1agosto/2017
2 agosto/2017
3agosto/2017
4 agosto/2017
A economia compartilhada muda os hábitos de consumo e traz novas
estruturas de negócio, o que vem suscitando debates e projeções as mais
diversas sobre o futuro. As previsões vão desde o aumento do poder do
consumidor até as apocalípticas análises de Jeremy Rifkin, teórico norte-
americano que prevê o fim da primazia do capitalismo. Quem viver verá.
A Algomais entra nesse debate para analisar como Pernambuco se
insere no consumo colaborativo. A reportagem de capa mostra cases
interessantes de startups e empresas que lançaram mão das conexões
proporcionadas pelos smartphones e criaram negócios que incentivam a
inclusão social e tornam os serviços mais baratos.
Outra discussão importante desta edição foi levantada na recente
reunião do Conselho Estratégico Algomais Pernambuco Desafiado, que
abordou o desenvolvimento do Projeto Empresas & Empresários. Os
participantes ressaltaram como os problemas políticos do País interferem
na economia e colocaram propostas para superar esse impasse.
Quem está conseguindo superar a crise com inovação é a empresa
In Loco Media, que revoluciona o mercado de marketing com a tecnologia
da geolocalização. A empresa, que espera um faturamento de R$ 150
milhões este ano, é o destaque da sessão Perfil Corporativo.
O leitor também não deve deixar de ler a entrevista do mês com o
escritor Marcelino Freire. Natural de Sertânia, ganhou o disputado Prêmio
Jabuti e é o responsável pelo evento Balada Literária na capital paulista.
Boa leitura!
Uma publicação da Editora INTG
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priorizando os interesses, fatos e personagens relevantes
de Pernambuco, sem louvações descabidas nem afiliações
de qualquer natureza, com garantia do contraditório,
pontualidade de circulação e identificação inequívoca
dos conteúdos editorial e comercial publicados.
editorial
edição 137
Economia Compartilhada
Também conhecido como economia colaborativa, o modelo de negócios ganha espaço no Recife. Pág 10
E&E
Projeto E&E reúne Conselho
Estratégico e discute
caminhos para sair da crise
econômica. Pág 14
Agricultura
Pesquisador identifica 34
variedades de feijões crioulos
no Agreste Meridional.
Pág 28
E mais
Entrevista do mês
Pano Rápido
Vida Digital
Ninho de Palavras
Memória Pernambucana
Baião de Tudo
Mais Prazer	
João Alberto
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A REVISTA DE PERNAMBUCO
Cláudia Santos
Editora Geral
5agosto/2017
6 agosto/2017
Eu era revisor
na agência
de publicidade.
Revisava rótulo
de água mineral
e textos que não
mereciam ser lidos.
Eu me vingava
escrevendo um
conto por rótulo.
MARCELINO FREIRE
Escritor fala de sua obra
e da literatura nestes
tempos de web.
Meus
textossão
gritos
Escritor sertanejo, radicado em São Pau-
los, Marcelino Freire é dono de um texto
forte e enxuto, que tem sido reverenciado
pelo público e crítica. Em 2006 ganhou o
Prêmio Jabuti com Contos Negreiros. Na
entrevista concedida a Cláudia Santos e
Rafael Dantas, regada a risos e reflexões,
ele fala sobre sua trajetória e critica a gla-
mourização da literatura.
Como foi ser menino no Sertão?
Sou de Sertânia, há 26 anos moro em
São Paulo. Recentemente comecei a
pensar de novo na saída da minha fa-
mília do Sertão de Pernambuco para ir
morar em Paulo Afonso (BA). Depois,
quando tinha 8 anos de idade, a família
veio para o Recife, onde fiquei até os 24.
Fiz faculdade na Unicap. Sou o caçula de
8 irmãos vivos, mas minha mãe teve 14
gestações, 9 vingaram. Pense a dificul-
dade para estudar e trabalhar! Minha
mãe queria sair de lá de qualquer jeito.
E saiu com todos esses filhos em busca
de melhores condições. Agora, vocês vi-
ram que Sertânia foi manchete nacional,
em função da Transposição do Rio São
Francisco. Estou com 50 anos. Eu estaria
esperando água até agora se estivesse na
cidade, estaria pulando e fazendo festa
naquele lago artificial (risos). Depois,
fui para São Paulo, deixei a faculdade. Lá
todo mundo me perguntava de onde eu
era, porque eu falava diferente. E eu afir-
mavacomtodasasletras:soudeSertânia.
Como a literatura entrou na sua vida?
Nessa necessidade de ler, de aprender
logo. De ganhar uma profissão. Minha
mãe insistia que a gente estudasse. Então,
muito novinho, com uns 7 anos, eu já lia.
Comuns8ou9anos,apoesiadeManuel
Bandeira atravessou o meu caminho. O
poema se chamava O Bicho. A partir des-
sa leitura eu quis ser aquele poeta. Gostei
daquilo que ele falou para mim. Eu não
sabia que existia um homem catando
comida na minha rua. Eu via, mas não
Foto:TomCabral
7agosto/2017
enxergava. Fui atrás de outras poesias dele,
numa casa onde ninguém lia.
Como sua família reagiu quando optou
por ser poeta?
Nunca vi uma mãe criar um filho e que-
rer que seja poeta quando crescer. Agora,
curiosamente, o primeiro lugar em que
fui respeitado como escritor foi na minha
casa, porque eu não era bom para carre-
gar um balde ou fazer uma feira. Agora
me colocasse para escrever! Eu escrevia as
cartas, lia as bulas de remédio da família.
Lia a Bíblia para minha mãe e lembro que
eu inventava milagres (risos). Fui perce-
bendo o poder da leitura. Ora, eu operava
milagres (risos)!
Como foi participar da oficina de Rai-
mundo Carrero?
A partir da leitura de Bandeira comecei a
escrever poesia, participando de grupos de
poesia aqui no Recife. Fiz um grupo cha-
mado Poetas Humanos. Paralelo a isso, tra-
balhava em um banco. Em um momento
deixei o trabalho, dei o dinheiro da inde-
nização para meus pais e passei um tempo
conhecendo os escritores dessa cidade. Vi
um anúncio no jornal dizendo que Carrero
estava montando a primeira turma de cria-
ção literária. Ali encontrei os parceiros do
crime(risos).Eraumbandodecangaceiros
celebrando a literatura toda a tarde. Agra-
deço muito a Raimundo Carrero, ele me
ensinou a ler. A oficina me ajudou a encon-
trar a minha própria voz, a minha persona-
lidade na página. A página é a extensão da
personalidade do escritor.
Você foi para São Paulo em busca de se
profissionalizar como escritor?
Fui na verdade movido por amor. Fui
apaixonado, pensando que iria viver eter-
namente uma grande paixão. Aí descobri
em São Paulo que a vida é feita dos amores
possíveis. Não deu certo, como todo amor
(risos).Consegui,mesesdepois,umtraba-
lho como revisor de textos na agência de
propaganda AlmapBBDO. Passei muito
tempo revisando rótulo de água mineral
e textos que não mereciam ser lidos uma
única vez. Sabe como eu me vingava? Es-
crevendo um conto para cada rótulo. Eu
não brigava com a minha profissão. Ela
estava me mantendo numa cidade tão fe-
roz como São Paulo. Demorei quatro anos
para escrever meu primeiro livro por con-
ta própria.
Qual foi o primeiro?
Não gosto de dizer porque toda vez que eu
encontro o primeiro livro por aí eu com-
pro para ninguém comprar, porque é mui-
to ruim (risos). Brincadeiras à parte, esse
livro é irregular em certo sentido, mas foi
muito importante para tirar aquele texto
da gaveta, como afirmação dessa paixão e
dar para mim alguma perspectiva, autoes-
tima, por menor que fosse. Depois, come-
cei a preparar meu segundo livro, o Angu
de Sangue, de contos também. Convidei
um artista plástico pernambucano, Joba-
mais.pe/entrevista137
8 agosto/2017
se encontra para celebrar a literatura da
forma mais diversa, mais viva, mais pul-
sante. Já passaram pelo evento de Antônio
Cândido a Allan Jones (jovem poeta de
Aracaju), Caetano Veloso, Adriana Calca-
nhoto, Ney Matogrosso, Tom Zé.
Qual o momento em que você se tornou
um escritor profissional?
Eu continuei trabalhando com agência
de propaganda e publicando meus li-
vros. Teve um momento em que eu não
conseguia ficar na agência o dia inteiro.
Passei um tempo como freelancer. E teve
uma hora que não deu mais. Há 10 anos
vivo direta e indiretamente da literatura.
Vivo modestamente, com agenda literá-
ria, palestras, oficina de criação literária,
curadorias de evento, artigos para jornal,
direitos autorais de teatro, cinema, todas
essas frentes de batalha.
Por que escreveu o romance NossosOssos
depois de tantos contos?
Já estava muito automático na escrita dos
contos. Queria ir para a prosa longa há
muito tempo, mas não tinha fôlego e não
encontrava o jeito de escrever o romance.
Costumo dizer que os gritos da minha
mãe me inspiraram nos contos, o silên-
cio do meu pai me inspirou no romance.
Encontrei o tom. Para o romance fiz uma
coisa que nos contos não fazia, um esque-
leto do texto. É um romance muito curto.
Mas a minha sensação foi de ter atravessa-
do o Canal da Mancha.
Como você avalia o crescimento dos
eventos literários?
Toda semana eu recebo convite. Se tiver
data, vou mesmo. Quanto mais festas e fei-
ras literárias melhor para o escritor e para
tirar a literatura desse casulo. Colocar o es-
critor circulando, conhecendo os leitores,
pegando o leitor à unha. Humanizando
a figura do escritor. Também é trabalho.
Quanto mais festas literárias mais isso
se movimenta. Às vezes me falam: “Não
é muito evento?” Respondo: “Para cada
show de Ivete Sangalo, 10 festas literárias.
Para cada show do Luan Santana, 400 fes-
tas literárias. Ainda é pouco (risos).
lo, que mora em Milão. Ele mandou umas
fotografias coloridas lindas para ilustrar,
mas com elas o livro ficaria muito caro.
Para ajudar na publicação, fiz outro livro
chamado eraOdito, com frases famosas,
ditados populares, que eu encontro resig-
nificações. Resultado: eraOdito me tomou
dois anos porque fez um relativo sucesso.
Comecei a ser convidado para festivais de
literatura.
Seu texto é muito marcado por frases
curtas e fortes. Isso seduz os jovens nes-
tes tempos de Twitter?
Comunica. E eu quero comunicar. Quero
dizer logo onde está doendo e sair de per-
to. Quero dizer logo o que eu quero e não
encher o saco de ninguém. Nesse sentido,
meus textos são gritos, chegam logo para o
outro sem delongas. Eu gosto muito disso,
os escritores e artistas que falaram mui-
to comigo, que pegaram na minha mão,
foram escritores assim. Eu poderia não
entender tudo o que o Manuel Bandeira
escreveu, mas sentia o que ele sentia.
Costuma-se dizer que jovens não gostam
deler.Vocêconcorda?
Acho que nunca se leu tanto. O menino
podeestarnumateladecelularlendoKafka.
Muitos jovens estão escrevendo, se comu-
nicando de forma viva, pulsante. A internet
temmuitolixo,maslivrariaeacademiatam-
bém têm. O professor tem que fazer com
que esses jovens saibam que o Machado de
Assis sempre foi muito Twitter. Um escritor
que escreve um livro com 240 microcapítu-
los. Isso não é legal do garoto saber, em vez
deficarestudandoMachadodeAssisapenas
sob uma perspectiva histórica, sociológica,
de vocabulário? Ele pode dizer que Macha-
do de Assis era negro, gago, fez uma produ-
ção literária vastíssima contra o seu tempo e
contraospreconceitosquesofreu.Esedisser
que a Bíblia é Twitter, pois é escrita em ver-
sículos? É uma questão de sedução e paixão.
Aliteraturatemqueserencaradaassimpara
nãoseencaretar.
Seu trabalho também reflete o lado dos
marginalizados, do submundo...
...Sempre estive nesse submundo. Sertânia
é um submundo. Escolher fazer poesia na
minha casa, naquele mundo, era um sub-
mundo. Escolhi fazer teatro no bairro de
Água Fria. Morei lá por muitos anos, um
dos últimos bairros do Recife, submundo.
As escolhas que eu fazia também, não fui
fazer administração, fui fazer letras.
ContosNegreiros é o reflexo disso?
É um livro que fala de preconceito. Pen-
so que não, mas sou muito afetado pelas
coisas. Quero escrever para entender os
absurdos a minha volta. Como sou muito
covarde, não consigo pegar em armas, eu
pego em palavras mesmo e quero me vin-
gar do que está ali me afetando. É um livro
sobre opressores e oprimidos.
Como começou a Balada Literária?
A Balada Literária acontece desde 2006
em São Paulo. A minha luta é de colocar a
literatura de forma mais pulsante na vida
das pessoas. A literatura sem frescura.
Desde a primeira edição da Balada Lite-
rária eu misturo atores, pintores, rappers
com escritores. Todos os gêneros e trans-
gêneros (travesti, drag queen), festa punk
gay com roda de samba, desde o primeiro
formato. É uma balada que todo mundo
A internet tem muito lixo,
mas a livraria e a academia
também têm.
Foto:TomCabral
9agosto/2017
pano
rápido
Manuel Bandeira disse que queria ir-se embora
pra Pasárgada porque lá, entre outras coisas, ti-
nha telefone automático.
Bandeira vivia (e viveu a vida quase toda) no
Rio. Início dos anos 20, quando escreveu o poema,
tinha-sequegirarumamanivela,queficavanalate-
raldotelefone,parapediràtelefonistadacentralte-
lefônica para conectar com quem se desejava falar.
Nos anos 50, na casa da minha vó Carmem,
aqui, na Rua José de Alencar, tinha um telefone
desses de manivela. Já aposentado. E como não
era, ainda, considerado antiguidade, não tava lá
como peça de decoração. Vai ver, instalaram o au-
tomático e esqueceram o velho na parede. Servia
pragentebrincardetelefonar,girandoamanivela.
Desde que me entendo por gente, telefone é
automático no Recife. Só fiquei sabendo que era
analógico quando virou digital. A gente discava.
Agora, digita. Às vezes, demorava um segun-
dinho para dar linha. Raramente, dava linha
cruzada. E, mais raramente ainda, ficava mudo.
Ligação errada, qu’eu lembre, só se a pessoa ti-
vesse discado um dos quatro números errado.
O da minha casa era 2448. Quem atendia dizia
“alô”. Quem ligava, confirmava o número que
havia ligado em tom de pergunta. Em seguida,
dizia com quem desejava falar. Quem atendia,
não perguntava “quem gostaria”. Pedia “um mo-
mentinho” para chamar a pessoa ou dizia que ela
não estava e perguntava se queria deixar recado.
Se a gente ligasse para uma empresa grande,
quem atendia não era uma gravação, mas uma
telefonista. Um ser humano, quase sempre do
sexo feminino. Se você estivesse querendo fa-
lar com um funcionário, ela passava a ligação
no ato. Se fosse com um diretor, ela dizia “um
momentinho” e passava para a secretária que
perguntava “quem quer falar” (jamais “quem
gostaria”) e transferia para o chefe ou anotava
seu telefone para retornar a ligação. Ninguém
levava um tempão para falar com ninguém.
Nunca liguei pro papa, mas, se tivesse ligado,
quem sabe, ele teria atendido.
Não sei na sua casa, leitora, leitor, mas, na mi-
nha, o telefone toca não sei quantas vezes por dia
e quando eu atendo a ligação não conclui. Fica
mudo. “Alô, alô...” e nada. Agora, tem uma novida-
de. “Se o senhor ou senhora conhece fulano de tal,
digite um; se não conhece, digite dois.” Não digi-
to por...caria nenhuma. Desligo. Mas, na terceira,
quarta ligação, não resisto, xingo a mãe. Sei que
computador é surdo. E não tem mãe. Mas xingo.
Bem, não vou aqui falar do inferno dos call
centers, com suas musiquinhas infames, textos
(da pior qualidade) gravados e ramais e mais
ramais pra gente digitar até ser atendido por
alguém que não resolve nada. Nem vou falar
das ligações dos famigerados telemarketings.
(Depois que vi uma reportagem sobre os po-
bres coitados que trabalham nessas empresas,
ganhando uma ninharia e trabalhando até 12
horas por dia, não xingo mais ninguém. Ao
contrário. Independente do calendário, desejo
feliz Natal e próspero Ano Novo).
Everardo Maciel me disse outro dia que
computador sonha. Acordado, deve ser. E tem
sonhos digitais, por certo. Porque o cérebro hu-
mano continua, como sempre, analógico. E os
meus sonhos, também.
“(...) Vai buscar quem mora longe / Sonho meu
/ Vai mostrar esta saudade / Sonho meu / Com
a sua liberdade / Sonho meu.”
jocasouzaleao@gmail.com
Sonho meu
* Joca Souza Leão é cronista
“Computador
sonha.
Acordado,
deve ser.
E tem sonhos
digitais,
por certo.
Porque
o cérebro
humano
continua,
como sempre,
analógico.”
10 agosto/2017
A ERA DO
COMPARTILHAMENTO
FUTURO Economia compartilhada abre caminho para
novas formas de consumo e de fazer negócios
Por Rafael Dantas
Você já pegou um Uber para se deslocar pela
cidade, assiste a filmes pelo Netflix ou já con-
tribuiu com alguma vaquinha virtual nos cro-
wdfundings? Seja bem-vindo à economia co-
laborativa ou compartilhada. Um modelo de
negócio movido principalmente pela conexão
entre as pessoas por meio das novas tecnolo-
gias de comunicação.
A partir de plataformas digitais é possível
conseguir o financiamento para um projeto
social ou para uma startup, que dificilmente
viria de uma instituição bancária. Também
pode-se acionar um serviço de entrega por
bicicletas ou alugar um quarto num aparta-
mento para passar as férias, sem a necessidade
de um intermediário. Esse foi substituído por
empresas que não possuem bikes para fazer
o delivery ou casa para alugar, mas oferecem
plataformas para conectar o dono do veículo
ou imóvel ao consumidor. Essa é uma nova
lógica econômica que começamos apenas a
experimentar suas possibilidades.
Um estudo da escola de negócios IE Busi-
ness School em parceria com o Banco Intera-
mericano de Desenvolvimento (BID) e o Mi-
nistério da Economia e Competitividade da
Espanha apontou que o Brasil é líder na Amé-
rica Latina em iniciativas da economia cola-
borativa. Ancorado no potencial de fomento
de inovação do Porto Digital, tem nascido em
Pernambuco uma série de negócios baseada
nesse novo modelo com alta capacidade de
redução de custos e inclusão social.
O professor dos cursos de economia e
ciências da informação da UFPE e sócio da
empresa Creativante, José Carlos Cavalcanti,
explica que a economia compartilhada torna
mais barato os chamados custos de transação
(como os relacionados à comercialização, por
exemplo). “Isso acontece porque é um modelo
que funciona por meio do uso de ferramentas
de tecnologia cada vez mais robustas, confiá-
veis e acessíveis ao mais humilde cidadão”, ex-
plica Cavalcanti.
