Número 3




CONTRA CORRENTE                                      para quem desafia o pensamento único




   CRI$E CLIMÁTICA
   As mudanças no clima são apropriadas por corporações, instituições financeiras
   e governos como uma oportunidade de legitimar o capitalismo “verde” e aprofundar
   a exploração dos povos e a mercantilização da natureza. Uma nova roupagem para
   um velho modelo.



• Impactos sociais severos   • Os fundos verdes do BNDES    • Rio+20: captura pelo mercado
  na África e no Brasil        ainda estão em disputa?        e fortalecimento da resistência
Editorial                                                                                      Índice


Compreender para resistir                                                             4        Os Bancos já entraram no clima

                                                                                               Monotonia conveniente:
                                                                                      6
E
       conomia verde, mitigação, mercado de carbono, IPCC, PSA, REDD, MDL,                     a ideologia aquecimentista
       UNFCCC, GEE, emissões, Anexo 1... Se o vocabulário e os conceitos
       utilizados pelo sistema financeiro sempre estiveram longe de ser facilmente    9        A construção social
                                                                                               da crise climática
assimilados pela maioria da população brasileira, em se tratando do debate
sobre as mudanças climáticas, a falta de compreensão de seu real significado é,                Rio+(ou -) 20: chancela
também, explícita. A cobertura alarmista e superficial feita pela mídia sobre os     12        para o capitalismo verde?
“fenômenos climáticos” faz com que as pessoas se acostumem a ouvir alguns
                                                                                               Banco Mundial Fora do Clima!...
jargões, siglas e termos técnicos, mas não oferece subsídios para uma reflexão       16        e de nosso países
consistente sobre o tema. Pior ainda é que, por interesses corporativos, muita
informação não é veiculada. Ou é, simplesmente, mascarada com expressões                       REDD: financiamento
leves, como “sustentável”, “verde”, “ecológico”, “florestal”.
   No entanto, apesar do vasto desconhecimento sobre o paradigma das mudanças
                                                                                     19        para florestas ou
                                                                                               financeirização climática
climáticas, ele tem avançado de modo bastante rápido, tanto nos territórios,
como nos gabinetes governamentais e escritórios de corporações. Prova disso é        21        Fundo Clima: útil, mas suficiente?
que há no Congresso, atualmente, dois projetos de lei (PL 5487/2009, que institui
a Política Nacional dos Serviços Ambientais; e PL 5586/09, que regulamenta a         23        De olho nos investimentos
                                                                                               na Amazônia
Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação – REDD) que podem ser
aprovados sem a realização de um amplo debate com a sociedade e antes mesmo                    Petróleo do Pré-Sal:
das definições internacionais (nas conferências do Clima, na África do Sul, e da     25        investindo no passado
Biodiversidade, na Índia, além da Rio + 20).
                                                                                               Emissões: os impactos mais
   Neste sentido, esta edição da Contra Corrente pretende contribuir para uma        27        renegados das hidrelétricas
compreensão qualificada deste relevante debate, especificamente, no que se
refere ao financiamento ao clima. Novamente, contando com a colaboração de                     África: expropriação de terras
valiosos interlocutores, reunimos artigos que, a partir da perspectiva assumida      31        e mudanças climáticas
pelo conjunto da Rede, em sua VIII Assembléia Geral, realizada em junho de
2010, percebem o uso das mudanças climáticas como justificativa para um              34        Raposa no galinheiro
novo – e perigoso - avanço do capital, dessa vez, travestido de “verde”. Casos
e depoimentos sobre a apropriação de terras em Moçambique, no Paraná e no            38        O REDD na vida real

Amazonas trazem concretude para estas análises críticas.
   Interessante observar que essa financeirização da natureza é bancada
                                                                                     39        Alimento para a mente

politicamente pelas mesmas velhas instituições, com destaque para o Banco
Mundial. Segundo maior banco de fomento do mundo e capitalizado continuamente
pelo Tesouro Nacional, o BNDES tem se projetado também como um gestor dos
financiamentos relacionados ao clima.
   Com a proposta de abarcar a diversidade de atores e posicionamentos da Rede,      Contra Corrente é uma publicação da Rede Brasil
                                                                                     sobre Instituições Financeiras Multilaterais
esta revista apresenta também textos que vão no outro sentido: o de acreditar        Número 03, Outubro de 2011
que mecanismos como o REDD, por exemplo, estão ainda em disputa e, portanto,         Edição: Patrícia Bonilha
podem sim apoiar a proteção das florestas e de seus povos. O aquecimentismo e a      Revisão: Gabriel Strautman, Lúcia Ortiz e Patrícia Bonilha
                                                                                     Projeto Gráfico e Capa: Guilherme Resende
necessidade de politizar as discussões, assim como os investimentos na Amazônia,     Foto da Contracapa: João Correia Filho
no Pré-Sal e nas polêmicas hidrelétricas, também estão contemplados nesta            Os artigos assinados refletem a opinião de seus autores/as.
edição. Por último, reunimos uma extensa lista de materiais para quem quiser         E não necessariamente, são questões consensuadas
                                                                                     na Rede Brasil.
mergulhar no debate do clima, a partir de uma perspectiva crítica.
                                                                                     SCS Qd 01, Bloco L, Edifício Márcia, sala 904
                                                                                     Brasília - DF, CEP 70307-900 • t + 55 61 3321-6108
Esperamos que você aprecie. Boa leitura!                                             www.rbrasil.org.br
Gabriel Strautman*




Os Bancos já entraram
na “farra” do clima
A silenciosa e rápida financeirização da natureza exige que a Rede Brasil
se aproprie do debate com a missão de explicitar as reais e falsas soluções



E
      m 2010, foram alocados                 o setor de energia realizados entre     Contradições lá e cá
      aproximadamente 10 bilhões de          2008 e 2010 - ou seja, já durante       O mesmo tipo de análise pode ser
      dólares, em todo o mundo, no           a crise climática -, ainda são para     feita em relação ao Banco Nacional de
financiamento de projetos de adaptação       fontes intensivas em carbono, como      Desenvolvimento Econômico e Social
e mitigação das mudanças climáticas1.        as termelétricas e o petróleo3. A       (BNDES), que desde 2008 administra
Segundo dados do Banco Mundial2, este        organização, acompanhada de várias      o Fundo Amazônia4. Até agora foram
valor deverá alcançar uma média anual        outras, também argumenta que as         contratados catorze projetos e outros
de 275 bilhões de dólares antes de 2030,     alternativas do Banco Mundial para      cinco estão em fase de contratação, num
tendo em vista as previsões sobre a                                                  valor aproximado de 222 milhões de
necessidade de redução das emissões de
gases de efeito estufa. Para isso, novos
                                                      “O papel de                    reais,5 no marco deste que é considerado
                                                                                     o maior fundo de promoção à Redução
fundos deverão ser criados ao longo das
próximas décadas e, desde já, instituições
                                                instituições como o                  de Emissões por Desmatamento e
                                                                                     Degradação (REDD) existente no
como o próprio Banco Mundial – entre
outros bancos de desenvolvimento
                                                Banco Mundial tem                    mundo hoje.
                                                                                       Apenas para efeito de comparação, em
multilaterais, regionais e nacionais
– estão liderando a gestão destes
                                                sido o de construir                  31 de março deste ano, o BNDES aprovou
                                                                                     um empréstimo ponte de 3,6 bilhões de
volumosos recursos.
  No entanto, a legitimidade destas             e dar escala a este                  reais para o consórcio Norte Energia
                                                                                     para alavancar o início das obras do
instituições financeiras para administrar                                            polêmico projeto da Usina Hidrelétrica de
esses fundos de mitigação e adaptação          verdadeiro mercado                    Belo Monte, em plena Amazônia e que
às mudanças climáticas tem sido                                                      deve resultar na destruição de cerca de
duramente questionada. Organizações             de compra e venda                    50 mil hectares de floresta. Sem entrar
e movimentos sociais de diferentes                                                   no debate sobre os problemas, limites e
países afirmam a existência de uma              do direito a poluir,                 riscos de tais mecanismos, parece mesmo
grave contradição, na medida em que                                                  haver uma contradição no fato de que
são também estas mesmas instituições              que é o mercado                    o mesmo BNDES, que afirma financiar
as responsáveis pelo financiamento                                                   iniciativas de preservação da floresta com
do sistema capitalista e do modelo de                de carbono.”                    milhões de reais, contribua com bilhões
desenvolvimento neoliberal, baseado                                                  para a sua destruição. O que pretendem,
nos combustíveis fósseis (principal          combater o aquecimento global,          portanto, as instituições financeiras ao
causador do aquecimento global).             tais como o mercado de carbono,         reivindicarem a gestão dos fundos para o
  Em publicação recente, a organização       usinas hidrelétricas, produção de       combate ao aquecimento global?
Amigos da Terra Internacional chamou         agrocombustíveis e o monocultivo de       Essa talvez seja a pergunta central
a atenção para o fato de que 56% dos         árvores não passam de falsas soluções   neste debate sobre as possíveis soluções
financiamentos do Banco Mundial para         para o clima.                           para o problema da mudança climática


4
Contra Corrente




          “O que pretendem,
    portanto, as instituições
               financeiras ao
      reivindicarem a gestão


                                                     Gabriel Strautman
  dos fundos para o combate
   ao aquecimento global?”

                                                                              A contradição de instituições
                                                                                e países industrializados no
                                                                         financiamento ao clima: aplicam o
                                                                              veneno e oferecem o remédio




                                                                                                                                                                                    CommonDreams.org
e sobre o papel que os bancos devem         seus negócios usuais, com a expectativa
ter. Além da limitação destas iniciativas   de que suas emissões poderão vir a ser
para superar o problema estrutural          compensadas. O papel de instituições
por trás da mudança climática, um           como o Banco Mundial, historicamente                                    Nota da editora: a utilização de imagens com
detalhe importante sobre a formação         controlado pelos mesmos países                                          expressões em inglês nesta publicação sinaliza
dos fundos para adaptação e mitigação       industrializados, tem sido o de                                         que os debates, materiais e mobilizações sobre
                                                                                                                    este tema no Brasil ainda são recentes.
das mudanças climáticas é que a grande      construir e dar escala – através da
maioria destes é formada a partir de        canalização destes volumosos recursos
doações dos países industrializados que     – a este verdadeiro mercado de compra                              * Gabriel Strautman é economista e secretário executivo
também mantém práticas contraditórias.      e venda do direito a poluir, que é o                               da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais –
  O Fundo Amazônia, por exemplo,            mercado de carbono.                                                gabriel@rbrasil.org.br
foi formado a partir de uma “doação”          A construção do mercado de carbono
do governo norueguês. Embora invista        no Brasil está sendo feita de maneira                              1– Banco Mundial. World Development Report 2010, disponível
                                                                                                               em http://econ.worldbank.org/WBSITE/EXTERNAL/EXTDEC/
nestes fundos no Brasil e também            silenciosa e rápida, com a liderança                               EXTRESEARCH/EXTWDRS/EXTWDR2010/0,,menuPK:5287748~pa
na Indonésia, a Noruega é dona de           de instituições financeiras como o                                 gePK:64167702~piPK:64167676~theSitePK:5287741,00.html
empresas petroleiras como a Statoil (que    Banco Mundial e o BNDES. Para a                                    2– Idem
está construindo uma parceria com a         Rede Brasil, portanto, o debate sobre
Petrobrás) e a Norsk Hydro (que investe     o financiamento para o clima torna-                                3– Friends of the Earth. World Bank: catalysing catastrophic
                                                                                                               climate change: the world bank’s role in dirty energy investment
na exploração de bauxita na Amazônia,       se obrigatório, e passa pela produção                              and carbon markets, disponível em http://www.foei.org/en/
se aproveitando também da construção        de análises e o compartilhar de                                    resources/publications/pdfs/2011/world-bank-catalysing-
                                                                                                               catastrophic-climate-change
de Belo Monte como possível fonte de        conhecimento. O propósito deve ser o
energia futura).                            de que os verdadeiros responsáveis pelo                            4– Desde 2009, o BNDES também administra o Fundo Nacional
  A existência desses fundos permite        aquecimento global paguem a conta e                                sobre Mudanças Climáticas, mas que ainda se encontra na fase
                                                                                                               de definição dos seus critérios operacionais.
que esses países, grandes responsáveis      de que falsas e perigosas soluções não                              	
pelo aquecimento global, continuem          nos sejam impostas, agravando ainda                                5– http://www.fundoamazonia.gov.br/FundoAmazonia/
                                                                                                               fam/site_pt/Esquerdo/Projetos/ e http://www.bndes.gov.br/
poluindo, já que por esta via constroem     mais a exploração das riquezas naturais                            SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/BNDES_Transparente/
uma imagem verde apesar de seguir           e dos povos do Sul.                                                Consulta_as_operacoes_do_BNDES/setorprivado.html



                                                                                                                                                                               5
Oswaldo Sevá*




Monotonia conveniente:
a ideologia aquecimentista
Discordando de uma insistência quase hegemônica, há quem problematize o
debate sobre o aquecimento global a partir da política e do próprio rigor científico



E
       sclarecimento necessário: o autor                  Como engenheiro mecânico e velho                               do decaimento radiativo - é o que dizem
       desse artigo não é climatólogo,                  pesquisador na área de Energia, tem                              atualmente os estudiosos da física
       nem pesquisador de química ou                    plena consciência de que a atmosfera,                            nuclear e da astronomia, e faz sentido.
física atmosférica, nem geólogo. Não tem                essa estupenda casquinha de gases,                                 Muita gente sabe ou intui que não
condições profissionais nem legitimidade                poeiras, vapores e condensados que nos                           fervemos nem explodimos ao fim de
para afirmar nem desmentir assertivas                   envolve, é uma máquina termodinâmica                             um dia de verão tórrido porque no
sobre a história recente ou remota do                   com dois motores: a radiação do sol que                          outro hemisfério faz frio no mesmo
planeta Terra, nem sobre dimensões e                    nos bate a cada segundo e em todos                               dia, e a massa atmosférica se vira
comportamento do seu imenso volume                      os recantos a cada dia e ano; e o calor                          como pode soprando ventos e sendo
de águas oceânicas, lacustres, fluviais                 interno do núcleo fundente do planeta.                           sacudida pelos alíseos da rotação
e da sua imensa massa de gelos, neves,                  A longuíssimo prazo, parece que esses                            planetária. Também porque a casquinha
nuvens e chuvas.                                        dois motores tendem a esfriar por causa                          de poucos quilômetros de espessura
                                                                                                                         conta com um poderoso e onipresente
                                                                                                                         estabilizador e dissipador dessa energia,
                                                                                                                         a massa aquática bem mais espessa, em
                                                                                                                         permanente circulação, em incessante
                                                                                                                         troca de estados físicos: de líquido a
                                                                                                                         sólido e de novo a líquido, daí a vapor e,
                                                                                                                         de novo, a líquido.
                                                                                                                           De fato há consenso de que a atmosfera
                                                                                                                         da Terra é única e funciona para nós
                                                                                                                         como uma verdadeira estufa de criar
                                                                                                                         plantas; que ela segura por aqui, por
                                                                                                                         causa das sucessivas reflexões dos raios
                                                                                                                         nas camadas de gases, poeiras, nuvens
                                                                                                                         e gotículas, um pouco do estupendo
                                                                                                                         calor que retornaria, se perdendo, ao
                                                                                                                         espaço sideral. O planeta sim resfriaria
                                                                                                                         se não existisse a atmosfera como
                                                                                                                         ela é. Em inglês, é o “greenhouse”, na
                                                                                                     Guilherme Resende




                                                                                                                         língua francesa, o “effet de serre”, na
                                                                                                                         castelhana, o “efecto invernadero”. Em
                                                                                                                         todas as línguas, a compreensão de que a
                                                                                                                         casquinha irradiada e quase transparente
                                                                                                                         é tão fundamental para a vida como o
Há muitos interesses , propositadamente, não explícitos no atual debate sobre o aquecimento global                       calor do útero. Eis o único consenso.


6
Contra Corrente




  O restante da conversa é criação da         inclemente dos anos de 1930 foi             O homem coloca apenas 6 bilhões de
linguagem, da sociedade, suas ciências        reavivada pelo verão extremamente           toneladas, portanto as emissões humanas
e suas mídias. Quando se quer afirmar a       quente de 1988, e daí: “Seguiu-se-lhe       representam 3%. Se, nessa conferência,
todo custo, que “está aquecendo” e que        a dramatização (‘greenhouse panic’).        conseguirem reduzir a emissão pela
isto resulta da nossa ação, chamada de        Inicialmente assunto da climatologia, o     metade, o que são 3 bilhões de toneladas
“antrópica”, trata-se de uma ideologia        tema passou a ser tratado com emoção        em meio a 200 bilhões? Não vai mudar
refinada, uma crença monótona,                e irracionalidade. Depressa evoluiu para    absolutamente nada no clima.”
conveniente para muitos lados das lutas       o alarmismo. Perdeu o seu conteúdo
políticas e de classes deste novo milênio.    científico. Questiona-se actualmente:       A ciência do clima:
Nem todos, aliás!, como veremos aqui          estaremos ainda a falar de climatologia?    observações versus modelos
algumas pistas.                               Com uma ‘convicção’ geralmente              O site californiano Global Research.Ca
                                              proporcional à ignorância dos rudimentos acompanha com farta publicação temas
Aquecimento global:                           da disciplina, os ‘climatólogos             tão variados como ambiente, petróleo e
uma impostura científica                      autoproclamados’ propagam hipóteses         energia, biotecnologia, medicina, pobreza
Este é o impiedoso título de um extenso       procedentes dos modelos. Hipóteses          e, especialmente, os crimes contra a
artigo publicado em 2003 pelo cientista       infundadas ou mal estabelecidas e não       humanidade, a militarização e o estado
francês Marcel Leroux, recentemente           corroboradas pelas observações.”            policial emergente após o atentado
falecido. Professor de Climatologia da          Leroux é bem precavido quanto ao          de 11 de setembro. Nele, o articulista
Universidade Jean Moulin - Lyon III e         fato propalado de que os relatórios do      Richard Moore compila os resultados
diretor do Laboratório de Climatologia        Painel Intergovernamental das Mudanças      da análise do gelo da Groenlândia que
do Centre National de la Recherche            Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) são   indicam as temperaturas no hemisfério
Scientifique (CNRS), ele é o autor dos        preparados por “centenas de cientistas”:    Norte no período longo de 2.000 anos
livros Global Warming: Myth or Reality?       “O número anunciado pode iludir e           AC até o ano de 1900, e organiza as
The Erring Ways of Climatology e La           esconder o monolitismo da mensagem.         medições das temperaturas da superfície
dynamique du temps et du climat. Eis          Na realidade, uma pequena equipa            terrestre em três latitudes distantes, dessa
alguns trechos selecionados do início do      dominante impõe os seus pontos de           data até hoje.
seu artigo, traduzido pelo site português     vista a uma maioria sem competências           Para o leitor sedento dos números e
Resistir.Info:                                climatológicas. O ‘I’ de IPCC significa,    gráficos, ele registra os principais links
  “O aquecimento global é uma hipótese        com efeito, ‘intergovernamental’. Significa dos relatórios do satélite NOOA, do
fornecida por modelos teóricos. Baseia-       que os pretensos cientistas são antes do    Instituto Goddard, do Centro Marshall,
se em relações simplistas que anunciam        mais representantes governamentais.”        bem como os trabalhos recentes de Roy
um aumento da temperatura, proclamado           Encontrar um brasileiro, especialista,    Spencer, (da University of Alabama,
mas não demonstrado. São numerosas            que conteste a monotonia da pauta           Huntsville e do U.S. Science Team
as contradições entre as previsões            “aquecimentista” foi bem mais difícil,      Leader for the Advanced Microwave
e os factos climáticos observados             mas... existe um meteorologista,            Scanning Radiometer) que trata os
directamente. A ignorância destas             que aqui representa a Organização           dados do satélite NASA-Acqua. Ele
distorções flagrantes constitui uma           Meteorológica Mundial, com sede em          tirou conclusões opostas às da ideologia
impostura científica. Nos anos 70 (do         Genebra, o sr. Luis Carlos Molion. Ele      aquecimentista, principalmente por causa
séc. XX) verificou-se um desvio climático     assim respondeu a uma pergunta do           do comportamento das nuvens pesadas
(que os modelos não ‘previram’).              site UOL Ciência e Saúde, em dezembro       (cirrus) e das chuvas quando ocorre
Traduziu-se num aumento progressivo da        de 2009, enquanto se desenrolava a          aquecimento da superfície terrestre. Para
violência e da irregularidade do tempo        badalada e fracassada Conferência COP       não cometer erros, traduzo abaixo um
e foi provocado pela modificação do           15, na capital da Dinamarca:                trecho de Moore, comentando a pesquisa
modo de circulação geral da atmosfera.        “Q: O senhor, então, contesta qualquer      de Spencer: “O que ele encontrou,
O problema fundamental não é prever           influência do homem na mudança de           dirigindo os sensores dos satélites para
o clima em 2100. Deve-se, antes,              temperatura da Terra? 				                  os alvos apropriados, é que a resposta de
determinar as causas daquele desvio           Molion: Os fluxos naturais dos oceanos,     retroalimentação (‘feedback response’)
climático recente. Isso permitiria prever a   pólos, vulcões e vegetação somam 200        é mais negativa do que positiva. Em
evolução do tempo no futuro próximo.”         bilhões de toneladas de emissões por ano.   particular, ele verificou que a formação
  Mais adiante, ele lembra que nos            A incerteza que temos desse número é        de nuvens ‘cirrus’ de tempestades é
Estados Unidos, a memória do tempo            de 40 bilhões para cima ou para baixo.      inibida quando as temperaturas da


                                                                                                                                         7
superfície do globo são altas. As nuvens        “Além disso, os registros de longo     Um contra-exemplo:
‘cirrus’ são elas mesmas um poderoso gás     prazo mostram que a temperatura           No início de outubro deste ano,
de efeito estufa, e essa diminuição na sua   foi no passado muito mais alta que        organizamos na Universidade Estadual
formação pode compensar o aumento de         hoje – inclusive há apenas mil anos       de Campinas (Unicamp) um Fórum
aquecimento causado pelo CO2”.               (o Período de Aquecimento Medieval)       intitulado “Injustiça Ambiental e Saúde:
                                             – e nenhum desastre bizarro, tal          os atingidos pela poluição do ar”, no qual
Os modelos climáticos                        como a extinção de ursos polares ou       pesquisadores universitários e lideranças
e a opinião pública                          ciclos de retroalimentação positiva       de entidades não governamentais
  Cito agora trechos de Moore onde ele       (runaway feedback loops), ocorreu         levaram o seu testemunho e experiência
desvenda o restante da argumentação          em consequência disso. Assim              sobre o avanço dramático dos números
científica-e-política pois, nesse caso,      como com o modelo ptolomaico, há          medidos de poluição do ar (poeiras,
não temos mais como separar uma              facções politicamente poderosas que       fumaças, hidrocarbonetos, inclusive os
da outra: “No caso dos modelos               encamparam para seus próprios             aromáticos bastante patogênicos, gases
climáticos que estão sendo usados            propósitos a teoria do aquecimento        de nitrogênio e de enxofre, precursores
pelo IPCC, a suposição é de que o            global danoso de origem antropogênica.    de chuvas ácidas e de ozônio respirável) e
CO2 é um controlador fundamental             Por enquanto, basta dizer que             sobre a degradação das condições de vida
do clima. Há uma base intuitiva para         generosos fundos foram fornecidos         de populações em áreas carboníferas,
essa suposição, dado que o CO2 é um          para os cientistas da CRU (Climatic       siderúrgicas e do agronegócio. Esses
gás de efeito estufa, e tanto o CO2          Research Unit), que ficaram mais que      temas e assuntos cruciais para a saúde e
como a temperatura tem-se elevado            dispostos a ‘refinar’ o modelo para       sobrevivência do ambiente e da espécie
substancialmente no último século.           lidar com a ‘verdade inconveniente’       humana vêm sendo obscurecidos,
Além disso, observou-se uma forte            dos problemas do modelo - mesmo que       desprezados e omitidos pelos que, nas
correlação entre os níveis de CO2 e a        isso requeresse coisas como ‘esconder     empresas, governos, universidades e
temperatura em registros de longo prazo      o declínio’.                              ONGs, passaram a seguir a moda e o
revelados por amostras de gelo. Mais           Finalizo protegendo a                   credo aquecimentista. Muito antes de
ainda, a queima de combustíveis fósseis      própria imagem: criticando os             aquecer, se é que aquece... a atmosfera
continua a poluir a atmosfera (e os          “aquecimentistas”, tem gente séria        está certamente sendo envenenada.
oceanos) com níveis cada vez mais altos      e bem informada como os citados,
de CO2. Isso levou à hipótese de que a       mas também vários fundamentalistas
temperatura pode se elevar abruptamente,     neo-liberais, guerrilheiros do livre
colocando em perigo a vida no planeta.       mercado, a indústria carbonífera,
Tudo isso foi apresentado de forma           além dos senhores do petróleo e suas
bastante dramática por Al Gore em seu        guerras. Quem se interessar, vá ao site
famoso documentário.” 
                      Competitive Enterprise Institute, de
                                                                                       * Oswaldo Sevá é engenheiro mecânico, doutor em
  Lembrando que o famoso modelo do           onde se pode navegar no http://www.
                                                                                       Geografia Humana e professor da Universidade Estadual
egípcio Ptolomeu, no segundo século da       globalwarming.org/ e, daí, pular para     de Campinas (Unicamp) – seva@fem.unicamp.br e
era cristã, colocando a Terra no centro do   outro endereço que questiona o falado     www.fem.unicamp.br/~seva
sistema solar, era quase perfeito, Moore     filme Uma verdade inconveniente –
destaca que: “Assim como com o modelo        http://www.noteviljustwrong.com/          referências bibliográficas
                                                                                       Leroux, Marcel: Réchauffement global: une imposture
ptolomaico, há vários problemas com          home (ou seja: ele não é o diabo,         scientifique foi publicado no nº 95, Março-Abril/2003 da revista
a suposição de que o CO2 condiciona o        apenas está errado). Um dos mais          Fusion. http://www.revuefusion.com/images/Art_095_36.pdf .
clima, e com a predição de aquecimento       ferinos desses “direitosos” publicou,     Os trechos aqui reproduzidos na íntegra foram obtidos no site
                                                                                       português http://resistir.info/climatologia/impostura_cientifica.
perigoso. Em primeiro lugar, os registros    em 2007, Os 35 erros do filme de Al       html. Mais informação em português, acerca da teoria do Prof.
de longo prazo mostram que primeiro a        Gore. Seu nome plebeu é Christopher       Leroux em http://mitos-climaticos.blogspot.com
temperatura sofreu mudanças históricas,      Walter, mas trata-se do Terceiro          Molion, Luis Carlos, entrevista em “Não existe aquecimento
seguidas muito depois por alterações         Visconde Monckton of Brenchley,           global”, diz representante da OMM na América do Sul, Carlos
nos níveis de CO2. Outra coisa é que         assessor político direto da ex-primeira   Madeiro, 11.12.2009, no site http://noticias.uol.com.br/ultnot/
                                                                                       cienciaesaude/
tem havido períodos de resfriamento          ministra Margaret Thatcher. Espero não
significativo em anos recentes, mesmo        ser confundido com essa gente, e que      Moore, Richard Climate Sciences: Observations x Models,
                                                                                       08.01.2010, acessível em http://www.globalresearch.ca/index.
enquanto os níveis de CO2 continuaram a      eu tenha honrado o nome da revista: é     php?context=va&aid=16865, Em português em http://resistir.
se elevar dramaticamente.”                   hora e vez de estar na Contra Corrente!   info



8
Fabrina Furtado*                                                                                                                        Contra Corrente




A construção social
da crise climática
O reducionismo científico no trato das mudanças climáticas encobre a crise política
e econômica; também leva à errônea percepção de defesa de interesses comuns



E
      ntro nesse debate compartilhando
      a percepção da Rede Brasil: a
      necessidade premente de limitar a
busca incessante do capital pelo domínio
da natureza, entendendo a crise
climática como uma construção social
e não como um fenômeno científico-
natural. Inicio esta discussão a partir da
luta por reparações da dívida ecológica
e pelo fim de instituições como o
Banco Mundial, que se apropriaram,
reduziram e transformaram a questão
climática em um meio de aprofundar a
acumulação capitalista.
  Desde a era colonial, a escravidão, a
extração de minerais e hidrocarbonetos,
as monoculturas e o roubo da
biodiversidade e de conhecimentos
tradicionais consolidaram o poder e a
supremacia dos países do Norte (Europa,
Estados Unidos, Japão, Canadá e outros
que integram a lista das nações mais
ricas do mundo). Este uso e abuso da              “O IPCC reduziu a questão ambiental às mudanças climáticas, e esta às emissões de carbono”:
natureza e dos povos do Sul originaram            debate alarmista e política do medo
uma dívida ecológica que continua
aumentando através de mecanismos de          Nações Unidas sobre Mudança do Clima                direito, com a qual a sociedade tem uma
opressão e de controle, como a dívida        (CQNUMC). Esta proposta foi assinada                relação indivisível, interdependente,
financeira, o chamado mercado livre, a       pela Venezuela, Malásia, Paraguai, Sri              complementar e espiritual -, este
subjugação cultural e o uso da força.        Lanka, Butão, Etiópia e Micronésia (JS,             governo também promove um modelo
  Tendo como argumento que os países         2010).                                              de desenvolvimento baseado em uma
do Norte são os maiores responsáveis            	 Vale destacar aqui a contradição entre         matriz exportadora de hidrocarbonetos,
pela crise climática e, portanto, devem      o discurso internacional do governo                 hidroeletricidade, mineração,
pagar pelos seus custos e consequências,     boliviano e suas ações domésticas.                  agroindústria e da manufatura florestal
em 2009, o governo boliviano                 Embora seja o principal defensor da                 que viola o Vivir Bien. Um dos mais
apresentou uma proposta sobre dívida         filosofia do Vivir Bien - que reconhece             recentes e explícitos exemplos dessa
climática na Convenção-Quadro das            a natureza como ser vivo, objeto de                 contradição ocorreu em setembro deste


                                                                                                                                                     9
ano, quando o governo boliviano                                                                               grupos de pesquisa independentes que
reprimiu de modo bastante violento uma                                                                        defendiam uma ação drástica frente
marcha pacífica contra a construção                                                                           ao colapso dos preços do petróleo em
de uma estrada que pretende                                                                                   1986 e a resultante crise energética.
atravessar o Território Indígena Parque                                                                       Isso aconteceu no momento em que
Nacional Isiboro Sécure (Tipnis), na                                                                          as tecnologias de energia ¨alternativa¨




                                       Greenpeace/Paulo Adario
Floresta Amazônica.                                                                                           e nuclear precisavam de ajuda oficial
  É importante refletir sobre o porquê                                                                        para sobreviver. O caminho da pesquisa
de propostas como a da dívida climática                                                                       estava traçado: eficiência energética
serem tão facilmente negadas e                                                                                (não conservação), energia ¨alternativa¨ e
ignoradas, inclusive pelos atores mais                                                                        nuclear e, posteriormente, geoengenharia
críticos. O discurso dominante gira                                                                           e comércio de carbono. Muitos governos
em torno de ações mitigatórias, como                                                                          perceberam que poderiam se beneficiar
tecnologia e mercado de carbono, e de                                                                         desta agenda. Problemas ambientais
adaptação. E, muitas vezes, essa lógica é                                                                     reais, como a capacidade das sociedades
reproduzida sem questionamentos mais                                                                          de mudarem instituições, tecnologias,
profundos. Já estamos aceitando que                                                                           comportamentos, e a justiça econômica,
o único caminho dentro do contexto                                                                            foram negligenciados. A preocupação
de eco-alarmismo é se adaptar? Quem                               “Já estamos aceitando                       deixou de ser com questões ambientais,
precisa se adaptar a quê? Precisamos é de                                                                     e passou a ser com a política energética,
des-adaptação ao capitalismo, isso sim.                             que o único caminho                       a imposição de tecnologias e a geração
Afinal, como a crise climática ganhou                                                                         de renda para determinados governos.
tanta centralidade e como se deu a                                   dentro do contexto                       Excluiu-se qualquer avaliação sobre
definição do problema? Como a ciência                                                                         a ideologia por trás das projeções
foi construída, disseminada e apropriada?                            de eco-alarmismo                         científicas e implicações das estratégias.
O fato da questão receber mais atenção                                                                          	 Assim, a ciência deixa de informar a
hoje está mesmo relacionado com uma                                 é se adaptar? Quem                        política e passa a ser sua guia, jogando
análise científica-natural ou com o                                                                           com a incerteza científica. Como disse o
contexto histórico, cultural e político? 	                          precisa se adaptar a                      representante do Ministério de Ciência
                                                                                                              e Tecnologia, Carlos Nobre, no evento
Negação de interesses conflitantes
Estudando o papel da ciência na
                                                                     quê? Precisamos é                        sobre mudanças climáticas organizado
                                                                                                              pelo Instituto de Pesquisa Econômica
definição de problemas ambientais,
Wynne (1994) afirma que o debate tem se
                                                                      de des-adaptação                        Aplicada (Ipea), em agosto deste ano,
                                                                                                              ¨A CQNUMC é inovadora porque a
baseado no domínio das ciências naturais
de forma instrumentalista, uniformizada
                                                                       ao capitalismo”.                       ciência tem um papel preponderante.
                                                                                                              Em outros casos sempre se buscou
e reducionista. Mantém-se o foco na                                                                           acordo político; a CQNUMC está
crise ambiental quando à ela antecede                                                                         baseada nos relatórios do IPCC. Foi a
uma crise política, econômica, moral e                           e privados a partir da institucionalização   ciência que trouxe o debate¨. Trata-se
cultural. O Painel Intergovernamental                            das ameaças climáticas. A autoridade         da apropriação política de uma ciência
sobre Mudanças Climáticas (IPCC)                                 científica do IPCC serviu para orientar      dominante e a negação de outras. A
reduziu a questão ambiental às mudanças                          os interesses dos países do Norte,           incerteza é usada para evitar políticas
climáticas, e esta às emissões de carbono.                       possibilitando a criação de políticas de     de prevenção da destruição ambiental e
Desvia-se a atenção para os chamados                             monetarização das mudanças físicas           garantir políticas de interesse econômico
“interesses comuns” da humanidade,                               determinadas pelas ciências naturais e       como a bioengenharia. Neste último
negando-se conflitos políticos entre                             fornecendo justificativas e incentivos       caso, a incerteza aparece como algo
diferentes grupos sociais com interesses                         para investimentos nos países do             a ser resolvido em breve pela verdade
distintos e, muitas vezes, conflitantes.                         Sul. Ela afirma que o IPPC foi criado        absoluta da ciência. A ciência dos
  	 Boehmer-Christiansen (1999) também                           pelos Estados Unidos, com o apoio            especialistas escolhidos “a dedo” pelos
critica o controle político do IPCC como                         da pesquisa ambiental daquele país           políticos, negando o saber local, também
ilustração dos interesses governamentais                         e da Europa, como contraponto aos            uma ciência.


