SlideShare uma empresa Scribd logo
1
E

ra uma vez...

No Reino Encantado da Vila das Artes, um lugar
de sonhos, onde viviam algumas crianças que tinham o
coração enfeitado de arte.
	

	
A cada dia, cada uma delas procurava trazer para o
Reino Encantado muita alegria e bom humor. Algumas
tinham os cabelos dourados feito fios de ouro, outras
tinham madeixas escuras que mais pareciam feitas de
chocolate, outras pareciam feitas de mel...
	
Mas o que importava mesmo é que, com tanta arte
brotando de cada coração, elas, juntas faziam daquele
reino um belo lugar. Nenhum outro reino ao redor
chegava a se comparar. Era florido, limpo, arejado, bem
grande. Todos que lá chegavam ficavam admirados e de lá
não queriam mais sair.
	
Lá, cabia muita gente, de todo jeito. Os que lá
chegavam também eram contaminados por aquele
sentimento colorido e divertido e se transformavam em
gente que parecia ter um brilho no olhar e tudo que faziam
se transformava em artefato bonito.
	
Muitas saíam pelo mundo, encantando a todos,
levando um pedacinho daquele lugar por onde passavam.
Cada um tinha uma história interessante para contar.

3
Tinha a menina que caiu do beliche, a que passou por
uma experiência de quase morte; a garota que adorava
passear com o pai e os irmãos; a que morava em uma casa
cheia de gente boa e de bichos; o menino que se perdeu
por causa da sua pipa; o garoto que fazia a mãe passar
vergonha; o que foi levado por um jumento em disparada;
a garota que tinha festas animadíssimas; a que tinha uma
super irmã que a defendia; a menina que ficava na janela
esperando o ‘sol baixar’ para poder brincar na rua; o
menino que tinha um amigo e, juntos gostavam de se deitar
no meio da rua, e sentir as deformações das pedras no
corpo; e a história da menina que tinha o cabelo liso, com
pontas enroladas que a mãe mandou cortar para enrolar por
inteiro.
	
Cada um deles fazia do Reino Encantado da Vila das
Artes um ambiente alegre, divertido e leve. Lá era tão
encantado, tão encantado que quem por lá passasse tinha
a vida recheada de boas novas. Era tanta alegria, mas
tanta alegria que era difícil ver gente chorar. Era gente que
casava, mulheres que davam à luz, papais ganhavam não
um, mas dois presentes da cegonha... Enfim, lá quem estava
triste, rapidinho ficava feliz.

4

5
A

ndria

Magalhães

E

ra a noite de 21 de janeiro de 1996. A
mãe tava na sala preparando o bolo
do meu aniversário de oito anos.

“
“

Mãe, posso ficar aqui? Pra ver a senhora fazendo o bolo?”
Não!” A mãe não tem coração. Eu
insisti.

	

“Ô, mãe, deixa. Amanhã é o meu aniversário e quero ver o bolo ficar pronto.”

	
“Vá dormir! Se você dormir, logo o dia amanhece e você vê o bolo.” Acreditei
nela e fui dormir.
	
Escalei o beliche num salto e me estirei no colchão. Fechei os olhos com força e
abri um segundo depois: a mãe ainda confeitava o bolo. Fechei os olhos novamente.
Abri. A mesma cena. Repeti a brincadeira até dormir de verdade.
	

Este é o som que eu faço enquanto durmo: Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzz...

	
Este foi o som que minha mãe escutou enquanto batia a massa do bolo: PLEFT
PLOFF.
	
Podia ser um saco de batatas caindo, mas era eu. Tinha rolado e despencado
da altura do primeiro andar do beliche que eu dividia com as minhas irmãs.
	

Como eu não tivesse acordado, a mãe nem ligou.

	
Este foi o som que eu fiz enquanto dormia no chão do quarto à espera do dia
do meu aniversário:
	Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzz...

6

7
A

C

láudia

Pires

nderson

Damasceno

“N
		

o dia das mães de 1999 nossa professora da extinta alfabetização nos
obrigou a passar batom vermelho e elaborar um cartão com beijos de
batom e frases bonitinhas para as mamães.

“A

dorava os passeios matutinos diários com o pai e os irmãos Renato e
Fábio, mas na hora de voltar pra casa dava um trabalhão.

Obrigado tia Lucinda!

	
Fugia correndo e se escondia adentrando as portas abertas da vizinhança. E aí,
só a mãe pra resgatá-la de volta ao lar.
	
Por outro lado, foi sempre muito afeita à observação. Gostava muito de
apreciar o movimento da rua sentada na janela de casa.”

8

9
C

D

hristiane

de Lavor

Gomes

“Q

uando eu tinha uns 5 ou 6
anos tive uma experiência
incrível de quase morte.
Em um dia qualquer, que não lembro
qual era, depois de um dia exaustivo de
muito brincadeira e diversão, (espero)
me recolhi aos meus aposentos para
iniciar mais uma noite de descanso. Qual
não foi a minha surpresa quando, no
meio da noite eu acordei e vi um mundo
extremamente escuro.

	
Quando me mexi, percebi que estava em um lugar estreito, pois não havia
espaço para levantar os braços. Comecei a apalpar a superfície que estava sobre
mim. Era de madeira. Meu coração disparou. Fiquei apavorada. Percebi que estava
enclausurada. Seria aquela superfície de uma tampa de CAIXÃO???
	
