Gerenciamento
em Enfermagem
Gerenciamento
em Enfermagem
Coordenadora
Paulina Kurcgant
Autoras
Daisy Maria Rizatto Tronchin
Fernanda Maria Togeiro Fugulin
Heloisa Helena Ciqueto Peres
Maria Cristina Komatsu Braga Massarollo
Maria de Fátima Prado Fernandes
Maria Helena Trench Ciampone
Maria Madalena Januário Leite
Marina Peduzzi
Marta Maria Melleiro
Paulina Kurcgant
Raquel Rapone Gaidzinski
Regina Toshie Takahashi
Valéria Castilho
Vanda Elisa Andres Felli
Vera Lucia Mira Gonçalves
2-
ª Edição
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
G317
2.ed.
Gerenciamento em enfermagem / coordenadora Paulina Kurcgant ; autoras Daisy Maria
Rizatto Tronchin... [et al.]. – 2.ed. – Rio de Janeiro : Guanabara Koogan, 2010.
il.
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-277-1644-4
1. Serviços de enfermagem – Administração. 2. Administradores de enfermagem. I.
Kurcgant, Paulina. II. Tronchin, Daisy Maria Rizatto.
10-0369. CDD: 362.173068
CDU: 616-083:005
28.01.10 01.02.10 017322
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esforços para assegurar que as informações e os procedimentos apresentados no texto
estejam em acordo com os padrões aceitos à época da publicação, e todos os dados foram
atualizados pelas autoras até a data da entrega dos originais à editora. Entretanto, tendo em
conta a evolução das ciências da saúde, as mudanças regulamentares governamentais e o
constante fluxo de novas informações sobre terapêutica medicamentosa e reações adversas
a fármacos, recomendamos enfaticamente que os leitores consultem sempre outras fontes
fidedignas, de modo a se certificarem de que as informações contidas neste livro estão
corretas e de que não houve alterações nas dosagens recomendadas ou na legislação
regulamentadora.
As autoras e a editora empenharam-se para citar adequadamente e dar o devido crédito
a todos os detentores dos direitos autorais de qualquer material utilizado neste livro,
dispondo-se a possíveis acertos caso, inadvertidamente, a identificação de algum deles
tenha sido omitida.
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Editoração Eletrônica: EDEL
Daisy Maria Rizatto Tronchin
Professor-Doutor
Fernanda Maria Togeiro Fugulin
Professor-Doutor
Heloisa Helena Ciqueto Peres
Livre-Docente
Maria Cristina Komatsu Braga Massarollo
Livre-Docente
Maria de Fátima Prado Fernandes
Professor-Doutor
Maria Helena Trench Ciampone
Professor Titular
Maria Madalena Januário Leite
Livre-Docente
Marina Peduzzi
Livre-Docente
Marta Maria Melleiro
Professor-Doutor
Paulina Kurcgant
Professor Titular
Raquel Rapone Gaidzinski
Professor Titular
Regina Toshie Takahashi
Livre-Docente
Valéria Castilho
Livre-Docente
Vanda Elisa Andres Felli
Livre-Docente
Vera Lucia Mira Gonçalves
Professor-Doutor
É prazeroso ter a oportunidade de prefaciar a segunda edição de um livro, porque
isso significa que a obra foi bem avaliada e aceita pelos leitores na sua primeira
edição.
A proposta das autoras, docentes do Departamento de Orientação Profissional
da Escola de Enfermagem da USP
, na área de Administração em Saúde e em Enfer-
magem, era, já na primeira edição, oportunizar aos leitores momentos de reflexão
sobre a prática que vivenciam. Esta proposta mantém-se na atual edição, pois as
autoras acreditam que a reflexão e a troca de conhecimentos e de diferentes pontos
de vista oferecem ao interlocutor a possibilidade de perceber novas alternativas e
a escolha de melhores assertivas nas suas decisões profissionais.
Nesta segunda edição, as autoras contribuem com seus conhecimentos e vivên-
cias, agora repaginados nos últimos cinco anos, que integram o cotidiano de seus
trabalhos nas atividades de ensino, pesquisa e de extensão à comunidade.
Buscam oferecer ao leitor informações sobre os conteúdos que integram a prática
gerencial com o objetivo de subsidiar a reflexão e a autonomia do enfermeiro na
prática desse processo de trabalho.
Com essa finalidade são tratados temas referentes ao objeto, instrumentos, meios
e saberes próprios do processo de trabalho gerencial.
Na dimensão estrutural das instituições de saúde são trabalhados temas como
ética, cultura e poder organizacional; conflito e negociação; processo decisório;
sistema de informação e qualidade em saúde e avaliação de serviços.
O gerenciamento de recursos humanos é analisado pela ótica da qualidade de
vida do trabalhador; do trabalho em equipe; do dimensionamento de pessoal de
enfermagem; e do recrutamento, seleção, educação permanente e avaliação de
desempenho profissional.
Os recursos materiais, físicos e ambientais, bem como o gerenciamento de cus-
tos nos serviços de enfermagem, são tratados, como os demais temas, com o hori-
zonte de oportunizar ao enfermeiro conhecimentos para o desenvolvimento de
competências técnico-científicas.
O relato de experiências e as reflexões sobre o uso desses conhecimentos obje-
tivam o desenvolvimento de competências ético-políticas e socioeducativas que
instrumentalizam o enfermeiro para decisões e ações gerenciais, em âmbito local,
como resultantes de uma análise contextual da saúde.
Paulina Kurcgant
PREFÁCIO
1 O Trabalho Gerencial em Enfermagem, 1
Vanda Elisa Andres Felli
Marina Peduzzi
2 Ética e Gerenciamento em Enfermagem, 13
Maria Cristina Komatsu Braga Massarollo
Maria de Fátima Prado Fernandes
3 Cultura e Poder nas Organizações de Saúde, 23
Paulina Kurcgant
Maria Cristina Komatsu Braga Massarollo
4 O Planejamento e o Processo Decisório como
Instrumentos do Processo de Trabalho Gerencial, 35
Maria Helena Trench Ciampone
Marta Maria Melleiro
5 Gerenciamento de Conflitos e Negociação, 51
Maria Helena Trench Ciampone
Paulina Kurcgant
6 Sistemas de Informação em Saúde, 63
Heloisa Helena Ciqueto Peres
Maria Madalena Januário Leite
7 A Qualidade e a Avaliação dos Serviços de Saúde e
de Enfermagem, 71
Daisy Maria Rizatto Tronchin
Marta Maria Melleiro
Regina Toshie Takahashi
8 A Qualidade de Vida no Trabalho e a Saúde do
Trabalhador de Enfermagem, 85
Vanda Elisa Andres Felli
Daisy Maria Rizatto Tronchin
9 Trabalho em Equipe e Processo Grupal, 105
Marina Peduzzi
Maria Helena Trench Ciampone
10 Dimensionamento de Pessoal de Enfermagem em
Instituições de Saúde, 121
Fernanda Maria Togeiro Fugulin
Raquel Rapone Gaidzinski
Valéria Castilho
CONTEÚDO
x Conteúdo
11 Educação Continuada: Recrutamento e Seleção,
Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de
Desempenho Profissional, 137
Heloisa Helena Ciqueto Peres
Maria Madalena Januário Leite
Vera Lucia Mira Gonçalves
12 Gerenciamento de Recursos Materiais, 155
Valéria Castilho
Vera Lucia Mira Gonçalves
13 Gerenciamento de Custos nos Serviços de Enfermagem, 169
Valéria Castilho
Fernanda Maria Togeiro Fugulin
Raquel Rapone Gaidzinski
14 Gerenciamento de Recursos Físicos e Ambientais, 181
Regina Toshie Takahashi
Vera Lucia Mira Gonçalves
Vanda Elisa Andres Felli
Índice Alfabético, 191
Gerenciamento
em Enfermagem
O Trabalho Gerencial
em Enfermagem
VANDA ELISA ANDRES FELLI E MARINA PEDUZZI
1
1
n A Inserção do Trabalho de Enfermagem na Prestação de Serviços de Saúde
O trabalho de enfermagem entendido como prática social e, portanto, articulado a
outras práticas, como a da saúde, educação, produção de medicamentos, equipa-
mentos, é efetivado na sociedade por meio do trabalho.
O trabalho constitui mediação entre o homem e a natureza, caracterizando-se
como processo de transformação requerida por necessidades humanas que, na área
de enfermagem, são especificamente necessidades de saúde (MARX, 1994; MEN-
DES-GONÇALVES, 1992, 1994).
Assim sendo, o trabalho é concebido como atividade essencialmente humana,
de cunho eminentemente social, que é orientada por uma finalidade que dá ao ho-
mem a potencialidade de, conscientemente, transformar a natureza e ser por ela
transformado, exercendo a sua criatividade (MARX, 1982). É atividade resultante
do dispêndio de energia física e mental, direta ou indiretamente voltada à produção
de bens e serviços, que contribui para a reprodução da vida humana, individual e
social (LIEDKE, 1997).
O trabalho de enfermagem, assim como o trabalho em saúde, integra a prestação
de serviços à saúde, como parte do setor terciário da economia brasileira, e, portan-
to, tem características distintas do trabalho agrícola ou industrial.
2 OTrabalho Gerencial em Enfermagem
O trabalho de saúde e o de enfermagem não produzem bens a serem estocados
e comercializados e, sim, serviços que são consumidos no ato de sua produção, isto
é, no momento da assistência, seja ela coletiva, grupal ou individual. No entan-
to, diferenciam-se de outros trabalhos do mesmo setor terciário de prestação de
serviços na medida em que lidam com um objeto humano, como os usuários, in-
dividualmente, os grupos sociais e populações, que trazem aos serviços de saúde
demandas relacionadas ao processo saúde-doença, expressas como necessidades
ou problemas de saúde.
Nessa concepção, o trabalho constitui um processo. Para a análise e compreen-
são do processo de trabalho, este pode ser decomposto em três elementos: (a) o
objeto do trabalho, aquilo sobre o que incide a atividade e que será transformado no
decorrer do processo, constituindo-se em produto; (b) os meios e instrumentos do
trabalho; e (c) a atividade adequada a um fim, o trabalho propriamente dito, que se
organiza de uma forma específica (MARX, 1994).
Vale destacar que tanto os objetos como os instrumentos de trabalho não são
naturais, não existem por si sós na natureza, mas constituem-se como tais num
processo histórico-social (MENDES-GONÇALVES, 1992). Nesse sentido, a aborda-
gem do trabalho permite compreender as atividades realizadas pelos profissionais
de saúde e de enfermagem, não apenas como fruto do progresso técnico-científico,
mas também como intervenções que expressam uma dada concepção do processo
saúde-doença, bem como a dinâmica social e de organização dos serviços.
Na atualidade, a transformação do objeto de trabalho em saúde e enfermagem
pode se dar tanto na perspectiva da promoção como da prevenção e/ou recuperação
da saúde. Nesse sentido, saúde não é apenas ausência de doenças, mas qualidade
de vida e emancipação dos sujeitos – usuários e trabalhadores.
O trabalhador de saúde e de enfermagem lida, no cotidiano, com grandes pa-
radoxos, como a vida e a morte, a dor e o prazer (MERHY, 1997), existindo, nesse
processo assistencial, inclusive a possibilidade de o trabalhador perder o seu objeto
de trabalho pela morte, o que marca uma especificidade importante. Considerada
essa natureza humana do objeto de trabalho a ser transformado, entende-se que se
trata de um trabalho que demanda uma relação humana intensa, ou seja, ao qual é
intrínseca a inter-relação e o vínculo. Assim, o trabalho de enfermagem e o trabalho
em saúde configuram-se, simultaneamente, como ação produtiva e interação social
(SCHRAIBER et al., 1999).
Enquanto trabalho coletivo, as ações de enfermagem são executadas em conjunto
com outros trabalhos realizados por distintos agentes da equipe multiprofissional
de saúde, ou seja, médico, nutricionista, terapeuta ocupacional, psicólogo, outros.
Esse trabalho realizado em equipe, que consiste em uma modalidade peculiar de
organização do trabalho coletivo,1 pode ser executado de forma fragmentada, com
1O trabalho no campo da saúde e de enfermagem, mesmo quando realizado individualmente por um
profissional, é trabalho coletivo, na medida em que ocorreu um intenso processo de divisão do tra-
balho, configurando diferentes áreas de atuação (trabalhos especializados), e o produto final, a as-
sistência e o cuidado, são sempre resultado de múltiplas intervenções executadas por múltiplos
agentes. No entanto, essa intensa especialização do trabalho acarretou a fragmentação da assistên-
cia, colocando o problema da integração das ações de saúde. Nesse sentido, ganha ênfase a proposta
do trabalho em equipe, que consiste em uma modalidade de trabalho coletivo que se contrapõe ao
modo independente e isolado com que os profissionais de saúde e de enfermagem usualmente exe-
cutam seu trabalho cotidiano nos serviços de saúde.
OTrabalho Gerencial em Enfermagem 3
a mera justaposição das ações dos diferentes profissionais, ou de forma articulada,
o que favorece a oferta de assistência integral de enfermagem e de atenção integral
à saúde (CIAMPONE e PEDUZZI, 2000; PEDUZZI, 2001).
Nessa articulação para a assistência à saúde, cada trabalho especializado (enfer-
magem, medicina, nutrição, fisioterapia, outros) é meio para a realização do traba-
lho em saúde. No entanto, nesse trabalho, todas as atividades realizadas pelos va-
riados profissionais são organizadas e executadas expressando relações desiguais,
além de diferentes tecnicamente, visto que o processo de divisão técnica e social do
trabalho configura relações de desigualdade entre os trabalhadores, isto é, relações
hierárquicas, em que alguns são “superiores” e outros “inferiores”.
O trabalhador de enfermagem, particularmente, transforma o objeto utilizando
um saber específico, em uma dada estrutura física, bem como outros instrumentos
próprios, ou seja, métodos, materiais, equipamentos, visto que o saber técnico cons-
titui instrumento de trabalho.
A divisão técnica e social do trabalho em saúde também está presente na equipe
de enfermagem, que é composta por diferentes categorias de trabalhadores, com
diferentes níveis de formação – enfermeiro, técnico de enfermagem e auxiliar de
enfermagem, que aplicam sua força de trabalho2 na transformação do objeto cons-
tituindo outro meio do trabalho. Enquanto os enfermeiros assumem, preponderan-
temente, a concepção do trabalho e o seu gerenciamento, os auxiliares e técnicos de
enfermagem assumem a sua execução e a assistência direta (CASTELLANOS et al.,
1989; SILVA, 1996; ALMEIDA e ROCHA, 1997; PEDUZZI e ANSELMI, 2002). Assim
sendo, a organização do trabalho de enfermagem é feita com base em atividades
realizadas de forma parcelada, fragmentada e rotinizada, nas quais estão presentes
a hierarquia, a disciplina e o autoritarismo (SILVA, 1996), pois as diferenças técni-
cas entre as atividades realizadas pela enfermeira ou pelo pessoal de nível médio
configuram-se, como já referido, em desigualdades concretamente vivenciadas pe-
los agentes no cotidiano do trabalho.
n Determinantes do Trabalho de Enfermagem
A enfermagem, enquanto prática social que se insere no mundo do trabalho e na
atenção à saúde, é marcada por determinações históricas, sociais, econômicas e
políticas.
A enfermagem moderna surge na Inglaterra, com Florence Nightingale, na se-
gunda metade do século XIX, quando se institucionaliza como área específica de
trabalho. Essa institucionalização ocorre, em um primeiro momento, dada a neces-
sidade de organizar os hospitais militares para o cuidado do corpo do soldado no
transcorrer da Guerra da Crimeia, porém respondendo a um projeto mais amplo
que se instalava na época, o projeto burguês expansionista, do qual fazia parte a
2Força de trabalho é um termo consagrado pela Economia Política e refere-se à capacidade de traba-
lho do trabalhador que é comprada no mercado de trabalho, como mercadoria. Assim, força de tra-
balho em saúde refere-se ao conjunto de pessoas vinculadas direta ou indiretamente à prestação de
serviços de saúde e sujeitas a uma relação de compra e venda dessa mercadoria especial constituída
pela capacidade de trabalho de cada um (NOGUEIRA, 1987:19).
4 OTrabalho Gerencial em Enfermagem
necessidade social de recuperação da força de trabalho, imprescindível para a pro-
dução capitalista que se instalava (GOMES, 1997). Assim, a enfermagem respon-
deu ao projeto político-social da época, garantindo a sua inserção no processo de
trabalho em saúde, visto que o hospital estava sendo organizado como local de cura
(GOMES, 1997).
Segundo GOMES (1997), o trabalho de enfermagem organizou-se em três dire-
ções: no sentido de organizar o cuidado do doente, o que se deu pela sistematização
das técnicas de enfermagem; no sentido de organizar o ambiente terapêutico, por
meio de mecanismos de purificação do ar, limpeza, higiene e outros; e no sentido
de organizar os agentes de enfermagem, por meio do treinamento, utilizando as
técnicas e mecanismos disciplinares.
Depreende-se daí que a enfermagem moderna surge exercendo o gerenciamento,
pois assume tanto a organização do ambiente quanto a organização e treinamento
dos agentes de enfermagem. No que se refere à organização e execução do cuidado
do doente, atua formando duas categorias diferentes: as lady nurses, que executa-
vam as atividades de supervisão e ensino, e as nurses, que eram responsáveis pelos
cuidados propriamente ditos (GOMES, 1997). Assim sendo, a enfermagem constitui
um trabalho pautado na dimensão prática das técnicas e, também, na dimensão
prática do saber administrativo, o que se configura na gênese da divisão técnica e
social desses trabalhadores, à medida que ocorre uma separação entre a concepção
e a execução das atividades do cuidado (GOMES, 1997).
Por outro lado, no decorrer do século XIX, com o pleno desenvolvimento do ca-
pitalismo industrial, torna-se efetivamente difundida a gerência, como um instru-
mento desse modo de produção, que consolida a divisão técnica do trabalho (BRA-
VERMANN, 1987). Nesse contexto, o trabalho de enfermagem sofre as influências
da gerência científica inaugurada por Taylor no final do século XIX, incorporando
os princípios de controle, hierarquia e disciplina, dentre outros.
No século XX, sobretudo a partir dos anos 70, começam a ocorrer transformações
no mundo do trabalho, apoiadas na flexibilização dos processos e mercados de tra-
balho, dos produtos e padrões de consumo, que passam a configurar um modelo
produtivo flexível (ANTUNES, 1995). Essas transformações acontecem também no
setor saúde.
A enfermagem, enquanto prática que se insere no mundo do trabalho e na aten-
ção à saúde, estabelece vínculos com as leis sociais. Dessa maneira, o trabalho de
enfermagem, na atualidade, também sofre o impacto de uma globalização exclu-
dente e das políticas de recorte neoliberal (FELLI, 2002). Essas políticas, formula-
das a partir das concepções do Banco Mundial, concebem a saúde como um bem
privado que pode ser apropriado pelas pessoas de forma individual, considerando o
serviço público ineficiente por definição e por sua própria natureza, dada a escassez
dos recursos para esse setor (SOARES, 1997).
As políticas de recorte neoliberal impactam na assistência à saúde dos indiví-
duos, que são tolhidos do seu pleno exercício de cidadania, dadas as estratégias de
mercantilização dos serviços e os mecanismos de subsídios à demanda e à oferta
privada de serviços de saúde (SOARES, 2000). Essas políticas implicam também
mudanças no mercado de trabalho de saúde e de enfermagem (FELLI, 2002).
Essas transformações no mundo do trabalho impõem novas relações no mercado
de trabalho, marcadas sobretudo pela desregulamentação das relações de trabalho,
OTrabalho Gerencial em Enfermagem 5
novos mecanismos de gestão e a exigência de novos perfis profissionais. Esses per-
fis são caracterizados pela ampliação das dimensões intelectuais do trabalho e pela
polivalência e multifuncionalidade do trabalhador (PEDUZZI, 2003).
As estratégias de produtividade nesse cenário, segundo GOMES e THEDIM-
COSTA (1999:413), estão centradas no incremento das inovações tecnológicas como
elementos-chave para enfrentar a competição mundial, ou na realização de refor-
mas organizacionais, sem investimentos substanciais em novas tecnologias, com
o intuito de obter os mesmos resultados a custos mais reduzidos. Nesse contexto,
estabelecem-se contratos de trabalho precários, subcontratações em cascata con-
figuradas por uma externalização de riscos e responsabilidades, com redução de
salários e de empregos.
Esse quadro de reestruturação das empresas e dos sistemas produtivos acarreta
um pesado ônus, em última instância, na precariedade e na exclusão social, fontes
alimentadoras da violência atual. A precarização do trabalho atinge o conjunto da
sociedade de modo diferenciado, muitas vezes sob o eufemismo de novas formas
de trabalho, que aparentemente revelam um avanço nos parâmetros tradicionais
de exercício profissional, escondem a diminuição de postos de trabalho e a fragili-
dade de novos arranjos laborais, como a oferta de empregos de tempo parcial ou a
duração eventual; as limitações na absorção da força de trabalho jovem, inclusive
qualificada; a instabilidade e irregularidade ocupacionais; o subemprego e o de-
semprego recorrente, duradouro e sem perspectivas de inclusão no mercado for-
mal; as dificuldades de inserção da mão de obra não qualificada e os rendimentos
decrescentes para boa parcela das populações já empobrecidas (GOMES e THE-
DIM-COSTA, 1999:413).
Assim, o mercado de trabalho de enfermagem sofre o impacto dessa política so-
cial no que se refere ao emprego, ao salário e à jornada de trabalho (FELLI, 2002).
Um exemplo disso é a atual inserção dos trabalhadores de enfermagem no mercado
de trabalho por meio de cooperativas.3 Nas cooperativas, na maioria das vezes, os
trabalhadores, que não têm vínculo empregatício formal, também não têm garantia
dos direitos trabalhistas. Por outro lado, não recebem a sua parcela na divisão dos
lucros como estabelece o estatuto das cooperativas e, ainda, recebem baixos salários.
Essa prática tem contribuído para a precarização do trabalho de enfermagem, sobre-
tudo por meio da terceirização através da prestação de serviços por cooperativas.
n A Gerência como Processo de Trabalho: Conceitos e Dimensões
O trabalho de enfermagem, enquanto parte do trabalho coletivo em saúde, apre-
sentado anteriormente, realiza-se em diferentes instituições de saúde, sejam elas
públicas ou privadas, caracterizadas pela internação ou não dos indivíduos.
3As cooperativas estão ligadas, originalmente, à ideia de cooperativismo que iniciou na segunda me-
tade do século XIX, com a Revolução Industrial. Pode-se conceituar cooperativa de trabalho como
uma sociedade civil constituída por profissionais autônomos, com o objetivo de exploração de uma
atividade para prestar serviços a terceiros. Alguns autores referem que as cooperativas de trabalho
têm se tornado a principal forma de terceirização do trabalho em saúde, através da prestação de
serviços (CHERCHGLIA, 1999).
6 OTrabalho Gerencial em Enfermagem
Nessas instituições, nas quais predomina o processo de produção em saúde cen-
trado na finalidade de controlar as doenças em escala social e recuperar a força de
trabalho incapacitada, o trabalho de enfermagem configura-se como instrumento
do trabalho em saúde, atuando sobre o mesmo objeto e reproduzindo o modelo clí-
nico de organização desse processo, na medida em que se ocupa prioritariamente
do cuidado individual dos corpos (MENDES GONÇALVES, 1994).
O processo de trabalho de enfermagem particulariza-se em uma rede ou sub-
processos (SILVA, 1996) que são denominados cuidar ou assistir, administrar ou
gerenciar, pesquisar e ensinar. Cada um destes pode ser tomado como um proces-
so à parte com seus próprios elementos (objeto, meios/instrumentos e atividade) e
podem ou não coexistir em determinado momento e instituição. Nesses diferentes
processos, os agentes, ou seja, os trabalhadores de enfermagem, inserem-se de for-
ma heterogênea e hierarquizada, expressando a divisão técnica e social do trabalho
(SILVA, 1996).
Como foi apresentado anteriormente, vários estudos mostram a existência de
uma divisão de trabalho no interior da equipe de enfermagem, segundo a qual ca-
bem ao pessoal de enfermagem de nível médio, majoritariamente, as atividades
assistenciais e, ao enfermeiro, as ações de gerenciamento do cuidado e da unidade.
Especificamente sobre o trabalho do enfermeiro, evidencia-se que as intervenções
desse agente concretizam dois diferentes processos de trabalhos: o processo cuidar
e o processo administrar, com a primazia do último, como já apontado.
Em parte a predominância do processo de trabalho gerencial do enfermeiro pode
ser compreendida pelo número escasso de profissionais na composição da força
de trabalho, visto que representam apenas 14,4% do total de trabalhadores de en-
fermagem no País, que é de 1.243.804 trabalhadores [178.546 (14,4%) enfermeiros,
466.985 (37,5%) técnicos de enfermagem e 598.273 (48,1%) auxiliares de enferma-
gem], segundo dados do Ministério da Saúde (Brasil, 2008) Brasil. Ministério da
Saúde, rede interagencial de informações para saúde (RIPSA). Indicadores e Da-
dos Básicos 2008 (IDB-2008). Indicadores demográficos [base de dados na internet].
Brasília; 2008. [citado 2009 dez. 05]. Disponível em: http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/
idb2008/matriz.htm. Esse quantitativo representa um grande contingente, embora
ainda insuficiente para a atenção integral às necessidades de saúde da população.
Por outro lado, expressa o processo de divisão do trabalho, que separa os momentos
de concepção e gerenciamento daqueles de execução das atividades de cuidado.
No processo de trabalho gerencial, os objetos de trabalho do enfermeiro são a
organização do trabalho e os recursos humanos4 de enfermagem. Para a execução
desse processo é utilizado um conjunto de instrumentos técnicos próprios da ge-
rência, ou seja, o planejamento, o dimensionamento de pessoal de enfermagem, o
recrutamento e seleção de pessoal, a educação continuada e/ou permanente, a su-
pervisão, a avaliação de desempenho e outros. Também se utilizam outros meios ou
instrumentos, como a força de trabalho, os materiais, equipamentos e instalações,
além dos diferentes saberes administrativos.
4Recursos humanos é expressão advinda do campo da administração e subordina-se à ótica de quem
exerce algum tipo de função gerencial ou de planejamento, tanto no âmbito micro como no ma-
croinstitucional. Utiliza-se o conceito de recursos humanos, portanto, no sentido de administrar
esse recurso específico que executa as atividades de trabalho (NOGUEIRA, 1987:13).
OTrabalho Gerencial em Enfermagem 7
A gerência tomada enquanto processo de trabalho de enfermagem pode ser apre-
endida por dois grandes modelos: o primeiro com foco no indivíduo e nas organi-
zações, denominado modelo racional; e o segundo centrado na abordagem das prá-
ticas sociais e sua historicidade, ou seja, o modelo histórico-social.
O modelo racional corresponde ao enfoque predominante nos estudos e na prá-
tica do gerenciamento de enfermagem e está fundamentado na Teoria Geral da
Administração – TGA. Nesse modelo, a tarefa atual da administração é “interpretar
os objetivos propostos pela organização e transformá-los em ação organizacional
através do planejamento, organização, direção e controle de todos os esforços reali-
zados em todas as áreas e em todos os níveis da organização, a fim de alcançar tais
objetivos da maneira mais adequada à situação” (CHIAVENATO, 1985). Assim, os
pressupostos que norteiam o gerenciamento nesse enfoque são os tayloristas com
suas abordagens, tanto prescritivas e normativas quanto explicativas e descritivas
(FELLI, 2002). Segundo CAMPOS (1994), a essa abordagem é atribuída a existên-
cia de um objetivo geral que é perseguido por todos os segmentos da organização,
deixando de evidenciar as constantes disputas em torno de objetivos corporativos,
limitando, portanto, a capacidade de intervenção na realidade. Trata-se de um mo-
delo centrado na organização.
Esse modelo de gerenciamento está voltado para a produção em massa, na qual
os produtos são hegemônicos; ocorre o controle de tempos e movimentos e produ-
ção em série; o trabalho é parcelado e fragmentado por funções, há cisão entre a
concepção e a execução do trabalho; as unidades de trabalho são verticalizadas e o
trabalho coletivo é alienado. Dessa forma está fundamentado em teorias do início
do século XX, de Taylor, Fayol e Ford, e responde às necessidades de estabilidade,
crescimento contínuo e de um futuro previsível.
Esse modelo sozinho, na maioria das vezes, não dá conta da dinamicidade que
caracteriza as organizações, na atualidade, porque é lento, reativo e mecanicista.
Nessa perspectiva racional, a premissa é de que as organizações existem e se jus-
tificam para atingir objetivos e que os processos podem ser, antecipadamente, pro-
gramados, analisados e controlados, conferindo a capacidade de eliminar riscos e
incertezas (FELLI, 2002). Outros autores avançam nesse modelo, mas não superam
as concepções nucleares da abordagem advinda da TGA, como MOTTA (1998), que
concebe o gerenciamento com uma vertente racional e outra intuitiva, quando refe-
re que “... a arte de pensar, de decidir e de agir; é a arte de fazer acontecer, de obter
resultados. Resultados que podem ser definidos, previstos, analisados e avaliados,
mas que têm que ser alcançados através das pessoas e numa interação humana
constante”. O autor assinala que a vertente racional enfatiza a análise e as relações
de causa e efeito, para prever e antecipar ações de forma mais consequente e efi-
ciente, conferindo capacidade analítica. Por outro lado, a vertente intuitiva da ge-
rência aceita a existência de uma face de imprevisibilidade e de interação humana
que lhe confere a dimensão do ilógico, do intuitivo, do emocional, do espontâneo e
do irracional, conferindo capacidade para pensar e julgar para melhor decidir e agir
(MOTTA, 1998).
Assim, no enfoque da TGA, o gerenciamento avança da racionalidade para a
flexibilidade, ao responder aos modelos e às finalidades do capitalismo avançado,
inaugurados com a globalização e direcionados pelas políticas de recorte neoliberal
(FELLI, 2002).
8 OTrabalho Gerencial em Enfermagem
No gerenciamento, fundado na flexibilidade, a produção é voltada e conduzida
pela demanda, é variada, diversificada e pronta para suprir o consumo, que deter-
mina a produção; sustenta-se na existência de um estoque mínimo e do melhor
aproveitamento possível do tempo de produção e num processo produtivo flexível,
em que o trabalhador é polivalente. O trabalho é realizado em equipe, na qual a
horizontalização é privilegiada. Há flexibilização da organização do trabalho e agili-
dade na adaptação dos instrumentos. Assim, é presente a concepção de que, diante
dos avanços tecnológicos e da globalização, as mudanças são rápidas, a realidade é
dinâmica e a organização precisa ser flexível para responder em tempo real à im-
previsibilidade.
A flexibilização é o que fundamenta os programas de qualidade que estão sendo
implementados nas instituições de saúde, onde se observa, como consequências, a
redução da estrutura hierárquica, dos postos de trabalho e a intensificação do ritmo
do trabalho de enfermagem, denotando a sua real intencionalidade, que é a geração
de lucratividade (FELLI, 2002).
Outra abordagem que permite apreender o gerenciamento é a das práticas sociais
ou modelo histórico-social. Nesse modelo, o gerenciamento é apreendido a partir
da perspectiva das práticas de saúde, historicamente estruturadas e socialmente
articuladas, buscando responder às contradições e tensões presentes no cotidiano
dos serviços. Nesse sentido, a gerência não está voltada apenas para a organização
e o controle dos processos de trabalho, mas também para a apreensão e satisfação
das necessidades de saúde da população, o que requer tomar em consideração a
democratização das instituições de saúde e a ampliação da autonomia dos sujeitos
envolvidos nos processos de cuidado – usuários e trabalhadores.
A gerência dos serviços de saúde, em vez de fator principal necessário à conse-
cução do objetivo único, seria definida como subordinada à política predominante
em determinado período (CAMPOS, 1994). O processo de gestão é definido “... como
instrumento necessário, mas não suficiente, à implementação de políticas elabora-
das, por sua vez, a partir dos interesses diversos ou até mesmo contraditórios de
forças sociais ou vinculadas à produção de serviços e insumos do setor saúde, ou às
interessadas na manutenção e reprodução do modelo econômico e político vigente,
ou aos usuários do sistema de saúde” (CAMPOS, 1994). Assim, conclui o autor que,
se a gerência é um instrumento importante para a efetivação de políticas, é, ao mes-
mo tempo, “condicionante do” e “condicionada pelo” modo como se organiza a pro-
dução de serviços de saúde. É ao mesmo tempo produto de determinado contexto e
criador desse mesmo contexto, tornando o processo de gestão permeável à influên-
cia dos diferentes sujeitos sociais interessados em diversas políticas de saúde.
CASTANHEIRA (2000) também refere que a gerência é investida de um papel
institucional de tradutora de políticas públicas e/ou privadas, a depender da nature-
za jurídica do serviço, e que a essa dimensão política do gerenciamento articula-se
a necessidade de garantir que o produto do trabalho corresponda às finalidades de-
finidas, também, pelo projeto técnico de saúde. Ou seja, segundo a autora, o papel
mediador da gerência busca traduzir reciprocamente essas duas ordens de deter-
minação técnico-política.
A ação gerencial, segundo MISHIMA et al. (1997), não prescinde do homem em
suas relações com outros homens e da subjetividade presente nesse processo, bem
como suas determinações. Segundo as autoras, a gerência que emerge com o sur-
OTrabalho Gerencial em Enfermagem 9
gimento do capitalismo e do trabalhador coletivo responde à “necessidade de uma
instância ou função que se responsabiliza pela integração das atividades, na busca
da unidade do processo de trabalho” (MISHIMA et al., 1997). Nesse sentido, MARX
(1982) é lembrado ao referir que “todo trabalho diretamente social ou coletivo, exe-
cutado em grande escala, exige com maior ou menor intensidade uma direção que
harmonize as atividades individuais e preencha as funções gerais ligadas ao mo-
vimento de todo o organismo produtivo, que difere do movimento de seus órgãos
isoladamente considerados. Um violinista isolado comanda a si mesmo; uma or-
questra exige um maestro”.
Nesse contexto, a gerência em saúde é uma atividade meio, cuja ação central está
posta na articulação e na integração, que, ao mesmo tempo, possibilita a transfor-
mação do processo de trabalho e implica a sua transformação mediante as determi-
nações presentes no cotidiano das organizações (MISHIMA et al., 1997).
A gerência, dessa forma, configura-se como ferramenta do processo cuidar e
pode ser apreendida como um processo de trabalho específico e decomposta em
seus elementos constituintes.
Segundo CASTELLANOS et al. (1989), o processo de trabalho de gerência na prá-
tica de enfermagem está orientado por uma finalidade imediata, que é organizar o
trabalho, e mediata, de desenvolver condições para a realização do processo cuidar
individual e coletivo. Nessa análise, os autores referem como objeto de trabalho
a organização da assistência e a educação continuada dos trabalhadores, e como
meios e instrumentos, a força de trabalho, os materiais, os modelos e métodos ad-
ministrativos (CASTELLANOS et al., 1989).
Diante da finalidade de organizar a assistência para favorecer o processo cuidar,
individual e coletivo, a transformação operada no processo de trabalho gerencial
10 OTrabalho Gerencial em Enfermagem
incide, prioritariamente, sobre os trabalhadores enquanto objeto do trabalho. Os
meios e instrumentos de que se utiliza a gerência nesse processo são as institui-
ções de saúde, os agentes do trabalho, os saberes administrativos e suas ferramen-
tas, tais como o planejamento, a coordenação, o controle e a direção, dentre outros
mais específicos. Vale destacar que as atividades, próprias do trabalho gerencial,
são organizadas de determinada forma, em que está presente a rotinização e a nor-
matização; a hierarquia, o controle e a autoridade; a divisão do trabalho por catego-
ria de trabalhadores, por turnos, por atividades etc. (SILVA, 1996).
O processo de trabalho gerencial apreendido da perspectiva das práticas de
saúde socialmente estruturadas tem um papel fundamental na construção de um
modo de fazer saúde voltado para a necessidade de saúde. No exercício desse papel
e pautadas na articulação e integração, quatro dimensões são inerentes à atividade
gerencial, segundo ALMEIDA et al. (1994): técnica, política, comunicativa e de de-
senvolvimento da cidadania.
A dimensão técnica refere-se aos aspectos mais gerais e instrumentais do próprio
trabalho, tais como o planejamento, coordenação, supervisão, controle e avaliação,
tanto no que diz respeito aos recursos humanos como aos recursos materiais e físi-
cos (equipamentos e instalações). Segundo MISHIMA et al. (1997) “... a dimensão
técnica, calcada na racionalidade instrumental, diz respeito aos conhecimentos e
habilidades necessários à consecução dos objetivos colocados pelo projeto que se
almeja atingir...”.
A dimensão política é aquela que articula o trabalho gerencial ao projeto que se
tem a empreender. Nesse movimento estão presentes as determinações de caráter
político-ideológicas, econômicas, assim como as marcadas pelas organizações cor-
porativas e pelos distintos tipos de usuários dos serviços de saúde. Implica a articu-
lação das determinações externas ao momento mais interno do processo de traba-
lho, que dizem respeito às políticas sociais e de saúde em específico e às contradi-
ções presentes na sociedade para a sua efetivação. Está implicada nessa dimensão
a distribuição dos diferentes tipos de poderes (técnico, administrativo e político)
existentes no setor saúde, conforme concebidos por Testa, numa relação dialética
entre objetivos e meios, ou seja, entre política e estratégia (MISHIMA, 1995).
A dimensão comunicativa diz respeito ao caráter de negociação presente no lidar
com as relações de trabalho na equipe de saúde e nas relações da unidade com a
comunidade. Essa dimensão está intimamente aderida ao conceito de ação comu-
nicativa, explicitado por INGRAN apud MISHIMA (1997): “a ação comunicativa se
dá quando duas ou mais pessoas procuram expressamente chegar a um acordo vo-
luntário de modo a poder cooperar. Embora pessoas que estejam inter-relacionadas
em outros tipos de ação possam comunicar-se para coordenar seus esforços, não é
necessário que o façam com o objetivo expresso de chegar livremente a um acordo
(...) a ação comunicativa (diferentemente) envolve um esforço explícito e concentra-
do de alcançar acordo sobre o espectro de reivindicações de validade (...) é sempre
uma possibilidade imanente.
A dimensão do desenvolvimento da cidadania implica tomar a gerência como
uma atividade que contém uma e está contida numa perspectiva de emancipação
dos sujeitos sociais, quer sejam eles os agentes presentes no processo de trabalho,
ou os clientes que utilizam os serviços de saúde.
OTrabalho Gerencial em Enfermagem 11
Assim, a ênfase nas organizações ou nas necessidades de saúde orienta formas
distintas de gerenciamento operadas em enfermagem, implicando formas também
diversas de organização desses trabalhos, que são determinantes da assistência de
enfermagem prestada à população, bem como de sua qualidade. Por outro lado,
faz-se necessário destacar que a opção por uma forma ou outra de organização do
trabalho não é isoladamente uma escolha individual ou institucional, mas está de-
terminada por condicionantes históricos e suas múltiplas mediações, tais como as
políticas sociais e de saúde, os modelos assistenciais, as condições de trabalho e
outros.
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Ética e Gerenciamento
em Enfermagem
MARIA CRISTINA KOMATSU BRAGA MASSAROLLO
E MARIA DE FÁTIMA PRADO FERNANDES
2
13
n Introdução
A adoção de uma postura ética, para muitas empresas, está relacionada à possibili-
dade de sobrevivência (manutenção da imagem e da confiança pública na reputa-
ção da empresa e prevenção dos altos custos impostos pelos escândalos), podendo
vir a ser, inclusive, uma vantagem diferencial entre elas (NASH, 2001; SROUR,
2000). A ética deve ser considerada como parte essencial da política da organização
e imprescindível para o seu desenvolvimento e crescimento, uma vez que a opção
por valores que humanizam o processo de trabalho e a relação com os clientes traz
benefícios para a própria empresa e para a sociedade.
Nas instituições de saúde, essa preocupação vai além, uma vez que o foco da
atenção são pessoas, que necessitam de assistência, e a natureza da atividade de-
senvolvida pode provocar consequências irreversíveis, e até fatais, quando realiza-
das inadequadamente. Acresce-se a essa situação o contexto de recursos humanos,
materiais, físicos e financeiros acentuadamente limitados, em que as condições de
trabalho nem sempre são as mais favoráveis, sendo a assistência, muitas vezes,
prestada numa situação de risco, tanto para a clientela quanto para os profissionais.
Devem ser lembradas, ainda, as inúmeras situações de desrespeito aos direitos dos
usuários pelas ações e serviços de saúde nas instituições.
14 Ética e Gerenciamento em Enfermagem
Essa constatação deixa patente que o gerenciamento, como função integrante
das instituições de saúde, envolve uma dimensão ética, uma vez que as decisões
nesse âmbito não afetam somente o serviço onde a decisão foi tomada, mas a ins-
tituição, os trabalhadores, os usuários, os familiares e a comunidade. Como refere
SROUR (2000), as decisões gerenciais não são inócuas ou isentas, pois carregam um
enorme poder de irradiação pelos efeitos que provocam nos agentes do ambiente
interno e externo, que mantêm vínculo com a organização, evidenciando que as
questões éticas são inerentes ao processo administrativo.
Nas instituições de saúde, ainda, outros fatores concorrem para a evidência da
dimensão ética do gerenciamento: o reconhecimento do poder de interferência dos
profissionais de saúde na vida dos usuários dos serviços; o surgimento de novas
realidades decorrente dos intensos avanços científicos e tecnológicos, que trazem
muitos benefícios para a humanidade e, também, muitos conflitos; a pluralidade
moral existente na sociedade, não havendo normas únicas para resolver as diver-
sas situações; as características da clientela, em especial a condição vulnerável dos
usuários dos serviços de saúde; e a precariedade do sistema de saúde, que acarreta
dificuldades de acesso e provoca deficiências na assistência. Entretanto, para que
haja a valorização das questões éticas no gerenciamento, é imprescindível reconhe-
cer que elas existem e qual o seu significado nesse contexto.
n Fundamentos para as Tomadas de Decisões Éticas
Na ação administrativa surgem dilemas éticos, que podem ser entendidos como
a necessidade de escolha entre duas ou mais alternativas, igualmente desejáveis
ou indesejáveis, requerendo, para isso, reflexão, ponderação e discussão. Para os
dilemas não há respostas prontas, condutas preestabelecidas ou valores absolutos,
fazendo com que as decisões sejam tomadas mediante a análise de cada situação.
Uma reflexão ética indaga criticamente sobre a consistência e coerência dos va-
lores que norteiam as ações e busca sua fundamentação, para que elas tenham
significado autêntico nas relações sociais (RIOS, 1995). A tarefa da ética é a procura
e o estabelecimento das razões que justificam “o que deve ser feito” e não “o que
pode ser feito”. A ética pode ser considerada como uma questão de indagação e não
de normatização do que é certo e do que é errado. Os atos éticos devem ser livres,
voluntários e conscientes (RIBEIRO, 1996). Assim, ética é a reflexão crítica sobre o
comportamento humano, no sentido de interpretar, discutir e problematizar os va-
lores, os princípios e as regras morais, à procura do “bom” para a vida em sociedade
(ZOBOLI e FORTES, 2002).
Uma ética pensada para todos os homens é uma abstração, pois cada cultura,
cada raça, cada grupo e, até mesmo, cada pessoa têm a sua maneira própria de
compreender e articular o sentido da vida humana, evidenciando a existência de
diversos valores e princípios que justificam o posicionamento diante das diversas
situações (OLIVEIRA, 1995). Dessa forma, as questões éticas podem ser analisadas
sob diferentes perspectivas, para decidir se uma ação particular é adequada ou ina-
dequada.
Para a tomada de decisão ante aos dilemas éticos, além dos modelos teóricos para
processos decisórios, é aplicado um conjunto de valores e princípios para auxiliar na
Ética e Gerenciamento em Enfermagem 15
escolha da decisão a ser tomada. Esse conjunto, que é citado para justificar decisões
e que ajuda a explicar por que uma pessoa acredita que um ato é adequado e outro
inadequado, ou que um é melhor do que o outro, é embasado por teorias éticas.
Cada teoria defende uma perspectiva, e a maioria dos indivíduos, aparentemente,
adapta muitas delas à medida que interpreta dilemas éticos. Frequentemente, os
indivíduos mudam seus critérios, dependendo de estarem tomando decisões den-
tro ou fora do ambiente de trabalho (FERRELL; FRAEDRICH; FERRELL, 2001).
Podem ser citadas duas correntes teóricas de tomada de decisão ética: a teleoló-
gica e a deontológica (PALMER, 2002).
A corrente teleológica (do grego telos, “fim”) afirma que o juízo de valores se
baseia inteiramente nos efeitos produzidos por uma ação. Uma ação é considerada
desejável ou indesejável em relação às suas consequências. Estuda o valor moral
do comportamento examinando suas consequências. Pensar que atitude tomar e
quais serão suas consequências é pensar teleologicamente. A escolha da ação se dá
conforme as consequências sejam julgadas boas ou ruins (PALMER, 2002).
A corrente deontológica se concentra nos direitos e deveres do indivíduo e nas
intenções associadas a um dado comportamento, e não em suas consequências.
Para a corrente deontológica é fundamental a ideia de que todas as pessoas devem
ser tratadas com igual respeito. Os adeptos dessa teoria argumentam que há certas
coisas que não devem ser feitas, nem mesmo para maximizar a utilidade, e que a
retidão de uma ação não depende unicamente de suas consequências, já que há cer-
tos aspectos do ato em si que determinam se ele está certo ou errado. Outros creem
que deve levar em conta o “motivo” por trás do ato. Se a intenção da pessoa que pra-
tica o ato era prejudicar, então a ação é errada, independentemente de seus efeitos,
prejudiciais ou não (PALMER, 2002). Assim, a deontologia se concentra nos direitos
e deveres do indivíduo e nas intenções associadas a um dado comportamento, e não
em suas consequências (FERRELL; FRAEDRICH; FERRELL, 2001).
As diferentes respostas à pergunta ‘por que deve ser assim e não de outra for-
ma?’ abrem espaço para distintos enfoques éticos, que se diferenciam pelas ma-
neiras de compreender a moralidade e refletir acerca do dilema e adoção de um
posicionamento.
Serão destacadas quatro teorias a respeito da formação dos preceitos éticos: uti-
litarista, kantiana, contratualista e relativista (KANT, 1971; MOREIRA, 1999; OLI-
VEIRA, 1995; VASQUEZ, 1997; e VAZ, 1991).
1. Teoria utilitarista: visa o maior bem para o maior número de pessoas, enfati-
zando que devem ser tomadas decisões que resultem na maior utilidade social.
Analisa as consequências das alternativas possíveis e, em seguida, escolhe a que
produz maior utilidade, não sendo examinada cada situação particular. É a teoria
ética consequencialista, segundo a qual a obrigação moral é promover impar-
cialmente o bem-estar. Faz uma comparação de custos e benefícios no tocante às
partes afetadas. Baseia-se no critério do maior bem para a sociedade como um
todo.
2. Teoria kantiana: defendida por Kant, que propõe que o conceito ético seja extraí-
do do fato de que cada um deve se comportar de acordo com os princípios univer-
sais, conhecido como o princípio categórico de Kant. Esse princípio é imperativo
16 Ética e Gerenciamento em Enfermagem
porque se apresenta como uma obrigação; é categórico porque tal obrigação não
está dependente de quaisquer desejos da pessoa.
3. Teoria contratualista: entendida como uma espécie de acordo ou negócio insti-
tuído entre um grupo de pessoas. Parte do pressuposto que o ser humano assu-
miu com seus semelhantes a obrigação de se comportar de acordo com as regras
morais, para poder viver em sociedade.
4. Teoria relativista: teoria segundo a qual os fatos morais são relativos a socie-
dades particulares. Quando uma sociedade aprova uma prática e outra reprova,
não se pode dizer que uma delas tenha razão e a outra não. Segundo essa teoria,
cada pessoa deveria decidir sobre o que é ou não é adequado, com base nas suas
próprias convicções e concepções sobre o bem e o mal. Assim sendo, o que é ético
para alguns pode não ser para outros.
As questões éticas podem ser analisadas de diferentes perspectivas, para decidir
se uma ação particular é adequada ou inadequada. Adeptos das diferentes teorias
éticas podem discordar em suas avaliações de uma dada ação, mas todos estariam
se comportando eticamente, segundo seus próprios valores e crenças. Por exemplo,
dizer a verdade para um paciente fora de possibilidades terapêuticas. Diante dessa
questão, alguns profissionais consideram que ele tem direito e tudo deve ser dito,
enquanto outros manifestam-se contrários, prevendo as consequências “danosas”
que podem advir dessa revelação.
n Fatores que Interferem nas Tomadas de Decisões Éticas na Organização
Existem diversos fatores que influenciam a tomada de decisão organizacional: in-
dividuais, profissionais, organizacionais, ambientais, sociais, políticos, econômicos,
éticos e legais.
FERRELL, FRAEDRICH e FERRELL (2001) consideram como principais fato-
res que interferem nas tomadas de decisões éticas a identificação da gravidade da
questão ética, os aspectos individuais, a cultura organizacional, os terceiros signi-
ficativos e a oportunidade, que são fatores inter-relacionados e que interferem nas
avaliações éticas.
A gravidade da questão ética diz respeito à importância de que ela se reveste
para quem vai tomar a decisão. Assume caráter pessoal e temporal, no sentido de
serem levados em conta valores, crenças, necessidades, características especiais da
situação e pressões pessoais ante as situações que se apresentam, influenciando a
dimensão da sensibilidade. Por esse motivo, as questões éticas podem ser interpre-
tadas de maneiras diferentes por diferentes indivíduos.
NASH (2001) refere a necessidade das pessoas adquirirem habilidade para reco-
nhecer e articular o componente ético de um problema, complementando que nem
sempre a questão ética é identificada, pois, muitas vezes, as pessoas não param
para pensar na presença dessa questão nas diferentes situações.
Por outro lado, a ocorrência frequente de infrações éticas gera o perigo das pes-
soas, organizações e sociedade se surpreenderem cada vez menos com esses acon-
tecimentos, perdendo a capacidade de indignação e passando a não avaliar adequa-
Ética e Gerenciamento em Enfermagem 17
damente a gravidade da situação. Outro grande risco é quando se começa a esperar
que as pessoas tirem proveito das oportunidades para obter benefícios particulares,
ajam irresponsavelmente e abusem de seu poder, passando essas situações a serem
vistas como naturais.
Os fatores individuais comportam, dentre eles, a idade, o sexo, as metas, os
interesses, as necessidades e o conjunto de valores, crenças e convicções pessoais.
Esse conjunto de valores, crenças e convicções, assumidos por meio do desenvol-
vimento cultural e social, e, portanto, podendo mudar de pessoa para pessoa e na
mesma pessoa ao longo do tempo, são de importância crucial nas tomadas de deci-
sões éticas. Isso ajuda a compreender as tomadas de decisões éticas de uma pessoa
na organização e, ainda, explica por que as pessoas tomam decisões diferentes em
situações semelhantes. Nas organizações, esse conjunto pode ser influenciado tam-
bém pela cultura organizacional e, principalmente, pela sensibilização relativa à
dimensão ética.
Assim, as pessoas podem ser culturalmente diferentes e ter valores distintos; po-
dem, ainda, interpretar diferentemente as situações e diversificar em suas decisões
concernentes às mesmas questões éticas, demonstrando que podem usar diferen-
tes enfoques para tomar decisões.
A cultura organizacional pode ser concebida como um conjunto de valores, con-
vicções, objetivos, normas, rituais e maneiras de resolver problemas compartilha-
dos por seus membros.
Como a cultura reflete os objetivos e valores da instituição, ela tem um papel fun-
damental, pois, quanto mais valorizada a dimensão ética na cultura da organização,
mais provável a valorização dessa dimensão por seus membros. Por conseguinte,
a reação da organização, nem sempre efetiva e eficaz frente aos casos de infrações
éticas, faz com que muitos considerem que seja um aspecto que não mereça aten-
ção no desenvolvimento de suas ações.
Muitas vezes, os funcionários esforçam-se para cumprir as políticas e regras da
instituição, mas, se a instituição não explicita quais são, o que é esperado do fun-
cionário e, também, não promove nenhum tipo de sensibilização para a dimensão
ética da atuação, alguns não cumprirão as regras institucionais por não terem o
esclarecimento das condutas adequadas. Nesse sentido, é importante que sejam
explicitados quais são os valores da instituição, no tocante a esse aspecto, uma vez
que, se a organização não define e não informa quais são as condutas esperadas,
cada indivíduo estabelece as suas. Assim, deve haver a preocupação da organização
em promover e manter a sensibilização para a dimensão ética da atuação profissio-
nal, possibilitando que comportamentos éticos sejam a prática corrente na insti-
tuição.
Outro elemento bastante imbricado com a cultura organizacional e que exerce
grande interferência na ética organizacional é o poder. Exercer poder é uma das
maneiras de influenciar as decisões, incluindo as de cunho ético. O status e o poder
de membros da organização relacionam-se diretamente com o volume de pressão
que podem exercer sobre os subordinados, para que se conformem às suas expec-
tativas. Uma pessoa em posição hierárquica superior pode exercer pressão sobre os
subordinados para que cumpram suas ordens, mesmo quando os valores dos subor-
dinados colidam com os seus. Embora o poder em si não seja ético nem antiético,
seu uso pode criar conflitos dessa natureza.
18 Ética e Gerenciamento em Enfermagem
Os terceiros significativos são aqueles que exercem influência sobre o indivíduo
ou grupo de trabalho, tais como colegas, outros profissionais, superiores, subordi-
nados, dentre outros, e que produzem forte impacto nas decisões dos trabalhadores
no dia a dia. A pessoa que convive muito próximo de quem não valoriza a assunção
de condutas éticas tem maior probabilidade de agir do mesmo modo no seu coti-
diano. Na verdade, acredita-se que terceiros significativos podem mudar o sistema
de valores inicial do indivíduo, e essa mudança, seja temporária ou permanente,
parece mais pronunciada quando o terceiro significativo é um superior hierárqui-
co. Além disso, elementos de posições hierárquicas mais elevadas podem produzir
um efeito negativo na conduta ética dos subordinados quando dão maus exemplos
ou deixam de fazer a supervisão. Outro aspecto a ser considerado é a pouca expe-
riência da pessoa no âmbito profissional, pois, quanto menos experiente, maior a
possibilidade de ser influenciada.
A oportunidade diz respeito às circunstâncias que podem impedir ou incentivar
a conduta ética. Relaciona-se com o contexto imediato do trabalho do indivíduo:
onde trabalha, com quem trabalha e a natureza do trabalho. Algumas vezes, a cul-
tura da organização propicia a oportunidade quando ‘apoia’ decisões tomadas com
a finalidade de aproveitar possibilidades de maximizar benefícios para a organi-
zação. A reação da organização, de estímulo, indiferença ou repressão ao compor-
tamento dos indivíduos, pode incentivar ou inibir a repetição do mesmo tipo de
comportamento.
Uma conclusão importante que emerge é que a tomada de decisão de natureza
ética não depende estritamente dos valores e crenças dos indivíduos, mas também
das organizações, que, através das suas culturas, constituem influência importante
sobre o comportamento dos seus membros.
NASH (2001) reforça a necessidade de ser assumido um posicionamento ético,
firme e claro pelos dirigentes da organização, explicitando a importância do respei-
to pelos outros da habilidade de reconhecer o lugar do outro e do senso de compro-
misso com as pessoas (honestidade, justiça, cumprimento da palavra). Acrescenta
que esses aspectos não derivam de um cálculo teórico, mas sim de traço de caráter
pessoal.
n A Ética no Gerenciamento e a Responsabilidade
O comportamento ético dos profissionais concretiza-se na medida em que estes
contam com a sustentação dada pela cultura da organização e a consonância no
desenvolvimento do trabalho técnico. Por outro lado, a conduta dos dirigentes não
pode justificar as atitudes inadequadas nem a passividade dos profissionais diante
das situações (CAMPOS, 1994). A assunção de posturas éticas na atuação profissio-
nal conduz à identificação de responsabilidades em diversos âmbitos, dentre eles
o individual, o grupal e o organizacional. As instituições precisam discutir qual a
responsabilidade de cada profissional, de cada equipe, de cada serviço e a da pró-
pria organização.
A responsabilidade individual é inalienável a cada um pelo que faz. Todo o cui-
dado e sensibilidade são importantes para tomar uma decisão em uma organização,
Ética e Gerenciamento em Enfermagem 19
pois muitos são atingidos pelo modo como se processa a tomada de decisão e por
aquilo que se decide (LEISINGER e SCHMITT, 2001).
Falar em responsabilidade pressupõe, também, falar em liberdade, pois a liberda-
de é parceira inseparável da responsabilidade. A prática da liberdade exige mais do
que um olhar superficial e imaturo para realidade em que se vive. Exige um olhar
reflexivo e uma autonomia pessoal, porque o indivíduo que exerce a liberdade, res-
ponsabiliza-se pelos próprios atos, colocando como questão ética fundamental o
compromisso em relação à decisão tomada (PONCE, 2000). Nesse sentido, compre-
ender o que se passa no mundo depende do grau de maturidade de cada pessoa, de
como ela trabalha com as diferenças e os conflitos do cotidiano, bem como de outras
variáveis que estão contidas em sua história de vida (FERNANDES, 2001).
A ética supõe que as pessoas tenham liberdade e poder para considerar as dife-
rentes posições frente às situações que se apresentam, analisar os aspectos favorá-
veis e desfavoráveis das diferentes possibilidades de ação e fazer a escolha. Assim,
para a pessoa fazer uma escolha é importante ter, além do conhecimento da situa-
ção, dos valores e crenças presentes, ter também o conhecimento das normas jurí-
dicas e do código de ética profissional, uma vez que o desconhecimento não exime
da responsabilidade. Nas instituições de saúde, onde há comissões de ética, essas
podem ser solicitadas para dar suporte para a tomada de decisão que envolve aspec-
tos éticos. Quando essa consulta não for possível, é importante que a situação seja
discutida com pessoas que possam trazer contribuições para a análise, pois deve-se
evitar que o sistema de valores de uma pessoa coloque empecilhos ao exame de
todas as alternativas possíveis (MARQUIS e HUSTON, 1999). Por exemplo, diante
da recusa de um paciente de receber transfusão sanguínea devido à sua crença
religiosa, em situação de risco iminente de vida, não deve prevalecer a posição do
profissional, de não aceitação diante de tal situação, mesmo que ele considere a
recusa inaceitável.
A não assunção da responsabilidade pela organização pode dificultar ou impos-
sibilitar a postura ética do profissional. A organização, ao não prover condições que
dependem dela e, portanto, são de sua responsabilidade, para que o profissional
desenvolva suas atividades, respeitando direitos e princípios éticos, estará interfe-
rindo na postura ética do profissional.
n A Ética e o Contexto do Gerenciamento em Enfermagem
Gerenciar em enfermagem pressupõe a tomada de decisões, e esta depende do grau
de autonomia do gerente de enfermagem e como se dá a sua relação com as pessoas
e com a própria política da instituição, para desenvolver eticamente o seu processo
de trabalho. Nos serviços de enfermagem, também a cultura e o poder da organiza-
ção condicionam a forma de apreensão e de valoração dos acontecimentos, a partir
das relações que se estabelecem no cotidiano.
Deve-se ressaltar que o perfil do gerente e sua postura na tomada de decisões
afetam significativamente os resultados dessas decisões, principalmente no que
tange às inovações referentes à assistência, ao ensino e ao incentivo à pesquisa,
como também à abertura de novos espaços de atuação do enfermeiro.
20 Ética e Gerenciamento em Enfermagem
Muitas são as questões éticas relacionadas ao gerenciamento em enfermagem,
que, frequentemente, assume a dualidade entre aquilo que pode ser feito e aquilo
que deve ser realizado. Existem valores morais diversos, porém a prática da en-
fermagem depende dos recursos disponíveis para acessar as escolhas. Contudo,
muitas vezes há limites, e a deliberação diante do que fazer, do que é prioridade e
de menor risco fica condicionada a processos predeterminados, oriundos das con-
dições de trabalho.
Torna-se claro que a reflexão ética na prática profissional é um processo de apren-
dizagem permanente, que requer a participação dos envolvidos em determinada
situação, circunstância ou problema. Todos devem trabalhar as questões éticas em
suas atividades cotidianas.
Considerando, ainda, a ética e o gerenciamento em enfermagem, há grandes dile-
mas e desafios que são enfrentados no cotidiano. Uma situação bastante frequente
é o desrespeito aos direitos dos usuários dos serviços de saúde, apesar da existência
de instrumentos legais e deontológicos que respaldam esses direitos e dos debates
ocorridos sobre o tema. E aí reside a questão ética, que é a necessidade da convicção
pessoal e da adesão institucional a valores e princípios, traduzidos em medidas ad-
ministrativas para que esses direitos sejam respeitados, devendo ser identificado,
na cultura da instituição, qual o valor dado aos direitos dos usuários dos serviços
de saúde. Na prática profissional, principalmente em instituições hospitalares, o
enfermeiro tem diversas oportunidades de facilitar e manifestar o respeito pelos
direitos dos pacientes (TREVIZAN et al., 2002). Uma questão que se apresenta é o
quanto a obediência às normas e rotinas institucionais prevalece sobre o respeito
aos direitos dos usuários.
Na prática assistencial, uma ocorrência comum é o não reconhecimento, por
parte dos profissionais, da autonomia dos usuários dos serviços de saúde, que se
refere ao poder da pessoa de tomar decisões relativas à sua saúde, seu bem-estar,
seu tratamento e, enfim, à sua vida, mediante seus valores, crenças, necessidades,
expectativas e prioridades. Liberdade e competência são condições fundamentais
para a manifestação da autonomia. Um dos fatores dificultadores é a assimetria de
poder existente entre os profissionais e os usuários. Nesse sentido, é preciso que os
profissionais não só reconheçam esse direito, mas também possibilitem a aquisição
de competência por esses usuários, através de estratégias que aumentem o poder
desse grupo vulnerável, para que as escolhas sejam feitas frente às possibilidades
oferecidas. A competência dos usuários poderá ser adquirida através dos esclareci-
mentos necessários para que eles possam tomar as decisões, inclusive às relativas
à prática de enfermagem. O reconhecimento da autonomia do paciente pressupõe,
também, a aceitação de que muitas vezes a decisão tomada pelo usuário poderá ser
diferente daquela que, possivelmente, o profissional tomaria.
Ao mesmo tempo em que ocorrem avanços científicos e tecnológicos tão inten-
sos, muitas vezes, na prática assistencial, vive-se o grande dilema e a angústia
de ter que decidir qual o paciente que, dentre os que precisam, vai ocupar o leito
disponível, ou, dentre os pacientes graves, qual receberá a única vaga da UTI. Os
parcos recursos da saúde impõem a situação de ter que decidir, com sérias implica-
ções éticas, como distribuir os recursos cada vez mais escassos para uma demanda
progressivamente maior. A decisão deve ser criteriosamente fundamentada, com a
participação das pessoas envolvidas.
Ética e Gerenciamento em Enfermagem 21
Uma outra preocupação existente no gerenciamento em enfermagem diz res-
peito ao risco de a assistência à saúde ser desumanizada e despersonalizada com
o crescente desenvolvimento e a incorporação tecnológica. Esse risco parece ser
maior nas instituições que têm como foco o paradigma técnico-científico, centrado
no conhecimento científico e na eficiência técnica, com a ênfase na tecnologia de
ponta e na especialização. Em instituições assim caracterizadas, observa-se a ten-
dência em tratar a doença e não a pessoa (MARTIN, 2003). Nesse sentido, não deve
ser permitido que o ser humano seja tratado como uma máquina a ser consertada,
sendo esquecidas suas dimensões psíquica, social, cultural e espiritual.
Uma situação que, com frequência, gera dilema aos profissionais, remetendo a
uma reflexão ética, é a assistência aos pacientes terminais, ou seja, aqueles pacien-
tes para os quais foram esgotadas as possibilidades terapêuticas para a cura ou para
o prolongamento da vida de forma digna. Com os avanços tecnológicos, torna-se
cada vez mais difícil o estabelecimento do limite de introdução de suportes, e enca-
minhar o doente para a unidade de terapia intensiva acaba se tornando uma atitude
automática. A conduta de não intervir dificilmente é tomada tranquilamente diante
dessa realidade. A preocupação da enfermagem deve ser a de manter a dignidade,
a tranquilidade e o alívio do paciente até o final de seus dias.
Para o enfrentamento dessas situações, muitas vezes são necessários posiciona-
mentos nos quais existem conflitos de valores, prioridades diferentes e compromis-
sos diversos relacionados ao indivíduo, à família, à sociedade e à profissão. Muitas
dessas questões éticas, que frequentemente expressam profundos dilemas, não
têm uma resposta pronta, que possa ser encontrada nos códigos de ética ou nas leis
(DAVIS, 1999), requerendo reflexão e discussão ética que permitam uma tomada de
decisão.
Outro enfoque que deve ser ressaltado, quando se trata de ética e gerenciamen-
to em enfermagem, é o referente à administração de recursos humanos, pois os
vários instrumentos do processo de trabalho “administrar” (dimensionamento, re-
crutamento, seleção e distribuição de pessoal, educação continuada, supervisão e
avaliação de desempenho) englobam uma dimensão ética e podem apresentar im-
plicações nessa esfera, quando não implementados adequadamente.
n Considerações Finais
As questões éticas fazem parte do cotidiano do gerenciamento em enfermagem.
O conhecimento da situação, o uso dos instrumentos éticos e legais e o reconheci-
mento dos valores, crenças e convicções presentes nas situações propiciam que as
tomadas de decisões sejam respaldadas por preceitos éticos, fortalecendo o com-
promisso profissional. Os profissionais de enfermagem devem adotar uma postura
ética e, de modo reflexivo, devem buscar conhecimento, trabalhando os dilemas e
conflitos éticos que emergem no processo de trabalho, e participar dos processos
decisórios.
Os profissionais tomarão decisões respeitando os princípios fundamentados na
ética, quanto mais reflexões e discussões éticas ocorrerem na prática profissional,
quanto mais participação houver no processo decisório, quanto mais valorização
22 Ética e Gerenciamento em Enfermagem
dessa dimensão houver na cultura do serviço e da organização e, consequentemen-
te, quanto maior a sensibilização das pessoas frente às questões éticas.
Assim, é desejável que os gerentes de enfermagem planejem, junto às suas equi-
pes, ações que viabilizem assunção de condutas éticas pelos profissionais.
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Cultura e Poder nas
Organizações de Saúde
PAULINA KURCGANT E MARIA CRISTINA KOMATSU BRAGA MASSAROLLO
3
23
Neste capítulo pretendemos tecer reflexões sobre dois elementos constitutivos
da estrutura de toda organização que objetiva a produção de bens ou a prestação de
serviços: a cultura e o poder. Esses elementos fazem parte da estrutura informal das
organizações e, assim, diferentemente dos elementos que constituem a estrutura
formal, como organogramas, regulamentos, manuais de técnicas e procedimentos,
não são explicitados ou visualizados de forma concreta e documental.
Como elementos da estrutura informal, perpassam toda a dinâmica organizacio-
nal, concretizando-se nas relações interpessoais, em que a subjetividade, a inter-
subjetividade, os valores e as crenças individuais, bem como os interesses parti-
culares e institucionais, constituem a argamassa que dá textura e, principalmente,
significado ao trabalho que ali se desenvolve. É também nesse contexto que está
alicerçada a missão da organização, bem como as políticas e propostas que regem
a dinâmica organizacional. Essas pontuações mostram a importância de conside-
rar, para o entendimento de uma realidade organizacional, tanto a estrutura formal
como a estrutura informal da organização.
Entretanto, como elementos abstratos e de difícil apreensão, a cultura e o poder
podem ter sua existência facilmente negada ou minimizada quando são tratados
problemas, dificuldades ou conflitos organizacionais. Por outro lado, quando con-
siderados como elementos integrantes das políticas e determinantes das práticas
24 Cultura e Poder nas Organizações de Saúde
institucionais, tanto podem ser adotados como ferramentas que ajudam a corrigir
os desvios e a propor alternativas mais adequadas à vida organizacional, como po-
dem ser usados como instrumento de força e de dominação.
Na verdade, para uma efetiva compreensão da realidade organizacional, há a ne-
cessidade de captar o maior número possível de elementos constitutivos, tanto da
estrutura formal como da informal, e de analisá-los de forma conjunta, ou seja, co-
locá-los em relação, analisando tanto os regulamentos, regimentos, organogramas
e manuais, como também os padrões culturais específicos e os processos e relações
de poder que determinam a dinâmica organizacional. De outra forma, pode haver
um reducionismo na leitura e assimilação dessa realidade.
Assim, parece ser necessário, num primeiro momento, o entendimento do que é
“cultura” para um melhor entendimento do significado de “cultura organizacional”
e a sua relação com “poder organizacional”.
Para antropólogos, a cultura pode ser vista como instrumento a serviço das ne-
cessidades biológicas e psicológicas dos seres humanos; como mecanismo adapta-
tivo-regulatório que une os indivíduos em estruturas sociais ou, ainda, como cogni-
ções compartilhadas. Na antropologia contemporânea de LÉVI-STRAUSS (1958) e
GEERTZ (1973), os homens vivem num universo de significados que decodificam
sem cessar e que estão longe de serem universais. A cultura fornece às sociedades
e às nações um referencial que permite aos homens atribuir um sentido ao mundo
em que vivem. Esse fenômeno é também denominado de Cultura Nacional. Uma
característica da cultura é que ela deve ter algum nível de continuidade. Entre-
tanto, segundo LÉVI-STRAUSS (1958), a existência de uma continuidade cultural
nada tem a ver com a evolução de uma sociedade. A cultura não é uma qualidade;
ela é um contexto, um sistema de relações.
Por outro lado, toda cultura é caracterizada por alguma forma de oposição. Um
exemplo disso é a cultura do perde/ganha, quando valores atribuídos ao ganhador
estimulam a competição em determinada área, mas, sem dúvida, como aspecto cul-
tural estarão estimulando a competição, estabelecendo critérios valorativos e deter-
minando posições hierarquizadas em outras áreas. A oposição aos valores culturais
vigentes é denominada contracultura e mobiliza outros interesses, gerando novos
elementos constitutivos da cultura.
Entre os sociólogos, uma corrente que analisa a cultura é a do interacionismo
simbólico. Para BERGER e LUCKMANN (1967) apud FLEURY e FISHER (1989),
exemplos dessa corrente, a realidade se impõe objetivada, ou seja, constituída por
objetos. O indivíduo percebe correspondência entre o significado que ele e outros
indivíduos atribuem a um mesmo objeto, isto é, existe o compartilhamento de um
senso comum sobre a realidade. Na sociedade contemporânea, um exemplo que sim-
boliza poder é a posse de objetos aos quais essa mesma sociedade atribui valores
de riqueza. Outro exemplo, nas organizações, é a existência, nas salas de reuniões, de
uma única cadeira de espaldar alto, simbolizando o poder do seu ocupante.
Assim, para esses autores, o universo simbólico integra um conjunto de signi-
ficados, atribuindo-lhes consistência, justificativa e legitimidade. O universo sim-
bólico permite aos membros de um grupo ter uma forma consensual de captar a
realidade, integrando os significados e viabilizando a comunicação.
Para fins de propostas gerenciais, é preciso reconhecer a cultura da organização,
uma vez que o desempenho dos recursos humanos constitui, sem dúvida, o elemen-
Cultura e Poder nas Organizações de Saúde 25
to determinante do sucesso ou insucesso de qualquer proposta. Por outro lado, são
as pessoas que viveram e que vivem o cotidiano organizacional que, interagindo,
criam e modelam a cultura organizacional.
Nesse sentido, as organizações, como partes constitutivas de uma totalidade so-
cial, compartilham do mesmo contexto cultural da sociedade em que estão inseri-
das, podendo ser consideradas como subculturas dessa sociedade e, assim, ser estu-
dadas a partir de traços das culturas nacionais. Entretanto, para fins de apreensão
e análise, uma subcultura organizacional pode ser considerada como uma cultura,
uma vez que as organizações são sistemas sociais artificiais e diferentes de outras
culturas.
SCHEIN (1992), pesquisador dessa temática, avançou na conceituação de cul-
tura organizacional, considerando-a como “um conjunto de pressupostos básicos
que um grupo inventou, descobriu ou desenvolveu ao aprender como lidar com os
problemas de adaptação externa e de integração interna e que funcionaram bem o
suficiente para serem considerados válidos e ensinados a novos membros como a
forma correta de perceber, pensar e sentir em relação a esses problemas”.
Para MORGAN (1996), administrador e estudioso dos fenômenos sociais nas or-
ganizações, deve-se tentar compreender o termo cultura como um processo con-
tínuo, pró-ativo da construção da realidade e que dá vida ao fenômeno da cultura
em sua totalidade. Quando assim compreendida, não é apenas uma variável orga-
nizacional, mas sim um fenômeno ativo, vivo, através do qual as pessoas criam e
recriam os mundos nos quais vivem.
FLEURY e FISHER (1989), estudiosas da cultura organizacional, analisando as
relações interpessoais nas organizações, acresceram ao significado de cultura or-
ganizacional a dimensão política, conceituando-a como “um conjunto de valores e
pressupostos básicos expressos em elementos simbólicos, que em sua capacidade
de ordenar, atribuir significações, construir a identidade organizacional tanto agem
como elemento de comunicação e consenso como ocultam e instrumentalizam as
relações de dominação”.
Assim, culturas, subculturas e contraculturas constituem um universo de valo-
res, crenças, pressupostos básicos, ritos, rituais, cerimônias, mitos, heróis, lendas e
outros símbolos que estabelecem e concretizam as relações e interações humanas
nas organizações.
n Conhecendo a Cultura Organizacional
De acordo com FLEURY e FISHER (1989), o processo de investigação da cultura
de uma organização coloca-se como uma categoria empírica metodológica impor-
tante para o desvelamento de aspectos formadores da identidade organizacional.
Entende-se por identidade organizacional os elementos da estrutura formal e in-
formal que caracterizam, que são peculiares, próprios de uma organização e que a
diferenciam de outras organizações.
SCHEIN (1992) considera que a cultura pode ser assimilada em diferentes níveis:
nível dos artefatos visíveis; nível dos artefatos que governam o comportamento das
pessoas; e nível dos pressupostos inconscientes. No âmbito dos artefatos visíveis
estão a divisão e a utilização da área física; a forma como as pessoas se vestem;
26 Cultura e Poder nas Organizações de Saúde
os padrões de comportamento adotados; os conteúdos documentais, enfim, tudo o
que é visível. Nesse nível, os artefatos são de fácil apreensão, mas de difícil com-
preensão, uma vez que a lógica que rege esses comportamentos não é facilmente
entendida. Ao nível dos valores que governam o comportamento das pessoas estão
as informações a respeito da organização, que podem ser obtidas através da análise
de documentos e de depoimentos de pessoas-chave da organização. Esses valores
relatados pelos sujeitos podem ser considerados apenas os valores manifestos da
cultura, ou seja, o que eles consideram ser o motivo de seu comportamento, po-
dendo ser, entretanto, idealizações ou racionalizações pessoais, embora as razões
subjacentes a esses comportamentos permaneçam ocultas ou inconscientes.
No âmbito dos pressupostos inconscientes estão os pressupostos que determi-
nam como as pessoas percebem, pensam e sentem. À medida que esses valores
compartilhados pelo grupo conduzem a determinados comportamentos, e esses se
mostram adequados para solucionar problemas, o valor é gradualmente transfor-
mado em um pressuposto inconsciente sobre como as coisas realmente são.
Assim, um grupo com a mesma capacitação tecnológica e desenvolvendo as mes-
mas atividades, no convívio contínuo, pode desenvolver cultura própria. Isso expli-
ca a presença de diferentes culturas, próprias de diferentes grupos profissionais in-
teragindo numa mesma organização. Segundo SCHEIN, o gerenciamento dos pro-
cessos de trabalho desenvolvidos por esses grupos é um desafio do gerenciamento
do século XXI, uma vez que esses grupos passam a usar linguagens diferentes, a
fazer de formas diferenciadas abordagens sobre o que é importante e a ter dificul-
dade em aceitar, como válida ou normal, a cultura de outros grupos.
Por outro lado, a presença de uma ideologia hegemônica, nas culturas organiza-
cionais, pode ser evidenciada nas práticas sociais e nas manifestações simbólicas
das organizações. Essa ideologia é que permite, a todos os membros da instituição,
uma articulação e coerência nas atividades que ali desenvolvem.
Ainda, para o desvelamento da cultura organizacional é interessante a recupera-
ção de como se deu a criação da organização e sua inserção no contexto político e
social da época. Os fundadores ou idealizadores de uma organização têm um papel
importante na construção da identidade organizacional, assumindo um papel míti-
co e imprimindo, muitas vezes, nessa construção, seus valores pessoais. O resgate
de momentos de crises, dificuldades, fracassos e sucessos também fornece elemen-
tos para a apreensão dos valores aceitos ou questionados pelos grupos. O processo
de socialização de novos membros da organização, quando resgatado, mostra muito
do universo simbólico. Os programas de treinamento dos novos membros reprodu-
zem esse universo simbólico através de conteúdos trabalhados e de estratégias de
integração do indivíduo à organização. A análise das políticas explícitas ou implí-
citas de recursos humanos, em seus processos de recrutamento, seleção, avaliação
de desempenho e de desenvolvimento de pessoal, assim como a organização dos
processos de trabalho, também fornece subsídios importantes para a captação da
cultura organizacional.
Os rituais, cerimônias, festas também mostram como se dão as relações no tra-
balho, quais os padrões de comportamento aceitos e quais são os valores e crenças
subjacentes aos fatos, datas e acontecimentos que são valorizados a ponto de serem
reproduzidos e comemorados.
Cultura e Poder nas Organizações de Saúde 27
A assimilação da cultura de uma organização, no entanto, não é tarefa fácil por-
que a cultura não é um fenômeno estático. A dimensão psicossocial da organização
é dinâmica, uma vez que cada membro dessa organização se transforma continua-
mente, percebendo, interagindo e modificando a realidade em que vive e atua. As-
sim, o sentir, o pensar e o agir individual estão perpassados de intenções e interes-
ses próprios de cada um. Esse universo particular, quando analisado coletivamente,
permite, além da apreensão da cultura da organização, a apreensão dos processos e
das relações de poder determinantes e imanentes da dinâmica organizacional.
n O Poder nas Organizações
A relação estreita entre cultura e poder pode ser entendida pelo caráter relacional
que também é atribuído ao poder nas organizações. Assim, como relação social, o
poder está profundamente imbricado com a cultura organizacional.
Nesse sentido, a cultura não pode ser entendida sem a incorporação dos atributos
do poder e dos mecanismos que ele utiliza. Nessa direção é importante considerar,
como poder político, desde o poder formalmente constituído pelo Estado e concreti-
zado nas ações dos aparelhos administrativos, até os poderes que são exercidos nos
diferentes âmbitos da vida social.
Nas organizações de saúde, a estrutura formal estabelece os níveis hierárquicos
dos serviços e dos agentes sociais, indicando, pelas diferentes posições no desenho
organizacional, as relações de poder entre os cargos.
O poder em uma sociedade feudal difere, no seu exercício, do poder exercido
em uma sociedade regida por um sistema político-social socialista. Consequente-
mente, os poderes exercidos nas organizações guardam as diferenças culturais das
sociedades em que essas organizações estão inseridas.
Conforme FOUCAULT (1985), o poder penetra no cotidiano da vida social “como
algo que funciona e se exerce em rede”. Considera que os indivíduos tanto exer-
cem o poder como sofrem os seus efeitos, comportando-se, assim, como centros de
transmissão do poder.
Dessa forma, o poder, assim como a cultura, concretiza-se nas relações e nas prá-
ticas cotidianas, extrapolando os limites da estrutura formal e de todo o aparato le-
gal. Contudo, o poder usa o aparato formal quando exercido nas práticas de coerção,
que garantem a coesão e o consensual necessários e suficientes aos grupos para a
continuidade das propostas e dos processos de trabalho.
Como os mecanismos de poder guardam os mesmos valores, crenças e ideologias
da cultura organizacional, também agem como elementos de manutenção do status
quo e como reforço da identidade organizacional.
Para SROUR (1998), cientista social, toda coletividade abriga diferenças sociais
e exige mediações para manter a convivência e organizar os interesses e atividades
coletivas. Essas mediações são atividades de gestão, traduzidas por processos de
controle, de articulação, de arbitragem e de deliberação; enfim, são políticas que re-
gem as atividades organizacionais restringindo, muitas vezes, de forma consentida,
ou não, a autonomia dos agentes sociais. Nesse contexto, o poder é concebido como
a capacidade de intervir sobre a vontade dos agentes sociais ou sobre seus interes-
ses e, também, como uma relação social e não apenas como uma posse unilateral.
28 Cultura e Poder nas Organizações de Saúde
Ainda para SROUR (1998), falar de poder é falar de uma relação de forças, mesmo
que assimétricas. Assim, nenhum agente está destituído de alguma parcela de po-
der, ou de contrapoder, que resiste e produz efeitos sobre o poder vigente.
Para PAGÈS (1987), as organizações, na determinação da forma e do conteúdo
das regras e princípios que regem as relações no seu interior, procuram apresentá-los
como uma necessidade, como ordem das coisas, acima da sua própria vontade. No
entanto, através deles procuram organizar as relações contraditórias entre os grupos
sociais existentes, assim como os conflitos oriundos a partir da lógica interna.
n A Cultura e o Poder nas Organizações de Saúde
A análise da cultura e do poder nas organizações de saúde é fruto da necessidade
de compreender melhor como se dão as relações de trabalho nessas organizações;
como se dão as relações indivíduo/organização, indivíduo/grupo, indivíduo/indiví-
duo, o relacionamento entre os diferentes grupos profissionais e o relacionamento
da organização, enquanto grupo culturalmente consensual com a sociedade que
abriga essa organização. As organizações de saúde, como também as organizações
que atuam em diferentes seguimentos do processo produtivo ou de prestação de
serviços, têm estruturas formais próprias. Entretanto, estruturas de organizações
pertencentes a um mesmo segmento do trabalho humano guardam semelhanças
entre si. Dessa forma, a missão dessas organizações, as atividades que ali são de-
senvolvidas, os recursos humanos e materiais adotados, bem como as demandas da
sociedade que justificam a existência dessas organizações, estabelecem um perfil
organizacional próprio de determinado segmento do trabalho humano.
As organizações de saúde, como um desses segmentos, têm como missão pre-
venir e curar doenças e reabilitar os indivíduos para que possam usufruir de bem-
estar físico, mental, espiritual e social e, assim, contribuir com o seu trabalho para
o bem-estar coletivo. Organizam-se de diferentes formas (hospitais, clínicas, servi-
ços, unidades básicas), com diferentes entidades mantenedoras (governamentais,
particulares, filantrópicas) ocupando um espaço essencial na sociedade, tanto para
os que usufruem de seus serviços, como para aqueles que nelas trabalham.
Dessa forma, qualificam-se como organizações prestadoras de serviços e caracte-
rizam-se por trabalhar, prioritariamente, com o elemento humano. Assim, o pacien-
te/cliente, a família do paciente/cliente e o pessoal que nelas trabalham constituem
tanto a matéria-prima essencial como também a mais importante ferramenta do
trabalho nelas desenvolvido.
Nessas organizações, o resgate da cultura e do poder, como categorias empíricas
de análise institucional, tem ocorrido como estudos, pesquisas acadêmicas ou a
nível discursivo. De um modo geral, a cultura e o poder têm sido pouco conside-
rados pelos chefes, gerentes ou administradores dos diferentes níveis formais da
estrutura como variáveis que influenciam e até determinam a tomada de decisões,
as propostas de mudanças institucionais, o gerenciamento de conflitos interpes-
soais e intergrupais e o gerenciamento do pessoal, desde sua entrada até a saída
da instituição. Acredita-se que uma das dificuldades na análise organizacional, ao
considerar como categorias empíricas de análise a cultura e o poder, é que essas
variáveis carregam forte componente emocional, exigindo de quem gerencia ca-
Cultura e Poder nas Organizações de Saúde 29
pacitação para trabalhar o diálogo existente entre a subjetividade e a objetividade,
sempre presentes nos processos relacionais.
Nessa direção, outro elemento importante é a valorização da dimensão humana e
a consideração para com os sentimentos presentes nas relações de trabalho. Exige
também, de quem gerencia, autoconhecimento, conhecimento do comportamen-
to humano, prontidão emocional para lidar com as diferenças de interesses e de
projetos e o efetivo envolvimento com o pessoal, resgatando seus valores, crenças,
hábitos, costumes, potencialidades, necessidades e expectativas que permeiam e,
até, determinam os relacionamentos.
Por outro lado, o conhecimento desses elementos obriga o gerente a ouvir o pes-
soal e a considerá-los nas suas decisões. Enfim, essa nova relação passa a exigir
formas mais participativas e compartilhadas de trabalho, o que, sem dúvida, obriga
a uma nova reflexão sobre as relações no trabalho e, inclusive, a mudanças de pa-
radigma. Embora, muitas vezes, esse novo conhecimento seja minimizado na sua
importância e considerado apenas como um conhecimento empírico, ou seja, sem
base científica e, assim, não fazendo parte do conhecimento considerado essencial
na formação dos profissionais de saúde, são esses conhecimentos, constitutivos da
capacitação ético-política, que dão consistência à formação de vínculos e de com-
promissos pessoais e institucionais. Esse resgate é paradoxal se levarmos em conta
que a formação de vínculos e a de comprometimento com o trabalho são valores
desejáveis e valorizados nas instituições de saúde.
Como consequência das mudanças valorativas e culturais, ocorrem transforma-
ções nos processos e nas estruturas de poder. Assim, as estruturas formais passam
a ter desenhos mais flexíveis, menos centralizadores, com o achatamento vertical
e alargamento horizontal dos níveis hierárquicos. Informalmente, o poder é redis-
tribuído e as relações de poder passam a ser mais igualitárias. Mais do que as mu-
danças na estrutura formal, são essas transformações, na estrutura informal, as que
constituem entraves para mudanças proativas, uma vez que o grupo que detém o
poder maior resiste a essas mudanças.
Sem dúvida, não se pode ignorar nem subestimar a eficácia dessas forças, uma
vez que essa instância detém o poder do uso dos instrumentos administrativos,
tanto no que se refere às pessoas como às coisas. Por outro lado, não se pode ignorar
também a importância das forças da contracultura e do contrapoder na transforma-
ção dessa realidade.
As forças de contracultura e de contrapoder são mais efetivas quando o grupo
que detém menor poder está capacitado ético-politicamente para perceber a reali-
dade de forma contextualizada. Assim, a tomada de consciência da importância de
cada um nos processos de trabalho; da necessidade de participação de todos nas
decisões que dizem respeito à vida na instituição; da necessidade de atualização
técnico-científica; da eficiência da responsabilidade compartilhada, bem como o
entendimento dos interesses e intencionalidades do grupo em oposição, são ele-
mentos integrantes de forças de contrapressão. A visão ingênua e linear da realida-
de permite o ocultamento ou a opacidade no resgate das reais intenções e interes-
ses dos grupos dominantes, o que reforça a manutenção do status quo.
Referendando essa percepção, MORGAN (1996) afirma que o poder é o meio atra-
vés do qual conflitos de interesses são, afinal, resolvidos. Considera que o poder
influencia quem consegue o que, quando e como.
30 Cultura e Poder nas Organizações de Saúde
A relação cultura/poder nas instituições de saúde são regidas por um forte apa-
rato disciplinar, que, em geral, é justificado pela responsabilidade que reveste as
atividades que ali são desenvolvidas. Entretanto, muitas vezes o controle, como
elemento sempre presente no gerenciamento em saúde, recai sobre os agentes que
desenvolvem essas atividades sob a égide da responsabilidade individual em detri-
mento da responsabilidade coletiva.
Assim, a obediência a horários preestabelecidos, a protocolos, procedimentos,
programas e propostas assistenciais, e a ênfase na responsabilidade individual pas-
sam a ter, além da importância própria da dimensão técnica, diferentes significados
de acordo com interesses dos grupos. Muitas vezes, a responsabilidade dos resul-
tados é igualmente compartilhada pelos diferentes níveis decisórios e agentes que
militam na instituição. Entretanto, o poder e a autonomia, compatíveis com essa
responsabilidade, nem sempre são igualmente compartilhados. Por isso, regula-
mentos, regimentos, normas, diretrizes e políticas são formalmente explicitados e
valorizados pelas instituições, tornando-se efetivo instrumental no gerenciamento
do pessoal.
Para FLEURY e FISHER (1989), a regulamentação é um instrumento eficaz de
poder, posto que define a “normalidade” em termos de comportamento. Dessa for-
ma, homogeneiza a todos, permitindo a classificação e a hierarquização.
Outro valor considerado nas instituições de saúde diz respeito à dimensão técni-
co-científica. Esse valor é compatível com a valorização que o mundo atual atribui
ao conhecimento científico, a saberes específicos e ao desenvolvimento e apropria-
ção de novas tecnologias. Assim, propostas grupais e institucionais, que visam a
capacitação e atualização técnico-científica dos agentes, são valorizadas tanto pelos
profissionais como pelas instituições.
Outro aspecto a ser pensado, na realidade do trabalho em saúde, é o convívio
com o sofrimento e a morte. Talvez a exagerada importância dada à tecnologia e a
banalização do sofrimento sejam formas de diminuir as cargas psíquicas decorren-
tes desse trabalho.
Por outro lado, todas as propostas de desenvolvimento e de capacitação técnico-
científica guardam um significado ético-político. Como já considerado neste capí-
tulo, a escolha de conteúdos programáticos, as diferentes estratégias adotadas, bem
como a avaliação dos resultados, não acontecem ao acaso, pois visam influenciar
e direcionar o desempenho humano na instituição. Programas de orientação para
recém-admitidos, além de orientá-los sobre direitos e deveres, função e atividades
específicas, missão e estrutura organizacional, resultam, muitas vezes, e de acordo
com os interesses do grupo de poder, em propostas modelares, ou seja, definidoras
dos comportamentos aceitos na instituição. Frequentemente, os agentes que ope-
racionalizam as propostas de capacitação o fazem de forma alienada, sem se darem
conta de que, subjacente às escolhas feitas nesse nível decisório, está a intenciona-
lidade de agentes de outros níveis decisórios para a conformação de comportamen-
tos desejados.
SEGNINI (1988), pesquisadora de cultura organizacional, reforça essa ideia ao
afirmar que a organização cria formas de controle social sobre seus funcionários
através do processo de treinamento.
Os eventos científicos que são organizados pelos profissionais da instituição, os
temas de estudos e pesquisas que ali acontecem, bem como a participação em cur-
Cultura e Poder nas Organizações de Saúde 31
sos e eventos externos à organização, também guardam forte relação com a cultura
organizacional, mostrando o que é valorizado institucionalmente.
Sem a pretensão de esgotar as diferentes possibilidades de reflexão sobre cul-
tura e poder nas organizações de saúde, uma última consideração diz respeito às
relações que se dão entre os diferentes sujeitos sociais que prestam serviços na ins-
tituição e os que recebem esses serviços. Dependendo das mesmas variáveis cons-
titutivas da cultura organizacional e do poder que permeia as relações do trabalho
que nelas se desenvolvem, somados às diferentes realidades de poder econômico
existentes nas organizações de saúde, é que se concretiza a relação entre o grupo
que assiste e o grupo assistido.
A simbologia própria do ambiente, a área física, os equipamentos, as vestimen-
tas, a linguagem usada pelo grupo que assiste, bem como o sigilo de que se reveste
o uso das tecnologias, das intervenções e dos registros, conformam-se, para quem
é assistido, como sendo um espaço em que a determinação dos direitos e deveres
dos dois grupos é prerrogativa do grupo que assiste. Na verdade, a forma como se
dão as relações de poder entre os diferentes agentes que assistem repete-se nas
relações entre o grupo que assiste e o grupo assistido. Entretanto, essa relação é in-
tensificada pelo poder de controle exercido pelo grupo que assiste e pela fragilidade
em que se encontra o grupo assistido.
O controle exercido pelo grupo assistido sobre o grupo que assiste dá-se apenas
em função do poder econômico, uma vez que o grupo assistido não partilha da cul-
tura organizacional com as mesmas vivências do grupo que assiste; não possui o
poder do conhecimento que embasa o trabalho que ali se desenvolve; não participa
da determinação dos processos de trabalho e da dinâmica organizacional e não per-
manece e interage de forma continuada, como acontece com os agentes sociais da
instituição.
Nesse contexto de realidade brasileira, a participação e o controle da sociedade,
ou melhor, dos sujeitos sociais assistidos nas instituições de saúde, ainda é um ho-
rizonte a ser alcançado.
n O Poder nas Relações Multiprofissionais
Sem ter também a pretensão de explicar o complexo processo das relações profis-
sionais, pode-se refletir sobre alguns fatores que ajudam no entendimento desse fe-
nômeno e, assim, tentar conduzir, de forma mais consensual e humana, as decisões
que envolvem o convívio no trabalho.
Nessa direção serão discutidos elementos que integram o gerenciamento de re-
cursos humanos em saúde e outros que permeiam as relações entre profissionais,
como o poder, a cultura e as políticas.
O enfoque nesses tópicos objetivam a capacitação do enfermeiro na formação
de competências ético-políticas e socioeducativas por serem estas competências
as menos trabalhadas pelos profissionais, mas as que melhor demarcam o espaço
ocupado e as relações entre os trabalhadores.
O enfermeiro, no que se refere à dimensão técnico-científica, desenvolve seu
trabalho no campo da saúde de forma individual, mas, sem dúvida, esse trabalho
compõe um trabalho coletivo, uma vez que há uma divisão do trabalho tanto entre
32 Cultura e Poder nas Organizações de Saúde
os diferentes elementos da equipe de enfermagem (enfermeiro, técnico e auxiliar
de enfermagem) como entre os diferentes profissionais que assumem diferentes
áreas de atuação e que compõem a equipe de saúde (médico, nutricionista, psicólo-
go, fisioterapeuta, fonoaudiólogo e outros).
Um aspecto importante a ser considerado nessa divisão de trabalho é que, além
de os diferentes profissionais assumirem diversas áreas de atuação, sendo cada
uma referente a um saber e a um fazer específico, esse trabalho é marcado por
desigualdades nas relações de poder que ocorrem entre os diferentes profissionais,
caracterizando a existência de uma divisão técnica e social do trabalho.
Outro ponto a ser considerado diz respeito a como se dá a relação entre esses
profissionais e entre eles e a organização na qual desenvolvem o trabalho.
Considerando como uma das possíveis leituras da realidade que: o trabalho deve
ser competitivo frente ao mundo globalizado; o domínio atualizado da tecnologia é
um dos indicadores de desempenho individual e organizacional; o fator econômico
é o elemento determinante na avaliação dos resultados organizacionais, resgata-se
um exemplo de cotidiano em que se desenvolvem o trabalho e o convívio entre os
profissionais, e entre estes e as organizações de saúde. A precariedade dos vínculos
empregatícios como se dá na terceirização; a má remuneração do trabalhador; a du-
pla jornada de trabalho e a sobrecarga de trabalho, entre outras causas, interferem
e/ou determinam o “como” se dão e explicam, em parte, o “porquê” se dão, desta ou
de outra forma, as relações técnicas e sociais no trabalho.
Nesse contexto, as organizações têm estruturas formais (organogramas), à seme-
lhança de uma pirâmide em cujo vértice está o grupo que delibera, composto por
poucos agentes, tendo na base o maior número de agentes, que são os executores
das deliberações do pequeno grupo.
Em contrapartida, a estrutura de poder configura-se em outra pirâmide, que se
sobrepõe à pirâmide da estrutura formal, de forma invertida: a base da pirâmide da
estrutura de poder coincide com o vértice da pirâmide da estrutura organizacional.
Esse desenho explica como se dão as relações de poder na organização, uma vez
que evidencia como poucos agentes detêm um grande poder decisório, restando,
para um grande número de agentes, uma pequena parcela de poder.
Essa é uma das variáveis organizacionais, que, quando reproduzida pelos demais
profissionais nas relações de trabalho, referenda o modelo maior, é aceita pela orga-
nização e promove relações assimétricas de poder entre os diferentes profissionais
em todos os âmbitos da organização.
Para FELLI e PEDUZZI (2005), as transformações no mundo do trabalho im-
põem novas relações no mercado de trabalho, marcadas pela desregulamentação
dessas relações, obrigando à existência de novos mecanismos de gestão e à exigên-
cia de novos perfis profissionais. Esses perfis profissionais exigem, por um lado, a
formação de competências que atendam às demanda organizacionais com maior
produtividade em menor tempo e, por outro lado, às exigências de um desempenho
multifuncional qualificado, no mercado de trabalho.
Frente a essa realidade, políticas consensuais, novos mecanismos de gestão e a
revisão de competências profissionais devem ser considerados. Para essa tarefa, os
profissionais terão que assumir responsabilidades tanto no que se refere à capaci-
tação como no que se refere às demandas que deverão encaminhar à organização,
para que essas mudanças ocorram.
Cultura e Poder nas Organizações de Saúde 33
Assim, quanto aos novos mecanismos de gestão, no âmbito da organização, há
a possibilidade de maior integração e articulação no trabalho desenvolvido entre
os diferentes profissionais e entre os profissionais de uma mesma área, em con-
traposição ao trabalho fragmentado e justaposto que se desenvolve até então. Essa
proposta caracteriza a formação e efetivação de equipes, tornando necessária uma
maior explicitação dos significados de trabalho em grupo e de trabalho em equipe.
Sem dúvida, na área da saúde, estudos sobre cultura e poder nas organizações
são importantes na explicitação dessa dimensão organizacional ainda obscura. En-
tretanto, estudos encontram-se no plano discursivo, no plano do sentir e do pensar,
enquanto o cotidiano vivido é algo concreto, que, para ser transformado, precisa de
ação.
n Referências Bibliográficas
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O Planejamento e o Processo
Decisório como Instrumentos do
Processo de Trabalho Gerencial
MARIA HELENA TRENCH CIAMPONE E MARTA MARIA MELLEIRO
4
35
Diariamente, nosso cérebro é bombardeado por milhares de informações, das
quais faz uma seleção para arquivar pequena parte em nossa memória, a partir
daquilo que faz sentido para nós, a depender da nossa cultura e dos nossos valo-
res. Com a mesma frequência, somos chamados a tomar um número elevado de
pequenas decisões, como, por exemplo, escolher que roupa vestir para estarmos
de acordo com as ocasiões em que iremos estar envolvidos no dia, o que comer,
que caminho fazer para ir ao trabalho de modo a enfrentar menos trânsito e como
priorizar as tantas atividades que se acumulam no trabalho. É certo que muitas
dessas decisões que tomamos são automáticas, isto é, são escolhas aleatórias, sem
que tenhamos consciência do processo, das etapas percorridas e dos critérios de
que lançamos mão para fazer as escolhas ou tomar as decisões.
Contudo, a necessidade de tomar decisões acertadas não se restringe a essas
situações corriqueiras do cotidiano. Em um mundo cada vez mais complexo e com-
petitivo, com maiores pressões para que tenhamos um bom desempenho no traba-
lho, onde temos de decidir de um modo assertivo, as decisões que tomamos podem
ser a chave para o nosso sucesso ou insucesso pessoal e profissional. Diante dessas
situações complexas, não podemos simplesmente arriscar e tomar decisões pelo
processo de acerto ou erro.
36 O Planejamento e o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial
Muitas vezes, o erro pode ser fatal para nós ou para outros envolvidos na situa-
ção. Boa parte dos erros que cometemos nos processos decisórios ocorre devido a
falhas de informação ou de formação. Ou seja, cometemos erros por não estarmos
devidamente preparados para analisar as situações complexas e para fazer escolhas
e tomar decisões de modo a percorrer todas as alternativas possíveis para resolução
de problemas.
Os estudiosos no assunto afirmam que as melhores decisões são tomadas quan-
do percorremos todas as fases do processo decisório, de modo sistemático, e que
podemos aprender a fazer isso, adquirindo maior segurança.
Assim, este capítulo tem por finalidade sensibilizar os profissionais de saúde que
ocupam posições de coordenação ou gestão de serviços ou de setores específicos,
para as oportunidades de intervenção e de transformação da realidade, por meio do
exercício do planejamento sistematizado e da análise de problemas, percorrendo
um processo decisório cuidadoso, sem atropelar nenhuma das etapas essenciais do
mesmo. Por experiência, sabemos que, quanto mais urgente for a situação, mais
pressionados ficamos para escolher logo uma alternativa para resolver o problema
e, assim, tendemos a abreviar o processo de definição e explicação deste, a busca e
escolha de alternativas.
Segundo MORETTO (1998), em uma reunião com pessoas despreparadas, que
não partem de uma metodologia de análise de problemas e de tomada de deci-
são, é muito frequente que ocorram discussões dispersivas em que se passa de um
enfoque ao outro a partir de detalhes que não ajudam a distinguir as causas das
consequências do problema. De modo geral, gasta-se muito tempo falando-se de
diferentes aspectos da situação, procurando-se um culpado e especulando-se sobre
possibilidades de resolução do problema, de modo impreciso e superficial. Assim,
todas as decisões ficam sujeitas a pautarem-se em suposições quanto ao que cada
um considera que deveria ser corrigido. Os esforços, embora consideráveis, são, na
maioria das vezes, empíricos, desorganizados e ineficazes.
Isso posto, pretendemos defender a ideia de que a análise de problemas consti-
tui-se de uma série de processos, que podem ser aprendidos para serem utilizados
como instrumentos do processo de trabalho gerencial e que ajudam a qualificar as
decisões dos profissionais de saúde e gestores, de modo participativo, ouvindo to-
dos os envolvidos na situação e escolhendo ações que obtenham o máximo sucesso
na resolução do problema, com menor custo e com o mínimo de desvantagens ou
riscos para todos os envolvidos. Desse modo, o planejamento do processo decisório
é passo importante para o gerenciamento de conflitos e para possíveis negociações
entre os atores envolvidos em uma dada situação.
Para tanto, procuraremos explicitar as bases conceituais, metodológicas e as ca-
racterísticas de um processo de tomada de decisão e de um processo do planeja-
mento, segundo a perspectiva normativa e estratégica, discutindo as implicações
dessas duas abordagens para o gerenciamento dos serviços de saúde.
Por essa perspectiva, o planejamento como um instrumento do processo de tra-
balho gerencial pode ser definido como a arte de fazer escolhas e de elaborar pla-
nos para favorecer um processo de mudança. Compreende, assim, um conjunto
de conhecimentos práticos e teóricos ordenados de modo a possibilitar a intera-
ção com a realidade, programar as estratégias e as ações necessárias para alcançar
O Planejamento e o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial 37
os objetivos e metas desejadas e preestabelecidas (TANCREDI; BARRIOS; FER-
REIRA, 1998).
Quando pensamos em planejamento, a primeira ideia que associamos é a de
conformação de uma ação no futuro. Para definirmos um pouco melhor o foco do
planejamento, relacionando-o ao nosso próprio trabalho na área de saúde, formula-
mos a seguinte interrogação: por meio do planejamento tem sido possível atingir os
resultados que desejamos? Se a reposta a essa indagação for afirmativa, podemos
deduzir que temos governabilidade em relação ao nosso processo de trabalho. Caso
contrário, é importante indagar por que o planejamento não tem propiciado seguir
uma dada direção desejada.
Portanto, se os instrumentos que estivermos utilizando para operar na realidade
não forem os mais apropriados, o movimento da realidade, com toda a sua força e a
dinâmica que lhe é peculiar, é que irá imprimir a direção a seguir, que pode não ser
a direção pretendida, como a produção de serviços com a qualidade almejada.
É evidente que transformar a realidade não é tarefa simples e, desse modo, a
função do planejamento impõe uma série de variáveis, que condicionam o êxito dos
nossos propósitos.
O planejamento é um processo contínuo, que visa possibilitar uma postura ativa
dos gestores de uma organização na sua relação com os usuários/cidadãos e com o
meio em que ela atua. Como a realidade é dinâmica, não existem planos definitivos
e fechados, sendo necessário considerar as incertezas dos mesmos, deixando mar-
gens para os imprevistos (ALMEIDA et al., 2001). Para esses autores, um plano não
pode ser visto como um produto final e, sim, constituir-se em um instrumento aber-
to, que permita aos gestores explicitar os resultados que desejam alcançar, como,
em que tempo e quem são os responsáveis pelas ações.
Nesse sentido, torna-se imprescindível manter um diálogo constante com todos
os indivíduos envolvidos na situação, para que o planejamento e as ações sejam
responsivos à realidade.
No processo de trabalho de gerenciamento na enfermagem, a função do plane-
jamento costuma figurar como uma das atividades desenvolvidas privativamente
pelos enfermeiros, em função da divisão social e técnica do trabalho. Costuma tam-
bém ser associado imediatamente ao planejamento da assistência de enfermagem
ou como uma função específica dos enfermeiros que desenvolvem o gerenciamento
do serviço ou das unidades assistenciais (CIAMPONE et al., 1998).
Nessa perspectiva, o planejamento costuma ser reduzido apenas à sua dimensão
técnica, ou seja, a um conjunto de ações que visam colocar uma ação em prática.
Poucas têm sido as discussões ou produções na enfermagem que associam o plane-
jamento a questões político-ideológicas e de poder, que lhe são inerentes. O plane-
jamento costuma ser tratado apenas em sua dimensão técnica.
Para MERHY (1994), o planejamento tem se tornado um tema cada vez mais im-
portante na vida do homem contemporâneo, em três situações: como instrumento/
atividade dos processos de gestão das organizações, tendo em vista que, nessas,
ocorrem diferentes processos de trabalho que precisam ser bem articulados; como
impulsionador de práticas sociais transformadoras, vislumbrando a determina-
ção de novas relações sociais alternativas à lógica reguladora do mercado; e como
método de ação governamental, no que se refere à produção de políticas.
38 O Planejamento e o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial
Em revisão de literatura sobre planejamento, podemos identificar diferentes au-
tores filiados a correntes distintas de pensamento que, portanto, propõem aborda-
gens diferentes.
Assim, se indagássemos, numa leitura mais crítica, cada um desses autores acer-
ca do que estão tratando, certamente teríamos diferentes respostas e, consequente-
mente, identificaríamos que cada um nos conduz a um método distinto.
Como pontos comuns, busca-se uma certa sistematização para a ação futura, isto
é, intervir na realidade no sentido de propiciar o alcance dos objetivos desejados.
No entanto, AGUIAR (1997) chama a atenção para o fato de que há uma grande
diferença em planejar ações na esfera pública e na esfera privada. Para esse autor,
a lógica orientadora do processo decisório na esfera privada é a econômica, que ex-
plica os valores que orientam esse processo no qual o planejamento é instrumento.
Na esfera das empresas privadas, a racionalidade do processo de produção e da co-
mercialização de bens ou de serviços visa o lucro. Portanto, a qualidade do bem ou
do serviço produzido precisa oferecer-lhe competitividade no mercado.
Em contrapartida, na esfera pública a lógica predominante é a lógica política,
isto é, o movimento do pensamento político norteia as ações. A produção tem valor
relativo, porque não é ela que financia a sobrevivência das instituições, uma vez
que o Estado tem controle dos mecanismos jurídicos e das regras que determinam
as tomadas de decisão.
Considerando que a saúde é um bem diferenciado, apesar de ser tratada como
uma mercadoria comercializada no mercado dos serviços privados de saúde, esta
se constitui, legitimamente, em direito de todo cidadão. Assim, o planejamento nos
serviços de saúde abarca tanto a lógica econômica quanto a política.
Quanto aos métodos de planejamento, é possível fazer uma distinção entre o
método normativo e o planejamento estratégico situacional, buscando-se compre-
ender a historicidade, dinamicidade e aplicabilidade dos mesmos nos diferentes
cenários dos serviços de saúde.
n O Planejamento Normativo ou Tradicional
A construção de uma metodologia aplicada à área do Planejamento em Saúde na
América Latina decorreu da necessidade de transposição do referencial teórico da
programação na esfera econômica para a programação de atividades em saúde.
O documento denominado Problemas Conceptuales y Metodológicos de la Pro-
gramación de la Salud consiste em um dos desdobramentos da Conferência de
Punta del Leste, ocorrida em 1961. Nessa oportunidade, os ministros de Estado dos
diferentes países do continente latino-americano reconheceram a importância do
planejamento como uma ferramenta tanto de promoção do crescimento econômico,
quanto de promoção do bem-estar social (MATTOS, 1993).
Assim, na Carta de Punta del Leste, estabeleceu-se um amplo programa de auxí-
lio financeiro internacional aos países menos desenvolvidos, que ficou conhecido
como Aliança para o Progresso. Para se ter acesso ao financiamento de ações, os
países latino-americanos necessitariam elaborar programas nacionais de desen-
volvimento, que contemplassem projetos ligados ao desenvolvimento econômico
e social.
O Planejamento e o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial 39
Para atender a esse propósito, a Organização Pan-Americana de Saúde (OPS)
encomendou ao Centro de Estudos del Desarrollo (CENDES) a elaboração do refe-
rido documento Problemas Conceptuales y Metodológicos de la Programación de la
Salud, que deveria dimensionar as necessidades e os recursos que seriam destina-
dos à área de saúde, em consonância com os demais investimentos necessários ao
crescimento econômico desses países em desenvolvimento.
A aplicação de recursos foi vinculada à ideia da apresentação de planos que com-
provassem a eficiência e eficácia das ações, otimizando, ao máximo, a utilização
dos recursos em ações que o governo deveria realizar orientadas, diretamente, para
manter e melhorar a saúde da população.
Essa prerrogativa exigia a formação de técnicos especializados em planejamen-
to, instituindo-se a figura do planejador, um técnico que utilizaria um conjunto de
conhecimentos sistemáticos e que se responsabilizaria pelo estudo da eficiência da
utilização dos recursos, cabendo a esses profissionais a função central de nortear
as tomadas de decisões relativas à definição de prioridades no campo da saúde das
populações.
Nesse modelo, supunha-se que o planejador partisse de um diagnóstico de si-
tuação e fosse capaz de priorizar ações programáticas detendo poder de previsão
e controle de todas as variáveis, num cenário estável. Dessa forma, seria possível
elaborar um único plano de ação, predizendo soluções eficazes para os problemas
mapeados, como se esses se comportassem de modo uniforme na população.
Os resultados do plano dependeriam, assim, apenas do conhecimento técnico da-
queles que iriam operacionalizar as ações, eliminando-se do planejamento a esfera
do político e do social.
Nessa direção, partia-se de uma proposta idealizada e tecnocrática, que restrin-
gia espaços para a negociação política e que desconsiderava os conflitos entre os
diferentes atores sociais nela envolvidos.
n O Método CENDES/OPS
O Método CENDES/OPS foi composto por uma sucessão de etapas pré-definidas,
com tarefas precisas e limites cronológicos demarcados, abarcando quatro etapas,
a saber:
1. A descrição da situação (diagnóstico) e a explicação dessa situação de saúde no
país, segundo os princípios da Teoria da Multicausalidade. A visualização de pos-
síveis ações por meio de indicadores quantitativos, de impacto e resolutividade
dessas ações mediante a situação descrita;
2. A elaboração da programação propriamente dita, compreendendo a descrição
de um conjunto de ações técnicas;
3. A implementação da programação obedecendo à uniformidade das mesmas em
todos os territórios, como se os problemas atingissem a todos em proporcionali-
dade semelhante no âmbito nacional;
4. A avaliação, como forma final de conferir se os resultados almejados foram al-
cançados.
40 O Planejamento e o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial
Observa-se, nesse método, uma racionalidade instrumental que determina a di-
recionalidade das ações e um forte poder de centralização das decisões no âmbito
ministerial, sem distinção entre as necessidades de saúde nos diferentes territó-
rios, compondo distintos perfis de morbimortalidade, nem previsão de controle
social.
No referencial do planejamento normativo ou tradicional, as tensões sociais são
ignoradas e, sobretudo, abafadas no sentido de que a participação dos atores so-
ciais representa ameaça à ordem social vigente. Assim, qualquer possibilidade de
conscientização das populações sobre os determinantes sociais no processo saúde-
doença era negada e controlada pelo estado, que vivia um período de ditadura
militar.
Nesse contexto, torna-se imperativo conhecer os princípios do planejamento nor-
mativo/tradicional, e todos os pressupostos norteadores, uma vez que esse método
é, ainda, utilizado na formação em gestão dos profissionais de saúde, influencian-
do, consequentemente, os modelos assistencial e gerencial prevalentes nos servi-
ços de saúde, indo na direção contrária às diretrizes e princípios do Sistema Único
de Saúde (SUS).
Fases do Planejamento Normativo ou Tradicional
Fase 1 – Diagnóstico: Conhecimento do Sistema como um Todo
De acordo com CIAMPONE (1991), a concepção dessa fase advém da Teoria de Sis-
temas, criada pelo biólogo alemão Ludwig Von Bertalanffy, que concebeu um sis-
tema como “um conjunto de elementos em interação que operam para atingir uma
finalidade comum”. Essa ideia de funcionamento sistêmico das organizações foi
adotada por facilitar a visualização de que qualquer alteração em uma das partes
produz interferências no resultado final. A ideia de sistema aberto foi posterior-
mente incorporada na área de administração, referindo-se a uma complexa inte-
ração existente entre o funcionamento interno das organizações e o intercâmbio
contínuo destas com o ambiente. Entre as várias contribuições da teoria sistêmica,
pode-se assinalar a necessidade de um diagnóstico de situação como ponto de par-
tida para realizar qualquer planejamento.
Somando-se à Teoria de Sistemas, a abordagem dos estudiosos da administração
do Instituto de Relações Humanas de Tavistock, na Inglaterra, que ficou conhecida
como escola sociotécnica, prestou também importantes contribuições para a área
de planejamento no contexto das organizações de saúde. Identificaram-se e distin-
guiram-se dois sistemas que compõem a organização: o técnico e o social.
Nessa perspectiva, o sistema técnico compreende as demandas específicas que
definem as tarefas, a área física, os equipamentos e os recursos existentes. É, por-
tanto, esse sistema técnico o responsável pela eficiência potencial da organização.
Por sua vez, o sistema social refere-se às relações entre os agentes responsáveis pela
execução das tarefas que transformam a eficiência potencial em eficiência real.
A partir dessa concepção, considerou-se que qualquer organização é um sistema
aberto que mantém constantes trocas com o ambiente físico e social, tanto internos
quanto externos a ela.
O Planejamento e o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial 41
Assim, de acordo com a visão de sistemas e com a abordagem sociotécnica, CIAM-
PONE (1991) considera que o planejamento das ações e programas de um serviço
de saúde deveria partir do conhecimento do sistema como um todo, implicando:
a. Conhecer o sistema social:
Levantar as necessidades de saúde, o perfil de morbimortalidade, os hábitos,
crenças e valores da comunidade em que o serviço está inserido;
Identificar os recursos humanos necessários e disponíveis na região;
Explicar os problemas de saúde a partir das dimensões estrutural, particular e
singular da realidade dos serviços, embora essas denominações sejam peculiares
à perspectiva do planejamento estratégico e não do normativo, do qual se está
tratando.
b. Conhecer o sistema técnico:
Levantar os recursos físicos, financeiros e materiais disponíveis para o serviço
de saúde, a fim de otimizá-los de acordo com as necessidades da comunidade.
Por essa ótica, fica mais fácil visualizar a interdependência interna e externa dos
sistemas que compõem a organização. Por conseguinte, ao se iniciar o processo de
planejamento, um dos pontos fundamentais, para que os planos não se constituam
em instrumentos teóricos, é partir-se do conhecimento real do sistema como um todo,
antes mesmo de estipular os objetivos a serem alcançados e as metas do serviço.
Fig. 4.1 Visão da sociedade segundo o modelo sociotécnico.
42 O Planejamento e o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial
Fase 2 – Determinação dos Objetivos
Os objetivos são os alvos selecionados que se buscam alcançar dentro de um cer-
to espaço de tempo, aplicando-se determinados recursos disponíveis ou possíveis
(CHIAVENATO, 1999).
Em qualquer organização, pode ser reconhecida uma hierarquia vertical de ob-
jetivos. No ponto superior de uma escala graduada, estariam os objetivos da insti-
tuição, que predominam sobre os demais; em seguida estariam os objetivos de cada
departamento, que predominam sobre os objetivos da divisão, do serviço, da seção
e, assim, sucessivamente até o nível operacional.
De forma geral, os objetivos das organizações podem ser visualizados em uma
cadeia hierárquica que abrange os objetivos essenciais da organização como um
todo (no topo da hierarquia) até os objetivos operacionais (na base da hierarquia),
num continuum.
O planejamento envolve um conjunto de planos que variam desde o detalhamen-
to das atividades cotidianas, no nível operacional, até as estratégias políticas de
longo prazo. Deve, assim, constituir-se num todo integrado e estruturado por ações
que relacionam, entre si, os vários níveis de objetivos e as múltiplas ações necessá-
rias para alcançá-los em cada instância da organização.
É, portanto, a partir dos objetivos mais amplos que uma instituição passa a defi-
nir suas políticas, diretrizes, metas, programas, procedimentos e normas, segundo
uma abrangência que vai de uma amplitude maior (planos estratégicos e táticos)
para outra menor e mais detalhada (planos operacionais).
Fase 3 – Estabelecimento de Prioridades
Uma vez determinados os objetivos da organização, com base nas condições am-
bientais que a envolvem e com base no conhecimento das inter-relações internas
entre os sistemas técnico e social que a compõem, é a vez do estabelecimento das
prioridades de ação para o alcance dos objetivos.
Portanto, para determinar quais são as ações que devem ser realizadas no âmbito
do serviço de saúde, é necessário definir, previamente, o que se deseja mudar no
perfil de necessidades da população a que esse serviço atende e, a partir de então,
selecionar quais são as ações mais propícias para tal. Nessa etapa do planejamento,
aplica-se diretamente o critério da racionalidade, pois se usa a capacidade de esco-
lher os meios para alcançar os fins.
Fase 4 – Seleção dos Recursos Disponíveis
Com base nas ações consideradas prioritárias para atender às metas e objetivos, é
primordial que se proceda a um levantamento dos recursos que serão necessários
para implementar as ações.
Frente ao levantamento dos recursos necessários, deve-se ter claro quais são os
recursos disponíveis – englobando os recursos humanos, materiais, físicos e finan-
ceiros. Conhecendo exatamente todos os recursos disponíveis, passa-se a pensar
nas estratégias possíveis para otimizá-los ao máximo. Isso implica redistribuí-los,
agrupá-los, pensar na forma como a divisão de tarefas será organizada e, também,
na satisfação pessoal dos agentes na execução de cada atividade.
O Planejamento e o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial 43
Fase 5 – Estabelecimento do Plano Operacional
É fundamental esclarecer, previamente, que o planejamento pode ser visualizado
sob várias dimensões. Nesse sentido, deve estar explicitado o seu conteúdo (genéri-
co/detalhado), a extensão de tempo (longo, médio ou curto prazo) e a sua amplitude
(macro- ou micro-orientado).
Fase 6 – Desenvolvimento
A fase de desenvolvimento engloba: o desenvolvimento do programa, sua aprova-
ção pelas instâncias superiores e a execução propriamente dita do mesmo. Envolve,
ainda, a ação e a coordenação.
A coordenação é essencial para minimizar atritos, definindo precisamente as res-
ponsabilidades de todas as partes envolvidas na ação, de modo a facilitar a consecu-
ção dos objetivos. As limitações específicas, de qualquer um dos recursos alocados,
previstos anteriormente, devem ser consideradas para que haja os ajustes necessá-
rios à situação real.
Fase 7 – Aperfeiçoamento
O aperfeiçoamento inclui as fases de avaliação e replanejamento das ações desen-
volvidas.
A avaliação não deve ocorrer unicamente após ter sido implementado o plano. Ao
contrário, deve ocorrer como um processo permanente e contínuo, paralelamente
a cada uma das fases. Porém, nessa etapa, a avaliação programada visa medir os
resultados em relação ao cumprimento dos objetivos estabelecidos.
Quando realizada sistematicamente, durante todo o processo, a avaliação permi-
te localizar de imediato qualquer falha, para que seja corrigida a tempo. Durante
todo o processo de avaliação, deve-se ter em mente a possível necessidade de im-
plementar outros programas auxiliares de aperfeiçoamento de pessoal, para que
estejam aptos a desenvolver todas as ações previstas.
Assim, esse modelo de planejamento, que ficou conhecido como planejamento
normativo, ou método CENDES/OPS, concentra algumas características que o dis-
tinguem do planejamento estratégico, conforme descritas na Fig. 4.2.
Fig. 4.2 Principais características do planejamento normativo.
 Osujeitoqueplanejaeoobjetodoplanejamentosãoindependentes.Osujeitoqueplanejaéúnicoesitua-seforaeacima
da realidade (que é idealizada no desenho do deve ser);
 O conhecimento da realidade se dá através do diagnóstico científico, em que a verdade é concebida como única e
objetiva;
 Prega-se a neutralidade científica do planejador;
 O planejamento é anti-histórico, isto é, não leva em consideração a historicidade e dinamicidade dos fenômenos;
 Trabalha com sistemas fechados ou visualiza a mínima interligação entre os pontos de partida e pontos de chegada;
 Nega e negligencia a questão do conflito e do poder.
44 O Planejamento e o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial
Desse modo, ressalta-se que o planejamento normativo/tradicional pode ser efe-
tivo quando empregado na resolução de problemas bem definidos e em situações
estáveis. Como os problemas enfrentados na gestão dos serviços de saúde são com-
plexos e ocorrem em ambientes instáveis e em permanentes mudanças, o uso desse
método lhe confere importantes limitações.
n O Planejamento Estratégico Situacional
O Planejamento Estratégico Situacional (PES), no campo das políticas públicas,
surge a partir da rejeição da ideia da racionalidade econômica para a solução das
questões políticas e sociais. Além disso, valoriza-se o reconhecimento da pluralida-
de de atores sociais envolvidos numa realidade complexa e dinâmica, bem como os
conflitos decorrentes das disputas de poder inerentes a projetos que coexistem nos
espaços institucionais.
Essa metodologia, que tem como precursores Carlos Matus e Mário Testa, parte
do princípio que o planejamento é a ferramenta que o homem tem para viabilizar
a possibilidade de exercer governabilidade diante do próprio futuro; refere-se ao
controle e ao empoderamento do ator para a situação que pretende governar.
O planejamento estratégico é um método voltado para a resolução de problemas,
entendendo-se como problema: “algo detectado que incomoda o ator social e o mo-
tiva a buscar soluções adequadas, ou seja, aquilo que o ator detecta na realidade
e confronta com um padrão que ele considera não adequado ou não tolerável e o
estimula a enfrentá-lo, visando a promoção de mudanças” (MATUS, 1996).
TESTA (1995) e MATUS (1996) afirmam que, para a promoção de mudanças e,
consequentemente, para que o processo decisório ocorra, é necessário aos diferen-
tes atores envolvidos em uma situação acumular poder, pois sem ele são ínfimas ou
inexistentes as possibilidades de promover mudanças.
De acordo com MATUS (1996), em determinado cenário situacional o poder pode
adquirir as seguintes dimensões:
• Poder político: é representado por atores sociais que detêm o poder em função
do exercício de um mandato eleitoral, bem como em função da representação
formal de parcelas organizadas da sociedade civil, por meio do exercício de car-
gos em instituições com legitimidade social;
• Poder econômico: é representado por atores sociais que detêm o manejo de re-
cursos econômico-financeiros;
• Poder administrativo: é representado por atores sociais que ocupam cargos ad-
ministrativos na esfera municipal, estadual ou federal;
• Poder técnico: é representado por atores sociais que detêm o conhecimento so-
bre determinadas áreas, podendo-se citar os profissionais de saúde.
O PES é um método que trabalha no processamento de problemas atuais, proble-
mas potenciais (ameaças e oportunidades) e dos macroproblemas.
Assim, processar problemas implica: explicar como nasce e se desenvolve o pro-
blema, fazer planos para atacar as causas do problema, analisar a viabilidade políti-
O Planejamento e o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial 45
ca do plano ou verificar o modo de construir sua viabilidade e atacar o problema na
prática, o que corresponde a ter uma visão real dos problemas locais sem generali-
zá-los na descrição e nas propostas de solução.
Isso posto, delineia-se o Triângulo de Governo, representado por seus três vérti-
ces: o projeto de governo, a governabilidade e a capacidade de governo.
Fig. 4.3 OTriângulo de Governo no PES.
Projeto de Governo
(Proposta de ação)
Governabilidade
(Grau de dificuldade da proposta)
Capacidade de Governo
(Perícia pessoal e institucional)
O projeto de governo diz respeito ao conteúdo da proposta de governo, iniciada
pela seleção de problemas e maneira de enfrentá-los.
A governabilidade refere-se ao quanto de controle o ator tem sobre a situação
que pretende governar. Depende da relação entre o peso das variáveis que o ator
controla e as que não controla. E, finalmente, a capacidade de governo versa sobre
a perícia pessoal e institucional para governar. Depende do capital intelectual e do
capital de experiência do ator que declara o problema.
No processo de governo de uma situação existem três balanços, que devem ser
cuidadosamente gerenciados:
• Balanço I: gestão política, que compreende o manejo da legalidade e legitimida-
de política, ética, representatividade, descentralização, sintonia política do pro-
jeto e equilíbrio de poderes;
• Balanço II: gestão macroeconômica, que compreende o manejo da economia e
dos recursos financeiros;
• Balanço III: que compreende o manejo sobre o saldo do enfrentamento dos pro-
blemas que têm maior valor para a comunidade, como, por exemplo: segurança,
qualidade de vida, habitação, saúde, educação e serviços básicos.