10
Contra Corrente




  	 O conhecimento científico dominante
das questões ambientais naturaliza e
reforça interesses econômicos, políticos                                  Dívida climática                                                        Dívida ecológica
                                                                          baseia-se na constatação de que                                         é um conceito que contribui
e valores culturais e morais específicos.
                                                                          os países industrializados do Norte                                     para uma análise diferente
O que está sendo apontado como ¨nossos                                                                                                            das relações internacionais,
                                                                          cresceram, principalmente, devido à
problemas comuns” e que sociedade está                                    produção e ao desenfreado consumo                                       o intercâmbio entre o Norte
sendo criada em nome da proteção da                                       de combustíveis fósseis, responsáveis                                   e o Sul, para além dos
natureza, do clima? Existem questões                                      pela atual crise climática. Eles também                                 termos econômicos. Produz
políticas por trás das construções da crise                               se apropriaram de um ¨bem comum                                         ferramentas para acabar com
climática e é preciso cuidar para não                                     global¨ (a atmosfera e os oceanos) e da                                 os danos ambientais, para
entrar no debate alarmista e na política                                  capacidade de absorção de carbono da                                    garantir reparações e punir
do medo. Definir a crise climática como                                   biosfera. Esses países - que representam                                os responsáveis. Além disso,
uma construção social não é diminuir                                      menos de 20% da população do mundo                                      fornece novos argumentos
a sua importância ou realidade e sim                                      e emitiram cerca de 75% das emissões                                    e autoridade para exigir
estudar o processo pelo qual o fenômeno                                   históricas - são responsáveis por mais                                  o cancelamento da dívida
foi transformado de uma suposição para                                    de dez vezes as emissões históricas dos                                 financeira, acumulada de
um fato aceito. Quem realmente ganha                                      países do Sul. Atualmente, suas emissões                                forma ilegítima.
com isso?                                                                 per capita são mais de quatro vezes as                                  Assim sendo, a perspectiva
                                                                          do Sul. A dívida climática pressupõe                                    da dívida ecológica tem como
                                                                          determinar a partilha justa e equitativa                                objetivo mudar o contexto
                                                                          das obrigações e responsabilidades para                                 de diálogo e das relações
                                                                          reduzir as emissões de carbono e pelo                                   entre os países, debater o
                                                                          financiamento do clima entre os países.                                 meio ambiente para além dos
                                                                          Ela fornece uma abordagem sistemática                                   argumentos da conservação e
                                                                          para classificar, quantificar e aplicar a                               sustentabilidade e considerar
                                                                          responsabilidade histórica                                              o direito e a justiça. (F.F.)
                                                                          e exigir reparação. (F.F.)




                                                                          A (dí) vida como ela é
                                                                          Em 2009, uma avaliação da produção econômica dos países do G8 (Vinod, 2009),
                                                                          construída com base no uso insustentável de carbono per capita, com base nos preços
                                                                          de 1994, calculou que a dívida de carbono do G8 estava entre 13 e 15 trilhões de
                                                                          dólares. Um valor que excede várias vezes a dívida financeira atribuída aos países do Sul.
                                                                          Os países do Norte ofereceram em Copenhague, durante a 15a Conferência das Partes da
                                                                          CQNUMC, 30 bilhões de dólares entre 2010 e 2012 e uma promessa de mobilizar mais
                                                                          100 bilhões de dólares até 2020. Esses recursos, provavelmente, serão privados, oriundos
                                                                          do mercado de carbono e estarão nas mãos das mesmas Instituições Financeiras
                                                                          Internacionais (IFIs) que têm sido grandes responsáveis pela crise ecológica. (F.F.)


                                                                    * Fabrina Furtado é militante da rede Jubileu Sul e doutoranda do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano
                                                                    e Regional (Ippur), da Universidade Federal do Rio de Janeiro - f.furtado7@gmail.com

                                                                    referências bibliográficas
                                                                    Boehmer-Christiansen, Sonja. Globalização e valor de vidas humanas: implicações políticas para os países em desenvolvimento
                                                Gabriel Strautman




                                                                    da polêmica do IPCC. Ambiente & Sociedade. Ano II, Nos 2 e 3, 2o semestre 1998 – 1o semestre 1999.
                                                                    Wynne, Brian. Scientific knowledge and the global environment. In Redclift, Michael; Benton, Ted. Social Theory and the Global
                                                                    Environment. Londres: Routledge, 1994. p.169 – 189.
                                                                    Jubileu Sul. Dívidas, Não Mais: Rumo a uma Plataforma do Jubileu Sul sobre Mudanças Climáticas, Dívida Ecológica e Soberania
                                                                    Financeira. São Paulo, 2010.
A reparação das dívidas ecológica e climática                       Raina, Vinod. Ecological Debt: the creation of rich and poor countries. Apresentação durante Fórum Público sobre Dívida Ecológica
é uma demanda de organizações do Sul                                e Mudança Climática. Bancoc, Setembro, 2009.



                                                                                                                                                                                                     11
Lucia Ortiz*




Rio+(ou-)20: uma chancela
para o capitalismo verde?
Com foco em economia verde e governança global, conferência sinaliza captura
pelo mercado e pode ser consolidada como a Cúpula da Mercantilizacão da Natureza



A
       Rio+20, conferência mundial      conceituado como desenvolvimento          às múltiplas crises e a necessidade de
       sobre ‘desenvolvimento           sustentável – social, ambiental e         tamanho aparato e refinamento do
       sustentável’, será realizada     econômico – ao da economia global         discurso para dialogar com a apreensão
no Rio de Janeiro de 4 a 6 de           capitalista, mascarando os mecanismos     da sociedade frente aos problemas
junho de 2012, por sugestão do,         de implementação e de controle global     ecológicos e sociais, como o sintoma do
então, presidente Lula, em 2007, na     da natureza, deste novo ciclo de          caos climático, para, então, conseguir
Assembléia Geral das Nações Unidas      acumulação. Contexto que invisibiliza     uma aceitação social e política - apesar
(ONU).                                  ainda mais a diversidade cultural, a      do poderio econômico e midiático a seu
  Os objetivos iniciais eram nobres:    qual deveria ser incorporada como pilar   serviço.
o de assegurar a renovação dos          central da sustentabilidade, por trazer     A estratégica falta de conteúdo
compromissos políticos para o           novas e ancestrais formas de pensar,      dada ao termo economia verde no
desenvolvimento sustentável, avaliar    relacionar-se e ser parte da natureza,    ambiente das negociações da ONU,
o progresso e as lacunas (e por que     criando e recriando outras economias      ainda que pretenda ser a base de
não suas causas estruturais?) na        em sociedades sustentáveis.               um novo “acordo verde”, já tem
implementação dos resultados das                                                  provocado reações de diversos
principais conferências desde a Eco92   Economia verde:                           países. Na 19a sessão da Comissão
e tratar novos e emergentes desafios.   um frágil novo consenso                   de Desenvolvimento Sustentável
Porém, não foi criado um processo       Este foco, no pretenso novo consenso      (CDS), o resultado das negociações
de avaliação e negociação à altura      global da economia verde e a              foram: a falta de acordo na agenda
desses objetivos.                       preocupação com a governança num          de implementação no tema central
  Por outro lado, estabeleceu-se        sistema de Nações Unidas capturado        do ciclo da CDS, sobre Padrões de
como o foco da Rio+20, e com muito      pelos interesses das corporações,         Produção e Consumo; a dúvida sobre
mais empenho e força política, os       explicita a resistência imposta a         a capacidade da ONU para lidar com o
questionáveis temas da economia verde   uma agenda de sustentabilidade e          ambicioso tema do arranjo institucional
‘no contexto do desenvolvimento         democracia global nestes últimos vinte    para a Rio+20; e propostas de,
sustentável e da erradicação da         anos, assim como os interesses que        inclusive, rever o termo economia verde
pobreza’, e o arranjo institucional     devem definir a direção dos acordos       para reduzir polêmicas evidentes.1
para o desenvolvimento sustentável,     globais para o meio ambiente daqui          Fato de maior relevância foi
ou a governança global para o meio      para frente.                              a declaração dos países latino-
ambiente.                                 A agenda da Rio+20 busca legitimar      americanos, resultante dos dois dias
  No mínimo, pode se reconhecer         o capitalismo verde. Isso, por um lado,   e meio de processo regional oficial de
a redução dos pilares do que foi        expõe a fragilidade do sistema frente     preparação que aconteceu no início de


12
Contra Corrente




setembro no Chile, que simplesmente
rechaçaram e ignoraram o termo
economia verde do seu pouco ambicioso
acordo final.2

Processo oficial:
longe da governança inclusiva
  O processo em curso, iniciado
oficialmente pela resolução da ONU
de 24 de dezembro de 2009,3
estabelece etapas preparatórias de
negociações oficiais.
  De forma autônoma e independente,
já envolve uma agenda de mobilizações
da sociedade civil, bem como um
processo (que não se encerra com a
conferência) de acompanhamento dos
reflexos da sua preparação e resultados
sobre as políticas nacionais e de
                                            Adbusters




construção e fortalecimento de um
movimento global por justiça social                     A financeirização da natureza revela o novo ciclo de acumulação do capitalismo - pintado de verde
e ambiental.
  A conferência acontecerá em                       de arcabouços legais e políticos nos                  Terra, a Rio+20 poderá significar
apenas três dias (4 a 6 de junho de                 países para a chamada transição para                  a consolidação da Cúpula da
2012) e está baseada em três etapas                 uma economia verde sem que suas                       Mercantilizacão da Natureza, com ou
preparatórias internacionais, sendo                 bases ou metas, e mesmo seu conteúdo,                 sem consenso.
que as duas primeiras já aconteceram                tenham sido definidos.
e a próxima será nos dias que                         Tendo como referência os                            Um acordo de livre comércio
antecedem imediatamente a Rio+20                    resultados das últimas negociações                    disfarçado de verde?
(28 a 31 de maio).                                  mundiais para o meio ambiente,                        Seguindo na linha da captura
  O processo acordado consiste em                   podemos prever que as estratégias                     corporativa das convenções da ONU,
chamar os diversos setores da sociedade             de inovação dos processos de                          o processo em marcha por conta da
civil a enviar contribuições por internet           negociação aumentam os riscos de                      Rio+20 é o de recomendar estratégias
sobre os temas foco da Rio+20 durante               limitar a participação dos países em                  domésticas (leia-se políticas nacionais)
todo o ano de 2011, para que um                     desenvolvimento, e da sociedade                       que os países em desenvolvimento
documento chamado “rascunho zero”                   organizada de desconsiderar as                        (e não aqueles historicamente
seja divulgado somente em janeiro                   desconformidades, como foi o caso                     responsáveis pelas crises ecológica,
de 2011.                                            da posição da Bolívia frente ao                       financeira, alimentar, energética...)
  Antes, se trabalhava para buscar                  acordo de Cancun na COP16 do                          necessitam pôr em prática para
consensos globais nas negociações,                  Clima, bem como da imposição de                       alcançar os desafios da transição para
para que as convenções e tratados                   textos “caídos do céu” num ambiente                   a economia verde (tema sobre o qual
fossem ratificados pelos países                     falho de negociações para alcançar                    não há consenso nem entre os países
signatários, passassem a valer e                    verdadeiros consensos.                                envolvidos na negociação) e mapear o
se desdobrar em políticas públicas                    Como resultado dos (ou da falta                     andamento das iniciativas.
domésticas. Hoje, a lógica se inverte: já           dos) processos em curso, se a Eco92                     Nos moldes dos polêmicos
existe uma corrida pela implementação               ficou conhecida como a Cúpula da                      empréstimos do Banco Mundial e


                                                                                                                                                              13
do Fundo Monetário Internacinal            nuclear; e outros dois de combate          da votação no Congresso, é que os
(FMI) para os chamados Ajustes             ao desmatamento na Amazônia e no           desmatadores anistiados possam
Estruturais da economia dos países em      Cerrado.                                   também receber incentivos e créditos
desenvolvimento, de privatização e           Já em 2010, durante as negociações       de carbono por recuperar áreas que
abertura dos serviços à fase neoliberal    de Cancun, o Brasil lançou o Fundo         degradaram - isso não sendo válido
do capitalismo nos anos de 1990,           Clima, para direcionar recursos            para os pequenos agricultores, que
ou das imposições dos Tratados de          da exploração do petróleo do pré-          estariam isentos do dever de reconstituir
Livre Comércio (TLCs) às políticas         sal - de alto carbono - na forma           reserva legal.
nacionais para as indústrias extrativas,   de empréstimos num total de 200              Nessa linha, estão em tramitação os
a economia verde vem, tal e qual,          milhões de reais para o setor privado      Projetos de Lei (PLs) de REDD nacional
como uma Área de Livre Comércio das        assim promover a economia verde.4          e estaduais e o de Serviços Ambientais,
Américas (ALCA). No entanto, ela vem                                                  que já têm cronograma definido para
muito mais sutil, disfarçada de verde e    Políticas públicas para garantir           “ou sim ou sim” estarem aprovados
considerada inofensiva nas negociações     direitos ao mercado                        antes da Rio+20 para mostrar como o
mundiais para o meio ambiente.               Avançam as políticas verdes com          Brasil fez sua lição de casa. Antes que
                                           resultados para a especulação fundiária    nos organizemos e nos atentemos para
O ajuste estrutural                        e que fazem da reforma agrária um          o seguimento destas políticas, uma
do meio ambiente ao capital                sonho de justiça cada vez mais distante.   lei dessas dá como certa a perda de
O Brasil sancionou, em plena               Há quem diga que o “Novo Código            soberania das comunidades sobre seus
loucura pós Copenhague, nos                Florestal” ruralista a ser votado no       territórios ao garantir juridicamente
últimos dias de 2009, sua Política         Senado deixa o Brasil em flagrante         o acesso irrestrito das corporações -
Nacional sobre Mudança do Clima            contradição como país anfitrião da         ou outros pagantes dos serviços que
(PNMC). E mesmo após quase uma             Rio+20. Não será o contrário? O            estejam compensando a degradação
década de demandas da sociedade            governo poderá, a seguir, vetar algumas    ambiental de suas atividades em outro
civil, houve o veto presidencial           emendas, ou não perdoar a dívida de        canto do mundo - para medições
ao artigo que tratava da redução           desmatadores. Mas tirar a proteção         e verificações sobre os serviços
progressiva do uso de combustíveis         do Estado, reduzindo ou eliminando         adquiridos, sejam eles o carbono, a
fosseis e a inclusão da instituição de     Áreas de Preservação Permanentes           água ou a biodiversidade.
mercados certificados de carbono, o        (APPs) e Reserva Legal, é uma forma          Entre os estados mais adiantados
suprassumo da economia verde.              de dar acesso aos mercados a essa          está o Acre, que desenvolve um projeto
  Hoje, os planos setoriais, outro         enorme e bilionária riqueza verde que,     pioneiro de REDD, contabilizando um
instrumento da PNMC, estão para ser        até então, não circulava nas bolsas.       volume estimado, para os anos de 2006
aprovados com pujantes orçamentos          Nova modalidade em debate, depois          a 2009, de 100 milhões de toneladas
públicos. No entanto, eles não vão
além de “mais do mesmo”: um plano
chamado ABC do agronegócio, ou
Agricultura (industrial) de Baixo
Carbono; outro de Siderurgia Verde,
para exportação de aço produzido
com carvão vegetal de monoculturas
de árvores; um terceiro, que é o
próprio Plano Decenal de Expansão
de Energia (PDEE), calcado na
construção de barragens na Amazônia
e na expansão do agronegócio
da energia da cana e da energia


14
Contra Corrente




de dióxido de carbono (CO2), cuja          o Comitê Facilitador da Sociedade
comercialização será feita em leilão na    Civil para a Rio+20. Este Comitê
BM & FBovespa no final do segundo          prepara uma série de atividades locais,
semestre de 2011 para precificar, pela     nacionais e internacionais, que passam
primeira vez no Brasil, os créditos de     pelo fórum alternativo ao G20, na
carbono das florestas.5                    França, em novembro; pela COP17
  E chegando à capital dos megaeventos,    do Clima, em Durban, no final de
para além da Rio+20, no Rio de Janeiro,    novembro; pelo Fórum Social Temático,
se anuncia a Copa do Mundo verde e         em Porto Alegre, em janeiro de 2012;
solar. Ela se concretiza com vultosos      e pelas atividades paralelas a Rio+20,
financiamentos públicos para o setor       que pretendem oferecer um choque de
privado abastecer com energia renovável    paradigma durante a próxima semana                               “A economia verde
novos estádios e mega infraestruturas      do meio ambiente no Rio de Janeiro.
de entretenimento das elites, a serem        Sem ter como foco os megaeventos                                   vem, tal e qual,
construídas em locais de disputa com as    oficiais, estas etapas podem
comunidades urbanas carentes de acesso     representar momentos de convergência                             como uma ALCA. No
aos serviços públicos básicos. Cada vez    e fortalecimento dos movimentos sociais
mais a lógica da especulação imobiliária   e das suas propostas contra hegemônicas,                           entanto, ela vem
nas cidades reproduz o discurso do verde   necessárias ao enfrentamento de um
que entrou pela porta do clima. É o        novo e complexo ciclo de acumulação                                muito mais sutil,
caso da geração de créditos e mercados     repleto de contradições e apropriações
de compensações no caso de projetos        dos discursos ambientais e das demandas                          disfarçada de verde
que pela lei sejam privados de aplicar     populares por justiça social.
máximos índices construtivos, ou dos eco     O grande desafio e oportunidade que                                 e considerada
condomínios de luxo que apropriam-se       esta Conferência traz é o da mobilização
de áreas verdes anteriormente públicas e   daqueles setores da sociedade civil ávidos                            inofensiva nas
passam a vender sustentabilidade.          por um real choque de paradigma, por
                                           mostrar justamente que as soluções reais                                negociações
Movimentos sociais                         não têm como se dar, nem pintadas (de
na contra corrente                         verde), dentro de um sistema que precisa                            mundiais para o
  Buscando deslegitimar desde já           mudar, e já.
o pretenso novo consenso global                                                                               meio ambiente.”
da economia verde, os movimentos           Lucia Ortiz é coordenadora do Amigos da Terra Brasil,
                                           membro da Coordenação Nacional da Rede Brasil sobre
sociais no Brasil e no mundo podem         Instituições Financeiras Multilaterais e coordenadora regional
ver o caminho a Rio+20 como um             do Programa Justiça Climática e Energia do Amigos da Terra
                                           América Latina e Caribe (ATALC) – lucia@natbrasil.org.br
processo político para fortalecer e dar
visibilidade às lutas de resistência no       1- Ver SUMMARY OF THE NINETEENTH SESSION OF THE
                                              COMMISSION ON SUSTAINABLE DEVELOPMENT, 2-14 MAY
campo, nas cidades e na floresta, assim       2011, em: http://www.iisd.ca/vol05/enb05304e.html
como às propostas e soluções populares        2- http://www.eclac.cl/noticias/paginas/5/43755/
por justiça social e ambiental.               Conclusiones_reunion_prep_Rio+20-2011-esp.pdf

  Através da Rede Brasil sobre                3- Resolução ONU A/RES/64/236
Instituições Financeiras Multilaterais,       4- Ver em: http://www.ecodebate.com.br/2010/10/27/
o Amigos da Terra, juntamente com             decreto-regulamenta-fundo-nacional-sobre-mudanca-do-
                                              clima-fnmc-ou-fundo-clima/
a Via Campesina, a Marcha Mundial
                                              5- Em: http://www.opovo.com.br/app/opovo/
das Mulheres, o Jubileu Sul e mais            economia/2011/05/30/noticiaeconomiajornal,2250488/
dez outras redes nacionais, integra           credito-de-carbono-podera-ser-comercializado.shtml



                                                                                                                                     15
Jubileu Sul*




Banco Mundial
Fora do Clima!...
e de nossos países
Campanha internacional denuncia os novos interesses mercadológicos dessa velha
instituição que, através de falsas soluções, quer assegurar a hegemonia financeira



A
       ssim como as demais Instituições       isso, incorporou em suas normas as           causas dos problemas e aumentam a
       Financeiras Internacionais (IFIs),     “preocupações ecológicas” e uma suposta      dívida climática dos países do Norte. Para
       desde a sua criação, o Banco           prioridade para o “desenvolvimento           estas instituições, as mudanças climáticas
Mundial tem servido como instrumento          sustentável”. Com esse pseudo “novo          revelam-se como uma saída para a crise
de defesa dos interesses do Norte             paradigma”, seguiu impondo suas              econômica e uma oportunidade para a
global, das transnacionais e das elites       definições sobre os problemas e suas         criação de novos paradigmas e conceitos,
financeiras e política. Ou seja, atua na      soluções. Não se pode permitir que o         como o de “economia verde”.
defesa dos responsáveis por impulsionar       Banco Mundial deturpe a defesa dos             Assim, se reduz a crise civilizatória a
e beneficiarem-se do modelo econômico         direitos dos povos e da Natureza para        uma crise ecológica e a crise ecológica a
que empobrece as grandes maiorias,            continuar priorizando os mesmos              uma crise climática, e esta a uma falha
explora a natureza, gera a mudança            interesses de sempre.                        do mercado. A destruição ecológica se
climática e mina a soberania dos povos.         A crise climática é uma realidade          converte em um novo impulso para o
  Há décadas, o Banco Mundial é alvo          atual que impacta mais as populações         crescimento e a acumulação econômica
de graves denúncias e mobilizações que        do Sul global. Ela é consequência do         das elites. Os problemas ambientais e
reivindicam a sua retirada e a de suas        próprio modelo de desenvolvimento dos        sociais são caracterizados como uma
instituições correlatas (os banco regionais   países industrializados do Norte e de um     questão meramente tecnológica ou
de desenvolvimento, o Fundo Monetário         modo de produção e consumo baseado           da falta de clareza na atribuição dos
Internacional e o Centro Internacional        na crença de que a natureza não possui       direitos de propriedade. Frente aos quais
para Arbitragem de Disputas sobre             limites. Com a cumplicidade dos governos     se reivindicam soluções de mercado,
Investimento – Ciadi, dentre outras) dos      e das elites do Sul, as comunidades          como os novos produtos financeiros
países do Sul e a transformação profunda      trabalhadoras, povos originários,            “verdes”, a criação e a venda de serviços
do sistema financeiro.                        camponeses, pescadores e mulheres são        ambientais e a mercantilização da
  Porém, esse banco encontrou,                obrigados a pagar pelos custos de uma        natureza, de modo geral.
na confluência da crise sistêmica             crise que não causaram.                        A estratégia do Norte, reconhecendo o
(econômica, alimentar, energética e                                                        já inevitável problema do aquecimento
climática, dentre outras), uma nova           Novo paradigma? É tudo mentira!              climático, busca preservar a impunidade
roupagem para suas velhas práticas.           No mesmo sentido, as respostas que vêm       e evitar qualquer mudança no estilo
Através de um discurso repaginado,            sendo formuladas desde os centros de         de vida e no consumo, além de tentar
passou a incorporar e consolidar um           poder - as corporações transnacionais e      transferir a responsabilidade ao Sul,
conjunto de ações para a “transição”          as instituições financeiras internacionais   através da promoção e apoio a falsas
para um capitalismo “verde”. Para             - são falsas soluções, pois ignoram as       soluções como o mercado de carbono,


16
Contra Corrente




as hidrelétricas, a energia nuclear,        e Colômbia.                                          - Fundo para o Meio Ambiente
os agrocombustíveis e a venda de              Entre os fundos mais importantes                 Mundial (GEF, sigla em inglês): tem
tecnologia. Desse modo, o papel que as      estão: - Fundo de Biocarbono: centrado             dois fundos fiduciários financiando
elites buscam consolidar junto ao Banco     em projetos florestais e do uso da terra;          projetos de adaptação e mitigação.
Mundial é chave e similar ao utilizado        - Fundo de Carbono de Desenvolvi-                  Nas negociações sobre clima, os
nos anos de 1970, quando se propagou        mento Comunitário: centrado em proje-              governos do Norte têm buscado
o modelo de desenvolvimento com base        tos em países menos desenvolvidos;                 reforçar este papel do Banco Mundial
no endividamento externo, e nos anos de       O Banco Mundial, também maneja                   através, por exemplo, da gestão
1980 e 1990, quando utilizou-se dessa       distintos fundos de investimentos,                 do Fundo Verde Climático, cuja
dívida para impor o ajuste estrutural, as   por exemplo:                                       criação foi acordada na COP-16,
privatizações e a abertura neoliberal.         - Fundo de Tecnologia Limpa:                    em Cancun. Mesmo reconhecendo
                                            projetos de mitigação ou redução de                que o financiamento prometido é
Fundos e mais fundos                        emissões;                                          problemático pela sua lógica, destino
   Por outro lado, a criação do mercado       - Fundo Cooperativo para o Carbono               e atores envolvidos, além de outras
de carbono abriu a porta para que as        das Florestas (FCPF): para mitigação -             questões, o prometido não é aplicado.
IFIs e, em especial o Banco Mundial,        REDD;                                              Investigações recentes assinalam
expandissem sua área de atuação               - Programa de Investimento em                    que dos 30 bilhões de dólares para
e fortalecessem sua capacidade de           Florestas: para mitigação - REDD;                  financiamento “rápido” que foram
intervenção e condicionamento sobre           - Programa Piloto de Resistência                 prometidos em dezembro de 2009 no
os países mutuários (emprestadores).        Climática: para adaptação;                         chamado “Acordo de Copenhague”, até
Também permitiu gerar um programa             - Programa de Ampliação da Energia               agora, foram aplicados efetivamente
novo de financiamento para projetos         Renovável para os Países de Baixo                  apenas 7,9 bilhões de dólares, dos quais
integrados ao mercado de carbono            Ingresso: para mitigação - geral;                  42% (3,3 bilhões de dólares) serão
através de iniciativas como o                 - Fundo Estratégico sobre o Clima:               canalizados através do Banco Mundial
Mecanismo de Desenvolvimento Limpo          adaptação, mitigação – REDD,                       e 47% (3,7 bilhões de dólares) serão
(MDL), Controle e Comércio (Cap and         mitigação – geral;                                 aplicados através de empréstimos.
Trade, na versão original, em inglês)
e os projetos do programa de Redução
de Emissões por Desmatamento e
Degradação (REDD). Este programa
permite aos países do Norte, e suas
transnacionais, compensar ficticiamente
parte de suas emissões de gases de efeito
estufa financiando projetos no Sul. Esse
modelo aumenta a dívida financeira
ilegítima, assim como também as
dívidas ecológicas e sociais. O mercado
de carbono favorece a especulação e o
lucro a partir das mudanças climáticas,
fomentando novos “derivados” que nada
tem a ver com o impacto climático, mas
sim com a possível criação de novas
bolhas especulativas similares ao que
ocorreu em 2007 e 2008, quando o
                                                                                                                                                       Creative Commons


mercado imobiliário explodiu.
   Atualmente, o Banco Mundial
administra 12 fundos de Unidade de
Financiamento de Carbono, com um
valor aproximado de 2,5 bilhões de
dólares, que até agora envolveram
países como China, Índia, Brasil, México        Campanha denuncia as falsas soluções propostas pelo Banco Mundial: a hora de agir é agora


                                                                                                                                                17
karmo




Mais do mesmo                               * a sugestão da Comissão Mundial         e sem nenhum envolvimento do
Enquanto isso, o Banco Mundial            de Barragens, que acaba de completar       Banco Mundial ou dos bancos de
continua financiando um modelo de         10 anos de esquecimento, sobre             desenvolvimento regionais. O Acordo
desenvolvimento que contribui para        os impactos econômicos, sociais e          demarca ainda que, para construir
o aquecimento climático, incluindo        ecológicos negativos das represas.         o equilíbrio e a equidade climática,
massivo investimento em combustíveis      As hidrelétricas não são fontes de         é indispensável reparar a dívida
fósseis e no agronegócio:                 energia limpa: contribuem para o           ecológica e climática que o Norte
  • Entre 1992 e 2004, aprovou            desmatamento e a expulsão das              tem com o Sul e com todo o planeta.
mais de 11 bilhões de dólares de          populações de seus territórios e são, ao   Os fundos não devem ser entendidos
empréstimos para mais de 120 projetos     mesmo tempo, grandes emissoras de          em função das mudanças climáticas,
de combustíveis fósseis, representando    gases de efeito estufa na atmosfera;       mas sim em função da busca de um
20% das emissões globais atualmente.        * as advertências da FAO                 caminho para uma sociedade não
  • Somente em 2007 e 2008, o Banco       (Organização da ONU para a                 dependente de petróleo, pois são os
Mundial financiou outros 7,3 bilhões      Agricultura e Alimentação)                 combustíveis fósseis os principais
de dólares em projetos de combustíveis    sobre os impactos negativos dos            causadores do problema.
fósseis – sem incluir empréstimos         agrocombustíveis sobre a segurança e a       Conhecemos as consequências
para as políticas e agências de           soberania alimentar e o desmatamento;      históricas das dívidas ilegítimas que o
financiamento intermediário do setor        * a pressão, a mobilização e as          Sul global tem sofrido há séculos. Nesse
de combustível fósseis. O banco           críticas de milhares de organizações       sentido, conclamamos que, em todas
também financiou 5,3 bilhões de           e pessoas que, nas últimas décadas,        as partes do mundo, sejam organizadas
dólares para energias renováveis          reivindicam o fechamento desta             ações que evidenciem o papel danoso
e eficiência energética. Como é de        instituição ilegítima e injusta.           do Banco Mundial e que se fortaleça
se esperar, a construção da “nova”          O Acordo dos Povos - realizado           a resistência da Campanha Banco
Estratégia Energética do Banco Mundial    durante a Conferência Mundial dos          Mundial Fora do Clima. É preciso fazer
para 2011 apresenta algumas mudanças.     Povos sobre as Mudanças Climáticas         frente às falsas soluções que este banco
Entre outros aspectos, planeja investir   e os Direitos da Mãe Terra, em abril       promove em relação à crise climática,
no setor privado enfocando na             de 2010, em Cochabamba (Bolívia),          incluindo, sobretudo, o financiamento
produção de energia e não no consumo.     como uma resposta ao fracasso de           ao mercado de carbono em suas
Para o Banco Mundial, a energia           Copenhague (COP16) - afirma que o          diversas formas, e as consequências
limpa continua sendo a hidrelétrica,      financiamento mínimo necessário            para a aliança dos direitos dos povos e
os agrocombustíveis, a energia nuclear    para enfrentar as mudanças climáticas      a natureza.
(mesmo afirmando que não vai              deve ser de 6% do Produto Interno
financiar) e o mercado de carbono.        Bruto (PIB).                               * O Jubileu Sul, rede composta de organizações
  Ao desenvolver estas políticas, o         Os fundos devem ser públicos,            e movimentos da sociedade civil da América Latina
Banco Mundial continua ignorando,         novos, adicionais e não reembolsáveis,     e Caribe, África e Ásia, integra a Campanha Banco
entre outras questões:                    eliminando o mercado de carbono,           Mundial Fora do Clima – www.jubileubrasil.org.br



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Adriana Ramos*                                                                                                                           Contra Corrente




REDD: financiamento
para florestas ou
financeirização climática?
Em relação à compensação de emissões de carbono, o destino e funcionamento do REDD ainda não
estão suficientemente claros no Brasil; a prioridade deve ser para quem protege as florestas




                                                                                                                                                           Greenpeace/Rodrigo Baleia
                                 “O REDD pode ser visto como um mecanismo que apóia financeiramente a proteção das florestas : mecanismo em disputa”




R
      EDD é a sigla para Redução de        o REDD pode ser visto como um                         florestas pode se dar por diferentes
      Emissões por Desmatamento e          mecanismo que apóia financeiramente                   estratégias, entre elas, a promoção
      Degradação. É um mecanismo           a proteção de florestas.                              de seu uso sustentável, como tem
que reconhece a importância das               Embora ainda não haja definições                   sido historicamente feito por povos
florestas na proteção do clima e           específicas sobre o que será abarcado                 indígenas e comunidades tradicionais,
propõe uma compensação aos países          pelo mecanismo, no âmbito da                          o REDD pode também apoiar o
que estão dispostos e em condições de      Convenção de Clima ou mesmo                           desenvolvimento de alternativas
reduzir as emissões por desmatamento       na legislação nacional. Levando-                      econômicas para esses grupos sociais.
e degradação florestal. Neste sentido,     se em conta que a proteção das                          O Fundo Amazônia foi criado


                                                                                                                                                    19
pelo governo brasileiro a partir das     Priorizar os pequenos                       vivem do uso sustentável da floresta
reduções das emissões oriundas do        A crescente especulação sobre as            na região. Por isso, esses grupos sociais
desmatamento da Amazônia ocorridas       possibilidades de utilização do mecanismo   devem ser priorizados na aplicação dos
entre os anos de 2005 e 2009. Não há     REDD como compensação de emissões           recursos do Fundo Amazônia.
titulação ou certificação de carbono a   de carbono demonstram a fundamental           Para viabilizar o acesso das
partir da doação ao Fundo Amazônia.      relevância de se definir claramente em      organizações representativas das
O que o BNDES emite é um diploma         âmbito nacional a que se destinará o        comunidades locais ao Fundo, a
reconhecendo a contribuição dos          mecanismo REDD e como funcionará.           representação da sociedade civil no
doadores ao Fundo Amazônia.              Esse é o grande desafio da sociedade        COFA tem defendido o estabelecimento
O diploma traz a quantidade de           civil brasileira em relação ao tema REDD,   de editais específicos para pequenos
toneladas de carbono correspondentes     assegurar que seja um instrumento de        projetos, e o apoio a outros fundos que
ao valor da contribuição financeira      repartição de benefícios que priorize       tenham mais experiência e agilidade
para o Fundo, mas não gera direitos      os atores sociais historicamente            para apoiar projetos menores, a
ou créditos de nenhuma natureza. O                                                   exemplo do Fundo Dema, administrado
BNDES afirma que está discutindo o                                                   pela Fase, que recentemente firmou
desenvolvimento de uma metodologia         “O grande desafio é                       contrato com o Fundo Amazônia.
de inventário de carbono visando                                                        As demais pautas prioritárias da
permitir a compensação limitada          assegurar que o REDD                        representação do FBOMS no COFA
de emissões com projetos de REDD                                                     são: ampliar a transparência do Fundo
+, embora não haja informação             seja um instrumento                        Amazônia e a coerência entre os
pública sobre essa possibilidade, e                                                  objetivos do Fundo e os investimentos
nem amparo formal nas políticas
brasileiras de REDD para tal, ao
                                              de repartição de                       do BNDES na região.
                                                                                        Para ampliar a transparência do
menos por agora.
  O Fundo Amazônia se diferencia de
                                                benefícios que                       Fundo Amazônia temos cobrado
                                                                                     do BNDES ações de comunicação
outros fundos voltados às florestas                                                  mais eficientes, tanto no que diz
tropicais no âmbito das mudanças             prioriza os atores                      respeito às informações necessárias
climáticas, como o Programa de                                                       ao acesso ao Fundo, quanto às
Investimentos Florestais (FIP),          sociais historicamente                      relacionadas ao desenvolvimento dos
do Banco Mundial. No caso do                                                         projetos. Ao mesmo tempo, temos
FIP, os investimentos não estão               comprometidos e                        buscado promover um maior controle
condicionados ao ato da comprovação                                                  social sobre os recursos do Fundo
da redução das emissões. Além                responsáveis pela                       Amazônia, divulgando informações
do Fundo Amazônia, o BNDES                                                           sobre os projetos desenvolvidos em
administra outros fundos direcionados         manutenção das                         deolhonofundoamazonia.ning.com.
à regularização ambiental ou                                                            No que diz respeito à coerência
restauração florestal. Este é o caso
do Programa ABC, de crédito para
                                                   florestas”.                       entre os objetivos do Fundo Amazônia
                                                                                     e os demais investimentos do BNDES
financiar ações que contribuam                                                       na região, trata-se do desafio mais
para a redução de emissões de            comprometidos e responsáveis pela           complexo e com menor permeabilidade
gases causadores do efeito estufa        manutenção das florestas.                   dentro do próprio Banco, e a estratégia
geradas pela atividade agropecuária.        É essa perspectiva que tem balizado      do FBOMS para enfrentá-lo é buscar
O Fundo Mata Atlântica, como o           a atuação da representação do Fórum         articulação com outros grupos
Fundo Amazônia, é de recursos não        Brasileiro de ONGs e Movimentos             da sociedade, principalmente a
reembolsáveis. O BNDES anunciou          Sociais para o Meio Ambiente e o            Plataforma BNDES e a Rede Brasil.
que utilizaria recursos do Fundo         Desenvolvimento (FBOMS) no Comitê
Mata Atlântica, para a neutralização     Orientador do Fundo Amazônia (COFA).
de emissões de sua sede, no Rio          A redução dos desmatamentos na
de Janeiro. Entretanto, não há           Amazônia foi um processo resultante
informações sobre se e como isso         de ações de governo e da sociedade e,       * Adriana Ramos é secretaria executiva adjunta do Instituto
vem sendo feito.                         principalmente, das comunidades que         Socioambiental (ISA) -adriana@socioambiental.org.br



