiritual não há como prescindir da fé. Ela é componente essencial para que
tudo aconteça como programado pelo Alto.
Já comentamos sobre esta virtude em Maria quando da assimilação do conteúdo da revelação
do anjo a ela explicando-lhe a concepção. Mas há outros momentos importantes que não podem
deixar de ser destacados e que nos ajudarão a compreender o quanto esta missionária era
preparada para realizar a tarefa mais desafiadora de todos os tempos, a de educar ninguém mais,
ninguém menos, que o Governador Espiritual do Orbe.
José e Maria cumpriam rigorosamente todos os preceitos judaicos. Circuncidaram o menino
no oitavo dia conforme mandava a lei, e ao completarem os dias da purificação da mãe, o que
ocorria trinta e três dias após43
, levaram Jesus ao templo, em Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao
Senhor44
.
Lá encontraram um homem já idoso, chamado Simeão, que ao ver o menino, inspirado realiza
grande profecia. Entre outras coisas diz ele a Maria:
Eis que este menino está destinado tanto para ruína como para
levantamento de muitos em Israel e para ser alvo de contradição
(também uma espada traspassará a tua própria alma), para que se
manifestem os pensamentos de muitos corações.45
Imaginemos a cena. Maria, acompanhada do marido e do filho, estava cansada de uma viagem
longa e feita com muitas dificuldades. Ela estava ainda no período do resguardo. Deveria estar
fraca e altamente sensível…
Apesar de Simeão exaltar a grandeza espiritual do menino sua profecia não foi nada agradável.
Ele, Jesus, estava destinado tanto para ruína como para levantamento de muitos em Israel e para
ser alvo de contradição.
Isto pressupunha uma vida de muitas apreensões, de dores e sofrimentos. A nação judaica era
rigorosa quanto à tradição religiosa.
O anjo havia dito que ele seria Rei, que herdaria o trono de Davi, talvez naquele momento ela
não tenha percebido que para atingir este fim ele teria uma vida de conflitos, de lutas e de perigos.
Agora aquele homem inspirado dizia que ele seria alvo de contradições que elevaria alguns – o
que se pressupõe eram os simples -, e que também arruinaria muitos, e aqui podemos depreender
que eram os da elite, os do poder.
E ainda diz mais, com referência ao sofrimento dela própria, uma espada traspassará a tua
própria alma.
Para quem era profunda conhecedora das Escrituras conforme vimos pelo Magnificat, ela deve
ter entendido na hora a que sacrifício estariam submetidos ela e seu filho.46
43
Levítico, 12: 4
44
Lucas, 2: 22
45 Lucas, 2: 34 e 35
46
Cf. Zacarias, 12: 10
35.
A profecia secumpriu no tempo, mas no coração de Maria deve ter acontecido naquele instante
mesmo. Como suportaríamos uma situação desta? Se algo parecido acontecesse conosco, isto não
atrapalharia a educação de nosso filho?
Vejamos que são duas situações opostas que acontecem com ela; em qualquer delas estaríamos
em dificuldades e talvez comprometidos na realização da missão.
Primeiro o anjo lhe antecipa a vitória. Ela seria mãe do Filho de Deus, ele herdaria o trono de
Davi e reinaria para sempre. Tal informação poderia ser para ela, se não fosse muito vigilante,
pedra de tropeço, pois a vaidade poderia vir à tona e comprometer todo o processo.
Depois Simeão lhe fala de lutas incessantes, até mesmo de um provável assassínio de seu filho
mostrando a ela que o final da história talvez fosse trágico.
Este nível de informações, até contraditórias, dependendo do ângulo em que as analisarmos,
não tenderiam a prejudicar a formação do menino, já que ela poderia tentar mudar o seu destino?
Se nós soubéssemos que o nosso filho iria passar por um processo de grande dificuldade, de
provável morte por incompreensão de muitos, mesmo que soubéssemos que tudo isto era Desígnio
do Altíssimo, o que faríamos? Ajudaríamos Deus em seu projeto, ou tentaríamos evitar o “pior”
para o nosso filho amado, mudando o seu destino?
Dizemos assim, porque muitas vezes, mesmo não sendo numa questão tão grave quanto esta,
priorizamos para os nossos tutelados, uma boa escola, boas companhias, uma profissão adequada,
mas não visando seu crescimento espiritual e sim um futuro promissor através de um emprego
rentável, onde através de um salário alto pudesse manter conforto e estabilidade material.
