Seu País


         Nós, os inimigos
         FORÇAS ARMADAS | Em manual tão hilário quanto tenebroso,
         o Exército elege quase toda a sociedade brasileira
         como adversária e estimula métodos de bisbilhotagem
         POR LEANDRO FORTES




       E
                       m 24 de abril de 2009, sob
                       as barbas do então presi-
                       dente Lula e com o apoio do
                       ministro da Defesa, Nelson
                       Jobim, o Exército do Bra-
                       sil produziu um documento
                       impressionante. Classifica-
         do internamente como “reservado” e des-
         conhecido, até agora, de Celso Amorim,
         que sucedeu a Jobim no ministério, o tex-
         to de 162 páginas recebeu o nome Manual
         de Campanha – Contra-Inteligência. Tra-
         ta-se de um conjunto de normas e orien-
         tações técnicas que reúne, em um só uni-
         verso, todas as paranoias de segurança
         herdadas da Guerra Fria e mantidas into-
         cadas, décadas depois da queda do Muro
         de Berlim, do fim da ditadura e nove anos
         após a chegada do “temido” PT ao poder.

         Há de tudo e um pouco mais no do-
         cumento elaborado pelo Estado Maior do
         Exército. A começar pelo fato de os gene-
         rais ainda não terem se despido da prática
         de espionar a vida dos cidadãos comuns. O
         manual lista como potenciais inimigos
         (chamados no texto de “forças/elementos
         adversos”) praticamente toda a população
         não fardada do País e os estrangeiros. Cita-
         dos de forma genérica estão movimentos
         sociais, ONGs e os demais órgãos governa-
         mentais, de “cunho ideológico ou não”. Só
         não explica como um órgão governamen-
         tal pode estar incluído nesse conceito, em-
         bora seja fácil deduzir que a Secretaria de
         Direitos Humanos, empenhada em inves-
         tigar os crimes da ditadura, seja um deles.
            O manual foi liberado a setores da tro-
         pa por força de uma portaria assinada pe-
         lo então chefe do Estado Maior, general
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Movimentos sociais,
                              ONGs, órgãos
                              governamentais,
                              militares
                              estrangeiros...
                              Ninguém escapa


                              O mentor. Darke Figueiredo
                              e a mulher. O general coordenou
                              a confecção do documento




                              Darke Nunes de Figueiredo. Ex-chefe da
                              segurança pessoal do ex-presidente Fer-
                              nando Collor de Mello, Figueiredo é hoje
                              assessor do senador do PTB de Alagoas. O
                              texto é dividido em sete capítulos, com
                              centenas de itens. O documento confirma
                              oficialmente que o Exército desrespeita
                              frontalmente a Constituição Brasileira.
                              Em um trecho registrado como norma de
                              conhecimento, descreve-se a política de in-
                              filtração de agentes de inteligência militar
                              em organizações civis, notadamente movi-
                              mentos sociais e sindicatos. O expediente,
                              usado à farta na ditadura, está vetado a ara-
                              pongas militares desde a Carta de 1988,
                              embora nunca tenha, como se vê no docu-
                              mento, deixado de ser usado pela caserna.

                              Também há referências a controle de
                              meios de comunicação social e técni-
                              cas de contrapropaganda, inclusive com
                              orientação para a disseminação de boa-
                              tos, desqualificação de acusadores e uso
                              de documentos falsos. Em outra ponta, o
                              manual tem servido de bússola nas ações
                              disciplinares contra oficiais da força, mui-
                              tos deles ameaçados de expulsão por as-
                              sumir posições políticas consideradas de
                              esquerda ou simplesmente por criticar as
                              doutrinas aplicadas pelos comandantes.
                                 A recomendação explícita de infiltração
                              de agentes de inteligência em movimentos
                              sociais, assim como a mania de bisbilhotar
                              a privacidade de cidadãos comuns, faz do
                              manual uma prova de que, passados 26
                              anos, a ditadura ainda teima em não sair
                              dos quartéis. Ou ao menos da cabeça do
                              comando. É ranço direto da Doutrina de
                              Segurança Nacional, acalentada nos ban-
                              cos da Escola Superior de Guerra (ESG) e
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Seu País Forças Armadas

