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HUBERTO ROHDEN




  MINHAS
 VIVÊNCIAS
NA PALESTINA, NO EGITO E NA ÍNDIA
             UNIVERSALISMO
ADVERTÊNCIA



A substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar
é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e
dispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior,
porque deturpa o pensamento.

Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é a
transição de uma existência para outra existência.

O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado.

Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores.

A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada se
aniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certa
mas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa.

Por isto, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquer
convenções acadêmicas.
PRELÚDIO



Em 1969, fui visitar três continentes do globo: Europa, Ásia, África.

Por quê?

Em busca da verdade? À procura de homens diferentes dos nossos?

Não! Os homens são fundamentalmente os mesmos, em toda parte.

Enquanto viajava pelos mundos, dava ordem aos mundos para viajarem
através de mim, que me mostrassem o mesmo homem já conhecido em
perspectivas várias.

Nunca o homem se conhece tão bem a si mesmo como quando recebe o
impacto de homens alheios. A alteridade dos outros catalisa e intensifica em
nós a identidade própria. Cristaliza o nosso autoconhecimento.

Alemães, suíços, gregos, israelitas, árabes, egípcios, hindus, nepaleses e
outros povos que encontrei – que poderiam eles dizer-me de novo?

Religiões cristãs de vários matizes, crenças hebréias e cultos maometanos,
filosofias herméticas, mistérios helênicos, metafísicas brahmanes e místicas
budistas; templos, igrejas, mesquitas, pagodes – nada de novo me disseram,
mas tornaram mais consciente em mim aquilo que eu já era e sabia.

Nesses espelhos vi o que sem espelho não poderia ver: o meu próprio
semblante refletido neles, atitude de minha alma, o caráter do meu Eu
individual.

Europa, Ásia, África – eu viajei através de vós, externamente – mas vós
viajastes através de mim, internamente. Contemplei as vossas quantidades – e
vós me revelastes a minha qualidade.

E alguns homens verticalizados, que em vós viveram, deixaram as suas
misteriosas auras, os seus fascinantes eflúvios em vosso ambiente histórico.

                                       ***

Leitor amigo. Não esperes encontrar nas seguintes páginas algo como um guia
de turismo, descrições de culturas alheias, visões panorâmicas dos países e
povos que visitei.
Nada disto encontrarás neste livro. Direi apenas – mais a mim do que a ti – o
que pessoas e povos me disseram, mais pelo seu ser do que pelo seu dizer,
enquanto viajavam através de mim. Nada direi da sua onilateral totalidade –
algo direi da sua unilateral parcialidade, no setor peculiar em que eles afinarem
com a frequência vibratória de minha alma.

Certamente, não vi esses países e povos como eles são – mas tão-somente
assim como eu sou.

E se tu, ignoto leitor, tiveres outras idéias desses mesmos países e povos,
reconheço as tuas idéias, embora discordantes das minhas, como igualmente
verdadeiras. Diversidade de opinião não é hostilidade. Se não houvessem
opiniões várias, seria este mundo uma insuportável monotonia.

Se tudo fosse apenas UNO, não haveria Universo.

Se tudo fosse apenas VERSO, não haveria Universo.

Mas há Universo porque o Uno e o Verso, embora diferentes, não são
contrários, mas harmonizados numa fascinante complementaridade: unidade
na diversidade, Harmonia Cósmica.

Viajei pelas diversidades de fora, para sentir mais intensamente a minha
unidade de dentro – unidade na diversidade, a identidade das alteridades – o
Universo em mim pelo Universo em si.
QUARENTA PAÍSES

                        EM TORNO DE UM INSETO



Na tarde de 2 de agosto de 1969, no Aeroporto Internacional de Viracopos, em
São Paulo, o jato da “Lufthansa” levantava majestoso vôo.

Depois de 40 minutos, pousou no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Ao
anoitecer decolou rumo nordeste.

Durante 9 horas sobrevoamos o Oceano Atlântico, enquanto os passageiros
dormiam tranquilamente, a uns 10.000 metros de altitude, viajando com a
velocidade de 9.300 quilômetros por hora.

Amanhecemos em Lisboa; os nossos relógios marcavam apenas 2 horas da
noite. O sol, que vinha ao nosso encontro, roubou-nos 4 horas de sono. Eram 6
horas.

Mais algumas horas e aterrissávamos em Zurique, na Suíça. Pouco depois, em
Frankfurt e em Munique, na Alemanha.

Nesta última cidade me associei a mais de 3.500 apicultores e cientistas,
cidadãos de 40 países dos 5 continentes do globo. Os países representados
eram os seguintes:

Afeganistão

Alemanha

Argélia

Argentina

Austrália

Áustria

Bélgica

Brasil

Bulgária

Canadá

Chile
Chipre

Dinamarca

Espanha

Finlândia

França

Grécia

Irlanda

Hungria

Índia

Inglaterra

Irã

Irlanda

Israel

Iugoslávia

Kênia

Líbano

Marrocos

Noruega

Polônia

Portugal

Rodésia

România

Rússia

Suécia

Suíça

Tchecoslováquia

Turquia.
Por espaço de uma semana inteira, de 1 a 7 de agosto, estiveram mais de
3.000 pessoas reunidas, na vasta área da Feira de Exposições, falando,
estudando, discutindo – sobre quê?

Sobre um inseto!

Como? Um simples inseto?

Sim, sobre um pequeno himenóptero, que a ciência denomina apis mellifera.

Celebrava-se o 22.° Congresso Internacional da Apicultura. Os congressistas
eram apicultores ou cientistas interessados em conhecimentos mais vastos e
profundos sobre esse fascinante inseto, em torno do qual se tem escrito
milhares de livros em todas as línguas do mundo.

O nosso Brasil estava representado por uns 15 apicultores.

O que para mim havia de mais interessante não eram, propriamente, as
eruditas conferências, mas sim o contato pessoal com homens de 40 países,
cada um com suas experiências individuais. Conversei muito com
escandinavos, russos, hindus, árabes, húngaros e alguns sul-americanos.

Ofereci ao Congresso três presentes: Minha novela científico-popular sobre as
abelhas, entitulada “Isis”; um vidro de mel do meu apiário perto de Jundiaí, São
Paulo; e um “arranha-céu” de uns 50 cm de altura, composto de 30 andares,
atravessados por um corredor central e munido de duas válvulas de ventilação,
arranha-céu construído por vespas brasileiras do Estado de Goiás.

                                      ***

Durante todo o Congresso não se falou na famigerada “abelha africana”,
porque ela não existe na Europa. Como todos sabem, desde 1956, a adamsonii
se tornou um problema sério no Brasil, e, ultimamente, em toda a América do
Sul. Algumas dezenas de rainhas africanas, foram introduzidas em nosso país
por um cientista, com o fim de melhorar a nossa apicultura nacional. Enquanto
elas estavam controladas, tudo corria bem; mas, quando, pela imprudência de
um funcionário, foram soltas e invadiram São Paulo, o Brasil, e, por fim, toda a
América Meridional, alastrou-se o grande problema, uma vez que a ferocidade
dessa abelha não é menor que a sua produtividade.

Felizmente, hoje, mais de 20 anos depois, a abelha africana já está prestando
bons serviços, suposto que o apicultor saiba entender-se com ela.

A Europa, embora ligada à África através do Oriente Médio, nunca sofreu
dessa invasão – por que não? Até hoje ninguém soube dar-me resposta
satisfatória a essa pergunta. Nem mesmo na Ásia, tão próxima da África, existe
a apis mellifera adamsonii, ao menos não em sua forma agressiva, como entre
nós.
No meu livro “Isis” dei o motivo da ferocidade da abelha africana, que é apis
mellifera, como a chamada européia.

                                        ***

Perguntei a umas dezenas de apicultores quanto mel produzia, na média, uma
colmeia, por espaço de um ano; quase nenhum apicultor colhia anualmente
mais de 10 quilos de mel, por colmeia; as abelhas só trabalham durante 5 ou 6
meses, ou menos, porque, nos restantes meses não havia flores e a
temperatura era imprópria.

No Brasil, onde existe apicultura racional, podemos colher anualmente 20-50
quilos de mel por colmeia, e as nossas abelhas trabalham 12 meses por ano. O
Brasil seria o país ideal para apicultura – e, no entanto, é insignificante a nossa
produção de mel.

Na Alemanha os apicultores têm de alimentar as suas abelhas durante o longo
inverno e, além disto, abafar as colmeias a fim de manter calor suficiente no
interior. E, no entanto, é enorme o entusiasmo e o amor com que eles se
dedicam à apicultura, visando mais ao prazer do que ao lucro. Pois, não é
mesmo fascinante poder saborear um produto puro e sadio que, pouco antes,
eram gotinhas de néctar no cálice das flores?

Geralmente, o consumidor europeu gosta de saborear o mel quando em estado
cristalizado – ao passo que muito brasileiro torce o nariz quando vê mel
açucarado e desconfia que seja falsificado, uma vez que tantos vendedores
misturam o mel com melado de engenho, glicose, ou outros ingredientes.
Conheço apicultores que fervem o seu mel afim de evitar a cristalização,
destruindo assim muitos dos elementos nutritivos. Não vejo nenhuma
necessidade para esse procedimento. Sou apicultor há diversos decênios e sei
que é possível conservar o mel tal qual saiu dos favos, em perfeito estado de
liquidez.
EM ISRAEL



Terminado o 2.º Congresso Internacional em Munique, retomei o avião e voei
diretamente, em pouco mais de três horas, por sobre os Alpes e o Mar
Mediterrâneo, rumo a Tel-Aviv, Estado de Israel.

No longo trajeto terrestre entre o aeroporto e a cidade de Tel-Aviv a Jerusalém,
encontrei-me, no táxi, com um rabino judeu, que me contemplava silencioso e
pensativo. Por fim, me disse vagarosamente coisas bem estranhas sobre mim
mesmo, mas que não posso consignar em letra de forma. Ia a Bang-kock, e daí
ao Vietnam, a fim de participar de um congresso político de pacificação na
desastrosa guerra entre Vietnam e os Estados Unidos.

Não tardou que entrássemos em águas de profunda Filosofia Cósmica,
atingindo, por vezes, as fímbrias da mística. E, como o rabino ia em caráter de
pacificador potencial entre povos beligerantes, falei-lhe de um homem que, há
quase 2.000 anos, disse: “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles
serão chamados filhos de Deus”.

O meu ouvinte se abespinhou um pouco ao saber que eu considerava o
Nazareno como o maior gênio espiritual da humanidade, quando ele punha
Moisés acima de tudo. Mas, no fim de quase meia hora de palestra filosófico-
mística, parece que se convenceu tacitamente da verdade das minhas
afirmações. Despediu-se de mim carinhosamente, prometendo envidar todos
os esforços para aplainar os caminhos da paz entre os homens de boa
vontade, de cá e de lá. Ao despedir-se de mim, em Jerusalém, perguntou se eu
estaria disposto a lecionar Filosofia Cósmica na Universidade Hebraica de
Jerusalém. Respondi-lhe que aceitaria o convite se algum poder competente
me convidasse para esse cargo.

Nada mais ouvi do rabino.

Em 1969, havia apenas dois decênios que Israel, após quase 2.000 anos de
dispersão pelo mundo inteiro, voltara a ser um Estado independente. E em dois
decênios conseguiu Israel realizar um autêntico milagre: transformou o antigo
deserto árido num magnífico pomar e em vastos campos de agricultura.
Máquinas gigantescas tiravam água das profundezas do solo e lançavam
chuvas artificiais à grande distância, preparando a terra para o plantio. Vastos
laranjais exportam seus produtos para diversos países europeus.
Os kibutzim, ou cooperativas agrícolas, são maravilhas de organização de
agricultura racional.

Não encontrei um mendigo nem um desempregado em Israel; todos trabalham
e têm com que viver. No tempo da genial Golda Meir o país foi cortado de
estradas asfaltadas de ponta a ponta.

Israel é um país cercado em parte de repúblicas árabes, que continuam na sua
pobreza tradicional. Os filhos de Agar, embora tenham por ascendente o
mesmo pai Abrahão, parecem não ter o espírito de iniciativa como os filhos da
Sarah.

Durante a minha curta permanência em Israel, meditei muito sobre o estranho
enigma: por que é que os judeus, que não formam nem nunca formaram 1%
(um por cento) da humanidade total, têm cerca de 50% (cinquenta por cento)
dos grandes gênios em todos os ramos da cultura humana? Dizem uns que
essa genialidade lhes vem dos seus terríveis sofrimentos: mais de quarto
séculos escravizados pelos faraós do Egito; quase um século exilados na
Assíria; quase outro século na Babilônia; desde o primeiro século da Era Cristã
até pouco, errando pelo mundo inteiro, sem pátria nem lar...

Se o sofrimento fosse um despertador de genialidade, porque é que os povos
africanos, com milênios de sofrimento e escravização, não produziram grandes
gênios, ao menos não nos tempos atuais?

Temos de associar ao sofrimento outro fator: uma grande disciplina e auto-
fidelidade. O israelita é brasileiro no Brasil, alemão na Alemanha, russo na
Rússia, etc. – mas não deixa de ser judeu de alma em qualquer parte do
mundo.

Israel está rodeado de haréns nos países árabes, mas não existe um único
harém em Israel. O espírito de família unida, a fidelidade conjugal fazem parte
do caráter do judeu genuíno, tanto na antiga poligamia mosaica, como na
monogamia atual. Parece que a disciplina sexual favorece a genialidade
cerebral; que vigora uma secreta simbiose entre sexo e cérebro.
NOS RASTROS DO NAZARENO



Jerusalém, Belém, Nazaré, Tabor, Poço de Jacó, Betânia, Getsêmane, Gólgota
– que estranhas reminiscências nos evoca cada uma destas palavras... A
nossa alma associa coisas belas e beatíficas a estas palavras sagradas, que
estamos habituados a ler e ouvir desde a nossa infância, no lar, na escola, na
igreja, por toda a parte.

Vagarosamente, meditativamente, andei saboreando e sofrendo cada um
destes lugares, que, decênios atrás, descrevi no meu livro “Jesus Nazareno”,
mas sem os ter visto com os olhos do corpo.

Tenho a impressão de que esses lugares sagrados viajam mais através de mim
do que eu através deles...

E todos eles envoltos num ambiente paradoxal; pois a Terra Santa da
Palestina, onde o Cristo, na forma humana de Jesus, viveu alguns decênios,
não pertence aos cristãos – pertence hoje aos israelitas, que não reconhecem
Jesus como o Messias prometido; e pertenceu por muitos séculos aos
muçulmanos, que vêem em Jesus apenas um venerável profeta.

Mas, apesar dos pesares, esses lugares estão sacralmente imantados e
recebem anualmente a visita de milhares de cristãos de todos os países do
globo terrestre. Há, na Palestina, numerosas igrejas cristãs, conventos,
mosteiros, ermidas de discípulos do Nazareno – coptos, ortodoxos, romanos,
evangélicos – não importa o nome.

Em Jerusalém, fiz a via-dolorosa, desde o Pretório da flagelação até ao
Calvário da crucificação, lendo ou relembrando em cada etapa o que os
evangelistas nos deixaram escrito sobre esses estranhos acontecimentos, e
saboreando in loco o seu eterno conteúdo. Muitos dos estágios da via sacra
estão assinalados com placas ou tabuletas comemorativas: primeira queda
debaixo da cruz, segunda queda, encontro com Verônica, com Simão de
Cirene, etc.

No princípio da via crucis está a “Casa de Verônica”. É um pequeno recinto
meio subterrâneo, que recebe luz só por uma grade de ferro ao nível da rua.
Dentro do recinto há uns bancos toscos fixos nas paredes. Pedi permissão às
irmãs francesas, ao lado da “Casa de Verônica”, para poder fazer a minha
meditação nesse recinto sagrado, que, durante quase 20 séculos, tem sido
visitado por pessoas sedentas de espiritualidade.
Entrei – e não tive mais vontade de sair. As auras ou vibrações místicas
deixadas por milhares de pessoas que aqui oraram e meditaram, se apoderam
do visitante e o permeiam e imantizam a tal ponto que todo o mundo externo
desaparece e todos os pensamentos se diluem, permanecendo tão-somente a
consciência, ou seja, a alma isolada em total vacuidade do mundo material.
Deixar a vida terrestre nesse recinto sagrado não seria morrer, mais viver mais
intensamente em outras regiões.

Com Maria e Marta e Lázaro estive em Betânia, na “Casa da Graça”... Nada vi
de Lázaro, nada ouvi de Marta – só me abismei no silêncio de Maria, porque
estava presente o Mestre – e que discípulo poderia falar na presença do
Mestre?... Não falei – calei-me... Quem falava era ele, só ele – e minha alma
ouvia em silêncio... Depois, quando o Mestre não estava mais, perguntei a
Maria porque ela, Marta e Lázaro, tão amigos do Nazareno, não apareceram
no Calvário nem na manhã da ressurreição, como os outros discípulos. Maria
não falou; entregou-me em silêncio um rolo de pergaminho, parte dos livros
sacros dos Essênios. Minha alma sintonizou com a alma de Maria, e cheguei a
saber do porquê da ausência do trio de Betânia: eles, como Essênios
altamente iniciados, não acreditavam em morte real. Também, como poderia
haver essa coisa absurda chamada “morte”, quando a Vida está onipresente?
E que lugar teria a ausência da vida (morte) na onipresença da Vida? Onde
estaria a treva na plenitude da luz?... Aliás, lá estava Lázaro como prova viva
da não-existência da morte.

                                       ***

Um dia, a meio caminho do Mar Morto, a polícia de Israel me interceptou a
passagem; tive de voltar sem ter visto as águas betuminosas desse lago
estranho, a centenas de metros abaixo do nível do Mediterrâneo. É que aviões
israelenses estavam bombardeando as bases árabes do outro lado do Mar
Morto.

A Terra Santa é, de fato, um constante campo de batalha desde a criação do
Estado de Israel. Israel, ao que parece, está disposto a recuperar toda a área
da antiga “terra da promissão”, que foi de seus antepassados. Esta fé religiosa-
nacional lhe dá irresistível entusiasmo e iniciativa. Acresce que Israel luta com
as armas mais modernas e eficientes e possui ótimos chefes militares,
sobretudo na aeronáutica, ao passo que os países árabes são desunidos, mal
dirigidos, sem disciplina, e não possuem o entusiasmo ou fanatismo espiritual-
nacional dos israelitas.

                                       ***

Numa dessas tardes, em Jerusalém, fui acompanhar um silencioso rabino, que,
de barba preta, envolto na sua austera indumentária negra e com um chapéu
alto na cabeça, se dirigia ao histórico “muro das lamentações”, uma grande
muralha que se estende por detrás da mesquita de Omar, mesquita que, pouco
depois da minha visita, foi incendiada. Há quase 2000 anos que os judeus,
sobretudo seus chefes religiosos, fazem a sua lamentação diante deste muro.
Entregaram-me um bonezinho de papel preto, que coloquei na cabeça, a fim de
poder falar com Deus, no meio dos que invocam Yahveh para que mande o
Messias e restabeleça as glórias de David e Salomão. Quando se vê nas ruas
de Jerusalém um homem sério, silencioso, que não fala com ninguém, com
duas trancinhas de cabelo encaracolado de cada lado da cabeça, então é certo
que aí está um típico rabino, que vai ao muro das lamentações, para chorar e
para mentalizar o Messias de Israel. Os lamentadores, os homens do lado
esquerdo, as mulheres do lado direito, estão em pé, a uns dois passos da
muralha, muitos com um livrinho na mão, do qual recitam textos com voz
chorosa e monótona, balançando ligeiramente e tocando, de vez em quando, o
muro com a cabeça.

Pergunto a mim mesmo se esses brados, quase bimilenares, não seriam
capazes de produzir o Messias que eles esperam... Acho possível que uma
vibração constante, altamente potencializada, acabe por se materializar. Não é
que Moisés materializou mentalmente o Anjo Exterminador, que matou os
primogênitos dos egípcios?...

                                       ***

Em Nazaré fui visitar a casa de Maria, onde “o Verbo se fez carne”. Com
estranheza ouvi que a anunciação referida por Lucas se deu numa espécie de
gruta ou porão da casa, onde Maria estava em meditação (talvez em êxtase ou
samadhi), de no meio de sacos de cereais e outros mantimentos. Por cima
dessa gruta há um painel representado a visita do anjo Gabriel à Virgem. Pela
primeira vez vi o anjo representado sem asas; é a figura de um jovem humano,
de mãos erguidas, em atitude de dar algo a alguém. Do outro lado está Maria,
com as mãos baixas e palmas voltadas para cima, em estado de receber aquilo
que o jovem lhe dá. Entre o jovem doador e a jovem receptora paira o símbolo
radiante do Espírito Santo, o “poder do alto”, como que uma ponte de luz entre
o doador e a recebedora.

Contemplei longamente esse símbolo místico e lembrei-me do capítulo do meu
livro “Setas na Encruzilhada”, onde fiz ver que José é o pai metafísico de
Jesus. Mateus e Lucas negam explicitamente a paternidade física de José,
mas o fato de traçarem longas genealogias dos ascendentes de Jesus –
Mateus desde Abraão, Lucas desde Adão – insinua que existe uma ligação real
de paternidade entre José e Jesus; do contrário, essas genealogias não teriam
sentido algum. Fiz ver, no citado livro, que existe essa paternidade metafísica –
real, embora não material – e em Nazaré vi, pela primeira vez, representada
artisticamente, a minha concepção. O autor desse painel deve ter sido um
grande intuitivo, ao representar o Gabriel, isto é, o varão (gabri) de Deus (El) na
forma de um jovem humano, e não de uma entidade angélica.

Por via de regra, como explanei no citado livro, e melhor ainda no livro “A Nova
Humanidade”, a concepção comum se faz via espermatozoide-óvulo; mas, em
casos excepcionais, é ela possível via verbo-óvulo. O radical de “verbo” e de
“vibração” é o mesmo. Certa vibração, astral ou espiritual, pode causar
fecundação, mesmo que na zona do consciente não haja eco desse
acontecimento.

                                                 ***

Há um grande contraste entre a bela Galiléia e a árida Judéia. Tomei um banho
gostoso no lago de Tiberíades [1], chamado também o “mar da Galiléia”. E bem
merece o nome de mar; dificilmente se vislumbra o outro litoral, da tão largo
que é. Nunca vi tanto peixe como neste lago. Sendo que o nosso restaurante,
onde nos serviram o “peixe de São Pedro”, ficava à beira do lago, jogávamos
restos de comida às águas – e logo enorme cardume de peixes se precipitava
sobre o alimento. Devia mesmo ser gostoso ser pescador, como foram muitos
dos discípulos de Jesus.

--------------
[1] Este belo lago, em cujos arredores se passou em grande parte a atividade pública de Jesus, fica 212
m abaixo do nível do Mediterrâneo; mede 165 km2 de superfície, 21 km de comprimento, 13 km de
largura e 49 m de profundidade em alguns lugares.

Para lembrança levei umas pedras lisas e roliças do fundo do lago de Jesus e
de seus primeiros discípulos.

                                                 ***

Atravessando a Samaria, cheguei ao histórico poço de Jacó, onde Jesus pediu
água à samaritana e lhe falou da “água viva”. Bem dizia a samaritana que “o
poço é fundo”, pois tem nada menos de 45 metros. Relembrando o episódio do
Evangelho, lancei o balde, preso a uma corda, às águas e bebi da mesma água
que Jesus bebeu, há quase vinte séculos. E levei comigo uma garrafa dessa
água, que é de sabor muito agradável.

Não longe daí fica o Tabor, com o seu cume arredondado, onde o Mestre se
transfigurou, entre Moisés e Elias. Fiz uma longa meditação, ou melhor,
sintonização crística, e quase tive vontade de dizer com Pedro: “Que bom que
é estarmos aqui!”

Quando o Mestre desceu do Tabor, refere o Evangelho, encontrou ao sopé do
monte muito povo e nove dos seus discípulos, tentando expulsar um vampiro
obsessor, que maltratava um menino; mas não conseguiram nada. Jesus, em
face de tamanha falta de fé, rompeu nestas palavras estranhas: “Ó geração
incrédula e perversa! Até quando estarei convosco? Até quando vos
suportarei?”...

São palavras de quem caiu do céu para dentro do inferno.

