Literatura Brasileira:
Expressões Poéticas
e Dramáticas
A Lírica Romântica
Desenvolvimento do material
Fabiana Bazilio Farias
1ª Edição
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Sumário
A Lírica Romântica
Para início de conversa .................................................................................... 3
Objetivos .......................................................................................................... 3
1.A Independência Política e as Primeiras Figurações
da Identidade no Brasil ............................................................................... 4
2. Do Indianismo ao Condoreirismo: a Formação
da Literatura Brasileira ............................................................................... 7
3.As Figurações da Dramaturgia no Brasil: Primórdios.
A Obra de Martins Pena .............................................................................. 16
Referências .........................................................................................................18
Para início de conversa
A poesia desenvolvida no Romantismo (movimento surgido na Europa
no final do século XVIII) trouxe, para a literatura brasileira, as marcas
principais dessa escola literária. O Brasil, no início do século XIX, era
um lugar repleto de contradições, além das graves questões sociais
relacionadas à escravidão dos negros trazidos do continente africano, o
ambiente fechado intelectual e comercialmente continuava a alimentar
as conspirações separatistas. A chegada da Família Real ao Brasil abriu
espaço para um novo momento na sociedade, acelerando o processo de
emancipação da colônia em relação a Portugal.
A identidade nacional foi um projeto em comum tanto no campo político
como no artístico. A literatura, nesse momento, alcançou um estágio de
amadurecimento e que,segundo Antonio Candido,marcou de fato o seu início
propriamente dito,colocando fim ao período de manifestações literárias:
‘‘ Um elemento importante nos anos de 1820 e 1830 foi o desejo de autonomia
literária, tornado mais vivo depois da Independência.
Então,o Romantismo apareceu aos poucos como caminho favorável à expressão
própria da nação recém-fundada, pois fornecia concepções e modelos que
permitiam afirmar o particularismo, e portanto a identidade, em oposição à
Metrópole, identificada com a tradição clássica. Assim surgiu algo novo: a noção
de que no Brasil havia uma produção literária com características próprias, que
agora seria definida e descrita como justificativa da reivindicação de autonomia
espiritual. (CANDIDO, 2002, p.20)
’’
A autonomia literária, defendida por Candido encontra terreno fértil
nas expressões poéticas presentes nas três gerações românticas que
figuraram em nossa literatura.
Objetivos
▪ Levar o aluno a compreender a importância do período do romantismo
no Ocidente e no Brasil e as primeiras figurações da identidade
brasileira na literatura.
▪ Possibilitar o conhecimento das principais temáticas que constituem
o romantismo e suas fases.
▪ Promover a reflexão sobre o teatro no Brasil, dando ênfase à obra de
Martins Pena.
Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 3
1.A Independência Política e as Primeiras
Figurações da Identidade no Brasil
“Infeliz a nação que precisa de heróis”.
Bertolt Brecht
O contexto histórico do início do século XIX foi um momento decisivo
que uniu os caminhos da colônia e da metrópole, Portugal. Em 1808, a
Corte Portuguesa se transferiu para o Brasil,fugindo da iminente invasão
de Portugal pelas tropas francesas lideradas por Napoleão Bonaparte. A
chegada ao Brasil, foi, também, um momento de mudança econômica,
simbolizada pela abertura dos portos brasileiros às exportações,
privilegiando, nessa decisão, a Inglaterra. Outras mudanças provocaram
um profundo impacto no cenário cultural do Brasil. São exemplos: a
criação da primeira imprensa, da Biblioteca Real e do Museu Real. Em 26
de abril de 1821, a Família Real retornou a Portugal, por consequência
de uma revolução em seu território.
Após esses acontecimentos, se instaurou o movimento de Independência
da colônia em relação à metrópole portuguesa, mas o objetivo era
manter o poder da família imperial e impedir que algum movimento
emancipatório liderado por colonos tomasse o poder. O Grito do
Ipiranga, que marcou a data da Independência do Brasil, em 7 de
setembro de 1822, deu início a um longo processo de reconhecimento
da emancipação política do Brasil.
Figura 1: Declaração da Independência do Brasil pelo imperador Pedro I em 7 de setembro de
1822. Obra de Pedro Américo. Fonte: Wikimedia.
Três anos se passaram para que Portugal e outros países europeus
reconhecessem a separação do Brasil de Portugal.
Esse clima de emancipação, que culminou com a Independência do
Brasil, foi marcado pelo fortalecimento do sentimento de nacionalismo
e de busca de uma identidade sobre o que é ser Brasil.
Esse sentimento era importante já que ainda permanecia, no âmbito
cultural e literário, a reprodução dos modelos clássicos europeus. Daí,
surgiu a necessidade de se pensar e criar uma arte que retratasse o Brasil
Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 4
levando a independência política e economia também para o campo
cultural. Antonio Candido, em seu livro Formação da Literatura Brasileira
(1973), afirma que “o nacionalismo independe do Romantismo, embora
tenha encontrado nele o aliado decisivo” (p.15). Ainda segundo o autor:
‘‘ A independência importa de maneira decisiva no desenvolvimento da ideia
romântica, para a qual contribuiu pelo menos com três elemento que e podem
considerar como redefinição de posições análogas do Arcadismo: (1) desejo de
exprimir uma nova ordem de sentimentos agora reputado de primeiro plano,
como o orgulho patriótico, extensão do antigo nativismo; (b) desejo de criar
uma literatura independente, diversa, não apenas uma literatura, de vez que,
aparecendo o Classicismo como manifestação do passado colonial,o nacionalismo
literário e a busca por modelos novos, nem clássico nem portugueses davam um
sentimento de libertação relativamente à mãe-pátria; finalmente (c) a noção já
referida de uma atividade intelectual não mais apenas como prova de valor do
brasileiro e esclarecimento mental do país, mas tarefa patriótica na construção
nacional. (1976, p.12) [grifos nossos]
’’
A ideia de identidade nacional é um conceito da Era Moderna que surgiu
no século XVIII,atingindo seu apogeu no século XIX.O conceito de nação,
propriamente dito, é algo que também se desenvolveu nesse período, já
que o que prevalecia antes era conceitos ligado à hereditariedade e à
dinastia das famílias reais.
O clima separatista não foi aplacado pela Independência, mas esse
período foi decisivo para fomentar figurações de nacionalidade por
meio de elementos comuns que enfatizassem o orgulho, a história e
o futuro da nação. Esses elementos também deveriam ser capazes de
unir populações tão distintas e separadas tanto pela distância quanto
pela diversidade de realidades. A Europa, naquele período, ainda era
o modelo de referência de civilização para o Brasil, mas aliado a esse
desejo de ser igual à Europa havia, também, a necessidade de ressaltar a
singularidade do Brasil.
O Romantismo, como movimento artístico, permitiu o desenvolvimento
desse espírito de nacionalismo em conformidade ao que se viu em suas
manifestações na Europa. A busca por tradições nacionais e o resgate
histórico foram algum dos elementos utilizados por artistas e intelectuais
para fomentar um espírito nacionalista que estava alinhado, por exemplo,
ao contexto de guerras pela independência na América espanhola e pela
própria Independência do Brasil.
Candido afirma que “Descrever costumes, paisagens, fatos, sentimento
carregados de sentido nacional, era libertar-se do jugo da literatura
clássica, universal, comum a todos” (1973, p.15-16) e, assim, reafirmar
aquilo que era particular,“próprio” da literatura nacional. O “patriotismo”,
dessa forma, era posto como um “dever”, uma “missão” do escritor e uma
parte de um projeto de valorização do nacional.
Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 5
Nesse sentido, a estética romântica possuiu um papel muito importante
para esse arranque de nacionalismo e para o fortalecimento de uma
autonomia literária brasileira. Na Europa, o movimento romântico dava
indícios de sua presença na Alemanha e na Inglaterra já no final do
século XVIII.A Revolução Industrial e a Revolução Francesa (1789) foram
momentos decisivos para estabelecer uma mudança no modo de pensar
e de viver da sociedade do período.