Falamos muito de espiritualidade, mas na maioria das vezes a segurança desejada pensamos
estarem nas conquistas transitórias, e assim as perseguimos ardentemente.
Jesus veio mudar este paradigma, e para tal tinha de dar o exemplo. Aqueles a Ele vinculados
e que vieram para auxiliá-Lo, fizeram do mesmo modo: sacrifício como instrumento de libertação.
Hoje nós tentamos distorcer o entendimento e falamos em prosperidade, porém queremos
prosperidade material esquecendo que a fé se manifesta em qualidade e em maior escala é na
carência e nas dores.
Moisés era um disciplinador – primeiro passo do processo educativo, a disciplina antecede a
espontaneidade47
-; Jesus veio como educador; Kardec como pedagogo; desta forma, temos de
compreender que este foi um projeto traçado por Deus para educar a alma, o Espírito imortal.
Maria só pôde ser peça chave deste processo, sendo também educadora, e de Jesus, porque
compreendeu o Mecanismo Divino, e a ele se ajustou fazendo-se serva do Senhor.
Ela teve a intuição da missão e a ousadia de executá-la. Quando não compreendia a
superioridade do filho tinha humildade para guardar a lição em seu coração48
ou simplesmente
dizer: fazei tudo o que ele vos disser49
. O melhor entre todos os educadores é aquele que não se
cansa de aprender, e a isso se dedica dia a dia.
Ainda sobre o tema fé e da forma como Deus prepara o Espírito para realizar a Sua Vontade,
não podemos deixar de analisar a passagem da fuga da família do Messias para o Egito.
Muitas vezes diante de uma grande dificuldade optamos por nos afastar do cumprimento de
uma tarefa que até então pensávamos em realizar em favor do Bem. Ainda chegamos a dizer
desafiando o Criador: “Se Deus quisesse que eu realizasse tal trabalho não me dificultaria tanto a
realização, acho que estes empecilhos são os avisos Dele para me mostrar que essa não é a minha
missão”.
Como somos ignorantes e comodistas…
47
XAVIER/Emmanuel [Espírito]. O Consolador, 16ª ed., Rio de Janeiro, FEB, 1993, Q. 254
48
Cf. Lucas, 2: 19 e 51.
49
João, 2: 5
36.
Já pensou seJosé e Maria pensassem desta forma? “Se Jesus fosse mesmo o Messias, por que
tanta dificuldade? Por que deixar nossa zona de conforto e ir para um país desconhecido? Por que
sermos tão pobres?”
Desculpas é que não faltariam para o abandono da missão. Em nossa vida temos aprendido
que o hábito de dar desculpas é um de nossos maiores vícios e um dos que mais nos atrasam no
processo de realizar o Bem em nós.
Algo semelhante ao que ocorreu com os pais de Jesus aconteceu também com Abraão. Deus
lhe prometeu uma grande bênção: uma posteridade numerosa e abençoada. Para isso, porém,
Abraão precisava deixar sua terra, sua parentela e a casa de seu pai. E ir para onde? O Senhor não
revelou de imediato, apenas disse: 'Vai para a terra que te mostrarei.' Ou seja, Abraão deveria
abandonar sua zona de segurança e partir rumo a um destino que ainda desconhecia. Era
necessária uma confiança plena no Senhor, uma dependência absoluta de Sua orientação.
Também nós precisamos aprender a depender de Deus com naturalidade, sem resistências ou
conflitos interiores.
Hoje dizemos que estamos a serviço do Cristo e de seu Evangelho. Às vezes somos
convidados, por exemplo, para fazer uma palestra em cidade distante, e até aceitamos. Porém,
para que isto se dê exigimos saber, onde será o evento? Para quantas pessoas vamos falar? Lá vai
ter como projetar nossos slides? Vão pagar meu transporte? E a alimentação como será? Onde
vou dormir? E se tudo não estiver certinho como desejamos, totalmente seguros, não vamos.
Já pensou se um Espírito aparecesse para nós e dissesse: “Sou um mensageiro do Cristo, é
preciso que você saia hoje e vá fazer uma visita a uma pessoa que te indicarei, num determinado
hospital que vou te falar na hora certa, você irá dar nela um passe e melhorar a sua situação.
