INFORMATIVO DO CENTRO ACADÊMICO DE LETRAS . UFPR




02                                 03.6                                 07.9                              10.15                            18.23
Editorial                          Matérias                             Crônicas                          Artigos Acadêmicos               Produção Literária

eleições: obrigação ou direito     com todas as letras      //   pro-   quadro negro para urubu      //   fatos históricos na constru-     coração inflamável              //   ciran-
// foi-se a terceira margem, vem   grama sat   2010 //   o caso da      armadura   //   literatura como   ção da nacionalidade são-        da no abismo            //   trilhando o
o machado                          avaliação                            refúgio                           tomense na obra teatro do        caminho, caminhando a tri-
                                                                                                          imaginário angolar de s. tomé    lha   //   labirintos vivos          //   insé-
                                                                                                          e príncipe de fernando de ma-    culos      //   limbo   //   in the green
                                                                                                          cedo. in(ter)cambio: fallos en   // (sem título)
                                                                                                          el programa de augm
eleições
obrigação ou direito?
josé olivir de freitas junior


Este ano enfrentamos longo e cansativo processo eleitoral.          da Universidade, direta ou indiretamente. Qual o problema?
Enfrentamos? A democracia, uma herança que veio dos gre-            Ah, o problema! Os nossos caros colegas, que já consideram
gos, estabelece uma série de regras e mecanismos que regu-          um martírio ter que sair do aconchego do lar um único do-
lam os direitos e deveres dos cidadãos de uma nação. Claro          mingo a cada dois anos para eleger seus representantes (por-
que o conceito mudou de A.C. pra cá. Todavia, a essência é a        que se consideram obrigados a isso), acreditam que, por não
mesma. Daquela democracia que só levava em conta a opinião          ser obrigatório, não é preciso “perder tempo” com bobagens
de quem não era escravo, um poderoso instrumento sobrevi-           eleitorais (caso aplicado a qualquer pleito, na faculdade, no
veu: o voto. O voto no Brasil, que já foi bastante restrito, hoje   colégio, na sala de aula ou onde for). O que é democracia para
é amplo e “universal”, apesar de ainda não ser direito de todos     estas pessoas? Será que perdemos a noção dos nossos direi-
os viventes no país (leia-se analfabetos). Mulheres, idosos,        tos? Talvez, com essa realidade medonha de sujeiras que ve-
adolescentes, todas as classes sociais. O voto não vê cor, sexo     mos nas casas governamentais, tenhamos perdido a confian-
nem poder aquisitivo. Uma beleza, não? Não. O caso é que os         ça nas instituições públicas. É isso? Se é, por que não tiramos
brasileiros não sabem do poder do voto. Desconhecem que             aqueles que sujam a casa e colocamos alguém melhor? Ah,
podem revolucionar, podem fazer e desfazer qualquer movi-           é difícil..., diz alguém. Alguém que, mesmo podendo mudar,
mento com o botãozinho apertado na urna eletrônica. Mui-            prefere ficar inerte. Não podemos nos sujeitar ao que acon-
tas pessoas reclamam da “obrigação” de votar. O caso é que,         tece à nossa volta, não devemos deixar que as coisas andem
se não fosse assim, quem é que garantiria a democracia? Bem,        conforme a brisa bate na nossa face. É mais que necessário
este é outro assunto. Tratemos do objeto desta reflexão: o não      que todos, todos mesmo, levantem suas cabeças e percebam
voto. Nas eleições, quando o eleitor dá sua opinião em deter-       que podem mudar tudo o que quiserem. E isso pode ser feito
minado assunto (seja escolhendo candidato alinhado aos              com apenas um gesto: votar. Esperamos que este texto sirva
seus pensamentos, seja escolhendo uma maneira ou outra de           de incentivo aos senhores colegas de Letras e que faça algum
decidir o futuro da nação) exerce poder sobre a sua vida e a        efeito para que, quando alguém perguntar se vocês sabem
alheia. Parece pouco? Certamente não. Aqui na UFPR, para            quem é o reitor, ou o chefe do departamento, ou o presiden-
                                                                                                                                                             PoR joSé oLiviR dE FREiTAS jUnioR
não deixar de ser, o voto é a principal maneira de conhecer         te do CAL, vocês saibam responder e possam dizer: eu votei,
a opinião da comunidade. O que isso significa? Significa que        contra ou a favor, mas votei.
é através de pleitos que nós participamos da administração


                                                                                                                                      e finalmente finalizamos o processo eleitoral de 2010. depois de uma malsucedida votação,
nota
                                                                                                                                      realizada em 05/10, o cal realizou novo pleito para a escolha dos novos diretores. no último
Foi-Se a terCeira MargeM, VeM o MaCHado                                                                                               dia 22, em “segundo turno”, a chapa “terceira margem do rio” foi eleita com 88% de aprovação
“As coisas mudam no devagar depressa dos tempos”, já dizia          “Foi-se o Machado”. E, antes da pletora de críticas, nada me-
                                                                                                                                      (95 votos a favor, 10 contra e 03 nulos). como é nosso dever, faremos um breve relato da
Guimarães Rosa. A diretoria do Centro Acadêmico de Letras,          lhor que citar Machado de Assis: “A vida é cheia de obrigações
                                                                                                                                      gestão “sintaxe@vontade”, que deixa o cal com a atuação em superávit no âmbito das realiza-
gestão 2010-2011, decidiu por maioria de votos cambiar o            que a gente cumpre por mais vontade que tenha de as infringir
                                                                                                                                      ções, haja vista que se cumpriram a maioria das “promessas de campanha”. para quem não se
“nome” da gestão. A partir de agora, com um novo conceito,          deslavadamente”. Está dada a notícia.
                                                                                                                                      recorda, a gestão que dirigiu o cal entre outubro de 2010 e outubro de 2010 tinha algumas
passou a “Terceira Margem do Rio” chamar-se “Foi-se o Ma-
                                                                                                                                      metas (prometidas durante a campanha). apesar dos percalços do caminho (desistência de
chado”. Em breve, com novo visual e novos conceitos, ainda
                                                                                                                                      mais da metade dos membros, por exemplo), a gestão conseguiu levar adiante nove projetos
que não tenhamos abandonado nenhum dos que divulgamos
                                                                                                                                      significativos...
no período eleitoral, colocaremos à disposição da comunida-
de o objetivo da mudança e apresentaremos a nova gestão


cal ufpr   .   boca do inferno   . 2                                                                                                                                                                            cal ufpr   .   boca do inferno   . 3
Enfim, uma gestão que trabalhou bastante pelo curso e pe-
                                                                      los alunos, apesar de o trabalho não ser tão visível. Agora, há
                                                                      pela frente muito mais trabalho. A diretoria eleita terá muito
                                                                      a negociar, discutir e planejar. As metas da “Terceira Margem
                                                                      do Rio”, entre outras, são estas (conforme o programa da cha-
                                                                      pa, divulgado durante o período eleitoral):


 01.
 Organização do patrimônio do CAL, que ganhou quatro computa-
 dores do Laboratório de Informática do curso de Psicologia, gra-
 ças à valiosa colaboração da colega Alessandra Diana Zilli (CAL       01.
 gestão 2008), um armário e um aparelho de telefone.                   Atualização do Estatuto do CAL para adéqua-lo ao Noovo Código
                                                                       Civil
 02.
 Impressão de três edições deste nosso jornal (uma delas – esta –      02.
 em colaboração com a nova chapa, atuante desde o primeiro dia)        Criação do mural de Classificados do CAL (ao lado dos elevadores
                                                                       do 10° andar
 03.
 Atualização da lista de e-mails, com repasse de informações           03.
 (como eventos, cursos e atividades do CAL) à maioria dos alunos       Inclusão do site do CAL no domínio virtual da UFPR (trocando
                                                                                                                                             ufpr
                                                                                                                                             prograMa Sat 2010
                                                                       em miúdos, criar um site “www.cal.ufpr.br”
 04.
 Assistência aos alunos dos cursos de Japonês e Polonês (com a re-     04.
 presentação junto ao DELIN e ao DELEM para a integração destes        Dar continuidade às edições do Boca (isso significa “periodizá-lo”)
 com as demais habilitações do curso)
                                                                                                                                             carlo giacomitti
                                                                       05.
 05.                                                                   Organizar as cópias do nosso Arquivo de Xerox
 Representação junto à Universidade na discussão da mudança de                                                                               desde meados de 2010, está em andamento o sat - sistema de acompanhamento e tutoria do fluxo
 campus para o prédio da “Ponte Preta” (tivemos notícia oficial –                                                                            acadêmico. o sat foi criado para acompanhar a vida acadêmica discente durante a graduação. o
                                                                       06.
 da diretora do SCHLA – que permaneceremos no Complexo da
                                                                       Remodelar a sede do CAL (com móveis mais modernos e planeja-
                                                                                                                                             programa é gerido pela prograd - pró-reitoria de graduação e ensino profissionalizante e con-
 Reitoria)                                                                                                                                   ta com o apoio operacional das coordenações de cursos. com a aplicação de um questionário,
                                                                       dos para dar mais espaço para a galera “se achegar”)
                                                                                                                                             o sat tem como objetivo identificar as dificuldades quedo aluno durante a formação e então
 06.                                                                                                                                         propor à reitoria soluções para os problemas encontrados. esse questionário, aplicado a todos
                                                                       07.
 Eventos (Semana de Letras e Semana de Avaliação do Curso, além
 do Plebiscito, que movimentou pelo menos uma parte da galera,
                                                                       Organizar e liberar para empréstimo os livros da nossa Biblioteca     os alunos, será repetido periodicamente (anual ou semestralmente, dependendo do curso). esta
 além da divulgação de eventos de outros locais)                                                                                             continuidade garante o sucesso do programa, pois as dificuldades podem aparecer com o passar
                                                                       08.                                                                   do tempo, isto é, há um efetivo acompanhamento do estudante durante toda a graduação.
                                                                       Criar e fazer funcionar a Empresa Junior de Letras
 07.
 Integração entre os alunos dos períodos matutino e noturno (com                                                                             como é                                                          quem faz
 a festa “Olhos de Ressaca”, que foi um sucesso de público, além do    09.
                                                                                                                                             O questionário é composto com perguntas que registram a         O questionário é aplicado pelos bolsistas do Sistema, vincu-
 Churras no Barigui)                                                   Negociar com o SCHLA um novo espaço, mais amplo, para o CAL
                                                                                                                                             satisfação ou não do aluno em relação ao seu curso, como, por   lados à PROGRAD (Carlo, de Letras e Jucéli, de Medicina).
                                                                                                                                             exemplo, se o curso foi a primeira opção do aluno, ou como      Após o recolhimento das folhas de respostas, eles transmiti-
 08.                                                                   10.
 Prestação de contas regular (Contas das festas foram publicadas       Implementar a Avaliação Semestral de Docentes e Disciplinas           ele (aluno) é afetado por alguma situação específica do curso   rão os dados para a PROGRAD e entregarão os questionários
 no Blog e a Geral será em breve)                                                                                                            ou da universidade, entre outras. O questionário é também       respondidos à Coordenação, exceto aqueles com manifesta-
                                                                                                                                             um veículo para a manifestação do aluno (com reclamações,       ções, que serão entregues diretamente à PROGRAD. É im-
 09.                                                                  Até aqui já é um trabalho e tanto! Esperamos que a nova ges-           sugestões, etc.). Importante citar que, como meio de validar    portante que todos participem e se manifestem. O SAT vem
 Divulgação e suporte a congressos e encontros da área de Letras      tão possa contar com o apoio da comunidade discente, assim             os questionários, são solicitados os dados acadêmicos - nome,   como uma oportunidade para os alunos serem ouvidos por
 (apoio a catorze estudantes com passagem de ida e volta para
                                                                      como dos professores e servidores do curso, para que possa-            GRR, e-mail, telefone. Estes dados serão acessados somente      aqueles que regem nossa vida acadêmica.
 congressos em outros municípios e estados, além de orientação a
 alunos que apresentaram trabalho com apoio da PRAE)                  mos melhorar a cada dia, num esforço contínuo e colabora-              pela Coordenação do Curso e pela PROGRAD, ainda que ape-
                                                                      tivo, que tenha por fim o melhor para Todas as Letras. Boa             nas a título de informação. A instituição assegura aos alunos
                                                                      sorte a todos nós!                                                     o sigilo, tanto dos dados como das informações pessoais.

cal ufpr   .   boca do inferno   . 4                                                                                                                                                                                                            cal ufpr   .   boca do inferno   . 5
ufpr                                                                                                                                           crônica
o CaSo da aValiação                                                                                                                            quadro negro para urubu
claudio luciano ornellas                                                                                                                       aguinaldo roberto moreira


Nos últimos tempos tem se dado especial atenção à avaliação                  dantes, poderíamos avaliar ou ao menos emitir opinião a res-      Em uma família normal de classe média, numa bela ninhada         bum. Albino não queria passar em brancas nuvens, onde se-
institucional nas diversas esferas governamentais. Na Univer-                peito dos docentes se, na primeira tentativa, recebemos como      de três filhotes, nasceu um urubu branco; todos os urubus        quer seria visto, desistiu de seus devaneios, seguiu a carreira
sidade acontece a mesma coisa. Aqui na UFPR, além do SAT                     prêmio um processo, no âmbito judicial comum, inclusive, ou       nascem com uma penugem branca e são muito fedorentos,            do papai, era mais prático e economicamente mais garantido.
(matéria da página anterior), em 2009 foi realizada a primeira               coisa pior, como perseguição e assédio moral? Perguntamos         obviamente, mas depois da troca de penas tornam-se as si-        Também aí sempre sofria discriminações; quando chegava ao
etapa da Avaliação Institucional de Cursos, que englobou vin-                também se, depois que o CAL puser em prática o Sistema de         nistras aves negras e de mal agouro que conhecemos. Fre-         trabalho e ia, digamos... botar as mãos na massa, seus colegas
te e seis cursos de graduação, entre eles o nosso. Os resulta-               Avaliação de Docentes e Disciplinas, ou talvez depois da publi-   qüentes comensais de lautos banquetes, promovidos sempre         gritavam em coro: - Chegou tarde, Doutor! O paciente morreu...
dos, disponíveis na página de Letras (http://www.letras.ufpr.                cação desta matéria, teremos alguma agradável surpresa, do        por algum ser que já era. Um deles insistia em permanecer        Ao final do expediente o nosso herói parecia à bandeira da
br), foram utilizados para medir a satisfação da comunidade                  mesmo tipo da que receberam aqueles alunos do parágrafo an-       alvo... O pimpolho recebeu o nome de Albino, nome de um          Polônia.
acadêmica em relação a itens como infraestrutura, segurança                  terior? Um caso a se pensar, senhores. O coordenador sempre       tio-avô que fora padre, teve uma infância tranqüila embora       Depois de diversas crises, depressões profundas, altos e bai-
e apoio acadêmico.                                                           insiste que temos que avaliar nossos professores da mesma         um pouco atribulada pelo preconceito e gozações de seus co-      xos, ascensões e quedas, é difícil se suicidar assim quando se
                                                                                                                                               leguinhas. Se algum piazinho enchia as fraldas, o branquinho     tem asas, ele resolveu se assumir, coisa temerária na sua pro-
                                                                                                                                               azedo era sempre o Bino. Dissabores estes compensados, é         vinciana terra natal. Sumiu! Migrou! Foi atrás de uma ofer-
o processo de avaliação é muito importante para a proposição                                                                                   claro, pelo amor materno: - Meu Nuvenzinha de coco, você é o     ta de emprego que ninguém queria aceitar, lá em um local
                                                                                                                                               urubu branco mais lindo do jardim de infância! - Sou sempre o    distante que fora a antiga Babilônia, na Mesopotâmia, lá a
de diretrizes para mudanças e para a revisão de procedimentos e                                                                                único, mamãe! O pai era autoritário e repressor, sempre res-     terra chora lágrimas negras. É nova área de caça da Grande
recursos de maneira a melhorar a estrutura e o funcionamento                                                                                   sabiado com a idéia de ovo trocado na maternidade. Todavia,      Águia do Norte. Dizem que Albino não trabalha na função
                                                                                                                                               o maior drama de Albino foi na puberdade, fase traumática        pretendida, continua no ofício de sua espécie, e, apesar de ser
de cada curso. todavia, há alguns impedimentos de ordem nem                                                                                    para qualquer adolescente, com as decorrentes crises de afir-    alvo, tem uma vantagem: na guerra ninguém atira na Pomba
                                                                                                                                               mação da auto-imagem; principalmente porque os garotos de        Branca da Paz, ou... em qualquer outra ave branca. É possível
sempre profissional e técnica quando se trata de avaliar.
                                                                                                                                               sua idade apelidaram-no de pombinha. A rejeição causou em        fazer humor negro com urubu branco, no entanto, urubus
                                                                                                                                               Albi, era assim que mamãe lhe chamava, uma forte tendên-         existem de todas as cores, tamanhos, envergaduras, sexos,
Recentemente soubemos que há em andamento processos de                       maneira que eles nos avaliam, como uma espécie de reciproci       cia à introspecção. Algo paranóica. A fuga da dura realidade     idades e credos. Sempre muito preocupados com suas ima-
professores contra estudantes, todos de Letras, que têm como                 dade. Não podemos esquecer que a avaliação de que trata este      levou-o a ser um eterno sonhador, andava sempre sonhando,        gens, carreiras, prestígio e poder junto a seus bandos. Alguns
objeto de “acusação” supostas “injúrias” que os alunos supos-                texto não é um concurso de popularidade nem uma batalha de        era sonâmbulo! Fantasiava um futuro diferente para si, não o     se alimentam de cérebros jovens.
tamente cometeram contra aqueles professores (os “supos-                     egos. Não estamos aqui preocupados com a reputação de ne-         negócio funerário da família, marcado pelo negro rigor. Guar-
tos” repetidos são propositais). Estes alunos, consideramos,                 nhuma sumidade das Letras e/ou da Educação, mas sim com a         necido de batatas ele seria um prato cheio para a Clarice Lis-   Dedicado a Ferenc Hoffmann
fizeram nada mais que “avaliar” a atuação dos seus mestres,                  qualidade do ensino dos que, como formigas, trabalharão para      pector. Albino era muito meticuloso em tudo o que fazia, sua
ainda que não tenha sido uma avaliação das mais favoráveis.                  o sucesso na formação de pessoas e, consequentemente, do          aterrissagem era coreográfica, tinha talento para acrobacias
Depois de saber disso, questionamos: como é que nós, estu-                   progresso deste país.                                             aéreas e pendor para o ballet clássico. Superou dolorosamen-
                                                                                                                                               te a fase crítica da adolescência, o patinho feio transformou-
                                                                                                                                               se em um cisne, mas, não se anime, esta é uma outra estória.
                                                                                                                                               Embora possuísse um forte sex appeal, ele parecia não ter
                                                                                                                                               interesse pelas urubuas, até mesmo quando eram uruboas.
                                                                                                                                               O complexo de inferioridade nele se revestiu de uma couraça
                                                                                                                                               de presunção: garboso e solene, agora Albi era um misto de
               acesse www.letras.ufpr e confira os resultados da avaliação                                                                     oficial de marinha de guerra e pai de santo baiano. Sempre
                                                                                                                                               branco da cabeça aos pés. Vivemos tempos difíceis, tem uru-
                                                                                                                                               bu brigando por emprego de galinha de macumba e, quando
                                                                                                                                               se presta a este triste papel acaba se acabando na cachaça do
                                                                                                                                               despacho. Não existe nada mais melancólico que urubu be-

cal ufpr   .   boca do inferno   . 6                                                                                                                                                                                                                 cal ufpr   .   boca do inferno   . 7
crônica                                                                                                                            crônica
arMadura                                                                                                                           literatura CoMo reFúgio
victor conrado s. eschholz                                                                                                         teurra vailatti e talita garcia