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Rubens Harry Born*                                                                                                                                  Contra Corrente




                                                                         Greenpeace/Rodrigo Baleia
                                                                                                     Fundo Clima:
                                                                                                     útil, mas
                                                                                                     suficiente?
                                                                                                     Considerado, por alguns, um importante
                                                                                                     instrumento da política do clima, este
                                                                                                     Fundo navega em um mar de dúvidas
                                                                                                     sobre sua real capacidade de contribuir
Fundo Clima pretende assegurar recursos para a mitigação e a adaptação
à mudança do clima: instrumento limitado?                                                            para um Brasil de “baixo carbono”



C
       omo parte das incipientes respostas             de emissões na produção e uso de energia                     modificadoras ou que usam recursos na
       políticas do Brasil à comunidade                devem detalhar o PNMC.                                       natureza, dentre muitas outras.
       internacional no tocante ao                        Essas ações são consideradas, por                           O Brasil tem que lidar também com
enfrentamento doméstico para o                         alguns, um razoável avanço, uma vez que,                     as disparidades regionais. Isso significa
cumprimento do acordo multilateral da                  até recentemente, o governo defendia que                     equacionar, de forma equitativa, as
Organização das Nações Unidas (ONU)                    o Brasil, por não ter compromissos globais                   condições dos estados e municípios
sobre mudança de clima, o governo                      de redução obrigatória de emissões, não                      em lidar com as causas e os impactos
brasileiro fez aprovar a lei n° 12.187,                precisaria de uma política nacional. Esta                    das mudanças de clima, além de evitar
de 29 de dezembro de 2009, que define                  percepção baseava-se na constatação                          “vazamentos” das emissões (por efeito
a Política Nacional sobre Mudança                      de que os projetos de compensações                           de medidas para reduzir as emissões em
Climática (PNMC), e a lei n° 12.114, de                de emissões por meio do Mecanismo                            uma área, as atividades econômicas que
09 de dezembro de 2009, que estabelece                 de Desenvolvimento Limpo (MDL), do                           as produzem se deslocam para outras
e dispõe sobre o Fundo Nacional sobre                  Protocolo de Quioto, bastariam para que o                    regiões). Teríamos que evitar também a
Mudança Climática (FNMC), um dos                       País contribuísse com os esforços globais.                   ocorrência de fenômenos registrados no
instrumentos da política nacional.                        No entanto, o cenário nacional é,                         âmbito internacional: alguns, resistindo
  Em 2008, o governo brasileiro                        como em outros países, complexo e, por                       a mudar sua estrutura produtiva, buscam
apresentou o PNMC para a sociedade e                   vezes, contraditório. Por um lado, temos                     medidas compensatórias em outras
anunciou que até 2020, com medidas                     tais instrumentos. Por outro, predomina                      regiões. Ou seja, manter uma indústria
voluntárias, as emissões brasileiras seriam            ainda a visão de que qualquer tipo de                        aqui e plantar uma árvore acolá, ou
reduzidas em 36 a 38% em relação ao                    crescimento econômico é louvável.                            continuar a explorar petróleo e ampliar o
nível que poderiam chegar caso nada                    Seguimos adiante com programas                               uso de termoelétricas a carvão em troca de
fosse feito. Sua implementação carece do               de desenvolvimento insustentável e                           algumas usinas eólicas.
detalhamento de alguns planos setoriais. O             que agravarão o aquecimento global,                            O Fundo Clima (FNMC) – como ele é
plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono)               como: ampliar a exploração e uso de                          mais conhecido - é um fundo de natureza
foi elaborado em consultas com algumas                 combustíveis fósseis; estimular o aumento                    contábil, regulamentado pelo Decreto n°
organizações. Outros planos e atividades               da frota de veículos particulares; e                         7.343/2010, vinculado ao Ministério do
setoriais de combate ao desmatamento, na               denegar critérios de emissões para o                         Meio Ambiente (MMA). Ele tem como
Amazônia e no Cerrado, e de mitigação                  licenciamento ambiental de atividades                        finalidade assegurar recursos para apoio


                                                                                                                                                               21
a projetos ou estudos e financiamento de      reembolsável mediante concessão de          procedimentos para decidir a aplicação
empreendimentos que visem à mitigação         empréstimo, por intermédio do Banco         não reembolsável. Entretanto, nada foi
da mudança do clima e à adaptação à           Nacional de Desenvolvimento Econômico       resolvido, pois não foi disponibilizado
mudança do clima e aos seus efeitos.          e Social (BNDES), o agente operador; e      a tempo um conjunto de informações
  Os recursos do Fundo Clima são              em apoio financeiro não reembolsável a      que permitiriam que os integrantes do
constituídos por até 60% da cota              projetos relativos à mitigação da mudança   Comitê tomassem decisões. Nova reunião
parte (10%) do MMA dos recursos da            do clima ou à adaptação à mudança do        extraordinária havia sido marcada para o
participação especial aplicada sobre a        clima e aos seus efeitos, aprovados pelo    final de setembro deste ano.
receita bruta da produção de energia,         seu Comitê Gestor.
deduzidos os royalties, previstos no            Cabe a este Comitê Gestor vinculado       Muitas incertezas
inciso II do § 2º. do art. 50 da lei n°       ao MMA, com representantes do               De que servirá um fundo que aplica
9478, de 1997 (lei de política energética).   poder Executivo federal e de setores        algumas centenas de milhões de reais em
Também podem constituir recursos do           da sociedade, definir, anualmente, a        projetos meritórios e úteis, se bilhões de
Fundo: as dotações consignadas na lei         proporção de recursos a serem aplicados     reais continuarem a fluir para iniciativas
orçamentária anual da União e em seus         em cada uma das modalidades,                que nada têm de sustentáveis e nenhuma
créditos adicionais; recursos decorrentes     empréstimos e doações, sendo que estas      relação com a economia de baixo
de acordos, ajustes, contratos e convênios    podem ser aplicadas diretamente pelo        carbono? Será que o Fundo Clima pode
celebrados com órgãos e entidades da          MMA ou transferidas mediante convênios,     se tornar uma referência de critérios e
administração pública federal, estadual,      termos de parceria, acordos, ajustes ou     procedimentos de investimentos públicos,
distrital ou municipal; doações realizadas    outros instrumentos previstos em lei.       inclusive em iniciativas de cunho
por entidades nacionais e internacionais,        A primeira reunião do Comitê             empresarial, de tal modo que tantos
públicas ou privadas; empréstimos de          Gestor, no início de 2011, tratou de        outros fundos, recursos orçamentários e
instituições financeiras nacionais e          questões operacionais e institucionais      instrumentos financeiros, nos três níveis
internacionais; reversão dos saldos anuais    e a construção do regimento interno.        de governo, sejam mais consistentes
não aplicados; e recursos oriundos de         Na segunda reunião, em março, foi           com as necessidades de lidar com
juros e amortizações de financiamentos.       apresentada e aprovada a proposta de        medidas de mitigação e de adaptação às
                                              aplicação de recursos para este ano,        mudanças do clima? Será que o próprio
Poucas definições                             sendo R$ 200 milhões na categoria de        BNDES, além do Banco do Brasil, bancos
Em relação ao recorrente questionamento       aplicação reembolsável (financiamento)      regionais e os fundos constitucionais
sobre a possibilidade do Fundo apoiar         e pouco mais de R$ 29 milhões na            deixarão de investir em atividades e
medidas que levem o Brasil a ser um país      concessão (doação) de recursos. Sugeriu-    empreendimentos que, no curto, médio
de “baixo carbono”, é preciso avaliar         se que os recursos reembolsáveis sejam      e longo prazo, não são consistentes
se a Política Nacional de Mudança de          aplicados em:                               com um país de baixa intensidade de
Clima, em sua forma atual, é suficiente e     • Financiamento das ações estabelecidas     produção de gases de efeito estufa?
adequada. Também é preciso ter clareza        nos planos setoriais da Política Nacional     O Fundo Clima, instrumento importante
de seu impacto no Plano Plurianual            sobre Mudança Climática;                    da Política Nacional de Mudança de
de Ações (PPA), bem como avaliar              • Financiamento de ações de mitigação e     Clima, começou a funcionar. O desafio
outros instrumentos regulatórios, de          adaptação nos estados e municípios;         é ter condições de fazer a diferença,
planejamento e investimentos do Estado        • Financiamento de inovação tecnológica     instigando especialmente o poder público
brasileiro, inclusive os do Plano de          para o desenvolvimento e consolidação       e o setor privado na efetiva alocação de
Aceleração do Crescimento (PAC). No           de uma economia de baixo carbono;           recursos - financeiros, orçamentários
entanto, um caso exemplar foi o fato de         Em julho, o MMA publicou quatro           e especiais - em iniciativas que
que, na promulgação da lei no 12.187,         editais para recebimento de propostas de    contribuam para a transição para uma
houve veto presidencial ao dispositivo que    cinco das nove linhas identificadas para    sociedade fundada em uma economia
definia como uma das diretrizes da política   aplicação de recursos não reembolsáveis.    ambientalmente sustentável, socialmente
o “estímulo ao desenvolvimento e ao           Setenta projetos, com custo total de mais   justa e com baixa emissão de gases de
uso de tecnologias limpas e ao paulatino      de R$ 52 milhões, disputaram os R$ 16       efeito estufa.
abandono do uso de fontes energéticas que     milhões disponíveis.
utilizem combustíveis fósseis”.                 A reunião ordinária do Comitê, no         Rubens Harry Born é coordenador executivo adjunto do
  Os recursos públicos do FNMC devem          final de agosto, tinha como pauta           Vitae Civilis e representante de ONGs no Comitê Gestor do
ser aplicados em apoio financeiro             principal a avaliação de critérios e        Fundo – born@vitaecivilis.org.br



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Alessandra Cardoso*                                                                                                                                         Contra Corrente




De olho nos investimentos
na Amazônia
Além de sistematizar informações sobre a dinâmica dos financiamentos na região,
Observatório produzirá análises críticas sobre seus atores e os impactos



H
        idrelétricas, hidrovias, ferrovias,            estas que o Instituto de Estudos Sócio-                            levantar e divulgar informações técnicas
        rodovias, mineração, extração                  Econômicos (Inesc) se propôs à construção                          e financeiras, o Observatório pretende
        de gás, concessões florestais,                 do Observatório dos Investimentos na                               ser uma ferramenta útil na produção e
aquisição de terras e projetos de                      Amazônia, uma iniciativa que pretende                              difusão de análises sobre atores, arranjos
Redução de Emissões por Desmatamento                   reunir e sistematizar informações                                  institucionais, financeiros e impactos
e Degradação (REDD). Se todas estas                    e análises sobre a dinâmica de                                     gerados por estes investimentos.
dinâmicas de investimento estivessem                   investimentos e financiamentos orientados
visíveis em um mapa amazônico com                      à Amazônia brasileira. Evidenciar, de                              Os primeiros temas
seus atores e instrumentos propulsores                 forma sistêmica e contínua, os bilhões                             Para dar início à construção do
– incluindo financiadores, investidores,               de reais de recursos públicos e privados                           Observatório, que será progressivamente
subsídios, isenções –, o que veríamos? E               envolvidos nestes investimentos é também                           ampliado, escolheu-se incluir projetos de
se também pudéssemos ver, a partir deste               uma forma de contribuir à análise crítica                          REDD e hidrelétricas. Metodologicamente,
olhar mais sistêmico dos investimentos,                e propositiva de atores políticos que                              este levantamento também exigiu
seus impactos, também sistêmicos, sobre                disputam o significado e os caminhos                               abordagens distintas.
os territórios?                                        para o “desenvolvimento” e para a                                    A opção pelo levantamento de
  Foi estimulado por perguntas como                    “preservação” da Amazônia. Mais que                                projetos de REDD se justifica pelo
                                                                                                                          fato de que a despeito da inexistência
                                                                                                                          de regulamentação internacional e
                                                                                                                          nacional do mecanismo ele esteja
                                                                                                                          sendo rapidamente implementado -
                                                                                                                          como iniciativas de governos locais, de
                                                                                                                          multinacionais, de ONGs, de fundações.
                                                                                                                          Isto, sem que haja uma reflexão
                                                                                                                          aprofundada e consistente das suas
                                                                                                                          potenciais implicações e riscos, quer
                                                                                                                          seja no âmbito da Política Mundial para
                                                                                                                          o Clima, quer seja como instrumento
                                                                                                                          financeiro especulativo, como forma
                                                                                                                          de imobilização e controle de recursos
                                                                                                                          territoriais ou, ainda, como uma forma de
                                                                                                                          privatização da proteção ambiental.
                                                                                                           Verena Glass




                                                                                                                            O levantamento dos projetos de REDD
                                                                                                                          na Amazônia foi realizado entre os meses
                                                                                                                          de abril e junho de 2011, por meio da
                                                                                                                          aplicação de questionários às instituições
   Observatório confirma riscos anunciados envolvendo o REDD: florestas preservadas podem ser destruídas                  e organizações do setor público,


                                                                                                                                                                       23
privado e sociedade civil identificadas
como responsáveis ou parceiras no
desenvolvimento desses projetos.
  Foram identificados sete projetos de
REDD estruturados conforme parâmetros
técnicos que são comumente requeridos
para alçar projetos à condição de
receptores de investimentos privados
em mercados de carbono chamados
voluntários, tais como: metodologia
crível para o cálculo de emissões
evitadas e/ou biomassa estocada;
tempo de realização delimitado e com
resultados e expectativas definidos; área
de influência definida.




                                                                                                                                                        Gilmar Rocha
Percepções confirmam riscos
  O resultado do levantamento reforça a                  Trabalhadores da obra na usina de Jirau
posição de organizações e movimentos                     revoltaram-se, em março: violações dos
que alertam para os riscos e equívocos                      direitos humanos e trabalhistas para
envolvendo o REDD. Entre eles está o                                    “cumprir o cronograma”
de que florestas preservadas estejam
sob o risco de serem destruídas por           dos arranjos econômico-financeiros
múltiplos vetores de desmatamento.            utilizados para viabilizá-los, para o
Com seus “proprietários/detentores”           processo de licenciamento ambiental e,
– inclusive, e talvez prioritariamente,       igualmente, para os impactos ambientais
grandes propriedades hoje improdutivas        e sociais trazidos pelas obras.
- recebendo créditos por redução que            Os dados trazidos pelo Observatório até
ajudam a alimentar um movimento de            aqui evidenciam uma elevada pressão,                 até os programas de mitigação e
aquisição de mais terras e expansão           de caráter público e privado, envolvendo             compensação dos muitos e imbricados
do próprio agronegócio. O desafio é           bancos, órgãos públicos, empresas,                   impactos ambientais e sociais trazidos
dar continuidade neste levantamento,          lobistas e gestores, para que não haja               pelos empreendimentos antes, durante e
incluindo novos projetos que venham a         qualquer tipo de prejuízo ao cronograma              depois das licenças ambientais.
ser identificados e, também, aprofundar       das obras e de sua entrada em operação.                A prestação de contas divulgada pelos
a reflexão sobre o significado e riscos       É também sob o desígnio da viabilidade               empreendedores durante o processo não
envolvendo este mecanismo.                    econômica das obras do Complexo                      passa de uma peça de marketing social e
  Para o levantamento de projetos de          Madeira que o processo de licenciamento              ambiental – que está muito distante de
barragem, o Observatório optou por            acaba sendo marcado pelo imperativo da               apresentar à sociedade a real dimensão
desenvolver uma metodologia também            entrada em operação das hidrelétricas.               dos impactos e sua efetiva mitigação e
própria, que foi pensada e testada a partir     Sob o ponto de vista do processo                   compensação. O tratamento dado pelo
dos projetos hidrelétricos do Complexo        de licenciamento, a metodologia                      governo nas diversas fases do processo,
Hidrelétrico do Rio Madeira, em Rondônia:     desenvolvida busca trazer e reforçar                 da concepção ao licenciamento do
usinas de Jirau e Santo Antônio e linha de    elementos críticos para ampliar e                    projeto, também em nada contribui para
transmissão Rondônia-Araraquara, com          fortalecer a reflexão sobre este processo            dar transparência às informações. Diante
uma extensão de 2.375 km.                     altamente técnico e hermético que,                   disso, a proposta do Observatório é
  A metodologia construída permitiu           se não inviabiliza, dificulta muito o                contribuir no estímulo e subsídio para a
reunirmos no banco de dados                   acompanhamento pela sociedade do                     reflexão e controle social sobre todas as
informações que consideramos úteis            passo a passo das análises dos diferentes            etapas do processo.
ao propósito de ampliar e aprofundar          órgãos governamentais. Desde a
o conhecimento sobre esses projetos,          autorização para a Elaboração do Estudo              Alessandra Cardoso é assessora do Instituto de Estudos
com prioridade para a investigação            de Inventário de uma bacia hidrográfica              Sócio-Econômicos (Inesc) – alessandra@inesc.org.br



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Célio Bermann*                                                                                                         Contra Corrente




Petróleo do Pré-Sal:
investindo no passado
Ao invés de priorizar saúde, moradia, saneamento e energia renovável, Brasil opta
por investir em fonte energética sem futuro que causa graves impactos



N
         os últimos dois anos, o debate      exploração, desenvolvimento e produção    que marcou o desenvolvimento
         sobre o Pré-Sal está restrito       do petróleo da camada do pré-sal são da   econômico e o padrão civilizatório do
         ao destino dos royalties da sua     ordem de US$ 111,4 bilhões, conforme      século XX. Mas que, em função da
produção. Ainda não se conhece de que                                                  sua exaustão, não será mais a fonte de
quantidade de reservas está se falando                                                 energia do futuro do nosso planeta.
– os 9,5 a 14 bilhões de barris de óleo,
até o momento confirmados nos campos
                                                “Trata-se de cerca                       Sob o ponto vista estratégico, a
                                                                                       existência desse petróleo assegura ao
de Tupi, Iara e Parque das Baleias, ou se
tratam de reservas que poderão alcançar          de R$ 200 bilhões                     Brasil condições de enfrentar, num
                                                                                       futuro próximo, as restrições cada
de 50 a 150 bilhões de barris.                                                         vez maiores que vão caracterizar o
   Estima-se que a área total do Pré-Sal        a serem investidos                     período de transição para outras fontes
seja de 149 mil quilômetros quadrados.                                                 energéticas. Teremos petróleo, não para
Deste total, 42 mil quilômetros quadrados    numa fonte energética                     nos transformarmos em “novo país
já foram objeto de concessão e 107 mil                                                 exportador da OPEP” [Organização dos
quilômetros quadrados ainda não foram                que marcou o                      Países Produtores de Petróleo], como
licitados. A previsão inicial indicava que                                             querem muitos, mas para ter à disposição
a 1ª licitação ocorreria este ano, mas a          desenvolvimento                      reservas suficientes para atravessar
indefinição quanto aos royalties levou ao                                              este período de transição sem grandes
adiamento. A nova data para a definição       econômico e o padrão                     sobressaltos. Apenas isso!
dos contratos com base no modelo de
partilha para leiloar as novas áreas de
exploração de petróleo e gás na camada
                                             civilizatório do século                   Habitação, saneamento básico e saúde
                                                                                       Mas podemos indagar se esta é a melhor
pré-sal ficou para o 2º semestre de 2012.
   Foi também criada uma nova empresa             XX. Mas que não                      forma de investimento. Poderíamos
                                                                                       imaginar estes montantes sendo
estatal, não operacional, que irá gerir                                                direcionados para outras demandas
os contratos de exploração. Os recursos        será mais a fonte de                    como, por exemplo, a redução do
obtidos pela União serão destinados                                                    déficit habitacional, ou para garantir a
ao Novo Fundo Social (NFS), também             energia do futuro do                    universalização do saneamento básico
denominado de ’Fundo Soberano’.                                                        no Brasil ou, ainda, para cobrir as
   Sem dúvida, a renda petrolífera que             nosso planeta.”                     necessidades de financiamento à saúde.
poderá ser extraída com a exploração                                                     Com efeito, com este dinheiro, o Brasil
desse petróleo atinge cifras gigantescas.                                              poderia reduzir pela metade o atual
Entretanto, para alcançar uma produção       as previsões da Petrobrás, incluindo      déficit habitacional de 5,8 milhões de
de 1,815 milhões de barris por dia,          seus parceiros.                           domicílios, com um custo total estimado
prevista para 2020, os investimentos           Trata-se de cerca de R$ 200 bilhões a   em R$ 406 bilhões.
nos próximos 10 anos nas atividades de       serem investidos numa fonte energética      Ou ainda, para universalizar o


                                                                                                                                  25
saneamento em todo o país
seria necessário aplicar cerca
de R$ 11 bilhões por ano até
atingirmos um total de R$ 220
bilhões em 2020. De acordo com
a Organização Mundial da Saúde
(OMS, 2008), morrem por dia no
Brasil sete crianças entre zero e
cinco anos de idade, vítimas de
diarréias e doenças parasitárias.
Cerca de 34% das crianças dessa
faixa etária se ausentam das
creches e salas de aula devido
às doenças relacionadas
à falta de saneamento. É
também constatado que 15 mil
brasileiros morrem vítimas de
diarréias por ano. Segundo
a Fundação Getúlio Vargas
(FGV, 2008), aproximadamente




                                                                                                                                                                         Mateus Cauduro
53% dos brasileiros não tem
acesso à rede geral de esgoto,
e apenas 20% possuem esgoto             O uso irrestrito do combustível fóssil é considerado uma das principais causas do aquecimento global: energia sem futuro
tratado. Se investisse em
saneamento, o país evitaria
gastos quatro vezes maiores                   não estabelece o percentual da União                         de petróleo pelas biomassas (etanol e
com tratamento médico hospitalar.             para a saúde. Os estados devem reservar                      biodiesel), serão os veículos elétricos
                                              pelo menos 12% do seu orçamento para a                       que irão substituir a atual tecnologia
Sistema perverso                              saúde, enquanto que para os municípios o                     dos motores à combustão interna. Para
O que leva o não investimento nestes          piso é de 15% do orçamento.                                  superar os atuais desafios da autonomia
setores é a lógica do mercado. Construir                                                                   (distância percorrida sem necessidade
habitações para uma população cuja            Fontes energéticas do futuro                                 de recarga), tempo de recarga e custos,
renda, para 90% dela, é inferior a três       Poderíamos também pensar nestes                              poderíamos investir em conjunto com a
salários mínimos, vai apenas contribuir       US$ 111,4 bilhões sendo investidos                           Bolívia no aproveitamento das reservas
para dinamizar de forma restrita setores      de forma diversificada nas fontes                            de lítio, localizadas na província de sal
da construção civil e materiais de            energéticas renováveis.                                      de Uyuni, com reservas estimadas de
construção. Um investimento que não               Poderíamos assistir a um formidável                      300.000 a 5,5 milhões de toneladas,
encontrará retorno.                           avanço das usinas eólicas ou da energia                      conforme dados da Corporación
  O investimento em saneamento                solar fotovoltaica. Uma parte deste                          Minera de Bolívia (Comibol). Trata-
básico também não se ajusta à                 montante poderia ser utilizada para                          se do desenvolvimento de baterias de
lógica do mercado. Trata-se de um             a construção de duas ou três fábricas                        lítio de alto desempenho, que serão
investimento sem visibilidade política,       de painéis fotovoltaicos, uma vez                            capazes de superar os atuais desafios
pois são encanamentos enterrados e            que, atualmente, importamos estes                            aos veículos elétricos.
estações de tratamento longínquas nos         equipamentos, nos restringindo ao papel                         São estes alguns exemplos de
centros urbanos.                              de um grande mercado para as empresas                        possibilidades de investimento no futuro.
  Está também presente no debate atual        fabricantes estrangeiras.                                    Olhar para o petróleo da camada do pré-
o uso dos royalties do Pré-Sal para o             Com investimentos em tecnologia                          sal é olhar para o passado.
financiamento à saúde. Estima-se a            de ponta poderíamos participar do
necessidade de R$ 30 bilhões anuais, que      desenvolvimento em grande escala dos                         Célio Bermann é professor Livre-Docente do Programa de
poderiam ser cobertos sem a criação de        veículos elétricos. Apesar dos esforços na                   Pós-Graduação em Energia da Universidade de São Paulo (USP)
um novo tributo. A emenda 29, de 2000,        substituição dos combustíveis derivados                      cbermann@iee.usp.br



26
Philip M. Fearnside*                                                                                                                 Contra Corrente




Emissões: os impactos
mais renegados das
hidrelétricas
Indústria, governo e financiadores, como o BNDES, não querem admitir que as
barragens, na Amazônia, são mais prejudiciais que a queima de combustível fóssil



A
       s emissões de gases de efeito
       estufa representam um grave
       impacto que precisa ser
avaliado tanto no licenciamento pelas
autoridades ambientais brasileiras
como pelas instituições que finaciam a
construção de barragens. A atuação do
Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) é
particularmente definidora nesse
cenário, uma vez que, além de financiar
a construção de barragens no Brasil,
ele também financia uma série de
projetos na Bolívia e no Peru, onde o
licenciamento é ainda menos rigoroso
que no Brasil.
   Represas hidrelétricas não produzem
“energia limpa”, ao contrário das
afirmações da indústria hidrelétrica,



                                                                                                                                                       Gabriel Strautman
porta-vozes governamentais e os
bancos que financiam a construção
das barragens. Infelizmente, represas
liberam gases de efeito estufa,                Ao financiar barragens na Amazônia, o BNDES pode ser (co) responsabilizado pelos seus graves
contribuindo, dessa forma, com o               impactos, inclusive pelas emissões de gases de efeito estufa
aquecimento global. Na Amazônia,
frequentemente, as barragens são          escala de tempo, fazendo com que                    formas. Primeiro, as árvores mortas
mais prejudiciais do que a queima de      barragens como essas jamais poderiam                pela inundação da florestas se projetam
combustível fóssil para a geração de      ser consideradas mitigadoras do                     acima da superfície da água e se
energia, por várias décadas. A própria    aquecimento global.                                 deterioram ao ar livre, liberando gás
Floresta Amazônica se encontra sob          Nas barragens amazônicas, gases de                carbônico (CO2). Esse gás se constitui
ameaça de mudanças climáticas nessa       efeito estufa são liberados de diferentes           em uma contribuição líquida ao efeito


                                                                                                                                                27
estufa, diferente do gás carbônico que     estaria em contato com o ar. A água       água repentinamente tornam-se menos
será liberado da água do reservatório,     de um reservatório se separa em duas      solúveis (Lei de Henry, na química),
resultante da decomposição subaquática     camadas, uma superfícial – de 2 a 10m     e a maior parte é liberada durante
de plantas que crescem no reservatório     de profundidade, aproximadamente -,       um curto espaço de tempo. Esse é o
ou na área circunvizinha, depois da        onde a água é relativamente quente e      mesmo processo que ocorre quando
construção da represa.                     contém oxigênio dissolvido oriundo        uma garrafa de refrigerante é aberta e
  A quantidade de gás carbônico que        do contato com a atmosfera; e uma         surgem bolhas de CO2, exceto que, no
essas plantas absorvem da atmosfera        camada mais profunda, onde é água         caso de um refrigerante, a diferença de
enquanto elas crescem é a mesma            fria. A camada profunda, e onde o         pressão é muito menor do que em uma
que será liberada após a morte delas,      oxigênio é praticamente ausente, não      barragem hidrelétrica.
durante o processo de decomposição.        se mistura com a camada superficial.         Quando um reservatório hidrelétrico
Porém, muito da matéria vegetal que        No sedimento no fundo do reservatório,    é inundado pela primeira vez ocorre
se decompõe no reservatório não libera                                               um grande pulso de emissões de
seu carbono na forma de gás carbônico,                                               gases de efeito estufa, que permanece
mas sim como metano (CH4). Isto ocorre                                               durante os primeiros anos. Isso
porque a água do fundo do reservatório            “Para chegar                       inclui o lançamento do CO2 oriundo
praticamente não tem oxigênio e,                                                     da decomposição das árvores mortas,
portanto, o oxigênio necessário para
formar gás carbônico não é disponível.
                                                 a uma decisão                       acima da superfície da água, e a
                                                                                     liberação de CO2 e CH4 oriundos de

Um impacto muito superior
                                                 racional sobre                      outros estoques de carbono existentes
                                                                                     antes do enchimento do reservatório,
A metade do peso seco da vegetação                                                   tais como carbono do solo e das
é carbono, e o impacto sobre o efeito          qualquer projeto                      folhas que caem, quando as árvores
estufa é maior quando a vegetação que                                                morrem. Este impulso inicial diminui à
se decompõe debaixo d’água libera                 energético, a                      medida que se esgotam os estoques de
este carbono na forma de metano                                                      carbono em formas que são facilmente
em vez de gás carbônico. Isso ocorre          primeira pergunta                      degradáveis.
porque, de acordo com o relatório de                                                    Após o pico inicial das emissões
2007 do Painel Intergovernamental              a ser respondida                      a partir de estoques pré-existentes
sobre Mudança de Clima (IPCC), uma                                                   de carbono, haverá uma emissão
tonelada de gás metano, ao longo de           é a questão sobre                      sustentada em um nível inferior,
100 anos, equivale a 25 toneladas de                                                 oriunda de carbono que é produzido
gás carbônico. Entretanto, análises mais
recentes, que incluem efeitos indiretos
                                              o que irá ser feito                    por fotossíntese no reservatório,
                                                                                     na zona de deplecionamento e das
sobre poeira e outros aerossóis indicam
que o impacto de metano é 34 vezes
                                                com a energia.”                      folhas de árvores presentes na área
                                                                                     de captação. Essas folhas caem e,
maior que o de gás carbônico, para o                                                 posteriormente, são levadas para
mesmo período.                                                                       o rio e seus afluentes pelas chuvas
  Os reservatórios hidrelétricos são       a decomposição produz metano, que         torrenciais e os eventos de inundação
muito diferentes de lagos naturais,        permanece em concentração elevada na      associados. A emissão sustentada de
na medida em que a água de um              água na camada profunda. Parte deste      metano pela decomposição de biomassa
reservatório sai pelas turbinas,           metano é liberada para a superfície       com essa origem representa uma fonte
localizadas perto do fundo ou, então,      na forma de bolhas ou, por meio de        permanente de emissões de gases de
pelos vertedouros, onde a água passa       difusão - essa última, especialmente em   efeito estufa.
por uma fenda que se abre quando           um reservatório recém-formado.
uma porta de aço é levantada, também         A maior parte da emissão, no entanto,   Conspiração? Só se for a corporativa
a uma profundidade considerável na         ocorre quando a água passa pelos          A sugestão de que os reservatórios de
coluna d’água. Em um lago natural,         vertedouros e turbinas. Essa água está    hidrelétricas liberam gases de efeito
a água deixaria o lago através de          sob alta pressão e, quando é lançada      estufa foi feita pela primeira vez em
um córrego de saída. Dessa forma,          abaixo da barragem, a pressão cai         1993 por um grupo de canadenses
a água viria da superfície, onde ela       subitamente. Os gases dissolvidos na      com base em dados de reservatórios


28
Contra Corrente




naquele país. Minha publicação, em         na Conferência das Partes (COP), da      reservatório. Minhas estimativas, por
1995, provocou a fúria da indústria        Convenção Quadro das Nações Unidas       exemplo, são mais do que 10 vezes
de hidroenergia por ter revelado que       sobre Mudaças do Clima, incluía          maiores do que os números oficiais
a represa de Balbina, na Amazônia          uma seção sobre as emissões de           para as duas barragens na Amazônia,
brasileira, teria um impacto maior do      hidrelétricas. No entanto, as emissões   incluídas no relatório (Tucuruí e
que os combustíveis fósseis. Porta-        provenientes desta fonte não foram       Samuel). Essa diferença é resultante,
vozes da Associação Americana de                                                    principalmente, da inclusão das
Hidrelétricas (dos EUA) e da Associação                                             emissões provenientes das turbinas,
Internacional de Hidrelétricas (do                                                  vertedouros e da decomposição de
Reino Unido) alegaram que a noção                                                   árvores mortas, acima da superfície
que barragens produzem metano seria            “Esses impactos                      da água (ver trabalhos sobre cada
uma “asneira” e que reservatórios                                                   barragem disponíveis em http://philip.
representavam “um jogo de soma zero”            [das emissões]                      inpa.gov.br). Nada mudou no Plano
porque as emissões provenientes dos                                                 Nacional de Mudanças Climáticas
ecossistemas pré-reservatórios seriam             precisam ser                      (PNMC), apresentado na COP, em
eliminadas. No entanto, os ajustes para                                             Copenhague, em 2009. Nele, as
essas emissões são incluídos nos meus         considerados não                      barragens são descritas como energia
cálculos, e os cálculos indicam um                                                  limpa e as emissões das turbinas e
grande impacto líquido de barragens.
A Eletronorte atribuiu a idéia a uma
                                             apenas no sistema                      vertedouros não são mencionadas.
                                                                                       Neste momento, o exemplo mais
conspiração internacional que queria
falar mal do Brasil (ver ambos os lados
                                              de licenciamento                      flagrante de que essas emissões são
                                                                                    ignoradas é o Estudo de Impacto
                                                                                    Ambiental (EIA) e o Relatório de
do debate na seção “Controvérsias
Amazônicas” no site http://philip.inpa.         ambiental mas                       Impacto Ambiental (Rima) para a
gov.br).                                                                            barragem de Belo Monte, proposta
   Nos anos seguintes, uma quantidade               também no                       para o Rio Xingu. O EIA discute as
significativa de pesquisas comprovou                                                emissões de gases de efeito estufa, mas
as emissões de gases de efeito estufa,         planejamento de                      não chega a nenhuma quantificação
e a indústria hidrelétrica foi forçada a                                            do impacto do projeto e restringe a
reconhecer que as barragens liberam           desenvolvimento                       discussão às emissões da superfície do
esses gases. No entanto, passou a                                                   reservatório. Há quinze anos atrás,
sustentar que as emissões são poucas             nacional e nas                     isso poderia ser desculpável mas,
e muito menores do que as emitidas                                                  atualmente, fingir que emissões das
a partir de combustíveis fósseis para
gerar a mesma energia. Esta posição,
                                                decisões sobre                      turbinas e vertedouros não ocorrem
                                                                                    é indefensável (consulte a revisão
geralmente, tem sido sustentada
por simplesmente ignorar as fontes
                                                 financiamento                      sobre o EIA/Rima de Belo Monte em
                                                                                    http://colunas.globoamazonia.com/
                                                                                    philipfearnside/). O EIA/Rima de
principais de emissões das barragens,
tais como o metano liberado das                 dos bancos que                      Belo Monte ignora completamente
turbinas e vertedouros, bem como o CO2                                              a literatura, hoje substancial,
da decomposição de árvores, acima da              constroem as                      mostrando a liberação de quantidades
superfície da água. As únicas emissões                                              significativas de metano das turbinas
incluídas na maioria dos estudos                   barragens.”                      e vertedouros. Estas emissões não são
financiados pela indústria hidrelétrica                                             meros “cálculos”, pois têm sido medidas
são as bolhas e a difusão através da                                                diretamente em Balbina, no Brasil, e em
superfície dos próprios reservatórios.                                              Petit Saut, na Guiana Francesa.
                                           incluídas no total da contribuição
Camuflagem governamental                   do País para o aquecimento global.       Outra tragédia anunciada
O primeiro inventário brasileiro de        Além disso, a seção sobre emissões       No caso de Belo Monte, a controvérsia
emissões de gases de efeito estufa,        hidrelétricas, mais uma vez, só          vai muito além das emissões das
lançado em Buenos Aires, em 2004,          incluiu as emissões da superfície do     principais fontes de metano da represa


