PODER E POLÍTICA
1
Poder e
política
EDITORA
ÁGORA DA ILHA
EDIÇÕES ANTERIORES - Volume 2
Org. Dalma Nascimento
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
2
COPYRIGHT: Ágora da Ilha Livraria e Editora Ltda/Jornal
O Correio
RIO DE JANEIRO - RJ. TEL.: 0 XX 21 - 393 4212
DIREITOS DESTA EDIÇÃO RESERVADOS À EDITORA. É PROIBIDA A REPRODUÇÃO
TOTAL OU PARCIAL DESTA OBRA SEM SUA AUTORIZAÇÃO EXPRESSA.
CAPA: Editora Ágora da Ilha. Ilustração: Escravo, do artista mexicano
José Clemente Orozco
RIO DE JANEIRO, DEZEMBRO DE 1999
EDITOR: PAULO FRANÇA
EDITORA ÁGORA DA ILHA - TEL.FAX: 0 XX 21 393 4212
E-mailagorailh@ruralrj.com.br
EDIÇÕESANTERIORESVOL.II/Poder e política
Org. Dalma Nascimento
Editor responsável: Paulo França
RiodeJaneiro,dezembrode1999
156páginas
Editora Ágora da Ilha - ISBN 86854
Literatura brasileira CDD - 869B
Ensaiosemportuguês 869.4
FICHA CATALOGRÁFICA
PODER E POLÍTICA
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Aediçãodojornal“Paraqueserveopoder”teveaeficiente
colaboraçãodoantropólogo,professorJoséSávio Leopoldi,
daUFF,empenhadoemcontactararticulistasquediscutissem
questõesrelativasaotema.
Para“OcaldeirãodaAméricaLatina”, OCorreiocontou
comoauxíliodasprofessoras-doutorasLeilaRoedel,deHistó-
ria,daUFRJ,eMárciaParaquett,deLínguaeLiteraturaLati-
no-americana,daUFF.Ambasconvidaramespecialistasefize-
ramocopidesquedealgunstextos.
Quantoà“ÁfricadeLínguaPortuguesa”,foiintensooapoio
daprofessora-doutoraCarmenLúciaTindóSecco,coordena-
dora do Setor de Literaturas Africanas, da UFRJ, indicando
nomes,enviando-nosinformaçõessobrefatoshistóricos,além
de copidescar textos de seus alunos e participar do processo
editorialdaquelenúmero.
Parao“Brasilemtransição”,agrandecolaboraçãoveioda
doutoraMariaAntonietaLeopoldi,professoradoProgramade
Pós-graduaçãoemAntropologiaeCiência, daUFF, edoPro-
gramadeApoioaNúcleosdeExcelência,aosugeriroassuntoe
articulistaseselecionartextosdeseusorientandos.
Aosprofessoresacimamencionados,osagradecimentosda
EditoriadeOCorreio.
Agradecimentos
PODER E POLÍTICA
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Parapreservaramemóriadesignificativostextosdeantigos
númerosdeOCorreio–umjornalculturalque,comoumfórum
dedebateepesquisa,visaadiscutirtemasdecandenteatualidade
– o editor chefe deste periódico, Paulo França, com a lucidez
costumeira,resolveutransformá-losemlivros.Ocomprovadoêxito
doprimeirovolume,intituladoTempomítico,comquefoiaberta
acoleçãoEdiçõesAnterioresedoqualconstaramosartigospu-
blicadosem“AfascinanteIdadeMédia”,“Oscaminhosdosa-
grado”,“Eraumavez”(sobreLiteraturaInfantil)e“Oenigmado
mito”,levou-oaprosseguirnesteauspiciosoprojeto,certodas
suasressonânciasnopensamentocríticodosleitores,voltadospara
visõesmaisabrangentesemdiversificadosâmbitosdoconheci-
mento.
Cadavolume–ejáestãoprogramadosmaisde15–reunirá
semprequatroedições,havendoentreelas,apesardasdiferenças
dostemasdiscutidos,umaidentidaderadicalarticuladoraemtor-
nodaqualosartigos,diretaouindiretamente,secongreguem.
Assim,variadosmatizesdeidéiasdiversas,masconvergentes,irão
reviver,noamplomosaicodacoletânea,ospassosemarcosdeO
Correio,esteperiódicoderesistência,cuja atuaçãoquinzenal
ininterruptacompletaráquatroanosemabrilpróximo,quandoserá
lançadooterceirovolumedasEdiçõesAnteriores.
Prosseguindo,pois,nopropósitodeanalisaraspectos,porvezes
submersosnasdobras,atalhoseavessosdosprocessosculturais,
estesegundotomoversasobreoPoder,seussignosereflexosnos
paísesemergentesdaAméricaLatina–Brasileasnaçõesdeco-
lonizaçãoespanhola–alémdosrecém-criadosgovernosdaÁfri-
calusófona,ouseja,dascinconações:Angola,Moçambique,
SãoToméePríncipe,CaboVerdeeGuiné-Bissau.Sobotítulo
O viés da Política
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Poder e política, esta obra reproduz os escritos de “Para que
serveopoder?”(NºLXII)aqueseuniramosdasedições“Brasil
emtransição”(NºLII),“Áfricadelínguaportuguesa”(NºLXI)e
“OcaldeirãodaAméricaLatina”(NºLIV).
Aindaqueostextosapareçamdivididosnosblocos,pertinen-
tesaosjornaisespecíficos,emquasetodospulsaomesmointuito
de pensar crises e conflitos étnicos, políticos, sociais e
mercadológicosqueturbilhonameseespraiamnessesterritórios
comsituaçõestãosemelhantes,aoconviveremcomademocracia
eaeconomianofiodanavalha.Driblesemaquiavélicosjogosda
duplamoralidadecomqueoPoderseimpõedeformaautocráti-
ca e perversa se dão a ler, explícitos ou nas entrelinhas destas
escritasquestionadorasdiantedetantasinjustiçaseopressões.
Algumasdasnaçõesfocalizadasaindavivenciamgolpesmi-
litares ou se lembram das recentes cenas dramáticas, onde o
eternofantasmadoLeviatãdizimouvidasesonhos.Entretanto,
aselitesaindacontinuamencasteladasempreservadosbolsões,
enquantooshumilhadoseofendidosdaTerraaguardamoque
“Deusquer”.NocasodoBrasil,amilagrosacestabásica.
Sãoveiaspulsantesquenãosefecharamnosangrantecorpo
socialdaAméricaLatinaedaÁfricaportuguesaemincandescente
ebulição,àbuscadeumPaiSalvadorcomutópicosdesejosde
preenchercarênciasfundamentais.Ofervilhantecaldeirãolatino-
americano,ondesecozinhaopassadoesetemperaofuturocom
oscondimentosdopresente,continuanoimpasse:Mercosulou
Alca?Hádoisanos,emSantiagodoChile,houveareuniãoda
CúpuladasAméricascom34paísesparticipantes,excetoCuba,
maspermaneceumgritoparadonoar:quaisassuasdiretrizes
colocadasemprática?
Portudoisso,nocalordahora,opresentelivroPoderepolí-
ticavemremexernestecaldocultural,reeditandoreflexõesque
provaram/provocaramnovasreceitasetemperoseengrossaram
poções/soluçõesrevitalizadorasparanossaAméricadesnutrida.
Eemmeioatantaspolêmicas,constata-sequeomundosetrans-
forma.AEuropaficouprontaparaoeuro,porémocontinente
americanofervilhaemencruzilhadas,aguardandoinsuspeitados
rumos.
Assimtambém,asex-colôniasportuguesasdaÁfrica,entre
PODER E POLÍTICA
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elas,Angola,queatualmentevivefortesconvulsõespolíticas.Em
Guiné,oconflitovoltoueopaíscontinuamenteseencontranum
caos.MoçambiqueeCaboVerdeestãocomcertapaz,intentan-
doareconstituiçãonacional,comintensasdificuldades.Nestatran-
sição,conturbadaepletórica,asnaçõesafricanasdelínguaportu-
guesalutamparasairdoatraso,paraafirmar-seemsuaindepen-
dência e reanimar as raízes, em grande parte, soterradas ou
esmaecidaspelosinetedodominador.
PortugalchegouàÁfricanaexplosãoexpansionistadoséculo
XV,entretanto,preocupadocomotráficonegreiro,sócolonizou
aquelasterrasemmeadosdoXIX.De1926a1974,aditadura
deSalazarexerceunelasgranderepressão,porém,nosanos60,
iniciou-seaguerracolonialcontraodomínioportuguês.Após74,
comaRevoluçãodosCravoseaconseqüentequedadoditador
português,sãoproclamadasasindependênciasdascolônias,à
exceçãodeGuiné-Bissau,ocorridaem24desetembrode1973.
AdeMoçambiquedeu-seem5dejulho,adeSãoToméePrín-
cipeem12dejulhoeadeAngolaem11denovembro,todasno
mesmoano.Taisrevoluções,deorientaçãomarxista,foramlide-
radasporAgostinhoNeto,deAngola,AmílcarCabral,deCabo
VerdeeGuinéBissau,eEduardoMondlane,deMoçambique.
EmboraestelivrodasEdiçõesAnteriorestangenciequestões
político-sociaisdacorajosaÁfricalusófonaemseus“caminhose
descaminhosdeutopiaseresistência”,amaioriadostextos,publi-
cados na edição de 22 de agosto de 98, neste livro reeditados,
centrou-se,sobretudo,emdiscussõessobreaLínguaeaLiteratu-
ra daquelas regiões. Duas razões nortearam tal enfoque: a
oficializaçãodaNovaReformaOrtográficadosPaísesdeLíngua
Portuguesa, em Cabo Verde, a 17 de julho de 98, e a vinda ao
Brasil,exatamentenaquelesdias,dosescritoresmoçambicanos
MiaCoutoeVírgiliodeLemos.
Jáonúmero“Brasilemtransição”tentouequacionarquestões
relativasaocidadãobrasileironoterceiromilênioeosde-safios
políticosaseremenfrentadosparaatransiçãodoBrasildianteda
globalizaçãofinanceiraehegemoniaamericana.Discutiupossíveis
reformasdoEstadoedosistemafinanceiro,apolíticadeteleco-
municação,osnovosparâmetrosparaaEducaçãoedosmodelos
industriais,oMercosuleoempresariado,osrumosdoDireitona
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nossasociedadenumfuturopróximo,opapeldoItamaratyna
viradadomilênio,alémdasagudasreflexõessobreoquesecele-
brarnaquelasintençõesmercantilistasdos500anosdainvasão
lusaemnossoterritório.
Emgamasmultifacetadas,todasestasescritasemtornodo
BrasilnasteiasdoPoderpossueminteraçõesprofundascomos
artigosdasoutrastrêsedições,espelhandoumarealidademais
amplaecomplexa.Sãoitineráriosquesecruzam,seexplicamese
iluminam,instaurandoodiálogointertextualeconvidandooleitora
co-participardesteinstigantedebate,afimdeque,comseupo-
tencialcrítico-criativo,eletambémanaliseerepenseosfundamen-
taisproblemasaquiverticalizados.
DalmaNascimento-Editoradetextosde OCorreio,ex-professorada
UFRJedoutoraemTeoriaLiteráriaeLiteraturaComparada.
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Ondehouverdoissereshumanos,umtentarásubjugarooutro.
Éalutapelopoder.Paraconsegui-lo,ohomemsevaledequalquer
estratagemaeimpõesuapolítica.Devezemquandoumgovernante
vemapúblicodizerquecomandaréumatarefadificílima,solitária.
Então, perguntamos: por que as pessoas arriscam tudo para
alcançaremcargos?Paraagrandemaioria,arespostaéóbvia:
pelavaidadedepodermandaredeserobedecido.
Costuma-sedizerqueoBrasiléabençoadoporDeus,mas
que não avança por causa do povo. E este mesmo povo é o
responsávelpelaconduçãodospéssimospolíticosemtodasas
esferasdepoder.Defato,aclassemédiaéquemfazpolítica,a
classericaindicaamaioriadoscandidatoseaclassepobreelege
oscandidatosdaclasserica,quenadatêmemcomumcomestes
eleitores.
Oproblemaéagravadopelobaixoíndiceeducacionaldopovo,
gerado,emgrandeparte,pelapoucaimportânciaqueosgovernos
dão-deliberadamente,ounão-aocrescimentointelectualdos
seuscomandados.Assim,atelevisãotorna-seomestredemilhões
debrasileiros.Esuaimportâncianapolíticaenadivisãodopoder
noBrasiléimensa.
Mas,comotelevisãoéconcessãopública,seus“proprie-tários”
dirigemaprogramaçãoparashows,esportes,entreteni-mentoe
notíciasgerais,semaprofundamentopolítico.Destemodo,evitam
atritoscomoPoderquelhesconcedeuatrans-missãoe,dequebra,
aindaganhambilhõesdereaisempublicidade.Semcontaros
favores. Só quem perde, claro, é quem paga por tudo isto, ou
seja,opovo.
O poder da informação é superior ao poder político em si,
fazendoprefeitos,governadoresepresidentes,edestituindo-os
Pior do que a bomba atômica
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doscargos,quandonãomaisservemaosnegóciosdapolíticada
comunicação.Sobobrilhodanovela,dosjogos,dosprogramas
deauditórioedosfilmes,temperadoscomimagensdaviolência
humana,queultrapassamospesadelosmaisbizarros,eafúriada
Natureza,atelevisãobrasileiradesinformaedificultaaeducação
dopovo.Comisto,opoderpúblicoeoprivadounem-senapolítica
demandarnoBrasil,desviandoocaudalosoriodedinheiropúblico
paraseusinteressespessoais.
OséculoXXseráconhecidocomoaEradaTecnologia,onde
acomunicaçãoevoluiuassustadoramente.Masserá,também,a
EradaMorte,poisduasguerrasmundiais,dezenasdeoutrasen-
trepaísesvizinhoseascivis,aspioresdetodasasguerras,levaram
àexplosãodebombasatômicaseaofimdavidademilhõesde
sereshumanosedemaiscriaturasnoplaneta.OséculoXXI, no
entanto,podesermenostraumático,e,paraisso,osquedetêmo
Poderecontrolam aPolíticaprecisamsermaisvoltados para a
coletividade.
O que se vê, contudo, são fusões aceleradas de poderosos
manipuladoresdamídiamundial.
Eistoépiordoqueabombaatômica.
Paulo França - Jornalista, Editor chefe de O Correio.
PODER E POLÍTICA
11
Parte I
Para que serve o poder? 13
Parte II
OcaldeirãodaAméricaLatina 49
Parte III
África de língua portuguesa 87
Parte IV
Brasil em transição 131
PODER E POLÍTICA
13
Para que serve
o poder?
PARTE I
PODER E POLÍTICA
15
Índice da Parte I
O poder e a definição de política
Eduardo Raposo 17
Osimbolismomágicodopoder
José Carlos Rodrigues 19
Poder e chefia na sociedade indígena
José Sávio Leopoldi 21
Poderes distantes, arrogantes e triunfantes
João Luiz Duboc Pinaud 23
O poder escondido
Léa da Cruz 25
EleiçãoecidadanianoBrasil
José Eduardo Pereira Filho 27
Até não poder mais
Lena Jesus Ponte 29
Os matizes do poder
Lauro Gomes de Araújo 31
Meuanarquistafavorito
Latuf Isaías Mucci 33
Poderevigilância
José Lisboa Mendes Moreira 35
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
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O paletó do governador
Lula Basto 37
Cuidado com os picaretas
Sérgio Caldieri 39
O poder como personagem na Literatura Infantil
Márcia Lisboa 41
Afaixapresidencial
Jorge Picanço Siqueira 43
A encenação do poder
Isidoro Alves 45
A coruja e a fênix
José Américo de Lacerda Júnior 47
PODER E POLÍTICA
17
Apolíticavemsendodefinida,atravésdostempos,pordife-
rentesreferênciasteóricasehistóricas.Noqueconcerneànos-
satradiçãoocidental,depoisdesuainauguralinserçãonouni-
versoreflexivodaAntigüidadeGrega,éconsideradacomoa
afirmaçãodainterdependênciadocidadãoparacomasuacida-
de, espaço onde recebe sua educação, realiza sua vocação e
encontraseusignificadomaisamplo.
Éassimquechamamdeidiotésocidadãosolitárioeegoísta
quenãooferecenenhumacontribuiçãoàcidadee,portanto,aos
seussemelhantes.Talconcepção–segundoaqualsedescrevia
maisoqueoshomensdeveriamfazer(colaboradoresdacida-
de)emenosoqueporvezesfaziam(estrategistasdeseuspró-
prios benefícios) – atravessa a Antigüidade Grega e a Idade
Média,desembocandonoRenascimento.
Apartirdeentão,NicolauMaquiavelinauguraumextraordi-
nário trabalho – prosseguido e desenvolvido por autores dos
séculosposteriores–nosentidodereverosignificadodo“espí-
ritopolítico”,oquenoslevouadescobrirereconhecerdimen-
sõesecaracterísticas,atéàquelaépoca,inéditasdoquesehavia
pensadosobrepolítica.Todaumaliteraturapassaadedicar-sea
refletirmaissobreaeficáciadapolíticaemenossobrearazão
moral.Pelascontribuiçõesque,desdeentão,foramfornecidas,
apolíticacontinuaaserobjetodediversasconcepções,todas,
porém,convergindoparaanoçãodepoderemseusentidomais
específico.Naorigemdessaconcepçãodepoderencontra-sea
separaçãoentregovernantes,lídereseliderados,oquesemani-
festanassociedadesmodernasatravésdeumvigorosoproces-
sodedivisãosocialdotrabalhoenaesferapública,daconstru-
çãodoEstadoedossistemas,cadavezmaisinstitucionalizados.
O PODER E A DEFINIÇÃO DE POLÍTICA
EduardoRaposo
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
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Anoçãodepoderganhaenormepluralidadeaoserassocia-
daàsideologias,àsutopias,àsesperanças,àsrevoluções,mas
tambémàsgrandesdecepçõesetragédiasquemarcamaHistó-
ria.Adespeitodasdiferentesdimensõesdoconceitodepoder,
todas parecem reconhecer a importância de seu estudo para
compreendermosohomemnasdiversassociedadesquesefor-
maramemnossahistória.
Adinâmicadopoderedapolíticaconstrói,constantemente,
cenáriosdesconhecidos.Nostemposatuais,assistimosauma
inéditaaceleraçãodasinovaçõestecnológicasedascomunica-
ções,comadiluiçãodasfronteirasedasantigasreferênciasa
quefomoshabituados,modificando,maisumavez,odestino
humano.
EduardoRaposo–DoutoremCiênciaPolítica,diretor,pesquisador
e professor do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio.
PODER E POLÍTICA
19
Recentementepudemosacompanharpelaimprensaque,quan-
dodofalecimentodoAiatoláKomeini,emmeioacenasde“his-
teriacoletiva”,desmaios,auto-flagelaçõesemortes,“fanáticos”se
digladiavampeloprivilégiodebeijaracadeiradosumo-sacerdote
edetocaremseucaixão.Osrelatosdavamcontadequelocuto-
resdasrádiosetelevisõesiranianas,emtompatético,imploravam:
“Rios,paremdecorrer!Astros,paremdebrilhar!Perdemosnos-
sopai!”
Comestalembrança,querochamaraatençãoparaumaspec-
topoucoconsideradodopoder:seucaráterdeconfluênciaentre
ocósmicoeosocial.Opoderexisteporquetodasociedadeestá
continuamentesubmetidaàstransformaçõesdaexistência,por-
queestásempreameaçadaporincessantesturbilhões.
Diantedessasameaçaseprovocações,aunidadedasocieda-
desóéencontrávelpelamaterializaçãodeumaimagemauto-im-
posta.Estasópodeserobradeumpoderquerecortaasocieda-
deeadelimita;deumpoderquedesenhe,paratodoseparacada
um,orostoprópriodacomunidade.Noseuquererviver,toda
sociedadeéessencialmenteumpoderqueadestacadosfluxos
infinitosdoquenãoéela.Umpoderqueaprotegedaquiloqueé
contraela.
Todasociedadeseconstróicontraoqueamutila,contraoque
quebraocursonormaldascoisas,contraoqueameaçasuacoe-
sãoesuasolidariedade.Comounidadequevisaaproduzirepre-
servarsuadiferença,todasociedadeéumsistemadepoder,um
complexodeaparatosededispositivosmágico-simbólicosquese
opõemaocontra-poderdocaosedaentropia.
Opoder,emtodasassociedades,édaordemdomágicoedo
sagrado.Nãoé namerasociologiaoupolíticaqueeleadquire
OSIMBOLISMO MÁGICO DO PODER
JoséCarlosRodrigues
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
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sentido.Elenãoseresumeasuasdimensõesmais“históricas”e
circunstanciais.Nãoserestringeaalgodisputadoeconflitual.Não
seesgotanissoquenormalmentechamamosde“político”.
Opoderé,essencialmente,aquiloquedefineumcertocon-
sensoquantoàquiloqueseráobjetodedisputa.Queestabelece
uma certa concordância a respeito de quais serão as regras do
discordar.Quedefineospontossobreosquaisserápossívelcom-
petir.Opoder,sobretudo,éaquiloquerealizaaproezadereunir,
nomesmotodosimbólicoeafetivo,oexploradoeoexplorador,o
senhoreoescravo.Eestaproezaémuitomaisfreqüentedoque
costumamosreconhecer.
Éimportanteteremmenteestespontos,especialmenteem
contextos como o atual, em que, por todo o espectro político,
candidatosemaiscandidatosseproclamamdispostasa“mudar”
ou“abolir”osistemadepoder.Etambémemcircunstânciasem
que,fazendo-seusodegigantescoarsenalmágicoesimbólico,
materializadoemdiscursosepropagandas,somosconvidadosa
esqueceranaturezamágicaesimbólicadopoder.Elevadospaci-
ficamenteaaceitaraidéiadequeopoderseja–oudevaser–de
caráter“técnico”e“racional”.
JoséCarlosRodrigues–ProfessortitulardoDepartamentodeAntro-
pologiadaUFF.AutordeEnsaiosemAntropologiadoPoder, Editora
TerraNova,1992,alémdeoutroslivros,inclusivesobreasexualidadee
amortenumenfoqueantropológico.
PODER E POLÍTICA
21
Opoder,assimcomoacontececomaigualdadeealiberdade,
sótemsentidosepensadoemtermosrelacionais.Ouseja,épre-
cisohaveroutro(s)indivíduo(s)paraqueelepossaexercer-se.
Mas,satisfeitatalexigência,suapresençasetornainevitável,pois
nuncadeixademanifestar-se,querentreindivíduos,quernosvá-
riosgrupossociais,dafamíliaàsociedadecomoumtodo.
Permeando relações pessoais, a questão do poder é geral-
mentetratadapelasáreasdoconhecimentoassociadasàPsicolo-
gia.Jáoestudodopoderpolíticoformalmenteestabelecidoedas
instituiçõespolíticasqueotornamefetivoemdadasociedade,cons-
tituiobjeto,porexcelência,daCiênciaPolítica.
ÀAntropologiaSocial,atravésdoramoespecíficodaAntro-
pologiaPolítica,cabeoestudodopodernaschamadassocieda-
desprimitivas,tribaisouindígenas,emqueelesemanifestade
maneiraconsensual,independentementedeleisescritasoucon-
tratosformaisparadisciplinarasuaprática.Nessassociedades,à
faltadeumalegislaçãoquedefinaseustermoselimites,aquestão
dopodersuscitainteressantesdiscussões.
Háantropólogosquetendemaressaltarosaspectosdeequi-
líbrio,homogeneidadeeigualdadeque,aseuver,seriamcaracte-
rísticasessenciaisdessassociedades.Assim,consideramquene-
las,arigor,opodernãoseconcentranasmãosdeninguém,nem
mesmodochefe.Aocontrário.Paraeles,oquemostraumbom
desempenhodequalquerchefiaéexatamenteamanutençãoda
pazpelaconciliaçãoquepromoveentregruposemdisputa,evi-
tandoumacisãoquesempreenfraqueceoconjuntosocial.Sem
poderdepolícia,ochefecompetenteéaquelequeserevelaexce-
lentenegociador,conquistandooapoiodosindivíduosdemaior
PODER E CHEFIA NA
SOCIEDADE INDÍGENA
José Sávio Leopoldi
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
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prestígioparasuaspropostasebuscandosoluçõespalatáveisàs
partesemlitígio,semqueninguémsesintairremediavelmentelesa-
do.
Outrosestudiosos,nãodiscordandodanaturezapacíficado
trabalhodachefia,noentanto,percebemqueaposiçãodochefe
indígenaserevestedeumpoderqueétãoeficaz,quantodissimu-
lado.Afinal,oprestígioeacapacidadedeconvencer,necessaria-
menteassociadosaopapeldochefe,podemoperarnosentidode
facilitaratomadadeumadecisãoouoencaminhamentodeuma
propostafavorávelaseusinteressespessoaisouaosdogrupoao
qualestejamaisligado.
Direitoàpoliginia
Alémdisso,écomumobservar-sequeumdosprivilégiosdos
chefeséapráticadapoliginia,ouseja,ocasamentocommaisde
umamulher.Nessecaso,elesacabampossuindoumafamíliamai-
ordoqueadosoutrosindígenas,oqueresultaemmaiorimpor-
tânciaemaisnumerosasaliançascomoutrosgrupos,resultantes
docasamentoentreseusfilhosefilhas.
A força desse conjunto de indivíduos, próximo à chefia,
indubitavelmentefortaleceasuaautoridade.Grandeparentelaem
torno do chefe acrescenta, portanto, ao domínio de que ele já
desfrutava,umpoderdefatoqueinapelavelmentesetraduzem
forçapolítica,contaminandooexercíciodachefiaemtermosde
isenção.Afinal,seugrupodeapoiotemsempreinteressesespecí-
ficosereivindicaçõesquenãopodemserignorados,oquetorna
evidenteadificuldadedodesenvolvimentodeumtrabalhocom-
pletamenteindependenteeimparcial.
José Sávio Leopoldi – Professor do Departamento de Antropologia
da UFF, estudioso da sociedade e cultura indígenas, com tese e pes-
quisas de campo sobre o tema. Doutorando em Antropologia Social
pelaUSP.
PODER E POLÍTICA
23
Remotíssimaéanoçãodopoderdemocráticocomoresultado
de aceitações recíprocas por parte dos governados. Platão, no
Criton, menciona a Lei – e o poder que vem dela – como um
quase-contrato.
Entretanto,noséc.XVIII,Jean-JacquesRousseauéquemo
caracterizacomoumContratoSocial:todos–hipoteticamente–
entregampartedaliberdadeindividual,construindoavontade
coletiva.Marx,jánoXIX,desvendouasligaçõeseconômicas
dosjogosdopoderpolítico,marcandoadistância,ouoantago-
nismoentreaforçadequemmandaeasnecessidadesdequem
obedece.
A atuação política, para os gregos do séc. V e IV aC., por
exemplo,eraaparticipaçãopública,quandoopoder,afastando-
se do palácio real, deslocou-se para praça, tornada espaço co-
mumdebemadministrarapólis.Talpensamentopermitiudesven-
darque,nadistânciaentreogovernanteeopovo,habitaadife-
rençaentreescravoselivres.Dondeseinferequetodapolíticade
dominação,parasejogarnotabuleirodoxadrezpolítico,precisa
serdistante,arrogante,triunfante.
Deveafetardesconhecerosreaisproblemas,mistificá-los,hu-
milharosgovernadosedesqualificaropositores.Deveacenarpara
mudanças,emboraelasnuncacheguem,sacrificandoumagera-
ção por um futuro nem mesmo planejado. O resto é empenho
popular,transitando“foradopoder”,malinformadoesempossi-
bilidadedecomunicaçõesplenas.
Nocasobrasileiro,ogoverno,comseusmesmoseconomistas
epolíticosdeplantão,usandoamídiaqueescondeascriseseas
causasdosproblemas,ficaexoneradodasculpas,dizendoser
PODERES DISTANTES,
ARROGANTES E TRIUNFANTES
João Luiz Duboc Pinaud
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
24
mundialacrise.Etudosedissolveemdiscursos,simpáticosexer-
cíciosdedemagogia(noexatosentidodeguiarenganosamenteo
povo).Mas,relaçõeseconômicasdesiguaisacabam–cedoou
tarde–condenando-nosàestagnaçãoeàmiséria.
Nossa“dependência”,defendidanateoriaenapráticapelo
atualpresidente,vemsendovelozeimpunementeagravadacoma
entrega criminosa da riqueza nacional. Mas os entreguistas
neoliberaisdehojesãotantos,contentes,arrogantes,triunfantes,
governantes,quetaisqualificativossoamatécomoelogio.
Enfim,éinútilconcentrarbaterianaspessoaseabsolveromodelo
econômico, do qual elas são escravas. Ao cabo de contas, são
apenaspessoasesóissoasaproximadosgovernadosmutilados,
quenasceram,vivememorrerão.Desaparecerão,comotodos,
naordemdascoisas,emborafiquedelasobemouodanocausa-
dos.
Fechemos,então,comosatuaisgregosdosséculosVeIV
antesdeCristo:submeteràdeliberaçãoacondutaaserseguida
significa“depositaroassuntonocentro”,ficando,assim,opoder
partilhadocomogrupopresente,bempróximo,poisapraçaera
oespaçopolítico.E,segundoafórmulaarcaica,oarautoconvida-
va:“Quemquertrazeraocentroumaopiniãoprudenteparaasua
cidade?”Emuitosedeviadiscutiredeliberar.Algumacoisacomo
o votar em eleições próximas. Mas, imagine só, o arauto e os
discutidoresnatelinhadatelevisãodeagora!
Seráquevãocontinuartodossalvos,inocentados,referenda-
dos,ospoderessorridentes,distantes,arrogantesetriunfantesneste
jogodoxadrezpolítico?
JoãoLuizDubocPinaud–Advogado,professordeDireitonaUFFe
Presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros.
PODER E POLÍTICA
25
Após30anos,omovimentoqueeclodiunomundonofinal
dadécadade60rendeufrutos.Nãoexistemmaisascátedras,a
ditadura,osexcedentesnosvestibulares...Poderíamosafirmar
quetemosumasociedadejusta,igualitáriaedemocrática?A
relaçãodeperguntaséinterminável.Sãoquestõesqueinquie-
tam,porqueasrespostassuscitamoutrasnumareaçãoemca-
deia,revelandoenganoseomissões.
Recentemente,assistiaumaconferênciadeTeotôniodos
Santossobredireitoshumanose,aotocarnocomportamento
dosjovensdehoje,suaobservaçãofoi:háumflagrantedesinte-
ressedosalunosquandooassuntoéarealidadesocialepolítica
dasociedade.Porqueamarchadosvaloresindividualistasfru-
tificoudeformatãocompetente?
Apesardosaresdedemocracia,aúltimametadedoséculo
tornaumperíodoespecial.SeaHistóriaéaexperiênciavivida,
esteséculosecaracterizacomoumtempoemqueseproduziua
barbárie.Estápresentenestalógicaonãoreconhecimentodo
outroeodesrespeitoàdiferença.
Sinaisdestacontradiçãosãoclaros,tantonocomportamen-
toisoladodaspessoas,comonomovimentopolíticoquesees-
truturanomundo,comespaçoparaoneofascismo.
O fantasma do fascismo traz consigo uma forma de ver a
vida apenas pela valorização da ciência e pela racionalidade
tecnocrática.Oquepareciaserumexercíciodefuturólogosse
apresentacomoverdadeirrefutável:vivemosemummundoad-
ministrado,embaladopeloindividualismo,isolandooshomens.
O PODER ESCONDIDO
Léa da Cruz
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
26
Pensamentoúnico?
Respeito à diferença e à solidariedade parecem coisa do
passado. Agora,maisdoquenunca,nosvemosreduzidosàs
verdadesúnicaseinexoráveis.Éocapitalismoouocapitalis-
mo,aglobalizaçãoesóaglobalização.Emquesentidoaeduca-
çãopoderiavincular-seaestepensamentoúnico?
Existeumtraçoconservadornopresenteeentravesparase
construirumaverdadeirademocracia.Naeducação,torna-se
importante olhar as relações que se estabelecem no âmbito
institucional.Espelhoscôncavoseconvexoscomimagensque
convergemerefleteminterações,quetantopodemsignificarde-
mocraciacomosubmissão.
Eisporqueestánaordemdodiaaverdadeiraemancipação,
aquelaquerompecomatendênciadeoshomensseassociarem
apersonalidadesautoritárias,seguindo-ascomoalgomagnéti-
co.Aeducaçãoassimpensadaécampodecrescimentonaver-
dadeiraliberdadeenaemancipaçãoqueconstróiaidentidade.
Háumalinhatênue,difícildeserpercebidaerespeitada.Por
isso,esteéumespaçopararefletirsobretaisquestõesqueenvol-
vemossubmissoseamedrontados.Talocorreeminstituiçõesque
repetemadominação,substituindoaautoridadenaturaleautênti-
cadosaberpeloautoritarismo.Éapseudo-liberdade.
Valeapenarefletirsobreisso.Comcerteza,devehaveruma
relaçãoentredemocraciaquepensamosvivernaeducaçãocom
aqueexistenasociedade.
LéadaCruz–ProfessoradoDepartamentodeFundamentosdaEduca-
çãodaUFFedoutorandaemSociologianaUSP.
PODER E POLÍTICA
27
UmadastemáticasmaisdiscutidasnasCiênciasHumanas,sem
dúvida,éadopoder.Tornou-seconsensualquenãohávidasocial
semoexercícioeadistribuiçãodocomandopolítico.Sendoas-
sim,associedadesegrupossociais–demaneiraformalouinfor-
mal–seorganizampormeiodetalmecanismo.
NocampodaCiênciaPolítica,ressalta-seoclássicoOPrín-
cipe,deMaquiavel,onde,numainterpretaçãorealista,oautor
demonstracomo,umaveznocomandopolítico,nelepermanecer.
Amáximaparagarantirtalpermanênciaéjustificarosfinspelos
meiosatravésderefinadaaçãoestratégica.Emboraaambiência
histórica do autor italianos seja a de uma Itália fragmentada,
renascentista,católicaenãodemocrática,suareflexãoémaisdo
queatual.
Emoutraperspectiva,AdemocracianaAmérica,deAlexis
Tocqueville,retrataaemergenteedemocráticasociedadenor-
te-americanadoséculoXIX,experiênciaúnicanaquelemomento
históricodesteregimenoNovoMundo.OsEUAsãoumpaís
quelegitimaopoder,tantopormeiodarepresentaçãopolíticae
eleitoral,quantopelomecanismodaparticipaçãocivil.Naquela
sociedade, a democracia é permanente e solidificada em um
infindávelnúmerodeassociaçõesdetodanatureza.
Deláimportaram-seosmodelosRepublicanoeFederativo,
contudo,porherançanãodemocrática,obtivemosoutroresulta-
do. A estratégia política brasileira emerge da rede de relações
pessoaisenãopormeiodeumcidadãoimpessoalizado.Nossa
identidadepolíticanãosefundaemumideárioparaquetodos
partilhemdosdestinosdocorposocial.
ELEIÇÃO E CIDADANIA NO BRASIL
José Eduardo Pereira Filho
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
28
Poderdochefes
NosEUA,oFederalismoresultounumarelativaautonomia
dosgovernosecomunidadeslocais.NoBrasiltalprincípioteve
comoconseqüênciaquasequeexclusivaodomínioterritoriale
políticodoschefeslocais.
Aqui,acidadaniaseexpressa,momentaneamente,porelei-
çõesperiódicas.Entretanto,nemporissodevemosdeixardeapre-
sentarnossasvisõesdemundo,atravésdoescrutínionasesferas
federaleestadual,queoraseapresenta.
Mas é necessário ter, sobretudo, em mente que, além de
delegar poderes, temos o poder de agir e participar da esfera
pública,fatoquedizrespeitoatodososmembrosdasociedade.
José Eduardo Pereira Filho – Mestre em Ciência Política pelo Pro-
gramadePós-GraduaçãoemAntropologiaeCiênciaPolíticadaUFF
eprofessordaFaculdadedeBelfordRoxoedaFaculdadedeAdmi-
nistração São José.
PODER E POLÍTICA
29
“Enquantooshomensexercemseuspodrespoderes”,que
nos seja permitido sonhar com poderes maduros, na medida
exatadadoçura.
Poderseralguémomaispróximodagentemesmo,dosnos-
sosescondidos,comdireitoamáscarasapenasparavivenciar
fantasias.Equererbemaosirmãosemsuasdiferençasdepeles,
sexos,gostos,idéias,crenças,sentimentos...Poderserchama-
do e chamar o outro pelo nome próprio, nome comum, sem
senhornemdoutornemprofessor,excelênciasapenaspelofato
simplesdesenascergente.Nãoterpodersobreaspessoasnem
estarsubmetidoaqualquerjugo:opoderosoencantododiálo-
go, do olho no olho, das mãos dadas. Poder dizer sim e não,
semqueomundoseacabe.
Podersermeninotododia,omundoumeternobrinquedo,
buscaroladodeládosmuros,afaceocultadaLua,olhossem
limites,pelesemfronteiras,ouvidossemdivisas,línguaparasa-
boreartodasaslínguas.Sentir-seumpoucobicho,planta,mine-
ral,coisa,privardafraternidadecósmica.Podersentirocami-
nho, os passos, o passar de tempo e espaço, o gozo de estar a
metaemcadaaquieagora.
Poderincluirnocurriculumvitae,ladoaladocomexperi-
ênciaprofissionalecursosrealizados,otempodedicadoaodes-
canso,aolazer,aoafeto,aoprazer,aoscuidadoscomocorpoe
a alma, ao cultivo das plantas e outras formas de vida. Poder
nãocompetir,nãotornar-sehomemdesucessooumulherobjeto
detodososdesejos.Respeitarseuritmo,comporsuamelodia,
semcronômetros,compassos,esquadros,moldes,modas,fôr-
mas, peças de engrenagem ou manuais de auto-ajuda. Poder
preservar normas e cânones por uma reverência à tradição e
ATÉ NÃO PODER MAIS
Lena Jesus Ponte
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
30
poderrompercomtodasasnormasecânonesporumamorao
espanto,aonovo.
Poder viver a arte, viver com arte. Nascer e morrer num
fluxodepermanênciaerenovaçãocontínuas,mãosenlaçadas
aos pais e aos filhos. Envelhecer tendo tesão pelas marcas e
mudançasimpressasnocorpo,esselivrodehistóriasfantásti-
cas.Sonhartodasasimpossibilidadesatéchegarodiadonão-
podermaior,libertador,definitivo(?).
LenaJesusPonte–DinamizadoradaOficinadaPalavraLuizSimões
Jesus.
PODER E POLÍTICA
31
Há o poder da vontade e o da fé, o poder da arte enquanto
manifestação do espírito e o poder das idéias. Há o poder da
palavraeopoderdoexemplo,comoháodoamoreodamãe-
Natureza:comesteoHomembrinca,desrespeita...daqueleanda
umtantoesquecido!Contudo,aolongodatresloucadaaventura
humananocorrerdosséculosoquemaisparecehaveréopo-
derdohomemsobreoutroshomense,nosdiasatuais,valendo-
sedeumaformidávelferramentasuplementar:ainformação.
Sem dúvida,informaçãoépoder.Numa palavra:aselites
quecontrolamainformaçãotambémcontrolam,porviadecon-
seqüência,oarbítriosobreavidademilhõesemilhõesdeseres
humanosnumalógicaalucinante.Osmétodosdecontroleda
opiniãopúblicaatingiramtalníveldesofisticaçãoquepassaaser
amplamentediscutívelopróprioconceitodedemocracia,vez
queamanipulação,atendenciosidade,ocomprometimento,a
barganha,tudoconspiranamãoenacontra-mãodeinteresses
dosquaisjamaistomaremosconhecimento.
Assim, entendo oportuna a citação do grande romancista
MorrisWestemAfragilidadedossistemas,reflexãodaqual
transcrevemosparte:“Cadaumdenósdeveassumirplenares-
ponsabilidadepessoalnaadministraçãodasociedade.Nenhum
de nós pode eximir-se dessa responsabilidade ou delegá-la à
coletividadeanônima.Temosdecriarordememnósmesmose
emnossomeio.Nãodevemoscriarumtiranoqueaimponha
pornós.Devemosserjustospornósmesmo–justiçapessoal,
justiçasocial–antesquereclamemosjustiçanosoutros.
Temos de oferecer amor primeiro, ainda que o amor com
quenosretribuamsejamenosqueoqueesperamos.Éesseo
verdadeirocontratosocial,semoqualnenhumoutrocontrato
OS MATIZES DO PODER
Lauro Gomes de Araújo
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
32
podesubsistir.Devemosconsiderar-nosresponsáveis,pesso-
almente responsáveis por tudo o que é feito em nosso nome
pornossosrepresentanteseleitosoupelosfuncionáriospúbli-
cospagoscomodinheirodosnossosimpostos.Devemospro-
testarpessoalmentecontraalegislaçãoerradaeoserviçoinfi-
el.
Temosquereconhecerqueumadoençanoorganismopolíti-
coéumadoençaemnossosorganismosequenoscabeodever
decooperarpessoalmentenacura.Sehouverinvasãonosdirei-
tos de outro, cada um de nós deve levantar-se para resistir à
invasão.Quantomaioréocaso,quantomaiscomplexaéaques-
tão, mais importante é ouvir a voz humana isolada acima do
clamordodebatepartidário.
Cadaumdenóstemodireitodeproporasuaorientaçãonas
assembléias,dereunir-selivremente,dedecidirpelovotoda
maioria. Cada um de nós tem o dever pessoal de proteger os
direitosdaminoria.Cadaumdenóstemobrigaçãodetolerância
ecompreensão,porqueDeususaumafacediferenteparacada
homem,porquetodasasdefiniçõessãoinsuficientesequeimar
umhomememnomedeumafórmulaéumatobárbaro.
Cadaumdenósdeverespeitaralei.Cadaumdenósdeve
lutarparamelhoraralei,sabendoqueelaésempremenosjusta,
queétantoumaarmaquantoumescudoequesuasinjustiças
podem impelir os homens à desordem e à violência. Não há
códigocompleto;nãohálegislaçãoquenãopossasercontesta-
da;nãodevehaverregulamentosquepossamdesprezaroseu
objetivofundamental:dispensarjustiçanumacomunidadedeci-
dadãoslivrescapazesdesedirigirem.Nãoéumsistemaquenos
salvará.Somosnósmesmoquenossalvaremos,umporum,um
aum,cadaumatodosetodosacadaum.”
LauroGomesdeAraújo-Escritor,membrodaAssociaçãodePesquisado-
resdeMPBedaAcademiaNiteroiensedeLetrasevice-presidenteda
AABB/Niterói.
PODER E POLÍTICA
33
Umacoisaévocêlersobreoanarquismodoutrina,decunho
utópico,fundadanaabsolutaliberdadedoindivíduo“semleinem
rei”que,associadaaoutrosindivíduos,igualmentelivres,consti-
tuiriauma“sociedadelivredepessoaslivres”.Segundooaxio-
madeProudhon,fundadorfrancêsdomovimentoanarquista,
“quemquerquesejaqueponhaasmãossobre mim,para me
governar,éumusurpador,umtirano.Euodeclaromeuinimigo”.
DeacordocomBakunine,oniilistarusso,“repudiamostoda
legislação,todaautoridadeetodainfluênciaprivilegiada,paten-
teada,oficialelegal,mesmooriundadosufrágiouniversal,con-
vencidosdequeelajamaispoderáfuncionarsenãoemproveito
deumaminoriadominanteeexploradoracontraosinteressesda
imensamaioriasubmissa”.Proclamaoanarquismo:“NemDeus,
nem senhor!” Ou, como na lenda do náufrago espanhol que,
aportadoaumailha,teria,arfantemente,inquirido:“Haygovierno?
Soycontra”.Outracoisa,muitooutra,évocêconhecerumver-
dadeiroanarquista,emcarne,ossoerevolta.
Dosmaioresprivilégiosquetenhotidoestá,indelevelmente,
odeterconhecidoeconvividocomPedroPauloMussi,profes-
sordaredesecundáriaestadualemMacaé-RJ.Aomeabordar,
numbelíssimojardimmacaense,encontrava-mesentadonum
banco,comumlivrosobreosjoelhos.
Apresentando-se também como professor, de chofre me
declarouterqueimadotodososseuslivros,guardandoapenas
Os grandes escritos anarquistas, antologia organizada por
GeorgeWoodcock.Comopodeumprofessorviversemlivros,
indagava-meeudiantedetalgestodadaísta.
ConvivendocomoPedroPaulo,fuientendendoeamando
suaformadevida.Ex-mongebudista,tarólogo,comerciantede
MEU ANARQUISTA FAVORITO
Latuf Isaías Mucci
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
34
seboebrechó,artistaplástico,poetazen,empalhador,herborista
–tudoexerceurevolucionariamenteecomarte...Atégrevede
fomecontraogovernopraticouedistribuía,narodoviáriade
Macaé,panfletoscontraapolíticadeeducação,panfletoscom
crassoserrosdevernáculo,ocúmulodarevoltasintática.Atingi-
donacabeçaquandodecovardeassalto,foihospitalizado,mas
fugiu,preferindo,aos42anos,comoanunciou,“entregarseu
corpoàterra”,numgestohumano,livrementehumano.Impossí-
veldesenhar,em35linhas,oretratoanarquistadePedroPaulo
Mussi,cujoíconeultrapassaameramoldurademinhaoceânica
saudade.
Latuf Isaías Mucci – Doutor em Poética (UFRJ), mestre em Teoria
Literária(UFRJ),mestreemCiênciasSociais(UniversitéCatholique
de Louvain – Bélgica), professor de Teoria da Arte na UFF, poeta e
ensaísta.
PODER E POLÍTICA
35
Costuma-sedizerqueopreçodaliberdadeéaeternavigi-
lância,masdevemosatentarqueháduasmodalidadesdevigi-
lância:aqueseexercedentrodocírculodopodereaeleserve,
e a que se exerce do lado de fora e permite contrastá-lo. O
símbolodaprimeiraéoPanópticodeBentham*:noanelperifé-
ricoseétotalmentevistosemnuncaver;natorrecentralvê-se
tudosemnuncaservisto.
Foiessetipodevigilânciaquesofreramoseuropeussobotacão
nazistaeoslatino-americanossobasbotasmilitares.Hoje,navigên-
ciadopoder“democrático”,ocontrolepolicialdasditadurastor-
nou-seautocontroleintrojetado,suple-mentadopelamídiacomer-
cial.PinóquiotomouolugardoPanóptico.
Opapeldos“maquis”e“montoneros”dehojenãoéempu-
nharmetralhadoras:éarmar-secomumpensamentocríticoque
possa reinventar, para o século XXI, o conceito de liberdade
socialemoposiçãoàditaduradopensamentoúnicoimposto
peloneoliberalismo.
PODER E VIGILÂNCIA
“Mallarmé é uma metralhadora!”
Viviane Forrester, em O horror econômico.
José Lisboa Mendes Moreira
*O Panóptico foi imaginado pela filósofo inglês Jeremy Bentham
(1748-1832)comomodeloidealparaprisõesehospícios.Éumaconstru-
çãocircularcomumatorrenocentro.Oanelperiféricoédivididoemcelas
que se estendem da parede externa até a torre.
Cadacelatemduasjanelas:umaquepermiteaentradadaluzexterior
e outra, colocada na torre, de onde um vigia pode controlar tudo que se
passa na totalidade das celas.
JoséLisboaMendesMoreira–Ex-diretordoCentrodeEstudosGerais
daUFFeautordolivroSíndromedoprogresso.
PODER E POLÍTICA
37
Eram14horasdeumsábadonosjardinsdoPaláciodasLa-
ranjeiras.Estavaeu,juntamentecomoutraspessoas,aguardando
achegadadonossocandidatoaoSenado.Sentia-meaborrecido
comoacúmulodecarrosque,estacionadoaoredordobelopré-
dioneoclássico,desfiguravamoambiente,ecomasufocantees-
taçãodoano:suávamosmuitoporcontadocalorcarioca.
Nessemomento,eisquedespontapordebaixodaquelasolei-
ra o nosso tão aguardado candidato. Vinha acompanhado por
grandenúmerodeaguerridoscorreligionários,osquais,“cami-
nhandoecantando”,bradavamorefrão:“Vivaogovernador!Viva
ogovernador!”
Naturalmente,aaltatemperatura,aindamaiselevadapeloar-
dordamilitância,fezcomqueonossocandidatosesentisseterri-
velmenteincomodadocomopaletóazul-marinhoquetrajava,o
queolevouafazermençãodelivrar-sedele.
Porém,nemmesmohaviaencaminhadoasmãosàgola,eis
quesurgedomeiodosfeéricospartisansumindivíduoalto,ma-
gro,quaseesquálidoeportadordeumprotuberantebigodemar-
rom:“Podedizer,excelência,queeuajudo!”Aomesmotempo
emqueseguravacommãostrêmulasopaletódojovempolítico,
vociferavaentretorrentesdelágrimas:“Governador,meugover-
nador!...”
O“governador”continuouemmeioaoentusiasmocortêsem
direçãoàescadariadopalácio,enquantoemsuaretaguardase
instalava,impávido,oexultantecaboeleitoral,apertandodevota-
mente o sóbrio paletó contra o peito. No semblante, o
embevecimentodecarmelitadescalçaque,“prenhedoamordivi-
no”,“viveemDeus”.
Lembrei-mededuasmáximasdeShiroFujita,pensadorepoeta
O PALETÓ DO GOVERNADOR
Lula Basto
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
38
japonês:“Aausênciadacríticaedaautocríticafavoreceperver-
sõesdepoder”.Eprofetizavaqueodelíriodoepelopoderleva
inexoravelmenteao“empavonamento”.
Aperversãoconsistiaemqueaqueleesfuzianteserviçal,assim
como fora também “amaralista” e “chaguista”, agora se
autoproclamavacaboeleitoraldo“governador”desdecriancinha.
Aexecrávelfiguradofisiologismocomezinhopululoudescarada-
mentediantedosmeusolhosatravésdomaisdesprezíveloportu-
nismocalculado.
Quanto à outra sentença, deixa-se perceber que o
“empavonamento”trazemseuseioumdevanearmelancólico:é
queenquantoacaudaseenfeitacomopaletó,ospéschafurdam
nalamado“puxa-saquismo”.
Ironicamente,porém,essamodalidadedegente,aindaquese
esforceemaprimorarosseustruquezinhosbaratos,serásempre
umserperifériconoâmbitodopoder.Pormaisquetentesealçar
às“benesses”dessepoder,pormaisqueseesmerenessadireção,
o retorno obtido jamais passará de migalhas, pois esse tipo de
personalidaderastejanteaninguéminspiraconfiança.Crêem-se
maquiavélicossujeitospredestinadosapolpudasfatiasdeum“bolo
promissor,elaboramumabanalegrosseirafantasia,acreditando-
sea“boladavez”.
Mas,naverdade,nãopassamdedeploráveisobjetos,desem-
penhandoaqualquerpreçoopapeldasubserviência.
Obs.Jogodecinturademaisvirarebolado,jádiziaaminha
comadreLiginha.
Lula Basto – Músico, poeta e dramaturgo.
PODER E POLÍTICA
39
Aseleiçõesseaproximameoscandidatosestãoàprocurade
eleitores.Naturalmente,elesrepetirãoosmesmosdiscursosefa-
rãomilpromessas,aproveitando-sedamemóriafracadapopula-
ção.Afimdeevitarqueunscarreiristasseelejamedepoisdeban-
demparaoutrospartidos,depreferêncianabancadadamaioria
governamental,algumasagremiaçõesestãoexigindotermodecom-
promissodefidelidade.Geralmente,éabandapodrequemuda
embuscadevantagens.
Oscaboseleitorais,quetrabalhamparaeles,tambémdeveri-
amseprecavercomumtermodecompromissoparacomseus
companheirosdecampanha.Émuitocomumseelegeremede-
poisnãodaremnem“banana”aosqueoajudaram.
Paraquemjáparticipoudeumacampanhaeleitoralepresen-
ciouseueleitosedeslumbrarcomoscargoscomissionadosde
gabinete,sabecomoasituaçãoélamentável.Exemplodessefato
équandoumvereadorchegaàCâmaraMunicipaledádecara
comseuprimeirocontracheque,novalorlíquidodeR$3.200,00,
comdireitoa20cargoscomissionadosemváriosníveisevalores.
Aíentão,otalvereadoréprocuradopelosseuscompanheirosde
campanhaparatrabalhar,pois,afinal,elenãofoieleitosozinhoe
teveaajudadeváriaspessoas.Opolíticofisiológicocomeçaa
dividirossaláriosentrefuncionáriosparaquepossaagradaragre-
gos e troianos que, naturalmente, acabarão com apenas umas
“merrequinhas”,vistoque,paraquemestavadesempregado,jáé
algumacoisa.Aconteceque,nestecaso,ofuncionárionãopode
reclamaroudenunciar,paranãocorreroriscodeperderoem-
prego.