O princípio fundamental no manejo desses três balanços, segundo MATUS
(1996), é que, se for necessário, não se deve hesitar em apertar um deles, mas nunca
se deve apertar os três ao mesmo tempo. No exercício do governo, é importante
compensar os efeitos negativos de um balanço com os efeitos positivos dos outros
dois.
O PES é composto por quatro momentos que se inter-relacionam, buscando res-
ponder a quatro indagações fundamentais no processo decisório. Esses momentos
são denominados: explicativo, normativo, estratégico e tático-operacional.
46 O Planejamento e o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial
A seguir são descritos cada um desses momentos, ressaltando-se que sua orde-
nação numa sequência deve-se apenas a uma estratégia didática, pois os mesmos
são extremamente interdependentes e articulados.
n Momento Explicativo
Segundo MATUS (1996), diferentes planos justificam-se porque é possível explicar
a realidade de modos distintos, a depender da situação em que o ator que declara o
problema se situa, e isso poderá imprimir diferentes direcionalidades ao desenvol-
vimento dos planos.
No momento explicativo, a realidade é explicada mediante a seleção de proble-
mas relevantes, buscando-se compreender mais amplamente por que estes ocor-
rem e identificando-se os seus nós críticos, isto é, os centros práticos de ação dentre
as principais causas do problema.
A seleção de problemas consiste no desafio de fazer opções, tomar a decisão do
que se deve incluir no plano e estabelecer prioridades; identificar os nós críticos e
pensar a realidade a partir da compreensão do problema, por meio de uma análise
situacional.
Ao se explicar o problema por meio de uma análise situacional, não se está ne-
gando a importância do diagnóstico. Contudo, parte-se do pressuposto que podem
coexistir diferentes diagnósticos da situação. Esses diagnósticos constituem a base
da explicação situacional e devem ser processados pelo ator, que construirá as vá-
rias hipóteses explicativas das possíveis causas do problema.
Em nosso meio, os conhecimentos da avaliação da tríade estrutura, processo e
resultado, dos recursos epidemiológicos, dos estudos do sistema de referência e de
contrarreferência e do fluxo dos usuários que atendemos são considerados elementos
essenciais para uma explicação dinâmica da situação-problema a ser enfrentada.
Para TANCREDI et al. (1998) e ALMEIDA et al. (2001), o momento explicativo do
PES pode ser sintetizado no que Matus denominou de Fluxograma Situacional, no
qual estão inseridas as seguintes categorias substantivas que resumem o conteúdo
básico desse momento:
• O problema formulado com clareza e objetividade;
• Quem é o ator responsável pela explicação, coordenação e articulação das ações,
no sentido de conceber e operar as possíveis intervenções;
Fig. 4.4 Os quatro momentos do PES.
 Explicativo: como explicar a realidade?
 Normativo: como conceber o plano?
 Estratégico: como tornar viável o plano?
 Tático-operacional: como agir no cotidiano de forma planejada?
O Planejamento e o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial 47
• Quais são os descritores do problema, representados, preferencialmente, por in-
dicadores monitoráveis ao longo do tempo e que possibilitem verificar como o
problema se comporta numa dada realidade situacional;
• Quais as consequências do problema, consistindo em exercício, análise e discus-
são, que terá como produto a síntese das principais consequências advindas da
persistência do problema;
• A representação sistêmica de causalidade consiste na listagem das principais
causas que estão contribuindo para a ocorrência, manutenção ou ampliação do
problema, dispostas em um quadro (fluxograma situacional) composto por nove
quadrantes, nos quais irão localizar-se os nós explicativos do problema;
• Cada causa é denominada “nó explicativo”, e o conjunto desses nós será ordena-
do no fluxograma situacional, distinguindo-se três áreas, a saber:
– Governabilidade: área em que o controle do ator que declara o problema é
total;
– Influência: o ator tem capacidade de influenciar outros atores que detêm go-
vernabilidade sobre os nós críticos do problema dispostos nessa área;
– Fora do jogo: área em que o ator não tem nenhum controle nem influência
sobre as causas do problema.
Esse quadro, denominado de árvore explicativa, permite situar os nós críticos* e
as áreas em que estes se encontram. Isso facilita a análise para definir quais, dentre
todas as causas listadas, serão consideradas nós críticos e visualizar o grau de difi-
culdade para solucionar esses nós.
Os nove quadrantes do fluxograma explicativo correspondem, assim, aos dife-
rentes planos que expressam o grau de controle do ator sobre as causas, bem como
se estas se referem às regras (leis e normas formais documentadas em regimentos
e/ou regulamentos); às acumulações (causas de caráter cognitivo que expressam
capacidades ou incapacidades dos atores) e aos fluxos (que representam ações).
*Alguns dos nós explicativos do problema são considerados críticos, pois representam centros práti-
cos e oportunos de ação interferindo na mudança dos descritores do problema.
Fig. 4.5 Modelo de fluxograma situacional – PES.
Regras Acumulações Fluxos
Governabilidade
Influência
Fora do jogo
48 O Planejamento e o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial
A relevância e a precisão do estabelecimento dos nós críticos justificam-se pelo
fato de que esses serão os focos a serem trabalhados no momento normativo.
n Momento Normativo
Esse momento inclui a identificação dos atores que fazem parte do problema, a
identificação dos recursos de que esses atores dispõem para controlar as opera-
ções e o peso de cada ator. Faz-se a projeção de cenários em que são mapeadas as
variáveis de teto (as melhores possibilidades), as de centro e as de piso (as piores
possibilidades). Nesses diferentes cenários, faz-se a projeção de cada uma das ope-
rações pensadas, o que corresponde ao que MATUS (1996) denomina de construção
de uma árvore de apostas.
A projeção das operações nos cenários é extremamente importante, visto que
leva em consideração a relação entre os poderes advindos da instância política, do
conhecimento técnico sobre o problema, da capacidade organizativa dos atores en-
volvidos e dos recursos financeiros necessários para a resolutividade do problema.
Nessa etapa, projeta-se o controle de cada um dos tipos de recursos necessários
para a viabilização das ações/operações.
No momento normativo, lida-se com a incerteza; por isso, segundo MATUS
(1996), deve-se constantemente avaliar o cálculo sobre o futuro, construindo dife-
rentes cenários de atuação, conhecendo os atores envolvidos e os possíveis confli-
tos e recursos que cada ator controla.
Por conseguinte, é também relevante a definição de prazos e metas em relação às
operações, tendo-se dessa forma a previsão de seu início e de seu término.
n Momento Estratégico
Busca responder às seguintes indagações: As operações do plano são viáveis nesse
momento? Quais as possíveis reações de cada ator envolvido no problema? Como
construir a viabilidade para as ações inviáveis?
Para MATUS (1996), a arte da política consiste em fazer possível amanhã aquilo
que hoje parece impossível. A estratégia não se refere ao cálculo do possível, mas à
construção da viabilidade, por meio do gerenciamento de conflitos e de negociação.
Nesse âmbito, é fundamental salientar que a análise deve estar focada em cons-
truir a viabilidade, mapeando todos os atores que possam estar a favor ou contra o
plano proposto, calculando-se o tipo de controle que cada um detém dos recursos a
serem utilizados na operacionalização do mesmo.
Cabe ressaltar que o momento estratégico permeia e deve, em seu desenvolvi-
mento, abranger todas as etapas da elaboração e execução do plano.
n Momento Tático-operacional
Consiste no momento de implementação das ações propostas. Nesse momento, é
necessário fazer a mediação do plano na realidade, isto é, adequá-lo diante das situ-
ações que se apresentam.
O Planejamento e o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial 49
O fazer é considerado parte do plano, e não uma etapa posterior. Assim, quebra-
se a lógica linear – planejar/executar/avaliar. Defende-se recalcular o plano, no qual
são monitoradas as operações, o que ajuda a redesenhá-las permanentemente, e a
avaliação contínua do impacto no processo de organização dos serviços realimenta
a leitura da realidade e da melhor forma de nela intervir (ALMEIDA et al., 2001).
Ao se analisar o PES, pode-se descrevê-lo como um método de permanente exer-
cício de diálogo e reflexão sobre os problemas que incidem em uma dada realidade,
visando prever situações e alternativas, antecipar possibilidades de decisão e pre-
parar estratégias para a obtenção de governabilidade sobre as mesmas.
Fig. 4.6 Principais características do PES.
 O sujeito que planeja faz parte da realidade juntamente com outros atores;
 Admite-se que não há uma realidade única estática, avançando-se para o entendimento da mesma no que diz respeito à
superação da visão da multicausalidade para uma teoria explicativa pautada na determinação social;
 Admite-se que não há neutralidade e que o planejamento tem uma importante dimensão política e social, além da
dimensão técnica;
 É histórico e identifica-se com o“pode ser”;
 Trabalha com a visão dialética situacional-estratégica;
 Reconhece o conflito e as relações de poder com os quais trabalha.
As metodologias de planejamento apresentadas são complementares, pois o PES
inclui o normativo como um dos momentos do planejamento, avançando, portanto,
além dele. Ambas as metodologias conferem maior viabilidade ao processo decisó-
rio, favorecendo a análise de situações. Contudo, o método do PES melhor se aplica
a situações complexas e à busca de alternativas de ações viáveis que possam ser
executadas na resolução de problemas emergentes e problemas potenciais, a fim
de prever ações prospectivas.
O domínio da metodologia do PES propicia ao gestor a perspectiva de poder
atuar sem negligenciar as consequências críticas de uma ação, conferindo-lhe ca-
pacidade de análise de viabilidade dos planos possíveis, a depender dos cenários e
das ações que possa projetar.
O PES pode, ainda, identificar ameaças ao processo decisório por favorecer res-
ponder às indagações: O que poderia sair errado? Em que consiste cada problema
em potencial? Quão arriscada é cada ação? Quais são as possíveis causas dos pro-
blemas e qual a governabilidade do gestor sobre essas? Quão provável é a ocorrên-
cia de cada cenário em que as ações são projetadas e qual a viabilidade de cada uma
delas nesses cenários? É possível intervir para minimizar resistências dos atores
envolvidos no processo decisório? É possível projetar ações e planos de contingên-
cia para atuar nos piores cenários?
Assim, na análise dos problemas potenciais, o planejamento estratégico consiste
em potente instrumento do processo de trabalho gerencial, permitindo ao gestor
50 O Planejamento e o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial
lançar mão das ações preventivas e contingenciais. As ações preventivas são aque-
las que buscam eliminar ou minimizar as possíveis causas potenciais de um proble-
ma, reduzindo sua probabilidade de ocorrência.
As ações contingenciais facilitam tomar providências para compensar ou mini-
mizar os efeitos de um problema potencial de elevada gravidade, caso ele ocorra em
um cenário não favorável.
Finalizando, concordamos com TANCREDI et al. (1998) quando afirmam que
“não existe planejamento perfeito e nem plano irreprovável”. Todavia, acredita-se
que a adoção de metodologias de planejamento por gestores e profissionais de saú-
de é de grande importância, pois construir competências para planejar permite am-
pliar a capacidade de análise de problemas e, consequentemente, tende a qualificar
os processos decisórios.
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Gerenciamento de Conflitos
e Negociação
MARIA HELENA TRENCH CIAMPONE E PAULINA KURCGANT
5
51
n Conflito: O que é e como Entendê-lo?
Inicialmente, propomos ao leitor que recorde uma situação conflituosa que tenha
vivenciado e que faça uma associação livre sobre o que lhe vem à mente ao pensar
em conflito.
Ao elencar as ideias, é interessante ressaltar que, frequentemente, o termo é asso-
ciado a dificuldades, desavenças, injúrias, ameaças, competição, oposição, desarmo-
nia, incompatibilidade e outros significados que nos dirigem a alguns pressupostos,
que vamos tratar de explicitar e, assim, melhor entender a dinâmica dos conflitos.
Pelos significados atribuídos ao termo conflito, podemos resgatar uma intensa
proximidade com a dimensão emocional; nesse âmbito, afloram sentimentos, na
sua maioria negativos, os quais, por sua vez, emergem de valores, crenças e de per-
cepções dos indivíduos na sua relação com o outro e com o mundo em que vivem.
Trajetórias de vida distintas, bem como vivências negativas anteriores, também
conferem diferentes significados ao termo conflito.
Percepções sobre os Conflitos
Há nessas associações uma percepção de que um conflito implica sempre a quebra
da ordem, uma experiência negativa, proveniente de erro ou falha. Há ainda uma
52 Gerenciamento de Conflitos e Negociação
outra percepção: a de que, em um conflito, está implícita uma batalha de interesses
incompatíveis, ou seja, do bem contra o mal. Um terceiro aspecto refere-se a uma
concepção de que um conflito é algo destrutivo das relações.
Estamos corretos? Isto faz sentido? O conflito é sempre negativo ou pode ser
positivo?
Então, chamamos a atenção para os seguintes aspectos:
• Cada um tem influência e poder sobre o fato de o conflito tornar-se negativo ou
não, e essa influência e poder encontram-se na maneira como se lida com ele.
Permitir que apenas as emoções determinem como conduzir o conflito é impedir
que a dimensão racional interfira nessa condução.
• Há necessidade de aperfeiçoamento das habilidades de gerenciamento dos con-
flitos. Isso implica a necessidade de voltar-se internamente, reconhecer e refletir
sobre as próprias tendências, padrões e crenças para que se possa reposicionar
os enfoques com os quais tendemos a lidar com os conflitos.
O assunto, apesar de complexo, é fascinante e importante porque diz respeito,
diretamente, tanto às situações vividas na vida pessoal como no trabalho.
Aí estão alguns motivos do porquê de estudar negociação e conflito em um livro
sobre gerenciamento, dirigido a profissionais de saúde.
Na dinâmica das organizações de saúde, é de importância fundamental, para os
profissionais que ali desenvolvem seu trabalho, saber gerenciar conflitos e fazer
negociações.
As teorias administrativas propostas até a década de 1980 negavam as questões
que envolviam o poder e o conflito nas organizações. Predominou o enfoque meca-
nicista das teorias Clássica e Científica, bem como da teoria Burocrática que, em úl-
tima instância, tentava suprimir os conflitos, considerados negativos pelo simples
fato de existirem. Caso surgissem, eram atribuídos a falhas na administração.
Mesmo a teoria das Relações Humanas enfocou o conflito como uma doença das
organizações e das relações. Assim, todas as estratégias desenvolvidas visavam eli-
minar (curar) o conflito ou remediá-lo, uma vez que esse era indício de “doença”
organizacional. Assim, buscou-se, na motivação e no enriquecimento de cargos,
subterfúgios para “remediar” os conflitos.
Mudanças no ambiente externo a organização, surgidas a partir da década de
1980, como a globalização e a abertura de mercados, vêm gerando maior competi-
tividade tanto na produção de bens, como na prestação de serviços, obrigando as
organizações a adotarem respostas rápidas e a buscarem soluções criativas, conci-
liatórias e de qualidade para os problemas e interesses de todos os envolvidos, ou
seja, dos clientes externos e internos.
Nessa dinâmica institucional, fica caracterizado o caráter relacional que ocorre
no conflito intra- e extramuros.
Com esse enfoque, surgem as abordagens gerenciais que visualizam as orga-
nizações como redes de negociação. Com isso, emerge a necessidade de mudar o
enfoque do planejamento – do normativo para o estratégico. É nesse contexto que
se evidencia melhor a importância de refletir sobre a temática gerenciamento de
conflitos.
Gerenciamento de Conflitos e Negociação 53
Para uma maior aproximação do campo que nos propomos a compreender, temos
que buscar respostas a algumas questões: O que é um conflito? Como este pode ser
definido?
Existem diferentes autores que tomaremos como referência e que, de perspec-
tivas diversas, têm se preocupado em abordar o tema. Esses estudiosos pertencem
a campos distintos do saber, como a Sociologia, a Psicologia, a Administração e a
Filosofia, entre outros.
Segundo FERREIRA (1986) (o “AURÉLIO”, dicionário da língua portuguesa), o
termo vem do latim “conflictu” – e significa o embate dos que lutam; discussão
acompanhada de injúrias; desavença; oposição e luta de diferentes forças.
Diferentemente de uma visão tradicional, o enfoque gerencial atual reconhece
que existe o conflito e que o fato de querer abordá-lo é sinal de saúde organizacio-
nal. Como já vimos, embora o termo conflito denote quase sempre situações de-
sagradáveis, como competição, oposição, incompatibilidade e discordância, nem
sempre deve ser analisado apenas pelo seu prisma negativo.
Buscando uma definição que explicite o que é conflito, há uma particularmen-
te simples, mas que permite boa aproximação. “Conflito é o processo que começa
quando uma parte percebe que a outra parte frustrou ou vai frustrar seus interes-
ses” (HAMPTON, 1991).
Admitindo que o conflito tem caráter relacional, podendo ocorrer entre pessoas,
entre grupos, entre uma pessoa e um grupo, entre uma organização e um grupo,
e assim por diante, e que a frustração de interesses de uma das partes envolvidas,
ou de ambas, é que desencadeia um conflito, as organizações são, frequentemente,
“locus” privilegiado para o surgimento de conflitos. Por colocar dilemas de ordem
profissional que, muitas vezes, se sobrepõem a outros, de ordem pessoal, há quem
diga que as organizações são uma arena, onde estes se desenvolvem.
Por outro lado, as relações no ambiente de trabalho são intermediadas pelo jogo
de poder, bem como pela diferenciação de interesses e de intencionalidades entre
os agentes. As diferentes leituras e interpretações da realidade, segundo os dife-
rentes agentes, também devem ser fatores considerados quando se busca o enten-
dimento do conflito.
Tentativas de decodificar o conflito nos seus componentes emocionais e racio-
nais, buscar diferentes modos de abordá-lo, bem como entender o próprio fenô-
meno do conflito no contexto em que ocorre, podem ter um efeito construtivo ou
destrutivo, dependendo da maneira como é administrado.
Origens dos Conflitos
Atualmente, as organizações constituem-se em verdadeiras arenas para o surgi-
mento de conflitos individuais ou grupais, pois os trabalhadores disputam recursos
limitados, lutam por reconhecimento e progresso na carreira e por outras formas
de recompensa que possam ser proporcionadas pela empresa. Considerando, ainda,
que a experiência de frustração de uma ou de ambas as partes, diante da impossibi-
lidade de atingir metas; que a parte frustrada interpreta a situação, projetando suas
consequências, passando a comportar-se à luz da situação imaginada; que a outra
parte envolvida reage a esse comportamento, com base em suas próprias percep-
ções e conceituações da situação, que podem ser bem diferentes daquelas imagina-
54 Gerenciamento de Conflitos e Negociação
das pela outra parte, torna-se evidente o quanto todos os participantes do processo
precisam de preparo para lidar com os conflitos.
Esse processo cíclico de frustrações ocorre em virtude da inadequada interpreta-
ção ou incompreensão dos interesses ou necessidades dos atores sociais envolvidos
no problema, fazendo com que cada um interprete a situação, somente do seu pró-
prio ponto de vista.
Sabe-se, ainda, que outras causas de conflitos podem ser as diferenças de perso-
nalidade, a existência de atividades interdependentes no trabalho, metas diferentes,
recursos compartilhados, diferenças de informação e percepção, dentre outras.
Efeitos Negativos dos Conflitos
No vivencial do processo conflituoso, a relação entre as partes envolvidas passa a
gerar uma série de sentimentos ambíguos e cria-se uma relação hostil entre as par-
tes conflitantes, o que dificulta a comunicação, estendendo o conflito além do pro-
blema original.
Na vigência de um conflito ocorre um enorme dispêndio de energia, que é des-
viada para fora dos propósitos organizacionais, em função da dinâmica destrutiva
do mesmo.
O fluxo de comunicação e de informações sofre inferências, ficando distorcido,
e as interações tendem a ser direcionadas aos aliados, isto é, aos que pensam e se
posicionam de forma semelhante diante do conflito.
As tomadas de decisão tornam-se de baixa qualidade, com tendência ao não com-
partilhamento, focalizando a parte e não o todo do problema ou da situação envol-
vida.
Muitas vezes, os efeitos negativos dos conflitos estão relacionados à forma des-
trutiva com que se lida com eles. Se há sinais aparentes de um clima organizacional
em que as pessoas ou grupos envolvidos estão desmotivados; se há evidências de
que o conflito é mais significativo que a missão institucional; se os grupos se tor-
nam não cooperativos; e se, na organização, predomina o desprezo pela negociação,
há fortes indícios de que os conflitos estão sendo tratados de modo destrutivo. Nes-
se caso, predomina a falta de confiança, e os valores individuais sobrepõem-se aos
grupais e institucionais.
Efeitos Positivos dos Conflitos
Embora haja preponderância de se pensar que os efeitos negativos dos conflitos se
sobrepõem aos positivos, deve-se considerar, segundo uma visão mais avançada,
que um dos efeitos benéficos refere-se à oportunidade de incrementar o entendi-
mento das diferentes perspectivas de análise dos problemas. Essa possibilidade
ocorre se houver disposição para trabalhar os conflitos segundo uma visão eclética.
Nessas circunstâncias, ocorrerá uma mobilização dos recursos e energia de ambas
as partes, que se voltam para a busca de soluções alternativas.
Nessa situação, surge o esclarecimento das soluções competitivas, assim como a
explicitação dos poderes e dos recursos que cada ator detém ou de que dispõe.
Abre-se a perspectiva de desenvolvimento de lideranças compartilhadas, condi-
cionando as partes a apresentarem, de forma transparente, não só os fatos, como
Gerenciamento de Conflitos e Negociação 55
também as impressões sobre a situação conflituosa. Assim, ocorre a aprendizagem
de trabalho como grupo operativo, ou seja, ocorre o crescimento individual e gru-
pal, caracterizando-se, verdadeiramente, como um trabalho em equipe.
Essa vivência propicia o desenvolvimento de habilidades de negociação, que
tem início nos processos de discussão, com a apresentação dos fatos, dos senti-
mentos e das impressões de todo os envolvidos na situação. Nessa etapa da nego-
ciação, cada uma das partes apresenta suas metas e métodos eleitos, mantendo-se
a objetividade na defesa dos mesmos. A competição aberta, com base em padrões
de desempenho superiores, é também ponto positivo resgatado das situações de
conflito.
Situações de Conflito nas Organizações: Como Trabalhar com Elas?
Dependendo dos paradigmas dos quais partimos, isto é, dos sentimentos, valores,
crenças, propósitos e mecanismos que usarmos para olhar e apreender a realidade,
é que iremos nos direcionar para uma ou outra proposta de trabalho e agir diante
das situações de conflito. Se partirmos de uma visão clássica, iremos tentar supri-
mi-lo, já que o conflito, segundo o paradigma que embasa essa visão, é sempre algo
negativo.
Se partirmos de paradigmas que embasam o enfoque da teoria das Relações Hu-
manas, iremos tentar curar o conflito, já que, nesse enfoque, é considerado uma
doença.
Por fim, se nos pautarmos pelos paradigmas que dão sustentação a uma aborda-
gem psicossocial e psicodinâmica das organizações, iremos tentar entender as ne-
cessidades, as dificuldades, os pontos de vista e as propostas do outro; a explicitar
as nossas e a visualizar a possibilidade de uma proposição conjunta. Dessa forma,
temos a reconhecer o conflito como inerente às organizações e à nossa vida em
sociedade e a administrá-lo de forma compatível com a manutenção do respeito à
dignidade humana.
Embora sintético, o seguinte esquema ilustra esses paradigmas:
Teorias Clássica e Científica
• partem do pressuposto que o conflito pode ser suprimido;
• buscam aperfeiçoar regras da organização e mudar posturas pessoais;
• objetivam o restabelecimento da harmonia;
• visualizam a organização de modo idealizado e planejado racionalmente.
Teoria das Relações Humanas
• parte do pressuposto que o conflito é uma doença que deve ser curada;
• parte da hipótese de que os conflitos surgem em função de características indivi-
duais;
• enfatiza a importância do desenvolvimento de projetos voltados para ampliar a
motivação no trabalho.
56 Gerenciamento de Conflitos e Negociação
Enfoque Gerencial Contemporâneo
• percebe as organizações como uma rede de negociações, incluindo o ambiente
interno e o externo;
• admite que o conflito é inerente às organizações e que, portanto, não é patológi-
co. As organizações saudáveis são aquelas que explicitam e discutem os conflitos
de modo transparente, na medida em que estes surgem, e não aquelas que não
possuem conflitos.
Nesse enfoque, a estratégia de negociação rompe com o estilo predominante
“ganha-perde”, ou seja, uma das partes sempre ganha e a outra perde, passando a
adotar o estilo “ganha-ganha”, ou seja, as duas partes compartilham os ganhos.
Gerenciamento dos Conflitos
Assim como existem diferentes paradigmas para visualização dos conflitos, há tam-
bém diferentes formas de administração dos mesmos. Desse modo, conforme o pa-
radigma que dá sustentação e define o caminho a ser seguido, os conflitos podem
ser administrados por, pelo menos, quatro estratégias diferentes: por acomodação,
dominação, barganha/compromisso e pela solução integrativa de problemas.
Na acomodação, busca-se a harmonia na situação através do encobrimento dos
problemas. Dessa maneira, diminui-se a seriedade dos problemas, negando-os ou
tratando-os de modo superficial. Com isso, espera-se manter uma aparente socia-
bilidade nas relações. Busca-se não abordar diretamente o conflito, como forma de
evitar aborrecimentos ou problemas emocionais. Assim, o conflito é negado, mas
permanece implícito, desencadeando sintomas crescentes, que muitas vezes não
são compreendidos se olhados isoladamente, pois não têm explicação direta na si-
tuação atual, mas no conflito negado. A tendência é, então, o ressurgimento do con-
flito em uma situação posterior, acompanhado de uma enorme carga afetiva que é
nela depositada, tornando-a de difícil compreensão.
Na dominação, o exercício do poder é levado ao extremo quando uma das partes,
a mais forte, impõe sua solução preferida. Isso leva a ressentimentos e sentimentos
de desvalorização da outra parte, que tende a gerar condutas de hostilidade, indi-
ferença, ruptura do relacionamento e um fluxo de informações desviado para os
interesses pessoais de sujeitos ou grupos envolvidos. A negociação não ocorre de
fato. O estilo adotado é o “perde-ganha”, e isso corresponde a dizer que, para uma
parte ganhar, a outra tem que perder.
Quando se adota o estilo da barganha/compromisso, cada parte cede um pouco
a fim de resolver o conflito. Embora alguns autores sejam contrários a estabelecer
posições que não sejam plenamente favoráveis às partes envolvidas, em situações
de impasse profundo, em que está em jogo assegurar que pontos essenciais sejam
mantidos, pode ser estratégico renunciar a pontos menos importantes e buscar,
posteriormente, renegociá-los em situação mais favorável.
A solução integrativa de problemas visa a satisfazer as exigências de ambas as
partes, através da busca de soluções alternativas. Nesse processo, identificam-se
as considerações básicas ou subjacentes a ambas as partes envolvidas e procura-
Gerenciamento de Conflitos e Negociação 57
se buscar alternativas, identificando as consequências para ambas as partes, esco-
lhendo-se a alternativa mais favorável.
Nessa proposta, a confiança entre as partes é fundamental, pois, se esta não exis-
tir, ambas não compartilham informações nem, tampouco, conseguem pensar em
alternativas que favoreçam o “ganha-ganha”.
n Processo de Negociação
Conceitos Básicos
Uma vez discutidos os principais aspectos da abordagem dos conflitos, passamos
a enfocar o processo de negociação. Segundo especialistas em negociação, o termo
pode ser definido de maneiras distintas:
• “é o uso da informação e do poder, com o fim de influenciar o comportamento
dentro de uma rede de tensão” (COHEN, 1980).
• “é um processo de comunicação bilateral, com o objetivo de se chegar a uma de-
cisão conjunta” (FISHER e URY, 1985).
• “é o processo de comunicação com o propósito de atingir um acordo agradável
sobre diferentes ideias e necessidades” (ACUFF
, 1993).
• “ é o processo pelo qual as partes se movem de suas posições iniciais divergentes
até um ponto no qual o acordo pode ser obtido” (STEELE et al., 1995).
Em todas as definições apresentadas, apreende-se que a flexibilidade no proces-
so de negociação é fundamental para um bom desempenho nos acordos a serem
firmados. O processo envolve análise da situação dos diferentes atores envolvidos
e poderes correspondentes, capacidade de comunicação e de planejamento estra-
tégico.
Habilidades Básicas em Negociação
De acordo com a própria conceituação de negociação, algumas habilidades parecem
ser fundamentais para os negociadores, como: ser pró-ativo; não aceitar as coisas
como elas são, sem antes perguntar por que elas não poderiam ser feitas melhor;
trabalhar o medo da perda e do ataque que surge diante do enfrentamento de si-
tuações desconhecidas; quebrar resistências e acreditar que é possível aprender a
negociar.
Planejamento da Negociação
O primeiro ponto básico, quando nos deparamos com uma questão de negociação,
consiste em identificar, claramente, qual é o problema a ser resolvido. Somente
depois de definido e declarado o problema e de listadas as suas possíveis causas e
consequências é que podemos visualizar os nós críticos para a resolução do mes-
mo e os atores envolvidos em sua resolução. Designam-se nós críticos as possíveis
58 Gerenciamento de Conflitos e Negociação
causas do problema que têm grande impacto nos descritores do mesmo e que se
constituem em centros práticos de ação.
Depois de percorrida essa trajetória é que temos alguma possibilidade de defini-
ção mais clara daquilo que pretendemos efetivamente negociar. Uma boa negocia-
ção inicia-se por alguns passos importantes:
• separar as pessoas do problema;
• concentrar-se nos interesses básicos de ambas as partes;
• buscar alternativas de ganhos mútuos;
• encontrar critérios justos e objetivos para a solução do problema, satisfazendo o
máximo possível os lados envolvidos.
Desse modo, as etapas básicas de uma negociação fundamentada em princípios
do “ganha-ganha” consistem na análise do problema; no planejamento, com o qual
se procura gerar ideias que atendam aos objetivos efetivamente mais importantes;
e na discussão do processo de negociação.
Algumas variáveis são básicas no processo de negociação, estando correlaciona-
das com: (1) o poder/capacidade de controlar recursos críticos de que cada ator en-
volvido dispõe (econômicos, conhecimento e capacidade organizativa); (2) o tempo
correspondente ao prazo limite para resolução do problema, pois, quanto maior for
a pressão do tempo, maior será a tensão de fazer concessões para a realização de um
acordo; e (3) a informação/capacidade de conhecer as necessidades dos envolvidos,
que inclui também a capacidade de lidar com a comunicação verbal e não verbal.
Estilos de Negociação
Quanto aos estilos de negociação, MARTINELLI e ALMEIDA (1998) enfatizam que
estes estão intimamente relacionados à ética presente na negociação. Aqui, ética é
entendida de modo abrangente, como um código de princípios e valores morais que
governam o comportamento de uma pessoa ou grupo. Refere-se aos limites do que
é certo ou errado numa conduta a ser adotada. As questões éticas e legais têm, na
negociação, uma certa sobreposição, gerando, às vezes, certos conflitos. Algumas
alternativas de negociação não são éticas nem legais; outras são éticas e não são
legais, ou são legais e não são éticas; e outras, ainda, são legais e éticas segundo os
padrões do grupo. A ética do negociador irá depender, assim, de valores pessoais e
profissionais, dentre outros aspectos importantes, que deveriam ser discutidos de
modo mais aprofundado. Em última instância, a influência desses valores indica-
rão, em muito, a adoção preferencial de um estilo ou outro de negociação.
Alguns estilos poderiam ser pontuados como sendo principais, embora tenha-
mos, nos interstícios destes, uma diversidade de nuances. São eles:
• Estilo restritivo/duro – baseado em estratégias de coerção, medo e ameaça. Com-
bina o impulso para o controle e para o desrespeito com o outro, considerando
que o oponente só chega a um acordo se for forçado.
• Estilo ardiloso – como o próprio termo define, trata-se de um estilo em que a as-
túcia é privilegiada. Nesse, predomina o impulso para a desconsideração. Busca-
Gerenciamento de Conflitos e Negociação 59
se a estratégia da abstenção, com adiamento e atraso na negociação para manter
o outro a distância. Concentra-se nos procedimentos e regras, e o objetivo predo-
minante do oponente é sobreviver à negociação.
• Estilo amigável – priorização de objetivos mínimos, flexibilidade e cordialidade.
Impulso para a deferência e para a confiança. O principal objetivo é manter o
relacionamento com o negociador, independentemente do fato de alguma con-
quista importante ser atingida ou não nessa etapa.
• Estilo confrontador – Impulso voltado para o controle e para a confiança entre
os negociadores que, supostamente, buscam a equidade. Cuida-se da necessida-
de de contestar as questões em pauta enquanto trabalham, mutuamente, com
o outro, para chegar a um acordo sólido. O objetivo principal do oponente é o
melhor acordo global nas circunstâncias. Esse acordo apoia-se no mérito e no
compromisso mútuo a ser aprovado.
Os estilos apresentados a seguir ganham diferentes nomenclaturas, a depender
dos autores. De um modo geral, seu agrupamento permite que se discuta e exem-
plifique como os estilos podem variar.
n Estilos para Lidar com Conflitos
A adoção adequada de um estilo ou outro no processo de negociação e de solução
de conflitos é muito importante e pode variar de situação para situação. É impres-
cindível que se analise amplamente a situação, e é possível que as pessoas definam
um estilo híbrido de negociação, até porque existem muitas combinações possíveis
e nuances entre um e outro estilo. Contudo, é importante que saibam diferenciar
os estilos adotados pelos negociadores, pois, caso contrário, haverá a geração de
mais conflitos na negociação. O fato de, num processo de negociação, ocorrerem
diferenças de estilo e estas serem reconhecidas pode facilitar o entendimento da
argumentação apresentada por ambas as partes e a solução dos conflitos. Mais uma
vez, a flexibilidade que respeita os limites ético-legais é desejável no processo de
negociação.
Existem inúmeras e diferentes classificações utilizadas para caracterizar estilos
de negociação e abordagem de conflitos. Uma das propostas, de HAMPTON (1991),
pode ajudar na compreensão dos estilos adotados.
O estilo colaborativo é, ao mesmo tempo, confrontador e cooperativo. É útil
quando é muito importante encontrar soluções na qual os dois lados tenham seus
interesses preservados e que, portanto, requer um compromisso mútuo. Esse estilo
exige tempo e esforço, não sendo indicado para questões triviais.
O estilo contestador, que também é confrontador, é indicado quando as situa-
ções exigem ações decisivas e rápidas, a exemplo das emergências ou quando há
um índice considerável de rejeição de propostas e interesses das pessoas envolvi-
das no processo.
O estilo da aceitação não é confrontador, porém é cooperativo. É indicado quan-
do o interesse da outra parte no conflito é muito mais importante, ou quando se
pretende obter um crédito para negociação futura.
60 Gerenciamento de Conflitos e Negociação
O estilo da retirada, não sendo confrontador e não cooperativo, tende a ser
mais apropriado para uma questão mais trivial ou para quando o benefício de não
enfrentar um conflito prevalecer sobre o enfrentamento naquele momento. Pode
constituir-se em uma estratégia de acumulação de força ou de conquistar aliados
para que a negociação se torne mais fortalecida.
O estilo do compromisso situa-se no meio termo dos demais estilos, possuindo
elementos de uns e de outros. É indicado quando os objetivos têm importância rela-
tiva, que não justifiquem confronto, ou quando as pressões de tempo não se fazem
presentes e permitem aguardar situação mais oportuna de negociação. Esse estilo
envolve certa negociação e barganha, caracterizando-se como uma rápida troca de
concessões que satisfazem as necessidades das partes.
n Considerações Finais
Em um ambiente globalizado em que predominam as incertezas, envolto por turbu-
lências, em que coexistem diferentes projetos em disputa, como os que definem os
modelos assistenciais e gerenciais, a negociação tem sido considerada uma alterna-
tiva possível e útil para a solução de impasses diante de conflitos.
As organizações de saúde não estão imunes a essa problemática. Ao contrário,
são altamente influenciadas pelo contexto macro- e microssocial, através da ex-
pressão da mudança dos perfis de morbimortalidade a depender das determinações
sociais que incidem de modo prevalente na comunidade.
As pressões econômicas e competitivas do mercado obrigam os dirigentes e to-
dos aqueles que ocupam posições de gerenciamento e coordenação de grupos, inde-
pendentemente de ser em instituições públicas ou privadas, a estarem preparados
para a abordagem e encaminhamento de conflitos no âmbito das relações interpes-
soais, intergrupais e institucionais. Esses agentes, inevitavelmente, estão envolvi-
dos num processo de trabalho multidisciplinar, que guarda interfaces com diversos
setores e, consequentemente, com diferentes interesses.
Muitas vezes, as pressões no trabalho induzem os gestores a uma baixa demanda
por planejamento, e, consequentemente, as decisões tendem a ser de baixa quali-
dade. Grupos profissionais ou agentes, individualmente, perdem prestígio perante
os demais, por não terem habilidades na análise de problemas, no planejamento
estratégico, no gerenciamento de conflitos ou na coordenação de grupos. Nessas
situações, as competências relacionais, que incluem a habilidade de negociação,
são essenciais.
Essas competências e habilidades constituem-se em importantes ferramentas
que auxiliam os profissionais, gestores de unidades de saúde, a identificarem confli-
tos, a analisá-los e a detectarem as melhores formas de negociação dos problemas.
Em suma, precisamos buscar e ampliar o leque de competências para além das
habilidades técnicas inerentes a cada área de saber profissional que, indiscutivel-
mente, são importantes, necessárias, mas não suficientes para a qualidade do ge-
renciamento da assistência à saúde. Contudo, apenas as competências e habilidades
vinculadas ao saber-fazer não são suficientes para a ocupação efetiva e qualificada
de um espaço profissional, para o alcance da autonomia correspondente e para o
reconhecimento profissional em uma dada organização de saúde. As competências
Gerenciamento de Conflitos e Negociação 61
relacionadas ao aprender a aprender e ao aprender a ser, aprender a relacionar-se
e melhor conviver são essenciais na gestão dos serviços de saúde (CIAMPONE e
KURCGANT, 2004).
Acreditamos que o caminho não é reto, nem único. Devemos buscar a interface
de nosso trabalho com os diferentes campos do conhecimento. Este é o desafio
proposto pela interdisciplinaridade necessária à abordagem dos problemas comple-
xos que enfrentamos, que requerem que tenhamos clareza e segurança para gerir
conflitos e empreender negociações. O compromisso do crescimento profissional
passa, necessariamente, pela escolha do projeto ético-político que elegemos e que
define, em última instância, qual é a sociedade que almejamos e de que maneira
podemos nos inserir nela como profissionais e cidadãos responsáveis, compromis-
sados e atuantes.
n Referências Bibliográficas
ACUFF
, F
. L. How to negociate anything with anywhere around the word. New York, Ameri-
can Management Association, 1993.
CIAMPONE, M.H.T.; KURCGANT, P
. As transformações nos processos de trabalho gerencia-
mento em saúde frente ao SUS: visualizando ações através da construção de competên-
cias no ensino de Administração em Enfermagem nas Escolas de Enfermagem do Brasil.
Relatório de Pesquisa – CNPq/fevereiro de 2004.
COHEN, H. Você pode negociar qualquer coisa. Rio de Janeiro, Record, 1980.
FERREIRA, A.B.H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2a ed. Rio de Janeiro, Nova Fron-
teira, 1986; 451.
FISHER, R.; URY, W. Como chegar ao sim: a negociação de acordos sem concessões. Rio de
Janeiro, Imago, 1985.
HAMPTON, D.R. Administração: comportamento organizacional. São Paulo, McGraw-Hill,
1991.
MARTINELLI, D.P; ALMEIDA, A.P
. Negociação e solução de conflitos: do impasse do ga-
nha-ganha através do melhor estilo de negociação. São Paulo, Atlas, 1998.
SPARKS, D.B. A dinâmica da negociação efetiva. São Paulo, Nobel, 1992.
STEELE, P
. et al. It’s a deal: a practical negotiation handbook. Londres, McGraw-Hill,
1995.
Sistemas de Informação
em Saúde
HELOISA HELENA CIQUETO PERES E MARIA MADALENA JANUÁRIO LEITE
6
63
n Introdução
Para falar de sistema de informação, faz-se necessário considerar que, nos últimos
30 anos, o mundo vem enfrentando a transição de uma sociedade industrial para
uma sociedade de informação, trazendo várias implicações nos sistemas econômi-
cos, políticos, educacionais, tecnológicos e sociais (TOFFLER, 1980; McGEE e PRU-
SAK, 1994; WRISTON, 1994; CHIAVENATO, 1996; SABBATINI,1999).
Isso significa mudanças para as organizações, uma vez que a competitividade
concentra-se na capacidade que a instituição tem de adquirir, tratar, interpretar e
utilizar a informação de forma eficaz, o que não significa investimentos em tecnolo-
gia de informação, mas sim o seu uso inteligente, isto é, “não é necessário saber, mas
saber onde buscar e selecionar esse saber” (REINALDO e RIBEIRO, 1990; McGEE e
PRUSAK, 1994).
Essa revolução é fruto da interação de vários recursos tecnológicos, como os saté-
lites, a televisão, o fax, os telefones celulares e as redes de computadores mundiais.
O resultado fundamental dessa interação é que as fronteiras nacionais estão se tor-
nando cada vez mais irrelevantes, conformando uma nova ordem de comunicação
democrática, global e instantânea.
64 Sistemas de Informação em Saúde
A tecnologia está interconectando os seres humanos e possibilitando uma socia-
lização e democratização da informação e do conhecimento científico. A sociedade
está se apropriando desse estoque de informação com a possibilidade de criar um
fluxo contínuo de saber, em um processo de construção de conhecimento coletivo
permanente.
Antes de discorrer sobre sistema de informação, é preciso distinguir informa-
ção de comunicação, apesar de, no senso comum, usar-se informação como sinôni-
mo de comunicação.
Na informação não há uma interação entre sujeitos, enquanto a comunicação
só existe quando há interação interpessoal. A informação é a manifestação ou ex-
pressão de um conteúdo de conhecimento qualquer, seja um fato, um dado, um
acontecimento, um resultado científico, um gesto, um sentimento, tudo enfim que
se deixa conhecer (BRASIL, 2003).
Há que se distinguir, ainda, dados de informações que correspondem a conceitos
distintos. Dados constituem um conjunto de registros sobre fatos, passíveis de se-
rem ordenados, analisados para se chegar a uma conclusão. Um dado é um simples
registro de fatos. Assim, informações são dados que foram ordenados de forma co-
erente e significativa para fins de compreensão e análise.
A informação é apoio básico para todas as ações e, especificamente, nas orga-
nizações é o que constitui a sustentação para o processo de tomada de decisão.
CARVALHO e EDUARDO (1998) definem sistema de informação como um con-
junto de procedimentos organizados que provêm informação de suporte às orga-
nizações. Processa dados e os apresenta para os usuários, indivíduos ou grupos,
que são os responsáveis pela sua interpretação. Para OLIVEIRA (1999), sistema
de informação com enfoque na gerência consiste no “processo de transformação
de dados em informações que são utilizadas na estrutura decisória da empresa,
proporcionando, ainda, a sustentação administrativa para otimizar os resultados
obtidos”.
O sistema de informação está fundamentalmente relacionado com a cultura or-
ganizacional do grupo em que ele ocorre, uma vez que representa as formas de
comunicação utilizadas por uma organização. É, portanto, complexo porque envol-
ve as dimensões política e cultural; não é um objeto neutro, mas que corresponde
a um modo de fazer o trabalho que determina e é determinado pelas relações de
poder.
No que se refere à dimensão política do sistema de informação, considera-se es-
sencial identificar quais são os interesses de cada grupo da organização e quais
são as vantagens relativas à implementação do sistema de informação para cada
um desses grupos quanto ao controle, produtividade e poder de negociação. Já na
dimensão cultural, focaliza-se o sistema de informação a partir de uma retrospec-
tiva histórica, do levantamento do contexto da informação, do conhecimento dos
diferentes interesses e da relação de poder entre os grupos envolvidos. Permite
ir além das estratégias para levar à aceitação do sistema de informação, represen-
tando valor inestimável para o entendimento das consequências organizacionais
de sua implementação e seu uso (SILVA e FLEURY, 2000; CASTELLANI e ZWI-
CKER, 2000).
Sistemas de Informação em Saúde 65
n Sistema de Informação na Área da Saúde
Para a OMS (2001), o sistema de informação no setor da saúde representa um gran-
de impacto na melhoria da gestão, da qualidade da assistência e da satisfação dos
pacientes, por contribuir para ampliar a conectividade em toda a rede de atenção;
por possibilitar o desenvolvimento de métodos de comparação de práticas (bench-
marking) e de ferramentas para assegurar a qualidade e a eficiência em função de
redução de custos; por permitir estabelecer intercâmbio com instituições de saúde
internacionais e nacionais, facilitando a educação continuada dos profissionais da
saúde; por apoiar as decisões e gerar mudanças de padrões e condutas.
Ainda, o sistema de informação em saúde constitui-se em fator essencial para o
conhecimento da realidade socioeconômica, demográfica e epidemiológica, de modo
a viabilizar gestão dos vários níveis que constituem o Sistema Único de Saúde.
De acordo com TASCA et al. (1993), é indispensável ter o sistema de informações
como uma área estratégica, como um dos principais instrumentos para o geren-
ciamento. Segundo esses autores, o sistema de informação deve ser capaz de se
adaptar às diferentes realidades, bem como ter a ampla participação da comunida-
de na implementação e no uso do sistema de informações. Para tanto, deverá estar
baseado nos seguintes princípios:
• Flexibilidade para ser capaz de identificar problemas e recursos relevantes ao
nível local;
• Especificidade e capacidade de discriminação das informações, com mapas e
bancos de dados informatizados;
• Participação dos profissionais e da população organizada.
Entretanto, de acordo com esses autores, ao se fazer uma análise dos sistemas
de informação em saúde vigentes, percebe-se que estes não vêm atendendo aos
princípios já expostos aqui, tendo como consequência a dificuldade de elaboração
de indicadores confiáveis para o nível local, impossibilitando a identificação dos
grupos populacionais prioritários. Também ocorre a sobrecarga de tarefas para os
profissionais responsáveis pela coleta de dados, uma vez que há variedade de ques-
tionários, fichas, formulários, boletins que as unidades de saúde têm de preencher
e encaminhar para diferentes coordenadorias de saúde. Denota-se, também, a falta
de retorno das informações devidamente consolidadas para o nível local, que gerou
os dados primários.
De acordo com TASCA et al. (1993), as razões principais dessas inadequações
são:
• Elevada centralização dos dados, com diversas instituições coletando dados se-
melhantes com sistemas diferentes, tendo como consequência duplicação de
ações e de recursos;
• Agregação de informações que as tornam de pouca utilidade para o nível local,
além de mascarar desigualdades;
66 Sistemas de Informação em Saúde
• Ênfase na coleta de dados médicos ou de doenças, não coletando dados relativos
a saneamento de meio, perfil de saúde da clientela, dados esses que repercutem
sobre os indicadores epidemiológicos;
• Inexistência de participação da comunidade na geração e no uso das informa-
ções, dificultando a relação transparente entre serviço e usuário.
Diante dessa situação TASCA et al. (1993) propõem as seguintes informações
que devem ser coletadas para auxiliar o nível local na construção do seu sistema de
informação:
• Dados demográficos: dados relativos a grupos prioritários dos serviços por meio
de fontes, como IBGE, e fontes informais, como Associações de Bairro, de Fave-
lados, entidades religiosas, clubes de mães e outros;
• Dados socioeconômicos com informações obtidas por meio da observação local e
aplicação de questionários específicos;
• Dados epidemiológicos que permitem entender a distribuição dos problemas de
saúde no território.
Os sistemas de informação em saúde inicialmente tinham como finalidade dar
suporte às análises médicas, ao controle de material e controle de folha de paga-
mento, atendendo aos setores financeiros e administrativos. Posteriormente, a sua
finalidade foi ampliada para abranger a assistência do paciente, orientado para pro-
blemas médicos e para cuidados de enfermagem a usuários de unidades clínicas.
Com a expansão no uso dos computadores, inicia-se a implantação das redes e da
tecnologia de informação (TI).
No que diz respeito aos sistemas de informação informatizados, no Brasil, apesar
de um relativo sucesso em coletar, organizar e divulgar as informações de saúde,
sucesso reconhecido até internacionalmente, existe evidente necessidade em avan-
çar, tanto no caminho da integração entre os sistemas de informação, quanto no uso
da TI para a melhoria da produtividade e qualidade dos processos de trabalho em
saúde, da gestão e do controle social (BRASIL, 2004).
A Constituição de 1988 e a lei 8080 de 1990 outorgam ao Ministério da Saúde
atribuição específica para a organização do Sistema Nacional de Informação em
Saúde, para o qual a construção da Política de Informação e Informática em Saúde
é estratégica. Nesse processo, a criação da Área de Informação e Informática em
Saúde no Ministério da Saúde constitui um marco histórico.
Torna-se fundamental que o Ministério da Saúde coordene, por meio de processo
participativo, uma Política de Informação e Informática em Saúde que conduza o
processo de informatização do trabalho de saúde, tanto nos cuidados individuais
quanto nas ações de saúde coletiva, de forma a obter os ganhos de eficiência e quali-
dade permitidos pela tecnologia, gerando automaticamente os registros eletrônicos
em que serão baseados os sistemas de informação de âmbito nacional, resultando,
pois, em informação de maior confiabilidade para gestão, geração de conhecimento
e controle social (BRASIL, 2004).
Entretanto, os sistemas de informação de abrangência nacional criados por me-
canismos diferentes nos últimos 25 anos, ora pelo Ministério da Saúde, ora pelo Mi-
nistério da Previdência, como, por exemplo, o Sistema de Informações de Mortali-
Sistemas de Informação em Saúde 67
dade e o Sistema de Pagamento das Internações Hospitalares, tiveram por objetivo
atender à necessidade dos órgãos centrais em obter os dados para efeitos imediatos
de gestão ou geração do conhecimento epidemiológico (BRASIL, 2004).
Segundo ANDRADE (2002), o Brasil enfrentará, nos próximos anos, dois grandes
desafios no que se refere à adoção de TI na área da saúde: vencer a falta de cultura
e a falta de infraestrutura do segmento em tecnologia. Aponta que os investimentos
em TI dos hospitais brasileiros representam apenas 1% do orçamento, comparados
com os hospitais americanos, que investem cerca de 2% a 3%. Outro indicador da
defasagem que o setor enfrenta é demonstrado em pesquisas que indicam que ape-
nas 33% dos mais de 6.500 hospitais do Brasil (36% públicos e 64% privados) têm
algum tipo de sistema de informação, e somente 5% usam a tecnologia orientada às
atividades-fim, que englobam todas as etapas do processo.
A informatização da informação para fins clínicos ainda é de pouco uso, tendo
sido observadas algumas experiências de acompanhamento individual do pacien-
te, monitorização para avaliação da evolução clínica ou diagnóstico. O maior cres-
cimento deu-se a partir da década de 1990, com os avanços tecnológicos, princi-
palmente da Internet, videoconferência, teleconferência, robótica, digitalização e
compressão de imagens radiológicas e monitorização digital dos sinais vitais dos
pacientes.
O desenvolvimento de soluções de tecnologias de informação adaptadas à Saúde
vem sendo gradativamente utilizado, apresentando-se em diferentes estágios de
implementação. TACHINARDI (2000) aponta como experiências já consagradas à
automação administrativa, bancos de dados de diferentes especialidades e finalida-
des; bases bibliográficas; bem como o Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP).
Para esse autor, um dos grandes desafios do prontuário eletrônico é a necessi-
dade de contemplar aspectos legais das informações digitalizadas e da assinatura
eletrônica com a equivalência em papel; de assegurar o sigilo, de preservar a indi-
vidualidade e o direito à privacidade dos pacientes, além de garantir a não adulte-
ração das informações dos pacientes.
Entre os benefícios do sistema de informação informatizado, tem-se a possibili-
dade de visualização das informações no momento da sua geração, em tempo real,
com a possibilidade de aplicação e atuação imediata.
Entretanto, de acordo com PERES (2001), o sistema de informação informati-
zado ainda é uma área emergente na saúde porque exige grande infraestrutura e
alto custo de implantação e manutenção tecnológica, sendo necessário o desenvol-
vimento de pesquisas relacionadas aos aspectos éticos e legais, de segurança da
informação, de aplicabilidade das tecnologias e de custos/benefícios, objetivando a
implementação e disseminação da informação para melhor qualidade de assistên-
cia à saúde da população.
n Sistema de Informação na Área da Enfermagem
A enfermagem exerce um papel fundamental no sistema de informação em saú-
de tanto por contribuir significativamente com informações que integram os co-
nhecimentos técnicos, de controle de qualidade e de documentação clínica e ad-
ministrativa dos serviços prestados, quanto por necessitar de informações sobre o
68 Sistemas de Informação em Saúde
desenvolvimento científico, dos recursos institucionais disponíveis e relacionadas
às necessidades dos pacientes para a tomada de decisões. Assim, esse grupo profis-
sional deve poder acessar informações sobre planejamento de programas, execução
e supervisão das intervenções clínicas e de gestão, bem como sobre a avaliação dos
resultados da atenção à saúde (OMS, 2001).
Marin [MASSAD, MARIN, AZEVEDO NETO e LIRA (2003)] considera que a en-
fermagem, por ser responsável pelo cuidado clínico individual aos pacientes, pela
administração dos serviços de saúde e pelo gerenciamento dos problemas de saúde
nos mais variados níveis de complexidade, é uma profissão que depende de infor-
mações exatas e em tempo real, para poder desempenhar a grande variedade de
intervenções envolvidas com a assistência de enfermagem, necessitando, assim, de
sistemas eficientes de documentação dos dados clínicos e administrativos.
ÉVORA (1993) descreve que o conceito de sistema de informação em enfermagem
surgiu em 1982, nos Estados Unidos, resultante do esforço de um Grupo Nacional
de Estudos de Sistema de Informação em Enfermagem, que visava a utilização de
um sistema automatizado de dados para planejar, fornecer, avaliar e documentar
o cuidado prestado ao paciente, bem como para coletar os dados necessários para
apoiar a assistência prestada pela equipe e para o controle dos custos hospitalares.
A autora afirma, ainda, que o propósito fundamental de um sistema de informa-
ção em enfermagem é apoiar as atividades, ajudando os enfermeiros a documentar,
apropriadamente, o processo de enfermagem, constituindo-se em benefícios rela-
cionados à eficiência do trabalho, permitindo ao enfermeiro maior aproximação do
paciente e, consequentemente, melhora de qualidade de assistência prestada.
SABA e McCORMICK (2000) definem sistema de informação em enfermagem
como sistemas que coletam, armazenam, processam, recuperam, mostram e comu-
nicam a informação necessária, em tempo real, para que se possa gerenciar os ser-
viços e a assistência de enfermagem e gerenciar as informações sobre o cuidado de
enfermagem, unindo os recursos de pesquisa e de aplicações educacionais para a
prática de enfermagem. Na prática clínica, esse sistema de informação, indepen-
dente ou como componente de um sistema de informação hospitalar, auxilia os en-
fermeiros no planejamento e documentação da assistência.
O sistema de informação computadorizado, orientado clinicamente para docu-
mentar e processar informação no cuidado direto ao paciente, é fundamental no
processo de enfermagem que requer a integração e interpretação de complexas
informações clínicas para a tomada de decisões sobre o cuidado de enfermagem
individualizado.
De acordo com Marin [MASSAD, MARIN, AZEVEDO NETO e LIRA (2003)] au-
xilia o processo de trabalho da enfermagem permitindo flexibilidade no uso do sis-
tema para visualizar e coletar informação necessária, fornecer qualidade ao cliente
e documentar as condições do cliente. Ainda, oferece instrumentos e informações
on-line sobre medicamentos, guias de conduta e protocolos da prática.
Em termos de benefício, minimiza o tempo gasto em documentar as informações
do paciente, elimina redundâncias, melhora o tempo de comunicação entre a equi-
pe, otimiza o acesso à informação e oferece informações à equipe multidisciplinar.
Dessa forma, traz como consequência o aumento de tempo dos enfermeiros para
o cuidado direto, melhor qualidade da documentação, aumento da produtividade,
Sistemas de Informação em Saúde 69
reduz a margem de erros, aumenta a satisfação no trabalho e desenvolve uma base
de dados clínica comum aos profissionais envolvidos na assistência.
Diante do exposto e dada a crescente necessidade de desenvolvimento de siste-
ma de informações mediado pelo computador nas organizações de saúde, a partici-
pação dos enfermeiros é fundamental no que se refere à seleção e implementação
desse sistema. A linguagem de enfermagem padronizada, o gerenciamento das in-
formações são essenciais para as tomadas de decisão em relação ao atendimento
ao paciente e ao próprio serviço, permitindo também identificar a qualidade do
cuidado de enfermagem prestado, auxiliando na pesquisa clínica, constituindo-se
em apoio na análise dos processos de tomada de decisões, bem como na melhoria
de desempenho das organizações.
Concluindo, de acordo com PERES (2001), evidencia-se que o sistema de infor-
mação na saúde e na enfermagem é reflexo da política da organização, dos seus
valores e pressupostos, sobre tecnologia, processo saúde-doença, trabalho em equi-
pe, fluindo do reservatório de conhecimento e das experiências individuais e mis-
turando-se às convicções e valores socialmente aprovados. Compreende-se, ainda,
que o Sistema de Informação de determinada organização de saúde e de serviço de
enfermagem é consequência de uma construção histórica, sofrendo interferências
do contexto sociopolítico no qual está inserido, das exigências colocadas pela rea-
lidade social sobre as finalidades da saúde em diferentes momentos e, portanto,
determinando o papel e o modelo de sistema de informação a ser implantado.
Depreende-se que os sistemas de informação informatizados exigem dos enfer-
meiros o empreendimento de esforços para impor e definir o seu papel frente à
inserção da informática como instrumento para informação e refletir sobre a sua
atuação diante de um contexto tecnológico, no qual a enfermagem será mediada
pela tecnologia que amplia as formas de interagir, compartilhar, cuidar e gerenciar,
em tempos e espaços anteriormente não imaginados.
Dessa forma, fica evidente que o desenvolvimento de um sistema de informação
é complexo, desafiando os enfermeiros a repensarem os seus processos de trabalho,
a proporem inovações que sejam aderentes à realidade e compromisso com esse
processo, reconhecendo a importância da sua participação e responsabilidade na
construção de um sistema de informação nas organizações de saúde.
Nessa perspectiva, as competências do enfermeiro para a sua efetiva participa-
ção nos sistemas de informação informatizados, nas organizações de saúde, devem
contemplar as políticas institucionais e o compromisso individual para o desenvol-
vimento tecnológico desse profissional, fundamentado na reflexão ético-política,
integrando a tecnologia às necessidades da profissão e à dimensão humana da en-
fermagem.
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A Qualidade e a Avaliação
dos Serviços de Saúde
e de Enfermagem
DAISY MARIA RIZATTO TRONCHIN, MARTA MARIA MELLEIRO
E REGINA TOSHIE TAKAHASHI
7
71
n Introdução
As transformações ocorridas no cenário político mundial, a globalização da econo-
mia, a crescente difusão de novas tecnologias e a socialização dos meios de comuni-
cação são alguns dos eventos que contribuíram para a mudança do comportamento
dos usuários dos serviços, bem como para o aumento da competitividade na maio-
ria das organizações.
Nesse contexto, os estabelecimentos prestadores de serviços de saúde, compre-
endidos como empresas complexas, necessitam adaptar-se a esse novo cenário e
tornar-se flexíveis para incorporarem estratégias capazes de atender ao usuário,
seja interno ou externo, razão de ser da instituição.
NOGUEIRA (1994) salienta que o atendimento das necessidades e das expecta-
tivas dos usuários dos serviços de saúde, de maneira eficiente e eficaz, é a questão
norteadora dos pressupostos filosóficos e das bases metodológicas, que vêm orien-
tando as ações das organizações. Assim, o sistema de saúde brasileiro tem enfren-
tado, nas últimas décadas, um novo imperativo: a busca pela gestão da qualidade
dos serviços.
A gestão da qualidade, de acordo com GARAY (1997), refere-se ao processo ati-
vo de determinar e orientar o caminho a ser seguido para atingirmos os objeti-
72 A Qualidade e a Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem
vos, empregando todos os recursos contidos na produção de um bem ou de um
serviço.
Para o alcance dessa meta, é fundamental a implementação de medidas visando
à qualidade desses serviços. Atualmente, constata-se que a gestão da qualidade
tem sido abordada das mais diferentes formas e situações, destacando-se na esfera
empresarial, nos modelos gerenciais, na política de recursos humanos e na organi-
zação dos processos de trabalho.
Nos serviços de saúde, a qualidade deve ser enfatizada, principalmente porque
o produto/serviço é consumido durante a sua produção, tornando-se diferente da
produção de bens, em que é possível separar o produto com defeito, sem maiores
consequências, exceto a perda de matéria-prima e o retrabalho (SILVA, 1996).
O conceito de qualidade e as estratégias para obtê-la vêm se transformando e,
gradativamente, incorporando novos parâmetros. Dessa forma, acredita-se que a
busca pela qualidade é uma constante nas diferentes formas de produzir bens e
serviços.
Na trajetória da evolução do conceito de qualidade, verifica-se que, em sua fase
inicial, ressaltava-se a inspeção, tendo como eixo o produto. Posteriormente, na
fase do controle da qualidade, ao mesmo tempo em que havia uma preocupação
com o conhecimento dos custos, antecipava-se a detecção dos defeitos, procurando-
se evitar as reclamações potenciais por meio da implementação de medidas ne-
cessárias e eficazes para atingir os padrões almejados, culminando, então, com a
ênfase no processo. Numa etapa subsequente, surge a garantia da qualidade, na
qual não era suficiente que o produto estivesse em conformidade com o projeto,
mas também deveria atender às necessidades do usuário. Por essa ótica, as ações
corretivas – a prevenção – atingiam a causa do problema, e não as suas consequên-
cias. Finalmente, desponta o emprego da Qualidade Total, momento em que a res-
ponsabilidade passa a ser partilhada por todos os envolvidos no trabalho, tendo
como foco central as pessoas (usuários), atendendo à questão da qualidade na área
de serviços, intensificando-se a busca de mudanças, tanto comportamental como
cultural, dos indivíduos envolvidos no processo, objetivando, assim, a satisfação do
usuário (CHECCHIA, 1992).
Observa-se que, na abordagem fundamentada nos princípios da Qualidade To-
tal, muitas vezes as organizações ignoram a importância do papel dos executores
dos processos que levam à qualidade – os trabalhadores, no que diz respeito à sua
autonomia e à sua satisfação profissional. Em consonância com essa assertiva, LEI-
TÃO e KURCGANT (2004) acrescentam que a questão da dimensão humana no
ambiente da qualidade deve estar no centro da discussão, uma vez que os anseios,
as expectativas e a satisfação das pessoas responsáveis em concretizar esses pro-
pósitos são vitais para o alcance das metas institucionais. Para tanto, essas autoras
acreditam ser necessário que as instituições proporcionem condições de trabalho,
estimulando a realização profissional e a satisfação pessoal de seus trabalhadores.
Nessa direção, SILVA (1996) afirma que desconhecer a importância do fator hu-
mano ou trabalhá-lo de forma inadequada tem levado ao fracasso inúmeros progra-
mas de qualidade. Portanto, é imprescindível considerar o elevado potencial das
pessoas e investir na sua capacitação, uma vez que a gestão da qualidade pressupõe
um estilo gerencial participativo.
A Qualidade e a Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem 73
Diante desse paradigma, pressupõe-se a necessidade de valorizar as pessoas, a
sua autonomia em decidir, a descentralização do poder, a socialização do saber e a
reorganização do processo de trabalho.
n Qualidade em Saúde: Retrospectiva Histórica
Ao se falar de qualidade em saúde, não se pode deixar de citar a atuação da en-
fermeira inglesa Florence Nightingale (1820-1910), que implantou o primeiro mo-
delo de melhoria contínua da qualidade em saúde, em 1854, durante a Guerra da
Crimeia, baseando-se em dados estatísticos. No Hospital de Scutari, os resultados
de suas intervenções – rígidos padrões sanitários e de cuidados de enfermagem
– propiciaram um significativo declínio da taxa de mortalidade de 40% para 2%
(NOGUEIRA, 1996).
O tema qualidade nos serviços de saúde começou a ser tratado no início do sé-
culo XX, nos Estados Unidos da América (EUA), pelo Colégio Americano de Cirur-
giões, que, por intermédio de padrões mínimos, avaliava regularmente a qualidade
dos cuidados às pessoas hospitalizadas.
A preocupação com a qualidade advém do contexto industrial, cujo foco princi-
pal foi a elaboração de métodos de controle da qualidade.
Edwards Deming, estatístico norte-americano, considerado um dos precursores
dos estudos de controle de qualidade, em 1927, juntamente com Walter Shewhart,
físico e pesquisador dos Laboratórios Bell nos EUA, empregou a estatística para
elaborar um método de controle de qualidade.
Na década de 1950, no pós-guerra, Deming, a convite do governo japonês, in-
troduziu as práticas de gestão da qualidade, tornando-se o responsável pelo trei-
namento dos gerentes no campo de controle estatístico da qualidade (MALIK e
SCHIESARI, 1998).
Referente, ainda, à característica da atividade de controle, J. M. Juran publica,
em 1951, o livro Quality Control Handbook, que se tornou um clássico para os estu-
FASE CONCEITO EIXO
Inspeção Conforme especificações Produto
Controle da qualidade Conforme especificações Processo
Garantia da qualidade Adequação ao uso Prevenção
Qualidade total Satisfação do cliente Pessoas
Fig. 7.1 Sinopsedaevoluçãodoconceitodequalidade.Fonte:CHECCHIA,R.L.Aevoluçãodaqualidadeedosrecur-
sos humanos. Ser humano (São Paulo), 1992; 82:47-49.
74 A Qualidade e a Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem
diosos desse tema. Para esse autor, a administração da qualidade compreende três
processos: o planejamento, o controle e a melhoria da qualidade, a conhecida Tri-
logia de Juran. Alertou que os custos de não se trabalhar com essa tríade implica
erros, desperdícios e retrabalho.
Nessa ocasião, foi criada a Joint Commission on Accreditation of Hospitals
(JCAH), de natureza privada, com objetivo de introduzir conceitos de qualidade
para análise de casos, por meio de auditorias. Essa comissão proporcionou o desen-
volvimento de indicadores, padrões e critérios, visando colaborar com as organiza-
ções na melhoria da qualidade dos cuidados prestados.
No decorrer dos anos de 1980, a qualidade dos serviços passou a ser assunto
prioritário no setor saúde, sendo impulsionada por diversos fatores, como o elevado
custo da assistência à saúde; a consequente necessidade de redução dos gastos; o
aumento dos processos judiciais por erros médicos; a maior exigência de qualida-
de por parte dos usuários; e a precisão de melhor organização dos serviços, com
o intuito de otimizar a relação custo/benefício. Esse movimento levou a JCAH a
ampliar seu domínio de atuação, passando a denominar-se, a partir de 1988, Joint
Commission on Accreditation of Healthcare Organization – JCAHO, demons-
trando a expansão de suas atividades como tentativa de garantir a qualidade dos
serviços de saúde (MALIK e SCHIESARI, 1998).
Durante todo esse período, os autores anteriormente citados fizeram referências
às possibilidades de aplicação de métodos de controle estatístico em serviços de
saúde. Todavia, é Avedis Donabedian, a partir da década de 1980, que passa a pu-
blicar diversos trabalhos, retratando a sua preocupação com o tema qualidade e de
como avaliá-la no setor saúde.
No final dessa mesma década, surgem os padrões de qualidade estabelecidos
pela International Standards Organization (ISO), uma entidade criada em 1946 e
sediada em Genebra, Suíça.
Os princípios que norteiam a ISO 9000 foram desenvolvidos em 1987, para padro-
nizar as normas de gestão de qualidade nas organizações. O certificado ISO 9000
atesta que a instituição cumpre as normas de gestão de qualidade estabelecidas
(BATEMAN e SNELL, 1998).
A aplicação das normas ISO garante a uniformização dos métodos usados pelas
organizações e envolve cinco certificações: lSO 9001 (produtos); ISO 9002 (serviços);
ISO 9003 (sistemas); ISO 9004 (usuários); e ISO 14000 (preservação ecológica).
Na década de 1990, o pediatra norte-americano Donald Berwick envolveu-se
com o gerenciamento da qualidade, tendo contribuído para que os profissionais de
saúde se apropriassem dos conceitos da qualidade, por meio da publicação do livro
intitulado Melhorando a qualidade dos serviços médicos, hospitalares e da saúde,
no qual adapta, para a saúde, os conceitos utilizados na indústria e oferece exem-
plos de efetiva aplicação das ferramentas da qualidade.
Nos países da América Latina e do Caribe, ações visando à garantia da qua-
lidade não foram adotadas de maneira sistemática e extensiva como nos EUA e
na Europa. Porém, verifica-se, na década de 1990, um movimento promovido pela
Organização Panamericana de Saúde e pela Federação Latino-Americana de Hos-
pitais, com a proposta de implantação de um modelo de acreditação de hospitais
(NOVAES e PAGANINI, 1994).
A Qualidade e a Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem 75
n A Qualidade em Saúde e a sua Interface com a Avaliação de Serviços
Na saúde, decorrente da característica do processo de trabalho, a qualidade adqui-
riu um significado particular e diferenciado das demais atividades envolvidas na
produção de bens. Verifica-se que a prestação da assistência à saúde é realizada por
grupos heterogêneos de profissionais, com formação educacional distinta, dificul-
tando o trabalho em equipe, no que se refere à qualidade dos serviços prestados.
Nesse setor, a qualidade é definida como um conjunto de atributos que inclui um
nível de excelência profissional, o uso eficiente de recursos, um mínimo de risco ao
usuário, um alto grau de satisfação por parte dos mesmos, considerando-se essen-
cialmente os valores sociais existentes (DONABEDIAN, 1992a).
Para BERWICK (1994), a qualidade da assistência pode ser definida como a sa-
tisfação das necessidades dos usuários, considerando que este deverá ser o objeto
central das estratégias em busca da qualidade, bem como participar ativamente
desse processo, no papel de avaliador das atitudes dos profissionais de saúde e dos
resultados alcançados com o tratamento recebido.
Segundo NOGUEIRA (1994), a qualidade pode ser traduzida por três elementos
subjetivos, mas que se manifestam de modos objetivamente diferentes. São eles:
• a intenção em criar e manter consciência quanto às propriedades dos produtos
(bens e serviços) que estão sendo gerados, diminuindo sua variabilidade ao se-
rem adotados determinados padrões ou especificações técnicas;
• a preocupação em satisfazer demandas explícitas dos usuários e necessidades
não declaradas, porém previsíveis dos mesmos;
• a orientação para a qualidade envolvendo a gerência, os profissionais e os demais
trabalhadores.
Nesse âmbito, a qualidade, segundo esse autor, é “algo que os envolvidos nos atos
de saúde estarão constantemente preocupados em auferir e aperfeiçoar para dar
maior satisfação aos que necessitam desses serviços”. Portanto, a qualidade trans-
forma-se em filosofia de gerência, uma atitude face à produção, que pode ser mais
bem apreendida quando se examina o modo como se relacionam os polos produção-
consumo, em que a produção parte de uma consideração minuciosa das característi-
cas do processo de consumo, da opinião e da sugestão dos usuários dos serviços.
Ao abordar a temática qualidade em saúde, é inevitável não correlacioná-la com
a avaliação dos serviços de saúde, uma vez que, na essência do conceito de qua-
lidade, está embutida a ideia de avaliação. Assim, é de suma importância que o
conceito de qualidade esteja presente na missão das instituições e incorporado por
seus atores sociais.
E o que significa avaliar? Segundo TANAKA e MELO (2001), é expor um valor
assumido a partir do julgamento realizado com base em critérios previamente defi-
nidos. Acrescentam, ainda, que, no âmbito dos programas e dos serviços de saúde,
a avaliação é compreendida como uma estratégia técnico-administrativa destinada
à tomada de decisão, na qual o exercício dessa capacidade é dado pelo contexto e
pela organização do processo de trabalho.
Segundo esses mesmos autores, a avaliação é uma função de gestão destinada a
auxiliar o processo de decisão, visando torná-lo o mais racional e efetivo possível.
76 A Qualidade e a Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem
Portanto, afirmam que é necessário definir claramente a finalidade pela qual se
está fazendo a avaliação, cabendo ainda ao avaliador analisar as informações dispo-
níveis para melhor conhecer a situação que se pretende avaliar.
A avaliação nos serviços de saúde vem sendo considerada como um processo de
determinação da extensão com a qual as metas e os objetivos estão sendo alcan-
çados e de como esse processo técnico-administrativo fornece subsídios para uma
tomada de decisão. Dessa maneira, algumas medidas, embora incipientes, têm sido
empregadas como estratégias para garantir a qualidade.
A implementação de ações e programas no intuito de garantir a qualidade é uma
necessidade na busca da eficiência e um dever do ponto de vista ético e moral para
com os usuários e trabalhadores. Toda instituição cuja missão essencial é assistir
o ser humano deve preocupar-se com a melhoria constante do atendimento, de tal
maneira que atinja uma relação harmônica das áreas administrativa, tecnológica,
econômica, assistencial, de ensino e de pesquisa.
NOVAES (2000) destaca a possibilidade do emprego de três tipologias para a ava-
liação de serviços: a investigação avaliativa, a avaliação para a decisão e a avaliação
para a gestão. Esses tipos de avaliação diferem entre si quanto ao objetivo, à posição
do avaliador, ao objeto avaliado, à metodologia adequada, ao contexto, à utilização
da informação e ao juízo formulado em relação à temporalidade.
Independentemente do tipo ou do objetivo das ações ou dos programas, quando
se aborda a temática avaliação de serviços de saúde, o modelo de Avedis Donabe-
dian é referendado pelos estudiosos em gestão da qualidade assistencial.
DONABEDIAN (1988, 1992a) parte da assertiva de que a qualidade é a obtenção
de maiores benefícios em detrimento de menores riscos para o usuário, benefícios
estes que, por sua vez, se definem em função do alcançável de acordo com os re-
cursos disponíveis e os valores sociais existentes. Esse conceito pode ser ampliado
considerando-se os sete pilares da qualidade, a seguir, propostos por esse autor:
1. Eficácia: capacidade de produzir melhorias no setor saúde; significa o melhor
que se pode fazer nas condições mais favoráveis dado o estado do cliente;
2. Efetividade: é o grau em que o cuidado, cuja qualidade está sendo avaliada,
alça o nível de melhoria da saúde, cujos estudos de eficácia tenham estabelecido
como alcançáveis;
3. Eficiência: é a medida do custo com o qual uma dada melhoria na saúde é alcan-
çada. Se duas estratégias de cuidado são igualmente eficazes e efetivas, a mais
eficiente é a de menor custo;
4. Otimização: emprego da relação custo-benefício na assistência à saúde. Numa
curva ideal, o processo de adicionar benefícios pode ser tão desproporcional aos
custos acrescidos, que tais adições úteis perdem a razão de ser;
5. Aceitabilidade: sinônimo de adaptação do cuidado aos desejos, expectativas e
valores dos clientes e familiares. Depende da efetividade, da eficiência e da oti-
mização, além da acessibilidade do cuidado e das características da relação pro-
fissional de saúde-cliente;
6. Legitimidade: aceitabilidade do cuidado da forma como é visto pela sociedade
em geral;
A Qualidade e a Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem 77
7. Equidade: princípio pelo qual se determina o que é justo ou razoável na distri-
buição do cuidado e de seus benefícios entre os membros de uma população. A
equidade é parte daquilo que torna o cuidado aceitável para os indivíduos e legí-
timo para a sociedade.
DONABEDIAN (1992b) acrescenta, ainda, que um primeiro ponto na definição
do que é qualidade da assistência é que ela não se constitui num atributo abstrato,
e, sim, que é construída pela avaliação da assistência através de três dimensões:
Estrutura: implica as características relativamente estáveis das instituições, como:
área física, recursos humanos, materiais, financeiros e modelo organizacional;
Processo: refere-se ao conjunto de atividades desenvolvidas na produção em ge-
ral e no setor saúde, nas relações estabelecidas entre os profissionais e os clientes,
desde a busca pela assistência até o diagnóstico e o tratamento;
Resultado: é a obtenção das características desejáveis dos produtos ou serviços,
retratando os efeitos da assistência na saúde do cliente da população.
Além desses aspectos, esse mesmo autor aponta para a importância da partici-
pação do usuário na concepção, na produção e na avaliação dos serviços de saúde,
enfatizando que um modelo de avaliação deve responder às seguintes questões:
• A infraestrutura existente atende às necessidades do usuário?
• Os processos estão ocorrendo de maneira adequada?
• Os resultados obtidos são bons?
• Os clientes estão satisfeitos com os serviços oferecidos?
Nas instituições de saúde, a qualidade da assistência pode ser auferida median-
te instrumentos que, conforme SILVA (1994), perpassam pelas seguintes etapas: a
identificação das necessidades e expectativas dos usuários, o estabelecimento de
padrões assistenciais, a sistematização para o planejamento e implementação da
assistência, a auditoria do processo assistencial e de recursos humanos, qualifica-
dos e comprometidos com o desenvolvimento das ações assistenciais em consonân-
cia com o estabelecido.
Cabe ainda enfatizar que ferramentas de auferibilidade, tais como padrões, crité-
rios e indicadores, são importantes instrumentos empregados no processo de traba-
lho dos profissionais de saúde, considerando-se tanto a dimensão qualitativa como
a quantitativa. Assim, torna-se imprescindível a esses profissionais aprofundarem
cada vez mais a reflexão a respeito desses aparatos, implementando-os nos diferen-
tes contextos de sua prática profissional.
n Avaliação da Qualidade nos Serviços de Saúde: Meios e Instrumentos
O alcance da qualidade da assistência à saúde é uma meta almejada pelas institui-
ções, preocupadas em garantir, por meio de suas ações, o exercício profissional e de
cidadania ao usuário e ao trabalhador.
78 A Qualidade e a Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem
No setor saúde, observa-se uma tendência a construir indicadores de eficiência,
eficácia e efetividade com base em padrões e critérios preestabelecidos para uma
dada realidade.
De acordo com DONABEDIAN (1990), padrão é uma medida quantitativa, capaz
de definir a qualidade almejada, e critério é um atributo de estrutura, de processo
ou resultado, capaz de direcionar a mensuração da qualidade.
O indicador é uma unidade de medida de uma atividade com a qual está relacio-
nado, ou, ainda, uma medida quantitativa que pode ser usada como um guia para
monitorar e avaliar a qualidade assistencial e gerencial de um serviço (JCAHO,
1989).
Constata-se que os indicadores são construídos mediante uma expressão mate-
mática, em que o numerador representa o total de eventos predefinidos e o denomi-
nador, a população de risco selecionada, observando-se a confiabilidade, a validade,
a sensibilidade, a especificidade e o valor preditivo dos dados.
BITTAR (2001) refere que o indicador é um sinalizador que identifica ou dirige
a atenção para assuntos específicos de resultados em uma organização de saúde,
devendo periodicamente ser revisto.
Os indicadores de saúde, tradicionalmente, são medidas (taxas, proporções, ín-
dices, percentuais, números absolutos ou fatos) que procuram sintetizar o efeito de
determinantes de natureza variada (sociais, econômicos, ambientais e biológicos),
acerca do estado de saúde de determinada população (VERMELHO et al., 2002).
MALIK e SCHIESARI (1998) ressaltam que, dificilmente, um indicador, de ma-
neira estanque, é capaz de retratar a realidade; é mais provável que um grupo de in-
dicadores possa espelhar determinada situação. Logo, para garantir o acesso a um
conjunto de indicadores, é fundamental a existência de um sistema de informação
capaz de propiciar maiores e melhores elementos para a sua construção e para sua
aplicabilidade.
Outras ferramentas com a finalidade de definir, mensurar, analisar e propor solu-
ções dos problemas que interferem na garantia da qualidade dos processos de tra-
balho são: as técnicas brainstorming e de grupos operativos, diagramas de causa-
efeito e verificação, de Pareto e de tendência, fluxograma, histograma e gráfico de
dispersão (MALIK e SCHIESARI, 1998).
No Brasil, iniciativas como o Programa de Compromisso com a Qualidade Hospi-
talar (CQH), mantido pela Associação Paulista de Medicina e pelo Conselho Regio-
nal de Medicina do Estado de São Paulo, e o Sistema de Indicadores Padronizados
para a Gestão Hospitalar, apoiado pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Rio
Grande do Sul, buscam monitorar os indicadores de saúde e adaptá-los para pro-
jetos voltados à nossa realidade. Aliado a isso, no cenário brasileiro, o Programa
Brasileiro de Qualidade e Produtividade (PBQP), do Ministério de Ciência e Tecno-
logia, preconiza a instituição do Prêmio Nacional da Qualidade destinado a estimu-
lar a melhoria contínua da qualidade de produtos e serviços, através dos conceitos
da Gestão de Qualidade Total e promover, internacionalmente, a excelência dos
produtos e serviços brasileiros.
Em 1997, visando ao alcance da qualidade, o Ministério da Saúde inicia um pro-
grama, denominado Acreditação Hospitalar, que é um método de consenso, racio-
nalização e ordenação dos hospitais. Esse programa, de cunho voluntário, pressu-
põe uma ação proativa das organizações em apresentar à população, autoridades
A Qualidade e a Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem 79
sanitárias e fornecedores/consumidores de serviços de saúde um padrão de quali-
dade compatível com uma referência externa.
Para a implantação de programas de qualidade, é indispensável a utilização de
determinadas ferramentas que promovam uma mudança no ambiente físico, nas
questões organizacionais, que auxiliem na melhoria da autoestima dos profissio-
nais e no relacionamento entre os setores.
O Programa 5S pode ser considerado como uma dessas ferramentas, uma vez
que busca, por meio da sensibilização das pessoas e da reorganização dos processos
de trabalho, uma mudança na cultura organizacional e, consequentemente, na qua-
lidade dos serviços. É derivada do modelo japonês, cujas siglas provêm de palavras
que se iniciam com a letra S e que significam: Seiri – separar o necessário do des-
necessário, o essencial do acidental; Seiton – organizar, colocar as coisas nos seus
devidos lugares; Seiso – limpar e manter o ambiente limpo e agradável; Seiketsu
– padronizar e simplificar as atividades; e Shitsuke – disciplinar, manter a ordem e
os compromissos.
Especificamente com relação à enfermagem, algumas medidas vêm sendo im-
plementadas no sentido de estabelecer programas de monitorização aplicando indi-
cadores, tais como: cuidado com cateteres, transferência de usuário entre unidades,
controle da dor, úlcera por pressão, flebite e de vigilância – como quedas e adminis-
tração de medicamentos (DENSER, 2003).
Independentemente dos tipos de programas adotados, consideramos que os in-
dicadores devam ser capazes de atender aos seguintes objetivos: melhorar a as-
sistência ao usuário, fortalecer a confiança da clientela, atender às exigências de
órgãos financiadores, reduzir custos e atrair e estimular o envolvimento dos pro-
fissionais.
Nesse contexto, os estabelecimentos de saúde podem ser avaliados de várias
maneiras para cumprir as exigências legais, as condições de classificação segundo
determinado critério ou as condições de qualidade. Há pelo menos quatro catego-
rias de avaliação no sistema de saúde brasileiro (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 1999),
elencadas a seguir:
• Habilitação ou Alvará: trata-se de uma avaliação executada pela autoridade sa-
nitária jurisdicional, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária ou por enti-
dade delegada para esse propósito. É uma pré-condição para o ingresso no pro-
cesso de acreditação;
• Categorização: refere-se à classificação de unidades ambulatoriais ou de inter-
nação, de acordo com critérios determinados como: graus de complexidade, de
prevenção de riscos, de especialidades médicas e de outros serviços;
• Programas de autoavaliação: são métodos de monitoração, como: reuniões ana-
tomopatológicas, discussões de casos clínicos ou revisões de prontuários. Outras
maneiras também podem ser utilizadas, considerando critérios explícitos e acei-
táveis de desempenho, que são comparados com a atenção oferecida (controle de
infecção, morbidade, grau de satisfação individual e da família, a referência e a
contrarreferência entre uma rede de serviços);
• Acreditação: é um procedimento de avaliação dos recursos institucionais, perió-
dico e reservado para o reconhecimento da existência de padrões previamente
80 A Qualidade e a Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem
definidos na estrutura, no processo e no resultado, com vistas a estimular e man-
ter o desenvolvimento de uma cultura da qualidade. Constitui-se, essencialmen-
te, em um programa de transformação da realidade, e não em uma forma de
fiscalização.
Atualmente, no Brasil, três organizações destacam-se por disponibilizarem ele-
mentos capazes de monitorar a qualidade nos estabelecimentos de saúde: a Organi-
zação Nacional de Acreditação (ONA), ligada ao Ministério da Saúde, a norte-ameri-
cana Joint Commission on Accreditation of Healthcare Organization e a canadense
Canadian Council on Health Services Accreditation.
O Manual Brasileiro de Acreditação Hospitalar é o instrumento de avaliação da
qualidade institucional que engloba todas as unidades do hospital, apresentando
padrões de qualidade para cada uma, agrupados em três níveis de complexidade.
Os requisitos dos níveis 1 (segurança-estrutura) e 2 (organização-processo) são
aplicáveis aos serviços, setores ou unidades alocados em uma das oito seções do
instrumento de avaliação; o nível 3 (excelência na gestão-resultado) é aplicado às
seções como um todo.
No âmbito de enfermagem, sempre existiu uma ação informal para auferir a qua-
lidade da assistência, representada pela preocupação dos enfermeiros em seguir
rigorosamente os procedimentos executados, acreditando-se com isso que seriam
assegurados os resultados almejados (ADAMI, 2000).
Por essa ótica, entende-se que, no serviço de enfermagem, a gestão da qualida-
de da assistência volta-se para a prática profissional fundamentada no corpo do
conhecimento da enfermagem, nas habilidades, nas crenças e valores individuais,
profissionais e institucionais.
CIANCIARULLO (1997) elucida que os conhecimentos constituem-se num con-
junto teórico do saber, expresso de maneira operacional, por meio do processo de
enfermagem, sistematizando as ações, atingindo um nível de qualidade compatível
com a necessidade do usuário, de sua família e da comunidade. A habilidade é a
própria capacidade de cuidar, de realizar algo, constituindo-se em um dos alicerces
da qualidade da assistência, e as crenças e valores influenciam o padrão estabele-
cido para a assistência, embasado na qualidade dos resultados desejados, da inte-
ração do enfermeiro-usuário, e refletem-se no compromisso do ser enfermeiro em
exercer a profissão.
Dentre os instrumentos de que o Serviço de Enfermagem dispõe para gestão da
qualidade, ADAMI (2000) cita aqueles considerados como internos: a Comissão de
Avaliação Interna da Qualidade, constituída de elementos da equipe multidiscipli-
nar, a Comissão de Auditoria em Enfermagem, a Comissão de Prevenção e Controle
de Infecções Hospitalares, a Comissão de Ética em Pesquisa, a Comissão de Educa-
ção Permanente, a Comissão de Gerenciamento de Riscos, a Comissão de Avaliação
dos Usuários e o externo, como a referida Acreditação Hospitalar.
Há ainda que considerar a importância de elaborar indicadores passíveis de se-
rem estudados e comparados, no âmbito do gerenciamento do Serviço de Enferma-
gem, com os padrões internos e externos à instituição.
Dessa forma, podemos implementar instrumentos reguladores da qualidade da
assistência de enfermagem, baseados nos componentes de estrutura, de processo e
de resultado, considerando os padrões e critérios de uma dada realidade.
A Qualidade e a Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem 81
Por conseguinte, validar indicadores conduz o enfermeiro a encontrar respostas
para diversas questões gerenciais, assistenciais, econômicas e legais, mostrando re-
sultados em relação ao atendimento prestado e implementando ações de melhoria,
fundamentadas em elevados padrões de qualidade (DENSER, 2003).
Outros aspectos a serem considerados para o alcance da qualidade da assistên-
cia de enfermagem referem-se ao quantitativo de recursos humanos, à qualifica-
ção de seus profissionais, à motivação no trabalho, à remuneração salarial, entre
outros.
No caminho que leva à qualidade, envolver os recursos humanos da instituição é
essencial, devendo-se criar espírito de grupo e proporcionar estratégias que condu-
zam as pessoas a trabalharem com maior entusiasmo, criatividade e motivação.
NOGUEIRA (1994), ADAMI e MARANHÃO (1995) afirmam que, sem a partici-
pação e o envolvimento dos profissionais da instituição, não haverá a efetivação da
qualidade; portanto, as pessoas necessitam ser motivadas e capacitadas para otimi-
zarem o processo produtivo objetivando a qualidade, uma vez que esta depende de
esforços em níveis individual e coletivo. Ainda, referente aos recursos humanos,
corroboramos o pensamento de ADAMI (2000), ao afirmar que, para uma gestão efi-
caz dos serviços de saúde e de enfermagem, torna-se necessária a implementação
de uma política de qualificação de pessoal para enfrentar os desafios do 3o milênio e
vontade política para transformar os serviços de saúde, as quais, certamente, cons-
tituir-se-ão nos pilares básicos para a melhoria da qualidade dos serviços prestados
à população brasileira.
n Considerações Finais
Neste capítulo foram discutidos conceitos a respeito da temática “qualidade” e sua
evolução, por meio de uma retrospectiva histórica, e sua aplicabilidade nos serviços
de saúde e de enfermagem.
A interface do conceito qualidade com a avaliação dos serviços de saúde está
pautada, fundamentalmente, no referencial teórico de Avedis Donabedian, tendo
como eixo norteador os elementos de estrutura, processo e resultado, consideran-
do-se também os sete pilares da qualidade propostos por esse autor.
Destacou-se a importância do alcance da qualidade nos Serviços de Enferma-
gem, a implementação de instrumentos para avaliar e monitorar as ações e os pro-
gramas sob sua responsabilidade.
Em virtude do que foi mencionado, propôs-se o emprego de indicadores basea-
dos em estrutura, processo e resultado, bem como em padrões e critérios assisten-
ciais como uma possibilidade de auferir a qualidade.
E, finalmente, aponta que o conceito qualidade deve estar incorporado na missão
da instituição e na vontade política dos profissionais que nela atuam. Salienta-se,
ainda, que a qualidade está intrinsecamente associada à dimensão de otimização,
em que é preciso empregar ao máximo os recursos existentes, sem riscos para os
usuários e trabalhadores. Outrossim, é fundamental garantir espaços e meios para
que essa clientela seja efetivamente protagonista do processo em busca da qualida-
de nos serviços de saúde.
82 A Qualidade e a Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem
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A Qualidade de Vida no
Trabalho e a Saúde do
Trabalhador de Enfermagem
VANDA ELISA ANDRES FELLI E DAISY MARIA RIZATTO TRONCHIN
8
85
n As Concepções Acerca da Qualidade de Vida e sua Interface com a
n Qualidade de Vida no Trabalho
A expressão “qualidade de vida” (QV) tem sido referida tanto ao momento de vida
dos indivíduos em sociedade como ao momento de trabalho – qualidade de vida no
trabalho (QVT), entendendo que esses se constroem mutuamente. Essa afirmação
está pautada no entendimento de que não há como dissociar a vida e o trabalho,
bem como não reconhecer a interface do trabalho na nossa QV.
O trabalho, concebido como organizador da vida social, é imprescindível para
os indivíduos. Na sociedade atual, a pessoa precisa sentir-se produtiva e realizada.
Para tanto, as atividades que desenvolve necessitam de sentido, de significado.
Para compreender o significado de QVT e suas implicações na saúde dos traba-
lhadores de enfermagem, torna-se necessário apreender o significado de QV.
Nas últimas décadas, verifica-se que a expressão “qualidade de vida” vem sendo
vastamente aplicada nas inúmeras áreas do conhecimento e no cotidiano.
Embora seja um tema atual, não há consenso sobre o conceito de qualidade de
vida, dada a sua natureza abstrata e subjetiva, que lhe confere diversos significa-
dos (LIMONGI-FRANÇA e RODRIGUES, 2005). Esses significados são atribuídos
86 A Qualidade deVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem
aos conhecimentos, experiências e valores, tanto individuais como coletivos. As
acepções do termo qualidade de vida contemplam dimensões contidas no momento
histórico, na classe social e na cultura a que pertencem os indivíduos. Logo, a QV
pode ser retratada e discutida sob inúmeras facetas e pontos de vista, trazendo à
tona amplos debates sobre o seu conceito e a sua aplicabilidade.
Nesse sentido, a discussão dessa temática pode ser realizada no mínimo em duas
abordagens, como referem SILVA e MASSAROLLO (1998): a primeira no enfoque
tradicional, que busca e identifica a existência dessa qualidade ou não, segundo
alguns critérios ou categorias; e a segunda, em uma abordagem histórica, que
procura apreender os seus determinantes.
A concepção da QV na abordagem tradicional, ou seja, positivista, tem sido
mais estudada e divulgada pelas pesquisas. Nessa linha de pensamento, a busca do
conhecimento é neutra, objetiva, livre de juízo de valor e de implicações político-
sociais, marcada pela neutralidade e pela objetividade (MINAYO, 1993).
Por essa ótica, a expressão “qualidade de vida” foi empregada pela primeira vez
pelo presidente dos EUA, Lyndon Johnson, na década de 1960, ao declarar que “os
objetivos não podem ser medidos através do balanço dos bancos, mas sim por meio
da QV que proporcionam às pessoas” (MEEBERG, 1993; WHOQOL, 1998).
Embora não haja uma uniformidade quanto ao conceito, nessa concepção há
uma concordância entre os pesquisadores acerca do constructo, cujas característi-
cas são: a subjetividade, a multidimensionalidade e a presença de dimensões posi-
tivas e negativas, como a mobilidade e a dor (WHOQOL, 1998).
A Organização Mundial da Saúde (OMS), entendendo a complexidade do fenô-
meno e disposta a discutir o tema, reuniu um grupo de experts de diferentes locais
e culturas visando conceituá-la. Dessa maneira, esse grupo definiu a QV como “a
percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema
de valores nos quais vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e
preocupações” (WHOQOL GROUP
, 1998).
Para MEEBERG (1993), QV é um constructo multifacetado, englobando aspec-
tos de comportamento individual e capacidades cognitivas, o bem-estar emocional
e habilidades requeridas para desempenhar o papel familiar, vocacional e social
no qual se encontram as naturezas objetiva e subjetiva do ser humano. A autora
destaca quatro atributos intrinsecamente relacionados à expressão: sentimento de
satisfação com a vida; capacidade mental de evoluir e vencer na vida com prazer;
possuir um estado aceitável de saúde física, mental, social e emocional segundo a
referência individual; e uma avaliação objetiva de outra pessoa acerca das condi-
ções adequadas ou não da vida ou terapêutica.
PADILHA e SOUZA (1999) acrescentam que QV é a condição da existência do
ser humano, referida aos modos de viver em sociedade, dentro dos limites que são
colocados em cada momento histórico para se viver o cotidiano, e relaciona-se aos
atributos e às propriedades que qualificam a vida e ao sentido que cada indivíduo
atribui a ela.
Nesse aspecto, a expressão “qualidade de vida” perpassa pela qualidade de saú-
de, suas possibilidades e limitações, tanto individual como coletiva, e, ainda, inclui
o sentido de satisfazer as necessidades relativas à moradia, educação, alimentação,
ao trabalho, ao lazer, às relações sociais, enfim, dimensões que favorecem a con-
quista da cidadania.
A Qualidade deVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem 87
Assim, o conceito QV é apreendido como subjetivo, dinâmico, que se modifica
com nosso processo de viver, uma vez que a satisfação com a vida e a sensação de
bem-estar podem, muitas vezes, ser sentimentos transitórios.
Por essa ótica, a captação da QV é realizada tanto genérica como especificamen-
te. Na dimensão genérica, captam-se o perfil de saúde-doença e seus aspectos, bem
como o impacto de uma doença sobre a população geral ou grupos específicos –
como os portadores de doenças crônicas. A captação específica busca detectar par-
ticularidades da QV nos indivíduos, como as funções física, sexual, entre outras
(DANTAS; SAWADA; MALERBO, 2003).
Segundo MINAYO, HARTZ e BUSS (2000), um amplo repertório de indicadores
e instrumentos tem sido utilizado, mundialmente, no sentido de quantificar e apre-
ender a QV dos grupos, destacando: o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH),
Índice de Condições de Vida (ICV), Qualidade de Vida Ligada à Saúde (QVLS),
Health Related Quality of Life (HRQL), World Health Organization Quality of Life
(WHOQOL), Quality-adjusted Life-Years (QALY) e outros.
Do mesmo modo, diferentes instrumentos são utilizados para identificar a satis-
fação no trabalho e a QVT, como o Índice de Satisfação no Trabalho (LINO, 1999,
2004; MATSUDA, 2002; SCHMIDT, 2004), o Questionário de Medida da Satisfação
no Trabalho (DEL CURA, 1994; FERREIRA, POSSARI e MODERNO, 2006) e o Ins-
trumento de Medida de Qualidade de Vida no Trabalho (CARANDINA, 2003).
A OMS, portanto, em busca de um instrumento que mensurasse a QV em uma
perspectiva internacional, desenvolveu um projeto em vários continentes, origi-
nando dois instrumentos gerais disponíveis em 20 idiomas: o WHOQOL-100 e o
WHOQOL-BREF
. No Brasil, o WHOQOL-BREF foi validado e aplicado por FLECK
et al. (2000).
Empregando esse instrumento, TRONCHIN et al. (2002) analisaram a qualidade
de vida dos trabalhadores de enfermagem das seções de UTI Pediátrica e Ambula-
tório do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo. Concluíram que, em
uma escala de 1 a 5, esses trabalhadores consideraram que os domínios que mais
contribuíram para a QV foram os relativos à dimensão psicológica (3,6) e às relações
sociais (3,8). Atribuíram, ainda, para os domínios físico e meio ambiente, índices
de 3,2 e de 3,4, respectivamente. Para a categoria enfermeiro, o menor escore 3,4
relacionou-se ao domínio físico, enquanto, para os auxiliares e técnicos de enferma-
gem, o mesmo escore foi encontrado no domínio de meio ambiente.
Na abordagem histórica, SILVA e MASSAROLLO (1998) citam que a busca é
pela historicidade dos fatos, objetivando transformar a realidade, tendo como cate-
goria básica de análise da sociedade o modo de produção e, como categoria media-
dora das relações sociais, o trabalho (MINAYO, 1993). Portanto, nessa perspectiva, a
preocupação encontra-se em apreender os determinantes que influenciam a QV e a
reflexão acerca dos processos que a determinam.
DEMO (1996) salienta que a dimensão cultural também deve integrar a QV, en-
tendida como a demonstração histórica concreta da competência humana, tanto
como memória e patrimônio quanto como potencialidade futura, ambas destinadas
à construção da identidade, condição essencial de cidadania.
BREILH et al. (1990), estudiosos vinculados à corrente latino-americana de me-
dicina social, concebem a QV como resultado histórico e social, apontando seus
88 A Qualidade deVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem
determinantes. Para esses autores,1 os membros de cada classe social inserem-se
na esfera produtiva de forma especial, com seus padrões característicos de consu-
mo, suas formas específicas de organização e cultura, que se desenvolvem em um
sistema contraditório, em que se opõem, por um lado, os bens ou forças benéficas
que protegem e aperfeiçoam sua saúde e o avanço dos processos biológicos, e, por
outro, os aspectos destrutivos que os constringem e deterioram. Complementam
que tanto os aspectos benéficos de que desfrutam como os destrutivos de que pade-
cem constituem o que se tem denominado de perfil saúde-enfermidade. Destacam,
ainda, que esse sistema integrado de contradições está reportado à reprodução so-
cial que, em última instância, modela a qualidade de vida e os padrões de saúde-
enfermidade resultantes, o denominado perfil epidemiológico.
n A Qualidade de Vida no Trabalho de Enfermagem
O trabalho, no contexto mundial, vem sofrendo transformações importantes, decor-
rentes da chamada globalização,2 que tem exigido constantes mudanças na sua for-
ma de organização. Inserido nessa realidade, o trabalho exercido no País reproduz
essas transformações. Em particular e, no cenário da América Latina, esse trabalho
sofre, na atualidade, o impacto das políticas de recorte neoliberal, como uma forma
capitalista avançada. Nessa realidade, estão presentes a redução da força de traba-
lho, o desemprego, a competitividade e a consequente busca por novas formas de
organização dos processos de trabalho, a intensificação do ritmo onde o trabalho é
executado, a flexibilização dos direitos trabalhistas e a inserção informal nos mer-
cados, dentre tantas outras.
GELBCKE (2002) comenta que a implantação de novos modelos de gestão e tec-
nologia é necessária para a produção de melhores produtos ou serviços de qualida-
de para os consumidores que se encontram cada vez mais exigentes. E alerta para
o fato de que a exigência pela qualidade tem repercutido nas instituições visando o
aumento de maior produtividade, melhor qualidade, em detrimento, muitas vezes,
da qualidade de vida do trabalhador.
Essas transformações no mundo do trabalho têm trazido à tona as discussões a
respeito da QV do trabalhador.
SILVA e MASSAROLLO (1998) afirmam que a QV dos trabalhadores de enfer-
magem é dependente do modo como o trabalho se organiza e se opera, e de como
os profissionais se utilizam das estratégias de enfrentamento. Referem, ainda, que
as dimensões da estrutura política e organizacional se articulam aos processos par-
1Texto traduzido pelas autoras.
2“A globalização pode ser definida como a intensificação das relações sociais em escala mundial,
que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por even-
tos que ocorrem a muitas milhas de distância, e vice-versa. É um processo dialético porque tais
acontecimentos locais podem se deslocar numa direção inversa às relações muito distanciadas que
os modelam. A transformação local é tanto parte da globalização quanto a extensão lateral das co-
nexões sociais através do tempo e espaço. Assim, quem quer que estude as cidades hoje em dia, em
qualquer parte do mundo, está ciente de que o que ocorre numa vizinhança local tende a ser in-
fluenciado por fatores – tais como dinheiro mundial e mercados de bens – operando a uma distância
indefinida da vizinhança em questão” (GIDDENS apud IANNI, 1994).
A Qualidade deVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem 89
ticulares que culminam com a personalidade e a subjetividade, definidoras dos in-
teresses, das motivações, das vulnerabilidades e da capacidade de reação dos tra-
balhadores.
Estudos mostram o comprometimento da qualidade de vida dos trabalhadores
de enfermagem.
Historicamente, a origem da denominação “qualidade de vida no trabalho” é
atribuída a ERIC TRIST et al., na década de 1950, que desenvolveram estudos de
abordagem sociotécnica relativa à organização do trabalho, no Tavistock Institute.
O termo foi usado para designar experiências pautadas na relação indivíduo, traba-
lho e organização, com base na análise e reestruturação da tarefa, com o objetivo de
tornar a vida dos trabalhadores menos sofrida (RODRIGUES, 1994; FERNANDES,
1996). Assim, os estudos sobre a QV no trabalho, que, na sua primeira fase, detém
uma abordagem sociotécnica, em que a organização do trabalho direciona-se para a
análise e reestruturação da tarefa, passam para uma segunda fase, com enfoque na
administração do contexto organizacional (RODRIGUES, 1994).
Ambas as fases são marcadas pela égide da abordagem tradicional positivista,
discutida na primeira parte deste capítulo, e os principais estudos fundamentados
nessa abordagem podem ser, resumidamente, visualizados no Quadro 8.1.
Na revisão de literatura, constata-se que a maioria das pesquisas são desenvolvi-
das nessa abordagem tradicional, com ênfase na satisfação profissional. Os estudos
acerca do tema específico de QV com trabalhadores de enfermagem, em particular,
foram incrementados na última década, como podemos analisar pelas produções
de VIEIRA (1993), MATOS (1999), MARTINS (1999), GELBECKE (2002), SOUZA
(2003), CARANDINA (2003), SCHMIDT (2004), LINO (2004) e SCHMIDT (2009).
VIEIRA (1993) pesquisou a QVT dos enfermeiros em um hospital de ensino,
seguindo o referencial teórico de Walton, e concluiu que a QVT dos profissionais
encontrava-se prejudicada quanto aos seguintes aspectos: remuneração salarial
inadequada, desequilíbrio entre o processo de trabalho e a vida extraorganização,
ausência de perspectiva de ascensão na carreira, estrutura organizacional burocrá-
tica e escassez de recursos humanos.
MATOS (1999) realizou uma investigação baseando a sua análise nas catego-
rias de WALTON (1975). Como resultado, evidenciou a necessidade de repensar o
processo de trabalho, o envolvimento dos diversos trabalhadores na concepção e
execução da assistência de enfermagem, procurando alternativas que valorizem
a contribuição de cada um no desenvolvimento do trabalho coletivo; implementar
medidas que contribuam para melhorar a QVT, como jornada de trabalho única;
elaborar um plano de capacitação viável e adequado; e a implantação de monitora-
mento periódico à saúde.
A pesquisa de MARTINS (1999) define a QVT como um conjunto de fatores conti-
dos em uma instituição que possibilita ao trabalhador o completo desenvolvimento
de suas potencialidades intelectuais e físicas, associadas ao seu bem-estar físico,
mental, material e social, respeitando-se os princípios de segurança, higiene, ergo-
nomia que impulsionam o indivíduo à conquista de seus direitos de cidadania.
GELBECKE (2002), em um estudo exploratório-descritivo quantiqualitativo,
buscou apreender como os trabalhadores de enfermagem percebiam a QVT em
um hospital de ensino. Em sua maioria, os profissionais responderam afirmativa-
mente, quando questionados se a organização do trabalho interferia em sua QV,
90 A Qualidade deVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem
Quadro 8.1 Estudos sobre qualidade de vida no trabalho,segundo autores,ano,
categorias de análise e indicadores.São Paulo,2004
Autor/ano Categorias de análise Indicadores
Walton (1973) 1. Compensação justa e adequada • Remuneração adequada
• Equidade interna e externa
2. Condições de trabalho • Jornada de trabalho
• Carga de trabalho
• Ambiente físico
• Material e equipamento
• Ambiente saudável
• Estresse
3. Uso e desenvolvimento de capacidades • Autonomia
• Significado da tarefa
• Identidade da tarefa
• Variedade da habilidade
• Retroinformação
4. Oportunidade de crescimento e
segurança
• Possibilidade de carreira
• Crescimento pessoal
• Perspectiva de avanço salarial
• Segurança de emprego
5. Integração social na organização • Ausência de preconceitos
• Igualdade
• Mobilidade
• Relacionamento
• Senso comunitário
6. Constitucionalismo • Direitos de proteção do trabalhador
• Privacidade pessoal
• Liberdade de expressão
• Tratamento imparcial
• Direitos trabalhistas
7. Trabalho e espaço total de vida • Papel balanceado no trabalho
• Estabilidade de horários
• Poucas mudanças geográficas
• Tempo para lazer da família
8. Relevância social da vida no trabalho • Imagem da empresa
• Responsabilidade social da empresa
• Responsabilidade pelos produtos
• Práticas de emprego
Belanger (1973) 1. O trabalho em si • Criatividade
• Variabilidade
• Autonomia
• Feedback
2. O crescimento pessoal e profissional • Treinamento
• Oportunidade de crescimento
• Relacionamento no trabalho
• Papéis organizacionais
(continua)
A Qualidade deVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem 91
Quadro 8.1 Estudos sobre qualidade de vida no trabalho,segundo autores,ano,
categorias de análise e indicadores.São Paulo,2004 (continuação)
Autor/ano Categorias de análise Indicadores
Belanger (1973)
(continuação)
3. Tarefas com significado • Tarefas completas
• Oportunidade de crescimento
• Relacionamento no trabalho
• Papéis organizacionais
4. Funções e estruturas abertas • Clima de criatividade
• Transferência de objetivos
Hackman,Oldham
(1975)
1. Dimensões da tarefa • Variedade de habilidades
• Identidade da tarefa
• Significado da tarefa
• Inter-relacionamento
• Autonomia
• Feedback do próprio trabalho
• Feedback extrínseco
2. Estados psicológicos críticos • Percepção da significância do trabalho
• Percepção da responsabilidade pelos resultados
• Conhecimentos dos reais resultados do trabalho
3. Resultados pessoais e trabalho • Satisfação geral com o trabalho
• Motivação interna para o trabalho
• Produção de trabalho de alta qualidade
• Absenteísmo e rotatividade baixas
Westley (1979) 1. Indicador econômico • Equidade salarial
• Remuneração adequada
• Benefícios
• Local de trabalho
• Carga horária
• Ambiente externo
2. Indicador político • Segurança no emprego
• Atuação sindical
• Retroinformação
• Valorização do cargo
• Relacionamento com a chefia
3. Indicador psicológico • Realização potencial
• Nível de desafio
• Desenvolvimento pessoal
• Desenvolvimento profissional
• Criatividade
• Autoavaliação
• Variedade de tarefa
• Identificação com a tarefa
4. Indicador sociológico • Participação nas decisões
• Autonomia
• Relacionamento interpessoal
• Grau de responsabilidade
• Valor pessoal
(continua)
92 A Qualidade deVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem
Quadro 8.1 Estudos sobre qualidade de vida no trabalho,segundo autores,ano,
categorias de análise e indicadores.São Paulo,2004 (continuação)
Autor/ano Categorias de análise Indicadores
Wether,Davis
(1983)
1. Elementos organizacionais • Abordagem mecanicista
• Fluxo de trabalho
• Práticas de trabalho
2. Elementos ambientais • Habilidade e disponibilidade de empregados
• Expectativas sociais
3. Elementos comportamentais • Autonomia
• Variedade
• Identificação da tarefa
• Retroinformação
Nadier,Lawler
(1983)
Sucesso dos projetos • Percepção das necessidades
• Centralização no foco do problema
• Identificação e solução estruturada do problema
• Projeção de compensações e resultados
• Identificação do impacto nos diversos sistemas
• Envolvimento amplo da organização
Huse,Cummings
(1985)
1. Bem-estar do trabalhador • Envolvimento do trabalhador nas decisões
2. Eficácia da organização • Estruturação de cargos
3. Participação do trabalhador • Inovação no sistema de recompensa
• Melhora do ambiente de trabalho
Fonte: Extraído e sistematizado pelas autoras a partir de FERNANDES,E.C.Qualidade de vida no trabalho:como medir para melhorar.Salvador,
Casa da Qualidade,1996; e de SCHIMIDT,D.R.C.Qualidade de vida no trabalho e sua associação com o estresse,2009.
destacando-se tanto o modo como o trabalho é realizado, quanto as inter-relações
que se estabelecem, ou seja, a organização do trabalho surge como uma relação
intersubjetiva e social. Apontou que pensar em QVT é pensar na pessoa executora
do trabalho e em propostas que possibilitem ao trabalhador uma real autonomia,
uma prática crítica e reflexiva capaz de mostrar seu potencial, sem preocupar-se
somente com a produção. Aliar poder criativo e produtividade conduz também à
satisfação e, consequentemente, a melhor QVT.
SOUZA (2003) analisou a percepção dos trabalhadores de enfermagem a respeito
do que é ter qualidade de vida no trabalho, empregando o referencial de Walton.
Os participantes consideraram que QVT era: “ter recursos materiais e humanos,
ambiente agradável e condições de trabalho, remuneração adequada, liberdade de
escolha e expressão, ter diálogo e companheirismo entre a equipe e poder conciliar
tranquilamente a vida particular com o seu trabalho.”
CARANDINA (2003) construiu e validou um instrumento para medida da QVT
de enfermeiros, o qual permite identificá-la em 13 domínios e 65 itens.
SCHMIDT e DANTAS (2006) constataram alto grau de satisfação com os 16 itens
abordados pelo questionário de QV, estando entre satisfeitos e bastante satisfeitos
com a QV; os itens considerados como fontes de maior satisfação foram relaciona-
mento com amigos, independência e ter e criar filhos.
A Qualidade deVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem 93
LINO (2004) identificou o domínio saúde e funcionamento como o mais compro-
metido com a qualidade de vida das enfermeiras de terapia intensiva.
O estudo de SCHMIDT (2009) apontou trabalhadores de enfermagem moderada-
mente satisfeitos, frequência elevada de trabalhadores com sintomas de ansiedade,
depressão, distúrbios osteomusculares e estresse. LOIOLA e FELLI (2007) asso-
ciam a elevada frequência de distúrbios osteoarticulares com a baixa qualidade de
vida no trabalho de enfermagem.
A satisfação como principal definidor da QVT é associada à remuneração, à auto-
nomia, ao status profissional, às normas organizacionais e à maior participação do
trabalhador (SCHMIDT, DANTAS e MARZIALLE, 2008); isto porque o trabalho sig-
nifica sobrevivência econômica, condição social e oportunidades de vida. Por outro
lado, sua falta ou de seu significado compromete o equilíbrio e desenvolvimento do
ser humano e a sua saúde física e mental.
Uma segunda abordagem sobre a qualidade de vida no trabalho encontra-se fun-
damentada na historicidade desse processo. Seguindo essa fundamentação e an-
coradas no conceito de qualidade de vida segundo BREILH et al. (1990), discutido
anteriormente neste capítulo, SILVA e MASSAROLLO (1998) fazem uma aproxi-
mação desta para o trabalho de enfermagem.
Para essas autoras, “a qualidade de vida dos trabalhadores de enfermagem, como
um grupo social específico, em última instância, resulta das contradições existen-
tes entre os aspectos saudáveis e protetores de que esse grupo desfruta e os aspec-
tos destrutivos de que padece, de acordo com sua inserção histórica e específica na
produção em saúde”. Referem, ainda, que “esses processos potencializadores da
saúde e os destrutivos ocorrem simultaneamente, tanto no momento produtivo – na
situação de trabalho – como no momento de consumo – na vida social. Sendo assim,
quando os processos destrutivos se acumulam e se intensificam, ocorre o favore-
cimento da doença, do envelhecimento e da morte desses trabalhadores. Por outro
lado, quando se expandem e potencializam os aspectos saudáveis e protetores, há
o favorecimento da saúde e da vida. Portanto, é nas contradições da reprodução so-
cial que a qualidade de vida é gerada”. Nesse caso, cada grupo social tem um perfil
protetor e um destrutivo, expresso pelo perfil saúde-doença (BREILH et al., 1990).
Dessa forma, SILVA e MASSAROLLO (1998) concebem que a QVT é gerada pelos
processos potencializadores, em oposição aos destrutivos, apreendidos no momen-
to de trabalho.
Essa é uma abordagem interessante, na medida em que agrega os aspectos po-
sitivos do trabalho como potencializadores da saúde, pois, ainda hoje, há a neces-
sidade de estabelecimento de estratégias de enfrentamento, no que concerne às
situações desgastantes impostas pelo trabalho, e também há que se reconhecer e
manter os aspectos positivos. Essas proposições podem ser sintetizadas no esque-
ma adiante.
Nessa direção, são enumerados determinantes, tanto de um perfil favorável
como de um perfil destrutivo, que, em última instância, determinam a qualidade
de vida no trabalho de enfermagem (LAURELL e NORIEGA, 1989; BREILH et al.,
1990; SILVA e MASSAROLLO, 1998). Assim, no momento produtivo, um perfil fa-
vorável pode ser apreendido pela possibilidade de integração social e gregarismo
humano; aprendizagem não só de conhecimentos, incluindo também as relações
sociais; a formação de uma identidade social e pessoal; o desenvolvimento e a uti-
94 A Qualidade deVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem
lização de capacidades humanas. Por outro lado, um perfil destrutivo pode ser
apreendido pela: alienação, subordinação e hierarquização; falta de autonomia e
criatividade; exposição às sobrecargas e subcargas, que geram processos de desgas-
te; elevada rotatividade e desarticulação de defesas coletivas.
Partindo dessa fundamentação e considerando o processo de trabalho de ensi-
no de enfermagem, ROCHA e FELLI (2004) desenvolveram um estudo em uma
instituição privada e verificaram que, para os professores, a qualidade de vida no
trabalho significou condições de trabalho, remuneração adequada, bom relaciona-
mento interpessoal e identificação profissional. Os participantes apontaram como
condições potencializadoras da QVT o investimento institucional, a possibilidade
de capacitação docente e a prática de relações horizontalizadas. Referiram como
condições desgastantes o regime de trabalho horista, a desarticulação entre teoria e
prática, a remuneração e os aspectos didático-pedagógicos. Sobretudo, a exposição
desses trabalhadores às cargas psíquicas foi identificada como geradora de mani-
festações psicossomáticas e psicoemocionais.
Constata-se que os estudos conduzidos na abordagem histórica permitem o reco-
nhecimento dos agravos de saúde gerados pela exposição dos trabalhadores a uma
diversidade de cargas, apontando seus determinantes e intervenções em diferentes
níveis.
Enquanto trabalho que se insere no setor de prestação de serviços de saúde da
produção brasileira, deve-se reconhecer que o trabalho de enfermagem sofre o im-
pacto da globalização e das políticas de recorte neoliberal, trazendo como consequên-
cias o desemprego; a rotatividade da força de trabalho; a introdução de processos
perigosos; a crescente terceirização e exclusão dos trabalhadores do trabalho for-
mal, comprometendo a garantia dos direitos sociais, exemplificada pela inserção
dos trabalhadores nas cooperativas (SILVA e MASSAROLLO, 1998). Por conseguin-
te, ocorre um incremento dos processos destrutivos gerados no trabalho, compro-
metendo a QVT.
A Qualidade deVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem 95
n A Saúde dos Trabalhadores de Enfermagem
A compreensão da saúde como uma expressão da qualidade de vida dos trabalha-
dores de enfermagem pressupõe apreendê-la no contexto histórico e social, para
articular e entender como o social a determina. Logo, os processos saúde-doença
são a expressão da qualidade de vida no trabalho de enfermagem (SILVA, 1996).
O entendimento dos problemas de saúde vivenciados pelos profissionais de en-
fermagem, segundo FELLI (2002), deve ser buscado na internalidade do processo
de trabalho, o que permite uma visão abrangente da realidade e a possibilidade de
resolutividade dos agravos de saúde focada no coletivo dos trabalhadores.
Nesse sentido, a saúde dos trabalhadores de enfermagem refere-se à exposição
destes às cargas de trabalho como geradoras de processos destrutivos que condu-
zem a processos desgastantes e, portanto, potencializadores dos processos saúde-
doença gerados no momento de trabalho. O que não significa negar que há proces-
sos potencializadores da saúde no momento de trabalho.
SILVA (1996) desenvolveu uma investigação fundamentada no referencial teó-
rico-metodológico sistematizado por LAURELL e NORIEGA (1989), buscando evi-
denciar como o trabalho gera problemas de saúde dentre os trabalhadores de en-
fermagem.
Nesse referencial, os autores apontam que o processo saúde-doença, enquan-
to processo coletivo e social que se expressa no biológico e adquire historicidade,
é concebido como nexo biopsíquico humano. Esse nexo manifesta-se a partir da
atividade humana no trabalho, e sua historicidade é apreendida pelo conceito de
adaptação, como “capacidade do corpo de responder com plasticidade diante de
condições específicas de desenvolvimento nos processos corporais, que se expressam
como formas biológicas características” (LAURELL e NORIEGA, 1989).
Os processos de adaptação significam a transformação dos processos biológicos e
psíquicos, com o desenvolvimento ou a destruição de capacidades e potencialidades.
Incluem os processos fisiológicos, capazes de proteger o organismo para a sobrevi-
vência ou de transformar-se em destruidores da integridade corporal. Cita-se, como
exemplo, o estresse, que representa, nos seus estágios iniciais, uma reação que pre-
para o indivíduo para o enfrentamento a um agressor e, nos estágios finais, sua
concretização como doenças de diferentes naturezas, como diabetes, hipertensão e
outras doenças crônicas e degenerativas, podendo conduzir o indivíduo à morte.
Esses processos de adaptação são característicos dos grupos sociais, uma vez que
emergem a partir do modo específico como os homens se apropriam da natureza,
por meio de uma organização social (LAURELL e NORIEGA, 1989). Essa forma de
apropriação e transformação da natureza, ao mesmo tempo em que é por ela trans-
formado, é o que entendemos por trabalho.
De acordo com SILVA (1996), os processos saúde-doença são expressos no corpo
biopsíquico (entendido em todas as suas dimensões) dos trabalhadores de enferma-
gem pelo desgaste por eles sofrido, provocado pela exposição às cargas de trabalho,
geradas nos processos de trabalho e nos processos de valorização (ou seja, processos
geradores de valor) a que esses trabalhadores estão submetidos. A relação de como
o trabalho, enquanto uma categoria social, se expressa no corpo do trabalhador e,
portanto, no biológico pode ser visualizada a seguir.
96 A Qualidade deVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem
O processo de valorização, segundo LAURELL e NORIEGA (1989) é aquele no
qual ocorre a geração de valor – a mais-valia, no modo de produção capitalista,
como um valor que não é pago ao trabalhador. Esta pode ocorrer por meio de duas
estratégias: a geração de mais-valia absoluta (aumento da jornada ou redução do
salário); e relativa (introdução de mudanças tecnológicas ou intensificação do ritmo
de trabalho). No trabalho em saúde, o produto gerado é um serviço que é consumi-
do no momento da produção e, como tal, reproduz a lógica produtiva (GONÇAL-
VES, 1994). A exemplo disso, pode-se citar o intenso ritmo em que o trabalho de
enfermagem é executado, em detrimento da contratação de um número maior de
trabalhadores para a realização das atividades, como operação da estratégia de ge-
ração de mais-valia relativa (SILVA, 1996).
O processo de trabalho parte da concepção histórica do trabalho, em que é con-
cebido como uma atividade em que o trabalhador, orientado por uma finalidade,
transforma determinado objeto de trabalho em um produto final, utilizando meios
e instrumentos, sob determinada organização (como ocorre o trabalho em si), cons-
tituindo estes em seus elementos (MARX, 1988).
O trabalho de enfermagem insere-se no trabalho coletivo em saúde, como subsi-
diário e complementar (CASTELLANOS et al., 1989). Diante da finalidade de recu-
perar a força de trabalho e controlar as doenças, transforma o objeto-indivíduo/cole-
tivo com demandas no processo saúde-doença, empregando meios e instrumentos,
como a força de trabalho, saber e instrumentos específicos, segundo certas formas
de organização e divisão, caracterizando-o como trabalho parcelado, hierarquizado,
composto por pessoas de diferentes categorias e qualificações (SILVA, 1996).
Nesse processo de trabalho, há elementos que interagem dinamicamente (ob-
jeto, meios, instrumentos e formas de organização) e com o corpo do trabalhador,
A Qualidade deVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem 97
gerando processos de desgaste. Esses elementos são denominados cargas de tra-
balho (LAURELL e NORIEGA, 1989).
SILVA (1996) refere que, ao transformar o objeto no processo de trabalho de en-
fermagem, o trabalhador interage com a sua natureza, ou seja, os corpos indivi-
duais/coletivos e doentes dos clientes são tomados em sua natureza biológica/psí-
quica como determinantes, do processo saúde-doença desses trabalhadores. Na
interação com os meios e instrumentos (materiais, equipamentos, estrutura física,
força de trabalho, saber), a sofisticação técnica destes e as relações sociais que de-
terminam a maneira específica de trabalhar são geradoras de cargas. Na interação
com as formas de organização/divisão do trabalho, o trabalhador expõe-se pelas di-
ferentes formas de consumo da força de trabalho, que implicam distintas maneiras
de desgastar-se, vinculadas à extração de mais-valia, principalmente relativa, pelo
aumento da produtividade.
A exposição dos trabalhadores de enfermagem às cargas gera processos de des-
gaste particulares, ou seja, a perda da capacidade efetiva e/ou potencial corporal e
psíquica. Os desgastes referem-se aos processos de adaptação que são destrutivos
da integridade corporal biopsíquica. Esses processos não se relacionam, necessa-
riamente, apenas às doenças diagnosticadas, mas também ao processo que as con-
cretiza, uma vez que é possível recuperar as perdas e capacidades, bem como de-
senvolver as potencialidades. Indicadores globais vêm sendo mais frequentemente
empregados para reconhecer o desgaste: sinais e sintomas inespecíficos, morbida-
de, anos de vida útil perdidos, envelhecimento acelerado e morte prematura (LAU-
RELL e NORIEGA, 1989). Um exemplo que permite apreender que um processo
de desgaste está em andamento é a dor nas costas, queixa constante entre os traba-
lhadores de enfermagem. Essa condição é um indicativo de que as estruturas que
sustentam a coluna vertebral estão, de alguma forma, comprometidas e, se alguma
intervenção não for realizada, esse processo poderá materializar-se como doença
(hérnia de disco, por exemplo).
O desgaste deve ser considerado juntamente com os processos reprodutivos. A
combinação destes determina a constituição característica de doenças particulares,
conhecida como perfil patológico desse grupo social.
FELLI (2007) aponta as principais cargas a que estão expostos os trabalhadores
de enfermagem no cenário nacional, as quais elencamos a seguir:
• Carga biológica: ocorre pelo contato com pacientes portadores de doenças infec-
ciosas, infectocontagiosas ou parasitárias e/ou com suas secreções, que caracte-
riza a interação com o objeto de trabalho; contato com materiais contaminados e
com pequenos animais (barata, mosca, mosquito, formiga) caracteriza a intera-
ção com instrumentos de trabalho.