         praticada, em tempos idos, pelo extinto




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         Serviço Nacional de Informações (SNI).
            Na quarta-feira 12, ao ser informado por
         CartaCapital da existência do documento,
         o ministro Amorim pediu esclarecimen-
         tos sobre o texto ao comandante do Exér-
         cito, general Enzo Peri, titular do cargo à
         época da edição do manual. Também or-
         denou aos demais comandantes da Aero-
         náutica, brigadeiro Juniti Saito, e da Mari-
         nha, almirante Júlio Soares de Moura Ne-
         to, que o informem se existem ou não ma-
         nuais semelhantes em suas jurisdições. As
         chances de haver documentos do mesmo
         naipe são grandes, pois se trata de doutri-
         na conjunta das Forças Armadas. E os co-
         mandos da Aeronáutica e da Marinha es-
         tão entre os destinatários na lista de dis-
         tribuição do manual do Exército.
            A resistência dos militares brasileiros
         em se adequar às regras do poder civil é,        O ministro Celso                   seja, o restante da humanidade, bem co-
         inclusive, a razão de a presidenta Dilma         Amorim quer saber                  mo “instituições e/ou organizações a que
         Rousseff ter ordenado a Amorim apressar                                             pertençam, desde que não defendam mu-
         a criação, em Brasília, do Instituto Pandiá
                                                          se a Marinha                       danças radicais e revolucionárias”. Em
         Calógeras, ideia nascida e adormecida du-        e a Aeronáutica                    resumo, em vez de estar a serviço da na-
         rante a gestão de Jobim. Será uma home-          produziram manuais                 ção, o Exército a encara como um corpo
         nagem ao primeiro civil a exercer o car-         semelhantes                        estranho eventualmente a ser combatido.
         go de ministro da Guerra na história repu-                                          É o velho espírito das forças de ocupação.
         blicana brasileira, no governo de Epitácio                                             Um dos trechos mais hilários, relativo
         Pessoa, entre 1919 a 1922. A ideia é criar, na                                      ao capítulo intitulado “Segurança Orgâni-
         nova entidade, uma permanente doutri-            Estilos. Amorim não conhece        ca”, dá a dimensão da paranoia na caserna:
                                                          o manual. Jobim, seu antecessor,
         na civil sobre a questão da defesa nacional.     deu a bênção ao documento          “A principal ameaça que pode afetar o pes-
         À ESG restará a sede na Praia Vermelha,                                             soal é a espionagem, utilizando integran-
         no Rio de Janeiro, e o direito de ministrar                                         tes do Sistema EB (Exército Brasileiro) co-
         cursos de aperfeiçoamento de militares.                                             mo agente infiltrado ou explorando-o, de

         Para se ter uma ideia, no capítulo re-
         ferente a “Segurança Ativa”, no item so-
         bre “Contra-Espionagem”, o manual re-
         comenda a criação de uma “rede de in-
         formantes” por meio do recrutamento de
         pessoas integrantes de organizações so-
         ciais, com vistas a detectar seus interesses
         e atividades. Consiste na “cooptação de
         agente hostil, utilizando-o como agente
         duplo”. Em seguida, prevê a infiltração de
         agentes em movimentos que constituam
         “alvo provável de ações adversas”.
            Como forma de organização, o manu-
         al classifica de “público interno” a ser
         atingido pelas normas todo o contingen-
         te do Exército, da ativa e da reserva, e os
         familiares dos militares da força terres-
         tre – ou seja, inclui civis em um sistema
         oficial de inteligência militar, sem defi-
         nir-lhes um papel. Um grupo formado
         por cerca de 200 mil cidadãos. Incrivel-
         mente, o manual define por “público ex-
         terno”, logo alvo do “Sistema Exército”,
         os demais brasileiros e estrangeiros, ou
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que a “decisão de difundir deve estar cen-




                                                                                                      e l z a f i ú z a /a b r
                                                                                                                                 tralizada no mais alto nível da força”.
                                                                                                                                     A certa altura do capítulo intitulado “Es-
                                                                                                                                 tudo de Situação de Contra-Inteligência”,
                                                                                                                                 no item “Expressão Política”, o manual é
                                                                                                                                 explícito em orientar os agentes que iden-
                                                                                                                                 tifiquem “a filosofia, os objetivos e o grau
                                                                                                                                 de apoio dos partidos políticos ao governo
                                                                                                                                 e sua ligação com a OM (Organização Mi-
                                                                                                                                 litar, no caso, localizada na região de inte-
                                                                                                                                 resse)”. Também determina o levantamen-
                                                                                                                                 to de informações sobre “ONGs que fazem
                                                                                                                                 campanha contra a organização”. Mais
                                                                                                                                 adiante, preconiza aos agentes verificar
                                                                                                                                 “atitudes da população em relação à políti-
                                                                                                                                 ca local: examinar o grau de envolvimento
                                                                                                                                 da população nos assuntos políticos e sua
                                                                                                                                 atitude em relação às organizações políti-
                                                                                                                                 cas e seus líderes, concluindo sobre os as-
                                                                                                                                 pectos desfavoráveis para a OM”.

