HUBERTO ROHDEN
ISISHISTÓRIA DE UM ESTADO COSMOCRÁTICO DA INSETOLÂNDIA
CONTADA POR ALGUNS DE SEUS HABITANTES
UNIVERSALISMO
Sumário
Advertência
Leitor Amigo
Prefácio para a Segunda Edição
Isis e sua Gente
Sintonizando os Nervos
A Infância de Iris
Mortandade, Revolução e Protestos
Surge uma Cidade Cor de Neve
50.000 Virgens Heróicas
Êxodo Rumo a Mundos Ignotos
Vôo Nupcial. Amor Mortífero
Encontro com um Parente Antipático
Elixir de Vida e Juventude
O que Zumbeca Disse a Isis
A História Trágica de Momuca
O que Isis me Disse sobre Cosmocracia e como Adormeceu para Sempre
Advertência
A substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar
é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e
dispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior,
porque deturpa o pensamento.
Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é a
transição de uma existência para outra existência.
O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é um criador de gado.
Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores.
A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea nada se
aniquila, tudo se transforma”; se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certa,
mas se escrevemos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa.
Por isto, preferimos a verdade e a clareza do pensamento a quaisquer
convenções acadêmicas.
Leitor Amigo
O que vais ler nas seguintes páginas é objetivamente exato e real. Apenas a
forma romanceada é aditamento do autor.
A Natureza é um grande livro que Deus desdobrou aos olhos do homem, para
que o lesse, interpretasse e compreendesse. No estágio atual da sua evolução,
o homem, em geral, considera a Natureza simplesmente como objeto de
exploração e proveito individual. O homem espiritualmente adulto, porém, sabe
que a Natureza é infinitamente mais do que isto. Sabe que ela é um grande
Símbolo, cujo Simbolizado só se desvenda ao homem na razão direta que ele
se identifica com o Autor da Natureza.
Para o homem profano, os seres da Natureza são como as letras, maiúsculas e
minúsculas, de um livro aberto ante os olhos de um analfabeto: o que ele vê
não passa de um caos de caracteres de formas várias, enigmáticas, sem nexo
nem sentido.
O homem espiritual, porém, o verdadeiro iniciado, deixou de ser analfabeto e lê
deliciosamente as grandes verdades veiculadas pelas letras, pequenas e
grandes, de todos os seres da Natureza; para ele, o mundo deixou de ser
opaco e se tornou cristalinamente transparente, e, através dos símbolos
materiais, o iniciado percebe espontaneamente o simbolizado espiritual.
Para o homem espiritual, a Natureza é um grande devocionário, através do
qual ele presta o seu culto a Deus, de mãos dadas com seus irmãos e suas
irmãs menores, na linguagem poética e profundamente verdadeira de um dos
mais avançados leitores desse grande livro, Francisco de Assis.
Leitor amigo. Conhece e ama o Deus do mundo – e conhecerás e amarás o
mundo de Deus!
Prefácio para
a Segunda Edição
O Dr. Warwick Estevam Kerr, uma das maiores autoridades científicas em
apiologia que o Brasil conhece, formado em genética pela Universidade de São
Paulo, após receber um exemplar da primeira edição deste livro, escreveu “ao
poeta das abelhas” uma carta, da qual extrai os seguintes tópicos:
“Comecei a ler Isis às 19 horas e 30 minutos, e só larguei quando cheguei
àquelas três letrinhas da página 136 (fim). Achei o livro maravilhoso, cheio de
ternura, linguagem elegante e leve, e sem dúvida está contribuindo
decisivamente para despertar nos brasileiros um maior interesse na
observação das nossas abelhinhas. Está, pois, o prezado Professor Rohden de
parabéns pela excelente obra que produziu. Aliás, eu não esperava outra coisa
de quem escreveu “Pascal”, “Agostinho” e traduziu “O Novo Testamento”.
Como a aceitação de Isis deve ser muito grande, penso que o senhor, dentro
de pouco tempo, terá de fazer uma nova edição. Pensando assim, e sabedor
de que o senhor é pessoa muito acessível, resolvi enviar-lhe algumas
sugestões para a sua próxima edição. As sugestões são todas de molde a
corrigir algumas idéias, para que o livro, que é uma perfeição literária, seja
também uma perfeição científica.
Escusado é dizer que prazerosamente aceitei e aproveitei para a presente
edição todas as sugestões do grande mestre. Além do mais, surgem, de ano a
ano, tantas novidades e descobertas no terreno da apicultura, que um livro
como este tem de ser constantemente adaptado. Ao insigne mestre e distinto
amigo, meus cordiais agradecimentos.
A abelha é de todos os insetos o mais estudado pela ciência internacional.
Existe imensa literatura, em todas as línguas, sobre a simpática Apis mellifera.
Periodicamente, se realizam congressos, nacionais e internacionais, sobre este
inseto. Em 1969, durante toda a primeira semana de agosto, assisti ao 22.º
Congresso Internacional de Apicultura, realizado em Munique, Alemanha, onde
3.500 apicultores e cientistas, representando 40 países, focalizavam, sob todos
os aspectos, esse maravilhoso himenóptero.
O alarme em torno da abelha africana, que, desde 1956, intimidava os nossos
apicultores, já cedeu a um novo surto de euforia e de entusiasmo, pelo menos
entre os apicultores, que já fizeram as pazes com a agressiva e tão produtiva
abelha africana ou africanizada.
Ultimamente, a Apis mellifera foi novamente focalizada em todos os países do
mundo, por causa da misteriosa “geléia real”, certamente o maior vitalizador
que a natureza já produziu. Infelizmente, mercadores sem escrúpulos,
desacreditam grandemente a geléia real, como também o próprio mel, que
estão sofrendo as mais vergonhosas falsificações.
Paralelamente à geléia real, também o “mel polinizado” está entrando na
alimentação do homem. O pólen é o pozinho que as abelhas retiram dos
estames das flores e usam para alimentar a sua prole. Recolhidos dos favos e
misturados devidamente com o mel, representa o “mel polinizado” uma grande
fonte de saúde e energia na dieta natural do homem.
Quaisquer informações a esse respeito podem ser obtidas com a Editora deste
livro.
Isis e sua Gente
– Arrede, arrede!
– Quem é? que há?
– Arrede! se não, apanha uma ferroada!
Olhei em derredor e vi um pontinho preto a traçar rápidos círculos ao redor da
minha cabeça e brandindo furiosamente o venenoso dardo. Recuei alguns
passos da colmeia; mas o audaz agressor continuou a perseguir-me com
tenacidade. Por fim, atirou-se duas vezes contra meu rosto, no manifesto intuito
de me cravar na pele a terrível arma.
– Não faça isto! não faça isto! – bradei-lhe em tom sugestivo, ao que o miúdo
inseto foi pousar em uma folha de laranjeira próxima, olhou para mim, algo
perplexo, e disse com desdém:
– É isto mesmo... São covardes, esses gigantes...
– Covarde, não, minha amiga – respondi amavelmente. – Não tenho medo do
seu ferrão, mas tenho pena de você...
– Pena de mim?... não vejo por quê...
– Sim, tenho pena de você, abelhinha estouvada. Se você me der uma
ferroada terá de morrer.
– Qual, morrer! aquilo é num instante. Você não seria capaz de me esmagar
tão depressa...
– Não é isto, abelhinha. Eu não ia matá-la por causa de uma ferroada, nem que
fossem dez. Sou amigo do povo das abelhas, que considero os insetos mais
inteligentes e simpáticos do mundo. Mas você teria de morrer por causa da
ferroada mesma...
– Ora, ora!... Já dei tanta ferroada, e não morri até hoje. Há pouco, uma lesma
gosmenta, atrevida como essas creaturas são por natureza, invadiu a nossa
cidade: apesar dos veementes protestos da sentinela, e tivemos de matá-la a
ferroadas. No décimo dia da minha vida entrei em luta com uma vespa
malandra que vinha roubar o nosso mel. Apesar de armada também ela,
morreu com uma tremenda ferroada que lhe dei entre os anéis do abdômen.
– Mas... eu não sou lesma nem vespa, minha valente abelhinha. Lesmas e
insetos não têm pele elástica como nós. Do corpo deles pode você sem
dificuldade retirar o seu arpéu; da nossa pele, não, porque é dilatável, e lhe
trava a arma, que se arranca do seu corpo levando consigo parte das vísceras
– e você morre do ferimento...
A abelha olhou-me, um tanto incrédula, com aqueles dois lindos hemisférios de
olhos facetados, e, mudando o timbre da voz, disse:
– Meu nome é Isis, da raça das abelhas caucásicas.
– Isis, que belo nome! – exclamei fazendo também a minha apresentação. – E
de raça caucásica? pelo nome, eu diria que fosse egípcia.
– Os meus antepassados, pelo que consta dos anais do nosso povo, eram
naturais do Cáucaso. Eu sou brasileira. Mas há quem diga que não somos de
puro sangue caucásico. Estes três anéis dourados do meu corpo vieram de
outra parte.
– Pelo que entendo da sua raça, acho que seus lindos anéis dourados lhe
vieram da Europa, talvez da Itália.
Isis deu um giro completo sobre a folha da laranjeira, alongando e encurtando o
elegante abdome para que eu pudesse ver os anéis amarelados de que falava
e de que parecia muito orgulhosa. Depois, com certa faceirice, acrescentou:
– Quem sabe se estes anéis não vieram do Egito?...
– É bem possível. Até no interior de uma das velhas pirâmides foram
encontrados vestígios de uma casa de abelhas, de tipo diferente das que hoje
conhecemos; possivelmente, seus antepassados...
– Se construíram uma cidade no vão de uma daquelas pedras, não devem ser
de raça muito antiga. Talvez algumas centenas de milhares de primaveras...
– Por quê?
– Porque, em tempos antigos, nós não costumávamos morar no oco de pedras
ou árvores, como hoje em dia.
– Onde é que moravam?
– Suspendíamos a nossa casinha debaixo de algum galho, como usam até
hoje os nossos primos, os marimbondos.
Isis proferiu baixinho estas últimas palavras, e percebi que se arrependia de ter
chamado “primos” os marimbondos, porque essa raça de himenópteros é
geralmente detestada como bandidos e creaturas sem consciência, embora, cá
entre nós, eles tenham uma função importante para a lavoura. Fiz que não
tinha percebido a desairosa referência, e perguntei.
– Como? vocês suspendiam a sua colmeia debaixo de um galho?
– A nossa colmeia, não; a nossa casinha. Nesses tempos remotos,
fabricávamos apenas uma chapinha horizontal, com células na parte inferior,
presa num galho por uma haste de resina solidificada. Sobrevieram, porém,
grandes frios a todo o mundo, e fomos obrigadas a refugiar-nos no oco das
árvores e das pedras, para escaparmos à morte. Nesse tempo horrível, como
ouvi contar, havia flores só durante umas poucas dezenas de sóis, e logo
voltava o longo período de neve e gelo. No breve tempo de calor éramos
obrigadas a recolher a maior quantidade possível de néctar e pólen para ter o
que comer no tempo do frio, provisão para as nossas irmãzinhas e para nós
mesmas. Foi nesses tempos que transformamos a nossa primitiva casinha de
chapa horizontal em vastos celeiros e armazéns de provisões. Nossa mãe
resolveu também multiplicar o número de filhas, porque havia muitos berços
vazios à espera de nenês. Era necessário esse grande número de abelhas
para que houvesse operárias no tempo das flores. Mais tarde, quando os
tempos melhoraram, conservamos o costume de construir as nossas casas no
interior das árvores e das pedras. É mais seguro, assim. Esse mundo está
cheio de ladrões e salteadores que andam à procura dos nossos celeiros.
Assim, escondidinhos, e só com uma pequena entrada, é mais fácil defender
os nossos castelos, não acha você?
– Se acho, Isis! Ouvi até dizer que vocês têm sentinelas especiais que, dia e
noite, ficam de plantão à entrada do castelo, é verdade?
– Naturalmente. Eu mesma, quando nova, fiz parte dessa sentinela. Foi nesse
tempo que matei aquela vespa e ajudei a dar cabo da lesma.
– Quando nova? e você é velha agora?
– Estou com vinte e cinco sóis.
– E quanto tempo espera vi ver ainda?
– Outro tanto.
– Só?
– Nós, as operárias, vivemos uns quarenta a cinquenta sóis, se tanto.
– Apenas quarenta a cinquenta dias?
– É quanto chega. Cada dia, em tempos nomais, nascem milhares de
irmãzinhas, que nos vêm substituir no trabalho.
– No trabalho? quer dizer que vocês só vivem para o trabalho?
– O nosso grande prazer é trabalhar. Vivemos do trabalho e para o trabalho – e
morremos também de trabalho...
– Para que é que trabalham?
– Para a nação. Para a rainha, para as irmãzinhas, para todos os que fazem
parte da nossa cidade, hoje, amanhã, para todo o futuro...
– E não trabalham para si mesmas?
– A grande Inteligência da Natureza sabe o que faz. Obedecemos às suas leis.
É a nossa grande felicidade.
Nisto passou perto de nós outra abelha, traçou dois círculos sobre a cabeça de
Isis, ao que esta, com um gentil “desculpe”, levantou vôo e desapareceu no
espaço.
Sintonizando os Nervos
Depois da inesperada partida de Isis, fiquei-me a observar um fenômeno
estranho que se desenrolava a meus olhos. Milhares de abelhas traçavam,
diante da colmeia, círculos horizontais e verticais em todos os sentidos, de
todos os tamanhos, abrindo-os cada vez mais, até atingirem as grimpas dos
eucaliptos circunvizinhos, até passarem por cima dos cumes dos montes em
derredor. Depois voltavam à colmeia e tornavam a fazer as mesmas evoluções.
E assim durante todo aquele dia. Nenhuma abelha fazia menção de colher
néctar e pólen das flores que, a pouca distância, as convidavam com grande
insistência de cores e perfumes.
Esqueci-me de dizer ao leitor que, no dia anterior, havia eu comprado a um
menino roceiro essa colmeia, e, depois das oito horas da noite, a transportara,
bem fechadinha, para o meu sítio, onde ela está agora e onde fiz o inesperado
conhecimento com Isis, minha primeira amiga caucásica. Na tarde do dia
imediato a essa transferência estava eu, ao pé da colmeia, a contemplar as
estranhas evoluções dos himenópteros, sem saber a que vinha tudo aquilo. Por
que não trabalhavam? por que não visitavam as flores que sorriam em
derredor? por que não empreendiam as suas costumadas excursões
melíferas?
De mais a mais, que era feito de Isis? por que partira tão bruscamente? estaria
zangada comigo? teria eu a sorte de reencontrá-la um dia? Difícil seria esse
encontro, se de mim dependesse... Para mim, eram aquelas milhares de
abelhas todas iguaizinhas umas às outras.
De súbito, ouvi forte zumbido perto de mim, que parecia vir de todos os lados
ao mesmo tempo – e lá estava minha amiga Isis, quase no mesmo ponto onde
a conhecera de manhã. Vinha acompanhada de outra abelha, que tinha o
corpinho todo coberto de uma penugem dourada, macia como veludo, ao
passo que o corpo de Isis era meio pelado, parecendo por isto mais escuro que
o da companheira. Só mais tarde cheguei a saber que essa penugem velatínea
é o característico das abelhas novas que ainda não lutaram com a aspereza
das intempéries lá fora.
Cheio de alegria saudei minha amiga caucásica, que me apresentou sua
colega, dizendo:
– Iris, minha irmãzinha de 13 sóis.
A novatinha fez um gesto tão ingenuamente encantador que me esqueci de
fazer a minha apresentação, o que Isis supriu com muita solicitude.
– Que é que vocês estão fazendo? – perguntei às duas, cheio de curiosidade,
referindo-me às estranhas evoluções aéreas da abelhada.
– Estamos sintonizando os nervos – respondeu a mais velha.
– Sintonizando os nervos, que vem a ser isto?
– Tomando orientação e perspectiva.
– Tomando orientação e perspectiva?... não compreendo nada disto...
– Logo vi. Esses gigantes bípedes não sabem quase nada de nós; só
escrevem livros sobre nós. O caso é que, na última noite, houve grande
terremoto em nossa cidade. E hoje estamos aqui, sem saber onde. Sentimos
uns solavancos medonhos. Tentamos sair, mas encontramos a porta barrada...
– Eu quase nada percebi – disse Iris – porque perdi os sentidos e tinha certeza
de ter morrido. Toda a cidade rolou por cima de mim.
– Depois de algum tempo – prosseguiu Isis – cessou o terremoto, e nossos
guardas verificaram que a porta da cidade estava aberta. Mas, como era noite,
nada viram do claro; só viram o escuro. Hoje de manhã, quando voltou o claro,
vimos que tudo estava mudado. Desapareceram as montanhas e as árvores,
nossas conhecidas. Até a grande planície de água que havia perto da nossa
cidade e em que muitas das nossas irmãs perderam a vida, havia
desaparecido.
– Era deste tamanho – acrescentou Iris abrindo as asinhas o mais que podia.
– Aqui é tudo estranho para nós – continuou a abelha mais velha. – Por isto,
não podemos recomeçar o nosso trabalho habitual antes de tomarmos
orientação e perspectiva. Se saíssemos assim, à-toa, nunca mais
conseguiríamos reaver o caminho de casa. Abelha perdida é abelha morta.
– Que está dizendo, Isis? pois não há tanta flor por aí e tanto néctar nas flores?
como é que uma abelha morreria de fome cá fora?
– Ela não morreria de fome...
– De que, então?...
– De solidão e de tristeza. Nós nascemos para a sociedade e, se nos faltar a
companhia das nossas irmãs, morreremos de saudades e de melancolia...
– É isto mesmo – confirmou Iris, passando as pequeninas antenas pelos
grandes olhos de opala, o que lhe dava uns arzinhos de graça infantil. – Hoje é
meu primeiro vôo de abelha adulta, e Loluca disse-me: Iris, a sociedade é vida,
a solidão é morte!...
Estava eu mortinho por saber quem era Loluca, mas a história da tal
“sintonização dos nervos” não me dava sossego. Pedi pois, ulteriores
explicações, e Isis, com aquela clareza e simplicidade toda sua, disse-me:
– Sintonizar os nervos é afiná-los pela luz polarizada.
– Luz polarizada? – perguntei.
– Sim, essa maravilhosa luz do céu, que apanhamos com os nossos olhos
facetados. Guiamo-nos também, em nossos vôos, pelo ângulo do sol.
– Iris, você fala como gente grande! – exclamei sem compreender bem o que
ela queria dizer.
– Gente grande? sou muito pequena, e não sou eu que falo. Fala em mim a
grande Inteligência do Universo.
Houve momentos de silêncio; entreouvi que Isis dizia a outra abelha em tom de
censura: “Quando você fala a homens não deve usar palavras difíceis; eles só
sabem pensar com sua pequena inteligência; pouco sabem da grande
Inteligência.” Interrompi essa conversa a meia-voz, dizendo:
– Vejo que vossa rainha é um ser dotado de grande experiência e sabedoria.
– Nossa rainha? – repetiu Iris com grande reverência – Nossa rainha é dirigida
pela grande Inteligência, como nós. Ela atravessou o período glacial e conhece
todas as coisas de dentro.
– O período glacial? o inverno? Mas como? a vossa cidade não é de poucos
meses?
– A nossa cidade e todas nós somos de poucos meses, mas a nossa rainha é
de tempos remotos. Foi soberana de uma cidade enorme cheia de tesouros,
mas deixou tudo isto a sua filha e saiu com uma parte da população para
fundar um novo reino, que é este que agora temos. Nossas irmãs mais velhas
que saíram com ela já morreram todas. Nós nascemos nesta cidade.
Meu Deus, pensei de mim para mim, quantos mistérios! Esses pequenos
insetos falam de fenômenos ignotos como se fossem coisas sabidas de nós, os
seres “inteligentes” deste planeta. Vi que teria de aprender muito das minhas
amiguinhas aladas. Quanta coisa para investigar! Expliquei às duas que nós,
os homens, tínhamos uma agulha metálica que apontava invariavelmente para
o norte. Riram-se a valer desta nossa invenção e não podiam compreender
porque é que o homem necessitava de uma agulha metálica para perceber as
correntes magnéticas sul-norte, quando, no entender delas, os nervos vivos
prestariam muito melhor serviço do que um pedaço de metal inerte. Com muito
custo, e vergonha não pequena, tive de Ihes explicar que os nossos nervos são
por demais obtusos para perceber a atuação dos fluídos magnéticos do
espaço.
– Os nossos nervos – prosseguiu Isis – sentem essas correntes, e, depois de
devidamente afinados e adaptados, nos orientam com toda a segurança, de
maneira que nos é fácil encontrarmos, em qualquer parte do mundo, o lugar da
nossa cidade. A estranha mudança da nossa casa obriga-nos a sintonizar os
nervos pelo novo ambiente; pois amanhã e mais tarde temos de voar longe,
muito longe...
– Disse-me Loluca – prosseguiu Iris – que esta sensibilidade não é privilégio
nosso. Nossas primas, as formigas, também a possuem. Até muitas aves a têm
e voam longe, longe, dia e noite, e não se perdem no espaço, porque são
guiadas pela mesma força que nos orienta.
– Ah! é por isto que as abelhas estão traçando esses círculos no ar...
– Mas é só por hoje. Amanhã vamos recomeçar o trabalho no meio das flores.
– E eu também vou! – exclamou Iris vibrando entusiasticamente as asinhas
transparentes e fortes que se ajustavam admiravelmente ao elegante corpinho
de linhas aerodinâmicas.
– Você nunca saiu de casa? – perguntei.
– Para longe, nunca.
– Que é que fez até hoje? nesses 12 dias de vida?...
– Trabalhos domésticos. Hoje é meu primeiro dia de abelha adulta. Ah! que
delícia!... As flores... a luz solar... o verde das campinas... Lagos de néctar...
Montanhas de pólen... O perfume da resina... Como é bom ser abelha!...
Estava eu com um mundo de perguntas a arder-me na língua, quando se ouviu
forte zumbido da parte da colmeia, e as duas, como um par de balas vivas,
desapareceram no ar. Ainda julguei perceber uma vozinha a dizer “Loluca está
chamando”, mas as minhas amiguinhas caucásicas já haviam sumido no
interior da colmeia.
Sentei-me numa pedra e tornei a embeber-me na contemplação das evoluções
aéreas das abelhas, dizendo de mim para mim: Sintonizar os nervos...
Correntes magnéticas... luz polarizada... Loluca... Trabalhos domésticos... Meu
primeiro dia de adulta... Que vem a ser tudo isto? Que fez Iris nesses 12 dias
de vida infantil?
Decididamente, eu tinha de investigar esses mistérios...
E essas abelhinhas tinham de ser minhas mestras e mentoras através de
mundos ignotos...
A Infância de Iris
Baldadamente procurei, na manhã seguinte, encontrar-me com Isis e Iris. Era
tão grande a azáfama do incessante vai-vem à entrada da colmeia que nada ao
certo se podia distinguir. Centenas de abelhas entravam e saiam de minuto em
minuto, umas com as corbelhas das pernas trazeiras abarrotadas de pólen
amarelo e branco, outras, aparentemente sem carga alguma. Estas últimas,
porém, levavam o papo cheio de néctar, que, durante a viagem aérea,
começava a transformar-se em verdadeiro mel. Pois deve o leitor saber que o
néctar das flores não é mel, no sentido comum da palavra. Para que esse licor
flóreo se transforme em substância melífica, deve a abelha engoli-lo primeiro,
adicionar-lhe algo da sua própria substância e, depois desidratá-lo
devidamente. Só assim, transformado, e depois vomitado pelo himenóptero, é
que é verdadeiro mel. Para este processo possue a abelha um reservatório
especial, que não é o estômago, mas uma espécie de papo ad-hoc. Não se
enoje o leitor! Nada mais limpo e decente do que esse líquido perfumoso
segregado pela mais linda creatura da flora e transformado pelo mais asseado
de todos os seres da fauna entomológica.
O processo da fabricação da cera é bem mais complicado, como logo veremos.
Vendo que, à entrada da colmeia, não havia esperança alguma de encontrar as
minhas amiguinhas caucásicas, encaminhei-me à horta próxima, onde diversas
leguminosas estavam em flor e eram visitadas por notável quantidade de
abelhas, algumas das quais eram escuras como as da minha colmeia, outras
mais claras, meio douradas, e que certamente vinham de cortiços vizinhos.
Admirei a perfeita paz e harmonia que reinava entre todas elas, de colmeias
várias e raças diversas. Mesmo umas vespinhas espartilhadas andavam
preguiçosamente, como que flanando, sobre algumas flores, petiscando, aqui e
acolá, uma gotinha de néctar, que logo engoliam, como é de praxe entre essas
creaturas egocêntricas, sem cuidados de família numerosa nem vasta
organização social isto com referência a certas espécies. Também algumas
dúzias de irapuãs pretas como diabinhos, andavam a fazer colheita de secos e
molhados, carregando estes no papo, e aqueles nas cestinhas das pernas.
Se o leitor não sabe ainda, saiba agora que a abelha, lá fora, é “comunista”,
mas cá dentro é “capitalista”. Lá fora, na natureza, tudo é de todos e cada um
tem o direito de se apoderar do que quiser e puder; mas, depois de
transformados e armazenados na colmeia esses produtos da natureza, a
abelha os defende ferozmente como produtos do seu labor próprio.
Onde, porém, havia o mais intenso comércio apiário era nas estrelas azuis de
um grande pé de chicória em flor. Não sei o que as abelhas encontram de
precioso nessa flor, que não tem perfume nem parece ter lugar apropriado para
reservatórios de néctar, nem se lhe descobre pólen em grande quantidade. No
entanto, todos os dias, já antes do nascer do sol, era esse céu estrelado um
intenso zum-zum de abelhas, sobretudo daquelas que os entendidos chamam
apis mellifera e que são as nossas conhecidas abelhas de ferrão.
Aproximei-me do pé de chicória, na vaga esperança de lá encontrar uma das
minhas amigas. Depois de muito olhar e pesquisar, vi que lá estava Iris com
seus 13 dias de vida. Saudou-me rapidamente – e desapareceu. Daí a poucos
momentos reapareceu, mas não me foi possível travar conversa com ela. Tão
grande era o júbilo com que ela celebrava a sua estreia de “abelha adulta” que
parecia literalmente ébria do gozo de trabalho. Com incrível rapidez e
habilidade sugava, do fundo das estrelas azuis, as minúsculas gotinhas de
doce licor, e, cheio o papo, disparava como bala de fuzil para entregar a
preciosa carga à uma de suas irmãzinhas mais novas que ainda se ocupavam
com trabalhos domésticos, esperando também o 13.º dia da sua vida.
Numa dessas idas e vindas, viu-se Iris atrapalhada por uma mamangaba preta-
azulada que vinha também buscar alimento nas flores da chicória. A
mamangaba é, por assim dizer, o elefante no mundo dos himenópteros.
Enorme, pesado, desajeitado, munido de um par de formidáveis mandíbulas,
que parecem duas foices, atira-se esse monstro alado, com zumbido
dissonante, às flores, que vergam ao seu peso e quando, devido a seu
tamanho, não consegue entrar em um cálice, ataca-o pelo lado de fora
perfurando-o a fim de atingir o depósito de néctar, coisa que nenhuma abelha
decente faria.
Quando Iris viu pela primeira vez, bem perto de si, a mamangaba, levou um
susto; mas logo se lembrou das palavras de Loluca: Não mostrar medo!
mostrar medo é dar coragem ao outro! exibir coragem é incutir medo ao outro!
E assim a corpulenta mamangaba, embora munida de um ferrão muito mais
forte que o de Iris, portou-se com perfeita decência ao lado da pequena
competidora.
No dia seguinte chuviscava. Alguns pés de gladíolos vergavam ao peso da
longa fila de lindos cálices oblíquos, cor de rosa rajados de sépia, umedecidos
pela garoa. Quando me dispunha para escorar uma das pencas, vi no interior
do cálice uma abelha igual às da minha colmeia – e com grande alegria
reconheci minha jovem amiga Iris. Saudei-a, jubiloso, mas ela mal respondeu,
e, com movimentos vagarosos, foi se aproximando da borda da flor, olhando,
sonolenta, para o espaço turvo.
– Está doente, Iris? – perguntei.
– Não. Estou toda encarangada... com esse frio e essa umidade... A chuva
surpreendeu-me aqui... Eu não sabia disto... Estou sem fazer nada... Se
pudesse trabalhar em casa... Há tanto que fazer... Mas essa chuva, essa
chuva...
– Oh! não se incomode, Iris. Eu vou levá-la para casa. Mas conte-me primeiro a
respeito de sua infância, aqueles 12 dias de trabalhos domésticos a que aludiu.
A abelhinha passou as pernas trazeiras pelas asinhas diáfanas
experimentando-lhes a elasticidade. Estavam perfeitas, apesar da excessiva
umidade atmosférica. Também era um par de asas novas, novinhas... Depois
empertigou-se, esfregou ligeiramente com as antenas os dois hemisférios dos
olhos, tomou um gole de néctar e disse:
– Você não imagina como é horrível passar uma noite sem companhia. Não
consegui dormir, de tanta solidão... Que terá pensado Loluca?...
– Afinal de contas, quem é Loluca?
– É uma das nossas educadoras. Foi ela que me ajudou a roer a tampinha do
meu berço e me puxou para fora. Eu já tinha aberto boa parte da célula e
respirava com facilidade, com a cabeça de fora. Quando Loluca roeu o resto da
portinhola conseguimos tirar o meu corpo todo. Depois ela me lambeu de todos
os lados, porque eu estava pegajosa de cera desses 21 dias de berço.
– 21 dias de berço?
– Sim, nós, as operárias, levamos 21 dias justinhos dentro da caminha onde
mamãe pôs o ovo de que nascemos. Primeiro somos um pequeno ovo, um
pontinho branco-azulado, e nada mais, colado, bem empezinho, no fundo do
alvéolo. No segundo dia começamos a inclinar-nos, e no terceiro estamos
deitadas de chato no fundo da célula, sobre a camada de alimento que vamos
comer.
– E quem pôs esse alimento no berço?
– Nossas irmãs mais velhas. Mas só depois que nossa mãe pôs um ovo no
fundo da célula.
Também, para que dar vida a quem não pode viver? No quarto dia, o ovo deixa
de ser ovo e vira larva, que se vai curvando, e endireitando de novo, até ao
nono dia, quando enche quase o vão da célula, sempre com a cabeça voltada
para a porta. Acabou-se o alimento.
– E agora?
– Daí por diante a nenezinha já não precisa de comida. É só dormir e crescer,
durante doze dias.
– Mas como pode crescer se não toma alimento?
– A larva, nos primeiros nove dias, comeu bastante para poder jejuar doze dias.
O que ela comeu lhe vai dando corpo agora. Você conhece nossas amigas, as
borboletas?
– Se conheço!
– Borboleta viva?
– Vivas e mortas.
– Matou alguma?
– Não, mas na minha cidade há gente que negocia com borboletas mortas. ou
antes com as lindas asas delas.
– Que horror! que selvageria!... Pois, quanto às borboletas vivas, você sabe
que a borboleta vem da crisálida?
– Sei, sei...
– E sabe que a crisálida não come e, contudo, trabalha sem cessar para formar
o corpo da borboleta?
– A lagarta é que comeu.
– Comeu de sobra para que a crisálida possa construir, em silêncio, do material
armazenado, o corpo da borboleta.
– E que corpo maravilhoso têm elas! que asas! que cores! que boca tão
graciosa! Mas, Iris, deixemos em paz as borboletas. Conte-me a sua própria
história.
– Pois, como dizia, no nono dia a larva da abelha deixa de comer e recolhe-se
ao sono. Para que ninguém lhe perturbe esses dias de crescimento, suas irmãs
adultas passam um cortinado de cera pela entrada do berço.
– E a nenezinha, não sufoca com a célula fechada?
– Não ouviu o que eu disse! a célula não está fechada com uma porta de cera
maciça, como as do mel, mas apenas com um cortinado de fiozinhos todo
crivado de pequenos orifícios, para que a pequena possa respirar à vontade.
Logo no dia seguinte ela se transforma em ninfa.
– Que é isto?
– A ninfa vem depois da larva; já tem feitio de verdadeira abelha, mas ainda
sem asas. No vigésimo primeiro dia, a ninfa, já abelha completa, alada, roe o
cortinado de fiozinhos e põe a cabecinha de fora, esperando que alguma das
parteiras venha ajudá-la para sair do berço. Loluca e muito jeitosa...
– São as abelhas velhas que servem de parteiras?
– Não, são as nossas irmãs mais novas, poucos dias mais velhas que a abelha
nascitura, que a tira do berço de cera. As nossas irmãs mais velhas trabalham
fora, na colheita de néctar e pólen. Também, as mais novas conhecem melhor
este ofício de ajudar as outras.
– Conhecem melhor, por serem mais novas?
– De certo. Pois se elas mesmas nasceram poucos dias antes, como não
saberiam ajudar outras a nascer também?
– Tem razão, Iris. Eu pensava com a minha cabeça, e não com a sua. Nós,
homens, quando nascemos não sabemos nada. Só muito aos poucos é que
aprendemos o que outros homens, mais velhos, nos ensinam. E alguns nem
mesmo assim aprendem.
Mas com vocês a coisa é diferente. Vocês nascem sabendo tudo, e não
precisam aprender nada.
– Nós também aprendemos, mas só aprendemos aquilo que já sabemos.
– Em língua humana se chamaria a isto um paradoxo ou uma contradição; mas
sei que na vossa língua a coisa não é assim. Continue, Iris, continue a contar-
me a sua história.
– As abelhas novas, depois de nascer, fazem, durante doze dias, serviços
caseiros.
Não têm permissão de sair para longe buscar néctar e pólen.
– É mamãe que vo-lo proíbe?
– Não. É a grande Inteligência da Natureza que nos dá esta ordem. Mamãe
não dá ordens a nenhuma das suas filhas. Cada uma sabe o que tem de fazer.
Quando saímos do bercinho, as nossas asas ainda são fracas, e o nosso corpo
muito mole. O primeiro serviço que prestamos é o de ajudarmos nossas
irmãzinhas a sair da célula, pois a toda a hora estão saindo algumas. Outras
limpam a casa carregando para fora detritos ou pozinhos que encontrarem.
Asseio e higiene é a grande lei da nossa raça. Todas sabem disto, menos os
zangões...
– Que está dizendo, Iris?
– Sim, os zangões, que são nossos irmãos, não sabem nada disto. Felizmente,
são poucos, e nem sempre existem.
– Nem sempre existem?
– Existem só quando devem existir, e deixam de existir quando não têm mais
que fazer. Entre nós, só vive quem tem serviço.
– Para onde vão eles? morrem? são mortos?
– Disto lhe falarei em outra ocasião, se quiser. Agora lhe estou contando a
minha própria vida. Não gosta?
– Oh, sim, Iris, estou gostando imensamente. Continue, continue!...
– Durante esses doze dias da nossa infância somos também encarregadas de
distribuir os alimentos às recém-nascidas. Elas aprendem logo a comer, porque
já o sabem. Temos de produzir também cera, que é trabalho penoso e
demorado.
Em tempo chuvoso, como este de hoje, aumenta notavelmente o serviço
doméstico das abelhas novas, porque o mel que entra vem mesclado com
muita água, e temos de evaporá-lo devidamente; do contrário não se conserva
bom nas células.
Compete às abelhas mais novas fazer essa evaporação.
– Vocês têm ventiladores lá dentro da colmeia?
– Temos, sim. São as nossas asas. Centenas de abelhas põem-se sobre os
favos de células de mel ainda abertas e vibram intensamente as asas. O vento
leva embora a água em excesso e o mel fica bom como o outro. Quando
necessário, engolimos o mel, esquentando-o, e engolindo-o novamente até
ficar bom. É então fechado hermeticamente com uma tampinha de cera e
guardado para mais tarde. Também em dias de grande calor temos de vibrar
as asas para fazer frescura na cidade.
– Barbaridade! que infância trabalhosa que vocês têm, Iris!
– O trabalho é a nossa maior delícia. Não é assim entre vós?
– Sim, quando adultos, nós também trabalhamos com gosto; mas, em
pequeno, só damos trabalho aos outros, e isto durante muitos anos.
Iris olhou-me, e, entre espantada e incrédula, com os seus 30.000 olhos
facetados encerrados em dois hemisférios de opala, e prosseguiu
tranquilamente em sua narrativa:
– Cada vez que uma abelha campeira entra na cidade com um carregamento
de néctar e pólen, uma das irmãs domésticas recebe a provisão e coloca-a no
competente lugar. Assim, as campeiras não perdem tempo, e podem logo
voltar para as fontes e buscar novo carregamento. A concorrência é grande, de
todos os lados. Rapidez é tudo. Com sol a pino não há néctar. Há muito, de
manhã, perto do meio-dia, e um pouco à tarde. Quem chega primeiro de
manhã tira mais. A nossa vida é breve. Temos de viver muito em pouco tempo.
– Tenho pena de sua infância, Iris...
– Pena, por quê?
– Infância toda passada na escuridão, sem ver essa maravilhosa luz solar...
– Oh não! Nós, em pequenas, cuidamos de nossas irmãzinhas nascituras, ou
recém-nascidas. Depois, saímos todos os dias, mas é só até à água mais
próxima.
– Água, para quê?
– Precisamos de buscar água para muitos trabalhos, de que lhe falarei em
outra ocasião. Nós, as abelhas novatas, somos encarregadas pela grande
Inteligência de buscar água. É de menor responsabilidade do que o serviço das
campeiras, mas não é sem perigo. Muitas morrem neste trabalho...