Estava eu a caminhar apressadamente pela rua, voltando do         dizia, despejei sobre ele as palavras de quem tem razão. O ho-   a inCríVel experiênCia de VaneSSinHa atraVéS de rérgio e andré Sant’anna
cartório com documentos na mão e um bocado de problemas           mem, protegido por sua armadura de quatro rodas, disse ao
na cabeça. Descendo uma das ruas que fazem parte de um            término do meu esbravejo: “Não, meu amigo, você não está         Vanessinha era uma carioquinha tão apimentada, que consul-           a fazer parte de sua rotina. E, como diria Sérgio SantAnna,
trajeto que há muito conheço, surpreendo-me com um carro          certo coisa nenhuma. O que acontece é que vocês são mui-         tava as zonas de maior índice de crimes sexuais no periódico         é tudo questão de decisão! E depois, tem os que dizem, que
saindo da garagem do prédio e avançando em minha direção.         to abusados”. Vocês? Vocês quem? Nós, os pedestres? Não,         de sua cidade, e no vai e vem, quando acalmava a correria, ela       literatura fica aí só marcando bobeira nas universidades e não
Eu estava na calçada, lugar onde pedestres mandam e moto-         creio que estivesse se referindo aos jovens. Concluí então que   passeava por lá, fazendo figas para ser contemplada. Foi aí que      transforma a vida do povão.
ristas pedem licença. Fiquei surpreso e irritado com o carro      aquele senhor possuía alguma desavença com um filho, o que       nessas lidas e idas, nada lhe pareceu mais sensato que o tro-
prateado que por pouco não me encostava. Parei ao seu lado        talvez o tenha feito pensar que todo jovem é errado e incon-     peço no caderno C de um jornalzinho daqueles, que dizia as-
e tentei enxergar o motorista por trás do vidro escuro. O con-    seqüente e não sabe como se comportar em uma calçada. Um         sim: “O Paraíso é bem bacana”. Não sabendo se o sujeito, que
dutor do veículo, então, baixou o vidro da porta do passageiro,   bando de abusados. Sendo assim, respirei fundo, despedi-me       escreveu a sinopse daquele livro, era ignorante ou mal inten-
ao lado da qual eu me encontrava, e esboçou um sermão sobre       do homem com um aceno em tom de zombaria (para fazer jus         cionado, ela já foi correndo querer saber qual era daquele su-
como ele estava certo e sobre como eu deveria ter esperado        ao rótulo de “abusado) e continuei o meu caminho, o meu dia,     jeitinho da pós-modernidade, o tal André SantAnna. E acabou
sua majestade passar com sua carruagem. Aquilo me deixou          a minha vida.                                                    caindo na conversa de dois caras, um carioca fluminense, e o
puto. Então, sem esperar o homem grisalho terminar o que                                                                           tal sujeitinho-pós-moderno, filho do primeiro. Fervoroso que
                                                                                                                                   era, o carioca, começou entabulando a conversa da seguinte
                                                                                                                                   maneira, “Particularmente, eu leio sempre antes de dormir,
                                                                                                                                   lógico, que quando tem jogo do fluminense e a coisa vai até
                                                                                                                                   meia noite, a gente deixa pro outro dia”. Para a surpresa do
                                                                                                                                   público leitor, para Vanessinha, tal declaração não lhe pareceu
                                                                                                                                   nem pedante, nem rasa, nem besta. Ela queria saber, porém,
                                                                                                                                   qual era o gabarito do tal fluminense, pra dar dica literária,
                                                                                                                                   quando ela mesma, que se julgava tão letrada, era vascaína. E
                                                                                                                                   assim, no andamento da prosopopéia, descobriu um mundo
                                                                                                                                   novo, porque nada faz sentido se não compartilhado – lan-
                                                                                                                                   çando aqui citação de Paulo Coelho, ou se bem quiseres aca-
                                                                                                                                   dêmico, ta aí aquele velho negócio do exercício da alteridade.
                                                                                                                                   Fomentando sua empolgação, Vanessinha descobriu o prazer
                                                                                                                                   que a leitura traz consigo; deixou de lado seu Orkut, seu Twit-
                                                                                                                                   ter, seu Facebook e seu Fotolog, e jurou pra ela mesma que a
                                                                                                                                   partir daquele dia iria começar a economizar a primeira parce-
                                                                                                                                   la do seu E-reader. E gozando da mais pura tentação, se ateve
                                                                                                                                   a tal frase do tricolor, “Lógico que se eu visse Clarice Lispector
                                                                                                                                   lendo para um público qualquer, eu ficaria sensivelmente in-
                                                                                                                                   teressado em ouvir”. E para os leitores, se isso não for ficar
                                                                                                                                   enfadonho, Vanessinha largou toda aquela história de consul-
                                                                                                                                   tar periódico, e foi procurar a tal da Clarice”... Depois daquele
                                                                                                                                   dia, leitura para ela não se tornou mais hábito, como era com
                                                                                                                                   o periódico. Virou vício. Embora ela ainda não abrisse mão do
                                                                                                                                   seu Blog e não perdesse um jogo do Vasco, a leitura passou


cal ufpr   .   boca do inferno   . 8                                                                                                                                                                                                        cal ufpr   .   boca do inferno   . 9
FatoS HiStóriCoS na ConStrução da naCionalidade São-toMeenSe na obra                                                                   a construir kilombos, pequenas povoações na floresta densa,       tamente arvorando um estandarte frente aos portugueses15,
                                                                                                                                       de administrações próprias e autônomas de fazendas coloni-        Amador proclamou-se rei de São Tomé e Príncipe e marcou
teatro iMaginário angolar de S. toMé e prínCipe de Fernando de MaCedo                                                                  zadoras. Uma terceira hipótese: os angolares seriam descen-       os inícios do reino angolar. Ao longo desta revolta, os com-
                                                                                                                                       dentes de tribos africanas que chegaram à ilha muito antes        batentes e já ex-escravos angolares queimavam as igrejas,
                                                                                                                      ana kaniški1     que os portugueses e iniciaram o povoamento do interior da        destruíam as fazendas ou convertiam-nas para que os negros
                                                                                                                                       ilha. É necessário acentuar que, apesar de nenhuma das teo-       pudessem viver nelas. Rei Amador libertou efctivamente mais
                                                                                                                                       rias revelar a data da chegada dos angolares à ilha são-tomen-    de metade do território são-tomense e ocupou a administra-
INTRODUÇÃO                                                          rio, foi publicado em 1956.5 Depois de 25 de Abril de 1974,
                                                                                                                                       se, o historiador português Joaquim Veríssimo Serão (1980)        ção colonial localizada na capital. A luta pela liberdade acabou
  No contexto do seminário Literaturas Africanas de Expres-         Fernando de Macedo e Henrique Barros fundaram o Instituto
                                                                                                                                       acha que os escravos chegaram por volta de 154011.                no ano seguinte. Alguns membros da sua família16 e do exér-
são Portuguesa, este trabalho irá se preocupar com o trilogia       António Sérgio. O dramaturgo foi eleito presidente.
                                                                                                                                         Seja como for, de acordo coma a história contemporânea,         cito atraiçoaram-no. Rei Amador foi capturado e enforcado
Teatro do Imaginário Angolar de S. Tomé e Príncipe de Fer-            Em 1975, Fernando de Macedo participou de uma missão no
                                                                                                                                       Amador era o rei do povo angolano. Recentemente, o historia-      pelas autoridades coloniais portugueses no dia 4 de Janeiro
nando de Macedo, que inclui três peças: Rei do Óbó, Capitan-        Timor e em vários países de língua oficial portuguesa, dentre
                                                                                                                                       dor Gerhard Seibert (2005), no seu trabalho científico, provou    de 1596.
go e Cloçon Son. Convém também destacar que não existe              os quais as Ilhas de São Tomé e Príncipe. Depois veio a ser “di-
                                                                                                                                       que o rei Amador de fato não era o rei dos angolares, mas o         Ao longo da história, o reino angolar foi governado pela su-
quase nenhuma documentação, nem estudos científicos que             rigente” da CoopÁfrica, uma associação que contribui para a
                                                                                                                                       iniciador da revolta dos escravos em 1595. Seibert conclui que    cessão dos reis. Isto comprova uma fotografia tirada em 1895
elaboram a obra literária deste dramaturgo contemporâneo.           estruturação da sociedade civil, especialmente em regiões afri-
                                                                                                                                       os únicos documentos existentes testemunham que a revolta         pelo Sr. Almada Negreiro17. Ela representa o Rei Simão Andre-
  A hipótese deste trabalho é que, usando os fatos históricos       canas menos desenvolvidas”6. Nos anos 1980, foi afastado da
                                                                                                                                       dos escravos foi chefiada pelo negro fugido, Amador, que se       za, o último conhecido rei angolar, que Fernando de Macedo
para determinar a nacionalidade angolar que foi defendida ao        presidência de Instituto e, embora tivesse lecionado na Facul-
                                                                                                                                       proclamou rei12. Algumas fontes dizem respeito aos seus do-       (2000), na sua obra, descreve como “rei dos Angolares falecido
longo de quase cinco séculos, Fernando de Macedo, nas nar-          dade de Economia de Lisboa, dedicou-se ao cooperativismo.
                                                                                                                                       nos fazendeiros: o seu dono poderia ter sido Don Fernando.        no primeiro quartel do século vinte… quando da ocupação de
rativas dessas três peças, estabelece a nacionalidade das Ilhas       Assinando como Fernando Ferreira da Costa, o escritor criou
                                                                                                                                       Mas nenhum dos autores dessas fontes relaciona o rei Ama-         Santa Cruz (Anguéné) pelos Portugueses, em 1879, passou a
de São Tomé e Príncipe que ganharam independência após a            uma ampla obra científica; contudo, é mais conhecido pela sua
                                                                                                                                       dor com o povo angolar.                                           ser denominado “Capitão” por imposição dos ocupantes.”18
Revolução dos Cravos.                                               produção literária, que foi escrita a partir do fim da década de
                                                                                                                                         O escritor que pela primeira vez relacionou o povo angolar
  O objetivo deste trabalho é, depois de uma breve exposição        1990 e publicada sob o nome de Fernando de Macedo. A obra
                                                                                                                                       com o rei Amador foi o geógrafo e poeta são-tomense José          TEATRO DO IMAGINÁRIO ANGOLAR
da vida e da obra de Fernando de Macedo, analisar como é que        envolve duas coletâneas de poesia, Anguéné, Gesta Africana do
                                                                                                                                       Francisco Tenreiro que na obra A Ilha de São Tomé” (1961)           Antes da análise da história do povo angolar, dos seus reis
os fatos históricos foram elaborados na trilogia teatral e veri-    Povo Angolar de S. Tomé e Príncipe (1989) e Mar e Magoa (1994);
                                                                                                                                       escreveu: “De 1595 e 1596 esta [a ilha de São Tomé] chega         heróicos e da maneira como Fernando de Macedo usa essa his-
ficar de que maneira o autor constrói e revela a nacionalidade      um ensaio, O Povo Angolar de S. Tomé e Príncipe (1996)7; e, no
                                                                                                                                       mesmo de cair nas mãos dos angolares, chefiados pela figura,      tória para construir a nacionalidade são-tomense, temos de
são-tomense.                                                        fim, a trilogia Teatro de Imaginário Angolar de S. Tomé e Prín-
                                                                                                                                       já lendária, de Amador”13. Todos os historiadores e escritores    apresentar uma sinopse de Teatro do Imaginário Angolar. Dado
                                                                    cipe, incluindo as peças Rei do Óbó (1997), Capitango (1998)
                                                                                                                                       aceitaram esta versão da história. E a mesma está presente no     que o tema deste trabalho é o papel da história nacional na
VIDA E OBRA DE FERNANDO DE MACEDO                                   e Cloçon Son (1997). O fato de o escritor ser mais conhecido
                                                                                                                                       pequeno texto Esboço Histórico das Ilhas de S. Tomé e Príncipe,   construção da nacionalidade, a obra que mais nos interessa é a
  Professor, etnógrafo, poeta, dramaturgo e ativista político,      por sua obra literária, atribui-se às encenações de Capitango e
                                                                                                                                       escrito pelo historiador Carlos Neves, publicado em 1975, em      primeira peça – Rei do Óbô. Contudo, será proveitosa também
de ascendência são-tomense-angolar, Fernando Macedo Fer-            Cloçon Son (a segunda estreou na Ilha de São Tomé em 1997, e
                                                                                                                                       que ele escreveu o seguinte: “A 9 de Julho de 1595 o célebre      a analise das outras duas peças que, tal como a primeira, reve-
reira da Costa nasceu em 1928 em Lisboa.                            a primeira na Expo 98, em Lisboa).
                                                                                                                                       Amador, à frente dos Angolares, levanta o estandarte da re-       lam algumas partes da história em questão.
  Como sequaz de política anti-salazarista, durante a sua for-        Pela contribuição ao “fortalecimento da sociedade civil lusó-
                                                                                                                                       volta, mas é preso e morto em 1596”14.
mação universitária e depois de se ter licenciado em estudos        fona”8, Fernando de Macedo, em 1997, foi condecorado com a
                                                                                                                                         A lenda do ex-escrevo e rei Amador, que conhecemos hoje,        REI DO ÓBÔ
de Ciências-Histórico-Filosóficas, o dramaturgo empenhou-           Ordem do Infante D. Henrique. Morreu em Lisboa em 2006.
                                                                                                                                       foi divulgada depois da independência das Ilhas de São Tomé        A narrativa da Rei do Óbô é apresentada ao leitor através de
se politicamente na luta pela independência das colónias por-
                                                                                                                                       e Príncipe. Desde o início da exploração da cana-de-açúcar na     dois narradores – Luísa Bôbô, “Mulher da Virtude” conhecida
tuguesas. Foi também recusado pela instituição militar “não         A LENDA DO POVO ANGOLAR E DO SEUS REIS
                                                                                                                                       Ilha de São Tomé em 1501, o tráfico negreiro era imensamen-       pelo seu conhecimento deste mundo e do mundo do Além, e
apenas pela objeção de consciência, mas porque o associati-          Por causa de escassos documentos, arquivos e fontes etnó-
                                                                                                                                       te praticado pelos colonizadores portugueses e acabou em nu-      Mantana, o homem mais velho de Anguéné e o melhor conhe-
vismo era proibido pelo regime salazarista”2 e “por não ter ca-     grafos e históricos, existem várias hipóteses da história e da
                                                                                                                                       merosas agressões contra os negros. A única maneira para que      cedor da história e tradição angolares. Eles são testemunhos
racterísticas de raça branca”3. Esteve preso durante dois anos.     origem do povo angolar (habitantes da zona sul da Ilha de São
                                                                                                                                       os escravos evitassem as opressões era revoltar-se ou escapar     da revolta histórica dos angolares em 1595.
  As suas convicções anti-salazaristas levavam-no pela segun-       Tomé) e do seu rei Amador. Segundo uma das hipóteses, os
                                                                                                                                       para o interior, ou seja, para as florestas.                       Luísa Bôbô e Mantana, acompanhados pela sua mulher Hi-
da vez à prisão, à suspensão dos direitos cívicos e à proibição     angolares teriam sido escravos de proveniência angolana9. So-
                                                                                                                                         Amador, escravo de um capitão-de-mato, fugiu para o in-         rondina, deveriam participar, em Djambi, de uma cerimonia
de se deslocar a São Tomé. Formou parte do movimento cris-          breviveram ao naufrágio de um “barco de escravo”10, ocorrido
                                                                                                                                       terior da ilha, onde numerosos escravos angolares já viviam       secreta de comunicação com as almas e forças sobrenaturais.
tão Metanóia, um grupo de precursores da vida em comuni-            na região de Sete Pedras, localizada a sudoeste da Ilha de São
                                                                                                                                       nos kilombos. No dia 9 de Julho de 1595, acompanhado pelos        Por isso foram para interior onde, depois que a medrosa Hi-
dade, que se estabeleceu em Trás-os-Montes para alfabetizar         Tomé. De acordo com outra hipótese, os angolares teriam sido
                                                                                                                                       outros angolares e escravos com os quais estipulou a aliança,     rondina os desamparou, avistaram a silhueta da mãe de Ama-
a população local4. As ideias políticas do escritor estão presen-   escravos fugidos dos seus donos na época depois do descobri-
                                                                                                                                       Amador avançou de dentro dos kilombos para fazendas co-           dor. Ela exigiu de Luísa Bôbô e de Mantana que, esfregando as
tes no seu primeiro livro, O movimento cooperativo britânico,       mento das ilhas do arquipélago pelos colonizadores portugue-
                                                                                                                                       lonizadoras com a intenção de libertar o povo servil. Supos-      mãos com as folhas da planta mangungu, comprovassem suas
que, prefaciado por António Sérgio, seu professor universitá-       ses, em 1470. Tendo escapado aos colonizadores, começaram

cal ufpr   .   boca do inferno   . 10                                                                                                                                                                                                         cal ufpr   .   boca do inferno   . 11
boas intenções. Ambos testemunharam a coroação do novo             te “Bobo” a tradição angolar. Tendo ouvido que pau-kími – uma    vários médicos. Damião, “doutor encartado” que além dos             colonos angolares terem chegado à ilha. Quer dizer, o Reino
rei – Amador, um jovem inquieto que, depois de estar infor-        árvore cujas partes secas, depois que tinham sido relocadas no   conhecimentos da medicina tradicional, tratava as doenças           angolar tem sido governado por uma sucessão de reis. Isto foi
mado pela sua mãe da morte do seu pai, se tornou rei de seu        campo do rei Simão Andreza, recuperaram e cresceram abun-        rezando aos Santos Damião e Cosme, ordenou a Palayê tratar          o seu direito por eles serem filhos da família. Sustentamos
povo. Sua mãe aconselhou-o a ir à montanha Budo-Bachana e          dantemente em ramos e folhas – foi cortado pelos portugue-       Madalena com planta cloçon son e com orações que iam pro-           esta hipótese com a frase dita pela mãe de Amador: “Toma!
a sua mulher Amada pediu-lhe que libertasse os cativos e es-       ses, “Bobos” e “Anjos de Cantar” lamentavam esse infortúnio.     tegê-la das maldições possíveis. A “Santificada”, uma mulher        (Desdobra o pano vermelho que encobria o bastão). Agora é teu,
cravos. Enquanto o rei Amador avançava e libertava a metade        Inicialmente os “Bobos” resistiram a duas tentações: Pé-de-      que adivinhava as doenças dos enfermos disse a Madalena que         pois as febres já tiraram a vida àquele que o segurava por amor
da ilha, no terceiro ato da peça, ao leitor é revelada a conduta   pau, a personagem de “Danço Congo” e representante da parte      ela não ia morrer porque ia dar à luz um filho – o seguinte rei e   ao nosso povo.”20
dos colonizadores portugueses. O Capataz, representante dos        de angolares que consideram si mesmos superiores em relação      líder dos angolares, e que ficaria grávida de um homem que re-        Frases como estas levam a imaginar que o Reino angolar foi
portugueses, recusou-se a tentar salvar a vida do Corsário,        aos outros que obrigava “Bobos” a reconhecer que os coloniza-    conheceria pelo tremor do seu coração quando o encontrasse.         formado muito antes da revolta em 1595 porque, segundo
representante dos piratas brancos. Depois de ter chegado ao        dores portugueses tinham influenciado de maneira positiva o      Um stilijon local que tratava adoentados através da análise da      a narrativa, Amador era apenas o novo rei na sucessão dos
engenho para libertar os escravos, Amador poupou a vida de         povo angolar; e Lúcifer, representante das tentações “demóni-    urina, concluiu, depois de ter analisado a de Madalena, que ela     reis angolares – fato que não corresponde completamente às
Corsário, mas recusou a ideia de que ambos estão unidos na         cas” e oposto à união do povo angolar que começou a glorificar   era possuída por uma alma inquieta de um seu antepassado.           fontes sobre a origem de Amador, que o revelam só como um
luta pela independência dos portugueses.                           os europeus, dizendo que seria melhor se os angolares cola-      Ele aconselhou Simão a fazer uma cerimonia em que todas as          ex-escravo que escapou da fazenda. Este último fato foi cons-
  As posições da igreja sobre a escravatura são apresentadas       borassem com os portugueses para atingirem a prosperidade        pessoas da aldeia rezariam pelas almas dos antepassados.            tatado pela documentação histórica existente (Seibert, 2005).
pela personagem do frei Afonso. Frente à entrada de uma            do seu povo. “Feiticeiro”, um homem com conhecimentos e            Durante esta cerimónia, inspirados pela história da avó da        Uma outra personagem feminina ocupa um lugar de destaque
pequena igreja frei Afonso, inicialmente desaprovando e cri-       poderes especiais, apareceu no fim da conversa e afastou Lúci-   Madalena, as moças da aldeia encenaram um espectáculo de            no teatro de Fernando de Macedo – a mulher de Amador –
ticando as ações de “Alforriada”, mulher liberada da sua es-       fer e Pé-de-pau do palco.                                        marionete: a história de uma mulher idosa que perdeu a sua          Amada, que suplica ao seu marido liberdade para o seu povo:
cravidão depois de ter dado à luz a criança concebida com seu        Neste momento, acompanhada pelo executor “Algoz”, Rai-         única filha e que foi consolada por uma galinha, que, por sua       “Liberta primeiro cativos e os escravos! Eles te ajudarão na
fazendeiro Sr. Basílio, finalmente concordou em esconder o         nha entrou no palco e expulsou “Feiticeiro”, seu assistente      vez, perdeu onze pintos. Depois do espectáculo, a avó evocou        luta juntando-se aos nossos.”21 Portanto, pela atuação das per-
escravo fugido N’Gola. Ao mesmo tempo quando N’Gola es-            “Zugo-Zugo” e Lúcifer. Ela opôs-se às tentativas do “Feiti-      as aparições de “mutilados”, de todas as pessoas que foram          sonagens da mãe e da mulher de Amador, o leitor acaba por
tava a esconder-se sob o pórtico da igreja, Sr. Basílio interro-   ceiro” em aproximar o povo angolar à sua tradição e Lúcifer      capturadas, mortas e torturadas na batalha, assim como Ama-         se familiarizar com Amador como um jovem governante, que
gava e informava o frei Afonso sobre as últimas novidades:         para aproximá-lo dos portugueses. Em vez disso queria que os     dor e Simão Andreza. No ato final, Madalena conheceu um             chegou a ser rei depois da morte do seu pai e como alguém que
os guerrilheiros libertavam os engenhos, queimavam as admi-        angolares rejeitassem a sua tradição e se submetessem às su-     engenheiro florestal, futuro pai de seu filho.                      vai se tornar o libertador de seu povo. Por agora, vamos deixar
nistrações colonizadores e os ex-escravos juntaram-se ao povo      periores forças exteriores que ela representa. Cinco membros                                                                         de lado uma outra interpretação da personagem de Amada a
angolar. Os capatazes portugueses fugiram rumo à Povoação          de “Guias dos Lados” e “Anjos de Cantar” foram expulsos do       CONSTRUÇÃO DA NACIONALIDADE                                         que voltaremos mais adiante.
para se preparar para lutar.                                       palco pela Rainha. Neste momento, “Feiticeiro” voltou para                                                                             Amada gritou a sua súplica ao marido e o rei Amador pas-
  Avançando em sua viagem, Luísa Bôbô e Mantana toparam            anunciar a chegada do último de “Bobos”, o pai de um deles         Mesmo usando na sua obra muitos elementos do misti-               sou a liberar o seu próprio povo e os escravizados. Por quê? A
com dois guerrilheiros que estavam a procurar por João de          – velho Juiz.                                                    cismo, teatro de fantoches e da dança angolar, Fernando de          resposta à esta pergunta é revelada no diálogo entre Capataz
Pina, um fazendeiro português e proprietário de uma égua             Conversando com a Rainha, velho Juiz queixou-se da des-        Macedo narra pormenorizadamente a história heróica sobre            do engenho e Corsário – é indicativo da conduta dos coloniza-
branca que estava a esconder-se dos angolares. Ele disse à Lu-     truição de pau-kími, do cemitério e da sepultura do rei Andre-   dois reis principais, porque, como Gilbert e Thompkins (1996)       dores portugueses para com os indígenas escravizados e pira-
ísa Bobo que os colonizadores tinham atacado os nativos e ti-      za, cujos ossos foram arremessados a uma fossa. Por ele ter      afirmam, “o líder de uma revolta contra as forças coloniais ou      tas brancos, ou seja, ladrões. Mesmo que este relacionamento
nham matado Conde Silvestre, o capitão favorito de Amador.         defendido a história e tradição angolar, Rainha proclamou-o      alguém geralmente historiado como malicioso, é frequente-           possa ser tratado como um outro aspecto na obra de Fernando
Duarte Amarroco, o general do exército angolar, aproximou-         traidor. Na confusão que se seguiu, o carrasco matou velho       mente reconstruído no teatro pós-colonial para desempenhar          de Macedo, no contexto de nossa hipótese é importante por-
se de Luísa Bôbô para lhe dizer que os portugueses tinham          Juiz. Depois desta agitação os restantes do “Guias dos Lados”    um grande papel proeminente na luta pela liberdade do poder         que, na sua essência, é a razão da revolta do povo angolar.
bombardeado os guerrilheiros. Pouco depois, um grupo de            e “Anjos de Cantar”, começaram a cantar, o cadáver de Juiz de-   imperial.19” Agora analisaremos o modo como isto foi conse-           Através da personagem do frei Afonso, o leitor vem a saber
nativos liderado pela mãe de Amador e Amada, agora grávi-          sapareceu e “Capitango” e seus assistentes entraram no palco.    guido na obra do autor.                                             das atitudes da Igreja Católica sobre o povo colonizado, sua
da, aproximava-se dos “narradores”. As mulheres mostraram          Após a dança, o único homem que ficou no palco foi Lúcifer.        Inserindo a personagem materna na narrativa da primeira           religião e tradição, bem como a sua relação com os coloniza-
o cadáver do rei Amador à Luísa Bôbô e Mantana. Enquanto                                                                            peça – a mãe do Amador – através de conhecimentos dessa             dores. O frei Afonso torna-se uma personagem importante na
Amada e Luísa Bôbô rezando evocavam os líderes mortos do           CLOÇON SON                                                       personagem sobre as propriedades de terra e de plantas, seu         narrativa porque através da sua conversa com Sr. Basílio e En-
exército angolar, Amada agasalhou-se com a capa vermelha do          Palayê, uma vendedora de peixe no mercado citadino, e seu      misticismo, o respeito que ela recebe de Luísa Bôbô e Man-          carregado o leitor toma conhecimento das ações heróicas dos
seu marido morto. O povo presente, juntamente com as crian-        marido Simão, um pescador, estão a enfrentar a provável per-     tana e especialmente através da percepção dela como uma             angolares que constroem um forte sentido da continuidade na
ças que vinham correndo, começou a cantar louvores.                da da sua última filha Madalena, uma menina acometida por        metáfora da mãe em geral, como uma terra que alimenta os            luta pela sua independência.
                                                                   uma doença desconhecida. Por terem medo de que a história        seus habitantes e como uma rainha que deu à luz a criança             Como foi elaborado em nosso trabalho, uma das hipóteses
CAPITANGO                                                          se repetisse – os seus seis filhos morreram “em terra com as     que virá a ser um rei após a morte do seu pai –, Fernando de        sobre a origem dos angolares é a de que eles são ascendentes
  Três “Bobos”, representantes do povo angolar, debatiam en-       febres”, e na esperança e no desejo de determinar a doença de    Macedo insinuar a continuidade do Reino angolar desde a sua         dos angolanos, e a isso se opõe Eugénio Luís da Costa Almeida
tre si o valor das tradições angolares para ensinar um ignoran-    Madalena e encontrar o meio da curá-la, os pais consultam        fundação por volta de 1540 , ou seja, depois de os primeiros        (1991) no seu trabalho. Costa Almeida afirma que não deve-