Um exemplo desse modelo é a empresa
pernambucana Find Up, que eliminou a ne-
cessidade de até 5 intermediários nos serviços
assistência técnica em informática. Através de
uma plataforma digital ele conecta usuários
(residenciais ou corporativos) que necessitam
de reparos em seus aparelhos aos técnicos ca-
dastrados mais próximos com a qualificação
necessária para resolver o problema. É como
se fosse o Uber dos consertos de equipamen-
tos de informática.
“Desenvolvemos o modelo de negócio
com geolocalização do técnico a partir do ce-
lular. São 4 mil profissionais que têm o nosso
aplicativo instalado no telefone e mais de 100
mil usuários cadastrados”, esclarece o CEO da
11agosto/2017
Find Up, Fábio Freire. “Somos uma interface
de conexão do cliente com técnico, só com
uma camada de gestão no meio”, garante o
gerente de operações, Gustavo Ferreira. A
plataforma reduz em até 30% o custo final do
serviço e diminui o tempo de espera para a
resolução do chamado. Presente em mais de
550 cidades no País, a Find Up começa uma
fase de internacionalização e chega em breve
à Argentina, Chile, Colômbia, México e Re-
pública Dominicana.
INCLUSÃO	
Inclusão social é outro benefício proporcio-
nado pela economia compartilhada. Além
de garantir serviço para técnicos que fica-
ram desempregados ou para profissionais
que querem incrementar a renda, o sistema
consegue incluir pessoas com restrições de
horários, como estudantes. Um universitário
que estuda pela manhã, por exemplo, e não
consegue achar um trabalho compatível com
sua rotina, poderia se cadastrar e oferecer
seus serviços nos horários disponíveis.
Também com DNA pernambucano, a
Ecolivery atua no modelo da economia do
compartilhamento no segmento de logística
sustentável, fazendo entregas com bicicletas.
Mais de 500 ciclistas já se cadastraram na
plataforma, tendo atualmente em torno de
20 ativos. O diferencial é o fato do serviço
agregar um valor socioambiental aos clien-
tes, com uma mobilidade que não emite ga-
ses poluentes e contribui para a melhoria do
trânsito, evitando mais engarrafamentos.
A partir de um aplicativo, qualquer pes-
soa ou empresa pode acionar o ciclista mais
próximo para buscar uma encomenda ou
levar um documento. O app permite tam-
bém acompanhar em tempo real a posição
dos entregadores e visualizar as entregas que
já foram feitas e as que faltam fazer. “Temos
hoje uma clientela bem diversificada, como
escritórios, cartórios, farmácias de manipu-
lação, empórios, restaurantes e lanchonetes
com delivery, e entregas locais de e-commer-
ce”, lista Hugo Gomes, fundador e sócio da
empresa que está incubada no Porto Digital.
O potencial de desenvolver negócios so-
ciais é outra característica da economia do
compartilhamento. Como a peça que move
a sua engrenagem é a comunidade, um em-
preendimento de alto impacto social pode
alcançar engajamento de milhares de micro-
financiadores com os crowdfundings. “Por
meio das vaquinhas online, uma solução
social pode ser viabilizada de forma coletiva
e compartilhada, trazendo resultados espe-
Através de uma
plataforma
digital, a
empresa Find Up
(foto abaixo)
reduz o caminho
entre os
consumidores
e os técnicos de
computação.
Foto:TomCabral
12 agosto/2017
taculares de forma rápida e eficiente”, afirma
o gerente de empreendedorismo do Porto
Digital e head de Aceleração da Jump Brasil,
André Araújo.
Ele avalia que as pequenas campanhas
que a população começa a se engajar repre-
sentam o início de uma prática de financia-
mento social que se tornará comum. “Eco-
nomia e sociedade não são coisas separadas.
Estão surgindo metodologias ágeis para se
empreender. Essa é uma das maneiras mais
interessantes hoje para que projetos inova-
dores e de pessoas – que ainda não têm uma
marca estabelecida, mas têm conhecimento e
capacidade – receberem investimentos pelo
próprio público alvo daquele possível produ-
to”, afirma André Araújo.
Um projeto local que se beneficiou do
crowdfunding foi o Saladorama, que permite
à população feminina da Zona Norte do Re-
cife acesso à alimentação saudável e à renda.
Criada no Rio de Janeiro, a startup ganhou
uma operação em Nova Descoberta. A lógi-
ca de funcionamento é formar mulheres de
comunidades pobres para produzir os ali-
mentos e educá-las para levar esse hábito de
consumo e preparação para suas casas.
“Atuamos com cozinhas dentro das co-
munidades, empregando, capacitando e em-
poderando mulheres. Alimentos orgânicos e
saudáveis são desconhecidos da maioria da
população de baixa renda e são inacessíveis
em restaurantes que têm essa oferta por cau-
sa do alto custo”, afirma Isabela Ribeiro, sócia
e responsável pelas operações no Nordeste.
Além da vaquinha digital, o Saladorama
beneficiou-se da economia compartilhada ao
comercializar os pratos preparados por uma
plataforma virtual. Eles são entregues no sis-
tema de delivery. Com os recursos das ven-
das, as mulheres recebem uma bolsa durante
o período de capacitação na startup. Embora
a maioria da clientela seja ainda dos bairros
de classe média, o Saladorama já tem aproxi-
madamente 40% de público da comunidade
consumindo os produtos.
A nova turma que começa a ser prepa-
rada pela empresa tem um detalhe a mais:
serão capacitadas apenas mulheres negras
e transexuais. “Fizemos a opção por ser um
público que enfrenta ainda mais dificuldade
de acesso à alimentação orgânica e saudável”,
justifica. Para formar a nova turma de 25 pes-
soas, a empresa lançou um crowndfounding
para captar R$ 25 mil para custear o proje-
to, mas conseguiu captar R$ 32 mil. As aulas
começam em agosto. Após se espalhar pelo
País, a empresa tem um convite para expe-
rimentar o modelo de negócios a partir de
novembro em Angola.
Seja no mundo dos negócios ou na bus-
ca por soluções sociais, os especialistas indi-
cam que a revolução promovida pela lógica
da economia colaborativa está apenas no co-
meço. Os embates com os sistemas tradicio-
nais (como no clássico caso do Uber x táxi)
é uma mostra de que nem todas as etapas se-
rão realizadas sem resistência. “Onde existem
serviços públicos de baixa qualidade ou onde
os intermediários cobram muito caro são os
Crowdfundings
começam a se
disseminar no
País, auxiliando
principalmente
iniciativas com
pegada social.
Formato de
financiamento
acelera início de
startups.
Polyana Cintra (gerente comercial) e Isabela Ribeiro (sócia) conduzem a Saladorama, empresa que capacita mulheres em gastronomia saudável.
Foto:TomCabral
13agosto/2017
André Araújo:
“Porto Digital,
C.E.S.A.R e
Softex atuam
para fomentar
os sistemas
de economia
colaborativa no
Recife.”
ambientes em que esse modelo floresce mais
rápido”, alerta André Araújo, que faz previsões
ousadas: “Esse mercado colaborativo vai pipo-
car quando chegar na área financeira, com as
criptomoedas. Serão microbancos funcionan-
do sem intervenção, com dinheiro virtual. A
gente acha que já viu as mudanças acontecen-
do, mas talvez não tenha visto ainda”. O case
mais famoso das criptomoedas é o da Bitcoins,
que já tem operações no Recife.
Para se preparar para essas mudanças, o
executivo afirma que Porto Digital, C.E.S.A.R e
a empresa Softex estão desenvolvendo conhe-
cimentos estratégicos e tecnologias necessárias
para a operação dos sistemas colaborativos.
Dessa forma, abre-se caminho para que novas
startups possam surgir em Pernambuco a partir
desse modelo de negócios que promete crescer
muito no mundo inteiro nos próximos anos.
Previsões internacionais revelam esse
futuro próspero. Estudo da Pricewaterhou-
seCoopers (PwC) indica que até 2025
a economia do compartilhamento deve
mover mais de US$ 335 bilhões no mun-
do. Na avaliação de Jeremy Rifkin, teórico
econômico e social americano, o próprio
capitalismo deixará de ser predominante
no mundo, dando lugar ao sistema cola-
borativo. “Aparentemente, estamos na fase
inicial de uma transformação de fundo dos
paradigmas econômicos. No crepúsculo da
era capitalista, surge um novo modelo eco-
nômico mais adequado à organização de
uma sociedade em que cada vez mais bens
e serviços são praticamente gratuitos”, afir-
ma no livro A Sociedade do Custo Marginal
Zero. Se o cenário futurista de Rifkin será
uma realidade, só o tempo dirá. Mas a pro-
fusão de atividades que já usam a lógica do
compartilhamento e alcançam resultados
econômicos e sociais indicam que o mode-
lo veio para ficar.
Sustentabilidade ambiental e econômica é
outra tônica da economia compartilhada.
José Carlos Cavalcanti explica o porquê: “Os
proprietários de produtos fazem dinheiro a
partir de ativos subutilizados que são aluga-
dos. As pessoas que alugam, por outro lado,
pagam menos do que elas pagariam se elas
comprassem determinado item, ou se voltas-
sem para um ofertante tradicional. E há be-
nefícios ambientais também: alugar um car-
ro, por exemplo, significa menos automóveis
adquiridos e menos recursos aplicados para
produzi-los”.
Além do Uber e Airbnb (serviços que são
referências mundiais em transporte e hos-
pedagem sem possuírem um carro ou pou-
sada), uma série de plataformas online tem
investido na oferta de produtos para alugar,
que vão desde roupas, malas, utensílios para
fazer um jantar, entre muitos outros. Uma
iniciativa pernambucana e com uma pegada
social, sem finalidade lucrativa e de alto in-
teresse da comunidade universitária é o apli-
cativo Carona Phone, que passou a ser usado
recentemente na UFRPE. Desenvolvida pela
Universidade de Brasília (UNB), a tecnologia
colaborativa oferece aos cadastrados pelo sis-
tema as vagas disponíveis nos carros que vão
ao campus. Só podem se inscrever alunos
ou funcionários da instituição, o que cria
uma rede de segurança aos que ofertam ou
pegam a carona.
O professor do departamento de enge-
nharia florestal Emanuel Araújo, responsá-
vel pela intermediação junto à UNB, afirma
que pelo aplicativo é possível ver o itinerá-
rio do veículo que oferece a carona e quan-
tas vagas são oferecidas no carro. Ao final,
tanto o motorista quanto o carona podem
receber notas, igual aos apps de táxis ou do
Uber. “Para incentivar o uso do aplicativo,
as pessoas que tiverem pontuação mais alta
vão ganhar benefícios como livros, inscri-
ções em congressos ou almoços gratuitos
no restaurante universitário. É uma forma
de bonificá-los”.
Outra experiência que ganha volume no
Brasil é a dos coworkings, que são estruturas
baseadas no compartilhamento de espaços
e recursos de escritório, reunindo profis-
sionais e empresas diversas. Esse segmento
cresceu 114% em 2017, de acordo com o
Censo Coworking Brasil. O Recife, com 21
unidades em operação, se destacou na pes-
quisa como a 8ª cidade no País com o maior
número desses espaços.
USAR EMVEZ DE POSSUIR
Foto:TomCabral
14 agosto/2017
A cena política nacional tomou o debate do
encontro do Projeto Empresas & Empresários
2017, que traz como tema “Pernambuco mui-
to além da crise”. Realizado pela TGI, INTG e
CEDES, o projeto tem patrocínio do Governo
do Estado. Como o estudo tem um viés pro-
positivo, os membros do Conselho Estratégico
Algomais Pernambuco Desafiado ressaltaram
que uma superação do cenário de recessão pas-
sa pela mobilização da sociedade em prol da
reforma política.
Os conselheiros também destacaram a im-
portância de os brasileiros adotarem práticas
anticorrupção desde as pequenas atividades do
cotidiano. O recado é de que a mudança econô-
mica sustentável demanda uma transformação
até de alguns aspectos culturais dos brasileiros
e das suas organizações.
A força que poderá mover a classe política
para a reforma, no entanto, ainda está silencio-
sa, na avaliação dos conselheiros. “O brasilei-
ro é leniente e tem conveniência histórica em
apenas observar a situação de crise”, afirma o
conselheiro Édson Menezes. Ele defende ser
necessário um esforço para alcançar um con-
tingente maior de pessoas em torno dessa causa
para mover o Congresso a votar os projetos de
interesse nacional.
O conselheiro João Bosco de Almeida
defende também um novo posicionamen-
to da classe empresarial. Ele lembrou, por
exemplo, que os parlamentares do Congresso
Nacional foram eleitos com financiamento
dos empresários. “Não temos saída se não
for pela política, se acharmos ela desneces-
sária, não vamos resolver o problema. Esse
EVENTO DEBATE COMO
SUPERARA CRISE POLÍTICA
PROJETO E&E Empresários discutiram sobre a urgência da
reforma política para o País voltar a crescer.Foto:TomCabral
15agosto/2017
Congresso que está aí foram as empresas e as
elites que colocaram lá, não foi o povão. Esse
é o Congresso feito com dinheiro, não com
ideologia”, ponderou.
O conselheiro Eduardo Lemos Filho con-
sidera que há ainda pouco conhecimento por
parte da população brasileira sobre a refor-
ma política. E mesmo que a discussão sobre
as mudanças pareçam ser enfadonhas para
a maioria das pessoas, é importante lembrar
que muitas transformações positivas para o
País surgiram de decisões políticas. “Estamos
discutindo muito pouco sobre o assunto. Na
realidade, a classe média brasileira entende
muito pouco de política”.
A distância da participação mais forte da
sociedade desse momento é avaliada como
um risco para o conselheiro Gilliatt Falbo.
“Nós estamos neste momento de desordem
e desorganização do Estado brasileiro atape-
tando o caminho para um governo autoritá-
rio, seja militar ou civil. Ou dependemos de
organização popular ou irá surgir o salvador
da pátria”, alerta.
Diante das exposições, o conselheiro Sér-
gio Cavalcante propõe que os empresários per-
nambucanos vão além das fronteiras do Estado
e lancem proposições sobre o cenário nacional.
“Pernambuco nunca foi de esperar acontecer.
Sempre fomos de influenciar as decisões na-
cionais. Podemos fazer mais que só chegar ao
governador. Temos um Conselho Estratégico
bastante privilegiado que dá para discutir o po-
sicionamento da sociedade pernambucana em
relação ao País como todo”, sugere.
PROPOSITIVO
Na reunião, o diretor da Algomais e coor-
denador do Conselho Estratégico, Ricardo
de Almeida destacou a missão do projeto
E&E de buscar alternativas para uma maior
dinâmica na economia e nas empresas per-
nambucanas. “A ideia é não ficarmos parali-
sados diante da crise. Ela existe e é relevante,
mas vai passar. Iremos identificar o que as
empresas dos 15 setores econômicos selecio-
nados estão fazendo para conviver com ela
e superá-la”, explica o consultor Ricardo de
Almeida.
O roteiro da pesquisa tem as seguintes
questões centrais: o impacto da crise nas em-
presas, as medidas para superação no Brasil
e em Pernambuco, e a superação da crise no
ambiente empresarial.
Durante o evento, foi apresentado um
balanço pelo economista Ecio Costa, da CE-
DES, que identificou leve melhora da econo-
mia pernambucana no primeiro trimestre
deste ano. Mas, ressalvou que a resolução de-
finitiva desse cenário tem um horizonte dis-
tante. “Ainda é cedo para acreditar que a cri-
se está resolvida. A depressão foi grande e os
efeitos ainda reverberam sobre a economia
e a vida das pessoas. Os dados levantados,
porém, animam e criam expectativas positi-
vas”, pondera. O PIB de Pernambuco cresceu
1,4% no primeiro trimestre, enquanto que o
desempenho nacional foi negativo em -0,4%.
A próxima edição da Algomais trará uma
matéria com a análise do desempenho recen-
te da economia pernambucana elaborado
pela CEDES e apresentado por Ecio Costa
aos conselheiros.
No evento foi
apresentado
balanço feito
pela CEDES sobre
o desempenho
econômico de
Pernambuco
no primeiro
trimestre.
16 agosto/2017
17agosto/2017
18 agosto/2017
19agosto/2017
20 agosto/2017
21agosto/2017
22 agosto/2017
23agosto/2017
DE UNIVERSITÁRIOSA
CONCORRENTES DO
GOOGLE
PERFIL CORPORATIVO In Loco Media inova no setor de
marketing e propaganda com o uso de geolocalização.
Foto:TomCabral
Por Rafael Dantas
24 agosto/2017
Eduardo Martins, sócio da
In Loco Media, revela a
trajetória de crescimento
explosivo da empresa,
que prospecta triplicar o
faturamento em 2017.
25agosto/2017
Empresa
pernambucana
deslanchou
em plena crise
e começou
a partir
do projeto
de conclusão
de curso
da UFPE.
De um projeto de final do curso de Ciência
da Computação da UFPE nasceu a semente
de uma empresa que tem como concorren-
tes gigantes do mercado mundial como o
Google e o Facebook. Em plena crise brasi-
leira, a In Loco Media deslanchou. Em 2015
teve um faturamento de R$ 5 milhões, pas-
sando para R$ 50 milhões no ano passado.
Oferecendo uma solução tecnológica ino-
vadora dentro do mercado de publicidade
mobile baseada em geolocalização indoor,
eles projetam um faturamento de R$ 150
milhões em 2017.
A tecnologia exclusiva de localização de-
senvolvida pela empresa consegue identificar
a partir do IP do celular (número identifica-
dor de cada aparelho em rede) onde cada con-
sumidor está passando, numa precisão entre
um e dois metros. A tecnologia é considerada
a de maior precisão no mercado mundial.
A ideia inicial do CEO André Ferraz, ain-
da dentro da universidade, em 2011, era ofe-
recer a partir dessa tecnologia um aplicativo
para shoppings. O serviço indicaria no app o
mapa do mall e onde estariam as promoções
que tivessem maior relação com o perfil do
consumidor. Em 2012, já em sociedade, a em-
presa foi encubada dentro do Porto Digital.
No mesmo ano, a partir da publicação de uma
reportagem em um site especializado, surgiu
o interesse do grupo Naspers (que é sócio do
Buscapé no Brasil e uma das maiores corpora-
ções de mídia do mundo), que passou a inves-
tir na startup.
O aplicativo para shoppings ficou de lado.
A empresa identificou que, frente à tradição
de investimentos em publicidade do setor do
varejo moderno, o modelo de negócios não
decolaria. A partir daí voltou-se para a mídia
mobile, focada em publicidade em locais fe-
chados. “Uma rede de fast food pode utilizar
nossos serviços e enviar uma publicidade para
um perfil segmentado de clientes que estão
passando na frente da sua loja. Ou mesmo
um restaurante pode enviar uma campanha
promocional quando o cliente está circulan-
do próximo a um concorrente”, exemplifica
Eduardo Martins, cofundador da empresa.
