UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ
FACULDADE DE MEDICINA
DEPARTAMENTO DE FISIOLOGIA E FARMACOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FARMACOLOGIA
MESTRADO PROFISSIONAL EM FARMACOLOGIA CLINICA
VERA REGINA CAVALCANTE BARROS RODRIGUES
AVALIAÇÃO DAS ALTERAÇÕES HEMATOLÓGICAS, BIOQUÍMICAS
E GENOTÓXICAS NOS TRABALHADORES EXPOSTOS A
AGROTÓXICOS EM MUNICÍPIOS DO ESTADO DO PIAUÍ
FORTALEZA - CEARÁ
2011
VERA REGINA CAVALCANTE BARROS RODRIGUES
AVALIAÇÃO DAS ALTERAÇÕES HEMATOLÓGICAS, BIOQUÍMICAS
E GENOTÓXICAS NOS TRABALHADORES EXPOSTOS A
AGROTÓXICOS EM MUNICÍPIOS DO ESTADO DO PIAUÍ
Dissertação submetida à Coordenação do Programa de Pós-
Graduação em Farmacologia, do Departamento de Fisiologia e
Farmacologia da Faculdade de Medicina da Universidade
Federal do Ceará, como requisito parcial para obtenção do
grau de Mestre em Farmacologia Clínica.
Orientadora: Profª. Drª. Maria Elisabete Amaral de Moraes
Co-Orientadora: Profª. Drª. Ana Amélia de C. Melo Cavalcante
FORTALEZA - CEARÁ
2011
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação
Universidade Federal do Ceará
Biblioteca de Ciências da Saúde
R617a Rodrigues, Vera Regina Cavalcante Barros
Avaliação das alterações hematológicas, bioquímicas e genotóxicas nos trabalhadores expostos
a agrotóxicos em municípios do Estado do Piauí/ Vera Regina Cavalcante Barros Rodrigues. -
2011.
138 f.: il.
Dissertação (Mestrado Profissional) – Universidade Federal do Ceará, Faculdade de Medicina,
Programa de Pós-Graduação em Farmacologia, Fortaleza, 2011.
Orientação: Profª. Drª. Maria Elisabete Amaral de Moraes
Coorientação: Profª. Drª. Ana Amélia de C. Melo Cavalcante
1. Praguicidas 2. Saúde do Trabalhador 3. Biomarcadores Farmacológicos 4. Genotoxicidade 5.
Ensaio Cometa I. Título.
CDD615.92
VERA REGINA CAVALCANTE BARROS RODRIGUES
AVALIAÇÃO DAS ALTERAÇÕES HEMATOLÓGICAS, BIOQUÍMICAS E
GENOTÓXICAS NOS TRABALHADORES EXPOSTOS A AGROTÓXICOS EM
MUNICÍPIOS DO ESTADO DO PIAUÍ
Dissertação submetida como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau
de Mestre em Farmacologia Clínica, outorgado pela Universidade Federal do Ceará,
e encontra-se à disposição dos interessados na Biblioteca de Ciências da Saúde da
referida Universidade.
Aprovada em 26 de setembro de 2011.
BANCA EXAMINADORA:
_________________________________________________________
Profª. Drª. Maria Elisabete Amaral de Moraes (Orientadora)
Universidade Federal do Ceará
_________________________________________________________
Profª. Drª. Danielle Silveira Macedo
Universidade Federal do Ceará
_________________________________________________________
Prof. Dr. Cláudio Costa dos Santos
Universidade Federal do Ceará
À minha família.
AGRADECIMENTOS
Talvez não consiga expressar a minha gratidão com palavras escritas e
espero encontrar melhor forma e melhor momento para dizer o quanto sou grata a
todas as pessoas que me aconselharam, motivaram, orientaram, reforçaram,
ouviram, colaboraram. A elas, devo um bocadinho deste trabalho:
À Profª. Drª. Maria Elisabete Amaral de Moraes, pela orientação,
incentivo, atenção e confiança em mim depositada, pela amizade no tratamento para
comigo, o que, com certeza, alimentou minha perseverança, o que jamais irei
esquecer.
À Profª. Drª. Ana Amélia de C. Melo Cavalcante, minha co-orientadora
que, sem conhecer-me, acreditou que eu seria capaz. Obrigada professora, pela
valiosa colaboração no desenvolvimento e análise dos dados desse estudo.
Aos Professores da UNIFAC, pelo apoio e conhecimento que
transmitiram.
A todos os profissionais da UNIFAC, em especial, a Fábia Bezerra, Maria
Teresa Rocha, Ana Leite, Aura Rhanes e Flávia Martins, pela delicadeza e presteza
dispensadas, tornando agradáveis nossos dias longe de casa.
Aos trabalhadores rurais do Estado, especialmente àqueles dos
municípios de Barras e José de Freitas, pela participação neste estudo.
À Tatiana Vieira Souza Chaves, pela paciência, dedicação e grande
amizade, a quem devo o incentivo e o apoio desde a primeira hora deste estudo.
Ao Fabrício Amaral, pelo apoio constante e por acreditar em mim. Pela
amizade, disponibilidade e por todas as contribuições feitas a este trabalho.
Aos colegas do Mestrado pela amizade que, espero não se perca; em
especial a Carlene, Samira, Iolanda, Amparo, Lucimá, Maria Veloso, Adriana, por
compartilhar as ideias e experiências, pela convivência e momentos de
descontração no período do curso em Fortaleza (agora, “o rabo é o rei!”).
Aos colegas do Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador/
Diretoria de Vigilância Sanitária do Estado que se envolveram de alguma forma
neste estudo, especialmente à Carmen Medeiros, Christiane Miranda, Odete Melo,
Eduardo Probo, Idiacira Sampaio, Aurenice Frazão, Roselane Souza, Alberto
Faustino, Socorro Cronemberger, Ana Cleide, Daniele Sampaio, Giuliano Miranda,
Benedito Júnior, Solange Teles, Jarbas Aurélio, Deusilene Brito, Rogério Bitu (in
memorian), Dilson, Neylon Araújo pela valiosa colaboração nas diferentes fases
desse trabalho.
À Eline Chaves (ADAPI) e Francisco Honorato de Sousa (CONAB) que
muito gentilmente cederam os dados referentes aos municípios.
Aos estagiários do LABTOXIGEN, especialmente a Débora, Araceli e
Rodrigo, pela orientação e contribuição na realização do ensaio cometa.
Aos funcionários do LACEN pela presteza na realização dos exames
complementares dos trabalhadores.
Aos meus pais, irmãs (os) e seus filhos (as), por valorizarem tudo o que
faço e pelo apoio incondicional em todos os momentos da minha vida. Se não fosse
por vocês, não chegaria a lugar nenhum!
Ao companheiro Francisco Carlos, pelo apoio e incentivo constante à
superação das minhas dificuldades.
Aos meus filhos, Fernando e André, pela compreensão e ternura sempre
manifestadas; pelo orgulho que sempre tiveram com os resultados acadêmicos e
profissionais da mãe. Obrigada pela tradução, organização e paciência com minhas
dificuldades com a tecnologia.
Aos amigos de outros espaços, Profª Marize Santos (desde os tempos da
UFPI), Ana Amélia Pedrosa, Célia Regina Leal, Dr. Francisco Luis Lima, Cláudio
Barros, Sebastião Paulino, José Carlos Carvalho, Milton Braga, D. Elza Vieira,
Wanderlei Pignati, Carlos Vaz, pela torcida e estimulo durante a caminhada. Deu
certo!
A Fernando, Silvio e Gabriel, estrelas que continuam irradiando luz e
permanecem vivos em nossos corações.
À Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (SESAPI) pelo incentivo e
apoio financeiro no desenvolvimento da pesquisa.
A FINEP, MCT, MS, FUNCAP, CNPq, CAPES e Instituto Claude Bernard
(InCB), pelo incentivo no desenvolvimento da pesquisa nacional.
Agradeço a DEUS, que, na sua imensa bondade, me concedeu a
oportunidade de abraçar e concluir mais essa etapa, iluminando o caminho com
essas pessoas (a quem chamo anjos), sem as quais não teria conseguido chegar
até aqui.
E a todos aqueles que participaram direta ou indiretamente desta
conquista, cujos nomes não foram citados. MUITO OBRIGADA!
A Força não vem da capacidade física, ela vem de uma
vontade inabalável.
Mahatma Gandhi
RESUMO
Avaliação dos Efeitos Hematológicos, Bioquímicos e Genotóxicos nos Trabalhadores
Expostos a Agrotóxicos em Municípios do Estado do Piauí. Vera Regina Cavalcante Barros
Rodrigues. Orientadora: Dra. Maria Elisabete Amaral de Moraes. Dissertação de Mestrado. Programa
de Pós-graduação em Farmacologia. Departamento de Fisiologia e Farmacologia, UFC, 2011.
A utilização de agrotóxicos na agricultura elevou rapidamente seu consumo, especialmente de forma
indiscriminada, sendo o Brasil um dos maiores mercados, representando 16% da venda mundial. No
Piauí, a expansão agrícola na região dos cerrados contribuiu para o aumento do seu uso, expondo os
agricultores a danos ao DNA. O objetivo desse estudo foi avaliar os efeitos tóxicos e genotóxicos nos
agricultores piauienses expostos aos agrotóxicos, com o uso de biomarcadores hematológicos,
bioquímicos e genotóxicos. A população estudada consistiu de 60 trabalhadores expostos aos
agrotóxicos dos municípios de Barras e José de Freitas e 55 indivíduos controle, sem história de
exposição a agroquímicos. Para caracterização da população foi aplicado questionário sócio
epidemiológico, de acordo com a International Commission for Protection Against Environmental
Mutagens and Carcinogens-ICPEMC. Foram coletados 10 mL de sangue periférico para realização
das análises hematológicas, bioquímicas e ensaio cometa, que foram processadas pelo LACEN-PI. A
média de idade foi de 34 anos, de etnia negra, na maioria, com tempo de trabalho, em média de
13,55 anos, carga horária de 41,5 horas semanais e 50% dos trabalhadores utilizavam pelo menos
um tipo de EPI. Quanto aos hábitos de vida, 66,7% dos trabalhadores expostos informou não
consumir vegetais, 41,7 % eram fumantes e 73,3% consumiam bebidas alcoólicas. Do total do grupo
exposto, 33,3% usava medicamentos prescritos e 66,7% usava medicamentos não prescritos. No
estudo foi evidenciado maior uso na agricultura de herbicidas (81,1%) e inseticidas (16,3%). No grupo
dos trabalhadores expostos, 55% apresentaram leucopenia e 6,7% apresentaram diminuição na
contagem de células vermelhas. Foram evidenciadas alterações na creatinina plasmática (p < 0,05);
nas transaminases e fosfatase alcalina (p< 0,01) quando comparado o grupo exposto com o não
exposto. Nos resultados do ensaio cometa, o grupo exposto apresentou, em relação ao grupo não
exposto, uma média de (32,13 vs 10,12) de índice de dano, e frequência do dano (21,82 vs 9,38),
respectivamente. Na classe 1, a genotoxicidade observada foi de 17% para os expostos e 9% para os
não expostos. Não houve significância entre os danos no DNA em relação às variáveis: tempo de
trabalho, não uso de EPI, hábito de fumar, consumo de álcool e não consumo de vegetais. Conclui-se
que os trabalhadores expostos a agrotóxicos apresentaram alterações enzimáticas, hematológicas
(leucopenia) e instabilidade genética, avaliados por parâmetros bioquímicos e genotóxicos,
demonstrando assim a importância do biomonitoramento dos trabalhadores como uma estratégia de
vigilância em saúde do trabalhador no Estado do Piauí.
Palavras-chave: Agrotóxicos. Saúde do Trabalhador. Biomarcadores. Genotoxicidade. Ensaio
Cometa.
ABSTRACT
Evaluation of Hematologic, Biochemical and Genotoxic Effects in Workers Exposed to
Pesticide in Municipalities of Piauí. Vera Regina Cavalcante Barros Rodrigues. Master Advisor: Dr.
Maria Elisabete Amaral de Moraes. Master’s Dissertation. Graduate Program in Pharmacology.
Department of Physiology and Pharmacology, UFC, 2011.
The use of pesticides in agriculture rapidly increased their consumption, especially indiscriminate
consumption, being Brazil currently the largest market for pesticide in the world, representing 16% of
worldwide sales. In the state of Piauí, the agricultural expansion in the region of Cerrado contributed to
their increased use, exposing farm workers to damages to the DNA. The purpose of this study was to
evaluate the toxic and genotoxic effects in farm workers exposed to pesticides in Piauí, with the use of
hematologic, biochemical and genotoxic biomarkers. The population in analysis consisted of 60 farm
workers from the municipalities of Barras and José de Freitas occupationally exposed to pesticides
and 55 control individuals with no history of exposure to agrochemicals. To obtain the characteristics
of the population, a social-epidemiological questionnaire was applied, recommended by International
Commission for Protection Against Environmental Mutagens and Carcinogens-ICPEMC. 10 mL of
peripheral blood were collected for haematological, biochemical and comet assay analyses, all of
which were processed by LACEN-PI. The mean age was 34 years, of black ethnicity, mostly with an
average of 13.55 years of work, workload of 41.5 weekly hours and 50% of workers used at least one
type of PPE. In what concerns lifestyle, 66.7% of the exposed workers said they did not consume
vegetables, 41.7% were smokers and 73.3% consumed alcohol. Of the total of the exposed group,
33.3% used prescribed medication and 66.7% used non-prescribed medication. In the study, it was
evidenced a higher use of herbicides (81.1%) and insecticides (16.3%) in agriculture. In the group of
exposed workers, 55% had leucopenia and 6.7% showed a decrease in the red blood cell count. It
was found variation in plasmatic creatinine (p < 0.05); in liver enzymes and alkaline phosphatise (p <
0.01) when comparing the exposed and the non-exposed groups. In the results of the comet assay,
the exposed group showed, in comparison with the non-exposed group, a mean of (32.13 vs. 10.12) of
damage index and damage frequency of (21.82 vs. 9.38), respectively. In class 1, the genotoxicity
observed was 17% for the exposed and 9% for the non-exposed. There was no significance between
DNA damage and the following variables: workload, non-use of PPE, smoking, consumption of alcohol
and non-consumption of vegetables. We concluded that workers exposed to pesticides presented
toxic variations and genetic instability, which was evidenced by enzymatic variation and damages to
the DNA, which thus demonstrates the importance of biomonitoring of workers as a strategy of
occupational health surveillance in the state of Piauí.
Keywords: pesticides, occupational health, biomarkers, genotoxicity, comet assay
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
AAA Anemia aplástica adquirida
AChE Acetilcolinesterase
ADAPI Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Piauí
ALT Alanina Aminotransferase
AMPA Ácido Aminometil Fosfônico
ANDEF Associação Nacional de Defesa Vegetal
ANOVA Análise de Variância
Anvisa Agência Nacional de Vigilância Sanitária
AST Aspartato Aminotrasferase
BChE Butirilcolinesterase
BHC Hexacloro benzeno
CAT Comunicação de Acidente do Trabalho
CEREST Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador
CHCM Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média
CITOX Centro de Informação Toxicológica
CNS Conselho Nacional de Saúde
COMEPE Comitê de Ética em Pesquisa da UFC
CONAB Companhia Nacional de Abastecimento
CONEP Comissão Nacional de Ética em Pesquisa
DATASUS Banco de Dados do Sistema Único de Saúde
DIVISA Diretoria de Unidade de Vigilância Sanitária
DL50 Dose Letal Suficiente para Matar 50% de um Lote de Animais
DNA Ácido desoxirribonucleico
EBDC Dietilditiocarbamatos
EDTA Ácido etileno diaminotetracético
EPI Equipamento de Proteção Individual
EPSPS Enzima 5-enolpiruvato- shiquimato-3-fosfato sintase
ESF Estratégia Saúde da Família
FA Fosfatase alcalina
FAO Food Agricultural Organization
FEPAM Fundação Estadual de Proteção Ambiental
FIOCRUZ Fundação Osvaldo Cruz
GGT Gama Glutamil Transpeptidase
Hb Hemoglobina
HCH Hexaclorociclohexano
HCM Hemoglobina Corpuscular Média
HCT Hematócrito
IARC International Agency for Research on Cancer
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IBAMA Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis
ICPEMC International Commission for Protection Against Environmental
Mutagens and a Carcinogens
INCA Instituto Nacional do Câncer
INSS Instituto Nacional de Seguridade Social
IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
LABTOXIGEM Laboratório de Toxicologia e Genética Molecular
LACEN Laboratório Central de Saúde Pública do Estado do Piauí
LOS Lei Orgânica de Saúde
MPAS Ministério da Previdência e Assistência Social
MS Ministério da Saúde
TEM Ministério do Trabalho e Emprego
NR Norma Regulamentadora do Ministério do Trabalho e Emprego
OMS Organização Mundial da Saúde
OPAS Organização Pan Americana de Saúde
PARA Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos
PND Programa Nacional de Desenvolvimento
POEA Polioxietilenoamina
RBCs Célula Sanguínea no Sangue Total
RENAST Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador
RENACIAT Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência
Toxicológica
RNA Ácido ribonucleico
SAS Secretaria de Assistência a Saúde
SCGE Single cell gel eletrophoresis
SDR Secretaria de Desenvolvimento Rural
SES Secretaria de Estado da Saúde do Piauí
SAI Sistema de Informações Ambulatoriais
SIH Sistema de Informação Hospitalar
SIM Sistema de Informações sobre Mortalidade
SINAN Sistema de Informação Nacional de Agravos de Notificação
SINDAG Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa
Agrícola
SINITOX Sistema Nacional de Informações Tóxico-farmacológico
SPSS Statistical Package for the Social Sciences
SUS Sistema Único de Saúde
TGO Transaminase Glutâmica Oxalacética
TGP Transaminase Glutâmica Pirúvica
UFC Universidade Federal do Ceará
UNIFAC Unidade de Farmacologia Clínica
US-EPA Environmental Protection Agency
VCM Volume Corpuscular Médio
VISAT Vigilância de Saúde do Trabalhador
VPM Volume Plaquetário
LISTA DE TABELAS
Tabela 1: Características da população do estudo exposta e não exposta aos
agrotóxicos em municípios do Piauí (2010). .............................................................79 
Tabela 2: Avaliação dos parâmetros bioquímicos em agricultores expostos aos
agrotóxicos em municípios do Piauí (2010) ..............................................................85 
Tabela 3: Avaliação dos parâmetros hematológicos em agricultores expostos aos
agrotóxicos em municípios do Piauí (2010). .............................................................89 
Tabela 4: Avaliação genotóxica em agricultores expostos aos agrotóxicos em
municipios do Piauí (2010)........................................................................................95 
Tabela 5: Correlações entre os fatores de risco não ocupacionais com os danos ao
DNA de agricultores do Piauí expostos aos agrotóxicos, 2010.................................97 
LISTA DE QUADROS
Quadro 1: Classificação dos agrotóxicos quanto à sua ação e ao grupo químico a
que pertencem ..........................................................................................................26 
Quadro 2: Quantidade de agrotóxicos comercializados segundo a ação/classe no
Estado do Piauí (2009)..............................................................................................30 
Quadro 3: Efeitos dos agrotóxicos na saúde humana segundo a classificação de
Peres e Moreira (2003) .............................................................................................33 
Quadro 4: Classe toxicológica e cor da faixa no rótulo de produto agrotóxico..........39 
Quadro 5: Classificação toxicológica dos agrotóxicos segundo a DL50.....................40 
Quadro 6: Agrotóxicos referidos pelos trabalhadores em municípios do Piauí (2010)
..................................................................................................................................81 
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Mecanismo de Ação dos Agrotóxicos.........................................................36
Figura 2: Localização dos municípios de Barras e José............................................66
Figura 3: Esquema do teste de cometa conforme protocolo de Singh et al.; (1988) e
Saran et al.; (2008) usado para a avaliação de genotoxicidade em agricultores
expostos aos agrotóxicos..........................................................................................73 
Figura 4: Classes de Danos ao DNA analisados no Teste Cometa ..........................74 
Figura 5: Percentual da utilização de agrotóxicos segundo classe/ação pelos
trabalhadores rurais em municípios do Piauí (2010).................................................80 
Figura 6: Percentual da utilização de agrotóxicos segundo classe toxicológica pelos
trabalhadores rurais em municípios do Piauí (2010).................................................84 
Figura 7: Dosagem de fosfatase alcalina em trabalhadores expostos aos agrotóxicos
e em indivíduos não expostos a agentes químicos em municípios do Piauí (2010)..86 
Figura 8: Dosagem de butirilcolinesterase em trabalhadores expostos aos
agrotóxicos e em indivíduos não expostos a agentes químicos em municípios do
Piauí (2010). A linha contínua indica o limite mínimo do valor de referência (4.620
U/I). ...........................................................................................................................89 
Figura 9: Percentagem de trabalhadores expostos aos agrotóxicos em municípios do
Piauí, de acordo com avaliação hematológica para leucócitos (2010)......................90 
Figura 10: Perfil eletroforético das classes de danos em trabalhadores expostos aos
agrotóxicos no Estado do Píauí (2010). ....................................................................93 
Figura 11: Genotoxicidade em cultura de linfócitos de trabalhadores expostos em
relação aos não expostos às misturas complexas de agrotóxicos segundo classe de
danos, no Estado do Piauí (2010).............................................................................94 
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO............................................................................................ 19
1.1 Saúde do Trabalhador......................................................................................... 19
1.2 Saúde do Trabalhador no Piauí.......................................................................... 21
1.3 Agrotóxicos no Brasil........................................................................................... 23
1.4 Agrotóxicos e Saúde do Trabalhador.................................................................. 29
1.5 Mecanismo de Ação dos Agrotóxicos................................................................. 34
1.6 Toxicidade dos Agrotóxicos................................................................................ 38
1.6.1 Genotoxicidade................................................................................................ 39
1.7 Agrotóxicos e Risco ocupacional........................................................................ 43
1.8 Biomonitoramento de Risco Ocupacional........................................................... 45
1.8.1 Análises Bioquímicas....................................................................................... 48
1.8.2 Análise Hematológica....................................................................................... 53
1.8.3 Ensaio Cometa................................................................................................. 55
2 JUSTIFICATIVA......................................................................................... 58
3 OBJETIVOS................................................................................................ 61
3.1 Geral................................................................................................................... 61
3.2 Específicos......................................................................................................... 61
4 PROTOCOLO DE ESTUDO...................................................................... 63
4.1 Tipo de Estudo.................................................................................................... 63
4.2 Local do Estudo.................................................................................................. 63
4.3 Aspectos Éticos................................................................................................... 63
4.4 Caracterização do Estudo................................................................................... 64
4.4.1 Município de Barras......................................................................................... 64
4.4.2 Município de José de Freitas........................................................................... 65
4.5. Seleção dos Sujeitos da Pesquisa........................................................ 66
4.5.1 Critérios de Inclusão......................................................................................... 66
4.5.2 Critérios de Exclusão....................................................................................... 67
4.6 Delineamento do Estudo........................................................................ 67
4.6.1 Procedimentos com os voluntários.................................................................. 67
4.7 Coleta das Amostras de Sangue............................................................ 68
4.7.1 Avaliação Bioquímica....................................................................................... 68
4.7.2 Avaliação Hematológica................................................................................... 70
4.7.3 Avaliação Genotóxica: Ensaio Cometa............................................................ 71
4.8 Análise Estatística................................................................................... 74
5 RESULTADOS E DISCUSSAO................................................................. 76
5.1 Características da População.................................................................. 76
5.2 Agrotóxicos Utilizados nos Municípios de Barras e José de Freitas....... 78
5.3 Avaliação Bioquímica.......................................................................................... 83
5.4 Avaliação Hematológica...................................................................................... 88
5.5 Avaliação Genotóxica com o Ensaio Cometa..................................................... 91
5.6 Correlações com Fatores de Riscos não Ocupacionais e Entre os
Biomarcadores.......................................................................................................... 95
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................
99
7 CONCLUSÃO............................................................................................
102
8 RECOMENDAÇÕES..................................................................................
104
REFERÊNCIAS..............................................................................................
107
APÊNDICES E ANEXOS...............................................................................
122
APÊNDICE A: TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E
ESCLARECIDO (TCLE)...........................................................................
APÊNDICE B: FOTOS............................................................................
APÊNDICE C: TRABALHOS APRESENTADOS EM CONGRESSOS
CIENTÍFICOS..........................................................................................
ANEXO A: APROVAÇÃO DO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA.......
ANEXO B: QUESTIONÁRIO DE SAÚDE PESSOAL..............................
ANEXO C: VALORES DE REFERENCIA UTILIZADOS NAS
ANALISES LABORATORIAIS.................................................................
ANEXO D: FICHA DE AVALIAÇÃO DO TESTE COMETA.....................
INTRODUÇÃO
20
1 INTRODUÇÃO
1.1 Saúde do Trabalhador
O movimento da Saúde do Trabalhador no Brasil teve seu marco no final
dos anos 70, traduzido em ações de defesa do direito ao trabalho digno e saudável
da participação dos trabalhadores nas decisões sobre a organização e gestão dos
processos produtivos e da busca da garantia de atenção integral à saúde (DIAS;
HOEFEL, 2005). Como parte desse movimento, foi instituído na rede pública de
serviços um modelo de atenção à saúde dos trabalhadores, denominado Programa
de Saúde do Trabalhador, cuja proposta era a forma diferenciada de atenção aos
trabalhadores e um sistema de vigilância em saúde com a participação da classe
trabalhadora, pois até então, o sistema público de saúde, não atendia os
trabalhadores considerando os impactos do trabalho sobre o processo
saúde/doença, o que aconteceu com a Constituição de 1988 e a criação do Sistema
Único de Saúde - SUS (BRASIL, 2001).
A Constituição de 1988, em seu artigo 200, na seção que regula o Direito
à Saúde, estabelece que “ao Sistema Único de Saúde compete, além de outras
atribuições, nos termos da lei: [...] II - executar as ações de vigilância sanitária e
epidemiológica, bem como as de saúde do trabalhador; [...]” (BRASIL, 2001).
A Lei Orgânica da Saúde – LOS (Lei n.º 8.080/90), que regulamentou o
SUS e suas competências no campo da Saúde do Trabalhador, considerou o
trabalho como importante fator determinante/condicionante da saúde. No seu artigo
6º, determina que a realização das ações de saúde do trabalhador siga os princípios
gerais do SUS. Além disso, recomenda, especificamente, a assistência ao
trabalhador vítima de acidente de trabalho ou portador de doença profissional ou do
trabalho; a realização de estudos, pesquisa, avaliação e controle dos riscos e
agravos existentes no processo de trabalho; a informação ao trabalhador, sindicatos
e empresas sobre riscos de acidentes bem como resultados de fiscalizações,
avaliações ambientais, exames admissionais, periódicos e demissionais, respeitada
a ética.
21
A instituição da Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do
Trabalhador – RENAST, pela Portaria nº 1.679/GM de 19/09/2002, determinou que
as ações de saúde do trabalhador, fossem desenvolvidas de forma articulada entre o
Ministério da Saúde -MS, as Secretárias de Saúde dos Estados, do Distrito Federal
e dos Municípios. A Portaria estabelecia a elaboração do Plano Estadual de Saúde
do Trabalhador; a implantação nos serviços ambulatoriais e hospitalares das ações
básicas, de média e alta complexidade de saúde do trabalhador e a organização dos
Centros de Referência em Saúde do Trabalhador - CEREST, tendo como função, o
provimento de retaguarda técnica para o SUS, nas ações de prevenção, promoção,
diagnóstico, tratamento, reabilitação e vigilância em saúde dos trabalhadores
urbanos e rurais, independentemente do vínculo empregatício e do tipo de inserção
no mercado de trabalho (BRASIL, 2005).
Dando continuidade à implantação dessas ações, o Ministério da Saúde,
publicou a Portaria GM nº 2.437/05, ampliando e fortalecendo a RENAST no SUS.
Segundo a Portaria deveriam ser envolvidos órgãos de outros setores, nas três
esferas de poder, com interface com a Saúde do Trabalhador, além de instituições
colaboradoras nesta área, para execução das ações.
A RENAST é uma rede nacional de informação e de práticas de saúde
organizada com o propósito de programar ações assistenciais, de vigilância e de
promoção da saúde, no SUS, na perspectiva da Saúde do Trabalhador. A
compreensão do processo saúde-doença dos trabalhadores, que norteia a RENAST,
está baseada no enfoque das relações Trabalho-Saúde-Doença e na centralidade
do trabalho na vida das pessoas, desenvolvido pela epidemiologia social (BRASIL,
2004; DIAS; HOEFEL, 2005), considerando que o trabalho ocupa uma posição
central na determinação do processo saúde/doença, não apenas daqueles
diretamente envolvidos nas atividades produtivas, mas da população em geral e dos
impactos ambientais que essas atividades produzem (HOEFEL, 2005).
A implementação da RENAST deu-se pela estruturação da rede de
Centros de Referência em Saúde do Trabalhador; pela inclusão das ações de saúde
do trabalhador na atenção básica; pela definição de protocolos, do estabelecimento
22
de linhas de cuidado e de outros instrumentos que favorecessem a integralidade das
ações; pela implementação das ações de promoção e vigilância em saúde do
trabalhador; pela instituição e indicação de serviços de Saúde do Trabalhador de
retaguarda já instalados, chamados de Rede de Serviços Sentinela em Saúde do
Trabalhador (BRASIL, 2009).
Com a divulgação do Pacto pela Saúde (Portaria 399/GM de 22/02/2006)
e considerando a necessidade de adequação aos mecanismos de gestão do Pacto
foi publicada a Portaria GM nº 2.728/09 determinando que as ações em Saúde do
Trabalhador deveriam estar inseridas expressamente nos Planos de Saúde nacional,
estaduais, distrital, municipais e nas suas respectivas Programações Anuais.
A Política Nacional de Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde visa
à redução dos acidentes e doenças relacionadas ao trabalho, principalmente por
meio da execução de ações de promoção, reabilitação e vigilância na área de saúde
(BRASIL, 2004). Suas diretrizes, descritas na Portaria nº 1.125, de 6 de julho de
2005, compreendem a atenção integral à saúde, a articulação intra e intersetorial, a
estruturação da rede de informações em Saúde do Trabalhador, o apoio a estudos e
pesquisas, a capacitação de recursos humanos e a participação da comunidade na
gestão dessas ações.
1.2 Saúde do Trabalhador no Piauí
A implantação das ações da saúde do trabalhador no SUS, no Estado do
Piauí, deu-se pela Secretaria Estadual da Saúde, através da Diretoria de Vigilância
Sanitária - DIVISA. A elaboração do Plano Estadual de Saúde do Trabalhador
possibilitou a habilitação do CEREST pela Portaria n.º 307 de 02 de outubro de
2003, que passou a integrar a RENAST. A ampliação das ações no estado foi
intensificada com a criação de CEREST regionais: um para a macrorregião de Bom
Jesus, habilitado através da Portaria n.º 653 de 19/09/2006, e outros dois para Picos
e Parnaíba, ambos habilitados pela Portaria SAS/MS nº 121 de 18/03/2009.
23
A criação do CEREST representou um marco para os trabalhadores do
Piauí, que até então não contavam com uma política pública que garantisse um
atendimento que levasse em conta os impactos do trabalho sobre o processo
saúde/doença. Neste contexto, o CEREST vem realizando ações voltadas para o
alcance de seus objetivos, assim definidos: desenvolver estudos e pesquisas na
área de saúde do trabalhador, promover programas de formação de qualificação de
recursos humanos, suporte técnico para melhoria da prática assistencial
interdisciplinar, propor normas e diagnósticos relativos aos agravos a saúde do
trabalhador, atuar junto dos seus parceiros nas atividades de normatização relativas
à prevenção de agravos a saúde do trabalhador (PIAUÍ, 2006).
Para melhor execução do trabalho, as linhas de ação foram assim
organizadas: O acolhimento e escuta qualificada do trabalhador que procura o
CEREST é realizada por um profissional da equipe técnica, que identifica o motivo
da procura e procede aos encaminhamentos conforme as necessidades. A
assistência é realizada através do atendimento individualizado aos trabalhadores,
que é feito por um profissional da equipe multiprofissional e, de acordo com a
necessidade do caso, a atuação se dará no sentido de estabelecer o nexo causal
entre os processos/ambientes de trabalho e a saúde do trabalhador. A
fiscalização/inspeção do ambiente de trabalho consiste na visitação aos locais de
trabalho para a materialização da vigilância em saúde do trabalhador, identificando
os riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos, de acidentes e outros fatores ou
situações com potencial de danos sobre a saúde do trabalhador. Esta etapa é
realizada pela equipe da Vigilância Sanitária estadual, em conjunto com a equipe do
CEREST, podendo, em algumas situações, formar uma equipe interinstitucional com
a participação do Ministério do Trabalho, do Instituto de Seguridade Social, de
sindicatos e outros. A Educação permanente realiza-se através da promoção de
cursos de capacitação, seminários, palestras, oficinas e outros eventos voltados
para os trabalhadores, profissionais, estudantes e demais interessados na questão
de saúde do trabalhador. Realiza-se ainda com o desenvolvimento de programas de
formação, especialização e qualificação de recursos humanos na área da saúde do
trabalhador, bem como da elaboração de material educativo (cartilhas, cartazes e
folders). A linha de Projetos e Pesquisas compreende o desenvolvimento de estudos
24
e pesquisas na área de saúde do trabalhador e do meio ambiente, com ou sem a
parceria de instituições, públicas ou privadas, de ensino ou pesquisa que atuem em
áreas afins à saúde e ao trabalho com a finalidade de produzir informações para
subsidiar proposições de políticas na área de saúde do trabalhador. A Divulgação /
Comunicação tem por finalidade contribuir na construção de uma cultura de
priorização da saúde do trabalhador através da ampla difusão dessa área como
integrante das políticas públicas (PIAUÍ, 2006).
Dentre as ações voltadas aos trabalhadores rurais, citamos, por exemplo,
a investigação epidemiológica em municípios localizados na região dos cerrados,
decorrentes de informações de suspeita de intoxicação de trabalhadores rurais em
2005. Nesse ano, foi iniciada a articulação com diversos parceiros/instituições e o
inicio do desenvolvimento de várias ações tais como: reuniões com gestores
municipais; inspeções conjuntas com equipe multiprofissional; palestras educativas
com trabalhadores rurais e distribuição de material educativo, assim como para os
trabalhadores das revendas, empresários e comunidade; capacitação de
profissionais da atenção básica, com vistas à identificação e notificação dos
agravos; identificação dos hospitais sentinela para notificação dos casos de
intoxicação relacionados ao trabalho, além da divulgação do Centro de Informação
Toxicológica no estado para esclarecimentos de dúvidas e notificação das
intoxicações.
1.3 Agrotóxicos no Brasil
Os agrotóxicos são compostos que possuem uma grande variedade de
substâncias químicas ou produtos biológicos e que foram desenvolvidos de forma a
potencializar uma ação biocida, ou seja, são desenvolvidos para matar, exterminar e
combater as pragas agrícolas. Representam, assim, um risco em potencial para
todos os organismos vivos (GARCIA, 2001; OPAS, 1997).
25
Segundo a Lei nº 7.802/1989, são chamados agrotóxicos:
produtos e agentes de processos físicos, químicos ou biológicos, destinados
ao uso nos setores de produção, no armazenamento e beneficiamento de
produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção de florestas, nativas ou
plantadas, e de outros ecossistemas e de ambientes urbanos, hídricos e
industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna, a
fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos,
bem como as substâncias de produtos empregados como desfolhantes,
dessecantes, estimuladores e inibidores de crescimento.
Estes produtos, dependendo do fim a que se destinam, recebem ainda
outros nomes: agrotóxicos, praguicidas, biocidas, venenos, fitossanitários,
defensivos agrícolas, remédios. Para os trabalhadores rurais, os agrotóxicos são
comumente chamados de “veneno” ou “remédio”, sendo o termo “veneno” atribuído
a esses compostos pelos efeitos nocivos dos biocidas à saúde humana e animal,
que durante anos vêm sendo observados. “Remédio” é o termo utilizado por
vendedores e técnicos ligados à indústria química, na tentativa de passar a idéia que
os agrotóxicos são “remédio para a planta” (PERES et al.; 2003). Podem ser
agrupadas de diversas maneiras, sendo a mais utilizada, a classificação segundo o
grupo químico (Quadro 1) a que pertencem e o tipo de ação (natureza da praga
controlada).
Podem ser classificados em inseticidas, fungicidas e herbicidas e
reguladores e inibidores de crescimento. Vale ressaltar que muitos agrotóxicos
possuem mais de um tipo de ação. Outros grupos importantes, além desses são:
raticidas (dicumarínicos), utilizados no combate a roedores; acaricidas, que agem
combatendo ácaros diversos; nematicidas, cuja ação é o combate a nematóides;
molusquicidas, com ação de combate a moluscos, basicamente contra o caramujo
da esquistossomose (INCA, 2006). Dentre essas classes, as três principais, por
representarem, em média, 94,8% do consumo mundial de agrotóxicos entre
1960/2003, são os inseticidas, fungicidas e herbicidas (MARTINELLI, 2003).
26
Quadro 1: Classificação dos agrotóxicos quanto à sua ação e ao grupo químico a que
pertencem
TIPO DE AÇÃO
(CLASSE)
PRINCIPAIS GRUPOS
QUÍMICOS
PRODUTOS / SUBSTÂNCIA
Organofosforados
Azodrim, Malathion, Parathion,
Nuvacron, Tamaron, Hostation,
Lorsban
Carbamatos
Carbaryl, Furadan, Lannate,
Marshal
Organoclorados Aldrin, Endrin, DDT, BHC, Lindane
Inseticidas (controle
de insetos, larvas e
formigas)
Piretróides
(sintéticos)
Decis, Piredan, Karate,
Cipermetrina
Ditiocarbamatos
Maneb, Mancozeb, Dithane,
Thiram, Manzate
Organoestânicos Brestan, Hokko Suzu
Fungicidas (combate
aos fungos)
Dicarboximidas Orthocide, Captan
Bipiridilos
Gramoxone, Paraquat, Reglone,
Diquat
Glicina substituída Roundup, Glifosato
Derivados do ácido
fenoxiacético
Tordon, 2,4-D, 2,4,5-T3
Dinitrofenóis Bromofenoxim, Dinoseb, DNOC
Herbicidas (combate
a ervas daninhas)
Pentaclorofenol Clorofen, Dowcide-G
Fonte: INCA (2006).
O processo de modernização da agricultura no Brasil aconteceu entre
1965 e 1980, tendo ocorrido nos países da Europa Ocidental e nos Estados Unidos
da América ainda no início do século XX. No Brasil, foram primeiramente utilizados
em programas de saúde pública, para o combate a vetores e o controle de parasitas,
sendo empregados mais intensivamente na agricultura a partir de 1960 (OPAS,
1997; WAICHMAN et al.; 2007). Em 1975, o Plano Nacional de Desenvolvimento
investiu mais de 200 milhões de dólares para implementar a indústria dos
agrotóxicos, abrindo o comércio destes agentes no país e condicionando o
agricultor a comprá-los com recursos do crédito rural, sendo instituída a inclusão de
uma cota definida para cada financiamento requerido (OPAS/OMS, 1997).
27
A necessidade de aumentar a produtividade para atender o aumento da
demanda por alimentos, causada pelo crescimento populacional, foi um estímulo aos
processos de produção agrícola a buscarem novas tecnologias (SILVA et al., 2005).
Assim, uma quantidade considerável de agrotóxicos é empregada em alguma etapa
da produção agrícola, quer seja no tratamento prévio das sementes, quer durante o
cultivo ou após a colheita (CAMAROTO et al.; 2004). A liberação do comércio de
agrotóxicos para uso na agricultura elevou rapidamente seu consumo,
especialmente, o de forma indiscriminada, o que se constitui um dos principais
problemas de saúde pública nos países desenvolvidos e em desenvolvimento
(WAICHMAN et al.; 2007). Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística –
IBGE- mostram que o número de propriedades rurais no Brasil, que utilizam
agrotóxicos cresceu 53% entre 1995-1996 e 2006 (IBGE, 2006).
A substituição da mão-de-obra pela mecanização de diversas atividades
agrícolas, a introdução de agrotóxicos, bem como a utilização da biotecnologia,
destacando-se os organismos geneticamente modificados (transgênicos), foram as
principais mudanças tecnológicas que contribuíram para a alteração do processo
agrícola (TRAPÉ, 1993; SILVA et al.; 2004).
O Brasil, com uma extensão territorial de 8,5 milhões de km², tem um
grande potencial agrícola e está entre os países que mais utilizam produtos
químicos na agricultura. Em 2007, o país ocupou o quarto lugar no ranking do
consumo mundial, sendo o oitavo no uso por hectare e o maior consumidor na
América Latina. Existem cerca de 15.000 formulações para 400 agrotóxicos
diferentes, sendo que 8.000 encontram-se licenciadas no Brasil (FEPAM, 2007).
Alguns acidentes com agrotóxicos no Brasil tiveram grande repercussão
por causarem sérios danos ambientais e severa contaminação humana, como os da
Shell e da Rhodia, localizadas no Estado de São Paulo (ARAÚJO et al.; 2007). Em
Duque de Caxias, RJ, ocorreu um dos casos mais graves de contaminação do solo
registrados no Brasil, que ficou conhecido por “Cidade dos Meninos”, resultado do
abandono, por parte do Ministério da Saúde, nos anos 50, de materiais na
desativação de uma fábrica de hexaclorociclohexano (HCH) utilizados no programa
28
de combate a malária, contaminando o meio ambiente e a população local
(HERCULANO, 2002; BEDOR, 2008).
Mais recentemente, mesmo com o aumento do conhecimento sobre os
males causados pelos agrotóxicos, acidentes por manuseio e pela falta de controle
continuam acontecendo. Exemplo recente é o caso da “Chuva de Agrotóxicos” na
cidade de Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, ocorrido em 2006, devido às
derivas de pulverizações aéreas de agrotóxicos que ultrapassaram a unidade
produtiva rural, causando impactos sanitários, sociais e ambientais (PIGNATI et al.;
2007).
Neste contexto, o uso descontrolado de agrotóxicos leva a uma expansão
dos riscos, fazendo com que populações não diretamente vinculadas com a cadeia
produtiva dessas substâncias também se exponham em função da contaminação
ambiental e dos alimentos, tornando a problemática do agrotóxico uma questão
ainda mais grave de saúde pública (KOIFMAN; KOIFMAN, 2003).
Segundo Peres et al. (2007), os países em desenvolvimento representam
30% de todo o mercado global consumidor de agrotóxicos, sendo o Brasil o maior
mercado consumidor individual dentre estes países, equivalente à metade de todo o
consumo da região latino-americana. Foram utilizados no país, em 2004, cerca de
187.000 toneladas de agrotóxicos, o que corresponde a 1 kg por habitante/ano ou 6
kg por habitante/ano da zona rural. Esse volume superou em 47.000 toneladas a
quantidade utilizada no ano 2000 (PIGNATI, 2008).
O consumo em uma década aumentou mais que o dobro. Em 1999, o
gasto com a comercialização desses produtos foi estimado em cerca de 2,3 milhões
de dólares, comparados aos cerca de 900 milhões gastos em 1989 (KOIFMAN et al.;
2002). Este aumento comprova a grande quantidade de agrotóxicos utilizados no
território brasileiro nos últimos anos. Em 2001, os dados do Sindicato Nacional da
Indústria de Produtos para Defesa Agrícola – SINDAG, mostraram que o país
consumiu 328.413 toneladas de produtos formulados o que corresponde a 151.523
toneladas de ingredientes ativos colocando o Brasil em 7º lugar no ranking dos dez
29
principais países consumidores, que representam 70% do mercado mundial de
agrotóxicos (INCA, 2006). Em 2007, as vendas no Brasil atingiram a cifra de 5.372
bilhões de dólares e, em 2008, de 7.125 bilhões, sendo a soja a cultura que mais
consome agrotóxico (SINDAG, 2007).
Atualmente, o Brasil é o maior mercado de agrotóxicos do mundo,
representando 16% da venda mundial. Em 2009, foram comercializadas 780 mil
toneladas com um faturamento estimado de oito bilhões de dólares. Nos últimos 10
anos, esse mercado cresceu 176%, quase quatro vezes mais que a média mundial,
e as importações brasileiras aumentaram 236% entre 2000 e 2007 (BAVA, 2010).
No nordeste do Brasil, a agricultura é absolutamente químico-dependente,
onde, no ano de 2003, os agentes tóxicos que mais registraram crescimento foram
os de uso agrícola, com uma alta de 164%. Os fertilizantes e agrotóxicos são
utilizados como se fossem as únicas técnicas de produção possível. São ainda
incipientes as experiências de reconversão tecnológica para um modelo de
agricultura sustentável. Como agravante, há ainda o fato de que o conhecimento que
os agricultores dispõem sobre os riscos do uso adequado desses produtos é
extremamente baixo e não recebem orientação (AUGUSTO, 2003).
No Estado do Piauí, a partir da década de 90, deu-se a expansão agrícola
na região dos cerrados, com a intensificação do plantio de soja, o que consistiu em
um forte fator para o aumento do uso de agrotóxicos. A procura legal destes
produtos no Estado cresce progressivamente, uma vez que em 1994 foram
contabilizados a venda de 08 toneladas e em 2004, de 165 toneladas, o que
representa um percentual de aumento da ordem de 2.062% (PIAUÍ, 2004). Segundo
dados coletados pela Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Piauí - ADAPI
nas empresas registradas que comercializam agrotóxicos, no ano de 2009, no Piauí
foram consumidos produtos, que se apresentam na forma de pó (kg) e na forma
líquida (L), conforme o Quadro 2.
30
Quadro 2: Quantidade de agrotóxicos comercializados segundo a
ação/classe no Estado do Piauí (2009).
QUANTIDADE
CLASSE (AÇÃO)
kg L
Herbicidas 24.068 237.381
Inseticidas 1.075 106.375
Fungicidas 2.281 77.815
TOTAL 27.424 421.571
Fonte: ADAPI, 2010.
Os dados não refletem a realidade do consumo do agrotóxico no Piauí,
pois a maioria dos produtos utilizados pelos agricultores na região dos cerrados é
oriunda da indústria (venda direta), sem ter o distribuidor da região como
intermediário da venda ao agricultor.
O aumento do uso de agrotóxicos nos municípios piauienses pode estar
acarretando prejuízos à saúde do trabalhador exposto a ação dos mesmos. Este fato
é corroborado pela inconsistência dos dados oficiais sobre intoxicação por
agrotóxicos, que não retratam a realidade, por serem insuficientes, parciais,
fragmentados, desarticulados e dispersos em várias fontes de informações, tais
como: Comunicação de Acidentes de Trabalho (CAT); Sistema de Informação
Hospitalar (SIH); o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e o
Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), (BRASIL, 2006).
1.4 Agrotóxicos e Saúde do Trabalhador
Os agrotóxicos são utilizados em grande escala por vários setores
produtivos e mais intensamente pelo setor agropecuário. Dentre os trabalhadores
expostos destacam-se, além dos trabalhadores rurais, os da saúde pública, de
empresas desinsetizadoras, de transporte, comércio e indústria de síntese. A
população em geral também está exposta, seja através de resíduos em alimentos,
de contaminação ambiental ou acidental (OPAS/OMS, 1996). Os trabalhadores
rurais são os mais expostos aos agrotóxicos, por estarem em contato diário na sua
vida laboral. Além deste grupo, a água, o solo, a vegetação, os animais e a
31
população humana em geral também são vítimas destes agentes, já que seus
resíduos podem ser altamente persistentes no ambiente, podendo contaminar um
ecossistema durante um longo período de tempo, provocando sérios problemas de
saúde (CAMAROTO et al.; 2004).
Sua crescente utilização nas áreas urbanas, principalmente os inseticidas
domésticos adquiridos em supermercados, que possuem uma grande diversidade de
produtos, princípios ativos e marcas, bem como os utilizados pela saúde pública,
amplia o risco de maior exposição das populações a agentes tóxicos,
potencialmente danosos à saúde humana e ao ambiente (CÂMARA NETO;
AUGUSTO, 2005).
As principais vias de penetração dos agrotóxicos no corpo humano são:
por ingestão, pela respiração e por absorção dérmica. A penetração pela pele varia
de acordo com a formulação empregada, temperatura, umidade relativa do ar,
regiões do corpo, tempo de contato, existência de feridas (GARCIA, 2001).
Os agrotóxicos podem determinar efeitos sobre a saúde humana,
dependendo da forma e tempo de exposição e do tipo de produto com sua
toxicidade específica (Quadro 3). O efeito pode ser agudo por uma exposição de
curto prazo, ou seja, algumas horas ou alguns dias, com surgimento rápido e claro
de sintomas e sinais de intoxicação típica do produto ou outro efeito adverso, como
lesões de pele, irritação das mucosas dos olhos, nariz e garganta, dor de estômago
(epigastralgia); ou crônico, por uma exposição de mais de um ano, com efeitos
adversos muitas vezes irreversíveis (OPAS/OMS, 1997).
As intoxicações provocadas por agrotóxicos são classificadas em três
tipos: intoxicações agudas, que ocorrem após intensa exposição, em breve período
de tempo, a substâncias de extrema ou alta toxicidade. Os sintomas são nítidos,
aparecem rapidamente e, dependendo da quantidade de veneno absorvido,
determinam a gravidade da intoxicação. Dentre as substâncias que provocam as
intoxicações agudas destacam-se os organofosforados e os carbamatos, que são
inibidores da acetilcolinesterase, enzima presente principalmente no sistema
32
nervoso, nos músculos esqueléticos e nos eritrócitos, envolvida na transmissão dos
impulsos nervosos; as intoxicações subagudas, que aparecem mais lentamente,
traduzindo-se através de sintomas subjetivos e vagos (fraqueza, mal-estar, dor de
cabeça, sonolência etc.) e ocorrem devido à exposição moderada ou pequena a
produtos altamente ou moderadamente tóxicos; as intoxicações crônicas ocorrem
tardiamente, após meses ou anos de pequena ou média exposição a um produto
tóxico ou a uma diversidade de substâncias, apresentando um quadro clínico
indefinido, que dificulta o estabelecimento do nexo causal para as doenças
ocupacionais (OPAS/OMS, 1996).