– Apanhados pelos bem-te-vis?
Iris não respondeu à minha pergunta. Imóvel, com as minúsculas antenas
arriadas como duas bandeiras a meia-haste, parecia perdida em lutuosas
reminiscências... Pobre da Mirtes, suspirou por fim, baixinho... Morreu no
primeiro dia da vida lá fora.
– Quem era Mirtes? – perguntei, condoído.
– Minha vizinha de berço – respondeu Iris entre dois soluços – Já nos
conhecíamos antes de nascer. Entre mim e ela havia apenas uma película de
cera muito fina, quase um nada. Isto é, além do delgado casulo em que cada
uma de nós estava envolta após o período larval. Nascemos no mesmo
instante. Loluca roeu as tampinhas das nossas células, como se fosse uma só.
Mirtes era linda, linda. Mais forte que eu.
Numa dessas manhãs, depois de tomarmos um bom gole de mel e fazermos
alguma limpeza caseira, Mirtes convidou-me para um vôo de aguada.
Encontramos logo uma enorme planície de água. Mirtes, estouvada, ébria de
luz, voou rentinha à lisa superfície. Eu fiquei mais alto, desconfiada daquele
mistério, que me parecia perigoso. De repente, minha amiguinha bradou: “Iris,
Iris! lá no fundo está voando outra Mirtes, de barriga para cima!...” Logo depois
um grito de dor – e um silêncio profundo, profundo... Mirtes desaparecera nas
águas...
– Afogada?
– Devorada... Logo que ela caiu na água, e ainda boiava bem na superfície,
acudi para salvá-la, mas de repente veio das profundezas um monstro horrível,
escancarou uma boca enorme – e Mirtes desapareceu no abismo...
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Fez-se silêncio profundo em derredor de nós e dentro de nossas almas... Até o
céu acompanhou a nossa tristeza, chorando abundantes lágrimas de cristal
sobre a terra e as plantas em volta... A própria alma do Universo parecia
suspender a respiração para não perturbar a sacralidade do nosso sofrimento...
Essa dor comum me fez ainda mais amigo do povo das abelhas do que eu era
antes. Parece mesmo que só amamos realmente alguém depois de sofrermos
com ele. É como se dois elementos duros e justapostos um ao outro se
derretessem no ardor de um grande fogo e se fundissem em uma única
substância, que não é nem Eu nem Tu, mas Nós...
– O que nos consola – disse, por fim Iris, reanimando-se – é que só morre o ser
vivo, mas não a vida. A vida é imortal. Morreu Mirtes, mas a sua vida está com
a grande Inteligência, imortal, sempre-viva...
A abelhinha continuou a falar neste sentido por muito tempo, e eu quedei-me,
quase extático, em face do que ouvia. Resolvi escrever um livro sobre a vida
imortal dos seres mortais. Por fim, regressando das alturas do enlevo místico
para o plano da vida quotidiana, disse Iris:
– Não voar em linha reta! repetia Loluca todos os dias. É perigoso!
– Perigoso, por quê? – perguntei.
– Perigoso para as novatas, de vôo menos firme e rápido. Para as campeiras
traquejadas na luta, pouco perigo há na linha reta. As abelhas novas têm de
voar em zigue-zagues ou em serpentinas.
– Mas por quê?
– Você não sabe que há muitas aves por toda a parte? Ainda há pouco, você
falou no bem-te-vi. Mas não é só ele que gosta de nós...
– Pois, não é bom que as aves gostem das abelhas?
– Bom? bom? é o que há de pior! ser gostado por um pássaro é um desastre!
– Compreendo, compreendo. Elas gostam de vocês com o bico e com o
estômago, e não com o coração...
– Lá no mundo dos homens não é assim também?
– Muitas vezes. Há entre nós muito amor devorador. Mas, afinal de contas,
vocês não têm uma arma terrível, o ferrão?
– Qual, ferrão! Serve na luta contra outros insetos, mas o bico dos pássaros é
tão duro que não entra ferrão algum. Antes de darmos a primeira ferroada já
estamos esmagadas. A salvação está na força das nossas asas e na
habilidade de voar em zigue-zague ou serpentina, que ilude o perseguidor.
Iris olhou para o céu, e disse:
– Está melhorando. Vou buscar resina. Temos lua minguante. O tempo é
propício.
– Resina, para quê? Que é que vocês fazem com resina dentro da colmeia?
– Muita coisa. Desta vez é para cobrir o corpo de uma lesma que está
começando a empestar a cidade.
– Que está dizendo, Iris? uma lesma? e vai cobri-la de resina?
– Sim, ontem entrou na cidade mais uma dessas creaturas pegajosas, e
tivemos de matá-la. Com besouros e aranhas a gente se arranja; arrastamo-los
para fora. Mas esses fregueses gosmentos estão a tal ponto colados no chão
que ninguém os tira daí. Nem mortos podem ser removidos. Nem sei o que
essa gente vagarosa vem buscar em nossa cidade. Não comem mel nem cera.
Possivelmente, querem devorar os nossos nenezinhos...
– E que vão fazer agora com o cadáver da lesma?
– Vamos mumificá-la, cobrindo-a com espessa camada de resina impermeável,
a fim de isolá-la do ambiente. Senão, ficaria tudo empestado.
– É espantoso, Iris! E você vai fazer isto?
– Não, isto é tarefa das novatas. Eu sou abelha adulta. Mas vou buscar resina.
Lá no alto daquele morro deve haver da dita. Adeus!
Antes que eu pudesse formular uma pergunta sobre aquilo da “lua minguante”,
já estava Iris a boa distância, rumo ao cume de um monte coberto de mata.
Cheio de curiosidade dirigi-me à colmeia, espiei cautelosamente – e pasmei em
face do que via. Centenas de abelhas novas – eu já as conhecia pela cor mais
clara e abundante penugem do corpo – estavam ocupadas em desdobrar
espessa camada de resina cheirosa sobre um montículo alongado que devia
ser o corpo da desditosa lesma, morta e semi-enrolada sobre si mesma. A
princípio, tive a idéia de intervir no trabalho dos himenópteros lançando para
fora da colmeia aquele trambolho. Prevaleceu, porém, a curiosidade de
presenciar o trabalho de mumificação e sepultura da parte dos miúdos insetos.
Grande número de abelhas, das campeiras, vinha entrando sem cessar com
minúsculas parcelas de resina – própolis, lhe chamam os apicultores – extraída
de certas árvores. Entregavam o material às jovens engenheiras e
desapareciam instantaneamente. Depois de meia hora, nada mais se via do
corpo do molusco. Apenas um montículo escuro assinalava o lugar do jazigo
perpétuo da intrusa.
Esperei por Iris mas não a vi regressar. Teria ela sido vítima de algum
acidente?... Havia tantos pássaros nos arredores...
Mortandade, Revolução
e Protestos
Dia trágico, aquele!...
Quase que perdi a minha cidade apiária...
E, mais do que isto, a amizade de Isis e Iris, minhas queridas amigas
caucásicas...
Já lhes conto como foi.
Era impossível deixar as abelhas na velha caixa em que as havia comprado a
um menino da roça. A caixa era muito estreita e meio podre, emborcada sobre
um pedaço de tábua que lhe servia de fundo.
Resolvi, pois, dar-lhes nova residência. Fabriquei, segundo todas as regras da
arte, uma caixa espaçosa, moderna, com os competentes quadros móveis.
Pronta a nova caixa, procedi à difícil manobra da transfusão do conteúdo.
Protegido por uma máscara de filó preto e com as mãos cobertas de luvas de
couro, abri o velho caixote, e, a despeito de formidáveis protestos de milhares
de abelhas, passei rapidamente toda a abelhada, com sua mãe para a nova
residência.
Grande parte das abelhas, porém, agarrou-se freneticamente aos favos de mel,
devorando o que podiam, na certeza de que esse cataclismo lhes roubaria
todas as provisões armazenadas e as deixaria na miséria. Por isto, tive de
quebrar completamente a caixa velha, e, com o auxílio de umas boas nuvens
de fumaça – de que esses insetos têm um medo enorme – e uma vassourinha
de penas consegui que o resto largasse os favos e resolvesse fazer companhia
às outras e à rainha.
Infelizmente, não me foi possível transferir para a nova residência os favos de
incubação cheios de ovos, larvas e ninfas. Eram de construção tão irregular
esses berçários, devido à estreiteza da caixa, que não os pude recolocar na
caixa nova na mesma posição em que estavam, e, mudando-lhes a posição
certa, morreriam as larvas.
Resolvi, por isto, inutilizar os celulários de incubação e fervê-los para aproveitar
a cera. Depois de apanhar a cera dourada, tive a infeliz lembrança de colocar o
resto diante da colmeia, para que as abelhas recolhessem a cera e a
aproveitassem para construir a nova cidade.
Nesse tempo vivia eu na profunda ignorância de que as abelhas usassem cera
velha.
Daí a 15 minutos, vi os ares repletos de abelhas a doidejarem com zumbidos
ferozes, e à entrada da colmeia estava enorme bloco das mesmas, que
engrossava de segundo em segundo. Faltavam apenas a rainha e sua corte.
Mas a chamada do bloco à entrada era tão insistente que a soberana não teria
resistido por muito tempo ao impetuoso apelo da nação em peso; pois o que o
povo apiário estava fazendo era, evidentemente, um convite para uma fuga
geral.
– Crueldade!
– Infâmia!
– Desaforo!
– Estupidez!
– Vamos embora daqui, depressa, depressa!
– Lugar mal-assombrado!
Todas estas, e outras vozes que não entendi, se cruzavam confusamente nos
espaços. De relance, percebi de que se tratava. A princípio pensava eu que a
colmeia estivesse fazendo manobras de enxameio, como costumam fazer
quando parte da população, aderindo à velha soberana, se vai embora para
fundar nova cidade.
Neste momento, apareceu Isis, toda esbaforida, clamando umas palavras que,
a princípio, não pude entender no meio da balbúrdia geral. Por fim, distingui
isto:
– Que horror! tire esses cadáveres de nossas irmãzinhas!...
– Que aconteceu, Isis?
– Tire daí esses cadáveres! depressa! senão, vamos todas embora!...
Compreendi tudo. Mais que depressa, agarrei a cestinha com os corpos das
larvas e os resíduos de cera e joguei tudo ao barranco do arroio próximo. Ainda
por meia hora continuou a revolução apiária. Pouco a pouco, porém, se
acalmaram, desistiram das suas furiosas evoluções aéreas e resolveram voltar
à colmeia, mas ainda vibrantes de indignação e horror. O vasto zumbido
prosseguiu por largo tempo, assim como continua o movimento e ruído das
ondas do mar, depois de cessar a tormenta. Quando, porém, depois de muito
pesquisar nos arredores, se convenceram de que já não havia vestígio da
horrorosa carnificina, comunicaram à rainha que estava tudo em ordem, e esta
resolveu não sair. Deve ter sido um grande alívio para ela, porque ela estava
nos seus melhores tempos de jovem mãe e prestes a dar à luz algumas
milhares de filhas. De resto, também a nova cidade, embora ainda vazia, era
uma beleza e em nada comparável à cidade antiga, destruída, com suas ruas
estreitas, tortuosas, sem possibilidade de ulterior expansão. A cidade nova que
eu lhes dera era limpa, espaçosa, munida, além disto, de dez magníficos
caixilhos, cada um já com a competente lâmina de cera moldada presa na
barra horizontal de cima e que serviria de início aos novos favos. Tanto luxo e
tanta previdência, é certo, nunca tinham sido vistos por minhas amigas, desde
eras remotíssimas.
Estava eu observando a alviçareira vazante daquele enorme espalhafato,
quando reapareceu Isis e disse-me à queima-roupa, ainda trêmula de emoção:
– Por todas as flores do universo! como é possível que um homem cometa
semelhante monstruosidade?...
– Desculpe, Isis – balbuciei – mas aquela caixa podre era imprópria para...
– Não, não é isto! não me refiro à destruição da nossa cidade. Nenhuma
destruição é capaz de nos fazer desanimar. Refiro-me àquele espetáculo
macabro que você armou à entrada da nossa residência. Colocar-nos à porta
da cidade os espectros de milhares de irmãzinhas nossas assassinadas? E
esperar de nós que fôssemos lamber a cera desses cadáveres? Que idéia faz
você de nós?...
Eu não sabia o que replicar. Depois de alguns momentos, acrescentou Isis,
como que falando a si mesma: “É verdade, os homens nada entendem dos
mistérios da nossa vida íntima... Escrevem muitos livros sobre nós, acham que
somos muito inteligentes, mas nada sabem dos sentimentos do nosso
coração...”
Pedi a Isis que apresentasse à rainha as minhas desculpas, juntamente com a
promessa de contribuir o mais possível para apronta reconstrução da cidade.
A abelhinha esboçou um sorriso triste e céptico, como que a pensar: De que
modo havia esse homem de contribuir para a reconstrução da nossa cidade?...
Eu, porém, para mostrar a minha boa vontade, coloquei à entrada da nova
colmeia duas tigelas, uma cheia de mel, e a outra com açúcar diluído em água.
As abelhas avançaram de roldão sobre o mel, que aliás era delas mesmas, e o
levaram embora em poucos minutos. Depois, vendo que nada mais havia que
lamber do bom, dirigiram-se ao menos bom e foram tomar conta do açúcar, de
que não ficou vestígio.
E assim se encerrou pacificamente esse incidente quase trágico.
Surge uma Cidade
Cor de Neve
O dia que se seguiu à transfusão das minhas abelhas para a nova residência e
à tremenda revolução acima descrita, foi de grande silêncio e quietude.
Esperava eu ver toda a nação apiária numa grande azáfama, num incessante
vai-vem de campeiras, para reconstrução da cidade destruída. Sabia eu que as
abelhas são por natureza madrugadoras; mas já andava alto o sol, e quase não
havia movimento à entrada da colmeia. Apenas um pequeno grupo de guardas
que, como sempre, estavam de plantão, rondavam lentamente da direita para a
esquerda, de cima para baixo, vigiando a entrada da cidade.
Que estariam fazendo as minhas ricas abelhas? estariam dormindo? chorando
a catástrofe do dia anterior? ou teriam fugido todas, imperceptivelmente, em
sinal de protesto contra a horrorosa carnificina da sua prole? Mas, neste último
caso, não haveria sentinela à porta do reino. Só há guardas onde há rainha, e
onde há rainha há súditos.
Dei um giro pela horta e pelo jardim do meu sitiozinho, a ver se encontrava nas
flores alguma abelha da cor das minhas. Quase nada! as poucas que havia
eram de outras colmeias, de raça “italiana”, mais claras que as minhas,
fartamente morenas, quase pretas.
Onde estariam Isis e Iris?
Esperei até à tarde, na certeza de que num dia tão lindo como esse não
deixariam as minhas incansáveis operárias de recolher mel e pólen. Não vi
nada.
Intrigado com essa estranha inatividade, voltei à colmeia, e, muito
cautelosamente, levantei a tampa, solta e independente do resto da caixa e dos
quadros móveis. Suspendi cuidadosamente um desses quadros – e dei um
grito de estupefação! Suspendi outro – a mesma surpresa! A maior parte dos
dez quadros que integravam o conjunto dos futuros berçários e celeiros,
apresentava um fenômeno indescritível.
Que é que havia?
Dentro do vão de cada quadro estava suspensa uma pesada cortina escura,
em forma de um triângulo invertido, feita de reluzentes bagas, os corpos de
milhares de abelhas, em quase completa imobilidade. A fila de cima prendia-se
firmemente ao caixilho em toda a extensão da linha horizontal; a segunda fila,
um pouco menos larga, estava presa nos corpos da de cima, e assim por
diante, em sentido descendente, até que a ponta do triângulo atingisse quase a
parte inferior do caixilho. Cortina igual havia na maior parte dos outros quadros.
– Que é isto? – perguntei, espantado, mas não tive resposta. Possivelmente no
meio daqueles cachos vivos de bagas escuras se encontravam também os
corpos de algumas das minhas amigas recém-nascidas, mas quem as poderia
descobrir? O silêncio era absoluto.
Nem o mais ligeiro vibrar de asas.
– Que friiio! feche a casa! – murmurou alguém no meio da multidão imóvel.
– Assim é impossível fazer cera – acrescentou outra à meia-voz.
Fechei a tampa, cautelosamente, e perguntei a um dos guardas o que
significava aquilo. Olhou-me ele com uns olhos enormes, como quem não
compreende o que se diz. Repeti a pergunta, ao que ele respondeu secamente:
– Ora, estão fazendo cera.
– Fazendo cera, mas de quê?
– De quê? de que havíamos de fazer cera senão de nós mesmas?
– Esse é o gigante que nos roubou tudo – disse outro guarda, acrescentando
baixinho em tom rancoroso – Mereceria um milheiro de ferroadas... se não
fosse animal de sangue quente...
– Não me levem a mal o que fiz – expliquei-lhes – Foi pelo bem do vosso povo.
Naquela caixa imunda e podre não havia lugar para uma nação grande e
próspera, e cada ano teriam de emigrar diversos enxames com parte da
população. Nesta nova residência espaçosa cabem folgadamente 50.000
abelhas com todo o conforto.
– Isto lá é verdade – concordou o primeiro dos guardas – Nunca tivemos casa
tão espaçosa e limpa como esta. Mas, pelos modos, você não sabe nada da
nossa vida e atividade...
– Sei... um pouco...
– Mas ignora uma das coisas mais importantes...
– A saber?
– Que nós, para fazer cera, temos de ficar imóveis e bem juntinhas umas às
outras, ao menos pelo tempo de um sol e de uma escuridão.
– Tem razão, eu ignorava isto. Pensei que vocês fabricassem a cera com o
pólen das flores.
Entreolharam-se as duas com ares significativos, mas não responderam. Se
pudessem sorrir teriam sorrido da minha ignorância de homo sapiens. Por fim,
a que primeiro falara comigo se apresentou dizendo que se chamava “Silvia”. A
outra, sempre de cara fechada e desconfiada, não quis dar o seu nome, mas a
companheira, sempre gentil e alegre, apresentou-a com o nome de “Cirila”.
Tive o pensamento de perguntar por Isis e Iris, mas suprimi esse desejo e
insisti com as duas novas amigas – embora uma não se mostrasse nada amiga
– que me explicassem o mistério da origem da cera.
– A cera – Disse Sílvia – é produzida pelas nossas irmãs mais novas. Aparece
em forma de umas palhetas brancas, segregadas por umas bolsas que as
novatas têm entre os anéis do abdome. Para que estas palhetas brancas
apareçam é necessário que nossas irmãs engulam bastante mel e depois
fiquem por muito tempo imóveis e produzam calor pela reunião de numerosos
corpos. Quando começam a aparecer as escamas brancas, a vizinha as
apanha do corpo da companheira e as leva para o alto onde estão os alicerces
da cidade. E a cidade vai crescendo, crescendo, até embaixo. Em tempos
normais, só uma parte da população está encarregada de produzir cera, mas
hoje quase todas estão ocupadas neste trabalho; pois ficamos sem cera
alguma, depois do cataclisma de ontem. Ou pensa você que havíamos de
deitar o mel pelas ruas da cidade, assim sem mais nem menos? e onde poria
nossa mãe os ovos para suas filhinhas se não houvesse berços? Amanhã terá
ela grande número de berços...
– Amanhã? tão depressa?...
– Nosso trabalho é rápido...
Sílvia interrompeu bruscamente o fio da conversa e, em companhia de Cirila,
se atirou à entrada da colmeia, onde aparecera uma creatura com cara de
ladrão. O intruso desapareceu nos ares perseguido pelas duas valentes
guardas, que tardaram a regressar, parecendo empenhadas em uma luta de
grandes dimensões.
* * *
Daí a dois dias, fui abrir a caixa, cautelosamente – e deparou-se-me um
espetáculo encantador. Suspendendo um dos quadros móveis, tive ante os
meus olhos uma maravilha de indescritível beleza e perfeição. Na barra
superior do caixilho, onde eu prendera a lâmina de cera moldada, estava
suspenso, em continuação dessa faixa, um favo triangular, alvo como a mais
pura neve das montanhas, e de paredes tão delgadas que chegavam a ser
ligeiramente translúcidas. Parecia um sonho de fadas, um sopro de leveza
imaterial. E que maravilha as paredes e a forma das células! Cada alvéolo
constava de seis paredes laterais, cujos pontos de encontro formavam outros
tantos ângulos, sendo quatro ângulos de cada célula iguais entre si, enquanto
os dois restantes, o de cima e o de baixo, um pouco mais fechados, também
iguais entre si, mas diferentes dos quatro primeiros. Todos os alvéolos
obedeciam rigorosamente à mesma forma e bitola. O fundo de cada um desses
graciosos hexaedros terminava em um prisma triangular, ajustando-se
perfeitamente ao fundo de outra célula construído do outro lado do favo, em
sentido oposto; pois todos os favos têm duas faces com base comum. Depois
de algum tempo verifiquei com estranheza que as linhas laterais dos alvéolos
hexaédricos não corriam em sentido rigorosamente horizontal, como eu
supunha, mas acusavam ligeira inclinação para cima. Perguntei a Isis, que
felizmente reaparecera, pela razão dessa singular disposição oblíqua das
células, ao que ela me respondeu, sorridente:
– Imagine você, se colocássemos os celeiros em sentido inteiramente
horizontal, que aconteceria? Escorreria o mel antes de amadurecer e poder ser
fechado.
– E, se colocassem os favos em posição horizontal, ficando os alvéolos em
sentido vertical?
– Ora, ora! neste caso, só poderíamos aproveitar a parte superior do favo, e
teríamos de construir um fundo plano, chato, desgracioso, e ainda por cima
impróprio para as células do berçário, pois as extremidades do ovo e da larva
são arredondadas, e não chatas. A única forma e disposição razoável para as
células é esta que a Inteligência Cósmica nos inspirou, há muitos milhões de
primaveras. A disposição dos nossos favos também favorece muito a
ventilação e limpeza da cidade. A posição horizontal dos favos cortaria as
correntes aéreas que vêm de fora – e quem pode viver sem ar? Até as nossas
irmãzinhas iriam morrer asfixiadas antes de nascer...
Tudo isto dizia Isis com a precisão e segurança de um erudito professor de
matemática e geometria a lecionar ciências exatas aos alunos de uma Escola
Politécnica.
Ao suspender um dos lindos favos, cujos alicerces estavam no alto, lembrei-me
do que o livro do Apocalipse diz da “cidade santa de Deus”, cujos fundamentos
se acham nas alturas do céu e que descem às baixadas da terra...
50.000 Virgens Heróicas
Num desses dias tive enorme surpresa.
Havia eu adquirido mais duas colmeias e colocado ao lado da primeira. Certa
manhã, lá pelas 10 horas, quando o sol já tinha evaporado a última umidade
das campinas, mas ainda não estava excessivamente quente, vi, à entrada de
uma das últimas caixas, umas dúzias de abelhas de outro feitio e tamanho que
as que eu conhecia. A anatomia do seu corpo robusto não apresentava as
magníficas linhas aerodinâmicas das minhas amigas, Isis, Iris, Sílvia e Cirila, e
outras conhecidas. As asas desses grandalhões não se ajustavam firmemente
ao corpo, mas estavam semi-abertas, formando ângulo com o abdome. Toda a
sua aparência e modo de andar tinha um quê de frouxo, indisciplinado e
grosseiro, contrastando desagradavelmente com a atitude distinta e o corpinho
teso, compacto e firme das obreiras. Soube mais tarde que esses senhores
eram verdadeiros sibaritas, passando o dia todo a vadiar e a comer. Nenhum
deles sabia o que fosse trabalho. Nem os trabalhos caseiros, a que as obreiras
novas se dedicavam com grande solicitude nos 12 dias da sua infância,
mereciam o menor interesse a esses encorpados comilões. Às vezes, uma das
abelhinhas novas forcejava largo tempo por sair do alvéolo em que se
desenvolvera; os grandalhões contemplavam com fleuma e apatia a faina da
nenezinha, mas nenhum deles se dignava a roer o resto da tampinha de cera
para desobstruir a saída, quando esse trabalho lhes teria sido facílimo.
Pior ainda, além de não fazerem nada e comerem muito, esses vadios
deixavam por toda a parte os seus excrementos, até sobre os brancos favos
em construção e na imediata proximidade da rainha. Atrás de cada um desses
granfinos mal-educados andava constantemente uma das abelhas caseiras,
ainda em período de trabalhos infantis, para fazer a competente limpeza; do
contrário, acabaria o interior da cidade numa pavorosa imundície, porque esses
analfabetos em asseio e higiene eram em número de diversas centenas.
Tudo isto, e muito mais, cheguei a saber mais tarde, e de um modo que agora
não posso explicar.
– Quem são esses senhores de asas semi-abertas? – perguntei a uma das
guardas que estava de plantão à entrada da colmeia número dois. A guarda
olhou-me, entre espantada e compassiva, deu meia volta e desapareceu no
interior da caixa. Será que não entendeu a minha linguagem?... ou teria medo
de mim?...
Neste momento deparei casualmente com minha amiga Sílvia, que, como de
costume, estava de guarda à entrada da primeira colmeia. Pedi que me
explicasse o mistério daquelas grandes abelhas desalinhadas. Parece que falei
com certo desdém. porque Sílvia, depois de me ouvir em silêncio, desandou-
me um olhar repreensivo; por fim disse com grande reverência:
– Esses são os zangões, as abelhas masculinas.
– Zangões? e por que não os há nesta colmeia?
– Vai haver... quando o tempo chegar...
– Para que servem esses vadios?
– Vadios?... vadios... Não há abelha vadia.!
– Desculpe, Sílvia, mas eu não compreendo...
– Logo vi que você não compreende nada da nossa vida.
– Quantos zangões há numa colmeia?
– Algumas centenas. Depende...
– E por que não trabalham?
– Nossos irmãos masculinos trabalham tanto quanto nós.
– Trabalham, como?
– O trabalho deles é diferente do nosso, mas não é menos importante. Se não
fossem eles – adeus, operarias!....
– Explique-me isto, Sílvia, por favor.
– Nós servimos ao nosso povo vivendo e trabalhando – eles lhe servem dando
vida e morrendo. Ai de nós se viessem a faltar os machos! a cidade inteira
estaria votada ao extermínio!...
– Mas, diga-me, Sílvia, não é verdade que vocês, operárias, matam cada ano
centenas de zangões?
– É verdade, matamos os renitentes, após o vôo nupcial da nova rainha, e
deixamos morrer de fome os restantes.
– E isto você chama amor e fraternidade?
– Perfeitamente.
– E os zangões são do mesmo parecer?
– Todos eles.
– Estão de acordo em que sejam mortos por vocês?
– De pleno acordo. Nenhum deles desejaria continuar a viver quando a sua
vida já não tem razão-de-ser. Matá-los quanto antes é ajudá-los a cumprir a
sua missão. Aqui entre nós, tudo é bem organizado. Vive-se por uma grande
missão.
– Que missão?
– Depois do vôo nupcial da rainha a missão do zangão terminou, e por isto é
justo que sua vida termine também. Entre nós não há vida sem finalidade. Nós,
operárias, também deixamos de viver depois que deixamos de trabalhar. A
nossa missão é trabalhar. Com uns cinquenta sóis, estarei exausta, com as
asas rotas, as energias gastas – e vou morrer na solidão...
– Na solidão? não vai morrer no meio de suas companheiras, na cidade?
– Nunca nenhuma abelha honesta cometeria semelhante indecência! Só se a
morte a surpreendesse sem aviso prévio. Cada uma de nós sabe morrer a sós.
Necessitamos da sociedade para viver e trabalhar, mas para morrer só
precisamos da solidão. Imagine, que trabalho para nossas irmãzinhas terem de
arrastar para fora, cada dia, centenas de cadáveres!
– Centenas, cada dia?
– Sim, cada dia nascem centenas de abelhas, e morrem outras centenas. Até
milhares. Nossa mãe põe, geralmente, 2000 ovos por dia. Toda operária tem
suficiente bom senso para sair da cidade quando pressente o fim da vida. Voa
longe, longe, até onde lhe permitam as asas rotas, pousa numa folha, ouve a
voz da grande Inteligência – e morre... A nossa cidade está sempre em festa. É
um sorridente berçário de vida em perpétua sucessão e perene juventude, e
não um triste asilo de seres decrépitos, nem uma necrópole de defuntos... Para
nascer necessitamos do auxílio de nossos semelhantes, mas para morrer cada
uma basta a si mesma.
– Compreendo, compreendo, Sílvia... Morrer em profunda solidão, depois de
uma vida ao serviço dos outros, é belo, e heróico, é sublime... Mas... ser morto,
como os zangões, em plena juventude, isto me parece triste e revoltante...
– Nosso povo não conhece semelhantes sentimentalismos. Quem perde a sua
razão-de-ser e velho e decrépito, ainda que acabe de nascer. Ser jovem é ter
uma grande tarefa a cumprir, uma razão-de-ser, um trabalho a prestar pelos
outros. Quando os zangões fecundam a nova rainha, em seu glorioso vôo
nupcial, eles morrem imediatamente, porque a sua vida seria um contrassenso,
daí por diante. E também todos os outros zangões têm de morrer, porque a sua
vida ulterior seria um absurdo, uma imoralidade... A nossa mãe, apesar das
muitas primaveras que viu, é sempre jovem enquanto põe ovos e produz vida
nova. Mas, no dia que deixasse de pôr ovos e crear vida nova, seria velha...
Oh! Momuca!... oh! Momuca!...
Sílvia estremeceu repentinamente, e, se tivesse podido chorar, teria derramado
torrentes de lágrimas, dos seus lindos olhos de opala escura. Mas, abelha não
pode chorar, e esta falta de lágrimas é, talvez, para ela, uma grande tragédia
interior. O pranto dá certo alívio, assim como um vulcão fica mais tranquilo
depois de expelir do seu interior grande quantidade de lava ígnea...
Depois que minha amiga se refez da sua grande comoção, cheguei a saber
quem era Momuca e qual a grande tragédia da sua vida. É tão triste essa
história que não me animo, por ora, a contá-la aos leitores deste livro. Talvez
que, mais tarde, num dia de muita nuvem e nenhum cantinho azul no céu, ou
numa noite de ventos uivantes, eu me anime a narrar o drama dessa infeliz
abelha, cuja memória perdura de geração em geração, na cidade apiária. Creio
que nunca aconteceu coisa mais triste e trágica no mundo das abelhas, desde
as eras mais remotas. É deveras estranho! essas mesmas abelhas,
indiferentes à morte de centenas de zangões e estóicas em face da sua própria
morte, sentem-se abaladas até ao âmago da sua natureza pela desgraça de
uma rainha ou mãe de tribo. Pois deve o leitor saber que Momuca era uma
jovem rainha, mas que teve de ser morta por seu próprio povo, porque, apesar
de fêmea perfeita e normal, não estava em condições de perpetuar a espécie,
como é de obrigação de cada mãe. Nunca se chegou a saber ao certo porque
é que ela não podia pôr ovos de que nascessem operárias, apesar de ter
realizado corretamente o seu vôo nupcial, de ter sido corretamente fecundada
por uns zangões também corretos em tudo. Dizem algumas das abelhas mais
sábias que Momuca, ao regressar do seu glorioso vôo nupcial e antes de entrar
na colmeia, foi apanhada no ar por um bem-te-vi, que estava prestes a sepultá-
la nas profundezas do estômago, quando sentiu terrível ferroada na raiz do
bico (é que ele apanhara a jovem abelha muito na raiz sensível, e não na ponta
córnea do bico); dizem que, em consequência desta ferroada, o terrível
rapineiro criou juízo e largou a vítima, a qual conseguiu salvar-se no interior da
colmeia. Mas, quando começou a pôr ovos, como era de seu dever, verificou-
se que, em consequência dos maus tratos sofridos, todos os ovos que ela
punha eram ovos virgens, não fecundados, e destes, como é sabido, só
nascem zangões. Quando as antigas operárias se convenceram da desgraça,
resolveram eliminar a rainha, conforme a ordem da grande Inteligência, porque
não podiam permitir que a nação toda acabasse em zangões...
Mas, como disse, deixarei para outra ocasião a narração completa e
pormenorizada dessa história trágica, como morreu a linda Momuca, e como,
depois de orfanadas, conseguiram as abelhas escapar a total extermínio...
Para declinar de tão ingrato assunto e afugentar as nuvens de tristeza que
ensombravam a alma da amiga Sílvia, pedi que me dissesse mais alguma
coisa sobre a vida das operárias.
– Quantas abelhas campeiras há, por via de regra, em uma cidade bem
constituída? – perguntei, com os ares neutros de um repórter de imprensa.
– Umas 50.000. Algumas cidades chegam além. Mas isto depende da
fecundidade da mãe, do espaço de que dispõem, como também da colheita de
mel e pólen. Quando o espaço é pouco, não convém que a mãe ponha muitos
ovos. Mesmo assim, parte do povo resolverá, na próxima primavera, emigrar e
fundas cidade nova. Se ainda assim há falta de espaço, sai novo enxame, até
dois ou três conforme as necessidades. Cada enxame com a sua rainha.
– Mas, há tantas rainhas para cada ano?
– Há tantas quantas forem necessárias para garantir a prosperidade de cada
enxame. Colônia sem mãe é colônia morta. Nossa mãe sabe dantemão
quantas rainhas novas têm de fazer para os tempos próximos. Uma para cada
grupo. E com o primeiro grupo sai ela mesma.
– Sílvia, você está dizendo tanta coisa nova de uma vez que a minha
inteligência de homo sapiens se engasga e não pode engolir tudo isto ao
mesmo tempo. Diga-me isto, devagar, aos bocadinhos. Antes de tudo, vossa
mãe faz quantas rainhas ela quer?
– Naturalmente.
– Como é que ela faz essas rainhas?
– Ela põe no fundo de uma célula especial, maior que as outras e com forma
de casca de amendoim, um ovo fecundado, e manda dar-lhe comida regia.
– Quer dizer que esse ovo que ela põe é igual a todos os outros?
– Não, não é igual aos ovos não fecundados, donde saem os zangões. É ovo
fecundado. Só do ovo fecundado é que sai fêmea.
– Como é que ela pode pôr ovos fecundados e ovos não fecundados?
– É segredo dela. Depois do vôo nupcial ela se fecunda a si mesma, quando
quer, porque agora é macho e fêmea. O certo é que ela põe o ovo que quer, e,
como precisa de muitas fêmeas para operárias, e de poucos machos, para a
fecundação da próxima rainha, é claro que põe muitos ovos fecundados e
poucos não fecundados.
– Quer dizer que você, Sílvia, podia ter nascido rainha?
– Nasci rainha, como todas as minhas irmãs. Mas não cheguei a ser rainha.
– Por que não?
– Porque, em pequena, não recebi comida régia. Nem minhas irmãs
receberam. Só aquela que depois saiu rainha de verdade é que recebeu esse
alimento.
– Que mistério é esse de comida régia, capaz de fazer rainha?
– Comida régia é uma secreção viscosa, branca, meio ácida, produzida pelas
glândulas internas das abelhas novatas. O ovo que, desde os seis primeiros
dias da sua existência, receber deste manjar misterioso se desenvolverá em
fêmea completa. Se o não receber nesse período, só dará fêmea incompleta
incapaz de ser mãe.
– Mas, afinal de contas, que efeito produz sobre o organismo essa comida?
– Faz desenvolver os ovários, que, nas outras abelhas, atrofiam, por falta de
alimento adequado. O alimento comum só desenvolve os órgãos de que
necessita a operária para o seu trabalho específico.
Espantoso, espantoso! murmurei de mim para mim, olhando para a minha
interlocutora com grande reverência e terror. Nem parecia ser simples abelha...
A meus olhos assumia aquele serzinho minúsculo forma estranha, proporções
fantásticas... Parecia-me como que a encarnação de uma divindade que
enchesse todas as latitudes e longitudes do cosmos e residisse em cada
célula, em cada átomo, em cada eléctron do mundo microscópico... Não, aquilo
não era uma abelha, era a própria alma do Universo cristalizada num pequeno
organismo, obediente às ordens dessa inteligentíssima entidade invisível...
Senti-me tomado de grande simpatia por todas as manifestações da
Inteligência Cósmica, fosse qual fosse a forma ou o feitio da sua manifestação,
pedra, planta, inseto, ave, peixe, animal, homem, anjo – cada um desses seres
era um brado, mais ou menos forte, desse estupendo Algo ou Alguém que se
ocultava por detrás dos multiformes fenômenos da Natureza...
– Admiro as abelhas – disse, enfim, voltando a mim e encarando Sílvia. –
Vocês são um povo de heróis e de heroínas.
– Cada um está satisfeito com o papel que lhe coube – replicou ela, impassível.
– Nossa mãe vive para crear vida nova – filhos e filhas. Nossos irmãos vivem e
morrem para garantir a existência de seres femininos – operárias virgens e
rainhas mães. Nós vivemos para alimentar a todos – mãe, irmãos e irmãs.
– Quanto tempo conta viver ainda, Sílvia?
– Não conto viver. Pode ser que viva uma semana. Isto não me preocupa.
– Não acha triste morrer o indivíduo para que a espécie possa viver?