Mesmo sem ter informações pessoais dos
portadores dos smartphones, a empresa traça
um perfil a partir do comportamento de geo-
localização dos aparelhos. Alguém que fre-
quenta uma academia algumas vezes por se-
mana fica classificado num perfil de “fitness”,
por exemplo. Um cinéfilo que vai ao cinema
semanalmente tem o seu comportamento
de consumo mapeado por essa tecnologia.
Com essas informações e a customização
da campanha, a taxa de cliques nos anún-
cios da In Loco Media é 10 vezes maior que
a média da publicidade nos concorrentes
Google e Facebook.
Além de oferecer um serviço de entrega
de mensagem publicitárias contextualizadas
com a localização, a tecnologia da In Loco
Media consegue medir quantos consumi-
dores de fato atenderam à campanha. “A
grande sacada da In Loco é que a gente con-
segue, através do nosso serviço, identificar
a jornada do consumidor. Sabemos se ele
entrou na loja onde foi feita a campanha ou
se foi para uma concorrente, por exemplo.
Unir o mundo online com o mundo offline
é um grande desafio. Para a publicidade é
muito difícil identificar o retorno de inves-
timento de uma mídia. A In Loco quebra
esse paradigma e identifica a efetividade do
anúncio”, explica Eduardo Martins.
Evoluir de uma startup com tecnologia
inovadora para uma empresa que atua no
competitivo mercado global aconteceu após a
In Loco Media ser referendada em 2015 pelo
Festival de Cannes como uma das 10 empre-
sas mais promissoras do mundo no mercado
publicitário. A partir daí, o crescimento da de-
manda acelerou. Em sua carteira de clientes de
200 empresas estão organizações como a Co-
ca-Cola, Hyundai, McDonald’s, Samsumg, Pi-
zza Hut, entre outros. Atualmente, 70% delas
chegam à In Loco via agência de publicidade e
os demais como clientes diretos.
O aumento da demanda levou a empresa
a contratar mais funcionários. O quadro de
30 pessoas em 2015 saltou para 130 neste ano,
com mais 15 vagas a serem preenchidas. A
empresa pernambucana já tem os pés na ca-
pital paulista, onde estão os profissionais res-
ponsáveis pelo comercial e pelo desenvolvi-
mento de novos negócios. Mais recentemente,
a In Loco Media já tem profissionais atuando
também nos Estados Unidos, em São Francis-
co e Nova Iorque.
Além da expansão internacional, a In Loco
também está num momento de reposiciona-
mento. Mais que atuar no segmento da publici-
dade, a empresa passa a oferecer uma platafor-
ma de tecnologia de dados de localização com
outros serviços que estão em desenvolvimento,
como no segmento de segurança para bancos
e um voltado para o pequeno varejo.
130funcionários
200empresas estão
no portfólio
de clientes
R$50milhões
foi o faturamento
em 2016
R$150milhões
é a projeção
para 2017
26 agosto/2017
GESTÃO MAIS TGI Consultoria em Gestão redacao@revistaalgomais.com.br
A maioria das empresas familiares, em algum
momento de suas existências, terá que passar
por um processo de sucessão. Ter um plano su-
cessório definido dá a elas vantagens competiti-
vas que podem, simplesmente, fazer a diferença
entre o sucesso e o fracasso da transição de lide-
rança entre gerações. Entretanto, é comum en-
contrarmos empresas que fazem o dever de casa
– organizam e planejam a sucessão – mas que
erram ao não compartilhar nem engajar seus
executivos estratégicos neste processo.
Apesar de ser uma questão de cunho fami-
liar, a sucessão é um assunto de grande interesse
para aqueles que, não sendo da família, serão
afetados diretamente por ela. É preciso lembrar
que,assimcomofuturodaorganização,acarrei-
ra deles também está em jogo. Por isso, é muito
importantequealógicadoprocessodesucessão,
de um modo geral, seja compartilhada com os
principais executivos. Do contrário, pode ser
criadoumambientedeincertezasquenadatrará
de bom para os negócios.
A insegurança sobre o rumo que a organi-
zação tomará, o receio por não saber como o
processo será conduzido, a dúvida sobre se a fa-
mília está tratando o assunto com a importância
adequadaou,ainda,omedodequeosfamiliares
entrarão para “tomar o lugar” de quem já está lá,
Compartilhando o plano de sucessão
podem gerar conflitos internos e desmotivação
na equipe. Isso também poderá afetar, no futuro,
a confiança dos executivos no sucessor escolhi-
do para assumir a direção da empresa.
Claro que não é preciso expor o plano
sucessório em seus mínimos detalhes nem
muito menos questões íntimas da família,
mas os executivos precisam entender como
se dará o processo e quais serão seus papéis
nessa transição. Eles podem, inclusive, con-
tribuir com a experiência e com uma visão
mais ampla e imparcial do negócio, já que
não fazem parte da família, tornando o plano
de sucessão até mais efetivo.
Quando o processo sucessório é feito de
maneira transparente e compartilhado com
aqueles que fazem a empresa em seu dia a
dia, todos ganham: as famílias empresárias,
por se mostrarem dispostas ao diálogo sobre
o tema, eliminando especulações e mal-en-
tendidos, promovendo a integração da nova
geração com a equipe que comanda os ne-
gócios; e os executivos, que terão mais visi-
bilidade sobre o futuro da empresa e, desta
forma, não se sentirão ameaçados pelas mu-
danças que sempre são trazidas por um pro-
cesso sucessório, por mais bem conduzido
que seja.
“Uma
administração
terá falhado se
a sua sucessora
falhar.”
Peter Drucker
(1909-2005)
27agosto/2017
VIDA DIGITAL Bruno Queiroz bruno@cartello.com.br
Para entender melhor a transformação digital,
é preciso analisar a evolução do comportamen-
to das gerações e suas relações com o trabalho,
com o consumo e com a tecnologia. Saber
identificar e respeitar as diferenças é o primeiro
passo para se comunicar adequadamente com
os três perfis mais comuns de novos consumi-
dores: estrangeiros, visitantes e nativos.
Os estrangeiros, formados pelos Baby Boo-
mers (acima de 55 anos) e a parte mais velha da
Geração X (de 35 a 54 anos), são aqueles que
nasceram bem antes da internet. Foram forma-
dos vendo televisão e lendo jornais e revistas.
Valorizam os empregos de carreira e buscam
um padrão de vida estável. Preferem se comu-
nicar por voz do que por texto e valorizam as
relações presenciais, o que influencia direta-
mente na decisão da compra em lojas físicas e
no consumo de produtos analógicos. Usam a
internet? Sim. Mas de maneira secundária. Ba-
sicamente, esse grupo dá a sustentação (ainda)
necessária para a sobrevivência dos meios de
comunicação e produtos não digitais.
Os visitantes são aqueles que vivenciaram a
transição do mundo analógico para o mundo
digital. Estão no meio do caminho. Possuem al-
guns dos valores dos estrangeiros, mas já estão
incorporados à vida digital. Esse grupo é for-
mado basicamente pela parte mais nova da Ge-
ração X (de 35 a 54 anos) e pela Geração Y ou
Milleniuns (de 25 a 34 anos). Foram formados
tendo acesso à TV a cabo, aos videogames e aos
computadores. Estão sempre conectados na
internet, compartilhando suas atividades pe-
las redes sociais. O celular é um companheiro
inseparável. Devido ao excesso de informações
que recebem, os visitantes são movidos a desa-
fios e trocam de emprego com mais facilidade.
São mais ansiosos que as gerações anteriores e
estão sempre em busca de novas tecnologias.
Os nativos são aqueles que não conhecem
o mundo sem o computador e sem a internet.
Possuem celular desde criança e são a primeira
Transformação digital:
você sabe com quem está falando?
“Formados pela
Geração Z
(de 15 a 24 anos),
privilegiam
as relações
virtuais
e, por isso,
têm necessidade
extrema
de interação
e exposição
de opinião”.
geração 100% digital. Formados pela Geração Z
(de15a24anos),privilegiamasrelaçõesvirtuais
e, por isso, têm necessidade extrema de intera-
ção e exposição de opinião. Antes do “bom dia”
perguntam logo a “senha do wifi”. Os nativos são
demasiadamente ansiosos. Não só trocam de
emprego com muita facilidade, como vão trocar
de carreira algumas vezes ao longo da vida pro-
fissional.Concentramoconsumopelocomércio
eletrônico e são ao mesmo tempo produtores e
consumidores de conteúdo, os chamados “pro-
sumers”. Dão preferência ao uso de serviços em
contrapartida à posse de produtos, sendo a base
da economia compartilhada no futuro.
Apesar da classificação que vimos acima, a
tendência é que, com o aumento do nível de digi-
talização das nossas atividades diárias, as diferen-
ças nos hábitos de consumo e no uso da tecno-
logia entre os perfis tendem a ser cada vez mais
imperceptíveis.Oquevaifazeragrandediferença
é o grau de intensidade. Por isso, é preciso estar
atento aos detalhes para se comunicar da melhor
formapossívelcomosnovosconsumidores.
28 agosto/2017
DETODASAS CORES
ESTUDO Pesquisador mapeia 34 variedades do alimento
no Agreste pernambucano e investiga por que essa
diversidade não chega à mesa do consumidor.
Por Rafael Dantas
29agosto/2017
Você já imaginou poder saborear todos os
dias um tipo diferente de feijão na hora do
almoço? Enquanto estamos acostumados
a comer apenas o carioca e o mulatinho ou
vez por outra o preto dentro da feijoada, só
no Agreste Meridional pernambucano foram
mapeadas 34 variedades, com diferentes co-
res, texturas, tamanhos e sabores. Essa desco-
berta partiu de uma pesquisa realizada pelo
extensionista rural do Instituto Agronômico
de Pernambuco (IPA) Pedro Balensifer, que
desde 2012 faz esse inventário nas proprie-
dades rurais familiares e bancos de sementes
crioulas (sementes locais que são passadas de
pai para filho, conservadas e manejadas por
agricultores familiares).
Provavelmente você nunca viu em ne-
nhuma prateleira de supermercado o fei-
jão fogo na serra (vermelho) ou não tenha
experimentado em nenhum restaurante a
variedade enxofre, com aspecto amarelo,
ou o leite, que é bem branquinho. Os no-
mes são dados pelos próprios agricultores,
que escolheram alcunhas ainda mais curio-
sas para os feijões, como o carrapatinho e
o chitadinho. A região escolhida para a
pesquisa compreende os municípios de An-
gelim, Calçado, Canhotinho, Garanhuns,
Ibirajuba, Jucati, Jupi, Jurema, Bom Conse-
lho, Lajedo, São Bento do Una e São João,
que formam o território produtivo do feijão
em Pernambuco, sendo responsável por um
quarto dessa cultura no Estado. O Brasil é o
terceiro maior produtor de feijão do mun-
do, sendo responsável por 12% da produção
mundial, tendo toda produção praticamen-
te absorvida pelo mercado interno”.
Após identificar e provar dessa diver-
sidade, o pesquisador se detém agora a es-
tudar no Programa de Pós-Graduação em
Extensão Rural e Desenvolvimento Local
(Posmex) da Universidade Federal Rural
de Pernambuco (UFRPE) a razão desses
produtos não chegarem na mesa dos per-
nambucanos. “Esses agricultores seguem
cultivando esses feijões porque gostam de
consumir ou mesmo por tradição dos pais,
já que são variedades que atravessam gera-
ções”, afirma Balensifer.
Sem interesse da indústria e dos atra-
vessadores que compram nas feiras, essas
sementes já teriam sumido se não fosse a
persistência dos produtores. “Muitos desses
feijões são bastante saborosos, mas ficam
marginalizados no mercado. Os agriculto-
res continuam produzindo, mas encontram
dificuldades de obtenção de renda com seus
produtos, especialmente pelos baixos pre-
ços pagos por intermediários, já que uma
minoria tem acesso à venda direta ao consu-
midor. Assim, um dos grandes desafios para
a produção da agricultura familiar consiste
no quesito comercialização, principalmente
das variedades crioulas”, explica.
FEIRAS
As feiras agroecológicas de Pernambuco po-
dem ser uma alternativa para escoamento
dessa produção, na análise do extensionista.
“Essas feiras já comercializam uma vasta bio-
diversidade de produtos que não encontramos
nos supermercados, além de possuírem um
tipo de consumidor disposto a buscar sabo-
res diferentes e interessado em comprar di-
retamente dos produtores”, aponta Balensifer.
Enquanto não encontram os caminhos que
levem esses produtos para a mesa dos consu-
midores, Pedro relata que diversas estratégias
de comercialização solidária vão garantindo
o escoamento dessa produção, como a troca
entre famílias produtoras e as vendas em cir-
cuitos locais, em pequenos mercados.
Para reverter esse quadro de desinteresse
e ampliar o acesso da população aos produ-
tos locais, ele afirma ser necessário um pro-
cesso de reeducação alimentar da popula-
ção. “O cardápio típico que temos na nossa
mesa e que está à venda nos supermercados
é fruto de um processo de padronização da
indústria de alimentos e de propaganda da
grande mídia televisiva”. Ao consumirmos
essas variedades ajudaríamos a conservar a
biodiversidade agrícola e a própria história
da agricultura”, defende o pesquisador. Ele
conta que, no mundo, os feijões começaram
a ser cultivados há 5 mil anos no México.
“A continuidade de tantas variedades é fruto
do trabalho de manejo dos agricultores ao
longo de muito tempo”.
Em um esforço de articulação dos agri-
cultores, órgãos públicos e sociedade civil
organizada para garantir a continuidade
dessas culturas foi criada a Rede de Se-
mentes Crioulas do Agreste Meridional de
Pernambuco (Rede Semeam). Essa organi-
zação promove feiras de troca de sementes
crioulas, palestras, seminários e formação
de Bancos Comunitários de Sementes com
o objetivo de resgatar e conservar a biodi-
versidade agrícola da região.
Pedro Balensifer
afirma que
a permanência
dessas
variedades
de feijão
estão ligadas
a identidade
cultural
e às tradições
familiares dos
agricultores.
Foto:TomCabral
30 agosto/2017
NINHO DE PALAVRAS Bruno Moury Fernandes
Sinto cheiro de flores e frutas tropicais
quando estou perto de Tetê e Quinca, meus
filhos. É o cheiro do sol nascendo de manhã,
da pura natureza. Sinto cheiro de morango
com chantili quando estou perto de Milena.
É o cheiro do desejo. Sinto cheiro de banana
batida com leite condensado e farinha lác-
tea quando estou perto da minha mãe. É o
cheiro da minha infância. Sou um homem
olfativo. Trabalho esse sentido, diariamente.
Quando cheiro alguma coisa lembro de
pessoas ou de lugares. Amo quando alguém
fuma perto de mim. É o cheiro do meu pai.
Fico impregnado de saudade. Cheiro de gui-
sado na panela então é o mesmo que rece-
ber um abraço seu, daquele bem apertado.
Cheiro de sargaço remete-me a Itamaracá.
Amendoim, me põe no colo da Tia Lídia.
Cheirar os pelos de um cavalo é pensar em
Fifa, meu irmão. Terra molhada leva-me à
Granja Riacho Azul. Perfume francês leva-
-me ao meu tio Honório, a cabeça mais chei-
rosa da humanidade.
Até cheiro de suor remete-me a coisa
boa: o Carnaval do Recife. O cheiro não pre-
cisa ser bom. Cheiro de peido, por exemplo,
é estar no meu quarto, adolescente, dormin-
do com meu irmão. O melhor lugar do mun-
do, apesar das bufas. Cheiro de milho verde
Cheiros da vida
brunomoury@mfmo.com.br
“Quero cheirar
o mundo! Quero
cheirar cada
esquina por onde
já passei e por
onde vou passar.”
remete-me ao amigo de infância, Macaxeira,
que vomitou em cima de mim, após comer
misturado com quibe. Cheiro de cachorro
quente remete-me ao colégio Atual. Cheiro
de fritura me leva às coxinhas de aquário que
comia nos jogos do Sport, na Ilha do Retiro.
Posso passear sem sair de casa. Se me
trouxeres coentro e cebolinho estou na feira
de Casa Amarela. Se me deres café estou na
casa da minha avó. Se me falas de perto com
hortelã estou sentado na cadeira de Tio Tuca,
meu dentista.
Haja nariz para tanto cheiro. Mas esse
não é um problema para as pessoas da minha
família. Meus tios não têm narizes, na verda-
de eles possuem naralhos! Um deles resolveu
fazer uma plástica para diminuir. A esposa
pediu “tore outra coisa que é melhor”. Per-
guntado o motivo, ela respondeu com fran-
queza: “gostaria de preservar a única coisa
grande e dura que ainda há em ti”.
Se me trazes manjericão estou em Milão.
Se colocas camarão na panela, mergulhado
no azeite, estou no Pinóquio, em Lisboa. Se
me entregas salsa estou na casa da sogra. Per-
fume de bebê, meu afilhado Guigui e meu
sobrinho Tomé. Cheiro de energético leva-
-me à farra. Creolina me põe com meus ca-
chorros, na casa onde morávamos, em Casa
Forte. Cominho é de fome. Bromélia é de
rede e varanda. Mas cheiro bom mesmo é de
livro. Melhor do que ler, é cheirá-lo.
Quero sentir cheiro e catinga, para
lembrar que a vida é feita de altos e baixos.
Quero todos os cheiros que a vida possa
me dar. Quero cheirar o mundo! Quero
cheirar cada esquina por onde já passei e
por onde vou passar. Quero cheirar até o
cangote azedo de Joaquim quando da esco-
la chegar. Quero cheirar o perfume da vida
até a morte se apresentar. Esticar o tempo
até sentir o cheiro que a malvada terá. Sus-
peito que seja de avenca. Aquela que enfei-
tou o caixão do Dr. Edmar.
Cronista
31agosto/2017
MEMÓRIA PERNAMBUCANA
À tarde, uma moça bonita atravessava a rua e
de um banco da praça Maciel Pinheiro se pu-
nha a contemplar a beleza em volta. Era uma
praça bem cuidada e, o que era melhor, uma
praça segura. Mas quem era aquela moça?
Era Haia Pinkhasovna Lispector, uma ucra-
niana de família judaica fugida da Primeira
Guerra Mundial. Aqui, no entanto, mudaria
de nome, e com ele se tornaria famosa. Pas-
saria a chamar-se Clarice. Clarice Lispector.
Nascida a 10 de dezembro de 1920, aqui
chegou ainda bebê. Viria a ser uma das maiores
escritoras latino-americanas, embora as compa-
rações feitas com outros escritores sempre levas-
sem em conta o mundo. Clarice Lispector era
comparada a ninguém menos do que Virginia
Woolf, James Joyce, Katherine Mansfield, Jorge
Luís Borges, Juan Rulfo e Machado de Assis.
Aos 19 anos publicou o primeiro texto; o
primeiro livro, Perto do Coração Selvagem,
aos 24, e dedicou a vida a produzir romances,
contos, crônicas, cartas e entrevistas. Para o
crítico literário português e professor de lite-
ratura brasileira Carlos Mendes de Sousa, a
grandeza da sua obra é um leque de possibi-
lidades de leitura.