Figura 2: A queda da Bastilha (14 de julho de 1789) foi um dos eventos centrais
da Revolução Francesa. Fonte: Wikimedia.
A ascensão da burguesia, provocada por essa e outras revoluções do
período, colocou em destaque não só o modo de pensar, mas também os
costumes dessa classe social.
Como já observamos nos outros movimentos literários, a literatura
possui íntima relação com as questões e acontecimentos sociais,
políticos e econômicos; já que sua arte é uma forma de representação
das experiências humanas.
Do ponto de vista estético, o romantismo surge como movimento que
buscava substituir os modelos do neoclassicismo, de inspiração greco-
romana, por uma arte que valorizasse o cotidiano, colocando em
destaque o natural em oposição à razão (marca do Classicismo).
Outra transformação importante trazida pela Romantismo foi a questão
do gênero literário que antes era visto como fixo e puro e que, a partir da
perspectiva romântica, passou a ser misturado levando ao nascimento
de novos gêneros. Ou seja, o “Romantismo insurge-se contra a distinção
dos gêneros, considerando arbitrária a separação e reivindicando, ao
contrário, a sua mistura.” (COUTINHO, p. 12)
O Romantismo,dentre suas diferentes manifestações,possui as seguintes
características:
Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 6
▪ Liberdade de criação: Essa característica marca a oposição ao modelo
padrão clássico, a mistura dos gêneros literários, o uso do verso livre
e a aproximação da linguagem coloquial.
▪ Idealização: Recurso estético no qual o objeto é enaltecido até atingir
a perfeição. O Romantismo encara a pátria, a natureza e o amor como
idealizados. Nesse mesmo caminho, a mulher será também figurada
como uma virgem inatingível, submissa e de beleza perfeita.
▪ Evasão: É um dos nomes dados ao escapismo romântico, ou seja, de
fuga da realidade. Essa característica estará também relacionada ao
sentimento de desesperança e de desejo pela morte temas recorrente
em muitas poesias do período.
▪ Sentimentalismo: Exaltação dos impulsos, do sentimento exacerbado.
Essa característica relaciona-se, também, a outras marcas do período,
como o saudosismo, a tristeza e a melancolia.
▪ Subjetivismo: Refere-se ao interior do sujeito, aos sentimentos
pessoais que são colocados em destaque durante o processo de
criação romântica.
▪ Natureza em diálogo com o sujeito: A natureza terá papel importante
na criação romântica que será espaço de refúgio, de idealização e
modelo de perfeição.
▪ Byronismo: Faz alusão ao poeta inglês Lord Byron. Essa característica
representa,na verdade,um estilo de vida próprio ligado à vida boêmia
e aos excessos do álcool, das drogas e do sexo. A segunda geração
romântica é a mais fiel a esse traço da estética romântica.
2.Do Indianismo ao Condoreirismo: a
Formação da Literatura Brasileira
No Brasil, o Romantismo, consegue se estabelecer na literatura pelo seu
importante papel no projeto patriótico de destacar as particularidades
de nossa literatura. A literatura de expressão romântica tornou-se
um reflexo do próprio movimento político e social, que culminou na
Independência da colônia em relação a Portugal.
A publicação que se convencionou como marco de início do romantismo
no Brasil é Suspiros Poéticos e Saudades (1836), de Gonçalves Magalhães,
além disso,Antonio Candido considera que essa obra foi também o marco
“iniciador da literatura propriamente brasileira”. (2002, p.26).
O Romantismo brasileiro (1836-1881) dividiu-se em três momentos ou
gerações, a saber:
▪ Primeira Geração – nacionalista/indianista.
▪ Segunda Geração – ultrarromântica (mal do século).
▪ Terceira Geração – condoreira ou social.
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Iremos, a partir de agora, conhecer cada uma delas, as obras e os autores
representativos de cada período.
2.1 Primeira Geração: Indianismo/Nacionalismo
Figura 3: Le Signal de la retraite (1834-1839) obra de Jean-Baptiste Debret. Fonte: Wikimedia.
O indianismo é uma das principais marcas da primeira geração romântica
brasileira.Na Europa,a primeira geração recebeu o nome de “romantismo
histórico” por resgatar, na literatura, valores históricos e retratar a figura
de um grande herói.
Se no romantismo europeu é o medievalismo que cumpre o papel de
resgate das origens das nações, no Brasil, o indianismo cumprirá essa
função, remontando, em suas obras, ao período anterior à chegada
dos portugueses.
Sendo assim,no lugar do cavaleiro medieval,temos o indígena ocupando
o lugar do ancestral brasileiro e representado de forma idealizada. O
indianismo, dessa forma, está ligado ao projeto patriota de construção
de uma identidade nacional, de um nacionalismo ufanista. Sendo assim,
o indígena representado na literatura engloba não apenas a figura
do herói medieval romântico, mas também simboliza a natureza e a
religiosidade (tendo em vista a catequização e a conversão a fé cristã).
Dentre os poetas dessa primeira geração romântica, Gonçalves Dias
(1823-1864) foi um dos primeiros nomes de destaque no romantismo
brasileiro. Suas principais obras poéticas foram: Primeiros Cantos (1846);
Segundos Cantos (1848); Sextilhas de Frei Antão (1848); Últimos Cantos
Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 8
(1851); Os Timbiras - obra inacabada (1857) e Cantos (1857). Seu poema
“Canção do exílio” (1847) é um dos mais conhecidos e influentes na
literatura brasileira.
Canção do exílio
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar sozinho, à noite
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
No poema, podemos ver marcas românticas como o saudosismo e o
patriotismo com forte caráter subjetivo. O eu lírico, no poema, volta-se
para a exaltação da paisagem nacional que será concebida como um
símbolo da identidade brasileira. A marca indianista nas poesias de
Gonçalves Dias também confirma sua presença na primeira geração
romântica brasileira. Marabá, O canto do Piaga e Juca Pirama são poemas
importantes para pensar a representação do indígena na poesia do
período.
O poema Marabá retrata uma mulher mestiça que é renegada pela
própria tribo. A palavra marabá é de origem tupi-guarani e faz referência
a um filho mestiço de um indígena com outro de etnia diferente. As
crianças mestiças eram rejeitadas pela tribo e é sobre esse sentimento
que trata o poema de Gonçalves Dias.
Eu vivo sozinha, ninguém me procura!
Acaso feitura
Não sou de Tupá!
Se algum dentre os homens de mim não se esconde:
Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 9
—“Tu és”, me responde,
“Tu és Marabá!”
[...]
Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:
“Teus olhos são garços”,
Responde anojado,“mas és Marabá:
“Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,
“Uns olhos fulgentes,
“Bem pretos, retintos, não cor d’anajá!”
[...]
— Meus loiros cabelos em ondas se anelam,
— O oiro mais puro não tem seu fulgor;
— As brisas nos bosques de os ver se enamoram
— De os ver tão formosos como um beija-flor!
Mas eles respondem: “Teus longos cabelos,
“São loiros, são belos,
“Mas são anelados; tu és Marabá:
“Quero antes cabelos, bem lisos, corridos,
“Cabelos compridos,
“Não cor d’oiro fino, nem cor d’anajá,”
[...]
No trecho, temos o lamento de Marabá e sua tristeza por ser rejeitada
por outros homens da tribo que repudiam sua aparência e desejam
os traços que marcam a etnia indígena (“olhos bem pretos”, “cabelos,
bem lisos, corridos”) e não os traços que marcam a mistura (os cabelos
anelados e loiros, os olhos de cor d’anajá). É no romantismo que começa
a construção do imaginário da mestiçagem e da mistura como parte da
identidade nacional. Isso é visto não só na poesia, como demonstra o
poema Marabá, mas na prosa com os romances O Guarani e Iracema, de
José de Alencar. Embora a prosa não seja o tópico de nossa discussão
aqui, é importante pontuar a presença nesses romances de casais
interraciais formados por um branco e um indígena que fazem alusão
a um mito de origem da nação brasileira. Ou seja, o nascimento da
“brasilidade” estaria, por essa perspectiva, ancorado na mistura que
será representada nesses romances de forma idealizada, omitindo as
violências desse processo.