As características clínicas das intoxicações por agrotóxicos não são
reflexo de uma relação simples entre o produto e a pessoa exposta. São vários os
fatores que participam de sua determinação, dentre eles os fatores relativos às
características químicas e toxicológicas do produto (forma de apresentação,
estabilidade, solubilidade, presença de contaminantes, presença de solventes);
fatores relativos ao indivíduo exposto (idade, sexo, peso, estado nutricional,
escolaridade, conhecimento sobre os efeitos a medidas de segurança, etc.); às
condições de exposição ou condições gerais do trabalho (frequência, dose, formas
de exposição) (FAO, 2003; PERES, 2003).
33
Quadro 3: Efeitos dos agrotóxicos na saúde humana segundo a classificação de
Peres e Moreira (2003)
Classe/ação Grupo químico
Sintomas de
intoxicação aguda
Sintomas de intoxicação
crônica
Organofosforados
e Carbamatos
Fraqueza, cólicas
abdominais, vômitos,
espasmos musculares,
convulsões
Efeitos neurotóxicos
retardados, alterações
cromossomiais, dermatites
de contato
Organoclorados
Náuseas, vômitos,
contrações musculares
involuntárias
Lesões hepáticas, arritmias
cardíacas, lesões renais,
neuropatias periféricas
Inseticidas
Piretróides
Sintéticos
Irritações das
conjuntivas, espirros,
excitação, convulsões
Alergias, asma brônquica,
irritações nas mucosas,
hipersensibilidade
Ditiocarbamatos
Tonteiras, vômitos,
tremores musculares,
dor de cabeça
Alergias respiratórias,
dermatites, Mal de
Parkinson, câncer
Fungicidas
Fentalamidas – Teratogêneses
Dinitrofenóis e
Pentaclorofenol
Dificuldade respiratória,
hipertermia, convulsões
Cânceres, cloroacnes
Fenoxiacéticos
Perda do apetite,
enjôo, vômitos,
fasciculação muscular
Indução da produção de
enzimas hepáticas,
cânceres, teratogênese
Glicina substituída
Irritação nos olhos e
pele, dor de cabeça,
náuseas,
entorpecimento,
elevação da pressão
arterial, palpitações e
alergias.
Lesões em glândulas
salivares, inflamações nas
mucosas do estômago,
danos genéticos (em
células sanguíneas do
corpo humano), e outros.
Herbicidas
Dipiridilos
Sangramento nasal,
fraqueza, desmaios,
conjuntivites
Lesões hepáticas,
dermatites de contato,
fibrose pulmonar
Fonte: Adaptado de Peres e Moreira (2003) e Guterres (2003)
Os efeitos dos agrotóxicos sobre a saúde humana ocorrem, sobretudo,
pela contaminação de trabalhadores que lidam diretamente com o manuseio do
produto e sua aplicação. Segundo Soares et al. (2003) os trabalhadores rurais,
responsáveis pela aplicação do produto são mais atingidos pela contaminação do
que os consumidores de alimentos. Além de estar diretamente e quase que
diariamente exposto aos riscos associados a este processo, os efeitos de uma
possível intoxicação podem ser agravados em pequenas comunidades rurais, pelas
34
precárias condições sanitárias, deficiência no sistema de saúde local e falta de
infraestrutura da maioria da população local, normalmente, de baixas condições
socioeconômicas.
Em 2005, a Organização Internacional do Trabalho – OIT e a OMS
estimaram em 7 milhões os casos agudos e de longo termo e 70 mil os óbitos
provocados por agrotóxicos anualmente no mundo, sobretudo nos países em
desenvolvimento (OIT/OMS, 2005).
Os dados sobre intoxicações no Brasil, ainda não refletem a realidade. Na
prática, só se registram os casos agudos e mais graves. Mesmo para os casos
agudos, o sub-registro é muito grande e os casos crônicos não são captados por
nenhum dos sistemas de informação. Existem vários sistemas oficiais que registram
intoxicações por agrotóxicos, mas nenhum deles responde adequadamente como
instrumento de vigilância deste tipo de agravo. Os principais sistemas de registros
de intoxicações por agrotóxicos são o Sinitox, a CAT, o Sinan e, para dados de
mortalidade, o SIM (FARIA et al.; 2007).
O Sinan é alimentado pela notificação e investigação de casos de
doenças e agravos que constam da lista nacional de doenças de notificação
compulsória, registrados na rede de serviços do SUS. O Ministério da Saúde,
considerando a disponibilidade de informação sobre a situação de produção, perfil
de doenças e agravos relacionados ao trabalho publicou a Portaria GM nº 777/2004,
que definiu as intoxicações exógenas (incluindo agrotóxicos) como sendo um agravo
à saúde do trabalhador de notificação compulsória, em rede de serviços sentinela
específica (ligados à RENAST). O Sistema Nacional de Informações Tóxico-
Farmacológicas - Sinitox, criado em 1980 e vinculado à Fundação Oswaldo Cruz -
FIOCRUZ é responsável pela coleta, compilação, análise e divulgação dos casos de
intoxicação e envenenamento registrados pela Rede Nacional de Centros de
Informação e Assistência Toxicológica – RENACIAT. No Sinitox são registrados
casos de intoxicação e envenenamento considerando diversos agentes tóxicos,
inclusive agrotóxicos de uso agrícola e uso doméstico, produtos veterinários e
raticidas.
35
De acordo com o Sinitox no ano de 2007, foram registrados 14.711 casos
de intoxicação por agrotóxicos, destes 11,9% (1.758 casos) eram de origem
ocupacional. No Nordeste foram registrados 1.863 casos (12,7%) e apenas 27 foram
notificados no Piauí (BRASIL, 2009).
Os dados do Sinan mostram que em 2008, no Brasil, foram feitas 5.295
notificações de intoxicação por agrotóxico, destas, apenas 1.137 foram registradas
como decorrentes do trabalho. Neste sistema, dos 1.051 casos notificados no
Nordeste, foram 24 no Piauí (BRASIL, 2009). A notificação compulsória das
intoxicações relacionadas ao trabalho e as ações de vigilância à saúde,
desenvolvidas pela RENAST, podem contribuir para aumentar o número de
notificações nos sistemas existentes. Os números podem ser muito maiores, porque
os casos registrados são geralmente de intoxicação aguda, onde os sintomas são
imediatos.
Segundo Faria et al. (2007) há necessidade de se buscar uma integração
dos bancos de dados dos vários sistemas, visando melhorar a vigilância e subsidiar
as ações de proteção às populações expostas aos agrotóxicos.
1.5 Mecanismo de Ação dos Agrotóxicos
A exposição humana aos agroquímicos, pela exposição ambiental ou
ocupacional, raramente se limita a um único princípio ativo, assim também a
população trabalhadora rural dificilmente se expõe a um único tipo de agrotóxico,
tornando-se um desafio, nas próximas décadas, a avaliação de indivíduos com
múltiplas exposições por muitos anos (TRAPÉ, 2005). Embora os herbicidas sejam
os agrotóxicos mais utilizados, em geral a toxicidade deste grupo de substâncias é
inferior à dos inseticidas (WHO, 1990). Os inseticidas são compostos quimicamente
diferenciados, que podem ser agrupados em quatro categorias principais: os
organoclorados, os piretróides, os organofosforados e os carbamatos (OPAS/OMS,
1997).
36
A ação dos inseticidas organofosforados e carbamatos, se dá pela
inibição de enzimas colinesterases, especialmente a acetilcolinesterase (AChE),
levando a um acúmulo de acetilcolina nas sinapses nervosas, desencadeando uma
série de efeitos nicotínicos, muscarínicos e do sistema nervoso central (Figura 1).
Diferentemente dos organofosforados, os carbamatos são inibidores reversíveis das
colinesterases, porém as intoxicações podem ser igualmente graves. Ambos atuam
no sistema nervoso central, nos glóbulos vermelhos, no plasma e em outros órgãos.
Não se acumulam no organismo, mas é possível ocorrer o acúmulo de efeitos.
Efeitos neurotóxicos retardados podem ocorrer com certos organofosforados
(SILVA, et al.; 2005). Os organofosforados e os carbamatos são capazes de
ultrapassar as barreiras hematoencefálica e placentária (ECOBICHON, 1996).
Figura 1: Mecanismo de Ação dos Agrotóxicos
Fonte: PAVAN, L.
Disponível em: www.fag.edu.br/.../MODO%20AÇÃO%20INSETICIDAS%201%20PDF.pdf.
Acesso em: 22.06.2011
Os inseticidas piretróides atuam mantendo abertos os canais de sódio das
membranas dos neurônios. Afetam o sistema nervoso periférico e central do inseto:
37
estimulam as células nervosas a produzir descargas repetitivas e, eventualmente,
causam paralisia (BRAGA; VALLE, 2007). A toxicidade dos piretróides para os
mamíferos, de um modo geral, é baixa, aparentemente devido a sua rápida
biotransfomação pelas esterases e enzimas microssomais hepáticas. A toxicidade
dos produtos que contém piretróides é devido a outros ingredientes contidos na
preparação, usualmente solventes, derivados de petróleo. São bem absorvidos pelo
trato gastrointestinal e muito pouco absorvidos pela pele intacta, podendo, ainda, ser
absorvidos por via inalatória. Uma vez absorvidos, são rapidamente metabolizados
no fígado através de reações de oxidação e hidrólise de ésteres. Seus metabólitos
são excretados, lentamente, através da bile e da urina, podendo permanecer
detectável nos tecidos corporais por até três semanas após a ingestão (CALDAS;
SOUZA, 2000).
Os inseticidas pertencentes à classe dos neonicotinóides são compostos
que tiveram origem na molécula de nicotina, recentemente registrado no Brasil para
o controle de pragas em várias culturas, pouco tóxico, contudo perigoso para o
ambiente. Entretanto, quando em contato constante, mesmo em pequenas doses,
esse inseticida tem grande potencial carcinogênico (OLIVEIRA et al.; 2009). A
toxicidade deve-se a uma ação de agonismo e afinidade de ligação entre os
neonicotinóides e os receptores da acetilcolina dos vertebrados, sendo o cérebro o
primeiro alvo. Os neonicotinóides (imidacloprid, thiamethoxam, etc) mimetizam a
ação da acetilcolina e não são degradados pela acetilcolinesterase. Assim, eles se
encaixam no receptor da acetilcolina na membrana das células pós-sinápticas,
abrindo canais de Na+, com conseqüente hiperatividade nervosa, seguido de
colapso do sistema nervoso (Figura 1). Os mecanismos envolvidos na transmissão
de impulsos nervosos em insetos são muito semelhantes àqueles operantes em
mamíferos, aves e peixes. Por isso, muitos inseticidas neurotóxicos são tóxicos
também a esses organismos não-alvo, incluindo os seres humanos (CARVALHO,
2010).
Os agrotóxicos da classe herbicida são utilizados para alterar diferentes
processos bioquímicos vitais em plantas, como a biossíntese de aminoácidos
aromáticos, proteínas e ácidos nucléicos (GLASS, 1984). Os herbicidas contendo
glifosato como base são os mais amplamente utilizados no mundo. O glifosato é um
38
herbicida não seletivo que inibe o crescimento da planta através da interferência
com a produção de aminoácidos aromáticos essenciais pela inibição da enzima 5-
enolpiruvato-shikimato-3-fosfato sintase (EPSPS), a qual é responsável pela
biossíntese de chorismato, um intermediário na biossíntese de fenilalanina, tirosina e
triptofan. Esta via para a biossíntese de aminoácidos aromáticos não é expressa por
nenhum membro do reino animal, tornando esse mecanismo de ação exclusivo às
plantas (ROMANO et al.; 2008). Isso não significa que não haja interferência crônica
do glifosato sobre o metabolismo animal e, é preciso considerar, que na formulação
do Roundup constam outros produtos que, em consonância com o glifosato e outras
substâncias no solo, meio ambiente e organismos vivos, acabam tendo diferentes
efeitos colaterais. O composto é absorvido por via oral e dérmica, sendo excretado
principalmente na urina. A excreção biliar, no entanto, é limitada e a eliminação
através de ar expirado é muito baixa. Ele é metabolizado em ácido aminometil
fosfônico – AMPA que é mais nocivo que o próprio glifosato (AMARANTE JUNIOR et
al.; 2002).
Para aumentar a eficácia do herbicida e facilitar sua penetração nos
tecidos vegetais, a maioria das suas formulações comerciais possui uma substância
química surfatante (um composto químico que reduz a tensão superficial do líquido),
o polioxietilenoamina (POEA), produto mais tóxico que o glifosato e a combinação
dos dois, mais tóxica ainda. O surfatante presente no Roundup está contaminado
com o 1-4 dioxano, um agente causador de câncer em animais e potencialmente
causador de danos ao fígado e aos rins de seres humanos. Em decorrência da
decomposição do glifosato registra-se uma substância potencialmente cancerígena
conhecida, o formaldeído (ANDRIOLI, 2005). Segundo esse autor, o herbicida pode
continuar presente em alimentos num período de até dois anos após o contato com
o produto e em solos por mais de três anos, dependendo do tipo de solo e clima.
Como o produto possui uma alta solubilidade em água, sua degradação inicial é
rápida, seguida, porém, de uma degradação lenta. Suas moléculas foram
encontradas tanto em águas superficiais como subterrâneas. A acumulação pode
ocorrer através do contato das plantas com o herbicida (folhas, frutos) e seus efeitos
mutantes podem ocorrer tanto em plantas como nos organismos dos consumidores.
39
As plantas podem absorver o produto do solo, movendo-o e concentrando-o para
partes utilizadas como alimento (ANDRIOLI, 2005).
1.6 Toxicidade dos Agrotóxicos
Do ponto de vista toxicológico, os agrotóxicos são classificados numa
escala que varia de I a IV, sendo que os de classe toxicológica I encontram-se
aquelas comprovadamente carcinogênicas e mutagênicas (Quadro 4).
Quadro 4: Classe toxicológica e cor da faixa no rótulo de produto agrotóxico
CLASSE TOXICIDADE COR DA FAIXA
Classe I Extremamente tóxicos Faixa Vermelha
Classe II Altamente tóxicos Faixa Amarela
Classe III Medianamente tóxicos Faixa Azul
Classe IV Pouco ou muito pouco
tóxicos
Faixa Verde
Fonte: OPAS/OMS (1997).
A classificação da toxicidade dos agrotóxicos (Quadro 5) permite a
distinção do potencial de risco, que é baseada na dose letal 50 (DL50) que é um valor
estatístico que determina a quantidade de veneno em mg/kg de peso corporal
necessária para matar 50% da amostra populacional em estudo por intoxicações
agudas. Os valores são determinados em cobaias e extrapolados para humanos a
partir do peso (OPAS/OMS, 1997).
40
Quadro 5: Classificação toxicológica dos agrotóxicos segundo a DL50
DL50 para ratos (mg/Kg de peso vivo)
Oral DérmicaCLASSE
Sólidos Líquidos Sólidos Líquidos
I – Extremamente tóxico 5 ou menos 20 ou menos 10 ou menos 40 ou menos
II – Altamente tóxico 5 – 50 20 - 200 10 - 100 40 – 400
III – Medianamente tóxico 50 - 500 200 - 2000 100 - 1000 400 – 4000
IV – Pouco tóxico
Acima de
500
Acima de
2000
Acima de
1000
Acima de
4000
Fonte: TRAPÉ (1993)
A toxicidade de uma substância pode ser influenciada por fatores
presentes nos ambientes de trabalho, ou inerentes ao próprio indivíduo exposto.
Entre os fatores ambientais estão, a temperatura e a umidade, por exemplo, que
podem interferir em determinadas propriedades físico-químicas da substância, como
solubilidade, estabilidade, pressão de vapor e reatividade química. A temperatura
pode afetar a absorção, a distribuição e o modo de ação da substância. Por
exemplo, há indicações de que a absorção do “paration” (organofosforado) a partir
da pele humana é mais rápida em ambientes mais quentes e que o aumento da
temperatura ambiente torna piores os efeitos tóxicos dos agrotóxicos (WHO, 1990;
HAYES; LAWS, 1991).
Entre os fatores biológicos relacionados ao próprio indivíduo podemos
citar a idade, o sexo, o peso, características genéticas, estado de saúde e de
nutrição e as condições metabólicas (esforço físico). Deficiências nutricionais como
as protéicas, por exemplo, potencializam os efeitos tóxicos de vários agrotóxicos e a
desidratação pode aumentar a susceptibilidade à intoxicação por inibidores de
colinesterases (FERNÍCOLA, 1985; WHO, 1990; HAYES, 1991).
1.6.1Genotoxicidade
Genotoxicidade é a capacidade que algumas substâncias têm de induzir
alterações no material genético de organismos a ela expostos, e essas alterações
são responsáveis pelo surgimento de cânceres e doenças hereditárias. Os
41
diferentes testes genotóxicos detectam mutações gênicas e cromossômicas, dentre
eles o teste micronúcleo e cometa, que vem sendo utilizado no monitoramento
biológico de populações humanas expostas a agentes mutagênicos e
carcinogênicos (KOHATSU et al.; 2007).
O dano citogenético induzido pelos agrotóxicos ocorre dependendo do
grau de exposição, da quantidade, da natureza química e das possíveis
combinações entre os pesticidas utilizados, além das características e condições do
ambiente. Sabe-se que em humanos, um baixo grau de exposição está associado a
resultados negativos para danos citogenéticos e, em contraste, resultados positivos
são relacionados a populações com altos níveis de exposição. É importante ressaltar
que a exposição crônica em baixas doses é cumulativa e também pode induzir tais
danos (BOLOGNESI, 2003).
Os agrotóxicos podem possuir em sua composição moléculas com poder
oxidante que podem vir a formar radicais livres nos sistemas biológicos (LUZ et al.;
2003). Os radicais livres são moléculas altamente instáveis, que reagem com as
estruturas celulares modificando a estrutura de lipídios e proteínas de membrana,
alterando a permeabilidade da célula (ANDRADE Jr. et al.; 2005). Essas alterações
podem atingir a dupla fita do ácido desoxirribonucléico, acarretando no
desenvolvimento de danos no DNA, que podem desencadear doenças graves, até a
carcinogênese (FERREIRA, 1997). Além disso, vários agrotóxicos foram submetidos
a testes e revelaram-se potencialmente genotóxicos (BOLOGNESI, 2003).
Os agentes genotóxicos interagem quimicamente com o material
genético, formando adutos, alteração oxidativa ou mesmo quebras na molécula de
DNA. O dano, na maioria dos casos, é reparado pelo próprio organismo ou a célula
é eliminada. Caso essa lesão seja fixada, provocando alterações hereditárias
(mutações), que podem se perpetuar nas células filhas durante o processo de
replicação, o agente é denominado mutagênico (OBE et al.; 2004). A maioria das
mutações é induzida por agentes físicos, químicos ou biológicos, aos quais os seres
humanos e outros organismos podem ser expostos, embora ocorram mutações
espontâneas (CALVIELLO et al.; 2006).
42
A mutação no DNA é a alteração genuína do processo e que pode ser
induzida externa ou internamente ao organismo. Os indutores externos são
carcinógenos químicos (solventes aromáticos; clorados; agrotóxicos), físicos
(radiações ionizantes e não ionizantes; campos eletromagnéticos) e biológicos
(vírus, microorganismos). Os indutores internos podem ser entre outros, hormonais,
imunológicos e enzimáticos que promovem mutações genéticas na estrutura do
DNA. De modo geral, esses condicionantes estão presentes de forma interativa na
promoção do processo de carcinogênese (RIBEIRO et al.; 2003).
Na década de 80, o aumento da incidência de câncer entre os
trabalhadores rurais e os trabalhadores das campanhas sanitárias, levou a um
estudo mais detalhado sobre a interação dos agrotóxicos com o organismo humano
no surgimento de tumores, entre outras disfunções de base celular (PERES;
MOREIRA, 2003). Os dados mais recentes levantados pela Organização Mundial da
Saúde (OMS) indicam que o câncer será a primeira causa de mortalidade no mundo
nas próximas décadas. O câncer possui um forte impacto na sociedade, debilitando
indivíduos produtivos, tanto no âmbito social e no econômico, além de constituir
sério problema de saúde pública (ALMEIDA et al.; 2005).
Vários estudos epidemiológicos relatam que, em sua maioria, os cânceres
são originados pela exposição contínua a agentes mutagênicos e carcinogênicos,
sendo que a susceptibilidade individual pode depender da predisposição genética,
de diferenças no hábito nutricional e no estilo de vida (ROBERTS, 1997). Contudo,
todo e qualquer câncer pode ser considerado uma doença genética, que ocorre por
um acúmulo de mutações não esperadas por recombinação mendeliana, em virtude,
principalmente, de exposição a agentes genotóxicos do meio ambiente
(VOGELSTEIN; KINZLER, 1998).
O câncer caracteriza-se por ser de origem multifatorial, e os mecanismos
que interferem na carcinogênese são muitos. Dentre estes fatores, a exposição aos
agrotóxicos pode ser considerada como uma das condições potencialmente
associadas ao desenvolvimento do câncer, por sua possível atuação como
iniciadores - substâncias capazes de alterar o DNA de uma célula, podendo
43
futuramente originar o tumor – e/ou como promotores tumorais – substâncias que
estimulam a célula alterada a se dividir de forma desorganizada (KOIFMAN;
HATAGIMA, 2003). Os fatores de risco de câncer podem ser encontrados no meio
ambiente ou podem ser hereditários. A maioria dos casos (cerca de 80%) está
relacionada ao meio ambiente, onde encontramos um grande número de fatores de
risco. Entendendo-se por ambiente, o meio em geral (água, terra e ar), o ambiente
ocupacional (quando insalubre), o ambiente social e cultural (estilo e hábitos de vida)
e o ambiente de consumo (alimentos, medicamentos). As mudanças provocadas no
meio ambiente pelo próprio homem, os hábitos e estilos de vida adotados pelas
pessoas podem determinar os diferentes tipos de câncer (INCA, 2006).
A Agência Internacional de Investigação de Câncer (IARC) revisou o
potencial carcinogênico de uma grande variedade de inseticidas, fungicidas,
herbicidas e outros compostos semelhantes. Segundo a agência, o uso desses
produtos químicos sem proteção necessária pode levar a alteração no material
genético e ao possível desenvolvimento de alguns tipos de tumores. A exposição
ocupacional a agrotóxicos tem sido associada com várias doenças neoplásicas
(IARC, 2002).
Atualmente, com a modernização da agricultura a população humana vem
sendo exposta aos resíduos de agrotóxicos em alimentos, entretanto, os agricultores
que usam agrotóxicos estão com riscos aumentados para instabilidade genética,
devido aos possíveis danos ao DNA e seus efeitos na saúde (GROVER et al.; 2003).
Aproximadamente 20% de todos os agrotóxicos conhecidos são suspeitos de serem
carcinogênicos. Além desses efeitos adversos, os agrotóxicos podem afetar também
o sistema imunológico, ou ainda apresentar atividade teratogênica e mutagênica
(ECOBICHON, 1996).
Considerando que os trabalhadores agrícolas estão em constante
exposição aos agentes agrotóxicos a monitorização biológica destes indivíduos
torna-se necessária como forma de prevenção de doenças, inclusive o câncer.
44
1.7 Agrotóxicos e risco ocupacional
A saúde dos trabalhadores é condicionada por fatores sociais,
econômicos, tecnológicos e organizacionais relacionados ao perfil de produção e
consumo, além de fatores de risco, presentes nos processos de trabalho (BRASIL,
2004). Risco, ou fator de risco pode ser definido como “uma condição ou conjunto de
circunstâncias que tem o potencial de causar um efeito adverso, que pode ser:
morte, lesões, doenças ou danos à saúde, à propriedade ou ao meio ambiente”
(BRASIL, 2001).
De acordo com legislação do Ministério do Trabalho e Emprego-MTE, os
riscos podem ser assim classificados: biológicos (vírus, bactérias, protozoários,
fungos, parasitas e bacilos), riscos ergonômicos e de acidentes (esforço físico
intenso, levantamento e transporte manual de peso, exigência de postura
inadequada, controle rígido de produtividade, imposição de ritmos excessivos,
trabalho em turno e noturno, jornadas de trabalho prolongadas, monotonia e
repetitividade, arranjo físico inadequado, máquinas e equipamentos sem proteção,
ferramentas inadequadas ou defeituosas, probabilidade de incêndio ou explosão,
entre outras situações causadoras de estresse físico e/ou psíquico ou acidentes),
riscos físicos (ruídos, vibrações, radiações ionizantes, radiações não ionizantes, frio,
pressões anormais, umidade e calor) riscos químicos (poeiras, fumos, névoas,
neblinas, gases, vapores e substâncias compostas ou produtos químicos em geral)
(BRASIL, 1994).
O perfil de morbimortalidade dos trabalhadores no Brasil caracteriza-se
pela coexistência de agravos que têm relação com condições de trabalho
específicas, como os acidentes de trabalho típicos e as “doenças profissionais”;
doenças que têm sua frequência, surgimento ou gravidade modificadas pelo
trabalho, denominadas “doenças relacionadas ao trabalho” e doenças comuns ao
conjunto da população, que não guardam relação de causa com o trabalho, mas que
também impactam a saúde dos trabalhadores (BRASIL, 2004). São considerados,
como população de risco para a exposição a agrotóxicos, os trabalhadores dos
setores produtivos: agropecuário, empresas desinsetizadoras, saúde pública
45
(trabalhadores que atuam no controle de endemias e nas zoonoses), da capina
química, transporte, comercialização e produção de agrotóxico (OPAS/OMS, 1997).
Atualmente, vivem no meio rural, cerca de 30 milhões de brasileiros. Esse
número corresponde a pouco mais de 16% de toda a população do País, vivendo
em condições precárias de moradia, de acesso à saúde e à educação, com
reduzidos níveis de renda e de remuneração. A agricultura familiar, além de
responder por 70% dos alimentos produzidos no Brasil, é responsável ainda pela
grande maioria das ocupações – também em torno de 70% – no meio rural, sendo a
principal fonte de sustento para a maior parte das famílias que vivem em ocupações
rurais (IPEA, 2008).
Os trabalhadores rurais, que são responsáveis pela aplicação de
agrotóxicos são expostos, de alguma forma, a esses produtos. O risco dessa
exposição à saúde depende de fatores como, a toxicidade do produto em humanos,
as condições da exposição e os níveis de exposição ocupacional. As alterações nas
relações e nos processos de trabalho ocorridas a partir da década de 60
repercutiram dramaticamente nas condições de vida, trabalho e na saúde do
trabalhador rural (POSSAS; TRAPÉ, 1983). A maioria dos agricultores reconhece
que o uso de agrotóxicos pode causar agravos à saúde, mas, no entanto,
desenvolvem respostas subjetivas, como a negação ou minimização do risco,
estratégias que acabam tendo, por sua vez, um papel importante na determinação
da exposição aos agrotóxicos, foi o que revelou um estudo realizado por Peres et al.
(2004) em Nova Friburgo-RJ.
Reconhece-se, que uma grande parcela da população está exposta aos
efeitos nocivos dos agrotóxicos e a contaminação, muito provavelmente, relaciona-
se não apenas ao grupo ao qual pertence, mas também à maneira como, individual
ou coletivamente, essas pessoas concebem e se posicionam frente ao risco a que
estão expostas. O conhecimento do risco é fundamental para o estabelecimento de
estratégias de intervenção. De acordo com Oliveira-Silva et. al. (2001), dentre os
fatores socioeconômicos que contribuem para a contaminação humana por
agrotóxicos destaca-se, o nível educacional e, segundo Peres (1999), a habilidade
46
de leitura/escrita e renda familiar. Nessa perspectiva faz-se necessário estudar a
situação da população exposta à contaminação por agrotóxicos, com o propósito de
entender o cenário para possível intervenção.
São consideradas expostas a agrotóxicos todas as pessoas que entram
em contato com esses produtos em função de suas atividades laborativas, através
do meio ambiente, da utilização doméstica ou acidental. Em todas as situações
poderão ser observadas, ou não, alterações subclínicas, clínicas e laboratoriais
compatíveis com o diagnóstico de intoxicação por agrotóxicos (BRASIL, 2006). A
exposição ocupacional a vários tipos de agentes cancerígenos como fertilizantes,
praguicidas, fungicidas, herbicidas e outros produtos químicos têm contribuído para
que esse seja um dos principais problemas de saúde pública nos países pouco
desenvolvidos (LOPES et al.; 1992; PAUMGARTTEN et al.; 1998). Segundo
Augusto (2003) os dados disponíveis no Brasil não refletem a realidade do número
de intoxicações e mortes por agrotóxicos, mas, os dados existentes são suficientes
para afirmar que se trata de um grave problema de saúde pública.
1.8 Biomonitoramento de Risco Ocupacional
A possibilidade de se prevenir ou minimizar a incidência de mortes ou
doenças decorrentes da exposição do organismo humano a produtos químicos pode
ser feita através da avaliação da exposição a estes agentes. A detecção precoce de
uma exposição perigosa pode diminuir significativamente a ocorrência de efeitos
adversos na saúde. As informações provenientes da monitorização da exposição
ambiental ou ocupacional possibilitam a implantação de medidas de prevenção e
controle apropriado. A avaliação da exposição pode ser feita pela medida da
concentração do agente químico em amostras ambientais, como o ar (monitorização
ambiental), ou através da medida de parâmetros biológicos (monitorização
biológica), denominados indicadores biológicos ou biomarcadores. Esses são
instrumentos que possibilitam identificar a substância tóxica ou uma condição
adversa antes que sejam evidenciados danos à saúde, sendo utilizados,
dependendo da finalidade do estudo e do tipo da exposição. Compreendem toda
substância ou seu produto de biotransformação, assim como qualquer alteração
47
bioquímica precoce, cuja determinação nos fluidos biológicos, tecidos ou ar exalado,
avalie a intensidade da exposição e o risco à saúde. Independente da finalidade e
aplicação dos biomarcadores, eles podem ser classificados em três tipos: de
exposição, de efeito e de suscetibilidade (AMORIM, 2003).
O indicador biológico de exposição estima a dose interna, através da
determinação da substância química ou de seu produto de biotransformação em
fluídos biológicos, como sangue, urina, ar exalado e outros, possibilitando quantificar
a substância no organismo (AMORIM, 2003). Os biomarcadores de genotoxicidade
são também considerados como biomarcadores de exposição ou dose interna assim
como os metabolitos da urina e marcadores citogeneticos em linfócitos de sangue
periférico e aductos do DNA e as proteínas e testes moleculares (teste cometa)
(FARMER; EMENY, 2006; GYORFFY et al.; 2008).
O biomarcador de efeito é um parâmetro biológico, medido no organismo,
o qual reflete a interação da substância química com os receptores biológicos. Na
prática diária, biomarcadores de efeito são usados para confirmar um diagnóstico
clínico. Mas, para a prevenção, um biomarcador de efeito considerado ideal, é
aquele que mede uma alteração biológica em um estágio ainda reversível (ou
precoce), quando ainda não representa agravo à saúde (RÜDIGER, 1999). Por
principio os indicadores de efeito servem para avaliar as conseqüências e,
indiretamente, a intensidade da exposição, ou seja, no momento em que os valores
destas análises se distanciam dos valores estabelecidos como normais representam
o desfecho de um processo de exposição (PERES et al.; 2005). Dentre os
biomarcadores de efeito relacionado à exposição a agrotóxicos, o mais utilizado é o
das colinesterases sanguíneas (WHO, 1996; OLIVEIRA-SILVA et al.; 2001).
Os biomarcadores de suscetibilidade podem refletir fatores genéticos ou
adquiridos que influenciam na resposta do organismo a uma determinada exposição
química. Estes são fatores pré-existentes e independem da exposição. São
predominantemente genéticos, embora a patologia, alterações fisiológicas,
medicamentos e exposição a outros agentes ambientais também possam alterar a
suscetibilidade individual. Os biomarcadores de suscetibilidade identificam aqueles
48
indivíduos na população que têm uma diferença genética ou adquirida na
suscetibilidade para os efeitos da exposição a substâncias químicas. Os
biomarcadores de suscetibilidade indicam quais os fatores podem aumentar ou
diminuir um risco individual no desenvolvimento da resposta do organismo
decorrente da exposição aos agentes químicos ambientais (AMORIM, 2003).
O biomonitoramento genético de populações expostas a potenciais
cancerígenos é um sistema de alerta precoce para doenças genéticas ou câncer.
Ele também permite a identificação de fatores de risco em um momento quando as
medidas de controle ainda podem ser implementadas (KASSIE et al.; 2000). A
importância do uso dos biomarcadores, seja de exposição ou de efeito, como
parâmetros biológicos de exposição às substâncias químicas deve-se ao fato de
eles estarem mais diretamente relacionados aos efeitos na saúde do que os
parâmetros ambientais oferecendo uma melhor estimativa do risco (AMORIM, 2003).
Nos últimos anos o monitoramento dos efeitos genotóxicos de químicos
em humanos com o objetivo de avaliar os riscos tem aumentado e como resultado
tem sido identificado marcadores da exposição humana a mutágenos e
carcinógenos. O biomonitoramento de populações humanas expostas aos agentes
potencialmente mutagênicos e carcinogênicos pode providenciar informações iniciais
de desrregulações celulares e iniciação do desenvolvimento de câncer. Nos anos
recentes, o teste cometa, conhecido como eletroforese em gel de agarose tem sido
importante biomarcador para avaliar danos em populações expostas
ambientalmente ou ocupacionalmente a poluentes do ar, metais, pesticidas,
radiações e outros xenobióticos (KNUDSEN; HANSEN, 2007; VALVERDE; ROJAS,
2009). O teste cometa tem aplicações na área biomédica, saúde ambiental e
biomonitoramento humano a agentes tóxicos, avaliando danos ao DNA e estresse
oxidativo (DUSINSKA; COLLINS, 2008).
Nesta pesquisa, além do teste cometa foram realizados exames
laboratoriais: hemograma, analisando-se as células sangüíneas; e o perfil
bioquímico, avaliando indicadores hepáticos e renais, para compor um quadro
clínico-laboratorial que auxilie na análise de contaminação dos trabalhadores por
49
agrotóxicos e possa também indicar possíveis outros fatores de confundimento na
caracterização da doença ocupacional.
1.8.1 Análises Bioquímicas
A configuração destes exames é fundamental para o estudo da relação da
saúde humana com as substâncias químicas, devido às funções hepáticas e renais
encontrar-se relacionadas com a síntese da maioria das proteínas plasmáticas e
pelo fato de pertencerem ao metabolismo de importantes órgãos do corpo human.
Assim, alteração de um ou mais parâmetros laboratoriais que avaliam suas funções
podem causar quadros de toxicidade do fígado e dos rins (LIMA, 1977).
Creatinina
A formação e excreção da creatinina fazem dela um marcador muito útil
da função renal, principalmente da filtração glomerular, sendo o teste mais utilizado
para esta finalidade. É o produto de degradação da creatina, sendo sua
concentração sérica não só dependente da taxa de filtração renal, mas também da
massa muscular, idade, sexo, alimentação, concentração de glicose, piruvato, ácido
úrico, proteína, bilirrubina e do uso de medicamentos (cefalosporinas, salicilato,
trimetoprim, cimetidina, hidantoína, anticoncepcionais e antiinflamatórios). Níveis
baixos podem ser encontrados nos estados que cursam com diminuição da massa
muscular. A determinação da creatinina plasmática é um teste de função renal mais
seguro do que a uréia. Nas doenças renais, a creatinina se eleva mais
vagarosamente que a uréia e se reduz mais vagarosamente com a hemodiálise.
Fatores extra renais, como insuficiência cardíaca congestiva, doenças musculares,
ação de medicamentos (anti-hipertensivos, antibióticos, ácido acetil salicílico), dietas
ricas em carne vermelha, choque e obstrução mecânica do trato urinário, provocam
elevação da creatinina plasmática (WALLACH, 2003).
50
Uréia
A uréia é um produto do catabolismo de aminoácidos e proteínas. Gerada
no fígado, é a principal fonte de excreção do nitrogênio do organismo. É difundida
através da maioria das membranas celulares, e a sua maior parte é excretada pela
urina, sendo que pequenas quantidades podem ser excretadas pelo suor e
degradadas por bactérias intestinais. É livremente filtrada pelos glomérulos e é
dependente da velocidade do fluxo urinário, ligado diretamente ao grau de
hidratação. Grande parte da uréia filtrada é reabsorvida passivamente nos túbulos
proximais e sua concentração varia de acordo com diferentes fatores, tais como o
conteúdo protéico da dieta e a hidratação. Apesar de ser um marcador da função
renal, é considerada menos eficiente do que a creatinina pelos diferentes fatores
não-renais que podem afetar sua concentração. No entanto, sua elevação é mais
precoce, e não sofre com a variação da massa muscular. A avaliação conjunta com
a creatinina é útil no diagnóstico diferencial das causas de lesão renal. Os níveis
séricos diminuídos são mais raros e decorre de importante restrição da ingesta de
proteínas, desidratação, reposição excessiva de líquidos, durante a gestação e nas
doenças hepáticas graves por diminuição da síntese da uréia (WALLACH, 2003).
Aspartato Aminotrasferase (AST/TGO)
A enzima Aspartato Aminotransferase – AST, também denominada
Transaminase Oxaloacética – TGO, é encontrada em diversos órgãos e tecidos
como: fígado, coração, músculo esquelético e eritrócitos. Elevações das
transaminases ocorrem nas hepatites (viral e tóxica), hepatite por drogas, na
mononucleose, cirrose, colestase, carcinoma hepático primário ou metastático,
pancreatite, traumatismo extenso e no choque prolongado. Está presente no
citoplasma e também nas mitocôndrias, portanto, sua elevação indica um
comprometimento celular mais profundo. No caso do hepatócito, isso se revela por
uma elevação por tempo mais prolongado no curso das hepatites virais agudas e
uma elevação seletiva nos casos de hepatites alcoólicas, metástases hepáticas e
necroses medicamentosas e isquêmicas. Aumentos da AST no soro são comumente
encontrados no infarto agudo do miocárdio, elevando-se nas primeiras 12 horas e
51
apresentando um pico sérico após algo em torno de 24 horas, com retorno aos
valores normais em um período de 3 a 5 dias. Valores discretamente elevados
podem ser encontrados também no infarto pulmonar, no infarto renal ou em casos
de grandes tumores, na embolia pulmonar, distrofias musculares, dermatomiosite,
traumas da musculatura esquelética, no pós-operatório, especialmente de cirurgias
cardíacas, cirrose alcoólica, hepatite induzida por drogas, mononucleose infecciosa,
citomegaloviroses, anemias hemolíticas, pancreatite aguda e acidente vascular
cerebral (HENRY, 2008).
Alanina Amino Transferase (ALT/TGP)
A enzima alanina aminotransferase - ALT, antigamente denominada
transaminase pirúvica - TGP, é encontrada abundantemente no fígado, em
quantidades moderadas no rim e em pequenas quantidades no coração e na
musculatura esquelética. Sua origem é predominantemente citoplasmática, fazendo
com que se eleve rapidamente após a lesão hepática, tornando-a um marcador
sensível da função do fígado. Como marcador hepatocelular, apresenta valores
alterados em patologias que cursam com necrose do hepatócito, como hepatites
virais, mononucleose, citomegalovirose e hepatites medicamentosas (HENRY,
2008).
Gama Glutamil Transpeptidase (GGT)
A gama glutamil transpeptidase ou transferase – GGT é uma enzima
presente nas membranas celulares e nas frações microssômicas envolvidas no
transporte de aminoácidos através da membrana celular. Está presente em ordem
decrescente de abundância no túbulo proximal renal, fígado, pâncreas e intestin. Os
níveis séricos da GGT são principalmente de origem hepática. Sua meia-vida é de 7
a 10 dias, aumentando para 28 dias nas lesões hepáticas ligadas ao álcool. Os
valores são aproximadamente 50% mais elevados nos homens do que nas
mulheres, e são diretamente proporcionais à massa corporal, ao consumo de álcool,
ao fumo e ao nível de atividade física.
52
Por mecanismo ainda não muito bem esclarecido, pacientes com diabetes
mellitus, hipertireoidismo, artrite reumatóide e doença pulmonar obstrutiva crônica
frequentemente apresentam valores aumentados de GGT. Valores muito elevados
são encontrados nos quadros de colestase crônica, como na cirrose biliar primária
ou na colangite esclerosante e em outras patologias hepáticas e biliares.
Freqüentemente, apresenta-se elevada em alcoólatras, mesmo sem hepatopatia, na
obesidade e no uso de drogas como analgésicos, anticonvulsivantes,
quimioterápicos, estrogênio e contraceptivos orais. Nos períodos após infarto agudo
do miocárdio, a GGT pode permanecer alterada por semanas. Em estudos do gene
humano, a GGT teve sua seqüência de nucleotídeos identificada (HENRY, 2008).
Fosfatase Alcalina (FA)
Essa enzima está presente em praticamente todos os tecidos do
organismo, especialmente nas membranas das células dos túbulos renais, ossos
(osteoblastos), placenta, trato intestinal e fígado. Portanto, a fosfatase alcalina
encontrada no soro é resultado da presença de diferentes isoenzimas originadas em
diferentes órgãos, com predomínio das frações ósseas e hepáticas.
Embora até hoje sua função ainda não esteja bem definida, a fosfatase
alcalina parece estar envolvida com o transporte de lipídios no intestino e nos
processos de calcificação óssea. A fosfatase alcalina óssea e a hepática partilham
proteínas estruturais, codificadas por um mesmo gene. Na prática clínica, a grande
utilidade está na investigação de doenças hepatobiliares e nas doenças ósseas que
cursam com aumento da atividade osteoblástica. É considerado um marcador
importante para processos obstrutivos hepáticos. Níveis elevados podem ser
também encontrados em outras lesões hepáticas ativas e nas infiltrativas com níveis
mais moderados de elevação. Está aumentada nos carcinomas hepáticos primários
e secundários. Nas neoplasias, os níveis da fosfatase alcalina são úteis para avaliar
a presença de metástases envolvendo fígado e osso. Valores muito elevados são
vistos em pacientes com lesões osteoblásticas como as encontradas no carcinoma
de próstata com metástase óssea. Elevações menores são vistas quando as lesões
são osteolíticas, como as encontradas no carcinoma metastático de mama. Outras
53
condições malignas com infiltração hepática como leucemias, linfomas e sarcoma
podem cursar também com elevação da fosfatase alcalina (WALLACH, 2003).
Devido ao crescimento ósseo, recém-nascidos e crianças, mas
especialmente adolescentes, apresentam valores significativamente mais elevados
do que os adultos. Durante a fase de crescimento rápido da adolescência (estirão da
puberdade), são encontrados níveis extremamente elevados. Normalmente, os
valores são discretamente mais elevados em homens do que em mulheres, e essa
diferença desaparece durante e após a menopausa. Em população idosa, existe
uma diminuição dos níveis séricos habitualmente encontrados, como conseqüência
do aumento da incidência de osteoporose nessa faixa etária. Níveis elevados em
duas a três vezes podem ser encontrados durante a gravidez, especialmente no
terceiro trimestre, por produção placentária. Níveis diminuídos podem ser
encontrados no hipotireoidismo, na anemia perniciosa, nas hipofosfatemias e no uso
de drogas como contraceptivos orais (WALLACH, 2003).
Colinesterase
O nível da enzima colinesterase no sangue é um valioso indicador da
relação entre exposição a agrotóxico e problemas de saúde. A atividade de
colinesterase é derivada da ação de duas enzimas, uma na membrana dos
eritrócitos (colinesterase eritrocitária ou acetil-colinesterase – AChE) e outra sérica
(colinesterase plasmática ou butiril- colinestearase – BChE). A diminuição do teor da
colinesterase plasmática pode permanecer por trinta dias e o das hemácias por
noventa dias após o último contato com os fosforados orgânicos. A inibição da
colinesterase por meio dos compostos fosforados ou carbamatos provoca o acúmulo
de acetilcolina, e o organismo passa a apresentar uma série de manifestações
(efeitos muscarínios, nicotínicos e do sistema nervoso central) (MARICONI, 1980). A
acetilcolinesterase plasmática tem sua maior concentração encontrada no plasma e
no intestin. Sua síntese é primordialmente hepática e sua meia-vida está
estabelecida entre 30 e 60 dias (GUYTON, 1986).
54
Vale ressaltar, que a acetilcolinesterase pode ser inibida sem que
necessariamente ocorra intoxicação por agrotóxicos. Nesse caso, deve-se
considerar a produção no fígado da pseudocolinesterase, que apresenta uma
atividade marcadamente afetada em diversas moléstias hepáticas, nos estados de
desnutrição e por fatores endócrinos. A atividade da colinesterase pode estar
aumentada em situações de hipercolesterolemia, obesidade com trigliceridemia, no
hipertireoidismo, no parkinsonismo e quando do uso de benzodiazepínicos,
andrógenos, antibióticos e da insulina. Encontra-se diminuída durante a gravidez, na
hipocolesterolemia, nos estados de desnutrição, alcoolismo, na cirrose hepática, na
tuberculose, dermatomiosite, artrite reumatóide, anemias, infecções agudas e
durante o uso de fenotiazínicos, outras doenças que cursem com diminuição da
albumina sérica e nos envenenamentos com compostos mercuriais orgânicos.
Outras drogas também levam à diminuição da atividade enzimática: sulfatos,
fluoretos, citratos, fenotiazinas, codeína e outros (OGA, 2003).
A determinação da atividade das enzimas colinesterase eritrocitária e
plasmática em indivíduos expostos aos inseticidas organofosforados e/ou
carbamatos é utilizada também para o diagnóstico e o tratamento das intoxicações.
Entretanto, não apresenta correlação muito significativa em exposições ambientais
e/ou ocupacionais leves ou moderadas a estes inseticidas. Ainda assim, é
considerado o indicador biológico de escolha (WHO, 1996), no entanto a análise da
atividade das colinesterases não deve ser usada de maneira isolada, sendo útil
quando usada como exame auxiliar, tanto para o diagnóstico clínico, quanto para as
ações de vigilância e acompanhamento clínico, medidas gerais e de suporte são,
como em todas as intoxicações agudas, imprescindíveis para salvar vidas
(ALMEIDA, 2002).
1.8.2 Análise Hematológica
O hemograma avalia os elementos celulares do sangue quantitativa e
qualitativamente, sendo o exame complementar mais requerido nas consultas
médicas. É indispensável no diagnóstico e no controle evolutivo das doenças
infecciosas e crônicas em geral, das emergências médicas, cirurgias e
55
traumatologias, acompanhamento da quimioterapia e da radioterapia e nas
intoxicações agudas ou crônicas das substâncias químicas, relacionando-se com
toda a patologia (LIMA et al.; 1977).
Segundo Oliveira (2007) o hemograma corresponde a um conjunto de
testes laboratoriais que estabelece os aspectos quantitativos e qualitativos dos
eritrócitos (eritrograma), dos leucócitos (leucograma) e das plaquetas
(plaquetograma) no sangue:
Eritrograma: inclui os testes laboratoriais que determinam o perfil
hematológico da série vermelha no sangue periférico. É constituído por: contagem
de eritrócitos ou hemácias (Hm), dosagem da hemoglobina (Hb), hematócrito (Ht),
índices hematimétricos (VCM, HCM, CHCM, RDW, etc.) e a avaliação da morfologia
eritrocitária.
Leucograma: engloba os testes laboratoriais que determinam o perfil
hematológico da série branca (leucócitos) no sangue periférico. É constituído da
contagem global e da contagem diferencial de leucócitos, incluindo a análise das
respectivas alterações hematológicas no sangue. É expresso no resultado pela
forma leucocitária (com valores relativos e absolutos) da cada subtipo leucocitário.
Plaquetograma: envolve a contagem de plaquetas, a avaliação da sua
morfologia feita por microscopia e as determinações do volume plaquetário (VPM) e
da variação entre os seus volumes (PDW) (OLIVEIRA, 2007).
O hemograma é o principal exame a ser realizado quando há suspeita de
anemia. A anemia é considerada a doença mais prevalente em todo o mundo,
especialmente caracterizada por carência de ferro, que chega a ser responsável por
95% das anemias. A anemia tem sido relatada como diminuição dos níveis de
hemoglobina no sangue, com ou sem diminuição do número de eritrócitos, de
acordo com idade, sexo e altitude, para indivíduos normovolêmicos. A morfologia
anormal das hemácias pode sugerir um diagnóstico, podendo as anemias, serem
classificadas de acordo com o tamanho das hemácias, inferido através do volume
56
corpuscular médio (VCM). Assim, é possível classificar como anemia normocítica
aquelas que estão dentro do valor de normalidade do VCM, microcíticas aquelas
abaixo e macrocíticas acima, intimamente ligados a esse valores anormais estão as
deficiências de ferro e folato, alcoolismo e certas medicações como metrotrexato.
Nas anemias consideradas normocíticas podem estar relacionadas a anemias
aplásicas e secundárias a agressões medulares (RAMOS, 2009).
1.8.3 Ensaio Cometa
O Ensaio Cometa ou teste “Single cell gel eletrophoresis” - SCGE vem
sendo proposto para estudos de toxicogenética devido a sua peculiaridade e
vantagens, quando comparado a outros testes para detecção de substâncias
genotóxicas. É um teste molecular, não utilizado para detectar mutações, mas sim
lesões genômicas, que após serem processadas, podem resultar em mutação. Este
teste também pode ser utilizado para estudos de reparo de DNA, visto que as lesões
detectadas pelo ensaio cometa são passíveis de correção. Embora impossibilite
inferir a fidelidade do processo de reparo, pode trazer informações importantes
sobre a cinética e o tipo de lesão reparada (TICE, 2000; SILVA et al.; 2000). Os
danos mais facilmente detectados no DNA são quebras (simples ou duplas), danos
alcali-lábeis, crosslinks e quebras resultantes de reparo por excisão (VALVERDE;
ROJAS, 2009).