A exposição a essas cargas geralmente é relatada no momento em que se pres-
ta o cuidado aos pacientes/clientes, por ocasião da manipulação dos materiais e
instrumentos, e no contato esporádico com pequenos animais. A literatura tem
registrado uma série de patologias decorrentes dessa exposição, como processos
infecciosos localizados e sistêmicos, toxoplasmose, hepatites, síndrome da imu-
nodeficiência adquirida, pneumonia, gripes e resfriados de diversas naturezas,
infecções urinárias e outras tantas.
98 A Qualidade deVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem
• Carga física: é proveniente dos ruídos de ar condicionado, sons dos instrumen-
tos de trabalho e outros serviços, concentração e trânsito de pessoas, de pacien-
tes/clientes e reformas das estruturas físicas; umidade; iluminação; alterações
bruscas de temperatura; eletricidade; risco de incêndio e radiação ionizante.
A exposição às cargas físicas, na maioria das vezes, acontece tanto pela falta
de manutenção dos equipamentos como pela inadequação da sua previsão e uso.
Por exemplo, a exposição aos choques elétricos e risco de incêndios ocorre pelo
insuficiente número de pontos de eletricidade nas unidades. É comum vários
aparelhos encontrarem-se ligados em extensões e em várias tomadas elétricas,
comumente chamadas de “árvore de natal”, predispondo os profissionais aos
eventos já referidos aqui.
• Carga química: decorre da exposição dos trabalhadores às substâncias químicas.
Essa exposição ocorre pelo contato com as substâncias em diferentes estados
– sólido, líquido e gasoso – e finalidades – medicamentosa, antisséptica, desinfe-
tante, esterilizante e outras.
As exposições de maior importância relatadas foram ao óxido de etileno, glu-
taraldeído, formaldeído, hipoclorito de sódio, sabões, éter, benzina, álcool, água
oxigenada e iodo; gases anestésicos, antibióticos, quimioterápicos, pó de gesso,
talco, fumaça de cigarro e materiais de borracha.
As substâncias químicas são amplamente utilizadas na assistência à saúde, e,
poucas vezes, os trabalhadores têm as informações necessárias sobre sua mani-
pulação e efeitos na sua saúde. Elas podem ser irritantes, tóxicas, alergênicas,
carcinogênicas, teratogênicas e mutagênicas (SILVA, 1996; COSTA, 2002).
• Carga mecânica: provém da manipulação de materiais perfurocortantes, que-
das, agressões, prensão de dedos e mãos.
Essas cargas são as mais visíveis, uma vez que constituem a ruptura de con-
tinuidade instantânea do corpo. Dessa maneira, são facilmente reconhecidas
como acidentes de trabalho, como, por exemplo, as contusões, fraturas, perfu-
rações, cortes e hematomas. Assumem importância nesse grupo os ferimentos
perfurocortantes, potencializados pelas cargas biológicas, pela capacidade em
contaminar os trabalhadores com vírus, e os letais, como os da hepatite B e C e
da AIDS/SIDA.
• Carga fisiológica: decorre da manipulação de peso excessivo, trabalho em po-
sição ortostática, posicionamento inadequado e incômodo, trabalho noturno e
rodízios de turno, que interferem no funcionamento do organismo.
A exposição às cargas fisiológicas está associada aos problemas osteoarticu-
lares (LER/DORT), às dores nos membros inferiores e às alterações dos ritmos
biológicos. A manipulação excessiva de peso, comum aos profissionais de enfer-
magem, é verificada pela escassez de trabalhadores para transportar e movimen-
tar pacientes obesos, dependentes, anestesiados e equipamentos como torpedos
de gases, macas, cadeiras de rodas e outros.
• Carga psíquica: resulta da atenção constante do trabalhador; da supervisão es-
trita; do ritmo acelerado, do trabalho parcelado monótono e repetitivo; da dificul-
dade na comunicação; do trabalho predominantemente feminino; desarticulação
de defesas coletivas; da agressão psíquica; fadiga, tensão, estresse; da insatisfa-
ção e das situações que conduzem ao consumo de álcool e drogas.
A Qualidade deVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem 99
A exposição às cargas psíquicas é a mais referida pelos trabalhadores de en-
fermagem e está relacionada ao objeto de trabalho – humano, que sofre, sente
dor e morre – que os envolve em situações geradoras de estresse, sofrimento,
fadiga, tensão, e, também, às formas de organização desse trabalho, como rotini-
zado, parcelado, supervisão controladora e falta de autonomia. A organização do
trabalho de enfermagem também evidencia um ritmo acelerado e um trabalho
desgastante, imposto pela escassez ou má distribuição de trabalhadores, não per-
mitindo as pausas para o descanso no decorrer da jornada.
A exposição a essas cargas é geradora de vários problemas de saúde, como po-
dem ser visualizados no Quadro 8.2, referido por FELLI (2007).
Quadro 8.2 Processos de desgaste referidos pelos trabalhadores de enfermagem,
segundo a exposição às diferentes cargas de trabalho.Brasil,2007
Tipos de cargas Desgastes
Biológicas
Manipulação de pacientes com doenças
infecciosas e parasitárias; material infectado;
e contato com pequenos animais no local de
trabalho
• Hepatite,AIDS/SIDA,tuberculose e outras contaminações por
doenças infectocontagiosas;
• Conjuntivite,resfriados e gripe,infecção da garganta,sinusites
(infecções do trato respiratório superior),gastroenterite,
pneumonia,malária,dengue e outras infecções em geral; e
• Ansiedade e estresse.
Químicas
Manipulação e inalação de substâncias químicas;
manipulação de medicamentos; a inalação da
fumaça de cigarros
• Dermatite,rinite,asma,alergias em geral,reações anafiláticas,
coriza,asfixia;
• Queimaduras e irritação dos olhos,trato respiratório superior,
estômago; tosse,respiração difícil;
• Neoplasias e câncer de pulmão;
• Náuseas,vômitos,tonturas,dores de cabeça crônicas;
• Sensibilização aos medicamentos; e
• Estresse.
Fisiológicas
Manipulação de pesos excessivos; trabalho em
pé durante todo o turno; adoção de posições
desconfortáveis; intenso ritmo de trabalho; longas
distâncias a pé; e trabalho em turnos e noturno
• Lesões musculoesqueléticas em geral;
• Dor lombar;
• Inchaço e dor dos membros inferiores;
• Hérnia de disco;
• Varizes;
• Cansaço corporal e mental,fadiga;
• Estresse; e
• Falta de concentração e de atenção,e diminuição da capacidade
de julgamento.
Psíquicas
Atenção constante; agressão psíquica; supervisão
estrita; falta de criatividade e autonomia; abuso
de álcool e drogas ilícitas; falta de comunicação;
falta de defesa coletiva; intenso ritmo de trabalho;
trabalho feminino; e trabalho repetitivo e
monótono
• Depressão,irritabilidade,angústia,ansiedade,tristeza,raiva,
insubordinação,insônia e estresse mental,cefaleia crônica;
• Náuseas,tonturas,cansaço,esgotamento;
• Insatisfação com as relações autoritárias;
• Falta de interesse e entusiasmo,falta de proteção,falta de
perspectivas de resultados;
• Problemas de fertilidade,síndrome pré-menstrual;
• Exposição às substâncias teratogênicas na gravidez e idade fértil.
(continua)
100 A Qualidade deVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem
Quadro 8.2 Processos de desgaste referidos pelos trabalhadores de enfermagem,
segundo a exposição às diferentes cargas de trabalho.Brasil,2007 (continuação)
Tipos de cargas Desgastes
Físicas
Radiação ionizante,radiação não ionizante,ruído,
umidade e mudança de temperatura
• Desgaste físico,mental
• Estresse,irritabiliade
• Doença hematológica,osteomuscular,do aparelho auditivo,do
aparelho respiratório e alergia
• Ressecamento de pele e mucosas
• Ambiente molhado
• Acidentes elétricos e inflamáveis
• Choque térmico
• Queimadura
Fonte:FELLI,V.E.A.Monitoramento da saúde do trabalhador de enfermagem:promovendo a qualidade de vida no trabalho.Relatório técnico
de pesquisa,FAPESP,2007.
O Quadro 8.2 permite visualizar que as principais doenças que compõem o perfil
de morbidade são os distúrbios osteoarticulares, os transtornos emocionais e com-
portamentais, as exposições aos fluidos biológicos e as doenças infecciosas, infec-
tocontagiosas e parasitárias, nas diferentes formas de expressão do desgaste dos
trabalhadores de enfermagem apreendido no momento de trabalho.
Assim, tornam-se imprescindíveis as intervenções nas diferentes realidades de
trabalho de enfermagem, no sentido de potencializar a saúde, contribuindo, dessa
maneira, para uma melhor qualidade de vida.
Nesse sentido, é essencial o monitoramento epidemiológico como instrumento
para conhecer, acompanhar e intervir nos problemas de saúde no trabalho. BETAN-
COURT (1995) considera o monitoramento epidemiológico como uma ferramenta
essencial no planejamento e execução de programas de saúde, com a participação
ativa dos trabalhadores.
É neste contexto que surgem as várias propostas de qualidade de vida no traba-
lho, visando à valorização do trabalhador, sua participação no processo decisório, o
incentivo do potencial criativo, a satisfação de suas necessidades, a humanização
das relações de trabalho e a melhoria das condições de trabalho, entre outros fins.
n Considerações Finais
Diante dessas argumentações, consideramos que promover e manter a qualidade
de vida no trabalho é um desafio para os enfermeiros que assumem a gerência e,
também, para os trabalhadores de enfermagem, partilhando responsabilidades e
adversidades em um esforço conjunto.
Evidencia-se cada vez mais a necessidade de articulação de estratégias que apon-
tem para investimento nas relações interpessoais, implementação de ações e pro-
gramas que venham ao encontro das expectativas dos trabalhadores de cuidar-se,
ao mesmo tempo em que são cuidados pela organização.
A Qualidade deVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem 101
Para tanto, deve-se pensar no espaço de trabalho da enfermagem como um espa-
ço micropolítico, no qual são reproduzidas as políticas sociais e de saúde, contendo
as possibilidades de mudanças e transformações, com ênfase na qualidade de vida
no trabalho e na saúde do trabalhador.
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Trabalho em Equipe
e Processo Grupal
MARINA PEDUZZI E MARIA HELENA TRENCH CIAMPONE
9
105
n Trabalho em Equipe Multiprofissional e Equipe de Enfermagem
O trabalho em equipe consiste em uma modalidade de trabalho coletivo que se con-
trapõe ao modo independente e isolado com que os profissionais de saúde e de en-
fermagem usualmente executam seu trabalho no cotidiano dos serviços de saúde.
A noção de equipe sempre faz referência a uma situação de trabalho, pois, etimo-
logicamente, “equipe” está associada à realização de uma tarefa ou trabalho com-
partilhado entre vários indivíduos que têm, nessa tarefa ou trabalho, um objetivo
comum a alcançar (MUCCHIELLI, 1980). Nesse sentido, não se utiliza a denomina-
ção “equipe de pacientes”, “equipe de condôminos” e outros similares.
Na enfermagem, a proposta de trabalho em equipe surge na década de 1950, nos
Estados Unidos, através de experiências realizadas no Teacher’s College da Univer-
sidade de Colúmbia, sob a coordenação de Eleonor Lambertsen, que preconizava a
organização do serviço de enfermagem com base no trabalho em equipe. No Brasil,
os resultados dessa proposta e das experiências em curso são divulgadas, em 1966,
pela Associação Brasileira de Enfermagem, por meio da tradução e publicação do
livro intitulado Equipe de enfermagem organização e funcionamento.
As experiências levadas a cabo tinham a finalidade de resolver o problema de
melhor aproveitamento do pessoal de enfermagem, pois, segundo LAMBERTSEN
106 Trabalho em Equipe e Processo Grupal
(1966), a organização do serviço de enfermagem com base no trabalho em equipe
tinha o objetivo de voltar o cuidado para o paciente, tomando como base a utilização
do pessoal de enfermagem com a máxima economia e eficácia.
Portanto, esse modelo de organização do trabalho de enfermagem expressa, por
um lado, a crítica ao trabalho centrado na tarefa, que caracteriza o modelo funcio-
nal de organização da enfermagem (ALMEIDA e ROCHA, 1986) e, por outro lado,
a tentativa de solução para a escassez de recursos humanos de enfermagem nos
hospitais norte-americanos, no período após a II Guerra Mundial.
Da perspectiva da gerência e da organização do trabalho, o modelo do trabalho
em equipe de enfermagem está pautado na Escola de Relações Humanas, liderada
por Elton Mayo, nos Estados Unidos, a partir da década de 1930 e consolidada na
década de 1940, como crítica à vertente anterior da Administração Científica de
Taylor, Fayol e Ford.
A Escola das Relações Humanas preconiza que o homem é ao mesmo tempo con-
dicionado pelo sistema social e pelas demandas de ordem biológica, possui neces-
sidades de segurança, afeto, prestígio e autorrealização, sendo, portanto, motivado
por recompensas sociais, simbólicas e não materiais. Esses postulados acarretam
uma transferência da ênfase nas tarefas e na estrutura para as pessoas e para os
grupos, o que coloca em evidência os aspectos da comunicação, da liderança e da
participação no trabalho (KURCGANT, 1991).
Embora mereça destaque a precocidade com que a proposta do trabalho em equi-
pe é introduzida na área de enfermagem, esta consolidou-se sobretudo como dis-
curso, e não como prática predominante, mantendo-se, de fato, o modelo funcional
vigente.
Outro aspecto que merece destaque, em relação à precocidade da discussão da
organização do serviço de enfermagem com base no trabalho em equipe, é a emer-
gência do tema da liderança como uma das questões centrais da equipe, isto é, a
posição do enfermeiro como líder da equipe, ocupando lugar de destaque dentro
dessa forma de organizar o trabalho (ROZENDO, 1995). No entanto, ROZENDO
(1995) analisa que tanto o líder quanto a liderança não parecem assumir caracterís-
ticas diferentes nessa nova proposta do trabalho em equipe, ou seja, não parece ha-
ver uma mudança substancial na prática dos enfermeiros, agora chamados líderes,
visto que o trabalho do líder atende à mesma finalidade que o do gerente, qual seja,
coordenar e conduzir o trabalho produzido pela equipe de enfermagem na direção
do projeto institucional, na defesa dos interesses da organização e no controle do
processo de trabalho.
Isso faz lembrar a dupla dimensão do processo de trabalho do enfermeiro que
contempla ações assistenciais e de gerenciamento. A presença dessa dimensão
gerencial tem origem na distinção entre nurses e lady nurses, instituída desde o
momento de instalação da primeira escola de enfermagem, por Florence Nightin-
gale, em meados do século XIX, à medida que, às primeiras, cabia o cuidado direto
dos pacientes e, às segundas, o ensino e a administração do cuidado (SILVA, 1986;
ALMEIDA e ROCHA, 1986). Portanto, já no momento de institucionalização da en-
fermagem moderna, inicia-se um processo de divisão do trabalho interno à enfer-
magem, aspecto que será detalhado adiante, pois está profundamente relacionado
ao tema do trabalho em equipe.
Trabalho em Equipe e Processo Grupal 107
Cabe destacar que a divisão do trabalho de enfermagem expressa, desde sua
origem, a marca de trabalho coletivo, uma vez que a enfermagem não constitui um
trabalho que possa ser desenvolvido aparentemente por uma pessoa só, tal como
ocorre com outros trabalhos especializados, como medicina, psicologia e outros,
que puderam, em parte, caracterizar-se como trabalho de uma pessoa só, realizado
no âmbito da consulta profissional-paciente. O cuidado de enfermagem caracteriza-
se pelo acompanhamento contínuo e constante, de modo que foi constituindo-se
como prática exercida por um conjunto de agentes, o que, por um lado, demanda
ações de coordenação e supervisão, ou seja, de gerência, e, de outro lado, configura
trabalho coletivo que, a partir das décadas de 1950 e 60, passa a configurar-se como
trabalho em equipe.
MUCCHIELLI (1980) ressalta que, desde a década de 1960, o interesse pelo tra-
balho em equipe aparece em todos os processos de produção, na indústria e nas
empresas em geral. Isso ocorre por vários motivos, inclusive em consequência da
decepção com a divisão excessiva do trabalho que acarreta fragmentação das tare-
fas, reações subjetivas do trabalhador ocupado em tarefas parciais, fechado num
estreito setor de produção, sem acompanhar a finalização do trabalho, e a desper-
sonalização do trabalho.
A proposta do trabalho em equipe multiprofissional de saúde ganha ênfase, no
Brasil, a partir da década de 1970, período marcado pela forte expansão do mercado
de trabalho em saúde, em razão das necessidades de extensão de cobertura dos ser-
viços, que foi efetuada com base nos modelos de reforma médica, particularmente
a Medicina Preventiva e a Medicina Comunitária, esta enfatizando o trabalho em
equipe como recurso de racionalização dos serviços. A equipe de saúde ganha des-
taque também pelos crescentes conflitos e enfrentamentos travados entre os vários
grupos profissionais, nos quais cada categoria ou segmento tenta alcançar uma cer-
ta hegemonia, não obstante a consagrada hegemonia médica (PEDUZZI, 1998).
No entanto, documentos da política de recursos humanos em saúde do país, de
meados da década de 1970, apontam como um dos principais problemas a predomi-
nância de pessoal de nível superior nas equipes de saúde, em particular de médicos,
em detrimento do pessoal de nível técnico e auxiliar qualificado. Isto, associado à
ampla contratação de trabalhadores sem qualificação técnica formal e regular, tais
como os atendentes de enfermagem, instalou uma modalidade bipolar de equipe
de saúde – médico/atendente – que era considerada inadequada (MACHADO et al.,
1992). A partir de meados da década de 1980, essa situação começa a ser revertida
com o aumento da incorporação de profissionais de nível médio e de profissionais
de nível superior não médicos, tendendo a eliminar a dicotomização médico/aten-
dente e tornar mais diversificada a composição da equipe de saúde (MACHADO et
al., 1992). Os autores também destacam que a questão da composição multiprofis-
sional das equipes de saúde surge como decorrência do princípio da integração, à
medida que se passa a considerar artificial a dicotomia entre assistência médica e
saúde pública, tendo em vista fortalecer a rede básica e a sua adequação ao perfil
epidemiológico de cada região.
Assim, observa-se que a proposta de trabalho em equipe emerge no interior de
um processo contraditório, representado pela tensão entre a tendência crescente de
especialização e a necessidade de integração dos trabalhos produzidos pelas dife-
108 Trabalho em Equipe e Processo Grupal
rentes áreas da saúde – Enfermagem, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina, Nu-
trição, Psicologia, Serviço Social e outras.
A especialização, por sua vez, ocorre tanto no âmbito da produção do conheci-
mento quanto na atuação prática dos profissionais inseridos na prestação de ser-
viços de saúde. Ou seja, tanto as ciências e os saberes técnicos que fundamentam
as intervenções como as próprias ações executadas tendem a ser cada vez mais
especializados. Dessa especialização, depende, em parte, a eficácia do cuidado aos
usuários, pois a crescente incorporação tecnológica em saúde e a velocidade da
produção e difusão de novos conhecimentos requerem que os profissionais apro-
fundem de forma vertical suas competências e habilidades, o que intensifica a es-
pecialização.
Por outro lado, o serviço de saúde especializado tende à fragmentação do cuida-
do prestado ao paciente, configurando uma teia de ações executadas por diferentes
agentes, que necessitam de articulação. Na atualidade, a nenhum trabalhador de
saúde em separado cabe a possibilidade de atender às demandas de saúde apre-
sentadas pelos pacientes, ou mesmo por um único usuário em particular; por isso,
torna-se necessário que os profissionais reconheçam as conexões que existem entre
as diversas atividades executadas e tomem esses nexos verdadeiramente em consi-
deração, articulando suas ações.
CAMARGO JR (2003: 39), ao analisar as questões da integralidade da atenção à
saúde, também destaca que:
“... é imperativo reconhecer que indivíduos isolados, ou mesmo categorias profis-
sionais inteiras, são limitados para dar conta de fato do espectro de demandas
apresentadas pelos sujeitos que sofrem. Isto coloca o trabalho interdisciplinar e
multiprofissional como necessidade fundamental.”
Dessa forma, faz-se necessário articular as diversas ações realizadas no interior
de um setor, unidade ou serviço, bem como integrar os setores, unidades e serviços
entre si.
A necessidade de integração também se torna evidente se considerarmos as múl-
tiplas dimensões das necessidades de saúde. Estas expressam, simultaneamente,
dimensões biológicas, psicológicas, sociais e culturais de indivíduos e grupos so-
ciais que vivem em determinadas condições sócio-históricas. A complexidade das
necessidades e dos problemas de saúde, com os quais se defrontam usuários e pro-
fissionais, demanda investimentos efetivos na integração de pessoas e ações.
Vale destacar que estamos analisando o trabalho em equipe da perspectiva da
atenção integral à saúde e atenção integral de enfermagem.
A integralidade da assistência, entendida como um conjunto articulado e contí-
nuo das ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos
para cada caso em todos os níveis de complexidade do sistema, consiste em um
dos princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), conforme consta na
Lei 8.080 de 19/09/90 (BRASIL, 1991). Portanto, a noção de integralidade abrange
desde a formulação de políticas no nível macro, da União, Estados e Municípios, à
produção de ações de cuidado de saúde e de enfermagem na prática cotidiana dos
serviços e dos indivíduos específicos – os profissionais de saúde.
Trabalho em Equipe e Processo Grupal 109
Ao analisar as concepções sobre integralidade, CAMARGO JR (2003) aponta que,
embora possa parecer inalcançável, a integralidade é indispensável à qualidade dos
serviços prestados à população, de modo que deveria ser tomada como um projeto
a ser alcançado.
Retomando a contradição já referida, entre especialização e integração, é justa-
mente a intensa especialização do trabalho em saúde que coloca a necessidade de
recomposição dos trabalhos especializados e o desafio da integração das ações. Essa
integração pode ser vista como expressão da articulação entre trabalhos de agentes
de uma mesma área profissional (equipe de enfermagem, equipe médica, equipe
de nutrição, dentre outras) e também entre trabalhos produzidos por profissionais
de diferentes áreas (equipe multiprofissional de saúde). Ambas as modalidades de
trabalho em equipe são tratadas a seguir, especialmente o trabalho em equipe de
enfermagem e o trabalho em equipe multiprofissional.
Mais adiante, neste capítulo, o trabalho em equipe também será abordado da
perspectiva do processo grupal, considerando este um dos aspectos relevantes para
o gerenciamento de pessoas na área da saúde e de enfermagem.
n Contextualizando o Trabalho em Saúde
O trabalho pode ser caracterizado como um processo de transformação que ocor-
re porque as pessoas têm necessidades que precisam ser satisfeitas – no presente
caso, necessidades de saúde. Essa transformação se dá mediante a atividade do tra-
balho, realizada com o consumo produtivo de força de trabalho e a intermediação
de instrumentos que o agente insere entre ele próprio e o objeto, para dirigir sua
atividade a uma dada finalidade.
Quando considerado o exercício cotidiano do trabalho, este é redimensionado
ampliando-se o enfoque das determinações macrossociais, de cunho econômico e
ético-político, e da dimensão eminentemente técnica para o sujeito do trabalho. As-
sim, entende-se trabalho como ação produtiva e como interação social (CATTANI,
1997; PEDUZZI, 1998; SCHRAIBER et al., 1999).
Nesse sentido, MERHY (1997) retoma a distinção entre trabalho vivo e trabalho
morto, o primeiro situado na dimensão do cotidiano, do instituinte, ou seja, o que
está em processo e está em ação. Trabalho morto refere-se a todos os produtos-
meios que estão envolvidos no processo de trabalho e que são resultado de um
trabalho humano anterior, tais como equipamentos e saberes estruturados.
Outro aspecto importante para a compreensão dos processos de trabalho é a dinâ-
mica de divisão do trabalho, que acarreta o parcelamento de um processo que, ori-
ginalmente, era executado por um único trabalhador. À divisão técnica corresponde
uma divisão social do trabalho, ambas representando “duas faces de uma mesma
moeda”. A divisão técnica do trabalho refere-se ao parcelamento dos processos im-
plicados na execução do produto (no presente caso, o cuidado de enfermagem e a
atenção à saúde), em numerosas operações realizadas por diferentes trabalhadores.
Esse parcelamento também reflete a divisão social do trabalho à medida que os di-
ferentes trabalhos têm uma desigual valoração social (BRAVERMAN, 1987). Essas
desigualdades expressam a existência de valores sociais hierarquizando e discipli-
110 Trabalho em Equipe e Processo Grupal
nando relações de subordinação entre as diferentes áreas de trabalho e diferentes
categorias profissionais.
A divisão do trabalho em saúde, na modernidade, dá-se em torno da divisão do
trabalho médico, pois a prática dos médicos é a fundadora da técnica científica
moderna no campo da saúde e o núcleo original do qual outros trabalhos derivam.
Assim, por um lado, ocorre a divisão interna do trabalho médico, que constitui as
especialidades médicas, e, por outro lado, ocorre o desdobramento do trabalho
médico em atividades assumidas por outros agentes, tais como a enfermagem, a
nutrição, a fonoaudiologia, a fisioterapia e outras, bem como a agregação de pro-
fissionais com áreas de atuação complementares, como Psicologia e Serviço Social
(MENDES-GONÇALVES, 1992).
Assim sendo, cada área profissional que se individualiza no interior das práticas
de saúde o faz segundo necessidades históricas, que demandam sua atuação espe-
cializada, e num processo singular, que configura saberes e ações peculiares à área.
Portanto, a divisão do trabalho não apenas reflete o desenvolvimento científico-
tecnológico, mas também a dinâmica social das práticas de saúde que engendra
subdivisões sistemáticas dos trabalhos.
Esse mesmo processo ocorreu no interior da Enfermagem, dando origem às dis-
tintas categorias profissionais – enfermeiro, técnico de enfermagem, auxiliares de
enfermagem, trabalhadores sem qualificação técnica formal e regular, usualmente
denominados atendentes. Até 1998, estes ainda representavam aproximadamente
30% da força de trabalho de enfermagem, porém atualmente estão sendo capacita-
dos como auxiliares ou técnicos de enfermagem, sobretudo por meio do PROFAE
(Projeto de Profissionalização dos Trabalhadores da Área de Enfermagem), promo-
vido pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 1999).
Considera-se que tanto as diversas áreas profissionais da saúde como as diferen-
tes categorias da enfermagem têm origem no que se denominou, como já vimos,
processo de divisão do trabalho e, portanto, guardam conexões entre si, ou seja, são
complementares e interdependentes, e não independentes, como frequentemente
se reconhecem cada uma das áreas profissionais de per si.
Embora interdependentes, cada uma das áreas tem especificidades presentes no
seu próprio saber técnico, nos demais instrumentos de trabalho e nas atividades
que a caracterizam. Assim, o trabalho em equipe refere-se à recomposição de dife-
rentes processos de trabalho, constituídos em uma rede complexa de prestação de
serviços.
n A Organização do Trabalho em Saúde por Equipes
A noção de equipe predominante nos serviços de saúde se restringe à coexistência
de vários profissionais numa mesma situação de trabalho, compartilhando o mes-
mo espaço físico e a mesma clientela, o que não se traduz imediata e automatica-
mente em integração ou, como já referido, na recomposição dos distintos processos
de trabalho.
Identificam-se, assim, dois tipos diferentes de trabalho em equipe: a equipe in-
tegração, na qual se observa a busca de articulação das ações e de interação dos
profissionais, e a equipe agrupamento, em que ocorrem a justaposição das ações e
Trabalho em Equipe e Processo Grupal 111
o mero agrupamento de agentes. Essa tipologia expressa uma polaridade que mos-
tra, de uma parte, a tendência à integração dos trabalhos especializados e, também,
dos profissionais que os executam e, de outra parte, a tendência à manutenção da
fragmentação das ações e o estranhamento e distanciamento dos agentes (PEDUZ-
ZI, 1998; PEDUZZI, 2001).
Cabe, portanto, perguntar o que carateriza o trabalho em equipe integrado (do
tipo equipe integração) e, sobretudo, como alcançá-lo.
Considera-se que a integração no trabalho em equipe expressa, simultaneamen-
te e de forma complementar, dois aspectos que a caracterizam: a articulação das
inúmeras ações executadas pelos distintos profissionais da equipe; e a comunica-
ção entre seus componentes, orientada para o entendimento. Para integrar a equi-
pe, não basta tomar isoladamente as intervenções independentemente dos sujei-
tos que as executam, nem tampouco tomar a interação dos profissionais como se
fossem relações pessoais independentes da situação de trabalho coletivo em que
se encontram envolvidos (PEDUZZI, 1998). Além disso, o veículo através do qual
ocorre efetivamente a articulação das ações é a comunicação.
Assim sendo, entende-se a articulação das ações no sentido de colocar em evi-
dência as conexões existentes entre as intervenções técnicas realizadas pelo con-
junto de profissionais inseridos numa mesma situação de trabalho, e a interação
dos agentes no sentido da prática comunicativa, em que os envolvidos buscam
reconhecimento e entendimento mútuos e colocam-se de acordo acerca de seus
planos de ação.
Na prática comunicativa, os profissionais de saúde e de enfermagem constroem
consensos sobre um plano de ação por meio de uma modalidade de comunicação
dialógica – de dupla mão, em que os envolvidos partilham o conteúdo dos enun-
ciados, as normas e os valores que os acompanham. Assim, colocam-se de acordo
quanto ao que dizem e aos valores pressupostos, ou seja, compartilham um hori-
zonte ético (HABERMAS, 1989; 1994).
Entretanto, a comunicação que articula as ações realizadas pelos diversos profis-
sionais pode ser uma comunicação de mão única, que visa apenas a passagem de
informações para otimizar a realização da técnica e para a obtenção do resultado.
Isso não representa nenhum problema ou obstáculo para a integração da equipe,
desde que esta saiba reconhecer os momentos em que é necessário não apenas
reiterar a técnica, mas também refletir e negociar para esclarecer a melhor inter-
pretação da situação encontrada e a melhor conduta frente a ela. Ou seja, há um
conjunto de intervenções já consagradas que não requerem um novo acordo entre
os componentes da equipe, mas há uma série de situações de trabalho e de cuidado
do usuário e da população para as quais é preciso buscar um consenso por meio do
diálogo e da negociação.
Nesta perspectiva, a interação dos profissionais não é externa ao trabalho, mas,
pelo contrário, faz parte do próprio processo trabalho, que, como já referido, é, si-
multaneamente, ação produtiva e interação social. Portanto, quando a equipe alcan-
ça algum grau de integração, expressa uma relação recíproca, de mútua influência,
entre trabalho e interação (PEDUZZI, 1998).
Com base nessa concepção de trabalho em equipe, articulação das ações e inte-
ração dos agentes, pode-se identificar um conjunto de caraterísticas de uma equipe
integrada, ou melhor, que tende à integração, pois o trabalho é dinâmico. Segun-
112 Trabalho em Equipe e Processo Grupal
do pesquisa desenvolvida por PEDUZZI (1998; 2001), essas caraterísticas consis-
tem em: flexibilizar a divisão do trabalho; preservar as diferenças técnicas entre
os trabalhos especializados; questionar a desigualdade na valoração dos distintos
trabalhos e respectivos agentes, descentralizar a tomada de decisão nas equipes e
no serviço, favorecendo o partilhar de decisões sobre questões relacionadas à di-
nâmica de trabalho; exercer a autonomia profissional tomando em consideração a
interdependência das diversas áreas profissionais; e construir um projeto assisten-
cial comum.
A flexibilização da divisão do trabalho busca superar a rigidez da divisão estan-
que de atividades por área profissional e construir tanto ações comuns, executa-
das por agentes de distintas profissões, quanto conviver com certas indefinições
de fronteiras na atuação profissional. Portanto, convivem trabalho especializado e
trabalho comum. Isto, por outro lado, significa que é necessário e importante pre-
servar as diferenças técnicas dos trabalhos especializados, pois cada área profissio-
nal realiza um certo elenco de ações próprias para as quais seus respectivos agentes
encontram-se especialmente capacitados. A busca da clareza da especificidade de
cada trabalho especializado convive com o questionamento das próprias fronteiras
estabelecidas.
Outros questionamentos precisam ser feitos para avançar na integração da equi-
pe, principalmente sobre as desigualdades entre os trabalhadores, que expressam
uma hierarquia que foi estabelecida entre as áreas de conhecimento, as profissões,
reproduzidas no cotidiano do trabalho.
A autonomia profissional representa um aspecto importante do trabalho no cam-
po da saúde, pois as ações não devem ser executadas automaticamente, mas segun-
do avaliações fundamentadas no conhecimento profissional a fim de implementar
a conduta mais adequada às necessidades de saúde do usuário e/ou população. To-
dos os profissionais de saúde executam suas ações dentro de uma certa esfera de
autonomia e de responsabilidade, correspondente à sua área de atuação, mas, para
que a equipe possa articular seu trabalho, é preciso que os seus componentes to-
mem em consideração a interdependência de suas ações e a autonomia profissional
do outro.
Todas essas características do trabalho em equipe requerem, para sua efetivação,
comunicação e interação entre os agentes, no sentido de construírem consensos e
acordos, mesmo que provisórios e revistos sempre que necessário. Esse processo
permite, ao longo de uma experiência comum de trabalho em equipe, construir
um projeto assistencial comum, o que poderia ser destacado como uma marca da
equipe, pois será em torno desse projeto comum que os diferentes componentes da
equipe organizam seu trabalho, reconhecendo o trabalho do outro e os pontos de
conexão.
A literatura sobre trabalho em equipe tem sido unânime em reconhecer que as
equipes constituem pequenos grupos de trabalho, pois, quanto maior o número de
componentes da equipe, mais numerosos os mecanismos de controle que precisam
ser inseridos nos processos de trabalho, que tendem a burocratizá-lo e tornar mais
difíceis a comunicação e a interação entre os membros.
Estudo recente sobre trabalho em equipe de saúde da família (SILVA, 2004) iden-
tificou e analisou entraves e facilitadores para a integração da equipe. A autora
refere que a construção de um projeto comum que expressaria a integração da equi-
Trabalho em Equipe e Processo Grupal 113
pe dependeria não somente das formas concretas de organização do trabalho, mas
também da distribuição de poder no interior da equipe, entendendo como poder
“qualquer relação social regulada por troca desigual”. Portanto, confere especial
atenção à necessidade de refletir e questionar as desigualdades instaladas entre
os trabalhadores e entre as áreas profissionais. Também aponta como aspectos fa-
cilitadores da integração a educação continuada em serviço e a supervisão. Sugere
que o tema trabalho em equipe faça parte do processo de formação permanente
dos trabalhadores de saúde e que a supervisão permita iluminar a qualificação de
cada trabalho particular, potencializando a contribuição de cada especialização do
trabalho no processo global.
Outro estudo recente sobre trabalho em equipe, baseado na vertente da análise
institucional, também enfatiza a contribuição da supervisão realizada por profissio-
nal externo ao serviço, como um espaço no qual a própria equipe, pela autoanálise
e autogestão, pode se renovar produzindo um cuidado de saúde mais criativo e per-
tinente às necessidades dos usuários, configurando uma possibilidade de cuidar de
quem cuida (FORTUNA, 2003).
n O Gerenciamento da Equipe e do Processo Grupal
Conforme apontado anteriormente, a representação usual de alguns gerentes que
acreditam, ainda, que o trabalho em equipe acontece quando um grupo se encon-
tra e discute o trabalho, deve ser reconhecida e superada. Nessa mesma direção,
existe a representação de que, quando o trabalho em equipe ocorre, não ocorrem
desavenças, conflitos nem atritos entre pessoas e todos se dão bem. Há também a
representação de que ele acontece quando um grupo toma decisões votando de-
mocraticamente. O que foi ressaltado até então é que esses elementos não consti-
tuem necessariamente uma equipe integrada, e nem mesmo um grupo, mas sim
um agrupamento ou uma serialidade. Trabalhar em harmonia, votar e reunir-se
para discutir questões comuns pode ocorrer sem que se configure um trabalho em
equipe.
Segundo PICHON RIVIÈRE (1982), que foi um estudioso do processo grupal,
um grupo torna-se equipe quando estabelece objetivos e metas comuns, quando a
liderança se alterna entre as pessoas, quando o processo de comunicação flui entre
todos os membros, permitindo que as ações sejam desenvolvidas em complemen-
taridade. Desse modo, colaborativo/cooperativo, a tarefa grupal se desenvolve rumo
a um projeto comum estabelecido com base em consenso.
Uma equipe usa as habilidades, as competências e os recursos de todos os seus
membros, planeja suas atividades, é sistêmica em seu processo decisório e de reso-
lução de problemas e empenha-se para chegar à produtividade máxima.
Uma equipe torna-se uma organização coesa quando envolve seus membros no
processo de planejamento e de tomada de decisões. Todos os membros da equi-
pe sentem-se responsáveis pelo sucesso da equipe. Visualizam-se como parte in-
tegrante da organização. Todos os membros da equipe empenham-se para manter
relações de cooperação por meio do estabelecimento de objetivos mútuos comparti-
lhados, comunicação aberta, reconhecimento e apoio recíprocos. Quando a equipe
ganha, cada um se sente como um vencedor.
114 Trabalho em Equipe e Processo Grupal
A concepção idealizada de que uma equipe não tem conflitos, trabalhando em
harmonia, teve forte influência da Administração Científica, que fundou um dado
modo de governar cuja disciplina e controle foram os eixos centrais. Desse modo,
vislumbrava-se o conflito como uma “doença organizacional” e, assim sendo, esta
deveria ser tratada.
Segundo CAMPOS (2000, p. 23):
“... a racionalidade gerencial hegemônica produz sistemas de direção que se ali-
cerçam no aprisionamento da vontade e na expropriação das possibilidades de
governar da maioria. Estes sistemas, mais do que comprar a força de trabalho,
exigem que os trabalhadores renunciem a desejos e interesses, substituindo-os por
objetivos, normas e objeto de trabalho alheio (estranhos) a eles.”
MISHIMA (2003), discutindo a gerência de serviços de atenção primária como
instrumento para a reorganização da assistência, percorre esse mesmo raciocínio,
apontando que, na Administração Científica, admitia-se a possibilidade permanen-
te de captura do trabalho vivo, apostando-se no desenvolvimento de tecnologias
gerenciais que capturassem o trabalhador nos seus exercícios de liberdade e auto-
nomia.
A autora, declara sua concordância com MERHY (1997, p. 49), quando diz que:
“... o trabalho em saúde não pode ser globalmente capturado pela lógica do tra-
balho morto, expresso nos equipamentos e nos saberes tecnológicos estruturados,
pois seu objeto não é plenamente estruturado e suas tecnologias de ação mais
estratégicas configuram-se em processos de intervenção em ato, operando como
tecnologias de relações de encontros de subjetividades, para além dos saberes tec-
nológicos estruturados, comportando um grau de liberdade significativo na esco-
lha do modo de fazer essa produção.”
Esse pressuposto é extremamente importante na discussão sobre as competên-
cias, habilidades e atitudes a serem desenvolvidas nos profissionais de saúde para
trabalhar em equipes e para coordenar grupos.
Na atualidade, a necessidade de desenvolvimento contínuo das competências
para trabalhar em equipe e coordenar grupos acentua-se, à medida que o fenômeno
da globalização – que engloba uma multiplicidade de outros fenômenos que con-
figuram uma redefinição nas relações internacionais em diferentes áreas da vida
social (economia, finanças, tecnologia, comunicações, cultura, outras) – gera um
cenário de extrema complexidade. Esse cenário complexo, em que o trabalho em
saúde se insere no setor terciário da economia, sob a forma de prestação de servi-
ços, exige que façamos um esforço para uma compreensão integrativa e ampliada
da problemática que, em última instância, requer dos profissionais/trabalhadores
o desenvolvimento de competências para trabalhar de modo cooperativo, em times
ou equipes de trabalho.
Isso exige que tenhamos fundamentação teórica e prática em referenciais que
ainda estão em processo de construção e, portanto, inacabados. Assim, os estudos
a respeito do trabalho em equipe e dos processos grupais se constituem em im-
portantes pistas para redefinir as relações interpessoais e intergrupais nas organi-
Trabalho em Equipe e Processo Grupal 115
zações de saúde, bem como as políticas de gestão de pessoas que vão ao encontro
dessas necessidades surgidas nos cenários de trabalho.
Com base no conceito atual de que as organizações configuram-se a partir de re-
des de relações, constituindo-se em verdadeiras arenas onde os conflitos emergem
inevitavelmente, é importante considerar que as equipes podem aprender a exer-
citar a análise das situações de conflito, permitindo que as questões implícitas ao
conflito venham à tona, sejam explicitadas e exploradas, permitindo desenvolver a
capacidade do grupo na autoanálise.
BAREMBLITT (1986), referindo-se ao processo de autoanálise do grupo, explica
que esta consiste na capacidade de ser protagonista dos próprios problemas, das
necessidades, das demandas, compreendendo-as, enunciando-as através de voca-
bulário próprio, organizando-se e buscando recursos para melhorar a própria vida.
Esse processo não é feito de cima para baixo, nem de fora para dentro, mas no
próprio seio heterogêneo do coletivo interessado. Assim, no cenário dos serviços
de saúde, as complexas demandas das clientelas interna e externa, bem como a
necessidade de articular as ações nos diferentes âmbitos, por si sós justificam o
investimento no desenvolvimento de competências específicas nos profissionais
para trabalharem em equipe e, principalmente, para exercerem a coordenação de
grupos.
Para CAMPOS (1989), a gerência é ao mesmo tempo condicionante do e condi-
cionada pelo modo como se organiza a produção de serviços de saúde. Essa dupla
posição, de produto de determinado contexto e de criador desse mesmo contexto,
torna o processo de gestão permeável à influência dos diferentes sujeitos sociais
interessados em diversas políticas de saúde.
Nesse contexto, a gerência é um instrumento necessário, mas não suficiente, à
implantação de políticas. Por outro lado, na prática, sabe-se que o funcionamento
de um serviço depende, em muito, das configurações micropolíticas e tecnológicas
do trabalho, que, em última instância, configuram-se em “trabalho vivo em ato”,
isto é, que se constrói na relação com as pessoas (MERHY e ONOKO, 1997). Desse
modo, é preciso que se construa consenso quanto às formas de trabalhar, que estas
estejam em sintonia com as propostas, exigindo que se façam negociações.
O desafio consiste, então, em transitar da equipe agrupamento – trabalho de
diferentes profissionais que detêm assimetria de relações, poderes e saberes para
operar diferentes tecnologias – para a equipe integração – implicando redesenhar
o somatório de pequenas ações parciais para compor uma trama de atos negociados
e articulados entre os agentes, superando a posição de disputa e passando para a de
complementação.
A formação profissional passa a requerer processos educativos que permitam
adquirir e desenvolver conhecimentos teóricos, técnicos e operacionais relaciona-
dos à produção de serviços, de modo a contemplar a contradição entre ser capaz de
desempenhar uma polivalência funcional, ao mesmo tempo, e ser capaz de deter
um conhecimento especializado que favoreça a atuação em diferentes cenários e
práticas. Diante disso, instala-se a necessidade de discussão do conceito de compe-
tência.
Da perspectiva da gestão dos recursos humanos de uma organização, com base
em competências, esta surge como uma alternativa ao modelo de gestão por cargos.
A esse respeito, MEYER (1998) aponta que o alvo deixa de ser o preenchimento de
116 Trabalho em Equipe e Processo Grupal
requisitos para ocupar cargos e passa a ser um perfil profissional desejado funda-
mentado em competências requeridas para o desempenho de uma dada função.
Desse modo, na era da informação e do conhecimento, a vantagem competitiva
do trabalhador no mercado de trabalho é dificilmente mensurável, pois diz respei-
to às competências e habilidades que alicerçam a força de trabalho. Para MEYER
(1998):
“... a descrição de cargos passa a não ter consenso, visto que o mercado é altamen-
te dinâmico e sofre processo contínuo de mudanças.”
Visto que gestão de cargos tem como base a noção de qualificação, que é um con-
ceito estático, esta não responde com plasticidade às exigências de um mercado em
mutação. Assim sendo, a gestão de competências compreende um conceito dinâmi-
co que, por sua natureza, exige um permanente ajuste e aperfeiçoamento entre as
necessidades que o trabalho impõe e os requisitos de desenvolvimento de pessoas
para operar no trabalho vivo em ato, de modo flexível e negociado.
Para LE BOTERFF (2003), o desenvolvimento de competências profissionais se
desloca, assim, da qualificação para a capacidade de agregar valores ao grupo, isto
é, saber agir de modo responsável e reconhecido, que reúne o saber mobilizar, inte-
grar e transferir recursos, traduzidos em conhecimentos e capacidades.
Esses conhecimentos e capacidades para o trabalho em equipe e para a coorde-
nação de grupos implicam o aprender a viver junto, a viver com os outros, a convi-
ver – requerendo a capacidade de aprender a questionar o próprio conhecimento,
aprender a aprender com o outro, para o desenvolvimento de projetos solidários
e cooperativos, identificados pela busca de objetivos comuns. Implica, em última
instância, trabalhar o autoconhecimento e a autoestima.
Para LE BOTERFF (2003), a promoção de saber agir num contexto profissional é
fruto da interseção de três domínios: a formação profissional, a biografia e inserção
socioeconomicocultural do indivíduo e a própria situação profissional.
Dessa forma, as universidades, como formadoras de recursos humanos qualifica-
dos para o trabalho em saúde, devem promover um ambiente favorável ao desen-
volvimento de competências, em parceria com as instituições de saúde que com-
põem os diferentes cenários do setor saúde, pois não há formação de competências
se não houver situações profissionais que demandem, desenvolvam e consolidem
esses conhecimentos e habilidades.
Nessa proposta de formação por competências, MEYER (1998) destaca que os
projetos pedagógicos devem estar em consonância com diretrizes curriculares mais
flexíveis, que permitam desenvolver e demonstrar, de modo diversificado, os domí-
nios distintos do conhecimento como: domínio do aprendizado contínuo; domínio
do mundo de trabalho; domínio da comunidade humana; domínio do mundo físico
e da arte de conviver. Nesse processo, na maioria dos casos, o aluno escolhe as
experiências de aprendizagem por meio das quais terá condições de obter compe-
tências. Isto pode envolver estágios em locais diferenciados, o contato com os di-
ferentes atores que compõem os processos de trabalho, a participação em projetos,
a condução de estudos independentes e de estudos orientados individualmente,
dentre outras possibilidades.
Trabalho em Equipe e Processo Grupal 117
O que queremos ressaltar é que os currículos que dão sustentação à formação
dos diferentes profissionais que comporão as equipes de saúde são, ainda, bastante
conservadores e mantêm uma concentração de atividades em disciplinas obrigató-
rias, com carga horária presencial em salas de aula ou em estágios com experiências
de aprendizagem dirigidas pelo professor. As atividades não inclusas formalmente
na grade curricular – que permanece engessada – não se constituem, muitas vezes,
em aprendizagens significativas em contextos significativos.
No âmbito das organizações de saúde, da mesma forma que podem ser definidas
competências para cada indivíduo, em cada processo de trabalho, também podem
ser definidas competências para as equipes e para a instituição como um todo.
Um outro fato importante diz respeito à necessidade de criar ambientes favo-
ráveis para que ocorram processos decisórios compartilhados nas equipes. Esses
ambientes favoráveis incluem definir, na filosofia institucional, a descentralização
dos processos decisórios. Assim, as estruturas organizacionais matriciais são as que
mais se ajustam à proposta do trabalho em equipe. As estruturas verticais, com
organogramas tradicionais, em geral baseiam-se na definição de cargos hierarqui-
zados e não de competências. Portanto, é por isso que MEYER (1998) afirma que:
“... dificilmente, é possível encaixar a noção de agregação de valores a essas es-
truturas, pois a gestão por competências se baseia na definição, pela organiza-
ção, de um perfil profissional esperado, tanto para fins de captação de pessoal,
como nos processos de remuneração e desenvolvimento de carreira.”
Retomando, então, a premissa da flexibilidade, complementaridade, mediante a
produção de “trabalho vivo”, construído a partir das relações subjetivas e intersub-
jetivas entre os diferentes agentes da equipe de saúde que devem compartilhar e
integrar ações cuidativas, para que o trabalho em equipe se concretize, justifica-se
a necessidade de investimentos em mudanças, tanto no âmbito da instituição quan-
to dos grupos e dos sujeitos envolvidos.
Isso implica recriar espaços vividos, reinventar o cotidiano dos serviços e reabi-
litar profissionais e práticas profissionais engessadas, que não favorecem o desen-
volvimento do verdadeiro trabalho em equipe.
Dessa forma, ressaltamos que, para trabalhar em equipe, cada membro deve es-
tar preparado para assumir o papel de coordenador de grupo, pois o enfoque da
liderança se desloca para a tarefa. O coordenador de grupo deve favorecer o espaço
de integração do pensar, sentir e agir. Deve estimular a superação do pensamento
racional-explicativo, deixando-se saber pelo contato, pelas sensações de descoberta
e aprendizagem com o outro.
Um fato que não podemos deixar de abordar consiste nas resistências que se
apresentam ao trabalho em equipe. Isso porque, por um lado, para que esse ocorra,
devemos abandonar a segurança do modelo funcionalista de organização do traba-
lho, em que cada um é responsável por uma parte da atividade. As posturas criati-
vas que precisam ser empreendidas para que se criem o consenso e a flexibilização
das tarefas fazem emergir o medo da perda dos padrões conhecidos. Isso porque
nos defrontamos então com a fragilidade dos saberes, inerentes aos períodos de
construção, e aceitamos lidar com incertezas, com cenas temidas, com as definições
imprecisas de papéis, com a alternância de saberes e práticas, sempre provisórios.
118 Trabalho em Equipe e Processo Grupal
Assim, assumir o compromisso de tecer a autonomia dos sujeitos para trabalhar em
equipe – incluindo os diferentes agentes (profissionais, clientes, familiares, comu-
nidade) –, com base na ética da solidariedade, constitui-se em um grande desafio.
Muito poderia ser discutido sobre a dinâmica e os fenômenos inerentes aos pro-
cessos grupais. Há aspectos que tendem a ser desconsiderados, quando se lida com
pessoas, que são intrínsecos à natureza humana, como: inveja, competitividade,
agressividade, sabotagem, mecanismos de defesa, necessidade de aceitação e re-
conhecimento, projeção, deslocamentos, entre outros, que levam à emergência de
sentimentos contraditórios, que circulam no campo grupal, de difícil manejo. Con-
tudo, cabe destacar que acreditamos na importância do preparo dos profissionais
para assumirem a função de coordenação de grupos, função essa que, na proposta
do trabalho em equipe, deve ser alternante entre os seus componentes (CIAMPO-
NE, 1998).
Para esse preparo, consideramos que ao menos três dimensões de investimento
devem ser feitos: na dimensão individual estariam os investimentos pessoais em
busca do autoconhecimento. A carência de habilidades pessoais na mobilização de
recursos internos para o enfrentamento ativo das situações pode ser explicada pela
carência de experiências e interações que favoreçam a aprendizagem; pela existên-
cia de emoções e sentimentos negativos que bloqueiam ou dificultam o uso dessas
habilidades; ou, ainda, pela discrepância entre a extensão dos problemas reais e os
recursos do sujeito para enfrentá-los.
Na dimensão grupal estariam os investimentos do grupo no sentido de exercitar
a aprendizagem coletiva e a análise ampliada das situações-problema (envolvem co-
nhecer as diferentes percepções e definições atribuídas pelos atores que explicam
os problemas, explorando o perfil ou padrão de comportamento de cada um dian-
te dos mesmos); identificação de recursos e alternativas; sentimentos emergentes
explícitos e implícitos que permeiam o campo grupal e a identificação dos porta-
vozes que os enunciam. A vivência do processo grupal contribui para a construção
coletiva de estratégias de enfrentamento das cargas de trabalho e dos processos de
desgaste, isto é, do sofrimento acarretado pelo trabalho, potencializando a saúde.
Na dimensão institucional, conforme anteriormente assinalado, deveriam ocor-
rer investimentos, como a mudança da filosofia, da estrutura organizacional e das
políticas de gerenciamento de pessoal, que constituem suportes importantes para a
sustentação da proposta do trabalho em equipe.
É importante salientar que, mesmo buscando a participação – uma das grandes
justificativas para o trabalho em equipe –, o grupo nem sempre será democrático.
Temos observado que, nas práticas de gerenciamento, muitas vezes o grupo é usa-
do por aqueles que detêm poder e autoridade de modo manipulativo, isto é, para
referendar ou ratificar decisões ou posições já tomadas, tornando-as mais aceitá-
veis. Caso não seja estabelecido de antemão se a instância grupal é de decisão ou
de legitimação, surgem então importantes questões éticas decorrentes do gerencia-
mento. Portanto, nas três dimensões (institucional, grupal e pessoal), as questões
relativas à circulação de poder e autoridade devem ser amplamente debatidas por
todos. Cabe lembrar que, para ter algum poder de decisão, as informações precisam
ser amplamente socializadas nas três dimensões.
Finalizando, consideramos que qualquer proposta que se fechar na sua especi-
ficidade, nos “condomínios de saber” de qualquer área, poderia caminhar na con-
Trabalho em Equipe e Processo Grupal 119
tramão de qualquer processo inovativo, pois evitaria o risco da aprendizagem, do
contágio, da troca, da interação e, portanto, da formação de verdadeiras equipes.
Consideramos que o trabalho em equipe coloca-nos diante de desafios permanen-
tes a serem superados.
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Dimensionamento de
Pessoal de Enfermagem em
Instituições de Saúde
FERNANDA MARIA TOGEIRO FUGULIN, RAQUEL RAPONE GAIDZINSKI E VALÉRIA CASTILHO
10
121
n Introdução
A temática “dimensionamento de pessoal de enfermagem” tem se constituído, ao
longo dos anos, em foco de atenção dos enfermeiros, bem como dos administrado-
res dos serviços de saúde, por interferir diretamente na eficácia, na qualidade e no
custo da assistência à saúde. No entanto, tem sido responsável, também, pela insta-
lação de conflitos entre esses profissionais, uma vez que a necessidade crescente de
diminuir custos e aumentar a oferta de serviços na área da saúde coloca, imediata-
mente em questão, o quadro de pessoal de enfermagem existente nas instituições,
que representa, em regra, o maior quantitativo e, consequentemente, o maior custo
com pessoal, nas organizações de saúde.
Por outro lado, a demanda de atendimento da clientela, com necessidades cada
vez mais complexas, tem imprimido sobrecarga de trabalho aos integrantes da
equipe de enfermagem, influenciando e dificultando a implantação de qualquer
medida que favoreça a qualidade da assistência prestada.
Diante desse contexto, as chefias dos serviços de enfermagem devem buscar
instrumentos que possibilitem melhor gerência dos recursos humanos sob sua
responsabilidade, buscando conhecimentos, habilidades e competências que lhes
permitam realizar um melhor planejamento, alocação, distribuição e controle do
122 Dimensionamento de Pessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde
pessoal de enfermagem, assumindo um papel relevante na negociação do quadro
de pessoal e no direcionamento das políticas de recursos humanos dentro das ins-
tituições de saúde (FUGULIN, 2002).
Na prática, diante do desconhecimento de parâmetros para o planejamento e
avaliação do quantitativo de recursos humanos de enfermagem, essa atividade tem
sido realizada de forma empírica, baseada na experiência e no julgamento intuitivo
dos enfermeiros, ou por meio da utilização de equações matemáticas disponíveis
na literatura, sem que haja compreensão do significado e do comportamento das
variáveis envolvidas no processo de dimensionar pessoal de enfermagem (GAI-
DZINSKI, 1994).
Dessa forma, os enfermeiros têm encontrado inúmeras dificuldades para plane-
jar e justificar as necessidades de adequação no quantitativo de recursos humanos,
tanto para a melhoria da qualidade assistencial como para o atendimento das no-
vas demandas impostas pelos administradores das instituições de saúde, principal-
mente ante a necessidade crescente de racionalizar os custos e aumentar a oferta
de serviços (FUGULIN, 2002).
É nesse cenário que o dimensionamento de pessoal de enfermagem, enquanto
instrumento gerencial para uma assistência de qualidade, necessita ser investigado
de forma a produzir resultados que possibilitem a conscientização do significado
de um quadro de pessoal adequado às necessidades da clientela e da instituição
(GAIDZINSKI, 1998).
O conceito mais utilizado na literatura brasileira sobre o assunto foi proposto por
KURCGANT et al. (1989), que definem dimensionamento de pessoal de enfermagem
como a etapa inicial do processo de provimento de pessoal, que tem por finalidade a
previsão da quantidade de funcionários por categoria, requerida para suprir as neces-
sidades de assistência de enfermagem, direta ou indiretamente prestada à clientela.
Entretanto, considerando que o processo de dimensionar pessoal de enferma-
gem possibilita, também, a avaliação da carga de trabalho existente nas unidades
já em funcionamento, esse conceito pode ser ampliado, sendo compreendido como
um processo sistemático que fundamenta o planejamento e a avaliação do quanti-
tativo e qualitativo de pessoal da enfermagem necessário para prover a assistência,
de acordo com a singularidade dos serviços de saúde, que garantam a segurança
dos usuários/clientes e dos trabalhadores.
n Método para Dimensionar o Pessoal de Enfermagem
Para GAIDZINSKI (1998), a operacionalização do processo de dimensionamento
de pessoal de enfermagem requer a aplicação de um método capaz de sistematizar
o inter-relacionamento e a mensuração das variáveis que interferem na carga de
trabalho da equipe de enfermagem.
Nesse sentido, essa autora propôs um método de dimensionamento de pessoal de
enfermagem que possibilita a identificação e análise das variáveis intervenientes
nesse processo, tornando-o um instrumento auxiliar no planejamento e avaliação do
serviço de enfermagem, uma vez que permite realizar a projeção de um quadro de
pessoal para os serviços de saúde a serem instalados, bem como avaliar o quantitati-
vo e qualitativo de pessoal de enfermagem para unidades já em funcionamento.
Dimensionamento de Pessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde 123
Esse método indica, para sua aplicação, a identificação das seguintes variáveis:
carga média de trabalho da unidade; distribuição percentual dos profissionais de
enfermagem; índice de segurança técnica e tempo efetivo de trabalho. A partir do
conhecimento do comportamento dessas variáveis, aplica-se uma equação que pos-
sibilita estimar o quantitativo e qualitativo de pessoal de enfermagem.
O método proposto pode ser sintetizado por meio das expressões apresentadas
na Fig. 10.1.
Fig. 10.1 Etapas do método de dimensionamento de pessoal de enfermagem, segundo GAIDZINSKI (1998).
Carga Média de Trabalho da Unidade (C)
A carga média de trabalho da unidade de assistência de enfermagem é a soma do
produto da quantidade média diária de usuários/clientes assistidos, segundo o grau
de dependência da equipe de enfermagem ou do tipo de atendimento, pelo tempo
médio de assistência de enfermagem utilizada, por cliente, de acordo com o grau de
dependência e atendimento realizado.
C =
j
∑(nj + Snj
) ⋅ hj
em que:
C = carga média de trabalho;
j
∑ = somatório da carga média diária de trabalho referente a cada categoria de
cuidado do SCP;
124 Dimensionamento de Pessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde
nj = quantidade média diária de usuários/clientes assistidos, segundo o grau de
dependência ou o tipo de atendimento;
Snj
= distribuição do desvio-padrão, segundo o grau de dependência ou o tipo de
atendimento;
hj = tempo médio diário de cuidado, segundo o grau de dependência ou o tipo
de atendimento;
j
= qualquer grau de dependência ou tipo de atendimento.
Quantidade Média Diária de Usuários/Clientes ( nj)
Para determinar a quantidade média diária de usuários/clientes assistidos, de acor-
do com o grau de dependência da equipe de enfermagem ou do tipo de atendimento
prestado, é necessário classificar os usuários/clientes quanto ao grau de dependên-
cia de enfermagem ou tipo de atendimento realizado.
Nas unidades de internação de instituições hospitalares, essa variável pode ser
identificada por meio da adoção de um Sistema de Classificação de Pacientes (SCP).
GIOVANNETTI (1979) conceituou o SCP como a identificação e classificação de
pacientes em grupos de cuidados ou categorias, e a quantificação dessas categorias
como uma medida de esforços de enfermagem requeridos.
Para GAIDZINSKI (1994), o SCP pode ser entendido como uma forma de deter-
minar o grau de dependência de um paciente em relação à equipe de enfermagem,
objetivando estabelecer o tempo despendido no cuidado direto e indireto, bem
como o quantitativo de pessoal para atender às necessidades biopsicossocioespiri-
tuais do paciente.
A literatura apresenta vários instrumentos de classificação que possibilitam evi-
denciar o grau de dependência do paciente em relação à enfermagem.
PERROCA (1996 e 2000) construiu um instrumento de classificação de pacientes,
baseado nas necessidades básicas preconizadas por HORTA (1979).
A Resolução COFEN no 293/04, que indicou novos parâmetros para “dimensio-
nar o quantitativo mínimo dos diferentes níveis de formação dos profissionais de
enfermagem para a cobertura assistencial nas instituições de saúde” (CONSELHO
FEDERAL DE ENFERMAGEM, 2004), revogando e substituindo aqueles recomen-
dados pela Resolução COFEN no 189/96 (CONSELHO FEDERAL DE ENFERMA-
GEM, 2001), continuou referendando o SCP de FUGULIN et al. (1994) como uma
forma de classificar o grau de dependência do paciente em relação à assistência de
enfermagem.
No entanto, a referida Resolução também não considerou a categoria de cuida-
dos alta dependência de enfermagem, que contempla as necessidades dos pacien-
tes crônicos, que apresentam total dependência de enfermagem para o atendimen-
to das necessidades humanas básicas. Dessa forma, desconsiderou esse perfil de
pacientes, frequentemente encontrado na maioria das instituições hospitalares
brasileiras.
Para determinar a quantidade de pacientes em unidades de centro cirúrgico, os
pacientes podem ser classificados de acordo com o porte da cirurgia a que são sub-
metidos (I, II, III, IV), conforme estudo desenvolvido por POSSARI (2001).
FARIAS (2003) identificou as atividades desenvolvidas em um pronto-socorro da
cidade de São Paulo, levantando os diferentes tipos de procedimentos que caracte-
Dimensionamento de Pessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde 125
rizavam o atendimento nesse serviço, o que possibilitou identificar a quantidade de
pacientes, de acordo com o tipo de atendimento realizado: primeiro atendimento de
enfermagem; consulta de enfermagem; atendimento na sala de emergência; enca-
minhamentos internos e externos. Para classificar os pacientes que permaneciam
em observação no pronto-socorro, foi utilizado o instrumento de classificação de
FUGULIN et al. (1994).
Esse mesmo procedimento pode ser utilizado para levantamento da demanda de
pacientes em unidades ambulatoriais, postos de saúde etc.
Os pacientes devem ser classificados de acordo com o grau de dependência, por-
te da cirurgia a que se submetem, tipo de atendimento recebido etc., por um perío-
do mínimo de 30 dias, uma vez ao dia, para que se obtenha uma amostra que reflita
o perfil dos pacientes atendidos (quantidade de pacientes/clientes, segundo o tipo
de atendimento ou grau de dependência da equipe de enfermagem).
Entretanto, considerando que a representatividade da população estudada ba-
seia-se no pressuposto que uma oferta constante gera uma demanda constante,
recomendamos, para a escolha do período dessa coleta de dados, que seja utilizado
um “mês típico”, ou seja, um mês em que a unidade não esteja exposta a nenhum
tipo de ocorrência que possa influenciar a quantidade de pacientes assistidos ou o
tipo de atendimento realizado.
O resultado da classificação diária dos pacientes possibilita a identificação da
média diária de pacientes internados de acordo com o nível de dependência da
equipe de enfermagem ou atendimento realizado.
Todavia, levando-se em consideração que a quantidade diária de pacientes ad-
mitida na unidade não ocorre em uma sequência uniformemente alternada, isto é,
um dia acima e outro dia abaixo da média, mas tende a se concentrar mais em de-
terminados dias da semana e, além disso, que fatores imprevisíveis podem tornar a
quantidade de trabalhadores disponíveis inferior à quantidade escalada, podendo
colocar em risco a qualidade da assistência prestada pela sobrecarga de trabalho,
recomenda-se tomar como critério para dimensionamento dos trabalhadores de en-
fermagem o valor médio diário de pacientes, segundo o tipo de cuidado (que asse-
gura o dimensionamento em 50% do tempo), acrescido de um desvio-padrão que
corresponde a dar cobertura de trabalhadores em mais 34,1% do tempo.
Dessa forma, os trabalhadores de enfermagem estarão dimensionados para aten-
der aos pacientes em 84,1% do tempo.
Esse procedimento envolve a identificação do desvio-padrão do número médio
diário de pacientes, do coeficiente de variação e da sua distribuição entre o número
médio diário de pacientes, segundo o tipo de cuidado, conforme as equações de-
monstradas a seguir:
DP =
L – N
3
em que:
D = desvio-padrão do número médio de pacientes;
L = total de leitos disponíveis na unidade;
N = número médio de usuários/clientes assistidos no período.
126 Dimensionamento de Pessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde
CV =
DP
N
em que:
CV = coeficiente de variação;
DP = desvio-padrão do número médio de pacientes;
N = número médio de usuários/clientes assistidos no período.
Snj
= CV ⋅ nj
em que:
Snj
= distribuição do desvio-padrão, segundo o grau de dependência ou o tipo
de atendimento;
CV = coeficiente de variação;
nj = quantidade média diária de usuários/clientes assistidos, segundo o grau
de dependência ou o tipo de atendimento.
Tempo Médio Diário de Cuidado, por Cliente, Segundo o Grau de Dependência ou
o Tipo de Atendimento ( hj)
A maior dificuldade encontrada na operacionalização dos métodos de dimensiona-
mento de pessoal de enfermagem está relacionada à identificação do tempo médio
despendido para o atendimento das necessidades assistenciais dos pacientes (hj),
em decorrência de um conjunto de fatores que intervêm na sua determinação. Es-
ses fatores estão relacionados à instituição, ao amparo legal, ao serviço de enferma-
gem e à clientela.
Como esses fatores podem diferir de uma instituição para outra, o ideal seria que
cada unidade levantasse o tempo de assistência de enfermagem de acordo com o
padrão de assistência pretendido.
No entanto, diante das dificuldades instrumentais e operacionais para a realização
desse procedimento, considera-se que os tempos de assistência de enfermagem refe-
rendados na literatura podem ser testados e validados na realidade de cada serviço.
A Resolução COFEN no 293/04 indicou novos parâmetros para as horas mínimas
de assistência, para cada tipo de cuidado. Embora não tenha referendado a catego-
ria de cuidados alta dependência de enfermagem, essa Resolução recomenda que,
para atender às necessidades assistenciais do paciente crônico, com idade superior
a 60 anos, sem acompanhante, classificado na categoria de cuidado intermediário
ou na de cuidado semi-intensivo, haja acréscimo de 0,5 hora de assistência ao tem-
po total preconizado para essas categorias de cuidado (CONSELHO FEDERAL DE
ENFERMAGEM, 2004).
Pesquisa realizada por FUGULIN (2007), junto a sete instituições hospitalares
públicas e privadas da cidade de São Paulo, com o objetivo de avaliar a aplicabili-
dade da Resolução COFEN, concluiu que horas médias de assistência preconizadas
possibilitam atender às necessidades assistenciais dos pacientes por meio do pro-
Dimensionamento de Pessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde 127
cesso de enfermagem e constituem importante referencial para o dimensionamen-
to de profissionais de enfermagem nas instituições hospitalares.
Entretanto, considerou que o acréscimo de 0,5 hora ao tempo de assistência reco-
mendado para o atendimento das necessidades assistenciais dos pacientes crônicos
pode não ser suficiente para assistir os pacientes que apresentam total dependência
de enfermagem para o atendimento das necessidades humanas básicas, cujas exi-
gências não são supridas pela presença de um acompanhante (FUGULIN, 2007).
Assim, para a categoria de cuidado alta dependência de enfermagem, não consi-
derada pelo COFEN, pode-se realizar uma estimativa do tempo de assistência pres-
tada a esses pacientes. FUGULIN (2002) utilizou, como parâmetro para o dimen-
sionamento de pessoal de enfermagem de uma instituição hospitalar de ensino, o
mesmo tempo de assistência indicado para a categoria de cuidado semi-intensivo,
considerando que, na realidade da instituição estudada, o perfil assistencial e as
horas de assistência de enfermagem prestada a esses pacientes são muito seme-
lhantes.
No estudo desenvolvido por POSSARI (2001), as cirurgias foram classificadas
quanto ao porte cirúrgico, de acordo com o tempo utilizado para sua realização
(Quadro 10.1).
Quadro 10.1 Tempo de assistência por porte cirúrgico,
em Centro Cirúrgico,segundo Possari,2001
Porte cirúrgico
Tempo médio de assistência
intraoperatória (minutos)
Distribuição percentual
Enfermeiro
Auxiliar/Técnico de
enfermagem
I 113 15% 85%
II 205,9 15% 85%
III 328,6 15% 85%
IV 627,3 15% 85%
FARIAS (2003) também verificou o tempo médio de assistência de enfermagem
utilizado por cliente, de acordo com os seguintes tipos de atendimento, conforme
apresentados no Quadro 10.2.
Quadro 10.2 Tempo de assistência,por tipo de atendimento,
PS especializado em cardiologia,segundo Farias,2003
Tipo
Tempo médio de
assistência (h)
Distribuição percentual
Enfermeiro
Auxiliar/Técnico de
enfermagem
Primeiro atendimento de enfermagem 0,33 – 100%
Consulta de enfermagem de urgência 0,42 100% –
Atendimento na sala de emergência 1,22 50% 50%
Encaminhamentos internos 0,43 – 100%
Encaminhamentos externos 1,7 – 100%
128 Dimensionamento de Pessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde
Para estimar o tempo de assistência por tipo de atendimento em unidades de
ambulatório, pode-se utilizar os parâmetros apontados por PEDUZZI, ANSELMI e
GAIDZINSKI (2001), conforme mostra o Quadro 10.3.
Quadro 10.3 Tempo de assistência,por tipo de atendimento –
Ambulatório,segundo Peduzzi,Anselmi,Gaidzinski,2001
Tipo
Tempo médio de
assistência (h)
Distribuição percentual
Enfermeiro
Auxiliar/Técnico de
enfermagem
Pré-consulta 0,08 20% 80%
Consulta de enfermagem 0,5 100% –
Atend.enfermagem 0,33 50% 50%
Grupo educativo 3,0 70% 30%
Visita domiciliar 2,0 30% 70%
Vacinação 0,17 20% 80%
Inalação 0,17 20% 80%
Curativo 0,17 20% 80%
Medicação 0,17 20% 80%
Coleta de sangue 0,17 20% 80%
Coleta de fezes/urina/escarro 0,08 20% 80%
Para a projeção do quadro de pessoal de enfermagem de novas unidades/servi-
ços, parte-se do conhecimento do perfil epidemiológico da clientela a ser assistida e
da proposta assistencial a ser implementada, estabelecendo-se a carga de trabalho
da unidade por meio da previsão da quantidade de usuários/clientes a serem assis-
tidos, de acordo com suas necessidades assistenciais e tipo de atendimento ofereci-
do, bem como da estimativa do tempo de assistência a ser utilizado.
Distribuição Percentual dos Profissionais de Enfermagem (Pkj
%)
A distribuição da carga média diária de trabalho da unidade entre as categorias da
equipe de enfermagem varia de acordo com o significado atribuído à assistência de
enfermagem e com a disponibilidade do mercado de trabalho.
O COFEN estabeleceu a distribuição percentual do total de profissionais de en-
fermagem, de acordo com as categorias de cuidado do SCP
, recomendando que
essa distribuição deverá “seguir o grupo de pacientes de maior prevalência” na
unidade.
Entretanto, verifica-se que os percentuais preconizados pela Resolução no 293/04
estão distantes da realidade brasileira, constituindo-se, ainda, em um horizonte a
ser alcançado. Dessa forma, esse percentual deverá ser estabelecido de acordo com
a realidade de cada serviço, levando-se em consideração o padrão de atendimento
pretendido.
Dimensionamento de Pessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde 129
Índice de Segurança Técnica (IST)
A determinação de um índice de segurança técnica consiste em um acréscimo no
quantitativo de pessoal de enfermagem por categoria profissional, para a cobertu-
ra das ausências ao serviço, merecendo atenção especial na área de enfermagem
pelas implicações que a redução da equipe acarreta na quantidade e na qualidade
da assistência prestada ao paciente, especialmente nas unidades que funcionam
ininterruptamente.
GAIDZINSKI et al. (1998) entendem como ausências previstas os dias relativos
às folgas (descanso semanal remunerado e feriados) e às férias. Como ausências
não previstas, os dias referentes às faltas, às licenças e às suspensões.
A denominação Índice de Segurança Técnica (IST) tem sido utilizada para desig-
nar os percentuais para a cobertura de todos esses tipos de ausências.
A Resolução COFEN no 293/04 estabeleceu que, ao quantitativo de profissionais
necessários para a prestação da assistência de enfermagem, deverá ser acrescido
um IST não inferior a 15%, dos quais 8,33% destinam-se à cobertura de férias e
6,67% à cobertura da taxa de absenteísmo (ausências não previstas).
Entretanto, o percentual a ser acrescentado sobre o total dos componentes da
equipe de enfermagem, destinados à cobertura dessas ausências, varia entre os
autores que desenvolveram estudos sobre essa temática, evidenciando a arbitrarie-
dade em utilizar índices de cobertura indicados na literatura, tendo em vista a dis-
ponibilidade de métodos que possibilitam a identificação desses valores, de acordo
com a realidade de cada instituição.
A Resolução COFEN considera ainda que:
“Art. 8o – O responsável técnico de enfermagem deve dispor de 3% a 5% do qua-
dro geral de profissionais para a cobertura de situações relacionadas à rotatividade
de pessoal e participação de programas de educação continuada.”
“Art. 9o – o quadro de profissionais de enfermagem da unidade de internação
composto por 60% ou mais de pessoas com idade superior a 50 anos, deve ser acres-
cido de 10% ao IST.”
Os percentuais referentes a cada tipo de ausências podem ser calculados a partir
das equações propostas por GAIDZINSKI (1998):
Ausências Previstas por Folga Semanal (E%)
As cargas de trabalho semanal mais frequentemente adotadas nas instituições de
saúde do país são: o sistema de 36 horas de trabalho por semana, com uma folga se-
manal, e o sistema de 30 horas de trabalho por semana, com duas folgas semanais.
O valor percentual do acréscimo de pessoal devido à variável folgas semanais por
trabalhador E% pode ser calculado através da equação:
E% =
e
· 100
d – e
130 Dimensionamento de Pessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde
em que:
E% = percentual de folgas;
e = número de dias de folga por semana dos trabalhadores da enfermagem;
d = número de dias trabalhados na unidade.
Ausências Previstas por Feriado (F%)
Nos serviços ininterruptos de enfermagem, todo o quadro de pessoal tem direito a
tantos dias de folgas quantos forem os feriados não coincidentes com os domingos.
O número de folgas varia, de acordo com o ano, em função da quantidade dos feria-
dos não coincidentes com o domingo.
Dessa maneira, calculamos os valores percentuais limites dos acréscimos devi-
dos aos dias feriados F% pela equação:
F% =
F
· 100
D – f
em que:
F% = percentual de dias feriados;
f = dias feriados no ano;
D = dias do ano, 365 dias.
Ausências Previstas por Férias (Vk%)
O valor máximo para férias, conforme a legislação, é de 30 dias/ano por trabalhador
de qualquer categoria profissional.
Recomendamos, no entanto, para a avaliação de uma unidade já em funciona-
mento, que os valores de Vk sejam determinados por meio de um levantamento
direto do número médio de dias de férias gozadas durante o ano, por categoria pro-
fissional que compõe o quadro de pessoal de enfermagem da unidade, e aplicação
da seguinte equação:
Vk% =
vk
· 100
D – vk
em que:
Vk% = percentual de férias, segundo a categoria profissional k (enfermeiro, téc-
nico/auxiliar);
vk = média de dias de férias da categoria profissional k;
D = dias do ano, 365 dias.
Sugerimos, para fins de projeto de uma nova unidade, adotar como valor per-
centual do acréscimo de pessoal, para cobertura referente aos dias de férias anuais,
Dimensionamento de Pessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde 131
o valor máximo de 9% para qualquer categoria profissional, que corresponde a 30
dias de férias por trabalhador.
Ausências Não Previstas (Ak%)
A variável ausências não previstas é resultante da soma de uma série de tipos de
ausência, tais como: faltas abonadas e não abonadas; licença médica; licença-ma-
ternidade; licença-prêmio; licença por acidente de trabalho; licença INSS; outras
licenças (casamento, nojo, paternidade etc.) e suspensões, cujos valores diferem de
uma categoria profissional para outra.
Todos esses tipos de ausências comportam-se como variáveis aleatórias, pois po-
dem ocorrer em qualquer dia do ano. Para efeito de uma avaliação das condições
de uma unidade, o Serviço de Enfermagem poderá levantar o quantitativo dessas
ausências por funcionário, através dos registros da instituição durante o período de
um ou mais anos.
Como a ausência não prevista é composta pela soma das diversas ausências já
relatadas anteriormente, podemos representá-la com a seguinte equação:
A
D a
k
k i
i
%
,
,
=
−
⎛
⎝
⎜
⎜
⎜
⎞
⎠
⎟
⎟
⎟
⋅
ak i
i
∑
∑
100
em que:
Ak% = percentual de ausências não previstas, segundo a categoria profissio-
nal k (enfermeiro, técnico/auxiliar);
i
∑ ak,i = somatório dos dias médios de ausências não previstas, segundo os tipos
de ausências i (faltas, licenças e suspensões) por categoria profissio-
nal k (enfermeiro, técnico e auxiliar);
D = dias do ano, 365 dias.
Quando as ausências referentes às licenças-maternidade e médica (INSS) forem
repostas pela instituição, com contratação temporária de pessoal para cobertura
dos dias de afastamento, não deverão ser computadas no cálculo das ausências não
previstas.
Para novas unidades ou quando houver dificuldade para a identificação de variá-
vel ausência não prevista, sem reposição dos períodos de afastamento por licenças-
maternidade e médica (INSS), podemos utilizar como referência o valor médio de
14 dias para enfermeiros, técnicos e auxiliar de enfermagem. Nas instituições em
que esses afastamentos forem cobertos, pode-se utilizar, como valor médio de au-
sências não previstas, oito dias.
Diante dos resultados encontrados referentes às ausências previstas e não pre-
vistas, calculamos o Índice de Segurança Técnica (IST), para o acréscimo de pes-
soal de enfermagem, conforme demonstrado a seguir:
132 Dimensionamento de Pessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde
Tempo Efetivo de Trabalho (tk · pk)
A identificação da variável tempo efetivo de trabalho considera o tempo diário de
trabalho da equipe de enfermagem, determinado pela instituição.
No entanto, de acordo com GAIDZINSKI (1998), desde os primeiros estudos so-
bre o trabalho, considera-se que os trabalhadores não são produtivos, igualmente,
em todo o tempo do turno de trabalho, por realizarem uma série de atividades não
diretamente relacionadas às suas tarefas profissionais, como: o atendimento de
suas necessidades fisiológicas; períodos de descanso; trocas de informações não
ligadas ao trabalho; deslocamentos desnecessários; comemorações, e outros.
Dessa forma, a autora sugere que sejam consideradas as perdas de produtivida-
de dos trabalhadores de enfermagem, mediante a redução das horas disponíveis do
trabalhador em seus turnos de trabalho, quando, nas horas médias adotadas para o
dimensionamento de pessoal de enfermagem, não estiver incluída essa variável, de
maneira que o tempo efetivo de trabalho seja assim mensurado:
tefetivo = tk · ρk
em que:
tk = jornada de trabalho da categoria profissional k;
pk = proporção do tempo produtivo da categoria profissional k;
Para a determinação do tempo produtivo, podemos optar pelo percentual de 85%
(p=0,85) da jornada diária de trabalho, avaliado como excelente por BISENG (1996)
e por IDE et al. (1992). Estudo realizado por O’BRIAN-PALLAS (2004) também
recomenda que os níveis de produtividade da equipe de enfermagem devem ser
mantidos em 85%, com variações de 5%. Níveis acima de 90% podem representar
elevação dos custos, queda na qualidade da assistência ao paciente e nos resultados
de enfermagem, e níveis abaixo de 80% indicam maior probabilidade de satisfação
dos profissionais e redução do absenteísmo.
Aplicação da Equação para Dimensionar o Pessoal de Enfermagem
Diante do levantamento das variáveis descritas, podemos finalmente calcular o
pessoal de enfermagem, substituindo os valores na seguinte equação:
Dimensionamento de Pessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde 133
em que:
Q = quantidade total de pessoal de enfermagem;
k
∑ = somatório do quantitativo de pessoal de cada categoria profissional k;
j
∑ = somatório da carga média diária de trabalho referente a cada categoria de
cuidado do SCP;
nj = quantidade média diária de usuários/clientes assistidos, segundo o grau
de dependência ou o tipo de atendimento;
Snj
= distribuição do desvio-padrão, segundo o grau de dependência ou o tipo
de atendimento;
hj = tempo médio diário de cuidado, segundo o grau de dependência ou o tipo
de atendimento;
j = qualquer grau de dependência ou tipo de atendimento;
Pkj = percentual da carga de trabalho atribuída à categoria profissional k, de
acordo com o tipo de cuidado prevalente j;
tk = jornada de trabalho da categoria profissional k;
pk = proporção do tempo produtivo da categoria profissional k;
E% = percentual de ausência por folga semanal;
F% = percentual de ausência por dias feriados no ano;
Vk% = percentual de ausência por férias anuais da categoria profissional k;
Ak% = percentual de ausência não previstas da categoria profissional k.
A partir dos resultados qualitativos e quantitativos obtidos, caberá aos enfermei-
ros, que vivenciam o dia a dia da assistência de enfermagem, a decisão de distri-
buir o pessoal de enfermagem nos diferentes turnos de acordo com a dinâmica da
unidade, julgando se o quadro de enfermagem, obtido na aplicação desse método,
é qualitativa e quantitativamente suficiente para prestar a assistência de enferma-
gem no padrão pretendido.
Os modelos de dimensionamento de pessoal de enfermagem propostos eviden-
ciam a necessidade de lançar mão dos recursos da informática, com o desenvolvi-
mento de um programa computacional que permita aos enfermeiros disporem de
informações quantiqualitativamente eficazes para um adequado planejamento do
quadro de pessoal, agilizando o processo de tomada de decisão, com a economia de
custos, tempo e energia.
n Considerações Finais
As instituições de saúde estão constantemente incorporando novas tecnologias e
métodos terapêuticos, que incidem na elevação do custo hospitalar. A necessidade
de contenção de gastos, no entanto, tem colocado em evidência o quantitativo de
pessoal de enfermagem, que representa, em regra, o maior contingente de pessoal
dentro dessas organizações.
A redução de despesas, por meio da diminuição numérica e qualitativa de pes-
soal de enfermagem, colabora para a instalação de conflitos que se estabelecem en-
tre o custo e o benefício, entre o pessoal e o institucional, entre o capital e o trabalho
e entre o técnico e o ético.
134 Dimensionamento de Pessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde
Assim, torna-se necessário que os enfermeiros, ética, técnica e politicamente ca-
pacitados, explicitem as reais condições de assistência, utilizando-se de métodos de
dimensionamento de pessoal adequados, que possibilitem a argumentação e justi-
ficativa de suas propostas referentes ao quadro de pessoal de enfermagem, compro-
missando, dessa maneira, os responsáveis pela aprovação desse quadro, quanto aos
riscos a que os usuários/clientes estão expostos na ausência de recursos necessários
para a prestação de uma assistência segura e humanizada.
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Educação Continuada:
Recrutamento e Seleção,
Treinamento e Desenvolvimento
e Avaliação de Desempenho
Profissional
HELOISA HELENA CIQUETO PERES, MARIA MADALENA JANUÁRIO LEITE,
E VERA LUCIA MIRA GONÇALVES
11
137
É inquestionável nos dias de hoje, para a maioria das organizações, a necessidade
de capacitar seus profissionais por meio de uma educação reflexiva e participativa.
Tempos atrás, no entanto, não era possível fazer essa afirmação, pois as organiza-
ções limitavam-se a práticas simplistas de admitir e demitir pessoas.
Em seguida, as organizações passaram a se preocupar com o treinamento como
uma forma de reduzir erros e custos de produção e mais recentemente, têm busca-
do também a capacitação do pessoal que gerencia os recursos humanos (GONÇAL-
VES, 1997).
Essa mudança no enfoque de desenvolvimento profissional foi impulsionada,
principalmente, por pressões sociais, como a elevação da escolaridade, o crescen-
te aumento do nível de informação das pessoas e as inovações tecnológicas, bem
como a motivação e a expectativa das pessoas na participação das decisões, nos
resultados e no futuro da empresa.
Dessa forma, tornou-se imperativa a necessidade de flexibilização da estrutura
organizacional na perspectiva de preparar seus trabalhadores para o enfrentamen-
to das mudanças.
EBOLI (1997) acrescenta a esse panorama o “resgate do sujeito” como condi-
ção necessária para a modernidade, situando o sujeito no centro das dimensões
organizacionais, valorizando o ser humano e suas manifestações de desejo. A essa
138 Educação Continuada: Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional
condição, inclui ele a iniciativa e a responsabilidade individuais, o estímulo à par-
ticipação das pessoas nos processos da organização, o favorecimento do alcance
de objetivos pessoais, o autodesenvolvimento e a preocupação com a avaliação de
resultados, tanto da organização como das pessoas.
Isso significa que o homem pode ser considerado como um agente facilitador ou
impeditivo para o alcance dos objetivos organizacionais. Como destaca PEREIRA
GARCIA (1999), é unânime, entre aqueles que buscam a excelência, que “a base do
trabalho está no homem”, porque é o homem que produz os recursos materiais e os
métodos de trabalho, ficando estes, portanto, subordinados ao seu desempenho.
Assim, é essencial promover o ajuste entre os objetivos e expectativas da em-
presa com os dos indivíduos. As organizações investem no desenvolvimento dos
profissionais para um desempenho adequado da função, o que facilita o alcance
dos objetivos e dos resultados pretendidos pela organização. Por outro lado, os ob-
jetivos pessoais são em parte atingidos, pois o aumento da qualificação implica
maior competitividade profissional no mercado de trabalho, além de proporcionar
ao indivíduo maior satisfação no trabalho, uma vez que percebe sua contribuição
nos resultados obtidos (GONÇALVES, 1998).
Fig. 11.1
Ainda, e como ilustra a Fig. 11.1, é essencial que a modernização das formas de
trabalho esteja sintonizada com uma política de desenvolvimento integrado dos
recursos humanos, buscando mecanismos apropriados para diagnóstico, desenvol-
vimento e avaliação de desempenho individual e grupal.
Nessa perspectiva, compreende-se a Educação Continuada (EC) como um pro-
cesso que impulsiona a transformação da organização, criando oportunidades de
capacitação e de desenvolvimento pessoal e profissional, dentro de uma visão críti-
ca e responsável da realidade, resultando na construção de conhecimentos impor-
tantes para a organização, para a profissão e para a sociedade.
Apreende-se, daí, que é papel da EC apoiar os processos de mudança, adotando
uma gestão de pessoal que considere o homem como centro da organização; por
Educação Continuada: Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional 139
isso, assume uma posição estratégica nas instituições de saúde, adotando uma ges-
tão participativa, que flexibiliza as relações de poder, compartilha planos e decisões
e sensibiliza as pessoas quanto à responsabilidade pelo autodesenvolvimento, pela
disseminação do conhecimento e pelo aprendizado de novos valores.
A EC tem, portanto, a finalidade precípua de promover o crescimento pessoal e
profissional, sendo as demais atribuições compreendidas como meios para alcançar
os objetivos específicos, tais como:
• participar dos processos de mudança da organização, compreendendo o processo
de trabalho;
• incentivar as pessoas ao autodesenvolvimento;
• analisar e desenvolver competências individuais e coletivas;
• capacitar, pedagogicamente, os enfermeiros para difusão do conhecimento;
• coordenar o processo de recrutamento e seleção;
• coordenar programas de treinamento e desenvolvimento;
• coordenar o processo de avaliação e desempenho profissional;
• avaliar os processos de EC, tendo como referência os objetivos e metas estabele-
cidos;
• analisar e documentar os processos de EC visando subsidiar a tomada de decisão
em Enfermagem.
Para viabilizar os objetivos e concretizar as atribuições, os profissionais envol-
vidos com a EC devem manter-se integrados aos ambientes interno e externo e
às políticas, preocupando-se em desenvolver suas próprias competências, capaci-
tando-se e atualizando-se para propostas pedagógicas a fim de implementar novas
tecnologias de ensino.
Além disso, é essencial a integração entre os enfermeiros das unidades e os en-
fermeiros da EC, bem como o claro estabelecimento dos papéis, da estrutura de
poder, do sistema de informação e comunicação, a fim de obter consonância com as
características e as necessidades dos usuários internos e externos.
A não observância desses aspectos gera conflitos e insatisfação entre os enfer-
meiros da EC e os das unidades, levando à tomada de decisões inadequadas e, con-
sequentemente, à ineficiência e ineficácia do processo de educação.
A EC é constituída de diversos processos e, neste capítulo, serão discutidos os
processos de Recrutamento e Seleção, Treinamento e Desenvolvimento (TD) e
Avaliação de desempenho profissional.
n Recrutamento e Seleção de Pessoal de Enfermagem
Historicamente, os processos de recrutamento e seleção de pessoal nas organiza-
ções demonstram a supervalorização do suprimento das necessidades da institui-
ção, consistindo em processos mecânicos que visam apenas a captar a melhor mão
de obra disponível, sem a preocupação com o ser humano, o que caracteriza uma
abordagem tecnicista e burocrática.
140 Educação Continuada: Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional
Numa era de constantes mudanças e imprevisibilidade do saber, o recrutamento
e a seleção não podem mais ser concebidos como processo de escolha da pessoa
certa para o lugar certo.
Na atualidade, o recrutamento e a seleção são concebidos como um processo
complexo, atrelado às propostas, políticas e objetivos organizacionais, ao mercado
de trabalho, à situação social, política e econômica vigente e às necessidades indi-
viduais.
Para COVEY (2002), o grande desafio das empresas de hoje é atrair e reter pes-
soas talentosas, que detêm conhecimento e agreguem valores com suas potenciali-
dades, habilidades e saberes. Para o autor, as empresas devem proporcionar condi-
ções para que as pessoas expressem seus talentos, articulando as necessidades da
empresa e das pessoas.
O ponto-chave do processo de recrutamento e seleção é construir um relacio-
namento em que ambas as partes se sintam compreendidas e atendidas em suas
necessidades econômicas, sociais e psicológicas, identificando oportunidades de
mútua contribuição, fazendo uma diferença real para a organização e para o indi-
víduo.
O problema é que a abordagem não tem sido essa, mas ainda centrada, exclusiva-
mente, no enfoque das necessidades da empresa, desconsiderando os indivíduos.
As organizações buscam encontrar as pessoas com o máximo de talentos sem con-
siderar, no entanto, suas necessidades e expectativas, negligenciando o desenvolvi-
mento dos potenciais que inicialmente foram tão exigidos.
Vários autores, ao analisarem o contexto institucional e a gênese das políticas de
recursos humanos, conferem uma importância ímpar ao processo de recrutamento
e seleção de pessoal, como uma ferramenta de manutenção ou mudança da cul-
tura organizacional, na medida em que atrai seletivamente as pessoas com perfis
compatíveis para transformar ou reforçar os pressupostos e valores organizacionais
(CHIAVENATO, 1999a; LUCENA, 1991; LODI, 1992).
Ainda, LODI (1992) chama a atenção para a importância social do processo, con-
siderando essencial direcionar os recursos humanos para posições em que farão o
melhor uso de seu talento; caso contrário, incentivará pessoas a se empregarem em
lugares onde se sentirão frustradas, desencorajadas e insatisfeitas, contribuindo,
dessa maneira, para a desorganização social.
Na realidade hospitalar, do ponto de vista da gestão de recursos humanos, ob-
serva-se que são poucos os hospitais que mantêm uma política de pessoal desalie-
nadora, voltada para o desenvolvimento das potencialidades dos indivíduos, e que
contemple de forma integrada a captação e a retenção de pessoal.
Os hospitais, em sua maioria, não estão preocupados em estabelecer uma políti-
ca efetiva de valorização dos recursos humanos internos, acreditando, ainda, que o
pessoal pode ser substituído facilmente e supervalorizando a tecnologia para me-
lhoria da qualidade da assistência.
Na enfermagem, o processo seletivo é reflexo da política dos hospitais; portanto,
tem sido conduzido com a simplicidade, apenas, de preencher os cargos existentes
nas instituições de saúde, voltado exclusivamente para a aplicação de procedimen-
tos burocráticos e discriminatórios decorrentes do vínculo empregatício (PEREIRA
e LEITE, 1991).
Educação Continuada: Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional 141
No entanto, para PERES (1995), o recrutamento e a seleção em enfermagem são
percebidos como um processo complexo, determinado pelas relações entre o ho-
mem, as organizações e a sociedade, sendo, portanto, um fenômeno dinâmico que
se dá nas relações interpessoais, podendo ser analisado com base nas constantes
mudanças do cenário do mundo moderno, onde o homem adquire experiências e
redefine seus esquemas de ações, em constante construção do conhecimento.
Nessa perspectiva, o diagnóstico situacional do processo seletivo deve ser fun-
damentado nas necessidades do homem, da organização e da sociedade, caracteri-
zadas por múltiplos determinantes, que agem como facilitadores ou dificultadores,
tais como política social, econômica, cultural, educacional, trabalhista e de saúde
vigentes no país, bem como da cultura, dos pressupostos e objetivos organizacio-
nais, das peculiaridades da profissão e das características pessoais e profissionais
do pessoal de enfermagem.
O ponto inicial do processo seletivo é a construção do perfil profissional basea-
da nesse diagnóstico, considerando os objetivos, perspectivas e pontos críticos da
área, o relacionamento interpessoal, as características e expectativas do grupo e o
modelo gerencial.
O perfil profissional é o conjunto de atribuições profissionais e das competên-
cias indispensáveis e das desejáveis para o desempenho da função ou cargo, repre-
sentando claramente as exigências pessoais e profissionais. Considerando que as
competências para os cargos sofrem mudanças, o perfil deve ser constantemente
ajustado às necessidades do trabalho e do indivíduo.
Para que a organização selecione pessoas que correspondam ao perfil profissio-
nal estabelecido, visando o alcance dos resultados esperados e a integração ao gru-
po de trabalho, devem ser elaborados critérios de seleção.
Esses critérios têm por finalidade propiciar a comparação entre o perfil estabele-
cido e o perfil do candidato, identificando as competências indispensáveis, ou seja,
aquelas sem as quais não seria possível contratar o profissional e as competências
desejáveis que, mesmo não estando presentes, podem ser desenvolvidas posterior-
mente.
Os critérios devem ser flexíveis e compatíveis com o mercado de trabalho, isto
é, quando a oferta de candidatos é grande, os critérios podem ser mais rigorosos;
em contrapartida, quando a oferta é baixa, esse rigor de critérios pode fazer com
que um cargo permaneça vago por um longo tempo. Assim, os critérios devem ser
adequados ao mercado e às possibilidades de treinamento e desenvolvimento da
instituição e do indivíduo.
PERES (1995), em seu estudo sobre o processo seletivo de enfermeiros, verificou
que, nos critérios seletivos do pessoal de enfermagem, as competências pessoais,
como os atributos psicológicos e atitudinais dos candidatos, eram predominantes
em relação ao conhecimento técnico específico, visando a adequação dos profissio-
nais às características e aos pressupostos organizacionais. A capacitação técnica
específica era prescindível na aprovação do candidato pelo fato de esta ter a possi-
bilidade de suprir suas deficiências através de treinamentos.
O estabelecimento de critérios seletivos remete-nos a refletir sobre o caráter dis-
criminatório inerente ao processo de recrutamento e seleção de pessoal, por se tra-
tar de julgamento e avaliação de candidatos. Entretanto, a construção de critérios
deve contemplar os aspectos éticos e legais, assegurando a justiça do processo.
142 Educação Continuada: Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional
Os critérios devem fundamentar a escolha das técnicas de seleção para propor-
cionar o levantamento de informações específicas sobre os candidatos, com o obje-
tivo de medir e avaliar a capacidade técnica e as competências pessoais.
Existe uma variedade de técnicas de seleção, tais como análise de currículo, pro-
va situacional, prova teste, prova prática, prova dissertativa, entrevista, testes de
personalidade, testes psicométricos, técnicas de simulação, dinâmica de grupo, en-
tre outras. Há ainda técnicas menos convencionais e polêmicas, como grafologia,
mapa astral, numerologia, que ainda não tiveram sua eficácia comprovada cienti-
ficamente.
Cada técnica apresenta vantagens e desvantagens; portanto, além da observân-
cia aos critérios, é indispensável uma análise entre os custos e os benefícios, pois,
quanto maior o número de técnicas de seleção aplicadas, tanto maior a oportunida-
de de informações para análise. Por outro lado, também será maior o custo opera-
cional e o tempo despendido na realização do processo.
A avaliação do processo seletivo, tanto quantitativa quanto qualitativa, não tem
sido realizada, sistematicamente, nas organizações de saúde.
O que se percebe é que o processo tem sido desgastante e estressante, tanto para
a empresa como para os candidatos, diminuindo sua eficácia e eficiência.
Uma forma de avaliar o processo é o índice de rotatividade de seleção (IRS), que
representa a relação entre o número de admissões e desligamentos de profissionais
de determinado processo seletivo em dado período. O período de avaliação do pro-
cesso seletivo deve ser estabelecido para curto e médio prazos, de acordo com os
ambientes interno e externo à instituição, pois geram diferentes significados.
IRS =
No de admissões no período
3 100
No de desligamentos no período
Essa relação expressa um parâmetro relevante para análise do processo. Um alto
IRS em curto prazo sugere problemas de adaptação do recém-admitido à organiza-
ção, que podem ser decorrentes da inadequação do perfil estabelecido ou dos cri-
térios ou técnicas seletivas utilizadas. Um alto IRS em médio prazo pode traduzir,
entre outros, problemas de educação continuada ou desequilíbrio com o mercado,
oferta e procura.
Nessa perspectiva, vários enfermeiros, ao analisarem o recrutamento e a sele-
ção de pessoal, revelaram que esse processo representa um grande desgaste para
os indivíduos que trabalham nessa área, em decorrência das políticas de recursos
humanos adotadas e das condições de trabalho inadequadas (SILVA et al., 1989;
PERES, 1995; PEREIRA e LEITE, 1991).
Essas autoras constataram, ainda, que a participação do enfermeiro no processo
de recrutamento e seleção do pessoal de enfermagem é restrita, cabendo grande
parte da responsabilidade a um departamento de pessoal que desconhece as reais
necessidades da enfermagem. Entretanto, julgam ser fundamental a participação
do enfermeiro, principalmente, no estabelecimento dos critérios seletivos e na to-
mada de decisão sobre os candidatos que devem ser admitidos.
Para tanto, os enfermeiros devem ter consciência da importância do papel que
desempenham como responsáveis pelo processo de recrutamento e seleção em en-
Educação Continuada: Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional 143
fermagem, como agentes propulsores de mudanças nas culturas das organizações
de saúde, e não apenas referendando os valores, crenças e pressupostos organiza-
cionais
Portanto, é importante considerar que o processo seletivo não pode ser um fim,
mas a porta de entrada dos recursos humanos, isto é, um meio para alimentar ou-
tros processos, como liderança, supervisão, treinamento e desenvolvimento e ava-
liação de desempenho, imprescindíveis na gestão de pessoal e nas propostas de
mudanças, que integram as políticas de recursos humanos.
n Treinamento e Desenvolvimento – TD
Enquanto o treinamento constitui ação sistematizada de capacitação e adaptação
do indivíduo em uma situação profissional específica, realizado em curto prazo,
o desenvolvimento propõe ações voltadas para o aperfeiçoamento e crescimento
pessoal e profissional do indivíduo, sendo realizado em médio e longo prazos (CAR-
VALHO, 1999).
Assim, o treinamento busca, como resultado, o aumento do conhecimento teó-
rico e prático que capacita o indivíduo para a realização eficiente de seu trabalho.
O desenvolvimento vai além da eficiência no trabalho e pressupõe a ampliação das
competências profissionais e pessoais que instrumentalizam o indivíduo para a
transformação da realidade.
Os programas de TD devem ser fundamentados na compreensão das neces-
sidades e competências a serem alcançadas, na adequada aplicação dos métodos
disponíveis e na conscientização e manutenção do interesse dos treinandos pelo
aprendizado.
Se não houver uma política de valorização do capital humano, integrando apren-
dizagem, conhecimento e competências, não há programas de TD que consigam
estimular as pessoas a seu autodesenvolvimento.
Dessa forma, o capital humano pode ser entendido, em seu sentido mais amplo,
como o conhecimento, as habilidades, as capacidades autorreflexiva e empreen-
dedora e a criatividade para encontrar novas fontes de conhecimento (SPENDER,
2001).
Com certa frequência, alguns programas não dão certo, devido, entre outros
motivos, ao desinteresse dos envolvidos, especialmente dos próprios treinandos;
à falta de objetivos ou de objetivos não factíveis ou inadequados; à falta de dispo-
nibilidade das pessoas e ao alto custo do programa, caracterizando os programas
elaborados como não pertinentes aos aspectos políticos e aos valores das pessoas e
da organização.
Porém, pensando no cenário atual, na era da informação, na presença e impor-
tância do homem nas organizações, a política de recursos humanos (RH) deverá
privilegiar programas que busquem a modernização das formas de trabalho.
Para desenvolver programas de TD que, de fato, gerem os resultados espera-
dos, deverá ser realizado um planejamento com metas congruentes com a política
da organização, e construídas de modo participativo, integrando o mentor dos pro-
gramas, seus executores e os treinandos.
A Fig. 11.2 mostra as fases do planejamento de TD.
144 Educação Continuada: Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional
Primeiramente, como destaca MILIONI (2001), o gestor de RH, nesse caso o en-
fermeiro da EC, deve proceder ao diagnóstico, definindo os problemas tratáveis ou
não pelo treinamento, isto é, se as necessidades levantadas são problemas passíveis
de solução por meio de treinamento e desenvolvimento de pessoal.
Portanto, o levantamento de necessidades deve ser apreciado num contexto
maior, analisadas as relações de causa, efeito e consequência das disfunções e pro-
blemas de competências das pessoas, identificando os motivos desses problemas e
se a falta de conhecimento é devida ao despreparo ou a outros fatores relacionados
ao trabalho (MILIONI, 1999).
O planejamento de TD pressupõe a aplicação dos princípios do Planejamento
descritos no Cap. 4.
Em síntese, deverá contemplar as seguintes reflexões:
Onde e como estamos hoje? DIAGNÓSTICO SITUACIONAL
Onde e como pretendemos estar amanhã? OBJETIVOS
Como faremos para chegar lá? METODOLOGIA/ESTRATÉGIAS
Como saberemos que chegamos? AVALIAÇÃO
Quanto custará ao indivíduo e à organização? ANÁLISE DOS RECURSOS E DOS
CUSTOS
Fig. 11.2
Educação Continuada: Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional 145
Para a elaboração do programa, a EC, como agente de transformação da realida-
de organizacional, deverá adotar uma metodologia que favoreça a reflexão crítica, a
criatividade, e abandonar técnicas de ensino prescritivas, preocupando-se também
em individualizar o processo de ensino-aprendizagem.
Nesse sentido, o processo de TD tem sido facilitado pela ação de agentes mul-
tiplicadores, pois trata-se de uma estratégia em que os profissionais de uma deter-
minada área são responsáveis pelo processo de TD da equipe dessa área. Um dos
fatores mais relevantes dessa ação é a pertença do agente ao grupo, o que favorece
a troca de experiências e informações; estimula a motivação e a cooperação entre os
membros; bem como facilita a realização do diagnóstico situacional e a mensuração
dos resultados.
Para a adoção dessa estratégia, é essencial uma análise das dimensões estrutu-
rais e relacionais, ou seja, é preciso dimensionar os recursos humanos e tecnológi-
cos e estabelecer objetivamente a função do agente, sobretudo no que se refere às
relações de poder.
A utilização de novas tecnologias da comunicação e da informação vem se tor-
nando um eficaz instrumento de treinamento técnico, por possibilitar uma apren-
dizagem cooperativa, que se manifesta nas interações do aprendiz com o seu tutor,
com os colegas aprendizes e com os conteúdos didáticos, redefinindo a tradicional
educação a distância.
Embora os recursos da multimídia aplicados ao ensino favoreçam a democratiza-
ção da informação, a independência geográfica e a constante atualização da infor-
mação não substituem o ensino presencial, que permite o desenvolvimento de com-
petências, comportamentos e atitudes. Além disso, o treinamento virtual demanda
grande investimento em infraestrutura.
A facilidade de aprovação do programa será proporcional ao grau de participa-
ção das pessoas e coerência com a cultura e necessidades das pessoas e da organi-
zação. O respeito às pessoas e à organização confere legitimidade ético-política ao
programa, sendo este mais facilmente aprovado e executado.
A avaliação do processo de TD significa verificar se as informações transmi-
tidas geraram conhecimento e se este está sendo aplicado às ações. A avaliação
do programa verifica a pertinência do conteúdo, a adequação das estratégias de
ensino e dos recursos, enquanto a avaliação dos resultados preocupa-se com a
verificação da mudança de comportamento dos treinandos.
Existem várias técnicas de avaliação, mas o mais importante é perceber que essa
fase retorna ao início do planejamento, pois é capaz de gerar novas informações a
respeito das necessidades que fundamentam o diagnóstico situacional.
Apesar da inquestionável importância, a avaliação tem recebido pouca atenção
dos responsáveis, que alegam falta de tempo ou falta de preparo para tal.
O não envolvimento das pessoas, no processo como um todo, também explica
essa resistência, pois, por não conhecerem os objetivos do programa, pouco sabem
o que avaliar e que resultados esperar. Além disso, essa situação demonstra como
a avaliação está diretamente relacionada à política de RH e ao processo de pla-
nejamento dos programas. Um processo participativo e uma política integrada de
desenvolvimento de pessoal proporcionam maior interação das pessoas e melhores
resultados dos programas.
146 Educação Continuada: Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional
Na avaliação dos programas de TD, a EC reforça seu papel estratégico e gestor,
analisando e interpretando os dados obtidos a partir dos diversos tipos de avaliação,
que, isoladamente, não caracterizam uma avaliação de resultados e pouco contri-
buem para a retroalimentação do programa.
A avaliação dos custos, embora indispensável, pouco tem sido realizada, tanto
no que se refere ao levantamento do custo direto, como, principalmente, no que
tange à análise de custo-benefício ou custo-efetividade, verificando se o investi-
mento valeu a pena.
Para JERICÓ (2001), as informações sobre custos respaldam os enfermeiros no
planejamento e alocação de recursos, na implementação e avaliação dos resultados
e no índice de viabilidade dos programas, oferecendo dados para previsão orçamen-
tária e negociação com a administração.
Algumas iniciativas têm sido realizadas e mostram quanto de investimento em
TD tem sido feito na enfermagem, em média de horas. JERICÓ (2001) constatou,
numa instituição estudada, um investimento de 12,6 h/funcionário/ano, mostrando
que a média mundial foi de 34,8 h/funcionário/ano, observando uma queda nesse
quantitativo. MINAMI, LIMA, ORTIZ, OKANO e FOLLADOR (2002) apresentou,
em outra instituição, a relação de 13,8 h/funcionário/ano.
Sistematicamente, ao finalizar um programa, a EC deve emitir relatórios ana-
líticos, cuja finalidade é proporcionar as informações necessárias para tomada de
decisão, bem como divulgar as atividades realizadas.
Essa divulgação é essencial, ainda, para a visibilidade e reconhecimento da EC,
no que diz respeito à sua ação como promotora de mudanças.
Desse modo, percebemos que a EC, além de estar subordinada à política insti-
tucional, tem seu poder político diretamente relacionado à sua contribuição para o
alcance dos objetivos organizacionais.
Se a política da organização ainda for a de substituição rápida da mão de obra, o
que não é tão raro, então o treinamento será pautado no preparo para ações imedia-
tas e o desenvolvimento restrito aos poucos funcionários que sobressaem.
Planejar e implementar programas de TD não constitui tarefa fácil; é preciso
coadunar alta complexidade de informações com os problemas na capacitação das
pessoas.
Assim, para a construção de uma educação transformadora, participativa e críti-
ca, é indispensável uma reflexão ética e política, a fim de assegurar que essa educa-
ção não favoreça o aumento das diferenças sociais, impostas pela condição econô-
mica que privilegia o acesso ao conhecimento.
n Avaliação de Desempenho Profissional
Considerando a qualidade dos resultados da organização, como consequência do
desempenho humano, e o cenário atual de constantes transformações e de valoriza-
ção do conhecimento, o processo de avaliação de desempenho profissional tem sido
concebido como um importante recurso gerencial para a promoção do crescimento
profissional e pessoal.
A avaliação de desempenho profissional individualizada e sistematizada não é
uma prática comum nas organizações de saúde.
Educação Continuada: Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional 147
Na enfermagem, o processo de avaliação de desempenho, embora não seja uma
prática recente, também não é comum, e KURCGANT (1991) refere-se a essa prática
como uma atividade isolada, que não reflete a filosofia da organização e do próprio
serviço de enfermagem.
Para LEITE et al. (1997), a avaliação de desempenho é um recurso para dimensio-
nar a qualidade do desempenho profissional, identificando o nível de capacitação
para o alcance dos objetivos organizacionais. No entanto, tem assumido um caráter
normativo que não contribui, de fato, para análise do potencial, nem para o desen-
volvimento pessoal ou profissional.
A avaliação de desempenho (AD) é um processo dinâmico de mensuração indi-
vidual da qualidade do desempenho profissional, no exercício de seu cargo, confor-
me critérios predefinidos. Constitui-se num instrumento de diagnóstico gerencial
que fundamenta as decisões administrativas, por meio do qual é possível estabe-
lecer metas de desenvolvimento. Compreende a análise de aspectos atitudinais e
técnicos, como o comportamento no trabalho, o conhecimento, as competências, as
habilidades, a produtividade, a eficiência e a eficácia do avaliado, bem como sua
satisfação e a da instituição (GONÇALVES, 2003).
Para essa autora, a finalidade da AD é promover o crescimento profissional do
avaliado e do avaliador, tendo como principais objetivos:
• caracterizar e documentar o desempenho profissional;
• detectar necessidades de treinamento e de desenvolvimento de pessoal, consi-
derando as competências a serem desenvolvidas e valorizando as competências
adquiridas;
• planejar, juntamente com o avaliado, as estratégias educacionais e metas de de-
senvolvimento;
• monitorar o alcance das metas de desenvolvimento;
• identificar e analisar as condições de trabalho e os fatores intervenientes no de-
sempenho;
• identificar dificuldades de integração do profissional à organização;
• analisar, junto ao avaliado, a adequação de seu perfil ao cargo, subsidiando a
alocação de pessoal;
• fornecer informações para retroalimentação do processo de recrutamento e se-
leção;
• fundamentar tomada de decisão referente à movimentação de pessoal, como
transferências, desligamentos, promoções e aumentos salariais.
Avaliar é um ato natural do homem, e o trabalho e os profissionais são constante-
mente avaliados. Entretanto, o processo de avaliação de desempenho profissional
pressupõe um sistema formal, provido de objetivos bem definidos e de adoção de
métodos coerentes com a política e a filosofia institucional. As possibilidades de
investimento em programas de treinamento e desenvolvimento de pessoal devem
estar claramente estabelecidas na política de RH, uma vez que têm estreita relação
com os resultados da AD.
148 Educação Continuada: Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional
Os pontos fundamentais para formalização do processo de avaliação de desem-
penho estão esquematicamente apresentados na Fig. 11.3.
Fig. 11.3
A elaboração de um instrumento é essencial para que todas as pessoas avaliem
sob os mesmos parâmetros, observando critérios objetivos na apreciação do desem-
penho, visando diminuir a subjetividade.
Embora o instrumento não resolva os problemas da avaliação, pois não pode diri-
mir a subjetividade humana, nem tampouco a intencionalidade das pessoas, alguns
profissionais, sobretudo os avaliadores, tendem a responsabilizar o instrumento de
avaliação pelo insucesso do processo. Isto é decorrente da ênfase no preenchimento
do instrumento em detrimento de uma avaliação reflexiva e objetiva do desempe-
nho.
Para sua construção, observamos na Fig. 11.4, os elementos essenciais.
Fig. 11.4
Educação Continuada: Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional 149
O passo inicial para construção do instrumento é o perfil profissional, no qual
constam as competências ou características do desempenho que serão avaliadas em
cada categoria funcional, representando o desempenho exigido pela organização.
Essas características ou competências podem ser denominadas, entre outras,
de fatores, itens, indicadores ou prognosticadores do desempenho e referem-se
às características técnicas e pessoais diretamente relacionadas ao exercício profis-
sional.
BERGAMINI e BERALDO (1992) ressaltam a importância de conceituar os prog-
nosticadores de modo a expressar o que se deseja no desempenho e não o indesejá-
vel. A definição deve garantir a mesma compreensão de linguagem e de julgamento
emitido tanto pelo avaliador como pelo avaliado ou outro profissional envolvido na
avaliação.
Os prognosticadores, portanto, representam aquilo que se deve considerar nos
profissionais, sendo definidos de modo a permitir sua mensuração e possibilitar a
intervenção voltada para o desenvolvimento de pessoal.
GONÇALVES (2003) afirma que um processo de AD que atenda às necessida-
des institucionais e às expectativas da equipe à qual se destina deve emergir do
consciente coletivo. Assim, para a construção de prognosticadores de avaliação do
enfermeiro, adotou o método da pesquisa-ação e a técnica de grupo focal, com a par-
ticipação ativa das pessoas envolvidas no processo de avaliação, visando a captação
do conteúdo dos prognosticadores. Além disso, esse método permite a expressão e
discussão dos sentimentos intervenientes ao processo.
Após discussão e análise do perfil profissional do enfermeiro e das competências
mais importantes para o desempenho da função na instituição hospitalar estuda-
da, os enfermeiros participantes da pesquisa definiram 13 prognosticadores, como
exemplificado a seguir:
“Comunicação oral e escrita – Capacidade de entender e de se fazer entender
nas relações, sendo claro e objetivo na expressão de suas ideias, na comunicação
oral e na comunicação escrita.
Critérios: Sequência lógica de raciocínio. Objetividade. Fluência na linguagem.
Observância das regras da língua portuguesa.”
A avaliação feita por prognosticadores facilita o diagnóstico de pontos específi-
cos, mas, por outro lado, leva a uma fragmentação da visão do desempenho, exi-
gindo do avaliador e do avaliado uma apreciação mais global para reintegralizar o
indivíduo em suas competências técnicas e pessoais.
Para avaliação do desempenho e mensuração dos prognosticadores, existem
várias técnicas e métodos de avaliação, dependendo do que se deseja apreciar,
o desempenho individual ou grupal, e de quem avalia quem (KURCGANT, 1991;
BERGAMINI e BERALDO, 1992; GIL, 1994; CHIAVENATO, 1998; MARQUIS e
HUSTON, 1999; MARRAS, 2000; PONTES, 2002).
Com maior frequência, são utilizadas a avaliação direta ou absoluta, a qual se
volta exclusivamente ao desempenho individual do avaliado, descrevendo suas ca-
racterísticas em determinado trabalho, e a avaliação relativa ou por comparação,
que enfoca a maior ou menor eficiência do desempenho do avaliado, em relação à
eficiência do grupo do qual faz parte.
150 Educação Continuada: Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional
A avaliação “360 graus” é um método de grande ressonância atualmente nas or-
ganizações brasileiras, identificando-se com ambientes democráticos e participati-
vos em que o avaliado é focado por, praticamente, todos os elementos que tenham
contato com ele, subordinados, superiores, pares e clientes. Recebe o nome de 360
graus por ser um processo total (MARRAS, 2000).
A avaliação “360 graus” é um método enriquecedor e indicado para diminuir si-
tuações de conflito entre avaliador e avaliado, restringindo o abuso de poder. Na
enfermagem, no entanto, é pouco comum devido à alta exigência de capacitação,
de maturidade e de equilíbrio emocional, que são fatores determinantes para o su-
cesso desse método.
As avaliações podem ser realizadas de modo descritivo, nas quais se discorre
livremente sobre os prognosticadores, ou pode haver um gradiente em que, a cada
grau ou intervalo, é atribuído um nível de desempenho.
Ambas as técnicas apresentam vantagens e desvantagens. Descrever esponta-
neamente sobre o desempenho, embora exija mais preparo e capacitação, facilita a
expressão genuína e criativa; por esse motivo, pode facilitar também a subjetivida-
de. Graduar o desempenho em níveis ou intervalos preestabelecidos pode diminuir
a subjetividade; no entanto, é inviável descrever, em quatro ou cinco graus, toda a
diferença de desempenho possível de encontrar.
GONÇALVES (2003) propõe a mensuração dos prognosticadores com base em
cinco conceitos:
Não
atinge as
exigências
Atinge
pouco as
exigências
Atinge
satisfatoriamente
as exigências
Atinge
plenamente
as exigências
Supera as
exigências
O conceito “Atinge plenamente as exigências” corresponde ao perfil profissional
estabelecido, que deve nortear o quão próximo ou distante está o desempenho ob-
servado do desempenho exigido.
Outro aspecto a ser definido no processo de AD é a periodicidade das avaliações,
conforme o que se pretende avaliar. Se o objetivo for avaliar a adaptação do profis-
sional à instituição e a adequação do perfil ao cargo, deverá ser agendada uma ava-
liação logo após a admissão; para avaliar a evolução do desempenho e o domínio
das atividades desempenhadas, poderão ser estabelecidas avaliações anuais.
Importante ressaltar que a avaliação é uma constante, devendo ser realizada de
forma continuada, reforçando os pontos positivos e dialogando sobre os problemas
tão logo eles apareçam, a fim de evitar que outros ocorram. Não se pode deixar tudo
para o momento formal da avaliação, que é o momento de caracterizar o desempe-
nho como um todo, e não, simplesmente, apontar fatos isolados que não retratam o
perfil de competências do avaliado.
Para o sucesso e continuidade do processo de avaliação, é indispensável proceder
a uma análise de seus resultados, visando viabilizar as intervenções administrati-
vas, traduzidas em ações educacionais ou decisões de movimentação de pessoal.
Essa análise deve contemplar a apreciação dos fatores intervenientes ao desem-
penho e às possibilidades e oportunidades de desenvolvimento profissional, consi-
derando as características e a constância do desempenho do profissional no período
Educação Continuada: Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional 151
avaliado; a ciência do avaliado sobre suas deficiências e habilidades; e o tipo de
intervenção a ser implementada para a melhoria do desempenho.
Os resultados de uma avaliação, portanto, devem fundamentar as ações a serem
implementadas, não se restringindo às informações obtidas isoladamente.
Na formalização do processo de AD, ainda, é preciso decidir quem são os avalia-
dores. A escolha do avaliador está relacionada à estrutura e à política organizacio-
nal, e, tradicionalmente, o responsável por avaliar tem sido o chefe imediato.
Entretanto, como afirma KURCGANT (1991), a avaliação não deveria ter como
único responsável o chefe imediato, ou aquele que registra formalmente a avalia-
ção no instrumento, pois todos aqueles que participam do processo são responsá-
veis por seus resultados.
Compreendendo o processo de AD na perspectiva de uma educação crítica e re-
flexiva, o avaliado deve expressar-se sobre seu desempenho, sendo sua a responsa-
bilidade e a prerrogativa de seu desenvolvimento. Assim, o avaliado deveria ser um
dos principais responsáveis por sua avaliação.
Algumas organizações, como explica CHIAVENATO (1999b), atribuem a respon-
sabilidade de avaliação exclusivamente ao chefe imediato, para reforçar a hierar-
quia; outras procuram integrar o gerente e o subordinado na avaliação, para reduzir
a diferença hierárquica; e, em outras, ainda, a avaliação é realizada pelas equipes,
principalmente quando se trata de equipes autogeridas. Algumas organizações
centralizam o processo de avaliação em uma comissão central.
Na avaliação “360 graus”, a responsabilidade de avaliar é de todos os profissio-
nais da estrutura hierárquica, bem como de clientes e pessoas externas à organiza-
ção, que têm relação com o avaliado.
Ser o avaliado o único responsável pela avaliação, embora seja menos frequen-
te, pode demonstrar uma flexibilização da estrutura e uma gestão de pessoal mais
participativa.
No entanto, é bom lembrar que, nos casos em que há divergências e discordân-
cias entre avaliador e avaliado, prevalece, normalmente, a avaliação do avaliador,
que, geralmente, é um superior hierárquico e, portanto, quem toma as decisões.
Independentemente do método adotado e do avaliador, consideramos impres-
cindível que haja autoavaliação, pois, como dito anteriormente, a responsabilida-
de de desenvolvimento é do próprio indivíduo, e, em última instância, esta é a fi-
nalidade da AD.
Além disso, analisar o próprio desempenho leva à reflexão de pontos importan-
tes, como pensar nas condições de trabalho; detectar suas competências, habilida-
des e deficiências; definir expectativas e metas de desenvolvimento, assim como o
meio mais adequado para alcance dessas metas.
Pensando na AD como um instrumento útil no gerenciamento de pessoal, e re-
levando seus pontos de vulnerabilidade, que a tornam também bastante polêmica,
sua implantação requer mais do que cuidados técnicos, exigindo, sobretudo, uma
mudança nas atitudes e postura das pessoas.
Como afirma GONÇALVES (2003), parte da insatisfação das pessoas pode advir
do pressuposto que a AD é tratada como um fim em si mesma, utilizada para fins
punitivos ou de recompensa, como o sistema de mérito adotado na maioria das
empresas. Essa afirmação explica, em parte, o fato de a AD ser utilizada como um
152 Educação Continuada: Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional
instrumento de poder, sendo considerada como um processo injusto e tendencioso,
o que leva a uma reação negativa por parte do avaliado.
Nesse círculo, aparecem, então, os sentimentos de tensão, medo e ansiedade,
causando um impacto ainda mais negativo.
Desse modo, e reforçando o que já dissemos, o primeiro aspecto a ser observado
na implementação do processo é definir sua finalidade, que deverá estar integrada
à política de RH de maneira clara e explícita.
Ponderando que a AD não é um fim, mas um meio, pois, por si só não é capaz de
promover o crescimento das pessoas ou demiti-las, é que se faz indispensável seu
ajuste à política de RH, definindo claramente seus objetivos e limites enquanto
instrumento de diagnóstico. Assim, as ações subsequentes e as providências ad-
ministrativas a serem concretizadas dependem da política, do processo, e não da
avaliação propriamente dita.
Os programas de TD são uma dessas ações, pois, para que seja alcançada a
finalidade da AD, que é promover o crescimento, devem ser concretizadas as estra-
tégias educacionais.
A supervisão também é uma atividade indissociável da AD, pois pressupõe o
acompanhamento constante do desempenho. Educar também é princípio da su-
pervisão; por isso, alguns problemas isolados, que não caracterizam o desempenho
profissional como um todo, poderiam ser resolvidos por meio de um acompanha-
mento e orientação constantes, em vez de serem apontados somente no momento
da avaliação.
Para compreensão da AD e de seus fatores intervenientes, é indispensável a ca-
pacitação de avaliadores e avaliados, considerando os aspectos cognitivos e afeti-
vos, pois a capacitação não se restringe à técnica de avaliar. Resulta que as pessoas
mais preparadas necessitam menos de usar o poder, enquanto avaliadores, porque
não precisam se defender, aliás, não se sentem atacadas.
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Gerenciamento de
Recursos Materiais
VALÉRIA CASTILHO E VERA LÚCIA MIRA GONÇALVES
12
155
n A Importância e o Objetivo
Os avanços tecnológicos têm impulsionado o aumento constante da complexidade
assistencial, exigindo um nível de atenção cada vez mais elevado, por parte dos pro-
fissionais de saúde, criando uma demanda crescente por recursos materiais.
Assim, impõe-se a necessidade de os serviços de saúde aprimorarem os sistemas
de gerenciamento desses recursos, a fim de garantir uma assistência contínua de
qualidade a um menor custo, e, ainda, assegurar a quantidade e qualidade dos ma-
teriais necessários para que os profissionais realizem suas atividades sem riscos
para si mesmos e para os pacientes.
A administração dos recursos materiais tem sido motivo de preocupação nas or-
ganizações de saúde, tanto no setor público como no privado, que fazem parte da
rede complementar do SUS. As organizações do setor privado, sujeitas às regras
de mercado, precisam gerenciá-los com preços competitivos em relação às outras
organizações. As do setor público, devido a orçamentos restritos, precisam de maior
controle do consumo e dos custos para que não privem funcionários e pacientes do
material necessário.
Os sistemas de recursos materiais das organizações hospitalares têm registrado
cerca de 3.000 a 6.000 itens de consumo (VECINA NETO e REINHARDT FILHO,
156 Gerenciamento de Recursos Materiais
1998). Esses dados variam dependendo das peculiaridades de cada organização de
saúde, das especialidades atendidas, do número de leitos e dos processos assisten-
ciais desenvolvidos, entre outras.