cal ufpr   .   boca do inferno   . 12                                                                                                                                                                                                       cal ufpr   .   boca do inferno   . 13
ríamos misturar os angolares com os angolanos que “se inti-       20, temos uma problematização complementar. Apoiando-se           foi defendida no século 20. Em outras palavras, essa naciona-                      REFERÊNCIAS
tulavam Ngola e não N’Gola” 22. Seja como for, é interessante     nos temas e nos valores da dança tradicional angolar – Danço      lidade, fortalecida pelos fatos históricos, valida e justifica cada
que uma personagem escravizada na narrativa leva o nome           Congo, Fernando de Macedo, através das personagens de Ca-         resistência anti-colonial e esforço do povo de São Tomé contra                     Enders, Armelle. História da África Lusófona, Editorial Inquérito, Sintra,
                                                                                                                                                                                                                       1997 Ferreira, Manuel. [1977] Literaturas africanas de expressão portugue-
N’Gola. Portanto, Fernando de Macedo fez referência ao “pro-      pitango problematiza a relação entre a vida moderna, repre-       os portugueses.
                                                                                                                                                                                                                       sa: I, Instituto de cultura portuguesa: Ministério da Educação e Cultura, 1986
blema” da origem dos angolares. Como? A resposta do frei          sentada pelos colonizadores e uma vida tradicional, represen-                                                                                        Gilbert, Helen; Tompkins, Joanne.
Afonso indica que ele não se importa se o angolares chegaram      tada pelos angolares. Nesse aspecto, o velho Juiz, referindo-se                                                                                      Post-colonial Drama; Theory, Practice, Politics, Routledge, London and New
à ilha após o naufrágio ou vieram de Angola. Mas, deveríamos      à personagem do rei Andreza, lembra aos presentes a velha                                                                                            York, 1996 Macedo, Fernando de. Teatro do Imaginário Angolar de S. Tomé
                                                                                                                                    1
                                                                                                                                      Aluna de graduação do curso de Língua e Literatura Portuguesa, Faculdade         e Príncipe, Cena Lusófona: Associação Portuguesa para o Intercâmbio Tea-
tomar em conta que o autor faz uma outra referência, cuja         história, cultura e tradição angolar que os angolares deveriam
                                                                                                                                    de Filosofia e Ciências Humanas,Universidade de Zagreb.                            tral, Coimbra, 2000 Marques, A. H. de Oliveira; Baudrillart, Marte – Hélène.
premissa se justifica na resposta do escravo fugido N’Gola que    honrar. Portanto, ele utiliza a árvore real, cortada pelos por-   2
                                                                                                                                       Publico.PT. “Morreu Fernando Ferreira da Costa”, URL: http://ultimaho-
                                                                                                                                                                                                                       Histoire du Portugal er de son empire colonial, Karthala, Paris, 1998. Mata,
no final da sua conversa com Luísa Bôbô e Mantana declara:        tugueses, como uma metáfora para o possível perigo em rela-       ra.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1246416&idCanal=36, (11 de Agosto de
                                                                                                                                                                                                                       Inocência. “São Tomé e Príncipe (Parte V)” em: Laranjeira, Pires. Literaturas
“Dona, as crianças são sagradas. Nós arriscamos a vida por        ção aos colonizadores. Um dos Bobos diz: “ […]cortaram o que      2009)
                                                                                                                                                                                                                       Africanas de Expressão Portuguesa, Universidade Aberta, Lisboa, 1995, pg.:
                                                                                                                                    3
                                                                                                                                      Macedo, Fernando de. Teatro do Imaginário Angolar de S. Tomé e Príncipe,
elas, e muitos morrem na luta. Apesar da tristeza, é bom que      não lhes fazia falta arrancando raízes da nossa memória…”25                                                                                          331-349 Mitras, Luís R. “Theatre in Portuguese-speaking African Countries”
                                                                                                                                    Cena Lusófona: Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral, Coimbra,
os meninos vejam para que não esqueçam amanhã o preço da          Bobo continua: “Até ao Rei Andreza, decorrem quasi quatro                                                                                            em: Banham, Martin (ed.). A History of Theatre in Africa, Cambridge Uni-
                                                                                                                                    2000, pg.: 141
                                                                                                                                                                                                                       versity Press, Cambridge, 2004, pg.: 380-404 Seibert, Gerhard. “São Tomé e
liberdade.” 23 Segundo isso, N’Gola alude ao futuro possível      séculos de “guerra do mato”. Não foi só o Amador que entrou       4
                                                                                                                                      Op. cit. 1
                                                                                                                                                                                                                       Príncipe” em: Chabal, Patrick. A History of Post-colonial Lusophone África,
dos angolares e para que a luta pela nacionalidade não seja       na capital, antes e depois dele idêntico feito foi conseguido
                                                                                                                                    5
                                                                                                                                       Biblioteca Nacional de Portugal, URL: http://www.bnportugal.pt/, (11 de
                                                                                                                                                                                                                       Indiana University Press, Bloomington & Indianápolis, 2002 Serão, Joa-
                                                                                                                                    Agosto de 2009)
esquecida. Voltemos agora à personagem da mulher de Ama-          por outros Reis. Temos uma bela e longa história escrita com                                                                                         quim Veríssimo. História de Portugal: Volume IV: governo dos reis espanhóis
                                                                                                                                    6
                                                                                                                                      Op. cit. 2
dor, Amada, que, no ato final da peça revela-se muito impor-      o sangue do nosso povo!”26 Não acha que aqui o velho Juiz         7
                                                                                                                                      Op. cit. 3, pg.: 141                                                             (1580-1640), Editorial Verbo, Lisboa, 1980
tante: ela está grávida com a criança que será a futuro rei dos   está a referir-se à nacionalidade angolar, a mesma defendida      8
                                                                                                                                      Op. cit. 3, pg.: 142                                                             Almeida, Eugénio Luís da Costa. “São Tomé e Príncipe: Notas para um estudo
                                                                                                                                    9
                                                                                                                                      Grada Kilomba. „Rei Amador“ URL: http://www.gradakilomba.com/Essays.             sócio-político. Universidade Lusíada, Lisboa, 1991”, URL: . http://elcalmeida.
angolares e, portanto, ela cobre-se com a capa vermelha para      por ambos os reis? Desta forma, mais uma vez, o autor alude
                                                                                                                                    htm, (16 de Agosto de 2009)                                                        home.sapo.pt/Naopublicados/STPrincipe.htm, (21 de Agosto de 2008)
se proclamar regente do trono real. Assim, a continuidade do      à continuidade da nacionalidade angolar.                                                                                                             Antunes, Maria do Rosário Nogueira. “Memórias Angolares ou Ângulos São-
                                                                                                                                    10
                                                                                                                                       S. Tomé e Príncipe – Os Angolares. „O Reino dos Angolares“, URL: http://
povo angolar (nação, tradição e cultura) será preservada.                                                                           angolares.no.sapo.pt/, (15 Agosto de 2009)                                         tomenses em Teatro Imaginário Angolar de Fernando de Macedo, 2002”,
  Através das personagens do fazendeiro português João de         CONCLUSÃO                                                         11
                                                                                                                                       Serão, Joaquim Veríssimo. História de Portugal: Volume IV: governo dos          URL: http://www.uea-angola.org/artigo.cfm?ID=564, (11 de Agosto de 2009)
Pina e líder bélico Duarte Amarroco, o leitor acaba por ser in-                                                                     reis espanhóis (1580-1640), Editorial Verbo, Lisboa, 1980, 234                     Ceita, Maria Nazare Dias de. „Expressions Culturelles à São Tomé“, 2007,
                                                                                                                                    12
                                                                                                                                        Seibert, Gerhard. „A verdadeira origem do célebre Rei Amador, líder da         URL:    http://www.africultures.com/php/index.php?nav=article&no=1285,
formado que no campo de batalha cada lado confrontado está          A cada narrativa ficcional podemos atribuir a definição que a
                                                                                                                                    revolta dos escravos em 1595“, Instituto de Investigação Científica Tropical       (11 de Agosto de 2009)
a ponto de ganhar ou perder. Também, o leitor aprende que         ficção é, diferentemente dos fatos históricos, inventada, mu-     (IICT), Lisboa“, 2005, URL: http://culturastp.blogspot.com/2005/05/verda-          Pereira, Renato Pignatari. “A construção do nacionalismo em São Tomé e
Amador está morto. Os fatos históricos da sua morte – Ama-        tável, e subjetiva, mas na questão da narrativa da trilogia es-   deira-origem-do-clebre-rei-amador.html, (20 de Agosto de 2009)                     Príncipe”, URL: http://www.klepsidra.net/klepsidra13/saotome.htm, (16 de
dor foi traído pelos seus soldados mais próximos e membros        crita por Fernando de Macedo, somos confrontados com uma
                                                                                                                                    13
                                                                                                                                       Op. cit. 11                                                                     Agosto de 2009)
                                                                                                                                    14
                                                                                                                                       Op. cit. 11                                                                     Seibert, Gerhard. „A Lenda do Rei Amador; São Tomé e Príncipe“, URL:
da família – não estão presentes no drama. Fernando de Ma-        certa confusão. Manipulando, acrescentando ou omitindo fa-        15
                                                                                                                                       Op. cit. 8                                                                      http://www.esecamora.pt/joomla151/images/stories/projectos/geminacao/
cedo omite-os e implementa o misticismo. Na peça, a “pro-         tos históricos da vida e do heroísmo dos dois maiores reis an-    16
                                                                                                                                       São Tomé e Príncipe. „O preço da liberdade; A história do Rei Amador, ícone
                                                                                                                                                                                                                       files/celmira_lenda_do_rei_amador_s_tome_principe.pdf, (15 de Agosto de
cissão” dos angolares acabou no sopé de Budo-Bachana, uma         golares, os guardiões do coletivo e forças unificadoras do povo   da luta de emancipação de São Tomé e Príncipe”, URL: http://opatifundio.
                                                                                                                                                                                                                       2009)
montanha que, segundo a superstição popular, possui pode-         angolar, Fernando de Macedo pertence à sucessão de tantos         com/descobriapolvora/?cat=30, (11 de Agosto de 2009)
                                                                                                                                                                                                                       Seibert, Gerhard. „A verdadeira origem do célebre Rei Amador, líder da revol-
                                                                                                                                    17
                                                                                                                                       Op. cit. 9
res místicos.                                                     outros escritores que antes dele têm representado o escravo                                                                                          ta dos escravos em 1595“, Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT),
                                                                                                                                    18
                                                                                                                                       Op. cit. 3, pg.: 139
  Apesar das diferenças entre as peças Rei do Óbô e Cloçon Son    libertado Amador como o líder dos angolares, fato o qual con-                                                                                        Lisboa“, 2005, URL:http://culturastp.blogspot.com/2005/05/verdadeira-
                                                                                                                                    19
                                                                                                                                       „The leader of a rebellion against colonial forces or someone generally his-
                                                                                                                                                                                                                       origem-do-clebre-rei-amador.html, (20 de Agosto de 2009)
(cujo enredo é colocado num período temporal posterior),          trariam os documentos históricos existentes.                      toricised as villainous is often reconstructed in post-colonial theatre to play
                                                                                                                                                                                                                       Biblioteca Nacional de Portugal, URL: http://www.bnportugal.pt/, (11 de
elas possuem um “denominador comum” na personagem de                Além disso, através das personagens da mãe de Amador, sua       a highly prominent role in the struggle for freedom from imperial rule. focus
                                                                                                                                                                                                                       Agosto de 2009)
                                                                                                                                    on a local legendary figure, loosen imperialism’s stranglehold on historical re-
rei Simão Andreza. Com o objetivo de provar uma certa con-        mulher Amada (as personagens da narrativa não existentes                                                                                             Grada Kilomba. „Rei Amador“ URL: http://www.gradakilomba.com/Essays.
                                                                                                                                    presentation.” Veja: Gilbert, Helen; Tompkins, Joanne. Post-colonial Drama;
tinuidade da nacionalidade e da cultura angolar, Fernando         nas fontes históricas) e da personagem historicamente docu-       Theory, Practice, Politics, Routledge, London and New York, 1996, pg.: 116         htm, (16 de Agosto de 2009) Língua dos Angolares. “Língua N‟Gola – A
de Macedo implementa a personagem do último rei angolar           mentada de rei Andreza, o autor constrói a narrativa de um        20
                                                                                                                                       Op. cit. 3, pg.: 28                                                             Língua dos Angolares”, URL: http://angolares.no.sapo.pt/Falar%20Angolar.
                                                                                                                                    21
                                                                                                                                       Op. cit. 3, pg.: 28                                                             htm, (16 de Agosto de 2009)
conhecido que, como o seu antecedente rei Amador, lutou           povo oprimido que, ao longo da história, defendeu sua pró-
                                                                                                                                    22
                                                                                                                                       Almeida, Eugénio Luís da Costa. “São Tomé e Príncipe: Notas para um estu-       Publico.PT. “Morreu Fernando Ferreira da Costa”, . URL:.http://ultimahora.
contra os portugueses, embora mais tarde, em 1878. Na peça        pria cultura, sociedade e tradição – em outras palavras, a sua                                                                                       publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1246416&idCanal=36, (11 de . Agosto de
                                                                                                                                    do sócio-político. Universidade Lusíada, Lisboa, 1991”, URL: http://elcalmei-
Cloçon Son, o rei Simão Andreza lembra ao seu povo o perigo       própria nacionalidade. Os dois reis - Amador e Simão Andreza      da.home.sapo.pt/Naopublicados/STPrincipe.htm, (21 de Agosto de 2008)               2009) S. Tomé e Príncipe – Os Angolares. „O Reino dos Angolares“, URL:
do esquecimento da própria história pela qual os reis e o povo    – tornaram-se símbolos da revolução anti-imperialista.            23
                                                                                                                                       Op. cit. 3, pg.: 51                                                             http://angolares.no.sapo.pt/, (16 Agosto de 2009) São Tomé e Príncipe. „O
lutavam, caso contrario tudo será em vão: “Filha, pior do que       Em conclusão, como o Reino angolar era localizado na ilha de
                                                                                                                                    24
                                                                                                                                       Op. cit. 3, pg.: 131                                                            preço da liberdade; A história do Rei Amador, ícone da luta de emancipação
                                                                                                                                    25
                                                                                                                                       Op. cit. 3, pg.: 89                                                             de São Tomé e Príncipe“, URL:
a guerra é o esquecimento! E pior do que o inimigo, é o nosso     São Tomé, o objetivo de Fernando de Macedo é mostrar que          26
                                                                                                                                       Op. cit. 3, pg.: 90                                                             http://opatifundio.com/descobriapolvora/?cat=30, (11 de Agosto de 2009)
irmão quando o imita!”24                                          os angolares são parte da história, cultura, tradição do povo
  Na peça Capitango, cuja narrativa é colocada no início século   são-tomense e, portanto, da nacionalidade são-tomense que