Porém, sai de casa agora e vá, depois te falo para onde e como.” O mínimo que aconteceria é que
nós não iríamos, e ainda tentaríamos saber o nome da Entidade para levar para um reunião de
desobsessão, pois batizaríamos o enviado do Senhor como obsessor.
Fato também semelhante aconteceu com Estevão quando ele ainda chamava Jeziel.
Estevão tinha uma grande missão, despertar Saulo para o Evangelho do Cristo. Emmanuel
chega a dizer que sem Estevão não teríamos Paulo de Tarso50
. Porém, para que isto acontecesse
aconteceu algo inusitado.
Ele era uma pessoa simples, mas tinha uma família harmonizada e pautava sua vida na vivência
das Escrituras. Não vamos aqui contar sua história, pois não é objetivo deste trabalho, mas Deus,
para o chamar para sua missão, tirou-lhe tudo que possuía de mais sagrado: a casa paterna, a vida
do pai, a companhia da irmã querida que nem sabia para onde teria ido. Para ele fora destinado o
cativeiro nas galeras, o que era quase certo, a morte.
Entretanto, seu bom comportamento o salvou e a generosidade de um ilustre cidadão romano
permitiu que, apesar de doente, pudesse novamente ser livre. Este mesmo cidadão deu-lhe até
mesmo alguns recursos amoedados com o objetivo de suprir suas primeiras necessidades em
novas terras. Todavia, mais uma vez surge um imprevisto, ele é assaltado, malfeitores roubam lhe
todos estes recursos, e ele fica só, doente, e sem nada para iniciar a grande missão de salvar não
apenas uma alma, mas de despertar e guiar alguém que libertaria o Evangelho do jugo do judaísmo
permitindo que gerações futuras conhecessem Jesus em toda sua simplicidade, com profundidade,
e liberdade.
Por que casos assim, como o de Maria e José, de Abraão, de Estevão, entre outros, se dão?
Não sabemos ao certo, Deus tem, ainda para nós, seus mistérios. Talvez este seja o alimento da
fé e o que fará com que ela cresça ainda mais. O certo é que há aí uma mensagem. Quando algo
de inesperado nos acontecer, algo que for capaz de nos perturbar, de tirar o próprio piso e nos
projetar numa situação de desconserto total, não nos desesperemos. Talvez o Pai Criador esteja
se manifestando e dizendo para nós que tem uma grande missão onde podemos servi-Lo. Mas
50
(XAVIER/Emmanuel [Espírito], 2004), prefácio.
37.
para tal épreciso confiar, agir consoante Sua Vontade, resignando-se, perdoando sempre, amando
irrestritamente.
Deus tem para nós uma benção, uma posteridade gloriosa, uma missão ímpar. Tomemos posse
do que Ele nos delega e seremos felizes para sempre.
Maria assim fez, desafiou a imprevisibilidade, correu riscos, sua vida foi impermanente, mas
nem por isso tornou-se depressiva, angustiada, amargurada…
Outra passagem que é importante considerar na busca de elementos que venham nos auxiliar
em nosso processo reeducativo é aquela que nos fala de Jesus aos doze anos no templo entre os
doutores da lei.
Era habitual que todo judeu seguidor dos preceitos fosse à Jerusalém quando da realização da
festa da Páscoa. Assim foram Maria e José, e Jesus com eles, pois já havia completado doze anos.
Como muitos iam para esta festa eles foram em caravanas, muitos parentes e conhecidos
também foram.
Terminada a festa eles retornaram; após caminharem por um dia os pais de Jesus perceberam
a falta dele, procuraram-no entre aqueles que viajavam junto e não o encontraram. Retornaram
então a Jerusalém continuando a busca, só três dias depois o encontram no Templo em conversa
com os doutores.
Nosso objetivo aqui não é estudar minuciosamente esta passagem, mas o posicionamento de
Maria diante da tarefa educacional de seu filho.
Percebemos pela narrativa de Lucas que ela não era controladora, nem proibitiva, Jesus tinha
liberdade para ir junto de seus amigos e familiares e seus pais não ficavam ali em cima, querendo
saber a toda hora o que estava fazendo; entretanto, ela não era também permissiva, ao notar o
afastamento do filho por tempo maior do que aquele que era natural, se incomodou e foi atrás
dele.
