E STA D O D E M I N A S        ●    D O M I N G O ,        2 4        D E        J U N H O           D E   2 0 1 2



   4                                                                                                     POLÍTICA




                                                                                                                              JAIR AMARAL/EM/D.A PRESS - 7/4/10




                                                                                                                                                                        Vera Cruz
                                                                                                                                                                        Hoje foi que a perdi, mas onde já nem sei
                                                                                                                                                                        Em Vera me larguei e deito nesta dor
                                                                                                                                                                        Meu corpo sem lugar
                                                                                                                                                                        Ah, quisera esquecer a moça que se foi
                                                                                                                                                                        De nossa Vera Cruz e o pranto que ficou
                                                                                                                                                                        Do norte que sonhei, das coisas do lugar
                                                                                                                                                                        Dos mimos me larguei, correndo sem parar
                                                                                                                                                                        Buscar Vera Cruz nos campos e no mar
                                                                                                                                                                        Mas ela se soltou, no norte se perdeu
                                                                                                                                                                        Se ela em outra mansidão um dia ancorar
                                                                                                                                                                        E ao vento me esquecer
                                                                                                                                                                        Ao vento me amarrei e nele vou partir
                                                                                                                                                                        Atrás de Vera Cruz
                                                                                                                                                                        Ah, quisera encontrar
                                                                                                                                                                        A moça que se foi do lar de Vera Cruz
                                                                                                                                                                        E o pranto que ficou
                                                                                                                                                                        Do norte que perdi das coisas do lugar


                                                                                                                                                                        ■ A letra de Vera Cruz, música de Márcio Borges e Milton
                                                                                                                                                                        Nascimento, que os dois mostraram a Dilma no dia em
                                                                                                                                                                        que a compuseram. Quase 40 anos mais tarde, Borges
Dilma e Márcio Borges se reencontraram em abril de 2010. Segundo ele, a então candidata a presidente disse que o reconheceu pelos olhos                                 a cantarolou para a então candidata a presidente




                                 Nada foi
            como antes
Da sua juventude em Minas, a presidente Dilma Rousseff tem muito mais que a militância para
guardar na memória. Os amigos, as festas e a escola são também parte daqueles tempos difíceis
                                                                                                                                                                                                                    ARQUIVO PESSOAL
              SANDRA KIEFER                    cionária Marxista-Política Operária (Po-
                                               lop). “Passei a frequentar reuniões dos
    Nem tudo era luta e sofrimento nos         militantes políticos e comecei a sacar
anos 1960, período em que Dilma mili-          que havia algo além dos anos dourados
tou na esquerda contra a ditadura. Ami-        e das festas todos os dias. Havia a turma
gos guardam momentos da então jo-              mais politizada da Dilma e uma outra,
vem estudante secundarista, com seus           de músicos, que me foi apresentada pe-
17, 18 anos, com o uniforme do Colégio         lo Bituca (Milton Nascimento). Enquan-
Estadual Central, na época em que da-          to uma turma estava na clandestinida-
va status estudar em escola pública. “A        de, a outra sonhava com os holofotes. Fi-
gente era tão amigo que tinha liberda-         quei dividido”, admite.