                                                                                                                                 O manual recomenda outras medidas
                                                                                                                                 de bisbilhotagem em relação às comuni-
                                                                                                                                 dades onde estão localizadas unidades
                                                                                                                                 militares. Segundo o documento, caberá
                                                                                                                                 aos arapongas “identificar os principais
                                                                                                                                 líderes políticos, comunitários e de asso-
                                                                                                                                 ciações, levantando seus hábitos, gostos,
                                                                                                                                 atitudes, suscetibilidades, traços de per-
                                                                                                                                 sonalidade e outras peculiaridades”. Tra-
                                                                                                                                 ta-se de uma instrução para localizar en-
                                                                                                                                 tre a população civil supostos opositores
                                                                                                                                 do Exército nos locais dos quartéis.
                                                                                                                                    No capítulo sobre contraespionagem,
                                                                                                                                 o manual determina o monitoramen-
                                                                                                                                 to “de militares estrangeiros, principal-
        forma inconsciente, em proveito de ou-          greve de quase um mês na quinta-feira 13.                                mente nas escolas do EB e em outros lo-
        trem”. É a tese do “inocente útil”, parte do       O texto atém-se em certo momento à                                    cais que permitam controlar e acompa-
        conceito de guerra revolucionária presen-       ameaça do terrorismo, considerada das                                    nhar os militares estrangeiros em servi-
        te nos manuais militares brasileiros desde      mais relevantes, “pois pode afetar uma                                   ço no País, em sua movimentação pelo
        o golpe de 1964.                                autoridade, vítima de ação seletiva”. So-                                território nacional, com vistas a detectar
           O documento ainda recomenda, como            bre o tema, aliás, o manual produz algu-                                 atividades veladas”. Ou seja, espionagem
        parte das ações voltadas ao público inter-      mas platitudes. Entre elas, a definição de                               pura e simples de militares de outros paí-
        no, “relacionar suspeitos e listar pessoas e/   que entre os objetivos do terrorismo está                                ses, muitos dos quais lotados como adi-
        ou organizações a quem uma ação hostil          o de “divulgar uma causa e mostrar a dis-                                dos em embaixadas, além daqueles con-
        possa beneficiar ou interessar mais dire-       posição de lutar por ela”, no qual se en-                                vidados pelo governo brasileiro para fa-
        tamente”. Esse item revela a existência de      quadram, obviamente, os movimentos so-                                   zer cursos de aperfeiçoamento no Brasil.
        listas elaboradas por agentes de inteligên-     ciais. Outro objetivo, segundo o manual, é                                  Nas considerações gerais sobre “Con-
        cia com base em arapongagem, se neces-          o de “adquirir direitos políticos para mi-                               traterrorismo”, o manual reforça o lobby
        sário, da vida privada de militares e seus      norias sociais, étnicas e/ou religiosas”.                                dos militares pela adoção de uma lei anti-
        parentes. Em outro ponto, elenca quais se-                                                                               terrorismo nos moldes daquela que os Es-
        riam as principais ações dessas “forças ou      Naturalmente incluídos nessa defini-                                     tados Unidos queriam impor ao mundo
        elementos adversos”: “invasão e ocupação        ção, os movimentos de luta por cidadania,                                depois dos ataques de 11 de setembro de
        de áreas públicas e/ou privadas, bloqueio       direitos civis e liberdade religiosa acaba-                              2001. Esse expediente, sob o patrocínio de
        de vias de circulação e promoção de gre-        ram enquadrados como terroristas. Ain-                                   Jobim, foi tentado duas vezes, sem sucesso,
        ves em serviços essenciais”. O MST é, cer-      da nesse item, o manual prevê que o “Sis-                                nos governos Lula e Dilma. Diz o manual:
        tamente, um inimigo, pela leitura possível      tema Exército” sempre tenha controle                                     “A depender do vulto do impacto de uma
        desse item. Mas também poderiam ser en-         sobre as evidências relativas a atividades                               ação terrorista, pode ser necessária uma
        quadrados, por exemplo, os funcionários         terroristas e exerça, se necessário, con-                                legislação especial para habilitar a ado-
        dos Correios, que interromperam uma             trole sobre os meios de comunicação, já                                  ção de medidas antiterror e estabelecer
                                                                                                                                    cartacapital | 19 de outubro de 2011    31




•CCSeuPaisCapa_668d.indd 31                                                                                                                                            10/13/11 10:51:16 PM
Seu País Forças Armadas