Nós muitas vezes somos possessivos por demais, exageramos no controle, não deixamos
nossos filhos, cônjuges ou amigos, à vontade, queremos que tudo seja feito conforme nossa
determinação, passo a passo. Ou então, com a desculpa da liberdade desejada, somos negligentes,
o que é ainda pior; os filhos passam uma semana sem falar conosco e tudo bem, convivem com
amigos que não procuramos saber quem são, viajam com eles, e só ficamos sabendo quando
voltam, às vezes dias depois.
Jesus é encontrado no Templo assentado entre os doutores, o que denota por parte dele
tranquilidade e a consciência de que não estava fazendo nada de errado e nem contrário às
determinações paternas.
Se tal acontecesse conosco é quase certo que o pegássemos pela orelha, gritando, gesticulando,
dando o maior show, exteriorizando todo desequilíbrio que nos é peculiar. Maria simplesmente
diz: meu filho, porque agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu, aflitos, te procurávamos51
.
Quem de nós num momento deste, que para nós não seria simplesmente de aflição, mas de
desespero mesmo, trata o filho por meu filho? Este modo carinhoso de chamar nós só usamos
quando está tudo bem, na tranquilidade, ou quando queremos chantageá-lo. Quando os filhos nos
irritam ou desobedecem, usamos o nome completo, com sobrenome e tudo.
Maria não mostrou irritação, mas cuidado, carinho, atenção; ela se preocupava era com o filho
e não com uma suposta desobediência dele.
Ele por sua vez encarou tudo com naturalidade e mostrou que era excelente em didática desde
pequeno, pois respondeu perguntando, levando seus pais a pensarem: por que me procuráveis?
Não sabíeis que devo estar na casa de meu Pai?52
51
Lucas, 2: 48
52
Lucas, 2: 49
38.
Ao dizer assimJesus chamou seu pais para o que era real do ponto de vista de sua missão, pelo
tom da pergunta podemos depreender que eles conversavam em casa sobre este assunto, sobre a
oportunidade dele ser um enviado em nome de Deus. Provavelmente seus pais, apesar do grau de
consciência acima da média, no calor das emoções tenham se esquecido disto. Isso é natural,
quando o Espírito que não se libertou completamente da matéria encarna, ele perde muito de sua
potencialidade, torna-se vulnerável com certa facilidade, é preciso que de vez em quando seja
lembrado da realidade maior. Podemos ver ainda neste pequeno diálogo que a proposta educativa
de José e Maria passava pelo diálogo, a informação transitava em mão dupla, havia o aprendizado
de ambas as partes, autoridade e não autoritarismo. Eles às vezes não compreendiam a
superioridade do menino, mas respeitavam-na, pois sentiam no coração a grandeza daquela alma.
Educavam educando-se, não tinham a pretensão de estar com a razão, Jesus devia surpreendê-los
a toda hora, nestes momentos não atrapalhando já faziam muito.
O texto de Lucas na sequência é simplesmente maravilhoso: desceu então com eles para
Nazaré e era-lhes submisso53
.
Jesus, o Plenipotenciário Divino, o Governador Espiritual do Orbe, era submisso a seus pais
mesmo sabendo-se superior a eles, é mais um exemplo de humildade, de respeito aos fatores
humanos, quanta lição… Maria por sua vez não conseguia compreender tudo isto, era
inexplicável, estava além do racional, assim, conservava a lembrança de todos esses fatos em seu
coração54
, ela se enriquecia em espírito, cultivava sua intuição, bem aventurados os pobres de
espírito…55
e Ele, Jesus, obedecendo, colaborando sempre, crescia em sabedoria, em estatura e
em graça, diante de Deus e diante dos homens56
, servindo a seu Pai, no serviço em favor de seus
irmãos.
Brilhe a vossa luz…, vós sois a luz do mundo…
Já afirmamos em outras ocasiões que, segundo nosso entendimento, a maior missão de Jesus
foi a de educar os nossos Espíritos, sendo Ele, sem dúvida, o maior educador de todos os tempos.
Recordou-nos que também somos filhos de Deus e que o Pai, ao nos criar, o fez a partir de Si
mesmo. Isso significa que todos trazemos em nós o germe divino, o Reino do Altíssimo em
potencial. Seu propósito foi trabalhar esses valores e despertar esse potencial interior, o que
devemos compreender como a verdadeira educação do Espírito. Para essa tarefa, Jesus possuía
plena autoridade.