Toda a vez que o homem regressa do mundo divino do êxtase da luz e recai ao
mundo humano das trevas, tem vontade de repetir estas palavras do Mestre.
Depois duma hora de intensa sintonização espiritual, a gente, no princípio, não
compreende mais o mundo dos homens – desses homens que se têm em
conta de muito sensatos. A que vem toda essa palhaçada, essa ridícula
comédia? Por que essa louca correria de norte ao sul, de leste a oeste? Por
que toda essa desenfreada caça a dinheiro e prazeres? Por que toda essa
gritaria de energúmenos civilizados? Por que sempre ganhar e gastar – para
depois morrer, no marco zero? Que sentido tem a vida desses sonhadores de
sonhos e caçadores de sombras?

“Até quando estarei convosco? Até quando vos suportarei?”... O homem
regressando dos céus de Deus para os infernos dos homens e dos demônios,
se sente desambientado, estranho nesta terra.

                                      ***

No monte das bem-aventuranças, no dia 15-8-1969. Aqui sobre uma destas
verdes colinas de Kurun Hattin, não longe do lago da Galiléia, foi promulgada,
há quase vinte séculos, a Carta Magna do Reino de Deus sobre a face da terra,
o chamado Sermão da Montanha.

Dele disse Mahatma Gandhi: “Se todos os livros sacros da humanidade se
perdessem e se salvasse tão-somente o Sermão da Montanha, nada estaria
perdido”.

Nele viu o libertador da Índia confirmado o seu conceito de ahimsa (não-
violência) e sua satyagraha (apego à verdade) – e com estas duas armas
secretas libertou Gandhi o seu país, sem derramar uma gota de sangue, fato
único na história da humanidade.

Armas secretas?

Não! Alma em lugar de arma. O ego humano considera a arma como símbolo
de força – mas o Eu divino no homem sabe que arma é sinal de fraqueza, e
alma é sinônimo de força.

Sentei-me sobre uma pedra, abri o Novo Testamento, Evangelho segundo
Mateus, e li vagarosamente, para mim mesmo:

“Bem-aventurados os pobres pelo espírito – porque deles é o reino dos céus.

Bem-aventurados os tristes – porque eles serão consolados.
Bem-aventurados os mansos – porque eles possuirão a terra.

Bem-aventurados os que têm fome e sede da justiça – porque eles serão
saciados.

Bem-aventurados os misericordiosos – porque eles alcançarão misericórdia.

Bem-aventurados os puros de coração – porque eles verão a Deus.

Bem-aventurados os pacificadores – porque eles serão chamados filhos de
Deus.

Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça – porque
deles é o reino dos céus.

Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem e perseguirem e
caluniosamente disserem de vós todo o mal, por minha causa – alegrai-vos e
exultai, porque grande é a vossa recompensa nos céus.”

Fechei o livro, fechei os olhos, eclipsei o pensamento – e fiquei somente com a
alma aberta e consciente... E ouvi no silêncio de minha alma o silêncio de
Deus...

Vi o Mestre sentado sobre uma das colinas de Kurun Hattin... Ao redor dele
seus discípulos... Mais além, pelas fraldas das colinas, a variegada multidão
dos outros ouvintes, “vindos da Galiléia, da Decápole e de Jerusalém”...

Havia no ar matutino um quê de indizível sacralidade, como se fosse a
madrugada virgem do mundo, aljofrada ainda do orvalho do Gênesis – fiat lux...

Abismei-me em profunda meditação...

Quando voltei a mim, olhei em derredor – mas o Mestre não estava mais. Desci
das colinas e fui seguindo rumo ao litoral florido do lago de Tiberíades. Cheguei
a Mágdala (Migdála, dizem eles lá).

À beira do caminho passei por um monumento rústico, em forma de torre;
disseram-me que ali estivera a casa de Maria Magdalena, essa ardente
discípula do Nazareno, a quem foram perdoados os seus muitos pecados
porque muito amou...

                                       ***

Ainda nesse mesmo dia, 15-8-1969, sentei-me sobre as ruínas da sinagoga de
Cafarnaum, lendo o capítulo 6 do Evangelho de João, sobre “o pão vivo que
desceu do céu”. Da sinagoga do tempo de Jesus restam poucas colunas
redondas, uma em pé, outras no chão. Ao lado das ruínas há uma igreja nova.
Não há no Evangelho passagem mais enigmática do que este capítulo 6 do
Evangelho de João. As igrejas dogmáticas entendem que Jesus prometeu, e
mais tarde, na santa ceia, realizou um processo misterioso, que os teólogos
chamam “transubstanciação”. As igrejas evangélicas, em geral, acham que se
trata apenas de um belo simbolismo, mas que não houve nenhuma
transformação do pão e do vinho no corpo e sangue de Jesus.

Entretanto, as palavras do Nazareno não favorecem nem esta nem aquela
opinião. “As palavras que vos digo são espírito e são vida – a carne de nada
vale”. “Isto vos é pedra de tropeço? E que direis quando virdes o Filho do
Homem subir aonde estava antes?

Estas últimas palavras dão a chave para a solução do mistério. Os ouvintes
entendiam por “corpo” ou “carne” uma matéria física, uma facticidade material
de carne, sangue, osso, nervos, epiderme, etc.; Jesus, porém, não entendia
por “corpo” e “sangue” essas materialidades, mas sim a realidade do seu
corpo, que não é material. Não existe nenhum corpo material, nem corpo astral,
nem corpo etérico – só existe o corpo real. Ninguém pode ver e tanger o corpo
real, que não é objeto de percepção sensorial, nem mesmo de análise
intelectual – o corpo real é objeto de intuição espiritual. O que, no dia da
ascensão, subiu às alturas, até se subtrair à visão dos expectadores, era o
corpo real de Jesus, que aos olhos de seus discípulos parecia ser material.

Segundo a nossa ciência nuclear de hoje não existe matéria como matéria,
nem existem os 92 elementos da química – existe tão-somente a Luz Cósmica,
absolutamente invisível e intangível. Esta Luz é a única realidade física, ao
passo que os elementos são apenas manifestações parciais, facticidades
transitórias dessa única realidade permanente. Todas as coisas do Universo
são lucigênitas, e todas podem ser lucificadas.

Jesus, em Cafarnaum, faz ver aos cépticos que a realidade do pão será
transformada na realidade do seu corpo – mas a materialidade (facticidade) do
pão não será transformada na materialidade (facticidade) do seu corpo. Há
uma transubstanciação real, mas não uma transubstanciação material.

Aliás, que efeito produziu nos discípulos do Nazareno a ingestão do pão e do
vinho consagrados? Se efeito houve, foi totalmente negativo: Judas, assim que
deglutiu o bocado de pão, consumou a planejada traição, e depois se suicidou
[2]. Pedro nega três vezes seu mestre. E todos, à exceção de um só, fugiram
covardemente, no momento do perigo – belos neo-comungantes... Tristes neo-
sacerdotes...

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[2] O texto grego não diz que Judas se “enforcou”, mas sim que se “precipitou”, isto é, lançou-se de um
penhasco ao abismo, onde, diz o texto, “arrebentou ao meio e se difundiram todas as suas vísceras”.
Como se explicaria isto se se tivesse enforcado?
Só mais tarde, no Pentecostes, é que eles comungaram em espírito e em
verdade, não a materialidade de Jesus, mas a realidade do Cristo...

“As palavras que vos digo são espírito e são vida”...

Somente em nossos dias, em que a física se torna cada vez mais metafísica, é
possível criar uma base para a compreensão das palavras que Jesus proferiu
na sinagoga de Cafarnaum.

Estes e outros pensamentos me invadiram, quando estava sentado sobre as
ruínas da sinagoga de Cafarnaum, onde o maior dos metafísicos-místicos
proferiu verdades tais que uma humanidade de experiência primária não pôde
ainda compreender. Somente na Universidade Cósmica do Cristo serão
devidamente compreendidas estas grandes revelações.

Falar é bom – calar é melhor.

Pensar é necessário – intuir é suficiente.

Enquanto o homem é apenas ego-pensante está soletrando o abc na escola
primária da sua pobre personalidade. Só quando for cosmo-pensado é que
ingressa na Universidade da sua individualidade espiritual. E quando, um dia,
depois de ser ego-pensante e cosmo-pensado, for cosmo-pensante, então
compreenderá plenamente o que o Cristo quis dizer com as misteriosas
palavras sobre o “pão vivo que desceu do céu”.
PALMILHANDO A ESTRADA

                            JERUSALÉM-EMAÚS



Num desses dias, em Jerusalém, fiz do passado o presente, e revivi o que foi
vivido 20 séculos atrás.

Era o ano 33, dia 9 de abril, primeiro dia da semana pelas 4 horas da tarde.

Dois homens vinham de Jerusalém e se dirigiam rumo oeste, em demanda
duma aldeia por nome Emaús, distante da capital uns 12 quilômetros.

Era na tarde da primeira Páscoa – mas na alma desses dois era ainda
Quaresma, luto e tristeza. Havia uns três anos que os dois tinham vindo de
Emaús a Jerusalém. Cheios de entusiasmo e expectativa, tinham seguido a
trajetória de um profeta que viera de Nazaré da Galiléia. Esse homem falava
como nunca ninguém falara, focalizando sempre “o reino de Deus”, que, como
ele dizia, estava dentro de cada homem como tesouro oculto e devia ser
manifestado.

Os dois não faziam parte do círculo íntimo dos doze companheiros
permanentes do profeta nazareno, mas eram do numero dos 70 que,
frequentemente escutavam a estranha mensagem do Galileu.

Mas agora, três anos depois... Agora, lá se fora o sonho dourado deles, que
acabara em lúgubre pesadelo e tremenda decepção... O grande profeta fôra
morto, condenado ao ignominioso suplício da crucificação, por exigência dos
chefes espirituais da sinagoga de Israel, que consideravam o Nazareno como
falso Messias...

Pela manhã desse terceiro dia após a morte do profeta restava ainda um tênue
vislumbre de esperança aos dois, porque ele prometera “ressuscitar”; e eles
haviam esperado, entre esperanças e dúvidas, esse incrível acontecimento.
Mas agora ia terminar o terceiro dia – e nada de ressurreição. Apagou-se na
alma dos dois a derradeira centelha de fé e de esperança no Nazareno; mas o
seu amor sobrevivia ao naufrágio universal...

Sim, os dois continuavam a amar o estranho profeta, e nunca deixariam de
amá-lo. Com a alma cheia de amor e vazia de fé e esperança, regressavam
eles a seus lares. Apressadamente deixavam Jerusalém, cenário de tantas
esperanças e de tanto desespero.
Já iam a meio caminho entre Jerusalém e Emaús, conversando em voz baixa
sobre os últimos acontecimentos relacionados com o profeta de Nazaré.

Nisto ouviram passos de alguém que vinha de trás e seguia o mesmo caminho.

Calaram-se os dois e retardaram o passo, para deixar passar de largo o
viandante e continuarem depois a ruminar os seus dolorosos cismares.

Quando estamos com a alma em chaga viva, sofridos de nós mesmos, não
gostamos de falar com estranhos, não queremos saber de ninguém que possa
profanar o sacrário do nosso sofrimento. Queremos solidão e silêncio...

Mas o estranho que vinha de trás, em vez de passar adiante, como os dois
esperavam, também retardou o passo e emparelhou com eles. E sem mais
nem menos tentou invadir o santuário das dolências deles, perguntando:

– Que conversas são essas que entretendes entre vós? E por que andais tão
tristes?

Os dois não responderam. Estavam intimamente revoltados com essa sem-
cerimônia do desconhecido. Mas, como este insistisse com perguntas e queria
saber o porquê das suas tristezas, um dos dois, por nome Cleófas, quebrou o
silêncio, perguntando:

– Como? Será que tu és o único forasteiro em Jerusalém e ignoras o que lá
aconteceu?

– Que foi que aconteceu? – perguntou o estranho.

Os dois se viram obrigados a lhe dar explicação; do contrário, nunca mais se
veriam livres dele.

– Aquilo, de Jesus de Nazaré – respondeu Lucas, ladeando a questão, sem
vontade de entrar em pormenores. “Aquilo” é uma palavrinha neutra,
inofensiva, eufemística: mas está em lugar de algo muito amargo e doloroso.
Está em lugar de “a morte trágica do profeta de Nazaré”. Quando estamos
assim, intimamente chagados, evitamos instintivamente pôr o dedo na ferida
aberta, mencionando diretamente o motivo da nossa tristeza; preferimos usar
de circunlóquios vagos que não reabram a chaga...

“Aquilo de Jesus de Nazaré”...

Depois de longa pausa e em face da expectativa do estranho, Lucas se anima
finalmente a dizer mais explicitamente:

– Ele era um grande profeta, poderoso em palavras e em obras, perante Deus
e todo o povo...
É esta a primeira e mais concisa biografia que temos de Jesus: era um profeta,
um arauto de Deus; tudo que dizia e fazia revelava poder; e isto perante todo o
povo...

Mas o estranho insiste em querer saber mais a respeito desse Jesus de
Nazaré. Ao que Cleófas resolve narrar com mais detalhes a tragédia do
Gólgota. Mas o que ele diz, segundo o texto evangélico, é um verdadeiro cipoal
de anacolutos, fragmentos de frases, reticências e lacunas, que são um retrato
fiel do estado psíquico em que se encontrava o narrador. Quando estamos
assim, interiormente abalados, pensamos e sentimos tão intensamente que,
não raro, nos esquecemos de verbalizar o que sentimos – como se os outros
pudessem ver e ouvir os nossos pensamentos não exteriorizados...

– Mas – prosseguiu o narrador – os nossos magistrados e sacerdotes
entregaram o Nazareno à pena de morte.

Calou-se. Aqui deve ter vindo uma longa pausa, durante a qual os três
andavam em silêncio pela estrada Jerusalém-Emaús, enquanto as sombras
dos escuros e esguios ciprestes que margeavam o caminho alongavam cada
vez mais as suas sombras, contribuindo para a melancolia geral.

– Nós esperávamos – prosseguiu Lucas – que ele fosse o libertador de Israel...

Nova pausa e reticência.

– Mas, agora já é o terceiro dia...

Não percebem que nada disto dá sentido lógico para uma pessoa não
devidamente enfronhada no assunto. O narrador omite diversos fatos
intermediários, sem os quais o resto não tem sentido. Deveria ter explicado ao
desconhecido que o Nazareno prometera ressuscitar ao terceiro dia, e que isto
não acontecera. Tudo isto é omitido, mas intensamente pensado – e sofrido.

– É verdade – interveio o outro, também sem estabelecer concatenação entre
sequência dos acontecimentos. – Algumas mulheres do nosso meio foram ao
sepulcro, de madrugada, e disseram ter visto uns anjos, que diziam que ele
vivia; mas a ele mesmo não viram...

Pouco a pouco, como se vê, os dois peregrinos falam com mais desembaraço
e fervor, desabafando a sua mágoa perante um ouvinte atento e interessado.
As cinzas que cobriam ligeiramente a brasa viva do seu amor é soprada por
estas palavras, e a fagulha está para romper em vívida chama...

É tão dolorosamente suave recordar momentos felizes...

O estranho já lhes era menos estranho... Quem participa das nossas mágoas
não é mais um estranho.
De repente, o desconhecido parou diante deles e os fez parar também;
encarou-os bem de frente e disse:

– Ó homens sem critério e tardos de coração!...

Os dois estremeceram como se fossem arrancados subitamente de um sono.
Que atrevido, esse desconhecido! Em vez de lhes dar condolências pelos seus
sofrimentos, os censura asperamente, taxando-os de homens sem critério e
vagarosos de coração, para compreenderem tudo que os profetas tinha dito do
Nazareno.

– Não devia então o Cristo sofrer tudo isto e assim entrar na sua glória?

Com este repentino trovão acabaram os dois de despertar totalmente. Sentiam
em si algo como um renascer de esperanças... Algo como se a plantinha
murcha de sua alma erguesse a cabecinha ao cair de um orvalho refrigerante...
Como? O Nazareno devia sofrer tudo que sofreu? E tudo isto fora predito?... O
fato de ter sido morto não era então um argumento contra a sua missão divina,
mas antes uma prova a favor?... Se Moisés e os profetas predisseram tudo
isto, ainda há esperanças... Não está tudo perdido...

Em meditativo silêncio andaram os dois saboreando o ressurgimento das suas
esperanças...

Nisto chegou o trio a uma bifurcação do caminho. O estranho fez menção de
enveredar por um atalho, despedindo-se dos dois. Estes, porém, o seguraram
pelo braço e o puxaram para seu caminho, dizendo:

– Fica conosco, porque o dia declinou e já vai anoitecendo...

No princípio não o queriam ver em sua companhia; mas agora não querem
mais ficar sem ele. Quando alguém nos consola em nossas mágoas e nos dá
novas esperanças, é amigo querido. Esperavam passar boa parte da noite com
ele, falando do profeta de Nazaré.

O estranho não pôde senão aceitar o convite feito com tamanha veemência.

E foi com eles a Emaús.

Já era noite, quando lá chegaram. Em assa de Cleófas tomaram frugal
refeição, na varanda. O estranho foi convidado para ocupar a cabeceira da
mesa, e, na qualidade de hóspede querido, lhe competia “partir o pão” e
distribui-lo aos companheiros.

Neste momento, abriram-se-lhes os olhos da alma e eles o reconheceram
como sendo o próprio Jesus, redivivo...

E, neste mesmo momento, ele desapareceu.
Os dois se entreolharam, estupefatos, e disseram: Não nos ardia o coração no
peito, quando nos falava dos profetas?... Mas, os nossos olhos estavam
tolhidos...

Ainda nesta mesma noite, os dois regressaram a Jerusalém. Não levaram duas
horas, como antes; mas voltaram de corrida, empolgados pela alegria e pelo
entusiasmo.

Chegados a Jerusalém, se dirigiram imediatamente ao Cenáculo, onde os
demais discípulos do Nazareno estavam reunidos, e bradaram:

– Vimos o Senhor, e eles nos disse isto e isto...

– Nós também o vimos aqui! – exclamaram os outros.

E fundiram-se duas grandes alegrias – nessa tarde da primeira Páscoa da
cristandade...

No dia 9 de abril do ano 33...

                                       ***

Relembrei meditativamente tudo isto no dia 14 de agosto de 1969. Os meus
olhos físicos não viram o Nazareno nem os dois discípulos dele, quando a
Quaresma se lhes convertera subitamente em Páscoa.

Mas eu vi os três, e os vejo ainda, quando se dissipam as barreiras fictícias de
tempo e espaço...

No século passado, uma vidente na Alemanha, Ana Catarina Emmerich,
acompanhava Jesus em todos os seus caminhos, sem sair da sua terra.

Ainda há poucos anos, outra vidente, Teresa Neumann, de Konnersreuth,
presenciava periodicamente todos os acontecimentos da vida, morte e
ressurreição do divino Mestre.

Quando a nossa consciência ultrapassa o véu ilusório das facticidades, e entra
na luz verdadeira da Realidade, nada é passado e futuro – tudo é presente;
tudo é aqui e agora.

Não foi há quase 2000 anos, em terras longínquas, que se deram estes
episódios; é aqui e agora que eles estão acontecendo...

Quando sairemos deste mundo de facticidades ilusórias?

Quando entraremos no mundo da Realidade verdadeira?

Entrar? Não! Já estramos neste mundo – mas estamos nele
inconscientemente. Quando conscientizarmos a Realidade, que agora nos é
inconsciente, então haverá um novo céu e uma nova terra, e o reino de Deus
será proclamado sobre a face da terra...
POR ENTRE OS

                         ROCHEDOS DO LÍBANO



Em Beirute fomos convidados por um eremita a passarmos com ele um dia em
seu ashram – que não existe. O que existe naquelas montanhas secas e
rochosas, perto de Beirute, são umas pedras enormes, formando cavernas
naturais, abrigos rústicos, onde um eremita idoso, Mikhail Naimy costuma
passar longos períodos de silêncio e solidão. Por entre esses rochedos
escreveu ele o livro enigmático “Mirdad”, ultimamente publicado em português.
Ali conversava ele com Khalil Gibran, autor de livros misteriosos como “O
profeta”, “O Filho do Homem”, e outros.

Combinamos – ele, eu e mais um companheiro de viagem – passarmos 12
horas completas nessa selvática Tebaida. Infelizmente, no dia marcado para o
nosso Retiro, Naimy se viu impedido de nos acompanhar, porque tinha de ir ao
encontro de uma pessoa de sua parentela. “Deixa os mortos enterrar os seus
mortos”, pensava eu comigo; mas ele não pensava assim... Entretanto, teve a
gentileza de nos mandar levar, ao amanhecer, até à boca das cavernas, e lá
nos deixou, prometendo vir buscar-nos ao anoitecer.

Meu companheiro e eu subimos a pé, lentamente, cautelosamente, através de
um mundo de espinhos e abrolhos, saltando de pedra em pedra, até atingirmos
a zona dos grandes rochedos, alguns dos quais formavam espécie de casas
que ofereciam suficiente abrigo contra o sol e a chuva. Chuvas, aliás, não há
nessa zona, a não ser durante certos meses do ano.

Cada um de nós levava consigo uma garrafa d’água, pão e uvas. Cada um
escolheu a sua caverna e separamo-nos para o resto do dia.

Ficamos 12 horas a sós conosco mesmos e com Deus, em pé, sentados ou
deitados, na mais profunda solidão, interrompida apenas pelo chiar de umas
cigarras e os pios de uns passarinhos.

Construímos, em São Paulo, um ashram. Fizemos o possível para dar conforto,
sem confortismo. Mas, mesmo o conforto que proporcionamos aos que
quiserem fazer o seu Retiro, coletivo ou individual, me dá sempre um tal ou
qual remorso de consciência. Na antiga Tebaida do Egito, nos desertos da
Palestina, nas florestas da Índia, nas cavernas do Himalaia, não havia 1% do
conforto que nós estamos dando em nossos lugares de Retiro Espiritual.
Os rochedos do Líbano, onde passamos um dia, me pareciam ser o único lugar
digno para entrar em comunhão com Deus. Não havia o menor vestígio de
civilização humana. Nenhum turista jamais profanara esses santuários da
natureza. As auras eram virgens e puríssimas, como no dia do Gênesis.

O silêncio e a solidão são poderosos catalizadores espirituais. São também
fatores catárticos, que purificam todas as impurezas do nosso ego. O ego vive
no barulho e do barulho – e morre no silêncio. Quando falta ao homem-ego o
seu querido barulho diário, começa ele a agonizar lentamente, e, se não
encontra zonas barulhentas, acaba por morrer, afogado no Oceano Pacifico do
silêncio, como peixe fora da água, como ave fora do ar...

E, depois da morte do ego, nasce o Eu divino, que ama o silêncio como o
próprio Deus, que é eterno e infinito Silêncio.

Nos meus livros “Escalando o Himalaia” e “A Voz do Silêncio”, escrevi diversos
capítulos sobre o silêncio. Goldsmith, no seu livro “A Arte de Curar pelo
Espírito”, menciona o silêncio como fator predisponente para curar
enfermidades de toda espécie. Parece que existe até uma silêncio-terapia. Não
se trata, naturalmente, do simples fato objetivo do silêncio, mas duma atitude
subjetiva de silenciosidade. Trata-se do silêncio-presença, e não do silêncio-
ausência. Do silêncio-plenitude, e não do silêncio-vacuidade.

Anos atrás, quando eu fazia as minhas viagens semanais São Paulo-Rio, de
ônibus, a fim de dar aulas nessa última cidade, assisti uma vez, de ônibus, à
conversa de um casalzinho, do outro lado do estreito corredor, falando 7 horas
e tanto, do início ao fim da longa jornada, falando, falando sem dizer nada.

Falar me parece ser uma espécie de febre cerebral, ou uma comichão bucal;
quanto mais a gente se coça mais coceira dá.

Falar é o melhor modo para não ter pensamentos, ou, pelo menos, para não
deixar crescer e desenvolver um único pensamento decente. Quem muito fala
pouco pensa. É como se alguém passasse constantemente a enxada pelo
chão, raspando, raspando, e cortando qualquer plantinha que, porventura,
quisesse brotar. Nada terá tempo para brotar e crescer.

Falar afugenta o pensamento.

Pensar afugenta a intuição.

Só quem não fala nem pensa, mas se conserva plenamente vígil, esse
receberá intuição, inspiração, revelação.

As grandes inspirações são filhas do silêncio verbal e mental.