de de ir um para a casa do outro ‘assal-           Segundo revelou no livro Os sonhos
tar’ a geladeira”, recorda o compositor        não envelhecem, que fará parte do mu-
Márcio Borges, então estudante com 20,         seu Clube da Esquina até 2014 na Praça
21 anos, e um dos fundadores do Clube          da Liberdade, Marcinho passou a bater
da Esquina. A casa de dona Dilma Jane,         altos papos com Dilma e o namorado,
mãe de Dilminha, ficava na Rua Major           que mais tarde viria a ser seu primeiro
Lopes, no Sion.                                marido (e hoje mora na Nicarágua, de-
    A turma de amigos se encontrava to-        pois de fugir do país no sequestro de um
dos os dias depois da aula, para conver-       avião), o jornalista Cláudio Galeno. “Ga-
sar. E toda semana tinha festinha na ca-       leno era muito bom nas cartas: raciocí-
sa de alguém. “Eu e Dilma costumáva-           nio rápido e destreza no manuseio. Era                                                                                                                                                 Márcio
mos ser escalados para recolher um pe-         um dos tais jovens dispostos a pagar                                                                                                                                                   Borges e
daço de peru na casa de um, o resto da         com a vida as chamadas causas revolu-                                                                                                                                                  Mariza, uma
maionese do almoço na do outro e as-           cionárias. (…) eu, na hora, não pensei que                                                                                                                                             amiga dele e
sim por diante”, revela o músico. Já a be-     houvesse gente disposta a arriscar a pró-                                                                                                                                              de Dilma,
bida limitava-se a vodka com refrigeran-       pria pele naquilo – o que apenas de-                                                                                                                                                   passeiam no
te de laranja (hi-fi) e cuba libre, bem fra-   monstra o quanto podia me enganar no
cos. “Os drinques eram a bebida da ju-                                                                                                                                                                                                Centro de BH
                                               julgamento das motivações humanas.
ventude da época. Não existia cerveja          Além disso, amava minha família (des-                                                                                                                                                  no final dos
em lata, só a garrafa, que vinha no casco      confiava demais de tudo aquilo) para en-                                                                                                                                               anos 60
escuro, preto ou verde”, completa. Ele         carar o claustro da clandestinidade. Con-
morava com a família no Edifício Ingleza       servava intacta minha capacidade de in-
Levy, no Centro, antes de se mudar para        dignação e mantinha afiado o senso de            nhã. Ele ajeitou o violão e cantarolou               REENCONTRO Quase 40 anos mais tar-             que se prolongou tarde adentro, Dilma
o Santa Tereza, onde mais tarde iria fun-      justiça, mas era um individualista”, reco-       com voz inconfundível: “Hoje foi que eu              de, o melhor momento da juventude se-          comentou sobre o episódio da música
dar o Clube da Esquina com Bituca e os         nhece o autor. “Tenho hoje o maior or-           a perdi/Mas hoje já nem sei./Em Vera                 ria reprisado pouco antes do início da         inédita. Confessei que me lembrava da
irmãos Lô e Marilton.                          gulho de ver uma pessoa da nossa tur-            me larguei/E deito nesta dor”, revela                campanha de Dilma à Presidência. Ha-           melodia, mas não do nome da canção.
    Com grandes olhos verdes e cabelos         ma na Presidência. Ela teve a coragem            Márcio, dando uma “palhinha”. Segun-                 via muitos anos que eles não se viam.          Ela pediu para eu cantar, uma a uma, to-
enrolados, Marcinho fazia o melhor que         que eu não tive e pagou caro por seus            do a explicação do autor, a canção Vera              Dilma mandou a secretária ligar para o         das as músicas da época. Reconheceu já
podia tentando conquistar Marisa, gran-        ideais”, completa.                               Cruz representava o amor à mulher e ao               amigo e convidá-lo para um café na Mi-         o primeiro verso de Vera Cruz. “Passa-
de amiga de Dilma na época do colégio.             Em uma tarde de sábado, Márcio, Dil-         mesmo tempo à pátria. A letra era escri-             neiriana. “Fui sozinho. Ela chegou em          mos a tarde inteira tomando café e re-
Ele conheceu Dilma na pensão da Ode-           ma e Bituca tinham ido visitar um cole-          ta por meio de metáforas, para escapar               um vestido azul, bonito e jovial. Foi ba-      lembrando nossas histórias. Depois, ela
te, na Rua Curitiba, quase esquina com         ga do Imaco, no Parque Municipal. De re-         da censura da época. “Lembro-me dessa                tendo o olho no ambiente e se dirigiu à        foi embora no carro chapa-branca. Eu
a Avenida Amazonas, que servia feijoa-         pente, ele pediu a Bituca para mostrar a         cena com emoção. Nós nos abraçamos e                 minha mesa. Havia anos que não a via.          desci a Rua Paraíba a pé, chorando feito
da de graça aos sábados e funcionava           Dilma uma música nova, que os dois ha-           relembramos os momentos felizes vivi-                Ela disse que havia me reconhecido pe-         um menino e relembrando trechos de
como aparelho da Organização Revolu-           viam acabado de compor naquela ma-               dos juntos”, explica.                                los olhos. Depois, durante a conversa,         nossa linda juventude”, concluiu.