– Filosofia infeliz! – suspirou ela, meneando a cabeça e fazendo lembrar uma
professora quase desiludida de fazer seu aluno compreender o abc. Depois,
voltando-se a mim, disse com precisão e insistência: – Saiba, ó homo sapiens,
que não morre o indivíduo para que viver possa a espécie. A vida é imortal. O
indivíduo não morre, não perde a sua vida. Ele continua a viver vida perfeita e
individual no oceano imenso da vida que enche o Universo – assim como a
onda, depois de sumir no seio do mar, continua a ser, nascendo e renascendo,
em perpétua vida e eterna ressurreição...
Fechei os olhos...
E tive a impressão de ouvir cantar o hino da Vida Universal... A apoteose da
Vida Cósmica...
Êxodo Rumo a
Mundos Ignotos
Que é isto?...
A que vem esse enorme zum-zum?
Porque doidejam essas abelhas no ar, com tanto nervosismo?
Que aconteceu?
Nada aconteceu ainda, mas algo está para acontecer...
Vai haver um grande êxodo apiário, de uma das colmeias que adquiri
ultimamente. Já está superpovoada. Houve ordem de emigração em massa.
Está-se processando a divisão do reino...
– Lá vem ela! lá vem ela!... – disse uma abelha a meu lado.
– Ela, quem? – perguntei, cheio de curiosidade.
– A velha rainha da tribo.
– A velha? mas não é a rainha nova que vai sair?
– Não, quem vai sair é a velha. A nova é que vai herdar o reino. Assim é de
praxe entre nós.
Estava eu ainda meio céptico ante o que via e ouvia, quando verifiquei a
presença da velha soberana, que, desde o seu vôo nupcial, não via a luz do
sol, vivendo naquela noite eterna da colmeia, unicamente ocupada com a
propagação da espécie. Mas pode haver mais vôos nupciais sucessivos, se for
necessário, contanto que seja nos primeiros 15 dias de vida. Esses rápidos
amplexos, na luminosa vastidão do espaço, são suficientes para fazer a rainha
mãe de centenas de milhares de filhos, ou antes, de filhas.
Quando a rainha emigrante deixa as sombras da colmeia e se vê circundada
repentinamente por uma imensa onda de luz, sente-se, por instantes, como
que atordoada. Pousa no alvado da colmeia para habituar os olhos àquele
deslumbramento, e vibra ligeiramente as asas, a ver se, depois de tão longa
inatividade, ainda obedecem aos músculos do tronco de quitina escura.
Funcionam com perfeição, embora não seja mais aquela vibração espontânea
e dinâmica do dia das suas núpcias, quando se arremessava, triunfante, a
centenas de metros de altura, a ponto de perder quase de vista o delirante
bando de seus loucos amantes. Os graves deveres da maternidade lhe
modificavam o organismo e os hábitos. A sua prole monta a centenas de
milhares de indivíduos, muitos dos quais, naturalmente, já morreram, uma vez
que a operária tem apenas cinco ou seis semanas de vida.
Depois de alguns ensaios prévios, convenceu-se de que aquelas asas, apesar
de um tanto emperradas pela longa inércia, estavam em condições de lhe
transportar o pesado corpo até certa distância. Desferiu vôo, e foi pousar em
um dos ramos mais baixos dum pé de mangueira. Imediatamente, milhares de
súditos fiéis, decididos a emigrar com a soberana, se aglomeraram em torno
dela, ao ponto de a fazerem desaparecer totalmente no interior de um enorme
cacho escuro a fervilhar de corpos e asas.
E lá se deixaram elas ficar, horas e horas a fio, aparentemente inativas, mas
realizando importante trabalho de reconhecimento.
Poucas horas antes desse êxodo, havia nascido a nova princesa herdeira.
Enorme foi a agitação que cercou o berço da recém-nascida. Todas sabiam
que naquele serzinho vacilante estava o futuro da nação. Era chegado o
momento crítico e angustiante em que duas fêmeas completas e perfeitas se
encontrariam dentro da mesma cidade, no meio de um povo rigorosamente
monocrático – e duas fêmeas completas quer dizer duas rainhas – situação
insustentável por muito tempo. O aparecimento de uma nova princesa real na
colmeia equivale sempre a uma espécie de “estado de sítio”, que, em breve,
acabaria em guerra declarada e morte de uma das fêmeas. Por via de regra,
porém, prevalece o instinto de ordem e harmonia sobre os impulsos
momentâneos de violência anarquizante: a rainha-mãe emigra antes do
advento da rainha-filha.
Sentimentos estranhos e desencontrados digladiavam-se na alma da velha
soberana, quando se dispunha a abandonar a cidade e entregar tudo a sua
filha. Aquele reino tão bem organizado, os ricos favos de mel, os depósitos de
pólen e de mel, e, acima de tudo, aqueles milhares e milhares de delicados
nenezinhos, a dormirem ainda tranquilamente nos berçários de cera – tudo isto
teria de ser abandonado de um momento a outro... E a rainha emigrante se
lança a um futuro incerto, obscuro, talvez hostil, recomeçando sem nada, sabe
Deus onde e em que circunstâncias!... Troca uma opulenta e bem provida
cidade pela dolorosa desnudez de algum tronco oco, pela estreiteza incômoda
de alguma fenda de rochedo ou por algum imundo cupinzeiro vazio... Não leva
do seu grande reino uma só gotinha de mel nem um pedacinho de cera... A içá,
rainha da formiga saúva, quando sai em busca de um novo lar, leva pelo
menos, da cidade abandonada, um bocado de fungo, que planta no fundo da
sua galeria subterrânea para reiniciar a costumada fungicultura; mas a
emigrante das abelhas, além de não ser jovem como a recém-casada saúva,
não pode levar coisa alguma do seu querido reino. Tem de confiar, cega e
incondicionalmente, na providência da Natureza.
Entretanto, todas sabem que assim é que deve ser – e estão dispostas a
arrostar corajosamente as dores e incertezas do futuro...
* * *
Enquanto o negrejante cacho vivo está pendurado no ramo da mangueira, é
intenso e contínuo o vai-vem das escoteiras do enxame migratório. Todas as
regiões circunvizinhas, a quilômetros de distância, são rapidamente
esquadrinhadas. Nenhuma cavidade de tronco ou rocha, nenhum cupinzeiro
vazio deixa de ser devidamente inspecionado, a ver se serve para nela instalar
uma cidade celular.
De tempos a tempos, regressa um grupo de batedoras com a notícia de ter
descoberto um local nestas e naquelas condições, tamanho tal, localizado em
tal ou tal ponto, olhando para o leste ou oeste, sul ou norte. Imediatamente,
uma divisão de engenheiros peritos, especializados em assuntos urbanísticos,
ergue vôo e vai inspecionar o local descoberto, mas não toma resolução
definitiva enquanto não voltem todos os grupos de bandeirantes e dêm parte do
que descobriram; pois é possível que outros tenham encontrado coisa melhor,
cavidade mais ampla e em posição mais vantajosa. Só o melhor é que é
bastante bom.
Por fim, cotejando o conjunto das informações colhidas de todos os lados,
ponderados os prós e os contras, resolve o conselho dos engenheiros-
arquitetos e demais peritos, optar por um dos diversos locais descobertos. E
logo, na mais perfeita harmonia, lá se vai o enxame pelos ares, rumo à nova
residência. Nenhum protesto. Ninguém procura fazer prevalecer o seu achado
como sendo o melhor.
Isto, no caso que o apicultor não tome providências para oferecer aos
emigrantes uma caixa em que se possam instalar, providência que não ocorreu
no caso presente.
Encontraram uma velha peroba oca. O material era do melhor. Não havia
perigo de apodrecimento. As paredes eram duma resistência férrea, de fibras
arrevesadas e duríssimas, como costumam ser as dessa árvore. O interior, é
verdade, tinha os seus inconvenientes; estava cheio de gravetos e de uma
espécie de farelo; parece que uns ratos, ou mesmo gambás, em eras remotas,
haviam escolhido esse local para suas maternidades, a não ser que um casal
de pica-paus o estivesse usando como dormitório. Mas esses inconvenientes
tinham remédio, e os ex-locatários dessa ampla cavidade não deixariam de
respeitar os novos inquilinos poderosamente armados. De momento, não havia
ser algum que reclamasse esse abrigo como sendo dele.
Assim que as abelhas chegaram, puseram-se a fazer uma limpeza radical da
cavidade; pois é sabido que elas são intransigentes em matéria de asseio e
higiene. O farelo foi levado para fora, grão a grão. Os gravetos e outros corpos
pesados que não podiam ser reduzidos a detritos portáteis, foram devidamente
cobertos com uma camada de resina impermeável, isolando-os
hermeticamente do resto da casa e oferecendo, assim, aspecto mais
convidativo. A entrada era grande demais, e foi logo reduzida a um vigésimo da
abertura natural, por meio de grande quantidade de resina escura e resistente,
até formar um orifício do tamanho desejado. As abelhas sabem perfeitamente
que não convém ter entrada grande, que dificultaria uma defesa eficiente, além
de deixar entrar, por vezes, um frio excessivo dificultando a formação da cera e
matando as larvas.
Além disto, era necessário construir sobre fi entrada um ligeiro alpendre a fim
de impedir a entrada das águas pluviais, tanto mais que a abertura estava
voltada para o lado das chuvas mais fortes.
Mais alguns dias, e já vinham descendo do teto da nova residência os alvos
estalactites dos lindos favos, e a rainha pôde começar a sua sagrada tarefa de
encher de minúsculos ovinhos os alvéolos de incubação.
Mais três semanas, e saiu dos berços a primeira geração de operárias,
engrossando as fileiras de suas irmãs veteranas, muitas das quais já tinham
morrido em alguma solidão da floresta ou do campo.
Por vezes, nas suas constantes idas e vindas, algumas das abelhas da casa da
perobeira, se encontravam com suas antigas companheiras de colmeia; mas
não havia vestígio de saudades ou sentimentalismos entre elas. Cada uma
tinha a sua cidade, o seu centro de interesses, a sua grande tarefa a cumprir,
nas poucas semanas de vida. Cada uma sente-se perfeitamente “em casa”, lá
onde a chama a grande lei da vida e do trabalho. Por isto, cada abelha é feliz
no seu ambiente.
E se, daqui a um ano, aparecer nova princesa herdeira, a velha rainha lhe
entregará mais uma vez todas as riquezas da nova cidade tão laboriosamente
adquiridas, e mais uma vez sairá pelo mundo afora, em demanda de um novo
deserto que transforme em florescente paraíso de prosperidade...
Para a vigorosa juventude, sempre o melhor...
Para a fatigada velhice, o pior...
Tal é a filosofia desse enigmático Estado Cosmocrático.
Porque, onde há uma grande missão a cumprir, lá não há decrepitude senil –
sorri indefectível juventude...
Vôo Nupcial. Amor Mortífero
Mal havia a antiga rainha partido com a sua gente fiel, rumo à perobeira oca,
quando a jovem princesa e sucessora resolveu empreender a mais perigosa
aventura da sua vida. Até esse momento andara ela passeando pela cidade de
cera que sua mãe lhe deixara em herança, calma e indiferente, como se fosse
uma simples operária sem responsabilidade. A cada passo, grupos de zangões
lhe cruzavam os caminhos, tão indiferentes como a jovem virgem apiária.
Nenhum deles sabia que eles eram machos, e ela fêmea, a única fêmea
completa do vasto reino.
O corpo da gentil princesa media cerca de duas vezes o comprimento do das
operárias, sendo também bastante mais longo que o dos machos. O seu
abdome fusiforme prolongava-se muito além das asas, quando nas abelhas
comuns não ultrapassa a extremidade das mesmas.
É deveras estranha essa ignorância sexual de parte a parte, apesar de se tratar
de seres perfeitamente desenvolvidos e em pleno período de puberdade. O
que Isis me contou, mais tarde, sobre a
razão dessa ignorância é um dos mais estupendos fenômenos que a
Inteligência da Natureza já engendrou, na vasta epopéia das suas maravilhas
vivas. Machos e fêmeas vivem num paraíso sonambulesco de ingênua
inocência e virgindade; nem o mais leve desejo orgânico se manifesta em seus
corpos, apesar da promiscuidade local em que se encontram. Assim o quer a
grande Inteligência, porque o despertar da consciência sexual dentro do recinto
da colméia poderia acabar em desastre biológico, não só para a geração
imediata, mas para todo o futuro da nação; podia acarretar mesmo a extinção
da espécie. Se os zangões e a princesa virgem tivessem consciência da sua
potência genésica antes do vôo nupcial da jovem rainha, provavelmente não
existiria em nossos dias a apis mellifera. O sono temporário do instinto sexual é
essencial para a garantia de uma nação vigorosa e próspera, como vi mais
tarde pelas sábias palavras de minha amiga Isis.
A colmeia nunca vê tálamo nupcial. É um santuário virgem, dedicado
exclusivamente à alegria do trabalho e às delícias da maternidade, recinto
vedado aos amplexos de Eros e Psyché. O cenário dos amores das abelhas é
a imensidade do espaço banhado de luz. E, como a abelha ocupa elevado
lugar na escala biológica, não estranha que seus romances não sejam idílios
de suavidade lírica, e, sim, dramas de intensa tragicidade e lances mortíferos,
como sucede quase sempre nas esferas da vida superior. Quanto mais vasta é
a polaridade dos seres tanto mais violento e apaixonado é o encontro dos
sexos, porque esse encontro é uma espécie de momentânea extinção da
consciência individual, uma fusão cósmica do Eu e do Tu, que parece
despolarizar ou despersonalizar os dois elementos que se encontram. O
orgasmo sexual é um mergulho momentâneo no mar imenso da vida cósmica.
Há insetos cujos machos morrem depois do primeiro e único amplexo sexual.
Outros, como certas aranhas, são mortos pelas fêmeas. O louva-deus, além de
morto, é devorado pela companheira fecundada. No mundo das efeméridas,
morre não somente o macho mas também a fêmea, logo após o conúbio.
Na abelha, porém, o caso é mais trágico; macho não somente morre logo
depois da união, mas este mesmo ato lhe causa morte instantânea. O esposo
apiário é obrigado a suicidar-se para poder transmitir à esposa a vida potencial
que leva dentro de si. A transmissão dessa vida é para ele morte imediata. O
amor do zangão é um amor mortífero.
Mas essa morte do indivíduo vale a pena, pois equivale a milhares de vidas
novas.
Sendo que o macho, no momento da união, arranca de si, mediante uma
explosão, e transplanta para dentro do organismo feminino o seu aparelho
genital, torna-se a abelha fecundada uma hermafrodita, que, daí por diante,
através de anos inteiros, pode fecundar-se a si mesma com os elementos
espermáticos que recebeu do heróico amante. De simples fêmea que subiu,
desce das alturas fêmea-macho. Subiu virgem, e desce viúva, e toda a sua
prole nascerá órfã de pai. Toda vez que quer pôr um ovo de que nasça abelha
feminina, ela faz passá-lo pelo reservatório de esperma, isto é, fecunda-o com
os seus elementos masculinos; e deixa de o fecundar quando quer pôr um ovo
de que saia um zangão. Sendo que a nação necessita de milhares de operárias
(abelhas femininas), e apenas de poucos zangãos, por via de regra se serve a
abelha-mãe, nas suas posturas, dos germes que o esposo, ou os esposos, lhe
legaram no momento do seu audacioso suicídio de amor?*.
(*) Por muito tempo ignoravam os apicultores o verdadeiro processo pelo qual a abelha-mãe
regulava a postura de ovos fecundados e não-fecundados. Sabe-se hoje em dia que essa
diferença vem simplesmente da maior ou menor pressão que as bordas superiores da célula
exercem sobre o abdômen da rainha, no momento da postura. Sendo que as células das quais
vão sair as futuras operárias, fêmeas todas elas, são mais estreitas que as que se destinam
aos machos, e como o minúsculo ovinho é sempre colado no fundo do alvéolo, exercem as
bordas da célula menor pressão, mais forte sobre o abdômen da rainha que as das células
maiores, obrigando o ovinho em caminho do oviduto para a célula a passar pela espermoteca,
isto é, o permanente reservatório de espermatozóides que a rainha recebeu do seu heróico
amante-suicida, nas luminosas alturas do espaço. Desse ovo fecundado nasce
necessariamente uma abelha fêmea, porque, segundo leis eternas, a abelha virgem só pode
reproduzir o sexo contrário (partenogêneses, parto virginal), ao passo que, para reproduzir seu
próprio sexo, necessita do macho. Assim o exige a grande lei da polaridade.
Quando, pois, o ovinho é introduzido numa das células maiores, passa em linha reta do ovário
através do oviduto para o fundo do alvéolo de cera, sem ser atingido pelo depósito de
espermatozóides masculinos, e deste ovo sairá uma abelha macho, ou zangão. Do processo
contrário nascerá uma abelha fêmea.
Para que a rainha produza o número exato de ovos virgens de que o Estado Cosmocrático
necessita, existe um grupo de obreiras, ou damas da corte, especialistas em assunto de
maternidade e peritas do equilíbrio orgânico e das necessidades da tribo; mostram à rainha,
uma por uma, as células em que ela deve pôr os ovos. O número das obreiras é indefinido;
quanto maior, melhor, obedecendo, naturalmente, ao espaço disponível na cidade celular.
Todavia, um número excessivo de machos seria uma desgraça para a nação, uma vez que
estes consomem muito e não produzem nada, nem uma gotinha de mel nem um átomo de
cera. Basta que haja um número regular de zangãos para que, no dia memorável do vôo
nupcial da nova rainha, haja a competição necessária.
Uma boa rainha chega a pôr 2.000 a 3.000 ovos fecundados por dia, nos áureos tempos da
primavera e do verão.
É sabido que o hermafroditismo por nascença, que persiste em alguns seres
primitivos, acusa graves inconvenientes biológicos, devido à falta de polaridade
e heterogeneidade dos elementos genésicos. A abelha não nasce
hermafrodita, mas faz-se hermafrodita pelo casamento, evitando assim as
desvantagens daquele sistema primitivo, e salvando as vantagens que ela
descobre no matriarcado ou num Estado Cosmocrático constituído apenas de
seres femininos. Pois a colmeia, embora possa, por certas razões, ser
chamada monarquia, é, na realidade e pelos métodos de trabalho e consumo,
um legítimo Estado Socialista sui generis, ou antes, Cosmocrático.
É a mais perfeita Cosmocracia.
Entretanto, em vez de filosofar, vamos assistir ao fantástico vôo nupcial da
gentil princesa.
Era quase pelo fim da manhã, uma gloriosa manhã primaveril. Acabavam de
evaporar as últimas gotas do orvalho noturno, mas ainda os raios solares não
haviam atingido o máximo da sua intensidade. Pelo arvoredo circunvizinho
cantava, zumbia e chiava um mundo de seres felizes. As flores do meu jardim
estavam todas imóveis, em atitude solene, com os cálices muito abertos,
semelhando outras tantas almas em êxtases, a sorverem o inebriante mistério
que lhes vinha da longínqua divindade solar...
Nesse sugestivo momento, resolveu a formosa princesa apiária abandonar a
escuridão da cidade celular e realizar a grande epopéia da sua vida. Saiu, e
pousou uns instantes na soleira da porta, no meio de um bando de zangões,
ainda incônscios da sua natureza masculina.
Neste momento, a rainha virgem emite o seu misterioso “odor nupcial”, invisível
eflúvio afrodisíaco que enche o espaço até alguns quilômetros de distância. E
todos os machos apiários, dentro desta área, sabem que há uma rainha para
ser fecundada, e em todos desperta subitamente a consciência dormente da
sua virilidade, e voam em procura da virgem em vôo nupcial.
Foi a mais estranha maratona de resistência e velocidade, o mais fantástico
certame aéreo a que já assisti em dias de minha vida...
Quanto mais se alteava a linda fugitiva, tanto mais freneticamente vibravam as
asas dos seus loucos amantes em desenfreado arremetida. O prêmio do
certame era, para eles, de infinito valor, e uns poucos só seriam os felizardos.
Uns poucos, os mais poderosos, é que teriam o prêmio e a glória, não só de
abraçar aquele corpo lindíssimo, mas também o de serem pais de uma nação
inteira, e ascendentes de centenas de milhares, quiçá de milhões de abelhas,
através dos séculos vindouros... Que importava aos felizardos morrerem no
momento de realizar o seu sonho de amor, se vidas sem conta nasceriam
dessa morte?...
Depois de alguns momentos de vertiginoso vôo, desanima a maior parte dos
zangões; muitos, apesar dos seus esforços, voltam à terra; alguns caem
exaustos e quase sem acordo. Também, como voar tão alto se nem tinham
voado, apesar da robustez das suas asas? Estavam muito bem nutridos, todos
eles, robustos e corpulentos do mel e pólen que haviam comido em grande
abundância; mas, que adiantava toda a robustez sem exercício? 100 a 200
metros eram, para a maior parte deles, uma altura estratosférica... A princesa,
porém, voava com extraordinária rapidez e facilidade...
Havia, contudo, certo número de zangões dotados de grande resistência e que
pareciam não conhecer fadiga. De segundo a segundo diminuía a distância que
separava esses arrojados aeronautas apiários da fulgurante virgem dos seus
amores, que parecia não querer saber deles. De vez em quando, mais um,
mais dois desses valentes voadores desistiam da perseguição e vinham
caindo, caindo, como planadores avariados, às baixadas da terra...
Por fim, apenas meia dúzia de machos sustentava ainda a desenfreada
carreira... Estava chegando o termo final da dramática maratona... De repente,
do meio desse pequeno grupo de heróis, dissociavam-se uns poucos, que
reunindo todas as suas energias e compelindo as asas ao máximo da sua
capacidade vibratória, tomam a dianteira aos competidores, e, de um jacto,
apoderam-se da cobiçada amante... Um rápido amplexo – uma momentânea
confusão de corpos e asas – e está tudo terminado... E já vem os corpos dos
heróicos vencedores redemoinhando à terra, inertes, no verde relvado que
circundava a cidade celular...
Também a rainha vem descendo, devagar, em grandes espirais, de posse do
troféu da sua completa maternidade...
Se o julgar necessário para o futuro da tribo, a rainha empreenderá, neste ou
nos próximos dias, mais alguns vôos nupciais, nas mesmas condições.
Consumou-se, nesse dia, a grande aventura amorosa da jovem princesa,
felizmente sem acidentes fatais, como acontecera naquele que vitimou a
saudosa Momuca, provocando a maior tragédia biológica de que há memória
nos fastos da Apiolândia. A morte dos zangões vencedores não é considerada
acidente nem catástrofe. Têm de morrer necessariamente, porque arrancaram
do seu interior, no momento da união, o órgão fecundante, com parte das
vísceras. Também, para que viver mais tempo? Tinham de morrer em
consequência do grave ferimento – mas continuariam a viver dentro do corpo
da feliz esposa. Possivelmente, o humano sentimentalismo não concorda com
essa “crueldade”, mas o heróico suicida do amor morre satisfeito e feliz, e, se
alguém lhe perguntasse se experimentava tristeza ou dor, nem teria atinado
com o sentido de semelhante pergunta, pois não morria propriamente, mas
continuava a viver vida multiplicada ao infinito, em perpétua ressurreição e
perene juventude...
Esse vôo é necessário para que conste quem do meio daquele bando de
machos é o mais forte e possua maior soma de qualidades vitais, a fim de
garantir a seus descendentes o máximo de vitalidade.
A jovem esposa apiária, guarda dentro de uma bolsa especial (espermateca)
localizada à entrada do oviduto, os preciosos germes vitais, muitos, milhões,
utilizando-se deles à medida que for pondo ovos para abelhas femininas.
Chegada à cidade, sua cidade, desapareceu na escuridão da mesma. Daí só
sairá na próxima primavera, não já para um vôo nupcial, mas para algum
deserto, a fim de fundar novo reino na desnuda cavidade de algum tronco
distante...
Esperava eu presenciar grandes festejos na cidade apiária que celebrassem o
feliz acontecimento. Nada disto, porém, aconteceu. A nova rainha foi recebida
por um grupo de suas damas de honor, que a conduziram diretamente aos
favos de incubação, fazendo-lhe compreender que, daí por diante, o seu único
ofício era pôr ovos. Daí a dois dias, pôs a nova rainha o seu primeiro ovo. Para
isto lhe mostraram as aias o centro geométrico de um favo novo, porque é no
centro do favo que a rainha começa a postura dos ovos, alargando depois o
círculo, em espiral, até atingir as bordas do berçário. Os quatro ângulos ficam,
geralmente desocupados, e servirão como depósitos de mel e pólen para os
futuros nenezinhos. Sempre é de vantagem ter a copa perto do berço...
* * *
A vida da abelha é um misto de poesia e de prosaísmo... Àquele delírio de
prazer segue-se logo uma tediosa rotina de dever. Pela manhã, uma estupenda
apoteose de luzes em ilimitados espaços – e logo à tarde a escuridão e
estreiteza de uma colmeia. Há pouco, cortejada por centenas de jovens
amantes em delírios de paixão – e agora, e por longos anos, a monotonia de
uma maternidade, onde um grupo de aias e mestras forma sua companhia
única. Essas damas apiárias mostram à rainha, uma por uma, as células em
que ela tem de pôr ovos, e a soberana obedece docilmente às ordens de suas
irmãs e filhas...
* * *
Apenas havia a rainha entrado na cidade celular, quando alguns zangões
reapareceram à entrada da mesma. Mas foi-lhes barrado o ingresso pelas
operárias; e, como os machos não possuem ferrão, não se puderam defender
contra suas belicosas irmãs. A sentinela de plantão teve ordem de matar todo o
zangão que tentasse romper o bloqueio. Assim, os que não acabaram a
ferroadas, morreram de fome, porque não sabem cuidar de si mesmos nem
buscar uma gotinha de néctar.
Tão radical mudança produziu na vida suave e fácil dos zangões o vôo nupcial
da nova rainha...
É esta a lei da grande Inteligência...
Viva quem tem uma missão a cumprir!
Morra quem nada mais tem que fazer!
Encontro com um
Parente Antipático
– Que vergonha!
– Que escândalo!
– Que desaforo!
– E, ainda por cima, esses selvagens são parentes nossos...
– Parentes nossos?
– É o que eles dizem. E os homens também o dizem.
– Onde é que se viu abelha sem asas?
– Eles também têm asas, de vez em quando.
– Sei, sei. Criam asas, mas é só para o dia do casamento. Para o trabalho essa
gente não precisa de asas.
– Aí está! acham que o prazer é mais importante que o trabalho. Asas para o
prazer – e pernas para o trabalho! pode-se lá conceber atestado mais
vergonhoso para o caráter desse povo?...
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– Com licença – disse eu, aproximando-me das três abelhas empenhadas em
acalorada discussão. – Que aconteceu?
Entreolharam-se elas com ares de quem não entende o que se lhes diz. Não
havia nesse grupo nenhuma das minhas conhecidas. Por fim, disse uma delas,
enquanto vibrava nervosamente as asas e agitava as minúsculas antenas:
– O que aconteceu? você não vê essa selvageria aí?
Isto dizendo, a abelha apontava com as antenas para um rosal, do outro lado
da cerca do meu terreno, onde se viam os esqueletos de umas dezenas de
roseiras horrivelmente mutiladas, sem uma folha, sem uma flor, e até sem os
raminhos mais novos do último ano. O solo estava coberto de folhas e pétalas
espedaçadas. Parecia ter andado por lá, durante a noite, um alicate de
marceneiro, picando todas as folhas e pétalas...
– Quem fez isto? – perguntei, indignado.
– As malditas, naturalmente.
– Que malditas?
– Ora, as formigas. Só elas são capazes de tamanha maldade.
– Onde estão elas? não vejo nenhuma...
– Não trabalham de dia – e sabem bem por quê... Há por aí tanto passarinho
louco por petisco de formiga... Mas de noite não há que temer – e lá se vão
elas, essas salteadoras covardes. Derribaram tudo, mas não puderam carregar
toda a presa; o sol as surpreendeu. Na noite próxima continuarão a sua
selvageria...
– Não compreendo porque as formigas invadem as plantações dos homens,
quando lá fora há enormes matarias cheias de folhas.
– Elas é que sabem por quê. O que o homem planta é novo, suculento,
gostoso. Roseira é para elas iguaria de festa.
– Elas comem essas folhas?
– Não, essas folhas só servem para adubar o terreno da horta de fungos.
– Horta de fungos?
– Sim, a formiga saúva é fungicultora, como dizem os homens. Abre vastas
cavidades no fundo da terra, uma ao lado ou por cima da outra, comunicadas
entre si por galerias. As folhas que as carregadeiras cortam das árvores e
levam para o interior das “panelas”, são trituradas depois pelas formigas
domésticas e reduzidas a farinha. Esta massa farinhenta é espalhada pelo
chão e disposta em pequenos flocos por dentro das cavidades úmidas, e não
tarda a criar bolor, que são pequenos fungos ou cogumelos. Na ponta de cada
cogumelo brota um micélio, e é esta bolinha gostosa que as formigas comem e
dão de comer aos filhotes. Está vendo esse olheiro?
A inteligente abelha apontou com as antenas para um buraco de dois dedos
aberto no solo, não longe de uma das roseiras e semi-coberto pelas folhas
cortadas. Era a saída de uma das galerias subterrâneas que comunicava com
a sede central do formigueiro. A sede é sempre colocada em lugar mais
elevado, para que, no tempo das chuvas, a umidade não arruíne a cidade e os
berçários da futura geração.
– É verdade que as formigas são parentes das abelhas? – perguntei.
– Infelizmente – murmurou uma das três sem olhar para mim. – Infelizmente.
Parece que, em tempos remotos, elas tinham asas como nós, ao menos
algumas tribos. Mais tarde verificaram que as asas eram um estorvo para o
trabalho, e resolveram descartar-se delas. Também seria difícil voar com a
carga que elas costumam levar, não raro o peso do próprio corpo.
– Ainda bem que não voam – disse eu de mim para mim. – Senão, o Brasil
estaria perdido de vez. Já é grande o estrago que causam, assim mesmo sem
asas. Que seria se fossem aladas? Não há defesa contra exércitos aéreos...
* * *
Estávamos assim conversando e filosofando, quando, de improviso,
percebemos uma voz rouca e feroz a dizer:
– Ora, ora, essas abelhas hipócritas!
– Protesto! – bradaram todas as três em uníssono. Houve um momento de
silêncio e estranheza. Vi então, ao pé de uma das roseiras espoliadas, uma
corpulenta saúva, que, não se sabe porque motivo, lá se deixara ficar desde a
última noite, quando todas as suas companheiras se haviam retirado para casa
com o despontar da alvorada, como é de praxe entre as saúvas noturnas; pois
a essa hora já se ouve cantar muito passarinho de estômago vazio...
– De mais a mais – acrescentou uma das abelhas – a sua presença aqui, a
estas horas é ilegal. Você é uma saúva noturna, como todos sabem e não tem
o direito de estar aqui durante o dia. Isto é contrabando! Já é por demais a
selvageria que vocês cometem de noite – e você ainda pretende fazer
pilhagens de dia?
– O dia é de todos! – replicou a de baixo com uma risada cínica, tão cínica
como nunca ouvi igual em dias de minha vida, e isto da parte de um inseto que
eu supunha dos mais honestos do mundo, não obstante o seu espírito
destruidor.
Estávamos todos em uma grande expectativa, quando a formiga, rangendo
minazmente as duas foices ruivas das suas mandíbulas presas numa cabeça
monstruosa, prosseguiu num tom de voz cortante que nem fio de na valha:
– É verdade, destruímos as plantas porque precisamos de folhas suculentas
para as nossas hortas de cogumelos. Nossas rainhas e irmãzinhas não vivem
de terra, comem frutinha de cogumelo, que é gostoso. Mas somos honestas e
sinceras. Não ocultamos a ninguém a destruição que fazemos. O homem, pior
que nós, procura matar-nos com toda a espécie de drogas fedorentas e
malditas, líquidos e gases que envenenam a vida da gente; quando descobre a
nossa cidade, mata até os nossos nenezinhos, ninfas, ovos e tudo. Nós,
porém, nunca matamos homem algum; temos coração bom e generoso.
Destruímos abertamente o que temos de destruir – ao passo que vocês,
abelhas, tidas por fenômenos de virtuosidade, exploram diariamente todas as
flores do mundo, roubando-lhes néctar e pólen. Nós formigas, temos de
apoderar-nos do alheio – até o homem faz isto, como ainda ontem me disse a
galinha carijó, que nunca pôde chocar um só ovo dos muitos que pôs e que o
homem lhe roubou – mas nós, formigas, confessamos os nossos atos, e vocês,
abelhas, escamoteiam todo o mal que fazem, querendo passar por gente de
bem...
– Que ignorância!
– Que estupidez!
– Que sem-vergonhismo!
Assim bradaram, uma após outra, as três abelhas, vibrando furiosamente as
asas transparentes e brandindo ameaçadoramente o venenoso ferrão.
Nenhuma, contudo, teve a coragem de atacar a saúva, porque sabiam que ela
estava revestida de uma couraça impenetrável e tinha a bocarra armada de um
par de foices que, num instante, partiriam ao meio o corpo de qualquer abelha.
Finalmente, uma das três, que passava por ser a mais sensata do grupo,
prosseguiu:
– Será possível, senhora Saúva...
– Senhorita Saúva, se me faz favor. Só as nossas içás e rainhas é que são
senhoras.
– Será possível, senhorita Saúva, que vocês, formigas, que até são parentes
nossas, ignorem até ao presente dia os grandes benefícios que as abelhas
prestam às flores?
– Nunca ouvi de semelhante benefício. Será que as flores se sentem muito
honradas por suportarem o vosso gracioso corpo?...
– Você sabe o que é pólen?
– Sei. É uma poeira branca ou amarela parecida com a que nós extraímos da
terra quando abrimos os nossos túneis.
– Deus do céu, que ignorância! – exclamaram as abelhas em coro. Depois,
uma delas disse baixinho à sua companheira: Também que podia saber uma
toupeira dessas que raras vezes vê a luz do sol?...
– Que estão dizendo? – perguntou a formiga, insolente – Têm alguma
explicação a dar? qual o benefício que vocês prestam às flores?
– Que explicação se pode dar a uma creatura que confunde o pólen das flores
com o pó da terra? Fique sabendo que o barro que vocês tiram dos seus túneis
é matéria morta, ao passo que o pólen é coisa viva...
– Viva? viva? não me consta...
– É viva, sim, mas dorme. Nós fazemos com que o pólen dormente desperte
para completa vigília. O pólen desperta quando entra em contato com outro
germe, também dormente, que é um ovinho no centro da flor. Se os germes do
pólen não atingirem o ovinho, ambos continuam a dormir. E, de tanto dormir,
acabam morrendo. Mas, quando um encontra o outro, ambos acordam do
sono, e logo se abraçam cheios de amor e alegria – e então começa a nova
planta dentro da semente que os dois germes acordados produziram.
– Sei disto. Nós, lá dentro da nossa cidade de cúpulas e galerias, estudamos
muito. Içá Tanajura sabe tudo isto. Disse que é o vento que transfere o pólen
das flores para o estigma, no fundo do qual está o ovinho. Isto é, quando as
saúvas dão licença...
– Mas deve você saber que são bem poucas as plantas que se contentam com
os bons serviços do vento. A maior parte precisa do nosso auxílio. Senão
morre sem semente, sem filhos. Pergunte ao lavrador, ele é que sabe...
– Você quer fazer-me crer que as abelhas têm negócio de companhia com as
plantas?
– Temos, sim. Nós, as abelhas, prestamos às flores das plantas um serviço
vital, unindo os seus grãozinhos dormentes e despertando-os, assim, do sono.
Elas, por sua vez, nos dão o néctar e uma parte do pólen, que é alimento para
nossos filhos. E assim cada um tem o que quer.
– Folgo de saber – observou a formiga com um sorriso amarelo na cara
vermelha – que vocês são tão esplêndidas casamenteiras. Meus parabéns!
Entretanto, nada fazem de graça. Fazem-se muito bem pagas por seus
serviços. Ouvi dizer que as plantas criaram flores com néctar, só para lhes
pagarem a colaboração, porque de graça vocês não fazem nada, nada...
– Já se vê que vocês não têm idéia da ordem da Natureza. Também, que
conhecimentos podia possuir quem vive no fundo da terra, e só sai de noite,
para destruir tudo o que outros construíram?
A saúva ouviu essa tremenda catilinária, e não replicou, limitando-se a sorrir
com um sorriso ainda mais amarelo do que a princípio e escancarando uma
bocarra que pareciam sete. Prosseguiu a abelha conferencista:
– Fique, pois, sabendo que a Natureza toda é uma sociedade de irmãos e
irmãs. Ninguém pode viver e prosperar sem os outros. A colaboração recíproca
é necessária. Cada um tem de ajudar os outros. Até o melhor e mais sábio dos
homens que viveu sobre a face da terra disse isto, que cada um deve amar seu
semelhante como a si mesmo. É o que nós fazemos.
– Muito bem, apoiado! – exclamou a saúva. Depois, olhando de esguelha para
as abelhas, armou uma carranca tão hedionda que as três de cima tiveram a
impressão de não somente ver, mas até ouvir e sentir essa hediondez da
formiga rapineira. Uma das abelhas quase desmaiou ao presenciar tamanha
fealdade. Outra murmurou baixinho: “E ela é nossa parenta...”
Houve um silêncio inquietante. Ninguém sabia bem o que pensar e dizer.
Finalmente, observou a saúva, com diabólico cinismo:
– Já que somos todos irmãos e irmãs, faço constar ao sapientíssimo povo das
abelhas, melíferas e altruístas, o seguinte: nós, as saúvas, não somos
lambiscadores de gulodices, como as crianças; somos uma raça vigorosa e nos
alimentamos de fungos auto-fabricados.