                                                                                                                             29
em si. A maior controvérsia envolve
o retrato da barragem na versão atual
do EIA/Rima como sendo a única
planejada no Rio Xingu. A maioria dos
observadores que não trabalha para
a indústria hidrelétrica ou que não é
financiada por ela (inclusive este autor)
considera este cenário fictício (veja
evidência citada nos trabalhos sobre
Belo Monte, disponíveis em http://
philip.inpa.gov.br). O plano original
incluía a construção de cinco represas,
à montante de Belo Monte. Três dessas                    Sociedade civil brasileira e internacional demandam que o BNDES
represas (embora em locais ligeiramente                  não financie a usina de Belo Monte
diferentes) foram incluídas no último
plano, antes do anúncio do cenário de       saldo positivo em termos de impacto             e hidrelétricas. Essas comparações
uma única represa, em 17 de julho de        sobre o aquecimento global durante 41           exigem uma contabilidade aberta e
2008. O Conselho Nacional de Política       anos (veja http://www.periodicos.ufpa.          abrangente, tanto dos impactos como
Energética (CNPE), que instituiu a          br/index.php/ncn/article/view/315/501).         dos benefícios, de cada opção. As
política de uma única barragem, é                                                           emissões de gases de efeito estufa
livre para reverter esta decisão a          Planejamento fechado e irracional               representam apenas um dos muitos
qualquer hora.                              O problema fundamental quando se                impactos das barragens hidrelétricas
  A sequência mais provável de eventos      trata de barragens e de emissões de             que devem ser considerados em tais
é que, após a conclusão de Belo             gases de efeito estufa é a forma como           comparações. As estimativas dos
Monte, ou quando ela ainda estiver em       as decisões são tomadas. Para chegar            impactos das emissões devem incluir
construção, haveria uma “descoberta         a uma decisão racional sobre qualquer           as emissões de metano pelas turbinas
surpresa” de que Belo Monte seria           projeto energético, a primeira pergunta         e pelos vertedouros que têm sido
economicamente inviável sem a água          a ser respondida é a questão sobre o            ignoradas, de forma sistemática, nas
armazenada em represas à montante e,        que irá ser feito com a energia. Isto é         posições oficiais brasileiras sobre o
com isso, apareceriam as justificativas     particularmente importante no caso da           assunto. Esses impactos precisam ser
necessárias para a aprovação das            barragem de Belo Monte, onde o fator            considerados não apenas no sistema de
represas adicionais. A represa              dominante é a exportação de materiais           licenciamento ambiental, mas também
mais conhecida como “Babaquara”             eletro-intensivos, especialmente o              no planejamento de desenvolvimento
(oficialmente renomeada como                alumínio. Esta é uma das utilizações            nacional e nas decisões sobre
“Altamira”) seria a primeira prioridade.    de eletricidade que gera menos                  financiamento dos bancos que
No projeto original, esta represa teria     emprego no Brasil por GWh de energia            constroem as barragens. Nesse cenário,
um reservatório com 6.140 km2 de área,      consumida. Uma discussão nacional               o BNDES é o ator mais importante e,
o dobro da área da notória represa          sobre quais seriam as melhores formas           por isso, a sociedade civil demanda
de Balbina. A Babaquara teria uma           de utilização de energia (em oposição           que ele seja (co) responsabilizado pelos
zona de 3.580 km2 exposta na época          à produção de energia) para o País              impactos das obras em que investe.
da água baixa (i.e., maior que toda a       nem sequer começou. A questão está              Ainda mais considerando que o seu
área de Balbina) que seria re-inundada      totalmente ausente do atual Plano               alcance ultrapassa as fronteiras do
todos os anos. A emissão potencial          Decenal de Expansão de Energia                  Brasil. Em países como a Bolívia e o
de uma represa como esta é enorme.          (PDEE), para 2011-2020.                         Peru, pelo menos uma dúzia de barragens
Parte da emissão ocorreria no próprio          Uma vez decidida a questão do                estão prestes a receber financiamento
reservatório de Babaquara e parte           uso de energia, as várias opções                do BNDES e serem construídas por
com a passagem da água carregada            devem ser comparadas, incluindo                 empreiteiras brasileiras,visando a
de metano para o reservatório de Belo       investimentos em eficiência energética          exportação de eletricidade para o Brasil.
Monte, localizado imediatamente             e a geração de energia a partir de
abaixo dela. O “Complexo Altamira”          uma ampla variedade de fontes                   Philip Fearnside é pesquisador do Instituto Nacional de
(Belo Monte/Babaquara) não teria um         potenciais além de combustíveis fósseis         Pesquisas da Amazônia (INPA) - pmfearn@INPA.gov.br



30
Jeremias Vunjanhe*                                                                                                                        Contra Corrente




África:
expropriação de terras
e mudanças climáticas
Continente vulnerável às mudanças climáticas tem suas terras “tomadas” por estrangeiros para
produção de agrocombustíveis e mercado de carbono, dentre outras atividades neo-colonizadoras




N
       os últimos 30 anos, o
       desenvolvimento de Moçambique




                                                                                                                                                            João Correia Filho
       - e de toda África - tem,
simultaneamente, registado progressos
assinaláveis e percorrido caminhos
diversos e não menos controversos. A
partir do final do século XX, surgiram
novas formas de pensar e repensar
o desenvolvimento, suas esferas e
seus sujeitos e o centro deslocou-
se violentamente do Estado para os
setores privados, favorecendo a entrada
maciça de investimentos diretos
estrangeiros. Galvanizados pela relativa
estabilidade política e o sucesso na
pacificação do continente, novos atores
- nacionais e estrangeiros - disputam
e reivindicam o protagonismo pelo
controle da África, muitas vezes sob o
prisma propagandístico de investimento
e de promoção de desenvolvimento               Entre 51 e 63 milhões de hectares de terra – área equivalente à França – foram negociados na África nos
sustentável.                                                                                  últimos 10 anos: impactos devastadores nas comunidades
  Os processos de transição política de
ditaduras para a democracia e para a       capitalistas, das elites corruptas                    africanos enfrentam a nova corrida
economia neoliberal e a necessidade        nacionais e de Financiamento e                        pela aquisição, controle e partilha
urgente de desenvolvimento, fundado        Investimento Direto Estrangeiros                      das suas terras, de seus recursos e
na lei de mercado e de lucro,              (FIDE). A partir do modelo dos mega                   do seu continente pelos interesses
converteram a maioria dos países           projetos, o FIDE tem elevado o custo                  estrangeiros. A expropriação1 de terras
africanos em verdadeiros campos            social e ambiental dos povos africanos.               constitui a mais recente estratégia
de batalha e de disputa de políticas          Cada vez mais pobres e expostos                    seguida pelos governos ocidentais
externas de países do “centro do           aos impactos nefastos da crise mundial                e poderosos grupos empresariais
mundo” para a realização de interesses     e das mudanças climáticas, os povos                   estrangeiros para estrangular a África,


                                                                                                                                                     31
capitulá-la e colocá-la a serviço            a partir do final de 2008, com a         corrupto, beneficiando-se das falhas
de seus interesses econômicos e              eclosão da violenta crise mundial        existentes na implementação das
imperialistas, em prejuízo de mais de        alimentar, energética, ambiental,        leis em vigor no país e agravando,
900 milhões de almas africanas.              financeira e econômica que se abateu     deste modo, as condições de vida já
                                             sobre os grandes centros capitalistas.   precárias da maioria da população
Colonização pós moderna?                     A ocorrência do fenômeno de              africana”. E acrescenta ainda que “o
A magnitude do comércio de terras é          expropriação de terras e de recursos     Fenômeno de Usurpação de Terra
bastante devastadora e ocorre quase          naturais em muitos países africanos      ocorre em Moçambique e é facilitado
em toda a África. Estudos publicados         tem sido facilitada pelas políticas      pelas inúmeras falhas em todo o
em 2010 concluem que entre 51 e 63           de desregulamentação, de acordos         processo de atribuição do Direito de
milhões de hectares de terra, uma área       comerciais com a União Européia,         Uso e Aproveitamento de Terra (DUAT),
equivalente à França, fazem parte de         de políticas nacionais de atração de     beneficiando os investidores em
lucrativos negócios de terras africanas      investimentos diretos estrangeiros,      detrimento das comunidades rurais”.
na primeira década deste milênio. De         de sistemas e governos corruptos e
acordo com a Organização das Nações          de reformas de governança voltadas       Brasil, explorando o continente “irmão”
Unidas para Alimentação e Agricultura        para o mercado adotadas no início        Neste processo de apropriação de terras,
(FAO), nos últimos três anos, 20             da década de 1990 pelos governos         o Brasil desempenha um papel crucial
milhões de hectares de terras foram          africanos e patrocinadas pelo Banco      na chamada África lusófona, com
adquiridos por interesses estrangeiros       Mundial (BM) e pelo Fundo Monetário      particular presença forte em Angola
no continente, a maior parte deles           Internacional (FMI). Na verdade, as      e Moçambique. As grandes empresas
envolvendo mais de 10.000 e 500.000          reformas estruturais facilitadas por     com capitais brasileiros, tais como a
hectares por concessão. Etiópia,             estas duas instituições financeiras      Vale, Camargo Correia e Odebrecht,
Moçambique, Madagascar, Sudão,               constituem importantes instrumentos      dentre outras, financiadas pelo
Mali e República Democrática do              de viabilização do atual processo        Banco Nacional de Desenvolvimento
Congo constam na lista dos países com        de aquisição, transação e partilha       Econômico e Social (BNDES), estão
grandes transações de terra.                 de terras, em clara confrontação         entre os protagonistas do processo de
  Para justificar a concessão de vastas      com os direitos e liberdades dos         aquisição, controle e partilha das terras
extensões de terras, os governos             povos, conquistados nas lutas pela       africanas. O projeto de exploração do
africanos muitas vezes socorrem-se           independência da África.                 carvão mineral da Vale, em Moatize,
de expressões como “terra disponível”          Em Moçambique, de acordo com           no Moçambique, constitui um exemplo
e “terra marginal”, além de usarem a         o estudo da União Nacional de            emblemático ao expropriar a terra de
necessidade do aproveitamento dos            Camponeses (UNAC) e da Justiça           mais de 1.300 famílias, violando seus
recursos naturais nelas existentes           Ambiental (JA!), publicado em            direitos e colocando-as em situações de
como justificativa. Eventualmente,           agosto de 2011, sobre o fenômeno         riscos diversos.
a maioria da população é retirada e          de usurpação de terras naquele país,       No último mês de agosto, o Ministro
tem sua situação de extrema pobreza          “os investimentos analisados têm         da Agricultura moçambicano, José
ainda mais agravada. Paradoxalmente,         vindo a criar cada vez mais conflitos    Pacheco, anunciou a transação de cerca
o período de concessão - que pode            e a agravar a situação de pobreza,       de 6 milhões de hectares de terra a
chegar até a 100 anos renováveis - e         carência e vulnerabilidade das           agricultores brasileiros num projeto a
o envolvimento direto de governantes         comunidades rurais. Os investidores      ser desenvolvido nas regiões Centro
e políticos mostram que os respectivos       dos países nórdicos, apesar de nos       e Norte de Moçambique. Denominado
dividendos são partilhados entre si e        seus países de origem cumprirem com      Pró Savana e implementado no âmbito
com as empresas estrangeiras.                os mais elevados padrões de respeito     do programa de Cooperação Triangular
                                             pelos direitos humanos e por todos       para o Desenvolvimento da Agricultura
As mesmas e velhas práticas                  os processos de participação pública     das Savanas Tropicais em Moçambique
A nova saga expansionista dos                em qualquer empreendimento que           (uma Cooperação Trilateral Brasil,
países ricos e emergentes, na sua            apresente potenciais impactos sociais    Japão e Moçambique), o projeto
maioria ocidentais, caracterizada pela       e ambientais, em Moçambique, o seu       envolve o governos brasileiro através
corrida desenfreada na aquisição,            comportamento e padrões a seguir         da Agência Brasileira de Cooperação
controle, transação e partilha de terras e   são completamente distintos. As          (ABC), Empresa Brasileira de Pesquisa
recursos africanos, intensificou-se          suas práticas alimentam um sistema       Agropecuária (Embrapa), Empresa


32
Contra Corrente




                                                                                                                                                 karmo




de Assistência Técnica e Extensão            populações que têm na agricultura e         anos, de acordo com dados do Instituto
Rural (Emater) e do Serviço Nacional         na pecuária suas principais atividades      Nacional de Meteorologia. O rigoroso frio
de Aprendizagem Rural (Senar). O             de sustentação. Nesse sentido, muitos       do inverno impossibilitou a produção
Japão está presente através da Agência       governos africanos estão privilegiando      agrícola de milhares de famílias.
Japonesa de Cooperação Internacional         um esquema de inserção na economia
(JICA).                                      global assentado na alienação dos seus      Resistência e equilíbrio
                                             territórios, na sistemática violação dos    Ainda assim, nos últimos dez anos, a
Impactos relacionados ao clima               direitos de seus povos e na crescente       organização e mobilização da sociedade
De um lado, governos e investidores          exposição a riscos imprevisíveis e de       civil africana e das comunidades
financeiros estão empenhados na compra       dimensão catastrófica.                      locais para assuntos relacionados com
e aquisição de terras para a plantação de       Cabe ressaltar que esta situação         a invasão e expropriação das suas
agrocombustíveis, sequestro de carbono       será agravada pelo impacto das              terras e dos recursos naturais têm se
e exploração de recursos naturais – de       mudanças climáticas que estão a afetar      revelado uma alternativa viável diante
modo a garantir a posse de ativos, com       significativamente o modo de vida           da incapacidade e incompetência das
grandes valores e rendimentos a médio        das populações africanas. Estima-se         instituições dos Estados africanos
e longo prazo, em prejuízo da maioria        que a África seja o continente a ser        em cumprir com os preceitos da
da população africana. De outro lado, os     particularmente mais afetado pelas          governança ambiental e na promoção
impactos do fenômeno de apropriação          mudanças climáticas devido à sua fraca      de um desenvolvimento sustentado nas
de terra são devastadores para as            capacidade de adaptação. Os seus grandes    necessidades humanas atuais e futuras.
comunidade locais e têm causado mais         deltas estarão em perigo por se tratar      Para além disso, é urgente repensar e
conflitos de terras, aumento da pobreza,     de regiões muito populares e bastante       redefinir a matriz de desenvolvimento
degradação florestal, deslocamento de        expostas ao aumento de níveis do mar,       e de governança, estabelecendo um
populações locais, insegurança alimentar,    às marés de tempestade e ao aumento         equilíbrio entre as dimensões econômica,
piora das condições de vida e aumento        fluvial. Neste particular, Moçambique       social e ambiental. Caso contrário,
da vulnerabilidade das comunidades           é considerado um dos países de África       estaremos a assinar prematura e
rurais, diante da crescente ameaça das       mais vulneráveis às alterações climáticas   criminosamente a nossa certidão de
mudanças climáticas.                         ao longo das suas costas. Com um            extinção e a das futuras gerações.
  A disponibilidade e acesso à terra e       litoral de cerca de 2.700 km, 60% da sua
água pelas comunidades locais têm sido       população (estimada em 20,5 milhões)        * Jeremias Vunjanhe é jornalista e coordenador de
fortemente prejudicados pelas transações     vive nas áreas costeiras, consideradas      imprensa da Justiça Ambiental – Amigos da Terra
de terras, dado que a maior parte delas      baixas com praias arenosas, estuários e
                                                                                         Moçambique e da Ação Acadêmica para o Desenvolvimento
são em áreas férteis e próximas dos rios e   mangais, e cuja sobrevivência depende,
                                                                                         das Comunidades Rurais (Adecru) - jfvunjanhe@gmail.com
fontes de água naturais, frequentemente      em grande medida, dos recursos naturais.
                                                                                         1- Nota da editora: o termo expropriação é equivalente à
usadas pelas comunidades. Desse modo,        Em 2011, Moçambique registrou as            palavra acarapamento utilizada no texto original e bastante
a comercialização da terra afeta as          temperaturas mais baixas dos últimos 50     comum tanto na África como na América Latina



                                                                                                                                                       33
Winnie Overbeek*




            Raposa no galinheiro
                  Para garantir a continuidade de emissões de três empresas nos EUA, organização
                  brasileira prejudica severamente o “bem viver” de comunidades tradicionais




                                                                                            E
                                                                                                  m 1999, anos antes do lançamento do mecanismo de
                                                                                                  Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação
                                                                                                  (REDD), um dos primeiros projetos de carbono em
                                                                                            áreas de floresta no mundo já havia iniciado. Trata-se de um
                                                                                            projeto da ONG brasileira Sociedade de Pesquisa em Vida
                                                                                            Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), em parceria com a
                                                                                            ONG estadunidense TNC (The Nature Conservancy). O projeto
                                                                                            está sendo desenvolvido no litoral do estado do Paraná, na
                                                                                            região Sul do Brasil, mais especificamente, nos municípios de
                                                                                            Antonina e Guaraqueçaba.
                                                                                              Com recursos de três empresas americanas, a General Motors,
                                                                                            a American Eletric Power e a Chevron, a SPVS adquiriu áreas
                                                                                            que, juntas, abrangem 18,6 mil hectares. Com atividades de
                                                                                            preservação e restauração de áreas degradadas, a entidade
                                                                                            afirma já ter removido 860 mil toneladas de carbono da
                                                                                            atmosfera1. Na lógica dos projetos REDD, os créditos advindos
                                                                                            do carbono seriam aproveitados pelas três empresas dos
                                                                                            Estados Unidos, que financiam a SPVS, para compensar uma
                                                                                            parcela das suas emissões de poluentes. No entanto, não
                                                                                            foram encontradas muitas informações no site da SPVS, nem
                                                                                            no site das empresas, sobre os valores repassados por essas
                                                                                            empresas à SPVS. As comunidades locais visitadas tampouco
                                                                                            têm informação a respeito, o que já mostra uma falta de
Winnie Overbeek




                                                                                            informação e transparência nesse aspecto.
                                                                                              O site da SPVS2 divulga que, segundo o Serviço Florestal
                                                                                            Brasileiro, o projeto está na categoria de “ações de REDD
                                                                                            que têm gerado bons resultados”. No entanto, o projeto tem
                                                                                            causado um impacto devastador sobre as comunidades locais
                       A imposição de regras “externas” e a utilização da força bruta não
                       combinam com o histórico da comunidade                               residentes em torno das reservas da SPVS.


                  34
Contra Corrente




Um histórico de “bem viver”                 e, sobretudo, de fazendeiros. Estes      pela ação dessa organização. Segundo
Desde o processo de colonização             começaram a registrar e se apropriar     os moradores, inicialmente, a SPVS
da região, o litoral paranaense tem         das terras, muitas vezes utilizando-se   empregou 47 pessoas da comunidade,
sido habitado por comunidades               da grilagem (prática comum nas áreas     pagando pouco mais de um salário
chamadas de ‘caiçaras’3, além de            rurais no Brasil). Em consequência       mínimo. Três dos funcionários eram
comunidades indígenas e quilombolas.        disso, as famílias das comunidades       mulheres com salários ainda menores
As comunidades se caracterizam por          foram ameaçadas e, muitas, expulsas      que os dos homens. A SPVS prometeu
serem agricultoras e extrativistas.         de suas áreas. Os fazendeiros usavam     que os empregos durariam cerca de 40
Historicamente, elas convivem de modo       ‘jagunços’ e até mesmo búfalos para      anos, o mesmo tempo de existência
respeitoso com a mata, onde produzem        invadir e tomar as propriedades dos      previsto para o projeto. A maioria
seus alimentos de subsistência pelo         pequenos agricultores. A utilização da   dos funcionários foi empregada como
sistema de pousio (descanso), com           criação de búfalos nessa região, em      guarda florestal. Além
destaque para a produção da farinha         vez do gado bovino, deve-se ao fato      do emprego, a SPVS prometeu
de mandioca. Tiram da Mata Atlântica                                                 melhorias
o palmito para se alimentar, cipó para                                               na renda e na vida das famílias.
fazer artesanato e madeira para a
construção de moradias, cercas e canoas         “As comunidades                      Impactos sobre a comunidade
para a pesca. Praticam a caça e a pesca                                              No entanto, a chegada da SPVS
para a alimentação de suas famílias.            buscam resistir à                    constituiu um verdadeiro golpe
  Portanto, percebe-se que essas                                                     para as comunidades. Foi a partir
comunidades dependem totalmente                pressão da SPVS,                      da compra das terras pela SPVS que
da floresta, com a qual construíram                                                  as comunidades nessas áreas e no
uma convivência harmoniosa. Prova             que só pode ter como                   entorno começaram a perder o acesso
disso é o fato de que essa região                                                    à floresta abundante na região e aos
situa-se entre as mais preservadas            objetivo a expulsão                    rios - ou seja, começaram a perder
do bioma Mata Atlântica, o mais                                                      liberdade, autonomia, o direito de
devastado do País.                                de todas elas.”                    ir e vir e de exercer o seu modo de
  As comunidades nunca se                                                            vida. Perderam até mesmo o direito
preocuparam em registrar ou cercar                                                   de cortar árvores nativas de suas
as terras onde moram, já que                                                         próprias propriedades, como foi o
consideravam esse território como uma       de este ser um animal mais rústico       caso de um morador que plantou,
área de uso comum, de usufruto de           e, portanto, mais adequado para          para sua sobrevivência, uma área com
todos. As terras são, na sua maioria,       conviver com o ambiente local nas        palmito-juçara, uma árvore nativa.
devolutas e sobre as quais as famílias      áreas desmatadas, constantemente         Hoje, ele não pode mais cortar essas
sempre tiveram suas posses, repassadas      alagadas e, em geral,                    árvores, mesmo que elas estejam em
de geração em geração. Trabalhavam no       de difícil acesso e locomoção.           sua própria terra.
território, às vezes de forma individual,                                              Para amedrontar as comunidades, a
por família, e às vezes coletivamente,      Chegada da SPVS = promessas              SPVS começou, junto com a polícia
nas roças itinerantes.                      não cumpridas                            ambiental do estado do Paraná,
                                            No final dos anos de 1990, a SPVS        chamada de Força Verde, a perseguir
Chegada dos fazendeiros =                   chegou à região e começou a comprar      as comunidades. Essa violência
grilagem                                    grandes áreas dos fazendeiros. Ela       continua até hoje, pois a Força
A primeira grande mudança na                também conseguiu comprar algumas         Verde invade até mesmo as casas das
região ocorreu a partir dos anos de         áreas de posseiros, sobretudo daqueles   pessoas, sem que possua a devida
1960, com a chegada de madeireiras          que se sentiram mais pressionados        autorização para isso:


                                                                                                                             35
karmo




  Um morador de uma das                       com gripe e dor de cabeça. Já levou         vivendo no local onde moravam há
comunidades conta que:                        o revólver em punho, meu cunhado            gerações. Famílias que produziam
    “Queriam fazer parceria com nós           disse: “O que é isso rapaz, estou           e vendiam farinha, atualmente,
  ali. Nós até aceitemos de fazer uma         adoentado aqui, você entra desse            compram tudo para comer, inclusive a
  parceria (...) mas aí, de repente, eles     jeito aí”. (...) É dessa maneira que eles   farinha. Com isso, mudou a qualidade
  começaram a mandar as guardas               chegaram várias vezes em casa. E            da alimentação - um dos motivos
  também. Passou mais ou menos uns            a parceria? Desse jeito não adianta         pelos quais a saúde das pessoas não
  três dias aí, começaram a mandar os         parceria; parceria para te incomodar.       é mais a mesma, segundo relatos dos
  guardas lá em casa. Entravam dentro         Então, não adianta, melhor suspender.       moradores. Hoje, parte da população
  da casa dizendo que tinha coisas            E eles queriam enganar muita gente          local tem hipertensão arterial, estresse,
  escondido ali, tanta coisa errada. E se     desse jeito.”                               entre outros problemas de saúde. Além
  tivesse fechada a porta, entrava para                                                   disso, como há um esvaziamento
  dentro. Batiam na porta, eles falaram       Uma outra moradora conta que o              das comunidades, a classe média de
  que era ordem de juiz, não estavam        marido foi algemado em casa pela              Curitiba tem comprado casas e áreas
  nem ligando, mas entravam assim           Força Verde, que disse que era o              na região para passar seus finais de
  mesmo. (...) a Força Verde entrava ali,   “serviço” deles. Em outra ocasião,            semana e feriados.
  isso várias vezes, não era uma nem        quando ele cortou uma árvore para               As promessas de melhoria das
  duas vezes, muitas vezes. (...) Nossa     fazer uma canoa, ficou preso por              condições de vida e geração de
  casa ali, se tiver algum tipo de arma     11 dias. Para sair, teve que pagar            renda resultaram em algumas
  aí, que prendesse tudo, levasse (...).    fiança. Hoje vivem com dificuldades           iniciativas, que foram se esvaziando
  Não podia ter um facão que eles           e medo: se ficar em casa, não tem             ao longo dos anos. Um trabalho
  queriam levar, queriam tudo. (...) Não    como sobreviver. Mas se o marido sai          de organização de um grupo de
  apresentavam nada, só chegavam            para conseguir algum trabalho fora,           mulheres em torno do propósito de
  e estavam dentro de casa lá. Nessa        a esposa e as crianças ficam numa             gerar renda através de corte-costura
  hora, não estava em casa quando           situação de medo e insegurança, o             funcionou algum tempo, mas hoje
  eles chegaram, com revólver em            que mostra também que os impactos             está parado, segundo os depoimentos
  punho. Meu cunhado estava deitado         da perseguição e do projeto da SPVS           de várias mulheres das comunidades.
  na cama, a porta estava encostada         afetam as mulheres e as famílias              E a promessa de emprego por parte
  assim, meu pai estava lá fora. Eles       como um todo.                                 da SPVS tampouco foi cumprida. Ex-
  entraram para dentro, empurraram            Hoje, muitas famílias vivem                 empregados das comunidades contam
  a porta, bateram até na porta até         traumatizadas e a situação é de               que a grande maioria foi demitida,
  sair a trancazinha da porta. Ainda o      tamanha gravidade que várias                  restando apenas sete funcionárias.
  meu cunhado estava meio adoentado         acabaram desistindo de continuar              Apenas um trabalho de produção


36
Contra Corrente




de mel parece ter dado certo,            com a área da SPVS mas, segundo os               pode mais. Antes não comprava feijão,
porém não envolve diretamente as         moradores, as áreas de florestas sob             não comprava milho, muitas verduras
comunidades mais impactadas.             controle das comunidades estão em                plantava, que podia desmatar um
                                         melhores condições, se comparadas                pouco, não mata alta, mais baixa, ele
Árdua luta pela própria terra            com as áreas da SPVS.                            roçava, plantava, ele colhia a maioria
No entanto, as comunidades ainda                                                          das coisas da terra. E hoje não pode
resistem à pressão da SPVS, que só       Futuro ameaçado                                  plantar, tudo tem que comprar. (...)
pode ter como objetivo a expulsão de     Perto de uma das comunidades                     Antes, a gente não via enfermidade.
todas elas. Uma delas organizou-se de    encontra-se uma casa no meio da                  Hoje, a maioria vive até doente,
forma especial. No início da década      floresta onde a SPVS faz pesquisas               muitos. (...) Eles falaram, prometeram,
passada, em uma das localidades no       das espécies da Mata Atlântica,                  que iam ajudar meu pai mas, até hoje,
município de Antonina, um fazendeiro     graças à parceria com o banco                    a gente nunca viu nenhuma ajuda,
queria vender sua área para SPVS,        privado HSBC, através da Parceria                sempre piorou porque, no caso, eles
o que poderia levar à expulsão de        de Clima da HSBC (HSBC climate                   falaram que iam ajudar e depois veio
todas as famílias que viviam no local.   partnership, no original, em inglês).            a Força Verde e ainda queriam levar
Elas se organizaram e com o apoio        Segundo o site da HSBC, trata-se de              meu pai preso. Essa é a ajuda deles.”
do Movimento dos Trabalhadores           um ‘programa ambiental inovador’
Rurais Sem Terra (MST), realizaram,      para ‘dar continuidade à preservação           Para “atacar” o aquecimento global,
em 2003, uma ocupação. Atualmente,       do planeta’.4                                é urgente também que as empresas
há 20 famílias no local lutando pela       Enquanto isso, o futuro das                estrangeiras envolvidas no projeto
oficialização do acampamento, que        comunidades está extremamente                da SPVS comecem imediatamente a
tem o nome do ambientalista José         ameaçado se a proposta de                    reduzir suas emissões de carbono, em
Lutzenberger, para que seja um           preservação das áreas florestais da          vez de compensar emissões por meio
assentamento da reforma agrária.         SPVS, que conta com todo o apoio             de compra de créditos de carbono
  Ao longo da luta árdua dessa           do aparelho estatal, principalmente          vindos de uma área onde o povo é
comunidade contra as pressões do         da área ambiental e da área policial,        castigado por algo que deveria ser
fazendeiro, da SPVS e de órgãos          continuar dominando na região.               motivo de respeito:
ambientais, foram denunciados            É absolutamente urgente que                  sua prática de conservação da floresta.
crimes ambientais cometidos pelo         parem o abuso e a perseguição das
próprio fazendeiro, como o desvio        comunidades. O que ocorre nessa
                                                                                      Winnie Overbeek é coordenador internacional do
de um rio e o uso indiscriminado de      região, conforme testemunham os
                                                                                      Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais (WRM, sigla
agrotóxicos, os quais não receberam      moradores, são violações graves dos
                                                                                      em inglês) e membro da Coordenação Nacional da Rede
atenção dos órgãos ambientais.           direitos humanos, inclusive sociais,
                                                                                      Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais, pela Rede
Por outro lado, a comunidade             culturais e ambientais.
                                                                                      Alerta Contra o Deserto Verde - winnie@wrm.org.ur
realizou pequenos trabalhos de             Uma moradora conta que:
reflorestamento e, a partir da opção          “Sim, a gente sempre manteve a
pela agroecologia, escolheu a               floresta. Só que, às vezes, a gente       1- http://www.revistavisaoambiental.com.br/site/index.
proposta de trabalhar coletivamente         precisa derrubar alguma coisa             php?option=com_content&view=article&id=643:projeto-de-
                                                                                      carbono-colabora-com-o-desenvolvimento-sustentavel-de-
através do sistema agroflorestal,           também, às vezes a gente precisa          comunidades-no-parana&catid=5:noticias&Itemid=5
como proposta principal para                construir uma casa, precisa tirar uma     2 - http://www.spvs.org.br/download/boletins/bol_jan10.html :

futuramente gerar renda para as             madeira. No caso, não pode e, aí, fica    3 - Comunidades que surgiram da miscigenação genética
                                                                                      e cultural entre os primeiros colonizadores portugueses e
famílias. Além disso, cada uma das          difícil. (...) Antes a gente fazia para   indígenas que viviam no litoral. Vivem de forma isolada,
famílias terá sua área individual para      plantar roça onde hoje você não pode      praticando diferentes atividades para sua sobrevivência. (fonte:
                                                                                      http://www.ilhabela.com.br/CULTURA/index.html)
sua subsistência básica.                    mais. Quando a SPVS entrou, acabou        4 - http://www.hsbc.com.br/1/2/portal/pt/sobre-o-hsbc/
  A área do acampamento faz limite          tudo. Onde meu pai morava, hoje não       sustentabilidade/meio-ambiente/hsbc-climate-partnership




                                                                                                                                                    37
O REDD na vida real
       No Amazonas, a flexibilização da legislação, o ajuste estrutural das políticas ambientais e a
        privatização das unidades de conservação estaduais estão umbilicalmente relacionados à
      implantação dos mecanismos de “economia verde”. Para piorar, comunidades que preservam
                     a floresta, de fato, são impedidas de viverem de modo tradicional

“
     É
          interessante, nessa discussão do REDD e de tudo o que está         A gente também percebe que, juntamente com o REDD, foi feito nos
          por trás, observar que a primeira lei de mudanças climáticas     últimos anos, a flexibilização das leis ambientais, exatamente para
          do Brasil foi feita aqui no Amazonas, antes até da lei           garantir o REDD. Você faz uma lei - que é a concessão de florestas
federal. E houve toda uma preparação sobre a criação de unidades de        públicas; depois faz uma outra lei - que é a de regularização fundiária
conservação, que a gente percebe hoje que foi feita exatamente para        na Amazônia, a 11.952; depois, faz a mudança do Código Florestal.
vender mesmo os créditos de carbono.                                       Ou seja, três leis super importantes que vão atingir diretamente a
  Temos mais de 60 unidades de conservação no estado, entre reserva        Amazônia. Por que tudo isso? A legislação ambiental era muito rígida
de desenvolvimento sustentável, reserva extrativista, floresta estadual    com a Amazônia, na forma de preservar, de utilizar os recursos e
e parque estadual. Estes tipos de unidades foram criadas no estado; e,     com essa flexibilização agora, você vai poder desmatar, vai poder
hoje, estão negociando um mercado de carbono em Chicago.                   fazer várias coisas, desde que depois pague com compensações ou
  Foi criado também a FAS, Fundação Amazonas Sustentável.                  mitigações ambientais. Então, na verdade, você percebe um REDD,
Quem investiu nela foi o Bradesco, a Coca Cola... Várias empresas          mas um REDD estadual. A gente vê isso claramente na forma como foi
transnacionais investiram muitos recursos. E em cima deste fundo,          construído para chegar neste ponto em que chegou. Para nós, é uma
elas têm dado R$ 50 reais por família por mês. O que é ruim é que          preocupação muito grande.
as famílias não podem mais fazer nada na terra. Toda aquela forma            Seria legal se a gente pudesse fazer um levantamento, um
de lidar com a terra - que sempre tiveram porque são comunidades           acompanhamento de todas as unidades de conservação e ver como as
tradicionais, ribeirinhos... Hoje não podem mais fazer nem uma roça        unidades mais antigas não modificaram e não melhoraram a qualidade
pra plantar a mandioca pra fazer farinha. Isso, pra nós, é um absurdo      de vida dessas comunidades. É o contrário. E muitas delas pioraram
muito grande porque se eles sempre fizeram e sempre preservaram, por       porque agora elas não podem nem mais plantar a mandioca que antes
que o estado hoje está reprimindo?                                         se fazia a farinha, um dos meios de vida deles.
  Outro agravante é que a FAS, apesar de receber todos estes recursos        Hoje, a gestão dessas unidades de conservação estaduais é feita pela FAS.
do estado, é uma entidade privada. E ninguém sabe quanto ela recebe,       A gente não consegue entender isso porque, pela lei do estado, [isso] seria
de que forma ela presta conta, porque ela não presta conta. É uma          inconstitucional. Porque se é uma unidade de conservação do estado, eu
caixa preta, que ninguém abre, ninguém sabe. Tudo isso é bastante          não posso passar aquilo para uma entidade privada. E em todas as unidades
complicado. O ex-governador Eduardo Braga continua ganhando                de conservação do estado, a gestão é da FAS. Já era da FAS, quando a FAS
prêmios internacionais porque ele se diz como defensor da floresta. E,     foi criada... Criaram vários institutos para administrar, para fazer a gestão
na prática, a gente tem visto que o estado tem ganho muito dinheiro        das unidades de conservação. Hoje, elas estão todas dentro da FAS. A
com a preservação, enquanto as famílias continuam pobres, exploradas,      gestão não é do governo do estado, apesar dessas unidades de conservação
e os conflitos agrários que existiam nessas áreas onde foram construídas   serem do estado. A gestão é da FAS e todo recurso que vem para o governo
unidades de conservação não foram resolvidos. Então, este é um             do estado, vai também para a FAS. E quem é que administra a FAS?
complicador muito grande porque nós lutamos pela demarcação das            Dentre outras pessoas, o Virgílio Viana, ex-secretário de Desenvolvimento
unidades de conservação, mas para garantir a vida que as comunidades       Sustentável do Estado do Amazonas, que era a Secretaria de Meio
tradicionais sempre viveram. E a gente tem visto que as unidades do        Ambiente. Tudo é coligado para arrecadar dinheiro e não repassar para
estado não têm respondido a isso.                                          quem, de fato e de direito preserva, que são as comunidades tradicionais.”
                                                                                                  karmo




                                                                                                           Depoimento de Marta Valéria, Comissão
                                                                                                           Pastoral da Terra (CPT), regional Amazonas,
                                                                                                           participante do Seminário Regional sobre
                                                                                                           Mudanças Climáticas na Amazônia,
                                                                                                           recolhido por Lucia Ortiz, em agosto de 2011
                                                                                                           (link para o vídeo-testemunho:
                                                                                                           www.youtube.com/watch?v=1M5bq1l-E1Y)




38
Alimento para a mente
 Para contribuir na compreensão deste tema complexo e ainda tão obscuro, a Contra Corrente preparou
uma relação de materiais, disponíveis na internet, sobre os principais instrumentos do capitalismo “verde”,
    como REDD, pagamento por serviços ambientais e mercado de carbono, dentre outros. Aproveite!