Sabe-se que uma organização hospitalar geral de ensino, de grande porte, com
aproximadamente 300 leitos, trabalha com cerca de 2.500 itens referentes a ma-
teriais de consumo assistenciais. Só esses materiais apresentam uma média de
1.500.000 unidades consumidas mensalmente, podendo gerar um custo anual de,
aproximadamente, R$ 4.000.000,00.
Estudo realizado por CASTILHO, KOPTE e YAMADA (2001), em unidades bási-
cas de saúde, mostrou que, nesses serviços, o número de materiais utilizados é bem
menor, registrando uma média de 110 itens, cujo consumo mensal é da ordem de
3.500 unidades.
Assim, o gasto com esses recursos tem representado uma parcela importante do
orçamento das organizações. Além disso, a complexidade no gerenciamento, devi-
do à diversidade e à quantidade de materiais, também tem consumido uma grande
quantidade de recursos financeiros.
Diante desses fatores, o objetivo do gerenciamento de materiais na área da saúde
não difere das outras organizações, e consiste em colocar os recursos necessários ao
processo produtivo com qualidade, em quantidades adequadas, no tempo correto e
ao menor custo (VECINA NETO e REINHARDT FILHO, 1998).
Um aspecto fundamental no gerenciamento de recursos materiais nas organiza-
ções de saúde refere-se ao seu produto final ou atividade fim, que é a assistência
aos clientes por meio de ações que não podem sofrer interrupções. Essas interrup-
ções são atribuídas a fatores como insuficiência na quantidade ou falta de qualida-
de de materiais.
n Processo de Gerenciamento de Recursos Materiais em Organizações de Saúde
Os termos gerenciamento de recursos materiais, administração de recursos mate-
riais, gerenciamento de suprimentos e logística têm sido empregados, muitas ve-
zes, como sinônimos. Cabe, no entanto, esclarecer algumas diferenças entre eles.
A administração de materiais envolve a totalidade dos fluxos de materiais de
uma organização, compreendendo a programação, a compra, a recepção, o armaze-
namento no almoxarifado, a movimentação de materiais, o transporte interno e o
armazenamento no depósito de produtos acabados (CHIAVENATTO, 1991).
Suprimento designa todas as atividades que visam o abastecimento de materiais
para a produção, envolvendo programação de materiais, compra, recepção, armaze-
namento no almoxarifado, movimentação de materiais e o transporte interno para
abastecer as unidades produtivas. Não envolve o depósito de produtos acabados
(CHIAVENATTO, 1991).
Já o conceito de logística é empregado para o armazenamento dos produtos aca-
bados e sua movimentação, ou seja, a distribuição física até o cliente. Seu objeto
de atenção está mais relacionado à estocagem e à distribuição externa do material
produzido, não incluindo a programação nem as compras (CHIAVENATTO, 1991).
Segundo MACHLINE; AMARAL apud ROSA; MAGALHÃES; REIS (2001), “atu-
almente, o conceito de administração de materiais está sendo englobado por uma
Gerenciamento de Recursos Materiais 157
visão mais ampla, que é a logística, conceituada em 1986 pelo Council of Logis-
tics Management, como o processo de planejamento, implementação e controle do
fluxo eficiente e eficaz de matérias-primas, estoques de produtos semiacabados e
acabados, bem como o fluxo de informações desde a origem até o consumo, com o
propósito de atender requisitos dos clientes”.
Esses conceitos, elaborados para o setor de fabricação de bens, envolvendo trans-
formação de insumos em produtos acabados que podem ser estocados e comerciali-
zados, são mais amplos do que os aplicados na administração de serviços de saúde,
embora haja um movimento de agregar aspectos da logística também nesse setor.
A administração ou gerenciamento de materiais para essas organizações com-
preende o processo gerencial para aquisição e disponibilização de materiais já ma-
nufaturados, essenciais para a produção de serviços de saúde. Materiais são pro-
dutos que podem ser armazenados, distribuídos e consumidos para a produção de
serviços.
O gerenciamento de recursos materiais, administração de recursos materiais ou
suprimentos constituem a totalidade dos fluxos de materiais de uma organização
de saúde, compondo um processo com as seguintes atividades principais: progra-
mação, compra, recepção, armazenamento, distribuição e controle.
O setor responsável pelo gerenciamento dos recursos materiais, nas instituições
hospitalares, está vinculado à área administrativa da estrutura organizacional,
compreendendo os setores de Compras e Almoxarifado, onde são desenvolvidas
atividades por pessoal que, geralmente, não é da área de saúde.
Dadas a diversidade e a complexidade dos materiais utilizados na área da saúde,
é indispensável a participação das áreas fins, como a enfermagem, a farmácia e o
laboratório, entre outras, no processo de gerenciamento dos recursos materiais, as-
sessorando a área administrativa nos aspectos técnicos e nas ações locais.
A programação começa pela classificação, padronização, especificação dos ma-
teriais e estabelecimento da quantidade a ser adquirida.
Fig. 12.1 Fluxo das principais atividades do gerenciamento da cadeia logística.
158 Gerenciamento de Recursos Materiais
Nos hospitais e unidades de saúde, os materiais possuem diferentes classifica-
ções. A mais comum é a classificação por finalidade, como: medicamentos, mate-
riais médico-hospitalares, escritório, informática, gêneros alimentícios e de higiene.
Os materiais médico-hospitalares podem ser também denominados materiais de
consumo ou assistenciais.
A padronização de materiais é essencial dada a variedade de bens e produtos
que têm a mesma finalidade técnica e indicações de uso, consistindo, portanto, na
determinação do produto específico para procedimentos específicos, com o objeti-
vo de diminuir a diversidade desnecessária de alguns itens e normatizar o uso de
similares. É realizada por meio do estabelecimento de critérios objetivos de indi-
cação técnica do uso do material, e do custo-benefício. Segundo BITTAR (1997), a
padronização, particularmente, oferece resultados compensadores, tanto do ponto
de vista econômico como técnico, facilitando a administração de materiais, sobre-
tudo a previsão, pela redução de itens. Melhora também a organização e o controle
dos materiais e diminui o desperdício.
Na padronização, deve-se considerar também os aspectos relacionados aos riscos
e impactos da utilização do material para os pacientes, trabalhadores e, ainda, para
o ambiente, como veremos no Cap. 14.
Como exemplo de padronização, pode ser citada a necessidade de normatização
de cateteres venosos utilizados pela enfermagem, que diferem em características,
como biocompatibilidade, tempo de permanência, preço e segurança para o usuá-
rio. Portanto, somente por meio de uma avaliação rigorosa, poderá ser determinada
a indicação do cateter, analisando-se o benefício para o paciente, o risco ocupacio-
nal, o impacto ambiental e a disponibilidade de recursos financeiros.
Devido a essa complexidade, algumas instituições têm comissões interdiscipli-
nares para a padronização de materiais. A padronização deve ser amplamente dis-
cutida e, após seu estabelecimento, deverão ser promovidas estratégias educacio-
nais para a capacitação dos usuários.
A especificação técnica compreende uma descrição minuciosa do material, pois
representa, com precisão, aquilo que se deseja adquirir, o que impõe, principal-
mente às instituições públicas, uma rigorosa análise do produto no que se refere às
características de fabricação, utilização e desempenho. Para VECINA NETO e REI-
NHARDT FILHO (1998), é também um meio de comunicação entre a área técnica
e a área administrativa.
A especificação tem início com o nome do produto, devendo constar dados a
respeito da indicação de uso; desempenho técnico; matéria-prima de fabricação;
dimensões, tamanhos; acabamento; embalagem; propriedades físico-químicas; mé-
todo de esterilização e prazo de validade; código e procedência; entre outros.
Para esse detalhamento, devem ser consultados os órgãos oficiais que normati-
zam e fazem recomendações relativas à fabricação, esterilização e uso de materiais,
tais como ABNT, ANVISA e Ministério da Saúde e Ministério do Trabalho. É útil,
ainda, recorrer às diferentes especificações dos fabricantes constantes dos manuais
de instrução.
A previsão de materiais, ou seja, a quantidade a ser requisitada pelas unidades
ao almoxarifado, é determinada pelo perfil de consumo de cada unidade, estabele-
cendo-se uma cota de materiais que representa uma estimativa de gastos por de-
terminado período (CASTILHO e LEITE, 1991). A previsão é um dos componentes
Gerenciamento de Recursos Materiais 159
do controle de estoque, compreendendo as ações gerenciais para determinação do
“quanto” comprar. As ações relacionadas ao “quando” comprar serão vistas adiante.
A estimativa do material a ser comprado depende do consumo mensal das uni-
dades hospitalares, ou seja, da soma das “cotas” de todas as unidades, cujos valores
são calculados com base na média aritmética do consumo, podendo ser estimada
pela seguinte expressão matemática:
CM = CMM + ES
em que:
CM = cota mensal
CMM = consumo médio mensal
ES = estoque de segurança
O consumo médio mensal (CMM) é a média dos valores do material utilizado nos
últimos meses, dividido pelo número de meses. A cota mensal baseada na média
aritmética móvel é o método mais usado no meio hospitalar (TOSCAN, 1990), pois
permite prever o consumo para o próximo período, conforme o consumo médio do
período anterior. Esse período é arbitrário, mas recomenda-se que seja, no mínimo,
de três meses ou superior ou igual a 12 meses (CASTILHO e LEITE, 1991; ROSA;
GOMES; REIS, 2001). Exemplificando:
Unidades Mensais Consumidas
Material Janeiro Fevereiro Março
Seringa 10 ml 200 240 220
Para calcular o CMM de seringas de 10 ml, seria:
Para o cálculo da média aritmética móvel a cada novo mês, acrescenta-se o valor
do consumo mais recente e despreza-se o mais antigo.
Existem outros métodos para calcular a previsão de consumo, tais como: con-
sumo do último período, média móvel ponderada, média ponderada exponencial,
mínimos quadrados (CHIAVENATO, 1991).
O estoque de segurança (ES) ou estoque mínimo é a quantidade de cada item
que deve ser mantida como reserva para garantir a continuidade do atendimento
caso haja elevação brusca no consumo ou atraso no suprimento (ROSA; GOMES;
REIS, 2001). A forma mais simples e empírica de calcular o ES é acrescentar, à cota
160 Gerenciamento de Recursos Materiais
mensal, 10% a 20% do CMM, somado ao consumo diário durante o tempo de repo-
sição (CTR).
ES = 10% a 20% do (CMM + CTR)
CTR = CMM/30 · N
N = número de dias de espera para reposição.
O tempo de reposição varia de acordo com o sistema de compra do hospital. Os
hospitais públicos, devido ao processo de licitação, levam de quatro a seis meses,
entre o início do processo de compra até o recebimento, armazenagem e distri-
buição interna do material. Com a adoção da modalidade de compra por pregão, o
tempo tem diminuído para cerca de um mês.
Devido ao custo de manter estoques elevados, além do consumo e do tempo de
ressuprimento, pode-se considerar a classificação do material obtido pela aplicação
da curva ABC.
A curva ABC desenvolvida por Pareto e adaptada à administração de materiais
classifica-os em classes A, B e C, obedecendo a faixas predeterminadas, em que os
itens classe A correspondem a 20% do total de itens, os de classe B a 20% a 30% e
os de classe C a 50%. Esses valores têm uma relação com a percentagem dos custos
ou investimentos, ou seja, os de classe A correspondem a quase 50% dos custos, os
de classe B a cerca de 20% a 30% e os de classe C a 20%. Os de classe A, embora em
menor número, são os de maior custo ou investimento e, por isso, possuem maior
importância quanto à forma de gerenciá-los.
Para a construção da curva ABC, deve-se levantar a relação de todos os itens, os
custos unitários, o consumo anual de cada item, o custo anual ou capital investido, e,
após a coleta, ordená-los segundo o custo anual. Os itens que atingirem o custo anual
acumulado próximo de 50% do total do custo anual serão classificados como grupo A.
Classificação ABC
Item Custo anual
Custo anual
acumulado
% do custo anual
acumulado
% do no de itens
acumulados Classificação
1 35.250,00 35.250,00 41,60 7,30 A
2 18.640,00 53.890,00 64,00 20,90 A
3 10.631,00 64.521,00 76,14 35,80 B
4 8.000,00 72.521,00 85,58 52,50 B
5 6.034,00 78.555,00 92,70 64,30 C
6 2.880,00 81.435,00 96,10 72,70 C
7 1.940,00 83.375,00 99,03 81,90 C
8 820,00 84.195,00 99,35 88,70 C
9 545,00 84.740,00 100,00 100,00 C
Gerenciamento de Recursos Materiais 161
O estoque de segurança deverá ser calculado por item e por classe, seguindo as
seguintes fórmulas, segundo ROSA; GOMES; REIS (2001):
ES de itens A = CMM · 1/3 do TR
ES de itens B = CMM · 1/2 do TR
ES de itens C = CMM · TR
TR = tempo de reposição em meses.
Nesse exemplo, se o tempo de reposição do material do hospital fosse de 30 dias,
o estoque dos itens A seria para 10 dias; o dos itens B, para 15 dias; e o dos itens C,
para 30 dias. O ES dos materiais classe A devem ser menores devido ao seu custo,
tendo com isso uma maior rotatividade. Isso é aconselhável para permitir um maior
capital de giro disponível, evitando a imobilização de recursos.
Outra classificação importante para auxiliar na decisão de quando comprar é a
XYZ (VECINA NETO e REINHARDT FILHO, 1998). Essa classificação tem como
critério o grau de imprescindibilidade do material para a produção dos serviços de
saúde, ou seja, a sua falta pode acarretar interrupções no atendimento e colocar os
pacientes ou profissionais em riscos. Os itens classe Z são imprescindíveis, não po-
dendo ser substituídos por outros, ou são de difícil acesso no mercado. Por isso, pre-
cisam de um controle melhor porque não podem faltar na organização. Os de nível
Y são de média criticidade, podendo ser substituídos por outros e encontrados no
mercado com relativa facilidade. Os de classe X são de baixa criticidade, sua falta
não acarreta danos ou riscos e apresentam facilidade na sua obtenção (BARBIERI
e MACHLINE, 2006; LOURENÇO e CASTILHO, 2007).
Outro aspecto do controle de estoque é a decisão sobre quando comprar. Esse
momento é denominado de ponto de requisição ou nível de ressuprimento. Ele
é deflagrado quando o nível de estoque atingido é incompatível com a demanda
de consumo, ou seja, a quantidade do produto é suficiente apenas para atender às
necessidades de consumo entre a solicitação de compra e a sua entrega pelo for-
necedor. Esse nível de estoque deve levar em consideração as classificações ABC
e XYZ.
Existem vários modelos para calcular o ponto de ressuprimento, como: modelo
de estoque mínimo, modelo de estoque máximo ou de renovação periódica, lote de
ressuprimento, lote econômico (CHIAVENATO, 1991; ROSA; GOMES; REIS, 2001;
VECINA NETO e REINHARDT FILHO, 1998). A escolha do modelo depende de
vários fatores, tais como: da política financeira e de compras da organização; do
processo de compra; da capacidade de armazenamento; da facilidade de obtenção
do material; da pontualidade de entrega pelo fornecedor, entre outros.
Nas instituições que apresentam facilidade e rapidez no processo de compra, o
estoque de segurança (ES) será igual ao do nível de ressuprimento, calculado de
acordo com a classificação ABC. As organizações cujo prazo de aquisição é longo
podem determinar o ponto de ressuprimento pelo estoque máximo.
162 Gerenciamento de Recursos Materiais
Para ROSA; GOMES; REIS (2001), o PR pode ser calculado da seguinte forma:
PR = CM · TR + ES
CM = média aritmética móvel
TR = tempo de reposição (em meses)
ES = estoque de segurança (calculado de acordo com a classificação ABC
Exemplificando, a sua aplicação para um item classe A seria:
CM = 1.000 unidades
TR = 4 meses
ES = 1.000 · 1/3 de TR = 1.300
PR = 1.000 · 4 meses + 1.300
PR = 5.300 unidades
Isso significa que, quando o estoque atingir 5.300 unidades, deverá ser deflagra-
do o pedido de compra do material.
A área de compras é responsável pelas atividades de apoio fundamental ao pro-
cesso produtivo, suprindo-o com todas as necessidades de materiais. Pode ser, tam-
bém, um excelente sistema de redução de custos da empresa, por meio da negocia-
ção de preço, na busca de materiais alternativos e de novos fornecedores (POZZO,
2001).
É inquestionável, no gerenciamento de recursos materiais, a necessidade do
Controle de qualidade, tanto dos produtos existentes na instituição como dos dis-
poníveis no mercado. Para aquisição de um material, portanto, é preciso submetê-lo
a testes de desempenho técnico e à análise dos riscos para os pacientes e trabalha-
dores.
Esses testes devem ser realizados pelos usuários diretos, cabendo ao responsável
pelo teste coordenar o processo de avaliação, estabelecendo, juntamente com os
usuários, critérios técnicos objetivos para apreciação do produto e emissão de pa-
recer técnico. Além disso, o responsável deverá proceder a uma pré-seleção, enca-
minhando para teste somente os produtos que atenderem a alguns pré-requisitos,
como a observância das normas técnicas de embalagem.
Qualquer que seja a finalidade da organização de saúde, o processo de compra
deverá observar os requisitos de qualidade do material. A condução desse proces-
so, no entanto, difere nas organizações públicas, pois, segundo BANDEIRA DE
MELLO, enquanto à administração privada é permitido fazer tudo o que a lei não
proíbe, à administração pública só é permitido fazer o que a lei autoriza (Princípio
da legalidade).
Assim, os órgãos governamentais procedem às compras por meio de Licitação,
que é o procedimento administrativo regido por legislação específica, utilizado para
aquisição ou alienação de bens e serviços, com os objetivos de garantir a observân-
cia do princípio constitucional da isonomia e de selecionar a proposta mais vantajo-
sa para a Administração (Art. 3o da Lei no 8.666/93).
Gerenciamento de Recursos Materiais 163
Para o procedimento de licitação estão previstas fases a serem rigorosamente
observadas. Para cada uma delas, há prazos estabelecidos e toda a documentação é
juntada aos autos do processo, cabendo recurso por parte dos licitantes. Com base
em SANTOS e CARRIJO (1999), mostramos, na Fig. 12.2, uma simplificação desse
fluxo.
Para a licitação, é indispensável que se faça uma caracterização detalhada do
projeto do serviço ou objeto licitável, sem indicação de marca, salvo em casos ex-
cepcionais, o que reforça a importância da especificação do material. É necessário,
ainda, realizar orçamentos com, no mínimo, três fornecedores, ter recursos orça-
mentários disponíveis para compra e ter condições de armazenamento.
As modalidades de licitação constantes na Lei 8.666/93 são:
Convite – utilizada entre os interessados, cadastrados ou não, escolhidos e con-
vidados em número mínimo de três pela unidade administrativa, sendo extensiva
aos demais cadastrados na correspondente especialidade. Indicada para aquisições
de valores baixos, estabelecidos pela Lei.
Fig. 12.2 Fluxo simplificado do processo licitatório.
164 Gerenciamento de Recursos Materiais
Tomada de Preço – utilizada entre interessados devidamente cadastrados ou que
atenderem a todas as condições exigidas para cadastramento. Indicada para aquisi-
ções de valores médios, estabelecidos pela Lei.
Concorrência – utilizada entre quaisquer interessados que, na fase inicial de ha-
bilitação preliminar, comprovem possuir os requisitos mínimos de qualificação exi-
gidos no edital. Indicada para aquisições de valores altos, estabelecidos pela Lei.
Concurso – utilizada entre quaisquer interessados para escolha de trabalho téc-
nico, científico ou artístico.
Leilão – utilizada entre quaisquer interessados para venda de bens móveis in-
servíveis para a Administração ou de produtos legalmente apreendidos ou penho-
rados.
Outra forma prevista na Lei no 8.666 e Lei no 6.544 é o Sistema de Registro de
Preços, definido como um conjunto de procedimentos para registrar, formalmente,
em ata obrigatória, em relação ao objeto licitatório, os preços, as quantidades e as
condições a serem observadas em contratações futuras. Para tal, realiza-se ampla
pesquisa de mercado, com a finalidade de aferir os preços de mercado praticados
antes da realização do certame e, trimestralmente, para verificar a compatibilidade
dos preços registrados com os praticados.
O Pregão é uma modalidade de licitação mais recente, instituída pela Lei no
10.520, de 17 de julho de 2002. A opção por essa modalidade, independentemente
do valor estimado da contratação e da disputa pelo fornecimento de bens e serviços
comuns, é feita por meio de propostas e lances sucessivos em sessão pública.
Essa modalidade vem ganhando espaço na Administração Pública por ser um
processo mais dinâmico, que proporciona maior competitividade entre os concor-
rentes e maior transparência à gestão de compras, visto que a negociação é realiza-
da em sessão pública.
A determinação da modalidade é baseada no valor estimado da contratação, po-
dendo ser utilizada uma modalidade acima da que deveria ser escolhida. Não é
permitida a combinação de modalidades em um mesmo procedimento licitatório.
O valor estimado de contratação é obtido multiplicando-se a quantidade total a
ser adquirida pela média de preço de mercado. Para calcular a média de mercado,
é obrigatório o orçamento em pelo menos três diferentes fornecedores. A quantida-
de total refere-se ao montante dos objetos afins a serem adquiridos no período de
ressuprimento.
Assim, somam-se as previsões mensais de seringas descartáveis de todos os se-
tores da instituição e multiplica-se essa soma pelo número de meses relativos ao
período de ressuprimento; faz-se o mesmo procedimento para cada tamanho de
seringa e, somando-se todos eles, obtêm-se o valor total estimado para aquisição
de seringas. Essa quantidade não poderá ser dividida, pois pode implicar a escolha
incorreta da modalidade de licitação, devido à diminuição do valor total de contra-
tação.
O critério para avaliação das propostas é, em geral, o “menor preço”; os critérios
de “melhor técnica ou de “técnica e preço” são utilizados para julgamento de servi-
ço intelectual (FÜHRER e FÜHRER, 2000).
Mais uma vez, destaca-se a importância de especificações técnicas consistentes,
pois, em uma licitação, inúmeros materiais são oferecidos, de boa qualidade ou
Gerenciamento de Recursos Materiais 165
não, e o critério de “menor preço” impõe algumas dificuldades no julgamento das
propostas, caso as especificações não garantirem, exatamente, aquilo que se deseja
adquirir.
A recepção e o armazenamento dos materiais após a compra e a distribuição aos
diferentes serviços da organização são de responsabilidade do serviço de almoxa-
rifado, que, por ter o controle dos estoques, deflagra novos processos de compra,
quando os materiais atingirem o nível de ressuprimento.
O recebimento se dá pela conferência dos materiais entregues pelo fornecedor
no prazo determinado, constantes na nota fiscal com os dados da nota de empenho.
Após isso, é registrada a entrada do material no almoxarifado, sendo este codifica-
do de acordo com as normas e a tecnologia disponível na organização. Com isso, o
material poderá ser distribuído.
A distribuição dos materiais e o controle de estoque estão diretamente asso-
ciados e constituem pontos centrais de todo o sistema, exigindo subsistemas de
controles mais sofisticados.
O almoxarifado dá baixa no estoque e aloca medicamentos e materiais para os
usuários de acordo com o sistema adotado de distribuição. Geralmente são distribuí-
dos por quantidades preestabelecidas (cotas) por períodos de tempo (diariamente,
semanal, mensal), segundo o perfil histórico de gastos de materiais por serviço,
como já visto. No entanto, esse sistema tem produzido estoques nas unidades, difi-
cultando o conhecimento do consumo real de materiais.
Os estoques representam investimentos significativos para os hospitais; por
isso, seu gerenciamento garante tanto a excelência dos serviços como resultados
financeiros satisfatórios. O objetivo do gerenciamento de estoques é minimizar o
capital investido, a soma dos custos de manutenção de estoques e os custos para a
sua obtenção. Os custos de manutenção de estoques referem-se aos custos de ar-
mazenamento, controle, seguros, impostos, deterioração, furtos, entre outros, e o de
obtenção refere-se ao processo de compra para a sua formação (MARTINS, 2001).
Outro aspecto gerado pela falta de controle desses estoques periféricos, devido
ao desconhecimento do consumo real, é a compra de materiais em ponto de repo-
sição ou ressuprimento no almoxarifado, mas ainda existentes nas unidades, em
detrimento de materiais que também estão em ponto de reposição mas em falta
nas unidades.
Uma tendência para melhorar o controle, principalmente de materiais de con-
sumo e medicamentos, devido ao volume de itens, ao custo e às dificuldades as-
sistenciais que a sua falta representa, tem sido a alocação de todo material que
chega para os Serviços de Farmácia, que unitarizam cada item, ou seja, codificam
unidade por unidade de cada material, com a ajuda de sistemas informatizados
de código de barras e leitoras óticas, que distribuem para os demais serviços com
base no perfil do consumo diário das unidades identificadas também pelo código
de barras. O objetivo dessa codificação não é classificar o material, mas identificá-
lo. Com isso, pode-se rapidamente rastrear o consumo dos materiais e repô-los às
unidades. Além disso, evita estoques desnecessários nas mesmas e permite conhe-
cer o consumo real, diário, por material, por unidade. As unidades assistenciais
ficam apenas com pequenas quantidades de materiais e medicamentos necessários
para emergências. Esse sistema está sendo implantado em alguns hospitais, com
algumas variações, necessitando de maiores estudos quanto à sua eficácia.
166 Gerenciamento de Recursos Materiais
Seja qual for o sistema adotado de controle de materiais, é preciso analisar o
comportamento do consumo mensal de cada serviço, observando as razões que
justificam as variações de consumo, tais como as alterações no número de atendi-
mento ou na taxa de ocupação, as ocorrências sazonais das doenças e o número de
alunos, entre outros.
n O Papel do Enfermeiro
O enfermeiro, por assumir o gerenciamento das unidades de atendimento e coorde-
nar toda a atividade assistencial, tem papel preponderante no que diz respeito à de-
terminação do material necessário à consecução da assistência tanto nos aspectos
quantitativos como qualitativos; na definição das especificações técnicas; no esta-
belecimento do quantitativo; na análise da qualidade; na participação do processo
de compra e no estabelecimento de controle e avaliação (SILVA; FERNANDES;
GONÇALVES, 1990; CASTILHO e LEITE, 1991).
A operacionalização dessas atividades dependerá do sistema de gerenciamento
de materiais implantado na organização hospitalar, isto é, se suas fases estão mais
ou menos informatizadas. Independentemente disso, no entanto, o enfermeiro deve
sempre estar envolvido nos processos de gerenciamento de recursos materiais, com
a finalidade de garantir a eficácia da assistência de enfermagem.
Um aspecto essencial no papel do enfermeiro está em conhecer e acompanhar
o perfil de consumo de materiais de sua unidade, não só os de consumo e medica-
mentos, mas também os esterilizados, encaminhados pelas Centrais de Material.
Outra atividade importante do enfermeiro é, juntamente com o serviço de Edu-
cação Continuada, promover estratégias de orientação e capacitação dos profissio-
nais de enfermagem no que se refere ao uso racional do material disponível, bem
como da otimização dos recursos (SILVA; FERNANDES; GONÇALVES, 1990).
É fundamental, ainda, lembrar que as medidas de contenção de gastos de mate-
riais dependem também do estilo de liderança, do processo comunicacional que se
estabelece com os funcionários, da satisfação no trabalho e da adequação do espaço
físico, entre outros.
Para tanto, é indispensável que o enfermeiro mantenha-se atualizado em relação
aos novos produtos lançados no mercado e às novas técnicas terapêuticas que exi-
gem a adoção de outros materiais. No entanto, é preciso avaliar sempre o impacto
da inclusão de novas tecnologias na assistência e no custo para a organização.
É inquestionável que todos os profissionais, enquanto usuários e prestadores de
serviço, estejam cientes de sua responsabilidade no alcance dos objetivos assisten-
ciais e do compromisso individual e coletivo no uso e na administração de mate-
riais. Assim como outros profissionais, os enfermeiros têm integrado as comissões
de licitação (nas entidades públicas) e os grupos de assessoria de compras.
A atuação do enfermeiro na administração de recursos materiais constitui con-
quista nas esferas da tomada de decisão, destacando, portanto, o importante papel
do enfermeiro na dimensão técnico-administrativa inerente aos processos de cui-
dar e gerenciar, e não apenas na concepção de mais uma atividade burocrática que
não agrega valor à profissão e ao cuidado.
Gerenciamento de Recursos Materiais 167
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Gerenciamento de Custos nos
Serviços de Enfermagem
VALÉRIA CASTILHO, FERNANDA MARIA TOGEIRO FUGULIN
E RAQUEL RAPONE GAIDZINSKI
13
169
n A Expansão dos Gastos em Saúde e a Enfermagem
No gerenciamento dos serviços de enfermagem, os enfermeiros necessitam tomar
contínuas decisões em relação a estrutura, processos e resultados institucionais,
dominando uma gama de conhecimentos e habilidades de diferentes áreas.
Uma das tendências para o gerenciamento de serviços de enfermagem é a inclu-
são de conhecimentos e o desenvolvimento de habilidades sobre custos, como mais
uma ferramenta a ser utilizada nos processos decisórios.
Desde 1993, o CONSELHO INTERNACIONAL DE ENFERMAGEM vem afir-
mando que as finanças constituem outra área de domínio do conhecimento em
enfermagem recomendando, aos profissionais, que promovam investigações para
validar metodologias de cálculo de custos nos serviços de enfermagem.
Essa necessidade é decorrente do aumento, em espiral, dos gastos com saúde, da
insuficiência de recursos e da dificuldade de controle de gastos, tratando-se de um
fenômeno mundial e não só dos países em desenvolvimento.
O Brasil vem aumentando seus gastos com saúde e, em 2000, gastou, em ações
e serviços públicos de saúde, em milhões de reais, 39.475 (3,09% do PIB); 43.394
(3,33% do PIB) em 2001; e 46.574 (3,52 do PIB) em 2002 (DATASUS/SIOPS, 2004).
170 Gerenciamento de Custos nos Serviços de Enfermagem
No entanto, o Sistema Único de Saúde ainda não consegue atender às demandas
da população, embora isso não dependa somente dos aspectos econômicos, mas
também dos de natureza política e social (PONTALTI, 2002). A melhoria dos siste-
mas de saúde depende, e muito, dos recursos disponíveis e de como eles são apli-
cados.
O envelhecimento da estrutura etária da população, a extensão de cobertura,
o avanço tecnológico, a baixa produtividade dos serviços e a falta de capacitação
administrativa de seus gerentes, entre outros fatores, têm levado ao aumento de
gastos no setor saúde (MÉDICI, 1994).
As organizações sofrem pressão dos clientes e dos seus profissionais para a aqui-
sição de novas tecnologias, motivados pelo marketing dos fabricantes. Na maioria
das vezes, incorporam essas tecnologias sem fazer uma avaliação econômica para
conhecer o seu custo-benefício.1
A produção de serviços de saúde, em instituições públicas ou privadas, consome
inúmeros insumos cujo produto final são os próprios serviços de saúde. Esses insu-
mos incluem recursos humanos, materiais hospitalares, instalações, equipamentos
e, ainda, diferentes tecnologias para operá-los. Esses recursos têm custos, que são
cobertos pelo próprio cliente, por seguradoras ou pelo financiamento público (SUS)
(COUTTOLENC e ZUCHI, 1998).
A forma como a produção de serviços de saúde é realizada pode também contri-
buir para o aumento de custos, uma vez que não produz serviços que possam ser
estocados e entregues depois aos clientes, como nas empresas de fabricação de
bens. A prestação do serviço acontece no momento de sua produção, ou seja, na
presença do cliente e, com isso, o fluxo de produção é descontínuo, ocorrendo varia-
ções no consumo de insumos. No entanto, os recursos necessários, principalmente
humanos, estão sempre disponibilizados. Assim, as ações gerenciais devem ser pau-
tadas no conhecimento da dinâmica das unidades prestadoras de serviços com a
finalidade de melhorar a eficiência2 deles.
Os enfermeiros que administram unidades de saúde são responsáveis pelo ge-
renciamento dos recursos humanos, materiais e físicos que consomem grande vo-
lume de recursos financeiros. Sabe-se que, dependendo da instituição, a enferma-
gem representa 30% a 60% do total do quadro de pessoal. O volume de materiais
que gerenciam, em suas unidades de trabalho, é outro fator importante em relação
aos custos das organizações de saúde.
Com isso, os enfermeiros têm sido pressionados, em seus locais de trabalho, a
reduzir pessoal e material sem, no entanto, conhecer o perfil dos gastos, sem re-
lacioná-los com a produção e sem fazer uma análise de seus custos. Outro aspecto
é que os administradores das organizações de saúde sempre enfatizam os gastos
da enfermagem sem, no entanto, avaliarem as receitas3 geradas por esse trabalho.
1Custo-benefício: é a relação entre os custos e os resultados reais ou potenciais de um procedimen-
to, tratamento ou um programa de saúde expressos em valores monetários. Aqui está sendo usado
como o balanço entre o custo do equipamento versus a receita que a sua utilização pode gerar para
a instituição.
2Eficiência: ver Cap. 7.
3Receita: aqui entendida como o valor recebido pela prestação de serviços.
Gerenciamento de Custos nos Serviços de Enfermagem 171
ABURDENE e NAISBITT (1993) alertaram para o fato de os enfermeiros serem
responsáveis por 40% a 50% do faturamento dos hospitais.
A aferição e o controle de custos são essenciais para que os enfermeiros, gerentes
de unidades de saúde, possam acompanhar sua evolução e implantar medidas que
melhorem o desempenho do seu serviço, redefinindo prioridades, racionalizando
recursos e acompanhando a produtividade.4
Embora os aspectos econômico-financeiros relativos à assistência de enfer-
magem tenham sidos historicamente ignorados pelos enfermeiros (ANSELMI e
NAKAO, 1999), deixando de ser incluídos nos cursos de graduação e pós-graduação,
apresentando, consequentemente, baixa produção científica a esse respeito, estu-
dos mais recentes têm demonstrado que essa realidade está mudando. Os enfer-
meiros estão assumindo responsabilidades em relação ao gerenciamento de custos
em seus locais de trabalho, introduzindo essa temática nos cursos de graduação
(FRANCISCO, 2002) e, com isso, produzindo conhecimento nessa área (OLIVEIRA,
2001).
Por gerenciamento de custos em enfermagem, entende-se o processo adminis-
trativo que visa o controle de custos e a tomada de decisão dos enfermeiros para
uma eficiente racionalização de recursos disponíveis e limitados, com o objetivo de
alcançar resultados coerentes com as necessidades de saúde da clientela e com as
finalidades institucionais (FRANCISCO e CASTILHO, 2002). Para isso, além de ou-
tros conhecimentos, faz-se necessária a compreensão de um conjunto de conceitos
de natureza contábil.
n Contabilidade de Custos e Sistemas de Custeio: Conceitos e Aplicação
Finalidade
Hoje em dia, o grande desafio das organizações de saúde, principalmente as hospi-
talares, é atender às demandas por seus serviços com qualidade, oferecendo servi-
ços com eficácia5 e eficiência a baixos custos.
Gerenciar custos, dentro de orçamentos restritos, é manter o equilíbrio entre
despesas, custos e receitas, garantindo a sobrevivência da organização.
O desconhecimento dos custos e da melhor combinação de recursos e de sua
efetividade dificulta, às organizações, ajustar suas atividades dentro de seus orça-
mentos.
Conhecer os custos dos serviços de saúde é essencial, pois possibilita a identi-
ficação das unidades que necessitam reduzi-los, controlar os gastos e eliminar os
desperdícios.
4Produtividade: é a relação entre a quantidade de produtos ou serviços produzidos e a quantidade
de recursos utilizados, segundo GAITHER, N.; FRAZIER, G. apud MELLO, MC. Estudo do tempo
no trabalho da enfermagem: construção de instrumento de classificação de atividades para implan-
tação do método amostragem do trabalho. Dissertação. São Paulo (SP), Escola de Enfermagem da
USP
, 2002.
5Eficácia: ver Cap. 7.
172 Gerenciamento de Custos nos Serviços de Enfermagem
No entanto, muitas organizações de saúde precisam modernizar-se nessa questão,
uma vez que ainda utilizam, quando os possuem, métodos contábeis tradicionais,
que não permitem o conhecimento efetivo de seus custos. Os hospitais privados,
na sua maioria, conhecem seus preços, mas não seus custos reais. Já os hospitais
públicos dificilmente conhecem os custos reais de seus serviços e procedimentos.
Os gestores da área da saúde devem prover um sistema eficaz de gerenciamento
de custos sem prejuízo da qualidade, buscando maior eficiência na distribuição
dos recursos e oferecendo serviços qualificados à população, compatibilizando os
custos com o orçamento.6
Para isso, os profissionais de saúde têm que ter noções sobre os métodos das
ciências contábeis para apuração de custos e auxiliar na adaptação e utilização dos
mesmos na produção de serviços de saúde.
Contabilidade de Custos
Os objetivos da contabilidade de custos são: estabelecimento de padrões e orça-
mentos; comparações entre o custo real e o orçado; formação de preços; determi-
nação de quantidades de serviços ou produtos a serem produzidos; escolha do que
produzir e avaliação ou decisão sobre o que cortar em relação aos custos. Assim,
“o conhecimento dos custos é vital para saber se, dado o preço, o produto é ou não
rentável e se é possível reduzir seus custos (MARTINS, 1998).
Atualmente, a contabilidade de custos assumiu uma nova dimensão, que é a conta-
bilidade gerencial, transformando-se num importante instrumento administrativo.
Esse novo papel tem duas funções relevantes: auxiliar no controle dos custos e subsi-
diar o processo de tomada de decisão. Em relação ao controle, tem a função de forne-
cer dados para o estabelecimento de padrões, orçamentos e outras formas de previsão
financeira, permitindo acompanhar e comparar os valores incorridos com os ante-
riormente definidos (MARTINS, 1998). Para tanto, atribui-se responsabilidades aos
diversos níveis do escalão hierárquico da instituição, avaliando seus desempenhos.
Nos ambientes hospitalares, a contabilidade de custos é um instrumento geren-
cial importante para a determinação, controle e análise dos gastos (custos e des-
pesas), permitindo o confronto desses custos e despesas com os preços dos proce-
dimentos realizados, que são definidos pelo mercado, composto de seguradoras,
cooperativas de saúde, governo e outros (MARTINS, 2000 e 2001).
Custos e Despesas
Custos e despesas são gastos, isto é, um dispêndio monetário. O conceito de despesa
é muito amplo; por isso, neste capítulo, será considerado como gasto não utilizado
no processo de produção das atividades fins da organização. Nas organizações de
saúde, as despesas podem ser exemplificadas como os juros de financiamento feito
junto a uma instituição bancária ou aos esforços de comercialização de tratamentos
com as seguradoras.
6Orçamento: constitui-se em um instrumento eficaz de previsão e controle organizacional em rela-
ção aos gastos, custos e às receitas esperadas em determinado período. As estimativas orçamentárias
são, geralmente, para 12 meses. Serve como padrão para comparar os valores reais com os orçados.
Gerenciamento de Custos nos Serviços de Enfermagem 173
O termo custo refere-se aos gastos realizados na produção de bens ou serviços
fins da organização (MARTINS, 1998). São os gastos com insumos utilizados na
produção.
Teoricamente, essa divisão entre despesas e custos é fácil, mas, na prática, às
vezes não se consegue distingui-los de forma clara. Por isso, há necessidade de
discutir critérios para classificar os gastos como despesas ou custos, uma vez que
isso irá implicar a decisão de rateá-los, ou não, para a composição dos custos dos
serviços ou das atividades desenvolvidas (MARTINS, 1998).
Os custos podem ser classificados em diretos e indiretos, variáveis e fixos.
Os custos diretos são gastos, ou seja, um dispêndio monetário que se aplica di-
retamente na produção de um produto ou de um serviço. Exemplificando, seria o
gasto com material e mão de obra na preparação e administração de um medica-
mento.
Já os custos indiretos são comuns a diversos procedimentos ou serviços, não
podendo ser atribuídos, exclusivamente, a um setor ou produto. Sua apropriação se
faz por meio de critérios ou fórmulas de rateio, baseados em algum fator volumétri-
co, como veremos mais adiante, para serem debitados a um produto ou serviço. São
os gastos relativos a luz, água, limpeza, aluguéis, salário do Diretor do Departamen-
to de Enfermagem, entre outros.
Custos fixos são os custos operacionais vinculados à infraestrutura instalada e
que se mantêm constantes, mesmo havendo modificações no número de atendi-
mentos. São os custos com salário, aluguel, entre outros.
Os custos variáveis são aqueles relacionados ao volume de produção, aumentan-
do quando ela cresce e contraindo quando diminui. Exemplificando, são os custos
com materiais, medicamentos, lavanderia etc.
Sistemas de Custeio
Sistema de custeio “é um conjunto de procedimentos adotados numa empresa para
calcular algo, ou seja, os bens ou serviços nela processados” (BEULK e BERTÓ,
2000).
O principal objetivo de um método de custos é mensurar os custos dos recursos
consumidos quando são realizadas atividades significativas para a empresa. Um
método de custos deve suprir informações sobre o custo dos produtos, dos proces-
sos e das atividades, todos passíveis de acompanhamento para efeitos gerenciais
(BERLINER e BRINSON, 1992).
Os sistemas de custeio tradicionalmente utilizados nas organizações de saúde
são: por absorção, por serviço ou procedimento (atividade) e por custo-padrão.
O sistema de custeio por absorção é uma forma de custear todas as despesas que
impactam os serviços e produtos. Inicialmente, os custos são acumulados por servi-
ços e, depois, rateados pelos produtos através de um fator volumétrico de medição
(COGAN, 2002).
O esquema básico para absorção de serviços é a separação dos serviços da orga-
nização em centros de custos produtivos ou finais e centros auxiliares e adminis-
trativos.
Centros de custos referem-se a uma conta destinada a agrupar todas as parcelas
dos elementos de custo que incorrem, em cada período, nas unidades da organiza-
174 Gerenciamento de Custos nos Serviços de Enfermagem
ção (Departamentos, Serviços etc.). Para definir um centro de custos, é necessário
ter custos claramente identificáveis e atividades quantificáveis, por meio de uma
unidade de mensuração. Exemplificando, o centro cirúrgico é um centro de custos
com gastos identificáveis e com uma produção quantificável, que é o número de
cirurgias realizadas.
Centros de custos produtivos ou finais são departamentos, serviços ou unidades
que produzem diretamente serviços fins na organização. Assim, nas organizações
hospitalares são considerados produtivos aqueles que produzem diretamente servi-
ços de saúde aos pacientes. São eles: clínica médica, clínica cirúrgica, maternidade,
pediatria, unidade de terapia intensiva, laboratório de análises clínicas, radiologia,
entre outros.
Centros de custos auxiliares são aqueles que dão suporte aos centros produtivos,
tais como: serviço de nutrição e dietética, lavanderia, central de material e esteri-
lização.
Centros de custos administrativos correspondem aos serviços de natureza ad-
ministrativa da organização de saúde que dão suporte aos auxiliares e produtivos.
Administração geral, recursos humanos, finanças, departamento de enfermagem e
médico são alguns exemplos.
Para a aferição dos custos por absorção, por exemplo, de uma clínica cirúrgica,
somam-se os custos diretos (pessoal e material) e os custos indiretos, que são os
rateios dos custos gerais (água, luz, telefone) e os rateios dos centros de custos au-
xiliares e administrativos, obtendo-se o custo total (Fig. 13.1).
A base de rateio geralmente é uma divisão proporcional dos custos apurados para
os centros produtivos. Os critérios podem ser por número de funcionários, por metra-
gem de área e por percentual estimado de atendimento ou utilização (Quadro 13.1).
Com isso, ao se dividir o custo total da unidade (a soma dos custos diretos e in-
diretos) pela produção mensal da clínica, ou seja, pelo número de internações no
período de um mês, obtém-se o custo por paciente, por mês, podendo-se dividir
esse valor pela média de permanência do paciente na unidade para calcular o custo
da diária do paciente.
Para o levantamento do consumo dos insumos e de seus valores, bem como dos
salários e da produção das diferentes unidades, há a necessidade de as organiza-
ções contarem com um sistema de informação fidedigno.
As planilhas de custos são elaboradas pelos serviços de contabilidade de custos
que encaminham relatórios mensais, ou por outro período determinado, às gerên-
cias das unidades, discriminando os diferentes custos (Quadro 13.2).
Fig. 13.1 Custeio por absorção.
Gerenciamento de Custos nos Serviços de Enfermagem 175
Quadro 13.1 Bases de rateio de despesas gerais e de serviços auxiliares e administrativos
Bases de rateio
Energia Elétrica % de consumo de luz (conta de luz)
Impostos e Taxas Área ocupada (m2)
Telefone No de ramais (conta de telefone)
Limpeza Área ocupada (m2)
Manutenção Horas de manutenção
Dispensação de Medicamentos % do consumo histórico de medicamentos dispensados
Lavanderia kg de roupa
Serviço de Nutrição e Dietética No de refeições
Central de Material Esterilizado Volumes processados
Administração Número de funcionários
Departamento de Enfermagem Número de funcionários
Quadro 13.2 Relatório mensal dos custos de um setor de um hospital
Insumos Janeiro Fevereiro Março
• Custos Diretos
1. Pessoal
2. Materiais
2.1 Medicamentos
2.2 Materiais de Consumo
Total de custos diretos
26.980,00
4.256,00
6.420,00
37.656,00
27.080,00
4.120,00
5.897,00
37.097,00
25.342,00
7.940,00
7.458,00
40.740,00
• Custos Indiretos (rateios absorvidos)
• Gastos Gerais
1. Energia elétrica
2. Água
3. Telefones
4. Aluguel
Total dos gastos gerais
180,00
820,00
162,00
3.000,00
4.162,00
172,00
780,00
230,00
3.000,00
4.182,00
220,00
976,00
154,00
3.000,00
4.350,00
• Custos Auxiliares
1. Serviço de Limpeza
2. Serviço de Lavanderia e Rouparia
3. Serviço de Nutrição e Dietética
4. Central de Material e Esterilização
5. Administração de Pessoal
6. Almoxarifado
7. Coordenação de Enfermagem
8. Superintendência
Total dos custos auxiliares
3.100,00
3.526,00
4.230,00
1.800,00
2.320,00
189,00
1.232,00
3.560,00
19.957,00
3.300,00
3.278,00
3.878,00
1.650,00
2.340,00
162,00
1.230,00
3.789,00
19.627,00
3.990,00
4.699,00
5.640,00
2.340,00
2.210,00
219,00
1.234,00
3.254,00
23.586,00
Total Geral (custos diretos + custos indiretos) 61.775,00 60.906,00 68.676,00
Número de Internações 178 162 212
Custos unitário/por paciente 347,00 376,00 323,94
176 Gerenciamento de Custos nos Serviços de Enfermagem
Esses relatórios podem apresentar variações nos custos totais ou subtotais em
relação aos meses anteriores. Assim, pode-se calcular essas variações usando-se o
exemplo da Fig. 13.2.
Exemplo: Setembro (9) Outubro (10)
Material de Consumo – subtotal... R$ 12.580,00 R$ 14.230,00
Crescimento de outubro em relação a setembro
Variação (10/9) = (14.230/12.580 – 1) × 100 = 13,12%
Fig. 13.2 Cálculo da variação dos custos.
O acompanhamento mensal para a análise dos resultados desses relatórios per-
mite ao gerente de enfermagem conhecer o comportamento dos custos controláveis
de sua unidade, verificando se estão dentro dos valores e limites usuais (padrão),
bem como identificar as razões que justifiquem possíveis desvios, corrigindo-os se
houver desperdícios. Custos controláveis são os custos controlados pelo gerente da
unidade, tais como: mão de obra, materiais e gastos gerais. Já os custos com alu-
guel, depreciação, entre outros, independem do gerente da unidade.
Pelo acompanhamento dos relatórios, por períodos mais prolongados (mais de
um ano), pode-se conhecer o padrão de consumo, ou seja, períodos de maiores ou
menores gastos do serviço, que fazem parte do perfil da unidade. Como exemplo,
pode ser citado o maior consumo de materiais nos meses de janeiro, fevereiro e
junho nos hospitais privados, pois estes geralmente recebem maior número de pa-
cientes para cirurgias programadas.
Deve-se também contatar o Serviço de Contabilidade de Custos em casos de dú-
vidas sobre o valor informado, pois pode haver erros em relação aos dados financei-
ros ou estatísticos fornecidos pelas diferentes fontes da organização. Outro aspecto
importante é conhecer os critérios de rateio utilizados na organização.
Os gerentes “devem considerar não somente os gastos e o cálculo de custos, mas
também a motivação das pessoas que efetuam os gastos em seus locais de trabalho”
como uma estratégia de contenção de custos (FALK, 2001).
A utilização das informações sobre os custos deve ser compartilhada não só com
a equipe de enfermagem, mas também com a equipe multiprofissional da unida-
de, como estratégia para conscientização dos gastos e desperdícios, propiciando o
envolvimento de todos no que se refere a sugestões para melhoria do desempenho
do serviço.
Outra possibilidade de aplicação do custeio por absorção é na aferição de custos
de tratamentos, procedimentos médicos e procedimentos de enfermagem. Estudos
utilizando esse método de custeio têm sido desenvolvidos por enfermeiros na apro-
priação de custos de procedimentos (RIBEIRO, 1998; JERICÓ, 2001; BAPTISTA,
Gerenciamento de Custos nos Serviços de Enfermagem 177
2002; BITTAR e CASTILHO, 2003; MARGARIDO, 2004). No entanto, há dificulda-
des na apropriação dos custos indiretos devido à não aferição dos mesmos, por cen-
tros de custos, em algumas organizações hospitalares.
A determinação de custos por paciente, o custo da diária e o custo dos procedi-
mentos são os objetivos básicos dos custos hospitalares. Essas unidades de custos
permitem o conhecimento dos custos para controle e análise das variações com o
custo-padrão e respectiva receita (MARTINS, 2000).
O termo “custo-padrão”, mais que um método de custeio, pode ser compreendi-
do como um valor de um procedimento ou serviço fixado como “padrão” ou meta,
que auxilia na definição do preço e no controle do custo, após ter sido obtido pelo
custo-padrão ideal, corrente ou real. Os custos ideal e corrente são propostos me-
diante estudos teóricos sobre a produção de determinado procedimento, enquanto
o custo real ou estimado utiliza outras formas de custeio, como por absorção (MAR-
TINS, 1998). Nas organizações de saúde, os custos-padrão de procedimentos muitas
vezes são estimados por absorção, sendo aferidos somente os custos diretos, com
base na experiência passada da instituição ou de um grupo de especialistas, o que
pode levar a distorções em relação aos custos reais.
Os custos-padrão são, portanto, predeterminados para procedimentos repetiti-
vos, transformados em taxas para cobrança, sendo utilizados para o controle, plane-
jamento e tomadas de decisão.
O enfermeiro, ao elaborar e utilizar os protocolos de enfermagem, está fornecen-
do subsídios para o estabelecimento dos custos-padrão relacionados à assistência
de enfermagem (MUNHOZ, 2002).
As organizações hospitalares, tanto públicas quanto privadas, buscam sistemas
de custeio mais eficientes que permitam melhorar o gerenciamento dos custos em
relação ao planejamento e controle dos mesmos e, consequentemente, aumentar o
desempenho da organização.
O sistema de Custeio por Atividade (ABC – Activity Based Costing) tem sido
apontado como um sistema eficiente para os serviços. Usando como base o ABM
(Activit-Based Management) ou Gestão Baseada em Atividades, em que o estudo de
cada processo produtivo dos serviços permite visualizar os recursos gastos em cada
etapa, há a possibilidade de conhecer os custos reais das atividades desenvolvidas.
Conhecendo os fatores que geram custos em cada fase do processo de produção,
pode-se elaborar estratégias para otimizar os recursos e diminuir os custos (NAKA-
GAWA, 1994; KAPLAN et al., 2000).
Outra vantagem do ABC é que elimina distorções de custos dos produtos e ser-
viços decorrentes da utilização de bases únicas de rateios dos custos indiretos para
todos os serviços e produtos, porque nem todos desenvolvem as mesmas ativida-
des. Portanto, a ênfase desse sistema é a redução dos custos indiretos e, consequen-
temente, a redução do custo total de procedimentos.
Entretanto, alguns autores alertam que a implantação do sistema ABC requer
um esforço organizacional e financeiro elevado, principalmente na estruturação do
sistema de informações se comparado com outros sistemas (TOMMASI, 2000).
Aplicadas na área da saúde, as metodologias ABM e ABC devem ser vistas como
instrumentos gerenciais importantes para estabelecimento da relação causa e efeito
no uso dos recursos e, consequentemente, nos seus custos, auxiliando no controle
dos desperdícios. Permite apurar os custos das atividades com maior precisão para
178 Gerenciamento de Custos nos Serviços de Enfermagem
analisar o seu custo-benefício. No entanto, sua aplicação ainda está sendo adaptada
à cultura hospitalar, encontrando dificuldades na disponibilidade de informações
pela inexistência ou pelo alto custo de medição (PONTALTI, 2002).
Conhecendo os diferentes métodos de aferição de custos, os enfermeiros podem
auxiliar na geração de informações que subsidiem a missão de melhorar o desem-
penho e eficiência da sua unidade ou serviço, bem como da organização como um
todo. Ao evidenciar os fatores que afetam o aumento dos custos, é possível monito-
rá-los ou diminuí-los, sem afetar a qualidade e sem deixar de atender à demanda.
Saber onde há possibilidade de cortar passos dos processos de atendimento ou
dos procedimentos que não agregam qualidade mas gastos, ou, ainda, buscar modi-
ficações inserindo novas tecnologias7 que possibilitem a contenção de custos deve
ser uma meta para os enfermeiros.
Outra possibilidade é desenvolver métodos de aferição de custos mais adequa-
dos aos serviços de saúde e de enfermagem, que possibilitem melhor compreensão
da composição dos custos dos tratamentos de diferentes pacientes e dos diferentes
procedimentos terapêuticos a que são submetidos.
Alguns autores têm chamado a atenção para o fato de os custos de enfermagem
serem tratados como um valor médio em relação ao custo total da assistência, ou
seja, incluído no valor da diária hospitalar e captado com base no cálculo do custo
do paciente-dia, deixando de considerar a variabilidade de exigências do cuidado
de enfermagem para os diferentes tipos de pacientes (RODRIGUES FILHO, 1994;
FINKLER, 1995; ANSELMI, 2000).
Nesse sentido, o Sistema de Classificação de Pacientes (SCP)8 pode constituir a
base de um sistema de contabilidade de custo para a enfermagem, permitindo uma
aferição mais acurada e diferenciada, da participação da enfermagem nos trata-
mentos e procedimentos realizados nos pacientes (ANSELMI, 2000; FALK, 2001).
Para isso, estudos têm sido desenvolvidos para propor modelos de estimação do
custo de mão de obra de enfermagem, de acordo com o grau de dependência dos pa-
cientes em relação à equipe de enfermagem ou de acordo com o nível de gravidade
dos pacientes. TELLES (2003) estimou o custo do pessoal diário de uma UTI men-
surando a carga de trabalho pela aplicação do TISS-28 (Therapeutic Intervention
Scoring System), que é o índice indireto de gravidade que correlaciona gravidade,
número de intervenções terapêuticas e tempo de assistência de enfermagem.
n Considerações Finais
A busca por conhecimentos relacionados ao gerenciamento de custos e sua apli-
cação na prática assistencial e gerencial exige uma mudança na capacitação dos
profissionais de saúde no que se refere, principalmente, à valorização dos aspectos
7Tecnologia: entendida aqui de uma forma mais ampla, podendo referir-se tanto a produtos biotec-
nológicos, drogas, equipamentos, quanto a procedimento terapêutico e sistemas de apoio a decisão.
(CLIFFORD apud ALMEIDA, M.V.R. e INFANTOSI, A.F
.C. A avaliação de tecnologia em saúde: uma
metodologia para países em desenvolvimento. In: BARRETO, M.L. et al. Epidemiologia, serviços e
tecnologias em saúde. Rio de Janeiro, Fiocruz/Abrasco, 1998, cap. 2, p. 25-9.
8SCP: ver Cap. 10.
Gerenciamento de Custos nos Serviços de Enfermagem 179
financeiros da assistência à saúde e ao entendimento de que a finalidade de geren-
ciar os aspectos econômicos na saúde está fundamentada na otimização dos recur-
sos, na garantia de acesso e equidade aos usuários e na manutenção da qualidade
do atendimento.
No entanto, embora os aspectos econômicos sejam importantes, não devem so-
brepor-se aos técnicos, humanos, éticos e sociais nas tomadas de decisão.
Embora as organizações de saúde possam ser descritas como grandes empresas
do ponto de vista econômico-financeiro, por movimentarem grandes somas de di-
nheiro, não se pode esquecer que são recursos necessários para a população à qual
prestam assistência, devendo ser administradas para gerarem serviços com quali-
dade e baixos custos, para poderem sobreviver, para disporem de insumos necessá-
rios e de instalações apropriadas e, ainda, para remunerarem adequadamente seus
profissionais (MARTINS, 2001).
Administrar com eficiência e eficácia essas organizações complexas, cujas ativi-
dades são extremamente importantes para a sociedade, é um compromisso moral e
ético de todo profissional que gerencia. Para tanto, esses profissionais devem apli-
car instrumentos gerenciais que os auxiliem nas tomadas de decisão.
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17-27.
Para o desenvolvimento das atividades assistenciais de saúde, é preciso garantir
condições adequadas de trabalho, tanto no que se refere ao atendimento das ne-
cessidades dos usuários como das necessidades dos profissionais da área, sendo
responsabilidade de todos os integrantes da instituição assegurar essas condições.
As ações gerenciais, no tocante à infraestrutura necessária para a assistência
à saúde, visam a garantir segurança aos profissionais e à clientela, diminuindo o
risco ocupacional e voltando-se para os aspectos relacionados à saúde pública e ao
meio ambiente.
A OMS (1988) conceitua a saúde ambiental como aquela que “se refere aos as-
pectos da saúde e qualidade de vida humana determinados por fatores ambientais,
sejam estes físicos, químicos, biológicos ou sociais. Refere-se também à teoria e
prática de avaliação, correção, controle e prevenção daqueles fatores que, presentes
no ambiente, podem afetar potencialmente de forma adversa a saúde humana de
gerações presentes e futuras”.
A Constituição do Brasil, em seu artigo 225, dispõe que todos têm direito ao meio
ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à
sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de
defendê-lo, preservá-lo para as presentes e futuras gerações.
Gerenciamento de Recursos
Físicos e Ambientais
REGINA TOSHIE TAKAHASHI, VERA LUCIA MIRA GONÇALVES
E VANDA ELISA ANDRES FELLI
14
181
182 Gerenciamento de Recursos Físicos e Ambientais
Por isso, independentemente do ambiente, seja ele interno ou externo, torna-se
imperativa a gestão dos fatores adversos ao ambiente, visando a promoção da saúde
e da vida.
A gestão desses recursos físicos e ambientais não constitui atividade simples,
pois pressupõe, além de conhecimento específico, um compromisso com o meio
ambiente e com a qualidade de vida das pessoas e do trabalhador.
n Gerenciamento de Recursos Físicos
O conceito de recursos físicos compreende as áreas internas e externas que com-
põem um serviço de saúde. Uma unidade, especificamente, compreende o espaço
físico determinado e especializado para o desenvolvimento de atividades assisten-
ciais, caracterizado por dimensões e instalações diferenciadas. A dimensão refere-
se ao tamanho da unidade em função do equipamento, da população a ser atendida
e das atividades a serem realizadas.
O Estabelecimento de Assistência à Saúde (EAS) é entendido como qualquer
edificação destinada à prestação de assistência à saúde da população, em qualquer
nível de complexidade de atenção à saúde, em regime de internação ou não.
Para assegurar a viabilidade técnica e compatibilizar a necessidade com a dis-
ponibilidade de recursos, observando os parâmetros legais, é fundamental a par-
ticipação do enfermeiro na proposição e planejamento da área física, pois a visão
da equipe profissional especializada em construções, engenheiros, ergonomistas e
arquitetos não é suficiente para reconhecer as necessidades assistenciais e as ativi-
dades que devem ser desenvolvidas pela equipe de saúde.
O gerenciamento de recursos físicos e ambientais em enfermagem consiste na
participação do enfermeiro no planejamento e na alocação desses recursos, com o
objetivo de organizar ou gerir, cotidianamente, uma unidade de saúde, provendo
segurança, conforto e privacidade aos pacientes e assegurando condições de traba-
lho apropriadas.
O papel do enfermeiro, dessa forma, está voltado para o planejamento do espaço
físico, dimensionando os recursos constituintes das unidades assistenciais, assim
como considerando a inserção e o impacto desse espaço no ambiente social.
Para construção e ambientação de EAS, é indispensável atender aos requisitos
estabelecidos pelas leis municipais e estaduais, pelo Ministério da Saúde e por
outros órgãos governamentais, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(ANVISA). A Resolução Diretoria Colegiada 50 – RDC 50, uma das principais dire-
trizes, dispõe sobre o regulamento técnico para planejamento, programação, elabo-
ração e avaliação de projetos físicos de EAS (ANVISA, 2002).
O MINISTÉRIO DA SAÚDE (1994) considera seis etapas para viabilização do
processo de desenvolvimento de recursos físicos em saúde: o planejamento, a orga-
nização, o projeto, a execução, a operacionalização e a avaliação do processo como
um todo.
Para a determinação dos EAS, deve-se ter como base o modelo assistencial e
gerencial (FELLI e PEDUZZI, 2005) e a demanda da população a ser atendida, em
função de seu perfil epidemiológico (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 1998; ANVISA,
2002).
Gerenciamento de Recursos Físicos e Ambientais 183
Além dos aspectos físico-funcionais para o atendimento das demandas assisten-
ciais, devem ser considerados, para a construção de um EAS, os aspectos legais,
técnicos, econômicos, ergonômicos e ambientais relacionados ao empreendimento,
considerando sua arquitetura, instalações elétrica, eletrônica, hidráulica, fluidos
mecânicos e climatização.
A RDC-50 (ANVISA, 2002) não estabelece a tipologia de edifícios de saúde, ou
seja, não determina se deve ser um hospital ou uma unidade básica de saúde, nem
o número de andares do prédio.
Essa Resolução visa propiciar ao usuário e à equipe de saúde um ambiente ade-
quado às atividades assistenciais programadas, sem riscos nem prejuízos à assis-
tência, contribuindo para que a instituição de saúde seja considerada de qualidade
por ter condições de atingir seus objetivos e, também, a satisfação da clientela.
A definição das atividades e das atribuições propostas é que determina o dimen-
sionamento, quantificação e instalações prediais dos ambientes. Portanto, é preciso
descrever as atividades a serem desenvolvidas e identificar os ambientes neces-
sários para a realização dessas atividades, seguindo, obrigatoriamente, a RDC-50,
que dimensiona sua quantificação, dimensão mínima e instalações obrigatórias de
acordo com o ambiente e as atividades.
Por exemplo, recomenda que, para cada 30 leitos de uma unidade de interna-
ção, haja um posto de enfermagem de 6 m2, provido de instalações para água fria
e sistema elétrico de emergência. Para quartos de adulto, observa que, para cada
30 leitos, haja, no mínimo, um quarto para situações que requeiram isolamento; o
quarto com um leito deve medir 10 m2; com dois leitos, 7 m2 por leito e 6 m2 por
leito em enfermarias de três a seis leitos, e uma enfermaria não pode exceder seis
leitos. A distância entre leitos paralelos deve ser de 1 m; não existe recomendação
para a distância entre a cabeceira do leito e a parede; para o pé do leito e a parede, a
distância é de 1,2 m e, para a lateral do leito com a parede, de 0,5 m.
Assim, é imprescindível analisar a adequação do projeto arquitetônico às ativi-
dades propostas pelo EAS, verificando a pertinência do projeto físico às propostas
assistenciais pretendidas, por unidade funcional e pelo conjunto do EAS. Como
exemplo, podemos citar a adaptação dos ambientes externo e interno dos EAS para
o atendimento a deficientes físicos e idosos.
Para cada unidade funcional, é preciso considerar os ambientes de apoio neces-
sários para o desenvolvimento das atividades assistenciais, para o atendimento ao
público e para as necessidades do trabalhador.
Visando ao trabalhador, é necessário adequar os equipamentos e mobiliários à
altura do trabalhador, proporcionando a postura correta e confortável.
A exemplo, camas hospitalares devem permitir a regulagem da altura e facilitar
o seu posicionamento nas diferentes posições. As cadeiras devem permitir o encos-
to das costas até o meio, acomodar os glúteos, não pressionar a parte posterior das
coxas e apoiar os pés, além de serem quantitativamente suficientes. O mobiliário,
como mesas e balcões, deve ter uma altura média na altura do cotovelo e encaixe
para os pés. Além disso, devem ser evitadas escadas para alcance dos materiais,
assim como a manipulação de pesos acima dos ombros. Ainda, deve-se evitar a
guarda de materiais que não estejam no campo de visão do trabalhador.
Também é fundamental a participação do enfermeiro na análise das condições de
trabalho e fatores de risco, solicitando à instituição o cumprimento das exigências
184 Gerenciamento de Recursos Físicos e Ambientais
de segurança no trabalho, como: estado de uso e manutenção de equipamentos;
instalação elétrica; iluminação; ventilação; temperatura e umidade adequadas; pla-
nos de emergência; plano de combate a incêndio; mapa de fuga; extintores; placas
e símbolos. A exemplo disso, para obter um ambiente com menos ruídos, poderá
requerer um desibelímetro para medir o ruído das incubadoras.
Nesse contexto, o enfermeiro, além de participar do gerenciamento dos recursos
físicos, participa também, cotidianamente, do gerenciamento dos recursos ambien-
tais.
n Gerenciamento de Recursos Ambientais
Estima-se que de 1% a 3% dos resíduos urbanos, que atinge 220 mil toneladas por
dia, são provenientes dos serviços de saúde, o que representa um imenso volume e
uma grande preocupação (SILVA, 2004).
O gerenciamento de recursos ambientais nas instituições de saúde tem como
objetivo a atenção e cuidados com o ambiente, no que se refere principalmente ao
uso e descarte de materiais com resíduos biológicos, químicos e radioativos.
As instituições de saúde são grandes consumidoras de produtos químicos e ra-
diológicos, e manipulam constantemente uma diversidade de material biológico.
Além disso, são também grandes geradoras de resíduos infectantes. O processo de
uso e descarte desses insumos ou seus subprodutos é de responsabilidade da insti-
tuição e do profissional que os manipula. Essa responsabilidade consiste em adotar
as medidas de biossegurança.
“A biossegurança é o conjunto de ações voltadas para a prevenção, minimização
ou eliminação de riscos inerentes às atividades de pesquisa, produção, ensino, de-
senvolvimento tecnológico e prestação de serviço, riscos que podem comprometer
a saúde do homem, dos animais, do meio ambiente ou a qualidade dos trabalhos
desenvolvidos” (FIOCRUZ, 1996).
n Gerenciamento dos Resíduos dos Serviços de Saúde
Os resíduos provenientes da assistência à saúde são possíveis veículos de conta-
minação e de poluição do solo, ar e água e, portanto, estão incluídos no grupo que
exige tratamento específico para preservação do meio ambiente.
Muitos dos resíduos gerados e manipulados nas instituições de saúde são consi-
derados de risco, pois podem afetar a saúde e, também, causar danos ao meio am-
biente. Entretanto, tal risco pode ser minimizado pelo seu correto gerenciamento,
tanto no ambiente interno da instituição como no meio ambiente. Para tanto, cada
instituição deve ter o Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde
(PGRSS), evitando tanto a exposição dos trabalhadores como de outras pessoas e
do ambiente.
As normas que dispõem sobre o manejo dos resíduos dos serviços de saúde são
a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), a Associação Brasileira de
Normas Técnicas (ABNT) e o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA).
Em relação aos resíduos químicos, também a Companhia Elétrica de Tecnologia de
Gerenciamento de Recursos Físicos e Ambientais 185
Saneamento Ambiental (CETESB) trata dos resíduos provenientes dos serviços de
saúde.
As normas da ABNT, da série 12.807 a 12.810 de 1993, tratam dos resíduos dos
serviços de saúde quanto aos riscos potenciais ao meio ambiente e à saúde públi-
ca, assim como do seu gerenciamento. Dentre estas, destaca-se a NBR 12.809, que
define os procedimentos de manuseio dos resíduos de serviços de saúde no âmbito
interno das unidades. Ainda, a NBR 12.810 define critérios de coleta desses resídu-
os extraunidade e trata dos equipamentos de proteção individual (EPI).
A ABNT, em sua NBR 10.004/2004, classifica os resíduos em perigosos e não pe-
rigosos, sendo os primeiros aqueles que contêm características de inflamabilidade,
corrosividade, reatividade, toxicidade e/ou patogenicidade.
A classificação de resíduos da ANVISA (Resolução RDC-306/04) dispõe sobre o
gerenciamento de resíduos de serviços de saúde a obrigatoriedade do Plano de Ge-
renciamento de Resíduos de Serviços de Saúde, e descreve as ações de manejo dos
resíduos sólidos – geração, segregação, acondicionamento, coleta, armazenamento,
transporte, tratamento e disposição final, bem como as ações de proteção à saúde
pública e ao meio ambiente.
A Resolução CONAMA no 358/2005 dispõe sobre o tratamento e disposição final
dos resíduos de serviços de saúde. Estabelece os procedimentos mínimos para o
gerenciamento de resíduos sólidos e semissólidos, responsabilizando os estabeleci-
mentos pelo gerenciamento de seus resíduos. Essa resolução classifica os resíduos
em grupos A (resíduos com possível presença de agentes biológicos), B (resíduos
químicos), C (resíduos radioativos), D (resíduos comuns) e E (resíduos perfurocor-
tantes ou escarificantes).
Segundo GÜNTHER (2004), qualquer que seja a classificação adotada, é impres-
cindível considerar as suas distintas características e os diferentes métodos para o
seu tratamento ou disposição final, com especial atenção à periculosidade, às pro-
priedades físicas, químicas e biológicas e à possibilidade de reciclagem.
Portanto, no gerenciamento dos resíduos, atenção deve ser dada à legislação das
diferentes esferas federal, estadual e municipal.
Fig. 14.1 Fluxo dos resíduos nos Serviços de Saúde.
186 Gerenciamento de Recursos Físicos e Ambientais
É certo que o gerenciamento dos resíduos em serviços de saúde é um trabalho
que deve ser articulado na equipe multidisciplinar.
CREMA et al. (2006) descrevem a experiência em um hospital público, no ge-
renciamento dos resíduos infectantes, percorrendo as seguintes fases: diagnóstico
situacional em relação ao resíduos, divulgação e sensibilização dos trabalhadores
para as novas medidas, plano piloto, treinamento e implantação das medidas. Pos-
teriormente, ao proporem o PGRSS, descrevem as etapas de manejo percorridas.
Ainda, atenção deve ser dada às possibilidades de reciclagem. Resíduos reciclá-
veis são aqueles que podem ser reutilizados como matéria-prima para a fabricação
de outros produtos, como papel, papelão, latas e vidros. Outros cuidados devem ser
tomados com pilhas e baterias, lâmpadas fluorescentes, mercúrio de termômetros e
esfigmomanômetros, que devem ser encaminhados para empresas especializadas,
e não desprezados em lixo comum.
A seguir, são descritas as etapas do plano de gerenciamento dos resíduos, segun-
do a RDC-306/04 (ANVISA, 2006):
• Segregação é a operação de identificação e separação dos resíduos no momento
da geração, em função da classificação previamente adotada. Cuidados especiais
devem ser tomados a fim de assegurar a saúde de todos, como, por exemplo,
prover o funcionário de equipamentos de proteção individual específicos (EPI),
como avental, botas, luvas, máscaras e uniforme. GÜNTHER (2004) acrescenta
que a segregação ou separação do lixo tem como objetivo evitar a mistura de re-
síduos incompatíveis, favorecendo o seu encaminhamento específico.
• Acondicionamento é a guarda dos resíduos em recipientes adequados de acordo
com seu tipo e suas características, logo após sua geração/manipulação. São utili-
zados saco plástico branco leitoso, saco plástico preto, recipientes impermeáveis,
rígidos e resistentes à ruptura. GÜNTHER (2004) ressalta que essas embalagens
devem ser sinalizadas com o símbolo internacional de risco.
Fig. 14.2 Símbolo de risco.
Gerenciamento de Recursos Físicos e Ambientais 187
• Coleta interna, que consiste no recolhimento dos resíduos da lixeira, dos reci-
pientes, dos sacos plásticos, e o transporte até o abrigo dos resíduos. Essa coleta
deve ser realizada de acordo com a necessidade do órgão gerador, calculada pela
quantidade/dia, com, no mínimo, uma coleta/dia. O transporte interno é o trans-
lado dos resíduos dos pontos de geração até o local destinado ao armazenamento
temporário ou à apresentação para a coleta externa.
• Armazenamento é a guarda temporária dos resíduos em locais específicos e apro-
priados, normalmente denominados abrigos ou depósito de resíduos, à espera do
recolhimento pelo serviço de coleta, seguindo para o tratamento e a disposição
final. O armazenamento interno consiste na guarda dos recipientes que contêm
os resíduos já acondicionados, em local próximo aos pontos de geração, visando
agilizar a coleta dentro do estabelecimento e otimizar o translado entre os pontos
geradores e o ponto destinado à coleta externa.
O armazenamento externo consiste na guarda dos recipientes de resíduos até
a realização da coleta externa, em ambiente exclusivo com acesso para os veícu-
los coletores.
• Coleta II é o transporte dos resíduos do abrigo interno para o abrigo externo. A
coleta e o transporte externo consistem na remoção do resíduos do serviço do
local de abrigo de armazenamento até a unidade de tratamento ou destinação
final, utilizando-se técnicas que garantam a preservação da integridade física do
pessoal designado para essa atividade, da população e do meio ambiente, deven-
do estar de acordo com as orientações dos órgãos de limpeza urbana.
• Tratamento é todo processo que é realizado dentro dos padrões de segurança,
e que modifica as características físicas, químicas ou biológicas dos resíduos,
eliminando ou minimizando o risco associado a estes.
• Disposição ou destinação final é a disposição de resíduos no solo previamente
preparado para recebê-los, obedecendo a critérios técnicos de construção, opera-
ção e licenciamento em órgão ambiental. É a última etapa do gerenciamento dos
resíduos e deve ser feita de modo a não provocar efeitos danosos à saúde pública
nem ao meio ambiente. Compreende a disposição em aterros sanitários, a recicla-
gem, a incineração, ou, ainda, a disposição em aterro especial.
A Fig. 14.3 apresenta, sinteticamente, o fluxo do gerenciamento dos resíduos
proposto pela RDC-306/04 (ANVISA, 2006).
O transporte deve ser realizado nos períodos de menor circulação de pessoas,
sem risco de acidente para o funcionário e sem provocar contaminação ambiental,
utilizando carros específicos para essa finalidade.
A falta de organização e a destinação inadequada impõem riscos às pessoas, den-
tro e fora da instituição, no que se refere ao meio ambiente, pois podem contaminar
a rede de esgoto, a rede fluvial e a atmosfera. No interior da instituição, aumentam
o risco ocupacional e a ocorrência de acidentes de trabalho, aumentando também a
exposição dos pacientes e familiares a riscos evitáveis.
A maior dificuldade não está na indicação técnica desse gerenciamento, pois, em
geral, os profissionais sabem usar devidamente os equipamentos e produtos. No
entanto, alguns cuidados não são tomados pela ausência de um controle rígido e es-
188 Gerenciamento de Recursos Físicos e Ambientais
pecífico, como o descarte final dado a elementos químicos líquidos que não podem
ser desprezados em pias comuns, como, por exemplo, o formol, o glutaraldeído e
outros. Por outro lado, o problema pode ser o desconhecimento das regras ou o fato
de a instituição não fornecer as condições.
É de responsabilidade de todos os participantes da equipe de saúde prevenir e
reduzir os riscos à saúde e ao meio ambiente, assegurados pelo correto gerencia-
mento dos resíduos gerados nos serviços.
A equipe de enfermagem manipula uma grande quantidade de materiais para a
realização da assistência e, consequentemente, gera resíduos, sendo fundamental
que esteja alerta para as questões ambientais nas instituições, mantendo condições
seguras para o desenvolvimento dessa atividade.
Para proceder ao uso e ao descarte, o enfermeiro deve considerar a natureza do
material, o tipo de contato com o paciente (contaminação microbiológica) e a reco-
mendação para o destino. Os subprodutos e os recipientes de envase (almotolias,
frascos) também requerem os mesmos cuidados. Ao desprezar seringas e agulhas,
por exemplo, as agulhas não devem ser reencapadas nem desconectadas da serin-
ga, mas descartadas em caixa impermeável e resistente, específica para material
perfurocortante, cujo preenchimento não deve exceder ¾ de sua capacidade.
Fig. 14.3 Etapas do gerenciamento dos resíduos dos Serviços de Saúde.
Gerenciamento de Recursos Físicos e Ambientais 189
Como inadequação de descarte de substância, FELLI (2003) exemplifica que a
água oxigenada tem sido desprezada diretamente na pia ou vaso sanitário, sem ser
submetida ao tratamento com tiossulfito de sódio obrigatório para a neutralização
da substância oxidante. Em decorrência dos possíveis efeitos dessas substâncias,
situações como essa expõem o ambiente e os profissionais a problemas de saúde.
Os rejeitos radioativos devem ser acondicionados em recipientes adequados, eti-
quetados e mantidos em local seguro até sua liberação para a sala específica de
rejeitos radioativos.
As medidas de segurança não são determinadas pelo enfermeiro, mas ele deve
conhecê-las e reivindicá-las aos responsáveis na instituição, como o Serviço de En-
genharia, Segurança e Medicina do Trabalho, a Comissão Interna de Prevenção de
Acidentes (CIPA) e ao serviço de higiene e limpeza.
Além disso, deve adquirir a capacitação necessária para argumentar sobre a ne-
cessidade e a relevância do gerenciamento de resíduos.
Cabe ainda ao enfermeiro recomendar e dar orientação à equipe de enfermagem
sobre o uso obrigatório de equipamentos de proteção individual. Acidentes de tra-
balho ocorrem, em geral, porque os profissionais não acreditam nos riscos a que
estão expostos, o que significa falta de conhecimento e de preparo.
Assim, a educação é essencial para o gerenciamento adequado de resíduos, e um
programa de capacitação deve ir além dos aspectos técnicos, devendo promover a
sensibilização e conscientização da equipe quanto à observância das normas e aos
riscos e medidas de segurança, a fim de reduzir a ocorrência de acidentes de traba-
lho e a exposição desnecessária a riscos.
n Considerações Finais
Embora o gerenciamento desses recursos não seja frequentemente ensinado nos
cursos de graduação em enfermagem, o enfermeiro tem assumido, nas instituições
de saúde, cada vez mais cargos específicos na área de Higiene Hospitalar e de Ges-
tão de Resíduos. Por ser um profissional de saúde preocupado e compromissado
com o bem-estar coletivo, tem postura educativa adequada a essa finalidade.
Assim, o gerenciamento de recursos físicos e ambientais consiste na observân-
cia às normas; na avaliação criteriosa e constante do ambiente; e na exigência das
condições junto à instituição e aos profissionais no uso de EPI com vistas à quali-
dade assistencial e ocupacional e à segurança do paciente, do profissional e do meio
ambiente.
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190 Gerenciamento de Recursos Físicos e Ambientais
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191
Índice Alfabético
A
Aceitabilidade, qualidade e, 76
Acomodação, e gerenciamento dos
conflitos, 56
Acondicionamento, e resíduos em
serviços de saúde, 186
Acreditação, 79, 80
Acumulações, 47
Adaptação, 95, 150
Adequação, na avaliação de
desempenho, 150
Administração de materiais, 156
Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA), 79, 182
Aliança para o Progresso, 38
Aperfeiçoamento, no planejamento
normativo, 43
Armazenamento, resíduos em
serviços de saúde e, 187
Articulação das ações, no trabalho em
equipe, 111
Árvore explicativa, 47
Ausências não previstas, 131
Ausências previstas
- por feriado, 130
- por férias, 130, 131
- por folga semanal, 129, 130
Autoavaliação, programas de, 79
Avaliação da qualidade nos
serviços de saúde: meios e
instrumentos, 77-81
- categorias, 79, 80
- - acreditação, 79, 80
- - categorização, 79
- - habilitação ou alvará, 79
- - programas de autoavaliação, 79
- critério, 78
- indicador, 78
- instrumento(s)
- - externo, 80
- - internos, 80
- padrão, 78
Avaliação de desempenho
profissional, 146-152
- adaptação, 150
- adequação, 150
- avaliadores, 151
- capacitação, 152
- domínio, 150
- evolução, 150
- implantação, 151
- instrumento, 148
- objetivos, 147
- perfil profissional, 149
- periodicidade, 150
- processo de, 148
- prognosticadores, 149
- - comunicação oral e escrita, 149
- - critérios, 149
- - técnicas e métodos de
avaliação, 149
- resultados, 150
- supervisão, 152
Avaliação de serviços, qualidade em
saúde e a sua interface com a, 75-77
- aceitabilidade, 76
- efetividade, 76
- eficácia, 76
- eficiência, 76
- equidade, 77
- estrutura, 77
- legitimidade, 76
- otimização, 76
- processo, 77
- resultado, 77
- significado de avaliar, 75
Avaliadores, 151
B
Barganha/compromisso, e
gerenciamento dos conflitos, 56
Berwick, Donald, 74
Biossegurança, 184
C
Capacidade de governo, 45
Capacitação, avaliação de
desempenho e, 152
Carga(s)
- biológica, 97
- de trabalho, 97
- física, 98
- fisiológica, 98
- mecânica, 98
- média de trabalho da unidade
de assistência de
enfermagem, 123-128
- - quantidade média diária de
usuários/clientes, 124-126
- - tempo médio diário de cuidado, por
cliente, 126-128
- psíquica, 98, 99
- química, 98
Categorização, 79
Centros de custos, 173, 174
- administrativos, 174
- auxiliares, 174
- produtivos ou finais, 174
Colégio Americano de Cirurgiões, 73
Coleta interna, e resíduos em serviços
de saúde, 187
Conflito(s)
- definições de, 53
- e trabalho em saúde por
equipes, 114
- efeitos
- - negativos, 54
- - positivos, 54, 55
- estilos para lidar com, 59, 60
- - colaborativo, 59
- - contestador, 59
- - da aceitação, 59
- - da retirada, 60
- - do compromisso, 60
- gerenciamento de,
e negociação, 51-61
- - acomodação, 56
- - barganha/compromisso, 56
- - dominação, 56
- - processo de negociação, 57-59
- - - conceitos básicos, 57
- - - estilos, 58, 59
- - - habilidades básicas, 57
- - - planejamento, 57, 58
- - solução integrativa de
problemas, 56
- o que é e como entendê-lo, 51-57
- origens dos, 53, 54
- percepções sobre os, 51-53
- situações de,
nas organizações, 55, 56
- - enfoque gerencial
contemporâneo, 56
- - teoria(s)
- - - clássica e científica, 55
- - - das relações humanas, 55
Construção de uma árvore de
apostas, 48
Consumo médio mensal (CMM), 159
Contabilidade de custos, 172
Contabilidade gerencial, 172
Contaminação microbiológica, 188
Contexto do gerenciamento em
enfermagem, ética e o, 19-21
Contextualizando o trabalho em
saúde, 109, 110
- dinâmica de divisão do
trabalho, 109, 110
- trabalho
- - como um processo de
transformação, 109
- - morto, 109
192 Índice Alfabético
- - vivo, 109
Controle da qualidade, 72
Cooperativa de trabalho, 5
Correntes, de tomada de decisão ética
- deontológica, 15
- teleológica, 15
Critério, avaliação da qualidade e, 78
Cultura e poder nas organizações de
saúde, 17, 23-33
- análise, 28
- conhecimento sobre, 25-27
Curva ABC, e administração de
materiais, 160
Custo(s), 173
- cálculo da variação dos, 176
- contabilidade de, 172
- diretos, 173
- e despesas, 172, 173
- indiretos, 173
- planilhas de, 174, 175
Custo-padrão, 177
D
Deming, Edwards, 73
Desenvolvimento, no planejamento
normativo, 43
Determinação dos objetivos, no
planejamento normativo, 42
Diagnóstico, no planejamento
normativo, 40, 41
Dimensão
- grupal, 118
- individual, 118
- institucional, 118
Dimensionamento de pessoal de
enfermagem em instituições de
saúde, 121-134
- aplicação da equação para, 132, 133
- método, 122-133
- - ausências não previstas, 131, 132
- - ausências previstas
- - - por feriado, 130
- - - por férias, 130, 131
- - - por folga semanal, 129, 130
- - carga média de trabalho da
unidade, 123-128
- - distribuição percentual dos
profissionais de
enfermagem, 128
- - etapas, 123
- - índice de segurança
técnica, 129-132
- - quantidade média diária de
usuários/clientes, 124-126
- - tempo efetivo de trabalho, 132
- - tempo médio diário de cuidado,
por cliente, 126-128
- Resolução COFEN n.º 189/96, 124
- Resolução COFEN n.º 293/04,
124, 126
- tempo de assistência
- - por porte cirúrgico, 127
- - por tipo de atendimento, 127, 128
Disposição ou destinação final, de
resíduos em serviços de
saúde, 187
Distribuição percentual dos
profissionais de enfermagem, 128
Dominação, e gerenciamento dos
conflitos, 56
Domínio, na avaliação de
desempenho, 150
Donabedian, Avedis, 74
E
Educação continuada, 137-152
- avaliação de desempenho
profissional, 146-152
- - capacitação, 152
- - instrumento, 148
- - objetivos, 147
- - perfil profissional, 149
- - processo de, 148
- - prognosticadores, 149
- - programas de TD, 152
- - supervisão, 152
- finalidade, 139
- recrutamento e seleção de pessoal
de enfermagem, 139-143
- - critérios, 141, 142
- - ponto inicial, 141
- treinamento e desenvolvimento,
143-146
- - aprovação do programa, 145
- - avaliação
- - - do programa, 145
- - - dos custos, 146
- - - dos resultados, 145
- - elaboração do programa, 145
- - levantamento de necessidades, 144
- - planejamento, 143
- - - fases do, 144
Efeitos, dos conflitos
- negativos, 54
- positivos, 54, 55
Efetividade, qualidade e, 76
Eficácia, qualidade e, 76
Eficiência, qualidade e, 76
Elaboração do programa, no
treinamento e desenvolvimento, 145
Enfermagem
- distribuição percentual dos
profissionais de, 128
- ética e gerenciamento em, 13-22
- - e a responsabilidade, 18, 19
- - e o contexto, 19-21
- - fatores que interferem nas
tomadas de decisões éticas na
organização, 16-18
- - - cultura organizacional, 17
- - - fatores individuais, 17
- - - gravidade da questão ética, 16
- - - oportunidade, 18
- - - terceiros significativos, 18
- - fundamentos para as tomadas de
decisões éticas, 14-16
- - - teorias, 15, 16
- expansão dos gastos em saúde
e a, 169-171
- gerenciamento de custos nos
serviços de, 169-179
- método para dimensionar o
pessoal de, 122-133
- qualidade de vida no trabalho
de, 88-94
- - abordagem tradicional, 89
- - historicidade, 93
- - perfil
- - - destrutivo, 94
- - - favorável, 93
- qualidade de vida no trabalho e a
saúde do trabalhador de, 85-101
- recrutamento e seleção de pessoal
de, 139-143
- sistema de informação na área
da, 67-69
- - benefício, 68
- - consequência, 68
- - definição, 68
- - participação dos enfermeiros, 69
- - propósito fundamental, 68
- trabalho gerencial em, 1-11
- - atividades, 3, 10
- - cooperativas, 5
- - determinantes, 3-5
- - dimensão
- - - comunicativa, 10
- - - do desenvolvimento da
cidadania, 10
- - - política, 10
- - - técnica, 10
- - direções, 4
- - finalidade imediata, 9
- - gerência como processo de
trabalho: conceitos e
dimensões, 5-11
- - instrumentos, 3
- - meio, 3
- - modelo
- - - histórico-social, 8
- - - racional, 7
- - na prestação de serviços de
saúde, 1-3
- - objeto de trabalho, 2, 10
- - processo de, 9
Equação para dimensionar o pessoal
de enfermagem, aplicação, 132, 133
Equidade, 77
Equipe(s)
- agrupamento, 110, 115
- coesão da, 113
- de enfermagem, 105-109
- gerenciamento da, e do processo
grupal, 113-119
- - dimensão
- - - grupal, 118
- - - individual, 118
- - - institucional, 118
- - formação por competências, 116
- - processo de autoanálise do
grupo, 115
- - resistências ao trabalho em
equipe, 117
- integração, 110, 115
- organização do trabalho em saúde
por, 110-113
- - articulação das ações, 111
- - autonomia profissional, 112
- - flexibilização da divisão do
trabalho, 112
- - interação dos agentes, 111
- - questionamentos sobre as
desigualdades entre os
trabalhadores, 112
- trabalho em, 105
- - e processo grupal, 105-119
Escola das Relações Humanas, 106
Especificação, e gerenciamento de
recursos materiais, 158
Estabelecimento
- de Assistência à Saúde
(EAS), 182, 183
- de prioridades, no planejamento
normativo, 42
- do plano operacional, no
planejamento normativo, 43
Estilos
- de negociação, 58, 59
- - amigável, 59
- - ardiloso, 58, 59
- - confrontador, 59
Índice Alfabético 193
- - restritivo/duro, 58
- para lidar com conflitos, 59, 60
- - colaborativo, 59
- - contestador, 59
- - da aceitação, 59
- - da retirada, 60
- - do compromisso, 60
Estoque de segurança (ES), 159, 161
Estrutura, e qualidade da
assistência, 77
Ética e gerenciamento em
enfermagem, 13-22
- corrente
- - deontológica, 15
- - teleológica, 15
- e a responsabilidade, 18, 19
- e o contexto, 19-21
- fatores que interferem nas
tomadas de decisões éticas
na organização, 16-18
- - cultura organizacional, 17
- - fatores individuais, 17
- - gravidade da questão ética, 16
- - oportunidade, 18
- - terceiros significativos, 18
- fundamentos para as tomadas de
decisões éticas, 14-16
- - teoria
- - - contratualista, 16
- - - kantiana, 15, 16
- - - relativista, 16
- - - utilitarista, 15
Evolução, na avaliação de
desempenho, 150
Expansão dos gastos em saúde e a
enfermagem, 169-171
F
Fluxos, 47
Força de trabalho, 3
G
Garantia da qualidade, 72
Gerenciamento
- da equipe e do processo
grupal, 113-119
- - dimensão
- - - grupal, 118
- - - individual, 118
- - - institucional, 118
- - formação por competências, 116
- - resistências ao trabalho em
equipe, 117
- de conflitos e negociação, 51-61
- de custos nos serviços de
enfermagem, 169-179
- - expansão dos gastos em saúde e a
enfermagem, 169-171
- de recursos ambientais, 184
- - biossegurança e, 184
- - objetivo, 184
- de recursos físicos, 182-184
- - etapas, 182
- - papel do enfermeiro, 182
- de recursos materiais, 155-167
- - em organizações de saúde,
processo de, 156-166
- - - armazenamento, 165
- - - classificações, 158
- - - compras, 162
- - - consumo médio mensal
(CMM), 159
- - - controle de qualidade, 162
- - - curva ABC, 160
- - - distribuição, 165
- - - especificação, 158
- - - estoque de segurança
(ES), 159, 161
- - - fluxo das principais atividades
do gerenciamento da cadeia
logística, 157
- - - fluxo simplificado do processo
licitatório, 163
- - - padronização, 158
- - - previsão, 158
- - - procedimento de licitação, 163
- - - programação, 157
- - - recepção, 165
- - - tempo de reposição, 160
- - importância e o objetivo, 155, 156
- - papel do enfermeiro, 166
- dos conflitos, 56, 57
- - acomodação, 56
- - barganha/compromisso, 56
- - dominação, 56
- - solução integrativa de
problemas, 56
- dos resíduos dos serviços de
saúde, 184-189
- - acondicionamento, 186
- - armazenamento, 187
- - coleta II, 187
- - coleta interna, 187
- - dificuldade, 187
- - disposição ou destinação final, 187
- - fluxo dos resíduos nos serviços de
saúde, 185
- - normas, 184, 185
- - segregação, 186
- - símbolo de risco, 186
- - transporte, 187
- - tratamento, 187
Globalização, 88
Governabilidade, 45
Gravidade da questão ética, 16
Grupo Nacional de Estudos de
Sistema de Informação em
Enfermagem, 68
H
Habilitação ou alvará, 79
Health Related Quality of Life
(HRQL), 87
I
Implantação, da avaliação de
desempenho, 151
Indicador, avaliação da qualidade e, 78
Índice
- de Condições de Vida (ICV), 87
- de Desenvolvimento Humano
(IDH), 87
- de rotatividade de seleção (IRS), 142
- de Satisfação no Trabalho, 87
- de segurança técnica (IST), 129-132
- - ausências não previstas, 131, 132
- - ausências previstas
- - - por feriado, 130
- - - por férias, 130, 131
- - - por folga semanal, 129, 130
Inspeção, e conceito de qualidade, 72
Instituições de saúde,
dimensionamento de pessoal de
enfermagem em, 121-133
- aplicação da equação para, 132, 133
- método, 122-133
- - ausências não previstas, 131, 132
- - ausências previstas
- - - por feriado, 130
- - - por férias, 130, 131
- - - por folga semanal, 129, 130
- - carga média de trabalho da
unidade, 123-128
- - distribuição percentual
dos profissionais de
enfermagem, 128
- - etapas, 123
- - índice de segurança técnica
(IST), 129-132
- - quantidade média diária de
usuários/clientes, 124-126
- - tempo efetivo de trabalho, 132
- - tempo médio diário de cuidado, por
cliente, 126-128
- Resolução COFEN n.º 293/04,
126, 129
- tempo de assistência
- - por porte cirúrgico, 127
- - por tipo de atendimento, 127, 128
Instrumento de Medida de Qualidade
de Vida no Trabalho, 87
Instrumento, na avaliação de
desempenho profissional, 148
- elementos para construção, 148
Interação dos agentes, no trabalho em
equipe, 111
International Standards Organization
(ISO), 74
J
Joint Commission on Accreditation
of Healthcare Organization –
JCAHO, 74
Joint Commission on Accreditation
of Hospitals (JCAH), 74
Juran, J. M., 73
Juran, Trilogia de, 74
L
Legitimidade, qualidade e, 76
Levantamento de necessidades,
no treinamento e
desenvolvimento, 144
Licitação, 162
- fluxo simplificado do processo
de, 163
- modalidades de, 163, 164
- - concorrência, 164
- - concurso, 164
- - convite, 163
- - leilão, 164
- - pregão, 164
- - Sistema de Registro de Preços, 164
- - tomada de preço, 164
Logística, conceito de, 156
M
Manual Brasileiro de Acreditação
Hospitalar, 80
Método
- CENDES/OPS, 39, 40
- - etapas, 39
- de ação governamental, 37
- para dimensionar o pessoal de
enfermagem, 122-133
194 Índice Alfabético
Momentos, no planejamento
estratégico situacional (PES), 45
- estratégico, 48
- explicativo, 46-48
- - fora do jogo, 47
- - governabilidade, 47
- - influência, 47
- normativo, 48
- tático-operacional, 48-50
N
Negociação, processo de, 57-59
- conceitos básicos, 57
- estilos, 58, 59
- - amigável, 59
- - ardiloso, 58, 59
- - confrontador, 59
- - restritivo/duro, 58
- habilidades básicas, 57
- planejamento, 57, 58
Nexo biopsíquico humano, 95
Nightingale, Florence, 73
Nó explicativo, 47
Normas, no manejo dos resíduos dos
serviços de saúde, 184, 185
O
Oportunidade, e conduta ética, 18
Orçamento, 172
Organização(ões)
- de saúde, 16
- - análise da cultura e do poder
nas, 28
- - fatores que interferem nas tomadas
de decisões na, 16-18
- - - cultura organizacional, 17
- - - fatores individuais, 17
- - - gravidade da questão ética, 16
- - - oportunidade, 18
- - - terceiros significativos, 18
- - missão das, 28
- do trabalho em saúde por
equipes, 110-113
- - articulação das ações, 111
- - - comunicação de mão única, 111
- - autonomia profissional, 112
- - equipe
- - - agrupamento, 110
- - - integração, 110
- - flexibilização da divisão do
trabalho, 112
- - interação dos agentes, 111
- - questionamentos sobre as
desigualdades entre os
trabalhadores, 112
- Pan-Americana de Saúde (OPS), 39
- poder nas, 27, 28
Origens dos conflitos, 53, 54
Otimização, e qualidade, 76
P
Padrão, avaliação da qualidade e, 78
Padronização, de materiais, 158
Papel do enfermeiro, no
gerenciamento de recursos
materiais, 166
Percepções sobre os conflitos, 51-53
Perfil
- destrutivo, 94
- favorável, 93
- patológico, 97
- profissional, 141, 149
Periodicidade, na avaliação de
desempenho, 150
Planejamento, 36
- como impulsionador de práticas
sociais transformadoras, 37
- como instrumento/atividade
dos processos de gestão das
organizações, 37
- como método de ação
governamental, 37
- e o processo decisório como
instrumentos do processo de
trabalho gerencial, 35
- estratégico situacional (PES), 44-46
- - metodologias, 49
- - modelo de fluxograma
situacional, 47
- - momento
- - - estratégico, 48
- - - explicativo, 46-48
- - - normativo, 48
- - - tático-operacional, 48-50
- - principais características do, 49
- - Triângulo de Governo no, 45
- no treinamento e
desenvolvimento, 143
- normativo ou tradicional, 38, 39
- - fases do, 40-43
- - - aperfeiçoamento, 43
- - - desenvolvimento, 43
- - - determinação dos objetivos, 42
- - - diagnóstico: conhecimento do
sistema como um todo, 40, 41
- - - estabelecimento de
prioridades, 42
- - - estabelecimento do plano
operacional, 43
- - - seleção dos recursos
disponíveis, 42
- - principais características do, 43
Plano de Gerenciamento de Resíduos
de Serviços de Saúde (PGRSS), 184
Poder
- administrativo, 44
- cultura e o, nas organizações de
saúde, 23-33
- econômico, 44
- nas organizações, 27, 28
- nas relações multiprofissionais, 31-33
- político, 44
- técnico, 44
Prêmio Nacional da Qualidade, 78
Prevenção, e conceito de qualidade, 72
Previsão, de materiais, 158
Princípio da legalidade, 162
Problema, 44
Processo(s)
- de desgaste, 97
- de negociação, 57-59
- - conceitos básicos, 57
- - estilos, 58, 59
- - - amigável, 59
- - - ardiloso, 58, 59
- - - confrontador, 59
- - - restritivo/duro, 58
- - habilidades básicas, 57
- - planejamento, 57, 58
- de trabalho, 96
- - gerencial em enfermagem, 9
- de valorização, 96
- e conceito de qualidade, 72
- e qualidade da assistência, 77
- grupal, trabalho em equipe e, 105-119
Produtividade, 171
Produto, e conceito de qualidade, 72
PROFAE, 110
Prognosticadores, 149
Programa Brasileiro de Qualidade e
Produtividade (PBQP), 78
Programa de Compromisso com a
Qualidade Hospitalar (CQH), 78
Programação, no gerenciamento de
recursos materiais, 157
Projeto
- de governo, 45
- de Profissionalização dos
Trabalhadores da Área de
Enfermagem (PROFAE), 110
Q
Qualidade
- aceitabilidade da, 76
- avaliação da, nos serviços de saúde:
meios e instrumentos, 77-81
- - categorias, 79, 80
- - - acreditação, 79, 80
- - - categorização, 79
- - - habilitação ou alvará, 79
- - - programas de autoavaliação, 79
- - critério, 78
- - indicador, 78
- - instrumento(s)
- - - externo, 80
- - - internos, 80
- - padrão, 78
- conceito de, 72
- - sinopse da evolução do, 73
- controle da, 72
- da assistência, 75
- de Vida (QV), 85
- - Ligada à Saúde (QVLS), 87
- - no Trabalho (QVT), 85
- - - concepções acerca da qualidade de
vida e sua interface com a, 85-88
- - - e a saúde do trabalhador de
enfermagem, 85-101
- - - estudos sobre, 90-92
- efetividade da, 76
- eficácia da, 76
- eficiência da, 76
- em saúde
- - e a sua interface com a avaliação
de serviços, 75-77
- - - estrutura, 77
- - - processo, 77
- - - resultado, 77
- - - significado de avaliar, 75
- - retrospectiva histórica, 73, 74
- equidade da, 77
- garantia da, 72
- inspeção e, 72
- legitimidade da, 76
- otimização da, 76
- prevenção e, 72
- processo e, 72
- produto e, 72
- Total, 72
Quality-Adjusted Life-Years
(QALY), 87
Questionário de Medida da Satisfação
no Trabalho, 87
R
Recrutamento e seleção de pessoal de
enfermagem, 139-143
Índice Alfabético 195
- critérios, 141
- índice de rotatividade de seleção
(IRS), 142
- ponto inicial, 141
Recursos ambientais, gerenciamento
de, 184
- medidas de biossegurança e, 184
- objetivo, 184
Recursos físicos, gerenciamento
de, 182-184
- etapas, 182
- objetivo, 182
- papel do enfermeiro, 182
Recursos humanos, 6
Recursos materiais, gerenciamento
de, 155-166
- em organizações de saúde,
processo de, 156-166
- - armazenamento, 165
- - classificação XYZ, 161
- - compras, 162
- - consumo médio mensal
(CMM), 159
- - controle de qualidade, 162
- - curva ABC, 160
- - distribuição, 165
- - especificação, 158
- - estoque de segurança
(ES), 159, 161
- - fluxo das principais atividades
do gerenciamento da cadeia
logística, 157
- - licitação, 162
- - - critério para, 164
- - - fluxo simplificado do processo
de, 163
- - - modalidades de, 163, 164
- - - pregão, 164
- - - Sistema de Registro de
Preços, 164
- - padronização, 158
- - previsão, 158
- - programação, 157
- - recepção, 165
- - tempo de reposição, 160, 161
- importância e o objetivo, 155, 156
- papel do enfermeiro, 166
Regras, 47
Relação trabalho-saúde, 96
Relações multiprofissionais, poder
nas, 31-33
Resíduos dos serviços de saúde,
gerenciamento dos, 184-189
- dificuldade, 187
- etapas, 186-188
- - acondicionamento, 186
- - armazenamento, 187
- - coleta II, 187
- - coleta interna, 187
- - disposição ou destinação
final, 187
- - segregação, 186
- - tratamento, 187
- fluxo dos resíduos nos serviços de
saúde, 185
- normas, 184, 185
- transporte, 187
Resolução Diretoria Colegiada 50
(RDC 50), 182, 183
Responsabilidade, ética no
gerenciamento e a, 18, 19
Resultado(s)
- e qualidade da assistência, 77
- na avaliação de desempenho, 150
S
Saúde ambiental, 181
Saúde, contextualizando o trabalho
em, 109, 110
- dinâmica de divisão do
trabalho, 109, 110
- trabalho
- - como um processo de
transformação, 109
- - morto, 109
- - vivo, 109
Saúde dos trabalhadores de
enfermagem, 95-100
- adaptação, 95
- carga(s)
- - biológica, 97
- - de trabalho, 97
- - física, 98
- - fisiológica, 98
- - mecânica, 98
- - psíquica, 98, 99
- - química, 98
- meios e instrumentos, 97
- nexo biopsíquico humano, 95
- organização/divisão, 97
- perfil patológico, 97
- processo(s)
- - de desgaste, 97
- - de trabalho, 96
- - de valorização, 96
Saúde, qualidade em, 73-77
- e a sua interface com a avaliação
de serviços, 75-77
- - aceitabilidade, 76
- - efetividade, 76
- - eficácia, 76
- - eficiência, 76
- - equidade, 77
- - estrutura, 77
- - legitimidade, 76
- - otimização, 76
- - processo, 77
- - resultado, 77
- - significado de avaliar, 75
- retrospectiva histórica, 73, 74
Saúde, sistemas de informação
em, 63-69
- benefício, 68
- cultura organizacional e, 64
- dinâmica política, 64
- finalidade, 66
- na área da enfermagem, 67-69
- participação dos enfermeiros, 69
- princípios, 65
- propósito fundamental, 68
- razões principais de
inadequações, 65, 66
Segregação, resíduos em serviços de
saúde e, 186
Seiketsu, 79
Seiri, 79
Seiso, 79
Seiton, 79
Seleção dos recursos disponíveis, no
planejamento normativo, 42
Serviços de saúde, avaliação da
qualidade nos, 77-81
- acreditação, 79, 80
- categorização, 79
- critério, 78
- habilitação ou alvará, 79
- indicador, 78
- instrumento(s)
- - externo, 80
- - internos, 80
- padrão, 78
- programas de autoavaliação, 79
Shewhart, Walter, 73
Shitsuke, 79
Sistema(s), 40
- de Classificação de Pacientes (SCP),
124, 178
- de custeio, 173-178
- - por absorção, 173, 174, 176
- - por atividade, 177
- de Indicadores Padronizados para a
Gestão Hospitalar, 78
- de informação em saúde, 63-69
- - dimensão política, 64
- - e cultura organizacional, 64
- - finalidade, 66
- - na área da enfermagem, 67-69
- - para a OMS, 65
- - princípios, 65
- - processo de informatização e, 66
- - razões das inadequações do, 65, 66
- de Informações de Mortalidade, 67
- de Pagamento das Internações
Hospitalares, 67
- de Registro de Preços, 164
- Único de Saúde, 65
Situações de conflito nas
organizações: como trabalhar com
elas?, 55, 56
- enfoque gerencial
contemporâneo, 56
- teoria(s)
- - clássica e científica, 55
- - das relações humanas, 55
Solução integrativa de problemas, e
gerenciamento dos conflitos, 56
Supervisão, na avaliação de
desempenho, 152
Suprimento, 156
T
Tempo
- de assistência
- - por porte cirúrgico, em Centro
Cirúrgico, 127
- - por tipo de atendimento –
Ambulatório, 128
- - por tipo de atendimento, PS
especializado em cardiologia, 127
- efetivo de trabalho, 132
Teoria(s)
- da Multicausalidade, 39
- das Relações Humanas, 52
- de Sistemas, 40
- Geral da Administração – TGA, 7
- na formação dos preceitos
éticos, 15, 16
- - contratualista, 16
- - kantiana, 15, 16
- - relativista, 16
- - utilitarista, 15
Terceiros significativos, nas
tomadas de decisões éticas na
organização, 18
TISS-28 (Therapeutic Intervention
Scoring System), 178
Trabalhadores de enfermagem,
saúde dos, 95-100
- adaptação, 95
- carga(s)
- - biológica, 97
196 Índice Alfabético
- - de trabalho, 97
- - física, 98
- - fisiológica, 98
- - mecânica, 98
- - psíquica, 98, 99
- - química, 98
- nexo biopsíquico humano, 95
- perfil patológico, 97
- processo(s)
- - de desgaste, 97
- - de trabalho, 96
- - de valorização, 96
Trabalho, 95
- coletivo, 2
- em equipe, 105
- - multiprofissional, 105-109
- gerencial em enfermagem, 1-11
- - atividades, 3, 10
- - cooperativas, 5
- - determinantes, 3-5
- - dimensão
- - - comunicativa, 10
- - - do desenvolvimento da
cidadania, 10
- - - política, 10
- - - técnica, 10
- - gerência como processo de
trabalho: conceitos e
dimensões, 5-11
- - meios e instrumentos, 3, 10
- - modelo
- - - histórico-social, 8
- - - racional, 7
- - na prestação de serviços de
saúde, 1-3
- - objeto de trabalho, 2, 10
- - processo de, 9
- - recursos humanos, 6
- gerencial, planejamento e processo
decisório como instrumentos
do, 35-50
- - método CENDES/OPS, 39-44
- - - etapas, 39
- - momento
- - - estratégico, 48
- - - explicativo, 46-48
- - - normativo, 48
- - - tático-operacional, 48-50
- - planejamento estratégico
situacional, 44-46
- - - momentos do, 45, 46
- - - principais características do, 49
- - - triângulo de governo no, 45
- - planejamento normativo ou
tradicional, 38, 39
- - - aperfeiçoamento, 43, 44
- - - desenvolvimento, 43
- - - determinação dos objetivos, 42
- - - diagnóstico: conhecimento do
sistema como um todo, 40, 41
- - - estabelecimento de
prioridades, 42
- - - estabelecimento do plano
operacional, 43
- - - principais características, 43
- - - seleção dos recursos
disponíveis, 42
- - visão da sociedade segundo o
modelo sociotécnico, 41
- qualidade de vida no (QVT), 85
Tratamento, de resíduos em serviços
de saúde, 187
Treinamento e desenvolvimento,
143-146
- avaliação dos custos, 146
- avaliação dos resultados, 145
- levantamento de necessidades, 144
- planejamento, 143
- programa
- - aprovação do, 145
- - avaliação do, 145
- - elaboração do, 145
- relatórios, 146
Triângulo de Governo no
planejamento estratégico
situacional (PES), 45
Trilogia de Juran, 74
W
World Health Organization Quality of
Life (WHOQOL), 87
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http://www.editorasantuario.com.br - Aparecida-SP

Gerenciamento_em_Enfermagem.pdf

  • 2.
  • 4.
    Gerenciamento em Enfermagem Coordenadora Paulina Kurcgant Autoras DaisyMaria Rizatto Tronchin Fernanda Maria Togeiro Fugulin Heloisa Helena Ciqueto Peres Maria Cristina Komatsu Braga Massarollo Maria de Fátima Prado Fernandes Maria Helena Trench Ciampone Maria Madalena Januário Leite Marina Peduzzi Marta Maria Melleiro Paulina Kurcgant Raquel Rapone Gaidzinski Regina Toshie Takahashi Valéria Castilho Vanda Elisa Andres Felli Vera Lucia Mira Gonçalves 2- ª Edição
  • 5.
    CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NAFONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ G317 2.ed. Gerenciamento em enfermagem / coordenadora Paulina Kurcgant ; autoras Daisy Maria Rizatto Tronchin... [et al.]. – 2.ed. – Rio de Janeiro : Guanabara Koogan, 2010. il. Inclui bibliografia ISBN 978-85-277-1644-4 1. Serviços de enfermagem – Administração. 2. Administradores de enfermagem. I. Kurcgant, Paulina. II. Tronchin, Daisy Maria Rizatto. 10-0369. CDD: 362.173068 CDU: 616-083:005 28.01.10 01.02.10 017322 As autoras deste livro e a EDITORA GUANABARA KOOGAN LTDA. empenharam seus melhores esforços para assegurar que as informações e os procedimentos apresentados no texto estejam em acordo com os padrões aceitos à época da publicação, e todos os dados foram atualizados pelas autoras até a data da entrega dos originais à editora. Entretanto, tendo em conta a evolução das ciências da saúde, as mudanças regulamentares governamentais e o constante fluxo de novas informações sobre terapêutica medicamentosa e reações adversas a fármacos, recomendamos enfaticamente que os leitores consultem sempre outras fontes fidedignas, de modo a se certificarem de que as informações contidas neste livro estão corretas e de que não houve alterações nas dosagens recomendadas ou na legislação regulamentadora. As autoras e a editora empenharam-se para citar adequadamente e dar o devido crédito a todos os detentores dos direitos autorais de qualquer material utilizado neste livro, dispondo-se a possíveis acertos caso, inadvertidamente, a identificação de algum deles tenha sido omitida. Direitos exclusivos para a língua portuguesa Copyright © 2010 by EDITORA GUANABARA KOOGAN LTDA. Uma editora integrante do GEN | Grupo Editorial Nacional Reservados todos os direitos. É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação, fotocópia, distribuição na internet ou outros), sem permissão expressa da Editora. Travessa do Ouvidor, 11 Rio de Janeiro, RJ — CEP 20040-040 Tel.: 21–3543-0770 / 11–5080-0770 Fax: 21–3543-0896 gbk@grupogen.com.br www.editoraguanabara.com.br Editoração Eletrônica: EDEL
  • 6.
    Daisy Maria RizattoTronchin Professor-Doutor Fernanda Maria Togeiro Fugulin Professor-Doutor Heloisa Helena Ciqueto Peres Livre-Docente Maria Cristina Komatsu Braga Massarollo Livre-Docente Maria de Fátima Prado Fernandes Professor-Doutor Maria Helena Trench Ciampone Professor Titular Maria Madalena Januário Leite Livre-Docente Marina Peduzzi Livre-Docente Marta Maria Melleiro Professor-Doutor Paulina Kurcgant Professor Titular Raquel Rapone Gaidzinski Professor Titular Regina Toshie Takahashi Livre-Docente Valéria Castilho Livre-Docente Vanda Elisa Andres Felli Livre-Docente Vera Lucia Mira Gonçalves Professor-Doutor
  • 8.
    É prazeroso tera oportunidade de prefaciar a segunda edição de um livro, porque isso significa que a obra foi bem avaliada e aceita pelos leitores na sua primeira edição. A proposta das autoras, docentes do Departamento de Orientação Profissional da Escola de Enfermagem da USP , na área de Administração em Saúde e em Enfer- magem, era, já na primeira edição, oportunizar aos leitores momentos de reflexão sobre a prática que vivenciam. Esta proposta mantém-se na atual edição, pois as autoras acreditam que a reflexão e a troca de conhecimentos e de diferentes pontos de vista oferecem ao interlocutor a possibilidade de perceber novas alternativas e a escolha de melhores assertivas nas suas decisões profissionais. Nesta segunda edição, as autoras contribuem com seus conhecimentos e vivên- cias, agora repaginados nos últimos cinco anos, que integram o cotidiano de seus trabalhos nas atividades de ensino, pesquisa e de extensão à comunidade. Buscam oferecer ao leitor informações sobre os conteúdos que integram a prática gerencial com o objetivo de subsidiar a reflexão e a autonomia do enfermeiro na prática desse processo de trabalho. Com essa finalidade são tratados temas referentes ao objeto, instrumentos, meios e saberes próprios do processo de trabalho gerencial. Na dimensão estrutural das instituições de saúde são trabalhados temas como ética, cultura e poder organizacional; conflito e negociação; processo decisório; sistema de informação e qualidade em saúde e avaliação de serviços. O gerenciamento de recursos humanos é analisado pela ótica da qualidade de vida do trabalhador; do trabalho em equipe; do dimensionamento de pessoal de enfermagem; e do recrutamento, seleção, educação permanente e avaliação de desempenho profissional. Os recursos materiais, físicos e ambientais, bem como o gerenciamento de cus- tos nos serviços de enfermagem, são tratados, como os demais temas, com o hori- zonte de oportunizar ao enfermeiro conhecimentos para o desenvolvimento de competências técnico-científicas. O relato de experiências e as reflexões sobre o uso desses conhecimentos obje- tivam o desenvolvimento de competências ético-políticas e socioeducativas que instrumentalizam o enfermeiro para decisões e ações gerenciais, em âmbito local, como resultantes de uma análise contextual da saúde. Paulina Kurcgant PREFÁCIO
  • 10.
    1 O TrabalhoGerencial em Enfermagem, 1 Vanda Elisa Andres Felli Marina Peduzzi 2 Ética e Gerenciamento em Enfermagem, 13 Maria Cristina Komatsu Braga Massarollo Maria de Fátima Prado Fernandes 3 Cultura e Poder nas Organizações de Saúde, 23 Paulina Kurcgant Maria Cristina Komatsu Braga Massarollo 4 O Planejamento e o Processo Decisório como Instrumentos do Processo de Trabalho Gerencial, 35 Maria Helena Trench Ciampone Marta Maria Melleiro 5 Gerenciamento de Conflitos e Negociação, 51 Maria Helena Trench Ciampone Paulina Kurcgant 6 Sistemas de Informação em Saúde, 63 Heloisa Helena Ciqueto Peres Maria Madalena Januário Leite 7 A Qualidade e a Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem, 71 Daisy Maria Rizatto Tronchin Marta Maria Melleiro Regina Toshie Takahashi 8 A Qualidade de Vida no Trabalho e a Saúde do Trabalhador de Enfermagem, 85 Vanda Elisa Andres Felli Daisy Maria Rizatto Tronchin 9 Trabalho em Equipe e Processo Grupal, 105 Marina Peduzzi Maria Helena Trench Ciampone 10 Dimensionamento de Pessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde, 121 Fernanda Maria Togeiro Fugulin Raquel Rapone Gaidzinski Valéria Castilho CONTEÚDO
  • 11.
    x Conteúdo 11 EducaçãoContinuada: Recrutamento e Seleção, Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional, 137 Heloisa Helena Ciqueto Peres Maria Madalena Januário Leite Vera Lucia Mira Gonçalves 12 Gerenciamento de Recursos Materiais, 155 Valéria Castilho Vera Lucia Mira Gonçalves 13 Gerenciamento de Custos nos Serviços de Enfermagem, 169 Valéria Castilho Fernanda Maria Togeiro Fugulin Raquel Rapone Gaidzinski 14 Gerenciamento de Recursos Físicos e Ambientais, 181 Regina Toshie Takahashi Vera Lucia Mira Gonçalves Vanda Elisa Andres Felli Índice Alfabético, 191
  • 12.
  • 14.
    O Trabalho Gerencial emEnfermagem VANDA ELISA ANDRES FELLI E MARINA PEDUZZI 1 1 n A Inserção do Trabalho de Enfermagem na Prestação de Serviços de Saúde O trabalho de enfermagem entendido como prática social e, portanto, articulado a outras práticas, como a da saúde, educação, produção de medicamentos, equipa- mentos, é efetivado na sociedade por meio do trabalho. O trabalho constitui mediação entre o homem e a natureza, caracterizando-se como processo de transformação requerida por necessidades humanas que, na área de enfermagem, são especificamente necessidades de saúde (MARX, 1994; MEN- DES-GONÇALVES, 1992, 1994). Assim sendo, o trabalho é concebido como atividade essencialmente humana, de cunho eminentemente social, que é orientada por uma finalidade que dá ao ho- mem a potencialidade de, conscientemente, transformar a natureza e ser por ela transformado, exercendo a sua criatividade (MARX, 1982). É atividade resultante do dispêndio de energia física e mental, direta ou indiretamente voltada à produção de bens e serviços, que contribui para a reprodução da vida humana, individual e social (LIEDKE, 1997). O trabalho de enfermagem, assim como o trabalho em saúde, integra a prestação de serviços à saúde, como parte do setor terciário da economia brasileira, e, portan- to, tem características distintas do trabalho agrícola ou industrial.
  • 15.
    2 OTrabalho Gerencialem Enfermagem O trabalho de saúde e o de enfermagem não produzem bens a serem estocados e comercializados e, sim, serviços que são consumidos no ato de sua produção, isto é, no momento da assistência, seja ela coletiva, grupal ou individual. No entan- to, diferenciam-se de outros trabalhos do mesmo setor terciário de prestação de serviços na medida em que lidam com um objeto humano, como os usuários, in- dividualmente, os grupos sociais e populações, que trazem aos serviços de saúde demandas relacionadas ao processo saúde-doença, expressas como necessidades ou problemas de saúde. Nessa concepção, o trabalho constitui um processo. Para a análise e compreen- são do processo de trabalho, este pode ser decomposto em três elementos: (a) o objeto do trabalho, aquilo sobre o que incide a atividade e que será transformado no decorrer do processo, constituindo-se em produto; (b) os meios e instrumentos do trabalho; e (c) a atividade adequada a um fim, o trabalho propriamente dito, que se organiza de uma forma específica (MARX, 1994). Vale destacar que tanto os objetos como os instrumentos de trabalho não são naturais, não existem por si sós na natureza, mas constituem-se como tais num processo histórico-social (MENDES-GONÇALVES, 1992). Nesse sentido, a aborda- gem do trabalho permite compreender as atividades realizadas pelos profissionais de saúde e de enfermagem, não apenas como fruto do progresso técnico-científico, mas também como intervenções que expressam uma dada concepção do processo saúde-doença, bem como a dinâmica social e de organização dos serviços. Na atualidade, a transformação do objeto de trabalho em saúde e enfermagem pode se dar tanto na perspectiva da promoção como da prevenção e/ou recuperação da saúde. Nesse sentido, saúde não é apenas ausência de doenças, mas qualidade de vida e emancipação dos sujeitos – usuários e trabalhadores. O trabalhador de saúde e de enfermagem lida, no cotidiano, com grandes pa- radoxos, como a vida e a morte, a dor e o prazer (MERHY, 1997), existindo, nesse processo assistencial, inclusive a possibilidade de o trabalhador perder o seu objeto de trabalho pela morte, o que marca uma especificidade importante. Considerada essa natureza humana do objeto de trabalho a ser transformado, entende-se que se trata de um trabalho que demanda uma relação humana intensa, ou seja, ao qual é intrínseca a inter-relação e o vínculo. Assim, o trabalho de enfermagem e o trabalho em saúde configuram-se, simultaneamente, como ação produtiva e interação social (SCHRAIBER et al., 1999). Enquanto trabalho coletivo, as ações de enfermagem são executadas em conjunto com outros trabalhos realizados por distintos agentes da equipe multiprofissional de saúde, ou seja, médico, nutricionista, terapeuta ocupacional, psicólogo, outros. Esse trabalho realizado em equipe, que consiste em uma modalidade peculiar de organização do trabalho coletivo,1 pode ser executado de forma fragmentada, com 1O trabalho no campo da saúde e de enfermagem, mesmo quando realizado individualmente por um profissional, é trabalho coletivo, na medida em que ocorreu um intenso processo de divisão do tra- balho, configurando diferentes áreas de atuação (trabalhos especializados), e o produto final, a as- sistência e o cuidado, são sempre resultado de múltiplas intervenções executadas por múltiplos agentes. No entanto, essa intensa especialização do trabalho acarretou a fragmentação da assistên- cia, colocando o problema da integração das ações de saúde. Nesse sentido, ganha ênfase a proposta do trabalho em equipe, que consiste em uma modalidade de trabalho coletivo que se contrapõe ao modo independente e isolado com que os profissionais de saúde e de enfermagem usualmente exe- cutam seu trabalho cotidiano nos serviços de saúde.
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    OTrabalho Gerencial emEnfermagem 3 a mera justaposição das ações dos diferentes profissionais, ou de forma articulada, o que favorece a oferta de assistência integral de enfermagem e de atenção integral à saúde (CIAMPONE e PEDUZZI, 2000; PEDUZZI, 2001). Nessa articulação para a assistência à saúde, cada trabalho especializado (enfer- magem, medicina, nutrição, fisioterapia, outros) é meio para a realização do traba- lho em saúde. No entanto, nesse trabalho, todas as atividades realizadas pelos va- riados profissionais são organizadas e executadas expressando relações desiguais, além de diferentes tecnicamente, visto que o processo de divisão técnica e social do trabalho configura relações de desigualdade entre os trabalhadores, isto é, relações hierárquicas, em que alguns são “superiores” e outros “inferiores”. O trabalhador de enfermagem, particularmente, transforma o objeto utilizando um saber específico, em uma dada estrutura física, bem como outros instrumentos próprios, ou seja, métodos, materiais, equipamentos, visto que o saber técnico cons- titui instrumento de trabalho. A divisão técnica e social do trabalho em saúde também está presente na equipe de enfermagem, que é composta por diferentes categorias de trabalhadores, com diferentes níveis de formação – enfermeiro, técnico de enfermagem e auxiliar de enfermagem, que aplicam sua força de trabalho2 na transformação do objeto cons- tituindo outro meio do trabalho. Enquanto os enfermeiros assumem, preponderan- temente, a concepção do trabalho e o seu gerenciamento, os auxiliares e técnicos de enfermagem assumem a sua execução e a assistência direta (CASTELLANOS et al., 1989; SILVA, 1996; ALMEIDA e ROCHA, 1997; PEDUZZI e ANSELMI, 2002). Assim sendo, a organização do trabalho de enfermagem é feita com base em atividades realizadas de forma parcelada, fragmentada e rotinizada, nas quais estão presentes a hierarquia, a disciplina e o autoritarismo (SILVA, 1996), pois as diferenças técni- cas entre as atividades realizadas pela enfermeira ou pelo pessoal de nível médio configuram-se, como já referido, em desigualdades concretamente vivenciadas pe- los agentes no cotidiano do trabalho. n Determinantes do Trabalho de Enfermagem A enfermagem, enquanto prática social que se insere no mundo do trabalho e na atenção à saúde, é marcada por determinações históricas, sociais, econômicas e políticas. A enfermagem moderna surge na Inglaterra, com Florence Nightingale, na se- gunda metade do século XIX, quando se institucionaliza como área específica de trabalho. Essa institucionalização ocorre, em um primeiro momento, dada a neces- sidade de organizar os hospitais militares para o cuidado do corpo do soldado no transcorrer da Guerra da Crimeia, porém respondendo a um projeto mais amplo que se instalava na época, o projeto burguês expansionista, do qual fazia parte a 2Força de trabalho é um termo consagrado pela Economia Política e refere-se à capacidade de traba- lho do trabalhador que é comprada no mercado de trabalho, como mercadoria. Assim, força de tra- balho em saúde refere-se ao conjunto de pessoas vinculadas direta ou indiretamente à prestação de serviços de saúde e sujeitas a uma relação de compra e venda dessa mercadoria especial constituída pela capacidade de trabalho de cada um (NOGUEIRA, 1987:19).