– De fungos, ou de folhas? – interveio a abelha.
– De fungos, de verdadeiros fungos auto-fabricados! – berrou a saúva. –
Reduzimos as folhas a farelo, em nossas panelas, também auto-fabricadas, e
do farelo saem os fungos. Ora, uma vez que não gostamos de mel, mas
sentimos a fraternidade de todos os seres do Universo, resolvi convidar nossas
parentas negras, as formigas sara-sara, grandes amigas de mel, para
invadirem a vossa cidade, na próxima noite, logo após a visita da lua. Dizem
que coisa roubada é mais gostosa, e, quando roubada duas vezes, como o
vosso mel – por vós e por nós – deve ser gostosíssimo...
– Que cinismo!
– Que insolência!
– Que sem-vergonhismo!
Assim bradaram todas a uma voz. De repente disse uma das três, com ares de
coragem e desafio:
– Estão todas convidadas. As invasoras que não morrerem afogadas na água
que rodeia a nossa cidade, terão um banquete de vinte mil ferroadas!
– Até à noite! – bradou uma.
– Bom apetite! – gargalhou outra.
– Adeus à sua vida! – gritou a terceira.
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A saúva não disse nada, mas pensava muito. E, quando as três abelhas foram
à procura da saúva não a encontraram mais...
A formiga desaparecera na escuridão do seu túnel, bem mais sábia do que
viera...
E de longe, bem de longe, julgavam as abelhas ouvir umas vozes,
entrecortadas de gargalhadas, que diziam:
– Bela fraternidade essa!... há, há, há!...magnífico altruísmo, esse!... há, há,
há!...
Elixir de Vida e Juventude
Havia muito tempo que eu estava com vontade de fazer a Isis uma pergunta
sobre a tal geléia real, de que tanto falam os homens e da qual esperam vida
longa e eterna juventude. Fiz diversas tentativas para abordar este assunto;
mas Isis dava respostas evasivas. Parecia estar com receio de profanar um
mistério como este. Ou, quem sabe? não julgava possível que a pequena
inteligência do homo sapiens compreendesse tal coisa.
Finalmente, porém, ela atendeu às minhas interrogações, a primeira das quais
foi esta:
– Amiga Isis, você faz geléia real?
– Já fiz, mas não faço mais.
– Por que não faz mais?
– Essa substância vem somente de abelhas em plena juventude, entre 8 e 12
dias da sua vida.
– É verdade que vossa rainha só come dessa substância?
– É exato. E por isto ela vive muito tempo.
– Quanto tempo vive ela?
– Umas cinco primaveras.
– E vocês, as operárias? vivem quanto tempo?
– Uns 40 ou 50 sóis.
– Em nossa linguagem humana, a rainha vive 5 anos, e vocês vivem 50 dias.
Quer dizer que a rainha vive quase 40 vezes mais do que vocês, por que come
geléia real?
– Quem sabe disto é a grande Inteligência.
– O homem vive uns 60 anos. Se ele comesse geléia real, viveria cerca de
2.400 anos...
A esta minha observação, Isis fez uma carinha tão zombeteira que me
envergonhei da pergunta. Mesmo sem ulterior interrogação, compreendi que
minha pergunta era absurda. A geléia real atua sobre um corpo de inseto, e
não de um mamífero. Pouco a pouco, cheguei a concluir das palavras
misteriosas de Isis que a vitalidade dessa substância não está nos 90% e tanto
dos componentes que a nossa ciência pode analisar, mas precisamente na
parte inanalisável, que deve ser a alma do Universo que se manifesta pelo
corpo analisável.
– Há depósito de geléia real na colmeia? – perguntei.
– Nenhum. Esse elixir de vida vem da grande Inteligência e passa por umas
glândulas que as abelhas jovens têm na faringe; daí vai diretamente para a
boca da rainha, ou para os ovos e as larvas novas nos berços.
– Estou vendo, Isis, que o comércio que nós fazemos da geléia real é uma
fraude, porque é de uma substância sem alma viva.
– A nossa geléia vem da vida e vai para a vida. O que os homens comem são
apenas os veículos materiais da vida imaterial.
– A vida seria rádio-atividade?
– A vida não tem nome. O que se pode dizer ou pensar não é a vida. A vida só
pode ser vivida.
Despedi-me de Isis e, enquanto voltava para casa continuei mais cosmo-
pensado do que ego-pensante. Tive a impressão de que a alma do próprio
Universo pensava e vivia através de mim. E tive ao mesmo tempo a estranha
intuição de que a alma do Universo não pode ser pensada nem falada, mas só
deve ser calada e vivida em profundo silêncio, para não ser adulterada e
profanizada. O que se de pensar está falsificado; e o que se pode dizer, além
de pensar, está duplamente falsificado. Verdadeiro e genuíno é só aquilo que
não se pode pensar nem dizer, mas intuir e sentir silenciosamente. Só a voz do
Silêncio nos revela a verdade sobre o Universo.
Por fim, a voz do Silêncio me segredou à alma que também para o homem há
um elixir de vida e juventude, que ele pode sugar da alma do Universo; é de
outra natureza que essa vitalidade recebida pelas abelhas jovens. Tentei dar
um nome a esse elixir vital, mas desisti da tentativa, porque já sabia que
pensar é falsificar.
Por isto, saboreei em profundo silêncio o meu delicioso segredo anônimo...
Elixir de vida e juventude...
O que Zumbeca disse a Isis
Numa dessas manhãs radiantes, viu Isis um arbusto cheio de flores brancas.
Mais que depressa voou para lá em busca de néctar e pólen. Enquanto lá
estava, viu pela primeira vez umas abelhas da mesma raça que os homens
chamam Apis mellifera, mas um pouco diferentes dela; eram ligeiramente
acinzentadas e voavam de certo jeito.
Uma dessas abelhas estava arrumando uns grãozinhos de pólen amarelo nas
colherzinhas das pernas trazeiras e levá-los para casa, que era um velho
cupinzeiro de barro avermelhado.
A princípio, Isis estranhou que aquilo fosse a casa das abelhas acinzentadas.
Finalmente, animou-se a apresentar-se, meio encabulada, a uma das abelhas,
dizendo:
– Com licença, meu nome é Isis.
– Meu nome é Zumbeca – respondeu a outra secamente, desaparecendo no
fundo dum cálice de flor. Quando Zumbeca tornou a sair do cálice. Isis lhe
perguntou:
– Aquilo aí é sua casa?
– É minha casa, sim – respondeu a outra.
– Mas por que mora você numa casa de barro? num cupinzeiro abandonado?
– E você, onde mora?
– Eu moro numa linda casa de madeira, lá encima.
– Numa peroba oca?
– Não, a minha casa é de tábuas, bonita e espaçosa.
– Ah, já sei, já sei... Você é amiga dos homens. Nós detestamos o homem,
nosso maior inimigo, que nos rouba tudo e destrói a nossa casa.
– De que homem está falando você, Zumbeca?
– Do homem da nossa terra, da terra dos meus antepassados.
– Da África, não é? Mas aqui estamos no Brasil...
– E aqui os homens não são monstros, como os de lá?
– Não me consta.
– Os meus antepassados me contaram que os homens roubam o nosso mel e
o nosso pólen, matam as nossas filhas, mesmo no berço, e arrasam a nossa
casa; e temos de reconstruir tudo de novo. Por isto, nós caímos em enxames
sobre os homens para matá-los.
Houve um longo silêncio. Pela primeira vez, compreendeu Isis o motivo da
ferocidade das abelhas africanas e africanizadas, de que ouvira falar. Elas não
eram ferozes por natureza – tanto assim que eram da mesma raça das abelhas
da Europa e da Ásia. Os homens, através de milhares de anos de ferocidade,
as haviam tornado ferozes. Na Europa e outros países, os apicultores eram
amigos das abelhas, faziam para elas casas agradáveis, até mobiliadas e,
quando escasseava o néctar das flores, os homens forneciam-lhes xarope de
açúcar. Tiravam-lhes, é verdade, algum mel, mas não lhes matavam as larvas
nem lhes destruíam a casa.
Isis fez ver que, algum dia, Zumbeca e suas irmãs seriam tão amigas dos
homens como ela. Amizade gera amizade.
– Quando acontecerá isto? – perguntou Zumbeca, e armou uma carranca tão
medonha que até parecia doer.
– Quando, não sei; mas vai acontecer. Vocês estão no Brasil há poucos
decênios, como ouvi dizer, depois de terem vivido na África milhares de anos.
Algum dia, vocês se tornarão tão amigas do homem como somos nós.
Zumbeca desapareceu, rumo ao cupinzeiro, pensando nas palavras de Isis,
mas com pouca fé no seu otimismo.
Será que no Brasil haverá desses homens de que ela falava?...
A História Trágica de Momuca
Prometi aos leitores contar-lhes o que Sílvia me disse da vida trágica da rainha
Momuca. Contei-lhes apenas uns poucos episódios dessa pavorosa tragédia
biológica – como a jovem soberana empreendeu o seu vôo nupcial, casou-se
nas luminosas alturas do céu, desceu, e caiu no poder de um bem-te-vi,
conseguindo escapar, mas ficando aleijada pela vida inteira, incapaz de
exercer as suas funções de mãe da grande tribo.
Entretanto, o mais trágico veio depois. Não o quis contar naquele dia, por ser
uma história demasiado lúgubre para ser contada em dia de sol e cantos de
passarinhos.
Hoje, porém, o dia é triste. O sol nem teve a coragem de abrir as cortinas
douradas do seu leito, lá para as bandas do oriente. Parece que ainda está
dormindo, apesar de ser quase meio-dia, se é que não morreu... A Natureza
toda está de luto... O céu apagou do rosto a linda cor azul e cobriu-se de um
véu de cinza, como faziam os povos antigos em sinal de tristeza. Ainda assim,
não consegue ocultar o seu pranto: milhares de lágrimas miúdas saltam
através desse véu cinzento e umedecem a terra cá embaixo, também coberta
de melancolia... As borboletas e os besouros, aliás tão madrugadores, nem
saíram de casa... Apenas alguns passarinhos pipilam baixinho, baixinho, como
se estivessem com medo de cantar alto, num dia de tristeza universal...
Este dia é bem próprio para contar histórias sombrias e melancólicas. Resolvi,
pois, narrar, hoje, a grande tragédia da bela Momuca.
Sim, da bela Momuca, porque é voz unânime em todas as cidades celulares
que dela guardam lembrança, que Momuca era a abelha mais linda e perfeita
que já foi iluminada pelo sol do firmamento. Forte, elegante, flexível, com umas
asas magníficas, e todo o corpo coberto de uma penugem dourada, ocultando
quase a cor morena da sua couraça de quitina. Esse abundante frouxel cor de
ouro, dizem os entendidos, é sinal de raça e indício de grande vitalidade. Os
dois olhos hemisféricos de Momuca eram de tal perfeição e fulgor que, quando
os quatrocentos e quarenta e quatro zangões a viram fora da colmeia a
levantar vôo, consta que duzentos e vinte e dois deles caíram fulminados de
estupefação e assombro, e nem puderam voar no encalço da formosa princesa
para o amplexo de amor nas alturas do céu. Assim, pelo menos, narrou Sílvia,
e o que ela diz merece confiança. Melhor para eles, acrescentou Sílvia,
morrerem assim, de estupor, em vez de serem pelas operárias apunhalados,
ou então definharem de fome fora da cidade, como aconteceu aos outros
zangões que não tiveram a felicidade de serem fulminados pelo esplendor
mortífero dos olhos da jovem rainha.
Depois de realizar o seu magnífico vôo nupcial, por entre a apoteose de todos
os raios solares, de todos os perfumes das flores e de todos os hinos da
passarinhada, voltou Momuca, com o futuro glorioso da nação nas entranhas –
quando lhe sucedeu algo que, como disse Sílvia, está envolto em eterno
mistério, mas que muitos atribuem à inesperada agressão por parte de um
insolente bem-te-vi, como já ficou dito.
O certo é que Momuca, de regresso à colmeia, não pôde pôr ovos fecundados
de que saissem operárias ou rainhas, como aliás pode toda a soberana normal.
E como dos ovos não fecundados só nascem zangões, que não trabalham,
acabaria a nação toda sob o flagelo de abelhas que consomem e não
produzem.
– Mataram Momuca? – perguntei.
– Não – respondeu Isis – Deixaram-na morrer. Não é permitido às nossas
operárias enterrarem o ferrão mortífero no corpo de uma rainha, mesmo que
esta fosse a maior das criminosas. Por outro lado, também uma rainha nunca
voltará a terrível arma contra uma simples operária ou contra um zangão. Entre
nós, só se luta de igual para igual, nunca entre inferior e superior. É ordem da
grande Inteligência. Se duas rainhas se encontram, lutam até morrer uma, ou
as duas, alfange contra alfange...
– Que quer dizer isto?
– As rainhas têm ferrão recurvo como alfanges turcos, enquanto o das
operárias é reto como um punhal.
– Você disse, Isis, que as abelhas não mataram a infeliz rainha, mas a
deixaram morrer; como assim?...
– Isto é praxe entre nós, quando temos de eliminar do meio dos vivos uma
rainha, como dizem vocês. Fazemos com que ela morra, mas não a matamos.
– Explique-me isto, por favor, Isis.
– As operárias cercaram Momuca, formando uma muralha circular com seus
corpos. Foram fechando cada vez mais o círculo, até acabar numa abóbada,
isolando completamente a prisioneira. A princípio tentou ela romper o cerco,
mas, como não se pudesse servir do seu alfange, foram inúteis todas as
tentativas de evasão. A muralha viva das operárias era que nem rocha viva.
Por muito tempo ouviam-se os dolorosos gemidos e o violento vibrar de asas
de Momuca, enterrada viva. O silêncio das sitiantes era absoluto, como se
estivessem fazendo cera.
Nesta altura, interrompeu Isis a sua narração, baixou a cabeça e arriou as
minúsculas antenas como duas bandeiras a meia-haste. Não chorou, porque
os olhos dos insetos não têm lágrimas, mas trazia o coração despedaçado de
dor.
Durante esse lúgubre silêncio lembrei-me subitamente do que, em tempos
antigos, havia lido sobre as Vestais de Roma, essas sacerdotisas da deusa
Vesta, que eram enterradas vivas no caso que deixassem apagar o fogo
sagrado e assim comprometessem a segurança da pátria. Para distrair do seu
lúgubre cismar a minha amiga alada contei-lhe por extenso essa história. A
princípio, Isis pareceu não compreender a analogia, uma vez que as Vestais
eram punidas de morte por terem deixado apagar o fogo sagrado, enquanto
Momuca morria por não poder transmitir o fogo da vida. Mas, quando lhe fiz ver
que tanto esta como aquela estavam encarregadas de manter aceso o fogo
sagrado de cuja chama dependia o destino da pátria, Isis compreendeu e
disse, suspirando pesadamente: É verdade... Momuca não manteve aceso o
fogo sagrado da vida que devia transmitir à posteridade. Extinguiu-se dentro
dela a chama de todas as vidas futuras que devia produzir...
– Mas, sem culpa dela – acrescentei eu, a meia voz.
– Sem culpa dela – concordou Isis. – A morte que ela sofreu não foi castigo de
uma culpa, foi a execução de uma lei, de uma ordem da grande Inteligência.
Entre nós, ninguém é culpado, ninguém é punido, nem mesmo os zangões
quando são mortos, nem a rainha quando, por infecunda, é eliminada do meio
dos vivos. É cumprimento de uma lei eterna, para manter a harmonia da vida...
– E Momuca morreu?
– Morreu de morte natural, no segundo dia do cerco, e o seu lindo corpo foi
levado para fora da cidade, o mais longe possível...
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Houve uma longa pausa; Isis conservava-se imóvel, tão imóvel como eu nunca
julgara pudesse estar uma abelha; parecia petrificada. Tão grande era o
silêncio em derredor de nós que julguei até perceber o caminhar das sombras
da tarde sobre os cadáveres morenos das folhas secas esparsas pelo chão...
Parece que a Natureza toda suspendia a respiração ao ouvir o triste necrológio
de uma das suas filhas mais belas e perfeitas...
Depois de largo tempo, animei-me a interromper essa quietude pesada e
lúgubre, perguntando:
– E que é feito da tribo orfanada?
– Por um tris extinguira-se a nação toda. A princípio, como é costume entre
nós, no meio de tamanha desgraça, as operárias choraram o seu choro de
órfãs...
– Choro de órfãs, que é isto?
– É um zumbido especial, muito triste, que elas produzem com as asas, a fim
de aliciar alguma rainha sem casa que, porventura, percorra os ares. Todas as
rainhas conhecem esse choro das órfãs. Mas não havia pelos arredores rainha
sem reino, e as que têm reino não podem atender ao clamor das órfãs. Depois,
todas as operárias se perfumaram, a ver se à força de bons cheiros
conseguiam chamar em seu socorro uma rainha erradia. Mas foi tudo inútil...
– Donde tiraram elas os perfumes? das flores?
– Não. É um perfume especial que as abelhas segregam do próprio corpo e
espalham no ar, em caso de orfandade. Você nunca viu abelhas órfãs, nem
poderia com seu olfato primitivo perceber esse cheiro de socorro, que vai muito
longe, pelos ares afora. Tudo inútil. Ainda por algum tempo houve nascimentos,
pois havia larvas da rainha que partira com o enxame, quando deixou o reino à
sua filha, a formosa Momuca. Mas, como não houvesse mãe capaz de pôr
ovos fecundados, dentro de 21 dias deixaria fatalmente de haver nascimentos
– e então, adeus, nação inteira! só haveria mortes e mais mortes sem
nascimento algum... Já estava começando o período fatal, quando algumas
operárias, muitas mesmo, usurparam o cargo sagrado da rainha e resolveram
pôr ovos...
– Como? as operárias podem pôr ovos?
– Podem, sim, desde que tomem da geléia real, que tem o poder de
desenvolver os ovários.
– Onde estava essa geléia real?
– Foi lhes fornecida pelas novatas, ou foi roubada das células das crias.
– E que aconteceu? salvaram do extermínio a nação?
– Qual, nada! essa loucura das operárias poedeiras só lhe acelerou a ruina...
– Como assim?
– Porque os ovos que alguma das operarias possa pôr são ovos virgens, não
fecundados, e destes só nascem zangões, que comem muito e não trabalham
nada – e qual a sorte de um povo que só consome e não produz?
– Mas... não havia zangões para fecundar alguma operária, e assim facultar-lhe
a postura de ovos fecundados, para operárias?...
– Nenhuma operária pode ser fecundada senão no princípio da sua vida...
– E assim se extinguiu a colmeia toda?...
– Ter-se-ia extinto se não viesse um salvador...
– Que salvador?
– O homem...
– Que pode o homem fazer num caso desses?
– O homem deu nova rainha ao povo orfanado. Não sei donde ele tira essa
rainha, mas o fato é que, depois da morte trágica de Momuca, antes que fosse
tarde, o homem pôs uma rainha já fecundada no meio da colmeia. Queria ele
que as órfãs aceitassem, assim sem mais nem menos, essa estrangeira; mas
elas não a aceitaram.
– Não a aceitaram? pois não andavam aflitas por uma rainha?...
– Não a aceitaram a princípio, porque ela não tinha o cheiro de casa.
– Cheiro de casa, que é isto?
– Sim, o cheiro de casa. Não sabe você que cada cidade apiária tem o seu
cheiro característico? Quem não tem esse cheiro não é aceito. As abelhas
preferem morrer todas a aceitar uma rainha que não tenha cheiro legítimo,
doméstico, nacional. É ordem da grande Inteligência, contra a qual não há lei.
– Mataram a rainha que o homem lhes deu?
– Não a mataram, porque o homem, vendo a recusa, teve juízo e lhe deu o
cheiro de casa.
– Como assim?
– Dissolveu um pouco de mel em água e com esta doçura cheirosa borrifou a
rainha e todas as abelhas em derredor. Assim, deixou de haver diferença de
cheiros, tudo era um cheiro só, cheiro de mel, cheiro gostoso e querido a
qualquer abelha. Lamberam o mel do corpo da rainha estrangeira e fizeram as
pazes com ela. E assim salvou-se da ruína a grande cidade onde Momuca
devia ser rainha.
É esta a história trágica da formosa rainha.
Tudo isto me contou Isis, mas assim como só uma abelha sabe contar a
tragédia de outra abelha.
A lembrança de Momuca perdura na cidade celular e é contada a todas as
princesas virgens, antes do seu vôo nupcial, para que tomem cuidado e não
caiam em poder de um bem-te-vi ou de outro inimigo.
O que Isis me Disse
sobre Cosmocracia
e como Adormeceu
para Sempre
Numa daquelas tardes encontrei, inesperadamente, minha amiga Isis, no fundo
do meu jardim, imóvel, sobre uma folha de maracujá. Sendo que o sol já se
recolhera para além do horizonte, estranhei que a abelha lá estivesse, sozinha,
quando, a essas horas, costumam as operárias estar recolhidas à colmeia,
repousando dos grandes vôos diurnos e ocupadas em trabalhos domésticos.
– Olá, amiga Isis! que está a fazer aqui a estas horas? – perguntei-lhe
amavelmente.
– Vim aqui para morrer – respondeu ela, com perfeita calma e serenidade.
– Como? para morrer?
– Sim, para morrer. Terminaram os meus cinquenta sóis de vida e trabalho.
Olha como estão rotas as minhas asas, de tanto voar.
De fato, aquelas duas membranas transparentes, presas de cada lado do tórax,
e reforçadas, na base, por mais outras menores, pareciam um par de bandeiras
esfarrapadas ao vento ou crivadas de balas em muitos campos de batalha.
Verifiquei também que Isis perdera quase toda aquela delicada penugem que,
a princípio, costuma cobrir o corpo das abelhas; sua couraça de quitina estava
lisa, luzidia, puída de tanto atrito atmosférico, parecendo por isto mais escura
que a das abelhas jovens.
– Está triste, Isis?
– Triste, por quê?
– Porque vai morrer...
– Oh não! morrer é tão bom como viver.
– E por que não morre em casa, no meio de suas amigas?
– Para nascer, a abelha precisa de outros; para morrer, basta ela só. Lá em
casa nascem cada dia milhares de abelhas novas, e aqui fora morrem outras
tantas. Que trabalho seria para as outras terem de levar para fora, cada dia,
tantos corpos! Por isto, cada uma de nós, quando sente chegar o fim da vida,
vai para longe e despede-se do sol e das flores em completa solidão. Para
viver precisamos da sociedade; para morrer, gostamos da solidão.
Mais uma vez, como em outras ocasiões, sobreveio-me a sensação estranha,
quase terrífica; tinha a impressão de me ver face a face com algo que não era
aquele pequenino inseto; com alguma entidade cósmica, grande, sublime,
eterna – como a própria Alma do Universo... Aquela abelha não era senão um
postigo pelo qual eu lançava um olhar para dentro de mundos de infinita
grandeza e nunca sonhadas maravilhas. Senti-me circundado de mistérios e
empolgado de assombro... Estaria sonhando? arrebatado a regiões do além?...
vítima de uma miragem quimérica?...
Não, não era sonho nem quimera... As coisas ao redor de mim eram reais,
concretas, palpáveis... As árvores, a cerca, as pedras, o pé de maracujá, tudo
isto existia de fato, objetivamente, e não apenas no meu mundo subjetivo...
– Quanto tempo ainda tem de vida? – perguntei a Isis, que se conservava
imóvel, como se já estivesse morta.
– Quando morrer no horizonte o derradeiro clarão da luz – respondeu ela –
adormecerei para sempre... Até esse momento, sou sua amiga e responderei
às suas perguntas...
Dizendo isto, Isis olhou para mim com tanta bondade e simpatia que tive
vontade imensa de abraçá-la, se ela tivesse compreendido a significação de
semelhante gesto humano.
– Isis – disse eu, com vagar e solenidade – Você, que conhece tantas coisas
que nós, homens, ignoramos, revele-me o segredo dessa admirável ordem e
harmonia que faz da vossa vida e do vosso Estado uma epopéia de poesia e
beleza. Nós, os homens, só conseguimos viver e trabalhar em paz quando
estamos a sós; onde há dois, há discórdia; onde há três há briga; onde há
muitos há guerra. E na vossa cidade vivem dezenas de milhares de indivíduos
na mais perfeita paz e felicidade. Não há rivalidades. Não há luta de classes.
Cada um executa com prazer o trabalho que lhe toca e encontra felicidade em
tornar felizes os outros. A rainha vive em escuridão e monotonia, pondo ovos e
garantindo o futuro da nação, e não inveja as operárias, que, dia a dia,
percorrem a vastidão das campinas e gozam das maravilhas do sol e do
perfume das flores. As operárias sentem-se felizes em recolher néctar e pólen
para todos, esquecendo-se quase de si mesmas; nem se exasperam com a
indolência e os maus modos dos zangões. Estes, por sua vez, depois do vôo
nupcial da nova rainha, morrem sem protesto e sem terem gozado um
momento de amor, para o qual cada um julgava ter nascido; e os poucos
felizardos que conseguem abraçar a formosa virgem têm de morrer no mesmo
instante, e não maldizem a sua sorte. A vossa soberana, a seu tempo, entrega
à sua sucessora todos os tesouros da colmeia e recomeça a vida na maior
pobreza, longe da pátria – e sente-se perfeitamente feliz. Quando alguém vos
rouba o mel e a cera, recomeçais de novo a árdua tarefa e trabalhais com o
mesmo gosto que da primeira vez. Diga-me, Isis, como consegue a vossa
rainha organizar tão perfeita sociedade e garantir tão admirável harmonia?
– Não temos rainha, só temos mãe.
– E essa mãe não vos dirige e governa?
– Não, não temos governo algum que nos dirija. Isto é um costume humano,
que as abelhas ignoram. Entre nós não há indivíduo algum que dê ordens.
– Mas, por favor, Isis, explique-me como é possível que milhares e milhares de
abelhas, sem direção alguma, trabalhem para o mesmo fim e em perfeita
harmonia? como é que cada uma, desde a hora do seu nascimento, sabe
perfeitamente o que tem de fazer e o modo como tem de executar o seu,
trabalho?
Isis permaneceu calada por muito tempo, como se estivesse em busca de uma
resposta. Pois sabia que o homem é, geralmente, guiado por sua pequena
inteligência, e raras vezes percebe a voz da grande Inteligência. Por fim, disse-
me vagarosamente;
– Entre seres como vós, que se guiam pela inteligência individual, é necessário
que haja alguém, investido de autoridade, que dê ordens, e que os demais
obedeçam a essas ordens. Do contrário, um vai para cá e outro para lá, e não
é possível colaboração uniforme e prosperidade social. Mas, onde há seres
não dotados de inteligência individual não é necessário esse governo.
– E vós, abelhas, não sois dotadas de inteligência?
– Não, nós não possuímos inteligência individual como vós. Agimos por
instinto, de acordo com o impulso cósmico da Alma do Universo. Cada uma de
nós é uma parte integrante da Inteligência Cósmica, da qual não está desligada
por uma inteligência individual, como os seres humanos. Cada abelha é como
que uma pequena célula do grande organismo, como diriam vossos livros.
Quantas células tem você no seu corpo?
– Diversos bilhões.
– Pois eu, esta abelha Isis, sinto-me como uma célula no grande organismo da
nossa tribo, e do infinito Cosmos. Hoje terminei o meu serviço, e vou ser
substituída por outra célula. Satisfeita, cedo o meu lugar. Sou uma célula gasta,
que deve ser substituída por outra, jovem e forte, pelo bem do Todo...
– Isis, as suas palavras enchem-me o espírito de pensamentos estranhos.
Tanto mais perfeito é um governo quanto mais cósmico?
– É como diz. Tudo que é belo e grande tem caráter cósmico. Também o
indivíduo é tanto mais perfeito quanto mais cósmico, servidor do Todo,
panorâmico, universal, amigo de seus semelhantes, uma nota pura sintonizada
pela grande sinfonia do Universo...
– Uma sociedade orientada por um fator cósmico seria então uma
Cosmocracia...
– Exatamente, muitos indivíduos, governados, não por outro indivíduo, mas
pela grande Alma do Universo, refletida na consciência de cada um. Seria o
ideal.
– Entre nós, homens, há indivíduos que se arvoram em chefes e soberanos por
conta própria, sem consultar a alma do Cosmos.
– Que aberração! Nunca pensei que entre seres racionais fosse possível
tamanha irracionalidade. É um crime contra a Grande Inteligência...
– Mas a parte mais sã da humanidade pensa e age de outro modo: os próprios
indivíduos designam aquele por quem querem ser governados.
– Já é meio caminho andado, rumo à Cosmocracia; mas ainda está longe do
termo da jornada. Nós não escolhemos soberano algum. Não há intermediário
entre nós e a Alma do Universo. É esta própria Alma, a grande Inteligência, a
infinita Realidade, a suprema Divindade, que nos rege e governa. Quando os
homens chegarem à perfeição, saberão governar-se a si mesmos, sem chefe
nem intermediário algum. Não haverá ordens vindas de fora, só haverá uma
ordem vinda de dentro, eco daquele grande Imperativo do Universo que tudo
dirige com força e suavidade, de um a outro extremo do Cosmos. Quando o
vosso dever se transformar em querer, e esse delicioso querer se identificar
plenamente com o onipotente dever então será perfeita a vossa harmonia
social, e perfeita será também a vossa felicidade individual. E a vossa
harmonia e felicidade serão infinitamente maiores do que as do povo das
abelhas...
– Pelo que vejo, Isis, vós, o povo das abelhas, sois muito mais avançados no
caminho da evolução do que nós, os homens.
– É engano, grande engano, amigo homem! A nossa Cosmocracia é muito
imperfeita.
– Como assim, amiga Isis?
– Porque nem atingiu o nível da inteligência individual, que é a atmosfera da
humanidade. Essa inteligência individual é o vosso maior privilégio – e também
o vosso maior perigo. Ai de quem parar nesse nível e se negar a ultrapassar
esse estágio evolutivo!... Dia virá, porém, após muitos milhares de primaveras,
dia virá em que o homem inteligente de hoje atingirá as luminosas alturas da
racionalidade, ou, como dizem os vossos livros, da espiritualidade. Terminará
então a luta de indivíduo contra indivíduo, de grupo contra grupo. Será
proclamada a grande lei Cósmica, do amor espontâneo e universal – a perfeita
e definitiva Cosmocracia...
Isis proferiu estas últimas palavras com tamanha convicção e tão vibrante
entusiasmo que seus olhos de opala, semi-extintos, se reacenderam com
subitâneo fulgor, e seu gracioso corpinho, exausto de fadiga, parecia
rejuvenescer milagrosamente. Imóvel, na verde superfície da folha de
maracujá, parecia como que enlevada numa visão profética sobre o glorioso
futuro da humanidade, e, baixinho, bem baixinho, murmurou: Somos felizes...
em servir a creaturas de tão altos destinos como o homem...
Também eu me quedei, imóvel, por largo tempo, enquanto os derradeiros
reflexos sanguíneos do sol agonizavam silenciosamente sobre as folhas e
flores em derredor e a vanguarda da noite derrotava impiedosamente a
retaguarda do dia... O mundo inteiro jazia envolto num fantástico halo de
inefável poesia e divino misticismo...
E a meus olhos internos surgiu a visão feérica de um vulto – o “Filho do
Homem” cercado de um pugilo de amigos a atravessarem vastos trigais
tangidos pelo hálito das brisas vespertinas... Suspendi a respiração para ouvir
o que esse homem estranho dizia a seus seguidores. Percebi que falava da
grande Cosmocracia do futuro – já presente nele – ou, como ele costumava
dizer, o Reino de Deus a ser proclamado sobre a face da terra, o reino da
compreensão e da bem-querença, o reino do altruísmo e do amor universal, o
reino da paz e da harmonia perfeita, o reino da felicidade e beatitude sem
limites... Falava do tempo glorioso quando o homem, esse semi-homem de
hoje, se tornasse o pleni-homem de amanhã; quando o homem integral e
plenamente adulto na sua racionalidade espiritual, não só amasse o seu
pequeno ego, mas também o grande Tu de seu semelhante; quando o homem
tomasse o amor que naturalmente tem a si mesmo, como norma e norte para o
amor que votaria a todo e qualquer ser humano. E os próprios seres infra-
humanos deixariam de ser objetos e vítimas de exploração da parte dos
egoístas humanos, passando a ser amigos e aliados do homem espiritualizado
pela compreensão e pelo amor universal do Deus do mundo em todos os
mundos de Deus. A Natureza andaria de mãos dadas com o homem redento
da ignorância do seu egoísmo e da irredenção do seu ódio, abrindo-lhe os seus
segredos e as suas forças ocultas... E o homem, plenamente identificado com
seu Creador, se serviria de todas as creaturas do mundo de Deus consoante a
vontade do Deus do mundo, sem delas abusar, sem as explorar ou violentar...
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Quando voltei a mim dessas longínquas divagações pelas regiões do Além, já
o sol mergulhara no horizonte vespertino. Meus olhos procuraram minha
amiguinha morena, e viram-na no momento em que, com um tenuíssimo
“adeus”, seu pequenino corpo caía da folha de maracujá, rolando, exânime,
sobre a terra... Tomei-o nas mãos com grande reverência, e levei-o para casa
como saudosa recordação de algumas semanas de amizade e grandes
revelações...
Dois vagalumes seguiram-me através da escuridão, como um par de círios
vivos a vigiar o sono plácido da querida Isis...
DADOS BIOGRÁFICOS
Huberto Rohden
Nasceu na antiga região de Tubarão, hoje São Ludgero, Santa Catarina, Brasil
em 1893. Fez estudos no Rio Grande do Sul. Formou-se em Ciências, Filosofia
e Teologia em universidades da Europa – Innsbruck (Áustria), Valkenburg
(Holanda) e Nápoles (Itália).
De regresso ao Brasil, trabalhou como professor, conferencista e escritor.
Publicou mais de 65 obras sobre ciência, filosofia e religião, entre as quais
várias foram traduzidas para outras línguas, inclusive para o esperanto;
algumas existem em braile, para institutos de cegos.
Rohden não está filiado a nenhuma igreja, seita ou partido político. Fundou e
dirigiu o movimento filosófico e espiritual Alvorada.
De 1945 a 1946 teve uma bolsa de estudos para pesquisas científicas, na
Universidade de Princeton, New Jersey (Estados Unidos), onde conviveu com
Albert Einstein e lançou os alicerces para o movimento de âmbito mundial da
Filosofia Univérsica, tomando por base do pensamento e da vida humana a
constituição do próprio Universo, evidenciando a afinidade entre Matemática,
Metafísica e Mística.
Em 1946, Huberto Rohden foi convidado pela American University, de
Washington, D.C., para reger as cátedras de Filosofia Universal e de Religiões
Comparadas, cargo este que exerceu durante cinco anos.
Durante a última Guerra Mundial foi convidado pelo Bureau of lnter-American
Affairs, de Washington, para fazer parte do corpo de tradutores das notícias de
guerra, do inglês para o português. Ainda na American University, de
Washington, fundou o Brazilian Center, centro cultural brasileiro, com o fim de
manter intercâmbio cultural entre o Brasil e os Estados Unidos.
Na capital dos Estados Unidos, Rohden frequentou, durante três anos, o
Golden Lotus Temple, onde foi iniciado em Kriya-yoga por Swami Premananda,
diretor hindu desse ashram.
Ao fim de sua permanência nos Estados Unidos, Huberto Rohden foi convidado
para fazer parte do corpo docente da nova International Christian University
(ICU), de Metaka, Japão, a fim de reger as cátedras de Filosofia Universal e
Religiões Comparadas; mas, por causa da guerra na Coréia, a universidade
japonesa não foi inaugurada, e Rohden regressou ao Brasil. Em São Paulo foi
nomeado professor de Filosofia na Universidade Mackenzie, cargo do qual não
tomou posse.
Em 1952, fundou em São Paulo a Instituição Cultural e Beneficente Alvorada,
onde mantinha cursos permanentes em São Paulo, Rio de Janeiro e Goiânia,
sobre Filosofia Univérsica e Filosofia do Evangelho, e dirigia Casas de Retiro
Espiritual (ashrams) em diversos estados do Brasil.
Em 1969, Huberto Rohden empreendeu viagens de estudo e experiência
espiritual pela Palestina, Egito, Índia e Nepal, realizando diversas conferências
com grupos de iogues na Índia.
Em 1976, Rohden foi chamado a Portugal para fazer conferências sobre
autoconhecimento e autorrealização. Em Lisboa fundou um setor do Centro de
Autorrealização Alvorada.
Nos últimos anos, Rohden residia na capital de São Paulo, onde permanecia
alguns dias da semana escrevendo e reescrevendo seus livros, nos textos
definitivos. Costumava passar três dias da semana no ashram, em contato com
a natureza, plantando árvores, flores ou trabalhando no seu apiário-modelo.
Quando estava na capital, Rohden frequentava periodicamente a editora
responsável pela publicação de seus livros, dando-lhe orientação cultural e
inspiração.
À zero hora do dia 8 de outubro de 1981, após longa internação em uma clínica
naturista de São Paulo, aos 87 anos, o professor Huberto Rohden partiu deste
mundo e do convívio de seus amigos e discípulos. Suas últimas palavras em
estado consciente foram: “Eu vim para servir à Humanidade”.
Rohden deixa, para as gerações futuras, um legado cultural e um exemplo de
fé e trabalho, somente comparados aos dos grandes homens do século XX.
Huberto Rohden é o principal editando da Editora Martin Claret.