Naverdade,ocaboeleitoralsóservemesmoparafazercam-
panha,porquenahoradeserbeneficiadoganhaapenas“umcala
CUIDADO COM OS PICARETAS
Sérgio Caldieri
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
40
aboca”equesedêporsatisfeito.Sabe-se,porém,felizmente,
quenemtodosospolíticosagemdessaforma.Algunssãohones-
tosetratamseuscompanheirosdecampanhacomosereshuma-
nosecommaisdignidade.
Sérgio Caldieri – Jornalista.
PODER E POLÍTICA
41
Acríticaaosrepresentantesdopodersempreestevepresente
noscontospopulares,fonteprimeiradaliteraturainfantil.Istoacon-
teceriaporqueopovocriavataishistóriassobretudocomoestra-
tégiaderesistênciacultural,meiodetransmissãodevaloresesa-
beres.Nestescontos,gigantes,rainhasereisdespóticossãoder-
rotados pelo herói, armado de coragem, astúcia e bondade ou
porumaintervençãomágica,assinalandoqueháesperançapara
aquelesquesofremsobodomíniodesenhorespoderososemal-
vados.
NoséculoXVII,LaFontaine–quenãoescreveuparacrian-
ças–usouasfábulasparadenunciarosdescaminhosdasocieda-
dehumanaeosabusosdosdetentoresdepoder e de força.As
fábulasforamincorporadasàLiteraturaInfantil,eseuspersona-
genssobapeledeanimaistornaram-separadigmas:oReiLeão
estánocentrodopodereporissoébajuladopelacorte;araposa
éocortesãoastucioso;otigre,ourso,olobosãoospoderosos
que se valem da força bruta. Do outro lado do poder estão o
asno,ocordeiroeaovelha,representandoospobres,honestose
puros–asvítimasdopoder.
Dandoumgrandesaltonotempo,chegamosaoBrasildosé-
culo XX, mais precisamente à década de 70. Nesta época, a
produçãoparacriançasviveumperíodobastantefecundo.Num
contextodeviolentacensura,aproduçãoparaainfânciafoium
meioderepresentarmetaforicamenteopoderedeexerceruma
críticacontundenteaoestadoautoritário.
JáqueaLiteraturaInfantilévistacomoumtipodetextomenor,
engraçadinhoeinócuo,osresponsáveispelacensuranãopresta-
ram muita atenção ao que estava sendo dito ali. O ciclo dos
O PODER COMO PERSONAGEM
NA LITERATURA INFANTIL
Márcia Lisboa
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
42
reizinhosdeRuthRochaeaHistóriameioaocontráriodeAna
MariaMachadosãoclássicosdestemomentoemque,engajada
na luta contra-ideológica, a Literatura Infantil é muitas vezes
panfletária.
Alémdedenunciaroexercícioditatorialdopoder,aLiteratura
Infantiltambémassumiuposiçõeslevantadasemmaiode68,na
França.Assim,ostextosparacriançassãoporta-vozesdeuma
novaéticaedenunciamaeducaçãopautadaporestereótiposse-
xuais,oautoritarismonarelaçãoadulto-criança,asinjustiçasda
sociedadedeclasseseopreconceitoracial–formaspluraisde
exercíciodopoder.
Márcia Lisboa – Especialista em Literatura Infantil e doutoranda
emSemiologiapelaUFRJ.
PODER E POLÍTICA
43
Eraumartistasonhador:sonhavacomaglória,comafama,
esperavacomansiedadeessediaque,tinhacerteza,chegaria.
Pintava,diaenoite.Erasóoquesabiafazerefaziamuitobem,
maserasempadrinho,sempistolão.
Parecequechegousuaveznumaencomenda,aconfecção
deumapinturacomoretratodopresidente,dopresidenteeleito
–poreleiçãoindireta,diga-sedepassagem.Masaencomenda
era urgente, era para o dia da posse: o presidente com traje
soleneefaixapresidencial.
Começousuaobra-prima.Pensounosvelhosmestres:pri-
meiro,umprojetobemfeito;sódepoisaampliaçãodefinitivaeo
acabamentorigoroso.
Trabalhouintensamente.Buscoufotografiasdopresidente–
nãopodiavê-loaovivo,estavanaEuropa–mostrouacolegas,
tudo bem, o projeto pronto, o início da obra final. Uma tela
encomendadaespecialmente,linhopuro,chassisdecedro,mão
francesa,atelacomváriascamadasdegessoecola,camadas
finas,secasnaverticale,porfim,umacamadadealvaiade.Tela
branquinha,pedindotinta.Tintaestrangeira.Materialpara500
anos,comodiziaacolega...
FoinaHistóriadaArte.EstudouTicianoeoutrosmestres.
Tudomentalizado,trabalhocomeçadocommanchabemdiluída
comoseuamigodeateliersemprefalava:“Primeiromanchara
tela,pinturamuitorala,tintadissolvidacomterebintinaeumpouco
deóleodelinhaçasecamaisrápido,nãotrinca,pinturadequa-
lidade.”
Veiooacabamento:umaperfeição.Todomundogostando.
Sófaltavaafaixapresidencial,omaisfácil.Maisfácilnada.Co-
meçouenadadefaixadarcerto,astintasseembolando,sujan-
A FAIXA PRESIDENCIAL
Jorge Picanço Siqueira
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
44
do. Seria a qualidade da tinta? Não adiantou nada, cada vez
piorafaixa.Raspouecomeçououtra.Nada!Afaixanãoqueria
encaixarnoretrato.Odiachegando,diadaposse.Davatempo,
masafaixanãosaía.
Veioavéspera.Usousecante,pintouduranteanoite,demanhã
cedinhoentregariaotrabalhocomfaixaetudo.Muitaconcen-
traçãoedesesperoaté.Oqueestariaacontecendo?Afaixanão
davacerto. Nãodavaenãodeu...Iriasemfaixa mesmo,mas
nãopoderiaser,tinhaquesercomfaixapresidencial.Exausto,
nãodesmaiou.Otrabalhoprontosemfaixa,nodiadaposse...
Demanhã,sótevetempodeligarorádioeouviranotícia:“O
presidenteeleitonãotomouposse,adoeceu.Doençademorte.
Oviceassumiu...”
Oretrato–semfaixapresidencial–desapareceu.Oartista
abandonouastintasparasempre...
Jorge Picanço Siqueira – Escritor, poeta e presidente da Academia
Brasileira de Literatura.
PODER E POLÍTICA
45
OcineastaitalianoRobertoRossellini,nofilmeAtomadado
poder por Luiz XIV, mostra o ritual de investidura do Rei da
Françacomossímbolosconcernentesàmonarquia.Oantropó-
logoinglêsMaxGluckmannanalisaasformasdeencenaçãodo
podernoimportanteensaioRituaisderebeliãonoSudesteda
África,ondedemonstraqueaquelequeassumetambémsesub-
mete,ritualisticamente,aossubalternosparaentãoassumirple-
namentenodomíniopolítico.Maianowiski,autordoclássicoOs
argonautasdoPacífico,contaqueentendeumelhorokula–
processodetrocasrituaisentreostrobriandeses–aosedepa-
rarnoMuseuBritânicocomasjóiasdaCoroaInglesa.
Paraqueestasserviam?Paraqueasvestes,ocetroeaco-
roadoReidaFrança?Porqueochefeafricanosesubmetiaao
escárnioeàrevoltasimbólicadeseussúditos?Emverdade,a
ascensãoeaposseexigemumcomplexosistemadeencenação,
ondeossímbolosdopodersãocolocadosemcena.Opoderé
públicoe,portanto,exigeque,publicamente,serepresente.Tudo
aquiloquesejacapazdeindicarqueelevaiserexercidotemque
condensar-seemummomentoousituaçãoquedefinaapassa-
gemdeumestágioaoutroousuaafirmaçãooureafirmação.
Todasassociedadeseossistemasdepoderdesenvolvemas
maisvariadasformasdedramatização.Éprecisodizeremcerto
momento–especialmentenasinvestiduras–quemotemeque
oexerce.Porisso,aexigênciadosrituaiseamanipulaçãode
instrumentossimbólicos,tornadoclarooprocesso.Éassimque
podemosfalardeencenação,quandotestemunhamoscerimôni-
asqueosacralizam.
Oritualtemcomofunçãomostrarasuaexcepcionalidade.O
reipodeinvocarsuaorigemdivina,ogovernantejurarperantea
A ENCENAÇÃO DO PODER
Isidoro Alves
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
46
Bíblia,ochefeiratéaumlocalsagrado,opontíficerecebero
cajado e celebrar a missa onde, no final, obtém a obediente
reverênciadeseuscardeais.
Enfim,aencenaçãoobedeceaumaespéciedescriptimplí-
cito,noqualtodososelementosdevemcomporumalinguagem
compreensível,comsuagramáticaesuasemântica.
Coroa,manto,fraque,cartola,faixas,cetros,cumprimentos,
gestos de obediência, as festas, as recepções etc.., todos reú-
nemalinguagemdeencenaçãoquedefineoâmbitoeasacralidade
dopoder.Estenãoprecisasersimplesmenteexercido.Éneces-
sárioquetambémsejaencenado,sejaumdramasocial.
IsidoroAlves–DoutoremAntropologia,pesquisadordoCNPqedo
MAST.
PODER E POLÍTICA
47
Bactériasfabricamsubstânciastóxicase,expelindo-asem
seusnichosconquistados,tratamdegarantiroterritório.Árvo-
resproduzemtoxinasemsuasraízesparaimpediroavançode
outras, consideradas concorrentes no mesmo espaço. Já os
mamíferosutilizamváriasformasemuitosrituaisparademarcar
seulugar-no-mundo.
Disputas corporais, gritos, xingamentos e outras práticas
menosnobressãorecorrentes,quandosetratadefazervaleros
direitosdaconquista.Mesmoaslongínquaseromânticasestre-
lasdizem,travambatalhasferozes:valendo-sedesuaimensa
densidade,curvamoespaçoparaengolirem-seumasàsoutras.
Com os humanos poderia ser diferente? Não. Até porque
nascemosdasestrelas.Inventamosrituais,cargos,hierarquias,
deuses,estadosetodaumagamadeinstituiçõesparagovernar
nossasexistênciasminguadaseatenderàvaidadedaquelesque,
porneuroseoupormaldade,realizam-seemmandarsobreos
demais.Poderpraquê?Dequeserveessaexternalidadegestada
paraquealgunspudessembrincardegovernaravidaeavonta-
demilhões?
Nãohácomonãorecorreradoismísticos,umtaoístaeum
cristão:ChuangTzueSãoJoãodaCruz.Oprimeiroconta-nos
queoreiHsiuestavaapavorado,porqueouviraanotíciadeque
ele,ChuangTzu,tramavaumgolpeparatomaropoder.Para
prevenirtalcoisa,oreimandoucaçarChuangportodooterri-
tórioematá-lo.ChuangTzu,sabendodanotícia,antecipou-see
foiatéorei:“Carorei,vocêconheceahistóriadacorujaeda
fênix?”
“Não”,respondeuooutro.RetomouTzu:“Afênixéumaave
nobre,quevoanasalturas;sópousaemalgumasárvoressagra-
A CORUJA E A FÊNIX
José Américo de Lacerda Júnior
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
48
das, alimenta-se de comidas nobres e respira o ar puro das
montanhas.Certavez,umacoruja,todasujadeterra,comiaum
ratomortonochão.Quandoolhouparaocéueviuafênixpas-
sar,abraçoufortementeorato,commedodequeafênixpudes-
seroubá-lo.Masesta,indiferente,seguiuseucaminho.Porque
vocêpensa,corujavelha,quequeromeintoxicarnapodridão
deseucargo?”
SãoJoãodaCruz,apósmuitasperseguiçõeseprisões,con-
seguiuagrandezadealmadeperdoarseusalgozeseaindafor-
mularumamísticaquesuperaasimplesresignaçãodianteda
vida.Éeleoautordeumafraselapidar:“Paraojusto,nãohá
lei.”Sim,opoderseafirmasobrenóstodos,porqueperdemos,
emalgumpontodavida,anoçãodojustoecolocamosemseu
lugarofamosointeresseprópriodoliberalismo.
Aí,vêmunsfilósofosinglesesefrancesesenosconvencem
de que precisamos de um poder para reger nossa vida social,
um Leviatã que nos impeça de nos tornarmos uns lobos dos
outros.Puraficção!Lobosquesãolobosnãosecomemmutu-
amente. Ao contrário, colaboram entre si para que a matilha
sobreviva.
Opoderexauriunossacapacidadedesermosinternamente
justosebons.Destaforma,damo-nosodireitodepraticarmos
delitos para que depois as leis nos julguem e, se formos
aquinhoadosemdinheiro,nosabsolvam.ÉumÉdipomuitomal
resolvido,esse...
José Américo de Lacerda Júnior – Bacharel em Filosofia, mestre
emEducaçãonaUFF.
PODER E POLÍTICA
49
O caldeirão da
América Latina
PARTE II
PODER E POLÍTICA
51
Não me convidem para essa festa
Márcia Paraquett 53
Globalizaçãoeneoliberalismo:umademocraciaeconômico-
social para a América Latina?
Hiran Roedel 56
Convivendo com a seca
Sérgio Carneiro 57
Que continente é este?
Lívia de Freitas Reis 59
Osatuais“democratas”
Valeriano Altoé 61
Sem perder a memória
Ludmila Catela 63
É preciso dizer não!
Rivo Gianini 65
AdependênciadamulhernaAméricaLatina
Philomena Gebran 67
Sobre caldeirões, bruxas e livros
Márcia Lisbôa Costa de Oliveira 69
Índice da Parte II
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
52
Alca:contrafaçãodeumideal
José Lisboa Mendes Moreira 71
DiscriminaçãodaArtelatino-americana
Adílson Figueiredo 73
Afinal,atéquando?
Rubim Santos Leão de Aquino 75
AArgentina:umapossívelmudançapolítica
Fernando Antônio da Costa Vieira 77
TeologiamadeinAméricaLatina
Andréia Cristina Lopes Frazão da Silva 79
A Aliança da Europa com a América Latina
Marcelo Ossandon 81
Cantigasdeninar:traçosdeumaidentidadecultural
Magnólia Brasil Barbosa do Nascimento 85
PODER E POLÍTICA
53
Entraremosnoano2000com500anos.ARedeGlobonão
nos deixa esquecer que, desde 1500, somos uma nação. Mas
seráquesomosmesmo?Cadavezqueo“plim-plim”medesperta
paraessarealidade,ficorefletindosobrenossopaísetodosos
outrosqueconstituemaAméricaLatina.Etenhoconcluídoque
nãohámotivosparafesta.
Apenasparacomeçar,éprecisoquenoslembremosdeque
ospovosqueconstituemnossocontinentenãochegaramaquino
anoemqueoseuropeusnosdescobriram.Jáhaviamuitapopula-
çãoporessasterra.SónoBrasilhaviaumagrandequantidadede
tribosdistribuídasemdiferentesregiões,cadaumacomseuspró-
prioscostumes.NaáreaconhecidahojecomoAméricaCentrale
México,concentravam-secivilizaçõestãoprogressistasqueos
espanhóis,maisconquistadosquedescobridores,trataramdeinau-
guraradisseminação.
Aliás,parecequeessatarefa,tãobeminiciadapelosnossos
avóseuropeus,integrou-sedetalmaneiraemnossoshábitosque,
atéhoje,matarindígenaéesportepreferidodealgunsguerreiros
frustrados.Noanopassado,tivemosqueconvivercomasduras
imagensdaquelepataxóqueimadovivoemBrasília.Afinal,aquele
trapohumanoqueseprotegiacomfolhasdejornalserviuperfeita-
menteparadistrairalgunsjovensdaclassemédia,aborrecidos
comamesmicedatelevisãoecomafaltadeprojetossociaisque
osenvolvam,convocando-osaseremcidadãos.
Fazpoucotempotambémque,emChiapas,suldoMéxico,
umagrandepopulaçãoindígenafoimassacradaemnomedodi-
reitoàterra.Aquelesinvasores,segundoaopiniãodoexército,
precisaramserexpulsosàmorteparaqueseaprendessemalição
NÃO ME CONVIDEM PARA ESSA FESTA
Márcia Paraquett
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
54
dequeaterranãoéparasertomada,massimconquistada.
Deixemosdebrincadeiraepensemossério.Falaremcome-
moraçãodos500anosdenossopaísedeoutrostãooprimidos
comooBrasildeveserfaltadoquefazer,ounecessidadedetam-
paroSolcomapeneira.Bastadarumaolhadinhanascarasde
nossos“sem-terra”paradescobrirnelesorestinhodostraçosin-
dígenas em suas peles e olhos. Não é por coincidência que os
conflitossedãoaoNortedopaís.Nãoeraláqueseconcentrava
omaiornúmerodeindígenasantesdachegadadoseuropeus?
Suasterrasforaminvadidaspelagrande“civilização”européiado
séculoXVIe,hoje,nãolhesrestaoutracoisasenãodesaparece-
remparanãomacularemumaimagemque,atodocusto,sequer
manter
Porfavor,nãomeconvidemparaessafesta!
MárciaParaquett–DoutoraemLiteraturasHispânicaspelaUSPe
professoradeLínguaeLiteraturaEspanholanaUFF.
PODER E POLÍTICA
55
AAméricaLatinachega,nestefinaldeséculo,semresolver
problemasbásicosdesuapopulação.Asprecáriascondiçõesde
saúde,educação,moradia,empregoesaneamentocontinuamna
ordem do dia. No plano internacional, a submissão ao grande
capitalpermanececadavezmaisforte.
Dessemodo,globalizaçãoeneoliberalismosãoapresentados
como solução consensual pelas elites. O primeiro refere-se à
integraçãoeconômicainternacionalsustentada,emgrandeparte,
pelainfra-estruturatecnológicaquepermitiuagradativadiminui-
çãodastarifasdecomunicaçãoetransporte.Logo,tantoaprodu-
çãotempodidoseorganizaremcadeiasprodutivasglobais,quan-
toosistemafinanceirotemestabelecidoumaintegraçãotambém
emâmbitoglobal.Jáosegundorelaciona-seaodiscursopolítico
quelançaasdiretrizesparatalintegraçãosustentadopelatesedo
Estadomínimo.
Apesar do discurso neoliberal e do processo objetivo da
globalização,issonãonospermiteaindaabandonaroconceitode
paísescentrais,poisasprincipaisatividadeseconômicasetécni-
co-científicoscontinuamsobcontroledessespaísescentrais,tais
comoEUA,Alemanha,Inglaterra,FrançaeJapão,principalmen-
te.Comisso,odiscursoneoliberaldedesestatização,desregulação,
flexibilizaçãodotrabalho,reduçãodocustodaprodução,arrocho
salarialetc.constituiimportantepilardesustentaçãoparaafirma-
çãodonovomodeloespoliativodeintegraçãoqueseforma.
Assim,diantedaexclusãodeparcelaconsideráveldapopula-
çãodasbenessesdodesenvolvimentotécnico-científico,ogrande
capitalinternacionalavançasobreosmercadosdospaísesperifé-
GLOBALIZAÇÃO E NEOLIBERALISMO: UMA
DEMOCRACIA ECONÔMICO-SOCIAL PARA A
AMÉRICA LATINA?
Hiran Roedel
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
56
ricos.Nessecaso,contraditoriamenteaodiscurso,oEstadodes-
sespaísesmostra-seimprescindívelparagarantiraimplantação
depolíticasqueasseguremasvantagensparaocapital,poiseste
continuaextremamenteterritorializadonospaísescentrais.
Comisso,aseliteslatino-americanasvêmimpondoàpopula-
çãodessecontinente,atravésdo“cantodassereias”depossível
melhoriadosníveisdevida,enormessacrifícios.Apolíticaadotada
de“queimatotal”dopatrimôniopúblicotempermitidooacesso
docapitalinternacionalasetoresestratégicosdaeconomia,bem
comolevadoaoaumentodaconcentraçãoderendaseaoconse-
qüenteempobrecimentodorestantedapopulação.Semcontar
queosrecursosobtidoscomasvendassãoutilizadosparasusten-
tartalpolítica,emdetrimentodosgastoscomaáreasocial.
Essessintomaspodemserpercebidosnospaíseslatino-ame-
ricanosmaisimportanteseconomicamente–México,Chile,Ar-
gentinaeBrasil–cujaadequaçãoaosditamesneoliberaisseen-
contraemcurso,agravandoaindamaisamisériaestruturaldo
continente,sustentadapelaaliançaincondicionaldesuaelitecom
ograndecapitalinternacionalespoliativo.
HiranRoedel–DoutorandoemComunicaçãonaUFRJeprofessor
doCentroUniversitárioMoacyrBastos.
PODER E POLÍTICA
57
Os problemas da América Latina já são conhecidos e al-
guns,inevitáveis,comoéocasodasecanoNordestebrasileiro.
Mas, apesar de ser um fenômeno natural, os homens podem
utilizaratecnologiaparapermitirqueosertanejoconvivacoma
agudaescassezdeágua.
Agoraogovernoprometeatenderemergencialmenteàme-
tadedapopulaçãonordestinacommedidaspaliativas.Nãopode
dizerquenãofoialertadoporparlamentares,pelaimprensa,por
setoresorganizadosdasociedadeeatémesmopelasmodernas
imagensdesatélite.Averdadeéqueasecaseassemelhaauma
guerraquedizimapessoasdeformalentaegradual,transfor-
mandohomensemulheresemsaqueadores,migrantesemdireção
àsgrandescidades,acabandocomaesperançadasgerações.
OsburocratasdeBrasíliasóconhecemasecapelasestatís-
ticas. Já sabem que são 9,6 milhões de pessoas atingidas, ou
21,44%dapopulaçãonordestina.SabemqueaBahiaéoesta-
do com maior número de flagelados: 3.421.539, seguido do
Ceará,com1.397.000,Pernambucocom1.371.421,Paraíba
com 890.250, Piauí com 842.539, Alagoas com 489.650 e
Sergipecom140.000.Masedaí?
Na seca de 1993, o número de flagelados foi de 11,9 mi-
lhões.Eoquefizeramdeláparacá?Idéiaseprojetosnãofal-
tam,masosrecursossãomalempregados.Agoramesmo,anun-
ciamaaplicaçãodeR$180milhõesparaofornecimentodeces-
tas básicas, a construção de açudes e frentes de trabalho. O
BancoMundialassinarácontratocomogovernobrasileiropara
financiarmetadedosUS$330milhõesparaoitoobrasdecom-
bateàsecanordestina.
O problema é que a seca não se combate. É preciso criar
CONVIVENDO COM A SECA
Sérgio Carneiro
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
58
condiçõesdeconvivênciadosertanejocomela.Precisamosde
obrasperenes,damaximizaçãodosrecursoshídricosdaregião,
dousodaságuassubterrâneasedoempregodatecnologiada
dessalinização,porexemplo.
Sóparaficarcomestesdoisúltimositens,citareidadosda
CompanhiadePesquisaeRecursosMineraisqueestimamem
110trilhõesdemetroscúbicosdeáguaopotencialsubterrâneo
doNordeste,oquedáparaabasteceros42milhões,387mile
328habitantesdetodooNordestedurantecincoanos,enãosó
os17milhõese854milqueresidemnaquelesemi-árido.
Quantoaosdessalinizadores,aocustodeR$10milaunida-
de,poderiamresgatarodinheirodocontribuintegastoemaber-
turademaisde20milpoços,hojetamponadoseinativosnos
noveEstadosdoNordesteporteremproduzidoáguasalobra.
R$10milvezes20milpoçosdariamR$200milhõesque,divi-
didos por quatro anos de governo, resultariam em R$ 50 mi-
lhões/ano.Achamuito?
Sobreaimportânciadadessalinizaçãodaságuasnotocante
àsaúde,aoturismo,àagriculturafamiliar,àirrigação,aomeio
ambiente,àmelhoriadaqualidadedevida,realizamosSeminá-
rioInternacionalnoúltimodiaseisdemaio,naCâmaradosDe-
putados,emBrasília.
SérgioCarneiro–Ex-deputadofederalpelaBahiaeex-vice-líderdo
PDTnaCâmara.
Nota: Texto escrito em abril de 1998, quando o autor ainda era depu-
tado federal.
PODER E POLÍTICA
59
Estranhocontinenteestenosso.Suahistóriaémarcadapela
constantepresençadeditadoresemdiferentesépocasepaíses.
Aliteratura–reflexodasociedade–sempreexpressouestetica-
menteestamarcaque,infelizmente,fazpartedolegadocultural
comprofundasraízesnavidaenahistóriadetodoocontinente.
Pensarocaudilhismonahistóriaounaliteraturalatino-ameri-
cananãoéapenasabrirasgavetasdamemóriaelembraroque
sequeresquecer:asditadurasmilitaresque,pordécadas,con-
trolaram,muitasvezescomviolência,avidapolíticaemdiversos
países.
Oautoritarismoaquemerefiroseinstalanocernedetodas
as relações sociais desde o tempo da conquista e do conse-
qüenteesmagamentodascultuasautóctones,subjugandovalo-
resculturaisereligiososemnomedeoutrosquelhespertenciam.
Alínguaeareligiãoforamosprincipaisagentesautoritários
emnossahistória.Semfalaraindadasrelaçãoentreosdonosde
terrasoudosmeiosdeprodução,pequenoscaudilhosquede-
têmopoderincontestesobreossubordinadosnasrelaçõesde
trabalho.
Asditadurassãoapenasapontamaisvisíveldoicebergdas
relaçõessociaisquegovernaramamaioriadospaíseslatino-
americanosdesdetemposimemoriais.Comodiziaoescritor
peruanoMarioVargasLlosa,“aseqüênciaderegimestotalitári-
osnocontinenteacabouinfluenciandoaliteratura...Doponto
devistadocumental,aliteraturalatino-americanaéomelhorins-
trumentoquetemosparaestudarahistóriadabrutalidadeeda
violênciaemnossocontinente.”
Aliteraturaeasartes,emgeral,sãovigorosasexpressões
dospovos.Assim,ahispano-americanaebrasileirasãoexem-
QUE CONTINENTE É ESTE?
Lívia de Freitas Reis
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
60
plosdestaafirmação.Sãotantasasobrasquenemsequerpo-
deríamoslistá-las,menosaindaanalisá-las.
Ficam,noentanto,algumasdicasdeleituraparaosqueainda
tentamentenderestenossoestranhocontinente:OSenhorPre-
sidente,deMiguelÁngelAstúrias; CemanosdesolidãoeO
general em seu labirinto de Gabriel García Márquez; Eu, o
supremo,deAugustoRoaBastos;SãoBernardo,deGraciliano
Ramos,Ahoradosruminantes,deJ.J.Veiga,emuitosmais.
Lívia de Freitas Reis – Doutora em Letras Hispânicas pela USP,
professoradeEspanholeLiteraturaHispano-AmericanadaUFF.
PODER E POLÍTICA
61
No mundo político de hoje, em grande parte dos Estados
latino-americanosestá-seobservandoumfenômenointeressan-
te.Trata-seda“democratização”demilitaresqueatébempou-
cotempoeramfavoráveisoumesmoparticiparamativamente
degolpescontraasinstituiçõescivis.Venezuela,Colômbia,Bo-
líviaeParaguaisãoexemplos.Neles,ex-golpistasestão-seapre-
sentandocandidatospresidenciais.Sãoosnovos“democratas”.
Desdesuaemancipação,aAméricaLatina,emgeral,contou
comumapresençamilitaratuanteedecisiva.Amilitarizaçãode
suas instituições deveu-se muito à instabilidade política e
econômica após a independência. Os generais idealistas das
guerrasdeindependênciaforamsubstituídosnopoderporam-
biciosasgeraçõesmilitarizadas.AolongodoséculoXIXfor-
mou-seummilitarismoqueseligouàelitecivil.Estauniãocons-
tituiuelementomaisdinâmicoepersistentequeosdebatespar-
lamentares.
Apartirdadécadade1960aparticipaçãomilitarnosdesti-
nosdealgunspaíseslatino-americanosdeu-seatravésdegolpes
militarescontraopodercivil.Brasil(1964),seguidopelaArgen-
tina,Uruguai,Paraguai,PerueChile.EsteeoUruguaihaviam
gozado, antes dos golpes, de democracias sociais e políticas
amplaseeramchamadosde“SuíçadaAméricaLatina”.
Adeposição,noChile,dogovernosocialistadeSalvador
Allendeconstituiumcasosingular.Osmilitares,lideradospelo
generalPinochet,tiveramoapoiodaDemocraciaCristãede
outrasfacçõesdireitistas.Alémdeterinstauradoomaisviolento
regime,foitambémoúltimoadeixaropodernoConeSul.Ape-
nasem1990,PatrícioAlwynassumiuapresidência,dandoiní-
cioàinstitucionalizaçãodopaís.Apesardisso,a“democracia”
OS ATUAIS “DEMOCRATAS”
Valeriano Altoé
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
62
chilenacontinuousendotuteladapelasForçasArmadas,lidera-
dasporPinochet.
Em geral, os países da América do Sul saíram do regime
militarostensivosobduasimportantestutelas:adocapitalfinan-
ceironacionaleinternacional,principalmente;eadasForças
Armadas.NoBrasil,atutelamilitarobserva-senofimdaisonomia
entre civis e não-civis. Criou-se, assim, uma casta especial e
privilegiadaacimadequalquercidadãocomum.Jáemoutros
paísesdoConeSulobserva-sequemilitaresex-golpistasestão
buscandoopoderpela“viademocrática”.NaVenezuela,oco-
ronelHugoChaves,queem1992tentouderrubarCarlosAndres
Peres;naBolívia,ogeneralHaroldBedoya,enoParaguai,o
generalLinoOviedosurgemcomofavoritosnaseleiçõespresi-
denciais.
AsituaçãomaisintriganteéadoChile.Ogal.Pinochet,a13
demarçoúltimo,fezseujuramentocomosenadorvitalíciope-
ranteoParlamento.Opresidente,EduardoFrei,diantedaopo-
siçãodaincorporaçãodomilitarnavida“democrática”,pediu:
“Temosquecuidardoquejáconseguimos.”
OmilitarismopresentenaAméricaLatinadesdesuainde-
pendênciaparecequerercontinuarinfluindonosdestinosdos
países,masdeumaformamaisdiscretaemenosrejeitadainter-
nacionalmente:pela“viademocrática”.
ValerianoAltoé–DoutoremHistóriaSocialpelaUFFeprofessorda
Universidade Veiga de Almeida e do Centro Universitário Moacyr
Bastos.
PODER E POLÍTICA
63
PorqueolegadodasditadurasmilitaresnospaísesdoCone
Sul sempre retorna como pesada herança? Essas ditaduras se
caracterizam,emmaioroumenorescala,pelatortura,detenções
clandestinasedesaparecimentodepessoas.Quandochegaram
aofim,osmilitarestinhamumproblema:proteger-sedainvestiga-
çãodasviolaçõesaosdireitoshumanose,paratanto,ditaramsuas
própriasleisdeanistia.
Emagostode1979,nogovernodeFigueiredo,aLei6.682
“perdoava”osatosdeexceçãocometidosdesde1964noBrasil.
Talanistiaincluíanãosómilitares,mastambémpresospolíticos
exilados.Nototal,beneficioucercade5.000pessoas.Emsetem-
brode1983,osmilitaresargentinoscriaramsuapróprialeide
auto-anistia, mas a chegada do novo governo a revogou. Mas
tarde,contudo,oGovernoAlfonsinoutorgariaasleisdePonto
FinaleObediênciaDevida,beneficiandomaisde1.500oficiais.
NoChile,decretodeabrilde1978beneficiouosresponsáveis
pelaviolaçãodosdireitoshumanosqueatuaramentre11dese-
tembro de 1973 (data do golpe) até abril de 1978. Em 1986, o
UruguaicriouaLeideCaducidadedaPretensãoPunitivadoEs-
tado.ParaguaieBolívia,apesardehaveremtidolongasditaduras,
sãoosdoisúnicosdoConeSul,ondenãoforamsancionadasleis
desteteor.
Dentrodosconsensospolíticosnegociadoscomoretornodas
democracias,asleisdeanistiaobjetivamcontribuirparaareconci-
liaçãoepacificaçãonacionais.Naprática,impuseramumsilêncio
difícildeseraceito.Asferidasnãoestãofechadas.Porissomes-
mo,estassociedadesreagem,dasformasmaisdiversas,manifes-
tando-secontraaimpunidade.Osdiretamenteatingidopelosanos
dechumbo(ex-presospolíticos,familiaresdasvítimasetc.)não
SEM PERDER A MEMÓRIA
LudmilaCatela
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
64
paramdereclamarojulgamentodestesmilitares.
OEstado,asociedadecomoumtododeveriamanalisarcomo
acharoequilíbrioentreanecessidadedeverdadehistóricaeuma
ordemjurídicaqueconsolideaordemconstitucional,semesque-
ceropassado.OsEstadosdospaísesdoConeSuloptaram,em
maioroumenormedida,peloperdãoaosculpáveis,semobterem
trocaaquilodequeasociedadeprecisava:informaçãosobreos
anosdeobscurantismopolítico,arrependimentodosculpáveis,
ressarcimentoàsvítimas.
Averdadeeajustiça,pormaisdolorosasquesejam,sãoos
únicosmeioslegítimosquepermitiriamàssociedadesenterrarseus
mortoseanalisaropassadosemperderamemória.
Ludmila Catela – Doutoranda do Instituto de Filosofia e Ciências
Sociais(PPGD)daUFRJ.
PODER E POLÍTICA
65
AvisãoantropológicadeDarcyRibeirocaracterizaopro-
cessocivilizatóriodasAméricasemtrêsestágios:osPovosTes-
temunhos,sobreviventesdasantigasculturasamericanasquese
chocaramcomosconquistadoreseuropeus;osPovosNovos,
resultantesdamiscigenaçãoedaaculturaçãooperadasnocon-
tinente,eosPovosTransplantados,categoriaemqueseincluem
oscontingenteshumanosformadosatravésdamigraçãoeuro-
péiaparaajovemAmérica,ondeconservaraminstituiçõese
estilosdevidadoVelhoMundo.
NoconsagradolivroAméricaLatina-Malesdeorigem,
ManoelBonfimestabeleceasdiferençasdaformaçãodaAmé-
ricadoNorteedaAméricaLatina.Emrealidade,taisdiferen-
ças,querepresentamnossasdificuldadesdedesenvolvimento,
nãoresultamdeumaintegraçãoincompletanacivilizaçãoindus-
trial,massimdofatodesermossustentáculosdessesistema,
quenosexpeledeseucentro,consentindoquegravitemosape-
nasnaórbitacomoeconomiascomplementareseculturasrefle-
xas.
Apesardetermosmelhoradomuitonoplanodemocrático
nosúltimosanos,aindapersistemproblemascomoodaVenezuela
que,apóslongoperíododeconsolidaçãodemocrática,estápres-
tes a eleger um militar que quase conseguiu dar um golpe de
estado.NaColômbia,onarcotráficoeaguerrilhasãomotivos
deapreensão.NoPeru,Fujimorimantém-senopoderenoChile
vive-seumademocraciaconsentidapelosmilitares.
SomadasaestasquestõestemosoproblemadoMercosul
queseconstituinoesboçodeumpromissorblocoeconômico
dospaíses,sobretudodoConeSul,ondeoBrasilindiscutivel-
menteassumealiderança,ameaçado,maisumavez,pelafor-
É PRECISO DIZER NÃO!
Rivo Gianini
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
66
maçãodaAlcasobopoderionorte-americano.
É necessário dizermos NÃO, como sugere Eduardo
Galeano,atodaestapolíticadeirracionalidadeeconômicade-
nominadaneoliberalismo,impostapelospaíseshegemônicos,que
penalizamospovoslatino-americanos,ebuscarmosnossaiden-
tidadevocacionadapelosideaisdesoberaniaeliberdade.
RivoGianini–Prof.-adjuntodaUFFedepós-graduaçãodaUCP.Presi-
dentedoComitêdaAliançaFrancesadeNiterói,Diretorregionalda
AssociaçãoNacionaldePolíticaeAdministraçãodaEducaçãoeSubse-
cretárioMunicipaldeDesenvolvimentodeNiterói.
PODER E POLÍTICA
67
Ahistóriadamulherlatino-americanaestáprofundamente
comprometidacomaprópriahistóriadedominaçãodaAmérica
Latina.ApartirdoséculoXVI,avidadamulherlatino-america-
na mescla-se a um longo processo histórico, cuja marca é a
violência,aopressão,adominaçãoe,finalmente,aexclusão.
Comoemtodasociedadeexploradaecolonizada,aneces-
sidadedaproduçãodeumexcedentelevouinicialmenteosiste-
macolonialedepoisocapitalistanãosóaescravizaramassa
nativa,deumaformamaisgeral,maspermitiuametrópolea
exercersobresuasáreasdominadasumasuperexploraçãotam-
bémdamão-de-obrafeminina.Exploraçãoessarealizadaatra-
vésdaprópriahierarquiacriadapelosistemacolonial.
Aolongodoprocessocolonial,asmulhereslatino-america-
nas,pertencentesentãoàssociedadesnativas,sofreramuma
brutaldominação,subjugadasaoseuropeuscolonizadores.De-
pois,nosistemacapitalista,passaramasofrer,nocampo,por
exemplo,asubjugaçãoaopai,aomaridoeatémesmoaosfi-
lhos.Amulherurbanaoperáriaoudaclassemédiafoiecontinua
sendovítimadamesmaexploração.
Hoje,nafábrica,naempresa,noescritório,nocomércioou
emqualqueroutrotipodetrabalho,elacontinuasendoexplora-
daatravésdesaláriosreduzidosedecondiçõesdetrabalhosem-
preinferiores.Istoporqueasociedade,deummodogeral,parte
do pressuposto de que é ou deve ser sempre sustentada por
alguém.Nestesentido,amulhersofreváriasformasdeexplora-
ção,desdeadopatrãoatéadomaridoefilhos,devendocum-
priresuportarsempreumaduplajornadadetrabalho.Essasitu-
açãotemsidoconstanteaolongodaHistória.Acreditamosque
A DEPENDÊNCIA DA MULHER
NA AMÉRICA LATINA
PhilomenaGebran
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
68
desdequeseinstalouosistemapatriarcalenaAméricaapartir
dosistemacolonial.
Se,nassociedadesagráriase/oupré-capitalistas,haviauma
divisãomaisigualitáriadotrabalhoemuitasvezesatédopoder,
nassociedadesposterioresocidentaise/oucapitalistas,asmu-
lheresforamcompletamenteafastadosdoscentrosdedecisão
do poder, ou seja, daqueles em que se trata efetivamente do
presenteedofuturodahumanidade.
Amulherfoietemsidodiscriminadaemarginalizadapelo
olharmasculinodaHistória.Parasermosimparciais,podemos
atéreconhecerquehouveouqueháalgunsmomentosemquea
situaçãodamulherfoimelhoroupior,mas,enquantogruposo-
cial,semprefoimantidadistantedopoderemtodasasinstânci-
as,desdeoséculoXVIatéoXX.Esealgumasvezesnodecor-
rerdoprocessohistóricolatino-americanoamulherexerceual-
gumpoder,foiocupandoasmargensoudeformaindiretaatra-
vésdesuainfluênciasobreoshomensouquandoelespermiti-
ram.
PhilomenaGebran–DoutoraemHistóriadaAméricaLatinaepro-
fessora da UFRJ e da USS.
PODER E POLÍTICA
69
Numcaldeirãocultural,borbulhamemisturam-seimagens,
contos,cantosetradições.Istodeveriaacontecernocampoda
produçãoeditorialparacrianças,masnemmesmoasbruxasda
LiteraturaInfantilforamcapazesdejuntarnummesmocaldeirão
oBrasileaAméricaEspanhola.
EnquantoaLiteraturaInfanto-Juvenilbrasileiraalcançaboa
receptividadenomercadolatino-americano,noBrasilsãopou-
cas as traduções de textos hispano-americanos. Além de
MonteiroLobato,todososprincipaisautoresbrasileiroscon-
temporâneostêmsuaobraeditadaemespanhol,deLygiaBojunga
Nunes,AnaMariaMachadoeRuthRochaaRogérioAndrade
BarbosaeCiçaFittipaldi,passandoporMaryeEliardoFrança,
ZiraldoeFernandaLopesdeAlmeida.
UmsintomadoisolamentobrasileiroéofatodequeMaria
HelenaWaish,aprincipalautoraargentinadecontosemúsicas
paracriançasdeimportânciacomparávelàqueLobatotempara
nós,nuncafoipublicadaaqui.Nestecontexto,destacam-seal-
gumasiniciativasquerompemabarreiralingüístico-cultural.A
editora Ática desenvolve em co-edicão com outros países a
coleçãoContoslatino-americanos,queobjetivapromovero
intercâmbiocultural,agrupandocontosdeautoresdediferentes
nacionalidades.Tambémacoleção Cantolatino-americano,
daeditoraAutores&Agentes&Associados,pretendetrazer
às crianças brasileiras o “contato com o belíssimo mundo da
línguaespanhola,proporcionandoumarealintegraçãoentreos
paíseslatino-americanos”.Asediçõesbilíngüespermitemqueo
leitordeleite-secomamusicalidadeoriginaldostextos.
Seguindoocaminhodestascoleções,apublicaçãodeauto-
resdedestaquenaAméricaLatinarepresentariaconsiderável
SOBRE CALDEIRÕES, BRUXAS E LIVROS
Márcia Lisbôa Costa de Oliveira
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
70
ampliaçãodehorizontesculturaisparaascriançasejovensbra-
sileiros.Asnovasgeraçõesmuitolucrariamcomtextosquere-
presentamumimagináriotãoricoediverso.
Quevenham“lasbrujas”!
P.S.:Algumasinformaçõescontidasnesteartigoadvieramda
ProfªLauraSandroni,citandopesquisadaFundaçãoNacional
doLivroInfantileJuvenil.
MárciaLisbôaCostadeOliveira–EspecialistaemLiteraturaInfan-
tiledoutorandaemSemiologiapelaUFRJ.
PODER E POLÍTICA
71
AoproporarealizaçãodoCongressodoPanamá,em1825,
osonhodeBolívareraunirtodosospaíseshispano-americanos.
Maistarde,vencidaadesconfiançacomqueencaravaamonar-
quiabrasileira,incluiuoBrasilnumsonhomaior:aintegraçãode
todaaAméricaLatina.Oqueelerealmentenuncaadmitiufoia
uniãocomosEstadosUnidos,eporumarazãomuitosimples:não
seria uma união em termos igualitários e sem propósitos
hegemônicos.
FoiessemesmomotivoquelevouoadvogadoNoronhaGoyos,
árbitrodaOrganizaçãoMundialdoComércioeex-representante
dogovernobrasileironaRodadaUruguaidoGatt,adeclarar,no
EncontroSul-AmericanodeRelaçõesInternacionais,realizadono
PalácioItamaraty,noRiodeJaneiro,nofinalde97,queaadesão
doBrasilàAlca“seriaumpéssimonegócioparaonossopaís”.
Osetordeserviços,segundoGoyos,seriaomaisprejudica-
do.Parailustrarsuaanálise,usouaimagemdeumarodadebici-
cleta:osEUAseriamocentrodarodaeosraios,ospaísesque
aderissemàAlca.Estesdeixariamdenegociarentresietratariam
detudodiretamentecomocentro,ondeserealizariamosnegóci-
osbancárioseoutrastransaçõesfinanceiras.Aagriculturabrasilei-
ratambémseriaafetadapelaadesãoàAlca,poisteríamosonos-
somercadointernoinvadidoporprodutosagrícolasaltamentesub-
sidiados.AmelhoralternativaparaoBrasil,naopiniãodeGoyos,
seriaintensificarosacordosmultilateraisecontinuaracreditando
ALCA: CONTRAFAÇÃO DE UM IDEAL
José Lisboa Mendes Moreira
“A necessidade real de mercados maiores modificará a velha aspira-
ção (dos grandes países industriais) de manter-nos ilhados, através do
novo truque de integrar-nos para servir-lhes melhor.”
RobertoCiriloPerdiaeFernandoVacaNarvajain Novaestratégiado
FMI.
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
72
no sucesso do Mercosul, que é um acordo sem pretensão
hegemônica.
TambémoeconomistaGouveaNeto,professordaUniversi-
dadedoNovoMéxico,nosEUA,eligadoaoInstitutoBrasileiro
de Mercado de Capitais, considera a adesão à Alca nociva à
economiabrasileira.OBrasiléhojeumnegociadorglobale,seos
EUArespondempor20%denossocomércioexterior,apartici-
paçãodosdemaispaíseséde80%.SeaderisseàAlca,noster-
mosqueosEUAqueremimpor,estariaalijandoparceirosimpor-
tantíssimoscomoaUniãoEuropéiaeospaísesasiáticos.
NoMercosul,ocomércioentreosquatropaísesqueocom-
põemcresceu400%desde1990,masnãoatrapalhouasoutras
relaçõescomerciais.OmesmonãoocorrerianaAlca,pelofato
deumdosmembros,osEUA,terumaeconomiamuitomaisforte,
capazdedistorcerospadrõesdecomércio.
MilêniosantesdeBolívaredostécnicosaquimencionados,
estavaescritonaBíblia:“Nãoteassociescomoqueémaisricodo
quetu.Comoopotedebarropodeseligarcomocaldeirãode
ferro?”(Eclesiástico,XIII,2)
JoséLisboaMendesMoreira–Ex-diretordoCentrodeEstudosGe-
rais da UFF, professor e autor do livro Síndrome do progresso.
PODER E POLÍTICA
73
EnraizadanoRealismoFantásticoenoImaginário,aArte
latino-americanavemobtendointeresseinternacional,apesarde
aindamaisvoltadaamostraseexposiçõesqueàcomercialização.
Defato,ascasasdeleilõesChristie’seSotheby’s,detempos
paracáconcedemàpinturadaAméricaLatinamaisatenção,
emboraestaestejabemlongedasmegamilionáriascifrasdas
produções européias e norte-americanas. Nenhuma obra do
nossocontinentealcançou,emvenda,abarrademeiomilhãode
dólares.
Alémdisso,poucosartistastêmconseguidofurarobloqueio
emarcarnorestritomercado.UmafoiFridaKahlo,aprincípio
conhecidacomomulherdomuralistamexicanoDiogoRivera,
mas cujo talento se impôs, estando hoje em alta cotação no
mercado.TambémFernandoBotero,colombiano,morandoem
Madri,valorizandopelovigordotrabalhoevivêncianametró-
poleecertostraçosdoclassicismoeuropeu.
OequatorianoOswaldoGuaysamim,comtemasdelutas
sociais e retratos de Fidel e Alain Garcia, do Peru, obtém o
reconhecimentodaexpressãolatina.Noâmbitobrasileiro,Cân-
didoPortinaridetém,atéagora,amelhorcotaçãoeo“Abapuru”,
deTarsiladoAmaral,vendidoemleilão(aindabemqueficou
emterrassul-americanas!)énossoquadrodemaiselevadaci-
fra.
Em meados do anos 90, reaqueceu-se a discussão sobre
culturasetraçosnativoscomascomemoraçõesdoDescobri-
mentodaAmérica.DaíointeressemaiorpelaArteBrasileira,
comdestaqueemrevistasespecializadas.LygiaClark,Jacques
LeinereRosângelaRennótêmsuascriaçõesnasconsagradas
DISCRIMINAÇÃO DA ARTE
LATINO-AMERICANA
Adílson Figueiredo
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
74
Art in America, Art Nexus e Gallery Guide.
Em1995,numeventoinéditoemNovaIorque,11galerias
expuseram,simultaneamente,16artistasbrasileiroscontempo-
râneos.Hápouco,tambémocorreua6ªBienaldeHavana,uma
dasprincipaismostraslatino-americanas,dequenossapátria
participoucom21nomesselecionados.
Esta concorrida Bienal teve como pauta redimensionar a
memóriadasAméricas,enfatizandoareflexãosobreaperdade
referênciasautóctonesnestasociedadeglobalfinissecular,subli-
nhandotambémocotidianodohomememmeioàsmúltiplas
tendênciasartísticasdocontinenteemmutação.
Adílson Figueiredo – Artista plástico e Arte-educador
PODER E POLÍTICA
75
UmespectroexistenaAméricaLatinadesdeoséculoXIX:é
oimperialismo.Responsávelpelaexploraçãoedependênciadas
sociedadeslatino-americanas,comandadasdeforaparadentro,
contacomaconivênciadasclassesdominantesdocontinente.
Assim,naépocadocapitalismoagrário-exportador,cujaburgue-
siaruralmantinhasuahegemoniamedianteprocessoseleitorais
escusosepráticasrepressivascontraopositores,ocapitalismo,
internacionalfaziavistagrossa.
Asváriasconjunturasdecrisesqueparalisaramassociedades
capitalistascentraispossibilitarammodificaçõessocioeconômicas
nasAméricaLatina.Foipossível,então,desenvolverindústriasde
substituição,tendocomoconseqüênciaocrescimentosdoprole-
tariadoedaburguesiaindustrial,oqueexplicaoPopulismodomi-
nante,sobretudoapós1945.
Compolíticapoliclassista,aburguesiaindustriallevouadiante
umprojetocapitalista.Viveu-se,então,ocapitalismoindustrial,ou
decrescimentoparadentro,queenfatizavaaadoçãodepolíticas
econômicasprotecionistas.
Contudo, a conjuntura internacional não favorecia o
Populismo.ComaGuerraFria,osEUAnãoadmitiamqueas
sociedadesperiféricasfugissemaoseucontrole.Contraodis-
cursonacionalistadosdirigentespopulistaslevantou-seaban-
deiradocomunismo.Alémdisso,amplossegmentosdaburgue-
siaindustriallatino-americanahaviam-seassociadoaoimperia-
lismoeviamcomtemorofortalecimentodaconsciênciapopu-
lar.
Oresultadofoiasucessãodegolpesmilitaresemquasetodaa
AméricaLatina.OsEUAparticiparamdeformaveladaouosten-
sivanamontagemdeEstadoshipertrofiadosfundamentadosna
AFINAL, ATÉ QUANDO?
Rubim Santos Leão de Aquino
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
76
DoutrinadeSegurançaNacional,ondenemsempreoCongresso
funcionava.
Essesregimesfacilitaramaentradadocapital,sobretudonor-
te-americano,sejaatravésdevultososempréstimos,damultipli-
cação de joint-ventures e de facilidades para a instalação de
multinacionais,tendocomoconseqüênciaaeliminaçãodedireitos
econômicosepolíticosdostrabalhadores.
Com o fim da Guerra Fria e o esgotamento do Estado de
Segurança Nacional, a América Latina caiu nas malhas do
neoliberalismo. Este, na verdade, deveria chamar-se
Paleoliberalismo,porqueseusprincípiosdoutrináriosrevitalizamo
corpoteóricodovelholiberalismodaEscoladeManchester,re-
vestindodenovasroupagensocorpodoutrináriodoatualespec-
trodoimperialismo.Palavrasmágicasdãomaioratrativoàatual
aliançaentreaburguesialatino-americanaeocapitalnorte-ameri-
cano:globalização,modernização,minimizaçãodacompetitividade,
terceirização...
CúmplicesdeWashington,essesgovernantesempenham-se
emprivatizaraeconomiaediminuirosgastosnaáreasocial.As-
sim,aindaqueainflaçãocaísse,adesnacionalizaçãodaeconomia,
aconcentraçãodariquezaeoagravamentodamisériaconstituem
facesdistintasdeumamesmamoeda.
“Dequemdependeacontinuaçãodessedomíniosenãode
nós?/Dequemdependeasuadestruição?Igualmentedenós./
Oscaídosqueselevantem!/Osqueestãoperdidosquelutem!/
Como pode calar-se quem reconhece a situação? (Elogio da
Dialética,poemadeBertoltBrecht).
RubimSantosLeãodeAquino–Autordediversoslivros,dentreosmais
conhecidos: História das sociedades – Das sociedades modernas às
sociedades atuais; História das sociedades americanas e Do homem
dasrevoluçõesàNovaordemmundial. ÉtambémprofessordoLiceu
Franco-brasileiro.
PODER E POLÍTICA
77
AArgentinasepreparaparaumaviradaemsuapolíticain-
terna. Depois de dois mandatos, o Partido Justicialista e o
menemismocorremorisodeperderemaeleiçãopresidenciala
serrealizadaemmaiode1999.Quaisascausasdestedesgaste?
Quaisasperspectivaspolíticascomavitóriadaoposição?
ApolíticaeconômicaempreendidaporMenemfoicentrada
emtornodospreceitosdefendidospeloFMIequeseconfigu-
raramnumconjuntodepráticasdenominadasneoliberaispauta-
dasnocontrolemonetárioe,conseqüentemente,noaumentodo
desemprego.Comesteprograma,ainflaçãofoidebelada,mas
opreçopagofoielevado.
Paraosquemantiveramseusempregos,asituaçãotambém
foicrítica.Osindicalismo,atreladoaojusticialismo,rachouem
duas facções: pró-governo e outra que defendia a adoção de
medidasdecarátersocial.