Ela foi o primeiro escritor brasileiro a es-
tampar a capa do suplemento dominical de
livros do The New York Times, com uma re-
senha do volume The Complete Stories (Con-
tos Completos), impondo-se registrar que
os comentários do jornal derramam elogios
ao volume com todos os contos publicados
pela escritora. O texto chegou a brincar com
a força da prosa daquela mulher. É melhor se
aproximar com algum cuidado. “Para o leitor
comum - ou seja, para a maior parte de nós -a
imersão na mente fértil de Clarice Lispector
pode ser uma exaustiva e até mesmo pertur-
badora experiência (...). Separe comida, água,
um kit de primeiros socorros e muito protetor
solar”, recomenda o autor da matéria.
Sem recomendar cautela, mas, pelo con-
trário, para que você se entregue ao texto de
Clarice Lispector, escolha um destes. Ou, um a
um, todos. Perto do Coração Selvagem (1944),
O Lustre (1946), A Cidade Sitiada (1949), A
Paixão Segundo G.H. (1964); Uma Aprendi-
zagem ou O Livro dos Prazeres (1969); Água
Viva (1973); A Hora da Estrela (1977); Um So-
pro de Vida (Pulsações) (1978); Alguns Con-
tos (1952); Feliz Aniversário (1960); Laços de
Família (1960); A Legião Estrangeira (1964);
Felicidade Clandestina (1971); A Imitação da
Rosa (1973); A Via Crucis do Corpo (1974)
Onde Estivestes de Noite (1974); De Corpo
Inteiro (1975); O Mistério do Coelho Pen-
sante (1967); A Mulher que Matou os Peixes
(1968); A Vida Íntima de Laura (1974); Quase
de Verdade (1978); Como Nasceram as Estre-
las: Doze Lendas Brasileiras (1987).
Mas não parou aí. Postumamente, ela teve
coligidoscontos,crônicaseentrevistastaiscomo
A Bela e a Fera (1979), conjunto de contos es-
critos em épocas diferentes; A Descoberta do
Mundo (1984), seleção de crônicas publicadas
em jornais de agosto de 1967 a dezembro de
1973;ComoNasceramasEstrelas(1987),contos
infantis;CartasPertodoCoração(2001),corres-
pondência com Fernando Sabino; Correspon-
dências (2002); Aprendendo a Viver (2004), se-
leção de crônicas publicadas em jornal de agosto
de 1967 a dezembro de 1973; Outros Escritos
(2005), – reunião de textos diversos; Correio
Feminino (2006), conjunto de textos publicados
em suplementos femininos de jornais, nas déca-
das de 1950 e 1960; Entrevistas (2007), seleção
de entrevistas realizadas nas décadas de 1960 e
1970; Minhas Queridas (2007), correspondên-
cias; Só para Mulheres (2008), reunião de tex-
tos publicados em suplementos femininos nas
décadas de 1950 e 1960; De amor e Amizade,
crônicas para jovens (2010), seleção de crônicas
publicadas e Todos os Contos, que reúne todos
os contos escritos por ela.
Quer uma sugestão? Sente-se e leia Clarice
Lispector. Sua obra já foi traduzida centenas
de vezes e a cada dezembro, mês em que ela
nasceu e morreu, muitos países, especialmen-
te o Brasil, lhe rendem justas homenagens.
Passaram-se 35 anos desde que ela se foi, mas
a memória da sua arte continua viva.
Marcelo Alcoforado
A estrela da tarde
Aos 19 anos
publicou
o primeiro texto;
o primeiro livro,
Perto do Coração
Selvagem,
aos 24, e dedicou
a vida a produzir
romances, contos,
crônicas, cartas
e entrevistas.
32 agosto/2017
BAIÃO DE TUDO Geraldo Freire redacao@revistaalgomais.com.br
O Homem das Trinta Pintinhas
Conheci seu José Almeida, um dos
maiores granjeiros do Brasil, dono de
um império chamado Granja Almeida,
no município de São Bento do Una,
Pernambuco. Por lá passam 5 milhões
de ovos por dia. Fiquei impressionado,
como ficará qualquer pessoa que se
meter no meio de galpões, carretas
e máquinas super-modernas que
embalam, guardam e transportam
numa frota astronômica de carretas,
essa fantástica quantidade de ovos
diariamente: CINCO MILHÕES. A minha
primeira ideia foi perguntar a seu José,
no dia em que ele estava completando
65 anos, como tudo começou. E ele
contou-me pacientemente:“Comprei
30 pintinhas e, por falta de espaço
adequado para criá-las, botei todas
enfileiradas, na frente de um candeeiro
aceso, no canto da parede do meu
quarto de dormir, e ficamos vivendo
juntos.”Daí pra frente o“dominó”foi
despencando e chegou à situação
de hoje, quando, somente nas
proximidades de casa, ele tem um
conjunto de galpões com 1 milhão de
galinhas. Elas são produtivas durante
dois anos. Por isso, todos os meses ele
tem que se desfazer de 30 mil matrizes
vencidas e repor 30 mil novas, somente
de um lote de um milhão. Da conversa
com seu José eu ganhei a liberdade de
sair dizendo: só é pobre quem quer!
Relógio Caro
O que dizer de um Rolex que pertenceu
ao“fodão”do cinema americano Paul
Newman, morto em 2008? Será que
vale os US$ 5 milhões que a família do
ator está pedindo por ele? Foi um pre-
sente que o artista ganhou em 1972 da
atriz Joanne Woodward, na época sua
esposa. Está à disposição de quem qui-
ser comprar, na casa de leilões Phillips.
Condomínio
Você pode morar muito bem
em São Paulo. Estão oferecendo
apartamentos confortáveis, no
Edifício Parque Alfredo Volpi, com
unidades de até 1.500 metros
quadrados. Pesado é o preço do
condomínio: a taxa mensal chega
facilmente aos R$ 30 mil.
Nossa língua
Bocado é uma porção que se pode abocanhar, ou que cabe na boca. Punhado
é uma porção que cabe na mão, até próximo ao punho. Vale seguir o mesmo
raciocínio para explicar cunhado?
Original e Suspeita
Essa história é atribuída ao advogado e político boêmio paraibano Raimundo
Asfora. Certa vez, ele foi criticado por tentar entrar num recinto de festa familiar
dos mais“pudorados”, acompanhado de quatro putas. Os amigos condenaram
aos gritos que ele não poderia frequentar aquele ambiente com“mulheres sus-
peitas”. Ele retrucou gritando no mesmo volume:“Essas minhas amigas não são
suspeitas, são putas. As suspeitas estão aí com vocês!”
33agosto/2017
GASTRONOMIA Meio do Mundo oferece um mix de pratos
internacionais e agora tem produtos do Galo Padeiro.
Quem foi boêmio no Recife nos anos 80, certa-
mente participou de algumas baladas no Meio
do Mundo, um bar com música ao vivo, chope
e petisco, que virou um point obrigatório para
quem estava nas cercanias do bairro da Mada-
lena. Com o tempo, o bar fechou e, desde o ano
passado,acasareabriucomomesmonomeeno
mesmo local, mas com uma proposta diferente.
A ideia de reabrir o Meio do Mundo partiu
da publicitária Marta Lima. “A casa pertence à
família e a decisão foi partir para um café e bis-
trô”, conta Virgínia Morais, cunhada de Marta e
sócia do restaurante. Localizada em frente à ar-
borizada pista da Avenida Beira Rio, onde corre
o Capibaribe, o restaurante conta com uma área
interna climatizada e uma externa com jardim.
Como o nome sugere, o café bistrô faz uma
releitura de pratos de várias partes do mundo:
cuscuz marroquino, tabule, Salada Thai e fran-
go indiano. O menu, apesar de enxuto, oferece
outras possibilidades além do almoço e jantar,
como lanches, café da manhã regional com dire-
to a tapioca e cuscuz. Há deliciosas opções para
os vegetarianos, como a salada Oriente Médio,
com folhas e faláfel (bolinho de grão de bico).
CAFETERIA, BISTRÔ E PADARIA
mais
prazer!
Informação
eserviçopara
curtiroqueavida
temdemelhor
Outro ponto alto são as sobremesas. O bolo
de banana com sorvete de canela tem feito su-
cesso entre a clientela. “Vale a pena experimen-
tartambémoBanoff,bananacomdocedeleitee
chantili, que é fantástico”, incita João Cavalcanti
Barroso, filho de Marta e também sócio.
A novidade é que o Meio do Mundo passou
a oferecer também os produtos do Galo Padeiro,
a badalada padaria localizada em Santo Amaro.
E o negócio continua em família, porque Ar-
tur, dono do estabelecimento, é irmão de Marta.
“Vendemos todos os produtos do Galo Padeiro.
Temosduasfornadas:umapelamanhãeoutrano
começodatarde.Sempretemprodutosfrescosdo
dia”, recomenda Virgínia. Os mais pedidos são:
o croissant tradicional e o sanduíche de croissant
comrecheiodequeijobrieepresuntoparma.
Além das delícias do Galo Padeiro, a casa
oferece a sopa do dia, com pães variados, uma
pedida para este fim de inverno recifense.
Serviço:
Rua Demóstenes Olinda, 152 – Madalena. Ho-
rário de funcionamento das 8h às 21h. Telefone:
(81) 3132-2495.
Delícias do
mundo como
o cuzcuz
marroquino,
tabule e a
salada Thai
estão no
cardápio.
Foto:AndréaRêgoBarros
34 agosto/2017
35agosto/2017
QUANTO MENOS MOSQUITOS,
MENOS DENGUE, ZIKA E
CHIKUNGUNYA.
RETIRE A ÁGUA
ACUMULADA DOS
PRATINHOS DE
PLANTA E ENCHA
COM AREIA.
MANTENHA
CAIXAS
D’ÁGUA E
TANQUES BEM
FECHADOS
REMOVA FOLHAS,
GALHOS E TUDO
QUE IMPEÇA A
PASSAGEM DA
ÁGUA PELAS
CALHAS
MANTENHA
SACOS DE LIXO
FECHADOS
GUARDE
GARRAFAS
DE CABEÇA
PARA BAIXO
O OVO DO MOSQUITO SÓ
É ELIMINADO QUANDO AS
VASILHAS SÃO LAVADAS COM
ESCOVA E A ÁGUA JOGADA FORA
recife.pe.gov.br
36 agosto/2017
JOÃO
ALBERTO
Poder Jovem
Leon Berenstein herdou um nome
consagrado na radiologia pernambucana,
Bóris Berenstein, e decidiu seguir os passos
do pai. Depois de estudar até o científico no
Colégio Israelita do Recife, formou-se em
Medicina na Unigranrio. Em 2006, voltou ao
Recife, para especialização no Imip. Depois,
continuou a especialização na Med Imagem,
da Beneficência Portuguesa, de São Paulo
sendo depois aprovado no fellowship da
instituição. Depois de especialização no setor
de radiologia da Universidade de San Diego,
no Estados Unidos, regressou de vez ao
Recife. Em 2012 foi aprovado como membro
titular do Colégio Brasileiro de Radiologia,
órgão máximo da especialidade. Aos 37 anos,
já uma referência no setor, muito elogiado
pelos clientes do Centro de Diagnóstico Bóris
Berenstein, onde atua como diretor médico,
preparando-se para assumir a presidência
do grupo. Participa das reuniões semanais
do Grupo de Tumores Ósseos do Hospital do
Câncer de Pernambuco e tem-se dedicado
à medicina esportiva, coordenando eventos
e atendendo a jogadores do Náutico e do
Sport. Um claro exemplo de sucesso.
Leon Berenstein
Anitta
redacao@revistaalgomais.com.br
Cuidado
Em busca de clientes, os shoppings e as lojas estão promovendo várias
liquidações pelo ano, diferentemente do passado, quando tínhamos eventos
badalados no final do ano. Infelizmente, empresários inescrupulosos
costumam aumentar os preços dos produtos, para depois oferecer
descontos. Totalmente fictícios. Todo cuidado é pouco.
Meditação
Pratica que se tornou popular no Recife, graças ao ex-prefeito João Paulo,
a meditação passou a ser adotada por muita gente, inclusive jovens.
Especialmente depois que pesquisa da Universidade da Carolina do Norte,
nos Estados Unidos, demonstrou que a meditação torna as pessoas mais
inteligentes.
Volta do CQC
A direção da rede Bandeirantes estuda a volta do CQC no próximo ano, para
usar a efervescência política em Brasília, um dos principais ingredientes
do programa. Mantém entendimentos com a produtora Eyeworksee e faz
sondagens junto ao mundo publicitário. Virá com novos apresentadores e
repórteres, para criar nova cara, depois de terminar, em dezembro de 2015,
quando tinha baixa audiência e pouca repercussão.
Sucesso internacional              
Anitta aparece como o artista brasileiro com mais chances, atualmente, de
fazer sucesso no exterior. Já participou de programas conhecidos na TV
norte-america e tem feito parcerias com cantores famosos de outros países.
Aos 24 anos, ela reúne o rebolado de Beyoncé, canta parecido com Shakira, é
desbocada como Rihanna e tem o carisma de Ivete Sangalo.
37agosto/2017
Mariana Ruy Barbosa
Kaio Manissoba
DJ Dolores
Brilho precoce                     
Marina Ruy Barbosa é um dos maiores sucessos do show
business brasileiro. Com apenas 21 anos, já participou
de 10 novelas na Rede Globo e tem mais de 18 milhões
de seguidores no Instagram.
Para elas
Faz sucesso em São Paulo, o Lady Driver, aplicativo tipo Uber, para
mulheres, já com mais de duas mil motoristas inscritas. Um empre-
sário negocia trazer o projeto para o Recife.
 
Em Olinda
Márcio Costa está abrindo seu casarão da Prudente de Moraes, em
Olinda, nos sábados e domingos, para almoço com cardápio mineiro.
Repete o vitorioso esquema do restaurante que teve durante anos
em Gravatá, inclusive na decoração com verdadeiras obras de arte.
 
Sapatos
O modelo de sapato feminino do momento no mundo fashion cha-
ma-se kitten heel. De bico fino e com faixa que prende no tornozelo,
modelos de marcas como Gucci, Fendi e Dior estão agradando as
mulheres que gostam de usar salto baixo. 
 
Renovação                       
Um setor que tem apresentado pouca renovação é a po-
lítica brasileira. É raríssimo aparecer um jovem brilhando
na área. Assim, é importante destacar a carreira de Kaio
Maniçoba. Começou logo como deputado federal e aos
33 anos é o mais jovem integrante do secretariado do
governo de Pernambuco.
Farmácias
Não há praticamente uma esquina movimentada do Recife que
tenha uma e até duas farmácias. O Brasil, em número de farmácias,
é recordista mundial: são mais de 70 mil.
Filme do rei
O sergipano Helder Aragão, o famoso DJ Dolores, assina o roteiro
do documentário de José Eduardo Mignoli sobre Reginaldo Rossi.
Terá depoimentos de Roberto Carlos, Gilberto Gil, Michael Sullivan,
Erasmo Carlos, Wanderléa e Raul Gil. Produtores tentam agora
depoimento de Sílvio Santos.
38 agosto/2017
ARRUANDO POR PERNAMBUCO
ArruandopeloRecife,iremosaoParquedaJaqueira
afimdesentirtodoobucolismodoRioCapibaribe,
recordandoostemposdosvelhosengenhosdeaçú-
car neste curioso passeio, embalado pelos versos do
poetaJoãoCabraldeMeloNeto(1920-1999).
Tomando-se um barco a remo, na passa-
gem de Ponte D’Uchoa, na Avenida Rui Barbo-
sa, poderemos nos transportar para outra mar-
gem, em terras do antigo Engenho da Torre,
ou, dependendo de um acerto com o barquei-
ro, subir o rio em direção ao Poço da Panela e
outros “portos” existentes ao longo do seu leito:
Porto dos Cavalos, do Vintém, do Cemitério,
de Sant’Ana, do Bom Gosto, do Poço da Panela,
do Caldeireiro, do Monteiro, da Porta d’Água e
tantos que se perderam na memória do tempo.
Neste singular passeio, logo teremos a me-
mória aguçada para os versos do poeta que
manteve esta paisagem nas retinas da memória.
Agora vou entrando
no Recife pitoresco, sentimental, histórico,
de Apipucos e do Monteiro:
do Poço da Panela,
da Casa Forte e do Caldeireiro,
onde há poças de tempo
estagnadas sob as mangueiras;
de Sant’Ana de Dentro,
das muitas olarias,
rasas, se agachando do vento.
E mais sentimental,
histórico e pitoresco
vai ficando o caminho
a caminho da Madalena.
A navegação no Rio Capibaribe conti-
nua presente em nossos dias, não somente a
utilizada por pescadores e batelões areeiros,
mas também pelos que cultuam os prazeres
do rio.
Neste nosso itinerário sentiremos de
perto a poesia de João Cabral que, nascido
em Sant’Ana de Dentro, hoje Rua Leonar-
do Cavalcanti, tão bem soube descrever
a paisagem e os tipos ribeirinhos do seu
tempo de menino – A roda dos expostos
da Jaqueira; O jardim de minha avó; Lem-
brança do Porto dos Cavalos; O Capibaribe
e a leitura; Sinhá Maria boca de flor, dentre
outros poemas.
O Capibaribe é uma eterna presença em
sua obra, como demonstra as estrofes do seu
poema O Rio:
Um velho cais roído
e uma fila de oitizeiros
há na curva mais lenta
do caminho pela Jaqueira,
onde (não mais está)
um menino bastante guenzo
de tarde olhava o rio
como se filme de cinema;
via-me, rio, passar
com meu variado cortejo
de coisas vivas, mortas,
coisas de lixo e de despejo;
vi o mesmo boi morto
que Manuel viu numa cheia,
viu ilhas navegando
Texto e Fotos
Leonardo Dantas Silva
Navegando
comopoeta
JoãoCabral
mais.pe/arruando137
39agosto/2017
Francisco Cunha
Infelizmente a Constituição Brasileira de 1988
esqueceu de reconhecer a instância federativa
da metrópole. Ou seja, segundo a nossa Car-
ta Magna, são três as instâncias federativas no
Brasil: União, Estados e Municípios, cada qual
com seus poderes (Executivo, Legislativo e Ju-
diciário).Eametrópole,acidadeconstituídade
cidades, como fica?
Um exemplo que todos conhecemos: o da
metrópole da qual a cidade do Recife faz par-
te, junto com as cidades de Olinda, Jaboatão,
Paulista e as outras 11 da chamada Região
Metropolitana do Recife. Na verdade, trata-
-se de um conglomerado urbano contínuo
cujas fronteiras municipais não conseguem
conter os problemas que afetam o conjun-
to nem dar conta da sua gestão. Essa cidade
metropolitana contínua que ultrapassa os
limites municipais tem hoje uma população
de mais de 4 milhões de habitantes, quase
metade da estadual, e um PIB que deve es-
tar próximo dos R$ 100 bilhões, o maior do
Norte-Nordeste.