                                                                                         Alvo. O capitão        atropelado por um carro, jamais identifi-
                                                                                         Sousa enfrenta         cado, no centro do Porto Alegre
                                                                                         processo de expulsão      Por causa do acidente, que resultou em
                                                                                         por suas posições
                                                                                         políticas              diversas fraturas nas pernas e nos braços,
                                                                                                                Sousa está afastado do serviço ativo des-
                                                                                                                de 2009, embora continue a residir, em
                                                                                                                General Câmara, em uma casa do Exérci-
                                                                                                                to. Espera, pacientemente, ser reformado
                                                                                                                por invalidez, mas o Comando Militar do
                                                                                                                Sul decidiu abrir um processo para expul-
                                                                                                                sá-lo da força. A razão pode estar na cam-
                                                                                                                panha eleitoral de 2010, quando o capitão,
                                                                                                                de 35 anos, candidatou-se a deputado fe-
                                                                                                                deral pelo PT gaúcho (perdeu novamen-
                                                                                                                te). O Exército o acusa de atentar contra
                                                                                                                o “pundonor” (honra) do Exército, termo
                                                                                                                recorrente no manual. O caso espera jul-
                                                                                                                gamento no Superior Tribunal Militar.

                                                                                                                Ao tratar do item “Contrapropaganda”,
                                                                                                                o manual o define como um expedien-
                                                                                                                te para “neutralizar propaganda adver-
                                                                                                                sa que possa causar prejuízo aos interes-
                                                                                                                ses do Exército Brasileiro”. Entre as ações
                                                                                                                previstas estão: localizar a fonte e o veícu-
                                                                                                                lo da propaganda; desmontar a propagan-
                                                                                                                da do adversário; atacar e desacreditar o
                                                                              ismar ingber




                                                                                                                adversário; procurar, no passado, atitu-
                                                                                                                des e posições da organização que conduz
                                                                                                                a propaganda, para buscar contradições;
                                                                                                                quando se tratar de pessoa, desacreditá-
         a responsabilidade de autoridades”.              graça dentro do Exército e, em muitos ca-             la, colocá-la em posição de inferioridade; e
            O manual dedica um item para a situa-         sos, correm risco de expulsão.                        ridicularizar a propaganda adversária.
         ção dos quartéis de fronteira. Assim, deter-        Caso do capitão Luís Fernando Ribeiro                  A estratégia inclui textos jornalísticos,
         mina que os agentes descrevam as relações,       de Sousa, lotado no Arsenal de Guerra de              conforme se pode deduzir do trecho do
         oficiais ou não, existentes entre essas uni-     General Câmara, no interior do Rio Gran-              manual em que se explica que essa técnica
         dades militares “e outras nações”. Logo em       de do Sul. Em 2004, quando servia no Rio              “consiste em responder item por item à pro-
         seguida, no item “Expressão Econômica”,          de Janeiro, Sousa decidiu se candidatar a             paganda do adversário”, atuar de forma “di-
         recomenda a elaboração de um quadro da           vereador pelo antigo Partido dos Aposen-              versionista” para desviar a atenção do pú-
         estrutura econômica das regiões onde es-         tados da Nação (PAN). Derrotado nas ur-               blico para outros temas e fazê-lo cair no es-
         tão esses quartéis, inclusive “injustiças na     nas, sofreu uma repreensão na ficha dis-              quecimento ou, simplesmente, usar a técni-
         distribuição de renda e no controle do po-       ciplinar por ter se ausentado do quartel              ca do “silêncio”, para situações em que dar
         der econômico”. Além de listar atividades        para fazer o registro partidário.                     satisfação “não se presta a uma resposta fa-
         econômicas, nível de emprego e relações de          Em 2005, o capitão aproximou-se da                 vorável”, de modo ao assunto se “diluir na-
         trabalho. Mas com um detalhe: “Identificar       Coordenação de Movimentos Sociais,                    turalmente nos veículos de comunicação”.
         o modus faciendi, a eficácia e o peso político   entidade que congrega diversas organi-                    Na resposta aos pedidos de explicação de
         das organizações dos trabalhadores”.             zações populares, como a Central Única                CartaCapital, o Centro de Comunicação do
                                                          dos Trabalhadores (CUT) e a União Na-                 Exército (Ccomsex) parece ter optado por
         No item referente a “Medidas de Con-             cional dos Estudantes (UNE), além de                  uma mistura de todas as recomendações
         tra-Inteligência Interna”, as instruções se      sindicatos e pastorais católicas. No fim              do manual. Em uma explicação lacônica,
         concentram na bisbilhotagem dentro da            daquele ano, decidiu usar o período de                esclareceu que o manual “é um documen-
         caserna. Orienta “produzir conhecimen-           férias para participar, em Caracas, do Fó-            to sigiloso que orienta a execução das me-
         to” sobre “militares envolvidos em mani-         rum Social Mundial. Queria conhecer                   didas necessárias à proteção de dados, in-
         festações contrárias aos interesses da ins-      um de seus ídolos, o presidente venezue-              formações, documentos, instalações e ma-
         tituição”. Entre os objetivos dessa políti-      lano Hugo Chávez, mas foi proibido de                 teriais sigilosos”. Lê-se em seguida uma
         ca está o de “produzir conhecimento so-          deixar o País pelo Comando Militar do                 ameaça: “Por oportuno, vale ressaltar que
         bre elementos do público interno com ca-         Leste, sem qualquer justificativa oficial.            todo aquele que tiver conhecimento de as-
         pacidade de serem cooptados”. Essa nor-          Em seguida, sofreu uma punição por re-                suntos sigilosos fica sujeito às sanções ad-
         ma tem servido para enquadrar oficiais           latar o fato em uma entrevista a Carta-               ministrativas, civis e penais decorrentes da
         que, por razões políticas, caíram em des-        Capital. Em dezembro do mesmo ano, foi                eventual divulgação dos mesmos”.    •
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Manual contra inteligencia pdf

