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Uma Criança Chamada Coisa
Dave Pelzer
(c) Copyright 1995
Dave Pelzer
Publishedbyarrangement with
Health Communications, Inc, DeerfieldBeach, Florida, USA
Título original: A ChildCalled"It"
Copyright 2001 -AMBAR(r) - COMPLEXO INDUSTRIAL GRÁFICO S.A.
Rua Manuel Pinto de Azevedo, 363 - 4100-321 Porto
Telef. 22 615 1400 - Telefax 22 617 1407
E-mail: area.editorial@ ambar.pt
Visto Legal N.1 164379/01 - Julho de 2001
ISBN 972-43-0470-1
Tradução de Isabel Barbudo
Este livro é dedicado ao meufilho Stephen,
que, pelagraça divina, me ensinou
a dádiva do amor e alegriaatravés
dos olhos de uma criança.
Este livro é tambémdedicado
aos professores e funcionários
da Thomas Edison ElementarySchool, incluindo:
Agradecimentos
Vil
Stephen E. Ziegler
Athena Konstan
Peter Hansen
Janice Woods
BettyHowell
e a Enfermeira daEscola
Para todos, pela vossa corageme por teremposto a vossa carreira emrisco nesse dia fatídico:
5 de Março de 1973.
Vocês salvarama minha vida.
Desian
Í N D I C E
Notas do Autor 05
CAPÍTULO 1. A Libertação 06
CAPITULO 2. Bons Tempos 10
CAPÍTULO 3. UmMauRapaz 14
CAPÍTULO 4. A Luta pela Comida 19
CAPITULO 5. O Acidente 29
CAPÍTULO 6. Enquanto o Pai Está Fora 34
CAPITULO 7. A Oração do Senhor 42
Epílogo: SonomaCount, Califórnia 49
Perspectivas sobre os Maus Tratos a Crianças 51
NOTAS DO AUTOR
Alguns nomes deste livro foram alterados, de modo a manter a dignidade e a privacidade
das pessoas. Este livro, a primeira parte da trilogia, retrata a linguagem desenvolvida do ponto de
vista de uma criança. O tom e o vocabulário refletem a idade e os conhecimentos da criança
nesse tempo específico. Este livro baseia-se na vida da criança dos 4 aos 12 anos. A segunda parte
da trilogia, O Rapaz Perdido, baseia-se na sua vida dos 12 aos 18 anos.
AGRADECIMENTOS
Depois de anos de intenso labor, sacrifício, frustração, compromissos e decepções, este
livro é finalmente publicado e está à venda nas livrarias. Desejo aproveitar este momento para
homenagear todos aqueles que realmente acreditaramnesta cruzada.
A Jack Canfield, co-autor do fenomenal "bestseller" Chicken Soup for the Soul, pela sua
extrema amabilidade ao abrir-me uma grande porta. Jack é, de fato, uma personalidade rara que,
sem reservas, ajuda mais pessoas num só dia do que muitos de nós na vida inteira. Que Deus o
abençoe.
A Nancy Mitchell e Kim Wiele do Canfield Group pelo imenso entusiasmo e orientação.
Obrigado, minhas senhoras.
A Peter Vegso da Health Communicatios, Inc., tal como Christine Belleris, Matthew
Diener, Kim Weiss e todo o pessoal da HCI pela sua honestidade, profissionalismo e
amabilidade, que transformamo ato de publicar numprazer.
Calorosos agradecimentos a Irene Xanthos e Lori Golden pela sua tenaz orientação e pela
iniciativa. E umenorme obrigado ao Departamento de Arte pelo intenso trabalho e dedicação.
Um agradecimento especial a Marsha Donohoe, editora extraordinária, pelas horas que
passou a reelaborar e apagar do livro "a linguagem menos apropriada", de modo a dar ao leitor
uma versão clara e precisa desta história através dos olhos de uma criança. Para Marsha, era uma
questão de "Confiança do Lavrador."
A Patti Breitman, de Breitman Publishing Projects, pelo seu trabalho inicial e pelo
investimento.
A CindyAdams pela fé inquebrantável quando eumais precisei.
Um obrigado especial a Ric & Don em Rio Villa Resort, que me serviu de lar quando
estava fora do lar, por me proporcionarem o santuário perfeito durante a realização deste
projecto.
E, finalmente, a Phyllis Collen. Desejo-lhe paz e felicidade. Que Deus a abençoe!
Capítulo 1
A LIBERTAÇÃO
DIA5 DE MARÇO DE 1973, DALY CITY, CALIFÓRNIA
Estou atrasado. Tive de acabar de lavar a louça a tempo, senão não havia pequeno-
almoço; e já que não jantei ontem à noite, tenho de arranjar maneira de conseguir alguma coisa
para comer. A Mãe anda a correr e a gritar pelos meus irmãos. Ouço-a a passar pelo vestíbulo em
direção à cozinha. Volto a mergulhar as minhas mãos na água a ferver. É demasiado tarde. Ela
apanha-me comas mãos fora de água.
TRÁS! A Mãe bate-me no rosto e eu caio para o chão. Eu já aprendi a não ficar de pé
aparando o golpe. Aprendi, da pior forma, que ela entende isso como um desafio, o que significa
mais pancada ou, pior ainda, nada de comida. Volto à minha posição e evito olhá-la, enquanto ela
grita aos meus ouvidos. Eu ajo timidamente, respeitando as suas ameaças. "Por favor", digo para
mim próprio, "dá-me de comer. Bate-me de novo, mas eu tenho de comer". Um novo soco
empurra a minha cabeça contra o tampo do balcão de azulejo. Deixo as lágrimas de falsa derrota
descerem-me pela cara abaixo enquanto ela sai de rompante da cozinha, parecendo satisfeita
consigo própria. Depois de contar os seus passos, para ter a certeza de que ela se foi, respiro de
alívio. A cena resultou. A Mãe pode bater-me as vezes que quiser, mas eu não a deixei tirar-me a
vontade de sobreviver a todo o custo.
Acabo de lavar a louça e depois faço as minhas outras tarefas. Como recompensa, recebo
o pequeno-almoço: os restos da tigela de cereais de um dos meus irmãos. Hoje há flocos de
cereais coloridos'. Só restaramuns bocadinhos.
Na manhã seguinte a Mãe, numtomque raramente usa comigo, afirma:
−Temumbomdia!
Contemplo os seus olhos inchados e vermelhos. Ainda está na ressaca da embriaguez de
ontem à noite. O seucabelo, outrora belo e brilhante, parece agora umconjunto de cepos gastos.
Como de costume, não tem maquiagem. Está com excesso de peso e ela sabe. Em tudo, este se
tornou o aspecto típico da Mãe. Por estar tão atrasado, tenho de me apresentar na secretaria. A
secretária, de cabelos grisalhos, cumprimenta-me com um sorriso. Momentos mais tarde, a
enfermeira da escola sai e conduz-me ao seu gabinete, aonde vamos por rotina. Primeiro,
examina o meurosto e braços.
− O que é isso por cima do olho? − pergunta.
Aceno timidamente:
−Oh, fui contra a parede do vestíbulo... semquerer.
Ela sorri de novo e tira uma ficha da parte de cima de um armário. Percorre uma página
ouduas e inclina-se paramimpara me mostrar.
− Aqui − aponta para o papel − disseste isso na passada segunda-feira. Lembras-te?
− Sim, senhora − respondo eu.
"Oh não!", digo para mimpróprio, "Fiz algo errado... de novo".
A enfermeira deve ter visto a preocupação nos meus olhos. Põe a ficha para baixo e
abraça-me.
"Meu Deus", digo para mim próprio, "Ela é tão calorosa". Não quero largá-la, quero ficar
nos seus braços para sempre. Fecho os olhos com força e, por uns momentos, nada mais existe.
Ela dá-me pancadinhas na cabeça. Retraio-me por causa do inchaço da pancada que a Mãe me
deu esta manhã. A enfermeira então termina o abraço e deixa a sala. Corro a vestir-me de novo.
Ela não sabe, mas eufaço tudo o mais depressa possível.
A enfermeira volta passados alguns minutos com o Senhor Diretor Hansen e dois dos
meus professores, a menina Woods e o Sr. Ziegler. O Sr. Hansen conhece-me muito bem. Já
estive no seu gabinete mais do que qualquer outro miúdo da escola. Olha para o papel, enquanto
a enfermeira lhe comunicao que descobriu. Ele levanta-me o queixo. Tenho medo de olhá-lo nos
go, "Hoje não! Não percebe que hoje é sexta-feira?"
O Sr. Hansen assegura-me que não vai chamar a Mãe, e manda-me para a aula. Como já é
tarde de mais para a aula de homeroom 1
, vou diretamente para a aula de Inglês de Sra.
Wordsworth. Hoje há um teste sobre todos os Estados e respectivas capitais. Não estou
preparado. Geralmente souumbomaluno, mas nos últimos meses desisti de tudo na minha vida,
incluindo ultrapassar a minha desgraça através do trabalho da escola.
Ao entrar na sala, todos os alunos tapamo nariz e assobiam. A professora substituta, uma
mulher mais jovem, abana as mãos emfrente do rosto. Não está habituada ao meucheiro. Dá-me
o meu teste com o braço esticado, mas antes de eu me sentar na parte de trás da sala, perto de
uma janela aberta, sou de novo chamado ao gabinete do diretor. A sala inteira faz um alarido
dirigido a mim: a rejeição do quinto ano.
Corro para a secretaria e chego lá num ápice. A garganta está áspera e ainda arde por
causa do "jogo" que a Mãe jogou ontem contra mim. A secretária conduz-me à sala dos
professores. Depois de ela abrir a porta, demoro algum tempo a adaptar a vista. À minha frente,
sentados à volta de uma mesa, estão o meu professor da aula de homeroom, Sr. Ziegler, a minha
professora de Matemática, menina Moss, a enfermeira da escola, o Sr. Hansen e um oficial da
polícia.Os meus pés ficamgelados. Não sei se de frio oude nervoso.
O polícia explica porque é que o Sr. Hansen o chamou. Sinto-me a afundar-me, tremendo
na cadeira. O polícia pede-me que lhe fale da Mãe. Digo que não com a cabeça. Já demasiadas
pessoas conhecem o segredo e eu sei que ela vai descobrir. Uma voz suave chama-me. Acho que
é a menina Moss. Ela diz-me que está tudo bem. Respiro fundo, esfrego as mãos e
relutantemente falo-lhes acerca da Mãe e de mim. Então a enfermeira diz para eu me pôr de pé e
mostrar ao polícia a cicatriz no peito. Sem hesitar, digo-lhes que foi um acidente; que realmente
foi; a Mãe não queria apunhalar-me. Choro como se cuspisse as entranhas, dizendo-lhes que a
Mãe me castiga porque sou mau. Queria que me deixassem em paz. Sinto-me pegajoso por
dentro. Sei, ao fimde todos estes anos, que não há nada que alguémpossa fazer.
Uns minutos mais tarde, dão-me licença para me sentar no gabinete exterior. Quando eu
fecho a porta, todos os adultos olhampara mime abanamas cabeças de modo aprovador. Sento-
me, perturbado, olhando para a secretária a datilografar papéis. Parece que passou uma
eternidade, quando o Sr. Hansen me chama de volta à sala. A menina Woods e o Sr. Hansen
saem. Parecemfelizes, mas ao mesmo tempo preocupados. A menina Woods ajoelha-se e abraça-
me. Acho que nunca me esquecerei do odor do perfume do seu cabelo. Larga-me, voltando-se
para que eu não a veja a chorar. Agora estou realmente preocupado. O Sr. Hansen dá-me um
tabuleiro de almoço da cafeteria. "MeuDeus! Já é hora do almoço?" Pergunto a mimpróprio.
Engulo a comida tão depressa que mal a saboreio. Acabo o tabuleiro em tempo recorde.
Em breve retorna o diretor com uma caixa de bolos, avisando-me de que não coma tão depressa.
Não faço idéia do que se está a passar. Uma das hipóteses que ponho é que o meu pai, que está
separado da minha mãe, veio buscar-me. Mas sei que é uma fantasia. 0 polícia pergunta-me a
morada e número de telefone. "É isso!" Digo a mim próprio. "De volta ao inferno! Ela vai bater-
me de novo!"
O polícia escreve mais notas, enquanto o Sr. Hansen e a enfermeira olham. Em breve
fecha o bloco de notas e diz ao Sr. Hansen que já tem informações suficientes. Olho para o
1
homeroom: Aula de informações diárias sobre as atividades da escola, em que se
juntam turmas do mesmo ano. (N.T.)
diretor. O seu rosto está coberto de suor. Sinto o meu estômago a enrolar-se. Quero ir à casa de
banho e vomitar.
O Sr. Hansen abre a porta e vejo todos os professores no intervalo do almoço a olharem
para mim. Sinto-me tão envergonhado! "Eles sabem", digo para mim próprio. "Eles sabem a
verdade acerca da minha mãe; a real verdade". É tão importante que eles saibam que eu não sou
ummaurapaz. Quero tanto que gostemde mim, que me amem.
Sigo pelo vestíbulo. O Sr. Ziegler está a amparar a menina Woods. Ela está a chorar.
Ouço-a a fungar. Dá-me outro abraço e vai-se embora rapidamente. O Sr. Ziegler aperta-me a
mão.
− Sê umbomrapaz! − diz ele.
− Simsenhor. Voutentar! − é tudo o que consigo dizer.
A enfermeira da escola está em silêncio ao lado do Sr. Hansen. Dizem-me todos adeus.
Agora sei que voupara a cadeia. "Bom," digo para mimpróprio, "pelo menos ela não pode bater-
me, se euestiver na cadeia."
O oficial da polícia e eu saímos e passamos na cafeteria. Vejo alguns miúdos da minha
aula a jogar dodge bali 2
. Alguns param de jogar e gritam: "O David foi apanhado! O David foi
apanhado!" O polícia toca-me no ombro, dizendo-me que está tudo bem... À medida que me
conduz pela rua, afastando-nos da Escola Primária Thomas Edison, vejo alguns miúdos que
parecem perturbados com a minha partida. Antes de eu sair, o Sr. Ziegler disse-me que diria a
verdade aos outros miúdos; toda a verdade. Eu daria tudo para ter estado na aula quando
descobriramque não souassimtão mau.
Dentro de alguns minutos, chegamos à Estação da Polícia de DalyCity. Euestoumais ou
menos à espera que a Mãe esteja lá. Não quero sair do carro. O oficial abre a porta e gentilmente
segura-me pelo cotovelo e leva-me até um grande gabinete. Não há mais ninguém na sala. O
polícia senta-se numa cadeira ao canto, e aí datilografa várias folhas de papel. Observo o oficial
de perto, enquanto como devagar os meus bolos. Eu os saboreio o mais longamente possível.
Não sei quando é que estarei de novo a comer.
Já passa da uma da tarde quando o polícia acaba de escrever os seus papéis. Pede-me de
novo o número de telefone.
- Por quê? - digo a choramingar.
- Tenho que a chamar, David- diz ele gentilmente.
- Não! - ordeno eu. - Mande-me de volta à escola. Não percebe? Ela não pode descobrir
que eudisse!
Ele acalma-me com outro bolo, enquanto marca lentamente 7-5-6-2-4-6-0. Vejo o
mostrador preto girar, enquanto me levanto e me dirijo a ele, esticando o corpo para tentar ouvir
o telefone a tocar do outro lado. A Mãe responde. A voz dela mete-me medo. O polícia faz sinal
para eume afastar e respira fundo antes de dizer::
− Sra. Pelzer, fala o Oficial Smith do Departamento da Polícia de Daly City. O seu filho
David não vai hoje para casa. Ficará sob a custódia do Departamento da Juventude San Mateo.
Se tiver perguntas a fazer, pode fazê-las. − Põe o auscultador no descanso e sorri. − Afinal não
foi assimtão difícil, pois não? − pergunta-me.
Mas a sua expressão diz-me que ele está a convencer-se a si próprio mais do que a mim.
Umas milhas mais adiante, estamos na auto-estrada 280, dirigindo-nos para os arredores
de DalyCity. Olho para a direita e vejo um letreiro que diz: "A MAIS BELA AUTO-ESTRADA
DO MUNDO".
O oficial sorri de alívio quando deixamos a zona limítrofe da cidade.
2
dodge bali: Jogo americano. Um grupo atira uma bola de borracha e o outro grupo corre e
evita ser tocado pela bola. (N. T.)
− DavidPelzer − diz ele −estás livre.
− O quê? − pergunto, agarrando-me à minha única fonte alimentar. − Não percebo. Não
me vai levar para nenhuma cadeia?
Ele sorri de novo e gentilmente aperta-me o ombro.
− Não, David. Não tens de te preocupar com nada. A sério! A tua mãe nunca mais te vai
magoar.
Inclino-me para trás no assento. Um reflexo do sol bate-me nos olhos. Desvio-me dos
raios, enquanto uma únicalágrima me escorre pela face.
− Estoulivre?
Capítulo 2
BONS TEMPOS
Nos anos anteriores aos meus maus tratos, a minha família era o BradyBunch 3
da década
de 1960. Os meus dois irmãos e eu éramos favorecidos por termos os pais perfeitos. Qualquer
capricho nosso era satisfeito comamor e carinho.
Vivíamos numa casa modesta com dois quartos, naquilo que era considerado uma boa
zona emDalyCity. Lembro-me de olhar através da janela redonda da nossa sala de estar, numdia
claro, contemplando as torres de um laranja brilhante da ponte Golden Gate e o belo horizonte
de São Francisco.
O meu pai, Stephen Joseph, sustentava a família com o seu ordenado de bombeiro,
trabalhando mesmo no centro de São Francisco. Tinha um metro e setenta e cinco de altura e
pesava cerca de oitenta e cinco quilos. Tinha uns ombros e antebraços tão largos que fariam
inveja a qualquer halterofilista. As sobrancelhas grossas e negras condiziam com o cabelo. Eu
sentia-me especial quando ele me acenava e me chamava "Tigre".
A minha mãe, Catherine Roerva, era uma mulher de estatura e aparência medianas. Eu
nunca me consigo lembrar da cor dos seus cabelos ou olhos, mas a Mamã era uma mulher que
brilhava de amor pelos seus filhos. A sua grande vantagem era a determinação. A Mamã tinha
sempre idéias e era ela que se encarregava de todos os assuntos familiares. Uma vez, quando eu
tinha quatro ou cinco anos, a Mamã disse que estava doente, e lembro-me de sentir que ela não
parecia a mesma. Foi num dia em que o Pai estava a trabalhar na estação de bombeiros. Depois
de servir o jantar, a Mamã saiu da mesa a correr e começou a pintar os degraus que levavam à
garagem.
Ela tossia à medida que pincelava freneticamente cada degraucom tinta vermelha. A tinta
ainda não secara quando a Mamã começou a pregar rebordos de borracha nos degraus. A tinta
vermelha espalhava-se pelos rebordos e pela Mamã. Quando acabou, a Mamã entrou em casa e
deixou-se cair em cima do sofá. Lembro-me de lhe perguntar porque é que tinha posto os
rebordos antes de a tinta secar. Ela sorriue disse: "Eusó queria surpreender o teupapá".
No que tocava às lides domésticas, a Mamã era um perfeito diabinho das limpezas.
Depois de dar de comer aos meus dois irmãos, limpava o pó, desinfetava, esfregava e aspirava
tudo. Nenhuma divisão da nossa casa ficava sem ser mexida. À medida que fomos crescendo, a
Mamã fez questão emque fizéssemos a nossa parte, mantendo os nossos quartos limpos. Lá fora,
ela cuidava meticulosamente de um pequeno jardim que era a inveja da vizinhança. Tudo aquilo
em que a Mamã tocava transformava-se em ouro. Ela não acreditava em fazer fosse o que fosse
pela metade. A Mamã dizia-nos, muitas vezes, que deveríamos dar sempre o nosso melhor em
tudo o que fizéssemos.
A Mamã era, de fato, uma cozinheira talentosa. De todas as coisas que ela fazia pela
família, acho que refeições novas e exóticas eram as suas preferidas. E isto era especialmente
verdade naqueles dias em que o Pai estava em casa. A Mamã passava a maior parte do dia a
preparar uma das suas fantásticas refeições. Nalguns dias emque o Pai estava a trabalhar, a Mamã
levava-nos em excitantes voltas pela cidade. Um dia, levou-nos a Chinatown em São Francisco.
Enquanto passeávamos pela zona, a Mamã falou-nos acerca da cultura e da história do povo
chinês. Quando voltamos, a Mamã pôs o gira-discos a tocar e a casa encheu-se de belos sons do
3
Brady Bunch: Programa de televisão dos anos 60 e 70, que conta a história de uma família
numerosa e sem grandes problemas (N. T.)
Oriente. Depois decoroua sala de jantar comlanternas chinesas. Nessa noite, vestiuumquimono
e serviu algo que nos pareceu uma refeição muito exótica, mas deliciosa. No fim do jantar a
Mamã deu-nos bolinhos da sorte e leu-nos as legendas. Eu senti que a mensagem do bolinho me
conduziria ao meudestino.
Alguns anos mais tarde, quando eu já sabia ler, encontrei uma das minhas sinas. Dizia:
"Ama e honraa tua mãe, pois ela é o fruto que te dá a vida."
Mas, voltando ao assunto, a nossa casa estava cheia de animais de estimação: gatos, cães,
aquários cheios de peixes exóticos e uma tartaruga americana chamada "Thor". Eu lembro-me
melhor da tartaruga, porque a Mamã deixou-me escolher um nome para ela. Senti-me orgulhoso,
porque os meus irmãos tinham sido escolhidos para dar o nome aos outros animais e agora era a
minha vez. Pus ao réptil o nome da minha personagemfavorita dos desenhos animados.
Os aquários, com capacidade para perto de setenta litros, pareciam estar em todo o lado.
Havia pelo menos dois na sala de estar, e um cheio de guppies4
no nosso quarto. A Mamã,
criativamente, decorou os tanques aquecidos com areia colorida e folhas de metal colorido a
forrar a parte de trás; tudo o que ela achasse que tornava os tanques mais realistas. Sentávamos-
nos muitas vezes perto dos tanques, enquanto a Mamã nos falava das diferentes espécies de
peixes.
A mais fantástica das lições dadas pela Mamã veio num domingo de manhã. Um dos
nossos gatos estava a ter um comportamento estranho. A Mamã fez-nos sentar perto da gata,
enquanto explicava o processo do nascimento. Depois de todos os gatinhos terem deslizado em
segurança para fora da mãe gata, a Mamã explicou com grandes pormenores a maravilha da vida.
Fosse qual fosse a atividade da família, ela aparecia sempre com uma lição construtiva, embora
geralmente não tivéssemos consciência de que estávamos a ser ensinados.
Para a nossa família, durante esses bons anos, as férias começavam no Dia das Bruxas.
Numa noite de outubro, quando a enorme lua estava bemà vista, a Mamã fez-nos sair a correr de
casa para olhar para a "Grande Abóbora" no céu. Quando voltamos aos nossos quartos, disse-
nos para procurarmos debaixo das almofadas, onde encontramos carrinhos de corrida. Os meus
dois irmãos e eugritamos de alegriae o rosto da Mamã coroude orgulho.
No dia a seguir ao da Ação de Graças, a Mamã enfiava-se na cave e depois trazia enormes
caixas cheias de decorações de Natal. De pé sobre um escadote, pregava faixas decorativas às
traves do teto. Quando acabava, todas as divisões da casa tinham um toque da época. Na sala de
jantar, a Mamã colocava velas vermelhas de diferentes tamanhos sobre o tampo da sua tão
apreciada arca de carvalho. Desenhos a imitar flocos de neve adornavam todas as janelas na sala
de estar e de jantar. Luzes de Natal envolviam as janelas dos nossos quartos. Todas as noites eu
adormecia olhando para o brilho suave e colorido das luzes de Natal que apagavame acendiam.
A nossa árvore de Natal nunca tinha menos de dois metros e meio e a família inteira
demorava horas a decorá-la. Todos os anos, umde nós tinha a honra de lhe ser permitido colocar
o anjo no topo da árvore, enquanto o Pai nos segurava com os seus braços fortes. Depois de a
árvore estar decorada e o jantar acabado, amontoávamos-nos na carrinha e percorríamos a
vizinhança, admirando as decorações nas outras casas. A Mamã divagava sempre sobre as suas
idéias acerca de coisas maiores e melhores para o Natal seguinte, embora os meus irmãos e eu
soubéssemos que a nossa casa era sempre a melhor. Quando voltávamos a casa, a Mamã sentava-
nos junto à lareira para bebermos caldo de rainha.
Enquanto nos contava histórias, Bing Crosbycantava "White Christmas" na aparelhagem
de som. Eu ficava tão excitado durante esses períodos de férias que não conseguia dormir. Por
vezes, a mãe pegava-me ao colo, enquanto euadormecia ouvindo o crepitar do fogo.
4
guppies: Variedade de peixes tropicais ( N. T)
À medida que o Dia de Natal se aproximava, os meus irmãos e eu ficávamos cada vez
mais excitados. A pilha de presentes na base da árvore crescia de dia para dia. Quando o Natal
finalmente chegava, haviadúzias de prendas para cada umde nós.
Na véspera de Natal, depois de um jantar especial e das canções, tínhamos autorização
para abrir uma prenda. Depois disso, éramos mandados para a cama. Eu esticava sempre as
orelhas quando estava na cama, à espera do som das campainhas do trenó do Pai Natal. Mas
adormecia sempre, antes de ouvir a sua rena aterrar no telhado.
Antes do amanhecer, a Mamã entrava no nosso quarto e acordava-nos, murmurando: "O
Pai Natal já veio!" Umano, deua cada umde nós umchapéualto amarelo e de plástico e fez-nos
marchar para a sala de estar. Durava uma eternidade a rasgar o papel colorido dos embrulhos,
para descobrir os nossos novos brinquedos de Natal. Depois, a Mamã dizia-nos para corrermos
para o quintal das traseiras com as nossas roupas novas, para olharmos através da janela para a
nossa enorme árvore de Natal. Naquele ano, de pé no quintal, lembro-me de ver a Mamã a
chorar. Perguntei-lhe porque é que estava triste. A Mamã disse-me que estava a chorar de
felicidade por ter uma verdadeira família.