No romantismo, a mestiçagem aparecerá em alguns romances como
Iracema e Escrava Isaura.
Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 10
2.2 Ultrarromantismo
A segunda geração romântica é
denominada ultrarromântica e traz,
em sua produção poética, a marca
do individualismo e um estilo de
vida que remete ao byronismo
(mencionado anteriormente). A
poesia desse período traz, dessa
forma, a melancolia e a morte
como temática em alusão a outra
denominação que o período
recebe: “mal do século”. Antonio
Candido caracteriza essa geração
como: “[uma] espécie de literatura
da mocidade, feita por jovens que,
antes das atenuações inevitáveis
trazidas pela “vida prática”, deram
largas ao que alguns críticos cautelosos do tempo chamavam “os
exageros da escola romântica”. (2002, p.51)
Os principais poetas do ultrarromantismo brasileiro foram Álvares de
Azevedo (1831-1852), Casimiro de Abreu (1839-1860), Junqueira Freire
(1832- 1855) e Fagundes Varela (1841-1875). Em relação à forma,
podemos observar nesse período maior musicalidade do verso e “pouco
interesse pelo patriotismo ornamental e pelo indianismo, permanecendo
vivo o sentimento da natureza e surgindo a atração pela morte.” (2002,
p.51). Podemos, a partir do que foi exposto até aqui, elencar as seguintes
características da segunda geração romântica:
▪ Escapismo
▪ Egocentrismo
▪ Melancolia
▪ Byronismo
▪ Satanismo
▪ Idealização da mulher
▪ Temas fúnebres
A poesia ultrarromântica, no Brasil, teve sua produção presente no
período de 1840 a 1860, ligada à juventude. Os poetas dessa geração
formavam “[...] uma espécie de público restrito e caloroso, que produzia
e simultaneamente consumia literatura, assegurando a esta (o que não
era frequente na época) circulação e apreciação”. (2002, p.52)
Dentre os poetas românticos da segunda geração, é indiscutível o
destaque dado ao poeta Álvares de Azevedo (1831-1852), que traz tanto
em sua obra, quanto em sua biografia, as marcas do ultrarromantismo.
Álvares de Azevedo morreu muito jovem, com apenas 20 anos, e possui
uma produção caracterizada por alguns críticos como densa e versátil já
que transitava do sombrio para o sarcasmo com maestria.
Figura 4: O Anjo da Morte (1851), de Horace
Vernet. Fonte: Wikimedia.
Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 11
Adeus, Meus Sonhos!
Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto...
E minh’alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.
Que me resta, meu Deus?!... morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já que não levo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!
A poesia acima é um exemplo das características elencadas da segunda
geração romântica. A atmosfera fúnebre, voltada ao desejo pela morte, é
uma das temáticas predominantes no poema, assim como a desesperança
com a própria existência.A presença do superlativo “Misérrimo”caracteriza
o sentimentalismo exacerbado do ultrarromantismo e as imagens do
campo semântico da morte acentuam esse sofrimento exagerado exortado
pelo eu lírico como é o caso de “flores”,“luto”,“morto”,“treva” etc.
Casimiro de Abreu, também conhecido como “o poeta da infância” é outro
autor do romantismo que cabe destacar dessa geração. Figura 5: Casimiro de Abreu. Fonte: Wikimedia.
Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 12
Assim como Álvares de Azevedo, morreu cedo, aos 21 anos, vítima de
tuberculose. Sua poesia possui um forte caráter popular, por conta de
sua linguagem simples e sentimental. Suas poesias foram editadas no
livro Primaveras, um ano antes de sua morte, sendo assim, não teve o
reconhecimento em vida, mas alcançou grande popularidade após a
sua morte e tornou-se patrono da cadeira número seis da Academia
Brasileira de Letras. A seguir, dois poemas do poeta:
Canção do exílio
Se eu tenho de morrer na flor dos anos
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira,à tarde,
Cantar o sabiá!
Meu Deus,eu sinto e tu bem vês que eu
morro
Respirando este ar;
Faz que eu viva,Senhor! dá-me de novo
Os gozos do meu lar!
O país estrangeiro mais belezas
Do que a pátria não tem;
E este mundo não vale um só dos beijos
Tão doces duma mãe!
Meus oito anos
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor,que sonhos,que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
—Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é —lago sereno,
O céu —um manto azulado,
O mundo —um sonho dourado,
A vida —um hino d’amor! [...]
Os versos representam bem a poesia de Casimiro de Abreu. De um lado
temos um poema que dialoga com os conhecidos versos de Gonçalves
Dias; de outro, o seu poema mais famoso Meus oito anos. Destacam-se,
desses dois, as principais características de sua poesia: o saudosismo da
infância, o sentimentalismo, o patriotismo e a exaltação da natureza.
Apesar da popularidade alcançada pelo poeta, alguns críticos eram bem
incisivos sobre a baixa qualidade da obra de Casimiro de Abreu, Alfredo
Bosi, assim afirma: “Em tudo Casimiro é menor. E sendo-o coerentemente,
os seus versos agradaram, e creio que ainda possam agradar aos que
pedem pouco à literatura: um ritmo cantante, uma expressão fácil, uma
palavra brejeira”. (2003, p.116)
2.3 Condoreirismo
O condoreirismo ou condorismo foi o nome
dado à terceira geração do romantismo
brasileiro. O nome faz alusão ao condor,
um pássaro da região andina que é
capaz de voar em grandes altitudes. Essa
geração, na poesia, possui forte apelo
social, figurando em suas temáticas as
Figura 6: Castigo de escravo, Jean-Baptiste Debret.
Fonte Wikimedia.
Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 13
questões de cunho social do período e a luta abolicionista. A produção
desse período também representa um momento de transição para o
movimento literário seguinte, visto que já é possível identificar certo
distanciamento (embora não totalmente) da visão idealizada de nação,
presente, por exemplo, na fase nacionalista/indianista do romantismo
brasileiro. De certa forma, podemos entender que a terceira geração
é crítica à primeira, visto que esta apaga da composição de uma
“identidade nacional” o africano escravizado que está no Brasil.
Castro Alves (1847-1871) é o poeta mais representativo dessa geração.
Sua poesia de cunho social tematiza o horror diante da violência e
atrocidade cometida pelo Brasil aos negros africanos que são trazidos
para serem escravizados. “Navio negreiro” é um dos seus poemas mais
conhecidos que abordam a questão da escravidão, a seguir um trecho do
poema:
IV
Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!...”
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 14
Figura 7: “Navio Negreiro” (1830), de Johann Moritz Rugendas. Fonte: Wikimedia.
O poema, no trecho citado, retrata o horror do eu-lírico diante da
descoberta do que havia no interior do navio. A descrição da cena
mostra mulheres, homens e crianças negras sendo chicoteados em
estado de total flagelo dos seus corpos. O eu lírico interpela Deus
sobre o sofrimento que presencia: “Senhor Deus dos desgraçados! /
Dizei-me vós, Senhor Deus! / Se é loucura... se é verdade /Tanto
horror perante os céus?!”. “Navio Negreiro” tornou-se um dos textos
fundadores da literatura brasileira e que deu a Castro Alves a alcunha
de “poeta dos escravos”.
O tema do negro avultou nessa fase e suscitou, da parte dos escritores,
uma tomada de posição na luta contra a escravidão, que cresceu depois
da Guerra do Paraguai, na qual negros livres e escravos formaram parte
dos contingentes, forçando o governo a decretar a liberdade dos recém
nascidos em 1871, a libertação dos sexagenários em 1885 e afinal a
abolição do regime servil em 1888. (ANTONIO CANDIDO, 2012, p.68)
Sendo assim, a poesia de Castro Alves traz para o centro das discussões,
no campo da literatura, a luta abolicionista e o republicanismo. O
condoreirismo, dessa forma, irá representar o espírito revolucionário e
de transformação social romântico que está em suas origens europeias
desde a Revolução Francesa.