Este teste pode ser utilizado para qualquer tipo de células (qualquer
tecido que possam ser extraídas células nucleadas), sendo necessário apenas um
pequeno número das mesmas e de não requerer células em divisão. Nesta técnica,
as células nas quais se deseja verificar o dano causado por agente genotóxico são
submetidas à eletroforese em lâminas. O DNA da célula que não tiver dano migrará
em conjunto, formando um círculo (os aspectos descritos só são visíveis após a
coloração própria da técnica). Caso ocorra dano ao DNA, os fragmentos tendem a
migrar mais rapidamente. Sendo o dano muito intenso em uma célula, fragmentos
de diversos tamanhos serão formados e migrarão em velocidades diferentes,
formando-se então a figura típica de um cometa. A medida do dano é feita pela
57
relação entre o diâmetro do núcleo sem dano e a extensão das “caudas” dos
núcleos com dano (TICE et al.; 2000; SILVA et al.; 2000).
O ensaio cometa é muito difundido na comunidade científica e combina a
simplicidade das técnicas bioquímicas para detecção de quebra de fita simples de
DNA e/ou sítios álcali lábeis com as abordagens típicas dos ensaios citogenéticos
em células. As vantagens do ensaio do cometa incluem: sensibilidade para detecção
de danos no DNA; a coleta de dados em células individualizadas, seguido de uma
criteriosa análise estatística; o uso de amostras de células extremamente pequenas;
e qualquer população de células de eucarioto pode ser utilizada para análise
(SPEIT; HARTMANN, 1999).
58
JUSTIFICATIVA
59
2 JUSTIFICATIVA
O Estado do Piauí com extensão territorial de 251.529,186 km² vem
aumentando sua área de lavoura, ocasionando uma maior exposição aos
agrotóxicos, pelos trabalhadores rurais. Destaca-se, no Estado, como atividade
principal, a agricultura, representando 42% da atividade das pessoas com 10 anos
ou mais de idade (IBGE, 2007). Foi observando em 2006, um aumento das áreas de
lavoura de 138 mil hectares (11,4%) em relação ao censo agropecuário 1995-1996
(IBGE, 2006).
A crescente utilização de agrotóxicos no Estado, verificada pelos órgãos
oficiais, através do controle da revenda dos agrotóxicos e os resultados do censo
agropecuário, mostra que, do total de estabelecimentos que utilizou agrotóxicos
(34.686), 90,9% não recebeu orientação técnica, 87% usa pulverizador costal, e, que
48,6% são associados a entidades de classe (sindicatos, associações/movimentos
de produtores e moradores, etc.) (IBGE, 2006). Essas pequenas propriedades são
caracterizadas pela pouca tecnologia nas práticas agrícolas, incluindo o uso de
pulverizadores costais para aplicação de agrotóxicos, a falta de equipamento de
proteção e pouco suporte técnico e especializado, que podem favorecer a ocorrência
de intoxicações e adoecimento. Além disso, o pouco conhecimento dos riscos
potenciais desses produtos aumenta o risco de contaminação dos agricultores e
suas famílias, quase todos envolvidos no processo de trabalho agrícola.
Alguns estudos relatam que trabalhadores de pequenas culturas, também
se expõem a vários agrotóxicos (BARRIGOSSI et al.; 2004; FARIA et al.; 2004;
CASTRO; GOMES, 2007; ARAÚJO et al.; 2007). Os resultados do Programa de
Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos - PARA comprovam a utilização
ilegal de agrotóxicos em culturas onde geralmente ocorrem índices elevados de
exposição de pequenos e médios produtores a esses agrotóxicos por utilizarem, em
sua grande maioria, pulverizadores costais. Esta informação é relevante, uma vez
que a agricultura familiar tem uma participação bastante representativa na
60
agricultura brasileira, correspondendo a 84,4% dos estabelecimentos rurais do país,
segundo dados do Censo Agropecuário (IBGE, 2006).
Considerando o desenvolvimento de pesquisas como uma das áreas de
atuação do CEREST, identificou-se na região dos cerrados piauienses um elevado
número de trabalhadores rurais que apresentavam uma forma de adoecimento
peculiar a trabalhadores que fazem uso de agrotóxicos. Assim, foi realizada por
Chaves (2007), em municípios dos cerrados, uma pesquisa que constatou que os
trabalhadores rurais expostos a agrotóxicos estavam sujeitos a um risco real dos
efeitos resultantes da genotoxicidade, entre eles, o câncer. Nesta pesquisa realizou-
se o teste de micronúcleo em células da mucosa bucal e observou-se aumento
significante na frequência de micronúcleo em trabalhadores expostos aos
agrotóxicos em relação ao grupo de trabalhadores não expostos. Uma das
recomendações da pesquisadora foi o fomento a pesquisa científica e o
mapeamento do uso de agrotóxicos, os efeitos mutagênicos e carcinogênicos
relacionados à exposição dos trabalhadores rurais aos agrotóxicos em todo o Estado
do Piauí (CHAVES, 2007).
Neste contexto, há necessidade de se investigar a situação de saúde de
pequenos agricultores no Estado, que utilizam misturas complexas de agrotóxicos, o
que torna difícil a mensuração dos danos, sendo de fundamental importância a
utilização de marcadores que detectem os danos da exposição mais precocemente,
ou seja, a realização de um monitoramento biológico que possa permitir um melhor
controle da exposição e, conseqüentemente, a minimização dos danos e intervenção
dos órgãos públicos. Desta forma, enquanto integrante da equipe do CEREST,
surgiu o nosso interesse pelo tema, em pesquisar a saúde dos trabalhadores
expostos a agrotóxicos, em diferentes municípios do Estado do Piauí.
61
OBJETIVOS
62
3 OBJETIVOS
3.1Geral
Avaliar os efeitos tóxicos e genotóxicos em agricultores piauienses
expostos aos agrotóxicos, com o uso de biomarcadores hematológicos, bioquímicos
e genotóxicos.
3.2 Específicos
Caracterizar os tipos de agrotóxicos utilizados;
Analisar os parâmetros bioquímicos e hematológicos dos trabalhadores
expostos;
Avaliar os efeitos genotóxicos por meio do Ensaio Cometa nos
trabalhadores expostos;
Identificar as diferentes classes de danos ao DNA pelo Ensaio Cometa;
Correlacionar os fatores de riscos não ocupacionais com os efeitos
genotóxicos.
63
PROTOCOLO DE ESTUDO
64
4 PROTOCOLO DE ESTUDO
4.1Tipo de Estudo
O estudo foi baseado num modelo transversal de investigação, delineado
de forma a permitir que se obtenha uma avaliação clínica, epidemiológica e
laboratorial objetivando investigar os casos de contaminação de trabalhadores rurais
por agrotóxicos, nos municípios de Barras e José de Freitas.
4.2Local do Estudo
O presente estudo foi desenvolvido no Centro Estadual de Referência em
Saúde do Trabalhador (CEREST), órgão da Diretoria de Vigilância Sanitária, da
Secretaria de Estado da Saúde do Piauí, situado à Av. Pernambuco, 2464, Bairro
Primavera, Teresina-Piauí. A avaliação hematológica, bioquímica foi realizada no
Laboratório Central de Saúde Pública (LACEN), e o Ensaio Cometa foi desenvolvido
no Laboratório de Toxicologia e Genética Molecular (LABTOXIGEN) do LACEN.
4.3 Aspectos Éticos
O projeto de pesquisa e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
(TCLE) (APÊNDICE 1) foram submetidos ao Comitê de Ética em Pesquisa da
Universidade Federal do Ceará - COMEPE, credenciado pela Comissão Nacional de
Ética em Pesquisa (CONEP) – Conselho Nacional de Saúde (CNS)/Ministério da
Saúde (MS) para análise quanto aos princípios éticos.
Seguiram-se as normas da ética para estudos clínicos com seres
humanos, de acordo com os termos da Resolução nº 196/96 do CNS, a Declaração
de Helsinque (OMS) (1965) e suas revisões. O projeto foi aprovado pelo COMEPE
em 25 de setembro de 2008, sob protocolo nº 175/08 (ANEXO A). Os ensaios não
foram iniciados antes da aprovação pelo comitê de ética. A amostra obtida foi usada
65
exclusivamente para execução desta pesquisa, mantendo-se o sigilo e a privacidade
dos indivíduos envolvidos.
4.4Caracterização do Estudo
A pesquisa foi desenvolvida em dois municípios do Estado do Piauí:
Barras e José de Freitas (Figura 2), tomando-se como critérios de escolha, o número
de casos de morbidade de trabalhadores rurais destes municípios e por intoxicação
por agrotóxicos, notificados pelo SINAN, assim como os casos registrados no
CITOX. Os referidos municípios fazem parte da proposta de mapeamento do uso de
agrotóxicos, efeitos mutagênicos e carcinogênicos relacionados à exposição dos
trabalhadores rurais aos agrotóxicos em todo o Estado do Piauí.
4.4.1 Município de Barras
De acordo com a nova divisão territorial adotada pela gestão estadual, o
município de Barras localiza-se na Macrorregião Meio Norte, Território de
Desenvolvimento Cocais, com uma área de 1.722 km² limitando-se ao Norte com
Batalha, Esperantina e Campo Largo; ao Sul com Batalha, Cabeceiras e Miguel
Alves; a Leste, com Piripiri e Batalha e a Oeste, com Miguel Alves, Nossa Senhora
dos Remédios e Campo Largo e dista 126 km da capital. Sua população é de 44.914
habitantes, onde, 10.261 desenvolvem atividade na agropecuária (IBGE, 2007).
As condições de saneamento apresentadas pelo município de acordo
com o IBGE são as seguintes: 34% das residências não possuem abastecimento de
água, 67,2% não apresentam instalações sanitárias e apenas 25% possuem coleta
de lixo. Em relação aos serviços de saúde pública, 100% da população têm
cobertura da Estratégia Saúde da Família (DATASUS, 2008).
No que se refere à produção agrícola, o município de Barras tem uma
área cultivada de 6.513 hectares, assim distribuídos: arroz de sequeiro 48,3%; milho
35,5%; mandioca 7,7%; melancia 4,6% e 1,9% para feijão macaçar, apresentando
uma produção por hectare, respectivamente, 3.208, 1.387, 2.822, 9.000 e 34,
66
toneladas (CONAB, 2009). Dos 3.888 estabelecimentos agropecuários existentes no
município, 22,80% utilizam agrotóxicos (IBGE, 2006).
Figura 2: Localização dos municípios de Barras e José de Freitas-PI
Fonte: http://www.guianet.com.br/pi/mapapi.gif. Acesso em 22/07/2010.
4.4.2 Municipio de José de Freitas
O município de José de Freitas localiza-se na Macrorregião Meio Norte,
Território de Desenvolvimento Entre Rios, limita-se ao norte com Lagoa
Alegre/Cabeceiras do Piauí/Campo Maior; ao Sul com Altos/Teresina; a Leste, com
Campo Maior e Oeste com União/Lagoa Alegre/Teresina, estando a 48 km da capital
Sua população é de 36.483 habitantes, com uma extensão territorial de 1.538 km².
Os dados do IBGE (2007) mostram em José de Freitas 4.672
trabalhadores na agropecuária. Do total de residências, 44,% possuem
67
abastecimento d’água, 58,8% não tem instalação sanitária e apenas 15,7% possui
coleta de lixo domiciliar. Em relação à cobertura dos serviços de saúde pública,
existem 21 ambulatórios e 86,1% da população tem cobertura da Estratégia Saúde
da Família.
Na agricultura, dos 9.079 hectares de área cultivada, 39,2% é de cana de
açúcar e 34,1% de arroz de sequeiro, seguido da cultura do milho, mandioca e feijão
macaçar, com 16,01%, 9,2% e 1,39% hectares respectivamente (CONAB, 2009).
Dados do IBGE indicam que, dos 2.451 estabelecimentos agropecuários, 7,26%
utilizaram agrotóxicos (IBGE, 2006).
4.5 Seleção dos Sujeitos da Pesquisa
Os voluntários foram trabalhadores rurais dos municípios de Barras e
José de Freitas, no Estado do Piauí, potencialmente expostos aos agrotóxicos
(grupo exposto). Este grupo foi constituído de uma amostra de 60 trabalhadores,
sendo 30 para cada município, não havendo restrição quanto ao grupo étnico. Para
o controle negativo foram selecionados 55 trabalhadores de áreas administrativas
que não estavam expostos a nenhum agroquímico (grupo não exposto).
4.5.1 Critérios de Inclusão
Para a participação no estudo alguns critérios foram estabelecidos: a
utilização de agrotóxicos pelos voluntários, somente com fins agrícolas e estar
exposto há pelo menos um ano; ser do sexo masculino com idade acima de 18
anos; trabalhadores capazes de compreender a natureza e objetivo do estudo, com
intenção de cooperar com o pesquisador e agir de acordo com os requerimentos de
todo o protocolo, tendo sido confirmado mediante a assinatura do Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido.
68
4.5.2 Critérios de Exclusão
Não poderiam fazer parte do estudo: crianças, mulheres e idosos;
voluntários que apresentassem algum tipo de infeçcção (virótica ou bacteriana) ou
que haviam se submetido a raios X, tomografia ou qualquer outro procedimento
radiológico há menos de três meses ou que tinham feito tratamento quimioterápico
ou radioterápico em algum momento da vida; ter qualquer condição que o
investigador julgasse relevante para a não participação no estudo.
4.6 Delineamento do Estudo
4.6.1 Procedimentos com os voluntários
A mobilização dos voluntários deu-se através do Sindicato dos
Trabalhadores Rurais e dos profissionais das Vigilâncias em Saúde e Estratégia
Saúde da Família (ESF) dos municípios. A equipe composta por profissionais da
Vigilância Sanitária Estadual, com o apoio dos profissionais em cada município,
ministrou palestra sobre os efeitos dos agrotóxicos à saúde e explicou sobre a
natureza e objetivos da pesquisa. Foi enfatizada ao voluntário sua liberdade para se
retirar a qualquer momento do estudo sem ser obrigado a fornecer o motivo de fazê-
lo e sem que isto lhe causasse qualquer prejuízo no convívio com a comunidade.
Aqueles que concordaram em participar do estudo assinaram o Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido.
Para fins de avaliação do trabalhador rural exposto aos agrotóxicos,
aplicou-se um questionário, recomendado pela International Comission for Protection
Against Environmental Mutagens and a Carcinogens-ICPEMC (CARRANO;
NATARAJAM, 1988). Os dados do Questionário de Saúde Pessoal (ANEXO B)
constavam de perguntas sobre saúde, questões demográficas, padrões, hábitos
(alimentares, tabaco, álcool, café, etc), bem como ocupacionais, históricos médico e
familiar, tipos de agrotóxicos utilizados e duração da aplicação, assim como sobre o
uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI).
69
4.7Coleta das Amostras de Sangue
As amostras de sangue foram coletadas no período de setembro de 2009
a janeiro de 2010, após o preenchimento do questionário, sendo submetidas às
análises bioquímicas, hematológicas e teste cometa.
A quantidade da amostra de sangue coletada de cada trabalhador foi de
10 mL. Os tubos contendo o sangue foram acondicionados em caixas térmicas com
amplo espaço e sob temperatura de 2º a 4º C. O tempo de transporte das amostras
ao laboratório em Teresina variou de 2 a 3 horas até o processamento e a leitura,
sendo posteriormente, armazenadas em caixas apropriadas e guardadas nos
armários do Laboratório de Toxicologia Genética e Molecular. Caso novo estudo
seja realizado com essas lâminas, novo projeto será encaminhado ao Comitê de
Ética em Pesquisa. Todas as lâminas armazenadas foram devidamente codificadas
e estão sob a responsabilidade da Diretoria do LACEN/LABTOXIGEN e da Diretoria
de Vigilância Sanitária da Secretaria de Estado da Saúde.
4.7.1 Avaliação Bioquímica
A avaliação dos resultados das análises bioquimicas e hematológicas foi
comparada com os valores de referência do LACEN-PI, constantes no ANEXO C. As
amostras de sangue foram colhidas e transferidas para tubos de vidro sem
anticoagulante. Após a coagulação, o sangue foi centrifugado e o soro retirado para
as dosagens séricas de uréia, creatinina, TGO, TGP, fosfatase alcalina e gama GT.
Também foi realizada análise de indicador biológico especifico (butirilcolinesterase
plasmática).
Para avaliação dos níveis de uréia (Enzimático – UV), realizou-se o
seguinte procedimento: em um tubo rotulado como teste foi colocado 1,0 mL do
reagente de trabalho, adicionado em seguida 0,01 mL de amostra de cada
trabalhador, homogeneizado e transferido imediatamente para cubeta
termostatizada a 37 ± 0,2º C. A absorbância foi medida aos 30 e 90 segundos. Foi
utilizada a diferença de temperatura referente às medidas de absorbância para
70
calcular os resultados. As leituras foram expressas em mg/mL e comparadas com os
valores de referência.
Os níveis de creatinina pela medodologia Labtest foram dosados
conforme descrito: foram preparados e identificados três tubos de ensaio: branco,
teste e padrão. Em todos, foi colocado 2,0 mL de tampão, no tubo branco
acrescentado 0,25 mL de água deionizada, no tubo identificado como padrão, 0,25
mL da solução padrão e no teste 0,25 mL de soro do trabalhador. Em seguida, nos
tubos brancos e teste, foi acrescentado 0,5 mL de ácido pícrico e 0,1 mL do
acidificante. Os reagentes foram misturados e colocados em banho-maria a 37 ºC,
durante 10 minutos, com o nível da água no banho superior ao nível dos reagentes
nos tubos de ensaio, em temperatura ambiente durante 5 minutos. As absorbâncias
do teste (A1 e A2) foram feitas no padrão de 510 nm ou filtro verde (500 a 540 nm),
acertando o zero com o branco. As leituras foram expressas em mg/mL e
comparadas com os valores de referência.
A avaliação dos níveis de TGO e TGP (cinético-UV-IFCC) foram assim
mensurados: em um tubo rotulado como teste foi colocado 1,0 mL do reagente de
trabalho, adicionado em seguida 0,1 mL de amostra de cada trabalhador. A amostra
foi homogeneizada, e, após 1 minuto, transferida imediatamente para cubeta
termostatizada a 37 ± 0,2º C. Em seguida foi registrada a absorbância, sendo esta
expressa em mg/mL e comparadas com os valores de referência.
Os níveis de fosfatase alcalina foram mensurados através do método-
Roy modificado utilizando a seguinte metodologia: pipetou-se 1,0 mL do reagente de
trabalho em um tubo teste de 12x75, sendo adicionados 0,02 mL da amostra. Após a
homogeneização, foi transferido imediatamente para a cubeta termostatizada a 37 º
C, e após 30 segundos, realizou-se a leitura da absorbância, repetindo-se este
procedimento. As leituras foram expressas em mg/mL e comparadas com os valores
de referência.
Os níveis de GGT foram mensurados utilizando (método – Szasz
modificado) com o seguinte procedimento: em um tubo rotulado como teste, foi
71
colocado 1,0 mL do reagente de trabalho, adicionado em seguida 0,05 mL de
amostra de cada trabalhador, homogeneizado e transferido imediatamente para
cubeta termostatizada a 37 ± 0,2º C. Esperou-se 1 minuto e fez-se a leitura da
absorbância inicial (A1) em 405 nm, disparando simultaneamente o cronômetro e
repetida a leitura após 2 minutos (A2). As leituras foram expressas em mg/mL e
comparadas com os valores de referência.
Para mensuração dos níveis de butirilcolinesterase plasmática (BChE), foi
utilizada a metodologia Dietz modificado e automatizado empregada no
Equipamento Modular P 800 Hitache da Roche. A metodologia foi realizada da
seguinte forma: inicialmente procedeu-se a identificação de 2 tubos de ensaio com B
(branco) e T (teste), adicionou-se aos mesmos 1,0 mL de substrato e 3,0 mL de
reagente de cor. Foi colocado em banho-maria, 37°C, durante 3 minutos, com a
estante dentro do banho-maria. Adicionou-se 20 µL de amostra no tubo T e
incubados durante 2 minutos e 30 segundos. Após esse tempo de incubação e ainda
no banho-maria, foi adicionado 3 mL de solução inibidora no tubo T em intervalos de
30 segundos entre os tubos. Após retirar a estante de tubos do banho-maria, foram
adicionados 3,0 mL de solução inibidora e 20 µL da amostra no tubo B. O material
foi homogeneizado, sendo feita a leitura das absorbâncias do T (teste) em
espectrofotômetro em 410 nm, acertando o zero com o branco. As leituras foram
expressas em mg/mL e comparadas com os valores de referência.
4.7.2 Avaliação Hematológica
Para o estudo hematológico, as amostras de sangue foram colocadas em
tubos de vidro contendo anticoagulante EDTA. Logo após a coleta foram feitos os
esfregaços das lâminas com coloração (Panótico - corante). Amostras da coleta de
sangue foram analisadas por testes hematológicos utilizando o analisador
automático Sysmex-KX21. Diferentes parâmetros hematológicos foram utilizados:
hemoglobina (Hb), hematócrito (Ht), número de eritrócitos (RBCs) no sangue total,
leucograma com contagem de leucócitos e contagem de plaquetas (OLIVEIRA,
2007). Os resultados encontrados foram comparados com os valores de referência
(ANEXO C).
72
4.7.3 Avaliação Genotóxica: Ensaio Cometa
O ensaio cometa é um método sensível para os estudos de danos ao
DNA em células individualizadas. Foi realizado em células de linfócitos de acordo
com Singh et al.; (1988) e Saran et al.; (2008). É uma técnica simples e rápida para
mensurar quebras no DNA em um pequeno número de células. No teste, as células
são embebidas em agarose e colocadas em lâminas, onde são lisadas com
detergentes e submetidas à eletroforese, onde é possível avaliar os danos ao DNA
pela sua migração em forma de cauda, que são observadas ao microscópico,
indicando a frequência de quebras e danos de bases. Na versão alcalina é possível
incluir os sítios apurinícos e apirimidínicos os quais são sítios álcalis lábeis e avaliar
a conexão entre danos ao DNA causados por agentes oxidantes. (DUSINSKA;
COLLINS, 2008).
As amostras de sangue (5 mL) foram coletadas por meio de punção
venosa com seringas estéreis e descartáveis e colocadas em tubos heparinizados
(5000 U/mL). Em seguida foram preparados três frascos de cultura, cada um com 5
mL de meio RPMI 1640. Este meio contém: 15% de soro bovino fetal; 1% de
antibiótico (penicilina e estreptomicina), 1% de L-glutamina e 1% de
fitohemaglutinina (estimula a divisão celular). Foram adicionadas 18 gotas de
sangue total em cada frasco do RPMI. As culturas foram incubadas em estufa
comum a 37 ºC por 72 horas; em seguida centrifugadas a 900 rpm, e o
sobrenadante descartado. 10 µL do centrifugado foi misturado com 90 µL 0,75% de
agarose de baixo ponto de fusão (low mellting), a 37ºC e colocadas em forma de
gotas sobre as lâminas, e cobertas com as lamínulas (24 x 60 mm), mantidas em
baixa temperatura por 5 min até solidificar a agarose. Depois, a lamínula foi retirada
e a lâmina mergulhada em solução de lise (2,5 M NaCl, 100 mM EDTA, 10 mM Tris,
1% Triton X-100, 10 % DMSO; pH 10) a 4ºC e protegida da luz por no mínimo 24
horas. Ao serem removidas da solução de lise, as lâminas foram colocadas na
posição horizontal na cuba de eletroforese. Esta se encontrava em banho de gelo,
para manter a temperatura da eletroforese constante em torno dos 4ºC. A cuba foi,
então, preenchida com a solução de eletroforese (1 mM EDTA, 300 mM NaOH; pH >
13) recém-preparada, a um nível superior (0,25 cm, em média) ao das lâminas e
73
ficaram em repouso por 20 min para o desenrolamento do DNA, o afrouxamento de
suas ligações e a exposição dos sítios álcali-lábeis. A eletroforese foi conduzida
usando 25 V e 300 mA, por 15 min. Todos estes passos foram realizados na
presença de baixa luminosidade. Após a eletroforese, as lâminas foram retiradas da
cuba e mergulhadas na solução de neutralização (0,4 M tris; pH 7,5, por 5 min). As
lâminas foram fixadas por 10 min. em solução fixadora (Ácido tricloroacético 15%;
Sulfato de zinco heptahidratado 5% e Glicerol 5%). Após secagem das lâminas, foi
feita a coloração com solução de nitrato de prata. Lavou-se 3 vezes com água
destilada, mantendo as lâminas nas cubetas. Adicionou-se à solução de parada
(ácido acético) nas cubetas deixando-as por 5 minutos, mais três lavagens com
água destilada e deixou-se secar em bandejas. Imagens de 100 células foram
selecionadas aleatoriamente (50 células de cada uma de duas laminas) por
indivíduo (Figura 3).
Figura 3: Esquema do teste cometa conforme protocolo de Singh et al.; (1988) e Saran
et al.; (2008) usado para a avaliação de genotoxicidade em agricultores expostos aos
agrotóxicos.
74
As células foram contadas visualmente em cinco classes de acordo com o
tamanho e intensidade dos nucleoídes (0 - 4). Um valor (Índice de Danos) foi
atribuído a cada cometa de acordo com sua classe (VILLELA et al.; 2006). O índice
de dano (ID), portanto, variou de 0 (completamente intacto: 100 células × 0) para
400 (com dano máximo: 100 × 4 células).
A análise foi feita pelo padrão de escores, onde, de acordo com o tamanho
e intensidade da cauda do cometa, os mesmos foram divididos em cinco categorias
(0-4) de acordo com a percentagem de DNA na cauda do cometa, que indica o grau
de lesão sofrido pela célula: 0 = sem danos (<5%); 1 = baixo nível de danos (5-20%);
2 = médio nível de danos (20-40%); 3 = alto nível de danos (40-95%); 4 = dano total
(95%) (Figura 4). Os cálculos dos dados foram feitos segundo as fórmulas: Indice de
dano - ID = número de dano de cada uma das classes x categoria da classe / 100;
Frequencia do dano - FD = 100 % – número de danos da classe zero (ANEXO D). O
controle negativo foi processado separado das amostras dos agricultores e ambos
analisados por dois examinadores. A avaliação visual dos cometas é um método de
avaliação bem validado que tem uma alta correlação com a análise de imagens por
computador (COLLINS, 2004).
Figura 4: Classes de Danos ao DNA analisados no Teste Cometa
Fonte: Vilela et al. (2006).
75
4.8 Análise estatística
Os dados obtidos foram submetidos ao programa SPSS (Statistical
Package for the Social Sciences) versão 13.0, para a análise de variância com o
teste One - way ANOVA não paramétrico e para as correlações foi aplicado o teste
de Spearman entre os diversos parâmetros analisados. O programa Prisma versão
4.0 com o teste Kruskal-Wallis foi usado para a comparação dos parâmetros
hematológicos e o teste t-student, para comparações entre os indivíduos expostos
com os não expostos, na avaliação bioquímica e genotóxica. Adotou-se nível de
significância de p<0,005 para rejeição da hipótese nula.
76
RESULTADOS E DISCUSSÃO
77
5 RESULTADOS E DISCUSSÃO
5.1 Caracteristicas da população
As características da população em estudo, obtidas a partir das
informações apresentadas pelos indivíduos pesquisados, em respostas às
indagações do questionário de saúde estão sumarizadas na Tabela 1 e informam
sobre: idade, grupo étnico, tempo de trabalho, uso de EPI, carga horária, hábito de
fumar, consumo de bebidas alcoólicas, uso de medicamentos e consumo de
vegetais.
A faixa etária encontrada no estudo foi em média de 34,27±13,10 anos
para o grupo exposto e de 32,13±9,46 anos para o grupo não exposto; de etnia
negra, na maioria, para os dois grupos. Quanto ao tempo de trabalho, os expostos
tiveram uma média de 13,55±11,74 anos, e carga horária média de 41,5±4,92 horas
semanais, enquanto o grupo não exposto, 7,07±7,11 anos de trabalho e jornada
semanal média de 37,82±7,63 horas, sendo o tempo de trabalho coincidente aquele
encontrado por Ramos (2009), na Bahia. Pesquisa realizada em duas comunidades
no Rio Grande do Sul encontrou resultados semelhantes, onde a idade média dos
trabalhadores investigados foi de 41,14 anos, sendo o tempo de exposição de 25,69
anos e uma variação de 12 a 50 anos (REMOR et al.; 2008). Esta situação
assemelha-se a citada por Veiga et al. (2007), segundo a qual, o trabalhador rural
brasileiro chega a trabalhar mais de 12 horas por dia, seis vezes na semana em
temperaturas externas que podem atingir 40º C, estando sujeito a uma condição de
trabalho bastante insalubre, que pode trazer sérias conseqüências negativas à sua
saúde.
Em relação ao uso de EPI, os dados encontrados evidenciaram que 50%
dos indivíduos expostos utilizavam pelo menos um tipo de proteção individual
(Tabela 1). A pesquisa de Remor et al. (2008) mostrou que 68% dos trabalhadores
expostos a agrotóxicos usavam pelo menos dois tipos de EPI durante a aplicação
dos mesmos. Na região dos cerrados piauienses, a maioria dos trabalhadores usava
apenas um tipo de EPI (luvas, máscara, óculos e botas), enquanto 17,5% não
78
utilizavam nenhuma proteção (CHAVES, 2007). Outros estudos mostram que a
maioria dos trabalhadores não utiliza regularmente o EPI (ARAÚJO et al.; 2000;
MOREIRA et al.; 2002; RAMOS, 2009). Alguns estudos apontam que o uso de EPI
não é consequência do entendimento que esses trabalhadores têm do risco
associado à exposição, mas da maneira como os mesmos percebem o risco no uso
destes produtos (PERES et al.; 2001; LEVIGARD, 2001; PERES, 2003).
Os dados encontrados evidenciam que a realidade do trabalhador
agrícola brasileiro não diverge muito em se tratando de espaços geográficos,
havendo similaridades entre o interior do Piauí e do Rio Grande do Sul. Em relação
ao uso de proteção individual o próprio IBGE ratifica os resultados encontrados, visto
que, de acordo com o censo agropecuário (2006), 67% dos estabelecimentos
declararam a utilização destes equipamentos, embora a maior parte tenha citado
como equipamentos, “botas” e “chapéus.”
Quanto ao fumo, 41,7% do grupo exposto tinha o hábito de fumar,
enquanto 58,3 % não tinham esse hábito (Tabela 1). Resultado contrário foi
encontrado na pesquisa de Grover et al. (2003), na qual o percentual de fumantes
(61,11%) foi maior que o de não fumantes (38,89%) no grupo exposto. Em relação
ao etilismo, verificou-se um alto consumo de bebidas alcoólicas no grupo exposto e
não exposto (73,3% e 74,5% respectivamente), (Tabela 1). Este dado pode estar
relacionado aos hábitos de vida da população, pois, pesquisa realizada no Estado
com trabalhadores da região sul, também retratou a mesma situação, com
percentual de 55,83% de etilismo para os trabalhadores expostos a agrotóxicos
(CHAVES, 2007). A mesma pesquisadora mostrou que 97% dos agricultores não
costumavam consumir vegetais na dieta, sendo encontrado em nosso estudo 66,7%.
Na literatura o consumo de vegetais é tratado como hábito conservador da
estabilidade genética, podendo fornecer vitaminas antioxidantes que combatem as
espécies reativas de oxigênio (ERDTMANN, 2003). Nos resultados sobre o consumo
de medicamentos, o percentual maior foi para o grupo exposto, tanto para
medicamentos prescritos (33,3%), como os não prescritos (66,7%).
79
Tabela 1: Características da população do estudo exposta e não exposta aos
agrotóxicos em municípios do Piauí (2010).
Características da população
Expostos
n=60
Não expostos
n=55
Idade *34,27 ± 13,10 *32,13 ± 9,46
(18-69) (20-69)
Grupo étnico
Branco - 27,3%
Negro 86,7% 34,5%
Caucasiano 5,0% 30,9%
Outros 8,3% 7,3%
Tempo de trabalho no local (anos) *13,55 ± 11,74 *7,07 ± 7,11
(1-50) (1-31)
Uso de EPIs
Sim 50,0% 9,1%
Não 41,7% 45,4%
Não informado 8,3% 45,5%
Carga horária semanal *(41,5±4,92) *(37,82±7,63)
(15-60) (0-50)
Hábito de fumar**
Não 58,3% 85,5%
Sim 41,7% 14,5%
Consumo de álcool semanal
Sim 73,3% 74,5%
Não 26,7% 25,5%
Consumo de medicamentos
Prescritos 33,3% 29,1%
Não prescritos 66,7% 58,2%
Não informado - 12,7%
Consumo de vegetais
Sim 33,3% 21,8%
Não 66,7% 70,9%
Não informado - 7,3%
Resultados expressos como* média ± desvio padrão e percentual. Dados entre
parênteses correspondem ao valor mínimo e máximo.
5.2Agrotóxicos utilizados nos municípios de Barras e José de Freitas
No momento da entrevista, ao serem indagados sobre a exposição aos
agentes químicos no trabalho, os trabalhadores relataram que se expõem a vários
tipos de agrotóxicos, sendo comum, um mesmo trabalhador, citar mais de um tipo de
“veneno”, que é como eles se referiam aos agrotóxicos.
80
Como mostra a Figura 5, a classe dos agrotóxicos mais utilizados pelos
agricultores dos municípios pesquisados, é a de herbicidas (81,1%), seguido dos
inseticidas (16,3%), ressaltando que 2,6% dos entrevistados referiram não saber
qual produto utilizam, seja por desconhecimento do nome, pela utilização de
misturas complexas ou uso de produtos proibidos. Outros autores relatam
dificuldade para identificação dos agrotóxicos utilizados pelos trabalhadores, assim
como mostram que os herbicidas são também os agrotóxicos mais utilizados na
agricultura confirmando nossos achados (YOUNES, 2000; CAIRES et al.; 2002;
FARIA, et al.; 2004, 2009).
Figura 5: Percentual da utilização de agrotóxicos segundo classe/ação pelos
trabalhadores rurais em municípios do Piauí (2010)
81,1%
16,3%
2,6% Herbicidas
Inseticidas
Não sabe
Os resultados encontrados correspondem aos dados divulgados pela
Associação Nacional de Defesa Vegetal (ANDEF, 2009), onde mostram que, no
Brasil, os herbicidas representam 44,9% do consumo (3,200 milhões de toneladas).
O segundo maior consumo é de inseticidas, com 28,5% (2,027 milhões de
toneladas); em seguida, estão os fungicidas, com 22,1% (1,573 milhões de
toneladas); os acaricidas representam 1,6% (112,8 mil toneladas), e os demais
defensivos agrícolas, 2,9%, (que somam 210,1 mil toneladas) (MENTEM, 2009).
81
Entre os herbicidas, os mais citados pelos trabalhadores foram o Glifosato
(45,9%) e o Roundup (25,7%), cujo ingrediente ativo é o glifosato. Em seguida, o 2,4
D e DMA, com o ácido fenoxiacético como principio ativo (5,4%) e Propanil (4,1%)
(Quadro 6). Segundo dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis – IBAMA (2005), entre os princípois ativos mais consumidos
destacam-se os herbicidas glifosato (34%) e o ácido diclorofenoxiacético – 2,4 D
(6,6%), o óleo mineral (7,1%) e o inseticida metamidofós (6,4%). A grande utilização
dos herbicidas está intrinsecamente relacionada ao tipo de cultivo existente nos
municípios estudados. Como mencionamos no item de caracterização das regiões,
as principais culturas são: arroz de sequeiro; cana de açúcar; feijão macaçar;
mandioca; milho e melancia (CONAB, 2009), algumas das quais são responsáveis
pelo elevado consumo desses produtos (IBAMA, 2005).
Quadro 6: Agrotóxicos referidos pelos trabalhadores em municípios do Piauí (2010)
*Nome
referido
Grupo
químico
Classe /
Ação
Ingrediente
ativo
Classe
toxicológica Nº %
2,4 D
Ácido
ariloxialcanóico
Herbicida
Ácido
fenoxiacético/
2,4D
I 2 2,7
DMA
Ácido
ariloxialcanóico
Herbicida
Ácido
fenoxiacético/
2,4D
I 2 2,7
Propanil Anilida Herbicida Propanil II 3 4,1
Karate Piretróide Inseticida
Lambda
cialotrina
III 3 4,1
Actara Neonicotinoide Inseticida Tiametoxam III 9 12,2
Roundup
Glicina
substituída
Herbicida Glifosato IV 19 25,7
Glifosato
Glicina
substituída
Herbicida Glifosato IV 34 45,9
Não sabe - - - Não sabe 2 2,6
TOTAL 74 100
*Nome do produto referido pelo trabalhador. Nº=Número de vezes em que o agrotóxico foi
citado pelo trabalhador.
A utilização do glifosato na agricultura tem sido crescente nas últimas duas
décadas. O glifosato é irritante dérmico e ocular, podendo causar danos hepáticos e
82
renais quando ingerido em doses elevadas (AMARANTE JUNIOR et al.; 2002). Um
estudo na UNICAMP demonstrou que 61% das intoxicações com agrotóxico no
Brasil, entre 1996 e 2000, são devido a manipulações com glifosato (BOLOGNESI,
2003). O efeito do glifosato no organismo humano é cumulativo e a intensidade da
intoxicação depende do tempo de contato com o produto. Os sintomas de
intoxicação previstos incluem irritações na pele e nos olhos, náuseas e tonturas,
edema pulmonar, queda da pressão sanguínea, alergias, dor abdominal, perda de
líquido gastrointestinal, vômito, desmaios, destruição de glóbulos vermelhos no
sangue e danos no sistema renal (ANDRIOLI, 2005).
O glifosato é do grupo quimico da glicina substituída, sendo herbicidas
indicados para uso em inúmeras culturas agrícolas contra plantas infestantes,
incluído na classe toxicológica IV, considerado como pouco perigoso pela legislação
brasileira, no entanto, Batista et al. (2006) em estudo in vitro de seus efeitos sobre
os eritrócitos demonstraram ação toxicológica sobre a membrana celular com
conseqüências graves para a saúde humana e de animais silvestres e domésticos.
O 2,4 D e o DMA são derivados do ácido fenoxiacético, classificados
como extremamente tóxicos (classe I), são amplamente utilizado no país,
principalmente em pastagens e plantações de cana-de-açúcar, para combate a
ervas de folhas largas. É bem absorvido pela pele, por ingestão e inalação, podendo
produzir neurite periférica e diabetes transitória no período da exposição. Em altas
doses, pode provocar lesões degenerativas hepáticas, renais e do sistema nervoso
central (OPAS/OMS, 1996).
Existem suspeitas de mutagenicidade, teratogenicidade e
carcinogenicidade relacionados aos herbicidas. Estudos epidemiológicos
demonstram diversas associações entre o uso de agrotóxicos e câncer em
humanos, incluindo linfoma não-Hodgkin e câncer de tireóide (INCA, 2006). Em
estudo realizado no Rio Grande do Sul, Dallegrave (2003) detectou a toxicidade
reprodutiva do Roundup em ratos Wistar, como o aumento no percentual de
espermatozóides anormais em puberdade e a redução da produção diária e do
83
número de espermatozóides em idade adulta. Além disso, foram verificados
distúrbios de desenvolvimento e alterações nos tecidos testiculares dos ratos.
Os inseticidas citados nesta pesquisa foram o Actara (12,2%) e o Karate
(4,1%) classificados como medianamente tóxicos (classe III) (Quadro 6). Estudo
realizado no Vale do São Francisco-PE, constatou que a classe de agrotóxicos mais
utilizados foi a de inseticida, que oferece o maior potencial para agravos agudos à
saúde (BEDOR et al.; 2007). O Karate é um piretróide, altamente tóxico e perigoso
para o ambiente. Os piretróides são de fácil absorção pelas vias digestiva,
respiratória e cutânea. Os sintomas de intoxicação aguda ocorrem principalmente
quando sua absorção se dá por via respiratória. São estimulantes do sistema
nervoso central e, em doses altas, podem produzir lesões no sistema nervoso
periférico, não tendo evidências de toxicidade crônica com o uso de piretróides
(MATOS et al.; 2002). Segundo Trapé (2005) neurites periféricas e alterações
hematológicas do tipo leucopenias, são alguns dos efeitos da exposição de longo
prazo aos piretróides. O Actara, que tem como ingrediente ativo o tiametoxam
quando em contato constante, mesmo em pequenas doses, esse inseticida tem
grande potencial carcinogênico (OLIVEIRA et al.; 2009).
Quanto à toxicidade, o percentual dos agrotóxicos mais utilizados,
encontra-se na classe IV (71,6%), considerados pouco tóxicos, seguido da classe III
(16,3%) e classe I (5,4%), conforme ilustrado na Figura 6. De acordo com Garcia
(2005), classificar um agrotóxico segundo sua periculosidade deveria servir como
parâmetro para a definição de medidas de controle e de gerenciamento de riscos,
porém, no Brasil, essa classificação é meramente figurativa, uma vez que não há
diferença em um produto ser da Classe I (extremamente tóxico para o homem) ou
da Classe IV (pouco tóxico para os seres humanos), se eles podem ser
recomendados, comercializados e utilizados da mesma forma e por qualquer
usuário.
84
Figura 6: Percentual da utilização de agrotóxicos segundo classe toxicológica
pelos trabalhadores rurais em municípios do Piauí (2010).
5,4% 4,1%
16,3%
71,6%
Não sabe
2,6%
I II III IV Não sabe
5.3Avaliação bioquímica
Os biomarcadores bioquímicos são importantes ferramentas utilizadas
nos estudos epidemiológicos, buscando-se estabelecer uma relação entre a
exposição aos agentes químicos e os efeitos na saúde dos indivíduos expostos. A
exposição aos pesticidas é conhecida por produzir uma variedade de alterações
bioquímicas, a qual pode ser responsável por efeitos adversos em estudos
experimentais com humanos (HERNÁNDEZ et al.; 2006; LÓPEZ et al.; 2007).
Foram avaliadas as enzimas TGO, TGP, FA e GGT dos indivíduos
expostos e não expostos utilizando o teste t student. A avaliação da atividade
enzimática, além de demonstrar que a exposição excessiva possui significado clínico
ou toxicológico próprio, pode estar associada a um efeito ou uma disfunção do
sistema biológico avaliado (AZEVEDO; CHASIN, 2003).
Como observado na Tabela 2, foi evidenciado que nas dosagens de uréia,
GGT e butirilcolinesterase, as médias encontradas não tiveram diferenças
85
estatisticamente significativas quando comparados entre os grupos. Entretanto nas
dosagens de TGO, TGP e FA, foram encontrados valores com significância
estatística com p < 0,001 confirmando a diferença entre as médias e, na dosagem
de creatinina, evidenciou-se significância p < 0,005.
Tabela 2: Avaliação dos parâmetros bioquímicos em agricultores expostos aos
agrotóxicos em municípios do Piauí (2010)
Grupo Uréia Creatinina
Gama GT
(GGT)
Fosfatase
alcalina (FA)
Butiril-
colinesterase
(BChE)
TGO TGP
Exposto
N=60
30,73±9,23
(12-48)
1,00±0,15*
(0,70-1,70)
16,50±12,09
(3-64)
66,40±19,87***
(41-157)
7.712±2.104
(800-11.000)
32,62±7,62***
(21-63)
37,72±13,84***
(18-86)
Não
exposto
N=55
28,93±5,67
(16-46)
0,94±0,12
(0,70-1,30)
20,07±10,67
(3-57)
40,32±13,26
(16-75)
7.932±1.668
(4.950-11.300)
27,09±4,87
(17-35)
27,05±4,92
(14-37)
Resultados expressos como média ± desvio padrão. Dados entre parênteses correspondem
ao valor mínimo e máximo. Significância em *p< 0,005 e ***p<0,001, em relação aos
trabalhadores não expostos aos agrotóxicos analisados com o teste t.
Embora a média de TGO do grupo exposto (32,62±7,62) esteja no
intervalo do valor de referência (4-36 U/l), observou-se que 33,3% dos trabalhadores
apresentavam esse indicador acima desse valor; enquanto a média de TGP (37,72 ±
13,84) encontra-se elevada em relação ao valor de referência (4-32 U/l). Neste
indicador, 55% dos trabalhadores expostos encontravam-se acima desse valor. A
transaminase TGO é menos específica para se afirmar que existe uma doença
hepática já que também se encontra no músculo cardíaco, nos ossos, rins, cérebro,
pâncreas, pulmões, leucócitos e eritrócitos. A TGP, em geral, é mais especifica do
fígado. Entre os fatores que contribuem para o aumento das transaminases estão o
abuso de bebidas contendo álcool, a exposição a sangue contendo vírus (usuários
de drogas, tatuagens, transfusões) a provável existência de doença biliar, o uso
atual de medicamentos hepatotóxicos, imunossupressão, hepatopatia prévia,
enfermidade cardíaca (MATTOS; DANTAS, 2001). O aumento de TGO é
considerado forte indicativo de lesões crônicas, enquanto o aumento de TGP sugere
lesões agudas, o que, segundo Ramos (2009), pode indicar que esse aumento
significativo no grupo exposto seja uma alteração subclínica estável, que só poderia
86
ser confirmada com acompanhamento médico periódico e possivelmente atestada
por biopsia hepática. Nesta pesquisa, o uso do glifosato pelos trabalhadores foi de
71,6%, o que pode ter contribuido para o aumento desta enzima, pois segundo
Hernandez et al. (2006), a TGO pode ser alterada em exposições aos pesticidas
dentre eles o glifosato, resultando em uma sutil disfunção hepática que poderá
futuramente culminar em citotoxicidade. Estudo realizado por Almeida; Martins
(2008) em população exposta a agrotóxicos encontrou aumento na atividade das
enzimas TGO e TGP em 10% e 16% dos pacientes, respectivamente. A elevação da
TGP é considerada como um parâmetro sensível e precoce das alterações
hepáticas decorrentes de exposições ocupacionais a agentes hepatotóxicos, antes
que lesões irreversíveis se desenvolvam (CARVALHO et al.; 2006).
Na dosagem de FA, alterações significantes (p< 0,001) foram encontradas
no grupo exposto (média=66,40±19,87) em relação ao não exposto
(média=40,32±13,26), encontrando-se acima do valor de referência (13-43 U/I)
(Figura 7). Estudo realizado por Carvalho et al. (1988) detectou níveis
significativamente elevados (p< 0,001) de fosfatase alcalina em aplicadores de BHC.
A exposição ao pesticida genotóxico carbofurano induz estresse oxidativo na célula
aumentando a produção de espécies reativas de oxigênio e de nitrogênio
(MILATOVIC et al.; 2005, 2006).
Figura 7: Dosagem de fosfatase alcalina em trabalhadores expostos aos agrotóxicos e
em indivíduos não expostos a agentes químicos em municípios do Piauí (2010).
A linha contínua indica o limite máximo do valor de referência (43 U/I).
87
Observa-se que a média da gama GT não foi estatisticamente significante
entre os grupos, entretanto, nos dois grupos, foi observado que alguns trabalhadores
apresentaram resultados acima do valor de referência (7 a 40 U/I) (Tabela 2).
Segundo Almeida e Martins (2008), essa variável pode se elevar com o consumo de
álcool, o que pode justificar as alterações encontradas em nossa pesquisa, onde foi
observado elevado consumo de bebida alcoólica no grupo exposto e não exposto
(73,3% e 74,5%). Por estar presente quase na sua totalidade no fígado, a GGT
aparece elevada na maioria das alterações hepatobiliares, sendo um dos testes
mais sensíveis no diagnóstico dessas condições. Estes resultados são semelhantes
àqueles encontrados por esses autores ao estudar o perfil das enzimas hepáticas
em trabalhadores da cultura de alho.
Apesar das alterações dos padrões das enzimas hepáticas serem
relacionadas normalmente a doenças comuns, não se pode descartar a
possibilidade de resultarem de exposição a agrotóxicos, já que a biotransformação
de moléculas químicas ocorre, principalmente, no fígado. Segundo a OPAS/OMS
(1996), a exposição prolongada a múltiplos agrotóxicos afeta diversos órgãos,
incluindo o fígado, podendo causar hepatite crônica, colecistite e insuficiência
hepática. Como mostrado na Tabela 1, o tempo médio de exposição dos
trabalhadores foi de 13,55 anos, que pode ser considerada como exposição crônica,
suficiente para que as alterações hepáticas apresentassem fora dos valores de
referência normais. Nas intoxicações crônicas, por agrotóxicos, o quadro clínico é
indefinido e o diagnóstico difícil de ser estabelecido. Além das várias manifestações
crônicas como neuropatias periféricas, discrasias sanguíneas diversas, lesões
renais, arritmias cardíacas e dermatoses, ou irreversíveis como paralisias e
neoplasias entre outras, também causam lesões hepáticas com alterações das
transaminases e da fosfatase alcalina (ALMEIDA; MARTINS, 2008).
Para a avaliação da função renal, usou-se como biomarcadores a uréia e
a creatinina. A média de uréia no grupo exposto foi 30,73±9,23 e 28,93±5,67 para o
não exposto, ambas consideradas normais para os valores de referencia (10-52
mg/dL), não havendo diferença significativa entre os grupos. Para a dosagem de
creatinina a média foi de 1,0±0,15 para o exposto e 0,94±0,12 para o não exposto,
88
observando-se que ambas estão normais para os valores de referência (0,4-1,3
mg/dL), no entanto, neste biomarcador, foi evidenciada diferença estatisticamente
significativa entre os grupos (p<0,005). Segundo a OPAS (1996), os herbicidas
provocam lesões hepáticas, renais e fibrose pulmonar irreversível. O fígado e os
rins, principais órgãos de biotransformação e excreção de substâncias tóxicas, são
os alvos mais freqüentemente afetados pelos inseticidas (SANTOS et al.; 2007).