  • 1.
    Seu País Nós, os inimigos FORÇAS ARMADAS | Em manual tão hilário quanto tenebroso, o Exército elege quase toda a sociedade brasileira como adversária e estimula métodos de bisbilhotagem POR LEANDRO FORTES E m 24 de abril de 2009, sob as barbas do então presi- dente Lula e com o apoio do ministro da Defesa, Nelson Jobim, o Exército do Bra- sil produziu um documento impressionante. Classifica- do internamente como “reservado” e des- conhecido, até agora, de Celso Amorim, que sucedeu a Jobim no ministério, o tex- to de 162 páginas recebeu o nome Manual de Campanha – Contra-Inteligência. Tra- ta-se de um conjunto de normas e orien- tações técnicas que reúne, em um só uni- verso, todas as paranoias de segurança herdadas da Guerra Fria e mantidas into- cadas, décadas depois da queda do Muro de Berlim, do fim da ditadura e nove anos após a chegada do “temido” PT ao poder. Há de tudo e um pouco mais no do- cumento elaborado pelo Estado Maior do Exército. A começar pelo fato de os gene- rais ainda não terem se despido da prática de espionar a vida dos cidadãos comuns. O manual lista como potenciais inimigos (chamados no texto de “forças/elementos adversos”) praticamente toda a população não fardada do País e os estrangeiros. Cita- dos de forma genérica estão movimentos sociais, ONGs e os demais órgãos governa- mentais, de “cunho ideológico ou não”. Só não explica como um órgão governamen- tal pode estar incluído nesse conceito, em- bora seja fácil deduzir que a Secretaria de Direitos Humanos, empenhada em inves- tigar os crimes da ditadura, seja um deles. O manual foi liberado a setores da tro- pa por força de uma portaria assinada pe- lo então chefe do Estado Maior, general 28 www.cartacapital.com.br •CCSeuPaisCapa_668d.indd 28 10/13/11 10:51:01 PM
  • 2.
    Movimentos sociais, ONGs, órgãos governamentais, militares estrangeiros... Ninguém escapa O mentor. Darke Figueiredo e a mulher. O general coordenou a confecção do documento Darke Nunes de Figueiredo. Ex-chefe da segurança pessoal do ex-presidente Fer- nando Collor de Mello, Figueiredo é hoje assessor do senador do PTB de Alagoas. O texto é dividido em sete capítulos, com centenas de itens. O documento confirma oficialmente que o Exército desrespeita frontalmente a Constituição Brasileira. Em um trecho registrado como norma de conhecimento, descreve-se a política de in- filtração de agentes de inteligência militar em organizações civis, notadamente movi- mentos sociais e sindicatos. O expediente, usado à farta na ditadura, está vetado a ara- pongas militares desde a Carta de 1988, embora nunca tenha, como se vê no docu- mento, deixado de ser usado pela caserna. Também há referências a controle de meios de comunicação social e técni- cas de contrapropaganda, inclusive com orientação para a disseminação de boa- tos, desqualificação de acusadores e uso de documentos falsos. Em outra ponta, o manual tem servido de bússola nas ações disciplinares contra oficiais da força, mui- tos deles ameaçados de expulsão por as- sumir posições políticas consideradas de esquerda ou simplesmente por criticar as doutrinas aplicadas pelos comandantes. A recomendação explícita de infiltração de agentes de inteligência em movimentos sociais, assim como a mania de bisbilhotar a privacidade de cidadãos comuns, faz do manual uma prova de que, passados 26 anos, a ditadura ainda teima em não sair dos quartéis. Ou ao menos da cabeça do comando. É ranço direto da Doutrina de Segurança Nacional, acalentada nos ban- cos da Escola Superior de Guerra (ESG) e cartacapital | 19 de outubro de 2011 29 •CCSeuPaisCapa_668d.indd 29 10/13/11 10:51:07 PM
  • 3.