Pagamento por Serviços Ambientais (TEEB)                                                                                        Basta de dívidas: pelos direitos humanos e os
e flexibilização do Código Florestal para um                                                                                    direitos da natureza, Jubileu Sul, agosto de 2010,
capitalismo “verde”, Terra de Direitos, agosto de                                                                               em português: http://www.jubileubrasil.org.br/
2011, em português:                                                                                                             somos-credores/divida-ambiental/Cartilha%20
http://terradedireitos.org.br/biblioteca/pagamento-                                                                             basta%20de%20debitos%20final.pdf
por-servicos-ambientais-e-flexibilizacao-do-                                                                                     
codigo-florestal-para-um-capitalismo-verde/                                                                                     REDD na Colômbia, Censat Amigos da Terra
                                                                                                                                Colômbia, agosto de 2010, em espanhol:
Projetado para fracassar? Os conceitos, práticas                                                                                http://www.censat.org/component/content/
e controvérsias por trás do comércio de carbono.                                                                                article/1021 
Fern, junho de 2011, em português: http://www.                                                                                   
fern.org/projetadoparafracassar                                                                                                 O REDD e a destruição dos povos indígenas do
                                                                                                                                planeta, artigo da Organização Fraternal Negra
Banco Mundial: catalizador da devastadora                                                                                       Hondurenha, Ofraneh, agosto de 2010, em
mudança climática, Amigos da Terra Internacional,                                                                               espanhol:
junho de 2011, em espanhol: http://www.foei.org/                                                                                http://www.censat.org/component/content/
es/recursos/publicaciones/pdfs-por-ano/2011/                                                                                    article/1027
banco-mundial-catalizador-del-cambio-                                                                                            
clima301tico-devastador/view                                                                                                    REDD e o futuro das florestas: uma opção pelo
                                                                                                                                ambientalismo de mercado?, Amigos da Terra
O REED+ e os mercados de carbono: dez mitos                                                                                     Brasil, abril de 2010, em espanhol:
explodidos, Fern, Amigos da Terra Internacional,                                                                                http://www.natbrasil.org.br/Docs/publicacoes/
Greenpeace e Fundação Floresta Tropical, junho                                                                                  cartilhareddweb.pdf
de 2011, em português: http://www.fern.org/
REDDdezmitosdetonados                                                                                                             Documento final sobre Dívida Climática da
                                                                                           Conferência dos Povos, em Cochabamba, Bolívia, abril de 2010, em espanhol: http://www.
Boletim Desenreddando REDD, já com quatro edições, Censat Amigos da Terra Colômbia,        jubileubrasil.org.br/somos-credores/divida-ambiental/divida-climatica-resultado-da-
2011, em espanhol:                                                                         conferencia-de-cochabamba-abril-2010/
http://www.censat.org/articulos/10062-desenreddando/                                        
                                                                                           Declaração sobre REDD do Grupo de Trabalho Floresta da Conferência dos Povos, em
Reflexões estruturais sobre o mecanismo de REDD, edição 146 do Cadernos IHU Idéias,        Cochabamba, Bolívia, abril de 2010, em espanhol:
entrevista com Camila Moreno, 2011, em português:                                          http://cmpcc.org/2010/04/28/conclusiones-finales-grupo-de-trabajo-14-
http://www.ihu.unisinos.br/uploads/publicacoes/edicoes/1303995179.8012pdf.pdf              bosques/#more-1860

Justiça Climática, Proposta - Revista Trimestral de Debate da Fase, no 122, 2011, em       Carta de Belém, resultante do Seminário Clima e Floresta - REDD e mecanismos
português: http://www.fase.org.br/vitrine/lojinha/produto.php?id=148                       de mercado como solução para a Amazônia?, em Belém, outubro de 2009, em
                                                                                           português: http://www.jubileubrasil.org.br/somos-credores/divida-ambiental/carta-de-
REDD, Uma Leitura Crítica, coletânea de artigos, dezembro de 2010, em espanhol:            belem-sobre-o-clima-e-a-floresta/
http://www.carbontradewatch.org/articles/redd-una-lectura-cr-tica.html 
                                                                                           REDD Não! Guia para Povos Indígenas, IEN, Rede Ambientalista Indigena, 2009, em
Declaração de Cancun: mudar o sistema, única forma de superar a crise climática,           espanhol:
dezembro de 2010, em espanhol: http://www.jubileubrasil.org.br/somos-credores/divida-      http://noredd.makenoise.org/no-redd-guia-para-pueblos-indigenas.html
ambiental/declaracao-de-cancun-mudar-o-sistema-unica-forma-de-superar-a-crise-              
climatica/                                                                                 Mitos sobre o REDD, Amigos da Terra Internacional, 2008, em espanhol:
                                                                                           http://www.foei.org/es/recursos/publicaciones/pdfs-por-ano/2008/redd-myths/view
Declaração Cumbre Sul-Sul sobre Justiça Climática e Financiamento para o Clima, dezembro    
de 2010, em espanhol: http://www.jubileubrasil.org.br/somos-credores/divida-ambiental/     Vozes das Comunidades Afetadas pelas Mudanças Climáticas, Amigos da Terra
declaracao-cumbre-sul-sul-sobre-justica-climatica-e-financiamento-para-o-clima/            Internacional, novembro de 2007, em português: http://www.natbrasil.org.br/Docs/
                                                                                           publicacoes/mudancas_climaticas_portugues_NAT.pdf
REDD: realidades em branco e preto, Amigos da Terra Internacional, novembro de 2010, em
português:                                                                                 A História do Mercado de Emissões, Free Range Studios (mesmo gurpo que produziu a
http://www.foei.org/es/recursos/publicaciones/pdfs-por-ano/2010/redd-as-realidades-em-     História das Coisas), Animação, 20 min, em inglês, legendado: http://www.youtube.
branco-e-preto                                                                             com/watch?v=IPS5jTwo1Tk
“A humanidade está diante de uma grande encruzilhada:
continuar pelo caminho do capitalismo, da depredação
e da morte, ou empreender um caminho de harmonia
com a natureza e o respeito à vida”.
(Acordo dos Povos, abril 2010, Cochabamba, Bolívia)




A pifeira Zabé da Loca é um símbolo de resistência e comunhão
com o ambiente em que vive, o cariri paraibano.