Menemconseguiuduasimportantesvitórias:umafrutode
negociaçõescomseuprincipalopositor,aUnionCívicaRadical
(UCR),quelherendeuaaprovaçãodereformasconstitucio-
nais,permitindoareeleiçãopresidencial,eaoutraem1995,ao
serreeleito,usandoumaretóricaquecombinavamanutenção
docontroledainflaçãocompromessasdecombaterarecessão
naeconomia.
Noentanto,comumaeconomiacadavezmaisdependente
doinvestimentodoscapitaisinternacionais,tornou-seimpossí-
velparaMenemromperoscompromissoscomosorganismos
financeirosinternacionais.Logo,nãoimplantouumapolíticade
investimentospúblicosparagerarempregoserecomporosetor
produtivonacional.Aomesmotempo,surgiramgravesdenúnci-
A ARGENTINA: UMA
POSSÍVEL MUDANÇA POLÍTICA
Fernando Antônio da Costa Vieira
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
78
asdecorrupçãoeesquemasdefavorecimentoquepartiramda
imprensaedopróprioministroCavallo.Istogerousuademis-
são,oqueabalouomenemismoeincentivouoaparecimentode
umanovaforçapolítica:aFrentePaísSolidário(Frepaso),que
aliadaàUCRsaíramvitoriosasnaseleiçõesmunicipaisde1997.
Temerosodiantedaperspectivaqueseapresentadevitória
daaliançaFrepasoeUCR,Menemtentaumúltimogolpe:argu-
mentandoqueaemendaconstitucionalfoiaprovadadurantea
vigênciadeseuprimeiromandato,eledefendeuodireitodere-
eleiçãoque,segundoseusargumentos,sópassariaacontara
partirdosegundomandato.
Na prática, Menem depende do Judiciário. O Congresso
argentinojánãolheapóiaincondicionalmente.Eamédioprazo,
atendênciaéocrescimentodacandidaturadaaliançaFrepaso/
UCR.
FernandoAntôniodaCostaVieira–MestreemHistóriadoBrasilpela
UFRJeprofessordaFaculdadedeEducaçãodaUFF.
Nota:Estetextofoiescritoem maiode1998,estando,portanto,algunsde
seus dados já desatualizados.
PODER E POLÍTICA
79
ATeologiadaLibertaçãorepresentouumimportantemar-
conaHistóriadaAméricaLatina,emparticular,enaHistóriado
Cristianismo,emgeral.Aindaquenascidaparaatenderàsne-
cessidadeseaspiraçõesdopovolatino-americano,aTeologia
daLibertaçãoapresentaantecedentesemfenômenoshistóricos
decaráteruniversal,emespecialapartirdopontificadodeLeão
XIII,voltadoparaarenovaçãodocleroeaaberturadaIgreja
Romanaparaomundo.
AIgrejaCatólicaencontrava-se,portanto,emviasdetrans-
formação.Esteprocessochegouaseupontoculminantecoma
realizaçãodoConcílioVaticanoII,quefoiumpassoimportante
paraoposteriordesenvolvimentodaTeologiadaLibertação,vis-
toque,duranteestaassembléia,seformulouumanovaconcepção
deIgreja,pautadanãomaisnahierarquiaclerical,masnauniãodo
clerocomoconjuntodefiéis.
Partindodestaeclesiologia,emfinsdadécadade60nas-
ceuaTeologiadaLibertação,comoobjetivoderefletirejusti-
ficaropapeldaIgrejaparaatransformaçãodaAméricaLatina,
marcada pela injustiça, miséria, violência, corrupção e
totalistarismo.
Elaboradaporlatino-americanoseparalatino-americanos,
aTeologiadaLibertaçãonãopossuíapretensõesuniversalistas.
Muitoaocontrário!Aoindicarcomopontodepartidaarealida-
desocialvividapelopovo,buscavarespostasespecíficaspara
osproblemasdaAméricaLatina.Mascomoconhecerafundo
estes problemas? A Teologia da Libertação não propõe uma
leituraalegóricaoutipológicadotextobíblico,massimliteral,
preocupadaemidentificaraaçãodivinadelibertaçãonaHistó-
riaHumana.
TEOLOGIA MADE IN AMÉRICA LATINA
Andréia Cristina Lopes Frazão da Silva
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
80
PorrompercomaconcepçãotradicionaldeIgreja,dialo-
garcomomarxismo,denunciarasmazelassociaislatino-ameri-
canas,proporumanovaleituradaBíbliaepropagarumasalva-
çãohistórica,aTeologiadaLibertaçãosuscitouinúmerosdeba-
tes,alémdecríticasesançõesdacúriapapal.
Hoje, apesar de não provocar tanta polêmica como em
anosatrás,aTeologiadaLibertaçãocontinuaainfluenciaraprá-
ticapastoral;otrabalhocomascomunidades;areflexãoteoló-
gica e a exegese bíblica. E não só no seio da Igreja Católica
Romana,mastambémemoutrasIgrejascristãs,emespeciala
Luterana.
AndréiaCristinaLopesFrazãodaSilva–ProfessoradeHistóriado
DepartamentodeHistóriadaUFRJedoutoraemHistóriaAntigae
Medieval.
PODER E POLÍTICA
81
Para a Comissão da União Européia, inúmeros fatores são
favoráveisàreaproximaçãodaEuropacomaAméricaLatina.
Primeiro,fatoreshistóricoseculturais.Defato,aconstruçãodo
EstadodeDireito,osprincípioslegais,asidéiasdeliberdadeede
democraciafazempartedeumconjuntodeconceitosfilosóficose
jurídicosadvindosdopatrimônioeuropeu.
Emseguida,acrescenteeconomia,jáesboçadanaAmérica
Latina,permitetransformá-lanumpólodinâmico,comnovasopor-
tunidadesparaocomércioeinvestimentos.Alémdisso,oreavivar
daintegraçãolatino-americanacontribuiparaodinamismodas
trocas,aexpansãodacompetitividadeeodesenvolvimentode
outraspossibilidadesparaestespaísesnoplanointernacional.Eis,
portanto,promissoresíndicesquenecessitamprosseguirempolí-
ticasdeausteridade,àmaneiradasinstituiçõesdeBrettonWoods.
Todavia,aComissãodirigeaoConselhoeaoParlamento
europeus advertências a serem observadas. Em verdade, ela
afirma–estaondadecrescimentocomportatambémzonasde
sombra,inegavelmenteúteisacadapaís.Amodernizaçãodo
processodeproduçãoeosníveiseconômicossãoaindainsufi-
cientes.Estruturas“duais”perduram:aAméricaLatinasofregri-
tantesdesigualdadessociaiseimportanteszonasdeexclusão.
Apesardaexpansãoeconômica,odesempregoabrangegrande
parte da população e o setor informal não cessa de crescer. A
AméricaLatinadeverásuperartrêsdesafios:consolidaroEstado
deDireito,enfrentaraquestãodapobrezaeodesequilíbriosocial
eampliaroníveldecompetitividade.
A ALIANÇA DA EUROPA
COM A AMÉRICA LATINA
Marcelo Ossandon
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
82
Re-conquistarademocracia
Apósosufocantedomíniodasforçasarmadaslatino-america-
nas,osanos80foramosda“transição”dosregimesautoritários
parasistemasmaisdemocráticos.Paraaeconomia,tornou-se“um
decênio perdido”, enquanto o setor político assistia ao
restabelecimentoinstitucionaldademocracia.Nosanos90,con-
solidou-seademocraciacomeleiçõeslivres,comarestauração
dasliberdadespúblicasecomopluralismopolítico,constituindo
autênticosavanços,oqueilustraosesforçosdosdirigentespara
restauraraidéiadoEstado.
Taisprocessosdetransiçãoapresentaramformasdiversas,
porém,quasesempre,chegaramaumademocracia,nãoraro,
frágil.Assassinatosdemeninosderuaoudemarginaispelos
esquadrões da morte não permitem que se fale em Estado de
Direito.Multiplicaram-severdadeirosexércitosparticularesdo-
minadospelosnarcotraficantes,concorrendocomaviolência
doEstado.
Estesexemplosdemonstramqueaconsolidaçãodemocrática
estámuitolongedeconquistar-se.Apósorecuoearelativadimi-
nuiçãodopodermilitar,asexperiênciaspós-autoritáriaspermane-
cemmarcadaspeloselodaimpunidade,beneficiandoreconheci-
dos autores de violações do direitos humanos. Por trás dos
“revisionismos”latino-americanosenopretensodesejoderecon-
ciliaçãonacional,cresceadeterminaçãodasForçasArmadasde
nãopermitirqueosresponsáveissejamlevadosàJustiça.
Criseeconômica,falênciadasditaduras
AAméricaLatinasaiudasditaduraspelaincapacidadedes-
tasdeenfrentaremoendividamento.Oprocessodedemocrati-
zação, iniciado antes da queda do Muro de Berlim, fez-se ao
preçodeumaabertura–noconjunto,muitorápida–deecono-
miasantesfortementeprotegidas.Istosignificaoabandonoge-
neralizadodoEstadoprovidênciaeaadoçãodemedidasque
visaramàdrásticareduçãodosdéficitsorçamentárioseàdimi-
nuiçãodosinstrumentossociaisreguladores.Oresultadosfoia
perdadepartesignificativadopoderdeintervençãodosEsta-
dosnascondiçõesdevidadasociedadecivil.Aspolíticaspre-
conizadaspeloFMIdeixarammarcas.
PODER E POLÍTICA
83
Se,comoretornodademocracia,surgiramperdaseconômicas,
oabandonodoprotecionismoeaspolíticasdeajustesestruturais
nãofacultaramnemtempo,nemcapacidadeparaosgovernos
estabelecerempolíticasquepermitissematenuaroempobrecimento
daspopulaçõesmarginais,antesprotegidaspeloEstado-prove-
dor.Assim,orecuodestetevecomoconseqüênciasoabandono
desubvençõesaosprodutosdeprimeiranecessidade,aredução
daspolíticassociaiseamaciçaprivatização.
As“curasdeemagrecimento”,senosreferirmosaosparâmetros
macro-econômicos,trouxeramfrutos:domíniodainflação,déficits
dasfinançaspúblicasestranguladas,retornoforçadodecapitais
expatriados.Seria–aexemplodosaficionadosdoneoliberalismo
–louvarosefeitosbenéficosdorefluxodopoderpúblicoepedir
sempre“menosaoEstado”?
Umacoisaécerta:osmecanismosreguladoresentreoapare-
lhodoEstadoeasociedadecivilforamabalados.Ossindicatos,
ospartidos,asinstituições,noseioouforadasadministrações
públicas,nãomaisasseguramatransmissãodasdemandassociais
aoaparelhodedecisãopolítica.Aatualconjunturadoempobreci-
mentodascamadassociais,comaperdadoEstadodeseusins-
trumentosreguladores,correoriscodeprovocarrevoltasesporá-
dicas.Nãohouveaindaumaluzparaossegmentosmarginaliza-
dos.Daíaemergênciadenumerososatoressociaisemesmode
novosatorespolíticos.
Os movimentos sociais, criando outros meios de
intermediaçãoentreasociedadecivil,oEstadoeomercado,
longedereduziremsuaaçãoàúnicaconquistadedireitosàci-
dadaniaeàinstauraçãodeumestadodeDireitoexigem,tam-
bém,queestesejaeficiente.Taismovimentosencontram-sena
origemdenovasdemandaseformasdemediaçãopolítica.Seja
comofor,asociedadecivil,conceitoquerecobremúltiplasrea-
lidades,manifestanaAméricaLatinanovodinamismoligadoao
próprioprocessodedemocratização,assimcomoaoimportan-
tedesenvolvimentodaeconomiainformal.
Prioridadesconvergentes
Oenraizamentodademocracialatino-americanaserálongo,
poisváriasdificuldadespersistem:osmilitaresnãomaisocupama
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
84
cenaprincipal,mascontinuamamanobraraeconomia.AUnião
Européia,pondonocentrodacooperaçãoacláusulademocráti-
ca,contribuiparaancoraraidéiadeque,alémdosimplesdesen-
volvimentoeconômico,orespeitoaosdireitosdohomem,acon-
solidação do Estado de Direito e a manutenção da paz são, de
agoraemdiante,incontornáveis.
Istoconstituielementorelativamentenovoeimportantenas
relaçõesdaUniãoEuropéiacomospaísesdoTerceiroMundo,
selevarmosemcontaque,noTratadodeRoma(1957),nenhuma
referênciaarespeitodosDireitosdoHomemfoimencionadaso-
bretaisligações.NaEuropa,apassagemdacidadaniapolíticaà
cidadaniasocialefetuou-segradualmente:aaquisiçãodaprimeira
permitiuqueosassalariadosestabelecessemumarelaçãofavorá-
velcomasegunda.
Porsuavez,naAméricaLatinaademocraciaformalinstau-
rou-sesemcidadãos,oquealimentouafraudeeleitoral,acompra
devotoseocorporativismoestatal.Nela,osdireitosdoscida-
dãosformalmenteexistem,massópartedapopulaçãodesfruta
deles.Asdesigualdadespermanecemonipresentes.Etalquestão
valeparaoprocessodeintegraçãolatino-americana,cujoêxito
passapeloacessoaomercadodeamplossegmentossociaisaté
agoramarginalizados.
Convémenfatizarque,naEuropa,igualmenteafraturasocial
seaprofundoucomamarginalização.Certaconvergênciadospro-
blemaseuropeuselatino-americanosé,muitasvezes,sublinhada
pelomundoassociativo.Porém,naEuropa,“lamarchemulticolore”,
Clabecq,Renault-Vilvordeealutapeloempregonoslembram
queoscidadãosexigemqueohomemsetorneocentrodaeco-
nomia.Averdadeiracooperaçãoétecidapelasrelaçõeshumanas
e fundada sobre a elevada noção do homem como centro da
novaparceria,propostapelaComissãoàAméricaLatina.
MarceloOssandon–Ex-ministrodaEconomiadoGovernoAllende(Chi-
le)eatualpesquisadordoCentrodeEstudosdasRelaçõesentreaComu-
nidadeEuropéiaeaAméricaLatina(Cercal).ProfessordaUniversidade
LivredeBruxelas.Traduçãode DalmaNascimento.
PODER E POLÍTICA
85
Fazalgunsanosliopoema“Adormidera”,donicaragüense
PabloAntonioCuadra.Talleituraalavancouumpasseiocurio-
so/sentimentalpeloricouniversodascantigasdeninar,poisfez
assomar, num ir e vir de cadeira de balanço, o eco de muitas
cançõesbemguardadasnofundodamemória.
Emsuaaparenteingenuidade,acantigadeninardesdobraao
ouvido atento e curioso do observador da alma popular um
multifacetadotecidoemcujatramaseenredaboapartedatra-
diçãooral,enquantopõeàmostra,numretratosutileencantatório,
elementossócio-econômicos(talvezhistóricos)daAméricaLa-
tina.Deixar-noslevarpelojogofônicoqueseestabelece,levan-
taraquiealientecidassugestões,entreter-senamagiaameaça-
doradosseresfantásticosdoimagináriopopularéumaformade
participardeumexercíciodinâmicoefascinante.Ascantigasde
ninarestãoaí,ricas,palpitantesdevidaedelembranças,memó-
riavivaaconvidarparaumaleituraaproximadoradaalmapo-
pulardenossaAmérica,desuatradição,desuavariadaexpres-
são.
Nofundodamemóriademuitosdenósecoaavozmaterna
e/ououtrasvozesigualmenteacalentadoraspelasquaistransita-
vamseresfantásticos,criadospeloimagináriopopular,alguns
chegadosaoBrasilatravésdacolonizaçãoportuguesa,aquien-
riquecidos,modificadospelamisturadeelementosdacultura
africanaedaculturaindígena.Dessas vozessaltamseresmito-
lógicos,criaturasdeproporçõesfantásticaseterríveiscomafun-
çãoirracionale/ouafetivadeadormecerumacriançaquerida
cujosolhosmeninossãoforçadosasefecharemdiantedafigura
terrível,fantástica,queaimaginaçãofaztãograndequantoo
CANTIGAS DE NINAR: TRAÇOS
DE UMA IDENTIDADE CULTURAL
Magnólia Brasil Barbosa do Nascimento
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
86
própriomedo.
Émuitodifícildissociardecadaumadascançõesdeninaros
componentesdaameaça,prefiguradorasdeumconseqüente
medo,dotomafetivocheiodeternuraquenosfazpensarsea
cançãodeninar,aoestabelecerumclimamágico-afetivoque
leveacriançaaomundo(in)segurodosonho,nãoterásidouma
dasprimeirasatividadesamarcarohomem,emdeterminado
momentodesuahistóriacomoadjetivohumano
Ébomlembrarqueemnossospaísesoselementosdocotidi-
anosãobemmaisamedrontadores,arealidadeémaisabsurdado
queosseresfantásticosemitológicosquepovoamasquadrinhas
populares.PorissomesmocantaChicoBuarque:“Dorme/minha
pequena/nãovaleapenadespertar”,enquantoopoetacubano,
NicolásGuillénvaipelacontra-mãoedespertao“negrito,ciruela
ypasa”,paraqueveja,“despierto”,oqueacontece,numapelo
político/socialbemaseugosto.
Aoinvadirouniversoliterário,aoentrarnoespaçodamúsica
popularfornecendomatériaparatantasobras,acantigadeninar
saiumpoucodasombraparaondefoibanidapelosmodernos
monstrosimportadosesempredivulgadospelatodapoderosa
máquinaglobalizadora:atelevisão.Maisqueameaçarascrianças,
aculturaimportadaborraosvariadosmatizesdetraçosculturais
queconfiguramaidentidadedepaísesirmanadospelariquezade
suastradições.Seatelevisão“rói”nossotraçoidentificador,sea
máquinaacabacomaquelaingenuidadereferidainicialmente,as
cantigasdeninar,umatradiçãotãohumana,emvezdeadorme-
cer-nosestãoaíadespertar-nosparaarealidadedeumaculturaa
defender.
MagnóliaBrasilBarbosadoNascimento-ProfessoradeLetrasHis-
pânicasdoInstitutodeLetrasdaUFF.
PODER E POLÍTICA
87
África de Língua
Portuguesa
PARTE III
PODER E POLÍTICA
89
Caminhos e descaminhos de utopias e resistências
Carmem Lúcia Tindó Secco 91
Osonholiteráriodeummoçambicano
Lena Jesus Ponte 95
Mia Couto por ele mesmo 97
Raízes de um povo cativo
Wanderlino Teixeira Leite Netto 99
Guiné-Bissau:ariquezadesuaculturaoral
Bolsistas de Literaturas Africanas da UFRJ 101
O idioma de 200 milhões
José Lívio Dantas 103
“Navegar é preciso, viver não é preciso”
Ângela Beatriz Faria 105
Do mar e de lágrimas
Simone Caputo Gomes 107
Moçambique: a Língua Portuguesa em uma sociedade
multilíngüe
Lourenço Macagno 109
S. Tomé e Príncipe: aspectos da poesia nacional
Mário César Lugarinho 111
Índice da Parte III
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
90
AlertaàÁfricalusófona
José Octávio Serra Van-dünem 113
OfuturodaLínguaPortuguesanaÁfrica
Maria de Lourdes Brandão 117
Cabo Verde na voz literária de Manuel Lopes
Laurence Boccou 119
A saudade e o apelo do regresso
Luisilda Lobo e Guevara da Cruz 123
Novas coordenadas na ficção de Angola
Laura Cavalcante Padilha 125
Línguas africanas em contato com o Português (Breve nota
sobre o caso angolano)
Leodegário A. de Azevedo Filho 127
VirgíliodeLemos
Alunos do Setor de Literaturas Africanas de Língua
Portuguesa da UFRJ 129
PODER E POLÍTICA
91
AsliteraturasafricanasdeLínguaPortuguesasãoaindajo-
vens,comcercadeapenas150anosdeexistência.Apesarde
osprimeirostextosdataremdasegundametadedoséc.XIX,só
no séc. XX, na década de 30, em Cabo Verde (com a revista
Claridade),enosanos50emAngola(comMensagem),éque
essasliteraturascomeçaramaadquirirmaioridade,deslocando-
sedaliteraturaportuguesatrazidacomoparadigmapeloscolo-
nizadores.
Emboranãosetenhamdesenvolvidosempreemconjunto,
devidoaosseusrespectivoscontextossócio-culturaisdiferenci-
ados,essasliteraturassão,geralmente,estudadas,nosmeios
universitáriosocidentais,sobdenominaçãoabrangentequeen-
volveaproduçãoliteráriadeAngola,Moçambique,CaboVer-
de,Guiné-Bissau,S.ToméePríncipe,ex-colôniasdePortugal
naÁfrica.
TaldesignaçãosedeveàrelevânciadasLiteraturasAfrica-
nas,nosanos40,50e60donossoséculo,quando,reunidosna
CasadosEstudantesdoImpériodeLisboa,estudantesafrica-
nos – entre eles Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Eduardo
Mondlane,MáriodeAndrade,Tenreiro,AntónioJacinto–inici-
aram,sobosecosdanegritudefrancesa,donegrismoafro-ame-
ricanoesobosignodoanticolonialismo,ummovimentopolíti-
co-literáriodevalorizaçãodasliteraturasdeseuspaíses.Tive-
ramaítambémimportânciaoNeo-realismoportuguêseoMo-
dernismobrasileiroqueserviramdemodeloàfundaçãodonaci-
onalismonessasliteraturas.
EmAngola,nosanos50,surgiuumapoesiadirecionadapara
aafirmaçãodasraízesafricanas.Sobolema“Vamosdescobrir
CAMINHOS E DESCAMINHOS
DE UTOPIAS E RESISTÊNCIAS
Carmem Lúcia Tindó Secco
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
92
Angola”propunhaoresgatedaangolanidade,tambémreivindicada
pelospoetasdeMensagem,entreelesViriatoCruz,AntônioJa-
cinto,AgostinhoNeto,autordeSagradaesperança.
EmMoçambique,nessaépoca,seinicioutambémapoética
damaçambicanidade,comNoêmiadeSouza,Marcelinodos
SantoseCraveirinha,poetaque,em1992,recebeuoPrêmio
Camões.RepresentandoapoesiadeS.ToméePríncipe,cita-
mos Tenreiro, Maria Manuela Margarido e Alda do Espírito
Santo,quedefendiamosparadigmasdanegritudeedaidentida-
dedasilhas.
EmCaboVerde,Claridadesignificouumaviradanalíricado
Arquipélago.InfluenciadapeloModernismobrasileiro,essagera-
çãorompeucomasformasclássicasdapoesia,incorporandoo
versoeasrimaslivres,ocrioulo,ostemascabo-verdianos.
Nosanos60,comaguerradeclaradacontraocolonialismo
português,uniram-seasliteraturasdascincocolôniasportugue-
sasaÁfricaemtornodatemáticalibertária,cujasutopiasfize-
ram dos versos e das obras em prosa armas de luta contra o
salazarismoportuguês.Noiníciodos70,comaintensarepres-
sãodaPide(políciasalazarista),aliteraturasetornoubastante
metafóricaparadriblaracensura.
Apoesia,principalmenteemAngolaeMoçambique,passou
asermuitoelaborada,voltando-sesobreelamesma.Essafoia
faseda“Poesiadogueto”,dogrupoCaliban,emMoçambique,
comRuiKnopfli,SebastiãoAlba,entreoutros,e,emAngola,
comDavidMestre,ManuelRui,RuyDuarte,paracitarapenas
alguns.Comaindependência,retornaramasutopias.Foram
váriosospoetasacelebraremaliberdadeconquistada,masisso
duroupouco.
O fim dos anos 80 e os 90 foram marcados por um forte
desencantonaesferasocial,queserefletiunaárealiterária.A
poesia e a prosa superaram a fase “cantalutista” e o antigo
panfletarismoideológico,substituídoshoje,pelametaconsciência
e pelo traço crítico. Citamos, na poesia, nomes como os de
Patraquim,EduardoWhite,VeraDuarte,RuydeCarvalho.
Na prosa, muitos autores operam na linha da ficção e da
história,recriandoprocedimentosdaoralidadeetradiçãoafri-
canas,emconjugaçãocomumaescritaqueusarecursosficcionais
PODER E POLÍTICA
93
bemmodernos.Éocaso,porexemplo,deBoaventuraCardo-
so,Pepetela,ManuelRui,emAngola;deMiaCoutoeBaKa
Khosa,emMoçambique;deDinaSalústioeGermanoAlmeida,
emCaboVerde,paracitarsóalguns.
Essassãoalgumasdasestratégiasusadas,atualmente,por
essasliteraturasparaadenúnciaàscontradiçõesque,empaíses
periféricoscomoosdaÁfricadelínguaoficialportuguesa,cada
vezmaisseacirramcomapolíticacontemporâneadeglobalização
daeconomia.
Carmem Lúcia Tindó Secco – Professora de Literaturas Africanas
deLínguaPortuguesadaUFRJ.
PODER E POLÍTICA
95
Mia Couto, na apresentação de Estórias abensonhadas
(Nova Fronteira), declara haver escrito os contos desse livro
depoisdaguerracivilemsuapátria,Moçambique.Informaque,
portodooperíododebarbárie,a“...terraguardou,inteirasas
suasvozes.Quandoselhesimpôsosilêncioelasmudaramde
mundo.Noescuropermaneceramlunares.”
Essedepoimentoreforçaaidéiadequeahistóriadoserhu-
manocomseussonhosseescreveparaalémdasfronteirasda
realidadeobjetiva,dascircunstânciashistóricas,dasconvenções
sócio-culturais.Paraalémdaarbitrariedadedevastadoradas
guerras,dasincompreensões,donão-entendimento,hápreser-
vadoumterritóriointernodecriaçãoconstante:oreinodoima-
ginário,quenãoéalienação,masinstrumentoderevelaçãodo
real.
Noprimeiroconto,“Naságuasdotempo”,oavô,“homem
emflagranteinfância,semprearrebatadopelanovidadedevi-
ver”,iniciaoneto(opersonagem-narrador)noentendimento
desse lugar especial e desconhecido da maioria, onde “tudo
que...seexibia,afinal,seinventavadeexistir.”–umaespéciede
“terceiramargemdorio”,paralembrarJoãoGuimarãesRosa,
dequemMiaCoutoseaproximaemalgunsaspectos,inclusive
nainvençãosobrealinguagem.
Aesselocalmágico,cercadodemistério(“lugardasinterdi-
tascriaturas”;“osreceáveisaléns”;“terrasnão-firmes”;“interdi-
tosterritórios”;“lagoproibido”),chegamaquelesqueaprende-
ramaverossonhosesãocapazesdeperpetuar,emseusdes-
cendentes,essepotencialdeiralémdasfronteirasdomundo
superficial.
O SONHO LITERÁRIO
DE UM MOÇAMBICANO
Lena Jesus Ponte
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
96
Osensívelescritormoçambicano,assimcomooavôdoconto,
nosensinaaverparaalémdovisível(“nóstemosolhosquese
abremparadentro”);aouvirparaalémdapalavra(“...erados
que se calam por saber e conversam mesmo sem nada fala-
rem”); a permanecer para além do tempo (“todo o tempo, a
partirdaqui,sãoeternidades”);aviverparaalémdamorte(“eeu
acabavadedescobriremmimumrioquenãohaverianuncade
morrer”).
Nessa busca e encontro de espaços ainda por semear, ele
vaialém,inclusive,dafronteiradalíngua.Crianeologismos,arti-
culasintaxesinusitadas,despertaemnósosustodadescoberta
deimagensimpensadas.
Para Jacqueline Held (O imaginário no poder, Summus
Editorial), “o poeta é aquele para quem não existe um único
mundo”. Assim também o romancista e contista Mia Couto,
homememflagrantepoesia,semprearrebatadopelanovidade
doescrever.
Lena Jesus Ponte – Escritora, dinamizadora da Oficina da Palavra
Luiz Simões Jesus.
PODER E POLÍTICA
97
A clareza de sua condição mestiça
“Souumescritorafricanoderaçabranca.Esteseriaopri-
meiro traço de uma apresentação de mim mesmo. Escolho
estas condições – a de africano e a de descendente de euro-
peus–paradefinirlogoàpartidaacondiçãodepotencialcon-
flito de culturas que transporto. Que se vai “resolvendo” por
mestiçagens sucessivas, assimilações, trocas permanentes.
Como outros brancos nascidos e criados em África, sou um
serdefronteira.
Amemóriamágicadainfância
“Aindameninoescutavaoscontadores de estória nossu-
búrbios negros de minha cidade. Ao meu lado estava João
Joãoquinho,meuprimeiroamigo.Duranteanarração,havia
umamagiaquenosroubavadomundo”.
A consciência e o encantamento de narrar
“Nãosoumaisqueisso:umcontadordeestóriatrabalhan-
do na tentativa de recriar essa magia. No resto, sou biólogo,
tentandointroduzirsuspeiçõespoéticasnascertezascientífi-
cas.
MIA COUTO POR ELE MESMO
(DepoimentoscolhidosdeumapalestrafeitaporMiaCoutonaFaculda-
dedeLetrasdaUFRJ,em11desetembrode97,edotexto“Ogatoeo
novelo”,publicadonoJornaldeLetras,Lisboa,8deoutubrode97.)
PODER E POLÍTICA
99
Vieram de Angola, do Congo, do porto de Uida. Vieram
de São Lourenço, de Moçambique. Vieram amontoados na
escuridãodosporões.Multidãodecativos,hábitosdiferentes,
diferentesreligiões,algunsnemsequerfalavamamesmalín-
gua. De comum, a escravidão. Vieram cavar o ouro, vieram
sofrernoeito,naplantaçãodefumo,naroçadecafé,noalgo-
doal.
Ironicamente,davamnomedesantoaostumbeiros:Nossa
Senhora da Conceição, do Rosário, do Carmo, de Nazaré.
Ao contornarem Costa da Mina, clamavam por São José.
Dessa forma, camuflavam divindades, antecipavam o logro
impostoaosenhornoproselitismodosrituais,dasrezas,dos
batuques,dasdançasdominicais.Guerreirosporvocação,não
nascerampraserescravos,mascaçadores,curandeiros,reis.
Vieram de Angola, do Congo, de São Lourenço, de
Moçambique, do Porto de Uida. Para bem da verdade, ja-
maissaíramdelá!
RAÍZES DE UM POVO CATIVO
Wanderlino Teixeira Leite Netto
WanderlinoTeixeiraLeiteNetto–Escritor,membroefetivodaAcade-
mia Niteroiense de Letras, dinamizador da Oficina da Palavra Luiz
Simões Jesus.
PODER E POLÍTICA
101
AGuiné-Bissau,nacostaocidentalafricana,apresentauma
partecontinentaleoutrainsular,formadapeloArquipélagode
Bijagós. Ocupa 36.125 km², dos quais apenas 28.000 km² se
encontramsempreemersos,poisorestanteé,periodicamente,
cobertopelasmaréscheias.Nolitoralrecortado,háumlargoes-
tuário,emcujamargemdireitaficaBissau,capitaldopaís.
A paisagem é singular, pois o azul do oceano se mescla ao
verdedavegetaçãocosteira.Mareterra,empermanenteabraço,
possibilitamaexistênciadeumaricafaunamarítimaedeumaflora
peculiar,alimentadapelaprópriamaresia.
DevidoaotardioprocessodealfabetizaçãonaGuiné,alitera-
turaescritasóseconsolidouduranteaslutaspelaindependência.
Antes,oquehaviaeraopatrimôniooral:lendas,adivinhas,pro-
vérbios,emcrioulo,passadospelosmaisvelhos.Háalgumasre-
colhasdessastradições:‘NStaLi‘NStaLa(1979,coleçãode
adivinhas) e Jumbai (1979, conjunto de estórias). Mas, ainda
hoje,nãoéextensaabibliografia,emborajáhajaváriaspublica-
çõesdeTerezaMontenegro.
Atualmente,oInstitutodePesquisasdaGuiné-Bissauvemdi-
vulgandoaculturaoraldediversosgruposétnicosdopaís,além
deobrasdeautorescomoVascoCabral,HélderProença,Tony
Tcheca, Abdulai Sila, Félix Sigá, Odete Semedo, José Carlos
Schwartz,entreoutros.MoemaeJohannesAugel,estudiososda
literaturaehistóriadaGuiné,muitotêmcontribuídoparaisso.
GUINÉ-BISSAU: A RIQUEZA
DE SUA CULTURA ORAL
Síntese elaborada pelos bolsistas do Setor de Literaturas Africanas
daUFRJ,combaseemANovaLiteraturadaGuiné-Bissau,deMoema
Parente. Bissau: INEP, 1998
PODER E POLÍTICA
103
Por vários séculos, a presença portuguesa na África
subsaarianafoimarcante.Comopaíshegemônicoecoloniza-
dor,éclaroquePortugalnãopodiadeixardeexercerinfluên-
ciassobreatividadesvitaisdepovosautóctones.Naverdade,
apresençaeuropéiaemquasetodoocontinenteafricanocons-
tituiu-senumfatordiferencialqueimpôssuamaneiradeserao
indigenismonegro.E,dentretodasasinfluências,nenhumaterá
sidomaispermanentedoqueaexpressãolingüística.
Tanto foi e ainda é assim que, já hoje soberanos e
desvinculadosdosliamespolíticoscoloniais,ospaísesinde-
pendentes da África, através de suas classes dirigentes e de
seus profissionais, continuam a expressar-se no idioma das
antigasmetrópoles.
Se descartarmos a perspectiva puramente temporal e nos
ativermostão-somenteaoslimitesgeográficosdalínguaportu-
guesa, veremos que ela é o idioma próprio de cerca de 200
milhõesdepessoase,principalmente,oidiomadediferentes
sociedades.Portugal,Brasil,Angola,Moçambique,CaboVer-
de,Guiné-Bissau,SãoToméePríncipe,MacaueTimorLeste
na Ásia demarcam o alcance de nossa voz em todos os
continenentes e por sobre todos os oceanos. É seu caráter de
universalidade,quepouquíssimasoutraslínguasconhecem.
Orgulhamo-nos que isso aconteça ao nosso idioma, cuja
vocação de transnacionalidade é sobejamente comprovada,
nãoapenasnoBrasilcomseusmúltiplosgruposétnicos,mas
também na África lusófona que continua tendo na língua de
Camões e de Machado de Assis seu recurso preferencial de
expressãoliterária.
AntonioMendesCardosoeTomásKimemAngola;Mia
O IDIOMA DE 200 MILHÕES
José Lívio Dantas
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
104
CoutoeJoséCraveirinhaemMoçambique;EugênioTavares
e Pedro Cardoso em Cabo Verde; Frederico Gustavo dos
AnjosemSãoToméePríncipe–vivosalgunsefalecidosou-
tros–comsuasrespectivasesubstanciosasobrasdepoetase
prosadores,sãotestemunhasdaforçaedavitalidadeda“últi-
ma flor do Lácio” em África, como se diz em castiço falar
lisboeta.Queessavitalidadeeforçacontinuemporséculose
milêniosàfrente.Pois.
JoséLívioDantas–Jornalista,escritoretradutoreautor,entreoutros,
do livro Romaneio – mini-ensaios e maxi-crônicas.
PODER E POLÍTICA
105
“Navegarépreciso,vivernãoépreciso”,diziaadivisados
antigosnavegadoresnosséculosXVeXVI,épocadaaventura
marítimo-colonialportuguesa.Navegartornava-senecessárioe
exigiaprecisão.Jánaaventuraexistencial,osujeitoencontra-se
diantedaerrânciaedabusca–imagináriaoureal–semcontar
desejado, levando-o, por isso, muitas vezes a optar por uma
“navegaçãoporimagens”.
NaLiteraturaPortuguesacontemporânea,porexemplo,mais
especificamentenostextossobreaguerracolonialafricana,evi-
dencia-seoarquétipodo“mar”,retidonoimagináriocoloniale
imperialista.Osromancesdasduasúltimasdécadas,querevisitam
aimplantação,apermanênciaeaperdadoImpériomarítimo-
colonial,substituemagrandiosaepopéiamarítimadeOslusíadas,
deCamões,porepopéiasmarítimasouterrestescarnavalizantes.
AHistóriaérevistaemdiferença,ouseja,deformainvertida,
ironizada,parodiada,carnavalizada,aoressurgirnametaficção
historiográfica–naacepçãodeLindaHutcheon,Poéticadopós-
modernismo–dandovozaosoprimidos,excêntricosemargina-
lizadospelosistema,comoconvémaumanovaleituradahistó-
riadasidéias,dasmentalidadesedascriaçõesàluzdasinterro-
gaçõescontemporâneas.
EmAsnaus,(1988),deAntônioLoboAntunes,osperso-
nagensprocuramaorigemeaidentidade,aosabordosespaços
abertoselabirínticosdaHistória.Oautorcriouo“descrescendo
docantoXd’Oslusíadas,transfigurandootextomemória-cul-
tural,afimdeserrelidodeoutramaneira.Osmitosparadigmáticos
da pátria – Camões, Cabral, Vasco da Gama, D. Sebastião e
outros–adquirembaseparódicaecarnavalizante.Osheróisda
“NAVEGAR É PRECISO,
VIVER NÃO É PRECISO”
Ângela Beatriz Faria
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
106
épocadaexpansãotransformam-seem“retornados”daguerra
colonialafricana,revelandoonaufrágiodeumImpériorevisitado.
Em Autópsia de um mar de ruínas (1984), João de Melo
escreve Portugal, invertendo os arquétipos da pátria: o mar
lusíadadaspaixõesexpansionistassubstituiu-sepelomarde
ruínas,desfigurando,assim,autopiarevolucionáriapolítico-
social, inerente à Revolução dos Cravos. A própria locução
adjetivanotítulodaobraesvaziaosentidosimbólicodo“mar”
eapátriasurgeproblematizadanoespaçotextual:“Aterraem
Áfricaeraapenasumlugarondeamortesecumpria”eosol-
dadoportuguêsagonizantesonhacomum“mardemenino”.
Assim, tanto As naus, quanto Autópsiadeummarde ruí-
nasretomamomodelomíticodoportuguês-marinheiroeoima-
gináriodasconquistas.Nelesháimagensrecorrentesdasnaus,
do mar e dos tempos do domínio: a fundação do reino e da
nacionalidade,aexpansãodoImpérionosséculosXVeXVI,
“acolonização”dascolôniasafricanaseodesenraizamentodos
“portuguesesdesempregadosdomar”.Aesses“heróis” –er-
ranteseproblemáticos,“despaisados”nageografiadoexílio,
comoosoldadoocidentalemÁfricaouaquelequevoltouao
país e perdeu o sentido de sua identidade e seu lugar – resta
apenasassumiroolharestrangeiro,desgarradoefugidio,guar-
dadosemprenaretinapsicológicadeummarinterior.
ÂngelaBeatrizFaria-ProfessoradaFaculdadedeLetrasdaUFRJe
doutoraemLiteraturaPortuguesa.
PODER E POLÍTICA
107
DesdeMensagem,FernandoPessoa,relendoporrasuraOs
lusíadas, assinala o seu tempo como tempo morto e o texto
sacralizadocomotextosepultadoeparasempreabolido.Épre-
cisoescreveraanti-epopéiapararessuscitarPortugal,atéaqui
tomadocomoimpériodeficção.NãoéporacasoqueCesário
Verde vê a Lisboa do século XIX como espaço tumular, em
oposição à euforia camoniana. Os grandes textos de Pessoa,
Cesário,Pessanhasãopermeadospelasíndromedadecadên-
cia,comaqualcomungamostextoscontemporâneoscomoos
deGastãoCruz,FiamaHassePaisBrandãoeLuizaNetoJor-
ge,entreoutros.Ao“singrar”donavioopõe-seopresente“san-
grar”,aos“varõesassinalados”,“corposassassinados,oTejo
“conduz/apoeiradamorteenãoalava”.
AproduçãopoéticaafricanadospaísesdeLínguaPortugue-
sa,frenteaocontextodaditadurasalazaristaedaguerracoloni-
al, segue o rastro da anti-epopéia, deslocando o Mar de um
imagináriodaviagemprazerosadaFamaparadenunciá-lo,en-
quantoespaçodeInfâmia:“Noumbigodacolónia/Acaravela
daopressãosecular”(CorsinoFortes,deCaboVerde).Otema
daviagemsetraduz,nospoemasafricanos,emoutrospériplos,
comoodotrabalhadorcontratado(escravodeportadoparaS.
Tomé),odosquepartemparaasminasdaÁfricadoSul,odas
moças que se vão prostituir na cidade. José Craveirinha, de
Moçambique,assimvêapartidaparaocontrato:“Naquelanoi-
tefatalqueexportou/duzentosevinteecincohomens/ecincoenta
etrêsmulheres/paraasroçasdeS.Tomé”.Nomonstro-barco,
adolescentessãotransportadosparaotrabalhoforçado.Omar
édesmascarado,desmitologizado:“Chegouentãoahora/Domar
lúcido(...)Económico./Assassino”.
DO MAR E DE LÁGRIMAS
Simone Caputo Gomes
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
108
Apartirdestadiagnose,ostextospós-independência(1975)
vãopoderapresentarumimagináriomarítimopositivo,deaber-
turaefecundidade:“Canto/EstesdezgrãozinhosdeÁfrica/Pos-
tadosnomeiodooceano/edoscontinentes/Edomeiodomar/
edomeiodomundo/Vãodistribuindorotas/Assinalandocami-
nhos”(DavidHopfferAlmada).
SimoneCaputoGomes-ProfessoraaposentadadaUFF,doutoraem
Literaturas Portuguesa e Africanas e coordenadora para o Brasil
da Associação dos Professores e Investigadores da Língua Portu-
guesa.
PODER E POLÍTICA
109
Quando,nofinaldoséculopassadoeprincípiosdopresente,
osportuguesesconsolidama“ocupaçãoefetiva”doatualterri-
tóriodeMoçambique,ospensadorescoloniaisdeépocacome-
çamasepreocuparcomaLínguaPortuguesanoprocessode
assimilação das populações africanas aos valores da cultura
metropolitana.Parasetornarem“assimilados”,oschamados“in-
dígenas”deviamseemancipardosseus“usosecostumes”.Neste
sentido,alínguadocolonizadoreraconsideradainstrumentode
contribuição decisiva para a emancipação. Tal processo
assimilacionistaseaprofundacomoadventodoEstadoNovo
(1926)emPortugal.
ApósaIndependênciade1975,aFrelimo(FrentedeLiber-
taçãodeMoçambique)adotaaLínguaPortuguesacomooficial.
Essadecisãocorrespondeaoprincípiodeapropriaçãodoidio-
madocolonizadorpelocolonizado,fazendodele“instrumento
delibertação”.O“homemnovo”socialistaprecisavaemanci-
par-sedoobscurantismo,dotribalismo.Assim,macuas,rongas,
shangansetc.deviamconfluiremumaúnicanaçãomoçambicana.
A Língua Portuguesa faria a união dos moçambicanos de
“RovumaaMaputo”,comocostumavadizerSamoraMachel
(primeiropresidenteapósIndependência)nosseusdiscursos.
A partir de 79, inicia-se um debate que continua até hoje.
Nesseano,realiza-seemMaputooPrimeiroSeminárioNacio-
nalsobreEnsinodaLínguaPortuguesa.Alisesublinhouane-
cessidadedeaprofundaroestudodaslínguasmoçambicanas,a
fimdedesempenharempapelimportantenodesenvolvimento
científicoeculturaldopaís.Foiesseumprimeiroantecedente
paraacriaçãodoNúcleodeEstudosdeLínguasMoçambicanas
MOÇAMBIQUE: A LÍNGUA PORTUGUESA
EM UMA SOCIEDADE MULTILÍNGÜE
Lourenço Macagno
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
110
(Nelimo) na Faculdade de Letras da Universidade Eduardo
Mondlane.
Dezanosdepois,Nelimopublicaamplorelatórioacercados
resultadosdoPrimeiroSemináriosobreaPadronizaçãodaOr-
tografiadeLínguasMoçambicanas.Em93,organizaemMapu-
tonoCentrodeEstudosBrasileiros,oseminárioCenáriosda
LínguaPortuguesa:avitalidadedoidioma,reunindointelectuais
eescritorespertencentesaospaísesdeLínguaoficialPortugue-
sa,especialmentemoçambicanos.
Atualmente,algunspesquisadoresdoInstitutodeDesenvol-
vimento da Educação começam a olhar para uma realidade
lingüísticacomplexa,propondoprojetosdeeducaçãobilíngüe.
Odebatecontinua.
LourençoMacagno-DoutorandodoProgramadePós-graduaçãoem
SociologiaeAntropologiadoInstitutodeFilosofiaeCiênciasdaUFRJ.
e-mail:lorenzo@ifs.ufrj.br
PODER E POLÍTICA
111
ALiteraturaSãotomensedestaca-senoquadrodasliteratu-
rasafricanasdeLínguaPortuguesapordelaparticiparemseu
momentodecisivodeafirmação,quandoavozdonegromarca-
va,antesdeumaautênticaexpressãonacional,agenuínavoz
africana. No período de formação, Caetano da Costa Alegre
(1864-1890)deixa-nosumaobraemquecantanãoostradici-
onaislouvoresàNaturezaluxuriante–própriosdaliteraturaco-
lonial–masoconflitocomaculturadocolonizador:“Tutens
horror de mim, bem sei, Aurora/ Tu és o dia, eu sou a noite
espessa./Ondeeuacaboéqueoteusercomeça./Nãoamas!...
flor,queestaminhaalmaadora”.
Noséc.XX,seráFrancisoJoséTenreiroquemestabelecerá
odiálogoentreasvozesdeumaverdadeirapoesianacionalea
universalizaçãodasquestõesnegras,repensandoosconceitos
deopressãoeintegraçãoracial:“Osomdogongue/ficougritan-
donoar/queonegrotinhaperdido./Harlém!Harlém!América!/
NasruasdeHarlém/osanguedenegrosedebrancos/estáfor-
mandoxadrez.Harlém!Bairronegro!Ringuedavida”.
Aomesmotempoemqueonegroafricanoencontraecode
suaHistórianaculturaafro-americana,Tenreiroelegeacultura
afro-brasileiracomolugarnãodeenfrentamentoracial,masde
problematizaçãodaintegraçãoracial,invertendoaperspectiva
anteriordeCostaAlegre,quedavaaoafricanoumsinalamenos
diantedaculturabranca.
AoladodeTenreiro,AldadoEspíritoSantoseinscrevesob
osignodacombatividade.Suapoéticatemnotrabalhodocon-
tratado, o escravo camuflado pelo português, a sua principal
fontetemática,instituindooquadrodacondiçãopré-indepen-
S. TOMÉ E PRÍNCIPE:
ASPECTOS DA POESIA NACIONAL
Mário César Lugarinho
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
112
dência em S. Tomé e Príncipe: “É assim que eu te falo,/ meu
irmãocontratadonumaroçadecafé./Meuirmãoquedeixasteu
sanguenumaponte/ounavegasnomar,numpedaçodetimes-
moemlutacomogandu”.
Alda,umadasprimeirasmulheresaseapresentarcomdo-
míniododiscursopoéticoemÁfricalusófona,defineoscontor-
nosdosãotomense,percebe-oemsuadimensãodetrabalha-
dor,afimdehumanizá-loeextraí-lodesuaalienação.Nosanos
90, Maria Olinda Beja, da Ilha do Príncipe e deslocada para
metrópole muito criança, canta a saudade da Mãe África de
forma diferente das gerações anteriores, contornando uma
dialéticacultural.Istoé,assumeseustatuseuropeu,reconhecen-
dosuamatrizafricana:“Quiseramfazerdemim/umaEuropéia/e
poressemotivomearrancaram/dascostasdeMãe-África/mi-
nhaMãe(...)/repuxarammeuscabelos,alisando-os/dando-lhes
novaforma/esquecendocomoMedéiapenteouosfilhosdeÁfri-
ca/(...)Conseguiramfazerdemim/umaEuropéia/sóseesquece-
ramdecortar/ocordãoumbilicalqueficoupreso/àsraízesda
velhaeritrineira/quemeubisavôplantouemMolembu”.
Assim,apoesianacionalsãotomensedácontadeumper-
cursopoéticoproblematizadordaculturaafricanacontemporâ-
nea,cônsciadesuaformulaçãomulticulturaletransnacional.
MárioCésarLugarinho-ProfessordaUFFedoutoremLiteraturas
Portuguesa e Africanas.
BIBLIOGRAFIA BÁSICA:
MATA, Inocência. Emergência e existência de uma literatura: o caso
sãotomense.Linda-a-Velha,Alac,1993.
FERREIRA,Manuel. 50poetasafricanos:Angola,CaboVerde,Guiné-
Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Lisboa, Plátano, 1989.
BEJA,MariaOlinda.BôTendê?Aveiro,CâmaraMunicipal,1993.
PODER E POLÍTICA
113
NaÁfricalusófona–alémdasquestõesculturaisedealíngua
portuguesaserodenominadorcomum–asituaçãorealdecada
paísé,demodogeral,difícile,emalgunscasos,dramática.Lan-
çamos,assim,algunsalertasàComunidadedePovosdeLíngua
Portuguesa(CPLP),jáqueestanovainstituiçãotemdiantedesi
muitosdesafios.
Nãofoifácilaospaísesafricanoslusófonosencontrarmeca-
nismosdearticulaçãoquedessemcontadosdesníveisexistentes
entreeleseasdemaisnaçõeslusófonas,ouseja,BrasilePortu-
gal.Tornou-se,defato,complexoparaasnaçõesafricanaspor
umlado,estabeleceremprioridadesnasuaextensapautadene-
cessidadesepreocupaçõese,poroutro,fazeremcomque,no
empenhodecriaremumainstituição,estareflitaasvontadesde
váriospaíses.
Felizmente,hojeexisteaCPLPque,comlegitimidadeees-
forços,entranosegundomandato,responsávelporfortalecer
oslaçosdecooperaçãoeconômica,política,socialecultural.
Porém,algunsalertasdeverãoestarpresentes:ospaísesafrica-
nosdeLínguaPortuguesafazempartedeumconjuntomaisamplo
daÁfricasubsaarianaque,emsuamaioria,viveagoraumaterrí-
vel crise. Tal crise remonta ao passado colonial e ao crônico
Subdesenvolvimentoapósoperíododacolonização,embora
comtentativas–aindanãoconseguidas–deimplementaçãodos
sistemasdemocráticos.
Emfinsdosanos60,paísesafricanosobtiveramaindepen-
dência,viverammomentosdeeuforiaeapossibilidadede–atra-
vésdepolíticasdesenvolvimentistas,namaiorpartenãoadequa-
dasàsuarealidade–participaremcomrealautonomiadoconjun-
todasnações.Mastalfatonãoaconteceu.Aocontrário,assu-
ALERTA À ÁFRICA LUSÓFONA
José Octávio Serra Van-dünem
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
114
cessivas crises dos Estados independentes, o crescente
endividamentoeaextremadependênciadestesemrelaçãoàsan-
tigaspotênciascolonizadores,bemcomoaineficiênciadepolíti-
cas,porestassugeridas,levaramessespaísesàpane.Oresultado
foi:agravamentodetrocasdesiguais,aumentodoespectrodafome,
desempregoendêmicoeaquaseimpossibilidadede,porsisó,
reverteremtalsituação.
Com o fim da guerra fria e o término do confronto Leste-
Oeste,novasexpectativasseforamcriandoecomelasailusãode
queaquedadomurodeBerlim,sóporsi,levariaàpazperpétua
eàeradedesenvolvimento,daqualaÁfricasósepoderiabene-
ficiar.Infelizmente,issonãoocorreu.AexclusãodaÁfricadanova
ordemeconômicaquesedesenhoueasuapermanêncianaperi-
feriaextrematornaram-semaisevidentes.Suasestatísticaspassa-
ramaocuparespaçocadavezmaiornalistadosorganismosde
ajudahumanitária.
Énesteambientedeexplosõessociais,crisespolíticas,frag-
mentações,guerrasinternasqueaÁfricasubsaarianamergulhoue
delaospaísesafricanosdeLínguaPortuguesasãoparteintegran-
te.Porisso,énecessárioqueasfuturasestratégiasdaCPLPle-
vememcontaqueademocratizaçãodaÁfrica,emgeral,edos
paísessobsuatutelatenhamcomotimoneiraaeducação.Elaserá
oinstrumentopossibilitadordeumacidadaniaativaeresponsável,
emqueoscidadãosgarantamoprincípiodeproximidadepara
asseguraracomplementaridadeentreoEstadoeasociedadecivil
e,porconseqüência,asuaduplalegitimidade.
Somenteassimcriaremosumaculturadepazemqueestanão
signifiqueapenasaausênciadaguerra,masaconstruçãodesóli-
dospilares,quesirvamdebaseàvivênciadeprincípiosedevalo-
resdejustiçaplena,àdiminuiçãodedesigualdadeseàcriaçãode
oportunidades.
Sódestaformaafastaremosasvisõesdoafropessimismoedo
afrootimismo,acreditandonumafrorealismo,emque,comoes-
creveuJéromeBindé,“sedesejamosqueoamanhãnãosejasem-
pretardedemais,aantecipaçãodeveprevalecersobreaadapta-
ção,aéticadofuturodevevenceratiraniadaurgênciaeosenso
departilhadeveseimporsobreoegoísmocegoemqueseemba-
çamosnovosapartheids”.