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    4 OTrabalho Gerencialem Enfermagem necessidade social de recuperação da força de trabalho, imprescindível para a pro- dução capitalista que se instalava (GOMES, 1997). Assim, a enfermagem respon- deu ao projeto político-social da época, garantindo a sua inserção no processo de trabalho em saúde, visto que o hospital estava sendo organizado como local de cura (GOMES, 1997). Segundo GOMES (1997), o trabalho de enfermagem organizou-se em três dire- ções: no sentido de organizar o cuidado do doente, o que se deu pela sistematização das técnicas de enfermagem; no sentido de organizar o ambiente terapêutico, por meio de mecanismos de purificação do ar, limpeza, higiene e outros; e no sentido de organizar os agentes de enfermagem, por meio do treinamento, utilizando as técnicas e mecanismos disciplinares. Depreende-se daí que a enfermagem moderna surge exercendo o gerenciamento, pois assume tanto a organização do ambiente quanto a organização e treinamento dos agentes de enfermagem. No que se refere à organização e execução do cuidado do doente, atua formando duas categorias diferentes: as lady nurses, que executa- vam as atividades de supervisão e ensino, e as nurses, que eram responsáveis pelos cuidados propriamente ditos (GOMES, 1997). Assim sendo, a enfermagem constitui um trabalho pautado na dimensão prática das técnicas e, também, na dimensão prática do saber administrativo, o que se configura na gênese da divisão técnica e social desses trabalhadores, à medida que ocorre uma separação entre a concepção e a execução das atividades do cuidado (GOMES, 1997). Por outro lado, no decorrer do século XIX, com o pleno desenvolvimento do ca- pitalismo industrial, torna-se efetivamente difundida a gerência, como um instru- mento desse modo de produção, que consolida a divisão técnica do trabalho (BRA- VERMANN, 1987). Nesse contexto, o trabalho de enfermagem sofre as influências da gerência científica inaugurada por Taylor no final do século XIX, incorporando os princípios de controle, hierarquia e disciplina, dentre outros. No século XX, sobretudo a partir dos anos 70, começam a ocorrer transformações no mundo do trabalho, apoiadas na flexibilização dos processos e mercados de tra- balho, dos produtos e padrões de consumo, que passam a configurar um modelo produtivo flexível (ANTUNES, 1995). Essas transformações acontecem também no setor saúde. A enfermagem, enquanto prática que se insere no mundo do trabalho e na aten- ção à saúde, estabelece vínculos com as leis sociais. Dessa maneira, o trabalho de enfermagem, na atualidade, também sofre o impacto de uma globalização exclu- dente e das políticas de recorte neoliberal (FELLI, 2002). Essas políticas, formula- das a partir das concepções do Banco Mundial, concebem a saúde como um bem privado que pode ser apropriado pelas pessoas de forma individual, considerando o serviço público ineficiente por definição e por sua própria natureza, dada a escassez dos recursos para esse setor (SOARES, 1997). As políticas de recorte neoliberal impactam na assistência à saúde dos indiví- duos, que são tolhidos do seu pleno exercício de cidadania, dadas as estratégias de mercantilização dos serviços e os mecanismos de subsídios à demanda e à oferta privada de serviços de saúde (SOARES, 2000). Essas políticas implicam também mudanças no mercado de trabalho de saúde e de enfermagem (FELLI, 2002). Essas transformações no mundo do trabalho impõem novas relações no mercado de trabalho, marcadas sobretudo pela desregulamentação das relações de trabalho,
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    OTrabalho Gerencial emEnfermagem 5 novos mecanismos de gestão e a exigência de novos perfis profissionais. Esses per- fis são caracterizados pela ampliação das dimensões intelectuais do trabalho e pela polivalência e multifuncionalidade do trabalhador (PEDUZZI, 2003). As estratégias de produtividade nesse cenário, segundo GOMES e THEDIM- COSTA (1999:413), estão centradas no incremento das inovações tecnológicas como elementos-chave para enfrentar a competição mundial, ou na realização de refor- mas organizacionais, sem investimentos substanciais em novas tecnologias, com o intuito de obter os mesmos resultados a custos mais reduzidos. Nesse contexto, estabelecem-se contratos de trabalho precários, subcontratações em cascata con- figuradas por uma externalização de riscos e responsabilidades, com redução de salários e de empregos. Esse quadro de reestruturação das empresas e dos sistemas produtivos acarreta um pesado ônus, em última instância, na precariedade e na exclusão social, fontes alimentadoras da violência atual. A precarização do trabalho atinge o conjunto da sociedade de modo diferenciado, muitas vezes sob o eufemismo de novas formas de trabalho, que aparentemente revelam um avanço nos parâmetros tradicionais de exercício profissional, escondem a diminuição de postos de trabalho e a fragili- dade de novos arranjos laborais, como a oferta de empregos de tempo parcial ou a duração eventual; as limitações na absorção da força de trabalho jovem, inclusive qualificada; a instabilidade e irregularidade ocupacionais; o subemprego e o de- semprego recorrente, duradouro e sem perspectivas de inclusão no mercado for- mal; as dificuldades de inserção da mão de obra não qualificada e os rendimentos decrescentes para boa parcela das populações já empobrecidas (GOMES e THE- DIM-COSTA, 1999:413). Assim, o mercado de trabalho de enfermagem sofre o impacto dessa política so- cial no que se refere ao emprego, ao salário e à jornada de trabalho (FELLI, 2002). Um exemplo disso é a atual inserção dos trabalhadores de enfermagem no mercado de trabalho por meio de cooperativas.3 Nas cooperativas, na maioria das vezes, os trabalhadores, que não têm vínculo empregatício formal, também não têm garantia dos direitos trabalhistas. Por outro lado, não recebem a sua parcela na divisão dos lucros como estabelece o estatuto das cooperativas e, ainda, recebem baixos salários. Essa prática tem contribuído para a precarização do trabalho de enfermagem, sobre- tudo por meio da terceirização através da prestação de serviços por cooperativas. n A Gerência como Processo de Trabalho: Conceitos e Dimensões O trabalho de enfermagem, enquanto parte do trabalho coletivo em saúde, apre- sentado anteriormente, realiza-se em diferentes instituições de saúde, sejam elas públicas ou privadas, caracterizadas pela internação ou não dos indivíduos. 3As cooperativas estão ligadas, originalmente, à ideia de cooperativismo que iniciou na segunda me- tade do século XIX, com a Revolução Industrial. Pode-se conceituar cooperativa de trabalho como uma sociedade civil constituída por profissionais autônomos, com o objetivo de exploração de uma atividade para prestar serviços a terceiros. Alguns autores referem que as cooperativas de trabalho têm se tornado a principal forma de terceirização do trabalho em saúde, através da prestação de serviços (CHERCHGLIA, 1999).
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    6 OTrabalho Gerencialem Enfermagem Nessas instituições, nas quais predomina o processo de produção em saúde cen- trado na finalidade de controlar as doenças em escala social e recuperar a força de trabalho incapacitada, o trabalho de enfermagem configura-se como instrumento do trabalho em saúde, atuando sobre o mesmo objeto e reproduzindo o modelo clí- nico de organização desse processo, na medida em que se ocupa prioritariamente do cuidado individual dos corpos (MENDES GONÇALVES, 1994). O processo de trabalho de enfermagem particulariza-se em uma rede ou sub- processos (SILVA, 1996) que são denominados cuidar ou assistir, administrar ou gerenciar, pesquisar e ensinar. Cada um destes pode ser tomado como um proces- so à parte com seus próprios elementos (objeto, meios/instrumentos e atividade) e podem ou não coexistir em determinado momento e instituição. Nesses diferentes processos, os agentes, ou seja, os trabalhadores de enfermagem, inserem-se de for- ma heterogênea e hierarquizada, expressando a divisão técnica e social do trabalho (SILVA, 1996). Como foi apresentado anteriormente, vários estudos mostram a existência de uma divisão de trabalho no interior da equipe de enfermagem, segundo a qual ca- bem ao pessoal de enfermagem de nível médio, majoritariamente, as atividades assistenciais e, ao enfermeiro, as ações de gerenciamento do cuidado e da unidade. Especificamente sobre o trabalho do enfermeiro, evidencia-se que as intervenções desse agente concretizam dois diferentes processos de trabalhos: o processo cuidar e o processo administrar, com a primazia do último, como já apontado. Em parte a predominância do processo de trabalho gerencial do enfermeiro pode ser compreendida pelo número escasso de profissionais na composição da força de trabalho, visto que representam apenas 14,4% do total de trabalhadores de en- fermagem no País, que é de 1.243.804 trabalhadores [178.546 (14,4%) enfermeiros, 466.985 (37,5%) técnicos de enfermagem e 598.273 (48,1%) auxiliares de enferma- gem], segundo dados do Ministério da Saúde (Brasil, 2008) Brasil. Ministério da Saúde, rede interagencial de informações para saúde (RIPSA). Indicadores e Da- dos Básicos 2008 (IDB-2008). Indicadores demográficos [base de dados na internet]. Brasília; 2008. [citado 2009 dez. 05]. Disponível em: http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/ idb2008/matriz.htm. Esse quantitativo representa um grande contingente, embora ainda insuficiente para a atenção integral às necessidades de saúde da população. Por outro lado, expressa o processo de divisão do trabalho, que separa os momentos de concepção e gerenciamento daqueles de execução das atividades de cuidado. No processo de trabalho gerencial, os objetos de trabalho do enfermeiro são a organização do trabalho e os recursos humanos4 de enfermagem. Para a execução desse processo é utilizado um conjunto de instrumentos técnicos próprios da ge- rência, ou seja, o planejamento, o dimensionamento de pessoal de enfermagem, o recrutamento e seleção de pessoal, a educação continuada e/ou permanente, a su- pervisão, a avaliação de desempenho e outros. Também se utilizam outros meios ou instrumentos, como a força de trabalho, os materiais, equipamentos e instalações, além dos diferentes saberes administrativos. 4Recursos humanos é expressão advinda do campo da administração e subordina-se à ótica de quem exerce algum tipo de função gerencial ou de planejamento, tanto no âmbito micro como no ma- croinstitucional. Utiliza-se o conceito de recursos humanos, portanto, no sentido de administrar esse recurso específico que executa as atividades de trabalho (NOGUEIRA, 1987:13).
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    OTrabalho Gerencial emEnfermagem 7 A gerência tomada enquanto processo de trabalho de enfermagem pode ser apre- endida por dois grandes modelos: o primeiro com foco no indivíduo e nas organi- zações, denominado modelo racional; e o segundo centrado na abordagem das prá- ticas sociais e sua historicidade, ou seja, o modelo histórico-social. O modelo racional corresponde ao enfoque predominante nos estudos e na prá- tica do gerenciamento de enfermagem e está fundamentado na Teoria Geral da Administração – TGA. Nesse modelo, a tarefa atual da administração é “interpretar os objetivos propostos pela organização e transformá-los em ação organizacional através do planejamento, organização, direção e controle de todos os esforços reali- zados em todas as áreas e em todos os níveis da organização, a fim de alcançar tais objetivos da maneira mais adequada à situação” (CHIAVENATO, 1985). Assim, os pressupostos que norteiam o gerenciamento nesse enfoque são os tayloristas com suas abordagens, tanto prescritivas e normativas quanto explicativas e descritivas (FELLI, 2002). Segundo CAMPOS (1994), a essa abordagem é atribuída a existên- cia de um objetivo geral que é perseguido por todos os segmentos da organização, deixando de evidenciar as constantes disputas em torno de objetivos corporativos, limitando, portanto, a capacidade de intervenção na realidade. Trata-se de um mo- delo centrado na organização. Esse modelo de gerenciamento está voltado para a produção em massa, na qual os produtos são hegemônicos; ocorre o controle de tempos e movimentos e produ- ção em série; o trabalho é parcelado e fragmentado por funções, há cisão entre a concepção e a execução do trabalho; as unidades de trabalho são verticalizadas e o trabalho coletivo é alienado. Dessa forma está fundamentado em teorias do início do século XX, de Taylor, Fayol e Ford, e responde às necessidades de estabilidade, crescimento contínuo e de um futuro previsível. Esse modelo sozinho, na maioria das vezes, não dá conta da dinamicidade que caracteriza as organizações, na atualidade, porque é lento, reativo e mecanicista. Nessa perspectiva racional, a premissa é de que as organizações existem e se jus- tificam para atingir objetivos e que os processos podem ser, antecipadamente, pro- gramados, analisados e controlados, conferindo a capacidade de eliminar riscos e incertezas (FELLI, 2002). Outros autores avançam nesse modelo, mas não superam as concepções nucleares da abordagem advinda da TGA, como MOTTA (1998), que concebe o gerenciamento com uma vertente racional e outra intuitiva, quando refe- re que “... a arte de pensar, de decidir e de agir; é a arte de fazer acontecer, de obter resultados. Resultados que podem ser definidos, previstos, analisados e avaliados, mas que têm que ser alcançados através das pessoas e numa interação humana constante”. O autor assinala que a vertente racional enfatiza a análise e as relações de causa e efeito, para prever e antecipar ações de forma mais consequente e efi- ciente, conferindo capacidade analítica. Por outro lado, a vertente intuitiva da ge- rência aceita a existência de uma face de imprevisibilidade e de interação humana que lhe confere a dimensão do ilógico, do intuitivo, do emocional, do espontâneo e do irracional, conferindo capacidade para pensar e julgar para melhor decidir e agir (MOTTA, 1998). Assim, no enfoque da TGA, o gerenciamento avança da racionalidade para a flexibilidade, ao responder aos modelos e às finalidades do capitalismo avançado, inaugurados com a globalização e direcionados pelas políticas de recorte neoliberal (FELLI, 2002).
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    8 OTrabalho Gerencialem Enfermagem No gerenciamento, fundado na flexibilidade, a produção é voltada e conduzida pela demanda, é variada, diversificada e pronta para suprir o consumo, que deter- mina a produção; sustenta-se na existência de um estoque mínimo e do melhor aproveitamento possível do tempo de produção e num processo produtivo flexível, em que o trabalhador é polivalente. O trabalho é realizado em equipe, na qual a horizontalização é privilegiada. Há flexibilização da organização do trabalho e agili- dade na adaptação dos instrumentos. Assim, é presente a concepção de que, diante dos avanços tecnológicos e da globalização, as mudanças são rápidas, a realidade é dinâmica e a organização precisa ser flexível para responder em tempo real à im- previsibilidade. A flexibilização é o que fundamenta os programas de qualidade que estão sendo implementados nas instituições de saúde, onde se observa, como consequências, a redução da estrutura hierárquica, dos postos de trabalho e a intensificação do ritmo do trabalho de enfermagem, denotando a sua real intencionalidade, que é a geração de lucratividade (FELLI, 2002). Outra abordagem que permite apreender o gerenciamento é a das práticas sociais ou modelo histórico-social. Nesse modelo, o gerenciamento é apreendido a partir da perspectiva das práticas de saúde, historicamente estruturadas e socialmente articuladas, buscando responder às contradições e tensões presentes no cotidiano dos serviços. Nesse sentido, a gerência não está voltada apenas para a organização e o controle dos processos de trabalho, mas também para a apreensão e satisfação das necessidades de saúde da população, o que requer tomar em consideração a democratização das instituições de saúde e a ampliação da autonomia dos sujeitos envolvidos nos processos de cuidado – usuários e trabalhadores. A gerência dos serviços de saúde, em vez de fator principal necessário à conse- cução do objetivo único, seria definida como subordinada à política predominante em determinado período (CAMPOS, 1994). O processo de gestão é definido “... como instrumento necessário, mas não suficiente, à implementação de políticas elabora- das, por sua vez, a partir dos interesses diversos ou até mesmo contraditórios de forças sociais ou vinculadas à produção de serviços e insumos do setor saúde, ou às interessadas na manutenção e reprodução do modelo econômico e político vigente, ou aos usuários do sistema de saúde” (CAMPOS, 1994). Assim, conclui o autor que, se a gerência é um instrumento importante para a efetivação de políticas, é, ao mes- mo tempo, “condicionante do” e “condicionada pelo” modo como se organiza a pro- dução de serviços de saúde. É ao mesmo tempo produto de determinado contexto e criador desse mesmo contexto, tornando o processo de gestão permeável à influên- cia dos diferentes sujeitos sociais interessados em diversas políticas de saúde. CASTANHEIRA (2000) também refere que a gerência é investida de um papel institucional de tradutora de políticas públicas e/ou privadas, a depender da nature- za jurídica do serviço, e que a essa dimensão política do gerenciamento articula-se a necessidade de garantir que o produto do trabalho corresponda às finalidades de- finidas, também, pelo projeto técnico de saúde. Ou seja, segundo a autora, o papel mediador da gerência busca traduzir reciprocamente essas duas ordens de deter- minação técnico-política. A ação gerencial, segundo MISHIMA et al. (1997), não prescinde do homem em suas relações com outros homens e da subjetividade presente nesse processo, bem como suas determinações. Segundo as autoras, a gerência que emerge com o sur-
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    OTrabalho Gerencial emEnfermagem 9 gimento do capitalismo e do trabalhador coletivo responde à “necessidade de uma instância ou função que se responsabiliza pela integração das atividades, na busca da unidade do processo de trabalho” (MISHIMA et al., 1997). Nesse sentido, MARX (1982) é lembrado ao referir que “todo trabalho diretamente social ou coletivo, exe- cutado em grande escala, exige com maior ou menor intensidade uma direção que harmonize as atividades individuais e preencha as funções gerais ligadas ao mo- vimento de todo o organismo produtivo, que difere do movimento de seus órgãos isoladamente considerados. Um violinista isolado comanda a si mesmo; uma or- questra exige um maestro”. Nesse contexto, a gerência em saúde é uma atividade meio, cuja ação central está posta na articulação e na integração, que, ao mesmo tempo, possibilita a transfor- mação do processo de trabalho e implica a sua transformação mediante as determi- nações presentes no cotidiano das organizações (MISHIMA et al., 1997). A gerência, dessa forma, configura-se como ferramenta do processo cuidar e pode ser apreendida como um processo de trabalho específico e decomposta em seus elementos constituintes. Segundo CASTELLANOS et al. (1989), o processo de trabalho de gerência na prá- tica de enfermagem está orientado por uma finalidade imediata, que é organizar o trabalho, e mediata, de desenvolver condições para a realização do processo cuidar individual e coletivo. Nessa análise, os autores referem como objeto de trabalho a organização da assistência e a educação continuada dos trabalhadores, e como meios e instrumentos, a força de trabalho, os materiais, os modelos e métodos ad- ministrativos (CASTELLANOS et al., 1989). Diante da finalidade de organizar a assistência para favorecer o processo cuidar, individual e coletivo, a transformação operada no processo de trabalho gerencial
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    10 OTrabalho Gerencialem Enfermagem incide, prioritariamente, sobre os trabalhadores enquanto objeto do trabalho. Os meios e instrumentos de que se utiliza a gerência nesse processo são as institui- ções de saúde, os agentes do trabalho, os saberes administrativos e suas ferramen- tas, tais como o planejamento, a coordenação, o controle e a direção, dentre outros mais específicos. Vale destacar que as atividades, próprias do trabalho gerencial, são organizadas de determinada forma, em que está presente a rotinização e a nor- matização; a hierarquia, o controle e a autoridade; a divisão do trabalho por catego- ria de trabalhadores, por turnos, por atividades etc. (SILVA, 1996). O processo de trabalho gerencial apreendido da perspectiva das práticas de saúde socialmente estruturadas tem um papel fundamental na construção de um modo de fazer saúde voltado para a necessidade de saúde. No exercício desse papel e pautadas na articulação e integração, quatro dimensões são inerentes à atividade gerencial, segundo ALMEIDA et al. (1994): técnica, política, comunicativa e de de- senvolvimento da cidadania. A dimensão técnica refere-se aos aspectos mais gerais e instrumentais do próprio trabalho, tais como o planejamento, coordenação, supervisão, controle e avaliação, tanto no que diz respeito aos recursos humanos como aos recursos materiais e físi- cos (equipamentos e instalações). Segundo MISHIMA et al. (1997) “... a dimensão técnica, calcada na racionalidade instrumental, diz respeito aos conhecimentos e habilidades necessários à consecução dos objetivos colocados pelo projeto que se almeja atingir...”. A dimensão política é aquela que articula o trabalho gerencial ao projeto que se tem a empreender. Nesse movimento estão presentes as determinações de caráter político-ideológicas, econômicas, assim como as marcadas pelas organizações cor- porativas e pelos distintos tipos de usuários dos serviços de saúde. Implica a articu- lação das determinações externas ao momento mais interno do processo de traba- lho, que dizem respeito às políticas sociais e de saúde em específico e às contradi- ções presentes na sociedade para a sua efetivação. Está implicada nessa dimensão a distribuição dos diferentes tipos de poderes (técnico, administrativo e político) existentes no setor saúde, conforme concebidos por Testa, numa relação dialética entre objetivos e meios, ou seja, entre política e estratégia (MISHIMA, 1995). A dimensão comunicativa diz respeito ao caráter de negociação presente no lidar com as relações de trabalho na equipe de saúde e nas relações da unidade com a comunidade. Essa dimensão está intimamente aderida ao conceito de ação comu- nicativa, explicitado por INGRAN apud MISHIMA (1997): “a ação comunicativa se dá quando duas ou mais pessoas procuram expressamente chegar a um acordo vo- luntário de modo a poder cooperar. Embora pessoas que estejam inter-relacionadas em outros tipos de ação possam comunicar-se para coordenar seus esforços, não é necessário que o façam com o objetivo expresso de chegar livremente a um acordo (...) a ação comunicativa (diferentemente) envolve um esforço explícito e concentra- do de alcançar acordo sobre o espectro de reivindicações de validade (...) é sempre uma possibilidade imanente. A dimensão do desenvolvimento da cidadania implica tomar a gerência como uma atividade que contém uma e está contida numa perspectiva de emancipação dos sujeitos sociais, quer sejam eles os agentes presentes no processo de trabalho, ou os clientes que utilizam os serviços de saúde.
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    OTrabalho Gerencial emEnfermagem 11 Assim, a ênfase nas organizações ou nas necessidades de saúde orienta formas distintas de gerenciamento operadas em enfermagem, implicando formas também diversas de organização desses trabalhos, que são determinantes da assistência de enfermagem prestada à população, bem como de sua qualidade. Por outro lado, faz-se necessário destacar que a opção por uma forma ou outra de organização do trabalho não é isoladamente uma escolha individual ou institucional, mas está de- terminada por condicionantes históricos e suas múltiplas mediações, tais como as políticas sociais e de saúde, os modelos assistenciais, as condições de trabalho e outros. n Referências Bibliográficas ALMEIDA, M.C.P .; FORTUNA, C.M.; PEREIRA, M.J.B.; MISHIMA, S.M.; VILLA, T.C.S. Ge- rência na rede básica de serviços de saúde: processo de trabalho. [Apresentado no X En- contro de Enfermagem do Nordeste. Salvador-BA, 1994]. ALMEIDA, M.C.P .; ROCHA, S.M.M. Considerações sobre a enfermagem enquanto trabalho. In: ALMEIDA, M.C.P .; ROCHA, S.M.M. (Orgs.). O trabalho de enfermagem. São Paulo, Cortez, 1997. ANTUNES, R. Adeus ao trabalho: ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. São Paulo, Cortez, 1995. BRASIL. Conselho Federal de Enfermagem. Dados estatísticos. Disponível em: http://www. portalcofen.com.br Acesso em 23 mar 2004, às 11h30. BRAVERMANN, H. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. 3a ed. Rio de Janeiro, Guanabara, 1987. CAMPOS, G.W.S. Considerações sobre o processo de administração e gerência de serviços de saúde. In: CAMPOS, W.G.S.; MERHY, E.E.; NUNES, E.D. (Orgs.). Planejamento sem normas. 2a ed. São Paulo (SP), Hucitec, 1994. CASTANHEIRA, E.R.L. A gerência na prática programática. In: SCHRAIBER, L.B.; NEMES, M.I.B.; MENDES-GONÇALVES, R.B. (Orgs.). Saúde do adulto: programas e ações na unidade básica. São Paulo, Hucitec, 1996, p. 222-233. CASTELLANOS, B.E.P . et al. Os desafios de enfermagem para os anos 90. In: Anais do 41o Congresso Brasileiro de Enfermagem, 1989. Florianópolis. Florianópolis, ABEn, 1989, p. 147-69. CHERCHIGLIA, M.L. Terceirização do trabalho nos serviços de saúde: alguns aspectos con- ceituais, legais e pragmáticos. In: SANTANA, J.P .; SANTOS, E.; CASTRO, J.L.; SÓRIO, R.E.R.; VARELLA, R.C. Capacitação em desenvolvimento de recursos humanos de saú- de CADRHU. Natal, EDUFRN, 1999, p. 367-385. CHIAVENATO, I. Administração: teoria, processo e prática. São Paulo, McGraw-Hill do Brasil, 1985. CIAMPONE, M.H.T.; PEDUZZI, M. Trabalho em equipe e trabalho em grupo no Programa de Saúde da Família. Rev. Bras. Enferm., 2000; 53 (no especial):143-147. FELLI, V.E.A. A saúde do trabalhador e o gerenciamento em enfermagem. Tese de Livre Docência. São Paulo (SP), Escola de Enfermagem da USP , 2002. GOMES, C.M.; THEDIM-COSTA, S.M.F . Precarização do trabalho e desproteção social: desa- fios para a saúde coletiva. Ciência & Saúde Coletiva, 1999; 4(2):411-21.
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    12 OTrabalho Gerencialem Enfermagem GOMES, E.L.R. et al. Dimensão histórica da gênese e incorporação do saber administrativo na enfermagem. In: ALMEIDA, M.C.P .; ROCHA, S.M.M. (Orgs.). O trabalho de enferma- gem. São Paulo, Cortez, 1997, p. 229-50. LIEDKE, E.R. Processo de trabalho. In: CATTANI, A.D. (Org.). Trabalho e tecnologia: dicio- nário crítico. Petrópolis, Vozes; Porto Alegre, Editora da Universidade Federal RGS, 1997, p. 181-183. MARX, K. O capital: crítica da economia política. 14a ed. Rio de Janeiro (RJ), Bertrand, 1994, cap. 5. MARX, K. O capital: crítica da economia política. 8a ed. São Paulo (SP), Difusão Editorial, 1982. v. 1. MENDES-GONÇALVES, R.B. Práticas de saúde: processo de trabalho e necessidades. São Paulo, CEFOR, 1992. (Cadernos CEFOR-Textos, 1.) MENDES-GONÇALVES, R.B. Tecnologia e organização social das práticas de saúde: ca- racterísticas tecnológicas do processo de trabalho na rede estadual de centros de saú- de de São Paulo. São Paulo, Hucitec/Abrasco, 1994. MERHY, E.E. Em busca do tempo perdido: a micropolítica do trabalho vivo em saúde. In: MERHY, E.E., ONOKO, R. (Orgs.). Agir em saúde: um desafio para o público. São Paulo/ Buenos Aires, Hucitec/Lugar Editorial, 1997. MISHIMA, S.M. Constituição do gerenciamento local na rede básica de saúde em Ribei- rão Preto. [Tese]. Ribeirão Preto (SP), Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP , 1995. MISHIMA, S.M. et al. Organização do processo gerencial no trabalho em saúde pública. In: ALMEIDA, M.C.P .; ROCHA, S.M.M. (Orgs.). O trabalho de enfermagem. São Paulo, Cor- tez, 1997. MOTTA, P .R. Gestão contemporânea: a ciência e a arte de ser dirigente. 9a ed. Rio de Janei- ro, Record, 1998. NOGUEIRA, R.P . A força de trabalho em saúde. In: MÉDICI, A.C. (Org.). Textos de apoio – planejamento 1: recursos humanos em saúde. Rio de Janeiro, ENSP/FIOCRUZ, 1987, p. 13-18. PEDUZZI, M. Equipe multiprofissional de saúde: conceito e tipologia. Rev. Saúde Pública, 2001; 35(1):103-109. PEDUZZI, M. Mudanças tecnológicas e seu impacto no processo de trabalho em saúde. Tra- balho, Educação e Saúde, 2003; 1(1):75-91. PEDUZZI, M.; ANSELMI, M.L. O processo de trabalho de enfermagem: a cisão entre plane- jamento e execução do cuidado. Rev. Bras. Enferm., 2002; 55(4):392-398. SCHRAIBER, L.B.; PEDUZZI, M.; SALA, A.; NEMES, M.I.B.; CASTANHEIRA, E.R.L.; KON, R. Planejamento, gestão e avaliação em saúde: identificando problemas. Ciência e Saúde Coletiva, 1999; 4(2):221-242. SILVA, V.E.F . O desgaste do trabalhador de enfermagem: a relação trabalho de enfer- magem e saúde do trabalhador. [Tese]. São Paulo (SP), Escola de Enfermagem da USP , 1996. SOARES, L.T.R. As atuais políticas de saúde: o Brasil no contexto das reformas neoliberais. In: 52o Congresso Brasileiro de Enfermagem. Recife, ABEn, 2000. SOARES, L.T.R. O impacto das políticas neoliberais sobre a situação de saúde, o Brasil no contexto da América Latina. In: Anais do 48o Congresso Brasileiro de Enfermagem, 1996. São Paulo. (SP), ABEn, 1997, p. 178-89.
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    Ética e Gerenciamento emEnfermagem MARIA CRISTINA KOMATSU BRAGA MASSAROLLO E MARIA DE FÁTIMA PRADO FERNANDES 2 13 n Introdução A adoção de uma postura ética, para muitas empresas, está relacionada à possibili- dade de sobrevivência (manutenção da imagem e da confiança pública na reputa- ção da empresa e prevenção dos altos custos impostos pelos escândalos), podendo vir a ser, inclusive, uma vantagem diferencial entre elas (NASH, 2001; SROUR, 2000). A ética deve ser considerada como parte essencial da política da organização e imprescindível para o seu desenvolvimento e crescimento, uma vez que a opção por valores que humanizam o processo de trabalho e a relação com os clientes traz benefícios para a própria empresa e para a sociedade. Nas instituições de saúde, essa preocupação vai além, uma vez que o foco da atenção são pessoas, que necessitam de assistência, e a natureza da atividade de- senvolvida pode provocar consequências irreversíveis, e até fatais, quando realiza- das inadequadamente. Acresce-se a essa situação o contexto de recursos humanos, materiais, físicos e financeiros acentuadamente limitados, em que as condições de trabalho nem sempre são as mais favoráveis, sendo a assistência, muitas vezes, prestada numa situação de risco, tanto para a clientela quanto para os profissionais. Devem ser lembradas, ainda, as inúmeras situações de desrespeito aos direitos dos usuários pelas ações e serviços de saúde nas instituições.
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    14 Ética eGerenciamento em Enfermagem Essa constatação deixa patente que o gerenciamento, como função integrante das instituições de saúde, envolve uma dimensão ética, uma vez que as decisões nesse âmbito não afetam somente o serviço onde a decisão foi tomada, mas a ins- tituição, os trabalhadores, os usuários, os familiares e a comunidade. Como refere SROUR (2000), as decisões gerenciais não são inócuas ou isentas, pois carregam um enorme poder de irradiação pelos efeitos que provocam nos agentes do ambiente interno e externo, que mantêm vínculo com a organização, evidenciando que as questões éticas são inerentes ao processo administrativo. Nas instituições de saúde, ainda, outros fatores concorrem para a evidência da dimensão ética do gerenciamento: o reconhecimento do poder de interferência dos profissionais de saúde na vida dos usuários dos serviços; o surgimento de novas realidades decorrente dos intensos avanços científicos e tecnológicos, que trazem muitos benefícios para a humanidade e, também, muitos conflitos; a pluralidade moral existente na sociedade, não havendo normas únicas para resolver as diver- sas situações; as características da clientela, em especial a condição vulnerável dos usuários dos serviços de saúde; e a precariedade do sistema de saúde, que acarreta dificuldades de acesso e provoca deficiências na assistência. Entretanto, para que haja a valorização das questões éticas no gerenciamento, é imprescindível reconhe- cer que elas existem e qual o seu significado nesse contexto. n Fundamentos para as Tomadas de Decisões Éticas Na ação administrativa surgem dilemas éticos, que podem ser entendidos como a necessidade de escolha entre duas ou mais alternativas, igualmente desejáveis ou indesejáveis, requerendo, para isso, reflexão, ponderação e discussão. Para os dilemas não há respostas prontas, condutas preestabelecidas ou valores absolutos, fazendo com que as decisões sejam tomadas mediante a análise de cada situação. Uma reflexão ética indaga criticamente sobre a consistência e coerência dos va- lores que norteiam as ações e busca sua fundamentação, para que elas tenham significado autêntico nas relações sociais (RIOS, 1995). A tarefa da ética é a procura e o estabelecimento das razões que justificam “o que deve ser feito” e não “o que pode ser feito”. A ética pode ser considerada como uma questão de indagação e não de normatização do que é certo e do que é errado. Os atos éticos devem ser livres, voluntários e conscientes (RIBEIRO, 1996). Assim, ética é a reflexão crítica sobre o comportamento humano, no sentido de interpretar, discutir e problematizar os va- lores, os princípios e as regras morais, à procura do “bom” para a vida em sociedade (ZOBOLI e FORTES, 2002). Uma ética pensada para todos os homens é uma abstração, pois cada cultura, cada raça, cada grupo e, até mesmo, cada pessoa têm a sua maneira própria de compreender e articular o sentido da vida humana, evidenciando a existência de diversos valores e princípios que justificam o posicionamento diante das diversas situações (OLIVEIRA, 1995). Dessa forma, as questões éticas podem ser analisadas sob diferentes perspectivas, para decidir se uma ação particular é adequada ou ina- dequada. Para a tomada de decisão ante aos dilemas éticos, além dos modelos teóricos para processos decisórios, é aplicado um conjunto de valores e princípios para auxiliar na
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    Ética e Gerenciamentoem Enfermagem 15 escolha da decisão a ser tomada. Esse conjunto, que é citado para justificar decisões e que ajuda a explicar por que uma pessoa acredita que um ato é adequado e outro inadequado, ou que um é melhor do que o outro, é embasado por teorias éticas. Cada teoria defende uma perspectiva, e a maioria dos indivíduos, aparentemente, adapta muitas delas à medida que interpreta dilemas éticos. Frequentemente, os indivíduos mudam seus critérios, dependendo de estarem tomando decisões den- tro ou fora do ambiente de trabalho (FERRELL; FRAEDRICH; FERRELL, 2001). Podem ser citadas duas correntes teóricas de tomada de decisão ética: a teleoló- gica e a deontológica (PALMER, 2002). A corrente teleológica (do grego telos, “fim”) afirma que o juízo de valores se baseia inteiramente nos efeitos produzidos por uma ação. Uma ação é considerada desejável ou indesejável em relação às suas consequências. Estuda o valor moral do comportamento examinando suas consequências. Pensar que atitude tomar e quais serão suas consequências é pensar teleologicamente. A escolha da ação se dá conforme as consequências sejam julgadas boas ou ruins (PALMER, 2002). A corrente deontológica se concentra nos direitos e deveres do indivíduo e nas intenções associadas a um dado comportamento, e não em suas consequências. Para a corrente deontológica é fundamental a ideia de que todas as pessoas devem ser tratadas com igual respeito. Os adeptos dessa teoria argumentam que há certas coisas que não devem ser feitas, nem mesmo para maximizar a utilidade, e que a retidão de uma ação não depende unicamente de suas consequências, já que há cer- tos aspectos do ato em si que determinam se ele está certo ou errado. Outros creem que deve levar em conta o “motivo” por trás do ato. Se a intenção da pessoa que pra- tica o ato era prejudicar, então a ação é errada, independentemente de seus efeitos, prejudiciais ou não (PALMER, 2002). Assim, a deontologia se concentra nos direitos e deveres do indivíduo e nas intenções associadas a um dado comportamento, e não em suas consequências (FERRELL; FRAEDRICH; FERRELL, 2001). As diferentes respostas à pergunta ‘por que deve ser assim e não de outra for- ma?’ abrem espaço para distintos enfoques éticos, que se diferenciam pelas ma- neiras de compreender a moralidade e refletir acerca do dilema e adoção de um posicionamento. Serão destacadas quatro teorias a respeito da formação dos preceitos éticos: uti- litarista, kantiana, contratualista e relativista (KANT, 1971; MOREIRA, 1999; OLI- VEIRA, 1995; VASQUEZ, 1997; e VAZ, 1991). 1. Teoria utilitarista: visa o maior bem para o maior número de pessoas, enfati- zando que devem ser tomadas decisões que resultem na maior utilidade social. Analisa as consequências das alternativas possíveis e, em seguida, escolhe a que produz maior utilidade, não sendo examinada cada situação particular. É a teoria ética consequencialista, segundo a qual a obrigação moral é promover impar- cialmente o bem-estar. Faz uma comparação de custos e benefícios no tocante às partes afetadas. Baseia-se no critério do maior bem para a sociedade como um todo. 2. Teoria kantiana: defendida por Kant, que propõe que o conceito ético seja extraí- do do fato de que cada um deve se comportar de acordo com os princípios univer- sais, conhecido como o princípio categórico de Kant. Esse princípio é imperativo
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    16 Ética eGerenciamento em Enfermagem porque se apresenta como uma obrigação; é categórico porque tal obrigação não está dependente de quaisquer desejos da pessoa. 3. Teoria contratualista: entendida como uma espécie de acordo ou negócio insti- tuído entre um grupo de pessoas. Parte do pressuposto que o ser humano assu- miu com seus semelhantes a obrigação de se comportar de acordo com as regras morais, para poder viver em sociedade. 4. Teoria relativista: teoria segundo a qual os fatos morais são relativos a socie- dades particulares. Quando uma sociedade aprova uma prática e outra reprova, não se pode dizer que uma delas tenha razão e a outra não. Segundo essa teoria, cada pessoa deveria decidir sobre o que é ou não é adequado, com base nas suas próprias convicções e concepções sobre o bem e o mal. Assim sendo, o que é ético para alguns pode não ser para outros. As questões éticas podem ser analisadas de diferentes perspectivas, para decidir se uma ação particular é adequada ou inadequada. Adeptos das diferentes teorias éticas podem discordar em suas avaliações de uma dada ação, mas todos estariam se comportando eticamente, segundo seus próprios valores e crenças. Por exemplo, dizer a verdade para um paciente fora de possibilidades terapêuticas. Diante dessa questão, alguns profissionais consideram que ele tem direito e tudo deve ser dito, enquanto outros manifestam-se contrários, prevendo as consequências “danosas” que podem advir dessa revelação. n Fatores que Interferem nas Tomadas de Decisões Éticas na Organização Existem diversos fatores que influenciam a tomada de decisão organizacional: in- dividuais, profissionais, organizacionais, ambientais, sociais, políticos, econômicos, éticos e legais. FERRELL, FRAEDRICH e FERRELL (2001) consideram como principais fato- res que interferem nas tomadas de decisões éticas a identificação da gravidade da questão ética, os aspectos individuais, a cultura organizacional, os terceiros signi- ficativos e a oportunidade, que são fatores inter-relacionados e que interferem nas avaliações éticas. A gravidade da questão ética diz respeito à importância de que ela se reveste para quem vai tomar a decisão. Assume caráter pessoal e temporal, no sentido de serem levados em conta valores, crenças, necessidades, características especiais da situação e pressões pessoais ante as situações que se apresentam, influenciando a dimensão da sensibilidade. Por esse motivo, as questões éticas podem ser interpre- tadas de maneiras diferentes por diferentes indivíduos. NASH (2001) refere a necessidade das pessoas adquirirem habilidade para reco- nhecer e articular o componente ético de um problema, complementando que nem sempre a questão ética é identificada, pois, muitas vezes, as pessoas não param para pensar na presença dessa questão nas diferentes situações. Por outro lado, a ocorrência frequente de infrações éticas gera o perigo das pes- soas, organizações e sociedade se surpreenderem cada vez menos com esses acon- tecimentos, perdendo a capacidade de indignação e passando a não avaliar adequa-
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    Ética e Gerenciamentoem Enfermagem 17 damente a gravidade da situação. Outro grande risco é quando se começa a esperar que as pessoas tirem proveito das oportunidades para obter benefícios particulares, ajam irresponsavelmente e abusem de seu poder, passando essas situações a serem vistas como naturais. Os fatores individuais comportam, dentre eles, a idade, o sexo, as metas, os interesses, as necessidades e o conjunto de valores, crenças e convicções pessoais. Esse conjunto de valores, crenças e convicções, assumidos por meio do desenvol- vimento cultural e social, e, portanto, podendo mudar de pessoa para pessoa e na mesma pessoa ao longo do tempo, são de importância crucial nas tomadas de deci- sões éticas. Isso ajuda a compreender as tomadas de decisões éticas de uma pessoa na organização e, ainda, explica por que as pessoas tomam decisões diferentes em situações semelhantes. Nas organizações, esse conjunto pode ser influenciado tam- bém pela cultura organizacional e, principalmente, pela sensibilização relativa à dimensão ética. Assim, as pessoas podem ser culturalmente diferentes e ter valores distintos; po- dem, ainda, interpretar diferentemente as situações e diversificar em suas decisões concernentes às mesmas questões éticas, demonstrando que podem usar diferen- tes enfoques para tomar decisões. A cultura organizacional pode ser concebida como um conjunto de valores, con- vicções, objetivos, normas, rituais e maneiras de resolver problemas compartilha- dos por seus membros. Como a cultura reflete os objetivos e valores da instituição, ela tem um papel fun- damental, pois, quanto mais valorizada a dimensão ética na cultura da organização, mais provável a valorização dessa dimensão por seus membros. Por conseguinte, a reação da organização, nem sempre efetiva e eficaz frente aos casos de infrações éticas, faz com que muitos considerem que seja um aspecto que não mereça aten- ção no desenvolvimento de suas ações. Muitas vezes, os funcionários esforçam-se para cumprir as políticas e regras da instituição, mas, se a instituição não explicita quais são, o que é esperado do fun- cionário e, também, não promove nenhum tipo de sensibilização para a dimensão ética da atuação, alguns não cumprirão as regras institucionais por não terem o esclarecimento das condutas adequadas. Nesse sentido, é importante que sejam explicitados quais são os valores da instituição, no tocante a esse aspecto, uma vez que, se a organização não define e não informa quais são as condutas esperadas, cada indivíduo estabelece as suas. Assim, deve haver a preocupação da organização em promover e manter a sensibilização para a dimensão ética da atuação profissio- nal, possibilitando que comportamentos éticos sejam a prática corrente na insti- tuição. Outro elemento bastante imbricado com a cultura organizacional e que exerce grande interferência na ética organizacional é o poder. Exercer poder é uma das maneiras de influenciar as decisões, incluindo as de cunho ético. O status e o poder de membros da organização relacionam-se diretamente com o volume de pressão que podem exercer sobre os subordinados, para que se conformem às suas expec- tativas. Uma pessoa em posição hierárquica superior pode exercer pressão sobre os subordinados para que cumpram suas ordens, mesmo quando os valores dos subor- dinados colidam com os seus. Embora o poder em si não seja ético nem antiético, seu uso pode criar conflitos dessa natureza.
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    18 Ética eGerenciamento em Enfermagem Os terceiros significativos são aqueles que exercem influência sobre o indivíduo ou grupo de trabalho, tais como colegas, outros profissionais, superiores, subordi- nados, dentre outros, e que produzem forte impacto nas decisões dos trabalhadores no dia a dia. A pessoa que convive muito próximo de quem não valoriza a assunção de condutas éticas tem maior probabilidade de agir do mesmo modo no seu coti- diano. Na verdade, acredita-se que terceiros significativos podem mudar o sistema de valores inicial do indivíduo, e essa mudança, seja temporária ou permanente, parece mais pronunciada quando o terceiro significativo é um superior hierárqui- co. Além disso, elementos de posições hierárquicas mais elevadas podem produzir um efeito negativo na conduta ética dos subordinados quando dão maus exemplos ou deixam de fazer a supervisão. Outro aspecto a ser considerado é a pouca expe- riência da pessoa no âmbito profissional, pois, quanto menos experiente, maior a possibilidade de ser influenciada. A oportunidade diz respeito às circunstâncias que podem impedir ou incentivar a conduta ética. Relaciona-se com o contexto imediato do trabalho do indivíduo: onde trabalha, com quem trabalha e a natureza do trabalho. Algumas vezes, a cul- tura da organização propicia a oportunidade quando ‘apoia’ decisões tomadas com a finalidade de aproveitar possibilidades de maximizar benefícios para a organi- zação. A reação da organização, de estímulo, indiferença ou repressão ao compor- tamento dos indivíduos, pode incentivar ou inibir a repetição do mesmo tipo de comportamento. Uma conclusão importante que emerge é que a tomada de decisão de natureza ética não depende estritamente dos valores e crenças dos indivíduos, mas também das organizações, que, através das suas culturas, constituem influência importante sobre o comportamento dos seus membros. NASH (2001) reforça a necessidade de ser assumido um posicionamento ético, firme e claro pelos dirigentes da organização, explicitando a importância do respei- to pelos outros da habilidade de reconhecer o lugar do outro e do senso de compro- misso com as pessoas (honestidade, justiça, cumprimento da palavra). Acrescenta que esses aspectos não derivam de um cálculo teórico, mas sim de traço de caráter pessoal. n A Ética no Gerenciamento e a Responsabilidade O comportamento ético dos profissionais concretiza-se na medida em que estes contam com a sustentação dada pela cultura da organização e a consonância no desenvolvimento do trabalho técnico. Por outro lado, a conduta dos dirigentes não pode justificar as atitudes inadequadas nem a passividade dos profissionais diante das situações (CAMPOS, 1994). A assunção de posturas éticas na atuação profissio- nal conduz à identificação de responsabilidades em diversos âmbitos, dentre eles o individual, o grupal e o organizacional. As instituições precisam discutir qual a responsabilidade de cada profissional, de cada equipe, de cada serviço e a da pró- pria organização. A responsabilidade individual é inalienável a cada um pelo que faz. Todo o cui- dado e sensibilidade são importantes para tomar uma decisão em uma organização,
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    Ética e Gerenciamentoem Enfermagem 19 pois muitos são atingidos pelo modo como se processa a tomada de decisão e por aquilo que se decide (LEISINGER e SCHMITT, 2001). Falar em responsabilidade pressupõe, também, falar em liberdade, pois a liberda- de é parceira inseparável da responsabilidade. A prática da liberdade exige mais do que um olhar superficial e imaturo para realidade em que se vive. Exige um olhar reflexivo e uma autonomia pessoal, porque o indivíduo que exerce a liberdade, res- ponsabiliza-se pelos próprios atos, colocando como questão ética fundamental o compromisso em relação à decisão tomada (PONCE, 2000). Nesse sentido, compre- ender o que se passa no mundo depende do grau de maturidade de cada pessoa, de como ela trabalha com as diferenças e os conflitos do cotidiano, bem como de outras variáveis que estão contidas em sua história de vida (FERNANDES, 2001). A ética supõe que as pessoas tenham liberdade e poder para considerar as dife- rentes posições frente às situações que se apresentam, analisar os aspectos favorá- veis e desfavoráveis das diferentes possibilidades de ação e fazer a escolha. Assim, para a pessoa fazer uma escolha é importante ter, além do conhecimento da situa- ção, dos valores e crenças presentes, ter também o conhecimento das normas jurí- dicas e do código de ética profissional, uma vez que o desconhecimento não exime da responsabilidade. Nas instituições de saúde, onde há comissões de ética, essas podem ser solicitadas para dar suporte para a tomada de decisão que envolve aspec- tos éticos. Quando essa consulta não for possível, é importante que a situação seja discutida com pessoas que possam trazer contribuições para a análise, pois deve-se evitar que o sistema de valores de uma pessoa coloque empecilhos ao exame de todas as alternativas possíveis (MARQUIS e HUSTON, 1999). Por exemplo, diante da recusa de um paciente de receber transfusão sanguínea devido à sua crença religiosa, em situação de risco iminente de vida, não deve prevalecer a posição do profissional, de não aceitação diante de tal situação, mesmo que ele considere a recusa inaceitável. A não assunção da responsabilidade pela organização pode dificultar ou impos- sibilitar a postura ética do profissional. A organização, ao não prover condições que dependem dela e, portanto, são de sua responsabilidade, para que o profissional desenvolva suas atividades, respeitando direitos e princípios éticos, estará interfe- rindo na postura ética do profissional. n A Ética e o Contexto do Gerenciamento em Enfermagem Gerenciar em enfermagem pressupõe a tomada de decisões, e esta depende do grau de autonomia do gerente de enfermagem e como se dá a sua relação com as pessoas e com a própria política da instituição, para desenvolver eticamente o seu processo de trabalho. Nos serviços de enfermagem, também a cultura e o poder da organiza- ção condicionam a forma de apreensão e de valoração dos acontecimentos, a partir das relações que se estabelecem no cotidiano. Deve-se ressaltar que o perfil do gerente e sua postura na tomada de decisões afetam significativamente os resultados dessas decisões, principalmente no que tange às inovações referentes à assistência, ao ensino e ao incentivo à pesquisa, como também à abertura de novos espaços de atuação do enfermeiro.
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    20 Ética eGerenciamento em Enfermagem Muitas são as questões éticas relacionadas ao gerenciamento em enfermagem, que, frequentemente, assume a dualidade entre aquilo que pode ser feito e aquilo que deve ser realizado. Existem valores morais diversos, porém a prática da en- fermagem depende dos recursos disponíveis para acessar as escolhas. Contudo, muitas vezes há limites, e a deliberação diante do que fazer, do que é prioridade e de menor risco fica condicionada a processos predeterminados, oriundos das con- dições de trabalho. Torna-se claro que a reflexão ética na prática profissional é um processo de apren- dizagem permanente, que requer a participação dos envolvidos em determinada situação, circunstância ou problema. Todos devem trabalhar as questões éticas em suas atividades cotidianas. Considerando, ainda, a ética e o gerenciamento em enfermagem, há grandes dile- mas e desafios que são enfrentados no cotidiano. Uma situação bastante frequente é o desrespeito aos direitos dos usuários dos serviços de saúde, apesar da existência de instrumentos legais e deontológicos que respaldam esses direitos e dos debates ocorridos sobre o tema. E aí reside a questão ética, que é a necessidade da convicção pessoal e da adesão institucional a valores e princípios, traduzidos em medidas ad- ministrativas para que esses direitos sejam respeitados, devendo ser identificado, na cultura da instituição, qual o valor dado aos direitos dos usuários dos serviços de saúde. Na prática profissional, principalmente em instituições hospitalares, o enfermeiro tem diversas oportunidades de facilitar e manifestar o respeito pelos direitos dos pacientes (TREVIZAN et al., 2002). Uma questão que se apresenta é o quanto a obediência às normas e rotinas institucionais prevalece sobre o respeito aos direitos dos usuários. Na prática assistencial, uma ocorrência comum é o não reconhecimento, por parte dos profissionais, da autonomia dos usuários dos serviços de saúde, que se refere ao poder da pessoa de tomar decisões relativas à sua saúde, seu bem-estar, seu tratamento e, enfim, à sua vida, mediante seus valores, crenças, necessidades, expectativas e prioridades. Liberdade e competência são condições fundamentais para a manifestação da autonomia. Um dos fatores dificultadores é a assimetria de poder existente entre os profissionais e os usuários. Nesse sentido, é preciso que os profissionais não só reconheçam esse direito, mas também possibilitem a aquisição de competência por esses usuários, através de estratégias que aumentem o poder desse grupo vulnerável, para que as escolhas sejam feitas frente às possibilidades oferecidas. A competência dos usuários poderá ser adquirida através dos esclareci- mentos necessários para que eles possam tomar as decisões, inclusive às relativas à prática de enfermagem. O reconhecimento da autonomia do paciente pressupõe, também, a aceitação de que muitas vezes a decisão tomada pelo usuário poderá ser diferente daquela que, possivelmente, o profissional tomaria. Ao mesmo tempo em que ocorrem avanços científicos e tecnológicos tão inten- sos, muitas vezes, na prática assistencial, vive-se o grande dilema e a angústia de ter que decidir qual o paciente que, dentre os que precisam, vai ocupar o leito disponível, ou, dentre os pacientes graves, qual receberá a única vaga da UTI. Os parcos recursos da saúde impõem a situação de ter que decidir, com sérias implica- ções éticas, como distribuir os recursos cada vez mais escassos para uma demanda progressivamente maior. A decisão deve ser criteriosamente fundamentada, com a participação das pessoas envolvidas.
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    Ética e Gerenciamentoem Enfermagem 21 Uma outra preocupação existente no gerenciamento em enfermagem diz res- peito ao risco de a assistência à saúde ser desumanizada e despersonalizada com o crescente desenvolvimento e a incorporação tecnológica. Esse risco parece ser maior nas instituições que têm como foco o paradigma técnico-científico, centrado no conhecimento científico e na eficiência técnica, com a ênfase na tecnologia de ponta e na especialização. Em instituições assim caracterizadas, observa-se a ten- dência em tratar a doença e não a pessoa (MARTIN, 2003). Nesse sentido, não deve ser permitido que o ser humano seja tratado como uma máquina a ser consertada, sendo esquecidas suas dimensões psíquica, social, cultural e espiritual. Uma situação que, com frequência, gera dilema aos profissionais, remetendo a uma reflexão ética, é a assistência aos pacientes terminais, ou seja, aqueles pacien- tes para os quais foram esgotadas as possibilidades terapêuticas para a cura ou para o prolongamento da vida de forma digna. Com os avanços tecnológicos, torna-se cada vez mais difícil o estabelecimento do limite de introdução de suportes, e enca- minhar o doente para a unidade de terapia intensiva acaba se tornando uma atitude automática. A conduta de não intervir dificilmente é tomada tranquilamente diante dessa realidade. A preocupação da enfermagem deve ser a de manter a dignidade, a tranquilidade e o alívio do paciente até o final de seus dias. Para o enfrentamento dessas situações, muitas vezes são necessários posiciona- mentos nos quais existem conflitos de valores, prioridades diferentes e compromis- sos diversos relacionados ao indivíduo, à família, à sociedade e à profissão. Muitas dessas questões éticas, que frequentemente expressam profundos dilemas, não têm uma resposta pronta, que possa ser encontrada nos códigos de ética ou nas leis (DAVIS, 1999), requerendo reflexão e discussão ética que permitam uma tomada de decisão. Outro enfoque que deve ser ressaltado, quando se trata de ética e gerenciamen- to em enfermagem, é o referente à administração de recursos humanos, pois os vários instrumentos do processo de trabalho “administrar” (dimensionamento, re- crutamento, seleção e distribuição de pessoal, educação continuada, supervisão e avaliação de desempenho) englobam uma dimensão ética e podem apresentar im- plicações nessa esfera, quando não implementados adequadamente. n Considerações Finais As questões éticas fazem parte do cotidiano do gerenciamento em enfermagem. O conhecimento da situação, o uso dos instrumentos éticos e legais e o reconheci- mento dos valores, crenças e convicções presentes nas situações propiciam que as tomadas de decisões sejam respaldadas por preceitos éticos, fortalecendo o com- promisso profissional. Os profissionais de enfermagem devem adotar uma postura ética e, de modo reflexivo, devem buscar conhecimento, trabalhando os dilemas e conflitos éticos que emergem no processo de trabalho, e participar dos processos decisórios. Os profissionais tomarão decisões respeitando os princípios fundamentados na ética, quanto mais reflexões e discussões éticas ocorrerem na prática profissional, quanto mais participação houver no processo decisório, quanto mais valorização
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    22 Ética eGerenciamento em Enfermagem dessa dimensão houver na cultura do serviço e da organização e, consequentemen- te, quanto maior a sensibilização das pessoas frente às questões éticas. Assim, é desejável que os gerentes de enfermagem planejem, junto às suas equi- pes, ações que viabilizem assunção de condutas éticas pelos profissionais. n Referências Bibliográficas CAMPOS, G.W. de S. A ética e os trabalhadores de saúde. Saúde em Debate, 1994; (43): 60-63. DAVIS, A.J. Las dimensiones éticas del cuidar en enfermería. Enfermería clínica, 1999; 9(1):21-28. FERNANDES, M.F .P . Postura ética e a interação grupal. Rev. Nursing, 2001; (36):20-23. FERRELL, O.C.; FRAEDRICH, J.; FERRELL, L. Ética empresarial: dilemas, tomadas de decisões e casos. 4a ed. Rio de Janeiro, Reichmann & Affonso, 2001. KANT, I. Crítica da razão pura e outros textos filosóficos. São Paulo, Abril Cultural, 1971. (Os Pensadores, 1). LEISINGER, K.M.; SCHMITT, K. Ética empresarial: responsabilidade global e gerencia- mento moderno. Rio de Janeiro, Vozes, 2001. MARQUIS, B.L.; HUSTON, C.J. Administração e liderança em enfermagem: teoria e apli- cação. 2a ed. Porto Alegre, Artes Médicas Sul, 1999. MARTIN, L.M. A ética e a humanização hospitalar. O Mundo da Saúde, 2003; 27(2):206-218. MOREIRA, J.M. A ética empresarial no Brasil. São Paulo, Pioneira, 1999. NASH, L.L. Ética nas empresas. São Paulo, Makron Books, 2001. OLIVEIRA, M.A. Ética e práxis histórica. São Paulo, Ática, 1995. PALMER, M. Problemas morais em medicina: curso prático. São Paulo, Loyola, 2002. PONCE, B.J. Ética e vida social. In: _______ Guia de estudos e manual de trabalho (marco curricular) para professores de Fundamentos de Filosofia e Sociologia. São Paulo, Fun- dação Bradesco, 2000. RIBEIRO, R.J. Ética é uma questão de indagações. CREMESP, 1996; 16(108): 4. RIOS, T.A. Ética e utopia. In: MARTINI, A. et al. O humano, lugar do sagrado. São Paulo, Olho d’Água, 1995. SROUR, R.H. Ética empresarial. Rio de Janeiro, Campus, 2000. TREVIZAN, M.A. et al. Aspectos éticos na ação gerencial do enfermeiro. Rev. Latino-Am. Enfermagem, 2002; 10(1). VASQUEZ, A.S. Ética. 17a ed. Rio de Janeiro, Civilização, 1997. VAZ, H.C.L. Antropologia filosófica. 3a ed. São Paulo, Loyola, 1991; 1. ZOBOLI, E.L.C.P .; FORTES, P .A.C. Ética e gestão em serviços de saúde. In: CIANCIARUL- LO, T.I.; CORNETTA, V.K. Saúde, desenvolvimento e globalização: um desafio para os gestores do terceiro milênio. São Paulo, Ícone, 2002.
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    Cultura e Podernas Organizações de Saúde PAULINA KURCGANT E MARIA CRISTINA KOMATSU BRAGA MASSAROLLO 3 23 Neste capítulo pretendemos tecer reflexões sobre dois elementos constitutivos da estrutura de toda organização que objetiva a produção de bens ou a prestação de serviços: a cultura e o poder. Esses elementos fazem parte da estrutura informal das organizações e, assim, diferentemente dos elementos que constituem a estrutura formal, como organogramas, regulamentos, manuais de técnicas e procedimentos, não são explicitados ou visualizados de forma concreta e documental. Como elementos da estrutura informal, perpassam toda a dinâmica organizacio- nal, concretizando-se nas relações interpessoais, em que a subjetividade, a inter- subjetividade, os valores e as crenças individuais, bem como os interesses parti- culares e institucionais, constituem a argamassa que dá textura e, principalmente, significado ao trabalho que ali se desenvolve. É também nesse contexto que está alicerçada a missão da organização, bem como as políticas e propostas que regem a dinâmica organizacional. Essas pontuações mostram a importância de conside- rar, para o entendimento de uma realidade organizacional, tanto a estrutura formal como a estrutura informal da organização. Entretanto, como elementos abstratos e de difícil apreensão, a cultura e o poder podem ter sua existência facilmente negada ou minimizada quando são tratados problemas, dificuldades ou conflitos organizacionais. Por outro lado, quando con- siderados como elementos integrantes das políticas e determinantes das práticas
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    24 Cultura ePoder nas Organizações de Saúde institucionais, tanto podem ser adotados como ferramentas que ajudam a corrigir os desvios e a propor alternativas mais adequadas à vida organizacional, como po- dem ser usados como instrumento de força e de dominação. Na verdade, para uma efetiva compreensão da realidade organizacional, há a ne- cessidade de captar o maior número possível de elementos constitutivos, tanto da estrutura formal como da informal, e de analisá-los de forma conjunta, ou seja, co- locá-los em relação, analisando tanto os regulamentos, regimentos, organogramas e manuais, como também os padrões culturais específicos e os processos e relações de poder que determinam a dinâmica organizacional. De outra forma, pode haver um reducionismo na leitura e assimilação dessa realidade. Assim, parece ser necessário, num primeiro momento, o entendimento do que é “cultura” para um melhor entendimento do significado de “cultura organizacional” e a sua relação com “poder organizacional”. Para antropólogos, a cultura pode ser vista como instrumento a serviço das ne- cessidades biológicas e psicológicas dos seres humanos; como mecanismo adapta- tivo-regulatório que une os indivíduos em estruturas sociais ou, ainda, como cogni- ções compartilhadas. Na antropologia contemporânea de LÉVI-STRAUSS (1958) e GEERTZ (1973), os homens vivem num universo de significados que decodificam sem cessar e que estão longe de serem universais. A cultura fornece às sociedades e às nações um referencial que permite aos homens atribuir um sentido ao mundo em que vivem. Esse fenômeno é também denominado de Cultura Nacional. Uma característica da cultura é que ela deve ter algum nível de continuidade. Entre- tanto, segundo LÉVI-STRAUSS (1958), a existência de uma continuidade cultural nada tem a ver com a evolução de uma sociedade. A cultura não é uma qualidade; ela é um contexto, um sistema de relações. Por outro lado, toda cultura é caracterizada por alguma forma de oposição. Um exemplo disso é a cultura do perde/ganha, quando valores atribuídos ao ganhador estimulam a competição em determinada área, mas, sem dúvida, como aspecto cul- tural estarão estimulando a competição, estabelecendo critérios valorativos e deter- minando posições hierarquizadas em outras áreas. A oposição aos valores culturais vigentes é denominada contracultura e mobiliza outros interesses, gerando novos elementos constitutivos da cultura. Entre os sociólogos, uma corrente que analisa a cultura é a do interacionismo simbólico. Para BERGER e LUCKMANN (1967) apud FLEURY e FISHER (1989), exemplos dessa corrente, a realidade se impõe objetivada, ou seja, constituída por objetos. O indivíduo percebe correspondência entre o significado que ele e outros indivíduos atribuem a um mesmo objeto, isto é, existe o compartilhamento de um senso comum sobre a realidade. Na sociedade contemporânea, um exemplo que sim- boliza poder é a posse de objetos aos quais essa mesma sociedade atribui valores de riqueza. Outro exemplo, nas organizações, é a existência, nas salas de reuniões, de uma única cadeira de espaldar alto, simbolizando o poder do seu ocupante. Assim, para esses autores, o universo simbólico integra um conjunto de signi- ficados, atribuindo-lhes consistência, justificativa e legitimidade. O universo sim- bólico permite aos membros de um grupo ter uma forma consensual de captar a realidade, integrando os significados e viabilizando a comunicação. Para fins de propostas gerenciais, é preciso reconhecer a cultura da organização, uma vez que o desempenho dos recursos humanos constitui, sem dúvida, o elemen-
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    Cultura e Podernas Organizações de Saúde 25 to determinante do sucesso ou insucesso de qualquer proposta. Por outro lado, são as pessoas que viveram e que vivem o cotidiano organizacional que, interagindo, criam e modelam a cultura organizacional. Nesse sentido, as organizações, como partes constitutivas de uma totalidade so- cial, compartilham do mesmo contexto cultural da sociedade em que estão inseri- das, podendo ser consideradas como subculturas dessa sociedade e, assim, ser estu- dadas a partir de traços das culturas nacionais. Entretanto, para fins de apreensão e análise, uma subcultura organizacional pode ser considerada como uma cultura, uma vez que as organizações são sistemas sociais artificiais e diferentes de outras culturas. SCHEIN (1992), pesquisador dessa temática, avançou na conceituação de cul- tura organizacional, considerando-a como “um conjunto de pressupostos básicos que um grupo inventou, descobriu ou desenvolveu ao aprender como lidar com os problemas de adaptação externa e de integração interna e que funcionaram bem o suficiente para serem considerados válidos e ensinados a novos membros como a forma correta de perceber, pensar e sentir em relação a esses problemas”. Para MORGAN (1996), administrador e estudioso dos fenômenos sociais nas or- ganizações, deve-se tentar compreender o termo cultura como um processo con- tínuo, pró-ativo da construção da realidade e que dá vida ao fenômeno da cultura em sua totalidade. Quando assim compreendida, não é apenas uma variável orga- nizacional, mas sim um fenômeno ativo, vivo, através do qual as pessoas criam e recriam os mundos nos quais vivem. FLEURY e FISHER (1989), estudiosas da cultura organizacional, analisando as relações interpessoais nas organizações, acresceram ao significado de cultura or- ganizacional a dimensão política, conceituando-a como “um conjunto de valores e pressupostos básicos expressos em elementos simbólicos, que em sua capacidade de ordenar, atribuir significações, construir a identidade organizacional tanto agem como elemento de comunicação e consenso como ocultam e instrumentalizam as relações de dominação”. Assim, culturas, subculturas e contraculturas constituem um universo de valo- res, crenças, pressupostos básicos, ritos, rituais, cerimônias, mitos, heróis, lendas e outros símbolos que estabelecem e concretizam as relações e interações humanas nas organizações. n Conhecendo a Cultura Organizacional De acordo com FLEURY e FISHER (1989), o processo de investigação da cultura de uma organização coloca-se como uma categoria empírica metodológica impor- tante para o desvelamento de aspectos formadores da identidade organizacional. Entende-se por identidade organizacional os elementos da estrutura formal e in- formal que caracterizam, que são peculiares, próprios de uma organização e que a diferenciam de outras organizações. SCHEIN (1992) considera que a cultura pode ser assimilada em diferentes níveis: nível dos artefatos visíveis; nível dos artefatos que governam o comportamento das pessoas; e nível dos pressupostos inconscientes. No âmbito dos artefatos visíveis estão a divisão e a utilização da área física; a forma como as pessoas se vestem;
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    26 Cultura ePoder nas Organizações de Saúde os padrões de comportamento adotados; os conteúdos documentais, enfim, tudo o que é visível. Nesse nível, os artefatos são de fácil apreensão, mas de difícil com- preensão, uma vez que a lógica que rege esses comportamentos não é facilmente entendida. Ao nível dos valores que governam o comportamento das pessoas estão as informações a respeito da organização, que podem ser obtidas através da análise de documentos e de depoimentos de pessoas-chave da organização. Esses valores relatados pelos sujeitos podem ser considerados apenas os valores manifestos da cultura, ou seja, o que eles consideram ser o motivo de seu comportamento, po- dendo ser, entretanto, idealizações ou racionalizações pessoais, embora as razões subjacentes a esses comportamentos permaneçam ocultas ou inconscientes. No âmbito dos pressupostos inconscientes estão os pressupostos que determi- nam como as pessoas percebem, pensam e sentem. À medida que esses valores compartilhados pelo grupo conduzem a determinados comportamentos, e esses se mostram adequados para solucionar problemas, o valor é gradualmente transfor- mado em um pressuposto inconsciente sobre como as coisas realmente são. Assim, um grupo com a mesma capacitação tecnológica e desenvolvendo as mes- mas atividades, no convívio contínuo, pode desenvolver cultura própria. Isso expli- ca a presença de diferentes culturas, próprias de diferentes grupos profissionais in- teragindo numa mesma organização. Segundo SCHEIN, o gerenciamento dos pro- cessos de trabalho desenvolvidos por esses grupos é um desafio do gerenciamento do século XXI, uma vez que esses grupos passam a usar linguagens diferentes, a fazer de formas diferenciadas abordagens sobre o que é importante e a ter dificul- dade em aceitar, como válida ou normal, a cultura de outros grupos. Por outro lado, a presença de uma ideologia hegemônica, nas culturas organiza- cionais, pode ser evidenciada nas práticas sociais e nas manifestações simbólicas das organizações. Essa ideologia é que permite, a todos os membros da instituição, uma articulação e coerência nas atividades que ali desenvolvem. Ainda, para o desvelamento da cultura organizacional é interessante a recupera- ção de como se deu a criação da organização e sua inserção no contexto político e social da época. Os fundadores ou idealizadores de uma organização têm um papel importante na construção da identidade organizacional, assumindo um papel míti- co e imprimindo, muitas vezes, nessa construção, seus valores pessoais. O resgate de momentos de crises, dificuldades, fracassos e sucessos também fornece elemen- tos para a apreensão dos valores aceitos ou questionados pelos grupos. O processo de socialização de novos membros da organização, quando resgatado, mostra muito do universo simbólico. Os programas de treinamento dos novos membros reprodu- zem esse universo simbólico através de conteúdos trabalhados e de estratégias de integração do indivíduo à organização. A análise das políticas explícitas ou implí- citas de recursos humanos, em seus processos de recrutamento, seleção, avaliação de desempenho e de desenvolvimento de pessoal, assim como a organização dos processos de trabalho, também fornece subsídios importantes para a captação da cultura organizacional. Os rituais, cerimônias, festas também mostram como se dão as relações no tra- balho, quais os padrões de comportamento aceitos e quais são os valores e crenças subjacentes aos fatos, datas e acontecimentos que são valorizados a ponto de serem reproduzidos e comemorados.
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    Cultura e Podernas Organizações de Saúde 27 A assimilação da cultura de uma organização, no entanto, não é tarefa fácil por- que a cultura não é um fenômeno estático. A dimensão psicossocial da organização é dinâmica, uma vez que cada membro dessa organização se transforma continua- mente, percebendo, interagindo e modificando a realidade em que vive e atua. As- sim, o sentir, o pensar e o agir individual estão perpassados de intenções e interes- ses próprios de cada um. Esse universo particular, quando analisado coletivamente, permite, além da apreensão da cultura da organização, a apreensão dos processos e das relações de poder determinantes e imanentes da dinâmica organizacional. n O Poder nas Organizações A relação estreita entre cultura e poder pode ser entendida pelo caráter relacional que também é atribuído ao poder nas organizações. Assim, como relação social, o poder está profundamente imbricado com a cultura organizacional. Nesse sentido, a cultura não pode ser entendida sem a incorporação dos atributos do poder e dos mecanismos que ele utiliza. Nessa direção é importante considerar, como poder político, desde o poder formalmente constituído pelo Estado e concreti- zado nas ações dos aparelhos administrativos, até os poderes que são exercidos nos diferentes âmbitos da vida social. Nas organizações de saúde, a estrutura formal estabelece os níveis hierárquicos dos serviços e dos agentes sociais, indicando, pelas diferentes posições no desenho organizacional, as relações de poder entre os cargos. O poder em uma sociedade feudal difere, no seu exercício, do poder exercido em uma sociedade regida por um sistema político-social socialista. Consequente- mente, os poderes exercidos nas organizações guardam as diferenças culturais das sociedades em que essas organizações estão inseridas. Conforme FOUCAULT (1985), o poder penetra no cotidiano da vida social “como algo que funciona e se exerce em rede”. Considera que os indivíduos tanto exer- cem o poder como sofrem os seus efeitos, comportando-se, assim, como centros de transmissão do poder. Dessa forma, o poder, assim como a cultura, concretiza-se nas relações e nas prá- ticas cotidianas, extrapolando os limites da estrutura formal e de todo o aparato le- gal. Contudo, o poder usa o aparato formal quando exercido nas práticas de coerção, que garantem a coesão e o consensual necessários e suficientes aos grupos para a continuidade das propostas e dos processos de trabalho. Como os mecanismos de poder guardam os mesmos valores, crenças e ideologias da cultura organizacional, também agem como elementos de manutenção do status quo e como reforço da identidade organizacional. Para SROUR (1998), cientista social, toda coletividade abriga diferenças sociais e exige mediações para manter a convivência e organizar os interesses e atividades coletivas. Essas mediações são atividades de gestão, traduzidas por processos de controle, de articulação, de arbitragem e de deliberação; enfim, são políticas que re- gem as atividades organizacionais restringindo, muitas vezes, de forma consentida, ou não, a autonomia dos agentes sociais. Nesse contexto, o poder é concebido como a capacidade de intervir sobre a vontade dos agentes sociais ou sobre seus interes- ses e, também, como uma relação social e não apenas como uma posse unilateral.
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    28 Cultura ePoder nas Organizações de Saúde Ainda para SROUR (1998), falar de poder é falar de uma relação de forças, mesmo que assimétricas. Assim, nenhum agente está destituído de alguma parcela de po- der, ou de contrapoder, que resiste e produz efeitos sobre o poder vigente. Para PAGÈS (1987), as organizações, na determinação da forma e do conteúdo das regras e princípios que regem as relações no seu interior, procuram apresentá-los como uma necessidade, como ordem das coisas, acima da sua própria vontade. No entanto, através deles procuram organizar as relações contraditórias entre os grupos sociais existentes, assim como os conflitos oriundos a partir da lógica interna. n A Cultura e o Poder nas Organizações de Saúde A análise da cultura e do poder nas organizações de saúde é fruto da necessidade de compreender melhor como se dão as relações de trabalho nessas organizações; como se dão as relações indivíduo/organização, indivíduo/grupo, indivíduo/indiví- duo, o relacionamento entre os diferentes grupos profissionais e o relacionamento da organização, enquanto grupo culturalmente consensual com a sociedade que abriga essa organização. As organizações de saúde, como também as organizações que atuam em diferentes seguimentos do processo produtivo ou de prestação de serviços, têm estruturas formais próprias. Entretanto, estruturas de organizações pertencentes a um mesmo segmento do trabalho humano guardam semelhanças entre si. Dessa forma, a missão dessas organizações, as atividades que ali são de- senvolvidas, os recursos humanos e materiais adotados, bem como as demandas da sociedade que justificam a existência dessas organizações, estabelecem um perfil organizacional próprio de determinado segmento do trabalho humano. As organizações de saúde, como um desses segmentos, têm como missão pre- venir e curar doenças e reabilitar os indivíduos para que possam usufruir de bem- estar físico, mental, espiritual e social e, assim, contribuir com o seu trabalho para o bem-estar coletivo. Organizam-se de diferentes formas (hospitais, clínicas, servi- ços, unidades básicas), com diferentes entidades mantenedoras (governamentais, particulares, filantrópicas) ocupando um espaço essencial na sociedade, tanto para os que usufruem de seus serviços, como para aqueles que nelas trabalham. Dessa forma, qualificam-se como organizações prestadoras de serviços e caracte- rizam-se por trabalhar, prioritariamente, com o elemento humano. Assim, o pacien- te/cliente, a família do paciente/cliente e o pessoal que nelas trabalham constituem tanto a matéria-prima essencial como também a mais importante ferramenta do trabalho nelas desenvolvido. Nessas organizações, o resgate da cultura e do poder, como categorias empíricas de análise institucional, tem ocorrido como estudos, pesquisas acadêmicas ou a nível discursivo. De um modo geral, a cultura e o poder têm sido pouco conside- rados pelos chefes, gerentes ou administradores dos diferentes níveis formais da estrutura como variáveis que influenciam e até determinam a tomada de decisões, as propostas de mudanças institucionais, o gerenciamento de conflitos interpes- soais e intergrupais e o gerenciamento do pessoal, desde sua entrada até a saída da instituição. Acredita-se que uma das dificuldades na análise organizacional, ao considerar como categorias empíricas de análise a cultura e o poder, é que essas variáveis carregam forte componente emocional, exigindo de quem gerencia ca-
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    Cultura e Podernas Organizações de Saúde 29 pacitação para trabalhar o diálogo existente entre a subjetividade e a objetividade, sempre presentes nos processos relacionais. Nessa direção, outro elemento importante é a valorização da dimensão humana e a consideração para com os sentimentos presentes nas relações de trabalho. Exige também, de quem gerencia, autoconhecimento, conhecimento do comportamen- to humano, prontidão emocional para lidar com as diferenças de interesses e de projetos e o efetivo envolvimento com o pessoal, resgatando seus valores, crenças, hábitos, costumes, potencialidades, necessidades e expectativas que permeiam e, até, determinam os relacionamentos. Por outro lado, o conhecimento desses elementos obriga o gerente a ouvir o pes- soal e a considerá-los nas suas decisões. Enfim, essa nova relação passa a exigir formas mais participativas e compartilhadas de trabalho, o que, sem dúvida, obriga a uma nova reflexão sobre as relações no trabalho e, inclusive, a mudanças de pa- radigma. Embora, muitas vezes, esse novo conhecimento seja minimizado na sua importância e considerado apenas como um conhecimento empírico, ou seja, sem base científica e, assim, não fazendo parte do conhecimento considerado essencial na formação dos profissionais de saúde, são esses conhecimentos, constitutivos da capacitação ético-política, que dão consistência à formação de vínculos e de com- promissos pessoais e institucionais. Esse resgate é paradoxal se levarmos em conta que a formação de vínculos e a de comprometimento com o trabalho são valores desejáveis e valorizados nas instituições de saúde. Como consequência das mudanças valorativas e culturais, ocorrem transforma- ções nos processos e nas estruturas de poder. Assim, as estruturas formais passam a ter desenhos mais flexíveis, menos centralizadores, com o achatamento vertical e alargamento horizontal dos níveis hierárquicos. Informalmente, o poder é redis- tribuído e as relações de poder passam a ser mais igualitárias. Mais do que as mu- danças na estrutura formal, são essas transformações, na estrutura informal, as que constituem entraves para mudanças proativas, uma vez que o grupo que detém o poder maior resiste a essas mudanças. Sem dúvida, não se pode ignorar nem subestimar a eficácia dessas forças, uma vez que essa instância detém o poder do uso dos instrumentos administrativos, tanto no que se refere às pessoas como às coisas. Por outro lado, não se pode ignorar também a importância das forças da contracultura e do contrapoder na transforma- ção dessa realidade. As forças de contracultura e de contrapoder são mais efetivas quando o grupo que detém menor poder está capacitado ético-politicamente para perceber a reali- dade de forma contextualizada. Assim, a tomada de consciência da importância de cada um nos processos de trabalho; da necessidade de participação de todos nas decisões que dizem respeito à vida na instituição; da necessidade de atualização técnico-científica; da eficiência da responsabilidade compartilhada, bem como o entendimento dos interesses e intencionalidades do grupo em oposição, são ele- mentos integrantes de forças de contrapressão. A visão ingênua e linear da realida- de permite o ocultamento ou a opacidade no resgate das reais intenções e interes- ses dos grupos dominantes, o que reforça a manutenção do status quo. Referendando essa percepção, MORGAN (1996) afirma que o poder é o meio atra- vés do qual conflitos de interesses são, afinal, resolvidos. Considera que o poder influencia quem consegue o que, quando e como.
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    30 Cultura ePoder nas Organizações de Saúde A relação cultura/poder nas instituições de saúde são regidas por um forte apa- rato disciplinar, que, em geral, é justificado pela responsabilidade que reveste as atividades que ali são desenvolvidas. Entretanto, muitas vezes o controle, como elemento sempre presente no gerenciamento em saúde, recai sobre os agentes que desenvolvem essas atividades sob a égide da responsabilidade individual em detri- mento da responsabilidade coletiva. Assim, a obediência a horários preestabelecidos, a protocolos, procedimentos, programas e propostas assistenciais, e a ênfase na responsabilidade individual pas- sam a ter, além da importância própria da dimensão técnica, diferentes significados de acordo com interesses dos grupos. Muitas vezes, a responsabilidade dos resul- tados é igualmente compartilhada pelos diferentes níveis decisórios e agentes que militam na instituição. Entretanto, o poder e a autonomia, compatíveis com essa responsabilidade, nem sempre são igualmente compartilhados. Por isso, regula- mentos, regimentos, normas, diretrizes e políticas são formalmente explicitados e valorizados pelas instituições, tornando-se efetivo instrumental no gerenciamento do pessoal. Para FLEURY e FISHER (1989), a regulamentação é um instrumento eficaz de poder, posto que define a “normalidade” em termos de comportamento. Dessa for- ma, homogeneiza a todos, permitindo a classificação e a hierarquização. Outro valor considerado nas instituições de saúde diz respeito à dimensão técni- co-científica. Esse valor é compatível com a valorização que o mundo atual atribui ao conhecimento científico, a saberes específicos e ao desenvolvimento e apropria- ção de novas tecnologias. Assim, propostas grupais e institucionais, que visam a capacitação e atualização técnico-científica dos agentes, são valorizadas tanto pelos profissionais como pelas instituições. Outro aspecto a ser pensado, na realidade do trabalho em saúde, é o convívio com o sofrimento e a morte. Talvez a exagerada importância dada à tecnologia e a banalização do sofrimento sejam formas de diminuir as cargas psíquicas decorren- tes desse trabalho. Por outro lado, todas as propostas de desenvolvimento e de capacitação técnico- científica guardam um significado ético-político. Como já considerado neste capí- tulo, a escolha de conteúdos programáticos, as diferentes estratégias adotadas, bem como a avaliação dos resultados, não acontecem ao acaso, pois visam influenciar e direcionar o desempenho humano na instituição. Programas de orientação para recém-admitidos, além de orientá-los sobre direitos e deveres, função e atividades específicas, missão e estrutura organizacional, resultam, muitas vezes, e de acordo com os interesses do grupo de poder, em propostas modelares, ou seja, definidoras dos comportamentos aceitos na instituição. Frequentemente, os agentes que ope- racionalizam as propostas de capacitação o fazem de forma alienada, sem se darem conta de que, subjacente às escolhas feitas nesse nível decisório, está a intenciona- lidade de agentes de outros níveis decisórios para a conformação de comportamen- tos desejados. SEGNINI (1988), pesquisadora de cultura organizacional, reforça essa ideia ao afirmar que a organização cria formas de controle social sobre seus funcionários através do processo de treinamento. Os eventos científicos que são organizados pelos profissionais da instituição, os temas de estudos e pesquisas que ali acontecem, bem como a participação em cur-
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    Cultura e Podernas Organizações de Saúde 31 sos e eventos externos à organização, também guardam forte relação com a cultura organizacional, mostrando o que é valorizado institucionalmente. Sem a pretensão de esgotar as diferentes possibilidades de reflexão sobre cul- tura e poder nas organizações de saúde, uma última consideração diz respeito às relações que se dão entre os diferentes sujeitos sociais que prestam serviços na ins- tituição e os que recebem esses serviços. Dependendo das mesmas variáveis cons- titutivas da cultura organizacional e do poder que permeia as relações do trabalho que nelas se desenvolvem, somados às diferentes realidades de poder econômico existentes nas organizações de saúde, é que se concretiza a relação entre o grupo que assiste e o grupo assistido. A simbologia própria do ambiente, a área física, os equipamentos, as vestimen- tas, a linguagem usada pelo grupo que assiste, bem como o sigilo de que se reveste o uso das tecnologias, das intervenções e dos registros, conformam-se, para quem é assistido, como sendo um espaço em que a determinação dos direitos e deveres dos dois grupos é prerrogativa do grupo que assiste. Na verdade, a forma como se dão as relações de poder entre os diferentes agentes que assistem repete-se nas relações entre o grupo que assiste e o grupo assistido. Entretanto, essa relação é in- tensificada pelo poder de controle exercido pelo grupo que assiste e pela fragilidade em que se encontra o grupo assistido. O controle exercido pelo grupo assistido sobre o grupo que assiste dá-se apenas em função do poder econômico, uma vez que o grupo assistido não partilha da cul- tura organizacional com as mesmas vivências do grupo que assiste; não possui o poder do conhecimento que embasa o trabalho que ali se desenvolve; não participa da determinação dos processos de trabalho e da dinâmica organizacional e não per- manece e interage de forma continuada, como acontece com os agentes sociais da instituição. Nesse contexto de realidade brasileira, a participação e o controle da sociedade, ou melhor, dos sujeitos sociais assistidos nas instituições de saúde, ainda é um ho- rizonte a ser alcançado. n O Poder nas Relações Multiprofissionais Sem ter também a pretensão de explicar o complexo processo das relações profis- sionais, pode-se refletir sobre alguns fatores que ajudam no entendimento desse fe- nômeno e, assim, tentar conduzir, de forma mais consensual e humana, as decisões que envolvem o convívio no trabalho. Nessa direção serão discutidos elementos que integram o gerenciamento de re- cursos humanos em saúde e outros que permeiam as relações entre profissionais, como o poder, a cultura e as políticas. O enfoque nesses tópicos objetivam a capacitação do enfermeiro na formação de competências ético-políticas e socioeducativas por serem estas competências as menos trabalhadas pelos profissionais, mas as que melhor demarcam o espaço ocupado e as relações entre os trabalhadores. O enfermeiro, no que se refere à dimensão técnico-científica, desenvolve seu trabalho no campo da saúde de forma individual, mas, sem dúvida, esse trabalho compõe um trabalho coletivo, uma vez que há uma divisão do trabalho tanto entre
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    32 Cultura ePoder nas Organizações de Saúde os diferentes elementos da equipe de enfermagem (enfermeiro, técnico e auxiliar de enfermagem) como entre os diferentes profissionais que assumem diferentes áreas de atuação e que compõem a equipe de saúde (médico, nutricionista, psicólo- go, fisioterapeuta, fonoaudiólogo e outros). Um aspecto importante a ser considerado nessa divisão de trabalho é que, além de os diferentes profissionais assumirem diversas áreas de atuação, sendo cada uma referente a um saber e a um fazer específico, esse trabalho é marcado por desigualdades nas relações de poder que ocorrem entre os diferentes profissionais, caracterizando a existência de uma divisão técnica e social do trabalho. Outro ponto a ser considerado diz respeito a como se dá a relação entre esses profissionais e entre eles e a organização na qual desenvolvem o trabalho. Considerando como uma das possíveis leituras da realidade que: o trabalho deve ser competitivo frente ao mundo globalizado; o domínio atualizado da tecnologia é um dos indicadores de desempenho individual e organizacional; o fator econômico é o elemento determinante na avaliação dos resultados organizacionais, resgata-se um exemplo de cotidiano em que se desenvolvem o trabalho e o convívio entre os profissionais, e entre estes e as organizações de saúde. A precariedade dos vínculos empregatícios como se dá na terceirização; a má remuneração do trabalhador; a du- pla jornada de trabalho e a sobrecarga de trabalho, entre outras causas, interferem e/ou determinam o “como” se dão e explicam, em parte, o “porquê” se dão, desta ou de outra forma, as relações técnicas e sociais no trabalho. Nesse contexto, as organizações têm estruturas formais (organogramas), à seme- lhança de uma pirâmide em cujo vértice está o grupo que delibera, composto por poucos agentes, tendo na base o maior número de agentes, que são os executores das deliberações do pequeno grupo. Em contrapartida, a estrutura de poder configura-se em outra pirâmide, que se sobrepõe à pirâmide da estrutura formal, de forma invertida: a base da pirâmide da estrutura de poder coincide com o vértice da pirâmide da estrutura organizacional. Esse desenho explica como se dão as relações de poder na organização, uma vez que evidencia como poucos agentes detêm um grande poder decisório, restando, para um grande número de agentes, uma pequena parcela de poder. Essa é uma das variáveis organizacionais, que, quando reproduzida pelos demais profissionais nas relações de trabalho, referenda o modelo maior, é aceita pela orga- nização e promove relações assimétricas de poder entre os diferentes profissionais em todos os âmbitos da organização. Para FELLI e PEDUZZI (2005), as transformações no mundo do trabalho im- põem novas relações no mercado de trabalho, marcadas pela desregulamentação dessas relações, obrigando à existência de novos mecanismos de gestão e à exigên- cia de novos perfis profissionais. Esses perfis profissionais exigem, por um lado, a formação de competências que atendam às demanda organizacionais com maior produtividade em menor tempo e, por outro lado, às exigências de um desempenho multifuncional qualificado, no mercado de trabalho. Frente a essa realidade, políticas consensuais, novos mecanismos de gestão e a revisão de competências profissionais devem ser considerados. Para essa tarefa, os profissionais terão que assumir responsabilidades tanto no que se refere à capaci- tação como no que se refere às demandas que deverão encaminhar à organização, para que essas mudanças ocorram.
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    Cultura e Podernas Organizações de Saúde 33 Assim, quanto aos novos mecanismos de gestão, no âmbito da organização, há a possibilidade de maior integração e articulação no trabalho desenvolvido entre os diferentes profissionais e entre os profissionais de uma mesma área, em con- traposição ao trabalho fragmentado e justaposto que se desenvolve até então. Essa proposta caracteriza a formação e efetivação de equipes, tornando necessária uma maior explicitação dos significados de trabalho em grupo e de trabalho em equipe. Sem dúvida, na área da saúde, estudos sobre cultura e poder nas organizações são importantes na explicitação dessa dimensão organizacional ainda obscura. En- tretanto, estudos encontram-se no plano discursivo, no plano do sentir e do pensar, enquanto o cotidiano vivido é algo concreto, que, para ser transformado, precisa de ação. n Referências Bibliográficas BERGER, P .L.; LUCKMANN, T. The social construction of reality. Nova York, Archor Books, 1967. Apud FLEURY, M.T.L.; FISHER, R.M. (Coords.). Cultura e poder nas organizações. São Paulo, Atlas, 1989. FELLI, V.E.A.; PEDUZZI, M. O trabalho gerencial em enfermagem. In: KURCGANT, P . et al. Gerenciamento em Enfermagem. Rio de Janeiro, Guanabara, 2005. FLEURY, M.T.L.; FISHER, R.M. (Coords.). Cultura e poder nas organizações. São Paulo, Atlas, 1989. FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro, GRAAL, 1985. GEERTZ, C. The interpretation of culture. New York, Basic Books, 1973. LÉVI-STRAUSS, C. Antropologie structurale. Paris, Plon, 1958. MORGAN, G. Imagens da organização. São Paulo, Atlas, 1996. PAGÈS, M. O poder das organizações: a dominação das multinacionais sobre os indivíduos. São Paulo, Atlas, 1987. SCHEIN, E.H. Organizational culture and leadership. San Francisco, Jossey Bass, 1992. SCHEIN, E.H. Three cultures of management: the key to organizational learning in the 21st century. Sloan Manage. Rev., p. 9-20, set. 1996. SEGNINI, L. A liturgia do poder: trabalho e disciplina. São Paulo, EDUC, 1988. SROUR, R.H. Poder, cultura e ética nas organizações. Rio de Janeiro, Campus, 1998.
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    O Planejamento eo Processo Decisório como Instrumentos do Processo de Trabalho Gerencial MARIA HELENA TRENCH CIAMPONE E MARTA MARIA MELLEIRO 4 35 Diariamente, nosso cérebro é bombardeado por milhares de informações, das quais faz uma seleção para arquivar pequena parte em nossa memória, a partir daquilo que faz sentido para nós, a depender da nossa cultura e dos nossos valo- res. Com a mesma frequência, somos chamados a tomar um número elevado de pequenas decisões, como, por exemplo, escolher que roupa vestir para estarmos de acordo com as ocasiões em que iremos estar envolvidos no dia, o que comer, que caminho fazer para ir ao trabalho de modo a enfrentar menos trânsito e como priorizar as tantas atividades que se acumulam no trabalho. É certo que muitas dessas decisões que tomamos são automáticas, isto é, são escolhas aleatórias, sem que tenhamos consciência do processo, das etapas percorridas e dos critérios de que lançamos mão para fazer as escolhas ou tomar as decisões. Contudo, a necessidade de tomar decisões acertadas não se restringe a essas situações corriqueiras do cotidiano. Em um mundo cada vez mais complexo e com- petitivo, com maiores pressões para que tenhamos um bom desempenho no traba- lho, onde temos de decidir de um modo assertivo, as decisões que tomamos podem ser a chave para o nosso sucesso ou insucesso pessoal e profissional. Diante dessas situações complexas, não podemos simplesmente arriscar e tomar decisões pelo processo de acerto ou erro.
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    36 O Planejamentoe o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial Muitas vezes, o erro pode ser fatal para nós ou para outros envolvidos na situa- ção. Boa parte dos erros que cometemos nos processos decisórios ocorre devido a falhas de informação ou de formação. Ou seja, cometemos erros por não estarmos devidamente preparados para analisar as situações complexas e para fazer escolhas e tomar decisões de modo a percorrer todas as alternativas possíveis para resolução de problemas. Os estudiosos no assunto afirmam que as melhores decisões são tomadas quan- do percorremos todas as fases do processo decisório, de modo sistemático, e que podemos aprender a fazer isso, adquirindo maior segurança. Assim, este capítulo tem por finalidade sensibilizar os profissionais de saúde que ocupam posições de coordenação ou gestão de serviços ou de setores específicos, para as oportunidades de intervenção e de transformação da realidade, por meio do exercício do planejamento sistematizado e da análise de problemas, percorrendo um processo decisório cuidadoso, sem atropelar nenhuma das etapas essenciais do mesmo. Por experiência, sabemos que, quanto mais urgente for a situação, mais pressionados ficamos para escolher logo uma alternativa para resolver o problema e, assim, tendemos a abreviar o processo de definição e explicação deste, a busca e escolha de alternativas. Segundo MORETTO (1998), em uma reunião com pessoas despreparadas, que não partem de uma metodologia de análise de problemas e de tomada de deci- são, é muito frequente que ocorram discussões dispersivas em que se passa de um enfoque ao outro a partir de detalhes que não ajudam a distinguir as causas das consequências do problema. De modo geral, gasta-se muito tempo falando-se de diferentes aspectos da situação, procurando-se um culpado e especulando-se sobre possibilidades de resolução do problema, de modo impreciso e superficial. Assim, todas as decisões ficam sujeitas a pautarem-se em suposições quanto ao que cada um considera que deveria ser corrigido. Os esforços, embora consideráveis, são, na maioria das vezes, empíricos, desorganizados e ineficazes. Isso posto, pretendemos defender a ideia de que a análise de problemas consti- tui-se de uma série de processos, que podem ser aprendidos para serem utilizados como instrumentos do processo de trabalho gerencial e que ajudam a qualificar as decisões dos profissionais de saúde e gestores, de modo participativo, ouvindo to- dos os envolvidos na situação e escolhendo ações que obtenham o máximo sucesso na resolução do problema, com menor custo e com o mínimo de desvantagens ou riscos para todos os envolvidos. Desse modo, o planejamento do processo decisório é passo importante para o gerenciamento de conflitos e para possíveis negociações entre os atores envolvidos em uma dada situação. Para tanto, procuraremos explicitar as bases conceituais, metodológicas e as ca- racterísticas de um processo de tomada de decisão e de um processo do planeja- mento, segundo a perspectiva normativa e estratégica, discutindo as implicações dessas duas abordagens para o gerenciamento dos serviços de saúde. Por essa perspectiva, o planejamento como um instrumento do processo de tra- balho gerencial pode ser definido como a arte de fazer escolhas e de elaborar pla- nos para favorecer um processo de mudança. Compreende, assim, um conjunto de conhecimentos práticos e teóricos ordenados de modo a possibilitar a intera- ção com a realidade, programar as estratégias e as ações necessárias para alcançar
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    O Planejamento eo Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial 37 os objetivos e metas desejadas e preestabelecidas (TANCREDI; BARRIOS; FER- REIRA, 1998). Quando pensamos em planejamento, a primeira ideia que associamos é a de conformação de uma ação no futuro. Para definirmos um pouco melhor o foco do planejamento, relacionando-o ao nosso próprio trabalho na área de saúde, formula- mos a seguinte interrogação: por meio do planejamento tem sido possível atingir os resultados que desejamos? Se a reposta a essa indagação for afirmativa, podemos deduzir que temos governabilidade em relação ao nosso processo de trabalho. Caso contrário, é importante indagar por que o planejamento não tem propiciado seguir uma dada direção desejada. Portanto, se os instrumentos que estivermos utilizando para operar na realidade não forem os mais apropriados, o movimento da realidade, com toda a sua força e a dinâmica que lhe é peculiar, é que irá imprimir a direção a seguir, que pode não ser a direção pretendida, como a produção de serviços com a qualidade almejada. É evidente que transformar a realidade não é tarefa simples e, desse modo, a função do planejamento impõe uma série de variáveis, que condicionam o êxito dos nossos propósitos. O planejamento é um processo contínuo, que visa possibilitar uma postura ativa dos gestores de uma organização na sua relação com os usuários/cidadãos e com o meio em que ela atua. Como a realidade é dinâmica, não existem planos definitivos e fechados, sendo necessário considerar as incertezas dos mesmos, deixando mar- gens para os imprevistos (ALMEIDA et al., 2001). Para esses autores, um plano não pode ser visto como um produto final e, sim, constituir-se em um instrumento aber- to, que permita aos gestores explicitar os resultados que desejam alcançar, como, em que tempo e quem são os responsáveis pelas ações. Nesse sentido, torna-se imprescindível manter um diálogo constante com todos os indivíduos envolvidos na situação, para que o planejamento e as ações sejam responsivos à realidade. No processo de trabalho de gerenciamento na enfermagem, a função do plane- jamento costuma figurar como uma das atividades desenvolvidas privativamente pelos enfermeiros, em função da divisão social e técnica do trabalho. Costuma tam- bém ser associado imediatamente ao planejamento da assistência de enfermagem ou como uma função específica dos enfermeiros que desenvolvem o gerenciamento do serviço ou das unidades assistenciais (CIAMPONE et al., 1998). Nessa perspectiva, o planejamento costuma ser reduzido apenas à sua dimensão técnica, ou seja, a um conjunto de ações que visam colocar uma ação em prática. Poucas têm sido as discussões ou produções na enfermagem que associam o plane- jamento a questões político-ideológicas e de poder, que lhe são inerentes. O plane- jamento costuma ser tratado apenas em sua dimensão técnica. Para MERHY (1994), o planejamento tem se tornado um tema cada vez mais im- portante na vida do homem contemporâneo, em três situações: como instrumento/ atividade dos processos de gestão das organizações, tendo em vista que, nessas, ocorrem diferentes processos de trabalho que precisam ser bem articulados; como impulsionador de práticas sociais transformadoras, vislumbrando a determina- ção de novas relações sociais alternativas à lógica reguladora do mercado; e como método de ação governamental, no que se refere à produção de políticas.
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    38 O Planejamentoe o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial Em revisão de literatura sobre planejamento, podemos identificar diferentes au- tores filiados a correntes distintas de pensamento que, portanto, propõem aborda- gens diferentes. Assim, se indagássemos, numa leitura mais crítica, cada um desses autores acer- ca do que estão tratando, certamente teríamos diferentes respostas e, consequente- mente, identificaríamos que cada um nos conduz a um método distinto. Como pontos comuns, busca-se uma certa sistematização para a ação futura, isto é, intervir na realidade no sentido de propiciar o alcance dos objetivos desejados. No entanto, AGUIAR (1997) chama a atenção para o fato de que há uma grande diferença em planejar ações na esfera pública e na esfera privada. Para esse autor, a lógica orientadora do processo decisório na esfera privada é a econômica, que ex- plica os valores que orientam esse processo no qual o planejamento é instrumento. Na esfera das empresas privadas, a racionalidade do processo de produção e da co- mercialização de bens ou de serviços visa o lucro. Portanto, a qualidade do bem ou do serviço produzido precisa oferecer-lhe competitividade no mercado. Em contrapartida, na esfera pública a lógica predominante é a lógica política, isto é, o movimento do pensamento político norteia as ações. A produção tem valor relativo, porque não é ela que financia a sobrevivência das instituições, uma vez que o Estado tem controle dos mecanismos jurídicos e das regras que determinam as tomadas de decisão. Considerando que a saúde é um bem diferenciado, apesar de ser tratada como uma mercadoria comercializada no mercado dos serviços privados de saúde, esta se constitui, legitimamente, em direito de todo cidadão. Assim, o planejamento nos serviços de saúde abarca tanto a lógica econômica quanto a política. Quanto aos métodos de planejamento, é possível fazer uma distinção entre o método normativo e o planejamento estratégico situacional, buscando-se compre- ender a historicidade, dinamicidade e aplicabilidade dos mesmos nos diferentes cenários dos serviços de saúde. n O Planejamento Normativo ou Tradicional A construção de uma metodologia aplicada à área do Planejamento em Saúde na América Latina decorreu da necessidade de transposição do referencial teórico da programação na esfera econômica para a programação de atividades em saúde. O documento denominado Problemas Conceptuales y Metodológicos de la Pro- gramación de la Salud consiste em um dos desdobramentos da Conferência de Punta del Leste, ocorrida em 1961. Nessa oportunidade, os ministros de Estado dos diferentes países do continente latino-americano reconheceram a importância do planejamento como uma ferramenta tanto de promoção do crescimento econômico, quanto de promoção do bem-estar social (MATTOS, 1993). Assim, na Carta de Punta del Leste, estabeleceu-se um amplo programa de auxí- lio financeiro internacional aos países menos desenvolvidos, que ficou conhecido como Aliança para o Progresso. Para se ter acesso ao financiamento de ações, os países latino-americanos necessitariam elaborar programas nacionais de desen- volvimento, que contemplassem projetos ligados ao desenvolvimento econômico e social.
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    O Planejamento eo Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial 39 Para atender a esse propósito, a Organização Pan-Americana de Saúde (OPS) encomendou ao Centro de Estudos del Desarrollo (CENDES) a elaboração do refe- rido documento Problemas Conceptuales y Metodológicos de la Programación de la Salud, que deveria dimensionar as necessidades e os recursos que seriam destina- dos à área de saúde, em consonância com os demais investimentos necessários ao crescimento econômico desses países em desenvolvimento. A aplicação de recursos foi vinculada à ideia da apresentação de planos que com- provassem a eficiência e eficácia das ações, otimizando, ao máximo, a utilização dos recursos em ações que o governo deveria realizar orientadas, diretamente, para manter e melhorar a saúde da população. Essa prerrogativa exigia a formação de técnicos especializados em planejamen- to, instituindo-se a figura do planejador, um técnico que utilizaria um conjunto de conhecimentos sistemáticos e que se responsabilizaria pelo estudo da eficiência da utilização dos recursos, cabendo a esses profissionais a função central de nortear as tomadas de decisões relativas à definição de prioridades no campo da saúde das populações. Nesse modelo, supunha-se que o planejador partisse de um diagnóstico de si- tuação e fosse capaz de priorizar ações programáticas detendo poder de previsão e controle de todas as variáveis, num cenário estável. Dessa forma, seria possível elaborar um único plano de ação, predizendo soluções eficazes para os problemas mapeados, como se esses se comportassem de modo uniforme na população. Os resultados do plano dependeriam, assim, apenas do conhecimento técnico da- queles que iriam operacionalizar as ações, eliminando-se do planejamento a esfera do político e do social. Nessa direção, partia-se de uma proposta idealizada e tecnocrática, que restrin- gia espaços para a negociação política e que desconsiderava os conflitos entre os diferentes atores sociais nela envolvidos. n O Método CENDES/OPS O Método CENDES/OPS foi composto por uma sucessão de etapas pré-definidas, com tarefas precisas e limites cronológicos demarcados, abarcando quatro etapas, a saber: 1. A descrição da situação (diagnóstico) e a explicação dessa situação de saúde no país, segundo os princípios da Teoria da Multicausalidade. A visualização de pos- síveis ações por meio de indicadores quantitativos, de impacto e resolutividade dessas ações mediante a situação descrita; 2. A elaboração da programação propriamente dita, compreendendo a descrição de um conjunto de ações técnicas; 3. A implementação da programação obedecendo à uniformidade das mesmas em todos os territórios, como se os problemas atingissem a todos em proporcionali- dade semelhante no âmbito nacional; 4. A avaliação, como forma final de conferir se os resultados almejados foram al- cançados.
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    40 O Planejamentoe o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial Observa-se, nesse método, uma racionalidade instrumental que determina a di- recionalidade das ações e um forte poder de centralização das decisões no âmbito ministerial, sem distinção entre as necessidades de saúde nos diferentes territó- rios, compondo distintos perfis de morbimortalidade, nem previsão de controle social. No referencial do planejamento normativo ou tradicional, as tensões sociais são ignoradas e, sobretudo, abafadas no sentido de que a participação dos atores so- ciais representa ameaça à ordem social vigente. Assim, qualquer possibilidade de conscientização das populações sobre os determinantes sociais no processo saúde- doença era negada e controlada pelo estado, que vivia um período de ditadura militar. Nesse contexto, torna-se imperativo conhecer os princípios do planejamento nor- mativo/tradicional, e todos os pressupostos norteadores, uma vez que esse método é, ainda, utilizado na formação em gestão dos profissionais de saúde, influencian- do, consequentemente, os modelos assistencial e gerencial prevalentes nos servi- ços de saúde, indo na direção contrária às diretrizes e princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). Fases do Planejamento Normativo ou Tradicional Fase 1 – Diagnóstico: Conhecimento do Sistema como um Todo De acordo com CIAMPONE (1991), a concepção dessa fase advém da Teoria de Sis- temas, criada pelo biólogo alemão Ludwig Von Bertalanffy, que concebeu um sis- tema como “um conjunto de elementos em interação que operam para atingir uma finalidade comum”. Essa ideia de funcionamento sistêmico das organizações foi adotada por facilitar a visualização de que qualquer alteração em uma das partes produz interferências no resultado final. A ideia de sistema aberto foi posterior- mente incorporada na área de administração, referindo-se a uma complexa inte- ração existente entre o funcionamento interno das organizações e o intercâmbio contínuo destas com o ambiente. Entre as várias contribuições da teoria sistêmica, pode-se assinalar a necessidade de um diagnóstico de situação como ponto de par- tida para realizar qualquer planejamento. Somando-se à Teoria de Sistemas, a abordagem dos estudiosos da administração do Instituto de Relações Humanas de Tavistock, na Inglaterra, que ficou conhecida como escola sociotécnica, prestou também importantes contribuições para a área de planejamento no contexto das organizações de saúde. Identificaram-se e distin- guiram-se dois sistemas que compõem a organização: o técnico e o social. Nessa perspectiva, o sistema técnico compreende as demandas específicas que definem as tarefas, a área física, os equipamentos e os recursos existentes. É, por- tanto, esse sistema técnico o responsável pela eficiência potencial da organização. Por sua vez, o sistema social refere-se às relações entre os agentes responsáveis pela execução das tarefas que transformam a eficiência potencial em eficiência real. A partir dessa concepção, considerou-se que qualquer organização é um sistema aberto que mantém constantes trocas com o ambiente físico e social, tanto internos quanto externos a ela.
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    O Planejamento eo Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial 41 Assim, de acordo com a visão de sistemas e com a abordagem sociotécnica, CIAM- PONE (1991) considera que o planejamento das ações e programas de um serviço de saúde deveria partir do conhecimento do sistema como um todo, implicando: a. Conhecer o sistema social: Levantar as necessidades de saúde, o perfil de morbimortalidade, os hábitos, crenças e valores da comunidade em que o serviço está inserido; Identificar os recursos humanos necessários e disponíveis na região; Explicar os problemas de saúde a partir das dimensões estrutural, particular e singular da realidade dos serviços, embora essas denominações sejam peculiares à perspectiva do planejamento estratégico e não do normativo, do qual se está tratando. b. Conhecer o sistema técnico: Levantar os recursos físicos, financeiros e materiais disponíveis para o serviço de saúde, a fim de otimizá-los de acordo com as necessidades da comunidade. Por essa ótica, fica mais fácil visualizar a interdependência interna e externa dos sistemas que compõem a organização. Por conseguinte, ao se iniciar o processo de planejamento, um dos pontos fundamentais, para que os planos não se constituam em instrumentos teóricos, é partir-se do conhecimento real do sistema como um todo, antes mesmo de estipular os objetivos a serem alcançados e as metas do serviço. Fig. 4.1 Visão da sociedade segundo o modelo sociotécnico.
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    42 O Planejamentoe o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial Fase 2 – Determinação dos Objetivos Os objetivos são os alvos selecionados que se buscam alcançar dentro de um cer- to espaço de tempo, aplicando-se determinados recursos disponíveis ou possíveis (CHIAVENATO, 1999). Em qualquer organização, pode ser reconhecida uma hierarquia vertical de ob- jetivos. No ponto superior de uma escala graduada, estariam os objetivos da insti- tuição, que predominam sobre os demais; em seguida estariam os objetivos de cada departamento, que predominam sobre os objetivos da divisão, do serviço, da seção e, assim, sucessivamente até o nível operacional. De forma geral, os objetivos das organizações podem ser visualizados em uma cadeia hierárquica que abrange os objetivos essenciais da organização como um todo (no topo da hierarquia) até os objetivos operacionais (na base da hierarquia), num continuum. O planejamento envolve um conjunto de planos que variam desde o detalhamen- to das atividades cotidianas, no nível operacional, até as estratégias políticas de longo prazo. Deve, assim, constituir-se num todo integrado e estruturado por ações que relacionam, entre si, os vários níveis de objetivos e as múltiplas ações necessá- rias para alcançá-los em cada instância da organização. É, portanto, a partir dos objetivos mais amplos que uma instituição passa a defi- nir suas políticas, diretrizes, metas, programas, procedimentos e normas, segundo uma abrangência que vai de uma amplitude maior (planos estratégicos e táticos) para outra menor e mais detalhada (planos operacionais). Fase 3 – Estabelecimento de Prioridades Uma vez determinados os objetivos da organização, com base nas condições am- bientais que a envolvem e com base no conhecimento das inter-relações internas entre os sistemas técnico e social que a compõem, é a vez do estabelecimento das prioridades de ação para o alcance dos objetivos. Portanto, para determinar quais são as ações que devem ser realizadas no âmbito do serviço de saúde, é necessário definir, previamente, o que se deseja mudar no perfil de necessidades da população a que esse serviço atende e, a partir de então, selecionar quais são as ações mais propícias para tal. Nessa etapa do planejamento, aplica-se diretamente o critério da racionalidade, pois se usa a capacidade de esco- lher os meios para alcançar os fins. Fase 4 – Seleção dos Recursos Disponíveis Com base nas ações consideradas prioritárias para atender às metas e objetivos, é primordial que se proceda a um levantamento dos recursos que serão necessários para implementar as ações. Frente ao levantamento dos recursos necessários, deve-se ter claro quais são os recursos disponíveis – englobando os recursos humanos, materiais, físicos e finan- ceiros. Conhecendo exatamente todos os recursos disponíveis, passa-se a pensar nas estratégias possíveis para otimizá-los ao máximo. Isso implica redistribuí-los, agrupá-los, pensar na forma como a divisão de tarefas será organizada e, também, na satisfação pessoal dos agentes na execução de cada atividade.
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    O Planejamento eo Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial 43 Fase 5 – Estabelecimento do Plano Operacional É fundamental esclarecer, previamente, que o planejamento pode ser visualizado sob várias dimensões. Nesse sentido, deve estar explicitado o seu conteúdo (genéri- co/detalhado), a extensão de tempo (longo, médio ou curto prazo) e a sua amplitude (macro- ou micro-orientado). Fase 6 – Desenvolvimento A fase de desenvolvimento engloba: o desenvolvimento do programa, sua aprova- ção pelas instâncias superiores e a execução propriamente dita do mesmo. Envolve, ainda, a ação e a coordenação. A coordenação é essencial para minimizar atritos, definindo precisamente as res- ponsabilidades de todas as partes envolvidas na ação, de modo a facilitar a consecu- ção dos objetivos. As limitações específicas, de qualquer um dos recursos alocados, previstos anteriormente, devem ser consideradas para que haja os ajustes necessá- rios à situação real. Fase 7 – Aperfeiçoamento O aperfeiçoamento inclui as fases de avaliação e replanejamento das ações desen- volvidas. A avaliação não deve ocorrer unicamente após ter sido implementado o plano. Ao contrário, deve ocorrer como um processo permanente e contínuo, paralelamente a cada uma das fases. Porém, nessa etapa, a avaliação programada visa medir os resultados em relação ao cumprimento dos objetivos estabelecidos. Quando realizada sistematicamente, durante todo o processo, a avaliação permi- te localizar de imediato qualquer falha, para que seja corrigida a tempo. Durante todo o processo de avaliação, deve-se ter em mente a possível necessidade de im- plementar outros programas auxiliares de aperfeiçoamento de pessoal, para que estejam aptos a desenvolver todas as ações previstas. Assim, esse modelo de planejamento, que ficou conhecido como planejamento normativo, ou método CENDES/OPS, concentra algumas características que o dis- tinguem do planejamento estratégico, conforme descritas na Fig. 4.2. Fig. 4.2 Principais características do planejamento normativo. Osujeitoqueplanejaeoobjetodoplanejamentosãoindependentes.Osujeitoqueplanejaéúnicoesitua-seforaeacima da realidade (que é idealizada no desenho do deve ser); O conhecimento da realidade se dá através do diagnóstico científico, em que a verdade é concebida como única e objetiva; Prega-se a neutralidade científica do planejador; O planejamento é anti-histórico, isto é, não leva em consideração a historicidade e dinamicidade dos fenômenos; Trabalha com sistemas fechados ou visualiza a mínima interligação entre os pontos de partida e pontos de chegada; Nega e negligencia a questão do conflito e do poder.
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    44 O Planejamentoe o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial Desse modo, ressalta-se que o planejamento normativo/tradicional pode ser efe- tivo quando empregado na resolução de problemas bem definidos e em situações estáveis. Como os problemas enfrentados na gestão dos serviços de saúde são com- plexos e ocorrem em ambientes instáveis e em permanentes mudanças, o uso desse método lhe confere importantes limitações. n O Planejamento Estratégico Situacional O Planejamento Estratégico Situacional (PES), no campo das políticas públicas, surge a partir da rejeição da ideia da racionalidade econômica para a solução das questões políticas e sociais. Além disso, valoriza-se o reconhecimento da pluralida- de de atores sociais envolvidos numa realidade complexa e dinâmica, bem como os conflitos decorrentes das disputas de poder inerentes a projetos que coexistem nos espaços institucionais. Essa metodologia, que tem como precursores Carlos Matus e Mário Testa, parte do princípio que o planejamento é a ferramenta que o homem tem para viabilizar a possibilidade de exercer governabilidade diante do próprio futuro; refere-se ao controle e ao empoderamento do ator para a situação que pretende governar. O planejamento estratégico é um método voltado para a resolução de problemas, entendendo-se como problema: “algo detectado que incomoda o ator social e o mo- tiva a buscar soluções adequadas, ou seja, aquilo que o ator detecta na realidade e confronta com um padrão que ele considera não adequado ou não tolerável e o estimula a enfrentá-lo, visando a promoção de mudanças” (MATUS, 1996). TESTA (1995) e MATUS (1996) afirmam que, para a promoção de mudanças e, consequentemente, para que o processo decisório ocorra, é necessário aos diferen- tes atores envolvidos em uma situação acumular poder, pois sem ele são ínfimas ou inexistentes as possibilidades de promover mudanças. De acordo com MATUS (1996), em determinado cenário situacional o poder pode adquirir as seguintes dimensões: • Poder político: é representado por atores sociais que detêm o poder em função do exercício de um mandato eleitoral, bem como em função da representação formal de parcelas organizadas da sociedade civil, por meio do exercício de car- gos em instituições com legitimidade social; • Poder econômico: é representado por atores sociais que detêm o manejo de re- cursos econômico-financeiros; • Poder administrativo: é representado por atores sociais que ocupam cargos ad- ministrativos na esfera municipal, estadual ou federal; • Poder técnico: é representado por atores sociais que detêm o conhecimento so- bre determinadas áreas, podendo-se citar os profissionais de saúde. O PES é um método que trabalha no processamento de problemas atuais, proble- mas potenciais (ameaças e oportunidades) e dos macroproblemas. Assim, processar problemas implica: explicar como nasce e se desenvolve o pro- blema, fazer planos para atacar as causas do problema, analisar a viabilidade políti-
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    O Planejamento eo Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial 45 ca do plano ou verificar o modo de construir sua viabilidade e atacar o problema na prática, o que corresponde a ter uma visão real dos problemas locais sem generali- zá-los na descrição e nas propostas de solução. Isso posto, delineia-se o Triângulo de Governo, representado por seus três vérti- ces: o projeto de governo, a governabilidade e a capacidade de governo. Fig. 4.3 OTriângulo de Governo no PES. Projeto de Governo (Proposta de ação) Governabilidade (Grau de dificuldade da proposta) Capacidade de Governo (Perícia pessoal e institucional) O projeto de governo diz respeito ao conteúdo da proposta de governo, iniciada pela seleção de problemas e maneira de enfrentá-los. A governabilidade refere-se ao quanto de controle o ator tem sobre a situação que pretende governar. Depende da relação entre o peso das variáveis que o ator controla e as que não controla. E, finalmente, a capacidade de governo versa sobre a perícia pessoal e institucional para governar. Depende do capital intelectual e do capital de experiência do ator que declara o problema. No processo de governo de uma situação existem três balanços, que devem ser cuidadosamente gerenciados: • Balanço I: gestão política, que compreende o manejo da legalidade e legitimida- de política, ética, representatividade, descentralização, sintonia política do pro- jeto e equilíbrio de poderes; • Balanço II: gestão macroeconômica, que compreende o manejo da economia e dos recursos financeiros; • Balanço III: que compreende o manejo sobre o saldo do enfrentamento dos pro- blemas que têm maior valor para a comunidade, como, por exemplo: segurança, qualidade de vida, habitação, saúde, educação e serviços básicos. O princípio fundamental no manejo desses três balanços, segundo MATUS (1996), é que, se for necessário, não se deve hesitar em apertar um deles, mas nunca se deve apertar os três ao mesmo tempo. No exercício do governo, é importante compensar os efeitos negativos de um balanço com os efeitos positivos dos outros dois. O PES é composto por quatro momentos que se inter-relacionam, buscando res- ponder a quatro indagações fundamentais no processo decisório. Esses momentos são denominados: explicativo, normativo, estratégico e tático-operacional.
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    46 O Planejamentoe o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial A seguir são descritos cada um desses momentos, ressaltando-se que sua orde- nação numa sequência deve-se apenas a uma estratégia didática, pois os mesmos são extremamente interdependentes e articulados. n Momento Explicativo Segundo MATUS (1996), diferentes planos justificam-se porque é possível explicar a realidade de modos distintos, a depender da situação em que o ator que declara o problema se situa, e isso poderá imprimir diferentes direcionalidades ao desenvol- vimento dos planos. No momento explicativo, a realidade é explicada mediante a seleção de proble- mas relevantes, buscando-se compreender mais amplamente por que estes ocor- rem e identificando-se os seus nós críticos, isto é, os centros práticos de ação dentre as principais causas do problema. A seleção de problemas consiste no desafio de fazer opções, tomar a decisão do que se deve incluir no plano e estabelecer prioridades; identificar os nós críticos e pensar a realidade a partir da compreensão do problema, por meio de uma análise situacional. Ao se explicar o problema por meio de uma análise situacional, não se está ne- gando a importância do diagnóstico. Contudo, parte-se do pressuposto que podem coexistir diferentes diagnósticos da situação. Esses diagnósticos constituem a base da explicação situacional e devem ser processados pelo ator, que construirá as vá- rias hipóteses explicativas das possíveis causas do problema. Em nosso meio, os conhecimentos da avaliação da tríade estrutura, processo e resultado, dos recursos epidemiológicos, dos estudos do sistema de referência e de contrarreferência e do fluxo dos usuários que atendemos são considerados elementos essenciais para uma explicação dinâmica da situação-problema a ser enfrentada. Para TANCREDI et al. (1998) e ALMEIDA et al. (2001), o momento explicativo do PES pode ser sintetizado no que Matus denominou de Fluxograma Situacional, no qual estão inseridas as seguintes categorias substantivas que resumem o conteúdo básico desse momento: • O problema formulado com clareza e objetividade; • Quem é o ator responsável pela explicação, coordenação e articulação das ações, no sentido de conceber e operar as possíveis intervenções; Fig. 4.4 Os quatro momentos do PES. Explicativo: como explicar a realidade? Normativo: como conceber o plano? Estratégico: como tornar viável o plano? Tático-operacional: como agir no cotidiano de forma planejada?
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    O Planejamento eo Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial 47 • Quais são os descritores do problema, representados, preferencialmente, por in- dicadores monitoráveis ao longo do tempo e que possibilitem verificar como o problema se comporta numa dada realidade situacional; • Quais as consequências do problema, consistindo em exercício, análise e discus- são, que terá como produto a síntese das principais consequências advindas da persistência do problema; • A representação sistêmica de causalidade consiste na listagem das principais causas que estão contribuindo para a ocorrência, manutenção ou ampliação do problema, dispostas em um quadro (fluxograma situacional) composto por nove quadrantes, nos quais irão localizar-se os nós explicativos do problema; • Cada causa é denominada “nó explicativo”, e o conjunto desses nós será ordena- do no fluxograma situacional, distinguindo-se três áreas, a saber: – Governabilidade: área em que o controle do ator que declara o problema é total; – Influência: o ator tem capacidade de influenciar outros atores que detêm go- vernabilidade sobre os nós críticos do problema dispostos nessa área; – Fora do jogo: área em que o ator não tem nenhum controle nem influência sobre as causas do problema. Esse quadro, denominado de árvore explicativa, permite situar os nós críticos* e as áreas em que estes se encontram. Isso facilita a análise para definir quais, dentre todas as causas listadas, serão consideradas nós críticos e visualizar o grau de difi- culdade para solucionar esses nós. Os nove quadrantes do fluxograma explicativo correspondem, assim, aos dife- rentes planos que expressam o grau de controle do ator sobre as causas, bem como se estas se referem às regras (leis e normas formais documentadas em regimentos e/ou regulamentos); às acumulações (causas de caráter cognitivo que expressam capacidades ou incapacidades dos atores) e aos fluxos (que representam ações). *Alguns dos nós explicativos do problema são considerados críticos, pois representam centros práti- cos e oportunos de ação interferindo na mudança dos descritores do problema. Fig. 4.5 Modelo de fluxograma situacional – PES. Regras Acumulações Fluxos Governabilidade Influência Fora do jogo
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    48 O Planejamentoe o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial A relevância e a precisão do estabelecimento dos nós críticos justificam-se pelo fato de que esses serão os focos a serem trabalhados no momento normativo. n Momento Normativo Esse momento inclui a identificação dos atores que fazem parte do problema, a identificação dos recursos de que esses atores dispõem para controlar as opera- ções e o peso de cada ator. Faz-se a projeção de cenários em que são mapeadas as variáveis de teto (as melhores possibilidades), as de centro e as de piso (as piores possibilidades). Nesses diferentes cenários, faz-se a projeção de cada uma das ope- rações pensadas, o que corresponde ao que MATUS (1996) denomina de construção de uma árvore de apostas. A projeção das operações nos cenários é extremamente importante, visto que leva em consideração a relação entre os poderes advindos da instância política, do conhecimento técnico sobre o problema, da capacidade organizativa dos atores en- volvidos e dos recursos financeiros necessários para a resolutividade do problema. Nessa etapa, projeta-se o controle de cada um dos tipos de recursos necessários para a viabilização das ações/operações. No momento normativo, lida-se com a incerteza; por isso, segundo MATUS (1996), deve-se constantemente avaliar o cálculo sobre o futuro, construindo dife- rentes cenários de atuação, conhecendo os atores envolvidos e os possíveis confli- tos e recursos que cada ator controla. Por conseguinte, é também relevante a definição de prazos e metas em relação às operações, tendo-se dessa forma a previsão de seu início e de seu término. n Momento Estratégico Busca responder às seguintes indagações: As operações do plano são viáveis nesse momento? Quais as possíveis reações de cada ator envolvido no problema? Como construir a viabilidade para as ações inviáveis? Para MATUS (1996), a arte da política consiste em fazer possível amanhã aquilo que hoje parece impossível. A estratégia não se refere ao cálculo do possível, mas à construção da viabilidade, por meio do gerenciamento de conflitos e de negociação. Nesse âmbito, é fundamental salientar que a análise deve estar focada em cons- truir a viabilidade, mapeando todos os atores que possam estar a favor ou contra o plano proposto, calculando-se o tipo de controle que cada um detém dos recursos a serem utilizados na operacionalização do mesmo. Cabe ressaltar que o momento estratégico permeia e deve, em seu desenvolvi- mento, abranger todas as etapas da elaboração e execução do plano. n Momento Tático-operacional Consiste no momento de implementação das ações propostas. Nesse momento, é necessário fazer a mediação do plano na realidade, isto é, adequá-lo diante das situ- ações que se apresentam.