A poesia de Castro Alves não é apenas de temática social, há, também,
sua lírica amorosa que também reflete o momento de transição para
o realismo ao introduzir uma temática mais erótica à poesia. Exemplo
disso pode ser visto no trecho do poema Boa noite:
“Boa-noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa-noite, Maria! É tarde…é tarde…
Não me apertes assim contra teu seio.
Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 15
Boa-noite!…E tu dizes – Boa-noite.
Mas não digas assim por entre beijos…
Mas não mo digas descobrindo o peito,
– Mar de amor onde vagam meus desejos.[...]”
3.As Figurações da Dramaturgia no Brasil:
Primórdios.A Obra de Martins Pena
O surgimento da dramaturgia no Brasil já remonta ao início da
colonização quando servia de instrumento para catequização e
ensinamento dos nativos pelos jesuítas. O romantismo trouxe uma
produção relevante para a dramaturgia brasileira,contudo,muitas dessas
peças não foram publicadas ficando apenas o registro de sua existência
nos jornais da época. Gonçalves de Magalhães foi o primeiro escritor
romântico a contribuir para a dramaturgia do período, com uma peça
que foi considerada a primeira tragédia nacional Antônio José ou O poeta
e a Inquisição. A peça foi encenada no Rio de Janeiro, em 1838, pelo ator
João Caetano, e teve grande sucesso de público.
Figura 8: Gonçalves de Magalhães. Fonte: Wikimedia.
Outro autor do período que também contribuiu para o gênero foi
Álvares de Azevedo, com a peça Macário, publicada em 1852. Esta,
segundo Antonio Candido, é “a primeira melhor e uma das mais altas
realizações de Álvares de Azevedo” (1989, p.10). Essa peça teatral foi
encontrada entre seus inéditos após a sua morte e traz características
ultrarromânticas ligadas ao satanismo em seu enredo, que conta a
história do personagem Macário e seu encontro com o Diabo.
Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 16
Antonio Candido escreveu um ensaio sobre Macário, intitulado
Educação pela noite, que foi publicado em seu livro A educação pela
noite e outros ensaios.
Na metade do século XIX, a comédia ganharia um nome de destaque
na dramaturgia: Martins Pena. Sua contribuição para o teatro brasileiro
foi principalmente na configuração de uma identidade e de um registro
histórico da sociedade brasileira da época. Produziu cerca de 30 peças
e suas principais obras foram: O Juiz de Paz da Roça (1842), O Judas em
Sábado de Aleluia (1846), O Noviço (1845) e Quem casa quer casa (1847).
A comédia de costumes foi um dos gêneros que se destacou em sua
produção e se caracteriza por ser uma peça que utiliza o humor para
criticar os costumes presentes na sociedade do Brasil no século XIX.
O Juiz de Paz da Roça (1842), de Martins Pena é descrita em muitos
estudos como a primeira comédia de costume do teatro brasileiro, é
ambientada na roça e retrata a população do lugar e a rotina de um juiz
de paz corrupto que aproveita-se de sua inteligência e da inocência da
população para conseguir vantagens. Leia, a seguir, um trecho da peça:
CENA XI
INÁCIO JOSÉ, FRANCISCO ANTÔNIO, MANUEL ANDRÉ E SAMPAIO entregam seus
requerimentos.
LUIZ- Sr. Escrivão, faça o favor de ler.
ESCRIVÃO - (lendo) - diz Inácio José, natural desta freguesia e casado com Josefa
Joaquina,
sua mulher na face da Igreja, que precisa que Vossa Senhoria mande a Gregório
degradado
para fora da terra, pois teve o atrevimento de dar uma embigada em sua mulher, na
encruzilhada do Pau-Grande, que quase a fêz abortar, da qual embigada fêz cair a
dita sua
mulher de pernas para o ar. Portanto pede a Vossa Senhoria mande o dito Gregório
degradado
para Angola, E.R.N.
JUIZ- É verdade, Sr. Gregório, que o senhor deu uma embigada na senhora?
GREGÓRIO - É mentira, Sr. Juiz de paz, eu não dou embigada em bruxas.
JOSEFA JOAQUINA- Bruxa é a marafora de tua mulher, malcriado! Já não me lembra
que
me deu uma embigada, e que me deixou uma marca roxa na barriga? Se o senhor
quer ver,
posso mostrar.
JUIZ- Nada, nada, não é preciso; eu o creio.
JOSEFA JOAQUINA - Sr. Juiz, não é a primeira embigada que êste homem me dá; eu
é que
não tenho querido contar a meu marido.
JUIZ - Está bom, senhora, sossega. Sr. Inácio José, deixa-se destas asneiras, dar
embicadas
Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 17
não é crime classificado no Código. Sr. Gregário, faça o favor de não dar mais
embicadas na
senhora; quando não, arrumo-lhe com as leis às costas e meto-o na cadeia. Queira-
se retirar.
INÁCIO JOSÉ E GREGÓRIO - Lá fora me pagarás.
Juiz - Estão conciliados.
(INÁCIO JOSÉ, GREGÓRIO E JOSEFA (JOAQUINA) SAEM)
Neste capítulo, apresentamos a escola literária do Romantismo em sua
expressão poética, dando, também, destaque à dramaturgia do período.
A partir do que foi apresentado, confirmamos o importante papel desse
movimento na consolidação de uma identidade nacional que era parte
de um projeto não só político e social como também cultural e artístico.
As três gerações românticas representaram um grande avanço na
formação de nossa literatura brasileira e destacaram em suas obras as
características do romantismo europeu, mas aclimatadas para o Brasil. O
período também já traz para a discussão importantes questões sociais
como a mestiçagem e a escravidão que estabelecem também um espaço
de transição artística para a próxima escola literária: o Realismo.
Referências
ALISON BRENO. Navio Negreiro - Caetano Veloso. Disponível em: https://
www.youtube.com/watch?v=xTuXJRcusII. Acesso em: 28 out. 2019.
BOSI,A. História concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2003.
CANDIDO, A. O Romantismo no Brasil. São Paulo: Humanitas, 2002.
CANDIDO, A. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática,
1989.
CANDIDO, A.; CASTELLO, J. A. Presença da Literatura Brasileira: das
origens ao romantismo. São Paulo: Difusão, 1973.
COUTINHO, A.; COUTINHO, E. F. A Literatura no Brasil. 3 ed. Rio de
Janeiro: José Olympio; Niterói: EDUFF, 1986.
JORNAL DA POESIA. Gonçalves Dias. Disponível em: http://www.
jornaldepoesia.jor.br/gdias02.html. Acesso em: 28 out. 2019.
MEC. Macário. Disponível em: http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/
livros_eletronicos/macario.pdf. Acesso em: 30 out. 2019.
PRADO, D. A. História Concisa do Teatro Brasileiro. São Paulo: EDUSP,
1999.
SÓ HISTÓRIA. Ep. 12 - O Retorno da Corte - 1808, A Corte no Brasil -
Globo News. Disponível em: https://youtu.be/edgGSexNkl0. Acesso em
28 out. 2019.
Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 18

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  • 1.
    Literatura Brasileira: Expressões Poéticas eDramáticas A Lírica Romântica
  • 2.
    Desenvolvimento do material FabianaBazilio Farias 1ª Edição Copyright © 2022, Afya. Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida, transmitida e gravada, por qualquer meio eletrônico, mecânico, por fotocópia e outros, sem a prévia autorização, por escrito, da Afya. Sumário A Lírica Romântica Para início de conversa .................................................................................... 3 Objetivos .......................................................................................................... 3 1.A Independência Política e as Primeiras Figurações da Identidade no Brasil ............................................................................... 4 2. Do Indianismo ao Condoreirismo: a Formação da Literatura Brasileira ............................................................................... 7 3.As Figurações da Dramaturgia no Brasil: Primórdios. A Obra de Martins Pena .............................................................................. 16 Referências .........................................................................................................18
  • 3.