Pelo fato de o emprego do Pai lhe exigir que fizesse com freqüência turnos de 24 horas, a
Mãe levava-nos muitas vezes em passeios de um dia inteiro a locais como o parque Golden Gate
em São Francisco. Enquanto passeávamos devagar pelo parque, a Mamã explicava as diferenças
entre as áreas e como ela invejava as flores maravilhosas. Deixávamos sempre para o fim a visita
ao aquário Steinhart. Os meus irmãos e eu galgávamos as escadas e irrompíamos pelas pesadas
portas. Sentíamos-nos excitados ao inclinarmos-nos sobre a cerca feita de bronze e em forma de
cavalo-marinho, olhando lá para baixo para a pequena queda de água e para o lago onde viviam
os crocodilos e as enormes tartarugas. Quando eu era criança, era este o meu local favorito, no
parque inteiro. Uma vez tive medo ao imaginar cair da cerca abaixo, para o lago. Sem dizer uma
palavra, a Mamã deve ter sentido o meu medo. Olhou para mim e deu-me a mão com muita
suavidade.
A primavera significava piqueniques. A Mamã preparava um banquete de frango frito,
saladas, sanduíches e montes de sobremesas, na noite anterior. No dia seguinte, muito cedo, a
nossa família acelerava para o parque Junipero Serra. Aí, os meus irmãos e eu corríamos à
vontade pela relva e subíamos cada vez mais alto nos baloiços do parque. Por vezes
aventurávamos-nos num caminho novo. A Mamã tinha sempre de nos interromper as
brincadeiras, quando chegava a hora do almoço. Engolíamos a comida sem sequer a saborear e
rapidamente os meus irmãos e eu eclipsávamos-nos para partes desconhecidas, à procura de
grandes aventuras. Os nossos pais pareciam felizes por estarem deitados ao lado um do outro
sobre uma manta, sorvendo vinho tinto e vendo-nos a brincar.
Era sempre uma excitação quando a família ia de férias no verão. A Mamã era sempre o
cérebro por detrás destas viagens. Planeava todos os pormenores e inchava de orgulho à medida
que as atividades se desenrolavam. Geralmente viajávamos até Portola ou Memorial Park e
acampávamos na nossa tenda verde, de tamanho gigante, durante uma semana ou duas. Mas
sempre que o Pai nos levava para norte através da ponte Golden Gate, eu sabia que íamos ao
meu local favorito no mundo inteiro: o Rio Russo. Para mim, a mais memorável viagem ao rio
aconteceu no ano em que eu estava no jardim infantil. No último dia de aulas, a Mamã pediu que
me deixassem sair meia hora mais cedo. Quando o Pai tocou a buzina, eu galguei o pequeno
monte que separava a escola do carro que me esperava. Eu estava entusiasmado porque sabia
aonde íamos. Durante a viagem, fiquei fascinado com as vinhas, aparentemente intermináveis.
Quando entramos na calma cidade de Guerneville, abri a minha janela para cheirar o ar doce das
árvores de pau-brasil.
Cada dia representava uma nova aventura. Os meus irmãos e eu passávamos o dia a
trepar pelo tronco de uma árvore velha e queimada, com as nossas velhas botas, ou a nadar no
rio, na praia de Johnson. A praia de Johnson era um acontecimento para o dia inteiro. Nós
deixávamos a nossa cabana às nove, e voltávamos depois das três. A Mamã ensinou-nos a nadar
numa pequena poça do rio. Nesse verão, a Mamã ensinou-me a nadar de costas. Pareceu ficar
muito orgulhosa, quando finalmente eufui capaz.
Todos os dias pareciampolvilhados de magia. Umdia, depois do jantar, a Mamã e o Papá
levaram-nos aos três para contemplarmos o pôr do sol. Demo-nos as mãos, depois de passarmos
a cabana do Sr. Parker em direção ao rio. A água verde do rio estava lisa como vidro. Os gaios
ralhavam aos outros pássaros e uma brisa tépida percorria-me os cabelos. Sem uma palavra,
ficamos a olhar o sol que parecia uma bola de fogo, à medida que descia por detrás das árvores
altas, deixando faixas brilhantes azuis e cor-de-laranja no céu. Senti que alguémme punha o braço
sobre os ombros. Pensei que era o meu pai. Voltei-me e fiquei corado de orgulho ao ver que a
Mamã me apertava com força. Eu conseguia sentir o seu coração a bater. Nunca me senti tão
seguro e tão confortado como naquele momento, no Rio Russo.
Capítulo 3
UM MAU RAPAZ
A minha relação com a Mamã mudou, drasticamente, da disciplina para o castigo
desenfreado. Tornou-se por vezes tão difícil, que eu nem força tinha para rastejar dali para fora;
mesmo que isso significasse salvar a vida.
Enquanto criança, eu, se calhar, tinha uma voz mais potente do que os outros. Também
tinha o azar de ser apanhado a fazer asneiras, embora os meus irmãos e eu estivéssemos muitas
vezes a cometer o mesmo "crime". No início, eu era posto num canto do nosso quarto. Nessa
altura, eu já tinha medo da Mamã. Muito medo. Nunca lhe pedia que me deixasse sair. Sentava-
me e esperava que um dos meus irmãos viesse ao nosso quarto e pedia-lhe que perguntasse se o
Davidpodia sair e ir brincar.
Por essa altura, o comportamento da Mamã começou a mudar radicalmente. Por vezes,
enquanto o Pai estava a trabalhar, passava o dia inteiro deitada no sofá, com o robe vestido e a
ver televisão. A Mamã só se levantava para ir à casa de banho, tomar outra bebida, ou aquecer
restos de comida. Quando nos gritava, a sua voz transitava da mãe carinhosa para a bruxa má.
Em breve, o som da voz da Mãe começou a causar-me calafrios na espinha. Mesmo quando
vociferava para algumdos meus irmãos, eucorria a esconder-me no nosso quarto, esperando que
ela voltasse rapidamente para o sofá, para a bebida e para o seu programa de televisão. Passado
algum tempo, eu já sabia que espécie de dia iria ter, pelo modo como ela se vestia. Eu suspirava
de alívio sempre que a Mamã saía do quarto com um lindo vestido e o rosto maquiado. Nesses
dias, tinha sempre umsorriso.
Quando a Mãe decidiu que o "tratamento do canto" já não dava resultado, fui promovido
ao "tratamento do espelho". No princípio, era uma forma de castigo que não chamava a atenção.
A Mãe limitava-se a agarrar-me e a esmagar a minha cara contra o espelho, esfregando o meu
rosto, marcado pelas lágrimas, no vidro liso e refletor. Depois ordenava-me que repetisse: "Eu
sou um mau rapaz! Eu sou um mau rapaz! Eu sou um mau rapaz!" Obrigava-me então a ficar de
pé, fixando o espelho. Ficava ali com as mãos atadas aos flancos, balançando para a frente e para
trás e receando o momento emque o segundo intervalo para anúncios entrasse no ar.
Eu sabia que a Mãe em breve irromperia pelo vestíbulo para ver se a minha cara ainda
estava colada ao espelho e para me dizer quão repugnante eu era. Sempre que os meus irmãos
vinham ao quarto, enquanto eu estava ao espelho, olhavam para mim, encolhiam os ombros e
continuavam a brincar como se eu não estivesse ali. No início eu ficava ciumento, mas em breve
percebi que estavamapenas a tentar salvar a própria pele.
Quando o Pai estava no trabalho, a Mãe gritava e berrava muitas vezes, enquanto forçava
os meus irmãos e eu a procurarmos na casa inteira algo que ela tinha perdido. A procura
começava geralmente de manhã e demorava horas. Passado algum tempo, geralmente mandava-
me procurar na garagem que ficava debaixo de uma parte da casa, como uma cave. Mesmo aí, eu
tremia ao ouvir a Mãe gritar comumdos meus irmãos.
As buscas continuaram durante meses e, finalmente, eu era o único escolhido para
procurar as coisas dela. Uma vez, esqueci-me do que estava a procurar. Quando timidamente lhe
perguntei de que é que eu estava à procura, a Mãe deu-me um murro na cara. Estava deitada no
sofá e nem sequer deixou de ver o seu programa de televisão. O sangue escorreu-me pelo nariz e
comecei a chorar. A Mãe tirou um guardanapo da mesa, arrancou um bocado e enfiou-mo pelo
nariz acima.
−Sabes muito bemde que é que estás à procura! − gritou. − Agora vai buscá-lo!
Eu descia a correr para a cave, certificando-me de que fazia barulho suficiente para
convencer a Mãe de que estava a obedecer febrilmente à sua ordem. À medida que o "encontrem
as coisas" da Mãe se tornava mais habitual, comecei a fantasiar que encontrava o objeto perdido.
Imaginava-me a marchar escada acima com o meu troféu, e a Mamã a receber-me com beijos e
abraços. A minha fantasia incluía a família a viver feliz para sempre. Mas nunca encontrei
nenhuma das coisas perdidas da Mãe e ela nunca me deixou esquecer-me de que eu era um
perdedor incompetente.
Enquanto criança, percebi que a Mamã era diferente, como o dia da noite, quando o Pai
chegava a casa do trabalho. Quando a Mamã arranjava o cabelo e punha roupas bonitas, parecia
mais calma. Eu adorava quando o Papá estava em casa. Significava que não havia pancada,
tratamentos do espelho ou longas procuras de coisas perdidas. O Pai tornou-se o meu protetor.
Sempre que ele ia para a garagempara trabalhar numprojeto, euseguia-o. Se ele se sentava na sua
cadeira favorita para ler o jornal, eu punha-me aos seus pés. À noite, depois de a louça do jantar
ser tirada da mesa, o Pai lavava e eusecava. Eusabia que, enquanto estivesse ao seulado, não me
acontecia mal nenhum.
Um dia, antes de ele sair para o trabalho, tive um choque tremendo. Depois de se
despedir do Ron e do Stan, ajoelhou-se, apertou-me os ombros com força e disse-me para ser
"umbomrapaz". A Mãe estava de pé por detrás dele comos braços cruzados sobre o peito e um
sorriso cruel no rosto. Olhei para os olhos do meupai e soube nesse instante que euera um"mau
rapaz". Um arrepio gelado atravessou-me o corpo. Queria agarrar-me a ele e nunca o largar, mas
antes de conseguir dar-lhe umabraço ele levantou-se, voltou-se e saiu, semdizer mais nada.
Durante um certo tempo após o aviso do Pai, as coisas entre a Mãe e eu pareceram
acalmar. Quando o Papá estava emcasa, os meus irmãos e eubrincávamos no nosso quarto oulá
fora, até às três da tarde. A Mãe ligava então a televisão para podermos ver desenhos animados.
Para os meus pais, as três da tarde significavam "A Hora Feliz". O Pai cobria o tampo do balcão
da cozinha com garrafas de álcool e copos altos com desenhos. Cortava limões e limas,
colocando-os em pequenas taças ao lado de um pequeno jarro com cerejas. Frequentemente,
bebiam desde o meio da tarde até os meus irmãos e eu irmos para a cama. Lembro-me de os ver
a dançar à volta da cozinha com música do rádio. Ficavam muito juntinhos, e pareciam felizes.
Eu pensava que podia enterrar os maus tempos. Estava enganado. Os maus tempos estavam só a
começar.
Um mês ou dois mais tarde, num domingo, enquanto o Pai estava no trabalho, os meus
irmãos e euestávamos a brincar no nosso quarto, quando ouvimos a Mãe a correr pelo vestíbulo,
gritando conosco. O Ron e o Stan correram a esconder-se na sala de estar. Eu sentei-me
imediatamente na minha cadeira. Com os braços esticados e levantados, a Mãe dirigiu-se a mim.
À medida que se aproximava, eu fui encostando a cadeira à parede. Pouco depois a minha cabeça
batia na parede. Os olhos da Mãe estavam vidrados e vermelhos e o seu hálito cheirava a álcool.
Fechei os olhos, quando os socos começaram a atirar-me de um lado para o outro. Tentei
proteger o rosto com as mãos, mas a Mãe empurrava-as. Os seus golpes pareciam nunca mais
acabarem. Finalmente, levantei o meu braço esquerdo para cobrir o rosto. Quando a Mãe me
agarrou o braço, perdeu o equilíbrio e recuou um passo. Enquanto ela lutava violentamente para
recuperar a estabilidade, ouvi qualquer coisa a estalar e senti uma dor intensa no ombro e no
braço. A expressão de espanto no rosto da Mãe dizia-me que ela também tinha ouvido o som,
mas libertou-me o braço e foi-se embora como se nada tivesse acontecido. Segurei o braço,
enquanto ele começava a latejar de dor. Antes de poder, de fato, observar o meu braço, a Mãe
chamou-me para jantar.
Cheguei-me a um tabuleiro para tentar comer. Quando tentei ir buscar um copo de leite,
o meu braço esquerdo não reagiu. Os meus dedos mexiam-se, obedecendo às minhas ordens,
mas o meu braço zumbia e ficava inerte. Olhei para a Mãe, tentando suplicar com os olhos. Ela
ignorou-me. Eu sabia que algo se passava de muito grave, mas tinha demasiado medo para
pronunciar uma só palavra. Limitei-me a estar ali sentado, olhando fixamente para o meu
tabuleiro de comida. A Mãe, finalmente, deu-me licença para sair dali e mandou-me cedo para a
cama, dizendo-me para dormir no beliche de cima. Isto não era usual, pois eu sempre dormira no
de baixo. Já perto da madrugada adormeci por fim, com o meu braço esquerdo cuidadosamente
protegido pelo outro.
Não dormira ainda muito tempo quando a Mãe me acordou, explicando que eu tinha
caído do beliche durante anoite. Parecia muito preocupada como meuestado ao conduzir-me ao
hospital. Quando ela contou ao médico a minha queda do beliche de cima eu percebi, pelo olhar
que ele me lançou, que sabia que o meu ferimento não tinha sido um acidente. Eu estava outra
vez com demasiado medo para falar. Em casa, a Mãe inventou uma história ainda mais dramática
para o Pai. Na nova versão, a Mãe incluiuos seus esforços para me apanhar antes de euchegar ao
chão. Ao sentar-me no colo da Mãe, ouvindo-a mentir ao Pai, percebi que a minha mamã estava
doente. Mas o meu medo transformou o acidente no nosso segredo. Eu sabia que, se contasse a
alguém, o próximo "acidente" seria pior.
A escola era um abrigo para mim. Sentia-me excitado por estar longe da Mãe. Nos
intervalos, eu era uma espécie de selvagem. Corria pelo recreio coberto de cortiça à procura de
coisas novas e interessantes para fazer. Fazia amigos facilmente e sentia-me muito feliz por estar
na escola. Um dia, no fim da primavera, ao voltar a casa da escola, a Mãe atirou-me para dentro
do seuquarto. Então gritou-me, afirmando que eunão podia passar de classe porque era ummau
rapaz. Eu não percebi. Sabia que tinha mais testes positivos do que qualquer outro na turma.
Obedeciaà minha professora e sentia que ela gostava de mim. Mas a Mãe continuava a berrar que
eu tinha envergonhado a família e seria severamente punido. Decidiu que eu estava proibido de
ver televisão para sempre. Eu ia ficar sem jantar e tinha de cumprir todas as tarefas que ela
imaginasse. Depois de outra sova, fui mandado para a garagem, onde tive que ficar de pé até a
Mãe me mandar paraa cama.
Nesse verão, sem aviso, fui despejado na casa da minha tia Josie, a caminho do
acampamento. Ninguém me disse nada sobre o assunto e eu não compreendia por que. Senti-me
um marginal, quando a carrinha se afastou, deixando-me para trás. Senti-me tão triste e vazio!
Tentei fugir da casa da minha tia. Queria encontrar a minha família e, por alguma estranha razão,
queria estar com a Mãe. Não cheguei muito longe e a minha tia mais tarde informou a mãe da
minha tentativa. Na vez seguinte em que o Pai fez o turno de 24 horas, eu paguei pelo meu
pecado. A Mãe esbofeteou-me, esmurrou-me e deu-me pontapés até eu cair para o chão. Tentei
dizer-lhe que fugira porque queria estar com ela e com a família. Tentei dizer-lhe que tinha
sentido a falta dela, mas a Mãe recusou-se a deixar-me falar. Tentei mais uma vez e ela correu à
casa de banho, agarrou numa barra de sabão e enfiou-ma pela garganta abaixo. Depois disso,
deixei de ter autorização para falar, a não ser que recebesse ordens nesse sentido.
Voltar à mesma classe foi uma alegria. Eu tinha as bases e fui automaticamente
considerado o gênio da turma. Como não passei de ano, o Stan e eu estávamos no mesmo nível.
Durante os intervalos, eu ia à turma do Stan para brincar. Na escola éramos os melhores amigos;
contudo, emcasa, ambos sabíamos que eutinha de ser ignorado.
Um dia corri para casa para mostrar um teste. A Mãe atirou-me para o seu quarto,
gritando acerca de uma carta que recebera do Pólo Norte. Afirmava que a carta dizia que eu era
"um mau rapaz" e o Pai Natal não me traria presentes no Natal. Continuou a enfurecer-se,
dizendo que eu tinha envergonhado a família de novo. Eu fiquei numa grande confusão, à
medida que ela me atormentava sem descanso. Senti que estava a viver num pesadelo que a Mãe
tinha criado e rezava para que acordasse. Antes do Natal desse ano havia apenas um par de
presentes para mimdebaixo da árvore e vinhamde parentes afastados. Na manhã de Natal o Stan
atreveu-se a perguntar-lhe porque é que o Pai Natal me tinha trazido apenas dois desenhos para
colorir. Ela explicou-lhe dizendo que "o Pai Natal só traz brinquedos aos bons rapazes e
raparigas". Eu captei um olhar do Stan. Havia sofrimento nos seus olhos, e apercebi-me de que
ele compreendia os jogos excêntricos da Mãe. Uma vez que eu estava ainda sob castigo, no Dia
de Natal tive que vestir o meu fato de trabalho e desempenhar as minhas tarefas. Quando estava
a limpar a casa de banho, ouvi uma discussão entre a Mãe e o Pai. Ela estava zangada comele por
"ter ido nas suas costas" comprar-me os desenhos. A Mãe disse ao Pai que ela é que estava
encarregada de disciplinar "o rapaz", e que ele a tinha desautorizado ao comprar os presentes.
Quanto mais o Pai se justificava, mais furiosa ela ia ficando. Percebi que ele perdera, e que eu ia
ficando cada vez mais isolado.
Uns meses mais tarde a Mãe tornou-se a mãe-abrigo do Clube de Escoteiros. Sempre que
os outros miúdos vinham a nossa casa, ela tratava-os como reis. Alguns disseram-me que
gostariam que as suas mães fossem como a minha. Eu nunca respondi, mas perguntava a mim
próprio o que pensariam eles se soubessem a verdade. A Mãe só manteve essa ocupação durante
uns meses. Quando ela desistiu eu fiquei aliviado, porque isso significava que podia ir a casa dos
outros miúdos para os encontros das quartas-feiras.
Numa quarta-feira fui a casa, vindo da escola, para vestir o meu uniforme azul e dourado
do Clube dos Escoteiros. A Mãe e eu éramos os únicos em casa e, pela expressão do seu rosto,
percebi que ela queria sangue. Depois de esmagar o meu rosto contra o espelho do quarto,
agarrou-me no braço e arrastou-me para o carro. Durante a viagem para a casa da mãe-abrigo, a
minha Mãe disse-me o que me ia fazer quando chegássemos a casa. Eu fugi para a extremidade
do assento da frente do carro, mas não resultou. Ela estendeu o braço sobre o assento e agarrou-
me o queixo, levantando-me a cabeça na direção da dela. Os olhos da Mãe estavam raiados de
sangue e a voz pareciaa de uma louca. Quando chegamos a casa da mãe-abrigo, corri para a porta
a chorar. Lamuriei que tinha sido um mau rapaz e não podia ir à reunião. A mãe-abrigo sorriu
amavelmente, dizendo que gostaria que euviesse à próxima reunião. Foi a última vez que a vi.
Em casa, a Mãe ordenou-me que tirasse a roupa e ficasse de pé junto ao fogão. Eu tremia
de medo e de perturbação. Então ela revelou o meu crime hediondo. Disse-me que tinha ido
várias vezes à escola para observar os meus irmãos e eu a brincarmos no intervalo do almoço.
Afirmou que me vira sempre a brincar na relva, o que era absolutamente proibido pelas suas
regras. Eu respondi rapidamente que nunca brincava na relva. Sabia que ela se tinha enganado. A
minha recompensa por cumprir as regras da Mãe e dizer a verdade foi umsoco na cara.
A Mãe então acendeu os bicos de gás do fogão da cozinha. Disse-me que lera um artigo
acerca de uma mãe que obrigara o filho a deitar-se sobre um fogão a escaldar. Eu fiquei
imediatamente aterrorizado. O meu cérebro ficou paralisado, e as minhas pernas vacilaram. Eu
queria desaparecer. Fechei os olhos, desejando que ela estivesse longe. O meu cérebro fechou-se
quando senti a mão da Mãe agarrar-me o braço como se estivesse drogada.
− Tornaste-me a vida num inferno! − disse em tom de escárnio. −Agora é altura de eu te
mostrar como é o inferno!
Agarrando-me o braço, pô-lo na chama laranja-azulada. A minha pele parecia explodir
com o calor. Sentia o cheiro dos pelos chamuscados do meu braço queimado. Por mais que
lutasse, não conseguia que a Mãe me largasse o braço. Finalmente caí no chão, sobre as mãos e os
joelhos, e tentei soprar para o meubraço.
−É uma pena o bêbedo do teupai não estar aqui para te salvar − disse emtomsibilante.
Então, ordenou-me que subisse para cima do fogão, para ela me ver a arder. Eu recusei,
chorando e implorando. Estava com tanto medo, que batia com os pés em protesto. Mas a Mãe
continuava a empurrar-me para cima do fogão. Euolhava para as chamas, rezando para que o gás
acabasse.
De repente, comecei a perceber que, quanto mais tempo eu conseguisse manter-me
afastado do topo do fogão, mais chances tinha de sobreviver. Sabia que o meu irmão Ron
chegaria em breve da reunião dos escoteiros e sabia que a Mãe nunca agia desta forma bizarra
quando mais alguém estava em casa. Para sobreviver eu tinha que empatar. Lancei um olhar para
o relógio da cozinha atrás de mim. O segundo ponteiro parecia andar tão devagar. Para manter a
Mãe desorientada, comecei a fazer perguntas emtomlamentoso. Isto ainda a enfureceumais e ela
começou a desferir-me socos na cabeça e no peito. Quanto mais me batia, mais eu me ia
apercebendo de que ganhara! Tudo era melhor do que arder no fogão.
Finalmente, ouvi a bandeira da porta da frente a abrir-se. Era o Ron. O meu coração
encheu-se de alívio. O rosto da Mãe ficou sem sangue. Ela sabia que perdera. Por um instante a
Mãe gelou. Aproveitei para agarrar nas roupas e correr para a garagem, onde me vesti
rapidamente. Encostei-me à parede e comecei a choramingar, até que compreendi que eu a
vencera. Eu empatara uns minutos preciosos. Eu usara a cabeça para sobreviver. Pela primeira
vez, euvencera!
De pé, ali sozinho naquela garagem úmida e escura, eu soube, pela primeira vez, que
podia sobreviver. Decidi que usaria qualquer tática em que pudesse pensar para derrotar a Mãe,
ou para a deter na sua lamentável obsessão. Sabia que, se eu quisesse viver, tinha que pensar com
antecedência. Não podia continuar a chorar como um bebê indefeso. Para poder sobreviver, eu
nunca podia ceder. Nesse dia, jurei a mim próprio que nunca mais daria àquela megera a
satisfação de me ouvir implorar que não me batesse mais.
No frio da garagem, todo o meu corpo tremia, não só de gelada ira, mas também de
intenso medo. Usei a língua para lamber a ferida e aliviar o meu braço latejante. Apetecia-me
gritar, mas recusei-me a dar-lhe o prazer de me ouvir chorar. Eu mantive-me de costas direitas.
Consegui ouvir a Mãe falar com o Ron lá em cima, dizendo-lhe quão orgulhosa estava dele, e
quão tranqüila estava quanto à possibilidade de ele se tornar igual ao David: ummaurapaz.
Capítulo 4
A LUTA PELA COMIDA
No verão a seguir ao incidente da queimadura, a escola tornou-se a minha única
esperança de salvação. Exceto durante o breve espaço de uma ida à pesca, as coisas com a Mãe
eram o jogo do toca e foge, ou do esmaga e arremessa: ela esmagava-me e eu arremessava-me
para a solidão da cave/garagem. O mês de setembro trouxe a escola e a felicidade. Eutinha roupa
nova e uma lancheira nova e brilhante. Pelo fato de a Mãe me fazer usar as mesmas roupas
semana após semana, emoutubro as minhas roupas estavam gastas, rasgadas e mal-cheirosas. Ela
nem se preocupava em disfarçar as feridas no meu rosto e braços. Se me interrogassem, eu já
tinha preparadas as desculpas que a Mãe me tinha posto na cabeça.
Nessa altura, ela "esquecia-se" de me dar o jantar. O pequeno-almoço não era muito
melhor. Um dia, tive autorização para comer os restos dos flocos de cereais dos meus irmãos,
mas só se cumprisse todas as minhas tarefas antes de ir para a escola.
À noite eu tinha tanta fome que o meu estômago rugia como se eu fosse um urso
zangado e ficava acordado a pensar na comida. "Talvez amanhã eu possa jantar", dizia para mim
próprio. Horas mais tarde, deixava-me adormecer, sonhando com comida. Sonhava sobretudo
com hamburgers colossais, com todos os acompanhamentos. Nos meus sonhos agarrava no meu
prêmio e levava-o à boca. Visualizava cada bocadinho do hamburger. A carne pingava de
gordura, e fatias grossas de queijo borbulhavam em cima. Os condimentos infiltravam-se entre a
alface e o tomate. Ao trazer o hamburger na direção do rosto, abria a boca para devorar o meu
prêmio, mas não acontecia nada. Tentava repetidamente, mas, por mais que lutasse, não
conseguia saborear um pedaço da minha fantasia. Momentos mais tarde, acordava com o
estômago mais vazio do que antes. Não conseguia matar a fome, nemsequer nos meus sonhos.
Pouco depois de começar a sonhar comcomida, passei a roubar comida na escola. O meu
estômago encolhia-se, não só de medo, mas também de ansiedade. Ansiedade, porque sabia que
dentro de segundos teria alguma coisa para pôr no estômago. Medo, porque também sabia que,
em qualquer altura, podia ser apanhado a roubar. Roubava sempre a comida antes de as aulas
começarem, enquanto os meus colegas brincavam fora do edifício. Encostava-me à parede, na
parte de fora da minha aula de homeroom, punha a minha lancheira ao pé de uma outra e ajoelhava-
me para que ninguém me visse a pilhar os seus lanches. As primeiras vezes foram fáceis, mas
depois de vários dias alguns estudantes começaram a descobrir que as barras de chocolate e
outras sobremesas tinham desaparecido. Passado pouco tempo, os meus colegas de turma
começaram a odiar-me. O professor disse ao diretor que, por sua vez, informou a minha Mãe. A
luta pela comida tornou-se um ciclo. O relatório que o diretor fazia à Mãe levava a que eu tivesse
mais tareia e menos comida emcasa.