Como gerir essa grande cidade que não
respeita os limites dos municípios e está para
além da capacidade de intervenção dos prefei-
tos municipais? Mal comparando, é como um
condomínio residencial cuja área comum (a ci-
dade metropolitana) está fora da influência das
unidades habitacionais (os municípios) e pre-
cisa de uma gestão própria, para além daquela
das unidades. Na tentativa de suprir a lacuna
constitucional, o Congresso Nacional votou e
o presidente da República promulgou em 2015
a Lei 13.089, o chamado Estatuto da Metró-
pole, que estipula a obrigação dos estados em
que existam metrópoles e dos municípios que
façam parte de metrópoles implantarem con-
juntamente uma Governança Metropolitana e
elaborarem um PDUI – Plano de Desenvolvi-
mento Urbano Integrado até janeiro de 2016.
Foi,portanto,combasenoquedeterminaoEs-
tatutodaMetrópolequeoCAU-PE–Conselhode
ArquiteturaeUrbanismodePernambuco,oINTG
–InstitutodaGestãoeaRedeProcidade,emnome
de26entidadesdasociedadecivildoEstado,lança-
ramnomêsdejulhoacampanhaSomosCidadãos
daMetrópoleemproldagovernançadametrópole
compostapelas14cidadesdaRMR.
Feito isso, resta a nós, cidadãos metro-
politanos, reforçar a cobrança pelo Estatuto.
Afinal, sem boa gestão do condomínio, o caos
logo adentra nossa casa, por mais bem admi-
nistrada que seja.
Somos cidadãos da metrópole
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Consultor e arquiteto
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ÚLTIMA PÁGINA
40 agosto/2017

Algomais.edição137.interarivo

  • 1.
  • 2.
  • 3.
  • 4.
    4 agosto/2017 A economiacompartilhada muda os hábitos de consumo e traz novas estruturas de negócio, o que vem suscitando debates e projeções as mais diversas sobre o futuro. As previsões vão desde o aumento do poder do consumidor até as apocalípticas análises de Jeremy Rifkin, teórico norte- americano que prevê o fim da primazia do capitalismo. Quem viver verá. A Algomais entra nesse debate para analisar como Pernambuco se insere no consumo colaborativo. A reportagem de capa mostra cases interessantes de startups e empresas que lançaram mão das conexões proporcionadas pelos smartphones e criaram negócios que incentivam a inclusão social e tornam os serviços mais baratos. Outra discussão importante desta edição foi levantada na recente reunião do Conselho Estratégico Algomais Pernambuco Desafiado, que abordou o desenvolvimento do Projeto Empresas & Empresários. Os participantes ressaltaram como os problemas políticos do País interferem na economia e colocaram propostas para superar esse impasse. Quem está conseguindo superar a crise com inovação é a empresa In Loco Media, que revoluciona o mercado de marketing com a tecnologia da geolocalização. A empresa, que espera um faturamento de R$ 150 milhões este ano, é o destaque da sessão Perfil Corporativo. O leitor também não deve deixar de ler a entrevista do mês com o escritor Marcelino Freire. Natural de Sertânia, ganhou o disputado Prêmio Jabuti e é o responsável pelo evento Balada Literária na capital paulista. Boa leitura! Uma publicação da Editora INTG Endereço R. Barão de Itamaracá, 293 Espinheiro CEP 52.020-070 Recife PE Brasil Tel. (81) 3134 1740 www.revistaalgomais.com.br Comercialização (81) 3134.1716 DIRETORIA EXECUTIVA Ricardo de Almeida ralmeida@tgi.com.br DIRETORIA COMERCIAL Fábio Menezes fabio@tgi.com.br CONSELHO EDITORIAL Allyson Hildegard, Andréa Carvalho, Armando Vasconcelos, Beatriz Braga, Cármen Cardoso, Carolina Holanda, Cláudia Santos, Fábio Menezes, Fátima Guimarães, Francisco Cunha, Georgina Santos, Gilberto Freyre Neto, Gustavo Costa, Henrique Pereira, João Rego, Luciana Almeida, Lula Pessoa de Mello, Mariana de Melo, Rafael Dantas, Raymundo de Almeida, Ricardo de Almeida, Rivaldo Neto, Teresa Ribeiro e Tiago Siqueira. EDITORIA GERAL Cláudia Santos (Editora) claudia@revistaalgomais.com.br REPORTAGENS Cláudia Santos Paulo Ricardo Mendes Rafael Dantas EDITORIA DE ARTE Rivaldo Neto (Editor) neto@revistaalgomais.com.br FOTOGRAFIA Tom Cabral CAPA Ampla Comunicação Os artigos publicados são de inteira e única responsabilidade de seus respectivos autores, não refletindo obrigatoriamente a opinião da revista. AUDITADA POR NOSSA MISSÃO Prover, com pautas ousadas, inovadoras e imparciais, informações de qualidade para os leitores, sempre priorizando os interesses, fatos e personagens relevantes de Pernambuco, sem louvações descabidas nem afiliações de qualquer natureza, com garantia do contraditório, pontualidade de circulação e identificação inequívoca dos conteúdos editorial e comercial publicados. editorial edição 137 Economia Compartilhada Também conhecido como economia colaborativa, o modelo de negócios ganha espaço no Recife. Pág 10 E&E Projeto E&E reúne Conselho Estratégico e discute caminhos para sair da crise econômica. Pág 14 Agricultura Pesquisador identifica 34 variedades de feijões crioulos no Agreste Meridional. Pág 28 E mais Entrevista do mês Pano Rápido Vida Digital Ninho de Palavras Memória Pernambucana Baião de Tudo Mais Prazer João Alberto Arruando Última Página 6 9 27 30 31 32 33 36 38 39 A REVISTA DE PERNAMBUCO Cláudia Santos Editora Geral
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    6 agosto/2017 Eu erarevisor na agência de publicidade. Revisava rótulo de água mineral e textos que não mereciam ser lidos. Eu me vingava escrevendo um conto por rótulo. MARCELINO FREIRE Escritor fala de sua obra e da literatura nestes tempos de web. Meus textossão gritos Escritor sertanejo, radicado em São Pau- los, Marcelino Freire é dono de um texto forte e enxuto, que tem sido reverenciado pelo público e crítica. Em 2006 ganhou o Prêmio Jabuti com Contos Negreiros. Na entrevista concedida a Cláudia Santos e Rafael Dantas, regada a risos e reflexões, ele fala sobre sua trajetória e critica a gla- mourização da literatura. Como foi ser menino no Sertão? Sou de Sertânia, há 26 anos moro em São Paulo. Recentemente comecei a pensar de novo na saída da minha fa- mília do Sertão de Pernambuco para ir morar em Paulo Afonso (BA). Depois, quando tinha 8 anos de idade, a família veio para o Recife, onde fiquei até os 24. Fiz faculdade na Unicap. Sou o caçula de 8 irmãos vivos, mas minha mãe teve 14 gestações, 9 vingaram. Pense a dificul- dade para estudar e trabalhar! Minha mãe queria sair de lá de qualquer jeito. E saiu com todos esses filhos em busca de melhores condições. Agora, vocês vi- ram que Sertânia foi manchete nacional, em função da Transposição do Rio São Francisco. Estou com 50 anos. Eu estaria esperando água até agora se estivesse na cidade, estaria pulando e fazendo festa naquele lago artificial (risos). Depois, fui para São Paulo, deixei a faculdade. Lá todo mundo me perguntava de onde eu era, porque eu falava diferente. E eu afir- mavacomtodasasletras:soudeSertânia. Como a literatura entrou na sua vida? Nessa necessidade de ler, de aprender logo. De ganhar uma profissão. Minha mãe insistia que a gente estudasse. Então, muito novinho, com uns 7 anos, eu já lia. Comuns8ou9anos,apoesiadeManuel Bandeira atravessou o meu caminho. O poema se chamava O Bicho. A partir des- sa leitura eu quis ser aquele poeta. Gostei daquilo que ele falou para mim. Eu não sabia que existia um homem catando comida na minha rua. Eu via, mas não Foto:TomCabral
  • 7.
    7agosto/2017 enxergava. Fui atrásde outras poesias dele, numa casa onde ninguém lia. Como sua família reagiu quando optou por ser poeta? Nunca vi uma mãe criar um filho e que- rer que seja poeta quando crescer. Agora, curiosamente, o primeiro lugar em que fui respeitado como escritor foi na minha casa, porque eu não era bom para carre- gar um balde ou fazer uma feira. Agora me colocasse para escrever! Eu escrevia as cartas, lia as bulas de remédio da família. Lia a Bíblia para minha mãe e lembro que eu inventava milagres (risos). Fui perce- bendo o poder da leitura. Ora, eu operava milagres (risos)! Como foi participar da oficina de Rai- mundo Carrero? A partir da leitura de Bandeira comecei a escrever poesia, participando de grupos de poesia aqui no Recife. Fiz um grupo cha- mado Poetas Humanos. Paralelo a isso, tra- balhava em um banco. Em um momento deixei o trabalho, dei o dinheiro da inde- nização para meus pais e passei um tempo conhecendo os escritores dessa cidade. Vi um anúncio no jornal dizendo que Carrero estava montando a primeira turma de cria- ção literária. Ali encontrei os parceiros do crime(risos).Eraumbandodecangaceiros celebrando a literatura toda a tarde. Agra- deço muito a Raimundo Carrero, ele me ensinou a ler. A oficina me ajudou a encon- trar a minha própria voz, a minha persona- lidade na página. A página é a extensão da personalidade do escritor. Você foi para São Paulo em busca de se profissionalizar como escritor? Fui na verdade movido por amor. Fui apaixonado, pensando que iria viver eter- namente uma grande paixão. Aí descobri em São Paulo que a vida é feita dos amores possíveis. Não deu certo, como todo amor (risos).Consegui,mesesdepois,umtraba- lho como revisor de textos na agência de propaganda AlmapBBDO. Passei muito tempo revisando rótulo de água mineral e textos que não mereciam ser lidos uma única vez. Sabe como eu me vingava? Es- crevendo um conto para cada rótulo. Eu não brigava com a minha profissão. Ela estava me mantendo numa cidade tão fe- roz como São Paulo. Demorei quatro anos para escrever meu primeiro livro por con- ta própria. Qual foi o primeiro? Não gosto de dizer porque toda vez que eu encontro o primeiro livro por aí eu com- pro para ninguém comprar, porque é mui- to ruim (risos). Brincadeiras à parte, esse livro é irregular em certo sentido, mas foi muito importante para tirar aquele texto da gaveta, como afirmação dessa paixão e dar para mim alguma perspectiva, autoes- tima, por menor que fosse. Depois, come- cei a preparar meu segundo livro, o Angu de Sangue, de contos também. Convidei um artista plástico pernambucano, Joba- mais.pe/entrevista137
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    8 agosto/2017 se encontrapara celebrar a literatura da forma mais diversa, mais viva, mais pul- sante. Já passaram pelo evento de Antônio Cândido a Allan Jones (jovem poeta de Aracaju), Caetano Veloso, Adriana Calca- nhoto, Ney Matogrosso, Tom Zé. Qual o momento em que você se tornou um escritor profissional? Eu continuei trabalhando com agência de propaganda e publicando meus li- vros. Teve um momento em que eu não conseguia ficar na agência o dia inteiro. Passei um tempo como freelancer. E teve uma hora que não deu mais. Há 10 anos vivo direta e indiretamente da literatura. Vivo modestamente, com agenda literá- ria, palestras, oficina de criação literária, curadorias de evento, artigos para jornal, direitos autorais de teatro, cinema, todas essas frentes de batalha. Por que escreveu o romance NossosOssos depois de tantos contos? Já estava muito automático na escrita dos contos. Queria ir para a prosa longa há muito tempo, mas não tinha fôlego e não encontrava o jeito de escrever o romance. Costumo dizer que os gritos da minha mãe me inspiraram nos contos, o silên- cio do meu pai me inspirou no romance. Encontrei o tom. Para o romance fiz uma coisa que nos contos não fazia, um esque- leto do texto. É um romance muito curto. Mas a minha sensação foi de ter atravessa- do o Canal da Mancha. Como você avalia o crescimento dos eventos literários? Toda semana eu recebo convite. Se tiver data, vou mesmo. Quanto mais festas e fei- ras literárias melhor para o escritor e para tirar a literatura desse casulo. Colocar o es- critor circulando, conhecendo os leitores, pegando o leitor à unha. Humanizando a figura do escritor. Também é trabalho. Quanto mais festas literárias mais isso se movimenta. Às vezes me falam: “Não é muito evento?” Respondo: “Para cada show de Ivete Sangalo, 10 festas literárias. Para cada show do Luan Santana, 400 fes- tas literárias. Ainda é pouco (risos). lo, que mora em Milão. Ele mandou umas fotografias coloridas lindas para ilustrar, mas com elas o livro ficaria muito caro. Para ajudar na publicação, fiz outro livro chamado eraOdito, com frases famosas, ditados populares, que eu encontro resig- nificações. Resultado: eraOdito me tomou dois anos porque fez um relativo sucesso. Comecei a ser convidado para festivais de literatura. Seu texto é muito marcado por frases curtas e fortes. Isso seduz os jovens nes- tes tempos de Twitter? Comunica. E eu quero comunicar. Quero dizer logo onde está doendo e sair de per- to. Quero dizer logo o que eu quero e não encher o saco de ninguém. Nesse sentido, meus textos são gritos, chegam logo para o outro sem delongas. Eu gosto muito disso, os escritores e artistas que falaram mui- to comigo, que pegaram na minha mão, foram escritores assim. Eu poderia não entender tudo o que o Manuel Bandeira escreveu, mas sentia o que ele sentia. Costuma-se dizer que jovens não gostam deler.Vocêconcorda? Acho que nunca se leu tanto. O menino podeestarnumateladecelularlendoKafka. Muitos jovens estão escrevendo, se comu- nicando de forma viva, pulsante. A internet temmuitolixo,maslivrariaeacademiatam- bém têm. O professor tem que fazer com que esses jovens saibam que o Machado de Assis sempre foi muito Twitter. Um escritor que escreve um livro com 240 microcapítu- los. Isso não é legal do garoto saber, em vez deficarestudandoMachadodeAssisapenas sob uma perspectiva histórica, sociológica, de vocabulário? Ele pode dizer que Macha- do de Assis era negro, gago, fez uma produ- ção literária vastíssima contra o seu tempo e contraospreconceitosquesofreu.Esedisser que a Bíblia é Twitter, pois é escrita em ver- sículos? É uma questão de sedução e paixão. Aliteraturatemqueserencaradaassimpara nãoseencaretar. Seu trabalho também reflete o lado dos marginalizados, do submundo... ...Sempre estive nesse submundo. Sertânia é um submundo. Escolher fazer poesia na minha casa, naquele mundo, era um sub- mundo. Escolhi fazer teatro no bairro de Água Fria. Morei lá por muitos anos, um dos últimos bairros do Recife, submundo. As escolhas que eu fazia também, não fui fazer administração, fui fazer letras. ContosNegreiros é o reflexo disso? É um livro que fala de preconceito. Pen- so que não, mas sou muito afetado pelas coisas. Quero escrever para entender os absurdos a minha volta. Como sou muito covarde, não consigo pegar em armas, eu pego em palavras mesmo e quero me vin- gar do que está ali me afetando. É um livro sobre opressores e oprimidos. Como começou a Balada Literária? A Balada Literária acontece desde 2006 em São Paulo. A minha luta é de colocar a literatura de forma mais pulsante na vida das pessoas. A literatura sem frescura. Desde a primeira edição da Balada Lite- rária eu misturo atores, pintores, rappers com escritores. Todos os gêneros e trans- gêneros (travesti, drag queen), festa punk gay com roda de samba, desde o primeiro formato. É uma balada que todo mundo A internet tem muito lixo, mas a livraria e a academia também têm. Foto:TomCabral
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    9agosto/2017 pano rápido Manuel Bandeira disseque queria ir-se embora pra Pasárgada porque lá, entre outras coisas, ti- nha telefone automático. Bandeira vivia (e viveu a vida quase toda) no Rio. Início dos anos 20, quando escreveu o poema, tinha-sequegirarumamanivela,queficavanalate- raldotelefone,parapediràtelefonistadacentralte- lefônica para conectar com quem se desejava falar. Nos anos 50, na casa da minha vó Carmem, aqui, na Rua José de Alencar, tinha um telefone desses de manivela. Já aposentado. E como não era, ainda, considerado antiguidade, não tava lá como peça de decoração. Vai ver, instalaram o au- tomático e esqueceram o velho na parede. Servia pragentebrincardetelefonar,girandoamanivela. Desde que me entendo por gente, telefone é automático no Recife. Só fiquei sabendo que era analógico quando virou digital. A gente discava. Agora, digita. Às vezes, demorava um segun- dinho para dar linha. Raramente, dava linha cruzada. E, mais raramente ainda, ficava mudo. Ligação errada, qu’eu lembre, só se a pessoa ti- vesse discado um dos quatro números errado. O da minha casa era 2448. Quem atendia dizia “alô”. Quem ligava, confirmava o número que havia ligado em tom de pergunta. Em seguida, dizia com quem desejava falar. Quem atendia, não perguntava “quem gostaria”. Pedia “um mo- mentinho” para chamar a pessoa ou dizia que ela não estava e perguntava se queria deixar recado. Se a gente ligasse para uma empresa grande, quem atendia não era uma gravação, mas uma telefonista. Um ser humano, quase sempre do sexo feminino. Se você estivesse querendo fa- lar com um funcionário, ela passava a ligação no ato. Se fosse com um diretor, ela dizia “um momentinho” e passava para a secretária que perguntava “quem quer falar” (jamais “quem gostaria”) e transferia para o chefe ou anotava seu telefone para retornar a ligação. Ninguém levava um tempão para falar com ninguém. Nunca liguei pro papa, mas, se tivesse ligado, quem sabe, ele teria atendido. Não sei na sua casa, leitora, leitor, mas, na mi- nha, o telefone toca não sei quantas vezes por dia e quando eu atendo a ligação não conclui. Fica mudo. “Alô, alô...” e nada. Agora, tem uma novida- de. “Se o senhor ou senhora conhece fulano de tal, digite um; se não conhece, digite dois.” Não digi- to por...caria nenhuma. Desligo. Mas, na terceira, quarta ligação, não resisto, xingo a mãe. Sei que computador é surdo. E não tem mãe. Mas xingo. Bem, não vou aqui falar do inferno dos call centers, com suas musiquinhas infames, textos (da pior qualidade) gravados e ramais e mais ramais pra gente digitar até ser atendido por alguém que não resolve nada. Nem vou falar das ligações dos famigerados telemarketings. (Depois que vi uma reportagem sobre os po- bres coitados que trabalham nessas empresas, ganhando uma ninharia e trabalhando até 12 horas por dia, não xingo mais ninguém. Ao contrário. Independente do calendário, desejo feliz Natal e próspero Ano Novo). Everardo Maciel me disse outro dia que computador sonha. Acordado, deve ser. E tem sonhos digitais, por certo. Porque o cérebro hu- mano continua, como sempre, analógico. E os meus sonhos, também. “(...) Vai buscar quem mora longe / Sonho meu / Vai mostrar esta saudade / Sonho meu / Com a sua liberdade / Sonho meu.” jocasouzaleao@gmail.com Sonho meu * Joca Souza Leão é cronista “Computador sonha. Acordado, deve ser. E tem sonhos digitais, por certo. Porque o cérebro humano continua, como sempre, analógico.”