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    O Planejamento eo Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial 49 O fazer é considerado parte do plano, e não uma etapa posterior. Assim, quebra- se a lógica linear – planejar/executar/avaliar. Defende-se recalcular o plano, no qual são monitoradas as operações, o que ajuda a redesenhá-las permanentemente, e a avaliação contínua do impacto no processo de organização dos serviços realimenta a leitura da realidade e da melhor forma de nela intervir (ALMEIDA et al., 2001). Ao se analisar o PES, pode-se descrevê-lo como um método de permanente exer- cício de diálogo e reflexão sobre os problemas que incidem em uma dada realidade, visando prever situações e alternativas, antecipar possibilidades de decisão e pre- parar estratégias para a obtenção de governabilidade sobre as mesmas. Fig. 4.6 Principais características do PES. O sujeito que planeja faz parte da realidade juntamente com outros atores; Admite-se que não há uma realidade única estática, avançando-se para o entendimento da mesma no que diz respeito à superação da visão da multicausalidade para uma teoria explicativa pautada na determinação social; Admite-se que não há neutralidade e que o planejamento tem uma importante dimensão política e social, além da dimensão técnica; É histórico e identifica-se com o“pode ser”; Trabalha com a visão dialética situacional-estratégica; Reconhece o conflito e as relações de poder com os quais trabalha. As metodologias de planejamento apresentadas são complementares, pois o PES inclui o normativo como um dos momentos do planejamento, avançando, portanto, além dele. Ambas as metodologias conferem maior viabilidade ao processo decisó- rio, favorecendo a análise de situações. Contudo, o método do PES melhor se aplica a situações complexas e à busca de alternativas de ações viáveis que possam ser executadas na resolução de problemas emergentes e problemas potenciais, a fim de prever ações prospectivas. O domínio da metodologia do PES propicia ao gestor a perspectiva de poder atuar sem negligenciar as consequências críticas de uma ação, conferindo-lhe ca- pacidade de análise de viabilidade dos planos possíveis, a depender dos cenários e das ações que possa projetar. O PES pode, ainda, identificar ameaças ao processo decisório por favorecer res- ponder às indagações: O que poderia sair errado? Em que consiste cada problema em potencial? Quão arriscada é cada ação? Quais são as possíveis causas dos pro- blemas e qual a governabilidade do gestor sobre essas? Quão provável é a ocorrên- cia de cada cenário em que as ações são projetadas e qual a viabilidade de cada uma delas nesses cenários? É possível intervir para minimizar resistências dos atores envolvidos no processo decisório? É possível projetar ações e planos de contingên- cia para atuar nos piores cenários? Assim, na análise dos problemas potenciais, o planejamento estratégico consiste em potente instrumento do processo de trabalho gerencial, permitindo ao gestor
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    50 O Planejamentoe o Processo Decisório como Instrumentos do Processo deTrabalho Gerencial lançar mão das ações preventivas e contingenciais. As ações preventivas são aque- las que buscam eliminar ou minimizar as possíveis causas potenciais de um proble- ma, reduzindo sua probabilidade de ocorrência. As ações contingenciais facilitam tomar providências para compensar ou mini- mizar os efeitos de um problema potencial de elevada gravidade, caso ele ocorra em um cenário não favorável. Finalizando, concordamos com TANCREDI et al. (1998) quando afirmam que “não existe planejamento perfeito e nem plano irreprovável”. Todavia, acredita-se que a adoção de metodologias de planejamento por gestores e profissionais de saú- de é de grande importância, pois construir competências para planejar permite am- pliar a capacidade de análise de problemas e, consequentemente, tende a qualificar os processos decisórios. n Referências Bibliográficas AGUIAR, C.A.M. Planejamento estratégico como base para a reorganização das práticas ge- renciais. In: Ciclo de Debates Políticas Públicas, Saúde Mental e Trabalho, 1997. ALMEIDA, E.S.; VIEIRA, C.A.L.; CASTRO, C.G.J.; FURTADO, L.A.C.; INOJOSA, R.M. Pla- nejamento e programação em saúde. In: WESTPAL, M.F .; ALMEIDA, E.S. Gestão de ser- viços de saúde. São Paulo, EDUSP , 2001, p. 255-272. CHIAVENATO, I. Administração nos novos tempos. Rio de Janeiro, Campus, 1999. CIAMPONE, M.H.T. Metodologia do planejamento na enfermagem. In: KURCGANT, P . (Org.). Administração em Enfermagem. São Paulo, EPU, 1991, cap. 4, p. 41-58. CIAMPONE, M.H.T.; MELLEIRO, M.M.; SILVA, M.R.B; PEREIRA, I. Processo de planeja- mento na prática da enfermagem em um hospital de ensino. Rev. Escola de Enfermagem da USP, 1998; 32(3): 273-280. MATTOS, R.A. O processo de construção conceitual do Método CENDES-OPS. Rio de Ja- neiro, UERJ/MS, 1993. MATUS, C. Política, planejamento governo. Brasília, IPEA, 1996. MEHRY, E.E. Razão e planejamento. São Paulo, HUCITEC, 1994. MORETTO, L.D. Supervisão da produção. São Paulo, Departamento de Tecnologia Bioquí- mico-Farmacêutica – Faculdade de Ciências Farmacêuticas Universidade de São Paulo, 1998. 129p. Apostila. TANCREDI, F .B.; BARRIOS, S.R.L.; FERREIRA, J.H.G. Planejamento em saúde. São Paulo, Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, 1998. (Série Saúde Cidada- nia). TESTA, M. Pensamento estratégico e lógica de programação: o caso da saúde. São Paulo, HUCITEC, 1995.
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    Gerenciamento de Conflitos eNegociação MARIA HELENA TRENCH CIAMPONE E PAULINA KURCGANT 5 51 n Conflito: O que é e como Entendê-lo? Inicialmente, propomos ao leitor que recorde uma situação conflituosa que tenha vivenciado e que faça uma associação livre sobre o que lhe vem à mente ao pensar em conflito. Ao elencar as ideias, é interessante ressaltar que, frequentemente, o termo é asso- ciado a dificuldades, desavenças, injúrias, ameaças, competição, oposição, desarmo- nia, incompatibilidade e outros significados que nos dirigem a alguns pressupostos, que vamos tratar de explicitar e, assim, melhor entender a dinâmica dos conflitos. Pelos significados atribuídos ao termo conflito, podemos resgatar uma intensa proximidade com a dimensão emocional; nesse âmbito, afloram sentimentos, na sua maioria negativos, os quais, por sua vez, emergem de valores, crenças e de per- cepções dos indivíduos na sua relação com o outro e com o mundo em que vivem. Trajetórias de vida distintas, bem como vivências negativas anteriores, também conferem diferentes significados ao termo conflito. Percepções sobre os Conflitos Há nessas associações uma percepção de que um conflito implica sempre a quebra da ordem, uma experiência negativa, proveniente de erro ou falha. Há ainda uma
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    52 Gerenciamento deConflitos e Negociação outra percepção: a de que, em um conflito, está implícita uma batalha de interesses incompatíveis, ou seja, do bem contra o mal. Um terceiro aspecto refere-se a uma concepção de que um conflito é algo destrutivo das relações. Estamos corretos? Isto faz sentido? O conflito é sempre negativo ou pode ser positivo? Então, chamamos a atenção para os seguintes aspectos: • Cada um tem influência e poder sobre o fato de o conflito tornar-se negativo ou não, e essa influência e poder encontram-se na maneira como se lida com ele. Permitir que apenas as emoções determinem como conduzir o conflito é impedir que a dimensão racional interfira nessa condução. • Há necessidade de aperfeiçoamento das habilidades de gerenciamento dos con- flitos. Isso implica a necessidade de voltar-se internamente, reconhecer e refletir sobre as próprias tendências, padrões e crenças para que se possa reposicionar os enfoques com os quais tendemos a lidar com os conflitos. O assunto, apesar de complexo, é fascinante e importante porque diz respeito, diretamente, tanto às situações vividas na vida pessoal como no trabalho. Aí estão alguns motivos do porquê de estudar negociação e conflito em um livro sobre gerenciamento, dirigido a profissionais de saúde. Na dinâmica das organizações de saúde, é de importância fundamental, para os profissionais que ali desenvolvem seu trabalho, saber gerenciar conflitos e fazer negociações. As teorias administrativas propostas até a década de 1980 negavam as questões que envolviam o poder e o conflito nas organizações. Predominou o enfoque meca- nicista das teorias Clássica e Científica, bem como da teoria Burocrática que, em úl- tima instância, tentava suprimir os conflitos, considerados negativos pelo simples fato de existirem. Caso surgissem, eram atribuídos a falhas na administração. Mesmo a teoria das Relações Humanas enfocou o conflito como uma doença das organizações e das relações. Assim, todas as estratégias desenvolvidas visavam eli- minar (curar) o conflito ou remediá-lo, uma vez que esse era indício de “doença” organizacional. Assim, buscou-se, na motivação e no enriquecimento de cargos, subterfúgios para “remediar” os conflitos. Mudanças no ambiente externo a organização, surgidas a partir da década de 1980, como a globalização e a abertura de mercados, vêm gerando maior competi- tividade tanto na produção de bens, como na prestação de serviços, obrigando as organizações a adotarem respostas rápidas e a buscarem soluções criativas, conci- liatórias e de qualidade para os problemas e interesses de todos os envolvidos, ou seja, dos clientes externos e internos. Nessa dinâmica institucional, fica caracterizado o caráter relacional que ocorre no conflito intra- e extramuros. Com esse enfoque, surgem as abordagens gerenciais que visualizam as orga- nizações como redes de negociação. Com isso, emerge a necessidade de mudar o enfoque do planejamento – do normativo para o estratégico. É nesse contexto que se evidencia melhor a importância de refletir sobre a temática gerenciamento de conflitos.
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    Gerenciamento de Conflitose Negociação 53 Para uma maior aproximação do campo que nos propomos a compreender, temos que buscar respostas a algumas questões: O que é um conflito? Como este pode ser definido? Existem diferentes autores que tomaremos como referência e que, de perspec- tivas diversas, têm se preocupado em abordar o tema. Esses estudiosos pertencem a campos distintos do saber, como a Sociologia, a Psicologia, a Administração e a Filosofia, entre outros. Segundo FERREIRA (1986) (o “AURÉLIO”, dicionário da língua portuguesa), o termo vem do latim “conflictu” – e significa o embate dos que lutam; discussão acompanhada de injúrias; desavença; oposição e luta de diferentes forças. Diferentemente de uma visão tradicional, o enfoque gerencial atual reconhece que existe o conflito e que o fato de querer abordá-lo é sinal de saúde organizacio- nal. Como já vimos, embora o termo conflito denote quase sempre situações de- sagradáveis, como competição, oposição, incompatibilidade e discordância, nem sempre deve ser analisado apenas pelo seu prisma negativo. Buscando uma definição que explicite o que é conflito, há uma particularmen- te simples, mas que permite boa aproximação. “Conflito é o processo que começa quando uma parte percebe que a outra parte frustrou ou vai frustrar seus interes- ses” (HAMPTON, 1991). Admitindo que o conflito tem caráter relacional, podendo ocorrer entre pessoas, entre grupos, entre uma pessoa e um grupo, entre uma organização e um grupo, e assim por diante, e que a frustração de interesses de uma das partes envolvidas, ou de ambas, é que desencadeia um conflito, as organizações são, frequentemente, “locus” privilegiado para o surgimento de conflitos. Por colocar dilemas de ordem profissional que, muitas vezes, se sobrepõem a outros, de ordem pessoal, há quem diga que as organizações são uma arena, onde estes se desenvolvem. Por outro lado, as relações no ambiente de trabalho são intermediadas pelo jogo de poder, bem como pela diferenciação de interesses e de intencionalidades entre os agentes. As diferentes leituras e interpretações da realidade, segundo os dife- rentes agentes, também devem ser fatores considerados quando se busca o enten- dimento do conflito. Tentativas de decodificar o conflito nos seus componentes emocionais e racio- nais, buscar diferentes modos de abordá-lo, bem como entender o próprio fenô- meno do conflito no contexto em que ocorre, podem ter um efeito construtivo ou destrutivo, dependendo da maneira como é administrado. Origens dos Conflitos Atualmente, as organizações constituem-se em verdadeiras arenas para o surgi- mento de conflitos individuais ou grupais, pois os trabalhadores disputam recursos limitados, lutam por reconhecimento e progresso na carreira e por outras formas de recompensa que possam ser proporcionadas pela empresa. Considerando, ainda, que a experiência de frustração de uma ou de ambas as partes, diante da impossibi- lidade de atingir metas; que a parte frustrada interpreta a situação, projetando suas consequências, passando a comportar-se à luz da situação imaginada; que a outra parte envolvida reage a esse comportamento, com base em suas próprias percep- ções e conceituações da situação, que podem ser bem diferentes daquelas imagina-
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    54 Gerenciamento deConflitos e Negociação das pela outra parte, torna-se evidente o quanto todos os participantes do processo precisam de preparo para lidar com os conflitos. Esse processo cíclico de frustrações ocorre em virtude da inadequada interpreta- ção ou incompreensão dos interesses ou necessidades dos atores sociais envolvidos no problema, fazendo com que cada um interprete a situação, somente do seu pró- prio ponto de vista. Sabe-se, ainda, que outras causas de conflitos podem ser as diferenças de perso- nalidade, a existência de atividades interdependentes no trabalho, metas diferentes, recursos compartilhados, diferenças de informação e percepção, dentre outras. Efeitos Negativos dos Conflitos No vivencial do processo conflituoso, a relação entre as partes envolvidas passa a gerar uma série de sentimentos ambíguos e cria-se uma relação hostil entre as par- tes conflitantes, o que dificulta a comunicação, estendendo o conflito além do pro- blema original. Na vigência de um conflito ocorre um enorme dispêndio de energia, que é des- viada para fora dos propósitos organizacionais, em função da dinâmica destrutiva do mesmo. O fluxo de comunicação e de informações sofre inferências, ficando distorcido, e as interações tendem a ser direcionadas aos aliados, isto é, aos que pensam e se posicionam de forma semelhante diante do conflito. As tomadas de decisão tornam-se de baixa qualidade, com tendência ao não com- partilhamento, focalizando a parte e não o todo do problema ou da situação envol- vida. Muitas vezes, os efeitos negativos dos conflitos estão relacionados à forma des- trutiva com que se lida com eles. Se há sinais aparentes de um clima organizacional em que as pessoas ou grupos envolvidos estão desmotivados; se há evidências de que o conflito é mais significativo que a missão institucional; se os grupos se tor- nam não cooperativos; e se, na organização, predomina o desprezo pela negociação, há fortes indícios de que os conflitos estão sendo tratados de modo destrutivo. Nes- se caso, predomina a falta de confiança, e os valores individuais sobrepõem-se aos grupais e institucionais. Efeitos Positivos dos Conflitos Embora haja preponderância de se pensar que os efeitos negativos dos conflitos se sobrepõem aos positivos, deve-se considerar, segundo uma visão mais avançada, que um dos efeitos benéficos refere-se à oportunidade de incrementar o entendi- mento das diferentes perspectivas de análise dos problemas. Essa possibilidade ocorre se houver disposição para trabalhar os conflitos segundo uma visão eclética. Nessas circunstâncias, ocorrerá uma mobilização dos recursos e energia de ambas as partes, que se voltam para a busca de soluções alternativas. Nessa situação, surge o esclarecimento das soluções competitivas, assim como a explicitação dos poderes e dos recursos que cada ator detém ou de que dispõe. Abre-se a perspectiva de desenvolvimento de lideranças compartilhadas, condi- cionando as partes a apresentarem, de forma transparente, não só os fatos, como
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    Gerenciamento de Conflitose Negociação 55 também as impressões sobre a situação conflituosa. Assim, ocorre a aprendizagem de trabalho como grupo operativo, ou seja, ocorre o crescimento individual e gru- pal, caracterizando-se, verdadeiramente, como um trabalho em equipe. Essa vivência propicia o desenvolvimento de habilidades de negociação, que tem início nos processos de discussão, com a apresentação dos fatos, dos senti- mentos e das impressões de todo os envolvidos na situação. Nessa etapa da nego- ciação, cada uma das partes apresenta suas metas e métodos eleitos, mantendo-se a objetividade na defesa dos mesmos. A competição aberta, com base em padrões de desempenho superiores, é também ponto positivo resgatado das situações de conflito. Situações de Conflito nas Organizações: Como Trabalhar com Elas? Dependendo dos paradigmas dos quais partimos, isto é, dos sentimentos, valores, crenças, propósitos e mecanismos que usarmos para olhar e apreender a realidade, é que iremos nos direcionar para uma ou outra proposta de trabalho e agir diante das situações de conflito. Se partirmos de uma visão clássica, iremos tentar supri- mi-lo, já que o conflito, segundo o paradigma que embasa essa visão, é sempre algo negativo. Se partirmos de paradigmas que embasam o enfoque da teoria das Relações Hu- manas, iremos tentar curar o conflito, já que, nesse enfoque, é considerado uma doença. Por fim, se nos pautarmos pelos paradigmas que dão sustentação a uma aborda- gem psicossocial e psicodinâmica das organizações, iremos tentar entender as ne- cessidades, as dificuldades, os pontos de vista e as propostas do outro; a explicitar as nossas e a visualizar a possibilidade de uma proposição conjunta. Dessa forma, temos a reconhecer o conflito como inerente às organizações e à nossa vida em sociedade e a administrá-lo de forma compatível com a manutenção do respeito à dignidade humana. Embora sintético, o seguinte esquema ilustra esses paradigmas: Teorias Clássica e Científica • partem do pressuposto que o conflito pode ser suprimido; • buscam aperfeiçoar regras da organização e mudar posturas pessoais; • objetivam o restabelecimento da harmonia; • visualizam a organização de modo idealizado e planejado racionalmente. Teoria das Relações Humanas • parte do pressuposto que o conflito é uma doença que deve ser curada; • parte da hipótese de que os conflitos surgem em função de características indivi- duais; • enfatiza a importância do desenvolvimento de projetos voltados para ampliar a motivação no trabalho.
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    56 Gerenciamento deConflitos e Negociação Enfoque Gerencial Contemporâneo • percebe as organizações como uma rede de negociações, incluindo o ambiente interno e o externo; • admite que o conflito é inerente às organizações e que, portanto, não é patológi- co. As organizações saudáveis são aquelas que explicitam e discutem os conflitos de modo transparente, na medida em que estes surgem, e não aquelas que não possuem conflitos. Nesse enfoque, a estratégia de negociação rompe com o estilo predominante “ganha-perde”, ou seja, uma das partes sempre ganha e a outra perde, passando a adotar o estilo “ganha-ganha”, ou seja, as duas partes compartilham os ganhos. Gerenciamento dos Conflitos Assim como existem diferentes paradigmas para visualização dos conflitos, há tam- bém diferentes formas de administração dos mesmos. Desse modo, conforme o pa- radigma que dá sustentação e define o caminho a ser seguido, os conflitos podem ser administrados por, pelo menos, quatro estratégias diferentes: por acomodação, dominação, barganha/compromisso e pela solução integrativa de problemas. Na acomodação, busca-se a harmonia na situação através do encobrimento dos problemas. Dessa maneira, diminui-se a seriedade dos problemas, negando-os ou tratando-os de modo superficial. Com isso, espera-se manter uma aparente socia- bilidade nas relações. Busca-se não abordar diretamente o conflito, como forma de evitar aborrecimentos ou problemas emocionais. Assim, o conflito é negado, mas permanece implícito, desencadeando sintomas crescentes, que muitas vezes não são compreendidos se olhados isoladamente, pois não têm explicação direta na si- tuação atual, mas no conflito negado. A tendência é, então, o ressurgimento do con- flito em uma situação posterior, acompanhado de uma enorme carga afetiva que é nela depositada, tornando-a de difícil compreensão. Na dominação, o exercício do poder é levado ao extremo quando uma das partes, a mais forte, impõe sua solução preferida. Isso leva a ressentimentos e sentimentos de desvalorização da outra parte, que tende a gerar condutas de hostilidade, indi- ferença, ruptura do relacionamento e um fluxo de informações desviado para os interesses pessoais de sujeitos ou grupos envolvidos. A negociação não ocorre de fato. O estilo adotado é o “perde-ganha”, e isso corresponde a dizer que, para uma parte ganhar, a outra tem que perder. Quando se adota o estilo da barganha/compromisso, cada parte cede um pouco a fim de resolver o conflito. Embora alguns autores sejam contrários a estabelecer posições que não sejam plenamente favoráveis às partes envolvidas, em situações de impasse profundo, em que está em jogo assegurar que pontos essenciais sejam mantidos, pode ser estratégico renunciar a pontos menos importantes e buscar, posteriormente, renegociá-los em situação mais favorável. A solução integrativa de problemas visa a satisfazer as exigências de ambas as partes, através da busca de soluções alternativas. Nesse processo, identificam-se as considerações básicas ou subjacentes a ambas as partes envolvidas e procura-
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    Gerenciamento de Conflitose Negociação 57 se buscar alternativas, identificando as consequências para ambas as partes, esco- lhendo-se a alternativa mais favorável. Nessa proposta, a confiança entre as partes é fundamental, pois, se esta não exis- tir, ambas não compartilham informações nem, tampouco, conseguem pensar em alternativas que favoreçam o “ganha-ganha”. n Processo de Negociação Conceitos Básicos Uma vez discutidos os principais aspectos da abordagem dos conflitos, passamos a enfocar o processo de negociação. Segundo especialistas em negociação, o termo pode ser definido de maneiras distintas: • “é o uso da informação e do poder, com o fim de influenciar o comportamento dentro de uma rede de tensão” (COHEN, 1980). • “é um processo de comunicação bilateral, com o objetivo de se chegar a uma de- cisão conjunta” (FISHER e URY, 1985). • “é o processo de comunicação com o propósito de atingir um acordo agradável sobre diferentes ideias e necessidades” (ACUFF , 1993). • “ é o processo pelo qual as partes se movem de suas posições iniciais divergentes até um ponto no qual o acordo pode ser obtido” (STEELE et al., 1995). Em todas as definições apresentadas, apreende-se que a flexibilidade no proces- so de negociação é fundamental para um bom desempenho nos acordos a serem firmados. O processo envolve análise da situação dos diferentes atores envolvidos e poderes correspondentes, capacidade de comunicação e de planejamento estra- tégico. Habilidades Básicas em Negociação De acordo com a própria conceituação de negociação, algumas habilidades parecem ser fundamentais para os negociadores, como: ser pró-ativo; não aceitar as coisas como elas são, sem antes perguntar por que elas não poderiam ser feitas melhor; trabalhar o medo da perda e do ataque que surge diante do enfrentamento de si- tuações desconhecidas; quebrar resistências e acreditar que é possível aprender a negociar. Planejamento da Negociação O primeiro ponto básico, quando nos deparamos com uma questão de negociação, consiste em identificar, claramente, qual é o problema a ser resolvido. Somente depois de definido e declarado o problema e de listadas as suas possíveis causas e consequências é que podemos visualizar os nós críticos para a resolução do mes- mo e os atores envolvidos em sua resolução. Designam-se nós críticos as possíveis
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    58 Gerenciamento deConflitos e Negociação causas do problema que têm grande impacto nos descritores do mesmo e que se constituem em centros práticos de ação. Depois de percorrida essa trajetória é que temos alguma possibilidade de defini- ção mais clara daquilo que pretendemos efetivamente negociar. Uma boa negocia- ção inicia-se por alguns passos importantes: • separar as pessoas do problema; • concentrar-se nos interesses básicos de ambas as partes; • buscar alternativas de ganhos mútuos; • encontrar critérios justos e objetivos para a solução do problema, satisfazendo o máximo possível os lados envolvidos. Desse modo, as etapas básicas de uma negociação fundamentada em princípios do “ganha-ganha” consistem na análise do problema; no planejamento, com o qual se procura gerar ideias que atendam aos objetivos efetivamente mais importantes; e na discussão do processo de negociação. Algumas variáveis são básicas no processo de negociação, estando correlaciona- das com: (1) o poder/capacidade de controlar recursos críticos de que cada ator en- volvido dispõe (econômicos, conhecimento e capacidade organizativa); (2) o tempo correspondente ao prazo limite para resolução do problema, pois, quanto maior for a pressão do tempo, maior será a tensão de fazer concessões para a realização de um acordo; e (3) a informação/capacidade de conhecer as necessidades dos envolvidos, que inclui também a capacidade de lidar com a comunicação verbal e não verbal. Estilos de Negociação Quanto aos estilos de negociação, MARTINELLI e ALMEIDA (1998) enfatizam que estes estão intimamente relacionados à ética presente na negociação. Aqui, ética é entendida de modo abrangente, como um código de princípios e valores morais que governam o comportamento de uma pessoa ou grupo. Refere-se aos limites do que é certo ou errado numa conduta a ser adotada. As questões éticas e legais têm, na negociação, uma certa sobreposição, gerando, às vezes, certos conflitos. Algumas alternativas de negociação não são éticas nem legais; outras são éticas e não são legais, ou são legais e não são éticas; e outras, ainda, são legais e éticas segundo os padrões do grupo. A ética do negociador irá depender, assim, de valores pessoais e profissionais, dentre outros aspectos importantes, que deveriam ser discutidos de modo mais aprofundado. Em última instância, a influência desses valores indica- rão, em muito, a adoção preferencial de um estilo ou outro de negociação. Alguns estilos poderiam ser pontuados como sendo principais, embora tenha- mos, nos interstícios destes, uma diversidade de nuances. São eles: • Estilo restritivo/duro – baseado em estratégias de coerção, medo e ameaça. Com- bina o impulso para o controle e para o desrespeito com o outro, considerando que o oponente só chega a um acordo se for forçado. • Estilo ardiloso – como o próprio termo define, trata-se de um estilo em que a as- túcia é privilegiada. Nesse, predomina o impulso para a desconsideração. Busca-
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    Gerenciamento de Conflitose Negociação 59 se a estratégia da abstenção, com adiamento e atraso na negociação para manter o outro a distância. Concentra-se nos procedimentos e regras, e o objetivo predo- minante do oponente é sobreviver à negociação. • Estilo amigável – priorização de objetivos mínimos, flexibilidade e cordialidade. Impulso para a deferência e para a confiança. O principal objetivo é manter o relacionamento com o negociador, independentemente do fato de alguma con- quista importante ser atingida ou não nessa etapa. • Estilo confrontador – Impulso voltado para o controle e para a confiança entre os negociadores que, supostamente, buscam a equidade. Cuida-se da necessida- de de contestar as questões em pauta enquanto trabalham, mutuamente, com o outro, para chegar a um acordo sólido. O objetivo principal do oponente é o melhor acordo global nas circunstâncias. Esse acordo apoia-se no mérito e no compromisso mútuo a ser aprovado. Os estilos apresentados a seguir ganham diferentes nomenclaturas, a depender dos autores. De um modo geral, seu agrupamento permite que se discuta e exem- plifique como os estilos podem variar. n Estilos para Lidar com Conflitos A adoção adequada de um estilo ou outro no processo de negociação e de solução de conflitos é muito importante e pode variar de situação para situação. É impres- cindível que se analise amplamente a situação, e é possível que as pessoas definam um estilo híbrido de negociação, até porque existem muitas combinações possíveis e nuances entre um e outro estilo. Contudo, é importante que saibam diferenciar os estilos adotados pelos negociadores, pois, caso contrário, haverá a geração de mais conflitos na negociação. O fato de, num processo de negociação, ocorrerem diferenças de estilo e estas serem reconhecidas pode facilitar o entendimento da argumentação apresentada por ambas as partes e a solução dos conflitos. Mais uma vez, a flexibilidade que respeita os limites ético-legais é desejável no processo de negociação. Existem inúmeras e diferentes classificações utilizadas para caracterizar estilos de negociação e abordagem de conflitos. Uma das propostas, de HAMPTON (1991), pode ajudar na compreensão dos estilos adotados. O estilo colaborativo é, ao mesmo tempo, confrontador e cooperativo. É útil quando é muito importante encontrar soluções na qual os dois lados tenham seus interesses preservados e que, portanto, requer um compromisso mútuo. Esse estilo exige tempo e esforço, não sendo indicado para questões triviais. O estilo contestador, que também é confrontador, é indicado quando as situa- ções exigem ações decisivas e rápidas, a exemplo das emergências ou quando há um índice considerável de rejeição de propostas e interesses das pessoas envolvi- das no processo. O estilo da aceitação não é confrontador, porém é cooperativo. É indicado quan- do o interesse da outra parte no conflito é muito mais importante, ou quando se pretende obter um crédito para negociação futura.
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    60 Gerenciamento deConflitos e Negociação O estilo da retirada, não sendo confrontador e não cooperativo, tende a ser mais apropriado para uma questão mais trivial ou para quando o benefício de não enfrentar um conflito prevalecer sobre o enfrentamento naquele momento. Pode constituir-se em uma estratégia de acumulação de força ou de conquistar aliados para que a negociação se torne mais fortalecida. O estilo do compromisso situa-se no meio termo dos demais estilos, possuindo elementos de uns e de outros. É indicado quando os objetivos têm importância rela- tiva, que não justifiquem confronto, ou quando as pressões de tempo não se fazem presentes e permitem aguardar situação mais oportuna de negociação. Esse estilo envolve certa negociação e barganha, caracterizando-se como uma rápida troca de concessões que satisfazem as necessidades das partes. n Considerações Finais Em um ambiente globalizado em que predominam as incertezas, envolto por turbu- lências, em que coexistem diferentes projetos em disputa, como os que definem os modelos assistenciais e gerenciais, a negociação tem sido considerada uma alterna- tiva possível e útil para a solução de impasses diante de conflitos. As organizações de saúde não estão imunes a essa problemática. Ao contrário, são altamente influenciadas pelo contexto macro- e microssocial, através da ex- pressão da mudança dos perfis de morbimortalidade a depender das determinações sociais que incidem de modo prevalente na comunidade. As pressões econômicas e competitivas do mercado obrigam os dirigentes e to- dos aqueles que ocupam posições de gerenciamento e coordenação de grupos, inde- pendentemente de ser em instituições públicas ou privadas, a estarem preparados para a abordagem e encaminhamento de conflitos no âmbito das relações interpes- soais, intergrupais e institucionais. Esses agentes, inevitavelmente, estão envolvi- dos num processo de trabalho multidisciplinar, que guarda interfaces com diversos setores e, consequentemente, com diferentes interesses. Muitas vezes, as pressões no trabalho induzem os gestores a uma baixa demanda por planejamento, e, consequentemente, as decisões tendem a ser de baixa quali- dade. Grupos profissionais ou agentes, individualmente, perdem prestígio perante os demais, por não terem habilidades na análise de problemas, no planejamento estratégico, no gerenciamento de conflitos ou na coordenação de grupos. Nessas situações, as competências relacionais, que incluem a habilidade de negociação, são essenciais. Essas competências e habilidades constituem-se em importantes ferramentas que auxiliam os profissionais, gestores de unidades de saúde, a identificarem confli- tos, a analisá-los e a detectarem as melhores formas de negociação dos problemas. Em suma, precisamos buscar e ampliar o leque de competências para além das habilidades técnicas inerentes a cada área de saber profissional que, indiscutivel- mente, são importantes, necessárias, mas não suficientes para a qualidade do ge- renciamento da assistência à saúde. Contudo, apenas as competências e habilidades vinculadas ao saber-fazer não são suficientes para a ocupação efetiva e qualificada de um espaço profissional, para o alcance da autonomia correspondente e para o reconhecimento profissional em uma dada organização de saúde. As competências
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    Gerenciamento de Conflitose Negociação 61 relacionadas ao aprender a aprender e ao aprender a ser, aprender a relacionar-se e melhor conviver são essenciais na gestão dos serviços de saúde (CIAMPONE e KURCGANT, 2004). Acreditamos que o caminho não é reto, nem único. Devemos buscar a interface de nosso trabalho com os diferentes campos do conhecimento. Este é o desafio proposto pela interdisciplinaridade necessária à abordagem dos problemas comple- xos que enfrentamos, que requerem que tenhamos clareza e segurança para gerir conflitos e empreender negociações. O compromisso do crescimento profissional passa, necessariamente, pela escolha do projeto ético-político que elegemos e que define, em última instância, qual é a sociedade que almejamos e de que maneira podemos nos inserir nela como profissionais e cidadãos responsáveis, compromis- sados e atuantes. n Referências Bibliográficas ACUFF , F . L. How to negociate anything with anywhere around the word. New York, Ameri- can Management Association, 1993. CIAMPONE, M.H.T.; KURCGANT, P . As transformações nos processos de trabalho gerencia- mento em saúde frente ao SUS: visualizando ações através da construção de competên- cias no ensino de Administração em Enfermagem nas Escolas de Enfermagem do Brasil. Relatório de Pesquisa – CNPq/fevereiro de 2004. COHEN, H. Você pode negociar qualquer coisa. Rio de Janeiro, Record, 1980. FERREIRA, A.B.H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2a ed. Rio de Janeiro, Nova Fron- teira, 1986; 451. FISHER, R.; URY, W. Como chegar ao sim: a negociação de acordos sem concessões. Rio de Janeiro, Imago, 1985. HAMPTON, D.R. Administração: comportamento organizacional. São Paulo, McGraw-Hill, 1991. MARTINELLI, D.P; ALMEIDA, A.P . Negociação e solução de conflitos: do impasse do ga- nha-ganha através do melhor estilo de negociação. São Paulo, Atlas, 1998. SPARKS, D.B. A dinâmica da negociação efetiva. São Paulo, Nobel, 1992. STEELE, P . et al. It’s a deal: a practical negotiation handbook. Londres, McGraw-Hill, 1995.
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    Sistemas de Informação emSaúde HELOISA HELENA CIQUETO PERES E MARIA MADALENA JANUÁRIO LEITE 6 63 n Introdução Para falar de sistema de informação, faz-se necessário considerar que, nos últimos 30 anos, o mundo vem enfrentando a transição de uma sociedade industrial para uma sociedade de informação, trazendo várias implicações nos sistemas econômi- cos, políticos, educacionais, tecnológicos e sociais (TOFFLER, 1980; McGEE e PRU- SAK, 1994; WRISTON, 1994; CHIAVENATO, 1996; SABBATINI,1999). Isso significa mudanças para as organizações, uma vez que a competitividade concentra-se na capacidade que a instituição tem de adquirir, tratar, interpretar e utilizar a informação de forma eficaz, o que não significa investimentos em tecnolo- gia de informação, mas sim o seu uso inteligente, isto é, “não é necessário saber, mas saber onde buscar e selecionar esse saber” (REINALDO e RIBEIRO, 1990; McGEE e PRUSAK, 1994). Essa revolução é fruto da interação de vários recursos tecnológicos, como os saté- lites, a televisão, o fax, os telefones celulares e as redes de computadores mundiais. O resultado fundamental dessa interação é que as fronteiras nacionais estão se tor- nando cada vez mais irrelevantes, conformando uma nova ordem de comunicação democrática, global e instantânea.
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    64 Sistemas deInformação em Saúde A tecnologia está interconectando os seres humanos e possibilitando uma socia- lização e democratização da informação e do conhecimento científico. A sociedade está se apropriando desse estoque de informação com a possibilidade de criar um fluxo contínuo de saber, em um processo de construção de conhecimento coletivo permanente. Antes de discorrer sobre sistema de informação, é preciso distinguir informa- ção de comunicação, apesar de, no senso comum, usar-se informação como sinôni- mo de comunicação. Na informação não há uma interação entre sujeitos, enquanto a comunicação só existe quando há interação interpessoal. A informação é a manifestação ou ex- pressão de um conteúdo de conhecimento qualquer, seja um fato, um dado, um acontecimento, um resultado científico, um gesto, um sentimento, tudo enfim que se deixa conhecer (BRASIL, 2003). Há que se distinguir, ainda, dados de informações que correspondem a conceitos distintos. Dados constituem um conjunto de registros sobre fatos, passíveis de se- rem ordenados, analisados para se chegar a uma conclusão. Um dado é um simples registro de fatos. Assim, informações são dados que foram ordenados de forma co- erente e significativa para fins de compreensão e análise. A informação é apoio básico para todas as ações e, especificamente, nas orga- nizações é o que constitui a sustentação para o processo de tomada de decisão. CARVALHO e EDUARDO (1998) definem sistema de informação como um con- junto de procedimentos organizados que provêm informação de suporte às orga- nizações. Processa dados e os apresenta para os usuários, indivíduos ou grupos, que são os responsáveis pela sua interpretação. Para OLIVEIRA (1999), sistema de informação com enfoque na gerência consiste no “processo de transformação de dados em informações que são utilizadas na estrutura decisória da empresa, proporcionando, ainda, a sustentação administrativa para otimizar os resultados obtidos”. O sistema de informação está fundamentalmente relacionado com a cultura or- ganizacional do grupo em que ele ocorre, uma vez que representa as formas de comunicação utilizadas por uma organização. É, portanto, complexo porque envol- ve as dimensões política e cultural; não é um objeto neutro, mas que corresponde a um modo de fazer o trabalho que determina e é determinado pelas relações de poder. No que se refere à dimensão política do sistema de informação, considera-se es- sencial identificar quais são os interesses de cada grupo da organização e quais são as vantagens relativas à implementação do sistema de informação para cada um desses grupos quanto ao controle, produtividade e poder de negociação. Já na dimensão cultural, focaliza-se o sistema de informação a partir de uma retrospec- tiva histórica, do levantamento do contexto da informação, do conhecimento dos diferentes interesses e da relação de poder entre os grupos envolvidos. Permite ir além das estratégias para levar à aceitação do sistema de informação, represen- tando valor inestimável para o entendimento das consequências organizacionais de sua implementação e seu uso (SILVA e FLEURY, 2000; CASTELLANI e ZWI- CKER, 2000).
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    Sistemas de Informaçãoem Saúde 65 n Sistema de Informação na Área da Saúde Para a OMS (2001), o sistema de informação no setor da saúde representa um gran- de impacto na melhoria da gestão, da qualidade da assistência e da satisfação dos pacientes, por contribuir para ampliar a conectividade em toda a rede de atenção; por possibilitar o desenvolvimento de métodos de comparação de práticas (bench- marking) e de ferramentas para assegurar a qualidade e a eficiência em função de redução de custos; por permitir estabelecer intercâmbio com instituições de saúde internacionais e nacionais, facilitando a educação continuada dos profissionais da saúde; por apoiar as decisões e gerar mudanças de padrões e condutas. Ainda, o sistema de informação em saúde constitui-se em fator essencial para o conhecimento da realidade socioeconômica, demográfica e epidemiológica, de modo a viabilizar gestão dos vários níveis que constituem o Sistema Único de Saúde. De acordo com TASCA et al. (1993), é indispensável ter o sistema de informações como uma área estratégica, como um dos principais instrumentos para o geren- ciamento. Segundo esses autores, o sistema de informação deve ser capaz de se adaptar às diferentes realidades, bem como ter a ampla participação da comunida- de na implementação e no uso do sistema de informações. Para tanto, deverá estar baseado nos seguintes princípios: • Flexibilidade para ser capaz de identificar problemas e recursos relevantes ao nível local; • Especificidade e capacidade de discriminação das informações, com mapas e bancos de dados informatizados; • Participação dos profissionais e da população organizada. Entretanto, de acordo com esses autores, ao se fazer uma análise dos sistemas de informação em saúde vigentes, percebe-se que estes não vêm atendendo aos princípios já expostos aqui, tendo como consequência a dificuldade de elaboração de indicadores confiáveis para o nível local, impossibilitando a identificação dos grupos populacionais prioritários. Também ocorre a sobrecarga de tarefas para os profissionais responsáveis pela coleta de dados, uma vez que há variedade de ques- tionários, fichas, formulários, boletins que as unidades de saúde têm de preencher e encaminhar para diferentes coordenadorias de saúde. Denota-se, também, a falta de retorno das informações devidamente consolidadas para o nível local, que gerou os dados primários. De acordo com TASCA et al. (1993), as razões principais dessas inadequações são: • Elevada centralização dos dados, com diversas instituições coletando dados se- melhantes com sistemas diferentes, tendo como consequência duplicação de ações e de recursos; • Agregação de informações que as tornam de pouca utilidade para o nível local, além de mascarar desigualdades;
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    66 Sistemas deInformação em Saúde • Ênfase na coleta de dados médicos ou de doenças, não coletando dados relativos a saneamento de meio, perfil de saúde da clientela, dados esses que repercutem sobre os indicadores epidemiológicos; • Inexistência de participação da comunidade na geração e no uso das informa- ções, dificultando a relação transparente entre serviço e usuário. Diante dessa situação TASCA et al. (1993) propõem as seguintes informações que devem ser coletadas para auxiliar o nível local na construção do seu sistema de informação: • Dados demográficos: dados relativos a grupos prioritários dos serviços por meio de fontes, como IBGE, e fontes informais, como Associações de Bairro, de Fave- lados, entidades religiosas, clubes de mães e outros; • Dados socioeconômicos com informações obtidas por meio da observação local e aplicação de questionários específicos; • Dados epidemiológicos que permitem entender a distribuição dos problemas de saúde no território. Os sistemas de informação em saúde inicialmente tinham como finalidade dar suporte às análises médicas, ao controle de material e controle de folha de paga- mento, atendendo aos setores financeiros e administrativos. Posteriormente, a sua finalidade foi ampliada para abranger a assistência do paciente, orientado para pro- blemas médicos e para cuidados de enfermagem a usuários de unidades clínicas. Com a expansão no uso dos computadores, inicia-se a implantação das redes e da tecnologia de informação (TI). No que diz respeito aos sistemas de informação informatizados, no Brasil, apesar de um relativo sucesso em coletar, organizar e divulgar as informações de saúde, sucesso reconhecido até internacionalmente, existe evidente necessidade em avan- çar, tanto no caminho da integração entre os sistemas de informação, quanto no uso da TI para a melhoria da produtividade e qualidade dos processos de trabalho em saúde, da gestão e do controle social (BRASIL, 2004). A Constituição de 1988 e a lei 8080 de 1990 outorgam ao Ministério da Saúde atribuição específica para a organização do Sistema Nacional de Informação em Saúde, para o qual a construção da Política de Informação e Informática em Saúde é estratégica. Nesse processo, a criação da Área de Informação e Informática em Saúde no Ministério da Saúde constitui um marco histórico. Torna-se fundamental que o Ministério da Saúde coordene, por meio de processo participativo, uma Política de Informação e Informática em Saúde que conduza o processo de informatização do trabalho de saúde, tanto nos cuidados individuais quanto nas ações de saúde coletiva, de forma a obter os ganhos de eficiência e quali- dade permitidos pela tecnologia, gerando automaticamente os registros eletrônicos em que serão baseados os sistemas de informação de âmbito nacional, resultando, pois, em informação de maior confiabilidade para gestão, geração de conhecimento e controle social (BRASIL, 2004). Entretanto, os sistemas de informação de abrangência nacional criados por me- canismos diferentes nos últimos 25 anos, ora pelo Ministério da Saúde, ora pelo Mi- nistério da Previdência, como, por exemplo, o Sistema de Informações de Mortali-
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    Sistemas de Informaçãoem Saúde 67 dade e o Sistema de Pagamento das Internações Hospitalares, tiveram por objetivo atender à necessidade dos órgãos centrais em obter os dados para efeitos imediatos de gestão ou geração do conhecimento epidemiológico (BRASIL, 2004). Segundo ANDRADE (2002), o Brasil enfrentará, nos próximos anos, dois grandes desafios no que se refere à adoção de TI na área da saúde: vencer a falta de cultura e a falta de infraestrutura do segmento em tecnologia. Aponta que os investimentos em TI dos hospitais brasileiros representam apenas 1% do orçamento, comparados com os hospitais americanos, que investem cerca de 2% a 3%. Outro indicador da defasagem que o setor enfrenta é demonstrado em pesquisas que indicam que ape- nas 33% dos mais de 6.500 hospitais do Brasil (36% públicos e 64% privados) têm algum tipo de sistema de informação, e somente 5% usam a tecnologia orientada às atividades-fim, que englobam todas as etapas do processo. A informatização da informação para fins clínicos ainda é de pouco uso, tendo sido observadas algumas experiências de acompanhamento individual do pacien- te, monitorização para avaliação da evolução clínica ou diagnóstico. O maior cres- cimento deu-se a partir da década de 1990, com os avanços tecnológicos, princi- palmente da Internet, videoconferência, teleconferência, robótica, digitalização e compressão de imagens radiológicas e monitorização digital dos sinais vitais dos pacientes. O desenvolvimento de soluções de tecnologias de informação adaptadas à Saúde vem sendo gradativamente utilizado, apresentando-se em diferentes estágios de implementação. TACHINARDI (2000) aponta como experiências já consagradas à automação administrativa, bancos de dados de diferentes especialidades e finalida- des; bases bibliográficas; bem como o Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP). Para esse autor, um dos grandes desafios do prontuário eletrônico é a necessi- dade de contemplar aspectos legais das informações digitalizadas e da assinatura eletrônica com a equivalência em papel; de assegurar o sigilo, de preservar a indi- vidualidade e o direito à privacidade dos pacientes, além de garantir a não adulte- ração das informações dos pacientes. Entre os benefícios do sistema de informação informatizado, tem-se a possibili- dade de visualização das informações no momento da sua geração, em tempo real, com a possibilidade de aplicação e atuação imediata. Entretanto, de acordo com PERES (2001), o sistema de informação informati- zado ainda é uma área emergente na saúde porque exige grande infraestrutura e alto custo de implantação e manutenção tecnológica, sendo necessário o desenvol- vimento de pesquisas relacionadas aos aspectos éticos e legais, de segurança da informação, de aplicabilidade das tecnologias e de custos/benefícios, objetivando a implementação e disseminação da informação para melhor qualidade de assistên- cia à saúde da população. n Sistema de Informação na Área da Enfermagem A enfermagem exerce um papel fundamental no sistema de informação em saú- de tanto por contribuir significativamente com informações que integram os co- nhecimentos técnicos, de controle de qualidade e de documentação clínica e ad- ministrativa dos serviços prestados, quanto por necessitar de informações sobre o
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    68 Sistemas deInformação em Saúde desenvolvimento científico, dos recursos institucionais disponíveis e relacionadas às necessidades dos pacientes para a tomada de decisões. Assim, esse grupo profis- sional deve poder acessar informações sobre planejamento de programas, execução e supervisão das intervenções clínicas e de gestão, bem como sobre a avaliação dos resultados da atenção à saúde (OMS, 2001). Marin [MASSAD, MARIN, AZEVEDO NETO e LIRA (2003)] considera que a en- fermagem, por ser responsável pelo cuidado clínico individual aos pacientes, pela administração dos serviços de saúde e pelo gerenciamento dos problemas de saúde nos mais variados níveis de complexidade, é uma profissão que depende de infor- mações exatas e em tempo real, para poder desempenhar a grande variedade de intervenções envolvidas com a assistência de enfermagem, necessitando, assim, de sistemas eficientes de documentação dos dados clínicos e administrativos. ÉVORA (1993) descreve que o conceito de sistema de informação em enfermagem surgiu em 1982, nos Estados Unidos, resultante do esforço de um Grupo Nacional de Estudos de Sistema de Informação em Enfermagem, que visava a utilização de um sistema automatizado de dados para planejar, fornecer, avaliar e documentar o cuidado prestado ao paciente, bem como para coletar os dados necessários para apoiar a assistência prestada pela equipe e para o controle dos custos hospitalares. A autora afirma, ainda, que o propósito fundamental de um sistema de informa- ção em enfermagem é apoiar as atividades, ajudando os enfermeiros a documentar, apropriadamente, o processo de enfermagem, constituindo-se em benefícios rela- cionados à eficiência do trabalho, permitindo ao enfermeiro maior aproximação do paciente e, consequentemente, melhora de qualidade de assistência prestada. SABA e McCORMICK (2000) definem sistema de informação em enfermagem como sistemas que coletam, armazenam, processam, recuperam, mostram e comu- nicam a informação necessária, em tempo real, para que se possa gerenciar os ser- viços e a assistência de enfermagem e gerenciar as informações sobre o cuidado de enfermagem, unindo os recursos de pesquisa e de aplicações educacionais para a prática de enfermagem. Na prática clínica, esse sistema de informação, indepen- dente ou como componente de um sistema de informação hospitalar, auxilia os en- fermeiros no planejamento e documentação da assistência. O sistema de informação computadorizado, orientado clinicamente para docu- mentar e processar informação no cuidado direto ao paciente, é fundamental no processo de enfermagem que requer a integração e interpretação de complexas informações clínicas para a tomada de decisões sobre o cuidado de enfermagem individualizado. De acordo com Marin [MASSAD, MARIN, AZEVEDO NETO e LIRA (2003)] au- xilia o processo de trabalho da enfermagem permitindo flexibilidade no uso do sis- tema para visualizar e coletar informação necessária, fornecer qualidade ao cliente e documentar as condições do cliente. Ainda, oferece instrumentos e informações on-line sobre medicamentos, guias de conduta e protocolos da prática. Em termos de benefício, minimiza o tempo gasto em documentar as informações do paciente, elimina redundâncias, melhora o tempo de comunicação entre a equi- pe, otimiza o acesso à informação e oferece informações à equipe multidisciplinar. Dessa forma, traz como consequência o aumento de tempo dos enfermeiros para o cuidado direto, melhor qualidade da documentação, aumento da produtividade,
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    Sistemas de Informaçãoem Saúde 69 reduz a margem de erros, aumenta a satisfação no trabalho e desenvolve uma base de dados clínica comum aos profissionais envolvidos na assistência. Diante do exposto e dada a crescente necessidade de desenvolvimento de siste- ma de informações mediado pelo computador nas organizações de saúde, a partici- pação dos enfermeiros é fundamental no que se refere à seleção e implementação desse sistema. A linguagem de enfermagem padronizada, o gerenciamento das in- formações são essenciais para as tomadas de decisão em relação ao atendimento ao paciente e ao próprio serviço, permitindo também identificar a qualidade do cuidado de enfermagem prestado, auxiliando na pesquisa clínica, constituindo-se em apoio na análise dos processos de tomada de decisões, bem como na melhoria de desempenho das organizações. Concluindo, de acordo com PERES (2001), evidencia-se que o sistema de infor- mação na saúde e na enfermagem é reflexo da política da organização, dos seus valores e pressupostos, sobre tecnologia, processo saúde-doença, trabalho em equi- pe, fluindo do reservatório de conhecimento e das experiências individuais e mis- turando-se às convicções e valores socialmente aprovados. Compreende-se, ainda, que o Sistema de Informação de determinada organização de saúde e de serviço de enfermagem é consequência de uma construção histórica, sofrendo interferências do contexto sociopolítico no qual está inserido, das exigências colocadas pela rea- lidade social sobre as finalidades da saúde em diferentes momentos e, portanto, determinando o papel e o modelo de sistema de informação a ser implantado. Depreende-se que os sistemas de informação informatizados exigem dos enfer- meiros o empreendimento de esforços para impor e definir o seu papel frente à inserção da informática como instrumento para informação e refletir sobre a sua atuação diante de um contexto tecnológico, no qual a enfermagem será mediada pela tecnologia que amplia as formas de interagir, compartilhar, cuidar e gerenciar, em tempos e espaços anteriormente não imaginados. Dessa forma, fica evidente que o desenvolvimento de um sistema de informação é complexo, desafiando os enfermeiros a repensarem os seus processos de trabalho, a proporem inovações que sejam aderentes à realidade e compromisso com esse processo, reconhecendo a importância da sua participação e responsabilidade na construção de um sistema de informação nas organizações de saúde. Nessa perspectiva, as competências do enfermeiro para a sua efetiva participa- ção nos sistemas de informação informatizados, nas organizações de saúde, devem contemplar as políticas institucionais e o compromisso individual para o desenvol- vimento tecnológico desse profissional, fundamentado na reflexão ético-política, integrando a tecnologia às necessidades da profissão e à dimensão humana da en- fermagem. n Referências Bibliográficas ANDRADE, W. Tecnologia da informação no setor da saúde. Aesetorial. (http://www.aeseto- rial.com.br/tecnologia/artigos/2002/dez/27/162.htm). BRASIL, Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. Formação Pedagógica em Educação Profissional na área de Saúde: enfermagem: núcleo contextual: educação, sociedade, cultura 2. 2a ed. Brasília, Ministério da Saúde, 2003.
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    70 Sistemas deInformação em Saúde BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria Executiva. Política de Informação em Informáti- ca em Saúde. [on line] Disponível na Internet: (http://www.saude.gov.br/politica_informa- cao) (abril.04) CARVALHO, A. de O; EDUARDO, M.B. de P . Sistemas de informação em saúde para muni- cípios. São Paulo, Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, 1998. v. 6. Série Saúde Cidadania. CASTELLANI, M.R.; ZWICKER, R. Informatizando a comunicação na universidade: uma análise cultural. Rev. Adm. USP., 2000; 35(2). CHIAVENATO, I. Novos paradigmas: como as mudanças estão mexendo com as empresas. São Paulo, Atlas, 1996. ÉVORA, Y.D.M. Enfermagem e informática: tendências atuais e perspectivas futuras. Ri- beirão Preto, 1993. 230p. Tese de Doutorado – Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. MASSAD, E.; MARIN, H de F .; AZEVEDO NETO, R.S. de, LIRA ACO (eds.). O prontuário eletrônico do paciente na assistência, informação e conhecimento médico. São Paulo, 2003. 213p. McGEE, J.; PRUSAK, L. Gerenciamento estratégico da informação: aumente a competiti- vidade e a eficiência de sua empresa utilizando a informação como uma ferramenta estra- tégica. Rio de Janeiro, Campus, 1994. MENDES, E.V. (Org.). Distrito sanitário: o processo social de mudança das práticas sanitá- rias do Sistema Único de saúde. 2a ed. São Paulo-Rio de Janeiro, Hucite-Abrasco, 1994. OLIVEIRA, R. Informática educativa: dos planos e discursos à sala de aula. Campinas/São Paulo, Papirus, 1997. PAN AMERICAN HEALTH ORGANIZATION. World Health Organization. Building stan- dard-based nursing information systems. Washington, D.C., 2001.141p. PERES, H.H.C. O ser docente frente ao mundo da informática: um olhar na perspectiva da fenomenologia social. São Paulo, 2001. 228p. Tese de Doutorado – Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo. REINALDO, C.; RIBEIRO, M. A empresa holística. 2a ed. São Paulo, Vozes, 1990. SABA, V.K.; McCORMI, K.A. Essentials of computers for nurses: informatics for the new millennium. 3a ed. New York, McGraw-Hill, 2000. SABBATINI, R.M.E. A explosão da informação. Rev. Inform. Méd. 1998; 1(4). [online] Dispo- nível na Internet: (http://www.epub.org.br/informed) (16 Abril 99). SILVA, S.M.; FLEURY, M.T.L. Aspectos culturais do uso de tecnologia de informação em pesquisa acadêmica. Rev. Adm. USP., 2000; 35(2). TACHINARDI, U. Tendência da tecnologia da informação em saúde. Mundo da Saúde, 2000; 24(3): 165-172. TASCA, R. et al. Sistemas de Informação em Saúde para Distritos. In: MENDES, E. V. et al. A vigilância à saúde no distrito sanitário. Brasília. Organização Panamericana da Saúde. Escritório Regional da Organização Mundial da Saúde, 1993, p. 31-43 (Série Desenvolvi- mento de Serviços de Saúde, 10). TOFFLER, A.A. A terceira onda. Rio de Janeiro, Record, 1980. WRISTON, W.B. O crepúsculo da soberania: como a revolução da informação está transfor- mando o nosso mundo. São Paulo, Makron Books, 1994.
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    A Qualidade ea Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem DAISY MARIA RIZATTO TRONCHIN, MARTA MARIA MELLEIRO E REGINA TOSHIE TAKAHASHI 7 71 n Introdução As transformações ocorridas no cenário político mundial, a globalização da econo- mia, a crescente difusão de novas tecnologias e a socialização dos meios de comuni- cação são alguns dos eventos que contribuíram para a mudança do comportamento dos usuários dos serviços, bem como para o aumento da competitividade na maio- ria das organizações. Nesse contexto, os estabelecimentos prestadores de serviços de saúde, compre- endidos como empresas complexas, necessitam adaptar-se a esse novo cenário e tornar-se flexíveis para incorporarem estratégias capazes de atender ao usuário, seja interno ou externo, razão de ser da instituição. NOGUEIRA (1994) salienta que o atendimento das necessidades e das expecta- tivas dos usuários dos serviços de saúde, de maneira eficiente e eficaz, é a questão norteadora dos pressupostos filosóficos e das bases metodológicas, que vêm orien- tando as ações das organizações. Assim, o sistema de saúde brasileiro tem enfren- tado, nas últimas décadas, um novo imperativo: a busca pela gestão da qualidade dos serviços. A gestão da qualidade, de acordo com GARAY (1997), refere-se ao processo ati- vo de determinar e orientar o caminho a ser seguido para atingirmos os objeti-
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    72 A Qualidadee a Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem vos, empregando todos os recursos contidos na produção de um bem ou de um serviço. Para o alcance dessa meta, é fundamental a implementação de medidas visando à qualidade desses serviços. Atualmente, constata-se que a gestão da qualidade tem sido abordada das mais diferentes formas e situações, destacando-se na esfera empresarial, nos modelos gerenciais, na política de recursos humanos e na organi- zação dos processos de trabalho. Nos serviços de saúde, a qualidade deve ser enfatizada, principalmente porque o produto/serviço é consumido durante a sua produção, tornando-se diferente da produção de bens, em que é possível separar o produto com defeito, sem maiores consequências, exceto a perda de matéria-prima e o retrabalho (SILVA, 1996). O conceito de qualidade e as estratégias para obtê-la vêm se transformando e, gradativamente, incorporando novos parâmetros. Dessa forma, acredita-se que a busca pela qualidade é uma constante nas diferentes formas de produzir bens e serviços. Na trajetória da evolução do conceito de qualidade, verifica-se que, em sua fase inicial, ressaltava-se a inspeção, tendo como eixo o produto. Posteriormente, na fase do controle da qualidade, ao mesmo tempo em que havia uma preocupação com o conhecimento dos custos, antecipava-se a detecção dos defeitos, procurando- se evitar as reclamações potenciais por meio da implementação de medidas ne- cessárias e eficazes para atingir os padrões almejados, culminando, então, com a ênfase no processo. Numa etapa subsequente, surge a garantia da qualidade, na qual não era suficiente que o produto estivesse em conformidade com o projeto, mas também deveria atender às necessidades do usuário. Por essa ótica, as ações corretivas – a prevenção – atingiam a causa do problema, e não as suas consequên- cias. Finalmente, desponta o emprego da Qualidade Total, momento em que a res- ponsabilidade passa a ser partilhada por todos os envolvidos no trabalho, tendo como foco central as pessoas (usuários), atendendo à questão da qualidade na área de serviços, intensificando-se a busca de mudanças, tanto comportamental como cultural, dos indivíduos envolvidos no processo, objetivando, assim, a satisfação do usuário (CHECCHIA, 1992). Observa-se que, na abordagem fundamentada nos princípios da Qualidade To- tal, muitas vezes as organizações ignoram a importância do papel dos executores dos processos que levam à qualidade – os trabalhadores, no que diz respeito à sua autonomia e à sua satisfação profissional. Em consonância com essa assertiva, LEI- TÃO e KURCGANT (2004) acrescentam que a questão da dimensão humana no ambiente da qualidade deve estar no centro da discussão, uma vez que os anseios, as expectativas e a satisfação das pessoas responsáveis em concretizar esses pro- pósitos são vitais para o alcance das metas institucionais. Para tanto, essas autoras acreditam ser necessário que as instituições proporcionem condições de trabalho, estimulando a realização profissional e a satisfação pessoal de seus trabalhadores. Nessa direção, SILVA (1996) afirma que desconhecer a importância do fator hu- mano ou trabalhá-lo de forma inadequada tem levado ao fracasso inúmeros progra- mas de qualidade. Portanto, é imprescindível considerar o elevado potencial das pessoas e investir na sua capacitação, uma vez que a gestão da qualidade pressupõe um estilo gerencial participativo.
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    A Qualidade ea Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem 73 Diante desse paradigma, pressupõe-se a necessidade de valorizar as pessoas, a sua autonomia em decidir, a descentralização do poder, a socialização do saber e a reorganização do processo de trabalho. n Qualidade em Saúde: Retrospectiva Histórica Ao se falar de qualidade em saúde, não se pode deixar de citar a atuação da en- fermeira inglesa Florence Nightingale (1820-1910), que implantou o primeiro mo- delo de melhoria contínua da qualidade em saúde, em 1854, durante a Guerra da Crimeia, baseando-se em dados estatísticos. No Hospital de Scutari, os resultados de suas intervenções – rígidos padrões sanitários e de cuidados de enfermagem – propiciaram um significativo declínio da taxa de mortalidade de 40% para 2% (NOGUEIRA, 1996). O tema qualidade nos serviços de saúde começou a ser tratado no início do sé- culo XX, nos Estados Unidos da América (EUA), pelo Colégio Americano de Cirur- giões, que, por intermédio de padrões mínimos, avaliava regularmente a qualidade dos cuidados às pessoas hospitalizadas. A preocupação com a qualidade advém do contexto industrial, cujo foco princi- pal foi a elaboração de métodos de controle da qualidade. Edwards Deming, estatístico norte-americano, considerado um dos precursores dos estudos de controle de qualidade, em 1927, juntamente com Walter Shewhart, físico e pesquisador dos Laboratórios Bell nos EUA, empregou a estatística para elaborar um método de controle de qualidade. Na década de 1950, no pós-guerra, Deming, a convite do governo japonês, in- troduziu as práticas de gestão da qualidade, tornando-se o responsável pelo trei- namento dos gerentes no campo de controle estatístico da qualidade (MALIK e SCHIESARI, 1998). Referente, ainda, à característica da atividade de controle, J. M. Juran publica, em 1951, o livro Quality Control Handbook, que se tornou um clássico para os estu- FASE CONCEITO EIXO Inspeção Conforme especificações Produto Controle da qualidade Conforme especificações Processo Garantia da qualidade Adequação ao uso Prevenção Qualidade total Satisfação do cliente Pessoas Fig. 7.1 Sinopsedaevoluçãodoconceitodequalidade.Fonte:CHECCHIA,R.L.Aevoluçãodaqualidadeedosrecur- sos humanos. Ser humano (São Paulo), 1992; 82:47-49.
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    74 A Qualidadee a Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem diosos desse tema. Para esse autor, a administração da qualidade compreende três processos: o planejamento, o controle e a melhoria da qualidade, a conhecida Tri- logia de Juran. Alertou que os custos de não se trabalhar com essa tríade implica erros, desperdícios e retrabalho. Nessa ocasião, foi criada a Joint Commission on Accreditation of Hospitals (JCAH), de natureza privada, com objetivo de introduzir conceitos de qualidade para análise de casos, por meio de auditorias. Essa comissão proporcionou o desen- volvimento de indicadores, padrões e critérios, visando colaborar com as organiza- ções na melhoria da qualidade dos cuidados prestados. No decorrer dos anos de 1980, a qualidade dos serviços passou a ser assunto prioritário no setor saúde, sendo impulsionada por diversos fatores, como o elevado custo da assistência à saúde; a consequente necessidade de redução dos gastos; o aumento dos processos judiciais por erros médicos; a maior exigência de qualida- de por parte dos usuários; e a precisão de melhor organização dos serviços, com o intuito de otimizar a relação custo/benefício. Esse movimento levou a JCAH a ampliar seu domínio de atuação, passando a denominar-se, a partir de 1988, Joint Commission on Accreditation of Healthcare Organization – JCAHO, demons- trando a expansão de suas atividades como tentativa de garantir a qualidade dos serviços de saúde (MALIK e SCHIESARI, 1998). Durante todo esse período, os autores anteriormente citados fizeram referências às possibilidades de aplicação de métodos de controle estatístico em serviços de saúde. Todavia, é Avedis Donabedian, a partir da década de 1980, que passa a pu- blicar diversos trabalhos, retratando a sua preocupação com o tema qualidade e de como avaliá-la no setor saúde. No final dessa mesma década, surgem os padrões de qualidade estabelecidos pela International Standards Organization (ISO), uma entidade criada em 1946 e sediada em Genebra, Suíça. Os princípios que norteiam a ISO 9000 foram desenvolvidos em 1987, para padro- nizar as normas de gestão de qualidade nas organizações. O certificado ISO 9000 atesta que a instituição cumpre as normas de gestão de qualidade estabelecidas (BATEMAN e SNELL, 1998). A aplicação das normas ISO garante a uniformização dos métodos usados pelas organizações e envolve cinco certificações: lSO 9001 (produtos); ISO 9002 (serviços); ISO 9003 (sistemas); ISO 9004 (usuários); e ISO 14000 (preservação ecológica). Na década de 1990, o pediatra norte-americano Donald Berwick envolveu-se com o gerenciamento da qualidade, tendo contribuído para que os profissionais de saúde se apropriassem dos conceitos da qualidade, por meio da publicação do livro intitulado Melhorando a qualidade dos serviços médicos, hospitalares e da saúde, no qual adapta, para a saúde, os conceitos utilizados na indústria e oferece exem- plos de efetiva aplicação das ferramentas da qualidade. Nos países da América Latina e do Caribe, ações visando à garantia da qua- lidade não foram adotadas de maneira sistemática e extensiva como nos EUA e na Europa. Porém, verifica-se, na década de 1990, um movimento promovido pela Organização Panamericana de Saúde e pela Federação Latino-Americana de Hos- pitais, com a proposta de implantação de um modelo de acreditação de hospitais (NOVAES e PAGANINI, 1994).
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    A Qualidade ea Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem 75 n A Qualidade em Saúde e a sua Interface com a Avaliação de Serviços Na saúde, decorrente da característica do processo de trabalho, a qualidade adqui- riu um significado particular e diferenciado das demais atividades envolvidas na produção de bens. Verifica-se que a prestação da assistência à saúde é realizada por grupos heterogêneos de profissionais, com formação educacional distinta, dificul- tando o trabalho em equipe, no que se refere à qualidade dos serviços prestados. Nesse setor, a qualidade é definida como um conjunto de atributos que inclui um nível de excelência profissional, o uso eficiente de recursos, um mínimo de risco ao usuário, um alto grau de satisfação por parte dos mesmos, considerando-se essen- cialmente os valores sociais existentes (DONABEDIAN, 1992a). Para BERWICK (1994), a qualidade da assistência pode ser definida como a sa- tisfação das necessidades dos usuários, considerando que este deverá ser o objeto central das estratégias em busca da qualidade, bem como participar ativamente desse processo, no papel de avaliador das atitudes dos profissionais de saúde e dos resultados alcançados com o tratamento recebido. Segundo NOGUEIRA (1994), a qualidade pode ser traduzida por três elementos subjetivos, mas que se manifestam de modos objetivamente diferentes. São eles: • a intenção em criar e manter consciência quanto às propriedades dos produtos (bens e serviços) que estão sendo gerados, diminuindo sua variabilidade ao se- rem adotados determinados padrões ou especificações técnicas; • a preocupação em satisfazer demandas explícitas dos usuários e necessidades não declaradas, porém previsíveis dos mesmos; • a orientação para a qualidade envolvendo a gerência, os profissionais e os demais trabalhadores. Nesse âmbito, a qualidade, segundo esse autor, é “algo que os envolvidos nos atos de saúde estarão constantemente preocupados em auferir e aperfeiçoar para dar maior satisfação aos que necessitam desses serviços”. Portanto, a qualidade trans- forma-se em filosofia de gerência, uma atitude face à produção, que pode ser mais bem apreendida quando se examina o modo como se relacionam os polos produção- consumo, em que a produção parte de uma consideração minuciosa das característi- cas do processo de consumo, da opinião e da sugestão dos usuários dos serviços. Ao abordar a temática qualidade em saúde, é inevitável não correlacioná-la com a avaliação dos serviços de saúde, uma vez que, na essência do conceito de qua- lidade, está embutida a ideia de avaliação. Assim, é de suma importância que o conceito de qualidade esteja presente na missão das instituições e incorporado por seus atores sociais. E o que significa avaliar? Segundo TANAKA e MELO (2001), é expor um valor assumido a partir do julgamento realizado com base em critérios previamente defi- nidos. Acrescentam, ainda, que, no âmbito dos programas e dos serviços de saúde, a avaliação é compreendida como uma estratégia técnico-administrativa destinada à tomada de decisão, na qual o exercício dessa capacidade é dado pelo contexto e pela organização do processo de trabalho. Segundo esses mesmos autores, a avaliação é uma função de gestão destinada a auxiliar o processo de decisão, visando torná-lo o mais racional e efetivo possível.
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    76 A Qualidadee a Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem Portanto, afirmam que é necessário definir claramente a finalidade pela qual se está fazendo a avaliação, cabendo ainda ao avaliador analisar as informações dispo- níveis para melhor conhecer a situação que se pretende avaliar. A avaliação nos serviços de saúde vem sendo considerada como um processo de determinação da extensão com a qual as metas e os objetivos estão sendo alcan- çados e de como esse processo técnico-administrativo fornece subsídios para uma tomada de decisão. Dessa maneira, algumas medidas, embora incipientes, têm sido empregadas como estratégias para garantir a qualidade. A implementação de ações e programas no intuito de garantir a qualidade é uma necessidade na busca da eficiência e um dever do ponto de vista ético e moral para com os usuários e trabalhadores. Toda instituição cuja missão essencial é assistir o ser humano deve preocupar-se com a melhoria constante do atendimento, de tal maneira que atinja uma relação harmônica das áreas administrativa, tecnológica, econômica, assistencial, de ensino e de pesquisa. NOVAES (2000) destaca a possibilidade do emprego de três tipologias para a ava- liação de serviços: a investigação avaliativa, a avaliação para a decisão e a avaliação para a gestão. Esses tipos de avaliação diferem entre si quanto ao objetivo, à posição do avaliador, ao objeto avaliado, à metodologia adequada, ao contexto, à utilização da informação e ao juízo formulado em relação à temporalidade. Independentemente do tipo ou do objetivo das ações ou dos programas, quando se aborda a temática avaliação de serviços de saúde, o modelo de Avedis Donabe- dian é referendado pelos estudiosos em gestão da qualidade assistencial. DONABEDIAN (1988, 1992a) parte da assertiva de que a qualidade é a obtenção de maiores benefícios em detrimento de menores riscos para o usuário, benefícios estes que, por sua vez, se definem em função do alcançável de acordo com os re- cursos disponíveis e os valores sociais existentes. Esse conceito pode ser ampliado considerando-se os sete pilares da qualidade, a seguir, propostos por esse autor: 1. Eficácia: capacidade de produzir melhorias no setor saúde; significa o melhor que se pode fazer nas condições mais favoráveis dado o estado do cliente; 2. Efetividade: é o grau em que o cuidado, cuja qualidade está sendo avaliada, alça o nível de melhoria da saúde, cujos estudos de eficácia tenham estabelecido como alcançáveis; 3. Eficiência: é a medida do custo com o qual uma dada melhoria na saúde é alcan- çada. Se duas estratégias de cuidado são igualmente eficazes e efetivas, a mais eficiente é a de menor custo; 4. Otimização: emprego da relação custo-benefício na assistência à saúde. Numa curva ideal, o processo de adicionar benefícios pode ser tão desproporcional aos custos acrescidos, que tais adições úteis perdem a razão de ser; 5. Aceitabilidade: sinônimo de adaptação do cuidado aos desejos, expectativas e valores dos clientes e familiares. Depende da efetividade, da eficiência e da oti- mização, além da acessibilidade do cuidado e das características da relação pro- fissional de saúde-cliente; 6. Legitimidade: aceitabilidade do cuidado da forma como é visto pela sociedade em geral;
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    A Qualidade ea Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem 77 7. Equidade: princípio pelo qual se determina o que é justo ou razoável na distri- buição do cuidado e de seus benefícios entre os membros de uma população. A equidade é parte daquilo que torna o cuidado aceitável para os indivíduos e legí- timo para a sociedade. DONABEDIAN (1992b) acrescenta, ainda, que um primeiro ponto na definição do que é qualidade da assistência é que ela não se constitui num atributo abstrato, e, sim, que é construída pela avaliação da assistência através de três dimensões: Estrutura: implica as características relativamente estáveis das instituições, como: área física, recursos humanos, materiais, financeiros e modelo organizacional; Processo: refere-se ao conjunto de atividades desenvolvidas na produção em ge- ral e no setor saúde, nas relações estabelecidas entre os profissionais e os clientes, desde a busca pela assistência até o diagnóstico e o tratamento; Resultado: é a obtenção das características desejáveis dos produtos ou serviços, retratando os efeitos da assistência na saúde do cliente da população. Além desses aspectos, esse mesmo autor aponta para a importância da partici- pação do usuário na concepção, na produção e na avaliação dos serviços de saúde, enfatizando que um modelo de avaliação deve responder às seguintes questões: • A infraestrutura existente atende às necessidades do usuário? • Os processos estão ocorrendo de maneira adequada? • Os resultados obtidos são bons? • Os clientes estão satisfeitos com os serviços oferecidos? Nas instituições de saúde, a qualidade da assistência pode ser auferida median- te instrumentos que, conforme SILVA (1994), perpassam pelas seguintes etapas: a identificação das necessidades e expectativas dos usuários, o estabelecimento de padrões assistenciais, a sistematização para o planejamento e implementação da assistência, a auditoria do processo assistencial e de recursos humanos, qualifica- dos e comprometidos com o desenvolvimento das ações assistenciais em consonân- cia com o estabelecido. Cabe ainda enfatizar que ferramentas de auferibilidade, tais como padrões, crité- rios e indicadores, são importantes instrumentos empregados no processo de traba- lho dos profissionais de saúde, considerando-se tanto a dimensão qualitativa como a quantitativa. Assim, torna-se imprescindível a esses profissionais aprofundarem cada vez mais a reflexão a respeito desses aparatos, implementando-os nos diferen- tes contextos de sua prática profissional. n Avaliação da Qualidade nos Serviços de Saúde: Meios e Instrumentos O alcance da qualidade da assistência à saúde é uma meta almejada pelas institui- ções, preocupadas em garantir, por meio de suas ações, o exercício profissional e de cidadania ao usuário e ao trabalhador.
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    78 A Qualidadee a Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem No setor saúde, observa-se uma tendência a construir indicadores de eficiência, eficácia e efetividade com base em padrões e critérios preestabelecidos para uma dada realidade. De acordo com DONABEDIAN (1990), padrão é uma medida quantitativa, capaz de definir a qualidade almejada, e critério é um atributo de estrutura, de processo ou resultado, capaz de direcionar a mensuração da qualidade. O indicador é uma unidade de medida de uma atividade com a qual está relacio- nado, ou, ainda, uma medida quantitativa que pode ser usada como um guia para monitorar e avaliar a qualidade assistencial e gerencial de um serviço (JCAHO, 1989). Constata-se que os indicadores são construídos mediante uma expressão mate- mática, em que o numerador representa o total de eventos predefinidos e o denomi- nador, a população de risco selecionada, observando-se a confiabilidade, a validade, a sensibilidade, a especificidade e o valor preditivo dos dados. BITTAR (2001) refere que o indicador é um sinalizador que identifica ou dirige a atenção para assuntos específicos de resultados em uma organização de saúde, devendo periodicamente ser revisto. Os indicadores de saúde, tradicionalmente, são medidas (taxas, proporções, ín- dices, percentuais, números absolutos ou fatos) que procuram sintetizar o efeito de determinantes de natureza variada (sociais, econômicos, ambientais e biológicos), acerca do estado de saúde de determinada população (VERMELHO et al., 2002). MALIK e SCHIESARI (1998) ressaltam que, dificilmente, um indicador, de ma- neira estanque, é capaz de retratar a realidade; é mais provável que um grupo de in- dicadores possa espelhar determinada situação. Logo, para garantir o acesso a um conjunto de indicadores, é fundamental a existência de um sistema de informação capaz de propiciar maiores e melhores elementos para a sua construção e para sua aplicabilidade. Outras ferramentas com a finalidade de definir, mensurar, analisar e propor solu- ções dos problemas que interferem na garantia da qualidade dos processos de tra- balho são: as técnicas brainstorming e de grupos operativos, diagramas de causa- efeito e verificação, de Pareto e de tendência, fluxograma, histograma e gráfico de dispersão (MALIK e SCHIESARI, 1998). No Brasil, iniciativas como o Programa de Compromisso com a Qualidade Hospi- talar (CQH), mantido pela Associação Paulista de Medicina e pelo Conselho Regio- nal de Medicina do Estado de São Paulo, e o Sistema de Indicadores Padronizados para a Gestão Hospitalar, apoiado pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Rio Grande do Sul, buscam monitorar os indicadores de saúde e adaptá-los para pro- jetos voltados à nossa realidade. Aliado a isso, no cenário brasileiro, o Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade (PBQP), do Ministério de Ciência e Tecno- logia, preconiza a instituição do Prêmio Nacional da Qualidade destinado a estimu- lar a melhoria contínua da qualidade de produtos e serviços, através dos conceitos da Gestão de Qualidade Total e promover, internacionalmente, a excelência dos produtos e serviços brasileiros. Em 1997, visando ao alcance da qualidade, o Ministério da Saúde inicia um pro- grama, denominado Acreditação Hospitalar, que é um método de consenso, racio- nalização e ordenação dos hospitais. Esse programa, de cunho voluntário, pressu- põe uma ação proativa das organizações em apresentar à população, autoridades
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    A Qualidade ea Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem 79 sanitárias e fornecedores/consumidores de serviços de saúde um padrão de quali- dade compatível com uma referência externa. Para a implantação de programas de qualidade, é indispensável a utilização de determinadas ferramentas que promovam uma mudança no ambiente físico, nas questões organizacionais, que auxiliem na melhoria da autoestima dos profissio- nais e no relacionamento entre os setores. O Programa 5S pode ser considerado como uma dessas ferramentas, uma vez que busca, por meio da sensibilização das pessoas e da reorganização dos processos de trabalho, uma mudança na cultura organizacional e, consequentemente, na qua- lidade dos serviços. É derivada do modelo japonês, cujas siglas provêm de palavras que se iniciam com a letra S e que significam: Seiri – separar o necessário do des- necessário, o essencial do acidental; Seiton – organizar, colocar as coisas nos seus devidos lugares; Seiso – limpar e manter o ambiente limpo e agradável; Seiketsu – padronizar e simplificar as atividades; e Shitsuke – disciplinar, manter a ordem e os compromissos. Especificamente com relação à enfermagem, algumas medidas vêm sendo im- plementadas no sentido de estabelecer programas de monitorização aplicando indi- cadores, tais como: cuidado com cateteres, transferência de usuário entre unidades, controle da dor, úlcera por pressão, flebite e de vigilância – como quedas e adminis- tração de medicamentos (DENSER, 2003). Independentemente dos tipos de programas adotados, consideramos que os in- dicadores devam ser capazes de atender aos seguintes objetivos: melhorar a as- sistência ao usuário, fortalecer a confiança da clientela, atender às exigências de órgãos financiadores, reduzir custos e atrair e estimular o envolvimento dos pro- fissionais. Nesse contexto, os estabelecimentos de saúde podem ser avaliados de várias maneiras para cumprir as exigências legais, as condições de classificação segundo determinado critério ou as condições de qualidade. Há pelo menos quatro catego- rias de avaliação no sistema de saúde brasileiro (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 1999), elencadas a seguir: • Habilitação ou Alvará: trata-se de uma avaliação executada pela autoridade sa- nitária jurisdicional, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária ou por enti- dade delegada para esse propósito. É uma pré-condição para o ingresso no pro- cesso de acreditação; • Categorização: refere-se à classificação de unidades ambulatoriais ou de inter- nação, de acordo com critérios determinados como: graus de complexidade, de prevenção de riscos, de especialidades médicas e de outros serviços; • Programas de autoavaliação: são métodos de monitoração, como: reuniões ana- tomopatológicas, discussões de casos clínicos ou revisões de prontuários. Outras maneiras também podem ser utilizadas, considerando critérios explícitos e acei- táveis de desempenho, que são comparados com a atenção oferecida (controle de infecção, morbidade, grau de satisfação individual e da família, a referência e a contrarreferência entre uma rede de serviços); • Acreditação: é um procedimento de avaliação dos recursos institucionais, perió- dico e reservado para o reconhecimento da existência de padrões previamente
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    80 A Qualidadee a Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem definidos na estrutura, no processo e no resultado, com vistas a estimular e man- ter o desenvolvimento de uma cultura da qualidade. Constitui-se, essencialmen- te, em um programa de transformação da realidade, e não em uma forma de fiscalização. Atualmente, no Brasil, três organizações destacam-se por disponibilizarem ele- mentos capazes de monitorar a qualidade nos estabelecimentos de saúde: a Organi- zação Nacional de Acreditação (ONA), ligada ao Ministério da Saúde, a norte-ameri- cana Joint Commission on Accreditation of Healthcare Organization e a canadense Canadian Council on Health Services Accreditation. O Manual Brasileiro de Acreditação Hospitalar é o instrumento de avaliação da qualidade institucional que engloba todas as unidades do hospital, apresentando padrões de qualidade para cada uma, agrupados em três níveis de complexidade. Os requisitos dos níveis 1 (segurança-estrutura) e 2 (organização-processo) são aplicáveis aos serviços, setores ou unidades alocados em uma das oito seções do instrumento de avaliação; o nível 3 (excelência na gestão-resultado) é aplicado às seções como um todo. No âmbito de enfermagem, sempre existiu uma ação informal para auferir a qua- lidade da assistência, representada pela preocupação dos enfermeiros em seguir rigorosamente os procedimentos executados, acreditando-se com isso que seriam assegurados os resultados almejados (ADAMI, 2000). Por essa ótica, entende-se que, no serviço de enfermagem, a gestão da qualida- de da assistência volta-se para a prática profissional fundamentada no corpo do conhecimento da enfermagem, nas habilidades, nas crenças e valores individuais, profissionais e institucionais. CIANCIARULLO (1997) elucida que os conhecimentos constituem-se num con- junto teórico do saber, expresso de maneira operacional, por meio do processo de enfermagem, sistematizando as ações, atingindo um nível de qualidade compatível com a necessidade do usuário, de sua família e da comunidade. A habilidade é a própria capacidade de cuidar, de realizar algo, constituindo-se em um dos alicerces da qualidade da assistência, e as crenças e valores influenciam o padrão estabele- cido para a assistência, embasado na qualidade dos resultados desejados, da inte- ração do enfermeiro-usuário, e refletem-se no compromisso do ser enfermeiro em exercer a profissão. Dentre os instrumentos de que o Serviço de Enfermagem dispõe para gestão da qualidade, ADAMI (2000) cita aqueles considerados como internos: a Comissão de Avaliação Interna da Qualidade, constituída de elementos da equipe multidiscipli- nar, a Comissão de Auditoria em Enfermagem, a Comissão de Prevenção e Controle de Infecções Hospitalares, a Comissão de Ética em Pesquisa, a Comissão de Educa- ção Permanente, a Comissão de Gerenciamento de Riscos, a Comissão de Avaliação dos Usuários e o externo, como a referida Acreditação Hospitalar. Há ainda que considerar a importância de elaborar indicadores passíveis de se- rem estudados e comparados, no âmbito do gerenciamento do Serviço de Enferma- gem, com os padrões internos e externos à instituição. Dessa forma, podemos implementar instrumentos reguladores da qualidade da assistência de enfermagem, baseados nos componentes de estrutura, de processo e de resultado, considerando os padrões e critérios de uma dada realidade.
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    A Qualidade ea Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem 81 Por conseguinte, validar indicadores conduz o enfermeiro a encontrar respostas para diversas questões gerenciais, assistenciais, econômicas e legais, mostrando re- sultados em relação ao atendimento prestado e implementando ações de melhoria, fundamentadas em elevados padrões de qualidade (DENSER, 2003). Outros aspectos a serem considerados para o alcance da qualidade da assistên- cia de enfermagem referem-se ao quantitativo de recursos humanos, à qualifica- ção de seus profissionais, à motivação no trabalho, à remuneração salarial, entre outros. No caminho que leva à qualidade, envolver os recursos humanos da instituição é essencial, devendo-se criar espírito de grupo e proporcionar estratégias que condu- zam as pessoas a trabalharem com maior entusiasmo, criatividade e motivação. NOGUEIRA (1994), ADAMI e MARANHÃO (1995) afirmam que, sem a partici- pação e o envolvimento dos profissionais da instituição, não haverá a efetivação da qualidade; portanto, as pessoas necessitam ser motivadas e capacitadas para otimi- zarem o processo produtivo objetivando a qualidade, uma vez que esta depende de esforços em níveis individual e coletivo. Ainda, referente aos recursos humanos, corroboramos o pensamento de ADAMI (2000), ao afirmar que, para uma gestão efi- caz dos serviços de saúde e de enfermagem, torna-se necessária a implementação de uma política de qualificação de pessoal para enfrentar os desafios do 3o milênio e vontade política para transformar os serviços de saúde, as quais, certamente, cons- tituir-se-ão nos pilares básicos para a melhoria da qualidade dos serviços prestados à população brasileira. n Considerações Finais Neste capítulo foram discutidos conceitos a respeito da temática “qualidade” e sua evolução, por meio de uma retrospectiva histórica, e sua aplicabilidade nos serviços de saúde e de enfermagem. A interface do conceito qualidade com a avaliação dos serviços de saúde está pautada, fundamentalmente, no referencial teórico de Avedis Donabedian, tendo como eixo norteador os elementos de estrutura, processo e resultado, consideran- do-se também os sete pilares da qualidade propostos por esse autor. Destacou-se a importância do alcance da qualidade nos Serviços de Enferma- gem, a implementação de instrumentos para avaliar e monitorar as ações e os pro- gramas sob sua responsabilidade. Em virtude do que foi mencionado, propôs-se o emprego de indicadores basea- dos em estrutura, processo e resultado, bem como em padrões e critérios assisten- ciais como uma possibilidade de auferir a qualidade. E, finalmente, aponta que o conceito qualidade deve estar incorporado na missão da instituição e na vontade política dos profissionais que nela atuam. Salienta-se, ainda, que a qualidade está intrinsecamente associada à dimensão de otimização, em que é preciso empregar ao máximo os recursos existentes, sem riscos para os usuários e trabalhadores. Outrossim, é fundamental garantir espaços e meios para que essa clientela seja efetivamente protagonista do processo em busca da qualida- de nos serviços de saúde.
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    82 A Qualidadee a Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem n Referências Bibliográficas ADAMI, N.P . A melhoria da qualidade nos serviços de enfermagem. Acta Paulista de Enfer- magem (São Paulo), v.13, p. 190-6, 2000. Edição especial. ADAMI, N.P .; MARANHÃO, A.M.S.A. Qualidade dos serviços de saúde: conceitos e métodos avaliativos. Acta Paulista de Enfermagem (São Paulo), 1995; 4:47-55. BATEMAN, T.S.; SNELL, A.S. Administração: construindo vantagem competitiva. São Pau- lo, Atlas, 1998. BERWICK, D. Qualidade dos serviços médicos, hospitalares e de saúde. São Paulo, Makron, 1994. BITTAR, O.J.N. Indicadores de qualidade e quantidade em saúde. Rev. Administração em Saúde (São Paulo), 2001; 3(12):21-28. CHECCHIA, R.L. A evolução da qualidade e dos recursos humanos. Ser Humano (São Pau- lo), 1992; 82:47-49. CIANCIARULLO, T.I. Teoria e prática em auditoria de cuidados. São Paulo, Ícone, 1997. DENSER, C.P .A.C. Indicadores: instrumento para a prática de enfermagem com qualidade. In: BORK, A.M.T. (Org.). Enfermagem de excelência: da visão à ação. Rio de Janeiro, Guanabara/Koogan, 2003; cap. 6:89-100. DONABEDIAN, A. Evalución de la calidad de la atención médica: In: WHITE, K.L.; FRANK, J. (Orgs.). Investigaciones sobre serviços de salud: uma antologia. Washington, DC, OPAS, 1992a; 382-404. DONABEDIAN, A. The quality of medical care: how can it be assessed? JAMA (Chicago), 1988; 260(12):1743-1748. DONABEDIAN, A. The role of outcomes in quality assessment and assurance. Quality Re- view Bulletin, 1992b; 20(6):975-992. DONABEDIAN, A. The seven pillars of quality. Archives of Pathology and Laboratory Me- dicine (Chicago), 1990; 114:1115-1118. GARAY, A. Gestão. In: CATTANI, A.D. Trabalho e tecnologia: dicionário crítico. Petrópolis, Vozes, 1997. JOINT COMMISSION ON ACCREDITATION OF HEALTHCARE ORGANIZATIONS (JCAHO). Accreditation Manual for Hospital. Nursing Care, 1989; 79-85. LEITÃO, R.E.R.; KURCGANT, P . Qualidade na prática gerencial da Enfermagem. Niterói, Intertexto, 2004. MALIK, A.M.; SCHIESARI, L.M.C. Qualidade na gestão local de serviços e ações de saúde. (São Paulo), Faculdade de Saúde Pública da USP , 1998. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Manual Brasileiro de Acreditação Hospitalar. Brasília, Organi- zação Nacional de Acreditação, 2006. NOGUEIRA, L.C.L. Gerenciando pela qualidade total na saúde. Belo Horizonte, QFCO, 1996. NOGUEIRA, P .N. Perspectivas da qualidade em saúde. Rio de Janeiro, Qualitymark, 1994. NOVAES, H.M. Avaliação de programas, serviços e tecnologias em saúde. Rev. Saúde Públi- ca (São Paulo), 2000; 34(5):547-549. NOVAES, H.M.; PAGANINI, J.M. Padrões e indicadores de qualidade para hospitais. Wa- shington, OPAS, 1994.
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    A Qualidade ea Avaliação dos Serviços de Saúde e de Enfermagem 83 SILVA, S.H. Controle da qualidade assistencial em enfermagem: implementação de um modelo. Tese de doutorado apresentada na Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, 1994. SILVA, V.E.F . Qualidade nas instituições de saúde e a prática da enfermagem. São Paulo, Departamento de Orientação Professional – Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, 1996. 13p. Apostila. TANAKA, O.Y.; MELO, C. Avaliação de programas de saúde do adolescente: um modo de fazer. São Paulo, EDUSP , 2001. VERMELHO, L.L.; COSTA, A.J.L.; KALE, P .L. Indicadores de Saúde. In: MEDRONHO, R.A. (Org.). Epidemiologia. São Paulo, Atheneu, 2002; 33-55.
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    A Qualidade deVida no Trabalho e a Saúde do Trabalhador de Enfermagem VANDA ELISA ANDRES FELLI E DAISY MARIA RIZATTO TRONCHIN 8 85 n As Concepções Acerca da Qualidade de Vida e sua Interface com a n Qualidade de Vida no Trabalho A expressão “qualidade de vida” (QV) tem sido referida tanto ao momento de vida dos indivíduos em sociedade como ao momento de trabalho – qualidade de vida no trabalho (QVT), entendendo que esses se constroem mutuamente. Essa afirmação está pautada no entendimento de que não há como dissociar a vida e o trabalho, bem como não reconhecer a interface do trabalho na nossa QV. O trabalho, concebido como organizador da vida social, é imprescindível para os indivíduos. Na sociedade atual, a pessoa precisa sentir-se produtiva e realizada. Para tanto, as atividades que desenvolve necessitam de sentido, de significado. Para compreender o significado de QVT e suas implicações na saúde dos traba- lhadores de enfermagem, torna-se necessário apreender o significado de QV. Nas últimas décadas, verifica-se que a expressão “qualidade de vida” vem sendo vastamente aplicada nas inúmeras áreas do conhecimento e no cotidiano. Embora seja um tema atual, não há consenso sobre o conceito de qualidade de vida, dada a sua natureza abstrata e subjetiva, que lhe confere diversos significa- dos (LIMONGI-FRANÇA e RODRIGUES, 2005). Esses significados são atribuídos
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    86 A QualidadedeVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem aos conhecimentos, experiências e valores, tanto individuais como coletivos. As acepções do termo qualidade de vida contemplam dimensões contidas no momento histórico, na classe social e na cultura a que pertencem os indivíduos. Logo, a QV pode ser retratada e discutida sob inúmeras facetas e pontos de vista, trazendo à tona amplos debates sobre o seu conceito e a sua aplicabilidade. Nesse sentido, a discussão dessa temática pode ser realizada no mínimo em duas abordagens, como referem SILVA e MASSAROLLO (1998): a primeira no enfoque tradicional, que busca e identifica a existência dessa qualidade ou não, segundo alguns critérios ou categorias; e a segunda, em uma abordagem histórica, que procura apreender os seus determinantes. A concepção da QV na abordagem tradicional, ou seja, positivista, tem sido mais estudada e divulgada pelas pesquisas. Nessa linha de pensamento, a busca do conhecimento é neutra, objetiva, livre de juízo de valor e de implicações político- sociais, marcada pela neutralidade e pela objetividade (MINAYO, 1993). Por essa ótica, a expressão “qualidade de vida” foi empregada pela primeira vez pelo presidente dos EUA, Lyndon Johnson, na década de 1960, ao declarar que “os objetivos não podem ser medidos através do balanço dos bancos, mas sim por meio da QV que proporcionam às pessoas” (MEEBERG, 1993; WHOQOL, 1998). Embora não haja uma uniformidade quanto ao conceito, nessa concepção há uma concordância entre os pesquisadores acerca do constructo, cujas característi- cas são: a subjetividade, a multidimensionalidade e a presença de dimensões posi- tivas e negativas, como a mobilidade e a dor (WHOQOL, 1998). A Organização Mundial da Saúde (OMS), entendendo a complexidade do fenô- meno e disposta a discutir o tema, reuniu um grupo de experts de diferentes locais e culturas visando conceituá-la. Dessa maneira, esse grupo definiu a QV como “a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores nos quais vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações” (WHOQOL GROUP , 1998). Para MEEBERG (1993), QV é um constructo multifacetado, englobando aspec- tos de comportamento individual e capacidades cognitivas, o bem-estar emocional e habilidades requeridas para desempenhar o papel familiar, vocacional e social no qual se encontram as naturezas objetiva e subjetiva do ser humano. A autora destaca quatro atributos intrinsecamente relacionados à expressão: sentimento de satisfação com a vida; capacidade mental de evoluir e vencer na vida com prazer; possuir um estado aceitável de saúde física, mental, social e emocional segundo a referência individual; e uma avaliação objetiva de outra pessoa acerca das condi- ções adequadas ou não da vida ou terapêutica. PADILHA e SOUZA (1999) acrescentam que QV é a condição da existência do ser humano, referida aos modos de viver em sociedade, dentro dos limites que são colocados em cada momento histórico para se viver o cotidiano, e relaciona-se aos atributos e às propriedades que qualificam a vida e ao sentido que cada indivíduo atribui a ela. Nesse aspecto, a expressão “qualidade de vida” perpassa pela qualidade de saú- de, suas possibilidades e limitações, tanto individual como coletiva, e, ainda, inclui o sentido de satisfazer as necessidades relativas à moradia, educação, alimentação, ao trabalho, ao lazer, às relações sociais, enfim, dimensões que favorecem a con- quista da cidadania.
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    A Qualidade deVidanoTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem 87 Assim, o conceito QV é apreendido como subjetivo, dinâmico, que se modifica com nosso processo de viver, uma vez que a satisfação com a vida e a sensação de bem-estar podem, muitas vezes, ser sentimentos transitórios. Por essa ótica, a captação da QV é realizada tanto genérica como especificamen- te. Na dimensão genérica, captam-se o perfil de saúde-doença e seus aspectos, bem como o impacto de uma doença sobre a população geral ou grupos específicos – como os portadores de doenças crônicas. A captação específica busca detectar par- ticularidades da QV nos indivíduos, como as funções física, sexual, entre outras (DANTAS; SAWADA; MALERBO, 2003). Segundo MINAYO, HARTZ e BUSS (2000), um amplo repertório de indicadores e instrumentos tem sido utilizado, mundialmente, no sentido de quantificar e apre- ender a QV dos grupos, destacando: o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), Índice de Condições de Vida (ICV), Qualidade de Vida Ligada à Saúde (QVLS), Health Related Quality of Life (HRQL), World Health Organization Quality of Life (WHOQOL), Quality-adjusted Life-Years (QALY) e outros. Do mesmo modo, diferentes instrumentos são utilizados para identificar a satis- fação no trabalho e a QVT, como o Índice de Satisfação no Trabalho (LINO, 1999, 2004; MATSUDA, 2002; SCHMIDT, 2004), o Questionário de Medida da Satisfação no Trabalho (DEL CURA, 1994; FERREIRA, POSSARI e MODERNO, 2006) e o Ins- trumento de Medida de Qualidade de Vida no Trabalho (CARANDINA, 2003). A OMS, portanto, em busca de um instrumento que mensurasse a QV em uma perspectiva internacional, desenvolveu um projeto em vários continentes, origi- nando dois instrumentos gerais disponíveis em 20 idiomas: o WHOQOL-100 e o WHOQOL-BREF . No Brasil, o WHOQOL-BREF foi validado e aplicado por FLECK et al. (2000). Empregando esse instrumento, TRONCHIN et al. (2002) analisaram a qualidade de vida dos trabalhadores de enfermagem das seções de UTI Pediátrica e Ambula- tório do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo. Concluíram que, em uma escala de 1 a 5, esses trabalhadores consideraram que os domínios que mais contribuíram para a QV foram os relativos à dimensão psicológica (3,6) e às relações sociais (3,8). Atribuíram, ainda, para os domínios físico e meio ambiente, índices de 3,2 e de 3,4, respectivamente. Para a categoria enfermeiro, o menor escore 3,4 relacionou-se ao domínio físico, enquanto, para os auxiliares e técnicos de enferma- gem, o mesmo escore foi encontrado no domínio de meio ambiente. Na abordagem histórica, SILVA e MASSAROLLO (1998) citam que a busca é pela historicidade dos fatos, objetivando transformar a realidade, tendo como cate- goria básica de análise da sociedade o modo de produção e, como categoria media- dora das relações sociais, o trabalho (MINAYO, 1993). Portanto, nessa perspectiva, a preocupação encontra-se em apreender os determinantes que influenciam a QV e a reflexão acerca dos processos que a determinam. DEMO (1996) salienta que a dimensão cultural também deve integrar a QV, en- tendida como a demonstração histórica concreta da competência humana, tanto como memória e patrimônio quanto como potencialidade futura, ambas destinadas à construção da identidade, condição essencial de cidadania. BREILH et al. (1990), estudiosos vinculados à corrente latino-americana de me- dicina social, concebem a QV como resultado histórico e social, apontando seus
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    88 A QualidadedeVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem determinantes. Para esses autores,1 os membros de cada classe social inserem-se na esfera produtiva de forma especial, com seus padrões característicos de consu- mo, suas formas específicas de organização e cultura, que se desenvolvem em um sistema contraditório, em que se opõem, por um lado, os bens ou forças benéficas que protegem e aperfeiçoam sua saúde e o avanço dos processos biológicos, e, por outro, os aspectos destrutivos que os constringem e deterioram. Complementam que tanto os aspectos benéficos de que desfrutam como os destrutivos de que pade- cem constituem o que se tem denominado de perfil saúde-enfermidade. Destacam, ainda, que esse sistema integrado de contradições está reportado à reprodução so- cial que, em última instância, modela a qualidade de vida e os padrões de saúde- enfermidade resultantes, o denominado perfil epidemiológico. n A Qualidade de Vida no Trabalho de Enfermagem O trabalho, no contexto mundial, vem sofrendo transformações importantes, decor- rentes da chamada globalização,2 que tem exigido constantes mudanças na sua for- ma de organização. Inserido nessa realidade, o trabalho exercido no País reproduz essas transformações. Em particular e, no cenário da América Latina, esse trabalho sofre, na atualidade, o impacto das políticas de recorte neoliberal, como uma forma capitalista avançada. Nessa realidade, estão presentes a redução da força de traba- lho, o desemprego, a competitividade e a consequente busca por novas formas de organização dos processos de trabalho, a intensificação do ritmo onde o trabalho é executado, a flexibilização dos direitos trabalhistas e a inserção informal nos mer- cados, dentre tantas outras. GELBCKE (2002) comenta que a implantação de novos modelos de gestão e tec- nologia é necessária para a produção de melhores produtos ou serviços de qualida- de para os consumidores que se encontram cada vez mais exigentes. E alerta para o fato de que a exigência pela qualidade tem repercutido nas instituições visando o aumento de maior produtividade, melhor qualidade, em detrimento, muitas vezes, da qualidade de vida do trabalhador. Essas transformações no mundo do trabalho têm trazido à tona as discussões a respeito da QV do trabalhador. SILVA e MASSAROLLO (1998) afirmam que a QV dos trabalhadores de enfer- magem é dependente do modo como o trabalho se organiza e se opera, e de como os profissionais se utilizam das estratégias de enfrentamento. Referem, ainda, que as dimensões da estrutura política e organizacional se articulam aos processos par- 1Texto traduzido pelas autoras. 2“A globalização pode ser definida como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por even- tos que ocorrem a muitas milhas de distância, e vice-versa. É um processo dialético porque tais acontecimentos locais podem se deslocar numa direção inversa às relações muito distanciadas que os modelam. A transformação local é tanto parte da globalização quanto a extensão lateral das co- nexões sociais através do tempo e espaço. Assim, quem quer que estude as cidades hoje em dia, em qualquer parte do mundo, está ciente de que o que ocorre numa vizinhança local tende a ser in- fluenciado por fatores – tais como dinheiro mundial e mercados de bens – operando a uma distância indefinida da vizinhança em questão” (GIDDENS apud IANNI, 1994).
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    A Qualidade deVidanoTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem 89 ticulares que culminam com a personalidade e a subjetividade, definidoras dos in- teresses, das motivações, das vulnerabilidades e da capacidade de reação dos tra- balhadores. Estudos mostram o comprometimento da qualidade de vida dos trabalhadores de enfermagem. Historicamente, a origem da denominação “qualidade de vida no trabalho” é atribuída a ERIC TRIST et al., na década de 1950, que desenvolveram estudos de abordagem sociotécnica relativa à organização do trabalho, no Tavistock Institute. O termo foi usado para designar experiências pautadas na relação indivíduo, traba- lho e organização, com base na análise e reestruturação da tarefa, com o objetivo de tornar a vida dos trabalhadores menos sofrida (RODRIGUES, 1994; FERNANDES, 1996). Assim, os estudos sobre a QV no trabalho, que, na sua primeira fase, detém uma abordagem sociotécnica, em que a organização do trabalho direciona-se para a análise e reestruturação da tarefa, passam para uma segunda fase, com enfoque na administração do contexto organizacional (RODRIGUES, 1994). Ambas as fases são marcadas pela égide da abordagem tradicional positivista, discutida na primeira parte deste capítulo, e os principais estudos fundamentados nessa abordagem podem ser, resumidamente, visualizados no Quadro 8.1. Na revisão de literatura, constata-se que a maioria das pesquisas são desenvolvi- das nessa abordagem tradicional, com ênfase na satisfação profissional. Os estudos acerca do tema específico de QV com trabalhadores de enfermagem, em particular, foram incrementados na última década, como podemos analisar pelas produções de VIEIRA (1993), MATOS (1999), MARTINS (1999), GELBECKE (2002), SOUZA (2003), CARANDINA (2003), SCHMIDT (2004), LINO (2004) e SCHMIDT (2009). VIEIRA (1993) pesquisou a QVT dos enfermeiros em um hospital de ensino, seguindo o referencial teórico de Walton, e concluiu que a QVT dos profissionais encontrava-se prejudicada quanto aos seguintes aspectos: remuneração salarial inadequada, desequilíbrio entre o processo de trabalho e a vida extraorganização, ausência de perspectiva de ascensão na carreira, estrutura organizacional burocrá- tica e escassez de recursos humanos. MATOS (1999) realizou uma investigação baseando a sua análise nas catego- rias de WALTON (1975). Como resultado, evidenciou a necessidade de repensar o processo de trabalho, o envolvimento dos diversos trabalhadores na concepção e execução da assistência de enfermagem, procurando alternativas que valorizem a contribuição de cada um no desenvolvimento do trabalho coletivo; implementar medidas que contribuam para melhorar a QVT, como jornada de trabalho única; elaborar um plano de capacitação viável e adequado; e a implantação de monitora- mento periódico à saúde. A pesquisa de MARTINS (1999) define a QVT como um conjunto de fatores conti- dos em uma instituição que possibilita ao trabalhador o completo desenvolvimento de suas potencialidades intelectuais e físicas, associadas ao seu bem-estar físico, mental, material e social, respeitando-se os princípios de segurança, higiene, ergo- nomia que impulsionam o indivíduo à conquista de seus direitos de cidadania. GELBECKE (2002), em um estudo exploratório-descritivo quantiqualitativo, buscou apreender como os trabalhadores de enfermagem percebiam a QVT em um hospital de ensino. Em sua maioria, os profissionais responderam afirmativa- mente, quando questionados se a organização do trabalho interferia em sua QV,
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    90 A QualidadedeVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem Quadro 8.1 Estudos sobre qualidade de vida no trabalho,segundo autores,ano, categorias de análise e indicadores.São Paulo,2004 Autor/ano Categorias de análise Indicadores Walton (1973) 1. Compensação justa e adequada • Remuneração adequada • Equidade interna e externa 2. Condições de trabalho • Jornada de trabalho • Carga de trabalho • Ambiente físico • Material e equipamento • Ambiente saudável • Estresse 3. Uso e desenvolvimento de capacidades • Autonomia • Significado da tarefa • Identidade da tarefa • Variedade da habilidade • Retroinformação 4. Oportunidade de crescimento e segurança • Possibilidade de carreira • Crescimento pessoal • Perspectiva de avanço salarial • Segurança de emprego 5. Integração social na organização • Ausência de preconceitos • Igualdade • Mobilidade • Relacionamento • Senso comunitário 6. Constitucionalismo • Direitos de proteção do trabalhador • Privacidade pessoal • Liberdade de expressão • Tratamento imparcial • Direitos trabalhistas 7. Trabalho e espaço total de vida • Papel balanceado no trabalho • Estabilidade de horários • Poucas mudanças geográficas • Tempo para lazer da família 8. Relevância social da vida no trabalho • Imagem da empresa • Responsabilidade social da empresa • Responsabilidade pelos produtos • Práticas de emprego Belanger (1973) 1. O trabalho em si • Criatividade • Variabilidade • Autonomia • Feedback 2. O crescimento pessoal e profissional • Treinamento • Oportunidade de crescimento • Relacionamento no trabalho • Papéis organizacionais (continua)
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    A Qualidade deVidanoTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem 91 Quadro 8.1 Estudos sobre qualidade de vida no trabalho,segundo autores,ano, categorias de análise e indicadores.São Paulo,2004 (continuação) Autor/ano Categorias de análise Indicadores Belanger (1973) (continuação) 3. Tarefas com significado • Tarefas completas • Oportunidade de crescimento • Relacionamento no trabalho • Papéis organizacionais 4. Funções e estruturas abertas • Clima de criatividade • Transferência de objetivos Hackman,Oldham (1975) 1. Dimensões da tarefa • Variedade de habilidades • Identidade da tarefa • Significado da tarefa • Inter-relacionamento • Autonomia • Feedback do próprio trabalho • Feedback extrínseco 2. Estados psicológicos críticos • Percepção da significância do trabalho • Percepção da responsabilidade pelos resultados • Conhecimentos dos reais resultados do trabalho 3. Resultados pessoais e trabalho • Satisfação geral com o trabalho • Motivação interna para o trabalho • Produção de trabalho de alta qualidade • Absenteísmo e rotatividade baixas Westley (1979) 1. Indicador econômico • Equidade salarial • Remuneração adequada • Benefícios • Local de trabalho • Carga horária • Ambiente externo 2. Indicador político • Segurança no emprego • Atuação sindical • Retroinformação • Valorização do cargo • Relacionamento com a chefia 3. Indicador psicológico • Realização potencial • Nível de desafio • Desenvolvimento pessoal • Desenvolvimento profissional • Criatividade • Autoavaliação • Variedade de tarefa • Identificação com a tarefa 4. Indicador sociológico • Participação nas decisões • Autonomia • Relacionamento interpessoal • Grau de responsabilidade • Valor pessoal (continua)
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    92 A QualidadedeVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem Quadro 8.1 Estudos sobre qualidade de vida no trabalho,segundo autores,ano, categorias de análise e indicadores.São Paulo,2004 (continuação) Autor/ano Categorias de análise Indicadores Wether,Davis (1983) 1. Elementos organizacionais • Abordagem mecanicista • Fluxo de trabalho • Práticas de trabalho 2. Elementos ambientais • Habilidade e disponibilidade de empregados • Expectativas sociais 3. Elementos comportamentais • Autonomia • Variedade • Identificação da tarefa • Retroinformação Nadier,Lawler (1983) Sucesso dos projetos • Percepção das necessidades • Centralização no foco do problema • Identificação e solução estruturada do problema • Projeção de compensações e resultados • Identificação do impacto nos diversos sistemas • Envolvimento amplo da organização Huse,Cummings (1985) 1. Bem-estar do trabalhador • Envolvimento do trabalhador nas decisões 2. Eficácia da organização • Estruturação de cargos 3. Participação do trabalhador • Inovação no sistema de recompensa • Melhora do ambiente de trabalho Fonte: Extraído e sistematizado pelas autoras a partir de FERNANDES,E.C.Qualidade de vida no trabalho:como medir para melhorar.Salvador, Casa da Qualidade,1996; e de SCHIMIDT,D.R.C.Qualidade de vida no trabalho e sua associação com o estresse,2009. destacando-se tanto o modo como o trabalho é realizado, quanto as inter-relações que se estabelecem, ou seja, a organização do trabalho surge como uma relação intersubjetiva e social. Apontou que pensar em QVT é pensar na pessoa executora do trabalho e em propostas que possibilitem ao trabalhador uma real autonomia, uma prática crítica e reflexiva capaz de mostrar seu potencial, sem preocupar-se somente com a produção. Aliar poder criativo e produtividade conduz também à satisfação e, consequentemente, a melhor QVT. SOUZA (2003) analisou a percepção dos trabalhadores de enfermagem a respeito do que é ter qualidade de vida no trabalho, empregando o referencial de Walton. Os participantes consideraram que QVT era: “ter recursos materiais e humanos, ambiente agradável e condições de trabalho, remuneração adequada, liberdade de escolha e expressão, ter diálogo e companheirismo entre a equipe e poder conciliar tranquilamente a vida particular com o seu trabalho.” CARANDINA (2003) construiu e validou um instrumento para medida da QVT de enfermeiros, o qual permite identificá-la em 13 domínios e 65 itens. SCHMIDT e DANTAS (2006) constataram alto grau de satisfação com os 16 itens abordados pelo questionário de QV, estando entre satisfeitos e bastante satisfeitos com a QV; os itens considerados como fontes de maior satisfação foram relaciona- mento com amigos, independência e ter e criar filhos.
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    A Qualidade deVidanoTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem 93 LINO (2004) identificou o domínio saúde e funcionamento como o mais compro- metido com a qualidade de vida das enfermeiras de terapia intensiva. O estudo de SCHMIDT (2009) apontou trabalhadores de enfermagem moderada- mente satisfeitos, frequência elevada de trabalhadores com sintomas de ansiedade, depressão, distúrbios osteomusculares e estresse. LOIOLA e FELLI (2007) asso- ciam a elevada frequência de distúrbios osteoarticulares com a baixa qualidade de vida no trabalho de enfermagem. A satisfação como principal definidor da QVT é associada à remuneração, à auto- nomia, ao status profissional, às normas organizacionais e à maior participação do trabalhador (SCHMIDT, DANTAS e MARZIALLE, 2008); isto porque o trabalho sig- nifica sobrevivência econômica, condição social e oportunidades de vida. Por outro lado, sua falta ou de seu significado compromete o equilíbrio e desenvolvimento do ser humano e a sua saúde física e mental. Uma segunda abordagem sobre a qualidade de vida no trabalho encontra-se fun- damentada na historicidade desse processo. Seguindo essa fundamentação e an- coradas no conceito de qualidade de vida segundo BREILH et al. (1990), discutido anteriormente neste capítulo, SILVA e MASSAROLLO (1998) fazem uma aproxi- mação desta para o trabalho de enfermagem. Para essas autoras, “a qualidade de vida dos trabalhadores de enfermagem, como um grupo social específico, em última instância, resulta das contradições existen- tes entre os aspectos saudáveis e protetores de que esse grupo desfruta e os aspec- tos destrutivos de que padece, de acordo com sua inserção histórica e específica na produção em saúde”. Referem, ainda, que “esses processos potencializadores da saúde e os destrutivos ocorrem simultaneamente, tanto no momento produtivo – na situação de trabalho – como no momento de consumo – na vida social. Sendo assim, quando os processos destrutivos se acumulam e se intensificam, ocorre o favore- cimento da doença, do envelhecimento e da morte desses trabalhadores. Por outro lado, quando se expandem e potencializam os aspectos saudáveis e protetores, há o favorecimento da saúde e da vida. Portanto, é nas contradições da reprodução so- cial que a qualidade de vida é gerada”. Nesse caso, cada grupo social tem um perfil protetor e um destrutivo, expresso pelo perfil saúde-doença (BREILH et al., 1990). Dessa forma, SILVA e MASSAROLLO (1998) concebem que a QVT é gerada pelos processos potencializadores, em oposição aos destrutivos, apreendidos no momen- to de trabalho. Essa é uma abordagem interessante, na medida em que agrega os aspectos po- sitivos do trabalho como potencializadores da saúde, pois, ainda hoje, há a neces- sidade de estabelecimento de estratégias de enfrentamento, no que concerne às situações desgastantes impostas pelo trabalho, e também há que se reconhecer e manter os aspectos positivos. Essas proposições podem ser sintetizadas no esque- ma adiante. Nessa direção, são enumerados determinantes, tanto de um perfil favorável como de um perfil destrutivo, que, em última instância, determinam a qualidade de vida no trabalho de enfermagem (LAURELL e NORIEGA, 1989; BREILH et al., 1990; SILVA e MASSAROLLO, 1998). Assim, no momento produtivo, um perfil fa- vorável pode ser apreendido pela possibilidade de integração social e gregarismo humano; aprendizagem não só de conhecimentos, incluindo também as relações sociais; a formação de uma identidade social e pessoal; o desenvolvimento e a uti-
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    94 A QualidadedeVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem lização de capacidades humanas. Por outro lado, um perfil destrutivo pode ser apreendido pela: alienação, subordinação e hierarquização; falta de autonomia e criatividade; exposição às sobrecargas e subcargas, que geram processos de desgas- te; elevada rotatividade e desarticulação de defesas coletivas. Partindo dessa fundamentação e considerando o processo de trabalho de ensi- no de enfermagem, ROCHA e FELLI (2004) desenvolveram um estudo em uma instituição privada e verificaram que, para os professores, a qualidade de vida no trabalho significou condições de trabalho, remuneração adequada, bom relaciona- mento interpessoal e identificação profissional. Os participantes apontaram como condições potencializadoras da QVT o investimento institucional, a possibilidade de capacitação docente e a prática de relações horizontalizadas. Referiram como condições desgastantes o regime de trabalho horista, a desarticulação entre teoria e prática, a remuneração e os aspectos didático-pedagógicos. Sobretudo, a exposição desses trabalhadores às cargas psíquicas foi identificada como geradora de mani- festações psicossomáticas e psicoemocionais. Constata-se que os estudos conduzidos na abordagem histórica permitem o reco- nhecimento dos agravos de saúde gerados pela exposição dos trabalhadores a uma diversidade de cargas, apontando seus determinantes e intervenções em diferentes níveis. Enquanto trabalho que se insere no setor de prestação de serviços de saúde da produção brasileira, deve-se reconhecer que o trabalho de enfermagem sofre o im- pacto da globalização e das políticas de recorte neoliberal, trazendo como consequên- cias o desemprego; a rotatividade da força de trabalho; a introdução de processos perigosos; a crescente terceirização e exclusão dos trabalhadores do trabalho for- mal, comprometendo a garantia dos direitos sociais, exemplificada pela inserção dos trabalhadores nas cooperativas (SILVA e MASSAROLLO, 1998). Por conseguin- te, ocorre um incremento dos processos destrutivos gerados no trabalho, compro- metendo a QVT.
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    A Qualidade deVidanoTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem 95 n A Saúde dos Trabalhadores de Enfermagem A compreensão da saúde como uma expressão da qualidade de vida dos trabalha- dores de enfermagem pressupõe apreendê-la no contexto histórico e social, para articular e entender como o social a determina. Logo, os processos saúde-doença são a expressão da qualidade de vida no trabalho de enfermagem (SILVA, 1996). O entendimento dos problemas de saúde vivenciados pelos profissionais de en- fermagem, segundo FELLI (2002), deve ser buscado na internalidade do processo de trabalho, o que permite uma visão abrangente da realidade e a possibilidade de resolutividade dos agravos de saúde focada no coletivo dos trabalhadores. Nesse sentido, a saúde dos trabalhadores de enfermagem refere-se à exposição destes às cargas de trabalho como geradoras de processos destrutivos que condu- zem a processos desgastantes e, portanto, potencializadores dos processos saúde- doença gerados no momento de trabalho. O que não significa negar que há proces- sos potencializadores da saúde no momento de trabalho. SILVA (1996) desenvolveu uma investigação fundamentada no referencial teó- rico-metodológico sistematizado por LAURELL e NORIEGA (1989), buscando evi- denciar como o trabalho gera problemas de saúde dentre os trabalhadores de en- fermagem. Nesse referencial, os autores apontam que o processo saúde-doença, enquan- to processo coletivo e social que se expressa no biológico e adquire historicidade, é concebido como nexo biopsíquico humano. Esse nexo manifesta-se a partir da atividade humana no trabalho, e sua historicidade é apreendida pelo conceito de adaptação, como “capacidade do corpo de responder com plasticidade diante de condições específicas de desenvolvimento nos processos corporais, que se expressam como formas biológicas características” (LAURELL e NORIEGA, 1989). Os processos de adaptação significam a transformação dos processos biológicos e psíquicos, com o desenvolvimento ou a destruição de capacidades e potencialidades. Incluem os processos fisiológicos, capazes de proteger o organismo para a sobrevi- vência ou de transformar-se em destruidores da integridade corporal. Cita-se, como exemplo, o estresse, que representa, nos seus estágios iniciais, uma reação que pre- para o indivíduo para o enfrentamento a um agressor e, nos estágios finais, sua concretização como doenças de diferentes naturezas, como diabetes, hipertensão e outras doenças crônicas e degenerativas, podendo conduzir o indivíduo à morte. Esses processos de adaptação são característicos dos grupos sociais, uma vez que emergem a partir do modo específico como os homens se apropriam da natureza, por meio de uma organização social (LAURELL e NORIEGA, 1989). Essa forma de apropriação e transformação da natureza, ao mesmo tempo em que é por ela trans- formado, é o que entendemos por trabalho. De acordo com SILVA (1996), os processos saúde-doença são expressos no corpo biopsíquico (entendido em todas as suas dimensões) dos trabalhadores de enferma- gem pelo desgaste por eles sofrido, provocado pela exposição às cargas de trabalho, geradas nos processos de trabalho e nos processos de valorização (ou seja, processos geradores de valor) a que esses trabalhadores estão submetidos. A relação de como o trabalho, enquanto uma categoria social, se expressa no corpo do trabalhador e, portanto, no biológico pode ser visualizada a seguir.
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    96 A QualidadedeVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem O processo de valorização, segundo LAURELL e NORIEGA (1989) é aquele no qual ocorre a geração de valor – a mais-valia, no modo de produção capitalista, como um valor que não é pago ao trabalhador. Esta pode ocorrer por meio de duas estratégias: a geração de mais-valia absoluta (aumento da jornada ou redução do salário); e relativa (introdução de mudanças tecnológicas ou intensificação do ritmo de trabalho). No trabalho em saúde, o produto gerado é um serviço que é consumi- do no momento da produção e, como tal, reproduz a lógica produtiva (GONÇAL- VES, 1994). A exemplo disso, pode-se citar o intenso ritmo em que o trabalho de enfermagem é executado, em detrimento da contratação de um número maior de trabalhadores para a realização das atividades, como operação da estratégia de ge- ração de mais-valia relativa (SILVA, 1996). O processo de trabalho parte da concepção histórica do trabalho, em que é con- cebido como uma atividade em que o trabalhador, orientado por uma finalidade, transforma determinado objeto de trabalho em um produto final, utilizando meios e instrumentos, sob determinada organização (como ocorre o trabalho em si), cons- tituindo estes em seus elementos (MARX, 1988). O trabalho de enfermagem insere-se no trabalho coletivo em saúde, como subsi- diário e complementar (CASTELLANOS et al., 1989). Diante da finalidade de recu- perar a força de trabalho e controlar as doenças, transforma o objeto-indivíduo/cole- tivo com demandas no processo saúde-doença, empregando meios e instrumentos, como a força de trabalho, saber e instrumentos específicos, segundo certas formas de organização e divisão, caracterizando-o como trabalho parcelado, hierarquizado, composto por pessoas de diferentes categorias e qualificações (SILVA, 1996). Nesse processo de trabalho, há elementos que interagem dinamicamente (ob- jeto, meios, instrumentos e formas de organização) e com o corpo do trabalhador,
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    A Qualidade deVidanoTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem 97 gerando processos de desgaste. Esses elementos são denominados cargas de tra- balho (LAURELL e NORIEGA, 1989). SILVA (1996) refere que, ao transformar o objeto no processo de trabalho de en- fermagem, o trabalhador interage com a sua natureza, ou seja, os corpos indivi- duais/coletivos e doentes dos clientes são tomados em sua natureza biológica/psí- quica como determinantes, do processo saúde-doença desses trabalhadores. Na interação com os meios e instrumentos (materiais, equipamentos, estrutura física, força de trabalho, saber), a sofisticação técnica destes e as relações sociais que de- terminam a maneira específica de trabalhar são geradoras de cargas. Na interação com as formas de organização/divisão do trabalho, o trabalhador expõe-se pelas di- ferentes formas de consumo da força de trabalho, que implicam distintas maneiras de desgastar-se, vinculadas à extração de mais-valia, principalmente relativa, pelo aumento da produtividade. A exposição dos trabalhadores de enfermagem às cargas gera processos de des- gaste particulares, ou seja, a perda da capacidade efetiva e/ou potencial corporal e psíquica. Os desgastes referem-se aos processos de adaptação que são destrutivos da integridade corporal biopsíquica. Esses processos não se relacionam, necessa- riamente, apenas às doenças diagnosticadas, mas também ao processo que as con- cretiza, uma vez que é possível recuperar as perdas e capacidades, bem como de- senvolver as potencialidades. Indicadores globais vêm sendo mais frequentemente empregados para reconhecer o desgaste: sinais e sintomas inespecíficos, morbida- de, anos de vida útil perdidos, envelhecimento acelerado e morte prematura (LAU- RELL e NORIEGA, 1989). Um exemplo que permite apreender que um processo de desgaste está em andamento é a dor nas costas, queixa constante entre os traba- lhadores de enfermagem. Essa condição é um indicativo de que as estruturas que sustentam a coluna vertebral estão, de alguma forma, comprometidas e, se alguma intervenção não for realizada, esse processo poderá materializar-se como doença (hérnia de disco, por exemplo). O desgaste deve ser considerado juntamente com os processos reprodutivos. A combinação destes determina a constituição característica de doenças particulares, conhecida como perfil patológico desse grupo social. FELLI (2007) aponta as principais cargas a que estão expostos os trabalhadores de enfermagem no cenário nacional, as quais elencamos a seguir: • Carga biológica: ocorre pelo contato com pacientes portadores de doenças infec- ciosas, infectocontagiosas ou parasitárias e/ou com suas secreções, que caracte- riza a interação com o objeto de trabalho; contato com materiais contaminados e com pequenos animais (barata, mosca, mosquito, formiga) caracteriza a intera- ção com instrumentos de trabalho. A exposição a essas cargas geralmente é relatada no momento em que se pres- ta o cuidado aos pacientes/clientes, por ocasião da manipulação dos materiais e instrumentos, e no contato esporádico com pequenos animais. A literatura tem registrado uma série de patologias decorrentes dessa exposição, como processos infecciosos localizados e sistêmicos, toxoplasmose, hepatites, síndrome da imu- nodeficiência adquirida, pneumonia, gripes e resfriados de diversas naturezas, infecções urinárias e outras tantas.
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    98 A QualidadedeVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem • Carga física: é proveniente dos ruídos de ar condicionado, sons dos instrumen- tos de trabalho e outros serviços, concentração e trânsito de pessoas, de pacien- tes/clientes e reformas das estruturas físicas; umidade; iluminação; alterações bruscas de temperatura; eletricidade; risco de incêndio e radiação ionizante. A exposição às cargas físicas, na maioria das vezes, acontece tanto pela falta de manutenção dos equipamentos como pela inadequação da sua previsão e uso. Por exemplo, a exposição aos choques elétricos e risco de incêndios ocorre pelo insuficiente número de pontos de eletricidade nas unidades. É comum vários aparelhos encontrarem-se ligados em extensões e em várias tomadas elétricas, comumente chamadas de “árvore de natal”, predispondo os profissionais aos eventos já referidos aqui. • Carga química: decorre da exposição dos trabalhadores às substâncias químicas. Essa exposição ocorre pelo contato com as substâncias em diferentes estados – sólido, líquido e gasoso – e finalidades – medicamentosa, antisséptica, desinfe- tante, esterilizante e outras. As exposições de maior importância relatadas foram ao óxido de etileno, glu- taraldeído, formaldeído, hipoclorito de sódio, sabões, éter, benzina, álcool, água oxigenada e iodo; gases anestésicos, antibióticos, quimioterápicos, pó de gesso, talco, fumaça de cigarro e materiais de borracha. As substâncias químicas são amplamente utilizadas na assistência à saúde, e, poucas vezes, os trabalhadores têm as informações necessárias sobre sua mani- pulação e efeitos na sua saúde. Elas podem ser irritantes, tóxicas, alergênicas, carcinogênicas, teratogênicas e mutagênicas (SILVA, 1996; COSTA, 2002). • Carga mecânica: provém da manipulação de materiais perfurocortantes, que- das, agressões, prensão de dedos e mãos. Essas cargas são as mais visíveis, uma vez que constituem a ruptura de con- tinuidade instantânea do corpo. Dessa maneira, são facilmente reconhecidas como acidentes de trabalho, como, por exemplo, as contusões, fraturas, perfu- rações, cortes e hematomas. Assumem importância nesse grupo os ferimentos perfurocortantes, potencializados pelas cargas biológicas, pela capacidade em contaminar os trabalhadores com vírus, e os letais, como os da hepatite B e C e da AIDS/SIDA. • Carga fisiológica: decorre da manipulação de peso excessivo, trabalho em po- sição ortostática, posicionamento inadequado e incômodo, trabalho noturno e rodízios de turno, que interferem no funcionamento do organismo. A exposição às cargas fisiológicas está associada aos problemas osteoarticu- lares (LER/DORT), às dores nos membros inferiores e às alterações dos ritmos biológicos. A manipulação excessiva de peso, comum aos profissionais de enfer- magem, é verificada pela escassez de trabalhadores para transportar e movimen- tar pacientes obesos, dependentes, anestesiados e equipamentos como torpedos de gases, macas, cadeiras de rodas e outros. • Carga psíquica: resulta da atenção constante do trabalhador; da supervisão es- trita; do ritmo acelerado, do trabalho parcelado monótono e repetitivo; da dificul- dade na comunicação; do trabalho predominantemente feminino; desarticulação de defesas coletivas; da agressão psíquica; fadiga, tensão, estresse; da insatisfa- ção e das situações que conduzem ao consumo de álcool e drogas.