Nos fins-de-semana, para me castigar dos meus roubos, a Mãe recusava-se a alimentar-
me. No domingo à noite, crescia-me água na boca quando começava a imaginar formas novas e
seguras de roubar comida sem ser apanhado. Um dos meus planos era roubar de outras turmas,
onde eu não era tão conhecido. À segunda-feira de manhã, eu saía a correr do carro da Mãe para
uma nova turma, a fim de tirar coisas das lancheiras. Consegui manter-me durante algum tempo,
mas não duroumuito até o diretor relacionar os roubos coma minha pessoa.
Em casa o castigo duplo da fome e dos ataques violentos continuou. Nessa altura, para
todos os efeitos práticos, eu já não era um membro da família. Eu existia, mas era quase
completamente ignorado. A Mãe até tinha deixado de usar o meu nome; referia-se a mim apenas
como: O Rapaz. Não era autorizado a tomar as refeições com a família, brincar com os meus
irmãos, ou ver televisão. Estava encalhado na casa. Não podia olhar nem falar com ninguém.
Quando vinha da escola para casa, cumpria imediatamente todas as tarefas que a Mãe me atribuía.
Quando as tarefas acabavam, ia diretamente para a cave, onde ficava de pé até ser chamado para
levantar a mesa ou lavar a louça. Ficou muito claro que ser apanhado sentado ou deitado lá em
baixo na cave me trariaconseqüências terríveis. Eutinha-me tornado o escravo da Mãe.
O Pai era a minha única esperança e ele fazia tudo o que podia para me passar pedaços de
comida. Tentava embebedar a Mãe, pensando que o álcool podia pô-la mais bem-disposta.
Tentava levar a Mãe a mudar de opinião quanto à minha alimentação. Tentou até fazer acordos,
prometendo-lhe este mundo e o outro. Mas todas as suas tentativas foram em vão. A Mãe era
firme como uma rocha. Se possível, a bebedeira ainda a tornava pior. A Mãe foi-se tornando num
monstro.
Eu sabia que os esforços do Pai para me ajudar estavam a causar um mau ambiente entre
ele e a Mãe. Em breve começaram a surgir discussões a meio da noite. Da cama eu conseguia
ouvir o ritmo a crescer, até um clímax de estalar os ouvidos. Nessa altura estavam ambos
bêbedos e eu ouvia a Mãe gritar toda a espécie de impropérios. Fosse qual fosse o assunto inicial
da luta, eu rapidamente me tornava o objeto da disputa. Sabia que o Pai estava a tentar ajudar,
mas na cama eu continuava a tremer de medo. Sabia que ele perderia, tornando as coisas piores
para mim no dia seguinte. Quando começavam a brigar, a Mãe arrancava no carro com os pneus
a guincharem. Geralmente voltava em menos de uma hora. No dia seguinte, ambos agiam como
se nada tivesse acontecido. Eu ficava agradecido, quando o Pai arranjava uma desculpa para
descer à cave e me passava umbocado de pão. Prometia-me sempre que continuaria a tentar.
À medida que as discussões entre a Mãe e o Pai se tornarammais freqüentes, ele começou
a mudar. Frequentemente, após uma discussão, enchia um saco de roupa e partia para o trabalho
a meio da noite. Depois de ele sair, a Mãe arrancava-me da cama e arrastava-me para a cozinha.
Enquanto eu permanecia de pé, tremendo no meu pijama, empurrava-me de um lado para o
outro da cozinha. Uma das minhas técnicas de resistência consistia em deitar-me no chão, como
se não tivesse força suficiente para me manter de pé. Essa técnica não durou muito tempo. A
Mãe puxava-me pelas orelhas e gritava-me para o rosto com o seu hálito alcoólico, minutos
seguidos. Nessas noite a sua mensagem era sempre a mesma: eu era o motivo dos problemas
entre ela e o Pai. Muitas vezes, eu ficava tão cansado, que as minhas pernas tremiam. A minha
única saídaera fixar o chão e esperar que a Mãe ficasse semforças.
Quando eu mudei de classe, a Mãe ficou grávida do quarto filho. A minha professora, a
menina Moss, começou a ter um interesse especial por mim. Começou por me fazer perguntas
acerca da minha falta de atenção. Eu mentia, dizendo que tinha ficado a ver televisão até tarde.
As minhas mentiras não eramconvincentes e ela continuoua fazer perguntas, não só sobre o fato
de eu estar com sono, mas também sobre o estado da minha roupa e as marcas no meu corpo. A
Mãe ensaiava-me sempre sobre o que dizer a respeito do meu aspecto. Por isso eu limitava-me a
contar à professora a história que a mãe queria.
Os meses foram passando e a menina Moss tornou-se mais persistente. Um dia,
participou finalmente a sua preocupação ao diretor da escola. Ele conhecia-me bem como o
ladrão de comida, por isso mandou chamar a Mãe. Quando voltei a casa nesse dia, foi como se
alguém tivesse largado uma bomba atômica. A Mãe estava mais violenta do que nunca. Estava
furiosa, porque um professor "Hippie" a tinha acusado de maltratar uma criança. A Mãe disse
que se iria encontrar com o diretor no dia seguinte, para se defender das falsas acusações. No fim
da sessão, o meunariz sangroupor duas vezes e faltava-me umdente.
Quando voltei da escola, na tarde seguinte, a Mãe sorria, como se tivesse ganho um
milhão de dólares nas corridas de cavalos. Contou-me como se tinha vestido para ir ver o diretor,
com o seu bebê Russel nos braços. Contou-me como explicara ao diretor que o David tinha uma
imaginação prodigiosa. A Mãe disse-lhe que o David se tinha muitas vezes golpeado e arranhado
a si próprio para chamar a atenção, desde o recente nascimento do seu novo irmão, Russel. Eu
conseguia imaginá-la a usar o seu encanto de serpente, à medida que acariciava o Russel para que
o diretor visse. No fim da conversa, a Mãe disse que tinha imenso prazer em colaborar com a
escola. Disse que podiam chamá-la sempre que houvesse qualquer problema com o David. A
Mãe disse que o pessoal da escola tinha recebido instruções para não dar atenção às minhas
loucas histórias sobre bater em crianças ou não lhes dar comida. Estar ali de pé na cozinha nesse
dia, ouvindo-a gabar-se, deu-me uma sensação de vazio total. Enquanto me contava o encontro,
eu sentia a sua confiança fortalecida e essa confiança fez-me temer pela minha vida. Desejei
eclipsar-me e desaparecer para sempre.
Nesse verão, a família passou férias junto do Rio Russo. Embora me desse melhor com a
mãe, o sentimento mágico tinha desaparecido. As corridas pelo feno, os churrascos e as histórias
eram coisas já antigas. Passávamos cada vez mais tempo dentro da cabana. Até mesmo as
excursões à praia de Johnson eramraras.
O Pai tentou tornar as férias mais divertidas, levando-nos ao novo super-escorrega. O
Russel, que era ainda umser cambaleante, ficou na cabana com a Mãe. Um dia, quando o Ron, o
Stan e eu estávamos a brincar na cabana de um vizinho, a Mãe chegou à porta e gritou para que
entrássemos imediatamente. Já dentro da cabana, fui admoestado por fazer demasiado barulho.
Para castigo, não tinha autorização para ir com o Pai e os meus irmãos ao super-escorrega.
Sentei-me numa cadeira aumcanto, a tremer, desejando que acontecesse alguma coisa de modo a
que os três não se fossem embora. Eu sabia que a Mãe tinha qualquer coisa terrível na cabeça.
Logo que eles partiram, trouxe uma das fraldas sujas do Russel. Esfregou-me a fralda na cara. Eu
tentei manter-me sentado, perfeitamente quieto. Sabia que se me mexesse seria pior. Não olhei
para cima. Não conseguia ver a Mãe por cima de mim, mas conseguia ouvir a sua respiração
pesada. Depois do que me pareceu ser uma hora, ela ajoelhou-se a meu lado e, numa voz
sarcástica, disse:
−Come-a.
Euolhei emfrente, evitando os seus olhos. "Nempensar!" disse para mimpróprio. Como
em muitas vezes anteriores, evitá-la era a pior coisa. A Mãe abanou-me de um lado para o outro.
Eumantive-me agarrado à cadeira, temendo que, se caísse, ela saltasse para cima de mim.
−Eudisse come-a! − afirmouemtomde escárnio.
Mudando de tática, comecei a chorar. "Empata-a", pensei comigo próprio. Comecei a
contar mentalmente, tentando concentrar-me. O tempo era o meu único aliado. A Mãe
respondeuao meuchoro commais socos na cara e só parouquando ouviuo Russel a chorar.
Mesmo com a cara coberta de fezes, eu estava satisfeito. Pensei que podia vencer. Tentei
atirar o pano fora, arremessando-o para o chão de madeira. Ouvia a Mãe cantando suavemente
para o Russel, e imaginei-o embalado nos seus braços. Rezei para que ele não adormecesse. Uns
minutos mais tarde a minha sorte acabou.
Ainda a sorrir, a Mãe voltou à sua batalha. Agarrou-me pela parte de trás do pescoço e
levou-me até à cozinha. Ali, aberta sobre o tampo do balcão, estava outra fralda cheia. O cheiro
deu-me volta ao estômago.
−Agora, vais comê-la! − disse.
A Mãe tinha a mesma expressão nos olhos que tivera no dia em que queria que eu me
deitasse em cima do fogão a gás, lá em casa. Sem mover a cabeça, virei os olhos, à procura do
relógio da cor das margaridas que eu sabia estar na parede. Alguns segundos depois, percebi que
o relógio estava atrás de mim. Sem o relógio, sentia-me indefeso. Eu sabia que tinha de me
concentrar nalguma coisa, de modo a manter algum controlo sobre a situação. Antes de eu
conseguir encontrar o relógio, as mãos da Mãe agarraram-me o pescoço. Repetiude novo:
−Come-a!
Eu sustive a respiração. O cheiro era nauseabundo. Tentei focalizar o canto superior da
fralda. Os segundos pareciam horas. A Mãe deve ter percebido o meu plano. Esfregou-me a cara
na fralda de umlado parao outro.
Eu previ o que ela ia fazer. Ao sentir a cabeça empurrada para baixo, fechei os olhos com
força e mantive a boca fechada. O meunariz bateulá primeiro. Uma sensação tépida deslizou-me
pelas narinas. Tentei reter o sangue, inspirando. Bocados de fezes subiram-me pelo nariz,
juntamente com o sangue. Pus as mãos em cima do tampo do balcão e tentei libertar-me. Torci-
me de um lado para o outro com toda a minha força, mas ela era demasiado forte. De repente, a
Mãe soltou-me.
−Vêmaí! Vêmaí! − arquejou.
A Mãe tirouumpano do lava-louça e atirou-mo.
−Limpa a merda da cara − rugiu, enquanto limpava as manchas castanhas do tampo do
balcão.
Limpei a cara o melhor que pude, mas antes, deitei bocados de fezes pelo nariz.
Momentos mais tarde, a Mãe enfiou-me umguardanapo no meunariz ensangüentado e ordenou-
me que me sentasse no canto. Fiquei ali sentado o resto da tarde, ainda como cheiro da fralda no
nariz.
A família nunca mais voltouao Rio Russo.
Em setembro voltei à escola com a roupa do ano anterior e a minha velha e gasta
lancheira verde. Eu era uma miséria ambulante. A Mãe embrulhava o mesmo almoço todos os
dias: duas sanduíches de manteiga de amendoim e alguns pedaços de cenoura. Como eu já não
era um membro da família, já não podia ir na carrinha para a escola. A Mãe mandava-me ir a
correr para a escola. Sabiaque eunão chegaria a tempo de roubar comida aos meus colegas.
Na escola, eu era um completo marginal. Nenhum miúdo queria nada comigo. Durante o
intervalo do almoço, enfiava as sanduíches pela garganta abaixo, enquanto ouvia os meus antigos
amigos inventarem canções sobre mim. "David, o Ladrão de Comida" e "Pelzer, o Mal-Cheiroso"5
eram duas das favoritas. Não tinha ninguém com quem falar ou com quem brincar. Sentia-me
completamente só.
Em casa, de pé durante horas na garagem, passava o tempo a imaginar novas formas de
arranjar comida. O Pai, de vez em quando, tentava passar-me bocados de comida, mas com
pouco êxito. Acabei por acreditar que, se conseguisse sobreviver, eu teria que me bastar a mim
próprio. Esgotara todas as possibilidades na escola. Os alunos agora escondiam todos as
lancheiras ou fechavam-nas à chave no armário da sala de aula. Os professores e o diretor
conheciam-me e observavam-me atentamente. Eu não tinha praticamente nenhuma hipótese de
roubar mais comida na escola.
Finalmente concebi um plano que poderia funcionar. Os alunos não tinham autorização
para sair do recreio durante o intervalo do almoço; por isso ninguém esperaria que eu saísse. A
minha idéia era escapulir-me do recreio e correr para a mercearia local para roubar bolos, pão,
batatas fritas ou qualquer outra coisa. Na minha mente, planeei cada passo do meu esquema.
Quando corri para a escola na manhã seguinte, contei todos os passos, de modo a poder calcular
o meu ritmo e mais tarde aplicá-lo à minha excursão à mercearia. Ao fim de algumas semanas,
tinha toda a informação de que precisava. A única coisa que faltava era encontrar coragem para
tentar o plano. Sabia que demoraria mais tempo a ir da escola à mercearia porque era a subir; por
isso, calculei 15 minutos. Voltar para baixo seria mais fácil; então calculei 10 minutos. Isso
significava que tinha apenas 10 minutos na mercearia.
Todos os dias, quando corria para a escola e da escola, tentava correr mais depressa,
marcando cada passo como se fosse um atleta de maratona. À medida que os dias passavam e o
meu plano se tornava mais sólido, a minha fome foi substituída por fantasias. Eu fantasiava,
sempre que desempenhava as minhas tarefas em casa. De gatas, enquanto esfregava os azulejos
da casa de banho, imaginava que era o príncipe da história O Príncipe e o Pobre. Enquanto
Príncipe, eusabia que podia pôr fimao papel de criado, sempre que quisesse.
5
"Pelzer, o Mal-Cheiroso”: No original: "Pelzer-Smellzer". Joga-se aqui com a semelhança
sonora entre o apelido da personagem (Pelzer) e a designação "Smellzer", derivada de "Smell"
(cheiro). (N. T.)
Na cave permanecia quieto com os olhos fechados, sonhando que era um herói de banda
desenhada. Mas os meus devaneios eram sempre interrompidos pelos gritos da fome e os meus
pensamentos depressa voltavamao meuplano de roubar comida.
Mesmo quando eu tinha a certeza de que o meu plano era infalível, sentia demasiado
medo para o pôr em ação. Durante o intervalo do almoço na escola, andava à volta do recreio,
dando desculpas a mim próprio pela minha falta de coragem para correr até à mercearia. Dizia a
mimpróprio que seria apanhado ouque os meus cálculos do tempo não eramrigorosos. Durante
a discussão comigo próprio o meuestômago grunhia, chamando-me "cobardolas".
Finalmente, depois de vários dias sem jantar e só com os poucos restos ao pequeno-
almoço, decidi fazê-lo. Momentos depois de a campainha do intervalo do almoço tocar, acelerei
pela rua acima, afastando-me da escola com o coração a bater e os pulmões a rebentar. Cheguei à
mercearia em metade do tempo que tinha calculado. Ao percorrer os corredores da mercearia,
senti-me como se todos estivessem a olhar para mim. Senti-me como se todos os clientes
estivessem a falar acerca da criança mal-cheirosa e esfarrapada. Foi então que percebi que o meu
plano não tinha hipóteses, porque não tinha considerado o impacto que podia ter nas outras
pessoas. Quanto mais me preocupava com o meu aspecto, mais o medo se apoderava do meu
estômago. Enregelei no corredor, sem saber o que fazer. Comecei lentamente a contar os
segundos. Comecei a pensarem todas as vezes que passei fome. De repente, sem pensar, agarrei a
primeira coisa que vi na prateleira, saí do armazém a correr e acelerei até à escola. Apertado na
minha mão estava o meuprêmio: uma caixa de bolachas.
Ao aproximar-me da escola, escondi o que era meu sob a camisa, no lado que não tinha
buracos, e atravessei o pátio. Lá dentro, enfiei a comida no caixote do lixo da sala de estar dos
rapazes. Mais tarde, depois de dar uma desculpa ao professor, voltei à sala para devorar o meu
prêmio. Já sentia água naboca, mas o meucoração desfaleceuquando olhei para o caixote do lixo
vazio. Todos os meus cuidadosos planos e toda a minha esperança de que iria comer,
desperdiçados. A contínua tinha despejado o caixote antes de eu conseguir escapulir-me até à
sala.
Nesse dia o meu plano falhou, mas tive sorte noutras tentativas. Uma vez consegui
esconder o meu tesouro na minha secretária na sala de homeroom para vir a descobrir, no dia
seguinte, que tinha sido transferido para a escola do outro lado da rua. Exceto pelo fato de perder
a comida roubada, fiquei satisfeito com a transferência. Sentia que agora tinha uma nova
possibilidade de roubar. Não só conseguia de novo tirar comida aos meus colegas de turma,
como corria até à mercearia cerca de uma vez por semana. Por vezes, na mercearia, se eu sentia
que as coisas não estavam bem, não roubava nada. Como sempre, acabei por ser apanhado. O
gerente chamou a Mãe. Em casa, fui sovado sem piedade. A Mãe sabia por que é que eu roubava
comida e o Pai também, mas mesmo assim recusava-se a alimentar-me. Quanto mais ansiava por
comida, mais tentava arranjar umplano melhor para a roubar.
Depois do jantar a Mãe tinha o hábito de despejar os restos dos pratos para um pequeno
caixote do lixo. Então mandava-me vir da cave, onde estivera de pé enquanto a família comia.
Era minha obrigação lavar a louça. Ali, de pé, com as mãos na água a ferver, sentia o cheiro dos
restos do jantar no pequeno caixote do lixo. No início a minha idéia causava-me náuseas; mas
quanto mais pensava nela, melhor me parecia. Era a minha única esperança de conseguir comida.
Acabei de lavar a louça o mais depressa que pude e despejei o lixo na garagem. Tinha água na
boca ao olhar para a comida e tirei com cuidado os bons pedaços, deitando fora bocados de
papel oupontas de cigarros e engolia comida o mais depressa possível.
Como de costume o meu novo plano teve um fim abrupto quando a Mãe me apanhou
em flagrante. Durante algumas semanas deixei a rotina do lixo, mas acabei por ter de voltar a ela,
de modo a silenciar os grunhidos do meu estômago. Uma vez comi restos de carne de porco.
Horas depois estava todo enrolado com umas dores terríveis Tive diarréia durante uma semana.
Enquanto eu estava doente, a Mãe informou-me que tinha de propósito deixado a carne no
frigorífico durante duas semanas, para que ficasse estragada antes de a deitar fora. Ela sabia que
eu não resistiria a roubá-la. À medida que o tempo foi passando, a Mãe mandava-me trazer-lhe o
caixote do lixo para que pudesse inspecioná-lo, quando estava deitada no sofá. Nunca veio a
saber que eu embrulhava comida em guardanapos de papel e a escondia no fundo do caixote. Eu
sabia que ela não iria sujar os dedos mexendo no fundo do caixote; por isso o meu esquema
funcionoupor umtempo.
A Mãe pressentia que eu estava a conseguir comida de algum modo. Por isso começou a
aspergir amoníaco no caixote do lixo. Depois disso desisti do lixo em casa e concentrei-me em
encontrar outro modo de arranjar comida na escola. Depois de ser apanhado a roubar os almoços
dos outros miúdos, a idéia seguinte foi extorquir almoços congelados da cafetaria da escola.
Controlei o tempo do meu intervalo na sala de estar, de modo a que o professor me
deixasse sair da sala de aula logo depois de o camião de entregas deixar o seu fornecimento de
almoços congelados. Entrei subrepiciamente na cafetaria e apanhei alguns tabuleiros congelados,
fugindo a seguir para a sala de estar. Aí, sozinho, engoli os cachorros quentes congelados em
grandes pedaços, tão depressa que quase sufocava durante o processo. Depois de encher o
estômago, voltei para a sala de aula, sentindo-me orgulhoso porque eu tinha-me alimentado a
mimpróprio.
Quando corria da escola para casa, nessa tarde, só conseguia pensar em roubar comida da
cafetaria no dia seguinte. Minutos mais tarde a Mãe fez-me mudar de idéias. Arrastou-me para a
casa de banho e bateu-me no estômago com tanta força, que eu me curvei todo. Puxando-me
para que eu ficasse de frente para a sanita, ordenou-me que enfiasse um dedo pela garganta
abaixo. Eu resisti. Tentei o meu velho truque de contar mentalmente, enquanto olhava para a
sanita de louça, "Um... dois..." Não consegui chegar ao três. A Mãe meteu-me o dedo dela na
boca, como se quisesse tirar-me o estômago pela garganta. Sacudi-me em todas as direções, num
esforço para a afastar. Finalmente largou-me, mas só quando concordei emvomitar para ela ver.
Eu sabia o que é que ia acontecer a seguir. Fechei os olhos, enquanto bocados de carne vermelha
caíamna sanita. A Mãe estava atrás de mim, comas mãos na anca e disse:
− Eujá sabia. O teupai vai saber disto!
Contraí-me à espera dos socos que certamente aí vinham, mas não aconteceu nada. Após
alguns segundos, olhei à roda e descobri que a Mãe tinha saído da casa de banho. Eu sabia que o
episódio não acabara. Momentos mais tarde, voltou com uma pequena tigela. Ordenou-me que
tirasse a comida parcialmente digerida da sanita e a pusesse na tigela. Como o Pai estava nas
compras nessa altura, a Mãe estavaa recolher provas para o seuregresso.
Nessa noite, depois de euterminar as minhas tarefas noturnas, a Mãe mandou-me ficar de
pé ao lado da mesa da cozinha, enquanto ela e o Pai falavam no quarto. À minha frente estava a
tigela de cachorros quentes que eu vomitara. Não conseguia olhar para ela; por isso fechei os
olhos e tentei imaginar-me longe de casa. Pouco depois, a Mãe e o Pai entraram de rompante na
cozinha.
− Olha para isto Steve − grunhiu a Mãe, espetando o dedo na direção da tigela. − Então
achas que O Rapaz deixoude roubar comida, não é?
Pela expressão no rosto do Pai, pude ver que ele estava a ficar cada vez mais cansado da
constante rotina "O que O Rapaz fez agora". Olhando para mim, abanou a cabeça em sinal de
reprovação e disse titubeando:
− Bem, Roerva, se ao menos deixasses O Rapaz comer alguma coisa.
Uma ardente batalha de palavras rebentouà minha frente e, como sempre, a Mãe ganhou.
− COMER? Tu queres que O Rapaz coma, Stephen? Bem, O Rapaz vai COMER! Ele
pode comer isto! − A Mãe gritava a plenos pulmões, empurrando a tigela para junto de mim, e
saindo abruptamente parao quarto.
A cozinha ficou tão silenciosa que conseguia ouvir a respiração arquejante do Pai.
Gentilmente, pôs-me a mão no ombro e disse:
− Espera aqui, Tigre. Vouver o que posso fazer.
Voltou uns minutos mais tarde, depois de tentar demover a Mãe da sua ordem. Pela
expressão entristecida do seurosto, eusoube imediatamente quemé que tinha vencido.
Sentei-me numa cadeira e tirei os bocados de cachorro quente da tigela coma mão. Pastas
de saliva grossa escorregavam pelos meus dedos, quando pus a comida na boca. Ao tentar
engolir, comecei a choramingar. Voltei-me para o Pai, que estava de pé a olhar para mim com
uma bebida na mão. Acenou-me que continuasse. Eu não podia acreditar que ele estivesse ali
parado enquanto eucomia o repugnante conteúdo da tigela. Naquele momento eusoube que nos
estávamos a afastar cada vez mais.
Tentei engolir sem lhe tomar o gosto, até que senti uma pancada na parte detrás do
pescoço.
− Mastiga! − rosnoua Mãe − Come tudo! Come tudo! − disse, apontando para a saliva.
Eu afundei-me na cadeira. Um rio de lágrimas rolou-me pela cara abaixo. Depois de ter
mastigado a porcaria que estava na tigela, atirei a cabeça para trás e forcei o resto a descer-me
pela garganta. Fechei os olhos e gritei para mim próprio para evitar que me subisse de novo à
boca. Não abri os olhos até ter a certeza de que o meu estômago não ia rejeitar a minha refeição
da cafetaria. Quando os abri olhei para o Pai, que se afastou para evitar assistir ao meu
sofrimento. Naquele momento, senti um ódio enorme pela Mãe, mas ainda mais pelo Pai. O
homem que me ajudara no passado estava ali de pé como uma estátua enquanto o seu filho
comia algo emque nemumcão tocaria.
Depois de eu ter acabado a tigela de cachorros quentes vomitados a Mãe voltou com o
seurobe e atirou-me ummonte de jornais. Informou-me que os jornais eramos meus cobertores,
e o chão sob a mesa era agora a minha cama. Lancei o meuolhar de novo para o Pai, mas ele agia
como se eunemestivesse ali. Forçando-me a mimpróprio a não chorar emfrente deles, gatinhei,
completamente vestido, debaixo da mesa e cobri-me comos jornais, como umrato numa gaiola.
Durante meses dormi debaixo da mesa do pequeno-almoço, ao lado de um caixote dos
gatos, mas em breve aprendi a usar os jornais a meu favor. Com os jornais enrolados ao corpo, o
calor deste mantinha-me quente. Finalmente a Mãe disse-me que eu já não teria o privilégio de
dormir no andar de cima; por isso fui afastado lá para baixo para a garagem. A minha cama era
agora um velho beliche do exército. Para não arrefecer, tentava manter a cabeça perto do
aquecimento a gás. Mas depois de umas noites frias, achei melhor manter as mãos debaixo dos
braços e os pés curvados na direção das nádegas. Por vezes, de noite, acordava e tentava imaginar
que eu era uma verdadeira pessoa, dormindo sob um cobertor elétrico quentinho, sabendo que
estava em segurança e que alguém me amava. A imaginação funcionava durante algum tempo,
mas as noites frias traziam--me sempre de volta à realidade. Sabia que ninguém me podia ajudar.