    Para início deconversa A poesia desenvolvida no Romantismo (movimento surgido na Europa no final do século XVIII) trouxe, para a literatura brasileira, as marcas principais dessa escola literária. O Brasil, no início do século XIX, era um lugar repleto de contradições, além das graves questões sociais relacionadas à escravidão dos negros trazidos do continente africano, o ambiente fechado intelectual e comercialmente continuava a alimentar as conspirações separatistas. A chegada da Família Real ao Brasil abriu espaço para um novo momento na sociedade, acelerando o processo de emancipação da colônia em relação a Portugal. A identidade nacional foi um projeto em comum tanto no campo político como no artístico. A literatura, nesse momento, alcançou um estágio de amadurecimento e que,segundo Antonio Candido,marcou de fato o seu início propriamente dito,colocando fim ao período de manifestações literárias: ‘‘ Um elemento importante nos anos de 1820 e 1830 foi o desejo de autonomia literária, tornado mais vivo depois da Independência. Então,o Romantismo apareceu aos poucos como caminho favorável à expressão própria da nação recém-fundada, pois fornecia concepções e modelos que permitiam afirmar o particularismo, e portanto a identidade, em oposição à Metrópole, identificada com a tradição clássica. Assim surgiu algo novo: a noção de que no Brasil havia uma produção literária com características próprias, que agora seria definida e descrita como justificativa da reivindicação de autonomia espiritual. (CANDIDO, 2002, p.20) ’’ A autonomia literária, defendida por Candido encontra terreno fértil nas expressões poéticas presentes nas três gerações românticas que figuraram em nossa literatura. Objetivos ▪ Levar o aluno a compreender a importância do período do romantismo no Ocidente e no Brasil e as primeiras figurações da identidade brasileira na literatura. ▪ Possibilitar o conhecimento das principais temáticas que constituem o romantismo e suas fases. ▪ Promover a reflexão sobre o teatro no Brasil, dando ênfase à obra de Martins Pena. Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 3
  • 4.
    1.A Independência Políticae as Primeiras Figurações da Identidade no Brasil “Infeliz a nação que precisa de heróis”. Bertolt Brecht O contexto histórico do início do século XIX foi um momento decisivo que uniu os caminhos da colônia e da metrópole, Portugal. Em 1808, a Corte Portuguesa se transferiu para o Brasil,fugindo da iminente invasão de Portugal pelas tropas francesas lideradas por Napoleão Bonaparte. A chegada ao Brasil, foi, também, um momento de mudança econômica, simbolizada pela abertura dos portos brasileiros às exportações, privilegiando, nessa decisão, a Inglaterra. Outras mudanças provocaram um profundo impacto no cenário cultural do Brasil. São exemplos: a criação da primeira imprensa, da Biblioteca Real e do Museu Real. Em 26 de abril de 1821, a Família Real retornou a Portugal, por consequência de uma revolução em seu território. Após esses acontecimentos, se instaurou o movimento de Independência da colônia em relação à metrópole portuguesa, mas o objetivo era manter o poder da família imperial e impedir que algum movimento emancipatório liderado por colonos tomasse o poder. O Grito do Ipiranga, que marcou a data da Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, deu início a um longo processo de reconhecimento da emancipação política do Brasil. Figura 1: Declaração da Independência do Brasil pelo imperador Pedro I em 7 de setembro de 1822. Obra de Pedro Américo. Fonte: Wikimedia. Três anos se passaram para que Portugal e outros países europeus reconhecessem a separação do Brasil de Portugal. Esse clima de emancipação, que culminou com a Independência do Brasil, foi marcado pelo fortalecimento do sentimento de nacionalismo e de busca de uma identidade sobre o que é ser Brasil. Esse sentimento era importante já que ainda permanecia, no âmbito cultural e literário, a reprodução dos modelos clássicos europeus. Daí, surgiu a necessidade de se pensar e criar uma arte que retratasse o Brasil Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 4
  • 5.
    levando a independênciapolítica e economia também para o campo cultural. Antonio Candido, em seu livro Formação da Literatura Brasileira (1973), afirma que “o nacionalismo independe do Romantismo, embora tenha encontrado nele o aliado decisivo” (p.15). Ainda segundo o autor: ‘‘ A independência importa de maneira decisiva no desenvolvimento da ideia romântica, para a qual contribuiu pelo menos com três elemento que e podem considerar como redefinição de posições análogas do Arcadismo: (1) desejo de exprimir uma nova ordem de sentimentos agora reputado de primeiro plano, como o orgulho patriótico, extensão do antigo nativismo; (b) desejo de criar uma literatura independente, diversa, não apenas uma literatura, de vez que, aparecendo o Classicismo como manifestação do passado colonial,o nacionalismo literário e a busca por modelos novos, nem clássico nem portugueses davam um sentimento de libertação relativamente à mãe-pátria; finalmente (c) a noção já referida de uma atividade intelectual não mais apenas como prova de valor do brasileiro e esclarecimento mental do país, mas tarefa patriótica na construção nacional. (1976, p.12) [grifos nossos] ’’ A ideia de identidade nacional é um conceito da Era Moderna que surgiu no século XVIII,atingindo seu apogeu no século XIX.O conceito de nação, propriamente dito, é algo que também se desenvolveu nesse período, já que o que prevalecia antes era conceitos ligado à hereditariedade e à dinastia das famílias reais. O clima separatista não foi aplacado pela Independência, mas esse período foi decisivo para fomentar figurações de nacionalidade por meio de elementos comuns que enfatizassem o orgulho, a história e o futuro da nação. Esses elementos também deveriam ser capazes de unir populações tão distintas e separadas tanto pela distância quanto pela diversidade de realidades. A Europa, naquele período, ainda era o modelo de referência de civilização para o Brasil, mas aliado a esse desejo de ser igual à Europa havia, também, a necessidade de ressaltar a singularidade do Brasil. O Romantismo, como movimento artístico, permitiu o desenvolvimento desse espírito de nacionalismo em conformidade ao que se viu em suas manifestações na Europa. A busca por tradições nacionais e o resgate histórico foram algum dos elementos utilizados por artistas e intelectuais para fomentar um espírito nacionalista que estava alinhado, por exemplo, ao contexto de guerras pela independência na América espanhola e pela própria Independência do Brasil. Candido afirma que “Descrever costumes, paisagens, fatos, sentimento carregados de sentido nacional, era libertar-se do jugo da literatura clássica, universal, comum a todos” (1973, p.15-16) e, assim, reafirmar aquilo que era particular,“próprio” da literatura nacional. O “patriotismo”, dessa forma, era posto como um “dever”, uma “missão” do escritor e uma parte de um projeto de valorização do nacional. Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 5
  • 6.
    Nesse sentido, aestética romântica possuiu um papel muito importante para esse arranque de nacionalismo e para o fortalecimento de uma autonomia literária brasileira. Na Europa, o movimento romântico dava indícios de sua presença na Alemanha e na Inglaterra já no final do século XVIII.A Revolução Industrial e a Revolução Francesa (1789) foram momentos decisivos para estabelecer uma mudança no modo de pensar e de viver da sociedade do período. Figura 2: A queda da Bastilha (14 de julho de 1789) foi um dos eventos centrais da Revolução Francesa. Fonte: Wikimedia. A ascensão da burguesia, provocada por essa e outras revoluções do período, colocou em destaque não só o modo de pensar, mas também os costumes dessa classe social. Como já observamos nos outros movimentos literários, a literatura possui íntima relação com as questões e acontecimentos sociais, políticos e econômicos; já que sua arte é uma forma de representação das experiências humanas. Do ponto de vista estético, o romantismo surge como movimento que buscava substituir os modelos do neoclassicismo, de inspiração greco- romana, por uma arte que valorizasse o cotidiano, colocando em destaque o natural em oposição à razão (marca do Classicismo). Outra transformação importante trazida pela Romantismo foi a questão do gênero literário que antes era visto como fixo e puro e que, a partir da perspectiva romântica, passou a ser misturado levando ao nascimento de novos gêneros. Ou seja, o “Romantismo insurge-se contra a distinção dos gêneros, considerando arbitrária a separação e reivindicando, ao contrário, a sua mistura.” (COUTINHO, p. 12) O Romantismo,dentre suas diferentes manifestações,possui as seguintes características: Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 6
  • 7.