Na avaliação da butirilcolinesterase, não foi observado diferença
estatisticamente significante entre os dois grupos. Entretanto, no grupo dos
trabalhadores expostos, 5% apresentaram inibição na dosagem da BChE, dentre
eles o valor mais discrepante foi o out liers de 800 U/I (Figura 8). Esse dado pode
estar relacionado a não utilização na agricultura pelos trabalhadores pesquisados
dos organofosforados e carbamatos, que são os responsáveis pela inibição da
acetilcolinesterase. Essa diminuição também pode estar associada ao consumo
alcoólico, visto que, 73,3% deste grupo, consumiam estas bebidas (Tabela 1), além
da neurotoxicidade o álcool pode causar disfunção hepática e alterações nos testes
de inibição das colinesterases. Estudo realizado por Faria et al. (2009), encontrou
proporção de consumo alcoólico de alto risco mais elevada no grupo com redução
de BChE, sugerindo uma relação entre alcoolismo e intoxicações. Em Nova Friburgo
(RJ), 32% dos trabalhadores com redução de BChE apresentavam hepatopatia
alcoólica. Sendo o alcoolismo um fator de confundimento no diagnóstico diferencial
com a intoxicação crônica induzida por agrotóxicos, cabe registrar ainda que, além
do fator de confundimento, o álcool é um potencializador dos efeitos causados pela
exposição a agrotóxicos (ARAÚJO et al.; 2007).
89
Figura 8: Dosagem de butirilcolinesterase em trabalhadores expostos aos agrotóxicos
e em indivíduos não expostos a agentes químicos em municípios do Piauí (2010).
0
2000
4000
6000
8000
10000
12000
1 3 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 25 27 29 31 33 35 37 39 41 43 45 47 49 51 53 55 57 59
Exposto
Não Exposto
A linha contínua indica o limite mínimo do valor de referência (4.620 U/I).
5.4 Avaliação hematológica
Na avaliação dos parâmetros hematológicos (Tabela 3), não foram
observadas diferenças estatisticamente significantes entre os grupos exposto e não
exposto. A média dos valores encontra-se no intervalo dos valores de referência
(ANEXO C) para esses marcadores, entretanto, na avaliação dos leucócitos,
observou-se que a média do grupo exposto (4.848,06±1270,15), encontra-se abaixo
do valor de referência (5000-10000 mm³), onde 55% dos trabalhadores neste grupo
apresentaram leucopenia (Figura 9).
Tabela 3: Avaliação dos parâmetros hematológicos em agricultores expostos aos
agrotóxicos em municípios do Piauí (2010).
Grupos
Hematócrito
(%)
Hemoglobina
(g/L)
Hemácias
(mm3
)
Leucócitos
(mm3
)
44,44 ± 3,48 15,19 ± 1,37 4,85 ± 0,40 4.848,06 ± 1270,15Expostos
N=60 (33-54) (11,10-18,40) (3,90-5,68) (2.780-7.750)
45,52 ± 2,70 15,54 ± 1,24 4,92 ± 0,28 5.758,00 ± 1135,80
Não Expostos
N=55
(41-52) (13,40-17,60) (4,30-5,60) (4.700-9.800)
Resultados expressos como média ± desvio padrão. Dados entre parênteses correspondem
aos valores mínimos e máximos. Não Significância em relação aos trabalhadores não
expostos analisados com o ”Kruskal-Walls test”.
90
Carvalho et al. (1988), em estudo com aplicadores de DDT, com exposição
atual e antiga (de 5-20 anos), encontrou diminuição significativa no número de
leucócitos quando comparado ao grupo controle. Segundo Trapé (2005), alterações
hematológicas do tipo leucopenia pode ser efeito de exposição em longo prazo aos
piretróides. Entretanto, a leucopenia não pode ser considerada como um único fator
indicativo, uma vez que pode ser influenciada por medicamentos, tais como,
antiarrítmicos, antibióticos, anticonvulsivantes, anti-hipertensivos e os usados para
tratamento do diabetes, além dos agrotóxicos. Nesta pesquisa, o tempo de
exposição dos trabalhadores (13,55 anos), pode ser considerado exposição crônica,
ressaltando que, 33,3% dos expostos usavam medicamento prescrito e 66,7% não
prescritos (Tabela 13), o que pode ter contribuído para a diminuição dos leucócitos.
Segundo Ramos (2009), esta diminuição gera também uma deficiência imunológica,
deixando assim o indivíduo mais vulnerável às doenças oportunistas que, se não
tratada, pode levar o indivíduo a óbito.
Figura 9: Percentagem de trabalhadores expostos aos agrotóxicos em municípios
do Piauí, de acordo com avaliação hematológica para leucócitos (2010).
55,0%
45,0%
< 5000 leucócitos por mm³ > 5000 leucócitos por mm³
Trabalhadores expostos aos pesticidas podem apresentar alterações
hematológicas, mudanças envolvendo a quantidade, qualidade e distribuição das
células sanguíneas (SANTOS-FILHO et al.; 2005; RAMOS, 2009). Segundo
Carvalho (1988), a ação inicial de exposição ao agrotóxico é uma leucocitose,
91
indicando uma tentativa de defesa celular importante do organismo agredido. Nas
fases subsequentes, com o aumento a intensidade de exposição, parece que
começa haver uma lesão significativa no sistema hematopoiético e imune,
ocasionando uma leucopenia acentuada. Segundo Titlic et al. (2008) após exposição
aos pesticidas, vários distúrbios fisiológicos podem se manifestar, dentre eles
diminuição significativa do número de hemácias e leucócitos.
Embora não tenha sido observada diferença estatisticamente significativa
para os valores de hematócrito e hemoglobina entre os dois grupos, foi evidenciado
que 6,7% dos trabalhadores expostos apresentaram valores de hematócrito e
hemoglobina diminuídos, quando comparados neste grupo, com os valores de
referência (ANEXO C). Esses achados poderiam sugerir que essa anemia pudesse
ser decorrente da atividade genotóxica dos pesticidas no gene, que regula a
produção de hemoglobina em resposta a agressão. Vale ressaltar que os efeitos da
intoxicação podem ser agravados em pequenas comunidades rurais pela falta de
saneamento básico, falta de infraestrutura da população, normalmente de baixas
condições sócioeconômicas (VEIGA et al.; 2006). Estudo de Ramos (2009)
encontrou no grupo exposto resultado também indicativo de possível anemia e El-
Sadek e Hassan (1999) encontraram no grupo exposto aos pesticidas uma baixa de
hemoglobina significativa quando comparado ao grupo controle, indicando também
uma possível anemia. Estas observações foram reforçadas por Gamlin et al. (2007)
e Titlic et al. (2008). Remor et al. (2008), estudando os efeitos da exposição a
complexas misturas de pesticidas em trabalhadores rurais de duas comunidades no
Rio Grande do Sul não encontrou diferenças significativas entre os dois grupos de
trabalhadores, onde ambos apresentaram valores hematológicos normais
semelhantes aos valores de referência observados na literatura para várias outras
populações brasileiras, conforme descrito por Karazawa e Jamra (1989). Ratner et
al. (1983) sugeriram que a presença de agrotóxicos nos alimentos e frutas
consumidos diariamente, poderia conduzir a aumento significativo de supressão de
medula óssea em indivíduos normais e, segundo Ahamed et al. (2006) esta
exposição a agrotóxicos pode culminar em anemia aplástica, enquanto para Lafiura
et al. (2007) em leucemias. Law et al. (2006), estudando os casos de anemia
aplástica adquirida (AAA) em doentes com uma história de exposição a pesticidas
92
de áreas agrícolas, identificaram pacientes apresentando grau moderado a severo
de aplasia de medula óssea, como resultado decorrrente de 9-12 anos de exposição
prolongada a pesticidas, expostos basicamente a uma mistura composta por
organofosforados e compostos organoclorados, dado esse que também corresponde
a pesquisa realizada por Ramos (2009) em um município baian. Para Van Maele-
Fabry et al. (2007) a evidência mais forte de um risco aumentado para leucemia
mielóide está nos trabalhadores da fabricação e aplicação de agrotóxicos.
Os conhecimentos sobre as causas ocupacionais e ambientais do câncer
ainda são muito incipientes, somente em 2007, a Agência Internacional para
Pesquisa sobre o Câncer (IARC), identificou 415 agentes cancerígenos conhecidos
ou suspeitos. Nos ambientes de trabalho podem ser encontrados agentes
cancerígenos como o amianto, a sílica, solventes aromáticos como o benzeno,
metais pesados como o níquel e cromo, a radiação ionizante e alguns agrotóxicos,
cujo efeito pode ser potencializado se for somado à exposição a outros fatores de
risco para câncer como a poluição ambiental, dieta rica em gorduras trans, consumo
exagerado de álcool, os agentes biológicos e o tabagismo (INCA, 2006).
5.5Avaliação genotóxica com o ensaio cometa
Nos últimos anos o monitoramento dos efeitos genotóxicos de químicos
em humanos com o objetivo de avaliar os riscos tem aumentado e como resultado
tem sido identificado marcadores da exposição humana a mutágenos e
carcinógenos. O biomonitoramento de populações humanas expostas aos agentes
potencialmente mutagênicos e carcinogênicos pode providenciar informações iniciais
de desrregulações celulares e iniciação do desenvolvimento de câncer. O teste
cometa “in vivo” é bastante usado na avaliação genotóxica com várias
aplicabilidades em vários tecidos e com muita sensibilidade para detectar baixos
níveis de danos ao DNA com pequenos números de células nas amostras biológicas
(BRENDLER-SCHWAAB et al.; 2005). Na versão alcalina pode detectar diferentes
tipos de danos ao DNA em células eucarióticas tratadas in vivo ou in vitro com
agentes genotóxicos com aplicações para o monitoramento humano e seus
93
resultados podem ser correlacionados com os de outros biomarcadores de danos ao
DNA (ALBERTINI et al.; 2000).
Na verificação da ocorrência de cometas em trabalhadores rurais no
estado do Piauí, um total de 11.500 células foi analisado a partir da cultura de
linfócitos do sangue coletado dos indivíduos pesquisados. Foram contabilizadas 100
células (50 células/lâmina) por indivíduo. As fotomicrografias dos núcleos de
linfócitos dos agricultores expostos aos pesticidas de acordo com as classes de
dano: 0, 1, 2, 3 e 4 estão na Figura 10.
Figura 10: Perfil eletroforético das classes de danos em trabalhadores expostos aos
agrotóxicos no Estado do Píauí (2010).
Os danos mensurados correspondem a escores de 0 a 4, sendo
observado diferença significativa (p<0,001) entre os grupos em todos as classes.
Das 6.000 células analisadas no grupo exposto a agrotóxicos observou-se a
presença de danos ao DNA nas classes 1 (baixo nível de dano), 2 (médio nível de
dano), 3 (alto nível de dano) e 4 (dano total), sendo a maior frequência sem dano-
classe 0 (77%), assim como na classe 1 (17,4%) (Figura 11). Vale ressaltar que,
segundo Tice et al. (2000) dependendo da extensão, o dano pode ser reparado.
Esses achados identificam o potencial genotóxico nos linfócitos dos indivíduos do
grupo exposto quando comparados aos indivíduos do grupo controle reforçando a
idéia de que os agrotóxicos são potentes substâncias causadoras de lesão ao DNA.
94
Figura 11: Genotoxicidade em cultura de linfócitos de trabalhadores expostos em
relação aos não expostos às misturas complexas de agrotóxicos segundo classe de
danos, no Estado do Piauí (2010).
Dano 0 Dano 1 Dano 2 Dano 3 Dano 4
77,0%
17,4%
1,8% 1,6% 1,7%
88,8%
8,8%
0,3% 0,2% 0,0%
Expostos Não expostos
Significância em p < 0,001, em relação aos trabalhadores expostos (n=60) e os não
expostos (n=55) analisados pelo teste t.
Danos ao DNA e estresse oxidativo são considerados os mecanismos
observados em estudos epidemiológicos (MUNIZ et al.; 2008) com a exposição
ocupacional aos pesticidas, sendo o monitoramento de populações expostas
importante para estimar os riscos e dentre outros biomarcadores (micronúcleos,
aberrações cromossômicas e quebras de cromátides irmãs), o teste cometa está
bem estabelecido como um teste sensível e rápido para detecção de quebras
simples oriundas de reparo de DNA por excisão incompleta (REMOR et al.; 2008). A
versão alcalina, usada nesse estudo, pode também detectar quebras simples e
duplas e sítios álcalis lábeis o que pode levar às alterações cromossômicas e pode
ser um evento inicial para a carcinogênese e a outras doenças genéticas
(FORCHHAMMER et al.; 2010).
A Tabela 4 mostra os efeitos da exposição aos agrotóxicos em linfócitos
de trabalhadores como observado pelo aumento significante (p< 0,001) do índice e
da frequência de danos em cultura de linfócitos de trabalhadores expostos, em
relação aos não expostos. Resultado semelhante foi encontrado em estudo com
95
trabalhadores envolvidos na produção de uma variedade de pesticidas utilizando o
ensaio cometa, que revelou um aumento de danos no DNA em linfócitos do sangue
periférico (GARAJ-VRHOVAC; ZELJEZIC, 2000). Da mesma forma, estes
pesquisadores estudando possíveis danos genéticos em trabalhadores croatas e
indianos ocupacionalmente expostos a uma mistura complexa de pesticidas mostrou
um aumento nos valores dos parâmetros de ensaio cometa (GARAJ-VRHOVAC;
ZELJEZIC, 2001, 2002). Estudo realizado por Remor et al. (2008) no Rio Grande do
Sul, utilizando o ensaio Cometa em leucócitos do sangue periférico mostrou que o
índice e a frequência de danos ao DNA observados no grupo exposto foram
significativamente maiores em relação ao grupo controle (p≤ 0,01, e p≤ 0,05),
respectivamente, sendo resultado semelhantes encontrados por Muniz et al.; (2008).
Estudos da exposição aos pesticidas usando o teste cometa em linfócitos mostram
resultados positivos entre os danos ao DNA e os níveis de diclodifenol, dicloroetileno
(YANEZ et al.; 2004; PEREZ-MALDONADO et al.; 2006).
Tabela 4: Avaliação genotóxica em agricultores expostos aos agrotóxicos em
municipios do Piauí (2010)
Grupos
Índice de danos (0-
400)
Frequência de danos
(%)
Expostos (N=60)
32,13 ± 18,45***
(7 - 110)
21,82 ± 8,43***
(6 - 50)
Não expostos (N=55)
10,12 ± 4,12
(2- 20)
9,38 ± 3,56
(2 - 18)
Resultados expressos em média ± desvio padrão. Dados entre parênteses correspondem ao valor
mínimo e máximo. 100 células por indivíduo. Significância em ***p< 0,001, em relação aos
trabalhadores não expostos analisado com o teste t.
Estudos de avaliações de riscos em misturas complexas são de difícil
entendimento sobre os químicos que a compõem no sentido da identificação de
compostos que tenham efeitos tóxicos e/ou genotóxicos, devido aos efeitos
antagônicos e/ou sinergísticos dos compostos presentes na mistura (ERGENE et al.;
2007). Trabalhadores envolvidos na fabricação de pesticidas com mais de 10 anos
de exposição apresentaram o comprimento da cauda do cometa, significativamente
aumentado. Os efeitos genotóxicos em trabalhadores expostos a pesticidas foram
96
relatados com o aumento da duração da exposição (CARBONELL et al.; 1993;
PADMAVATHI et al.; 2000; GROVER et al, 2003).
5.6Correlações com fatores de riscos não ocupacionais e entre os
biomarcadores.
Indivíduos expostos a pesticidas apresentam alterações em diferentes
biomarcadores, entre eles o ensaio cometa (SHAHAM et al.; 2001, GROVER et al.;
2003, SAILAJA et al.; 2006). Muitos são os fatores responsáveis pela modulação
dos efeitos da exposição a pesticidas, entre eles, a utilização ou não de
equipamentos de proteção individual, tempo e condições de exposição, como
também variações individuais nos genes de metabolização de xenobióticos e de
reparo de DNA, estes conhecidos como biomarcadores de susceptibilidade
(BOLOGNESI, 2003; BULL et al.; 2006; HEUSER et al.; 2007).
Em nossa pesquisa, a análise estatística mostrou não haver significância
(p>0,005) entre os danos no DNA em relação às variáveis: tempo de trabalho, não
uso de EPI, hábito de fumar, consumo de álcool e não consumo de vegetais (Tabela
5). Os resultados do nosso estudo são semelhantes àqueles encontrados por
Castillo-Cadena et al. (2006), que estudou danos no DNA em floricultores
cronicamente expostos a pesticidas, mostrando não haver correlação significativa
entre os danos no DNA e sexo, idade, hábito de fumar ou beber, uso de
equipamentos de proteção, bem como de anos de exposição. Speit et al. (2003),
investigou o efeito do cigarro em fumantes e não fumantes e não encontrou
diferenças significativas entre os dois grupos.
97
Tabela 5: Correlações entre os fatores de risco não ocupacionais com os danos ao
DNA de agricultores do Piauí expostos aos agrotóxicos, 2010.
Teste do cometa em linfócitos
Indice de Danos (ID) Frequencia de Danos (FD)Fatores de risco
não ocupacionais
Expostos Não expostos Expostos Não expostos
Idade* -0,017 0,332* 0,010 0,345*
Tabagismo* 0,012 -0,096 -0,044 -0,096
Etilismo* -0,110 0,196 -0,018 0,234
Não Consumo de
Vegetais*
0,039 0,030 -0,108 -0,003
*Coeficientes de correlações não paramétricas de Sperman (r); Significancia para p<0,05.
Considerando que não foram observadas correlações entre as variáveis,
índice de dano e frequência de danos observados em cultura de linfócitos de
trabalhadores expostos aos agrotóxicos com os fatores de riscos não ocupacionais,
tais como idade, tabagismo, etilismo e não consumo de vegetais, o estudo sugere
que há uma maior probabilidade do efeito genotóxico ser decorrente da exposição
dos trabalhadores aos agrotóxicos, visto que, não foram encontradas correlação de
variáveis extrínsecas em relação aos resultados do cometa, sugerindo que as
alterações no DNA foram observadas, principalmente devido ao efeito dos
agrotóxicos, mas, cabe enfatizar que os danos identificados são possíveis de serem
reparados por inúmeros mecanismos de reparo. A maquinaria de reparo de DNA é
importante na prevenção da acumulação de danos ao DNA e protege contra uma
variedade de cânceres (GILLET; SCHAERER, 2006). Em estudos de
biomonitoramento, o dano genético associado com pesticidas tem sido detectado
para níveis de exposição alta, uso intensivo ou por causa do mau uso ou da falta de
medidas de controle (GONZÁLEZ et al.; 1990; BOLOGNESI; MORASSO, 2000).
Os resultados do presente estudo estão em concordância com autores
que utilizaram o ensaio do teste cometa como um excelente biomarcador e tem
correlacionado aumento do dano ao DNA com exposição extensiva a pesticidas
(PACHECO; HACKEL, 2002; MUNIZ et al.; 2008; RAMOS, 2009). Os testes para o
98
biomonitoramento de danos ao material genético são de importância para a
avaliação de efeitos crônicos de agentes mutagênicos, que não são detectados em
exames comumente usados para avaliação clinica, portanto devem ser
implementados para uma maior segurança sobre os possíveis danos genéticos,
como uma forma de prevenção para futuras doenças relacionadas à instabilidade do
material genético, a exemplo das neoplasias malignas que normalmente acontecem
após anos de exposição aos agentes mutagênicos e carcinogênicos, a exemplo dos
agrotóxicos (SAFFI, 2003).
99
CONSIDERAÇÕES FINAIS
100
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A exposição aos agrotóxicos pode causar uma variedade de efeitos à
saúde humana que se expressam de imediato ou levam anos para se manifestarem.
A Secretaria de Estado da Saúde, preocupada com a saúde dos trabalhadores rurais
piauienses, vem desenvolvendo pesquisas no intuito de prevenir agravos à saúde
desses trabalhadores, apontando o biomonitoramento como a melhor forma de
acompanhamento.
A faixa etária dos trabalhadores foi, em média, de 34 anos, de etnia
negra, na maioria, com tempo de trabalho, em média de 13,55 anos e carga horária
acima de 40 horas semanais, onde 50% dos trabalhadores utilizavam pelo menos
um tipo de EPI.
Em relação aos fatores não ocupacionais, 41,7 % dos trabalhadores,
relatou ter o hábito de fumar e 73,3% consumiam bebidas alcoólicas. Sobre o
consumo de medicamentos, foi encontrado o consumo, tanto para medicamentos
prescritos (33,3%), como os não prescritos (66,7%). Quanto aos hábitos alimentares,
66,7% dos entrevistados, informou não incluir vegetais na dieta.
Neste estudo constatou-se o uso de uma diversidade de agrotóxicos
utilizados pelos agricultores, pertencentes, na sua maioria da classe toxicológica III e
IV, sendo os mais utilizados os herbicidas (81%), seguido dos inseticidas (16,3%).
Entre os herbicidas, o mais citado foi o glifosato (71,6%) e na classe inseticida, o
grupo químico dos neonicotinoides (12,2%) e piretróides (4,1%).
Na avaliação dos marcadores bioquímicos, alterações significantes foram
observadas nos individuos expostos para creatinina, TGO, TGP e fosfatase alcalina,
enquanto para uréia, e Gama GT, não houve significância. Na butirilcolinesterase,
também não foi observado significância, mas houve inibição em 5% do grupo
exposto.
101
Não foram observadas alterações significantes na avaliação dos
parâmetros hematológicos, embora 55% dos expostos tenham apresentado
leucopenia quando comparados aos valores de referência.
Genotoxicidade em linfócitos de sangue periférico foi indicada pelos
significantes (p<0,001) aumento dos índices e da frequência de danos em
trabalhadores expostos a agrotóxicos, em relação aos não expostos com aplicação
do ensaio cometa. Esses dados sugerem riscos de instabilidade genética,
entretanto, os danos observados com o teste podem ser alterados devido aos
inúmeros mecanismos de reparo.
Não foram evidenciadas correlações significativas entre os fatores de
riscos não ocupacionais em relação aos resultados do cometa, sugerindo que as
alterações no DNA foram observadas, principalmente devido aos efeitos dos
agrotóxicos.
Os estudos de biomonitoramento de populações expostas a agrotóxicos
são bastante específicos, na medida em que as populações têm diferentes estilos de
vida, hábitos alimentares, condições climáticas e ambientais e estão expostos a
diferentes misturas de produtos químicos. Talvez isto pudesse explicar porque
alguns estudos têm encontrado aumento significante de danos genéticos em
populações expostas a agrotóxicos e, em outros estudos, os resultados são
negativos. Embora o nível de exposição possa ser considerado significativo e as
informações disponíveis sobre a genotoxicidade de vários dos agrotóxicos utilizados,
falta informações relativas aos efeitos genotóxicos das misturas complexas.
Torna-se necessário educar aqueles que trabalham com agrotóxicos
sobre os riscos potenciais da exposição ocupacional e a importância da utilização de
medidas de proteção, já que os pequenos agricultores, em seu cultivo não estão
expostos a um único tipo de agrotóxico, mas sim a vários, havendo uma
multiplicidade de exposições, normalmente constantes e de longo prazo.
102
CONCLUSÃO
103
7 CONCLUSÃO
Podemos concluir que os trabalhadores rurais dos municípios
pesquisados apresentam riscos de toxicidade e danos genotóxicos devido à
exposição ocupacional de misturas complexas de agrotóxicos.
104
RECOMENDAÇÕES
105
8 RECOMENDAÇÕES
A constatação de que existe grande utilização de agrotóxicos nos
municípios pesquisados, implica numa preocupação quanto à saúde dos
trabalhadores e os impactos causados ao meio ambiente.
Deixar de utilizar os agrotóxicos nas lavouras, em curto prazo, pode ainda
não ser uma condição real, pois as alternativas existentes necessitam de maior
organização e maior apoio técnico, principalmente para os pequenos produtores,
para que possam alcançar os níveis desejados de produção agrícola e viabilidade
comercial. Até que se alcance esse objetivo, deve-se, portanto, adotar políticas que
minimizem, consideravelmente, o impacto desse modelo tecnológico de produção na
saúde e no ambiente. Neste sentido, sugere-se:
Maior fiscalização para o cumprimento da legislação vigente de
maneira a preservar a saúde dos trabalhadores e da população;
Execução de ações integradas entre as diversas instituições, tais
como as Secretarias de Saúde e Educação dos municípios,
Universidades, FETAG, Sindicatos, Superintendência Regional do
Trabalho, Ministério Público do Trabalho e Ministério Público
Estadual, dos diversos órgãos que atuam na proteção do meio
ambiente, entidades de classe, que possam promover a melhoria da
escolaridade das comunidades;
Participação dos trabalhadores rurais e da comunidade nas
discussões informativas, avaliativas, decisórias e na elaboração e
implementação de propostas que evitem o uso indiscriminado dos
agrotóxicos, visando reduzir um grande problema, tanto
agropecuário como de saúde pública nas suas comunidades;
Monitoramento dos mananciais de água para abastecimento que
estão sob risco de contaminação por resíduos de agrotóxicos;
Incentivo ao produtor, através de políticas públicas, garantindo que
antes do recebimento do crédito para aplicação na agricultura,
106
possam receber orientação técnica, com o objetivo da certificação
das boas práticas agrícolas;
Formação e capacitação dos profissionais de saúde para a
intervenção nos problemas de saúde e meio ambiente relacionados
ao uso de agrotóxicos.
Novos estudos são necessários para avaliar os principais tipos de riscos
que acometem os trabalhadores, através de estudos toxicológicos, clínicos e
epidemiológicos, para uma melhor compreensão da saúde desses trabalhadores e
dos riscos causados pelo uso indiscriminado por agrotóxicos, bem como a
organização de serviços locais integrados de saúde do trabalhador para a vigilância
e assistência à saúde, articulando os aspectos ambientais, epidemiológicos, clínicos
e de educação, na promoção e proteção da saúde e do meio ambiente.
Espera-se que os resultados aqui apresentados possam somar a outros
estudos relacionados aos danos produzidos pelos agrotóxicos à saúde dos
trabalhadores rurais, contribuindo para evidenciar esses agravos à saúde visando à
criação de uma consciência ética acerca do problema por parte de órgãos e
instituições responsáveis.
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123
APÊNDICES E ANEXOS
124
APENDICE A: TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (TCLE)
Você está sendo convidado a participar de uma pesquisa. Sua participação
é importante, porém, você não deve fazer contra a sua vontade. Leia atentamente as
informações abaixo e faça qualquer pergunta que desejar para que todos os
procedimentos desta pesquisa sejam esclarecidos.
Devido ao fato de algumas substâncias poderem alterar o DNA das células
do homem tornando-o mais propenso a desenvolver alguma forma de doença, torna-
se importante e necessário a avaliação destas substâncias quanto aos possíveis
efeitos causadores de doenças.
A presente pesquisa objetiva avaliar o potencial das substancias utilizadas
como agrotóxicos na lavoura, quanto a possibilidade de alterar o DNA.
Estudo desse tipo poderá contribuir para o conhecimento dos efeitos
dessas substancias que são usadas rotineiramente na lavoura, quanto a
possibilidade de alterar o DNA das células do ser human. Essa pesquisa se baseia
em estudo experimental em que os benefícios aos voluntários serão de forma
indireta, ao se verificar os efeitos mutagênicos desses agrotóxicos.
Para a realização da pesquisa, necessitamos de sua colaboração
voluntária, de 10mL de seu sangue, que será coletado por pessoal devidamente
treinado e habilitado do Laboratório Central de Saúde Pública do estado do Piauí. A
retirada de sangue é um procedimento seguro e pode causar um leve desconforto.
Pode ocorrer uma mancha roxa no local da picada da agulha que, normalmente,
desaparece logo. Esta coleta terá como objetivo a obtenção de células do sangue, a
partir do sangue total. Também, será necessário responder as perguntas feitas em
entrevista baseados em um questionário simples.
Para ser voluntário é condição indispensável que esteja em boa saúde, e,
portanto não esteja, no momento, sob tratamento médico ou fazendo uso de
medicações regulares.
A pesquisa será desenvolvida pela nutricionista Vera Regina Cavalcante
Barros Rodrigues, aluna do mestrado em Farmacologia Clínica, do Departamento de
Fisiologia e Farmacologia da Universidade Federal do Ceará, e pelos pesquisadores
do referido projeto. O material colhido será usado exclusivamente para a realização
desta pesquisa e os dados obtidos serão encaminhados para publicação em
125
congressos e revistas especializadas, sendo mantido o sigilo e respeitando a
privacidade dos seus voluntários. Os resultados dos exames laboratoriais serão
entregues a todos os participantes voluntários da pesquisa através do Centro de
Referência em Saúde do Trabalhador em parceria com as Secretarias Municipais de
Saúde. A qualquer momento você poderá se retirar e/ou solicitar informações sobre
a pesquisa.
Você poderá entrar em contato com o responsável pela pesquisa no
endereço:
Instituição: Centro Estadual de Referencia em Saúde do Trabalhador-
CEREST
Endereço: Av. Pernambuco, 2464-Bairro Primavera – Teresina – PI
Telefones para contato: (86) 3217-3782 e 3221-1069
Declaro, que após convenientemente esclarecido pelo pesquisador e ter
entendido o que me foi explicado, concordo conscientemente em participar da
presente pesquisa, doando 10 ml de sangue.
Endereço:_______________ ____________________________________
CPF:______________________Identidade: ________________________
______________,_______de ________de 20___.
________________________________________________________
Assinatura do Voluntário
________________________________________________________
Assinatura do Pesquisador
126
APENDICE B: Fotos
Palestra Aplicação do Questionário
Aplicação do Questionário Coleta de sangue
127
APENDICE B: Fotos
Modo de Trabalho
M
128
APÊNDICE C: Trabalhos apresentados em congressos científicos
RISCOS MUTAGÊNICOS E DE ANORMALIDADES NUCLEARES EM AGENTES
ENDÊMICOS DE PRIRIPIRI-PIAUÍ EXPOSTOS A ALFACIPERMETRINA AVALIADOS
COM O TESTE DE MICRONÚCLEOS
A alfacipermetrina é um composto químico usado da formulação do
inseticida comumente utilizado no combate ao mosquito Lutzomia
longipalpis, vetor da doença Leichmaniose visceral, em Piripiri-PI, como
ectoparasiticidas e inseticidas em produções agrícolas e programas de
saúde pública, como o controle da Dengue (MANNA et al., 2004). Os
agentes sanitários que trabalham diariamente no combate a esta doença
estão sujeitos aos riscos ocupacionais ocasionados pela
alfacipermetrina. Estudos citogenéticos mostram que essa droga inibe
ciclo celular na fase S, em raízes de Hordeum vulgare L. com efeitos
tóxicos em organismos aquáticos, como também efeitos clastogênicos. A
freqüência de micronúcleos em células epiteliais de mucosa bucal tem
sido usada como um biomarcador de genotoxicidade em exposição
ocupacional ao piretróide alfacipermetrina. anormalidades nucleares tais
como as cariorrexes, cariólises e células binucleadas também são
usadas como marcadores de genotoxicidade. O estudo teve como
objetivo a avaliação de riscos mutagênico em agentes de endemias,
com o uso do teste de micronúcleos. Diante do exposto o Governo do
Estado do Piauí, através da Secretaria de Saúde vêm monitorando
trabalhadores expostos a riscos genotóxicos, como uma Política de
Saúde Pública, dentro do SUS.
MATERIAIS E MÉTODOS
Avaliação citogenética- micronúcleo em mucosa bucal
O teste de micronúcleos (Figura 1) em células esfoliadas de mucosa
bucal (Figura 2) foi realizado segundo Salaija et al. (2006). As lâminas
foram coradas com Giemsa a 2 %. 2000 células foram avaliadas para
cada indivíduo. As anormalidades nucleares pertinentes à apoptose
foram avaliadas de acordo com Holland et al. (2008). O estudo foi
realizado em 22 agentes de endemias do município de Piripiri, PI, e em
18 trabalhadores administrativos não expostos.
CONCLUSÕES
A exposição ocupacional a alfacipermetrina não induz
mutagenicidade em células esfoliadas de mucosa bucal, entretanto
outras anormalidade nucleares que indicam danos ao DNA foram
evidenciadas a exemplo das cariorrexes e carólise que levam a
apoptose das células e as células binucleadas que são indicativas de
citotoxicidade. Os dados indicam a necessidade do biomonitoramento
desses profissionais da saúde. O teste de micronúcleos é um
importante biomarcador de mutagenicidade.
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ALENCAR, D.3; MELO-CAVALCANTE A.C.1,3,
1Centro de Referência em Saúde do Trabalhador; 2Vigilância Sanitária do Piauí e Faculdade NOVAFAPI; 3Labaratório de Genética Toxicológica do
Laboratório Central de Saúde do Piauí; 4Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da Universidade Federal do Ceará.
Coloração
Fixação
Coleta
de
células
Transporte
em PBS
Centriugação
Preparo
das
lâminas
Observação
Figura 2 Esquema do teste de Micronúcleo em células de mucosa bucal
Figura 2 Estrutura e diferenciação do epitélio oral. (A) Fotomicrografia
mostrando os diversas camadas do epitélio oral, que consiste de 5 camadas:
(i) Camada queratinizada; (ii) Estrato espinhoso; (iii) estrato basal; (iv) “rete
pegs”, (v) lâmina própria (tecido conectivo). (B) Esquemas das camadas de
células da mucosa bucal. Fotomicrografia e esquema Adaptado de Holland et
al., 2008.
Características da população Expostos a alfacipermetrina
(N = 22)
Não expostos
(N = 18)
Idade 38, 68 ± 10,46 (23 – 64) 32,72 ± 8,13 (20 - 46)
Grupo étnico
• Branco
• Negro
• Caucasiano
31,8%
9,1%
40,9%
5,6 %
50%
44,4%
Tipo de trabalho
• Agentes de endemias
• Manutenção
• Administrativo
100% -
27,30 %
72,7%
Tempo de trabalho no local 10,32 ± 7,79 (4 – 43) 7,02 ± 1,0 (1 - 27)
Uso de EPIs
• Sim
• Não
• Não informado
40,9%
54,5%
4,5%
88,9 %
Carga horária semanal 40,18 ± 0,85 (40 - 44) 34,11 ± 10,66 (1 - 50)
Hábito de fumar
• Não
• Sim
• Quantidade de carteiras de cigarros por dia
88,8%
13,6%
3, 73 ± 0,88 (1 -5)
55,6%
5,6 %
1, 78 ± 0,54 (0- 2)
Consumo de álcool semanal
• Cerveja
• Cachaça
1,64 ± 0,43 (1 -6)
3,14 ± 1,85 (1-5)
1,22 ± 0, 46 (1 -2)
6,50 ± 4,73 (0 – 11)
Consumo de medicamentos por dia
• Transcritos
• Não transcritos
0,31 ± 0,10 (0 – 3)
0,32 ± 0,83 (0 – 3)
1, 22 ± 0,83 (0 – 4)
2,06 ± (0 -9)
Consumo de carne em dias por semana
• Bovina
• Galinha
• Peixe
2,05 ± 1,25 (1 – 6)
2, 86 ± 1,16 (1 – 6)
2,64 ± 0,23 (1-¨6)
1,00 ± 0,00 (0 -1)
1,44 ± 0,50 (1 – 5)
1,00 ± 0,01 (1-2)
Consumo de vegetais
• Sim
• Não
5,0%
9 5,5%
77,8%
22,2
Tabela 1 Características da população de agentes de endemias dos municípios de Piripiri, Piauí expostos à
alfaciperetrina e de trabalhadores administrativos não expostos, da cidade de Teresina, ano de 2009
Grupos Micronúcleosa Frequência (%) de MN
Expostos (N=22) 1,31 ± 0,200 (0 -3) 0,06 ± 0,01
Não expostos (N=18) 0,83 ± 0,23 (0 – 3) 0,03 ± 0,01
Tabela 2 Avaliação mutagênica em células esfoliadas de mucosa bucal de agentes de endemias do município de Piripiri,
PI expostos à alfacipermetrina, no ano de 2009, com o teste de micronúcleos (MN)
2000 células por indivíduo. a Média ± erro padrão. Significância em ***P<0,001, em relação aos trabalhadores não expostos analisado com o teste t.
Exposto
s
N
ão
exposto
s
0.00
0.05
0.10
0.15
0.20
Frequência(%)deMN/2.000células
E
xp
osto
s
N
ão
ex
p
ost
o
s
0
20
40
60
80
100
***
Grupos
Frequência(%)decariorrexe/2000células
Exposto
s
N
ão
exposto
s
0
20
40
60
80
100
Grupos
Frequência(%)decariólise/2000células
Exp
os
to
s
N
ão
ex
post
os
0
20
40
60
80
100
***
Grupos
Frequência(%)debinucleadas/2000células
Tabela 4 Anormalidade nucleares identificadas em células de mucosa bucal de agentes endêmicos expostos
à alfacipermetrina em Piripiri, Piauí, ano de 2009
Anormalidades nucleares Cariorrexe b Frequência (%) de
Cariorrexe b
Cariólise b Frequência (%) de
Cariolise b
Células
Binucleadas b
Frequência (%) de
Binucleada
Expostos (N=22) 900,0 ± 51,19a***
(418 – 1294)
45,40 ± 2,42a*** 98,73 ± 12,89
(18 - 216)
4,92 ± 0,64 32,36 ± 6,22a***
(0 – 92)
1, 61 ± 0,31 a***
Não expostos (N=18) 551,2 ± 46,27
(305-958)
27,42 ± 2,3 73,44 ± 10,36
(10 -140)
3,67 ± 0,51 5,57 ± 0, 72
( 0 – 10)
0,28 ± 0,03
a2000 células por indivíduo. bMédia ± Erro padrão. Resultados expressos em Média ± Erro padrão. Significância em ***P < 0,001, teste t., em relação aos trabalhadores não expostos.
CB
A D
Figura 3 Mutagenicidade e danos genético induzidos pela alfacipermatrina em agentes endêmicos após exposição ocupacional no município de Piripiri-PI, ano
de 2009. (A) frequência de MN; (B) Cariorrexe; (C); Cariólise e (D) Células binucleadas. Significâncias de P<0,001, teste T, em relação aos trabalhadores não
expostos
RESULTADOS E DISCUSSÕES
As características da população estudada estão apresentadas na Tabela
1. Avaliações estatísticas dos biomarcadores citogenéticos não indicam
diferenças significativas para a freqüência de micronúcleos ( Tabela 2 e
Figura 3A). Entretanto, significantes (P<0,001) aumentos foram
observadas para as cariorrexes (45,40 ± 2,42 X 27,42 ± 2,30) e células
binucleadas (1,63 ± 0,31 X 0,28 ± 0,03) em relação ao grupo não exposto
(Figura 3B, C e D). Os resultados sugerem que a exposição ocupacional
ao piretróide alfacipermetrina induz apoptose e citotoxicidade em células
de mucosa bucal dos agentes endêmicos do município de Piripiri, Piauí.
Trabalho apresentado no XV Congresso Brasileiro de Toxicologia, em Belo Horizonte, de 10 a
14/10/2010
129
Trabalho publicado no livro Saberes e Práticas em Saúde no Piauí. p. 104.
130
Trabalho apresentado no XV Congresso Brasileiro de Toxicologia, em Belo
Horizonte-MG, de 10 a 14/10/2010 e publicado no livro Saberes e Práticas em
Saúde no Piauí. p. 99.
131
Apoptose e necrose em agricultores expostos aos agrotóxicos em municípios do Piauí.
Trabalho apresentado no III Congresso Piauiense de Biomedicina, realizado em
Teresina-PI, de 9 a 11/09/2020.
132
ANEXO A: APROVAÇÃO DO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
133
ANEXO B: QUESTIONÁRIO DE SAÚDE PESSOAL
(De acordo com modelo recomendado por: International Commission for Protection
against Environmental Mutagens and Carcinogens (ICPEMC) Mutation Research,
204:379406, 1988)
Este questionário, assim como o estudo a ele relacionado, deve ser de seu
interesse. A participação e espontânea e constará destas informações gerais sobre
saúde e dieta, mais uma coleta de sangue para estudo citogenético. O estudo
consiste em uma avaliação de mutações nos cromossomos de cada participante.
Mutações cromossômicas ocorrem normalmente nas células de todas as pessoas
em nível bastante baixo, e são apontadas, entre outros efeitos, nos processos de
envelhecimento e do câncer. Trabalhadores em atividades de risco (por exemplo,
radiologia, quimioterapia, uso de óxido de etileno e outras), se não seguirem normas
adequadas de segurança, podem aumentar a frequência de mutações
cromossômicas em suas células. Este estudo poderá servir como sinal de alerta
para prevenir e melhorar as condições de segurança. Caso não se encontrem
diferenças entre trabalhadores de atividades de risco e outros de atividades
diversas, poderemos concluir que os itens de segurança são efetivos neste aspecto.
Isto servirá de estímulo para continuar tomando cuidados com a vida no local de
trabalho.
Leia e responda cuidadosamente as seguintes questões. A informação dada por
você não será associada com o seu nome, sendo conhecida apenas pelos
pesquisadores associados a este estudo. As respostas deste questionário poderão
ter influência direta na interpretação de nossos resultados. Por isso, contamos com
sua cooperação em fornecer informações corretas.
Obrigado pelo seu interesse.
1.Nome:____________________________________________________
2.Para ser preenchido pelo pesquisador: Código nº:_____________ .
Data: _____________________
Essa folha será destacada das demais do questionário e arquivada. Apenas o
número do código será usado como identificação nas próximas páginas. Se espaços
adicionais forem necessários para completar uma resposta, por favor escreva atrás
da página e identifique o complemento da resposta com o número da questão.
HISTÓRIA PESSOAL
3.Data de hoje:_______________________ ____________________
4.Qual a sua idade? _______________(em anos).
5. Sexo: ( )Masculino ( )Feminino
6.A qual grupo étnico você pertence:
( )Caucasiano ( )Negro ( )Chinês ( )Japonês
( )Outro. Qual?____________________________________________ .
7.Qual o seu estado civil?
( )Casado ( )Solteiro ( )Separado ( )Divorciado ( )Viúvo
8.De quantos filhos você é pai natural (isto é, não inclua filhos adotados e de
criação, e inclua filhos que moram separadamente)?_____________________
9.Qual a renda mensal de sua família? ___________________________
HISTÓRIA OCUPACIONAL
10. Qual o seu local de trabalho? _______________________________.
11. Há quanto tempo você trabalha neste local? ___________________
134
12.Se há menos de dez anos, onde você trabalhou previamente e por quanto
tempo? _____________________________________________________
13. a)Que tipo de trabalho você faz? ____________________________
13.b)Qual a carga horária semanal de trabalho?____________________
EXPOSIÇÃO
14. a) Liste os agentes químicos (por exemplo, gases tóxicos, benzeno, chumbo,
fármacos, agrotóxicos,etc.) ou físicos (radiação) a que você se expôs nos últimos 10
anos em seu trabalho.
Nos últimos 12 meses: Quantas vezes por mês:____________________
Nos últimos 10 anos: Quantas vezes por mês :_____________________
14.b)Você usa algum tipo de proteção? ( ) Sim ( ) Não
15. Liste os agentes químicos (agrotóxicos e outros que julgar necessário) ou físicos
a que você se expôs nos últimos 10 anos fora de seu trabalho.
Nos últimos 12 meses: Quantas vezes por mês: ____________________
Nos últimos 10 anos: Quantas vezes por mês: _____________________
HISTÓRIA DE FUMO
16. Alguma vez você fumou? ( )Sim ( )Não
Se sim, continue:
a).Quanto tempo você fumou?_____________________(em anos)
b).Você fuma atualmente? ( )Sim ( )Não Se sim, passe para a 16 c.
Se não: Quando você parou de fumar?_________________(mês e ano).
c).Você fuma cigarros? ( )Sim ( )Não
Se sim, quantas carteiras por dia? ( ) Menos de ½ carteira ( )½ a 1 carteira
( ) Mais de 1 carteira. Quantas?____________
Você fuma cigarros com filtro? ( )Sim ( )Não
Qual a sua marca usual?_________________________________ .
d).Você fuma charutos? ( )Sim ( )Não
Se sim, quantos charutos por dia? ( )1 charuto ( )2 a 3 charutos ( )
4 ou mais charutos. Quantos?__________
e).Você fuma cachimbo? ( )Sim ( )Não
Se sim, quantas vezes por dia? ( )1 vez ( ) 2 a 3 vezes ( ) 4 ou mais vezes.
Quantas?_________
f)O que você fumava no passado? ( ) Cigarros ( ) Charutos ( ) Cachimbo
g)Você mastiga tabaco? ( ) Sim ( )Não
MEDICAMENTOS E DOENÇAS
17.Você tem tomado algum medicamento prescrito pelo médico no último ano (por
exemplo, comprimidos para pressão, insulina, tranquilizantes, relaxantes
musculares, etc.)? ( )Sim ( )Não
Se sim, por favor indique:
Período.Tipo de medicamento: Dose: Quantos por dia: Início (mês): Término(mês):
________________ ________ ___________ _________
18.Você tem tomado algum medicamento não prescrito por médico no último ano
(por exemplo, aspirina, antiácidos, antihistaminas,sedativos ou outras drogas)? ( )
Sim ( )Não
Se sim, por favor indique:
Período: Tipo de medicamento: Dose: Quantos por dia: Início(mês):
Término(mês):_________ ________ ________ ___________ _________ ______
135
19. Você toma ou tomou alguma vitamina nos últimos 6 meses? ( )Sim
( )Não Se sim, por favor indique:
Tipo de vitamina: Dose: Quantas vezes por semana: ________________
20.a)Você teve ou tem alguma dessas doenças?
Câncer ( )Sim ( )Não
Hepatite ( )Sim ( )Não
Mononucleose ( )Sim ( )Não
Herpes ( )Sim ( )Não
AIDS ( )Sim ( )Não
Meningite ( )Sim ( )Não
Infecção bacteriana ou viral ( )Sim ( )Não
Doença cardiovascular ( )Sim ( )Não
Diabete ( )Sim ( )Não
Outras doenças importantes ( )Sim ( )Não
b).Se sim, indique abaixo:
Doença: Período da doença: Tratamento:
________________ _________________ _____________
c).Liste as vacinações que você recebeu nos últimos 12 meses.
Vacina: Data:
___________________________ ___________________
d).Liste os raiosX diagnósticos e terapêuticos, recebidos nos últimos 10 anos.
Razão para o raioX Data(ano)
______________________________________ _______________
e).Você fez alguma cirurgia durante o último ano?
Data: Razão:
______________ _______________________________________
f).Dê as datas de quando você teve febre nos últimos 12 meses.
Data(mês): Doença associada: Medicamento tomado:
_______________ ____________________________________
DIETAS
(deve refletir apenas os hábitos frequentes)
21. Você come apenas vegetais? ( )Sim ( )Não
22. Você come carne? ( )Sim ( )Não
a).Se sim, com que frequência você come o seguinte:
Dias por semana 1 a 2 3 a 4 5 a 6 Todos os dias
Carne bovina
Peixe
Porco
outras
b).Como você prefere sua carne? ( )Mal passada ( )No ponto ( )Bem passada
23.Você usa adoçantes? ( )Sim ( )Não Quantos por dia? ___________
24.Você bebe refrigerantes? ( )Sim ( )Não Quantos por dia?_________
25. Comente sobre sua dieta, caso ela tenha algo de especial (por exemplo, dieta
rica em proteínas e pobre em carbohidratos, etc)
._________________________________________________________________
26.Você bebe café? ( )Sim ( )Não Quantos xícaras pequenas por dia?__
27. Você bebe chá? ( )Sim ( )Não Quantos xícaras por dia?__________
136
28. Você toma chimarrão? ( )Sim ( )Não Com que frequência? _______
29. Você bebe cerveja? ( )Sim ( )Não
Se sim, por favor indique sua média de consumo semanal:
( )1-6 garrafas por semana ou menos. ( )7-12 garrafas por semana.
( )13-24 garrafas por semana. ( ) Mais de 24 garrafas por semana.
Quantas?_________________ .
30. Você bebe vinho? ( )Sim ( )Não
Se sim, por favor indique sua média de consumo semanal:
( )1-4 copos por semana ou mais. ( )5-8 copos por semana.
( )9-16 copos por semana. ( )Mais de 16 copos por semana.
Quantos?_______________________ .
31.Você bebe outras bebidas alcoólicas (excluindo cerveja e vinho)?
( )Sim ( )Não Se sim, qual ou quais? ___________________________
Por favor, indique sua média de consumo semanal:
( )1-4 copos por semana ou menos. ( )5-8 copos por semana.
( )9-16 copos por semana. ( ) Mais de 16 copos por semana. Quantos?___
HISTÓRIA GENÉTICA
32. Você tem conhecimento de algum defeito de nascimento ou outra desordem
genética ou doença hereditária que tenha afetado seus pais, irmãos, irmãs ou seus
filhos? ( )Sim ( )Não
Se sim, por favor especifique: ______________________________
33. Você ou a sua esposa teve ou tem dificuldade para engravidar? ( )Sim ( )Não
Se sim, por favor especifique: ___________________________
34.Você já teve um filho que tenha nascido prematuramente ou que tenha sido
abortado? ( )Sim ( )Não
Você tem um gêmeo idêntico vivo? ( )Sim ( )Não
137
ANEXO C: VALORES DE REFERÊNCIA UTILIZADOS NAS ANÁLISES
LABORATORIAIS
EXAME VALOR DE REFERÊNCIA
Uréia 10 mg/dl a 52 mg/dl
Creatinina 0,4 mg/dl a 1,3 mg/dl
Transaminase oxalacética – TGO 4 U/ml a 36 U/ml
Transaminase piruvica – TGP 4 U/ml a 32 U/ml
Homem: 07 a 40 U/I
Gama GT
Mulher: 05 a 27 U/I
Adulto: 13 a 43 U/I
Fosfatase Alcalina
Criança até 12 Anos: 56 a 156 U/I
BChE
Feminino: 3.930 a 10.000 U/I
Masculino:4.620 a 11.500 U/I
HEMOGRAMA
Homem: 4,5 – 6,5
Hemácias em Milhões / mL
Mulher: 3,9 – 5,8
Homem: 13,5 – 18,0
Hemoglobina em G/DL
Mulher: 11,5 – 16,4
Homem: 40,0 – 54,0
Hematócrito em %
Mulher: 36,0 – 47,0
V. Glob. Média em u3 76,0 – 96,0
Hcm 27,0 – 32,0
C.H. Glob. Média em % 32,0 – 36,0
Adultos: 5.000 – 10.000
04 a 07 Anos: 6.000 – 15.000Leucócitos por mm3
08 a 12 Anos: 4.500 – 13.000
% /mm3
Neutrófilos 40 – 75 2.500 – 7.500
Promielócitos 0 -
Mielócitos 0 -
Metamielócitos 0 – 1 -
Bastões 1 – 3 45 – 330
Segmentados 40 – 75 -
Eosinófilos 1 – 6 40 – 330
Basófilos 0 – 1 1 – 100
Linfócitos 20 – 45 1.500 – 3.500
Monócitos 02 – 10 200 – 800
Contagem de plaquetas 150,000 a 400,000 /mm3
Fonte: LACEN, 2010
138
ANEXO D: FICHA DE AVALIAÇÃO DO TESTE COMETA
SECRETARIA DE SAUDE DO ESTADO DO PIAUI
LABORATORIO CENTRAL DE SAÚDE PUBLICA
“Dr. COSTA ALVARENGA.”