Compreendo porque Einstein andava quase sempre silencioso, e evitava
quanto possível fazer e receber visitas.
Quando o homem se habitua ao silêncio auscultativo, entra ele na “comunhão
dos santos” e verifica que o Universo todo é um deserto povoado, uma
vacuidade sonora...

Perguntaram ao grande Heráclito de Éfeso o que ele aprendera em tantos
decênios de filosofia; respondeu: “Aprendi a falar comigo mesmo”. Isto é, falar
sem palavras, em espírito e em verdade.

Por vezes, tenho de passar pelas ruas desta ruidosa Paulicéia, acompanhado
de pessoas das minhas relações. Uma dessas pessoas, quando eu não falo
durante um ou dois minutos, pergunta-me se estou zangado; se passo cinco
minutos em silêncio, pergunta se estou doente, e está disposta para me levar
ao médico.

É esta a estranha filosofia do homem-ego: para ele, falar é saúde, calar é
doença. Deus, que é infinito silêncio deve, estar mesmo muito doente.

A arte da calar dinamicamente é tão grande que nenhum homem-ego a
aprende.

Quem nunca mergulhou profundamente no silêncio-plenitude só pode falar
vacuidades, talvez brilhantes vacuidades, como bolhas de sabão.

                                      ***

Um dia, no Sítio Nirvana, estava eu plantando umas estacas de astrapéias e
outros arbustos de flores melíferas, para o nosso apiário.

Estava bem sozinho, e cosmo-pensado.

E eis que uma voz de dentro me disse, em grande silêncio:

Quando o homem fala, Deus se cala.

Quando o homem se cala, Deus fala.

E repetiu muitas vezes estas palavras sem som, enquanto eu continuava a
trabalhar. O melhor tempo para ouvir a voz cósmica é quando faço algum
trabalho físico que não exige muito pensamento; assim, o campo está livre para
a invasão do além – do grande além de dentro.

Por fim, a voz perguntou:

Que é ser calado?

Eu quis responder, por conta do meu ego, que estar calado é não falar, nem
pensar, nem querer nada; é fazer esse tríplice silêncio, como tenho dito nos
meus livros e nas minhas aulas de filosofia univérsica. Mas a voz inaudível me
antecipou a resposta, com uma nova pergunta, também sem som:
Sabes o que é o calado de um navio?

O calado de um navio? respondi, sem falar. O calado de um navio é a medida
do seu afundamento na água; quanto mais carregado está o navio, mais calado
tem, mais afunda na água...

Por algum tempo, mergulhei num grande vácuo...

Depois a voz cósmica, falando de dentro e sem som, me fez ver que calar quer
dizer afundar-se no Infinito, no Eterno, no imenso Oceano da Realidade, na
Divindade. Só quando o homem está assim, afundado em Deus, é que ele está
realmente calado. E, para que o homem tenha esse calado de profundeza,
deve ele estar devidamente carregado de espiritualidade. O homem não-
espiritual é superficial, sem calado suficiente, flutuando e boiando na superfície
das coisas ilusórias do ego...

Assim dizia a voz silenciosa de dentro.

E assim minha alma ouviu em silêncio, quando cosmo-pensada.

Depois comecei a pensar, por minha conta, coisas como estas: Isto calou
fundo... os soldados avançaram de baioneta calada... E verifiquei que calar que
dizer abaixar, aprofundar.

E perguntei a mim mesmo: Onde foram os portugueses buscar esta palavra:
calar? Quando em latim não existe, mas é tacere?

E lembrei-me de outras palavras portuguesas que não vêm do latim, como
nada, que em sânscrito quer dizer Infinito; e desmaiar, que quer dizer perder a
noção da maya, palavra sânscrita para natureza.

E lembrei-me dos livros sacros, que dizem: Cala-te – e saberás que eu sou
Deus...

E mergulhei nas profundezas do Oceano Pacífico da Divindade, unindo o meu
silêncio humano ao silêncio de Deus...

                                       ***

Ao entardecer, saímos das nossas cavernas rochosas e descemos a rampa do
morro, ao caminho, onde, em breve, apareceu o carro, que nos ia levar de volta
a Bikfaia, parte montanhosa de Beirute, onde estávamos hospedados.
Sentíamo-nos tão leves, tão puros, tão etéreos, e não tínhamos o menor desejo
de deixar o nosso divino nirvana, para voltarmos ao humano sansara.
NOS TÚMULOS DOS FARAÓS



A impressão que tive ao sobrevoarmos o delta do Nilo rumo ao Cairo, foi
desoladora. O Egito me parecia um imenso deserto de areia e de pedras,
entremeados de alguns bosques de tamareiras.

Perto da capital se estende o deserto de Gizeh, onde três grandes pirâmides
emergem do areal, guardadas pela enigmática esfinge, que com olhos vácuos,
plenos de eternidade, contempla os desertos em derredor.

Ninguém sabe dizer ao certo o que significam esses gigantescos monumentos
de pedra. Quando, por quem e por que foram construídas as pirâmides? A
mais alta mede quase 150 metros.

E por que essas câmaras mortuárias em seu interior? E esses corredores,
estreitos e escuros, que dão para as câmaras? Nessas câmaras jaziam,
outrora, as múmias, que se acham agora no museu do Cairo, e alhures. As
câmaras parecem irradiar, até hoje, algo equidistante de matéria e de espírito.

Será que existe uma radioatividade astral?

Pedi a meu companheiro que me deixasse sozinho numa dessas câmaras
mortuárias, a fim de auscultar, através de 4.000 anos, algo da presença dos
que aqui viveram e morreram. Se tempo e espaço fossem coisas reais, seria
absurdo essa tentativa; mas nós sabemos que a Realidade é toda aqui e
agora, embora as facticidades sejam distanciadas por tempo e espaço. Quem
consegue conscientizar devidamente a Realidade, transforma em propínqua
simultaneidade as mais longínquas sucessividades. Assim como, numa roda
girante, todas as periferias sucessivas são simultâneas no centro imóvel do
eixo, assim estão o passado e o futuro atomizados no eterno e imóvel
presente. Todos os Versos estão presentes no Uno do Universo.

Não é necessário ver, ouvir, tanger, pensar – basta intuir e ser cosmo-pensado
– e tudo que aconteceu milênios atrás está acontecendo aqui e agora.

Estava eu com vontade de passar uma noite, sozinho, numa dessas câmaras
mortuárias das pirâmides, como fez Paul Brunton; mas não sabia se estava
devidamente encouraçado com armas espirituais para resistir à possível
ofensiva do mundo astral, que parece ser extremamente denso nesses recintos
milenares.
Essas câmaras parecem saturadas de energia astral, ou que outro nome tenha.
O silêncio profundo e prolongado potencializa grandemente a nossa
sensibilidade. Quando todos os ruídos externos – materiais, mentais e
emocionais – morrem, então o silêncio começa a falar. E do seio do silêncio
nasce uma voz cuja plenitude plenifica a nossa vacuidade. Se o homem
cultivasse devidamente essa arte suprema do silêncio dinâmico, do silêncio-
presença, chegaria a saber de coisas que nem pensamentos nem palavras lhe
podem revelar...

Os antigos egípcios sabiam, certamente, que o corpo astral dos seus reis
permanecia ao redor do corpo material e podia, um dia, servir de ponte para a
revivificação dele.

Em princípios do nosso século, uma expedição britânica, após decênios de
trabalhos infrutíferos, conseguiu localizar o túmulo do jovem faraó Tut-Ank-
Hamon, filho de Akhenaton I e Nefertiti. Foi encontrado no Vale dos Reis, perto
de Luxor, cidade distante, Nilo acima. Tut-Ank-Hamon, embora filho de um
casal monoteísta, foi educado pelos sacerdotes politeístas de Hamon; mas, em
sua adolescência, começava a manifestar pendores monoteístas – e os
poderosos politeístas de Hamon o envenenaram, entre 18 e 19 anos de idade e
mandaram enterrá-lo onde ninguém pudesse descobrir-lhe o cadáver. Os
cientistas britânicos que descobriram a múmia procuraram verificar a causa
mortis do faraó. Constataram o sinal de uma picada de inseto na face da
múmia, que se acha agora no museu do Cairo, onde a contemplei
demoradamente.

Pouco depois, diversos dos membros da expedição morreram misteriosamente,
e na face de cada um deles havia o mesmo vestígio de uma picada de inseto.
Será que os sacerdotes magos de Hamon criaram um inseto astral que deu
ferroada mortífera a Tut-Ank-Hamon? E será possível que, cerca de 3.500 anos
mais tarde, esse mesmo veneno astral ainda tenha produzido efeito nos que
fizeram surgir à luz do dia um cadáver que, na intenção dos politeístas, devia
ficar em eternas trevas de total esquecimento?

Entrei no vasto recinto subterrâneo onde o corpo de Tut-Ank-Hamon repousou
três milênios e meio. O efeito do veneno dos sacerdotes politeístas parece
agora extinto.

Quem lê com atenção a descrição da “Arca da Aliança” de Moisés, no livro do
Êxodo, acaba por se convencer de que esse santuário portátil era uma pilha
elétrica, construída segundo todos os requisitos da ciência, com pólos positivos
e negativos. Os egípcios sabiam algo da eletricidade, embora não soubessem
utilizá-la ainda tecnicamente. Nem ignoravam radioatividade, de que se
serviam para proteger os corpos de seus reis.
Diante das três grandes pirâmides de Keops, Mykerinos e Chefren há um
gigantesco palco ao ar livre. Algumas vezes por semana se representa nesse
local o teatro “Som e Luz” espécie de drama histórico, falado alternadamente
em árabe, inglês, francês e alemão, entre 20 e 22 horas. Assisti à exibição em
alemão. Os atores e as atrizes são todos invisíveis. Só se lhes ouve a voz, das
profundezas da noite estrelada em pleno deserto, voz ampliada por potentes
alto-falantes, enquanto gigantescos holofotes projetam luz em diversas cores
sobre as pirâmides e a esfinge. Quem fala são os faraós, as pirâmides, a
esfinge, o próprio deserto, as trevas da noite e as águas do Nilo, que contam a
epopéia de um povo estranho e único na face da terra.

Há quem atribua a origem das pirâmides e da esfinge aos Atlantes, em épocas
pré-históricas.

A lendária Atlantis, ou Atlântida, sumiu, mas ao norte da África ficou o monte
Atlas, e entre a Europa-África e a América se estende o Oceano Atlântico,
reminiscência, talvez, de um continente desaparecido.

No Cairo comprei efígies metálicas de Tut-Ank-Hamon e da linda Nefertiti; em
Luxor adquiri um busto, em basalto preto, de Hat-shep-sut, talvez a misteriosa
“filha do faraó”, que, segundo a Bíblia, foi a mãe adotiva de Moisés, mas,
segundo uma mensagem psicografada, foi a mãe verdadeira do grande
legislador de Israel.

O Egito está repleto de reminiscências de Hat-shep-sut. Existem até as ruínas
de um tempo construído por ordem dela.

É emocionante a lenda que envolve o nome dessa princesa. Escultora, ia ela,
de vez em quando, ao atelier de Itamar, jovem escultor hebreu. E, enamorada
das esculturas do escravo hebreu, acabou por se enamorar também do
fascinante escultor. Mas, como princesa egípcia, não podia jamais pensar em
casar com um escravo. O príncipe egípcio que, segundo as leis da corte, devia
ser o futuro marido de Hat-shep-sut, suspeitou das simpatias da jovem para
com Itamar, e matou o hebreu. Tempos depois, a princesa deu à luz um filho
dela com Itamar; camuflou jeitosamente a origem da criança escondendo-a nos
canaviais do Nilo e, encontrando-a “casualmente”, numa manhã em que
tomava o seu banho de natação no grande rio. Levou-a para casa, educou-a no
palácio real, “em toda a sabedoria dos egípcios”, e lhe deu o nome “Moshe”
(Moisés ou Moshe), que quer dizer “filho” [3]. O sufixo “moses” ou “mes”
aparece no nome de diversos faraós, e significa “filho”. Seria incompreensível
que a princesa tivesse educado e instruído com tanto carinho um escravo
hebreu que não fosse seu próprio filho. Aos 40 anos, segundo a lenda, chegou
Moisés a saber que era filho verdadeiro da princesa, a qual, na hora da morte,
lhe desvendou o segredo. Moisés quis saber quem era seu pai. E, ouvindo que
seu pai hebreu fora assassinado por um príncipe egípcio, jurou vingança ao
Egito inteiro. Matou um feitor egípcio, e teve de fugir do país. Foi para as
estepes da longínqua Arábia, onde passou 40 anos, como pastor dos rebanhos
do sheik Jetro, com cuja filha mais velha se casou. Durante esse longo período
aperfeiçoou-se na magia egípcia, que aprendera de sua mãe, e aos 80 anos
“ainda em plena juventude”, teve ordem divina de regressar ao Egito e libertar o
seu povo da escravidão. Lançou nove pragas, que foram neutralizadas pelos
magos do faraó; mas na décima praga, a morte dos primogênitos, não
encontrou rival entre os seus conterrâneos, e libertou o povo hebreu,
conduzindo-o, por mais 40 anos, rumo à Terra da Promissão. Nas alturas do
monte Nebo, fronteira a Canaan, Moisés desaparece misteriosamente, aos 120
anos, “ainda em plena juventude”. Morreu? Desmaterializou-se? Astralizou-se?
Ninguém sabe de que são capazes esses magos. Cerca de 1.500 anos mais
tarde, reaparece nas alturas do Tabor, ao lado de Jesus transfigurado – Moisés
em corpo real, embora não-material, falando com Jesus “sobre a morte próxima
dele”. Mas que quer dizer “morte” para homens dessa natureza?...

--------------
[3] Provavelmente, Moisés não era filho material, embora real, da princesa egípcia, concebido
astralmente, por indução vital, como expliquei no meu livro “A Nova Humanidade”. Esse mistério de tele-
concepção astral vai por todas as antigas literaturas; sempre de novo aparecem virgens-mães. Essa
concepção astral daria ao filho um corpo perfeito, isento de doenças e morte compulsória, como era o
corpo de Moisés, de Jesus e de alguns outros representantes da nova humanidade.

Consta por mensagens esotéricas que o pai de Moisés era um escultor hebreu por nome Itamar, que, na
ausência material dele, atuou sobre a princesa, iniciando a formação do corpo de Moisés. Mas, como esta
tele-concepção astral não era compreensível aos profanos da corte do faraó, constou que ela havia
adotado um pequeno hebreu exposto entre os canaviais do Nilo.

Se Moisés tivesse sido apenas filho adotivo da princesa egípcia, e não filho real, seria inexplicável o
carinho com que ela, durante 40 anos, o educa e instrui em toda a sabedoria dos egípcios.

                                                 ***

Quem contempla esses milhões de gigantescos blocos de pedra – uma das
pirâmides tem três milhões desses blocos – que os nossos mais modernos
guindastes não conseguiriam suspender; e quem examina a precisão com que
eles foram colocados uns sobre os outros, sem deixar o menor interstício –
pergunta a si mesmo: Como conseguiram os egípcios transportar e suspender
esses blocos enormes?

Sei que há diversas hipóteses, mas nenhuma delas satisfaz.

Foram encontradas inscrições hieroglíficas contendo fórmulas mágicas sobre a
“desponderação” da matéria, bem como sobre a desintegração molecular da
mesma. Parece que os sacerdotes e magos do Egito conheciam o efeito de
certos sons que neutralizavam a gravidade da matéria e dissolviam a sua
coesão molecular. Os iniciados nesses mistérios aplicavam essa vibração a um
bloco de matéria, e este perdia a sua gravidade, podendo ser suspendido às
alturas até por uma criança. Depois dessa “desponderação”, a matéria se
“responderava” voltando a seu peso normal.

Josué, sucessor de Moisés, herdara do grande mago esse segredo. Segundo a
Bíblia, fez desmoronar as muralhas da fortaleza de Jericó, produzindo certas
vibrações aéreas por meio de instrumentos musicais, que culminaram na
música do “hino do jubileu”, e reduziram a simples areia as muralhas da
fortaleza.

Que sabemos nós desses segredos da natureza e desse poder mental do
homem?
YOGA E OS EREMITAS

                                 CRISTÃOS



Quando se fala em yoga e yoguis, logo se pensa na Índia. E, no entanto, o
Ocidente teve séculos de grandes yoguis – sobretudo na Tebaida do Egito.

Visitei as cidades e ruínas de Luxor e Karnak, e a aldeia de Abu, Nilo acima, e
rememorei os tempos gloriosos em que todas as regiões circunvizinhas eram
habitadas por eremitas cristãos. Viviam em silêncio e solidão nas cavernas dos
desertos da Tebaida, não longe de Tebas, capital do Egito Superior. Haviam
desertado da corrupção do Império Romano, irremediavelmente votado ao
extermínio, e viviam a sós com Deus e sua alma, preparando-se para uma vida
futura. Tomavam a sério, ao pé-da-letra, as palavras do divino Mestre: “Quem
não renunciar a tudo que tem não pode ser meu discípulo”. Todos eles
praticavam a mística – talvez o misticismo – que, desde tempos antigos,
prevalecia na Índia, no Tibete, sobretudo nas montanhas do Himalaia,
povoadas de mahatmas, maharishis e yoguis de toda a espécie. Esses super-
homens, quer da Ásia, quer da África, procuravam realizar o seu Eu espiritual,
esquecidos quase totalmente do seu ego humano. Se eram desertores e
escapistas da vida terrestre, não deixavam de ser homens de imensa boa
vontade. Quando, hoje em dia, falamos de místicos e ascetas, muita gente
torce o nariz, com ares se superioridade, como se já tivessem superado esses
períodos de “fanatismo”, como muitos chamam o entusiasmo espiritual. Muitos
dos nossos profanos se julgam homens cósmicos; acham que não abusam dos
bens terrenos, e por isto não os precisam recusar, mas já sabem usá-los
corretamente. Quando ouço essas tiradas dos supostos homens cósmicos,
logo desconfio da sua cosmicidade, e uma voz me segreda “eles são os mais
profanos dos profanos, mas ignoram a sua própria profanidade, e acham que já
ultrapassaram a mística”.

Eu, por mim, conheço um único homem realmente cósmico, que havia
ultrapassado tanto o plano dos profanos como o dos místicos, pelo menos nos
últimos anos de sua vida terrestre. Mesmo João Batista era ainda do número
dos místicos e ascetas. Quem nunca passou pela mística não pode ser
cósmico – e onde estão os nossos místicos, os ascetas, os campeões da
renúncia?

Albert Schweitzer escreveu: “O Cristianismo é uma afirmação do mundo – que
passou pela negação do mundo”.
Mahatma Gandhi disse: “Homem, renuncia ao mundo, entrega-o a Deus – e
depois recebe-o de volta, purificado, das mãos de Deus”.

E o próprio Cristo disse a seus seguidores: “Quem quiser ganhar a sua vida
perde-la-á – mas quem perder a sua vida por minha causa, ganha-la-á”.

Todos os mestres espirituais da humanidade insistem na necessidade da
mística, da ascese; se algum deles atingiu as alturas da vivência cósmica,
atingiu-as através da experiência mística e ascética. Despossuir-se de tudo –
para o poder possuir; morrer – para viver corretamente; não ter nada – para ser
tudo... é este o caminho que todos os mestres da humanidade ensinam.

Mas os nossos liberais de hoje se julgam tão superiores a todos os mestres
que falam com desprezo desses “atrasados” que ainda não sabem usar sem
abusar, e por isto têm de recusar.

Pobres analfabetos da espiritualidade! Ignoram a sua própria ignorância – e se
julgam sábios... Consideram sua doença como saúde – e zombam dos
convalescentes...

Perlustrei esses lugares sagrados, agora desertos, e relembrei os nomes de
tanto eremitas e cenobitas, aliás uns poucos desses muitos que ali viviam, mas
quase todos desconhecidos à posteridade. Aqui meditava fulano... Ali vivia
sicrano em perpétua contemplação de Deus... Mais além, se mortificava
beltrano...

Mais tarde, alguns desses eremitas solitários se reuniram em grupos, e
surgiram os primeiros cenobitas, que viviam em mosteiros e comunidades.

Escreveram-se muitos livros em torno da vida de alguns desses santos
desertores; mas, como quase todos eles viviam no anonimato, pouco sabemos
deles. Calavam-se diante dos homens e só falavam com Deus. O silêncio é a
linguagem de Deus e dos homens espirituais – o barulho é a dos egos
profanos.

Os trapistas de hoje são um eco desses eremitas silenciosos da Tebaida. Um
deles, Thomas Merton, ultimamente se tornou célebre sem querer, porque
escreveu livros maravilhosos, que correm mundo, alguns deles até vertidos em
português. Infelizmente, morreu em plena atividade, vítima de um acidente, na
Índia, onde visitava uns yoguis hindus e fazia meditação com eles.

De algum desses eremitas da Tebaida se contam coisas estranhas, se não
historicamente verdadeiras, certamente verdadeiras como característica
espiritual deles.

Um dia, o eremita A. disse ao eremita B., seu vizinho:

– Sabes, irmão, que lá fora há guerra?
– Guerra? – replicou o outro. – Que é isto?

– Bem... – retrucou o primeiro – guerra... guerra... é uma coisa muita feia, que
não se deve fazer.

– Mas, afinal de contas, que é guerra?

– Não sei explicar... Mas vamos brincar de guerra, para compreenderes o que
é. Olha aqui, eu tenho um livro; tu não tens livro algum. Eu digo: Este livro é
meu! Tu respondes: Não! Este livro é meu! Eu grito: Este livro é meu! Assim
começa a guerra. Vamos brincar de guerra: Este livro é meu!...

–?

– Responde!

– Responder, o quê?...

– Grita: Este livro é meu!

– Como? Se este livro é teu, então não é meu...

– Ora, ora... Tu não tens vocação para guerra... Já acabaste com a guerra
antes de começar... Os homens lá fora não fazem assim. Brigam sem fim, por
causa de coisas que não são nem de um nem de outro.

– É verdade, nós não temos jeito para guerra...

– Também não temos nada por que brigar...

– Paciência... Não podemos sequer brincar de guerra...

De Santo Antão da Tebaida se conta o seguinte: Um dia, alguém de fora lhe
ofereceu um lindo cacho de uvas. O eremita ascético namorou a uva, cheirou-
a, mas não comeu um baguinho sequer. Aliás, esses homens passavam dias
inteiros sem comer nada. Alguns só comiam uma vez por semana. Eram todos
vegetarianos absolutos. Achavam que a atividade estomacal não era bem
compatível com a atividade espiritual. Mahatma Gandhi, em nossos dias,
parece ter pensado do mesmo modo. Orava e jejuava, e por isto conseguia
tudo pelo poder da alma, sem o poder das armas. Mas, os profanos e
analfabetos da Verdade acham que poder é arma: canhão, metralhadoras,
bomba atômica – assim pensam e assim agem precisamente porque são
analfabetos nas coisas da alma. Quem não conhece a alma tem de usar arma
– quem conhece a alma não usa arma. E, ainda por cima, muitos dos que são
formados na insipiência das armas e ignoram a sapiência da alma, têm a
sacrílega audácia de se dizerem discípulos do Cristo...

Mas, voltemos a Santo Antão, que recebeu um lindo cacho de uvas e o
mandou a um eremita vizinho, na outra caverna. Diz a história que, ao
entardecer desse dia, o cacho de uvas, depois de fazer o rodízio todo pela
vasta Tebaida, voltou a Santo Antão, intato. Nenhum dos monges quis deliciar-
se com a sua ingestão, com medo de favorecer algo como gula, de que todos
os egos são devotados amigos.

Santo Antão ergueu as mãos ao céu e disse: Graças a Deus, que ainda há
verdadeiros monges na face da terra...

                                      ***

Se o homem praticasse concentração mental, ou até contemplação espiritual,
verificaria que o maior poder reside precisamente no mundo mental e espiritual.
Mas esse poder só se revela aos poucos, após longos períodos de focalização
intensamente consciente. Há homens entre nós que conseguem fazer uma
hora de focalização consciente, ou cosmo-consciente; outros, uns poucos, se
mantém por um dia, ou até por alguns dias, nesse ambiente da potência
cósmica, imaterial. Mas tudo isto não passa de abc de escola primária. Os
grandes universitários do verdadeiro poder espiritual, do poder creador,
permanecem na zona desse poder durante 30 a 40 dias consecutivos. E, para
intensificar essa concentração, se abstêm, total ou quase totalmente, de
alimentação, porque sabem que a atividade estomacal perturba a focalização
espiritual.