    ▪ Liberdade decriação: Essa característica marca a oposição ao modelo padrão clássico, a mistura dos gêneros literários, o uso do verso livre e a aproximação da linguagem coloquial. ▪ Idealização: Recurso estético no qual o objeto é enaltecido até atingir a perfeição. O Romantismo encara a pátria, a natureza e o amor como idealizados. Nesse mesmo caminho, a mulher será também figurada como uma virgem inatingível, submissa e de beleza perfeita. ▪ Evasão: É um dos nomes dados ao escapismo romântico, ou seja, de fuga da realidade. Essa característica estará também relacionada ao sentimento de desesperança e de desejo pela morte temas recorrente em muitas poesias do período. ▪ Sentimentalismo: Exaltação dos impulsos, do sentimento exacerbado. Essa característica relaciona-se, também, a outras marcas do período, como o saudosismo, a tristeza e a melancolia. ▪ Subjetivismo: Refere-se ao interior do sujeito, aos sentimentos pessoais que são colocados em destaque durante o processo de criação romântica. ▪ Natureza em diálogo com o sujeito: A natureza terá papel importante na criação romântica que será espaço de refúgio, de idealização e modelo de perfeição. ▪ Byronismo: Faz alusão ao poeta inglês Lord Byron. Essa característica representa,na verdade,um estilo de vida próprio ligado à vida boêmia e aos excessos do álcool, das drogas e do sexo. A segunda geração romântica é a mais fiel a esse traço da estética romântica. 2.Do Indianismo ao Condoreirismo: a Formação da Literatura Brasileira No Brasil, o Romantismo, consegue se estabelecer na literatura pelo seu importante papel no projeto patriótico de destacar as particularidades de nossa literatura. A literatura de expressão romântica tornou-se um reflexo do próprio movimento político e social, que culminou na Independência da colônia em relação a Portugal. A publicação que se convencionou como marco de início do romantismo no Brasil é Suspiros Poéticos e Saudades (1836), de Gonçalves Magalhães, além disso,Antonio Candido considera que essa obra foi também o marco “iniciador da literatura propriamente brasileira”. (2002, p.26). O Romantismo brasileiro (1836-1881) dividiu-se em três momentos ou gerações, a saber: ▪ Primeira Geração – nacionalista/indianista. ▪ Segunda Geração – ultrarromântica (mal do século). ▪ Terceira Geração – condoreira ou social. Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 7
  • 8.
    Iremos, a partirde agora, conhecer cada uma delas, as obras e os autores representativos de cada período. 2.1 Primeira Geração: Indianismo/Nacionalismo Figura 3: Le Signal de la retraite (1834-1839) obra de Jean-Baptiste Debret. Fonte: Wikimedia. O indianismo é uma das principais marcas da primeira geração romântica brasileira.Na Europa,a primeira geração recebeu o nome de “romantismo histórico” por resgatar, na literatura, valores históricos e retratar a figura de um grande herói. Se no romantismo europeu é o medievalismo que cumpre o papel de resgate das origens das nações, no Brasil, o indianismo cumprirá essa função, remontando, em suas obras, ao período anterior à chegada dos portugueses. Sendo assim,no lugar do cavaleiro medieval,temos o indígena ocupando o lugar do ancestral brasileiro e representado de forma idealizada. O indianismo, dessa forma, está ligado ao projeto patriota de construção de uma identidade nacional, de um nacionalismo ufanista. Sendo assim, o indígena representado na literatura engloba não apenas a figura do herói medieval romântico, mas também simboliza a natureza e a religiosidade (tendo em vista a catequização e a conversão a fé cristã). Dentre os poetas dessa primeira geração romântica, Gonçalves Dias (1823-1864) foi um dos primeiros nomes de destaque no romantismo brasileiro. Suas principais obras poéticas foram: Primeiros Cantos (1846); Segundos Cantos (1848); Sextilhas de Frei Antão (1848); Últimos Cantos Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 8
  • 9.
    (1851); Os Timbiras- obra inacabada (1857) e Cantos (1857). Seu poema “Canção do exílio” (1847) é um dos mais conhecidos e influentes na literatura brasileira. Canção do exílio Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer eu encontro lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Minha terra tem primores, Que tais não encontro eu cá; Em cismar sozinho, à noite Mais prazer eu encontro lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que disfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu’inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá. No poema, podemos ver marcas românticas como o saudosismo e o patriotismo com forte caráter subjetivo. O eu lírico, no poema, volta-se para a exaltação da paisagem nacional que será concebida como um símbolo da identidade brasileira. A marca indianista nas poesias de Gonçalves Dias também confirma sua presença na primeira geração romântica brasileira. Marabá, O canto do Piaga e Juca Pirama são poemas importantes para pensar a representação do indígena na poesia do período. O poema Marabá retrata uma mulher mestiça que é renegada pela própria tribo. A palavra marabá é de origem tupi-guarani e faz referência a um filho mestiço de um indígena com outro de etnia diferente. As crianças mestiças eram rejeitadas pela tribo e é sobre esse sentimento que trata o poema de Gonçalves Dias. Eu vivo sozinha, ninguém me procura! Acaso feitura Não sou de Tupá! Se algum dentre os homens de mim não se esconde: Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 9
  • 10.
    —“Tu és”, meresponde, “Tu és Marabá!” [...] Se algum dos guerreiros não foge a meus passos: “Teus olhos são garços”, Responde anojado,“mas és Marabá: “Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes, “Uns olhos fulgentes, “Bem pretos, retintos, não cor d’anajá!” [...] — Meus loiros cabelos em ondas se anelam, — O oiro mais puro não tem seu fulgor; — As brisas nos bosques de os ver se enamoram — De os ver tão formosos como um beija-flor! Mas eles respondem: “Teus longos cabelos, “São loiros, são belos, “Mas são anelados; tu és Marabá: “Quero antes cabelos, bem lisos, corridos, “Cabelos compridos, “Não cor d’oiro fino, nem cor d’anajá,” [...] No trecho, temos o lamento de Marabá e sua tristeza por ser rejeitada por outros homens da tribo que repudiam sua aparência e desejam os traços que marcam a etnia indígena (“olhos bem pretos”, “cabelos, bem lisos, corridos”) e não os traços que marcam a mistura (os cabelos anelados e loiros, os olhos de cor d’anajá). É no romantismo que começa a construção do imaginário da mestiçagem e da mistura como parte da identidade nacional. Isso é visto não só na poesia, como demonstra o poema Marabá, mas na prosa com os romances O Guarani e Iracema, de José de Alencar. Embora a prosa não seja o tópico de nossa discussão aqui, é importante pontuar a presença nesses romances de casais interraciais formados por um branco e um indígena que fazem alusão a um mito de origem da nação brasileira. Ou seja, o nascimento da “brasilidade” estaria, por essa perspectiva, ancorado na mistura que será representada nesses romances de forma idealizada, omitindo as violências desse processo. No romantismo, a mestiçagem aparecerá em alguns romances como Iracema e Escrava Isaura. Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 10
  • 11.