    Seu País ForçasArmadas praticada, em tempos idos, pelo extinto Va n e s s a c a r Va l H o/a e Serviço Nacional de Informações (SNI). Na quarta-feira 12, ao ser informado por CartaCapital da existência do documento, o ministro Amorim pediu esclarecimen- tos sobre o texto ao comandante do Exér- cito, general Enzo Peri, titular do cargo à época da edição do manual. Também or- denou aos demais comandantes da Aero- náutica, brigadeiro Juniti Saito, e da Mari- nha, almirante Júlio Soares de Moura Ne- to, que o informem se existem ou não ma- nuais semelhantes em suas jurisdições. As chances de haver documentos do mesmo naipe são grandes, pois se trata de doutri- na conjunta das Forças Armadas. E os co- mandos da Aeronáutica e da Marinha es- tão entre os destinatários na lista de dis- tribuição do manual do Exército. A resistência dos militares brasileiros em se adequar às regras do poder civil é, O ministro Celso seja, o restante da humanidade, bem co- inclusive, a razão de a presidenta Dilma Amorim quer saber mo “instituições e/ou organizações a que Rousseff ter ordenado a Amorim apressar pertençam, desde que não defendam mu- a criação, em Brasília, do Instituto Pandiá se a Marinha danças radicais e revolucionárias”. Em Calógeras, ideia nascida e adormecida du- e a Aeronáutica resumo, em vez de estar a serviço da na- rante a gestão de Jobim. Será uma home- produziram manuais ção, o Exército a encara como um corpo nagem ao primeiro civil a exercer o car- semelhantes estranho eventualmente a ser combatido. go de ministro da Guerra na história repu- É o velho espírito das forças de ocupação. blicana brasileira, no governo de Epitácio Um dos trechos mais hilários, relativo Pessoa, entre 1919 a 1922. A ideia é criar, na ao capítulo intitulado “Segurança Orgâni- nova entidade, uma permanente doutri- Estilos. Amorim não conhece ca”, dá a dimensão da paranoia na caserna: o manual. Jobim, seu antecessor, na civil sobre a questão da defesa nacional. deu a bênção ao documento “A principal ameaça que pode afetar o pes- À ESG restará a sede na Praia Vermelha, soal é a espionagem, utilizando integran- no Rio de Janeiro, e o direito de ministrar tes do Sistema EB (Exército Brasileiro) co- cursos de aperfeiçoamento de militares. mo agente infiltrado ou explorando-o, de Para se ter uma ideia, no capítulo re- ferente a “Segurança Ativa”, no item so- bre “Contra-Espionagem”, o manual re- comenda a criação de uma “rede de in- formantes” por meio do recrutamento de pessoas integrantes de organizações so- ciais, com vistas a detectar seus interesses e atividades. Consiste na “cooptação de agente hostil, utilizando-o como agente duplo”. Em seguida, prevê a infiltração de agentes em movimentos que constituam “alvo provável de ações adversas”. Como forma de organização, o manu- al classifica de “público interno” a ser atingido pelas normas todo o contingen- te do Exército, da ativa e da reserva, e os familiares dos militares da força terres- tre – ou seja, inclui civis em um sistema oficial de inteligência militar, sem defi- nir-lhes um papel. Um grupo formado por cerca de 200 mil cidadãos. Incrivel- mente, o manual define por “público ex- terno”, logo alvo do “Sistema Exército”, os demais brasileiros e estrangeiros, ou 30 www.cartacapital.com.br •CCSeuPaisCapa_668d.indd 30 10/13/11 10:51:15 PM
  • 4.
    que a “decisãode difundir deve estar cen- e l z a f i ú z a /a b r tralizada no mais alto nível da força”. A certa altura do capítulo intitulado “Es- tudo de Situação de Contra-Inteligência”, no item “Expressão Política”, o manual é explícito em orientar os agentes que iden- tifiquem “a filosofia, os objetivos e o grau de apoio dos partidos políticos ao governo e sua ligação com a OM (Organização Mi- litar, no caso, localizada na região de inte- resse)”. Também determina o levantamen- to de informações sobre “ONGs que fazem campanha contra a organização”. Mais adiante, preconiza aos agentes verificar “atitudes da população em relação à políti- ca local: examinar o grau de envolvimento da população nos assuntos políticos e sua atitude em relação às organizações políti- cas e seus líderes, concluindo sobre os as- pectos desfavoráveis para a OM”. O manual recomenda outras medidas de bisbilhotagem em relação às comuni- dades onde estão localizadas unidades militares. Segundo o documento, caberá aos arapongas “identificar os principais líderes políticos, comunitários e de asso- ciações, levantando seus hábitos, gostos, atitudes, suscetibilidades, traços de per- sonalidade