Quando a dúvida se fez certeza, fiquei apavorada. Meu coração, que já estava
aos pulos, quase saía pela boca. Na hora, não pensei que se já estava morta, não
tinha de sentir medo já que estava sem jeito mesmo. Pois bem, comecei a chorar e
a apalpar com mais vigor a ‘tampa do caixão’ e a chorar e gritar, desesperada pela
minha mãe: “Mãe, Mãe...”, mesmo sabendo que ela não poderia surgir ali, embaixo
da terra para me salvar, a menos que ela tivesse se transformado em um verme e
iria fagocitar meu lindo corinho. Não, seria macabro demais. Minha mãe não faria
isso. Ou faria?! Continuei a minha saga solitária de tentar, a todo custo, um contato
mais imediato com minha mãe. Quando o desespero atingia alto grau, vi uma luz
no fim do túnel. Literalmente! Quando olhei para os lados, vi que havia luz e o
som da voz da minha mãe, ao longe – que nesse dia, nunca pareceu tão agradável e
reconfortante – quando ouço, ela perguntar – “Onde é que tu ta, menina?” E foi aí
que resolvi me mexer. Coloquei a cabeça para fora e disse “Tô aqui”. Foi então que
percebi que tinha caído da cama e rolando para baixo e nem sequer acordei.

“S

	

enta que lá vem a história, e
segue
anexado apenas uma foto 3 x
4, os registros da minha infância estão
mais na minha memória, e também vai
a minha pulseirinha da maternidade,
porque fui adotada apenas com três
dias de nascido e ainda estava com essa
pulseirinha.
E sou uma Elis Regina, nascemos no mesmo dia e mês, rs.

	
Morei sempre numa casa cheia de gente boa e bichos. Cavalos, vaca, cachorro,
gato, tartaruga, porco, cabra... Pois é, imagina só que loucura, eu brincava o dia
todo, tomava leite quentinho da vaca pela manhã, assistia os partos das vacas, e
também via muito bezerro,
cavalinho morrer nos partos que minha fazia.
	
Tomavámos banho de cacimba, minha irmã saia correndo atrás de mim, para
passar caco de telha nas minhas costas para tirar o ceroto, rsrs, eca, eu sofria pra
tomar banho, odiava, porque tinha essa parte de higienização massacrante.
Tinha leite para a pivetada toda da favela.
	
A gente tirava os carrapatos enormes dos bichos e ficava espetando com
pedaço de arame quente, rsrssrsr. pense numa imundice, mas, é criança, e
brincadeira de criança é isso, rrsrssr. Brincava de escolinha, ZIG ZAG e outras.”

	
Graças a deus que foi apenas um susto. Ficou a história para contar e muitas
risadas depois.”

10

ani

11
E

noque

Ferreira

“Q

L

eandro

Ferreiras

“N

a parada de ônibus, Indo
pra casa da minha avó
com meus pais, minha mãe
percebeu que havia logo à frente um
deficiente físico e logo desviou minha
atenção para o outro lado, segurou
forte minha mão e fez com que eu me
interessasse por outra coisa.

	
Não adiantou, vi aquele homem e logo quis soltar da mão dela, ela já sabendo
o que aconteceria segurou mais forte, mas não adiantou, saí correndo e fui encará-lo,
fiquei rodando várias vezes ao redor dele procurando a outra perna, pra mim aquilo
era muito estranho. Logo gritei perguntando aos meus pais: -MÃE, CADÊ A
OUTRA PERNA?
uando eu tinha 12 anos estava correndo atrás de uma raia (pipa). Corri
tanto... Atravessei um rio, entrei em uma mata fechada, então me perdi.

	
Fiquei com muito medo, já era noite, comecei a chorar. Para minha sorte,
estava passando um carroceiro em uma estrada próxima à mata, que viu meu
desespero e me levou para casa.”

	
Outra estória parecida aconteceu dentro do ônibus indo para o interior onde
minha mãe nasceu, estávamos olhando a paisagem quando minha mãe desviou
minha atenção para alguns cavalos, eu sem muito interesse logo percebi que na
porta do ônibus havia um deficiente físico também sem uma perna e logo gritei:
- MÃE, OLHA UM SACI PÊ-LE-LE!
	
Minha mãe sem dar atenção me fazia olhar pra outro lado, e vendo que ela
não me dava atenção, eu gritava mais alto ainda, queria que ela visse o Saci Pêle-le. Isso fez com que todo mundo do ônibus caísse na gargalhada, até mesmo o
deficiente, menos minha mãe, que ficou morrendo de vergonha.
	
E parece que isso sempre acontecia comigo, porque perto de onde moro
morava 	 uma família de anões, e tão grande foi minha surpresa quando vi mãe
e filha anãs pela primeira vez que gritei no meio da rua: - OLHA MÃE, UMA MÃE
PEQUENA!
	
Acho que o meu forte era sempre fazer minha mãe passar vergonha.“

12

13
V

anessa

Marinho

“M

e pediram uma história
de quando eu era
pequena.

M

arina

Carleial

“N
	

essa época, eu tinha festas de aniversário animadíssimas, cheias de
convidados, muita alegria, bolinhos, docinhos e lembrancinhas! Tudo
decorado artesanalmente pela minha mãe.

Lembro que a casa ficava cheia de papéis coloridos e bombons meses antes!”

14

	
Pensei: Meu Deus, qual?
	
	
E voltei no tempo, no tempo bom,
tempo que podíamos correr na calçada
só de calcinha, tempo bom de quando
a gente roubava goiaba do vizinho,
tempo bom que na Páscoa a gente
ganhava pinto do colégio e no 7 de
setembro ia desfilar nas ruas.