Relação de obras do
Prof. Huberto Rohden
Coleção Filosofia Universal
O pensamento filosófico da Antiguidade
A filosofia contemporânea
O espírito da filosofia oriental
Coleção Filosofia do Evangelho
Filosofia cósmica do Evangelho
O Sermão da Montanha
Assim dizia o Mestre
O triunfo da vida sobre a morte
O nosso Mestre
Coleção Filosofia da Vida
De alma para alma
Ídolos ou ideal?
Escalando o Himalaia
O caminho da felicidade
Deus
Em espírito e verdade
Em comunhão com deus
Cosmorama
Por que sofremos
Lúcifer e Lógos
A grande libertação
Bhagavad Gita (tradução)
Setas para o infinito
Entre dois mundos
Minhas vivências na Palestina, Egito e Índia
Filosofia da arte
A arte de curar pelo espírito. Autor: Joel Goldsmith (tradução)
Orientando
“Que vos parece do Cristo?”
Educação do homem integral
Dias de grande paz (tradução)
O drama milenar do Cristo e do Anticristo
Luzes e sombras da alvorada
Roteiro cósmico
A metafísica do cristianismo
A voz do silêncio
Tao Te Ching de Lao-tse (tradução)
Sabedoria das parábolas
O Quinto Evangelho segundo Tomé (tradução)
A nova humanidade
A mensagem viva do Cristo (Os quatro Evangelhos – tradução)
Rumo à consciência cósmica
O homem
Estratégias de Lúcifer
O homem e o Universo
Imperativos da vida
Profanos e iniciados
Novo Testamento
Lampejos evangélicos
O Cristo cósmico e os essênios
A experiência cósmica
Panorama do cristianismo
Problemas do espírito
Novos rumos para a educação
Cosmoterapia
Coleção Mistérios da Natureza
Maravilhas do Universo
Alegorias
Ísis
Por mundos ignotos
Coleção Biografias
Paulo de Tarso
Agostinho
Por um ideal – 2 vols. autobiografia
Mahatma Gandhi
Jesus Nazareno
Einstein – o enigma do Universo
Pascal
Myriam
Coleção Opúsculos
Catecismo da filosofia
Saúde e felicidade pela cosmo-meditação
Assim dizia Mahatma Gandhi (100 pensamentos)
Aconteceu entre 2000 e 3000
Ciência, milagre e oração são compatíveis?
Autoiniciação e cosmo-meditação
Filosofia univérsica – sua origem sua natureza e sua finalidade

Huberto Rohden Isis

  • 1.
    HUBERTO ROHDEN ISISHISTÓRIA DEUM ESTADO COSMOCRÁTICO DA INSETOLÂNDIA CONTADA POR ALGUNS DE SEUS HABITANTES UNIVERSALISMO
  • 2.
    Sumário Advertência Leitor Amigo Prefácio paraa Segunda Edição Isis e sua Gente Sintonizando os Nervos A Infância de Iris Mortandade, Revolução e Protestos Surge uma Cidade Cor de Neve 50.000 Virgens Heróicas Êxodo Rumo a Mundos Ignotos Vôo Nupcial. Amor Mortífero Encontro com um Parente Antipático Elixir de Vida e Juventude O que Zumbeca Disse a Isis A História Trágica de Momuca O que Isis me Disse sobre Cosmocracia e como Adormeceu para Sempre
  • 3.
    Advertência A substituição datradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e dispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior, porque deturpa o pensamento. Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é a transição de uma existência para outra existência. O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é um criador de gado. Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores. A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea nada se aniquila, tudo se transforma”; se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certa, mas se escrevemos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa. Por isto, preferimos a verdade e a clareza do pensamento a quaisquer convenções acadêmicas.
  • 4.
    Leitor Amigo O quevais ler nas seguintes páginas é objetivamente exato e real. Apenas a forma romanceada é aditamento do autor. A Natureza é um grande livro que Deus desdobrou aos olhos do homem, para que o lesse, interpretasse e compreendesse. No estágio atual da sua evolução, o homem, em geral, considera a Natureza simplesmente como objeto de exploração e proveito individual. O homem espiritualmente adulto, porém, sabe que a Natureza é infinitamente mais do que isto. Sabe que ela é um grande Símbolo, cujo Simbolizado só se desvenda ao homem na razão direta que ele se identifica com o Autor da Natureza. Para o homem profano, os seres da Natureza são como as letras, maiúsculas e minúsculas, de um livro aberto ante os olhos de um analfabeto: o que ele vê não passa de um caos de caracteres de formas várias, enigmáticas, sem nexo nem sentido. O homem espiritual, porém, o verdadeiro iniciado, deixou de ser analfabeto e lê deliciosamente as grandes verdades veiculadas pelas letras, pequenas e grandes, de todos os seres da Natureza; para ele, o mundo deixou de ser opaco e se tornou cristalinamente transparente, e, através dos símbolos materiais, o iniciado percebe espontaneamente o simbolizado espiritual. Para o homem espiritual, a Natureza é um grande devocionário, através do qual ele presta o seu culto a Deus, de mãos dadas com seus irmãos e suas irmãs menores, na linguagem poética e profundamente verdadeira de um dos mais avançados leitores desse grande livro, Francisco de Assis. Leitor amigo. Conhece e ama o Deus do mundo – e conhecerás e amarás o mundo de Deus!
  • 5.
    Prefácio para a SegundaEdição O Dr. Warwick Estevam Kerr, uma das maiores autoridades científicas em apiologia que o Brasil conhece, formado em genética pela Universidade de São Paulo, após receber um exemplar da primeira edição deste livro, escreveu “ao poeta das abelhas” uma carta, da qual extrai os seguintes tópicos: “Comecei a ler Isis às 19 horas e 30 minutos, e só larguei quando cheguei àquelas três letrinhas da página 136 (fim). Achei o livro maravilhoso, cheio de ternura, linguagem elegante e leve, e sem dúvida está contribuindo decisivamente para despertar nos brasileiros um maior interesse na observação das nossas abelhinhas. Está, pois, o prezado Professor Rohden de parabéns pela excelente obra que produziu. Aliás, eu não esperava outra coisa de quem escreveu “Pascal”, “Agostinho” e traduziu “O Novo Testamento”. Como a aceitação de Isis deve ser muito grande, penso que o senhor, dentro de pouco tempo, terá de fazer uma nova edição. Pensando assim, e sabedor de que o senhor é pessoa muito acessível, resolvi enviar-lhe algumas sugestões para a sua próxima edição. As sugestões são todas de molde a corrigir algumas idéias, para que o livro, que é uma perfeição literária, seja também uma perfeição científica. Escusado é dizer que prazerosamente aceitei e aproveitei para a presente edição todas as sugestões do grande mestre. Além do mais, surgem, de ano a ano, tantas novidades e descobertas no terreno da apicultura, que um livro como este tem de ser constantemente adaptado. Ao insigne mestre e distinto amigo, meus cordiais agradecimentos. A abelha é de todos os insetos o mais estudado pela ciência internacional. Existe imensa literatura, em todas as línguas, sobre a simpática Apis mellifera. Periodicamente, se realizam congressos, nacionais e internacionais, sobre este inseto. Em 1969, durante toda a primeira semana de agosto, assisti ao 22.º Congresso Internacional de Apicultura, realizado em Munique, Alemanha, onde 3.500 apicultores e cientistas, representando 40 países, focalizavam, sob todos os aspectos, esse maravilhoso himenóptero.
  • 6.
    O alarme emtorno da abelha africana, que, desde 1956, intimidava os nossos apicultores, já cedeu a um novo surto de euforia e de entusiasmo, pelo menos entre os apicultores, que já fizeram as pazes com a agressiva e tão produtiva abelha africana ou africanizada. Ultimamente, a Apis mellifera foi novamente focalizada em todos os países do mundo, por causa da misteriosa “geléia real”, certamente o maior vitalizador que a natureza já produziu. Infelizmente, mercadores sem escrúpulos, desacreditam grandemente a geléia real, como também o próprio mel, que estão sofrendo as mais vergonhosas falsificações. Paralelamente à geléia real, também o “mel polinizado” está entrando na alimentação do homem. O pólen é o pozinho que as abelhas retiram dos estames das flores e usam para alimentar a sua prole. Recolhidos dos favos e misturados devidamente com o mel, representa o “mel polinizado” uma grande fonte de saúde e energia na dieta natural do homem. Quaisquer informações a esse respeito podem ser obtidas com a Editora deste livro.
  • 7.
    Isis e suaGente – Arrede, arrede! – Quem é? que há? – Arrede! se não, apanha uma ferroada! Olhei em derredor e vi um pontinho preto a traçar rápidos círculos ao redor da minha cabeça e brandindo furiosamente o venenoso dardo. Recuei alguns passos da colmeia; mas o audaz agressor continuou a perseguir-me com tenacidade. Por fim, atirou-se duas vezes contra meu rosto, no manifesto intuito de me cravar na pele a terrível arma. – Não faça isto! não faça isto! – bradei-lhe em tom sugestivo, ao que o miúdo inseto foi pousar em uma folha de laranjeira próxima, olhou para mim, algo perplexo, e disse com desdém: – É isto mesmo... São covardes, esses gigantes... – Covarde, não, minha amiga – respondi amavelmente. – Não tenho medo do seu ferrão, mas tenho pena de você... – Pena de mim?... não vejo por quê... – Sim, tenho pena de você, abelhinha estouvada. Se você me der uma ferroada terá de morrer. – Qual, morrer! aquilo é num instante. Você não seria capaz de me esmagar tão depressa... – Não é isto, abelhinha. Eu não ia matá-la por causa de uma ferroada, nem que fossem dez. Sou amigo do povo das abelhas, que considero os insetos mais inteligentes e simpáticos do mundo. Mas você teria de morrer por causa da ferroada mesma... – Ora, ora!... Já dei tanta ferroada, e não morri até hoje. Há pouco, uma lesma gosmenta, atrevida como essas creaturas são por natureza, invadiu a nossa cidade: apesar dos veementes protestos da sentinela, e tivemos de matá-la a ferroadas. No décimo dia da minha vida entrei em luta com uma vespa malandra que vinha roubar o nosso mel. Apesar de armada também ela, morreu com uma tremenda ferroada que lhe dei entre os anéis do abdômen.
  • 8.
    – Mas... eunão sou lesma nem vespa, minha valente abelhinha. Lesmas e insetos não têm pele elástica como nós. Do corpo deles pode você sem dificuldade retirar o seu arpéu; da nossa pele, não, porque é dilatável, e lhe trava a arma, que se arranca do seu corpo levando consigo parte das vísceras – e você morre do ferimento... A abelha olhou-me, um tanto incrédula, com aqueles dois lindos hemisférios de olhos facetados, e, mudando o timbre da voz, disse: – Meu nome é Isis, da raça das abelhas caucásicas. – Isis, que belo nome! – exclamei fazendo também a minha apresentação. – E de raça caucásica? pelo nome, eu diria que fosse egípcia. – Os meus antepassados, pelo que consta dos anais do nosso povo, eram naturais do Cáucaso. Eu sou brasileira. Mas há quem diga que não somos de puro sangue caucásico. Estes três anéis dourados do meu corpo vieram de outra parte. – Pelo que entendo da sua raça, acho que seus lindos anéis dourados lhe vieram da Europa, talvez da Itália. Isis deu um giro completo sobre a folha da laranjeira, alongando e encurtando o elegante abdome para que eu pudesse ver os anéis amarelados de que falava e de que parecia muito orgulhosa. Depois, com certa faceirice, acrescentou: – Quem sabe se estes anéis não vieram do Egito?... – É bem possível. Até no interior de uma das velhas pirâmides foram encontrados vestígios de uma casa de abelhas, de tipo diferente das que hoje conhecemos; possivelmente, seus antepassados... – Se construíram uma cidade no vão de uma daquelas pedras, não devem ser de raça muito antiga. Talvez algumas centenas de milhares de primaveras... – Por quê? – Porque, em tempos antigos, nós não costumávamos morar no oco de pedras ou árvores, como hoje em dia. – Onde é que moravam? – Suspendíamos a nossa casinha debaixo de algum galho, como usam até hoje os nossos primos, os marimbondos. Isis proferiu baixinho estas últimas palavras, e percebi que se arrependia de ter chamado “primos” os marimbondos, porque essa raça de himenópteros é geralmente detestada como bandidos e creaturas sem consciência, embora, cá
  • 9.
    entre nós, elestenham uma função importante para a lavoura. Fiz que não tinha percebido a desairosa referência, e perguntei. – Como? vocês suspendiam a sua colmeia debaixo de um galho? – A nossa colmeia, não; a nossa casinha. Nesses tempos remotos, fabricávamos apenas uma chapinha horizontal, com células na parte inferior, presa num galho por uma haste de resina solidificada. Sobrevieram, porém, grandes frios a todo o mundo, e fomos obrigadas a refugiar-nos no oco das árvores e das pedras, para escaparmos à morte. Nesse tempo horrível, como ouvi contar, havia flores só durante umas poucas dezenas de sóis, e logo voltava o longo período de neve e gelo. No breve tempo de calor éramos obrigadas a recolher a maior quantidade possível de néctar e pólen para ter o que comer no tempo do frio, provisão para as nossas irmãzinhas e para nós mesmas. Foi nesses tempos que transformamos a nossa primitiva casinha de chapa horizontal em vastos celeiros e armazéns de provisões. Nossa mãe resolveu também multiplicar o número de filhas, porque havia muitos berços vazios à espera de nenês. Era necessário esse grande número de abelhas para que houvesse operárias no tempo das flores. Mais tarde, quando os tempos melhoraram, conservamos o costume de construir as nossas casas no interior das árvores e das pedras. É mais seguro, assim. Esse mundo está cheio de ladrões e salteadores que andam à procura dos nossos celeiros. Assim, escondidinhos, e só com uma pequena entrada, é mais fácil defender os nossos castelos, não acha você? – Se acho, Isis! Ouvi até dizer que vocês têm sentinelas especiais que, dia e noite, ficam de plantão à entrada do castelo, é verdade? – Naturalmente. Eu mesma, quando nova, fiz parte dessa sentinela. Foi nesse tempo que matei aquela vespa e ajudei a dar cabo da lesma. – Quando nova? e você é velha agora? – Estou com vinte e cinco sóis. – E quanto tempo espera vi ver ainda? – Outro tanto. – Só? – Nós, as operárias, vivemos uns quarenta a cinquenta sóis, se tanto. – Apenas quarenta a cinquenta dias? – É quanto chega. Cada dia, em tempos nomais, nascem milhares de irmãzinhas, que nos vêm substituir no trabalho. – No trabalho? quer dizer que vocês só vivem para o trabalho?
  • 10.
    – O nossogrande prazer é trabalhar. Vivemos do trabalho e para o trabalho – e morremos também de trabalho... – Para que é que trabalham? – Para a nação. Para a rainha, para as irmãzinhas, para todos os que fazem parte da nossa cidade, hoje, amanhã, para todo o futuro... – E não trabalham para si mesmas? – A grande Inteligência da Natureza sabe o que faz. Obedecemos às suas leis. É a nossa grande felicidade. Nisto passou perto de nós outra abelha, traçou dois círculos sobre a cabeça de Isis, ao que esta, com um gentil “desculpe”, levantou vôo e desapareceu no espaço.
  • 11.
    Sintonizando os Nervos Depoisda inesperada partida de Isis, fiquei-me a observar um fenômeno estranho que se desenrolava a meus olhos. Milhares de abelhas traçavam, diante da colmeia, círculos horizontais e verticais em todos os sentidos, de todos os tamanhos, abrindo-os cada vez mais, até atingirem as grimpas dos eucaliptos circunvizinhos, até passarem por cima dos cumes dos montes em derredor. Depois voltavam à colmeia e tornavam a fazer as mesmas evoluções. E assim durante todo aquele dia. Nenhuma abelha fazia menção de colher néctar e pólen das flores que, a pouca distância, as convidavam com grande insistência de cores e perfumes. Esqueci-me de dizer ao leitor que, no dia anterior, havia eu comprado a um menino roceiro essa colmeia, e, depois das oito horas da noite, a transportara, bem fechadinha, para o meu sítio, onde ela está agora e onde fiz o inesperado conhecimento com Isis, minha primeira amiga caucásica. Na tarde do dia imediato a essa transferência estava eu, ao pé da colmeia, a contemplar as estranhas evoluções dos himenópteros, sem saber a que vinha tudo aquilo. Por que não trabalhavam? por que não visitavam as flores que sorriam em derredor? por que não empreendiam as suas costumadas excursões melíferas? De mais a mais, que era feito de Isis? por que partira tão bruscamente? estaria zangada comigo? teria eu a sorte de reencontrá-la um dia? Difícil seria esse encontro, se de mim dependesse... Para mim, eram aquelas milhares de abelhas todas iguaizinhas umas às outras. De súbito, ouvi forte zumbido perto de mim, que parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo – e lá estava minha amiga Isis, quase no mesmo ponto onde a conhecera de manhã. Vinha acompanhada de outra abelha, que tinha o corpinho todo coberto de uma penugem dourada, macia como veludo, ao passo que o corpo de Isis era meio pelado, parecendo por isto mais escuro que o da companheira. Só mais tarde cheguei a saber que essa penugem velatínea é o característico das abelhas novas que ainda não lutaram com a aspereza das intempéries lá fora. Cheio de alegria saudei minha amiga caucásica, que me apresentou sua colega, dizendo: – Iris, minha irmãzinha de 13 sóis.
  • 12.
    A novatinha fezum gesto tão ingenuamente encantador que me esqueci de fazer a minha apresentação, o que Isis supriu com muita solicitude. – Que é que vocês estão fazendo? – perguntei às duas, cheio de curiosidade, referindo-me às estranhas evoluções aéreas da abelhada. – Estamos sintonizando os nervos – respondeu a mais velha. – Sintonizando os nervos, que vem a ser isto? – Tomando orientação e perspectiva. – Tomando orientação e perspectiva?... não compreendo nada disto... – Logo vi. Esses gigantes bípedes não sabem quase nada de nós; só escrevem livros sobre nós. O caso é que, na última noite, houve grande terremoto em nossa cidade. E hoje estamos aqui, sem saber onde. Sentimos uns solavancos medonhos. Tentamos sair, mas encontramos a porta barrada... – Eu quase nada percebi – disse Iris – porque perdi os sentidos e tinha certeza de ter morrido. Toda a cidade rolou por cima de mim. – Depois de algum tempo – prosseguiu Isis – cessou o terremoto, e nossos guardas verificaram que a porta da cidade estava aberta. Mas, como era noite, nada viram do claro; só viram o escuro. Hoje de manhã, quando voltou o claro, vimos que tudo estava mudado. Desapareceram as montanhas e as árvores, nossas conhecidas. Até a grande planície de água que havia perto da nossa cidade e em que muitas das nossas irmãs perderam a vida, havia desaparecido. – Era deste tamanho – acrescentou Iris abrindo as asinhas o mais que podia. – Aqui é tudo estranho para nós – continuou a abelha mais velha. – Por isto, não podemos recomeçar o nosso trabalho habitual antes de tomarmos orientação e perspectiva. Se saíssemos assim, à-toa, nunca mais conseguiríamos reaver o caminho de casa. Abelha perdida é abelha morta. – Que está dizendo, Isis? pois não há tanta flor por aí e tanto néctar nas flores? como é que uma abelha morreria de fome cá fora? – Ela não morreria de fome... – De que, então?... – De solidão e de tristeza. Nós nascemos para a sociedade e, se nos faltar a companhia das nossas irmãs, morreremos de saudades e de melancolia... – É isto mesmo – confirmou Iris, passando as pequeninas antenas pelos grandes olhos de opala, o que lhe dava uns arzinhos de graça infantil. – Hoje é
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    meu primeiro vôode abelha adulta, e Loluca disse-me: Iris, a sociedade é vida, a solidão é morte!... Estava eu mortinho por saber quem era Loluca, mas a história da tal “sintonização dos nervos” não me dava sossego. Pedi pois, ulteriores explicações, e Isis, com aquela clareza e simplicidade toda sua, disse-me: – Sintonizar os nervos é afiná-los pela luz polarizada. – Luz polarizada? – perguntei. – Sim, essa maravilhosa luz do céu, que apanhamos com os nossos olhos facetados. Guiamo-nos também, em nossos vôos, pelo ângulo do sol. – Iris, você fala como gente grande! – exclamei sem compreender bem o que ela queria dizer. – Gente grande? sou muito pequena, e não sou eu que falo. Fala em mim a grande Inteligência do Universo. Houve momentos de silêncio; entreouvi que Isis dizia a outra abelha em tom de censura: “Quando você fala a homens não deve usar palavras difíceis; eles só sabem pensar com sua pequena inteligência; pouco sabem da grande Inteligência.” Interrompi essa conversa a meia-voz, dizendo: – Vejo que vossa rainha é um ser dotado de grande experiência e sabedoria. – Nossa rainha? – repetiu Iris com grande reverência – Nossa rainha é dirigida pela grande Inteligência, como nós. Ela atravessou o período glacial e conhece todas as coisas de dentro. – O período glacial? o inverno? Mas como? a vossa cidade não é de poucos meses? – A nossa cidade e todas nós somos de poucos meses, mas a nossa rainha é de tempos remotos. Foi soberana de uma cidade enorme cheia de tesouros, mas deixou tudo isto a sua filha e saiu com uma parte da população para fundar um novo reino, que é este que agora temos. Nossas irmãs mais velhas que saíram com ela já morreram todas. Nós nascemos nesta cidade. Meu Deus, pensei de mim para mim, quantos mistérios! Esses pequenos insetos falam de fenômenos ignotos como se fossem coisas sabidas de nós, os seres “inteligentes” deste planeta. Vi que teria de aprender muito das minhas amiguinhas aladas. Quanta coisa para investigar! Expliquei às duas que nós, os homens, tínhamos uma agulha metálica que apontava invariavelmente para o norte. Riram-se a valer desta nossa invenção e não podiam compreender porque é que o homem necessitava de uma agulha metálica para perceber as correntes magnéticas sul-norte, quando, no entender delas, os nervos vivos
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    prestariam muito melhorserviço do que um pedaço de metal inerte. Com muito custo, e vergonha não pequena, tive de Ihes explicar que os nossos nervos são por demais obtusos para perceber a atuação dos fluídos magnéticos do espaço. – Os nossos nervos – prosseguiu Isis – sentem essas correntes, e, depois de devidamente afinados e adaptados, nos orientam com toda a segurança, de maneira que nos é fácil encontrarmos, em qualquer parte do mundo, o lugar da nossa cidade. A estranha mudança da nossa casa obriga-nos a sintonizar os nervos pelo novo ambiente; pois amanhã e mais tarde temos de voar longe, muito longe... – Disse-me Loluca – prosseguiu Iris – que esta sensibilidade não é privilégio nosso. Nossas primas, as formigas, também a possuem. Até muitas aves a têm e voam longe, longe, dia e noite, e não se perdem no espaço, porque são guiadas pela mesma força que nos orienta. – Ah! é por isto que as abelhas estão traçando esses círculos no ar... – Mas é só por hoje. Amanhã vamos recomeçar o trabalho no meio das flores. – E eu também vou! – exclamou Iris vibrando entusiasticamente as asinhas transparentes e fortes que se ajustavam admiravelmente ao elegante corpinho de linhas aerodinâmicas. – Você nunca saiu de casa? – perguntei. – Para longe, nunca. – Que é que fez até hoje? nesses 12 dias de vida?... – Trabalhos domésticos. Hoje é meu primeiro dia de abelha adulta. Ah! que delícia!... As flores... a luz solar... o verde das campinas... Lagos de néctar... Montanhas de pólen... O perfume da resina... Como é bom ser abelha!... Estava eu com um mundo de perguntas a arder-me na língua, quando se ouviu forte zumbido da parte da colmeia, e as duas, como um par de balas vivas, desapareceram no ar. Ainda julguei perceber uma vozinha a dizer “Loluca está chamando”, mas as minhas amiguinhas caucásicas já haviam sumido no interior da colmeia. Sentei-me numa pedra e tornei a embeber-me na contemplação das evoluções aéreas das abelhas, dizendo de mim para mim: Sintonizar os nervos... Correntes magnéticas... luz polarizada... Loluca... Trabalhos domésticos... Meu primeiro dia de adulta... Que vem a ser tudo isto? Que fez Iris nesses 12 dias de vida infantil? Decididamente, eu tinha de investigar esses mistérios...
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    E essas abelhinhastinham de ser minhas mestras e mentoras através de mundos ignotos...
  • 16.
    A Infância deIris Baldadamente procurei, na manhã seguinte, encontrar-me com Isis e Iris. Era tão grande a azáfama do incessante vai-vem à entrada da colmeia que nada ao certo se podia distinguir. Centenas de abelhas entravam e saiam de minuto em minuto, umas com as corbelhas das pernas trazeiras abarrotadas de pólen amarelo e branco, outras, aparentemente sem carga alguma. Estas últimas, porém, levavam o papo cheio de néctar, que, durante a viagem aérea, começava a transformar-se em verdadeiro mel. Pois deve o leitor saber que o néctar das flores não é mel, no sentido comum da palavra. Para que esse licor flóreo se transforme em substância melífica, deve a abelha engoli-lo primeiro, adicionar-lhe algo da sua própria substância e, depois desidratá-lo devidamente. Só assim, transformado, e depois vomitado pelo himenóptero, é que é verdadeiro mel. Para este processo possue a abelha um reservatório especial, que não é o estômago, mas uma espécie de papo ad-hoc. Não se enoje o leitor! Nada mais limpo e decente do que esse líquido perfumoso segregado pela mais linda creatura da flora e transformado pelo mais asseado de todos os seres da fauna entomológica. O processo da fabricação da cera é bem mais complicado, como logo veremos. Vendo que, à entrada da colmeia, não havia esperança alguma de encontrar as minhas amiguinhas caucásicas, encaminhei-me à horta próxima, onde diversas leguminosas estavam em flor e eram visitadas por notável quantidade de abelhas, algumas das quais eram escuras como as da minha colmeia, outras mais claras, meio douradas, e que certamente vinham de cortiços vizinhos. Admirei a perfeita paz e harmonia que reinava entre todas elas, de colmeias várias e raças diversas. Mesmo umas vespinhas espartilhadas andavam preguiçosamente, como que flanando, sobre algumas flores, petiscando, aqui e acolá, uma gotinha de néctar, que logo engoliam, como é de praxe entre essas creaturas egocêntricas, sem cuidados de família numerosa nem vasta organização social isto com referência a certas espécies. Também algumas dúzias de irapuãs pretas como diabinhos, andavam a fazer colheita de secos e molhados, carregando estes no papo, e aqueles nas cestinhas das pernas. Se o leitor não sabe ainda, saiba agora que a abelha, lá fora, é “comunista”, mas cá dentro é “capitalista”. Lá fora, na natureza, tudo é de todos e cada um tem o direito de se apoderar do que quiser e puder; mas, depois de
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    transformados e armazenadosna colmeia esses produtos da natureza, a abelha os defende ferozmente como produtos do seu labor próprio. Onde, porém, havia o mais intenso comércio apiário era nas estrelas azuis de um grande pé de chicória em flor. Não sei o que as abelhas encontram de precioso nessa flor, que não tem perfume nem parece ter lugar apropriado para reservatórios de néctar, nem se lhe descobre pólen em grande quantidade. No entanto, todos os dias, já antes do nascer do sol, era esse céu estrelado um intenso zum-zum de abelhas, sobretudo daquelas que os entendidos chamam apis mellifera e que são as nossas conhecidas abelhas de ferrão. Aproximei-me do pé de chicória, na vaga esperança de lá encontrar uma das minhas amigas. Depois de muito olhar e pesquisar, vi que lá estava Iris com seus 13 dias de vida. Saudou-me rapidamente – e desapareceu. Daí a poucos momentos reapareceu, mas não me foi possível travar conversa com ela. Tão grande era o júbilo com que ela celebrava a sua estreia de “abelha adulta” que parecia literalmente ébria do gozo de trabalho. Com incrível rapidez e habilidade sugava, do fundo das estrelas azuis, as minúsculas gotinhas de doce licor, e, cheio o papo, disparava como bala de fuzil para entregar a preciosa carga à uma de suas irmãzinhas mais novas que ainda se ocupavam com trabalhos domésticos, esperando também o 13.º dia da sua vida. Numa dessas idas e vindas, viu-se Iris atrapalhada por uma mamangaba preta- azulada que vinha também buscar alimento nas flores da chicória. A mamangaba é, por assim dizer, o elefante no mundo dos himenópteros. Enorme, pesado, desajeitado, munido de um par de formidáveis mandíbulas, que parecem duas foices, atira-se esse monstro alado, com zumbido dissonante, às flores, que vergam ao seu peso e quando, devido a seu tamanho, não consegue entrar em um cálice, ataca-o pelo lado de fora perfurando-o a fim de atingir o depósito de néctar, coisa que nenhuma abelha decente faria. Quando Iris viu pela primeira vez, bem perto de si, a mamangaba, levou um susto; mas logo se lembrou das palavras de Loluca: Não mostrar medo! mostrar medo é dar coragem ao outro! exibir coragem é incutir medo ao outro! E assim a corpulenta mamangaba, embora munida de um ferrão muito mais forte que o de Iris, portou-se com perfeita decência ao lado da pequena competidora. No dia seguinte chuviscava. Alguns pés de gladíolos vergavam ao peso da longa fila de lindos cálices oblíquos, cor de rosa rajados de sépia, umedecidos pela garoa. Quando me dispunha para escorar uma das pencas, vi no interior do cálice uma abelha igual às da minha colmeia – e com grande alegria reconheci minha jovem amiga Iris. Saudei-a, jubiloso, mas ela mal respondeu,
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    e, com movimentosvagarosos, foi se aproximando da borda da flor, olhando, sonolenta, para o espaço turvo. – Está doente, Iris? – perguntei. – Não. Estou toda encarangada... com esse frio e essa umidade... A chuva surpreendeu-me aqui... Eu não sabia disto... Estou sem fazer nada... Se pudesse trabalhar em casa... Há tanto que fazer... Mas essa chuva, essa chuva... – Oh! não se incomode, Iris. Eu vou levá-la para casa. Mas conte-me primeiro a respeito de sua infância, aqueles 12 dias de trabalhos domésticos a que aludiu. A abelhinha passou as pernas trazeiras pelas asinhas diáfanas experimentando-lhes a elasticidade. Estavam perfeitas, apesar da excessiva umidade atmosférica. Também era um par de asas novas, novinhas... Depois empertigou-se, esfregou ligeiramente com as antenas os dois hemisférios dos olhos, tomou um gole de néctar e disse: – Você não imagina como é horrível passar uma noite sem companhia. Não consegui dormir, de tanta solidão... Que terá pensado Loluca?... – Afinal de contas, quem é Loluca? – É uma das nossas educadoras. Foi ela que me ajudou a roer a tampinha do meu berço e me puxou para fora. Eu já tinha aberto boa parte da célula e respirava com facilidade, com a cabeça de fora. Quando Loluca roeu o resto da portinhola conseguimos tirar o meu corpo todo. Depois ela me lambeu de todos os lados, porque eu estava pegajosa de cera desses 21 dias de berço. – 21 dias de berço? – Sim, nós, as operárias, levamos 21 dias justinhos dentro da caminha onde mamãe pôs o ovo de que nascemos. Primeiro somos um pequeno ovo, um pontinho branco-azulado, e nada mais, colado, bem empezinho, no fundo do alvéolo. No segundo dia começamos a inclinar-nos, e no terceiro estamos deitadas de chato no fundo da célula, sobre a camada de alimento que vamos comer. – E quem pôs esse alimento no berço? – Nossas irmãs mais velhas. Mas só depois que nossa mãe pôs um ovo no fundo da célula. Também, para que dar vida a quem não pode viver? No quarto dia, o ovo deixa de ser ovo e vira larva, que se vai curvando, e endireitando de novo, até ao nono dia, quando enche quase o vão da célula, sempre com a cabeça voltada para a porta. Acabou-se o alimento.
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    – E agora? –Daí por diante a nenezinha já não precisa de comida. É só dormir e crescer, durante doze dias. – Mas como pode crescer se não toma alimento? – A larva, nos primeiros nove dias, comeu bastante para poder jejuar doze dias. O que ela comeu lhe vai dando corpo agora. Você conhece nossas amigas, as borboletas? – Se conheço! – Borboleta viva? – Vivas e mortas. – Matou alguma? – Não, mas na minha cidade há gente que negocia com borboletas mortas. ou antes com as lindas asas delas. – Que horror! que selvageria!... Pois, quanto às borboletas vivas, você sabe que a borboleta vem da crisálida? – Sei, sei... – E sabe que a crisálida não come e, contudo, trabalha sem cessar para formar o corpo da borboleta? – A lagarta é que comeu. – Comeu de sobra para que a crisálida possa construir, em silêncio, do material armazenado, o corpo da borboleta. – E que corpo maravilhoso têm elas! que asas! que cores! que boca tão graciosa! Mas, Iris, deixemos em paz as borboletas. Conte-me a sua própria história. – Pois, como dizia, no nono dia a larva da abelha deixa de comer e recolhe-se ao sono. Para que ninguém lhe perturbe esses dias de crescimento, suas irmãs adultas passam um cortinado de cera pela entrada do berço. – E a nenezinha, não sufoca com a célula fechada? – Não ouviu o que eu disse! a célula não está fechada com uma porta de cera maciça, como as do mel, mas apenas com um cortinado de fiozinhos todo crivado de pequenos orifícios, para que a pequena possa respirar à vontade. Logo no dia seguinte ela se transforma em ninfa.
  • 20.
    – Que éisto? – A ninfa vem depois da larva; já tem feitio de verdadeira abelha, mas ainda sem asas. No vigésimo primeiro dia, a ninfa, já abelha completa, alada, roe o cortinado de fiozinhos e põe a cabecinha de fora, esperando que alguma das parteiras venha ajudá-la para sair do berço. Loluca e muito jeitosa... – São as abelhas velhas que servem de parteiras? – Não, são as nossas irmãs mais novas, poucos dias mais velhas que a abelha nascitura, que a tira do berço de cera. As nossas irmãs mais velhas trabalham fora, na colheita de néctar e pólen. Também, as mais novas conhecem melhor este ofício de ajudar as outras. – Conhecem melhor, por serem mais novas? – De certo. Pois se elas mesmas nasceram poucos dias antes, como não saberiam ajudar outras a nascer também? – Tem razão, Iris. Eu pensava com a minha cabeça, e não com a sua. Nós, homens, quando nascemos não sabemos nada. Só muito aos poucos é que aprendemos o que outros homens, mais velhos, nos ensinam. E alguns nem mesmo assim aprendem. Mas com vocês a coisa é diferente. Vocês nascem sabendo tudo, e não precisam aprender nada. – Nós também aprendemos, mas só aprendemos aquilo que já sabemos. – Em língua humana se chamaria a isto um paradoxo ou uma contradição; mas sei que na vossa língua a coisa não é assim. Continue, Iris, continue a contar- me a sua história. – As abelhas novas, depois de nascer, fazem, durante doze dias, serviços caseiros. Não têm permissão de sair para longe buscar néctar e pólen. – É mamãe que vo-lo proíbe? – Não. É a grande Inteligência da Natureza que nos dá esta ordem. Mamãe não dá ordens a nenhuma das suas filhas. Cada uma sabe o que tem de fazer. Quando saímos do bercinho, as nossas asas ainda são fracas, e o nosso corpo muito mole. O primeiro serviço que prestamos é o de ajudarmos nossas irmãzinhas a sair da célula, pois a toda a hora estão saindo algumas. Outras limpam a casa carregando para fora detritos ou pozinhos que encontrarem. Asseio e higiene é a grande lei da nossa raça. Todas sabem disto, menos os zangões...
  • 21.
    – Que estádizendo, Iris? – Sim, os zangões, que são nossos irmãos, não sabem nada disto. Felizmente, são poucos, e nem sempre existem. – Nem sempre existem? – Existem só quando devem existir, e deixam de existir quando não têm mais que fazer. Entre nós, só vive quem tem serviço. – Para onde vão eles? morrem? são mortos? – Disto lhe falarei em outra ocasião, se quiser. Agora lhe estou contando a minha própria vida. Não gosta? – Oh, sim, Iris, estou gostando imensamente. Continue, continue!... – Durante esses doze dias da nossa infância somos também encarregadas de distribuir os alimentos às recém-nascidas. Elas aprendem logo a comer, porque já o sabem. Temos de produzir também cera, que é trabalho penoso e demorado. Em tempo chuvoso, como este de hoje, aumenta notavelmente o serviço doméstico das abelhas novas, porque o mel que entra vem mesclado com muita água, e temos de evaporá-lo devidamente; do contrário não se conserva bom nas células. Compete às abelhas mais novas fazer essa evaporação. – Vocês têm ventiladores lá dentro da colmeia? – Temos, sim. São as nossas asas. Centenas de abelhas põem-se sobre os favos de células de mel ainda abertas e vibram intensamente as asas. O vento leva embora a água em excesso e o mel fica bom como o outro. Quando necessário, engolimos o mel, esquentando-o, e engolindo-o novamente até ficar bom. É então fechado hermeticamente com uma tampinha de cera e guardado para mais tarde. Também em dias de grande calor temos de vibrar as asas para fazer frescura na cidade. – Barbaridade! que infância trabalhosa que vocês têm, Iris! – O trabalho é a nossa maior delícia. Não é assim entre vós? – Sim, quando adultos, nós também trabalhamos com gosto; mas, em pequeno, só damos trabalho aos outros, e isto durante muitos anos. Iris olhou-me, e, entre espantada e incrédula, com os seus 30.000 olhos facetados encerrados em dois hemisférios de opala, e prosseguiu tranquilamente em sua narrativa:
  • 22.