    2.2 Ultrarromantismo A segundageração romântica é denominada ultrarromântica e traz, em sua produção poética, a marca do individualismo e um estilo de vida que remete ao byronismo (mencionado anteriormente). A poesia desse período traz, dessa forma, a melancolia e a morte como temática em alusão a outra denominação que o período recebe: “mal do século”. Antonio Candido caracteriza essa geração como: “[uma] espécie de literatura da mocidade, feita por jovens que, antes das atenuações inevitáveis trazidas pela “vida prática”, deram largas ao que alguns críticos cautelosos do tempo chamavam “os exageros da escola romântica”. (2002, p.51) Os principais poetas do ultrarromantismo brasileiro foram Álvares de Azevedo (1831-1852), Casimiro de Abreu (1839-1860), Junqueira Freire (1832- 1855) e Fagundes Varela (1841-1875). Em relação à forma, podemos observar nesse período maior musicalidade do verso e “pouco interesse pelo patriotismo ornamental e pelo indianismo, permanecendo vivo o sentimento da natureza e surgindo a atração pela morte.” (2002, p.51). Podemos, a partir do que foi exposto até aqui, elencar as seguintes características da segunda geração romântica: ▪ Escapismo ▪ Egocentrismo ▪ Melancolia ▪ Byronismo ▪ Satanismo ▪ Idealização da mulher ▪ Temas fúnebres A poesia ultrarromântica, no Brasil, teve sua produção presente no período de 1840 a 1860, ligada à juventude. Os poetas dessa geração formavam “[...] uma espécie de público restrito e caloroso, que produzia e simultaneamente consumia literatura, assegurando a esta (o que não era frequente na época) circulação e apreciação”. (2002, p.52) Dentre os poetas românticos da segunda geração, é indiscutível o destaque dado ao poeta Álvares de Azevedo (1831-1852), que traz tanto em sua obra, quanto em sua biografia, as marcas do ultrarromantismo. Álvares de Azevedo morreu muito jovem, com apenas 20 anos, e possui uma produção caracterizada por alguns críticos como densa e versátil já que transitava do sombrio para o sarcasmo com maestria. Figura 4: O Anjo da Morte (1851), de Horace Vernet. Fonte: Wikimedia. Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 11
  • 12.
    Adeus, Meus Sonhos! Adeus,meus sonhos, eu pranteio e morro! Não levo da existência uma saudade! E tanta vida que meu peito enchia Morreu na minha triste mocidade! Misérrimo! votei meus pobres dias À sina doida de um amor sem fruto... E minh’alma na treva agora dorme Como um olhar que a morte envolve em luto. Que me resta, meu Deus?!... morra comigo A estrela de meus cândidos amores, Já que não levo no meu peito morto Um punhado sequer de murchas flores! A poesia acima é um exemplo das características elencadas da segunda geração romântica. A atmosfera fúnebre, voltada ao desejo pela morte, é uma das temáticas predominantes no poema, assim como a desesperança com a própria existência.A presença do superlativo “Misérrimo”caracteriza o sentimentalismo exacerbado do ultrarromantismo e as imagens do campo semântico da morte acentuam esse sofrimento exagerado exortado pelo eu lírico como é o caso de “flores”,“luto”,“morto”,“treva” etc. Casimiro de Abreu, também conhecido como “o poeta da infância” é outro autor do romantismo que cabe destacar dessa geração. Figura 5: Casimiro de Abreu. Fonte: Wikimedia. Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 12
  • 13.
    Assim como Álvaresde Azevedo, morreu cedo, aos 21 anos, vítima de tuberculose. Sua poesia possui um forte caráter popular, por conta de sua linguagem simples e sentimental. Suas poesias foram editadas no livro Primaveras, um ano antes de sua morte, sendo assim, não teve o reconhecimento em vida, mas alcançou grande popularidade após a sua morte e tornou-se patrono da cadeira número seis da Academia Brasileira de Letras. A seguir, dois poemas do poeta: Canção do exílio Se eu tenho de morrer na flor dos anos Meu Deus! não seja já; Eu quero ouvir na laranjeira,à tarde, Cantar o sabiá! Meu Deus,eu sinto e tu bem vês que eu morro Respirando este ar; Faz que eu viva,Senhor! dá-me de novo Os gozos do meu lar! O país estrangeiro mais belezas Do que a pátria não tem; E este mundo não vale um só dos beijos Tão doces duma mãe! Meus oito anos Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! Que amor,que sonhos,que flores, Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais! Como são belos os dias Do despontar da existência! —Respira a alma inocência Como perfumes a flor; O mar é —lago sereno, O céu —um manto azulado, O mundo —um sonho dourado, A vida —um hino d’amor! [...] Os versos representam bem a poesia de Casimiro de Abreu. De um lado temos um poema que dialoga com os conhecidos versos de Gonçalves Dias; de outro, o seu poema mais famoso Meus oito anos. Destacam-se, desses dois, as principais características de sua poesia: o saudosismo da infância, o sentimentalismo, o patriotismo e a exaltação da natureza. Apesar da popularidade alcançada pelo poeta, alguns críticos eram bem incisivos sobre a baixa qualidade da obra de Casimiro de Abreu, Alfredo Bosi, assim afirma: “Em tudo Casimiro é menor. E sendo-o coerentemente, os seus versos agradaram, e creio que ainda possam agradar aos que pedem pouco à literatura: um ritmo cantante, uma expressão fácil, uma palavra brejeira”. (2003, p.116) 2.3 Condoreirismo O condoreirismo ou condorismo foi o nome dado à terceira geração do romantismo brasileiro. O nome faz alusão ao condor, um pássaro da região andina que é capaz de voar em grandes altitudes. Essa geração, na poesia, possui forte apelo social, figurando em suas temáticas as Figura 6: Castigo de escravo, Jean-Baptiste Debret. Fonte Wikimedia. Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 13
  • 14.
    questões de cunhosocial do período e a luta abolicionista. A produção desse período também representa um momento de transição para o movimento literário seguinte, visto que já é possível identificar certo distanciamento (embora não totalmente) da visão idealizada de nação, presente, por exemplo, na fase nacionalista/indianista do romantismo brasileiro. De certa forma, podemos entender que a terceira geração é crítica à primeira, visto que esta apaga da composição de uma “identidade nacional” o africano escravizado que está no Brasil. Castro Alves (1847-1871) é o poeta mais representativo dessa geração. Sua poesia de cunho social tematiza o horror diante da violência e atrocidade cometida pelo Brasil aos negros africanos que são trazidos para serem escravizados. “Navio negreiro” é um dos seus poemas mais conhecidos que abordam a questão da escravidão, a seguir um trecho do poema: IV Era um sonho dantesco... o tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho. Em sangue a se banhar. Tinir de ferros... estalar de açoite... Legiões de homens negros como a noite, Horrendos a dançar... Negras mulheres, suspendendo às tetas Magras crianças, cujas bocas pretas Rega o sangue das mães: Outras moças, mas nuas e espantadas, No turbilhão de espectros arrastadas, Em ânsia e mágoa vãs! E ri-se a orquestra irônica, estridente... E da ronda fantástica a serpente Faz doudas espirais ... Se o velho arqueja, se no chão resvala, Ouvem-se gritos... o chicote estala. E voam mais e mais... Presa nos elos de uma só cadeia, A multidão faminta cambaleia, E chora e dança ali! Um de raiva delira, outro enlouquece, Outro, que martírios embrutece, Cantando, geme e ri! No entanto o capitão manda a manobra, E após fitando o céu que se desdobra, Tão puro sobre o mar, Diz do fumo entre os densos nevoeiros: “Vibrai rijo o chicote, marinheiros! Fazei-os mais dançar!...” E ri-se a orquestra irônica, estridente. . . E da ronda fantástica a serpente Faz doudas espirais... Qual um sonho dantesco as sombras voam!... Gritos, ais, maldições, preces ressoam! E ri-se Satanás!... Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 14
  • 15.