	
Aquele tempo que não tínhamos tanto brinquedo (eu pelo menos não tinha
tanto assim), mas que a gente ficava olhando pra janela pra ver que quando “o sol
baixasse” como dizia minha mãe pra gente poder descer ou sair de suas casas pra
brincar com os vizinhos de coisas tão simples mas que naquela época era tudo: pega
pega, esconde esconde, carimba entre outros.
	
	
E os doces? Pirulito do zorro, quebra queixo do baixinho lá da portaria da
Antônio Sales do Santo Inácio. Eita, como passa um filme na cabeça da gente, e
eu agradeço a Deus por ter guardada na minha memória todas essas lembranças,
lembranças boas, gostosas e qua dá uma saudade e vontade de voltar a ser criança.
	
	
Hoje minhas filhas olham pra mim e dizem: “mãe eu quero logo ficar grande
como você”, e eu respondo: Filha, curta sua fase criança, aproveite essa etapa tão
linda, tão gostosa da sua vida, pra quando você crescer poder olhar pra trás como a
mamãe e ter saudade de bons tempos que tivemos.
	
	
Obrigada meu Deus, obrigada meus pais, por tudo.
	
	
Feliz dia das crianças!”

15
V

R

ictor

Furtado

“Q

uando tinha 7, Caio sempre me acompanhava nas brincadeiras. Era ele
o vizinho da esquina da nossa rua de pedra.

	
O que mais gostávamos de fazer era deitar no meio da rua, sentir as
deformações das pedras no corpo, desafiar o parco tráfego do bairro. De certa
forma, ali pulsava um pacto inconsciente pelo desejo de morte.
	
Eu, que nesse carnaval fechava os olhos ao abraçar meu amigo, não via que
Caio encarava a câmera como se soubesse de seu destino infalivelmente precoce. A
morte foi bem vinda, acredito. Havia um desejo mórbido que traduzia nossa vida
juntos.”

16

ruth

Lopes

“L

embrança da infância tem gosto de saudade, no tempo que podíamos
brincar na rua com nossos amigos, brincadeiras de pega-pega, elástico,
corda, carimba, enfim, são várias essas que eram feitas tudo na rua.

	
Eu era bobinha, quando brigavam comigo não sabia revidar, mas tinha
minha super irmã pra me defender. Mas, nós brigávamos muito e ela dizia que me
defendia por que só ela podia brigar comigo.
	
Tempo bom, nessa época nossa única preocupação era com o carro preto que
roubavam crianças. (risos)”

17
R

úbia

Mercia

A

ndreia

Pires

“E

u era criança e gostava do cabelo de elba ramalho, porque era grande e
cacheado.“

18

19
M

V

Rocha

arcos

Martins

“A

ictória

minha infância foi trabalhando: fazenda, interior então era muito bom e
me divertia.

	
Uma vez, andei de jumento e ele disparou, eu em cima de uma cangaia,
pedindo socorro para a minha mãe e para o meu pai. Até que cheguei em casa. Não
sei como não cai. Era uma distância como daqui à Casa Amarela. Era eu segurando
e o jumento pinotando.”

“N

a foto, eu estava no Jardim
I e acho que a cara meio
emburrada era por conta
do short do vestido que eu não gostava.
Porém, minha história mesmo diz
respeito ao cabelo.

	
Minha mãe sempre teve o cabelo muito liso, mas adorava cachos e como não
podia tê-los, depositava em mim a esperança dos cabelos cacheados. O meu, por sua
vez, era ondulado e tinha pequenos cachos nas pontas, que ela cuidava com carinho
e não cortava na torcida para que os cachos aumentassem.
	
Fiquei até o final da alfabetização sem cortar de verdade o cabelo (que já
estava na cintura), apenas “aparando” levemente as pontas. Até que, em um belo
dia, alguém disse à minha mãe que se cortasse o meu cabelo, ele cacheava de vez.
Ela, lógico, apenas esperou passar o “ABC” e correu comigo pro salão. Eu, afoita e
extasiada com a novidade de cortar o cabelo, pedi à cabeleireira que cortasse quase
na orelha. Pedido que ela prontamente atendeu.
	
O inesperado, entretanto, aconteceu: ao ver os cabelos longos caírem desatei
a chorar e minha mãe teve suas esperanças cortadas junto com os fios, já que meu
cabelo nunca mais teve cachos de verdade, ficando apenas ondulado.”

20

21
O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA

D

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que
roubar um vento
e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

ani

Santos

A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do
cheio.

	

Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira
Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.

	

E

	

E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o voo de um pássaro botando ponto
final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.

	

Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas peraltagens
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos.
(Manoel de Barros)

rnesto

Gadelha

R

afael Rafão

Domingos

Para Dani Santos, Ernesto gadelha, Rafael Domingos e todos os
meninos e meninas que enchem “os vazios com suas peraltagens”
e com a sua imaginação!

22

23
E

assim, todos que lá viviam, foram 		
					felizes para sempre...