    – Cada vezque uma abelha campeira entra na cidade com um carregamento de néctar e pólen, uma das irmãs domésticas recebe a provisão e coloca-a no competente lugar. Assim, as campeiras não perdem tempo, e podem logo voltar para as fontes e buscar novo carregamento. A concorrência é grande, de todos os lados. Rapidez é tudo. Com sol a pino não há néctar. Há muito, de manhã, perto do meio-dia, e um pouco à tarde. Quem chega primeiro de manhã tira mais. A nossa vida é breve. Temos de viver muito em pouco tempo. – Tenho pena de sua infância, Iris... – Pena, por quê? – Infância toda passada na escuridão, sem ver essa maravilhosa luz solar... – Oh não! Nós, em pequenas, cuidamos de nossas irmãzinhas nascituras, ou recém-nascidas. Depois, saímos todos os dias, mas é só até à água mais próxima. – Água, para quê? – Precisamos de buscar água para muitos trabalhos, de que lhe falarei em outra ocasião. Nós, as abelhas novatas, somos encarregadas pela grande Inteligência de buscar água. É de menor responsabilidade do que o serviço das campeiras, mas não é sem perigo. Muitas morrem neste trabalho... – Apanhados pelos bem-te-vis? Iris não respondeu à minha pergunta. Imóvel, com as minúsculas antenas arriadas como duas bandeiras a meia-haste, parecia perdida em lutuosas reminiscências... Pobre da Mirtes, suspirou por fim, baixinho... Morreu no primeiro dia da vida lá fora. – Quem era Mirtes? – perguntei, condoído. – Minha vizinha de berço – respondeu Iris entre dois soluços – Já nos conhecíamos antes de nascer. Entre mim e ela havia apenas uma película de cera muito fina, quase um nada. Isto é, além do delgado casulo em que cada uma de nós estava envolta após o período larval. Nascemos no mesmo instante. Loluca roeu as tampinhas das nossas células, como se fosse uma só. Mirtes era linda, linda. Mais forte que eu. Numa dessas manhãs, depois de tomarmos um bom gole de mel e fazermos alguma limpeza caseira, Mirtes convidou-me para um vôo de aguada. Encontramos logo uma enorme planície de água. Mirtes, estouvada, ébria de luz, voou rentinha à lisa superfície. Eu fiquei mais alto, desconfiada daquele mistério, que me parecia perigoso. De repente, minha amiguinha bradou: “Iris, Iris! lá no fundo está voando outra Mirtes, de barriga para cima!...” Logo depois
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    um grito dedor – e um silêncio profundo, profundo... Mirtes desaparecera nas águas... – Afogada? – Devorada... Logo que ela caiu na água, e ainda boiava bem na superfície, acudi para salvá-la, mas de repente veio das profundezas um monstro horrível, escancarou uma boca enorme – e Mirtes desapareceu no abismo... ............................................................................................................................... Fez-se silêncio profundo em derredor de nós e dentro de nossas almas... Até o céu acompanhou a nossa tristeza, chorando abundantes lágrimas de cristal sobre a terra e as plantas em volta... A própria alma do Universo parecia suspender a respiração para não perturbar a sacralidade do nosso sofrimento... Essa dor comum me fez ainda mais amigo do povo das abelhas do que eu era antes. Parece mesmo que só amamos realmente alguém depois de sofrermos com ele. É como se dois elementos duros e justapostos um ao outro se derretessem no ardor de um grande fogo e se fundissem em uma única substância, que não é nem Eu nem Tu, mas Nós... – O que nos consola – disse, por fim Iris, reanimando-se – é que só morre o ser vivo, mas não a vida. A vida é imortal. Morreu Mirtes, mas a sua vida está com a grande Inteligência, imortal, sempre-viva... A abelhinha continuou a falar neste sentido por muito tempo, e eu quedei-me, quase extático, em face do que ouvia. Resolvi escrever um livro sobre a vida imortal dos seres mortais. Por fim, regressando das alturas do enlevo místico para o plano da vida quotidiana, disse Iris: – Não voar em linha reta! repetia Loluca todos os dias. É perigoso! – Perigoso, por quê? – perguntei. – Perigoso para as novatas, de vôo menos firme e rápido. Para as campeiras traquejadas na luta, pouco perigo há na linha reta. As abelhas novas têm de voar em zigue-zagues ou em serpentinas. – Mas por quê? – Você não sabe que há muitas aves por toda a parte? Ainda há pouco, você falou no bem-te-vi. Mas não é só ele que gosta de nós... – Pois, não é bom que as aves gostem das abelhas? – Bom? bom? é o que há de pior! ser gostado por um pássaro é um desastre!
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    – Compreendo, compreendo.Elas gostam de vocês com o bico e com o estômago, e não com o coração... – Lá no mundo dos homens não é assim também? – Muitas vezes. Há entre nós muito amor devorador. Mas, afinal de contas, vocês não têm uma arma terrível, o ferrão? – Qual, ferrão! Serve na luta contra outros insetos, mas o bico dos pássaros é tão duro que não entra ferrão algum. Antes de darmos a primeira ferroada já estamos esmagadas. A salvação está na força das nossas asas e na habilidade de voar em zigue-zague ou serpentina, que ilude o perseguidor. Iris olhou para o céu, e disse: – Está melhorando. Vou buscar resina. Temos lua minguante. O tempo é propício. – Resina, para quê? Que é que vocês fazem com resina dentro da colmeia? – Muita coisa. Desta vez é para cobrir o corpo de uma lesma que está começando a empestar a cidade. – Que está dizendo, Iris? uma lesma? e vai cobri-la de resina? – Sim, ontem entrou na cidade mais uma dessas creaturas pegajosas, e tivemos de matá-la. Com besouros e aranhas a gente se arranja; arrastamo-los para fora. Mas esses fregueses gosmentos estão a tal ponto colados no chão que ninguém os tira daí. Nem mortos podem ser removidos. Nem sei o que essa gente vagarosa vem buscar em nossa cidade. Não comem mel nem cera. Possivelmente, querem devorar os nossos nenezinhos... – E que vão fazer agora com o cadáver da lesma? – Vamos mumificá-la, cobrindo-a com espessa camada de resina impermeável, a fim de isolá-la do ambiente. Senão, ficaria tudo empestado. – É espantoso, Iris! E você vai fazer isto? – Não, isto é tarefa das novatas. Eu sou abelha adulta. Mas vou buscar resina. Lá no alto daquele morro deve haver da dita. Adeus! Antes que eu pudesse formular uma pergunta sobre aquilo da “lua minguante”, já estava Iris a boa distância, rumo ao cume de um monte coberto de mata. Cheio de curiosidade dirigi-me à colmeia, espiei cautelosamente – e pasmei em face do que via. Centenas de abelhas novas – eu já as conhecia pela cor mais clara e abundante penugem do corpo – estavam ocupadas em desdobrar espessa camada de resina cheirosa sobre um montículo alongado que devia
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    ser o corpoda desditosa lesma, morta e semi-enrolada sobre si mesma. A princípio, tive a idéia de intervir no trabalho dos himenópteros lançando para fora da colmeia aquele trambolho. Prevaleceu, porém, a curiosidade de presenciar o trabalho de mumificação e sepultura da parte dos miúdos insetos. Grande número de abelhas, das campeiras, vinha entrando sem cessar com minúsculas parcelas de resina – própolis, lhe chamam os apicultores – extraída de certas árvores. Entregavam o material às jovens engenheiras e desapareciam instantaneamente. Depois de meia hora, nada mais se via do corpo do molusco. Apenas um montículo escuro assinalava o lugar do jazigo perpétuo da intrusa. Esperei por Iris mas não a vi regressar. Teria ela sido vítima de algum acidente?... Havia tantos pássaros nos arredores...
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    Mortandade, Revolução e Protestos Diatrágico, aquele!... Quase que perdi a minha cidade apiária... E, mais do que isto, a amizade de Isis e Iris, minhas queridas amigas caucásicas... Já lhes conto como foi. Era impossível deixar as abelhas na velha caixa em que as havia comprado a um menino da roça. A caixa era muito estreita e meio podre, emborcada sobre um pedaço de tábua que lhe servia de fundo. Resolvi, pois, dar-lhes nova residência. Fabriquei, segundo todas as regras da arte, uma caixa espaçosa, moderna, com os competentes quadros móveis. Pronta a nova caixa, procedi à difícil manobra da transfusão do conteúdo. Protegido por uma máscara de filó preto e com as mãos cobertas de luvas de couro, abri o velho caixote, e, a despeito de formidáveis protestos de milhares de abelhas, passei rapidamente toda a abelhada, com sua mãe para a nova residência. Grande parte das abelhas, porém, agarrou-se freneticamente aos favos de mel, devorando o que podiam, na certeza de que esse cataclismo lhes roubaria todas as provisões armazenadas e as deixaria na miséria. Por isto, tive de quebrar completamente a caixa velha, e, com o auxílio de umas boas nuvens de fumaça – de que esses insetos têm um medo enorme – e uma vassourinha de penas consegui que o resto largasse os favos e resolvesse fazer companhia às outras e à rainha. Infelizmente, não me foi possível transferir para a nova residência os favos de incubação cheios de ovos, larvas e ninfas. Eram de construção tão irregular esses berçários, devido à estreiteza da caixa, que não os pude recolocar na caixa nova na mesma posição em que estavam, e, mudando-lhes a posição certa, morreriam as larvas.
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    Resolvi, por isto,inutilizar os celulários de incubação e fervê-los para aproveitar a cera. Depois de apanhar a cera dourada, tive a infeliz lembrança de colocar o resto diante da colmeia, para que as abelhas recolhessem a cera e a aproveitassem para construir a nova cidade. Nesse tempo vivia eu na profunda ignorância de que as abelhas usassem cera velha. Daí a 15 minutos, vi os ares repletos de abelhas a doidejarem com zumbidos ferozes, e à entrada da colmeia estava enorme bloco das mesmas, que engrossava de segundo em segundo. Faltavam apenas a rainha e sua corte. Mas a chamada do bloco à entrada era tão insistente que a soberana não teria resistido por muito tempo ao impetuoso apelo da nação em peso; pois o que o povo apiário estava fazendo era, evidentemente, um convite para uma fuga geral. – Crueldade! – Infâmia! – Desaforo! – Estupidez! – Vamos embora daqui, depressa, depressa! – Lugar mal-assombrado! Todas estas, e outras vozes que não entendi, se cruzavam confusamente nos espaços. De relance, percebi de que se tratava. A princípio pensava eu que a colmeia estivesse fazendo manobras de enxameio, como costumam fazer quando parte da população, aderindo à velha soberana, se vai embora para fundar nova cidade. Neste momento, apareceu Isis, toda esbaforida, clamando umas palavras que, a princípio, não pude entender no meio da balbúrdia geral. Por fim, distingui isto: – Que horror! tire esses cadáveres de nossas irmãzinhas!... – Que aconteceu, Isis? – Tire daí esses cadáveres! depressa! senão, vamos todas embora!... Compreendi tudo. Mais que depressa, agarrei a cestinha com os corpos das larvas e os resíduos de cera e joguei tudo ao barranco do arroio próximo. Ainda por meia hora continuou a revolução apiária. Pouco a pouco, porém, se acalmaram, desistiram das suas furiosas evoluções aéreas e resolveram voltar à colmeia, mas ainda vibrantes de indignação e horror. O vasto zumbido
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    prosseguiu por largotempo, assim como continua o movimento e ruído das ondas do mar, depois de cessar a tormenta. Quando, porém, depois de muito pesquisar nos arredores, se convenceram de que já não havia vestígio da horrorosa carnificina, comunicaram à rainha que estava tudo em ordem, e esta resolveu não sair. Deve ter sido um grande alívio para ela, porque ela estava nos seus melhores tempos de jovem mãe e prestes a dar à luz algumas milhares de filhas. De resto, também a nova cidade, embora ainda vazia, era uma beleza e em nada comparável à cidade antiga, destruída, com suas ruas estreitas, tortuosas, sem possibilidade de ulterior expansão. A cidade nova que eu lhes dera era limpa, espaçosa, munida, além disto, de dez magníficos caixilhos, cada um já com a competente lâmina de cera moldada presa na barra horizontal de cima e que serviria de início aos novos favos. Tanto luxo e tanta previdência, é certo, nunca tinham sido vistos por minhas amigas, desde eras remotíssimas. Estava eu observando a alviçareira vazante daquele enorme espalhafato, quando reapareceu Isis e disse-me à queima-roupa, ainda trêmula de emoção: – Por todas as flores do universo! como é possível que um homem cometa semelhante monstruosidade?... – Desculpe, Isis – balbuciei – mas aquela caixa podre era imprópria para... – Não, não é isto! não me refiro à destruição da nossa cidade. Nenhuma destruição é capaz de nos fazer desanimar. Refiro-me àquele espetáculo macabro que você armou à entrada da nossa residência. Colocar-nos à porta da cidade os espectros de milhares de irmãzinhas nossas assassinadas? E esperar de nós que fôssemos lamber a cera desses cadáveres? Que idéia faz você de nós?... Eu não sabia o que replicar. Depois de alguns momentos, acrescentou Isis, como que falando a si mesma: “É verdade, os homens nada entendem dos mistérios da nossa vida íntima... Escrevem muitos livros sobre nós, acham que somos muito inteligentes, mas nada sabem dos sentimentos do nosso coração...” Pedi a Isis que apresentasse à rainha as minhas desculpas, juntamente com a promessa de contribuir o mais possível para apronta reconstrução da cidade. A abelhinha esboçou um sorriso triste e céptico, como que a pensar: De que modo havia esse homem de contribuir para a reconstrução da nossa cidade?... Eu, porém, para mostrar a minha boa vontade, coloquei à entrada da nova colmeia duas tigelas, uma cheia de mel, e a outra com açúcar diluído em água. As abelhas avançaram de roldão sobre o mel, que aliás era delas mesmas, e o levaram embora em poucos minutos. Depois, vendo que nada mais havia que
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    lamber do bom,dirigiram-se ao menos bom e foram tomar conta do açúcar, de que não ficou vestígio. E assim se encerrou pacificamente esse incidente quase trágico.
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    Surge uma Cidade Corde Neve O dia que se seguiu à transfusão das minhas abelhas para a nova residência e à tremenda revolução acima descrita, foi de grande silêncio e quietude. Esperava eu ver toda a nação apiária numa grande azáfama, num incessante vai-vem de campeiras, para reconstrução da cidade destruída. Sabia eu que as abelhas são por natureza madrugadoras; mas já andava alto o sol, e quase não havia movimento à entrada da colmeia. Apenas um pequeno grupo de guardas que, como sempre, estavam de plantão, rondavam lentamente da direita para a esquerda, de cima para baixo, vigiando a entrada da cidade. Que estariam fazendo as minhas ricas abelhas? estariam dormindo? chorando a catástrofe do dia anterior? ou teriam fugido todas, imperceptivelmente, em sinal de protesto contra a horrorosa carnificina da sua prole? Mas, neste último caso, não haveria sentinela à porta do reino. Só há guardas onde há rainha, e onde há rainha há súditos. Dei um giro pela horta e pelo jardim do meu sitiozinho, a ver se encontrava nas flores alguma abelha da cor das minhas. Quase nada! as poucas que havia eram de outras colmeias, de raça “italiana”, mais claras que as minhas, fartamente morenas, quase pretas. Onde estariam Isis e Iris? Esperei até à tarde, na certeza de que num dia tão lindo como esse não deixariam as minhas incansáveis operárias de recolher mel e pólen. Não vi nada. Intrigado com essa estranha inatividade, voltei à colmeia, e, muito cautelosamente, levantei a tampa, solta e independente do resto da caixa e dos quadros móveis. Suspendi cuidadosamente um desses quadros – e dei um grito de estupefação! Suspendi outro – a mesma surpresa! A maior parte dos dez quadros que integravam o conjunto dos futuros berçários e celeiros, apresentava um fenômeno indescritível. Que é que havia?
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    Dentro do vãode cada quadro estava suspensa uma pesada cortina escura, em forma de um triângulo invertido, feita de reluzentes bagas, os corpos de milhares de abelhas, em quase completa imobilidade. A fila de cima prendia-se firmemente ao caixilho em toda a extensão da linha horizontal; a segunda fila, um pouco menos larga, estava presa nos corpos da de cima, e assim por diante, em sentido descendente, até que a ponta do triângulo atingisse quase a parte inferior do caixilho. Cortina igual havia na maior parte dos outros quadros. – Que é isto? – perguntei, espantado, mas não tive resposta. Possivelmente no meio daqueles cachos vivos de bagas escuras se encontravam também os corpos de algumas das minhas amigas recém-nascidas, mas quem as poderia descobrir? O silêncio era absoluto. Nem o mais ligeiro vibrar de asas. – Que friiio! feche a casa! – murmurou alguém no meio da multidão imóvel. – Assim é impossível fazer cera – acrescentou outra à meia-voz. Fechei a tampa, cautelosamente, e perguntei a um dos guardas o que significava aquilo. Olhou-me ele com uns olhos enormes, como quem não compreende o que se diz. Repeti a pergunta, ao que ele respondeu secamente: – Ora, estão fazendo cera. – Fazendo cera, mas de quê? – De quê? de que havíamos de fazer cera senão de nós mesmas? – Esse é o gigante que nos roubou tudo – disse outro guarda, acrescentando baixinho em tom rancoroso – Mereceria um milheiro de ferroadas... se não fosse animal de sangue quente... – Não me levem a mal o que fiz – expliquei-lhes – Foi pelo bem do vosso povo. Naquela caixa imunda e podre não havia lugar para uma nação grande e próspera, e cada ano teriam de emigrar diversos enxames com parte da população. Nesta nova residência espaçosa cabem folgadamente 50.000 abelhas com todo o conforto. – Isto lá é verdade – concordou o primeiro dos guardas – Nunca tivemos casa tão espaçosa e limpa como esta. Mas, pelos modos, você não sabe nada da nossa vida e atividade... – Sei... um pouco... – Mas ignora uma das coisas mais importantes... – A saber?
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    – Que nós,para fazer cera, temos de ficar imóveis e bem juntinhas umas às outras, ao menos pelo tempo de um sol e de uma escuridão. – Tem razão, eu ignorava isto. Pensei que vocês fabricassem a cera com o pólen das flores. Entreolharam-se as duas com ares significativos, mas não responderam. Se pudessem sorrir teriam sorrido da minha ignorância de homo sapiens. Por fim, a que primeiro falara comigo se apresentou dizendo que se chamava “Silvia”. A outra, sempre de cara fechada e desconfiada, não quis dar o seu nome, mas a companheira, sempre gentil e alegre, apresentou-a com o nome de “Cirila”. Tive o pensamento de perguntar por Isis e Iris, mas suprimi esse desejo e insisti com as duas novas amigas – embora uma não se mostrasse nada amiga – que me explicassem o mistério da origem da cera. – A cera – Disse Sílvia – é produzida pelas nossas irmãs mais novas. Aparece em forma de umas palhetas brancas, segregadas por umas bolsas que as novatas têm entre os anéis do abdome. Para que estas palhetas brancas apareçam é necessário que nossas irmãs engulam bastante mel e depois fiquem por muito tempo imóveis e produzam calor pela reunião de numerosos corpos. Quando começam a aparecer as escamas brancas, a vizinha as apanha do corpo da companheira e as leva para o alto onde estão os alicerces da cidade. E a cidade vai crescendo, crescendo, até embaixo. Em tempos normais, só uma parte da população está encarregada de produzir cera, mas hoje quase todas estão ocupadas neste trabalho; pois ficamos sem cera alguma, depois do cataclisma de ontem. Ou pensa você que havíamos de deitar o mel pelas ruas da cidade, assim sem mais nem menos? e onde poria nossa mãe os ovos para suas filhinhas se não houvesse berços? Amanhã terá ela grande número de berços... – Amanhã? tão depressa?... – Nosso trabalho é rápido... Sílvia interrompeu bruscamente o fio da conversa e, em companhia de Cirila, se atirou à entrada da colmeia, onde aparecera uma creatura com cara de ladrão. O intruso desapareceu nos ares perseguido pelas duas valentes guardas, que tardaram a regressar, parecendo empenhadas em uma luta de grandes dimensões. * * * Daí a dois dias, fui abrir a caixa, cautelosamente – e deparou-se-me um espetáculo encantador. Suspendendo um dos quadros móveis, tive ante os meus olhos uma maravilha de indescritível beleza e perfeição. Na barra superior do caixilho, onde eu prendera a lâmina de cera moldada, estava suspenso, em continuação dessa faixa, um favo triangular, alvo como a mais
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    pura neve dasmontanhas, e de paredes tão delgadas que chegavam a ser ligeiramente translúcidas. Parecia um sonho de fadas, um sopro de leveza imaterial. E que maravilha as paredes e a forma das células! Cada alvéolo constava de seis paredes laterais, cujos pontos de encontro formavam outros tantos ângulos, sendo quatro ângulos de cada célula iguais entre si, enquanto os dois restantes, o de cima e o de baixo, um pouco mais fechados, também iguais entre si, mas diferentes dos quatro primeiros. Todos os alvéolos obedeciam rigorosamente à mesma forma e bitola. O fundo de cada um desses graciosos hexaedros terminava em um prisma triangular, ajustando-se perfeitamente ao fundo de outra célula construído do outro lado do favo, em sentido oposto; pois todos os favos têm duas faces com base comum. Depois de algum tempo verifiquei com estranheza que as linhas laterais dos alvéolos hexaédricos não corriam em sentido rigorosamente horizontal, como eu supunha, mas acusavam ligeira inclinação para cima. Perguntei a Isis, que felizmente reaparecera, pela razão dessa singular disposição oblíqua das células, ao que ela me respondeu, sorridente: – Imagine você, se colocássemos os celeiros em sentido inteiramente horizontal, que aconteceria? Escorreria o mel antes de amadurecer e poder ser fechado. – E, se colocassem os favos em posição horizontal, ficando os alvéolos em sentido vertical? – Ora, ora! neste caso, só poderíamos aproveitar a parte superior do favo, e teríamos de construir um fundo plano, chato, desgracioso, e ainda por cima impróprio para as células do berçário, pois as extremidades do ovo e da larva são arredondadas, e não chatas. A única forma e disposição razoável para as células é esta que a Inteligência Cósmica nos inspirou, há muitos milhões de primaveras. A disposição dos nossos favos também favorece muito a ventilação e limpeza da cidade. A posição horizontal dos favos cortaria as correntes aéreas que vêm de fora – e quem pode viver sem ar? Até as nossas irmãzinhas iriam morrer asfixiadas antes de nascer... Tudo isto dizia Isis com a precisão e segurança de um erudito professor de matemática e geometria a lecionar ciências exatas aos alunos de uma Escola Politécnica. Ao suspender um dos lindos favos, cujos alicerces estavam no alto, lembrei-me do que o livro do Apocalipse diz da “cidade santa de Deus”, cujos fundamentos se acham nas alturas do céu e que descem às baixadas da terra...
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    50.000 Virgens Heróicas Numdesses dias tive enorme surpresa. Havia eu adquirido mais duas colmeias e colocado ao lado da primeira. Certa manhã, lá pelas 10 horas, quando o sol já tinha evaporado a última umidade das campinas, mas ainda não estava excessivamente quente, vi, à entrada de uma das últimas caixas, umas dúzias de abelhas de outro feitio e tamanho que as que eu conhecia. A anatomia do seu corpo robusto não apresentava as magníficas linhas aerodinâmicas das minhas amigas, Isis, Iris, Sílvia e Cirila, e outras conhecidas. As asas desses grandalhões não se ajustavam firmemente ao corpo, mas estavam semi-abertas, formando ângulo com o abdome. Toda a sua aparência e modo de andar tinha um quê de frouxo, indisciplinado e grosseiro, contrastando desagradavelmente com a atitude distinta e o corpinho teso, compacto e firme das obreiras. Soube mais tarde que esses senhores eram verdadeiros sibaritas, passando o dia todo a vadiar e a comer. Nenhum deles sabia o que fosse trabalho. Nem os trabalhos caseiros, a que as obreiras novas se dedicavam com grande solicitude nos 12 dias da sua infância, mereciam o menor interesse a esses encorpados comilões. Às vezes, uma das abelhinhas novas forcejava largo tempo por sair do alvéolo em que se desenvolvera; os grandalhões contemplavam com fleuma e apatia a faina da nenezinha, mas nenhum deles se dignava a roer o resto da tampinha de cera para desobstruir a saída, quando esse trabalho lhes teria sido facílimo. Pior ainda, além de não fazerem nada e comerem muito, esses vadios deixavam por toda a parte os seus excrementos, até sobre os brancos favos em construção e na imediata proximidade da rainha. Atrás de cada um desses granfinos mal-educados andava constantemente uma das abelhas caseiras, ainda em período de trabalhos infantis, para fazer a competente limpeza; do contrário, acabaria o interior da cidade numa pavorosa imundície, porque esses analfabetos em asseio e higiene eram em número de diversas centenas. Tudo isto, e muito mais, cheguei a saber mais tarde, e de um modo que agora não posso explicar. – Quem são esses senhores de asas semi-abertas? – perguntei a uma das guardas que estava de plantão à entrada da colmeia número dois. A guarda olhou-me, entre espantada e compassiva, deu meia volta e desapareceu no interior da caixa. Será que não entendeu a minha linguagem?... ou teria medo de mim?...
  • 35.
    Neste momento depareicasualmente com minha amiga Sílvia, que, como de costume, estava de guarda à entrada da primeira colmeia. Pedi que me explicasse o mistério daquelas grandes abelhas desalinhadas. Parece que falei com certo desdém. porque Sílvia, depois de me ouvir em silêncio, desandou- me um olhar repreensivo; por fim disse com grande reverência: – Esses são os zangões, as abelhas masculinas. – Zangões? e por que não os há nesta colmeia? – Vai haver... quando o tempo chegar... – Para que servem esses vadios? – Vadios?... vadios... Não há abelha vadia.! – Desculpe, Sílvia, mas eu não compreendo... – Logo vi que você não compreende nada da nossa vida. – Quantos zangões há numa colmeia? – Algumas centenas. Depende... – E por que não trabalham? – Nossos irmãos masculinos trabalham tanto quanto nós. – Trabalham, como? – O trabalho deles é diferente do nosso, mas não é menos importante. Se não fossem eles – adeus, operarias!.... – Explique-me isto, Sílvia, por favor. – Nós servimos ao nosso povo vivendo e trabalhando – eles lhe servem dando vida e morrendo. Ai de nós se viessem a faltar os machos! a cidade inteira estaria votada ao extermínio!... – Mas, diga-me, Sílvia, não é verdade que vocês, operárias, matam cada ano centenas de zangões? – É verdade, matamos os renitentes, após o vôo nupcial da nova rainha, e deixamos morrer de fome os restantes. – E isto você chama amor e fraternidade? – Perfeitamente. – E os zangões são do mesmo parecer? – Todos eles.
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    – Estão deacordo em que sejam mortos por vocês? – De pleno acordo. Nenhum deles desejaria continuar a viver quando a sua vida já não tem razão-de-ser. Matá-los quanto antes é ajudá-los a cumprir a sua missão. Aqui entre nós, tudo é bem organizado. Vive-se por uma grande missão. – Que missão? – Depois do vôo nupcial da rainha a missão do zangão terminou, e por isto é justo que sua vida termine também. Entre nós não há vida sem finalidade. Nós, operárias, também deixamos de viver depois que deixamos de trabalhar. A nossa missão é trabalhar. Com uns cinquenta sóis, estarei exausta, com as asas rotas, as energias gastas – e vou morrer na solidão... – Na solidão? não vai morrer no meio de suas companheiras, na cidade? – Nunca nenhuma abelha honesta cometeria semelhante indecência! Só se a morte a surpreendesse sem aviso prévio. Cada uma de nós sabe morrer a sós. Necessitamos da sociedade para viver e trabalhar, mas para morrer só precisamos da solidão. Imagine, que trabalho para nossas irmãzinhas terem de arrastar para fora, cada dia, centenas de cadáveres! – Centenas, cada dia? – Sim, cada dia nascem centenas de abelhas, e morrem outras centenas. Até milhares. Nossa mãe põe, geralmente, 2000 ovos por dia. Toda operária tem suficiente bom senso para sair da cidade quando pressente o fim da vida. Voa longe, longe, até onde lhe permitam as asas rotas, pousa numa folha, ouve a voz da grande Inteligência – e morre... A nossa cidade está sempre em festa. É um sorridente berçário de vida em perpétua sucessão e perene juventude, e não um triste asilo de seres decrépitos, nem uma necrópole de defuntos... Para nascer necessitamos do auxílio de nossos semelhantes, mas para morrer cada uma basta a si mesma. – Compreendo, compreendo, Sílvia... Morrer em profunda solidão, depois de uma vida ao serviço dos outros, é belo, e heróico, é sublime... Mas... ser morto, como os zangões, em plena juventude, isto me parece triste e revoltante... – Nosso povo não conhece semelhantes sentimentalismos. Quem perde a sua razão-de-ser e velho e decrépito, ainda que acabe de nascer. Ser jovem é ter uma grande tarefa a cumprir, uma razão-de-ser, um trabalho a prestar pelos outros. Quando os zangões fecundam a nova rainha, em seu glorioso vôo nupcial, eles morrem imediatamente, porque a sua vida seria um contrassenso, daí por diante. E também todos os outros zangões têm de morrer, porque a sua vida ulterior seria um absurdo, uma imoralidade... A nossa mãe, apesar das muitas primaveras que viu, é sempre jovem enquanto põe ovos e produz vida
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    nova. Mas, nodia que deixasse de pôr ovos e crear vida nova, seria velha... Oh! Momuca!... oh! Momuca!... Sílvia estremeceu repentinamente, e, se tivesse podido chorar, teria derramado torrentes de lágrimas, dos seus lindos olhos de opala escura. Mas, abelha não pode chorar, e esta falta de lágrimas é, talvez, para ela, uma grande tragédia interior. O pranto dá certo alívio, assim como um vulcão fica mais tranquilo depois de expelir do seu interior grande quantidade de lava ígnea... Depois que minha amiga se refez da sua grande comoção, cheguei a saber quem era Momuca e qual a grande tragédia da sua vida. É tão triste essa história que não me animo, por ora, a contá-la aos leitores deste livro. Talvez que, mais tarde, num dia de muita nuvem e nenhum cantinho azul no céu, ou numa noite de ventos uivantes, eu me anime a narrar o drama dessa infeliz abelha, cuja memória perdura de geração em geração, na cidade apiária. Creio que nunca aconteceu coisa mais triste e trágica no mundo das abelhas, desde as eras mais remotas. É deveras estranho! essas mesmas abelhas, indiferentes à morte de centenas de zangões e estóicas em face da sua própria morte, sentem-se abaladas até ao âmago da sua natureza pela desgraça de uma rainha ou mãe de tribo. Pois deve o leitor saber que Momuca era uma jovem rainha, mas que teve de ser morta por seu próprio povo, porque, apesar de fêmea perfeita e normal, não estava em condições de perpetuar a espécie, como é de obrigação de cada mãe. Nunca se chegou a saber ao certo porque é que ela não podia pôr ovos de que nascessem operárias, apesar de ter realizado corretamente o seu vôo nupcial, de ter sido corretamente fecundada por uns zangões também corretos em tudo. Dizem algumas das abelhas mais sábias que Momuca, ao regressar do seu glorioso vôo nupcial e antes de entrar na colmeia, foi apanhada no ar por um bem-te-vi, que estava prestes a sepultá- la nas profundezas do estômago, quando sentiu terrível ferroada na raiz do bico (é que ele apanhara a jovem abelha muito na raiz sensível, e não na ponta córnea do bico); dizem que, em consequência desta ferroada, o terrível rapineiro criou juízo e largou a vítima, a qual conseguiu salvar-se no interior da colmeia. Mas, quando começou a pôr ovos, como era de seu dever, verificou- se que, em consequência dos maus tratos sofridos, todos os ovos que ela punha eram ovos virgens, não fecundados, e destes, como é sabido, só nascem zangões. Quando as antigas operárias se convenceram da desgraça, resolveram eliminar a rainha, conforme a ordem da grande Inteligência, porque não podiam permitir que a nação toda acabasse em zangões... Mas, como disse, deixarei para outra ocasião a narração completa e pormenorizada dessa história trágica, como morreu a linda Momuca, e como, depois de orfanadas, conseguiram as abelhas escapar a total extermínio...
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    Para declinar detão ingrato assunto e afugentar as nuvens de tristeza que ensombravam a alma da amiga Sílvia, pedi que me dissesse mais alguma coisa sobre a vida das operárias. – Quantas abelhas campeiras há, por via de regra, em uma cidade bem constituída? – perguntei, com os ares neutros de um repórter de imprensa. – Umas 50.000. Algumas cidades chegam além. Mas isto depende da fecundidade da mãe, do espaço de que dispõem, como também da colheita de mel e pólen. Quando o espaço é pouco, não convém que a mãe ponha muitos ovos. Mesmo assim, parte do povo resolverá, na próxima primavera, emigrar e fundas cidade nova. Se ainda assim há falta de espaço, sai novo enxame, até dois ou três conforme as necessidades. Cada enxame com a sua rainha. – Mas, há tantas rainhas para cada ano? – Há tantas quantas forem necessárias para garantir a prosperidade de cada enxame. Colônia sem mãe é colônia morta. Nossa mãe sabe dantemão quantas rainhas novas têm de fazer para os tempos próximos. Uma para cada grupo. E com o primeiro grupo sai ela mesma. – Sílvia, você está dizendo tanta coisa nova de uma vez que a minha inteligência de homo sapiens se engasga e não pode engolir tudo isto ao mesmo tempo. Diga-me isto, devagar, aos bocadinhos. Antes de tudo, vossa mãe faz quantas rainhas ela quer? – Naturalmente. – Como é que ela faz essas rainhas? – Ela põe no fundo de uma célula especial, maior que as outras e com forma de casca de amendoim, um ovo fecundado, e manda dar-lhe comida regia. – Quer dizer que esse ovo que ela põe é igual a todos os outros? – Não, não é igual aos ovos não fecundados, donde saem os zangões. É ovo fecundado. Só do ovo fecundado é que sai fêmea. – Como é que ela pode pôr ovos fecundados e ovos não fecundados? – É segredo dela. Depois do vôo nupcial ela se fecunda a si mesma, quando quer, porque agora é macho e fêmea. O certo é que ela põe o ovo que quer, e, como precisa de muitas fêmeas para operárias, e de poucos machos, para a fecundação da próxima rainha, é claro que põe muitos ovos fecundados e poucos não fecundados. – Quer dizer que você, Sílvia, podia ter nascido rainha? – Nasci rainha, como todas as minhas irmãs. Mas não cheguei a ser rainha.
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    – Por quenão? – Porque, em pequena, não recebi comida régia. Nem minhas irmãs receberam. Só aquela que depois saiu rainha de verdade é que recebeu esse alimento. – Que mistério é esse de comida régia, capaz de fazer rainha? – Comida régia é uma secreção viscosa, branca, meio ácida, produzida pelas glândulas internas das abelhas novatas. O ovo que, desde os seis primeiros dias da sua existência, receber deste manjar misterioso se desenvolverá em fêmea completa. Se o não receber nesse período, só dará fêmea incompleta incapaz de ser mãe. – Mas, afinal de contas, que efeito produz sobre o organismo essa comida? – Faz desenvolver os ovários, que, nas outras abelhas, atrofiam, por falta de alimento adequado. O alimento comum só desenvolve os órgãos de que necessita a operária para o seu trabalho específico. Espantoso, espantoso! murmurei de mim para mim, olhando para a minha interlocutora com grande reverência e terror. Nem parecia ser simples abelha... A meus olhos assumia aquele serzinho minúsculo forma estranha, proporções fantásticas... Parecia-me como que a encarnação de uma divindade que enchesse todas as latitudes e longitudes do cosmos e residisse em cada célula, em cada átomo, em cada eléctron do mundo microscópico... Não, aquilo não era uma abelha, era a própria alma do Universo cristalizada num pequeno organismo, obediente às ordens dessa inteligentíssima entidade invisível... Senti-me tomado de grande simpatia por todas as manifestações da Inteligência Cósmica, fosse qual fosse a forma ou o feitio da sua manifestação, pedra, planta, inseto, ave, peixe, animal, homem, anjo – cada um desses seres era um brado, mais ou menos forte, desse estupendo Algo ou Alguém que se ocultava por detrás dos multiformes fenômenos da Natureza... – Admiro as abelhas – disse, enfim, voltando a mim e encarando Sílvia. – Vocês são um povo de heróis e de heroínas. – Cada um está satisfeito com o papel que lhe coube – replicou ela, impassível. – Nossa mãe vive para crear vida nova – filhos e filhas. Nossos irmãos vivem e morrem para garantir a existência de seres femininos – operárias virgens e rainhas mães. Nós vivemos para alimentar a todos – mãe, irmãos e irmãs. – Quanto tempo conta viver ainda, Sílvia? – Não conto viver. Pode ser que viva uma semana. Isto não me preocupa. – Não acha triste morrer o indivíduo para que a espécie possa viver?