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    E STA DO D E M I N A S ● D O M I N G O , 2 4 D E J U N H O D E 2 0 1 2 4 POLÍTICA JAIR AMARAL/EM/D.A PRESS - 7/4/10 Vera Cruz Hoje foi que a perdi, mas onde já nem sei Em Vera me larguei e deito nesta dor Meu corpo sem lugar Ah, quisera esquecer a moça que se foi De nossa Vera Cruz e o pranto que ficou Do norte que sonhei, das coisas do lugar Dos mimos me larguei, correndo sem parar Buscar Vera Cruz nos campos e no mar Mas ela se soltou, no norte se perdeu Se ela em outra mansidão um dia ancorar E ao vento me esquecer Ao vento me amarrei e nele vou partir Atrás de Vera Cruz Ah, quisera encontrar A moça que se foi do lar de Vera Cruz E o pranto que ficou Do norte que perdi das coisas do lugar ■ A letra de Vera Cruz, música de Márcio Borges e Milton Nascimento, que os dois mostraram a Dilma no dia em que a compuseram. Quase 40 anos mais tarde, Borges Dilma e Márcio Borges se reencontraram em abril de 2010. Segundo ele, a então candidata a presidente disse que o reconheceu pelos olhos a cantarolou para a então candidata a presidente Nada foi como antes Da sua juventude em Minas, a presidente Dilma Rousseff tem muito mais que a militância para guardar na memória. Os amigos, as festas e a escola são também parte daqueles tempos difíceis ARQUIVO PESSOAL SANDRA KIEFER cionária Marxista-Política Operária (Po- lop). “Passei a frequentar reuniões dos Nem tudo era luta e sofrimento nos militantes políticos e comecei a sacar anos 1960, período em que Dilma mili- que havia algo além dos anos dourados tou na esquerda contra a ditadura. Ami- e das festas todos os dias. Havia a turma gos guardam momentos da então jo- mais politizada da Dilma e uma outra, vem estudante secundarista, com seus de músicos, que me foi apresentada pe- 17, 18 anos, com o uniforme do Colégio lo Bituca (Milton Nascimento). Enquan- Estadual Central, na época em que da- to uma turma estava na clandestinida- va status estudar em escola pública. “A de, a outra sonhava com os holofotes. Fi- gente era tão amigo que tinha liberda- quei dividido”, admite. de de ir um para a casa do outro ‘assal- Segundo revelou no livro Os sonhos tar’ a geladeira”, recorda o compositor não envelhecem, que fará parte do mu- Márcio Borges, então estudante com 20, seu Clube da Esquina até 2014 na Praça 21 anos, e um dos fundadores do Clube da Liberdade, Marcinho passou a bater da Esquina. A casa de dona Dilma Jane, altos papos com Dilma e o namorado, mãe de Dilminha, ficava na Rua Major que mais tarde viria a ser seu primeiro Lopes, no Sion. marido (e hoje mora na Nicarágua, de- A turma de amigos se encontrava to- pois de fugir do país no sequestro de um dos os dias depois da aula, para conver- avião), o jornalista Cláudio Galeno. “Ga- sar. E toda semana tinha festinha na ca- leno era muito bom nas cartas: raciocí- sa de alguém. “Eu e Dilma costumáva- nio rápido e destreza no manuseio. Era Márcio mos ser escalados para recolher um pe- um dos tais jovens dispostos a pagar Borges e daço de peru na casa de um, o resto da com a vida as chamadas causas revolu- Mariza, uma maionese do almoço na do outro e as- cionárias. (…) eu, na