Nem os meus professores, nem os chamados meus irmãos, nem sequer o Pai. Eu estava sozinho,
e todas as noites rezava a Deus para ser forte, quer no corpo quer na alma. Na escuridão da
garagem, ficava deitado sobre o beliche de madeira e tremia de frio, até cair numsono agitado.
Uma vez, durante as minhas fantasias a meio da noite, tive a idéia de mendigar comida a
caminho da escola. Embora "a inspeção do vômito" depois da escola fosse levada a cabo todos
os dias, quando voltava a casa, pensei que qualquer coisa que eu comesse de manhã já estaria
digerida à tarde. Ao correr para a escola, fi-lo com velocidade extra, de modo a ter mais tempo
para a minha caça à comida. Depois alterei o meu percurso, parando e batendo às portas.
Perguntava à dona da casa se, por acaso, tinha encontrado uma lancheira perto da casa. Na maior
parte das vezes o meu plano funcionava. Ao olhar para aquelas senhoras eu percebia que tinham
pena de mim. Por prevenção usava um nome falso, para que ninguém soubesse quem eu era de
fato. Durante semanas o meu plano resultou, até um dia em que fui ter à casa de uma senhora
que conhecia a Mãe. A minha aprovada história: "Perdi o meu almoço. Não se importa de me
arranjar um?", desmoronou. Mesmo antes de deixar aquela casa eu sabia que ela iria falar com a
Mãe.
Nesse dia, na escola, rezei para que o mundo acabasse. Enquanto eu me inquietava na
escola, sabia que a Mãe estava deitada no sofá a ver televisão e a embebedar-se, pensando em
algo terrível para me fazer quando eu chegasse a casa depois da escola. Ao correr da escola para
casa nessa tarde, os meus pés pareciam presos em blocos de cimento. A cada passo rezava para
que a amiga da Mãe não tivesse falado com ela ou de algum modo me tivesse confundido com
outro miúdo. Por cima de mim o céu estava azul, e sentia os raios do sol aquecer-me as costas.
Ao aproximar-me da casada Mãe, olhei para cima na direção do sol, pensando se o voltaria a ver.
Devagarinho abri a porta da frente antes de entrar subrepticiamente e desci na ponta dos
pés a escada para a garagem. Estava à espera que a Mãe corresse pela escada abaixo e me batesse
sobre o chão de cimento a qualquer momento. Ela não veio. Depois de vestir o meu fato de
trabalho, subi até à cozinha e comecei a lavar a louça do almoço da Mãe. Não sabendo onde é
que ela poderia estar, as minhas orelhas tornaram-se antenas de radar, tentando localizá-la.
Enquanto lavava a louça, as minhas costas ficaram tensas de medo. As minhas mãos
tremiam e não conseguia concentrar-me nas minhas tarefas. Finalmente, ouvi a Mãe a sair do
quarto e atravessar o vestíbulo em direção à cozinha. Por um instante olhei pela janela. Ouvia o
riso e os gritos das crianças a brincar. Fechei os olhos e imaginei que era um deles. Senti-me
quente por dentro. Sorri.
O meu coração ficou suspenso quando sentia respiração da Mãe no meu pescoço.
Apanhado de surpresa eudeixei cair umprato, mas antes de ele chegar ao chão apanhei-o no ar.
− És uma merdazinha rápida, não és? − escarneceu. − Consegues correr depressa e ter
tempo para mendigar comida. Bem... já vamos ver quão rápido és, de fato.
Esperando que a Mãe me batesse, retesei o corpo, à espera do golpe. Como isso não
aconteceu, pensei que ela voltaria para o seu programa de televisão, mas isso também não
aconteceu. A Mãe ficou uns centímetros atrás de mim, observando todos os meus movimentos.
Eu via o reflexo dela na janela da cozinha. A Mãe também o viu, e pôs-se a sorrir. Eu quase mijei
nas calças.
Quando acabei de lavar a louça, comecei a limpar a casa de banho. A Mãe sentou-se na
sanita enquanto eu limpava a banheira. Quando me pus de gatas a esfregar os azulejos do chão
ela permaneceu quieta e sossegada atrás de mim. Fiquei à espera que ela desse a volta e me desse
um pontapé na cara, mas não. À medida que eu continuava os meus afazeres a ansiedade crescia.
Sabia que a Mãe me ia bater, mas não sabia como, quando, ou onde. O tempo que levei a limpar
a casa de banho pareceu-me uma eternidade. Quando acabei as minhas pernas e os meus braços
tremiam de ansiedade. Não conseguia concentrar-me em nada, a não ser nela. Sempre que
ganhavacoragempara olhar para a Mãe, ela sorria e dizia:
− Mais depressa, jovem. Tens de te mexer muito mais depressa do que isso.
À hora do jantar, eu estava exausto de medo. Quase adormeci enquanto esperava que a
Mãe me chamasse para levantar a mesa e lavar a louça do jantar. Ali, de pé, sozinho na garagem,
as minhas vísceras soltaram-se. Estava aflito para subir as escadas e ir à casa de banho, mas sabia
que, sem a autorização da Mãe para me movimentar, eu era um prisioneiro. "Talvez seja isso que
ela planeou para mim", disse para mim próprio. "Talvez ela queira que eu beba a minha própria
urina". A princípio, o pensamento era demasiado cruel para ser imaginado, mas eusabia que tinha
de estar preparado para qualquer coisa que a Mãe me impusesse. Quanto mais tentava concentrar
-me nas hipóteses relativas ao que ela me poderia fazer, mais a minha força interior diminuía.
Então uma idéia brilhou-me no cérebro: percebi porque é que a Mãe tinha seguido cada passo
meu. Queria manter uma pressão constante sobre mim, criando-me insegurança quanto ao
momento ou ao lugar onde me ia bater. Antes de conseguir pensar num modo de a derrotar, a
Mãe gritou-me que subisse. Na cozinha, disse-me que só a velocidade da luz me poderia salvar,
por isso era melhor eulavar a louçaemtempo recorde.
− É claro − rosnou − não é preciso dizer que hoje ficas sem jantar, mas não faz mal, eu
tenho uma cura paraa tuafome.
Depois de acabar as tarefas da noite, a Mãe ordenou-me que esperasse lá embaixo. Fiquei
de pé encostado à parede, interrogando-me sobre os planos que ela teria para mim. Eu não fazia
idéia nenhuma. Comecei a ter suores frios, que pareciam chegar-me aos ossos. Fiquei tão
cansado, que adormeci de pé. Quando senti a cabeça a cair para a frente, levantei-a e acordei. Por
mais que tentasse ficar acordado, não conseguia controlar a cabeça, que oscilava para cima e para
baixo, como um pedaço de cortiça na água. Naquele estado semelhante a um transe, sentia a
tensão elevar-me a alma para fora do corpo, como se também eu estivesse a flutuar. Sentia-me
leve como uma pena, até que a cabeça caiu de novo para a frente, acordando-me. Eu sabia que
não podia adormecer profundamente. Ser apanhado podia ser fatal; por isso consegui escapar
olhando através da janela da garagem, ouvindo os sons dos carros a passarem e observando os
raios vermelhos dos aviões que voavamlá emcima. No fundo do meucoração eudesejava poder
voar dali para fora.
Horas mais tarde, depois de o Ron e o Stan irem para a cama, a Mãe ordenou-me que
voltasse lá acima. Eu tremia de medo a cada passo. Sabia que tinha chegado a hora. Ela tinha-me
esvaído emocional e fisicamente. Eu não sabia o que é que ela tinha planeado. Só desejava que
me batesse, e acabasse comaquilo.
Quando abri a porta, uma sensação de calma encheu-me a alma. A casa estava às escuras,
com exceção de uma única luz na cozinha. Vi a Mãe sentada à mesa do pequeno-almoço. Fiquei
completamente quieto. Ela sorria e pelos seus ombros descaídos pude perceber que a embriaguez
se apoderara bemdela. Estranhamente soube que não me ia bater. Os meus pensamentos ficaram
confusos, mas o meu transe acabou quando a Mãe se levantou e se dirigiu ao lava-louça.
Ajoelhou-se, abriu o armário e retirou uma garrafa de amoníaco. Eu não percebi. Ela pegou
numa colher e deitou nela um pouco de amoníaco. O meu cérebro estava demasiado baralhado
para pensar. Por mais que quisesse, não o conseguia pôr a funcionar.
Coma colher na mão, começoua aproximar-se de mim. Como uma parte do amoníaco se
entornou, caindo para o chão, afastei-me da Mãe até que a minha cabeça bateu no tampo do
balcão perto do fogão. Euquase que me ri para dentro. "É só isto? É isto? O que ela me vai fazer
é obrigar-me a engolir umbocado desta coisa?", disse para mimpróprio.
Eunão estava commedo. Estava demasiado cansado. Só conseguia pensar: "Vá lá, vamos
lá. Vamos acabar com isto". Quando a Mãe se inclinou, percebi de novo que só a rapidez me
podia salvar. Tentei compreender o seuenigma, mas o meuespírito estava demasiado confuso.
Sem hesitar, abri a boca e a Mãe introduziu a colher fria até à garganta. De novo disse a
mim próprio que era tudo demasiado fácil, mas no momento seguinte não conseguia respirar. A
minha garganta estava colada. Fiquei de pé, vacilando diante da Mãe, sentindo como se os meus
olhos me saltassemdas órbitas. Caí no chão, de gatas. "Bolha!", gritouo meucérebro. Esmurrei o
chão da cozinha com toda a minha força, tentando engolir e tentando concentrar-me na bolha de
ar presa no meu esôfago. De repente fiquei aterrorizado. Lágrimas de pânico caíam-me pela cara
abaixo. Após alguns segundos, senti a força dos meus punhos a diminuir. As minhas unhas
arranhavam o chão. Os meus olhos ficaram fixos no chão. As cores pareciam juntar-se. Comecei
a sentir-me desfalecido. Sabia que ia morrer.
Voltei a mim e senti a Mãe a dar-me pancadas nas costas. A força dos seus socos fez-me
arrotar e consegui respirar de novo. Enquanto eu inspirava grandes golfadas de ar, a Mãe voltou
para o seucopo. Ingeriuuma longa bebida, olhoupara mime soprouna minha direção.
− Então, não foi assim tão difícil, pois não? − disse ela acabando a bebida, antes de me
mandar lá para baixo parao meubeliche.
Na noite seguinte repetiu-se o espetáculo, mas desta vez emfrente do Pai. Ela gabou-se:
− Isto há de ensinar O Rapaz a não voltar a roubar comida!
Eusabia que ela só estava a fazer aquilo emfunção do seuprazer doentio e pervertido. O
Pai ficou inerte enquanto a Mãe me deu outra dose de amoníaco. Mas desta vez eu lutei. Ela teve
de me abrir a boca à força e, ao abanar a cabeça de um lado para o outro, eu consegui que ela
entornasse a maior parte do líquido para o chão. Mas não o suficiente. De novo fechei os punhos
e bati no chão. Olhei para cima, para o Pai, tentando chamá-lo. Os meus pensamentos estavam
claros, mas não saiu nenhum som da minha boca. Ele limitou-se a estar ali de pé por cima de
mim sem mostrar qualquer emoção enquanto eu dava murros com as minhas mãos perto dos
seus pés. Como se se ajoelhasse para acariciar um dos seus cães, a Mãe bateu-me de novo nas
costas algumas vezes, até que desmaiei.
Na manhã seguinte, enquanto limpava a casa de banho, olhei para o espelho para
observar a minha língua queimada. Algumas camadas de carne tinham desaparecido e as que
restavam estavam vermelhas e ásperas. Fiquei ali de pé, fixando a sanita, e pensando na sorte que
eutinha emestar vivo.
Embora a Mãe nunca mais me tivesse mandado engolir amoníaco, fez-me beber colheres
de detergente algumas vezes. Mas o jogo favorito dela parecia ser o detergente de lavar a louça.
Espremia o líquido barato e cor-de-rosa da garrafa para a minha garganta e ordenava-me que
ficasse de pé na garagem. A minha boca ficava tão seca que eucorria para a torneira da garageme
enchia o estômago de água. Em breve descobri o meu terrível erro e seguiu-se a diarréia. Gritei
para a Mãe, implorando-lhe que me deixasse usar a casa de banho lá de cima. Ela recusou. Fiquei
ali de pé, com medo de me mexer, enquanto bocados de matéria liquefeita atravessavam a roupa
interior, escorrendo pelas calças até ao chão.
Sentia-me tão degradado que chorei como um bebê. Não tinha qualquer espécie de auto-
respeito. Precisei de novo de ir à casa de banho, mas tinha demasiado medo para me mexer.
Finalmente, enquanto as minhas vísceras se retorciam, reuni um resto de dignidade. Dirigi-me ao
balcão da garagem, peguei num balde de vinte litros e agachei-me para me aliviar. Fechei os
olhos, tentando descobrir uma forma de me lavar a mim e às minhas roupas, quando, de repente,
a porta da garagem se abriu atrás de mim. Voltei a cabeça e vi o Pai, que olhava sem qualquer
emoção, enquanto o seu filho vagamente o encarava e a substância castanha se derramava para o
balde. Senti-me pior do que umcão.
A Mãe não ganhava sempre. Uma vez, numa semana em que não tive autorização para ir
à escola, espremeu o detergente para a minha boca e disse-me que limpasse a cozinha. Ela não
soube, mas recusei-me a engolir o detergente. À medida que os minutos passavam, a minha boca
ficou cheia de uma mistura de detergente e saliva. Eu não me permitiria engolir. Quando acabei
as tarefas na cozinha, corri para baixo para esvaziar o caixote do lixo. Sorria de orelha a orelha
quando fechei a porta atrás de mim e cuspi o detergente cor-de-rosa. Junto dos caixotes do lixo
perto da porta da garagem, inclinei-me para um deles, tirei uma toalha de papel usada e limpei o
interior da boca, de modo a remover qualquer vestígio do detergente. Depois de terminar, senti-
me como se tivesse ganho a Maratona Olímpica. Estava muito orgulhoso por vencer a Mãe no
seupróprio jogo.
Embora a Mãe me apanhasse na maior parte das minhas tentativas para me alimentar, ela
não conseguia apanhar-me sempre. Depois de meses enclausurado horas a fio na garagem, a
minha coragem venceu e roubei bocados de comida congelada do frigorífico da garagem. Eu
estava consciente de que podia ter de pagar pelo meu crime a qualquer momento. Por isso comia
cada bocadinho como se fosse a minha última refeição.
Na escuridão da garagem, fechava os olhos e sonhava que era um rei vestido com as mais
finas vestes, e comendo as melhores iguarias do mundo. Enquanto segurava num pedaço da
crosta de uma empada de abóbora, ou num bocado da massa de um pastel, eu era o rei, e como
umrei no seutrono, olhava para a minha comida e sorria.
Capítulo 5
O ACIDENTE
O verão de 1971 estabeleceu o tom do resto do tempo em que vivi com a Mãe. Eu ainda
não fizera 11 anos, mas, em grande medida, sabia quais as formas de punição que me esperavam.
Exceder um dos limites de tempo da Mãe em qualquer das minhas múltiplas tarefas, significava
não ter comida. Se olhasse para ela ou para um dos seus filhos sem a sua permissão, recebia uma
bofetada na cara. Se fosse apanhado a roubar comida, sabia que a Mãe repetiria uma velha forma
de castigo ou então inventava algo de novo e terrível. Na maior parte do tempo, ela parecia saber
exatamente o que estava a fazer e eu conseguia prever o que se seguiria. Contudo estava sempre
alerta e o meucorpo ficava tenso se imaginava que ela podia vir ter comigo.
Quando de junho se transitou para o início de julho, o meu estado de espírito esmoreceu.
A comida era pouco mais do que uma fantasia. Raramente comia, mesmo os restos do pequeno-
almoço, por mais que trabalhasse, e nunca almoçava. Quanto ao jantar, a média era de uma
refeição de três emtrês dias.
Um determinado dia de julho começou como qualquer outro dia, na minha atual
existência de escravo. Já não comia há três dias. Como a escola estava fechada para as férias do
verão, as minhas hipóteses de arranjar comida acabaram. Como sempre, durante o jantar, sentei-
me ao fundo das escadas comas nádegas sobre as mãos, ouvindo os sons da "família" a comer. A
Mãe agora exigia que me sentasse sobre as mãos com a cabeça atirada para trás, numa posição de
"prisioneiro de guerra". Deixei a cabeça cair para a frente, imaginando que eu era um deles: um
membro da "família". Devo ter adormecido, porque fui subitamente acordado pela voz rabugenta
da Mãe:
−Levanta-te! Mexe esse rabo! − gritou.
À primeira sílaba da sua ordem, levantei a cabeça, levantei-me e corri pelas escadas acima.
Rezei para que nessa noite recebesse alguma coisa, qualquer coisa, para mitigar a minha fome.
Começara a tirar a louça da mesa da sala de jantar a um ritmo frenético, quando a Mãe me
chamouà cozinha. Baixei a cabeça, quando ela começoua papaguear os seus limites de tempo.
− Tens 20 minutos! Um minuto, um segundo a mais, e ficas de novo com fome! Está
compreendido?"
− Sim, senhora!
− Olha para mimquando estoua falar contigo! − resmungou.
Obedecendo à sua ordem, ergui devagar a cabeça. Ao levantá-la, vi o Russel a embalar-se
para a frente e para trás sobre a perna esquerda da Mãe. O tomáspero da voz da Mãe não parecia
incomodá-lo. Limitou-se a olhar para mim através de um par de olhos frios. Embora o Russel
tivesse apenas quatro ou cinco anos nessa altura, tornara-se o "Pequeno Nazi" da Mãe, espiando
todos os meus movimentos e certificando-se de que eu não roubava comida. Por vezes inventava
histórias para a Mãe, de modo a ver-me ser castigado. A culpa realmente não era do Russel. Eu
sabia que a Mãe lhe tinha feito uma lavagem ao cérebro, mas eu começara a ficar frio com ele e a
odiá-lo à mesma.
− Estás a ouvir-me? − vociferoua Mãe. − Olha para mim, quando estoua falar contigo!
Quando olhei para ela, tirouumtrinchante do tampo do balcão e gritou:
− Se não acabares a tempo, eumato-te!
As suas palavras não tiveram qualquer efeito em mim. Ela dissera o mesmo
repetidamente durante a última semana. O próprio Russel não ficou perturbado com a sua
ameaça. Continuou a embalar-se na perna da Mãe, como se estivesse a montar um cavalinho de
madeira. Ela aparentemente não estava satisfeita com a sua renovada tática, pois continuou a
massacrar-me sem parar, enquanto o relógio avançava, comendo-me o tempo-limite. Eu só
desejava que ela se calasse e me deixasse trabalhar. Estava desejoso de cumprir o seu tempo-
limite. Queria tanto comer alguma coisa. Temia ser novamente enviado para acama.
Alguma coisa parecia estar errada. Muito errada! Esforcei-me por fixar a vista na Mãe. Ela
começara a agitar a faca na mão direita. Continuei anão ficar muito receoso. Ela tambémjá fizera
isto antes. "Olhos", disse para mim próprio. "Olha para os seus olhos". Foi o que eu fiz e
pareciam estar no seu normal: meio vidrados. Mas o meu instinto dizia-me que algo de estranho
se passava. Não pensei que ela me atingisse, mas de qualquer modo o meucorpo começoua ficar
tenso. À medida que ia ficando mais tenso, percebi o que é que se passava. Em parte por causa
do movimento do Russel a embalar-se e noutra parte por causa do movimento do braço e da
mão dela com a faca, todo o corpo começou a balançar para a frente e para trás. Por um
momento, pensei que elaia cair.
Tentou recuperar o equilíbrio, batendo no Russel para que ele lhe largasse a perna,
enquanto continuava a gritar-me. Nessa altura, a parte de cima do seu corpo parecia uma cadeira
de embalar fora de controlo. Esquecendo-me das suas inúteis ameaças, imaginei que a velha
bêbeda ia bater com a cara no chão. Concentrei toda a minha atenção na cara da Mãe. Pelo canto
do olho, vi um objeto indistinto a voar da sua mão. Uma dor aguda irrompeu mesmo por cima
do meuestômago. Tentei permanecer de pé, mas as pernas cederame o meumundo enegreceu.
Quando recuperei os sentidos tive uma sensação de calor vinda do meu tórax. Levei
alguns segundos a perceber onde estava. Estava sentado na sanita, puxado para cima. Voltei-me
para o Russel, que começoua cantar:
− O Davidvai morrer! O Rapaz vai morrer!
Virei os olhos na direção do meu estômago. Ajoelhada, a Mãe aplicava apressadamente
uma compressa de gaze numa zona do meu estômago de onde saíam golfadas de sangue
vermelho-escuro. Tentei dizer alguma coisa. Sabia que fora um acidente. Queria que a Mãe
soubesse que lhe perdoava, mas sentia-me demasiado fraco para falar. A minha cabeça tombava
para a frente repetidas vezes, enquanto eu tentava mantê-la firme. Perdi a noção do tempo,
porque voltei à escuridão.
Quando acordei a Mãe ainda estava ajoelhada, envolvendo a parte de baixo do meu tórax
com um pano. Muitas vezes, quando éramos mais novos, a Mãe contava ao Ron, ao Stan e a
mim, que tencionara ser enfermeira, até que conheceu o Pai. Sempre que acontecia algum
acidente em casa, ela não perdia o controlo. Nunca duvidei, nem por um segundo, das suas
aptidões como enfermeira. Estava só à espera de que ela me levasse no carro para o hospital.
Tinha a certeza de que ela o faria. Era só uma questão de tempo. Tive uma curiosa sensação de
alívio. Sabia, no fundo do meu coração, que tudo acabara. Todo este enigma de viver como um
escravo chegara ao fim. Mesmo a Mãe não teria hipótese de mentir neste caso. Senti que o
acidente me libertara.
A Mãe demorou quase meia hora a envolver-me a ferida. Não havia remorsos nos seus
olhos. Pensei que, pelo menos, me tentaria reconfortar com a sua voz suave. Olhando para mim
sem qualquer emoção a Mãe levantou-se, lavou as mãos, e disse-me que eu tinha trinta minutos
para acabar de lavar a louça. Abanei a cabeça tentando perceber o que me dissera. Após alguns
segundos a mensagem da Mãe penetrou em mim. Tal como no incidente do braço, uns anos
atrás, a Mãe ia ignorar o que acontecera.
Eunão tinha tempo paraa auto-piedade. O relógio avançava. Levantei-me, vacilei durante
uns segundos e dirigi-me para a cozinha. A cada passo a dor dilacerava-me as costelas e o sangue
inundava a minha T shirt esfarrapada. Ao chegar ao lava-louça da cozinha, inclinei-me e arfei
como umcão já velho.
Da cozinha eu ouvia o Pai na sala de estar, folheando o jornal. Inspirei profundamente
com dificuldade, na esperança de ser capaz de avançar na sua direção. Mas inspirei com
demasiada força e caí para o chão. Depois disso percebi que tinha que inspirar lentamente e
pouco de cada vez. Dirigi-me à sala. Sentado no canto mais afastado do sofá estava o meu herói.
Eu sabia que ele se encarregaria da Mãe e me conduziria ao hospital. Fiquei de pé diante do Pai,
esperando que virasse a página e me visse. Quando o fez, balbuciei:
− Pai... a Ma... a Ma... a Mãe apunhalou-me.
Ele nemuma sobrancelhalevantou.
− Por quê? − perguntou.
− Ela disse-me que, se eunão lavasse a louça a tempo, me... me mataria.
O tempo parou. Por detrás do jornal, euouvia a respiração entrecortada do Pai. Pigarreou
antes de dizer:
− Bem... tu... tuvolta paralá, e lava a louça.
A minha cabeça inclinou-se para a frente, como se quisesse apanhar as suas palavras. Eu
não podia acreditar no que tinha ouvido. O Pai deve ter-se apercebido da minha confusão, já que
o vi bater como jornal e levantar a voz, dizendo:
− Jesus Cristo! A Mãe sabe que estás aqui a falar comigo? Tu volta para lá, e lava a louça.
Caramba, rapaz! Não há necessidade de fazer seja o que for que a ponha mais mal-disposta! Eu
não tenho necessidade de passar por isso esta noite... − O Pai parou por um segundo, inspirou
profundamente e baixoua voz, sussurrando: − Já sei. Tuvoltas lá e lavas a louça. Nemsequer lhe
digo que me contaste, está bem? Este será o nosso pequeno segredo. Volta lá para a cozinha e
lava a louça. Vai lá, antes que ela nos apanhe aos dois. Vai!
Fiquei de pé diante do Pai, completamente chocado. Ele nem sequer olhou para mim. Eu
tinha a impressão de que, se ele ao menos virasse uma ponta do jornal e me olhasse nos olhos,
perceberia; sentiria a minha dor, quão desesperado e necessitado eu estava da sua ajuda. Mas
como sempre, eu sabia que a Mãe o controlava, como controlava tudo o que acontecia na sua
casa. Penso que o Pai e eu sabíamos ambos o código da "família": se ignorarmos um problema,
ele simplesmente não existe. Enquanto ali estava de pé diante do Pai, semsaber o que fazer, olhei
para baixo e vi gotas de sangue a sujar a carpete da família. Eu sentira no meu coração, que ele
me levantaria nos seus braços e me levaria dali para fora. Imaginei até que rasgaria a camisa para
mostrar a sua verdadeira identidade antes de voar pelos ares como o Super-homem.
Voltei-me. Todo o meu respeito pelo Pai desaparecera. O salvador que eu imaginara
durante tanto tempo era uma fraude. Sentia-me mais zangado comele do que coma Mãe. Desejei
poder voar dali para fora, mas a dor dilacerante trouxe-me de volta à realidade.
Lavei a louça o mais depressa que o meu corpo me deixou. Aprendi rapidamente que
qualquer movimento do meuantebraço resultava numa dor aguda por cima do meuestômago. Se
eu andava de lado, da bacia de lavagem para a bacia de secagem, uma outra dor percorria-me o
corpo. Sentia que a pouca força que me restava estava a desaparecer. À medida que o tempo-
limite da Mãe era ultrapassado, tambémo eramas hipóteses de conseguir comer.
Só me apetecia deitar-me e desistir, mas a promessa que fiz há uns anos manteve-me vivo.