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    10 agosto/2017 A ERADO COMPARTILHAMENTO FUTURO Economia compartilhada abre caminho para novas formas de consumo e de fazer negócios Por Rafael Dantas Você já pegou um Uber para se deslocar pela cidade, assiste a filmes pelo Netflix ou já con- tribuiu com alguma vaquinha virtual nos cro- wdfundings? Seja bem-vindo à economia co- laborativa ou compartilhada. Um modelo de negócio movido principalmente pela conexão entre as pessoas por meio das novas tecnolo- gias de comunicação. A partir de plataformas digitais é possível conseguir o financiamento para um projeto social ou para uma startup, que dificilmente viria de uma instituição bancária. Também pode-se acionar um serviço de entrega por bicicletas ou alugar um quarto num aparta- mento para passar as férias, sem a necessidade de um intermediário. Esse foi substituído por empresas que não possuem bikes para fazer o delivery ou casa para alugar, mas oferecem plataformas para conectar o dono do veículo ou imóvel ao consumidor. Essa é uma nova lógica econômica que começamos apenas a experimentar suas possibilidades. Um estudo da escola de negócios IE Busi- ness School em parceria com o Banco Intera- mericano de Desenvolvimento (BID) e o Mi- nistério da Economia e Competitividade da Espanha apontou que o Brasil é líder na Amé- rica Latina em iniciativas da economia cola- borativa. Ancorado no potencial de fomento de inovação do Porto Digital, tem nascido em Pernambuco uma série de negócios baseada nesse novo modelo com alta capacidade de redução de custos e inclusão social. O professor dos cursos de economia e ciências da informação da UFPE e sócio da empresa Creativante, José Carlos Cavalcanti, explica que a economia compartilhada torna mais barato os chamados custos de transação (como os relacionados à comercialização, por exemplo). “Isso acontece porque é um modelo que funciona por meio do uso de ferramentas de tecnologia cada vez mais robustas, confiá- veis e acessíveis ao mais humilde cidadão”, ex- plica Cavalcanti. Um exemplo desse modelo é a empresa pernambucana Find Up, que eliminou a ne- cessidade de até 5 intermediários nos serviços assistência técnica em informática. Através de uma plataforma digital ele conecta usuários (residenciais ou corporativos) que necessitam de reparos em seus aparelhos aos técnicos ca- dastrados mais próximos com a qualificação necessária para resolver o problema. É como se fosse o Uber dos consertos de equipamen- tos de informática. “Desenvolvemos o modelo de negócio com geolocalização do técnico a partir do ce- lular. São 4 mil profissionais que têm o nosso aplicativo instalado no telefone e mais de 100 mil usuários cadastrados”, esclarece o CEO da
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    11agosto/2017 Find Up, FábioFreire. “Somos uma interface de conexão do cliente com técnico, só com uma camada de gestão no meio”, garante o gerente de operações, Gustavo Ferreira. A plataforma reduz em até 30% o custo final do serviço e diminui o tempo de espera para a resolução do chamado. Presente em mais de 550 cidades no País, a Find Up começa uma fase de internacionalização e chega em breve à Argentina, Chile, Colômbia, México e Re- pública Dominicana. INCLUSÃO Inclusão social é outro benefício proporcio- nado pela economia compartilhada. Além de garantir serviço para técnicos que fica- ram desempregados ou para profissionais que querem incrementar a renda, o sistema consegue incluir pessoas com restrições de horários, como estudantes. Um universitário que estuda pela manhã, por exemplo, e não consegue achar um trabalho compatível com sua rotina, poderia se cadastrar e oferecer seus serviços nos horários disponíveis. Também com DNA pernambucano, a Ecolivery atua no modelo da economia do compartilhamento no segmento de logística sustentável, fazendo entregas com bicicletas. Mais de 500 ciclistas já se cadastraram na plataforma, tendo atualmente em torno de 20 ativos. O diferencial é o fato do serviço agregar um valor socioambiental aos clien- tes, com uma mobilidade que não emite ga- ses poluentes e contribui para a melhoria do trânsito, evitando mais engarrafamentos. A partir de um aplicativo, qualquer pes- soa ou empresa pode acionar o ciclista mais próximo para buscar uma encomenda ou levar um documento. O app permite tam- bém acompanhar em tempo real a posição dos entregadores e visualizar as entregas que já foram feitas e as que faltam fazer. “Temos hoje uma clientela bem diversificada, como escritórios, cartórios, farmácias de manipu- lação, empórios, restaurantes e lanchonetes com delivery, e entregas locais de e-commer- ce”, lista Hugo Gomes, fundador e sócio da empresa que está incubada no Porto Digital. O potencial de desenvolver negócios so- ciais é outra característica da economia do compartilhamento. Como a peça que move a sua engrenagem é a comunidade, um em- preendimento de alto impacto social pode alcançar engajamento de milhares de micro- financiadores com os crowdfundings. “Por meio das vaquinhas online, uma solução social pode ser viabilizada de forma coletiva e compartilhada, trazendo resultados espe- Através de uma plataforma digital, a empresa Find Up (foto abaixo) reduz o caminho entre os consumidores e os técnicos de computação. Foto:TomCabral
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    12 agosto/2017 taculares deforma rápida e eficiente”, afirma o gerente de empreendedorismo do Porto Digital e head de Aceleração da Jump Brasil, André Araújo. Ele avalia que as pequenas campanhas que a população começa a se engajar repre- sentam o início de uma prática de financia- mento social que se tornará comum. “Eco- nomia e sociedade não são coisas separadas. Estão surgindo metodologias ágeis para se empreender. Essa é uma das maneiras mais interessantes hoje para que projetos inova- dores e de pessoas – que ainda não têm uma marca estabelecida, mas têm conhecimento e capacidade – receberem investimentos pelo próprio público alvo daquele possível produ- to”, afirma André Araújo. Um projeto local que se beneficiou do crowdfunding foi o Saladorama, que permite à população feminina da Zona Norte do Re- cife acesso à alimentação saudável e à renda. Criada no Rio de Janeiro, a startup ganhou uma operação em Nova Descoberta. A lógi- ca de funcionamento é formar mulheres de comunidades pobres para produzir os ali- mentos e educá-las para levar esse hábito de consumo e preparação para suas casas. “Atuamos com cozinhas dentro das co- munidades, empregando, capacitando e em- poderando mulheres. Alimentos orgânicos e saudáveis são desconhecidos da maioria da população de baixa renda e são inacessíveis em restaurantes que têm essa oferta por cau- sa do alto custo”, afirma Isabela Ribeiro, sócia e responsável pelas operações no Nordeste. Além da vaquinha digital, o Saladorama beneficiou-se da economia compartilhada ao comercializar os pratos preparados por uma plataforma virtual. Eles são entregues no sis- tema de delivery. Com os recursos das ven- das, as mulheres recebem uma bolsa durante o período de capacitação na startup. Embora a maioria da clientela seja ainda dos bairros de classe média, o Saladorama já tem aproxi- madamente 40% de público da comunidade consumindo os produtos. A nova turma que começa a ser prepa- rada pela empresa tem um detalhe a mais: serão capacitadas apenas mulheres negras e transexuais. “Fizemos a opção por ser um público que enfrenta ainda mais dificuldade de acesso à alimentação orgânica e saudável”, justifica. Para formar a nova turma de 25 pes- soas, a empresa lançou um crowndfounding para captar R$ 25 mil para custear o proje- to, mas conseguiu captar R$ 32 mil. As aulas começam em agosto. Após se espalhar pelo País, a empresa tem um convite para expe- rimentar o modelo de negócios a partir de novembro em Angola. Seja no mundo dos negócios ou na bus- ca por soluções sociais, os especialistas indi- cam que a revolução promovida pela lógica da economia colaborativa está apenas no co- meço. Os embates com os sistemas tradicio- nais (como no clássico caso do Uber x táxi) é uma mostra de que nem todas as etapas se- rão realizadas sem resistência. “Onde existem serviços públicos de baixa qualidade ou onde os intermediários cobram muito caro são os Crowdfundings começam a se disseminar no País, auxiliando principalmente iniciativas com pegada social. Formato de financiamento acelera início de startups. Polyana Cintra (gerente comercial) e Isabela Ribeiro (sócia) conduzem a Saladorama, empresa que capacita mulheres em gastronomia saudável. Foto:TomCabral
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    13agosto/2017 André Araújo: “Porto Digital, C.E.S.A.Re Softex atuam para fomentar os sistemas de economia colaborativa no Recife.” ambientes em que esse modelo floresce mais rápido”, alerta André Araújo, que faz previsões ousadas: “Esse mercado colaborativo vai pipo- car quando chegar na área financeira, com as criptomoedas. Serão microbancos funcionan- do sem intervenção, com dinheiro virtual. A gente acha que já viu as mudanças acontecen- do, mas talvez não tenha visto ainda”. O case mais famoso das criptomoedas é o da Bitcoins, que já tem operações no Recife. Para se preparar para essas mudanças, o executivo afirma que Porto Digital, C.E.S.A.R e a empresa Softex estão desenvolvendo conhe- cimentos estratégicos e tecnologias necessárias para a operação dos sistemas colaborativos. Dessa forma, abre-se caminho para que novas startups possam surgir em Pernambuco a partir desse modelo de negócios que promete crescer muito no mundo inteiro nos próximos anos. Previsões internacionais revelam esse futuro próspero. Estudo da Pricewaterhou- seCoopers (PwC) indica que até 2025 a economia do compartilhamento deve mover mais de US$ 335 bilhões no mun- do. Na avaliação de Jeremy Rifkin, teórico econômico e social americano, o próprio capitalismo deixará de ser predominante no mundo, dando lugar ao sistema cola- borativo. “Aparentemente, estamos na fase inicial de uma transformação de fundo dos paradigmas econômicos. No crepúsculo da era capitalista, surge um novo modelo eco- nômico mais adequado à organização de uma sociedade em que cada vez mais bens e serviços são praticamente gratuitos”, afir- ma no livro A Sociedade do Custo Marginal Zero. Se o cenário futurista de Rifkin será uma realidade, só o tempo dirá. Mas a pro- fusão de atividades que já usam a lógica do compartilhamento e alcançam resultados econômicos e sociais indicam que o mode- lo veio para ficar. Sustentabilidade ambiental e econômica é outra tônica da economia compartilhada. José Carlos Cavalcanti explica o porquê: “Os proprietários de produtos fazem dinheiro a partir de ativos subutilizados que são aluga- dos. As pessoas que alugam, por outro lado, pagam menos do que elas pagariam se elas comprassem determinado item, ou se voltas- sem para um ofertante tradicional. E há be- nefícios ambientais também: alugar um car- ro, por exemplo, significa menos automóveis adquiridos e menos recursos aplicados para produzi-los”. Além do Uber e Airbnb (serviços que são referências mundiais em transporte e hos- pedagem sem possuírem um carro ou pou- sada), uma série de plataformas online tem investido na oferta de produtos para alugar, que vão desde roupas, malas, utensílios para fazer um jantar, entre muitos outros. Uma iniciativa pernambucana e com uma pegada social, sem finalidade lucrativa e de alto in- teresse da comunidade universitária é o apli- cativo Carona Phone, que passou a ser usado recentemente na UFRPE. Desenvolvida pela Universidade de Brasília (UNB), a tecnologia colaborativa oferece aos cadastrados pelo sis- tema as vagas disponíveis nos carros que vão ao campus. Só podem se inscrever alunos ou funcionários da instituição, o que cria uma rede de segurança aos que ofertam ou pegam a carona. O professor do departamento de enge- nharia florestal Emanuel Araújo, responsá- vel pela intermediação junto à UNB, afirma que pelo aplicativo é possível ver o itinerá- rio do veículo que oferece a carona e quan- tas vagas são oferecidas no carro. Ao final, tanto o motorista quanto o carona podem receber notas, igual aos apps de táxis ou do Uber. “Para incentivar o uso do aplicativo, as pessoas que tiverem pontuação mais alta vão ganhar benefícios como livros, inscri- ções em congressos ou almoços gratuitos no restaurante universitário. É uma forma de bonificá-los”. Outra experiência que ganha volume no Brasil é a dos coworkings, que são estruturas baseadas no compartilhamento de espaços e recursos de escritório, reunindo profis- sionais e empresas diversas. Esse segmento cresceu 114% em 2017, de acordo com o Censo Coworking Brasil. O Recife, com 21 unidades em operação, se destacou na pes- quisa como a 8ª cidade no País com o maior número desses espaços. USAR EMVEZ DE POSSUIR Foto:TomCabral
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    14 agosto/2017 A cenapolítica nacional tomou o debate do encontro do Projeto Empresas & Empresários 2017, que traz como tema “Pernambuco mui- to além da crise”. Realizado pela TGI, INTG e CEDES, o projeto tem patrocínio do Governo do Estado. Como o estudo tem um viés pro- positivo, os membros do Conselho Estratégico Algomais Pernambuco Desafiado ressaltaram que uma superação do cenário de recessão pas- sa pela mobilização da sociedade em prol da reforma política. Os conselheiros também destacaram a im- portância de os brasileiros adotarem práticas anticorrupção desde as pequenas atividades do cotidiano. O recado é de que a mudança econô- mica sustentável demanda uma transformação até de alguns aspectos culturais dos brasileiros e das suas organizações. A força que poderá mover a classe política para a reforma, no entanto, ainda está silencio- sa, na avaliação dos conselheiros. “O brasilei- ro é leniente e tem conveniência histórica em apenas observar a situação de crise”, afirma o conselheiro Édson Menezes. Ele defende ser necessário um esforço para alcançar um con- tingente maior de pessoas em torno dessa causa para mover o Congresso a votar os projetos de interesse nacional. O conselheiro João Bosco de Almeida defende também um novo posicionamen- to da classe empresarial. Ele lembrou, por exemplo, que os parlamentares do Congresso Nacional foram eleitos com financiamento dos empresários. “Não temos saída se não for pela política, se acharmos ela desneces- sária, não vamos resolver o problema. Esse EVENTO DEBATE COMO SUPERARA CRISE POLÍTICA PROJETO E&E Empresários discutiram sobre a urgência da reforma política para o País voltar a crescer.Foto:TomCabral
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    15agosto/2017 Congresso que estáaí foram as empresas e as elites que colocaram lá, não foi o povão. Esse é o Congresso feito com dinheiro, não com ideologia”, ponderou. O conselheiro Eduardo Lemos Filho con- sidera que há ainda pouco conhecimento por parte da população brasileira sobre a refor- ma política. E mesmo que a discussão sobre as mudanças pareçam ser enfadonhas para a maioria das pessoas, é importante lembrar que muitas transformações positivas para o País surgiram de decisões políticas. “Estamos discutindo muito pouco sobre o assunto. Na realidade, a classe média brasileira entende muito pouco de política”. A distância da participação mais forte da sociedade desse momento é avaliada como um risco para o conselheiro Gilliatt Falbo. “Nós estamos neste momento de desordem e desorganização do Estado brasileiro atape- tando o caminho para um governo autoritá- rio, seja militar ou civil. Ou dependemos de organização popular ou irá surgir o salvador da pátria”, alerta. Diante das exposições, o conselheiro Sér- gio Cavalcante propõe que os empresários per- nambucanos vão além das fronteiras do Estado e lancem proposições sobre o cenário nacional. “Pernambuco nunca foi de esperar acontecer. Sempre fomos de influenciar as decisões na- cionais. Podemos fazer mais que só chegar ao governador. Temos um Conselho Estratégico bastante privilegiado que dá para discutir o po- sicionamento da sociedade pernambucana em relação ao País como todo”, sugere. PROPOSITIVO Na reunião, o diretor da Algomais e coor- denador do Conselho Estratégico, Ricardo de Almeida destacou a missão do projeto E&E de buscar alternativas para uma maior dinâmica na economia e nas empresas per- nambucanas. “A ideia é não ficarmos parali- sados diante da crise. Ela existe e é relevante, mas vai passar. Iremos identificar o que as empresas dos 15 setores econômicos selecio- nados estão fazendo para conviver com ela e superá-la”, explica o consultor Ricardo de Almeida. O roteiro da pesquisa tem as seguintes questões centrais: o impacto da crise nas em- presas, as medidas para superação no Brasil e em Pernambuco, e a superação da crise no ambiente empresarial. Durante o evento, foi apresentado um balanço pelo economista Ecio Costa, da CE- DES, que identificou leve melhora da econo- mia pernambucana no primeiro trimestre deste ano. Mas, ressalvou que a resolução de- finitiva desse cenário tem um horizonte dis- tante. “Ainda é cedo para acreditar que a cri- se está resolvida. A depressão foi grande e os efeitos ainda reverberam sobre a economia e a vida das pessoas. Os dados levantados, porém, animam e criam expectativas positi- vas”, pondera. O PIB de Pernambuco cresceu 1,4% no primeiro trimestre, enquanto que o desempenho nacional foi negativo em -0,4%. A próxima edição da Algomais trará uma matéria com a análise do desempenho recen- te da economia pernambucana elaborado pela CEDES e apresentado por Ecio Costa aos conselheiros. No evento foi apresentado balanço feito pela CEDES sobre o desempenho econômico de Pernambuco no primeiro trimestre.
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    DE UNIVERSITÁRIOSA CONCORRENTES DO GOOGLE PERFILCORPORATIVO In Loco Media inova no setor de marketing e propaganda com o uso de geolocalização. Foto:TomCabral Por Rafael Dantas 24 agosto/2017 Eduardo Martins, sócio da In Loco Media, revela a trajetória de crescimento explosivo da empresa, que prospecta triplicar o faturamento em 2017.