Moisés, Elias, Jesus, com 40 dias e noites de silêncio e solidão, no alto de
montanhas ou no fundo de desertos, faziam jorrar de dentro de sua alma fontes
de poderes tais que eclipsavam todas as forças físicas.

Antigamente, não havia locais especiais para exercer essa concentração
mental-espiritual; os eremitas e yoguis se recolhiam a qualquer deserto,
montanha ou floresta; não necessitavam de cama nem cozinha, não tinham luz
artificial nem água encanada. Quando o poder do espírito é máximo, as
necessidades materiais são mínimas.

Nos últimos tempos, a elite da humanidade voltou a sentir a necessidade de
Tebaidas, Sinais, Himalaias, desertos, solidões; porém dotados de algum
conforto, embora sem confortismo. Estamos oferecendo a esta humanidade
algumas Tebaidas e alguns Himalaias razoavelmente confortáveis. Não
podemos crear homens idôneos; só podemos criar ambientes convidativos. A
idoneidade vem de outra região, vem do livre-arbítrio de cada um. Nem o
melhor lugar garante concentração ao homem comodista, incapaz de esforço
pessoal. A tendência da maior parte dos homens chamados “espiritualistas” é
de simples turismo devocional. Muitas Tebaidas e os Himalaias de hoje
degeneraram em clubes esportivos e centros sociais. Outros substituíram o
magno problema da auto-realização por atividades filantrópicas, vestindo os
nus e enchendo estômagos vazios, deslembrados do que o Mestre disse:
“Pobres sempre os tendes convosco, e lhes podeis fazer bem quando
quiserdes – a mim, porém, nem sempre me tendes”.

Em face disto, tivemos de elaborar rigoroso regimento interno para os nossos
ashrams.

Ashram, Tebaida, Himalaia, Sinai, não são apenas lugares de Retiro Espiritual,
retirados da vida social urbana; devem ser verdadeiras metánoias, palavra
usada pelo texto grego do Evangelho para “transmentalização”: um modo de
pensar e viver para além da mente da personalidade egocêntrica. Metánoia é
conversão. Quando o homem está, por assim dizer, de costas voltadas para a
suprema Realidade (Deus), e de rosto voltado para as coisas do mundo; está
“avertido”; mas, quando dá meia volta, voltando o rosto conscientemente para a
Realidade, então é um “convertido”. Passou da ilusão para a verdade. Não é
“remendo novo em roupa velha”, como todo ego virtuoso continua a ser; o
convertido despojou-se do homem velho, revestiu-se do homem novo e fez-se
totalmente “nova creatura em Cristo”.

                                     ***

É deveras estranho, e mesmo trágico, que o lugar do antigo Egito onde esteve,
durante séculos, a Tebaida cristã, não se encontre um vestígio do seu glorioso
passado. Os Himalaias continuam a ser o el-dorado dos yoguis – mas a
Tebaida deixou de ser espiritual. Os atuais habitantes são árabes,
muçulmanos, maometanos, geralmente indolentes, só interessados nas coisas
mais rasteiras do velho ego. Pouco sabem de meditação. Perderam até a
magia mental de seus antepassados. Dinheiro, sexo e divertimentos – e nada
mais, como a maioria dos chamados cristãos do ocidente. Parece que a lei do
menor esforço impera tão despoticamente no plano mental como no mundo
material. O grosso da humanidade, em qualquer continente, que apenas tornar
mais agradável a vida do velho ego; pouquíssimos procuram superar a
horizontal por uma vertical. Impera o continuísmo comodista – quando nascerá
um novo início? Quando surgirá uma nova vivência em lugar da vida velha?

Regressei das regiões da antiga Tebaida cristã mais do que nunca convencido
da imperiosa necessidade duma intensa interiorização do homem – mesmo em
proveito da verdadeira felicidade aqui na terra.

Toda a Física, para ser agradável, necessita de um fundo de Metafísica.

O gozo físico, sem um fundo de espírito metafísico, acaba, cedo ou tarde, no
seu contrário – num tédio insuportável...
MINHA DECEPÇÃO EM

                                         ARUNÁCHALA



Do Cairo voei, durante a noite, para Bombay, uma das grandes cidades da
Índia Ocidental. Daí, cruzando toda a Índia, para Madras, no litoral oriental.

Madras – por quê?

Nada me interessava essa velha cidade indiana, onde os portugueses, do
tempo de Vasco da Gama, deixaram tantos vestígios.

O que muitíssimo me interessava era um lugarejo que não figura em nenhum
mapa geográfico da Índia – Arunáchala. Felizmente, levava eu na mala um
exemplar da revista “The Mountain Path”, publicada em Tiruvannamalai,
cidadezinha não longe de Arunáchala. Muitos brasileiros conhecem este nome,
que se tornou quase sagrado, porque em Arunáchala viveu, nesses últimos
decênios, um dos maiores iniciados da Índia moderna – Bhagavan Ramana,
chamado geralmente Maharishi, ou Maharshi, quer dizer, o “Grande Vidente”.
Dois escritores contemporâneos, Mouni Sadhu e Paul Brunton, tornaram
conhecido no mundo inteiro esse grande místico. Sobretudo o livro de Mouni
Sadhu “Dias de Grande Paz”, escrito em inglês e traduzido em diversas
línguas, inclusive em português, imortalizou esse grande iluminado. [4]

--------------
[4] A recente edição deste livro é da Editora PENSAMENTO, de São Paulo, edição revista e anotada por
Huberto Rohden. Consideramos este livro, “Dias de Grande Paz”, como um dos melhores canais para
auto-conhecimento e auto-realização, tanto mais porque reflete as experiências imediatas de um discípulo
do grande iniciado.

Estranhamente, em Madras ninguém sabia da existência de Ramana Maharshi,
nem do lugarejo onde ele viveu mais de meio século. “Santo de casa não faz
milagre.”

Finalmente, consegui saber que existia uma linha de ônibus para
Tiruvannamalai (que os nativos pronunciam Trimalei, ou coisa parecida).

E lá vou eu, durante diversas horas fatigantes, num ônibus primitivo, que me
deixou em Tiruvannamalai. Ali aluguei uma carrocinha de duas rodas puxada
por um cavalinho magro, e consegui chegar a Arunáchala. Excetuando o
ashram e algumas casas vizinhas, Arunáchala tem aspecto de uma favela, com
casas de barro coberta de sapé ou folha de palmeira. Consta de uma única rua
comprida, sujíssima e cheia de mendigos, como quase todas as cidades da
Índia.

Era intenção minha ficar aqui alguns dias, na esperança de fazer um Retiro
Espiritual com alguns dos mestres, que cuidava encontrar. Mas Ramana
Maharshi tinha morrido havia quase dois decênios, e seus supostos discípulos
não davam impressão de espiritualidade.

Ao meio-dia tomei o meu almoço numa sala ladrilhada, sentado no chão, diante
duma folha de bananeira, sobre a qual o servente jogou um punhado de arroz
que arrancou com a mão de uma panela; jogou-o com tanta força que parte
espirrou para os lados e foi cair ao redor do prato, no chão poeirento; mas o
servente teve a habilidade de catar o arroz disperso e recolocá-lo na folha de
bananeira, que me servia de prato. Depois veio outro servente com uma panela
de feijão; com uma concha tirou do conteúdo e deitou sobre o arroz; depois
disto, coroando tudo, um grande punhado de pimenta malagueta.

Misturei tudo com os dedos – não há vestígio de talheres – e tentei introduzir
na boca essa substância meio líquida. Operação difícil para o homem
ocidental! Olhei para meus comensais hindus e verifiquei que eles faziam dos
quatro dedos uma espécie de colher e assim conseguiam introduzir na boca o
alimento, sem muito derramamento. Aliás, também não havia perigo de eles
sujarem a roupa, porque a maior parte só veste uma tanga primitiva ou um
calção. Alguns deles usam uma espécie de camisola além da tanga.

Fiquei com a boca em fogo, com a sobrecarga de pimenta vermelha. Pedi água
para apagar o incêndio e veio uma caneca de latão com água morna; pois não
existe geladeira no ashram e a Índia é um país tropical.

O meu companheiro brasileiro se portou heroicamente, engolindo – embora
com esforço e caretas – o seu almoço.

Esperávamos algumas frutas para a sobremesa, mas nada disto apareceu.
Felizmente, eu trazia na mala algumas bananas, que salvaram a situação.

Ao anoitecer nos mostraram a casa dos hóspedes. Havia no quarto uma velha
cama de madeira com um colchão de capim meio podre e um lençol que, pelo
aspecto, já devia ter tido uso frequente por longa data. Joguei fora o lençol e
me deitei sobre o colchão esfarelado. Meu companheiro se deitou no chão e
dormimos – tanto quanto as aranhas, baratas e mosquitos o permitiram.

Numa dependência da casa havia um cômodo com uma espécie de fossa no
chão, uma lata com água e uma caneca, para tomar banho. Como não havia
toalha, enxuguei-me com uma peça da minha roupa interna, usando outra
como fronha; pois não ousava deitar a cabaça diretamente sobre o capim
podre.
Esqueci-me de dizer que, ao anoitecer, assistira ao cântico dos Vedas, com
flores e incenso. Este ritual se repete cada manhã e cada noite. Fiz o possível
para me concentrar, mas nada consegui. Dois macacos travessos, durante
todo esse culto religioso, faziam as suas acrobacias no santuário, trepando
pelas cortinas, pulando sobre o altar etc. À direita e à esquerda do altar havia
estátuas de pedra representando vacas e elefantes. Durante o ritual foram
engrinaldados esses animais sagrados, incensados e besuntados de ghee
(manteiga derretida).

Na manhã seguinte, fui visitar a casinha ocupada, por algum tempo, por Mouni
Sadhu, o autor do livro “Dias de Grande Paz”; vi também a de Paul Brunton,
que, por algum tempo, foi discípulo imediato de Ramana Maharshi.

Entretanto, a minha decepção e dissabores foram compensados pela longa
meditação que fiz, juntamente com meu colega, na salinha reservada onde o
santo fazia as suas concentrações, ou melhor, a sua sintonização cósmica.
Sentado no chão – pois não havia móveis – defronte ao canapé, perto do
grande retrato do místico, abismei-me no oceano do Infinito. Mergulhei
totalmente nesse mar invisível... Senti-me empolgado pelos misteriosos fluidos
que, mesmo agora, quase dois decênios depois da partida de Maharshi, ainda
estão no ar e fluem de todos os objetos – do soalho, das paredes, do teto – e
se apoderam das pessoas sintonizadas por essas auras...

Mas, nesse mesmo dia tive mais uma grande decepção e consolidei-me na
velha convicção de que a maior tragédia para um grande mestre é o fato de ter
discípulos após a morte. Levaram-me ao quartinho onde o grande Vidente tinha
dado o último suspiro – ou, como dizem eles, onde entrou no mahasamadhi. Lá
estavam livros e manuscritos dele. Na parede havia um nicho, com algumas
bananas, pedaços de coco e outras frutas. Em face da minha estranheza e
pergunta, explicaram-me que esses alimentos lá estavam, e eram
constantemente renovados, porque a alma dele poderia ter vontade de se
alimentar... Coitado do Mestre tão mal compreendido por seus chamados
discípulos!... Quero crer, todavia, que haja outros discípulos de Ramana
Maharshi, mesmo em Arunáchala, que estivessem mais sintonizados com o
espírito dele. Nesse mesmo dia me encontrei com Arthur Osborne e sua
esposa, ingleses, editores da mencionada revista “The Mountain Path”, que um
amigo me manda regularmente de Arunáchala e cujo conteúdo é um retrato fiel
do santo.

No mesmo dia deixei Arunáchala e regressei para Madras.

Tomei o avião da “Indian Airlines” e voei para Calcutá, capital do Estado de
Bengal. Daí por diante viajei sozinho, porque meu companheiro, decepcionado,
se separou de mim.
Viajar sozinho por essas regiões desconhecidas pode parecer triste a muita
gente social. Eu, porém, me sentia muito bem. Parece mesmo que sou
essencialmente eremita solitário que a vida na sociedade é apenas um mal
necessário. Quando estou desacompanhado me sinto em ótima companhia,
mas em sintonia com a alma do Universo.
COM OS YOGUIS DE

                                SEVAYATAN



Levava comigo uma carta do meu antigo guru indiano, de Washington, Swami
Premananda, endereçada a Swami Satyananda, chefe do ashram de
Sevayatan, no Bengal ocidental. Em Calcutá, capital desse Estado, tomei o
trem, que, em algumas horas, me deixou na estação ferroviária de Ihargram.
Mas, daí para Sevayatan não havia condução regular, a não ser uns veículos
particulares que eu nunca vira: umas grandes bicicletas – aliás monociclos –
ligados a uma pequena carruagem com dois assentos. O ciclista montava
nessa roda e pedalava valentemente, movendo o veículo. Assim cheguei,
dentro de meia hora, através de vastas planícies, a uma espécie de fazenda,
que o povo denominava The School (a escola).

Lá chegando, indaguei por Swami Satyananda e fui levado a uma casinha
modesta, em cujo interior encontrei um homem de uns 80 anos, sentado sobre
uma cama simples, pois estava doente e se sentia muito fraco. Seu corpo era
de cor cera e tão magro que me parecia transparente. Entreguei-lhe a carta de
Swami Premananda e ele me tratou com extrema bondade, uma bondade
simples e benfazeja, embora sempre com aquela serena longinquidade que é
própria de homens que já vivem no mundo da pura espiritualidade e se ocupam
com este mundo apenas por conveniência para seus semelhantes. Não há
nenhuma necessidade que esses homens falem ou façam alguma coisa – o
seu simples e poderoso ser vale mil vezes mais do que qualquer dizer ou fazer.
Pode a gente ficar na presença deles indefinidamente e sentir-se bem e cada
vez melhor, esquecendo-se de todas as facticidades das circunstâncias e só
consciente da realidade da substância.

Conversamos longamente em absoluto silêncio...

Silêncio é algo como música... Não atua pelo que diz, mas sim pelo que é... A
música é uma linguagem internacional, como o silêncio...

Fiquei quase cinco dias nesse ashram, onde residiam numerosos monges,
yoguis, swamis, alguns dos quais também eram professores de escolas
secundárias e colégios do governo, na redondeza. Deram-me um quarto
próprio, com cama e mesa e outros móveis, quase à moda ocidental. Não
cheguei a saber como os monges vivem entre si. Será que comem e dormem
no chão, como em Arunáchala? Aqui há um conforto razoável, sem confortismo
nem confortite, que são a desgraça de muita gente do mundo ocidental. Falo
de experiência própria. Quando, há anos, loteei o meu antigo sítio, em São
Paulo, e convidei alunos da ALVORADA para fazerem os seus bangalôs, para
residência rural ou fim-de-semana, tive enorme decepção. Quase todos
resolveram transportar para o campo um pedacinho da cidade, com todas as
suas misérias civilizadas – rádio, televisão, jornais, revistas, visitas tagarelas e
todas as consagradas sujeiras da nossa cidade. Quase todos eles são hoje
sitiados em vez de sitiantes, sitiados, em permanente “estado de sítio”... E, pior
de tudo, adoram esse estado de sítio, essa idolatrada tirania do confortismo
mórbido e da confortite mortífera...

Nada disto encontrei em Sevayatan. Encontrei um conforto razoável,
equidistante do desconforto de Arunáchala e do confortismo de muita gente
ocidental. Todas as grandes nações da história morreram de confortite...

Toda manhã, Swami Satyananda, sentado na cama, e eu num tamborete, ao
pé dele, fazíamos longa meditação. Ele, de olhos imóveis, largamente abertos,
fazia lembrar a esfinge do Egito... Parecia uma estátua de mármore, sem
respiração perceptível. Creio que a alma ou Eu dele não estava mais lá; só o
invólucro corpóreo estava presente, vazio, sem um sinal de vida... Só depois de
muito tempo a realidade espiritual do Swami regressava de regiões longínquas
e reanimava aquela roupagem inerte. Ah! se esses homens pudessem falar
das suas experiências cósmicas!... Mas... aqui o calar vale mais do que o
falar... Ditos indizíveis não podem ser ditos... O que se pode dizer, ou mesmo
pensar, não é a verdade... É como um fogo pintado numa tela, que não é fogo
vivo... O mais perfeito fogo pintado não ilumina nem aquece...

Durante prolongado samadhi de Swami Satyananda, todo o recinto se enchia
de um estranho magnetismo, que envolvia e permeava tudo. Eu não sentia
mais meu próprio corpo nem o tamborete em que estava sentado. Tinha a
impressão de flutuar livremente no espaço, desmaterializado, astralizado, todo
centrado na minha consciência Eu, alheio a todos as ilusões do ego periférico.

Num dos últimos capítulos do meu livro “Entre Dois Mundos”, com o título “Nos
Mistérios do LSD”, tentei descrever as experiências produzidas pelo ácido
lisérgico. Mas o que experimentei em Sevayatan, na presença de Swami
Satyananda em samadhi, era bem diferente, por ser uma vivência natural e não
uma técnica artificialmente provocada por umas gotinhas de injeção material.

Somente quando o yogui regressava das suas longínquas viagens cósmicas e
reocupava o invólucro do seu corpo material, é que cessava o ambiente
imantado do cubículo, e eu tornava a ter consciência do meu corpo. Mas no
meu consciente superior continuava a luz e forças captadas durante o samadhi
do iniciado, projetando ondas benéficas sobre minha vida. Posso afirmar que
entre um samadhi artificialmente provocado e um samadhi real e natural
medeia a mesma distância que há entre um fogo pintado numa tela e um fogo
real; com o melhor dos fogos artificiais não se pode iluminar e aquecer coisa
alguma, ao passo que o menor dos fogos naturais irradia luz e calor.

Aldous Huxley, no seu livro “Às Portas da Percepção – Céu e Inferno” faz ver
esta enorme diferença entre o samadhi natural e o pseudo-samadhi artificial. É
enorme a auto-decepção do êxtase artificial. J. W. Hauer, no livro monumental
“Der Yoga”, faz ver que para a experiência do Eu central não conduz nenhum
caminho psico-técnico. E Einstein adverte que “do mundo dos fatos não conduz
nenhum caminho para o mundo dos valores, porque estes vêm de outra
região”.

Não sei até que ponto a minha alma acompanhava a alma do yogui, nessas
fantásticas jornadas cósmicas... O certo é que a presença do mestre auxiliava
grandemente o desprendimento do meu espírito – a “graça do mestre”, como
diz Mouni Sadhu –, deve ser essa evanescente aura ou vibração peculiar que
irradia de um ser humano altamente realizado, se difunde pelo ambiente e
funciona como um poderoso catalizador para as pessoas que se encontram no
âmbito dessa irradiação e tenham suficiente receptividade para captar essa
onda invisível. Um homem desses vale mais para a redenção do mundo do que
legiões de eruditos não-realizados. Isto me faz lembrar as palavras de
Mahatma Gandhi: Quando um único homem chega à plenitude do amor,
neutraliza o ódio de muitos milhões.

Essa comparação com emissor e receptor de ondas eletrônicas, que tenho
usado nos meus livros e nas minhas aulas, é talvez o melhor símile ilustrativo,
sobretudo na era eletrônica em que vivemos. A estação emissora do Infinito
está sempre funcionando, lançando ao espaço músicas de vida, saúde e
felicidade – mas o nosso receptor humano nem sempre está devidamente
sintonizado para captar essa música. Sofremos e somos infelizes por causa da
nossa falta de sintonização...

Cada dia, pelas 20 horas, havia uma reunião de culto, numa sala espaçosa do
ashram. Cantavam-se hinos sacros, liam-se os Vedas e a Bhagavad Gita. Na
primeira noite fui apresentado por Swami Satyananda, que a custo se arrastara
até lá, e fui convidado a falar sobre as minhas experiências pessoais, no
mundo da suprema Realidade. Falei cerca de meia hora sobre o Golden Lotus
Temple, em Washington, o templo do lótus de ouro, fundado há diversos
decênios por Swami Premananda, filho de Sevayatan e fundador do ashram
local. A mãezinha dele, de 80 anos, estava presente, e vivia me pedindo
notícias do filho, ausente há uns 30 anos. Tive pena da mãe do meu antigo
guru, que chorava de saudades; mas eu nada pude fazer por ela, porque ela
não entendia uma palavra de inglês, e eu nada sei da língua dela. Ela não tinha
idéia da distância entre o Brasil e os Estados Unidos, e pensava que eu tivesse
vindo diretamente de Washington e para lá voltaria e me encontraria com seu
querido filho, que nunca mais voltara a Índia.
Nesta primeira conferência contei aos 30 ou 40 ouvintes o que era o ashram de
Washington e como eu tinha sido discípulo e, mais tarde, colaborador de
Swami Premananda, fundador do ashram de Sevayatan.

Numa das noites seguintes falei sobre os nossos centros de auto-realização,
mantidas pela “Alvorada”, no Brasil. Creio que para muitos dos meus ouvintes
foi alta novidade saberem que nós, aqui no Brasil, possuímos santuários de
meditação e auto-realização. Estranharam um tanto quando lhes disse que os
nossos ashrams não tinham caráter residencial, como os da Índia, mas são
lugares onde pessoas idôneas se retiram temporariamente com o fim de
carregarem a sua bateria espiritual, e depois voltam ao meio do mundo, para
seus afazeres profissionais, mantendo, porém, firme a orientação espiritual
colhida no silêncio e na meditação.

Na última noite fui convidado por alguns dos professores para lhes falar de
“Filosofia Cósmica” ou, como prefiro dizer, “Univérsica”, que eu mencionara nas
palestras anteriores. Atendi ao convite e expus longamente o que os leitores
dos meus livros e alunos dos meus cursos já conhecem.

Quando, nesta última conferência, afirmei que Matemática, Metafísica e Mística
são, no fundo, a mesma coisa, verifiquei grande estranheza e talvez ceticismo
no semblante de alguns ouvintes. Mas quando citei diversas palavras de
Einstein em meu abono, creio que todos se convenceram da verdade do meu
asserto, por sinal que alguns me pediram meu endereço no Brasil para
ulteriores informações sobre “Filosofia Univérsica”. Infelizmente, não lhes
posso mandar nenhum dos meus livros, porque a única língua estrangeira que
eles entendem é o inglês. É, aliás, doloroso verificar, na Europa, na Ásia e na
África, que o português é totalmente ignorado; um livro escrito em nossa língua
é um livro morto-nato para o resto do mundo. Inglês, francês, alemão,
espanhol, italiano – são portas mais ou menos abertas para outra gente, mas o
português é invariavelmente porta fechada. E, no entanto, há mais de 100
milhões de pessoas no mundo que falam o português. Por que é que somos
tão desconhecidos e ignorados?...

Em Sevayatan estranhei uma coisa, aliás geral na Índia: que o ashram se
achasse praticamente no meio do mato, isto é, numa capoeira desordenamente
heterogênea, quase sem vestígio de cultura, nos arredores, sem um pouco de
jardim, nem de horta, nem de pomar. Da nossa divisa: “Realiza a mística de
Deus, pela ética dos homens, na estética da natureza” falta, na Índia, a última
palavra. Eles tratam da mística e da ética, mas se esquecem da estética da
natureza.

Voltei de Sevayatan para Calcutá com um mundo de cogitações em estado de
incubação...
NO SILÊNCIO DAS NEVES

                                DO HIMALAIA



De regresso a Calcutá, tirei passagem na Royal Nepal Airlines e levantamos
vôo rumo norte em demanda das mais altas montanhas do globo terrestre.
Aterrissamos em Kathamandu, capital do reino do Nepal, situado nos primeiros
contrafortes da imensa cordilheira, a uns 2.000 metros de altitude. Nepal é um
país maravilhoso, entre a Índia, a China e o Tibete, feito de montanhas e rios,
cachoeiras e magníficas florestas.