Queria mostrar à Megera que só me venceria se eu morresse e eu estava decidido a não desistir,
até à morte. Enquanto lavava a louça aprendi que, ficando embicos dos pés e encostando a parte
de cima do corpo ao tampo do balcão, conseguia aliviar um pouco a pressão sobre a parte de
baixo do tórax. Em vez de andar de lado, de tantos em tantos segundos, lavava alguma louça de
uma só vez e então movia-me e passava-a por água. Depois de secar a louça, tive medo da tarefa
de a arrumar. Os armários ficavam por cima da minha cabeça e sabia que chegar lá me faria doer
muito. Segurando num prato pequeno estiquei as pernas o mais que pude e tentei levantar os
braços por cima da cabeça para colocar o prato. Quase consegui, mas a dor foi demasiado forte.
Caí para o chão.
Nessa altura a minha camisa estava cheia de sangue. Ao tentar pôr-me de pé senti as mãos
fortes do Pai a ajudar-me. Afastei-o.
− Dá-me a louça − disse ele. − Euguardo-a. É melhor ires lá abaixo mudar de camisa.
Eu não disse uma palavra, quando me retirei. Olhei para o relógio. Levara cerca de uma
hora e meia a completar a minha tarefa. A minha mão direita apertava com força o corrimão
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  • 1. Uma Criança Chamada Coisa Dave Pelzer (c) Copyright 1995 Dave Pelzer Publishedbyarrangement with Health Communications, Inc, DeerfieldBeach, Florida, USA Título original: A ChildCalled"It" Copyright 2001 -AMBAR(r) - COMPLEXO INDUSTRIAL GRÁFICO S.A. Rua Manuel Pinto de Azevedo, 363 - 4100-321 Porto Telef. 22 615 1400 - Telefax 22 617 1407 E-mail: area.editorial@ ambar.pt Visto Legal N.1 164379/01 - Julho de 2001 ISBN 972-43-0470-1 Tradução de Isabel Barbudo Este livro é dedicado ao meufilho Stephen, que, pelagraça divina, me ensinou a dádiva do amor e alegriaatravés dos olhos de uma criança. Este livro é tambémdedicado aos professores e funcionários da Thomas Edison ElementarySchool, incluindo: Agradecimentos Vil Stephen E. Ziegler Athena Konstan Peter Hansen Janice Woods BettyHowell e a Enfermeira daEscola Para todos, pela vossa corageme por teremposto a vossa carreira emrisco nesse dia fatídico: 5 de Março de 1973. Vocês salvarama minha vida. Desian
  • 2. Í N D I C E Notas do Autor 05 CAPÍTULO 1. A Libertação 06 CAPITULO 2. Bons Tempos 10 CAPÍTULO 3. UmMauRapaz 14 CAPÍTULO 4. A Luta pela Comida 19 CAPITULO 5. O Acidente 29 CAPÍTULO 6. Enquanto o Pai Está Fora 34 CAPITULO 7. A Oração do Senhor 42 Epílogo: SonomaCount, Califórnia 49 Perspectivas sobre os Maus Tratos a Crianças 51
  • 3. NOTAS DO AUTOR Alguns nomes deste livro foram alterados, de modo a manter a dignidade e a privacidade das pessoas. Este livro, a primeira parte da trilogia, retrata a linguagem desenvolvida do ponto de vista de uma criança. O tom e o vocabulário refletem a idade e os conhecimentos da criança nesse tempo específico. Este livro baseia-se na vida da criança dos 4 aos 12 anos. A segunda parte da trilogia, O Rapaz Perdido, baseia-se na sua vida dos 12 aos 18 anos. AGRADECIMENTOS Depois de anos de intenso labor, sacrifício, frustração, compromissos e decepções, este livro é finalmente publicado e está à venda nas livrarias. Desejo aproveitar este momento para homenagear todos aqueles que realmente acreditaramnesta cruzada. A Jack Canfield, co-autor do fenomenal "bestseller" Chicken Soup for the Soul, pela sua extrema amabilidade ao abrir-me uma grande porta. Jack é, de fato, uma personalidade rara que, sem reservas, ajuda mais pessoas num só dia do que muitos de nós na vida inteira. Que Deus o abençoe. A Nancy Mitchell e Kim Wiele do Canfield Group pelo imenso entusiasmo e orientação. Obrigado, minhas senhoras. A Peter Vegso da Health Communicatios, Inc., tal como Christine Belleris, Matthew Diener, Kim Weiss e todo o pessoal da HCI pela sua honestidade, profissionalismo e amabilidade, que transformamo ato de publicar numprazer. Calorosos agradecimentos a Irene Xanthos e Lori Golden pela sua tenaz orientação e pela iniciativa. E umenorme obrigado ao Departamento de Arte pelo intenso trabalho e dedicação. Um agradecimento especial a Marsha Donohoe, editora extraordinária, pelas horas que passou a reelaborar e apagar do livro "a linguagem menos apropriada", de modo a dar ao leitor uma versão clara e precisa desta história através dos olhos de uma criança. Para Marsha, era uma questão de "Confiança do Lavrador." A Patti Breitman, de Breitman Publishing Projects, pelo seu trabalho inicial e pelo investimento. A CindyAdams pela fé inquebrantável quando eumais precisei. Um obrigado especial a Ric & Don em Rio Villa Resort, que me serviu de lar quando estava fora do lar, por me proporcionarem o santuário perfeito durante a realização deste projecto. E, finalmente, a Phyllis Collen. Desejo-lhe paz e felicidade. Que Deus a abençoe!
  • 4. Capítulo 1 A LIBERTAÇÃO DIA5 DE MARÇO DE 1973, DALY CITY, CALIFÓRNIA Estou atrasado. Tive de acabar de lavar a louça a tempo, senão não havia pequeno- almoço; e já que não jantei ontem à noite, tenho de arranjar maneira de conseguir alguma coisa para comer. A Mãe anda a correr e a gritar pelos meus irmãos. Ouço-a a passar pelo vestíbulo em direção à cozinha. Volto a mergulhar as minhas mãos na água a ferver. É demasiado tarde. Ela apanha-me comas mãos fora de água. TRÁS! A Mãe bate-me no rosto e eu caio para o chão. Eu já aprendi a não ficar de pé aparando o golpe. Aprendi, da pior forma, que ela entende isso como um desafio, o que significa mais pancada ou, pior ainda, nada de comida. Volto à minha posição e evito olhá-la, enquanto ela grita aos meus ouvidos. Eu ajo timidamente, respeitando as suas ameaças. "Por favor", digo para mim próprio, "dá-me de comer. Bate-me de novo, mas eu tenho de comer". Um novo soco empurra a minha cabeça contra o tampo do balcão de azulejo. Deixo as lágrimas de falsa derrota descerem-me pela cara abaixo enquanto ela sai de rompante da cozinha, parecendo satisfeita consigo própria. Depois de contar os seus passos, para ter a certeza de que ela se foi, respiro de alívio. A cena resultou. A Mãe pode bater-me as vezes que quiser, mas eu não a deixei tirar-me a vontade de sobreviver a todo o custo. Acabo de lavar a louça e depois faço as minhas outras tarefas. Como recompensa, recebo o pequeno-almoço: os restos da tigela de cereais de um dos meus irmãos. Hoje há flocos de cereais coloridos'. Só restaramuns bocadinhos. Na manhã seguinte a Mãe, numtomque raramente usa comigo, afirma: −Temumbomdia! Contemplo os seus olhos inchados e vermelhos. Ainda está na ressaca da embriaguez de ontem à noite. O seucabelo, outrora belo e brilhante, parece agora umconjunto de cepos gastos. Como de costume, não tem maquiagem. Está com excesso de peso e ela sabe. Em tudo, este se tornou o aspecto típico da Mãe. Por estar tão atrasado, tenho de me apresentar na secretaria. A secretária, de cabelos grisalhos, cumprimenta-me com um sorriso. Momentos mais tarde, a enfermeira da escola sai e conduz-me ao seu gabinete, aonde vamos por rotina. Primeiro, examina o meurosto e braços. − O que é isso por cima do olho? − pergunta. Aceno timidamente: −Oh, fui contra a parede do vestíbulo... semquerer. Ela sorri de novo e tira uma ficha da parte de cima de um armário. Percorre uma página ouduas e inclina-se paramimpara me mostrar. − Aqui − aponta para o papel − disseste isso na passada segunda-feira. Lembras-te? − Sim, senhora − respondo eu. "Oh não!", digo para mimpróprio, "Fiz algo errado... de novo". A enfermeira deve ter visto a preocupação nos meus olhos. Põe a ficha para baixo e abraça-me. "Meu Deus", digo para mim próprio, "Ela é tão calorosa". Não quero largá-la, quero ficar nos seus braços para sempre. Fecho os olhos com força e, por uns momentos, nada mais existe. Ela dá-me pancadinhas na cabeça. Retraio-me por causa do inchaço da pancada que a Mãe me deu esta manhã. A enfermeira então termina o abraço e deixa a sala. Corro a vestir-me de novo. Ela não sabe, mas eufaço tudo o mais depressa possível.
  • 5. A enfermeira volta passados alguns minutos com o Senhor Diretor Hansen e dois dos meus professores, a menina Woods e o Sr. Ziegler. O Sr. Hansen conhece-me muito bem. Já estive no seu gabinete mais do que qualquer outro miúdo da escola. Olha para o papel, enquanto a enfermeira lhe comunicao que descobriu. Ele levanta-me o queixo. Tenho medo de olhá-lo nos go, "Hoje não! Não percebe que hoje é sexta-feira?" O Sr. Hansen assegura-me que não vai chamar a Mãe, e manda-me para a aula. Como já é tarde de mais para a aula de homeroom 1 , vou diretamente para a aula de Inglês de Sra. Wordsworth. Hoje há um teste sobre todos os Estados e respectivas capitais. Não estou preparado. Geralmente souumbomaluno, mas nos últimos meses desisti de tudo na minha vida, incluindo ultrapassar a minha desgraça através do trabalho da escola. Ao entrar na sala, todos os alunos tapamo nariz e assobiam. A professora substituta, uma mulher mais jovem, abana as mãos emfrente do rosto. Não está habituada ao meucheiro. Dá-me o meu teste com o braço esticado, mas antes de eu me sentar na parte de trás da sala, perto de uma janela aberta, sou de novo chamado ao gabinete do diretor. A sala inteira faz um alarido dirigido a mim: a rejeição do quinto ano. Corro para a secretaria e chego lá num ápice. A garganta está áspera e ainda arde por causa do "jogo" que a Mãe jogou ontem contra mim. A secretária conduz-me à sala dos professores. Depois de ela abrir a porta, demoro algum tempo a adaptar a vista. À minha frente, sentados à volta de uma mesa, estão o meu professor da aula de homeroom, Sr. Ziegler, a minha professora de Matemática, menina Moss, a enfermeira da escola, o Sr. Hansen e um oficial da polícia.Os meus pés ficamgelados. Não sei se de frio oude nervoso. O polícia explica porque é que o Sr. Hansen o chamou. Sinto-me a afundar-me, tremendo na cadeira. O polícia pede-me que lhe fale da Mãe. Digo que não com a cabeça. Já demasiadas pessoas conhecem o segredo e eu sei que ela vai descobrir. Uma voz suave chama-me. Acho que é a menina Moss. Ela diz-me que está tudo bem. Respiro fundo, esfrego as mãos e relutantemente falo-lhes acerca da Mãe e de mim. Então a enfermeira diz para eu me pôr de pé e mostrar ao polícia a cicatriz no peito. Sem hesitar, digo-lhes que foi um acidente; que realmente foi; a Mãe não queria apunhalar-me. Choro como se cuspisse as entranhas, dizendo-lhes que a Mãe me castiga porque sou mau. Queria que me deixassem em paz. Sinto-me pegajoso por dentro. Sei, ao fimde todos estes anos, que não há nada que alguémpossa fazer. Uns minutos mais tarde, dão-me licença para me sentar no gabinete exterior. Quando eu fecho a porta, todos os adultos olhampara mime abanamas cabeças de modo aprovador. Sento- me, perturbado, olhando para a secretária a datilografar papéis. Parece que passou uma eternidade, quando o Sr. Hansen me chama de volta à sala. A menina Woods e o Sr. Hansen saem. Parecemfelizes, mas ao mesmo tempo preocupados. A menina Woods ajoelha-se e abraça- me. Acho que nunca me esquecerei do odor do perfume do seu cabelo. Larga-me, voltando-se para que eu não a veja a chorar. Agora estou realmente preocupado. O Sr. Hansen dá-me um tabuleiro de almoço da cafeteria. "MeuDeus! Já é hora do almoço?" Pergunto a mimpróprio. Engulo a comida tão depressa que mal a saboreio. Acabo o tabuleiro em tempo recorde. Em breve retorna o diretor com uma caixa de bolos, avisando-me de que não coma tão depressa. Não faço idéia do que se está a passar. Uma das hipóteses que ponho é que o meu pai, que está separado da minha mãe, veio buscar-me. Mas sei que é uma fantasia. 0 polícia pergunta-me a morada e número de telefone. "É isso!" Digo a mim próprio. "De volta ao inferno! Ela vai bater- me de novo!" O polícia escreve mais notas, enquanto o Sr. Hansen e a enfermeira olham. Em breve fecha o bloco de notas e diz ao Sr. Hansen que já tem informações suficientes. Olho para o 1 homeroom: Aula de informações diárias sobre as atividades da escola, em que se juntam turmas do mesmo ano. (N.T.)
  • 6. diretor. O seu rosto está coberto de suor. Sinto o meu estômago a enrolar-se. Quero ir à casa de banho e vomitar. O Sr. Hansen abre a porta e vejo todos os professores no intervalo do almoço a olharem para mim. Sinto-me tão envergonhado! "Eles sabem", digo para mim próprio. "Eles sabem a verdade acerca da minha mãe; a real verdade". É tão importante que eles saibam que eu não sou ummaurapaz. Quero tanto que gostemde mim, que me amem. Sigo pelo vestíbulo. O Sr. Ziegler está a amparar a menina Woods. Ela está a chorar. Ouço-a a fungar. Dá-me outro abraço e vai-se embora rapidamente. O Sr. Ziegler aperta-me a mão. − Sê umbomrapaz! − diz ele. − Simsenhor. Voutentar! − é tudo o que consigo dizer. A enfermeira da escola está em silêncio ao lado do Sr. Hansen. Dizem-me todos adeus. Agora sei que voupara a cadeia. "Bom," digo para mimpróprio, "pelo menos ela não pode bater- me, se euestiver na cadeia." O oficial da polícia e eu saímos e passamos na cafeteria. Vejo alguns miúdos da minha aula a jogar dodge bali 2 . Alguns param de jogar e gritam: "O David foi apanhado! O David foi apanhado!" O polícia toca-me no ombro, dizendo-me que está tudo bem... À medida que me conduz pela rua, afastando-nos da Escola Primária Thomas Edison, vejo alguns miúdos que parecem perturbados com a minha partida. Antes de eu sair, o Sr. Ziegler disse-me que diria a verdade aos outros miúdos; toda a verdade. Eu daria tudo para ter estado na aula quando descobriramque não souassimtão mau. Dentro de alguns minutos, chegamos à Estação da Polícia de DalyCity. Euestoumais ou menos à espera que a Mãe esteja lá. Não quero sair do carro. O oficial abre a porta e gentilmente segura-me pelo cotovelo e leva-me até um grande gabinete. Não há mais ninguém na sala. O polícia senta-se numa cadeira ao canto, e aí datilografa várias folhas de papel. Observo o oficial de perto, enquanto como devagar os meus bolos. Eu os saboreio o mais longamente possível. Não sei quando é que estarei de novo a comer. Já passa da uma da tarde quando o polícia acaba de escrever os seus papéis. Pede-me de novo o número de telefone. - Por quê? - digo a choramingar. - Tenho que a chamar, David- diz ele gentilmente. - Não! - ordeno eu. - Mande-me de volta à escola. Não percebe? Ela não pode descobrir que eudisse! Ele acalma-me com outro bolo, enquanto marca lentamente 7-5-6-2-4-6-0. Vejo o mostrador preto girar, enquanto me levanto e me dirijo a ele, esticando o corpo para tentar ouvir o telefone a tocar do outro lado. A Mãe responde. A voz dela mete-me medo. O polícia faz sinal para eume afastar e respira fundo antes de dizer:: − Sra. Pelzer, fala o Oficial Smith do Departamento da Polícia de Daly City. O seu filho David não vai hoje para casa. Ficará sob a custódia do Departamento da Juventude San Mateo. Se tiver perguntas a fazer, pode fazê-las. − Põe o auscultador no descanso e sorri. − Afinal não foi assimtão difícil, pois não? − pergunta-me. Mas a sua expressão diz-me que ele está a convencer-se a si próprio mais do que a mim. Umas milhas mais adiante, estamos na auto-estrada 280, dirigindo-nos para os arredores de DalyCity. Olho para a direita e vejo um letreiro que diz: "A MAIS BELA AUTO-ESTRADA DO MUNDO". O oficial sorri de alívio quando deixamos a zona limítrofe da cidade. 2 dodge bali: Jogo americano. Um grupo atira uma bola de borracha e o outro grupo corre e evita ser tocado pela bola. (N. T.)
  • 7. − DavidPelzer − diz ele −estás livre. − O quê? − pergunto, agarrando-me à minha única fonte alimentar. − Não percebo. Não me vai levar para nenhuma cadeia? Ele sorri de novo e gentilmente aperta-me o ombro. − Não, David. Não tens de te preocupar com nada. A sério! A tua mãe nunca mais te vai magoar. Inclino-me para trás no assento. Um reflexo do sol bate-me nos olhos. Desvio-me dos raios, enquanto uma únicalágrima me escorre pela face. − Estoulivre?
  • 8. Capítulo 2 BONS TEMPOS Nos anos anteriores aos meus maus tratos, a minha família era o BradyBunch 3 da década de 1960. Os meus dois irmãos e eu éramos favorecidos por termos os pais perfeitos. Qualquer capricho nosso era satisfeito comamor e carinho. Vivíamos numa casa modesta com dois quartos, naquilo que era considerado uma boa zona emDalyCity. Lembro-me de olhar através da janela redonda da nossa sala de estar, numdia claro, contemplando as torres de um laranja brilhante da ponte Golden Gate e o belo horizonte de São Francisco. O meu pai, Stephen Joseph, sustentava a família com o seu ordenado de bombeiro, trabalhando mesmo no centro de São Francisco. Tinha um metro e setenta e cinco de altura e pesava cerca de oitenta e cinco quilos. Tinha uns ombros e antebraços tão largos que fariam inveja a qualquer halterofilista. As sobrancelhas grossas e negras condiziam com o cabelo. Eu sentia-me especial quando ele me acenava e me chamava "Tigre". A minha mãe, Catherine Roerva, era uma mulher de estatura e aparência medianas. Eu nunca me consigo lembrar da cor dos seus cabelos ou olhos, mas a Mamã era uma mulher que brilhava de amor pelos seus filhos. A sua grande vantagem era a determinação. A Mamã tinha sempre idéias e era ela que se encarregava de todos os assuntos familiares. Uma vez, quando eu tinha quatro ou cinco anos, a Mamã disse que estava doente, e lembro-me de sentir que ela não parecia a mesma. Foi num dia em que o Pai estava a trabalhar na estação de bombeiros. Depois de servir o jantar, a Mamã saiu da mesa a correr e começou a pintar os degraus que levavam à garagem. Ela tossia à medida que pincelava freneticamente cada degraucom tinta vermelha. A tinta ainda não secara quando a Mamã começou a pregar rebordos de borracha nos degraus. A tinta vermelha espalhava-se pelos rebordos e pela Mamã. Quando acabou, a Mamã entrou em casa e deixou-se cair em cima do sofá. Lembro-me de lhe perguntar porque é que tinha posto os rebordos antes de a tinta secar. Ela sorriue disse: "Eusó queria surpreender o teupapá". No que tocava às lides domésticas, a Mamã era um perfeito diabinho das limpezas. Depois de dar de comer aos meus dois irmãos, limpava o pó, desinfetava, esfregava e aspirava tudo. Nenhuma divisão da nossa casa ficava sem ser mexida. À medida que fomos crescendo, a Mamã fez questão emque fizéssemos a nossa parte, mantendo os nossos quartos limpos. Lá fora, ela cuidava meticulosamente de um pequeno jardim que era a inveja da vizinhança. Tudo aquilo em que a Mamã tocava transformava-se em ouro. Ela não acreditava em fazer fosse o que fosse pela metade. A Mamã dizia-nos, muitas vezes, que deveríamos dar sempre o nosso melhor em tudo o que fizéssemos. A Mamã era, de fato, uma cozinheira talentosa. De todas as coisas que ela fazia pela família, acho que refeições novas e exóticas eram as suas preferidas. E isto era especialmente verdade naqueles dias em que o Pai estava em casa. A Mamã passava a maior parte do dia a preparar uma das suas fantásticas refeições. Nalguns dias emque o Pai estava a trabalhar, a Mamã levava-nos em excitantes voltas pela cidade. Um dia, levou-nos a Chinatown em São Francisco. Enquanto passeávamos pela zona, a Mamã falou-nos acerca da cultura e da história do povo chinês. Quando voltamos, a Mamã pôs o gira-discos a tocar e a casa encheu-se de belos sons do 3 Brady Bunch: Programa de televisão dos anos 60 e 70, que conta a história de uma família numerosa e sem grandes problemas (N. T.)
  • 9. Oriente. Depois decoroua sala de jantar comlanternas chinesas. Nessa noite, vestiuumquimono e serviu algo que nos pareceu uma refeição muito exótica, mas deliciosa. No fim do jantar a Mamã deu-nos bolinhos da sorte e leu-nos as legendas. Eu senti que a mensagem do bolinho me conduziria ao meudestino. Alguns anos mais tarde, quando eu já sabia ler, encontrei uma das minhas sinas. Dizia: "Ama e honraa tua mãe, pois ela é o fruto que te dá a vida." Mas, voltando ao assunto, a nossa casa estava cheia de animais de estimação: gatos, cães, aquários cheios de peixes exóticos e uma tartaruga americana chamada "Thor". Eu lembro-me melhor da tartaruga, porque a Mamã deixou-me escolher um nome para ela. Senti-me orgulhoso, porque os meus irmãos tinham sido escolhidos para dar o nome aos outros animais e agora era a minha vez. Pus ao réptil o nome da minha personagemfavorita dos desenhos animados. Os aquários, com capacidade para perto de setenta litros, pareciam estar em todo o lado. Havia pelo menos dois na sala de estar, e um cheio de guppies4 no nosso quarto. A Mamã, criativamente, decorou os tanques aquecidos com areia colorida e folhas de metal colorido a forrar a parte de trás; tudo o que ela achasse que tornava os tanques mais realistas. Sentávamos- nos muitas vezes perto dos tanques, enquanto a Mamã nos falava das diferentes espécies de peixes. A mais fantástica das lições dadas pela Mamã veio num domingo de manhã. Um dos nossos gatos estava a ter um comportamento estranho. A Mamã fez-nos sentar perto da gata, enquanto explicava o processo do nascimento. Depois de todos os gatinhos terem deslizado em segurança para fora da mãe gata, a Mamã explicou com grandes pormenores a maravilha da vida. Fosse qual fosse a atividade da família, ela aparecia sempre com uma lição construtiva, embora geralmente não tivéssemos consciência de que estávamos a ser ensinados. Para a nossa família, durante esses bons anos, as férias começavam no Dia das Bruxas. Numa noite de outubro, quando a enorme lua estava bemà vista, a Mamã fez-nos sair a correr de casa para olhar para a "Grande Abóbora" no céu. Quando voltamos aos nossos quartos, disse- nos para procurarmos debaixo das almofadas, onde encontramos carrinhos de corrida. Os meus dois irmãos e eugritamos de alegriae o rosto da Mamã coroude orgulho. No dia a seguir ao da Ação de Graças, a Mamã enfiava-se na cave e depois trazia enormes caixas cheias de decorações de Natal. De pé sobre um escadote, pregava faixas decorativas às traves do teto. Quando acabava, todas as divisões da casa tinham um toque da época. Na sala de jantar, a Mamã colocava velas vermelhas de diferentes tamanhos sobre o tampo da sua tão apreciada arca de carvalho. Desenhos a imitar flocos de neve adornavam todas as janelas na sala de estar e de jantar. Luzes de Natal envolviam as janelas dos nossos quartos. Todas as noites eu adormecia olhando para o brilho suave e colorido das luzes de Natal que apagavame acendiam. A nossa árvore de Natal nunca tinha menos de dois metros e meio e a família inteira demorava horas a decorá-la. Todos os anos, umde nós tinha a honra de lhe ser permitido colocar o anjo no topo da árvore, enquanto o Pai nos segurava com os seus braços fortes. Depois de a árvore estar decorada e o jantar acabado, amontoávamos-nos na carrinha e percorríamos a vizinhança, admirando as decorações nas outras casas. A Mamã divagava sempre sobre as suas idéias acerca de coisas maiores e melhores para o Natal seguinte, embora os meus irmãos e eu soubéssemos que a nossa casa era sempre a melhor. Quando voltávamos a casa, a Mamã sentava- nos junto à lareira para bebermos caldo de rainha. Enquanto nos contava histórias, Bing Crosbycantava "White Christmas" na aparelhagem de som. Eu ficava tão excitado durante esses períodos de férias que não conseguia dormir. Por vezes, a mãe pegava-me ao colo, enquanto euadormecia ouvindo o crepitar do fogo. 4 guppies: Variedade de peixes tropicais ( N. T)
  • 10. À medida que o Dia de Natal se aproximava, os meus irmãos e eu ficávamos cada vez mais excitados. A pilha de presentes na base da árvore crescia de dia para dia. Quando o Natal finalmente chegava, haviadúzias de prendas para cada umde nós. Na véspera de Natal, depois de um jantar especial e das canções, tínhamos autorização para abrir uma prenda. Depois disso, éramos mandados para a cama. Eu esticava sempre as orelhas quando estava na cama, à espera do som das campainhas do trenó do Pai Natal. Mas adormecia sempre, antes de ouvir a sua rena aterrar no telhado. Antes do amanhecer, a Mamã entrava no nosso quarto e acordava-nos, murmurando: "O Pai Natal já veio!" Umano, deua cada umde nós umchapéualto amarelo e de plástico e fez-nos marchar para a sala de estar. Durava uma eternidade a rasgar o papel colorido dos embrulhos, para descobrir os nossos novos brinquedos de Natal. Depois, a Mamã dizia-nos para corrermos para o quintal das traseiras com as nossas roupas novas, para olharmos através da janela para a nossa enorme árvore de Natal. Naquele ano, de pé no quintal, lembro-me de ver a Mamã a chorar. Perguntei-lhe porque é que estava triste. A Mamã disse-me que estava a chorar de felicidade por ter uma verdadeira família. Pelo fato de o emprego do Pai lhe exigir que fizesse com freqüência turnos de 24 horas, a Mãe levava-nos muitas vezes em passeios de um dia inteiro a locais como o parque Golden Gate em São Francisco. Enquanto passeávamos devagar pelo parque, a Mamã explicava as diferenças entre as áreas e como ela invejava as flores maravilhosas. Deixávamos sempre para o fim a visita ao aquário Steinhart. Os meus irmãos e eu galgávamos as escadas e irrompíamos pelas pesadas portas. Sentíamos-nos excitados ao inclinarmos-nos sobre a cerca feita de bronze e em forma de cavalo-marinho, olhando lá para baixo para a pequena queda de água e para o lago onde viviam os crocodilos e as enormes tartarugas. Quando eu era criança, era este o meu local favorito, no parque inteiro. Uma vez tive medo ao imaginar cair da cerca abaixo, para o lago. Sem dizer uma palavra, a Mamã deve ter sentido o meu medo. Olhou para mim e deu-me a mão com muita suavidade. A primavera significava piqueniques. A Mamã preparava um banquete de frango frito, saladas, sanduíches e montes de sobremesas, na noite anterior. No dia seguinte, muito cedo, a nossa família acelerava para o parque Junipero Serra. Aí, os meus irmãos e eu corríamos à vontade pela relva e subíamos cada vez mais alto nos baloiços do parque. Por vezes aventurávamos-nos num caminho novo. A Mamã tinha sempre de nos interromper as brincadeiras, quando chegava a hora do almoço. Engolíamos a comida sem sequer a saborear e rapidamente os meus irmãos e eu eclipsávamos-nos para partes desconhecidas, à procura de grandes aventuras. Os nossos pais pareciam felizes por estarem deitados ao lado um do outro sobre uma manta, sorvendo vinho tinto e vendo-nos a brincar. Era sempre uma excitação quando a família ia de férias no verão. A Mamã era sempre o cérebro por detrás destas viagens. Planeava todos os pormenores e inchava de orgulho à medida que as atividades se desenrolavam. Geralmente viajávamos até Portola ou Memorial Park e acampávamos na nossa tenda verde, de tamanho gigante, durante uma semana ou duas. Mas sempre que o Pai nos levava para norte através da ponte Golden Gate, eu sabia que íamos ao meu local favorito no mundo inteiro: o Rio Russo. Para mim, a mais memorável viagem ao rio aconteceu no ano em que eu estava no jardim infantil. No último dia de aulas, a Mamã pediu que me deixassem sair meia hora mais cedo. Quando o Pai tocou a buzina, eu galguei o pequeno monte que separava a escola do carro que me esperava. Eu estava entusiasmado porque sabia aonde íamos. Durante a viagem, fiquei fascinado com as vinhas, aparentemente intermináveis. Quando entramos na calma cidade de Guerneville, abri a minha janela para cheirar o ar doce das árvores de pau-brasil. Cada dia representava uma nova aventura. Os meus irmãos e eu passávamos o dia a trepar pelo tronco de uma árvore velha e queimada, com as nossas velhas botas, ou a nadar no rio, na praia de Johnson. A praia de Johnson era um acontecimento para o dia inteiro. Nós deixávamos a nossa cabana às nove, e voltávamos depois das três. A Mamã ensinou-nos a nadar
  • 11. numa pequena poça do rio. Nesse verão, a Mamã ensinou-me a nadar de costas. Pareceu ficar muito orgulhosa, quando finalmente eufui capaz. Todos os dias pareciampolvilhados de magia. Umdia, depois do jantar, a Mamã e o Papá levaram-nos aos três para contemplarmos o pôr do sol. Demo-nos as mãos, depois de passarmos a cabana do Sr. Parker em direção ao rio. A água verde do rio estava lisa como vidro. Os gaios ralhavam aos outros pássaros e uma brisa tépida percorria-me os cabelos. Sem uma palavra, ficamos a olhar o sol que parecia uma bola de fogo, à medida que descia por detrás das árvores altas, deixando faixas brilhantes azuis e cor-de-laranja no céu. Senti que alguémme punha o braço sobre os ombros. Pensei que era o meu pai. Voltei-me e fiquei corado de orgulho ao ver que a Mamã me apertava com força. Eu conseguia sentir o seu coração a bater. Nunca me senti tão seguro e tão confortado como naquele momento, no Rio Russo.