Contracorrente3

  • 1.
    Número 3 CONTRA CORRENTE para quem desafia o pensamento único CRI$E CLIMÁTICA As mudanças no clima são apropriadas por corporações, instituições financeiras e governos como uma oportunidade de legitimar o capitalismo “verde” e aprofundar a exploração dos povos e a mercantilização da natureza. Uma nova roupagem para um velho modelo. • Impactos sociais severos • Os fundos verdes do BNDES • Rio+20: captura pelo mercado na África e no Brasil ainda estão em disputa? e fortalecimento da resistência
  • 3.
    Editorial Índice Compreender para resistir 4 Os Bancos já entraram no clima Monotonia conveniente: 6 E conomia verde, mitigação, mercado de carbono, IPCC, PSA, REDD, MDL, a ideologia aquecimentista UNFCCC, GEE, emissões, Anexo 1... Se o vocabulário e os conceitos utilizados pelo sistema financeiro sempre estiveram longe de ser facilmente 9 A construção social da crise climática assimilados pela maioria da população brasileira, em se tratando do debate sobre as mudanças climáticas, a falta de compreensão de seu real significado é, Rio+(ou -) 20: chancela também, explícita. A cobertura alarmista e superficial feita pela mídia sobre os 12 para o capitalismo verde? “fenômenos climáticos” faz com que as pessoas se acostumem a ouvir alguns Banco Mundial Fora do Clima!... jargões, siglas e termos técnicos, mas não oferece subsídios para uma reflexão 16 e de nosso países consistente sobre o tema. Pior ainda é que, por interesses corporativos, muita informação não é veiculada. Ou é, simplesmente, mascarada com expressões REDD: financiamento leves, como “sustentável”, “verde”, “ecológico”, “florestal”. No entanto, apesar do vasto desconhecimento sobre o paradigma das mudanças 19 para florestas ou financeirização climática climáticas, ele tem avançado de modo bastante rápido, tanto nos territórios, como nos gabinetes governamentais e escritórios de corporações. Prova disso é 21 Fundo Clima: útil, mas suficiente? que há no Congresso, atualmente, dois projetos de lei (PL 5487/2009, que institui a Política Nacional dos Serviços Ambientais; e PL 5586/09, que regulamenta a 23 De olho nos investimentos na Amazônia Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação – REDD) que podem ser aprovados sem a realização de um amplo debate com a sociedade e antes mesmo Petróleo do Pré-Sal: das definições internacionais (nas conferências do Clima, na África do Sul, e da 25 investindo no passado Biodiversidade, na Índia, além da Rio + 20). Emissões: os impactos mais Neste sentido, esta edição da Contra Corrente pretende contribuir para uma 27 renegados das hidrelétricas compreensão qualificada deste relevante debate, especificamente, no que se refere ao financiamento ao clima. Novamente, contando com a colaboração de África: expropriação de terras valiosos interlocutores, reunimos artigos que, a partir da perspectiva assumida 31 e mudanças climáticas pelo conjunto da Rede, em sua VIII Assembléia Geral, realizada em junho de 2010, percebem o uso das mudanças climáticas como justificativa para um 34 Raposa no galinheiro novo – e perigoso - avanço do capital, dessa vez, travestido de “verde”. Casos e depoimentos sobre a apropriação de terras em Moçambique, no Paraná e no 38 O REDD na vida real Amazonas trazem concretude para estas análises críticas. Interessante observar que essa financeirização da natureza é bancada 39 Alimento para a mente politicamente pelas mesmas velhas instituições, com destaque para o Banco Mundial. Segundo maior banco de fomento do mundo e capitalizado continuamente pelo Tesouro Nacional, o BNDES tem se projetado também como um gestor dos financiamentos relacionados ao clima. Com a proposta de abarcar a diversidade de atores e posicionamentos da Rede, Contra Corrente é uma publicação da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais esta revista apresenta também textos que vão no outro sentido: o de acreditar Número 03, Outubro de 2011 que mecanismos como o REDD, por exemplo, estão ainda em disputa e, portanto, Edição: Patrícia Bonilha podem sim apoiar a proteção das florestas e de seus povos. O aquecimentismo e a Revisão: Gabriel Strautman, Lúcia Ortiz e Patrícia Bonilha Projeto Gráfico e Capa: Guilherme Resende necessidade de politizar as discussões, assim como os investimentos na Amazônia, Foto da Contracapa: João Correia Filho no Pré-Sal e nas polêmicas hidrelétricas, também estão contemplados nesta Os artigos assinados refletem a opinião de seus autores/as. edição. Por último, reunimos uma extensa lista de materiais para quem quiser E não necessariamente, são questões consensuadas na Rede Brasil. mergulhar no debate do clima, a partir de uma perspectiva crítica. SCS Qd 01, Bloco L, Edifício Márcia, sala 904 Brasília - DF, CEP 70307-900 • t + 55 61 3321-6108 Esperamos que você aprecie. Boa leitura! www.rbrasil.org.br
  • 4.
    Gabriel Strautman* Os Bancosjá entraram na “farra” do clima A silenciosa e rápida financeirização da natureza exige que a Rede Brasil se aproprie do debate com a missão de explicitar as reais e falsas soluções E m 2010, foram alocados o setor de energia realizados entre Contradições lá e cá aproximadamente 10 bilhões de 2008 e 2010 - ou seja, já durante O mesmo tipo de análise pode ser dólares, em todo o mundo, no a crise climática -, ainda são para feita em relação ao Banco Nacional de financiamento de projetos de adaptação fontes intensivas em carbono, como Desenvolvimento Econômico e Social e mitigação das mudanças climáticas1. as termelétricas e o petróleo3. A (BNDES), que desde 2008 administra Segundo dados do Banco Mundial2, este organização, acompanhada de várias o Fundo Amazônia4. Até agora foram valor deverá alcançar uma média anual outras, também argumenta que as contratados catorze projetos e outros de 275 bilhões de dólares antes de 2030, alternativas do Banco Mundial para cinco estão em fase de contratação, num tendo em vista as previsões sobre a valor aproximado de 222 milhões de necessidade de redução das emissões de gases de efeito estufa. Para isso, novos “O papel de reais,5 no marco deste que é considerado o maior fundo de promoção à Redução fundos deverão ser criados ao longo das próximas décadas e, desde já, instituições instituições como o de Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD) existente no como o próprio Banco Mundial – entre outros bancos de desenvolvimento Banco Mundial tem mundo hoje. Apenas para efeito de comparação, em multilaterais, regionais e nacionais – estão liderando a gestão destes sido o de construir 31 de março deste ano, o BNDES aprovou um empréstimo ponte de 3,6 bilhões de volumosos recursos. No entanto, a legitimidade destas e dar escala a este reais para o consórcio Norte Energia para alavancar o início das obras do instituições financeiras para administrar polêmico projeto da Usina Hidrelétrica de esses fundos de mitigação e adaptação verdadeiro mercado Belo Monte, em plena Amazônia e que às mudanças climáticas tem sido deve resultar na destruição de cerca de duramente questionada. Organizações de compra e venda 50 mil hectares de floresta. Sem entrar e movimentos sociais de diferentes no debate sobre os problemas, limites e países afirmam a existência de uma do direito a poluir, riscos de tais mecanismos, parece mesmo grave contradição, na medida em que haver uma contradição no fato de que são também estas mesmas instituições que é o mercado o mesmo BNDES, que afirma financiar as responsáveis pelo financiamento iniciativas de preservação da floresta com do sistema capitalista e do modelo de de carbono.” milhões de reais, contribua com bilhões desenvolvimento neoliberal, baseado para a sua destruição. O que pretendem, nos combustíveis fósseis (principal combater o aquecimento global, portanto, as instituições financeiras ao causador do aquecimento global). tais como o mercado de carbono, reivindicarem a gestão dos fundos para o Em publicação recente, a organização usinas hidrelétricas, produção de combate ao aquecimento global? Amigos da Terra Internacional chamou agrocombustíveis e o monocultivo de Essa talvez seja a pergunta central a atenção para o fato de que 56% dos árvores não passam de falsas soluções neste debate sobre as possíveis soluções financiamentos do Banco Mundial para para o clima. para o problema da mudança climática 4
  • 5.
    Contra Corrente “O que pretendem, portanto, as instituições financeiras ao reivindicarem a gestão Gabriel Strautman dos fundos para o combate ao aquecimento global?” A contradição de instituições e países industrializados no financiamento ao clima: aplicam o veneno e oferecem o remédio CommonDreams.org e sobre o papel que os bancos devem seus negócios usuais, com a expectativa ter. Além da limitação destas iniciativas de que suas emissões poderão vir a ser para superar o problema estrutural compensadas. O papel de instituições por trás da mudança climática, um como o Banco Mundial, historicamente Nota da editora: a utilização de imagens com detalhe importante sobre a formação controlado pelos mesmos países expressões em inglês nesta publicação sinaliza dos fundos para adaptação e mitigação industrializados, tem sido o de que os debates, materiais e mobilizações sobre este tema no Brasil ainda são recentes. das mudanças climáticas é que a grande construir e dar escala – através da maioria destes é formada a partir de canalização destes volumosos recursos doações dos países industrializados que – a este verdadeiro mercado de compra * Gabriel Strautman é economista e secretário executivo também mantém práticas contraditórias. e venda do direito a poluir, que é o da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais – O Fundo Amazônia, por exemplo, mercado de carbono. gabriel@rbrasil.org.br foi formado a partir de uma “doação” A construção do mercado de carbono do governo norueguês. Embora invista no Brasil está sendo feita de maneira 1– Banco Mundial. World Development Report 2010, disponível em http://econ.worldbank.org/WBSITE/EXTERNAL/EXTDEC/ nestes fundos no Brasil e também silenciosa e rápida, com a liderança EXTRESEARCH/EXTWDRS/EXTWDR2010/0,,menuPK:5287748~pa na Indonésia, a Noruega é dona de de instituições financeiras como o gePK:64167702~piPK:64167676~theSitePK:5287741,00.html empresas petroleiras como a Statoil (que Banco Mundial e o BNDES. Para a 2– Idem está construindo uma parceria com a Rede Brasil, portanto, o debate sobre Petrobrás) e a Norsk Hydro (que investe o financiamento para o clima torna- 3– Friends of the Earth. World Bank: catalysing catastrophic climate change: the world bank’s role in dirty energy investment na exploração de bauxita na Amazônia, se obrigatório, e passa pela produção and carbon markets, disponível em http://www.foei.org/en/ se aproveitando também da construção de análises e o compartilhar de resources/publications/pdfs/2011/world-bank-catalysing- catastrophic-climate-change de Belo Monte como possível fonte de conhecimento. O propósito deve ser o energia futura). de que os verdadeiros responsáveis pelo 4– Desde 2009, o BNDES também administra o Fundo Nacional A existência desses fundos permite aquecimento global paguem a conta e sobre Mudanças Climáticas, mas que ainda se encontra na fase de definição dos seus critérios operacionais. que esses países, grandes responsáveis de que falsas e perigosas soluções não pelo aquecimento global, continuem nos sejam impostas, agravando ainda 5– http://www.fundoamazonia.gov.br/FundoAmazonia/ fam/site_pt/Esquerdo/Projetos/ e http://www.bndes.gov.br/ poluindo, já que por esta via constroem mais a exploração das riquezas naturais SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/BNDES_Transparente/ uma imagem verde apesar de seguir e dos povos do Sul. Consulta_as_operacoes_do_BNDES/setorprivado.html 5
  • 6.
    Oswaldo Sevá* Monotonia conveniente: aideologia aquecimentista Discordando de uma insistência quase hegemônica, há quem problematize o debate sobre o aquecimento global a partir da política e do próprio rigor científico E sclarecimento necessário: o autor Como engenheiro mecânico e velho do decaimento radiativo - é o que dizem desse artigo não é climatólogo, pesquisador na área de Energia, tem atualmente os estudiosos da física nem pesquisador de química ou plena consciência de que a atmosfera, nuclear e da astronomia, e faz sentido. física atmosférica, nem geólogo. Não tem essa estupenda casquinha de gases, Muita gente sabe ou intui que não condições profissionais nem legitimidade poeiras, vapores e condensados que nos fervemos nem explodimos ao fim de para afirmar nem desmentir assertivas envolve, é uma máquina termodinâmica um dia de verão tórrido porque no sobre a história recente ou remota do com dois motores: a radiação do sol que outro hemisfério faz frio no mesmo planeta Terra, nem sobre dimensões e nos bate a cada segundo e em todos dia, e a massa atmosférica se vira comportamento do seu imenso volume os recantos a cada dia e ano; e o calor como pode soprando ventos e sendo de águas oceânicas, lacustres, fluviais interno do núcleo fundente do planeta. sacudida pelos alíseos da rotação e da sua imensa massa de gelos, neves, A longuíssimo prazo, parece que esses planetária. Também porque a casquinha nuvens e chuvas. dois motores tendem a esfriar por causa de poucos quilômetros de espessura conta com um poderoso e onipresente estabilizador e dissipador dessa energia, a massa aquática bem mais espessa, em permanente circulação, em incessante troca de estados físicos: de líquido a sólido e de novo a líquido, daí a vapor e, de novo, a líquido. De fato há consenso de que a atmosfera da Terra é única e funciona para nós como uma verdadeira estufa de criar plantas; que ela segura por aqui, por causa das sucessivas reflexões dos raios nas camadas de gases, poeiras, nuvens e gotículas, um pouco do estupendo calor que retornaria, se perdendo, ao espaço sideral. O planeta sim resfriaria se não existisse a atmosfera como ela é. Em inglês, é o “greenhouse”, na Guilherme Resende língua francesa, o “effet de serre”, na castelhana, o “efecto invernadero”. Em todas as línguas, a compreensão de que a casquinha irradiada e quase transparente é tão fundamental para a vida como o Há muitos interesses , propositadamente, não explícitos no atual debate sobre o aquecimento global calor do útero. Eis o único consenso. 6
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    Contra Corrente O restante da conversa é criação da inclemente dos anos de 1930 foi O homem coloca apenas 6 bilhões de linguagem, da sociedade, suas ciências reavivada pelo verão extremamente toneladas, portanto as emissões humanas e suas mídias. Quando se quer afirmar a quente de 1988, e daí: “Seguiu-se-lhe representam 3%. Se, nessa conferência, todo custo, que “está aquecendo” e que a dramatização (‘greenhouse panic’). conseguirem reduzir a emissão pela isto resulta da nossa ação, chamada de Inicialmente assunto da climatologia, o metade, o que são 3 bilhões de toneladas “antrópica”, trata-se de uma ideologia tema passou a ser tratado com emoção em meio a 200 bilhões? Não vai mudar refinada, uma crença monótona, e irracionalidade. Depressa evoluiu para absolutamente nada no clima.” conveniente para muitos lados das lutas o alarmismo. Perdeu o seu conteúdo políticas e de classes deste novo milênio. científico. Questiona-se actualmente: A ciência do clima: Nem todos, aliás!, como veremos aqui estaremos ainda a falar de climatologia? observações versus modelos algumas pistas. Com uma ‘convicção’ geralmente O site californiano Global Research.Ca proporcional à ignorância dos rudimentos acompanha com farta publicação temas Aquecimento global: da disciplina, os ‘climatólogos tão variados como ambiente, petróleo e uma impostura científica autoproclamados’ propagam hipóteses energia, biotecnologia, medicina, pobreza Este é o impiedoso título de um extenso procedentes dos modelos. Hipóteses e, especialmente, os crimes contra a artigo publicado em 2003 pelo cientista infundadas ou mal estabelecidas e não humanidade, a militarização e o estado francês Marcel Leroux, recentemente corroboradas pelas observações.” policial emergente após o atentado falecido. Professor de Climatologia da Leroux é bem precavido quanto ao de 11 de setembro. Nele, o articulista Universidade Jean Moulin - Lyon III e fato propalado de que os relatórios do Richard Moore compila os resultados diretor do Laboratório de Climatologia Painel Intergovernamental das Mudanças da análise do gelo da Groenlândia que do Centre National de la Recherche Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) são indicam as temperaturas no hemisfério Scientifique (CNRS), ele é o autor dos preparados por “centenas de cientistas”: Norte no período longo de 2.000 anos livros Global Warming: Myth or Reality? “O número anunciado pode iludir e AC até o ano de 1900, e organiza as The Erring Ways of Climatology e La esconder o monolitismo da mensagem. medições das temperaturas da superfície dynamique du temps et du climat. Eis Na realidade, uma pequena equipa terrestre em três latitudes distantes, dessa alguns trechos selecionados do início do dominante impõe os seus pontos de data até hoje. seu artigo, traduzido pelo site português vista a uma maioria sem competências Para o leitor sedento dos números e Resistir.Info: climatológicas. O ‘I’ de IPCC significa, gráficos, ele registra os principais links “O aquecimento global é uma hipótese com efeito, ‘intergovernamental’. Significa dos relatórios do satélite NOOA, do fornecida por modelos teóricos. Baseia- que os pretensos cientistas são antes do Instituto Goddard, do Centro Marshall, se em relações simplistas que anunciam mais representantes governamentais.” bem como os trabalhos recentes de Roy um aumento da temperatura, proclamado Encontrar um brasileiro, especialista, Spencer, (da University of Alabama, mas não demonstrado. São numerosas que conteste a monotonia da pauta Huntsville e do U.S. Science Team as contradições entre as previsões “aquecimentista” foi bem mais difícil, Leader for the Advanced Microwave e os factos climáticos observados mas... existe um meteorologista, Scanning Radiometer) que trata os directamente. A ignorância destas que aqui representa a Organização dados do satélite NASA-Acqua. Ele distorções flagrantes constitui uma Meteorológica Mundial, com sede em tirou conclusões opostas às da ideologia impostura científica. Nos anos 70 (do Genebra, o sr. Luis Carlos Molion. Ele aquecimentista, principalmente por causa séc. XX) verificou-se um desvio climático assim respondeu a uma pergunta do do comportamento das nuvens pesadas (que os modelos não ‘previram’). site UOL Ciência e Saúde, em dezembro (cirrus) e das chuvas quando ocorre Traduziu-se num aumento progressivo da de 2009, enquanto se desenrolava a aquecimento da superfície terrestre. Para violência e da irregularidade do tempo badalada e fracassada Conferência COP não cometer erros, traduzo abaixo um e foi provocado pela modificação do 15, na capital da Dinamarca: trecho de Moore, comentando a pesquisa modo de circulação geral da atmosfera. “Q: O senhor, então, contesta qualquer de Spencer: “O que ele encontrou, O problema fundamental não é prever influência do homem na mudança de dirigindo os sensores dos satélites para o clima em 2100. Deve-se, antes, temperatura da Terra? os alvos apropriados, é que a resposta de determinar as causas daquele desvio Molion: Os fluxos naturais dos oceanos, retroalimentação (‘feedback response’) climático recente. Isso permitiria prever a pólos, vulcões e vegetação somam 200 é mais negativa do que positiva. Em evolução do tempo no futuro próximo.” bilhões de toneladas de emissões por ano. particular, ele verificou que a formação Mais adiante, ele lembra que nos A incerteza que temos desse número é de nuvens ‘cirrus’ de tempestades é Estados Unidos, a memória do tempo de 40 bilhões para cima ou para baixo. inibida quando as temperaturas da 7
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    superfície do globosão altas. As nuvens “Além disso, os registros de longo Um contra-exemplo: ‘cirrus’ são elas mesmas um poderoso gás prazo mostram que a temperatura No início de outubro deste ano, de efeito estufa, e essa diminuição na sua foi no passado muito mais alta que organizamos na Universidade Estadual formação pode compensar o aumento de hoje – inclusive há apenas mil anos de Campinas (Unicamp) um Fórum aquecimento causado pelo CO2”. (o Período de Aquecimento Medieval) intitulado “Injustiça Ambiental e Saúde: – e nenhum desastre bizarro, tal os atingidos pela poluição do ar”, no qual Os modelos climáticos como a extinção de ursos polares ou pesquisadores universitários e lideranças e a opinião pública ciclos de retroalimentação positiva de entidades não governamentais Cito agora trechos de Moore onde ele (runaway feedback loops), ocorreu levaram o seu testemunho e experiência desvenda o restante da argumentação em consequência disso. Assim sobre o avanço dramático dos números científica-e-política pois, nesse caso, como com o modelo ptolomaico, há medidos de poluição do ar (poeiras, não temos mais como separar uma facções politicamente poderosas que fumaças, hidrocarbonetos, inclusive os da outra: “No caso dos modelos encamparam para seus próprios aromáticos bastante patogênicos, gases climáticos que estão sendo usados propósitos a teoria do aquecimento de nitrogênio e de enxofre, precursores pelo IPCC, a suposição é de que o global danoso de origem antropogênica. de chuvas ácidas e de ozônio respirável) e CO2 é um controlador fundamental Por enquanto, basta dizer que sobre a degradação das condições de vida do clima. Há uma base intuitiva para generosos fundos foram fornecidos de populações em áreas carboníferas, essa suposição, dado que o CO2 é um para os cientistas da CRU (Climatic siderúrgicas e do agronegócio. Esses gás de efeito estufa, e tanto o CO2 Research Unit), que ficaram mais que temas e assuntos cruciais para a saúde e como a temperatura tem-se elevado dispostos a ‘refinar’ o modelo para sobrevivência do ambiente e da espécie substancialmente no último século. lidar com a ‘verdade inconveniente’ humana vêm sendo obscurecidos, Além disso, observou-se uma forte dos problemas do modelo - mesmo que desprezados e omitidos pelos que, nas correlação entre os níveis de CO2 e a isso requeresse coisas como ‘esconder empresas, governos, universidades e temperatura em registros de longo prazo o declínio’. ONGs, passaram a seguir a moda e o revelados por amostras de gelo. Mais Finalizo protegendo a credo aquecimentista. Muito antes de ainda, a queima de combustíveis fósseis própria imagem: criticando os aquecer, se é que aquece... a atmosfera continua a poluir a atmosfera (e os “aquecimentistas”, tem gente séria está certamente sendo envenenada. oceanos) com níveis cada vez mais altos e bem informada como os citados, de CO2. Isso levou à hipótese de que a mas também vários fundamentalistas temperatura pode se elevar abruptamente, neo-liberais, guerrilheiros do livre colocando em perigo a vida no planeta. mercado, a indústria carbonífera, Tudo isso foi apresentado de forma além dos senhores do petróleo e suas bastante dramática por Al Gore em seu guerras. Quem se interessar, vá ao site famoso documentário.” 
 Competitive Enterprise Institute, de * Oswaldo Sevá é engenheiro mecânico, doutor em Lembrando que o famoso modelo do onde se pode navegar no http://www. Geografia Humana e professor da Universidade Estadual egípcio Ptolomeu, no segundo século da globalwarming.org/ e, daí, pular para de Campinas (Unicamp) – seva@fem.unicamp.br e era cristã, colocando a Terra no centro do outro endereço que questiona o falado www.fem.unicamp.br/~seva sistema solar, era quase perfeito, Moore filme Uma verdade inconveniente – destaca que: “Assim como com o modelo http://www.noteviljustwrong.com/ referências bibliográficas Leroux, Marcel: Réchauffement global: une imposture ptolomaico, há vários problemas com home (ou seja: ele não é o diabo, scientifique foi publicado no nº 95, Março-Abril/2003 da revista a suposição de que o CO2 condiciona o apenas está errado). Um dos mais Fusion. http://www.revuefusion.com/images/Art_095_36.pdf . clima, e com a predição de aquecimento ferinos desses “direitosos” publicou, Os trechos aqui reproduzidos na íntegra foram obtidos no site português http://resistir.info/climatologia/impostura_cientifica. perigoso. Em primeiro lugar, os registros em 2007, Os 35 erros do filme de Al html. Mais informação em português, acerca da teoria do Prof. de longo prazo mostram que primeiro a Gore. Seu nome plebeu é Christopher Leroux em http://mitos-climaticos.blogspot.com temperatura sofreu mudanças históricas, Walter, mas trata-se do Terceiro Molion, Luis Carlos, entrevista em “Não existe aquecimento seguidas muito depois por alterações Visconde Monckton of Brenchley, global”, diz representante da OMM na América do Sul, Carlos nos níveis de CO2. Outra coisa é que assessor político direto da ex-primeira Madeiro, 11.12.2009, no site http://noticias.uol.com.br/ultnot/ cienciaesaude/ tem havido períodos de resfriamento ministra Margaret Thatcher. Espero não significativo em anos recentes, mesmo ser confundido com essa gente, e que Moore, Richard Climate Sciences: Observations x Models, 08.01.2010, acessível em http://www.globalresearch.ca/index. enquanto os níveis de CO2 continuaram a eu tenha honrado o nome da revista: é php?context=va&aid=16865, Em português em http://resistir. se elevar dramaticamente.” hora e vez de estar na Contra Corrente! info 8
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    Fabrina Furtado* Contra Corrente A construção social da crise climática O reducionismo científico no trato das mudanças climáticas encobre a crise política e econômica; também leva à errônea percepção de defesa de interesses comuns E ntro nesse debate compartilhando a percepção da Rede Brasil: a necessidade premente de limitar a busca incessante do capital pelo domínio da natureza, entendendo a crise climática como uma construção social e não como um fenômeno científico- natural. Inicio esta discussão a partir da luta por reparações da dívida ecológica e pelo fim de instituições como o Banco Mundial, que se apropriaram, reduziram e transformaram a questão climática em um meio de aprofundar a acumulação capitalista. Desde a era colonial, a escravidão, a extração de minerais e hidrocarbonetos, as monoculturas e o roubo da biodiversidade e de conhecimentos tradicionais consolidaram o poder e a supremacia dos países do Norte (Europa, Estados Unidos, Japão, Canadá e outros que integram a lista das nações mais ricas do mundo). Este uso e abuso da “O IPCC reduziu a questão ambiental às mudanças climáticas, e esta às emissões de carbono”: natureza e dos povos do Sul originaram debate alarmista e política do medo uma dívida ecológica que continua aumentando através de mecanismos de Nações Unidas sobre Mudança do Clima direito, com a qual a sociedade tem uma opressão e de controle, como a dívida (CQNUMC). Esta proposta foi assinada relação indivisível, interdependente, financeira, o chamado mercado livre, a pela Venezuela, Malásia, Paraguai, Sri complementar e espiritual -, este subjugação cultural e o uso da força. Lanka, Butão, Etiópia e Micronésia (JS, governo também promove um modelo Tendo como argumento que os países 2010). de desenvolvimento baseado em uma do Norte são os maiores responsáveis Vale destacar aqui a contradição entre matriz exportadora de hidrocarbonetos, pela crise climática e, portanto, devem o discurso internacional do governo hidroeletricidade, mineração, pagar pelos seus custos e consequências, boliviano e suas ações domésticas. agroindústria e da manufatura florestal em 2009, o governo boliviano Embora seja o principal defensor da que viola o Vivir Bien. Um dos mais apresentou uma proposta sobre dívida filosofia do Vivir Bien - que reconhece recentes e explícitos exemplos dessa climática na Convenção-Quadro das a natureza como ser vivo, objeto de contradição ocorreu em setembro deste 9
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    ano, quando ogoverno boliviano grupos de pesquisa independentes que reprimiu de modo bastante violento uma defendiam uma ação drástica frente marcha pacífica contra a construção ao colapso dos preços do petróleo em de uma estrada que pretende 1986 e a resultante crise energética. atravessar o Território Indígena Parque Isso aconteceu no momento em que Nacional Isiboro Sécure (Tipnis), na as tecnologias de energia ¨alternativa¨ Greenpeace/Paulo Adario Floresta Amazônica. e nuclear precisavam de ajuda oficial É importante refletir sobre o porquê para sobreviver. O caminho da pesquisa de propostas como a da dívida climática estava traçado: eficiência energética serem tão facilmente negadas e (não conservação), energia ¨alternativa¨ e ignoradas, inclusive pelos atores mais nuclear e, posteriormente, geoengenharia críticos. O discurso dominante gira e comércio de carbono. Muitos governos em torno de ações mitigatórias, como perceberam que poderiam se beneficiar tecnologia e mercado de carbono, e de desta agenda. Problemas ambientais adaptação. E, muitas vezes, essa lógica é reais, como a capacidade das sociedades reproduzida sem questionamentos mais de mudarem instituições, tecnologias, profundos. Já estamos aceitando que comportamentos, e a justiça econômica, o único caminho dentro do contexto foram negligenciados. A preocupação de eco-alarmismo é se adaptar? Quem “Já estamos aceitando deixou de ser com questões ambientais, precisa se adaptar a quê? Precisamos é de e passou a ser com a política energética, des-adaptação ao capitalismo, isso sim. que o único caminho a imposição de tecnologias e a geração Afinal, como a crise climática ganhou de renda para determinados governos. tanta centralidade e como se deu a dentro do contexto Excluiu-se qualquer avaliação sobre definição do problema? Como a ciência a ideologia por trás das projeções foi construída, disseminada e apropriada? de eco-alarmismo científicas e implicações das estratégias. O fato da questão receber mais atenção Assim, a ciência deixa de informar a hoje está mesmo relacionado com uma é se adaptar? Quem política e passa a ser sua guia, jogando análise científica-natural ou com o com a incerteza científica. Como disse o contexto histórico, cultural e político? precisa se adaptar a representante do Ministério de Ciência e Tecnologia, Carlos Nobre, no evento Negação de interesses conflitantes Estudando o papel da ciência na quê? Precisamos é sobre mudanças climáticas organizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica definição de problemas ambientais, Wynne (1994) afirma que o debate tem se de des-adaptação Aplicada (Ipea), em agosto deste ano, ¨A CQNUMC é inovadora porque a baseado no domínio das ciências naturais de forma instrumentalista, uniformizada ao capitalismo”. ciência tem um papel preponderante. Em outros casos sempre se buscou e reducionista. Mantém-se o foco na acordo político; a CQNUMC está crise ambiental quando à ela antecede baseada nos relatórios do IPCC. Foi a uma crise política, econômica, moral e e privados a partir da institucionalização ciência que trouxe o debate¨. Trata-se cultural. O Painel Intergovernamental das ameaças climáticas. A autoridade da apropriação política de uma ciência sobre Mudanças Climáticas (IPCC) científica do IPCC serviu para orientar dominante e a negação de outras. A reduziu a questão ambiental às mudanças os interesses dos países do Norte, incerteza é usada para evitar políticas climáticas, e esta às emissões de carbono. possibilitando a criação de políticas de de prevenção da destruição ambiental e Desvia-se a atenção para os chamados monetarização das mudanças físicas garantir políticas de interesse econômico “interesses comuns” da humanidade, determinadas pelas ciências naturais e como a bioengenharia. Neste último negando-se conflitos políticos entre fornecendo justificativas e incentivos caso, a incerteza aparece como algo diferentes grupos sociais com interesses para investimentos nos países do a ser resolvido em breve pela verdade distintos e, muitas vezes, conflitantes. Sul. Ela afirma que o IPPC foi criado absoluta da ciência. A ciência dos Boehmer-Christiansen (1999) também pelos Estados Unidos, com o apoio especialistas escolhidos “a dedo” pelos critica o controle político do IPCC como da pesquisa ambiental daquele país políticos, negando o saber local, também ilustração dos interesses governamentais e da Europa, como contraponto aos uma ciência. 10
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    Contra Corrente O conhecimento científico dominante das questões ambientais naturaliza e reforça interesses econômicos, políticos Dívida climática Dívida ecológica baseia-se na constatação de que é um conceito que contribui e valores culturais e morais específicos. os países industrializados do Norte para uma análise diferente O que está sendo apontado como ¨nossos das relações internacionais, cresceram, principalmente, devido à problemas comuns” e que sociedade está produção e ao desenfreado consumo o intercâmbio entre o Norte sendo criada em nome da proteção da de combustíveis fósseis, responsáveis e o Sul, para além dos natureza, do clima? Existem questões pela atual crise climática. Eles também termos econômicos. Produz políticas por trás das construções da crise se apropriaram de um ¨bem comum ferramentas para acabar com climática e é preciso cuidar para não global¨ (a atmosfera e os oceanos) e da os danos ambientais, para entrar no debate alarmista e na política capacidade de absorção de carbono da garantir reparações e punir do medo. Definir a crise climática como biosfera. Esses países - que representam os responsáveis. Além disso, uma construção social não é diminuir menos de 20% da população do mundo fornece novos argumentos a sua importância ou realidade e sim e emitiram cerca de 75% das emissões e autoridade para exigir estudar o processo pelo qual o fenômeno históricas - são responsáveis por mais o cancelamento da dívida foi transformado de uma suposição para de dez vezes as emissões históricas dos financeira, acumulada de um fato aceito. Quem realmente ganha países do Sul. Atualmente, suas emissões forma ilegítima. com isso? per capita são mais de quatro vezes as Assim sendo, a perspectiva do Sul. A dívida climática pressupõe da dívida ecológica tem como determinar a partilha justa e equitativa objetivo mudar o contexto das obrigações e responsabilidades para de diálogo e das relações reduzir as emissões de carbono e pelo entre os países, debater o financiamento do clima entre os países. meio ambiente para além dos Ela fornece uma abordagem sistemática argumentos da conservação e para classificar, quantificar e aplicar a sustentabilidade e considerar responsabilidade histórica o direito e a justiça. (F.F.) e exigir reparação. (F.F.) A (dí) vida como ela é Em 2009, uma avaliação da produção econômica dos países do G8 (Vinod, 2009), construída com base no uso insustentável de carbono per capita, com base nos preços de 1994, calculou que a dívida de carbono do G8 estava entre 13 e 15 trilhões de dólares. Um valor que excede várias vezes a dívida financeira atribuída aos países do Sul. Os países do Norte ofereceram em Copenhague, durante a 15a Conferência das Partes da CQNUMC, 30 bilhões de dólares entre 2010 e 2012 e uma promessa de mobilizar mais 100 bilhões de dólares até 2020. Esses recursos, provavelmente, serão privados, oriundos do mercado de carbono e estarão nas mãos das mesmas Instituições Financeiras Internacionais (IFIs) que têm sido grandes responsáveis pela crise ecológica. (F.F.) * Fabrina Furtado é militante da rede Jubileu Sul e doutoranda do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur), da Universidade Federal do Rio de Janeiro - f.furtado7@gmail.com referências bibliográficas Boehmer-Christiansen, Sonja. Globalização e valor de vidas humanas: implicações políticas para os países em desenvolvimento Gabriel Strautman da polêmica do IPCC. Ambiente & Sociedade. Ano II, Nos 2 e 3, 2o semestre 1998 – 1o semestre 1999. Wynne, Brian. Scientific knowledge and the global environment. In Redclift, Michael; Benton, Ted. Social Theory and the Global Environment. Londres: Routledge, 1994. p.169 – 189. Jubileu Sul. Dívidas, Não Mais: Rumo a uma Plataforma do Jubileu Sul sobre Mudanças Climáticas, Dívida Ecológica e Soberania Financeira. São Paulo, 2010. A reparação das dívidas ecológica e climática Raina, Vinod. Ecological Debt: the creation of rich and poor countries. Apresentação durante Fórum Público sobre Dívida Ecológica é uma demanda de organizações do Sul e Mudança Climática. Bancoc, Setembro, 2009. 11
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    Lucia Ortiz* Rio+(ou-)20: umachancela para o capitalismo verde? Com foco em economia verde e governança global, conferência sinaliza captura pelo mercado e pode ser consolidada como a Cúpula da Mercantilizacão da Natureza A Rio+20, conferência mundial conceituado como desenvolvimento às múltiplas crises e a necessidade de sobre ‘desenvolvimento sustentável – social, ambiental e tamanho aparato e refinamento do sustentável’, será realizada econômico – ao da economia global discurso para dialogar com a apreensão no Rio de Janeiro de 4 a 6 de capitalista, mascarando os mecanismos da sociedade frente aos problemas junho de 2012, por sugestão do, de implementação e de controle global ecológicos e sociais, como o sintoma do então, presidente Lula, em 2007, na da natureza, deste novo ciclo de caos climático, para, então, conseguir Assembléia Geral das Nações Unidas acumulação. Contexto que invisibiliza uma aceitação social e política - apesar (ONU). ainda mais a diversidade cultural, a do poderio econômico e midiático a seu Os objetivos iniciais eram nobres: qual deveria ser incorporada como pilar serviço. o de assegurar a renovação dos central da sustentabilidade, por trazer A estratégica falta de conteúdo compromissos políticos para o novas e ancestrais formas de pensar, dada ao termo economia verde no desenvolvimento sustentável, avaliar relacionar-se e ser parte da natureza, ambiente das negociações da ONU, o progresso e as lacunas (e por que criando e recriando outras economias ainda que pretenda ser a base de não suas causas estruturais?) na em sociedades sustentáveis. um novo “acordo verde”, já tem implementação dos resultados das provocado reações de diversos principais conferências desde a Eco92 Economia verde: países. Na 19a sessão da Comissão e tratar novos e emergentes desafios. um frágil novo consenso de Desenvolvimento Sustentável Porém, não foi criado um processo Este foco, no pretenso novo consenso (CDS), o resultado das negociações de avaliação e negociação à altura global da economia verde e a foram: a falta de acordo na agenda desses objetivos. preocupação com a governança num de implementação no tema central Por outro lado, estabeleceu-se sistema de Nações Unidas capturado do ciclo da CDS, sobre Padrões de como o foco da Rio+20, e com muito pelos interesses das corporações, Produção e Consumo; a dúvida sobre mais empenho e força política, os explicita a resistência imposta a a capacidade da ONU para lidar com o questionáveis temas da economia verde uma agenda de sustentabilidade e ambicioso tema do arranjo institucional ‘no contexto do desenvolvimento democracia global nestes últimos vinte para a Rio+20; e propostas de, sustentável e da erradicação da anos, assim como os interesses que inclusive, rever o termo economia verde pobreza’, e o arranjo institucional devem definir a direção dos acordos para reduzir polêmicas evidentes.1 para o desenvolvimento sustentável, globais para o meio ambiente daqui Fato de maior relevância foi ou a governança global para o meio para frente. a declaração dos países latino- ambiente. A agenda da Rio+20 busca legitimar americanos, resultante dos dois dias No mínimo, pode se reconhecer o capitalismo verde. Isso, por um lado, e meio de processo regional oficial de a redução dos pilares do que foi expõe a fragilidade do sistema frente preparação que aconteceu no início de 12
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    Contra Corrente setembro noChile, que simplesmente rechaçaram e ignoraram o termo economia verde do seu pouco ambicioso acordo final.2 Processo oficial: longe da governança inclusiva O processo em curso, iniciado oficialmente pela resolução da ONU de 24 de dezembro de 2009,3 estabelece etapas preparatórias de negociações oficiais. De forma autônoma e independente, já envolve uma agenda de mobilizações da sociedade civil, bem como um processo (que não se encerra com a conferência) de acompanhamento dos reflexos da sua preparação e resultados sobre as políticas nacionais e de Adbusters construção e fortalecimento de um movimento global por justiça social A financeirização da natureza revela o novo ciclo de acumulação do capitalismo - pintado de verde e ambiental. A conferência acontecerá em de arcabouços legais e políticos nos Terra, a Rio+20 poderá significar apenas três dias (4 a 6 de junho de países para a chamada transição para a consolidação da Cúpula da 2012) e está baseada em três etapas uma economia verde sem que suas Mercantilizacão da Natureza, com ou preparatórias internacionais, sendo bases ou metas, e mesmo seu conteúdo, sem consenso. que as duas primeiras já aconteceram tenham sido definidos. e a próxima será nos dias que Tendo como referência os Um acordo de livre comércio antecedem imediatamente a Rio+20 resultados das últimas negociações disfarçado de verde? (28 a 31 de maio). mundiais para o meio ambiente, Seguindo na linha da captura O processo acordado consiste em podemos prever que as estratégias corporativa das convenções da ONU, chamar os diversos setores da sociedade de inovação dos processos de o processo em marcha por conta da civil a enviar contribuições por internet negociação aumentam os riscos de Rio+20 é o de recomendar estratégias sobre os temas foco da Rio+20 durante limitar a participação dos países em domésticas (leia-se políticas nacionais) todo o ano de 2011, para que um desenvolvimento, e da sociedade que os países em desenvolvimento documento chamado “rascunho zero” organizada de desconsiderar as (e não aqueles historicamente seja divulgado somente em janeiro desconformidades, como foi o caso responsáveis pelas crises ecológica, de 2011. da posição da Bolívia frente ao financeira, alimentar, energética...) Antes, se trabalhava para buscar acordo de Cancun na COP16 do necessitam pôr em prática para consensos globais nas negociações, Clima, bem como da imposição de alcançar os desafios da transição para para que as convenções e tratados textos “caídos do céu” num ambiente a economia verde (tema sobre o qual fossem ratificados pelos países falho de negociações para alcançar não há consenso nem entre os países signatários, passassem a valer e verdadeiros consensos. envolvidos na negociação) e mapear o se desdobrar em políticas públicas Como resultado dos (ou da falta andamento das iniciativas. domésticas. Hoje, a lógica se inverte: já dos) processos em curso, se a Eco92 Nos moldes dos polêmicos existe uma corrida pela implementação ficou conhecida como a Cúpula da empréstimos do Banco Mundial e 13
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    do Fundo MonetárioInternacinal nuclear; e outros dois de combate da votação no Congresso, é que os (FMI) para os chamados Ajustes ao desmatamento na Amazônia e no desmatadores anistiados possam Estruturais da economia dos países em Cerrado. também receber incentivos e créditos desenvolvimento, de privatização e Já em 2010, durante as negociações de carbono por recuperar áreas que abertura dos serviços à fase neoliberal de Cancun, o Brasil lançou o Fundo degradaram - isso não sendo válido do capitalismo nos anos de 1990, Clima, para direcionar recursos para os pequenos agricultores, que ou das imposições dos Tratados de da exploração do petróleo do pré- estariam isentos do dever de reconstituir Livre Comércio (TLCs) às políticas sal - de alto carbono - na forma reserva legal. nacionais para as indústrias extrativas, de empréstimos num total de 200 Nessa linha, estão em tramitação os a economia verde vem, tal e qual, milhões de reais para o setor privado Projetos de Lei (PLs) de REDD nacional como uma Área de Livre Comércio das assim promover a economia verde.4 e estaduais e o de Serviços Ambientais, Américas (ALCA). No entanto, ela vem que já têm cronograma definido para muito mais sutil, disfarçada de verde e Políticas públicas para garantir “ou sim ou sim” estarem aprovados considerada inofensiva nas negociações direitos ao mercado antes da Rio+20 para mostrar como o mundiais para o meio ambiente. Avançam as políticas verdes com Brasil fez sua lição de casa. Antes que resultados para a especulação fundiária nos organizemos e nos atentemos para O ajuste estrutural e que fazem da reforma agrária um o seguimento destas políticas, uma do meio ambiente ao capital sonho de justiça cada vez mais distante. lei dessas dá como certa a perda de O Brasil sancionou, em plena Há quem diga que o “Novo Código soberania das comunidades sobre seus loucura pós Copenhague, nos Florestal” ruralista a ser votado no territórios ao garantir juridicamente últimos dias de 2009, sua Política Senado deixa o Brasil em flagrante o acesso irrestrito das corporações - Nacional sobre Mudança do Clima contradição como país anfitrião da ou outros pagantes dos serviços que (PNMC). E mesmo após quase uma Rio+20. Não será o contrário? O estejam compensando a degradação década de demandas da sociedade governo poderá, a seguir, vetar algumas ambiental de suas atividades em outro civil, houve o veto presidencial emendas, ou não perdoar a dívida de canto do mundo - para medições ao artigo que tratava da redução desmatadores. Mas tirar a proteção e verificações sobre os serviços progressiva do uso de combustíveis do Estado, reduzindo ou eliminando adquiridos, sejam eles o carbono, a fosseis e a inclusão da instituição de Áreas de Preservação Permanentes água ou a biodiversidade. mercados certificados de carbono, o (APPs) e Reserva Legal, é uma forma Entre os estados mais adiantados suprassumo da economia verde. de dar acesso aos mercados a essa está o Acre, que desenvolve um projeto Hoje, os planos setoriais, outro enorme e bilionária riqueza verde que, pioneiro de REDD, contabilizando um instrumento da PNMC, estão para ser até então, não circulava nas bolsas. volume estimado, para os anos de 2006 aprovados com pujantes orçamentos Nova modalidade em debate, depois a 2009, de 100 milhões de toneladas públicos. No entanto, eles não vão além de “mais do mesmo”: um plano chamado ABC do agronegócio, ou Agricultura (industrial) de Baixo Carbono; outro de Siderurgia Verde, para exportação de aço produzido com carvão vegetal de monoculturas de árvores; um terceiro, que é o próprio Plano Decenal de Expansão de Energia (PDEE), calcado na construção de barragens na Amazônia e na expansão do agronegócio da energia da cana e da energia 14