No dia seguinte, por meio duma empresa de turismo do governo, aluguei um
táxi e durante quase o dia inteiro fomos subindo, em vastos ziguezagues, rumo
a um dos pontos mais pitorescos, nessa fascinante cordilheira dos Himalaias,
uma das poucas nesgas de terra ainda não profanadas pela civilização.
Chegamos ao “Everest Point”, em Daman, a uns 3.000 metros de altitude. Não
havia turistas, graças a Deus. Eu era o único visitante, pois estávamos fora de
estação. Deram-me um silencioso bangalô em plena mata, com uma lâmpada
e querosene. Perto havia um pequeno restaurante, em forma de gigantesco
cogumelo (não era da bomba atômica!), em cujo refeitório redondo, cheio de
janelas de vidro, fui tomando as minhas refeições. Passei apenas uma noite e
quase dois dias nesse mundo de Deus, longe dos homens, cercado de
montanhas cobertas de neves eternas. Para o leste se erguia o cume do
Sagarmatha, que os nossos atlas chamam Everest, com mais de 8.000 metros
de altitude. A fim de presenciar o nascer do sol, que nasce do lado direito do
gigante, levantei-me antes das 5 horas, e, das 5 às 6 estive saboreando o
grandioso espetáculo do sol nascente, no seio desse imenso anfiteatro de
campos de neve e picos gelados, produzindo as mais variadas cores e
cambiantes, sempre em mudança – azul, dourado, violáceo – conforme a
incidência dos raios solares.

Eu não tinha câmara fotográfica para fixar esses deslumbramentos, durante
essa hora solene; mas minha alma fotografou, em cosmocolor, os estupendos
panoramas do Himalaia... Se eu, algum dia, voltar à Ásia, irei diretamente ao
Himalaia, não para um dia e uma noite, mas para lá ficar semanas ou meses.
Aqui tudo é grandioso e inaudito, e é necessário dar tempo à alma para realizar
um processo de osmose e lenta infiltração. Não adianta ver, é necessário
sentir, viver e vivenciar o que o silêncio de Deus diz ao silêncio do Eu...

Keyserling, no seu livro “Reisetagebuch eines Philosophen”, diz que o Himalaia
emite estranha radiação magnética, que nos torna fáceis o pensamento e a
Huberto Rohden - Minhas Vivências na Palestina, no Egito e na Índia
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Huberto Rohden - Minhas Vivências na Palestina, no Egito e na Índia