cal ufpr   .   boca do inferno   . 14                                                                                                                                                                                                                                cal ufpr   .   boca do inferno   . 15
in(ter)CaMbio: FalloS del prograMa de augM                                                                                             que las Ciencias Sociales y Humanas casi no tienen lugar en
                                                                                                                                       medio de la ingeniería kuera, en un encuentro en el que las
                                                                                                                                                                                                            nido ningún tipo de taller o cursillo que promoviera el conoci-
                                                                                                                                                                                                            miento y la comprensión de la realidad paraguaya. Me subí al
                                                                                                                                       normas de publicación ignoran completamente las particula-           bus con todos mis estereotipos intactos: a comer sopa sólida y
                                                                                                    daiane pereira rodrigues27
                                                                                                                                       ridades de las investigaciones en el campo de Humanidades            a tomar tereré en el país del comercio ilegal. Nada se sabe so-
                                                                                                                                       obligándonos a someter nuestro trabajo a un modelo inhuma-           bre literatura paraguaya en el curso de letras de UFPR, y nada
                                                                                                                                       no de “objetivo, hipótesis, materiales y métodos, desarrollo,        se hace para que no vayamos al país vecino con la vergonzosa
                                                                                                                                       conclusión”. Pues bien, la Asociación existe, como existen los       idea de que es un país sin literatura, porque aunque sepamos
  En el 2º Seminario Internacional de Educación cultural bi-        “integrar a sus instituciones miembro en un espacio acadé-
                                                                                                                                       escenarios kafkianos y barrettianos. Lo que no existe, tanto         de la existencia de Augusto Roa Bastos, nos hacemos la ilu-
lingüe y educación indígena realizado en julio por la Embajada      mico e intercultural común ampliado y a las sociedades a las
                                                                                                                                       en un caso como en los otros, es el verdadero respeto y la ver-      sión de que nada más de importante se ha escrito en el país
de Brasil en Asunción tuve ocasión de asistir a la conferencia      que ellas pertenecen, a partir del conocimiento y comprensi-
                                                                                                                                       dadera cooperación entre instituciones, entre países y entre         del premio Cervantes de 1989. Un compañero que también
de la Dra. Sylvia Duarte Dantas, psicóloga y profesora de la        ón de la gran riqueza que subyace en la diversidad cultural de
                                                                                                                                       campos de investigación.                                             estuvo de intercambio en Paraguay y yo hemos insistido con
USP. La doctora disertaba sobre la importancia del apoyo psi-       esta región”. Me pregunto ¿qué clase de integración hay en
                                                                                                                                         En el ámbito cultural, volviendo al tema de la crisis en el pro-   un proyecto de seminario de literatura hispanoamericana en
cosocial en el proceso de inserción cultural. Eso porque, según     un intercambio en el que algunos estudiantes pasan hambre
                                                                                                                                       ceso de inserción, mucho de la inexistencia o precariedad de         la carrera de letras, teniendo como una de las justificaciones
ella, el contacto con una nueva cultura es un contacto crítico,     por recibir apenas 800.000 guaraníes y otros hacen la buena
                                                                                                                                       la relación mutua, del inter-cambio, se da por los prejuicios y      la necesidad de conocer algo sobre los países vecinos, con los
hay una crisis de identidad generada por la ruptura de las ver-     vida con una beca de 1.500.000, siendo ambos participantes
                                                                                                                                       desconocimientos que tenemos hacia el país de destino. En            cuales tenemos relaciones geográficas, académicas, políticas…
dades y paradigmas del “yo” en contacto con el “otro”. Igual-       del mismo programa de movilidad académica? ¿Cómo algunos
                                                                                                                                       un intercambio de no más de cuatro meses (un semestre aca-           teníamos la intención de lograr que los próximos estudian-
mente crítico sería el retorno a la cultura de origen después       acaban juntando boletas de colectivo en la calle para cambiar
                                                                                                                                       démico) no hay tiempo para superarlos o para por lo menos            tes en inmersión tengan mejores condiciones para una rela-
de ese período de inserción. No puedo citarla textualmente          por plata y tener para comer mientras otros pueden viajar por
                                                                                                                                       entender el proceso de crisis por el que pasamos, a la vuelta        ción de reciprocidad durante el intercambio. Hasta ahora no
ni asegurar que realmente la entendí –el ritmo de habla de los      todo el país con la beca de intercambio? ¿Cómo se permite que
                                                                                                                                       del intercambio uno sigue desconociendo prácticamente por            tenemos ningún resultado, seguimos ignorando a nuestros
psicólogos me suele parecer aburrido, siempre tan tranquilo         un grupo de intercambistas se tenga que humillar pidiendo la
                                                                                                                                       completo el país en el que estuvo porque no logró desarrollar        vecinos aun habiendo firmado con ellos un contrato de inter-
y didáctico– pero sí que por primera vez, dos años después          posibilidad de tener agua fría en una primavera de 40ºC mien-
                                                                                                                                       una verdadera relación con el otro, tal vez por eso me haya          relación. Un ejemplo clave es el caso de Rafael Barrett, que
de haber participado del programa de movilidad académica de         tras otros quedan en un hotel con piscina y aire acondiciona-
                                                                                                                                       quedado la sensación de que debía haberla escuchado a la             he mencionado a propósito en párrafo anterior. Quizás nadie
AUGM, sentí que realmente alguien me entendía.                      do? ¿Cómo una organización, una asociación, permite tamaño
                                                                                                                                       Dra. Dantas antes. Por supuesto que ese desconocimiento en           nunca jamás volvió a entender la realidad paraguaya y latino-
  Había sido que los estudiosos del tema bien sabían del lío        disparate? Perdónenme los que no conocen el Paraguay y no
                                                                                                                                       el regreso no es regla, la manera como uno se identifica y se        americana como este español que vino a insertarse y a hacerse
por el que iba a pasar durante el intercambio pero nadie hizo       saben ni cuánto vale tantos ceros en el sistema monetario ni
                                                                                                                                       relaciona con la cultura del otro va a variar caso a caso, pero      hombre en nuestro continente. Sin embargo, la mayoría de
nada para ayudarme. Al final de la conferencia de la Dra. Syl-      cuán importante es tener un aire acondicionado en este país,
                                                                                                                                       hay estereotipos que ayudan o perjudican ese proceso de in-          los intercambistas vuelven a sus universidades de destino sin
via sentí que hubiese sido bueno haber pasado por el apoyo          lo que les quiero hacer sentir es que ni siquiera hay un “espa-
                                                                                                                                       terrelación. Seguramente que los estudiantes que van a la Ar-        haber tenido siquiera una mención de su existencia. No será
psicosocial o por lo menos haberla escuchado antes de subir a       cio académico común”, no hay condiciones administrativas y
                                                                                                                                       gentina tienden a pensar que se están yendo a un fenómeno            el mejor ejemplo porque sólo hay un especialista en Barrett
aquel colectivo que me iba a llevar a un sitio relativamente cer-   burocráticas que debían ser iguales entre instituciones que fir-
                                                                                                                                       académico y cultural de primer nivel, el mundo del tango, la         en todo el Brasil: la Profª. Dra. Alai García Diniz de la UFSC,
cano en el mapa, pero absolutamente lejano y desconocido en         man un mismo documento, no hay la “cooperación científica,
                                                                                                                                       tierra de Borges, y rápidamente se insertan positivamente en         y no mucho más que eso en el propio Paraguay, en donde
su realidad bilingüe y toda la riqueza cultural que eso implica.    tecnológica, educativa, cultural” que el sitio web menciona en
                                                                                                                                       este paraíso turístico. Los que vienen a Paraguay, sin embar-        se puede destacar al profesor Miguel Ángel Fernández. A lo
Pero seguramente que si hubo algún problema no fue porque           el momento de definir la dicha Asociación.
                                                                                                                                       go, vienen con la creencia de que salen de la civilización para      mejor no hubiese tamaño desconocimiento si hubiese mejor
en UFPR no haya un grupo de investigación y extensión como            Algunos dirán que fui demasiado lejos afirmando que la Aso-
                                                                                                                                       entrar en la barbarie, adonde uno no vendría si realmente qui-       voluntad política y diplomática de ambos países, del todo el
el de la Doctora Dantas en la USP. La verdad es que ignoro          ciación de Universidades del Grupo Montevideo no existe re-
                                                                                                                                       siera estudiar, según dicen los propios profesores, en el curso      Grupo Montevideo, si hubiese un programa de colaboración
completamente las investigaciones que se hacen en psicología        almente. No se engañen, sí existe. Firmé un acuerdo de inter-
                                                                                                                                       de letras por lo menos –que quede claro que no fue ninguno           que realmente objetive el contacto multicultural. El problema
en el ámbito de nuestra universidad.                                cambio, presenté documentos, una carta de intenciones, hice
                                                                                                                                       de los profesores de castellano que dijo tamaño disparate, por       es que no nos interesa hacer saber que en Paraguay hace más
  La problemática del intercambio empieza por el mal uso o          un test de nivel de lengua, fui entrevistada. Llegué a tomar
                                                                                                                                       lo menos no a mí.                                                    de 40ºC porque ya no hay vegetación, gran parte del territorio
desconocimiento del propio término, porque el Intercambio,          un bus y a cursar un semestre académico en la universidad
                                                                                                                                         Martin Buber considera las relaciones humanas como re-             fue devastado para plantar la soja transgénica de los hacen-
entendido como reciprocidad de relaciones entre naciones;           de destino, en mi caso la Universidad Nacional de Asunción.
                                                                                                                                       laciones en las que “la coexistencia es fundamental para el          dados brasileños; que si parecemos super-desarrollados en
como reciprocidad e igualdad de consideraciones y servicios         Después, me hicieron rellenar un formulario de evaluación
                                                                                                                                       redescubrimiento del sentido del otro como otredad que in-           comparación con nuestros vecinos es porque con el apoyo de
entre entidades, corporaciones; como trueque, permuta, no           de intercambio, aunque ello no pasara de poner una X en una
                                                                                                                                       terpela, cuyo encuentro se concreta en el diálogo que implica        Argentina y el patrocinio de Inglaterra le sacamos todo lo que
existe sino en la justificación de AUGM. Ninguna condición es       lista de “sí” o “no” y “bueno” o “malo” o “razonable”, con un
                                                                                                                                       disponibilidad, reciprocidad y responsabilidad”. ¿No debía un        podíamos sacar en la mayor guerra genocida de la historia, le
creada para que haya realmente ese intercambio de relaciones,       espacio de no más de 200 caracteres para comentar. La AUGM
                                                                                                                                       programa de intercambio que tiene como objetivo crear un             quitamos su territorio, matamos más de la mitad de su po-
no hay igualdad de condiciones sino en el papel, por lo menos       existe, vi sus miembros principales en las XVI Jornadas de
                                                                                                                                       “espacio académico e intercultural común a partir del cono-          blación y acabamos con el único régimen económico y social
no había en 2008. En el texto de bienvenida del programa de         Jóvenes investigadores, en la propia Montevideo, cuando
                                                                                                                                       cimiento y comprensión de la gran riqueza que subyace en la          realmente auto-suficiente que existió en nuestro continente y
escala estudiantil de AUGM, disponible en internet, se dice         irónicamente se dedicó el encuentro a la investigación y a la
                                                                                                                                       diversidad cultural” promover ese tipo de diálogo? No he te-         el país más desarrollado que había en la región a fines del siglo
que la movilidad académica tiene como uno de los objetivos          innovación para la inclusión social [sic] en un encuentro en el

cal ufpr   .   boca do inferno   . 16                                                                                                                                                                                                            cal ufpr   .   boca do inferno   . 17
XIX. Población esta que todavía se recupera de la más larga                  tos y su maestra Josefina Plá –extraordinaria escritora que en     dos no chão. Eu nunca mais ia querer lê-los. Nem vê-los. Nem     minha cabeça do pescoço. Sem sentir nada, ela logo estava no
dictadura que ya tuvo América, que todavía posee una univer-                 algunas universidades brasileñas poco a poco empieza a ser         mais ninguém. Meus olhos lacrimejavam com a luz do fogo.         fogo. Dali em diante, escuridão total e silêncio. Não via mais
sidad stronista que no logra una reforma que posibilite la pro-              estudiada. Quiero nomás mencionar que realmente me descu-          As lágrimas escorriam pelo meu rosto. Eu não queria pensar.      nada. Não ouvia mais nada. Não havia mais nada. Só então
ducción de conocimiento y no la mera repetición de lugares                   brí como brasileña y como ser humano al tener contacto con         Eu não conseguia pensar. Eu já não pensava. A luz me cegava      percebi o que era não pensar tão obstinadamente naquela
comunes. ¿Pero para qué intentar entenderlo si es más fácil                  esa realidad otra, que voy superando las crisis y siguiendo ade-   e eu ainda não tinha deixado de prestar atenção no relógio.      mesma coisa. Sem pensar, consegui deixar de pensar. Sem po-
dejar que sigamos en crisis de identidad y que se mantengan                  lante en este país en donde descubrí el amor y que elegí para      “Eu te dei minha mão, disse ‘tudo bem abandonar, é hora de       der saber que música tocava, me arrastei com dificuldade pra
los estereotipos? ¿Qué tiene que ver todo el programa de in-                 vivir y educar a mi hijo, con el que me solidarizo y me siento     sair daqui’”. Não queria nunca mais ouvir nem o relógio nem      dentro da lareira. Não pude sequer ver o brilho que emanou
tercambio con estas cuestiones sociales, históricas, políticas?              realmente comprometida como nunca había sentido en Bra-            o gemido dos alto-falantes. Aquelas glândulas lacrimais esta-    do meu resto de corpo. Espero que estivesse tocando Beatles.
Al fin y al cabo es un programa académico, y la universidad                  sil. Si los fallos del programa de intercambio tienen algo que     vam já velhas e ultrapassadas. Eu não precisava delas. Nunca     Acho que ninguém viu.
tiene su compromiso con la Ciencia.                                          ver con eso se lo agradezco. Esto ciertamente sería analizado      mais precisei Sem hesitar, embora com muito cuidado, eu tirei
  Lastimosamente no hay espacio en este texto para romper                    como un proceso de aculturación, y para mi suerte no les inte-
estereotipos y mucho menos para discurrir con la debida y                    resa a los de la AUGM y puedo seguir tranquila.
merecida atención sobre el El dolor paraguayo, El terror ar-
gentino, las Moralidades actuales y tantas obras maestras que                  Asunción, 15 de setiembre de 2010, 17:33                         produção literária
en el Paraguay se produjeron, además de las obras de Roa Bas-
                                                                                                                                                Ciranda no abiSMo
   Aluna do quinto ano de Letras Espanhol. Foi intercambista da AUGM entre julho e novembro de 2008.                                            fran canestraro28
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* adaptación y traducción mía del original en portugués disponible en http://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/9763

                                                                                                                                                E como uma criança feliz ela caminhava à beira do precipício.    vento era incessante. Por alguns instantes o hipnotismo do vai
                                                                                                                                                Lá em baixo um mar um tanto agitado batia nas pedras. As         e vem das ondas foi quebrado e ela começou a contemplar o
                                                                                                                                                ondas iam e vinham, como que dançando por entre elas. Não        horizonte. Começou a contemplar a tarde dourada. Um filme
                                                                                                                                                era dia, nem era noite. Era tarde. Uma tarde dourada. Se ela     começou a passar por sua cabeça. Se é longo ou curto, depen-

sub-realidade                                                                                                                                   apurasse o nariz, poderia sentir um certo cheiro da tarde. As
                                                                                                                                                gaivotas voavam perto dela, parecia que se entendiam. Ela,
                                                                                                                                                                                                                 de. O tempo corre de muitas maneiras diferentes. Ao contem-
                                                                                                                                                                                                                 plar aquele dourado e o filme em sua mente, começou a tirar

Coração inFlaMáVel                                                                                                                              com os braços abertos, sem sapatos e com seu leve vestido
                                                                                                                                                negro, contornava a beira daquele abismo. Não se importa-
                                                                                                                                                                                                                 os brincos. Ao terminar isso, abriu os braços, com a ilusão de
                                                                                                                                                                                                                 que possuía negras asas. Começou a contemplar novamente o
                                                                                                                                                va se poderia morrer com uma possível queda. “Sou imortal”,      vai e vem das ondas. Ela sorriu. Um sorriso triste, mas ainda
willian pinheiro [sub-realidade.blogspot.com]
                                                                                                                                                pensara. “Além disso, tenho minhas asas negras, que posso        assim um sorriso. Sorriu ao contemplar o filme em sua men-
                                                                                                                                                usar quando eu quiser.”. Ali, à beira do abismo, ela rodopiava   te. Apenas sorriu. Aproximou-se um pouco mais da beira do
Arranjadas por ano, ali no chão, estavam todas as cartas. Or-                na frente da lareira e resolvi não ler nenhuma daquelas linhas.
                                                                                                                                                feliz, apesar da tarde dourada. Atrevi-me a olhar no fundo de    precipício e olhou para cima para observar o céu. Olhou para
ganizadas em pilhas por ano. Depois, por cor e por forma de                  Resolvi apenas contemplá-las: organizadas e belas e cheias de
                                                                                                                                                seus olhos, notei que eles não acompanhavam a felicidade de      o horizonte. Olhou para baixo, para as ondas, e permaneceu
papel. E, além disso, todas ali organizadas cronologicamente.                letras. Deitei-me no chão. Sem pensar em números, assisti,
                                                                                                                                                seu corpo. Sua alma não acompanhava... Achei estranho que,       assim. Os relógios terrestres não são capazes de quantificar o
As de cima das pilhas foram desorganizadas por uma rajada de                 sem pensar, o caminhar vagaroso dos ponteiros do relógio.
                                                                                                                                                sozinha, ela dançasse, pois além de não haver música, seus       tempo dela. Simplesmente olhou por tempo suficiente. Com
vento. Era inverno. Garoava. Estava frio. Sempre estava frio.                Sem pensar. Pensei em não pensar, mas pensei. Pensamentos
                                                                                                                                                olhos não pediam dança. Por um instante ela parou, já um         seus pés descalços, um sorriso um tanto perturbado nos lá-
Havia um bom tempo desde a última vez que o sol apareceu.                    me devoravam vagarosos. O fogo da lareira se apagava. Àquela
                                                                                                                                                tanto cansada, colocando as mãos no rosto para afastar seus      bios, suas ilusórias asas e seus braços abertos, ela se jogou.
As tais flores prometidas e ansiadas da primavera nem deram                  hora a sala estava bem escura. A chama ia logo se apagar. Jo-
                                                                                                                                                cabelos, que lhe encobriam os olhos naquele instante, depois     “Sou imortal”, pensara ela antes de se jogar. Estava enganada.
sinal de que vão um dia ainda aparecer. Duvido. Levantei e                   guei no fogo minha mão esquerda. A sala brilhou e logo voltou
                                                                                                                                                de tanto dançar. Começou a andar devagar, para sentir cada       No fundo ela sabia que não era imortal, mas tanto faz agora.
fechei a janela. A cortina, de um tecido de um amarelo fos-                  ao escuro. Meu braço, em seguida, fez brilharem meus pensa-
                                                                                                                                                pedrinha, por menor que fosse, em seus pés. Parou para sentir    Ela se espatifara junto às pedras; um certo tom de vermelho
co, tinha agora uma mancha marrom molhado feita pela chu-                    mentos por mais tempo. O silêncio daquela casa me destruía.
                                                                                                                                                o vento no rosto. Parou para observar aquela triste tarde dou-   misturava-se com a água, com as ondas. As asas imaginárias
va que invadiu. Lá fora, o céu pintava o rosto das pessoas de                Achei melhor me levantar e por uma música pra me distrair.
                                                                                                                                                rada. Parou para observar as ondas lá em baixo... Agora seus     se foram junto com ela. Agora seus olhos faziam sentido com
cinza; as árvores da calçada pareciam de cimento; os carros                  Pus fogo em minha perna e fui aos pulos até a estante. A per-
                                                                                                                                                olhos faziam certo sentido com seu corpo. Este parado. Aque-     o seu corpo. Agora os dois estavam no mesmo ritmo. Em rit-
pretos e pratas sobre o calçamento de cimento. Cinza. Horas                  na esquerda. Nas prateleiras escolhi cinco dos meus melhores
                                                                                                                                                les, hipnotizados pelas ondas batendo nas rochas. Seus dedos     mo nenhum.
depois, voltei ao chão. Às cartas. Havia algumas espalhadas.                 cds e coloquei na bandeja. Músicas calmas. Eu queria ouvir
                                                                                                                                                tocavam novamente seus cabelos para tirá-los do rosto, pois o
Pensei em organizar tudo de novo. Àquela hora, o fogo da la-                 músicas calmas. Agarrei o controle remoto e voltei pro chão.
reira já ia alto. Talvez se eu organizasse por remetente, eu ia              “Tudo o que eu precisava, eu não mais precisei”: era, então,
                                                                                                                                                28
                                                                                                                                                     Aluna do quarto período de Física da UFPR
entender o que tudo aquilo tinha a ver com nada. Sentei-me                   minha perna esquerda que iluminava meus escritos, ali, joga-


cal ufpr   .   boca do inferno   . 18                                                                                                                                                                                                                cal ufpr   .   boca do inferno   . 19
liMbo                                                                                                                                   inSéCuloS
julio cezar marques [escrevendodentrodofuracao.blogspot.com]                                                                            iamni reche bezerra


Estava sentado num banco frio do calçadão da XV de Novem-         pacientemente e pôs na boca. Certos gostos tinham para ele            O sol lá fora quase havia se posto. A casa já iluminada com        de, a única verdadeira. E como o suspiro do poeta gera espa-
bro. Sentia o vento frio da madrugada congelar seus lábios.       um sabor especial de nostalgia; às vezes tinham gosto de dor,         suas luzes artificiais. A lâmpada do quarto em uma redoma          ço em branco no verso, o espaço entre ele e o mundo estava
Que horas eram? Meia noite? uma, duas? Não podia ter certe-       de felicidade, de paixão. Canela. Lembrava-se bem do gosto            de vidro em formato de gota, parecendo escultura de gelo           recheado de coisa alguma. O zumbido, silêncio. Sentiu frio
za... A outrora movimentada rua, agora padecia de um silêncio     de seus lábios - canela -, da textura que tinham e da doçura          inderretível pendente no teto. Ao atravessar o objeto, a luz       nas pequenas articulações. Quis pousar, mas não havia cor-
trazido pelo vazio das pessoas que ali não andavam. Sentado       com que tocavam os seus. Lembrava-se da primeira vez que              perdia um pouco sua intensidade. Mas era ainda luz, e alguns       po que pousasse. Era qualquer coisa que sente, e sentia qual-
no banco, tateou algumas flores no úmido canteiro; levou uma      tocara seu rosto, do calor por ele emanado; lembrava-se de            inséculos minúsculos voavam ao seu redor. Muito próximos,          quer coisa próxima ao prazer. Não era a luz, mas a busca por
ao nariz e inspirou o doce odor exalado pelas macias pétalas.     cada curva e de cada imperfeição do seu rosto - pra ele perfei-       mas não chegavam a tocar o lustre. Amavam a luz, sobretu-          ela. A espreita do crepúsculo. A doce ansiedade da véspera.
Vez ou outra ouvia um leve ruído ao longe - ruídos não facil-     to - e da forma como, ao seu toque, se aqueciam ainda mais            do a artificial, e passavam o dia inteiro pousados em qualquer     Percebeu-se inteiro. Teve medo e pela primeira vez, planejou.
mente identificáveis: um carro, uma latinha que caía, talvez,     as bochechas arredondadas. Gostaria de saber que fim levara,          canto a espreita do pôr-do-sol. Quando finalmente chegava,         Talvez a fuga da teia pudesse ser passando a língua áspera nas
uma conversa entre pessoas que passavam tão longe que pa-         que caminhos seguira. Doce. Com um pulo desperta. Ouve                as luzes da casa se acendiam, e estavam livres para fazer o que    partes em que estivesse preso. Poderia ser uma tentativa em
reciam cochichar, ouvia às vezes sons que não conseguia atri-     cair sua bengala. Abaixa-se e a traz para junto de si. Não sabe       amavam: voar ao redor das lâmpadas. A natureza os fez seguir       vão, mas a aranha tardava a chegar e isso lhe daria tempo para
buir a nada que conhecia; ouvia também o som das folhas que       por quanto tempo seus olhos ficaram fechados - o que pra ele          o luar como orientação, mas os pequenos cérebros se confun-        pensar em outras possibilidades. Pensar. Lutar. Precisava com
balançava com o vento e de desprendiam dos altos galhos de        não faz, de fato, muita diferença. Ficou ali sentado por muito        diam ao ver uma fonte luminosa mais próxima e mais intensa.        urgência ser. Assim como a vida precisava ela mesma ser vivi-
cerejeiras e terminavam por pousar no chão, nos bancos e em       tempo. Pensa em quanto tempo mais teria que esperar até que           Um dos inséculos voava mais rápido que todos os outros. O          da. O corpo, queimado e quase sem vida, foi ao chão. Natureza
seu casaco. Sentia na boca - ainda - o gosto amargo do conha-     alguém que enxergasse - e a ele também - o conduzisse até             vôo em espiral foi ficando cada vez mais ligeiro e violento. Já    sábia. A lua o protegia de duas maneiras: estava a uma distân-
que que tomara horas atrás na tentativa de amenizar o frio        sua casa. Talvez seus passeios noturnos sem destino deves-            cego pelo gozo incontrolável, em uma de suas curvas, tocou         cia bastante segura e, por não ter calor próprio, jamais faria
trazido com o sereno da noite. Meteu a mão em um dos bolsos       sem deixar de existir... afinal, poderia fazê-los durante o dia - a   a fonte. E foi como se de repente passasse a existir. Havia ele    mal a qualquer inséculo apaixonado que percorresse tamanha
do longo casaco e dele sacou uma bala de canela. Desenrolou-a     escuridão era a mesma.                                                agora, na forma primitiva e original. Entrava não para aquela      distância. Pareceu que ia morrer. E morreu.
                                                                                                                                        vida já tão rançosa, mas para a outra vida que era, em realida-


labirintoS ViVoS
                                                                                                                                        trilHando o CaMinHo, CaMinHando a trilHa
sara duim [minhaconstanteinconstancia.blogspot.com]
                                                                                                                                        andante dos portões [thegatesandbeyond.blogspot.com]
Aqueles corredores faziam sua imaginação aflorar. Tantas his-     queriam era um corpo onde pudessem voar livres. Até que, en-
tórias, tantas vidas concentradas ali, lado a lado, numeradas     fim, ele encontra o que procurava. Olha para aquela pequena           Caminho pela manhã. Não que isso faça muita diferença, mas,        solos mais regulares, eu caminho. Paro para descansar, sento
e organizadas em celas de diversos tamanhos. Os muitos cor-       cela, com aquela vida ali dentro, sorrindo para ele. A admira         uma vez que o sol não está tão alto no céu e que ainda sinto a     em uma grande pedra sob uma árvore de abóbada acolhedora.
pos que por ali passavam pareciam não se incomodar com a          por um instante, ouve seu chamado e a liberta. Agora aquela           brisa gélida de uma noite já distante, é pertinente dizer que é    Embora ficasse às margens da minha trilha, não me arriscava
presença delas. Na verdade, nem mesmo notavam que aquele          alma ganha um corpo: o dele.                                          manhã, uma agradável manhã para caminhar. Mas quanto a             a olhar para trás. Nada me seguia, mas era como se estivesse.
mundo era muito maior do que aparentava. Mas ele notava.                                                                                caminhar, não me foi dada escolha. Então eu caminho. Árvo-         De nada fugia, mas não podia ficar muito tempo ali. Levanto-
Sim, ele era capaz de ouvir todas aquelas vozes aprisionadas                                                                            res altas ao meu redor, umas esbeltas e retilíneas, outras secas   me do refúgio arbóreo e continuo caminhando. Minhas vestes
ali. Ainda que não conhecesse quase nada, transportava-se                                                                               e retorcidas, como se quisessem fechar o ar que há para res-       me parecem pesadas. O manto sob meus ombros ondula leve-
para o meio daqueles corredores e podia ouvir os gritos mu-                                                                             pirar, e posso sentir isso. A cada passo o ar fica mais pesado,    mente aos resquícios da brisa pesada da noite distante, que
dos daquelas vidas sem corpos. Sentia-se observado, admira-                                                                             mesmo com a brisa leve, a única coisa que passa pelas estreitas    as árvores retorcidas não conseguiam segurar. Mas mesmo
do, invejado. Era capaz de perceber o chamado daquelas almas                                                                            passagens das copas das árvores são as nesgas de luz deste sol     com a leveza de sua fazenda, estava pesado, como se não qui-
que lhe cercavam, sentindo-se tentado a atendê-los. Ficava                                                                              matutino. Eu caminho então para encontrar novamente cam-           sesse que eu continuasse adentrando a trilha. Mas nada, nem
cada vez mais difícil não se deixar seduzir por tantos clamores                                                                         po aberto. O chão sob meus pés varia como as árvores que pas-      mesmo meu manto me impediria de caminhar. Não importa
por liberdade, mas vagava por aqueles corredores buscando                                                                               sam por mim. Ora duro e empedernido, ora macio e gramado.          porque caminho, porque comecei a caminhar e muito menos
uma vida em particular. Tinha um destino certo e não podia                                                                              Por vezes juncado de arbustos e flores, por vezes lamacento e      para onde devo caminhar. Agora, tudo o que importa é que eu
perder-se no caminho. Sabia que tudo o que aquelas almas                                                                                pantanoso. Não consigo ter um bom ritmo, mas em busca de           caminho, e que não posso parar.