  • 12. Capítulo 3 UM MAU RAPAZ A minha relação com a Mamã mudou, drasticamente, da disciplina para o castigo desenfreado. Tornou-se por vezes tão difícil, que eu nem força tinha para rastejar dali para fora; mesmo que isso significasse salvar a vida. Enquanto criança, eu, se calhar, tinha uma voz mais potente do que os outros. Também tinha o azar de ser apanhado a fazer asneiras, embora os meus irmãos e eu estivéssemos muitas vezes a cometer o mesmo "crime". No início, eu era posto num canto do nosso quarto. Nessa altura, eu já tinha medo da Mamã. Muito medo. Nunca lhe pedia que me deixasse sair. Sentava- me e esperava que um dos meus irmãos viesse ao nosso quarto e pedia-lhe que perguntasse se o Davidpodia sair e ir brincar. Por essa altura, o comportamento da Mamã começou a mudar radicalmente. Por vezes, enquanto o Pai estava a trabalhar, passava o dia inteiro deitada no sofá, com o robe vestido e a ver televisão. A Mamã só se levantava para ir à casa de banho, tomar outra bebida, ou aquecer restos de comida. Quando nos gritava, a sua voz transitava da mãe carinhosa para a bruxa má. Em breve, o som da voz da Mãe começou a causar-me calafrios na espinha. Mesmo quando vociferava para algumdos meus irmãos, eucorria a esconder-me no nosso quarto, esperando que ela voltasse rapidamente para o sofá, para a bebida e para o seu programa de televisão. Passado algum tempo, eu já sabia que espécie de dia iria ter, pelo modo como ela se vestia. Eu suspirava de alívio sempre que a Mamã saía do quarto com um lindo vestido e o rosto maquiado. Nesses dias, tinha sempre umsorriso. Quando a Mãe decidiu que o "tratamento do canto" já não dava resultado, fui promovido ao "tratamento do espelho". No princípio, era uma forma de castigo que não chamava a atenção. A Mãe limitava-se a agarrar-me e a esmagar a minha cara contra o espelho, esfregando o meu rosto, marcado pelas lágrimas, no vidro liso e refletor. Depois ordenava-me que repetisse: "Eu sou um mau rapaz! Eu sou um mau rapaz! Eu sou um mau rapaz!" Obrigava-me então a ficar de pé, fixando o espelho. Ficava ali com as mãos atadas aos flancos, balançando para a frente e para trás e receando o momento emque o segundo intervalo para anúncios entrasse no ar. Eu sabia que a Mãe em breve irromperia pelo vestíbulo para ver se a minha cara ainda estava colada ao espelho e para me dizer quão repugnante eu era. Sempre que os meus irmãos vinham ao quarto, enquanto eu estava ao espelho, olhavam para mim, encolhiam os ombros e continuavam a brincar como se eu não estivesse ali. No início eu ficava ciumento, mas em breve percebi que estavamapenas a tentar salvar a própria pele. Quando o Pai estava no trabalho, a Mãe gritava e berrava muitas vezes, enquanto forçava os meus irmãos e eu a procurarmos na casa inteira algo que ela tinha perdido. A procura começava geralmente de manhã e demorava horas. Passado algum tempo, geralmente mandava- me procurar na garagem que ficava debaixo de uma parte da casa, como uma cave. Mesmo aí, eu tremia ao ouvir a Mãe gritar comumdos meus irmãos. As buscas continuaram durante meses e, finalmente, eu era o único escolhido para procurar as coisas dela. Uma vez, esqueci-me do que estava a procurar. Quando timidamente lhe perguntei de que é que eu estava à procura, a Mãe deu-me um murro na cara. Estava deitada no sofá e nem sequer deixou de ver o seu programa de televisão. O sangue escorreu-me pelo nariz e comecei a chorar. A Mãe tirou um guardanapo da mesa, arrancou um bocado e enfiou-mo pelo nariz acima. −Sabes muito bemde que é que estás à procura! − gritou. − Agora vai buscá-lo! Eu descia a correr para a cave, certificando-me de que fazia barulho suficiente para convencer a Mãe de que estava a obedecer febrilmente à sua ordem. À medida que o "encontrem
  • 13. as coisas" da Mãe se tornava mais habitual, comecei a fantasiar que encontrava o objeto perdido. Imaginava-me a marchar escada acima com o meu troféu, e a Mamã a receber-me com beijos e abraços. A minha fantasia incluía a família a viver feliz para sempre. Mas nunca encontrei nenhuma das coisas perdidas da Mãe e ela nunca me deixou esquecer-me de que eu era um perdedor incompetente. Enquanto criança, percebi que a Mamã era diferente, como o dia da noite, quando o Pai chegava a casa do trabalho. Quando a Mamã arranjava o cabelo e punha roupas bonitas, parecia mais calma. Eu adorava quando o Papá estava em casa. Significava que não havia pancada, tratamentos do espelho ou longas procuras de coisas perdidas. O Pai tornou-se o meu protetor. Sempre que ele ia para a garagempara trabalhar numprojeto, euseguia-o. Se ele se sentava na sua cadeira favorita para ler o jornal, eu punha-me aos seus pés. À noite, depois de a louça do jantar ser tirada da mesa, o Pai lavava e eusecava. Eusabia que, enquanto estivesse ao seulado, não me acontecia mal nenhum. Um dia, antes de ele sair para o trabalho, tive um choque tremendo. Depois de se despedir do Ron e do Stan, ajoelhou-se, apertou-me os ombros com força e disse-me para ser "umbomrapaz". A Mãe estava de pé por detrás dele comos braços cruzados sobre o peito e um sorriso cruel no rosto. Olhei para os olhos do meupai e soube nesse instante que euera um"mau rapaz". Um arrepio gelado atravessou-me o corpo. Queria agarrar-me a ele e nunca o largar, mas antes de conseguir dar-lhe umabraço ele levantou-se, voltou-se e saiu, semdizer mais nada. Durante um certo tempo após o aviso do Pai, as coisas entre a Mãe e eu pareceram acalmar. Quando o Papá estava emcasa, os meus irmãos e eubrincávamos no nosso quarto oulá fora, até às três da tarde. A Mãe ligava então a televisão para podermos ver desenhos animados. Para os meus pais, as três da tarde significavam "A Hora Feliz". O Pai cobria o tampo do balcão da cozinha com garrafas de álcool e copos altos com desenhos. Cortava limões e limas, colocando-os em pequenas taças ao lado de um pequeno jarro com cerejas. Frequentemente, bebiam desde o meio da tarde até os meus irmãos e eu irmos para a cama. Lembro-me de os ver a dançar à volta da cozinha com música do rádio. Ficavam muito juntinhos, e pareciam felizes. Eu pensava que podia enterrar os maus tempos. Estava enganado. Os maus tempos estavam só a começar. Um mês ou dois mais tarde, num domingo, enquanto o Pai estava no trabalho, os meus irmãos e euestávamos a brincar no nosso quarto, quando ouvimos a Mãe a correr pelo vestíbulo, gritando conosco. O Ron e o Stan correram a esconder-se na sala de estar. Eu sentei-me imediatamente na minha cadeira. Com os braços esticados e levantados, a Mãe dirigiu-se a mim. À medida que se aproximava, eu fui encostando a cadeira à parede. Pouco depois a minha cabeça batia na parede. Os olhos da Mãe estavam vidrados e vermelhos e o seu hálito cheirava a álcool. Fechei os olhos, quando os socos começaram a atirar-me de um lado para o outro. Tentei proteger o rosto com as mãos, mas a Mãe empurrava-as. Os seus golpes pareciam nunca mais acabarem. Finalmente, levantei o meu braço esquerdo para cobrir o rosto. Quando a Mãe me agarrou o braço, perdeu o equilíbrio e recuou um passo. Enquanto ela lutava violentamente para recuperar a estabilidade, ouvi qualquer coisa a estalar e senti uma dor intensa no ombro e no braço. A expressão de espanto no rosto da Mãe dizia-me que ela também tinha ouvido o som, mas libertou-me o braço e foi-se embora como se nada tivesse acontecido. Segurei o braço, enquanto ele começava a latejar de dor. Antes de poder, de fato, observar o meu braço, a Mãe chamou-me para jantar. Cheguei-me a um tabuleiro para tentar comer. Quando tentei ir buscar um copo de leite, o meu braço esquerdo não reagiu. Os meus dedos mexiam-se, obedecendo às minhas ordens, mas o meu braço zumbia e ficava inerte. Olhei para a Mãe, tentando suplicar com os olhos. Ela ignorou-me. Eu sabia que algo se passava de muito grave, mas tinha demasiado medo para pronunciar uma só palavra. Limitei-me a estar ali sentado, olhando fixamente para o meu tabuleiro de comida. A Mãe, finalmente, deu-me licença para sair dali e mandou-me cedo para a cama, dizendo-me para dormir no beliche de cima. Isto não era usual, pois eu sempre dormira no
  • 14. de baixo. Já perto da madrugada adormeci por fim, com o meu braço esquerdo cuidadosamente protegido pelo outro. Não dormira ainda muito tempo quando a Mãe me acordou, explicando que eu tinha caído do beliche durante anoite. Parecia muito preocupada como meuestado ao conduzir-me ao hospital. Quando ela contou ao médico a minha queda do beliche de cima eu percebi, pelo olhar que ele me lançou, que sabia que o meu ferimento não tinha sido um acidente. Eu estava outra vez com demasiado medo para falar. Em casa, a Mãe inventou uma história ainda mais dramática para o Pai. Na nova versão, a Mãe incluiuos seus esforços para me apanhar antes de euchegar ao chão. Ao sentar-me no colo da Mãe, ouvindo-a mentir ao Pai, percebi que a minha mamã estava doente. Mas o meu medo transformou o acidente no nosso segredo. Eu sabia que, se contasse a alguém, o próximo "acidente" seria pior. A escola era um abrigo para mim. Sentia-me excitado por estar longe da Mãe. Nos intervalos, eu era uma espécie de selvagem. Corria pelo recreio coberto de cortiça à procura de coisas novas e interessantes para fazer. Fazia amigos facilmente e sentia-me muito feliz por estar na escola. Um dia, no fim da primavera, ao voltar a casa da escola, a Mãe atirou-me para dentro do seuquarto. Então gritou-me, afirmando que eunão podia passar de classe porque era ummau rapaz. Eu não percebi. Sabia que tinha mais testes positivos do que qualquer outro na turma. Obedeciaà minha professora e sentia que ela gostava de mim. Mas a Mãe continuava a berrar que eu tinha envergonhado a família e seria severamente punido. Decidiu que eu estava proibido de ver televisão para sempre. Eu ia ficar sem jantar e tinha de cumprir todas as tarefas que ela imaginasse. Depois de outra sova, fui mandado para a garagem, onde tive que ficar de pé até a Mãe me mandar paraa cama. Nesse verão, sem aviso, fui despejado na casa da minha tia Josie, a caminho do acampamento. Ninguém me disse nada sobre o assunto e eu não compreendia por que. Senti-me um marginal, quando a carrinha se afastou, deixando-me para trás. Senti-me tão triste e vazio! Tentei fugir da casa da minha tia. Queria encontrar a minha família e, por alguma estranha razão, queria estar com a Mãe. Não cheguei muito longe e a minha tia mais tarde informou a mãe da minha tentativa. Na vez seguinte em que o Pai fez o turno de 24 horas, eu paguei pelo meu pecado. A Mãe esbofeteou-me, esmurrou-me e deu-me pontapés até eu cair para o chão. Tentei dizer-lhe que fugira porque queria estar com ela e com a família. Tentei dizer-lhe que tinha sentido a falta dela, mas a Mãe recusou-se a deixar-me falar. Tentei mais uma vez e ela correu à casa de banho, agarrou numa barra de sabão e enfiou-ma pela garganta abaixo. Depois disso, deixei de ter autorização para falar, a não ser que recebesse ordens nesse sentido. Voltar à mesma classe foi uma alegria. Eu tinha as bases e fui automaticamente considerado o gênio da turma. Como não passei de ano, o Stan e eu estávamos no mesmo nível. Durante os intervalos, eu ia à turma do Stan para brincar. Na escola éramos os melhores amigos; contudo, emcasa, ambos sabíamos que eutinha de ser ignorado. Um dia corri para casa para mostrar um teste. A Mãe atirou-me para o seu quarto, gritando acerca de uma carta que recebera do Pólo Norte. Afirmava que a carta dizia que eu era "um mau rapaz" e o Pai Natal não me traria presentes no Natal. Continuou a enfurecer-se, dizendo que eu tinha envergonhado a família de novo. Eu fiquei numa grande confusão, à medida que ela me atormentava sem descanso. Senti que estava a viver num pesadelo que a Mãe tinha criado e rezava para que acordasse. Antes do Natal desse ano havia apenas um par de presentes para mimdebaixo da árvore e vinhamde parentes afastados. Na manhã de Natal o Stan atreveu-se a perguntar-lhe porque é que o Pai Natal me tinha trazido apenas dois desenhos para colorir. Ela explicou-lhe dizendo que "o Pai Natal só traz brinquedos aos bons rapazes e raparigas". Eu captei um olhar do Stan. Havia sofrimento nos seus olhos, e apercebi-me de que ele compreendia os jogos excêntricos da Mãe. Uma vez que eu estava ainda sob castigo, no Dia de Natal tive que vestir o meu fato de trabalho e desempenhar as minhas tarefas. Quando estava a limpar a casa de banho, ouvi uma discussão entre a Mãe e o Pai. Ela estava zangada comele por "ter ido nas suas costas" comprar-me os desenhos. A Mãe disse ao Pai que ela é que estava
  • 15. encarregada de disciplinar "o rapaz", e que ele a tinha desautorizado ao comprar os presentes. Quanto mais o Pai se justificava, mais furiosa ela ia ficando. Percebi que ele perdera, e que eu ia ficando cada vez mais isolado. Uns meses mais tarde a Mãe tornou-se a mãe-abrigo do Clube de Escoteiros. Sempre que os outros miúdos vinham a nossa casa, ela tratava-os como reis. Alguns disseram-me que gostariam que as suas mães fossem como a minha. Eu nunca respondi, mas perguntava a mim próprio o que pensariam eles se soubessem a verdade. A Mãe só manteve essa ocupação durante uns meses. Quando ela desistiu eu fiquei aliviado, porque isso significava que podia ir a casa dos outros miúdos para os encontros das quartas-feiras. Numa quarta-feira fui a casa, vindo da escola, para vestir o meu uniforme azul e dourado do Clube dos Escoteiros. A Mãe e eu éramos os únicos em casa e, pela expressão do seu rosto, percebi que ela queria sangue. Depois de esmagar o meu rosto contra o espelho do quarto, agarrou-me no braço e arrastou-me para o carro. Durante a viagem para a casa da mãe-abrigo, a minha Mãe disse-me o que me ia fazer quando chegássemos a casa. Eu fugi para a extremidade do assento da frente do carro, mas não resultou. Ela estendeu o braço sobre o assento e agarrou- me o queixo, levantando-me a cabeça na direção da dela. Os olhos da Mãe estavam raiados de sangue e a voz pareciaa de uma louca. Quando chegamos a casa da mãe-abrigo, corri para a porta a chorar. Lamuriei que tinha sido um mau rapaz e não podia ir à reunião. A mãe-abrigo sorriu amavelmente, dizendo que gostaria que euviesse à próxima reunião. Foi a última vez que a vi. Em casa, a Mãe ordenou-me que tirasse a roupa e ficasse de pé junto ao fogão. Eu tremia de medo e de perturbação. Então ela revelou o meu crime hediondo. Disse-me que tinha ido várias vezes à escola para observar os meus irmãos e eu a brincarmos no intervalo do almoço. Afirmou que me vira sempre a brincar na relva, o que era absolutamente proibido pelas suas regras. Eu respondi rapidamente que nunca brincava na relva. Sabia que ela se tinha enganado. A minha recompensa por cumprir as regras da Mãe e dizer a verdade foi umsoco na cara. A Mãe então acendeu os bicos de gás do fogão da cozinha. Disse-me que lera um artigo acerca de uma mãe que obrigara o filho a deitar-se sobre um fogão a escaldar. Eu fiquei imediatamente aterrorizado. O meu cérebro ficou paralisado, e as minhas pernas vacilaram. Eu queria desaparecer. Fechei os olhos, desejando que ela estivesse longe. O meu cérebro fechou-se quando senti a mão da Mãe agarrar-me o braço como se estivesse drogada. − Tornaste-me a vida num inferno! − disse em tom de escárnio. −Agora é altura de eu te mostrar como é o inferno! Agarrando-me o braço, pô-lo na chama laranja-azulada. A minha pele parecia explodir com o calor. Sentia o cheiro dos pelos chamuscados do meu braço queimado. Por mais que lutasse, não conseguia que a Mãe me largasse o braço. Finalmente caí no chão, sobre as mãos e os joelhos, e tentei soprar para o meubraço. −É uma pena o bêbedo do teupai não estar aqui para te salvar − disse emtomsibilante. Então, ordenou-me que subisse para cima do fogão, para ela me ver a arder. Eu recusei, chorando e implorando. Estava com tanto medo, que batia com os pés em protesto. Mas a Mãe continuava a empurrar-me para cima do fogão. Euolhava para as chamas, rezando para que o gás acabasse. De repente, comecei a perceber que, quanto mais tempo eu conseguisse manter-me afastado do topo do fogão, mais chances tinha de sobreviver. Sabia que o meu irmão Ron chegaria em breve da reunião dos escoteiros e sabia que a Mãe nunca agia desta forma bizarra quando mais alguém estava em casa. Para sobreviver eu tinha que empatar. Lancei um olhar para o relógio da cozinha atrás de mim. O segundo ponteiro parecia andar tão devagar. Para manter a Mãe desorientada, comecei a fazer perguntas emtomlamentoso. Isto ainda a enfureceumais e ela começou a desferir-me socos na cabeça e no peito. Quanto mais me batia, mais eu me ia apercebendo de que ganhara! Tudo era melhor do que arder no fogão. Finalmente, ouvi a bandeira da porta da frente a abrir-se. Era o Ron. O meu coração encheu-se de alívio. O rosto da Mãe ficou sem sangue. Ela sabia que perdera. Por um instante a
  • 16. Mãe gelou. Aproveitei para agarrar nas roupas e correr para a garagem, onde me vesti rapidamente. Encostei-me à parede e comecei a choramingar, até que compreendi que eu a vencera. Eu empatara uns minutos preciosos. Eu usara a cabeça para sobreviver. Pela primeira vez, euvencera! De pé, ali sozinho naquela garagem úmida e escura, eu soube, pela primeira vez, que podia sobreviver. Decidi que usaria qualquer tática em que pudesse pensar para derrotar a Mãe, ou para a deter na sua lamentável obsessão. Sabia que, se eu quisesse viver, tinha que pensar com antecedência. Não podia continuar a chorar como um bebê indefeso. Para poder sobreviver, eu nunca podia ceder. Nesse dia, jurei a mim próprio que nunca mais daria àquela megera a satisfação de me ouvir implorar que não me batesse mais. No frio da garagem, todo o meu corpo tremia, não só de gelada ira, mas também de intenso medo. Usei a língua para lamber a ferida e aliviar o meu braço latejante. Apetecia-me gritar, mas recusei-me a dar-lhe o prazer de me ouvir chorar. Eu mantive-me de costas direitas. Consegui ouvir a Mãe falar com o Ron lá em cima, dizendo-lhe quão orgulhosa estava dele, e quão tranqüila estava quanto à possibilidade de ele se tornar igual ao David: ummaurapaz.
  • 17. Capítulo 4 A LUTA PELA COMIDA No verão a seguir ao incidente da queimadura, a escola tornou-se a minha única esperança de salvação. Exceto durante o breve espaço de uma ida à pesca, as coisas com a Mãe eram o jogo do toca e foge, ou do esmaga e arremessa: ela esmagava-me e eu arremessava-me para a solidão da cave/garagem. O mês de setembro trouxe a escola e a felicidade. Eutinha roupa nova e uma lancheira nova e brilhante. Pelo fato de a Mãe me fazer usar as mesmas roupas semana após semana, emoutubro as minhas roupas estavam gastas, rasgadas e mal-cheirosas. Ela nem se preocupava em disfarçar as feridas no meu rosto e braços. Se me interrogassem, eu já tinha preparadas as desculpas que a Mãe me tinha posto na cabeça. Nessa altura, ela "esquecia-se" de me dar o jantar. O pequeno-almoço não era muito melhor. Um dia, tive autorização para comer os restos dos flocos de cereais dos meus irmãos, mas só se cumprisse todas as minhas tarefas antes de ir para a escola. À noite eu tinha tanta fome que o meu estômago rugia como se eu fosse um urso zangado e ficava acordado a pensar na comida. "Talvez amanhã eu possa jantar", dizia para mim próprio. Horas mais tarde, deixava-me adormecer, sonhando com comida. Sonhava sobretudo com hamburgers colossais, com todos os acompanhamentos. Nos meus sonhos agarrava no meu prêmio e levava-o à boca. Visualizava cada bocadinho do hamburger. A carne pingava de gordura, e fatias grossas de queijo borbulhavam em cima. Os condimentos infiltravam-se entre a alface e o tomate. Ao trazer o hamburger na direção do rosto, abria a boca para devorar o meu prêmio, mas não acontecia nada. Tentava repetidamente, mas, por mais que lutasse, não conseguia saborear um pedaço da minha fantasia. Momentos mais tarde, acordava com o estômago mais vazio do que antes. Não conseguia matar a fome, nemsequer nos meus sonhos. Pouco depois de começar a sonhar comcomida, passei a roubar comida na escola. O meu estômago encolhia-se, não só de medo, mas também de ansiedade. Ansiedade, porque sabia que dentro de segundos teria alguma coisa para pôr no estômago. Medo, porque também sabia que, em qualquer altura, podia ser apanhado a roubar. Roubava sempre a comida antes de as aulas começarem, enquanto os meus colegas brincavam fora do edifício. Encostava-me à parede, na parte de fora da minha aula de homeroom, punha a minha lancheira ao pé de uma outra e ajoelhava- me para que ninguém me visse a pilhar os seus lanches. As primeiras vezes foram fáceis, mas depois de vários dias alguns estudantes começaram a descobrir que as barras de chocolate e outras sobremesas tinham desaparecido. Passado pouco tempo, os meus colegas de turma começaram a odiar-me. O professor disse ao diretor que, por sua vez, informou a minha Mãe. A luta pela comida tornou-se um ciclo. O relatório que o diretor fazia à Mãe levava a que eu tivesse mais tareia e menos comida emcasa. Nos fins-de-semana, para me castigar dos meus roubos, a Mãe recusava-se a alimentar- me. No domingo à noite, crescia-me água na boca quando começava a imaginar formas novas e seguras de roubar comida sem ser apanhado. Um dos meus planos era roubar de outras turmas, onde eu não era tão conhecido. À segunda-feira de manhã, eu saía a correr do carro da Mãe para uma nova turma, a fim de tirar coisas das lancheiras. Consegui manter-me durante algum tempo, mas não duroumuito até o diretor relacionar os roubos coma minha pessoa. Em casa o castigo duplo da fome e dos ataques violentos continuou. Nessa altura, para todos os efeitos práticos, eu já não era um membro da família. Eu existia, mas era quase completamente ignorado. A Mãe até tinha deixado de usar o meu nome; referia-se a mim apenas como: O Rapaz. Não era autorizado a tomar as refeições com a família, brincar com os meus irmãos, ou ver televisão. Estava encalhado na casa. Não podia olhar nem falar com ninguém.