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    Contra Corrente de dióxidode carbono (CO2), cuja o Comitê Facilitador da Sociedade comercialização será feita em leilão na Civil para a Rio+20. Este Comitê BM & FBovespa no final do segundo prepara uma série de atividades locais, semestre de 2011 para precificar, pela nacionais e internacionais, que passam primeira vez no Brasil, os créditos de pelo fórum alternativo ao G20, na carbono das florestas.5 França, em novembro; pela COP17 E chegando à capital dos megaeventos, do Clima, em Durban, no final de para além da Rio+20, no Rio de Janeiro, novembro; pelo Fórum Social Temático, se anuncia a Copa do Mundo verde e em Porto Alegre, em janeiro de 2012; solar. Ela se concretiza com vultosos e pelas atividades paralelas a Rio+20, financiamentos públicos para o setor que pretendem oferecer um choque de privado abastecer com energia renovável paradigma durante a próxima semana “A economia verde novos estádios e mega infraestruturas do meio ambiente no Rio de Janeiro. de entretenimento das elites, a serem Sem ter como foco os megaeventos vem, tal e qual, construídas em locais de disputa com as oficiais, estas etapas podem comunidades urbanas carentes de acesso representar momentos de convergência como uma ALCA. No aos serviços públicos básicos. Cada vez e fortalecimento dos movimentos sociais mais a lógica da especulação imobiliária e das suas propostas contra hegemônicas, entanto, ela vem nas cidades reproduz o discurso do verde necessárias ao enfrentamento de um que entrou pela porta do clima. É o novo e complexo ciclo de acumulação muito mais sutil, caso da geração de créditos e mercados repleto de contradições e apropriações de compensações no caso de projetos dos discursos ambientais e das demandas disfarçada de verde que pela lei sejam privados de aplicar populares por justiça social. máximos índices construtivos, ou dos eco O grande desafio e oportunidade que e considerada condomínios de luxo que apropriam-se esta Conferência traz é o da mobilização de áreas verdes anteriormente públicas e daqueles setores da sociedade civil ávidos inofensiva nas passam a vender sustentabilidade. por um real choque de paradigma, por mostrar justamente que as soluções reais negociações Movimentos sociais não têm como se dar, nem pintadas (de na contra corrente verde), dentro de um sistema que precisa mundiais para o Buscando deslegitimar desde já mudar, e já. o pretenso novo consenso global meio ambiente.” da economia verde, os movimentos Lucia Ortiz é coordenadora do Amigos da Terra Brasil, membro da Coordenação Nacional da Rede Brasil sobre sociais no Brasil e no mundo podem Instituições Financeiras Multilaterais e coordenadora regional ver o caminho a Rio+20 como um do Programa Justiça Climática e Energia do Amigos da Terra América Latina e Caribe (ATALC) – lucia@natbrasil.org.br processo político para fortalecer e dar visibilidade às lutas de resistência no 1- Ver SUMMARY OF THE NINETEENTH SESSION OF THE COMMISSION ON SUSTAINABLE DEVELOPMENT, 2-14 MAY campo, nas cidades e na floresta, assim 2011, em: http://www.iisd.ca/vol05/enb05304e.html como às propostas e soluções populares 2- http://www.eclac.cl/noticias/paginas/5/43755/ por justiça social e ambiental. Conclusiones_reunion_prep_Rio+20-2011-esp.pdf Através da Rede Brasil sobre 3- Resolução ONU A/RES/64/236 Instituições Financeiras Multilaterais, 4- Ver em: http://www.ecodebate.com.br/2010/10/27/ o Amigos da Terra, juntamente com decreto-regulamenta-fundo-nacional-sobre-mudanca-do- clima-fnmc-ou-fundo-clima/ a Via Campesina, a Marcha Mundial 5- Em: http://www.opovo.com.br/app/opovo/ das Mulheres, o Jubileu Sul e mais economia/2011/05/30/noticiaeconomiajornal,2250488/ dez outras redes nacionais, integra credito-de-carbono-podera-ser-comercializado.shtml 15
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    Jubileu Sul* Banco Mundial Forado Clima!... e de nossos países Campanha internacional denuncia os novos interesses mercadológicos dessa velha instituição que, através de falsas soluções, quer assegurar a hegemonia financeira A ssim como as demais Instituições isso, incorporou em suas normas as causas dos problemas e aumentam a Financeiras Internacionais (IFIs), “preocupações ecológicas” e uma suposta dívida climática dos países do Norte. Para desde a sua criação, o Banco prioridade para o “desenvolvimento estas instituições, as mudanças climáticas Mundial tem servido como instrumento sustentável”. Com esse pseudo “novo revelam-se como uma saída para a crise de defesa dos interesses do Norte paradigma”, seguiu impondo suas econômica e uma oportunidade para a global, das transnacionais e das elites definições sobre os problemas e suas criação de novos paradigmas e conceitos, financeiras e política. Ou seja, atua na soluções. Não se pode permitir que o como o de “economia verde”. defesa dos responsáveis por impulsionar Banco Mundial deturpe a defesa dos Assim, se reduz a crise civilizatória a e beneficiarem-se do modelo econômico direitos dos povos e da Natureza para uma crise ecológica e a crise ecológica a que empobrece as grandes maiorias, continuar priorizando os mesmos uma crise climática, e esta a uma falha explora a natureza, gera a mudança interesses de sempre. do mercado. A destruição ecológica se climática e mina a soberania dos povos. A crise climática é uma realidade converte em um novo impulso para o Há décadas, o Banco Mundial é alvo atual que impacta mais as populações crescimento e a acumulação econômica de graves denúncias e mobilizações que do Sul global. Ela é consequência do das elites. Os problemas ambientais e reivindicam a sua retirada e a de suas próprio modelo de desenvolvimento dos sociais são caracterizados como uma instituições correlatas (os banco regionais países industrializados do Norte e de um questão meramente tecnológica ou de desenvolvimento, o Fundo Monetário modo de produção e consumo baseado da falta de clareza na atribuição dos Internacional e o Centro Internacional na crença de que a natureza não possui direitos de propriedade. Frente aos quais para Arbitragem de Disputas sobre limites. Com a cumplicidade dos governos se reivindicam soluções de mercado, Investimento – Ciadi, dentre outras) dos e das elites do Sul, as comunidades como os novos produtos financeiros países do Sul e a transformação profunda trabalhadoras, povos originários, “verdes”, a criação e a venda de serviços do sistema financeiro. camponeses, pescadores e mulheres são ambientais e a mercantilização da Porém, esse banco encontrou, obrigados a pagar pelos custos de uma natureza, de modo geral. na confluência da crise sistêmica crise que não causaram. A estratégia do Norte, reconhecendo o (econômica, alimentar, energética e já inevitável problema do aquecimento climática, dentre outras), uma nova Novo paradigma? É tudo mentira! climático, busca preservar a impunidade roupagem para suas velhas práticas. No mesmo sentido, as respostas que vêm e evitar qualquer mudança no estilo Através de um discurso repaginado, sendo formuladas desde os centros de de vida e no consumo, além de tentar passou a incorporar e consolidar um poder - as corporações transnacionais e transferir a responsabilidade ao Sul, conjunto de ações para a “transição” as instituições financeiras internacionais através da promoção e apoio a falsas para um capitalismo “verde”. Para - são falsas soluções, pois ignoram as soluções como o mercado de carbono, 16
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    Contra Corrente as hidrelétricas,a energia nuclear, e Colômbia. - Fundo para o Meio Ambiente os agrocombustíveis e a venda de Entre os fundos mais importantes Mundial (GEF, sigla em inglês): tem tecnologia. Desse modo, o papel que as estão: - Fundo de Biocarbono: centrado dois fundos fiduciários financiando elites buscam consolidar junto ao Banco em projetos florestais e do uso da terra; projetos de adaptação e mitigação. Mundial é chave e similar ao utilizado - Fundo de Carbono de Desenvolvi- Nas negociações sobre clima, os nos anos de 1970, quando se propagou mento Comunitário: centrado em proje- governos do Norte têm buscado o modelo de desenvolvimento com base tos em países menos desenvolvidos; reforçar este papel do Banco Mundial no endividamento externo, e nos anos de O Banco Mundial, também maneja através, por exemplo, da gestão 1980 e 1990, quando utilizou-se dessa distintos fundos de investimentos, do Fundo Verde Climático, cuja dívida para impor o ajuste estrutural, as por exemplo: criação foi acordada na COP-16, privatizações e a abertura neoliberal. - Fundo de Tecnologia Limpa: em Cancun. Mesmo reconhecendo projetos de mitigação ou redução de que o financiamento prometido é Fundos e mais fundos emissões; problemático pela sua lógica, destino Por outro lado, a criação do mercado - Fundo Cooperativo para o Carbono e atores envolvidos, além de outras de carbono abriu a porta para que as das Florestas (FCPF): para mitigação - questões, o prometido não é aplicado. IFIs e, em especial o Banco Mundial, REDD; Investigações recentes assinalam expandissem sua área de atuação - Programa de Investimento em que dos 30 bilhões de dólares para e fortalecessem sua capacidade de Florestas: para mitigação - REDD; financiamento “rápido” que foram intervenção e condicionamento sobre - Programa Piloto de Resistência prometidos em dezembro de 2009 no os países mutuários (emprestadores). Climática: para adaptação; chamado “Acordo de Copenhague”, até Também permitiu gerar um programa - Programa de Ampliação da Energia agora, foram aplicados efetivamente novo de financiamento para projetos Renovável para os Países de Baixo apenas 7,9 bilhões de dólares, dos quais integrados ao mercado de carbono Ingresso: para mitigação - geral; 42% (3,3 bilhões de dólares) serão através de iniciativas como o - Fundo Estratégico sobre o Clima: canalizados através do Banco Mundial Mecanismo de Desenvolvimento Limpo adaptação, mitigação – REDD, e 47% (3,7 bilhões de dólares) serão (MDL), Controle e Comércio (Cap and mitigação – geral; aplicados através de empréstimos. Trade, na versão original, em inglês) e os projetos do programa de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD). Este programa permite aos países do Norte, e suas transnacionais, compensar ficticiamente parte de suas emissões de gases de efeito estufa financiando projetos no Sul. Esse modelo aumenta a dívida financeira ilegítima, assim como também as dívidas ecológicas e sociais. O mercado de carbono favorece a especulação e o lucro a partir das mudanças climáticas, fomentando novos “derivados” que nada tem a ver com o impacto climático, mas sim com a possível criação de novas bolhas especulativas similares ao que ocorreu em 2007 e 2008, quando o Creative Commons mercado imobiliário explodiu. Atualmente, o Banco Mundial administra 12 fundos de Unidade de Financiamento de Carbono, com um valor aproximado de 2,5 bilhões de dólares, que até agora envolveram países como China, Índia, Brasil, México Campanha denuncia as falsas soluções propostas pelo Banco Mundial: a hora de agir é agora 17
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    karmo Mais do mesmo * a sugestão da Comissão Mundial e sem nenhum envolvimento do Enquanto isso, o Banco Mundial de Barragens, que acaba de completar Banco Mundial ou dos bancos de continua financiando um modelo de 10 anos de esquecimento, sobre desenvolvimento regionais. O Acordo desenvolvimento que contribui para os impactos econômicos, sociais e demarca ainda que, para construir o aquecimento climático, incluindo ecológicos negativos das represas. o equilíbrio e a equidade climática, massivo investimento em combustíveis As hidrelétricas não são fontes de é indispensável reparar a dívida fósseis e no agronegócio: energia limpa: contribuem para o ecológica e climática que o Norte • Entre 1992 e 2004, aprovou desmatamento e a expulsão das tem com o Sul e com todo o planeta. mais de 11 bilhões de dólares de populações de seus territórios e são, ao Os fundos não devem ser entendidos empréstimos para mais de 120 projetos mesmo tempo, grandes emissoras de em função das mudanças climáticas, de combustíveis fósseis, representando gases de efeito estufa na atmosfera; mas sim em função da busca de um 20% das emissões globais atualmente. * as advertências da FAO caminho para uma sociedade não • Somente em 2007 e 2008, o Banco (Organização da ONU para a dependente de petróleo, pois são os Mundial financiou outros 7,3 bilhões Agricultura e Alimentação) combustíveis fósseis os principais de dólares em projetos de combustíveis sobre os impactos negativos dos causadores do problema. fósseis – sem incluir empréstimos agrocombustíveis sobre a segurança e a Conhecemos as consequências para as políticas e agências de soberania alimentar e o desmatamento; históricas das dívidas ilegítimas que o financiamento intermediário do setor * a pressão, a mobilização e as Sul global tem sofrido há séculos. Nesse de combustível fósseis. O banco críticas de milhares de organizações sentido, conclamamos que, em todas também financiou 5,3 bilhões de e pessoas que, nas últimas décadas, as partes do mundo, sejam organizadas dólares para energias renováveis reivindicam o fechamento desta ações que evidenciem o papel danoso e eficiência energética. Como é de instituição ilegítima e injusta. do Banco Mundial e que se fortaleça se esperar, a construção da “nova” O Acordo dos Povos - realizado a resistência da Campanha Banco Estratégia Energética do Banco Mundial durante a Conferência Mundial dos Mundial Fora do Clima. É preciso fazer para 2011 apresenta algumas mudanças. Povos sobre as Mudanças Climáticas frente às falsas soluções que este banco Entre outros aspectos, planeja investir e os Direitos da Mãe Terra, em abril promove em relação à crise climática, no setor privado enfocando na de 2010, em Cochabamba (Bolívia), incluindo, sobretudo, o financiamento produção de energia e não no consumo. como uma resposta ao fracasso de ao mercado de carbono em suas Para o Banco Mundial, a energia Copenhague (COP16) - afirma que o diversas formas, e as consequências limpa continua sendo a hidrelétrica, financiamento mínimo necessário para a aliança dos direitos dos povos e os agrocombustíveis, a energia nuclear para enfrentar as mudanças climáticas a natureza. (mesmo afirmando que não vai deve ser de 6% do Produto Interno financiar) e o mercado de carbono. Bruto (PIB). * O Jubileu Sul, rede composta de organizações Ao desenvolver estas políticas, o Os fundos devem ser públicos, e movimentos da sociedade civil da América Latina Banco Mundial continua ignorando, novos, adicionais e não reembolsáveis, e Caribe, África e Ásia, integra a Campanha Banco entre outras questões: eliminando o mercado de carbono, Mundial Fora do Clima – www.jubileubrasil.org.br 18
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    Adriana Ramos* Contra Corrente REDD: financiamento para florestas ou financeirização climática? Em relação à compensação de emissões de carbono, o destino e funcionamento do REDD ainda não estão suficientemente claros no Brasil; a prioridade deve ser para quem protege as florestas Greenpeace/Rodrigo Baleia “O REDD pode ser visto como um mecanismo que apóia financeiramente a proteção das florestas : mecanismo em disputa” R EDD é a sigla para Redução de o REDD pode ser visto como um florestas pode se dar por diferentes Emissões por Desmatamento e mecanismo que apóia financeiramente estratégias, entre elas, a promoção Degradação. É um mecanismo a proteção de florestas. de seu uso sustentável, como tem que reconhece a importância das Embora ainda não haja definições sido historicamente feito por povos florestas na proteção do clima e específicas sobre o que será abarcado indígenas e comunidades tradicionais, propõe uma compensação aos países pelo mecanismo, no âmbito da o REDD pode também apoiar o que estão dispostos e em condições de Convenção de Clima ou mesmo desenvolvimento de alternativas reduzir as emissões por desmatamento na legislação nacional. Levando- econômicas para esses grupos sociais. e degradação florestal. Neste sentido, se em conta que a proteção das O Fundo Amazônia foi criado 19
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    pelo governo brasileiroa partir das Priorizar os pequenos vivem do uso sustentável da floresta reduções das emissões oriundas do A crescente especulação sobre as na região. Por isso, esses grupos sociais desmatamento da Amazônia ocorridas possibilidades de utilização do mecanismo devem ser priorizados na aplicação dos entre os anos de 2005 e 2009. Não há REDD como compensação de emissões recursos do Fundo Amazônia. titulação ou certificação de carbono a de carbono demonstram a fundamental Para viabilizar o acesso das partir da doação ao Fundo Amazônia. relevância de se definir claramente em organizações representativas das O que o BNDES emite é um diploma âmbito nacional a que se destinará o comunidades locais ao Fundo, a reconhecendo a contribuição dos mecanismo REDD e como funcionará. representação da sociedade civil no doadores ao Fundo Amazônia. Esse é o grande desafio da sociedade COFA tem defendido o estabelecimento O diploma traz a quantidade de civil brasileira em relação ao tema REDD, de editais específicos para pequenos toneladas de carbono correspondentes assegurar que seja um instrumento de projetos, e o apoio a outros fundos que ao valor da contribuição financeira repartição de benefícios que priorize tenham mais experiência e agilidade para o Fundo, mas não gera direitos os atores sociais historicamente para apoiar projetos menores, a ou créditos de nenhuma natureza. O exemplo do Fundo Dema, administrado BNDES afirma que está discutindo o pela Fase, que recentemente firmou desenvolvimento de uma metodologia “O grande desafio é contrato com o Fundo Amazônia. de inventário de carbono visando As demais pautas prioritárias da permitir a compensação limitada assegurar que o REDD representação do FBOMS no COFA de emissões com projetos de REDD são: ampliar a transparência do Fundo +, embora não haja informação seja um instrumento Amazônia e a coerência entre os pública sobre essa possibilidade, e objetivos do Fundo e os investimentos nem amparo formal nas políticas brasileiras de REDD para tal, ao de repartição de do BNDES na região. Para ampliar a transparência do menos por agora. O Fundo Amazônia se diferencia de benefícios que Fundo Amazônia temos cobrado do BNDES ações de comunicação outros fundos voltados às florestas mais eficientes, tanto no que diz tropicais no âmbito das mudanças prioriza os atores respeito às informações necessárias climáticas, como o Programa de ao acesso ao Fundo, quanto às Investimentos Florestais (FIP), sociais historicamente relacionadas ao desenvolvimento dos do Banco Mundial. No caso do projetos. Ao mesmo tempo, temos FIP, os investimentos não estão comprometidos e buscado promover um maior controle condicionados ao ato da comprovação social sobre os recursos do Fundo da redução das emissões. Além responsáveis pela Amazônia, divulgando informações do Fundo Amazônia, o BNDES sobre os projetos desenvolvidos em administra outros fundos direcionados manutenção das deolhonofundoamazonia.ning.com. à regularização ambiental ou No que diz respeito à coerência restauração florestal. Este é o caso do Programa ABC, de crédito para florestas”. entre os objetivos do Fundo Amazônia e os demais investimentos do BNDES financiar ações que contribuam na região, trata-se do desafio mais para a redução de emissões de comprometidos e responsáveis pela complexo e com menor permeabilidade gases causadores do efeito estufa manutenção das florestas. dentro do próprio Banco, e a estratégia geradas pela atividade agropecuária. É essa perspectiva que tem balizado do FBOMS para enfrentá-lo é buscar O Fundo Mata Atlântica, como o a atuação da representação do Fórum articulação com outros grupos Fundo Amazônia, é de recursos não Brasileiro de ONGs e Movimentos da sociedade, principalmente a reembolsáveis. O BNDES anunciou Sociais para o Meio Ambiente e o Plataforma BNDES e a Rede Brasil. que utilizaria recursos do Fundo Desenvolvimento (FBOMS) no Comitê Mata Atlântica, para a neutralização Orientador do Fundo Amazônia (COFA). de emissões de sua sede, no Rio A redução dos desmatamentos na de Janeiro. Entretanto, não há Amazônia foi um processo resultante informações sobre se e como isso de ações de governo e da sociedade e, * Adriana Ramos é secretaria executiva adjunta do Instituto vem sendo feito. principalmente, das comunidades que Socioambiental (ISA) -adriana@socioambiental.org.br 20
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    Rubens Harry Born* Contra Corrente Greenpeace/Rodrigo Baleia Fundo Clima: útil, mas suficiente? Considerado, por alguns, um importante instrumento da política do clima, este Fundo navega em um mar de dúvidas sobre sua real capacidade de contribuir Fundo Clima pretende assegurar recursos para a mitigação e a adaptação à mudança do clima: instrumento limitado? para um Brasil de “baixo carbono” C omo parte das incipientes respostas de emissões na produção e uso de energia modificadoras ou que usam recursos na políticas do Brasil à comunidade devem detalhar o PNMC. natureza, dentre muitas outras. internacional no tocante ao Essas ações são consideradas, por O Brasil tem que lidar também com enfrentamento doméstico para o alguns, um razoável avanço, uma vez que, as disparidades regionais. Isso significa cumprimento do acordo multilateral da até recentemente, o governo defendia que equacionar, de forma equitativa, as Organização das Nações Unidas (ONU) o Brasil, por não ter compromissos globais condições dos estados e municípios sobre mudança de clima, o governo de redução obrigatória de emissões, não em lidar com as causas e os impactos brasileiro fez aprovar a lei n° 12.187, precisaria de uma política nacional. Esta das mudanças de clima, além de evitar de 29 de dezembro de 2009, que define percepção baseava-se na constatação “vazamentos” das emissões (por efeito a Política Nacional sobre Mudança de que os projetos de compensações de medidas para reduzir as emissões em Climática (PNMC), e a lei n° 12.114, de de emissões por meio do Mecanismo uma área, as atividades econômicas que 09 de dezembro de 2009, que estabelece de Desenvolvimento Limpo (MDL), do as produzem se deslocam para outras e dispõe sobre o Fundo Nacional sobre Protocolo de Quioto, bastariam para que o regiões). Teríamos que evitar também a Mudança Climática (FNMC), um dos País contribuísse com os esforços globais. ocorrência de fenômenos registrados no instrumentos da política nacional. No entanto, o cenário nacional é, âmbito internacional: alguns, resistindo Em 2008, o governo brasileiro como em outros países, complexo e, por a mudar sua estrutura produtiva, buscam apresentou o PNMC para a sociedade e vezes, contraditório. Por um lado, temos medidas compensatórias em outras anunciou que até 2020, com medidas tais instrumentos. Por outro, predomina regiões. Ou seja, manter uma indústria voluntárias, as emissões brasileiras seriam ainda a visão de que qualquer tipo de aqui e plantar uma árvore acolá, ou reduzidas em 36 a 38% em relação ao crescimento econômico é louvável. continuar a explorar petróleo e ampliar o nível que poderiam chegar caso nada Seguimos adiante com programas uso de termoelétricas a carvão em troca de fosse feito. Sua implementação carece do de desenvolvimento insustentável e algumas usinas eólicas. detalhamento de alguns planos setoriais. O que agravarão o aquecimento global, O Fundo Clima (FNMC) – como ele é plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono) como: ampliar a exploração e uso de mais conhecido - é um fundo de natureza foi elaborado em consultas com algumas combustíveis fósseis; estimular o aumento contábil, regulamentado pelo Decreto n° organizações. Outros planos e atividades da frota de veículos particulares; e 7.343/2010, vinculado ao Ministério do setoriais de combate ao desmatamento, na denegar critérios de emissões para o Meio Ambiente (MMA). Ele tem como Amazônia e no Cerrado, e de mitigação licenciamento ambiental de atividades finalidade assegurar recursos para apoio 21
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    a projetos ouestudos e financiamento de reembolsável mediante concessão de procedimentos para decidir a aplicação empreendimentos que visem à mitigação empréstimo, por intermédio do Banco não reembolsável. Entretanto, nada foi da mudança do clima e à adaptação à Nacional de Desenvolvimento Econômico resolvido, pois não foi disponibilizado mudança do clima e aos seus efeitos. e Social (BNDES), o agente operador; e a tempo um conjunto de informações Os recursos do Fundo Clima são em apoio financeiro não reembolsável a que permitiriam que os integrantes do constituídos por até 60% da cota projetos relativos à mitigação da mudança Comitê tomassem decisões. Nova reunião parte (10%) do MMA dos recursos da do clima ou à adaptação à mudança do extraordinária havia sido marcada para o participação especial aplicada sobre a clima e aos seus efeitos, aprovados pelo final de setembro deste ano. receita bruta da produção de energia, seu Comitê Gestor. deduzidos os royalties, previstos no Cabe a este Comitê Gestor vinculado Muitas incertezas inciso II do § 2º. do art. 50 da lei n° ao MMA, com representantes do De que servirá um fundo que aplica 9478, de 1997 (lei de política energética). poder Executivo federal e de setores algumas centenas de milhões de reais em Também podem constituir recursos do da sociedade, definir, anualmente, a projetos meritórios e úteis, se bilhões de Fundo: as dotações consignadas na lei proporção de recursos a serem aplicados reais continuarem a fluir para iniciativas orçamentária anual da União e em seus em cada uma das modalidades, que nada têm de sustentáveis e nenhuma créditos adicionais; recursos decorrentes empréstimos e doações, sendo que estas relação com a economia de baixo de acordos, ajustes, contratos e convênios podem ser aplicadas diretamente pelo carbono? Será que o Fundo Clima pode celebrados com órgãos e entidades da MMA ou transferidas mediante convênios, se tornar uma referência de critérios e administração pública federal, estadual, termos de parceria, acordos, ajustes ou procedimentos de investimentos públicos, distrital ou municipal; doações realizadas outros instrumentos previstos em lei. inclusive em iniciativas de cunho por entidades nacionais e internacionais, A primeira reunião do Comitê empresarial, de tal modo que tantos públicas ou privadas; empréstimos de Gestor, no início de 2011, tratou de outros fundos, recursos orçamentários e instituições financeiras nacionais e questões operacionais e institucionais instrumentos financeiros, nos três níveis internacionais; reversão dos saldos anuais e a construção do regimento interno. de governo, sejam mais consistentes não aplicados; e recursos oriundos de Na segunda reunião, em março, foi com as necessidades de lidar com juros e amortizações de financiamentos. apresentada e aprovada a proposta de medidas de mitigação e de adaptação às aplicação de recursos para este ano, mudanças do clima? Será que o próprio Poucas definições sendo R$ 200 milhões na categoria de BNDES, além do Banco do Brasil, bancos Em relação ao recorrente questionamento aplicação reembolsável (financiamento) regionais e os fundos constitucionais sobre a possibilidade do Fundo apoiar e pouco mais de R$ 29 milhões na deixarão de investir em atividades e medidas que levem o Brasil a ser um país concessão (doação) de recursos. Sugeriu- empreendimentos que, no curto, médio de “baixo carbono”, é preciso avaliar se que os recursos reembolsáveis sejam e longo prazo, não são consistentes se a Política Nacional de Mudança de aplicados em: com um país de baixa intensidade de Clima, em sua forma atual, é suficiente e • Financiamento das ações estabelecidas produção de gases de efeito estufa? adequada. Também é preciso ter clareza nos planos setoriais da Política Nacional O Fundo Clima, instrumento importante de seu impacto no Plano Plurianual sobre Mudança Climática; da Política Nacional de Mudança de de Ações (PPA), bem como avaliar • Financiamento de ações de mitigação e Clima, começou a funcionar. O desafio outros instrumentos regulatórios, de adaptação nos estados e municípios; é ter condições de fazer a diferença, planejamento e investimentos do Estado • Financiamento de inovação tecnológica instigando especialmente o poder público brasileiro, inclusive os do Plano de para o desenvolvimento e consolidação e o setor privado na efetiva alocação de Aceleração do Crescimento (PAC). No de uma economia de baixo carbono; recursos - financeiros, orçamentários entanto, um caso exemplar foi o fato de Em julho, o MMA publicou quatro e especiais - em iniciativas que que, na promulgação da lei no 12.187, editais para recebimento de propostas de contribuam para a transição para uma houve veto presidencial ao dispositivo que cinco das nove linhas identificadas para sociedade fundada em uma economia definia como uma das diretrizes da política aplicação de recursos não reembolsáveis. ambientalmente sustentável, socialmente o “estímulo ao desenvolvimento e ao Setenta projetos, com custo total de mais justa e com baixa emissão de gases de uso de tecnologias limpas e ao paulatino de R$ 52 milhões, disputaram os R$ 16 efeito estufa. abandono do uso de fontes energéticas que milhões disponíveis. utilizem combustíveis fósseis”. A reunião ordinária do Comitê, no Rubens Harry Born é coordenador executivo adjunto do Os recursos públicos do FNMC devem final de agosto, tinha como pauta Vitae Civilis e representante de ONGs no Comitê Gestor do ser aplicados em apoio financeiro principal a avaliação de critérios e Fundo – born@vitaecivilis.org.br 22
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    Alessandra Cardoso* Contra Corrente De olho nos investimentos na Amazônia Além de sistematizar informações sobre a dinâmica dos financiamentos na região, Observatório produzirá análises críticas sobre seus atores e os impactos H idrelétricas, hidrovias, ferrovias, estas que o Instituto de Estudos Sócio- levantar e divulgar informações técnicas rodovias, mineração, extração Econômicos (Inesc) se propôs à construção e financeiras, o Observatório pretende de gás, concessões florestais, do Observatório dos Investimentos na ser uma ferramenta útil na produção e aquisição de terras e projetos de Amazônia, uma iniciativa que pretende difusão de análises sobre atores, arranjos Redução de Emissões por Desmatamento reunir e sistematizar informações institucionais, financeiros e impactos e Degradação (REDD). Se todas estas e análises sobre a dinâmica de gerados por estes investimentos. dinâmicas de investimento estivessem investimentos e financiamentos orientados visíveis em um mapa amazônico com à Amazônia brasileira. Evidenciar, de Os primeiros temas seus atores e instrumentos propulsores forma sistêmica e contínua, os bilhões Para dar início à construção do – incluindo financiadores, investidores, de reais de recursos públicos e privados Observatório, que será progressivamente subsídios, isenções –, o que veríamos? E envolvidos nestes investimentos é também ampliado, escolheu-se incluir projetos de se também pudéssemos ver, a partir deste uma forma de contribuir à análise crítica REDD e hidrelétricas. Metodologicamente, olhar mais sistêmico dos investimentos, e propositiva de atores políticos que este levantamento também exigiu seus impactos, também sistêmicos, sobre disputam o significado e os caminhos abordagens distintas. os territórios? para o “desenvolvimento” e para a A opção pelo levantamento de Foi estimulado por perguntas como “preservação” da Amazônia. Mais que projetos de REDD se justifica pelo fato de que a despeito da inexistência de regulamentação internacional e nacional do mecanismo ele esteja sendo rapidamente implementado - como iniciativas de governos locais, de multinacionais, de ONGs, de fundações. Isto, sem que haja uma reflexão aprofundada e consistente das suas potenciais implicações e riscos, quer seja no âmbito da Política Mundial para o Clima, quer seja como instrumento financeiro especulativo, como forma de imobilização e controle de recursos territoriais ou, ainda, como uma forma de privatização da proteção ambiental. Verena Glass O levantamento dos projetos de REDD na Amazônia foi realizado entre os meses de abril e junho de 2011, por meio da aplicação de questionários às instituições Observatório confirma riscos anunciados envolvendo o REDD: florestas preservadas podem ser destruídas e organizações do setor público, 23
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    privado e sociedadecivil identificadas como responsáveis ou parceiras no desenvolvimento desses projetos. Foram identificados sete projetos de REDD estruturados conforme parâmetros técnicos que são comumente requeridos para alçar projetos à condição de receptores de investimentos privados em mercados de carbono chamados voluntários, tais como: metodologia crível para o cálculo de emissões evitadas e/ou biomassa estocada; tempo de realização delimitado e com resultados e expectativas definidos; área de influência definida. Gilmar Rocha Percepções confirmam riscos O resultado do levantamento reforça a Trabalhadores da obra na usina de Jirau posição de organizações e movimentos revoltaram-se, em março: violações dos que alertam para os riscos e equívocos direitos humanos e trabalhistas para envolvendo o REDD. Entre eles está o “cumprir o cronograma” de que florestas preservadas estejam sob o risco de serem destruídas por dos arranjos econômico-financeiros múltiplos vetores de desmatamento. utilizados para viabilizá-los, para o Com seus “proprietários/detentores” processo de licenciamento ambiental e, – inclusive, e talvez prioritariamente, igualmente, para os impactos ambientais grandes propriedades hoje improdutivas e sociais trazidos pelas obras. - recebendo créditos por redução que Os dados trazidos pelo Observatório até ajudam a alimentar um movimento de aqui evidenciam uma elevada pressão, até os programas de mitigação e aquisição de mais terras e expansão de caráter público e privado, envolvendo compensação dos muitos e imbricados do próprio agronegócio. O desafio é bancos, órgãos públicos, empresas, impactos ambientais e sociais trazidos dar continuidade neste levantamento, lobistas e gestores, para que não haja pelos empreendimentos antes, durante e incluindo novos projetos que venham a qualquer tipo de prejuízo ao cronograma depois das licenças ambientais. ser identificados e, também, aprofundar das obras e de sua entrada em operação. A prestação de contas divulgada pelos a reflexão sobre o significado e riscos É também sob o desígnio da viabilidade empreendedores durante o processo não envolvendo este mecanismo. econômica das obras do Complexo passa de uma peça de marketing social e Para o levantamento de projetos de Madeira que o processo de licenciamento ambiental – que está muito distante de barragem, o Observatório optou por acaba sendo marcado pelo imperativo da apresentar à sociedade a real dimensão desenvolver uma metodologia também entrada em operação das hidrelétricas. dos impactos e sua efetiva mitigação e própria, que foi pensada e testada a partir Sob o ponto de vista do processo compensação. O tratamento dado pelo dos projetos hidrelétricos do Complexo de licenciamento, a metodologia governo nas diversas fases do processo, Hidrelétrico do Rio Madeira, em Rondônia: desenvolvida busca trazer e reforçar da concepção ao licenciamento do usinas de Jirau e Santo Antônio e linha de elementos críticos para ampliar e projeto, também em nada contribui para transmissão Rondônia-Araraquara, com fortalecer a reflexão sobre este processo dar transparência às informações. Diante uma extensão de 2.375 km. altamente técnico e hermético que, disso, a proposta do Observatório é A metodologia construída permitiu se não inviabiliza, dificulta muito o contribuir no estímulo e subsídio para a reunirmos no banco de dados acompanhamento pela sociedade do reflexão e controle social sobre todas as informações que consideramos úteis passo a passo das análises dos diferentes etapas do processo. ao propósito de ampliar e aprofundar órgãos governamentais. Desde a o conhecimento sobre esses projetos, autorização para a Elaboração do Estudo Alessandra Cardoso é assessora do Instituto de Estudos com prioridade para a investigação de Inventário de uma bacia hidrográfica Sócio-Econômicos (Inesc) – alessandra@inesc.org.br 24
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    Célio Bermann* Contra Corrente Petróleo do Pré-Sal: investindo no passado Ao invés de priorizar saúde, moradia, saneamento e energia renovável, Brasil opta por investir em fonte energética sem futuro que causa graves impactos N os últimos dois anos, o debate exploração, desenvolvimento e produção que marcou o desenvolvimento sobre o Pré-Sal está restrito do petróleo da camada do pré-sal são da econômico e o padrão civilizatório do ao destino dos royalties da sua ordem de US$ 111,4 bilhões, conforme século XX. Mas que, em função da produção. Ainda não se conhece de que sua exaustão, não será mais a fonte de quantidade de reservas está se falando energia do futuro do nosso planeta. – os 9,5 a 14 bilhões de barris de óleo, até o momento confirmados nos campos “Trata-se de cerca Sob o ponto vista estratégico, a existência desse petróleo assegura ao de Tupi, Iara e Parque das Baleias, ou se tratam de reservas que poderão alcançar de R$ 200 bilhões Brasil condições de enfrentar, num futuro próximo, as restrições cada de 50 a 150 bilhões de barris. vez maiores que vão caracterizar o Estima-se que a área total do Pré-Sal a serem investidos período de transição para outras fontes seja de 149 mil quilômetros quadrados. energéticas. Teremos petróleo, não para Deste total, 42 mil quilômetros quadrados numa fonte energética nos transformarmos em “novo país já foram objeto de concessão e 107 mil exportador da OPEP” [Organização dos quilômetros quadrados ainda não foram que marcou o Países Produtores de Petróleo], como licitados. A previsão inicial indicava que querem muitos, mas para ter à disposição a 1ª licitação ocorreria este ano, mas a desenvolvimento reservas suficientes para atravessar indefinição quanto aos royalties levou ao este período de transição sem grandes adiamento. A nova data para a definição econômico e o padrão sobressaltos. Apenas isso! dos contratos com base no modelo de partilha para leiloar as novas áreas de exploração de petróleo e gás na camada civilizatório do século Habitação, saneamento básico e saúde Mas podemos indagar se esta é a melhor pré-sal ficou para o 2º semestre de 2012. Foi também criada uma nova empresa XX. Mas que não forma de investimento. Poderíamos imaginar estes montantes sendo estatal, não operacional, que irá gerir direcionados para outras demandas os contratos de exploração. Os recursos será mais a fonte de como, por exemplo, a redução do obtidos pela União serão destinados déficit habitacional, ou para garantir a ao Novo Fundo Social (NFS), também energia do futuro do universalização do saneamento básico denominado de ’Fundo Soberano’. no Brasil ou, ainda, para cobrir as Sem dúvida, a renda petrolífera que nosso planeta.” necessidades de financiamento à saúde. poderá ser extraída com a exploração Com efeito, com este dinheiro, o Brasil desse petróleo atinge cifras gigantescas. poderia reduzir pela metade o atual Entretanto, para alcançar uma produção as previsões da Petrobrás, incluindo déficit habitacional de 5,8 milhões de de 1,815 milhões de barris por dia, seus parceiros. domicílios, com um custo total estimado prevista para 2020, os investimentos Trata-se de cerca de R$ 200 bilhões a em R$ 406 bilhões. nos próximos 10 anos nas atividades de serem investidos numa fonte energética Ou ainda, para universalizar o 25
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    saneamento em todoo país seria necessário aplicar cerca de R$ 11 bilhões por ano até atingirmos um total de R$ 220 bilhões em 2020. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2008), morrem por dia no Brasil sete crianças entre zero e cinco anos de idade, vítimas de diarréias e doenças parasitárias. Cerca de 34% das crianças dessa faixa etária se ausentam das creches e salas de aula devido às doenças relacionadas à falta de saneamento. É também constatado que 15 mil brasileiros morrem vítimas de diarréias por ano. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV, 2008), aproximadamente Mateus Cauduro 53% dos brasileiros não tem acesso à rede geral de esgoto, e apenas 20% possuem esgoto O uso irrestrito do combustível fóssil é considerado uma das principais causas do aquecimento global: energia sem futuro tratado. Se investisse em saneamento, o país evitaria gastos quatro vezes maiores não estabelece o percentual da União de petróleo pelas biomassas (etanol e com tratamento médico hospitalar. para a saúde. Os estados devem reservar biodiesel), serão os veículos elétricos pelo menos 12% do seu orçamento para a que irão substituir a atual tecnologia Sistema perverso saúde, enquanto que para os municípios o dos motores à combustão interna. Para O que leva o não investimento nestes piso é de 15% do orçamento. superar os atuais desafios da autonomia setores é a lógica do mercado. Construir (distância percorrida sem necessidade habitações para uma população cuja Fontes energéticas do futuro de recarga), tempo de recarga e custos, renda, para 90% dela, é inferior a três Poderíamos também pensar nestes poderíamos investir em conjunto com a salários mínimos, vai apenas contribuir US$ 111,4 bilhões sendo investidos Bolívia no aproveitamento das reservas para dinamizar de forma restrita setores de forma diversificada nas fontes de lítio, localizadas na província de sal da construção civil e materiais de energéticas renováveis. de Uyuni, com reservas estimadas de construção. Um investimento que não Poderíamos assistir a um formidável 300.000 a 5,5 milhões de toneladas, encontrará retorno. avanço das usinas eólicas ou da energia conforme dados da Corporación O investimento em saneamento solar fotovoltaica. Uma parte deste Minera de Bolívia (Comibol). Trata- básico também não se ajusta à montante poderia ser utilizada para se do desenvolvimento de baterias de lógica do mercado. Trata-se de um a construção de duas ou três fábricas lítio de alto desempenho, que serão investimento sem visibilidade política, de painéis fotovoltaicos, uma vez capazes de superar os atuais desafios pois são encanamentos enterrados e que, atualmente, importamos estes aos veículos elétricos. estações de tratamento longínquas nos equipamentos, nos restringindo ao papel São estes alguns exemplos de centros urbanos. de um grande mercado para as empresas possibilidades de investimento no futuro. Está também presente no debate atual fabricantes estrangeiras. Olhar para o petróleo da camada do pré- o uso dos royalties do Pré-Sal para o Com investimentos em tecnologia sal é olhar para o passado. financiamento à saúde. Estima-se a de ponta poderíamos participar do necessidade de R$ 30 bilhões anuais, que desenvolvimento em grande escala dos Célio Bermann é professor Livre-Docente do Programa de poderiam ser cobertos sem a criação de veículos elétricos. Apesar dos esforços na Pós-Graduação em Energia da Universidade de São Paulo (USP) um novo tributo. A emenda 29, de 2000, substituição dos combustíveis derivados cbermann@iee.usp.br 26
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    Philip M. Fearnside* Contra Corrente Emissões: os impactos mais renegados das hidrelétricas Indústria, governo e financiadores, como o BNDES, não querem admitir que as barragens, na Amazônia, são mais prejudiciais que a queima de combustível fóssil A s emissões de gases de efeito estufa representam um grave impacto que precisa ser avaliado tanto no licenciamento pelas autoridades ambientais brasileiras como pelas instituições que finaciam a construção de barragens. A atuação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é particularmente definidora nesse cenário, uma vez que, além de financiar a construção de barragens no Brasil, ele também financia uma série de projetos na Bolívia e no Peru, onde o licenciamento é ainda menos rigoroso que no Brasil. Represas hidrelétricas não produzem “energia limpa”, ao contrário das afirmações da indústria hidrelétrica, Gabriel Strautman porta-vozes governamentais e os bancos que financiam a construção das barragens. Infelizmente, represas liberam gases de efeito estufa, Ao financiar barragens na Amazônia, o BNDES pode ser (co) responsabilizado pelos seus graves contribuindo, dessa forma, com o impactos, inclusive pelas emissões de gases de efeito estufa aquecimento global. Na Amazônia, frequentemente, as barragens são escala de tempo, fazendo com que formas. Primeiro, as árvores mortas mais prejudiciais do que a queima de barragens como essas jamais poderiam pela inundação da florestas se projetam combustível fóssil para a geração de ser consideradas mitigadoras do acima da superfície da água e se energia, por várias décadas. A própria aquecimento global. deterioram ao ar livre, liberando gás Floresta Amazônica se encontra sob Nas barragens amazônicas, gases de carbônico (CO2). Esse gás se constitui ameaça de mudanças climáticas nessa efeito estufa são liberados de diferentes em uma contribuição líquida ao efeito 27