cal ufpr   .   boca do inferno   . 20                                                                                                                                                                                                          cal ufpr   .   boca do inferno   . 21
in tHe green                                        SeM título
lucas vosch pacheco de carvalho                     dan


Life has moved on                                   Ontem vaguei antes de adormecer
But you’re still jumping on the lawn                Na intenção de caminhar em direção às minhas ilusões
Sometimes it feels like dancing                     Encontrei portas fechadas que um dia facilmente abri
Primitively seducing
the creatures of the garden                         Antes, explorava cada espaço que adentrava
Would they reach out to the flowers                 Encontrando lacunas que me mantinham sonhando
Or to your hardly hidden burden?                    Aproximando-me da beleza que nunca existiu


It takes the hundreds of stings through             Subia degraus que rumavam ao nirvana
Your soft white skin                                Nas camas em que deitava sentia odores um dia tão próximos
To take the pain within                             Sobre lençóis descompostos mergulhava em âmagos não vistos
But lately you’ve been
weirdly feeling fine                                As portas obstinadamente se mantiveram trancadas
                                                    Regressei, então, por um caminho tortuoso – adormeci, enfim
Sleepy sleepy little dog                            Num relógio exato avistei o início do meu dia.
Scream it woofing in my ear:
Is it our future to grow old and full of fear?
Their experiments on us work no more                (vinte e nove de março de dois mil e dez)
What were the flowers really for


Dee dee little bee
Come flying from the streets
And kiss me in the mouth with love and greed
So scarlet I’d be for every tree to see
Your poison searching for the blood in me to feed


It takes the bunches of insects
Holding you down from near
The ones like you who actually succeed
Dancing around in line
Knowing of your state of mind, though
weirdly feeling fine.




cal ufpr   .   boca do inferno   . 22                                                                             cal ufpr   .   boca do inferno   . 23
Boca do Inferno
Jornal Acadêmico do Curso de Letras da UFPR
ISSN 2178-308X
Rua Gal. Carneiro, 460, 10° andar


editor
josé olivir de freitas junior
revisores
claudio luciano ornellas
elisa tisserant de castro
projeto gráfico
caius marcellus (coletivo095.com)
conselho editorial
centro acadêmico de letras e
pareceristas convidados
(área de literatura):
prof. dr. francisco carlos fogaça
prof. dr. marcelo paiva de souza
prof. dra. terumi koto bonnet villalba
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Letras Polonês
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Física UFPR
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Letras Espanhol
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Letras Espanhol
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Letras Português e Espanhol
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Letras Francês
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willian pinheiro
Letras Inglês
imagens e ilustrações
veer.com
istockphoto.com
sagradafamilia.tv
manifesto ink
capa
dante e virgilio no inferno
Willian Adolphe Bourguereau, 1850
contra capa
o triunfo da morte
Pieter Bruegel, 1562
impressão
imprensa universitária ufpr
tiragem
400 exemplares


o conteúdo expresso nos textos assinados não corresponde necessariamente à opinião do jornal e/ou do centro acadêmico de letras-ufpr