e outras peculiaridades”. Tra- ta-se de uma instrução para localizar en- tre a população civil supostos opositores do Exército nos locais dos quartéis. No capítulo sobre contraespionagem, o manual determina o monitoramen- to “de militares estrangeiros, principal- forma inconsciente, em proveito de ou- greve de quase um mês na quinta-feira 13. mente nas escolas do EB e em outros lo- trem”. É a tese do “inocente útil”, parte do O texto atém-se em certo momento à cais que permitam controlar e acompa- conceito de guerra revolucionária presen- ameaça do terrorismo, considerada das nhar os militares estrangeiros em servi- te nos manuais militares brasileiros desde mais relevantes, “pois pode afetar uma ço no País, em sua movimentação pelo o golpe de 1964. autoridade, vítima de ação seletiva”. So- território nacional, com vistas a detectar O documento ainda recomenda, como bre o tema, aliás, o manual produz algu- atividades veladas”. Ou seja, espionagem parte das ações voltadas ao público inter- mas platitudes. Entre elas, a definição de pura e simples de militares de outros paí- no, “relacionar suspeitos e listar pessoas e/ que entre os objetivos do terrorismo está ses, muitos dos quais lotados como adi- ou organizações a quem uma ação hostil o de “divulgar uma causa e mostrar a dis- dos em embaixadas, além daqueles con- possa beneficiar ou interessar mais dire- posição de lutar por ela”, no qual se en- vidados pelo governo brasileiro para fa- tamente”. Esse item revela a existência de quadram, obviamente, os movimentos so- zer cursos de aperfeiçoamento no Brasil. listas elaboradas por agentes de inteligên- ciais. Outro objetivo, segundo o manual, é Nas considerações gerais sobre “Con- cia com base em arapongagem, se neces- o de “adquirir direitos políticos para mi- traterrorismo”, o manual reforça o lobby sário, da vida privada de militares e seus norias sociais, étnicas e/ou religiosas”. dos militares pela adoção de uma lei anti- parentes. Em outro ponto, elenca quais se- terrorismo nos moldes daquela que os Es- riam as principais ações dessas “forças ou Naturalmente incluídos nessa defini- tados Unidos queriam impor ao mundo elementos adversos”: “invasão e ocupação ção, os movimentos de luta por cidadania, depois dos ataques de 11 de setembro de de áreas públicas e/ou privadas, bloqueio direitos civis e liberdade religiosa acaba- 2001. Esse expediente, sob o patrocínio de de vias de circulação e promoção de gre- ram enquadrados como terroristas. Ain- Jobim, foi tentado duas vezes, sem sucesso, ves em serviços essenciais”. O MST é, cer- da nesse item, o manual prevê que o “Sis- nos governos Lula e Dilma. Diz o manual: tamente, um inimigo, pela leitura possível tema Exército” sempre tenha controle “A depender do vulto do impacto de uma desse item. Mas também poderiam ser en- sobre as evidências relativas a atividades ação terrorista, pode ser necessária uma quadrados, por exemplo, os funcionários terroristas e exerça, se necessário, con- legislação especial para habilitar a ado- dos Correios, que interromperam uma trole sobre os meios de comunicação, já ção de medidas antiterror e estabelecer cartacapital | 19 de outubro de 2011 31 •CCSeuPaisCapa_668d.indd 31 10/13/11 10:51:16 PM
  • 5.
    Seu País ForçasArmadas Alvo. O capitão atropelado por um carro, jamais identifi- Sousa enfrenta cado, no centro do Porto Alegre processo de expulsão Por causa do acidente, que resultou em por suas posições políticas diversas fraturas nas pernas e nos braços, Sousa está afastado do serviço ativo des- de 2009, embora continue a residir, em General Câmara, em uma casa do Exérci- to. Espera, pacientemente, ser reformado por invalidez, mas o Comando Militar do Sul decidiu abrir um processo para expul- sá-lo da força. A razão pode estar na cam- panha eleitoral de 2010, quando o capitão, de 35 anos, candidatou-se a deputado fe- deral pelo PT gaúcho (perdeu novamen- te). O Exército o acusa de atentar contra o “pundonor” (honra) do Exército, termo recorrente no manual. O caso espera jul- gamento no Superior Tribunal Militar. Ao