24

25
26

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

Mauro e o dinossauro
Mauro e o dinossauro  Mauro e o dinossauro
Mauro e o dinossauro
PamellaSilveira3
 
A culpa é toda do rato
A culpa é toda do ratoA culpa é toda do rato
A culpa é toda do rato
Biblioteca Escolar Marinhas do Sal
 
Parte i homenagem anesg as mães geapeanas
Parte i   homenagem anesg as mães geapeanasParte i   homenagem anesg as mães geapeanas
Parte i homenagem anesg as mães geapeanas
GSArt Web Solutions
 
52 rei dos canudos para site1
52 rei dos canudos para site152 rei dos canudos para site1
52 rei dos canudos para site1
Vanessa Reis
 
Contos africanos
Contos africanosContos africanos
Contos africanos
Dcrist Santos
 
Livrinho 4ª J
Livrinho 4ª JLivrinho 4ª J
Livrinho 4ª J
EMEBJuca2
 
Livro a casa da Madrinha
Livro a casa da MadrinhaLivro a casa da Madrinha
Livro a casa da Madrinha
Cleiton Cunha
 
A história do pinda
A história do pindaA história do pinda
A história do pinda
Jussimar Siqueira
 
Texto livre
Texto livreTexto livre
Texto livre
ana_grave
 
Familia paterna os genuinos
Familia paterna os genuinosFamilia paterna os genuinos
Familia paterna os genuinos
Pitágoras
 
10 sonhos de_natal
10 sonhos de_natal10 sonhos de_natal
10 sonhos de_natal
IsabelPereira2010
 
Muito mais que um jardim
Muito mais que um jardimMuito mais que um jardim
Muito mais que um jardim
Marisa Seara
 
Recordação Mãe
Recordação MãeRecordação Mãe
Recordação Mãe
Cassiano Santana
 

Mais procurados (13)

Mauro e o dinossauro
Mauro e o dinossauro  Mauro e o dinossauro
Mauro e o dinossauro
 
A culpa é toda do rato
A culpa é toda do ratoA culpa é toda do rato
A culpa é toda do rato
 
Parte i homenagem anesg as mães geapeanas
Parte i   homenagem anesg as mães geapeanasParte i   homenagem anesg as mães geapeanas
Parte i homenagem anesg as mães geapeanas
 
52 rei dos canudos para site1
52 rei dos canudos para site152 rei dos canudos para site1
52 rei dos canudos para site1
 
Contos africanos
Contos africanosContos africanos
Contos africanos
 
Livrinho 4ª J
Livrinho 4ª JLivrinho 4ª J
Livrinho 4ª J
 
Livro a casa da Madrinha
Livro a casa da MadrinhaLivro a casa da Madrinha
Livro a casa da Madrinha
 
A história do pinda
A história do pindaA história do pinda
A história do pinda
 
Texto livre
Texto livreTexto livre
Texto livre
 
Familia paterna os genuinos
Familia paterna os genuinosFamilia paterna os genuinos
Familia paterna os genuinos
 
10 sonhos de_natal
10 sonhos de_natal10 sonhos de_natal
10 sonhos de_natal
 
Muito mais que um jardim
Muito mais que um jardimMuito mais que um jardim
Muito mais que um jardim
 
Recordação Mãe
Recordação MãeRecordação Mãe
Recordação Mãe
 

Destaque

Analise ativ texto
Analise ativ textoAnalise ativ texto
Analise ativ texto
Naysa Taboada
 
Para além da interdisciplinaridade (1)
Para além da interdisciplinaridade (1)Para além da interdisciplinaridade (1)
Para além da interdisciplinaridade (1)
Naysa Taboada
 
Geovanda
GeovandaGeovanda
Geovanda
Naysa Taboada
 
Ana Rocha Lyra_Ludicidade
Ana Rocha Lyra_LudicidadeAna Rocha Lyra_Ludicidade
Ana Rocha Lyra_Ludicidade
Naysa Taboada
 
Texto linguistica
Texto linguisticaTexto linguistica
Texto linguistica
Naysa Taboada
 
Infância
InfânciaInfância
Infância
Naysa Taboada
 
Atividade de análise
Atividade de análiseAtividade de análise
Atividade de análise
Naysa Taboada
 
Pnaic 30 de julho matutino e vespertino atual (1)
Pnaic 30 de julho matutino e vespertino atual (1)Pnaic 30 de julho matutino e vespertino atual (1)
Pnaic 30 de julho matutino e vespertino atual (1)
Naysa Taboada
 
5 encontro
5 encontro5 encontro
5 encontro
Naysa Taboada
 
Mensagem
MensagemMensagem
Mensagem
Naysa Taboada
 
O tempo
O tempoO tempo
O tempo
Naysa Taboada
 
Slide 6encontro
Slide 6encontroSlide 6encontro
Slide 6encontro
Naysa Taboada
 
Historia tangran
Historia tangranHistoria tangran
Historia tangran
Naysa Taboada
 
Livroacentopeiaeseussapatinhos
LivroacentopeiaeseussapatinhosLivroacentopeiaeseussapatinhos
Livroacentopeiaeseussapatinhos
Naysa Taboada
 

Destaque (20)

Analise ativ texto
Analise ativ textoAnalise ativ texto
Analise ativ texto
 
Aparecida
AparecidaAparecida
Aparecida
 
Lucia Sasso
Lucia SassoLucia Sasso
Lucia Sasso
 
Para além da interdisciplinaridade (1)
Para além da interdisciplinaridade (1)Para além da interdisciplinaridade (1)
Para além da interdisciplinaridade (1)
 
Elza
ElzaElza
Elza
 
Geovanda
GeovandaGeovanda
Geovanda
 
Ana Rocha Lyra_Ludicidade
Ana Rocha Lyra_LudicidadeAna Rocha Lyra_Ludicidade
Ana Rocha Lyra_Ludicidade
 
Texto linguistica
Texto linguisticaTexto linguistica
Texto linguistica
 
Infância
InfânciaInfância
Infância
 
Atividade de análise
Atividade de análiseAtividade de análise
Atividade de análise
 