Laboratório de Toxicologia Genética Molecular (LABTOXGEN-MOL)
FICHA DE AVALIAÇÃO DO TESTE COMETA
Projeto Material Biológico: GRUPO: Paciente:
Não Expostos
Expostos
Célula Classe Célula Classe
1 51
2 52
3 53
4 54
5 55
6 56
7 57
8 58
9 59
10 60
11 61
12 62
13 63
14 64
15 65
16 66
17 67
18 68
19 69
20 70
21 71
22 72
23 73
24 74
25 75
26 76
27 77
28 78
29 79
30 80
31 81
32 82
33 83
34 84
35 85
36 86
37 87
38 88
39 89
40 90
41 91
42 92
43 93
44 94
45 95
46 96
47 97
48 98
49 99
50 100
CÁLCULO DO ÍNDICE DE DANO
(ID)
Dano
Total de Céls X
Classe de Dano
Total
de
Danos
0 _____ x 0
1 _____ x 1
2 _____ x 2
3 _____ x 3
4 _____ x 4
ID (%) ∑DanosCÁLCULO DA FREQUÊNCIA
DE DANOS (FD - %)
FD = 100 – Total de Danos 0
FD= ________

Avaliação das alterações hematólogicas, bioqímics e genotóxicas nos trabalhadores expostos a agrotóxcios em municípios do estado do piauí

  • 1.
    UNIVERSIDADE FEDERAL DOCEARÁ FACULDADE DE MEDICINA DEPARTAMENTO DE FISIOLOGIA E FARMACOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FARMACOLOGIA MESTRADO PROFISSIONAL EM FARMACOLOGIA CLINICA VERA REGINA CAVALCANTE BARROS RODRIGUES AVALIAÇÃO DAS ALTERAÇÕES HEMATOLÓGICAS, BIOQUÍMICAS E GENOTÓXICAS NOS TRABALHADORES EXPOSTOS A AGROTÓXICOS EM MUNICÍPIOS DO ESTADO DO PIAUÍ FORTALEZA - CEARÁ 2011
  • 2.
    VERA REGINA CAVALCANTEBARROS RODRIGUES AVALIAÇÃO DAS ALTERAÇÕES HEMATOLÓGICAS, BIOQUÍMICAS E GENOTÓXICAS NOS TRABALHADORES EXPOSTOS A AGROTÓXICOS EM MUNICÍPIOS DO ESTADO DO PIAUÍ Dissertação submetida à Coordenação do Programa de Pós- Graduação em Farmacologia, do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Farmacologia Clínica. Orientadora: Profª. Drª. Maria Elisabete Amaral de Moraes Co-Orientadora: Profª. Drª. Ana Amélia de C. Melo Cavalcante FORTALEZA - CEARÁ 2011
  • 3.
    Dados Internacionais deCatalogação na Publicação Universidade Federal do Ceará Biblioteca de Ciências da Saúde R617a Rodrigues, Vera Regina Cavalcante Barros Avaliação das alterações hematológicas, bioquímicas e genotóxicas nos trabalhadores expostos a agrotóxicos em municípios do Estado do Piauí/ Vera Regina Cavalcante Barros Rodrigues. - 2011. 138 f.: il. Dissertação (Mestrado Profissional) – Universidade Federal do Ceará, Faculdade de Medicina, Programa de Pós-Graduação em Farmacologia, Fortaleza, 2011. Orientação: Profª. Drª. Maria Elisabete Amaral de Moraes Coorientação: Profª. Drª. Ana Amélia de C. Melo Cavalcante 1. Praguicidas 2. Saúde do Trabalhador 3. Biomarcadores Farmacológicos 4. Genotoxicidade 5. Ensaio Cometa I. Título. CDD615.92
  • 4.
    VERA REGINA CAVALCANTEBARROS RODRIGUES AVALIAÇÃO DAS ALTERAÇÕES HEMATOLÓGICAS, BIOQUÍMICAS E GENOTÓXICAS NOS TRABALHADORES EXPOSTOS A AGROTÓXICOS EM MUNICÍPIOS DO ESTADO DO PIAUÍ Dissertação submetida como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Farmacologia Clínica, outorgado pela Universidade Federal do Ceará, e encontra-se à disposição dos interessados na Biblioteca de Ciências da Saúde da referida Universidade. Aprovada em 26 de setembro de 2011. BANCA EXAMINADORA: _________________________________________________________ Profª. Drª. Maria Elisabete Amaral de Moraes (Orientadora) Universidade Federal do Ceará _________________________________________________________ Profª. Drª. Danielle Silveira Macedo Universidade Federal do Ceará _________________________________________________________ Prof. Dr. Cláudio Costa dos Santos Universidade Federal do Ceará
  • 5.
  • 6.
    AGRADECIMENTOS Talvez não consigaexpressar a minha gratidão com palavras escritas e espero encontrar melhor forma e melhor momento para dizer o quanto sou grata a todas as pessoas que me aconselharam, motivaram, orientaram, reforçaram, ouviram, colaboraram. A elas, devo um bocadinho deste trabalho: À Profª. Drª. Maria Elisabete Amaral de Moraes, pela orientação, incentivo, atenção e confiança em mim depositada, pela amizade no tratamento para comigo, o que, com certeza, alimentou minha perseverança, o que jamais irei esquecer. À Profª. Drª. Ana Amélia de C. Melo Cavalcante, minha co-orientadora que, sem conhecer-me, acreditou que eu seria capaz. Obrigada professora, pela valiosa colaboração no desenvolvimento e análise dos dados desse estudo. Aos Professores da UNIFAC, pelo apoio e conhecimento que transmitiram. A todos os profissionais da UNIFAC, em especial, a Fábia Bezerra, Maria Teresa Rocha, Ana Leite, Aura Rhanes e Flávia Martins, pela delicadeza e presteza dispensadas, tornando agradáveis nossos dias longe de casa. Aos trabalhadores rurais do Estado, especialmente àqueles dos municípios de Barras e José de Freitas, pela participação neste estudo. À Tatiana Vieira Souza Chaves, pela paciência, dedicação e grande amizade, a quem devo o incentivo e o apoio desde a primeira hora deste estudo. Ao Fabrício Amaral, pelo apoio constante e por acreditar em mim. Pela amizade, disponibilidade e por todas as contribuições feitas a este trabalho.
  • 7.
    Aos colegas doMestrado pela amizade que, espero não se perca; em especial a Carlene, Samira, Iolanda, Amparo, Lucimá, Maria Veloso, Adriana, por compartilhar as ideias e experiências, pela convivência e momentos de descontração no período do curso em Fortaleza (agora, “o rabo é o rei!”). Aos colegas do Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador/ Diretoria de Vigilância Sanitária do Estado que se envolveram de alguma forma neste estudo, especialmente à Carmen Medeiros, Christiane Miranda, Odete Melo, Eduardo Probo, Idiacira Sampaio, Aurenice Frazão, Roselane Souza, Alberto Faustino, Socorro Cronemberger, Ana Cleide, Daniele Sampaio, Giuliano Miranda, Benedito Júnior, Solange Teles, Jarbas Aurélio, Deusilene Brito, Rogério Bitu (in memorian), Dilson, Neylon Araújo pela valiosa colaboração nas diferentes fases desse trabalho. À Eline Chaves (ADAPI) e Francisco Honorato de Sousa (CONAB) que muito gentilmente cederam os dados referentes aos municípios. Aos estagiários do LABTOXIGEN, especialmente a Débora, Araceli e Rodrigo, pela orientação e contribuição na realização do ensaio cometa. Aos funcionários do LACEN pela presteza na realização dos exames complementares dos trabalhadores. Aos meus pais, irmãs (os) e seus filhos (as), por valorizarem tudo o que faço e pelo apoio incondicional em todos os momentos da minha vida. Se não fosse por vocês, não chegaria a lugar nenhum! Ao companheiro Francisco Carlos, pelo apoio e incentivo constante à superação das minhas dificuldades. Aos meus filhos, Fernando e André, pela compreensão e ternura sempre manifestadas; pelo orgulho que sempre tiveram com os resultados acadêmicos e
  • 8.
    profissionais da mãe.Obrigada pela tradução, organização e paciência com minhas dificuldades com a tecnologia. Aos amigos de outros espaços, Profª Marize Santos (desde os tempos da UFPI), Ana Amélia Pedrosa, Célia Regina Leal, Dr. Francisco Luis Lima, Cláudio Barros, Sebastião Paulino, José Carlos Carvalho, Milton Braga, D. Elza Vieira, Wanderlei Pignati, Carlos Vaz, pela torcida e estimulo durante a caminhada. Deu certo! A Fernando, Silvio e Gabriel, estrelas que continuam irradiando luz e permanecem vivos em nossos corações. À Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (SESAPI) pelo incentivo e apoio financeiro no desenvolvimento da pesquisa. A FINEP, MCT, MS, FUNCAP, CNPq, CAPES e Instituto Claude Bernard (InCB), pelo incentivo no desenvolvimento da pesquisa nacional. Agradeço a DEUS, que, na sua imensa bondade, me concedeu a oportunidade de abraçar e concluir mais essa etapa, iluminando o caminho com essas pessoas (a quem chamo anjos), sem as quais não teria conseguido chegar até aqui. E a todos aqueles que participaram direta ou indiretamente desta conquista, cujos nomes não foram citados. MUITO OBRIGADA!
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    A Força nãovem da capacidade física, ela vem de uma vontade inabalável. Mahatma Gandhi
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    RESUMO Avaliação dos EfeitosHematológicos, Bioquímicos e Genotóxicos nos Trabalhadores Expostos a Agrotóxicos em Municípios do Estado do Piauí. Vera Regina Cavalcante Barros Rodrigues. Orientadora: Dra. Maria Elisabete Amaral de Moraes. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Farmacologia. Departamento de Fisiologia e Farmacologia, UFC, 2011. A utilização de agrotóxicos na agricultura elevou rapidamente seu consumo, especialmente de forma indiscriminada, sendo o Brasil um dos maiores mercados, representando 16% da venda mundial. No Piauí, a expansão agrícola na região dos cerrados contribuiu para o aumento do seu uso, expondo os agricultores a danos ao DNA. O objetivo desse estudo foi avaliar os efeitos tóxicos e genotóxicos nos agricultores piauienses expostos aos agrotóxicos, com o uso de biomarcadores hematológicos, bioquímicos e genotóxicos. A população estudada consistiu de 60 trabalhadores expostos aos agrotóxicos dos municípios de Barras e José de Freitas e 55 indivíduos controle, sem história de exposição a agroquímicos. Para caracterização da população foi aplicado questionário sócio epidemiológico, de acordo com a International Commission for Protection Against Environmental Mutagens and Carcinogens-ICPEMC. Foram coletados 10 mL de sangue periférico para realização das análises hematológicas, bioquímicas e ensaio cometa, que foram processadas pelo LACEN-PI. A média de idade foi de 34 anos, de etnia negra, na maioria, com tempo de trabalho, em média de 13,55 anos, carga horária de 41,5 horas semanais e 50% dos trabalhadores utilizavam pelo menos um tipo de EPI. Quanto aos hábitos de vida, 66,7% dos trabalhadores expostos informou não consumir vegetais, 41,7 % eram fumantes e 73,3% consumiam bebidas alcoólicas. Do total do grupo exposto, 33,3% usava medicamentos prescritos e 66,7% usava medicamentos não prescritos. No estudo foi evidenciado maior uso na agricultura de herbicidas (81,1%) e inseticidas (16,3%). No grupo dos trabalhadores expostos, 55% apresentaram leucopenia e 6,7% apresentaram diminuição na contagem de células vermelhas. Foram evidenciadas alterações na creatinina plasmática (p < 0,05); nas transaminases e fosfatase alcalina (p< 0,01) quando comparado o grupo exposto com o não exposto. Nos resultados do ensaio cometa, o grupo exposto apresentou, em relação ao grupo não exposto, uma média de (32,13 vs 10,12) de índice de dano, e frequência do dano (21,82 vs 9,38), respectivamente. Na classe 1, a genotoxicidade observada foi de 17% para os expostos e 9% para os não expostos. Não houve significância entre os danos no DNA em relação às variáveis: tempo de trabalho, não uso de EPI, hábito de fumar, consumo de álcool e não consumo de vegetais. Conclui-se que os trabalhadores expostos a agrotóxicos apresentaram alterações enzimáticas, hematológicas (leucopenia) e instabilidade genética, avaliados por parâmetros bioquímicos e genotóxicos, demonstrando assim a importância do biomonitoramento dos trabalhadores como uma estratégia de vigilância em saúde do trabalhador no Estado do Piauí. Palavras-chave: Agrotóxicos. Saúde do Trabalhador. Biomarcadores. Genotoxicidade. Ensaio Cometa.
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    ABSTRACT Evaluation of Hematologic,Biochemical and Genotoxic Effects in Workers Exposed to Pesticide in Municipalities of Piauí. Vera Regina Cavalcante Barros Rodrigues. Master Advisor: Dr. Maria Elisabete Amaral de Moraes. Master’s Dissertation. Graduate Program in Pharmacology. Department of Physiology and Pharmacology, UFC, 2011. The use of pesticides in agriculture rapidly increased their consumption, especially indiscriminate consumption, being Brazil currently the largest market for pesticide in the world, representing 16% of worldwide sales. In the state of Piauí, the agricultural expansion in the region of Cerrado contributed to their increased use, exposing farm workers to damages to the DNA. The purpose of this study was to evaluate the toxic and genotoxic effects in farm workers exposed to pesticides in Piauí, with the use of hematologic, biochemical and genotoxic biomarkers. The population in analysis consisted of 60 farm workers from the municipalities of Barras and José de Freitas occupationally exposed to pesticides and 55 control individuals with no history of exposure to agrochemicals. To obtain the characteristics of the population, a social-epidemiological questionnaire was applied, recommended by International Commission for Protection Against Environmental Mutagens and Carcinogens-ICPEMC. 10 mL of peripheral blood were collected for haematological, biochemical and comet assay analyses, all of which were processed by LACEN-PI. The mean age was 34 years, of black ethnicity, mostly with an average of 13.55 years of work, workload of 41.5 weekly hours and 50% of workers used at least one type of PPE. In what concerns lifestyle, 66.7% of the exposed workers said they did not consume vegetables, 41.7% were smokers and 73.3% consumed alcohol. Of the total of the exposed group, 33.3% used prescribed medication and 66.7% used non-prescribed medication. In the study, it was evidenced a higher use of herbicides (81.1%) and insecticides (16.3%) in agriculture. In the group of exposed workers, 55% had leucopenia and 6.7% showed a decrease in the red blood cell count. It was found variation in plasmatic creatinine (p < 0.05); in liver enzymes and alkaline phosphatise (p < 0.01) when comparing the exposed and the non-exposed groups. In the results of the comet assay, the exposed group showed, in comparison with the non-exposed group, a mean of (32.13 vs. 10.12) of damage index and damage frequency of (21.82 vs. 9.38), respectively. In class 1, the genotoxicity observed was 17% for the exposed and 9% for the non-exposed. There was no significance between DNA damage and the following variables: workload, non-use of PPE, smoking, consumption of alcohol and non-consumption of vegetables. We concluded that workers exposed to pesticides presented toxic variations and genetic instability, which was evidenced by enzymatic variation and damages to the DNA, which thus demonstrates the importance of biomonitoring of workers as a strategy of occupational health surveillance in the state of Piauí. Keywords: pesticides, occupational health, biomarkers, genotoxicity, comet assay
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    LISTA DE ABREVIATURASE SIGLAS AAA Anemia aplástica adquirida AChE Acetilcolinesterase ADAPI Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Piauí ALT Alanina Aminotransferase AMPA Ácido Aminometil Fosfônico ANDEF Associação Nacional de Defesa Vegetal ANOVA Análise de Variância Anvisa Agência Nacional de Vigilância Sanitária AST Aspartato Aminotrasferase BChE Butirilcolinesterase BHC Hexacloro benzeno CAT Comunicação de Acidente do Trabalho CEREST Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador CHCM Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média CITOX Centro de Informação Toxicológica CNS Conselho Nacional de Saúde COMEPE Comitê de Ética em Pesquisa da UFC CONAB Companhia Nacional de Abastecimento CONEP Comissão Nacional de Ética em Pesquisa DATASUS Banco de Dados do Sistema Único de Saúde DIVISA Diretoria de Unidade de Vigilância Sanitária DL50 Dose Letal Suficiente para Matar 50% de um Lote de Animais DNA Ácido desoxirribonucleico EBDC Dietilditiocarbamatos EDTA Ácido etileno diaminotetracético EPI Equipamento de Proteção Individual EPSPS Enzima 5-enolpiruvato- shiquimato-3-fosfato sintase ESF Estratégia Saúde da Família FA Fosfatase alcalina FAO Food Agricultural Organization FEPAM Fundação Estadual de Proteção Ambiental FIOCRUZ Fundação Osvaldo Cruz GGT Gama Glutamil Transpeptidase Hb Hemoglobina HCH Hexaclorociclohexano HCM Hemoglobina Corpuscular Média HCT Hematócrito IARC International Agency for Research on Cancer IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBAMA Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ICPEMC International Commission for Protection Against Environmental Mutagens and a Carcinogens INCA Instituto Nacional do Câncer INSS Instituto Nacional de Seguridade Social IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada LABTOXIGEM Laboratório de Toxicologia e Genética Molecular LACEN Laboratório Central de Saúde Pública do Estado do Piauí
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    LOS Lei Orgânicade Saúde MPAS Ministério da Previdência e Assistência Social MS Ministério da Saúde TEM Ministério do Trabalho e Emprego NR Norma Regulamentadora do Ministério do Trabalho e Emprego OMS Organização Mundial da Saúde OPAS Organização Pan Americana de Saúde PARA Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos PND Programa Nacional de Desenvolvimento POEA Polioxietilenoamina RBCs Célula Sanguínea no Sangue Total RENAST Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador RENACIAT Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica RNA Ácido ribonucleico SAS Secretaria de Assistência a Saúde SCGE Single cell gel eletrophoresis SDR Secretaria de Desenvolvimento Rural SES Secretaria de Estado da Saúde do Piauí SAI Sistema de Informações Ambulatoriais SIH Sistema de Informação Hospitalar SIM Sistema de Informações sobre Mortalidade SINAN Sistema de Informação Nacional de Agravos de Notificação SINDAG Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola SINITOX Sistema Nacional de Informações Tóxico-farmacológico SPSS Statistical Package for the Social Sciences SUS Sistema Único de Saúde TGO Transaminase Glutâmica Oxalacética TGP Transaminase Glutâmica Pirúvica UFC Universidade Federal do Ceará UNIFAC Unidade de Farmacologia Clínica US-EPA Environmental Protection Agency VCM Volume Corpuscular Médio VISAT Vigilância de Saúde do Trabalhador VPM Volume Plaquetário
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    LISTA DE TABELAS Tabela1: Características da população do estudo exposta e não exposta aos agrotóxicos em municípios do Piauí (2010). .............................................................79  Tabela 2: Avaliação dos parâmetros bioquímicos em agricultores expostos aos agrotóxicos em municípios do Piauí (2010) ..............................................................85  Tabela 3: Avaliação dos parâmetros hematológicos em agricultores expostos aos agrotóxicos em municípios do Piauí (2010). .............................................................89  Tabela 4: Avaliação genotóxica em agricultores expostos aos agrotóxicos em municipios do Piauí (2010)........................................................................................95  Tabela 5: Correlações entre os fatores de risco não ocupacionais com os danos ao DNA de agricultores do Piauí expostos aos agrotóxicos, 2010.................................97 
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    LISTA DE QUADROS Quadro1: Classificação dos agrotóxicos quanto à sua ação e ao grupo químico a que pertencem ..........................................................................................................26  Quadro 2: Quantidade de agrotóxicos comercializados segundo a ação/classe no Estado do Piauí (2009)..............................................................................................30  Quadro 3: Efeitos dos agrotóxicos na saúde humana segundo a classificação de Peres e Moreira (2003) .............................................................................................33  Quadro 4: Classe toxicológica e cor da faixa no rótulo de produto agrotóxico..........39  Quadro 5: Classificação toxicológica dos agrotóxicos segundo a DL50.....................40  Quadro 6: Agrotóxicos referidos pelos trabalhadores em municípios do Piauí (2010) ..................................................................................................................................81 
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    LISTA DE FIGURAS Figura1: Mecanismo de Ação dos Agrotóxicos.........................................................36 Figura 2: Localização dos municípios de Barras e José............................................66 Figura 3: Esquema do teste de cometa conforme protocolo de Singh et al.; (1988) e Saran et al.; (2008) usado para a avaliação de genotoxicidade em agricultores expostos aos agrotóxicos..........................................................................................73  Figura 4: Classes de Danos ao DNA analisados no Teste Cometa ..........................74  Figura 5: Percentual da utilização de agrotóxicos segundo classe/ação pelos trabalhadores rurais em municípios do Piauí (2010).................................................80  Figura 6: Percentual da utilização de agrotóxicos segundo classe toxicológica pelos trabalhadores rurais em municípios do Piauí (2010).................................................84  Figura 7: Dosagem de fosfatase alcalina em trabalhadores expostos aos agrotóxicos e em indivíduos não expostos a agentes químicos em municípios do Piauí (2010)..86  Figura 8: Dosagem de butirilcolinesterase em trabalhadores expostos aos agrotóxicos e em indivíduos não expostos a agentes químicos em municípios do Piauí (2010). A linha contínua indica o limite mínimo do valor de referência (4.620 U/I). ...........................................................................................................................89  Figura 9: Percentagem de trabalhadores expostos aos agrotóxicos em municípios do Piauí, de acordo com avaliação hematológica para leucócitos (2010)......................90  Figura 10: Perfil eletroforético das classes de danos em trabalhadores expostos aos agrotóxicos no Estado do Píauí (2010). ....................................................................93  Figura 11: Genotoxicidade em cultura de linfócitos de trabalhadores expostos em relação aos não expostos às misturas complexas de agrotóxicos segundo classe de danos, no Estado do Piauí (2010).............................................................................94 
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    SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO............................................................................................ 19 1.1Saúde do Trabalhador......................................................................................... 19 1.2 Saúde do Trabalhador no Piauí.......................................................................... 21 1.3 Agrotóxicos no Brasil........................................................................................... 23 1.4 Agrotóxicos e Saúde do Trabalhador.................................................................. 29 1.5 Mecanismo de Ação dos Agrotóxicos................................................................. 34 1.6 Toxicidade dos Agrotóxicos................................................................................ 38 1.6.1 Genotoxicidade................................................................................................ 39 1.7 Agrotóxicos e Risco ocupacional........................................................................ 43 1.8 Biomonitoramento de Risco Ocupacional........................................................... 45 1.8.1 Análises Bioquímicas....................................................................................... 48 1.8.2 Análise Hematológica....................................................................................... 53 1.8.3 Ensaio Cometa................................................................................................. 55 2 JUSTIFICATIVA......................................................................................... 58 3 OBJETIVOS................................................................................................ 61 3.1 Geral................................................................................................................... 61 3.2 Específicos......................................................................................................... 61 4 PROTOCOLO DE ESTUDO...................................................................... 63 4.1 Tipo de Estudo.................................................................................................... 63 4.2 Local do Estudo.................................................................................................. 63 4.3 Aspectos Éticos................................................................................................... 63 4.4 Caracterização do Estudo................................................................................... 64 4.4.1 Município de Barras......................................................................................... 64 4.4.2 Município de José de Freitas........................................................................... 65 4.5. Seleção dos Sujeitos da Pesquisa........................................................ 66 4.5.1 Critérios de Inclusão......................................................................................... 66 4.5.2 Critérios de Exclusão....................................................................................... 67 4.6 Delineamento do Estudo........................................................................ 67 4.6.1 Procedimentos com os voluntários.................................................................. 67 4.7 Coleta das Amostras de Sangue............................................................ 68 4.7.1 Avaliação Bioquímica....................................................................................... 68 4.7.2 Avaliação Hematológica................................................................................... 70 4.7.3 Avaliação Genotóxica: Ensaio Cometa............................................................ 71 4.8 Análise Estatística................................................................................... 74
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    5 RESULTADOS EDISCUSSAO................................................................. 76 5.1 Características da População.................................................................. 76 5.2 Agrotóxicos Utilizados nos Municípios de Barras e José de Freitas....... 78 5.3 Avaliação Bioquímica.......................................................................................... 83 5.4 Avaliação Hematológica...................................................................................... 88 5.5 Avaliação Genotóxica com o Ensaio Cometa..................................................... 91 5.6 Correlações com Fatores de Riscos não Ocupacionais e Entre os Biomarcadores.......................................................................................................... 95 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................... 99 7 CONCLUSÃO............................................................................................ 102 8 RECOMENDAÇÕES.................................................................................. 104 REFERÊNCIAS.............................................................................................. 107 APÊNDICES E ANEXOS............................................................................... 122 APÊNDICE A: TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (TCLE)........................................................................... APÊNDICE B: FOTOS............................................................................ APÊNDICE C: TRABALHOS APRESENTADOS EM CONGRESSOS CIENTÍFICOS.......................................................................................... ANEXO A: APROVAÇÃO DO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA....... ANEXO B: QUESTIONÁRIO DE SAÚDE PESSOAL.............................. ANEXO C: VALORES DE REFERENCIA UTILIZADOS NAS ANALISES LABORATORIAIS................................................................. ANEXO D: FICHA DE AVALIAÇÃO DO TESTE COMETA.....................
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    20 1 INTRODUÇÃO 1.1 Saúdedo Trabalhador O movimento da Saúde do Trabalhador no Brasil teve seu marco no final dos anos 70, traduzido em ações de defesa do direito ao trabalho digno e saudável da participação dos trabalhadores nas decisões sobre a organização e gestão dos processos produtivos e da busca da garantia de atenção integral à saúde (DIAS; HOEFEL, 2005). Como parte desse movimento, foi instituído na rede pública de serviços um modelo de atenção à saúde dos trabalhadores, denominado Programa de Saúde do Trabalhador, cuja proposta era a forma diferenciada de atenção aos trabalhadores e um sistema de vigilância em saúde com a participação da classe trabalhadora, pois até então, o sistema público de saúde, não atendia os trabalhadores considerando os impactos do trabalho sobre o processo saúde/doença, o que aconteceu com a Constituição de 1988 e a criação do Sistema Único de Saúde - SUS (BRASIL, 2001). A Constituição de 1988, em seu artigo 200, na seção que regula o Direito à Saúde, estabelece que “ao Sistema Único de Saúde compete, além de outras atribuições, nos termos da lei: [...] II - executar as ações de vigilância sanitária e epidemiológica, bem como as de saúde do trabalhador; [...]” (BRASIL, 2001). A Lei Orgânica da Saúde – LOS (Lei n.º 8.080/90), que regulamentou o SUS e suas competências no campo da Saúde do Trabalhador, considerou o trabalho como importante fator determinante/condicionante da saúde. No seu artigo 6º, determina que a realização das ações de saúde do trabalhador siga os princípios gerais do SUS. Além disso, recomenda, especificamente, a assistência ao trabalhador vítima de acidente de trabalho ou portador de doença profissional ou do trabalho; a realização de estudos, pesquisa, avaliação e controle dos riscos e agravos existentes no processo de trabalho; a informação ao trabalhador, sindicatos e empresas sobre riscos de acidentes bem como resultados de fiscalizações, avaliações ambientais, exames admissionais, periódicos e demissionais, respeitada a ética.
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    21 A instituição daRede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador – RENAST, pela Portaria nº 1.679/GM de 19/09/2002, determinou que as ações de saúde do trabalhador, fossem desenvolvidas de forma articulada entre o Ministério da Saúde -MS, as Secretárias de Saúde dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. A Portaria estabelecia a elaboração do Plano Estadual de Saúde do Trabalhador; a implantação nos serviços ambulatoriais e hospitalares das ações básicas, de média e alta complexidade de saúde do trabalhador e a organização dos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador - CEREST, tendo como função, o provimento de retaguarda técnica para o SUS, nas ações de prevenção, promoção, diagnóstico, tratamento, reabilitação e vigilância em saúde dos trabalhadores urbanos e rurais, independentemente do vínculo empregatício e do tipo de inserção no mercado de trabalho (BRASIL, 2005). Dando continuidade à implantação dessas ações, o Ministério da Saúde, publicou a Portaria GM nº 2.437/05, ampliando e fortalecendo a RENAST no SUS. Segundo a Portaria deveriam ser envolvidos órgãos de outros setores, nas três esferas de poder, com interface com a Saúde do Trabalhador, além de instituições colaboradoras nesta área, para execução das ações. A RENAST é uma rede nacional de informação e de práticas de saúde organizada com o propósito de programar ações assistenciais, de vigilância e de promoção da saúde, no SUS, na perspectiva da Saúde do Trabalhador. A compreensão do processo saúde-doença dos trabalhadores, que norteia a RENAST, está baseada no enfoque das relações Trabalho-Saúde-Doença e na centralidade do trabalho na vida das pessoas, desenvolvido pela epidemiologia social (BRASIL, 2004; DIAS; HOEFEL, 2005), considerando que o trabalho ocupa uma posição central na determinação do processo saúde/doença, não apenas daqueles diretamente envolvidos nas atividades produtivas, mas da população em geral e dos impactos ambientais que essas atividades produzem (HOEFEL, 2005). A implementação da RENAST deu-se pela estruturação da rede de Centros de Referência em Saúde do Trabalhador; pela inclusão das ações de saúde do trabalhador na atenção básica; pela definição de protocolos, do estabelecimento
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    22 de linhas decuidado e de outros instrumentos que favorecessem a integralidade das ações; pela implementação das ações de promoção e vigilância em saúde do trabalhador; pela instituição e indicação de serviços de Saúde do Trabalhador de retaguarda já instalados, chamados de Rede de Serviços Sentinela em Saúde do Trabalhador (BRASIL, 2009). Com a divulgação do Pacto pela Saúde (Portaria 399/GM de 22/02/2006) e considerando a necessidade de adequação aos mecanismos de gestão do Pacto foi publicada a Portaria GM nº 2.728/09 determinando que as ações em Saúde do Trabalhador deveriam estar inseridas expressamente nos Planos de Saúde nacional, estaduais, distrital, municipais e nas suas respectivas Programações Anuais. A Política Nacional de Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde visa à redução dos acidentes e doenças relacionadas ao trabalho, principalmente por meio da execução de ações de promoção, reabilitação e vigilância na área de saúde (BRASIL, 2004). Suas diretrizes, descritas na Portaria nº 1.125, de 6 de julho de 2005, compreendem a atenção integral à saúde, a articulação intra e intersetorial, a estruturação da rede de informações em Saúde do Trabalhador, o apoio a estudos e pesquisas, a capacitação de recursos humanos e a participação da comunidade na gestão dessas ações. 1.2 Saúde do Trabalhador no Piauí A implantação das ações da saúde do trabalhador no SUS, no Estado do Piauí, deu-se pela Secretaria Estadual da Saúde, através da Diretoria de Vigilância Sanitária - DIVISA. A elaboração do Plano Estadual de Saúde do Trabalhador possibilitou a habilitação do CEREST pela Portaria n.º 307 de 02 de outubro de 2003, que passou a integrar a RENAST. A ampliação das ações no estado foi intensificada com a criação de CEREST regionais: um para a macrorregião de Bom Jesus, habilitado através da Portaria n.º 653 de 19/09/2006, e outros dois para Picos e Parnaíba, ambos habilitados pela Portaria SAS/MS nº 121 de 18/03/2009.
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    23 A criação doCEREST representou um marco para os trabalhadores do Piauí, que até então não contavam com uma política pública que garantisse um atendimento que levasse em conta os impactos do trabalho sobre o processo saúde/doença. Neste contexto, o CEREST vem realizando ações voltadas para o alcance de seus objetivos, assim definidos: desenvolver estudos e pesquisas na área de saúde do trabalhador, promover programas de formação de qualificação de recursos humanos, suporte técnico para melhoria da prática assistencial interdisciplinar, propor normas e diagnósticos relativos aos agravos a saúde do trabalhador, atuar junto dos seus parceiros nas atividades de normatização relativas à prevenção de agravos a saúde do trabalhador (PIAUÍ, 2006). Para melhor execução do trabalho, as linhas de ação foram assim organizadas: O acolhimento e escuta qualificada do trabalhador que procura o CEREST é realizada por um profissional da equipe técnica, que identifica o motivo da procura e procede aos encaminhamentos conforme as necessidades. A assistência é realizada através do atendimento individualizado aos trabalhadores, que é feito por um profissional da equipe multiprofissional e, de acordo com a necessidade do caso, a atuação se dará no sentido de estabelecer o nexo causal entre os processos/ambientes de trabalho e a saúde do trabalhador. A fiscalização/inspeção do ambiente de trabalho consiste na visitação aos locais de trabalho para a materialização da vigilância em saúde do trabalhador, identificando os riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos, de acidentes e outros fatores ou situações com potencial de danos sobre a saúde do trabalhador. Esta etapa é realizada pela equipe da Vigilância Sanitária estadual, em conjunto com a equipe do CEREST, podendo, em algumas situações, formar uma equipe interinstitucional com a participação do Ministério do Trabalho, do Instituto de Seguridade Social, de sindicatos e outros. A Educação permanente realiza-se através da promoção de cursos de capacitação, seminários, palestras, oficinas e outros eventos voltados para os trabalhadores, profissionais, estudantes e demais interessados na questão de saúde do trabalhador. Realiza-se ainda com o desenvolvimento de programas de formação, especialização e qualificação de recursos humanos na área da saúde do trabalhador, bem como da elaboração de material educativo (cartilhas, cartazes e folders). A linha de Projetos e Pesquisas compreende o desenvolvimento de estudos
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    24 e pesquisas naárea de saúde do trabalhador e do meio ambiente, com ou sem a parceria de instituições, públicas ou privadas, de ensino ou pesquisa que atuem em áreas afins à saúde e ao trabalho com a finalidade de produzir informações para subsidiar proposições de políticas na área de saúde do trabalhador. A Divulgação / Comunicação tem por finalidade contribuir na construção de uma cultura de priorização da saúde do trabalhador através da ampla difusão dessa área como integrante das políticas públicas (PIAUÍ, 2006). Dentre as ações voltadas aos trabalhadores rurais, citamos, por exemplo, a investigação epidemiológica em municípios localizados na região dos cerrados, decorrentes de informações de suspeita de intoxicação de trabalhadores rurais em 2005. Nesse ano, foi iniciada a articulação com diversos parceiros/instituições e o inicio do desenvolvimento de várias ações tais como: reuniões com gestores municipais; inspeções conjuntas com equipe multiprofissional; palestras educativas com trabalhadores rurais e distribuição de material educativo, assim como para os trabalhadores das revendas, empresários e comunidade; capacitação de profissionais da atenção básica, com vistas à identificação e notificação dos agravos; identificação dos hospitais sentinela para notificação dos casos de intoxicação relacionados ao trabalho, além da divulgação do Centro de Informação Toxicológica no estado para esclarecimentos de dúvidas e notificação das intoxicações. 1.3 Agrotóxicos no Brasil Os agrotóxicos são compostos que possuem uma grande variedade de substâncias químicas ou produtos biológicos e que foram desenvolvidos de forma a potencializar uma ação biocida, ou seja, são desenvolvidos para matar, exterminar e combater as pragas agrícolas. Representam, assim, um risco em potencial para todos os organismos vivos (GARCIA, 2001; OPAS, 1997).
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    25 Segundo a Leinº 7.802/1989, são chamados agrotóxicos: produtos e agentes de processos físicos, químicos ou biológicos, destinados ao uso nos setores de produção, no armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção de florestas, nativas ou plantadas, e de outros ecossistemas e de ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos, bem como as substâncias de produtos empregados como desfolhantes, dessecantes, estimuladores e inibidores de crescimento. Estes produtos, dependendo do fim a que se destinam, recebem ainda outros nomes: agrotóxicos, praguicidas, biocidas, venenos, fitossanitários, defensivos agrícolas, remédios. Para os trabalhadores rurais, os agrotóxicos são comumente chamados de “veneno” ou “remédio”, sendo o termo “veneno” atribuído a esses compostos pelos efeitos nocivos dos biocidas à saúde humana e animal, que durante anos vêm sendo observados. “Remédio” é o termo utilizado por vendedores e técnicos ligados à indústria química, na tentativa de passar a idéia que os agrotóxicos são “remédio para a planta” (PERES et al.; 2003). Podem ser agrupadas de diversas maneiras, sendo a mais utilizada, a classificação segundo o grupo químico (Quadro 1) a que pertencem e o tipo de ação (natureza da praga controlada). Podem ser classificados em inseticidas, fungicidas e herbicidas e reguladores e inibidores de crescimento. Vale ressaltar que muitos agrotóxicos possuem mais de um tipo de ação. Outros grupos importantes, além desses são: raticidas (dicumarínicos), utilizados no combate a roedores; acaricidas, que agem combatendo ácaros diversos; nematicidas, cuja ação é o combate a nematóides; molusquicidas, com ação de combate a moluscos, basicamente contra o caramujo da esquistossomose (INCA, 2006). Dentre essas classes, as três principais, por representarem, em média, 94,8% do consumo mundial de agrotóxicos entre 1960/2003, são os inseticidas, fungicidas e herbicidas (MARTINELLI, 2003).
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    26 Quadro 1: Classificaçãodos agrotóxicos quanto à sua ação e ao grupo químico a que pertencem TIPO DE AÇÃO (CLASSE) PRINCIPAIS GRUPOS QUÍMICOS PRODUTOS / SUBSTÂNCIA Organofosforados Azodrim, Malathion, Parathion, Nuvacron, Tamaron, Hostation, Lorsban Carbamatos Carbaryl, Furadan, Lannate, Marshal Organoclorados Aldrin, Endrin, DDT, BHC, Lindane Inseticidas (controle de insetos, larvas e formigas) Piretróides (sintéticos) Decis, Piredan, Karate, Cipermetrina Ditiocarbamatos Maneb, Mancozeb, Dithane, Thiram, Manzate Organoestânicos Brestan, Hokko Suzu Fungicidas (combate aos fungos) Dicarboximidas Orthocide, Captan Bipiridilos Gramoxone, Paraquat, Reglone, Diquat Glicina substituída Roundup, Glifosato Derivados do ácido fenoxiacético Tordon, 2,4-D, 2,4,5-T3 Dinitrofenóis Bromofenoxim, Dinoseb, DNOC Herbicidas (combate a ervas daninhas) Pentaclorofenol Clorofen, Dowcide-G Fonte: INCA (2006). O processo de modernização da agricultura no Brasil aconteceu entre 1965 e 1980, tendo ocorrido nos países da Europa Ocidental e nos Estados Unidos da América ainda no início do século XX. No Brasil, foram primeiramente utilizados em programas de saúde pública, para o combate a vetores e o controle de parasitas, sendo empregados mais intensivamente na agricultura a partir de 1960 (OPAS, 1997; WAICHMAN et al.; 2007). Em 1975, o Plano Nacional de Desenvolvimento investiu mais de 200 milhões de dólares para implementar a indústria dos agrotóxicos, abrindo o comércio destes agentes no país e condicionando o agricultor a comprá-los com recursos do crédito rural, sendo instituída a inclusão de uma cota definida para cada financiamento requerido (OPAS/OMS, 1997).
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    27 A necessidade deaumentar a produtividade para atender o aumento da demanda por alimentos, causada pelo crescimento populacional, foi um estímulo aos processos de produção agrícola a buscarem novas tecnologias (SILVA et al., 2005). Assim, uma quantidade considerável de agrotóxicos é empregada em alguma etapa da produção agrícola, quer seja no tratamento prévio das sementes, quer durante o cultivo ou após a colheita (CAMAROTO et al.; 2004). A liberação do comércio de agrotóxicos para uso na agricultura elevou rapidamente seu consumo, especialmente, o de forma indiscriminada, o que se constitui um dos principais problemas de saúde pública nos países desenvolvidos e em desenvolvimento (WAICHMAN et al.; 2007). Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE- mostram que o número de propriedades rurais no Brasil, que utilizam agrotóxicos cresceu 53% entre 1995-1996 e 2006 (IBGE, 2006). A substituição da mão-de-obra pela mecanização de diversas atividades agrícolas, a introdução de agrotóxicos, bem como a utilização da biotecnologia, destacando-se os organismos geneticamente modificados (transgênicos), foram as principais mudanças tecnológicas que contribuíram para a alteração do processo agrícola (TRAPÉ, 1993; SILVA et al.; 2004). O Brasil, com uma extensão territorial de 8,5 milhões de km², tem um grande potencial agrícola e está entre os países que mais utilizam produtos químicos na agricultura. Em 2007, o país ocupou o quarto lugar no ranking do consumo mundial, sendo o oitavo no uso por hectare e o maior consumidor na América Latina. Existem cerca de 15.000 formulações para 400 agrotóxicos diferentes, sendo que 8.000 encontram-se licenciadas no Brasil (FEPAM, 2007). Alguns acidentes com agrotóxicos no Brasil tiveram grande repercussão por causarem sérios danos ambientais e severa contaminação humana, como os da Shell e da Rhodia, localizadas no Estado de São Paulo (ARAÚJO et al.; 2007). Em Duque de Caxias, RJ, ocorreu um dos casos mais graves de contaminação do solo registrados no Brasil, que ficou conhecido por “Cidade dos Meninos”, resultado do abandono, por parte do Ministério da Saúde, nos anos 50, de materiais na desativação de uma fábrica de hexaclorociclohexano (HCH) utilizados no programa
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    28 de combate amalária, contaminando o meio ambiente e a população local (HERCULANO, 2002; BEDOR, 2008). Mais recentemente, mesmo com o aumento do conhecimento sobre os males causados pelos agrotóxicos, acidentes por manuseio e pela falta de controle continuam acontecendo. Exemplo recente é o caso da “Chuva de Agrotóxicos” na cidade de Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, ocorrido em 2006, devido às derivas de pulverizações aéreas de agrotóxicos que ultrapassaram a unidade produtiva rural, causando impactos sanitários, sociais e ambientais (PIGNATI et al.; 2007). Neste contexto, o uso descontrolado de agrotóxicos leva a uma expansão dos riscos, fazendo com que populações não diretamente vinculadas com a cadeia produtiva dessas substâncias também se exponham em função da contaminação ambiental e dos alimentos, tornando a problemática do agrotóxico uma questão ainda mais grave de saúde pública (KOIFMAN; KOIFMAN, 2003). Segundo Peres et al. (2007), os países em desenvolvimento representam 30% de todo o mercado global consumidor de agrotóxicos, sendo o Brasil o maior mercado consumidor individual dentre estes países, equivalente à metade de todo o consumo da região latino-americana. Foram utilizados no país, em 2004, cerca de 187.000 toneladas de agrotóxicos, o que corresponde a 1 kg por habitante/ano ou 6 kg por habitante/ano da zona rural. Esse volume superou em 47.000 toneladas a quantidade utilizada no ano 2000 (PIGNATI, 2008). O consumo em uma década aumentou mais que o dobro. Em 1999, o gasto com a comercialização desses produtos foi estimado em cerca de 2,3 milhões de dólares, comparados aos cerca de 900 milhões gastos em 1989 (KOIFMAN et al.; 2002). Este aumento comprova a grande quantidade de agrotóxicos utilizados no território brasileiro nos últimos anos. Em 2001, os dados do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola – SINDAG, mostraram que o país consumiu 328.413 toneladas de produtos formulados o que corresponde a 151.523 toneladas de ingredientes ativos colocando o Brasil em 7º lugar no ranking dos dez
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    29 principais países consumidores,que representam 70% do mercado mundial de agrotóxicos (INCA, 2006). Em 2007, as vendas no Brasil atingiram a cifra de 5.372 bilhões de dólares e, em 2008, de 7.125 bilhões, sendo a soja a cultura que mais consome agrotóxico (SINDAG, 2007). Atualmente, o Brasil é o maior mercado de agrotóxicos do mundo, representando 16% da venda mundial. Em 2009, foram comercializadas 780 mil toneladas com um faturamento estimado de oito bilhões de dólares. Nos últimos 10 anos, esse mercado cresceu 176%, quase quatro vezes mais que a média mundial, e as importações brasileiras aumentaram 236% entre 2000 e 2007 (BAVA, 2010). No nordeste do Brasil, a agricultura é absolutamente químico-dependente, onde, no ano de 2003, os agentes tóxicos que mais registraram crescimento foram os de uso agrícola, com uma alta de 164%. Os fertilizantes e agrotóxicos são utilizados como se fossem as únicas técnicas de produção possível. São ainda incipientes as experiências de reconversão tecnológica para um modelo de agricultura sustentável. Como agravante, há ainda o fato de que o conhecimento que os agricultores dispõem sobre os riscos do uso adequado desses produtos é extremamente baixo e não recebem orientação (AUGUSTO, 2003). No Estado do Piauí, a partir da década de 90, deu-se a expansão agrícola na região dos cerrados, com a intensificação do plantio de soja, o que consistiu em um forte fator para o aumento do uso de agrotóxicos. A procura legal destes produtos no Estado cresce progressivamente, uma vez que em 1994 foram contabilizados a venda de 08 toneladas e em 2004, de 165 toneladas, o que representa um percentual de aumento da ordem de 2.062% (PIAUÍ, 2004). Segundo dados coletados pela Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Piauí - ADAPI nas empresas registradas que comercializam agrotóxicos, no ano de 2009, no Piauí foram consumidos produtos, que se apresentam na forma de pó (kg) e na forma líquida (L), conforme o Quadro 2.
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    30 Quadro 2: Quantidadede agrotóxicos comercializados segundo a ação/classe no Estado do Piauí (2009). QUANTIDADE CLASSE (AÇÃO) kg L Herbicidas 24.068 237.381 Inseticidas 1.075 106.375 Fungicidas 2.281 77.815 TOTAL 27.424 421.571 Fonte: ADAPI, 2010. Os dados não refletem a realidade do consumo do agrotóxico no Piauí, pois a maioria dos produtos utilizados pelos agricultores na região dos cerrados é oriunda da indústria (venda direta), sem ter o distribuidor da região como intermediário da venda ao agricultor. O aumento do uso de agrotóxicos nos municípios piauienses pode estar acarretando prejuízos à saúde do trabalhador exposto a ação dos mesmos. Este fato é corroborado pela inconsistência dos dados oficiais sobre intoxicação por agrotóxicos, que não retratam a realidade, por serem insuficientes, parciais, fragmentados, desarticulados e dispersos em várias fontes de informações, tais como: Comunicação de Acidentes de Trabalho (CAT); Sistema de Informação Hospitalar (SIH); o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), (BRASIL, 2006). 1.4 Agrotóxicos e Saúde do Trabalhador Os agrotóxicos são utilizados em grande escala por vários setores produtivos e mais intensamente pelo setor agropecuário. Dentre os trabalhadores expostos destacam-se, além dos trabalhadores rurais, os da saúde pública, de empresas desinsetizadoras, de transporte, comércio e indústria de síntese. A população em geral também está exposta, seja através de resíduos em alimentos, de contaminação ambiental ou acidental (OPAS/OMS, 1996). Os trabalhadores rurais são os mais expostos aos agrotóxicos, por estarem em contato diário na sua vida laboral. Além deste grupo, a água, o solo, a vegetação, os animais e a
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    31 população humana emgeral também são vítimas destes agentes, já que seus resíduos podem ser altamente persistentes no ambiente, podendo contaminar um ecossistema durante um longo período de tempo, provocando sérios problemas de saúde (CAMAROTO et al.; 2004). Sua crescente utilização nas áreas urbanas, principalmente os inseticidas domésticos adquiridos em supermercados, que possuem uma grande diversidade de produtos, princípios ativos e marcas, bem como os utilizados pela saúde pública, amplia o risco de maior exposição das populações a agentes tóxicos, potencialmente danosos à saúde humana e ao ambiente (CÂMARA NETO; AUGUSTO, 2005). As principais vias de penetração dos agrotóxicos no corpo humano são: por ingestão, pela respiração e por absorção dérmica. A penetração pela pele varia de acordo com a formulação empregada, temperatura, umidade relativa do ar, regiões do corpo, tempo de contato, existência de feridas (GARCIA, 2001). Os agrotóxicos podem determinar efeitos sobre a saúde humana, dependendo da forma e tempo de exposição e do tipo de produto com sua toxicidade específica (Quadro 3). O efeito pode ser agudo por uma exposição de curto prazo, ou seja, algumas horas ou alguns dias, com surgimento rápido e claro de sintomas e sinais de intoxicação típica do produto ou outro efeito adverso, como lesões de pele, irritação das mucosas dos olhos, nariz e garganta, dor de estômago (epigastralgia); ou crônico, por uma exposição de mais de um ano, com efeitos adversos muitas vezes irreversíveis (OPAS/OMS, 1997). As intoxicações provocadas por agrotóxicos são classificadas em três tipos: intoxicações agudas, que ocorrem após intensa exposição, em breve período de tempo, a substâncias de extrema ou alta toxicidade. Os sintomas são nítidos, aparecem rapidamente e, dependendo da quantidade de veneno absorvido, determinam a gravidade da intoxicação. Dentre as substâncias que provocam as intoxicações agudas destacam-se os organofosforados e os carbamatos, que são inibidores da acetilcolinesterase, enzima presente principalmente no sistema
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    32 nervoso, nos músculosesqueléticos e nos eritrócitos, envolvida na transmissão dos impulsos nervosos; as intoxicações subagudas, que aparecem mais lentamente, traduzindo-se através de sintomas subjetivos e vagos (fraqueza, mal-estar, dor de cabeça, sonolência etc.) e ocorrem devido à exposição moderada ou pequena a produtos altamente ou moderadamente tóxicos; as intoxicações crônicas ocorrem tardiamente, após meses ou anos de pequena ou média exposição a um produto tóxico ou a uma diversidade de substâncias, apresentando um quadro clínico indefinido, que dificulta o estabelecimento do nexo causal para as doenças ocupacionais (OPAS/OMS, 1996). As características clínicas das intoxicações por agrotóxicos não são reflexo de uma relação simples entre o produto e a pessoa exposta. São vários os fatores que participam de sua determinação, dentre eles os fatores relativos às características químicas e toxicológicas do produto (forma de apresentação, estabilidade, solubilidade, presença de contaminantes, presença de solventes); fatores relativos ao indivíduo exposto (idade, sexo, peso, estado nutricional, escolaridade, conhecimento sobre os efeitos a medidas de segurança, etc.); às condições de exposição ou condições gerais do trabalho (frequência, dose, formas de exposição) (FAO, 2003; PERES, 2003).