PODER E POLÍTICA
115
EntendemosseremestesalgunsdosalertasqueaCPLP,ainda
jovem,tenhapresentenoseucrescimento.
JoséOctávioSerraVan-dünem–Filósofo,professordaUniversidade
AgostinhoNeto,Angola,emestrandoemSociologiadoProgramade
Pós-graduaçãodoInstitutoUniversitáriodePesquisasdoRiodeJa-
neiro.Email: josvan@mtec.com.br
PODER E POLÍTICA
117
Depois da Independência de Angola, o Português quase
desapareceudasescolas.OspolíticosdiziamqueeraaLíngua
do Colonialismo e, como tal, devia ser abolida. Mas o povo
continuoufalandoPortuguês,gostadefalarPortuguês,preferin-
do-oàssuaslínguasnacionais.Hoje,apesardefaltaremesco-
las,professores,livrosdidáticosapropriados,elefirmou-seem
Angola,porqueéconsideradoumfatordeunificaçãonacional,
alargaohorizontecientíficoeculturaldosalunoseservecomo
meiodecomunicaçãointernacional.Osangolanosvãocontinuar
falandoPortuguêsnoterceiromilênio.
O mesmo não se pode dizer quanto a Moçambique, onde
aindahá,atualmente,cercade80%deanalfabetos.Pressionado
pelosseusvizinhoseporinteresseseconômicos,estepaís,que
pertenceàComunidadeLusófona,entrouparaaComunidade
BritânicadasNações.OInglêstomoudeassaltoMoçambique,
apesardasdiversasinstituiçõesdeníveluniversitárioestaremadar
omelhoremproldaLínguaPortuguesa.
Nopróximomilênio,nossoidiomacorreperigoporlá,por-
queosjovensmoçambicanostêmmaisvantagememaprendere
falarInglês.Serianecessário,paracombaterestesfatos,queo
GovernodePortugalpromovessemaciçacampanha,ajudasse
aconstruirescolasmodernas,abrissemaisleitorados,conce-
dessemaisbolsasdeestudoa moçam-bicanos,possibilitando
maiorintercâmbioculturalentreosdoispaíses.Igualperigocor-
reoPortuguêsnaGuiné-Bissau,varridaporumasangrentaguerra
civil, e que se voltou para a França. Este país é considerado,
agora,áreafrancófona–eláanossalínguaperdeterrenodia-a-
dia.Hoje,naGuiné-Bissau,apenas10%dapopulaçãofalaPor-
O FUTURO DA LÍNGUA
PORTUGUESA NA ÁFRICA
Maria de Lourdes Brandão
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
118
tuguês.
Seascoisascontinuaremassim,depoisdoanodoismil,o
idiomadeCamõesdesaparecerádaquelanação.CaboVerdee
SãoToméePríncipeestãohistoricamenteligadosàlusofoniae
nãoosvamosperder.Masestãoasofrerumaverdadeiratenta-
tivadeimperialismolingüísticofrancês,oquetambéméassusta-
doredevesercombatido.EmCaboVerde,oCriouloéalíngua
nacional,enquantooPortuguêséaoficial,aqueseensinanas
escolas.Alusofoniaancora-senotempo-espaço.Éapátriasem
fronteirasqueopovoportuguêscrioueespalhoupelomundo
nostrêscontinentes.
Paraquealusofoniasefirme,énecessário,antesdetudo,
queasnaçõesconsigamviverempaz–numapazduradoura.E
depois, que haja meios para que possam processar, normal-
mente,aculturaeosaberàscriançasangolanas,moçambicanas,
são-tomenses,cabo-verdianaseguineenses,criando-seinfra-
estruturaseducativasquegarantamavitalidadedoPortuguês
naquelespaísesnoterceiromilênio.
MariadeLourdesBrandão-Jornalista,escritora,poetisaluso-brasilei-
ra,comcincolivrospublicados.Participouemjunhode1998doVEncon-
tro de Línguas Vivas, em Buenos Aires, esteve três vezes em Macau,
inclusiveem97,noCongressoInternacionaldeLusofonia,promovido
peloElosClubeInternacional.
PODER E POLÍTICA
119
NaÁfrica,asliteraturaslusofônicascomeçaramasairdo
anonimatoemfinsdoséculopassado,emboracertosescritos
africanosemLínguaPortuguesajádatassemdoXVI.Porém,
eramtextosligadosàstransaçõescomerciaisdosdiversoster-
ritórios colonizados por Portugal. Somente há menos de um
século,omundoaplaudealiteraturadaquelasregiões,desta-
cando-seaproduçãocabo-verdianalusográfica.Emverdade,
CaboVerde–arquipélagocompostodedezilhaseoitoilhotas,
com uma superfície global de 4.033 km2
, com 450 mil habi-
tantes,situadonoOceanoAtlântico,próximoaoSenegaleao
suldasilhasCanárias–participoudomovimentointelectual
queagitouasentãocolôniasportuguesasdaÁfrica.
Dotadodericaexpressãoestéticapordiferentesrazões,Cabo
Verdeprojetou-senocenáriolusofônico.Entreasprincipaiscau-
sas,estãoopapelhistóricoeaestratégicasituaçãogeográfica
nocruzamentodasrotasmarítimasdoscontinentesafricano,eu-
ropeueamericano.Issofacultouodesenvolvimentodaliteratura
localemmeioaumaculturamultifacetada.Tambémarelativa
proximidadedametrópole,secomparadaàdasoutrasprovín-
ciasluso-africanas,permitiuointercâmbiodosautoresnativos
comosmetropolitanos.
Entreseusmarcosliterários,ressalta,em1936,arevistaCla-
ridade,abrindo-seacaminhosmodernistas.Pelasidentidades
climáticasevisõesdemundo,os“claridosos”inspiraram-senos
escritoresregionalistasdoNordestebrasileiro–sobretudoem
ManuelBandeira,JorgedeLima,JorgeAmado,JoséLinsdo
Rego–jáquearealidadedeCaboVerdeseaproximadouni-
versoagrestedaliteraturabrasileiradosanos30.
CABO VERDE NA VOZ
LITERÁRIA DE MANUEL LOPES
Laurence Boccou
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
120
Comtonsrealistas,os“claridosos”destacaramafomeligada
aépocasdasecanasilhas,gerandoaemigraçãoe,aomesmo
tempo,ainsularidade,conjugadaaoamorpelaterranatal.Tal
estéticaafastou-osdasinfluênciasportuguesas,definindofor-
masmaisespecíficasdasuaidentidadecultural.Permitiu,assim,
quejovenspoetaseescritoresreivindicassemsuapertençaàs
ilhaseficassemtambémconhecidosalémdoarquipélago.
Chuva brava de Manuel Lopes
Sendo a seca o maior flagelo da região, vários autores
tematizaram-na.Entreeles,ManuelLopesnoromance Chu-
va brava, ao traçar a vida dos camponeses e dos habitantes
de Ribeira das Patas, uma vila da Ilha de Santo Antão,
enfatizando a ausência da chuva, chaga que não cessa de se
abrir, para provar a coragem e a fé dos cabo-verdianos. A
insularidade presentifica-se na forte ligação com a terra e no
medodeenfrentaromar,emboraaemigraçãosejaumaporta
de saída mais suave do que a morte.
Dissecandooscaracteresemtornodohostilfenômenona-
tural,Chuvabravamostraoconflitodopersonagemcentral,
Mané Quim, jovem de uns 20 anos, trabalhador da terra, di-
antedoimpassedepermanecernailhaoudeixá-laemdecor-
rência da seca. Ele se sente preso ao solo na angustiante ex-
pectativadeumachuvasalvadoraquenãoopermitissepartir.
NhôJoquinha,seupadrinho,aocontrário,emigraraeasorte
lhe sorrira no Brasil. Próspero, retorna a Santo Antão e tenta
convenceroafilhadodainutilidadedeficarnumlocalcadavez
mais estéril. Com o coração opresso, Mané Quim, por fim,
aceitaafastar-sedeRibeiradasPatas,damãeedeEscolástica,
amiguinhadeinfância.
Masháumafrasequepoderiatalvezserolemadolivroe
dageraçãodeClaridade:“Quemlargaaterraperdeaalma...”
repetidaporNhôLourencinho,figurapatriarcaldesimbólica
ligação com o solo, apesar das dificuldades climáticas e
econômicas. Já antes de partir, Mané Quim é invadido pela
saudade,estaindefinívelnostalgiaparticularaoslusófonos.
Depois, a chegada a Porto Novo lhe destroça o ser. Pro-
curaaliasmontanhasnatais,sentindo-sepequeninodiantedo
PODER E POLÍTICA
121
canal marítimo que o separa de S. Vicente. E, na véspera da
viagemparaailhavizinha–ponteparaagrandetravessia–é
salvoporumachuvamagnífica,renunciando,finalmente,ao
futuroexílio.
Salpicadodosimbolismodosquatroelementos–ar,água,
fogoeterra–ChuvabravaevocaosproblemasdeCaboVer-
de.Apesardapungentenostalgia,anarrativadesvelaaforçado
homem diante das intempéries. No romance seguinte, Os
flagelados do vento leste, Manuel Lopes descreve uma terra
quesofretorrenciaischuvas,épocaemqueopovodocampose
deliciacomaságuas,antesdesofrer,denovo,odramadaseca.
Laurence Boccou - Professora de Letras Lusofônicas, formada pela
UniversitédeHauteBretagne,Rennes,França,comtrabalhodemaîtrise
sobreCaboVerdeeaobradeManuelLopes.TraduçãodeDalmaNasci-
mento.
PODER E POLÍTICA
123
Somosestudantescabo-verdianosdeáreasdiversas–Enge-
nharia,Informática,Letras,CiênciasSociais,Direitoetc.–num
total de 250 jovens sediados no Estado do Rio. Chegamos ao
Brasil,vindosdaquelearquipélago,quesedivideemdoisgrupos
deilhas:Barlavento,aonorte,compostoporS.Vicente,S.Nicolau,
SantoAntão,SantaLuzia,BoaVistaeSal,alémdosilhéusPássa-
ros,BrancoeRasoeSotavento,aosul,comSantiago,ondeficaa
capital,Maio,Fogo,BravaeosilhéusdeSantaMaria,LuísCar-
neiro,Sapado,GrandeeCima.
Partimosàbuscadarealizaçãodeumsonhohámuitoalmeja-
do,tendoomarpelafrente:viajaraterrasdistantes,paraaprimo-
rarconhecimentoseaplicá-losnodesenvolvimentodenossopaís,
CaboVerde,independentedojugoportuguêsdesde5dejulhode
1975,apóslutaseesperançasconcretizadas,tendocomoumdos
líderesAmílcarCabral,assassinadopoucotempoantesdaliber-
tação.
Aqui no Brasil, para que houvesse maior elo entre nós, e o
amoràterra,comumatodos,nãoseesvanecesse,recentemente
fundamosaAssociaçãodosEstudantesCabo-verdianosdoEs-
tadodoRiodeJaneiro,comsedeprovisórianaPraiaJoãoCae-
tano,emNiterói.
Aexistênciadeumalínguacomum–oPortuguês–entreCabo-
VerdeeoBrasilcontribuiuparanossaintegraçãoàcomunidade
brasileira.Amizadeslogoseefetivaram,nãoocorrendoofamoso
choquedeculturasentrepovosdiversos.Aúnicadiferençareside
emcertostraçosrelativosaonossosotaquemaispróximoàpro-
núnciadePortugal.Emoutrosâmbitos,otipodevidadoshabi-
tantesdaquiseassemelhaaodenossasilhas.
Emboraadaptados,preservamosasraízesinsulares,como
A SAUDADE E O APELO DO REGRESSO
Luisilda Lobo e Guevara da Cruz
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
124
comprovamoseventos,revivescendoosentimentodapátria.Para
celebraradatadanossaindependência,oMuseudoIngádedi-
couaCaboVerdeodiacomconferênciaseexposições.Noúlti-
mo14,abiblioteca,osetordeLiteraturasAfricanasdeLíngua
Portuguesa,ambosdaFaculdadedeLetrasdaUFRJ,eanossa
associaçãopromoveramoencontroCaboVerde: Cantoseen-
cantosdeumarquipélago,comprofessores,estudantesbrasilei-
rosecabo-verdianos.Nossogrupoapresentoudançasemúsicas
típicas,seguidasdepalestrasepoemasdeclamadosdeautores
nativos.Para22deagosto,programamosemS.Gonçaloexposi-
çãodefotos,detrajes,alémdemúsicasecomidaslocais.
Possuímosfortestraçosculturais,inclusivenocampomusical,
destacando-seaMorna,comletrasrelativasàsaudade,àperdae
aoamor,nalínguamaterna,oCrioulo,eritmosparticularesacada
ilha,entreeles,oBatuque,oFunaná,oColasanjon,dançaque
lembraasquadrilhasjuninasbrasileiras.Emtermosdecomida,é
célebre a Catchupa, feita à base de milho, feijão, carne seca,
lingüiça,legumesetubérculos.Nossaspraiasoferecembelaspai-
sagense,quantoaopovo,somosdebrandoscostumes,infensos
àviolência,hospitaleiros,alegres,semprecelebrandoavida,ape-
sar de a seca levar, por vezes, muitos a emigrarem. Mas todos
ficamcomasaudadedaterratatuadanaalma,conformenósmes-
mos,aquinoBrasil,sonhandovoltar.
Luisilda Lobo - Estudante de Engenharia Eletrônica na Cefet-RJ, e
GuevaradaCruz,estudantedeInformáticanaUFFeatualpresidenteda
AssociaçãodosEstudantesCabo-verdianosdoEstadodoRiodeJaneiro.
PODER E POLÍTICA
125
Aleituradasobrasficcionais,produzidasprincipalmenteen-
tre50e75emAngola,deixapatentequeoprocessodeinde-
pendênciapolíticafazcomqueosprodutorestextuaisseesfor-
cemporreiterarocaráterantitéticoeantinômicodouniverso
simbólico africano, se tomado como ponto de referência o
paradigmabranco-ocidental.Naliteratura,portanto,doscha-
madosanosdaguerrae,mesmoumadécadaantesdeles,per-
cebe-se, com clareza, que “ungido pelos mesmos poderes
polêmicosdonovo,oantiqüíssimonãoéumpassado:éumco-
meço”(OctavioPaz).
Recuperaratradiçãosignificatrazerparaacenadotextoa
marcadaalteridadeangolana,paracomelaatingir-se,aomes-
motempo,amodernidadeeadescolonizaçãodafalaliterária.
Dessemodo,comoacríticasobejamenteaponta,ostextosse
fazem armas de combate, em duplo sentido. Dá-se, então, o
processodedesterritorialização(DeleuzeeGuattari,1977),que
significaumgestodeintervençãopeloqualumgrupominoritário
sefazouvir.
A literatura, assim pensada, recorre com freqüência a um
conjuntodevozescoletivase,demaneirainsistente,amensa-
genspolíticas.Adiferençasetornaoprincipaltraçosemântico
das obras produzidas em tal contexto, pois elas, objetivando
desconstruirodiscursocolonialista,vãobuscarestratégiasdis-
tintasparaseconstruíremcomoseucontrário.
Interessa-nos,jáagora,questionarsobreanaturezadospro-
cedimentos de que se vão valer os textos produzidos no pós-
independência, ou seja, na nova correlação de formas
estabelecidaspeladuplamorte–docolonizadoedocoloniza-
NOVAS COORDENADAS
NA FICÇÃO DE ANGOLA
Laura Cavalcante Padilha
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
126
dor–momentotambémemqueseabalairresistivelmenteoedi-
fícioetnocêntrico.Depoisde75,vemosqueseradicalizamos
sinaisdaequaçãodadiferençaqueperdeseuvalornegativo,
paraconstituir-seumapresençasignificante,semprereafirmada
demodocoletivo.Oguetodeixadeservistocomominimização,
transformando-seemforçarealimentadoradosujeito,cujafala
culturaldelasenutre.Masadmitirasemânticadadiferençanão
significapraticarasintaxedasegregaçãooudanegaçãodoou-
tro,masdarvisibilidadeàscontradiçõesexistentesnasconven-
çõesprópriasoualheias.
Assim,aoassumir-secomosujeitodanovafasehistórica,o
angolanonãodesejaasolidãocultural,oumesmoproporuma
voltaàsorigens.Ooutro,depoisdosséculosXVeXVI,fincou
oseu“padrão”nãosónaterraafricana,masnopróprioimagi-
nário.ALínguaPortuguesa,impostacomoformadeelidiradi-
ferençaporpartedodominador,passaaser,porexemplo,per-
tençadopatrimônioculturalangolano,principalmente,masnão
só,quandosepensaaquestãodovetoraltodessacultura.Faz-
seprimeiroporimposiçãoe,depois,porescolhapolíticaapós
75,alínguaoficialdeAngola.
Tal fato não é sinônimo, no entanto, da aceitação do
etnocentrismooudesuafatalidade,pelocontrário,masumafor-
ça nova que, como presença em ato, grita um mesmo que é,
parasempre,umoutro.Nestejogodepresençaeaçãofirma-se
umpactoficcionaldosmaisinstigantesemnossoséculo.Queo
leitorbrasileiropossaviraconferi-loéodesejodetodosnós,
quesabemosdaimportânciadotraçodessasnovascoordena-
dassimbólicas.
LauraCavalcantiPadilha-ProfessoradaFaculdadedeLetrasdaUniver-
sidadeFederalFluminense,esuaatualdiretora,doutoraemLiteraturas
Africanas,presidentedaANPOLL,conferencistaeautoradolivroEntre
vozeletra-OlugardaancestralidadenaficçãoangolanadoséculoXX
(EDUFF,1995).
PODER E POLÍTICA
127
SobreaquestãodaslínguasafricanasemcontatocomoPor-
tuguês,faz-senecessáriaumareflexãopreliminar,situando-ano
vastocampodasócio–edaetnolingüística.Tratando-sedelín-
guasemcontato,comosãoasnumerosaslínguasafricanasdiante
daLínguaPortuguesa,maistardeseabriramespaçossociaise
étnicolingüísticosparaasliteraturasafricanasescritasemPortugu-
ês,sobretudoapartirdasegundametadedoséc.XIX.
Ésabidoquecoexistiramlínguasnativasaoladodaslínguas
dacolonização,ambasrecebendoempréstimosrecíprocosde
adstrato.Taisespaçosque,deinício,foramplurilíngüese,às
vezes, bilíngües, transformaram-se em locais de intenso
hibridismo,detalformaqueosistemalingüísticodoPortuguês
começouareceberinfluxosfônicos,morfo-sintáticosesemân-
ticos dos idiomas africanos, num processo sócio-e
etnolingüísticodevariedadeedevariação,dentrodeummeio
socialoudeumaculturaespecífica,aindanãosuficientemente
estudado.
Deinício,oPortuguêsseapresentoucomolínguapolíticaou
administrativa,usadaporumaminoriadefuncionários(emAngo-
la,porexemplo)querecorreramaintérpretesparaacomunica-
çãocomopovo,emsuamaioria,falandoapenasváriaslínguas
nativas.InformaoprofessorSalvatoTrigo,noensaio“Diglossiae
literaturasafricanasdeexpressãoportuguesa”,queaíjáaparecem
marcasdecrioulização,com“asimplificaçãodeprocessosgra-
maticaiseareduçãodolequevocabularaomínimoindispensável,
paraqueacomunicaçãosedê”.Taiscrioulos,emgeral,sãopor-
tuguesesapenaspelabaselexical,masjáonãosãopelagramática
LÍNGUAS AFRICANAS EM
CONTATO COM O PORTUGUÊS
(Breve nota sobre o caso angolano)
Leodegário A. de Azevedo Filho
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
128
porforçadainterpenetraçãodossistemasdelínguasemcontato.
Edaíseformam,naturalmente,dialetosmistosouhíbridos.
EssaéasituaçãoespecíficadoPortuguêsemAngola,quealiás
nãoseconfundecomasituaçãodiferenciadadoPortuguêsede
suaimplantaçãosocialnasdemaisnaçõesafricanas.Jánosfinsdo
sécXV,haviaumaligaçãopermanenteentrePortugaleoreinodo
Congo,eissologodepoisdaviagemdeDiogodoCão,em1482,
chegando-seàsPedrasdeLelalá.Talfatointensificou-senoXVI,
com intercâmbio cada vez maior entre portugueses e povos
quicongosatéoXVII,comoindicaSalvatoTrigo,noaludidoes-
tudo.Eacrescenta“queaLínguaPortuguesaerajáconhecidado
reino do Congo ao reino do Dongo, passando pelo reino da
Matambaepenetrandobemnosertão,graças,sobretudo,àação
divulgadoradospombeirosque,inicialmente,eramportugueses
que se embrenhavam no interior para o resgate de escravos e
depoispassouaserdesignaçãodadaamercadoresnegros”.
Noséc.XVII,oPortuguêsjáerafaladoemAngola,massem-
preaoladodaslínguasnativas,estando,noséc.XIX,emfranco
hibridismolingüístico.Noscentroscomerciaisimportantes,assi-
nalaaindaSalvatoTrigo,comoMpinda(noCongo),Luanda,
DondoeBenguela,desenvolveu-seumasociedadebilíngüeou
multilíngüe.Nãoadmira,pois,quealiteraturaangolanaemLíngua
Portuguesaseiniciassenosmeadosdoséc.XIX,quandooprelo
foiinstaladonaquelacolôniaafricana,emborasóapartirdadéca-
dade1930seafirmasseemtermosnacionais,graçasàscondi-
çõesdesócio-etnolingüísticasentãoexistentes,comosevênaan-
tologiaPoesiaangolanamoderna(Bari,Adriática,1981),orga-
nizadaeprefaciadaporFernandaToriello,entreoutrasfontes.
LeodegárioA.deAzevedoFilho-ProfessorTitulardaUFRleTitular
EméritodaUerj,escritoreconferencista.
PODER E POLÍTICA
129
Virgílio de Lemos, um dos grandes nomes da poesia de
Moçambique,foiumdosfundadores,em1951,daRevistaMsaho,
marcorenovadordapoéticamoçambicana,queatéentãosepau-
tarapeloscânonesdaLiteraturaPortuguesa,impostapelapolítica
assimilacionistadacolonização.
SuaproduçãopoéticaemMoçambique,entre1944e1963,
sefezsobaheteronímia,tendoescritocomoelemesmoeatravés
dosdisfarcesdasmáscarasliteráriasdeDuarteGalvão(de1951a
1959), de Bruno dos Reis e de Lee-li Yang (de 1950 a 1953).
Vírgilioparticipoudaresistênciamoçambicana,tendocolaborado
emumjornaldeesquerda.
Os poemas de Tempo agreste, de Duarte Galvão, um dos
seusheterônimos,éomaispreocupadocomosocial.Em1960,
esses textos foram publicados na antologia Poemas do tempo
presente,apreendidapelaPIDE,apolíciadeSalazar.Presoem
1961,aoserlibertado,VirgíliofoiviveremParis,onderesidehá
35 anos, tendo sido jornalista, embora nunca tenha deixado o
ofíciodepoeta.
Algunscríticosdividemasuaobraemdoisgrandesmomentos:
odolirismoreivindicativodebuscadasmatrizesmoçambicanas
dapoesiaeodolirismocosmopolita,do desenraizamento,da
expressãosintética,incisiva,construídaporintermédiodemetáfo-
rasinesperadasesurreais.Naverdade,essesmomentosnãosão
tãoestanques,poissuaestéticaseorganizaporciclosesubciclos
quesemovimentamemespirais.
Eleprópriodizque“seubarrocoéestético”,poisconsistena
seduçãodavertigemenarebeldiaderitmos,imagens,sintaxes.
Poetabilíngüe,publicoutrêslivrosemfrancês: L’objetàtrouver
VIRGÍLIO DE LEMOS
Pesquisa dos alunos do Setor de Literaturas
Africanas de Língua Portuguesa da UFRJ
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
130
(1988), L’obscene pensée d’Alice (1989) e L’aveugle et
l’absurde(1990).EmPortuguês,figuraemváriasantologias,
tendoaindacercade700poemasqueaguardamumaedição.
Pesquisa dos alunos do Setor de Literaturas Africanas de Língua
Portuguesa da UFRJ, coordenado pela professora Carmen Lúcia
Tindó Secco.
PODER E POLÍTICA
131
Brasil em
transição
PARTE IV
PODER E POLÍTICA
133
Quemtemmedodoprotecionismoindustrial?
Maria Antonieta P. Leopoldi 135
Osdireitos dacriançaedoadolescentenoséculo XXI
Estela Scheinvar 139
Globalizaçãofinanceiraehegemoniaamericana
Luís Fernandes 141
No limiar de um novo tempo
Rivo Gianini 143
Prognósticos para o Brasil
Maria Jacintha Sauerbronn de Mello 145
Mercosul e empresariado
Alberto Carlos Almeida 147
O Direito na sociedade brasileira no próximo século
José Ribas Vieira 149
Ocidadãobrasileironoterceiromilênio
Lúcia Miranda Boaventura 151
Machado de Assis visita O Correio e fala do Brasil em tran-
sição
Iterbio Galiano 153
Índice da Parte IV
PODER E POLÍTICA
135
Vivemoshojeummomentodemudançadedireçãodomo-
deloindustrial,queseestruturouaolongodesteséculonoBrasil.
Nele,oprotecionismotarifárioecambialgeneralizadofoiame-
lhorestratégiadisponívelparapropiciaraindustrializaçãorápi-
da.Masessemomentodahistóriadaindústriabrasileiraparece
ter-seencerrado.
Apolíticaindustrialhojeseconfundecomapolíticadecomér-
cio exterior e desce ao nível local com a guerra fiscal entre os
estadosávidosparaatrairnovosinvestimentosprodutivospara
suasregiões.Elapassouasignificarareestruturaçãoindustrial,a
buscadeeficiênciaedecompetitividadedasempresasedeseus
produtos.Nestenovocontexto,apalavraprotecionismoganhou
significadopejorativo.Deixoudereferir-seapolíticasdeestímulo
aocrescimentodetodoosetorindustrialparadesignaraproteção
aempresasprivilegiadas,a“cartórios”,asetoresobsoletos.
Noentanto,ofuturodaindústriabrasileira,queestásendo
gestadonosanos80e90,nãopodedeixardeladooseupassa-
do,ondeEstado,protecionismoeliderançaempresarialforam
elementosdeterminantesparaoarrancodesenvolvimentistada
eradaindustrializaçãoporsubstituiçãodeimportações.Atrajetória
doprotecionismoindustrialcomeçouhámaisdeumséculono
Brasil,quandoaindústrianascentenoRiodeJaneirolutou,junto
aogoverno,pormedidastarifáriasparasobreviveràconcorrên-
cia dos produtos europeus. Foi na era Vargas (1930-1945) e
depoisnadécadade50quesedefiniuaopçãoporumapolítica
dedesenvolvimentofundadanoprotecionismoindustrial.Nessa
fase,apolíticacambial,muitomaisqueatarifa,centralizoua
políticadeproteçãoàindústria.
QUEM TEM MEDO DO
PROTECIONISMO INDUSTRIAL?
Maria Antonieta P. Leopoldi
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
136
Ogovernomilitar(1964-1984)retomouoreferencialglobal
desenvolvimentista,viabilizandoumaestratégiadecrescimento
industrialcomendividamentoexterno,quelançouoBrasilnum
novopatamarindustrial,masquetevecomocontrapartidauma
décadaderecessãoedecrisedadívidaexterna.Paracrescera
taxasde11%aoanonafasedo“milagre”(1968-1974),oEsta-
dousoudevariadasformasdeproteçãoindustrial:tarifas,subsí-
dios,créditosgovernamentaiseexternos,preçoscontrolados
dosinsumosindustriais,políticadeexportaçãodemanufaturados
entre outros. Foi a alocação autoritária da proteção a grupos
ineficientesqueconferiucaráternegativoaoprotecionismoin-
dustrial.Aondaneoliberaldosanos80reforçouaindamaisa
carganegativacontraopapelprotetordoEstado.
A mudança de regime em 1985 traz uma alteração no
referencial que orienta a política industrial. A idéia de
protecionismoérejeitadacomomaisumtraçodoentulhoauto-
ritáriodequeaNovaRepúblicaprocurasedesfazer.Osnovos
referenciaisdecrescimentoapontamagoraparaoenxugamento
doEstado(privatização,desregulamentação).Masfrenteàur-
gênciadepromoverareestruturaçãoindustrial,quemseocupa-
rádeorientaredefinanciarasempresasnestenovocicloindus-
trial?Quemtreinaráonovotrabalhadorerealocarátrabalhopara
os que são excluídos deste novo ciclo? Quem enfrentará os
embatescomerciaisnaOrganizaçãoMundialdoComércio,que
podemlevaràdestruiçãodesetoresinteirosdaeconomiabrasi-
leira? Quem poderá estabelecer os limites para a entrada do
capitalestrangeiroedosprodutosconcorrentesparaquenão
ocorraaquiumadesindustrialização?
EstassãotarefasparaumnovoEstado,emprocessodere-
forma.Umanovacoalizãodeinteressesdeempresáriosindus-
triaislocaiscomaburocraciagovernamentalpodedarlugara
numnovoprotecionismo.Nãomaisumprotecionismogenerali-
zado,masumconjuntodepolíticassetoriaisquedefendama
indústria brasileira, estimulem a competitividade, apóiem a
reestruturaçãodasempresassemcausardanossociais,criem
barreirassetoriaisdeproteçãocomercial,formulempolíticasde
empregoerequalificaçãodotrabalhadoreteçamumanovarede
deseguridadesocial.
PODER E POLÍTICA
137
MariaAntonietaP.Leopoldi-ProfessoradoProgramadePós-gradua-
çãoemAntropologiaeCiênciaPolíticadaUFFedoProgramadeApoio
aNúcleosdeExcelência,ligadoàFundaçãoGetúlioVargas.Doutoraem
CiênciaPolíticapelaUniversidadedeOxford.
Apolíticaindustrialsobonovoprotecionismovaidepender
denovosformuladoresdereferenciais,que,comonopassado,
virãodasagênciasburocráticas,dasliderançasempresariais,dos
quadrosuniversitáriosedasinstituiçõessociais.Elespoderão
sairtambémdoCongresso,organismoqueganhacadavezmai-
orimportâncianasdecisõessobreoquemudar,emquedireção
mudarecomomudar.
Tudoindicaqueosnovosformuladoresnãovirãodosparti-
dospolíticos,poisestesnãosetêmmostradocapazesdeformar
novosquadros,nemdeconstruirumavisãoprópriasobreofu-
turodasociedadebrasileira.EsteéograndedilemadoBrasil
hoje,umavezqueasgrandesmudançasdereferencialcontem-
porâneas,naInglaterradeThatcheredeTonyBlairounaFran-
çadeMitterrand,tiveramorigemempartidospolíticos.
PODER E POLÍTICA
139
Os balanços pedagógicos do fim deste milênio apontam
parapráticasdogmáticashegemônicasdeexclusãoedesub-
missão.Oacúmulodeconhecimentoproduzidopelaciviliza-
çãoocidentaleapluralidadeculturaltêmsidopasteurizadose
filtradosemnomedepoderespolíticos,tendocomoresultado
aexclusãoatravésdosilenciamento. Verdadesmíticasdesco-
ladas de processos, fatos distantes decretados como “a nos-
sa”históriasãoalgunsdosprincípiospedagógicosincorpora-
dosnocotidiano.Nãoéumacaso,portanto,afaltadepartici-
pação,decontestação,dequestionamentos,mesmonostem-
posmaisduros.Oconhecimentonãoétransmitidocomoum
produtodeprocessosconcretosepalpáveis,datadoselocali-
zados.Assim,oindivíduoétidocomoumsujeitodistante,alheio
ereceptador,ondesuasproblemáticasnãosãohistóricas,mas
“pessoais”. Históriaéoqueos“donosdosaber” decretam.
Transformarestepanoramaétarefaparaumnovomilênio.
Alguns subsídios o Estatuto da Criança e do Adolescente –
ECA–coloca.EsteinstrumentolegalconfereDireitosàpopu-
lação de 0 a 17 anos. Porém, distanciando-se de promessas
messiânicasdesmobilizadoras,propõeformasdeintervenção
concretasparaasociedadecivilnagestãodapolíticapública.
Conferir a relação de cidadania para setores tutelados na
modernidade implica em um desafio pedagógico. Construir
relaçõesdecidadaniaéumaconquista.Nestenível,acimade
qualquer promessa, o ECA é o chamamento da sociedade
civilparaque,definindoquaisseusconflitosecompreendendo
as condições em que se produzem, se busquem formas de
OS DIREITOS DA CRIANÇA E DO
ADOLESCENTE NO SÉCULO XXI
Estela Scheinvar
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
140
Estela Scheinvar - Mestre em Sociologia pela Universidade Nacio-
nal Autônoma do México, socióloga do SPA/UFF e doutoranda em
Educação.
enfrentá-los,participandodemocraticamentedaconstruçãode
novasrealidades,atravésdosConselhosdosDireitosdaCri-
ançaedo Adolescente.Conhecimentoeparticipaçãovãode
mãos juntas. Tarefa nada fácil. O ECA não é uma doação, é
umapelocivil.Paraisto,tem-sepelafrente,maisummilênio.
PODER E POLÍTICA
141
AsferidasabertaspelacrisefinanceirainiciadanaÁsiaainda
estãolongedesecicatrizar.Oriscodeataquesespeculativosso-
breoschamados“mercadosemergentes”persistecomofatorde
instabilidadenosistemafinanceirointernacional.Paragarantira
estabilidadedassuasmoedasnacionaiseacontinuidadedasapli-
caçõesdecapitalestrangeiro,ospaísesemdesenvolvimento(o
Brasil,inclusive)têmsidoforçadosadesviarinvestimentospúbli-
cosfundamentaisnasáreasdaeducação,saúde,cultura,ciênciae
tecnologiapararealizaroslucrosdegrandesespeculadoresinter-
nacionais. Tudo para atender às chamadas “exigências da
globalização”Mas,afinal,queglobalizaçãoéessa?
Paramuitosobservadoresacrisefinanceiradosegundose-
mestre do ano passado constitui o exemplo definitivo da
“globalização”.Portrásdestaconstataçãoestáumanoçãomuito
difundidahoje:adequeomundoestariavivendoumanovaetapa
dedesenvolvimentoemqueograndecapitalsedescoladaseco-
nomiasnacionaiseadquireumanaturezaessencialmenteglobal,
limitandoopoderpolíticoeregulatóriodosestadosnacionais.
Esteprocessoestariamaisadiantado,precisamente,naárea
financeiro-monetária,constituindoummercadoglobalplenamente
integradoqueopera(viatelemática)deformacontínuaeemtem-
poreal,semqualquerconstrangimentoe/ouregulaçãodeautori-
dadesnacionaisouorganismosmultilaterais.Apresentecrisefi-
nanceiramundialseriaexpressãodisto.
Mas,serámesmo?Ocolapsodoregimefinanceiro-monetário
internacionaldeBrettonWoods(ancoradonaparidadefixado
dólarparacomoouro)nosanos70levouaosurgimentodetrês
áreasmonetáriasprincipaisnaeconomiamundial,polarizadas,res-
pectivamente,pelodólarnorte-americano,pelomarcoalemãoe
GLOBALIZAÇÃO FINANCEIRA
E HEGEMONIA AMERICANA
Luís Fernandes
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
142
peloienejaponês.Asrelaçõesentreestastrêsáreas,noentanto,
estãomuitolongedeseremsimétricasouequilibradas.Odólar
continuasendoresponsávelpor80%dasoperaçõesmundiais
interbancárias,75%dasoperaçõesdosmercadosinternacionais
decapitaisedoisterçosdocomérciomundialedasreservasinter-
nacionais.
ComoaemissãododólarémonopóliodoEstadonorte-ame-
ricano,istoconfereàsautoridadespolíticaseeconômicasdosEs-
tadosUnidosumformidável(enada“limitado”)poderdeinterfe-
rênciasobreaoperaçãodosistemafinanceiromundial.Aprópria
escaladadeliberalizaçãoedesregulaçãofinanceira,quevarreo
mundo há quase duas décadas, tem por base o protagonismo
políticodosEstadosUnidos,que,enquantopotênciadominante,
buscarelançarasuahegemoniaviaainstrumentalizaçãounilateral
dasposiçõesdeforçaocupadaspelodólarnaeconomiamundial.
Esteprotagonismovisa,justamente,aabrirmercadosmais
amplosparaoseucapital,forçandoorestodomundoadesman-
telarinstrumentosfundamentaisdesoberanianacionaleproteção
social.Nosmarcosdacrescenteinternacionalizaçãodocapitalna
esferafinanceira,acriseiniciadanaÁsianãoatingiuomundopor
igual.Elavitimou–eseguevitimando–principalmenteoschama-
dos“mercadosemergentes”(adospaísesemdesenvolvimento
queoptarampormoldarseussistemasfinanceiro-monetáriosna-
cionaisàsexigênciasdemaiormobilidadeinternacionalparaoca-
pital)eoJapão.Podemosvislumbrar,comoconseqüência,ain-
tensificaçãodamaréliberalizanteemumaáreadomundoquese
tinhamantidorefratáriaaelaatéaqui:aÁsia.Demodogeral,a
criseapontaparaaintensificaçãocombinadadahegemonianorte-
americanaedavulnerabilidadedospaísesemdesenvolvimento.
Equantoaopovo?Ah!este,segundoalógicadominante,“é
apenasumdetalhe...”
LuísFernandes-ProfessordoDepartamentodeCiênciaPolíticadaUFF
edoInstitutodeRelaçõesInternacionaisdaPUC-RJedoutoremCiência
PolíticapeloIuperj.
PODER E POLÍTICA
143
AolongodanossaHistória,aliteraturaemtermosdofutu-
rodoBrasilémuitorica.Oprimeirodocumentooficial,elabo-
radoporPeroVazdeCaminha,jáafirmavaoteorprodigioso
da terra recém-descoberta. Em nosso século, nos anos 20,
AfonsoCelsoratificavatalimpressãoaoescreverPorqueme
ufanodomeuPaís.Deláparacá,SérgioBuarquedeHolanda
discorriasobreanossacordialidadenoconsagradoRaízesdo
Brasil e Gilberto Freira na trilogia Casa grande e senzala,
Sobrados e mucambos e Ordem e progresso interpretava,
compeculiarotimismo,asbasessociológicasdobrasileiro.
StephanZweig,escritoraustríacoqueresidiuemPetrópolis,
legou nos anos 40 o Brasil, país do futuro, enaltecendo as
virtudesdeumanaçãodestinadaasetransformarnumagran-
de potência. Em meio a essas diversas leituras do Brasil, o
francês Jacques Lambert desvelou, em estudos e pesquisas,
umpaísdegrandepotencial,mastambémdegrandescontras-
tes, o que o levou a escrever Os dois Brasis, onde apontava
contradiçõeseconômicasesociaisqueatéhojepersistem.
DarcyRibeiroafirmounoexcelenteeoportunoPovobra-
sileiro – a formação e o sentido do Brasil que “os brasileiros
sãohojeumdospovosmaishomogêneoslingüísticaecultural-
menteetambémumdosmaisintegradossocialmentedaterra.
Falamumamesmalíngua,semdialetos.Nãoabrigamnenhum
contingentereivindicativodeautonomia,nemseapegamane-
nhum passado. Estamos abertos para o futuro”. Acrescenta
ainda Darcy que “nosso destino é unificarmos com todos os
latino-americanospornossaoposiçãocomumaomesmoan-
tagonista,queéaAméricaanglo-saxônica,parafundarmos,
talcomoocorrenacomunidadeeuropéia,anaçãolatino-ame-
NO LIMIAR DE UM NOVO TEMPO
Rivo Gianini
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
144
ricanasonhadaporBolivar”.
Dessa forma, apesar de todas as dificuldades (anões do
orçamento, fraudes do INSS, precatórios, compra de con-
gressistasparaapoiaremogoverno,aimpunidadegeneraliza-
da, a exclusão social que penaliza a maior parte dos brasilei-
ros),estamosconstruindoeporcertoconstruiremos,anação
rica,democrática,socialmentejusta,materialeespiritualmente
desenvolvidadeamanhã.
Rivo Gianini – Professor adjunto da UFF e de Pós-graduação da
UniversidadeCatólicadePetrópolis,presidentedoComitêdaAlian-
ça Francesa de Niterói, diretor regional da Associação Nacional de
PolíticaeAdministraçãodaEducaçãoesubsecretáriomunicipalde
DesenvolvimentodeNiterói.
PODER E POLÍTICA
145
“Ascondiçõesdeexistênciadeterminamaconsciência”.Esta
frasenosajudaacompreenderascontradiçõesquetornamnebu-
losososprognósticosparaoBrasildopróximomilênio.Temaque
seconstituienquetepermanenteentrecientistaspolíticos,filósofos,
economistaseartistas,ofuturodopaíspreocupaatodosquese
consideramagentesdaHistória.
Paísmestiço,oBrasilsurge,nocenáriomundial,dointercurso
detrêsculturasdistintas–índios,africanoseeuropeus–eseca-
racterizapelosincretismocultural.Amiscigenaçãodepovosetni-
camentetãoheterogêneosassinalou-sepelaviolência,escravidão,
assassinatosetodasortedeexploraçãoedesigualdadessociais.
Nossaextensãoterritoriallevouos“invasores”,ou“coloniza-
dores”ainvestiremnaagricultura,assimcomoariquezadosolo
sugeriuamineração,marcandoaHistóriacomosciclosdacana,
caféeouro,ondeobraçoescravoeraaprincipalferramentade
trabalho.
Desdeoinícioaorganizaçãosocialsefundamentanadivisão
declasses,cabendoàelitedominante–branca,ricaeeducada–
todososprivilégiosedireitos,emdetrimentodagrandemassa
populardeescravosafricanoseíndios.Historicamente,eatéhoje,
a falta de poder aquisitivo expropria o operário da produção,
mantendoostrabalhadores–ruraleurbano–alienadosealijados
domercadofinanceiro,cujoobjetivoéatenderàdemandaexter-
na,eaumentarolucroempresarial.
Odeslocamentodavidaculturalparaacolônia,provocado
pelainvasãonapoleônica,gerouaopulênciadealgumascidades–
OuroPreto,Salvador,Olinda,RiodeJaneiro–masosprivilégios
permanecemrestritosàeliteminoritária,semmudançasnaestru-
turasocial,ondesãonítidososlimitesentrea“casagrandeea
PROGNÓSTICOS PARA O BRASIL
Maria Jacintha Sauerbronn de Mello
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
146
senzala”. Hoje, a globalização introduz um caráter de
permissividade,devale-tudocomoregradojogonalivreconcor-
rênciadomercadoeconômico,agravandoasdiferençasdeclas-
ses–ricosepobres–quesubmissos,violentadosobedecemàlei
domaisforte.Desempregados,favelizados,semescolaridade,
somosmarginaisnoprocessodedesenvolvimentoeconômico
mundialevendemosoBrasilempedaços.
Odesamparo,insegurança,violênciaecriminalidadecarac-
terizamamisériadapopulaçãobrasileira,conflitandocomoluxo
emqueviveaelitedopoder.Tomarconsciênciadarealidadee
participardemovimentosquefavoreçamaexpressãodenossos
valoresmorais,espirituaiseestéticoséatenderàslegítimasne-
cessidadesdopovobrasileironaviradadoséculo.
MariaJacinthaSauerbonndeMello-FormadaemFilosofiaediretora
doEspaçoCulturalMariaJacintha,emNiterói.
PODER E POLÍTICA
147
“Aburguesiaimprimeumcarátercosmopolitaàproduçãoe
aoconsumoemtodosospaíses.Paradesesperodosreacionários,
elaretirouàindústriasuabasenacional.Asvelhasindústriasnaci-
onaisforamdestruídasecontinuamasê-lodiariamente”.
“Emlugardasantigasnecessidades,satisfeitaspelosprodu-
tosnacionais,nascemnovasnecessidadesquereclamam.para
suasatisfação,osprodutosdasregiõesmaislongínquasedos
climasmaisdiversos.Emlugardoantigoisolamentoderegiõese
naçõesquesebastavamasipróprias,desenvolvem-seuminter-
câmbiouniversal,umauniversalinterdependênciadasnações.E
istosereferetantoàproduçãomaterial,comoàproduçãointe-
lectual.Ascriaçõesintelectuaisdeumanaçãotornam-sepropri-
edadecomumdetodas.Aestreitezaeoexclusivismonacionais
tornam-secadavezmaisimpossíveis”.KarlMarx,Manifesto
do Partido Comunista
Marx não viveu para ver a formação e consolidação do
Mercosul.todavia,aspassagensacima,retiradasdeseuescrito
mais popular, mostram que ele foi, ao menos nesta área, um
visionário.Defato,existemabundantesevidênciaempíricasque
revelamqueaformaçãoeconsolidaçãodoMercosultendea
encontrarpoucasresistênciasdacomunidadeempresarial.Mais
doqueisso,asvisõeseaçõesempresariaistendemacontribuir
positivamenteparaaintegração.
Consideroqueistoocorreporquecadainvestimentoempre-
sarialemumoutropaísdoblocopolíticoeeconômico,assim
comocadacontratodeimportaçãoeexportaçãojásãoações
que aprofundam a integração. Estas ações não dependem da
vontadedenenhumgovernoemparticularegeramoutrasinú-
merasaçõesquereforçamaintegração,sãooschamadosspill-
MERCOSUL E EMPRESARIADO
Alberto Carlos Almeida
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
148
over effects.
Nãohádúvidasdequeosdirigentesempresariaissãoatores-
chaves no processo de integração. O sucesso desta em muito
dependedasescolhasdaqueles.Maisinvestimentosexternose
maiscomércioexteriorlevarãoosgovernos,comojávêmfazen-
do,atomarmedidasqueintegremmercadosqueanteseramuni-
dadesemseparado.Épossívelargumentarqueosmercadosna-
cionaisnãosurgiramdeformanatural,suagêneseemmuitode-
pendeu da ação do Estado. Este impôs o mercado aos grupos
queaeleresistiam.Contudo,noquetangeàformaçãodemerca-
dosúnicos,somatóriodeváriosmercadosnacionais,pareceque
o processo é diferente. Não é mais o Estado que antecede o
mercado,masagoraéomercadoqueantecedeoEstado.
Osblocospolíticoseeconômicos,formadosporgruposde
países,tornam-semercadosúnicos,ouaomenoscaminhamantes
nestadireção,parasóentãopassaremaconsideraranecessida-
dedacriaçãodeinstituiçõessupranacionaisouintragoverna-
mentais.Asatividadeseconômicasandamemritmomaisveloz
doqueasaçõespolíticas,porexemplo,antesdeseconsiderara
necessidadedeumEstadosupranacional,cominstituiçõesque
façamvalerleiseregulamentos,constitui-seummercadoque
tenhaumamoedaúnica.
Considerando-seque,nesteprocesso,osdirigentesempre-
sariaissãoosatoresquedefinemoritmoeoníveldaintegração,
ebaseadonosdadosaquiapresentados,pode-seafirmarquea
integração do Mercosul tende a se aprofundar, a se acelerar.
Brasil,Argentina,UruguaieParaguaiestãosubmetidosaeste
fenômenosocial.
AlbertoCarlosAlmeida-ProfessordoDepartamentodeCiênciaPolíti-
cadaUFF,membrodoProgramadeApoioaNúcleosdeExcelênciae
doutoremCiênciaPolítica.
PODER E POLÍTICA
149
Em1997,ojuristaefilósofoespanholAntônioPerezdeLuño
organizouumaobraseletiva,naqualváriosautoreseuropeus
desenharamoscenáriospossíveisdasmudançasdasordensju-
rídicasdeseusrespectivospaísesnoterceiromilênio.Pudemos
contarcominformaçõespreciosas,entreoutras,arespeito,por
exemplo, deTecnologia e o Direito,DemocratizaçãodoDi-
reito Constitucional, Ética etc..
Éfácilconstatarque,nanossasociedade,está-secarecendo
depromoverumareflexãoparatraçaroperfildojurídico.Para
estimularodebate,gostaríamosdeapontaralgumaspossíveis
tendências.Tendênciasestasqueestarão,emrealidade,contra-
ditoriamentearticuladasentresi.
Assim,fatalmente,aestruturadoDireitoemnossopaísca-
minha,comoemoutrassociedade,paradesregulaçãoestatal.
Haverá,cadavezmais,ofortalecimentodavontadedaspartes.
Isto é, a presença do contrato será, progressivamente,
hegemônicocomonúcleodeumanovaregulaçãojurídica.Pis-
tasdessefuturopróximoencontram-se,também,nasnegocia-
çõesdiretasoumecanismosnovosdemediaçãodeconflitos.A
disciplinadojuizadoarbitraleainstituiçãodosjuizadosespeciais
civisecriminaisrepresentam,já,oanúnciodosnovostempos.
Oimpactodainternacionalizaçãoeconômica(globa-lização)
acarretará,materialmente,opredomíniomaiordoDireitoInter-
nacionalemtodososseusaspectossoboDireitoInterno.Em
conseqüência,percebe-secomoacategoriacontratoampliada
facilitará,maisainda,astrocasdebensnummercadoplanetário.
Numaoutraponta,visualiza-seapresençadeorganizações
internacionaiscomoa“OrganizaçãoMundialdoComércio”
O DIREITO NA SOCIEDADE
BRASILEIRA NO PRÓXIMO SÉCULO
José Ribas Vieira
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
150
(OML),determinandoaspolíticasdeimportaçãoeexportação
dos estados. Não deve ser esquecido o fenômeno de
internacionalizaçãodacategoriadecrimenassuasmúltiplasfor-
mas(crimeecológico,crimefinanceiroeonarcotráfico)queexigi-
ráinstrumentosjurídicosacimadodireitointernodecombatê-las.
Numacontraposiçãoaessatendência“privada”,oDireito
Constitucionalabreperspectivasparaomaiorfortalecimentode
umaleituraéticadosDireitosFundamentais.Acrescente-se,tam-
bém,queateoriaconstitucionalpoderáabrircaminhoparauma
interpretaçãodasnormasdaconstituiçãocomparticipaçãomais
diretadaprópriasociedade.
Ao apontarmos essas tendências do nosso direito na vizi-
nhançadonovomilênio,compartilhamosdomesmoprincípio
deesperançadeummundomaisjusto,comotraduzem,aliás,os
textosorganizadosporPerezdeLuño.
José Ribas Vieira - Professor titular de Direito da UFF.
PODER E POLÍTICA
151
Nummotoristadetáxi,percebiarevoltadocidadãocomum
que,nãotendocursadoDireito,compreendia,porém,oabsurdo
aqueésubmetidaapopulaçãobrasileiranaquestãojurídicae
clamavapeladesobediênciacivil.Suaindignaçãocomeçavacom
asnormasabsurdasdonovoCódigodeTrânsitoeterminava.ao
comentar que, enquanto o prefeito contrata ex-PMs por R$
1.000,00parafiscalizarotrânsito,professoresemédicosmunici-
paisganhamametadedestesalário.Ebradava:“Opovounido
devedeixardepagarimpostos,sóassimessesgovernantesepar-
lamentaresvãomudaromododeagir!”
Alémdasleisinjustas,digeridassemreação,ocidadãoconvi-
vecomoanalfabetismo,asaúdeeaeducaçãosucateadaseum
desempregocrescente.Aomesmotempo,vêumgovernopreo-
cupadoemsocorrerbancosepressionaroCongressocomver-
basecargos,paraqueaprovereformasprejudiciaisàpopulação,
comoaquestãodaaposentadoriaouleisquefacilitemreeleger
atuaisgovernantes.
ObrasileironoTerceiromilênioprecisarecobrarsuacidada-
nia,interferirnoprocessoadministrativo,jurídicoelegislativo.A
escolanaviradadoséculoensinaráqueoEstadofoicriadopara
resolverconflitosentrecidadãoseassegurardireitosatodos,exi-
gindotambémdetodosocumprimentodosdeveres.OEstado,
nasuaessência,nãopoderiacompactuarcomprivilégios,nem
comaperpetuaçãodopoder.
OPríncipedeMaquiavel,queusavadetodososmeiospara
justificarseusfins,nãopoderátermaislugaremnossopaís,como
elejánãomaisexisteemmuitoslugares.Obrasileirodonovo
milênioprecisaparticipardogovernoatravésdefórunspróprios,
O CIDADÃO BRASILEIRO
NO TERCEIRO MILÊNIO
Lúcia Miranda Boaventura
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
152
cobrarpromessasdecampanha,vigiaresugerirousodasverbas
públicas.Cadabairrooudistritodelegariaarepresentantesafun-
çãodelevaraosgovernantes,legisladoresejuízesasdeliberações
deseusnúcleospopulacionais.
OcidadãodoséculoXXIsesentirápleno,quandoperceber
queoseubem-estarsóserácompletoseapopulação,comoum
todo,viveremcondiçõesdignaseforalçadaàcidadaniarespon-
sáveleconsciente.