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    A Qualidade deVidanoTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem 99 A exposição às cargas psíquicas é a mais referida pelos trabalhadores de en- fermagem e está relacionada ao objeto de trabalho – humano, que sofre, sente dor e morre – que os envolve em situações geradoras de estresse, sofrimento, fadiga, tensão, e, também, às formas de organização desse trabalho, como rotini- zado, parcelado, supervisão controladora e falta de autonomia. A organização do trabalho de enfermagem também evidencia um ritmo acelerado e um trabalho desgastante, imposto pela escassez ou má distribuição de trabalhadores, não per- mitindo as pausas para o descanso no decorrer da jornada. A exposição a essas cargas é geradora de vários problemas de saúde, como po- dem ser visualizados no Quadro 8.2, referido por FELLI (2007). Quadro 8.2 Processos de desgaste referidos pelos trabalhadores de enfermagem, segundo a exposição às diferentes cargas de trabalho.Brasil,2007 Tipos de cargas Desgastes Biológicas Manipulação de pacientes com doenças infecciosas e parasitárias; material infectado; e contato com pequenos animais no local de trabalho • Hepatite,AIDS/SIDA,tuberculose e outras contaminações por doenças infectocontagiosas; • Conjuntivite,resfriados e gripe,infecção da garganta,sinusites (infecções do trato respiratório superior),gastroenterite, pneumonia,malária,dengue e outras infecções em geral; e • Ansiedade e estresse. Químicas Manipulação e inalação de substâncias químicas; manipulação de medicamentos; a inalação da fumaça de cigarros • Dermatite,rinite,asma,alergias em geral,reações anafiláticas, coriza,asfixia; • Queimaduras e irritação dos olhos,trato respiratório superior, estômago; tosse,respiração difícil; • Neoplasias e câncer de pulmão; • Náuseas,vômitos,tonturas,dores de cabeça crônicas; • Sensibilização aos medicamentos; e • Estresse. Fisiológicas Manipulação de pesos excessivos; trabalho em pé durante todo o turno; adoção de posições desconfortáveis; intenso ritmo de trabalho; longas distâncias a pé; e trabalho em turnos e noturno • Lesões musculoesqueléticas em geral; • Dor lombar; • Inchaço e dor dos membros inferiores; • Hérnia de disco; • Varizes; • Cansaço corporal e mental,fadiga; • Estresse; e • Falta de concentração e de atenção,e diminuição da capacidade de julgamento. Psíquicas Atenção constante; agressão psíquica; supervisão estrita; falta de criatividade e autonomia; abuso de álcool e drogas ilícitas; falta de comunicação; falta de defesa coletiva; intenso ritmo de trabalho; trabalho feminino; e trabalho repetitivo e monótono • Depressão,irritabilidade,angústia,ansiedade,tristeza,raiva, insubordinação,insônia e estresse mental,cefaleia crônica; • Náuseas,tonturas,cansaço,esgotamento; • Insatisfação com as relações autoritárias; • Falta de interesse e entusiasmo,falta de proteção,falta de perspectivas de resultados; • Problemas de fertilidade,síndrome pré-menstrual; • Exposição às substâncias teratogênicas na gravidez e idade fértil. (continua)
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    100 A QualidadedeVida noTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem Quadro 8.2 Processos de desgaste referidos pelos trabalhadores de enfermagem, segundo a exposição às diferentes cargas de trabalho.Brasil,2007 (continuação) Tipos de cargas Desgastes Físicas Radiação ionizante,radiação não ionizante,ruído, umidade e mudança de temperatura • Desgaste físico,mental • Estresse,irritabiliade • Doença hematológica,osteomuscular,do aparelho auditivo,do aparelho respiratório e alergia • Ressecamento de pele e mucosas • Ambiente molhado • Acidentes elétricos e inflamáveis • Choque térmico • Queimadura Fonte:FELLI,V.E.A.Monitoramento da saúde do trabalhador de enfermagem:promovendo a qualidade de vida no trabalho.Relatório técnico de pesquisa,FAPESP,2007. O Quadro 8.2 permite visualizar que as principais doenças que compõem o perfil de morbidade são os distúrbios osteoarticulares, os transtornos emocionais e com- portamentais, as exposições aos fluidos biológicos e as doenças infecciosas, infec- tocontagiosas e parasitárias, nas diferentes formas de expressão do desgaste dos trabalhadores de enfermagem apreendido no momento de trabalho. Assim, tornam-se imprescindíveis as intervenções nas diferentes realidades de trabalho de enfermagem, no sentido de potencializar a saúde, contribuindo, dessa maneira, para uma melhor qualidade de vida. Nesse sentido, é essencial o monitoramento epidemiológico como instrumento para conhecer, acompanhar e intervir nos problemas de saúde no trabalho. BETAN- COURT (1995) considera o monitoramento epidemiológico como uma ferramenta essencial no planejamento e execução de programas de saúde, com a participação ativa dos trabalhadores. É neste contexto que surgem as várias propostas de qualidade de vida no traba- lho, visando à valorização do trabalhador, sua participação no processo decisório, o incentivo do potencial criativo, a satisfação de suas necessidades, a humanização das relações de trabalho e a melhoria das condições de trabalho, entre outros fins. n Considerações Finais Diante dessas argumentações, consideramos que promover e manter a qualidade de vida no trabalho é um desafio para os enfermeiros que assumem a gerência e, também, para os trabalhadores de enfermagem, partilhando responsabilidades e adversidades em um esforço conjunto. Evidencia-se cada vez mais a necessidade de articulação de estratégias que apon- tem para investimento nas relações interpessoais, implementação de ações e pro- gramas que venham ao encontro das expectativas dos trabalhadores de cuidar-se, ao mesmo tempo em que são cuidados pela organização.
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    A Qualidade deVidanoTrabalho e a Saúde doTrabalhador de Enfermagem 101 Para tanto, deve-se pensar no espaço de trabalho da enfermagem como um espa- ço micropolítico, no qual são reproduzidas as políticas sociais e de saúde, contendo as possibilidades de mudanças e transformações, com ênfase na qualidade de vida no trabalho e na saúde do trabalhador. n Referências Bibliográficas BETANCOURT, O. La salud y el trabajo reflexones teórico-metodológicas: monitoreo, aten- ción básica en salud. Equador, CEAS/OPAS, 1995. BREILH, J. et al. Deterioro de la vida: un instrumento para análisis de prioridades regiona- les en lo social y la salud. Quito, CEAS, 1990. CARANDINA, D.M. Qualidade de vida no trabalho, construção de um instrumento de me- dida para enfermeiras. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo, Escola de Enfer- magem da USP , 2003. CASTELLANOS, B.E.P . et al. Os desafios da enfermagem para os anos 90. In: 41o CONGRES- SO BRASILEIRO DE ENFERMAGEM, 1989, Florianópolis. Anais, Florianópolis, ABEn/ ABEn-SC, 1989; 147-169. COSTA, T.F . Exposição dos trabalhadores de enfermagem às substâncias químicas: estudo em um hospital público universitário. Dissertação de Mestrado – Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, 2002. DANTAS, R.A.S.; SAWADA, N.O.; MALERBO, M.B. Pesquisas sobre qualidade de vida: revi- são da produção científica das universidades públicas do Estado de São Paulo. Rev. Lati- no-americana de Enfermagem (São Paulo), 2003; 11(4):532-538. DEL CURA, M.L.A. Satisfação profissional do enfermeiro. [Dissertação]. Ribeirão Preto: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Universidade de São Paulo; 2004. DEMO, P . Educação e qualidade. 2a ed. Campinas. Papirus, 1996. FELLI, V.EA. A saúde do trabalhador e o gerenciamento em enfermagem. Tese de Livre- Docência – Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, 2002. FELLI, V.E.A. Monitoramento da saúde do trabalhador de enfermagem: promovendo a qualidade de vida no trabalho. Relatório técnico de pesquisa, FAPESP , 2007. FERNANDES, E.C. Qualidade de vida no trabalho: como medir para melhorar. Salvador, Casa da Qualidade, 1996. FERREIRA, E.M.; POSSARI, J.F .; MODERNO, A.M.B. Fatores de satisfação e insatisfação profissional do enfermeiro do centro cirúrgico de um hospital universitário de grande porte. Revista SOBECC (São Paulo), 2006; 11(9):15-23. FLECK, M.P .A. et al. Aplicação da versão em português do instrumento abreviado de ava- liação da qualidade de vida “WHOQOL-Bref”. Rev. Saúde Pública (São Paulo), 2000; 34(2):178-183. GELBCKE, F .L. Qualidade de vida e organização do trabalho: questões relevantes para a enfermagem. In: CIANCIARULLO, T.I; CORNETA, V.K. Saúde, desenvolvimento e globa- lização: um desafio para os gestores do terceiro milênio. São Paulo, Ícone, 2002; l99-227. GONÇALVES, R.B.M. Tecnologia e organização social das práticas de saúde: caracterís- ticas tecnológicas de processo de trabalho na rede estadual de centros de saúde de São Paulo. São Paulo, HUCITEC, 1994.
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    Trabalho em Equipe eProcesso Grupal MARINA PEDUZZI E MARIA HELENA TRENCH CIAMPONE 9 105 n Trabalho em Equipe Multiprofissional e Equipe de Enfermagem O trabalho em equipe consiste em uma modalidade de trabalho coletivo que se con- trapõe ao modo independente e isolado com que os profissionais de saúde e de en- fermagem usualmente executam seu trabalho no cotidiano dos serviços de saúde. A noção de equipe sempre faz referência a uma situação de trabalho, pois, etimo- logicamente, “equipe” está associada à realização de uma tarefa ou trabalho com- partilhado entre vários indivíduos que têm, nessa tarefa ou trabalho, um objetivo comum a alcançar (MUCCHIELLI, 1980). Nesse sentido, não se utiliza a denomina- ção “equipe de pacientes”, “equipe de condôminos” e outros similares. Na enfermagem, a proposta de trabalho em equipe surge na década de 1950, nos Estados Unidos, através de experiências realizadas no Teacher’s College da Univer- sidade de Colúmbia, sob a coordenação de Eleonor Lambertsen, que preconizava a organização do serviço de enfermagem com base no trabalho em equipe. No Brasil, os resultados dessa proposta e das experiências em curso são divulgadas, em 1966, pela Associação Brasileira de Enfermagem, por meio da tradução e publicação do livro intitulado Equipe de enfermagem organização e funcionamento. As experiências levadas a cabo tinham a finalidade de resolver o problema de melhor aproveitamento do pessoal de enfermagem, pois, segundo LAMBERTSEN
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    106 Trabalho emEquipe e Processo Grupal (1966), a organização do serviço de enfermagem com base no trabalho em equipe tinha o objetivo de voltar o cuidado para o paciente, tomando como base a utilização do pessoal de enfermagem com a máxima economia e eficácia. Portanto, esse modelo de organização do trabalho de enfermagem expressa, por um lado, a crítica ao trabalho centrado na tarefa, que caracteriza o modelo funcio- nal de organização da enfermagem (ALMEIDA e ROCHA, 1986) e, por outro lado, a tentativa de solução para a escassez de recursos humanos de enfermagem nos hospitais norte-americanos, no período após a II Guerra Mundial. Da perspectiva da gerência e da organização do trabalho, o modelo do trabalho em equipe de enfermagem está pautado na Escola de Relações Humanas, liderada por Elton Mayo, nos Estados Unidos, a partir da década de 1930 e consolidada na década de 1940, como crítica à vertente anterior da Administração Científica de Taylor, Fayol e Ford. A Escola das Relações Humanas preconiza que o homem é ao mesmo tempo con- dicionado pelo sistema social e pelas demandas de ordem biológica, possui neces- sidades de segurança, afeto, prestígio e autorrealização, sendo, portanto, motivado por recompensas sociais, simbólicas e não materiais. Esses postulados acarretam uma transferência da ênfase nas tarefas e na estrutura para as pessoas e para os grupos, o que coloca em evidência os aspectos da comunicação, da liderança e da participação no trabalho (KURCGANT, 1991). Embora mereça destaque a precocidade com que a proposta do trabalho em equi- pe é introduzida na área de enfermagem, esta consolidou-se sobretudo como dis- curso, e não como prática predominante, mantendo-se, de fato, o modelo funcional vigente. Outro aspecto que merece destaque, em relação à precocidade da discussão da organização do serviço de enfermagem com base no trabalho em equipe, é a emer- gência do tema da liderança como uma das questões centrais da equipe, isto é, a posição do enfermeiro como líder da equipe, ocupando lugar de destaque dentro dessa forma de organizar o trabalho (ROZENDO, 1995). No entanto, ROZENDO (1995) analisa que tanto o líder quanto a liderança não parecem assumir caracterís- ticas diferentes nessa nova proposta do trabalho em equipe, ou seja, não parece ha- ver uma mudança substancial na prática dos enfermeiros, agora chamados líderes, visto que o trabalho do líder atende à mesma finalidade que o do gerente, qual seja, coordenar e conduzir o trabalho produzido pela equipe de enfermagem na direção do projeto institucional, na defesa dos interesses da organização e no controle do processo de trabalho. Isso faz lembrar a dupla dimensão do processo de trabalho do enfermeiro que contempla ações assistenciais e de gerenciamento. A presença dessa dimensão gerencial tem origem na distinção entre nurses e lady nurses, instituída desde o momento de instalação da primeira escola de enfermagem, por Florence Nightin- gale, em meados do século XIX, à medida que, às primeiras, cabia o cuidado direto dos pacientes e, às segundas, o ensino e a administração do cuidado (SILVA, 1986; ALMEIDA e ROCHA, 1986). Portanto, já no momento de institucionalização da en- fermagem moderna, inicia-se um processo de divisão do trabalho interno à enfer- magem, aspecto que será detalhado adiante, pois está profundamente relacionado ao tema do trabalho em equipe.
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    Trabalho em Equipee Processo Grupal 107 Cabe destacar que a divisão do trabalho de enfermagem expressa, desde sua origem, a marca de trabalho coletivo, uma vez que a enfermagem não constitui um trabalho que possa ser desenvolvido aparentemente por uma pessoa só, tal como ocorre com outros trabalhos especializados, como medicina, psicologia e outros, que puderam, em parte, caracterizar-se como trabalho de uma pessoa só, realizado no âmbito da consulta profissional-paciente. O cuidado de enfermagem caracteriza- se pelo acompanhamento contínuo e constante, de modo que foi constituindo-se como prática exercida por um conjunto de agentes, o que, por um lado, demanda ações de coordenação e supervisão, ou seja, de gerência, e, de outro lado, configura trabalho coletivo que, a partir das décadas de 1950 e 60, passa a configurar-se como trabalho em equipe. MUCCHIELLI (1980) ressalta que, desde a década de 1960, o interesse pelo tra- balho em equipe aparece em todos os processos de produção, na indústria e nas empresas em geral. Isso ocorre por vários motivos, inclusive em consequência da decepção com a divisão excessiva do trabalho que acarreta fragmentação das tare- fas, reações subjetivas do trabalhador ocupado em tarefas parciais, fechado num estreito setor de produção, sem acompanhar a finalização do trabalho, e a desper- sonalização do trabalho. A proposta do trabalho em equipe multiprofissional de saúde ganha ênfase, no Brasil, a partir da década de 1970, período marcado pela forte expansão do mercado de trabalho em saúde, em razão das necessidades de extensão de cobertura dos ser- viços, que foi efetuada com base nos modelos de reforma médica, particularmente a Medicina Preventiva e a Medicina Comunitária, esta enfatizando o trabalho em equipe como recurso de racionalização dos serviços. A equipe de saúde ganha des- taque também pelos crescentes conflitos e enfrentamentos travados entre os vários grupos profissionais, nos quais cada categoria ou segmento tenta alcançar uma cer- ta hegemonia, não obstante a consagrada hegemonia médica (PEDUZZI, 1998). No entanto, documentos da política de recursos humanos em saúde do país, de meados da década de 1970, apontam como um dos principais problemas a predomi- nância de pessoal de nível superior nas equipes de saúde, em particular de médicos, em detrimento do pessoal de nível técnico e auxiliar qualificado. Isto, associado à ampla contratação de trabalhadores sem qualificação técnica formal e regular, tais como os atendentes de enfermagem, instalou uma modalidade bipolar de equipe de saúde – médico/atendente – que era considerada inadequada (MACHADO et al., 1992). A partir de meados da década de 1980, essa situação começa a ser revertida com o aumento da incorporação de profissionais de nível médio e de profissionais de nível superior não médicos, tendendo a eliminar a dicotomização médico/aten- dente e tornar mais diversificada a composição da equipe de saúde (MACHADO et al., 1992). Os autores também destacam que a questão da composição multiprofis- sional das equipes de saúde surge como decorrência do princípio da integração, à medida que se passa a considerar artificial a dicotomia entre assistência médica e saúde pública, tendo em vista fortalecer a rede básica e a sua adequação ao perfil epidemiológico de cada região. Assim, observa-se que a proposta de trabalho em equipe emerge no interior de um processo contraditório, representado pela tensão entre a tendência crescente de especialização e a necessidade de integração dos trabalhos produzidos pelas dife-
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    108 Trabalho emEquipe e Processo Grupal rentes áreas da saúde – Enfermagem, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina, Nu- trição, Psicologia, Serviço Social e outras. A especialização, por sua vez, ocorre tanto no âmbito da produção do conheci- mento quanto na atuação prática dos profissionais inseridos na prestação de ser- viços de saúde. Ou seja, tanto as ciências e os saberes técnicos que fundamentam as intervenções como as próprias ações executadas tendem a ser cada vez mais especializados. Dessa especialização, depende, em parte, a eficácia do cuidado aos usuários, pois a crescente incorporação tecnológica em saúde e a velocidade da produção e difusão de novos conhecimentos requerem que os profissionais apro- fundem de forma vertical suas competências e habilidades, o que intensifica a es- pecialização. Por outro lado, o serviço de saúde especializado tende à fragmentação do cuida- do prestado ao paciente, configurando uma teia de ações executadas por diferentes agentes, que necessitam de articulação. Na atualidade, a nenhum trabalhador de saúde em separado cabe a possibilidade de atender às demandas de saúde apre- sentadas pelos pacientes, ou mesmo por um único usuário em particular; por isso, torna-se necessário que os profissionais reconheçam as conexões que existem entre as diversas atividades executadas e tomem esses nexos verdadeiramente em consi- deração, articulando suas ações. CAMARGO JR (2003: 39), ao analisar as questões da integralidade da atenção à saúde, também destaca que: “... é imperativo reconhecer que indivíduos isolados, ou mesmo categorias profis- sionais inteiras, são limitados para dar conta de fato do espectro de demandas apresentadas pelos sujeitos que sofrem. Isto coloca o trabalho interdisciplinar e multiprofissional como necessidade fundamental.” Dessa forma, faz-se necessário articular as diversas ações realizadas no interior de um setor, unidade ou serviço, bem como integrar os setores, unidades e serviços entre si. A necessidade de integração também se torna evidente se considerarmos as múl- tiplas dimensões das necessidades de saúde. Estas expressam, simultaneamente, dimensões biológicas, psicológicas, sociais e culturais de indivíduos e grupos so- ciais que vivem em determinadas condições sócio-históricas. A complexidade das necessidades e dos problemas de saúde, com os quais se defrontam usuários e pro- fissionais, demanda investimentos efetivos na integração de pessoas e ações. Vale destacar que estamos analisando o trabalho em equipe da perspectiva da atenção integral à saúde e atenção integral de enfermagem. A integralidade da assistência, entendida como um conjunto articulado e contí- nuo das ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis de complexidade do sistema, consiste em um dos princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), conforme consta na Lei 8.080 de 19/09/90 (BRASIL, 1991). Portanto, a noção de integralidade abrange desde a formulação de políticas no nível macro, da União, Estados e Municípios, à produção de ações de cuidado de saúde e de enfermagem na prática cotidiana dos serviços e dos indivíduos específicos – os profissionais de saúde.
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    Trabalho em Equipee Processo Grupal 109 Ao analisar as concepções sobre integralidade, CAMARGO JR (2003) aponta que, embora possa parecer inalcançável, a integralidade é indispensável à qualidade dos serviços prestados à população, de modo que deveria ser tomada como um projeto a ser alcançado. Retomando a contradição já referida, entre especialização e integração, é justa- mente a intensa especialização do trabalho em saúde que coloca a necessidade de recomposição dos trabalhos especializados e o desafio da integração das ações. Essa integração pode ser vista como expressão da articulação entre trabalhos de agentes de uma mesma área profissional (equipe de enfermagem, equipe médica, equipe de nutrição, dentre outras) e também entre trabalhos produzidos por profissionais de diferentes áreas (equipe multiprofissional de saúde). Ambas as modalidades de trabalho em equipe são tratadas a seguir, especialmente o trabalho em equipe de enfermagem e o trabalho em equipe multiprofissional. Mais adiante, neste capítulo, o trabalho em equipe também será abordado da perspectiva do processo grupal, considerando este um dos aspectos relevantes para o gerenciamento de pessoas na área da saúde e de enfermagem. n Contextualizando o Trabalho em Saúde O trabalho pode ser caracterizado como um processo de transformação que ocor- re porque as pessoas têm necessidades que precisam ser satisfeitas – no presente caso, necessidades de saúde. Essa transformação se dá mediante a atividade do tra- balho, realizada com o consumo produtivo de força de trabalho e a intermediação de instrumentos que o agente insere entre ele próprio e o objeto, para dirigir sua atividade a uma dada finalidade. Quando considerado o exercício cotidiano do trabalho, este é redimensionado ampliando-se o enfoque das determinações macrossociais, de cunho econômico e ético-político, e da dimensão eminentemente técnica para o sujeito do trabalho. As- sim, entende-se trabalho como ação produtiva e como interação social (CATTANI, 1997; PEDUZZI, 1998; SCHRAIBER et al., 1999). Nesse sentido, MERHY (1997) retoma a distinção entre trabalho vivo e trabalho morto, o primeiro situado na dimensão do cotidiano, do instituinte, ou seja, o que está em processo e está em ação. Trabalho morto refere-se a todos os produtos- meios que estão envolvidos no processo de trabalho e que são resultado de um trabalho humano anterior, tais como equipamentos e saberes estruturados. Outro aspecto importante para a compreensão dos processos de trabalho é a dinâ- mica de divisão do trabalho, que acarreta o parcelamento de um processo que, ori- ginalmente, era executado por um único trabalhador. À divisão técnica corresponde uma divisão social do trabalho, ambas representando “duas faces de uma mesma moeda”. A divisão técnica do trabalho refere-se ao parcelamento dos processos im- plicados na execução do produto (no presente caso, o cuidado de enfermagem e a atenção à saúde), em numerosas operações realizadas por diferentes trabalhadores. Esse parcelamento também reflete a divisão social do trabalho à medida que os di- ferentes trabalhos têm uma desigual valoração social (BRAVERMAN, 1987). Essas desigualdades expressam a existência de valores sociais hierarquizando e discipli-
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    110 Trabalho emEquipe e Processo Grupal nando relações de subordinação entre as diferentes áreas de trabalho e diferentes categorias profissionais. A divisão do trabalho em saúde, na modernidade, dá-se em torno da divisão do trabalho médico, pois a prática dos médicos é a fundadora da técnica científica moderna no campo da saúde e o núcleo original do qual outros trabalhos derivam. Assim, por um lado, ocorre a divisão interna do trabalho médico, que constitui as especialidades médicas, e, por outro lado, ocorre o desdobramento do trabalho médico em atividades assumidas por outros agentes, tais como a enfermagem, a nutrição, a fonoaudiologia, a fisioterapia e outras, bem como a agregação de pro- fissionais com áreas de atuação complementares, como Psicologia e Serviço Social (MENDES-GONÇALVES, 1992). Assim sendo, cada área profissional que se individualiza no interior das práticas de saúde o faz segundo necessidades históricas, que demandam sua atuação espe- cializada, e num processo singular, que configura saberes e ações peculiares à área. Portanto, a divisão do trabalho não apenas reflete o desenvolvimento científico- tecnológico, mas também a dinâmica social das práticas de saúde que engendra subdivisões sistemáticas dos trabalhos. Esse mesmo processo ocorreu no interior da Enfermagem, dando origem às dis- tintas categorias profissionais – enfermeiro, técnico de enfermagem, auxiliares de enfermagem, trabalhadores sem qualificação técnica formal e regular, usualmente denominados atendentes. Até 1998, estes ainda representavam aproximadamente 30% da força de trabalho de enfermagem, porém atualmente estão sendo capacita- dos como auxiliares ou técnicos de enfermagem, sobretudo por meio do PROFAE (Projeto de Profissionalização dos Trabalhadores da Área de Enfermagem), promo- vido pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 1999). Considera-se que tanto as diversas áreas profissionais da saúde como as diferen- tes categorias da enfermagem têm origem no que se denominou, como já vimos, processo de divisão do trabalho e, portanto, guardam conexões entre si, ou seja, são complementares e interdependentes, e não independentes, como frequentemente se reconhecem cada uma das áreas profissionais de per si. Embora interdependentes, cada uma das áreas tem especificidades presentes no seu próprio saber técnico, nos demais instrumentos de trabalho e nas atividades que a caracterizam. Assim, o trabalho em equipe refere-se à recomposição de dife- rentes processos de trabalho, constituídos em uma rede complexa de prestação de serviços. n A Organização do Trabalho em Saúde por Equipes A noção de equipe predominante nos serviços de saúde se restringe à coexistência de vários profissionais numa mesma situação de trabalho, compartilhando o mes- mo espaço físico e a mesma clientela, o que não se traduz imediata e automatica- mente em integração ou, como já referido, na recomposição dos distintos processos de trabalho. Identificam-se, assim, dois tipos diferentes de trabalho em equipe: a equipe in- tegração, na qual se observa a busca de articulação das ações e de interação dos profissionais, e a equipe agrupamento, em que ocorrem a justaposição das ações e
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    Trabalho em Equipee Processo Grupal 111 o mero agrupamento de agentes. Essa tipologia expressa uma polaridade que mos- tra, de uma parte, a tendência à integração dos trabalhos especializados e, também, dos profissionais que os executam e, de outra parte, a tendência à manutenção da fragmentação das ações e o estranhamento e distanciamento dos agentes (PEDUZ- ZI, 1998; PEDUZZI, 2001). Cabe, portanto, perguntar o que carateriza o trabalho em equipe integrado (do tipo equipe integração) e, sobretudo, como alcançá-lo. Considera-se que a integração no trabalho em equipe expressa, simultaneamen- te e de forma complementar, dois aspectos que a caracterizam: a articulação das inúmeras ações executadas pelos distintos profissionais da equipe; e a comunica- ção entre seus componentes, orientada para o entendimento. Para integrar a equi- pe, não basta tomar isoladamente as intervenções independentemente dos sujei- tos que as executam, nem tampouco tomar a interação dos profissionais como se fossem relações pessoais independentes da situação de trabalho coletivo em que se encontram envolvidos (PEDUZZI, 1998). Além disso, o veículo através do qual ocorre efetivamente a articulação das ações é a comunicação. Assim sendo, entende-se a articulação das ações no sentido de colocar em evi- dência as conexões existentes entre as intervenções técnicas realizadas pelo con- junto de profissionais inseridos numa mesma situação de trabalho, e a interação dos agentes no sentido da prática comunicativa, em que os envolvidos buscam reconhecimento e entendimento mútuos e colocam-se de acordo acerca de seus planos de ação. Na prática comunicativa, os profissionais de saúde e de enfermagem constroem consensos sobre um plano de ação por meio de uma modalidade de comunicação dialógica – de dupla mão, em que os envolvidos partilham o conteúdo dos enun- ciados, as normas e os valores que os acompanham. Assim, colocam-se de acordo quanto ao que dizem e aos valores pressupostos, ou seja, compartilham um hori- zonte ético (HABERMAS, 1989; 1994). Entretanto, a comunicação que articula as ações realizadas pelos diversos profis- sionais pode ser uma comunicação de mão única, que visa apenas a passagem de informações para otimizar a realização da técnica e para a obtenção do resultado. Isso não representa nenhum problema ou obstáculo para a integração da equipe, desde que esta saiba reconhecer os momentos em que é necessário não apenas reiterar a técnica, mas também refletir e negociar para esclarecer a melhor inter- pretação da situação encontrada e a melhor conduta frente a ela. Ou seja, há um conjunto de intervenções já consagradas que não requerem um novo acordo entre os componentes da equipe, mas há uma série de situações de trabalho e de cuidado do usuário e da população para as quais é preciso buscar um consenso por meio do diálogo e da negociação. Nesta perspectiva, a interação dos profissionais não é externa ao trabalho, mas, pelo contrário, faz parte do próprio processo trabalho, que, como já referido, é, si- multaneamente, ação produtiva e interação social. Portanto, quando a equipe alcan- ça algum grau de integração, expressa uma relação recíproca, de mútua influência, entre trabalho e interação (PEDUZZI, 1998). Com base nessa concepção de trabalho em equipe, articulação das ações e inte- ração dos agentes, pode-se identificar um conjunto de caraterísticas de uma equipe integrada, ou melhor, que tende à integração, pois o trabalho é dinâmico. Segun-
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    112 Trabalho emEquipe e Processo Grupal do pesquisa desenvolvida por PEDUZZI (1998; 2001), essas caraterísticas consis- tem em: flexibilizar a divisão do trabalho; preservar as diferenças técnicas entre os trabalhos especializados; questionar a desigualdade na valoração dos distintos trabalhos e respectivos agentes, descentralizar a tomada de decisão nas equipes e no serviço, favorecendo o partilhar de decisões sobre questões relacionadas à di- nâmica de trabalho; exercer a autonomia profissional tomando em consideração a interdependência das diversas áreas profissionais; e construir um projeto assisten- cial comum. A flexibilização da divisão do trabalho busca superar a rigidez da divisão estan- que de atividades por área profissional e construir tanto ações comuns, executa- das por agentes de distintas profissões, quanto conviver com certas indefinições de fronteiras na atuação profissional. Portanto, convivem trabalho especializado e trabalho comum. Isto, por outro lado, significa que é necessário e importante pre- servar as diferenças técnicas dos trabalhos especializados, pois cada área profissio- nal realiza um certo elenco de ações próprias para as quais seus respectivos agentes encontram-se especialmente capacitados. A busca da clareza da especificidade de cada trabalho especializado convive com o questionamento das próprias fronteiras estabelecidas. Outros questionamentos precisam ser feitos para avançar na integração da equi- pe, principalmente sobre as desigualdades entre os trabalhadores, que expressam uma hierarquia que foi estabelecida entre as áreas de conhecimento, as profissões, reproduzidas no cotidiano do trabalho. A autonomia profissional representa um aspecto importante do trabalho no cam- po da saúde, pois as ações não devem ser executadas automaticamente, mas segun- do avaliações fundamentadas no conhecimento profissional a fim de implementar a conduta mais adequada às necessidades de saúde do usuário e/ou população. To- dos os profissionais de saúde executam suas ações dentro de uma certa esfera de autonomia e de responsabilidade, correspondente à sua área de atuação, mas, para que a equipe possa articular seu trabalho, é preciso que os seus componentes to- mem em consideração a interdependência de suas ações e a autonomia profissional do outro. Todas essas características do trabalho em equipe requerem, para sua efetivação, comunicação e interação entre os agentes, no sentido de construírem consensos e acordos, mesmo que provisórios e revistos sempre que necessário. Esse processo permite, ao longo de uma experiência comum de trabalho em equipe, construir um projeto assistencial comum, o que poderia ser destacado como uma marca da equipe, pois será em torno desse projeto comum que os diferentes componentes da equipe organizam seu trabalho, reconhecendo o trabalho do outro e os pontos de conexão. A literatura sobre trabalho em equipe tem sido unânime em reconhecer que as equipes constituem pequenos grupos de trabalho, pois, quanto maior o número de componentes da equipe, mais numerosos os mecanismos de controle que precisam ser inseridos nos processos de trabalho, que tendem a burocratizá-lo e tornar mais difíceis a comunicação e a interação entre os membros. Estudo recente sobre trabalho em equipe de saúde da família (SILVA, 2004) iden- tificou e analisou entraves e facilitadores para a integração da equipe. A autora refere que a construção de um projeto comum que expressaria a integração da equi-
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    Trabalho em Equipee Processo Grupal 113 pe dependeria não somente das formas concretas de organização do trabalho, mas também da distribuição de poder no interior da equipe, entendendo como poder “qualquer relação social regulada por troca desigual”. Portanto, confere especial atenção à necessidade de refletir e questionar as desigualdades instaladas entre os trabalhadores e entre as áreas profissionais. Também aponta como aspectos fa- cilitadores da integração a educação continuada em serviço e a supervisão. Sugere que o tema trabalho em equipe faça parte do processo de formação permanente dos trabalhadores de saúde e que a supervisão permita iluminar a qualificação de cada trabalho particular, potencializando a contribuição de cada especialização do trabalho no processo global. Outro estudo recente sobre trabalho em equipe, baseado na vertente da análise institucional, também enfatiza a contribuição da supervisão realizada por profissio- nal externo ao serviço, como um espaço no qual a própria equipe, pela autoanálise e autogestão, pode se renovar produzindo um cuidado de saúde mais criativo e per- tinente às necessidades dos usuários, configurando uma possibilidade de cuidar de quem cuida (FORTUNA, 2003). n O Gerenciamento da Equipe e do Processo Grupal Conforme apontado anteriormente, a representação usual de alguns gerentes que acreditam, ainda, que o trabalho em equipe acontece quando um grupo se encon- tra e discute o trabalho, deve ser reconhecida e superada. Nessa mesma direção, existe a representação de que, quando o trabalho em equipe ocorre, não ocorrem desavenças, conflitos nem atritos entre pessoas e todos se dão bem. Há também a representação de que ele acontece quando um grupo toma decisões votando de- mocraticamente. O que foi ressaltado até então é que esses elementos não consti- tuem necessariamente uma equipe integrada, e nem mesmo um grupo, mas sim um agrupamento ou uma serialidade. Trabalhar em harmonia, votar e reunir-se para discutir questões comuns pode ocorrer sem que se configure um trabalho em equipe. Segundo PICHON RIVIÈRE (1982), que foi um estudioso do processo grupal, um grupo torna-se equipe quando estabelece objetivos e metas comuns, quando a liderança se alterna entre as pessoas, quando o processo de comunicação flui entre todos os membros, permitindo que as ações sejam desenvolvidas em complemen- taridade. Desse modo, colaborativo/cooperativo, a tarefa grupal se desenvolve rumo a um projeto comum estabelecido com base em consenso. Uma equipe usa as habilidades, as competências e os recursos de todos os seus membros, planeja suas atividades, é sistêmica em seu processo decisório e de reso- lução de problemas e empenha-se para chegar à produtividade máxima. Uma equipe torna-se uma organização coesa quando envolve seus membros no processo de planejamento e de tomada de decisões. Todos os membros da equi- pe sentem-se responsáveis pelo sucesso da equipe. Visualizam-se como parte in- tegrante da organização. Todos os membros da equipe empenham-se para manter relações de cooperação por meio do estabelecimento de objetivos mútuos comparti- lhados, comunicação aberta, reconhecimento e apoio recíprocos. Quando a equipe ganha, cada um se sente como um vencedor.
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    114 Trabalho emEquipe e Processo Grupal A concepção idealizada de que uma equipe não tem conflitos, trabalhando em harmonia, teve forte influência da Administração Científica, que fundou um dado modo de governar cuja disciplina e controle foram os eixos centrais. Desse modo, vislumbrava-se o conflito como uma “doença organizacional” e, assim sendo, esta deveria ser tratada. Segundo CAMPOS (2000, p. 23): “... a racionalidade gerencial hegemônica produz sistemas de direção que se ali- cerçam no aprisionamento da vontade e na expropriação das possibilidades de governar da maioria. Estes sistemas, mais do que comprar a força de trabalho, exigem que os trabalhadores renunciem a desejos e interesses, substituindo-os por objetivos, normas e objeto de trabalho alheio (estranhos) a eles.” MISHIMA (2003), discutindo a gerência de serviços de atenção primária como instrumento para a reorganização da assistência, percorre esse mesmo raciocínio, apontando que, na Administração Científica, admitia-se a possibilidade permanen- te de captura do trabalho vivo, apostando-se no desenvolvimento de tecnologias gerenciais que capturassem o trabalhador nos seus exercícios de liberdade e auto- nomia. A autora, declara sua concordância com MERHY (1997, p. 49), quando diz que: “... o trabalho em saúde não pode ser globalmente capturado pela lógica do tra- balho morto, expresso nos equipamentos e nos saberes tecnológicos estruturados, pois seu objeto não é plenamente estruturado e suas tecnologias de ação mais estratégicas configuram-se em processos de intervenção em ato, operando como tecnologias de relações de encontros de subjetividades, para além dos saberes tec- nológicos estruturados, comportando um grau de liberdade significativo na esco- lha do modo de fazer essa produção.” Esse pressuposto é extremamente importante na discussão sobre as competên- cias, habilidades e atitudes a serem desenvolvidas nos profissionais de saúde para trabalhar em equipes e para coordenar grupos. Na atualidade, a necessidade de desenvolvimento contínuo das competências para trabalhar em equipe e coordenar grupos acentua-se, à medida que o fenômeno da globalização – que engloba uma multiplicidade de outros fenômenos que con- figuram uma redefinição nas relações internacionais em diferentes áreas da vida social (economia, finanças, tecnologia, comunicações, cultura, outras) – gera um cenário de extrema complexidade. Esse cenário complexo, em que o trabalho em saúde se insere no setor terciário da economia, sob a forma de prestação de servi- ços, exige que façamos um esforço para uma compreensão integrativa e ampliada da problemática que, em última instância, requer dos profissionais/trabalhadores o desenvolvimento de competências para trabalhar de modo cooperativo, em times ou equipes de trabalho. Isso exige que tenhamos fundamentação teórica e prática em referenciais que ainda estão em processo de construção e, portanto, inacabados. Assim, os estudos a respeito do trabalho em equipe e dos processos grupais se constituem em im- portantes pistas para redefinir as relações interpessoais e intergrupais nas organi-
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    Trabalho em Equipee Processo Grupal 115 zações de saúde, bem como as políticas de gestão de pessoas que vão ao encontro dessas necessidades surgidas nos cenários de trabalho. Com base no conceito atual de que as organizações configuram-se a partir de re- des de relações, constituindo-se em verdadeiras arenas onde os conflitos emergem inevitavelmente, é importante considerar que as equipes podem aprender a exer- citar a análise das situações de conflito, permitindo que as questões implícitas ao conflito venham à tona, sejam explicitadas e exploradas, permitindo desenvolver a capacidade do grupo na autoanálise. BAREMBLITT (1986), referindo-se ao processo de autoanálise do grupo, explica que esta consiste na capacidade de ser protagonista dos próprios problemas, das necessidades, das demandas, compreendendo-as, enunciando-as através de voca- bulário próprio, organizando-se e buscando recursos para melhorar a própria vida. Esse processo não é feito de cima para baixo, nem de fora para dentro, mas no próprio seio heterogêneo do coletivo interessado. Assim, no cenário dos serviços de saúde, as complexas demandas das clientelas interna e externa, bem como a necessidade de articular as ações nos diferentes âmbitos, por si sós justificam o investimento no desenvolvimento de competências específicas nos profissionais para trabalharem em equipe e, principalmente, para exercerem a coordenação de grupos. Para CAMPOS (1989), a gerência é ao mesmo tempo condicionante do e condi- cionada pelo modo como se organiza a produção de serviços de saúde. Essa dupla posição, de produto de determinado contexto e de criador desse mesmo contexto, torna o processo de gestão permeável à influência dos diferentes sujeitos sociais interessados em diversas políticas de saúde. Nesse contexto, a gerência é um instrumento necessário, mas não suficiente, à implantação de políticas. Por outro lado, na prática, sabe-se que o funcionamento de um serviço depende, em muito, das configurações micropolíticas e tecnológicas do trabalho, que, em última instância, configuram-se em “trabalho vivo em ato”, isto é, que se constrói na relação com as pessoas (MERHY e ONOKO, 1997). Desse modo, é preciso que se construa consenso quanto às formas de trabalhar, que estas estejam em sintonia com as propostas, exigindo que se façam negociações. O desafio consiste, então, em transitar da equipe agrupamento – trabalho de diferentes profissionais que detêm assimetria de relações, poderes e saberes para operar diferentes tecnologias – para a equipe integração – implicando redesenhar o somatório de pequenas ações parciais para compor uma trama de atos negociados e articulados entre os agentes, superando a posição de disputa e passando para a de complementação. A formação profissional passa a requerer processos educativos que permitam adquirir e desenvolver conhecimentos teóricos, técnicos e operacionais relaciona- dos à produção de serviços, de modo a contemplar a contradição entre ser capaz de desempenhar uma polivalência funcional, ao mesmo tempo, e ser capaz de deter um conhecimento especializado que favoreça a atuação em diferentes cenários e práticas. Diante disso, instala-se a necessidade de discussão do conceito de compe- tência. Da perspectiva da gestão dos recursos humanos de uma organização, com base em competências, esta surge como uma alternativa ao modelo de gestão por cargos. A esse respeito, MEYER (1998) aponta que o alvo deixa de ser o preenchimento de
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    116 Trabalho emEquipe e Processo Grupal requisitos para ocupar cargos e passa a ser um perfil profissional desejado funda- mentado em competências requeridas para o desempenho de uma dada função. Desse modo, na era da informação e do conhecimento, a vantagem competitiva do trabalhador no mercado de trabalho é dificilmente mensurável, pois diz respei- to às competências e habilidades que alicerçam a força de trabalho. Para MEYER (1998): “... a descrição de cargos passa a não ter consenso, visto que o mercado é altamen- te dinâmico e sofre processo contínuo de mudanças.” Visto que gestão de cargos tem como base a noção de qualificação, que é um con- ceito estático, esta não responde com plasticidade às exigências de um mercado em mutação. Assim sendo, a gestão de competências compreende um conceito dinâmi- co que, por sua natureza, exige um permanente ajuste e aperfeiçoamento entre as necessidades que o trabalho impõe e os requisitos de desenvolvimento de pessoas para operar no trabalho vivo em ato, de modo flexível e negociado. Para LE BOTERFF (2003), o desenvolvimento de competências profissionais se desloca, assim, da qualificação para a capacidade de agregar valores ao grupo, isto é, saber agir de modo responsável e reconhecido, que reúne o saber mobilizar, inte- grar e transferir recursos, traduzidos em conhecimentos e capacidades. Esses conhecimentos e capacidades para o trabalho em equipe e para a coorde- nação de grupos implicam o aprender a viver junto, a viver com os outros, a convi- ver – requerendo a capacidade de aprender a questionar o próprio conhecimento, aprender a aprender com o outro, para o desenvolvimento de projetos solidários e cooperativos, identificados pela busca de objetivos comuns. Implica, em última instância, trabalhar o autoconhecimento e a autoestima. Para LE BOTERFF (2003), a promoção de saber agir num contexto profissional é fruto da interseção de três domínios: a formação profissional, a biografia e inserção socioeconomicocultural do indivíduo e a própria situação profissional. Dessa forma, as universidades, como formadoras de recursos humanos qualifica- dos para o trabalho em saúde, devem promover um ambiente favorável ao desen- volvimento de competências, em parceria com as instituições de saúde que com- põem os diferentes cenários do setor saúde, pois não há formação de competências se não houver situações profissionais que demandem, desenvolvam e consolidem esses conhecimentos e habilidades. Nessa proposta de formação por competências, MEYER (1998) destaca que os projetos pedagógicos devem estar em consonância com diretrizes curriculares mais flexíveis, que permitam desenvolver e demonstrar, de modo diversificado, os domí- nios distintos do conhecimento como: domínio do aprendizado contínuo; domínio do mundo de trabalho; domínio da comunidade humana; domínio do mundo físico e da arte de conviver. Nesse processo, na maioria dos casos, o aluno escolhe as experiências de aprendizagem por meio das quais terá condições de obter compe- tências. Isto pode envolver estágios em locais diferenciados, o contato com os di- ferentes atores que compõem os processos de trabalho, a participação em projetos, a condução de estudos independentes e de estudos orientados individualmente, dentre outras possibilidades.
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    Trabalho em Equipee Processo Grupal 117 O que queremos ressaltar é que os currículos que dão sustentação à formação dos diferentes profissionais que comporão as equipes de saúde são, ainda, bastante conservadores e mantêm uma concentração de atividades em disciplinas obrigató- rias, com carga horária presencial em salas de aula ou em estágios com experiências de aprendizagem dirigidas pelo professor. As atividades não inclusas formalmente na grade curricular – que permanece engessada – não se constituem, muitas vezes, em aprendizagens significativas em contextos significativos. No âmbito das organizações de saúde, da mesma forma que podem ser definidas competências para cada indivíduo, em cada processo de trabalho, também podem ser definidas competências para as equipes e para a instituição como um todo. Um outro fato importante diz respeito à necessidade de criar ambientes favo- ráveis para que ocorram processos decisórios compartilhados nas equipes. Esses ambientes favoráveis incluem definir, na filosofia institucional, a descentralização dos processos decisórios. Assim, as estruturas organizacionais matriciais são as que mais se ajustam à proposta do trabalho em equipe. As estruturas verticais, com organogramas tradicionais, em geral baseiam-se na definição de cargos hierarqui- zados e não de competências. Portanto, é por isso que MEYER (1998) afirma que: “... dificilmente, é possível encaixar a noção de agregação de valores a essas es- truturas, pois a gestão por competências se baseia na definição, pela organiza- ção, de um perfil profissional esperado, tanto para fins de captação de pessoal, como nos processos de remuneração e desenvolvimento de carreira.” Retomando, então, a premissa da flexibilidade, complementaridade, mediante a produção de “trabalho vivo”, construído a partir das relações subjetivas e intersub- jetivas entre os diferentes agentes da equipe de saúde que devem compartilhar e integrar ações cuidativas, para que o trabalho em equipe se concretize, justifica-se a necessidade de investimentos em mudanças, tanto no âmbito da instituição quan- to dos grupos e dos sujeitos envolvidos. Isso implica recriar espaços vividos, reinventar o cotidiano dos serviços e reabi- litar profissionais e práticas profissionais engessadas, que não favorecem o desen- volvimento do verdadeiro trabalho em equipe. Dessa forma, ressaltamos que, para trabalhar em equipe, cada membro deve es- tar preparado para assumir o papel de coordenador de grupo, pois o enfoque da liderança se desloca para a tarefa. O coordenador de grupo deve favorecer o espaço de integração do pensar, sentir e agir. Deve estimular a superação do pensamento racional-explicativo, deixando-se saber pelo contato, pelas sensações de descoberta e aprendizagem com o outro. Um fato que não podemos deixar de abordar consiste nas resistências que se apresentam ao trabalho em equipe. Isso porque, por um lado, para que esse ocorra, devemos abandonar a segurança do modelo funcionalista de organização do traba- lho, em que cada um é responsável por uma parte da atividade. As posturas criati- vas que precisam ser empreendidas para que se criem o consenso e a flexibilização das tarefas fazem emergir o medo da perda dos padrões conhecidos. Isso porque nos defrontamos então com a fragilidade dos saberes, inerentes aos períodos de construção, e aceitamos lidar com incertezas, com cenas temidas, com as definições imprecisas de papéis, com a alternância de saberes e práticas, sempre provisórios.
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    118 Trabalho emEquipe e Processo Grupal Assim, assumir o compromisso de tecer a autonomia dos sujeitos para trabalhar em equipe – incluindo os diferentes agentes (profissionais, clientes, familiares, comu- nidade) –, com base na ética da solidariedade, constitui-se em um grande desafio. Muito poderia ser discutido sobre a dinâmica e os fenômenos inerentes aos pro- cessos grupais. Há aspectos que tendem a ser desconsiderados, quando se lida com pessoas, que são intrínsecos à natureza humana, como: inveja, competitividade, agressividade, sabotagem, mecanismos de defesa, necessidade de aceitação e re- conhecimento, projeção, deslocamentos, entre outros, que levam à emergência de sentimentos contraditórios, que circulam no campo grupal, de difícil manejo. Con- tudo, cabe destacar que acreditamos na importância do preparo dos profissionais para assumirem a função de coordenação de grupos, função essa que, na proposta do trabalho em equipe, deve ser alternante entre os seus componentes (CIAMPO- NE, 1998). Para esse preparo, consideramos que ao menos três dimensões de investimento devem ser feitos: na dimensão individual estariam os investimentos pessoais em busca do autoconhecimento. A carência de habilidades pessoais na mobilização de recursos internos para o enfrentamento ativo das situações pode ser explicada pela carência de experiências e interações que favoreçam a aprendizagem; pela existên- cia de emoções e sentimentos negativos que bloqueiam ou dificultam o uso dessas habilidades; ou, ainda, pela discrepância entre a extensão dos problemas reais e os recursos do sujeito para enfrentá-los. Na dimensão grupal estariam os investimentos do grupo no sentido de exercitar a aprendizagem coletiva e a análise ampliada das situações-problema (envolvem co- nhecer as diferentes percepções e definições atribuídas pelos atores que explicam os problemas, explorando o perfil ou padrão de comportamento de cada um dian- te dos mesmos); identificação de recursos e alternativas; sentimentos emergentes explícitos e implícitos que permeiam o campo grupal e a identificação dos porta- vozes que os enunciam. A vivência do processo grupal contribui para a construção coletiva de estratégias de enfrentamento das cargas de trabalho e dos processos de desgaste, isto é, do sofrimento acarretado pelo trabalho, potencializando a saúde. Na dimensão institucional, conforme anteriormente assinalado, deveriam ocor- rer investimentos, como a mudança da filosofia, da estrutura organizacional e das políticas de gerenciamento de pessoal, que constituem suportes importantes para a sustentação da proposta do trabalho em equipe. É importante salientar que, mesmo buscando a participação – uma das grandes justificativas para o trabalho em equipe –, o grupo nem sempre será democrático. Temos observado que, nas práticas de gerenciamento, muitas vezes o grupo é usa- do por aqueles que detêm poder e autoridade de modo manipulativo, isto é, para referendar ou ratificar decisões ou posições já tomadas, tornando-as mais aceitá- veis. Caso não seja estabelecido de antemão se a instância grupal é de decisão ou de legitimação, surgem então importantes questões éticas decorrentes do gerencia- mento. Portanto, nas três dimensões (institucional, grupal e pessoal), as questões relativas à circulação de poder e autoridade devem ser amplamente debatidas por todos. Cabe lembrar que, para ter algum poder de decisão, as informações precisam ser amplamente socializadas nas três dimensões. Finalizando, consideramos que qualquer proposta que se fechar na sua especi- ficidade, nos “condomínios de saber” de qualquer área, poderia caminhar na con-
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    Trabalho em Equipee Processo Grupal 119 tramão de qualquer processo inovativo, pois evitaria o risco da aprendizagem, do contágio, da troca, da interação e, portanto, da formação de verdadeiras equipes. Consideramos que o trabalho em equipe coloca-nos diante de desafios permanen- tes a serem superados. n Referências Bibliográficas ALMEIDA, M.C.P .; ROCHA, J.S.Y. O saber da enfermagem e sua dimensão prática. São Paulo, Cortez, 1986. BAREMBLITT, G. Grupos: teoria e técnica. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1986. BRASIL. Ministério da Saúde. Lei orgânica da saúde. 2a ed. Ministério da Saúde. Assessoria de Comunicação Social. Brasília, Assessoria de Comunicação Social, 1991. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Secretaria de Gestão de In- vestimentos em Saúde. Dossiê: mercado de trabalho em enfermagem no Brasil: PROFAE – Programa de formação de trabalhadores na área de enfermagem. Brasília, s.n; mar. 1999. 130p. trab graf. BRAVERMAN, H. Trabalho e capital monopolista. Rio de Janeiro, Guanabara, 1987. CAMARGO JUNIOR, K.R. Um ensaio sobre a (In)Definição de integralidade. In: PINHEIRO, R.; MATTOS, R.A. (Orgs.). Construção da integralidade: cotidiano, saberes e práticas em saúde. Rio de Janeiro, UERJ, IMS:ABRASCO, 2003. CAMPOS, G.W.S. Equipes de referência e apoio especializado matricial: um ensaio sobre a reorganização do trabalho em saúde. Ciência e Saúde Coletiva, 1999; 4(2):393-403. CAMPOS, G.W.S. Um método para a análise e cogestão de coletivos. São Paulo, Hucitec, 2000. CATTANI, A.D. Trabalho e tecnologia: dicionário crítico. Petrópolis. Vozes, Editora da Uni- versidade Federal RS, 1997. CIAMPONE, M.H.T. Grupo operativo: construindo as bases para o ensino e a prática na enfermagem. São Paulo, 1998. Tese de Livre-Docência – Escola de Enfermagem, Univer- sidade de São Paulo. FORTUNA, C.M. Cuidando de quem cuida: notas cartográficas de uma intervenção insti- tucional na montagem de uma equipe de saúde como engenhoca-mutante para produ- ção da vida. Ribeirão Preto, 2003. Tese de Doutorado – Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. FORTUNA, C.M. O trabalho de equipe numa unidade básica de saúde: produzindo e re- produzindo-se em subjetividades. Ribeirão Preto, 1999. Dissertação de Mestrado – Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. HABERMAS, J. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1989. HABERMAS, J. Técnica e ciência como ideologia. Lisboa, Edições 70, 1994. KURCGANT, P . (Org.). Administração em enfermagem. São Paulo, EPU, 1991. LAMBERTSEN, E.C. Equipe de enfermagem: organização e funcionamento. Rio de Janei- ro, ABEn, 1953. (Trad. ABEn, 1966.) LE BOTERF , G. Desenvolvendo a competência dos profissionais (2 ed.) Porto Alegre: Art- med Editora, 2003.
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    Dimensionamento de Pessoal deEnfermagem em Instituições de Saúde FERNANDA MARIA TOGEIRO FUGULIN, RAQUEL RAPONE GAIDZINSKI E VALÉRIA CASTILHO 10 121 n Introdução A temática “dimensionamento de pessoal de enfermagem” tem se constituído, ao longo dos anos, em foco de atenção dos enfermeiros, bem como dos administrado- res dos serviços de saúde, por interferir diretamente na eficácia, na qualidade e no custo da assistência à saúde. No entanto, tem sido responsável, também, pela insta- lação de conflitos entre esses profissionais, uma vez que a necessidade crescente de diminuir custos e aumentar a oferta de serviços na área da saúde coloca, imediata- mente em questão, o quadro de pessoal de enfermagem existente nas instituições, que representa, em regra, o maior quantitativo e, consequentemente, o maior custo com pessoal, nas organizações de saúde. Por outro lado, a demanda de atendimento da clientela, com necessidades cada vez mais complexas, tem imprimido sobrecarga de trabalho aos integrantes da equipe de enfermagem, influenciando e dificultando a implantação de qualquer medida que favoreça a qualidade da assistência prestada. Diante desse contexto, as chefias dos serviços de enfermagem devem buscar instrumentos que possibilitem melhor gerência dos recursos humanos sob sua responsabilidade, buscando conhecimentos, habilidades e competências que lhes permitam realizar um melhor planejamento, alocação, distribuição e controle do
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    122 Dimensionamento dePessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde pessoal de enfermagem, assumindo um papel relevante na negociação do quadro de pessoal e no direcionamento das políticas de recursos humanos dentro das ins- tituições de saúde (FUGULIN, 2002). Na prática, diante do desconhecimento de parâmetros para o planejamento e avaliação do quantitativo de recursos humanos de enfermagem, essa atividade tem sido realizada de forma empírica, baseada na experiência e no julgamento intuitivo dos enfermeiros, ou por meio da utilização de equações matemáticas disponíveis na literatura, sem que haja compreensão do significado e do comportamento das variáveis envolvidas no processo de dimensionar pessoal de enfermagem (GAI- DZINSKI, 1994). Dessa forma, os enfermeiros têm encontrado inúmeras dificuldades para plane- jar e justificar as necessidades de adequação no quantitativo de recursos humanos, tanto para a melhoria da qualidade assistencial como para o atendimento das no- vas demandas impostas pelos administradores das instituições de saúde, principal- mente ante a necessidade crescente de racionalizar os custos e aumentar a oferta de serviços (FUGULIN, 2002). É nesse cenário que o dimensionamento de pessoal de enfermagem, enquanto instrumento gerencial para uma assistência de qualidade, necessita ser investigado de forma a produzir resultados que possibilitem a conscientização do significado de um quadro de pessoal adequado às necessidades da clientela e da instituição (GAIDZINSKI, 1998). O conceito mais utilizado na literatura brasileira sobre o assunto foi proposto por KURCGANT et al. (1989), que definem dimensionamento de pessoal de enfermagem como a etapa inicial do processo de provimento de pessoal, que tem por finalidade a previsão da quantidade de funcionários por categoria, requerida para suprir as neces- sidades de assistência de enfermagem, direta ou indiretamente prestada à clientela. Entretanto, considerando que o processo de dimensionar pessoal de enferma- gem possibilita, também, a avaliação da carga de trabalho existente nas unidades já em funcionamento, esse conceito pode ser ampliado, sendo compreendido como um processo sistemático que fundamenta o planejamento e a avaliação do quanti- tativo e qualitativo de pessoal da enfermagem necessário para prover a assistência, de acordo com a singularidade dos serviços de saúde, que garantam a segurança dos usuários/clientes e dos trabalhadores. n Método para Dimensionar o Pessoal de Enfermagem Para GAIDZINSKI (1998), a operacionalização do processo de dimensionamento de pessoal de enfermagem requer a aplicação de um método capaz de sistematizar o inter-relacionamento e a mensuração das variáveis que interferem na carga de trabalho da equipe de enfermagem. Nesse sentido, essa autora propôs um método de dimensionamento de pessoal de enfermagem que possibilita a identificação e análise das variáveis intervenientes nesse processo, tornando-o um instrumento auxiliar no planejamento e avaliação do serviço de enfermagem, uma vez que permite realizar a projeção de um quadro de pessoal para os serviços de saúde a serem instalados, bem como avaliar o quantitati- vo e qualitativo de pessoal de enfermagem para unidades já em funcionamento.
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    Dimensionamento de Pessoalde Enfermagem em Instituições de Saúde 123 Esse método indica, para sua aplicação, a identificação das seguintes variáveis: carga média de trabalho da unidade; distribuição percentual dos profissionais de enfermagem; índice de segurança técnica e tempo efetivo de trabalho. A partir do conhecimento do comportamento dessas variáveis, aplica-se uma equação que pos- sibilita estimar o quantitativo e qualitativo de pessoal de enfermagem. O método proposto pode ser sintetizado por meio das expressões apresentadas na Fig. 10.1. Fig. 10.1 Etapas do método de dimensionamento de pessoal de enfermagem, segundo GAIDZINSKI (1998). Carga Média de Trabalho da Unidade (C) A carga média de trabalho da unidade de assistência de enfermagem é a soma do produto da quantidade média diária de usuários/clientes assistidos, segundo o grau de dependência da equipe de enfermagem ou do tipo de atendimento, pelo tempo médio de assistência de enfermagem utilizada, por cliente, de acordo com o grau de dependência e atendimento realizado. C = j ∑(nj + Snj ) ⋅ hj em que: C = carga média de trabalho; j ∑ = somatório da carga média diária de trabalho referente a cada categoria de cuidado do SCP;
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    124 Dimensionamento dePessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde nj = quantidade média diária de usuários/clientes assistidos, segundo o grau de dependência ou o tipo de atendimento; Snj = distribuição do desvio-padrão, segundo o grau de dependência ou o tipo de atendimento; hj = tempo médio diário de cuidado, segundo o grau de dependência ou o tipo de atendimento; j = qualquer grau de dependência ou tipo de atendimento. Quantidade Média Diária de Usuários/Clientes ( nj) Para determinar a quantidade média diária de usuários/clientes assistidos, de acor- do com o grau de dependência da equipe de enfermagem ou do tipo de atendimento prestado, é necessário classificar os usuários/clientes quanto ao grau de dependên- cia de enfermagem ou tipo de atendimento realizado. Nas unidades de internação de instituições hospitalares, essa variável pode ser identificada por meio da adoção de um Sistema de Classificação de Pacientes (SCP). GIOVANNETTI (1979) conceituou o SCP como a identificação e classificação de pacientes em grupos de cuidados ou categorias, e a quantificação dessas categorias como uma medida de esforços de enfermagem requeridos. Para GAIDZINSKI (1994), o SCP pode ser entendido como uma forma de deter- minar o grau de dependência de um paciente em relação à equipe de enfermagem, objetivando estabelecer o tempo despendido no cuidado direto e indireto, bem como o quantitativo de pessoal para atender às necessidades biopsicossocioespiri- tuais do paciente. A literatura apresenta vários instrumentos de classificação que possibilitam evi- denciar o grau de dependência do paciente em relação à enfermagem. PERROCA (1996 e 2000) construiu um instrumento de classificação de pacientes, baseado nas necessidades básicas preconizadas por HORTA (1979). A Resolução COFEN no 293/04, que indicou novos parâmetros para “dimensio- nar o quantitativo mínimo dos diferentes níveis de formação dos profissionais de enfermagem para a cobertura assistencial nas instituições de saúde” (CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM, 2004), revogando e substituindo aqueles recomen- dados pela Resolução COFEN no 189/96 (CONSELHO FEDERAL DE ENFERMA- GEM, 2001), continuou referendando o SCP de FUGULIN et al. (1994) como uma forma de classificar o grau de dependência do paciente em relação à assistência de enfermagem. No entanto, a referida Resolução também não considerou a categoria de cuida- dos alta dependência de enfermagem, que contempla as necessidades dos pacien- tes crônicos, que apresentam total dependência de enfermagem para o atendimen- to das necessidades humanas básicas. Dessa forma, desconsiderou esse perfil de pacientes, frequentemente encontrado na maioria das instituições hospitalares brasileiras. Para determinar a quantidade de pacientes em unidades de centro cirúrgico, os pacientes podem ser classificados de acordo com o porte da cirurgia a que são sub- metidos (I, II, III, IV), conforme estudo desenvolvido por POSSARI (2001). FARIAS (2003) identificou as atividades desenvolvidas em um pronto-socorro da cidade de São Paulo, levantando os diferentes tipos de procedimentos que caracte-
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    Dimensionamento de Pessoalde Enfermagem em Instituições de Saúde 125 rizavam o atendimento nesse serviço, o que possibilitou identificar a quantidade de pacientes, de acordo com o tipo de atendimento realizado: primeiro atendimento de enfermagem; consulta de enfermagem; atendimento na sala de emergência; enca- minhamentos internos e externos. Para classificar os pacientes que permaneciam em observação no pronto-socorro, foi utilizado o instrumento de classificação de FUGULIN et al. (1994). Esse mesmo procedimento pode ser utilizado para levantamento da demanda de pacientes em unidades ambulatoriais, postos de saúde etc. Os pacientes devem ser classificados de acordo com o grau de dependência, por- te da cirurgia a que se submetem, tipo de atendimento recebido etc., por um perío- do mínimo de 30 dias, uma vez ao dia, para que se obtenha uma amostra que reflita o perfil dos pacientes atendidos (quantidade de pacientes/clientes, segundo o tipo de atendimento ou grau de dependência da equipe de enfermagem). Entretanto, considerando que a representatividade da população estudada ba- seia-se no pressuposto que uma oferta constante gera uma demanda constante, recomendamos, para a escolha do período dessa coleta de dados, que seja utilizado um “mês típico”, ou seja, um mês em que a unidade não esteja exposta a nenhum tipo de ocorrência que possa influenciar a quantidade de pacientes assistidos ou o tipo de atendimento realizado. O resultado da classificação diária dos pacientes possibilita a identificação da média diária de pacientes internados de acordo com o nível de dependência da equipe de enfermagem ou atendimento realizado. Todavia, levando-se em consideração que a quantidade diária de pacientes ad- mitida na unidade não ocorre em uma sequência uniformemente alternada, isto é, um dia acima e outro dia abaixo da média, mas tende a se concentrar mais em de- terminados dias da semana e, além disso, que fatores imprevisíveis podem tornar a quantidade de trabalhadores disponíveis inferior à quantidade escalada, podendo colocar em risco a qualidade da assistência prestada pela sobrecarga de trabalho, recomenda-se tomar como critério para dimensionamento dos trabalhadores de en- fermagem o valor médio diário de pacientes, segundo o tipo de cuidado (que asse- gura o dimensionamento em 50% do tempo), acrescido de um desvio-padrão que corresponde a dar cobertura de trabalhadores em mais 34,1% do tempo. Dessa forma, os trabalhadores de enfermagem estarão dimensionados para aten- der aos pacientes em 84,1% do tempo. Esse procedimento envolve a identificação do desvio-padrão do número médio diário de pacientes, do coeficiente de variação e da sua distribuição entre o número médio diário de pacientes, segundo o tipo de cuidado, conforme as equações de- monstradas a seguir: DP = L – N 3 em que: D = desvio-padrão do número médio de pacientes; L = total de leitos disponíveis na unidade; N = número médio de usuários/clientes assistidos no período.
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    126 Dimensionamento dePessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde CV = DP N em que: CV = coeficiente de variação; DP = desvio-padrão do número médio de pacientes; N = número médio de usuários/clientes assistidos no período. Snj = CV ⋅ nj em que: Snj = distribuição do desvio-padrão, segundo o grau de dependência ou o tipo de atendimento; CV = coeficiente de variação; nj = quantidade média diária de usuários/clientes assistidos, segundo o grau de dependência ou o tipo de atendimento. Tempo Médio Diário de Cuidado, por Cliente, Segundo o Grau de Dependência ou o Tipo de Atendimento ( hj) A maior dificuldade encontrada na operacionalização dos métodos de dimensiona- mento de pessoal de enfermagem está relacionada à identificação do tempo médio despendido para o atendimento das necessidades assistenciais dos pacientes (hj), em decorrência de um conjunto de fatores que intervêm na sua determinação. Es- ses fatores estão relacionados à instituição, ao amparo legal, ao serviço de enferma- gem e à clientela. Como esses fatores podem diferir de uma instituição para outra, o ideal seria que cada unidade levantasse o tempo de assistência de enfermagem de acordo com o padrão de assistência pretendido. No entanto, diante das dificuldades instrumentais e operacionais para a realização desse procedimento, considera-se que os tempos de assistência de enfermagem refe- rendados na literatura podem ser testados e validados na realidade de cada serviço. A Resolução COFEN no 293/04 indicou novos parâmetros para as horas mínimas de assistência, para cada tipo de cuidado. Embora não tenha referendado a catego- ria de cuidados alta dependência de enfermagem, essa Resolução recomenda que, para atender às necessidades assistenciais do paciente crônico, com idade superior a 60 anos, sem acompanhante, classificado na categoria de cuidado intermediário ou na de cuidado semi-intensivo, haja acréscimo de 0,5 hora de assistência ao tem- po total preconizado para essas categorias de cuidado (CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM, 2004). Pesquisa realizada por FUGULIN (2007), junto a sete instituições hospitalares públicas e privadas da cidade de São Paulo, com o objetivo de avaliar a aplicabili- dade da Resolução COFEN, concluiu que horas médias de assistência preconizadas possibilitam atender às necessidades assistenciais dos pacientes por meio do pro-
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    Dimensionamento de Pessoalde Enfermagem em Instituições de Saúde 127 cesso de enfermagem e constituem importante referencial para o dimensionamen- to de profissionais de enfermagem nas instituições hospitalares. Entretanto, considerou que o acréscimo de 0,5 hora ao tempo de assistência reco- mendado para o atendimento das necessidades assistenciais dos pacientes crônicos pode não ser suficiente para assistir os pacientes que apresentam total dependência de enfermagem para o atendimento das necessidades humanas básicas, cujas exi- gências não são supridas pela presença de um acompanhante (FUGULIN, 2007). Assim, para a categoria de cuidado alta dependência de enfermagem, não consi- derada pelo COFEN, pode-se realizar uma estimativa do tempo de assistência pres- tada a esses pacientes. FUGULIN (2002) utilizou, como parâmetro para o dimen- sionamento de pessoal de enfermagem de uma instituição hospitalar de ensino, o mesmo tempo de assistência indicado para a categoria de cuidado semi-intensivo, considerando que, na realidade da instituição estudada, o perfil assistencial e as horas de assistência de enfermagem prestada a esses pacientes são muito seme- lhantes. No estudo desenvolvido por POSSARI (2001), as cirurgias foram classificadas quanto ao porte cirúrgico, de acordo com o tempo utilizado para sua realização (Quadro 10.1). Quadro 10.1 Tempo de assistência por porte cirúrgico, em Centro Cirúrgico,segundo Possari,2001 Porte cirúrgico Tempo médio de assistência intraoperatória (minutos) Distribuição percentual Enfermeiro Auxiliar/Técnico de enfermagem I 113 15% 85% II 205,9 15% 85% III 328,6 15% 85% IV 627,3 15% 85% FARIAS (2003) também verificou o tempo médio de assistência de enfermagem utilizado por cliente, de acordo com os seguintes tipos de atendimento, conforme apresentados no Quadro 10.2. Quadro 10.2 Tempo de assistência,por tipo de atendimento, PS especializado em cardiologia,segundo Farias,2003 Tipo Tempo médio de assistência (h) Distribuição percentual Enfermeiro Auxiliar/Técnico de enfermagem Primeiro atendimento de enfermagem 0,33 – 100% Consulta de enfermagem de urgência 0,42 100% – Atendimento na sala de emergência 1,22 50% 50% Encaminhamentos internos 0,43 – 100% Encaminhamentos externos 1,7 – 100%
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    128 Dimensionamento dePessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde Para estimar o tempo de assistência por tipo de atendimento em unidades de ambulatório, pode-se utilizar os parâmetros apontados por PEDUZZI, ANSELMI e GAIDZINSKI (2001), conforme mostra o Quadro 10.3. Quadro 10.3 Tempo de assistência,por tipo de atendimento – Ambulatório,segundo Peduzzi,Anselmi,Gaidzinski,2001 Tipo Tempo médio de assistência (h) Distribuição percentual Enfermeiro Auxiliar/Técnico de enfermagem Pré-consulta 0,08 20% 80% Consulta de enfermagem 0,5 100% – Atend.enfermagem 0,33 50% 50% Grupo educativo 3,0 70% 30% Visita domiciliar 2,0 30% 70% Vacinação 0,17 20% 80% Inalação 0,17 20% 80% Curativo 0,17 20% 80% Medicação 0,17 20% 80% Coleta de sangue 0,17 20% 80% Coleta de fezes/urina/escarro 0,08 20% 80% Para a projeção do quadro de pessoal de enfermagem de novas unidades/servi- ços, parte-se do conhecimento do perfil epidemiológico da clientela a ser assistida e da proposta assistencial a ser implementada, estabelecendo-se a carga de trabalho da unidade por meio da previsão da quantidade de usuários/clientes a serem assis- tidos, de acordo com suas necessidades assistenciais e tipo de atendimento ofereci- do, bem como da estimativa do tempo de assistência a ser utilizado. Distribuição Percentual dos Profissionais de Enfermagem (Pkj %) A distribuição da carga média diária de trabalho da unidade entre as categorias da equipe de enfermagem varia de acordo com o significado atribuído à assistência de enfermagem e com a disponibilidade do mercado de trabalho. O COFEN estabeleceu a distribuição percentual do total de profissionais de en- fermagem, de acordo com as categorias de cuidado do SCP , recomendando que essa distribuição deverá “seguir o grupo de pacientes de maior prevalência” na unidade. Entretanto, verifica-se que os percentuais preconizados pela Resolução no 293/04 estão distantes da realidade brasileira, constituindo-se, ainda, em um horizonte a ser alcançado. Dessa forma, esse percentual deverá ser estabelecido de acordo com a realidade de cada serviço, levando-se em consideração o padrão de atendimento pretendido.
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    Dimensionamento de Pessoalde Enfermagem em Instituições de Saúde 129 Índice de Segurança Técnica (IST) A determinação de um índice de segurança técnica consiste em um acréscimo no quantitativo de pessoal de enfermagem por categoria profissional, para a cobertu- ra das ausências ao serviço, merecendo atenção especial na área de enfermagem pelas implicações que a redução da equipe acarreta na quantidade e na qualidade da assistência prestada ao paciente, especialmente nas unidades que funcionam ininterruptamente. GAIDZINSKI et al. (1998) entendem como ausências previstas os dias relativos às folgas (descanso semanal remunerado e feriados) e às férias. Como ausências não previstas, os dias referentes às faltas, às licenças e às suspensões. A denominação Índice de Segurança Técnica (IST) tem sido utilizada para desig- nar os percentuais para a cobertura de todos esses tipos de ausências. A Resolução COFEN no 293/04 estabeleceu que, ao quantitativo de profissionais necessários para a prestação da assistência de enfermagem, deverá ser acrescido um IST não inferior a 15%, dos quais 8,33% destinam-se à cobertura de férias e 6,67% à cobertura da taxa de absenteísmo (ausências não previstas). Entretanto, o percentual a ser acrescentado sobre o total dos componentes da equipe de enfermagem, destinados à cobertura dessas ausências, varia entre os autores que desenvolveram estudos sobre essa temática, evidenciando a arbitrarie- dade em utilizar índices de cobertura indicados na literatura, tendo em vista a dis- ponibilidade de métodos que possibilitam a identificação desses valores, de acordo com a realidade de cada instituição. A Resolução COFEN considera ainda que: “Art. 8o – O responsável técnico de enfermagem deve dispor de 3% a 5% do qua- dro geral de profissionais para a cobertura de situações relacionadas à rotatividade de pessoal e participação de programas de educação continuada.” “Art. 9o – o quadro de profissionais de enfermagem da unidade de internação composto por 60% ou mais de pessoas com idade superior a 50 anos, deve ser acres- cido de 10% ao IST.” Os percentuais referentes a cada tipo de ausências podem ser calculados a partir das equações propostas por GAIDZINSKI (1998): Ausências Previstas por Folga Semanal (E%) As cargas de trabalho semanal mais frequentemente adotadas nas instituições de saúde do país são: o sistema de 36 horas de trabalho por semana, com uma folga se- manal, e o sistema de 30 horas de trabalho por semana, com duas folgas semanais. O valor percentual do acréscimo de pessoal devido à variável folgas semanais por trabalhador E% pode ser calculado através da equação: E% = e · 100 d – e
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    130 Dimensionamento dePessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde em que: E% = percentual de folgas; e = número de dias de folga por semana dos trabalhadores da enfermagem; d = número de dias trabalhados na unidade. Ausências Previstas por Feriado (F%) Nos serviços ininterruptos de enfermagem, todo o quadro de pessoal tem direito a tantos dias de folgas quantos forem os feriados não coincidentes com os domingos. O número de folgas varia, de acordo com o ano, em função da quantidade dos feria- dos não coincidentes com o domingo. Dessa maneira, calculamos os valores percentuais limites dos acréscimos devi- dos aos dias feriados F% pela equação: F% = F · 100 D – f em que: F% = percentual de dias feriados; f = dias feriados no ano; D = dias do ano, 365 dias. Ausências Previstas por Férias (Vk%) O valor máximo para férias, conforme a legislação, é de 30 dias/ano por trabalhador de qualquer categoria profissional. Recomendamos, no entanto, para a avaliação de uma unidade já em funciona- mento, que os valores de Vk sejam determinados por meio de um levantamento direto do número médio de dias de férias gozadas durante o ano, por categoria pro- fissional que compõe o quadro de pessoal de enfermagem da unidade, e aplicação da seguinte equação: Vk% = vk · 100 D – vk em que: Vk% = percentual de férias, segundo a categoria profissional k (enfermeiro, téc- nico/auxiliar); vk = média de dias de férias da categoria profissional k; D = dias do ano, 365 dias. Sugerimos, para fins de projeto de uma nova unidade, adotar como valor per- centual do acréscimo de pessoal, para cobertura referente aos dias de férias anuais,
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    Dimensionamento de Pessoalde Enfermagem em Instituições de Saúde 131 o valor máximo de 9% para qualquer categoria profissional, que corresponde a 30 dias de férias por trabalhador. Ausências Não Previstas (Ak%) A variável ausências não previstas é resultante da soma de uma série de tipos de ausência, tais como: faltas abonadas e não abonadas; licença médica; licença-ma- ternidade; licença-prêmio; licença por acidente de trabalho; licença INSS; outras licenças (casamento, nojo, paternidade etc.) e suspensões, cujos valores diferem de uma categoria profissional para outra. Todos esses tipos de ausências comportam-se como variáveis aleatórias, pois po- dem ocorrer em qualquer dia do ano. Para efeito de uma avaliação das condições de uma unidade, o Serviço de Enfermagem poderá levantar o quantitativo dessas ausências por funcionário, através dos registros da instituição durante o período de um ou mais anos. Como a ausência não prevista é composta pela soma das diversas ausências já relatadas anteriormente, podemos representá-la com a seguinte equação: A D a k k i i % , , = − ⎛ ⎝ ⎜ ⎜ ⎜ ⎞ ⎠ ⎟ ⎟ ⎟ ⋅ ak i i ∑ ∑ 100 em que: Ak% = percentual de ausências não previstas, segundo a categoria profissio- nal k (enfermeiro, técnico/auxiliar); i ∑ ak,i = somatório dos dias médios de ausências não previstas, segundo os tipos de ausências i (faltas, licenças e suspensões) por categoria profissio- nal k (enfermeiro, técnico e auxiliar); D = dias do ano, 365 dias. Quando as ausências referentes às licenças-maternidade e médica (INSS) forem repostas pela instituição, com contratação temporária de pessoal para cobertura dos dias de afastamento, não deverão ser computadas no cálculo das ausências não previstas. Para novas unidades ou quando houver dificuldade para a identificação de variá- vel ausência não prevista, sem reposição dos períodos de afastamento por licenças- maternidade e médica (INSS), podemos utilizar como referência o valor médio de 14 dias para enfermeiros, técnicos e auxiliar de enfermagem. Nas instituições em que esses afastamentos forem cobertos, pode-se utilizar, como valor médio de au- sências não previstas, oito dias. Diante dos resultados encontrados referentes às ausências previstas e não pre- vistas, calculamos o Índice de Segurança Técnica (IST), para o acréscimo de pes- soal de enfermagem, conforme demonstrado a seguir:
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    132 Dimensionamento dePessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde Tempo Efetivo de Trabalho (tk · pk) A identificação da variável tempo efetivo de trabalho considera o tempo diário de trabalho da equipe de enfermagem, determinado pela instituição. No entanto, de acordo com GAIDZINSKI (1998), desde os primeiros estudos so- bre o trabalho, considera-se que os trabalhadores não são produtivos, igualmente, em todo o tempo do turno de trabalho, por realizarem uma série de atividades não diretamente relacionadas às suas tarefas profissionais, como: o atendimento de suas necessidades fisiológicas; períodos de descanso; trocas de informações não ligadas ao trabalho; deslocamentos desnecessários; comemorações, e outros. Dessa forma, a autora sugere que sejam consideradas as perdas de produtivida- de dos trabalhadores de enfermagem, mediante a redução das horas disponíveis do trabalhador em seus turnos de trabalho, quando, nas horas médias adotadas para o dimensionamento de pessoal de enfermagem, não estiver incluída essa variável, de maneira que o tempo efetivo de trabalho seja assim mensurado: tefetivo = tk · ρk em que: tk = jornada de trabalho da categoria profissional k; pk = proporção do tempo produtivo da categoria profissional k; Para a determinação do tempo produtivo, podemos optar pelo percentual de 85% (p=0,85) da jornada diária de trabalho, avaliado como excelente por BISENG (1996) e por IDE et al. (1992). Estudo realizado por O’BRIAN-PALLAS (2004) também recomenda que os níveis de produtividade da equipe de enfermagem devem ser mantidos em 85%, com variações de 5%. Níveis acima de 90% podem representar elevação dos custos, queda na qualidade da assistência ao paciente e nos resultados de enfermagem, e níveis abaixo de 80% indicam maior probabilidade de satisfação dos profissionais e redução do absenteísmo. Aplicação da Equação para Dimensionar o Pessoal de Enfermagem Diante do levantamento das variáveis descritas, podemos finalmente calcular o pessoal de enfermagem, substituindo os valores na seguinte equação:
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    Dimensionamento de Pessoalde Enfermagem em Instituições de Saúde 133 em que: Q = quantidade total de pessoal de enfermagem; k ∑ = somatório do quantitativo de pessoal de cada categoria profissional k; j ∑ = somatório da carga média diária de trabalho referente a cada categoria de cuidado do SCP; nj = quantidade média diária de usuários/clientes assistidos, segundo o grau de dependência ou o tipo de atendimento; Snj = distribuição do desvio-padrão, segundo o grau de dependência ou o tipo de atendimento; hj = tempo médio diário de cuidado, segundo o grau de dependência ou o tipo de atendimento; j = qualquer grau de dependência ou tipo de atendimento; Pkj = percentual da carga de trabalho atribuída à categoria profissional k, de acordo com o tipo de cuidado prevalente j; tk = jornada de trabalho da categoria profissional k; pk = proporção do tempo produtivo da categoria profissional k; E% = percentual de ausência por folga semanal; F% = percentual de ausência por dias feriados no ano; Vk% = percentual de ausência por férias anuais da categoria profissional k; Ak% = percentual de ausência não previstas da categoria profissional k. A partir dos resultados qualitativos e quantitativos obtidos, caberá aos enfermei- ros, que vivenciam o dia a dia da assistência de enfermagem, a decisão de distri- buir o pessoal de enfermagem nos diferentes turnos de acordo com a dinâmica da unidade, julgando se o quadro de enfermagem, obtido na aplicação desse método, é qualitativa e quantitativamente suficiente para prestar a assistência de enferma- gem no padrão pretendido. Os modelos de dimensionamento de pessoal de enfermagem propostos eviden- ciam a necessidade de lançar mão dos recursos da informática, com o desenvolvi- mento de um programa computacional que permita aos enfermeiros disporem de informações quantiqualitativamente eficazes para um adequado planejamento do quadro de pessoal, agilizando o processo de tomada de decisão, com a economia de custos, tempo e energia. n Considerações Finais As instituições de saúde estão constantemente incorporando novas tecnologias e métodos terapêuticos, que incidem na elevação do custo hospitalar. A necessidade de contenção de gastos, no entanto, tem colocado em evidência o quantitativo de pessoal de enfermagem, que representa, em regra, o maior contingente de pessoal dentro dessas organizações. A redução de despesas, por meio da diminuição numérica e qualitativa de pes- soal de enfermagem, colabora para a instalação de conflitos que se estabelecem en- tre o custo e o benefício, entre o pessoal e o institucional, entre o capital e o trabalho e entre o técnico e o ético.
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    134 Dimensionamento dePessoal de Enfermagem em Instituições de Saúde Assim, torna-se necessário que os enfermeiros, ética, técnica e politicamente ca- pacitados, explicitem as reais condições de assistência, utilizando-se de métodos de dimensionamento de pessoal adequados, que possibilitem a argumentação e justi- ficativa de suas propostas referentes ao quadro de pessoal de enfermagem, compro- missando, dessa maneira, os responsáveis pela aprovação desse quadro, quanto aos riscos a que os usuários/clientes estão expostos na ausência de recursos necessários para a prestação de uma assistência segura e humanizada. n Referências Bibliográficas BISENG, W. Administração financeira em engenharia clínica. São Paulo, 1996./Workshop/. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução no 189/96. Estabelece parâmetros para dimensionamento do quadro de profissionais de enfermagem nas instituições de saúde. In: CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM. Documentos básicos de enfer- magem: enfermeiros, técnicos e auxiliares. São Paulo, 2001; 144-51. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução no 293/04. Fixa e estabelece parâme- tros para dimensionamento do quadro de profissionais de enfermagem nas instituições de saúde. In: Conselho Regional de Enfermagem. [texto na Internet] Disponível em: http:// www.corensp.org.br/resolucao293.htm. FARIAS, F .A.C. Dimensionamento de pessoal de enfermagem para pronto-socorro espe- cializado em afecções cardiovasculares. São Paulo, 2003. Tese de Doutorado – Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo. FUGULIN, F .M.T. Dimensionamento de pessoal de enfermagem: avaliação do quadro de pessoal de enfermagem das unidades de internação de um hospital de ensino. São Paulo, 2002. Tese de Doutorado – Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo. FUGULIN, F .M.T. Avaliação da aplicabilidade da Resolução COFEN no 293/04 enquanto referência oficial para o dimensionamento de pessoal de enfermagem em instituições hospitalares. [relatório de pesquisa na Internet]. São Paulo, Escola de Enfermagem, Uni- versidade de São Paulo, 2007. [citado 2008 jul.15]. Disponível em: http://www.ee.usp.br/ observatório/observatorio/relatorios/rel021.pdf FUGULIN, F .M.T.; SILVA, S.H.; SHIMIZU, H.E.; CAMPOS, F .P .F . Implantação do sistema de classificação de pacientes na unidade de clínica médica do hospital universitário da USP . Rev. Med. HU-USP , 1994; 4(1/2):63-68. GAIDZINSKI, R.R. O dimensionamento do pessoal de enfermagem segundo a percepção de enfermeiras que vivenciam esta prática. São Paulo, 1994. Tese de Doutorado – Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo. GAIDZINSKI, R.R. Dimensionamento de pessoal de enfermagem em instituições hospi- talares. São Paulo, 1998. Tese de Livre-Docência – Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo. GIOVANNETTI, P . Understanding patient classification systems. J. Nurs. Adm., 1979; 9(2):4-9. HORTA, W.A. Processo de enfermagem. São Paulo, EPU, 1979. IDE, P .; KIRBY, K.K.; STARK, M.S. Operating room productivity. An evaluation format. J. Nurs. Adm., 1992; 22(10):41-48. KURCGANT, P .; CUNHA, K.; GAIDZINSKI, R.R. Subsídios para a estimativa de pessoal de enfermagem. Enfoque, 1989; 17(3):79-81.
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    Dimensionamento de Pessoalde Enfermagem em Instituições de Saúde 135 O’ BRIEN-PALLAS, L.; THOMSON, D.; HALL, L.M.; PING, G.; KERR, M.; WANG, S.; LI, X.; MEYER, R. Evidence-based standards for measuring nurse staffing and performance. Otawa, Ontario, Canadian Health Services Research Foundation, 2004. PEDUZZI, M.; ANSELMI, M. L.; GAIDZINSKI, R.R. Relatório de pesquisa. Avaliação do impacto do PROFAE na qualidade dos serviços de saúde – pesquisa piloto do Estado do Espírito Santo. São Paulo, Ministério da Saúde, Escola de Enfermagem da USP , Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP , 2001. PERROCA, M.G. Sistema de classificação de pacientes: construção e validação de um ins- trumento. São Paulo, 1996. Dissertação de Mestrado – Escola de Enfermagem, Universi- dade de São Paulo. PERROCA, M.G. Instrumento de classificação de pacientes de Perroca: validação clínica. São Paulo, 2000. Tese de Doutorado – Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo. POSSARI, J.F . Dimensionamento de pessoal de enfermagem em centro cirúrgico no perío- do transoperatório: estudo das horas de assistência, segundo o porte cirúrgico. São Paulo, 2001. Tese de Doutorado – Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo.
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    Educação Continuada: Recrutamento eSeleção, Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional HELOISA HELENA CIQUETO PERES, MARIA MADALENA JANUÁRIO LEITE, E VERA LUCIA MIRA GONÇALVES 11 137 É inquestionável nos dias de hoje, para a maioria das organizações, a necessidade de capacitar seus profissionais por meio de uma educação reflexiva e participativa. Tempos atrás, no entanto, não era possível fazer essa afirmação, pois as organiza- ções limitavam-se a práticas simplistas de admitir e demitir pessoas. Em seguida, as organizações passaram a se preocupar com o treinamento como uma forma de reduzir erros e custos de produção e mais recentemente, têm busca- do também a capacitação do pessoal que gerencia os recursos humanos (GONÇAL- VES, 1997). Essa mudança no enfoque de desenvolvimento profissional foi impulsionada, principalmente, por pressões sociais, como a elevação da escolaridade, o crescen- te aumento do nível de informação das pessoas e as inovações tecnológicas, bem como a motivação e a expectativa das pessoas na participação das decisões, nos resultados e no futuro da empresa. Dessa forma, tornou-se imperativa a necessidade de flexibilização da estrutura organizacional na perspectiva de preparar seus trabalhadores para o enfrentamen- to das mudanças. EBOLI (1997) acrescenta a esse panorama o “resgate do sujeito” como condi- ção necessária para a modernidade, situando o sujeito no centro das dimensões organizacionais, valorizando o ser humano e suas manifestações de desejo. A essa
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    138 Educação Continuada:Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional condição, inclui ele a iniciativa e a responsabilidade individuais, o estímulo à par- ticipação das pessoas nos processos da organização, o favorecimento do alcance de objetivos pessoais, o autodesenvolvimento e a preocupação com a avaliação de resultados, tanto da organização como das pessoas. Isso significa que o homem pode ser considerado como um agente facilitador ou impeditivo para o alcance dos objetivos organizacionais. Como destaca PEREIRA GARCIA (1999), é unânime, entre aqueles que buscam a excelência, que “a base do trabalho está no homem”, porque é o homem que produz os recursos materiais e os métodos de trabalho, ficando estes, portanto, subordinados ao seu desempenho. Assim, é essencial promover o ajuste entre os objetivos e expectativas da em- presa com os dos indivíduos. As organizações investem no desenvolvimento dos profissionais para um desempenho adequado da função, o que facilita o alcance dos objetivos e dos resultados pretendidos pela organização. Por outro lado, os ob- jetivos pessoais são em parte atingidos, pois o aumento da qualificação implica maior competitividade profissional no mercado de trabalho, além de proporcionar ao indivíduo maior satisfação no trabalho, uma vez que percebe sua contribuição nos resultados obtidos (GONÇALVES, 1998). Fig. 11.1 Ainda, e como ilustra a Fig. 11.1, é essencial que a modernização das formas de trabalho esteja sintonizada com uma política de desenvolvimento integrado dos recursos humanos, buscando mecanismos apropriados para diagnóstico, desenvol- vimento e avaliação de desempenho individual e grupal. Nessa perspectiva, compreende-se a Educação Continuada (EC) como um pro- cesso que impulsiona a transformação da organização, criando oportunidades de capacitação e de desenvolvimento pessoal e profissional, dentro de uma visão críti- ca e responsável da realidade, resultando na construção de conhecimentos impor- tantes para a organização, para a profissão e para a sociedade. Apreende-se, daí, que é papel da EC apoiar os processos de mudança, adotando uma gestão de pessoal que considere o homem como centro da organização; por
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    Educação Continuada: Recrutamentoe Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional 139 isso, assume uma posição estratégica nas instituições de saúde, adotando uma ges- tão participativa, que flexibiliza as relações de poder, compartilha planos e decisões e sensibiliza as pessoas quanto à responsabilidade pelo autodesenvolvimento, pela disseminação do conhecimento e pelo aprendizado de novos valores. A EC tem, portanto, a finalidade precípua de promover o crescimento pessoal e profissional, sendo as demais atribuições compreendidas como meios para alcançar os objetivos específicos, tais como: • participar dos processos de mudança da organização, compreendendo o processo de trabalho; • incentivar as pessoas ao autodesenvolvimento; • analisar e desenvolver competências individuais e coletivas; • capacitar, pedagogicamente, os enfermeiros para difusão do conhecimento; • coordenar o processo de recrutamento e seleção; • coordenar programas de treinamento e desenvolvimento; • coordenar o processo de avaliação e desempenho profissional; • avaliar os processos de EC, tendo como referência os objetivos e metas estabele- cidos; • analisar e documentar os processos de EC visando subsidiar a tomada de decisão em Enfermagem. Para viabilizar os objetivos e concretizar as atribuições, os profissionais envol- vidos com a EC devem manter-se integrados aos ambientes interno e externo e às políticas, preocupando-se em desenvolver suas próprias competências, capaci- tando-se e atualizando-se para propostas pedagógicas a fim de implementar novas tecnologias de ensino. Além disso, é essencial a integração entre os enfermeiros das unidades e os en- fermeiros da EC, bem como o claro estabelecimento dos papéis, da estrutura de poder, do sistema de informação e comunicação, a fim de obter consonância com as características e as necessidades dos usuários internos e externos. A não observância desses aspectos gera conflitos e insatisfação entre os enfer- meiros da EC e os das unidades, levando à tomada de decisões inadequadas e, con- sequentemente, à ineficiência e ineficácia do processo de educação. A EC é constituída de diversos processos e, neste capítulo, serão discutidos os processos de Recrutamento e Seleção, Treinamento e Desenvolvimento (TD) e Avaliação de desempenho profissional. n Recrutamento e Seleção de Pessoal de Enfermagem Historicamente, os processos de recrutamento e seleção de pessoal nas organiza- ções demonstram a supervalorização do suprimento das necessidades da institui- ção, consistindo em processos mecânicos que visam apenas a captar a melhor mão de obra disponível, sem a preocupação com o ser humano, o que caracteriza uma abordagem tecnicista e burocrática.
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    140 Educação Continuada:Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional Numa era de constantes mudanças e imprevisibilidade do saber, o recrutamento e a seleção não podem mais ser concebidos como processo de escolha da pessoa certa para o lugar certo. Na atualidade, o recrutamento e a seleção são concebidos como um processo complexo, atrelado às propostas, políticas e objetivos organizacionais, ao mercado de trabalho, à situação social, política e econômica vigente e às necessidades indi- viduais. Para COVEY (2002), o grande desafio das empresas de hoje é atrair e reter pes- soas talentosas, que detêm conhecimento e agreguem valores com suas potenciali- dades, habilidades e saberes. Para o autor, as empresas devem proporcionar condi- ções para que as pessoas expressem seus talentos, articulando as necessidades da empresa e das pessoas. O ponto-chave do processo de recrutamento e seleção é construir um relacio- namento em que ambas as partes se sintam compreendidas e atendidas em suas necessidades econômicas, sociais e psicológicas, identificando oportunidades de mútua contribuição, fazendo uma diferença real para a organização e para o indi- víduo. O problema é que a abordagem não tem sido essa, mas ainda centrada, exclusiva- mente, no enfoque das necessidades da empresa, desconsiderando os indivíduos. As organizações buscam encontrar as pessoas com o máximo de talentos sem con- siderar, no entanto, suas necessidades e expectativas, negligenciando o desenvolvi- mento dos potenciais que inicialmente foram tão exigidos. Vários autores, ao analisarem o contexto institucional e a gênese das políticas de recursos humanos, conferem uma importância ímpar ao processo de recrutamento e seleção de pessoal, como uma ferramenta de manutenção ou mudança da cul- tura organizacional, na medida em que atrai seletivamente as pessoas com perfis compatíveis para transformar ou reforçar os pressupostos e valores organizacionais (CHIAVENATO, 1999a; LUCENA, 1991; LODI, 1992). Ainda, LODI (1992) chama a atenção para a importância social do processo, con- siderando essencial direcionar os recursos humanos para posições em que farão o melhor uso de seu talento; caso contrário, incentivará pessoas a se empregarem em lugares onde se sentirão frustradas, desencorajadas e insatisfeitas, contribuindo, dessa maneira, para a desorganização social. Na realidade hospitalar, do ponto de vista da gestão de recursos humanos, ob- serva-se que são poucos os hospitais que mantêm uma política de pessoal desalie- nadora, voltada para o desenvolvimento das potencialidades dos indivíduos, e que contemple de forma integrada a captação e a retenção de pessoal. Os hospitais, em sua maioria, não estão preocupados em estabelecer uma políti- ca efetiva de valorização dos recursos humanos internos, acreditando, ainda, que o pessoal pode ser substituído facilmente e supervalorizando a tecnologia para me- lhoria da qualidade da assistência. Na enfermagem, o processo seletivo é reflexo da política dos hospitais; portanto, tem sido conduzido com a simplicidade, apenas, de preencher os cargos existentes nas instituições de saúde, voltado exclusivamente para a aplicação de procedimen- tos burocráticos e discriminatórios decorrentes do vínculo empregatício (PEREIRA e LEITE, 1991).
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    Educação Continuada: Recrutamentoe Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional 141 No entanto, para PERES (1995), o recrutamento e a seleção em enfermagem são percebidos como um processo complexo, determinado pelas relações entre o ho- mem, as organizações e a sociedade, sendo, portanto, um fenômeno dinâmico que se dá nas relações interpessoais, podendo ser analisado com base nas constantes mudanças do cenário do mundo moderno, onde o homem adquire experiências e redefine seus esquemas de ações, em constante construção do conhecimento. Nessa perspectiva, o diagnóstico situacional do processo seletivo deve ser fun- damentado nas necessidades do homem, da organização e da sociedade, caracteri- zadas por múltiplos determinantes, que agem como facilitadores ou dificultadores, tais como política social, econômica, cultural, educacional, trabalhista e de saúde vigentes no país, bem como da cultura, dos pressupostos e objetivos organizacio- nais, das peculiaridades da profissão e das características pessoais e profissionais do pessoal de enfermagem. O ponto inicial do processo seletivo é a construção do perfil profissional basea- da nesse diagnóstico, considerando os objetivos, perspectivas e pontos críticos da área, o relacionamento interpessoal, as características e expectativas do grupo e o modelo gerencial. O perfil profissional é o conjunto de atribuições profissionais e das competên- cias indispensáveis e das desejáveis para o desempenho da função ou cargo, repre- sentando claramente as exigências pessoais e profissionais. Considerando que as competências para os cargos sofrem mudanças, o perfil deve ser constantemente ajustado às necessidades do trabalho e do indivíduo. Para que a organização selecione pessoas que correspondam ao perfil profissio- nal estabelecido, visando o alcance dos resultados esperados e a integração ao gru- po de trabalho, devem ser elaborados critérios de seleção. Esses critérios têm por finalidade propiciar a comparação entre o perfil estabele- cido e o perfil do candidato, identificando as competências indispensáveis, ou seja, aquelas sem as quais não seria possível contratar o profissional e as competências desejáveis que, mesmo não estando presentes, podem ser desenvolvidas posterior- mente. Os critérios devem ser flexíveis e compatíveis com o mercado de trabalho, isto é, quando a oferta de candidatos é grande, os critérios podem ser mais rigorosos; em contrapartida, quando a oferta é baixa, esse rigor de critérios pode fazer com que um cargo permaneça vago por um longo tempo. Assim, os critérios devem ser adequados ao mercado e às possibilidades de treinamento e desenvolvimento da instituição e do indivíduo. PERES (1995), em seu estudo sobre o processo seletivo de enfermeiros, verificou que, nos critérios seletivos do pessoal de enfermagem, as competências pessoais, como os atributos psicológicos e atitudinais dos candidatos, eram predominantes em relação ao conhecimento técnico específico, visando a adequação dos profissio- nais às características e aos pressupostos organizacionais. A capacitação técnica específica era prescindível na aprovação do candidato pelo fato de esta ter a possi- bilidade de suprir suas deficiências através de treinamentos. O estabelecimento de critérios seletivos remete-nos a refletir sobre o caráter dis- criminatório inerente ao processo de recrutamento e seleção de pessoal, por se tra- tar de julgamento e avaliação de candidatos. Entretanto, a construção de critérios deve contemplar os aspectos éticos e legais, assegurando a justiça do processo.
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    142 Educação Continuada:Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional Os critérios devem fundamentar a escolha das técnicas de seleção para propor- cionar o levantamento de informações específicas sobre os candidatos, com o obje- tivo de medir e avaliar a capacidade técnica e as competências pessoais. Existe uma variedade de técnicas de seleção, tais como análise de currículo, pro- va situacional, prova teste, prova prática, prova dissertativa, entrevista, testes de personalidade, testes psicométricos, técnicas de simulação, dinâmica de grupo, en- tre outras. Há ainda técnicas menos convencionais e polêmicas, como grafologia, mapa astral, numerologia, que ainda não tiveram sua eficácia comprovada cienti- ficamente. Cada técnica apresenta vantagens e desvantagens; portanto, além da observân- cia aos critérios, é indispensável uma análise entre os custos e os benefícios, pois, quanto maior o número de técnicas de seleção aplicadas, tanto maior a oportunida- de de informações para análise. Por outro lado, também será maior o custo opera- cional e o tempo despendido na realização do processo. A avaliação do processo seletivo, tanto quantitativa quanto qualitativa, não tem sido realizada, sistematicamente, nas organizações de saúde. O que se percebe é que o processo tem sido desgastante e estressante, tanto para a empresa como para os candidatos, diminuindo sua eficácia e eficiência. Uma forma de avaliar o processo é o índice de rotatividade de seleção (IRS), que representa a relação entre o número de admissões e desligamentos de profissionais de determinado processo seletivo em dado período. O período de avaliação do pro- cesso seletivo deve ser estabelecido para curto e médio prazos, de acordo com os ambientes interno e externo à instituição, pois geram diferentes significados. IRS = No de admissões no período 3 100 No de desligamentos no período Essa relação expressa um parâmetro relevante para análise do processo. Um alto IRS em curto prazo sugere problemas de adaptação do recém-admitido à organiza- ção, que podem ser decorrentes da inadequação do perfil estabelecido ou dos cri- térios ou técnicas seletivas utilizadas. Um alto IRS em médio prazo pode traduzir, entre outros, problemas de educação continuada ou desequilíbrio com o mercado, oferta e procura. Nessa perspectiva, vários enfermeiros, ao analisarem o recrutamento e a sele- ção de pessoal, revelaram que esse processo representa um grande desgaste para os indivíduos que trabalham nessa área, em decorrência das políticas de recursos humanos adotadas e das condições de trabalho inadequadas (SILVA et al., 1989; PERES, 1995; PEREIRA e LEITE, 1991). Essas autoras constataram, ainda, que a participação do enfermeiro no processo de recrutamento e seleção do pessoal de enfermagem é restrita, cabendo grande parte da responsabilidade a um departamento de pessoal que desconhece as reais necessidades da enfermagem. Entretanto, julgam ser fundamental a participação do enfermeiro, principalmente, no estabelecimento dos critérios seletivos e na to- mada de decisão sobre os candidatos que devem ser admitidos. Para tanto, os enfermeiros devem ter consciência da importância do papel que desempenham como responsáveis pelo processo de recrutamento e seleção em en-
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    Educação Continuada: Recrutamentoe Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional 143 fermagem, como agentes propulsores de mudanças nas culturas das organizações de saúde, e não apenas referendando os valores, crenças e pressupostos organiza- cionais Portanto, é importante considerar que o processo seletivo não pode ser um fim, mas a porta de entrada dos recursos humanos, isto é, um meio para alimentar ou- tros processos, como liderança, supervisão, treinamento e desenvolvimento e ava- liação de desempenho, imprescindíveis na gestão de pessoal e nas propostas de mudanças, que integram as políticas de recursos humanos. n Treinamento e Desenvolvimento – TD Enquanto o treinamento constitui ação sistematizada de capacitação e adaptação do indivíduo em uma situação profissional específica, realizado em curto prazo, o desenvolvimento propõe ações voltadas para o aperfeiçoamento e crescimento pessoal e profissional do indivíduo, sendo realizado em médio e longo prazos (CAR- VALHO, 1999). Assim, o treinamento busca, como resultado, o aumento do conhecimento teó- rico e prático que capacita o indivíduo para a realização eficiente de seu trabalho. O desenvolvimento vai além da eficiência no trabalho e pressupõe a ampliação das competências profissionais e pessoais que instrumentalizam o indivíduo para a transformação da realidade. Os programas de TD devem ser fundamentados na compreensão das neces- sidades e competências a serem alcançadas, na adequada aplicação dos métodos disponíveis e na conscientização e manutenção do interesse dos treinandos pelo aprendizado. Se não houver uma política de valorização do capital humano, integrando apren- dizagem, conhecimento e competências, não há programas de TD que consigam estimular as pessoas a seu autodesenvolvimento. Dessa forma, o capital humano pode ser entendido, em seu sentido mais amplo, como o conhecimento, as habilidades, as capacidades autorreflexiva e empreen- dedora e a criatividade para encontrar novas fontes de conhecimento (SPENDER, 2001). Com certa frequência, alguns programas não dão certo, devido, entre outros motivos, ao desinteresse dos envolvidos, especialmente dos próprios treinandos; à falta de objetivos ou de objetivos não factíveis ou inadequados; à falta de dispo- nibilidade das pessoas e ao alto custo do programa, caracterizando os programas elaborados como não pertinentes aos aspectos políticos e aos valores das pessoas e da organização. Porém, pensando no cenário atual, na era da informação, na presença e impor- tância do homem nas organizações, a política de recursos humanos (RH) deverá privilegiar programas que busquem a modernização das formas de trabalho. Para desenvolver programas de TD que, de fato, gerem os resultados espera- dos, deverá ser realizado um planejamento com metas congruentes com a política da organização, e construídas de modo participativo, integrando o mentor dos pro- gramas, seus executores e os treinandos. A Fig. 11.2 mostra as fases do planejamento de TD.
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    144 Educação Continuada:Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional Primeiramente, como destaca MILIONI (2001), o gestor de RH, nesse caso o en- fermeiro da EC, deve proceder ao diagnóstico, definindo os problemas tratáveis ou não pelo treinamento, isto é, se as necessidades levantadas são problemas passíveis de solução por meio de treinamento e desenvolvimento de pessoal. Portanto, o levantamento de necessidades deve ser apreciado num contexto maior, analisadas as relações de causa, efeito e consequência das disfunções e pro- blemas de competências das pessoas, identificando os motivos desses problemas e se a falta de conhecimento é devida ao despreparo ou a outros fatores relacionados ao trabalho (MILIONI, 1999). O planejamento de TD pressupõe a aplicação dos princípios do Planejamento descritos no Cap. 4. Em síntese, deverá contemplar as seguintes reflexões: Onde e como estamos hoje? DIAGNÓSTICO SITUACIONAL Onde e como pretendemos estar amanhã? OBJETIVOS Como faremos para chegar lá? METODOLOGIA/ESTRATÉGIAS Como saberemos que chegamos? AVALIAÇÃO Quanto custará ao indivíduo e à organização? ANÁLISE DOS RECURSOS E DOS CUSTOS Fig. 11.2
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    Educação Continuada: Recrutamentoe Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional 145 Para a elaboração do programa, a EC, como agente de transformação da realida- de organizacional, deverá adotar uma metodologia que favoreça a reflexão crítica, a criatividade, e abandonar técnicas de ensino prescritivas, preocupando-se também em individualizar o processo de ensino-aprendizagem. Nesse sentido, o processo de TD tem sido facilitado pela ação de agentes mul- tiplicadores, pois trata-se de uma estratégia em que os profissionais de uma deter- minada área são responsáveis pelo processo de TD da equipe dessa área. Um dos fatores mais relevantes dessa ação é a pertença do agente ao grupo, o que favorece a troca de experiências e informações; estimula a motivação e a cooperação entre os membros; bem como facilita a realização do diagnóstico situacional e a mensuração dos resultados. Para a adoção dessa estratégia, é essencial uma análise das dimensões estrutu- rais e relacionais, ou seja, é preciso dimensionar os recursos humanos e tecnológi- cos e estabelecer objetivamente a função do agente, sobretudo no que se refere às relações de poder. A utilização de novas tecnologias da comunicação e da informação vem se tor- nando um eficaz instrumento de treinamento técnico, por possibilitar uma apren- dizagem cooperativa, que se manifesta nas interações do aprendiz com o seu tutor, com os colegas aprendizes e com os conteúdos didáticos, redefinindo a tradicional educação a distância. Embora os recursos da multimídia aplicados ao ensino favoreçam a democratiza- ção da informação, a independência geográfica e a constante atualização da infor- mação não substituem o ensino presencial, que permite o desenvolvimento de com- petências, comportamentos e atitudes. Além disso, o treinamento virtual demanda grande investimento em infraestrutura. A facilidade de aprovação do programa será proporcional ao grau de participa- ção das pessoas e coerência com a cultura e necessidades das pessoas e da organi- zação. O respeito às pessoas e à organização confere legitimidade ético-política ao programa, sendo este mais facilmente aprovado e executado. A avaliação do processo de TD significa verificar se as informações transmi- tidas geraram conhecimento e se este está sendo aplicado às ações. A avaliação do programa verifica a pertinência do conteúdo, a adequação das estratégias de ensino e dos recursos, enquanto a avaliação dos resultados preocupa-se com a verificação da mudança de comportamento dos treinandos. Existem várias técnicas de avaliação, mas o mais importante é perceber que essa fase retorna ao início do planejamento, pois é capaz de gerar novas informações a respeito das necessidades que fundamentam o diagnóstico situacional. Apesar da inquestionável importância, a avaliação tem recebido pouca atenção dos responsáveis, que alegam falta de tempo ou falta de preparo para tal. O não envolvimento das pessoas, no processo como um todo, também explica essa resistência, pois, por não conhecerem os objetivos do programa, pouco sabem o que avaliar e que resultados esperar. Além disso, essa situação demonstra como a avaliação está diretamente relacionada à política de RH e ao processo de pla- nejamento dos programas. Um processo participativo e uma política integrada de desenvolvimento de pessoal proporcionam maior interação das pessoas e melhores resultados dos programas.
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    146 Educação Continuada:Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional Na avaliação dos programas de TD, a EC reforça seu papel estratégico e gestor, analisando e interpretando os dados obtidos a partir dos diversos tipos de avaliação, que, isoladamente, não caracterizam uma avaliação de resultados e pouco contri- buem para a retroalimentação do programa. A avaliação dos custos, embora indispensável, pouco tem sido realizada, tanto no que se refere ao levantamento do custo direto, como, principalmente, no que tange à análise de custo-benefício ou custo-efetividade, verificando se o investi- mento valeu a pena. Para JERICÓ (2001), as informações sobre custos respaldam os enfermeiros no planejamento e alocação de recursos, na implementação e avaliação dos resultados e no índice de viabilidade dos programas, oferecendo dados para previsão orçamen- tária e negociação com a administração. Algumas iniciativas têm sido realizadas e mostram quanto de investimento em TD tem sido feito na enfermagem, em média de horas. JERICÓ (2001) constatou, numa instituição estudada, um investimento de 12,6 h/funcionário/ano, mostrando que a média mundial foi de 34,8 h/funcionário/ano, observando uma queda nesse quantitativo. MINAMI, LIMA, ORTIZ, OKANO e FOLLADOR (2002) apresentou, em outra instituição, a relação de 13,8 h/funcionário/ano. Sistematicamente, ao finalizar um programa, a EC deve emitir relatórios ana- líticos, cuja finalidade é proporcionar as informações necessárias para tomada de decisão, bem como divulgar as atividades realizadas. Essa divulgação é essencial, ainda, para a visibilidade e reconhecimento da EC, no que diz respeito à sua ação como promotora de mudanças. Desse modo, percebemos que a EC, além de estar subordinada à política insti- tucional, tem seu poder político diretamente relacionado à sua contribuição para o alcance dos objetivos organizacionais. Se a política da organização ainda for a de substituição rápida da mão de obra, o que não é tão raro, então o treinamento será pautado no preparo para ações imedia- tas e o desenvolvimento restrito aos poucos funcionários que sobressaem. Planejar e implementar programas de TD não constitui tarefa fácil; é preciso coadunar alta complexidade de informações com os problemas na capacitação das pessoas. Assim, para a construção de uma educação transformadora, participativa e críti- ca, é indispensável uma reflexão ética e política, a fim de assegurar que essa educa- ção não favoreça o aumento das diferenças sociais, impostas pela condição econô- mica que privilegia o acesso ao conhecimento. n Avaliação de Desempenho Profissional Considerando a qualidade dos resultados da organização, como consequência do desempenho humano, e o cenário atual de constantes transformações e de valoriza- ção do conhecimento, o processo de avaliação de desempenho profissional tem sido concebido como um importante recurso gerencial para a promoção do crescimento profissional e pessoal. A avaliação de desempenho profissional individualizada e sistematizada não é uma prática comum nas organizações de saúde.
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    Educação Continuada: Recrutamentoe Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional 147 Na enfermagem, o processo de avaliação de desempenho, embora não seja uma prática recente, também não é comum, e KURCGANT (1991) refere-se a essa prática como uma atividade isolada, que não reflete a filosofia da organização e do próprio serviço de enfermagem. Para LEITE et al. (1997), a avaliação de desempenho é um recurso para dimensio- nar a qualidade do desempenho profissional, identificando o nível de capacitação para o alcance dos objetivos organizacionais. No entanto, tem assumido um caráter normativo que não contribui, de fato, para análise do potencial, nem para o desen- volvimento pessoal ou profissional. A avaliação de desempenho (AD) é um processo dinâmico de mensuração indi- vidual da qualidade do desempenho profissional, no exercício de seu cargo, confor- me critérios predefinidos. Constitui-se num instrumento de diagnóstico gerencial que fundamenta as decisões administrativas, por meio do qual é possível estabe- lecer metas de desenvolvimento. Compreende a análise de aspectos atitudinais e técnicos, como o comportamento no trabalho, o conhecimento, as competências, as habilidades, a produtividade, a eficiência e a eficácia do avaliado, bem como sua satisfação e a da instituição (GONÇALVES, 2003). Para essa autora, a finalidade da AD é promover o crescimento profissional do avaliado e do avaliador, tendo como principais objetivos: • caracterizar e documentar o desempenho profissional; • detectar necessidades de treinamento e de desenvolvimento de pessoal, consi- derando as competências a serem desenvolvidas e valorizando as competências adquiridas; • planejar, juntamente com o avaliado, as estratégias educacionais e metas de de- senvolvimento; • monitorar o alcance das metas de desenvolvimento; • identificar e analisar as condições de trabalho e os fatores intervenientes no de- sempenho; • identificar dificuldades de integração do profissional à organização; • analisar, junto ao avaliado, a adequação de seu perfil ao cargo, subsidiando a alocação de pessoal; • fornecer informações para retroalimentação do processo de recrutamento e se- leção; • fundamentar tomada de decisão referente à movimentação de pessoal, como transferências, desligamentos, promoções e aumentos salariais. Avaliar é um ato natural do homem, e o trabalho e os profissionais são constante- mente avaliados. Entretanto, o processo de avaliação de desempenho profissional pressupõe um sistema formal, provido de objetivos bem definidos e de adoção de métodos coerentes com a política e a filosofia institucional. As possibilidades de investimento em programas de treinamento e desenvolvimento de pessoal devem estar claramente estabelecidas na política de RH, uma vez que têm estreita relação com os resultados da AD.
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    148 Educação Continuada:Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional Os pontos fundamentais para formalização do processo de avaliação de desem- penho estão esquematicamente apresentados na Fig. 11.3. Fig. 11.3 A elaboração de um instrumento é essencial para que todas as pessoas avaliem sob os mesmos parâmetros, observando critérios objetivos na apreciação do desem- penho, visando diminuir a subjetividade. Embora o instrumento não resolva os problemas da avaliação, pois não pode diri- mir a subjetividade humana, nem tampouco a intencionalidade das pessoas, alguns profissionais, sobretudo os avaliadores, tendem a responsabilizar o instrumento de avaliação pelo insucesso do processo. Isto é decorrente da ênfase no preenchimento do instrumento em detrimento de uma avaliação reflexiva e objetiva do desempe- nho. Para sua construção, observamos na Fig. 11.4, os elementos essenciais. Fig. 11.4
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    Educação Continuada: Recrutamentoe Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional 149 O passo inicial para construção do instrumento é o perfil profissional, no qual constam as competências ou características do desempenho que serão avaliadas em cada categoria funcional, representando o desempenho exigido pela organização. Essas características ou competências podem ser denominadas, entre outras, de fatores, itens, indicadores ou prognosticadores do desempenho e referem-se às características técnicas e pessoais diretamente relacionadas ao exercício profis- sional. BERGAMINI e BERALDO (1992) ressaltam a importância de conceituar os prog- nosticadores de modo a expressar o que se deseja no desempenho e não o indesejá- vel. A definição deve garantir a mesma compreensão de linguagem e de julgamento emitido tanto pelo avaliador como pelo avaliado ou outro profissional envolvido na avaliação. Os prognosticadores, portanto, representam aquilo que se deve considerar nos profissionais, sendo definidos de modo a permitir sua mensuração e possibilitar a intervenção voltada para o desenvolvimento de pessoal. GONÇALVES (2003) afirma que um processo de AD que atenda às necessida- des institucionais e às expectativas da equipe à qual se destina deve emergir do consciente coletivo. Assim, para a construção de prognosticadores de avaliação do enfermeiro, adotou o método da pesquisa-ação e a técnica de grupo focal, com a par- ticipação ativa das pessoas envolvidas no processo de avaliação, visando a captação do conteúdo dos prognosticadores. Além disso, esse método permite a expressão e discussão dos sentimentos intervenientes ao processo. Após discussão e análise do perfil profissional do enfermeiro e das competências mais importantes para o desempenho da função na instituição hospitalar estuda- da, os enfermeiros participantes da pesquisa definiram 13 prognosticadores, como exemplificado a seguir: “Comunicação oral e escrita – Capacidade de entender e de se fazer entender nas relações, sendo claro e objetivo na expressão de suas ideias, na comunicação oral e na comunicação escrita. Critérios: Sequência lógica de raciocínio. Objetividade. Fluência na linguagem. Observância das regras da língua portuguesa.” A avaliação feita por prognosticadores facilita o diagnóstico de pontos específi- cos, mas, por outro lado, leva a uma fragmentação da visão do desempenho, exi- gindo do avaliador e do avaliado uma apreciação mais global para reintegralizar o indivíduo em suas competências técnicas e pessoais. Para avaliação do desempenho e mensuração dos prognosticadores, existem várias técnicas e métodos de avaliação, dependendo do que se deseja apreciar, o desempenho individual ou grupal, e de quem avalia quem (KURCGANT, 1991; BERGAMINI e BERALDO, 1992; GIL, 1994; CHIAVENATO, 1998; MARQUIS e HUSTON, 1999; MARRAS, 2000; PONTES, 2002). Com maior frequência, são utilizadas a avaliação direta ou absoluta, a qual se volta exclusivamente ao desempenho individual do avaliado, descrevendo suas ca- racterísticas em determinado trabalho, e a avaliação relativa ou por comparação, que enfoca a maior ou menor eficiência do desempenho do avaliado, em relação à eficiência do grupo do qual faz parte.
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    150 Educação Continuada:Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional A avaliação “360 graus” é um método de grande ressonância atualmente nas or- ganizações brasileiras, identificando-se com ambientes democráticos e participati- vos em que o avaliado é focado por, praticamente, todos os elementos que tenham contato com ele, subordinados, superiores, pares e clientes. Recebe o nome de 360 graus por ser um processo total (MARRAS, 2000). A avaliação “360 graus” é um método enriquecedor e indicado para diminuir si- tuações de conflito entre avaliador e avaliado, restringindo o abuso de poder. Na enfermagem, no entanto, é pouco comum devido à alta exigência de capacitação, de maturidade e de equilíbrio emocional, que são fatores determinantes para o su- cesso desse método. As avaliações podem ser realizadas de modo descritivo, nas quais se discorre livremente sobre os prognosticadores, ou pode haver um gradiente em que, a cada grau ou intervalo, é atribuído um nível de desempenho. Ambas as técnicas apresentam vantagens e desvantagens. Descrever esponta- neamente sobre o desempenho, embora exija mais preparo e capacitação, facilita a expressão genuína e criativa; por esse motivo, pode facilitar também a subjetivida- de. Graduar o desempenho em níveis ou intervalos preestabelecidos pode diminuir a subjetividade; no entanto, é inviável descrever, em quatro ou cinco graus, toda a diferença de desempenho possível de encontrar. GONÇALVES (2003) propõe a mensuração dos prognosticadores com base em cinco conceitos: Não atinge as exigências Atinge pouco as exigências Atinge satisfatoriamente as exigências Atinge plenamente as exigências Supera as exigências O conceito “Atinge plenamente as exigências” corresponde ao perfil profissional estabelecido, que deve nortear o quão próximo ou distante está o desempenho ob- servado do desempenho exigido. Outro aspecto a ser definido no processo de AD é a periodicidade das avaliações, conforme o que se pretende avaliar. Se o objetivo for avaliar a adaptação do profis- sional à instituição e a adequação do perfil ao cargo, deverá ser agendada uma ava- liação logo após a admissão; para avaliar a evolução do desempenho e o domínio das atividades desempenhadas, poderão ser estabelecidas avaliações anuais. Importante ressaltar que a avaliação é uma constante, devendo ser realizada de forma continuada, reforçando os pontos positivos e dialogando sobre os problemas tão logo eles apareçam, a fim de evitar que outros ocorram. Não se pode deixar tudo para o momento formal da avaliação, que é o momento de caracterizar o desempe- nho como um todo, e não, simplesmente, apontar fatos isolados que não retratam o perfil de competências do avaliado. Para o sucesso e continuidade do processo de avaliação, é indispensável proceder a uma análise de seus resultados, visando viabilizar as intervenções administrati- vas, traduzidas em ações educacionais ou decisões de movimentação de pessoal. Essa análise deve contemplar a apreciação dos fatores intervenientes ao desem- penho e às possibilidades e oportunidades de desenvolvimento profissional, consi- derando as características e a constância do desempenho do profissional no período
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    Educação Continuada: Recrutamentoe Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional 151 avaliado; a ciência do avaliado sobre suas deficiências e habilidades; e o tipo de intervenção a ser implementada para a melhoria do desempenho. Os resultados de uma avaliação, portanto, devem fundamentar as ações a serem implementadas, não se restringindo às informações obtidas isoladamente. Na formalização do processo de AD, ainda, é preciso decidir quem são os avalia- dores. A escolha do avaliador está relacionada à estrutura e à política organizacio- nal, e, tradicionalmente, o responsável por avaliar tem sido o chefe imediato. Entretanto, como afirma KURCGANT (1991), a avaliação não deveria ter como único responsável o chefe imediato, ou aquele que registra formalmente a avalia- ção no instrumento, pois todos aqueles que participam do processo são responsá- veis por seus resultados. Compreendendo o processo de AD na perspectiva de uma educação crítica e re- flexiva, o avaliado deve expressar-se sobre seu desempenho, sendo sua a responsa- bilidade e a prerrogativa de seu desenvolvimento. Assim, o avaliado deveria ser um dos principais responsáveis por sua avaliação. Algumas organizações, como explica CHIAVENATO (1999b), atribuem a respon- sabilidade de avaliação exclusivamente ao chefe imediato, para reforçar a hierar- quia; outras procuram integrar o gerente e o subordinado na avaliação, para reduzir a diferença hierárquica; e, em outras, ainda, a avaliação é realizada pelas equipes, principalmente quando se trata de equipes autogeridas. Algumas organizações centralizam o processo de avaliação em uma comissão central. Na avaliação “360 graus”, a responsabilidade de avaliar é de todos os profissio- nais da estrutura hierárquica, bem como de clientes e pessoas externas à organiza- ção, que têm relação com o avaliado. Ser o avaliado o único responsável pela avaliação, embora seja menos frequen- te, pode demonstrar uma flexibilização da estrutura e uma gestão de pessoal mais participativa. No entanto, é bom lembrar que, nos casos em que há divergências e discordân- cias entre avaliador e avaliado, prevalece, normalmente, a avaliação do avaliador, que, geralmente, é um superior hierárquico e, portanto, quem toma as decisões. Independentemente do método adotado e do avaliador, consideramos impres- cindível que haja autoavaliação, pois, como dito anteriormente, a responsabilida- de de desenvolvimento é do próprio indivíduo, e, em última instância, esta é a fi- nalidade da AD. Além disso, analisar o próprio desempenho leva à reflexão de pontos importan- tes, como pensar nas condições de trabalho; detectar suas competências, habilida- des e deficiências; definir expectativas e metas de desenvolvimento, assim como o meio mais adequado para alcance dessas metas. Pensando na AD como um instrumento útil no gerenciamento de pessoal, e re- levando seus pontos de vulnerabilidade, que a tornam também bastante polêmica, sua implantação requer mais do que cuidados técnicos, exigindo, sobretudo, uma mudança nas atitudes e postura das pessoas. Como afirma GONÇALVES (2003), parte da insatisfação das pessoas pode advir do pressuposto que a AD é tratada como um fim em si mesma, utilizada para fins punitivos ou de recompensa, como o sistema de mérito adotado na maioria das empresas. Essa afirmação explica, em parte, o fato de a AD ser utilizada como um
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    152 Educação Continuada:Recrutamento e Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional instrumento de poder, sendo considerada como um processo injusto e tendencioso, o que leva a uma reação negativa por parte do avaliado. Nesse círculo, aparecem, então, os sentimentos de tensão, medo e ansiedade, causando um impacto ainda mais negativo. Desse modo, e reforçando o que já dissemos, o primeiro aspecto a ser observado na implementação do processo é definir sua finalidade, que deverá estar integrada à política de RH de maneira clara e explícita. Ponderando que a AD não é um fim, mas um meio, pois, por si só não é capaz de promover o crescimento das pessoas ou demiti-las, é que se faz indispensável seu ajuste à política de RH, definindo claramente seus objetivos e limites enquanto instrumento de diagnóstico. Assim, as ações subsequentes e as providências ad- ministrativas a serem concretizadas dependem da política, do processo, e não da avaliação propriamente dita. Os programas de TD são uma dessas ações, pois, para que seja alcançada a finalidade da AD, que é promover o crescimento, devem ser concretizadas as estra- tégias educacionais. A supervisão também é uma atividade indissociável da AD, pois pressupõe o acompanhamento constante do desempenho. Educar também é princípio da su- pervisão; por isso, alguns problemas isolados, que não caracterizam o desempenho profissional como um todo, poderiam ser resolvidos por meio de um acompanha- mento e orientação constantes, em vez de serem apontados somente no momento da avaliação. Para compreensão da AD e de seus fatores intervenientes, é indispensável a ca- pacitação de avaliadores e avaliados, considerando os aspectos cognitivos e afeti- vos, pois a capacitação não se restringe à técnica de avaliar. Resulta que as pessoas mais preparadas necessitam menos de usar o poder, enquanto avaliadores, porque não precisam se defender, aliás, não se sentem atacadas. n Referências Bibliográficas BERGAMINI, C.W.; BERALDO, D.G.R. Avaliação de desempenho humano na empresa. 4a ed. São Paulo, Atlas, 1992. CARVALHO L.C.F . TD estratégicos. In: BOOG G.G. (Coord.). Manual de treinamento e desenvolvimento – ABDT. São Paulo, Makron Books, 1999; 125-144. CHIAVENATO, I. Administração nos novos tempos: os novos horizontes em administra- ção. São Paulo, Makron Books, 1999a. CHIAVENATO, I. Desempenho humano nas empresas: como desenhar cargos e avaliar o desempenho. São Paulo, Atlas, 1998. CHIAVENATO, I. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. Rio de Janeiro, Campus, 1999b. COVEY, S.R. Leadership is choice. New York, Hardcover, 2002. EBOLI, M.P . Modernidade na gestão de bancos. Rev. Adm. (São Paulo), 1997; 32(3): 40-51. GIL, C.A. Administração de recursos humanos: um enfoque profissional. São Paulo, Atlas, 1994.