É-me dado todo o poder no céu e na terra.57
Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou.58
E sintetizando todo este processo nos afirmou:
Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens…59
Vós sois a luz do mundo…60
Este mecanismo de despertamento destes valores se dá pela transformação moral o que em
outras palavras podemos dizer autoiluminação, e o seu exercício deve ser diante dos homens
53
Lucas, 2: 51
54
Idem, ibidem.
55
Mateus, 5: 3
56
Lucas, 2: 52
57 Mateus, 28: 18
58 João, 13: 3
59 Mateus, 5: 16
60 Mateus, 15: 14
39.
através do serviçoprestado a estes. Se no início ainda não fazemos por amor, devemos pelo
menos, disciplinadamente, tornar-nos úteis.
Maria, que era um Espírito santificado através de suas existências milenares que
provavelmente aconteceram em outro orbe, sabia de tudo isto e com grande consciência fez-se
serva do Senhor. E para cumprir seu excelente papel de educadora daquele que seria o Mestre por
excelência, desde criança deve ter auxiliado seu filho no despertamento desta necessidade, a de
servir à humanidade sem dela nada esperar.
Servir sem ser servido, amar sem ser amado, devem ter sido o conteúdo das primeiras histórias
contadas pela Mãe Santíssima a seu menino.
Muitos podem nos perguntar, como podemos saber que Maria contava histórias a seu filho? O
Evangelho nada fala a este respeito.
É mais uma conclusão a que chegamos analisando Jesus. Ele foi o maior contador de histórias
que temos notícia, ele era excelente observador de todas as coisas, das situações, da natureza. É
lógico que ele tinha registrado em si mesmo todas as virtudes, entretanto, não é menos lógico que
sua mãe despertava nele desde criança estes valores através de uma educação apropriada ao que
ele iria necessitar no futuro. Não foi à toa que ela é que foi a agraciada com esta nobre missão.
Entre todos o Espíritos que já estiveram fisicamente em nosso orbe Jesus foi o que mais serviu,
ensinando-nos a assim fazer com alegria. Ele teve o exemplo em sua própria casa, Maria se
declarou serva do Senhor e nos primeiros movimentos do Magnificat disse:
Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus em
meu Salvador, porque olhou para a humilde posição de sua serva.61
A visão de Jesus sobre Deus é ampla, e Maria não O limitou às fronteiras de sua cultura:
“Minha alma engrandece o Senhor.” Ela enxergava em Deus muito mais do que sua religião
ensinava. Para a Mãe de Jesus, o Criador não estava preso às paredes de um templo, nem agia
apenas em favor de uma tradição específica; Ele era o Senhor Universal. Maria se alegrava em
servir, em sacrificar-se em Seu nome: “Meu espírito exulta em Deus.” Comungava com Ele em
plena harmonia, integrando-se à Sua vontade, que era para ela a fonte de vida e alimento espiritual.
Paulo de Tarso certamente se maravilhou com essa visão da Mãe de nosso Senhor. Não foi por
outro motivo que desejou escrever um Evangelho inspirado em sua ótica, expressando todo o seu
sentimento. E, não podendo fazê-lo, confiou a Lucas, seu amigo mais próximo, a tarefa de
registrar para todos nós aquilo que muitos passaram a chamar de “O Evangelho de Maria.”
Nossa espiritualidade, em contraste, muitas vezes carece de autenticidade. Oramos e
estudamos, buscamos fazer o bem, mas quase sempre com hora marcada, restritos ao círculo dos
afins, dentro de nossas casas espíritas ou templos. No cotidiano, somos diferentes do que
pregamos. Maria, ao contrário, engrandecia o Senhor em todo momento, alegrava-se com Sua
presença e vivia em constante comunhão com o Divino.
Quem vive assim, como Maria, educa naturalmente seus filhos e discípulos, pois educar é ser
coerente com o que se ensina. Só podemos conduzir alguém ao caminho de Deus se nós mesmos
estivermos nele.
Maria servia ao Senhor com tamanha integridade que transcendia o simples ato de servir. Mais
do que servir a Deus, Maria vivia Deus.
61
Lucas, 1: 46 a 48
40.