LúciaMirandaBoaventura-ProfessoradeHistóriadoColégioEstadu-
alAntônioPradoJúnior,mestreemHistóriadaAméricapelaUFFe
coordenadorado“ProjetoLeituraeCultura”,doProjetoSerVivo.
PODER E POLÍTICA
153
Aguardamosansiosos,naúltimaterça-feira,avisitadomaior
dosescritoresbrasileiros,JoaquimMariaMachadodeAssis,à
redação de O Correio, para falar sobre o Brasil em transição
aonovomilênio.Osminutosvoavameele,nadadechegar.Ao
cairdatarde,barulhosnaescada.Eraele,aresmungardificulda-
desparasubirosdegraus.
Descemose,numapequena,masconfortávelsala,orecebe-
mos,semofertar-lhecafé,bebidaproibidaporseumédico.Ao
pegarmosogravador,omestretartamudeou:“Aívindes,inquie-
tassombras.”Fingimosnãoouvirecomeçamosaentrevistá-lo.
O Correio: Como o senhor vê o próximo século?
M.A:Tudoistocansa,tudoistoexaure.Souumarquitetode
ruínas.Registreistonasuamente:segundoumapalavraantiga,
nadaexistequesejanovo.ALuanãoéoutraLua.Océuazulou
embruscado, as estrelas e as nuvens, o galo da madrugada, é
tudoamesmacoisa.Ah!eternarepetição.Todosinventamo
inventado.OpróximomilênioeoBrasilirãoporaí...
Tudo isso é descrença?
Fartodevendavais,naufrágios,boatos,mentiras,polêmicas.
Farto de ver como se decompõem os homens, acionistas,
diretores,importadoreseindustriais.Fartodemim,detodos,
dosilênciosemquietação.Nestasociedadedecumpadrismos,
aténosnegóciosdaságuasasujeiranãoépassadaalimpo.
AosgovernosdaRepúblicafaltamduasqualidadesessenci-
ais:majestadeedignidade.OsoficiaisdoExércitodividemcom
DeusaonisciênciaecomoPapaainfabilidade.Adisciplinados
MACHADO DE ASSIS VISITA O CORREIO E
FALA DO BRASIL EM TRANSIÇÃO
Iterbio Galiano
EDIÇÕES ANTERIORES - VOL. II
154
partidoseanaturalsujeiçãodoshomensàsnecessidadeseinte-
resses comuns não podiam ser aceitas a um espírito que, em
outraesfera,dispunhadesoberanaliberdade.
Eanossaliteratura?
De poetas de trem. Quanto à minha carreira literária, está
feita.Praqueatarasduaspontasdavidaerestaurarnavelhicea
adolescênciaederramarcríticasemaiscríticas?
Exerceracríticaafigura-seaalgunsqueéumafáciltarefa,
comoaoutrospareceigualmentefáciladelegislador.Infeliz-
mente,éaopiniãocontráriaquedomina,eacrítica,desampara-
dapelosesclarecidos,éexercidapelosincompetentes.Idéias
sempernaseidéiassembraços.
ÀentradaapressadadaeditoradetextosdeOCorreio,Ma-
chadodeAssissorriueacatousuasintervençõesàentrevista.
E os nossos políticos?
Mire-se no espelho do alferes do meu conto: quem entra
paraaPolíticasetransmuta,viraoutro.Oimportanteéserme-
dalhão,aparentarser,brilharevencernavida.Aovencedor,as
batatas! Ah!Avidaéumaópera.
Globalizaçãooumundialização?
Podebuscaraespeciariaalheia,mashádeserparatemperá-
lacomomolhodesuafábrica.Paraosentendidos,poucaspa-
lavrasbastam.
No ano 2001, o amor será outro?
Nãohácomoapaixãodoamorparafazeroriginaloqueé
comumenovooquemorredevelho.Todavia,amelhordefini-
çãodoamornãovaleumbeijodemoçanamorada.
Insistimos: e o Brasil em transição?
Pulhices!ComoaCapitudapraiadaGlóriajáestavadentro
da de Matacavalos, o Brasil futuro já esta dentro deste aqui,
como a fruta dentro da casca. Concluo que este mundo é um
imensotoneldemarmelada.
Porhoje,basta.Despeço-me.
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EDITORA ÁGORA DA ILHA
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Dalma nascimento poder e politica

  • 1.
    PODER E POLÍTICA 1 Podere política EDITORA ÁGORA DA ILHA EDIÇÕES ANTERIORES - Volume 2 Org. Dalma Nascimento
  • 2.
    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 2 COPYRIGHT: Ágora da Ilha Livraria e Editora Ltda/Jornal O Correio RIO DE JANEIRO - RJ. TEL.: 0 XX 21 - 393 4212 DIREITOS DESTA EDIÇÃO RESERVADOS À EDITORA. É PROIBIDA A REPRODUÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTA OBRA SEM SUA AUTORIZAÇÃO EXPRESSA. CAPA: Editora Ágora da Ilha. Ilustração: Escravo, do artista mexicano José Clemente Orozco RIO DE JANEIRO, DEZEMBRO DE 1999 EDITOR: PAULO FRANÇA EDITORA ÁGORA DA ILHA - TEL.FAX: 0 XX 21 393 4212 E-mailagorailh@ruralrj.com.br EDIÇÕESANTERIORESVOL.II/Poder e política Org. Dalma Nascimento Editor responsável: Paulo França RiodeJaneiro,dezembrode1999 156páginas Editora Ágora da Ilha - ISBN 86854 Literatura brasileira CDD - 869B Ensaiosemportuguês 869.4 FICHA CATALOGRÁFICA
  • 3.
    PODER E POLÍTICA 3 Aediçãodojornal“Paraqueserveopoder”teveaeficiente colaboraçãodoantropólogo,professorJoséSávioLeopoldi, daUFF,empenhadoemcontactararticulistasquediscutissem questõesrelativasaotema. Para“OcaldeirãodaAméricaLatina”, OCorreiocontou comoauxíliodasprofessoras-doutorasLeilaRoedel,deHistó- ria,daUFRJ,eMárciaParaquett,deLínguaeLiteraturaLati- no-americana,daUFF.Ambasconvidaramespecialistasefize- ramocopidesquedealgunstextos. Quantoà“ÁfricadeLínguaPortuguesa”,foiintensooapoio daprofessora-doutoraCarmenLúciaTindóSecco,coordena- dora do Setor de Literaturas Africanas, da UFRJ, indicando nomes,enviando-nosinformaçõessobrefatoshistóricos,além de copidescar textos de seus alunos e participar do processo editorialdaquelenúmero. Parao“Brasilemtransição”,agrandecolaboraçãoveioda doutoraMariaAntonietaLeopoldi,professoradoProgramade Pós-graduaçãoemAntropologiaeCiência, daUFF, edoPro- gramadeApoioaNúcleosdeExcelência,aosugeriroassuntoe articulistaseselecionartextosdeseusorientandos. Aosprofessoresacimamencionados,osagradecimentosda EditoriadeOCorreio. Agradecimentos
  • 4.
    PODER E POLÍTICA 5 Parapreservaramemóriadesignificativostextosdeantigos númerosdeOCorreio–umjornalculturalque,comoumfórum dedebateepesquisa,visaadiscutirtemasdecandenteatualidade –o editor chefe deste periódico, Paulo França, com a lucidez costumeira,resolveutransformá-losemlivros.Ocomprovadoêxito doprimeirovolume,intituladoTempomítico,comquefoiaberta acoleçãoEdiçõesAnterioresedoqualconstaramosartigospu- blicadosem“AfascinanteIdadeMédia”,“Oscaminhosdosa- grado”,“Eraumavez”(sobreLiteraturaInfantil)e“Oenigmado mito”,levou-oaprosseguirnesteauspiciosoprojeto,certodas suasressonânciasnopensamentocríticodosleitores,voltadospara visõesmaisabrangentesemdiversificadosâmbitosdoconheci- mento. Cadavolume–ejáestãoprogramadosmaisde15–reunirá semprequatroedições,havendoentreelas,apesardasdiferenças dostemasdiscutidos,umaidentidaderadicalarticuladoraemtor- nodaqualosartigos,diretaouindiretamente,secongreguem. Assim,variadosmatizesdeidéiasdiversas,masconvergentes,irão reviver,noamplomosaicodacoletânea,ospassosemarcosdeO Correio,esteperiódicoderesistência,cuja atuaçãoquinzenal ininterruptacompletaráquatroanosemabrilpróximo,quandoserá lançadooterceirovolumedasEdiçõesAnteriores. Prosseguindo,pois,nopropósitodeanalisaraspectos,porvezes submersosnasdobras,atalhoseavessosdosprocessosculturais, estesegundotomoversasobreoPoder,seussignosereflexosnos paísesemergentesdaAméricaLatina–Brasileasnaçõesdeco- lonizaçãoespanhola–alémdosrecém-criadosgovernosdaÁfri- calusófona,ouseja,dascinconações:Angola,Moçambique, SãoToméePríncipe,CaboVerdeeGuiné-Bissau.Sobotítulo O viés da Política
  • 5.
    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 6 Poder e política, esta obra reproduz os escritos de “Para que serveopoder?”(NºLXII)aqueseuniramosdasedições“Brasil emtransição”(NºLII),“Áfricadelínguaportuguesa”(NºLXI)e “OcaldeirãodaAméricaLatina”(NºLIV). Aindaqueostextosapareçamdivididosnosblocos,pertinen- tesaosjornaisespecíficos,emquasetodospulsaomesmointuito de pensar crises e conflitos étnicos, políticos, sociais e mercadológicosqueturbilhonameseespraiamnessesterritórios comsituaçõestãosemelhantes,aoconviveremcomademocracia eaeconomianofiodanavalha.Driblesemaquiavélicosjogosda duplamoralidadecomqueoPoderseimpõedeformaautocráti- ca e perversa se dão a ler, explícitos ou nas entrelinhas destas escritasquestionadorasdiantedetantasinjustiçaseopressões. Algumasdasnaçõesfocalizadasaindavivenciamgolpesmi- litares ou se lembram das recentes cenas dramáticas, onde o eternofantasmadoLeviatãdizimouvidasesonhos.Entretanto, aselitesaindacontinuamencasteladasempreservadosbolsões, enquantooshumilhadoseofendidosdaTerraaguardamoque “Deusquer”.NocasodoBrasil,amilagrosacestabásica. Sãoveiaspulsantesquenãosefecharamnosangrantecorpo socialdaAméricaLatinaedaÁfricaportuguesaemincandescente ebulição,àbuscadeumPaiSalvadorcomutópicosdesejosde preenchercarênciasfundamentais.Ofervilhantecaldeirãolatino- americano,ondesecozinhaopassadoesetemperaofuturocom oscondimentosdopresente,continuanoimpasse:Mercosulou Alca?Hádoisanos,emSantiagodoChile,houveareuniãoda CúpuladasAméricascom34paísesparticipantes,excetoCuba, maspermaneceumgritoparadonoar:quaisassuasdiretrizes colocadasemprática? Portudoisso,nocalordahora,opresentelivroPoderepolí- ticavemremexernestecaldocultural,reeditandoreflexõesque provaram/provocaramnovasreceitasetemperoseengrossaram poções/soluçõesrevitalizadorasparanossaAméricadesnutrida. Eemmeioatantaspolêmicas,constata-sequeomundosetrans- forma.AEuropaficouprontaparaoeuro,porémocontinente americanofervilhaemencruzilhadas,aguardandoinsuspeitados rumos. Assimtambém,asex-colôniasportuguesasdaÁfrica,entre
  • 6.
    PODER E POLÍTICA 7 elas,Angola,queatualmentevivefortesconvulsõespolíticas.Em Guiné,oconflitovoltoueopaíscontinuamenteseencontranum caos.MoçambiqueeCaboVerdeestãocomcertapaz,intentan- doareconstituiçãonacional,comintensasdificuldades.Nestatran- sição,conturbadaepletórica,asnaçõesafricanasdelínguaportu- guesalutamparasairdoatraso,paraafirmar-seemsuaindepen- dênciae reanimar as raízes, em grande parte, soterradas ou esmaecidaspelosinetedodominador. PortugalchegouàÁfricanaexplosãoexpansionistadoséculo XV,entretanto,preocupadocomotráficonegreiro,sócolonizou aquelasterrasemmeadosdoXIX.De1926a1974,aditadura deSalazarexerceunelasgranderepressão,porém,nosanos60, iniciou-seaguerracolonialcontraodomínioportuguês.Após74, comaRevoluçãodosCravoseaconseqüentequedadoditador português,sãoproclamadasasindependênciasdascolônias,à exceçãodeGuiné-Bissau,ocorridaem24desetembrode1973. AdeMoçambiquedeu-seem5dejulho,adeSãoToméePrín- cipeem12dejulhoeadeAngolaem11denovembro,todasno mesmoano.Taisrevoluções,deorientaçãomarxista,foramlide- radasporAgostinhoNeto,deAngola,AmílcarCabral,deCabo VerdeeGuinéBissau,eEduardoMondlane,deMoçambique. EmboraestelivrodasEdiçõesAnteriorestangenciequestões político-sociaisdacorajosaÁfricalusófonaemseus“caminhose descaminhosdeutopiaseresistência”,amaioriadostextos,publi- cados na edição de 22 de agosto de 98, neste livro reeditados, centrou-se,sobretudo,emdiscussõessobreaLínguaeaLiteratu- ra daquelas regiões. Duas razões nortearam tal enfoque: a oficializaçãodaNovaReformaOrtográficadosPaísesdeLíngua Portuguesa, em Cabo Verde, a 17 de julho de 98, e a vinda ao Brasil,exatamentenaquelesdias,dosescritoresmoçambicanos MiaCoutoeVírgiliodeLemos. Jáonúmero“Brasilemtransição”tentouequacionarquestões relativasaocidadãobrasileironoterceiromilênioeosde-safios políticosaseremenfrentadosparaatransiçãodoBrasildianteda globalizaçãofinanceiraehegemoniaamericana.Discutiupossíveis reformasdoEstadoedosistemafinanceiro,apolíticadeteleco- municação,osnovosparâmetrosparaaEducaçãoedosmodelos industriais,oMercosuleoempresariado,osrumosdoDireitona
  • 7.
    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 8 nossasociedadenumfuturopróximo,opapeldoItamaratyna viradadomilênio,alémdasagudasreflexõessobreoquesecele- brarnaquelasintençõesmercantilistasdos500anosdainvasão lusaemnossoterritório. Emgamasmultifacetadas,todasestasescritasemtornodo BrasilnasteiasdoPoderpossueminteraçõesprofundascomos artigosdasoutrastrêsedições,espelhandoumarealidademais amplaecomplexa.Sãoitineráriosquesecruzam,seexplicamese iluminam,instaurandoodiálogointertextualeconvidandooleitora co-participardesteinstigantedebate,afimdeque,comseupo- tencialcrítico-criativo,eletambémanaliseerepenseosfundamen- taisproblemasaquiverticalizados. DalmaNascimento-Editoradetextosde OCorreio,ex-professorada UFRJedoutoraemTeoriaLiteráriaeLiteraturaComparada.
  • 8.
    PODER E POLÍTICA 9 Ondehouverdoissereshumanos,umtentarásubjugarooutro. Éalutapelopoder.Paraconsegui-lo,ohomemsevaledequalquer estratagemaeimpõesuapolítica.Devezemquandoumgovernante vemapúblicodizerquecomandaréumatarefadificílima,solitária. Então,perguntamos: por que as pessoas arriscam tudo para alcançaremcargos?Paraagrandemaioria,arespostaéóbvia: pelavaidadedepodermandaredeserobedecido. Costuma-sedizerqueoBrasiléabençoadoporDeus,mas que não avança por causa do povo. E este mesmo povo é o responsávelpelaconduçãodospéssimospolíticosemtodasas esferasdepoder.Defato,aclassemédiaéquemfazpolítica,a classericaindicaamaioriadoscandidatoseaclassepobreelege oscandidatosdaclasserica,quenadatêmemcomumcomestes eleitores. Oproblemaéagravadopelobaixoíndiceeducacionaldopovo, gerado,emgrandeparte,pelapoucaimportânciaqueosgovernos dão-deliberadamente,ounão-aocrescimentointelectualdos seuscomandados.Assim,atelevisãotorna-seomestredemilhões debrasileiros.Esuaimportâncianapolíticaenadivisãodopoder noBrasiléimensa. Mas,comotelevisãoéconcessãopública,seus“proprie-tários” dirigemaprogramaçãoparashows,esportes,entreteni-mentoe notíciasgerais,semaprofundamentopolítico.Destemodo,evitam atritoscomoPoderquelhesconcedeuatrans-missãoe,dequebra, aindaganhambilhõesdereaisempublicidade.Semcontaros favores. Só quem perde, claro, é quem paga por tudo isto, ou seja,opovo. O poder da informação é superior ao poder político em si, fazendoprefeitos,governadoresepresidentes,edestituindo-os Pior do que a bomba atômica
  • 9.
    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 10 doscargos,quandonãomaisservemaosnegóciosdapolíticada comunicação.Sobobrilhodanovela,dosjogos,dosprogramas deauditórioedosfilmes,temperadoscomimagensdaviolência humana,queultrapassamospesadelosmaisbizarros,eafúriada Natureza,atelevisãobrasileiradesinformaedificultaaeducação dopovo.Comisto,opoderpúblicoeoprivadounem-senapolítica demandarnoBrasil,desviandoocaudalosoriodedinheiropúblico paraseusinteressespessoais. OséculoXXseráconhecidocomoaEradaTecnologia,onde acomunicaçãoevoluiuassustadoramente.Masserá,também,a EradaMorte,poisduasguerrasmundiais,dezenasdeoutrasen- trepaísesvizinhoseascivis,aspioresdetodasasguerras,levaram àexplosãodebombasatômicaseaofimdavidademilhõesde sereshumanosedemaiscriaturasnoplaneta.OséculoXXI, no entanto,podesermenostraumático,e,paraisso,osquedetêmo Poderecontrolam aPolíticaprecisamsermaisvoltados para a coletividade. O que se vê, contudo, são fusões aceleradas de poderosos manipuladoresdamídiamundial. Eistoépiordoqueabombaatômica. Paulo França - Jornalista, Editor chefe de O Correio.
  • 10.
    PODER E POLÍTICA 11 ParteI Para que serve o poder? 13 Parte II OcaldeirãodaAméricaLatina 49 Parte III África de língua portuguesa 87 Parte IV Brasil em transição 131
  • 11.
    PODER E POLÍTICA 13 Paraque serve o poder? PARTE I
  • 12.
    PODER E POLÍTICA 15 Índiceda Parte I O poder e a definição de política Eduardo Raposo 17 Osimbolismomágicodopoder José Carlos Rodrigues 19 Poder e chefia na sociedade indígena José Sávio Leopoldi 21 Poderes distantes, arrogantes e triunfantes João Luiz Duboc Pinaud 23 O poder escondido Léa da Cruz 25 EleiçãoecidadanianoBrasil José Eduardo Pereira Filho 27 Até não poder mais Lena Jesus Ponte 29 Os matizes do poder Lauro Gomes de Araújo 31 Meuanarquistafavorito Latuf Isaías Mucci 33 Poderevigilância José Lisboa Mendes Moreira 35
  • 13.
    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 16 O paletó do governador Lula Basto 37 Cuidado com os picaretas Sérgio Caldieri 39 O poder como personagem na Literatura Infantil Márcia Lisboa 41 Afaixapresidencial Jorge Picanço Siqueira 43 A encenação do poder Isidoro Alves 45 A coruja e a fênix José Américo de Lacerda Júnior 47
  • 14.
    PODER E POLÍTICA 17 Apolíticavemsendodefinida,atravésdostempos,pordife- rentesreferênciasteóricasehistóricas.Noqueconcerneànos- satradiçãoocidental,depoisdesuainauguralinserçãonouni- versoreflexivodaAntigüidadeGrega,éconsideradacomoa afirmaçãodainterdependênciadocidadãoparacomasuacida- de,espaço onde recebe sua educação, realiza sua vocação e encontraseusignificadomaisamplo. Éassimquechamamdeidiotésocidadãosolitárioeegoísta quenãooferecenenhumacontribuiçãoàcidadee,portanto,aos seussemelhantes.Talconcepção–segundoaqualsedescrevia maisoqueoshomensdeveriamfazer(colaboradoresdacida- de)emenosoqueporvezesfaziam(estrategistasdeseuspró- prios benefícios) – atravessa a Antigüidade Grega e a Idade Média,desembocandonoRenascimento. Apartirdeentão,NicolauMaquiavelinauguraumextraordi- nário trabalho – prosseguido e desenvolvido por autores dos séculosposteriores–nosentidodereverosignificadodo“espí- ritopolítico”,oquenoslevouadescobrirereconhecerdimen- sõesecaracterísticas,atéàquelaépoca,inéditasdoquesehavia pensadosobrepolítica.Todaumaliteraturapassaadedicar-sea refletirmaissobreaeficáciadapolíticaemenossobrearazão moral.Pelascontribuiçõesque,desdeentão,foramfornecidas, apolíticacontinuaaserobjetodediversasconcepções,todas, porém,convergindoparaanoçãodepoderemseusentidomais específico.Naorigemdessaconcepçãodepoderencontra-sea separaçãoentregovernantes,lídereseliderados,oquesemani- festanassociedadesmodernasatravésdeumvigorosoproces- sodedivisãosocialdotrabalhoenaesferapública,daconstru- çãodoEstadoedossistemas,cadavezmaisinstitucionalizados. O PODER E A DEFINIÇÃO DE POLÍTICA EduardoRaposo
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 18 Anoçãodepoderganhaenormepluralidadeaoserassocia- daàsideologias,àsutopias,àsesperanças,àsrevoluções,mas tambémàsgrandesdecepçõesetragédiasquemarcamaHistó- ria.Adespeitodasdiferentesdimensõesdoconceitodepoder, todas parecem reconhecer a importância de seu estudo para compreendermosohomemnasdiversassociedadesquesefor- maramemnossahistória. Adinâmicadopoderedapolíticaconstrói,constantemente, cenáriosdesconhecidos.Nostemposatuais,assistimosauma inéditaaceleraçãodasinovaçõestecnológicasedascomunica- ções,comadiluiçãodasfronteirasedasantigasreferênciasa quefomoshabituados,modificando,maisumavez,odestino humano. EduardoRaposo–DoutoremCiênciaPolítica,diretor,pesquisador e professor do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio.
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    PODER E POLÍTICA 19 Recentementepudemosacompanharpelaimprensaque,quan- dodofalecimentodoAiatoláKomeini,emmeioacenasde“his- teriacoletiva”,desmaios,auto-flagelaçõesemortes,“fanáticos”se digladiavampeloprivilégiodebeijaracadeiradosumo-sacerdote edetocaremseucaixão.Osrelatosdavamcontadequelocuto- resdasrádiosetelevisõesiranianas,emtompatético,imploravam: “Rios,paremdecorrer!Astros,paremdebrilhar!Perdemosnos- sopai!” Comestalembrança,querochamaraatençãoparaumaspec- topoucoconsideradodopoder:seucaráterdeconfluênciaentre ocósmicoeosocial.Opoderexisteporquetodasociedadeestá continuamentesubmetidaàstransformaçõesdaexistência,por- queestásempreameaçadaporincessantesturbilhões. Diantedessasameaçaseprovocações,aunidadedasocieda- desóéencontrávelpelamaterializaçãodeumaimagemauto-im- posta.Estasópodeserobradeumpoderquerecortaasocieda- deeadelimita;deumpoderquedesenhe,paratodoseparacada um,orostoprópriodacomunidade.Noseuquererviver,toda sociedadeéessencialmenteumpoderqueadestacadosfluxos infinitosdoquenãoéela.Umpoderqueaprotegedaquiloqueé contraela. Todasociedadeseconstróicontraoqueamutila,contraoque quebraocursonormaldascoisas,contraoqueameaçasuacoe- sãoesuasolidariedade.Comounidadequevisaaproduzirepre- servarsuadiferença,todasociedadeéumsistemadepoder,um complexodeaparatosededispositivosmágico-simbólicosquese opõemaocontra-poderdocaosedaentropia. Opoder,emtodasassociedades,édaordemdomágicoedo sagrado.Nãoénamerasociologiaoupolíticaqueeleadquire OSIMBOLISMO MÁGICO DO PODER JoséCarlosRodrigues
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 20 sentido.Elenãoseresumeasuasdimensõesmais“históricas”e circunstanciais.Nãoserestringeaalgodisputadoeconflitual.Não seesgotanissoquenormalmentechamamosde“político”. Opoderé,essencialmente,aquiloquedefineumcertocon- sensoquantoàquiloqueseráobjetodedisputa.Queestabelece uma certa concordância a respeito de quais serão as regras do discordar.Quedefineospontossobreosquaisserápossívelcom- petir.Opoder,sobretudo,éaquiloquerealizaaproezadereunir, nomesmotodosimbólicoeafetivo,oexploradoeoexplorador,o senhoreoescravo.Eestaproezaémuitomaisfreqüentedoque costumamosreconhecer. Éimportanteteremmenteestespontos,especialmenteem contextos como o atual, em que, por todo o espectro político, candidatosemaiscandidatosseproclamamdispostasa“mudar” ou“abolir”osistemadepoder.Etambémemcircunstânciasem que,fazendo-seusodegigantescoarsenalmágicoesimbólico, materializadoemdiscursosepropagandas,somosconvidadosa esqueceranaturezamágicaesimbólicadopoder.Elevadospaci- ficamenteaaceitaraidéiadequeopoderseja–oudevaser–de caráter“técnico”e“racional”. JoséCarlosRodrigues–ProfessortitulardoDepartamentodeAntro- pologiadaUFF.AutordeEnsaiosemAntropologiadoPoder, Editora TerraNova,1992,alémdeoutroslivros,inclusivesobreasexualidadee amortenumenfoqueantropológico.
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    PODER E POLÍTICA 21 Opoder,assimcomoacontececomaigualdadeealiberdade, sótemsentidosepensadoemtermosrelacionais.Ouseja,épre- cisohaveroutro(s)indivíduo(s)paraqueelepossaexercer-se. Mas,satisfeitatalexigência,suapresençasetornainevitável,pois nuncadeixademanifestar-se,querentreindivíduos,quernosvá- riosgrupossociais,dafamíliaàsociedadecomoumtodo. Permeandorelações pessoais, a questão do poder é geral- mentetratadapelasáreasdoconhecimentoassociadasàPsicolo- gia.Jáoestudodopoderpolíticoformalmenteestabelecidoedas instituiçõespolíticasqueotornamefetivoemdadasociedade,cons- tituiobjeto,porexcelência,daCiênciaPolítica. ÀAntropologiaSocial,atravésdoramoespecíficodaAntro- pologiaPolítica,cabeoestudodopodernaschamadassocieda- desprimitivas,tribaisouindígenas,emqueelesemanifestade maneiraconsensual,independentementedeleisescritasoucon- tratosformaisparadisciplinarasuaprática.Nessassociedades,à faltadeumalegislaçãoquedefinaseustermoselimites,aquestão dopodersuscitainteressantesdiscussões. Háantropólogosquetendemaressaltarosaspectosdeequi- líbrio,homogeneidadeeigualdadeque,aseuver,seriamcaracte- rísticasessenciaisdessassociedades.Assim,consideramquene- las,arigor,opodernãoseconcentranasmãosdeninguém,nem mesmodochefe.Aocontrário.Paraeles,oquemostraumbom desempenhodequalquerchefiaéexatamenteamanutençãoda pazpelaconciliaçãoquepromoveentregruposemdisputa,evi- tandoumacisãoquesempreenfraqueceoconjuntosocial.Sem poderdepolícia,ochefecompetenteéaquelequeserevelaexce- lentenegociador,conquistandooapoiodosindivíduosdemaior PODER E CHEFIA NA SOCIEDADE INDÍGENA José Sávio Leopoldi
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 22 prestígioparasuaspropostasebuscandosoluçõespalatáveisàs partesemlitígio,semqueninguémsesintairremediavelmentelesa- do. Outrosestudiosos,nãodiscordandodanaturezapacíficado trabalhodachefia,noentanto,percebemqueaposiçãodochefe indígenaserevestedeumpoderqueétãoeficaz,quantodissimu- lado.Afinal,oprestígioeacapacidadedeconvencer,necessaria- menteassociadosaopapeldochefe,podemoperarnosentidode facilitaratomadadeumadecisãoouoencaminhamentodeuma propostafavorávelaseusinteressespessoaisouaosdogrupoao qualestejamaisligado. Direitoàpoliginia Alémdisso,écomumobservar-sequeumdosprivilégiosdos chefeséapráticadapoliginia,ouseja,ocasamentocommaisde umamulher.Nessecaso,elesacabampossuindoumafamíliamai- ordoqueadosoutrosindígenas,oqueresultaemmaiorimpor- tânciaemaisnumerosasaliançascomoutrosgrupos,resultantes docasamentoentreseusfilhosefilhas. A força desse conjunto de indivíduos, próximo à chefia, indubitavelmentefortaleceasuaautoridade.Grandeparentelaem torno do chefe acrescenta, portanto, ao domínio de que ele já desfrutava,umpoderdefatoqueinapelavelmentesetraduzem forçapolítica,contaminandooexercíciodachefiaemtermosde isenção.Afinal,seugrupodeapoiotemsempreinteressesespecí- ficosereivindicaçõesquenãopodemserignorados,oquetorna evidenteadificuldadedodesenvolvimentodeumtrabalhocom- pletamenteindependenteeimparcial. José Sávio Leopoldi – Professor do Departamento de Antropologia da UFF, estudioso da sociedade e cultura indígenas, com tese e pes- quisas de campo sobre o tema. Doutorando em Antropologia Social pelaUSP.
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    PODER E POLÍTICA 23 Remotíssimaéanoçãodopoderdemocráticocomoresultado deaceitações recíprocas por parte dos governados. Platão, no Criton, menciona a Lei – e o poder que vem dela – como um quase-contrato. Entretanto,noséc.XVIII,Jean-JacquesRousseauéquemo caracterizacomoumContratoSocial:todos–hipoteticamente– entregampartedaliberdadeindividual,construindoavontade coletiva.Marx,jánoXIX,desvendouasligaçõeseconômicas dosjogosdopoderpolítico,marcandoadistância,ouoantago- nismoentreaforçadequemmandaeasnecessidadesdequem obedece. A atuação política, para os gregos do séc. V e IV aC., por exemplo,eraaparticipaçãopública,quandoopoder,afastando- se do palácio real, deslocou-se para praça, tornada espaço co- mumdebemadministrarapólis.Talpensamentopermitiudesven- darque,nadistânciaentreogovernanteeopovo,habitaadife- rençaentreescravoselivres.Dondeseinferequetodapolíticade dominação,parasejogarnotabuleirodoxadrezpolítico,precisa serdistante,arrogante,triunfante. Deveafetardesconhecerosreaisproblemas,mistificá-los,hu- milharosgovernadosedesqualificaropositores.Deveacenarpara mudanças,emboraelasnuncacheguem,sacrificandoumagera- ção por um futuro nem mesmo planejado. O resto é empenho popular,transitando“foradopoder”,malinformadoesempossi- bilidadedecomunicaçõesplenas. Nocasobrasileiro,ogoverno,comseusmesmoseconomistas epolíticosdeplantão,usandoamídiaqueescondeascriseseas causasdosproblemas,ficaexoneradodasculpas,dizendoser PODERES DISTANTES, ARROGANTES E TRIUNFANTES João Luiz Duboc Pinaud
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 24 mundialacrise.Etudosedissolveemdiscursos,simpáticosexer- cíciosdedemagogia(noexatosentidodeguiarenganosamenteo povo).Mas,relaçõeseconômicasdesiguaisacabam–cedoou tarde–condenando-nosàestagnaçãoeàmiséria. Nossa“dependência”,defendidanateoriaenapráticapelo atualpresidente,vemsendovelozeimpunementeagravadacoma entrega criminosa da riqueza nacional. Mas os entreguistas neoliberaisdehojesãotantos,contentes,arrogantes,triunfantes, governantes,quetaisqualificativossoamatécomoelogio. Enfim,éinútilconcentrarbaterianaspessoaseabsolveromodelo econômico, do qual elas são escravas. Ao cabo de contas, são apenaspessoasesóissoasaproximadosgovernadosmutilados, quenasceram,vivememorrerão.Desaparecerão,comotodos, naordemdascoisas,emborafiquedelasobemouodanocausa- dos. Fechemos,então,comosatuaisgregosdosséculosVeIV antesdeCristo:submeteràdeliberaçãoacondutaaserseguida significa“depositaroassuntonocentro”,ficando,assim,opoder partilhadocomogrupopresente,bempróximo,poisapraçaera oespaçopolítico.E,segundoafórmulaarcaica,oarautoconvida- va:“Quemquertrazeraocentroumaopiniãoprudenteparaasua cidade?”Emuitosedeviadiscutiredeliberar.Algumacoisacomo o votar em eleições próximas. Mas, imagine só, o arauto e os discutidoresnatelinhadatelevisãodeagora! Seráquevãocontinuartodossalvos,inocentados,referenda- dos,ospoderessorridentes,distantes,arrogantesetriunfantesneste jogodoxadrezpolítico? JoãoLuizDubocPinaud–Advogado,professordeDireitonaUFFe Presidente do Instituto dos Advogados Brasileiros.
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    PODER E POLÍTICA 25 Após30anos,omovimentoqueeclodiunomundonofinal dadécadade60rendeufrutos.Nãoexistemmaisascátedras,a ditadura,osexcedentesnosvestibulares...Poderíamosafirmar quetemosumasociedadejusta,igualitáriaedemocrática?A relaçãodeperguntaséinterminável.Sãoquestõesqueinquie- tam,porqueasrespostassuscitamoutrasnumareaçãoemca- deia,revelandoenganoseomissões. Recentemente,assistiaumaconferênciadeTeotôniodos Santossobredireitoshumanose,aotocarnocomportamento dosjovensdehoje,suaobservaçãofoi:háumflagrantedesinte- ressedosalunosquandooassuntoéarealidadesocialepolítica dasociedade.Porqueamarchadosvaloresindividualistasfru- tificoudeformatãocompetente? Apesardosaresdedemocracia,aúltimametadedoséculo tornaumperíodoespecial.SeaHistóriaéaexperiênciavivida, esteséculosecaracterizacomoumtempoemqueseproduziua barbárie.Estápresentenestalógicaonãoreconhecimentodo outroeodesrespeitoàdiferença. Sinaisdestacontradiçãosãoclaros,tantonocomportamen- toisoladodaspessoas,comonomovimentopolíticoquesees- truturanomundo,comespaçoparaoneofascismo. Ofantasma do fascismo traz consigo uma forma de ver a vida apenas pela valorização da ciência e pela racionalidade tecnocrática.Oquepareciaserumexercíciodefuturólogosse apresentacomoverdadeirrefutável:vivemosemummundoad- ministrado,embaladopeloindividualismo,isolandooshomens. O PODER ESCONDIDO Léa da Cruz
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 26 Pensamentoúnico? Respeito à diferença e à solidariedade parecem coisa do passado. Agora,maisdoquenunca,nosvemosreduzidosàs verdadesúnicaseinexoráveis.Éocapitalismoouocapitalis- mo,aglobalizaçãoesóaglobalização.Emquesentidoaeduca- çãopoderiavincular-seaestepensamentoúnico? Existeumtraçoconservadornopresenteeentravesparase construirumaverdadeirademocracia.Naeducação,torna-se importante olhar as relações que se estabelecem no âmbito institucional.Espelhoscôncavoseconvexoscomimagensque convergemerefleteminterações,quetantopodemsignificarde- mocraciacomosubmissão. Eisporqueestánaordemdodiaaverdadeiraemancipação, aquelaquerompecomatendênciadeoshomensseassociarem apersonalidadesautoritárias,seguindo-ascomoalgomagnéti- co.Aeducaçãoassimpensadaécampodecrescimentonaver- dadeiraliberdadeenaemancipaçãoqueconstróiaidentidade. Háumalinhatênue,difícildeserpercebidaerespeitada.Por isso,esteéumespaçopararefletirsobretaisquestõesqueenvol- vemossubmissoseamedrontados.Talocorreeminstituiçõesque repetemadominação,substituindoaautoridadenaturaleautênti- cadosaberpeloautoritarismo.Éapseudo-liberdade. Valeapenarefletirsobreisso.Comcerteza,devehaveruma relaçãoentredemocraciaquepensamosvivernaeducaçãocom aqueexistenasociedade. LéadaCruz–ProfessoradoDepartamentodeFundamentosdaEduca- çãodaUFFedoutorandaemSociologianaUSP.
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    PODER E POLÍTICA 27 UmadastemáticasmaisdiscutidasnasCiênciasHumanas,sem dúvida,éadopoder.Tornou-seconsensualquenãohávidasocial semoexercícioeadistribuiçãodocomandopolítico.Sendoas- sim,associedadesegrupossociais–demaneiraformalouinfor- mal–seorganizampormeiodetalmecanismo. NocampodaCiênciaPolítica,ressalta-seoclássicoOPrín- cipe,deMaquiavel,onde,numainterpretaçãorealista,oautor demonstracomo,umaveznocomandopolítico,nelepermanecer. Amáximaparagarantirtalpermanênciaéjustificarosfinspelos meiosatravésderefinadaaçãoestratégica.Emboraaambiência históricado autor italianos seja a de uma Itália fragmentada, renascentista,católicaenãodemocrática,suareflexãoémaisdo queatual. Emoutraperspectiva,AdemocracianaAmérica,deAlexis Tocqueville,retrataaemergenteedemocráticasociedadenor- te-americanadoséculoXIX,experiênciaúnicanaquelemomento históricodesteregimenoNovoMundo.OsEUAsãoumpaís quelegitimaopoder,tantopormeiodarepresentaçãopolíticae eleitoral,quantopelomecanismodaparticipaçãocivil.Naquela sociedade, a democracia é permanente e solidificada em um infindávelnúmerodeassociaçõesdetodanatureza. Deláimportaram-seosmodelosRepublicanoeFederativo, contudo,porherançanãodemocrática,obtivemosoutroresulta- do. A estratégia política brasileira emerge da rede de relações pessoaisenãopormeiodeumcidadãoimpessoalizado.Nossa identidadepolíticanãosefundaemumideárioparaquetodos partilhemdosdestinosdocorposocial. ELEIÇÃO E CIDADANIA NO BRASIL José Eduardo Pereira Filho
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 28 Poderdochefes NosEUA,oFederalismoresultounumarelativaautonomia dosgovernosecomunidadeslocais.NoBrasiltalprincípioteve comoconseqüênciaquasequeexclusivaodomínioterritoriale políticodoschefeslocais. Aqui,acidadaniaseexpressa,momentaneamente,porelei- çõesperiódicas.Entretanto,nemporissodevemosdeixardeapre- sentarnossasvisõesdemundo,atravésdoescrutínionasesferas federaleestadual,queoraseapresenta. Mas é necessário ter, sobretudo, em mente que, além de delegar poderes, temos o poder de agir e participar da esfera pública,fatoquedizrespeitoatodososmembrosdasociedade. José Eduardo Pereira Filho – Mestre em Ciência Política pelo Pro- gramadePós-GraduaçãoemAntropologiaeCiênciaPolíticadaUFF eprofessordaFaculdadedeBelfordRoxoedaFaculdadedeAdmi- nistração São José.
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    PODER E POLÍTICA 29 “Enquantooshomensexercemseuspodrespoderes”,que nosseja permitido sonhar com poderes maduros, na medida exatadadoçura. Poderseralguémomaispróximodagentemesmo,dosnos- sosescondidos,comdireitoamáscarasapenasparavivenciar fantasias.Equererbemaosirmãosemsuasdiferençasdepeles, sexos,gostos,idéias,crenças,sentimentos...Poderserchama- do e chamar o outro pelo nome próprio, nome comum, sem senhornemdoutornemprofessor,excelênciasapenaspelofato simplesdesenascergente.Nãoterpodersobreaspessoasnem estarsubmetidoaqualquerjugo:opoderosoencantododiálo- go, do olho no olho, das mãos dadas. Poder dizer sim e não, semqueomundoseacabe. Podersermeninotododia,omundoumeternobrinquedo, buscaroladodeládosmuros,afaceocultadaLua,olhossem limites,pelesemfronteiras,ouvidossemdivisas,línguaparasa- boreartodasaslínguas.Sentir-seumpoucobicho,planta,mine- ral,coisa,privardafraternidadecósmica.Podersentirocami- nho, os passos, o passar de tempo e espaço, o gozo de estar a metaemcadaaquieagora. Poderincluirnocurriculumvitae,ladoaladocomexperi- ênciaprofissionalecursosrealizados,otempodedicadoaodes- canso,aolazer,aoafeto,aoprazer,aoscuidadoscomocorpoe a alma, ao cultivo das plantas e outras formas de vida. Poder nãocompetir,nãotornar-sehomemdesucessooumulherobjeto detodososdesejos.Respeitarseuritmo,comporsuamelodia, semcronômetros,compassos,esquadros,moldes,modas,fôr- mas, peças de engrenagem ou manuais de auto-ajuda. Poder preservar normas e cânones por uma reverência à tradição e ATÉ NÃO PODER MAIS Lena Jesus Ponte
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 30 poderrompercomtodasasnormasecânonesporumamorao espanto,aonovo. Poder viver a arte, viver com arte. Nascer e morrer num fluxodepermanênciaerenovaçãocontínuas,mãosenlaçadas aos pais e aos filhos. Envelhecer tendo tesão pelas marcas e mudançasimpressasnocorpo,esselivrodehistóriasfantásti- cas.Sonhartodasasimpossibilidadesatéchegarodiadonão- podermaior,libertador,definitivo(?). LenaJesusPonte–DinamizadoradaOficinadaPalavraLuizSimões Jesus.
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    PODER E POLÍTICA 31 Háo poder da vontade e o da fé, o poder da arte enquanto manifestação do espírito e o poder das idéias. Há o poder da palavraeopoderdoexemplo,comoháodoamoreodamãe- Natureza:comesteoHomembrinca,desrespeita...daqueleanda umtantoesquecido!Contudo,aolongodatresloucadaaventura humananocorrerdosséculosoquemaisparecehaveréopo- derdohomemsobreoutroshomense,nosdiasatuais,valendo- sedeumaformidávelferramentasuplementar:ainformação. Sem dúvida,informaçãoépoder.Numa palavra:aselites quecontrolamainformaçãotambémcontrolam,porviadecon- seqüência,oarbítriosobreavidademilhõesemilhõesdeseres humanosnumalógicaalucinante.Osmétodosdecontroleda opiniãopúblicaatingiramtalníveldesofisticaçãoquepassaaser amplamentediscutívelopróprioconceitodedemocracia,vez queamanipulação,atendenciosidade,ocomprometimento,a barganha,tudoconspiranamãoenacontra-mãodeinteresses dosquaisjamaistomaremosconhecimento. Assim, entendo oportuna a citação do grande romancista MorrisWestemAfragilidadedossistemas,reflexãodaqual transcrevemosparte:“Cadaumdenósdeveassumirplenares- ponsabilidadepessoalnaadministraçãodasociedade.Nenhum de nós pode eximir-se dessa responsabilidade ou delegá-la à coletividadeanônima.Temosdecriarordememnósmesmose emnossomeio.Nãodevemoscriarumtiranoqueaimponha pornós.Devemosserjustospornósmesmo–justiçapessoal, justiçasocial–antesquereclamemosjustiçanosoutros. Temos de oferecer amor primeiro, ainda que o amor com quenosretribuamsejamenosqueoqueesperamos.Éesseo verdadeirocontratosocial,semoqualnenhumoutrocontrato OS MATIZES DO PODER Lauro Gomes de Araújo
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 32 podesubsistir.Devemosconsiderar-nosresponsáveis,pesso- almente responsáveis por tudo o que é feito em nosso nome pornossosrepresentanteseleitosoupelosfuncionáriospúbli- cospagoscomodinheirodosnossosimpostos.Devemospro- testarpessoalmentecontraalegislaçãoerradaeoserviçoinfi- el. Temosquereconhecerqueumadoençanoorganismopolíti- coéumadoençaemnossosorganismosequenoscabeodever decooperarpessoalmentenacura.Sehouverinvasãonosdirei- tos de outro, cada um de nós deve levantar-se para resistir à invasão.Quantomaioréocaso,quantomaiscomplexaéaques- tão, mais importante é ouvir a voz humana isolada acima do clamordodebatepartidário. Cadaumdenóstemodireitodeproporasuaorientaçãonas assembléias,dereunir-selivremente,dedecidirpelovotoda maioria. Cada um de nós tem o dever pessoal de proteger os direitosdaminoria.Cadaumdenóstemobrigaçãodetolerância ecompreensão,porqueDeususaumafacediferenteparacada homem,porquetodasasdefiniçõessãoinsuficientesequeimar umhomememnomedeumafórmulaéumatobárbaro. Cadaumdenósdeverespeitaralei.Cadaumdenósdeve lutarparamelhoraralei,sabendoqueelaésempremenosjusta, queétantoumaarmaquantoumescudoequesuasinjustiças podem impelir os homens à desordem e à violência. Não há códigocompleto;nãohálegislaçãoquenãopossasercontesta- da;nãodevehaverregulamentosquepossamdesprezaroseu objetivofundamental:dispensarjustiçanumacomunidadedeci- dadãoslivrescapazesdesedirigirem.Nãoéumsistemaquenos salvará.Somosnósmesmoquenossalvaremos,umporum,um aum,cadaumatodosetodosacadaum.” LauroGomesdeAraújo-Escritor,membrodaAssociaçãodePesquisado- resdeMPBedaAcademiaNiteroiensedeLetrasevice-presidenteda AABB/Niterói.
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    PODER E POLÍTICA 33 Umacoisaévocêlersobreoanarquismodoutrina,decunho utópico,fundadanaabsolutaliberdadedoindivíduo“semleinem rei”que,associadaaoutrosindivíduos,igualmentelivres,consti- tuiriauma“sociedadelivredepessoaslivres”.Segundooaxio- madeProudhon,fundadorfrancêsdomovimentoanarquista, “quemquerquesejaqueponhaasmãossobremim,para me governar,éumusurpador,umtirano.Euodeclaromeuinimigo”. DeacordocomBakunine,oniilistarusso,“repudiamostoda legislação,todaautoridadeetodainfluênciaprivilegiada,paten- teada,oficialelegal,mesmooriundadosufrágiouniversal,con- vencidosdequeelajamaispoderáfuncionarsenãoemproveito deumaminoriadominanteeexploradoracontraosinteressesda imensamaioriasubmissa”.Proclamaoanarquismo:“NemDeus, nem senhor!” Ou, como na lenda do náufrago espanhol que, aportadoaumailha,teria,arfantemente,inquirido:“Haygovierno? Soycontra”.Outracoisa,muitooutra,évocêconhecerumver- dadeiroanarquista,emcarne,ossoerevolta. Dosmaioresprivilégiosquetenhotidoestá,indelevelmente, odeterconhecidoeconvividocomPedroPauloMussi,profes- sordaredesecundáriaestadualemMacaé-RJ.Aomeabordar, numbelíssimojardimmacaense,encontrava-mesentadonum banco,comumlivrosobreosjoelhos. Apresentando-se também como professor, de chofre me declarouterqueimadotodososseuslivros,guardandoapenas Os grandes escritos anarquistas, antologia organizada por GeorgeWoodcock.Comopodeumprofessorviversemlivros, indagava-meeudiantedetalgestodadaísta. ConvivendocomoPedroPaulo,fuientendendoeamando suaformadevida.Ex-mongebudista,tarólogo,comerciantede MEU ANARQUISTA FAVORITO Latuf Isaías Mucci
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 34 seboebrechó,artistaplástico,poetazen,empalhador,herborista –tudoexerceurevolucionariamenteecomarte...Atégrevede fomecontraogovernopraticouedistribuía,narodoviáriade Macaé,panfletoscontraapolíticadeeducação,panfletoscom crassoserrosdevernáculo,ocúmulodarevoltasintática.Atingi- donacabeçaquandodecovardeassalto,foihospitalizado,mas fugiu,preferindo,aos42anos,comoanunciou,“entregarseu corpoàterra”,numgestohumano,livrementehumano.Impossí- veldesenhar,em35linhas,oretratoanarquistadePedroPaulo Mussi,cujoíconeultrapassaameramoldurademinhaoceânica saudade. Latuf Isaías Mucci – Doutor em Poética (UFRJ), mestre em Teoria Literária(UFRJ),mestreemCiênciasSociais(UniversitéCatholique de Louvain – Bélgica), professor de Teoria da Arte na UFF, poeta e ensaísta.
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    PODER E POLÍTICA 35 Costuma-sedizerqueopreçodaliberdadeéaeternavigi- lância,masdevemosatentarqueháduasmodalidadesdevigi- lância:aqueseexercedentrodocírculodopodereaeleserve, ea que se exerce do lado de fora e permite contrastá-lo. O símbolodaprimeiraéoPanópticodeBentham*:noanelperifé- ricoseétotalmentevistosemnuncaver;natorrecentralvê-se tudosemnuncaservisto. Foiessetipodevigilânciaquesofreramoseuropeussobotacão nazistaeoslatino-americanossobasbotasmilitares.Hoje,navigên- ciadopoder“democrático”,ocontrolepolicialdasditadurastor- nou-seautocontroleintrojetado,suple-mentadopelamídiacomer- cial.PinóquiotomouolugardoPanóptico. Opapeldos“maquis”e“montoneros”dehojenãoéempu- nharmetralhadoras:éarmar-secomumpensamentocríticoque possa reinventar, para o século XXI, o conceito de liberdade socialemoposiçãoàditaduradopensamentoúnicoimposto peloneoliberalismo. PODER E VIGILÂNCIA “Mallarmé é uma metralhadora!” Viviane Forrester, em O horror econômico. José Lisboa Mendes Moreira *O Panóptico foi imaginado pela filósofo inglês Jeremy Bentham (1748-1832)comomodeloidealparaprisõesehospícios.Éumaconstru- çãocircularcomumatorrenocentro.Oanelperiféricoédivididoemcelas que se estendem da parede externa até a torre. Cadacelatemduasjanelas:umaquepermiteaentradadaluzexterior e outra, colocada na torre, de onde um vigia pode controlar tudo que se passa na totalidade das celas. JoséLisboaMendesMoreira–Ex-diretordoCentrodeEstudosGerais daUFFeautordolivroSíndromedoprogresso.
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    PODER E POLÍTICA 37 Eram14horasdeumsábadonosjardinsdoPaláciodasLa- ranjeiras.Estavaeu,juntamentecomoutraspessoas,aguardando achegadadonossocandidatoaoSenado.Sentia-meaborrecido comoacúmulodecarrosque,estacionadoaoredordobelopré- dioneoclássico,desfiguravamoambiente,ecomasufocantees- taçãodoano:suávamosmuitoporcontadocalorcarioca. Nessemomento,eisquedespontapordebaixodaquelasolei- rao nosso tão aguardado candidato. Vinha acompanhado por grandenúmerodeaguerridoscorreligionários,osquais,“cami- nhandoecantando”,bradavamorefrão:“Vivaogovernador!Viva ogovernador!” Naturalmente,aaltatemperatura,aindamaiselevadapeloar- dordamilitância,fezcomqueonossocandidatosesentisseterri- velmenteincomodadocomopaletóazul-marinhoquetrajava,o queolevouafazermençãodelivrar-sedele. Porém,nemmesmohaviaencaminhadoasmãosàgola,eis quesurgedomeiodosfeéricospartisansumindivíduoalto,ma- gro,quaseesquálidoeportadordeumprotuberantebigodemar- rom:“Podedizer,excelência,queeuajudo!”Aomesmotempo emqueseguravacommãostrêmulasopaletódojovempolítico, vociferavaentretorrentesdelágrimas:“Governador,meugover- nador!...” O“governador”continuouemmeioaoentusiasmocortêsem direçãoàescadariadopalácio,enquantoemsuaretaguardase instalava,impávido,oexultantecaboeleitoral,apertandodevota- mente o sóbrio paletó contra o peito. No semblante, o embevecimentodecarmelitadescalçaque,“prenhedoamordivi- no”,“viveemDeus”. Lembrei-mededuasmáximasdeShiroFujita,pensadorepoeta O PALETÓ DO GOVERNADOR Lula Basto
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 38 japonês:“Aausênciadacríticaedaautocríticafavoreceperver- sõesdepoder”.Eprofetizavaqueodelíriodoepelopoderleva inexoravelmenteao“empavonamento”. Aperversãoconsistiaemqueaqueleesfuzianteserviçal,assim como fora também “amaralista” e “chaguista”, agora se autoproclamavacaboeleitoraldo“governador”desdecriancinha. Aexecrávelfiguradofisiologismocomezinhopululoudescarada- mentediantedosmeusolhosatravésdomaisdesprezíveloportu- nismocalculado. Quanto à outra sentença, deixa-se perceber que o “empavonamento”trazemseuseioumdevanearmelancólico:é queenquantoacaudaseenfeitacomopaletó,ospéschafurdam nalamado“puxa-saquismo”. Ironicamente,porém,essamodalidadedegente,aindaquese esforceemaprimorarosseustruquezinhosbaratos,serásempre umserperifériconoâmbitodopoder.Pormaisquetentesealçar às“benesses”dessepoder,pormaisqueseesmerenessadireção, o retorno obtido jamais passará de migalhas, pois esse tipo de personalidaderastejanteaninguéminspiraconfiança.Crêem-se maquiavélicossujeitospredestinadosapolpudasfatiasdeum“bolo promissor,elaboramumabanalegrosseirafantasia,acreditando- sea“boladavez”. Mas,naverdade,nãopassamdedeploráveisobjetos,desem- penhandoaqualquerpreçoopapeldasubserviência. Obs.Jogodecinturademaisvirarebolado,jádiziaaminha comadreLiginha. Lula Basto – Músico, poeta e dramaturgo.