  • 1. HUBERTO ROHDEN MINHAS VIVÊNCIAS NA PALESTINA, NO EGITO E NA ÍNDIA UNIVERSALISMO
  • 2. ADVERTÊNCIA A substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e dispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior, porque deturpa o pensamento. Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é a transição de uma existência para outra existência. O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado. Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores. A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada se aniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certa mas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa. Por isto, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquer convenções acadêmicas.
  • 3. PRELÚDIO Em 1969, fui visitar três continentes do globo: Europa, Ásia, África. Por quê? Em busca da verdade? À procura de homens diferentes dos nossos? Não! Os homens são fundamentalmente os mesmos, em toda parte. Enquanto viajava pelos mundos, dava ordem aos mundos para viajarem através de mim, que me mostrassem o mesmo homem já conhecido em perspectivas várias. Nunca o homem se conhece tão bem a si mesmo como quando recebe o impacto de homens alheios. A alteridade dos outros catalisa e intensifica em nós a identidade própria. Cristaliza o nosso autoconhecimento. Alemães, suíços, gregos, israelitas, árabes, egípcios, hindus, nepaleses e outros povos que encontrei – que poderiam eles dizer-me de novo? Religiões cristãs de vários matizes, crenças hebréias e cultos maometanos, filosofias herméticas, mistérios helênicos, metafísicas brahmanes e místicas budistas; templos, igrejas, mesquitas, pagodes – nada de novo me disseram, mas tornaram mais consciente em mim aquilo que eu já era e sabia. Nesses espelhos vi o que sem espelho não poderia ver: o meu próprio semblante refletido neles, atitude de minha alma, o caráter do meu Eu individual. Europa, Ásia, África – eu viajei através de vós, externamente – mas vós viajastes através de mim, internamente. Contemplei as vossas quantidades – e vós me revelastes a minha qualidade. E alguns homens verticalizados, que em vós viveram, deixaram as suas misteriosas auras, os seus fascinantes eflúvios em vosso ambiente histórico. *** Leitor amigo. Não esperes encontrar nas seguintes páginas algo como um guia de turismo, descrições de culturas alheias, visões panorâmicas dos países e povos que visitei.
  • 4. Nada disto encontrarás neste livro. Direi apenas – mais a mim do que a ti – o que pessoas e povos me disseram, mais pelo seu ser do que pelo seu dizer, enquanto viajavam através de mim. Nada direi da sua onilateral totalidade – algo direi da sua unilateral parcialidade, no setor peculiar em que eles afinarem com a frequência vibratória de minha alma. Certamente, não vi esses países e povos como eles são – mas tão-somente assim como eu sou. E se tu, ignoto leitor, tiveres outras idéias desses mesmos países e povos, reconheço as tuas idéias, embora discordantes das minhas, como igualmente verdadeiras. Diversidade de opinião não é hostilidade. Se não houvessem opiniões várias, seria este mundo uma insuportável monotonia. Se tudo fosse apenas UNO, não haveria Universo. Se tudo fosse apenas VERSO, não haveria Universo. Mas há Universo porque o Uno e o Verso, embora diferentes, não são contrários, mas harmonizados numa fascinante complementaridade: unidade na diversidade, Harmonia Cósmica. Viajei pelas diversidades de fora, para sentir mais intensamente a minha unidade de dentro – unidade na diversidade, a identidade das alteridades – o Universo em mim pelo Universo em si.
  • 5. QUARENTA PAÍSES EM TORNO DE UM INSETO Na tarde de 2 de agosto de 1969, no Aeroporto Internacional de Viracopos, em São Paulo, o jato da “Lufthansa” levantava majestoso vôo. Depois de 40 minutos, pousou no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Ao anoitecer decolou rumo nordeste. Durante 9 horas sobrevoamos o Oceano Atlântico, enquanto os passageiros dormiam tranquilamente, a uns 10.000 metros de altitude, viajando com a velocidade de 9.300 quilômetros por hora. Amanhecemos em Lisboa; os nossos relógios marcavam apenas 2 horas da noite. O sol, que vinha ao nosso encontro, roubou-nos 4 horas de sono. Eram 6 horas. Mais algumas horas e aterrissávamos em Zurique, na Suíça. Pouco depois, em Frankfurt e em Munique, na Alemanha. Nesta última cidade me associei a mais de 3.500 apicultores e cientistas, cidadãos de 40 países dos 5 continentes do globo. Os países representados eram os seguintes: Afeganistão Alemanha Argélia Argentina Austrália Áustria Bélgica Brasil Bulgária Canadá Chile
  • 7. Por espaço de uma semana inteira, de 1 a 7 de agosto, estiveram mais de 3.000 pessoas reunidas, na vasta área da Feira de Exposições, falando, estudando, discutindo – sobre quê? Sobre um inseto! Como? Um simples inseto? Sim, sobre um pequeno himenóptero, que a ciência denomina apis mellifera. Celebrava-se o 22.° Congresso Internacional da Apicultura. Os congressistas eram apicultores ou cientistas interessados em conhecimentos mais vastos e profundos sobre esse fascinante inseto, em torno do qual se tem escrito milhares de livros em todas as línguas do mundo. O nosso Brasil estava representado por uns 15 apicultores. O que para mim havia de mais interessante não eram, propriamente, as eruditas conferências, mas sim o contato pessoal com homens de 40 países, cada um com suas experiências individuais. Conversei muito com escandinavos, russos, hindus, árabes, húngaros e alguns sul-americanos. Ofereci ao Congresso três presentes: Minha novela científico-popular sobre as abelhas, entitulada “Isis”; um vidro de mel do meu apiário perto de Jundiaí, São Paulo; e um “arranha-céu” de uns 50 cm de altura, composto de 30 andares, atravessados por um corredor central e munido de duas válvulas de ventilação, arranha-céu construído por vespas brasileiras do Estado de Goiás. *** Durante todo o Congresso não se falou na famigerada “abelha africana”, porque ela não existe na Europa. Como todos sabem, desde 1956, a adamsonii se tornou um problema sério no Brasil, e, ultimamente, em toda a América do Sul. Algumas dezenas de rainhas africanas, foram introduzidas em nosso país por um cientista, com o fim de melhorar a nossa apicultura nacional. Enquanto elas estavam controladas, tudo corria bem; mas, quando, pela imprudência de um funcionário, foram soltas e invadiram São Paulo, o Brasil, e, por fim, toda a América Meridional, alastrou-se o grande problema, uma vez que a ferocidade dessa abelha não é menor que a sua produtividade. Felizmente, hoje, mais de 20 anos depois, a abelha africana já está prestando bons serviços, suposto que o apicultor saiba entender-se com ela. A Europa, embora ligada à África através do Oriente Médio, nunca sofreu dessa invasão – por que não? Até hoje ninguém soube dar-me resposta satisfatória a essa pergunta. Nem mesmo na Ásia, tão próxima da África, existe a apis mellifera adamsonii, ao menos não em sua forma agressiva, como entre nós.
  • 8. No meu livro “Isis” dei o motivo da ferocidade da abelha africana, que é apis mellifera, como a chamada européia. *** Perguntei a umas dezenas de apicultores quanto mel produzia, na média, uma colmeia, por espaço de um ano; quase nenhum apicultor colhia anualmente mais de 10 quilos de mel, por colmeia; as abelhas só trabalham durante 5 ou 6 meses, ou menos, porque, nos restantes meses não havia flores e a temperatura era imprópria. No Brasil, onde existe apicultura racional, podemos colher anualmente 20-50 quilos de mel por colmeia, e as nossas abelhas trabalham 12 meses por ano. O Brasil seria o país ideal para apicultura – e, no entanto, é insignificante a nossa produção de mel. Na Alemanha os apicultores têm de alimentar as suas abelhas durante o longo inverno e, além disto, abafar as colmeias a fim de manter calor suficiente no interior. E, no entanto, é enorme o entusiasmo e o amor com que eles se dedicam à apicultura, visando mais ao prazer do que ao lucro. Pois, não é mesmo fascinante poder saborear um produto puro e sadio que, pouco antes, eram gotinhas de néctar no cálice das flores? Geralmente, o consumidor europeu gosta de saborear o mel quando em estado cristalizado – ao passo que muito brasileiro torce o nariz quando vê mel açucarado e desconfia que seja falsificado, uma vez que tantos vendedores misturam o mel com melado de engenho, glicose, ou outros ingredientes. Conheço apicultores que fervem o seu mel afim de evitar a cristalização, destruindo assim muitos dos elementos nutritivos. Não vejo nenhuma necessidade para esse procedimento. Sou apicultor há diversos decênios e sei que é possível conservar o mel tal qual saiu dos favos, em perfeito estado de liquidez.
  • 9. EM ISRAEL Terminado o 2.º Congresso Internacional em Munique, retomei o avião e voei diretamente, em pouco mais de três horas, por sobre os Alpes e o Mar Mediterrâneo, rumo a Tel-Aviv, Estado de Israel. No longo trajeto terrestre entre o aeroporto e a cidade de Tel-Aviv a Jerusalém, encontrei-me, no táxi, com um rabino judeu, que me contemplava silencioso e pensativo. Por fim, me disse vagarosamente coisas bem estranhas sobre mim mesmo, mas que não posso consignar em letra de forma. Ia a Bang-kock, e daí ao Vietnam, a fim de participar de um congresso político de pacificação na desastrosa guerra entre Vietnam e os Estados Unidos. Não tardou que entrássemos em águas de profunda Filosofia Cósmica, atingindo, por vezes, as fímbrias da mística. E, como o rabino ia em caráter de pacificador potencial entre povos beligerantes, falei-lhe de um homem que, há quase 2.000 anos, disse: “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus”. O meu ouvinte se abespinhou um pouco ao saber que eu considerava o Nazareno como o maior gênio espiritual da humanidade, quando ele punha Moisés acima de tudo. Mas, no fim de quase meia hora de palestra filosófico- mística, parece que se convenceu tacitamente da verdade das minhas afirmações. Despediu-se de mim carinhosamente, prometendo envidar todos os esforços para aplainar os caminhos da paz entre os homens de boa vontade, de cá e de lá. Ao despedir-se de mim, em Jerusalém, perguntou se eu estaria disposto a lecionar Filosofia Cósmica na Universidade Hebraica de Jerusalém. Respondi-lhe que aceitaria o convite se algum poder competente me convidasse para esse cargo. Nada mais ouvi do rabino. Em 1969, havia apenas dois decênios que Israel, após quase 2.000 anos de dispersão pelo mundo inteiro, voltara a ser um Estado independente. E em dois decênios conseguiu Israel realizar um autêntico milagre: transformou o antigo deserto árido num magnífico pomar e em vastos campos de agricultura. Máquinas gigantescas tiravam água das profundezas do solo e lançavam chuvas artificiais à grande distância, preparando a terra para o plantio. Vastos laranjais exportam seus produtos para diversos países europeus.
  • 10. Os kibutzim, ou cooperativas agrícolas, são maravilhas de organização de agricultura racional. Não encontrei um mendigo nem um desempregado em Israel; todos trabalham e têm com que viver. No tempo da genial Golda Meir o país foi cortado de estradas asfaltadas de ponta a ponta. Israel é um país cercado em parte de repúblicas árabes, que continuam na sua pobreza tradicional. Os filhos de Agar, embora tenham por ascendente o mesmo pai Abrahão, parecem não ter o espírito de iniciativa como os filhos da Sarah. Durante a minha curta permanência em Israel, meditei muito sobre o estranho enigma: por que é que os judeus, que não formam nem nunca formaram 1% (um por cento) da humanidade total, têm cerca de 50% (cinquenta por cento) dos grandes gênios em todos os ramos da cultura humana? Dizem uns que essa genialidade lhes vem dos seus terríveis sofrimentos: mais de quarto séculos escravizados pelos faraós do Egito; quase um século exilados na Assíria; quase outro século na Babilônia; desde o primeiro século da Era Cristã até pouco, errando pelo mundo inteiro, sem pátria nem lar... Se o sofrimento fosse um despertador de genialidade, porque é que os povos africanos, com milênios de sofrimento e escravização, não produziram grandes gênios, ao menos não nos tempos atuais? Temos de associar ao sofrimento outro fator: uma grande disciplina e auto- fidelidade. O israelita é brasileiro no Brasil, alemão na Alemanha, russo na Rússia, etc. – mas não deixa de ser judeu de alma em qualquer parte do mundo. Israel está rodeado de haréns nos países árabes, mas não existe um único harém em Israel. O espírito de família unida, a fidelidade conjugal fazem parte do caráter do judeu genuíno, tanto na antiga poligamia mosaica, como na monogamia atual. Parece que a disciplina sexual favorece a genialidade cerebral; que vigora uma secreta simbiose entre sexo e cérebro.
  • 11. NOS RASTROS DO NAZARENO Jerusalém, Belém, Nazaré, Tabor, Poço de Jacó, Betânia, Getsêmane, Gólgota – que estranhas reminiscências nos evoca cada uma destas palavras... A nossa alma associa coisas belas e beatíficas a estas palavras sagradas, que estamos habituados a ler e ouvir desde a nossa infância, no lar, na escola, na igreja, por toda a parte. Vagarosamente, meditativamente, andei saboreando e sofrendo cada um destes lugares, que, decênios atrás, descrevi no meu livro “Jesus Nazareno”, mas sem os ter visto com os olhos do corpo. Tenho a impressão de que esses lugares sagrados viajam mais através de mim do que eu através deles... E todos eles envoltos num ambiente paradoxal; pois a Terra Santa da Palestina, onde o Cristo, na forma humana de Jesus, viveu alguns decênios, não pertence aos cristãos – pertence hoje aos israelitas, que não reconhecem Jesus como o Messias prometido; e pertenceu por muitos séculos aos muçulmanos, que vêem em Jesus apenas um venerável profeta. Mas, apesar dos pesares, esses lugares estão sacralmente imantados e recebem anualmente a visita de milhares de cristãos de todos os países do globo terrestre. Há, na Palestina, numerosas igrejas cristãs, conventos, mosteiros, ermidas de discípulos do Nazareno – coptos, ortodoxos, romanos, evangélicos – não importa o nome. Em Jerusalém, fiz a via-dolorosa, desde o Pretório da flagelação até ao Calvário da crucificação, lendo ou relembrando em cada etapa o que os evangelistas nos deixaram escrito sobre esses estranhos acontecimentos, e saboreando in loco o seu eterno conteúdo. Muitos dos estágios da via sacra estão assinalados com placas ou tabuletas comemorativas: primeira queda debaixo da cruz, segunda queda, encontro com Verônica, com Simão de Cirene, etc. No princípio da via crucis está a “Casa de Verônica”. É um pequeno recinto meio subterrâneo, que recebe luz só por uma grade de ferro ao nível da rua. Dentro do recinto há uns bancos toscos fixos nas paredes. Pedi permissão às irmãs francesas, ao lado da “Casa de Verônica”, para poder fazer a minha meditação nesse recinto sagrado, que, durante quase 20 séculos, tem sido visitado por pessoas sedentas de espiritualidade.
  • 12. Entrei – e não tive mais vontade de sair. As auras ou vibrações místicas deixadas por milhares de pessoas que aqui oraram e meditaram, se apoderam do visitante e o permeiam e imantizam a tal ponto que todo o mundo externo desaparece e todos os pensamentos se diluem, permanecendo tão-somente a consciência, ou seja, a alma isolada em total vacuidade do mundo material. Deixar a vida terrestre nesse recinto sagrado não seria morrer, mais viver mais intensamente em outras regiões. Com Maria e Marta e Lázaro estive em Betânia, na “Casa da Graça”... Nada vi de Lázaro, nada ouvi de Marta – só me abismei no silêncio de Maria, porque estava presente o Mestre – e que discípulo poderia falar na presença do Mestre?... Não falei – calei-me... Quem falava era ele, só ele – e minha alma ouvia em silêncio... Depois, quando o Mestre não estava mais, perguntei a Maria porque ela, Marta e Lázaro, tão amigos do Nazareno, não apareceram no Calvário nem na manhã da ressurreição, como os outros discípulos. Maria não falou; entregou-me em silêncio um rolo de pergaminho, parte dos livros sacros dos Essênios. Minha alma sintonizou com a alma de Maria, e cheguei a saber do porquê da ausência do trio de Betânia: eles, como Essênios altamente iniciados, não acreditavam em morte real. Também, como poderia haver essa coisa absurda chamada “morte”, quando a Vida está onipresente? E que lugar teria a ausência da vida (morte) na onipresença da Vida? Onde estaria a treva na plenitude da luz?... Aliás, lá estava Lázaro como prova viva da não-existência da morte. *** Um dia, a meio caminho do Mar Morto, a polícia de Israel me interceptou a passagem; tive de voltar sem ter visto as águas betuminosas desse lago estranho, a centenas de metros abaixo do nível do Mediterrâneo. É que aviões israelenses estavam bombardeando as bases árabes do outro lado do Mar Morto. A Terra Santa é, de fato, um constante campo de batalha desde a criação do Estado de Israel. Israel, ao que parece, está disposto a recuperar toda a área da antiga “terra da promissão”, que foi de seus antepassados. Esta fé religiosa- nacional lhe dá irresistível entusiasmo e iniciativa. Acresce que Israel luta com as armas mais modernas e eficientes e possui ótimos chefes militares, sobretudo na aeronáutica, ao passo que os países árabes são desunidos, mal dirigidos, sem disciplina, e não possuem o entusiasmo ou fanatismo espiritual- nacional dos israelitas. *** Numa dessas tardes, em Jerusalém, fui acompanhar um silencioso rabino, que, de barba preta, envolto na sua austera indumentária negra e com um chapéu alto na cabeça, se dirigia ao histórico “muro das lamentações”, uma grande
  • 13. muralha que se estende por detrás da mesquita de Omar, mesquita que, pouco depois da minha visita, foi incendiada. Há quase 2000 anos que os judeus, sobretudo seus chefes religiosos, fazem a sua lamentação diante deste muro. Entregaram-me um bonezinho de papel preto, que coloquei na cabeça, a fim de poder falar com Deus, no meio dos que invocam Yahveh para que mande o Messias e restabeleça as glórias de David e Salomão. Quando se vê nas ruas de Jerusalém um homem sério, silencioso, que não fala com ninguém, com duas trancinhas de cabelo encaracolado de cada lado da cabeça, então é certo que aí está um típico rabino, que vai ao muro das lamentações, para chorar e para mentalizar o Messias de Israel. Os lamentadores, os homens do lado esquerdo, as mulheres do lado direito, estão em pé, a uns dois passos da muralha, muitos com um livrinho na mão, do qual recitam textos com voz chorosa e monótona, balançando ligeiramente e tocando, de vez em quando, o muro com a cabeça. Pergunto a mim mesmo se esses brados, quase bimilenares, não seriam capazes de produzir o Messias que eles esperam... Acho possível que uma vibração constante, altamente potencializada, acabe por se materializar. Não é que Moisés materializou mentalmente o Anjo Exterminador, que matou os primogênitos dos egípcios?... *** Em Nazaré fui visitar a casa de Maria, onde “o Verbo se fez carne”. Com estranheza ouvi que a anunciação referida por Lucas se deu numa espécie de gruta ou porão da casa, onde Maria estava em meditação (talvez em êxtase ou samadhi), de no meio de sacos de cereais e outros mantimentos. Por cima dessa gruta há um painel representado a visita do anjo Gabriel à Virgem. Pela primeira vez vi o anjo representado sem asas; é a figura de um jovem humano, de mãos erguidas, em atitude de dar algo a alguém. Do outro lado está Maria, com as mãos baixas e palmas voltadas para cima, em estado de receber aquilo que o jovem lhe dá. Entre o jovem doador e a jovem receptora paira o símbolo radiante do Espírito Santo, o “poder do alto”, como que uma ponte de luz entre o doador e a recebedora. Contemplei longamente esse símbolo místico e lembrei-me do capítulo do meu livro “Setas na Encruzilhada”, onde fiz ver que José é o pai metafísico de Jesus. Mateus e Lucas negam explicitamente a paternidade física de José, mas o fato de traçarem longas genealogias dos ascendentes de Jesus – Mateus desde Abraão, Lucas desde Adão – insinua que existe uma ligação real de paternidade entre José e Jesus; do contrário, essas genealogias não teriam sentido algum. Fiz ver, no citado livro, que existe essa paternidade metafísica – real, embora não material – e em Nazaré vi, pela primeira vez, representada artisticamente, a minha concepção. O autor desse painel deve ter sido um
  • 14. grande intuitivo, ao representar o Gabriel, isto é, o varão (gabri) de Deus (El) na forma de um jovem humano, e não de uma entidade angélica. Por via de regra, como explanei no citado livro, e melhor ainda no livro “A Nova Humanidade”, a concepção comum se faz via espermatozoide-óvulo; mas, em casos excepcionais, é ela possível via verbo-óvulo. O radical de “verbo” e de “vibração” é o mesmo. Certa vibração, astral ou espiritual, pode causar fecundação, mesmo que na zona do consciente não haja eco desse acontecimento. *** Há um grande contraste entre a bela Galiléia e a árida Judéia. Tomei um banho gostoso no lago de Tiberíades [1], chamado também o “mar da Galiléia”. E bem merece o nome de mar; dificilmente se vislumbra o outro litoral, da tão largo que é. Nunca vi tanto peixe como neste lago. Sendo que o nosso restaurante, onde nos serviram o “peixe de São Pedro”, ficava à beira do lago, jogávamos restos de comida às águas – e logo enorme cardume de peixes se precipitava sobre o alimento. Devia mesmo ser gostoso ser pescador, como foram muitos dos discípulos de Jesus. -------------- [1] Este belo lago, em cujos arredores se passou em grande parte a atividade pública de Jesus, fica 212 m abaixo do nível do Mediterrâneo; mede 165 km2 de superfície, 21 km de comprimento, 13 km de largura e 49 m de profundidade em alguns lugares. Para lembrança levei umas pedras lisas e roliças do fundo do lago de Jesus e de seus primeiros discípulos. *** Atravessando a Samaria, cheguei ao histórico poço de Jacó, onde Jesus pediu água à samaritana e lhe falou da “água viva”. Bem dizia a samaritana que “o poço é fundo”, pois tem nada menos de 45 metros. Relembrando o episódio do Evangelho, lancei o balde, preso a uma corda, às águas e bebi da mesma água que Jesus bebeu, há quase vinte séculos. E levei comigo uma garrafa dessa água, que é de sabor muito agradável. Não longe daí fica o Tabor, com o seu cume arredondado, onde o Mestre se transfigurou, entre Moisés e Elias. Fiz uma longa meditação, ou melhor, sintonização crística, e quase tive vontade de dizer com Pedro: “Que bom que é estarmos aqui!” Quando o Mestre desceu do Tabor, refere o Evangelho, encontrou ao sopé do monte muito povo e nove dos seus discípulos, tentando expulsar um vampiro obsessor, que maltratava um menino; mas não conseguiram nada. Jesus, em face de tamanha falta de fé, rompeu nestas palavras estranhas: “Ó geração
  • 15. incrédula e perversa! Até quando estarei convosco? Até quando vos suportarei?”... São palavras de quem caiu do céu para dentro do inferno. Toda a vez que o homem regressa do mundo divino do êxtase da luz e recai ao mundo humano das trevas, tem vontade de repetir estas palavras do Mestre. Depois duma hora de intensa sintonização espiritual, a gente, no princípio, não compreende mais o mundo dos homens – desses homens que se têm em conta de muito sensatos. A que vem toda essa palhaçada, essa ridícula comédia? Por que essa louca correria de norte ao sul, de leste a oeste? Por que toda essa desenfreada caça a dinheiro e prazeres? Por que toda essa gritaria de energúmenos civilizados? Por que sempre ganhar e gastar – para depois morrer, no marco zero? Que sentido tem a vida desses sonhadores de sonhos e caçadores de sombras? “Até quando estarei convosco? Até quando vos suportarei?”... O homem regressando dos céus de Deus para os infernos dos homens e dos demônios, se sente desambientado, estranho nesta terra. *** No monte das bem-aventuranças, no dia 15-8-1969. Aqui sobre uma destas verdes colinas de Kurun Hattin, não longe do lago da Galiléia, foi promulgada, há quase vinte séculos, a Carta Magna do Reino de Deus sobre a face da terra, o chamado Sermão da Montanha. Dele disse Mahatma Gandhi: “Se todos os livros sacros da humanidade se perdessem e se salvasse tão-somente o Sermão da Montanha, nada estaria perdido”. Nele viu o libertador da Índia confirmado o seu conceito de ahimsa (não- violência) e sua satyagraha (apego à verdade) – e com estas duas armas secretas libertou Gandhi o seu país, sem derramar uma gota de sangue, fato único na história da humanidade. Armas secretas? Não! Alma em lugar de arma. O ego humano considera a arma como símbolo de força – mas o Eu divino no homem sabe que arma é sinal de fraqueza, e alma é sinônimo de força. Sentei-me sobre uma pedra, abri o Novo Testamento, Evangelho segundo Mateus, e li vagarosamente, para mim mesmo: “Bem-aventurados os pobres pelo espírito – porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os tristes – porque eles serão consolados.
  • 16. Bem-aventurados os mansos – porque eles possuirão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede da justiça – porque eles serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos – porque eles alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração – porque eles verão a Deus. Bem-aventurados os pacificadores – porque eles serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça – porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem e perseguirem e caluniosamente disserem de vós todo o mal, por minha causa – alegrai-vos e exultai, porque grande é a vossa recompensa nos céus.” Fechei o livro, fechei os olhos, eclipsei o pensamento – e fiquei somente com a alma aberta e consciente... E ouvi no silêncio de minha alma o silêncio de Deus... Vi o Mestre sentado sobre uma das colinas de Kurun Hattin... Ao redor dele seus discípulos... Mais além, pelas fraldas das colinas, a variegada multidão dos outros ouvintes, “vindos da Galiléia, da Decápole e de Jerusalém”... Havia no ar matutino um quê de indizível sacralidade, como se fosse a madrugada virgem do mundo, aljofrada ainda do orvalho do Gênesis – fiat lux... Abismei-me em profunda meditação... Quando voltei a mim, olhei em derredor – mas o Mestre não estava mais. Desci das colinas e fui seguindo rumo ao litoral florido do lago de Tiberíades. Cheguei a Mágdala (Migdála, dizem eles lá). À beira do caminho passei por um monumento rústico, em forma de torre; disseram-me que ali estivera a casa de Maria Magdalena, essa ardente discípula do Nazareno, a quem foram perdoados os seus muitos pecados porque muito amou... *** Ainda nesse mesmo dia, 15-8-1969, sentei-me sobre as ruínas da sinagoga de Cafarnaum, lendo o capítulo 6 do Evangelho de João, sobre “o pão vivo que desceu do céu”. Da sinagoga do tempo de Jesus restam poucas colunas redondas, uma em pé, outras no chão. Ao lado das ruínas há uma igreja nova.
  • 17. Não há no Evangelho passagem mais enigmática do que este capítulo 6 do Evangelho de João. As igrejas dogmáticas entendem que Jesus prometeu, e mais tarde, na santa ceia, realizou um processo misterioso, que os teólogos chamam “transubstanciação”. As igrejas evangélicas, em geral, acham que se trata apenas de um belo simbolismo, mas que não houve nenhuma transformação do pão e do vinho no corpo e sangue de Jesus. Entretanto, as palavras do Nazareno não favorecem nem esta nem aquela opinião. “As palavras que vos digo são espírito e são vida – a carne de nada vale”. “Isto vos é pedra de tropeço? E que direis quando virdes o Filho do Homem subir aonde estava antes? Estas últimas palavras dão a chave para a solução do mistério. Os ouvintes entendiam por “corpo” ou “carne” uma matéria física, uma facticidade material de carne, sangue, osso, nervos, epiderme, etc.; Jesus, porém, não entendia por “corpo” e “sangue” essas materialidades, mas sim a realidade do seu corpo, que não é material. Não existe nenhum corpo material, nem corpo astral, nem corpo etérico – só existe o corpo real. Ninguém pode ver e tanger o corpo real, que não é objeto de percepção sensorial, nem mesmo de análise intelectual – o corpo real é objeto de intuição espiritual. O que, no dia da ascensão, subiu às alturas, até se subtrair à visão dos expectadores, era o corpo real de Jesus, que aos olhos de seus discípulos parecia ser material. Segundo a nossa ciência nuclear de hoje não existe matéria como matéria, nem existem os 92 elementos da química – existe tão-somente a Luz Cósmica, absolutamente invisível e intangível. Esta Luz é a única realidade física, ao passo que os elementos são apenas manifestações parciais, facticidades transitórias dessa única realidade permanente. Todas as coisas do Universo são lucigênitas, e todas podem ser lucificadas. Jesus, em Cafarnaum, faz ver aos cépticos que a realidade do pão será transformada na realidade do seu corpo – mas a materialidade (facticidade) do pão não será transformada na materialidade (facticidade) do seu corpo. Há uma transubstanciação real, mas não uma transubstanciação material. Aliás, que efeito produziu nos discípulos do Nazareno a ingestão do pão e do vinho consagrados? Se efeito houve, foi totalmente negativo: Judas, assim que deglutiu o bocado de pão, consumou a planejada traição, e depois se suicidou [2]. Pedro nega três vezes seu mestre. E todos, à exceção de um só, fugiram covardemente, no momento do perigo – belos neo-comungantes... Tristes neo- sacerdotes... -------------- [2] O texto grego não diz que Judas se “enforcou”, mas sim que se “precipitou”, isto é, lançou-se de um penhasco ao abismo, onde, diz o texto, “arrebentou ao meio e se difundiram todas as suas vísceras”. Como se explicaria isto se se tivesse enforcado?
  • 18. Só mais tarde, no Pentecostes, é que eles comungaram em espírito e em verdade, não a materialidade de Jesus, mas a realidade do Cristo... “As palavras que vos digo são espírito e são vida”... Somente em nossos dias, em que a física se torna cada vez mais metafísica, é possível criar uma base para a compreensão das palavras que Jesus proferiu na sinagoga de Cafarnaum. Estes e outros pensamentos me invadiram, quando estava sentado sobre as ruínas da sinagoga de Cafarnaum, onde o maior dos metafísicos-místicos proferiu verdades tais que uma humanidade de experiência primária não pôde ainda compreender. Somente na Universidade Cósmica do Cristo serão devidamente compreendidas estas grandes revelações. Falar é bom – calar é melhor. Pensar é necessário – intuir é suficiente. Enquanto o homem é apenas ego-pensante está soletrando o abc na escola primária da sua pobre personalidade. Só quando for cosmo-pensado é que ingressa na Universidade da sua individualidade espiritual. E quando, um dia, depois de ser ego-pensante e cosmo-pensado, for cosmo-pensante, então compreenderá plenamente o que o Cristo quis dizer com as misteriosas palavras sobre o “pão vivo que desceu do céu”.