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    – Filosofia infeliz!– suspirou ela, meneando a cabeça e fazendo lembrar uma professora quase desiludida de fazer seu aluno compreender o abc. Depois, voltando-se a mim, disse com precisão e insistência: – Saiba, ó homo sapiens, que não morre o indivíduo para que viver possa a espécie. A vida é imortal. O indivíduo não morre, não perde a sua vida. Ele continua a viver vida perfeita e individual no oceano imenso da vida que enche o Universo – assim como a onda, depois de sumir no seio do mar, continua a ser, nascendo e renascendo, em perpétua vida e eterna ressurreição... Fechei os olhos... E tive a impressão de ouvir cantar o hino da Vida Universal... A apoteose da Vida Cósmica...
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    Êxodo Rumo a MundosIgnotos Que é isto?... A que vem esse enorme zum-zum? Porque doidejam essas abelhas no ar, com tanto nervosismo? Que aconteceu? Nada aconteceu ainda, mas algo está para acontecer... Vai haver um grande êxodo apiário, de uma das colmeias que adquiri ultimamente. Já está superpovoada. Houve ordem de emigração em massa. Está-se processando a divisão do reino... – Lá vem ela! lá vem ela!... – disse uma abelha a meu lado. – Ela, quem? – perguntei, cheio de curiosidade. – A velha rainha da tribo. – A velha? mas não é a rainha nova que vai sair? – Não, quem vai sair é a velha. A nova é que vai herdar o reino. Assim é de praxe entre nós. Estava eu ainda meio céptico ante o que via e ouvia, quando verifiquei a presença da velha soberana, que, desde o seu vôo nupcial, não via a luz do sol, vivendo naquela noite eterna da colmeia, unicamente ocupada com a propagação da espécie. Mas pode haver mais vôos nupciais sucessivos, se for necessário, contanto que seja nos primeiros 15 dias de vida. Esses rápidos amplexos, na luminosa vastidão do espaço, são suficientes para fazer a rainha mãe de centenas de milhares de filhos, ou antes, de filhas. Quando a rainha emigrante deixa as sombras da colmeia e se vê circundada repentinamente por uma imensa onda de luz, sente-se, por instantes, como que atordoada. Pousa no alvado da colmeia para habituar os olhos àquele deslumbramento, e vibra ligeiramente as asas, a ver se, depois de tão longa inatividade, ainda obedecem aos músculos do tronco de quitina escura.
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    Funcionam com perfeição,embora não seja mais aquela vibração espontânea e dinâmica do dia das suas núpcias, quando se arremessava, triunfante, a centenas de metros de altura, a ponto de perder quase de vista o delirante bando de seus loucos amantes. Os graves deveres da maternidade lhe modificavam o organismo e os hábitos. A sua prole monta a centenas de milhares de indivíduos, muitos dos quais, naturalmente, já morreram, uma vez que a operária tem apenas cinco ou seis semanas de vida. Depois de alguns ensaios prévios, convenceu-se de que aquelas asas, apesar de um tanto emperradas pela longa inércia, estavam em condições de lhe transportar o pesado corpo até certa distância. Desferiu vôo, e foi pousar em um dos ramos mais baixos dum pé de mangueira. Imediatamente, milhares de súditos fiéis, decididos a emigrar com a soberana, se aglomeraram em torno dela, ao ponto de a fazerem desaparecer totalmente no interior de um enorme cacho escuro a fervilhar de corpos e asas. E lá se deixaram elas ficar, horas e horas a fio, aparentemente inativas, mas realizando importante trabalho de reconhecimento. Poucas horas antes desse êxodo, havia nascido a nova princesa herdeira. Enorme foi a agitação que cercou o berço da recém-nascida. Todas sabiam que naquele serzinho vacilante estava o futuro da nação. Era chegado o momento crítico e angustiante em que duas fêmeas completas e perfeitas se encontrariam dentro da mesma cidade, no meio de um povo rigorosamente monocrático – e duas fêmeas completas quer dizer duas rainhas – situação insustentável por muito tempo. O aparecimento de uma nova princesa real na colmeia equivale sempre a uma espécie de “estado de sítio”, que, em breve, acabaria em guerra declarada e morte de uma das fêmeas. Por via de regra, porém, prevalece o instinto de ordem e harmonia sobre os impulsos momentâneos de violência anarquizante: a rainha-mãe emigra antes do advento da rainha-filha. Sentimentos estranhos e desencontrados digladiavam-se na alma da velha soberana, quando se dispunha a abandonar a cidade e entregar tudo a sua filha. Aquele reino tão bem organizado, os ricos favos de mel, os depósitos de pólen e de mel, e, acima de tudo, aqueles milhares e milhares de delicados nenezinhos, a dormirem ainda tranquilamente nos berçários de cera – tudo isto teria de ser abandonado de um momento a outro... E a rainha emigrante se lança a um futuro incerto, obscuro, talvez hostil, recomeçando sem nada, sabe Deus onde e em que circunstâncias!... Troca uma opulenta e bem provida cidade pela dolorosa desnudez de algum tronco oco, pela estreiteza incômoda de alguma fenda de rochedo ou por algum imundo cupinzeiro vazio... Não leva do seu grande reino uma só gotinha de mel nem um pedacinho de cera... A içá, rainha da formiga saúva, quando sai em busca de um novo lar, leva pelo menos, da cidade abandonada, um bocado de fungo, que planta no fundo da
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    sua galeria subterrâneapara reiniciar a costumada fungicultura; mas a emigrante das abelhas, além de não ser jovem como a recém-casada saúva, não pode levar coisa alguma do seu querido reino. Tem de confiar, cega e incondicionalmente, na providência da Natureza. Entretanto, todas sabem que assim é que deve ser – e estão dispostas a arrostar corajosamente as dores e incertezas do futuro... * * * Enquanto o negrejante cacho vivo está pendurado no ramo da mangueira, é intenso e contínuo o vai-vem das escoteiras do enxame migratório. Todas as regiões circunvizinhas, a quilômetros de distância, são rapidamente esquadrinhadas. Nenhuma cavidade de tronco ou rocha, nenhum cupinzeiro vazio deixa de ser devidamente inspecionado, a ver se serve para nela instalar uma cidade celular. De tempos a tempos, regressa um grupo de batedoras com a notícia de ter descoberto um local nestas e naquelas condições, tamanho tal, localizado em tal ou tal ponto, olhando para o leste ou oeste, sul ou norte. Imediatamente, uma divisão de engenheiros peritos, especializados em assuntos urbanísticos, ergue vôo e vai inspecionar o local descoberto, mas não toma resolução definitiva enquanto não voltem todos os grupos de bandeirantes e dêm parte do que descobriram; pois é possível que outros tenham encontrado coisa melhor, cavidade mais ampla e em posição mais vantajosa. Só o melhor é que é bastante bom. Por fim, cotejando o conjunto das informações colhidas de todos os lados, ponderados os prós e os contras, resolve o conselho dos engenheiros- arquitetos e demais peritos, optar por um dos diversos locais descobertos. E logo, na mais perfeita harmonia, lá se vai o enxame pelos ares, rumo à nova residência. Nenhum protesto. Ninguém procura fazer prevalecer o seu achado como sendo o melhor. Isto, no caso que o apicultor não tome providências para oferecer aos emigrantes uma caixa em que se possam instalar, providência que não ocorreu no caso presente. Encontraram uma velha peroba oca. O material era do melhor. Não havia perigo de apodrecimento. As paredes eram duma resistência férrea, de fibras arrevesadas e duríssimas, como costumam ser as dessa árvore. O interior, é verdade, tinha os seus inconvenientes; estava cheio de gravetos e de uma espécie de farelo; parece que uns ratos, ou mesmo gambás, em eras remotas, haviam escolhido esse local para suas maternidades, a não ser que um casal de pica-paus o estivesse usando como dormitório. Mas esses inconvenientes tinham remédio, e os ex-locatários dessa ampla cavidade não deixariam de
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    respeitar os novosinquilinos poderosamente armados. De momento, não havia ser algum que reclamasse esse abrigo como sendo dele. Assim que as abelhas chegaram, puseram-se a fazer uma limpeza radical da cavidade; pois é sabido que elas são intransigentes em matéria de asseio e higiene. O farelo foi levado para fora, grão a grão. Os gravetos e outros corpos pesados que não podiam ser reduzidos a detritos portáteis, foram devidamente cobertos com uma camada de resina impermeável, isolando-os hermeticamente do resto da casa e oferecendo, assim, aspecto mais convidativo. A entrada era grande demais, e foi logo reduzida a um vigésimo da abertura natural, por meio de grande quantidade de resina escura e resistente, até formar um orifício do tamanho desejado. As abelhas sabem perfeitamente que não convém ter entrada grande, que dificultaria uma defesa eficiente, além de deixar entrar, por vezes, um frio excessivo dificultando a formação da cera e matando as larvas. Além disto, era necessário construir sobre fi entrada um ligeiro alpendre a fim de impedir a entrada das águas pluviais, tanto mais que a abertura estava voltada para o lado das chuvas mais fortes. Mais alguns dias, e já vinham descendo do teto da nova residência os alvos estalactites dos lindos favos, e a rainha pôde começar a sua sagrada tarefa de encher de minúsculos ovinhos os alvéolos de incubação. Mais três semanas, e saiu dos berços a primeira geração de operárias, engrossando as fileiras de suas irmãs veteranas, muitas das quais já tinham morrido em alguma solidão da floresta ou do campo. Por vezes, nas suas constantes idas e vindas, algumas das abelhas da casa da perobeira, se encontravam com suas antigas companheiras de colmeia; mas não havia vestígio de saudades ou sentimentalismos entre elas. Cada uma tinha a sua cidade, o seu centro de interesses, a sua grande tarefa a cumprir, nas poucas semanas de vida. Cada uma sente-se perfeitamente “em casa”, lá onde a chama a grande lei da vida e do trabalho. Por isto, cada abelha é feliz no seu ambiente. E se, daqui a um ano, aparecer nova princesa herdeira, a velha rainha lhe entregará mais uma vez todas as riquezas da nova cidade tão laboriosamente adquiridas, e mais uma vez sairá pelo mundo afora, em demanda de um novo deserto que transforme em florescente paraíso de prosperidade... Para a vigorosa juventude, sempre o melhor... Para a fatigada velhice, o pior... Tal é a filosofia desse enigmático Estado Cosmocrático.
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    Porque, onde háuma grande missão a cumprir, lá não há decrepitude senil – sorri indefectível juventude...
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    Vôo Nupcial. AmorMortífero Mal havia a antiga rainha partido com a sua gente fiel, rumo à perobeira oca, quando a jovem princesa e sucessora resolveu empreender a mais perigosa aventura da sua vida. Até esse momento andara ela passeando pela cidade de cera que sua mãe lhe deixara em herança, calma e indiferente, como se fosse uma simples operária sem responsabilidade. A cada passo, grupos de zangões lhe cruzavam os caminhos, tão indiferentes como a jovem virgem apiária. Nenhum deles sabia que eles eram machos, e ela fêmea, a única fêmea completa do vasto reino. O corpo da gentil princesa media cerca de duas vezes o comprimento do das operárias, sendo também bastante mais longo que o dos machos. O seu abdome fusiforme prolongava-se muito além das asas, quando nas abelhas comuns não ultrapassa a extremidade das mesmas. É deveras estranha essa ignorância sexual de parte a parte, apesar de se tratar de seres perfeitamente desenvolvidos e em pleno período de puberdade. O que Isis me contou, mais tarde, sobre a razão dessa ignorância é um dos mais estupendos fenômenos que a Inteligência da Natureza já engendrou, na vasta epopéia das suas maravilhas vivas. Machos e fêmeas vivem num paraíso sonambulesco de ingênua inocência e virgindade; nem o mais leve desejo orgânico se manifesta em seus corpos, apesar da promiscuidade local em que se encontram. Assim o quer a grande Inteligência, porque o despertar da consciência sexual dentro do recinto da colméia poderia acabar em desastre biológico, não só para a geração imediata, mas para todo o futuro da nação; podia acarretar mesmo a extinção da espécie. Se os zangões e a princesa virgem tivessem consciência da sua potência genésica antes do vôo nupcial da jovem rainha, provavelmente não existiria em nossos dias a apis mellifera. O sono temporário do instinto sexual é essencial para a garantia de uma nação vigorosa e próspera, como vi mais tarde pelas sábias palavras de minha amiga Isis. A colmeia nunca vê tálamo nupcial. É um santuário virgem, dedicado exclusivamente à alegria do trabalho e às delícias da maternidade, recinto vedado aos amplexos de Eros e Psyché. O cenário dos amores das abelhas é a imensidade do espaço banhado de luz. E, como a abelha ocupa elevado lugar na escala biológica, não estranha que seus romances não sejam idílios de suavidade lírica, e, sim, dramas de intensa tragicidade e lances mortíferos,
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    como sucede quasesempre nas esferas da vida superior. Quanto mais vasta é a polaridade dos seres tanto mais violento e apaixonado é o encontro dos sexos, porque esse encontro é uma espécie de momentânea extinção da consciência individual, uma fusão cósmica do Eu e do Tu, que parece despolarizar ou despersonalizar os dois elementos que se encontram. O orgasmo sexual é um mergulho momentâneo no mar imenso da vida cósmica. Há insetos cujos machos morrem depois do primeiro e único amplexo sexual. Outros, como certas aranhas, são mortos pelas fêmeas. O louva-deus, além de morto, é devorado pela companheira fecundada. No mundo das efeméridas, morre não somente o macho mas também a fêmea, logo após o conúbio. Na abelha, porém, o caso é mais trágico; macho não somente morre logo depois da união, mas este mesmo ato lhe causa morte instantânea. O esposo apiário é obrigado a suicidar-se para poder transmitir à esposa a vida potencial que leva dentro de si. A transmissão dessa vida é para ele morte imediata. O amor do zangão é um amor mortífero. Mas essa morte do indivíduo vale a pena, pois equivale a milhares de vidas novas. Sendo que o macho, no momento da união, arranca de si, mediante uma explosão, e transplanta para dentro do organismo feminino o seu aparelho genital, torna-se a abelha fecundada uma hermafrodita, que, daí por diante, através de anos inteiros, pode fecundar-se a si mesma com os elementos espermáticos que recebeu do heróico amante. De simples fêmea que subiu, desce das alturas fêmea-macho. Subiu virgem, e desce viúva, e toda a sua prole nascerá órfã de pai. Toda vez que quer pôr um ovo de que nasça abelha feminina, ela faz passá-lo pelo reservatório de esperma, isto é, fecunda-o com os seus elementos masculinos; e deixa de o fecundar quando quer pôr um ovo de que saia um zangão. Sendo que a nação necessita de milhares de operárias (abelhas femininas), e apenas de poucos zangãos, por via de regra se serve a abelha-mãe, nas suas posturas, dos germes que o esposo, ou os esposos, lhe legaram no momento do seu audacioso suicídio de amor?*. (*) Por muito tempo ignoravam os apicultores o verdadeiro processo pelo qual a abelha-mãe regulava a postura de ovos fecundados e não-fecundados. Sabe-se hoje em dia que essa diferença vem simplesmente da maior ou menor pressão que as bordas superiores da célula exercem sobre o abdômen da rainha, no momento da postura. Sendo que as células das quais vão sair as futuras operárias, fêmeas todas elas, são mais estreitas que as que se destinam aos machos, e como o minúsculo ovinho é sempre colado no fundo do alvéolo, exercem as bordas da célula menor pressão, mais forte sobre o abdômen da rainha que as das células maiores, obrigando o ovinho em caminho do oviduto para a célula a passar pela espermoteca, isto é, o permanente reservatório de espermatozóides que a rainha recebeu do seu heróico amante-suicida, nas luminosas alturas do espaço. Desse ovo fecundado nasce necessariamente uma abelha fêmea, porque, segundo leis eternas, a abelha virgem só pode reproduzir o sexo contrário (partenogêneses, parto virginal), ao passo que, para reproduzir seu próprio sexo, necessita do macho. Assim o exige a grande lei da polaridade.
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    Quando, pois, oovinho é introduzido numa das células maiores, passa em linha reta do ovário através do oviduto para o fundo do alvéolo de cera, sem ser atingido pelo depósito de espermatozóides masculinos, e deste ovo sairá uma abelha macho, ou zangão. Do processo contrário nascerá uma abelha fêmea. Para que a rainha produza o número exato de ovos virgens de que o Estado Cosmocrático necessita, existe um grupo de obreiras, ou damas da corte, especialistas em assunto de maternidade e peritas do equilíbrio orgânico e das necessidades da tribo; mostram à rainha, uma por uma, as células em que ela deve pôr os ovos. O número das obreiras é indefinido; quanto maior, melhor, obedecendo, naturalmente, ao espaço disponível na cidade celular. Todavia, um número excessivo de machos seria uma desgraça para a nação, uma vez que estes consomem muito e não produzem nada, nem uma gotinha de mel nem um átomo de cera. Basta que haja um número regular de zangãos para que, no dia memorável do vôo nupcial da nova rainha, haja a competição necessária. Uma boa rainha chega a pôr 2.000 a 3.000 ovos fecundados por dia, nos áureos tempos da primavera e do verão. É sabido que o hermafroditismo por nascença, que persiste em alguns seres primitivos, acusa graves inconvenientes biológicos, devido à falta de polaridade e heterogeneidade dos elementos genésicos. A abelha não nasce hermafrodita, mas faz-se hermafrodita pelo casamento, evitando assim as desvantagens daquele sistema primitivo, e salvando as vantagens que ela descobre no matriarcado ou num Estado Cosmocrático constituído apenas de seres femininos. Pois a colmeia, embora possa, por certas razões, ser chamada monarquia, é, na realidade e pelos métodos de trabalho e consumo, um legítimo Estado Socialista sui generis, ou antes, Cosmocrático. É a mais perfeita Cosmocracia. Entretanto, em vez de filosofar, vamos assistir ao fantástico vôo nupcial da gentil princesa. Era quase pelo fim da manhã, uma gloriosa manhã primaveril. Acabavam de evaporar as últimas gotas do orvalho noturno, mas ainda os raios solares não haviam atingido o máximo da sua intensidade. Pelo arvoredo circunvizinho cantava, zumbia e chiava um mundo de seres felizes. As flores do meu jardim estavam todas imóveis, em atitude solene, com os cálices muito abertos, semelhando outras tantas almas em êxtases, a sorverem o inebriante mistério que lhes vinha da longínqua divindade solar... Nesse sugestivo momento, resolveu a formosa princesa apiária abandonar a escuridão da cidade celular e realizar a grande epopéia da sua vida. Saiu, e pousou uns instantes na soleira da porta, no meio de um bando de zangões, ainda incônscios da sua natureza masculina. Neste momento, a rainha virgem emite o seu misterioso “odor nupcial”, invisível eflúvio afrodisíaco que enche o espaço até alguns quilômetros de distância. E todos os machos apiários, dentro desta área, sabem que há uma rainha para
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    ser fecundada, eem todos desperta subitamente a consciência dormente da sua virilidade, e voam em procura da virgem em vôo nupcial. Foi a mais estranha maratona de resistência e velocidade, o mais fantástico certame aéreo a que já assisti em dias de minha vida... Quanto mais se alteava a linda fugitiva, tanto mais freneticamente vibravam as asas dos seus loucos amantes em desenfreado arremetida. O prêmio do certame era, para eles, de infinito valor, e uns poucos só seriam os felizardos. Uns poucos, os mais poderosos, é que teriam o prêmio e a glória, não só de abraçar aquele corpo lindíssimo, mas também o de serem pais de uma nação inteira, e ascendentes de centenas de milhares, quiçá de milhões de abelhas, através dos séculos vindouros... Que importava aos felizardos morrerem no momento de realizar o seu sonho de amor, se vidas sem conta nasceriam dessa morte?... Depois de alguns momentos de vertiginoso vôo, desanima a maior parte dos zangões; muitos, apesar dos seus esforços, voltam à terra; alguns caem exaustos e quase sem acordo. Também, como voar tão alto se nem tinham voado, apesar da robustez das suas asas? Estavam muito bem nutridos, todos eles, robustos e corpulentos do mel e pólen que haviam comido em grande abundância; mas, que adiantava toda a robustez sem exercício? 100 a 200 metros eram, para a maior parte deles, uma altura estratosférica... A princesa, porém, voava com extraordinária rapidez e facilidade... Havia, contudo, certo número de zangões dotados de grande resistência e que pareciam não conhecer fadiga. De segundo a segundo diminuía a distância que separava esses arrojados aeronautas apiários da fulgurante virgem dos seus amores, que parecia não querer saber deles. De vez em quando, mais um, mais dois desses valentes voadores desistiam da perseguição e vinham caindo, caindo, como planadores avariados, às baixadas da terra... Por fim, apenas meia dúzia de machos sustentava ainda a desenfreada carreira... Estava chegando o termo final da dramática maratona... De repente, do meio desse pequeno grupo de heróis, dissociavam-se uns poucos, que reunindo todas as suas energias e compelindo as asas ao máximo da sua capacidade vibratória, tomam a dianteira aos competidores, e, de um jacto, apoderam-se da cobiçada amante... Um rápido amplexo – uma momentânea confusão de corpos e asas – e está tudo terminado... E já vem os corpos dos heróicos vencedores redemoinhando à terra, inertes, no verde relvado que circundava a cidade celular... Também a rainha vem descendo, devagar, em grandes espirais, de posse do troféu da sua completa maternidade...
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    Se o julgarnecessário para o futuro da tribo, a rainha empreenderá, neste ou nos próximos dias, mais alguns vôos nupciais, nas mesmas condições. Consumou-se, nesse dia, a grande aventura amorosa da jovem princesa, felizmente sem acidentes fatais, como acontecera naquele que vitimou a saudosa Momuca, provocando a maior tragédia biológica de que há memória nos fastos da Apiolândia. A morte dos zangões vencedores não é considerada acidente nem catástrofe. Têm de morrer necessariamente, porque arrancaram do seu interior, no momento da união, o órgão fecundante, com parte das vísceras. Também, para que viver mais tempo? Tinham de morrer em consequência do grave ferimento – mas continuariam a viver dentro do corpo da feliz esposa. Possivelmente, o humano sentimentalismo não concorda com essa “crueldade”, mas o heróico suicida do amor morre satisfeito e feliz, e, se alguém lhe perguntasse se experimentava tristeza ou dor, nem teria atinado com o sentido de semelhante pergunta, pois não morria propriamente, mas continuava a viver vida multiplicada ao infinito, em perpétua ressurreição e perene juventude... Esse vôo é necessário para que conste quem do meio daquele bando de machos é o mais forte e possua maior soma de qualidades vitais, a fim de garantir a seus descendentes o máximo de vitalidade. A jovem esposa apiária, guarda dentro de uma bolsa especial (espermateca) localizada à entrada do oviduto, os preciosos germes vitais, muitos, milhões, utilizando-se deles à medida que for pondo ovos para abelhas femininas. Chegada à cidade, sua cidade, desapareceu na escuridão da mesma. Daí só sairá na próxima primavera, não já para um vôo nupcial, mas para algum deserto, a fim de fundar novo reino na desnuda cavidade de algum tronco distante... Esperava eu presenciar grandes festejos na cidade apiária que celebrassem o feliz acontecimento. Nada disto, porém, aconteceu. A nova rainha foi recebida por um grupo de suas damas de honor, que a conduziram diretamente aos favos de incubação, fazendo-lhe compreender que, daí por diante, o seu único ofício era pôr ovos. Daí a dois dias, pôs a nova rainha o seu primeiro ovo. Para isto lhe mostraram as aias o centro geométrico de um favo novo, porque é no centro do favo que a rainha começa a postura dos ovos, alargando depois o círculo, em espiral, até atingir as bordas do berçário. Os quatro ângulos ficam, geralmente desocupados, e servirão como depósitos de mel e pólen para os futuros nenezinhos. Sempre é de vantagem ter a copa perto do berço... * * * A vida da abelha é um misto de poesia e de prosaísmo... Àquele delírio de prazer segue-se logo uma tediosa rotina de dever. Pela manhã, uma estupenda
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    apoteose de luzesem ilimitados espaços – e logo à tarde a escuridão e estreiteza de uma colmeia. Há pouco, cortejada por centenas de jovens amantes em delírios de paixão – e agora, e por longos anos, a monotonia de uma maternidade, onde um grupo de aias e mestras forma sua companhia única. Essas damas apiárias mostram à rainha, uma por uma, as células em que ela tem de pôr ovos, e a soberana obedece docilmente às ordens de suas irmãs e filhas... * * * Apenas havia a rainha entrado na cidade celular, quando alguns zangões reapareceram à entrada da mesma. Mas foi-lhes barrado o ingresso pelas operárias; e, como os machos não possuem ferrão, não se puderam defender contra suas belicosas irmãs. A sentinela de plantão teve ordem de matar todo o zangão que tentasse romper o bloqueio. Assim, os que não acabaram a ferroadas, morreram de fome, porque não sabem cuidar de si mesmos nem buscar uma gotinha de néctar. Tão radical mudança produziu na vida suave e fácil dos zangões o vôo nupcial da nova rainha... É esta a lei da grande Inteligência... Viva quem tem uma missão a cumprir! Morra quem nada mais tem que fazer!
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    Encontro com um ParenteAntipático – Que vergonha! – Que escândalo! – Que desaforo! – E, ainda por cima, esses selvagens são parentes nossos... – Parentes nossos? – É o que eles dizem. E os homens também o dizem. – Onde é que se viu abelha sem asas? – Eles também têm asas, de vez em quando. – Sei, sei. Criam asas, mas é só para o dia do casamento. Para o trabalho essa gente não precisa de asas. – Aí está! acham que o prazer é mais importante que o trabalho. Asas para o prazer – e pernas para o trabalho! pode-se lá conceber atestado mais vergonhoso para o caráter desse povo?... ............................................................................................................................... – Com licença – disse eu, aproximando-me das três abelhas empenhadas em acalorada discussão. – Que aconteceu? Entreolharam-se elas com ares de quem não entende o que se lhes diz. Não havia nesse grupo nenhuma das minhas conhecidas. Por fim, disse uma delas, enquanto vibrava nervosamente as asas e agitava as minúsculas antenas: – O que aconteceu? você não vê essa selvageria aí? Isto dizendo, a abelha apontava com as antenas para um rosal, do outro lado da cerca do meu terreno, onde se viam os esqueletos de umas dezenas de roseiras horrivelmente mutiladas, sem uma folha, sem uma flor, e até sem os raminhos mais novos do último ano. O solo estava coberto de folhas e pétalas
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    espedaçadas. Parecia terandado por lá, durante a noite, um alicate de marceneiro, picando todas as folhas e pétalas... – Quem fez isto? – perguntei, indignado. – As malditas, naturalmente. – Que malditas? – Ora, as formigas. Só elas são capazes de tamanha maldade. – Onde estão elas? não vejo nenhuma... – Não trabalham de dia – e sabem bem por quê... Há por aí tanto passarinho louco por petisco de formiga... Mas de noite não há que temer – e lá se vão elas, essas salteadoras covardes. Derribaram tudo, mas não puderam carregar toda a presa; o sol as surpreendeu. Na noite próxima continuarão a sua selvageria... – Não compreendo porque as formigas invadem as plantações dos homens, quando lá fora há enormes matarias cheias de folhas. – Elas é que sabem por quê. O que o homem planta é novo, suculento, gostoso. Roseira é para elas iguaria de festa. – Elas comem essas folhas? – Não, essas folhas só servem para adubar o terreno da horta de fungos. – Horta de fungos? – Sim, a formiga saúva é fungicultora, como dizem os homens. Abre vastas cavidades no fundo da terra, uma ao lado ou por cima da outra, comunicadas entre si por galerias. As folhas que as carregadeiras cortam das árvores e levam para o interior das “panelas”, são trituradas depois pelas formigas domésticas e reduzidas a farinha. Esta massa farinhenta é espalhada pelo chão e disposta em pequenos flocos por dentro das cavidades úmidas, e não tarda a criar bolor, que são pequenos fungos ou cogumelos. Na ponta de cada cogumelo brota um micélio, e é esta bolinha gostosa que as formigas comem e dão de comer aos filhotes. Está vendo esse olheiro? A inteligente abelha apontou com as antenas para um buraco de dois dedos aberto no solo, não longe de uma das roseiras e semi-coberto pelas folhas cortadas. Era a saída de uma das galerias subterrâneas que comunicava com a sede central do formigueiro. A sede é sempre colocada em lugar mais elevado, para que, no tempo das chuvas, a umidade não arruíne a cidade e os berçários da futura geração. – É verdade que as formigas são parentes das abelhas? – perguntei.
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    – Infelizmente –murmurou uma das três sem olhar para mim. – Infelizmente. Parece que, em tempos remotos, elas tinham asas como nós, ao menos algumas tribos. Mais tarde verificaram que as asas eram um estorvo para o trabalho, e resolveram descartar-se delas. Também seria difícil voar com a carga que elas costumam levar, não raro o peso do próprio corpo. – Ainda bem que não voam – disse eu de mim para mim. – Senão, o Brasil estaria perdido de vez. Já é grande o estrago que causam, assim mesmo sem asas. Que seria se fossem aladas? Não há defesa contra exércitos aéreos... * * * Estávamos assim conversando e filosofando, quando, de improviso, percebemos uma voz rouca e feroz a dizer: – Ora, ora, essas abelhas hipócritas! – Protesto! – bradaram todas as três em uníssono. Houve um momento de silêncio e estranheza. Vi então, ao pé de uma das roseiras espoliadas, uma corpulenta saúva, que, não se sabe porque motivo, lá se deixara ficar desde a última noite, quando todas as suas companheiras se haviam retirado para casa com o despontar da alvorada, como é de praxe entre as saúvas noturnas; pois a essa hora já se ouve cantar muito passarinho de estômago vazio... – De mais a mais – acrescentou uma das abelhas – a sua presença aqui, a estas horas é ilegal. Você é uma saúva noturna, como todos sabem e não tem o direito de estar aqui durante o dia. Isto é contrabando! Já é por demais a selvageria que vocês cometem de noite – e você ainda pretende fazer pilhagens de dia? – O dia é de todos! – replicou a de baixo com uma risada cínica, tão cínica como nunca ouvi igual em dias de minha vida, e isto da parte de um inseto que eu supunha dos mais honestos do mundo, não obstante o seu espírito destruidor. Estávamos todos em uma grande expectativa, quando a formiga, rangendo minazmente as duas foices ruivas das suas mandíbulas presas numa cabeça monstruosa, prosseguiu num tom de voz cortante que nem fio de na valha: – É verdade, destruímos as plantas porque precisamos de folhas suculentas para as nossas hortas de cogumelos. Nossas rainhas e irmãzinhas não vivem de terra, comem frutinha de cogumelo, que é gostoso. Mas somos honestas e sinceras. Não ocultamos a ninguém a destruição que fazemos. O homem, pior que nós, procura matar-nos com toda a espécie de drogas fedorentas e malditas, líquidos e gases que envenenam a vida da gente; quando descobre a nossa cidade, mata até os nossos nenezinhos, ninfas, ovos e tudo. Nós, porém, nunca matamos homem algum; temos coração bom e generoso.
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    Destruímos abertamente oque temos de destruir – ao passo que vocês, abelhas, tidas por fenômenos de virtuosidade, exploram diariamente todas as flores do mundo, roubando-lhes néctar e pólen. Nós formigas, temos de apoderar-nos do alheio – até o homem faz isto, como ainda ontem me disse a galinha carijó, que nunca pôde chocar um só ovo dos muitos que pôs e que o homem lhe roubou – mas nós, formigas, confessamos os nossos atos, e vocês, abelhas, escamoteiam todo o mal que fazem, querendo passar por gente de bem... – Que ignorância! – Que estupidez! – Que sem-vergonhismo! Assim bradaram, uma após outra, as três abelhas, vibrando furiosamente as asas transparentes e brandindo ameaçadoramente o venenoso ferrão. Nenhuma, contudo, teve a coragem de atacar a saúva, porque sabiam que ela estava revestida de uma couraça impenetrável e tinha a bocarra armada de um par de foices que, num instante, partiriam ao meio o corpo de qualquer abelha. Finalmente, uma das três, que passava por ser a mais sensata do grupo, prosseguiu: – Será possível, senhora Saúva... – Senhorita Saúva, se me faz favor. Só as nossas içás e rainhas é que são senhoras. – Será possível, senhorita Saúva, que vocês, formigas, que até são parentes nossas, ignorem até ao presente dia os grandes benefícios que as abelhas prestam às flores? – Nunca ouvi de semelhante benefício. Será que as flores se sentem muito honradas por suportarem o vosso gracioso corpo?... – Você sabe o que é pólen? – Sei. É uma poeira branca ou amarela parecida com a que nós extraímos da terra quando abrimos os nossos túneis. – Deus do céu, que ignorância! – exclamaram as abelhas em coro. Depois, uma delas disse baixinho à sua companheira: Também que podia saber uma toupeira dessas que raras vezes vê a luz do sol?... – Que estão dizendo? – perguntou a formiga, insolente – Têm alguma explicação a dar? qual o benefício que vocês prestam às flores?
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    – Que explicaçãose pode dar a uma creatura que confunde o pólen das flores com o pó da terra? Fique sabendo que o barro que vocês tiram dos seus túneis é matéria morta, ao passo que o pólen é coisa viva... – Viva? viva? não me consta... – É viva, sim, mas dorme. Nós fazemos com que o pólen dormente desperte para completa vigília. O pólen desperta quando entra em contato com outro germe, também dormente, que é um ovinho no centro da flor. Se os germes do pólen não atingirem o ovinho, ambos continuam a dormir. E, de tanto dormir, acabam morrendo. Mas, quando um encontra o outro, ambos acordam do sono, e logo se abraçam cheios de amor e alegria – e então começa a nova planta dentro da semente que os dois germes acordados produziram. – Sei disto. Nós, lá dentro da nossa cidade de cúpulas e galerias, estudamos muito. Içá Tanajura sabe tudo isto. Disse que é o vento que transfere o pólen das flores para o estigma, no fundo do qual está o ovinho. Isto é, quando as saúvas dão licença... – Mas deve você saber que são bem poucas as plantas que se contentam com os bons serviços do vento. A maior parte precisa do nosso auxílio. Senão morre sem semente, sem filhos. Pergunte ao lavrador, ele é que sabe... – Você quer fazer-me crer que as abelhas têm negócio de companhia com as plantas? – Temos, sim. Nós, as abelhas, prestamos às flores das plantas um serviço vital, unindo os seus grãozinhos dormentes e despertando-os, assim, do sono. Elas, por sua vez, nos dão o néctar e uma parte do pólen, que é alimento para nossos filhos. E assim cada um tem o que quer. – Folgo de saber – observou a formiga com um sorriso amarelo na cara vermelha – que vocês são tão esplêndidas casamenteiras. Meus parabéns! Entretanto, nada fazem de graça. Fazem-se muito bem pagas por seus serviços. Ouvi dizer que as plantas criaram flores com néctar, só para lhes pagarem a colaboração, porque de graça vocês não fazem nada, nada... – Já se vê que vocês não têm idéia da ordem da Natureza. Também, que conhecimentos podia possuir quem vive no fundo da terra, e só sai de noite, para destruir tudo o que outros construíram? A saúva ouviu essa tremenda catilinária, e não replicou, limitando-se a sorrir com um sorriso ainda mais amarelo do que a princípio e escancarando uma bocarra que pareciam sete. Prosseguiu a abelha conferencista: – Fique, pois, sabendo que a Natureza toda é uma sociedade de irmãos e irmãs. Ninguém pode viver e prosperar sem os outros. A colaboração recíproca
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    é necessária. Cadaum tem de ajudar os outros. Até o melhor e mais sábio dos homens que viveu sobre a face da terra disse isto, que cada um deve amar seu semelhante como a si mesmo. É o que nós fazemos. – Muito bem, apoiado! – exclamou a saúva. Depois, olhando de esguelha para as abelhas, armou uma carranca tão hedionda que as três de cima tiveram a impressão de não somente ver, mas até ouvir e sentir essa hediondez da formiga rapineira. Uma das abelhas quase desmaiou ao presenciar tamanha fealdade. Outra murmurou baixinho: “E ela é nossa parenta...” Houve um silêncio inquietante. Ninguém sabia bem o que pensar e dizer. Finalmente, observou a saúva, com diabólico cinismo: – Já que somos todos irmãos e irmãs, faço constar ao sapientíssimo povo das abelhas, melíferas e altruístas, o seguinte: nós, as saúvas, não somos lambiscadores de gulodices, como as crianças; somos uma raça vigorosa e nos alimentamos de fungos auto-fabricados. – De fungos, ou de folhas? – interveio a abelha. – De fungos, de verdadeiros fungos auto-fabricados! – berrou a saúva. – Reduzimos as folhas a farelo, em nossas panelas, também auto-fabricadas, e do farelo saem os fungos. Ora, uma vez que não gostamos de mel, mas sentimos a fraternidade de todos os seres do Universo, resolvi convidar nossas parentas negras, as formigas sara-sara, grandes amigas de mel, para invadirem a vossa cidade, na próxima noite, logo após a visita da lua. Dizem que coisa roubada é mais gostosa, e, quando roubada duas vezes, como o vosso mel – por vós e por nós – deve ser gostosíssimo... – Que cinismo! – Que insolência! – Que sem-vergonhismo! Assim bradaram todas a uma voz. De repente disse uma das três, com ares de coragem e desafio: – Estão todas convidadas. As invasoras que não morrerem afogadas na água que rodeia a nossa cidade, terão um banquete de vinte mil ferroadas! – Até à noite! – bradou uma. – Bom apetite! – gargalhou outra. – Adeus à sua vida! – gritou a terceira. ...............................................................................................................................