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    PODER E POLÍTICA 39 Aseleiçõesseaproximameoscandidatosestãoàprocurade eleitores.Naturalmente,elesrepetirãoosmesmosdiscursosefa- rãomilpromessas,aproveitando-sedamemóriafracadapopula- ção.Afimdeevitarqueunscarreiristasseelejamedepoisdeban- demparaoutrospartidos,depreferêncianabancadadamaioria governamental,algumasagremiaçõesestãoexigindotermodecom- promissodefidelidade.Geralmente,éabandapodrequemuda embuscadevantagens. Oscaboseleitorais,quetrabalhamparaeles,tambémdeveri- amseprecavercomumtermodecompromissoparacomseus companheirosdecampanha.Émuitocomumseelegeremede- poisnãodaremnem“banana”aosqueoajudaram. Paraquemjáparticipoudeumacampanhaeleitoralepresen- ciouseueleitosedeslumbrarcomoscargoscomissionadosde gabinete,sabecomoasituaçãoélamentável.Exemplodessefato équandoumvereadorchegaàCâmaraMunicipaledádecara comseuprimeirocontracheque,novalorlíquidodeR$3.200,00, comdireitoa20cargoscomissionadosemváriosníveisevalores. Aíentão,otalvereadoréprocuradopelosseuscompanheirosde campanhaparatrabalhar,pois,afinal,elenãofoieleitosozinhoe teveaajudadeváriaspessoas.Opolíticofisiológicocomeçaa dividirossaláriosentrefuncionáriosparaquepossaagradaragre- gose troianos que, naturalmente, acabarão com apenas umas “merrequinhas”,vistoque,paraquemestavadesempregado,jáé algumacoisa.Aconteceque,nestecaso,ofuncionárionãopode reclamaroudenunciar,paranãocorreroriscodeperderoem- prego. Naverdade,ocaboeleitoralsóservemesmoparafazercam- panha,porquenahoradeserbeneficiadoganhaapenas“umcala CUIDADO COM OS PICARETAS Sérgio Caldieri
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 40 aboca”equesedêporsatisfeito.Sabe-se,porém,felizmente, quenemtodosospolíticosagemdessaforma.Algunssãohones- tosetratamseuscompanheirosdecampanhacomosereshuma- nosecommaisdignidade. Sérgio Caldieri – Jornalista.
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    PODER E POLÍTICA 41 Acríticaaosrepresentantesdopodersempreestevepresente noscontospopulares,fonteprimeiradaliteraturainfantil.Istoacon- teceriaporqueopovocriavataishistóriassobretudocomoestra- tégiaderesistênciacultural,meiodetransmissãodevaloresesa- beres.Nestescontos,gigantes,rainhasereisdespóticossãoder- rotadospelo herói, armado de coragem, astúcia e bondade ou porumaintervençãomágica,assinalandoqueháesperançapara aquelesquesofremsobodomíniodesenhorespoderososemal- vados. NoséculoXVII,LaFontaine–quenãoescreveuparacrian- ças–usouasfábulasparadenunciarosdescaminhosdasocieda- dehumanaeosabusosdosdetentoresdepoder e de força.As fábulasforamincorporadasàLiteraturaInfantil,eseuspersona- genssobapeledeanimaistornaram-separadigmas:oReiLeão estánocentrodopodereporissoébajuladopelacorte;araposa éocortesãoastucioso;otigre,ourso,olobosãoospoderosos que se valem da força bruta. Do outro lado do poder estão o asno,ocordeiroeaovelha,representandoospobres,honestose puros–asvítimasdopoder. Dandoumgrandesaltonotempo,chegamosaoBrasildosé- culo XX, mais precisamente à década de 70. Nesta época, a produçãoparacriançasviveumperíodobastantefecundo.Num contextodeviolentacensura,aproduçãoparaainfânciafoium meioderepresentarmetaforicamenteopoderedeexerceruma críticacontundenteaoestadoautoritário. JáqueaLiteraturaInfantilévistacomoumtipodetextomenor, engraçadinhoeinócuo,osresponsáveispelacensuranãopresta- ram muita atenção ao que estava sendo dito ali. O ciclo dos O PODER COMO PERSONAGEM NA LITERATURA INFANTIL Márcia Lisboa
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 42 reizinhosdeRuthRochaeaHistóriameioaocontráriodeAna MariaMachadosãoclássicosdestemomentoemque,engajada na luta contra-ideológica, a Literatura Infantil é muitas vezes panfletária. Alémdedenunciaroexercícioditatorialdopoder,aLiteratura Infantiltambémassumiuposiçõeslevantadasemmaiode68,na França.Assim,ostextosparacriançassãoporta-vozesdeuma novaéticaedenunciamaeducaçãopautadaporestereótiposse- xuais,oautoritarismonarelaçãoadulto-criança,asinjustiçasda sociedadedeclasseseopreconceitoracial–formaspluraisde exercíciodopoder. Márcia Lisboa – Especialista em Literatura Infantil e doutoranda emSemiologiapelaUFRJ.
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    PODER E POLÍTICA 43 Eraumartistasonhador:sonhavacomaglória,comafama, esperavacomansiedadeessediaque,tinhacerteza,chegaria. Pintava,diaenoite.Erasóoquesabiafazerefaziamuitobem, maserasempadrinho,sempistolão. Parecequechegousuaveznumaencomenda,aconfecção deumapinturacomoretratodopresidente,dopresidenteeleito –poreleiçãoindireta,diga-sedepassagem.Masaencomenda eraurgente, era para o dia da posse: o presidente com traje soleneefaixapresidencial. Começousuaobra-prima.Pensounosvelhosmestres:pri- meiro,umprojetobemfeito;sódepoisaampliaçãodefinitivaeo acabamentorigoroso. Trabalhouintensamente.Buscoufotografiasdopresidente– nãopodiavê-loaovivo,estavanaEuropa–mostrouacolegas, tudo bem, o projeto pronto, o início da obra final. Uma tela encomendadaespecialmente,linhopuro,chassisdecedro,mão francesa,atelacomváriascamadasdegessoecola,camadas finas,secasnaverticale,porfim,umacamadadealvaiade.Tela branquinha,pedindotinta.Tintaestrangeira.Materialpara500 anos,comodiziaacolega... FoinaHistóriadaArte.EstudouTicianoeoutrosmestres. Tudomentalizado,trabalhocomeçadocommanchabemdiluída comoseuamigodeateliersemprefalava:“Primeiromanchara tela,pinturamuitorala,tintadissolvidacomterebintinaeumpouco deóleodelinhaçasecamaisrápido,nãotrinca,pinturadequa- lidade.” Veiooacabamento:umaperfeição.Todomundogostando. Sófaltavaafaixapresidencial,omaisfácil.Maisfácilnada.Co- meçouenadadefaixadarcerto,astintasseembolando,sujan- A FAIXA PRESIDENCIAL Jorge Picanço Siqueira
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 44 do. Seria a qualidade da tinta? Não adiantou nada, cada vez piorafaixa.Raspouecomeçououtra.Nada!Afaixanãoqueria encaixarnoretrato.Odiachegando,diadaposse.Davatempo, masafaixanãosaía. Veioavéspera.Usousecante,pintouduranteanoite,demanhã cedinhoentregariaotrabalhocomfaixaetudo.Muitaconcen- traçãoedesesperoaté.Oqueestariaacontecendo?Afaixanão davacerto. Nãodavaenãodeu...Iriasemfaixa mesmo,mas nãopoderiaser,tinhaquesercomfaixapresidencial.Exausto, nãodesmaiou.Otrabalhoprontosemfaixa,nodiadaposse... Demanhã,sótevetempodeligarorádioeouviranotícia:“O presidenteeleitonãotomouposse,adoeceu.Doençademorte. Oviceassumiu...” Oretrato–semfaixapresidencial–desapareceu.Oartista abandonouastintasparasempre... Jorge Picanço Siqueira – Escritor, poeta e presidente da Academia Brasileira de Literatura.
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    PODER E POLÍTICA 45 OcineastaitalianoRobertoRossellini,nofilmeAtomadado poderpor Luiz XIV, mostra o ritual de investidura do Rei da Françacomossímbolosconcernentesàmonarquia.Oantropó- logoinglêsMaxGluckmannanalisaasformasdeencenaçãodo podernoimportanteensaioRituaisderebeliãonoSudesteda África,ondedemonstraqueaquelequeassumetambémsesub- mete,ritualisticamente,aossubalternosparaentãoassumirple- namentenodomíniopolítico.Maianowiski,autordoclássicoOs argonautasdoPacífico,contaqueentendeumelhorokula– processodetrocasrituaisentreostrobriandeses–aosedepa- rarnoMuseuBritânicocomasjóiasdaCoroaInglesa. Paraqueestasserviam?Paraqueasvestes,ocetroeaco- roadoReidaFrança?Porqueochefeafricanosesubmetiaao escárnioeàrevoltasimbólicadeseussúditos?Emverdade,a ascensãoeaposseexigemumcomplexosistemadeencenação, ondeossímbolosdopodersãocolocadosemcena.Opoderé públicoe,portanto,exigeque,publicamente,serepresente.Tudo aquiloquesejacapazdeindicarqueelevaiserexercidotemque condensar-seemummomentoousituaçãoquedefinaapassa- gemdeumestágioaoutroousuaafirmaçãooureafirmação. Todasassociedadeseossistemasdepoderdesenvolvemas maisvariadasformasdedramatização.Éprecisodizeremcerto momento–especialmentenasinvestiduras–quemotemeque oexerce.Porisso,aexigênciadosrituaiseamanipulaçãode instrumentossimbólicos,tornadoclarooprocesso.Éassimque podemosfalardeencenação,quandotestemunhamoscerimôni- asqueosacralizam. Oritualtemcomofunçãomostrarasuaexcepcionalidade.O reipodeinvocarsuaorigemdivina,ogovernantejurarperantea A ENCENAÇÃO DO PODER Isidoro Alves
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 46 Bíblia,ochefeiratéaumlocalsagrado,opontíficerecebero cajado e celebrar a missa onde, no final, obtém a obediente reverênciadeseuscardeais. Enfim,aencenaçãoobedeceaumaespéciedescriptimplí- cito,noqualtodososelementosdevemcomporumalinguagem compreensível,comsuagramáticaesuasemântica. Coroa,manto,fraque,cartola,faixas,cetros,cumprimentos, gestos de obediência, as festas, as recepções etc.., todos reú- nemalinguagemdeencenaçãoquedefineoâmbitoeasacralidade dopoder.Estenãoprecisasersimplesmenteexercido.Éneces- sárioquetambémsejaencenado,sejaumdramasocial. IsidoroAlves–DoutoremAntropologia,pesquisadordoCNPqedo MAST.
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    PODER E POLÍTICA 47 Bactériasfabricamsubstânciastóxicase,expelindo-asem seusnichosconquistados,tratamdegarantiroterritório.Árvo- resproduzemtoxinasemsuasraízesparaimpediroavançode outras,consideradas concorrentes no mesmo espaço. Já os mamíferosutilizamváriasformasemuitosrituaisparademarcar seulugar-no-mundo. Disputas corporais, gritos, xingamentos e outras práticas menosnobressãorecorrentes,quandosetratadefazervaleros direitosdaconquista.Mesmoaslongínquaseromânticasestre- lasdizem,travambatalhasferozes:valendo-sedesuaimensa densidade,curvamoespaçoparaengolirem-seumasàsoutras. Com os humanos poderia ser diferente? Não. Até porque nascemosdasestrelas.Inventamosrituais,cargos,hierarquias, deuses,estadosetodaumagamadeinstituiçõesparagovernar nossasexistênciasminguadaseatenderàvaidadedaquelesque, porneuroseoupormaldade,realizam-seemmandarsobreos demais.Poderpraquê?Dequeserveessaexternalidadegestada paraquealgunspudessembrincardegovernaravidaeavonta- demilhões? Nãohácomonãorecorreradoismísticos,umtaoístaeum cristão:ChuangTzueSãoJoãodaCruz.Oprimeiroconta-nos queoreiHsiuestavaapavorado,porqueouviraanotíciadeque ele,ChuangTzu,tramavaumgolpeparatomaropoder.Para prevenirtalcoisa,oreimandoucaçarChuangportodooterri- tórioematá-lo.ChuangTzu,sabendodanotícia,antecipou-see foiatéorei:“Carorei,vocêconheceahistóriadacorujaeda fênix?” “Não”,respondeuooutro.RetomouTzu:“Afênixéumaave nobre,quevoanasalturas;sópousaemalgumasárvoressagra- A CORUJA E A FÊNIX José Américo de Lacerda Júnior
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 48 das, alimenta-se de comidas nobres e respira o ar puro das montanhas.Certavez,umacoruja,todasujadeterra,comiaum ratomortonochão.Quandoolhouparaocéueviuafênixpas- sar,abraçoufortementeorato,commedodequeafênixpudes- seroubá-lo.Masesta,indiferente,seguiuseucaminho.Porque vocêpensa,corujavelha,quequeromeintoxicarnapodridão deseucargo?” SãoJoãodaCruz,apósmuitasperseguiçõeseprisões,con- seguiuagrandezadealmadeperdoarseusalgozeseaindafor- mularumamísticaquesuperaasimplesresignaçãodianteda vida.Éeleoautordeumafraselapidar:“Paraojusto,nãohá lei.”Sim,opoderseafirmasobrenóstodos,porqueperdemos, emalgumpontodavida,anoçãodojustoecolocamosemseu lugarofamosointeresseprópriodoliberalismo. Aí,vêmunsfilósofosinglesesefrancesesenosconvencem de que precisamos de um poder para reger nossa vida social, um Leviatã que nos impeça de nos tornarmos uns lobos dos outros.Puraficção!Lobosquesãolobosnãosecomemmutu- amente. Ao contrário, colaboram entre si para que a matilha sobreviva. Opoderexauriunossacapacidadedesermosinternamente justosebons.Destaforma,damo-nosodireitodepraticarmos delitos para que depois as leis nos julguem e, se formos aquinhoadosemdinheiro,nosabsolvam.ÉumÉdipomuitomal resolvido,esse... José Américo de Lacerda Júnior – Bacharel em Filosofia, mestre emEducaçãonaUFF.
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    PODER E POLÍTICA 49 Ocaldeirão da América Latina PARTE II
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    PODER E POLÍTICA 51 Nãome convidem para essa festa Márcia Paraquett 53 Globalizaçãoeneoliberalismo:umademocraciaeconômico- social para a América Latina? Hiran Roedel 56 Convivendo com a seca Sérgio Carneiro 57 Que continente é este? Lívia de Freitas Reis 59 Osatuais“democratas” Valeriano Altoé 61 Sem perder a memória Ludmila Catela 63 É preciso dizer não! Rivo Gianini 65 AdependênciadamulhernaAméricaLatina Philomena Gebran 67 Sobre caldeirões, bruxas e livros Márcia Lisbôa Costa de Oliveira 69 Índice da Parte II
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 52 Alca:contrafaçãodeumideal José Lisboa Mendes Moreira 71 DiscriminaçãodaArtelatino-americana Adílson Figueiredo 73 Afinal,atéquando? Rubim Santos Leão de Aquino 75 AArgentina:umapossívelmudançapolítica Fernando Antônio da Costa Vieira 77 TeologiamadeinAméricaLatina Andréia Cristina Lopes Frazão da Silva 79 A Aliança da Europa com a América Latina Marcelo Ossandon 81 Cantigasdeninar:traçosdeumaidentidadecultural Magnólia Brasil Barbosa do Nascimento 85
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    PODER E POLÍTICA 53 Entraremosnoano2000com500anos.ARedeGlobonão nosdeixa esquecer que, desde 1500, somos uma nação. Mas seráquesomosmesmo?Cadavezqueo“plim-plim”medesperta paraessarealidade,ficorefletindosobrenossopaísetodosos outrosqueconstituemaAméricaLatina.Etenhoconcluídoque nãohámotivosparafesta. Apenasparacomeçar,éprecisoquenoslembremosdeque ospovosqueconstituemnossocontinentenãochegaramaquino anoemqueoseuropeusnosdescobriram.Jáhaviamuitapopula- çãoporessasterra.SónoBrasilhaviaumagrandequantidadede tribosdistribuídasemdiferentesregiões,cadaumacomseuspró- prioscostumes.NaáreaconhecidahojecomoAméricaCentrale México,concentravam-secivilizaçõestãoprogressistasqueos espanhóis,maisconquistadosquedescobridores,trataramdeinau- guraradisseminação. Aliás,parecequeessatarefa,tãobeminiciadapelosnossos avóseuropeus,integrou-sedetalmaneiraemnossoshábitosque, atéhoje,matarindígenaéesportepreferidodealgunsguerreiros frustrados.Noanopassado,tivemosqueconvivercomasduras imagensdaquelepataxóqueimadovivoemBrasília.Afinal,aquele trapohumanoqueseprotegiacomfolhasdejornalserviuperfeita- menteparadistrairalgunsjovensdaclassemédia,aborrecidos comamesmicedatelevisãoecomafaltadeprojetossociaisque osenvolvam,convocando-osaseremcidadãos. Fazpoucotempotambémque,emChiapas,suldoMéxico, umagrandepopulaçãoindígenafoimassacradaemnomedodi- reitoàterra.Aquelesinvasores,segundoaopiniãodoexército, precisaramserexpulsosàmorteparaqueseaprendessemalição NÃO ME CONVIDEM PARA ESSA FESTA Márcia Paraquett
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 54 dequeaterranãoéparasertomada,massimconquistada. Deixemosdebrincadeiraepensemossério.Falaremcome- moraçãodos500anosdenossopaísedeoutrostãooprimidos comooBrasildeveserfaltadoquefazer,ounecessidadedetam- paroSolcomapeneira.Bastadarumaolhadinhanascarasde nossos“sem-terra”paradescobrirnelesorestinhodostraçosin- dígenas em suas peles e olhos. Não é por coincidência que os conflitossedãoaoNortedopaís.Nãoeraláqueseconcentrava omaiornúmerodeindígenasantesdachegadadoseuropeus? Suasterrasforaminvadidaspelagrande“civilização”européiado séculoXVIe,hoje,nãolhesrestaoutracoisasenãodesaparece- remparanãomacularemumaimagemque,atodocusto,sequer manter Porfavor,nãomeconvidemparaessafesta! MárciaParaquett–DoutoraemLiteraturasHispânicaspelaUSPe professoradeLínguaeLiteraturaEspanholanaUFF.
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    PODER E POLÍTICA 55 AAméricaLatinachega,nestefinaldeséculo,semresolver problemasbásicosdesuapopulação.Asprecáriascondiçõesde saúde,educação,moradia,empregoesaneamentocontinuamna ordemdo dia. No plano internacional, a submissão ao grande capitalpermanececadavezmaisforte. Dessemodo,globalizaçãoeneoliberalismosãoapresentados como solução consensual pelas elites. O primeiro refere-se à integraçãoeconômicainternacionalsustentada,emgrandeparte, pelainfra-estruturatecnológicaquepermitiuagradativadiminui- çãodastarifasdecomunicaçãoetransporte.Logo,tantoaprodu- çãotempodidoseorganizaremcadeiasprodutivasglobais,quan- toosistemafinanceirotemestabelecidoumaintegraçãotambém emâmbitoglobal.Jáosegundorelaciona-seaodiscursopolítico quelançaasdiretrizesparatalintegraçãosustentadopelatesedo Estadomínimo. Apesar do discurso neoliberal e do processo objetivo da globalização,issonãonospermiteaindaabandonaroconceitode paísescentrais,poisasprincipaisatividadeseconômicasetécni- co-científicoscontinuamsobcontroledessespaísescentrais,tais comoEUA,Alemanha,Inglaterra,FrançaeJapão,principalmen- te.Comisso,odiscursoneoliberaldedesestatização,desregulação, flexibilizaçãodotrabalho,reduçãodocustodaprodução,arrocho salarialetc.constituiimportantepilardesustentaçãoparaafirma- çãodonovomodeloespoliativodeintegraçãoqueseforma. Assim,diantedaexclusãodeparcelaconsideráveldapopula- çãodasbenessesdodesenvolvimentotécnico-científico,ogrande capitalinternacionalavançasobreosmercadosdospaísesperifé- GLOBALIZAÇÃO E NEOLIBERALISMO: UMA DEMOCRACIA ECONÔMICO-SOCIAL PARA A AMÉRICA LATINA? Hiran Roedel
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 56 ricos.Nessecaso,contraditoriamenteaodiscurso,oEstadodes- sespaísesmostra-seimprescindívelparagarantiraimplantação depolíticasqueasseguremasvantagensparaocapital,poiseste continuaextremamenteterritorializadonospaísescentrais. Comisso,aseliteslatino-americanasvêmimpondoàpopula- çãodessecontinente,atravésdo“cantodassereias”depossível melhoriadosníveisdevida,enormessacrifícios.Apolíticaadotada de“queimatotal”dopatrimôniopúblicotempermitidooacesso docapitalinternacionalasetoresestratégicosdaeconomia,bem comolevadoaoaumentodaconcentraçãoderendaseaoconse- qüenteempobrecimentodorestantedapopulação.Semcontar queosrecursosobtidoscomasvendassãoutilizadosparasusten- tartalpolítica,emdetrimentodosgastoscomaáreasocial. Essessintomaspodemserpercebidosnospaíseslatino-ame- ricanosmaisimportanteseconomicamente–México,Chile,Ar- gentinaeBrasil–cujaadequaçãoaosditamesneoliberaisseen- contraemcurso,agravandoaindamaisamisériaestruturaldo continente,sustentadapelaaliançaincondicionaldesuaelitecom ograndecapitalinternacionalespoliativo. HiranRoedel–DoutorandoemComunicaçãonaUFRJeprofessor doCentroUniversitárioMoacyrBastos.
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    PODER E POLÍTICA 57 Osproblemas da América Latina já são conhecidos e al- guns,inevitáveis,comoéocasodasecanoNordestebrasileiro. Mas, apesar de ser um fenômeno natural, os homens podem utilizaratecnologiaparapermitirqueosertanejoconvivacoma agudaescassezdeágua. Agoraogovernoprometeatenderemergencialmenteàme- tadedapopulaçãonordestinacommedidaspaliativas.Nãopode dizerquenãofoialertadoporparlamentares,pelaimprensa,por setoresorganizadosdasociedadeeatémesmopelasmodernas imagensdesatélite.Averdadeéqueasecaseassemelhaauma guerraquedizimapessoasdeformalentaegradual,transfor- mandohomensemulheresemsaqueadores,migrantesemdireção àsgrandescidades,acabandocomaesperançadasgerações. OsburocratasdeBrasíliasóconhecemasecapelasestatís- ticas. Já sabem que são 9,6 milhões de pessoas atingidas, ou 21,44%dapopulaçãonordestina.SabemqueaBahiaéoesta- do com maior número de flagelados: 3.421.539, seguido do Ceará,com1.397.000,Pernambucocom1.371.421,Paraíba com 890.250, Piauí com 842.539, Alagoas com 489.650 e Sergipecom140.000.Masedaí? Na seca de 1993, o número de flagelados foi de 11,9 mi- lhões.Eoquefizeramdeláparacá?Idéiaseprojetosnãofal- tam,masosrecursossãomalempregados.Agoramesmo,anun- ciamaaplicaçãodeR$180milhõesparaofornecimentodeces- tas básicas, a construção de açudes e frentes de trabalho. O BancoMundialassinarácontratocomogovernobrasileiropara financiarmetadedosUS$330milhõesparaoitoobrasdecom- bateàsecanordestina. O problema é que a seca não se combate. É preciso criar CONVIVENDO COM A SECA Sérgio Carneiro
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 58 condiçõesdeconvivênciadosertanejocomela.Precisamosde obrasperenes,damaximizaçãodosrecursoshídricosdaregião, dousodaságuassubterrâneasedoempregodatecnologiada dessalinização,porexemplo. Sóparaficarcomestesdoisúltimositens,citareidadosda CompanhiadePesquisaeRecursosMineraisqueestimamem 110trilhõesdemetroscúbicosdeáguaopotencialsubterrâneo doNordeste,oquedáparaabasteceros42milhões,387mile 328habitantesdetodooNordestedurantecincoanos,enãosó os17milhõese854milqueresidemnaquelesemi-árido. Quantoaosdessalinizadores,aocustodeR$10milaunida- de,poderiamresgatarodinheirodocontribuintegastoemaber- turademaisde20milpoços,hojetamponadoseinativosnos noveEstadosdoNordesteporteremproduzidoáguasalobra. R$10milvezes20milpoçosdariamR$200milhõesque,divi- didos por quatro anos de governo, resultariam em R$ 50 mi- lhões/ano.Achamuito? Sobreaimportânciadadessalinizaçãodaságuasnotocante àsaúde,aoturismo,àagriculturafamiliar,àirrigação,aomeio ambiente,àmelhoriadaqualidadedevida,realizamosSeminá- rioInternacionalnoúltimodiaseisdemaio,naCâmaradosDe- putados,emBrasília. SérgioCarneiro–Ex-deputadofederalpelaBahiaeex-vice-líderdo PDTnaCâmara. Nota: Texto escrito em abril de 1998, quando o autor ainda era depu- tado federal.
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    PODER E POLÍTICA 59 Estranhocontinenteestenosso.Suahistóriaémarcadapela constantepresençadeditadoresemdiferentesépocasepaíses. Aliteratura–reflexodasociedade–sempreexpressouestetica- menteestamarcaque,infelizmente,fazpartedolegadocultural comprofundasraízesnavidaenahistóriadetodoocontinente. Pensarocaudilhismonahistóriaounaliteraturalatino-ameri- cananãoéapenasabrirasgavetasdamemóriaelembraroque sequeresquecer:asditadurasmilitaresque,pordécadas,con- trolaram,muitasvezescomviolência,avidapolíticaemdiversos países. Oautoritarismoaquemerefiroseinstalanocernedetodas asrelações sociais desde o tempo da conquista e do conse- qüenteesmagamentodascultuasautóctones,subjugandovalo- resculturaisereligiososemnomedeoutrosquelhespertenciam. Alínguaeareligiãoforamosprincipaisagentesautoritários emnossahistória.Semfalaraindadasrelaçãoentreosdonosde terrasoudosmeiosdeprodução,pequenoscaudilhosquede- têmopoderincontestesobreossubordinadosnasrelaçõesde trabalho. Asditadurassãoapenasapontamaisvisíveldoicebergdas relaçõessociaisquegovernaramamaioriadospaíseslatino- americanosdesdetemposimemoriais.Comodiziaoescritor peruanoMarioVargasLlosa,“aseqüênciaderegimestotalitári- osnocontinenteacabouinfluenciandoaliteratura...Doponto devistadocumental,aliteraturalatino-americanaéomelhorins- trumentoquetemosparaestudarahistóriadabrutalidadeeda violênciaemnossocontinente.” Aliteraturaeasartes,emgeral,sãovigorosasexpressões dospovos.Assim,ahispano-americanaebrasileirasãoexem- QUE CONTINENTE É ESTE? Lívia de Freitas Reis
  • 55.
    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 60 plosdestaafirmação.Sãotantasasobrasquenemsequerpo- deríamoslistá-las,menosaindaanalisá-las. Ficam,noentanto,algumasdicasdeleituraparaosqueainda tentamentenderestenossoestranhocontinente:OSenhorPre- sidente,deMiguelÁngelAstúrias; CemanosdesolidãoeO general em seu labirinto de Gabriel García Márquez; Eu, o supremo,deAugustoRoaBastos;SãoBernardo,deGraciliano Ramos,Ahoradosruminantes,deJ.J.Veiga,emuitosmais. Lívia de Freitas Reis – Doutora em Letras Hispânicas pela USP, professoradeEspanholeLiteraturaHispano-AmericanadaUFF.
  • 56.
    PODER E POLÍTICA 61 Nomundo político de hoje, em grande parte dos Estados latino-americanosestá-seobservandoumfenômenointeressan- te.Trata-seda“democratização”demilitaresqueatébempou- cotempoeramfavoráveisoumesmoparticiparamativamente degolpescontraasinstituiçõescivis.Venezuela,Colômbia,Bo- líviaeParaguaisãoexemplos.Neles,ex-golpistasestão-seapre- sentandocandidatospresidenciais.Sãoosnovos“democratas”. Desdesuaemancipação,aAméricaLatina,emgeral,contou comumapresençamilitaratuanteedecisiva.Amilitarizaçãode suas instituições deveu-se muito à instabilidade política e econômica após a independência. Os generais idealistas das guerrasdeindependênciaforamsubstituídosnopoderporam- biciosasgeraçõesmilitarizadas.AolongodoséculoXIXfor- mou-seummilitarismoqueseligouàelitecivil.Estauniãocons- tituiuelementomaisdinâmicoepersistentequeosdebatespar- lamentares. Apartirdadécadade1960aparticipaçãomilitarnosdesti- nosdealgunspaíseslatino-americanosdeu-seatravésdegolpes militarescontraopodercivil.Brasil(1964),seguidopelaArgen- tina,Uruguai,Paraguai,PerueChile.EsteeoUruguaihaviam gozado, antes dos golpes, de democracias sociais e políticas amplaseeramchamadosde“SuíçadaAméricaLatina”. Adeposição,noChile,dogovernosocialistadeSalvador Allendeconstituiumcasosingular.Osmilitares,lideradospelo generalPinochet,tiveramoapoiodaDemocraciaCristãede outrasfacçõesdireitistas.Alémdeterinstauradoomaisviolento regime,foitambémoúltimoadeixaropodernoConeSul.Ape- nasem1990,PatrícioAlwynassumiuapresidência,dandoiní- cioàinstitucionalizaçãodopaís.Apesardisso,a“democracia” OS ATUAIS “DEMOCRATAS” Valeriano Altoé
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 62 chilenacontinuousendotuteladapelasForçasArmadas,lidera- dasporPinochet. Em geral, os países da América do Sul saíram do regime militarostensivosobduasimportantestutelas:adocapitalfinan- ceironacionaleinternacional,principalmente;eadasForças Armadas.NoBrasil,atutelamilitarobserva-senofimdaisonomia entre civis e não-civis. Criou-se, assim, uma casta especial e privilegiadaacimadequalquercidadãocomum.Jáemoutros paísesdoConeSulobserva-sequemilitaresex-golpistasestão buscandoopoderpela“viademocrática”.NaVenezuela,oco- ronelHugoChaves,queem1992tentouderrubarCarlosAndres Peres;naBolívia,ogeneralHaroldBedoya,enoParaguai,o generalLinoOviedosurgemcomofavoritosnaseleiçõespresi- denciais. AsituaçãomaisintriganteéadoChile.Ogal.Pinochet,a13 demarçoúltimo,fezseujuramentocomosenadorvitalíciope- ranteoParlamento.Opresidente,EduardoFrei,diantedaopo- siçãodaincorporaçãodomilitarnavida“democrática”,pediu: “Temosquecuidardoquejáconseguimos.” OmilitarismopresentenaAméricaLatinadesdesuainde- pendênciaparecequerercontinuarinfluindonosdestinosdos países,masdeumaformamaisdiscretaemenosrejeitadainter- nacionalmente:pela“viademocrática”. ValerianoAltoé–DoutoremHistóriaSocialpelaUFFeprofessorda Universidade Veiga de Almeida e do Centro Universitário Moacyr Bastos.
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    PODER E POLÍTICA 63 PorqueolegadodasditadurasmilitaresnospaísesdoCone Sulsempre retorna como pesada herança? Essas ditaduras se caracterizam,emmaioroumenorescala,pelatortura,detenções clandestinasedesaparecimentodepessoas.Quandochegaram aofim,osmilitarestinhamumproblema:proteger-sedainvestiga- çãodasviolaçõesaosdireitoshumanose,paratanto,ditaramsuas própriasleisdeanistia. Emagostode1979,nogovernodeFigueiredo,aLei6.682 “perdoava”osatosdeexceçãocometidosdesde1964noBrasil. Talanistiaincluíanãosómilitares,mastambémpresospolíticos exilados.Nototal,beneficioucercade5.000pessoas.Emsetem- brode1983,osmilitaresargentinoscriaramsuapróprialeide auto-anistia, mas a chegada do novo governo a revogou. Mas tarde,contudo,oGovernoAlfonsinoutorgariaasleisdePonto FinaleObediênciaDevida,beneficiandomaisde1.500oficiais. NoChile,decretodeabrilde1978beneficiouosresponsáveis pelaviolaçãodosdireitoshumanosqueatuaramentre11dese- tembro de 1973 (data do golpe) até abril de 1978. Em 1986, o UruguaicriouaLeideCaducidadedaPretensãoPunitivadoEs- tado.ParaguaieBolívia,apesardehaveremtidolongasditaduras, sãoosdoisúnicosdoConeSul,ondenãoforamsancionadasleis desteteor. Dentrodosconsensospolíticosnegociadoscomoretornodas democracias,asleisdeanistiaobjetivamcontribuirparaareconci- liaçãoepacificaçãonacionais.Naprática,impuseramumsilêncio difícildeseraceito.Asferidasnãoestãofechadas.Porissomes- mo,estassociedadesreagem,dasformasmaisdiversas,manifes- tando-secontraaimpunidade.Osdiretamenteatingidopelosanos dechumbo(ex-presospolíticos,familiaresdasvítimasetc.)não SEM PERDER A MEMÓRIA LudmilaCatela
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 64 paramdereclamarojulgamentodestesmilitares. OEstado,asociedadecomoumtododeveriamanalisarcomo acharoequilíbrioentreanecessidadedeverdadehistóricaeuma ordemjurídicaqueconsolideaordemconstitucional,semesque- ceropassado.OsEstadosdospaísesdoConeSuloptaram,em maioroumenormedida,peloperdãoaosculpáveis,semobterem trocaaquilodequeasociedadeprecisava:informaçãosobreos anosdeobscurantismopolítico,arrependimentodosculpáveis, ressarcimentoàsvítimas. Averdadeeajustiça,pormaisdolorosasquesejam,sãoos únicosmeioslegítimosquepermitiriamàssociedadesenterrarseus mortoseanalisaropassadosemperderamemória. Ludmila Catela – Doutoranda do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais(PPGD)daUFRJ.
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    PODER E POLÍTICA 65 AvisãoantropológicadeDarcyRibeirocaracterizaopro- cessocivilizatóriodasAméricasemtrêsestágios:osPovosTes- temunhos,sobreviventesdasantigasculturasamericanasquese chocaramcomosconquistadoreseuropeus;osPovosNovos, resultantesdamiscigenaçãoedaaculturaçãooperadasnocon- tinente,eosPovosTransplantados,categoriaemqueseincluem oscontingenteshumanosformadosatravésdamigraçãoeuro- péiaparaajovemAmérica,ondeconservaraminstituiçõese estilosdevidadoVelhoMundo. NoconsagradolivroAméricaLatina-Malesdeorigem, ManoelBonfimestabeleceasdiferençasdaformaçãodaAmé- ricadoNorteedaAméricaLatina.Emrealidade,taisdiferen- ças,querepresentamnossasdificuldadesdedesenvolvimento, nãoresultamdeumaintegraçãoincompletanacivilizaçãoindus- trial,massimdofatodesermossustentáculosdessesistema, quenosexpeledeseucentro,consentindoquegravitemosape- nasnaórbitacomoeconomiascomplementareseculturasrefle- xas. Apesardetermosmelhoradomuitonoplanodemocrático nosúltimosanos,aindapersistemproblemascomoodaVenezuela que,apóslongoperíododeconsolidaçãodemocrática,estápres- tesa eleger um militar que quase conseguiu dar um golpe de estado.NaColômbia,onarcotráficoeaguerrilhasãomotivos deapreensão.NoPeru,Fujimorimantém-senopoderenoChile vive-seumademocraciaconsentidapelosmilitares. SomadasaestasquestõestemosoproblemadoMercosul queseconstituinoesboçodeumpromissorblocoeconômico dospaíses,sobretudodoConeSul,ondeoBrasilindiscutivel- menteassumealiderança,ameaçado,maisumavez,pelafor- É PRECISO DIZER NÃO! Rivo Gianini
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 66 maçãodaAlcasobopoderionorte-americano. É necessário dizermos NÃO, como sugere Eduardo Galeano,atodaestapolíticadeirracionalidadeeconômicade- nominadaneoliberalismo,impostapelospaíseshegemônicos,que penalizamospovoslatino-americanos,ebuscarmosnossaiden- tidadevocacionadapelosideaisdesoberaniaeliberdade. RivoGianini–Prof.-adjuntodaUFFedepós-graduaçãodaUCP.Presi- dentedoComitêdaAliançaFrancesadeNiterói,Diretorregionalda AssociaçãoNacionaldePolíticaeAdministraçãodaEducaçãoeSubse- cretárioMunicipaldeDesenvolvimentodeNiterói.
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    PODER E POLÍTICA 67 Ahistóriadamulherlatino-americanaestáprofundamente comprometidacomaprópriahistóriadedominaçãodaAmérica Latina.ApartirdoséculoXVI,avidadamulherlatino-america- namescla-se a um longo processo histórico, cuja marca é a violência,aopressão,adominaçãoe,finalmente,aexclusão. Comoemtodasociedadeexploradaecolonizada,aneces- sidadedaproduçãodeumexcedentelevouinicialmenteosiste- macolonialedepoisocapitalistanãosóaescravizaramassa nativa,deumaformamaisgeral,maspermitiuametrópolea exercersobresuasáreasdominadasumasuperexploraçãotam- bémdamão-de-obrafeminina.Exploraçãoessarealizadaatra- vésdaprópriahierarquiacriadapelosistemacolonial. Aolongodoprocessocolonial,asmulhereslatino-america- nas,pertencentesentãoàssociedadesnativas,sofreramuma brutaldominação,subjugadasaoseuropeuscolonizadores.De- pois,nosistemacapitalista,passaramasofrer,nocampo,por exemplo,asubjugaçãoaopai,aomaridoeatémesmoaosfi- lhos.Amulherurbanaoperáriaoudaclassemédiafoiecontinua sendovítimadamesmaexploração. Hoje,nafábrica,naempresa,noescritório,nocomércioou emqualqueroutrotipodetrabalho,elacontinuasendoexplora- daatravésdesaláriosreduzidosedecondiçõesdetrabalhosem- preinferiores.Istoporqueasociedade,deummodogeral,parte do pressuposto de que é ou deve ser sempre sustentada por alguém.Nestesentido,amulhersofreváriasformasdeexplora- ção,desdeadopatrãoatéadomaridoefilhos,devendocum- priresuportarsempreumaduplajornadadetrabalho.Essasitu- açãotemsidoconstanteaolongodaHistória.Acreditamosque A DEPENDÊNCIA DA MULHER NA AMÉRICA LATINA PhilomenaGebran
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 68 desdequeseinstalouosistemapatriarcalenaAméricaapartir dosistemacolonial. Se,nassociedadesagráriase/oupré-capitalistas,haviauma divisãomaisigualitáriadotrabalhoemuitasvezesatédopoder, nassociedadesposterioresocidentaise/oucapitalistas,asmu- lheresforamcompletamenteafastadosdoscentrosdedecisão do poder, ou seja, daqueles em que se trata efetivamente do presenteedofuturodahumanidade. Amulherfoietemsidodiscriminadaemarginalizadapelo olharmasculinodaHistória.Parasermosimparciais,podemos atéreconhecerquehouveouqueháalgunsmomentosemquea situaçãodamulherfoimelhoroupior,mas,enquantogruposo- cial,semprefoimantidadistantedopoderemtodasasinstânci- as,desdeoséculoXVIatéoXX.Esealgumasvezesnodecor- rerdoprocessohistóricolatino-americanoamulherexerceual- gumpoder,foiocupandoasmargensoudeformaindiretaatra- vésdesuainfluênciasobreoshomensouquandoelespermiti- ram. PhilomenaGebran–DoutoraemHistóriadaAméricaLatinaepro- fessora da UFRJ e da USS.
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    PODER E POLÍTICA 69 Numcaldeirãocultural,borbulhamemisturam-seimagens, contos,cantosetradições.Istodeveriaacontecernocampoda produçãoeditorialparacrianças,masnemmesmoasbruxasda LiteraturaInfantilforamcapazesdejuntarnummesmocaldeirão oBrasileaAméricaEspanhola. EnquantoaLiteraturaInfanto-Juvenilbrasileiraalcançaboa receptividadenomercadolatino-americano,noBrasilsãopou- casas traduções de textos hispano-americanos. Além de MonteiroLobato,todososprincipaisautoresbrasileiroscon- temporâneostêmsuaobraeditadaemespanhol,deLygiaBojunga Nunes,AnaMariaMachadoeRuthRochaaRogérioAndrade BarbosaeCiçaFittipaldi,passandoporMaryeEliardoFrança, ZiraldoeFernandaLopesdeAlmeida. UmsintomadoisolamentobrasileiroéofatodequeMaria HelenaWaish,aprincipalautoraargentinadecontosemúsicas paracriançasdeimportânciacomparávelàqueLobatotempara nós,nuncafoipublicadaaqui.Nestecontexto,destacam-seal- gumasiniciativasquerompemabarreiralingüístico-cultural.A editora Ática desenvolve em co-edicão com outros países a coleçãoContoslatino-americanos,queobjetivapromovero intercâmbiocultural,agrupandocontosdeautoresdediferentes nacionalidades.Tambémacoleção Cantolatino-americano, daeditoraAutores&Agentes&Associados,pretendetrazer às crianças brasileiras o “contato com o belíssimo mundo da línguaespanhola,proporcionandoumarealintegraçãoentreos paíseslatino-americanos”.Asediçõesbilíngüespermitemqueo leitordeleite-secomamusicalidadeoriginaldostextos. Seguindoocaminhodestascoleções,apublicaçãodeauto- resdedestaquenaAméricaLatinarepresentariaconsiderável SOBRE CALDEIRÕES, BRUXAS E LIVROS Márcia Lisbôa Costa de Oliveira
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 70 ampliaçãodehorizontesculturaisparaascriançasejovensbra- sileiros.Asnovasgeraçõesmuitolucrariamcomtextosquere- presentamumimagináriotãoricoediverso. Quevenham“lasbrujas”! P.S.:Algumasinformaçõescontidasnesteartigoadvieramda ProfªLauraSandroni,citandopesquisadaFundaçãoNacional doLivroInfantileJuvenil. MárciaLisbôaCostadeOliveira–EspecialistaemLiteraturaInfan- tiledoutorandaemSemiologiapelaUFRJ.
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    PODER E POLÍTICA 71 AoproporarealizaçãodoCongressodoPanamá,em1825, osonhodeBolívareraunirtodosospaíseshispano-americanos. Maistarde,vencidaadesconfiançacomqueencaravaamonar- quiabrasileira,incluiuoBrasilnumsonhomaior:aintegraçãode todaaAméricaLatina.Oqueelerealmentenuncaadmitiufoia uniãocomosEstadosUnidos,eporumarazãomuitosimples:não seriauma união em termos igualitários e sem propósitos hegemônicos. FoiessemesmomotivoquelevouoadvogadoNoronhaGoyos, árbitrodaOrganizaçãoMundialdoComércioeex-representante dogovernobrasileironaRodadaUruguaidoGatt,adeclarar,no EncontroSul-AmericanodeRelaçõesInternacionais,realizadono PalácioItamaraty,noRiodeJaneiro,nofinalde97,queaadesão doBrasilàAlca“seriaumpéssimonegócioparaonossopaís”. Osetordeserviços,segundoGoyos,seriaomaisprejudica- do.Parailustrarsuaanálise,usouaimagemdeumarodadebici- cleta:osEUAseriamocentrodarodaeosraios,ospaísesque aderissemàAlca.Estesdeixariamdenegociarentresietratariam detudodiretamentecomocentro,ondeserealizariamosnegóci- osbancárioseoutrastransaçõesfinanceiras.Aagriculturabrasilei- ratambémseriaafetadapelaadesãoàAlca,poisteríamosonos- somercadointernoinvadidoporprodutosagrícolasaltamentesub- sidiados.AmelhoralternativaparaoBrasil,naopiniãodeGoyos, seriaintensificarosacordosmultilateraisecontinuaracreditando ALCA: CONTRAFAÇÃO DE UM IDEAL José Lisboa Mendes Moreira “A necessidade real de mercados maiores modificará a velha aspira- ção (dos grandes países industriais) de manter-nos ilhados, através do novo truque de integrar-nos para servir-lhes melhor.” RobertoCiriloPerdiaeFernandoVacaNarvajain Novaestratégiado FMI.
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 72 no sucesso do Mercosul, que é um acordo sem pretensão hegemônica. TambémoeconomistaGouveaNeto,professordaUniversi- dadedoNovoMéxico,nosEUA,eligadoaoInstitutoBrasileiro de Mercado de Capitais, considera a adesão à Alca nociva à economiabrasileira.OBrasiléhojeumnegociadorglobale,seos EUArespondempor20%denossocomércioexterior,apartici- paçãodosdemaispaíseséde80%.SeaderisseàAlca,noster- mosqueosEUAqueremimpor,estariaalijandoparceirosimpor- tantíssimoscomoaUniãoEuropéiaeospaísesasiáticos. NoMercosul,ocomércioentreosquatropaísesqueocom- põemcresceu400%desde1990,masnãoatrapalhouasoutras relaçõescomerciais.OmesmonãoocorrerianaAlca,pelofato deumdosmembros,osEUA,terumaeconomiamuitomaisforte, capazdedistorcerospadrõesdecomércio. MilêniosantesdeBolívaredostécnicosaquimencionados, estavaescritonaBíblia:“Nãoteassociescomoqueémaisricodo quetu.Comoopotedebarropodeseligarcomocaldeirãode ferro?”(Eclesiástico,XIII,2) JoséLisboaMendesMoreira–Ex-diretordoCentrodeEstudosGe- rais da UFF, professor e autor do livro Síndrome do progresso.
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    PODER E POLÍTICA 73 EnraizadanoRealismoFantásticoenoImaginário,aArte latino-americanavemobtendointeresseinternacional,apesarde aindamaisvoltadaamostraseexposiçõesqueàcomercialização. Defato,ascasasdeleilõesChristie’seSotheby’s,detempos paracáconcedemàpinturadaAméricaLatinamaisatenção, emboraestaestejabemlongedasmegamilionáriascifrasdas produçõeseuropéias e norte-americanas. Nenhuma obra do nossocontinentealcançou,emvenda,abarrademeiomilhãode dólares. Alémdisso,poucosartistastêmconseguidofurarobloqueio emarcarnorestritomercado.UmafoiFridaKahlo,aprincípio conhecidacomomulherdomuralistamexicanoDiogoRivera, mas cujo talento se impôs, estando hoje em alta cotação no mercado.TambémFernandoBotero,colombiano,morandoem Madri,valorizandopelovigordotrabalhoevivêncianametró- poleecertostraçosdoclassicismoeuropeu. OequatorianoOswaldoGuaysamim,comtemasdelutas sociais e retratos de Fidel e Alain Garcia, do Peru, obtém o reconhecimentodaexpressãolatina.Noâmbitobrasileiro,Cân- didoPortinaridetém,atéagora,amelhorcotaçãoeo“Abapuru”, deTarsiladoAmaral,vendidoemleilão(aindabemqueficou emterrassul-americanas!)énossoquadrodemaiselevadaci- fra. Em meados do anos 90, reaqueceu-se a discussão sobre culturasetraçosnativoscomascomemoraçõesdoDescobri- mentodaAmérica.DaíointeressemaiorpelaArteBrasileira, comdestaqueemrevistasespecializadas.LygiaClark,Jacques LeinereRosângelaRennótêmsuascriaçõesnasconsagradas DISCRIMINAÇÃO DA ARTE LATINO-AMERICANA Adílson Figueiredo
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 74 Art in America, Art Nexus e Gallery Guide. Em1995,numeventoinéditoemNovaIorque,11galerias expuseram,simultaneamente,16artistasbrasileiroscontempo- râneos.Hápouco,tambémocorreua6ªBienaldeHavana,uma dasprincipaismostraslatino-americanas,dequenossapátria participoucom21nomesselecionados. Esta concorrida Bienal teve como pauta redimensionar a memóriadasAméricas,enfatizandoareflexãosobreaperdade referênciasautóctonesnestasociedadeglobalfinissecular,subli- nhandotambémocotidianodohomememmeioàsmúltiplas tendênciasartísticasdocontinenteemmutação. Adílson Figueiredo – Artista plástico e Arte-educador
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    PODER E POLÍTICA 75 UmespectroexistenaAméricaLatinadesdeoséculoXIX:é oimperialismo.Responsávelpelaexploraçãoedependênciadas sociedadeslatino-americanas,comandadasdeforaparadentro, contacomaconivênciadasclassesdominantesdocontinente. Assim,naépocadocapitalismoagrário-exportador,cujaburgue- siaruralmantinhasuahegemoniamedianteprocessoseleitorais escusosepráticasrepressivascontraopositores,ocapitalismo, internacionalfaziavistagrossa. Asváriasconjunturasdecrisesqueparalisaramassociedades capitalistascentraispossibilitarammodificaçõessocioeconômicas nasAméricaLatina.Foipossível,então,desenvolverindústriasde substituição,tendocomoconseqüênciaocrescimentosdoprole- tariadoedaburguesiaindustrial,oqueexplicaoPopulismodomi- nante,sobretudoapós1945. Compolíticapoliclassista,aburguesiaindustriallevouadiante umprojetocapitalista.Viveu-se,então,ocapitalismoindustrial,ou decrescimentoparadentro,queenfatizavaaadoçãodepolíticas econômicasprotecionistas. Contudo,a conjuntura internacional não favorecia o Populismo.ComaGuerraFria,osEUAnãoadmitiamqueas sociedadesperiféricasfugissemaoseucontrole.Contraodis- cursonacionalistadosdirigentespopulistaslevantou-seaban- deiradocomunismo.Alémdisso,amplossegmentosdaburgue- siaindustriallatino-americanahaviam-seassociadoaoimperia- lismoeviamcomtemorofortalecimentodaconsciênciapopu- lar. Oresultadofoiasucessãodegolpesmilitaresemquasetodaa AméricaLatina.OsEUAparticiparamdeformaveladaouosten- sivanamontagemdeEstadoshipertrofiadosfundamentadosna AFINAL, ATÉ QUANDO? Rubim Santos Leão de Aquino
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 76 DoutrinadeSegurançaNacional,ondenemsempreoCongresso funcionava. Essesregimesfacilitaramaentradadocapital,sobretudonor- te-americano,sejaatravésdevultososempréstimos,damultipli- cação de joint-ventures e de facilidades para a instalação de multinacionais,tendocomoconseqüênciaaeliminaçãodedireitos econômicosepolíticosdostrabalhadores. Com o fim da Guerra Fria e o esgotamento do Estado de Segurança Nacional, a América Latina caiu nas malhas do neoliberalismo. Este, na verdade, deveria chamar-se Paleoliberalismo,porqueseusprincípiosdoutrináriosrevitalizamo corpoteóricodovelholiberalismodaEscoladeManchester,re- vestindodenovasroupagensocorpodoutrináriodoatualespec- trodoimperialismo.Palavrasmágicasdãomaioratrativoàatual aliançaentreaburguesialatino-americanaeocapitalnorte-ameri- cano:globalização,modernização,minimizaçãodacompetitividade, terceirização... CúmplicesdeWashington,essesgovernantesempenham-se emprivatizaraeconomiaediminuirosgastosnaáreasocial.As- sim,aindaqueainflaçãocaísse,adesnacionalizaçãodaeconomia, aconcentraçãodariquezaeoagravamentodamisériaconstituem facesdistintasdeumamesmamoeda. “Dequemdependeacontinuaçãodessedomíniosenãode nós?/Dequemdependeasuadestruição?Igualmentedenós./ Oscaídosqueselevantem!/Osqueestãoperdidosquelutem!/ Como pode calar-se quem reconhece a situação? (Elogio da Dialética,poemadeBertoltBrecht). RubimSantosLeãodeAquino–Autordediversoslivros,dentreosmais conhecidos: História das sociedades – Das sociedades modernas às sociedades atuais; História das sociedades americanas e Do homem dasrevoluçõesàNovaordemmundial. ÉtambémprofessordoLiceu Franco-brasileiro.