Anexo – MeditaçãoInspirada
Segundo algumas tradições apócrifas, a mãe de Judas Iscariotes seria chamada Cibória. Esses
relatos não pertencem aos evangelhos reconhecidos como canônicos, mas surgem em escritos e
tradições posteriores que buscam preencher lacunas da narrativa bíblica. Independentemente da
veracidade histórica, a figura da mãe de Judas nos convida a refletir sobre a dor de quem vê um
filho perder-se em escolhas difíceis e trágicas.
Nesta meditação inspirada, imaginamos o encontro entre Maria, Mãe de Jesus, e Cibória, mãe
de Judas. Não se trata de um fato histórico, mas de uma visão espiritual que simboliza o poder do
perdão e da compaixão. Duas mães, unidas pela dor, encontram-se na eternidade: uma que viu o
Filho ser crucificado, outra que viu o filho cair na ilusão.
No abraço eterno, desfaz-se o véu da culpa. Maria acolhe com ternura, e Cibória encontra
consolo. Ali floresce o perdão, revelando que não há ferida que resista ao amor. Esse encontro
imaginado nos lembra que a espiritualidade autêntica transcende julgamentos e que, diante de
Deus, todas as dores se transformam em aprendizado e reconciliação.
O Encontro das Mães
O ambiente espiritual era de penumbra. A mãe de Judas caminhava só, envolta em tristeza,
carregando no coração o peso da culpa. A escuridão refletia sua dor.
De repente, uma luz suave desceu do alto. Uma figura serena se aproximava, irradiando paz.
Maria (com voz calma): — Irmã, por que choras tanto?
Mãe de Judas (abatida): — Choro porque meu filho se perdeu. Ele traiu o Mestre e desde
então carrego a vergonha de sua escolha. Não encontro consolo, apenas dor.
Maria (aproximando-se com ternura): — Nenhuma dor é eterna quando se abre o coração
ao amor. Teu filho caiu na ilusão, mas o Pai não abandona nenhum de seus filhos.
Mãe de Judas (surpresa): — Quem és tu, que falas com tanta serenidade?
Maria (com suavidade): — Sou Maria, mãe de Jesus, aquele a quem teu filho entregou.
Também eu conheci a dor, também eu chorei aos pés da cruz. Mas aprendi que o amor é mais
forte que a culpa.
A mãe de Judas desfalece em pranto. Maria a envolve em um abraço luminoso, e a escuridão
começa a se dissipar.
Nesse instante, uma figura tímida surge ao longe. É Judas, o espírito abatido, aproximando-se
com hesitação.
Judas (com voz trêmula): — Mãe… Maria… será que ainda há esperança para mim?
Maria (olhando-o com ternura): — Sempre há esperança. O perdão é a ponte que nos leva
de volta ao Pai.
A mãe de Judas segura a mão do filho, e Maria os envolve em sua luz. O ambiente se
transforma em claridade.
De repente, coros de anjos descem em esplendor, entoando o poema como cântico celestial:
Coro dos Anjos (poema completo)
Maria chora aos pés da cruz,
A outra busca sentido na luz.
Duas mães unidas pela dor,
Duas histórias no mesmo amor.
Uma gerou o Filho da paz,
41.
Outra viu ofilho cair na ilusão.
Mas no céu se encontram afinal,
Na eternidade, perdão fraternal.
Refrão
Mães que choram, mães que esperam,
No coração de Deus se revelam.
Entre lágrimas nasce a canção,
De mães que geram perdão.
Maria acolhe com ternura,
A dor da outra encontra ternura.
No abraço eterno se desfaz o véu,
E o perdão floresce no céu.
Não há culpa que resista ao amor,
Nem ferida que não encontre calor.
Na união das mães se revela a verdade:
Deus é fonte de eternidade.”
Refrão
Mães que choram, mães que esperam,
No coração de Deus se revelam.
Entre lágrimas nasce a canção,
De mães que geram perdão.
A cena se encerra com Maria, a mãe de Judas e o próprio Judas envolvidos pela luz divina,
enquanto os anjos continuam a cantar. O encontro torna-se símbolo eterno de que nenhuma culpa
resiste ao amor, e que em Deus toda dor se transforma em redenção.
42.
Referências
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CURY, Augusto. Maria, a maior educadora da história. São Paulo: Planeta do Brasil, 2007.
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XAVIER, Francisco C.; IRMÃO X (Espírito). Lázaro redivivo. Rio de Janeiro: FEB, 1945.