  • 18. Quando vinha da escola para casa, cumpria imediatamente todas as tarefas que a Mãe me atribuía. Quando as tarefas acabavam, ia diretamente para a cave, onde ficava de pé até ser chamado para levantar a mesa ou lavar a louça. Ficou muito claro que ser apanhado sentado ou deitado lá em baixo na cave me trariaconseqüências terríveis. Eutinha-me tornado o escravo da Mãe. O Pai era a minha única esperança e ele fazia tudo o que podia para me passar pedaços de comida. Tentava embebedar a Mãe, pensando que o álcool podia pô-la mais bem-disposta. Tentava levar a Mãe a mudar de opinião quanto à minha alimentação. Tentou até fazer acordos, prometendo-lhe este mundo e o outro. Mas todas as suas tentativas foram em vão. A Mãe era firme como uma rocha. Se possível, a bebedeira ainda a tornava pior. A Mãe foi-se tornando num monstro. Eu sabia que os esforços do Pai para me ajudar estavam a causar um mau ambiente entre ele e a Mãe. Em breve começaram a surgir discussões a meio da noite. Da cama eu conseguia ouvir o ritmo a crescer, até um clímax de estalar os ouvidos. Nessa altura estavam ambos bêbedos e eu ouvia a Mãe gritar toda a espécie de impropérios. Fosse qual fosse o assunto inicial da luta, eu rapidamente me tornava o objeto da disputa. Sabia que o Pai estava a tentar ajudar, mas na cama eu continuava a tremer de medo. Sabia que ele perderia, tornando as coisas piores para mim no dia seguinte. Quando começavam a brigar, a Mãe arrancava no carro com os pneus a guincharem. Geralmente voltava em menos de uma hora. No dia seguinte, ambos agiam como se nada tivesse acontecido. Eu ficava agradecido, quando o Pai arranjava uma desculpa para descer à cave e me passava umbocado de pão. Prometia-me sempre que continuaria a tentar. À medida que as discussões entre a Mãe e o Pai se tornarammais freqüentes, ele começou a mudar. Frequentemente, após uma discussão, enchia um saco de roupa e partia para o trabalho a meio da noite. Depois de ele sair, a Mãe arrancava-me da cama e arrastava-me para a cozinha. Enquanto eu permanecia de pé, tremendo no meu pijama, empurrava-me de um lado para o outro da cozinha. Uma das minhas técnicas de resistência consistia em deitar-me no chão, como se não tivesse força suficiente para me manter de pé. Essa técnica não durou muito tempo. A Mãe puxava-me pelas orelhas e gritava-me para o rosto com o seu hálito alcoólico, minutos seguidos. Nessas noite a sua mensagem era sempre a mesma: eu era o motivo dos problemas entre ela e o Pai. Muitas vezes, eu ficava tão cansado, que as minhas pernas tremiam. A minha única saídaera fixar o chão e esperar que a Mãe ficasse semforças. Quando eu mudei de classe, a Mãe ficou grávida do quarto filho. A minha professora, a menina Moss, começou a ter um interesse especial por mim. Começou por me fazer perguntas acerca da minha falta de atenção. Eu mentia, dizendo que tinha ficado a ver televisão até tarde. As minhas mentiras não eramconvincentes e ela continuoua fazer perguntas, não só sobre o fato de eu estar com sono, mas também sobre o estado da minha roupa e as marcas no meu corpo. A Mãe ensaiava-me sempre sobre o que dizer a respeito do meu aspecto. Por isso eu limitava-me a contar à professora a história que a mãe queria. Os meses foram passando e a menina Moss tornou-se mais persistente. Um dia, participou finalmente a sua preocupação ao diretor da escola. Ele conhecia-me bem como o ladrão de comida, por isso mandou chamar a Mãe. Quando voltei a casa nesse dia, foi como se alguém tivesse largado uma bomba atômica. A Mãe estava mais violenta do que nunca. Estava furiosa, porque um professor "Hippie" a tinha acusado de maltratar uma criança. A Mãe disse que se iria encontrar com o diretor no dia seguinte, para se defender das falsas acusações. No fim da sessão, o meunariz sangroupor duas vezes e faltava-me umdente. Quando voltei da escola, na tarde seguinte, a Mãe sorria, como se tivesse ganho um milhão de dólares nas corridas de cavalos. Contou-me como se tinha vestido para ir ver o diretor, com o seu bebê Russel nos braços. Contou-me como explicara ao diretor que o David tinha uma imaginação prodigiosa. A Mãe disse-lhe que o David se tinha muitas vezes golpeado e arranhado a si próprio para chamar a atenção, desde o recente nascimento do seu novo irmão, Russel. Eu conseguia imaginá-la a usar o seu encanto de serpente, à medida que acariciava o Russel para que o diretor visse. No fim da conversa, a Mãe disse que tinha imenso prazer em colaborar com a
  • 19. escola. Disse que podiam chamá-la sempre que houvesse qualquer problema com o David. A Mãe disse que o pessoal da escola tinha recebido instruções para não dar atenção às minhas loucas histórias sobre bater em crianças ou não lhes dar comida. Estar ali de pé na cozinha nesse dia, ouvindo-a gabar-se, deu-me uma sensação de vazio total. Enquanto me contava o encontro, eu sentia a sua confiança fortalecida e essa confiança fez-me temer pela minha vida. Desejei eclipsar-me e desaparecer para sempre. Nesse verão, a família passou férias junto do Rio Russo. Embora me desse melhor com a mãe, o sentimento mágico tinha desaparecido. As corridas pelo feno, os churrascos e as histórias eram coisas já antigas. Passávamos cada vez mais tempo dentro da cabana. Até mesmo as excursões à praia de Johnson eramraras. O Pai tentou tornar as férias mais divertidas, levando-nos ao novo super-escorrega. O Russel, que era ainda umser cambaleante, ficou na cabana com a Mãe. Um dia, quando o Ron, o Stan e eu estávamos a brincar na cabana de um vizinho, a Mãe chegou à porta e gritou para que entrássemos imediatamente. Já dentro da cabana, fui admoestado por fazer demasiado barulho. Para castigo, não tinha autorização para ir com o Pai e os meus irmãos ao super-escorrega. Sentei-me numa cadeira aumcanto, a tremer, desejando que acontecesse alguma coisa de modo a que os três não se fossem embora. Eu sabia que a Mãe tinha qualquer coisa terrível na cabeça. Logo que eles partiram, trouxe uma das fraldas sujas do Russel. Esfregou-me a fralda na cara. Eu tentei manter-me sentado, perfeitamente quieto. Sabia que se me mexesse seria pior. Não olhei para cima. Não conseguia ver a Mãe por cima de mim, mas conseguia ouvir a sua respiração pesada. Depois do que me pareceu ser uma hora, ela ajoelhou-se a meu lado e, numa voz sarcástica, disse: −Come-a. Euolhei emfrente, evitando os seus olhos. "Nempensar!" disse para mimpróprio. Como em muitas vezes anteriores, evitá-la era a pior coisa. A Mãe abanou-me de um lado para o outro. Eumantive-me agarrado à cadeira, temendo que, se caísse, ela saltasse para cima de mim. −Eudisse come-a! − afirmouemtomde escárnio. Mudando de tática, comecei a chorar. "Empata-a", pensei comigo próprio. Comecei a contar mentalmente, tentando concentrar-me. O tempo era o meu único aliado. A Mãe respondeuao meuchoro commais socos na cara e só parouquando ouviuo Russel a chorar. Mesmo com a cara coberta de fezes, eu estava satisfeito. Pensei que podia vencer. Tentei atirar o pano fora, arremessando-o para o chão de madeira. Ouvia a Mãe cantando suavemente para o Russel, e imaginei-o embalado nos seus braços. Rezei para que ele não adormecesse. Uns minutos mais tarde a minha sorte acabou. Ainda a sorrir, a Mãe voltou à sua batalha. Agarrou-me pela parte de trás do pescoço e levou-me até à cozinha. Ali, aberta sobre o tampo do balcão, estava outra fralda cheia. O cheiro deu-me volta ao estômago. −Agora, vais comê-la! − disse. A Mãe tinha a mesma expressão nos olhos que tivera no dia em que queria que eu me deitasse em cima do fogão a gás, lá em casa. Sem mover a cabeça, virei os olhos, à procura do relógio da cor das margaridas que eu sabia estar na parede. Alguns segundos depois, percebi que o relógio estava atrás de mim. Sem o relógio, sentia-me indefeso. Eu sabia que tinha de me concentrar nalguma coisa, de modo a manter algum controlo sobre a situação. Antes de eu conseguir encontrar o relógio, as mãos da Mãe agarraram-me o pescoço. Repetiude novo: −Come-a! Eu sustive a respiração. O cheiro era nauseabundo. Tentei focalizar o canto superior da fralda. Os segundos pareciam horas. A Mãe deve ter percebido o meu plano. Esfregou-me a cara na fralda de umlado parao outro. Eu previ o que ela ia fazer. Ao sentir a cabeça empurrada para baixo, fechei os olhos com força e mantive a boca fechada. O meunariz bateulá primeiro. Uma sensação tépida deslizou-me pelas narinas. Tentei reter o sangue, inspirando. Bocados de fezes subiram-me pelo nariz,
  • 20. juntamente com o sangue. Pus as mãos em cima do tampo do balcão e tentei libertar-me. Torci- me de um lado para o outro com toda a minha força, mas ela era demasiado forte. De repente, a Mãe soltou-me. −Vêmaí! Vêmaí! − arquejou. A Mãe tirouumpano do lava-louça e atirou-mo. −Limpa a merda da cara − rugiu, enquanto limpava as manchas castanhas do tampo do balcão. Limpei a cara o melhor que pude, mas antes, deitei bocados de fezes pelo nariz. Momentos mais tarde, a Mãe enfiou-me umguardanapo no meunariz ensangüentado e ordenou- me que me sentasse no canto. Fiquei ali sentado o resto da tarde, ainda como cheiro da fralda no nariz. A família nunca mais voltouao Rio Russo. Em setembro voltei à escola com a roupa do ano anterior e a minha velha e gasta lancheira verde. Eu era uma miséria ambulante. A Mãe embrulhava o mesmo almoço todos os dias: duas sanduíches de manteiga de amendoim e alguns pedaços de cenoura. Como eu já não era um membro da família, já não podia ir na carrinha para a escola. A Mãe mandava-me ir a correr para a escola. Sabiaque eunão chegaria a tempo de roubar comida aos meus colegas. Na escola, eu era um completo marginal. Nenhum miúdo queria nada comigo. Durante o intervalo do almoço, enfiava as sanduíches pela garganta abaixo, enquanto ouvia os meus antigos amigos inventarem canções sobre mim. "David, o Ladrão de Comida" e "Pelzer, o Mal-Cheiroso"5 eram duas das favoritas. Não tinha ninguém com quem falar ou com quem brincar. Sentia-me completamente só. Em casa, de pé durante horas na garagem, passava o tempo a imaginar novas formas de arranjar comida. O Pai, de vez em quando, tentava passar-me bocados de comida, mas com pouco êxito. Acabei por acreditar que, se conseguisse sobreviver, eu teria que me bastar a mim próprio. Esgotara todas as possibilidades na escola. Os alunos agora escondiam todos as lancheiras ou fechavam-nas à chave no armário da sala de aula. Os professores e o diretor conheciam-me e observavam-me atentamente. Eu não tinha praticamente nenhuma hipótese de roubar mais comida na escola. Finalmente concebi um plano que poderia funcionar. Os alunos não tinham autorização para sair do recreio durante o intervalo do almoço; por isso ninguém esperaria que eu saísse. A minha idéia era escapulir-me do recreio e correr para a mercearia local para roubar bolos, pão, batatas fritas ou qualquer outra coisa. Na minha mente, planeei cada passo do meu esquema. Quando corri para a escola na manhã seguinte, contei todos os passos, de modo a poder calcular o meu ritmo e mais tarde aplicá-lo à minha excursão à mercearia. Ao fim de algumas semanas, tinha toda a informação de que precisava. A única coisa que faltava era encontrar coragem para tentar o plano. Sabia que demoraria mais tempo a ir da escola à mercearia porque era a subir; por isso, calculei 15 minutos. Voltar para baixo seria mais fácil; então calculei 10 minutos. Isso significava que tinha apenas 10 minutos na mercearia. Todos os dias, quando corria para a escola e da escola, tentava correr mais depressa, marcando cada passo como se fosse um atleta de maratona. À medida que os dias passavam e o meu plano se tornava mais sólido, a minha fome foi substituída por fantasias. Eu fantasiava, sempre que desempenhava as minhas tarefas em casa. De gatas, enquanto esfregava os azulejos da casa de banho, imaginava que era o príncipe da história O Príncipe e o Pobre. Enquanto Príncipe, eusabia que podia pôr fimao papel de criado, sempre que quisesse. 5 "Pelzer, o Mal-Cheiroso”: No original: "Pelzer-Smellzer". Joga-se aqui com a semelhança sonora entre o apelido da personagem (Pelzer) e a designação "Smellzer", derivada de "Smell" (cheiro). (N. T.)
  • 21. Na cave permanecia quieto com os olhos fechados, sonhando que era um herói de banda desenhada. Mas os meus devaneios eram sempre interrompidos pelos gritos da fome e os meus pensamentos depressa voltavamao meuplano de roubar comida. Mesmo quando eu tinha a certeza de que o meu plano era infalível, sentia demasiado medo para o pôr em ação. Durante o intervalo do almoço na escola, andava à volta do recreio, dando desculpas a mim próprio pela minha falta de coragem para correr até à mercearia. Dizia a mimpróprio que seria apanhado ouque os meus cálculos do tempo não eramrigorosos. Durante a discussão comigo próprio o meuestômago grunhia, chamando-me "cobardolas". Finalmente, depois de vários dias sem jantar e só com os poucos restos ao pequeno- almoço, decidi fazê-lo. Momentos depois de a campainha do intervalo do almoço tocar, acelerei pela rua acima, afastando-me da escola com o coração a bater e os pulmões a rebentar. Cheguei à mercearia em metade do tempo que tinha calculado. Ao percorrer os corredores da mercearia, senti-me como se todos estivessem a olhar para mim. Senti-me como se todos os clientes estivessem a falar acerca da criança mal-cheirosa e esfarrapada. Foi então que percebi que o meu plano não tinha hipóteses, porque não tinha considerado o impacto que podia ter nas outras pessoas. Quanto mais me preocupava com o meu aspecto, mais o medo se apoderava do meu estômago. Enregelei no corredor, sem saber o que fazer. Comecei lentamente a contar os segundos. Comecei a pensarem todas as vezes que passei fome. De repente, sem pensar, agarrei a primeira coisa que vi na prateleira, saí do armazém a correr e acelerei até à escola. Apertado na minha mão estava o meuprêmio: uma caixa de bolachas. Ao aproximar-me da escola, escondi o que era meu sob a camisa, no lado que não tinha buracos, e atravessei o pátio. Lá dentro, enfiei a comida no caixote do lixo da sala de estar dos rapazes. Mais tarde, depois de dar uma desculpa ao professor, voltei à sala para devorar o meu prêmio. Já sentia água naboca, mas o meucoração desfaleceuquando olhei para o caixote do lixo vazio. Todos os meus cuidadosos planos e toda a minha esperança de que iria comer, desperdiçados. A contínua tinha despejado o caixote antes de eu conseguir escapulir-me até à sala. Nesse dia o meu plano falhou, mas tive sorte noutras tentativas. Uma vez consegui esconder o meu tesouro na minha secretária na sala de homeroom para vir a descobrir, no dia seguinte, que tinha sido transferido para a escola do outro lado da rua. Exceto pelo fato de perder a comida roubada, fiquei satisfeito com a transferência. Sentia que agora tinha uma nova possibilidade de roubar. Não só conseguia de novo tirar comida aos meus colegas de turma, como corria até à mercearia cerca de uma vez por semana. Por vezes, na mercearia, se eu sentia que as coisas não estavam bem, não roubava nada. Como sempre, acabei por ser apanhado. O gerente chamou a Mãe. Em casa, fui sovado sem piedade. A Mãe sabia por que é que eu roubava comida e o Pai também, mas mesmo assim recusava-se a alimentar-me. Quanto mais ansiava por comida, mais tentava arranjar umplano melhor para a roubar. Depois do jantar a Mãe tinha o hábito de despejar os restos dos pratos para um pequeno caixote do lixo. Então mandava-me vir da cave, onde estivera de pé enquanto a família comia. Era minha obrigação lavar a louça. Ali, de pé, com as mãos na água a ferver, sentia o cheiro dos restos do jantar no pequeno caixote do lixo. No início a minha idéia causava-me náuseas; mas quanto mais pensava nela, melhor me parecia. Era a minha única esperança de conseguir comida. Acabei de lavar a louça o mais depressa que pude e despejei o lixo na garagem. Tinha água na boca ao olhar para a comida e tirei com cuidado os bons pedaços, deitando fora bocados de papel oupontas de cigarros e engolia comida o mais depressa possível. Como de costume o meu novo plano teve um fim abrupto quando a Mãe me apanhou em flagrante. Durante algumas semanas deixei a rotina do lixo, mas acabei por ter de voltar a ela, de modo a silenciar os grunhidos do meu estômago. Uma vez comi restos de carne de porco. Horas depois estava todo enrolado com umas dores terríveis Tive diarréia durante uma semana. Enquanto eu estava doente, a Mãe informou-me que tinha de propósito deixado a carne no frigorífico durante duas semanas, para que ficasse estragada antes de a deitar fora. Ela sabia que
  • 22. eu não resistiria a roubá-la. À medida que o tempo foi passando, a Mãe mandava-me trazer-lhe o caixote do lixo para que pudesse inspecioná-lo, quando estava deitada no sofá. Nunca veio a saber que eu embrulhava comida em guardanapos de papel e a escondia no fundo do caixote. Eu sabia que ela não iria sujar os dedos mexendo no fundo do caixote; por isso o meu esquema funcionoupor umtempo. A Mãe pressentia que eu estava a conseguir comida de algum modo. Por isso começou a aspergir amoníaco no caixote do lixo. Depois disso desisti do lixo em casa e concentrei-me em encontrar outro modo de arranjar comida na escola. Depois de ser apanhado a roubar os almoços dos outros miúdos, a idéia seguinte foi extorquir almoços congelados da cafetaria da escola. Controlei o tempo do meu intervalo na sala de estar, de modo a que o professor me deixasse sair da sala de aula logo depois de o camião de entregas deixar o seu fornecimento de almoços congelados. Entrei subrepiciamente na cafetaria e apanhei alguns tabuleiros congelados, fugindo a seguir para a sala de estar. Aí, sozinho, engoli os cachorros quentes congelados em grandes pedaços, tão depressa que quase sufocava durante o processo. Depois de encher o estômago, voltei para a sala de aula, sentindo-me orgulhoso porque eu tinha-me alimentado a mimpróprio. Quando corria da escola para casa, nessa tarde, só conseguia pensar em roubar comida da cafetaria no dia seguinte. Minutos mais tarde a Mãe fez-me mudar de idéias. Arrastou-me para a casa de banho e bateu-me no estômago com tanta força, que eu me curvei todo. Puxando-me para que eu ficasse de frente para a sanita, ordenou-me que enfiasse um dedo pela garganta abaixo. Eu resisti. Tentei o meu velho truque de contar mentalmente, enquanto olhava para a sanita de louça, "Um... dois..." Não consegui chegar ao três. A Mãe meteu-me o dedo dela na boca, como se quisesse tirar-me o estômago pela garganta. Sacudi-me em todas as direções, num esforço para a afastar. Finalmente largou-me, mas só quando concordei emvomitar para ela ver. Eu sabia o que é que ia acontecer a seguir. Fechei os olhos, enquanto bocados de carne vermelha caíamna sanita. A Mãe estava atrás de mim, comas mãos na anca e disse: − Eujá sabia. O teupai vai saber disto! Contraí-me à espera dos socos que certamente aí vinham, mas não aconteceu nada. Após alguns segundos, olhei à roda e descobri que a Mãe tinha saído da casa de banho. Eu sabia que o episódio não acabara. Momentos mais tarde, voltou com uma pequena tigela. Ordenou-me que tirasse a comida parcialmente digerida da sanita e a pusesse na tigela. Como o Pai estava nas compras nessa altura, a Mãe estavaa recolher provas para o seuregresso. Nessa noite, depois de euterminar as minhas tarefas noturnas, a Mãe mandou-me ficar de pé ao lado da mesa da cozinha, enquanto ela e o Pai falavam no quarto. À minha frente estava a tigela de cachorros quentes que eu vomitara. Não conseguia olhar para ela; por isso fechei os olhos e tentei imaginar-me longe de casa. Pouco depois, a Mãe e o Pai entraram de rompante na cozinha. − Olha para isto Steve − grunhiu a Mãe, espetando o dedo na direção da tigela. − Então achas que O Rapaz deixoude roubar comida, não é? Pela expressão no rosto do Pai, pude ver que ele estava a ficar cada vez mais cansado da constante rotina "O que O Rapaz fez agora". Olhando para mim, abanou a cabeça em sinal de reprovação e disse titubeando: − Bem, Roerva, se ao menos deixasses O Rapaz comer alguma coisa. Uma ardente batalha de palavras rebentouà minha frente e, como sempre, a Mãe ganhou. − COMER? Tu queres que O Rapaz coma, Stephen? Bem, O Rapaz vai COMER! Ele pode comer isto! − A Mãe gritava a plenos pulmões, empurrando a tigela para junto de mim, e saindo abruptamente parao quarto. A cozinha ficou tão silenciosa que conseguia ouvir a respiração arquejante do Pai. Gentilmente, pôs-me a mão no ombro e disse: − Espera aqui, Tigre. Vouver o que posso fazer.