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    PODER E POLÍTICA 77 AArgentinasepreparaparaumaviradaemsuapolíticain- terna.Depois de dois mandatos, o Partido Justicialista e o menemismocorremorisodeperderemaeleiçãopresidenciala serrealizadaemmaiode1999.Quaisascausasdestedesgaste? Quaisasperspectivaspolíticascomavitóriadaoposição? ApolíticaeconômicaempreendidaporMenemfoicentrada emtornodospreceitosdefendidospeloFMIequeseconfigu- raramnumconjuntodepráticasdenominadasneoliberaispauta- dasnocontrolemonetárioe,conseqüentemente,noaumentodo desemprego.Comesteprograma,ainflaçãofoidebelada,mas opreçopagofoielevado. Paraosquemantiveramseusempregos,asituaçãotambém foicrítica.Osindicalismo,atreladoaojusticialismo,rachouem duas facções: pró-governo e outra que defendia a adoção de medidasdecarátersocial. Menemconseguiuduasimportantesvitórias:umafrutode negociaçõescomseuprincipalopositor,aUnionCívicaRadical (UCR),quelherendeuaaprovaçãodereformasconstitucio- nais,permitindoareeleiçãopresidencial,eaoutraem1995,ao serreeleito,usandoumaretóricaquecombinavamanutenção docontroledainflaçãocompromessasdecombaterarecessão naeconomia. Noentanto,comumaeconomiacadavezmaisdependente doinvestimentodoscapitaisinternacionais,tornou-seimpossí- velparaMenemromperoscompromissoscomosorganismos financeirosinternacionais.Logo,nãoimplantouumapolíticade investimentospúblicosparagerarempregoserecomporosetor produtivonacional.Aomesmotempo,surgiramgravesdenúnci- A ARGENTINA: UMA POSSÍVEL MUDANÇA POLÍTICA Fernando Antônio da Costa Vieira
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 78 asdecorrupçãoeesquemasdefavorecimentoquepartiramda imprensaedopróprioministroCavallo.Istogerousuademis- são,oqueabalouomenemismoeincentivouoaparecimentode umanovaforçapolítica:aFrentePaísSolidário(Frepaso),que aliadaàUCRsaíramvitoriosasnaseleiçõesmunicipaisde1997. Temerosodiantedaperspectivaqueseapresentadevitória daaliançaFrepasoeUCR,Menemtentaumúltimogolpe:argu- mentandoqueaemendaconstitucionalfoiaprovadadurantea vigênciadeseuprimeiromandato,eledefendeuodireitodere- eleiçãoque,segundoseusargumentos,sópassariaacontara partirdosegundomandato. Na prática, Menem depende do Judiciário. O Congresso argentinojánãolheapóiaincondicionalmente.Eamédioprazo, atendênciaéocrescimentodacandidaturadaaliançaFrepaso/ UCR. FernandoAntôniodaCostaVieira–MestreemHistóriadoBrasilpela UFRJeprofessordaFaculdadedeEducaçãodaUFF. Nota:Estetextofoiescritoem maiode1998,estando,portanto,algunsde seus dados já desatualizados.
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    PODER E POLÍTICA 79 ATeologiadaLibertaçãorepresentouumimportantemar- conaHistóriadaAméricaLatina,emparticular,enaHistóriado Cristianismo,emgeral.Aindaquenascidaparaatenderàsne- cessidadeseaspiraçõesdopovolatino-americano,aTeologia daLibertaçãoapresentaantecedentesemfenômenoshistóricos decaráteruniversal,emespecialapartirdopontificadodeLeão XIII,voltadoparaarenovaçãodocleroeaaberturadaIgreja Romanaparaomundo. AIgrejaCatólicaencontrava-se,portanto,emviasdetrans- formação.Esteprocessochegouaseupontoculminantecoma realizaçãodoConcílioVaticanoII,quefoiumpassoimportante paraoposteriordesenvolvimentodaTeologiadaLibertação,vis- toque,duranteestaassembléia,seformulouumanovaconcepção deIgreja,pautadanãomaisnahierarquiaclerical,masnauniãodo clerocomoconjuntodefiéis. Partindodestaeclesiologia,emfinsdadécadade60nas- ceuaTeologiadaLibertação,comoobjetivoderefletirejusti- ficaropapeldaIgrejaparaatransformaçãodaAméricaLatina, marcadapela injustiça, miséria, violência, corrupção e totalistarismo. Elaboradaporlatino-americanoseparalatino-americanos, aTeologiadaLibertaçãonãopossuíapretensõesuniversalistas. Muitoaocontrário!Aoindicarcomopontodepartidaarealida- desocialvividapelopovo,buscavarespostasespecíficaspara osproblemasdaAméricaLatina.Mascomoconhecerafundo estes problemas? A Teologia da Libertação não propõe uma leituraalegóricaoutipológicadotextobíblico,massimliteral, preocupadaemidentificaraaçãodivinadelibertaçãonaHistó- riaHumana. TEOLOGIA MADE IN AMÉRICA LATINA Andréia Cristina Lopes Frazão da Silva
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 80 PorrompercomaconcepçãotradicionaldeIgreja,dialo- garcomomarxismo,denunciarasmazelassociaislatino-ameri- canas,proporumanovaleituradaBíbliaepropagarumasalva- çãohistórica,aTeologiadaLibertaçãosuscitouinúmerosdeba- tes,alémdecríticasesançõesdacúriapapal. Hoje, apesar de não provocar tanta polêmica como em anosatrás,aTeologiadaLibertaçãocontinuaainfluenciaraprá- ticapastoral;otrabalhocomascomunidades;areflexãoteoló- gica e a exegese bíblica. E não só no seio da Igreja Católica Romana,mastambémemoutrasIgrejascristãs,emespeciala Luterana. AndréiaCristinaLopesFrazãodaSilva–ProfessoradeHistóriado DepartamentodeHistóriadaUFRJedoutoraemHistóriaAntigae Medieval.
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    PODER E POLÍTICA 81 Paraa Comissão da União Européia, inúmeros fatores são favoráveisàreaproximaçãodaEuropacomaAméricaLatina. Primeiro,fatoreshistóricoseculturais.Defato,aconstruçãodo EstadodeDireito,osprincípioslegais,asidéiasdeliberdadeede democraciafazempartedeumconjuntodeconceitosfilosóficose jurídicosadvindosdopatrimônioeuropeu. Emseguida,acrescenteeconomia,jáesboçadanaAmérica Latina,permitetransformá-lanumpólodinâmico,comnovasopor- tunidadesparaocomércioeinvestimentos.Alémdisso,oreavivar daintegraçãolatino-americanacontribuiparaodinamismodas trocas,aexpansãodacompetitividadeeodesenvolvimentode outraspossibilidadesparaestespaísesnoplanointernacional.Eis, portanto,promissoresíndicesquenecessitamprosseguirempolí- ticasdeausteridade,àmaneiradasinstituiçõesdeBrettonWoods. Todavia,aComissãodirigeaoConselhoeaoParlamento europeus advertências a serem observadas. Em verdade, ela afirma–estaondadecrescimentocomportatambémzonasde sombra,inegavelmenteúteisacadapaís.Amodernizaçãodo processodeproduçãoeosníveiseconômicossãoaindainsufi- cientes.Estruturas“duais”perduram:aAméricaLatinasofregri- tantesdesigualdadessociaiseimportanteszonasdeexclusão. Apesardaexpansãoeconômica,odesempregoabrangegrande parte da população e o setor informal não cessa de crescer. A AméricaLatinadeverásuperartrêsdesafios:consolidaroEstado deDireito,enfrentaraquestãodapobrezaeodesequilíbriosocial eampliaroníveldecompetitividade. A ALIANÇA DA EUROPA COM A AMÉRICA LATINA Marcelo Ossandon
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 82 Re-conquistarademocracia Apósosufocantedomíniodasforçasarmadaslatino-america- nas,osanos80foramosda“transição”dosregimesautoritários parasistemasmaisdemocráticos.Paraaeconomia,tornou-se“um decênio perdido”, enquanto o setor político assistia ao restabelecimentoinstitucionaldademocracia.Nosanos90,con- solidou-seademocraciacomeleiçõeslivres,comarestauração dasliberdadespúblicasecomopluralismopolítico,constituindo autênticosavanços,oqueilustraosesforçosdosdirigentespara restauraraidéiadoEstado. Taisprocessosdetransiçãoapresentaramformasdiversas, porém,quasesempre,chegaramaumademocracia,nãoraro, frágil.Assassinatosdemeninosderuaoudemarginaispelos esquadrões da morte não permitem que se fale em Estado de Direito.Multiplicaram-severdadeirosexércitosparticularesdo- minadospelosnarcotraficantes,concorrendocomaviolência doEstado. Estesexemplosdemonstramqueaconsolidaçãodemocrática estámuitolongedeconquistar-se.Apósorecuoearelativadimi- nuiçãodopodermilitar,asexperiênciaspós-autoritáriaspermane- cemmarcadaspeloselodaimpunidade,beneficiandoreconheci- dos autores de violações do direitos humanos. Por trás dos “revisionismos”latino-americanosenopretensodesejoderecon- ciliaçãonacional,cresceadeterminaçãodasForçasArmadasde nãopermitirqueosresponsáveissejamlevadosàJustiça. Criseeconômica,falênciadasditaduras AAméricaLatinasaiudasditaduraspelaincapacidadedes- tasdeenfrentaremoendividamento.Oprocessodedemocrati- zação, iniciado antes da queda do Muro de Berlim, fez-se ao preçodeumaabertura–noconjunto,muitorápida–deecono- miasantesfortementeprotegidas.Istosignificaoabandonoge- neralizadodoEstadoprovidênciaeaadoçãodemedidasque visaramàdrásticareduçãodosdéficitsorçamentárioseàdimi- nuiçãodosinstrumentossociaisreguladores.Oresultadosfoia perdadepartesignificativadopoderdeintervençãodosEsta- dosnascondiçõesdevidadasociedadecivil.Aspolíticaspre- conizadaspeloFMIdeixarammarcas.
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    PODER E POLÍTICA 83 Se,comoretornodademocracia,surgiramperdaseconômicas, oabandonodoprotecionismoeaspolíticasdeajustesestruturais nãofacultaramnemtempo,nemcapacidadeparaosgovernos estabelecerempolíticasquepermitissematenuaroempobrecimento daspopulaçõesmarginais,antesprotegidaspeloEstado-prove- dor.Assim,orecuodestetevecomoconseqüênciasoabandono desubvençõesaosprodutosdeprimeiranecessidade,aredução daspolíticassociaiseamaciçaprivatização. As“curasdeemagrecimento”,senosreferirmosaosparâmetros macro-econômicos,trouxeramfrutos:domíniodainflação,déficits dasfinançaspúblicasestranguladas,retornoforçadodecapitais expatriados.Seria–aexemplodosaficionadosdoneoliberalismo –louvarosefeitosbenéficosdorefluxodopoderpúblicoepedir sempre“menosaoEstado”? Umacoisaécerta:osmecanismosreguladoresentreoapare- lhodoEstadoeasociedadecivilforamabalados.Ossindicatos, ospartidos,asinstituições,noseioouforadasadministrações públicas,nãomaisasseguramatransmissãodasdemandassociais aoaparelhodedecisãopolítica.Aatualconjunturadoempobreci- mentodascamadassociais,comaperdadoEstadodeseusins- trumentosreguladores,correoriscodeprovocarrevoltasesporá- dicas.Nãohouveaindaumaluzparaossegmentosmarginaliza- dos.Daíaemergênciadenumerososatoressociaisemesmode novosatorespolíticos. Osmovimentos sociais, criando outros meios de intermediaçãoentreasociedadecivil,oEstadoeomercado, longedereduziremsuaaçãoàúnicaconquistadedireitosàci- dadaniaeàinstauraçãodeumestadodeDireitoexigem,tam- bém,queestesejaeficiente.Taismovimentosencontram-sena origemdenovasdemandaseformasdemediaçãopolítica.Seja comofor,asociedadecivil,conceitoquerecobremúltiplasrea- lidades,manifestanaAméricaLatinanovodinamismoligadoao próprioprocessodedemocratização,assimcomoaoimportan- tedesenvolvimentodaeconomiainformal. Prioridadesconvergentes Oenraizamentodademocracialatino-americanaserálongo, poisváriasdificuldadespersistem:osmilitaresnãomaisocupama
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 84 cenaprincipal,mascontinuamamanobraraeconomia.AUnião Européia,pondonocentrodacooperaçãoacláusulademocráti- ca,contribuiparaancoraraidéiadeque,alémdosimplesdesen- volvimentoeconômico,orespeitoaosdireitosdohomem,acon- solidação do Estado de Direito e a manutenção da paz são, de agoraemdiante,incontornáveis. Istoconstituielementorelativamentenovoeimportantenas relaçõesdaUniãoEuropéiacomospaísesdoTerceiroMundo, selevarmosemcontaque,noTratadodeRoma(1957),nenhuma referênciaarespeitodosDireitosdoHomemfoimencionadaso- bretaisligações.NaEuropa,apassagemdacidadaniapolíticaà cidadaniasocialefetuou-segradualmente:aaquisiçãodaprimeira permitiuqueosassalariadosestabelecessemumarelaçãofavorá- velcomasegunda. Porsuavez,naAméricaLatinaademocraciaformalinstau- rou-sesemcidadãos,oquealimentouafraudeeleitoral,acompra devotoseocorporativismoestatal.Nela,osdireitosdoscida- dãosformalmenteexistem,massópartedapopulaçãodesfruta deles.Asdesigualdadespermanecemonipresentes.Etalquestão valeparaoprocessodeintegraçãolatino-americana,cujoêxito passapeloacessoaomercadodeamplossegmentossociaisaté agoramarginalizados. Convémenfatizarque,naEuropa,igualmenteafraturasocial seaprofundoucomamarginalização.Certaconvergênciadospro- blemaseuropeuselatino-americanosé,muitasvezes,sublinhada pelomundoassociativo.Porém,naEuropa,“lamarchemulticolore”, Clabecq,Renault-Vilvordeealutapeloempregonoslembram queoscidadãosexigemqueohomemsetorneocentrodaeco- nomia.Averdadeiracooperaçãoétecidapelasrelaçõeshumanas e fundada sobre a elevada noção do homem como centro da novaparceria,propostapelaComissãoàAméricaLatina. MarceloOssandon–Ex-ministrodaEconomiadoGovernoAllende(Chi- le)eatualpesquisadordoCentrodeEstudosdasRelaçõesentreaComu- nidadeEuropéiaeaAméricaLatina(Cercal).ProfessordaUniversidade LivredeBruxelas.Traduçãode DalmaNascimento.
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    PODER E POLÍTICA 85 Fazalgunsanosliopoema“Adormidera”,donicaragüense PabloAntonioCuadra.Talleituraalavancouumpasseiocurio- so/sentimentalpeloricouniversodascantigasdeninar,poisfez assomar,num ir e vir de cadeira de balanço, o eco de muitas cançõesbemguardadasnofundodamemória. Emsuaaparenteingenuidade,acantigadeninardesdobraao ouvido atento e curioso do observador da alma popular um multifacetadotecidoemcujatramaseenredaboapartedatra- diçãooral,enquantopõeàmostra,numretratosutileencantatório, elementossócio-econômicos(talvezhistóricos)daAméricaLa- tina.Deixar-noslevarpelojogofônicoqueseestabelece,levan- taraquiealientecidassugestões,entreter-senamagiaameaça- doradosseresfantásticosdoimagináriopopularéumaformade participardeumexercíciodinâmicoefascinante.Ascantigasde ninarestãoaí,ricas,palpitantesdevidaedelembranças,memó- riavivaaconvidarparaumaleituraaproximadoradaalmapo- pulardenossaAmérica,desuatradição,desuavariadaexpres- são. Nofundodamemóriademuitosdenósecoaavozmaterna e/ououtrasvozesigualmenteacalentadoraspelasquaistransita- vamseresfantásticos,criadospeloimagináriopopular,alguns chegadosaoBrasilatravésdacolonizaçãoportuguesa,aquien- riquecidos,modificadospelamisturadeelementosdacultura africanaedaculturaindígena.Dessas vozessaltamseresmito- lógicos,criaturasdeproporçõesfantásticaseterríveiscomafun- çãoirracionale/ouafetivadeadormecerumacriançaquerida cujosolhosmeninossãoforçadosasefecharemdiantedafigura terrível,fantástica,queaimaginaçãofaztãograndequantoo CANTIGAS DE NINAR: TRAÇOS DE UMA IDENTIDADE CULTURAL Magnólia Brasil Barbosa do Nascimento
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 86 própriomedo. Émuitodifícildissociardecadaumadascançõesdeninaros componentesdaameaça,prefiguradorasdeumconseqüente medo,dotomafetivocheiodeternuraquenosfazpensarsea cançãodeninar,aoestabelecerumclimamágico-afetivoque leveacriançaaomundo(in)segurodosonho,nãoterásidouma dasprimeirasatividadesamarcarohomem,emdeterminado momentodesuahistóriacomoadjetivohumano Ébomlembrarqueemnossospaísesoselementosdocotidi- anosãobemmaisamedrontadores,arealidadeémaisabsurdado queosseresfantásticosemitológicosquepovoamasquadrinhas populares.PorissomesmocantaChicoBuarque:“Dorme/minha pequena/nãovaleapenadespertar”,enquantoopoetacubano, NicolásGuillénvaipelacontra-mãoedespertao“negrito,ciruela ypasa”,paraqueveja,“despierto”,oqueacontece,numapelo político/socialbemaseugosto. Aoinvadirouniversoliterário,aoentrarnoespaçodamúsica popularfornecendomatériaparatantasobras,acantigadeninar saiumpoucodasombraparaondefoibanidapelosmodernos monstrosimportadosesempredivulgadospelatodapoderosa máquinaglobalizadora:atelevisão.Maisqueameaçarascrianças, aculturaimportadaborraosvariadosmatizesdetraçosculturais queconfiguramaidentidadedepaísesirmanadospelariquezade suastradições.Seatelevisão“rói”nossotraçoidentificador,sea máquinaacabacomaquelaingenuidadereferidainicialmente,as cantigasdeninar,umatradiçãotãohumana,emvezdeadorme- cer-nosestãoaíadespertar-nosparaarealidadedeumaculturaa defender. MagnóliaBrasilBarbosadoNascimento-ProfessoradeLetrasHis- pânicasdoInstitutodeLetrasdaUFF.
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    PODER E POLÍTICA 87 Áfricade Língua Portuguesa PARTE III
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    PODER E POLÍTICA 89 Caminhose descaminhos de utopias e resistências Carmem Lúcia Tindó Secco 91 Osonholiteráriodeummoçambicano Lena Jesus Ponte 95 Mia Couto por ele mesmo 97 Raízes de um povo cativo Wanderlino Teixeira Leite Netto 99 Guiné-Bissau:ariquezadesuaculturaoral Bolsistas de Literaturas Africanas da UFRJ 101 O idioma de 200 milhões José Lívio Dantas 103 “Navegar é preciso, viver não é preciso” Ângela Beatriz Faria 105 Do mar e de lágrimas Simone Caputo Gomes 107 Moçambique: a Língua Portuguesa em uma sociedade multilíngüe Lourenço Macagno 109 S. Tomé e Príncipe: aspectos da poesia nacional Mário César Lugarinho 111 Índice da Parte III
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 90 AlertaàÁfricalusófona José Octávio Serra Van-dünem 113 OfuturodaLínguaPortuguesanaÁfrica Maria de Lourdes Brandão 117 Cabo Verde na voz literária de Manuel Lopes Laurence Boccou 119 A saudade e o apelo do regresso Luisilda Lobo e Guevara da Cruz 123 Novas coordenadas na ficção de Angola Laura Cavalcante Padilha 125 Línguas africanas em contato com o Português (Breve nota sobre o caso angolano) Leodegário A. de Azevedo Filho 127 VirgíliodeLemos Alunos do Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da UFRJ 129
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    PODER E POLÍTICA 91 AsliteraturasafricanasdeLínguaPortuguesasãoaindajo- vens,comcercadeapenas150anosdeexistência.Apesarde osprimeirostextosdataremdasegundametadedoséc.XIX,só noséc. XX, na década de 30, em Cabo Verde (com a revista Claridade),enosanos50emAngola(comMensagem),éque essasliteraturascomeçaramaadquirirmaioridade,deslocando- sedaliteraturaportuguesatrazidacomoparadigmapeloscolo- nizadores. Emboranãosetenhamdesenvolvidosempreemconjunto, devidoaosseusrespectivoscontextossócio-culturaisdiferenci- ados,essasliteraturassão,geralmente,estudadas,nosmeios universitáriosocidentais,sobdenominaçãoabrangentequeen- volveaproduçãoliteráriadeAngola,Moçambique,CaboVer- de,Guiné-Bissau,S.ToméePríncipe,ex-colôniasdePortugal naÁfrica. TaldesignaçãosedeveàrelevânciadasLiteraturasAfrica- nas,nosanos40,50e60donossoséculo,quando,reunidosna CasadosEstudantesdoImpériodeLisboa,estudantesafrica- nos – entre eles Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Eduardo Mondlane,MáriodeAndrade,Tenreiro,AntónioJacinto–inici- aram,sobosecosdanegritudefrancesa,donegrismoafro-ame- ricanoesobosignodoanticolonialismo,ummovimentopolíti- co-literáriodevalorizaçãodasliteraturasdeseuspaíses.Tive- ramaítambémimportânciaoNeo-realismoportuguêseoMo- dernismobrasileiroqueserviramdemodeloàfundaçãodonaci- onalismonessasliteraturas. EmAngola,nosanos50,surgiuumapoesiadirecionadapara aafirmaçãodasraízesafricanas.Sobolema“Vamosdescobrir CAMINHOS E DESCAMINHOS DE UTOPIAS E RESISTÊNCIAS Carmem Lúcia Tindó Secco
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 92 Angola”propunhaoresgatedaangolanidade,tambémreivindicada pelospoetasdeMensagem,entreelesViriatoCruz,AntônioJa- cinto,AgostinhoNeto,autordeSagradaesperança. EmMoçambique,nessaépoca,seinicioutambémapoética damaçambicanidade,comNoêmiadeSouza,Marcelinodos SantoseCraveirinha,poetaque,em1992,recebeuoPrêmio Camões.RepresentandoapoesiadeS.ToméePríncipe,cita- mos Tenreiro, Maria Manuela Margarido e Alda do Espírito Santo,quedefendiamosparadigmasdanegritudeedaidentida- dedasilhas. EmCaboVerde,Claridadesignificouumaviradanalíricado Arquipélago.InfluenciadapeloModernismobrasileiro,essagera- çãorompeucomasformasclássicasdapoesia,incorporandoo versoeasrimaslivres,ocrioulo,ostemascabo-verdianos. Nosanos60,comaguerradeclaradacontraocolonialismo português,uniram-seasliteraturasdascincocolôniasportugue- sasaÁfricaemtornodatemáticalibertária,cujasutopiasfize- ram dos versos e das obras em prosa armas de luta contra o salazarismoportuguês.Noiníciodos70,comaintensarepres- sãodaPide(políciasalazarista),aliteraturasetornoubastante metafóricaparadriblaracensura. Apoesia,principalmenteemAngolaeMoçambique,passou asermuitoelaborada,voltando-sesobreelamesma.Essafoia faseda“Poesiadogueto”,dogrupoCaliban,emMoçambique, comRuiKnopfli,SebastiãoAlba,entreoutros,e,emAngola, comDavidMestre,ManuelRui,RuyDuarte,paracitarapenas alguns.Comaindependência,retornaramasutopias.Foram váriosospoetasacelebraremaliberdadeconquistada,masisso duroupouco. O fim dos anos 80 e os 90 foram marcados por um forte desencantonaesferasocial,queserefletiunaárealiterária.A poesia e a prosa superaram a fase “cantalutista” e o antigo panfletarismoideológico,substituídoshoje,pelametaconsciência e pelo traço crítico. Citamos, na poesia, nomes como os de Patraquim,EduardoWhite,VeraDuarte,RuydeCarvalho. Na prosa, muitos autores operam na linha da ficção e da história,recriandoprocedimentosdaoralidadeetradiçãoafri- canas,emconjugaçãocomumaescritaqueusarecursosficcionais
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    PODER E POLÍTICA 95 MiaCouto, na apresentação de Estórias abensonhadas (Nova Fronteira), declara haver escrito os contos desse livro depoisdaguerracivilemsuapátria,Moçambique.Informaque, portodooperíododebarbárie,a“...terraguardou,inteirasas suasvozes.Quandoselhesimpôsosilêncioelasmudaramde mundo.Noescuropermaneceramlunares.” Essedepoimentoreforçaaidéiadequeahistóriadoserhu- manocomseussonhosseescreveparaalémdasfronteirasda realidadeobjetiva,dascircunstânciashistóricas,dasconvenções sócio-culturais.Paraalémdaarbitrariedadedevastadoradas guerras,dasincompreensões,donão-entendimento,hápreser- vadoumterritóriointernodecriaçãoconstante:oreinodoima- ginário,quenãoéalienação,masinstrumentoderevelaçãodo real. Noprimeiroconto,“Naságuasdotempo”,oavô,“homem emflagranteinfância,semprearrebatadopelanovidadedevi- ver”,iniciaoneto(opersonagem-narrador)noentendimento desse lugar especial e desconhecido da maioria, onde “tudo que...seexibia,afinal,seinventavadeexistir.”–umaespéciede “terceiramargemdorio”,paralembrarJoãoGuimarãesRosa, dequemMiaCoutoseaproximaemalgunsaspectos,inclusive nainvençãosobrealinguagem. Aesselocalmágico,cercadodemistério(“lugardasinterdi- tascriaturas”;“osreceáveisaléns”;“terrasnão-firmes”;“interdi- tosterritórios”;“lagoproibido”),chegamaquelesqueaprende- ramaverossonhosesãocapazesdeperpetuar,emseusdes- cendentes,essepotencialdeiralémdasfronteirasdomundo superficial. O SONHO LITERÁRIO DE UM MOÇAMBICANO Lena Jesus Ponte
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 96 Osensívelescritormoçambicano,assimcomooavôdoconto, nosensinaaverparaalémdovisível(“nóstemosolhosquese abremparadentro”);aouvirparaalémdapalavra(“...erados que se calam por saber e conversam mesmo sem nada fala- rem”); a permanecer para além do tempo (“todo o tempo, a partirdaqui,sãoeternidades”);aviverparaalémdamorte(“eeu acabavadedescobriremmimumrioquenãohaverianuncade morrer”). Nessa busca e encontro de espaços ainda por semear, ele vaialém,inclusive,dafronteiradalíngua.Crianeologismos,arti- culasintaxesinusitadas,despertaemnósosustodadescoberta deimagensimpensadas. Para Jacqueline Held (O imaginário no poder, Summus Editorial), “o poeta é aquele para quem não existe um único mundo”. Assim também o romancista e contista Mia Couto, homememflagrantepoesia,semprearrebatadopelanovidade doescrever. Lena Jesus Ponte – Escritora, dinamizadora da Oficina da Palavra Luiz Simões Jesus.
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    PODER E POLÍTICA 97 Aclareza de sua condição mestiça “Souumescritorafricanoderaçabranca.Esteseriaopri- meiro traço de uma apresentação de mim mesmo. Escolho estas condições – a de africano e a de descendente de euro- peus–paradefinirlogoàpartidaacondiçãodepotencialcon- flito de culturas que transporto. Que se vai “resolvendo” por mestiçagens sucessivas, assimilações, trocas permanentes. Como outros brancos nascidos e criados em África, sou um serdefronteira. Amemóriamágicadainfância “Aindameninoescutavaoscontadores de estória nossu- búrbios negros de minha cidade. Ao meu lado estava João Joãoquinho,meuprimeiroamigo.Duranteanarração,havia umamagiaquenosroubavadomundo”. A consciência e o encantamento de narrar “Nãosoumaisqueisso:umcontadordeestóriatrabalhan- do na tentativa de recriar essa magia. No resto, sou biólogo, tentandointroduzirsuspeiçõespoéticasnascertezascientífi- cas. MIA COUTO POR ELE MESMO (DepoimentoscolhidosdeumapalestrafeitaporMiaCoutonaFaculda- dedeLetrasdaUFRJ,em11desetembrode97,edotexto“Ogatoeo novelo”,publicadonoJornaldeLetras,Lisboa,8deoutubrode97.)
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    PODER E POLÍTICA 99 Vieramde Angola, do Congo, do porto de Uida. Vieram de São Lourenço, de Moçambique. Vieram amontoados na escuridãodosporões.Multidãodecativos,hábitosdiferentes, diferentesreligiões,algunsnemsequerfalavamamesmalín- gua. De comum, a escravidão. Vieram cavar o ouro, vieram sofrernoeito,naplantaçãodefumo,naroçadecafé,noalgo- doal. Ironicamente,davamnomedesantoaostumbeiros:Nossa Senhora da Conceição, do Rosário, do Carmo, de Nazaré. Ao contornarem Costa da Mina, clamavam por São José. Dessa forma, camuflavam divindades, antecipavam o logro impostoaosenhornoproselitismodosrituais,dasrezas,dos batuques,dasdançasdominicais.Guerreirosporvocação,não nascerampraserescravos,mascaçadores,curandeiros,reis. Vieram de Angola, do Congo, de São Lourenço, de Moçambique, do Porto de Uida. Para bem da verdade, ja- maissaíramdelá! RAÍZES DE UM POVO CATIVO Wanderlino Teixeira Leite Netto WanderlinoTeixeiraLeiteNetto–Escritor,membroefetivodaAcade- mia Niteroiense de Letras, dinamizador da Oficina da Palavra Luiz Simões Jesus.
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    PODER E POLÍTICA 101 AGuiné-Bissau,nacostaocidentalafricana,apresentauma partecontinentaleoutrainsular,formadapeloArquipélagode Bijagós.Ocupa 36.125 km², dos quais apenas 28.000 km² se encontramsempreemersos,poisorestanteé,periodicamente, cobertopelasmaréscheias.Nolitoralrecortado,háumlargoes- tuário,emcujamargemdireitaficaBissau,capitaldopaís. A paisagem é singular, pois o azul do oceano se mescla ao verdedavegetaçãocosteira.Mareterra,empermanenteabraço, possibilitamaexistênciadeumaricafaunamarítimaedeumaflora peculiar,alimentadapelaprópriamaresia. DevidoaotardioprocessodealfabetizaçãonaGuiné,alitera- turaescritasóseconsolidouduranteaslutaspelaindependência. Antes,oquehaviaeraopatrimôniooral:lendas,adivinhas,pro- vérbios,emcrioulo,passadospelosmaisvelhos.Háalgumasre- colhasdessastradições:‘NStaLi‘NStaLa(1979,coleçãode adivinhas) e Jumbai (1979, conjunto de estórias). Mas, ainda hoje,nãoéextensaabibliografia,emborajáhajaváriaspublica- çõesdeTerezaMontenegro. Atualmente,oInstitutodePesquisasdaGuiné-Bissauvemdi- vulgandoaculturaoraldediversosgruposétnicosdopaís,além deobrasdeautorescomoVascoCabral,HélderProença,Tony Tcheca, Abdulai Sila, Félix Sigá, Odete Semedo, José Carlos Schwartz,entreoutros.MoemaeJohannesAugel,estudiososda literaturaehistóriadaGuiné,muitotêmcontribuídoparaisso. GUINÉ-BISSAU: A RIQUEZA DE SUA CULTURA ORAL Síntese elaborada pelos bolsistas do Setor de Literaturas Africanas daUFRJ,combaseemANovaLiteraturadaGuiné-Bissau,deMoema Parente. Bissau: INEP, 1998
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    PODER E POLÍTICA 103 Porvários séculos, a presença portuguesa na África subsaarianafoimarcante.Comopaíshegemônicoecoloniza- dor,éclaroquePortugalnãopodiadeixardeexercerinfluên- ciassobreatividadesvitaisdepovosautóctones.Naverdade, apresençaeuropéiaemquasetodoocontinenteafricanocons- tituiu-senumfatordiferencialqueimpôssuamaneiradeserao indigenismonegro.E,dentretodasasinfluências,nenhumaterá sidomaispermanentedoqueaexpressãolingüística. Tanto foi e ainda é assim que, já hoje soberanos e desvinculadosdosliamespolíticoscoloniais,ospaísesinde- pendentes da África, através de suas classes dirigentes e de seus profissionais, continuam a expressar-se no idioma das antigasmetrópoles. Se descartarmos a perspectiva puramente temporal e nos ativermostão-somenteaoslimitesgeográficosdalínguaportu- guesa, veremos que ela é o idioma próprio de cerca de 200 milhõesdepessoase,principalmente,oidiomadediferentes sociedades.Portugal,Brasil,Angola,Moçambique,CaboVer- de,Guiné-Bissau,SãoToméePríncipe,MacaueTimorLeste na Ásia demarcam o alcance de nossa voz em todos os continenentes e por sobre todos os oceanos. É seu caráter de universalidade,quepouquíssimasoutraslínguasconhecem. Orgulhamo-nos que isso aconteça ao nosso idioma, cuja vocação de transnacionalidade é sobejamente comprovada, nãoapenasnoBrasilcomseusmúltiplosgruposétnicos,mas também na África lusófona que continua tendo na língua de Camões e de Machado de Assis seu recurso preferencial de expressãoliterária. AntonioMendesCardosoeTomásKimemAngola;Mia O IDIOMA DE 200 MILHÕES José Lívio Dantas
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 104 CoutoeJoséCraveirinhaemMoçambique;EugênioTavares e Pedro Cardoso em Cabo Verde; Frederico Gustavo dos AnjosemSãoToméePríncipe–vivosalgunsefalecidosou- tros–comsuasrespectivasesubstanciosasobrasdepoetase prosadores,sãotestemunhasdaforçaedavitalidadeda“últi- ma flor do Lácio” em África, como se diz em castiço falar lisboeta.Queessavitalidadeeforçacontinuemporséculose milêniosàfrente.Pois. JoséLívioDantas–Jornalista,escritoretradutoreautor,entreoutros, do livro Romaneio – mini-ensaios e maxi-crônicas.
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    PODER E POLÍTICA 105 “Navegarépreciso,vivernãoépreciso”,diziaadivisados antigosnavegadoresnosséculosXVeXVI,épocadaaventura marítimo-colonialportuguesa.Navegartornava-senecessárioe exigiaprecisão.Jánaaventuraexistencial,osujeitoencontra-se diantedaerrânciaedabusca–imagináriaoureal–semcontar desejado,levando-o, por isso, muitas vezes a optar por uma “navegaçãoporimagens”. NaLiteraturaPortuguesacontemporânea,porexemplo,mais especificamentenostextossobreaguerracolonialafricana,evi- dencia-seoarquétipodo“mar”,retidonoimagináriocoloniale imperialista.Osromancesdasduasúltimasdécadas,querevisitam aimplantação,apermanênciaeaperdadoImpériomarítimo- colonial,substituemagrandiosaepopéiamarítimadeOslusíadas, deCamões,porepopéiasmarítimasouterrestescarnavalizantes. AHistóriaérevistaemdiferença,ouseja,deformainvertida, ironizada,parodiada,carnavalizada,aoressurgirnametaficção historiográfica–naacepçãodeLindaHutcheon,Poéticadopós- modernismo–dandovozaosoprimidos,excêntricosemargina- lizadospelosistema,comoconvémaumanovaleituradahistó- riadasidéias,dasmentalidadesedascriaçõesàluzdasinterro- gaçõescontemporâneas. EmAsnaus,(1988),deAntônioLoboAntunes,osperso- nagensprocuramaorigemeaidentidade,aosabordosespaços abertoselabirínticosdaHistória.Oautorcriouo“descrescendo docantoXd’Oslusíadas,transfigurandootextomemória-cul- tural,afimdeserrelidodeoutramaneira.Osmitosparadigmáticos da pátria – Camões, Cabral, Vasco da Gama, D. Sebastião e outros–adquirembaseparódicaecarnavalizante.Osheróisda “NAVEGAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO” Ângela Beatriz Faria
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 106 épocadaexpansãotransformam-seem“retornados”daguerra colonialafricana,revelandoonaufrágiodeumImpériorevisitado. Em Autópsia de um mar de ruínas (1984), João de Melo escreve Portugal, invertendo os arquétipos da pátria: o mar lusíadadaspaixõesexpansionistassubstituiu-sepelomarde ruínas,desfigurando,assim,autopiarevolucionáriapolítico- social, inerente à Revolução dos Cravos. A própria locução adjetivanotítulodaobraesvaziaosentidosimbólicodo“mar” eapátriasurgeproblematizadanoespaçotextual:“Aterraem Áfricaeraapenasumlugarondeamortesecumpria”eosol- dadoportuguêsagonizantesonhacomum“mardemenino”. Assim, tanto As naus, quanto Autópsiadeummarde ruí- nasretomamomodelomíticodoportuguês-marinheiroeoima- gináriodasconquistas.Nelesháimagensrecorrentesdasnaus, do mar e dos tempos do domínio: a fundação do reino e da nacionalidade,aexpansãodoImpérionosséculosXVeXVI, “acolonização”dascolôniasafricanaseodesenraizamentodos “portuguesesdesempregadosdomar”.Aesses“heróis” –er- ranteseproblemáticos,“despaisados”nageografiadoexílio, comoosoldadoocidentalemÁfricaouaquelequevoltouao país e perdeu o sentido de sua identidade e seu lugar – resta apenasassumiroolharestrangeiro,desgarradoefugidio,guar- dadosemprenaretinapsicológicadeummarinterior. ÂngelaBeatrizFaria-ProfessoradaFaculdadedeLetrasdaUFRJe doutoraemLiteraturaPortuguesa.
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    PODER E POLÍTICA 107 DesdeMensagem,FernandoPessoa,relendoporrasuraOs lusíadas,assinala o seu tempo como tempo morto e o texto sacralizadocomotextosepultadoeparasempreabolido.Épre- cisoescreveraanti-epopéiapararessuscitarPortugal,atéaqui tomadocomoimpériodeficção.NãoéporacasoqueCesário Verde vê a Lisboa do século XIX como espaço tumular, em oposição à euforia camoniana. Os grandes textos de Pessoa, Cesário,Pessanhasãopermeadospelasíndromedadecadên- cia,comaqualcomungamostextoscontemporâneoscomoos deGastãoCruz,FiamaHassePaisBrandãoeLuizaNetoJor- ge,entreoutros.Ao“singrar”donavioopõe-seopresente“san- grar”,aos“varõesassinalados”,“corposassassinados,oTejo “conduz/apoeiradamorteenãoalava”. AproduçãopoéticaafricanadospaísesdeLínguaPortugue- sa,frenteaocontextodaditadurasalazaristaedaguerracoloni- al, segue o rastro da anti-epopéia, deslocando o Mar de um imagináriodaviagemprazerosadaFamaparadenunciá-lo,en- quantoespaçodeInfâmia:“Noumbigodacolónia/Acaravela daopressãosecular”(CorsinoFortes,deCaboVerde).Otema daviagemsetraduz,nospoemasafricanos,emoutrospériplos, comoodotrabalhadorcontratado(escravodeportadoparaS. Tomé),odosquepartemparaasminasdaÁfricadoSul,odas moças que se vão prostituir na cidade. José Craveirinha, de Moçambique,assimvêapartidaparaocontrato:“Naquelanoi- tefatalqueexportou/duzentosevinteecincohomens/ecincoenta etrêsmulheres/paraasroçasdeS.Tomé”.Nomonstro-barco, adolescentessãotransportadosparaotrabalhoforçado.Omar édesmascarado,desmitologizado:“Chegouentãoahora/Domar lúcido(...)Económico./Assassino”. DO MAR E DE LÁGRIMAS Simone Caputo Gomes
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 108 Apartirdestadiagnose,ostextospós-independência(1975) vãopoderapresentarumimagináriomarítimopositivo,deaber- turaefecundidade:“Canto/EstesdezgrãozinhosdeÁfrica/Pos- tadosnomeiodooceano/edoscontinentes/Edomeiodomar/ edomeiodomundo/Vãodistribuindorotas/Assinalandocami- nhos”(DavidHopfferAlmada). SimoneCaputoGomes-ProfessoraaposentadadaUFF,doutoraem Literaturas Portuguesa e Africanas e coordenadora para o Brasil da Associação dos Professores e Investigadores da Língua Portu- guesa.
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    PODER E POLÍTICA 109 Quando,nofinaldoséculopassadoeprincípiosdopresente, osportuguesesconsolidama“ocupaçãoefetiva”doatualterri- tóriodeMoçambique,ospensadorescoloniaisdeépocacome- çamasepreocuparcomaLínguaPortuguesanoprocessode assimilaçãodas populações africanas aos valores da cultura metropolitana.Parasetornarem“assimilados”,oschamados“in- dígenas”deviamseemancipardosseus“usosecostumes”.Neste sentido,alínguadocolonizadoreraconsideradainstrumentode contribuição decisiva para a emancipação. Tal processo assimilacionistaseaprofundacomoadventodoEstadoNovo (1926)emPortugal. ApósaIndependênciade1975,aFrelimo(FrentedeLiber- taçãodeMoçambique)adotaaLínguaPortuguesacomooficial. Essadecisãocorrespondeaoprincípiodeapropriaçãodoidio- madocolonizadorpelocolonizado,fazendodele“instrumento delibertação”.O“homemnovo”socialistaprecisavaemanci- par-sedoobscurantismo,dotribalismo.Assim,macuas,rongas, shangansetc.deviamconfluiremumaúnicanaçãomoçambicana. A Língua Portuguesa faria a união dos moçambicanos de “RovumaaMaputo”,comocostumavadizerSamoraMachel (primeiropresidenteapósIndependência)nosseusdiscursos. A partir de 79, inicia-se um debate que continua até hoje. Nesseano,realiza-seemMaputooPrimeiroSeminárioNacio- nalsobreEnsinodaLínguaPortuguesa.Alisesublinhouane- cessidadedeaprofundaroestudodaslínguasmoçambicanas,a fimdedesempenharempapelimportantenodesenvolvimento científicoeculturaldopaís.Foiesseumprimeiroantecedente paraacriaçãodoNúcleodeEstudosdeLínguasMoçambicanas MOÇAMBIQUE: A LÍNGUA PORTUGUESA EM UMA SOCIEDADE MULTILÍNGÜE Lourenço Macagno
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 110 (Nelimo) na Faculdade de Letras da Universidade Eduardo Mondlane. Dezanosdepois,Nelimopublicaamplorelatórioacercados resultadosdoPrimeiroSemináriosobreaPadronizaçãodaOr- tografiadeLínguasMoçambicanas.Em93,organizaemMapu- tonoCentrodeEstudosBrasileiros,oseminárioCenáriosda LínguaPortuguesa:avitalidadedoidioma,reunindointelectuais eescritorespertencentesaospaísesdeLínguaoficialPortugue- sa,especialmentemoçambicanos. Atualmente,algunspesquisadoresdoInstitutodeDesenvol- vimento da Educação começam a olhar para uma realidade lingüísticacomplexa,propondoprojetosdeeducaçãobilíngüe. Odebatecontinua. LourençoMacagno-DoutorandodoProgramadePós-graduaçãoem SociologiaeAntropologiadoInstitutodeFilosofiaeCiênciasdaUFRJ. e-mail:lorenzo@ifs.ufrj.br
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    PODER E POLÍTICA 111 ALiteraturaSãotomensedestaca-senoquadrodasliteratu- rasafricanasdeLínguaPortuguesapordelaparticiparemseu momentodecisivodeafirmação,quandoavozdonegromarca- va,antesdeumaautênticaexpressãonacional,agenuínavoz africana.No período de formação, Caetano da Costa Alegre (1864-1890)deixa-nosumaobraemquecantanãoostradici- onaislouvoresàNaturezaluxuriante–própriosdaliteraturaco- lonial–masoconflitocomaculturadocolonizador:“Tutens horror de mim, bem sei, Aurora/ Tu és o dia, eu sou a noite espessa./Ondeeuacaboéqueoteusercomeça./Nãoamas!... flor,queestaminhaalmaadora”. Noséc.XX,seráFrancisoJoséTenreiroquemestabelecerá odiálogoentreasvozesdeumaverdadeirapoesianacionalea universalizaçãodasquestõesnegras,repensandoosconceitos deopressãoeintegraçãoracial:“Osomdogongue/ficougritan- donoar/queonegrotinhaperdido./Harlém!Harlém!América!/ NasruasdeHarlém/osanguedenegrosedebrancos/estáfor- mandoxadrez.Harlém!Bairronegro!Ringuedavida”. Aomesmotempoemqueonegroafricanoencontraecode suaHistórianaculturaafro-americana,Tenreiroelegeacultura afro-brasileiracomolugarnãodeenfrentamentoracial,masde problematizaçãodaintegraçãoracial,invertendoaperspectiva anteriordeCostaAlegre,quedavaaoafricanoumsinalamenos diantedaculturabranca. AoladodeTenreiro,AldadoEspíritoSantoseinscrevesob osignodacombatividade.Suapoéticatemnotrabalhodocon- tratado, o escravo camuflado pelo português, a sua principal fontetemática,instituindooquadrodacondiçãopré-indepen- S. TOMÉ E PRÍNCIPE: ASPECTOS DA POESIA NACIONAL Mário César Lugarinho
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 112 dência em S. Tomé e Príncipe: “É assim que eu te falo,/ meu irmãocontratadonumaroçadecafé./Meuirmãoquedeixasteu sanguenumaponte/ounavegasnomar,numpedaçodetimes- moemlutacomogandu”. Alda,umadasprimeirasmulheresaseapresentarcomdo- míniododiscursopoéticoemÁfricalusófona,defineoscontor- nosdosãotomense,percebe-oemsuadimensãodetrabalha- dor,afimdehumanizá-loeextraí-lodesuaalienação.Nosanos 90, Maria Olinda Beja, da Ilha do Príncipe e deslocada para metrópole muito criança, canta a saudade da Mãe África de forma diferente das gerações anteriores, contornando uma dialéticacultural.Istoé,assumeseustatuseuropeu,reconhecen- dosuamatrizafricana:“Quiseramfazerdemim/umaEuropéia/e poressemotivomearrancaram/dascostasdeMãe-África/mi- nhaMãe(...)/repuxarammeuscabelos,alisando-os/dando-lhes novaforma/esquecendocomoMedéiapenteouosfilhosdeÁfri- ca/(...)Conseguiramfazerdemim/umaEuropéia/sóseesquece- ramdecortar/ocordãoumbilicalqueficoupreso/àsraízesda velhaeritrineira/quemeubisavôplantouemMolembu”. Assim,apoesianacionalsãotomensedácontadeumper- cursopoéticoproblematizadordaculturaafricanacontemporâ- nea,cônsciadesuaformulaçãomulticulturaletransnacional. MárioCésarLugarinho-ProfessordaUFFedoutoremLiteraturas Portuguesa e Africanas. BIBLIOGRAFIA BÁSICA: MATA, Inocência. Emergência e existência de uma literatura: o caso sãotomense.Linda-a-Velha,Alac,1993. FERREIRA,Manuel. 50poetasafricanos:Angola,CaboVerde,Guiné- Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Lisboa, Plátano, 1989. BEJA,MariaOlinda.BôTendê?Aveiro,CâmaraMunicipal,1993.
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    PODER E POLÍTICA 113 NaÁfricalusófona–alémdasquestõesculturaisedealíngua portuguesaserodenominadorcomum–asituaçãorealdecada paísé,demodogeral,difícile,emalgunscasos,dramática.Lan- çamos,assim,algunsalertasàComunidadedePovosdeLíngua Portuguesa(CPLP),jáqueestanovainstituiçãotemdiantedesi muitosdesafios. Nãofoifácilaospaísesafricanoslusófonosencontrarmeca- nismosdearticulaçãoquedessemcontadosdesníveisexistentes entreeleseasdemaisnaçõeslusófonas,ouseja,BrasilePortu- gal.Tornou-se,defato,complexoparaasnaçõesafricanaspor umlado,estabeleceremprioridadesnasuaextensapautadene- cessidadesepreocupaçõese,poroutro,fazeremcomque,no empenhodecriaremumainstituição,estareflitaasvontadesde váriospaíses. Felizmente,hojeexisteaCPLPque,comlegitimidadeees- forços,entranosegundomandato,responsávelporfortalecer oslaçosdecooperaçãoeconômica,política,socialecultural. Porém,algunsalertasdeverãoestarpresentes:ospaísesafrica- nosdeLínguaPortuguesafazempartedeumconjuntomaisamplo daÁfricasubsaarianaque,emsuamaioria,viveagoraumaterrí- velcrise. Tal crise remonta ao passado colonial e ao crônico Subdesenvolvimentoapósoperíododacolonização,embora comtentativas–aindanãoconseguidas–deimplementaçãodos sistemasdemocráticos. Emfinsdosanos60,paísesafricanosobtiveramaindepen- dência,viverammomentosdeeuforiaeapossibilidadede–atra- vésdepolíticasdesenvolvimentistas,namaiorpartenãoadequa- dasàsuarealidade–participaremcomrealautonomiadoconjun- todasnações.Mastalfatonãoaconteceu.Aocontrário,assu- ALERTA À ÁFRICA LUSÓFONA José Octávio Serra Van-dünem
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 114 cessivas crises dos Estados independentes, o crescente endividamentoeaextremadependênciadestesemrelaçãoàsan- tigaspotênciascolonizadores,bemcomoaineficiênciadepolíti- cas,porestassugeridas,levaramessespaísesàpane.Oresultado foi:agravamentodetrocasdesiguais,aumentodoespectrodafome, desempregoendêmicoeaquaseimpossibilidadede,porsisó, reverteremtalsituação. Com o fim da guerra fria e o término do confronto Leste- Oeste,novasexpectativasseforamcriandoecomelasailusãode queaquedadomurodeBerlim,sóporsi,levariaàpazperpétua eàeradedesenvolvimento,daqualaÁfricasósepoderiabene- ficiar.Infelizmente,issonãoocorreu.AexclusãodaÁfricadanova ordemeconômicaquesedesenhoueasuapermanêncianaperi- feriaextrematornaram-semaisevidentes.Suasestatísticaspassa- ramaocuparespaçocadavezmaiornalistadosorganismosde ajudahumanitária. Énesteambientedeexplosõessociais,crisespolíticas,frag- mentações,guerrasinternasqueaÁfricasubsaarianamergulhoue delaospaísesafricanosdeLínguaPortuguesasãoparteintegran- te.Porisso,énecessárioqueasfuturasestratégiasdaCPLPle- vememcontaqueademocratizaçãodaÁfrica,emgeral,edos paísessobsuatutelatenhamcomotimoneiraaeducação.Elaserá oinstrumentopossibilitadordeumacidadaniaativaeresponsável, emqueoscidadãosgarantamoprincípiodeproximidadepara asseguraracomplementaridadeentreoEstadoeasociedadecivil e,porconseqüência,asuaduplalegitimidade. Somenteassimcriaremosumaculturadepazemqueestanão signifiqueapenasaausênciadaguerra,masaconstruçãodesóli- dospilares,quesirvamdebaseàvivênciadeprincípiosedevalo- resdejustiçaplena,àdiminuiçãodedesigualdadeseàcriaçãode oportunidades. Sódestaformaafastaremosasvisõesdoafropessimismoedo afrootimismo,acreditandonumafrorealismo,emque,comoes- creveuJéromeBindé,“sedesejamosqueoamanhãnãosejasem- pretardedemais,aantecipaçãodeveprevalecersobreaadapta- ção,aéticadofuturodevevenceratiraniadaurgênciaeosenso departilhadeveseimporsobreoegoísmocegoemqueseemba- çamosnovosapartheids”.