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    Educação Continuada: Recrutamentoe Seleção,Treinamento e Desenvolvimento e Avaliação de Desempenho Profissional 153 GONÇALVES, V.L.M. Crenças, sentimentos e capacitação dos enfermeiros no processo de avaliação de desempenho da equipe de enfermagem. São Paulo, 1998. 166p. Dissertação de Mestrado – Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo. GONÇALVES, V.L.M. Reconstruindo o processo de avaliação de desempenho da equipe de enfermagem do Hospital Universitário da USP. São Paulo, 2003. 270p. Tese de Doutora- do – Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo. GONÇALVES, J.E.L. Os novos desafios da empresa do futuro. Rev. Adm. Emp. São Paulo, 1997; 38(3):10-19. JERICÓ, M. de C. Análise dos custos dos programas de treinamento e desenvolvimento de pessoal de uma organização hospitalar. São Paulo, 2001. 200p. Dissertação de Mestrado – Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo. KURCGANT, P . A avaliação de desempenho do pessoal de enfermagem. In: KURCGANT, P . (Coord.). Administração em enfermagem. São Paulo, EPU, 1991, p. 133-45. LEITE, M.M.J. et al. Análise do instrumento utilizado no processo de avaliação de desempe- nho da equipe de enfermagem do Hospital Universitário da USP . Relatório de pesquisa FAPESP. São Paulo, 1997. LODI, J.B. Recrutamento de pessoal. São Paulo, Pioneira, 1992. LUCENA, M.D. da S. Planejamento de recursos humanos. São Paulo, Atlas, 1991. MARQUIS, L.B.; HUSTON, C.J. Administração e liderança em enfermagem: teoria e apli- cação. Porto Alegre, Artes Médicas, 1999. MARRAS, J.P . Administração de recursos humanos: do operacional ao estratégico. São Paulo, Futura, 2000. MILIONI, B. Avaliação e validação dos resultados dos investimentos em TD. In: BOOG, G.G. (Coord.). Manual de treinamento e desenvolvimento – ABDT. São Paulo, Makron Books, 1999, p. 289-307. MILIONI, B.A. Integrando o levantamento de necessidades com a avaliação e validação do treinamento. In: BOOG, G.G. (Coord.). Manual de treinamento e desenvolvimento: um guia de operações. São Paulo, Makron Books, 2001, p. 9-27. MINAMI, L.F .; LIMA, A.F .C.; ORTIZ, D.C.F .; OKANO, H.I.O.; FOLLADOR, N.N. Caracteriza- ção dos programas de treinamento e desenvolvimento proporcionados aos profissionais do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo. In: Boletim informativo da So- ciedade Brasileira de Educação Continuada em Enfermagem; São Paulo; 2002 jul/dez. PEREIRA GARCIA, J.F . TD mobilizando a organização para a qualidade. In: BOOG, G.G. (Coord.). Manual de treinamento e desenvolvimento – ABDT. São Paulo, Makron Books, 1999, p. 209-36. PEREIRA, L.L.; LEITE, M.M.J. Recrutamento e seleção do pessoal de enfermagem. In: KUR- CGANT, P . (Org.). Administração em enfermagem. São Paulo, EPU, 1991. cap 8, p. 97-105. PERES, H.H.C. O fenômeno recrutamento e seleção de enfermeiros em hospitais: um enfo- que fenomenológico. São Paulo, 1995. Dissertação de Mestrado – Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo. PONTES, B.R. Avaliação de desempenho: nova abordagem. São Paulo, LTr, 2002. SILVA, M.J.P .; PEREIRA, L.L.; BENKO, M.A. Educação continuada: estratégia para o de- senvolvimento do pessoal de enfermagem. Rio de Janeiro, Marques-Saraiva/São Paulo, E.P .U./EDUSP , 1989. SPENDER, J.C. Gerenciando sistemas de conhecimento. In: FLEURY, M.T.L.; OLIVEIRA Jr. M.M. (Org.). Gestão estratégica do conhecimento: integrando aprendizagem, conheci- mento e competências. São Paulo, Atlas, 2001; 27-49.
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    Gerenciamento de Recursos Materiais VALÉRIACASTILHO E VERA LÚCIA MIRA GONÇALVES 12 155 n A Importância e o Objetivo Os avanços tecnológicos têm impulsionado o aumento constante da complexidade assistencial, exigindo um nível de atenção cada vez mais elevado, por parte dos pro- fissionais de saúde, criando uma demanda crescente por recursos materiais. Assim, impõe-se a necessidade de os serviços de saúde aprimorarem os sistemas de gerenciamento desses recursos, a fim de garantir uma assistência contínua de qualidade a um menor custo, e, ainda, assegurar a quantidade e qualidade dos ma- teriais necessários para que os profissionais realizem suas atividades sem riscos para si mesmos e para os pacientes. A administração dos recursos materiais tem sido motivo de preocupação nas or- ganizações de saúde, tanto no setor público como no privado, que fazem parte da rede complementar do SUS. As organizações do setor privado, sujeitas às regras de mercado, precisam gerenciá-los com preços competitivos em relação às outras organizações. As do setor público, devido a orçamentos restritos, precisam de maior controle do consumo e dos custos para que não privem funcionários e pacientes do material necessário. Os sistemas de recursos materiais das organizações hospitalares têm registrado cerca de 3.000 a 6.000 itens de consumo (VECINA NETO e REINHARDT FILHO,
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    156 Gerenciamento deRecursos Materiais 1998). Esses dados variam dependendo das peculiaridades de cada organização de saúde, das especialidades atendidas, do número de leitos e dos processos assisten- ciais desenvolvidos, entre outras. Sabe-se que uma organização hospitalar geral de ensino, de grande porte, com aproximadamente 300 leitos, trabalha com cerca de 2.500 itens referentes a ma- teriais de consumo assistenciais. Só esses materiais apresentam uma média de 1.500.000 unidades consumidas mensalmente, podendo gerar um custo anual de, aproximadamente, R$ 4.000.000,00. Estudo realizado por CASTILHO, KOPTE e YAMADA (2001), em unidades bási- cas de saúde, mostrou que, nesses serviços, o número de materiais utilizados é bem menor, registrando uma média de 110 itens, cujo consumo mensal é da ordem de 3.500 unidades. Assim, o gasto com esses recursos tem representado uma parcela importante do orçamento das organizações. Além disso, a complexidade no gerenciamento, devi- do à diversidade e à quantidade de materiais, também tem consumido uma grande quantidade de recursos financeiros. Diante desses fatores, o objetivo do gerenciamento de materiais na área da saúde não difere das outras organizações, e consiste em colocar os recursos necessários ao processo produtivo com qualidade, em quantidades adequadas, no tempo correto e ao menor custo (VECINA NETO e REINHARDT FILHO, 1998). Um aspecto fundamental no gerenciamento de recursos materiais nas organiza- ções de saúde refere-se ao seu produto final ou atividade fim, que é a assistência aos clientes por meio de ações que não podem sofrer interrupções. Essas interrup- ções são atribuídas a fatores como insuficiência na quantidade ou falta de qualida- de de materiais. n Processo de Gerenciamento de Recursos Materiais em Organizações de Saúde Os termos gerenciamento de recursos materiais, administração de recursos mate- riais, gerenciamento de suprimentos e logística têm sido empregados, muitas ve- zes, como sinônimos. Cabe, no entanto, esclarecer algumas diferenças entre eles. A administração de materiais envolve a totalidade dos fluxos de materiais de uma organização, compreendendo a programação, a compra, a recepção, o armaze- namento no almoxarifado, a movimentação de materiais, o transporte interno e o armazenamento no depósito de produtos acabados (CHIAVENATTO, 1991). Suprimento designa todas as atividades que visam o abastecimento de materiais para a produção, envolvendo programação de materiais, compra, recepção, armaze- namento no almoxarifado, movimentação de materiais e o transporte interno para abastecer as unidades produtivas. Não envolve o depósito de produtos acabados (CHIAVENATTO, 1991). Já o conceito de logística é empregado para o armazenamento dos produtos aca- bados e sua movimentação, ou seja, a distribuição física até o cliente. Seu objeto de atenção está mais relacionado à estocagem e à distribuição externa do material produzido, não incluindo a programação nem as compras (CHIAVENATTO, 1991). Segundo MACHLINE; AMARAL apud ROSA; MAGALHÃES; REIS (2001), “atu- almente, o conceito de administração de materiais está sendo englobado por uma
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    Gerenciamento de RecursosMateriais 157 visão mais ampla, que é a logística, conceituada em 1986 pelo Council of Logis- tics Management, como o processo de planejamento, implementação e controle do fluxo eficiente e eficaz de matérias-primas, estoques de produtos semiacabados e acabados, bem como o fluxo de informações desde a origem até o consumo, com o propósito de atender requisitos dos clientes”. Esses conceitos, elaborados para o setor de fabricação de bens, envolvendo trans- formação de insumos em produtos acabados que podem ser estocados e comerciali- zados, são mais amplos do que os aplicados na administração de serviços de saúde, embora haja um movimento de agregar aspectos da logística também nesse setor. A administração ou gerenciamento de materiais para essas organizações com- preende o processo gerencial para aquisição e disponibilização de materiais já ma- nufaturados, essenciais para a produção de serviços de saúde. Materiais são pro- dutos que podem ser armazenados, distribuídos e consumidos para a produção de serviços. O gerenciamento de recursos materiais, administração de recursos materiais ou suprimentos constituem a totalidade dos fluxos de materiais de uma organização de saúde, compondo um processo com as seguintes atividades principais: progra- mação, compra, recepção, armazenamento, distribuição e controle. O setor responsável pelo gerenciamento dos recursos materiais, nas instituições hospitalares, está vinculado à área administrativa da estrutura organizacional, compreendendo os setores de Compras e Almoxarifado, onde são desenvolvidas atividades por pessoal que, geralmente, não é da área de saúde. Dadas a diversidade e a complexidade dos materiais utilizados na área da saúde, é indispensável a participação das áreas fins, como a enfermagem, a farmácia e o laboratório, entre outras, no processo de gerenciamento dos recursos materiais, as- sessorando a área administrativa nos aspectos técnicos e nas ações locais. A programação começa pela classificação, padronização, especificação dos ma- teriais e estabelecimento da quantidade a ser adquirida. Fig. 12.1 Fluxo das principais atividades do gerenciamento da cadeia logística.
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    158 Gerenciamento deRecursos Materiais Nos hospitais e unidades de saúde, os materiais possuem diferentes classifica- ções. A mais comum é a classificação por finalidade, como: medicamentos, mate- riais médico-hospitalares, escritório, informática, gêneros alimentícios e de higiene. Os materiais médico-hospitalares podem ser também denominados materiais de consumo ou assistenciais. A padronização de materiais é essencial dada a variedade de bens e produtos que têm a mesma finalidade técnica e indicações de uso, consistindo, portanto, na determinação do produto específico para procedimentos específicos, com o objeti- vo de diminuir a diversidade desnecessária de alguns itens e normatizar o uso de similares. É realizada por meio do estabelecimento de critérios objetivos de indi- cação técnica do uso do material, e do custo-benefício. Segundo BITTAR (1997), a padronização, particularmente, oferece resultados compensadores, tanto do ponto de vista econômico como técnico, facilitando a administração de materiais, sobre- tudo a previsão, pela redução de itens. Melhora também a organização e o controle dos materiais e diminui o desperdício. Na padronização, deve-se considerar também os aspectos relacionados aos riscos e impactos da utilização do material para os pacientes, trabalhadores e, ainda, para o ambiente, como veremos no Cap. 14. Como exemplo de padronização, pode ser citada a necessidade de normatização de cateteres venosos utilizados pela enfermagem, que diferem em características, como biocompatibilidade, tempo de permanência, preço e segurança para o usuá- rio. Portanto, somente por meio de uma avaliação rigorosa, poderá ser determinada a indicação do cateter, analisando-se o benefício para o paciente, o risco ocupacio- nal, o impacto ambiental e a disponibilidade de recursos financeiros. Devido a essa complexidade, algumas instituições têm comissões interdiscipli- nares para a padronização de materiais. A padronização deve ser amplamente dis- cutida e, após seu estabelecimento, deverão ser promovidas estratégias educacio- nais para a capacitação dos usuários. A especificação técnica compreende uma descrição minuciosa do material, pois representa, com precisão, aquilo que se deseja adquirir, o que impõe, principal- mente às instituições públicas, uma rigorosa análise do produto no que se refere às características de fabricação, utilização e desempenho. Para VECINA NETO e REI- NHARDT FILHO (1998), é também um meio de comunicação entre a área técnica e a área administrativa. A especificação tem início com o nome do produto, devendo constar dados a respeito da indicação de uso; desempenho técnico; matéria-prima de fabricação; dimensões, tamanhos; acabamento; embalagem; propriedades físico-químicas; mé- todo de esterilização e prazo de validade; código e procedência; entre outros. Para esse detalhamento, devem ser consultados os órgãos oficiais que normati- zam e fazem recomendações relativas à fabricação, esterilização e uso de materiais, tais como ABNT, ANVISA e Ministério da Saúde e Ministério do Trabalho. É útil, ainda, recorrer às diferentes especificações dos fabricantes constantes dos manuais de instrução. A previsão de materiais, ou seja, a quantidade a ser requisitada pelas unidades ao almoxarifado, é determinada pelo perfil de consumo de cada unidade, estabele- cendo-se uma cota de materiais que representa uma estimativa de gastos por de- terminado período (CASTILHO e LEITE, 1991). A previsão é um dos componentes
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    Gerenciamento de RecursosMateriais 159 do controle de estoque, compreendendo as ações gerenciais para determinação do “quanto” comprar. As ações relacionadas ao “quando” comprar serão vistas adiante. A estimativa do material a ser comprado depende do consumo mensal das uni- dades hospitalares, ou seja, da soma das “cotas” de todas as unidades, cujos valores são calculados com base na média aritmética do consumo, podendo ser estimada pela seguinte expressão matemática: CM = CMM + ES em que: CM = cota mensal CMM = consumo médio mensal ES = estoque de segurança O consumo médio mensal (CMM) é a média dos valores do material utilizado nos últimos meses, dividido pelo número de meses. A cota mensal baseada na média aritmética móvel é o método mais usado no meio hospitalar (TOSCAN, 1990), pois permite prever o consumo para o próximo período, conforme o consumo médio do período anterior. Esse período é arbitrário, mas recomenda-se que seja, no mínimo, de três meses ou superior ou igual a 12 meses (CASTILHO e LEITE, 1991; ROSA; GOMES; REIS, 2001). Exemplificando: Unidades Mensais Consumidas Material Janeiro Fevereiro Março Seringa 10 ml 200 240 220 Para calcular o CMM de seringas de 10 ml, seria: Para o cálculo da média aritmética móvel a cada novo mês, acrescenta-se o valor do consumo mais recente e despreza-se o mais antigo. Existem outros métodos para calcular a previsão de consumo, tais como: con- sumo do último período, média móvel ponderada, média ponderada exponencial, mínimos quadrados (CHIAVENATO, 1991). O estoque de segurança (ES) ou estoque mínimo é a quantidade de cada item que deve ser mantida como reserva para garantir a continuidade do atendimento caso haja elevação brusca no consumo ou atraso no suprimento (ROSA; GOMES; REIS, 2001). A forma mais simples e empírica de calcular o ES é acrescentar, à cota
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    160 Gerenciamento deRecursos Materiais mensal, 10% a 20% do CMM, somado ao consumo diário durante o tempo de repo- sição (CTR). ES = 10% a 20% do (CMM + CTR) CTR = CMM/30 · N N = número de dias de espera para reposição. O tempo de reposição varia de acordo com o sistema de compra do hospital. Os hospitais públicos, devido ao processo de licitação, levam de quatro a seis meses, entre o início do processo de compra até o recebimento, armazenagem e distri- buição interna do material. Com a adoção da modalidade de compra por pregão, o tempo tem diminuído para cerca de um mês. Devido ao custo de manter estoques elevados, além do consumo e do tempo de ressuprimento, pode-se considerar a classificação do material obtido pela aplicação da curva ABC. A curva ABC desenvolvida por Pareto e adaptada à administração de materiais classifica-os em classes A, B e C, obedecendo a faixas predeterminadas, em que os itens classe A correspondem a 20% do total de itens, os de classe B a 20% a 30% e os de classe C a 50%. Esses valores têm uma relação com a percentagem dos custos ou investimentos, ou seja, os de classe A correspondem a quase 50% dos custos, os de classe B a cerca de 20% a 30% e os de classe C a 20%. Os de classe A, embora em menor número, são os de maior custo ou investimento e, por isso, possuem maior importância quanto à forma de gerenciá-los. Para a construção da curva ABC, deve-se levantar a relação de todos os itens, os custos unitários, o consumo anual de cada item, o custo anual ou capital investido, e, após a coleta, ordená-los segundo o custo anual. Os itens que atingirem o custo anual acumulado próximo de 50% do total do custo anual serão classificados como grupo A. Classificação ABC Item Custo anual Custo anual acumulado % do custo anual acumulado % do no de itens acumulados Classificação 1 35.250,00 35.250,00 41,60 7,30 A 2 18.640,00 53.890,00 64,00 20,90 A 3 10.631,00 64.521,00 76,14 35,80 B 4 8.000,00 72.521,00 85,58 52,50 B 5 6.034,00 78.555,00 92,70 64,30 C 6 2.880,00 81.435,00 96,10 72,70 C 7 1.940,00 83.375,00 99,03 81,90 C 8 820,00 84.195,00 99,35 88,70 C 9 545,00 84.740,00 100,00 100,00 C
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    Gerenciamento de RecursosMateriais 161 O estoque de segurança deverá ser calculado por item e por classe, seguindo as seguintes fórmulas, segundo ROSA; GOMES; REIS (2001): ES de itens A = CMM · 1/3 do TR ES de itens B = CMM · 1/2 do TR ES de itens C = CMM · TR TR = tempo de reposição em meses. Nesse exemplo, se o tempo de reposição do material do hospital fosse de 30 dias, o estoque dos itens A seria para 10 dias; o dos itens B, para 15 dias; e o dos itens C, para 30 dias. O ES dos materiais classe A devem ser menores devido ao seu custo, tendo com isso uma maior rotatividade. Isso é aconselhável para permitir um maior capital de giro disponível, evitando a imobilização de recursos. Outra classificação importante para auxiliar na decisão de quando comprar é a XYZ (VECINA NETO e REINHARDT FILHO, 1998). Essa classificação tem como critério o grau de imprescindibilidade do material para a produção dos serviços de saúde, ou seja, a sua falta pode acarretar interrupções no atendimento e colocar os pacientes ou profissionais em riscos. Os itens classe Z são imprescindíveis, não po- dendo ser substituídos por outros, ou são de difícil acesso no mercado. Por isso, pre- cisam de um controle melhor porque não podem faltar na organização. Os de nível Y são de média criticidade, podendo ser substituídos por outros e encontrados no mercado com relativa facilidade. Os de classe X são de baixa criticidade, sua falta não acarreta danos ou riscos e apresentam facilidade na sua obtenção (BARBIERI e MACHLINE, 2006; LOURENÇO e CASTILHO, 2007). Outro aspecto do controle de estoque é a decisão sobre quando comprar. Esse momento é denominado de ponto de requisição ou nível de ressuprimento. Ele é deflagrado quando o nível de estoque atingido é incompatível com a demanda de consumo, ou seja, a quantidade do produto é suficiente apenas para atender às necessidades de consumo entre a solicitação de compra e a sua entrega pelo for- necedor. Esse nível de estoque deve levar em consideração as classificações ABC e XYZ. Existem vários modelos para calcular o ponto de ressuprimento, como: modelo de estoque mínimo, modelo de estoque máximo ou de renovação periódica, lote de ressuprimento, lote econômico (CHIAVENATO, 1991; ROSA; GOMES; REIS, 2001; VECINA NETO e REINHARDT FILHO, 1998). A escolha do modelo depende de vários fatores, tais como: da política financeira e de compras da organização; do processo de compra; da capacidade de armazenamento; da facilidade de obtenção do material; da pontualidade de entrega pelo fornecedor, entre outros. Nas instituições que apresentam facilidade e rapidez no processo de compra, o estoque de segurança (ES) será igual ao do nível de ressuprimento, calculado de acordo com a classificação ABC. As organizações cujo prazo de aquisição é longo podem determinar o ponto de ressuprimento pelo estoque máximo.
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    162 Gerenciamento deRecursos Materiais Para ROSA; GOMES; REIS (2001), o PR pode ser calculado da seguinte forma: PR = CM · TR + ES CM = média aritmética móvel TR = tempo de reposição (em meses) ES = estoque de segurança (calculado de acordo com a classificação ABC Exemplificando, a sua aplicação para um item classe A seria: CM = 1.000 unidades TR = 4 meses ES = 1.000 · 1/3 de TR = 1.300 PR = 1.000 · 4 meses + 1.300 PR = 5.300 unidades Isso significa que, quando o estoque atingir 5.300 unidades, deverá ser deflagra- do o pedido de compra do material. A área de compras é responsável pelas atividades de apoio fundamental ao pro- cesso produtivo, suprindo-o com todas as necessidades de materiais. Pode ser, tam- bém, um excelente sistema de redução de custos da empresa, por meio da negocia- ção de preço, na busca de materiais alternativos e de novos fornecedores (POZZO, 2001). É inquestionável, no gerenciamento de recursos materiais, a necessidade do Controle de qualidade, tanto dos produtos existentes na instituição como dos dis- poníveis no mercado. Para aquisição de um material, portanto, é preciso submetê-lo a testes de desempenho técnico e à análise dos riscos para os pacientes e trabalha- dores. Esses testes devem ser realizados pelos usuários diretos, cabendo ao responsável pelo teste coordenar o processo de avaliação, estabelecendo, juntamente com os usuários, critérios técnicos objetivos para apreciação do produto e emissão de pa- recer técnico. Além disso, o responsável deverá proceder a uma pré-seleção, enca- minhando para teste somente os produtos que atenderem a alguns pré-requisitos, como a observância das normas técnicas de embalagem. Qualquer que seja a finalidade da organização de saúde, o processo de compra deverá observar os requisitos de qualidade do material. A condução desse proces- so, no entanto, difere nas organizações públicas, pois, segundo BANDEIRA DE MELLO, enquanto à administração privada é permitido fazer tudo o que a lei não proíbe, à administração pública só é permitido fazer o que a lei autoriza (Princípio da legalidade). Assim, os órgãos governamentais procedem às compras por meio de Licitação, que é o procedimento administrativo regido por legislação específica, utilizado para aquisição ou alienação de bens e serviços, com os objetivos de garantir a observân- cia do princípio constitucional da isonomia e de selecionar a proposta mais vantajo- sa para a Administração (Art. 3o da Lei no 8.666/93).
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    Gerenciamento de RecursosMateriais 163 Para o procedimento de licitação estão previstas fases a serem rigorosamente observadas. Para cada uma delas, há prazos estabelecidos e toda a documentação é juntada aos autos do processo, cabendo recurso por parte dos licitantes. Com base em SANTOS e CARRIJO (1999), mostramos, na Fig. 12.2, uma simplificação desse fluxo. Para a licitação, é indispensável que se faça uma caracterização detalhada do projeto do serviço ou objeto licitável, sem indicação de marca, salvo em casos ex- cepcionais, o que reforça a importância da especificação do material. É necessário, ainda, realizar orçamentos com, no mínimo, três fornecedores, ter recursos orça- mentários disponíveis para compra e ter condições de armazenamento. As modalidades de licitação constantes na Lei 8.666/93 são: Convite – utilizada entre os interessados, cadastrados ou não, escolhidos e con- vidados em número mínimo de três pela unidade administrativa, sendo extensiva aos demais cadastrados na correspondente especialidade. Indicada para aquisições de valores baixos, estabelecidos pela Lei. Fig. 12.2 Fluxo simplificado do processo licitatório.
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    164 Gerenciamento deRecursos Materiais Tomada de Preço – utilizada entre interessados devidamente cadastrados ou que atenderem a todas as condições exigidas para cadastramento. Indicada para aquisi- ções de valores médios, estabelecidos pela Lei. Concorrência – utilizada entre quaisquer interessados que, na fase inicial de ha- bilitação preliminar, comprovem possuir os requisitos mínimos de qualificação exi- gidos no edital. Indicada para aquisições de valores altos, estabelecidos pela Lei. Concurso – utilizada entre quaisquer interessados para escolha de trabalho téc- nico, científico ou artístico. Leilão – utilizada entre quaisquer interessados para venda de bens móveis in- servíveis para a Administração ou de produtos legalmente apreendidos ou penho- rados. Outra forma prevista na Lei no 8.666 e Lei no 6.544 é o Sistema de Registro de Preços, definido como um conjunto de procedimentos para registrar, formalmente, em ata obrigatória, em relação ao objeto licitatório, os preços, as quantidades e as condições a serem observadas em contratações futuras. Para tal, realiza-se ampla pesquisa de mercado, com a finalidade de aferir os preços de mercado praticados antes da realização do certame e, trimestralmente, para verificar a compatibilidade dos preços registrados com os praticados. O Pregão é uma modalidade de licitação mais recente, instituída pela Lei no 10.520, de 17 de julho de 2002. A opção por essa modalidade, independentemente do valor estimado da contratação e da disputa pelo fornecimento de bens e serviços comuns, é feita por meio de propostas e lances sucessivos em sessão pública. Essa modalidade vem ganhando espaço na Administração Pública por ser um processo mais dinâmico, que proporciona maior competitividade entre os concor- rentes e maior transparência à gestão de compras, visto que a negociação é realiza- da em sessão pública. A determinação da modalidade é baseada no valor estimado da contratação, po- dendo ser utilizada uma modalidade acima da que deveria ser escolhida. Não é permitida a combinação de modalidades em um mesmo procedimento licitatório. O valor estimado de contratação é obtido multiplicando-se a quantidade total a ser adquirida pela média de preço de mercado. Para calcular a média de mercado, é obrigatório o orçamento em pelo menos três diferentes fornecedores. A quantida- de total refere-se ao montante dos objetos afins a serem adquiridos no período de ressuprimento. Assim, somam-se as previsões mensais de seringas descartáveis de todos os se- tores da instituição e multiplica-se essa soma pelo número de meses relativos ao período de ressuprimento; faz-se o mesmo procedimento para cada tamanho de seringa e, somando-se todos eles, obtêm-se o valor total estimado para aquisição de seringas. Essa quantidade não poderá ser dividida, pois pode implicar a escolha incorreta da modalidade de licitação, devido à diminuição do valor total de contra- tação. O critério para avaliação das propostas é, em geral, o “menor preço”; os critérios de “melhor técnica ou de “técnica e preço” são utilizados para julgamento de servi- ço intelectual (FÜHRER e FÜHRER, 2000). Mais uma vez, destaca-se a importância de especificações técnicas consistentes, pois, em uma licitação, inúmeros materiais são oferecidos, de boa qualidade ou
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    Gerenciamento de RecursosMateriais 165 não, e o critério de “menor preço” impõe algumas dificuldades no julgamento das propostas, caso as especificações não garantirem, exatamente, aquilo que se deseja adquirir. A recepção e o armazenamento dos materiais após a compra e a distribuição aos diferentes serviços da organização são de responsabilidade do serviço de almoxa- rifado, que, por ter o controle dos estoques, deflagra novos processos de compra, quando os materiais atingirem o nível de ressuprimento. O recebimento se dá pela conferência dos materiais entregues pelo fornecedor no prazo determinado, constantes na nota fiscal com os dados da nota de empenho. Após isso, é registrada a entrada do material no almoxarifado, sendo este codifica- do de acordo com as normas e a tecnologia disponível na organização. Com isso, o material poderá ser distribuído. A distribuição dos materiais e o controle de estoque estão diretamente asso- ciados e constituem pontos centrais de todo o sistema, exigindo subsistemas de controles mais sofisticados. O almoxarifado dá baixa no estoque e aloca medicamentos e materiais para os usuários de acordo com o sistema adotado de distribuição. Geralmente são distribuí- dos por quantidades preestabelecidas (cotas) por períodos de tempo (diariamente, semanal, mensal), segundo o perfil histórico de gastos de materiais por serviço, como já visto. No entanto, esse sistema tem produzido estoques nas unidades, difi- cultando o conhecimento do consumo real de materiais. Os estoques representam investimentos significativos para os hospitais; por isso, seu gerenciamento garante tanto a excelência dos serviços como resultados financeiros satisfatórios. O objetivo do gerenciamento de estoques é minimizar o capital investido, a soma dos custos de manutenção de estoques e os custos para a sua obtenção. Os custos de manutenção de estoques referem-se aos custos de ar- mazenamento, controle, seguros, impostos, deterioração, furtos, entre outros, e o de obtenção refere-se ao processo de compra para a sua formação (MARTINS, 2001). Outro aspecto gerado pela falta de controle desses estoques periféricos, devido ao desconhecimento do consumo real, é a compra de materiais em ponto de repo- sição ou ressuprimento no almoxarifado, mas ainda existentes nas unidades, em detrimento de materiais que também estão em ponto de reposição mas em falta nas unidades. Uma tendência para melhorar o controle, principalmente de materiais de con- sumo e medicamentos, devido ao volume de itens, ao custo e às dificuldades as- sistenciais que a sua falta representa, tem sido a alocação de todo material que chega para os Serviços de Farmácia, que unitarizam cada item, ou seja, codificam unidade por unidade de cada material, com a ajuda de sistemas informatizados de código de barras e leitoras óticas, que distribuem para os demais serviços com base no perfil do consumo diário das unidades identificadas também pelo código de barras. O objetivo dessa codificação não é classificar o material, mas identificá- lo. Com isso, pode-se rapidamente rastrear o consumo dos materiais e repô-los às unidades. Além disso, evita estoques desnecessários nas mesmas e permite conhe- cer o consumo real, diário, por material, por unidade. As unidades assistenciais ficam apenas com pequenas quantidades de materiais e medicamentos necessários para emergências. Esse sistema está sendo implantado em alguns hospitais, com algumas variações, necessitando de maiores estudos quanto à sua eficácia.
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    166 Gerenciamento deRecursos Materiais Seja qual for o sistema adotado de controle de materiais, é preciso analisar o comportamento do consumo mensal de cada serviço, observando as razões que justificam as variações de consumo, tais como as alterações no número de atendi- mento ou na taxa de ocupação, as ocorrências sazonais das doenças e o número de alunos, entre outros. n O Papel do Enfermeiro O enfermeiro, por assumir o gerenciamento das unidades de atendimento e coorde- nar toda a atividade assistencial, tem papel preponderante no que diz respeito à de- terminação do material necessário à consecução da assistência tanto nos aspectos quantitativos como qualitativos; na definição das especificações técnicas; no esta- belecimento do quantitativo; na análise da qualidade; na participação do processo de compra e no estabelecimento de controle e avaliação (SILVA; FERNANDES; GONÇALVES, 1990; CASTILHO e LEITE, 1991). A operacionalização dessas atividades dependerá do sistema de gerenciamento de materiais implantado na organização hospitalar, isto é, se suas fases estão mais ou menos informatizadas. Independentemente disso, no entanto, o enfermeiro deve sempre estar envolvido nos processos de gerenciamento de recursos materiais, com a finalidade de garantir a eficácia da assistência de enfermagem. Um aspecto essencial no papel do enfermeiro está em conhecer e acompanhar o perfil de consumo de materiais de sua unidade, não só os de consumo e medica- mentos, mas também os esterilizados, encaminhados pelas Centrais de Material. Outra atividade importante do enfermeiro é, juntamente com o serviço de Edu- cação Continuada, promover estratégias de orientação e capacitação dos profissio- nais de enfermagem no que se refere ao uso racional do material disponível, bem como da otimização dos recursos (SILVA; FERNANDES; GONÇALVES, 1990). É fundamental, ainda, lembrar que as medidas de contenção de gastos de mate- riais dependem também do estilo de liderança, do processo comunicacional que se estabelece com os funcionários, da satisfação no trabalho e da adequação do espaço físico, entre outros. Para tanto, é indispensável que o enfermeiro mantenha-se atualizado em relação aos novos produtos lançados no mercado e às novas técnicas terapêuticas que exi- gem a adoção de outros materiais. No entanto, é preciso avaliar sempre o impacto da inclusão de novas tecnologias na assistência e no custo para a organização. É inquestionável que todos os profissionais, enquanto usuários e prestadores de serviço, estejam cientes de sua responsabilidade no alcance dos objetivos assisten- ciais e do compromisso individual e coletivo no uso e na administração de mate- riais. Assim como outros profissionais, os enfermeiros têm integrado as comissões de licitação (nas entidades públicas) e os grupos de assessoria de compras. A atuação do enfermeiro na administração de recursos materiais constitui con- quista nas esferas da tomada de decisão, destacando, portanto, o importante papel do enfermeiro na dimensão técnico-administrativa inerente aos processos de cui- dar e gerenciar, e não apenas na concepção de mais uma atividade burocrática que não agrega valor à profissão e ao cuidado.
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    Gerenciamento de RecursosMateriais 167 n Referências Bibliográficas BANDEIRA DE MELLO, C.A. Curso de direito administrativo. São Paulo, Malheiros Edi- tores, 1997. BARBIERI, J.C.; MACHLINE, C. Logística hospitalar: teoria e prática. São Paulo, Saraiva, 2006. BITTAR, O.J.N.V. Hospital: qualidade e produtividade. São Paulo, Sarvier, 1997. BRASIL. LEI No 10.520, de 17 de julho de 2002. Institui, no âmbito da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, nos termos do art. 37, inciso XXI, da Constituição Federal, modalida- de de licitação denominada pregão, para aquisição de bens e serviços comuns, e dá outras providências. Disponível em www.pregao.sp.gov.br, consulta em 03/05/04. BRASIL. LEI No 8.666, de 21 de junho de 1993. Regulamenta o art. 37, inciso XXI, da Consti- tuição Federal, institui normas para licitações e contratos da Administração Pública e dá outras providências. Disponível em http://www.fazenda.sp.gov/cge/pdf/Lei%208.666.pdf. CASTILHO, V.; KOPTE, R.; YAMADA, M.A.T. Estudo do gasto de material de consumo de unidades de saúde. Relatório Técnico. CASTILHO, V.; LEITE, M.M.J. A administração de recursos materiais na enfermagem. In: KURCGANT, P . (Coord.). Administração em enfermagem. São Paulo, EPU, 1991, cap. 6; 73-88. CHIAVENATO, I. Iniciação à administração de materiais. São Paulo, Makron Books, 1991. FÜHRER, M.C.A.; FÜHRER, M.R.E. Resumo de direito administrativo. São Paulo, Malhei- ros Editores, 2000. LOURENÇO, K.G.; CASTILHO V. Nível de atendimento dos materiais classificados como críticos no Hospital Universitário da USP . Rev. Bras. Enferm., 2007; 60(1): 15-20. MARTINS, D. Gestão financeira de hospitais. São Paulo, Atlas, 2001. POZZO, A. Administração de recursos materiais e patrimoniais: uma abordagem logística. São Paulo, Atlas, 2001. ROSA, M.B.; GOMES, M.J.V. de M.; REIS, A.M.M. Abastecimento e gerenciamento de ma- teriais. In: GOMES, M.J.V. de M.; REIS, A.M.M. (Coords.). Ciências farmacêuticas: uma abordagem em farmácia hospitalar. São Paulo, Atheneu, 2001, cap. 21, 365-86. SANTOS, W.B.; CARRIJO, M.T.D. Licitações e contratos: roteiro prático. São Paulo, Malhei- ros Editores, 1999. SÃO PAULO (ESTADO). LEI No 6.544, de 22 de novembro de 1989. Dispõe sobre o estatuto jurídico das licitações e contratos pertinentes a obras, serviços, compras, alienações, con- cessões e locações no âmbito da Administração Centralizada e Autárquica. Disponível em http://www.fazenda.sp.gov/cge/pdf/Lei%206.544.pdf SILVA, S.H.; FERNANDES, R.A.Q.; GONÇALVES, V.L.M. A enfermagem e a administração de recursos materiais: experiências do Hospital Universitário da USP . Rev. Hosp. Adm. Saúde, 1990; 14(1): 34-38. VECINA NETO, G.; REINHARDT FILHO, W. Gestão de recursos materiais e de medica- mentos. São Paulo, FSP da USP , 1998.
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    Gerenciamento de Custosnos Serviços de Enfermagem VALÉRIA CASTILHO, FERNANDA MARIA TOGEIRO FUGULIN E RAQUEL RAPONE GAIDZINSKI 13 169 n A Expansão dos Gastos em Saúde e a Enfermagem No gerenciamento dos serviços de enfermagem, os enfermeiros necessitam tomar contínuas decisões em relação a estrutura, processos e resultados institucionais, dominando uma gama de conhecimentos e habilidades de diferentes áreas. Uma das tendências para o gerenciamento de serviços de enfermagem é a inclu- são de conhecimentos e o desenvolvimento de habilidades sobre custos, como mais uma ferramenta a ser utilizada nos processos decisórios. Desde 1993, o CONSELHO INTERNACIONAL DE ENFERMAGEM vem afir- mando que as finanças constituem outra área de domínio do conhecimento em enfermagem recomendando, aos profissionais, que promovam investigações para validar metodologias de cálculo de custos nos serviços de enfermagem. Essa necessidade é decorrente do aumento, em espiral, dos gastos com saúde, da insuficiência de recursos e da dificuldade de controle de gastos, tratando-se de um fenômeno mundial e não só dos países em desenvolvimento. O Brasil vem aumentando seus gastos com saúde e, em 2000, gastou, em ações e serviços públicos de saúde, em milhões de reais, 39.475 (3,09% do PIB); 43.394 (3,33% do PIB) em 2001; e 46.574 (3,52 do PIB) em 2002 (DATASUS/SIOPS, 2004).
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    170 Gerenciamento deCustos nos Serviços de Enfermagem No entanto, o Sistema Único de Saúde ainda não consegue atender às demandas da população, embora isso não dependa somente dos aspectos econômicos, mas também dos de natureza política e social (PONTALTI, 2002). A melhoria dos siste- mas de saúde depende, e muito, dos recursos disponíveis e de como eles são apli- cados. O envelhecimento da estrutura etária da população, a extensão de cobertura, o avanço tecnológico, a baixa produtividade dos serviços e a falta de capacitação administrativa de seus gerentes, entre outros fatores, têm levado ao aumento de gastos no setor saúde (MÉDICI, 1994). As organizações sofrem pressão dos clientes e dos seus profissionais para a aqui- sição de novas tecnologias, motivados pelo marketing dos fabricantes. Na maioria das vezes, incorporam essas tecnologias sem fazer uma avaliação econômica para conhecer o seu custo-benefício.1 A produção de serviços de saúde, em instituições públicas ou privadas, consome inúmeros insumos cujo produto final são os próprios serviços de saúde. Esses insu- mos incluem recursos humanos, materiais hospitalares, instalações, equipamentos e, ainda, diferentes tecnologias para operá-los. Esses recursos têm custos, que são cobertos pelo próprio cliente, por seguradoras ou pelo financiamento público (SUS) (COUTTOLENC e ZUCHI, 1998). A forma como a produção de serviços de saúde é realizada pode também contri- buir para o aumento de custos, uma vez que não produz serviços que possam ser estocados e entregues depois aos clientes, como nas empresas de fabricação de bens. A prestação do serviço acontece no momento de sua produção, ou seja, na presença do cliente e, com isso, o fluxo de produção é descontínuo, ocorrendo varia- ções no consumo de insumos. No entanto, os recursos necessários, principalmente humanos, estão sempre disponibilizados. Assim, as ações gerenciais devem ser pau- tadas no conhecimento da dinâmica das unidades prestadoras de serviços com a finalidade de melhorar a eficiência2 deles. Os enfermeiros que administram unidades de saúde são responsáveis pelo ge- renciamento dos recursos humanos, materiais e físicos que consomem grande vo- lume de recursos financeiros. Sabe-se que, dependendo da instituição, a enferma- gem representa 30% a 60% do total do quadro de pessoal. O volume de materiais que gerenciam, em suas unidades de trabalho, é outro fator importante em relação aos custos das organizações de saúde. Com isso, os enfermeiros têm sido pressionados, em seus locais de trabalho, a reduzir pessoal e material sem, no entanto, conhecer o perfil dos gastos, sem re- lacioná-los com a produção e sem fazer uma análise de seus custos. Outro aspecto é que os administradores das organizações de saúde sempre enfatizam os gastos da enfermagem sem, no entanto, avaliarem as receitas3 geradas por esse trabalho. 1Custo-benefício: é a relação entre os custos e os resultados reais ou potenciais de um procedimen- to, tratamento ou um programa de saúde expressos em valores monetários. Aqui está sendo usado como o balanço entre o custo do equipamento versus a receita que a sua utilização pode gerar para a instituição. 2Eficiência: ver Cap. 7. 3Receita: aqui entendida como o valor recebido pela prestação de serviços.
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    Gerenciamento de Custosnos Serviços de Enfermagem 171 ABURDENE e NAISBITT (1993) alertaram para o fato de os enfermeiros serem responsáveis por 40% a 50% do faturamento dos hospitais. A aferição e o controle de custos são essenciais para que os enfermeiros, gerentes de unidades de saúde, possam acompanhar sua evolução e implantar medidas que melhorem o desempenho do seu serviço, redefinindo prioridades, racionalizando recursos e acompanhando a produtividade.4 Embora os aspectos econômico-financeiros relativos à assistência de enfer- magem tenham sidos historicamente ignorados pelos enfermeiros (ANSELMI e NAKAO, 1999), deixando de ser incluídos nos cursos de graduação e pós-graduação, apresentando, consequentemente, baixa produção científica a esse respeito, estu- dos mais recentes têm demonstrado que essa realidade está mudando. Os enfer- meiros estão assumindo responsabilidades em relação ao gerenciamento de custos em seus locais de trabalho, introduzindo essa temática nos cursos de graduação (FRANCISCO, 2002) e, com isso, produzindo conhecimento nessa área (OLIVEIRA, 2001). Por gerenciamento de custos em enfermagem, entende-se o processo adminis- trativo que visa o controle de custos e a tomada de decisão dos enfermeiros para uma eficiente racionalização de recursos disponíveis e limitados, com o objetivo de alcançar resultados coerentes com as necessidades de saúde da clientela e com as finalidades institucionais (FRANCISCO e CASTILHO, 2002). Para isso, além de ou- tros conhecimentos, faz-se necessária a compreensão de um conjunto de conceitos de natureza contábil. n Contabilidade de Custos e Sistemas de Custeio: Conceitos e Aplicação Finalidade Hoje em dia, o grande desafio das organizações de saúde, principalmente as hospi- talares, é atender às demandas por seus serviços com qualidade, oferecendo servi- ços com eficácia5 e eficiência a baixos custos. Gerenciar custos, dentro de orçamentos restritos, é manter o equilíbrio entre despesas, custos e receitas, garantindo a sobrevivência da organização. O desconhecimento dos custos e da melhor combinação de recursos e de sua efetividade dificulta, às organizações, ajustar suas atividades dentro de seus orça- mentos. Conhecer os custos dos serviços de saúde é essencial, pois possibilita a identi- ficação das unidades que necessitam reduzi-los, controlar os gastos e eliminar os desperdícios. 4Produtividade: é a relação entre a quantidade de produtos ou serviços produzidos e a quantidade de recursos utilizados, segundo GAITHER, N.; FRAZIER, G. apud MELLO, MC. Estudo do tempo no trabalho da enfermagem: construção de instrumento de classificação de atividades para implan- tação do método amostragem do trabalho. Dissertação. São Paulo (SP), Escola de Enfermagem da USP , 2002. 5Eficácia: ver Cap. 7.
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    172 Gerenciamento deCustos nos Serviços de Enfermagem No entanto, muitas organizações de saúde precisam modernizar-se nessa questão, uma vez que ainda utilizam, quando os possuem, métodos contábeis tradicionais, que não permitem o conhecimento efetivo de seus custos. Os hospitais privados, na sua maioria, conhecem seus preços, mas não seus custos reais. Já os hospitais públicos dificilmente conhecem os custos reais de seus serviços e procedimentos. Os gestores da área da saúde devem prover um sistema eficaz de gerenciamento de custos sem prejuízo da qualidade, buscando maior eficiência na distribuição dos recursos e oferecendo serviços qualificados à população, compatibilizando os custos com o orçamento.6 Para isso, os profissionais de saúde têm que ter noções sobre os métodos das ciências contábeis para apuração de custos e auxiliar na adaptação e utilização dos mesmos na produção de serviços de saúde. Contabilidade de Custos Os objetivos da contabilidade de custos são: estabelecimento de padrões e orça- mentos; comparações entre o custo real e o orçado; formação de preços; determi- nação de quantidades de serviços ou produtos a serem produzidos; escolha do que produzir e avaliação ou decisão sobre o que cortar em relação aos custos. Assim, “o conhecimento dos custos é vital para saber se, dado o preço, o produto é ou não rentável e se é possível reduzir seus custos (MARTINS, 1998). Atualmente, a contabilidade de custos assumiu uma nova dimensão, que é a conta- bilidade gerencial, transformando-se num importante instrumento administrativo. Esse novo papel tem duas funções relevantes: auxiliar no controle dos custos e subsi- diar o processo de tomada de decisão. Em relação ao controle, tem a função de forne- cer dados para o estabelecimento de padrões, orçamentos e outras formas de previsão financeira, permitindo acompanhar e comparar os valores incorridos com os ante- riormente definidos (MARTINS, 1998). Para tanto, atribui-se responsabilidades aos diversos níveis do escalão hierárquico da instituição, avaliando seus desempenhos. Nos ambientes hospitalares, a contabilidade de custos é um instrumento geren- cial importante para a determinação, controle e análise dos gastos (custos e des- pesas), permitindo o confronto desses custos e despesas com os preços dos proce- dimentos realizados, que são definidos pelo mercado, composto de seguradoras, cooperativas de saúde, governo e outros (MARTINS, 2000 e 2001). Custos e Despesas Custos e despesas são gastos, isto é, um dispêndio monetário. O conceito de despesa é muito amplo; por isso, neste capítulo, será considerado como gasto não utilizado no processo de produção das atividades fins da organização. Nas organizações de saúde, as despesas podem ser exemplificadas como os juros de financiamento feito junto a uma instituição bancária ou aos esforços de comercialização de tratamentos com as seguradoras. 6Orçamento: constitui-se em um instrumento eficaz de previsão e controle organizacional em rela- ção aos gastos, custos e às receitas esperadas em determinado período. As estimativas orçamentárias são, geralmente, para 12 meses. Serve como padrão para comparar os valores reais com os orçados.
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    Gerenciamento de Custosnos Serviços de Enfermagem 173 O termo custo refere-se aos gastos realizados na produção de bens ou serviços fins da organização (MARTINS, 1998). São os gastos com insumos utilizados na produção. Teoricamente, essa divisão entre despesas e custos é fácil, mas, na prática, às vezes não se consegue distingui-los de forma clara. Por isso, há necessidade de discutir critérios para classificar os gastos como despesas ou custos, uma vez que isso irá implicar a decisão de rateá-los, ou não, para a composição dos custos dos serviços ou das atividades desenvolvidas (MARTINS, 1998). Os custos podem ser classificados em diretos e indiretos, variáveis e fixos. Os custos diretos são gastos, ou seja, um dispêndio monetário que se aplica di- retamente na produção de um produto ou de um serviço. Exemplificando, seria o gasto com material e mão de obra na preparação e administração de um medica- mento. Já os custos indiretos são comuns a diversos procedimentos ou serviços, não podendo ser atribuídos, exclusivamente, a um setor ou produto. Sua apropriação se faz por meio de critérios ou fórmulas de rateio, baseados em algum fator volumétri- co, como veremos mais adiante, para serem debitados a um produto ou serviço. São os gastos relativos a luz, água, limpeza, aluguéis, salário do Diretor do Departamen- to de Enfermagem, entre outros. Custos fixos são os custos operacionais vinculados à infraestrutura instalada e que se mantêm constantes, mesmo havendo modificações no número de atendi- mentos. São os custos com salário, aluguel, entre outros. Os custos variáveis são aqueles relacionados ao volume de produção, aumentan- do quando ela cresce e contraindo quando diminui. Exemplificando, são os custos com materiais, medicamentos, lavanderia etc. Sistemas de Custeio Sistema de custeio “é um conjunto de procedimentos adotados numa empresa para calcular algo, ou seja, os bens ou serviços nela processados” (BEULK e BERTÓ, 2000). O principal objetivo de um método de custos é mensurar os custos dos recursos consumidos quando são realizadas atividades significativas para a empresa. Um método de custos deve suprir informações sobre o custo dos produtos, dos proces- sos e das atividades, todos passíveis de acompanhamento para efeitos gerenciais (BERLINER e BRINSON, 1992). Os sistemas de custeio tradicionalmente utilizados nas organizações de saúde são: por absorção, por serviço ou procedimento (atividade) e por custo-padrão. O sistema de custeio por absorção é uma forma de custear todas as despesas que impactam os serviços e produtos. Inicialmente, os custos são acumulados por servi- ços e, depois, rateados pelos produtos através de um fator volumétrico de medição (COGAN, 2002). O esquema básico para absorção de serviços é a separação dos serviços da orga- nização em centros de custos produtivos ou finais e centros auxiliares e adminis- trativos. Centros de custos referem-se a uma conta destinada a agrupar todas as parcelas dos elementos de custo que incorrem, em cada período, nas unidades da organiza-
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    174 Gerenciamento deCustos nos Serviços de Enfermagem ção (Departamentos, Serviços etc.). Para definir um centro de custos, é necessário ter custos claramente identificáveis e atividades quantificáveis, por meio de uma unidade de mensuração. Exemplificando, o centro cirúrgico é um centro de custos com gastos identificáveis e com uma produção quantificável, que é o número de cirurgias realizadas. Centros de custos produtivos ou finais são departamentos, serviços ou unidades que produzem diretamente serviços fins na organização. Assim, nas organizações hospitalares são considerados produtivos aqueles que produzem diretamente servi- ços de saúde aos pacientes. São eles: clínica médica, clínica cirúrgica, maternidade, pediatria, unidade de terapia intensiva, laboratório de análises clínicas, radiologia, entre outros. Centros de custos auxiliares são aqueles que dão suporte aos centros produtivos, tais como: serviço de nutrição e dietética, lavanderia, central de material e esteri- lização. Centros de custos administrativos correspondem aos serviços de natureza ad- ministrativa da organização de saúde que dão suporte aos auxiliares e produtivos. Administração geral, recursos humanos, finanças, departamento de enfermagem e médico são alguns exemplos. Para a aferição dos custos por absorção, por exemplo, de uma clínica cirúrgica, somam-se os custos diretos (pessoal e material) e os custos indiretos, que são os rateios dos custos gerais (água, luz, telefone) e os rateios dos centros de custos au- xiliares e administrativos, obtendo-se o custo total (Fig. 13.1). A base de rateio geralmente é uma divisão proporcional dos custos apurados para os centros produtivos. Os critérios podem ser por número de funcionários, por metra- gem de área e por percentual estimado de atendimento ou utilização (Quadro 13.1). Com isso, ao se dividir o custo total da unidade (a soma dos custos diretos e in- diretos) pela produção mensal da clínica, ou seja, pelo número de internações no período de um mês, obtém-se o custo por paciente, por mês, podendo-se dividir esse valor pela média de permanência do paciente na unidade para calcular o custo da diária do paciente. Para o levantamento do consumo dos insumos e de seus valores, bem como dos salários e da produção das diferentes unidades, há a necessidade de as organiza- ções contarem com um sistema de informação fidedigno. As planilhas de custos são elaboradas pelos serviços de contabilidade de custos que encaminham relatórios mensais, ou por outro período determinado, às gerên- cias das unidades, discriminando os diferentes custos (Quadro 13.2). Fig. 13.1 Custeio por absorção.
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    Gerenciamento de Custosnos Serviços de Enfermagem 175 Quadro 13.1 Bases de rateio de despesas gerais e de serviços auxiliares e administrativos Bases de rateio Energia Elétrica % de consumo de luz (conta de luz) Impostos e Taxas Área ocupada (m2) Telefone No de ramais (conta de telefone) Limpeza Área ocupada (m2) Manutenção Horas de manutenção Dispensação de Medicamentos % do consumo histórico de medicamentos dispensados Lavanderia kg de roupa Serviço de Nutrição e Dietética No de refeições Central de Material Esterilizado Volumes processados Administração Número de funcionários Departamento de Enfermagem Número de funcionários Quadro 13.2 Relatório mensal dos custos de um setor de um hospital Insumos Janeiro Fevereiro Março • Custos Diretos 1. Pessoal 2. Materiais 2.1 Medicamentos 2.2 Materiais de Consumo Total de custos diretos 26.980,00 4.256,00 6.420,00 37.656,00 27.080,00 4.120,00 5.897,00 37.097,00 25.342,00 7.940,00 7.458,00 40.740,00 • Custos Indiretos (rateios absorvidos) • Gastos Gerais 1. Energia elétrica 2. Água 3. Telefones 4. Aluguel Total dos gastos gerais 180,00 820,00 162,00 3.000,00 4.162,00 172,00 780,00 230,00 3.000,00 4.182,00 220,00 976,00 154,00 3.000,00 4.350,00 • Custos Auxiliares 1. Serviço de Limpeza 2. Serviço de Lavanderia e Rouparia 3. Serviço de Nutrição e Dietética 4. Central de Material e Esterilização 5. Administração de Pessoal 6. Almoxarifado 7. Coordenação de Enfermagem 8. Superintendência Total dos custos auxiliares 3.100,00 3.526,00 4.230,00 1.800,00 2.320,00 189,00 1.232,00 3.560,00 19.957,00 3.300,00 3.278,00 3.878,00 1.650,00 2.340,00 162,00 1.230,00 3.789,00 19.627,00 3.990,00 4.699,00 5.640,00 2.340,00 2.210,00 219,00 1.234,00 3.254,00 23.586,00 Total Geral (custos diretos + custos indiretos) 61.775,00 60.906,00 68.676,00 Número de Internações 178 162 212 Custos unitário/por paciente 347,00 376,00 323,94
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    176 Gerenciamento deCustos nos Serviços de Enfermagem Esses relatórios podem apresentar variações nos custos totais ou subtotais em relação aos meses anteriores. Assim, pode-se calcular essas variações usando-se o exemplo da Fig. 13.2. Exemplo: Setembro (9) Outubro (10) Material de Consumo – subtotal... R$ 12.580,00 R$ 14.230,00 Crescimento de outubro em relação a setembro Variação (10/9) = (14.230/12.580 – 1) × 100 = 13,12% Fig. 13.2 Cálculo da variação dos custos. O acompanhamento mensal para a análise dos resultados desses relatórios per- mite ao gerente de enfermagem conhecer o comportamento dos custos controláveis de sua unidade, verificando se estão dentro dos valores e limites usuais (padrão), bem como identificar as razões que justifiquem possíveis desvios, corrigindo-os se houver desperdícios. Custos controláveis são os custos controlados pelo gerente da unidade, tais como: mão de obra, materiais e gastos gerais. Já os custos com alu- guel, depreciação, entre outros, independem do gerente da unidade. Pelo acompanhamento dos relatórios, por períodos mais prolongados (mais de um ano), pode-se conhecer o padrão de consumo, ou seja, períodos de maiores ou menores gastos do serviço, que fazem parte do perfil da unidade. Como exemplo, pode ser citado o maior consumo de materiais nos meses de janeiro, fevereiro e junho nos hospitais privados, pois estes geralmente recebem maior número de pa- cientes para cirurgias programadas. Deve-se também contatar o Serviço de Contabilidade de Custos em casos de dú- vidas sobre o valor informado, pois pode haver erros em relação aos dados financei- ros ou estatísticos fornecidos pelas diferentes fontes da organização. Outro aspecto importante é conhecer os critérios de rateio utilizados na organização. Os gerentes “devem considerar não somente os gastos e o cálculo de custos, mas também a motivação das pessoas que efetuam os gastos em seus locais de trabalho” como uma estratégia de contenção de custos (FALK, 2001). A utilização das informações sobre os custos deve ser compartilhada não só com a equipe de enfermagem, mas também com a equipe multiprofissional da unida- de, como estratégia para conscientização dos gastos e desperdícios, propiciando o envolvimento de todos no que se refere a sugestões para melhoria do desempenho do serviço. Outra possibilidade de aplicação do custeio por absorção é na aferição de custos de tratamentos, procedimentos médicos e procedimentos de enfermagem. Estudos utilizando esse método de custeio têm sido desenvolvidos por enfermeiros na apro- priação de custos de procedimentos (RIBEIRO, 1998; JERICÓ, 2001; BAPTISTA,
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    Gerenciamento de Custosnos Serviços de Enfermagem 177 2002; BITTAR e CASTILHO, 2003; MARGARIDO, 2004). No entanto, há dificulda- des na apropriação dos custos indiretos devido à não aferição dos mesmos, por cen- tros de custos, em algumas organizações hospitalares. A determinação de custos por paciente, o custo da diária e o custo dos procedi- mentos são os objetivos básicos dos custos hospitalares. Essas unidades de custos permitem o conhecimento dos custos para controle e análise das variações com o custo-padrão e respectiva receita (MARTINS, 2000). O termo “custo-padrão”, mais que um método de custeio, pode ser compreendi- do como um valor de um procedimento ou serviço fixado como “padrão” ou meta, que auxilia na definição do preço e no controle do custo, após ter sido obtido pelo custo-padrão ideal, corrente ou real. Os custos ideal e corrente são propostos me- diante estudos teóricos sobre a produção de determinado procedimento, enquanto o custo real ou estimado utiliza outras formas de custeio, como por absorção (MAR- TINS, 1998). Nas organizações de saúde, os custos-padrão de procedimentos muitas vezes são estimados por absorção, sendo aferidos somente os custos diretos, com base na experiência passada da instituição ou de um grupo de especialistas, o que pode levar a distorções em relação aos custos reais. Os custos-padrão são, portanto, predeterminados para procedimentos repetiti- vos, transformados em taxas para cobrança, sendo utilizados para o controle, plane- jamento e tomadas de decisão. O enfermeiro, ao elaborar e utilizar os protocolos de enfermagem, está fornecen- do subsídios para o estabelecimento dos custos-padrão relacionados à assistência de enfermagem (MUNHOZ, 2002). As organizações hospitalares, tanto públicas quanto privadas, buscam sistemas de custeio mais eficientes que permitam melhorar o gerenciamento dos custos em relação ao planejamento e controle dos mesmos e, consequentemente, aumentar o desempenho da organização. O sistema de Custeio por Atividade (ABC – Activity Based Costing) tem sido apontado como um sistema eficiente para os serviços. Usando como base o ABM (Activit-Based Management) ou Gestão Baseada em Atividades, em que o estudo de cada processo produtivo dos serviços permite visualizar os recursos gastos em cada etapa, há a possibilidade de conhecer os custos reais das atividades desenvolvidas. Conhecendo os fatores que geram custos em cada fase do processo de produção, pode-se elaborar estratégias para otimizar os recursos e diminuir os custos (NAKA- GAWA, 1994; KAPLAN et al., 2000). Outra vantagem do ABC é que elimina distorções de custos dos produtos e ser- viços decorrentes da utilização de bases únicas de rateios dos custos indiretos para todos os serviços e produtos, porque nem todos desenvolvem as mesmas ativida- des. Portanto, a ênfase desse sistema é a redução dos custos indiretos e, consequen- temente, a redução do custo total de procedimentos. Entretanto, alguns autores alertam que a implantação do sistema ABC requer um esforço organizacional e financeiro elevado, principalmente na estruturação do sistema de informações se comparado com outros sistemas (TOMMASI, 2000). Aplicadas na área da saúde, as metodologias ABM e ABC devem ser vistas como instrumentos gerenciais importantes para estabelecimento da relação causa e efeito no uso dos recursos e, consequentemente, nos seus custos, auxiliando no controle dos desperdícios. Permite apurar os custos das atividades com maior precisão para
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    178 Gerenciamento deCustos nos Serviços de Enfermagem analisar o seu custo-benefício. No entanto, sua aplicação ainda está sendo adaptada à cultura hospitalar, encontrando dificuldades na disponibilidade de informações pela inexistência ou pelo alto custo de medição (PONTALTI, 2002). Conhecendo os diferentes métodos de aferição de custos, os enfermeiros podem auxiliar na geração de informações que subsidiem a missão de melhorar o desem- penho e eficiência da sua unidade ou serviço, bem como da organização como um todo. Ao evidenciar os fatores que afetam o aumento dos custos, é possível monito- rá-los ou diminuí-los, sem afetar a qualidade e sem deixar de atender à demanda. Saber onde há possibilidade de cortar passos dos processos de atendimento ou dos procedimentos que não agregam qualidade mas gastos, ou, ainda, buscar modi- ficações inserindo novas tecnologias7 que possibilitem a contenção de custos deve ser uma meta para os enfermeiros. Outra possibilidade é desenvolver métodos de aferição de custos mais adequa- dos aos serviços de saúde e de enfermagem, que possibilitem melhor compreensão da composição dos custos dos tratamentos de diferentes pacientes e dos diferentes procedimentos terapêuticos a que são submetidos. Alguns autores têm chamado a atenção para o fato de os custos de enfermagem serem tratados como um valor médio em relação ao custo total da assistência, ou seja, incluído no valor da diária hospitalar e captado com base no cálculo do custo do paciente-dia, deixando de considerar a variabilidade de exigências do cuidado de enfermagem para os diferentes tipos de pacientes (RODRIGUES FILHO, 1994; FINKLER, 1995; ANSELMI, 2000). Nesse sentido, o Sistema de Classificação de Pacientes (SCP)8 pode constituir a base de um sistema de contabilidade de custo para a enfermagem, permitindo uma aferição mais acurada e diferenciada, da participação da enfermagem nos trata- mentos e procedimentos realizados nos pacientes (ANSELMI, 2000; FALK, 2001). Para isso, estudos têm sido desenvolvidos para propor modelos de estimação do custo de mão de obra de enfermagem, de acordo com o grau de dependência dos pa- cientes em relação à equipe de enfermagem ou de acordo com o nível de gravidade dos pacientes. TELLES (2003) estimou o custo do pessoal diário de uma UTI men- surando a carga de trabalho pela aplicação do TISS-28 (Therapeutic Intervention Scoring System), que é o índice indireto de gravidade que correlaciona gravidade, número de intervenções terapêuticas e tempo de assistência de enfermagem. n Considerações Finais A busca por conhecimentos relacionados ao gerenciamento de custos e sua apli- cação na prática assistencial e gerencial exige uma mudança na capacitação dos profissionais de saúde no que se refere, principalmente, à valorização dos aspectos 7Tecnologia: entendida aqui de uma forma mais ampla, podendo referir-se tanto a produtos biotec- nológicos, drogas, equipamentos, quanto a procedimento terapêutico e sistemas de apoio a decisão. (CLIFFORD apud ALMEIDA, M.V.R. e INFANTOSI, A.F .C. A avaliação de tecnologia em saúde: uma metodologia para países em desenvolvimento. In: BARRETO, M.L. et al. Epidemiologia, serviços e tecnologias em saúde. Rio de Janeiro, Fiocruz/Abrasco, 1998, cap. 2, p. 25-9. 8SCP: ver Cap. 10.
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    Gerenciamento de Custosnos Serviços de Enfermagem 179 financeiros da assistência à saúde e ao entendimento de que a finalidade de geren- ciar os aspectos econômicos na saúde está fundamentada na otimização dos recur- sos, na garantia de acesso e equidade aos usuários e na manutenção da qualidade do atendimento. No entanto, embora os aspectos econômicos sejam importantes, não devem so- brepor-se aos técnicos, humanos, éticos e sociais nas tomadas de decisão. Embora as organizações de saúde possam ser descritas como grandes empresas do ponto de vista econômico-financeiro, por movimentarem grandes somas de di- nheiro, não se pode esquecer que são recursos necessários para a população à qual prestam assistência, devendo ser administradas para gerarem serviços com quali- dade e baixos custos, para poderem sobreviver, para disporem de insumos necessá- rios e de instalações apropriadas e, ainda, para remunerarem adequadamente seus profissionais (MARTINS, 2001). Administrar com eficiência e eficácia essas organizações complexas, cujas ativi- dades são extremamente importantes para a sociedade, é um compromisso moral e ético de todo profissional que gerencia. Para tanto, esses profissionais devem apli- car instrumentos gerenciais que os auxiliem nas tomadas de decisão. n Referências Bibliográficas ABURDENE, P .; NAISBITT, J. Megatendências para as mulheres. Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos, 1993. ANSELMI, M.L. Quadro de referência para elaboração do orçamento de enfermagem em instituições hospitalares. Ribeirão Preto, 2000. Tese de Livre-Docência – Escola de Enfer- magem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. ANSELMI, M.L.; NAKAO, J.R.S. A enfermagem no processo de gestão econômica dos servi- ços de saúde: limites e possibilidades. Rev. Bras. Enferm., 1999; 52(2):223-232. BAPTISTA, C.M.C. Levantamento do custo direto do procedimento com bota de unna em pacientes com úlcera venosa. São Paulo, 2002. Dissertação de Mestrado – Escola de En- fermagem, Universidade de São Paulo. BERLINER, C.; BRINSON, J.A. Gerenciamento de custos em indústrias avançadas: base conceitual do CAM-I. São Paulo, T.A. Queiroz, Fundação Salim Farah Maluf, 1992. BEULK, R.; BERTÓ, D.J. Gestão de custos e resultados na saúde: hospitais, clínicas, labo- ratórios e congêneres. 2a ed. São Paulo, Saraiva, 2000. BITTAR, E.; CASTILHO, V. Consumo e custo médio direto do material utilizado em cirurgia de revascularização do miocárdio. Rev. Assoc. Med. Bras., 2003; 49(3):255-260. COGAN, S. Custos e preços: formação e análise. São Paulo, Pioneira Thomson Learning, 2002. CONSEJO INTERNACIONAL DE ENFERMERAS. La calidad, los costos y la enfermeria./ Apresentado no Dia Internacional de La Enfermera, Geneva, 1993/ COUTTOLENC, B.F .; ZUCCHI, P . Gestão de recursos financeiros. São Paulo, Faculdade de Saúde Pública, 1998. (Série Saúde e Cidadania.) FALK, J.A. Gestão de custos para hospitais: conceitos, metodologias e aplicação. São Paulo, Atlas, 2001. FINKLER, S.A. Budgeting concepts for nurse managers. 2a ed. Philadelphia, W.B. Saun- ders, 1992.
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    180 Gerenciamento deCustos nos Serviços de Enfermagem FRANCISCO, I.M. O ensino de custos nas escolas de graduação em enfermagem. São Pau- lo, 2002. Dissertação de Mestrado – Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo. FRANCISCO, I.M.; CASTILHO, V. A enfermagem e o gerenciamento de custos. Rev. Esc. Enferm. USP, 2002; 36(3):240-244. JERICÓ, M.C. Análise dos custos dos programas de treinamento e desenvolvimento de pessoal de uma organização hospitalar. São Paulo, 2001. Dissertação de Mestrado – Esco- la de Enfermagem, Universidade de São Paulo. KAPLAN, R. et al. Custo e desempenho: administre seus custos para ser mais competitivo. 2a ed. São Paulo, Futura, 2000. KNOBEL, E. et al. Qualidade e custos em terapia intensiva. Rev. SOCESP, 1998; 8(3):729. MARGARIDO, E. Aferição do tempo e do custo médio do trabalho da enfermeira na con- sulta de enfermagem em ambulatório de cardiologia. São Paulo, 2004. Dissertação de Mestrado – Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo. MARTINS, D. Custos e orçamentos hospitalares. São Paulo, Atlas, 2000. MARTINS, D. Gestão financeira de hospitais. São Paulo, Atlas, 2001. MARTINS, E. Contabilidade de custos: inclui o ABC. 5a ed. São Paulo, Atlas, 1998. MÉDICI, A.C. Economia e financiamento do setor saúde no Brasil: balanços e perspectivas do processo de descentralização. São Paulo, Faculdade de Saúde Pública/USP , Ad. Saúde, 1994. MÉDICI, A.C.; MARQUES, R.M. Sistemas de custos como instrumento de eficiência e quali- dade dos serviços de saúde. Cadernos FUNDAP, 1996; 16(19):47-59. MUNHOZ, S. Custo Padrão dos procedimentos de enfermagem na assistência ao paciente crítico: diferenças entre a prescrição da enfermeira e a do médico. São Paulo, 2002. Disser- tação de Mestrado – Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo. NAKAGAWA, M. ABC – custeio baseado em atividades. São Paulo, Atlas, 1994. OLIVEIRA, J.C. de. Estudo bibliométrico das publicações de custos em enfermagem no pe- ríodo de 1966 a 2000. São Paulo, 2001. Dissertação de Mestrado – Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo. PONTALTI, G. A sistematização da gestão baseada em atividade (ABM) – activity-based management – para aplicação na área hospitalar – caso centro de terapia intensiva de um hospital universitário público. Porto Alegre, 2002. Dissertação de Mestrado – Escola de Engenharia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. RIBEIRO, F .G. Análise dos custos diretos no ato operatório da revascularização do mio- cárdio: insumos e categorias profissionais. São Paulo, 1998. Dissertação de Mestrado – Es- cola de Enfermagem, Universidade de São Paulo. RODRIGUES FILHO, J. Sistema de classificação de pacientes. Parte II: custo de enferma- gem. Rev. Esc. Enferm. USP, 1994; 28(1):41-49. SISTEMA DE INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS PÚBLICOS. http://Siops.datasus. gov.br/Documentacao/despesa_total_2002_PIB_00_02.PDF . 26/4/2004. TELLES, S.C.R. Custo de pessoal na assistência direta de enfermagem em unidade de terapia intensiva. São Paulo, 2003. Dissertação de Mestrado – Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo. TOMMASI, M. Custeio gerencial – conceituação, considerações e perspectivas. In: SILVA JÚNIOR J.B. (Coord.). Custos: ferramentas de gestão/Conselho de Contabilidade do Es- tado de São Paulo. São Paulo, Atlas, 2000. (Coleção Seminários CRC-SP/Ibracon), Cap. 1; 17-27.
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    Para o desenvolvimentodas atividades assistenciais de saúde, é preciso garantir condições adequadas de trabalho, tanto no que se refere ao atendimento das ne- cessidades dos usuários como das necessidades dos profissionais da área, sendo responsabilidade de todos os integrantes da instituição assegurar essas condições. As ações gerenciais, no tocante à infraestrutura necessária para a assistência à saúde, visam a garantir segurança aos profissionais e à clientela, diminuindo o risco ocupacional e voltando-se para os aspectos relacionados à saúde pública e ao meio ambiente. A OMS (1988) conceitua a saúde ambiental como aquela que “se refere aos as- pectos da saúde e qualidade de vida humana determinados por fatores ambientais, sejam estes físicos, químicos, biológicos ou sociais. Refere-se também à teoria e prática de avaliação, correção, controle e prevenção daqueles fatores que, presentes no ambiente, podem afetar potencialmente de forma adversa a saúde humana de gerações presentes e futuras”. A Constituição do Brasil, em seu artigo 225, dispõe que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo, preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Gerenciamento de Recursos Físicos e Ambientais REGINA TOSHIE TAKAHASHI, VERA LUCIA MIRA GONÇALVES E VANDA ELISA ANDRES FELLI 14 181
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    182 Gerenciamento deRecursos Físicos e Ambientais Por isso, independentemente do ambiente, seja ele interno ou externo, torna-se imperativa a gestão dos fatores adversos ao ambiente, visando a promoção da saúde e da vida. A gestão desses recursos físicos e ambientais não constitui atividade simples, pois pressupõe, além de conhecimento específico, um compromisso com o meio ambiente e com a qualidade de vida das pessoas e do trabalhador. n Gerenciamento de Recursos Físicos O conceito de recursos físicos compreende as áreas internas e externas que com- põem um serviço de saúde. Uma unidade, especificamente, compreende o espaço físico determinado e especializado para o desenvolvimento de atividades assisten- ciais, caracterizado por dimensões e instalações diferenciadas. A dimensão refere- se ao tamanho da unidade em função do equipamento, da população a ser atendida e das atividades a serem realizadas. O Estabelecimento de Assistência à Saúde (EAS) é entendido como qualquer edificação destinada à prestação de assistência à saúde da população, em qualquer nível de complexidade de atenção à saúde, em regime de internação ou não. Para assegurar a viabilidade técnica e compatibilizar a necessidade com a dis- ponibilidade de recursos, observando os parâmetros legais, é fundamental a par- ticipação do enfermeiro na proposição e planejamento da área física, pois a visão da equipe profissional especializada em construções, engenheiros, ergonomistas e arquitetos não é suficiente para reconhecer as necessidades assistenciais e as ativi- dades que devem ser desenvolvidas pela equipe de saúde. O gerenciamento de recursos físicos e ambientais em enfermagem consiste na participação do enfermeiro no planejamento e na alocação desses recursos, com o objetivo de organizar ou gerir, cotidianamente, uma unidade de saúde, provendo segurança, conforto e privacidade aos pacientes e assegurando condições de traba- lho apropriadas. O papel do enfermeiro, dessa forma, está voltado para o planejamento do espaço físico, dimensionando os recursos constituintes das unidades assistenciais, assim como considerando a inserção e o impacto desse espaço no ambiente social. Para construção e ambientação de EAS, é indispensável atender aos requisitos estabelecidos pelas leis municipais e estaduais, pelo Ministério da Saúde e por outros órgãos governamentais, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). A Resolução Diretoria Colegiada 50 – RDC 50, uma das principais dire- trizes, dispõe sobre o regulamento técnico para planejamento, programação, elabo- ração e avaliação de projetos físicos de EAS (ANVISA, 2002). O MINISTÉRIO DA SAÚDE (1994) considera seis etapas para viabilização do processo de desenvolvimento de recursos físicos em saúde: o planejamento, a orga- nização, o projeto, a execução, a operacionalização e a avaliação do processo como um todo. Para a determinação dos EAS, deve-se ter como base o modelo assistencial e gerencial (FELLI e PEDUZZI, 2005) e a demanda da população a ser atendida, em função de seu perfil epidemiológico (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 1998; ANVISA, 2002).
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    Gerenciamento de RecursosFísicos e Ambientais 183 Além dos aspectos físico-funcionais para o atendimento das demandas assisten- ciais, devem ser considerados, para a construção de um EAS, os aspectos legais, técnicos, econômicos, ergonômicos e ambientais relacionados ao empreendimento, considerando sua arquitetura, instalações elétrica, eletrônica, hidráulica, fluidos mecânicos e climatização. A RDC-50 (ANVISA, 2002) não estabelece a tipologia de edifícios de saúde, ou seja, não determina se deve ser um hospital ou uma unidade básica de saúde, nem o número de andares do prédio. Essa Resolução visa propiciar ao usuário e à equipe de saúde um ambiente ade- quado às atividades assistenciais programadas, sem riscos nem prejuízos à assis- tência, contribuindo para que a instituição de saúde seja considerada de qualidade por ter condições de atingir seus objetivos e, também, a satisfação da clientela. A definição das atividades e das atribuições propostas é que determina o dimen- sionamento, quantificação e instalações prediais dos ambientes. Portanto, é preciso descrever as atividades a serem desenvolvidas e identificar os ambientes neces- sários para a realização dessas atividades, seguindo, obrigatoriamente, a RDC-50, que dimensiona sua quantificação, dimensão mínima e instalações obrigatórias de acordo com o ambiente e as atividades. Por exemplo, recomenda que, para cada 30 leitos de uma unidade de interna- ção, haja um posto de enfermagem de 6 m2, provido de instalações para água fria e sistema elétrico de emergência. Para quartos de adulto, observa que, para cada 30 leitos, haja, no mínimo, um quarto para situações que requeiram isolamento; o quarto com um leito deve medir 10 m2; com dois leitos, 7 m2 por leito e 6 m2 por leito em enfermarias de três a seis leitos, e uma enfermaria não pode exceder seis leitos. A distância entre leitos paralelos deve ser de 1 m; não existe recomendação para a distância entre a cabeceira do leito e a parede; para o pé do leito e a parede, a distância é de 1,2 m e, para a lateral do leito com a parede, de 0,5 m. Assim, é imprescindível analisar a adequação do projeto arquitetônico às ativi- dades propostas pelo EAS, verificando a pertinência do projeto físico às propostas assistenciais pretendidas, por unidade funcional e pelo conjunto do EAS. Como exemplo, podemos citar a adaptação dos ambientes externo e interno dos EAS para o atendimento a deficientes físicos e idosos. Para cada unidade funcional, é preciso considerar os ambientes de apoio neces- sários para o desenvolvimento das atividades assistenciais, para o atendimento ao público e para as necessidades do trabalhador. Visando ao trabalhador, é necessário adequar os equipamentos e mobiliários à altura do trabalhador, proporcionando a postura correta e confortável. A exemplo, camas hospitalares devem permitir a regulagem da altura e facilitar o seu posicionamento nas diferentes posições. As cadeiras devem permitir o encos- to das costas até o meio, acomodar os glúteos, não pressionar a parte posterior das coxas e apoiar os pés, além de serem quantitativamente suficientes. O mobiliário, como mesas e balcões, deve ter uma altura média na altura do cotovelo e encaixe para os pés. Além disso, devem ser evitadas escadas para alcance dos materiais, assim como a manipulação de pesos acima dos ombros. Ainda, deve-se evitar a guarda de materiais que não estejam no campo de visão do trabalhador. Também é fundamental a participação do enfermeiro na análise das condições de trabalho e fatores de risco, solicitando à instituição o cumprimento das exigências
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    184 Gerenciamento deRecursos Físicos e Ambientais de segurança no trabalho, como: estado de uso e manutenção de equipamentos; instalação elétrica; iluminação; ventilação; temperatura e umidade adequadas; pla- nos de emergência; plano de combate a incêndio; mapa de fuga; extintores; placas e símbolos. A exemplo disso, para obter um ambiente com menos ruídos, poderá requerer um desibelímetro para medir o ruído das incubadoras. Nesse contexto, o enfermeiro, além de participar do gerenciamento dos recursos físicos, participa também, cotidianamente, do gerenciamento dos recursos ambien- tais. n Gerenciamento de Recursos Ambientais Estima-se que de 1% a 3% dos resíduos urbanos, que atinge 220 mil toneladas por dia, são provenientes dos serviços de saúde, o que representa um imenso volume e uma grande preocupação (SILVA, 2004). O gerenciamento de recursos ambientais nas instituições de saúde tem como objetivo a atenção e cuidados com o ambiente, no que se refere principalmente ao uso e descarte de materiais com resíduos biológicos, químicos e radioativos. As instituições de saúde são grandes consumidoras de produtos químicos e ra- diológicos, e manipulam constantemente uma diversidade de material biológico. Além disso, são também grandes geradoras de resíduos infectantes. O processo de uso e descarte desses insumos ou seus subprodutos é de responsabilidade da insti- tuição e do profissional que os manipula. Essa responsabilidade consiste em adotar as medidas de biossegurança. “A biossegurança é o conjunto de ações voltadas para a prevenção, minimização ou eliminação de riscos inerentes às atividades de pesquisa, produção, ensino, de- senvolvimento tecnológico e prestação de serviço, riscos que podem comprometer a saúde do homem, dos animais, do meio ambiente ou a qualidade dos trabalhos desenvolvidos” (FIOCRUZ, 1996). n Gerenciamento dos Resíduos dos Serviços de Saúde Os resíduos provenientes da assistência à saúde são possíveis veículos de conta- minação e de poluição do solo, ar e água e, portanto, estão incluídos no grupo que exige tratamento específico para preservação do meio ambiente. Muitos dos resíduos gerados e manipulados nas instituições de saúde são consi- derados de risco, pois podem afetar a saúde e, também, causar danos ao meio am- biente. Entretanto, tal risco pode ser minimizado pelo seu correto gerenciamento, tanto no ambiente interno da instituição como no meio ambiente. Para tanto, cada instituição deve ter o Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde (PGRSS), evitando tanto a exposição dos trabalhadores como de outras pessoas e do ambiente. As normas que dispõem sobre o manejo dos resíduos dos serviços de saúde são a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). Em relação aos resíduos químicos, também a Companhia Elétrica de Tecnologia de
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    Gerenciamento de RecursosFísicos e Ambientais 185 Saneamento Ambiental (CETESB) trata dos resíduos provenientes dos serviços de saúde. As normas da ABNT, da série 12.807 a 12.810 de 1993, tratam dos resíduos dos serviços de saúde quanto aos riscos potenciais ao meio ambiente e à saúde públi- ca, assim como do seu gerenciamento. Dentre estas, destaca-se a NBR 12.809, que define os procedimentos de manuseio dos resíduos de serviços de saúde no âmbito interno das unidades. Ainda, a NBR 12.810 define critérios de coleta desses resídu- os extraunidade e trata dos equipamentos de proteção individual (EPI). A ABNT, em sua NBR 10.004/2004, classifica os resíduos em perigosos e não pe- rigosos, sendo os primeiros aqueles que contêm características de inflamabilidade, corrosividade, reatividade, toxicidade e/ou patogenicidade. A classificação de resíduos da ANVISA (Resolução RDC-306/04) dispõe sobre o gerenciamento de resíduos de serviços de saúde a obrigatoriedade do Plano de Ge- renciamento de Resíduos de Serviços de Saúde, e descreve as ações de manejo dos resíduos sólidos – geração, segregação, acondicionamento, coleta, armazenamento, transporte, tratamento e disposição final, bem como as ações de proteção à saúde pública e ao meio ambiente. A Resolução CONAMA no 358/2005 dispõe sobre o tratamento e disposição final dos resíduos de serviços de saúde. Estabelece os procedimentos mínimos para o gerenciamento de resíduos sólidos e semissólidos, responsabilizando os estabeleci- mentos pelo gerenciamento de seus resíduos. Essa resolução classifica os resíduos em grupos A (resíduos com possível presença de agentes biológicos), B (resíduos químicos), C (resíduos radioativos), D (resíduos comuns) e E (resíduos perfurocor- tantes ou escarificantes). Segundo GÜNTHER (2004), qualquer que seja a classificação adotada, é impres- cindível considerar as suas distintas características e os diferentes métodos para o seu tratamento ou disposição final, com especial atenção à periculosidade, às pro- priedades físicas, químicas e biológicas e à possibilidade de reciclagem. Portanto, no gerenciamento dos resíduos, atenção deve ser dada à legislação das diferentes esferas federal, estadual e municipal. Fig. 14.1 Fluxo dos resíduos nos Serviços de Saúde.
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    186 Gerenciamento deRecursos Físicos e Ambientais É certo que o gerenciamento dos resíduos em serviços de saúde é um trabalho que deve ser articulado na equipe multidisciplinar. CREMA et al. (2006) descrevem a experiência em um hospital público, no ge- renciamento dos resíduos infectantes, percorrendo as seguintes fases: diagnóstico situacional em relação ao resíduos, divulgação e sensibilização dos trabalhadores para as novas medidas, plano piloto, treinamento e implantação das medidas. Pos- teriormente, ao proporem o PGRSS, descrevem as etapas de manejo percorridas. Ainda, atenção deve ser dada às possibilidades de reciclagem. Resíduos reciclá- veis são aqueles que podem ser reutilizados como matéria-prima para a fabricação de outros produtos, como papel, papelão, latas e vidros. Outros cuidados devem ser tomados com pilhas e baterias, lâmpadas fluorescentes, mercúrio de termômetros e esfigmomanômetros, que devem ser encaminhados para empresas especializadas, e não desprezados em lixo comum. A seguir, são descritas as etapas do plano de gerenciamento dos resíduos, segun- do a RDC-306/04 (ANVISA, 2006): • Segregação é a operação de identificação e separação dos resíduos no momento da geração, em função da classificação previamente adotada. Cuidados especiais devem ser tomados a fim de assegurar a saúde de todos, como, por exemplo, prover o funcionário de equipamentos de proteção individual específicos (EPI), como avental, botas, luvas, máscaras e uniforme. GÜNTHER (2004) acrescenta que a segregação ou separação do lixo tem como objetivo evitar a mistura de re- síduos incompatíveis, favorecendo o seu encaminhamento específico. • Acondicionamento é a guarda dos resíduos em recipientes adequados de acordo com seu tipo e suas características, logo após sua geração/manipulação. São utili- zados saco plástico branco leitoso, saco plástico preto, recipientes impermeáveis, rígidos e resistentes à ruptura. GÜNTHER (2004) ressalta que essas embalagens devem ser sinalizadas com o símbolo internacional de risco. Fig. 14.2 Símbolo de risco.
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    Gerenciamento de RecursosFísicos e Ambientais 187 • Coleta interna, que consiste no recolhimento dos resíduos da lixeira, dos reci- pientes, dos sacos plásticos, e o transporte até o abrigo dos resíduos. Essa coleta deve ser realizada de acordo com a necessidade do órgão gerador, calculada pela quantidade/dia, com, no mínimo, uma coleta/dia. O transporte interno é o trans- lado dos resíduos dos pontos de geração até o local destinado ao armazenamento temporário ou à apresentação para a coleta externa. • Armazenamento é a guarda temporária dos resíduos em locais específicos e apro- priados, normalmente denominados abrigos ou depósito de resíduos, à espera do recolhimento pelo serviço de coleta, seguindo para o tratamento e a disposição final. O armazenamento interno consiste na guarda dos recipientes que contêm os resíduos já acondicionados, em local próximo aos pontos de geração, visando agilizar a coleta dentro do estabelecimento e otimizar o translado entre os pontos geradores e o ponto destinado à coleta externa. O armazenamento externo consiste na guarda dos recipientes de resíduos até a realização da coleta externa, em ambiente exclusivo com acesso para os veícu- los coletores. • Coleta II é o transporte dos resíduos do abrigo interno para o abrigo externo. A coleta e o transporte externo consistem na remoção do resíduos do serviço do local de abrigo de armazenamento até a unidade de tratamento ou destinação final, utilizando-se técnicas que garantam a preservação da integridade física do pessoal designado para essa atividade, da população e do meio ambiente, deven- do estar de acordo com as orientações dos órgãos de limpeza urbana. • Tratamento é todo processo que é realizado dentro dos padrões de segurança, e que modifica as características físicas, químicas ou biológicas dos resíduos, eliminando ou minimizando o risco associado a estes. • Disposição ou destinação final é a disposição de resíduos no solo previamente preparado para recebê-los, obedecendo a critérios técnicos de construção, opera- ção e licenciamento em órgão ambiental. É a última etapa do gerenciamento dos resíduos e deve ser feita de modo a não provocar efeitos danosos à saúde pública nem ao meio ambiente. Compreende a disposição em aterros sanitários, a recicla- gem, a incineração, ou, ainda, a disposição em aterro especial. A Fig. 14.3 apresenta, sinteticamente, o fluxo do gerenciamento dos resíduos proposto pela RDC-306/04 (ANVISA, 2006). O transporte deve ser realizado nos períodos de menor circulação de pessoas, sem risco de acidente para o funcionário e sem provocar contaminação ambiental, utilizando carros específicos para essa finalidade. A falta de organização e a destinação inadequada impõem riscos às pessoas, den- tro e fora da instituição, no que se refere ao meio ambiente, pois podem contaminar a rede de esgoto, a rede fluvial e a atmosfera. No interior da instituição, aumentam o risco ocupacional e a ocorrência de acidentes de trabalho, aumentando também a exposição dos pacientes e familiares a riscos evitáveis. A maior dificuldade não está na indicação técnica desse gerenciamento, pois, em geral, os profissionais sabem usar devidamente os equipamentos e produtos. No entanto, alguns cuidados não são tomados pela ausência de um controle rígido e es-
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    188 Gerenciamento deRecursos Físicos e Ambientais pecífico, como o descarte final dado a elementos químicos líquidos que não podem ser desprezados em pias comuns, como, por exemplo, o formol, o glutaraldeído e outros. Por outro lado, o problema pode ser o desconhecimento das regras ou o fato de a instituição não fornecer as condições. É de responsabilidade de todos os participantes da equipe de saúde prevenir e reduzir os riscos à saúde e ao meio ambiente, assegurados pelo correto gerencia- mento dos resíduos gerados nos serviços. A equipe de enfermagem manipula uma grande quantidade de materiais para a realização da assistência e, consequentemente, gera resíduos, sendo fundamental que esteja alerta para as questões ambientais nas instituições, mantendo condições seguras para o desenvolvimento dessa atividade. Para proceder ao uso e ao descarte, o enfermeiro deve considerar a natureza do material, o tipo de contato com o paciente (contaminação microbiológica) e a reco- mendação para o destino. Os subprodutos e os recipientes de envase (almotolias, frascos) também requerem os mesmos cuidados. Ao desprezar seringas e agulhas, por exemplo, as agulhas não devem ser reencapadas nem desconectadas da serin- ga, mas descartadas em caixa impermeável e resistente, específica para material perfurocortante, cujo preenchimento não deve exceder ¾ de sua capacidade. Fig. 14.3 Etapas do gerenciamento dos resíduos dos Serviços de Saúde.
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    Gerenciamento de RecursosFísicos e Ambientais 189 Como inadequação de descarte de substância, FELLI (2003) exemplifica que a água oxigenada tem sido desprezada diretamente na pia ou vaso sanitário, sem ser submetida ao tratamento com tiossulfito de sódio obrigatório para a neutralização da substância oxidante. Em decorrência dos possíveis efeitos dessas substâncias, situações como essa expõem o ambiente e os profissionais a problemas de saúde. Os rejeitos radioativos devem ser acondicionados em recipientes adequados, eti- quetados e mantidos em local seguro até sua liberação para a sala específica de rejeitos radioativos. As medidas de segurança não são determinadas pelo enfermeiro, mas ele deve conhecê-las e reivindicá-las aos responsáveis na instituição, como o Serviço de En- genharia, Segurança e Medicina do Trabalho, a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) e ao serviço de higiene e limpeza. Além disso, deve adquirir a capacitação necessária para argumentar sobre a ne- cessidade e a relevância do gerenciamento de resíduos. Cabe ainda ao enfermeiro recomendar e dar orientação à equipe de enfermagem sobre o uso obrigatório de equipamentos de proteção individual. Acidentes de tra- balho ocorrem, em geral, porque os profissionais não acreditam nos riscos a que estão expostos, o que significa falta de conhecimento e de preparo. Assim, a educação é essencial para o gerenciamento adequado de resíduos, e um programa de capacitação deve ir além dos aspectos técnicos, devendo promover a sensibilização e conscientização da equipe quanto à observância das normas e aos riscos e medidas de segurança, a fim de reduzir a ocorrência de acidentes de traba- lho e a exposição desnecessária a riscos. n Considerações Finais Embora o gerenciamento desses recursos não seja frequentemente ensinado nos cursos de graduação em enfermagem, o enfermeiro tem assumido, nas instituições de saúde, cada vez mais cargos específicos na área de Higiene Hospitalar e de Ges- tão de Resíduos. Por ser um profissional de saúde preocupado e compromissado com o bem-estar coletivo, tem postura educativa adequada a essa finalidade. Assim, o gerenciamento de recursos físicos e ambientais consiste na observân- cia às normas; na avaliação criteriosa e constante do ambiente; e na exigência das condições junto à instituição e aos profissionais no uso de EPI com vistas à quali- dade assistencial e ocupacional e à segurança do paciente, do profissional e do meio ambiente. n Referências Bibliográficas ABNT – NBR – 12.807. Resíduos de Serviços de Saúde – Terminologia. Rio de Janeiro, 1993. 3p. ABNT – NBR – 12.808. Resíduos de Serviços de Saúde – Classificação. Rio de Janeiro, 1993. 2p. ABNT – NBR – 12.809. Manuseio de Resíduos de Serviços de Saúde – Procedimento. Rio de Janeiro, 1993. 4p.
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    190 Gerenciamento deRecursos Físicos e Ambientais ABNT – NBR – 12.810. Coleta de Resíduos de Serviços de Saúde. Rio de Janeiro, 1993. 3p. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA – ANVISA (Brasil). Manual de Geren- ciamento de Resíduos de Serviços de Saúde. Brasília, Ministério da Saúde, 2006. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR-10.004. Resíduos dos Serviços de Saúde: classificação. São Paulo, 2004. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. DOU 05/12/1988. Brasília, BRA- SIL, Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. RESOLUÇÃO DA DIRETORIA COLEGIADA – RDC No 306, de 07 de dezembro de 2004, que dispõe sobre o Regulamento Técnico para o gerenciamento de resíduos de serviços de saúde. Brasil, Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão de Investimentos. BRASIL. ANVISA/RDC-50. Dispõe sobre o regulamento técnico para planejamento, progra- mação, elaboração e avaliação de projetos físicos de estabelecimentos assistenciais de saú- de, fevereiro, 2002. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Assistência à Saúde. Equipamentos Assisten- ciais de Saúde: Planejamento e Dimensionamento. Brasília, 1994. 239p. CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE – CONAMA (Brasil). Dispõe sobre o trata- mento e a disposição final dos resíduos dos serviços de saúde e dá outras providências. Resolução no 358 de 29 de abril de 2005. DOU: 04/05/2005. Brasília, Ministério do Meio Ambiente. CREMA, D. et al. Gerenciamento de resíduos: a experiência de um hospital universitário. Programa de Atualização em Enfermagem-Saúde do Adulto. Porto Alegre, Artmed/Pa- namericana, 2006; 127-155. FELLI, V.E.A. Plano de Gerenciamento de Resíduos Químicos Hospitalares. In: Anais do 56o CBEn. Gramado, Aben, 2003. FELLI, V.E.A.; PEDUZZI, M. O trabalho gerencial em enfermagem. In: KURCGANT, P (Org.). Gerenciamento em enfermagem. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 2005, p.1-22. FIOCRUZ. Biossegurança: uma abordagem interdisciplinar, 1996. GÜNTHER, W.M.R.; COSTA, A.M.P . Elaboração de Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde – PGRSS. São Paulo, Apostila Mimeo, 2004. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria Nacional de Ações Básicas de Saúde. Normas e Pa- drões de Construções e Instalações de Serviços de Saúde – Portaria Federal MS 1.884, 1a ed. Brasília, Centro de Documentação do Ministério da Saúde, 1994. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Indicadores para o estabelecimento de políticas e a tomada de decisão em saúde ambiental [mimeo]. Genebra, 1998. SÃO PAULO. Secretaria de Estado da Saúde. Centro de Vigilância Sanitária. Leis e Normas Técnicas sobre Resíduos de Serviços de Saúde. São Paulo, 1999. SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE, DO MEIO AMBIENTE e DA JUSTIÇA E DEFESA DA CIDADANIA. Resolução Conjunta SS/SMA/SJD. São Paulo, 1998. SILVA, M.F .I. Resíduos de serviços de saúde: gerenciamento no centro cirúrgico, central de material e recuperação anestésica de um hospital do interior paulista. Tese de Doutorado – Universidade de São Paulo, 2004. 107p.
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    191 Índice Alfabético A Aceitabilidade, qualidadee, 76 Acomodação, e gerenciamento dos conflitos, 56 Acondicionamento, e resíduos em serviços de saúde, 186 Acreditação, 79, 80 Acumulações, 47 Adaptação, 95, 150 Adequação, na avaliação de desempenho, 150 Administração de materiais, 156 Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), 79, 182 Aliança para o Progresso, 38 Aperfeiçoamento, no planejamento normativo, 43 Armazenamento, resíduos em serviços de saúde e, 187 Articulação das ações, no trabalho em equipe, 111 Árvore explicativa, 47 Ausências não previstas, 131 Ausências previstas - por feriado, 130 - por férias, 130, 131 - por folga semanal, 129, 130 Autoavaliação, programas de, 79 Avaliação da qualidade nos serviços de saúde: meios e instrumentos, 77-81 - categorias, 79, 80 - - acreditação, 79, 80 - - categorização, 79 - - habilitação ou alvará, 79 - - programas de autoavaliação, 79 - critério, 78 - indicador, 78 - instrumento(s) - - externo, 80 - - internos, 80 - padrão, 78 Avaliação de desempenho profissional, 146-152 - adaptação, 150 - adequação, 150 - avaliadores, 151 - capacitação, 152 - domínio, 150 - evolução, 150 - implantação, 151 - instrumento, 148 - objetivos, 147 - perfil profissional, 149 - periodicidade, 150 - processo de, 148 - prognosticadores, 149 - - comunicação oral e escrita, 149 - - critérios, 149 - - técnicas e métodos de avaliação, 149 - resultados, 150 - supervisão, 152 Avaliação de serviços, qualidade em saúde e a sua interface com a, 75-77 - aceitabilidade, 76 - efetividade, 76 - eficácia, 76 - eficiência, 76 - equidade, 77 - estrutura, 77 - legitimidade, 76 - otimização, 76 - processo, 77 - resultado, 77 - significado de avaliar, 75 Avaliadores, 151 B Barganha/compromisso, e gerenciamento dos conflitos, 56 Berwick, Donald, 74 Biossegurança, 184 C Capacidade de governo, 45 Capacitação, avaliação de desempenho e, 152 Carga(s) - biológica, 97 - de trabalho, 97 - física, 98 - fisiológica, 98 - mecânica, 98 - média de trabalho da unidade de assistência de enfermagem, 123-128 - - quantidade média diária de usuários/clientes, 124-126 - - tempo médio diário de cuidado, por cliente, 126-128 - psíquica, 98, 99 - química, 98 Categorização, 79 Centros de custos, 173, 174 - administrativos, 174 - auxiliares, 174 - produtivos ou finais, 174 Colégio Americano de Cirurgiões, 73 Coleta interna, e resíduos em serviços de saúde, 187 Conflito(s) - definições de, 53 - e trabalho em saúde por equipes, 114 - efeitos - - negativos, 54 - - positivos, 54, 55 - estilos para lidar com, 59, 60 - - colaborativo, 59 - - contestador, 59 - - da aceitação, 59 - - da retirada, 60 - - do compromisso, 60 - gerenciamento de, e negociação, 51-61 - - acomodação, 56 - - barganha/compromisso, 56 - - dominação, 56 - - processo de negociação, 57-59 - - - conceitos básicos, 57 - - - estilos, 58, 59 - - - habilidades básicas, 57 - - - planejamento, 57, 58 - - solução integrativa de problemas, 56 - o que é e como entendê-lo, 51-57 - origens dos, 53, 54 - percepções sobre os, 51-53 - situações de, nas organizações, 55, 56 - - enfoque gerencial contemporâneo, 56 - - teoria(s) - - - clássica e científica, 55 - - - das relações humanas, 55 Construção de uma árvore de apostas, 48 Consumo médio mensal (CMM), 159 Contabilidade de custos, 172 Contabilidade gerencial, 172 Contaminação microbiológica, 188 Contexto do gerenciamento em enfermagem, ética e o, 19-21 Contextualizando o trabalho em saúde, 109, 110 - dinâmica de divisão do trabalho, 109, 110 - trabalho - - como um processo de transformação, 109 - - morto, 109
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    192 Índice Alfabético -- vivo, 109 Controle da qualidade, 72 Cooperativa de trabalho, 5 Correntes, de tomada de decisão ética - deontológica, 15 - teleológica, 15 Critério, avaliação da qualidade e, 78 Cultura e poder nas organizações de saúde, 17, 23-33 - análise, 28 - conhecimento sobre, 25-27 Curva ABC, e administração de materiais, 160 Custo(s), 173 - cálculo da variação dos, 176 - contabilidade de, 172 - diretos, 173 - e despesas, 172, 173 - indiretos, 173 - planilhas de, 174, 175 Custo-padrão, 177 D Deming, Edwards, 73 Desenvolvimento, no planejamento normativo, 43 Determinação dos objetivos, no planejamento normativo, 42 Diagnóstico, no planejamento normativo, 40, 41 Dimensão - grupal, 118 - individual, 118 - institucional, 118 Dimensionamento de pessoal de enfermagem em instituições de saúde, 121-134 - aplicação da equação para, 132, 133 - método, 122-133 - - ausências não previstas, 131, 132 - - ausências previstas - - - por feriado, 130 - - - por férias, 130, 131 - - - por folga semanal, 129, 130 - - carga média de trabalho da unidade, 123-128 - - distribuição percentual dos profissionais de enfermagem, 128 - - etapas, 123 - - índice de segurança técnica, 129-132 - - quantidade média diária de usuários/clientes, 124-126 - - tempo efetivo de trabalho, 132 - - tempo médio diário de cuidado, por cliente, 126-128 - Resolução COFEN n.º 189/96, 124 - Resolução COFEN n.º 293/04, 124, 126 - tempo de assistência - - por porte cirúrgico, 127 - - por tipo de atendimento, 127, 128 Disposição ou destinação final, de resíduos em serviços de saúde, 187 Distribuição percentual dos profissionais de enfermagem, 128 Dominação, e gerenciamento dos conflitos, 56 Domínio, na avaliação de desempenho, 150 Donabedian, Avedis, 74 E Educação continuada, 137-152 - avaliação de desempenho profissional, 146-152 - - capacitação, 152 - - instrumento, 148 - - objetivos, 147 - - perfil profissional, 149 - - processo de, 148 - - prognosticadores, 149 - - programas de TD, 152 - - supervisão, 152 - finalidade, 139 - recrutamento e seleção de pessoal de enfermagem, 139-143 - - critérios, 141, 142 - - ponto inicial, 141 - treinamento e desenvolvimento, 143-146 - - aprovação do programa, 145 - - avaliação - - - do programa, 145 - - - dos custos, 146 - - - dos resultados, 145 - - elaboração do programa, 145 - - levantamento de necessidades, 144 - - planejamento, 143 - - - fases do, 144 Efeitos, dos conflitos - negativos, 54 - positivos, 54, 55 Efetividade, qualidade e, 76 Eficácia, qualidade e, 76 Eficiência, qualidade e, 76 Elaboração do programa, no treinamento e desenvolvimento, 145 Enfermagem - distribuição percentual dos profissionais de, 128 - ética e gerenciamento em, 13-22 - - e a responsabilidade, 18, 19 - - e o contexto, 19-21 - - fatores que interferem nas tomadas de decisões éticas na organização, 16-18 - - - cultura organizacional, 17 - - - fatores individuais, 17 - - - gravidade da questão ética, 16 - - - oportunidade, 18 - - - terceiros significativos, 18 - - fundamentos para as tomadas de decisões éticas, 14-16 - - - teorias, 15, 16 - expansão dos gastos em saúde e a, 169-171 - gerenciamento de custos nos serviços de, 169-179 - método para dimensionar o pessoal de, 122-133 - qualidade de vida no trabalho de, 88-94 - - abordagem tradicional, 89 - - historicidade, 93 - - perfil - - - destrutivo, 94 - - - favorável, 93 - qualidade de vida no trabalho e a saúde do trabalhador de, 85-101 - recrutamento e seleção de pessoal de, 139-143 - sistema de informação na área da, 67-69 - - benefício, 68 - - consequência, 68 - - definição, 68 - - participação dos enfermeiros, 69 - - propósito fundamental, 68 - trabalho gerencial em, 1-11 - - atividades, 3, 10 - - cooperativas, 5 - - determinantes, 3-5 - - dimensão - - - comunicativa, 10 - - - do desenvolvimento da cidadania, 10 - - - política, 10 - - - técnica, 10 - - direções, 4 - - finalidade imediata, 9 - - gerência como processo de trabalho: conceitos e dimensões, 5-11 - - instrumentos, 3 - - meio, 3 - - modelo - - - histórico-social, 8 - - - racional, 7 - - na prestação de serviços de saúde, 1-3 - - objeto de trabalho, 2, 10 - - processo de, 9 Equação para dimensionar o pessoal de enfermagem, aplicação, 132, 133 Equidade, 77 Equipe(s) - agrupamento, 110, 115 - coesão da, 113 - de enfermagem, 105-109 - gerenciamento da, e do processo grupal, 113-119 - - dimensão - - - grupal, 118 - - - individual, 118 - - - institucional, 118 - - formação por competências, 116 - - processo de autoanálise do grupo, 115 - - resistências ao trabalho em equipe, 117 - integração, 110, 115 - organização do trabalho em saúde por, 110-113 - - articulação das ações, 111 - - autonomia profissional, 112 - - flexibilização da divisão do trabalho, 112 - - interação dos agentes, 111 - - questionamentos sobre as desigualdades entre os trabalhadores, 112 - trabalho em, 105 - - e processo grupal, 105-119 Escola das Relações Humanas, 106 Especificação, e gerenciamento de recursos materiais, 158 Estabelecimento - de Assistência à Saúde (EAS), 182, 183 - de prioridades, no planejamento normativo, 42 - do plano operacional, no planejamento normativo, 43 Estilos - de negociação, 58, 59 - - amigável, 59 - - ardiloso, 58, 59 - - confrontador, 59
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    Índice Alfabético 193 -- restritivo/duro, 58 - para lidar com conflitos, 59, 60 - - colaborativo, 59 - - contestador, 59 - - da aceitação, 59 - - da retirada, 60 - - do compromisso, 60 Estoque de segurança (ES), 159, 161 Estrutura, e qualidade da assistência, 77 Ética e gerenciamento em enfermagem, 13-22 - corrente - - deontológica, 15 - - teleológica, 15 - e a responsabilidade, 18, 19 - e o contexto, 19-21 - fatores que interferem nas tomadas de decisões éticas na organização, 16-18 - - cultura organizacional, 17 - - fatores individuais, 17 - - gravidade da questão ética, 16 - - oportunidade, 18 - - terceiros significativos, 18 - fundamentos para as tomadas de decisões éticas, 14-16 - - teoria - - - contratualista, 16 - - - kantiana, 15, 16 - - - relativista, 16 - - - utilitarista, 15 Evolução, na avaliação de desempenho, 150 Expansão dos gastos em saúde e a enfermagem, 169-171 F Fluxos, 47 Força de trabalho, 3 G Garantia da qualidade, 72 Gerenciamento - da equipe e do processo grupal, 113-119 - - dimensão - - - grupal, 118 - - - individual, 118 - - - institucional, 118 - - formação por competências, 116 - - resistências ao trabalho em equipe, 117 - de conflitos e negociação, 51-61 - de custos nos serviços de enfermagem, 169-179 - - expansão dos gastos em saúde e a enfermagem, 169-171 - de recursos ambientais, 184 - - biossegurança e, 184 - - objetivo, 184 - de recursos físicos, 182-184 - - etapas, 182 - - papel do enfermeiro, 182 - de recursos materiais, 155-167 - - em organizações de saúde, processo de, 156-166 - - - armazenamento, 165 - - - classificações, 158 - - - compras, 162 - - - consumo médio mensal (CMM), 159 - - - controle de qualidade, 162 - - - curva ABC, 160 - - - distribuição, 165 - - - especificação, 158 - - - estoque de segurança (ES), 159, 161 - - - fluxo das principais atividades do gerenciamento da cadeia logística, 157 - - - fluxo simplificado do processo licitatório, 163 - - - padronização, 158 - - - previsão, 158 - - - procedimento de licitação, 163 - - - programação, 157 - - - recepção, 165 - - - tempo de reposição, 160 - - importância e o objetivo, 155, 156 - - papel do enfermeiro, 166 - dos conflitos, 56, 57 - - acomodação, 56 - - barganha/compromisso, 56 - - dominação, 56 - - solução integrativa de problemas, 56 - dos resíduos dos serviços de saúde, 184-189 - - acondicionamento, 186 - - armazenamento, 187 - - coleta II, 187 - - coleta interna, 187 - - dificuldade, 187 - - disposição ou destinação final, 187 - - fluxo dos resíduos nos serviços de saúde, 185 - - normas, 184, 185 - - segregação, 186 - - símbolo de risco, 186 - - transporte, 187 - - tratamento, 187 Globalização, 88 Governabilidade, 45 Gravidade da questão ética, 16 Grupo Nacional de Estudos de Sistema de Informação em Enfermagem, 68 H Habilitação ou alvará, 79 Health Related Quality of Life (HRQL), 87 I Implantação, da avaliação de desempenho, 151 Indicador, avaliação da qualidade e, 78 Índice - de Condições de Vida (ICV), 87 - de Desenvolvimento Humano (IDH), 87 - de rotatividade de seleção (IRS), 142 - de Satisfação no Trabalho, 87 - de segurança técnica (IST), 129-132 - - ausências não previstas, 131, 132 - - ausências previstas - - - por feriado, 130 - - - por férias, 130, 131 - - - por folga semanal, 129, 130 Inspeção, e conceito de qualidade, 72 Instituições de saúde, dimensionamento de pessoal de enfermagem em, 121-133 - aplicação da equação para, 132, 133 - método, 122-133 - - ausências não previstas, 131, 132 - - ausências previstas - - - por feriado, 130 - - - por férias, 130, 131 - - - por folga semanal, 129, 130 - - carga média de trabalho da unidade, 123-128 - - distribuição percentual dos profissionais de enfermagem, 128 - - etapas, 123 - - índice de segurança técnica (IST), 129-132 - - quantidade média diária de usuários/clientes, 124-126 - - tempo efetivo de trabalho, 132 - - tempo médio diário de cuidado, por cliente, 126-128 - Resolução COFEN n.º 293/04, 126, 129 - tempo de assistência - - por porte cirúrgico, 127 - - por tipo de atendimento, 127, 128 Instrumento de Medida de Qualidade de Vida no Trabalho, 87 Instrumento, na avaliação de desempenho profissional, 148 - elementos para construção, 148 Interação dos agentes, no trabalho em equipe, 111 International Standards Organization (ISO), 74 J Joint Commission on Accreditation of Healthcare Organization – JCAHO, 74 Joint Commission on Accreditation of Hospitals (JCAH), 74 Juran, J. M., 73 Juran, Trilogia de, 74 L Legitimidade, qualidade e, 76 Levantamento de necessidades, no treinamento e desenvolvimento, 144 Licitação, 162 - fluxo simplificado do processo de, 163 - modalidades de, 163, 164 - - concorrência, 164 - - concurso, 164 - - convite, 163 - - leilão, 164 - - pregão, 164 - - Sistema de Registro de Preços, 164 - - tomada de preço, 164 Logística, conceito de, 156 M Manual Brasileiro de Acreditação Hospitalar, 80 Método - CENDES/OPS, 39, 40 - - etapas, 39 - de ação governamental, 37 - para dimensionar o pessoal de enfermagem, 122-133
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    194 Índice Alfabético Momentos,no planejamento estratégico situacional (PES), 45 - estratégico, 48 - explicativo, 46-48 - - fora do jogo, 47 - - governabilidade, 47 - - influência, 47 - normativo, 48 - tático-operacional, 48-50 N Negociação, processo de, 57-59 - conceitos básicos, 57 - estilos, 58, 59 - - amigável, 59 - - ardiloso, 58, 59 - - confrontador, 59 - - restritivo/duro, 58 - habilidades básicas, 57 - planejamento, 57, 58 Nexo biopsíquico humano, 95 Nightingale, Florence, 73 Nó explicativo, 47 Normas, no manejo dos resíduos dos serviços de saúde, 184, 185 O Oportunidade, e conduta ética, 18 Orçamento, 172 Organização(ões) - de saúde, 16 - - análise da cultura e do poder nas, 28 - - fatores que interferem nas tomadas de decisões na, 16-18 - - - cultura organizacional, 17 - - - fatores individuais, 17 - - - gravidade da questão ética, 16 - - - oportunidade, 18 - - - terceiros significativos, 18 - - missão das, 28 - do trabalho em saúde por equipes, 110-113 - - articulação das ações, 111 - - - comunicação de mão única, 111 - - autonomia profissional, 112 - - equipe - - - agrupamento, 110 - - - integração, 110 - - flexibilização da divisão do trabalho, 112 - - interação dos agentes, 111 - - questionamentos sobre as desigualdades entre os trabalhadores, 112 - Pan-Americana de Saúde (OPS), 39 - poder nas, 27, 28 Origens dos conflitos, 53, 54 Otimização, e qualidade, 76 P Padrão, avaliação da qualidade e, 78 Padronização, de materiais, 158 Papel do enfermeiro, no gerenciamento de recursos materiais, 166 Percepções sobre os conflitos, 51-53 Perfil - destrutivo, 94 - favorável, 93 - patológico, 97 - profissional, 141, 149 Periodicidade, na avaliação de desempenho, 150 Planejamento, 36 - como impulsionador de práticas sociais transformadoras, 37 - como instrumento/atividade dos processos de gestão das organizações, 37 - como método de ação governamental, 37 - e o processo decisório como instrumentos do processo de trabalho gerencial, 35 - estratégico situacional (PES), 44-46 - - metodologias, 49 - - modelo de fluxograma situacional, 47 - - momento - - - estratégico, 48 - - - explicativo, 46-48 - - - normativo, 48 - - - tático-operacional, 48-50 - - principais características do, 49 - - Triângulo de Governo no, 45 - no treinamento e desenvolvimento, 143 - normativo ou tradicional, 38, 39 - - fases do, 40-43 - - - aperfeiçoamento, 43 - - - desenvolvimento, 43 - - - determinação dos objetivos, 42 - - - diagnóstico: conhecimento do sistema como um todo, 40, 41 - - - estabelecimento de prioridades, 42 - - - estabelecimento do plano operacional, 43 - - - seleção dos recursos disponíveis, 42 - - principais características do, 43 Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde (PGRSS), 184 Poder - administrativo, 44 - cultura e o, nas organizações de saúde, 23-33 - econômico, 44 - nas organizações, 27, 28 - nas relações multiprofissionais, 31-33 - político, 44 - técnico, 44 Prêmio Nacional da Qualidade, 78 Prevenção, e conceito de qualidade, 72 Previsão, de materiais, 158 Princípio da legalidade, 162 Problema, 44 Processo(s) - de desgaste, 97 - de negociação, 57-59 - - conceitos básicos, 57 - - estilos, 58, 59 - - - amigável, 59 - - - ardiloso, 58, 59 - - - confrontador, 59 - - - restritivo/duro, 58 - - habilidades básicas, 57 - - planejamento, 57, 58 - de trabalho, 96 - - gerencial em enfermagem, 9 - de valorização, 96 - e conceito de qualidade, 72 - e qualidade da assistência, 77 - grupal, trabalho em equipe e, 105-119 Produtividade, 171 Produto, e conceito de qualidade, 72 PROFAE, 110 Prognosticadores, 149 Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade (PBQP), 78 Programa de Compromisso com a Qualidade Hospitalar (CQH), 78 Programação, no gerenciamento de recursos materiais, 157 Projeto - de governo, 45 - de Profissionalização dos Trabalhadores da Área de Enfermagem (PROFAE), 110 Q Qualidade - aceitabilidade da, 76 - avaliação da, nos serviços de saúde: meios e instrumentos, 77-81 - - categorias, 79, 80 - - - acreditação, 79, 80 - - - categorização, 79 - - - habilitação ou alvará, 79 - - - programas de autoavaliação, 79 - - critério, 78 - - indicador, 78 - - instrumento(s) - - - externo, 80 - - - internos, 80 - - padrão, 78 - conceito de, 72 - - sinopse da evolução do, 73 - controle da, 72 - da assistência, 75 - de Vida (QV), 85 - - Ligada à Saúde (QVLS), 87 - - no Trabalho (QVT), 85 - - - concepções acerca da qualidade de vida e sua interface com a, 85-88 - - - e a saúde do trabalhador de enfermagem, 85-101 - - - estudos sobre, 90-92 - efetividade da, 76 - eficácia da, 76 - eficiência da, 76 - em saúde - - e a sua interface com a avaliação de serviços, 75-77 - - - estrutura, 77 - - - processo, 77 - - - resultado, 77 - - - significado de avaliar, 75 - - retrospectiva histórica, 73, 74 - equidade da, 77 - garantia da, 72 - inspeção e, 72 - legitimidade da, 76 - otimização da, 76 - prevenção e, 72 - processo e, 72 - produto e, 72 - Total, 72 Quality-Adjusted Life-Years (QALY), 87 Questionário de Medida da Satisfação no Trabalho, 87 R Recrutamento e seleção de pessoal de enfermagem, 139-143
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    Índice Alfabético 195 -critérios, 141 - índice de rotatividade de seleção (IRS), 142 - ponto inicial, 141 Recursos ambientais, gerenciamento de, 184 - medidas de biossegurança e, 184 - objetivo, 184 Recursos físicos, gerenciamento de, 182-184 - etapas, 182 - objetivo, 182 - papel do enfermeiro, 182 Recursos humanos, 6 Recursos materiais, gerenciamento de, 155-166 - em organizações de saúde, processo de, 156-166 - - armazenamento, 165 - - classificação XYZ, 161 - - compras, 162 - - consumo médio mensal (CMM), 159 - - controle de qualidade, 162 - - curva ABC, 160 - - distribuição, 165 - - especificação, 158 - - estoque de segurança (ES), 159, 161 - - fluxo das principais atividades do gerenciamento da cadeia logística, 157 - - licitação, 162 - - - critério para, 164 - - - fluxo simplificado do processo de, 163 - - - modalidades de, 163, 164 - - - pregão, 164 - - - Sistema de Registro de Preços, 164 - - padronização, 158 - - previsão, 158 - - programação, 157 - - recepção, 165 - - tempo de reposição, 160, 161 - importância e o objetivo, 155, 156 - papel do enfermeiro, 166 Regras, 47 Relação trabalho-saúde, 96 Relações multiprofissionais, poder nas, 31-33 Resíduos dos serviços de saúde, gerenciamento dos, 184-189 - dificuldade, 187 - etapas, 186-188 - - acondicionamento, 186 - - armazenamento, 187 - - coleta II, 187 - - coleta interna, 187 - - disposição ou destinação final, 187 - - segregação, 186 - - tratamento, 187 - fluxo dos resíduos nos serviços de saúde, 185 - normas, 184, 185 - transporte, 187 Resolução Diretoria Colegiada 50 (RDC 50), 182, 183 Responsabilidade, ética no gerenciamento e a, 18, 19 Resultado(s) - e qualidade da assistência, 77 - na avaliação de desempenho, 150 S Saúde ambiental, 181 Saúde, contextualizando o trabalho em, 109, 110 - dinâmica de divisão do trabalho, 109, 110 - trabalho - - como um processo de transformação, 109 - - morto, 109 - - vivo, 109 Saúde dos trabalhadores de enfermagem, 95-100 - adaptação, 95 - carga(s) - - biológica, 97 - - de trabalho, 97 - - física, 98 - - fisiológica, 98 - - mecânica, 98 - - psíquica, 98, 99 - - química, 98 - meios e instrumentos, 97 - nexo biopsíquico humano, 95 - organização/divisão, 97 - perfil patológico, 97 - processo(s) - - de desgaste, 97 - - de trabalho, 96 - - de valorização, 96 Saúde, qualidade em, 73-77 - e a sua interface com a avaliação de serviços, 75-77 - - aceitabilidade, 76 - - efetividade, 76 - - eficácia, 76 - - eficiência, 76 - - equidade, 77 - - estrutura, 77 - - legitimidade, 76 - - otimização, 76 - - processo, 77 - - resultado, 77 - - significado de avaliar, 75 - retrospectiva histórica, 73, 74 Saúde, sistemas de informação em, 63-69 - benefício, 68 - cultura organizacional e, 64 - dinâmica política, 64 - finalidade, 66 - na área da enfermagem, 67-69 - participação dos enfermeiros, 69 - princípios, 65 - propósito fundamental, 68 - razões principais de inadequações, 65, 66 Segregação, resíduos em serviços de saúde e, 186 Seiketsu, 79 Seiri, 79 Seiso, 79 Seiton, 79 Seleção dos recursos disponíveis, no planejamento normativo, 42 Serviços de saúde, avaliação da qualidade nos, 77-81 - acreditação, 79, 80 - categorização, 79 - critério, 78 - habilitação ou alvará, 79 - indicador, 78 - instrumento(s) - - externo, 80 - - internos, 80 - padrão, 78 - programas de autoavaliação, 79 Shewhart, Walter, 73 Shitsuke, 79 Sistema(s), 40 - de Classificação de Pacientes (SCP), 124, 178 - de custeio, 173-178 - - por absorção, 173, 174, 176 - - por atividade, 177 - de Indicadores Padronizados para a Gestão Hospitalar, 78 - de informação em saúde, 63-69 - - dimensão política, 64 - - e cultura organizacional, 64 - - finalidade, 66 - - na área da enfermagem, 67-69 - - para a OMS, 65 - - princípios, 65 - - processo de informatização e, 66 - - razões das inadequações do, 65, 66 - de Informações de Mortalidade, 67 - de Pagamento das Internações Hospitalares, 67 - de Registro de Preços, 164 - Único de Saúde, 65 Situações de conflito nas organizações: como trabalhar com elas?, 55, 56 - enfoque gerencial contemporâneo, 56 - teoria(s) - - clássica e científica, 55 - - das relações humanas, 55 Solução integrativa de problemas, e gerenciamento dos conflitos, 56 Supervisão, na avaliação de desempenho, 152 Suprimento, 156 T Tempo - de assistência - - por porte cirúrgico, em Centro Cirúrgico, 127 - - por tipo de atendimento – Ambulatório, 128 - - por tipo de atendimento, PS especializado em cardiologia, 127 - efetivo de trabalho, 132 Teoria(s) - da Multicausalidade, 39 - das Relações Humanas, 52 - de Sistemas, 40 - Geral da Administração – TGA, 7 - na formação dos preceitos éticos, 15, 16 - - contratualista, 16 - - kantiana, 15, 16 - - relativista, 16 - - utilitarista, 15 Terceiros significativos, nas tomadas de decisões éticas na organização, 18 TISS-28 (Therapeutic Intervention Scoring System), 178 Trabalhadores de enfermagem, saúde dos, 95-100 - adaptação, 95 - carga(s) - - biológica, 97
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    196 Índice Alfabético -- de trabalho, 97 - - física, 98 - - fisiológica, 98 - - mecânica, 98 - - psíquica, 98, 99 - - química, 98 - nexo biopsíquico humano, 95 - perfil patológico, 97 - processo(s) - - de desgaste, 97 - - de trabalho, 96 - - de valorização, 96 Trabalho, 95 - coletivo, 2 - em equipe, 105 - - multiprofissional, 105-109 - gerencial em enfermagem, 1-11 - - atividades, 3, 10 - - cooperativas, 5 - - determinantes, 3-5 - - dimensão - - - comunicativa, 10 - - - do desenvolvimento da cidadania, 10 - - - política, 10 - - - técnica, 10 - - gerência como processo de trabalho: conceitos e dimensões, 5-11 - - meios e instrumentos, 3, 10 - - modelo - - - histórico-social, 8 - - - racional, 7 - - na prestação de serviços de saúde, 1-3 - - objeto de trabalho, 2, 10 - - processo de, 9 - - recursos humanos, 6 - gerencial, planejamento e processo decisório como instrumentos do, 35-50 - - método CENDES/OPS, 39-44 - - - etapas, 39 - - momento - - - estratégico, 48 - - - explicativo, 46-48 - - - normativo, 48 - - - tático-operacional, 48-50 - - planejamento estratégico situacional, 44-46 - - - momentos do, 45, 46 - - - principais características do, 49 - - - triângulo de governo no, 45 - - planejamento normativo ou tradicional, 38, 39 - - - aperfeiçoamento, 43, 44 - - - desenvolvimento, 43 - - - determinação dos objetivos, 42 - - - diagnóstico: conhecimento do sistema como um todo, 40, 41 - - - estabelecimento de prioridades, 42 - - - estabelecimento do plano operacional, 43 - - - principais características, 43 - - - seleção dos recursos disponíveis, 42 - - visão da sociedade segundo o modelo sociotécnico, 41 - qualidade de vida no (QVT), 85 Tratamento, de resíduos em serviços de saúde, 187 Treinamento e desenvolvimento, 143-146 - avaliação dos custos, 146 - avaliação dos resultados, 145 - levantamento de necessidades, 144 - planejamento, 143 - programa - - aprovação do, 145 - - avaliação do, 145 - - elaboração do, 145 - relatórios, 146 Triângulo de Governo no planejamento estratégico situacional (PES), 45 Trilogia de Juran, 74 W World Health Organization Quality of Life (WHOQOL), 87 Serviços de impressão e acabamento executados, a partir de arquivos digitais fornecidos, nas oficinas gráficas da EDITORA SANTUÁRIO Fone: (0XX12) 3104-2000 - Fax (0XX12) 3104-2016 http://www.editorasantuario.com.br - Aparecida-SP