hora, não pensei que amiga dele e sim por diante”, revela o músico. Já a be- houvesse gente disposta a arriscar a pró- de Dilma, bida limitava-se a vodka com refrigeran- pria pele naquilo – o que apenas de- passeiam no te de laranja (hi-fi) e cuba libre, bem fra- monstra o quanto podia me enganar no cos. “Os drinques eram a bebida da ju- Centro de BH julgamento das motivações humanas. ventude da época. Não existia cerveja Além disso, amava minha família (des- no final dos em lata, só a garrafa, que vinha no casco confiava demais de tudo aquilo) para en- anos 60 escuro, preto ou verde”, completa. Ele carar o claustro da clandestinidade. Con- morava com a família no Edifício Ingleza servava intacta minha capacidade de in- Levy, no Centro, antes de se mudar para dignação e mantinha afiado o senso de nhã. Ele ajeitou o violão e cantarolou REENCONTRO Quase 40 anos mais tar- que se prolongou tarde adentro, Dilma o Santa Tereza, onde mais tarde iria fun- justiça, mas era um individualista”, reco- com voz inconfundível: “Hoje foi que eu de, o melhor momento da juventude se- comentou sobre o episódio da música dar o Clube da Esquina com Bituca e os nhece o autor. “Tenho hoje o maior or- a perdi/Mas hoje já nem sei./Em Vera ria reprisado pouco antes do início da inédita. Confessei que me lembrava da irmãos Lô e Marilton. gulho de ver uma pessoa da nossa tur- me larguei/E deito nesta dor”, revela campanha de Dilma à Presidência. Ha- melodia, mas não do nome da canção. Com grandes olhos verdes e cabelos ma na Presidência. Ela teve a coragem Márcio, dando uma “palhinha”. Segun- via muitos anos que eles não se viam. Ela pediu para eu cantar, uma a uma, to- enrolados, Marcinho fazia o melhor que que eu não tive e pagou caro por seus do a explicação do autor, a canção Vera Dilma mandou a secretária ligar para o das as músicas da época. Reconheceu já podia tentando conquistar Marisa, gran- ideais”, completa. Cruz representava o amor à mulher e ao amigo e convidá-lo para um café na Mi- o primeiro verso de Vera Cruz. “Passa- de amiga de Dilma na época do colégio. Em uma tarde de sábado, Márcio, Dil- mesmo tempo à pátria. A letra era escri- neiriana. “Fui sozinho. Ela chegou em mos a tarde inteira tomando café e re- Ele conheceu Dilma na pensão da Ode- ma e Bituca tinham ido visitar um cole- ta por meio de metáforas, para escapar um vestido azul, bonito e jovial. Foi ba- lembrando nossas histórias. Depois, ela te, na Rua Curitiba, quase esquina com ga do Imaco, no Parque Municipal. De re- da censura da época. “Lembro-me dessa tendo o olho no ambiente e se dirigiu à foi embora no carro chapa-branca. Eu a Avenida Amazonas, que servia feijoa- pente, ele pediu a Bituca para mostrar a cena com emoção. Nós nos abraçamos e minha mesa. Havia anos que não a via. desci a Rua Paraíba a pé, chorando feito da de graça aos sábados e funcionava Dilma uma música nova, que os dois ha- relembramos os momentos felizes vivi- Ela disse que havia me reconhecido pe- um menino e relembrando trechos de como aparelho da Organização Revolu- viam acabado de compor naquela ma- dos juntos”, explica. los olhos. Depois, durante a conversa, nossa linda juventude”, concluiu.