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    33 Quadro 3: Efeitosdos agrotóxicos na saúde humana segundo a classificação de Peres e Moreira (2003) Classe/ação Grupo químico Sintomas de intoxicação aguda Sintomas de intoxicação crônica Organofosforados e Carbamatos Fraqueza, cólicas abdominais, vômitos, espasmos musculares, convulsões Efeitos neurotóxicos retardados, alterações cromossomiais, dermatites de contato Organoclorados Náuseas, vômitos, contrações musculares involuntárias Lesões hepáticas, arritmias cardíacas, lesões renais, neuropatias periféricas Inseticidas Piretróides Sintéticos Irritações das conjuntivas, espirros, excitação, convulsões Alergias, asma brônquica, irritações nas mucosas, hipersensibilidade Ditiocarbamatos Tonteiras, vômitos, tremores musculares, dor de cabeça Alergias respiratórias, dermatites, Mal de Parkinson, câncer Fungicidas Fentalamidas – Teratogêneses Dinitrofenóis e Pentaclorofenol Dificuldade respiratória, hipertermia, convulsões Cânceres, cloroacnes Fenoxiacéticos Perda do apetite, enjôo, vômitos, fasciculação muscular Indução da produção de enzimas hepáticas, cânceres, teratogênese Glicina substituída Irritação nos olhos e pele, dor de cabeça, náuseas, entorpecimento, elevação da pressão arterial, palpitações e alergias. Lesões em glândulas salivares, inflamações nas mucosas do estômago, danos genéticos (em células sanguíneas do corpo humano), e outros. Herbicidas Dipiridilos Sangramento nasal, fraqueza, desmaios, conjuntivites Lesões hepáticas, dermatites de contato, fibrose pulmonar Fonte: Adaptado de Peres e Moreira (2003) e Guterres (2003) Os efeitos dos agrotóxicos sobre a saúde humana ocorrem, sobretudo, pela contaminação de trabalhadores que lidam diretamente com o manuseio do produto e sua aplicação. Segundo Soares et al. (2003) os trabalhadores rurais, responsáveis pela aplicação do produto são mais atingidos pela contaminação do que os consumidores de alimentos. Além de estar diretamente e quase que diariamente exposto aos riscos associados a este processo, os efeitos de uma possível intoxicação podem ser agravados em pequenas comunidades rurais, pelas
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    34 precárias condições sanitárias,deficiência no sistema de saúde local e falta de infraestrutura da maioria da população local, normalmente, de baixas condições socioeconômicas. Em 2005, a Organização Internacional do Trabalho – OIT e a OMS estimaram em 7 milhões os casos agudos e de longo termo e 70 mil os óbitos provocados por agrotóxicos anualmente no mundo, sobretudo nos países em desenvolvimento (OIT/OMS, 2005). Os dados sobre intoxicações no Brasil, ainda não refletem a realidade. Na prática, só se registram os casos agudos e mais graves. Mesmo para os casos agudos, o sub-registro é muito grande e os casos crônicos não são captados por nenhum dos sistemas de informação. Existem vários sistemas oficiais que registram intoxicações por agrotóxicos, mas nenhum deles responde adequadamente como instrumento de vigilância deste tipo de agravo. Os principais sistemas de registros de intoxicações por agrotóxicos são o Sinitox, a CAT, o Sinan e, para dados de mortalidade, o SIM (FARIA et al.; 2007). O Sinan é alimentado pela notificação e investigação de casos de doenças e agravos que constam da lista nacional de doenças de notificação compulsória, registrados na rede de serviços do SUS. O Ministério da Saúde, considerando a disponibilidade de informação sobre a situação de produção, perfil de doenças e agravos relacionados ao trabalho publicou a Portaria GM nº 777/2004, que definiu as intoxicações exógenas (incluindo agrotóxicos) como sendo um agravo à saúde do trabalhador de notificação compulsória, em rede de serviços sentinela específica (ligados à RENAST). O Sistema Nacional de Informações Tóxico- Farmacológicas - Sinitox, criado em 1980 e vinculado à Fundação Oswaldo Cruz - FIOCRUZ é responsável pela coleta, compilação, análise e divulgação dos casos de intoxicação e envenenamento registrados pela Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica – RENACIAT. No Sinitox são registrados casos de intoxicação e envenenamento considerando diversos agentes tóxicos, inclusive agrotóxicos de uso agrícola e uso doméstico, produtos veterinários e raticidas.
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    35 De acordo como Sinitox no ano de 2007, foram registrados 14.711 casos de intoxicação por agrotóxicos, destes 11,9% (1.758 casos) eram de origem ocupacional. No Nordeste foram registrados 1.863 casos (12,7%) e apenas 27 foram notificados no Piauí (BRASIL, 2009). Os dados do Sinan mostram que em 2008, no Brasil, foram feitas 5.295 notificações de intoxicação por agrotóxico, destas, apenas 1.137 foram registradas como decorrentes do trabalho. Neste sistema, dos 1.051 casos notificados no Nordeste, foram 24 no Piauí (BRASIL, 2009). A notificação compulsória das intoxicações relacionadas ao trabalho e as ações de vigilância à saúde, desenvolvidas pela RENAST, podem contribuir para aumentar o número de notificações nos sistemas existentes. Os números podem ser muito maiores, porque os casos registrados são geralmente de intoxicação aguda, onde os sintomas são imediatos. Segundo Faria et al. (2007) há necessidade de se buscar uma integração dos bancos de dados dos vários sistemas, visando melhorar a vigilância e subsidiar as ações de proteção às populações expostas aos agrotóxicos. 1.5 Mecanismo de Ação dos Agrotóxicos A exposição humana aos agroquímicos, pela exposição ambiental ou ocupacional, raramente se limita a um único princípio ativo, assim também a população trabalhadora rural dificilmente se expõe a um único tipo de agrotóxico, tornando-se um desafio, nas próximas décadas, a avaliação de indivíduos com múltiplas exposições por muitos anos (TRAPÉ, 2005). Embora os herbicidas sejam os agrotóxicos mais utilizados, em geral a toxicidade deste grupo de substâncias é inferior à dos inseticidas (WHO, 1990). Os inseticidas são compostos quimicamente diferenciados, que podem ser agrupados em quatro categorias principais: os organoclorados, os piretróides, os organofosforados e os carbamatos (OPAS/OMS, 1997).
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    36 A ação dosinseticidas organofosforados e carbamatos, se dá pela inibição de enzimas colinesterases, especialmente a acetilcolinesterase (AChE), levando a um acúmulo de acetilcolina nas sinapses nervosas, desencadeando uma série de efeitos nicotínicos, muscarínicos e do sistema nervoso central (Figura 1). Diferentemente dos organofosforados, os carbamatos são inibidores reversíveis das colinesterases, porém as intoxicações podem ser igualmente graves. Ambos atuam no sistema nervoso central, nos glóbulos vermelhos, no plasma e em outros órgãos. Não se acumulam no organismo, mas é possível ocorrer o acúmulo de efeitos. Efeitos neurotóxicos retardados podem ocorrer com certos organofosforados (SILVA, et al.; 2005). Os organofosforados e os carbamatos são capazes de ultrapassar as barreiras hematoencefálica e placentária (ECOBICHON, 1996). Figura 1: Mecanismo de Ação dos Agrotóxicos Fonte: PAVAN, L. Disponível em: www.fag.edu.br/.../MODO%20AÇÃO%20INSETICIDAS%201%20PDF.pdf. Acesso em: 22.06.2011 Os inseticidas piretróides atuam mantendo abertos os canais de sódio das membranas dos neurônios. Afetam o sistema nervoso periférico e central do inseto:
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    37 estimulam as célulasnervosas a produzir descargas repetitivas e, eventualmente, causam paralisia (BRAGA; VALLE, 2007). A toxicidade dos piretróides para os mamíferos, de um modo geral, é baixa, aparentemente devido a sua rápida biotransfomação pelas esterases e enzimas microssomais hepáticas. A toxicidade dos produtos que contém piretróides é devido a outros ingredientes contidos na preparação, usualmente solventes, derivados de petróleo. São bem absorvidos pelo trato gastrointestinal e muito pouco absorvidos pela pele intacta, podendo, ainda, ser absorvidos por via inalatória. Uma vez absorvidos, são rapidamente metabolizados no fígado através de reações de oxidação e hidrólise de ésteres. Seus metabólitos são excretados, lentamente, através da bile e da urina, podendo permanecer detectável nos tecidos corporais por até três semanas após a ingestão (CALDAS; SOUZA, 2000). Os inseticidas pertencentes à classe dos neonicotinóides são compostos que tiveram origem na molécula de nicotina, recentemente registrado no Brasil para o controle de pragas em várias culturas, pouco tóxico, contudo perigoso para o ambiente. Entretanto, quando em contato constante, mesmo em pequenas doses, esse inseticida tem grande potencial carcinogênico (OLIVEIRA et al.; 2009). A toxicidade deve-se a uma ação de agonismo e afinidade de ligação entre os neonicotinóides e os receptores da acetilcolina dos vertebrados, sendo o cérebro o primeiro alvo. Os neonicotinóides (imidacloprid, thiamethoxam, etc) mimetizam a ação da acetilcolina e não são degradados pela acetilcolinesterase. Assim, eles se encaixam no receptor da acetilcolina na membrana das células pós-sinápticas, abrindo canais de Na+, com conseqüente hiperatividade nervosa, seguido de colapso do sistema nervoso (Figura 1). Os mecanismos envolvidos na transmissão de impulsos nervosos em insetos são muito semelhantes àqueles operantes em mamíferos, aves e peixes. Por isso, muitos inseticidas neurotóxicos são tóxicos também a esses organismos não-alvo, incluindo os seres humanos (CARVALHO, 2010). Os agrotóxicos da classe herbicida são utilizados para alterar diferentes processos bioquímicos vitais em plantas, como a biossíntese de aminoácidos aromáticos, proteínas e ácidos nucléicos (GLASS, 1984). Os herbicidas contendo glifosato como base são os mais amplamente utilizados no mundo. O glifosato é um
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    38 herbicida não seletivoque inibe o crescimento da planta através da interferência com a produção de aminoácidos aromáticos essenciais pela inibição da enzima 5- enolpiruvato-shikimato-3-fosfato sintase (EPSPS), a qual é responsável pela biossíntese de chorismato, um intermediário na biossíntese de fenilalanina, tirosina e triptofan. Esta via para a biossíntese de aminoácidos aromáticos não é expressa por nenhum membro do reino animal, tornando esse mecanismo de ação exclusivo às plantas (ROMANO et al.; 2008). Isso não significa que não haja interferência crônica do glifosato sobre o metabolismo animal e, é preciso considerar, que na formulação do Roundup constam outros produtos que, em consonância com o glifosato e outras substâncias no solo, meio ambiente e organismos vivos, acabam tendo diferentes efeitos colaterais. O composto é absorvido por via oral e dérmica, sendo excretado principalmente na urina. A excreção biliar, no entanto, é limitada e a eliminação através de ar expirado é muito baixa. Ele é metabolizado em ácido aminometil fosfônico – AMPA que é mais nocivo que o próprio glifosato (AMARANTE JUNIOR et al.; 2002). Para aumentar a eficácia do herbicida e facilitar sua penetração nos tecidos vegetais, a maioria das suas formulações comerciais possui uma substância química surfatante (um composto químico que reduz a tensão superficial do líquido), o polioxietilenoamina (POEA), produto mais tóxico que o glifosato e a combinação dos dois, mais tóxica ainda. O surfatante presente no Roundup está contaminado com o 1-4 dioxano, um agente causador de câncer em animais e potencialmente causador de danos ao fígado e aos rins de seres humanos. Em decorrência da decomposição do glifosato registra-se uma substância potencialmente cancerígena conhecida, o formaldeído (ANDRIOLI, 2005). Segundo esse autor, o herbicida pode continuar presente em alimentos num período de até dois anos após o contato com o produto e em solos por mais de três anos, dependendo do tipo de solo e clima. Como o produto possui uma alta solubilidade em água, sua degradação inicial é rápida, seguida, porém, de uma degradação lenta. Suas moléculas foram encontradas tanto em águas superficiais como subterrâneas. A acumulação pode ocorrer através do contato das plantas com o herbicida (folhas, frutos) e seus efeitos mutantes podem ocorrer tanto em plantas como nos organismos dos consumidores.
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    39 As plantas podemabsorver o produto do solo, movendo-o e concentrando-o para partes utilizadas como alimento (ANDRIOLI, 2005). 1.6 Toxicidade dos Agrotóxicos Do ponto de vista toxicológico, os agrotóxicos são classificados numa escala que varia de I a IV, sendo que os de classe toxicológica I encontram-se aquelas comprovadamente carcinogênicas e mutagênicas (Quadro 4). Quadro 4: Classe toxicológica e cor da faixa no rótulo de produto agrotóxico CLASSE TOXICIDADE COR DA FAIXA Classe I Extremamente tóxicos Faixa Vermelha Classe II Altamente tóxicos Faixa Amarela Classe III Medianamente tóxicos Faixa Azul Classe IV Pouco ou muito pouco tóxicos Faixa Verde Fonte: OPAS/OMS (1997). A classificação da toxicidade dos agrotóxicos (Quadro 5) permite a distinção do potencial de risco, que é baseada na dose letal 50 (DL50) que é um valor estatístico que determina a quantidade de veneno em mg/kg de peso corporal necessária para matar 50% da amostra populacional em estudo por intoxicações agudas. Os valores são determinados em cobaias e extrapolados para humanos a partir do peso (OPAS/OMS, 1997).
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    40 Quadro 5: Classificaçãotoxicológica dos agrotóxicos segundo a DL50 DL50 para ratos (mg/Kg de peso vivo) Oral DérmicaCLASSE Sólidos Líquidos Sólidos Líquidos I – Extremamente tóxico 5 ou menos 20 ou menos 10 ou menos 40 ou menos II – Altamente tóxico 5 – 50 20 - 200 10 - 100 40 – 400 III – Medianamente tóxico 50 - 500 200 - 2000 100 - 1000 400 – 4000 IV – Pouco tóxico Acima de 500 Acima de 2000 Acima de 1000 Acima de 4000 Fonte: TRAPÉ (1993) A toxicidade de uma substância pode ser influenciada por fatores presentes nos ambientes de trabalho, ou inerentes ao próprio indivíduo exposto. Entre os fatores ambientais estão, a temperatura e a umidade, por exemplo, que podem interferir em determinadas propriedades físico-químicas da substância, como solubilidade, estabilidade, pressão de vapor e reatividade química. A temperatura pode afetar a absorção, a distribuição e o modo de ação da substância. Por exemplo, há indicações de que a absorção do “paration” (organofosforado) a partir da pele humana é mais rápida em ambientes mais quentes e que o aumento da temperatura ambiente torna piores os efeitos tóxicos dos agrotóxicos (WHO, 1990; HAYES; LAWS, 1991). Entre os fatores biológicos relacionados ao próprio indivíduo podemos citar a idade, o sexo, o peso, características genéticas, estado de saúde e de nutrição e as condições metabólicas (esforço físico). Deficiências nutricionais como as protéicas, por exemplo, potencializam os efeitos tóxicos de vários agrotóxicos e a desidratação pode aumentar a susceptibilidade à intoxicação por inibidores de colinesterases (FERNÍCOLA, 1985; WHO, 1990; HAYES, 1991). 1.6.1Genotoxicidade Genotoxicidade é a capacidade que algumas substâncias têm de induzir alterações no material genético de organismos a ela expostos, e essas alterações são responsáveis pelo surgimento de cânceres e doenças hereditárias. Os
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    41 diferentes testes genotóxicosdetectam mutações gênicas e cromossômicas, dentre eles o teste micronúcleo e cometa, que vem sendo utilizado no monitoramento biológico de populações humanas expostas a agentes mutagênicos e carcinogênicos (KOHATSU et al.; 2007). O dano citogenético induzido pelos agrotóxicos ocorre dependendo do grau de exposição, da quantidade, da natureza química e das possíveis combinações entre os pesticidas utilizados, além das características e condições do ambiente. Sabe-se que em humanos, um baixo grau de exposição está associado a resultados negativos para danos citogenéticos e, em contraste, resultados positivos são relacionados a populações com altos níveis de exposição. É importante ressaltar que a exposição crônica em baixas doses é cumulativa e também pode induzir tais danos (BOLOGNESI, 2003). Os agrotóxicos podem possuir em sua composição moléculas com poder oxidante que podem vir a formar radicais livres nos sistemas biológicos (LUZ et al.; 2003). Os radicais livres são moléculas altamente instáveis, que reagem com as estruturas celulares modificando a estrutura de lipídios e proteínas de membrana, alterando a permeabilidade da célula (ANDRADE Jr. et al.; 2005). Essas alterações podem atingir a dupla fita do ácido desoxirribonucléico, acarretando no desenvolvimento de danos no DNA, que podem desencadear doenças graves, até a carcinogênese (FERREIRA, 1997). Além disso, vários agrotóxicos foram submetidos a testes e revelaram-se potencialmente genotóxicos (BOLOGNESI, 2003). Os agentes genotóxicos interagem quimicamente com o material genético, formando adutos, alteração oxidativa ou mesmo quebras na molécula de DNA. O dano, na maioria dos casos, é reparado pelo próprio organismo ou a célula é eliminada. Caso essa lesão seja fixada, provocando alterações hereditárias (mutações), que podem se perpetuar nas células filhas durante o processo de replicação, o agente é denominado mutagênico (OBE et al.; 2004). A maioria das mutações é induzida por agentes físicos, químicos ou biológicos, aos quais os seres humanos e outros organismos podem ser expostos, embora ocorram mutações espontâneas (CALVIELLO et al.; 2006).
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    42 A mutação noDNA é a alteração genuína do processo e que pode ser induzida externa ou internamente ao organismo. Os indutores externos são carcinógenos químicos (solventes aromáticos; clorados; agrotóxicos), físicos (radiações ionizantes e não ionizantes; campos eletromagnéticos) e biológicos (vírus, microorganismos). Os indutores internos podem ser entre outros, hormonais, imunológicos e enzimáticos que promovem mutações genéticas na estrutura do DNA. De modo geral, esses condicionantes estão presentes de forma interativa na promoção do processo de carcinogênese (RIBEIRO et al.; 2003). Na década de 80, o aumento da incidência de câncer entre os trabalhadores rurais e os trabalhadores das campanhas sanitárias, levou a um estudo mais detalhado sobre a interação dos agrotóxicos com o organismo humano no surgimento de tumores, entre outras disfunções de base celular (PERES; MOREIRA, 2003). Os dados mais recentes levantados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que o câncer será a primeira causa de mortalidade no mundo nas próximas décadas. O câncer possui um forte impacto na sociedade, debilitando indivíduos produtivos, tanto no âmbito social e no econômico, além de constituir sério problema de saúde pública (ALMEIDA et al.; 2005). Vários estudos epidemiológicos relatam que, em sua maioria, os cânceres são originados pela exposição contínua a agentes mutagênicos e carcinogênicos, sendo que a susceptibilidade individual pode depender da predisposição genética, de diferenças no hábito nutricional e no estilo de vida (ROBERTS, 1997). Contudo, todo e qualquer câncer pode ser considerado uma doença genética, que ocorre por um acúmulo de mutações não esperadas por recombinação mendeliana, em virtude, principalmente, de exposição a agentes genotóxicos do meio ambiente (VOGELSTEIN; KINZLER, 1998). O câncer caracteriza-se por ser de origem multifatorial, e os mecanismos que interferem na carcinogênese são muitos. Dentre estes fatores, a exposição aos agrotóxicos pode ser considerada como uma das condições potencialmente associadas ao desenvolvimento do câncer, por sua possível atuação como iniciadores - substâncias capazes de alterar o DNA de uma célula, podendo
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    43 futuramente originar otumor – e/ou como promotores tumorais – substâncias que estimulam a célula alterada a se dividir de forma desorganizada (KOIFMAN; HATAGIMA, 2003). Os fatores de risco de câncer podem ser encontrados no meio ambiente ou podem ser hereditários. A maioria dos casos (cerca de 80%) está relacionada ao meio ambiente, onde encontramos um grande número de fatores de risco. Entendendo-se por ambiente, o meio em geral (água, terra e ar), o ambiente ocupacional (quando insalubre), o ambiente social e cultural (estilo e hábitos de vida) e o ambiente de consumo (alimentos, medicamentos). As mudanças provocadas no meio ambiente pelo próprio homem, os hábitos e estilos de vida adotados pelas pessoas podem determinar os diferentes tipos de câncer (INCA, 2006). A Agência Internacional de Investigação de Câncer (IARC) revisou o potencial carcinogênico de uma grande variedade de inseticidas, fungicidas, herbicidas e outros compostos semelhantes. Segundo a agência, o uso desses produtos químicos sem proteção necessária pode levar a alteração no material genético e ao possível desenvolvimento de alguns tipos de tumores. A exposição ocupacional a agrotóxicos tem sido associada com várias doenças neoplásicas (IARC, 2002). Atualmente, com a modernização da agricultura a população humana vem sendo exposta aos resíduos de agrotóxicos em alimentos, entretanto, os agricultores que usam agrotóxicos estão com riscos aumentados para instabilidade genética, devido aos possíveis danos ao DNA e seus efeitos na saúde (GROVER et al.; 2003). Aproximadamente 20% de todos os agrotóxicos conhecidos são suspeitos de serem carcinogênicos. Além desses efeitos adversos, os agrotóxicos podem afetar também o sistema imunológico, ou ainda apresentar atividade teratogênica e mutagênica (ECOBICHON, 1996). Considerando que os trabalhadores agrícolas estão em constante exposição aos agentes agrotóxicos a monitorização biológica destes indivíduos torna-se necessária como forma de prevenção de doenças, inclusive o câncer.
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    44 1.7 Agrotóxicos erisco ocupacional A saúde dos trabalhadores é condicionada por fatores sociais, econômicos, tecnológicos e organizacionais relacionados ao perfil de produção e consumo, além de fatores de risco, presentes nos processos de trabalho (BRASIL, 2004). Risco, ou fator de risco pode ser definido como “uma condição ou conjunto de circunstâncias que tem o potencial de causar um efeito adverso, que pode ser: morte, lesões, doenças ou danos à saúde, à propriedade ou ao meio ambiente” (BRASIL, 2001). De acordo com legislação do Ministério do Trabalho e Emprego-MTE, os riscos podem ser assim classificados: biológicos (vírus, bactérias, protozoários, fungos, parasitas e bacilos), riscos ergonômicos e de acidentes (esforço físico intenso, levantamento e transporte manual de peso, exigência de postura inadequada, controle rígido de produtividade, imposição de ritmos excessivos, trabalho em turno e noturno, jornadas de trabalho prolongadas, monotonia e repetitividade, arranjo físico inadequado, máquinas e equipamentos sem proteção, ferramentas inadequadas ou defeituosas, probabilidade de incêndio ou explosão, entre outras situações causadoras de estresse físico e/ou psíquico ou acidentes), riscos físicos (ruídos, vibrações, radiações ionizantes, radiações não ionizantes, frio, pressões anormais, umidade e calor) riscos químicos (poeiras, fumos, névoas, neblinas, gases, vapores e substâncias compostas ou produtos químicos em geral) (BRASIL, 1994). O perfil de morbimortalidade dos trabalhadores no Brasil caracteriza-se pela coexistência de agravos que têm relação com condições de trabalho específicas, como os acidentes de trabalho típicos e as “doenças profissionais”; doenças que têm sua frequência, surgimento ou gravidade modificadas pelo trabalho, denominadas “doenças relacionadas ao trabalho” e doenças comuns ao conjunto da população, que não guardam relação de causa com o trabalho, mas que também impactam a saúde dos trabalhadores (BRASIL, 2004). São considerados, como população de risco para a exposição a agrotóxicos, os trabalhadores dos setores produtivos: agropecuário, empresas desinsetizadoras, saúde pública
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    45 (trabalhadores que atuamno controle de endemias e nas zoonoses), da capina química, transporte, comercialização e produção de agrotóxico (OPAS/OMS, 1997). Atualmente, vivem no meio rural, cerca de 30 milhões de brasileiros. Esse número corresponde a pouco mais de 16% de toda a população do País, vivendo em condições precárias de moradia, de acesso à saúde e à educação, com reduzidos níveis de renda e de remuneração. A agricultura familiar, além de responder por 70% dos alimentos produzidos no Brasil, é responsável ainda pela grande maioria das ocupações – também em torno de 70% – no meio rural, sendo a principal fonte de sustento para a maior parte das famílias que vivem em ocupações rurais (IPEA, 2008). Os trabalhadores rurais, que são responsáveis pela aplicação de agrotóxicos são expostos, de alguma forma, a esses produtos. O risco dessa exposição à saúde depende de fatores como, a toxicidade do produto em humanos, as condições da exposição e os níveis de exposição ocupacional. As alterações nas relações e nos processos de trabalho ocorridas a partir da década de 60 repercutiram dramaticamente nas condições de vida, trabalho e na saúde do trabalhador rural (POSSAS; TRAPÉ, 1983). A maioria dos agricultores reconhece que o uso de agrotóxicos pode causar agravos à saúde, mas, no entanto, desenvolvem respostas subjetivas, como a negação ou minimização do risco, estratégias que acabam tendo, por sua vez, um papel importante na determinação da exposição aos agrotóxicos, foi o que revelou um estudo realizado por Peres et al. (2004) em Nova Friburgo-RJ. Reconhece-se, que uma grande parcela da população está exposta aos efeitos nocivos dos agrotóxicos e a contaminação, muito provavelmente, relaciona- se não apenas ao grupo ao qual pertence, mas também à maneira como, individual ou coletivamente, essas pessoas concebem e se posicionam frente ao risco a que estão expostas. O conhecimento do risco é fundamental para o estabelecimento de estratégias de intervenção. De acordo com Oliveira-Silva et. al. (2001), dentre os fatores socioeconômicos que contribuem para a contaminação humana por agrotóxicos destaca-se, o nível educacional e, segundo Peres (1999), a habilidade
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    46 de leitura/escrita erenda familiar. Nessa perspectiva faz-se necessário estudar a situação da população exposta à contaminação por agrotóxicos, com o propósito de entender o cenário para possível intervenção. São consideradas expostas a agrotóxicos todas as pessoas que entram em contato com esses produtos em função de suas atividades laborativas, através do meio ambiente, da utilização doméstica ou acidental. Em todas as situações poderão ser observadas, ou não, alterações subclínicas, clínicas e laboratoriais compatíveis com o diagnóstico de intoxicação por agrotóxicos (BRASIL, 2006). A exposição ocupacional a vários tipos de agentes cancerígenos como fertilizantes, praguicidas, fungicidas, herbicidas e outros produtos químicos têm contribuído para que esse seja um dos principais problemas de saúde pública nos países pouco desenvolvidos (LOPES et al.; 1992; PAUMGARTTEN et al.; 1998). Segundo Augusto (2003) os dados disponíveis no Brasil não refletem a realidade do número de intoxicações e mortes por agrotóxicos, mas, os dados existentes são suficientes para afirmar que se trata de um grave problema de saúde pública. 1.8 Biomonitoramento de Risco Ocupacional A possibilidade de se prevenir ou minimizar a incidência de mortes ou doenças decorrentes da exposição do organismo humano a produtos químicos pode ser feita através da avaliação da exposição a estes agentes. A detecção precoce de uma exposição perigosa pode diminuir significativamente a ocorrência de efeitos adversos na saúde. As informações provenientes da monitorização da exposição ambiental ou ocupacional possibilitam a implantação de medidas de prevenção e controle apropriado. A avaliação da exposição pode ser feita pela medida da concentração do agente químico em amostras ambientais, como o ar (monitorização ambiental), ou através da medida de parâmetros biológicos (monitorização biológica), denominados indicadores biológicos ou biomarcadores. Esses são instrumentos que possibilitam identificar a substância tóxica ou uma condição adversa antes que sejam evidenciados danos à saúde, sendo utilizados, dependendo da finalidade do estudo e do tipo da exposição. Compreendem toda substância ou seu produto de biotransformação, assim como qualquer alteração
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    47 bioquímica precoce, cujadeterminação nos fluidos biológicos, tecidos ou ar exalado, avalie a intensidade da exposição e o risco à saúde. Independente da finalidade e aplicação dos biomarcadores, eles podem ser classificados em três tipos: de exposição, de efeito e de suscetibilidade (AMORIM, 2003). O indicador biológico de exposição estima a dose interna, através da determinação da substância química ou de seu produto de biotransformação em fluídos biológicos, como sangue, urina, ar exalado e outros, possibilitando quantificar a substância no organismo (AMORIM, 2003). Os biomarcadores de genotoxicidade são também considerados como biomarcadores de exposição ou dose interna assim como os metabolitos da urina e marcadores citogeneticos em linfócitos de sangue periférico e aductos do DNA e as proteínas e testes moleculares (teste cometa) (FARMER; EMENY, 2006; GYORFFY et al.; 2008). O biomarcador de efeito é um parâmetro biológico, medido no organismo, o qual reflete a interação da substância química com os receptores biológicos. Na prática diária, biomarcadores de efeito são usados para confirmar um diagnóstico clínico. Mas, para a prevenção, um biomarcador de efeito considerado ideal, é aquele que mede uma alteração biológica em um estágio ainda reversível (ou precoce), quando ainda não representa agravo à saúde (RÜDIGER, 1999). Por principio os indicadores de efeito servem para avaliar as conseqüências e, indiretamente, a intensidade da exposição, ou seja, no momento em que os valores destas análises se distanciam dos valores estabelecidos como normais representam o desfecho de um processo de exposição (PERES et al.; 2005). Dentre os biomarcadores de efeito relacionado à exposição a agrotóxicos, o mais utilizado é o das colinesterases sanguíneas (WHO, 1996; OLIVEIRA-SILVA et al.; 2001). Os biomarcadores de suscetibilidade podem refletir fatores genéticos ou adquiridos que influenciam na resposta do organismo a uma determinada exposição química. Estes são fatores pré-existentes e independem da exposição. São predominantemente genéticos, embora a patologia, alterações fisiológicas, medicamentos e exposição a outros agentes ambientais também possam alterar a suscetibilidade individual. Os biomarcadores de suscetibilidade identificam aqueles
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    48 indivíduos na populaçãoque têm uma diferença genética ou adquirida na suscetibilidade para os efeitos da exposição a substâncias químicas. Os biomarcadores de suscetibilidade indicam quais os fatores podem aumentar ou diminuir um risco individual no desenvolvimento da resposta do organismo decorrente da exposição aos agentes químicos ambientais (AMORIM, 2003). O biomonitoramento genético de populações expostas a potenciais cancerígenos é um sistema de alerta precoce para doenças genéticas ou câncer. Ele também permite a identificação de fatores de risco em um momento quando as medidas de controle ainda podem ser implementadas (KASSIE et al.; 2000). A importância do uso dos biomarcadores, seja de exposição ou de efeito, como parâmetros biológicos de exposição às substâncias químicas deve-se ao fato de eles estarem mais diretamente relacionados aos efeitos na saúde do que os parâmetros ambientais oferecendo uma melhor estimativa do risco (AMORIM, 2003). Nos últimos anos o monitoramento dos efeitos genotóxicos de químicos em humanos com o objetivo de avaliar os riscos tem aumentado e como resultado tem sido identificado marcadores da exposição humana a mutágenos e carcinógenos. O biomonitoramento de populações humanas expostas aos agentes potencialmente mutagênicos e carcinogênicos pode providenciar informações iniciais de desrregulações celulares e iniciação do desenvolvimento de câncer. Nos anos recentes, o teste cometa, conhecido como eletroforese em gel de agarose tem sido importante biomarcador para avaliar danos em populações expostas ambientalmente ou ocupacionalmente a poluentes do ar, metais, pesticidas, radiações e outros xenobióticos (KNUDSEN; HANSEN, 2007; VALVERDE; ROJAS, 2009). O teste cometa tem aplicações na área biomédica, saúde ambiental e biomonitoramento humano a agentes tóxicos, avaliando danos ao DNA e estresse oxidativo (DUSINSKA; COLLINS, 2008). Nesta pesquisa, além do teste cometa foram realizados exames laboratoriais: hemograma, analisando-se as células sangüíneas; e o perfil bioquímico, avaliando indicadores hepáticos e renais, para compor um quadro clínico-laboratorial que auxilie na análise de contaminação dos trabalhadores por
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    49 agrotóxicos e possatambém indicar possíveis outros fatores de confundimento na caracterização da doença ocupacional. 1.8.1 Análises Bioquímicas A configuração destes exames é fundamental para o estudo da relação da saúde humana com as substâncias químicas, devido às funções hepáticas e renais encontrar-se relacionadas com a síntese da maioria das proteínas plasmáticas e pelo fato de pertencerem ao metabolismo de importantes órgãos do corpo human. Assim, alteração de um ou mais parâmetros laboratoriais que avaliam suas funções podem causar quadros de toxicidade do fígado e dos rins (LIMA, 1977). Creatinina A formação e excreção da creatinina fazem dela um marcador muito útil da função renal, principalmente da filtração glomerular, sendo o teste mais utilizado para esta finalidade. É o produto de degradação da creatina, sendo sua concentração sérica não só dependente da taxa de filtração renal, mas também da massa muscular, idade, sexo, alimentação, concentração de glicose, piruvato, ácido úrico, proteína, bilirrubina e do uso de medicamentos (cefalosporinas, salicilato, trimetoprim, cimetidina, hidantoína, anticoncepcionais e antiinflamatórios). Níveis baixos podem ser encontrados nos estados que cursam com diminuição da massa muscular. A determinação da creatinina plasmática é um teste de função renal mais seguro do que a uréia. Nas doenças renais, a creatinina se eleva mais vagarosamente que a uréia e se reduz mais vagarosamente com a hemodiálise. Fatores extra renais, como insuficiência cardíaca congestiva, doenças musculares, ação de medicamentos (anti-hipertensivos, antibióticos, ácido acetil salicílico), dietas ricas em carne vermelha, choque e obstrução mecânica do trato urinário, provocam elevação da creatinina plasmática (WALLACH, 2003).
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    50 Uréia A uréia éum produto do catabolismo de aminoácidos e proteínas. Gerada no fígado, é a principal fonte de excreção do nitrogênio do organismo. É difundida através da maioria das membranas celulares, e a sua maior parte é excretada pela urina, sendo que pequenas quantidades podem ser excretadas pelo suor e degradadas por bactérias intestinais. É livremente filtrada pelos glomérulos e é dependente da velocidade do fluxo urinário, ligado diretamente ao grau de hidratação. Grande parte da uréia filtrada é reabsorvida passivamente nos túbulos proximais e sua concentração varia de acordo com diferentes fatores, tais como o conteúdo protéico da dieta e a hidratação. Apesar de ser um marcador da função renal, é considerada menos eficiente do que a creatinina pelos diferentes fatores não-renais que podem afetar sua concentração. No entanto, sua elevação é mais precoce, e não sofre com a variação da massa muscular. A avaliação conjunta com a creatinina é útil no diagnóstico diferencial das causas de lesão renal. Os níveis séricos diminuídos são mais raros e decorre de importante restrição da ingesta de proteínas, desidratação, reposição excessiva de líquidos, durante a gestação e nas doenças hepáticas graves por diminuição da síntese da uréia (WALLACH, 2003). Aspartato Aminotrasferase (AST/TGO) A enzima Aspartato Aminotransferase – AST, também denominada Transaminase Oxaloacética – TGO, é encontrada em diversos órgãos e tecidos como: fígado, coração, músculo esquelético e eritrócitos. Elevações das transaminases ocorrem nas hepatites (viral e tóxica), hepatite por drogas, na mononucleose, cirrose, colestase, carcinoma hepático primário ou metastático, pancreatite, traumatismo extenso e no choque prolongado. Está presente no citoplasma e também nas mitocôndrias, portanto, sua elevação indica um comprometimento celular mais profundo. No caso do hepatócito, isso se revela por uma elevação por tempo mais prolongado no curso das hepatites virais agudas e uma elevação seletiva nos casos de hepatites alcoólicas, metástases hepáticas e necroses medicamentosas e isquêmicas. Aumentos da AST no soro são comumente encontrados no infarto agudo do miocárdio, elevando-se nas primeiras 12 horas e
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    51 apresentando um picosérico após algo em torno de 24 horas, com retorno aos valores normais em um período de 3 a 5 dias. Valores discretamente elevados podem ser encontrados também no infarto pulmonar, no infarto renal ou em casos de grandes tumores, na embolia pulmonar, distrofias musculares, dermatomiosite, traumas da musculatura esquelética, no pós-operatório, especialmente de cirurgias cardíacas, cirrose alcoólica, hepatite induzida por drogas, mononucleose infecciosa, citomegaloviroses, anemias hemolíticas, pancreatite aguda e acidente vascular cerebral (HENRY, 2008). Alanina Amino Transferase (ALT/TGP) A enzima alanina aminotransferase - ALT, antigamente denominada transaminase pirúvica - TGP, é encontrada abundantemente no fígado, em quantidades moderadas no rim e em pequenas quantidades no coração e na musculatura esquelética. Sua origem é predominantemente citoplasmática, fazendo com que se eleve rapidamente após a lesão hepática, tornando-a um marcador sensível da função do fígado. Como marcador hepatocelular, apresenta valores alterados em patologias que cursam com necrose do hepatócito, como hepatites virais, mononucleose, citomegalovirose e hepatites medicamentosas (HENRY, 2008). Gama Glutamil Transpeptidase (GGT) A gama glutamil transpeptidase ou transferase – GGT é uma enzima presente nas membranas celulares e nas frações microssômicas envolvidas no transporte de aminoácidos através da membrana celular. Está presente em ordem decrescente de abundância no túbulo proximal renal, fígado, pâncreas e intestin. Os níveis séricos da GGT são principalmente de origem hepática. Sua meia-vida é de 7 a 10 dias, aumentando para 28 dias nas lesões hepáticas ligadas ao álcool. Os valores são aproximadamente 50% mais elevados nos homens do que nas mulheres, e são diretamente proporcionais à massa corporal, ao consumo de álcool, ao fumo e ao nível de atividade física.
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    52 Por mecanismo aindanão muito bem esclarecido, pacientes com diabetes mellitus, hipertireoidismo, artrite reumatóide e doença pulmonar obstrutiva crônica frequentemente apresentam valores aumentados de GGT. Valores muito elevados são encontrados nos quadros de colestase crônica, como na cirrose biliar primária ou na colangite esclerosante e em outras patologias hepáticas e biliares. Freqüentemente, apresenta-se elevada em alcoólatras, mesmo sem hepatopatia, na obesidade e no uso de drogas como analgésicos, anticonvulsivantes, quimioterápicos, estrogênio e contraceptivos orais. Nos períodos após infarto agudo do miocárdio, a GGT pode permanecer alterada por semanas. Em estudos do gene humano, a GGT teve sua seqüência de nucleotídeos identificada (HENRY, 2008). Fosfatase Alcalina (FA) Essa enzima está presente em praticamente todos os tecidos do organismo, especialmente nas membranas das células dos túbulos renais, ossos (osteoblastos), placenta, trato intestinal e fígado. Portanto, a fosfatase alcalina encontrada no soro é resultado da presença de diferentes isoenzimas originadas em diferentes órgãos, com predomínio das frações ósseas e hepáticas. Embora até hoje sua função ainda não esteja bem definida, a fosfatase alcalina parece estar envolvida com o transporte de lipídios no intestino e nos processos de calcificação óssea. A fosfatase alcalina óssea e a hepática partilham proteínas estruturais, codificadas por um mesmo gene. Na prática clínica, a grande utilidade está na investigação de doenças hepatobiliares e nas doenças ósseas que cursam com aumento da atividade osteoblástica. É considerado um marcador importante para processos obstrutivos hepáticos. Níveis elevados podem ser também encontrados em outras lesões hepáticas ativas e nas infiltrativas com níveis mais moderados de elevação. Está aumentada nos carcinomas hepáticos primários e secundários. Nas neoplasias, os níveis da fosfatase alcalina são úteis para avaliar a presença de metástases envolvendo fígado e osso. Valores muito elevados são vistos em pacientes com lesões osteoblásticas como as encontradas no carcinoma de próstata com metástase óssea. Elevações menores são vistas quando as lesões são osteolíticas, como as encontradas no carcinoma metastático de mama. Outras
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    53 condições malignas cominfiltração hepática como leucemias, linfomas e sarcoma podem cursar também com elevação da fosfatase alcalina (WALLACH, 2003). Devido ao crescimento ósseo, recém-nascidos e crianças, mas especialmente adolescentes, apresentam valores significativamente mais elevados do que os adultos. Durante a fase de crescimento rápido da adolescência (estirão da puberdade), são encontrados níveis extremamente elevados. Normalmente, os valores são discretamente mais elevados em homens do que em mulheres, e essa diferença desaparece durante e após a menopausa. Em população idosa, existe uma diminuição dos níveis séricos habitualmente encontrados, como conseqüência do aumento da incidência de osteoporose nessa faixa etária. Níveis elevados em duas a três vezes podem ser encontrados durante a gravidez, especialmente no terceiro trimestre, por produção placentária. Níveis diminuídos podem ser encontrados no hipotireoidismo, na anemia perniciosa, nas hipofosfatemias e no uso de drogas como contraceptivos orais (WALLACH, 2003). Colinesterase O nível da enzima colinesterase no sangue é um valioso indicador da relação entre exposição a agrotóxico e problemas de saúde. A atividade de colinesterase é derivada da ação de duas enzimas, uma na membrana dos eritrócitos (colinesterase eritrocitária ou acetil-colinesterase – AChE) e outra sérica (colinesterase plasmática ou butiril- colinestearase – BChE). A diminuição do teor da colinesterase plasmática pode permanecer por trinta dias e o das hemácias por noventa dias após o último contato com os fosforados orgânicos. A inibição da colinesterase por meio dos compostos fosforados ou carbamatos provoca o acúmulo de acetilcolina, e o organismo passa a apresentar uma série de manifestações (efeitos muscarínios, nicotínicos e do sistema nervoso central) (MARICONI, 1980). A acetilcolinesterase plasmática tem sua maior concentração encontrada no plasma e no intestin. Sua síntese é primordialmente hepática e sua meia-vida está estabelecida entre 30 e 60 dias (GUYTON, 1986).
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    54 Vale ressaltar, quea acetilcolinesterase pode ser inibida sem que necessariamente ocorra intoxicação por agrotóxicos. Nesse caso, deve-se considerar a produção no fígado da pseudocolinesterase, que apresenta uma atividade marcadamente afetada em diversas moléstias hepáticas, nos estados de desnutrição e por fatores endócrinos. A atividade da colinesterase pode estar aumentada em situações de hipercolesterolemia, obesidade com trigliceridemia, no hipertireoidismo, no parkinsonismo e quando do uso de benzodiazepínicos, andrógenos, antibióticos e da insulina. Encontra-se diminuída durante a gravidez, na hipocolesterolemia, nos estados de desnutrição, alcoolismo, na cirrose hepática, na tuberculose, dermatomiosite, artrite reumatóide, anemias, infecções agudas e durante o uso de fenotiazínicos, outras doenças que cursem com diminuição da albumina sérica e nos envenenamentos com compostos mercuriais orgânicos. Outras drogas também levam à diminuição da atividade enzimática: sulfatos, fluoretos, citratos, fenotiazinas, codeína e outros (OGA, 2003). A determinação da atividade das enzimas colinesterase eritrocitária e plasmática em indivíduos expostos aos inseticidas organofosforados e/ou carbamatos é utilizada também para o diagnóstico e o tratamento das intoxicações. Entretanto, não apresenta correlação muito significativa em exposições ambientais e/ou ocupacionais leves ou moderadas a estes inseticidas. Ainda assim, é considerado o indicador biológico de escolha (WHO, 1996), no entanto a análise da atividade das colinesterases não deve ser usada de maneira isolada, sendo útil quando usada como exame auxiliar, tanto para o diagnóstico clínico, quanto para as ações de vigilância e acompanhamento clínico, medidas gerais e de suporte são, como em todas as intoxicações agudas, imprescindíveis para salvar vidas (ALMEIDA, 2002). 1.8.2 Análise Hematológica O hemograma avalia os elementos celulares do sangue quantitativa e qualitativamente, sendo o exame complementar mais requerido nas consultas médicas. É indispensável no diagnóstico e no controle evolutivo das doenças infecciosas e crônicas em geral, das emergências médicas, cirurgias e
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    55 traumatologias, acompanhamento daquimioterapia e da radioterapia e nas intoxicações agudas ou crônicas das substâncias químicas, relacionando-se com toda a patologia (LIMA et al.; 1977). Segundo Oliveira (2007) o hemograma corresponde a um conjunto de testes laboratoriais que estabelece os aspectos quantitativos e qualitativos dos eritrócitos (eritrograma), dos leucócitos (leucograma) e das plaquetas (plaquetograma) no sangue: Eritrograma: inclui os testes laboratoriais que determinam o perfil hematológico da série vermelha no sangue periférico. É constituído por: contagem de eritrócitos ou hemácias (Hm), dosagem da hemoglobina (Hb), hematócrito (Ht), índices hematimétricos (VCM, HCM, CHCM, RDW, etc.) e a avaliação da morfologia eritrocitária. Leucograma: engloba os testes laboratoriais que determinam o perfil hematológico da série branca (leucócitos) no sangue periférico. É constituído da contagem global e da contagem diferencial de leucócitos, incluindo a análise das respectivas alterações hematológicas no sangue. É expresso no resultado pela forma leucocitária (com valores relativos e absolutos) da cada subtipo leucocitário. Plaquetograma: envolve a contagem de plaquetas, a avaliação da sua morfologia feita por microscopia e as determinações do volume plaquetário (VPM) e da variação entre os seus volumes (PDW) (OLIVEIRA, 2007). O hemograma é o principal exame a ser realizado quando há suspeita de anemia. A anemia é considerada a doença mais prevalente em todo o mundo, especialmente caracterizada por carência de ferro, que chega a ser responsável por 95% das anemias. A anemia tem sido relatada como diminuição dos níveis de hemoglobina no sangue, com ou sem diminuição do número de eritrócitos, de acordo com idade, sexo e altitude, para indivíduos normovolêmicos. A morfologia anormal das hemácias pode sugerir um diagnóstico, podendo as anemias, serem classificadas de acordo com o tamanho das hemácias, inferido através do volume
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    56 corpuscular médio (VCM).Assim, é possível classificar como anemia normocítica aquelas que estão dentro do valor de normalidade do VCM, microcíticas aquelas abaixo e macrocíticas acima, intimamente ligados a esse valores anormais estão as deficiências de ferro e folato, alcoolismo e certas medicações como metrotrexato. Nas anemias consideradas normocíticas podem estar relacionadas a anemias aplásicas e secundárias a agressões medulares (RAMOS, 2009). 1.8.3 Ensaio Cometa O Ensaio Cometa ou teste “Single cell gel eletrophoresis” - SCGE vem sendo proposto para estudos de toxicogenética devido a sua peculiaridade e vantagens, quando comparado a outros testes para detecção de substâncias genotóxicas. É um teste molecular, não utilizado para detectar mutações, mas sim lesões genômicas, que após serem processadas, podem resultar em mutação. Este teste também pode ser utilizado para estudos de reparo de DNA, visto que as lesões detectadas pelo ensaio cometa são passíveis de correção. Embora impossibilite inferir a fidelidade do processo de reparo, pode trazer informações importantes sobre a cinética e o tipo de lesão reparada (TICE, 2000; SILVA et al.; 2000). Os danos mais facilmente detectados no DNA são quebras (simples ou duplas), danos alcali-lábeis, crosslinks e quebras resultantes de reparo por excisão (VALVERDE; ROJAS, 2009). Este teste pode ser utilizado para qualquer tipo de células (qualquer tecido que possam ser extraídas células nucleadas), sendo necessário apenas um pequeno número das mesmas e de não requerer células em divisão. Nesta técnica, as células nas quais se deseja verificar o dano causado por agente genotóxico são submetidas à eletroforese em lâminas. O DNA da célula que não tiver dano migrará em conjunto, formando um círculo (os aspectos descritos só são visíveis após a coloração própria da técnica). Caso ocorra dano ao DNA, os fragmentos tendem a migrar mais rapidamente. Sendo o dano muito intenso em uma célula, fragmentos de diversos tamanhos serão formados e migrarão em velocidades diferentes, formando-se então a figura típica de um cometa. A medida do dano é feita pela
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    57 relação entre odiâmetro do núcleo sem dano e a extensão das “caudas” dos núcleos com dano (TICE et al.; 2000; SILVA et al.; 2000). O ensaio cometa é muito difundido na comunidade científica e combina a simplicidade das técnicas bioquímicas para detecção de quebra de fita simples de DNA e/ou sítios álcali lábeis com as abordagens típicas dos ensaios citogenéticos em células. As vantagens do ensaio do cometa incluem: sensibilidade para detecção de danos no DNA; a coleta de dados em células individualizadas, seguido de uma criteriosa análise estatística; o uso de amostras de células extremamente pequenas; e qualquer população de células de eucarioto pode ser utilizada para análise (SPEIT; HARTMANN, 1999).