  • 23. Voltou uns minutos mais tarde, depois de tentar demover a Mãe da sua ordem. Pela expressão entristecida do seurosto, eusoube imediatamente quemé que tinha vencido. Sentei-me numa cadeira e tirei os bocados de cachorro quente da tigela coma mão. Pastas de saliva grossa escorregavam pelos meus dedos, quando pus a comida na boca. Ao tentar engolir, comecei a choramingar. Voltei-me para o Pai, que estava de pé a olhar para mim com uma bebida na mão. Acenou-me que continuasse. Eu não podia acreditar que ele estivesse ali parado enquanto eucomia o repugnante conteúdo da tigela. Naquele momento eusoube que nos estávamos a afastar cada vez mais. Tentei engolir sem lhe tomar o gosto, até que senti uma pancada na parte detrás do pescoço. − Mastiga! − rosnoua Mãe − Come tudo! Come tudo! − disse, apontando para a saliva. Eu afundei-me na cadeira. Um rio de lágrimas rolou-me pela cara abaixo. Depois de ter mastigado a porcaria que estava na tigela, atirei a cabeça para trás e forcei o resto a descer-me pela garganta. Fechei os olhos e gritei para mim próprio para evitar que me subisse de novo à boca. Não abri os olhos até ter a certeza de que o meu estômago não ia rejeitar a minha refeição da cafetaria. Quando os abri olhei para o Pai, que se afastou para evitar assistir ao meu sofrimento. Naquele momento, senti um ódio enorme pela Mãe, mas ainda mais pelo Pai. O homem que me ajudara no passado estava ali de pé como uma estátua enquanto o seu filho comia algo emque nemumcão tocaria. Depois de eu ter acabado a tigela de cachorros quentes vomitados a Mãe voltou com o seurobe e atirou-me ummonte de jornais. Informou-me que os jornais eramos meus cobertores, e o chão sob a mesa era agora a minha cama. Lancei o meuolhar de novo para o Pai, mas ele agia como se eunemestivesse ali. Forçando-me a mimpróprio a não chorar emfrente deles, gatinhei, completamente vestido, debaixo da mesa e cobri-me comos jornais, como umrato numa gaiola. Durante meses dormi debaixo da mesa do pequeno-almoço, ao lado de um caixote dos gatos, mas em breve aprendi a usar os jornais a meu favor. Com os jornais enrolados ao corpo, o calor deste mantinha-me quente. Finalmente a Mãe disse-me que eu já não teria o privilégio de dormir no andar de cima; por isso fui afastado lá para baixo para a garagem. A minha cama era agora um velho beliche do exército. Para não arrefecer, tentava manter a cabeça perto do aquecimento a gás. Mas depois de umas noites frias, achei melhor manter as mãos debaixo dos braços e os pés curvados na direção das nádegas. Por vezes, de noite, acordava e tentava imaginar que eu era uma verdadeira pessoa, dormindo sob um cobertor elétrico quentinho, sabendo que estava em segurança e que alguém me amava. A imaginação funcionava durante algum tempo, mas as noites frias traziam--me sempre de volta à realidade. Sabia que ninguém me podia ajudar. Nem os meus professores, nem os chamados meus irmãos, nem sequer o Pai. Eu estava sozinho, e todas as noites rezava a Deus para ser forte, quer no corpo quer na alma. Na escuridão da garagem, ficava deitado sobre o beliche de madeira e tremia de frio, até cair numsono agitado. Uma vez, durante as minhas fantasias a meio da noite, tive a idéia de mendigar comida a caminho da escola. Embora "a inspeção do vômito" depois da escola fosse levada a cabo todos os dias, quando voltava a casa, pensei que qualquer coisa que eu comesse de manhã já estaria digerida à tarde. Ao correr para a escola, fi-lo com velocidade extra, de modo a ter mais tempo para a minha caça à comida. Depois alterei o meu percurso, parando e batendo às portas. Perguntava à dona da casa se, por acaso, tinha encontrado uma lancheira perto da casa. Na maior parte das vezes o meu plano funcionava. Ao olhar para aquelas senhoras eu percebia que tinham pena de mim. Por prevenção usava um nome falso, para que ninguém soubesse quem eu era de fato. Durante semanas o meu plano resultou, até um dia em que fui ter à casa de uma senhora que conhecia a Mãe. A minha aprovada história: "Perdi o meu almoço. Não se importa de me arranjar um?", desmoronou. Mesmo antes de deixar aquela casa eu sabia que ela iria falar com a Mãe. Nesse dia, na escola, rezei para que o mundo acabasse. Enquanto eu me inquietava na escola, sabia que a Mãe estava deitada no sofá a ver televisão e a embebedar-se, pensando em
  • 24. algo terrível para me fazer quando eu chegasse a casa depois da escola. Ao correr da escola para casa nessa tarde, os meus pés pareciam presos em blocos de cimento. A cada passo rezava para que a amiga da Mãe não tivesse falado com ela ou de algum modo me tivesse confundido com outro miúdo. Por cima de mim o céu estava azul, e sentia os raios do sol aquecer-me as costas. Ao aproximar-me da casada Mãe, olhei para cima na direção do sol, pensando se o voltaria a ver. Devagarinho abri a porta da frente antes de entrar subrepticiamente e desci na ponta dos pés a escada para a garagem. Estava à espera que a Mãe corresse pela escada abaixo e me batesse sobre o chão de cimento a qualquer momento. Ela não veio. Depois de vestir o meu fato de trabalho, subi até à cozinha e comecei a lavar a louça do almoço da Mãe. Não sabendo onde é que ela poderia estar, as minhas orelhas tornaram-se antenas de radar, tentando localizá-la. Enquanto lavava a louça, as minhas costas ficaram tensas de medo. As minhas mãos tremiam e não conseguia concentrar-me nas minhas tarefas. Finalmente, ouvi a Mãe a sair do quarto e atravessar o vestíbulo em direção à cozinha. Por um instante olhei pela janela. Ouvia o riso e os gritos das crianças a brincar. Fechei os olhos e imaginei que era um deles. Senti-me quente por dentro. Sorri. O meu coração ficou suspenso quando sentia respiração da Mãe no meu pescoço. Apanhado de surpresa eudeixei cair umprato, mas antes de ele chegar ao chão apanhei-o no ar. − És uma merdazinha rápida, não és? − escarneceu. − Consegues correr depressa e ter tempo para mendigar comida. Bem... já vamos ver quão rápido és, de fato. Esperando que a Mãe me batesse, retesei o corpo, à espera do golpe. Como isso não aconteceu, pensei que ela voltaria para o seu programa de televisão, mas isso também não aconteceu. A Mãe ficou uns centímetros atrás de mim, observando todos os meus movimentos. Eu via o reflexo dela na janela da cozinha. A Mãe também o viu, e pôs-se a sorrir. Eu quase mijei nas calças. Quando acabei de lavar a louça, comecei a limpar a casa de banho. A Mãe sentou-se na sanita enquanto eu limpava a banheira. Quando me pus de gatas a esfregar os azulejos do chão ela permaneceu quieta e sossegada atrás de mim. Fiquei à espera que ela desse a volta e me desse um pontapé na cara, mas não. À medida que eu continuava os meus afazeres a ansiedade crescia. Sabia que a Mãe me ia bater, mas não sabia como, quando, ou onde. O tempo que levei a limpar a casa de banho pareceu-me uma eternidade. Quando acabei as minhas pernas e os meus braços tremiam de ansiedade. Não conseguia concentrar-me em nada, a não ser nela. Sempre que ganhavacoragempara olhar para a Mãe, ela sorria e dizia: − Mais depressa, jovem. Tens de te mexer muito mais depressa do que isso. À hora do jantar, eu estava exausto de medo. Quase adormeci enquanto esperava que a Mãe me chamasse para levantar a mesa e lavar a louça do jantar. Ali, de pé, sozinho na garagem, as minhas vísceras soltaram-se. Estava aflito para subir as escadas e ir à casa de banho, mas sabia que, sem a autorização da Mãe para me movimentar, eu era um prisioneiro. "Talvez seja isso que ela planeou para mim", disse para mim próprio. "Talvez ela queira que eu beba a minha própria urina". A princípio, o pensamento era demasiado cruel para ser imaginado, mas eusabia que tinha de estar preparado para qualquer coisa que a Mãe me impusesse. Quanto mais tentava concentrar -me nas hipóteses relativas ao que ela me poderia fazer, mais a minha força interior diminuía. Então uma idéia brilhou-me no cérebro: percebi porque é que a Mãe tinha seguido cada passo meu. Queria manter uma pressão constante sobre mim, criando-me insegurança quanto ao momento ou ao lugar onde me ia bater. Antes de conseguir pensar num modo de a derrotar, a Mãe gritou-me que subisse. Na cozinha, disse-me que só a velocidade da luz me poderia salvar, por isso era melhor eulavar a louçaemtempo recorde. − É claro − rosnou − não é preciso dizer que hoje ficas sem jantar, mas não faz mal, eu tenho uma cura paraa tuafome. Depois de acabar as tarefas da noite, a Mãe ordenou-me que esperasse lá embaixo. Fiquei de pé encostado à parede, interrogando-me sobre os planos que ela teria para mim. Eu não fazia idéia nenhuma. Comecei a ter suores frios, que pareciam chegar-me aos ossos. Fiquei tão
  • 25. cansado, que adormeci de pé. Quando senti a cabeça a cair para a frente, levantei-a e acordei. Por mais que tentasse ficar acordado, não conseguia controlar a cabeça, que oscilava para cima e para baixo, como um pedaço de cortiça na água. Naquele estado semelhante a um transe, sentia a tensão elevar-me a alma para fora do corpo, como se também eu estivesse a flutuar. Sentia-me leve como uma pena, até que a cabeça caiu de novo para a frente, acordando-me. Eu sabia que não podia adormecer profundamente. Ser apanhado podia ser fatal; por isso consegui escapar olhando através da janela da garagem, ouvindo os sons dos carros a passarem e observando os raios vermelhos dos aviões que voavamlá emcima. No fundo do meucoração eudesejava poder voar dali para fora. Horas mais tarde, depois de o Ron e o Stan irem para a cama, a Mãe ordenou-me que voltasse lá acima. Eu tremia de medo a cada passo. Sabia que tinha chegado a hora. Ela tinha-me esvaído emocional e fisicamente. Eu não sabia o que é que ela tinha planeado. Só desejava que me batesse, e acabasse comaquilo. Quando abri a porta, uma sensação de calma encheu-me a alma. A casa estava às escuras, com exceção de uma única luz na cozinha. Vi a Mãe sentada à mesa do pequeno-almoço. Fiquei completamente quieto. Ela sorria e pelos seus ombros descaídos pude perceber que a embriaguez se apoderara bemdela. Estranhamente soube que não me ia bater. Os meus pensamentos ficaram confusos, mas o meu transe acabou quando a Mãe se levantou e se dirigiu ao lava-louça. Ajoelhou-se, abriu o armário e retirou uma garrafa de amoníaco. Eu não percebi. Ela pegou numa colher e deitou nela um pouco de amoníaco. O meu cérebro estava demasiado baralhado para pensar. Por mais que quisesse, não o conseguia pôr a funcionar. Coma colher na mão, começoua aproximar-se de mim. Como uma parte do amoníaco se entornou, caindo para o chão, afastei-me da Mãe até que a minha cabeça bateu no tampo do balcão perto do fogão. Euquase que me ri para dentro. "É só isto? É isto? O que ela me vai fazer é obrigar-me a engolir umbocado desta coisa?", disse para mimpróprio. Eunão estava commedo. Estava demasiado cansado. Só conseguia pensar: "Vá lá, vamos lá. Vamos acabar com isto". Quando a Mãe se inclinou, percebi de novo que só a rapidez me podia salvar. Tentei compreender o seuenigma, mas o meuespírito estava demasiado confuso. Sem hesitar, abri a boca e a Mãe introduziu a colher fria até à garganta. De novo disse a mim próprio que era tudo demasiado fácil, mas no momento seguinte não conseguia respirar. A minha garganta estava colada. Fiquei de pé, vacilando diante da Mãe, sentindo como se os meus olhos me saltassemdas órbitas. Caí no chão, de gatas. "Bolha!", gritouo meucérebro. Esmurrei o chão da cozinha com toda a minha força, tentando engolir e tentando concentrar-me na bolha de ar presa no meu esôfago. De repente fiquei aterrorizado. Lágrimas de pânico caíam-me pela cara abaixo. Após alguns segundos, senti a força dos meus punhos a diminuir. As minhas unhas arranhavam o chão. Os meus olhos ficaram fixos no chão. As cores pareciam juntar-se. Comecei a sentir-me desfalecido. Sabia que ia morrer. Voltei a mim e senti a Mãe a dar-me pancadas nas costas. A força dos seus socos fez-me arrotar e consegui respirar de novo. Enquanto eu inspirava grandes golfadas de ar, a Mãe voltou para o seucopo. Ingeriuuma longa bebida, olhoupara mime soprouna minha direção. − Então, não foi assim tão difícil, pois não? − disse ela acabando a bebida, antes de me mandar lá para baixo parao meubeliche. Na noite seguinte repetiu-se o espetáculo, mas desta vez emfrente do Pai. Ela gabou-se: − Isto há de ensinar O Rapaz a não voltar a roubar comida! Eusabia que ela só estava a fazer aquilo emfunção do seuprazer doentio e pervertido. O Pai ficou inerte enquanto a Mãe me deu outra dose de amoníaco. Mas desta vez eu lutei. Ela teve de me abrir a boca à força e, ao abanar a cabeça de um lado para o outro, eu consegui que ela entornasse a maior parte do líquido para o chão. Mas não o suficiente. De novo fechei os punhos e bati no chão. Olhei para cima, para o Pai, tentando chamá-lo. Os meus pensamentos estavam claros, mas não saiu nenhum som da minha boca. Ele limitou-se a estar ali de pé por cima de mim sem mostrar qualquer emoção enquanto eu dava murros com as minhas mãos perto dos
  • 26. seus pés. Como se se ajoelhasse para acariciar um dos seus cães, a Mãe bateu-me de novo nas costas algumas vezes, até que desmaiei. Na manhã seguinte, enquanto limpava a casa de banho, olhei para o espelho para observar a minha língua queimada. Algumas camadas de carne tinham desaparecido e as que restavam estavam vermelhas e ásperas. Fiquei ali de pé, fixando a sanita, e pensando na sorte que eutinha emestar vivo. Embora a Mãe nunca mais me tivesse mandado engolir amoníaco, fez-me beber colheres de detergente algumas vezes. Mas o jogo favorito dela parecia ser o detergente de lavar a louça. Espremia o líquido barato e cor-de-rosa da garrafa para a minha garganta e ordenava-me que ficasse de pé na garagem. A minha boca ficava tão seca que eucorria para a torneira da garageme enchia o estômago de água. Em breve descobri o meu terrível erro e seguiu-se a diarréia. Gritei para a Mãe, implorando-lhe que me deixasse usar a casa de banho lá de cima. Ela recusou. Fiquei ali de pé, com medo de me mexer, enquanto bocados de matéria liquefeita atravessavam a roupa interior, escorrendo pelas calças até ao chão. Sentia-me tão degradado que chorei como um bebê. Não tinha qualquer espécie de auto- respeito. Precisei de novo de ir à casa de banho, mas tinha demasiado medo para me mexer. Finalmente, enquanto as minhas vísceras se retorciam, reuni um resto de dignidade. Dirigi-me ao balcão da garagem, peguei num balde de vinte litros e agachei-me para me aliviar. Fechei os olhos, tentando descobrir uma forma de me lavar a mim e às minhas roupas, quando, de repente, a porta da garagem se abriu atrás de mim. Voltei a cabeça e vi o Pai, que olhava sem qualquer emoção, enquanto o seu filho vagamente o encarava e a substância castanha se derramava para o balde. Senti-me pior do que umcão. A Mãe não ganhava sempre. Uma vez, numa semana em que não tive autorização para ir à escola, espremeu o detergente para a minha boca e disse-me que limpasse a cozinha. Ela não soube, mas recusei-me a engolir o detergente. À medida que os minutos passavam, a minha boca ficou cheia de uma mistura de detergente e saliva. Eu não me permitiria engolir. Quando acabei as tarefas na cozinha, corri para baixo para esvaziar o caixote do lixo. Sorria de orelha a orelha quando fechei a porta atrás de mim e cuspi o detergente cor-de-rosa. Junto dos caixotes do lixo perto da porta da garagem, inclinei-me para um deles, tirei uma toalha de papel usada e limpei o interior da boca, de modo a remover qualquer vestígio do detergente. Depois de terminar, senti- me como se tivesse ganho a Maratona Olímpica. Estava muito orgulhoso por vencer a Mãe no seupróprio jogo. Embora a Mãe me apanhasse na maior parte das minhas tentativas para me alimentar, ela não conseguia apanhar-me sempre. Depois de meses enclausurado horas a fio na garagem, a minha coragem venceu e roubei bocados de comida congelada do frigorífico da garagem. Eu estava consciente de que podia ter de pagar pelo meu crime a qualquer momento. Por isso comia cada bocadinho como se fosse a minha última refeição. Na escuridão da garagem, fechava os olhos e sonhava que era um rei vestido com as mais finas vestes, e comendo as melhores iguarias do mundo. Enquanto segurava num pedaço da crosta de uma empada de abóbora, ou num bocado da massa de um pastel, eu era o rei, e como umrei no seutrono, olhava para a minha comida e sorria.
  • 27. Capítulo 5 O ACIDENTE O verão de 1971 estabeleceu o tom do resto do tempo em que vivi com a Mãe. Eu ainda não fizera 11 anos, mas, em grande medida, sabia quais as formas de punição que me esperavam. Exceder um dos limites de tempo da Mãe em qualquer das minhas múltiplas tarefas, significava não ter comida. Se olhasse para ela ou para um dos seus filhos sem a sua permissão, recebia uma bofetada na cara. Se fosse apanhado a roubar comida, sabia que a Mãe repetiria uma velha forma de castigo ou então inventava algo de novo e terrível. Na maior parte do tempo, ela parecia saber exatamente o que estava a fazer e eu conseguia prever o que se seguiria. Contudo estava sempre alerta e o meucorpo ficava tenso se imaginava que ela podia vir ter comigo. Quando de junho se transitou para o início de julho, o meu estado de espírito esmoreceu. A comida era pouco mais do que uma fantasia. Raramente comia, mesmo os restos do pequeno- almoço, por mais que trabalhasse, e nunca almoçava. Quanto ao jantar, a média era de uma refeição de três emtrês dias. Um determinado dia de julho começou como qualquer outro dia, na minha atual existência de escravo. Já não comia há três dias. Como a escola estava fechada para as férias do verão, as minhas hipóteses de arranjar comida acabaram. Como sempre, durante o jantar, sentei- me ao fundo das escadas comas nádegas sobre as mãos, ouvindo os sons da "família" a comer. A Mãe agora exigia que me sentasse sobre as mãos com a cabeça atirada para trás, numa posição de "prisioneiro de guerra". Deixei a cabeça cair para a frente, imaginando que eu era um deles: um membro da "família". Devo ter adormecido, porque fui subitamente acordado pela voz rabugenta da Mãe: −Levanta-te! Mexe esse rabo! − gritou. À primeira sílaba da sua ordem, levantei a cabeça, levantei-me e corri pelas escadas acima. Rezei para que nessa noite recebesse alguma coisa, qualquer coisa, para mitigar a minha fome. Começara a tirar a louça da mesa da sala de jantar a um ritmo frenético, quando a Mãe me chamouà cozinha. Baixei a cabeça, quando ela começoua papaguear os seus limites de tempo. − Tens 20 minutos! Um minuto, um segundo a mais, e ficas de novo com fome! Está compreendido?" − Sim, senhora! − Olha para mimquando estoua falar contigo! − resmungou. Obedecendo à sua ordem, ergui devagar a cabeça. Ao levantá-la, vi o Russel a embalar-se para a frente e para trás sobre a perna esquerda da Mãe. O tomáspero da voz da Mãe não parecia incomodá-lo. Limitou-se a olhar para mim através de um par de olhos frios. Embora o Russel tivesse apenas quatro ou cinco anos nessa altura, tornara-se o "Pequeno Nazi" da Mãe, espiando todos os meus movimentos e certificando-se de que eu não roubava comida. Por vezes inventava histórias para a Mãe, de modo a ver-me ser castigado. A culpa realmente não era do Russel. Eu sabia que a Mãe lhe tinha feito uma lavagem ao cérebro, mas eu começara a ficar frio com ele e a odiá-lo à mesma. − Estás a ouvir-me? − vociferoua Mãe. − Olha para mim, quando estoua falar contigo! Quando olhei para ela, tirouumtrinchante do tampo do balcão e gritou: − Se não acabares a tempo, eumato-te! As suas palavras não tiveram qualquer efeito em mim. Ela dissera o mesmo repetidamente durante a última semana. O próprio Russel não ficou perturbado com a sua ameaça. Continuou a embalar-se na perna da Mãe, como se estivesse a montar um cavalinho de madeira. Ela aparentemente não estava satisfeita com a sua renovada tática, pois continuou a
  • 28. massacrar-me sem parar, enquanto o relógio avançava, comendo-me o tempo-limite. Eu só desejava que ela se calasse e me deixasse trabalhar. Estava desejoso de cumprir o seu tempo- limite. Queria tanto comer alguma coisa. Temia ser novamente enviado para acama. Alguma coisa parecia estar errada. Muito errada! Esforcei-me por fixar a vista na Mãe. Ela começara a agitar a faca na mão direita. Continuei anão ficar muito receoso. Ela tambémjá fizera isto antes. "Olhos", disse para mim próprio. "Olha para os seus olhos". Foi o que eu fiz e pareciam estar no seu normal: meio vidrados. Mas o meu instinto dizia-me que algo de estranho se passava. Não pensei que ela me atingisse, mas de qualquer modo o meucorpo começoua ficar tenso. À medida que ia ficando mais tenso, percebi o que é que se passava. Em parte por causa do movimento do Russel a embalar-se e noutra parte por causa do movimento do braço e da mão dela com a faca, todo o corpo começou a balançar para a frente e para trás. Por um momento, pensei que elaia cair. Tentou recuperar o equilíbrio, batendo no Russel para que ele lhe largasse a perna, enquanto continuava a gritar-me. Nessa altura, a parte de cima do seu corpo parecia uma cadeira de embalar fora de controlo. Esquecendo-me das suas inúteis ameaças, imaginei que a velha bêbeda ia bater com a cara no chão. Concentrei toda a minha atenção na cara da Mãe. Pelo canto do olho, vi um objeto indistinto a voar da sua mão. Uma dor aguda irrompeu mesmo por cima do meuestômago. Tentei permanecer de pé, mas as pernas cederame o meumundo enegreceu. Quando recuperei os sentidos tive uma sensação de calor vinda do meu tórax. Levei alguns segundos a perceber onde estava. Estava sentado na sanita, puxado para cima. Voltei-me para o Russel, que começoua cantar: − O Davidvai morrer! O Rapaz vai morrer! Virei os olhos na direção do meu estômago. Ajoelhada, a Mãe aplicava apressadamente uma compressa de gaze numa zona do meu estômago de onde saíam golfadas de sangue vermelho-escuro. Tentei dizer alguma coisa. Sabia que fora um acidente. Queria que a Mãe soubesse que lhe perdoava, mas sentia-me demasiado fraco para falar. A minha cabeça tombava para a frente repetidas vezes, enquanto eu tentava mantê-la firme. Perdi a noção do tempo, porque voltei à escuridão. Quando acordei a Mãe ainda estava ajoelhada, envolvendo a parte de baixo do meu tórax com um pano. Muitas vezes, quando éramos mais novos, a Mãe contava ao Ron, ao Stan e a mim, que tencionara ser enfermeira, até que conheceu o Pai. Sempre que acontecia algum acidente em casa, ela não perdia o controlo. Nunca duvidei, nem por um segundo, das suas aptidões como enfermeira. Estava só à espera de que ela me levasse no carro para o hospital. Tinha a certeza de que ela o faria. Era só uma questão de tempo. Tive uma curiosa sensação de alívio. Sabia, no fundo do meu coração, que tudo acabara. Todo este enigma de viver como um escravo chegara ao fim. Mesmo a Mãe não teria hipótese de mentir neste caso. Senti que o acidente me libertara. A Mãe demorou quase meia hora a envolver-me a ferida. Não havia remorsos nos seus olhos. Pensei que, pelo menos, me tentaria reconfortar com a sua voz suave. Olhando para mim sem qualquer emoção a Mãe levantou-se, lavou as mãos, e disse-me que eu tinha trinta minutos para acabar de lavar a louça. Abanei a cabeça tentando perceber o que me dissera. Após alguns segundos a mensagem da Mãe penetrou em mim. Tal como no incidente do braço, uns anos atrás, a Mãe ia ignorar o que acontecera. Eunão tinha tempo paraa auto-piedade. O relógio avançava. Levantei-me, vacilei durante uns segundos e dirigi-me para a cozinha. A cada passo a dor dilacerava-me as costelas e o sangue inundava a minha T shirt esfarrapada. Ao chegar ao lava-louça da cozinha, inclinei-me e arfei como umcão já velho. Da cozinha eu ouvia o Pai na sala de estar, folheando o jornal. Inspirei profundamente com dificuldade, na esperança de ser capaz de avançar na sua direção. Mas inspirei com demasiada força e caí para o chão. Depois disso percebi que tinha que inspirar lentamente e pouco de cada vez. Dirigi-me à sala. Sentado no canto mais afastado do sofá estava o meu herói.
  • 29. Eu sabia que ele se encarregaria da Mãe e me conduziria ao hospital. Fiquei de pé diante do Pai, esperando que virasse a página e me visse. Quando o fez, balbuciei: − Pai... a Ma... a Ma... a Mãe apunhalou-me. Ele nemuma sobrancelhalevantou. − Por quê? − perguntou. − Ela disse-me que, se eunão lavasse a louça a tempo, me... me mataria. O tempo parou. Por detrás do jornal, euouvia a respiração entrecortada do Pai. Pigarreou antes de dizer: − Bem... tu... tuvolta paralá, e lava a louça. A minha cabeça inclinou-se para a frente, como se quisesse apanhar as suas palavras. Eu não podia acreditar no que tinha ouvido. O Pai deve ter-se apercebido da minha confusão, já que o vi bater como jornal e levantar a voz, dizendo: − Jesus Cristo! A Mãe sabe que estás aqui a falar comigo? Tu volta para lá, e lava a louça. Caramba, rapaz! Não há necessidade de fazer seja o que for que a ponha mais mal-disposta! Eu não tenho necessidade de passar por isso esta noite... − O Pai parou por um segundo, inspirou profundamente e baixoua voz, sussurrando: − Já sei. Tuvoltas lá e lavas a louça. Nemsequer lhe digo que me contaste, está bem? Este será o nosso pequeno segredo. Volta lá para a cozinha e lava a louça. Vai lá, antes que ela nos apanhe aos dois. Vai! Fiquei de pé diante do Pai, completamente chocado. Ele nem sequer olhou para mim. Eu tinha a impressão de que, se ele ao menos virasse uma ponta do jornal e me olhasse nos olhos, perceberia; sentiria a minha dor, quão desesperado e necessitado eu estava da sua ajuda. Mas como sempre, eu sabia que a Mãe o controlava, como controlava tudo o que acontecia na sua casa. Penso que o Pai e eu sabíamos ambos o código da "família": se ignorarmos um problema, ele simplesmente não existe. Enquanto ali estava de pé diante do Pai, semsaber o que fazer, olhei para baixo e vi gotas de sangue a sujar a carpete da família. Eu sentira no meu coração, que ele me levantaria nos seus braços e me levaria dali para fora. Imaginei até que rasgaria a camisa para mostrar a sua verdadeira identidade antes de voar pelos ares como o Super-homem. Voltei-me. Todo o meu respeito pelo Pai desaparecera. O salvador que eu imaginara durante tanto tempo era uma fraude. Sentia-me mais zangado comele do que coma Mãe. Desejei poder voar dali para fora, mas a dor dilacerante trouxe-me de volta à realidade. Lavei a louça o mais depressa que o meu corpo me deixou. Aprendi rapidamente que qualquer movimento do meuantebraço resultava numa dor aguda por cima do meuestômago. Se eu andava de lado, da bacia de lavagem para a bacia de secagem, uma outra dor percorria-me o corpo. Sentia que a pouca força que me restava estava a desaparecer. À medida que o tempo- limite da Mãe era ultrapassado, tambémo eramas hipóteses de conseguir comer. Só me apetecia deitar-me e desistir, mas a promessa que fiz há uns anos manteve-me vivo. Queria mostrar à Megera que só me venceria se eu morresse e eu estava decidido a não desistir, até à morte. Enquanto lavava a louça aprendi que, ficando embicos dos pés e encostando a parte de cima do corpo ao tampo do balcão, conseguia aliviar um pouco a pressão sobre a parte de baixo do tórax. Em vez de andar de lado, de tantos em tantos segundos, lavava alguma louça de uma só vez e então movia-me e passava-a por água. Depois de secar a louça, tive medo da tarefa de a arrumar. Os armários ficavam por cima da minha cabeça e sabia que chegar lá me faria doer muito. Segurando num prato pequeno estiquei as pernas o mais que pude e tentei levantar os braços por cima da cabeça para colocar o prato. Quase consegui, mas a dor foi demasiado forte. Caí para o chão. Nessa altura a minha camisa estava cheia de sangue. Ao tentar pôr-me de pé senti as mãos fortes do Pai a ajudar-me. Afastei-o. − Dá-me a louça − disse ele. − Euguardo-a. É melhor ires lá abaixo mudar de camisa. Eu não disse uma palavra, quando me retirei. Olhei para o relógio. Levara cerca de uma hora e meia a completar a minha tarefa. A minha mão direita apertava com força o corrimão