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    estufa, diferente dogás carbônico que estaria em contato com o ar. A água água repentinamente tornam-se menos será liberado da água do reservatório, de um reservatório se separa em duas solúveis (Lei de Henry, na química), resultante da decomposição subaquática camadas, uma superfícial – de 2 a 10m e a maior parte é liberada durante de plantas que crescem no reservatório de profundidade, aproximadamente -, um curto espaço de tempo. Esse é o ou na área circunvizinha, depois da onde a água é relativamente quente e mesmo processo que ocorre quando construção da represa. contém oxigênio dissolvido oriundo uma garrafa de refrigerante é aberta e A quantidade de gás carbônico que do contato com a atmosfera; e uma surgem bolhas de CO2, exceto que, no essas plantas absorvem da atmosfera camada mais profunda, onde é água caso de um refrigerante, a diferença de enquanto elas crescem é a mesma fria. A camada profunda, e onde o pressão é muito menor do que em uma que será liberada após a morte delas, oxigênio é praticamente ausente, não barragem hidrelétrica. durante o processo de decomposição. se mistura com a camada superficial. Quando um reservatório hidrelétrico Porém, muito da matéria vegetal que No sedimento no fundo do reservatório, é inundado pela primeira vez ocorre se decompõe no reservatório não libera um grande pulso de emissões de seu carbono na forma de gás carbônico, gases de efeito estufa, que permanece mas sim como metano (CH4). Isto ocorre durante os primeiros anos. Isso porque a água do fundo do reservatório “Para chegar inclui o lançamento do CO2 oriundo praticamente não tem oxigênio e, da decomposição das árvores mortas, portanto, o oxigênio necessário para formar gás carbônico não é disponível. a uma decisão acima da superfície da água, e a liberação de CO2 e CH4 oriundos de Um impacto muito superior racional sobre outros estoques de carbono existentes antes do enchimento do reservatório, A metade do peso seco da vegetação tais como carbono do solo e das é carbono, e o impacto sobre o efeito qualquer projeto folhas que caem, quando as árvores estufa é maior quando a vegetação que morrem. Este impulso inicial diminui à se decompõe debaixo d’água libera energético, a medida que se esgotam os estoques de este carbono na forma de metano carbono em formas que são facilmente em vez de gás carbônico. Isso ocorre primeira pergunta degradáveis. porque, de acordo com o relatório de Após o pico inicial das emissões 2007 do Painel Intergovernamental a ser respondida a partir de estoques pré-existentes sobre Mudança de Clima (IPCC), uma de carbono, haverá uma emissão tonelada de gás metano, ao longo de é a questão sobre sustentada em um nível inferior, 100 anos, equivale a 25 toneladas de oriunda de carbono que é produzido gás carbônico. Entretanto, análises mais recentes, que incluem efeitos indiretos o que irá ser feito por fotossíntese no reservatório, na zona de deplecionamento e das sobre poeira e outros aerossóis indicam que o impacto de metano é 34 vezes com a energia.” folhas de árvores presentes na área de captação. Essas folhas caem e, maior que o de gás carbônico, para o posteriormente, são levadas para mesmo período. o rio e seus afluentes pelas chuvas Os reservatórios hidrelétricos são a decomposição produz metano, que torrenciais e os eventos de inundação muito diferentes de lagos naturais, permanece em concentração elevada na associados. A emissão sustentada de na medida em que a água de um água na camada profunda. Parte deste metano pela decomposição de biomassa reservatório sai pelas turbinas, metano é liberada para a superfície com essa origem representa uma fonte localizadas perto do fundo ou, então, na forma de bolhas ou, por meio de permanente de emissões de gases de pelos vertedouros, onde a água passa difusão - essa última, especialmente em efeito estufa. por uma fenda que se abre quando um reservatório recém-formado. uma porta de aço é levantada, também A maior parte da emissão, no entanto, Conspiração? Só se for a corporativa a uma profundidade considerável na ocorre quando a água passa pelos A sugestão de que os reservatórios de coluna d’água. Em um lago natural, vertedouros e turbinas. Essa água está hidrelétricas liberam gases de efeito a água deixaria o lago através de sob alta pressão e, quando é lançada estufa foi feita pela primeira vez em um córrego de saída. Dessa forma, abaixo da barragem, a pressão cai 1993 por um grupo de canadenses a água viria da superfície, onde ela subitamente. Os gases dissolvidos na com base em dados de reservatórios 28
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    Contra Corrente naquele país.Minha publicação, em na Conferência das Partes (COP), da reservatório. Minhas estimativas, por 1995, provocou a fúria da indústria Convenção Quadro das Nações Unidas exemplo, são mais do que 10 vezes de hidroenergia por ter revelado que sobre Mudaças do Clima, incluía maiores do que os números oficiais a represa de Balbina, na Amazônia uma seção sobre as emissões de para as duas barragens na Amazônia, brasileira, teria um impacto maior do hidrelétricas. No entanto, as emissões incluídas no relatório (Tucuruí e que os combustíveis fósseis. Porta- provenientes desta fonte não foram Samuel). Essa diferença é resultante, vozes da Associação Americana de principalmente, da inclusão das Hidrelétricas (dos EUA) e da Associação emissões provenientes das turbinas, Internacional de Hidrelétricas (do vertedouros e da decomposição de Reino Unido) alegaram que a noção árvores mortas, acima da superfície que barragens produzem metano seria “Esses impactos da água (ver trabalhos sobre cada uma “asneira” e que reservatórios barragem disponíveis em http://philip. representavam “um jogo de soma zero” [das emissões] inpa.gov.br). Nada mudou no Plano porque as emissões provenientes dos Nacional de Mudanças Climáticas ecossistemas pré-reservatórios seriam precisam ser (PNMC), apresentado na COP, em eliminadas. No entanto, os ajustes para Copenhague, em 2009. Nele, as essas emissões são incluídos nos meus considerados não barragens são descritas como energia cálculos, e os cálculos indicam um limpa e as emissões das turbinas e grande impacto líquido de barragens. A Eletronorte atribuiu a idéia a uma apenas no sistema vertedouros não são mencionadas. Neste momento, o exemplo mais conspiração internacional que queria falar mal do Brasil (ver ambos os lados de licenciamento flagrante de que essas emissões são ignoradas é o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de do debate na seção “Controvérsias Amazônicas” no site http://philip.inpa. ambiental mas Impacto Ambiental (Rima) para a gov.br). barragem de Belo Monte, proposta Nos anos seguintes, uma quantidade também no para o Rio Xingu. O EIA discute as significativa de pesquisas comprovou emissões de gases de efeito estufa, mas as emissões de gases de efeito estufa, planejamento de não chega a nenhuma quantificação e a indústria hidrelétrica foi forçada a do impacto do projeto e restringe a reconhecer que as barragens liberam desenvolvimento discussão às emissões da superfície do esses gases. No entanto, passou a reservatório. Há quinze anos atrás, sustentar que as emissões são poucas nacional e nas isso poderia ser desculpável mas, e muito menores do que as emitidas atualmente, fingir que emissões das a partir de combustíveis fósseis para gerar a mesma energia. Esta posição, decisões sobre turbinas e vertedouros não ocorrem é indefensável (consulte a revisão geralmente, tem sido sustentada por simplesmente ignorar as fontes financiamento sobre o EIA/Rima de Belo Monte em http://colunas.globoamazonia.com/ philipfearnside/). O EIA/Rima de principais de emissões das barragens, tais como o metano liberado das dos bancos que Belo Monte ignora completamente turbinas e vertedouros, bem como o CO2 a literatura, hoje substancial, da decomposição de árvores, acima da constroem as mostrando a liberação de quantidades superfície da água. As únicas emissões significativas de metano das turbinas incluídas na maioria dos estudos barragens.” e vertedouros. Estas emissões não são financiados pela indústria hidrelétrica meros “cálculos”, pois têm sido medidas são as bolhas e a difusão através da diretamente em Balbina, no Brasil, e em superfície dos próprios reservatórios. Petit Saut, na Guiana Francesa. incluídas no total da contribuição Camuflagem governamental do País para o aquecimento global. Outra tragédia anunciada O primeiro inventário brasileiro de Além disso, a seção sobre emissões No caso de Belo Monte, a controvérsia emissões de gases de efeito estufa, hidrelétricas, mais uma vez, só vai muito além das emissões das lançado em Buenos Aires, em 2004, incluiu as emissões da superfície do principais fontes de metano da represa 29
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    em si. Amaior controvérsia envolve o retrato da barragem na versão atual do EIA/Rima como sendo a única planejada no Rio Xingu. A maioria dos observadores que não trabalha para a indústria hidrelétrica ou que não é financiada por ela (inclusive este autor) considera este cenário fictício (veja evidência citada nos trabalhos sobre Belo Monte, disponíveis em http:// philip.inpa.gov.br). O plano original incluía a construção de cinco represas, à montante de Belo Monte. Três dessas Sociedade civil brasileira e internacional demandam que o BNDES represas (embora em locais ligeiramente não financie a usina de Belo Monte diferentes) foram incluídas no último plano, antes do anúncio do cenário de saldo positivo em termos de impacto e hidrelétricas. Essas comparações uma única represa, em 17 de julho de sobre o aquecimento global durante 41 exigem uma contabilidade aberta e 2008. O Conselho Nacional de Política anos (veja http://www.periodicos.ufpa. abrangente, tanto dos impactos como Energética (CNPE), que instituiu a br/index.php/ncn/article/view/315/501). dos benefícios, de cada opção. As política de uma única barragem, é emissões de gases de efeito estufa livre para reverter esta decisão a Planejamento fechado e irracional representam apenas um dos muitos qualquer hora. O problema fundamental quando se impactos das barragens hidrelétricas A sequência mais provável de eventos trata de barragens e de emissões de que devem ser considerados em tais é que, após a conclusão de Belo gases de efeito estufa é a forma como comparações. As estimativas dos Monte, ou quando ela ainda estiver em as decisões são tomadas. Para chegar impactos das emissões devem incluir construção, haveria uma “descoberta a uma decisão racional sobre qualquer as emissões de metano pelas turbinas surpresa” de que Belo Monte seria projeto energético, a primeira pergunta e pelos vertedouros que têm sido economicamente inviável sem a água a ser respondida é a questão sobre o ignoradas, de forma sistemática, nas armazenada em represas à montante e, que irá ser feito com a energia. Isto é posições oficiais brasileiras sobre o com isso, apareceriam as justificativas particularmente importante no caso da assunto. Esses impactos precisam ser necessárias para a aprovação das barragem de Belo Monte, onde o fator considerados não apenas no sistema de represas adicionais. A represa dominante é a exportação de materiais licenciamento ambiental, mas também mais conhecida como “Babaquara” eletro-intensivos, especialmente o no planejamento de desenvolvimento (oficialmente renomeada como alumínio. Esta é uma das utilizações nacional e nas decisões sobre “Altamira”) seria a primeira prioridade. de eletricidade que gera menos financiamento dos bancos que No projeto original, esta represa teria emprego no Brasil por GWh de energia constroem as barragens. Nesse cenário, um reservatório com 6.140 km2 de área, consumida. Uma discussão nacional o BNDES é o ator mais importante e, o dobro da área da notória represa sobre quais seriam as melhores formas por isso, a sociedade civil demanda de Balbina. A Babaquara teria uma de utilização de energia (em oposição que ele seja (co) responsabilizado pelos zona de 3.580 km2 exposta na época à produção de energia) para o País impactos das obras em que investe. da água baixa (i.e., maior que toda a nem sequer começou. A questão está Ainda mais considerando que o seu área de Balbina) que seria re-inundada totalmente ausente do atual Plano alcance ultrapassa as fronteiras do todos os anos. A emissão potencial Decenal de Expansão de Energia Brasil. Em países como a Bolívia e o de uma represa como esta é enorme. (PDEE), para 2011-2020. Peru, pelo menos uma dúzia de barragens Parte da emissão ocorreria no próprio Uma vez decidida a questão do estão prestes a receber financiamento reservatório de Babaquara e parte uso de energia, as várias opções do BNDES e serem construídas por com a passagem da água carregada devem ser comparadas, incluindo empreiteiras brasileiras,visando a de metano para o reservatório de Belo investimentos em eficiência energética exportação de eletricidade para o Brasil. Monte, localizado imediatamente e a geração de energia a partir de abaixo dela. O “Complexo Altamira” uma ampla variedade de fontes Philip Fearnside é pesquisador do Instituto Nacional de (Belo Monte/Babaquara) não teria um potenciais além de combustíveis fósseis Pesquisas da Amazônia (INPA) - pmfearn@INPA.gov.br 30
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    Jeremias Vunjanhe* Contra Corrente África: expropriação de terras e mudanças climáticas Continente vulnerável às mudanças climáticas tem suas terras “tomadas” por estrangeiros para produção de agrocombustíveis e mercado de carbono, dentre outras atividades neo-colonizadoras N os últimos 30 anos, o desenvolvimento de Moçambique João Correia Filho - e de toda África - tem, simultaneamente, registado progressos assinaláveis e percorrido caminhos diversos e não menos controversos. A partir do final do século XX, surgiram novas formas de pensar e repensar o desenvolvimento, suas esferas e seus sujeitos e o centro deslocou- se violentamente do Estado para os setores privados, favorecendo a entrada maciça de investimentos diretos estrangeiros. Galvanizados pela relativa estabilidade política e o sucesso na pacificação do continente, novos atores - nacionais e estrangeiros - disputam e reivindicam o protagonismo pelo controle da África, muitas vezes sob o prisma propagandístico de investimento e de promoção de desenvolvimento Entre 51 e 63 milhões de hectares de terra – área equivalente à França – foram negociados na África nos sustentável. últimos 10 anos: impactos devastadores nas comunidades Os processos de transição política de ditaduras para a democracia e para a capitalistas, das elites corruptas africanos enfrentam a nova corrida economia neoliberal e a necessidade nacionais e de Financiamento e pela aquisição, controle e partilha urgente de desenvolvimento, fundado Investimento Direto Estrangeiros das suas terras, de seus recursos e na lei de mercado e de lucro, (FIDE). A partir do modelo dos mega do seu continente pelos interesses converteram a maioria dos países projetos, o FIDE tem elevado o custo estrangeiros. A expropriação1 de terras africanos em verdadeiros campos social e ambiental dos povos africanos. constitui a mais recente estratégia de batalha e de disputa de políticas Cada vez mais pobres e expostos seguida pelos governos ocidentais externas de países do “centro do aos impactos nefastos da crise mundial e poderosos grupos empresariais mundo” para a realização de interesses e das mudanças climáticas, os povos estrangeiros para estrangular a África, 31
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    capitulá-la e colocá-laa serviço a partir do final de 2008, com a corrupto, beneficiando-se das falhas de seus interesses econômicos e eclosão da violenta crise mundial existentes na implementação das imperialistas, em prejuízo de mais de alimentar, energética, ambiental, leis em vigor no país e agravando, 900 milhões de almas africanas. financeira e econômica que se abateu deste modo, as condições de vida já sobre os grandes centros capitalistas. precárias da maioria da população Colonização pós moderna? A ocorrência do fenômeno de africana”. E acrescenta ainda que “o A magnitude do comércio de terras é expropriação de terras e de recursos Fenômeno de Usurpação de Terra bastante devastadora e ocorre quase naturais em muitos países africanos ocorre em Moçambique e é facilitado em toda a África. Estudos publicados tem sido facilitada pelas políticas pelas inúmeras falhas em todo o em 2010 concluem que entre 51 e 63 de desregulamentação, de acordos processo de atribuição do Direito de milhões de hectares de terra, uma área comerciais com a União Européia, Uso e Aproveitamento de Terra (DUAT), equivalente à França, fazem parte de de políticas nacionais de atração de beneficiando os investidores em lucrativos negócios de terras africanas investimentos diretos estrangeiros, detrimento das comunidades rurais”. na primeira década deste milênio. De de sistemas e governos corruptos e acordo com a Organização das Nações de reformas de governança voltadas Brasil, explorando o continente “irmão” Unidas para Alimentação e Agricultura para o mercado adotadas no início Neste processo de apropriação de terras, (FAO), nos últimos três anos, 20 da década de 1990 pelos governos o Brasil desempenha um papel crucial milhões de hectares de terras foram africanos e patrocinadas pelo Banco na chamada África lusófona, com adquiridos por interesses estrangeiros Mundial (BM) e pelo Fundo Monetário particular presença forte em Angola no continente, a maior parte deles Internacional (FMI). Na verdade, as e Moçambique. As grandes empresas envolvendo mais de 10.000 e 500.000 reformas estruturais facilitadas por com capitais brasileiros, tais como a hectares por concessão. Etiópia, estas duas instituições financeiras Vale, Camargo Correia e Odebrecht, Moçambique, Madagascar, Sudão, constituem importantes instrumentos dentre outras, financiadas pelo Mali e República Democrática do de viabilização do atual processo Banco Nacional de Desenvolvimento Congo constam na lista dos países com de aquisição, transação e partilha Econômico e Social (BNDES), estão grandes transações de terra. de terras, em clara confrontação entre os protagonistas do processo de Para justificar a concessão de vastas com os direitos e liberdades dos aquisição, controle e partilha das terras extensões de terras, os governos povos, conquistados nas lutas pela africanas. O projeto de exploração do africanos muitas vezes socorrem-se independência da África. carvão mineral da Vale, em Moatize, de expressões como “terra disponível” Em Moçambique, de acordo com no Moçambique, constitui um exemplo e “terra marginal”, além de usarem a o estudo da União Nacional de emblemático ao expropriar a terra de necessidade do aproveitamento dos Camponeses (UNAC) e da Justiça mais de 1.300 famílias, violando seus recursos naturais nelas existentes Ambiental (JA!), publicado em direitos e colocando-as em situações de como justificativa. Eventualmente, agosto de 2011, sobre o fenômeno riscos diversos. a maioria da população é retirada e de usurpação de terras naquele país, No último mês de agosto, o Ministro tem sua situação de extrema pobreza “os investimentos analisados têm da Agricultura moçambicano, José ainda mais agravada. Paradoxalmente, vindo a criar cada vez mais conflitos Pacheco, anunciou a transação de cerca o período de concessão - que pode e a agravar a situação de pobreza, de 6 milhões de hectares de terra a chegar até a 100 anos renováveis - e carência e vulnerabilidade das agricultores brasileiros num projeto a o envolvimento direto de governantes comunidades rurais. Os investidores ser desenvolvido nas regiões Centro e políticos mostram que os respectivos dos países nórdicos, apesar de nos e Norte de Moçambique. Denominado dividendos são partilhados entre si e seus países de origem cumprirem com Pró Savana e implementado no âmbito com as empresas estrangeiras. os mais elevados padrões de respeito do programa de Cooperação Triangular pelos direitos humanos e por todos para o Desenvolvimento da Agricultura As mesmas e velhas práticas os processos de participação pública das Savanas Tropicais em Moçambique A nova saga expansionista dos em qualquer empreendimento que (uma Cooperação Trilateral Brasil, países ricos e emergentes, na sua apresente potenciais impactos sociais Japão e Moçambique), o projeto maioria ocidentais, caracterizada pela e ambientais, em Moçambique, o seu envolve o governos brasileiro através corrida desenfreada na aquisição, comportamento e padrões a seguir da Agência Brasileira de Cooperação controle, transação e partilha de terras e são completamente distintos. As (ABC), Empresa Brasileira de Pesquisa recursos africanos, intensificou-se suas práticas alimentam um sistema Agropecuária (Embrapa), Empresa 32
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    Contra Corrente karmo de Assistência Técnica e Extensão populações que têm na agricultura e anos, de acordo com dados do Instituto Rural (Emater) e do Serviço Nacional na pecuária suas principais atividades Nacional de Meteorologia. O rigoroso frio de Aprendizagem Rural (Senar). O de sustentação. Nesse sentido, muitos do inverno impossibilitou a produção Japão está presente através da Agência governos africanos estão privilegiando agrícola de milhares de famílias. Japonesa de Cooperação Internacional um esquema de inserção na economia (JICA). global assentado na alienação dos seus Resistência e equilíbrio territórios, na sistemática violação dos Ainda assim, nos últimos dez anos, a Impactos relacionados ao clima direitos de seus povos e na crescente organização e mobilização da sociedade De um lado, governos e investidores exposição a riscos imprevisíveis e de civil africana e das comunidades financeiros estão empenhados na compra dimensão catastrófica. locais para assuntos relacionados com e aquisição de terras para a plantação de Cabe ressaltar que esta situação a invasão e expropriação das suas agrocombustíveis, sequestro de carbono será agravada pelo impacto das terras e dos recursos naturais têm se e exploração de recursos naturais – de mudanças climáticas que estão a afetar revelado uma alternativa viável diante modo a garantir a posse de ativos, com significativamente o modo de vida da incapacidade e incompetência das grandes valores e rendimentos a médio das populações africanas. Estima-se instituições dos Estados africanos e longo prazo, em prejuízo da maioria que a África seja o continente a ser em cumprir com os preceitos da da população africana. De outro lado, os particularmente mais afetado pelas governança ambiental e na promoção impactos do fenômeno de apropriação mudanças climáticas devido à sua fraca de um desenvolvimento sustentado nas de terra são devastadores para as capacidade de adaptação. Os seus grandes necessidades humanas atuais e futuras. comunidade locais e têm causado mais deltas estarão em perigo por se tratar Para além disso, é urgente repensar e conflitos de terras, aumento da pobreza, de regiões muito populares e bastante redefinir a matriz de desenvolvimento degradação florestal, deslocamento de expostas ao aumento de níveis do mar, e de governança, estabelecendo um populações locais, insegurança alimentar, às marés de tempestade e ao aumento equilíbrio entre as dimensões econômica, piora das condições de vida e aumento fluvial. Neste particular, Moçambique social e ambiental. Caso contrário, da vulnerabilidade das comunidades é considerado um dos países de África estaremos a assinar prematura e rurais, diante da crescente ameaça das mais vulneráveis às alterações climáticas criminosamente a nossa certidão de mudanças climáticas. ao longo das suas costas. Com um extinção e a das futuras gerações. A disponibilidade e acesso à terra e litoral de cerca de 2.700 km, 60% da sua água pelas comunidades locais têm sido população (estimada em 20,5 milhões) * Jeremias Vunjanhe é jornalista e coordenador de fortemente prejudicados pelas transações vive nas áreas costeiras, consideradas imprensa da Justiça Ambiental – Amigos da Terra de terras, dado que a maior parte delas baixas com praias arenosas, estuários e Moçambique e da Ação Acadêmica para o Desenvolvimento são em áreas férteis e próximas dos rios e mangais, e cuja sobrevivência depende, das Comunidades Rurais (Adecru) - jfvunjanhe@gmail.com fontes de água naturais, frequentemente em grande medida, dos recursos naturais. 1- Nota da editora: o termo expropriação é equivalente à usadas pelas comunidades. Desse modo, Em 2011, Moçambique registrou as palavra acarapamento utilizada no texto original e bastante a comercialização da terra afeta as temperaturas mais baixas dos últimos 50 comum tanto na África como na América Latina 33
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    Winnie Overbeek* Raposa no galinheiro Para garantir a continuidade de emissões de três empresas nos EUA, organização brasileira prejudica severamente o “bem viver” de comunidades tradicionais E m 1999, anos antes do lançamento do mecanismo de Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD), um dos primeiros projetos de carbono em áreas de floresta no mundo já havia iniciado. Trata-se de um projeto da ONG brasileira Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), em parceria com a ONG estadunidense TNC (The Nature Conservancy). O projeto está sendo desenvolvido no litoral do estado do Paraná, na região Sul do Brasil, mais especificamente, nos municípios de Antonina e Guaraqueçaba. Com recursos de três empresas americanas, a General Motors, a American Eletric Power e a Chevron, a SPVS adquiriu áreas que, juntas, abrangem 18,6 mil hectares. Com atividades de preservação e restauração de áreas degradadas, a entidade afirma já ter removido 860 mil toneladas de carbono da atmosfera1. Na lógica dos projetos REDD, os créditos advindos do carbono seriam aproveitados pelas três empresas dos Estados Unidos, que financiam a SPVS, para compensar uma parcela das suas emissões de poluentes. No entanto, não foram encontradas muitas informações no site da SPVS, nem no site das empresas, sobre os valores repassados por essas empresas à SPVS. As comunidades locais visitadas tampouco têm informação a respeito, o que já mostra uma falta de Winnie Overbeek informação e transparência nesse aspecto. O site da SPVS2 divulga que, segundo o Serviço Florestal Brasileiro, o projeto está na categoria de “ações de REDD que têm gerado bons resultados”. No entanto, o projeto tem causado um impacto devastador sobre as comunidades locais A imposição de regras “externas” e a utilização da força bruta não combinam com o histórico da comunidade residentes em torno das reservas da SPVS. 34
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    Contra Corrente Um históricode “bem viver” e, sobretudo, de fazendeiros. Estes pela ação dessa organização. Segundo Desde o processo de colonização começaram a registrar e se apropriar os moradores, inicialmente, a SPVS da região, o litoral paranaense tem das terras, muitas vezes utilizando-se empregou 47 pessoas da comunidade, sido habitado por comunidades da grilagem (prática comum nas áreas pagando pouco mais de um salário chamadas de ‘caiçaras’3, além de rurais no Brasil). Em consequência mínimo. Três dos funcionários eram comunidades indígenas e quilombolas. disso, as famílias das comunidades mulheres com salários ainda menores As comunidades se caracterizam por foram ameaçadas e, muitas, expulsas que os dos homens. A SPVS prometeu serem agricultoras e extrativistas. de suas áreas. Os fazendeiros usavam que os empregos durariam cerca de 40 Historicamente, elas convivem de modo ‘jagunços’ e até mesmo búfalos para anos, o mesmo tempo de existência respeitoso com a mata, onde produzem invadir e tomar as propriedades dos previsto para o projeto. A maioria seus alimentos de subsistência pelo pequenos agricultores. A utilização da dos funcionários foi empregada como sistema de pousio (descanso), com criação de búfalos nessa região, em guarda florestal. Além destaque para a produção da farinha vez do gado bovino, deve-se ao fato do emprego, a SPVS prometeu de mandioca. Tiram da Mata Atlântica melhorias o palmito para se alimentar, cipó para na renda e na vida das famílias. fazer artesanato e madeira para a construção de moradias, cercas e canoas “As comunidades Impactos sobre a comunidade para a pesca. Praticam a caça e a pesca No entanto, a chegada da SPVS para a alimentação de suas famílias. buscam resistir à constituiu um verdadeiro golpe Portanto, percebe-se que essas para as comunidades. Foi a partir comunidades dependem totalmente pressão da SPVS, da compra das terras pela SPVS que da floresta, com a qual construíram as comunidades nessas áreas e no uma convivência harmoniosa. Prova que só pode ter como entorno começaram a perder o acesso disso é o fato de que essa região à floresta abundante na região e aos situa-se entre as mais preservadas objetivo a expulsão rios - ou seja, começaram a perder do bioma Mata Atlântica, o mais liberdade, autonomia, o direito de devastado do País. de todas elas.” ir e vir e de exercer o seu modo de As comunidades nunca se vida. Perderam até mesmo o direito preocuparam em registrar ou cercar de cortar árvores nativas de suas as terras onde moram, já que próprias propriedades, como foi o consideravam esse território como uma de este ser um animal mais rústico caso de um morador que plantou, área de uso comum, de usufruto de e, portanto, mais adequado para para sua sobrevivência, uma área com todos. As terras são, na sua maioria, conviver com o ambiente local nas palmito-juçara, uma árvore nativa. devolutas e sobre as quais as famílias áreas desmatadas, constantemente Hoje, ele não pode mais cortar essas sempre tiveram suas posses, repassadas alagadas e, em geral, árvores, mesmo que elas estejam em de geração em geração. Trabalhavam no de difícil acesso e locomoção. sua própria terra. território, às vezes de forma individual, Para amedrontar as comunidades, a por família, e às vezes coletivamente, Chegada da SPVS = promessas SPVS começou, junto com a polícia nas roças itinerantes. não cumpridas ambiental do estado do Paraná, No final dos anos de 1990, a SPVS chamada de Força Verde, a perseguir Chegada dos fazendeiros = chegou à região e começou a comprar as comunidades. Essa violência grilagem grandes áreas dos fazendeiros. Ela continua até hoje, pois a Força A primeira grande mudança na também conseguiu comprar algumas Verde invade até mesmo as casas das região ocorreu a partir dos anos de áreas de posseiros, sobretudo daqueles pessoas, sem que possua a devida 1960, com a chegada de madeireiras que se sentiram mais pressionados autorização para isso: 35
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    karmo Ummorador de uma das com gripe e dor de cabeça. Já levou vivendo no local onde moravam há comunidades conta que: o revólver em punho, meu cunhado gerações. Famílias que produziam “Queriam fazer parceria com nós disse: “O que é isso rapaz, estou e vendiam farinha, atualmente, ali. Nós até aceitemos de fazer uma adoentado aqui, você entra desse compram tudo para comer, inclusive a parceria (...) mas aí, de repente, eles jeito aí”. (...) É dessa maneira que eles farinha. Com isso, mudou a qualidade começaram a mandar as guardas chegaram várias vezes em casa. E da alimentação - um dos motivos também. Passou mais ou menos uns a parceria? Desse jeito não adianta pelos quais a saúde das pessoas não três dias aí, começaram a mandar os parceria; parceria para te incomodar. é mais a mesma, segundo relatos dos guardas lá em casa. Entravam dentro Então, não adianta, melhor suspender. moradores. Hoje, parte da população da casa dizendo que tinha coisas E eles queriam enganar muita gente local tem hipertensão arterial, estresse, escondido ali, tanta coisa errada. E se desse jeito.” entre outros problemas de saúde. Além tivesse fechada a porta, entrava para disso, como há um esvaziamento dentro. Batiam na porta, eles falaram Uma outra moradora conta que o das comunidades, a classe média de que era ordem de juiz, não estavam marido foi algemado em casa pela Curitiba tem comprado casas e áreas nem ligando, mas entravam assim Força Verde, que disse que era o na região para passar seus finais de mesmo. (...) a Força Verde entrava ali, “serviço” deles. Em outra ocasião, semana e feriados. isso várias vezes, não era uma nem quando ele cortou uma árvore para As promessas de melhoria das duas vezes, muitas vezes. (...) Nossa fazer uma canoa, ficou preso por condições de vida e geração de casa ali, se tiver algum tipo de arma 11 dias. Para sair, teve que pagar renda resultaram em algumas aí, que prendesse tudo, levasse (...). fiança. Hoje vivem com dificuldades iniciativas, que foram se esvaziando Não podia ter um facão que eles e medo: se ficar em casa, não tem ao longo dos anos. Um trabalho queriam levar, queriam tudo. (...) Não como sobreviver. Mas se o marido sai de organização de um grupo de apresentavam nada, só chegavam para conseguir algum trabalho fora, mulheres em torno do propósito de e estavam dentro de casa lá. Nessa a esposa e as crianças ficam numa gerar renda através de corte-costura hora, não estava em casa quando situação de medo e insegurança, o funcionou algum tempo, mas hoje eles chegaram, com revólver em que mostra também que os impactos está parado, segundo os depoimentos punho. Meu cunhado estava deitado da perseguição e do projeto da SPVS de várias mulheres das comunidades. na cama, a porta estava encostada afetam as mulheres e as famílias E a promessa de emprego por parte assim, meu pai estava lá fora. Eles como um todo. da SPVS tampouco foi cumprida. Ex- entraram para dentro, empurraram Hoje, muitas famílias vivem empregados das comunidades contam a porta, bateram até na porta até traumatizadas e a situação é de que a grande maioria foi demitida, sair a trancazinha da porta. Ainda o tamanha gravidade que várias restando apenas sete funcionárias. meu cunhado estava meio adoentado acabaram desistindo de continuar Apenas um trabalho de produção 36
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    Contra Corrente de melparece ter dado certo, com a área da SPVS mas, segundo os pode mais. Antes não comprava feijão, porém não envolve diretamente as moradores, as áreas de florestas sob não comprava milho, muitas verduras comunidades mais impactadas. controle das comunidades estão em plantava, que podia desmatar um melhores condições, se comparadas pouco, não mata alta, mais baixa, ele Árdua luta pela própria terra com as áreas da SPVS. roçava, plantava, ele colhia a maioria No entanto, as comunidades ainda das coisas da terra. E hoje não pode resistem à pressão da SPVS, que só Futuro ameaçado plantar, tudo tem que comprar. (...) pode ter como objetivo a expulsão de Perto de uma das comunidades Antes, a gente não via enfermidade. todas elas. Uma delas organizou-se de encontra-se uma casa no meio da Hoje, a maioria vive até doente, forma especial. No início da década floresta onde a SPVS faz pesquisas muitos. (...) Eles falaram, prometeram, passada, em uma das localidades no das espécies da Mata Atlântica, que iam ajudar meu pai mas, até hoje, município de Antonina, um fazendeiro graças à parceria com o banco a gente nunca viu nenhuma ajuda, queria vender sua área para SPVS, privado HSBC, através da Parceria sempre piorou porque, no caso, eles o que poderia levar à expulsão de de Clima da HSBC (HSBC climate falaram que iam ajudar e depois veio todas as famílias que viviam no local. partnership, no original, em inglês). a Força Verde e ainda queriam levar Elas se organizaram e com o apoio Segundo o site da HSBC, trata-se de meu pai preso. Essa é a ajuda deles.” do Movimento dos Trabalhadores um ‘programa ambiental inovador’ Rurais Sem Terra (MST), realizaram, para ‘dar continuidade à preservação Para “atacar” o aquecimento global, em 2003, uma ocupação. Atualmente, do planeta’.4 é urgente também que as empresas há 20 famílias no local lutando pela Enquanto isso, o futuro das estrangeiras envolvidas no projeto oficialização do acampamento, que comunidades está extremamente da SPVS comecem imediatamente a tem o nome do ambientalista José ameaçado se a proposta de reduzir suas emissões de carbono, em Lutzenberger, para que seja um preservação das áreas florestais da vez de compensar emissões por meio assentamento da reforma agrária. SPVS, que conta com todo o apoio de compra de créditos de carbono Ao longo da luta árdua dessa do aparelho estatal, principalmente vindos de uma área onde o povo é comunidade contra as pressões do da área ambiental e da área policial, castigado por algo que deveria ser fazendeiro, da SPVS e de órgãos continuar dominando na região. motivo de respeito: ambientais, foram denunciados É absolutamente urgente que sua prática de conservação da floresta. crimes ambientais cometidos pelo parem o abuso e a perseguição das próprio fazendeiro, como o desvio comunidades. O que ocorre nessa Winnie Overbeek é coordenador internacional do de um rio e o uso indiscriminado de região, conforme testemunham os Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais (WRM, sigla agrotóxicos, os quais não receberam moradores, são violações graves dos em inglês) e membro da Coordenação Nacional da Rede atenção dos órgãos ambientais. direitos humanos, inclusive sociais, Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais, pela Rede Por outro lado, a comunidade culturais e ambientais. Alerta Contra o Deserto Verde - winnie@wrm.org.ur realizou pequenos trabalhos de Uma moradora conta que: reflorestamento e, a partir da opção “Sim, a gente sempre manteve a pela agroecologia, escolheu a floresta. Só que, às vezes, a gente 1- http://www.revistavisaoambiental.com.br/site/index. proposta de trabalhar coletivamente precisa derrubar alguma coisa php?option=com_content&view=article&id=643:projeto-de- carbono-colabora-com-o-desenvolvimento-sustentavel-de- através do sistema agroflorestal, também, às vezes a gente precisa comunidades-no-parana&catid=5:noticias&Itemid=5 como proposta principal para construir uma casa, precisa tirar uma 2 - http://www.spvs.org.br/download/boletins/bol_jan10.html : futuramente gerar renda para as madeira. No caso, não pode e, aí, fica 3 - Comunidades que surgiram da miscigenação genética e cultural entre os primeiros colonizadores portugueses e famílias. Além disso, cada uma das difícil. (...) Antes a gente fazia para indígenas que viviam no litoral. Vivem de forma isolada, famílias terá sua área individual para plantar roça onde hoje você não pode praticando diferentes atividades para sua sobrevivência. (fonte: http://www.ilhabela.com.br/CULTURA/index.html) sua subsistência básica. mais. Quando a SPVS entrou, acabou 4 - http://www.hsbc.com.br/1/2/portal/pt/sobre-o-hsbc/ A área do acampamento faz limite tudo. Onde meu pai morava, hoje não sustentabilidade/meio-ambiente/hsbc-climate-partnership 37
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    O REDD navida real No Amazonas, a flexibilização da legislação, o ajuste estrutural das políticas ambientais e a privatização das unidades de conservação estaduais estão umbilicalmente relacionados à implantação dos mecanismos de “economia verde”. Para piorar, comunidades que preservam a floresta, de fato, são impedidas de viverem de modo tradicional “ É interessante, nessa discussão do REDD e de tudo o que está A gente também percebe que, juntamente com o REDD, foi feito nos por trás, observar que a primeira lei de mudanças climáticas últimos anos, a flexibilização das leis ambientais, exatamente para do Brasil foi feita aqui no Amazonas, antes até da lei garantir o REDD. Você faz uma lei - que é a concessão de florestas federal. E houve toda uma preparação sobre a criação de unidades de públicas; depois faz uma outra lei - que é a de regularização fundiária conservação, que a gente percebe hoje que foi feita exatamente para na Amazônia, a 11.952; depois, faz a mudança do Código Florestal. vender mesmo os créditos de carbono. Ou seja, três leis super importantes que vão atingir diretamente a Temos mais de 60 unidades de conservação no estado, entre reserva Amazônia. Por que tudo isso? A legislação ambiental era muito rígida de desenvolvimento sustentável, reserva extrativista, floresta estadual com a Amazônia, na forma de preservar, de utilizar os recursos e e parque estadual. Estes tipos de unidades foram criadas no estado; e, com essa flexibilização agora, você vai poder desmatar, vai poder hoje, estão negociando um mercado de carbono em Chicago. fazer várias coisas, desde que depois pague com compensações ou Foi criado também a FAS, Fundação Amazonas Sustentável. mitigações ambientais. Então, na verdade, você percebe um REDD, Quem investiu nela foi o Bradesco, a Coca Cola... Várias empresas mas um REDD estadual. A gente vê isso claramente na forma como foi transnacionais investiram muitos recursos. E em cima deste fundo, construído para chegar neste ponto em que chegou. Para nós, é uma elas têm dado R$ 50 reais por família por mês. O que é ruim é que preocupação muito grande. as famílias não podem mais fazer nada na terra. Toda aquela forma Seria legal se a gente pudesse fazer um levantamento, um de lidar com a terra - que sempre tiveram porque são comunidades acompanhamento de todas as unidades de conservação e ver como as tradicionais, ribeirinhos... Hoje não podem mais fazer nem uma roça unidades mais antigas não modificaram e não melhoraram a qualidade pra plantar a mandioca pra fazer farinha. Isso, pra nós, é um absurdo de vida dessas comunidades. É o contrário. E muitas delas pioraram muito grande porque se eles sempre fizeram e sempre preservaram, por porque agora elas não podem nem mais plantar a mandioca que antes que o estado hoje está reprimindo? se fazia a farinha, um dos meios de vida deles. Outro agravante é que a FAS, apesar de receber todos estes recursos Hoje, a gestão dessas unidades de conservação estaduais é feita pela FAS. do estado, é uma entidade privada. E ninguém sabe quanto ela recebe, A gente não consegue entender isso porque, pela lei do estado, [isso] seria de que forma ela presta conta, porque ela não presta conta. É uma inconstitucional. Porque se é uma unidade de conservação do estado, eu caixa preta, que ninguém abre, ninguém sabe. Tudo isso é bastante não posso passar aquilo para uma entidade privada. E em todas as unidades complicado. O ex-governador Eduardo Braga continua ganhando de conservação do estado, a gestão é da FAS. Já era da FAS, quando a FAS prêmios internacionais porque ele se diz como defensor da floresta. E, foi criada... Criaram vários institutos para administrar, para fazer a gestão na prática, a gente tem visto que o estado tem ganho muito dinheiro das unidades de conservação. Hoje, elas estão todas dentro da FAS. A com a preservação, enquanto as famílias continuam pobres, exploradas, gestão não é do governo do estado, apesar dessas unidades de conservação e os conflitos agrários que existiam nessas áreas onde foram construídas serem do estado. A gestão é da FAS e todo recurso que vem para o governo unidades de conservação não foram resolvidos. Então, este é um do estado, vai também para a FAS. E quem é que administra a FAS? complicador muito grande porque nós lutamos pela demarcação das Dentre outras pessoas, o Virgílio Viana, ex-secretário de Desenvolvimento unidades de conservação, mas para garantir a vida que as comunidades Sustentável do Estado do Amazonas, que era a Secretaria de Meio tradicionais sempre viveram. E a gente tem visto que as unidades do Ambiente. Tudo é coligado para arrecadar dinheiro e não repassar para estado não têm respondido a isso. quem, de fato e de direito preserva, que são as comunidades tradicionais.” karmo Depoimento de Marta Valéria, Comissão Pastoral da Terra (CPT), regional Amazonas, participante do Seminário Regional sobre Mudanças Climáticas na Amazônia, recolhido por Lucia Ortiz, em agosto de 2011 (link para o vídeo-testemunho: www.youtube.com/watch?v=1M5bq1l-E1Y) 38
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    Alimento para amente Para contribuir na compreensão deste tema complexo e ainda tão obscuro, a Contra Corrente preparou uma relação de materiais, disponíveis na internet, sobre os principais instrumentos do capitalismo “verde”, como REDD, pagamento por serviços ambientais e mercado de carbono, dentre outros. Aproveite! Pagamento por Serviços Ambientais (TEEB) Basta de dívidas: pelos direitos humanos e os e flexibilização do Código Florestal para um direitos da natureza, Jubileu Sul, agosto de 2010, capitalismo “verde”, Terra de Direitos, agosto de em português: http://www.jubileubrasil.org.br/ 2011, em português: somos-credores/divida-ambiental/Cartilha%20 http://terradedireitos.org.br/biblioteca/pagamento- basta%20de%20debitos%20final.pdf por-servicos-ambientais-e-flexibilizacao-do-   codigo-florestal-para-um-capitalismo-verde/ REDD na Colômbia, Censat Amigos da Terra Colômbia, agosto de 2010, em espanhol: Projetado para fracassar? Os conceitos, práticas http://www.censat.org/component/content/ e controvérsias por trás do comércio de carbono. article/1021  Fern, junho de 2011, em português: http://www.   fern.org/projetadoparafracassar O REDD e a destruição dos povos indígenas do planeta, artigo da Organização Fraternal Negra Banco Mundial: catalizador da devastadora Hondurenha, Ofraneh, agosto de 2010, em mudança climática, Amigos da Terra Internacional, espanhol: junho de 2011, em espanhol: http://www.foei.org/ http://www.censat.org/component/content/ es/recursos/publicaciones/pdfs-por-ano/2011/ article/1027 banco-mundial-catalizador-del-cambio-   clima301tico-devastador/view REDD e o futuro das florestas: uma opção pelo ambientalismo de mercado?, Amigos da Terra O REED+ e os mercados de carbono: dez mitos Brasil, abril de 2010, em espanhol: explodidos, Fern, Amigos da Terra Internacional, http://www.natbrasil.org.br/Docs/publicacoes/ Greenpeace e Fundação Floresta Tropical, junho cartilhareddweb.pdf de 2011, em português: http://www.fern.org/ REDDdezmitosdetonados Documento final sobre Dívida Climática da Conferência dos Povos, em Cochabamba, Bolívia, abril de 2010, em espanhol: http://www. Boletim Desenreddando REDD, já com quatro edições, Censat Amigos da Terra Colômbia, jubileubrasil.org.br/somos-credores/divida-ambiental/divida-climatica-resultado-da- 2011, em espanhol: conferencia-de-cochabamba-abril-2010/ http://www.censat.org/articulos/10062-desenreddando/   Declaração sobre REDD do Grupo de Trabalho Floresta da Conferência dos Povos, em Reflexões estruturais sobre o mecanismo de REDD, edição 146 do Cadernos IHU Idéias, Cochabamba, Bolívia, abril de 2010, em espanhol: entrevista com Camila Moreno, 2011, em português: http://cmpcc.org/2010/04/28/conclusiones-finales-grupo-de-trabajo-14- http://www.ihu.unisinos.br/uploads/publicacoes/edicoes/1303995179.8012pdf.pdf bosques/#more-1860 Justiça Climática, Proposta - Revista Trimestral de Debate da Fase, no 122, 2011, em Carta de Belém, resultante do Seminário Clima e Floresta - REDD e mecanismos português: http://www.fase.org.br/vitrine/lojinha/produto.php?id=148 de mercado como solução para a Amazônia?, em Belém, outubro de 2009, em   português: http://www.jubileubrasil.org.br/somos-credores/divida-ambiental/carta-de- REDD, Uma Leitura Crítica, coletânea de artigos, dezembro de 2010, em espanhol: belem-sobre-o-clima-e-a-floresta/ http://www.carbontradewatch.org/articles/redd-una-lectura-cr-tica.html  REDD Não! Guia para Povos Indígenas, IEN, Rede Ambientalista Indigena, 2009, em Declaração de Cancun: mudar o sistema, única forma de superar a crise climática, espanhol: dezembro de 2010, em espanhol: http://www.jubileubrasil.org.br/somos-credores/divida- http://noredd.makenoise.org/no-redd-guia-para-pueblos-indigenas.html ambiental/declaracao-de-cancun-mudar-o-sistema-unica-forma-de-superar-a-crise-   climatica/ Mitos sobre o REDD, Amigos da Terra Internacional, 2008, em espanhol: http://www.foei.org/es/recursos/publicaciones/pdfs-por-ano/2008/redd-myths/view Declaração Cumbre Sul-Sul sobre Justiça Climática e Financiamento para o Clima, dezembro   de 2010, em espanhol: http://www.jubileubrasil.org.br/somos-credores/divida-ambiental/ Vozes das Comunidades Afetadas pelas Mudanças Climáticas, Amigos da Terra declaracao-cumbre-sul-sul-sobre-justica-climatica-e-financiamento-para-o-clima/ Internacional, novembro de 2007, em português: http://www.natbrasil.org.br/Docs/   publicacoes/mudancas_climaticas_portugues_NAT.pdf REDD: realidades em branco e preto, Amigos da Terra Internacional, novembro de 2010, em português: A História do Mercado de Emissões, Free Range Studios (mesmo gurpo que produziu a http://www.foei.org/es/recursos/publicaciones/pdfs-por-ano/2010/redd-as-realidades-em- História das Coisas), Animação, 20 min, em inglês, legendado: http://www.youtube. branco-e-preto com/watch?v=IPS5jTwo1Tk
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    “A humanidade estádiante de uma grande encruzilhada: continuar pelo caminho do capitalismo, da depredação e da morte, ou empreender um caminho de harmonia com a natureza e o respeito à vida”. (Acordo dos Povos, abril 2010, Cochabamba, Bolívia) A pifeira Zabé da Loca é um símbolo de resistência e comunhão com o ambiente em que vive, o cariri paraibano.