  • 19. PALMILHANDO A ESTRADA JERUSALÉM-EMAÚS Num desses dias, em Jerusalém, fiz do passado o presente, e revivi o que foi vivido 20 séculos atrás. Era o ano 33, dia 9 de abril, primeiro dia da semana pelas 4 horas da tarde. Dois homens vinham de Jerusalém e se dirigiam rumo oeste, em demanda duma aldeia por nome Emaús, distante da capital uns 12 quilômetros. Era na tarde da primeira Páscoa – mas na alma desses dois era ainda Quaresma, luto e tristeza. Havia uns três anos que os dois tinham vindo de Emaús a Jerusalém. Cheios de entusiasmo e expectativa, tinham seguido a trajetória de um profeta que viera de Nazaré da Galiléia. Esse homem falava como nunca ninguém falara, focalizando sempre “o reino de Deus”, que, como ele dizia, estava dentro de cada homem como tesouro oculto e devia ser manifestado. Os dois não faziam parte do círculo íntimo dos doze companheiros permanentes do profeta nazareno, mas eram do numero dos 70 que, frequentemente escutavam a estranha mensagem do Galileu. Mas agora, três anos depois... Agora, lá se fora o sonho dourado deles, que acabara em lúgubre pesadelo e tremenda decepção... O grande profeta fôra morto, condenado ao ignominioso suplício da crucificação, por exigência dos chefes espirituais da sinagoga de Israel, que consideravam o Nazareno como falso Messias... Pela manhã desse terceiro dia após a morte do profeta restava ainda um tênue vislumbre de esperança aos dois, porque ele prometera “ressuscitar”; e eles haviam esperado, entre esperanças e dúvidas, esse incrível acontecimento. Mas agora ia terminar o terceiro dia – e nada de ressurreição. Apagou-se na alma dos dois a derradeira centelha de fé e de esperança no Nazareno; mas o seu amor sobrevivia ao naufrágio universal... Sim, os dois continuavam a amar o estranho profeta, e nunca deixariam de amá-lo. Com a alma cheia de amor e vazia de fé e esperança, regressavam eles a seus lares. Apressadamente deixavam Jerusalém, cenário de tantas esperanças e de tanto desespero.
  • 20. Já iam a meio caminho entre Jerusalém e Emaús, conversando em voz baixa sobre os últimos acontecimentos relacionados com o profeta de Nazaré. Nisto ouviram passos de alguém que vinha de trás e seguia o mesmo caminho. Calaram-se os dois e retardaram o passo, para deixar passar de largo o viandante e continuarem depois a ruminar os seus dolorosos cismares. Quando estamos com a alma em chaga viva, sofridos de nós mesmos, não gostamos de falar com estranhos, não queremos saber de ninguém que possa profanar o sacrário do nosso sofrimento. Queremos solidão e silêncio... Mas o estranho que vinha de trás, em vez de passar adiante, como os dois esperavam, também retardou o passo e emparelhou com eles. E sem mais nem menos tentou invadir o santuário das dolências deles, perguntando: – Que conversas são essas que entretendes entre vós? E por que andais tão tristes? Os dois não responderam. Estavam intimamente revoltados com essa sem- cerimônia do desconhecido. Mas, como este insistisse com perguntas e queria saber o porquê das suas tristezas, um dos dois, por nome Cleófas, quebrou o silêncio, perguntando: – Como? Será que tu és o único forasteiro em Jerusalém e ignoras o que lá aconteceu? – Que foi que aconteceu? – perguntou o estranho. Os dois se viram obrigados a lhe dar explicação; do contrário, nunca mais se veriam livres dele. – Aquilo, de Jesus de Nazaré – respondeu Lucas, ladeando a questão, sem vontade de entrar em pormenores. “Aquilo” é uma palavrinha neutra, inofensiva, eufemística: mas está em lugar de algo muito amargo e doloroso. Está em lugar de “a morte trágica do profeta de Nazaré”. Quando estamos assim, intimamente chagados, evitamos instintivamente pôr o dedo na ferida aberta, mencionando diretamente o motivo da nossa tristeza; preferimos usar de circunlóquios vagos que não reabram a chaga... “Aquilo de Jesus de Nazaré”... Depois de longa pausa e em face da expectativa do estranho, Lucas se anima finalmente a dizer mais explicitamente: – Ele era um grande profeta, poderoso em palavras e em obras, perante Deus e todo o povo...
  • 21. É esta a primeira e mais concisa biografia que temos de Jesus: era um profeta, um arauto de Deus; tudo que dizia e fazia revelava poder; e isto perante todo o povo... Mas o estranho insiste em querer saber mais a respeito desse Jesus de Nazaré. Ao que Cleófas resolve narrar com mais detalhes a tragédia do Gólgota. Mas o que ele diz, segundo o texto evangélico, é um verdadeiro cipoal de anacolutos, fragmentos de frases, reticências e lacunas, que são um retrato fiel do estado psíquico em que se encontrava o narrador. Quando estamos assim, interiormente abalados, pensamos e sentimos tão intensamente que, não raro, nos esquecemos de verbalizar o que sentimos – como se os outros pudessem ver e ouvir os nossos pensamentos não exteriorizados... – Mas – prosseguiu o narrador – os nossos magistrados e sacerdotes entregaram o Nazareno à pena de morte. Calou-se. Aqui deve ter vindo uma longa pausa, durante a qual os três andavam em silêncio pela estrada Jerusalém-Emaús, enquanto as sombras dos escuros e esguios ciprestes que margeavam o caminho alongavam cada vez mais as suas sombras, contribuindo para a melancolia geral. – Nós esperávamos – prosseguiu Lucas – que ele fosse o libertador de Israel... Nova pausa e reticência. – Mas, agora já é o terceiro dia... Não percebem que nada disto dá sentido lógico para uma pessoa não devidamente enfronhada no assunto. O narrador omite diversos fatos intermediários, sem os quais o resto não tem sentido. Deveria ter explicado ao desconhecido que o Nazareno prometera ressuscitar ao terceiro dia, e que isto não acontecera. Tudo isto é omitido, mas intensamente pensado – e sofrido. – É verdade – interveio o outro, também sem estabelecer concatenação entre sequência dos acontecimentos. – Algumas mulheres do nosso meio foram ao sepulcro, de madrugada, e disseram ter visto uns anjos, que diziam que ele vivia; mas a ele mesmo não viram... Pouco a pouco, como se vê, os dois peregrinos falam com mais desembaraço e fervor, desabafando a sua mágoa perante um ouvinte atento e interessado. As cinzas que cobriam ligeiramente a brasa viva do seu amor é soprada por estas palavras, e a fagulha está para romper em vívida chama... É tão dolorosamente suave recordar momentos felizes... O estranho já lhes era menos estranho... Quem participa das nossas mágoas não é mais um estranho.
  • 22. De repente, o desconhecido parou diante deles e os fez parar também; encarou-os bem de frente e disse: – Ó homens sem critério e tardos de coração!... Os dois estremeceram como se fossem arrancados subitamente de um sono. Que atrevido, esse desconhecido! Em vez de lhes dar condolências pelos seus sofrimentos, os censura asperamente, taxando-os de homens sem critério e vagarosos de coração, para compreenderem tudo que os profetas tinha dito do Nazareno. – Não devia então o Cristo sofrer tudo isto e assim entrar na sua glória? Com este repentino trovão acabaram os dois de despertar totalmente. Sentiam em si algo como um renascer de esperanças... Algo como se a plantinha murcha de sua alma erguesse a cabecinha ao cair de um orvalho refrigerante... Como? O Nazareno devia sofrer tudo que sofreu? E tudo isto fora predito?... O fato de ter sido morto não era então um argumento contra a sua missão divina, mas antes uma prova a favor?... Se Moisés e os profetas predisseram tudo isto, ainda há esperanças... Não está tudo perdido... Em meditativo silêncio andaram os dois saboreando o ressurgimento das suas esperanças... Nisto chegou o trio a uma bifurcação do caminho. O estranho fez menção de enveredar por um atalho, despedindo-se dos dois. Estes, porém, o seguraram pelo braço e o puxaram para seu caminho, dizendo: – Fica conosco, porque o dia declinou e já vai anoitecendo... No princípio não o queriam ver em sua companhia; mas agora não querem mais ficar sem ele. Quando alguém nos consola em nossas mágoas e nos dá novas esperanças, é amigo querido. Esperavam passar boa parte da noite com ele, falando do profeta de Nazaré. O estranho não pôde senão aceitar o convite feito com tamanha veemência. E foi com eles a Emaús. Já era noite, quando lá chegaram. Em assa de Cleófas tomaram frugal refeição, na varanda. O estranho foi convidado para ocupar a cabeceira da mesa, e, na qualidade de hóspede querido, lhe competia “partir o pão” e distribui-lo aos companheiros. Neste momento, abriram-se-lhes os olhos da alma e eles o reconheceram como sendo o próprio Jesus, redivivo... E, neste mesmo momento, ele desapareceu.
  • 23. Os dois se entreolharam, estupefatos, e disseram: Não nos ardia o coração no peito, quando nos falava dos profetas?... Mas, os nossos olhos estavam tolhidos... Ainda nesta mesma noite, os dois regressaram a Jerusalém. Não levaram duas horas, como antes; mas voltaram de corrida, empolgados pela alegria e pelo entusiasmo. Chegados a Jerusalém, se dirigiram imediatamente ao Cenáculo, onde os demais discípulos do Nazareno estavam reunidos, e bradaram: – Vimos o Senhor, e eles nos disse isto e isto... – Nós também o vimos aqui! – exclamaram os outros. E fundiram-se duas grandes alegrias – nessa tarde da primeira Páscoa da cristandade... No dia 9 de abril do ano 33... *** Relembrei meditativamente tudo isto no dia 14 de agosto de 1969. Os meus olhos físicos não viram o Nazareno nem os dois discípulos dele, quando a Quaresma se lhes convertera subitamente em Páscoa. Mas eu vi os três, e os vejo ainda, quando se dissipam as barreiras fictícias de tempo e espaço... No século passado, uma vidente na Alemanha, Ana Catarina Emmerich, acompanhava Jesus em todos os seus caminhos, sem sair da sua terra. Ainda há poucos anos, outra vidente, Teresa Neumann, de Konnersreuth, presenciava periodicamente todos os acontecimentos da vida, morte e ressurreição do divino Mestre. Quando a nossa consciência ultrapassa o véu ilusório das facticidades, e entra na luz verdadeira da Realidade, nada é passado e futuro – tudo é presente; tudo é aqui e agora. Não foi há quase 2000 anos, em terras longínquas, que se deram estes episódios; é aqui e agora que eles estão acontecendo... Quando sairemos deste mundo de facticidades ilusórias? Quando entraremos no mundo da Realidade verdadeira? Entrar? Não! Já estramos neste mundo – mas estamos nele inconscientemente. Quando conscientizarmos a Realidade, que agora nos é
  • 24. inconsciente, então haverá um novo céu e uma nova terra, e o reino de Deus será proclamado sobre a face da terra...
  • 25. POR ENTRE OS ROCHEDOS DO LÍBANO Em Beirute fomos convidados por um eremita a passarmos com ele um dia em seu ashram – que não existe. O que existe naquelas montanhas secas e rochosas, perto de Beirute, são umas pedras enormes, formando cavernas naturais, abrigos rústicos, onde um eremita idoso, Mikhail Naimy costuma passar longos períodos de silêncio e solidão. Por entre esses rochedos escreveu ele o livro enigmático “Mirdad”, ultimamente publicado em português. Ali conversava ele com Khalil Gibran, autor de livros misteriosos como “O profeta”, “O Filho do Homem”, e outros. Combinamos – ele, eu e mais um companheiro de viagem – passarmos 12 horas completas nessa selvática Tebaida. Infelizmente, no dia marcado para o nosso Retiro, Naimy se viu impedido de nos acompanhar, porque tinha de ir ao encontro de uma pessoa de sua parentela. “Deixa os mortos enterrar os seus mortos”, pensava eu comigo; mas ele não pensava assim... Entretanto, teve a gentileza de nos mandar levar, ao amanhecer, até à boca das cavernas, e lá nos deixou, prometendo vir buscar-nos ao anoitecer. Meu companheiro e eu subimos a pé, lentamente, cautelosamente, através de um mundo de espinhos e abrolhos, saltando de pedra em pedra, até atingirmos a zona dos grandes rochedos, alguns dos quais formavam espécie de casas que ofereciam suficiente abrigo contra o sol e a chuva. Chuvas, aliás, não há nessa zona, a não ser durante certos meses do ano. Cada um de nós levava consigo uma garrafa d’água, pão e uvas. Cada um escolheu a sua caverna e separamo-nos para o resto do dia. Ficamos 12 horas a sós conosco mesmos e com Deus, em pé, sentados ou deitados, na mais profunda solidão, interrompida apenas pelo chiar de umas cigarras e os pios de uns passarinhos. Construímos, em São Paulo, um ashram. Fizemos o possível para dar conforto, sem confortismo. Mas, mesmo o conforto que proporcionamos aos que quiserem fazer o seu Retiro, coletivo ou individual, me dá sempre um tal ou qual remorso de consciência. Na antiga Tebaida do Egito, nos desertos da Palestina, nas florestas da Índia, nas cavernas do Himalaia, não havia 1% do conforto que nós estamos dando em nossos lugares de Retiro Espiritual.
  • 26. Os rochedos do Líbano, onde passamos um dia, me pareciam ser o único lugar digno para entrar em comunhão com Deus. Não havia o menor vestígio de civilização humana. Nenhum turista jamais profanara esses santuários da natureza. As auras eram virgens e puríssimas, como no dia do Gênesis. O silêncio e a solidão são poderosos catalizadores espirituais. São também fatores catárticos, que purificam todas as impurezas do nosso ego. O ego vive no barulho e do barulho – e morre no silêncio. Quando falta ao homem-ego o seu querido barulho diário, começa ele a agonizar lentamente, e, se não encontra zonas barulhentas, acaba por morrer, afogado no Oceano Pacifico do silêncio, como peixe fora da água, como ave fora do ar... E, depois da morte do ego, nasce o Eu divino, que ama o silêncio como o próprio Deus, que é eterno e infinito Silêncio. Nos meus livros “Escalando o Himalaia” e “A Voz do Silêncio”, escrevi diversos capítulos sobre o silêncio. Goldsmith, no seu livro “A Arte de Curar pelo Espírito”, menciona o silêncio como fator predisponente para curar enfermidades de toda espécie. Parece que existe até uma silêncio-terapia. Não se trata, naturalmente, do simples fato objetivo do silêncio, mas duma atitude subjetiva de silenciosidade. Trata-se do silêncio-presença, e não do silêncio- ausência. Do silêncio-plenitude, e não do silêncio-vacuidade. Anos atrás, quando eu fazia as minhas viagens semanais São Paulo-Rio, de ônibus, a fim de dar aulas nessa última cidade, assisti uma vez, de ônibus, à conversa de um casalzinho, do outro lado do estreito corredor, falando 7 horas e tanto, do início ao fim da longa jornada, falando, falando sem dizer nada. Falar me parece ser uma espécie de febre cerebral, ou uma comichão bucal; quanto mais a gente se coça mais coceira dá. Falar é o melhor modo para não ter pensamentos, ou, pelo menos, para não deixar crescer e desenvolver um único pensamento decente. Quem muito fala pouco pensa. É como se alguém passasse constantemente a enxada pelo chão, raspando, raspando, e cortando qualquer plantinha que, porventura, quisesse brotar. Nada terá tempo para brotar e crescer. Falar afugenta o pensamento. Pensar afugenta a intuição. Só quem não fala nem pensa, mas se conserva plenamente vígil, esse receberá intuição, inspiração, revelação. As grandes inspirações são filhas do silêncio verbal e mental. Compreendo porque Einstein andava quase sempre silencioso, e evitava quanto possível fazer e receber visitas.
  • 27. Quando o homem se habitua ao silêncio auscultativo, entra ele na “comunhão dos santos” e verifica que o Universo todo é um deserto povoado, uma vacuidade sonora... Perguntaram ao grande Heráclito de Éfeso o que ele aprendera em tantos decênios de filosofia; respondeu: “Aprendi a falar comigo mesmo”. Isto é, falar sem palavras, em espírito e em verdade. Por vezes, tenho de passar pelas ruas desta ruidosa Paulicéia, acompanhado de pessoas das minhas relações. Uma dessas pessoas, quando eu não falo durante um ou dois minutos, pergunta-me se estou zangado; se passo cinco minutos em silêncio, pergunta se estou doente, e está disposta para me levar ao médico. É esta a estranha filosofia do homem-ego: para ele, falar é saúde, calar é doença. Deus, que é infinito silêncio deve, estar mesmo muito doente. A arte da calar dinamicamente é tão grande que nenhum homem-ego a aprende. Quem nunca mergulhou profundamente no silêncio-plenitude só pode falar vacuidades, talvez brilhantes vacuidades, como bolhas de sabão. *** Um dia, no Sítio Nirvana, estava eu plantando umas estacas de astrapéias e outros arbustos de flores melíferas, para o nosso apiário. Estava bem sozinho, e cosmo-pensado. E eis que uma voz de dentro me disse, em grande silêncio: Quando o homem fala, Deus se cala. Quando o homem se cala, Deus fala. E repetiu muitas vezes estas palavras sem som, enquanto eu continuava a trabalhar. O melhor tempo para ouvir a voz cósmica é quando faço algum trabalho físico que não exige muito pensamento; assim, o campo está livre para a invasão do além – do grande além de dentro. Por fim, a voz perguntou: Que é ser calado? Eu quis responder, por conta do meu ego, que estar calado é não falar, nem pensar, nem querer nada; é fazer esse tríplice silêncio, como tenho dito nos meus livros e nas minhas aulas de filosofia univérsica. Mas a voz inaudível me antecipou a resposta, com uma nova pergunta, também sem som:
  • 28. Sabes o que é o calado de um navio? O calado de um navio? respondi, sem falar. O calado de um navio é a medida do seu afundamento na água; quanto mais carregado está o navio, mais calado tem, mais afunda na água... Por algum tempo, mergulhei num grande vácuo... Depois a voz cósmica, falando de dentro e sem som, me fez ver que calar quer dizer afundar-se no Infinito, no Eterno, no imenso Oceano da Realidade, na Divindade. Só quando o homem está assim, afundado em Deus, é que ele está realmente calado. E, para que o homem tenha esse calado de profundeza, deve ele estar devidamente carregado de espiritualidade. O homem não- espiritual é superficial, sem calado suficiente, flutuando e boiando na superfície das coisas ilusórias do ego... Assim dizia a voz silenciosa de dentro. E assim minha alma ouviu em silêncio, quando cosmo-pensada. Depois comecei a pensar, por minha conta, coisas como estas: Isto calou fundo... os soldados avançaram de baioneta calada... E verifiquei que calar que dizer abaixar, aprofundar. E perguntei a mim mesmo: Onde foram os portugueses buscar esta palavra: calar? Quando em latim não existe, mas é tacere? E lembrei-me de outras palavras portuguesas que não vêm do latim, como nada, que em sânscrito quer dizer Infinito; e desmaiar, que quer dizer perder a noção da maya, palavra sânscrita para natureza. E lembrei-me dos livros sacros, que dizem: Cala-te – e saberás que eu sou Deus... E mergulhei nas profundezas do Oceano Pacífico da Divindade, unindo o meu silêncio humano ao silêncio de Deus... *** Ao entardecer, saímos das nossas cavernas rochosas e descemos a rampa do morro, ao caminho, onde, em breve, apareceu o carro, que nos ia levar de volta a Bikfaia, parte montanhosa de Beirute, onde estávamos hospedados. Sentíamo-nos tão leves, tão puros, tão etéreos, e não tínhamos o menor desejo de deixar o nosso divino nirvana, para voltarmos ao humano sansara.
  • 29. NOS TÚMULOS DOS FARAÓS A impressão que tive ao sobrevoarmos o delta do Nilo rumo ao Cairo, foi desoladora. O Egito me parecia um imenso deserto de areia e de pedras, entremeados de alguns bosques de tamareiras. Perto da capital se estende o deserto de Gizeh, onde três grandes pirâmides emergem do areal, guardadas pela enigmática esfinge, que com olhos vácuos, plenos de eternidade, contempla os desertos em derredor. Ninguém sabe dizer ao certo o que significam esses gigantescos monumentos de pedra. Quando, por quem e por que foram construídas as pirâmides? A mais alta mede quase 150 metros. E por que essas câmaras mortuárias em seu interior? E esses corredores, estreitos e escuros, que dão para as câmaras? Nessas câmaras jaziam, outrora, as múmias, que se acham agora no museu do Cairo, e alhures. As câmaras parecem irradiar, até hoje, algo equidistante de matéria e de espírito. Será que existe uma radioatividade astral? Pedi a meu companheiro que me deixasse sozinho numa dessas câmaras mortuárias, a fim de auscultar, através de 4.000 anos, algo da presença dos que aqui viveram e morreram. Se tempo e espaço fossem coisas reais, seria absurdo essa tentativa; mas nós sabemos que a Realidade é toda aqui e agora, embora as facticidades sejam distanciadas por tempo e espaço. Quem consegue conscientizar devidamente a Realidade, transforma em propínqua simultaneidade as mais longínquas sucessividades. Assim como, numa roda girante, todas as periferias sucessivas são simultâneas no centro imóvel do eixo, assim estão o passado e o futuro atomizados no eterno e imóvel presente. Todos os Versos estão presentes no Uno do Universo. Não é necessário ver, ouvir, tanger, pensar – basta intuir e ser cosmo-pensado – e tudo que aconteceu milênios atrás está acontecendo aqui e agora. Estava eu com vontade de passar uma noite, sozinho, numa dessas câmaras mortuárias das pirâmides, como fez Paul Brunton; mas não sabia se estava devidamente encouraçado com armas espirituais para resistir à possível ofensiva do mundo astral, que parece ser extremamente denso nesses recintos milenares.
  • 30. Essas câmaras parecem saturadas de energia astral, ou que outro nome tenha. O silêncio profundo e prolongado potencializa grandemente a nossa sensibilidade. Quando todos os ruídos externos – materiais, mentais e emocionais – morrem, então o silêncio começa a falar. E do seio do silêncio nasce uma voz cuja plenitude plenifica a nossa vacuidade. Se o homem cultivasse devidamente essa arte suprema do silêncio dinâmico, do silêncio- presença, chegaria a saber de coisas que nem pensamentos nem palavras lhe podem revelar... Os antigos egípcios sabiam, certamente, que o corpo astral dos seus reis permanecia ao redor do corpo material e podia, um dia, servir de ponte para a revivificação dele. Em princípios do nosso século, uma expedição britânica, após decênios de trabalhos infrutíferos, conseguiu localizar o túmulo do jovem faraó Tut-Ank- Hamon, filho de Akhenaton I e Nefertiti. Foi encontrado no Vale dos Reis, perto de Luxor, cidade distante, Nilo acima. Tut-Ank-Hamon, embora filho de um casal monoteísta, foi educado pelos sacerdotes politeístas de Hamon; mas, em sua adolescência, começava a manifestar pendores monoteístas – e os poderosos politeístas de Hamon o envenenaram, entre 18 e 19 anos de idade e mandaram enterrá-lo onde ninguém pudesse descobrir-lhe o cadáver. Os cientistas britânicos que descobriram a múmia procuraram verificar a causa mortis do faraó. Constataram o sinal de uma picada de inseto na face da múmia, que se acha agora no museu do Cairo, onde a contemplei demoradamente. Pouco depois, diversos dos membros da expedição morreram misteriosamente, e na face de cada um deles havia o mesmo vestígio de uma picada de inseto. Será que os sacerdotes magos de Hamon criaram um inseto astral que deu ferroada mortífera a Tut-Ank-Hamon? E será possível que, cerca de 3.500 anos mais tarde, esse mesmo veneno astral ainda tenha produzido efeito nos que fizeram surgir à luz do dia um cadáver que, na intenção dos politeístas, devia ficar em eternas trevas de total esquecimento? Entrei no vasto recinto subterrâneo onde o corpo de Tut-Ank-Hamon repousou três milênios e meio. O efeito do veneno dos sacerdotes politeístas parece agora extinto. Quem lê com atenção a descrição da “Arca da Aliança” de Moisés, no livro do Êxodo, acaba por se convencer de que esse santuário portátil era uma pilha elétrica, construída segundo todos os requisitos da ciência, com pólos positivos e negativos. Os egípcios sabiam algo da eletricidade, embora não soubessem utilizá-la ainda tecnicamente. Nem ignoravam radioatividade, de que se serviam para proteger os corpos de seus reis.
  • 31. Diante das três grandes pirâmides de Keops, Mykerinos e Chefren há um gigantesco palco ao ar livre. Algumas vezes por semana se representa nesse local o teatro “Som e Luz” espécie de drama histórico, falado alternadamente em árabe, inglês, francês e alemão, entre 20 e 22 horas. Assisti à exibição em alemão. Os atores e as atrizes são todos invisíveis. Só se lhes ouve a voz, das profundezas da noite estrelada em pleno deserto, voz ampliada por potentes alto-falantes, enquanto gigantescos holofotes projetam luz em diversas cores sobre as pirâmides e a esfinge. Quem fala são os faraós, as pirâmides, a esfinge, o próprio deserto, as trevas da noite e as águas do Nilo, que contam a epopéia de um povo estranho e único na face da terra. Há quem atribua a origem das pirâmides e da esfinge aos Atlantes, em épocas pré-históricas. A lendária Atlantis, ou Atlântida, sumiu, mas ao norte da África ficou o monte Atlas, e entre a Europa-África e a América se estende o Oceano Atlântico, reminiscência, talvez, de um continente desaparecido. No Cairo comprei efígies metálicas de Tut-Ank-Hamon e da linda Nefertiti; em Luxor adquiri um busto, em basalto preto, de Hat-shep-sut, talvez a misteriosa “filha do faraó”, que, segundo a Bíblia, foi a mãe adotiva de Moisés, mas, segundo uma mensagem psicografada, foi a mãe verdadeira do grande legislador de Israel. O Egito está repleto de reminiscências de Hat-shep-sut. Existem até as ruínas de um tempo construído por ordem dela. É emocionante a lenda que envolve o nome dessa princesa. Escultora, ia ela, de vez em quando, ao atelier de Itamar, jovem escultor hebreu. E, enamorada das esculturas do escravo hebreu, acabou por se enamorar também do fascinante escultor. Mas, como princesa egípcia, não podia jamais pensar em casar com um escravo. O príncipe egípcio que, segundo as leis da corte, devia ser o futuro marido de Hat-shep-sut, suspeitou das simpatias da jovem para com Itamar, e matou o hebreu. Tempos depois, a princesa deu à luz um filho dela com Itamar; camuflou jeitosamente a origem da criança escondendo-a nos canaviais do Nilo e, encontrando-a “casualmente”, numa manhã em que tomava o seu banho de natação no grande rio. Levou-a para casa, educou-a no palácio real, “em toda a sabedoria dos egípcios”, e lhe deu o nome “Moshe” (Moisés ou Moshe), que quer dizer “filho” [3]. O sufixo “moses” ou “mes” aparece no nome de diversos faraós, e significa “filho”. Seria incompreensível que a princesa tivesse educado e instruído com tanto carinho um escravo hebreu que não fosse seu próprio filho. Aos 40 anos, segundo a lenda, chegou Moisés a saber que era filho verdadeiro da princesa, a qual, na hora da morte, lhe desvendou o segredo. Moisés quis saber quem era seu pai. E, ouvindo que seu pai hebreu fora assassinado por um príncipe egípcio, jurou vingança ao Egito inteiro. Matou um feitor egípcio, e teve de fugir do país. Foi para as
  • 32. estepes da longínqua Arábia, onde passou 40 anos, como pastor dos rebanhos do sheik Jetro, com cuja filha mais velha se casou. Durante esse longo período aperfeiçoou-se na magia egípcia, que aprendera de sua mãe, e aos 80 anos “ainda em plena juventude”, teve ordem divina de regressar ao Egito e libertar o seu povo da escravidão. Lançou nove pragas, que foram neutralizadas pelos magos do faraó; mas na décima praga, a morte dos primogênitos, não encontrou rival entre os seus conterrâneos, e libertou o povo hebreu, conduzindo-o, por mais 40 anos, rumo à Terra da Promissão. Nas alturas do monte Nebo, fronteira a Canaan, Moisés desaparece misteriosamente, aos 120 anos, “ainda em plena juventude”. Morreu? Desmaterializou-se? Astralizou-se? Ninguém sabe de que são capazes esses magos. Cerca de 1.500 anos mais tarde, reaparece nas alturas do Tabor, ao lado de Jesus transfigurado – Moisés em corpo real, embora não-material, falando com Jesus “sobre a morte próxima dele”. Mas que quer dizer “morte” para homens dessa natureza?... -------------- [3] Provavelmente, Moisés não era filho material, embora real, da princesa egípcia, concebido astralmente, por indução vital, como expliquei no meu livro “A Nova Humanidade”. Esse mistério de tele- concepção astral vai por todas as antigas literaturas; sempre de novo aparecem virgens-mães. Essa concepção astral daria ao filho um corpo perfeito, isento de doenças e morte compulsória, como era o corpo de Moisés, de Jesus e de alguns outros representantes da nova humanidade. Consta por mensagens esotéricas que o pai de Moisés era um escultor hebreu por nome Itamar, que, na ausência material dele, atuou sobre a princesa, iniciando a formação do corpo de Moisés. Mas, como esta tele-concepção astral não era compreensível aos profanos da corte do faraó, constou que ela havia adotado um pequeno hebreu exposto entre os canaviais do Nilo. Se Moisés tivesse sido apenas filho adotivo da princesa egípcia, e não filho real, seria inexplicável o carinho com que ela, durante 40 anos, o educa e instrui em toda a sabedoria dos egípcios. *** Quem contempla esses milhões de gigantescos blocos de pedra – uma das pirâmides tem três milhões desses blocos – que os nossos mais modernos guindastes não conseguiriam suspender; e quem examina a precisão com que eles foram colocados uns sobre os outros, sem deixar o menor interstício – pergunta a si mesmo: Como conseguiram os egípcios transportar e suspender esses blocos enormes? Sei que há diversas hipóteses, mas nenhuma delas satisfaz. Foram encontradas inscrições hieroglíficas contendo fórmulas mágicas sobre a “desponderação” da matéria, bem como sobre a desintegração molecular da mesma. Parece que os sacerdotes e magos do Egito conheciam o efeito de certos sons que neutralizavam a gravidade da matéria e dissolviam a sua coesão molecular. Os iniciados nesses mistérios aplicavam essa vibração a um bloco de matéria, e este perdia a sua gravidade, podendo ser suspendido às
  • 33. alturas até por uma criança. Depois dessa “desponderação”, a matéria se “responderava” voltando a seu peso normal. Josué, sucessor de Moisés, herdara do grande mago esse segredo. Segundo a Bíblia, fez desmoronar as muralhas da fortaleza de Jericó, produzindo certas vibrações aéreas por meio de instrumentos musicais, que culminaram na música do “hino do jubileu”, e reduziram a simples areia as muralhas da fortaleza. Que sabemos nós desses segredos da natureza e desse poder mental do homem?
  • 34. YOGA E OS EREMITAS CRISTÃOS Quando se fala em yoga e yoguis, logo se pensa na Índia. E, no entanto, o Ocidente teve séculos de grandes yoguis – sobretudo na Tebaida do Egito. Visitei as cidades e ruínas de Luxor e Karnak, e a aldeia de Abu, Nilo acima, e rememorei os tempos gloriosos em que todas as regiões circunvizinhas eram habitadas por eremitas cristãos. Viviam em silêncio e solidão nas cavernas dos desertos da Tebaida, não longe de Tebas, capital do Egito Superior. Haviam desertado da corrupção do Império Romano, irremediavelmente votado ao extermínio, e viviam a sós com Deus e sua alma, preparando-se para uma vida futura. Tomavam a sério, ao pé-da-letra, as palavras do divino Mestre: “Quem não renunciar a tudo que tem não pode ser meu discípulo”. Todos eles praticavam a mística – talvez o misticismo – que, desde tempos antigos, prevalecia na Índia, no Tibete, sobretudo nas montanhas do Himalaia, povoadas de mahatmas, maharishis e yoguis de toda a espécie. Esses super- homens, quer da Ásia, quer da África, procuravam realizar o seu Eu espiritual, esquecidos quase totalmente do seu ego humano. Se eram desertores e escapistas da vida terrestre, não deixavam de ser homens de imensa boa vontade. Quando, hoje em dia, falamos de místicos e ascetas, muita gente torce o nariz, com ares se superioridade, como se já tivessem superado esses períodos de “fanatismo”, como muitos chamam o entusiasmo espiritual. Muitos dos nossos profanos se julgam homens cósmicos; acham que não abusam dos bens terrenos, e por isto não os precisam recusar, mas já sabem usá-los corretamente. Quando ouço essas tiradas dos supostos homens cósmicos, logo desconfio da sua cosmicidade, e uma voz me segreda “eles são os mais profanos dos profanos, mas ignoram a sua própria profanidade, e acham que já ultrapassaram a mística”. Eu, por mim, conheço um único homem realmente cósmico, que havia ultrapassado tanto o plano dos profanos como o dos místicos, pelo menos nos últimos anos de sua vida terrestre. Mesmo João Batista era ainda do número dos místicos e ascetas. Quem nunca passou pela mística não pode ser cósmico – e onde estão os nossos místicos, os ascetas, os campeões da renúncia? Albert Schweitzer escreveu: “O Cristianismo é uma afirmação do mundo – que passou pela negação do mundo”.