Boca do inferno 24

  • 1.
    INFORMATIVO DO CENTROACADÊMICO DE LETRAS . UFPR 02 03.6 07.9 10.15 18.23 Editorial Matérias Crônicas Artigos Acadêmicos Produção Literária eleições: obrigação ou direito com todas as letras // pro- quadro negro para urubu // fatos históricos na constru- coração inflamável // ciran- // foi-se a terceira margem, vem grama sat 2010 // o caso da armadura // literatura como ção da nacionalidade são- da no abismo // trilhando o o machado avaliação refúgio tomense na obra teatro do caminho, caminhando a tri- imaginário angolar de s. tomé lha // labirintos vivos // insé- e príncipe de fernando de ma- culos // limbo // in the green cedo. in(ter)cambio: fallos en // (sem título) el programa de augm
  • 2.
    eleições obrigação ou direito? joséolivir de freitas junior Este ano enfrentamos longo e cansativo processo eleitoral. da Universidade, direta ou indiretamente. Qual o problema? Enfrentamos? A democracia, uma herança que veio dos gre- Ah, o problema! Os nossos caros colegas, que já consideram gos, estabelece uma série de regras e mecanismos que regu- um martírio ter que sair do aconchego do lar um único do- lam os direitos e deveres dos cidadãos de uma nação. Claro mingo a cada dois anos para eleger seus representantes (por- que o conceito mudou de A.C. pra cá. Todavia, a essência é a que se consideram obrigados a isso), acreditam que, por não mesma. Daquela democracia que só levava em conta a opinião ser obrigatório, não é preciso “perder tempo” com bobagens de quem não era escravo, um poderoso instrumento sobrevi- eleitorais (caso aplicado a qualquer pleito, na faculdade, no veu: o voto. O voto no Brasil, que já foi bastante restrito, hoje colégio, na sala de aula ou onde for). O que é democracia para é amplo e “universal”, apesar de ainda não ser direito de todos estas pessoas? Será que perdemos a noção dos nossos direi- os viventes no país (leia-se analfabetos). Mulheres, idosos, tos? Talvez, com essa realidade medonha de sujeiras que ve- adolescentes, todas as classes sociais. O voto não vê cor, sexo mos nas casas governamentais, tenhamos perdido a confian- nem poder aquisitivo. Uma beleza, não? Não. O caso é que os ça nas instituições públicas. É isso? Se é, por que não tiramos brasileiros não sabem do poder do voto. Desconhecem que aqueles que sujam a casa e colocamos alguém melhor? Ah, podem revolucionar, podem fazer e desfazer qualquer movi- é difícil..., diz alguém. Alguém que, mesmo podendo mudar, mento com o botãozinho apertado na urna eletrônica. Mui- prefere ficar inerte. Não podemos nos sujeitar ao que acon- tas pessoas reclamam da “obrigação” de votar. O caso é que, tece à nossa volta, não devemos deixar que as coisas andem se não fosse assim, quem é que garantiria a democracia? Bem, conforme a brisa bate na nossa face. É mais que necessário este é outro assunto. Tratemos do objeto desta reflexão: o não que todos, todos mesmo, levantem suas cabeças e percebam voto. Nas eleições, quando o eleitor dá sua opinião em deter- que podem mudar tudo o que quiserem. E isso pode ser feito minado assunto (seja escolhendo candidato alinhado aos com apenas um gesto: votar. Esperamos que este texto sirva seus pensamentos, seja escolhendo uma maneira ou outra de de incentivo aos senhores colegas de Letras e que faça algum decidir o futuro da nação) exerce poder sobre a sua vida e a efeito para que, quando alguém perguntar se vocês sabem alheia. Parece pouco? Certamente não. Aqui na UFPR, para quem é o reitor, ou o chefe do departamento, ou o presiden- PoR joSé oLiviR dE FREiTAS jUnioR não deixar de ser, o voto é a principal maneira de conhecer te do CAL, vocês saibam responder e possam dizer: eu votei, a opinião da comunidade. O que isso significa? Significa que contra ou a favor, mas votei. é através de pleitos que nós participamos da administração e finalmente finalizamos o processo eleitoral de 2010. depois de uma malsucedida votação, nota realizada em 05/10, o cal realizou novo pleito para a escolha dos novos diretores. no último Foi-Se a terCeira MargeM, VeM o MaCHado dia 22, em “segundo turno”, a chapa “terceira margem do rio” foi eleita com 88% de aprovação “As coisas mudam no devagar depressa dos tempos”, já dizia “Foi-se o Machado”. E, antes da pletora de críticas, nada me- (95 votos a favor, 10 contra e 03 nulos). como é nosso dever, faremos um breve relato da Guimarães Rosa. A diretoria do Centro Acadêmico de Letras, lhor que citar Machado de Assis: “A vida é cheia de obrigações gestão “sintaxe@vontade”, que deixa o cal com a atuação em superávit no âmbito das realiza- gestão 2010-2011, decidiu por maioria de votos cambiar o que a gente cumpre por mais vontade que tenha de as infringir ções, haja vista que se cumpriram a maioria das “promessas de campanha”. para quem não se “nome” da gestão. A partir de agora, com um novo conceito, deslavadamente”. Está dada a notícia. recorda, a gestão que dirigiu o cal entre outubro de 2010 e outubro de 2010 tinha algumas passou a “Terceira Margem do Rio” chamar-se “Foi-se o Ma- metas (prometidas durante a campanha). apesar dos percalços do caminho (desistência de chado”. Em breve, com novo visual e novos conceitos, ainda mais da metade dos membros, por exemplo), a gestão conseguiu levar adiante nove projetos que não tenhamos abandonado nenhum dos que divulgamos significativos... no período eleitoral, colocaremos à disposição da comunida- de o objetivo da mudança e apresentaremos a nova gestão cal ufpr . boca do inferno . 2 cal ufpr . boca do inferno . 3
  • 3.
    Enfim, uma gestãoque trabalhou bastante pelo curso e pe- los alunos, apesar de o trabalho não ser tão visível. Agora, há pela frente muito mais trabalho. A diretoria eleita terá muito a negociar, discutir e planejar. As metas da “Terceira Margem do Rio”, entre outras, são estas (conforme o programa da cha- pa, divulgado durante o período eleitoral): 01. Organização do patrimônio do CAL, que ganhou quatro computa- dores do Laboratório de Informática do curso de Psicologia, gra- ças à valiosa colaboração da colega Alessandra Diana Zilli (CAL 01. gestão 2008), um armário e um aparelho de telefone. Atualização do Estatuto do CAL para adéqua-lo ao Noovo Código Civil 02. Impressão de três edições deste nosso jornal (uma delas – esta – 02. em colaboração com a nova chapa, atuante desde o primeiro dia) Criação do mural de Classificados do CAL (ao lado dos elevadores do 10° andar 03. Atualização da lista de e-mails, com repasse de informações 03. (como eventos, cursos e atividades do CAL) à maioria dos alunos Inclusão do site do CAL no domínio virtual da UFPR (trocando ufpr prograMa Sat 2010 em miúdos, criar um site “www.cal.ufpr.br” 04. Assistência aos alunos dos cursos de Japonês e Polonês (com a re- 04. presentação junto ao DELIN e ao DELEM para a integração destes Dar continuidade às edições do Boca (isso significa “periodizá-lo”) com as demais habilitações do curso) carlo giacomitti 05. 05. Organizar as cópias do nosso Arquivo de Xerox Representação junto à Universidade na discussão da mudança de desde meados de 2010, está em andamento o sat - sistema de acompanhamento e tutoria do fluxo campus para o prédio da “Ponte Preta” (tivemos notícia oficial – acadêmico. o sat foi criado para acompanhar a vida acadêmica discente durante a graduação. o 06. da diretora do SCHLA – que permaneceremos no Complexo da Remodelar a sede do CAL (com móveis mais modernos e planeja- programa é gerido pela prograd - pró-reitoria de graduação e ensino profissionalizante e con- Reitoria) ta com o apoio operacional das coordenações de cursos. com a aplicação de um questionário, dos para dar mais espaço para a galera “se achegar”) o sat tem como objetivo identificar as dificuldades quedo aluno durante a formação e então 06. propor à reitoria soluções para os problemas encontrados. esse questionário, aplicado a todos 07. Eventos (Semana de Letras e Semana de Avaliação do Curso, além do Plebiscito, que movimentou pelo menos uma parte da galera, Organizar e liberar para empréstimo os livros da nossa Biblioteca os alunos, será repetido periodicamente (anual ou semestralmente, dependendo do curso). esta além da divulgação de eventos de outros locais) continuidade garante o sucesso do programa, pois as dificuldades podem aparecer com o passar 08. do tempo, isto é, há um efetivo acompanhamento do estudante durante toda a graduação. Criar e fazer funcionar a Empresa Junior de Letras 07. Integração entre os alunos dos períodos matutino e noturno (com como é quem faz a festa “Olhos de Ressaca”, que foi um sucesso de público, além do 09. O questionário é composto com perguntas que registram a O questionário é aplicado pelos bolsistas do Sistema, vincu- Churras no Barigui) Negociar com o SCHLA um novo espaço, mais amplo, para o CAL satisfação ou não do aluno em relação ao seu curso, como, por lados à PROGRAD (Carlo, de Letras e Jucéli, de Medicina). exemplo, se o curso foi a primeira opção do aluno, ou como Após o recolhimento das folhas de respostas, eles transmiti- 08. 10. Prestação de contas regular (Contas das festas foram publicadas Implementar a Avaliação Semestral de Docentes e Disciplinas ele (aluno) é afetado por alguma situação específica do curso rão os dados para a PROGRAD e entregarão os questionários no Blog e a Geral será em breve) ou da universidade, entre outras. O questionário é também respondidos à Coordenação, exceto aqueles com manifesta- um veículo para a manifestação do aluno (com reclamações, ções, que serão entregues diretamente à PROGRAD. É im- 09. Até aqui já é um trabalho e tanto! Esperamos que a nova ges- sugestões, etc.). Importante citar que, como meio de validar portante que todos participem e se manifestem. O SAT vem Divulgação e suporte a congressos e encontros da área de Letras tão possa contar com o apoio da comunidade discente, assim os questionários, são solicitados os dados acadêmicos - nome, como uma oportunidade para os alunos serem ouvidos por (apoio a catorze estudantes com passagem de ida e volta para como dos professores e servidores do curso, para que possa- GRR, e-mail, telefone. Estes dados serão acessados somente aqueles que regem nossa vida acadêmica. congressos em outros municípios e estados, além de orientação a alunos que apresentaram trabalho com apoio da PRAE) mos melhorar a cada dia, num esforço contínuo e colabora- pela Coordenação do Curso e pela PROGRAD, ainda que ape- tivo, que tenha por fim o melhor para Todas as Letras. Boa nas a título de informação. A instituição assegura aos alunos sorte a todos nós! o sigilo, tanto dos dados como das informações pessoais. cal ufpr . boca do inferno . 4 cal ufpr . boca do inferno . 5
  • 4.
    ufpr crônica o CaSo da aValiação quadro negro para urubu claudio luciano ornellas aguinaldo roberto moreira Nos últimos tempos tem se dado especial atenção à avaliação dantes, poderíamos avaliar ou ao menos emitir opinião a res- Em uma família normal de classe média, numa bela ninhada bum. Albino não queria passar em brancas nuvens, onde se- institucional nas diversas esferas governamentais. Na Univer- peito dos docentes se, na primeira tentativa, recebemos como de três filhotes, nasceu um urubu branco; todos os urubus quer seria visto, desistiu de seus devaneios, seguiu a carreira sidade acontece a mesma coisa. Aqui na UFPR, além do SAT prêmio um processo, no âmbito judicial comum, inclusive, ou nascem com uma penugem branca e são muito fedorentos, do papai, era mais prático e economicamente mais garantido. (matéria da página anterior), em 2009 foi realizada a primeira coisa pior, como perseguição e assédio moral? Perguntamos obviamente, mas depois da troca de penas tornam-se as si- Também aí sempre sofria discriminações; quando chegava ao etapa da Avaliação Institucional de Cursos, que englobou vin- também se, depois que o CAL puser em prática o Sistema de nistras aves negras e de mal agouro que conhecemos. Fre- trabalho e ia, digamos... botar as mãos na massa, seus colegas te e seis cursos de graduação, entre eles o nosso. Os resulta- Avaliação de Docentes e Disciplinas, ou talvez depois da publi- qüentes comensais de lautos banquetes, promovidos sempre gritavam em coro: - Chegou tarde, Doutor! O paciente morreu... dos, disponíveis na página de Letras (http://www.letras.ufpr. cação desta matéria, teremos alguma agradável surpresa, do por algum ser que já era. Um deles insistia em permanecer Ao final do expediente o nosso herói parecia à bandeira da br), foram utilizados para medir a satisfação da comunidade mesmo tipo da que receberam aqueles alunos do parágrafo an- alvo... O pimpolho recebeu o nome de Albino, nome de um Polônia. acadêmica em relação a itens como infraestrutura, segurança terior? Um caso a se pensar, senhores. O coordenador sempre tio-avô que fora padre, teve uma infância tranqüila embora Depois de diversas crises, depressões profundas, altos e bai- e apoio acadêmico. insiste que temos que avaliar nossos professores da mesma um pouco atribulada pelo preconceito e gozações de seus co- xos, ascensões e quedas, é difícil se suicidar assim quando se leguinhas. Se algum piazinho enchia as fraldas, o branquinho tem asas, ele resolveu se assumir, coisa temerária na sua pro- azedo era sempre o Bino. Dissabores estes compensados, é vinciana terra natal. Sumiu! Migrou! Foi atrás de uma ofer- o processo de avaliação é muito importante para a proposição claro, pelo amor materno: - Meu Nuvenzinha de coco, você é o ta de emprego que ninguém queria aceitar, lá em um local urubu branco mais lindo do jardim de infância! - Sou sempre o distante que fora a antiga Babilônia, na Mesopotâmia, lá a de diretrizes para mudanças e para a revisão de procedimentos e único, mamãe! O pai era autoritário e repressor, sempre res- terra chora lágrimas negras. É nova área de caça da Grande recursos de maneira a melhorar a estrutura e o funcionamento sabiado com a idéia de ovo trocado na maternidade. Todavia, Águia do Norte. Dizem que Albino não trabalha na função o maior drama de Albino foi na puberdade, fase traumática pretendida, continua no ofício de sua espécie, e, apesar de ser de cada curso. todavia, há alguns impedimentos de ordem nem para qualquer adolescente, com as decorrentes crises de afir- alvo, tem uma vantagem: na guerra ninguém atira na Pomba mação da auto-imagem; principalmente porque os garotos de Branca da Paz, ou... em qualquer outra ave branca. É possível sempre profissional e técnica quando se trata de avaliar. sua idade apelidaram-no de pombinha. A rejeição causou em fazer humor negro com urubu branco, no entanto, urubus Albi, era assim que mamãe lhe chamava, uma forte tendên- existem de todas as cores, tamanhos, envergaduras, sexos, Recentemente soubemos que há em andamento processos de maneira que eles nos avaliam, como uma espécie de reciproci cia à introspecção. Algo paranóica. A fuga da dura realidade idades e credos. Sempre muito preocupados com suas ima- professores contra estudantes, todos de Letras, que têm como dade. Não podemos esquecer que a avaliação de que trata este levou-o a ser um eterno sonhador, andava sempre sonhando, gens, carreiras, prestígio e poder junto a seus bandos. Alguns objeto de “acusação” supostas “injúrias” que os alunos supos- texto não é um concurso de popularidade nem uma batalha de era sonâmbulo! Fantasiava um futuro diferente para si, não o se alimentam de cérebros jovens. tamente cometeram contra aqueles professores (os “supos- egos. Não estamos aqui preocupados com a reputação de ne- negócio funerário da família, marcado pelo negro rigor. Guar- tos” repetidos são propositais). Estes alunos, consideramos, nhuma sumidade das Letras e/ou da Educação, mas sim com a necido de batatas ele seria um prato cheio para a Clarice Lis- Dedicado a Ferenc Hoffmann fizeram nada mais que “avaliar” a atuação dos seus mestres, qualidade do ensino dos que, como formigas, trabalharão para pector. Albino era muito meticuloso em tudo o que fazia, sua ainda que não tenha sido uma avaliação das mais favoráveis. o sucesso na formação de pessoas e, consequentemente, do aterrissagem era coreográfica, tinha talento para acrobacias Depois de saber disso, questionamos: como é que nós, estu- progresso deste país. aéreas e pendor para o ballet clássico. Superou dolorosamen- te a fase crítica da adolescência, o patinho feio transformou- se em um cisne, mas, não se anime, esta é uma outra estória. Embora possuísse um forte sex appeal, ele parecia não ter interesse pelas urubuas, até mesmo quando eram uruboas. O complexo de inferioridade nele se revestiu de uma couraça de presunção: garboso e solene, agora Albi era um misto de acesse www.letras.ufpr e confira os resultados da avaliação oficial de marinha de guerra e pai de santo baiano. Sempre branco da cabeça aos pés. Vivemos tempos difíceis, tem uru- bu brigando por emprego de galinha de macumba e, quando se presta a este triste papel acaba se acabando na cachaça do despacho. Não existe nada mais melancólico que urubu be- cal ufpr . boca do inferno . 6 cal ufpr . boca do inferno . 7
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    crônica crônica arMadura literatura CoMo reFúgio victor conrado s. eschholz teurra vailatti e talita garcia Estava eu a caminhar apressadamente pela rua, voltando do dizia, despejei sobre ele as palavras de quem tem razão. O ho- a inCríVel experiênCia de VaneSSinHa atraVéS de rérgio e andré Sant’anna cartório com documentos na mão e um bocado de problemas mem, protegido por sua armadura de quatro rodas, disse ao na cabeça. Descendo uma das ruas que fazem parte de um término do meu esbravejo: “Não, meu amigo, você não está Vanessinha era uma carioquinha tão apimentada, que consul- a fazer parte de sua rotina. E, como diria Sérgio SantAnna, trajeto que há muito conheço, surpreendo-me com um carro certo coisa nenhuma. O que acontece é que vocês são mui- tava as zonas de maior índice de crimes sexuais no periódico é tudo questão de decisão! E depois, tem os que dizem, que saindo da garagem do prédio e avançando em minha direção. to abusados”. Vocês? Vocês quem? Nós, os pedestres? Não, de sua cidade, e no vai e vem, quando acalmava a correria, ela literatura fica aí só marcando bobeira nas universidades e não Eu estava na calçada, lugar onde pedestres mandam e moto- creio que estivesse se referindo aos jovens. Concluí então que passeava por lá, fazendo figas para ser contemplada. Foi aí que transforma a vida do povão. ristas pedem licença. Fiquei surpreso e irritado com o carro aquele senhor possuía alguma desavença com um filho, o que nessas lidas e idas, nada lhe pareceu mais sensato que o tro- prateado que por pouco não me encostava. Parei ao seu lado talvez o tenha feito pensar que todo jovem é errado e incon- peço no caderno C de um jornalzinho daqueles, que dizia as- e tentei enxergar o motorista por trás do vidro escuro. O con- seqüente e não sabe como se comportar em uma calçada. Um sim: “O Paraíso é bem bacana”. Não sabendo se o sujeito, que dutor do veículo, então, baixou o vidro da porta do passageiro, bando de abusados. Sendo assim, respirei fundo, despedi-me escreveu a sinopse daquele livro, era ignorante ou mal inten- ao lado da qual eu me encontrava, e esboçou um sermão sobre do homem com um aceno em tom de zombaria (para fazer jus cionado, ela já foi correndo querer saber qual era daquele su- como ele estava certo e sobre como eu deveria ter esperado ao rótulo de “abusado) e continuei o meu caminho, o meu dia, jeitinho da pós-modernidade, o tal André SantAnna. E acabou sua majestade passar com sua carruagem. Aquilo me deixou a minha vida. caindo na conversa de dois caras, um carioca fluminense, e o puto. Então, sem esperar o homem grisalho terminar o que tal sujeitinho-pós-moderno, filho do primeiro. Fervoroso que era, o carioca, começou entabulando a conversa da seguinte maneira, “Particularmente, eu leio sempre antes de dormir, lógico, que quando tem jogo do fluminense e a coisa vai até meia noite, a gente deixa pro outro dia”. Para a surpresa do público leitor, para Vanessinha, tal declaração não lhe pareceu nem pedante, nem rasa, nem besta. Ela queria saber, porém, qual era o gabarito do tal fluminense, pra dar dica literária, quando ela mesma, que se julgava tão letrada, era vascaína. E assim, no andamento da prosopopéia, descobriu um mundo novo, porque nada faz sentido se não compartilhado – lan- çando aqui citação de Paulo Coelho, ou se bem quiseres aca- dêmico, ta aí aquele velho negócio do exercício da alteridade. Fomentando sua empolgação, Vanessinha descobriu o prazer que a leitura traz consigo; deixou de lado seu Orkut, seu Twit- ter, seu Facebook e seu Fotolog, e jurou pra ela mesma que a partir daquele dia iria começar a economizar a primeira parce- la do seu E-reader. E gozando da mais pura tentação, se ateve a tal frase do tricolor, “Lógico que se eu visse Clarice Lispector lendo para um público qualquer, eu ficaria sensivelmente in- teressado em ouvir”. E para os leitores, se isso não for ficar enfadonho, Vanessinha largou toda aquela história de consul- tar periódico, e foi procurar a tal da Clarice”... Depois daquele dia, leitura para ela não se tornou mais hábito, como era com o periódico. Virou vício. Embora ela ainda não abrisse mão do seu Blog e não perdesse um jogo do Vasco, a leitura passou cal ufpr . boca do inferno . 8 cal ufpr . boca do inferno . 9
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    FatoS HiStóriCoS naConStrução da naCionalidade São-toMeenSe na obra a construir kilombos, pequenas povoações na floresta densa, tamente arvorando um estandarte frente aos portugueses15, de administrações próprias e autônomas de fazendas coloni- Amador proclamou-se rei de São Tomé e Príncipe e marcou teatro iMaginário angolar de S. toMé e prínCipe de Fernando de MaCedo zadoras. Uma terceira hipótese: os angolares seriam descen- os inícios do reino angolar. Ao longo desta revolta, os com- dentes de tribos africanas que chegaram à ilha muito antes batentes e já ex-escravos angolares queimavam as igrejas, ana kaniški1 que os portugueses e iniciaram o povoamento do interior da destruíam as fazendas ou convertiam-nas para que os negros ilha. É necessário acentuar que, apesar de nenhuma das teo- pudessem viver nelas. Rei Amador libertou efctivamente mais rias revelar a data da chegada dos angolares à ilha são-tomen- de metade do território são-tomense e ocupou a administra- INTRODUÇÃO rio, foi publicado em 1956.5 Depois de 25 de Abril de 1974, se, o historiador português Joaquim Veríssimo Serão (1980) ção colonial localizada na capital. A luta pela liberdade acabou No contexto do seminário Literaturas Africanas de Expres- Fernando de Macedo e Henrique Barros fundaram o Instituto acha que os escravos chegaram por volta de 154011. no ano seguinte. Alguns membros da sua família16 e do exér- são Portuguesa, este trabalho irá se preocupar com o trilogia António Sérgio. O dramaturgo foi eleito presidente. Seja como for, de acordo coma a história contemporânea, cito atraiçoaram-no. Rei Amador foi capturado e enforcado Teatro do Imaginário Angolar de S. Tomé e Príncipe de Fer- Em 1975, Fernando de Macedo participou de uma missão no Amador era o rei do povo angolano. Recentemente, o historia- pelas autoridades coloniais portugueses no dia 4 de Janeiro nando de Macedo, que inclui três peças: Rei do Óbó, Capitan- Timor e em vários países de língua oficial portuguesa, dentre dor Gerhard Seibert (2005), no seu trabalho científico, provou de 1596. go e Cloçon Son. Convém também destacar que não existe os quais as Ilhas de São Tomé e Príncipe. Depois veio a ser “di- que o rei Amador de fato não era o rei dos angolares, mas o Ao longo da história, o reino angolar foi governado pela su- quase nenhuma documentação, nem estudos científicos que rigente” da CoopÁfrica, uma associação que contribui para a iniciador da revolta dos escravos em 1595. Seibert conclui que cessão dos reis. Isto comprova uma fotografia tirada em 1895 elaboram a obra literária deste dramaturgo contemporâneo. estruturação da sociedade civil, especialmente em regiões afri- os únicos documentos existentes testemunham que a revolta pelo Sr. Almada Negreiro17. Ela representa o Rei Simão Andre- A hipótese deste trabalho é que, usando os fatos históricos canas menos desenvolvidas”6. Nos anos 1980, foi afastado da dos escravos foi chefiada pelo negro fugido, Amador, que se za, o último conhecido rei angolar, que Fernando de Macedo para determinar a nacionalidade angolar que foi defendida ao presidência de Instituto e, embora tivesse lecionado na Facul- proclamou rei12. Algumas fontes dizem respeito aos seus do- (2000), na sua obra, descreve como “rei dos Angolares falecido longo de quase cinco séculos, Fernando de Macedo, nas nar- dade de Economia de Lisboa, dedicou-se ao cooperativismo. nos fazendeiros: o seu dono poderia ter sido Don Fernando. no primeiro quartel do século vinte… quando da ocupação de rativas dessas três peças, estabelece a nacionalidade das Ilhas Assinando como Fernando Ferreira da Costa, o escritor criou Mas nenhum dos autores dessas fontes relaciona o rei Ama- Santa Cruz (Anguéné) pelos Portugueses, em 1879, passou a de São Tomé e Príncipe que ganharam independência após a uma ampla obra científica; contudo, é mais conhecido pela sua dor com o povo angolar. ser denominado “Capitão” por imposição dos ocupantes.”18 Revolução dos Cravos. produção literária, que foi escrita a partir do fim da década de O escritor que pela primeira vez relacionou o povo angolar O objetivo deste trabalho é, depois de uma breve exposição 1990 e publicada sob o nome de Fernando de Macedo. A obra com o rei Amador foi o geógrafo e poeta são-tomense José TEATRO DO IMAGINÁRIO ANGOLAR da vida e da obra de Fernando de Macedo, analisar como é que envolve duas coletâneas de poesia, Anguéné, Gesta Africana do Francisco Tenreiro que na obra A Ilha de São Tomé” (1961) Antes da análise da história do povo angolar, dos seus reis os fatos históricos foram elaborados na trilogia teatral e veri- Povo Angolar de S. Tomé e Príncipe (1989) e Mar e Magoa (1994); escreveu: “De 1595 e 1596 esta [a ilha de São Tomé] chega heróicos e da maneira como Fernando de Macedo usa essa his- ficar de que maneira o autor constrói e revela a nacionalidade um ensaio, O Povo Angolar de S. Tomé e Príncipe (1996)7; e, no mesmo de cair nas mãos dos angolares, chefiados pela figura, tória para construir a nacionalidade são-tomense, temos de são-tomense. fim, a trilogia Teatro de Imaginário Angolar de S. Tomé e Prín- já lendária, de Amador”13. Todos os historiadores e escritores apresentar uma sinopse de Teatro do Imaginário Angolar. Dado cipe, incluindo as peças Rei do Óbó (1997), Capitango (1998) aceitaram esta versão da história. E a mesma está presente no que o tema deste trabalho é o papel da história nacional na VIDA E OBRA DE FERNANDO DE MACEDO e Cloçon Son (1997). O fato de o escritor ser mais conhecido pequeno texto Esboço Histórico das Ilhas de S. Tomé e Príncipe, construção da nacionalidade, a obra que mais nos interessa é a Professor, etnógrafo, poeta, dramaturgo e ativista político, por sua obra literária, atribui-se às encenações de Capitango e escrito pelo historiador Carlos Neves, publicado em 1975, em primeira peça – Rei do Óbô. Contudo, será proveitosa também de ascendência são-tomense-angolar, Fernando Macedo Fer- Cloçon Son (a segunda estreou na Ilha de São Tomé em 1997, e que ele escreveu o seguinte: “A 9 de Julho de 1595 o célebre a analise das outras duas peças que, tal como a primeira, reve- reira da Costa nasceu em 1928 em Lisboa. a primeira na Expo 98, em Lisboa). Amador, à frente dos Angolares, levanta o estandarte da re- lam algumas partes da história em questão. Como sequaz de política anti-salazarista, durante a sua for- Pela contribuição ao “fortalecimento da sociedade civil lusó- volta, mas é preso e morto em 1596”14. mação universitária e depois de se ter licenciado em estudos fona”8, Fernando de Macedo, em 1997, foi condecorado com a A lenda do ex-escrevo e rei Amador, que conhecemos hoje, REI DO ÓBÔ de Ciências-Histórico-Filosóficas, o dramaturgo empenhou- Ordem do Infante D. Henrique. Morreu em Lisboa em 2006. foi divulgada depois da independência das Ilhas de São Tomé A narrativa da Rei do Óbô é apresentada ao leitor através de se politicamente na luta pela independência das colónias por- e Príncipe. Desde o início da exploração da cana-de-açúcar na dois narradores – Luísa Bôbô, “Mulher da Virtude” conhecida tuguesas. Foi também recusado pela instituição militar “não A LENDA DO POVO ANGOLAR E DO SEUS REIS Ilha de São Tomé em 1501, o tráfico negreiro era imensamen- pelo seu conhecimento deste mundo e do mundo do Além, e apenas pela objeção de consciência, mas porque o associati- Por causa de escassos documentos, arquivos e fontes etnó- te praticado pelos colonizadores portugueses e acabou em nu- Mantana, o homem mais velho de Anguéné e o melhor conhe- vismo era proibido pelo regime salazarista”2 e “por não ter ca- grafos e históricos, existem várias hipóteses da história e da merosas agressões contra os negros. A única maneira para que cedor da história e tradição angolares. Eles são testemunhos racterísticas de raça branca”3. Esteve preso durante dois anos. origem do povo angolar (habitantes da zona sul da Ilha de São os escravos evitassem as opressões era revoltar-se ou escapar da revolta histórica dos angolares em 1595. As suas convicções anti-salazaristas levavam-no pela segun- Tomé) e do seu rei Amador. Segundo uma das hipóteses, os para o interior, ou seja, para as florestas. Luísa Bôbô e Mantana, acompanhados pela sua mulher Hi- da vez à prisão, à suspensão dos direitos cívicos e à proibição angolares teriam sido escravos de proveniência angolana9. So- Amador, escravo de um capitão-de-mato, fugiu para o in- rondina, deveriam participar, em Djambi, de uma cerimonia de se deslocar a São Tomé. Formou parte do movimento cris- breviveram ao naufrágio de um “barco de escravo”10, ocorrido terior da ilha, onde numerosos escravos angolares já viviam secreta de comunicação com as almas e forças sobrenaturais. tão Metanóia, um grupo de precursores da vida em comuni- na região de Sete Pedras, localizada a sudoeste da Ilha de São nos kilombos. No dia 9 de Julho de 1595, acompanhado pelos Por isso foram para interior onde, depois que a medrosa Hi- dade, que se estabeleceu em Trás-os-Montes para alfabetizar Tomé. De acordo com outra hipótese, os angolares teriam sido outros angolares e escravos com os quais estipulou a aliança, rondina os desamparou, avistaram a silhueta da mãe de Ama- a população local4. As ideias políticas do escritor estão presen- escravos fugidos dos seus donos na época depois do descobri- Amador avançou de dentro dos kilombos para fazendas co- dor. Ela exigiu de Luísa Bôbô e de Mantana que, esfregando as tes no seu primeiro livro, O movimento cooperativo britânico, mento das ilhas do arquipélago pelos colonizadores portugue- lonizadoras com a intenção de libertar o povo servil. Supos- mãos com as folhas da planta mangungu, comprovassem suas que, prefaciado por António Sérgio, seu professor universitá- ses, em 1470. Tendo escapado aos colonizadores, começaram cal ufpr . boca do inferno . 10 cal ufpr . boca do inferno . 11