tratar do item “Contrapropaganda”, o manual o define como um expedien- te para “neutralizar propaganda adver- sa que possa causar prejuízo aos interes- ses do Exército Brasileiro”. Entre as ações previstas estão: localizar a fonte e o veícu- lo da propaganda; desmontar a propagan- da do adversário; atacar e desacreditar o ismar ingber adversário; procurar, no passado, atitu- des e posições da organização que conduz a propaganda, para buscar contradições; quando se tratar de pessoa, desacreditá- a responsabilidade de autoridades”. graça dentro do Exército e, em muitos ca- la, colocá-la em posição de inferioridade; e O manual dedica um item para a situa- sos, correm risco de expulsão. ridicularizar a propaganda adversária. ção dos quartéis de fronteira. Assim, deter- Caso do capitão Luís Fernando Ribeiro A estratégia inclui textos jornalísticos, mina que os agentes descrevam as relações, de Sousa, lotado no Arsenal de Guerra de conforme se pode deduzir do trecho do oficiais ou não, existentes entre essas uni- General Câmara, no interior do Rio Gran- manual em que se explica que essa técnica dades militares “e outras nações”. Logo em de do Sul. Em 2004, quando servia no Rio “consiste em responder item por item à pro- seguida, no item “Expressão Econômica”, de Janeiro, Sousa decidiu se candidatar a paganda do adversário”, atuar de forma “di- recomenda a elaboração de um quadro da vereador pelo antigo Partido dos Aposen- versionista” para desviar a atenção do pú- estrutura econômica das regiões onde es- tados da Nação (PAN). Derrotado nas ur- blico para outros temas e fazê-lo cair no es- tão esses quartéis, inclusive “injustiças na nas, sofreu uma repreensão na ficha dis- quecimento ou, simplesmente, usar a técni- distribuição de renda e no controle do po- ciplinar por ter se ausentado do quartel ca do “silêncio”, para situações em que dar der econômico”. Além de listar atividades para fazer o registro partidário. satisfação “não se presta a uma resposta fa- econômicas, nível de emprego e relações de Em 2005, o capitão aproximou-se da vorável”, de modo ao assunto se “diluir na- trabalho. Mas com um detalhe: “Identificar Coordenação de Movimentos Sociais, turalmente nos veículos de comunicação”. o modus faciendi, a eficácia e o peso político entidade que congrega diversas organi- Na resposta aos pedidos de explicação de das organizações dos trabalhadores”. zações populares, como a Central Única CartaCapital, o Centro de Comunicação do dos Trabalhadores (CUT) e a União Na- Exército (Ccomsex) parece ter optado por No item referente a “Medidas de Con- cional dos Estudantes (UNE), além de uma mistura de todas as recomendações tra-Inteligência Interna”, as instruções se sindicatos e pastorais católicas. No fim do manual. Em uma explicação lacônica, concentram na bisbilhotagem dentro da daquele ano, decidiu usar o período de esclareceu que o manual “é um documen- caserna. Orienta “produzir conhecimen- férias para participar, em Caracas, do Fó- to sigiloso que orienta a execução das me- to” sobre “militares envolvidos em mani- rum Social Mundial. Queria conhecer didas necessárias à proteção de dados, in- festações contrárias aos interesses da ins- um de seus ídolos, o presidente venezue- formações, documentos, instalações e ma- tituição”. Entre os objetivos dessa políti- lano Hugo Chávez, mas foi proibido de teriais sigilosos”. Lê-se em seguida uma ca está o de “produzir conhecimento so- deixar o País pelo Comando Militar do ameaça: “Por oportuno, vale ressaltar que bre elementos do público interno com ca- Leste, sem qualquer justificativa oficial. todo aquele que tiver conhecimento de as- pacidade de serem cooptados”. Essa nor- Em seguida, sofreu uma punição por re- suntos sigilosos fica sujeito às sanções ad- ma tem servido para enquadrar oficiais latar o fato em uma entrevista a Carta- ministrativas, civis e penais decorrentes da que, por razões políticas, caíram em des- Capital. Em dezembro do mesmo ano, foi eventual divulgação dos mesmos”. • 32 www.cartacapital.com.br •CCSeuPaisCapa_668d.indd 32 10/13/11 10:51:18 PM