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    59 2 JUSTIFICATIVA O Estadodo Piauí com extensão territorial de 251.529,186 km² vem aumentando sua área de lavoura, ocasionando uma maior exposição aos agrotóxicos, pelos trabalhadores rurais. Destaca-se, no Estado, como atividade principal, a agricultura, representando 42% da atividade das pessoas com 10 anos ou mais de idade (IBGE, 2007). Foi observando em 2006, um aumento das áreas de lavoura de 138 mil hectares (11,4%) em relação ao censo agropecuário 1995-1996 (IBGE, 2006). A crescente utilização de agrotóxicos no Estado, verificada pelos órgãos oficiais, através do controle da revenda dos agrotóxicos e os resultados do censo agropecuário, mostra que, do total de estabelecimentos que utilizou agrotóxicos (34.686), 90,9% não recebeu orientação técnica, 87% usa pulverizador costal, e, que 48,6% são associados a entidades de classe (sindicatos, associações/movimentos de produtores e moradores, etc.) (IBGE, 2006). Essas pequenas propriedades são caracterizadas pela pouca tecnologia nas práticas agrícolas, incluindo o uso de pulverizadores costais para aplicação de agrotóxicos, a falta de equipamento de proteção e pouco suporte técnico e especializado, que podem favorecer a ocorrência de intoxicações e adoecimento. Além disso, o pouco conhecimento dos riscos potenciais desses produtos aumenta o risco de contaminação dos agricultores e suas famílias, quase todos envolvidos no processo de trabalho agrícola. Alguns estudos relatam que trabalhadores de pequenas culturas, também se expõem a vários agrotóxicos (BARRIGOSSI et al.; 2004; FARIA et al.; 2004; CASTRO; GOMES, 2007; ARAÚJO et al.; 2007). Os resultados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos - PARA comprovam a utilização ilegal de agrotóxicos em culturas onde geralmente ocorrem índices elevados de exposição de pequenos e médios produtores a esses agrotóxicos por utilizarem, em sua grande maioria, pulverizadores costais. Esta informação é relevante, uma vez que a agricultura familiar tem uma participação bastante representativa na
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    60 agricultura brasileira, correspondendoa 84,4% dos estabelecimentos rurais do país, segundo dados do Censo Agropecuário (IBGE, 2006). Considerando o desenvolvimento de pesquisas como uma das áreas de atuação do CEREST, identificou-se na região dos cerrados piauienses um elevado número de trabalhadores rurais que apresentavam uma forma de adoecimento peculiar a trabalhadores que fazem uso de agrotóxicos. Assim, foi realizada por Chaves (2007), em municípios dos cerrados, uma pesquisa que constatou que os trabalhadores rurais expostos a agrotóxicos estavam sujeitos a um risco real dos efeitos resultantes da genotoxicidade, entre eles, o câncer. Nesta pesquisa realizou- se o teste de micronúcleo em células da mucosa bucal e observou-se aumento significante na frequência de micronúcleo em trabalhadores expostos aos agrotóxicos em relação ao grupo de trabalhadores não expostos. Uma das recomendações da pesquisadora foi o fomento a pesquisa científica e o mapeamento do uso de agrotóxicos, os efeitos mutagênicos e carcinogênicos relacionados à exposição dos trabalhadores rurais aos agrotóxicos em todo o Estado do Piauí (CHAVES, 2007). Neste contexto, há necessidade de se investigar a situação de saúde de pequenos agricultores no Estado, que utilizam misturas complexas de agrotóxicos, o que torna difícil a mensuração dos danos, sendo de fundamental importância a utilização de marcadores que detectem os danos da exposição mais precocemente, ou seja, a realização de um monitoramento biológico que possa permitir um melhor controle da exposição e, conseqüentemente, a minimização dos danos e intervenção dos órgãos públicos. Desta forma, enquanto integrante da equipe do CEREST, surgiu o nosso interesse pelo tema, em pesquisar a saúde dos trabalhadores expostos a agrotóxicos, em diferentes municípios do Estado do Piauí.
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    62 3 OBJETIVOS 3.1Geral Avaliar osefeitos tóxicos e genotóxicos em agricultores piauienses expostos aos agrotóxicos, com o uso de biomarcadores hematológicos, bioquímicos e genotóxicos. 3.2 Específicos Caracterizar os tipos de agrotóxicos utilizados; Analisar os parâmetros bioquímicos e hematológicos dos trabalhadores expostos; Avaliar os efeitos genotóxicos por meio do Ensaio Cometa nos trabalhadores expostos; Identificar as diferentes classes de danos ao DNA pelo Ensaio Cometa; Correlacionar os fatores de riscos não ocupacionais com os efeitos genotóxicos.
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    64 4 PROTOCOLO DEESTUDO 4.1Tipo de Estudo O estudo foi baseado num modelo transversal de investigação, delineado de forma a permitir que se obtenha uma avaliação clínica, epidemiológica e laboratorial objetivando investigar os casos de contaminação de trabalhadores rurais por agrotóxicos, nos municípios de Barras e José de Freitas. 4.2Local do Estudo O presente estudo foi desenvolvido no Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST), órgão da Diretoria de Vigilância Sanitária, da Secretaria de Estado da Saúde do Piauí, situado à Av. Pernambuco, 2464, Bairro Primavera, Teresina-Piauí. A avaliação hematológica, bioquímica foi realizada no Laboratório Central de Saúde Pública (LACEN), e o Ensaio Cometa foi desenvolvido no Laboratório de Toxicologia e Genética Molecular (LABTOXIGEN) do LACEN. 4.3 Aspectos Éticos O projeto de pesquisa e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (APÊNDICE 1) foram submetidos ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Ceará - COMEPE, credenciado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) – Conselho Nacional de Saúde (CNS)/Ministério da Saúde (MS) para análise quanto aos princípios éticos. Seguiram-se as normas da ética para estudos clínicos com seres humanos, de acordo com os termos da Resolução nº 196/96 do CNS, a Declaração de Helsinque (OMS) (1965) e suas revisões. O projeto foi aprovado pelo COMEPE em 25 de setembro de 2008, sob protocolo nº 175/08 (ANEXO A). Os ensaios não foram iniciados antes da aprovação pelo comitê de ética. A amostra obtida foi usada
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    65 exclusivamente para execuçãodesta pesquisa, mantendo-se o sigilo e a privacidade dos indivíduos envolvidos. 4.4Caracterização do Estudo A pesquisa foi desenvolvida em dois municípios do Estado do Piauí: Barras e José de Freitas (Figura 2), tomando-se como critérios de escolha, o número de casos de morbidade de trabalhadores rurais destes municípios e por intoxicação por agrotóxicos, notificados pelo SINAN, assim como os casos registrados no CITOX. Os referidos municípios fazem parte da proposta de mapeamento do uso de agrotóxicos, efeitos mutagênicos e carcinogênicos relacionados à exposição dos trabalhadores rurais aos agrotóxicos em todo o Estado do Piauí. 4.4.1 Município de Barras De acordo com a nova divisão territorial adotada pela gestão estadual, o município de Barras localiza-se na Macrorregião Meio Norte, Território de Desenvolvimento Cocais, com uma área de 1.722 km² limitando-se ao Norte com Batalha, Esperantina e Campo Largo; ao Sul com Batalha, Cabeceiras e Miguel Alves; a Leste, com Piripiri e Batalha e a Oeste, com Miguel Alves, Nossa Senhora dos Remédios e Campo Largo e dista 126 km da capital. Sua população é de 44.914 habitantes, onde, 10.261 desenvolvem atividade na agropecuária (IBGE, 2007). As condições de saneamento apresentadas pelo município de acordo com o IBGE são as seguintes: 34% das residências não possuem abastecimento de água, 67,2% não apresentam instalações sanitárias e apenas 25% possuem coleta de lixo. Em relação aos serviços de saúde pública, 100% da população têm cobertura da Estratégia Saúde da Família (DATASUS, 2008). No que se refere à produção agrícola, o município de Barras tem uma área cultivada de 6.513 hectares, assim distribuídos: arroz de sequeiro 48,3%; milho 35,5%; mandioca 7,7%; melancia 4,6% e 1,9% para feijão macaçar, apresentando uma produção por hectare, respectivamente, 3.208, 1.387, 2.822, 9.000 e 34,
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    66 toneladas (CONAB, 2009).Dos 3.888 estabelecimentos agropecuários existentes no município, 22,80% utilizam agrotóxicos (IBGE, 2006). Figura 2: Localização dos municípios de Barras e José de Freitas-PI Fonte: http://www.guianet.com.br/pi/mapapi.gif. Acesso em 22/07/2010. 4.4.2 Municipio de José de Freitas O município de José de Freitas localiza-se na Macrorregião Meio Norte, Território de Desenvolvimento Entre Rios, limita-se ao norte com Lagoa Alegre/Cabeceiras do Piauí/Campo Maior; ao Sul com Altos/Teresina; a Leste, com Campo Maior e Oeste com União/Lagoa Alegre/Teresina, estando a 48 km da capital Sua população é de 36.483 habitantes, com uma extensão territorial de 1.538 km². Os dados do IBGE (2007) mostram em José de Freitas 4.672 trabalhadores na agropecuária. Do total de residências, 44,% possuem
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    67 abastecimento d’água, 58,8%não tem instalação sanitária e apenas 15,7% possui coleta de lixo domiciliar. Em relação à cobertura dos serviços de saúde pública, existem 21 ambulatórios e 86,1% da população tem cobertura da Estratégia Saúde da Família. Na agricultura, dos 9.079 hectares de área cultivada, 39,2% é de cana de açúcar e 34,1% de arroz de sequeiro, seguido da cultura do milho, mandioca e feijão macaçar, com 16,01%, 9,2% e 1,39% hectares respectivamente (CONAB, 2009). Dados do IBGE indicam que, dos 2.451 estabelecimentos agropecuários, 7,26% utilizaram agrotóxicos (IBGE, 2006). 4.5 Seleção dos Sujeitos da Pesquisa Os voluntários foram trabalhadores rurais dos municípios de Barras e José de Freitas, no Estado do Piauí, potencialmente expostos aos agrotóxicos (grupo exposto). Este grupo foi constituído de uma amostra de 60 trabalhadores, sendo 30 para cada município, não havendo restrição quanto ao grupo étnico. Para o controle negativo foram selecionados 55 trabalhadores de áreas administrativas que não estavam expostos a nenhum agroquímico (grupo não exposto). 4.5.1 Critérios de Inclusão Para a participação no estudo alguns critérios foram estabelecidos: a utilização de agrotóxicos pelos voluntários, somente com fins agrícolas e estar exposto há pelo menos um ano; ser do sexo masculino com idade acima de 18 anos; trabalhadores capazes de compreender a natureza e objetivo do estudo, com intenção de cooperar com o pesquisador e agir de acordo com os requerimentos de todo o protocolo, tendo sido confirmado mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
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    68 4.5.2 Critérios deExclusão Não poderiam fazer parte do estudo: crianças, mulheres e idosos; voluntários que apresentassem algum tipo de infeçcção (virótica ou bacteriana) ou que haviam se submetido a raios X, tomografia ou qualquer outro procedimento radiológico há menos de três meses ou que tinham feito tratamento quimioterápico ou radioterápico em algum momento da vida; ter qualquer condição que o investigador julgasse relevante para a não participação no estudo. 4.6 Delineamento do Estudo 4.6.1 Procedimentos com os voluntários A mobilização dos voluntários deu-se através do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e dos profissionais das Vigilâncias em Saúde e Estratégia Saúde da Família (ESF) dos municípios. A equipe composta por profissionais da Vigilância Sanitária Estadual, com o apoio dos profissionais em cada município, ministrou palestra sobre os efeitos dos agrotóxicos à saúde e explicou sobre a natureza e objetivos da pesquisa. Foi enfatizada ao voluntário sua liberdade para se retirar a qualquer momento do estudo sem ser obrigado a fornecer o motivo de fazê- lo e sem que isto lhe causasse qualquer prejuízo no convívio com a comunidade. Aqueles que concordaram em participar do estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Para fins de avaliação do trabalhador rural exposto aos agrotóxicos, aplicou-se um questionário, recomendado pela International Comission for Protection Against Environmental Mutagens and a Carcinogens-ICPEMC (CARRANO; NATARAJAM, 1988). Os dados do Questionário de Saúde Pessoal (ANEXO B) constavam de perguntas sobre saúde, questões demográficas, padrões, hábitos (alimentares, tabaco, álcool, café, etc), bem como ocupacionais, históricos médico e familiar, tipos de agrotóxicos utilizados e duração da aplicação, assim como sobre o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI).
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    69 4.7Coleta das Amostrasde Sangue As amostras de sangue foram coletadas no período de setembro de 2009 a janeiro de 2010, após o preenchimento do questionário, sendo submetidas às análises bioquímicas, hematológicas e teste cometa. A quantidade da amostra de sangue coletada de cada trabalhador foi de 10 mL. Os tubos contendo o sangue foram acondicionados em caixas térmicas com amplo espaço e sob temperatura de 2º a 4º C. O tempo de transporte das amostras ao laboratório em Teresina variou de 2 a 3 horas até o processamento e a leitura, sendo posteriormente, armazenadas em caixas apropriadas e guardadas nos armários do Laboratório de Toxicologia Genética e Molecular. Caso novo estudo seja realizado com essas lâminas, novo projeto será encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa. Todas as lâminas armazenadas foram devidamente codificadas e estão sob a responsabilidade da Diretoria do LACEN/LABTOXIGEN e da Diretoria de Vigilância Sanitária da Secretaria de Estado da Saúde. 4.7.1 Avaliação Bioquímica A avaliação dos resultados das análises bioquimicas e hematológicas foi comparada com os valores de referência do LACEN-PI, constantes no ANEXO C. As amostras de sangue foram colhidas e transferidas para tubos de vidro sem anticoagulante. Após a coagulação, o sangue foi centrifugado e o soro retirado para as dosagens séricas de uréia, creatinina, TGO, TGP, fosfatase alcalina e gama GT. Também foi realizada análise de indicador biológico especifico (butirilcolinesterase plasmática). Para avaliação dos níveis de uréia (Enzimático – UV), realizou-se o seguinte procedimento: em um tubo rotulado como teste foi colocado 1,0 mL do reagente de trabalho, adicionado em seguida 0,01 mL de amostra de cada trabalhador, homogeneizado e transferido imediatamente para cubeta termostatizada a 37 ± 0,2º C. A absorbância foi medida aos 30 e 90 segundos. Foi utilizada a diferença de temperatura referente às medidas de absorbância para
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    70 calcular os resultados.As leituras foram expressas em mg/mL e comparadas com os valores de referência. Os níveis de creatinina pela medodologia Labtest foram dosados conforme descrito: foram preparados e identificados três tubos de ensaio: branco, teste e padrão. Em todos, foi colocado 2,0 mL de tampão, no tubo branco acrescentado 0,25 mL de água deionizada, no tubo identificado como padrão, 0,25 mL da solução padrão e no teste 0,25 mL de soro do trabalhador. Em seguida, nos tubos brancos e teste, foi acrescentado 0,5 mL de ácido pícrico e 0,1 mL do acidificante. Os reagentes foram misturados e colocados em banho-maria a 37 ºC, durante 10 minutos, com o nível da água no banho superior ao nível dos reagentes nos tubos de ensaio, em temperatura ambiente durante 5 minutos. As absorbâncias do teste (A1 e A2) foram feitas no padrão de 510 nm ou filtro verde (500 a 540 nm), acertando o zero com o branco. As leituras foram expressas em mg/mL e comparadas com os valores de referência. A avaliação dos níveis de TGO e TGP (cinético-UV-IFCC) foram assim mensurados: em um tubo rotulado como teste foi colocado 1,0 mL do reagente de trabalho, adicionado em seguida 0,1 mL de amostra de cada trabalhador. A amostra foi homogeneizada, e, após 1 minuto, transferida imediatamente para cubeta termostatizada a 37 ± 0,2º C. Em seguida foi registrada a absorbância, sendo esta expressa em mg/mL e comparadas com os valores de referência. Os níveis de fosfatase alcalina foram mensurados através do método- Roy modificado utilizando a seguinte metodologia: pipetou-se 1,0 mL do reagente de trabalho em um tubo teste de 12x75, sendo adicionados 0,02 mL da amostra. Após a homogeneização, foi transferido imediatamente para a cubeta termostatizada a 37 º C, e após 30 segundos, realizou-se a leitura da absorbância, repetindo-se este procedimento. As leituras foram expressas em mg/mL e comparadas com os valores de referência. Os níveis de GGT foram mensurados utilizando (método – Szasz modificado) com o seguinte procedimento: em um tubo rotulado como teste, foi
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    71 colocado 1,0 mLdo reagente de trabalho, adicionado em seguida 0,05 mL de amostra de cada trabalhador, homogeneizado e transferido imediatamente para cubeta termostatizada a 37 ± 0,2º C. Esperou-se 1 minuto e fez-se a leitura da absorbância inicial (A1) em 405 nm, disparando simultaneamente o cronômetro e repetida a leitura após 2 minutos (A2). As leituras foram expressas em mg/mL e comparadas com os valores de referência. Para mensuração dos níveis de butirilcolinesterase plasmática (BChE), foi utilizada a metodologia Dietz modificado e automatizado empregada no Equipamento Modular P 800 Hitache da Roche. A metodologia foi realizada da seguinte forma: inicialmente procedeu-se a identificação de 2 tubos de ensaio com B (branco) e T (teste), adicionou-se aos mesmos 1,0 mL de substrato e 3,0 mL de reagente de cor. Foi colocado em banho-maria, 37°C, durante 3 minutos, com a estante dentro do banho-maria. Adicionou-se 20 µL de amostra no tubo T e incubados durante 2 minutos e 30 segundos. Após esse tempo de incubação e ainda no banho-maria, foi adicionado 3 mL de solução inibidora no tubo T em intervalos de 30 segundos entre os tubos. Após retirar a estante de tubos do banho-maria, foram adicionados 3,0 mL de solução inibidora e 20 µL da amostra no tubo B. O material foi homogeneizado, sendo feita a leitura das absorbâncias do T (teste) em espectrofotômetro em 410 nm, acertando o zero com o branco. As leituras foram expressas em mg/mL e comparadas com os valores de referência. 4.7.2 Avaliação Hematológica Para o estudo hematológico, as amostras de sangue foram colocadas em tubos de vidro contendo anticoagulante EDTA. Logo após a coleta foram feitos os esfregaços das lâminas com coloração (Panótico - corante). Amostras da coleta de sangue foram analisadas por testes hematológicos utilizando o analisador automático Sysmex-KX21. Diferentes parâmetros hematológicos foram utilizados: hemoglobina (Hb), hematócrito (Ht), número de eritrócitos (RBCs) no sangue total, leucograma com contagem de leucócitos e contagem de plaquetas (OLIVEIRA, 2007). Os resultados encontrados foram comparados com os valores de referência (ANEXO C).
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    72 4.7.3 Avaliação Genotóxica:Ensaio Cometa O ensaio cometa é um método sensível para os estudos de danos ao DNA em células individualizadas. Foi realizado em células de linfócitos de acordo com Singh et al.; (1988) e Saran et al.; (2008). É uma técnica simples e rápida para mensurar quebras no DNA em um pequeno número de células. No teste, as células são embebidas em agarose e colocadas em lâminas, onde são lisadas com detergentes e submetidas à eletroforese, onde é possível avaliar os danos ao DNA pela sua migração em forma de cauda, que são observadas ao microscópico, indicando a frequência de quebras e danos de bases. Na versão alcalina é possível incluir os sítios apurinícos e apirimidínicos os quais são sítios álcalis lábeis e avaliar a conexão entre danos ao DNA causados por agentes oxidantes. (DUSINSKA; COLLINS, 2008). As amostras de sangue (5 mL) foram coletadas por meio de punção venosa com seringas estéreis e descartáveis e colocadas em tubos heparinizados (5000 U/mL). Em seguida foram preparados três frascos de cultura, cada um com 5 mL de meio RPMI 1640. Este meio contém: 15% de soro bovino fetal; 1% de antibiótico (penicilina e estreptomicina), 1% de L-glutamina e 1% de fitohemaglutinina (estimula a divisão celular). Foram adicionadas 18 gotas de sangue total em cada frasco do RPMI. As culturas foram incubadas em estufa comum a 37 ºC por 72 horas; em seguida centrifugadas a 900 rpm, e o sobrenadante descartado. 10 µL do centrifugado foi misturado com 90 µL 0,75% de agarose de baixo ponto de fusão (low mellting), a 37ºC e colocadas em forma de gotas sobre as lâminas, e cobertas com as lamínulas (24 x 60 mm), mantidas em baixa temperatura por 5 min até solidificar a agarose. Depois, a lamínula foi retirada e a lâmina mergulhada em solução de lise (2,5 M NaCl, 100 mM EDTA, 10 mM Tris, 1% Triton X-100, 10 % DMSO; pH 10) a 4ºC e protegida da luz por no mínimo 24 horas. Ao serem removidas da solução de lise, as lâminas foram colocadas na posição horizontal na cuba de eletroforese. Esta se encontrava em banho de gelo, para manter a temperatura da eletroforese constante em torno dos 4ºC. A cuba foi, então, preenchida com a solução de eletroforese (1 mM EDTA, 300 mM NaOH; pH > 13) recém-preparada, a um nível superior (0,25 cm, em média) ao das lâminas e
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    73 ficaram em repousopor 20 min para o desenrolamento do DNA, o afrouxamento de suas ligações e a exposição dos sítios álcali-lábeis. A eletroforese foi conduzida usando 25 V e 300 mA, por 15 min. Todos estes passos foram realizados na presença de baixa luminosidade. Após a eletroforese, as lâminas foram retiradas da cuba e mergulhadas na solução de neutralização (0,4 M tris; pH 7,5, por 5 min). As lâminas foram fixadas por 10 min. em solução fixadora (Ácido tricloroacético 15%; Sulfato de zinco heptahidratado 5% e Glicerol 5%). Após secagem das lâminas, foi feita a coloração com solução de nitrato de prata. Lavou-se 3 vezes com água destilada, mantendo as lâminas nas cubetas. Adicionou-se à solução de parada (ácido acético) nas cubetas deixando-as por 5 minutos, mais três lavagens com água destilada e deixou-se secar em bandejas. Imagens de 100 células foram selecionadas aleatoriamente (50 células de cada uma de duas laminas) por indivíduo (Figura 3). Figura 3: Esquema do teste cometa conforme protocolo de Singh et al.; (1988) e Saran et al.; (2008) usado para a avaliação de genotoxicidade em agricultores expostos aos agrotóxicos.
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    74 As células foramcontadas visualmente em cinco classes de acordo com o tamanho e intensidade dos nucleoídes (0 - 4). Um valor (Índice de Danos) foi atribuído a cada cometa de acordo com sua classe (VILLELA et al.; 2006). O índice de dano (ID), portanto, variou de 0 (completamente intacto: 100 células × 0) para 400 (com dano máximo: 100 × 4 células). A análise foi feita pelo padrão de escores, onde, de acordo com o tamanho e intensidade da cauda do cometa, os mesmos foram divididos em cinco categorias (0-4) de acordo com a percentagem de DNA na cauda do cometa, que indica o grau de lesão sofrido pela célula: 0 = sem danos (<5%); 1 = baixo nível de danos (5-20%); 2 = médio nível de danos (20-40%); 3 = alto nível de danos (40-95%); 4 = dano total (95%) (Figura 4). Os cálculos dos dados foram feitos segundo as fórmulas: Indice de dano - ID = número de dano de cada uma das classes x categoria da classe / 100; Frequencia do dano - FD = 100 % – número de danos da classe zero (ANEXO D). O controle negativo foi processado separado das amostras dos agricultores e ambos analisados por dois examinadores. A avaliação visual dos cometas é um método de avaliação bem validado que tem uma alta correlação com a análise de imagens por computador (COLLINS, 2004). Figura 4: Classes de Danos ao DNA analisados no Teste Cometa Fonte: Vilela et al. (2006).
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    75 4.8 Análise estatística Osdados obtidos foram submetidos ao programa SPSS (Statistical Package for the Social Sciences) versão 13.0, para a análise de variância com o teste One - way ANOVA não paramétrico e para as correlações foi aplicado o teste de Spearman entre os diversos parâmetros analisados. O programa Prisma versão 4.0 com o teste Kruskal-Wallis foi usado para a comparação dos parâmetros hematológicos e o teste t-student, para comparações entre os indivíduos expostos com os não expostos, na avaliação bioquímica e genotóxica. Adotou-se nível de significância de p<0,005 para rejeição da hipótese nula.
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    77 5 RESULTADOS EDISCUSSÃO 5.1 Caracteristicas da população As características da população em estudo, obtidas a partir das informações apresentadas pelos indivíduos pesquisados, em respostas às indagações do questionário de saúde estão sumarizadas na Tabela 1 e informam sobre: idade, grupo étnico, tempo de trabalho, uso de EPI, carga horária, hábito de fumar, consumo de bebidas alcoólicas, uso de medicamentos e consumo de vegetais. A faixa etária encontrada no estudo foi em média de 34,27±13,10 anos para o grupo exposto e de 32,13±9,46 anos para o grupo não exposto; de etnia negra, na maioria, para os dois grupos. Quanto ao tempo de trabalho, os expostos tiveram uma média de 13,55±11,74 anos, e carga horária média de 41,5±4,92 horas semanais, enquanto o grupo não exposto, 7,07±7,11 anos de trabalho e jornada semanal média de 37,82±7,63 horas, sendo o tempo de trabalho coincidente aquele encontrado por Ramos (2009), na Bahia. Pesquisa realizada em duas comunidades no Rio Grande do Sul encontrou resultados semelhantes, onde a idade média dos trabalhadores investigados foi de 41,14 anos, sendo o tempo de exposição de 25,69 anos e uma variação de 12 a 50 anos (REMOR et al.; 2008). Esta situação assemelha-se a citada por Veiga et al. (2007), segundo a qual, o trabalhador rural brasileiro chega a trabalhar mais de 12 horas por dia, seis vezes na semana em temperaturas externas que podem atingir 40º C, estando sujeito a uma condição de trabalho bastante insalubre, que pode trazer sérias conseqüências negativas à sua saúde. Em relação ao uso de EPI, os dados encontrados evidenciaram que 50% dos indivíduos expostos utilizavam pelo menos um tipo de proteção individual (Tabela 1). A pesquisa de Remor et al. (2008) mostrou que 68% dos trabalhadores expostos a agrotóxicos usavam pelo menos dois tipos de EPI durante a aplicação dos mesmos. Na região dos cerrados piauienses, a maioria dos trabalhadores usava apenas um tipo de EPI (luvas, máscara, óculos e botas), enquanto 17,5% não
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    78 utilizavam nenhuma proteção(CHAVES, 2007). Outros estudos mostram que a maioria dos trabalhadores não utiliza regularmente o EPI (ARAÚJO et al.; 2000; MOREIRA et al.; 2002; RAMOS, 2009). Alguns estudos apontam que o uso de EPI não é consequência do entendimento que esses trabalhadores têm do risco associado à exposição, mas da maneira como os mesmos percebem o risco no uso destes produtos (PERES et al.; 2001; LEVIGARD, 2001; PERES, 2003). Os dados encontrados evidenciam que a realidade do trabalhador agrícola brasileiro não diverge muito em se tratando de espaços geográficos, havendo similaridades entre o interior do Piauí e do Rio Grande do Sul. Em relação ao uso de proteção individual o próprio IBGE ratifica os resultados encontrados, visto que, de acordo com o censo agropecuário (2006), 67% dos estabelecimentos declararam a utilização destes equipamentos, embora a maior parte tenha citado como equipamentos, “botas” e “chapéus.” Quanto ao fumo, 41,7% do grupo exposto tinha o hábito de fumar, enquanto 58,3 % não tinham esse hábito (Tabela 1). Resultado contrário foi encontrado na pesquisa de Grover et al. (2003), na qual o percentual de fumantes (61,11%) foi maior que o de não fumantes (38,89%) no grupo exposto. Em relação ao etilismo, verificou-se um alto consumo de bebidas alcoólicas no grupo exposto e não exposto (73,3% e 74,5% respectivamente), (Tabela 1). Este dado pode estar relacionado aos hábitos de vida da população, pois, pesquisa realizada no Estado com trabalhadores da região sul, também retratou a mesma situação, com percentual de 55,83% de etilismo para os trabalhadores expostos a agrotóxicos (CHAVES, 2007). A mesma pesquisadora mostrou que 97% dos agricultores não costumavam consumir vegetais na dieta, sendo encontrado em nosso estudo 66,7%. Na literatura o consumo de vegetais é tratado como hábito conservador da estabilidade genética, podendo fornecer vitaminas antioxidantes que combatem as espécies reativas de oxigênio (ERDTMANN, 2003). Nos resultados sobre o consumo de medicamentos, o percentual maior foi para o grupo exposto, tanto para medicamentos prescritos (33,3%), como os não prescritos (66,7%).
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    79 Tabela 1: Característicasda população do estudo exposta e não exposta aos agrotóxicos em municípios do Piauí (2010). Características da população Expostos n=60 Não expostos n=55 Idade *34,27 ± 13,10 *32,13 ± 9,46 (18-69) (20-69) Grupo étnico Branco - 27,3% Negro 86,7% 34,5% Caucasiano 5,0% 30,9% Outros 8,3% 7,3% Tempo de trabalho no local (anos) *13,55 ± 11,74 *7,07 ± 7,11 (1-50) (1-31) Uso de EPIs Sim 50,0% 9,1% Não 41,7% 45,4% Não informado 8,3% 45,5% Carga horária semanal *(41,5±4,92) *(37,82±7,63) (15-60) (0-50) Hábito de fumar** Não 58,3% 85,5% Sim 41,7% 14,5% Consumo de álcool semanal Sim 73,3% 74,5% Não 26,7% 25,5% Consumo de medicamentos Prescritos 33,3% 29,1% Não prescritos 66,7% 58,2% Não informado - 12,7% Consumo de vegetais Sim 33,3% 21,8% Não 66,7% 70,9% Não informado - 7,3% Resultados expressos como* média ± desvio padrão e percentual. Dados entre parênteses correspondem ao valor mínimo e máximo. 5.2Agrotóxicos utilizados nos municípios de Barras e José de Freitas No momento da entrevista, ao serem indagados sobre a exposição aos agentes químicos no trabalho, os trabalhadores relataram que se expõem a vários tipos de agrotóxicos, sendo comum, um mesmo trabalhador, citar mais de um tipo de “veneno”, que é como eles se referiam aos agrotóxicos.
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    80 Como mostra aFigura 5, a classe dos agrotóxicos mais utilizados pelos agricultores dos municípios pesquisados, é a de herbicidas (81,1%), seguido dos inseticidas (16,3%), ressaltando que 2,6% dos entrevistados referiram não saber qual produto utilizam, seja por desconhecimento do nome, pela utilização de misturas complexas ou uso de produtos proibidos. Outros autores relatam dificuldade para identificação dos agrotóxicos utilizados pelos trabalhadores, assim como mostram que os herbicidas são também os agrotóxicos mais utilizados na agricultura confirmando nossos achados (YOUNES, 2000; CAIRES et al.; 2002; FARIA, et al.; 2004, 2009). Figura 5: Percentual da utilização de agrotóxicos segundo classe/ação pelos trabalhadores rurais em municípios do Piauí (2010) 81,1% 16,3% 2,6% Herbicidas Inseticidas Não sabe Os resultados encontrados correspondem aos dados divulgados pela Associação Nacional de Defesa Vegetal (ANDEF, 2009), onde mostram que, no Brasil, os herbicidas representam 44,9% do consumo (3,200 milhões de toneladas). O segundo maior consumo é de inseticidas, com 28,5% (2,027 milhões de toneladas); em seguida, estão os fungicidas, com 22,1% (1,573 milhões de toneladas); os acaricidas representam 1,6% (112,8 mil toneladas), e os demais defensivos agrícolas, 2,9%, (que somam 210,1 mil toneladas) (MENTEM, 2009).
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    81 Entre os herbicidas,os mais citados pelos trabalhadores foram o Glifosato (45,9%) e o Roundup (25,7%), cujo ingrediente ativo é o glifosato. Em seguida, o 2,4 D e DMA, com o ácido fenoxiacético como principio ativo (5,4%) e Propanil (4,1%) (Quadro 6). Segundo dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA (2005), entre os princípois ativos mais consumidos destacam-se os herbicidas glifosato (34%) e o ácido diclorofenoxiacético – 2,4 D (6,6%), o óleo mineral (7,1%) e o inseticida metamidofós (6,4%). A grande utilização dos herbicidas está intrinsecamente relacionada ao tipo de cultivo existente nos municípios estudados. Como mencionamos no item de caracterização das regiões, as principais culturas são: arroz de sequeiro; cana de açúcar; feijão macaçar; mandioca; milho e melancia (CONAB, 2009), algumas das quais são responsáveis pelo elevado consumo desses produtos (IBAMA, 2005). Quadro 6: Agrotóxicos referidos pelos trabalhadores em municípios do Piauí (2010) *Nome referido Grupo químico Classe / Ação Ingrediente ativo Classe toxicológica Nº % 2,4 D Ácido ariloxialcanóico Herbicida Ácido fenoxiacético/ 2,4D I 2 2,7 DMA Ácido ariloxialcanóico Herbicida Ácido fenoxiacético/ 2,4D I 2 2,7 Propanil Anilida Herbicida Propanil II 3 4,1 Karate Piretróide Inseticida Lambda cialotrina III 3 4,1 Actara Neonicotinoide Inseticida Tiametoxam III 9 12,2 Roundup Glicina substituída Herbicida Glifosato IV 19 25,7 Glifosato Glicina substituída Herbicida Glifosato IV 34 45,9 Não sabe - - - Não sabe 2 2,6 TOTAL 74 100 *Nome do produto referido pelo trabalhador. Nº=Número de vezes em que o agrotóxico foi citado pelo trabalhador. A utilização do glifosato na agricultura tem sido crescente nas últimas duas décadas. O glifosato é irritante dérmico e ocular, podendo causar danos hepáticos e
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    82 renais quando ingeridoem doses elevadas (AMARANTE JUNIOR et al.; 2002). Um estudo na UNICAMP demonstrou que 61% das intoxicações com agrotóxico no Brasil, entre 1996 e 2000, são devido a manipulações com glifosato (BOLOGNESI, 2003). O efeito do glifosato no organismo humano é cumulativo e a intensidade da intoxicação depende do tempo de contato com o produto. Os sintomas de intoxicação previstos incluem irritações na pele e nos olhos, náuseas e tonturas, edema pulmonar, queda da pressão sanguínea, alergias, dor abdominal, perda de líquido gastrointestinal, vômito, desmaios, destruição de glóbulos vermelhos no sangue e danos no sistema renal (ANDRIOLI, 2005). O glifosato é do grupo quimico da glicina substituída, sendo herbicidas indicados para uso em inúmeras culturas agrícolas contra plantas infestantes, incluído na classe toxicológica IV, considerado como pouco perigoso pela legislação brasileira, no entanto, Batista et al. (2006) em estudo in vitro de seus efeitos sobre os eritrócitos demonstraram ação toxicológica sobre a membrana celular com conseqüências graves para a saúde humana e de animais silvestres e domésticos. O 2,4 D e o DMA são derivados do ácido fenoxiacético, classificados como extremamente tóxicos (classe I), são amplamente utilizado no país, principalmente em pastagens e plantações de cana-de-açúcar, para combate a ervas de folhas largas. É bem absorvido pela pele, por ingestão e inalação, podendo produzir neurite periférica e diabetes transitória no período da exposição. Em altas doses, pode provocar lesões degenerativas hepáticas, renais e do sistema nervoso central (OPAS/OMS, 1996). Existem suspeitas de mutagenicidade, teratogenicidade e carcinogenicidade relacionados aos herbicidas. Estudos epidemiológicos demonstram diversas associações entre o uso de agrotóxicos e câncer em humanos, incluindo linfoma não-Hodgkin e câncer de tireóide (INCA, 2006). Em estudo realizado no Rio Grande do Sul, Dallegrave (2003) detectou a toxicidade reprodutiva do Roundup em ratos Wistar, como o aumento no percentual de espermatozóides anormais em puberdade e a redução da produção diária e do
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    83 número de espermatozóidesem idade adulta. Além disso, foram verificados distúrbios de desenvolvimento e alterações nos tecidos testiculares dos ratos. Os inseticidas citados nesta pesquisa foram o Actara (12,2%) e o Karate (4,1%) classificados como medianamente tóxicos (classe III) (Quadro 6). Estudo realizado no Vale do São Francisco-PE, constatou que a classe de agrotóxicos mais utilizados foi a de inseticida, que oferece o maior potencial para agravos agudos à saúde (BEDOR et al.; 2007). O Karate é um piretróide, altamente tóxico e perigoso para o ambiente. Os piretróides são de fácil absorção pelas vias digestiva, respiratória e cutânea. Os sintomas de intoxicação aguda ocorrem principalmente quando sua absorção se dá por via respiratória. São estimulantes do sistema nervoso central e, em doses altas, podem produzir lesões no sistema nervoso periférico, não tendo evidências de toxicidade crônica com o uso de piretróides (MATOS et al.; 2002). Segundo Trapé (2005) neurites periféricas e alterações hematológicas do tipo leucopenias, são alguns dos efeitos da exposição de longo prazo aos piretróides. O Actara, que tem como ingrediente ativo o tiametoxam quando em contato constante, mesmo em pequenas doses, esse inseticida tem grande potencial carcinogênico (OLIVEIRA et al.; 2009). Quanto à toxicidade, o percentual dos agrotóxicos mais utilizados, encontra-se na classe IV (71,6%), considerados pouco tóxicos, seguido da classe III (16,3%) e classe I (5,4%), conforme ilustrado na Figura 6. De acordo com Garcia (2005), classificar um agrotóxico segundo sua periculosidade deveria servir como parâmetro para a definição de medidas de controle e de gerenciamento de riscos, porém, no Brasil, essa classificação é meramente figurativa, uma vez que não há diferença em um produto ser da Classe I (extremamente tóxico para o homem) ou da Classe IV (pouco tóxico para os seres humanos), se eles podem ser recomendados, comercializados e utilizados da mesma forma e por qualquer usuário.
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    84 Figura 6: Percentualda utilização de agrotóxicos segundo classe toxicológica pelos trabalhadores rurais em municípios do Piauí (2010). 5,4% 4,1% 16,3% 71,6% Não sabe 2,6% I II III IV Não sabe 5.3Avaliação bioquímica Os biomarcadores bioquímicos são importantes ferramentas utilizadas nos estudos epidemiológicos, buscando-se estabelecer uma relação entre a exposição aos agentes químicos e os efeitos na saúde dos indivíduos expostos. A exposição aos pesticidas é conhecida por produzir uma variedade de alterações bioquímicas, a qual pode ser responsável por efeitos adversos em estudos experimentais com humanos (HERNÁNDEZ et al.; 2006; LÓPEZ et al.; 2007). Foram avaliadas as enzimas TGO, TGP, FA e GGT dos indivíduos expostos e não expostos utilizando o teste t student. A avaliação da atividade enzimática, além de demonstrar que a exposição excessiva possui significado clínico ou toxicológico próprio, pode estar associada a um efeito ou uma disfunção do sistema biológico avaliado (AZEVEDO; CHASIN, 2003). Como observado na Tabela 2, foi evidenciado que nas dosagens de uréia, GGT e butirilcolinesterase, as médias encontradas não tiveram diferenças
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    85 estatisticamente significativas quandocomparados entre os grupos. Entretanto nas dosagens de TGO, TGP e FA, foram encontrados valores com significância estatística com p < 0,001 confirmando a diferença entre as médias e, na dosagem de creatinina, evidenciou-se significância p < 0,005. Tabela 2: Avaliação dos parâmetros bioquímicos em agricultores expostos aos agrotóxicos em municípios do Piauí (2010) Grupo Uréia Creatinina Gama GT (GGT) Fosfatase alcalina (FA) Butiril- colinesterase (BChE) TGO TGP Exposto N=60 30,73±9,23 (12-48) 1,00±0,15* (0,70-1,70) 16,50±12,09 (3-64) 66,40±19,87*** (41-157) 7.712±2.104 (800-11.000) 32,62±7,62*** (21-63) 37,72±13,84*** (18-86) Não exposto N=55 28,93±5,67 (16-46) 0,94±0,12 (0,70-1,30) 20,07±10,67 (3-57) 40,32±13,26 (16-75) 7.932±1.668 (4.950-11.300) 27,09±4,87 (17-35) 27,05±4,92 (14-37) Resultados expressos como média ± desvio padrão. Dados entre parênteses correspondem ao valor mínimo e máximo. Significância em *p< 0,005 e ***p<0,001, em relação aos trabalhadores não expostos aos agrotóxicos analisados com o teste t. Embora a média de TGO do grupo exposto (32,62±7,62) esteja no intervalo do valor de referência (4-36 U/l), observou-se que 33,3% dos trabalhadores apresentavam esse indicador acima desse valor; enquanto a média de TGP (37,72 ± 13,84) encontra-se elevada em relação ao valor de referência (4-32 U/l). Neste indicador, 55% dos trabalhadores expostos encontravam-se acima desse valor. A transaminase TGO é menos específica para se afirmar que existe uma doença hepática já que também se encontra no músculo cardíaco, nos ossos, rins, cérebro, pâncreas, pulmões, leucócitos e eritrócitos. A TGP, em geral, é mais especifica do fígado. Entre os fatores que contribuem para o aumento das transaminases estão o abuso de bebidas contendo álcool, a exposição a sangue contendo vírus (usuários de drogas, tatuagens, transfusões) a provável existência de doença biliar, o uso atual de medicamentos hepatotóxicos, imunossupressão, hepatopatia prévia, enfermidade cardíaca (MATTOS; DANTAS, 2001). O aumento de TGO é considerado forte indicativo de lesões crônicas, enquanto o aumento de TGP sugere lesões agudas, o que, segundo Ramos (2009), pode indicar que esse aumento significativo no grupo exposto seja uma alteração subclínica estável, que só poderia
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    86 ser confirmada comacompanhamento médico periódico e possivelmente atestada por biopsia hepática. Nesta pesquisa, o uso do glifosato pelos trabalhadores foi de 71,6%, o que pode ter contribuido para o aumento desta enzima, pois segundo Hernandez et al. (2006), a TGO pode ser alterada em exposições aos pesticidas dentre eles o glifosato, resultando em uma sutil disfunção hepática que poderá futuramente culminar em citotoxicidade. Estudo realizado por Almeida; Martins (2008) em população exposta a agrotóxicos encontrou aumento na atividade das enzimas TGO e TGP em 10% e 16% dos pacientes, respectivamente. A elevação da TGP é considerada como um parâmetro sensível e precoce das alterações hepáticas decorrentes de exposições ocupacionais a agentes hepatotóxicos, antes que lesões irreversíveis se desenvolvam (CARVALHO et al.; 2006). Na dosagem de FA, alterações significantes (p< 0,001) foram encontradas no grupo exposto (média=66,40±19,87) em relação ao não exposto (média=40,32±13,26), encontrando-se acima do valor de referência (13-43 U/I) (Figura 7). Estudo realizado por Carvalho et al. (1988) detectou níveis significativamente elevados (p< 0,001) de fosfatase alcalina em aplicadores de BHC. A exposição ao pesticida genotóxico carbofurano induz estresse oxidativo na célula aumentando a produção de espécies reativas de oxigênio e de nitrogênio (MILATOVIC et al.; 2005, 2006). Figura 7: Dosagem de fosfatase alcalina em trabalhadores expostos aos agrotóxicos e em indivíduos não expostos a agentes químicos em municípios do Piauí (2010). A linha contínua indica o limite máximo do valor de referência (43 U/I).
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    87 Observa-se que amédia da gama GT não foi estatisticamente significante entre os grupos, entretanto, nos dois grupos, foi observado que alguns trabalhadores apresentaram resultados acima do valor de referência (7 a 40 U/I) (Tabela 2). Segundo Almeida e Martins (2008), essa variável pode se elevar com o consumo de álcool, o que pode justificar as alterações encontradas em nossa pesquisa, onde foi observado elevado consumo de bebida alcoólica no grupo exposto e não exposto (73,3% e 74,5%). Por estar presente quase na sua totalidade no fígado, a GGT aparece elevada na maioria das alterações hepatobiliares, sendo um dos testes mais sensíveis no diagnóstico dessas condições. Estes resultados são semelhantes àqueles encontrados por esses autores ao estudar o perfil das enzimas hepáticas em trabalhadores da cultura de alho. Apesar das alterações dos padrões das enzimas hepáticas serem relacionadas normalmente a doenças comuns, não se pode descartar a possibilidade de resultarem de exposição a agrotóxicos, já que a biotransformação de moléculas químicas ocorre, principalmente, no fígado. Segundo a OPAS/OMS (1996), a exposição prolongada a múltiplos agrotóxicos afeta diversos órgãos, incluindo o fígado, podendo causar hepatite crônica, colecistite e insuficiência hepática. Como mostrado na Tabela 1, o tempo médio de exposição dos trabalhadores foi de 13,55 anos, que pode ser considerada como exposição crônica, suficiente para que as alterações hepáticas apresentassem fora dos valores de referência normais. Nas intoxicações crônicas, por agrotóxicos, o quadro clínico é indefinido e o diagnóstico difícil de ser estabelecido. Além das várias manifestações crônicas como neuropatias periféricas, discrasias sanguíneas diversas, lesões renais, arritmias cardíacas e dermatoses, ou irreversíveis como paralisias e neoplasias entre outras, também causam lesões hepáticas com alterações das transaminases e da fosfatase alcalina (ALMEIDA; MARTINS, 2008). Para a avaliação da função renal, usou-se como biomarcadores a uréia e a creatinina. A média de uréia no grupo exposto foi 30,73±9,23 e 28,93±5,67 para o não exposto, ambas consideradas normais para os valores de referencia (10-52 mg/dL), não havendo diferença significativa entre os grupos. Para a dosagem de creatinina a média foi de 1,0±0,15 para o exposto e 0,94±0,12 para o não exposto,
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    88 observando-se que ambasestão normais para os valores de referência (0,4-1,3 mg/dL), no entanto, neste biomarcador, foi evidenciada diferença estatisticamente significativa entre os grupos (p<0,005). Segundo a OPAS (1996), os herbicidas provocam lesões hepáticas, renais e fibrose pulmonar irreversível. O fígado e os rins, principais órgãos de biotransformação e excreção de substâncias tóxicas, são os alvos mais freqüentemente afetados pelos inseticidas (SANTOS et al.; 2007). Na avaliação da butirilcolinesterase, não foi observado diferença estatisticamente significante entre os dois grupos. Entretanto, no grupo dos trabalhadores expostos, 5% apresentaram inibição na dosagem da BChE, dentre eles o valor mais discrepante foi o out liers de 800 U/I (Figura 8). Esse dado pode estar relacionado a não utilização na agricultura pelos trabalhadores pesquisados dos organofosforados e carbamatos, que são os responsáveis pela inibição da acetilcolinesterase. Essa diminuição também pode estar associada ao consumo alcoólico, visto que, 73,3% deste grupo, consumiam estas bebidas (Tabela 1), além da neurotoxicidade o álcool pode causar disfunção hepática e alterações nos testes de inibição das colinesterases. Estudo realizado por Faria et al. (2009), encontrou proporção de consumo alcoólico de alto risco mais elevada no grupo com redução de BChE, sugerindo uma relação entre alcoolismo e intoxicações. Em Nova Friburgo (RJ), 32% dos trabalhadores com redução de BChE apresentavam hepatopatia alcoólica. Sendo o alcoolismo um fator de confundimento no diagnóstico diferencial com a intoxicação crônica induzida por agrotóxicos, cabe registrar ainda que, além do fator de confundimento, o álcool é um potencializador dos efeitos causados pela exposição a agrotóxicos (ARAÚJO et al.; 2007).
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    89 Figura 8: Dosagemde butirilcolinesterase em trabalhadores expostos aos agrotóxicos e em indivíduos não expostos a agentes químicos em municípios do Piauí (2010). 0 2000 4000 6000 8000 10000 12000 1 3 5 7 9 11 13 15 17 19 21 23 25 27 29 31 33 35 37 39 41 43 45 47 49 51 53 55 57 59 Exposto Não Exposto A linha contínua indica o limite mínimo do valor de referência (4.620 U/I). 5.4 Avaliação hematológica Na avaliação dos parâmetros hematológicos (Tabela 3), não foram observadas diferenças estatisticamente significantes entre os grupos exposto e não exposto. A média dos valores encontra-se no intervalo dos valores de referência (ANEXO C) para esses marcadores, entretanto, na avaliação dos leucócitos, observou-se que a média do grupo exposto (4.848,06±1270,15), encontra-se abaixo do valor de referência (5000-10000 mm³), onde 55% dos trabalhadores neste grupo apresentaram leucopenia (Figura 9). Tabela 3: Avaliação dos parâmetros hematológicos em agricultores expostos aos agrotóxicos em municípios do Piauí (2010). Grupos Hematócrito (%) Hemoglobina (g/L) Hemácias (mm3 ) Leucócitos (mm3 ) 44,44 ± 3,48 15,19 ± 1,37 4,85 ± 0,40 4.848,06 ± 1270,15Expostos N=60 (33-54) (11,10-18,40) (3,90-5,68) (2.780-7.750) 45,52 ± 2,70 15,54 ± 1,24 4,92 ± 0,28 5.758,00 ± 1135,80 Não Expostos N=55 (41-52) (13,40-17,60) (4,30-5,60) (4.700-9.800) Resultados expressos como média ± desvio padrão. Dados entre parênteses correspondem aos valores mínimos e máximos. Não Significância em relação aos trabalhadores não expostos analisados com o ”Kruskal-Walls test”.