  • 35. Mahatma Gandhi disse: “Homem, renuncia ao mundo, entrega-o a Deus – e depois recebe-o de volta, purificado, das mãos de Deus”. E o próprio Cristo disse a seus seguidores: “Quem quiser ganhar a sua vida perde-la-á – mas quem perder a sua vida por minha causa, ganha-la-á”. Todos os mestres espirituais da humanidade insistem na necessidade da mística, da ascese; se algum deles atingiu as alturas da vivência cósmica, atingiu-as através da experiência mística e ascética. Despossuir-se de tudo – para o poder possuir; morrer – para viver corretamente; não ter nada – para ser tudo... é este o caminho que todos os mestres da humanidade ensinam. Mas os nossos liberais de hoje se julgam tão superiores a todos os mestres que falam com desprezo desses “atrasados” que ainda não sabem usar sem abusar, e por isto têm de recusar. Pobres analfabetos da espiritualidade! Ignoram a sua própria ignorância – e se julgam sábios... Consideram sua doença como saúde – e zombam dos convalescentes... Perlustrei esses lugares sagrados, agora desertos, e relembrei os nomes de tanto eremitas e cenobitas, aliás uns poucos desses muitos que ali viviam, mas quase todos desconhecidos à posteridade. Aqui meditava fulano... Ali vivia sicrano em perpétua contemplação de Deus... Mais além, se mortificava beltrano... Mais tarde, alguns desses eremitas solitários se reuniram em grupos, e surgiram os primeiros cenobitas, que viviam em mosteiros e comunidades. Escreveram-se muitos livros em torno da vida de alguns desses santos desertores; mas, como quase todos eles viviam no anonimato, pouco sabemos deles. Calavam-se diante dos homens e só falavam com Deus. O silêncio é a linguagem de Deus e dos homens espirituais – o barulho é a dos egos profanos. Os trapistas de hoje são um eco desses eremitas silenciosos da Tebaida. Um deles, Thomas Merton, ultimamente se tornou célebre sem querer, porque escreveu livros maravilhosos, que correm mundo, alguns deles até vertidos em português. Infelizmente, morreu em plena atividade, vítima de um acidente, na Índia, onde visitava uns yoguis hindus e fazia meditação com eles. De algum desses eremitas da Tebaida se contam coisas estranhas, se não historicamente verdadeiras, certamente verdadeiras como característica espiritual deles. Um dia, o eremita A. disse ao eremita B., seu vizinho: – Sabes, irmão, que lá fora há guerra?
  • 36. – Guerra? – replicou o outro. – Que é isto? – Bem... – retrucou o primeiro – guerra... guerra... é uma coisa muita feia, que não se deve fazer. – Mas, afinal de contas, que é guerra? – Não sei explicar... Mas vamos brincar de guerra, para compreenderes o que é. Olha aqui, eu tenho um livro; tu não tens livro algum. Eu digo: Este livro é meu! Tu respondes: Não! Este livro é meu! Eu grito: Este livro é meu! Assim começa a guerra. Vamos brincar de guerra: Este livro é meu!... –? – Responde! – Responder, o quê?... – Grita: Este livro é meu! – Como? Se este livro é teu, então não é meu... – Ora, ora... Tu não tens vocação para guerra... Já acabaste com a guerra antes de começar... Os homens lá fora não fazem assim. Brigam sem fim, por causa de coisas que não são nem de um nem de outro. – É verdade, nós não temos jeito para guerra... – Também não temos nada por que brigar... – Paciência... Não podemos sequer brincar de guerra... De Santo Antão da Tebaida se conta o seguinte: Um dia, alguém de fora lhe ofereceu um lindo cacho de uvas. O eremita ascético namorou a uva, cheirou- a, mas não comeu um baguinho sequer. Aliás, esses homens passavam dias inteiros sem comer nada. Alguns só comiam uma vez por semana. Eram todos vegetarianos absolutos. Achavam que a atividade estomacal não era bem compatível com a atividade espiritual. Mahatma Gandhi, em nossos dias, parece ter pensado do mesmo modo. Orava e jejuava, e por isto conseguia tudo pelo poder da alma, sem o poder das armas. Mas, os profanos e analfabetos da Verdade acham que poder é arma: canhão, metralhadoras, bomba atômica – assim pensam e assim agem precisamente porque são analfabetos nas coisas da alma. Quem não conhece a alma tem de usar arma – quem conhece a alma não usa arma. E, ainda por cima, muitos dos que são formados na insipiência das armas e ignoram a sapiência da alma, têm a sacrílega audácia de se dizerem discípulos do Cristo... Mas, voltemos a Santo Antão, que recebeu um lindo cacho de uvas e o mandou a um eremita vizinho, na outra caverna. Diz a história que, ao
  • 37. entardecer desse dia, o cacho de uvas, depois de fazer o rodízio todo pela vasta Tebaida, voltou a Santo Antão, intato. Nenhum dos monges quis deliciar- se com a sua ingestão, com medo de favorecer algo como gula, de que todos os egos são devotados amigos. Santo Antão ergueu as mãos ao céu e disse: Graças a Deus, que ainda há verdadeiros monges na face da terra... *** Se o homem praticasse concentração mental, ou até contemplação espiritual, verificaria que o maior poder reside precisamente no mundo mental e espiritual. Mas esse poder só se revela aos poucos, após longos períodos de focalização intensamente consciente. Há homens entre nós que conseguem fazer uma hora de focalização consciente, ou cosmo-consciente; outros, uns poucos, se mantém por um dia, ou até por alguns dias, nesse ambiente da potência cósmica, imaterial. Mas tudo isto não passa de abc de escola primária. Os grandes universitários do verdadeiro poder espiritual, do poder creador, permanecem na zona desse poder durante 30 a 40 dias consecutivos. E, para intensificar essa concentração, se abstêm, total ou quase totalmente, de alimentação, porque sabem que a atividade estomacal perturba a focalização espiritual. Moisés, Elias, Jesus, com 40 dias e noites de silêncio e solidão, no alto de montanhas ou no fundo de desertos, faziam jorrar de dentro de sua alma fontes de poderes tais que eclipsavam todas as forças físicas. Antigamente, não havia locais especiais para exercer essa concentração mental-espiritual; os eremitas e yoguis se recolhiam a qualquer deserto, montanha ou floresta; não necessitavam de cama nem cozinha, não tinham luz artificial nem água encanada. Quando o poder do espírito é máximo, as necessidades materiais são mínimas. Nos últimos tempos, a elite da humanidade voltou a sentir a necessidade de Tebaidas, Sinais, Himalaias, desertos, solidões; porém dotados de algum conforto, embora sem confortismo. Estamos oferecendo a esta humanidade algumas Tebaidas e alguns Himalaias razoavelmente confortáveis. Não podemos crear homens idôneos; só podemos criar ambientes convidativos. A idoneidade vem de outra região, vem do livre-arbítrio de cada um. Nem o melhor lugar garante concentração ao homem comodista, incapaz de esforço pessoal. A tendência da maior parte dos homens chamados “espiritualistas” é de simples turismo devocional. Muitas Tebaidas e os Himalaias de hoje degeneraram em clubes esportivos e centros sociais. Outros substituíram o magno problema da auto-realização por atividades filantrópicas, vestindo os nus e enchendo estômagos vazios, deslembrados do que o Mestre disse:
  • 38. “Pobres sempre os tendes convosco, e lhes podeis fazer bem quando quiserdes – a mim, porém, nem sempre me tendes”. Em face disto, tivemos de elaborar rigoroso regimento interno para os nossos ashrams. Ashram, Tebaida, Himalaia, Sinai, não são apenas lugares de Retiro Espiritual, retirados da vida social urbana; devem ser verdadeiras metánoias, palavra usada pelo texto grego do Evangelho para “transmentalização”: um modo de pensar e viver para além da mente da personalidade egocêntrica. Metánoia é conversão. Quando o homem está, por assim dizer, de costas voltadas para a suprema Realidade (Deus), e de rosto voltado para as coisas do mundo; está “avertido”; mas, quando dá meia volta, voltando o rosto conscientemente para a Realidade, então é um “convertido”. Passou da ilusão para a verdade. Não é “remendo novo em roupa velha”, como todo ego virtuoso continua a ser; o convertido despojou-se do homem velho, revestiu-se do homem novo e fez-se totalmente “nova creatura em Cristo”. *** É deveras estranho, e mesmo trágico, que o lugar do antigo Egito onde esteve, durante séculos, a Tebaida cristã, não se encontre um vestígio do seu glorioso passado. Os Himalaias continuam a ser o el-dorado dos yoguis – mas a Tebaida deixou de ser espiritual. Os atuais habitantes são árabes, muçulmanos, maometanos, geralmente indolentes, só interessados nas coisas mais rasteiras do velho ego. Pouco sabem de meditação. Perderam até a magia mental de seus antepassados. Dinheiro, sexo e divertimentos – e nada mais, como a maioria dos chamados cristãos do ocidente. Parece que a lei do menor esforço impera tão despoticamente no plano mental como no mundo material. O grosso da humanidade, em qualquer continente, que apenas tornar mais agradável a vida do velho ego; pouquíssimos procuram superar a horizontal por uma vertical. Impera o continuísmo comodista – quando nascerá um novo início? Quando surgirá uma nova vivência em lugar da vida velha? Regressei das regiões da antiga Tebaida cristã mais do que nunca convencido da imperiosa necessidade duma intensa interiorização do homem – mesmo em proveito da verdadeira felicidade aqui na terra. Toda a Física, para ser agradável, necessita de um fundo de Metafísica. O gozo físico, sem um fundo de espírito metafísico, acaba, cedo ou tarde, no seu contrário – num tédio insuportável...
  • 39. MINHA DECEPÇÃO EM ARUNÁCHALA Do Cairo voei, durante a noite, para Bombay, uma das grandes cidades da Índia Ocidental. Daí, cruzando toda a Índia, para Madras, no litoral oriental. Madras – por quê? Nada me interessava essa velha cidade indiana, onde os portugueses, do tempo de Vasco da Gama, deixaram tantos vestígios. O que muitíssimo me interessava era um lugarejo que não figura em nenhum mapa geográfico da Índia – Arunáchala. Felizmente, levava eu na mala um exemplar da revista “The Mountain Path”, publicada em Tiruvannamalai, cidadezinha não longe de Arunáchala. Muitos brasileiros conhecem este nome, que se tornou quase sagrado, porque em Arunáchala viveu, nesses últimos decênios, um dos maiores iniciados da Índia moderna – Bhagavan Ramana, chamado geralmente Maharishi, ou Maharshi, quer dizer, o “Grande Vidente”. Dois escritores contemporâneos, Mouni Sadhu e Paul Brunton, tornaram conhecido no mundo inteiro esse grande místico. Sobretudo o livro de Mouni Sadhu “Dias de Grande Paz”, escrito em inglês e traduzido em diversas línguas, inclusive em português, imortalizou esse grande iluminado. [4] -------------- [4] A recente edição deste livro é da Editora PENSAMENTO, de São Paulo, edição revista e anotada por Huberto Rohden. Consideramos este livro, “Dias de Grande Paz”, como um dos melhores canais para auto-conhecimento e auto-realização, tanto mais porque reflete as experiências imediatas de um discípulo do grande iniciado. Estranhamente, em Madras ninguém sabia da existência de Ramana Maharshi, nem do lugarejo onde ele viveu mais de meio século. “Santo de casa não faz milagre.” Finalmente, consegui saber que existia uma linha de ônibus para Tiruvannamalai (que os nativos pronunciam Trimalei, ou coisa parecida). E lá vou eu, durante diversas horas fatigantes, num ônibus primitivo, que me deixou em Tiruvannamalai. Ali aluguei uma carrocinha de duas rodas puxada por um cavalinho magro, e consegui chegar a Arunáchala. Excetuando o ashram e algumas casas vizinhas, Arunáchala tem aspecto de uma favela, com casas de barro coberta de sapé ou folha de palmeira. Consta de uma única rua
  • 40. comprida, sujíssima e cheia de mendigos, como quase todas as cidades da Índia. Era intenção minha ficar aqui alguns dias, na esperança de fazer um Retiro Espiritual com alguns dos mestres, que cuidava encontrar. Mas Ramana Maharshi tinha morrido havia quase dois decênios, e seus supostos discípulos não davam impressão de espiritualidade. Ao meio-dia tomei o meu almoço numa sala ladrilhada, sentado no chão, diante duma folha de bananeira, sobre a qual o servente jogou um punhado de arroz que arrancou com a mão de uma panela; jogou-o com tanta força que parte espirrou para os lados e foi cair ao redor do prato, no chão poeirento; mas o servente teve a habilidade de catar o arroz disperso e recolocá-lo na folha de bananeira, que me servia de prato. Depois veio outro servente com uma panela de feijão; com uma concha tirou do conteúdo e deitou sobre o arroz; depois disto, coroando tudo, um grande punhado de pimenta malagueta. Misturei tudo com os dedos – não há vestígio de talheres – e tentei introduzir na boca essa substância meio líquida. Operação difícil para o homem ocidental! Olhei para meus comensais hindus e verifiquei que eles faziam dos quatro dedos uma espécie de colher e assim conseguiam introduzir na boca o alimento, sem muito derramamento. Aliás, também não havia perigo de eles sujarem a roupa, porque a maior parte só veste uma tanga primitiva ou um calção. Alguns deles usam uma espécie de camisola além da tanga. Fiquei com a boca em fogo, com a sobrecarga de pimenta vermelha. Pedi água para apagar o incêndio e veio uma caneca de latão com água morna; pois não existe geladeira no ashram e a Índia é um país tropical. O meu companheiro brasileiro se portou heroicamente, engolindo – embora com esforço e caretas – o seu almoço. Esperávamos algumas frutas para a sobremesa, mas nada disto apareceu. Felizmente, eu trazia na mala algumas bananas, que salvaram a situação. Ao anoitecer nos mostraram a casa dos hóspedes. Havia no quarto uma velha cama de madeira com um colchão de capim meio podre e um lençol que, pelo aspecto, já devia ter tido uso frequente por longa data. Joguei fora o lençol e me deitei sobre o colchão esfarelado. Meu companheiro se deitou no chão e dormimos – tanto quanto as aranhas, baratas e mosquitos o permitiram. Numa dependência da casa havia um cômodo com uma espécie de fossa no chão, uma lata com água e uma caneca, para tomar banho. Como não havia toalha, enxuguei-me com uma peça da minha roupa interna, usando outra como fronha; pois não ousava deitar a cabaça diretamente sobre o capim podre.
  • 41. Esqueci-me de dizer que, ao anoitecer, assistira ao cântico dos Vedas, com flores e incenso. Este ritual se repete cada manhã e cada noite. Fiz o possível para me concentrar, mas nada consegui. Dois macacos travessos, durante todo esse culto religioso, faziam as suas acrobacias no santuário, trepando pelas cortinas, pulando sobre o altar etc. À direita e à esquerda do altar havia estátuas de pedra representando vacas e elefantes. Durante o ritual foram engrinaldados esses animais sagrados, incensados e besuntados de ghee (manteiga derretida). Na manhã seguinte, fui visitar a casinha ocupada, por algum tempo, por Mouni Sadhu, o autor do livro “Dias de Grande Paz”; vi também a de Paul Brunton, que, por algum tempo, foi discípulo imediato de Ramana Maharshi. Entretanto, a minha decepção e dissabores foram compensados pela longa meditação que fiz, juntamente com meu colega, na salinha reservada onde o santo fazia as suas concentrações, ou melhor, a sua sintonização cósmica. Sentado no chão – pois não havia móveis – defronte ao canapé, perto do grande retrato do místico, abismei-me no oceano do Infinito. Mergulhei totalmente nesse mar invisível... Senti-me empolgado pelos misteriosos fluidos que, mesmo agora, quase dois decênios depois da partida de Maharshi, ainda estão no ar e fluem de todos os objetos – do soalho, das paredes, do teto – e se apoderam das pessoas sintonizadas por essas auras... Mas, nesse mesmo dia tive mais uma grande decepção e consolidei-me na velha convicção de que a maior tragédia para um grande mestre é o fato de ter discípulos após a morte. Levaram-me ao quartinho onde o grande Vidente tinha dado o último suspiro – ou, como dizem eles, onde entrou no mahasamadhi. Lá estavam livros e manuscritos dele. Na parede havia um nicho, com algumas bananas, pedaços de coco e outras frutas. Em face da minha estranheza e pergunta, explicaram-me que esses alimentos lá estavam, e eram constantemente renovados, porque a alma dele poderia ter vontade de se alimentar... Coitado do Mestre tão mal compreendido por seus chamados discípulos!... Quero crer, todavia, que haja outros discípulos de Ramana Maharshi, mesmo em Arunáchala, que estivessem mais sintonizados com o espírito dele. Nesse mesmo dia me encontrei com Arthur Osborne e sua esposa, ingleses, editores da mencionada revista “The Mountain Path”, que um amigo me manda regularmente de Arunáchala e cujo conteúdo é um retrato fiel do santo. No mesmo dia deixei Arunáchala e regressei para Madras. Tomei o avião da “Indian Airlines” e voei para Calcutá, capital do Estado de Bengal. Daí por diante viajei sozinho, porque meu companheiro, decepcionado, se separou de mim.
  • 42. Viajar sozinho por essas regiões desconhecidas pode parecer triste a muita gente social. Eu, porém, me sentia muito bem. Parece mesmo que sou essencialmente eremita solitário que a vida na sociedade é apenas um mal necessário. Quando estou desacompanhado me sinto em ótima companhia, mas em sintonia com a alma do Universo.
  • 43. COM OS YOGUIS DE SEVAYATAN Levava comigo uma carta do meu antigo guru indiano, de Washington, Swami Premananda, endereçada a Swami Satyananda, chefe do ashram de Sevayatan, no Bengal ocidental. Em Calcutá, capital desse Estado, tomei o trem, que, em algumas horas, me deixou na estação ferroviária de Ihargram. Mas, daí para Sevayatan não havia condução regular, a não ser uns veículos particulares que eu nunca vira: umas grandes bicicletas – aliás monociclos – ligados a uma pequena carruagem com dois assentos. O ciclista montava nessa roda e pedalava valentemente, movendo o veículo. Assim cheguei, dentro de meia hora, através de vastas planícies, a uma espécie de fazenda, que o povo denominava The School (a escola). Lá chegando, indaguei por Swami Satyananda e fui levado a uma casinha modesta, em cujo interior encontrei um homem de uns 80 anos, sentado sobre uma cama simples, pois estava doente e se sentia muito fraco. Seu corpo era de cor cera e tão magro que me parecia transparente. Entreguei-lhe a carta de Swami Premananda e ele me tratou com extrema bondade, uma bondade simples e benfazeja, embora sempre com aquela serena longinquidade que é própria de homens que já vivem no mundo da pura espiritualidade e se ocupam com este mundo apenas por conveniência para seus semelhantes. Não há nenhuma necessidade que esses homens falem ou façam alguma coisa – o seu simples e poderoso ser vale mil vezes mais do que qualquer dizer ou fazer. Pode a gente ficar na presença deles indefinidamente e sentir-se bem e cada vez melhor, esquecendo-se de todas as facticidades das circunstâncias e só consciente da realidade da substância. Conversamos longamente em absoluto silêncio... Silêncio é algo como música... Não atua pelo que diz, mas sim pelo que é... A música é uma linguagem internacional, como o silêncio... Fiquei quase cinco dias nesse ashram, onde residiam numerosos monges, yoguis, swamis, alguns dos quais também eram professores de escolas secundárias e colégios do governo, na redondeza. Deram-me um quarto próprio, com cama e mesa e outros móveis, quase à moda ocidental. Não cheguei a saber como os monges vivem entre si. Será que comem e dormem no chão, como em Arunáchala? Aqui há um conforto razoável, sem confortismo nem confortite, que são a desgraça de muita gente do mundo ocidental. Falo
  • 44. de experiência própria. Quando, há anos, loteei o meu antigo sítio, em São Paulo, e convidei alunos da ALVORADA para fazerem os seus bangalôs, para residência rural ou fim-de-semana, tive enorme decepção. Quase todos resolveram transportar para o campo um pedacinho da cidade, com todas as suas misérias civilizadas – rádio, televisão, jornais, revistas, visitas tagarelas e todas as consagradas sujeiras da nossa cidade. Quase todos eles são hoje sitiados em vez de sitiantes, sitiados, em permanente “estado de sítio”... E, pior de tudo, adoram esse estado de sítio, essa idolatrada tirania do confortismo mórbido e da confortite mortífera... Nada disto encontrei em Sevayatan. Encontrei um conforto razoável, equidistante do desconforto de Arunáchala e do confortismo de muita gente ocidental. Todas as grandes nações da história morreram de confortite... Toda manhã, Swami Satyananda, sentado na cama, e eu num tamborete, ao pé dele, fazíamos longa meditação. Ele, de olhos imóveis, largamente abertos, fazia lembrar a esfinge do Egito... Parecia uma estátua de mármore, sem respiração perceptível. Creio que a alma ou Eu dele não estava mais lá; só o invólucro corpóreo estava presente, vazio, sem um sinal de vida... Só depois de muito tempo a realidade espiritual do Swami regressava de regiões longínquas e reanimava aquela roupagem inerte. Ah! se esses homens pudessem falar das suas experiências cósmicas!... Mas... aqui o calar vale mais do que o falar... Ditos indizíveis não podem ser ditos... O que se pode dizer, ou mesmo pensar, não é a verdade... É como um fogo pintado numa tela, que não é fogo vivo... O mais perfeito fogo pintado não ilumina nem aquece... Durante prolongado samadhi de Swami Satyananda, todo o recinto se enchia de um estranho magnetismo, que envolvia e permeava tudo. Eu não sentia mais meu próprio corpo nem o tamborete em que estava sentado. Tinha a impressão de flutuar livremente no espaço, desmaterializado, astralizado, todo centrado na minha consciência Eu, alheio a todos as ilusões do ego periférico. Num dos últimos capítulos do meu livro “Entre Dois Mundos”, com o título “Nos Mistérios do LSD”, tentei descrever as experiências produzidas pelo ácido lisérgico. Mas o que experimentei em Sevayatan, na presença de Swami Satyananda em samadhi, era bem diferente, por ser uma vivência natural e não uma técnica artificialmente provocada por umas gotinhas de injeção material. Somente quando o yogui regressava das suas longínquas viagens cósmicas e reocupava o invólucro do seu corpo material, é que cessava o ambiente imantado do cubículo, e eu tornava a ter consciência do meu corpo. Mas no meu consciente superior continuava a luz e forças captadas durante o samadhi do iniciado, projetando ondas benéficas sobre minha vida. Posso afirmar que entre um samadhi artificialmente provocado e um samadhi real e natural medeia a mesma distância que há entre um fogo pintado numa tela e um fogo
  • 45. real; com o melhor dos fogos artificiais não se pode iluminar e aquecer coisa alguma, ao passo que o menor dos fogos naturais irradia luz e calor. Aldous Huxley, no seu livro “Às Portas da Percepção – Céu e Inferno” faz ver esta enorme diferença entre o samadhi natural e o pseudo-samadhi artificial. É enorme a auto-decepção do êxtase artificial. J. W. Hauer, no livro monumental “Der Yoga”, faz ver que para a experiência do Eu central não conduz nenhum caminho psico-técnico. E Einstein adverte que “do mundo dos fatos não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores, porque estes vêm de outra região”. Não sei até que ponto a minha alma acompanhava a alma do yogui, nessas fantásticas jornadas cósmicas... O certo é que a presença do mestre auxiliava grandemente o desprendimento do meu espírito – a “graça do mestre”, como diz Mouni Sadhu –, deve ser essa evanescente aura ou vibração peculiar que irradia de um ser humano altamente realizado, se difunde pelo ambiente e funciona como um poderoso catalizador para as pessoas que se encontram no âmbito dessa irradiação e tenham suficiente receptividade para captar essa onda invisível. Um homem desses vale mais para a redenção do mundo do que legiões de eruditos não-realizados. Isto me faz lembrar as palavras de Mahatma Gandhi: Quando um único homem chega à plenitude do amor, neutraliza o ódio de muitos milhões. Essa comparação com emissor e receptor de ondas eletrônicas, que tenho usado nos meus livros e nas minhas aulas, é talvez o melhor símile ilustrativo, sobretudo na era eletrônica em que vivemos. A estação emissora do Infinito está sempre funcionando, lançando ao espaço músicas de vida, saúde e felicidade – mas o nosso receptor humano nem sempre está devidamente sintonizado para captar essa música. Sofremos e somos infelizes por causa da nossa falta de sintonização... Cada dia, pelas 20 horas, havia uma reunião de culto, numa sala espaçosa do ashram. Cantavam-se hinos sacros, liam-se os Vedas e a Bhagavad Gita. Na primeira noite fui apresentado por Swami Satyananda, que a custo se arrastara até lá, e fui convidado a falar sobre as minhas experiências pessoais, no mundo da suprema Realidade. Falei cerca de meia hora sobre o Golden Lotus Temple, em Washington, o templo do lótus de ouro, fundado há diversos decênios por Swami Premananda, filho de Sevayatan e fundador do ashram local. A mãezinha dele, de 80 anos, estava presente, e vivia me pedindo notícias do filho, ausente há uns 30 anos. Tive pena da mãe do meu antigo guru, que chorava de saudades; mas eu nada pude fazer por ela, porque ela não entendia uma palavra de inglês, e eu nada sei da língua dela. Ela não tinha idéia da distância entre o Brasil e os Estados Unidos, e pensava que eu tivesse vindo diretamente de Washington e para lá voltaria e me encontraria com seu querido filho, que nunca mais voltara a Índia.
  • 46. Nesta primeira conferência contei aos 30 ou 40 ouvintes o que era o ashram de Washington e como eu tinha sido discípulo e, mais tarde, colaborador de Swami Premananda, fundador do ashram de Sevayatan. Numa das noites seguintes falei sobre os nossos centros de auto-realização, mantidas pela “Alvorada”, no Brasil. Creio que para muitos dos meus ouvintes foi alta novidade saberem que nós, aqui no Brasil, possuímos santuários de meditação e auto-realização. Estranharam um tanto quando lhes disse que os nossos ashrams não tinham caráter residencial, como os da Índia, mas são lugares onde pessoas idôneas se retiram temporariamente com o fim de carregarem a sua bateria espiritual, e depois voltam ao meio do mundo, para seus afazeres profissionais, mantendo, porém, firme a orientação espiritual colhida no silêncio e na meditação. Na última noite fui convidado por alguns dos professores para lhes falar de “Filosofia Cósmica” ou, como prefiro dizer, “Univérsica”, que eu mencionara nas palestras anteriores. Atendi ao convite e expus longamente o que os leitores dos meus livros e alunos dos meus cursos já conhecem. Quando, nesta última conferência, afirmei que Matemática, Metafísica e Mística são, no fundo, a mesma coisa, verifiquei grande estranheza e talvez ceticismo no semblante de alguns ouvintes. Mas quando citei diversas palavras de Einstein em meu abono, creio que todos se convenceram da verdade do meu asserto, por sinal que alguns me pediram meu endereço no Brasil para ulteriores informações sobre “Filosofia Univérsica”. Infelizmente, não lhes posso mandar nenhum dos meus livros, porque a única língua estrangeira que eles entendem é o inglês. É, aliás, doloroso verificar, na Europa, na Ásia e na África, que o português é totalmente ignorado; um livro escrito em nossa língua é um livro morto-nato para o resto do mundo. Inglês, francês, alemão, espanhol, italiano – são portas mais ou menos abertas para outra gente, mas o português é invariavelmente porta fechada. E, no entanto, há mais de 100 milhões de pessoas no mundo que falam o português. Por que é que somos tão desconhecidos e ignorados?... Em Sevayatan estranhei uma coisa, aliás geral na Índia: que o ashram se achasse praticamente no meio do mato, isto é, numa capoeira desordenamente heterogênea, quase sem vestígio de cultura, nos arredores, sem um pouco de jardim, nem de horta, nem de pomar. Da nossa divisa: “Realiza a mística de Deus, pela ética dos homens, na estética da natureza” falta, na Índia, a última palavra. Eles tratam da mística e da ética, mas se esquecem da estética da natureza. Voltei de Sevayatan para Calcutá com um mundo de cogitações em estado de incubação...
  • 47. NO SILÊNCIO DAS NEVES DO HIMALAIA De regresso a Calcutá, tirei passagem na Royal Nepal Airlines e levantamos vôo rumo norte em demanda das mais altas montanhas do globo terrestre. Aterrissamos em Kathamandu, capital do reino do Nepal, situado nos primeiros contrafortes da imensa cordilheira, a uns 2.000 metros de altitude. Nepal é um país maravilhoso, entre a Índia, a China e o Tibete, feito de montanhas e rios, cachoeiras e magníficas florestas. No dia seguinte, por meio duma empresa de turismo do governo, aluguei um táxi e durante quase o dia inteiro fomos subindo, em vastos ziguezagues, rumo a um dos pontos mais pitorescos, nessa fascinante cordilheira dos Himalaias, uma das poucas nesgas de terra ainda não profanadas pela civilização. Chegamos ao “Everest Point”, em Daman, a uns 3.000 metros de altitude. Não havia turistas, graças a Deus. Eu era o único visitante, pois estávamos fora de estação. Deram-me um silencioso bangalô em plena mata, com uma lâmpada e querosene. Perto havia um pequeno restaurante, em forma de gigantesco cogumelo (não era da bomba atômica!), em cujo refeitório redondo, cheio de janelas de vidro, fui tomando as minhas refeições. Passei apenas uma noite e quase dois dias nesse mundo de Deus, longe dos homens, cercado de montanhas cobertas de neves eternas. Para o leste se erguia o cume do Sagarmatha, que os nossos atlas chamam Everest, com mais de 8.000 metros de altitude. A fim de presenciar o nascer do sol, que nasce do lado direito do gigante, levantei-me antes das 5 horas, e, das 5 às 6 estive saboreando o grandioso espetáculo do sol nascente, no seio desse imenso anfiteatro de campos de neve e picos gelados, produzindo as mais variadas cores e cambiantes, sempre em mudança – azul, dourado, violáceo – conforme a incidência dos raios solares. Eu não tinha câmara fotográfica para fixar esses deslumbramentos, durante essa hora solene; mas minha alma fotografou, em cosmocolor, os estupendos panoramas do Himalaia... Se eu, algum dia, voltar à Ásia, irei diretamente ao Himalaia, não para um dia e uma noite, mas para lá ficar semanas ou meses. Aqui tudo é grandioso e inaudito, e é necessário dar tempo à alma para realizar um processo de osmose e lenta infiltração. Não adianta ver, é necessário sentir, viver e vivenciar o que o silêncio de Deus diz ao silêncio do Eu... Keyserling, no seu livro “Reisetagebuch eines Philosophen”, diz que o Himalaia emite estranha radiação magnética, que nos torna fáceis o pensamento e a