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    PODER E POLÍTICA 117 Depoisda Independência de Angola, o Português quase desapareceudasescolas.OspolíticosdiziamqueeraaLíngua do Colonialismo e, como tal, devia ser abolida. Mas o povo continuoufalandoPortuguês,gostadefalarPortuguês,preferin- do-oàssuaslínguasnacionais.Hoje,apesardefaltaremesco- las,professores,livrosdidáticosapropriados,elefirmou-seem Angola,porqueéconsideradoumfatordeunificaçãonacional, alargaohorizontecientíficoeculturaldosalunoseservecomo meiodecomunicaçãointernacional.Osangolanosvãocontinuar falandoPortuguêsnoterceiromilênio. O mesmo não se pode dizer quanto a Moçambique, onde aindahá,atualmente,cercade80%deanalfabetos.Pressionado pelosseusvizinhoseporinteresseseconômicos,estepaís,que pertenceàComunidadeLusófona,entrouparaaComunidade BritânicadasNações.OInglêstomoudeassaltoMoçambique, apesardasdiversasinstituiçõesdeníveluniversitárioestaremadar omelhoremproldaLínguaPortuguesa. Nopróximomilênio,nossoidiomacorreperigoporlá,por- queosjovensmoçambicanostêmmaisvantagememaprendere falarInglês.Serianecessário,paracombaterestesfatos,queo GovernodePortugalpromovessemaciçacampanha,ajudasse aconstruirescolasmodernas,abrissemaisleitorados,conce- dessemaisbolsasdeestudoa moçam-bicanos,possibilitando maiorintercâmbioculturalentreosdoispaíses.Igualperigocor- reoPortuguêsnaGuiné-Bissau,varridaporumasangrentaguerra civil, e que se voltou para a França. Este país é considerado, agora,áreafrancófona–eláanossalínguaperdeterrenodia-a- dia.Hoje,naGuiné-Bissau,apenas10%dapopulaçãofalaPor- O FUTURO DA LÍNGUA PORTUGUESA NA ÁFRICA Maria de Lourdes Brandão
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 118 tuguês. Seascoisascontinuaremassim,depoisdoanodoismil,o idiomadeCamõesdesaparecerádaquelanação.CaboVerdee SãoToméePríncipeestãohistoricamenteligadosàlusofoniae nãoosvamosperder.Masestãoasofrerumaverdadeiratenta- tivadeimperialismolingüísticofrancês,oquetambéméassusta- doredevesercombatido.EmCaboVerde,oCriouloéalíngua nacional,enquantooPortuguêséaoficial,aqueseensinanas escolas.Alusofoniaancora-senotempo-espaço.Éapátriasem fronteirasqueopovoportuguêscrioueespalhoupelomundo nostrêscontinentes. Paraquealusofoniasefirme,énecessário,antesdetudo, queasnaçõesconsigamviverempaz–numapazduradoura.E depois, que haja meios para que possam processar, normal- mente,aculturaeosaberàscriançasangolanas,moçambicanas, são-tomenses,cabo-verdianaseguineenses,criando-seinfra- estruturaseducativasquegarantamavitalidadedoPortuguês naquelespaísesnoterceiromilênio. MariadeLourdesBrandão-Jornalista,escritora,poetisaluso-brasilei- ra,comcincolivrospublicados.Participouemjunhode1998doVEncon- tro de Línguas Vivas, em Buenos Aires, esteve três vezes em Macau, inclusiveem97,noCongressoInternacionaldeLusofonia,promovido peloElosClubeInternacional.
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    PODER E POLÍTICA 119 NaÁfrica,asliteraturaslusofônicascomeçaramasairdo anonimatoemfinsdoséculopassado,emboracertosescritos africanosemLínguaPortuguesajádatassemdoXVI.Porém, eramtextosligadosàstransaçõescomerciaisdosdiversoster- ritórioscolonizados por Portugal. Somente há menos de um século,omundoaplaudealiteraturadaquelasregiões,desta- cando-seaproduçãocabo-verdianalusográfica.Emverdade, CaboVerde–arquipélagocompostodedezilhaseoitoilhotas, com uma superfície global de 4.033 km2 , com 450 mil habi- tantes,situadonoOceanoAtlântico,próximoaoSenegaleao suldasilhasCanárias–participoudomovimentointelectual queagitouasentãocolôniasportuguesasdaÁfrica. Dotadodericaexpressãoestéticapordiferentesrazões,Cabo Verdeprojetou-senocenáriolusofônico.Entreasprincipaiscau- sas,estãoopapelhistóricoeaestratégicasituaçãogeográfica nocruzamentodasrotasmarítimasdoscontinentesafricano,eu- ropeueamericano.Issofacultouodesenvolvimentodaliteratura localemmeioaumaculturamultifacetada.Tambémarelativa proximidadedametrópole,secomparadaàdasoutrasprovín- ciasluso-africanas,permitiuointercâmbiodosautoresnativos comosmetropolitanos. Entreseusmarcosliterários,ressalta,em1936,arevistaCla- ridade,abrindo-seacaminhosmodernistas.Pelasidentidades climáticasevisõesdemundo,os“claridosos”inspiraram-senos escritoresregionalistasdoNordestebrasileiro–sobretudoem ManuelBandeira,JorgedeLima,JorgeAmado,JoséLinsdo Rego–jáquearealidadedeCaboVerdeseaproximadouni- versoagrestedaliteraturabrasileiradosanos30. CABO VERDE NA VOZ LITERÁRIA DE MANUEL LOPES Laurence Boccou
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 120 Comtonsrealistas,os“claridosos”destacaramafomeligada aépocasdasecanasilhas,gerandoaemigraçãoe,aomesmo tempo,ainsularidade,conjugadaaoamorpelaterranatal.Tal estéticaafastou-osdasinfluênciasportuguesas,definindofor- masmaisespecíficasdasuaidentidadecultural.Permitiu,assim, quejovenspoetaseescritoresreivindicassemsuapertençaàs ilhaseficassemtambémconhecidosalémdoarquipélago. Chuva brava de Manuel Lopes Sendo a seca o maior flagelo da região, vários autores tematizaram-na.Entreeles,ManuelLopesnoromance Chu- va brava, ao traçar a vida dos camponeses e dos habitantes de Ribeira das Patas, uma vila da Ilha de Santo Antão, enfatizando a ausência da chuva, chaga que não cessa de se abrir, para provar a coragem e a fé dos cabo-verdianos. A insularidade presentifica-se na forte ligação com a terra e no medodeenfrentaromar,emboraaemigraçãosejaumaporta de saída mais suave do que a morte. Dissecandooscaracteresemtornodohostilfenômenona- tural,Chuvabravamostraoconflitodopersonagemcentral, Mané Quim, jovem de uns 20 anos, trabalhador da terra, di- antedoimpassedepermanecernailhaoudeixá-laemdecor- rência da seca. Ele se sente preso ao solo na angustiante ex- pectativadeumachuvasalvadoraquenãoopermitissepartir. NhôJoquinha,seupadrinho,aocontrário,emigraraeasorte lhe sorrira no Brasil. Próspero, retorna a Santo Antão e tenta convenceroafilhadodainutilidadedeficarnumlocalcadavez mais estéril. Com o coração opresso, Mané Quim, por fim, aceitaafastar-sedeRibeiradasPatas,damãeedeEscolástica, amiguinhadeinfância. Masháumafrasequepoderiatalvezserolemadolivroe dageraçãodeClaridade:“Quemlargaaterraperdeaalma...” repetidaporNhôLourencinho,figurapatriarcaldesimbólica ligação com o solo, apesar das dificuldades climáticas e econômicas. Já antes de partir, Mané Quim é invadido pela saudade,estaindefinívelnostalgiaparticularaoslusófonos. Depois, a chegada a Porto Novo lhe destroça o ser. Pro- curaaliasmontanhasnatais,sentindo-sepequeninodiantedo
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    PODER E POLÍTICA 121 canalmarítimo que o separa de S. Vicente. E, na véspera da viagemparaailhavizinha–ponteparaagrandetravessia–é salvoporumachuvamagnífica,renunciando,finalmente,ao futuroexílio. Salpicadodosimbolismodosquatroelementos–ar,água, fogoeterra–ChuvabravaevocaosproblemasdeCaboVer- de.Apesardapungentenostalgia,anarrativadesvelaaforçado homem diante das intempéries. No romance seguinte, Os flagelados do vento leste, Manuel Lopes descreve uma terra quesofretorrenciaischuvas,épocaemqueopovodocampose deliciacomaságuas,antesdesofrer,denovo,odramadaseca. Laurence Boccou - Professora de Letras Lusofônicas, formada pela UniversitédeHauteBretagne,Rennes,França,comtrabalhodemaîtrise sobreCaboVerdeeaobradeManuelLopes.TraduçãodeDalmaNasci- mento.
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    PODER E POLÍTICA 123 Somosestudantescabo-verdianosdeáreasdiversas–Enge- nharia,Informática,Letras,CiênciasSociais,Direitoetc.–num totalde 250 jovens sediados no Estado do Rio. Chegamos ao Brasil,vindosdaquelearquipélago,quesedivideemdoisgrupos deilhas:Barlavento,aonorte,compostoporS.Vicente,S.Nicolau, SantoAntão,SantaLuzia,BoaVistaeSal,alémdosilhéusPássa- ros,BrancoeRasoeSotavento,aosul,comSantiago,ondeficaa capital,Maio,Fogo,BravaeosilhéusdeSantaMaria,LuísCar- neiro,Sapado,GrandeeCima. Partimosàbuscadarealizaçãodeumsonhohámuitoalmeja- do,tendoomarpelafrente:viajaraterrasdistantes,paraaprimo- rarconhecimentoseaplicá-losnodesenvolvimentodenossopaís, CaboVerde,independentedojugoportuguêsdesde5dejulhode 1975,apóslutaseesperançasconcretizadas,tendocomoumdos líderesAmílcarCabral,assassinadopoucotempoantesdaliber- tação. Aqui no Brasil, para que houvesse maior elo entre nós, e o amoràterra,comumatodos,nãoseesvanecesse,recentemente fundamosaAssociaçãodosEstudantesCabo-verdianosdoEs- tadodoRiodeJaneiro,comsedeprovisórianaPraiaJoãoCae- tano,emNiterói. Aexistênciadeumalínguacomum–oPortuguês–entreCabo- VerdeeoBrasilcontribuiuparanossaintegraçãoàcomunidade brasileira.Amizadeslogoseefetivaram,nãoocorrendoofamoso choquedeculturasentrepovosdiversos.Aúnicadiferençareside emcertostraçosrelativosaonossosotaquemaispróximoàpro- núnciadePortugal.Emoutrosâmbitos,otipodevidadoshabi- tantesdaquiseassemelhaaodenossasilhas. Emboraadaptados,preservamosasraízesinsulares,como A SAUDADE E O APELO DO REGRESSO Luisilda Lobo e Guevara da Cruz
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 124 comprovamoseventos,revivescendoosentimentodapátria.Para celebraradatadanossaindependência,oMuseudoIngádedi- couaCaboVerdeodiacomconferênciaseexposições.Noúlti- mo14,abiblioteca,osetordeLiteraturasAfricanasdeLíngua Portuguesa,ambosdaFaculdadedeLetrasdaUFRJ,eanossa associaçãopromoveramoencontroCaboVerde: Cantoseen- cantosdeumarquipélago,comprofessores,estudantesbrasilei- rosecabo-verdianos.Nossogrupoapresentoudançasemúsicas típicas,seguidasdepalestrasepoemasdeclamadosdeautores nativos.Para22deagosto,programamosemS.Gonçaloexposi- çãodefotos,detrajes,alémdemúsicasecomidaslocais. Possuímosfortestraçosculturais,inclusivenocampomusical, destacando-seaMorna,comletrasrelativasàsaudade,àperdae aoamor,nalínguamaterna,oCrioulo,eritmosparticularesacada ilha,entreeles,oBatuque,oFunaná,oColasanjon,dançaque lembraasquadrilhasjuninasbrasileiras.Emtermosdecomida,é célebre a Catchupa, feita à base de milho, feijão, carne seca, lingüiça,legumesetubérculos.Nossaspraiasoferecembelaspai- sagense,quantoaopovo,somosdebrandoscostumes,infensos àviolência,hospitaleiros,alegres,semprecelebrandoavida,ape- sar de a seca levar, por vezes, muitos a emigrarem. Mas todos ficamcomasaudadedaterratatuadanaalma,conformenósmes- mos,aquinoBrasil,sonhandovoltar. Luisilda Lobo - Estudante de Engenharia Eletrônica na Cefet-RJ, e GuevaradaCruz,estudantedeInformáticanaUFFeatualpresidenteda AssociaçãodosEstudantesCabo-verdianosdoEstadodoRiodeJaneiro.
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    PODER E POLÍTICA 125 Aleituradasobrasficcionais,produzidasprincipalmenteen- tre50e75emAngola,deixapatentequeoprocessodeinde- pendênciapolíticafazcomqueosprodutorestextuaisseesfor- cemporreiterarocaráterantitéticoeantinômicodouniverso simbólicoafricano, se tomado como ponto de referência o paradigmabranco-ocidental.Naliteratura,portanto,doscha- madosanosdaguerrae,mesmoumadécadaantesdeles,per- cebe-se, com clareza, que “ungido pelos mesmos poderes polêmicosdonovo,oantiqüíssimonãoéumpassado:éumco- meço”(OctavioPaz). Recuperaratradiçãosignificatrazerparaacenadotextoa marcadaalteridadeangolana,paracomelaatingir-se,aomes- motempo,amodernidadeeadescolonizaçãodafalaliterária. Dessemodo,comoacríticasobejamenteaponta,ostextosse fazem armas de combate, em duplo sentido. Dá-se, então, o processodedesterritorialização(DeleuzeeGuattari,1977),que significaumgestodeintervençãopeloqualumgrupominoritário sefazouvir. A literatura, assim pensada, recorre com freqüência a um conjuntodevozescoletivase,demaneirainsistente,amensa- genspolíticas.Adiferençasetornaoprincipaltraçosemântico das obras produzidas em tal contexto, pois elas, objetivando desconstruirodiscursocolonialista,vãobuscarestratégiasdis- tintasparaseconstruíremcomoseucontrário. Interessa-nos,jáagora,questionarsobreanaturezadospro- cedimentos de que se vão valer os textos produzidos no pós- independência, ou seja, na nova correlação de formas estabelecidaspeladuplamorte–docolonizadoedocoloniza- NOVAS COORDENADAS NA FICÇÃO DE ANGOLA Laura Cavalcante Padilha
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 126 dor–momentotambémemqueseabalairresistivelmenteoedi- fícioetnocêntrico.Depoisde75,vemosqueseradicalizamos sinaisdaequaçãodadiferençaqueperdeseuvalornegativo, paraconstituir-seumapresençasignificante,semprereafirmada demodocoletivo.Oguetodeixadeservistocomominimização, transformando-seemforçarealimentadoradosujeito,cujafala culturaldelasenutre.Masadmitirasemânticadadiferençanão significapraticarasintaxedasegregaçãooudanegaçãodoou- tro,masdarvisibilidadeàscontradiçõesexistentesnasconven- çõesprópriasoualheias. Assim,aoassumir-secomosujeitodanovafasehistórica,o angolanonãodesejaasolidãocultural,oumesmoproporuma voltaàsorigens.Ooutro,depoisdosséculosXVeXVI,fincou oseu“padrão”nãosónaterraafricana,masnopróprioimagi- nário.ALínguaPortuguesa,impostacomoformadeelidiradi- ferençaporpartedodominador,passaaser,porexemplo,per- tençadopatrimônioculturalangolano,principalmente,masnão só,quandosepensaaquestãodovetoraltodessacultura.Faz- seprimeiroporimposiçãoe,depois,porescolhapolíticaapós 75,alínguaoficialdeAngola. Tal fato não é sinônimo, no entanto, da aceitação do etnocentrismooudesuafatalidade,pelocontrário,masumafor- ça nova que, como presença em ato, grita um mesmo que é, parasempre,umoutro.Nestejogodepresençaeaçãofirma-se umpactoficcionaldosmaisinstigantesemnossoséculo.Queo leitorbrasileiropossaviraconferi-loéodesejodetodosnós, quesabemosdaimportânciadotraçodessasnovascoordena- dassimbólicas. LauraCavalcantiPadilha-ProfessoradaFaculdadedeLetrasdaUniver- sidadeFederalFluminense,esuaatualdiretora,doutoraemLiteraturas Africanas,presidentedaANPOLL,conferencistaeautoradolivroEntre vozeletra-OlugardaancestralidadenaficçãoangolanadoséculoXX (EDUFF,1995).
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    PODER E POLÍTICA 127 SobreaquestãodaslínguasafricanasemcontatocomoPor- tuguês,faz-senecessáriaumareflexãopreliminar,situando-ano vastocampodasócio–edaetnolingüística.Tratando-sedelín- guasemcontato,comosãoasnumerosaslínguasafricanasdiante daLínguaPortuguesa,maistardeseabriramespaçossociaise étnicolingüísticosparaasliteraturasafricanasescritasemPortugu- ês,sobretudoapartirdasegundametadedoséc.XIX. Ésabidoquecoexistiramlínguasnativasaoladodaslínguas dacolonização,ambasrecebendoempréstimosrecíprocosde adstrato.Taisespaçosque,deinício,foramplurilíngüese,às vezes,bilíngües, transformaram-se em locais de intenso hibridismo,detalformaqueosistemalingüísticodoPortuguês começouareceberinfluxosfônicos,morfo-sintáticosesemân- ticos dos idiomas africanos, num processo sócio-e etnolingüísticodevariedadeedevariação,dentrodeummeio socialoudeumaculturaespecífica,aindanãosuficientemente estudado. Deinício,oPortuguêsseapresentoucomolínguapolíticaou administrativa,usadaporumaminoriadefuncionários(emAngo- la,porexemplo)querecorreramaintérpretesparaacomunica- çãocomopovo,emsuamaioria,falandoapenasváriaslínguas nativas.InformaoprofessorSalvatoTrigo,noensaio“Diglossiae literaturasafricanasdeexpressãoportuguesa”,queaíjáaparecem marcasdecrioulização,com“asimplificaçãodeprocessosgra- maticaiseareduçãodolequevocabularaomínimoindispensável, paraqueacomunicaçãosedê”.Taiscrioulos,emgeral,sãopor- tuguesesapenaspelabaselexical,masjáonãosãopelagramática LÍNGUAS AFRICANAS EM CONTATO COM O PORTUGUÊS (Breve nota sobre o caso angolano) Leodegário A. de Azevedo Filho
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 128 porforçadainterpenetraçãodossistemasdelínguasemcontato. Edaíseformam,naturalmente,dialetosmistosouhíbridos. EssaéasituaçãoespecíficadoPortuguêsemAngola,quealiás nãoseconfundecomasituaçãodiferenciadadoPortuguêsede suaimplantaçãosocialnasdemaisnaçõesafricanas.Jánosfinsdo sécXV,haviaumaligaçãopermanenteentrePortugaleoreinodo Congo,eissologodepoisdaviagemdeDiogodoCão,em1482, chegando-seàsPedrasdeLelalá.Talfatointensificou-senoXVI, com intercâmbio cada vez maior entre portugueses e povos quicongosatéoXVII,comoindicaSalvatoTrigo,noaludidoes- tudo.Eacrescenta“queaLínguaPortuguesaerajáconhecidado reino do Congo ao reino do Dongo, passando pelo reino da Matambaepenetrandobemnosertão,graças,sobretudo,àação divulgadoradospombeirosque,inicialmente,eramportugueses que se embrenhavam no interior para o resgate de escravos e depoispassouaserdesignaçãodadaamercadoresnegros”. Noséc.XVII,oPortuguêsjáerafaladoemAngola,massem- preaoladodaslínguasnativas,estando,noséc.XIX,emfranco hibridismolingüístico.Noscentroscomerciaisimportantes,assi- nalaaindaSalvatoTrigo,comoMpinda(noCongo),Luanda, DondoeBenguela,desenvolveu-seumasociedadebilíngüeou multilíngüe.Nãoadmira,pois,quealiteraturaangolanaemLíngua Portuguesaseiniciassenosmeadosdoséc.XIX,quandooprelo foiinstaladonaquelacolôniaafricana,emborasóapartirdadéca- dade1930seafirmasseemtermosnacionais,graçasàscondi- çõesdesócio-etnolingüísticasentãoexistentes,comosevênaan- tologiaPoesiaangolanamoderna(Bari,Adriática,1981),orga- nizadaeprefaciadaporFernandaToriello,entreoutrasfontes. LeodegárioA.deAzevedoFilho-ProfessorTitulardaUFRleTitular EméritodaUerj,escritoreconferencista.
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    PODER E POLÍTICA 129 Virgíliode Lemos, um dos grandes nomes da poesia de Moçambique,foiumdosfundadores,em1951,daRevistaMsaho, marcorenovadordapoéticamoçambicana,queatéentãosepau- tarapeloscânonesdaLiteraturaPortuguesa,impostapelapolítica assimilacionistadacolonização. SuaproduçãopoéticaemMoçambique,entre1944e1963, sefezsobaheteronímia,tendoescritocomoelemesmoeatravés dosdisfarcesdasmáscarasliteráriasdeDuarteGalvão(de1951a 1959), de Bruno dos Reis e de Lee-li Yang (de 1950 a 1953). Vírgilioparticipoudaresistênciamoçambicana,tendocolaborado emumjornaldeesquerda. Os poemas de Tempo agreste, de Duarte Galvão, um dos seusheterônimos,éomaispreocupadocomosocial.Em1960, esses textos foram publicados na antologia Poemas do tempo presente,apreendidapelaPIDE,apolíciadeSalazar.Presoem 1961,aoserlibertado,VirgíliofoiviveremParis,onderesidehá 35 anos, tendo sido jornalista, embora nunca tenha deixado o ofíciodepoeta. Algunscríticosdividemasuaobraemdoisgrandesmomentos: odolirismoreivindicativodebuscadasmatrizesmoçambicanas dapoesiaeodolirismocosmopolita,do desenraizamento,da expressãosintética,incisiva,construídaporintermédiodemetáfo- rasinesperadasesurreais.Naverdade,essesmomentosnãosão tãoestanques,poissuaestéticaseorganizaporciclosesubciclos quesemovimentamemespirais. Eleprópriodizque“seubarrocoéestético”,poisconsistena seduçãodavertigemenarebeldiaderitmos,imagens,sintaxes. Poetabilíngüe,publicoutrêslivrosemfrancês: L’objetàtrouver VIRGÍLIO DE LEMOS Pesquisa dos alunos do Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da UFRJ
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 130 (1988), L’obscene pensée d’Alice (1989) e L’aveugle et l’absurde(1990).EmPortuguês,figuraemváriasantologias, tendoaindacercade700poemasqueaguardamumaedição. Pesquisa dos alunos do Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da UFRJ, coordenado pela professora Carmen Lúcia Tindó Secco.
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    PODER E POLÍTICA 131 Brasilem transição PARTE IV
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    PODER E POLÍTICA 133 Quemtemmedodoprotecionismoindustrial? MariaAntonieta P. Leopoldi 135 Osdireitos dacriançaedoadolescentenoséculo XXI Estela Scheinvar 139 Globalizaçãofinanceiraehegemoniaamericana Luís Fernandes 141 No limiar de um novo tempo Rivo Gianini 143 Prognósticos para o Brasil Maria Jacintha Sauerbronn de Mello 145 Mercosul e empresariado Alberto Carlos Almeida 147 O Direito na sociedade brasileira no próximo século José Ribas Vieira 149 Ocidadãobrasileironoterceiromilênio Lúcia Miranda Boaventura 151 Machado de Assis visita O Correio e fala do Brasil em tran- sição Iterbio Galiano 153 Índice da Parte IV
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    PODER E POLÍTICA 135 Vivemoshojeummomentodemudançadedireçãodomo- deloindustrial,queseestruturouaolongodesteséculonoBrasil. Nele,oprotecionismotarifárioecambialgeneralizadofoiame- lhorestratégiadisponívelparapropiciaraindustrializaçãorápi- da.Masessemomentodahistóriadaindústriabrasileiraparece ter-seencerrado. Apolíticaindustrialhojeseconfundecomapolíticadecomér- cioexterior e desce ao nível local com a guerra fiscal entre os estadosávidosparaatrairnovosinvestimentosprodutivospara suasregiões.Elapassouasignificarareestruturaçãoindustrial,a buscadeeficiênciaedecompetitividadedasempresasedeseus produtos.Nestenovocontexto,apalavraprotecionismoganhou significadopejorativo.Deixoudereferir-seapolíticasdeestímulo aocrescimentodetodoosetorindustrialparadesignaraproteção aempresasprivilegiadas,a“cartórios”,asetoresobsoletos. Noentanto,ofuturodaindústriabrasileira,queestásendo gestadonosanos80e90,nãopodedeixardeladooseupassa- do,ondeEstado,protecionismoeliderançaempresarialforam elementosdeterminantesparaoarrancodesenvolvimentistada eradaindustrializaçãoporsubstituiçãodeimportações.Atrajetória doprotecionismoindustrialcomeçouhámaisdeumséculono Brasil,quandoaindústrianascentenoRiodeJaneirolutou,junto aogoverno,pormedidastarifáriasparasobreviveràconcorrên- cia dos produtos europeus. Foi na era Vargas (1930-1945) e depoisnadécadade50quesedefiniuaopçãoporumapolítica dedesenvolvimentofundadanoprotecionismoindustrial.Nessa fase,apolíticacambial,muitomaisqueatarifa,centralizoua políticadeproteçãoàindústria. QUEM TEM MEDO DO PROTECIONISMO INDUSTRIAL? Maria Antonieta P. Leopoldi
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 136 Ogovernomilitar(1964-1984)retomouoreferencialglobal desenvolvimentista,viabilizandoumaestratégiadecrescimento industrialcomendividamentoexterno,quelançouoBrasilnum novopatamarindustrial,masquetevecomocontrapartidauma décadaderecessãoedecrisedadívidaexterna.Paracrescera taxasde11%aoanonafasedo“milagre”(1968-1974),oEsta- dousoudevariadasformasdeproteçãoindustrial:tarifas,subsí- dios,créditosgovernamentaiseexternos,preçoscontrolados dosinsumosindustriais,políticadeexportaçãodemanufaturados entre outros. Foi a alocação autoritária da proteção a grupos ineficientesqueconferiucaráternegativoaoprotecionismoin- dustrial.Aondaneoliberaldosanos80reforçouaindamaisa carganegativacontraopapelprotetordoEstado. A mudança de regime em 1985 traz uma alteração no referencial que orienta a política industrial. A idéia de protecionismoérejeitadacomomaisumtraçodoentulhoauto- ritáriodequeaNovaRepúblicaprocurasedesfazer.Osnovos referenciaisdecrescimentoapontamagoraparaoenxugamento doEstado(privatização,desregulamentação).Masfrenteàur- gênciadepromoverareestruturaçãoindustrial,quemseocupa- rádeorientaredefinanciarasempresasnestenovocicloindus- trial?Quemtreinaráonovotrabalhadorerealocarátrabalhopara os que são excluídos deste novo ciclo? Quem enfrentará os embatescomerciaisnaOrganizaçãoMundialdoComércio,que podemlevaràdestruiçãodesetoresinteirosdaeconomiabrasi- leira? Quem poderá estabelecer os limites para a entrada do capitalestrangeiroedosprodutosconcorrentesparaquenão ocorraaquiumadesindustrialização? EstassãotarefasparaumnovoEstado,emprocessodere- forma.Umanovacoalizãodeinteressesdeempresáriosindus- triaislocaiscomaburocraciagovernamentalpodedarlugara numnovoprotecionismo.Nãomaisumprotecionismogenerali- zado,masumconjuntodepolíticassetoriaisquedefendama indústria brasileira, estimulem a competitividade, apóiem a reestruturaçãodasempresassemcausardanossociais,criem barreirassetoriaisdeproteçãocomercial,formulempolíticasde empregoerequalificaçãodotrabalhadoreteçamumanovarede deseguridadesocial.
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    PODER E POLÍTICA 137 MariaAntonietaP.Leopoldi-ProfessoradoProgramadePós-gradua- çãoemAntropologiaeCiênciaPolíticadaUFFedoProgramadeApoio aNúcleosdeExcelência,ligadoàFundaçãoGetúlioVargas.Doutoraem CiênciaPolíticapelaUniversidadedeOxford. Apolíticaindustrialsobonovoprotecionismovaidepender denovosformuladoresdereferenciais,que,comonopassado, virãodasagênciasburocráticas,dasliderançasempresariais,dos quadrosuniversitáriosedasinstituiçõessociais.Elespoderão sairtambémdoCongresso,organismoqueganhacadavezmai- orimportâncianasdecisõessobreoquemudar,emquedireção mudarecomomudar. Tudoindicaqueosnovosformuladoresnãovirãodosparti- dospolíticos,poisestesnãosetêmmostradocapazesdeformar novosquadros,nemdeconstruirumavisãoprópriasobreofu- turodasociedadebrasileira.EsteéograndedilemadoBrasil hoje,umavezqueasgrandesmudançasdereferencialcontem- porâneas,naInglaterradeThatcheredeTonyBlairounaFran- çadeMitterrand,tiveramorigemempartidospolíticos.
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    PODER E POLÍTICA 139 Osbalanços pedagógicos do fim deste milênio apontam parapráticasdogmáticashegemônicasdeexclusãoedesub- missão.Oacúmulodeconhecimentoproduzidopelaciviliza- çãoocidentaleapluralidadeculturaltêmsidopasteurizadose filtradosemnomedepoderespolíticos,tendocomoresultado aexclusãoatravésdosilenciamento. Verdadesmíticasdesco- ladas de processos, fatos distantes decretados como “a nos- sa”históriasãoalgunsdosprincípiospedagógicosincorpora- dosnocotidiano.Nãoéumacaso,portanto,afaltadepartici- pação,decontestação,dequestionamentos,mesmonostem- posmaisduros.Oconhecimentonãoétransmitidocomoum produtodeprocessosconcretosepalpáveis,datadoselocali- zados.Assim,oindivíduoétidocomoumsujeitodistante,alheio ereceptador,ondesuasproblemáticasnãosãohistóricas,mas “pessoais”. Históriaéoqueos“donosdosaber” decretam. Transformarestepanoramaétarefaparaumnovomilênio. Alguns subsídios o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA–coloca.EsteinstrumentolegalconfereDireitosàpopu- lação de 0 a 17 anos. Porém, distanciando-se de promessas messiânicasdesmobilizadoras,propõeformasdeintervenção concretasparaasociedadecivilnagestãodapolíticapública. Conferir a relação de cidadania para setores tutelados na modernidade implica em um desafio pedagógico. Construir relaçõesdecidadaniaéumaconquista.Nestenível,acimade qualquer promessa, o ECA é o chamamento da sociedade civilparaque,definindoquaisseusconflitosecompreendendo as condições em que se produzem, se busquem formas de OS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE NO SÉCULO XXI Estela Scheinvar
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 140 Estela Scheinvar - Mestre em Sociologia pela Universidade Nacio- nal Autônoma do México, socióloga do SPA/UFF e doutoranda em Educação. enfrentá-los,participandodemocraticamentedaconstruçãode novasrealidades,atravésdosConselhosdosDireitosdaCri- ançaedo Adolescente.Conhecimentoeparticipaçãovãode mãos juntas. Tarefa nada fácil. O ECA não é uma doação, é umapelocivil.Paraisto,tem-sepelafrente,maisummilênio.
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    PODER E POLÍTICA 141 AsferidasabertaspelacrisefinanceirainiciadanaÁsiaainda estãolongedesecicatrizar.Oriscodeataquesespeculativosso- breoschamados“mercadosemergentes”persistecomofatorde instabilidadenosistemafinanceirointernacional.Paragarantira estabilidadedassuasmoedasnacionaiseacontinuidadedasapli- caçõesdecapitalestrangeiro,ospaísesemdesenvolvimento(o Brasil,inclusive)têmsidoforçadosadesviarinvestimentospúbli- cosfundamentaisnasáreasdaeducação,saúde,cultura,ciênciae tecnologiapararealizaroslucrosdegrandesespeculadoresinter- nacionais.Tudo para atender às chamadas “exigências da globalização”Mas,afinal,queglobalizaçãoéessa? Paramuitosobservadoresacrisefinanceiradosegundose- mestre do ano passado constitui o exemplo definitivo da “globalização”.Portrásdestaconstataçãoestáumanoçãomuito difundidahoje:adequeomundoestariavivendoumanovaetapa dedesenvolvimentoemqueograndecapitalsedescoladaseco- nomiasnacionaiseadquireumanaturezaessencialmenteglobal, limitandoopoderpolíticoeregulatóriodosestadosnacionais. Esteprocessoestariamaisadiantado,precisamente,naárea financeiro-monetária,constituindoummercadoglobalplenamente integradoqueopera(viatelemática)deformacontínuaeemtem- poreal,semqualquerconstrangimentoe/ouregulaçãodeautori- dadesnacionaisouorganismosmultilaterais.Apresentecrisefi- nanceiramundialseriaexpressãodisto. Mas,serámesmo?Ocolapsodoregimefinanceiro-monetário internacionaldeBrettonWoods(ancoradonaparidadefixado dólarparacomoouro)nosanos70levouaosurgimentodetrês áreasmonetáriasprincipaisnaeconomiamundial,polarizadas,res- pectivamente,pelodólarnorte-americano,pelomarcoalemãoe GLOBALIZAÇÃO FINANCEIRA E HEGEMONIA AMERICANA Luís Fernandes
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 142 peloienejaponês.Asrelaçõesentreestastrêsáreas,noentanto, estãomuitolongedeseremsimétricasouequilibradas.Odólar continuasendoresponsávelpor80%dasoperaçõesmundiais interbancárias,75%dasoperaçõesdosmercadosinternacionais decapitaisedoisterçosdocomérciomundialedasreservasinter- nacionais. ComoaemissãododólarémonopóliodoEstadonorte-ame- ricano,istoconfereàsautoridadespolíticaseeconômicasdosEs- tadosUnidosumformidável(enada“limitado”)poderdeinterfe- rênciasobreaoperaçãodosistemafinanceiromundial.Aprópria escaladadeliberalizaçãoedesregulaçãofinanceira,quevarreo mundo há quase duas décadas, tem por base o protagonismo políticodosEstadosUnidos,que,enquantopotênciadominante, buscarelançarasuahegemoniaviaainstrumentalizaçãounilateral dasposiçõesdeforçaocupadaspelodólarnaeconomiamundial. Esteprotagonismovisa,justamente,aabrirmercadosmais amplosparaoseucapital,forçandoorestodomundoadesman- telarinstrumentosfundamentaisdesoberanianacionaleproteção social.Nosmarcosdacrescenteinternacionalizaçãodocapitalna esferafinanceira,acriseiniciadanaÁsianãoatingiuomundopor igual.Elavitimou–eseguevitimando–principalmenteoschama- dos“mercadosemergentes”(adospaísesemdesenvolvimento queoptarampormoldarseussistemasfinanceiro-monetáriosna- cionaisàsexigênciasdemaiormobilidadeinternacionalparaoca- pital)eoJapão.Podemosvislumbrar,comoconseqüência,ain- tensificaçãodamaréliberalizanteemumaáreadomundoquese tinhamantidorefratáriaaelaatéaqui:aÁsia.Demodogeral,a criseapontaparaaintensificaçãocombinadadahegemonianorte- americanaedavulnerabilidadedospaísesemdesenvolvimento. Equantoaopovo?Ah!este,segundoalógicadominante,“é apenasumdetalhe...” LuísFernandes-ProfessordoDepartamentodeCiênciaPolíticadaUFF edoInstitutodeRelaçõesInternacionaisdaPUC-RJedoutoremCiência PolíticapeloIuperj.
  • 128.
    PODER E POLÍTICA 143 AolongodanossaHistória,aliteraturaemtermosdofutu- rodoBrasilémuitorica.Oprimeirodocumentooficial,elabo- radoporPeroVazdeCaminha,jáafirmavaoteorprodigioso daterra recém-descoberta. Em nosso século, nos anos 20, AfonsoCelsoratificavatalimpressãoaoescreverPorqueme ufanodomeuPaís.Deláparacá,SérgioBuarquedeHolanda discorriasobreanossacordialidadenoconsagradoRaízesdo Brasil e Gilberto Freira na trilogia Casa grande e senzala, Sobrados e mucambos e Ordem e progresso interpretava, compeculiarotimismo,asbasessociológicasdobrasileiro. StephanZweig,escritoraustríacoqueresidiuemPetrópolis, legou nos anos 40 o Brasil, país do futuro, enaltecendo as virtudesdeumanaçãodestinadaasetransformarnumagran- de potência. Em meio a essas diversas leituras do Brasil, o francês Jacques Lambert desvelou, em estudos e pesquisas, umpaísdegrandepotencial,mastambémdegrandescontras- tes, o que o levou a escrever Os dois Brasis, onde apontava contradiçõeseconômicasesociaisqueatéhojepersistem. DarcyRibeiroafirmounoexcelenteeoportunoPovobra- sileiro – a formação e o sentido do Brasil que “os brasileiros sãohojeumdospovosmaishomogêneoslingüísticaecultural- menteetambémumdosmaisintegradossocialmentedaterra. Falamumamesmalíngua,semdialetos.Nãoabrigamnenhum contingentereivindicativodeautonomia,nemseapegamane- nhum passado. Estamos abertos para o futuro”. Acrescenta ainda Darcy que “nosso destino é unificarmos com todos os latino-americanospornossaoposiçãocomumaomesmoan- tagonista,queéaAméricaanglo-saxônica,parafundarmos, talcomoocorrenacomunidadeeuropéia,anaçãolatino-ame- NO LIMIAR DE UM NOVO TEMPO Rivo Gianini
  • 129.
    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 144 ricanasonhadaporBolivar”. Dessa forma, apesar de todas as dificuldades (anões do orçamento, fraudes do INSS, precatórios, compra de con- gressistasparaapoiaremogoverno,aimpunidadegeneraliza- da, a exclusão social que penaliza a maior parte dos brasilei- ros),estamosconstruindoeporcertoconstruiremos,anação rica,democrática,socialmentejusta,materialeespiritualmente desenvolvidadeamanhã. Rivo Gianini – Professor adjunto da UFF e de Pós-graduação da UniversidadeCatólicadePetrópolis,presidentedoComitêdaAlian- ça Francesa de Niterói, diretor regional da Associação Nacional de PolíticaeAdministraçãodaEducaçãoesubsecretáriomunicipalde DesenvolvimentodeNiterói.
  • 130.
    PODER E POLÍTICA 145 “Ascondiçõesdeexistênciadeterminamaconsciência”.Esta frasenosajudaacompreenderascontradiçõesquetornamnebu- losososprognósticosparaoBrasildopróximomilênio.Temaque seconstituienquetepermanenteentrecientistaspolíticos,filósofos, economistaseartistas,ofuturodopaíspreocupaatodosquese consideramagentesdaHistória. Paísmestiço,oBrasilsurge,nocenáriomundial,dointercurso detrêsculturasdistintas–índios,africanoseeuropeus–eseca- racterizapelosincretismocultural.Amiscigenaçãodepovosetni- camentetãoheterogêneosassinalou-sepelaviolência,escravidão, assassinatosetodasortedeexploraçãoedesigualdadessociais. Nossaextensãoterritoriallevouos“invasores”,ou“coloniza- dores”ainvestiremnaagricultura,assimcomoariquezadosolo sugeriuamineração,marcandoaHistóriacomosciclosdacana, caféeouro,ondeobraçoescravoeraaprincipalferramentade trabalho. Desdeoinícioaorganizaçãosocialsefundamentanadivisão declasses,cabendoàelitedominante–branca,ricaeeducada– todososprivilégiosedireitos,emdetrimentodagrandemassa populardeescravosafricanoseíndios.Historicamente,eatéhoje, afalta de poder aquisitivo expropria o operário da produção, mantendoostrabalhadores–ruraleurbano–alienadosealijados domercadofinanceiro,cujoobjetivoéatenderàdemandaexter- na,eaumentarolucroempresarial. Odeslocamentodavidaculturalparaacolônia,provocado pelainvasãonapoleônica,gerouaopulênciadealgumascidades– OuroPreto,Salvador,Olinda,RiodeJaneiro–masosprivilégios permanecemrestritosàeliteminoritária,semmudançasnaestru- turasocial,ondesãonítidososlimitesentrea“casagrandeea PROGNÓSTICOS PARA O BRASIL Maria Jacintha Sauerbronn de Mello
  • 131.
    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 146 senzala”. Hoje, a globalização introduz um caráter de permissividade,devale-tudocomoregradojogonalivreconcor- rênciadomercadoeconômico,agravandoasdiferençasdeclas- ses–ricosepobres–quesubmissos,violentadosobedecemàlei domaisforte.Desempregados,favelizados,semescolaridade, somosmarginaisnoprocessodedesenvolvimentoeconômico mundialevendemosoBrasilempedaços. Odesamparo,insegurança,violênciaecriminalidadecarac- terizamamisériadapopulaçãobrasileira,conflitandocomoluxo emqueviveaelitedopoder.Tomarconsciênciadarealidadee participardemovimentosquefavoreçamaexpressãodenossos valoresmorais,espirituaiseestéticoséatenderàslegítimasne- cessidadesdopovobrasileironaviradadoséculo. MariaJacinthaSauerbonndeMello-FormadaemFilosofiaediretora doEspaçoCulturalMariaJacintha,emNiterói.
  • 132.
    PODER E POLÍTICA 147 “Aburguesiaimprimeumcarátercosmopolitaàproduçãoe aoconsumoemtodosospaíses.Paradesesperodosreacionários, elaretirouàindústriasuabasenacional.Asvelhasindústriasnaci- onaisforamdestruídasecontinuamasê-lodiariamente”. “Emlugardasantigasnecessidades,satisfeitaspelosprodu- tosnacionais,nascemnovasnecessidadesquereclamam.para suasatisfação,osprodutosdasregiõesmaislongínquasedos climasmaisdiversos.Emlugardoantigoisolamentoderegiõese naçõesquesebastavamasipróprias,desenvolvem-seuminter- câmbiouniversal,umauniversalinterdependênciadasnações.E istosereferetantoàproduçãomaterial,comoàproduçãointe- lectual.Ascriaçõesintelectuaisdeumanaçãotornam-sepropri- edadecomumdetodas.Aestreitezaeoexclusivismonacionais tornam-secadavezmaisimpossíveis”.KarlMarx,Manifesto doPartido Comunista Marx não viveu para ver a formação e consolidação do Mercosul.todavia,aspassagensacima,retiradasdeseuescrito mais popular, mostram que ele foi, ao menos nesta área, um visionário.Defato,existemabundantesevidênciaempíricasque revelamqueaformaçãoeconsolidaçãodoMercosultendea encontrarpoucasresistênciasdacomunidadeempresarial.Mais doqueisso,asvisõeseaçõesempresariaistendemacontribuir positivamenteparaaintegração. Consideroqueistoocorreporquecadainvestimentoempre- sarialemumoutropaísdoblocopolíticoeeconômico,assim comocadacontratodeimportaçãoeexportaçãojásãoações que aprofundam a integração. Estas ações não dependem da vontadedenenhumgovernoemparticularegeramoutrasinú- merasaçõesquereforçamaintegração,sãooschamadosspill- MERCOSUL E EMPRESARIADO Alberto Carlos Almeida
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 148 over effects. Nãohádúvidasdequeosdirigentesempresariaissãoatores- chaves no processo de integração. O sucesso desta em muito dependedasescolhasdaqueles.Maisinvestimentosexternose maiscomércioexteriorlevarãoosgovernos,comojávêmfazen- do,atomarmedidasqueintegremmercadosqueanteseramuni- dadesemseparado.Épossívelargumentarqueosmercadosna- cionaisnãosurgiramdeformanatural,suagêneseemmuitode- pendeu da ação do Estado. Este impôs o mercado aos grupos queaeleresistiam.Contudo,noquetangeàformaçãodemerca- dosúnicos,somatóriodeváriosmercadosnacionais,pareceque o processo é diferente. Não é mais o Estado que antecede o mercado,masagoraéomercadoqueantecedeoEstado. Osblocospolíticoseeconômicos,formadosporgruposde países,tornam-semercadosúnicos,ouaomenoscaminhamantes nestadireção,parasóentãopassaremaconsideraranecessida- dedacriaçãodeinstituiçõessupranacionaisouintragoverna- mentais.Asatividadeseconômicasandamemritmomaisveloz doqueasaçõespolíticas,porexemplo,antesdeseconsiderara necessidadedeumEstadosupranacional,cominstituiçõesque façamvalerleiseregulamentos,constitui-seummercadoque tenhaumamoedaúnica. Considerando-seque,nesteprocesso,osdirigentesempre- sariaissãoosatoresquedefinemoritmoeoníveldaintegração, ebaseadonosdadosaquiapresentados,pode-seafirmarquea integração do Mercosul tende a se aprofundar, a se acelerar. Brasil,Argentina,UruguaieParaguaiestãosubmetidosaeste fenômenosocial. AlbertoCarlosAlmeida-ProfessordoDepartamentodeCiênciaPolíti- cadaUFF,membrodoProgramadeApoioaNúcleosdeExcelênciae doutoremCiênciaPolítica.
  • 134.
    PODER E POLÍTICA 149 Em1997,ojuristaefilósofoespanholAntônioPerezdeLuño organizouumaobraseletiva,naqualváriosautoreseuropeus desenharamoscenáriospossíveisdasmudançasdasordensju- rídicasdeseusrespectivospaísesnoterceiromilênio.Pudemos contarcominformaçõespreciosas,entreoutras,arespeito,por exemplo,deTecnologia e o Direito,DemocratizaçãodoDi- reito Constitucional, Ética etc.. Éfácilconstatarque,nanossasociedade,está-secarecendo depromoverumareflexãoparatraçaroperfildojurídico.Para estimularodebate,gostaríamosdeapontaralgumaspossíveis tendências.Tendênciasestasqueestarão,emrealidade,contra- ditoriamentearticuladasentresi. Assim,fatalmente,aestruturadoDireitoemnossopaísca- minha,comoemoutrassociedade,paradesregulaçãoestatal. Haverá,cadavezmais,ofortalecimentodavontadedaspartes. Isto é, a presença do contrato será, progressivamente, hegemônicocomonúcleodeumanovaregulaçãojurídica.Pis- tasdessefuturopróximoencontram-se,também,nasnegocia- çõesdiretasoumecanismosnovosdemediaçãodeconflitos.A disciplinadojuizadoarbitraleainstituiçãodosjuizadosespeciais civisecriminaisrepresentam,já,oanúnciodosnovostempos. Oimpactodainternacionalizaçãoeconômica(globa-lização) acarretará,materialmente,opredomíniomaiordoDireitoInter- nacionalemtodososseusaspectossoboDireitoInterno.Em conseqüência,percebe-secomoacategoriacontratoampliada facilitará,maisainda,astrocasdebensnummercadoplanetário. Numaoutraponta,visualiza-seapresençadeorganizações internacionaiscomoa“OrganizaçãoMundialdoComércio” O DIREITO NA SOCIEDADE BRASILEIRA NO PRÓXIMO SÉCULO José Ribas Vieira
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 150 (OML),determinandoaspolíticasdeimportaçãoeexportação dos estados. Não deve ser esquecido o fenômeno de internacionalizaçãodacategoriadecrimenassuasmúltiplasfor- mas(crimeecológico,crimefinanceiroeonarcotráfico)queexigi- ráinstrumentosjurídicosacimadodireitointernodecombatê-las. Numacontraposiçãoaessatendência“privada”,oDireito Constitucionalabreperspectivasparaomaiorfortalecimentode umaleituraéticadosDireitosFundamentais.Acrescente-se,tam- bém,queateoriaconstitucionalpoderáabrircaminhoparauma interpretaçãodasnormasdaconstituiçãocomparticipaçãomais diretadaprópriasociedade. Ao apontarmos essas tendências do nosso direito na vizi- nhançadonovomilênio,compartilhamosdomesmoprincípio deesperançadeummundomaisjusto,comotraduzem,aliás,os textosorganizadosporPerezdeLuño. José Ribas Vieira - Professor titular de Direito da UFF.
  • 136.
    PODER E POLÍTICA 151 Nummotoristadetáxi,percebiarevoltadocidadãocomum que,nãotendocursadoDireito,compreendia,porém,oabsurdo aqueésubmetidaapopulaçãobrasileiranaquestãojurídicae clamavapeladesobediênciacivil.Suaindignaçãocomeçavacom asnormasabsurdasdonovoCódigodeTrânsitoeterminava.ao comentarque, enquanto o prefeito contrata ex-PMs por R$ 1.000,00parafiscalizarotrânsito,professoresemédicosmunici- paisganhamametadedestesalário.Ebradava:“Opovounido devedeixardepagarimpostos,sóassimessesgovernantesepar- lamentaresvãomudaromododeagir!” Alémdasleisinjustas,digeridassemreação,ocidadãoconvi- vecomoanalfabetismo,asaúdeeaeducaçãosucateadaseum desempregocrescente.Aomesmotempo,vêumgovernopreo- cupadoemsocorrerbancosepressionaroCongressocomver- basecargos,paraqueaprovereformasprejudiciaisàpopulação, comoaquestãodaaposentadoriaouleisquefacilitemreeleger atuaisgovernantes. ObrasileironoTerceiromilênioprecisarecobrarsuacidada- nia,interferirnoprocessoadministrativo,jurídicoelegislativo.A escolanaviradadoséculoensinaráqueoEstadofoicriadopara resolverconflitosentrecidadãoseassegurardireitosatodos,exi- gindotambémdetodosocumprimentodosdeveres.OEstado, nasuaessência,nãopoderiacompactuarcomprivilégios,nem comaperpetuaçãodopoder. OPríncipedeMaquiavel,queusavadetodososmeiospara justificarseusfins,nãopoderátermaislugaremnossopaís,como elejánãomaisexisteemmuitoslugares.Obrasileirodonovo milênioprecisaparticipardogovernoatravésdefórunspróprios, O CIDADÃO BRASILEIRO NO TERCEIRO MILÊNIO Lúcia Miranda Boaventura
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 152 cobrarpromessasdecampanha,vigiaresugerirousodasverbas públicas.Cadabairrooudistritodelegariaarepresentantesafun- çãodelevaraosgovernantes,legisladoresejuízesasdeliberações deseusnúcleospopulacionais. OcidadãodoséculoXXIsesentirápleno,quandoperceber queoseubem-estarsóserácompletoseapopulação,comoum todo,viveremcondiçõesdignaseforalçadaàcidadaniarespon- sáveleconsciente. LúciaMirandaBoaventura-ProfessoradeHistóriadoColégioEstadu- alAntônioPradoJúnior,mestreemHistóriadaAméricapelaUFFe coordenadorado“ProjetoLeituraeCultura”,doProjetoSerVivo.
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    PODER E POLÍTICA 153 Aguardamosansiosos,naúltimaterça-feira,avisitadomaior dosescritoresbrasileiros,JoaquimMariaMachadodeAssis,à redaçãode O Correio, para falar sobre o Brasil em transição aonovomilênio.Osminutosvoavameele,nadadechegar.Ao cairdatarde,barulhosnaescada.Eraele,aresmungardificulda- desparasubirosdegraus. Descemose,numapequena,masconfortávelsala,orecebe- mos,semofertar-lhecafé,bebidaproibidaporseumédico.Ao pegarmosogravador,omestretartamudeou:“Aívindes,inquie- tassombras.”Fingimosnãoouvirecomeçamosaentrevistá-lo. O Correio: Como o senhor vê o próximo século? M.A:Tudoistocansa,tudoistoexaure.Souumarquitetode ruínas.Registreistonasuamente:segundoumapalavraantiga, nadaexistequesejanovo.ALuanãoéoutraLua.Océuazulou embruscado, as estrelas e as nuvens, o galo da madrugada, é tudoamesmacoisa.Ah!eternarepetição.Todosinventamo inventado.OpróximomilênioeoBrasilirãoporaí... Tudo isso é descrença? Fartodevendavais,naufrágios,boatos,mentiras,polêmicas. Farto de ver como se decompõem os homens, acionistas, diretores,importadoreseindustriais.Fartodemim,detodos, dosilênciosemquietação.Nestasociedadedecumpadrismos, aténosnegóciosdaságuasasujeiranãoépassadaalimpo. AosgovernosdaRepúblicafaltamduasqualidadesessenci- ais:majestadeedignidade.OsoficiaisdoExércitodividemcom DeusaonisciênciaecomoPapaainfabilidade.Adisciplinados MACHADO DE ASSIS VISITA O CORREIO E FALA DO BRASIL EM TRANSIÇÃO Iterbio Galiano
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 154 partidoseanaturalsujeiçãodoshomensàsnecessidadeseinte- resses comuns não podiam ser aceitas a um espírito que, em outraesfera,dispunhadesoberanaliberdade. Eanossaliteratura? De poetas de trem. Quanto à minha carreira literária, está feita.Praqueatarasduaspontasdavidaerestaurarnavelhicea adolescênciaederramarcríticasemaiscríticas? Exerceracríticaafigura-seaalgunsqueéumafáciltarefa, comoaoutrospareceigualmentefáciladelegislador.Infeliz- mente,éaopiniãocontráriaquedomina,eacrítica,desampara- dapelosesclarecidos,éexercidapelosincompetentes.Idéias sempernaseidéiassembraços. ÀentradaapressadadaeditoradetextosdeOCorreio,Ma- chadodeAssissorriueacatousuasintervençõesàentrevista. E os nossos políticos? Mire-se no espelho do alferes do meu conto: quem entra paraaPolíticasetransmuta,viraoutro.Oimportanteéserme- dalhão,aparentarser,brilharevencernavida.Aovencedor,as batatas! Ah!Avidaéumaópera. Globalizaçãooumundialização? Podebuscaraespeciariaalheia,mashádeserparatemperá- lacomomolhodesuafábrica.Paraosentendidos,poucaspa- lavrasbastam. No ano 2001, o amor será outro? Nãohácomoapaixãodoamorparafazeroriginaloqueé comumenovooquemorredevelho.Todavia,amelhordefini- çãodoamornãovaleumbeijodemoçanamorada. Insistimos: e o Brasil em transição? Pulhices!ComoaCapitudapraiadaGlóriajáestavadentro da de Matacavalos, o Brasil futuro já esta dentro deste aqui, como a fruta dentro da casca. Concluo que este mundo é um imensotoneldemarmelada. Porhoje,basta.Despeço-me.
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    EDIÇÕES ANTERIORES -VOL. II 156 EDITORA ÁGORA DA ILHA TEL.FAX.: 0 XX 21 - 393 4212 E-MAIL agorailh@ruralrj.com.br
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