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    boas intenções. Ambostestemunharam a coroação do novo te “Bobo” a tradição angolar. Tendo ouvido que pau-kími – uma vários médicos. Damião, “doutor encartado” que além dos colonos angolares terem chegado à ilha. Quer dizer, o Reino rei – Amador, um jovem inquieto que, depois de estar infor- árvore cujas partes secas, depois que tinham sido relocadas no conhecimentos da medicina tradicional, tratava as doenças angolar tem sido governado por uma sucessão de reis. Isto foi mado pela sua mãe da morte do seu pai, se tornou rei de seu campo do rei Simão Andreza, recuperaram e cresceram abun- rezando aos Santos Damião e Cosme, ordenou a Palayê tratar o seu direito por eles serem filhos da família. Sustentamos povo. Sua mãe aconselhou-o a ir à montanha Budo-Bachana e dantemente em ramos e folhas – foi cortado pelos portugue- Madalena com planta cloçon son e com orações que iam pro- esta hipótese com a frase dita pela mãe de Amador: “Toma! a sua mulher Amada pediu-lhe que libertasse os cativos e es- ses, “Bobos” e “Anjos de Cantar” lamentavam esse infortúnio. tegê-la das maldições possíveis. A “Santificada”, uma mulher (Desdobra o pano vermelho que encobria o bastão). Agora é teu, cravos. Enquanto o rei Amador avançava e libertava a metade Inicialmente os “Bobos” resistiram a duas tentações: Pé-de- que adivinhava as doenças dos enfermos disse a Madalena que pois as febres já tiraram a vida àquele que o segurava por amor da ilha, no terceiro ato da peça, ao leitor é revelada a conduta pau, a personagem de “Danço Congo” e representante da parte ela não ia morrer porque ia dar à luz um filho – o seguinte rei e ao nosso povo.”20 dos colonizadores portugueses. O Capataz, representante dos de angolares que consideram si mesmos superiores em relação líder dos angolares, e que ficaria grávida de um homem que re- Frases como estas levam a imaginar que o Reino angolar foi portugueses, recusou-se a tentar salvar a vida do Corsário, aos outros que obrigava “Bobos” a reconhecer que os coloniza- conheceria pelo tremor do seu coração quando o encontrasse. formado muito antes da revolta em 1595 porque, segundo representante dos piratas brancos. Depois de ter chegado ao dores portugueses tinham influenciado de maneira positiva o Um stilijon local que tratava adoentados através da análise da a narrativa, Amador era apenas o novo rei na sucessão dos engenho para libertar os escravos, Amador poupou a vida de povo angolar; e Lúcifer, representante das tentações “demóni- urina, concluiu, depois de ter analisado a de Madalena, que ela reis angolares – fato que não corresponde completamente às Corsário, mas recusou a ideia de que ambos estão unidos na cas” e oposto à união do povo angolar que começou a glorificar era possuída por uma alma inquieta de um seu antepassado. fontes sobre a origem de Amador, que o revelam só como um luta pela independência dos portugueses. os europeus, dizendo que seria melhor se os angolares cola- Ele aconselhou Simão a fazer uma cerimonia em que todas as ex-escravo que escapou da fazenda. Este último fato foi cons- As posições da igreja sobre a escravatura são apresentadas borassem com os portugueses para atingirem a prosperidade pessoas da aldeia rezariam pelas almas dos antepassados. tatado pela documentação histórica existente (Seibert, 2005). pela personagem do frei Afonso. Frente à entrada de uma do seu povo. “Feiticeiro”, um homem com conhecimentos e Durante esta cerimónia, inspirados pela história da avó da Uma outra personagem feminina ocupa um lugar de destaque pequena igreja frei Afonso, inicialmente desaprovando e cri- poderes especiais, apareceu no fim da conversa e afastou Lúci- Madalena, as moças da aldeia encenaram um espectáculo de no teatro de Fernando de Macedo – a mulher de Amador – ticando as ações de “Alforriada”, mulher liberada da sua es- fer e Pé-de-pau do palco. marionete: a história de uma mulher idosa que perdeu a sua Amada, que suplica ao seu marido liberdade para o seu povo: cravidão depois de ter dado à luz a criança concebida com seu Neste momento, acompanhada pelo executor “Algoz”, Rai- única filha e que foi consolada por uma galinha, que, por sua “Liberta primeiro cativos e os escravos! Eles te ajudarão na fazendeiro Sr. Basílio, finalmente concordou em esconder o nha entrou no palco e expulsou “Feiticeiro”, seu assistente vez, perdeu onze pintos. Depois do espectáculo, a avó evocou luta juntando-se aos nossos.”21 Portanto, pela atuação das per- escravo fugido N’Gola. Ao mesmo tempo quando N’Gola es- “Zugo-Zugo” e Lúcifer. Ela opôs-se às tentativas do “Feiti- as aparições de “mutilados”, de todas as pessoas que foram sonagens da mãe e da mulher de Amador, o leitor acaba por tava a esconder-se sob o pórtico da igreja, Sr. Basílio interro- ceiro” em aproximar o povo angolar à sua tradição e Lúcifer capturadas, mortas e torturadas na batalha, assim como Ama- se familiarizar com Amador como um jovem governante, que gava e informava o frei Afonso sobre as últimas novidades: para aproximá-lo dos portugueses. Em vez disso queria que os dor e Simão Andreza. No ato final, Madalena conheceu um chegou a ser rei depois da morte do seu pai e como alguém que os guerrilheiros libertavam os engenhos, queimavam as admi- angolares rejeitassem a sua tradição e se submetessem às su- engenheiro florestal, futuro pai de seu filho. vai se tornar o libertador de seu povo. Por agora, vamos deixar nistrações colonizadores e os ex-escravos juntaram-se ao povo periores forças exteriores que ela representa. Cinco membros de lado uma outra interpretação da personagem de Amada a angolar. Os capatazes portugueses fugiram rumo à Povoação de “Guias dos Lados” e “Anjos de Cantar” foram expulsos do CONSTRUÇÃO DA NACIONALIDADE que voltaremos mais adiante. para se preparar para lutar. palco pela Rainha. Neste momento, “Feiticeiro” voltou para Amada gritou a sua súplica ao marido e o rei Amador pas- Avançando em sua viagem, Luísa Bôbô e Mantana toparam anunciar a chegada do último de “Bobos”, o pai de um deles Mesmo usando na sua obra muitos elementos do misti- sou a liberar o seu próprio povo e os escravizados. Por quê? A com dois guerrilheiros que estavam a procurar por João de – velho Juiz. cismo, teatro de fantoches e da dança angolar, Fernando de resposta à esta pergunta é revelada no diálogo entre Capataz Pina, um fazendeiro português e proprietário de uma égua Conversando com a Rainha, velho Juiz queixou-se da des- Macedo narra pormenorizadamente a história heróica sobre do engenho e Corsário – é indicativo da conduta dos coloniza- branca que estava a esconder-se dos angolares. Ele disse à Lu- truição de pau-kími, do cemitério e da sepultura do rei Andre- dois reis principais, porque, como Gilbert e Thompkins (1996) dores portugueses para com os indígenas escravizados e pira- ísa Bobo que os colonizadores tinham atacado os nativos e ti- za, cujos ossos foram arremessados a uma fossa. Por ele ter afirmam, “o líder de uma revolta contra as forças coloniais ou tas brancos, ou seja, ladrões. Mesmo que este relacionamento nham matado Conde Silvestre, o capitão favorito de Amador. defendido a história e tradição angolar, Rainha proclamou-o alguém geralmente historiado como malicioso, é frequente- possa ser tratado como um outro aspecto na obra de Fernando Duarte Amarroco, o general do exército angolar, aproximou- traidor. Na confusão que se seguiu, o carrasco matou velho mente reconstruído no teatro pós-colonial para desempenhar de Macedo, no contexto de nossa hipótese é importante por- se de Luísa Bôbô para lhe dizer que os portugueses tinham Juiz. Depois desta agitação os restantes do “Guias dos Lados” um grande papel proeminente na luta pela liberdade do poder que, na sua essência, é a razão da revolta do povo angolar. bombardeado os guerrilheiros. Pouco depois, um grupo de e “Anjos de Cantar”, começaram a cantar, o cadáver de Juiz de- imperial.19” Agora analisaremos o modo como isto foi conse- Através da personagem do frei Afonso, o leitor vem a saber nativos liderado pela mãe de Amador e Amada, agora grávi- sapareceu e “Capitango” e seus assistentes entraram no palco. guido na obra do autor. das atitudes da Igreja Católica sobre o povo colonizado, sua da, aproximava-se dos “narradores”. As mulheres mostraram Após a dança, o único homem que ficou no palco foi Lúcifer. Inserindo a personagem materna na narrativa da primeira religião e tradição, bem como a sua relação com os coloniza- o cadáver do rei Amador à Luísa Bôbô e Mantana. Enquanto peça – a mãe do Amador – através de conhecimentos dessa dores. O frei Afonso torna-se uma personagem importante na Amada e Luísa Bôbô rezando evocavam os líderes mortos do CLOÇON SON personagem sobre as propriedades de terra e de plantas, seu narrativa porque através da sua conversa com Sr. Basílio e En- exército angolar, Amada agasalhou-se com a capa vermelha do Palayê, uma vendedora de peixe no mercado citadino, e seu misticismo, o respeito que ela recebe de Luísa Bôbô e Man- carregado o leitor toma conhecimento das ações heróicas dos seu marido morto. O povo presente, juntamente com as crian- marido Simão, um pescador, estão a enfrentar a provável per- tana e especialmente através da percepção dela como uma angolares que constroem um forte sentido da continuidade na ças que vinham correndo, começou a cantar louvores. da da sua última filha Madalena, uma menina acometida por metáfora da mãe em geral, como uma terra que alimenta os luta pela sua independência. uma doença desconhecida. Por terem medo de que a história seus habitantes e como uma rainha que deu à luz a criança Como foi elaborado em nosso trabalho, uma das hipóteses CAPITANGO se repetisse – os seus seis filhos morreram “em terra com as que virá a ser um rei após a morte do seu pai –, Fernando de sobre a origem dos angolares é a de que eles são ascendentes Três “Bobos”, representantes do povo angolar, debatiam en- febres”, e na esperança e no desejo de determinar a doença de Macedo insinuar a continuidade do Reino angolar desde a sua dos angolanos, e a isso se opõe Eugénio Luís da Costa Almeida tre si o valor das tradições angolares para ensinar um ignoran- Madalena e encontrar o meio da curá-la, os pais consultam fundação por volta de 1540 , ou seja, depois de os primeiros (1991) no seu trabalho. Costa Almeida afirma que não deve- cal ufpr . boca do inferno . 12 cal ufpr . boca do inferno . 13
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    ríamos misturar osangolares com os angolanos que “se inti- 20, temos uma problematização complementar. Apoiando-se foi defendida no século 20. Em outras palavras, essa naciona- REFERÊNCIAS tulavam Ngola e não N’Gola” 22. Seja como for, é interessante nos temas e nos valores da dança tradicional angolar – Danço lidade, fortalecida pelos fatos históricos, valida e justifica cada que uma personagem escravizada na narrativa leva o nome Congo, Fernando de Macedo, através das personagens de Ca- resistência anti-colonial e esforço do povo de São Tomé contra Enders, Armelle. História da África Lusófona, Editorial Inquérito, Sintra, 1997 Ferreira, Manuel. [1977] Literaturas africanas de expressão portugue- N’Gola. Portanto, Fernando de Macedo fez referência ao “pro- pitango problematiza a relação entre a vida moderna, repre- os portugueses. sa: I, Instituto de cultura portuguesa: Ministério da Educação e Cultura, 1986 blema” da origem dos angolares. Como? A resposta do frei sentada pelos colonizadores e uma vida tradicional, represen- Gilbert, Helen; Tompkins, Joanne. Afonso indica que ele não se importa se o angolares chegaram tada pelos angolares. Nesse aspecto, o velho Juiz, referindo-se Post-colonial Drama; Theory, Practice, Politics, Routledge, London and New à ilha após o naufrágio ou vieram de Angola. Mas, deveríamos à personagem do rei Andreza, lembra aos presentes a velha York, 1996 Macedo, Fernando de. Teatro do Imaginário Angolar de S. Tomé 1 Aluna de graduação do curso de Língua e Literatura Portuguesa, Faculdade e Príncipe, Cena Lusófona: Associação Portuguesa para o Intercâmbio Tea- tomar em conta que o autor faz uma outra referência, cuja história, cultura e tradição angolar que os angolares deveriam de Filosofia e Ciências Humanas,Universidade de Zagreb. tral, Coimbra, 2000 Marques, A. H. de Oliveira; Baudrillart, Marte – Hélène. premissa se justifica na resposta do escravo fugido N’Gola que honrar. Portanto, ele utiliza a árvore real, cortada pelos por- 2 Publico.PT. “Morreu Fernando Ferreira da Costa”, URL: http://ultimaho- Histoire du Portugal er de son empire colonial, Karthala, Paris, 1998. Mata, no final da sua conversa com Luísa Bôbô e Mantana declara: tugueses, como uma metáfora para o possível perigo em rela- ra.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1246416&idCanal=36, (11 de Agosto de Inocência. “São Tomé e Príncipe (Parte V)” em: Laranjeira, Pires. Literaturas “Dona, as crianças são sagradas. Nós arriscamos a vida por ção aos colonizadores. Um dos Bobos diz: “ […]cortaram o que 2009) Africanas de Expressão Portuguesa, Universidade Aberta, Lisboa, 1995, pg.: 3 Macedo, Fernando de. Teatro do Imaginário Angolar de S. Tomé e Príncipe, elas, e muitos morrem na luta. Apesar da tristeza, é bom que não lhes fazia falta arrancando raízes da nossa memória…”25 331-349 Mitras, Luís R. “Theatre in Portuguese-speaking African Countries” Cena Lusófona: Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral, Coimbra, os meninos vejam para que não esqueçam amanhã o preço da Bobo continua: “Até ao Rei Andreza, decorrem quasi quatro em: Banham, Martin (ed.). A History of Theatre in Africa, Cambridge Uni- 2000, pg.: 141 versity Press, Cambridge, 2004, pg.: 380-404 Seibert, Gerhard. “São Tomé e liberdade.” 23 Segundo isso, N’Gola alude ao futuro possível séculos de “guerra do mato”. Não foi só o Amador que entrou 4 Op. cit. 1 Príncipe” em: Chabal, Patrick. A History of Post-colonial Lusophone África, dos angolares e para que a luta pela nacionalidade não seja na capital, antes e depois dele idêntico feito foi conseguido 5 Biblioteca Nacional de Portugal, URL: http://www.bnportugal.pt/, (11 de Indiana University Press, Bloomington & Indianápolis, 2002 Serão, Joa- Agosto de 2009) esquecida. Voltemos agora à personagem da mulher de Ama- por outros Reis. Temos uma bela e longa história escrita com quim Veríssimo. História de Portugal: Volume IV: governo dos reis espanhóis 6 Op. cit. 2 dor, Amada, que, no ato final da peça revela-se muito impor- o sangue do nosso povo!”26 Não acha que aqui o velho Juiz 7 Op. cit. 3, pg.: 141 (1580-1640), Editorial Verbo, Lisboa, 1980 tante: ela está grávida com a criança que será a futuro rei dos está a referir-se à nacionalidade angolar, a mesma defendida 8 Op. cit. 3, pg.: 142 Almeida, Eugénio Luís da Costa. “São Tomé e Príncipe: Notas para um estudo 9 Grada Kilomba. „Rei Amador“ URL: http://www.gradakilomba.com/Essays. sócio-político. Universidade Lusíada, Lisboa, 1991”, URL: . http://elcalmeida. angolares e, portanto, ela cobre-se com a capa vermelha para por ambos os reis? Desta forma, mais uma vez, o autor alude htm, (16 de Agosto de 2009) home.sapo.pt/Naopublicados/STPrincipe.htm, (21 de Agosto de 2008) se proclamar regente do trono real. Assim, a continuidade do à continuidade da nacionalidade angolar. Antunes, Maria do Rosário Nogueira. “Memórias Angolares ou Ângulos São- 10 S. Tomé e Príncipe – Os Angolares. „O Reino dos Angolares“, URL: http:// povo angolar (nação, tradição e cultura) será preservada. angolares.no.sapo.pt/, (15 Agosto de 2009) tomenses em Teatro Imaginário Angolar de Fernando de Macedo, 2002”, Através das personagens do fazendeiro português João de CONCLUSÃO 11 Serão, Joaquim Veríssimo. História de Portugal: Volume IV: governo dos URL: http://www.uea-angola.org/artigo.cfm?ID=564, (11 de Agosto de 2009) Pina e líder bélico Duarte Amarroco, o leitor acaba por ser in- reis espanhóis (1580-1640), Editorial Verbo, Lisboa, 1980, 234 Ceita, Maria Nazare Dias de. „Expressions Culturelles à São Tomé“, 2007, 12 Seibert, Gerhard. „A verdadeira origem do célebre Rei Amador, líder da URL: http://www.africultures.com/php/index.php?nav=article&no=1285, formado que no campo de batalha cada lado confrontado está A cada narrativa ficcional podemos atribuir a definição que a revolta dos escravos em 1595“, Instituto de Investigação Científica Tropical (11 de Agosto de 2009) a ponto de ganhar ou perder. Também, o leitor aprende que ficção é, diferentemente dos fatos históricos, inventada, mu- (IICT), Lisboa“, 2005, URL: http://culturastp.blogspot.com/2005/05/verda- Pereira, Renato Pignatari. “A construção do nacionalismo em São Tomé e Amador está morto. Os fatos históricos da sua morte – Ama- tável, e subjetiva, mas na questão da narrativa da trilogia es- deira-origem-do-clebre-rei-amador.html, (20 de Agosto de 2009) Príncipe”, URL: http://www.klepsidra.net/klepsidra13/saotome.htm, (16 de dor foi traído pelos seus soldados mais próximos e membros crita por Fernando de Macedo, somos confrontados com uma 13 Op. cit. 11 Agosto de 2009) 14 Op. cit. 11 Seibert, Gerhard. „A Lenda do Rei Amador; São Tomé e Príncipe“, URL: da família – não estão presentes no drama. Fernando de Ma- certa confusão. Manipulando, acrescentando ou omitindo fa- 15 Op. cit. 8 http://www.esecamora.pt/joomla151/images/stories/projectos/geminacao/ cedo omite-os e implementa o misticismo. Na peça, a “pro- tos históricos da vida e do heroísmo dos dois maiores reis an- 16 São Tomé e Príncipe. „O preço da liberdade; A história do Rei Amador, ícone files/celmira_lenda_do_rei_amador_s_tome_principe.pdf, (15 de Agosto de cissão” dos angolares acabou no sopé de Budo-Bachana, uma golares, os guardiões do coletivo e forças unificadoras do povo da luta de emancipação de São Tomé e Príncipe”, URL: http://opatifundio. 2009) montanha que, segundo a superstição popular, possui pode- angolar, Fernando de Macedo pertence à sucessão de tantos com/descobriapolvora/?cat=30, (11 de Agosto de 2009) Seibert, Gerhard. „A verdadeira origem do célebre Rei Amador, líder da revol- 17 Op. cit. 9 res místicos. outros escritores que antes dele têm representado o escravo ta dos escravos em 1595“, Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), 18 Op. cit. 3, pg.: 139 Apesar das diferenças entre as peças Rei do Óbô e Cloçon Son libertado Amador como o líder dos angolares, fato o qual con- Lisboa“, 2005, URL:http://culturastp.blogspot.com/2005/05/verdadeira- 19 „The leader of a rebellion against colonial forces or someone generally his- origem-do-clebre-rei-amador.html, (20 de Agosto de 2009) (cujo enredo é colocado num período temporal posterior), trariam os documentos históricos existentes. toricised as villainous is often reconstructed in post-colonial theatre to play Biblioteca Nacional de Portugal, URL: http://www.bnportugal.pt/, (11 de elas possuem um “denominador comum” na personagem de Além disso, através das personagens da mãe de Amador, sua a highly prominent role in the struggle for freedom from imperial rule. focus Agosto de 2009) on a local legendary figure, loosen imperialism’s stranglehold on historical re- rei Simão Andreza. Com o objetivo de provar uma certa con- mulher Amada (as personagens da narrativa não existentes Grada Kilomba. „Rei Amador“ URL: http://www.gradakilomba.com/Essays. presentation.” Veja: Gilbert, Helen; Tompkins, Joanne. Post-colonial Drama; tinuidade da nacionalidade e da cultura angolar, Fernando nas fontes históricas) e da personagem historicamente docu- Theory, Practice, Politics, Routledge, London and New York, 1996, pg.: 116 htm, (16 de Agosto de 2009) Língua dos Angolares. “Língua N‟Gola – A de Macedo implementa a personagem do último rei angolar mentada de rei Andreza, o autor constrói a narrativa de um 20 Op. cit. 3, pg.: 28 Língua dos Angolares”, URL: http://angolares.no.sapo.pt/Falar%20Angolar. 21 Op. cit. 3, pg.: 28 htm, (16 de Agosto de 2009) conhecido que, como o seu antecedente rei Amador, lutou povo oprimido que, ao longo da história, defendeu sua pró- 22 Almeida, Eugénio Luís da Costa. “São Tomé e Príncipe: Notas para um estu- Publico.PT. “Morreu Fernando Ferreira da Costa”, . URL:.http://ultimahora. contra os portugueses, embora mais tarde, em 1878. Na peça pria cultura, sociedade e tradição – em outras palavras, a sua publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1246416&idCanal=36, (11 de . Agosto de do sócio-político. Universidade Lusíada, Lisboa, 1991”, URL: http://elcalmei- Cloçon Son, o rei Simão Andreza lembra ao seu povo o perigo própria nacionalidade. Os dois reis - Amador e Simão Andreza da.home.sapo.pt/Naopublicados/STPrincipe.htm, (21 de Agosto de 2008) 2009) S. Tomé e Príncipe – Os Angolares. „O Reino dos Angolares“, URL: do esquecimento da própria história pela qual os reis e o povo – tornaram-se símbolos da revolução anti-imperialista. 23 Op. cit. 3, pg.: 51 http://angolares.no.sapo.pt/, (16 Agosto de 2009) São Tomé e Príncipe. „O lutavam, caso contrario tudo será em vão: “Filha, pior do que Em conclusão, como o Reino angolar era localizado na ilha de 24 Op. cit. 3, pg.: 131 preço da liberdade; A história do Rei Amador, ícone da luta de emancipação 25 Op. cit. 3, pg.: 89 de São Tomé e Príncipe“, URL: a guerra é o esquecimento! E pior do que o inimigo, é o nosso São Tomé, o objetivo de Fernando de Macedo é mostrar que 26 Op. cit. 3, pg.: 90 http://opatifundio.com/descobriapolvora/?cat=30, (11 de Agosto de 2009) irmão quando o imita!”24 os angolares são parte da história, cultura, tradição do povo Na peça Capitango, cuja narrativa é colocada no início século são-tomense e, portanto, da nacionalidade são-tomense que cal ufpr . boca do inferno . 14 cal ufpr . boca do inferno . 15