Pnaic 30 de julho matutino e vespertino atual (1)
Pnaic 30 de julho matutino e vespertino atual (1)Pnaic 30 de julho matutino e vespertino atual (1)
Pnaic 30 de julho matutino e vespertino atual (1)
 
5 encontro
5 encontro5 encontro
5 encontro
 
Mensagem
MensagemMensagem
Mensagem
 
O tempo
O tempoO tempo
O tempo
 
Slide 6encontro
Slide 6encontroSlide 6encontro
Slide 6encontro
 
Versao lobo
Versao loboVersao lobo
Versao lobo
 
Historia tangran
Historia tangranHistoria tangran
Historia tangran
 
Jabuti
JabutiJabuti
Jabuti
 
Historia zebrinha
Historia zebrinhaHistoria zebrinha
Historia zebrinha
 
Livroacentopeiaeseussapatinhos
LivroacentopeiaeseussapatinhosLivroacentopeiaeseussapatinhos
Livroacentopeiaeseussapatinhos
 

Semelhante a Vila criança

Retalhos de historias e memorias
Retalhos de historias e memoriasRetalhos de historias e memorias
Retalhos de historias e memorias
10-09-61
 
Lendas e causos
Lendas e causosLendas e causos
Lendas e causos
Josiane Carlos
 
Roteiros de escrita_-_viagens
Roteiros de escrita_-_viagensRoteiros de escrita_-_viagens
Roteiros de escrita_-_viagens
ebsb biblioteca
 
Textos autores biblioteca
Textos autores bibliotecaTextos autores biblioteca
Textos autores biblioteca
Ies Numeroun
 
Nx zero e chapeuzinho[1]
Nx zero e chapeuzinho[1]Nx zero e chapeuzinho[1]
Nx zero e chapeuzinho[1]
sallesz
 
Giselda laporta
Giselda laportaGiselda laporta
Giselda laporta
Dhiane Cheila Bergamini
 
Uma volta pela infancia
Uma volta pela infanciaUma volta pela infancia
Uma volta pela infancia
Mensagens Virtuais
 
Livro digital folclore professora suse mendes
Livro digital folclore professora suse mendesLivro digital folclore professora suse mendes
Livro digital folclore professora suse mendes
Susete Rodrigues Mendes
 
Anorexia - Dominique Brand
Anorexia - Dominique BrandAnorexia - Dominique Brand
Anorexia - Dominique Brand
Moradores do Ype
 
Livro Digital
Livro DigitalLivro Digital
Livro Digital
Marceliany Farias
 
Corpo do livro
Corpo do livroCorpo do livro
Corpo do livro
Rosa Regis
 
0 agardêniabranca...(lila)
0 agardêniabranca...(lila)0 agardêniabranca...(lila)
0 agardêniabranca...(lila)
Callheus Martins Ribas
 
Textos biblioteca nº1
Textos biblioteca nº1Textos biblioteca nº1
Textos biblioteca nº1
Ies Numeroun
 
Oficina de leitura atividades
Oficina de leitura   atividadesOficina de leitura   atividades
Oficina de leitura atividades
Meire Lopes
 
Oficina de leitura atividades
Oficina de leitura   atividadesOficina de leitura   atividades
Oficina de leitura atividades
Junior Pereira
 
Familia batista
Familia batistaFamilia batista
Familia batista
Pitágoras
 
Chapéu de Palha
Chapéu de PalhaChapéu de Palha
Chapéu de Palha
anaprande
 
Capítulo 1: Lulital - a magia começa
Capítulo 1: Lulital - a magia começaCapítulo 1: Lulital - a magia começa
Capítulo 1: Lulital - a magia começa
pribeletato
 
Projeto Recordação
Projeto RecordaçãoProjeto Recordação
Projeto Recordação
Cassiano Santana
 
O passeio de mariana
O passeio de marianaO passeio de mariana
O passeio de mariana
PamellaSilveira3
 

Semelhante a Vila criança (20)

Retalhos de historias e memorias
Retalhos de historias e memoriasRetalhos de historias e memorias
Retalhos de historias e memorias
 
Lendas e causos
Lendas e causosLendas e causos
Lendas e causos
 
Roteiros de escrita_-_viagens
Roteiros de escrita_-_viagensRoteiros de escrita_-_viagens
Roteiros de escrita_-_viagens
 
Textos autores biblioteca
Textos autores bibliotecaTextos autores biblioteca
Textos autores biblioteca
 
Nx zero e chapeuzinho[1]
Nx zero e chapeuzinho[1]Nx zero e chapeuzinho[1]
Nx zero e chapeuzinho[1]
 
Giselda laporta
Giselda laportaGiselda laporta
Giselda laporta
 
Uma volta pela infancia
Uma volta pela infanciaUma volta pela infancia
Uma volta pela infancia
 
Livro digital folclore professora suse mendes
Livro digital folclore professora suse mendesLivro digital folclore professora suse mendes
Livro digital folclore professora suse mendes
 
Anorexia - Dominique Brand
Anorexia - Dominique BrandAnorexia - Dominique Brand
Anorexia - Dominique Brand
 
Livro Digital
Livro DigitalLivro Digital
Livro Digital
 
Corpo do livro
Corpo do livroCorpo do livro
Corpo do livro
 
0 agardêniabranca...(lila)
0 agardêniabranca...(lila)0 agardêniabranca...(lila)
0 agardêniabranca...(lila)
 
Textos biblioteca nº1
Textos biblioteca nº1Textos biblioteca nº1
Textos biblioteca nº1
 