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    90 Carvalho et al.(1988), em estudo com aplicadores de DDT, com exposição atual e antiga (de 5-20 anos), encontrou diminuição significativa no número de leucócitos quando comparado ao grupo controle. Segundo Trapé (2005), alterações hematológicas do tipo leucopenia pode ser efeito de exposição em longo prazo aos piretróides. Entretanto, a leucopenia não pode ser considerada como um único fator indicativo, uma vez que pode ser influenciada por medicamentos, tais como, antiarrítmicos, antibióticos, anticonvulsivantes, anti-hipertensivos e os usados para tratamento do diabetes, além dos agrotóxicos. Nesta pesquisa, o tempo de exposição dos trabalhadores (13,55 anos), pode ser considerado exposição crônica, ressaltando que, 33,3% dos expostos usavam medicamento prescrito e 66,7% não prescritos (Tabela 13), o que pode ter contribuído para a diminuição dos leucócitos. Segundo Ramos (2009), esta diminuição gera também uma deficiência imunológica, deixando assim o indivíduo mais vulnerável às doenças oportunistas que, se não tratada, pode levar o indivíduo a óbito. Figura 9: Percentagem de trabalhadores expostos aos agrotóxicos em municípios do Piauí, de acordo com avaliação hematológica para leucócitos (2010). 55,0% 45,0% < 5000 leucócitos por mm³ > 5000 leucócitos por mm³ Trabalhadores expostos aos pesticidas podem apresentar alterações hematológicas, mudanças envolvendo a quantidade, qualidade e distribuição das células sanguíneas (SANTOS-FILHO et al.; 2005; RAMOS, 2009). Segundo Carvalho (1988), a ação inicial de exposição ao agrotóxico é uma leucocitose,
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    91 indicando uma tentativade defesa celular importante do organismo agredido. Nas fases subsequentes, com o aumento a intensidade de exposição, parece que começa haver uma lesão significativa no sistema hematopoiético e imune, ocasionando uma leucopenia acentuada. Segundo Titlic et al. (2008) após exposição aos pesticidas, vários distúrbios fisiológicos podem se manifestar, dentre eles diminuição significativa do número de hemácias e leucócitos. Embora não tenha sido observada diferença estatisticamente significativa para os valores de hematócrito e hemoglobina entre os dois grupos, foi evidenciado que 6,7% dos trabalhadores expostos apresentaram valores de hematócrito e hemoglobina diminuídos, quando comparados neste grupo, com os valores de referência (ANEXO C). Esses achados poderiam sugerir que essa anemia pudesse ser decorrente da atividade genotóxica dos pesticidas no gene, que regula a produção de hemoglobina em resposta a agressão. Vale ressaltar que os efeitos da intoxicação podem ser agravados em pequenas comunidades rurais pela falta de saneamento básico, falta de infraestrutura da população, normalmente de baixas condições sócioeconômicas (VEIGA et al.; 2006). Estudo de Ramos (2009) encontrou no grupo exposto resultado também indicativo de possível anemia e El- Sadek e Hassan (1999) encontraram no grupo exposto aos pesticidas uma baixa de hemoglobina significativa quando comparado ao grupo controle, indicando também uma possível anemia. Estas observações foram reforçadas por Gamlin et al. (2007) e Titlic et al. (2008). Remor et al. (2008), estudando os efeitos da exposição a complexas misturas de pesticidas em trabalhadores rurais de duas comunidades no Rio Grande do Sul não encontrou diferenças significativas entre os dois grupos de trabalhadores, onde ambos apresentaram valores hematológicos normais semelhantes aos valores de referência observados na literatura para várias outras populações brasileiras, conforme descrito por Karazawa e Jamra (1989). Ratner et al. (1983) sugeriram que a presença de agrotóxicos nos alimentos e frutas consumidos diariamente, poderia conduzir a aumento significativo de supressão de medula óssea em indivíduos normais e, segundo Ahamed et al. (2006) esta exposição a agrotóxicos pode culminar em anemia aplástica, enquanto para Lafiura et al. (2007) em leucemias. Law et al. (2006), estudando os casos de anemia aplástica adquirida (AAA) em doentes com uma história de exposição a pesticidas
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    92 de áreas agrícolas,identificaram pacientes apresentando grau moderado a severo de aplasia de medula óssea, como resultado decorrrente de 9-12 anos de exposição prolongada a pesticidas, expostos basicamente a uma mistura composta por organofosforados e compostos organoclorados, dado esse que também corresponde a pesquisa realizada por Ramos (2009) em um município baian. Para Van Maele- Fabry et al. (2007) a evidência mais forte de um risco aumentado para leucemia mielóide está nos trabalhadores da fabricação e aplicação de agrotóxicos. Os conhecimentos sobre as causas ocupacionais e ambientais do câncer ainda são muito incipientes, somente em 2007, a Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer (IARC), identificou 415 agentes cancerígenos conhecidos ou suspeitos. Nos ambientes de trabalho podem ser encontrados agentes cancerígenos como o amianto, a sílica, solventes aromáticos como o benzeno, metais pesados como o níquel e cromo, a radiação ionizante e alguns agrotóxicos, cujo efeito pode ser potencializado se for somado à exposição a outros fatores de risco para câncer como a poluição ambiental, dieta rica em gorduras trans, consumo exagerado de álcool, os agentes biológicos e o tabagismo (INCA, 2006). 5.5Avaliação genotóxica com o ensaio cometa Nos últimos anos o monitoramento dos efeitos genotóxicos de químicos em humanos com o objetivo de avaliar os riscos tem aumentado e como resultado tem sido identificado marcadores da exposição humana a mutágenos e carcinógenos. O biomonitoramento de populações humanas expostas aos agentes potencialmente mutagênicos e carcinogênicos pode providenciar informações iniciais de desrregulações celulares e iniciação do desenvolvimento de câncer. O teste cometa “in vivo” é bastante usado na avaliação genotóxica com várias aplicabilidades em vários tecidos e com muita sensibilidade para detectar baixos níveis de danos ao DNA com pequenos números de células nas amostras biológicas (BRENDLER-SCHWAAB et al.; 2005). Na versão alcalina pode detectar diferentes tipos de danos ao DNA em células eucarióticas tratadas in vivo ou in vitro com agentes genotóxicos com aplicações para o monitoramento humano e seus
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    93 resultados podem sercorrelacionados com os de outros biomarcadores de danos ao DNA (ALBERTINI et al.; 2000). Na verificação da ocorrência de cometas em trabalhadores rurais no estado do Piauí, um total de 11.500 células foi analisado a partir da cultura de linfócitos do sangue coletado dos indivíduos pesquisados. Foram contabilizadas 100 células (50 células/lâmina) por indivíduo. As fotomicrografias dos núcleos de linfócitos dos agricultores expostos aos pesticidas de acordo com as classes de dano: 0, 1, 2, 3 e 4 estão na Figura 10. Figura 10: Perfil eletroforético das classes de danos em trabalhadores expostos aos agrotóxicos no Estado do Píauí (2010). Os danos mensurados correspondem a escores de 0 a 4, sendo observado diferença significativa (p<0,001) entre os grupos em todos as classes. Das 6.000 células analisadas no grupo exposto a agrotóxicos observou-se a presença de danos ao DNA nas classes 1 (baixo nível de dano), 2 (médio nível de dano), 3 (alto nível de dano) e 4 (dano total), sendo a maior frequência sem dano- classe 0 (77%), assim como na classe 1 (17,4%) (Figura 11). Vale ressaltar que, segundo Tice et al. (2000) dependendo da extensão, o dano pode ser reparado. Esses achados identificam o potencial genotóxico nos linfócitos dos indivíduos do grupo exposto quando comparados aos indivíduos do grupo controle reforçando a idéia de que os agrotóxicos são potentes substâncias causadoras de lesão ao DNA.
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    94 Figura 11: Genotoxicidadeem cultura de linfócitos de trabalhadores expostos em relação aos não expostos às misturas complexas de agrotóxicos segundo classe de danos, no Estado do Piauí (2010). Dano 0 Dano 1 Dano 2 Dano 3 Dano 4 77,0% 17,4% 1,8% 1,6% 1,7% 88,8% 8,8% 0,3% 0,2% 0,0% Expostos Não expostos Significância em p < 0,001, em relação aos trabalhadores expostos (n=60) e os não expostos (n=55) analisados pelo teste t. Danos ao DNA e estresse oxidativo são considerados os mecanismos observados em estudos epidemiológicos (MUNIZ et al.; 2008) com a exposição ocupacional aos pesticidas, sendo o monitoramento de populações expostas importante para estimar os riscos e dentre outros biomarcadores (micronúcleos, aberrações cromossômicas e quebras de cromátides irmãs), o teste cometa está bem estabelecido como um teste sensível e rápido para detecção de quebras simples oriundas de reparo de DNA por excisão incompleta (REMOR et al.; 2008). A versão alcalina, usada nesse estudo, pode também detectar quebras simples e duplas e sítios álcalis lábeis o que pode levar às alterações cromossômicas e pode ser um evento inicial para a carcinogênese e a outras doenças genéticas (FORCHHAMMER et al.; 2010). A Tabela 4 mostra os efeitos da exposição aos agrotóxicos em linfócitos de trabalhadores como observado pelo aumento significante (p< 0,001) do índice e da frequência de danos em cultura de linfócitos de trabalhadores expostos, em relação aos não expostos. Resultado semelhante foi encontrado em estudo com
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    95 trabalhadores envolvidos naprodução de uma variedade de pesticidas utilizando o ensaio cometa, que revelou um aumento de danos no DNA em linfócitos do sangue periférico (GARAJ-VRHOVAC; ZELJEZIC, 2000). Da mesma forma, estes pesquisadores estudando possíveis danos genéticos em trabalhadores croatas e indianos ocupacionalmente expostos a uma mistura complexa de pesticidas mostrou um aumento nos valores dos parâmetros de ensaio cometa (GARAJ-VRHOVAC; ZELJEZIC, 2001, 2002). Estudo realizado por Remor et al. (2008) no Rio Grande do Sul, utilizando o ensaio Cometa em leucócitos do sangue periférico mostrou que o índice e a frequência de danos ao DNA observados no grupo exposto foram significativamente maiores em relação ao grupo controle (p≤ 0,01, e p≤ 0,05), respectivamente, sendo resultado semelhantes encontrados por Muniz et al.; (2008). Estudos da exposição aos pesticidas usando o teste cometa em linfócitos mostram resultados positivos entre os danos ao DNA e os níveis de diclodifenol, dicloroetileno (YANEZ et al.; 2004; PEREZ-MALDONADO et al.; 2006). Tabela 4: Avaliação genotóxica em agricultores expostos aos agrotóxicos em municipios do Piauí (2010) Grupos Índice de danos (0- 400) Frequência de danos (%) Expostos (N=60) 32,13 ± 18,45*** (7 - 110) 21,82 ± 8,43*** (6 - 50) Não expostos (N=55) 10,12 ± 4,12 (2- 20) 9,38 ± 3,56 (2 - 18) Resultados expressos em média ± desvio padrão. Dados entre parênteses correspondem ao valor mínimo e máximo. 100 células por indivíduo. Significância em ***p< 0,001, em relação aos trabalhadores não expostos analisado com o teste t. Estudos de avaliações de riscos em misturas complexas são de difícil entendimento sobre os químicos que a compõem no sentido da identificação de compostos que tenham efeitos tóxicos e/ou genotóxicos, devido aos efeitos antagônicos e/ou sinergísticos dos compostos presentes na mistura (ERGENE et al.; 2007). Trabalhadores envolvidos na fabricação de pesticidas com mais de 10 anos de exposição apresentaram o comprimento da cauda do cometa, significativamente aumentado. Os efeitos genotóxicos em trabalhadores expostos a pesticidas foram
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    96 relatados com oaumento da duração da exposição (CARBONELL et al.; 1993; PADMAVATHI et al.; 2000; GROVER et al, 2003). 5.6Correlações com fatores de riscos não ocupacionais e entre os biomarcadores. Indivíduos expostos a pesticidas apresentam alterações em diferentes biomarcadores, entre eles o ensaio cometa (SHAHAM et al.; 2001, GROVER et al.; 2003, SAILAJA et al.; 2006). Muitos são os fatores responsáveis pela modulação dos efeitos da exposição a pesticidas, entre eles, a utilização ou não de equipamentos de proteção individual, tempo e condições de exposição, como também variações individuais nos genes de metabolização de xenobióticos e de reparo de DNA, estes conhecidos como biomarcadores de susceptibilidade (BOLOGNESI, 2003; BULL et al.; 2006; HEUSER et al.; 2007). Em nossa pesquisa, a análise estatística mostrou não haver significância (p>0,005) entre os danos no DNA em relação às variáveis: tempo de trabalho, não uso de EPI, hábito de fumar, consumo de álcool e não consumo de vegetais (Tabela 5). Os resultados do nosso estudo são semelhantes àqueles encontrados por Castillo-Cadena et al. (2006), que estudou danos no DNA em floricultores cronicamente expostos a pesticidas, mostrando não haver correlação significativa entre os danos no DNA e sexo, idade, hábito de fumar ou beber, uso de equipamentos de proteção, bem como de anos de exposição. Speit et al. (2003), investigou o efeito do cigarro em fumantes e não fumantes e não encontrou diferenças significativas entre os dois grupos.
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    97 Tabela 5: Correlaçõesentre os fatores de risco não ocupacionais com os danos ao DNA de agricultores do Piauí expostos aos agrotóxicos, 2010. Teste do cometa em linfócitos Indice de Danos (ID) Frequencia de Danos (FD)Fatores de risco não ocupacionais Expostos Não expostos Expostos Não expostos Idade* -0,017 0,332* 0,010 0,345* Tabagismo* 0,012 -0,096 -0,044 -0,096 Etilismo* -0,110 0,196 -0,018 0,234 Não Consumo de Vegetais* 0,039 0,030 -0,108 -0,003 *Coeficientes de correlações não paramétricas de Sperman (r); Significancia para p<0,05. Considerando que não foram observadas correlações entre as variáveis, índice de dano e frequência de danos observados em cultura de linfócitos de trabalhadores expostos aos agrotóxicos com os fatores de riscos não ocupacionais, tais como idade, tabagismo, etilismo e não consumo de vegetais, o estudo sugere que há uma maior probabilidade do efeito genotóxico ser decorrente da exposição dos trabalhadores aos agrotóxicos, visto que, não foram encontradas correlação de variáveis extrínsecas em relação aos resultados do cometa, sugerindo que as alterações no DNA foram observadas, principalmente devido ao efeito dos agrotóxicos, mas, cabe enfatizar que os danos identificados são possíveis de serem reparados por inúmeros mecanismos de reparo. A maquinaria de reparo de DNA é importante na prevenção da acumulação de danos ao DNA e protege contra uma variedade de cânceres (GILLET; SCHAERER, 2006). Em estudos de biomonitoramento, o dano genético associado com pesticidas tem sido detectado para níveis de exposição alta, uso intensivo ou por causa do mau uso ou da falta de medidas de controle (GONZÁLEZ et al.; 1990; BOLOGNESI; MORASSO, 2000). Os resultados do presente estudo estão em concordância com autores que utilizaram o ensaio do teste cometa como um excelente biomarcador e tem correlacionado aumento do dano ao DNA com exposição extensiva a pesticidas (PACHECO; HACKEL, 2002; MUNIZ et al.; 2008; RAMOS, 2009). Os testes para o
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    98 biomonitoramento de danosao material genético são de importância para a avaliação de efeitos crônicos de agentes mutagênicos, que não são detectados em exames comumente usados para avaliação clinica, portanto devem ser implementados para uma maior segurança sobre os possíveis danos genéticos, como uma forma de prevenção para futuras doenças relacionadas à instabilidade do material genético, a exemplo das neoplasias malignas que normalmente acontecem após anos de exposição aos agentes mutagênicos e carcinogênicos, a exemplo dos agrotóxicos (SAFFI, 2003).
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    100 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Aexposição aos agrotóxicos pode causar uma variedade de efeitos à saúde humana que se expressam de imediato ou levam anos para se manifestarem. A Secretaria de Estado da Saúde, preocupada com a saúde dos trabalhadores rurais piauienses, vem desenvolvendo pesquisas no intuito de prevenir agravos à saúde desses trabalhadores, apontando o biomonitoramento como a melhor forma de acompanhamento. A faixa etária dos trabalhadores foi, em média, de 34 anos, de etnia negra, na maioria, com tempo de trabalho, em média de 13,55 anos e carga horária acima de 40 horas semanais, onde 50% dos trabalhadores utilizavam pelo menos um tipo de EPI. Em relação aos fatores não ocupacionais, 41,7 % dos trabalhadores, relatou ter o hábito de fumar e 73,3% consumiam bebidas alcoólicas. Sobre o consumo de medicamentos, foi encontrado o consumo, tanto para medicamentos prescritos (33,3%), como os não prescritos (66,7%). Quanto aos hábitos alimentares, 66,7% dos entrevistados, informou não incluir vegetais na dieta. Neste estudo constatou-se o uso de uma diversidade de agrotóxicos utilizados pelos agricultores, pertencentes, na sua maioria da classe toxicológica III e IV, sendo os mais utilizados os herbicidas (81%), seguido dos inseticidas (16,3%). Entre os herbicidas, o mais citado foi o glifosato (71,6%) e na classe inseticida, o grupo químico dos neonicotinoides (12,2%) e piretróides (4,1%). Na avaliação dos marcadores bioquímicos, alterações significantes foram observadas nos individuos expostos para creatinina, TGO, TGP e fosfatase alcalina, enquanto para uréia, e Gama GT, não houve significância. Na butirilcolinesterase, também não foi observado significância, mas houve inibição em 5% do grupo exposto.
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    101 Não foram observadasalterações significantes na avaliação dos parâmetros hematológicos, embora 55% dos expostos tenham apresentado leucopenia quando comparados aos valores de referência. Genotoxicidade em linfócitos de sangue periférico foi indicada pelos significantes (p<0,001) aumento dos índices e da frequência de danos em trabalhadores expostos a agrotóxicos, em relação aos não expostos com aplicação do ensaio cometa. Esses dados sugerem riscos de instabilidade genética, entretanto, os danos observados com o teste podem ser alterados devido aos inúmeros mecanismos de reparo. Não foram evidenciadas correlações significativas entre os fatores de riscos não ocupacionais em relação aos resultados do cometa, sugerindo que as alterações no DNA foram observadas, principalmente devido aos efeitos dos agrotóxicos. Os estudos de biomonitoramento de populações expostas a agrotóxicos são bastante específicos, na medida em que as populações têm diferentes estilos de vida, hábitos alimentares, condições climáticas e ambientais e estão expostos a diferentes misturas de produtos químicos. Talvez isto pudesse explicar porque alguns estudos têm encontrado aumento significante de danos genéticos em populações expostas a agrotóxicos e, em outros estudos, os resultados são negativos. Embora o nível de exposição possa ser considerado significativo e as informações disponíveis sobre a genotoxicidade de vários dos agrotóxicos utilizados, falta informações relativas aos efeitos genotóxicos das misturas complexas. Torna-se necessário educar aqueles que trabalham com agrotóxicos sobre os riscos potenciais da exposição ocupacional e a importância da utilização de medidas de proteção, já que os pequenos agricultores, em seu cultivo não estão expostos a um único tipo de agrotóxico, mas sim a vários, havendo uma multiplicidade de exposições, normalmente constantes e de longo prazo.
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    103 7 CONCLUSÃO Podemos concluirque os trabalhadores rurais dos municípios pesquisados apresentam riscos de toxicidade e danos genotóxicos devido à exposição ocupacional de misturas complexas de agrotóxicos.
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    105 8 RECOMENDAÇÕES A constataçãode que existe grande utilização de agrotóxicos nos municípios pesquisados, implica numa preocupação quanto à saúde dos trabalhadores e os impactos causados ao meio ambiente. Deixar de utilizar os agrotóxicos nas lavouras, em curto prazo, pode ainda não ser uma condição real, pois as alternativas existentes necessitam de maior organização e maior apoio técnico, principalmente para os pequenos produtores, para que possam alcançar os níveis desejados de produção agrícola e viabilidade comercial. Até que se alcance esse objetivo, deve-se, portanto, adotar políticas que minimizem, consideravelmente, o impacto desse modelo tecnológico de produção na saúde e no ambiente. Neste sentido, sugere-se: Maior fiscalização para o cumprimento da legislação vigente de maneira a preservar a saúde dos trabalhadores e da população; Execução de ações integradas entre as diversas instituições, tais como as Secretarias de Saúde e Educação dos municípios, Universidades, FETAG, Sindicatos, Superintendência Regional do Trabalho, Ministério Público do Trabalho e Ministério Público Estadual, dos diversos órgãos que atuam na proteção do meio ambiente, entidades de classe, que possam promover a melhoria da escolaridade das comunidades; Participação dos trabalhadores rurais e da comunidade nas discussões informativas, avaliativas, decisórias e na elaboração e implementação de propostas que evitem o uso indiscriminado dos agrotóxicos, visando reduzir um grande problema, tanto agropecuário como de saúde pública nas suas comunidades; Monitoramento dos mananciais de água para abastecimento que estão sob risco de contaminação por resíduos de agrotóxicos; Incentivo ao produtor, através de políticas públicas, garantindo que antes do recebimento do crédito para aplicação na agricultura,
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    106 possam receber orientaçãotécnica, com o objetivo da certificação das boas práticas agrícolas; Formação e capacitação dos profissionais de saúde para a intervenção nos problemas de saúde e meio ambiente relacionados ao uso de agrotóxicos. Novos estudos são necessários para avaliar os principais tipos de riscos que acometem os trabalhadores, através de estudos toxicológicos, clínicos e epidemiológicos, para uma melhor compreensão da saúde desses trabalhadores e dos riscos causados pelo uso indiscriminado por agrotóxicos, bem como a organização de serviços locais integrados de saúde do trabalhador para a vigilância e assistência à saúde, articulando os aspectos ambientais, epidemiológicos, clínicos e de educação, na promoção e proteção da saúde e do meio ambiente. Espera-se que os resultados aqui apresentados possam somar a outros estudos relacionados aos danos produzidos pelos agrotóxicos à saúde dos trabalhadores rurais, contribuindo para evidenciar esses agravos à saúde visando à criação de uma consciência ética acerca do problema por parte de órgãos e instituições responsáveis.
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    108 REFERÊNCIAS AGÊNCIA DE DEFESAAGROPECUÁRIA DO PIAUÍ-ADAPI. Relatório de Controle de Estoque das Revendas Registradas no Estado. Teresina, PI. 2010. AHAMED, M.; ANAND, M.; KUMAR, A.; SIDDIQUI, M.K.J. Childhood aplastic anaemia in Lucknow, India: Incidence, organochloorines in the blood and review of case reports following exposure to pesticides. Clinical Biochemistry, v. 39, p. 762- 766, 2006. ALBERTINI, R.J.; ANDERSON,D.; DOUGLAS, G.R.; HAGMAR, L.; HEMMINKI, K.; MERLO, F.; NATARAJAN, A.T.; NORPPA, H.; SHUKER, D.E.; TICE, R.; WATERS, M.D.; AITIO, A. IPCS guidelines for themonitoring of genotoxic effects of carcinogens in humans. Mutation Research, v. 463, n. 2, p. 111–172, 2000. ALMEIDA, C. G. de; MARTINS, L. H. B. Enzimas hepáticas e acetilcolinesterase como biomarcadores de efeito dos agrotóxicos utilizados na cultura do Allium sativum. Revista Biociências, UNITAU. v. 14, n. 2, 2008. ALMEIDA, Pedro José. Intoxicação por Agrotóxicos. [S. l.]: Andrei, 2002. ALMEIDA, V.; LEITÃO, A.; REINA, L.; MOUNTANARI, A.; DONNICI, C. Câncer e agentes antineoplásicos ciclo-celular específicos e ciclo-celular não específicos que interagem com o DNA: uma introdução. Química Nova, v.28, p. 118-129, 2005. AMARANTE JUNIOR, O.P. de; SANTOS, T.C.R. dos; BRITO, N.M.; RIBEIRO, M. L. Glifosato: propriedades, toxicidade, usos e legislação. Química Nova, v.25, n.4, p. 589-593, 2002. AMORIM, L. C. A. Os biomarcadores e sua aplicação na avaliação da exposição aos agentes químicos ambientais. Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 6, n. 2, p. 158-170. 2003. ANDRADE JUNIOR, D.R.de; SOUZA, R.B. de; SANTOS, S. A. dos; ANDRADE, D.R.de. Os radicais livres de oxigênio e as doenças pulmonares. Jornal Brasileiro de Pneumologia, v. 31, n. 1, p. 60-68. 2005. ANDRIOLI, A.I. O Roundup, o câncer e o crime do “colarinho verde”. Revista Espaço Academico, n. 51, ago. 2005. Disponivel em: <http://www.espacoacademico.com.br/051/51andrioli.html>. Acesso em: 2 set. 2011. ARAÚJO, A.C.P.; NOGUEIRA, D.P.; AUGUSTO, L.G.S. Pesticide impact on helth: a study of tomato cultivation. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 34, n. 3, p. 309-313, jun. 2000. ARAUJO, A.J.; LIMA, J.S.; MOREIRA, J.C.; JACOB, S.C.; SOARES, M.O.; MONTEIRO, M.C.M.; AMARAL, A.M.; KUBOTA, A.K.; MEYER, A.; COSENZA, C.A.N.; NEVES, C.; MARKOWITZ, S. Exposição múltipla a agrotóxicos e efeitos à
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    124 APENDICE A: TERMODE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (TCLE) Você está sendo convidado a participar de uma pesquisa. Sua participação é importante, porém, você não deve fazer contra a sua vontade. Leia atentamente as informações abaixo e faça qualquer pergunta que desejar para que todos os procedimentos desta pesquisa sejam esclarecidos. Devido ao fato de algumas substâncias poderem alterar o DNA das células do homem tornando-o mais propenso a desenvolver alguma forma de doença, torna- se importante e necessário a avaliação destas substâncias quanto aos possíveis efeitos causadores de doenças. A presente pesquisa objetiva avaliar o potencial das substancias utilizadas como agrotóxicos na lavoura, quanto a possibilidade de alterar o DNA. Estudo desse tipo poderá contribuir para o conhecimento dos efeitos dessas substancias que são usadas rotineiramente na lavoura, quanto a possibilidade de alterar o DNA das células do ser human. Essa pesquisa se baseia em estudo experimental em que os benefícios aos voluntários serão de forma indireta, ao se verificar os efeitos mutagênicos desses agrotóxicos. Para a realização da pesquisa, necessitamos de sua colaboração voluntária, de 10mL de seu sangue, que será coletado por pessoal devidamente treinado e habilitado do Laboratório Central de Saúde Pública do estado do Piauí. A retirada de sangue é um procedimento seguro e pode causar um leve desconforto. Pode ocorrer uma mancha roxa no local da picada da agulha que, normalmente, desaparece logo. Esta coleta terá como objetivo a obtenção de células do sangue, a partir do sangue total. Também, será necessário responder as perguntas feitas em entrevista baseados em um questionário simples. Para ser voluntário é condição indispensável que esteja em boa saúde, e, portanto não esteja, no momento, sob tratamento médico ou fazendo uso de medicações regulares. A pesquisa será desenvolvida pela nutricionista Vera Regina Cavalcante Barros Rodrigues, aluna do mestrado em Farmacologia Clínica, do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da Universidade Federal do Ceará, e pelos pesquisadores do referido projeto. O material colhido será usado exclusivamente para a realização desta pesquisa e os dados obtidos serão encaminhados para publicação em
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    125 congressos e revistasespecializadas, sendo mantido o sigilo e respeitando a privacidade dos seus voluntários. Os resultados dos exames laboratoriais serão entregues a todos os participantes voluntários da pesquisa através do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador em parceria com as Secretarias Municipais de Saúde. A qualquer momento você poderá se retirar e/ou solicitar informações sobre a pesquisa. Você poderá entrar em contato com o responsável pela pesquisa no endereço: Instituição: Centro Estadual de Referencia em Saúde do Trabalhador- CEREST Endereço: Av. Pernambuco, 2464-Bairro Primavera – Teresina – PI Telefones para contato: (86) 3217-3782 e 3221-1069 Declaro, que após convenientemente esclarecido pelo pesquisador e ter entendido o que me foi explicado, concordo conscientemente em participar da presente pesquisa, doando 10 ml de sangue. Endereço:_______________ ____________________________________ CPF:______________________Identidade: ________________________ ______________,_______de ________de 20___. ________________________________________________________ Assinatura do Voluntário ________________________________________________________ Assinatura do Pesquisador
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    126 APENDICE B: Fotos PalestraAplicação do Questionário Aplicação do Questionário Coleta de sangue
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    128 APÊNDICE C: Trabalhosapresentados em congressos científicos RISCOS MUTAGÊNICOS E DE ANORMALIDADES NUCLEARES EM AGENTES ENDÊMICOS DE PRIRIPIRI-PIAUÍ EXPOSTOS A ALFACIPERMETRINA AVALIADOS COM O TESTE DE MICRONÚCLEOS A alfacipermetrina é um composto químico usado da formulação do inseticida comumente utilizado no combate ao mosquito Lutzomia longipalpis, vetor da doença Leichmaniose visceral, em Piripiri-PI, como ectoparasiticidas e inseticidas em produções agrícolas e programas de saúde pública, como o controle da Dengue (MANNA et al., 2004). Os agentes sanitários que trabalham diariamente no combate a esta doença estão sujeitos aos riscos ocupacionais ocasionados pela alfacipermetrina. Estudos citogenéticos mostram que essa droga inibe ciclo celular na fase S, em raízes de Hordeum vulgare L. com efeitos tóxicos em organismos aquáticos, como também efeitos clastogênicos. A freqüência de micronúcleos em células epiteliais de mucosa bucal tem sido usada como um biomarcador de genotoxicidade em exposição ocupacional ao piretróide alfacipermetrina. anormalidades nucleares tais como as cariorrexes, cariólises e células binucleadas também são usadas como marcadores de genotoxicidade. O estudo teve como objetivo a avaliação de riscos mutagênico em agentes de endemias, com o uso do teste de micronúcleos. Diante do exposto o Governo do Estado do Piauí, através da Secretaria de Saúde vêm monitorando trabalhadores expostos a riscos genotóxicos, como uma Política de Saúde Pública, dentro do SUS. MATERIAIS E MÉTODOS Avaliação citogenética- micronúcleo em mucosa bucal O teste de micronúcleos (Figura 1) em células esfoliadas de mucosa bucal (Figura 2) foi realizado segundo Salaija et al. (2006). As lâminas foram coradas com Giemsa a 2 %. 2000 células foram avaliadas para cada indivíduo. As anormalidades nucleares pertinentes à apoptose foram avaliadas de acordo com Holland et al. (2008). O estudo foi realizado em 22 agentes de endemias do município de Piripiri, PI, e em 18 trabalhadores administrativos não expostos. CONCLUSÕES A exposição ocupacional a alfacipermetrina não induz mutagenicidade em células esfoliadas de mucosa bucal, entretanto outras anormalidade nucleares que indicam danos ao DNA foram evidenciadas a exemplo das cariorrexes e carólise que levam a apoptose das células e as células binucleadas que são indicativas de citotoxicidade. Os dados indicam a necessidade do biomonitoramento desses profissionais da saúde. O teste de micronúcleos é um importante biomarcador de mutagenicidade. REFERÊNCIAS BIBlIOGRÁFICAS HOLLAND et al. (2008).The micronucleus assay in human buccal cells as a tool for biomonitoring DNA damage: The HUMN project perspective on current status and knowledge gapsMutation Research 659 (2008) 93–108. MANNA et al. 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(A) Fotomicrografia mostrando os diversas camadas do epitélio oral, que consiste de 5 camadas: (i) Camada queratinizada; (ii) Estrato espinhoso; (iii) estrato basal; (iv) “rete pegs”, (v) lâmina própria (tecido conectivo). (B) Esquemas das camadas de células da mucosa bucal. Fotomicrografia e esquema Adaptado de Holland et al., 2008. Características da população Expostos a alfacipermetrina (N = 22) Não expostos (N = 18) Idade 38, 68 ± 10,46 (23 – 64) 32,72 ± 8,13 (20 - 46) Grupo étnico • Branco • Negro • Caucasiano 31,8% 9,1% 40,9% 5,6 % 50% 44,4% Tipo de trabalho • Agentes de endemias • Manutenção • Administrativo 100% - 27,30 % 72,7% Tempo de trabalho no local 10,32 ± 7,79 (4 – 43) 7,02 ± 1,0 (1 - 27) Uso de EPIs • Sim • Não • Não informado 40,9% 54,5% 4,5% 88,9 % Carga horária semanal 40,18 ± 0,85 (40 - 44) 34,11 ± 10,66 (1 - 50) Hábito de fumar • Não • Sim • Quantidade de carteiras de cigarros por dia 88,8% 13,6% 3, 73 ± 0,88 (1 -5) 55,6% 5,6 % 1, 78 ± 0,54 (0- 2) Consumo de álcool semanal • Cerveja • Cachaça 1,64 ± 0,43 (1 -6) 3,14 ± 1,85 (1-5) 1,22 ± 0, 46 (1 -2) 6,50 ± 4,73 (0 – 11) Consumo de medicamentos por dia • Transcritos • Não transcritos 0,31 ± 0,10 (0 – 3) 0,32 ± 0,83 (0 – 3) 1, 22 ± 0,83 (0 – 4) 2,06 ± (0 -9) Consumo de carne em dias por semana • Bovina • Galinha • Peixe 2,05 ± 1,25 (1 – 6) 2, 86 ± 1,16 (1 – 6) 2,64 ± 0,23 (1-¨6) 1,00 ± 0,00 (0 -1) 1,44 ± 0,50 (1 – 5) 1,00 ± 0,01 (1-2) Consumo de vegetais • Sim • Não 5,0% 9 5,5% 77,8% 22,2 Tabela 1 Características da população de agentes de endemias dos municípios de Piripiri, Piauí expostos à alfaciperetrina e de trabalhadores administrativos não expostos, da cidade de Teresina, ano de 2009 Grupos Micronúcleosa Frequência (%) de MN Expostos (N=22) 1,31 ± 0,200 (0 -3) 0,06 ± 0,01 Não expostos (N=18) 0,83 ± 0,23 (0 – 3) 0,03 ± 0,01 Tabela 2 Avaliação mutagênica em células esfoliadas de mucosa bucal de agentes de endemias do município de Piripiri, PI expostos à alfacipermetrina, no ano de 2009, com o teste de micronúcleos (MN) 2000 células por indivíduo. a Média ± erro padrão. Significância em ***P<0,001, em relação aos trabalhadores não expostos analisado com o teste t. Exposto s N ão exposto s 0.00 0.05 0.10 0.15 0.20 Frequência(%)deMN/2.000células E xp osto s N ão ex p ost o s 0 20 40 60 80 100 *** Grupos Frequência(%)decariorrexe/2000células Exposto s N ão exposto s 0 20 40 60 80 100 Grupos Frequência(%)decariólise/2000células Exp os to s N ão ex post os 0 20 40 60 80 100 *** Grupos Frequência(%)debinucleadas/2000células Tabela 4 Anormalidade nucleares identificadas em células de mucosa bucal de agentes endêmicos expostos à alfacipermetrina em Piripiri, Piauí, ano de 2009 Anormalidades nucleares Cariorrexe b Frequência (%) de Cariorrexe b Cariólise b Frequência (%) de Cariolise b Células Binucleadas b Frequência (%) de Binucleada Expostos (N=22) 900,0 ± 51,19a*** (418 – 1294) 45,40 ± 2,42a*** 98,73 ± 12,89 (18 - 216) 4,92 ± 0,64 32,36 ± 6,22a*** (0 – 92) 1, 61 ± 0,31 a*** Não expostos (N=18) 551,2 ± 46,27 (305-958) 27,42 ± 2,3 73,44 ± 10,36 (10 -140) 3,67 ± 0,51 5,57 ± 0, 72 ( 0 – 10) 0,28 ± 0,03 a2000 células por indivíduo. bMédia ± Erro padrão. Resultados expressos em Média ± Erro padrão. Significância em ***P < 0,001, teste t., em relação aos trabalhadores não expostos. CB A D Figura 3 Mutagenicidade e danos genético induzidos pela alfacipermatrina em agentes endêmicos após exposição ocupacional no município de Piripiri-PI, ano de 2009. (A) frequência de MN; (B) Cariorrexe; (C); Cariólise e (D) Células binucleadas. Significâncias de P<0,001, teste T, em relação aos trabalhadores não expostos RESULTADOS E DISCUSSÕES As características da população estudada estão apresentadas na Tabela 1. Avaliações estatísticas dos biomarcadores citogenéticos não indicam diferenças significativas para a freqüência de micronúcleos ( Tabela 2 e Figura 3A). Entretanto, significantes (P<0,001) aumentos foram observadas para as cariorrexes (45,40 ± 2,42 X 27,42 ± 2,30) e células binucleadas (1,63 ± 0,31 X 0,28 ± 0,03) em relação ao grupo não exposto (Figura 3B, C e D). Os resultados sugerem que a exposição ocupacional ao piretróide alfacipermetrina induz apoptose e citotoxicidade em células de mucosa bucal dos agentes endêmicos do município de Piripiri, Piauí. Trabalho apresentado no XV Congresso Brasileiro de Toxicologia, em Belo Horizonte, de 10 a 14/10/2010
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    129 Trabalho publicado nolivro Saberes e Práticas em Saúde no Piauí. p. 104.
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    130 Trabalho apresentado noXV Congresso Brasileiro de Toxicologia, em Belo Horizonte-MG, de 10 a 14/10/2010 e publicado no livro Saberes e Práticas em Saúde no Piauí. p. 99.
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    131 Apoptose e necroseem agricultores expostos aos agrotóxicos em municípios do Piauí. Trabalho apresentado no III Congresso Piauiense de Biomedicina, realizado em Teresina-PI, de 9 a 11/09/2020.
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    132 ANEXO A: APROVAÇÃODO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
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    133 ANEXO B: QUESTIONÁRIODE SAÚDE PESSOAL (De acordo com modelo recomendado por: International Commission for Protection against Environmental Mutagens and Carcinogens (ICPEMC) Mutation Research, 204:379406, 1988) Este questionário, assim como o estudo a ele relacionado, deve ser de seu interesse. A participação e espontânea e constará destas informações gerais sobre saúde e dieta, mais uma coleta de sangue para estudo citogenético. O estudo consiste em uma avaliação de mutações nos cromossomos de cada participante. Mutações cromossômicas ocorrem normalmente nas células de todas as pessoas em nível bastante baixo, e são apontadas, entre outros efeitos, nos processos de envelhecimento e do câncer. Trabalhadores em atividades de risco (por exemplo, radiologia, quimioterapia, uso de óxido de etileno e outras), se não seguirem normas adequadas de segurança, podem aumentar a frequência de mutações cromossômicas em suas células. Este estudo poderá servir como sinal de alerta para prevenir e melhorar as condições de segurança. Caso não se encontrem diferenças entre trabalhadores de atividades de risco e outros de atividades diversas, poderemos concluir que os itens de segurança são efetivos neste aspecto. Isto servirá de estímulo para continuar tomando cuidados com a vida no local de trabalho. Leia e responda cuidadosamente as seguintes questões. A informação dada por você não será associada com o seu nome, sendo conhecida apenas pelos pesquisadores associados a este estudo. As respostas deste questionário poderão ter influência direta na interpretação de nossos resultados. Por isso, contamos com sua cooperação em fornecer informações corretas. Obrigado pelo seu interesse. 1.Nome:____________________________________________________ 2.Para ser preenchido pelo pesquisador: Código nº:_____________ . Data: _____________________ Essa folha será destacada das demais do questionário e arquivada. Apenas o número do código será usado como identificação nas próximas páginas. Se espaços adicionais forem necessários para completar uma resposta, por favor escreva atrás da página e identifique o complemento da resposta com o número da questão. HISTÓRIA PESSOAL 3.Data de hoje:_______________________ ____________________ 4.Qual a sua idade? _______________(em anos). 5. Sexo: ( )Masculino ( )Feminino 6.A qual grupo étnico você pertence: ( )Caucasiano ( )Negro ( )Chinês ( )Japonês ( )Outro. Qual?____________________________________________ . 7.Qual o seu estado civil? ( )Casado ( )Solteiro ( )Separado ( )Divorciado ( )Viúvo 8.De quantos filhos você é pai natural (isto é, não inclua filhos adotados e de criação, e inclua filhos que moram separadamente)?_____________________ 9.Qual a renda mensal de sua família? ___________________________ HISTÓRIA OCUPACIONAL 10. Qual o seu local de trabalho? _______________________________. 11. Há quanto tempo você trabalha neste local? ___________________
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    134 12.Se há menosde dez anos, onde você trabalhou previamente e por quanto tempo? _____________________________________________________ 13. a)Que tipo de trabalho você faz? ____________________________ 13.b)Qual a carga horária semanal de trabalho?____________________ EXPOSIÇÃO 14. a) Liste os agentes químicos (por exemplo, gases tóxicos, benzeno, chumbo, fármacos, agrotóxicos,etc.) ou físicos (radiação) a que você se expôs nos últimos 10 anos em seu trabalho. Nos últimos 12 meses: Quantas vezes por mês:____________________ Nos últimos 10 anos: Quantas vezes por mês :_____________________ 14.b)Você usa algum tipo de proteção? ( ) Sim ( ) Não 15. Liste os agentes químicos (agrotóxicos e outros que julgar necessário) ou físicos a que você se expôs nos últimos 10 anos fora de seu trabalho. Nos últimos 12 meses: Quantas vezes por mês: ____________________ Nos últimos 10 anos: Quantas vezes por mês: _____________________ HISTÓRIA DE FUMO 16. Alguma vez você fumou? ( )Sim ( )Não Se sim, continue: a).Quanto tempo você fumou?_____________________(em anos) b).Você fuma atualmente? ( )Sim ( )Não Se sim, passe para a 16 c. Se não: Quando você parou de fumar?_________________(mês e ano). c).Você fuma cigarros? ( )Sim ( )Não Se sim, quantas carteiras por dia? ( ) Menos de ½ carteira ( )½ a 1 carteira ( ) Mais de 1 carteira. Quantas?____________ Você fuma cigarros com filtro? ( )Sim ( )Não Qual a sua marca usual?_________________________________ . d).Você fuma charutos? ( )Sim ( )Não Se sim, quantos charutos por dia? ( )1 charuto ( )2 a 3 charutos ( ) 4 ou mais charutos. Quantos?__________ e).Você fuma cachimbo? ( )Sim ( )Não Se sim, quantas vezes por dia? ( )1 vez ( ) 2 a 3 vezes ( ) 4 ou mais vezes. Quantas?_________ f)O que você fumava no passado? ( ) Cigarros ( ) Charutos ( ) Cachimbo g)Você mastiga tabaco? ( ) Sim ( )Não MEDICAMENTOS E DOENÇAS 17.Você tem tomado algum medicamento prescrito pelo médico no último ano (por exemplo, comprimidos para pressão, insulina, tranquilizantes, relaxantes musculares, etc.)? ( )Sim ( )Não Se sim, por favor indique: Período.Tipo de medicamento: Dose: Quantos por dia: Início (mês): Término(mês): ________________ ________ ___________ _________ 18.Você tem tomado algum medicamento não prescrito por médico no último ano (por exemplo, aspirina, antiácidos, antihistaminas,sedativos ou outras drogas)? ( ) Sim ( )Não Se sim, por favor indique: Período: Tipo de medicamento: Dose: Quantos por dia: Início(mês): Término(mês):_________ ________ ________ ___________ _________ ______
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    135 19. Você tomaou tomou alguma vitamina nos últimos 6 meses? ( )Sim ( )Não Se sim, por favor indique: Tipo de vitamina: Dose: Quantas vezes por semana: ________________ 20.a)Você teve ou tem alguma dessas doenças? Câncer ( )Sim ( )Não Hepatite ( )Sim ( )Não Mononucleose ( )Sim ( )Não Herpes ( )Sim ( )Não AIDS ( )Sim ( )Não Meningite ( )Sim ( )Não Infecção bacteriana ou viral ( )Sim ( )Não Doença cardiovascular ( )Sim ( )Não Diabete ( )Sim ( )Não Outras doenças importantes ( )Sim ( )Não b).Se sim, indique abaixo: Doença: Período da doença: Tratamento: ________________ _________________ _____________ c).Liste as vacinações que você recebeu nos últimos 12 meses. Vacina: Data: ___________________________ ___________________ d).Liste os raiosX diagnósticos e terapêuticos, recebidos nos últimos 10 anos. Razão para o raioX Data(ano) ______________________________________ _______________ e).Você fez alguma cirurgia durante o último ano? Data: Razão: ______________ _______________________________________ f).Dê as datas de quando você teve febre nos últimos 12 meses. Data(mês): Doença associada: Medicamento tomado: _______________ ____________________________________ DIETAS (deve refletir apenas os hábitos frequentes) 21. Você come apenas vegetais? ( )Sim ( )Não 22. Você come carne? ( )Sim ( )Não a).Se sim, com que frequência você come o seguinte: Dias por semana 1 a 2 3 a 4 5 a 6 Todos os dias Carne bovina Peixe Porco outras b).Como você prefere sua carne? ( )Mal passada ( )No ponto ( )Bem passada 23.Você usa adoçantes? ( )Sim ( )Não Quantos por dia? ___________ 24.Você bebe refrigerantes? ( )Sim ( )Não Quantos por dia?_________ 25. Comente sobre sua dieta, caso ela tenha algo de especial (por exemplo, dieta rica em proteínas e pobre em carbohidratos, etc) ._________________________________________________________________ 26.Você bebe café? ( )Sim ( )Não Quantos xícaras pequenas por dia?__ 27. Você bebe chá? ( )Sim ( )Não Quantos xícaras por dia?__________
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    136 28. Você tomachimarrão? ( )Sim ( )Não Com que frequência? _______ 29. Você bebe cerveja? ( )Sim ( )Não Se sim, por favor indique sua média de consumo semanal: ( )1-6 garrafas por semana ou menos. ( )7-12 garrafas por semana. ( )13-24 garrafas por semana. ( ) Mais de 24 garrafas por semana. Quantas?_________________ . 30. Você bebe vinho? ( )Sim ( )Não Se sim, por favor indique sua média de consumo semanal: ( )1-4 copos por semana ou mais. ( )5-8 copos por semana. ( )9-16 copos por semana. ( )Mais de 16 copos por semana. Quantos?_______________________ . 31.Você bebe outras bebidas alcoólicas (excluindo cerveja e vinho)? ( )Sim ( )Não Se sim, qual ou quais? ___________________________ Por favor, indique sua média de consumo semanal: ( )1-4 copos por semana ou menos. ( )5-8 copos por semana. ( )9-16 copos por semana. ( ) Mais de 16 copos por semana. Quantos?___ HISTÓRIA GENÉTICA 32. Você tem conhecimento de algum defeito de nascimento ou outra desordem genética ou doença hereditária que tenha afetado seus pais, irmãos, irmãs ou seus filhos? ( )Sim ( )Não Se sim, por favor especifique: ______________________________ 33. Você ou a sua esposa teve ou tem dificuldade para engravidar? ( )Sim ( )Não Se sim, por favor especifique: ___________________________ 34.Você já teve um filho que tenha nascido prematuramente ou que tenha sido abortado? ( )Sim ( )Não Você tem um gêmeo idêntico vivo? ( )Sim ( )Não
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    137 ANEXO C: VALORESDE REFERÊNCIA UTILIZADOS NAS ANÁLISES LABORATORIAIS EXAME VALOR DE REFERÊNCIA Uréia 10 mg/dl a 52 mg/dl Creatinina 0,4 mg/dl a 1,3 mg/dl Transaminase oxalacética – TGO 4 U/ml a 36 U/ml Transaminase piruvica – TGP 4 U/ml a 32 U/ml Homem: 07 a 40 U/I Gama GT Mulher: 05 a 27 U/I Adulto: 13 a 43 U/I Fosfatase Alcalina Criança até 12 Anos: 56 a 156 U/I BChE Feminino: 3.930 a 10.000 U/I Masculino:4.620 a 11.500 U/I HEMOGRAMA Homem: 4,5 – 6,5 Hemácias em Milhões / mL Mulher: 3,9 – 5,8 Homem: 13,5 – 18,0 Hemoglobina em G/DL Mulher: 11,5 – 16,4 Homem: 40,0 – 54,0 Hematócrito em % Mulher: 36,0 – 47,0 V. Glob. Média em u3 76,0 – 96,0 Hcm 27,0 – 32,0 C.H. Glob. Média em % 32,0 – 36,0 Adultos: 5.000 – 10.000 04 a 07 Anos: 6.000 – 15.000Leucócitos por mm3 08 a 12 Anos: 4.500 – 13.000 % /mm3 Neutrófilos 40 – 75 2.500 – 7.500 Promielócitos 0 - Mielócitos 0 - Metamielócitos 0 – 1 - Bastões 1 – 3 45 – 330 Segmentados 40 – 75 - Eosinófilos 1 – 6 40 – 330 Basófilos 0 – 1 1 – 100 Linfócitos 20 – 45 1.500 – 3.500 Monócitos 02 – 10 200 – 800 Contagem de plaquetas 150,000 a 400,000 /mm3 Fonte: LACEN, 2010
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    138 ANEXO D: FICHADE AVALIAÇÃO DO TESTE COMETA SECRETARIA DE SAUDE DO ESTADO DO PIAUI LABORATORIO CENTRAL DE SAÚDE PUBLICA “Dr. COSTA ALVARENGA.” Laboratório de Toxicologia Genética Molecular (LABTOXGEN-MOL) FICHA DE AVALIAÇÃO DO TESTE COMETA Projeto Material Biológico: GRUPO: Paciente: Não Expostos Expostos Célula Classe Célula Classe 1 51 2 52 3 53 4 54 5 55 6 56 7 57 8 58 9 59 10 60 11 61 12 62 13 63 14 64 15 65 16 66 17 67 18 68 19 69 20 70 21 71 22 72 23 73 24 74 25 75 26 76 27 77 28 78 29 79 30 80 31 81 32 82 33 83 34 84 35 85 36 86 37 87 38 88 39 89 40 90 41 91 42 92 43 93 44 94 45 95 46 96 47 97 48 98 49 99 50 100 CÁLCULO DO ÍNDICE DE DANO (ID) Dano Total de Céls X Classe de Dano Total de Danos 0 _____ x 0 1 _____ x 1 2 _____ x 2 3 _____ x 3 4 _____ x 4 ID (%) ∑DanosCÁLCULO DA FREQUÊNCIA DE DANOS (FD - %) FD = 100 – Total de Danos 0 FD= ________