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    in(ter)CaMbio: FalloS delprograMa de augM que las Ciencias Sociales y Humanas casi no tienen lugar en medio de la ingeniería kuera, en un encuentro en el que las nido ningún tipo de taller o cursillo que promoviera el conoci- miento y la comprensión de la realidad paraguaya. Me subí al normas de publicación ignoran completamente las particula- bus con todos mis estereotipos intactos: a comer sopa sólida y daiane pereira rodrigues27 ridades de las investigaciones en el campo de Humanidades a tomar tereré en el país del comercio ilegal. Nada se sabe so- obligándonos a someter nuestro trabajo a un modelo inhuma- bre literatura paraguaya en el curso de letras de UFPR, y nada no de “objetivo, hipótesis, materiales y métodos, desarrollo, se hace para que no vayamos al país vecino con la vergonzosa conclusión”. Pues bien, la Asociación existe, como existen los idea de que es un país sin literatura, porque aunque sepamos En el 2º Seminario Internacional de Educación cultural bi- “integrar a sus instituciones miembro en un espacio acadé- escenarios kafkianos y barrettianos. Lo que no existe, tanto de la existencia de Augusto Roa Bastos, nos hacemos la ilu- lingüe y educación indígena realizado en julio por la Embajada mico e intercultural común ampliado y a las sociedades a las en un caso como en los otros, es el verdadero respeto y la ver- sión de que nada más de importante se ha escrito en el país de Brasil en Asunción tuve ocasión de asistir a la conferencia que ellas pertenecen, a partir del conocimiento y comprensi- dadera cooperación entre instituciones, entre países y entre del premio Cervantes de 1989. Un compañero que también de la Dra. Sylvia Duarte Dantas, psicóloga y profesora de la ón de la gran riqueza que subyace en la diversidad cultural de campos de investigación. estuvo de intercambio en Paraguay y yo hemos insistido con USP. La doctora disertaba sobre la importancia del apoyo psi- esta región”. Me pregunto ¿qué clase de integración hay en En el ámbito cultural, volviendo al tema de la crisis en el pro- un proyecto de seminario de literatura hispanoamericana en cosocial en el proceso de inserción cultural. Eso porque, según un intercambio en el que algunos estudiantes pasan hambre ceso de inserción, mucho de la inexistencia o precariedad de la carrera de letras, teniendo como una de las justificaciones ella, el contacto con una nueva cultura es un contacto crítico, por recibir apenas 800.000 guaraníes y otros hacen la buena la relación mutua, del inter-cambio, se da por los prejuicios y la necesidad de conocer algo sobre los países vecinos, con los hay una crisis de identidad generada por la ruptura de las ver- vida con una beca de 1.500.000, siendo ambos participantes desconocimientos que tenemos hacia el país de destino. En cuales tenemos relaciones geográficas, académicas, políticas… dades y paradigmas del “yo” en contacto con el “otro”. Igual- del mismo programa de movilidad académica? ¿Cómo algunos un intercambio de no más de cuatro meses (un semestre aca- teníamos la intención de lograr que los próximos estudian- mente crítico sería el retorno a la cultura de origen después acaban juntando boletas de colectivo en la calle para cambiar démico) no hay tiempo para superarlos o para por lo menos tes en inmersión tengan mejores condiciones para una rela- de ese período de inserción. No puedo citarla textualmente por plata y tener para comer mientras otros pueden viajar por entender el proceso de crisis por el que pasamos, a la vuelta ción de reciprocidad durante el intercambio. Hasta ahora no ni asegurar que realmente la entendí –el ritmo de habla de los todo el país con la beca de intercambio? ¿Cómo se permite que del intercambio uno sigue desconociendo prácticamente por tenemos ningún resultado, seguimos ignorando a nuestros psicólogos me suele parecer aburrido, siempre tan tranquilo un grupo de intercambistas se tenga que humillar pidiendo la completo el país en el que estuvo porque no logró desarrollar vecinos aun habiendo firmado con ellos un contrato de inter- y didáctico– pero sí que por primera vez, dos años después posibilidad de tener agua fría en una primavera de 40ºC mien- una verdadera relación con el otro, tal vez por eso me haya relación. Un ejemplo clave es el caso de Rafael Barrett, que de haber participado del programa de movilidad académica de tras otros quedan en un hotel con piscina y aire acondiciona- quedado la sensación de que debía haberla escuchado a la he mencionado a propósito en párrafo anterior. Quizás nadie AUGM, sentí que realmente alguien me entendía. do? ¿Cómo una organización, una asociación, permite tamaño Dra. Dantas antes. Por supuesto que ese desconocimiento en nunca jamás volvió a entender la realidad paraguaya y latino- Había sido que los estudiosos del tema bien sabían del lío disparate? Perdónenme los que no conocen el Paraguay y no el regreso no es regla, la manera como uno se identifica y se americana como este español que vino a insertarse y a hacerse por el que iba a pasar durante el intercambio pero nadie hizo saben ni cuánto vale tantos ceros en el sistema monetario ni relaciona con la cultura del otro va a variar caso a caso, pero hombre en nuestro continente. Sin embargo, la mayoría de nada para ayudarme. Al final de la conferencia de la Dra. Syl- cuán importante es tener un aire acondicionado en este país, hay estereotipos que ayudan o perjudican ese proceso de in- los intercambistas vuelven a sus universidades de destino sin via sentí que hubiese sido bueno haber pasado por el apoyo lo que les quiero hacer sentir es que ni siquiera hay un “espa- terrelación. Seguramente que los estudiantes que van a la Ar- haber tenido siquiera una mención de su existencia. No será psicosocial o por lo menos haberla escuchado antes de subir a cio académico común”, no hay condiciones administrativas y gentina tienden a pensar que se están yendo a un fenómeno el mejor ejemplo porque sólo hay un especialista en Barrett aquel colectivo que me iba a llevar a un sitio relativamente cer- burocráticas que debían ser iguales entre instituciones que fir- académico y cultural de primer nivel, el mundo del tango, la en todo el Brasil: la Profª. Dra. Alai García Diniz de la UFSC, cano en el mapa, pero absolutamente lejano y desconocido en man un mismo documento, no hay la “cooperación científica, tierra de Borges, y rápidamente se insertan positivamente en y no mucho más que eso en el propio Paraguay, en donde su realidad bilingüe y toda la riqueza cultural que eso implica. tecnológica, educativa, cultural” que el sitio web menciona en este paraíso turístico. Los que vienen a Paraguay, sin embar- se puede destacar al profesor Miguel Ángel Fernández. A lo Pero seguramente que si hubo algún problema no fue porque el momento de definir la dicha Asociación. go, vienen con la creencia de que salen de la civilización para mejor no hubiese tamaño desconocimiento si hubiese mejor en UFPR no haya un grupo de investigación y extensión como Algunos dirán que fui demasiado lejos afirmando que la Aso- entrar en la barbarie, adonde uno no vendría si realmente qui- voluntad política y diplomática de ambos países, del todo el el de la Doctora Dantas en la USP. La verdad es que ignoro ciación de Universidades del Grupo Montevideo no existe re- siera estudiar, según dicen los propios profesores, en el curso Grupo Montevideo, si hubiese un programa de colaboración completamente las investigaciones que se hacen en psicología almente. No se engañen, sí existe. Firmé un acuerdo de inter- de letras por lo menos –que quede claro que no fue ninguno que realmente objetive el contacto multicultural. El problema en el ámbito de nuestra universidad. cambio, presenté documentos, una carta de intenciones, hice de los profesores de castellano que dijo tamaño disparate, por es que no nos interesa hacer saber que en Paraguay hace más La problemática del intercambio empieza por el mal uso o un test de nivel de lengua, fui entrevistada. Llegué a tomar lo menos no a mí. de 40ºC porque ya no hay vegetación, gran parte del territorio desconocimiento del propio término, porque el Intercambio, un bus y a cursar un semestre académico en la universidad Martin Buber considera las relaciones humanas como re- fue devastado para plantar la soja transgénica de los hacen- entendido como reciprocidad de relaciones entre naciones; de destino, en mi caso la Universidad Nacional de Asunción. laciones en las que “la coexistencia es fundamental para el dados brasileños; que si parecemos super-desarrollados en como reciprocidad e igualdad de consideraciones y servicios Después, me hicieron rellenar un formulario de evaluación redescubrimiento del sentido del otro como otredad que in- comparación con nuestros vecinos es porque con el apoyo de entre entidades, corporaciones; como trueque, permuta, no de intercambio, aunque ello no pasara de poner una X en una terpela, cuyo encuentro se concreta en el diálogo que implica Argentina y el patrocinio de Inglaterra le sacamos todo lo que existe sino en la justificación de AUGM. Ninguna condición es lista de “sí” o “no” y “bueno” o “malo” o “razonable”, con un disponibilidad, reciprocidad y responsabilidad”. ¿No debía un podíamos sacar en la mayor guerra genocida de la historia, le creada para que haya realmente ese intercambio de relaciones, espacio de no más de 200 caracteres para comentar. La AUGM programa de intercambio que tiene como objetivo crear un quitamos su territorio, matamos más de la mitad de su po- no hay igualdad de condiciones sino en el papel, por lo menos existe, vi sus miembros principales en las XVI Jornadas de “espacio académico e intercultural común a partir del cono- blación y acabamos con el único régimen económico y social no había en 2008. En el texto de bienvenida del programa de Jóvenes investigadores, en la propia Montevideo, cuando cimiento y comprensión de la gran riqueza que subyace en la realmente auto-suficiente que existió en nuestro continente y escala estudiantil de AUGM, disponible en internet, se dice irónicamente se dedicó el encuentro a la investigación y a la diversidad cultural” promover ese tipo de diálogo? No he te- el país más desarrollado que había en la región a fines del siglo que la movilidad académica tiene como uno de los objetivos innovación para la inclusión social [sic] en un encuentro en el cal ufpr . boca do inferno . 16 cal ufpr . boca do inferno . 17
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    XIX. Población estaque todavía se recupera de la más larga tos y su maestra Josefina Plá –extraordinaria escritora que en dos no chão. Eu nunca mais ia querer lê-los. Nem vê-los. Nem minha cabeça do pescoço. Sem sentir nada, ela logo estava no dictadura que ya tuvo América, que todavía posee una univer- algunas universidades brasileñas poco a poco empieza a ser mais ninguém. Meus olhos lacrimejavam com a luz do fogo. fogo. Dali em diante, escuridão total e silêncio. Não via mais sidad stronista que no logra una reforma que posibilite la pro- estudiada. Quiero nomás mencionar que realmente me descu- As lágrimas escorriam pelo meu rosto. Eu não queria pensar. nada. Não ouvia mais nada. Não havia mais nada. Só então ducción de conocimiento y no la mera repetición de lugares brí como brasileña y como ser humano al tener contacto con Eu não conseguia pensar. Eu já não pensava. A luz me cegava percebi o que era não pensar tão obstinadamente naquela comunes. ¿Pero para qué intentar entenderlo si es más fácil esa realidad otra, que voy superando las crisis y siguiendo ade- e eu ainda não tinha deixado de prestar atenção no relógio. mesma coisa. Sem pensar, consegui deixar de pensar. Sem po- dejar que sigamos en crisis de identidad y que se mantengan lante en este país en donde descubrí el amor y que elegí para “Eu te dei minha mão, disse ‘tudo bem abandonar, é hora de der saber que música tocava, me arrastei com dificuldade pra los estereotipos? ¿Qué tiene que ver todo el programa de in- vivir y educar a mi hijo, con el que me solidarizo y me siento sair daqui’”. Não queria nunca mais ouvir nem o relógio nem dentro da lareira. Não pude sequer ver o brilho que emanou tercambio con estas cuestiones sociales, históricas, políticas? realmente comprometida como nunca había sentido en Bra- o gemido dos alto-falantes. Aquelas glândulas lacrimais esta- do meu resto de corpo. Espero que estivesse tocando Beatles. Al fin y al cabo es un programa académico, y la universidad sil. Si los fallos del programa de intercambio tienen algo que vam já velhas e ultrapassadas. Eu não precisava delas. Nunca Acho que ninguém viu. tiene su compromiso con la Ciencia. ver con eso se lo agradezco. Esto ciertamente sería analizado mais precisei Sem hesitar, embora com muito cuidado, eu tirei Lastimosamente no hay espacio en este texto para romper como un proceso de aculturación, y para mi suerte no les inte- estereotipos y mucho menos para discurrir con la debida y resa a los de la AUGM y puedo seguir tranquila. merecida atención sobre el El dolor paraguayo, El terror ar- gentino, las Moralidades actuales y tantas obras maestras que Asunción, 15 de setiembre de 2010, 17:33 produção literária en el Paraguay se produjeron, además de las obras de Roa Bas- Ciranda no abiSMo Aluna do quinto ano de Letras Espanhol. Foi intercambista da AUGM entre julho e novembro de 2008. fran canestraro28 27 * adaptación y traducción mía del original en portugués disponible en http://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/9763 E como uma criança feliz ela caminhava à beira do precipício. vento era incessante. Por alguns instantes o hipnotismo do vai Lá em baixo um mar um tanto agitado batia nas pedras. As e vem das ondas foi quebrado e ela começou a contemplar o ondas iam e vinham, como que dançando por entre elas. Não horizonte. Começou a contemplar a tarde dourada. Um filme era dia, nem era noite. Era tarde. Uma tarde dourada. Se ela começou a passar por sua cabeça. Se é longo ou curto, depen- sub-realidade apurasse o nariz, poderia sentir um certo cheiro da tarde. As gaivotas voavam perto dela, parecia que se entendiam. Ela, de. O tempo corre de muitas maneiras diferentes. Ao contem- plar aquele dourado e o filme em sua mente, começou a tirar Coração inFlaMáVel com os braços abertos, sem sapatos e com seu leve vestido negro, contornava a beira daquele abismo. Não se importa- os brincos. Ao terminar isso, abriu os braços, com a ilusão de que possuía negras asas. Começou a contemplar novamente o va se poderia morrer com uma possível queda. “Sou imortal”, vai e vem das ondas. Ela sorriu. Um sorriso triste, mas ainda willian pinheiro [sub-realidade.blogspot.com] pensara. “Além disso, tenho minhas asas negras, que posso assim um sorriso. Sorriu ao contemplar o filme em sua men- usar quando eu quiser.”. Ali, à beira do abismo, ela rodopiava te. Apenas sorriu. Aproximou-se um pouco mais da beira do Arranjadas por ano, ali no chão, estavam todas as cartas. Or- na frente da lareira e resolvi não ler nenhuma daquelas linhas. feliz, apesar da tarde dourada. Atrevi-me a olhar no fundo de precipício e olhou para cima para observar o céu. Olhou para ganizadas em pilhas por ano. Depois, por cor e por forma de Resolvi apenas contemplá-las: organizadas e belas e cheias de seus olhos, notei que eles não acompanhavam a felicidade de o horizonte. Olhou para baixo, para as ondas, e permaneceu papel. E, além disso, todas ali organizadas cronologicamente. letras. Deitei-me no chão. Sem pensar em números, assisti, seu corpo. Sua alma não acompanhava... Achei estranho que, assim. Os relógios terrestres não são capazes de quantificar o As de cima das pilhas foram desorganizadas por uma rajada de sem pensar, o caminhar vagaroso dos ponteiros do relógio. sozinha, ela dançasse, pois além de não haver música, seus tempo dela. Simplesmente olhou por tempo suficiente. Com vento. Era inverno. Garoava. Estava frio. Sempre estava frio. Sem pensar. Pensei em não pensar, mas pensei. Pensamentos olhos não pediam dança. Por um instante ela parou, já um seus pés descalços, um sorriso um tanto perturbado nos lá- Havia um bom tempo desde a última vez que o sol apareceu. me devoravam vagarosos. O fogo da lareira se apagava. Àquela tanto cansada, colocando as mãos no rosto para afastar seus bios, suas ilusórias asas e seus braços abertos, ela se jogou. As tais flores prometidas e ansiadas da primavera nem deram hora a sala estava bem escura. A chama ia logo se apagar. Jo- cabelos, que lhe encobriam os olhos naquele instante, depois “Sou imortal”, pensara ela antes de se jogar. Estava enganada. sinal de que vão um dia ainda aparecer. Duvido. Levantei e guei no fogo minha mão esquerda. A sala brilhou e logo voltou de tanto dançar. Começou a andar devagar, para sentir cada No fundo ela sabia que não era imortal, mas tanto faz agora. fechei a janela. A cortina, de um tecido de um amarelo fos- ao escuro. Meu braço, em seguida, fez brilharem meus pensa- pedrinha, por menor que fosse, em seus pés. Parou para sentir Ela se espatifara junto às pedras; um certo tom de vermelho co, tinha agora uma mancha marrom molhado feita pela chu- mentos por mais tempo. O silêncio daquela casa me destruía. o vento no rosto. Parou para observar aquela triste tarde dou- misturava-se com a água, com as ondas. As asas imaginárias va que invadiu. Lá fora, o céu pintava o rosto das pessoas de Achei melhor me levantar e por uma música pra me distrair. rada. Parou para observar as ondas lá em baixo... Agora seus se foram junto com ela. Agora seus olhos faziam sentido com cinza; as árvores da calçada pareciam de cimento; os carros Pus fogo em minha perna e fui aos pulos até a estante. A per- olhos faziam certo sentido com seu corpo. Este parado. Aque- o seu corpo. Agora os dois estavam no mesmo ritmo. Em rit- pretos e pratas sobre o calçamento de cimento. Cinza. Horas na esquerda. Nas prateleiras escolhi cinco dos meus melhores les, hipnotizados pelas ondas batendo nas rochas. Seus dedos mo nenhum. depois, voltei ao chão. Às cartas. Havia algumas espalhadas. cds e coloquei na bandeja. Músicas calmas. Eu queria ouvir tocavam novamente seus cabelos para tirá-los do rosto, pois o Pensei em organizar tudo de novo. Àquela hora, o fogo da la- músicas calmas. Agarrei o controle remoto e voltei pro chão. reira já ia alto. Talvez se eu organizasse por remetente, eu ia “Tudo o que eu precisava, eu não mais precisei”: era, então, 28 Aluna do quarto período de Física da UFPR entender o que tudo aquilo tinha a ver com nada. Sentei-me minha perna esquerda que iluminava meus escritos, ali, joga- cal ufpr . boca do inferno . 18 cal ufpr . boca do inferno . 19
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    liMbo inSéCuloS julio cezar marques [escrevendodentrodofuracao.blogspot.com] iamni reche bezerra Estava sentado num banco frio do calçadão da XV de Novem- pacientemente e pôs na boca. Certos gostos tinham para ele O sol lá fora quase havia se posto. A casa já iluminada com de, a única verdadeira. E como o suspiro do poeta gera espa- bro. Sentia o vento frio da madrugada congelar seus lábios. um sabor especial de nostalgia; às vezes tinham gosto de dor, suas luzes artificiais. A lâmpada do quarto em uma redoma ço em branco no verso, o espaço entre ele e o mundo estava Que horas eram? Meia noite? uma, duas? Não podia ter certe- de felicidade, de paixão. Canela. Lembrava-se bem do gosto de vidro em formato de gota, parecendo escultura de gelo recheado de coisa alguma. O zumbido, silêncio. Sentiu frio za... A outrora movimentada rua, agora padecia de um silêncio de seus lábios - canela -, da textura que tinham e da doçura inderretível pendente no teto. Ao atravessar o objeto, a luz nas pequenas articulações. Quis pousar, mas não havia cor- trazido pelo vazio das pessoas que ali não andavam. Sentado com que tocavam os seus. Lembrava-se da primeira vez que perdia um pouco sua intensidade. Mas era ainda luz, e alguns po que pousasse. Era qualquer coisa que sente, e sentia qual- no banco, tateou algumas flores no úmido canteiro; levou uma tocara seu rosto, do calor por ele emanado; lembrava-se de inséculos minúsculos voavam ao seu redor. Muito próximos, quer coisa próxima ao prazer. Não era a luz, mas a busca por ao nariz e inspirou o doce odor exalado pelas macias pétalas. cada curva e de cada imperfeição do seu rosto - pra ele perfei- mas não chegavam a tocar o lustre. Amavam a luz, sobretu- ela. A espreita do crepúsculo. A doce ansiedade da véspera. Vez ou outra ouvia um leve ruído ao longe - ruídos não facil- to - e da forma como, ao seu toque, se aqueciam ainda mais do a artificial, e passavam o dia inteiro pousados em qualquer Percebeu-se inteiro. Teve medo e pela primeira vez, planejou. mente identificáveis: um carro, uma latinha que caía, talvez, as bochechas arredondadas. Gostaria de saber que fim levara, canto a espreita do pôr-do-sol. Quando finalmente chegava, Talvez a fuga da teia pudesse ser passando a língua áspera nas uma conversa entre pessoas que passavam tão longe que pa- que caminhos seguira. Doce. Com um pulo desperta. Ouve as luzes da casa se acendiam, e estavam livres para fazer o que partes em que estivesse preso. Poderia ser uma tentativa em reciam cochichar, ouvia às vezes sons que não conseguia atri- cair sua bengala. Abaixa-se e a traz para junto de si. Não sabe amavam: voar ao redor das lâmpadas. A natureza os fez seguir vão, mas a aranha tardava a chegar e isso lhe daria tempo para buir a nada que conhecia; ouvia também o som das folhas que por quanto tempo seus olhos ficaram fechados - o que pra ele o luar como orientação, mas os pequenos cérebros se confun- pensar em outras possibilidades. Pensar. Lutar. Precisava com balançava com o vento e de desprendiam dos altos galhos de não faz, de fato, muita diferença. Ficou ali sentado por muito diam ao ver uma fonte luminosa mais próxima e mais intensa. urgência ser. Assim como a vida precisava ela mesma ser vivi- cerejeiras e terminavam por pousar no chão, nos bancos e em tempo. Pensa em quanto tempo mais teria que esperar até que Um dos inséculos voava mais rápido que todos os outros. O da. O corpo, queimado e quase sem vida, foi ao chão. Natureza seu casaco. Sentia na boca - ainda - o gosto amargo do conha- alguém que enxergasse - e a ele também - o conduzisse até vôo em espiral foi ficando cada vez mais ligeiro e violento. Já sábia. A lua o protegia de duas maneiras: estava a uma distân- que que tomara horas atrás na tentativa de amenizar o frio sua casa. Talvez seus passeios noturnos sem destino deves- cego pelo gozo incontrolável, em uma de suas curvas, tocou cia bastante segura e, por não ter calor próprio, jamais faria trazido com o sereno da noite. Meteu a mão em um dos bolsos sem deixar de existir... afinal, poderia fazê-los durante o dia - a a fonte. E foi como se de repente passasse a existir. Havia ele mal a qualquer inséculo apaixonado que percorresse tamanha do longo casaco e dele sacou uma bala de canela. Desenrolou-a escuridão era a mesma. agora, na forma primitiva e original. Entrava não para aquela distância. Pareceu que ia morrer. E morreu. vida já tão rançosa, mas para a outra vida que era, em realida- labirintoS ViVoS trilHando o CaMinHo, CaMinHando a trilHa sara duim [minhaconstanteinconstancia.blogspot.com] andante dos portões [thegatesandbeyond.blogspot.com] Aqueles corredores faziam sua imaginação aflorar. Tantas his- queriam era um corpo onde pudessem voar livres. Até que, en- tórias, tantas vidas concentradas ali, lado a lado, numeradas fim, ele encontra o que procurava. Olha para aquela pequena Caminho pela manhã. Não que isso faça muita diferença, mas, solos mais regulares, eu caminho. Paro para descansar, sento e organizadas em celas de diversos tamanhos. Os muitos cor- cela, com aquela vida ali dentro, sorrindo para ele. A admira uma vez que o sol não está tão alto no céu e que ainda sinto a em uma grande pedra sob uma árvore de abóbada acolhedora. pos que por ali passavam pareciam não se incomodar com a por um instante, ouve seu chamado e a liberta. Agora aquela brisa gélida de uma noite já distante, é pertinente dizer que é Embora ficasse às margens da minha trilha, não me arriscava presença delas. Na verdade, nem mesmo notavam que aquele alma ganha um corpo: o dele. manhã, uma agradável manhã para caminhar. Mas quanto a a olhar para trás. Nada me seguia, mas era como se estivesse. mundo era muito maior do que aparentava. Mas ele notava. caminhar, não me foi dada escolha. Então eu caminho. Árvo- De nada fugia, mas não podia ficar muito tempo ali. Levanto- Sim, ele era capaz de ouvir todas aquelas vozes aprisionadas res altas ao meu redor, umas esbeltas e retilíneas, outras secas me do refúgio arbóreo e continuo caminhando. Minhas vestes ali. Ainda que não conhecesse quase nada, transportava-se e retorcidas, como se quisessem fechar o ar que há para res- me parecem pesadas. O manto sob meus ombros ondula leve- para o meio daqueles corredores e podia ouvir os gritos mu- pirar, e posso sentir isso. A cada passo o ar fica mais pesado, mente aos resquícios da brisa pesada da noite distante, que dos daquelas vidas sem corpos. Sentia-se observado, admira- mesmo com a brisa leve, a única coisa que passa pelas estreitas as árvores retorcidas não conseguiam segurar. Mas mesmo do, invejado. Era capaz de perceber o chamado daquelas almas passagens das copas das árvores são as nesgas de luz deste sol com a leveza de sua fazenda, estava pesado, como se não qui- que lhe cercavam, sentindo-se tentado a atendê-los. Ficava matutino. Eu caminho então para encontrar novamente cam- sesse que eu continuasse adentrando a trilha. Mas nada, nem cada vez mais difícil não se deixar seduzir por tantos clamores po aberto. O chão sob meus pés varia como as árvores que pas- mesmo meu manto me impediria de caminhar. Não importa por liberdade, mas vagava por aqueles corredores buscando sam por mim. Ora duro e empedernido, ora macio e gramado. porque caminho, porque comecei a caminhar e muito menos uma vida em particular. Tinha um destino certo e não podia Por vezes juncado de arbustos e flores, por vezes lamacento e para onde devo caminhar. Agora, tudo o que importa é que eu perder-se no caminho. Sabia que tudo o que aquelas almas pantanoso. Não consigo ter um bom ritmo, mas em busca de caminho, e que não posso parar. cal ufpr . boca do inferno . 20 cal ufpr . boca do inferno . 21
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    in tHe green SeM título lucas vosch pacheco de carvalho dan Life has moved on Ontem vaguei antes de adormecer But you’re still jumping on the lawn Na intenção de caminhar em direção às minhas ilusões Sometimes it feels like dancing Encontrei portas fechadas que um dia facilmente abri Primitively seducing the creatures of the garden Antes, explorava cada espaço que adentrava Would they reach out to the flowers Encontrando lacunas que me mantinham sonhando Or to your hardly hidden burden? Aproximando-me da beleza que nunca existiu It takes the hundreds of stings through Subia degraus que rumavam ao nirvana Your soft white skin Nas camas em que deitava sentia odores um dia tão próximos To take the pain within Sobre lençóis descompostos mergulhava em âmagos não vistos But lately you’ve been weirdly feeling fine As portas obstinadamente se mantiveram trancadas Regressei, então, por um caminho tortuoso – adormeci, enfim Sleepy sleepy little dog Num relógio exato avistei o início do meu dia. Scream it woofing in my ear: Is it our future to grow old and full of fear? Their experiments on us work no more (vinte e nove de março de dois mil e dez) What were the flowers really for Dee dee little bee Come flying from the streets And kiss me in the mouth with love and greed So scarlet I’d be for every tree to see Your poison searching for the blood in me to feed It takes the bunches of insects Holding you down from near The ones like you who actually succeed Dancing around in line Knowing of your state of mind, though weirdly feeling fine. cal ufpr . boca do inferno . 22 cal ufpr . boca do inferno . 23
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    Boca do Inferno JornalAcadêmico do Curso de Letras da UFPR ISSN 2178-308X Rua Gal. Carneiro, 460, 10° andar editor josé olivir de freitas junior revisores claudio luciano ornellas elisa tisserant de castro projeto gráfico caius marcellus (coletivo095.com) conselho editorial centro acadêmico de letras e pareceristas convidados (área de literatura): prof. dr. francisco carlos fogaça prof. dr. marcelo paiva de souza prof. dra. terumi koto bonnet villalba colaboradores aguinaldo roberto moreira Letras Polonês ana kaniški Letras Português (Universidade de Zagreb) daiane pereira rodrigues Letras Espanhol daniel carlos dos santos silva Letras Português e Espanhol francielle ana canestraro Física UFPR henrique mancini Letras Português e Inglês iamni reche bezerra Letras Espanhol julio cezar marques da silva Letras Espanhol lucas vosch pacheco de carvalho Letras inglês sara duim dias Letras Português e Espanhol talita garcia teurra fernandes vailatti Letras Francês victor conrado silveira eschholz Letras Inglês willian pinheiro Letras Inglês imagens e ilustrações veer.com istockphoto.com sagradafamilia.tv manifesto ink capa dante e virgilio no inferno Willian Adolphe Bourguereau, 1850 contra capa o triunfo da morte Pieter Bruegel, 1562 impressão imprensa universitária ufpr tiragem 400 exemplares o conteúdo expresso nos textos assinados não corresponde necessariamente à opinião do jornal e/ou do centro acadêmico de letras-ufpr