Oficina de leitura atividades
Oficina de leitura   atividadesOficina de leitura   atividades
Oficina de leitura atividades
 
Oficina de leitura atividades
Oficina de leitura   atividadesOficina de leitura   atividades
Oficina de leitura atividades
 
Familia batista
Familia batistaFamilia batista
Familia batista
 
Chapéu de Palha
Chapéu de PalhaChapéu de Palha
Chapéu de Palha
 
Capítulo 1: Lulital - a magia começa
Capítulo 1: Lulital - a magia começaCapítulo 1: Lulital - a magia começa
Capítulo 1: Lulital - a magia começa
 
Projeto Recordação
Projeto RecordaçãoProjeto Recordação
Projeto Recordação
 
O passeio de mariana
O passeio de marianaO passeio de mariana
O passeio de mariana
 

Vila criança

  • 1. 1
  • 2. E ra uma vez... No Reino Encantado da Vila das Artes, um lugar de sonhos, onde viviam algumas crianças que tinham o coração enfeitado de arte. A cada dia, cada uma delas procurava trazer para o Reino Encantado muita alegria e bom humor. Algumas tinham os cabelos dourados feito fios de ouro, outras tinham madeixas escuras que mais pareciam feitas de chocolate, outras pareciam feitas de mel... Mas o que importava mesmo é que, com tanta arte brotando de cada coração, elas, juntas faziam daquele reino um belo lugar. Nenhum outro reino ao redor chegava a se comparar. Era florido, limpo, arejado, bem grande. Todos que lá chegavam ficavam admirados e de lá não queriam mais sair. Lá, cabia muita gente, de todo jeito. Os que lá chegavam também eram contaminados por aquele sentimento colorido e divertido e se transformavam em gente que parecia ter um brilho no olhar e tudo que faziam se transformava em artefato bonito. Muitas saíam pelo mundo, encantando a todos, levando um pedacinho daquele lugar por onde passavam. Cada um tinha uma história interessante para contar. 3
  • 3. Tinha a menina que caiu do beliche, a que passou por uma experiência de quase morte; a garota que adorava passear com o pai e os irmãos; a que morava em uma casa cheia de gente boa e de bichos; o menino que se perdeu por causa da sua pipa; o garoto que fazia a mãe passar vergonha; o que foi levado por um jumento em disparada; a garota que tinha festas animadíssimas; a que tinha uma super irmã que a defendia; a menina que ficava na janela esperando o ‘sol baixar’ para poder brincar na rua; o menino que tinha um amigo e, juntos gostavam de se deitar no meio da rua, e sentir as deformações das pedras no corpo; e a história da menina que tinha o cabelo liso, com pontas enroladas que a mãe mandou cortar para enrolar por inteiro. Cada um deles fazia do Reino Encantado da Vila das Artes um ambiente alegre, divertido e leve. Lá era tão encantado, tão encantado que quem por lá passasse tinha a vida recheada de boas novas. Era tanta alegria, mas tanta alegria que era difícil ver gente chorar. Era gente que casava, mulheres que davam à luz, papais ganhavam não um, mas dois presentes da cegonha... Enfim, lá quem estava triste, rapidinho ficava feliz. 4 5
  • 4. A ndria Magalhães E ra a noite de 21 de janeiro de 1996. A mãe tava na sala preparando o bolo do meu aniversário de oito anos. “ “ Mãe, posso ficar aqui? Pra ver a senhora fazendo o bolo?” Não!” A mãe não tem coração. Eu insisti. “Ô, mãe, deixa. Amanhã é o meu aniversário e quero ver o bolo ficar pronto.” “Vá dormir! Se você dormir, logo o dia amanhece e você vê o bolo.” Acreditei nela e fui dormir. Escalei o beliche num salto e me estirei no colchão. Fechei os olhos com força e abri um segundo depois: a mãe ainda confeitava o bolo. Fechei os olhos novamente. Abri. A mesma cena. Repeti a brincadeira até dormir de verdade. Este é o som que eu faço enquanto durmo: Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzz... Este foi o som que minha mãe escutou enquanto batia a massa do bolo: PLEFT PLOFF. Podia ser um saco de batatas caindo, mas era eu. Tinha rolado e despencado da altura do primeiro andar do beliche que eu dividia com as minhas irmãs. Como eu não tivesse acordado, a mãe nem ligou. Este foi o som que eu fiz enquanto dormia no chão do quarto à espera do dia do meu aniversário: Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzz... 6 7
  • 5. A C láudia Pires nderson Damasceno “N o dia das mães de 1999 nossa professora da extinta alfabetização nos obrigou a passar batom vermelho e elaborar um cartão com beijos de batom e frases bonitinhas para as mamães. “A dorava os passeios matutinos diários com o pai e os irmãos Renato e Fábio, mas na hora de voltar pra casa dava um trabalhão. Obrigado tia Lucinda! Fugia correndo e se escondia adentrando as portas abertas da vizinhança. E aí, só a mãe pra resgatá-la de volta ao lar. Por outro lado, foi sempre muito afeita à observação. Gostava muito de apreciar o movimento da rua sentada na janela de casa.” 8 9