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    A saúva nãodisse nada, mas pensava muito. E, quando as três abelhas foram à procura da saúva não a encontraram mais... A formiga desaparecera na escuridão do seu túnel, bem mais sábia do que viera... E de longe, bem de longe, julgavam as abelhas ouvir umas vozes, entrecortadas de gargalhadas, que diziam: – Bela fraternidade essa!... há, há, há!...magnífico altruísmo, esse!... há, há, há!...
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    Elixir de Vidae Juventude Havia muito tempo que eu estava com vontade de fazer a Isis uma pergunta sobre a tal geléia real, de que tanto falam os homens e da qual esperam vida longa e eterna juventude. Fiz diversas tentativas para abordar este assunto; mas Isis dava respostas evasivas. Parecia estar com receio de profanar um mistério como este. Ou, quem sabe? não julgava possível que a pequena inteligência do homo sapiens compreendesse tal coisa. Finalmente, porém, ela atendeu às minhas interrogações, a primeira das quais foi esta: – Amiga Isis, você faz geléia real? – Já fiz, mas não faço mais. – Por que não faz mais? – Essa substância vem somente de abelhas em plena juventude, entre 8 e 12 dias da sua vida. – É verdade que vossa rainha só come dessa substância? – É exato. E por isto ela vive muito tempo. – Quanto tempo vive ela? – Umas cinco primaveras. – E vocês, as operárias? vivem quanto tempo? – Uns 40 ou 50 sóis. – Em nossa linguagem humana, a rainha vive 5 anos, e vocês vivem 50 dias. Quer dizer que a rainha vive quase 40 vezes mais do que vocês, por que come geléia real? – Quem sabe disto é a grande Inteligência. – O homem vive uns 60 anos. Se ele comesse geléia real, viveria cerca de 2.400 anos...
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    A esta minhaobservação, Isis fez uma carinha tão zombeteira que me envergonhei da pergunta. Mesmo sem ulterior interrogação, compreendi que minha pergunta era absurda. A geléia real atua sobre um corpo de inseto, e não de um mamífero. Pouco a pouco, cheguei a concluir das palavras misteriosas de Isis que a vitalidade dessa substância não está nos 90% e tanto dos componentes que a nossa ciência pode analisar, mas precisamente na parte inanalisável, que deve ser a alma do Universo que se manifesta pelo corpo analisável. – Há depósito de geléia real na colmeia? – perguntei. – Nenhum. Esse elixir de vida vem da grande Inteligência e passa por umas glândulas que as abelhas jovens têm na faringe; daí vai diretamente para a boca da rainha, ou para os ovos e as larvas novas nos berços. – Estou vendo, Isis, que o comércio que nós fazemos da geléia real é uma fraude, porque é de uma substância sem alma viva. – A nossa geléia vem da vida e vai para a vida. O que os homens comem são apenas os veículos materiais da vida imaterial. – A vida seria rádio-atividade? – A vida não tem nome. O que se pode dizer ou pensar não é a vida. A vida só pode ser vivida. Despedi-me de Isis e, enquanto voltava para casa continuei mais cosmo- pensado do que ego-pensante. Tive a impressão de que a alma do próprio Universo pensava e vivia através de mim. E tive ao mesmo tempo a estranha intuição de que a alma do Universo não pode ser pensada nem falada, mas só deve ser calada e vivida em profundo silêncio, para não ser adulterada e profanizada. O que se de pensar está falsificado; e o que se pode dizer, além de pensar, está duplamente falsificado. Verdadeiro e genuíno é só aquilo que não se pode pensar nem dizer, mas intuir e sentir silenciosamente. Só a voz do Silêncio nos revela a verdade sobre o Universo. Por fim, a voz do Silêncio me segredou à alma que também para o homem há um elixir de vida e juventude, que ele pode sugar da alma do Universo; é de outra natureza que essa vitalidade recebida pelas abelhas jovens. Tentei dar um nome a esse elixir vital, mas desisti da tentativa, porque já sabia que pensar é falsificar. Por isto, saboreei em profundo silêncio o meu delicioso segredo anônimo... Elixir de vida e juventude...
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    O que Zumbecadisse a Isis Numa dessas manhãs radiantes, viu Isis um arbusto cheio de flores brancas. Mais que depressa voou para lá em busca de néctar e pólen. Enquanto lá estava, viu pela primeira vez umas abelhas da mesma raça que os homens chamam Apis mellifera, mas um pouco diferentes dela; eram ligeiramente acinzentadas e voavam de certo jeito. Uma dessas abelhas estava arrumando uns grãozinhos de pólen amarelo nas colherzinhas das pernas trazeiras e levá-los para casa, que era um velho cupinzeiro de barro avermelhado. A princípio, Isis estranhou que aquilo fosse a casa das abelhas acinzentadas. Finalmente, animou-se a apresentar-se, meio encabulada, a uma das abelhas, dizendo: – Com licença, meu nome é Isis. – Meu nome é Zumbeca – respondeu a outra secamente, desaparecendo no fundo dum cálice de flor. Quando Zumbeca tornou a sair do cálice. Isis lhe perguntou: – Aquilo aí é sua casa? – É minha casa, sim – respondeu a outra. – Mas por que mora você numa casa de barro? num cupinzeiro abandonado? – E você, onde mora? – Eu moro numa linda casa de madeira, lá encima. – Numa peroba oca? – Não, a minha casa é de tábuas, bonita e espaçosa. – Ah, já sei, já sei... Você é amiga dos homens. Nós detestamos o homem, nosso maior inimigo, que nos rouba tudo e destrói a nossa casa. – De que homem está falando você, Zumbeca? – Do homem da nossa terra, da terra dos meus antepassados. – Da África, não é? Mas aqui estamos no Brasil...
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    – E aquios homens não são monstros, como os de lá? – Não me consta. – Os meus antepassados me contaram que os homens roubam o nosso mel e o nosso pólen, matam as nossas filhas, mesmo no berço, e arrasam a nossa casa; e temos de reconstruir tudo de novo. Por isto, nós caímos em enxames sobre os homens para matá-los. Houve um longo silêncio. Pela primeira vez, compreendeu Isis o motivo da ferocidade das abelhas africanas e africanizadas, de que ouvira falar. Elas não eram ferozes por natureza – tanto assim que eram da mesma raça das abelhas da Europa e da Ásia. Os homens, através de milhares de anos de ferocidade, as haviam tornado ferozes. Na Europa e outros países, os apicultores eram amigos das abelhas, faziam para elas casas agradáveis, até mobiliadas e, quando escasseava o néctar das flores, os homens forneciam-lhes xarope de açúcar. Tiravam-lhes, é verdade, algum mel, mas não lhes matavam as larvas nem lhes destruíam a casa. Isis fez ver que, algum dia, Zumbeca e suas irmãs seriam tão amigas dos homens como ela. Amizade gera amizade. – Quando acontecerá isto? – perguntou Zumbeca, e armou uma carranca tão medonha que até parecia doer. – Quando, não sei; mas vai acontecer. Vocês estão no Brasil há poucos decênios, como ouvi dizer, depois de terem vivido na África milhares de anos. Algum dia, vocês se tornarão tão amigas do homem como somos nós. Zumbeca desapareceu, rumo ao cupinzeiro, pensando nas palavras de Isis, mas com pouca fé no seu otimismo. Será que no Brasil haverá desses homens de que ela falava?...
  • 63.
    A História Trágicade Momuca Prometi aos leitores contar-lhes o que Sílvia me disse da vida trágica da rainha Momuca. Contei-lhes apenas uns poucos episódios dessa pavorosa tragédia biológica – como a jovem soberana empreendeu o seu vôo nupcial, casou-se nas luminosas alturas do céu, desceu, e caiu no poder de um bem-te-vi, conseguindo escapar, mas ficando aleijada pela vida inteira, incapaz de exercer as suas funções de mãe da grande tribo. Entretanto, o mais trágico veio depois. Não o quis contar naquele dia, por ser uma história demasiado lúgubre para ser contada em dia de sol e cantos de passarinhos. Hoje, porém, o dia é triste. O sol nem teve a coragem de abrir as cortinas douradas do seu leito, lá para as bandas do oriente. Parece que ainda está dormindo, apesar de ser quase meio-dia, se é que não morreu... A Natureza toda está de luto... O céu apagou do rosto a linda cor azul e cobriu-se de um véu de cinza, como faziam os povos antigos em sinal de tristeza. Ainda assim, não consegue ocultar o seu pranto: milhares de lágrimas miúdas saltam através desse véu cinzento e umedecem a terra cá embaixo, também coberta de melancolia... As borboletas e os besouros, aliás tão madrugadores, nem saíram de casa... Apenas alguns passarinhos pipilam baixinho, baixinho, como se estivessem com medo de cantar alto, num dia de tristeza universal... Este dia é bem próprio para contar histórias sombrias e melancólicas. Resolvi, pois, narrar, hoje, a grande tragédia da bela Momuca. Sim, da bela Momuca, porque é voz unânime em todas as cidades celulares que dela guardam lembrança, que Momuca era a abelha mais linda e perfeita que já foi iluminada pelo sol do firmamento. Forte, elegante, flexível, com umas asas magníficas, e todo o corpo coberto de uma penugem dourada, ocultando quase a cor morena da sua couraça de quitina. Esse abundante frouxel cor de ouro, dizem os entendidos, é sinal de raça e indício de grande vitalidade. Os dois olhos hemisféricos de Momuca eram de tal perfeição e fulgor que, quando os quatrocentos e quarenta e quatro zangões a viram fora da colmeia a levantar vôo, consta que duzentos e vinte e dois deles caíram fulminados de estupefação e assombro, e nem puderam voar no encalço da formosa princesa para o amplexo de amor nas alturas do céu. Assim, pelo menos, narrou Sílvia, e o que ela diz merece confiança. Melhor para eles, acrescentou Sílvia, morrerem assim, de estupor, em vez de serem pelas operárias apunhalados,
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    ou então definharemde fome fora da cidade, como aconteceu aos outros zangões que não tiveram a felicidade de serem fulminados pelo esplendor mortífero dos olhos da jovem rainha. Depois de realizar o seu magnífico vôo nupcial, por entre a apoteose de todos os raios solares, de todos os perfumes das flores e de todos os hinos da passarinhada, voltou Momuca, com o futuro glorioso da nação nas entranhas – quando lhe sucedeu algo que, como disse Sílvia, está envolto em eterno mistério, mas que muitos atribuem à inesperada agressão por parte de um insolente bem-te-vi, como já ficou dito. O certo é que Momuca, de regresso à colmeia, não pôde pôr ovos fecundados de que saissem operárias ou rainhas, como aliás pode toda a soberana normal. E como dos ovos não fecundados só nascem zangões, que não trabalham, acabaria a nação toda sob o flagelo de abelhas que consomem e não produzem. – Mataram Momuca? – perguntei. – Não – respondeu Isis – Deixaram-na morrer. Não é permitido às nossas operárias enterrarem o ferrão mortífero no corpo de uma rainha, mesmo que esta fosse a maior das criminosas. Por outro lado, também uma rainha nunca voltará a terrível arma contra uma simples operária ou contra um zangão. Entre nós, só se luta de igual para igual, nunca entre inferior e superior. É ordem da grande Inteligência. Se duas rainhas se encontram, lutam até morrer uma, ou as duas, alfange contra alfange... – Que quer dizer isto? – As rainhas têm ferrão recurvo como alfanges turcos, enquanto o das operárias é reto como um punhal. – Você disse, Isis, que as abelhas não mataram a infeliz rainha, mas a deixaram morrer; como assim?... – Isto é praxe entre nós, quando temos de eliminar do meio dos vivos uma rainha, como dizem vocês. Fazemos com que ela morra, mas não a matamos. – Explique-me isto, por favor, Isis. – As operárias cercaram Momuca, formando uma muralha circular com seus corpos. Foram fechando cada vez mais o círculo, até acabar numa abóbada, isolando completamente a prisioneira. A princípio tentou ela romper o cerco, mas, como não se pudesse servir do seu alfange, foram inúteis todas as tentativas de evasão. A muralha viva das operárias era que nem rocha viva. Por muito tempo ouviam-se os dolorosos gemidos e o violento vibrar de asas
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    de Momuca, enterradaviva. O silêncio das sitiantes era absoluto, como se estivessem fazendo cera. Nesta altura, interrompeu Isis a sua narração, baixou a cabeça e arriou as minúsculas antenas como duas bandeiras a meia-haste. Não chorou, porque os olhos dos insetos não têm lágrimas, mas trazia o coração despedaçado de dor. Durante esse lúgubre silêncio lembrei-me subitamente do que, em tempos antigos, havia lido sobre as Vestais de Roma, essas sacerdotisas da deusa Vesta, que eram enterradas vivas no caso que deixassem apagar o fogo sagrado e assim comprometessem a segurança da pátria. Para distrair do seu lúgubre cismar a minha amiga alada contei-lhe por extenso essa história. A princípio, Isis pareceu não compreender a analogia, uma vez que as Vestais eram punidas de morte por terem deixado apagar o fogo sagrado, enquanto Momuca morria por não poder transmitir o fogo da vida. Mas, quando lhe fiz ver que tanto esta como aquela estavam encarregadas de manter aceso o fogo sagrado de cuja chama dependia o destino da pátria, Isis compreendeu e disse, suspirando pesadamente: É verdade... Momuca não manteve aceso o fogo sagrado da vida que devia transmitir à posteridade. Extinguiu-se dentro dela a chama de todas as vidas futuras que devia produzir... – Mas, sem culpa dela – acrescentei eu, a meia voz. – Sem culpa dela – concordou Isis. – A morte que ela sofreu não foi castigo de uma culpa, foi a execução de uma lei, de uma ordem da grande Inteligência. Entre nós, ninguém é culpado, ninguém é punido, nem mesmo os zangões quando são mortos, nem a rainha quando, por infecunda, é eliminada do meio dos vivos. É cumprimento de uma lei eterna, para manter a harmonia da vida... – E Momuca morreu? – Morreu de morte natural, no segundo dia do cerco, e o seu lindo corpo foi levado para fora da cidade, o mais longe possível... ............................................................................................................................... Houve uma longa pausa; Isis conservava-se imóvel, tão imóvel como eu nunca julgara pudesse estar uma abelha; parecia petrificada. Tão grande era o silêncio em derredor de nós que julguei até perceber o caminhar das sombras da tarde sobre os cadáveres morenos das folhas secas esparsas pelo chão... Parece que a Natureza toda suspendia a respiração ao ouvir o triste necrológio de uma das suas filhas mais belas e perfeitas... Depois de largo tempo, animei-me a interromper essa quietude pesada e lúgubre, perguntando:
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    – E queé feito da tribo orfanada? – Por um tris extinguira-se a nação toda. A princípio, como é costume entre nós, no meio de tamanha desgraça, as operárias choraram o seu choro de órfãs... – Choro de órfãs, que é isto? – É um zumbido especial, muito triste, que elas produzem com as asas, a fim de aliciar alguma rainha sem casa que, porventura, percorra os ares. Todas as rainhas conhecem esse choro das órfãs. Mas não havia pelos arredores rainha sem reino, e as que têm reino não podem atender ao clamor das órfãs. Depois, todas as operárias se perfumaram, a ver se à força de bons cheiros conseguiam chamar em seu socorro uma rainha erradia. Mas foi tudo inútil... – Donde tiraram elas os perfumes? das flores? – Não. É um perfume especial que as abelhas segregam do próprio corpo e espalham no ar, em caso de orfandade. Você nunca viu abelhas órfãs, nem poderia com seu olfato primitivo perceber esse cheiro de socorro, que vai muito longe, pelos ares afora. Tudo inútil. Ainda por algum tempo houve nascimentos, pois havia larvas da rainha que partira com o enxame, quando deixou o reino à sua filha, a formosa Momuca. Mas, como não houvesse mãe capaz de pôr ovos fecundados, dentro de 21 dias deixaria fatalmente de haver nascimentos – e então, adeus, nação inteira! só haveria mortes e mais mortes sem nascimento algum... Já estava começando o período fatal, quando algumas operárias, muitas mesmo, usurparam o cargo sagrado da rainha e resolveram pôr ovos... – Como? as operárias podem pôr ovos? – Podem, sim, desde que tomem da geléia real, que tem o poder de desenvolver os ovários. – Onde estava essa geléia real? – Foi lhes fornecida pelas novatas, ou foi roubada das células das crias. – E que aconteceu? salvaram do extermínio a nação? – Qual, nada! essa loucura das operárias poedeiras só lhe acelerou a ruina... – Como assim? – Porque os ovos que alguma das operarias possa pôr são ovos virgens, não fecundados, e destes só nascem zangões, que comem muito e não trabalham nada – e qual a sorte de um povo que só consome e não produz?
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    – Mas... nãohavia zangões para fecundar alguma operária, e assim facultar-lhe a postura de ovos fecundados, para operárias?... – Nenhuma operária pode ser fecundada senão no princípio da sua vida... – E assim se extinguiu a colmeia toda?... – Ter-se-ia extinto se não viesse um salvador... – Que salvador? – O homem... – Que pode o homem fazer num caso desses? – O homem deu nova rainha ao povo orfanado. Não sei donde ele tira essa rainha, mas o fato é que, depois da morte trágica de Momuca, antes que fosse tarde, o homem pôs uma rainha já fecundada no meio da colmeia. Queria ele que as órfãs aceitassem, assim sem mais nem menos, essa estrangeira; mas elas não a aceitaram. – Não a aceitaram? pois não andavam aflitas por uma rainha?... – Não a aceitaram a princípio, porque ela não tinha o cheiro de casa. – Cheiro de casa, que é isto? – Sim, o cheiro de casa. Não sabe você que cada cidade apiária tem o seu cheiro característico? Quem não tem esse cheiro não é aceito. As abelhas preferem morrer todas a aceitar uma rainha que não tenha cheiro legítimo, doméstico, nacional. É ordem da grande Inteligência, contra a qual não há lei. – Mataram a rainha que o homem lhes deu? – Não a mataram, porque o homem, vendo a recusa, teve juízo e lhe deu o cheiro de casa. – Como assim? – Dissolveu um pouco de mel em água e com esta doçura cheirosa borrifou a rainha e todas as abelhas em derredor. Assim, deixou de haver diferença de cheiros, tudo era um cheiro só, cheiro de mel, cheiro gostoso e querido a qualquer abelha. Lamberam o mel do corpo da rainha estrangeira e fizeram as pazes com ela. E assim salvou-se da ruína a grande cidade onde Momuca devia ser rainha. É esta a história trágica da formosa rainha. Tudo isto me contou Isis, mas assim como só uma abelha sabe contar a tragédia de outra abelha.
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    A lembrança deMomuca perdura na cidade celular e é contada a todas as princesas virgens, antes do seu vôo nupcial, para que tomem cuidado e não caiam em poder de um bem-te-vi ou de outro inimigo.
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    O que Isisme Disse sobre Cosmocracia e como Adormeceu para Sempre Numa daquelas tardes encontrei, inesperadamente, minha amiga Isis, no fundo do meu jardim, imóvel, sobre uma folha de maracujá. Sendo que o sol já se recolhera para além do horizonte, estranhei que a abelha lá estivesse, sozinha, quando, a essas horas, costumam as operárias estar recolhidas à colmeia, repousando dos grandes vôos diurnos e ocupadas em trabalhos domésticos. – Olá, amiga Isis! que está a fazer aqui a estas horas? – perguntei-lhe amavelmente. – Vim aqui para morrer – respondeu ela, com perfeita calma e serenidade. – Como? para morrer? – Sim, para morrer. Terminaram os meus cinquenta sóis de vida e trabalho. Olha como estão rotas as minhas asas, de tanto voar. De fato, aquelas duas membranas transparentes, presas de cada lado do tórax, e reforçadas, na base, por mais outras menores, pareciam um par de bandeiras esfarrapadas ao vento ou crivadas de balas em muitos campos de batalha. Verifiquei também que Isis perdera quase toda aquela delicada penugem que, a princípio, costuma cobrir o corpo das abelhas; sua couraça de quitina estava lisa, luzidia, puída de tanto atrito atmosférico, parecendo por isto mais escura que a das abelhas jovens. – Está triste, Isis? – Triste, por quê? – Porque vai morrer... – Oh não! morrer é tão bom como viver.
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    – E porque não morre em casa, no meio de suas amigas? – Para nascer, a abelha precisa de outros; para morrer, basta ela só. Lá em casa nascem cada dia milhares de abelhas novas, e aqui fora morrem outras tantas. Que trabalho seria para as outras terem de levar para fora, cada dia, tantos corpos! Por isto, cada uma de nós, quando sente chegar o fim da vida, vai para longe e despede-se do sol e das flores em completa solidão. Para viver precisamos da sociedade; para morrer, gostamos da solidão. Mais uma vez, como em outras ocasiões, sobreveio-me a sensação estranha, quase terrífica; tinha a impressão de me ver face a face com algo que não era aquele pequenino inseto; com alguma entidade cósmica, grande, sublime, eterna – como a própria Alma do Universo... Aquela abelha não era senão um postigo pelo qual eu lançava um olhar para dentro de mundos de infinita grandeza e nunca sonhadas maravilhas. Senti-me circundado de mistérios e empolgado de assombro... Estaria sonhando? arrebatado a regiões do além?... vítima de uma miragem quimérica?... Não, não era sonho nem quimera... As coisas ao redor de mim eram reais, concretas, palpáveis... As árvores, a cerca, as pedras, o pé de maracujá, tudo isto existia de fato, objetivamente, e não apenas no meu mundo subjetivo... – Quanto tempo ainda tem de vida? – perguntei a Isis, que se conservava imóvel, como se já estivesse morta. – Quando morrer no horizonte o derradeiro clarão da luz – respondeu ela – adormecerei para sempre... Até esse momento, sou sua amiga e responderei às suas perguntas... Dizendo isto, Isis olhou para mim com tanta bondade e simpatia que tive vontade imensa de abraçá-la, se ela tivesse compreendido a significação de semelhante gesto humano. – Isis – disse eu, com vagar e solenidade – Você, que conhece tantas coisas que nós, homens, ignoramos, revele-me o segredo dessa admirável ordem e harmonia que faz da vossa vida e do vosso Estado uma epopéia de poesia e beleza. Nós, os homens, só conseguimos viver e trabalhar em paz quando estamos a sós; onde há dois, há discórdia; onde há três há briga; onde há muitos há guerra. E na vossa cidade vivem dezenas de milhares de indivíduos na mais perfeita paz e felicidade. Não há rivalidades. Não há luta de classes. Cada um executa com prazer o trabalho que lhe toca e encontra felicidade em tornar felizes os outros. A rainha vive em escuridão e monotonia, pondo ovos e garantindo o futuro da nação, e não inveja as operárias, que, dia a dia, percorrem a vastidão das campinas e gozam das maravilhas do sol e do perfume das flores. As operárias sentem-se felizes em recolher néctar e pólen para todos, esquecendo-se quase de si mesmas; nem se exasperam com a
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    indolência e osmaus modos dos zangões. Estes, por sua vez, depois do vôo nupcial da nova rainha, morrem sem protesto e sem terem gozado um momento de amor, para o qual cada um julgava ter nascido; e os poucos felizardos que conseguem abraçar a formosa virgem têm de morrer no mesmo instante, e não maldizem a sua sorte. A vossa soberana, a seu tempo, entrega à sua sucessora todos os tesouros da colmeia e recomeça a vida na maior pobreza, longe da pátria – e sente-se perfeitamente feliz. Quando alguém vos rouba o mel e a cera, recomeçais de novo a árdua tarefa e trabalhais com o mesmo gosto que da primeira vez. Diga-me, Isis, como consegue a vossa rainha organizar tão perfeita sociedade e garantir tão admirável harmonia? – Não temos rainha, só temos mãe. – E essa mãe não vos dirige e governa? – Não, não temos governo algum que nos dirija. Isto é um costume humano, que as abelhas ignoram. Entre nós não há indivíduo algum que dê ordens. – Mas, por favor, Isis, explique-me como é possível que milhares e milhares de abelhas, sem direção alguma, trabalhem para o mesmo fim e em perfeita harmonia? como é que cada uma, desde a hora do seu nascimento, sabe perfeitamente o que tem de fazer e o modo como tem de executar o seu, trabalho? Isis permaneceu calada por muito tempo, como se estivesse em busca de uma resposta. Pois sabia que o homem é, geralmente, guiado por sua pequena inteligência, e raras vezes percebe a voz da grande Inteligência. Por fim, disse- me vagarosamente; – Entre seres como vós, que se guiam pela inteligência individual, é necessário que haja alguém, investido de autoridade, que dê ordens, e que os demais obedeçam a essas ordens. Do contrário, um vai para cá e outro para lá, e não é possível colaboração uniforme e prosperidade social. Mas, onde há seres não dotados de inteligência individual não é necessário esse governo. – E vós, abelhas, não sois dotadas de inteligência? – Não, nós não possuímos inteligência individual como vós. Agimos por instinto, de acordo com o impulso cósmico da Alma do Universo. Cada uma de nós é uma parte integrante da Inteligência Cósmica, da qual não está desligada por uma inteligência individual, como os seres humanos. Cada abelha é como que uma pequena célula do grande organismo, como diriam vossos livros. Quantas células tem você no seu corpo? – Diversos bilhões.
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    – Pois eu,esta abelha Isis, sinto-me como uma célula no grande organismo da nossa tribo, e do infinito Cosmos. Hoje terminei o meu serviço, e vou ser substituída por outra célula. Satisfeita, cedo o meu lugar. Sou uma célula gasta, que deve ser substituída por outra, jovem e forte, pelo bem do Todo... – Isis, as suas palavras enchem-me o espírito de pensamentos estranhos. Tanto mais perfeito é um governo quanto mais cósmico? – É como diz. Tudo que é belo e grande tem caráter cósmico. Também o indivíduo é tanto mais perfeito quanto mais cósmico, servidor do Todo, panorâmico, universal, amigo de seus semelhantes, uma nota pura sintonizada pela grande sinfonia do Universo... – Uma sociedade orientada por um fator cósmico seria então uma Cosmocracia... – Exatamente, muitos indivíduos, governados, não por outro indivíduo, mas pela grande Alma do Universo, refletida na consciência de cada um. Seria o ideal. – Entre nós, homens, há indivíduos que se arvoram em chefes e soberanos por conta própria, sem consultar a alma do Cosmos. – Que aberração! Nunca pensei que entre seres racionais fosse possível tamanha irracionalidade. É um crime contra a Grande Inteligência... – Mas a parte mais sã da humanidade pensa e age de outro modo: os próprios indivíduos designam aquele por quem querem ser governados. – Já é meio caminho andado, rumo à Cosmocracia; mas ainda está longe do termo da jornada. Nós não escolhemos soberano algum. Não há intermediário entre nós e a Alma do Universo. É esta própria Alma, a grande Inteligência, a infinita Realidade, a suprema Divindade, que nos rege e governa. Quando os homens chegarem à perfeição, saberão governar-se a si mesmos, sem chefe nem intermediário algum. Não haverá ordens vindas de fora, só haverá uma ordem vinda de dentro, eco daquele grande Imperativo do Universo que tudo dirige com força e suavidade, de um a outro extremo do Cosmos. Quando o vosso dever se transformar em querer, e esse delicioso querer se identificar plenamente com o onipotente dever então será perfeita a vossa harmonia social, e perfeita será também a vossa felicidade individual. E a vossa harmonia e felicidade serão infinitamente maiores do que as do povo das abelhas... – Pelo que vejo, Isis, vós, o povo das abelhas, sois muito mais avançados no caminho da evolução do que nós, os homens.
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    – É engano,grande engano, amigo homem! A nossa Cosmocracia é muito imperfeita. – Como assim, amiga Isis? – Porque nem atingiu o nível da inteligência individual, que é a atmosfera da humanidade. Essa inteligência individual é o vosso maior privilégio – e também o vosso maior perigo. Ai de quem parar nesse nível e se negar a ultrapassar esse estágio evolutivo!... Dia virá, porém, após muitos milhares de primaveras, dia virá em que o homem inteligente de hoje atingirá as luminosas alturas da racionalidade, ou, como dizem os vossos livros, da espiritualidade. Terminará então a luta de indivíduo contra indivíduo, de grupo contra grupo. Será proclamada a grande lei Cósmica, do amor espontâneo e universal – a perfeita e definitiva Cosmocracia... Isis proferiu estas últimas palavras com tamanha convicção e tão vibrante entusiasmo que seus olhos de opala, semi-extintos, se reacenderam com subitâneo fulgor, e seu gracioso corpinho, exausto de fadiga, parecia rejuvenescer milagrosamente. Imóvel, na verde superfície da folha de maracujá, parecia como que enlevada numa visão profética sobre o glorioso futuro da humanidade, e, baixinho, bem baixinho, murmurou: Somos felizes... em servir a creaturas de tão altos destinos como o homem... Também eu me quedei, imóvel, por largo tempo, enquanto os derradeiros reflexos sanguíneos do sol agonizavam silenciosamente sobre as folhas e flores em derredor e a vanguarda da noite derrotava impiedosamente a retaguarda do dia... O mundo inteiro jazia envolto num fantástico halo de inefável poesia e divino misticismo... E a meus olhos internos surgiu a visão feérica de um vulto – o “Filho do Homem” cercado de um pugilo de amigos a atravessarem vastos trigais tangidos pelo hálito das brisas vespertinas... Suspendi a respiração para ouvir o que esse homem estranho dizia a seus seguidores. Percebi que falava da grande Cosmocracia do futuro – já presente nele – ou, como ele costumava dizer, o Reino de Deus a ser proclamado sobre a face da terra, o reino da compreensão e da bem-querença, o reino do altruísmo e do amor universal, o reino da paz e da harmonia perfeita, o reino da felicidade e beatitude sem limites... Falava do tempo glorioso quando o homem, esse semi-homem de hoje, se tornasse o pleni-homem de amanhã; quando o homem integral e plenamente adulto na sua racionalidade espiritual, não só amasse o seu pequeno ego, mas também o grande Tu de seu semelhante; quando o homem tomasse o amor que naturalmente tem a si mesmo, como norma e norte para o amor que votaria a todo e qualquer ser humano. E os próprios seres infra- humanos deixariam de ser objetos e vítimas de exploração da parte dos egoístas humanos, passando a ser amigos e aliados do homem espiritualizado pela compreensão e pelo amor universal do Deus do mundo em todos os
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    mundos de Deus.A Natureza andaria de mãos dadas com o homem redento da ignorância do seu egoísmo e da irredenção do seu ódio, abrindo-lhe os seus segredos e as suas forças ocultas... E o homem, plenamente identificado com seu Creador, se serviria de todas as creaturas do mundo de Deus consoante a vontade do Deus do mundo, sem delas abusar, sem as explorar ou violentar... ............................................................................................................................... Quando voltei a mim dessas longínquas divagações pelas regiões do Além, já o sol mergulhara no horizonte vespertino. Meus olhos procuraram minha amiguinha morena, e viram-na no momento em que, com um tenuíssimo “adeus”, seu pequenino corpo caía da folha de maracujá, rolando, exânime, sobre a terra... Tomei-o nas mãos com grande reverência, e levei-o para casa como saudosa recordação de algumas semanas de amizade e grandes revelações... Dois vagalumes seguiram-me através da escuridão, como um par de círios vivos a vigiar o sono plácido da querida Isis...
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    DADOS BIOGRÁFICOS Huberto Rohden Nasceuna antiga região de Tubarão, hoje São Ludgero, Santa Catarina, Brasil em 1893. Fez estudos no Rio Grande do Sul. Formou-se em Ciências, Filosofia e Teologia em universidades da Europa – Innsbruck (Áustria), Valkenburg (Holanda) e Nápoles (Itália). De regresso ao Brasil, trabalhou como professor, conferencista e escritor. Publicou mais de 65 obras sobre ciência, filosofia e religião, entre as quais várias foram traduzidas para outras línguas, inclusive para o esperanto; algumas existem em braile, para institutos de cegos. Rohden não está filiado a nenhuma igreja, seita ou partido político. Fundou e dirigiu o movimento filosófico e espiritual Alvorada. De 1945 a 1946 teve uma bolsa de estudos para pesquisas científicas, na Universidade de Princeton, New Jersey (Estados Unidos), onde conviveu com Albert Einstein e lançou os alicerces para o movimento de âmbito mundial da Filosofia Univérsica, tomando por base do pensamento e da vida humana a
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    constituição do próprioUniverso, evidenciando a afinidade entre Matemática, Metafísica e Mística. Em 1946, Huberto Rohden foi convidado pela American University, de Washington, D.C., para reger as cátedras de Filosofia Universal e de Religiões Comparadas, cargo este que exerceu durante cinco anos. Durante a última Guerra Mundial foi convidado pelo Bureau of lnter-American Affairs, de Washington, para fazer parte do corpo de tradutores das notícias de guerra, do inglês para o português. Ainda na American University, de Washington, fundou o Brazilian Center, centro cultural brasileiro, com o fim de manter intercâmbio cultural entre o Brasil e os Estados Unidos. Na capital dos Estados Unidos, Rohden frequentou, durante três anos, o Golden Lotus Temple, onde foi iniciado em Kriya-yoga por Swami Premananda, diretor hindu desse ashram. Ao fim de sua permanência nos Estados Unidos, Huberto Rohden foi convidado para fazer parte do corpo docente da nova International Christian University (ICU), de Metaka, Japão, a fim de reger as cátedras de Filosofia Universal e Religiões Comparadas; mas, por causa da guerra na Coréia, a universidade japonesa não foi inaugurada, e Rohden regressou ao Brasil. Em São Paulo foi nomeado professor de Filosofia na Universidade Mackenzie, cargo do qual não tomou posse. Em 1952, fundou em São Paulo a Instituição Cultural e Beneficente Alvorada, onde mantinha cursos permanentes em São Paulo, Rio de Janeiro e Goiânia, sobre Filosofia Univérsica e Filosofia do Evangelho, e dirigia Casas de Retiro Espiritual (ashrams) em diversos estados do Brasil. Em 1969, Huberto Rohden empreendeu viagens de estudo e experiência espiritual pela Palestina, Egito, Índia e Nepal, realizando diversas conferências com grupos de iogues na Índia. Em 1976, Rohden foi chamado a Portugal para fazer conferências sobre autoconhecimento e autorrealização. Em Lisboa fundou um setor do Centro de Autorrealização Alvorada. Nos últimos anos, Rohden residia na capital de São Paulo, onde permanecia alguns dias da semana escrevendo e reescrevendo seus livros, nos textos definitivos. Costumava passar três dias da semana no ashram, em contato com a natureza, plantando árvores, flores ou trabalhando no seu apiário-modelo. Quando estava na capital, Rohden frequentava periodicamente a editora responsável pela publicação de seus livros, dando-lhe orientação cultural e inspiração.
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    À zero horado dia 8 de outubro de 1981, após longa internação em uma clínica naturista de São Paulo, aos 87 anos, o professor Huberto Rohden partiu deste mundo e do convívio de seus amigos e discípulos. Suas últimas palavras em estado consciente foram: “Eu vim para servir à Humanidade”. Rohden deixa, para as gerações futuras, um legado cultural e um exemplo de fé e trabalho, somente comparados aos dos grandes homens do século XX. Huberto Rohden é o principal editando da Editora Martin Claret.
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    Relação de obrasdo Prof. Huberto Rohden Coleção Filosofia Universal O pensamento filosófico da Antiguidade A filosofia contemporânea O espírito da filosofia oriental Coleção Filosofia do Evangelho Filosofia cósmica do Evangelho O Sermão da Montanha Assim dizia o Mestre O triunfo da vida sobre a morte O nosso Mestre Coleção Filosofia da Vida De alma para alma Ídolos ou ideal? Escalando o Himalaia O caminho da felicidade Deus Em espírito e verdade Em comunhão com deus Cosmorama Por que sofremos Lúcifer e Lógos A grande libertação Bhagavad Gita (tradução) Setas para o infinito Entre dois mundos Minhas vivências na Palestina, Egito e Índia Filosofia da arte A arte de curar pelo espírito. Autor: Joel Goldsmith (tradução) Orientando “Que vos parece do Cristo?” Educação do homem integral Dias de grande paz (tradução)
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    O drama milenardo Cristo e do Anticristo Luzes e sombras da alvorada Roteiro cósmico A metafísica do cristianismo A voz do silêncio Tao Te Ching de Lao-tse (tradução) Sabedoria das parábolas O Quinto Evangelho segundo Tomé (tradução) A nova humanidade A mensagem viva do Cristo (Os quatro Evangelhos – tradução) Rumo à consciência cósmica O homem Estratégias de Lúcifer O homem e o Universo Imperativos da vida Profanos e iniciados Novo Testamento Lampejos evangélicos O Cristo cósmico e os essênios A experiência cósmica Panorama do cristianismo Problemas do espírito Novos rumos para a educação Cosmoterapia Coleção Mistérios da Natureza Maravilhas do Universo Alegorias Ísis Por mundos ignotos Coleção Biografias Paulo de Tarso Agostinho Por um ideal – 2 vols. autobiografia Mahatma Gandhi Jesus Nazareno Einstein – o enigma do Universo Pascal Myriam
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    Coleção Opúsculos Catecismo dafilosofia Saúde e felicidade pela cosmo-meditação Assim dizia Mahatma Gandhi (100 pensamentos) Aconteceu entre 2000 e 3000 Ciência, milagre e oração são compatíveis? Autoiniciação e cosmo-meditação Filosofia univérsica – sua origem sua natureza e sua finalidade