    Figura 7: “NavioNegreiro” (1830), de Johann Moritz Rugendas. Fonte: Wikimedia. O poema, no trecho citado, retrata o horror do eu-lírico diante da descoberta do que havia no interior do navio. A descrição da cena mostra mulheres, homens e crianças negras sendo chicoteados em estado de total flagelo dos seus corpos. O eu lírico interpela Deus sobre o sofrimento que presencia: “Senhor Deus dos desgraçados! / Dizei-me vós, Senhor Deus! / Se é loucura... se é verdade /Tanto horror perante os céus?!”. “Navio Negreiro” tornou-se um dos textos fundadores da literatura brasileira e que deu a Castro Alves a alcunha de “poeta dos escravos”. O tema do negro avultou nessa fase e suscitou, da parte dos escritores, uma tomada de posição na luta contra a escravidão, que cresceu depois da Guerra do Paraguai, na qual negros livres e escravos formaram parte dos contingentes, forçando o governo a decretar a liberdade dos recém nascidos em 1871, a libertação dos sexagenários em 1885 e afinal a abolição do regime servil em 1888. (ANTONIO CANDIDO, 2012, p.68) Sendo assim, a poesia de Castro Alves traz para o centro das discussões, no campo da literatura, a luta abolicionista e o republicanismo. O condoreirismo, dessa forma, irá representar o espírito revolucionário e de transformação social romântico que está em suas origens europeias desde a Revolução Francesa. A poesia de Castro Alves não é apenas de temática social, há, também, sua lírica amorosa que também reflete o momento de transição para o realismo ao introduzir uma temática mais erótica à poesia. Exemplo disso pode ser visto no trecho do poema Boa noite: “Boa-noite, Maria! Eu vou-me embora. A lua nas janelas bate em cheio. Boa-noite, Maria! É tarde…é tarde… Não me apertes assim contra teu seio. Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 15
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    Boa-noite!…E tu dizes– Boa-noite. Mas não digas assim por entre beijos… Mas não mo digas descobrindo o peito, – Mar de amor onde vagam meus desejos.[...]” 3.As Figurações da Dramaturgia no Brasil: Primórdios.A Obra de Martins Pena O surgimento da dramaturgia no Brasil já remonta ao início da colonização quando servia de instrumento para catequização e ensinamento dos nativos pelos jesuítas. O romantismo trouxe uma produção relevante para a dramaturgia brasileira,contudo,muitas dessas peças não foram publicadas ficando apenas o registro de sua existência nos jornais da época. Gonçalves de Magalhães foi o primeiro escritor romântico a contribuir para a dramaturgia do período, com uma peça que foi considerada a primeira tragédia nacional Antônio José ou O poeta e a Inquisição. A peça foi encenada no Rio de Janeiro, em 1838, pelo ator João Caetano, e teve grande sucesso de público. Figura 8: Gonçalves de Magalhães. Fonte: Wikimedia. Outro autor do período que também contribuiu para o gênero foi Álvares de Azevedo, com a peça Macário, publicada em 1852. Esta, segundo Antonio Candido, é “a primeira melhor e uma das mais altas realizações de Álvares de Azevedo” (1989, p.10). Essa peça teatral foi encontrada entre seus inéditos após a sua morte e traz características ultrarromânticas ligadas ao satanismo em seu enredo, que conta a história do personagem Macário e seu encontro com o Diabo. Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 16
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    Antonio Candido escreveuum ensaio sobre Macário, intitulado Educação pela noite, que foi publicado em seu livro A educação pela noite e outros ensaios. Na metade do século XIX, a comédia ganharia um nome de destaque na dramaturgia: Martins Pena. Sua contribuição para o teatro brasileiro foi principalmente na configuração de uma identidade e de um registro histórico da sociedade brasileira da época. Produziu cerca de 30 peças e suas principais obras foram: O Juiz de Paz da Roça (1842), O Judas em Sábado de Aleluia (1846), O Noviço (1845) e Quem casa quer casa (1847). A comédia de costumes foi um dos gêneros que se destacou em sua produção e se caracteriza por ser uma peça que utiliza o humor para criticar os costumes presentes na sociedade do Brasil no século XIX. O Juiz de Paz da Roça (1842), de Martins Pena é descrita em muitos estudos como a primeira comédia de costume do teatro brasileiro, é ambientada na roça e retrata a população do lugar e a rotina de um juiz de paz corrupto que aproveita-se de sua inteligência e da inocência da população para conseguir vantagens. Leia, a seguir, um trecho da peça: CENA XI INÁCIO JOSÉ, FRANCISCO ANTÔNIO, MANUEL ANDRÉ E SAMPAIO entregam seus requerimentos. LUIZ- Sr. Escrivão, faça o favor de ler. ESCRIVÃO - (lendo) - diz Inácio José, natural desta freguesia e casado com Josefa Joaquina, sua mulher na face da Igreja, que precisa que Vossa Senhoria mande a Gregório degradado para fora da terra, pois teve o atrevimento de dar uma embigada em sua mulher, na encruzilhada do Pau-Grande, que quase a fêz abortar, da qual embigada fêz cair a dita sua mulher de pernas para o ar. Portanto pede a Vossa Senhoria mande o dito Gregório degradado para Angola, E.R.N. JUIZ- É verdade, Sr. Gregório, que o senhor deu uma embigada na senhora? GREGÓRIO - É mentira, Sr. Juiz de paz, eu não dou embigada em bruxas. JOSEFA JOAQUINA- Bruxa é a marafora de tua mulher, malcriado! Já não me lembra que me deu uma embigada, e que me deixou uma marca roxa na barriga? Se o senhor quer ver, posso mostrar. JUIZ- Nada, nada, não é preciso; eu o creio. JOSEFA JOAQUINA - Sr. Juiz, não é a primeira embigada que êste homem me dá; eu é que não tenho querido contar a meu marido. JUIZ - Está bom, senhora, sossega. Sr. Inácio José, deixa-se destas asneiras, dar embicadas Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 17
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    não é crimeclassificado no Código. Sr. Gregário, faça o favor de não dar mais embicadas na senhora; quando não, arrumo-lhe com as leis às costas e meto-o na cadeia. Queira- se retirar. INÁCIO JOSÉ E GREGÓRIO - Lá fora me pagarás. Juiz - Estão conciliados. (INÁCIO JOSÉ, GREGÓRIO E JOSEFA (JOAQUINA) SAEM) Neste capítulo, apresentamos a escola literária do Romantismo em sua expressão poética, dando, também, destaque à dramaturgia do período. A partir do que foi apresentado, confirmamos o importante papel desse movimento na consolidação de uma identidade nacional que era parte de um projeto não só político e social como também cultural e artístico. As três gerações românticas representaram um grande avanço na formação de nossa literatura brasileira e destacaram em suas obras as características do romantismo europeu, mas aclimatadas para o Brasil. O período também já traz para a discussão importantes questões sociais como a mestiçagem e a escravidão que estabelecem também um espaço de transição artística para a próxima escola literária: o Realismo. Referências ALISON BRENO. Navio Negreiro - Caetano Veloso. Disponível em: https:// www.youtube.com/watch?v=xTuXJRcusII. Acesso em: 28 out. 2019. BOSI,A. História concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2003. CANDIDO, A. O Romantismo no Brasil. São Paulo: Humanitas, 2002. CANDIDO, A. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1989. CANDIDO, A.; CASTELLO, J. A. Presença da Literatura Brasileira: das origens ao romantismo. São Paulo: Difusão, 1973. COUTINHO, A.; COUTINHO, E. F. A Literatura no Brasil. 3 ed. Rio de Janeiro: José Olympio; Niterói: EDUFF, 1986. JORNAL DA POESIA. Gonçalves Dias. Disponível em: http://www. jornaldepoesia.jor.br/gdias02.html. Acesso em: 28 out. 2019. MEC. Macário. Disponível em: http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/ livros_eletronicos/macario.pdf. Acesso em: 30 out. 2019. PRADO, D. A. História Concisa do Teatro Brasileiro. São Paulo: EDUSP, 1999. SÓ HISTÓRIA. Ep. 12 - O Retorno da Corte - 1808, A Corte no Brasil - Globo News. Disponível em: https://youtu.be/edgGSexNkl0. Acesso em 28 out. 2019. Literatura Brasileira: Expressões Poéticas e Dramáticas 18