  • 6. C D hristiane de Lavor Gomes “Q uando eu tinha uns 5 ou 6 anos tive uma experiência incrível de quase morte. Em um dia qualquer, que não lembro qual era, depois de um dia exaustivo de muito brincadeira e diversão, (espero) me recolhi aos meus aposentos para iniciar mais uma noite de descanso. Qual não foi a minha surpresa quando, no meio da noite eu acordei e vi um mundo extremamente escuro. Quando me mexi, percebi que estava em um lugar estreito, pois não havia espaço para levantar os braços. Comecei a apalpar a superfície que estava sobre mim. Era de madeira. Meu coração disparou. Fiquei apavorada. Percebi que estava enclausurada. Seria aquela superfície de uma tampa de CAIXÃO??? Quando a dúvida se fez certeza, fiquei apavorada. Meu coração, que já estava aos pulos, quase saía pela boca. Na hora, não pensei que se já estava morta, não tinha de sentir medo já que estava sem jeito mesmo. Pois bem, comecei a chorar e a apalpar com mais vigor a ‘tampa do caixão’ e a chorar e gritar, desesperada pela minha mãe: “Mãe, Mãe...”, mesmo sabendo que ela não poderia surgir ali, embaixo da terra para me salvar, a menos que ela tivesse se transformado em um verme e iria fagocitar meu lindo corinho. Não, seria macabro demais. Minha mãe não faria isso. Ou faria?! Continuei a minha saga solitária de tentar, a todo custo, um contato mais imediato com minha mãe. Quando o desespero atingia alto grau, vi uma luz no fim do túnel. Literalmente! Quando olhei para os lados, vi que havia luz e o som da voz da minha mãe, ao longe – que nesse dia, nunca pareceu tão agradável e reconfortante – quando ouço, ela perguntar – “Onde é que tu ta, menina?” E foi aí que resolvi me mexer. Coloquei a cabeça para fora e disse “Tô aqui”. Foi então que percebi que tinha caído da cama e rolando para baixo e nem sequer acordei. “S enta que lá vem a história, e segue anexado apenas uma foto 3 x 4, os registros da minha infância estão mais na minha memória, e também vai a minha pulseirinha da maternidade, porque fui adotada apenas com três dias de nascido e ainda estava com essa pulseirinha. E sou uma Elis Regina, nascemos no mesmo dia e mês, rs. Morei sempre numa casa cheia de gente boa e bichos. Cavalos, vaca, cachorro, gato, tartaruga, porco, cabra... Pois é, imagina só que loucura, eu brincava o dia todo, tomava leite quentinho da vaca pela manhã, assistia os partos das vacas, e também via muito bezerro, cavalinho morrer nos partos que minha fazia. Tomavámos banho de cacimba, minha irmã saia correndo atrás de mim, para passar caco de telha nas minhas costas para tirar o ceroto, rsrs, eca, eu sofria pra tomar banho, odiava, porque tinha essa parte de higienização massacrante. Tinha leite para a pivetada toda da favela. A gente tirava os carrapatos enormes dos bichos e ficava espetando com pedaço de arame quente, rsrssrsr. pense numa imundice, mas, é criança, e brincadeira de criança é isso, rrsrssr. Brincava de escolinha, ZIG ZAG e outras.” Graças a deus que foi apenas um susto. Ficou a história para contar e muitas risadas depois.” 10 ani 11
  • 7. E noque Ferreira “Q L eandro Ferreiras “N a parada de ônibus, Indo pra casa da minha avó com meus pais, minha mãe percebeu que havia logo à frente um deficiente físico e logo desviou minha atenção para o outro lado, segurou forte minha mão e fez com que eu me interessasse por outra coisa. Não adiantou, vi aquele homem e logo quis soltar da mão dela, ela já sabendo o que aconteceria segurou mais forte, mas não adiantou, saí correndo e fui encará-lo, fiquei rodando várias vezes ao redor dele procurando a outra perna, pra mim aquilo era muito estranho. Logo gritei perguntando aos meus pais: -MÃE, CADÊ A OUTRA PERNA? uando eu tinha 12 anos estava correndo atrás de uma raia (pipa). Corri tanto... Atravessei um rio, entrei em uma mata fechada, então me perdi. Fiquei com muito medo, já era noite, comecei a chorar. Para minha sorte, estava passando um carroceiro em uma estrada próxima à mata, que viu meu desespero e me levou para casa.” Outra estória parecida aconteceu dentro do ônibus indo para o interior onde minha mãe nasceu, estávamos olhando a paisagem quando minha mãe desviou minha atenção para alguns cavalos, eu sem muito interesse logo percebi que na porta do ônibus havia um deficiente físico também sem uma perna e logo gritei: - MÃE, OLHA UM SACI PÊ-LE-LE! Minha mãe sem dar atenção me fazia olhar pra outro lado, e vendo que ela não me dava atenção, eu gritava mais alto ainda, queria que ela visse o Saci Pêle-le. Isso fez com que todo mundo do ônibus caísse na gargalhada, até mesmo o deficiente, menos minha mãe, que ficou morrendo de vergonha. E parece que isso sempre acontecia comigo, porque perto de onde moro morava uma família de anões, e tão grande foi minha surpresa quando vi mãe e filha anãs pela primeira vez que gritei no meio da rua: - OLHA MÃE, UMA MÃE PEQUENA! Acho que o meu forte era sempre fazer minha mãe passar vergonha.“ 12 13