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    25agosto/2017 Empresa pernambucana deslanchou em plena crise ecomeçou a partir do projeto de conclusão de curso da UFPE. De um projeto de final do curso de Ciência da Computação da UFPE nasceu a semente de uma empresa que tem como concorren- tes gigantes do mercado mundial como o Google e o Facebook. Em plena crise brasi- leira, a In Loco Media deslanchou. Em 2015 teve um faturamento de R$ 5 milhões, pas- sando para R$ 50 milhões no ano passado. Oferecendo uma solução tecnológica ino- vadora dentro do mercado de publicidade mobile baseada em geolocalização indoor, eles projetam um faturamento de R$ 150 milhões em 2017. A tecnologia exclusiva de localização de- senvolvida pela empresa consegue identificar a partir do IP do celular (número identifica- dor de cada aparelho em rede) onde cada con- sumidor está passando, numa precisão entre um e dois metros. A tecnologia é considerada a de maior precisão no mercado mundial. A ideia inicial do CEO André Ferraz, ain- da dentro da universidade, em 2011, era ofe- recer a partir dessa tecnologia um aplicativo para shoppings. O serviço indicaria no app o mapa do mall e onde estariam as promoções que tivessem maior relação com o perfil do consumidor. Em 2012, já em sociedade, a em- presa foi encubada dentro do Porto Digital. No mesmo ano, a partir da publicação de uma reportagem em um site especializado, surgiu o interesse do grupo Naspers (que é sócio do Buscapé no Brasil e uma das maiores corpora- ções de mídia do mundo), que passou a inves- tir na startup. O aplicativo para shoppings ficou de lado. A empresa identificou que, frente à tradição de investimentos em publicidade do setor do varejo moderno, o modelo de negócios não decolaria. A partir daí voltou-se para a mídia mobile, focada em publicidade em locais fe- chados. “Uma rede de fast food pode utilizar nossos serviços e enviar uma publicidade para um perfil segmentado de clientes que estão passando na frente da sua loja. Ou mesmo um restaurante pode enviar uma campanha promocional quando o cliente está circulan- do próximo a um concorrente”, exemplifica Eduardo Martins, cofundador da empresa. Mesmo sem ter informações pessoais dos portadores dos smartphones, a empresa traça um perfil a partir do comportamento de geo- localização dos aparelhos. Alguém que fre- quenta uma academia algumas vezes por se- mana fica classificado num perfil de “fitness”, por exemplo. Um cinéfilo que vai ao cinema semanalmente tem o seu comportamento de consumo mapeado por essa tecnologia. Com essas informações e a customização da campanha, a taxa de cliques nos anún- cios da In Loco Media é 10 vezes maior que a média da publicidade nos concorrentes Google e Facebook. Além de oferecer um serviço de entrega de mensagem publicitárias contextualizadas com a localização, a tecnologia da In Loco Media consegue medir quantos consumi- dores de fato atenderam à campanha. “A grande sacada da In Loco é que a gente con- segue, através do nosso serviço, identificar a jornada do consumidor. Sabemos se ele entrou na loja onde foi feita a campanha ou se foi para uma concorrente, por exemplo. Unir o mundo online com o mundo offline é um grande desafio. Para a publicidade é muito difícil identificar o retorno de inves- timento de uma mídia. A In Loco quebra esse paradigma e identifica a efetividade do anúncio”, explica Eduardo Martins. Evoluir de uma startup com tecnologia inovadora para uma empresa que atua no competitivo mercado global aconteceu após a In Loco Media ser referendada em 2015 pelo Festival de Cannes como uma das 10 empre- sas mais promissoras do mundo no mercado publicitário. A partir daí, o crescimento da de- manda acelerou. Em sua carteira de clientes de 200 empresas estão organizações como a Co- ca-Cola, Hyundai, McDonald’s, Samsumg, Pi- zza Hut, entre outros. Atualmente, 70% delas chegam à In Loco via agência de publicidade e os demais como clientes diretos. O aumento da demanda levou a empresa a contratar mais funcionários. O quadro de 30 pessoas em 2015 saltou para 130 neste ano, com mais 15 vagas a serem preenchidas. A empresa pernambucana já tem os pés na ca- pital paulista, onde estão os profissionais res- ponsáveis pelo comercial e pelo desenvolvi- mento de novos negócios. Mais recentemente, a In Loco Media já tem profissionais atuando também nos Estados Unidos, em São Francis- co e Nova Iorque. Além da expansão internacional, a In Loco também está num momento de reposiciona- mento. Mais que atuar no segmento da publici- dade, a empresa passa a oferecer uma platafor- ma de tecnologia de dados de localização com outros serviços que estão em desenvolvimento, como no segmento de segurança para bancos e um voltado para o pequeno varejo. 130funcionários 200empresas estão no portfólio de clientes R$50milhões foi o faturamento em 2016 R$150milhões é a projeção para 2017
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    26 agosto/2017 GESTÃO MAISTGI Consultoria em Gestão redacao@revistaalgomais.com.br A maioria das empresas familiares, em algum momento de suas existências, terá que passar por um processo de sucessão. Ter um plano su- cessório definido dá a elas vantagens competiti- vas que podem, simplesmente, fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso da transição de lide- rança entre gerações. Entretanto, é comum en- contrarmos empresas que fazem o dever de casa – organizam e planejam a sucessão – mas que erram ao não compartilhar nem engajar seus executivos estratégicos neste processo. Apesar de ser uma questão de cunho fami- liar, a sucessão é um assunto de grande interesse para aqueles que, não sendo da família, serão afetados diretamente por ela. É preciso lembrar que,assimcomofuturodaorganização,acarrei- ra deles também está em jogo. Por isso, é muito importantequealógicadoprocessodesucessão, de um modo geral, seja compartilhada com os principais executivos. Do contrário, pode ser criadoumambientedeincertezasquenadatrará de bom para os negócios. A insegurança sobre o rumo que a organi- zação tomará, o receio por não saber como o processo será conduzido, a dúvida sobre se a fa- mília está tratando o assunto com a importância adequadaou,ainda,omedodequeosfamiliares entrarão para “tomar o lugar” de quem já está lá, Compartilhando o plano de sucessão podem gerar conflitos internos e desmotivação na equipe. Isso também poderá afetar, no futuro, a confiança dos executivos no sucessor escolhi- do para assumir a direção da empresa. Claro que não é preciso expor o plano sucessório em seus mínimos detalhes nem muito menos questões íntimas da família, mas os executivos precisam entender como se dará o processo e quais serão seus papéis nessa transição. Eles podem, inclusive, con- tribuir com a experiência e com uma visão mais ampla e imparcial do negócio, já que não fazem parte da família, tornando o plano de sucessão até mais efetivo. Quando o processo sucessório é feito de maneira transparente e compartilhado com aqueles que fazem a empresa em seu dia a dia, todos ganham: as famílias empresárias, por se mostrarem dispostas ao diálogo sobre o tema, eliminando especulações e mal-en- tendidos, promovendo a integração da nova geração com a equipe que comanda os ne- gócios; e os executivos, que terão mais visi- bilidade sobre o futuro da empresa e, desta forma, não se sentirão ameaçados pelas mu- danças que sempre são trazidas por um pro- cesso sucessório, por mais bem conduzido que seja. “Uma administração terá falhado se a sua sucessora falhar.” Peter Drucker (1909-2005)
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    27agosto/2017 VIDA DIGITAL BrunoQueiroz bruno@cartello.com.br Para entender melhor a transformação digital, é preciso analisar a evolução do comportamen- to das gerações e suas relações com o trabalho, com o consumo e com a tecnologia. Saber identificar e respeitar as diferenças é o primeiro passo para se comunicar adequadamente com os três perfis mais comuns de novos consumi- dores: estrangeiros, visitantes e nativos. Os estrangeiros, formados pelos Baby Boo- mers (acima de 55 anos) e a parte mais velha da Geração X (de 35 a 54 anos), são aqueles que nasceram bem antes da internet. Foram forma- dos vendo televisão e lendo jornais e revistas. Valorizam os empregos de carreira e buscam um padrão de vida estável. Preferem se comu- nicar por voz do que por texto e valorizam as relações presenciais, o que influencia direta- mente na decisão da compra em lojas físicas e no consumo de produtos analógicos. Usam a internet? Sim. Mas de maneira secundária. Ba- sicamente, esse grupo dá a sustentação (ainda) necessária para a sobrevivência dos meios de comunicação e produtos não digitais. Os visitantes são aqueles que vivenciaram a transição do mundo analógico para o mundo digital. Estão no meio do caminho. Possuem al- guns dos valores dos estrangeiros, mas já estão incorporados à vida digital. Esse grupo é for- mado basicamente pela parte mais nova da Ge- ração X (de 35 a 54 anos) e pela Geração Y ou Milleniuns (de 25 a 34 anos). Foram formados tendo acesso à TV a cabo, aos videogames e aos computadores. Estão sempre conectados na internet, compartilhando suas atividades pe- las redes sociais. O celular é um companheiro inseparável. Devido ao excesso de informações que recebem, os visitantes são movidos a desa- fios e trocam de emprego com mais facilidade. São mais ansiosos que as gerações anteriores e estão sempre em busca de novas tecnologias. Os nativos são aqueles que não conhecem o mundo sem o computador e sem a internet. Possuem celular desde criança e são a primeira Transformação digital: você sabe com quem está falando? “Formados pela Geração Z (de 15 a 24 anos), privilegiam as relações virtuais e, por isso, têm necessidade extrema de interação e exposição de opinião”. geração 100% digital. Formados pela Geração Z (de15a24anos),privilegiamasrelaçõesvirtuais e, por isso, têm necessidade extrema de intera- ção e exposição de opinião. Antes do “bom dia” perguntam logo a “senha do wifi”. Os nativos são demasiadamente ansiosos. Não só trocam de emprego com muita facilidade, como vão trocar de carreira algumas vezes ao longo da vida pro- fissional.Concentramoconsumopelocomércio eletrônico e são ao mesmo tempo produtores e consumidores de conteúdo, os chamados “pro- sumers”. Dão preferência ao uso de serviços em contrapartida à posse de produtos, sendo a base da economia compartilhada no futuro. Apesar da classificação que vimos acima, a tendência é que, com o aumento do nível de digi- talização das nossas atividades diárias, as diferen- ças nos hábitos de consumo e no uso da tecno- logia entre os perfis tendem a ser cada vez mais imperceptíveis.Oquevaifazeragrandediferença é o grau de intensidade. Por isso, é preciso estar atento aos detalhes para se comunicar da melhor formapossívelcomosnovosconsumidores.
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    28 agosto/2017 DETODASAS CORES ESTUDOPesquisador mapeia 34 variedades do alimento no Agreste pernambucano e investiga por que essa diversidade não chega à mesa do consumidor. Por Rafael Dantas
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    29agosto/2017 Você já imaginoupoder saborear todos os dias um tipo diferente de feijão na hora do almoço? Enquanto estamos acostumados a comer apenas o carioca e o mulatinho ou vez por outra o preto dentro da feijoada, só no Agreste Meridional pernambucano foram mapeadas 34 variedades, com diferentes co- res, texturas, tamanhos e sabores. Essa desco- berta partiu de uma pesquisa realizada pelo extensionista rural do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA) Pedro Balensifer, que desde 2012 faz esse inventário nas proprie- dades rurais familiares e bancos de sementes crioulas (sementes locais que são passadas de pai para filho, conservadas e manejadas por agricultores familiares). Provavelmente você nunca viu em ne- nhuma prateleira de supermercado o fei- jão fogo na serra (vermelho) ou não tenha experimentado em nenhum restaurante a variedade enxofre, com aspecto amarelo, ou o leite, que é bem branquinho. Os no- mes são dados pelos próprios agricultores, que escolheram alcunhas ainda mais curio- sas para os feijões, como o carrapatinho e o chitadinho. A região escolhida para a pesquisa compreende os municípios de An- gelim, Calçado, Canhotinho, Garanhuns, Ibirajuba, Jucati, Jupi, Jurema, Bom Conse- lho, Lajedo, São Bento do Una e São João, que formam o território produtivo do feijão em Pernambuco, sendo responsável por um quarto dessa cultura no Estado. O Brasil é o terceiro maior produtor de feijão do mun- do, sendo responsável por 12% da produção mundial, tendo toda produção praticamen- te absorvida pelo mercado interno”. Após identificar e provar dessa diver- sidade, o pesquisador se detém agora a es- tudar no Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural e Desenvolvimento Local (Posmex) da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) a razão desses produtos não chegarem na mesa dos per- nambucanos. “Esses agricultores seguem cultivando esses feijões porque gostam de consumir ou mesmo por tradição dos pais, já que são variedades que atravessam gera- ções”, afirma Balensifer. Sem interesse da indústria e dos atra- vessadores que compram nas feiras, essas sementes já teriam sumido se não fosse a persistência dos produtores. “Muitos desses feijões são bastante saborosos, mas ficam marginalizados no mercado. Os agriculto- res continuam produzindo, mas encontram dificuldades de obtenção de renda com seus produtos, especialmente pelos baixos pre- ços pagos por intermediários, já que uma minoria tem acesso à venda direta ao consu- midor. Assim, um dos grandes desafios para a produção da agricultura familiar consiste no quesito comercialização, principalmente das variedades crioulas”, explica. FEIRAS As feiras agroecológicas de Pernambuco po- dem ser uma alternativa para escoamento dessa produção, na análise do extensionista. “Essas feiras já comercializam uma vasta bio- diversidade de produtos que não encontramos nos supermercados, além de possuírem um tipo de consumidor disposto a buscar sabo- res diferentes e interessado em comprar di- retamente dos produtores”, aponta Balensifer. Enquanto não encontram os caminhos que levem esses produtos para a mesa dos consu- midores, Pedro relata que diversas estratégias de comercialização solidária vão garantindo o escoamento dessa produção, como a troca entre famílias produtoras e as vendas em cir- cuitos locais, em pequenos mercados. Para reverter esse quadro de desinteresse e ampliar o acesso da população aos produ- tos locais, ele afirma ser necessário um pro- cesso de reeducação alimentar da popula- ção. “O cardápio típico que temos na nossa mesa e que está à venda nos supermercados é fruto de um processo de padronização da indústria de alimentos e de propaganda da grande mídia televisiva”. Ao consumirmos essas variedades ajudaríamos a conservar a biodiversidade agrícola e a própria história da agricultura”, defende o pesquisador. Ele conta que, no mundo, os feijões começaram a ser cultivados há 5 mil anos no México. “A continuidade de tantas variedades é fruto do trabalho de manejo dos agricultores ao longo de muito tempo”. Em um esforço de articulação dos agri- cultores, órgãos públicos e sociedade civil organizada para garantir a continuidade dessas culturas foi criada a Rede de Se- mentes Crioulas do Agreste Meridional de Pernambuco (Rede Semeam). Essa organi- zação promove feiras de troca de sementes crioulas, palestras, seminários e formação de Bancos Comunitários de Sementes com o objetivo de resgatar e conservar a biodi- versidade agrícola da região. Pedro Balensifer afirma que a permanência dessas variedades de feijão estão ligadas a identidade cultural e às tradições familiares dos agricultores. Foto:TomCabral
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    30 agosto/2017 NINHO DEPALAVRAS Bruno Moury Fernandes Sinto cheiro de flores e frutas tropicais quando estou perto de Tetê e Quinca, meus filhos. É o cheiro do sol nascendo de manhã, da pura natureza. Sinto cheiro de morango com chantili quando estou perto de Milena. É o cheiro do desejo. Sinto cheiro de banana batida com leite condensado e farinha lác- tea quando estou perto da minha mãe. É o cheiro da minha infância. Sou um homem olfativo. Trabalho esse sentido, diariamente. Quando cheiro alguma coisa lembro de pessoas ou de lugares. Amo quando alguém fuma perto de mim. É o cheiro do meu pai. Fico impregnado de saudade. Cheiro de gui- sado na panela então é o mesmo que rece- ber um abraço seu, daquele bem apertado. Cheiro de sargaço remete-me a Itamaracá. Amendoim, me põe no colo da Tia Lídia. Cheirar os pelos de um cavalo é pensar em Fifa, meu irmão. Terra molhada leva-me à Granja Riacho Azul. Perfume francês leva- -me ao meu tio Honório, a cabeça mais chei- rosa da humanidade. Até cheiro de suor remete-me a coisa boa: o Carnaval do Recife. O cheiro não pre- cisa ser bom. Cheiro de peido, por exemplo, é estar no meu quarto, adolescente, dormin- do com meu irmão. O melhor lugar do mun- do, apesar das bufas. Cheiro de milho verde Cheiros da vida brunomoury@mfmo.com.br “Quero cheirar o mundo! Quero cheirar cada esquina por onde já passei e por onde vou passar.” remete-me ao amigo de infância, Macaxeira, que vomitou em cima de mim, após comer misturado com quibe. Cheiro de cachorro quente remete-me ao colégio Atual. Cheiro de fritura me leva às coxinhas de aquário que comia nos jogos do Sport, na Ilha do Retiro. Posso passear sem sair de casa. Se me trouxeres coentro e cebolinho estou na feira de Casa Amarela. Se me deres café estou na casa da minha avó. Se me falas de perto com hortelã estou sentado na cadeira de Tio Tuca, meu dentista. Haja nariz para tanto cheiro. Mas esse não é um problema para as pessoas da minha família. Meus tios não têm narizes, na verda- de eles possuem naralhos! Um deles resolveu fazer uma plástica para diminuir. A esposa pediu “tore outra coisa que é melhor”. Per- guntado o motivo, ela respondeu com fran- queza: “gostaria de preservar a única coisa grande e dura que ainda há em ti”. Se me trazes manjericão estou em Milão. Se colocas camarão na panela, mergulhado no azeite, estou no Pinóquio, em Lisboa. Se me entregas salsa estou na casa da sogra. Per- fume de bebê, meu afilhado Guigui e meu sobrinho Tomé. Cheiro de energético leva- -me à farra. Creolina me põe com meus ca- chorros, na casa onde morávamos, em Casa Forte. Cominho é de fome. Bromélia é de rede e varanda. Mas cheiro bom mesmo é de livro. Melhor do que ler, é cheirá-lo. Quero sentir cheiro e catinga, para lembrar que a vida é feita de altos e baixos. Quero todos os cheiros que a vida possa me dar. Quero cheirar o mundo! Quero cheirar cada esquina por onde já passei e por onde vou passar. Quero cheirar até o cangote azedo de Joaquim quando da esco- la chegar. Quero cheirar o perfume da vida até a morte se apresentar. Esticar o tempo até sentir o cheiro que a malvada terá. Sus- peito que seja de avenca. Aquela que enfei- tou o caixão do Dr. Edmar. Cronista
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    31agosto/2017 MEMÓRIA PERNAMBUCANA À tarde,uma moça bonita atravessava a rua e de um banco da praça Maciel Pinheiro se pu- nha a contemplar a beleza em volta. Era uma praça bem cuidada e, o que era melhor, uma praça segura. Mas quem era aquela moça? Era Haia Pinkhasovna Lispector, uma ucra- niana de família judaica fugida da Primeira Guerra Mundial. Aqui, no entanto, mudaria de nome, e com ele se tornaria famosa. Pas- saria a chamar-se Clarice. Clarice Lispector. Nascida a 10 de dezembro de 1920, aqui chegou ainda bebê. Viria a ser uma das maiores escritoras latino-americanas, embora as compa- rações feitas com outros escritores sempre levas- sem em conta o mundo. Clarice Lispector era comparada a ninguém menos do que Virginia Woolf, James Joyce, Katherine Mansfield, Jorge Luís Borges, Juan Rulfo e Machado de Assis. Aos 19 anos publicou o primeiro texto; o primeiro livro, Perto do Coração Selvagem, aos 24, e dedicou a vida a produzir romances, contos, crônicas, cartas e entrevistas. Para o crítico literário português e professor de lite- ratura brasileira Carlos Mendes de Sousa, a grandeza da sua obra é um leque de possibi- lidades de leitura. Ela foi o primeiro escritor brasileiro a es- tampar a capa do suplemento dominical de livros do The New York Times, com uma re- senha do volume The Complete Stories (Con- tos Completos), impondo-se registrar que os comentários do jornal derramam elogios ao volume com todos os contos publicados pela escritora. O texto chegou a brincar com a força da prosa daquela mulher. É melhor se aproximar com algum cuidado. “Para o leitor comum - ou seja, para a maior parte de nós -a imersão na mente fértil de Clarice Lispector pode ser uma exaustiva e até mesmo pertur- badora experiência (...). Separe comida, água, um kit de primeiros socorros e muito protetor solar”, recomenda o autor da matéria. Sem recomendar cautela, mas, pelo con- trário, para que você se entregue ao texto de Clarice Lispector, escolha um destes. Ou, um a um, todos. Perto do Coração Selvagem (1944), O Lustre (1946), A Cidade Sitiada (1949), A Paixão Segundo G.H. (1964); Uma Aprendi- zagem ou O Livro dos Prazeres (1969); Água Viva (1973); A Hora da Estrela (1977); Um So- pro de Vida (Pulsações) (1978); Alguns Con- tos (1952); Feliz Aniversário (1960); Laços de Família (1960); A Legião Estrangeira (1964); Felicidade Clandestina (1971); A Imitação da Rosa (1973); A Via Crucis do Corpo (1974) Onde Estivestes de Noite (1974); De Corpo Inteiro (1975); O Mistério do Coelho Pen- sante (1967); A Mulher que Matou os Peixes (1968); A Vida Íntima de Laura (1974); Quase de Verdade (1978); Como Nasceram as Estre- las: Doze Lendas Brasileiras (1987). Mas não parou aí. Postumamente, ela teve coligidoscontos,crônicaseentrevistastaiscomo A Bela e a Fera (1979), conjunto de contos es- critos em épocas diferentes; A Descoberta do Mundo (1984), seleção de crônicas publicadas em jornais de agosto de 1967 a dezembro de 1973;ComoNasceramasEstrelas(1987),contos infantis;CartasPertodoCoração(2001),corres- pondência com Fernando Sabino; Correspon- dências (2002); Aprendendo a Viver (2004), se- leção de crônicas publicadas em jornal de agosto de 1967 a dezembro de 1973; Outros Escritos (2005), – reunião de textos diversos; Correio Feminino (2006), conjunto de textos publicados em suplementos femininos de jornais, nas déca- das de 1950 e 1960; Entrevistas (2007), seleção de entrevistas realizadas nas décadas de 1960 e 1970; Minhas Queridas (2007), correspondên- cias; Só para Mulheres (2008), reunião de tex- tos publicados em suplementos femininos nas décadas de 1950 e 1960; De amor e Amizade, crônicas para jovens (2010), seleção de crônicas publicadas e Todos os Contos, que reúne todos os contos escritos por ela. Quer uma sugestão? Sente-se e leia Clarice Lispector. Sua obra já foi traduzida centenas de vezes e a cada dezembro, mês em que ela nasceu e morreu, muitos países, especialmen- te o Brasil, lhe rendem justas homenagens. Passaram-se 35 anos desde que ela se foi, mas a memória da sua arte continua viva. Marcelo Alcoforado A estrela da tarde Aos 19 anos publicou o primeiro texto; o primeiro livro, Perto do Coração Selvagem, aos 24, e dedicou a vida a produzir romances, contos, crônicas, cartas e entrevistas.
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    32 agosto/2017 BAIÃO DETUDO Geraldo Freire redacao@revistaalgomais.com.br O Homem das Trinta Pintinhas Conheci seu José Almeida, um dos maiores granjeiros do Brasil, dono de um império chamado Granja Almeida, no município de São Bento do Una, Pernambuco. Por lá passam 5 milhões de ovos por dia. Fiquei impressionado, como ficará qualquer pessoa que se meter no meio de galpões, carretas e máquinas super-modernas que embalam, guardam e transportam numa frota astronômica de carretas, essa fantástica quantidade de ovos diariamente: CINCO MILHÕES. A minha primeira ideia foi perguntar a seu José, no dia em que ele estava completando 65 anos, como tudo começou. E ele contou-me pacientemente:“Comprei 30 pintinhas e, por falta de espaço adequado para criá-las, botei todas enfileiradas, na frente de um candeeiro aceso, no canto da parede do meu quarto de dormir, e ficamos vivendo juntos.”Daí pra frente o“dominó”foi despencando e chegou à situação de hoje, quando, somente nas proximidades de casa, ele tem um conjunto de galpões com 1 milhão de galinhas. Elas são produtivas durante dois anos. Por isso, todos os meses ele tem que se desfazer de 30 mil matrizes vencidas e repor 30 mil novas, somente de um lote de um milhão. Da conversa com seu José eu ganhei a liberdade de sair dizendo: só é pobre quem quer! Relógio Caro O que dizer de um Rolex que pertenceu ao“fodão”do cinema americano Paul Newman, morto em 2008? Será que vale os US$ 5 milhões que a família do ator está pedindo por ele? Foi um pre- sente que o artista ganhou em 1972 da atriz Joanne Woodward, na época sua esposa. Está à disposição de quem qui- ser comprar, na casa de leilões Phillips. Condomínio Você pode morar muito bem em São Paulo. Estão oferecendo apartamentos confortáveis, no Edifício Parque Alfredo Volpi, com unidades de até 1.500 metros quadrados. Pesado é o preço do condomínio: a taxa mensal chega facilmente aos R$ 30 mil. Nossa língua Bocado é uma porção que se pode abocanhar, ou que cabe na boca. Punhado é uma porção que cabe na mão, até próximo ao punho. Vale seguir o mesmo raciocínio para explicar cunhado? Original e Suspeita Essa história é atribuída ao advogado e político boêmio paraibano Raimundo Asfora. Certa vez, ele foi criticado por tentar entrar num recinto de festa familiar dos mais“pudorados”, acompanhado de quatro putas. Os amigos condenaram aos gritos que ele não poderia frequentar aquele ambiente com“mulheres sus- peitas”. Ele retrucou gritando no mesmo volume:“Essas minhas amigas não são suspeitas, são putas. As suspeitas estão aí com vocês!”
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    33agosto/2017 GASTRONOMIA Meio doMundo oferece um mix de pratos internacionais e agora tem produtos do Galo Padeiro. Quem foi boêmio no Recife nos anos 80, certa- mente participou de algumas baladas no Meio do Mundo, um bar com música ao vivo, chope e petisco, que virou um point obrigatório para quem estava nas cercanias do bairro da Mada- lena. Com o tempo, o bar fechou e, desde o ano passado,acasareabriucomomesmonomeeno mesmo local, mas com uma proposta diferente. A ideia de reabrir o Meio do Mundo partiu da publicitária Marta Lima. “A casa pertence à família e a decisão foi partir para um café e bis- trô”, conta Virgínia Morais, cunhada de Marta e sócia do restaurante. Localizada em frente à ar- borizada pista da Avenida Beira Rio, onde corre o Capibaribe, o restaurante conta com uma área interna climatizada e uma externa com jardim. Como o nome sugere, o café bistrô faz uma releitura de pratos de várias partes do mundo: cuscuz marroquino, tabule, Salada Thai e fran- go indiano. O menu, apesar de enxuto, oferece outras possibilidades além do almoço e jantar, como lanches, café da manhã regional com dire- to a tapioca e cuscuz. Há deliciosas opções para os vegetarianos, como a salada Oriente Médio, com folhas e faláfel (bolinho de grão de bico). CAFETERIA, BISTRÔ E PADARIA mais prazer! Informação eserviçopara curtiroqueavida temdemelhor Outro ponto alto são as sobremesas. O bolo de banana com sorvete de canela tem feito su- cesso entre a clientela. “Vale a pena experimen- tartambémoBanoff,bananacomdocedeleitee chantili, que é fantástico”, incita João Cavalcanti Barroso, filho de Marta e também sócio. A novidade é que o Meio do Mundo passou a oferecer também os produtos do Galo Padeiro, a badalada padaria localizada em Santo Amaro. E o negócio continua em família, porque Ar- tur, dono do estabelecimento, é irmão de Marta. “Vendemos todos os produtos do Galo Padeiro. Temosduasfornadas:umapelamanhãeoutrano começodatarde.Sempretemprodutosfrescosdo dia”, recomenda Virgínia. Os mais pedidos são: o croissant tradicional e o sanduíche de croissant comrecheiodequeijobrieepresuntoparma. Além das delícias do Galo Padeiro, a casa oferece a sopa do dia, com pães variados, uma pedida para este fim de inverno recifense. Serviço: Rua Demóstenes Olinda, 152 – Madalena. Ho- rário de funcionamento das 8h às 21h. Telefone: (81) 3132-2495. Delícias do mundo como o cuzcuz marroquino, tabule e a salada Thai estão no cardápio. Foto:AndréaRêgoBarros
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    35agosto/2017 QUANTO MENOS MOSQUITOS, MENOSDENGUE, ZIKA E CHIKUNGUNYA. RETIRE A ÁGUA ACUMULADA DOS PRATINHOS DE PLANTA E ENCHA COM AREIA. MANTENHA CAIXAS D’ÁGUA E TANQUES BEM FECHADOS REMOVA FOLHAS, GALHOS E TUDO QUE IMPEÇA A PASSAGEM DA ÁGUA PELAS CALHAS MANTENHA SACOS DE LIXO FECHADOS GUARDE GARRAFAS DE CABEÇA PARA BAIXO O OVO DO MOSQUITO SÓ É ELIMINADO QUANDO AS VASILHAS SÃO LAVADAS COM ESCOVA E A ÁGUA JOGADA FORA recife.pe.gov.br
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    36 agosto/2017 JOÃO ALBERTO Poder Jovem LeonBerenstein herdou um nome consagrado na radiologia pernambucana, Bóris Berenstein, e decidiu seguir os passos do pai. Depois de estudar até o científico no Colégio Israelita do Recife, formou-se em Medicina na Unigranrio. Em 2006, voltou ao Recife, para especialização no Imip. Depois, continuou a especialização na Med Imagem, da Beneficência Portuguesa, de São Paulo sendo depois aprovado no fellowship da instituição. Depois de especialização no setor de radiologia da Universidade de San Diego, no Estados Unidos, regressou de vez ao Recife. Em 2012 foi aprovado como membro titular do Colégio Brasileiro de Radiologia, órgão máximo da especialidade. Aos 37 anos, já uma referência no setor, muito elogiado pelos clientes do Centro de Diagnóstico Bóris Berenstein, onde atua como diretor médico, preparando-se para assumir a presidência do grupo. Participa das reuniões semanais do Grupo de Tumores Ósseos do Hospital do Câncer de Pernambuco e tem-se dedicado à medicina esportiva, coordenando eventos e atendendo a jogadores do Náutico e do Sport. Um claro exemplo de sucesso. Leon Berenstein Anitta redacao@revistaalgomais.com.br Cuidado Em busca de clientes, os shoppings e as lojas estão promovendo várias liquidações pelo ano, diferentemente do passado, quando tínhamos eventos badalados no final do ano. Infelizmente, empresários inescrupulosos costumam aumentar os preços dos produtos, para depois oferecer descontos. Totalmente fictícios. Todo cuidado é pouco. Meditação Pratica que se tornou popular no Recife, graças ao ex-prefeito João Paulo, a meditação passou a ser adotada por muita gente, inclusive jovens. Especialmente depois que pesquisa da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, demonstrou que a meditação torna as pessoas mais inteligentes. Volta do CQC A direção da rede Bandeirantes estuda a volta do CQC no próximo ano, para usar a efervescência política em Brasília, um dos principais ingredientes do programa. Mantém entendimentos com a produtora Eyeworksee e faz sondagens junto ao mundo publicitário. Virá com novos apresentadores e repórteres, para criar nova cara, depois de terminar, em dezembro de 2015, quando tinha baixa audiência e pouca repercussão. Sucesso internacional               Anitta aparece como o artista brasileiro com mais chances, atualmente, de fazer sucesso no exterior. Já participou de programas conhecidos na TV norte-america e tem feito parcerias com cantores famosos de outros países. Aos 24 anos, ela reúne o rebolado de Beyoncé, canta parecido com Shakira, é desbocada como Rihanna e tem o carisma de Ivete Sangalo.
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    37agosto/2017 Mariana Ruy Barbosa KaioManissoba DJ Dolores Brilho precoce                      Marina Ruy Barbosa é um dos maiores sucessos do show business brasileiro. Com apenas 21 anos, já participou de 10 novelas na Rede Globo e tem mais de 18 milhões de seguidores no Instagram. Para elas Faz sucesso em São Paulo, o Lady Driver, aplicativo tipo Uber, para mulheres, já com mais de duas mil motoristas inscritas. Um empre- sário negocia trazer o projeto para o Recife.   Em Olinda Márcio Costa está abrindo seu casarão da Prudente de Moraes, em Olinda, nos sábados e domingos, para almoço com cardápio mineiro. Repete o vitorioso esquema do restaurante que teve durante anos em Gravatá, inclusive na decoração com verdadeiras obras de arte.   Sapatos O modelo de sapato feminino do momento no mundo fashion cha- ma-se kitten heel. De bico fino e com faixa que prende no tornozelo, modelos de marcas como Gucci, Fendi e Dior estão agradando as mulheres que gostam de usar salto baixo.    Renovação                        Um setor que tem apresentado pouca renovação é a po- lítica brasileira. É raríssimo aparecer um jovem brilhando na área. Assim, é importante destacar a carreira de Kaio Maniçoba. Começou logo como deputado federal e aos 33 anos é o mais jovem integrante do secretariado do governo de Pernambuco. Farmácias Não há praticamente uma esquina movimentada do Recife que tenha uma e até duas farmácias. O Brasil, em número de farmácias, é recordista mundial: são mais de 70 mil. Filme do rei O sergipano Helder Aragão, o famoso DJ Dolores, assina o roteiro do documentário de José Eduardo Mignoli sobre Reginaldo Rossi. Terá depoimentos de Roberto Carlos, Gilberto Gil, Michael Sullivan, Erasmo Carlos, Wanderléa e Raul Gil. Produtores tentam agora depoimento de Sílvio Santos.
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    38 agosto/2017 ARRUANDO PORPERNAMBUCO ArruandopeloRecife,iremosaoParquedaJaqueira afimdesentirtodoobucolismodoRioCapibaribe, recordandoostemposdosvelhosengenhosdeaçú- car neste curioso passeio, embalado pelos versos do poetaJoãoCabraldeMeloNeto(1920-1999). Tomando-se um barco a remo, na passa- gem de Ponte D’Uchoa, na Avenida Rui Barbo- sa, poderemos nos transportar para outra mar- gem, em terras do antigo Engenho da Torre, ou, dependendo de um acerto com o barquei- ro, subir o rio em direção ao Poço da Panela e outros “portos” existentes ao longo do seu leito: Porto dos Cavalos, do Vintém, do Cemitério, de Sant’Ana, do Bom Gosto, do Poço da Panela, do Caldeireiro, do Monteiro, da Porta d’Água e tantos que se perderam na memória do tempo. Neste singular passeio, logo teremos a me- mória aguçada para os versos do poeta que manteve esta paisagem nas retinas da memória. Agora vou entrando no Recife pitoresco, sentimental, histórico, de Apipucos e do Monteiro: do Poço da Panela, da Casa Forte e do Caldeireiro, onde há poças de tempo estagnadas sob as mangueiras; de Sant’Ana de Dentro, das muitas olarias, rasas, se agachando do vento. E mais sentimental, histórico e pitoresco vai ficando o caminho a caminho da Madalena. A navegação no Rio Capibaribe conti- nua presente em nossos dias, não somente a utilizada por pescadores e batelões areeiros, mas também pelos que cultuam os prazeres do rio. Neste nosso itinerário sentiremos de perto a poesia de João Cabral que, nascido em Sant’Ana de Dentro, hoje Rua Leonar- do Cavalcanti, tão bem soube descrever a paisagem e os tipos ribeirinhos do seu tempo de menino – A roda dos expostos da Jaqueira; O jardim de minha avó; Lem- brança do Porto dos Cavalos; O Capibaribe e a leitura; Sinhá Maria boca de flor, dentre outros poemas. O Capibaribe é uma eterna presença em sua obra, como demonstra as estrofes do seu poema O Rio: Um velho cais roído e uma fila de oitizeiros há na curva mais lenta do caminho pela Jaqueira, onde (não mais está) um menino bastante guenzo de tarde olhava o rio como se filme de cinema; via-me, rio, passar com meu variado cortejo de coisas vivas, mortas, coisas de lixo e de despejo; vi o mesmo boi morto que Manuel viu numa cheia, viu ilhas navegando Texto e Fotos Leonardo Dantas Silva Navegando comopoeta JoãoCabral mais.pe/arruando137
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    39agosto/2017 Francisco Cunha Infelizmente aConstituição Brasileira de 1988 esqueceu de reconhecer a instância federativa da metrópole. Ou seja, segundo a nossa Car- ta Magna, são três as instâncias federativas no Brasil: União, Estados e Municípios, cada qual com seus poderes (Executivo, Legislativo e Ju- diciário).Eametrópole,acidadeconstituídade cidades, como fica? Um exemplo que todos conhecemos: o da metrópole da qual a cidade do Recife faz par- te, junto com as cidades de Olinda, Jaboatão, Paulista e as outras 11 da chamada Região Metropolitana do Recife. Na verdade, trata- -se de um conglomerado urbano contínuo cujas fronteiras municipais não conseguem conter os problemas que afetam o conjun- to nem dar conta da sua gestão. Essa cidade metropolitana contínua que ultrapassa os limites municipais tem hoje uma população de mais de 4 milhões de habitantes, quase metade da estadual, e um PIB que deve es- tar próximo dos R$ 100 bilhões, o maior do Norte-Nordeste. Como gerir essa grande cidade que não respeita os limites dos municípios e está para além da capacidade de intervenção dos prefei- tos municipais? Mal comparando, é como um condomínio residencial cuja área comum (a ci- dade metropolitana) está fora da influência das unidades habitacionais (os municípios) e pre- cisa de uma gestão própria, para além daquela das unidades. Na tentativa de suprir a lacuna constitucional, o Congresso Nacional votou e o presidente da República promulgou em 2015 a Lei 13.089, o chamado Estatuto da Metró- pole, que estipula a obrigação dos estados em que existam metrópoles e dos municípios que façam parte de metrópoles implantarem con- juntamente uma Governança Metropolitana e elaborarem um PDUI – Plano de Desenvolvi- mento Urbano Integrado até janeiro de 2016. Foi,portanto,combasenoquedeterminaoEs- tatutodaMetrópolequeoCAU-PE–Conselhode ArquiteturaeUrbanismodePernambuco,oINTG –InstitutodaGestãoeaRedeProcidade,emnome de26entidadesdasociedadecivildoEstado,lança- ramnomêsdejulhoacampanhaSomosCidadãos daMetrópoleemproldagovernançadametrópole compostapelas14cidadesdaRMR. Feito isso, resta a nós, cidadãos metro- politanos, reforçar a cobrança pelo Estatuto. Afinal, sem boa gestão do condomínio, o caos logo adentra nossa casa, por mais bem admi- nistrada que seja. Somos cidadãos da metrópole fcunha@tgi.com.br Consultor e arquiteto Como gerir essa grande cidade que não respeita os limites dos municípios e está para além da capacidade de intervenção dos prefeitos municipais? Saiba como compartilhar as informações de seu time e tornar a colaboração mais elevada. Otimize as tarefas de sua equipe e produza muito mais! 81 3412.4722 http://www.hsbs.com.br/ contato@hsbs.com.br HSBS0.pdf 1 08/05/17 19:33 ÚLTIMA PÁGINA
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