  • 8. V anessa Marinho “M e pediram uma história de quando eu era pequena. M arina Carleial “N essa época, eu tinha festas de aniversário animadíssimas, cheias de convidados, muita alegria, bolinhos, docinhos e lembrancinhas! Tudo decorado artesanalmente pela minha mãe. Lembro que a casa ficava cheia de papéis coloridos e bombons meses antes!” 14 Pensei: Meu Deus, qual? E voltei no tempo, no tempo bom, tempo que podíamos correr na calçada só de calcinha, tempo bom de quando a gente roubava goiaba do vizinho, tempo bom que na Páscoa a gente ganhava pinto do colégio e no 7 de setembro ia desfilar nas ruas. Aquele tempo que não tínhamos tanto brinquedo (eu pelo menos não tinha tanto assim), mas que a gente ficava olhando pra janela pra ver que quando “o sol baixasse” como dizia minha mãe pra gente poder descer ou sair de suas casas pra brincar com os vizinhos de coisas tão simples mas que naquela época era tudo: pega pega, esconde esconde, carimba entre outros. E os doces? Pirulito do zorro, quebra queixo do baixinho lá da portaria da Antônio Sales do Santo Inácio. Eita, como passa um filme na cabeça da gente, e eu agradeço a Deus por ter guardada na minha memória todas essas lembranças, lembranças boas, gostosas e qua dá uma saudade e vontade de voltar a ser criança. Hoje minhas filhas olham pra mim e dizem: “mãe eu quero logo ficar grande como você”, e eu respondo: Filha, curta sua fase criança, aproveite essa etapa tão linda, tão gostosa da sua vida, pra quando você crescer poder olhar pra trás como a mamãe e ter saudade de bons tempos que tivemos. Obrigada meu Deus, obrigada meus pais, por tudo. Feliz dia das crianças!” 15
  • 9. V R ictor Furtado “Q uando tinha 7, Caio sempre me acompanhava nas brincadeiras. Era ele o vizinho da esquina da nossa rua de pedra. O que mais gostávamos de fazer era deitar no meio da rua, sentir as deformações das pedras no corpo, desafiar o parco tráfego do bairro. De certa forma, ali pulsava um pacto inconsciente pelo desejo de morte. Eu, que nesse carnaval fechava os olhos ao abraçar meu amigo, não via que Caio encarava a câmera como se soubesse de seu destino infalivelmente precoce. A morte foi bem vinda, acredito. Havia um desejo mórbido que traduzia nossa vida juntos.” 16 ruth Lopes “L embrança da infância tem gosto de saudade, no tempo que podíamos brincar na rua com nossos amigos, brincadeiras de pega-pega, elástico, corda, carimba, enfim, são várias essas que eram feitas tudo na rua. Eu era bobinha, quando brigavam comigo não sabia revidar, mas tinha minha super irmã pra me defender. Mas, nós brigávamos muito e ela dizia que me defendia por que só ela podia brigar comigo. Tempo bom, nessa época nossa única preocupação era com o carro preto que roubavam crianças. (risos)” 17
  • 10. R úbia Mercia A ndreia Pires “E u era criança e gostava do cabelo de elba ramalho, porque era grande e cacheado.“ 18 19
  • 11. M V Rocha arcos Martins “A ictória minha infância foi trabalhando: fazenda, interior então era muito bom e me divertia. Uma vez, andei de jumento e ele disparou, eu em cima de uma cangaia, pedindo socorro para a minha mãe e para o meu pai. Até que cheguei em casa. Não sei como não cai. Era uma distância como daqui à Casa Amarela. Era eu segurando e o jumento pinotando.” “N a foto, eu estava no Jardim I e acho que a cara meio emburrada era por conta do short do vestido que eu não gostava. Porém, minha história mesmo diz respeito ao cabelo. Minha mãe sempre teve o cabelo muito liso, mas adorava cachos e como não podia tê-los, depositava em mim a esperança dos cabelos cacheados. O meu, por sua vez, era ondulado e tinha pequenos cachos nas pontas, que ela cuidava com carinho e não cortava na torcida para que os cachos aumentassem. Fiquei até o final da alfabetização sem cortar de verdade o cabelo (que já estava na cintura), apenas “aparando” levemente as pontas. Até que, em um belo dia, alguém disse à minha mãe que se cortasse o meu cabelo, ele cacheava de vez. Ela, lógico, apenas esperou passar o “ABC” e correu comigo pro salão. Eu, afoita e extasiada com a novidade de cortar o cabelo, pedi à cabeleireira que cortasse quase na orelha. Pedido que ela prontamente atendeu. O inesperado, entretanto, aconteceu: ao ver os cabelos longos caírem desatei a chorar e minha mãe teve suas esperanças cortadas junto com os fios, já que meu cabelo nunca mais teve cachos de verdade, ficando apenas ondulado.” 20 21
  • 12. O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA D Tenho um livro sobre águas e meninos. Gostei mais de um menino que carregava água na peneira. A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos. ani Santos A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água O mesmo que criar peixes no bolso. O menino era ligado em despropósitos. Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos. A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio. Falava que os vazios são maiores e até infinitos. Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito porque gostava de carregar água na peneira Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira. No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo. O menino aprendeu a usar as palavras. Viu que podia fazer peraltagens com as palavras. E E começou a fazer peraltagens. Foi capaz de interromper o voo de um pássaro botando ponto final na frase. Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela. O menino fazia prodígios. Até fez uma pedra dar flor! A mãe reparava o menino com ternura. A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta. Você vai carregar água na peneira a vida toda. Você vai encher os vazios com as suas peraltagens e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos. (Manoel de Barros) rnesto Gadelha R afael Rafão Domingos Para Dani Santos, Ernesto gadelha, Rafael Domingos e todos os meninos e meninas que enchem “os vazios com suas peraltagens” e com a sua imaginação! 22 23
  • 13. E assim, todos que lá viviam, foram felizes para sempre... 24 25
  • 14. 26